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EPANAPHORAS
DE VARIA HISTORIA *******
A
P O RTV G VEZA -
– "º "
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AO EXCELLENTISSIMO SENHOR

D O M IOAO DA SYLVA
MAR 2UEZ DE GOUVEA, CONDE DE PORTALEGRE,
Prefidête do Dezembargo do Paço, do Cófelho de Eftado,cº Guer
ra, Mordomo Mor da Cafa Real,órc.
E M.

C IN C O R E L A C, O E N S
De face/ os pertencentes a este Reyno.
QUE conTEM NEGOCIOS PUBLIcos,
2OLITICOS, TRAG I COS, A M O ROSOS,
TBelicos, Triunfantes.
P O R

DOM FRANCISCO MANVEL.


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L I S B O A. #… --
• * ºs
Com todas as licenças nece/arias, E =
A defpefa d'Antonio Craesbecck de Mello, Im
Preflor de S. Alteza Anno 1676.
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"… AO EXCELENTISSIA4o SENHOR
DOM IOA AM DA SILVA, .
MARQUEZ DE GOUVE ACON DE DE
Tortalegre, Prefidente do Dezembargo do Paçº, do Confe
lho de Estado,õGuerra, Mordomo Môr
da Ca/a Real,&c.

# Ontinúo em dedicar a V. E.
\# minhas impretoês; porq he
"divida de hú criado daCafà
Real em q V.E. he Mordomo Mór:
a generofidade de V. E. a terá por
ferviço em mundo onde tão poucos
pagão o q devem. O q ofereço não
he defempenho da obrigaçaô, mas
só da vontade,pois naõ tenho mais;
quífera ter muito para V. E, o ter a
feus pès: mas a falta procuro fuprir
como defejo de que Deos de a V.
E. as felicidades que merece. Lis
boa 11. de Dezembro, 675.
Criado de V.E.

Antonio Craisbeeck de Mello.


7 Ito efiarem conformes com o original pódé
V ºcorrereftas Epanaphoras de D. Francifco Ma
noel Lisboa 1o. de Dezembro de 1675. * .*
Manoel de Magalhaé; de Mene/es. * … , " …"
Manoel Pimentel de Soufa. Manoel de Moura.
Fr. Valerio de S. Rymundo.
----- ***

IT Aixão efte livro em quatrocentos, &fincoenta


T reis em papel Lisboa 12.de Dezébro de 675.
O Marquez Mordomo Mór P. Miranda. *
Carneiro. Balto." … " "
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A L T E RAC, O EN S

D E E V O R A.
- Anno 1.637.
E P A N A PH O R A POLITICA

P R I M E I R A.
# DO M FRANCISCO MANUEL,

Ffcrita a bum Amigo.


55|ERTAMENTE,bem filofofou aquel.
(6 ß} le Sábio, que à virtude não poz outro
:$5|premio,fenaõ feu proprio exercicio;por
¿ que ella goza de húa interior calidade,
E… :

que fecretamente move os coraçoensa


fiia obediencia. Mas eu que vos digo das virtudes?
fendovos taõ familiares nâ guerra, & na paz, como
· Capitaõ,& como Miniftro;emprendendo,ou fopor
tãdo,á faõ os dous Pölos,(valor,& prudencia)fobre
os quaes fe revolve a Esfera Maxima dos Varoens
- · A gran
Q ALTERAçoz NS DE Evo RA
grandes. Digovos mais efia fua condiçaõ para que a
vofo animo feja húincentivo que o conferve em feu
apetite,& faça fequiofo de fua amifade; porêm vôs
guardaftes taó boa companhia cótodas as boas par
tes, q já parece ociofo encomendarvos vofame{ma
inclinação,fendo dos homês a mais facil obediencia.
Defta maneira vos havemos vito todos, q do té
po da creaçaô, até ete tempo, obtervamoso paffi
dos de vofla vida; porque gradualmente em cada
degraó della,parece que vos eftava efperandos a me
lhor difciplina d’aquella idade; nem os defcuidos da
primeira foraó caufa de que a paffaffeis defcuidada
mente. Antes á fervifleis para fervir efte Reyno, já
vos efiaveis enfayando fóra delle em Menino para as
grandes reprefentaçoês q nelle vos efperavaõ jà ho
mem. Afilemos de Apelles, 4 primeiro em peque
nos rafgunhos delineava as pinturas,cõ q defPois em
paineis grandes havia de enriquecer o univerfo.
Deftes logo à difciplina do Paço, outros annos
mais advertidos. He a Cortefania, a Gramatica das
pefloas illutres; porá as lingoagés da Arte das Cor
tes, nunca as entendeo bem,aquelle que tarde veyo a
eftudallas:fejà naõ he, que porq os homés naõ fuja õ
de feu perigo,convem que defde moços lhe vaõ per
dendo o receyo, como os moradores das catadupas
do Nilo, tem por armonía o etrondo, que aos efira
nhos etremece.
Viveis como Cortefaó, mas entre as galantarias
detetrato,não fe vos entorpeceo o efpiritu; porque
*- - • * * 2S
E PANAPHe RA PoE ITICA I. 3
as delicias de Capua, não chegäraõ a deftemperar o
aço dos peitos fortes; húa coufa he pofluir os delei
tes, outra fer delles pofluido.
Afi vos acharaõ defembaraçado o coraçaõ, do a
mor das coufas vulgares,todos os empregos, que vos
ofereceo o tempo,mais dignos de amor. Efte vos le
vou tão cedo a Africa, a merecer cóDeos, & elRey
em guerra fanta, as ventagés de que vos fizetes dig
no. De aqui procedeo,que na liberdade da Patria,&
fua confervaçaõ, feguiftes eftes fins por tais meyos,
que pela propria rezaõ,que poucos vos igualâraó no
merito, era força, que no premio vos excedefem
filUl1COS.

Eu que tenho que dizervos do que obraftes? fe


vòs metwo obrates mais, do que faberei dizervos;
falvo fe felizmente vos efquecem vofas acçoés, naõ
para que deixeis fua imitaçaõ,& feu progreflo, mas
para que vos não molefte efta lembrança,vendo taõ
defigualdo cuto, o gallardão dellas, Torre de Saõ
Sebaftiaõ 4. de Setembro de 1649.
V. A.

1). F. M.

