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População e economia no Brasil: 1822-2022

José Eustáquio Diniz Alves


Doutor em demografia, link do CV Lattes:
http://lattes.cnpq.br/2003298427606382

Introdução

O Brasil passou por grandes transformações nos 200 anos após a Independência em 1822. A
população brasileira cresceu cerca de 200 vezes nos séculos XIX e XX e a economia cresceu em
ritmo ainda bem maior. Entre 1822 e 1980 a economia brasileira, com pequenos intervalos ao
contrário, cresceu mais do que a média mundial e o Brasil aumentou o seu peso no PIB Global.
O Brasil era uma nação emergente. Mas a partir de 1981, também com pequenos intervalos ao
contrário, a economia passou a crescer menos do que a média mundial. O Brasil virou uma nação
submergente. Com o processo de envelhecimento populacional e o agravamento da crise
ecológica nacional e global, o Brasil pode ficar preso para sempre na armadilha da renda média.
Somente um projeto coerente e consistente de nação pode redirecionar o rumo do Brasil no
século XXI.

Transição Demográfica

A transição demográfica (TD) é o fenômeno de mudança de comportamento de massa mais


expressivo e mais impactante da história da humanidade. Ela mudou uma realidade que parecia
inexorável. Desde o surgimento do Homo Sapiens, há pelo menos 200 mil anos, as taxas de
mortalidade sempre foram elevadas e a morte precoce era a norma que ceifava vidas. O número
de óbitos infantis era elevadíssimo, assim como a prevalência da mortalidade materna. Mais da
metade dos nascimentos não chegavam à idade adulta. Segundo Angus Maddison (2008), a
esperança de vida ao nascer da maior parte da população mundial, antes do século XIX, estava
abaixo de 25 anos. Para se contrapor às elevadas taxas brutas de mortalidade (TBM), as
sociedades se organizavam para manter altas taxas brutas de natalidade (TBN), gerando muitos
filhos, para que o número de sobreviventes fosse maior do que o número de pessoas falecidas.

Mas a história mudou com o avanço da modernidade urbano-industrial, o que possibilitou a


diminuição da letalidade das doenças, da miséria e da guerras. Com menos mortes precoces, foi
possível reduzir o número de nascimentos por casal. Esta conquista é única e excepcional. A TD
tem um padrão que se repete, invariavelmente, da mesma forma em todos os países do mundo.
Não há exceções. Primeiro caem as taxas de mortalidade e, depois de um certo lapso de tempo,
caem as taxas de natalidade. Este formato foi observado em todas as nações
independentemente da língua, da religião, da localização geográfica ou de qualquer
diferenciação cultural. O que varia, são os níveis históricos das taxas, o momento inicial da
queda, a velocidade do declínio e os níveis finais após o fenômeno transicional.

O século XX foi o período, por excelência, da transição demográfica. Mas em muitos países o
inicio da queda da TBM começou no século XIX, enquanto as quedas mais significativas da
mortalidade e da natalidade ocorreram entre 1900 e o ano 2000.

O gráfico abaixo mostra que a TD no Brasil, em seus aspectos fundamentais, aconteceu nos
últimos 150 anos e deve alcançar seus estágios finais por volta das comemorações dos 200 anos
da Independência (1822-2022). Nota-se que, nos primeiros 50 anos após o fim dos laços
coloniais com Portugal, as taxas brutas de natalidade (47 por mil) e de mortalidade (33 por mil)
eram muito altas, especialmente as primeiras, o que propiciava taxas de crescimento vegetativo,
na ordem de 14 por mil (1,4% ao ano). Acrescente a este alto crescimento vegetativo o fluxo
imigratório que aumentava ainda mais o ritmo de crescimento demográfico.

Como o Brasil sempre foi um país de dimensões continentais, com uma densidade demográfica
muito baixa, o crescimento populacional era visto como um fator positivo para a colonização e
a ocupação territorial. Tanto na Colônia, quanto no Império e na República, o lema dos diversos
governos brasileiros era: “governar é povoar”. Nas duas últimas décadas do século XIX,
começou, inicialmente de forma tímida, a queda da TBM, o que impulsionou o crescimento
vegetativo para quase 2% ao ano, facilitando e reforçando a meta do povoamento. Entre 1870
e 1930 a TBM caiu de 33 por mil para 26 por mil, enquanto a TBN variou ligeiramente entre 47
por mil e 45 por mil.