&########################
# Ofiumavão os premios, quando os havia no
$# mundo,manter os homés diligentes, & ainda
A2 foberbos,
ALTERAço ENS DE Evo RA
foberbos, contra o perigo das coufas arduas ; po
rém aquelles da virtude, fem palavras prometidos,
& fem mentira logrados,não com menor eficacia os
fazem animofos, para emprenderem difficultofas ac
çoés; que ou lhes fervem, confeguidas de gloria, ou
fruftradas de defculpa. Afi foi: mas eu direi agora, á
não fó fem algúa efperança,de jufta recompenfa, fe
não quafi certificado do inconveniente,me ponho a
legre a efte longo trabalho, de recolher noflas memo
rias, como fetão fatalmente foffe arrebatado á fatif>
fação,como me vejo ir ao defagradecimento.
Tres autorizados Confelheiros, me perfuadem o
Confelho,o Ocio,& a Inclinaçaô. Façolhe à Patria
barato,de não nomear o zelo,pela não deixar obri
gada ao beneficio,ou á injuria, fatisfazendo, ou def>
prezando a fadiga, átomo por ella, ao mefmo tépo,
á ela toma cuidado, por acrecentar minhas fadigas.
Poré,como efte queixume tenha a idade do mundo,
naõ faltão exéplos,q afinos pofaó miniftrar alivio,
como vaidade; porq falir inteiro das batalhas,donde
os melhores foraó feridos, tambem parece defgra
$a.
Mais vezes os homens incitados da ambiçaõ,j da
miferia, fe aventuraô a navegar os remotos mares,
bufcando feus interefes por mãos do perigo. Porém
outros não defprezando, mas proporcionando o tra
balho, fem fahirem de feu proprio campo cultivão
cõ louvavel moderação a terra em que naftèraõ.
Poffo fem vaidade dizer,que da mefma forte me
+- fucc
E PANAPRORA Por ITICA I.
fuccdeo neta obra; porque já que os referidos afe
dos me inclinão ao oficio hiftorico, efcufandome
agora de obtervar os movimentos dos efiranhos [vi
fio que nelles periga de ordinario a verdade do Au
tor por ignorancia, ou incerteza] procuro efcrever
fem artificio a Relação de aquelles fuceflos que ha
pocos annos paflâraõ na Cidade de Evora, & quafi
toda a Provincia d'Alentejo,como o Algarve; dos
quaes he força tenha por teftemunhas os homés de
fetempo. Coufa por certo afsâzrigurofa, & que sò
pôde foportar aquelle que fizer da cóciencia, pena,
& da verdade, tinta. |-