Após a chamada Revolução de 1930, que deu início ao processo induzido de industrialização e
urbanização, a TBM acelerou a queda e atingiu o nível de 21 por mil em 1945. Mas a queda
maior das taxas de mortalidade iriam acontecer depois da Segunda Guerra Mundial, período
que propiciou a queda da TBM em todo o mundo, sendo que a TBM ficou abaixo de 10 por mil
em 1965 e atingiu o nível mais baixo da história nacional (tanto do passado, quanto do futuro)
entre os anos de 2010 e 2012, com o nível mínimo de 6 por mil. A partir de 2013 a TBM brasileira
começou a subir em função do fenômeno do envelhecimento populacional e deve ficar em 6,5
por mil no ano de 2022. Portanto, a transição da mortalidade no Brasil já se completou,
passando de níveis elevadíssimos, para o nível mais baixo da história e iniciando uma tendência
de leve alta em decorrência da transição da estrutura etária do país.

Entre 1900 e 1960 a taxa bruta de natalidade ficou praticamente estável, variando levemente
de 46 por mil para 41 por mil. Como a TBM variou de 28 por mil para 12 por mil, houve
aceleração do crescimento vegetativo que passou de 1,8% para 2,9% ao ano. Desta forma, as
maiores taxas de crescimento demográfico no Brasil aconteceram nas décadas de 1950 e 1960.
Porém, ainda nos anos 60, a TBN começou a cair e acelerou o ritmo de queda nas décadas
seguintes. A TBN caiu de 39 por mil em 1965 para 21 por mil no ano 2000 e deve ficar em 12 por
mil em 2022. Segundo as projeções populacionais do IBGE (revisão 2013) as taxas brutas de
mortalidade e natalidade devem alcançar o equilíbrio em 2042, ambas atingindo o patamar de
9,4 por mil. A partir de 2043 haverá reversão das duas taxas e, consequentemente, a população
brasileira entrará em um período de decrescimento populacional. Ainda segundo as projeções
do IBGE, a TBN deve ficar em 8 por mil e a TBM em 13 por mil em 2060.

O impacto da TD sobre o volume da população segue o comportamento de uma curva logística,


com baixo crescimento no início, uma aceleração do crescimento num segundo momento até
um ponto de inflexão que leva à desaceleração do crescimento até a estabilidade e um possível
decrescimento.

A população brasileira era de 4,7 milhões de habitantes quando Don Pedro deu o grito do
Ipiranga, em 1822. Subiu para 9,9 milhões 50 anos depois, quando houve o primeiro censo
brasileiro (em 1872). Chegou a 17,4 milhões de habitantes em 1900, pulou para cerca de 170
milhões de pessoas no ano 2000 e deve ficar em torno de 215 milhões em 2022. Ou seja, a
população brasileira cresceu 46 vezes nos 200 anos da Independência. Mas o pico populacional
deve ser alcançado em 2042, com um volume de 228,4 milhões de habitantes. A partir de 2043
a população brasileira iniciará uma trajetória de decrescimento, segundo as projeções (revisão
2013) do IBGE, e deve encerrar o século XXI abaixo de 200 milhões.

Os determinantes da queda da mortalidade foram a melhora do padrão nutricional, a melhoria


nas condições de higiene e saneamento básico (especialmente água tratada), juntamente com
o avanço da medicina e do acesso ao sistema de saúde. Os determinantes da queda da
natalidade foram o aumento da renda, a elevação do nível educacional, o acesso ao trabalho
assalariado com a industrialização e a urbanização, a entrada da mulher no mercado de trabalho,
a maior autonomia feminina e a redução das desigualdades de gênero, o aumento e a
diversificação do padrão de consumo, a ampliação do sistema previdenciário, a universalização
do acesso aos métodos contraceptivos e a conquista dos direitos sexuais e reprodutivos.