E porão mefmo que huns dias defPrezaõ,vé ou


tros que o etimaõ;não julgo indigna de q felea a
Relaçaõ \etes catossos quaes ainda q por fucedi
do entre nós,deixé de nos parecer grãdes, por ven
tura q venhão a fer de alta maravilha aos futuros;
porque olhando de mais longe nofias acçoens, enté
deràó dellas com a própria Hiberdade q nôs entéde
mos agora as dos pafiados. També oufo a dizer, que
pw\icando eu o que callaraó todos, pofo enrique
cer minha obra dos defcuidos alheyos: de 4 jà [quã.
do menos] me ficará a gloria de haver roubado etas
lembranças das mãos ao efquecimento.
Não avôgo pela grandeza da materia,porque de
meu proprio movimento elegi menores empregos
do que outros,para a 4 por alhea,mas podero a elei
gaó, eftava definado. Com tudo afirmarei defle ca
fo,que fupoto foi mayor em fuas partes,do que "
6 ALTERAçoENS DE EvoRA
fimefmo,pareceo como hú Cometa, que fendo pro
duzido da baixa exalaçaõ da Terra,fubio,& fe acé
deo no Ar; donde fatalmente pronofticou impor
tantifimas revoluçoensá Republica Portugueza, &
Caftelhana; porq fe confiderarmos os meyos, & fins
de feu progrefo, em nada nos parecerá inferior aos
accidentes paflados,que em otras idades foraô bafá
tes a traftornar,& tratornaraõ as Monarquias.
Agora havendo apótado algúa coufa do valor de
meu afunto, ferá juto que o refira defde fua origé,
para q afi fique mais claro,& melhor entendidas as
circuftancias que o fizeraõ mifteriofo. A mi me cuf
tarà pouca,ou nenhúa pena, fua averiguaçaó, tanto
pella noticia,&memoria q de tudo tenho,como pel
lo tempo que me fobeja, affaz habilitado para cui
dar em trabalhos alheyos, pello exercicio dos meus
proprios. Nem eu a eftes que efcrevo porei falfo no
me,quando tábem differ, que fam meus, pois nelles
tive tanta parte,como eta Relaçaõ motrará adiâte.
Corria jà por cincoenta annos, que o governo de
Portugal etava em mãos de Principes e trangeiros
(afichamo aos Reys de Catella) a cujo poder o le
vou a Providencia por meyos, ainda que latimofos
não exquifitos à fortuna dos Imperios. Habitavão os
Reys Caftelhanos nofos dominadores em Madrid,4
foi a antiga Mantua Carpentanea; por fer fua fitua
çaõ em o centro de Efpanha, quafi igualmente di
fante dos mares que a rodeaó.
A remota vivenda do Principe,junta á confufam
- - de
E PANAPHoRA PoLIT icA J. 7
defeu immenfo fenhorio, & por outra parte os Reys
relaxados,ou por mitura do fangue Auftriaco, fem
pre notado de remifo,ou do excefivo ocio, q jà du
rava por mais de meyo feculo, os fazia proceder taõ
pouco atentos às ocurrécias publicas, q entre as mais
importantes, fe achavaó como efiranhos na obter
vancia dos meyos convenientes a fua confervaçam.
Naõ difputo da caufa, mas o efeito era ja lamentavel
a toda a Monarquia; porque defde el-Rey D. Feli
pe II. a quem nòs contamos o primeiro, os dous fu
cefores filho, & neto, dimitiraó de tal forte o real
exercicio,que bem podemos afirmar, não tinhaõ de
Reys,mais da vazia dignidade; & sò por aquella vez
o poder, que foi batante para entregarem a feus va
lidos o regimento da Republica. Detes dependia a
comú direcçaõ dos negocios, cõ nome de primeiros
Miniftros; os quaes reos do mefmo engano,ã feus fe
nhores, renunciàvaõ tábem em outros a pefada par
te de fua valia, ficandofe có a util. Entravafe pella
ignorancia à pretençaõ; porque aficomo a fortuna
ào digno fe funda em fer conhecida fua bõdade, afi
aventura do indigno feeftabelece fobre que feja o
culta fua malicia Corria a adulaçaõ defenfreadamé
terepartida em defiguais idolatrias,pella mefma cau
fa que o poder fe achava em muitos Idolos reparti
do. Então como o premio naõ era confequécia(qual
devia fer) da virtude,todos os q pretendiaõ feu au
mento, eraó forçados a bufcallo por aquelles cami
nhos que ainduftria lhes punha diante;aos quaes fe:
3 A LTERAçoENS DE EvoRA
uiaõ mas foltamente os homens, em cujos peitos
claro,ou efcondido ardía o fogo do interefe: com
plice dos mayores incendios das Republicas. Nam
era com tudo a idade de todo efteril de Varoés gra
ves, que á imitaçaõ dos primeiros, fe fatisfaziaõ cõ
a gloria do merecimento: porque dos grandes edi
ficios,ainda defpois de arruinados, fempre fe vam
defcubrindo alguns vefligios, que nos informão de
fua primitiva grandeza.
Vivia por eftes tempos em Lisboa hum dos no
bres do Reino, de aquella ordem a quem os Portu
guezes chamaõ: Fidalgos, com mais digna recorda
çaó que as outras nafcoens de Efpanha,fendolhes a
todas univerfalefte nome, naõ ha muito trocado ao
de Cavalleiros. Fizera hiftoria ao efcandalo, como
defejo de a fazer a doutrina, fe aqui nomeafle todos
aquelles de que hei de falar: bata q naõ diffimule
as acçoens, que daó claridade,& futácia ao que vou
efcrevendo. Era efte tal Fidalgo,mais efpcculativo,
que pràtico em os negocios publicos,que nunca ha
via manejado;do que muito fe fentia,julgandofe cõ
annos,autoridade, &talento conveniente ás mayo
resocupaçoés,á os Principes encarregaõ a feus vaf
falos. Eu,que bem o conheci, & por muitos annos
tratei com mais de ordinaria amizade,creyo agora,3
ainda então lhe não tardava o Confulado,cuja falta
elle jà reputava intoleravel injuria.Portaó engano
fo compafio fe medem os homens a fimefmos,& taó
terrivel confequencia trazem as parciaes eleiçoens,
• |- voan
E PANAPHoRA Pol IT IcA I. 9
voando para huns o premio,quando para outros tar.
da ou não chega nunca. Havia sé obrigaçaõ efte fu
jeito (& póde fer,ã sé perfeita noticia) difcurfado
configo proprio,acerca das caufas do empenho, em
qfe via a fazenda real;& averiguandoas tábé confi
go me{mo, fe perfuadio q elle fó,depois de tantos,
lhe achâra jufto,& facil remedio. Entre os homens
sé experiencia,não parece dificultofa a emenda dos
erros porã naóté paflado; principalmente em os da
adminiftraçaõ publica, cuja ambigua natureza a pe
nas fedefcobre aos mais excelentes juizos,defpois q
faõ nella muito praticos.Apoz de feu péfamêto for
mou logo hú papel de varios alvities, ordenado de
boas palavras,& fermofos pretextos, q todos os fins
de few ditcurfo faziaõ mais agradaveis.
Foi entaõ fama,que comunicado por feu proprio
Autor efte módo dos defempenhos do Reynocó ou
tro fidalgo naõ menos nobre,4 elle, mas muito mais
defiro em as materias de eftado;efte fegundo Politi
co, fundando melhores conclufoens,nas primifas do
Primeiro, formou outro aventejado papel, com o
qual fubitamétefe ofereceo a elRey,& Valido Ca
telhano; de quem naó sò foi admitido,mas fatisfei
to Difefe entaõ[& muitos dos que me lerem fey o
ouviram] que o original inventor defles alvitris, fe
queixava da fimulaçaõ, & falfo termo de aquelle fca
amigo,de quem fe havia confiado. Afi entendi eu
de outros muitos, mas dos dous,nunca ; havendoos
tratado ambos familiarmente.
Ta!
IO A LT ERAçoENS DE EvoRA
Tal foi o principio de hú afpero decreto q elRey
D. Felipe, dos feus chamado o IV. fez publicar aos
Portuguezes: em q lhes mandava o ferviflem cô 5oo.
mil cuzados fixos cada hú anno, repartidos por va
rios efeitos. Porêm, como fegundo os antigos foros
não pôdem os Principes impór novo tributo, antes
que em Cortes feja comunicado,pedido,& concedi
do; pareceo que efta dificuldade era grande, & fem
artificio,invencivel.
Obfervavãofe muitos finais de cufofas novidades;
porque D. Diogo da Silva Conde que fora de Por
talegre,fe efculára pouco havia do governo do Rey
no,com generofa, mas defigual refoluçaõ: defcófia
do, de q elRey lhe naõ entregafe o mando das Ar
mas Caftelhanas,ã ocupavaõ nofos prefidios,como
afeu pay o Conde D. João, fe havia confiado. Mas
D.Diogo,ã entre o exercicio de fuas virtudes, ainda
fe acompanhava das memorias do mando;dizem, q
ao mefmo pafo á fe via ir perdendo a graça delRey,
fe poz a folicitar a do Povo: a quem declarava,que
fe por muito portuguez o naõ achavaõ feguro para
mandar Caftelhanos,elle defejava antes,os comodos
dos primeiros,q dos fegundos; & que por feefcufar
de fer intrumento da vexaçam da Patria, fora com
aquelle defprefo caftigado.
Os Miniftros da Corte, ou jà envejofos do cre
dito dete Conde,ou efcandalizados dos meyos por
que o adquiria, todos entendiaõ que a vótade de D.
Diogo era em Portugal fempre opofta à delRey, &
- que
E PANAFHoRA PoLIT icA I. I I

que levava configo tantas,q todas jútas formava6hú


muro incontraftavel; o qual de força fe havia de ró
per primeiro, que fe podefe introduzir a forma dos
Decretos reais,& fua obediencia;porque a Nobref,
& Povo,tinhão por fofpeitofas aquelas refoluçoés,q
não rubricava o aplaufo do Códe D.Diogo da Silva.
Defia forte paflavão os negocios com medo, ou
com cautela, por cuja caufa todos os expedientes
mais importãtesperigavaõ no principio,ou meyo da
execuçaõ; porque os Minitros receando já o mal q
fe lhes ordenava,atè do juftificado duvidavaó. Ou
tros defejãdo acomodar o ferviço do Principe,& li.
berdade do Reyno,faziaõ por achar húmeyo de in
troduzir o novo pedido sé violêcia cótra o Povo, né
defautoridade côtra elRey. Donde procedeo arbi
tratfe ocultaméte 4 de Catella viefsé cartas afina
das da mão real,a algúas das principais pefoas q em
Cortes tinhaó voto; para q à maneira dellas em jú
ta particular fe pudefe aceitar o novo tributo fem
quebranto dos fôros do Reyno, né experimentar a
contrariedade q da multidaó fe temia.
Vindas as cartas q sò continhaõ o mãdado, & ro
go delRey,para q fe congregafema ouvir húa ma
teria de grande importancia,& cóveniencia do Rey
no; a Junta houve efeito na Igreja de Santo Anto,
nio de Lisboa, döde de Nobreza, Povo,& Fcclefiaf
ticos eftavaó chamados sòmente aquelles de quem
mais fe efperava a muda, ou intereftal obediencia.
Porém ouvida jà a propofiçaõ do negocio,& adver
tido
12 ALTERAçoENS DE Evor.A
# tido o artificio com que fe procurou facilitar, quem
primeiro falou foi D. Francifco de Caftel-branco
Conde de Sabugal, & Meirinho môr do Reyno, o
qual em poucas palavras lhes dife:Que elle,5 todos os
circuitantes, com os vogaes á faltavam, haviaõjuradoguar
dar os costumes de Portugal: pelos quaes lhes não era li
cito admitir, nem votar fóra de Cortes em materias/emelhã.
tes. Levantoufe com pretexto de haver já dito feu
parecer. Seguiraóno quantos Nobres Minitros fe
achavaó prefentes; huns com enveja,outros com fa
tisfaçaõ, mas todos com temor, do mefino que efta
vaó executando.
Governavaõ a Portugal por efte tempo D. An
tonio de Ataide Conde de Crafto de Ayro,& Nuno
de Mendoça Conde de ValdeReys; dos quaesha
vendo na Corte inteira fatisfaçaõ, fe efperava afif
tifem ao novo ferviço com tal cuidado que ele fe
confeguifle. Foi mayor o defcontentamento de fua
impofibilidade, havendo avifado della aos Gover
nadores; porq nunca a defefPeraçaó he taõ cufofa,
como quando nella fe troca a efperança mais certa.
Mas fupoto, que os Condes infinuavaõ em feu avi
fo muitos caminhos ao remedio, né as efcufas, nem
as e peranças felhe admitirão,ou agradeceraó, q foi
dar outro mais cego nó à dificuldade: contra a qual
[defobrigados pela reprehéçaõ,ou obrigados pela
cócicncia]naõ provaraõ mais a força da autoridade,
credito,& induftria,que por ambos fe repartia.
D.João Manoel Arcebifbo de Lisboa,afftia em
Ma
E PANA PH o RA Pol 1T IcA I. 13
Madrid, donde fora tratar graves negocios de Reli
giaõ,q procedèraõ d'aquella maxima júta dos Prela
dos do Reyno,por mais de dous annos, congregados
no Convéto de Thomar, donde D. Joaõ (entaõ Bif
po de Coimbra)fazia oficio de Secretario: tam fu
bida era a materia; cujo trabalho foi igualmente in
frutuofo. O zelo da caufa, q folicitava,o e{plendor
ée fua familia,parétes grãdes,& cópafladas acçoens
lhe haviaõ grangeado mais, q o proprio taléto[ naõ
de todo efteril boa opiniaõ entre os Miniftros Caf
telhanos,& modernos Portuguezes,porque entre os
mais antigos naõ corria taõ favorecido.
Mais no feu credito,ã na fua diligencia,fundou a
eleiçaõ feita de fua pefoa,para o governo de Portu
ga), em título de Vitorrey:bem,á os depoftos delle,
parêtes,amigos,& intereftados cõ o mefmo Arcebif.
Po, diziaó, que naõ tivera nefte cafo a diligêciame
nos parte que o credito. •

Sahio de Madrid,& chegou a Lisboa,fem que de


fua vinda fe lografe, fenaõ o difcomodo do Conde
àa Catanheira(falecido jà o de Valde Reys,em cu
ja proprietária prefidécia,do Tribunal das Ordens,
vinha o da Caftanheira nomeado;delle aceitada có
tra o juizo comum.)D.Ioaõ Manoel,de longo tem
Po,oprimido de huma hydropefia mortal, nenhuma
das cadeiras eftreou, de Vitorrey, ou de Arcebifpo.
Entaõ fe vio fem exemplo,vago de todo o gover
no do Reyno,de cujo cargo, lançou maõ o Confe
lho de Eftado,como imediato à dignidadeReal. Du
TO11
*