A transição demográfica é um fenômeno sincrônico ao desenvolvimento. De modo geral, o


desenvolvimento socioeconômico contribui para a queda das taxas de mortalidade e natalidade
e, concomitantemente, a transição demográfica contribui para a decolagem do
desenvolvimento na medida que gera uma estrutura etária mais favorável ao aumento da
demanda agregada. Existe um processo de retroalimentação entre os dois fenômenos. Toda
nação rica – com alto Índice de Desenvolvimento Humano (IDH) – passou pela transição
demográfica e pelo bônus demográfico. Aproveitar a janela de oportunidade que surge com a
transição da estrutura etária é uma condição para o enriquecimento nacional antes do
envelhecimento populacional.

A trajetória submergente da nação brasileira em 10 figuras

O Brasil deixou de ser uma nação emergente desde a década perdida (anos 1980) e as eleições
gerais de 2018 confirmaram que o país está em uma crise ampla, geral e irrestrita, que afeta
todas as dimensões da vida nacional. O sistema político e econômico reconfigurado a partir de
1985, com a chamada Nova República, não conseguiu satisfazer aos anseios da maioria da
população.
A falta de debate político de longo prazo, mostra que o Brasil não tem um projeto de nação, está
perdendo espaço na comunidade internacional e tem uma sociedade cada vez mais fracionada,
irritada e que transpira mágoa, ódio, frustação e insatisfação pelos poros do tecido social.

É claro que houve diversas melhorias sociais, nos últimos 40 anos, que, indubitavelmente, são
frutos do avanço do processo civilizatório global no qual o Brasil está inserido. Houve redução
da mortalidade infantil e aumento da esperança de vida, aumento do número de matriculas e
do número médio de anos de estudo da população em geral, cresceu a renda per capita e o
padrão de consumo, caiu o percentual de pessoas vivendo na pobreza extrema, subiu o valor do
Índice de Desenvolvimento Humano (IDH), etc.

Mas, comparativamente, o Brasil está em processo de encolhimento diante do cenário global.


Desde 1981, o país diminui seu peso na comunidade de nações e se apequena diante da
dinâmica mundial. O Brasil que era um país emergente (crescia mais que a média mundial) se
tornou uma nação submergente (cresce menos que a média global). Este fato alterou o humor
nacional e desqualificou as instituições da democracia brasileira.

O gráfico abaixo, com base no projeto Maddison e em dados do FMI, em poder de paridade de
compra (ppp, na sigla em inglês), mostra que, após a Independência, em 1822, o Brasil iniciou
uma trajetória de crescimento demoeconômico, de longo prazo, que, a despeito de pequenas
oscilações, fez o Produto Interno Bruto (PIB) brasileiro crescer mais do que o PIB mundial até
1980, colocando o país entre as 10 maiores economias do mundo. O Brasil parecia ter um futuro
econômico brilhante pela frente (embora o custo ambiental tenha sido enorme).

Mas a partir de 1981, a curva se inverteu e o país começou a crescer, consistentemente, abaixo
da média da economia mundial. O pico da participação brasileira foi de 4,3% no PIB mundial em
1980. Com a grande recessão ocorrida no governo Figueiredo, entre 1981 e 1983, a participação
relativa caiu para 3,8% e voltou a subir com a retomada do crescimento e o Plano Cruzado,
atingindo 4,2% em 1986. A partir de então, a trajetória de declínio foi se acentuando, atingiu
3,2% no ano 2000, chegou a 2,5% em 2018 e deve atingir somente 2,3% do PIB mundial em
2022, nos duzentos anos da Independência. Ou seja, em pouco mais de 4 décadas o PIB brasileiro
terá se reduzido, praticamente, pela metade, em relação ao valor real de 1980.

O gráfico abaixo, também com dados do FMI (em ppp), mostra as dez maiores economias globais
entre 1980 e 2022 e indica que o Brasil era a 6ª economia mundial em 1980, ficando atrás apenas
dos Estados Unidos (EUA), da União Soviética (os dados não estão no gráfico), do Japão, da
Alemanha e da França. O Brasil estava na frente da China, da Índia, do Reino Unido (UK) e muito
à frente da Indonésia. Porém, em 2017, o Brasil apresentou o 8º PIB mundial, ficando à frente
apenas da França e do Reino Unido (países com níveis populacionais muito menores). A China
foi o país que apresentou o melhor desempenho econômico, saindo do 9º lugar em 1980, para
o 1º lugar na atual década. A Índia também cresceu muito e saiu do 8º lugar para o 3º lugar
atualmente. Outro destaque é a Indonésia, que estava em último lugar e pulou para o 7º lugar
atualmente.

A tabela abaixo mostra os dados para as mesmas 10 maiores economia mundiais em 2017,
apresentando não somente as percentagens da participação de cada pais no PIB mundial, mas
também o valor do PIB (em ppp). A novidade ocorrida em 2017 foi o fato da Indonésia ter
ultrapassado o PIB brasileiro pela primeira vez. O Brasil, que tinha um PIB maior do que o da
China entre 1980-85, agora tem uma dimensão de apenas 14% do PIB chinês.
O gráfico abaixo (também com dados do FMI, de abril de 2018) mostra que, desde os anos de
1980, o Brasil cresce consistentemente abaixo da média mundial e bem abaixo da média dos
países emergentes. No período 1980-1985 (governo Figueiredo) a diferença entre a taxa média
de crescimento anual do PIB do Brasil, do mundo e dos países emergentes não era tão grande.
No período 1986-94 (governos Sarney, Collor e Itamar), a diferença aumentou, especialmente
nos últimos 8 anos. Na verdade, durante os governos Dilma-Temer houve decrescimento da
renda per capita, pois o crescimento do PIB de 0,7% ao ano foi menor do que o crescimento
populacional de 0,8% ao ano. O país vive a sua segunda década perdida (segunda década com
redução da renda per capita).

O gráfico abaixo mostra as taxas anuais de crescimento do PIB (colunas azuis) e os octênios
(média móvel de oito anos) de crescimento da economia, no período 1948 a 2018. Na primeira
metade do século XX, a média de crescimento dos octênios variava entre 3% e 6% ao ano. Em
1955 o octênio referente ao período 1948-1955 (governos Dutra e Vargas) atingiu o nível mais
alto da série histórica, até aquele momento, com o valor médio de 7,2% ao ano.
Este valor foi superado em 1961, com crescimento de 8,2% ao ano, referente ao octênio 1954-
61 (maior parte transcorrido no governo JK). Nota-se que a economia brasileira começou uma
fase de aceleração do crescimento a partir do fim da Segunda Guerra Mundial e atingiu o pico
durante os governos militares, pois o octênio com desempenho recorde foi de 1969-1976
(governos Médici e Geisel), quando apresentou crescimento médio anual de 10,1%. A média de
crescimento continuou acima de 7% ao ano até 1980.

Mas com a crise dos anos 1981 a 1983 (governo Figueiredo) a média do crescimento anual do
PIB caiu para algo em torno de 3% ao ano. Na sequência, com a crise econômica dos governos
Sarney e Collor a média do crescimento econômico brasileiro caiu ainda mais e atingiu a pior
média do século XX no octênio terminado em 1994, com valor de 1,6% ao ano. Portanto, a
economia brasileira estava com inflação alta e baixo crescimento quando foi feito o Plano Real.

O ponto alto do octênio 1995-2002 (governo FHC) foi no ano 2000 com média de 3,1% ao ano
(em 2002 a média foi 2,4%). As duas últimas décadas do século XX foram de baixo crescimento,
mas a primeira década do século XXI foi de recuperação. A média de crescimento do octênio
2003-2010 (governo Lula) foi de 4,1% ao ano e o octênio recordista do atual século foi em 2011,
referente ao período 2004-2011, com média anual de 4,4% ao ano.

Como visto nos gráficos anteriores, a partir de 2011 a economia brasileira entrou em declínio
acentuado e os octênios seguintes apresentaram valores cada vez menores até atingir o mais
baixo crescimento médio anual da história, que foi de 0,7% em 2018, referente ao quinquênio
2011-18 (governos Dilma e Temer). Portanto, o Brasil vive a sua mais longa e profunda crise
econômica, sendo que os últimos 8 anos (2011-18) foram os que apresentaram o pior
desempenho econômico da história republicana do país.