I 4. ALT ERAçoENS DE EvoRA #

rou afitrinta,& dous dias, acodindo às ordens, & #

cartas delRey, o Secretario de Eftado; a que elle


com parecer do Confelho, refpondia conforme fua
refoluçaõ.
Havia D.Diogo de Crafto,Conde do Bafto, go
vernado duas vezes o Reyno, defpois de exercer
outros Magiftrados da Republica,donde fefez mais
digno do governo,que nelle mefino.Foi terceira vez
chamado,& com o proprio titulo de Viforrey, que
antes não confeguira,pofto no mais alto lugar de fua
Patria,coufa que os antigos tiveram, por fumma fe
licidade:ignoravão(parece)os exemplos pafados,&
não alcançarão a ver os futuros efcarmentos.
O Vitorrey publica, & particularmente interef
fado na reftauraçam de Pernambuco (pellas caufas
que a ninguem efquecem) procurava esforçar to
dos os meyos, de que fe confeguife. A India, com
o Brafil, & mais Conquitas do Reyno, infetadas
do poder inimigo,por huma parte, náo acodiaõ com
reditos fuficientes a feu focorro, & por outra, com
efa propria falta,faziaõ cada vez mayor,&mais pre
cifa a necefidade delle.Tudo pedia hum excefivo
cabedal, ou induftria, que o fuprife: nòs de tudo
faltos, porintantes nos viamos diminuir na opi
niam,& utilidade. Aqui fundava o defejo,& ainda a
defculpa da refolução, com que os Miniftros profe
guiam a diligencia de introduzir novas impofiçoés.
Mas D.Diogo,com temperança louvavel, fein
terpunha entre a execuçam, & o remedio, fuprin
- • do
E PANA PHoRA Pol IT 1 cA I. 15
do ácufta de imento trabalho as necefidades mais
urgentes. Affi durou o governo, fem efcádalofano
vidade,atè o fim do anno de 1634. que fe tornou a
tubar pelos accidentes que diremos.
ElRey D.Felipe fegundo de Catella, teve entre
outros filhos a Infanta D. Catherina, que cafou com
Carlos Emanuel Duque de Saboya. De quem tam
bem entre os mais Principes, nafceo Margarida,
mulher de Vicencio Gonzaga, terceiro Duque de
Mantua,& Monferrato; o qual falecido, deixou
por herdeira de feus Eftados,húa sò filha por nome
Catherina; porém Carlos Gonzaga Duque de Ne
verz em França,Conde Ulhon, & Principe de Ro
fel,fe opoz logo à fucefam da cafa,por fer filho de
humirwão de Luis fegundo, Duque deMantua, que
foy pay de Vicencio,cuja Baronia fe achava extinta
em Catherina fua filha. Acodio Epanha a de
fender o dereito da herdeira,França ao do preten
for, & intentou Alemanha ocupar o Eftado, como
Feudo Imperial: donde procederaó as memoraveis
guerras,que em nofos dias oprimiraó Italia, afi em
Mantua,como no Monferrato, das quaes era Tea
tro Lombardia,fobre cujos campos, fe reprefentâ
raó muitos annos,as lamentaveis tragedias, que Ef
panhoes, Francezes, & Alemães, padecêraô a fim
de confervar os interefles de fuas Coroas. Foraó va
rios os fucefos, atè que ultimamente, convertida a
fortuna cótra a viuva Duqueza Margarida tutora,&
confelheira da filha,& netos(que já tinha………
1
C
16 ALTERAçoENS DE EvoxA
fe difpuferaõ de tal forte,q efta fatal Princeza houve
de fair em efPaço de duas horas, deterrada dos ter
mos de Mantua,& Monferrato,por ordem de feus o
prefores,recebendo leys, donde quafi toda a vida as
havia dado; porém,jà defpedida da Mantua, paflou
cercada de perigos,a Cremona;de alli a Milão,& de
Milaó a Pavia,em cujo governo fe deteve algú tépo,
concedendoo afia feu refpeito elRey D.Felipe VI.
primo irmaõ de Margarida. Có tudo ella defconfia
da, & temerofa em Italia, pedia infantemente a D.
Felipe a mandaffe paffar a Efpanha,donde viviria,&
morreria mais fatisfeita,como pefoa particular, que
em aquella Provincia defpojada Princeza.
A húmefino tempo ferecebiaõ na Corte Cafte
lhana as cartas de Margarida, vindas de Italia, & as
queixas dos Minitros confidentes, fundadas na im
pofibilidade do Reyno; a qual como difemos, dias
havia qfe adjudicava ao refpeito, com qos mefinos
Portuguezes procediaõ no ajutaméto do novo tri
buto, dõde os mais interefados julgavão,q fe Portu
galfe governaffe por pefoa de todo independéte do
Reyno,ã vontade delRey,& Valido,feria facilmen
te introduzia.
Haviafe a efte fim difcorrido, fobre quaes feriaõ
em Caftella os fujeitos mais a propofito de fe lhe en
carregar nofo governo. Julgádofe exteriorméte q a
todos preferia D. Frácifco de Borja, Principe de Ef
quilache, Conde de Mayalde:forajáVitorrey de to
das as IndiasOccidentaes,por efpaço de doze annos,
que
EPENAPHOR A P o LITICA I. 17
que governatº mais a Prazivel,que prudente.Acha
wie defocupado na Corte,&cõcorrião em fua pef>
faalgúas calidades, que parece o farião toleravela
Portugal; fendo o Principe,filho,& neto de Portu
guezes\erdado no Reyno, & Fidalgo nelle. As
quaes exterioridades batavaõ para nos fatisfazer,
&certificar aos Caftelhanos, que pelo fangue, na
cimento,creação,& beneficios,que devia a Caftel
la, não faltaria em derigir todas fuas acçoens,fegun
do os fins de aquella Coroa. •

Com tudo,alguns denofos Minitros, favoreci


dos do Conde Duque, fobre que defejavão mudar
o governo,era de modo qlhes ficafe por efa mudá
ça mais étregue,o q não podia ó efperar do governo
do Principe,porã alèm de fer homé fabio,&grãde,
era irmão do Duque de Villa-fermofa, Prefidête do
Confelho de Portugal,có qué não podia deixar de
eftreitarfe de forte,4 a todos os outrosMinitros lhes
ficafe pequena,& humilde parte das materias,ã dif>
pór;contra o á hia prevenindo a ambição de aquel
les,á folicitavão a revolta das coufas publicas.
Achavafe por efta caufa, enfraquecido o difcurfo
que aprovava a eleição do Principe de Efguilache,
quãdo forão recebidas as mais urgêtes cartas de Pa
vía,pellas quaes Margarida pedia o tranfito a Efpa
nha diffefe então: Que o Duque de Villa fermofa, Mi
mfiro grande doConfelho de Eflado de E/panha,& valido,
do Valido, atroco de não ver perferir para o gºverno de Per
tugal,outra pe/%(de/poisque/ºu irmão o Principeye defo:
bri
*/ B
18 A LT ERAçoENS DE Evo RA
briraopofitor delle(fizera inculca, ou lembrança da Prin }•
ceza Margarida; apantando com grande defireza,4 elRey
afifêm algã difêdio da Coroa Ca/telhanayficava recebêdo,
&#ffêtãdo a Prima,para que lhefize/eferviço._Acomoda
va em Portuguhãatal Princeza,dõde nica as refoluçoens
reaes achaffè contradiçaõ, nèfavor os intere/es particulares
do Reyno,8 nacionaes,& q para/atisfazer a e/quecida pre
tençaõ deno/os privilegios (os quaes fóra de pe/oa natural,
femaõefendê mais q a filho,irmaõ,tio,ou/obrinho dos Reys)
bê/e contentariaõ os Portuguezes,de 4 os mãdº/ehña neta
delRey D. Felipe,4 tiveram por/enhor,bifneta de hiatalln
fanta de Portugal,como havia fido a Emperatris Dona I/a-
bel,mãy de Felipe. Ajuntando:Que Margarida tinhamo
firado,afinas guerras de Mantua,como em o mando de Pa
via, haver nella hã e/piritu confiante,para as expediçoês mi
litares, & bā juizoprudente,para os negocios civís.
Tal foi o Principio da inefperada eleição, q fe fez
em Margarida,para o governo de Portugal;dõde ha
védo chegado pelos ultimos dias de 1634 começou
quando o novo anno feguinte, o novo Regimento.
Tinha por efte tempo, em grande altura a graça
do Conde Duque (primeiro, & memoravel Minif
tro da Monarquia)|Diogo Soares,Secretario de Ef.
tado,em o Confelho de Portugal,a cujo oficio fubi
ra de Eferivam da Fazenda,á era no Reyno. A pou
cafuficiencia,que atè entaõ fe havia defcuberto ne
fte Minitro, & notavel velocidade,com que voou
a taõ alto etado, deu caufa para que alguns em de
mafia defäfeiçoados,ou qneixofos entendefem naõ
Cf31Il
E PANAPHoRA Pol IrrcA I. 19
eraótodos naturaes os meyosporá alcáçou a valia,
&depois fe fortificou nella; porq fôra do cotume
detas maravilhas, elas foraó do tamanho de fua vi
da prevalecédo cótra os côbates de húa fortuna ad
verfa q ainda q declarada em feu odio,não pode de
firullo,antes de acarbar aquelle, a cuja grãdeza fe
artimou;como cofiuma a hera,cõ a coluna,da qual fe
naõdefabraça,até q o tépo naõ derruba o edificio.
Porèm,fegundo o mais prudente juizo,que então
fe fez do Conde,& Diogo Soares,como efte afecta
va por todos os módos, o adiantamento da fazenda
delRey,& particularmente por aquele tam danofo
ao Eftado,de vender os oficios publicos,& a fede de
aquele tépo era infaciavel, não feife à paixaó, ou
ao apetite,veyo a perfuadirfe o Conde Duque, que
fema intervenfaó de Diogo Soares,naõ poderia có
feguir os efeitos,q defejava para a confervaçam do
Reyno:oufe (cuidado melhor) não era recato arte
ficiofo fiar detecomunicara
não quereriajà aquelles negócios, q por indignos
outro Minitro. Foi fa
Maña efia opiniaõ,cõ grande afucia, acrecentava
Diogo Soares lifonjas publicas,& fecretas,que núca
faltam ao mais ignorante,junto aos Principes. Mas
como fobia tão violentamente,porque aos primeiros
patos da valia logo desbaratou a opiniaõ, & luga
res dos mayores Miniftros; embreve tempo, a quá
tos não teve por enemigos, teve por fofpeitofos,fen
dolhe entaõ forçado armar novos,& mayores arte fi
cios para crear outros, que lhe fofem confidentes,do
B2 que
# 2o ALrERAçoENS DE Evor.A
que lhe eraõ neceffarios para fe confervar,& afegue
rarfe de aquelles que achava ocupados em grandes
potos.
Com efte conhecimento,& mayor obfervaçaõ da
natureza do Conde Duque,ã com varios exemplos
deu a entéder ferincóftãte,ou pelo menos facil,em
a detruiçaõ de fuas proprias creaturas;entrou Dio
}
go Soares em o cuidado de fundar o edificio de fua
valia; á maneira que cotuma o Polito na cota bra
ba nam fiar sò de hum cabo a fegurança do navio.
Com efta confideraçam folicitou o entendimento
do Valido, de tal forte que fe inclinaffe a entender,
não etava o oficio de Secretario de Eftado noRey
no ocupado dignamente em a pefoa de Felipe de
Mefquita, que o exercitava havia quatro annos,por
Criftovão Soares feu tio;Miniftro antigo,& etima
do da nobreza sé odio do vulgo:cujas boas partes no
fobrinho fe congratulavão. Com zelo digo de hum
varaõ piadofo,offereceo Diogo Soares, o primeiro
motivo aos olhos do Códe Duque(fempre a malicia
feval da capa da virtude,para acreditar fuas obras)
reprefentando que o efiado facerdotal de Felipe de
Mefquita,era incópativel com o poto de Secreta
rio, q fegundo o ufo de Portugal,exerce de juelhos
diante dos Principes,todos os aótos de feu oficio.Se
gundo as rezoens contrarias deta, que o Conde não
Podia ignorar,fe pôde crer,qa ficção dete pretexto
tanto foi de qué o reprefentou, como de qué o teve
por verdadeiro;porque em a propria Corte fehavia
vito
\

E PANAPHoRA Po LIT 1cA I. 2 I

vifionam de muitos annos Bertolamen Leonardo,a-


quelle gram Poeta de Efpanha,Sacerdote,& Secre
tirio da Emperatris E). Maria;& mais proximo Pe
dro Fernã des de Navarrere, tãbem infigne Politico
Secretario,& Capellão do Cardeal Infante,q ambos
com teus Principes,ufavaõ da propria veneraçam 4
em o de Portugal fömente fe quiz fazer indigna. Se -
guio à rezaó aparente, a fingida amifade,por ocafio
nar mais deprefia o defvio; & encarecendo as boas
partes do Secretario Sacerdote,lhe taixou por mer
cè competente,hum lugar de Deputado Ecclefiafti
co, em a Mefa da Conciencia; como houve efeito,
antes que Margarida tomafe pofle do governo.
Depoto já aquelle impedimento,&vazio o lugar
de Secretatio de Eftado, faltava ainda para obrar a
fegunda, & principal parte do intento; a qual era a
comodar naquelle poto,a Miguel de Vafconcelos,
cunhado,& fogro de Diogo Soares,& feu mais con
junto no efpiritu,que na afinidade; a quem julgava
dignifimo fujeito, para manterfua correfponden
ca, porque fem contar as repetidas alianças,ã entre
os dous fe achavão excedia muito o vinculo da obri
gação,ao do parentefco. Era Miguel de Vafconce
los herdeiro do aborrecimento, que o Reyno teve
afeu pay, Pedro Barbofa; homem togado de agudo,
mas inquieto engenho,a que fe feguio vida efcanda
lofa,& morte violenta.Côtudo,foráo afi reprefen
tados feus merecimentos,ao Conde Duque , q logo
houve nelle lugar aquelle grande oficio, que Pte
B3 tendia.
22 A LT ERAçoENS DE Evo RA •