Entre 1930 e 1980, o PIB do Brasil cresceu mais do que a média da economia mundial e mais do
que a média do PIB dos países emergentes. Neste sentido, o Brasil ganhou peso relativo e se
tornou uma das 10 maiores economia do mundo. O Brasil era um país emergente. Mas a partir
de 1981 a economia brasileira passou a crescer menos do que a média mundial e a média dos
países emergentes, se tornando um país submergente.

Como a economia brasileira cresce consistentemente abaixo da média mundial, isto significa um
empobrecendo em termos relativos, isto é, a renda per capita brasileira cresce menos do que a
renda per capita mundial. O gráfico abaixo mostra que, em 1980, a renda per capita brasileira
era de US$ 4,8 mil, 62% maior do que a renda per capita mundial de US$ 3 mil. Em 2014, o Brasil
ainda tinha uma renda per capita (US$ 16,3 mil) superior a renda per capita mundial (US$ 15,1
mil). Houve empate em 2015 e, a partir de 2016, o cidadão brasileiro médio ficou mais pobre do
que o cidadão médio global. O FMI calculou uma renda per capita de US$ 15,5 mil para o Brasil
e de US$ 19,6 mil para o mundo, em 2017. Para 2018, a estimativa do FMI é de renda per capita
de US$ 15,9 mil para o Brasil e de US$ 17,7 mil para o mundo. Assim, depois da maior e mais
profunda recessão brasileira - promovida pelos governos Dilma-Temer - o Brasil, infelizmente,
passou para o grupo do lado inferior da renda média mundial.

O gráfico abaixo mostra que o desempenho brasileiro ficou bastante atrás dos países
emergentes da Ásia. Em 1980, o Brasil tinha uma renda per capita (em ppp) de 4,8 mil dólares.
Na mesma data, as rendas eram de 3,2 mil na Malásia, de 2,2 mil na Coreia do Sul, de 1,6 mil na
Tailândia e de apenas 302 dólares da China. A renda per capita brasileira era 16 vezes maior do
que a chinesa. Porém, a renda per capita na China cresceu 57 vezes entre 1980 e 2018, 19,2
vezes na Coreia do Sul, 9,1 vezes na Malásia, 11,6 vezes na Tailândia e apenas 3,5 vezes no Brasil.

O resultado é que a renda per capita (em ppp), deve fechar 2018 em 15,9 mil no Brasil, 41,3 mil
dólares na Coreia do Sul, 30,1 mil dólares na Malásia, 18,7 mil na Tailândia e 17,9 mil na China.
Ou seja, a Coreia do Sul já tem uma renda per capita 2,5 vezes a brasileira, a Malásia já
ultrapassou a renda média brasileira desde a década de 1990, Tailândia passou em 2016 e China
deixa a renda per capita brasileira na rabeira. A melhora da renda per capita nos países do leste
asiático foi acompanhada pelo aumento da esperança de vida, dos níveis de educação e das
condições de moradia, criando sistemas produtivos mais eficientes e mais produtivos.

Mas o Brasil não ficou para trás apenas em relação aos “tigres” asiáticos, pois teve péssimo
desempenho em relação aos seus vizinhos latino-americanos. O gráfico abaixo mostra que o
Brasil perdeu espaço entre o grupo mais dinâmico de países da América Latina e Caribe (ALC).

Em 1980, o Brasil tinha uma renda per capita de US$ 11,1 mil, ficando atrás apenas da Argentina
(US$ 14,7 mil) e do México (US$ 13,5 mil), mas à frente do Chile, Costa Rica, Uruguai e República
Dominicana, que tinha renda per capita de apenas US$ 5,5 mil. Mas, em 2018, o Brasil com renda
per capita de US$ 14,4 mil, perdia para todos: Chile (US$ 22,9 mil), Uruguai (US$ 21,0 mil),
Argentina (US$ 19,2 mil), México (US$ 18,4 mil), República Dominicana (US$ 16,1 mil) e Costa
Rica (US$ 15,7 mil). Desempenho pior do que o Brasil, somente a Venezuela que teve a renda
per capita reduzida de US$ 18,2 mil, em 1980, para US$ 9,3 mil em 2018.