tendia.Quando vimos os fucefos, que deta eleiçaõ


fe origináraó, entamentendemos a providencia, có
que o Ceo permitio os indefculpaveis defconcertos,
que cahiram fobre nota Republica.
Pois como foffe certo, que a raiz do valimento
de ambos eftes Miniftros,fe banhava em aquella có
tinua torrente do intereffe,q por ambos corria defde
os Vafallos ao Principe,& por efa caufa cada hora
brotaffe fua fortuna,novas,& grandes mercés, bé fe
deixa entender,qual foi a prontidaó,com que hum,
&outro Secretario procuraraó todas as materias, dó
de foffe interefada a utilidade real. A cuja cultura,fó
fe dirigia o cótinuo, & ardilofo trabalho de Miguel
de Vafcõcelos no Reyno,& Diogo Soares na Corte.
Começâraó entam a renovarfe as práticas dos tri
butos pafados: taes,& tantos, que nunca foi pofi
velaos mais diligêtes obfervadores dos fegredos do
Eftado, fua averiguaçaõ. O proprio fecreto os fazia
fofpeitofos; mas foubefe,q muitos como móftruo
fos fenaõ logràraó.Naõ ferei temerario,fe differ eraõ
exorbitantes os ocultos, vendo que os julgados por
licitos,juntamente fe fouberaó,& repulsaram.
Eraõ até aquelle tempo varios os efeitos, có que
os Povos ferviaõ a elRey; porque eraõ tãbé varias,
& grandes as necefidades, que os Portuguezes naõ
negavaó,nem def-focorriaô.Porém,dos apertos pre
fentes, naõ fizeraó tanto cafo os mais zelofos, prefi
lhandoos á defordem, & naõ á defgraça do tempo;
tendofe gèralmente por certo, que as miferias referi
das,
EPANA PHoR A Polir tcA 1. 23
das, ferviaõ de pretexto,& naõ de caufa ao excefi
voafecto, com que fe pretendia introduzir o novo
ferviço. Deziam os atrevidos: Que ninguem folicitava
aproveito publico,com taõ extraordinaria diligencia. E fe
provava, cõ que fendo cada dia mais crecidas as có
tribuiçoens, o cabedal naõ fe aumentava afirmando,
que fe a agoa dos rios naõ fahira do mar, aficomo
entra nelle, já o mundo eftivera cuberto das aguas q
o mar recebe cada inftante; & q da propria maneira
fucedia ao cabedal do Reyno; vito q com tão pere
ne curto de dinheiro,qual fe contribuia a elRey, jà
mais em fua fazenda fe enxergava hum breve melho
ramento. Affilembrado o Povo dos expedientes paí
fados, não podia acomodarfe a receber,os novos di
reitos,em que fe efperava houveffe a mefma defordé,
que os antigos. Era então por toda Efpanha,univer
falqueixume dos Vafallos,que afuftancia tirada dos
pobres,comarte,ou violencia, fedefpendia em def
propocionadas mercès,& fabricas impertinêtes.Co
mofe não foffe vicio antigo em Principes defcuida
òospedir com juftificação,& gatar fem ella. Rema.
tavam os queixofos feu difcurfo, com q nenhúa ra
zão os obrigaria, a pagarem mais das antigas contri
buiçoens: que a elRey não faltavão efeitos, fenam
providencia;&q fe affi como lhes pedião cabedal de
prata,& ouro(de que já etavam defpojados)lho pe
difem de confelhos, elles farião a elRey mayor fer
viço;porá experiencia dos excefos paflados os dei
xara requifimos de advertencias. Que os Principes
B 4. 2 Il{1-
24 ALTERAçoENS DE Evo RA
antigos, fem algúa moletia de feus Povos,ajuntàraõ
tefouros,que lhes abrangeraõ a cóquitar as Provin
cias, que famos tefouros do mundo.
Crecia com a duvida da gente, já repartida pella
voz do vulgo, o embaraço em todos os Minitros do
Reyno; & pôde fer, que o arteficio en alguns ; &
nos da Corte fe aumentava a indinaçaõ, por fenam
verem obedecidos: com o que de novo mandavão a
eftoutros,profeguiflem o começado; porém nada fe
obrava,fegúdo fe pretédia;porque os do Reyno co
mo naõ eraõ de imediato merecimento à võtade do
Rey,vendo entre feus olhos,& o ferviço de cada hú,
a intercefam dos Miniftros de Caftella; antes que.
riam com prazer ao Povo,que ocafionar nova graça,
& grandeza,aos que tinhaõ por fuperiores: & os de
Caftella, fendo proximos ao premio, & reprençam,
&apartados dos clamores populares, fem nenhum
repeito ao publico defcontentamento, procuravam
agradar o Valido,cóvertendo alifonja em cega obe
diencia. Porém, ja defcubertas as invenciveis difi
cuidades, q fe opunhaõ a efte expediéte, & conheci
das algüas, á os mefmos interefados nelle nam po
diaõ negar; fetomou por fegundo acordo, áreduzi
dos os novos tributos a hú sò ferviço o Reyno cótri
buifle com quinhétos mil cruzados fixos cada anno,
alé das antigas impofiçoés, & q eftes fe afentafsé à
fatisfaçam dos Povos,védédofelhe por grãde mercè
deixar em fua eleiçam o intrumêto da ruína.E para *
+