A tabela abaixo mostra os países com maior renda per capita do mundo em 2018, segundo dados
do FMI. Nota-se que o Brasil ocupa a nada honrosa 84ª posição no ranking das maiores rendas
per capita da comunidade internacional.
Os dados acima mostram que a economia brasileira cresce menos que a média mundial e o
brasileiro médio está ficando mais pobre quando se compara com o cidadão médio mundial,
tanto quando se compara com os habitantes dos países dinâmicos do leste asiático, quanto
também em relação ao vizinhos latino-americanos. Impressionante é o fato de que o Brasil tenha
sido ultrapassado pela República Dominicana que tinha um renda per capita de somente US$
5,5 mil em 1980 (metade da renda brasileira da época) e agora tenha uma renda per capita 20%
superior.

Uma das explicações para o baixo dinamismo da economia brasileira é a baixa produtividade
dos fatores de produção e o processo de desindustrialização precoce pelo qual passa o país,
conforme mostra o gráfico abaixo. A precoce desindustrialização brasileira atingiu índice
recorde de retrocesso em 2016. A participação da Industria de Transformação no PIB ficou em
11,7% no ano retrasado, número baixo dos 12,1% de 1947. A Industria de Transformação que
chegou a ser responsável por 21,8% do PIB no início da Nova República (1985), caiu bastante
nos governos Sarney e Collor, subiu no governo Itamar, voltou a cair durante o Plano Real no
primeiro governo FHC e subiu no segundo FHC e no início do governo Lula. Porém, a
desindustrialização precoce se acelerou no segundo governo Lula (devido ao populismo cambial)
e também nos governos Dilma e Temer.

Países ricos ocidentais também passam pelo fenômeno da desindustrialização, mas o efeito é
diferente quando a indústria perde espaço para o setor de serviços avançados, como a produção
de software, ciência, design, etc. Alguns países investiram na capacidade produtiva intelectual
da população por meio de educação e pesquisa, o que gerou empregos mais sofisticados no
setor de serviços. Neste caso é um processo de transformação e de geração de mais riqueza, e
não necessariamente de perda dela. A Unctad considerada que a desindustrialização é precoce
quando uma economia não chega a atingir toda sua potencialidade produtiva manufatureira e,
em vez de evoluir em direção à indústria de serviços com alto valor agregado - setor terciário -
regride para a agricultura ou cai na informalidade.

Segundo Wilson Cano (dez. 2012), professor da Unicamp e pesquisador da Industrialização


brasileiras, considera que o Brasil, de fato, está passando por um forte processo de
desindustrialização: “A industrialização atingida nas décadas anteriores deteriorou-se face à
ausência de políticas industriais e de desenvolvimento e da conjugação de juros elevados, falta
de investimento, câmbio sobrevalorizado e exagerada abertura comercial. Nesse contexto,
ocorre uma desindustrialização nociva que fragiliza o país e compromete sua economia. Na
ausência de uma política macroeconômica consentânea com a política industrial, o
desenvolvimento fica comprometido. Por sua vez, cabe lembrar que o subdesenvolvimento não
representa uma etapa ou acidente de percurso, mas um processo que se inicia com a inserção
no mercado internacional capitalista no século XIX e, desse processo, o Brasil ainda não se
libertou”.

Ou seja, o Brasil está passando por um processo de “especialização regressiva” da estrutura


produtiva. A cada dia o país fica mais dependente da produção e exportação de commodities
minerais e do agronegócio, com forte impacto negativo sobre o meio ambiente. A produtividade
da economia brasileira está estagnada desde os anos 1980 e isto gera perda de competitividade,
enquanto o país aumenta os seus déficits fiscais e a dívida pública. O nível atual de emprego
formal é menor do que aquele que havia em 2013. Consequentemente, cresce a pobreza, o
desemprego e a violência. O Brasil tem a nona maior taxa de homicídios do mundo (30,5
homicídios para cada 100 mil habitantes), segundo a OMS.

Em diversas outras áreas o Brasil apresenta destaques negativos e vergonhosos. No Índice de


Gini de concentração de renda, o país está em 5º lugar entre as nações mais desiguais do mundo,
segundo o Banco Mundial. Na última pesquisa do Programa Internacional de Avaliação de
Alunos (PISA), realizada em escolas de 70 países, o Brasil foi o 59º colocado em Leitura e figurou
entre os dez últimos colocados nas categorias matemática e ciências. O Brasil ocupou a 60ª
posição, no total de 63 países, na 30ª edição do Anuário de Competitividade Mundial (World
Competitiveness Yearbook - WCY) de 2018. No Índice de Desenvolvimento Humano (IDH), de
2017, o Brasil, com valor de 0,759, ficando em 79º lugar no ranking global.

Portanto, o fato de o Brasil estar entre as 10 maiores economias do mundo não significa que o
país ocupe uma posição semelhante nos índices de desempenho de produtividade econômica e
muito menos nos índices de avanço social. O mais grave é que o Brasil deixou de ser uma nação
emergente (como foi na maior parte do século XX até 1980) e passou a ser um país submergente
e que perde posição relativa no seio da comunidade internacional.

Por conta de todos os dados arrolados, percebe-se claramente porque a Nova República está
em crise e a democracia brasileira passa por um forte processo de deslegitimação. Neste quadro
de submergência, as eleições gerais de 2018 apresentaram um grau de radicalização e
desentendimento inéditos.

A trajetória submergente da economia brasileira começou no tempo do governo Figueiredo, a


partir da crise econômica de 1981, teve uma aceleração nos governos Collor e Sarney (1985-
1992), apresentou uma desaceleração nos governos Itamar (1993-1994), Fernando Henrique
(1995-2002) e Lula (2003-2010) e voltou a acelerar o ritmo de declínio nos governos Dilma-
Temer (2011-2018).
Desta forma, o processo de apequenamento da economia brasileira já tem cerca de quatro
décadas. O que difere um governo do outro é o grau e a rapidez da trajetória submergente. Nada
indica que será diferente com o novo governo que vai assumir a partir de janeiro de 2019. Resta
saber, se nos próximos quatro anos o atual governo irá acelerar ou desacelerar a trajetória de
declínio relativo da economia e da sociedade brasileira.

Referências:
ALVES, JED. A Transição Demográfica nos 200 anos da Independência do Brasil, Ecodebate,
05/09/2018
https://www.ecodebate.com.br/2018/09/05/a-transicao-demografica-nos-200-anos-da-
independencia-do-brasil-artigo-de-jose-eustaquio-diniz-alves/
ALVES, JED. A trajetória submergente da nação brasileira em 10 figuras, Ecodebate, 07/11/2018
https://www.ecodebate.com.br/2018/11/07/a-trajetoria-submergente-da-nacao-brasileira-
em-10-figuras-artigo-de-jose-eustaquio-diniz-alves/
ALVES, JED. Brasil 200 milhões de habitantes, Ecodebate, 25/03/2015
http://www.ecodebate.com.br/2013/06/21/brasil-200-milhoes-de-habitantes-artigo-de-jose-
eustaquio-diniz-alves/
Angus Maddison. The West and the Rest in the World Economy: 1000–2030. Maddisonian and
Malthusian interpretations, World Economics, 2008
http://citeseerx.ist.psu.edu/viewdoc/download?doi=10.1.1.546.9890&rep=rep1&type=pdf
FIESP. Panorama da indústria de transformação brasileira, DEPECON/FIESP, 2017
http://www.fiesp.com.br/arquivo-download/?id=236253
IBGE, Séries Históricas e Estatísticas
https://seriesestatisticas.ibge.gov.br/lista_tema.aspx?op=0&no=10
IBGE. Projeções. Nota Técnica da Diretoria de Pesquisas, de 13 de maio de 2013
http://www.ibge.gov.br/home/presidencia/noticias/pdf/nota_tecnica_projecao_da_populaca
o_2013.pdf