4a fominifração dete ferviço,procedeffe livre, &


di
E PANA PHoRA Pol 1T IcA I. 25
diligête,fe encarregou a húa Júta particular de gra
vesMiniftros,chamada do Desépenho, em a qual fe
ajutaísé todas as dependécias de tão grande negocio
Íem algú recurfo,ao governo do Reyno;porá a fim
de q feus decretos naõ fofem revogaveis, fe conti
tuío imediata ao Confelho de Madrid;dõde as par
tes queixofas não poderião recorrer,fem mayor dif>
pédio,q o proprio valor da fem-razão, q padecefsé.
Os meyos,que de ordinario bufcão os Principes
para atrahir a fi a vontade dos Vafallos, poucas ve
zes feregulaó pelos exemplos; porque agora ve
mos, fer a propofito os brandos,agora os fortes: te
nho por certo, que efta felicidade, & facilidade de
fua execuçam, fe deve mais vezes ao aplaufo do
Principe, que à Juftiça da obra; mas tambem me
confundo quando vejo, que o meyo por donde os
Reys chegão a lograr efte aplaufo,he a temperança,
com que fe abtem de gravarem aos Povos. Entam
como do amor pende a obediencia,& da liberalida
de o amor, nam acabo de determinarme, em qual
{eja o melhor caminho, para fazer hum Imperio fe
lice. Vendo ao liberal empobrecido, ao interefado
dificultofo.Difefe naquelle tépo: Que fe efle/erviçº
Je começara com mais temperança, nam fe dando tam vio
lentamente a beber ao vulgº o va/, amargo/0, que felhêmi
nifirava,os Povos já de cauçados,quando não de obedientes,
huver㺠de recebello.Porêm como os erros fe multipli
caram na direcçaõ dete negocio, afi creceraõ tam
bem na contradiçaõ delle, a qual fobre as pafladas,
- fe.
|
26 A LT ERAçoENS DE Evor.A
fe reprefentou intoleravel aos olhos dos Miniftros,
que aconfelhados com a ira propria, mandaraó por
decreto executivo, fe profeguife o repartimento do
dinheiro,&fe executafe fua cobrança por mãos das
juftiças,que aflitiam nas Cidades,& Villas, cabeças
das Correiçoens do Reyno. O Povo fentio mais,ver
que fe perdia a calidade de ferviço voluntario, tro
candofe em devida perentoria.
O ufo immemorial de nofla naçaó, havia conti
tuido por cabeças de Comarcas; em nome de Corre
gedores, a homensleigos,prudentes,& nobres; & a
muitos dos que derramando feu fangue na mocida
de,por defenfa da Patria,como mais obrigados a el
la,& ella mais dependente delles,agora na velhice fe
empregavão em confervalla, & regela com paz, &
jutiça,& bons cotumes.Mas fucedendo no Reyno
D. João o II. Principe excefivamente zelofo da Ju
ftiça,& duramente opofto a grandeza dosVafallos,
acordou de mudar o etilo antigo (q todavia fe có
ferva em o reto de Efpanha) & introduzir nas cor
reiçoés homens,profeflores deletras civis:gente que
por meam entre os grandes, & pequenos, pudefe
moderar a autoridade dos fenhores,& catigar a in
folencia do vulgo. Efte modo de regimento, por fer
mais em favor da Monarquia, que o paflado,foi tam
aprazivela todos os Reys fucefores de D. João,que
nenhum fe lembrou de retituir à nobreza etas dig
nidades, que D. João lhes alheâra: nem advertidos
dos grandes inconvenientes,que fobrevieraõ por efa
C3tlº
EPENAPHoRA Politica I. 27
cauf ao Rey, & Republica: tais á a todos puzeram
perto da ultima ruina. Porá os Reys (dizê os q não
aprovão efia mudança)amão o ferviço dos letrados,
perfuadidos delles melmos, por lhes fazerem certo,
q ofer da fua faculdade, he fciencia do juto, & in
juto; donde procede, que eles às vezes eftendendo
a jurifdição, chamão de continuo em feus excefos,
or autora a autoridade real, com cuja ofenfa(fe affi
he) dilatam feu poder, à vontade da paixam, ou co
biça,á talvez oprime o animo de muitos,por ambi
çaõ,ou miferia. Atè aqui pertéce á queixa,dos q jul
âraõ incóveniente o governo dos Jurif-cõ{ultos,de
algúa forte favorecida,có o exéplo q efcrevemos.
Obravaõ todos os Corregedores do Reyno,fegú
do fuas ordens; & a nenhú eraójà ocultas as grandes
dificuldades,q o Povo oferecia a feu cópriméto. En
tre os mais, o Corregedor de Evora Andre Moraes
Sarmento,de profifaõ Legita, tratava com defere
grado zelo, o affentamento do novo ferviço, & re
partiçaõ dos efeitos, q para feu cobro tocavaõ a fua
Comarca. Havia já propofto tudo à Camara de a
quella Cidade:donde os Vereadores della,á cufta da
vontade delRey, & do clamor do Povo,igualmente
moftravaó defejo de obedecer, & refiftir;porque de
húa parte,a obrigaçam de bons Vafallos, & da ou
tra, a de bons Patricios,os dividião,&equivocavaõ,
tm taõ contrarios efeitos. Pareceo, que a mayor im
pofibilidade,confiftia na vontade do Povo;porque
como cófta de numero incapaz de caftigo, foborno,
ou:
23 ALTERAçoENs DE EvoRA
ou confelho, he de ordinario,opoto a todos os ref.
peitos politicos. Quiz então o Corregedor, encami
nhar a obediencia das cabeças populares,& fez cha
mar diante de fi ao Iuiz, & Efcrivam do Povo, em
os quaes de algúa maneira, entre nós fereparte a au
toridade de aquelle oficio,que os Romanos chama
ram: Trubítmo da Plebe. Eram feus nomes detes, Se
finando Rodrigues, & Ioão Barradas, ambos da or
dem mecanica;& que affi pelos lugares que tinham
da Republica, como pelo credito de amadores da
liberdade, fe efimavaõ as pefoas de mayor poder,
cntre a multidaó de aquelle Povo numerofo, & fo
berbo: fegundo os teftemunhos, & tradiçoens das
antigas refittencias do feu Sertorio, Soldado Ro
mano,& que com
tos,& as hotes do feus paflados atropelou os decre
Imperio. •

A novidade de aquella diligencia, que o Corre


gedor intentára com os dous Populares,a que també
fe ajuntava á pratica commua, que jà corria pello
Povo,das novas impofiçoés que lhe repartião; aba
lou grande cantidade de gente em feguimento dos
dous chamados,ou foffe por fegurança, ou (que he
o mais certo) para atemorizar com feu numero, o
executor da violencia,que temião. Todos eftes ac
cidentes ameaçadores á Republica de cutofanovi
dade, defconheceo, ou defprezou o Miniftro real,
contra quem fe preveniaõ: procedendo em perfua
dir aos Populares, q tinhão encerrados em feupro *

prio apofento, jà com promefas, jà com ameaços,


- * 2 Il[CS
EPANAPHoRA PoEITICA I. 29
antes que convertidos à multidaó,tornafiem a parti
cipar do efpiritu de fua variedade.Porém Barradas
homem de juizo,mayor q fua fortuna, pedia inflan
temente lhes fofelicito comunicar o negocio a feus
cópanheiros; porã ainda q elle,por temorou razão,
côce defe no q felhe propunha,claro efiava, q fem
participar do cófentiméto do Povo, nada ficava fir
me. Era efta comunicação,a á mais temião os Mini
{tros delRey,affi lhe foi negada;cõ q de novo endu
recidos os Populares, fe refolverão a não conceder
coufa algúa,ágravaffe ao Povo,sé fua licéça. Dizé,
q então indignado o Corregedor à vita de tãta du
reza,foltou palavras de grave injuria cótra todo o
Povo de Evora,& fez demoftraçoés,de q queria en
forcar,como o havia jurado,aos dous q tinhão pre
fentes; para cujo efeito de fecreto,afirmão q metera
em fua cafa o algoz,& outros oficiaes de juftiça, pre
tencentes à execução do fuplicio.
A efia defordenada refolução,fe feguio nos Po
pulares hã novo moviméto,qual ella pedia, & defe
culpava;porá o medo,& o furor, fendo de calidade
diferente,produzé na defefperação,o propio efeito.
Então Sefinando,q era homé mais deliberado, che
gandofe á janela da propria cafa em q fc achávão,q
como preparada ao movimento,olhava pera a praça
da Cidade,pedio em altas vozes focorro ao Povo di
zendolhe: Que morrião pelo livrarem do trabalho que lhe
querião dar os Minifros delRey.
De nenhum fe pôde afirmar, ouvio inteiramente
- a VOZ
3o ALTERAçoENs DE Evo RA
a voz do Juiz do Povo, fegundo etavam todos de
pendentes de feu aceno. Quando com fubito etrõ.
do, ardendo todos em ira,clamáraõ a morte do Cor
regedor,& liberdade,& vida dos Populares. A hum
mefmo tempo fe levantou a voz,&a força, & quafi
fem efpaço de tempo,era entrada,& acefa a cafa de
aquelle Minitro. Duvidafefe afuria do fogo,ou da
gente,andou mais pronta em fua ruina. O Correge
dor alterado, confufo, & medrofo, fóintentava ef
capar a vida,que pode confeguir,ajudado de alguns
nobres,& Religiofos,que logo o focorrerão, & in
duftriofamente o trefpafârão ao Convento de Sam
Francifco;donde defpois em habito diverfo fahio da
Cidade, & pafou á Corte, & nella experimentou a
fortuna dos que fe perdem entre ruins fucefos, cuja
direcção,nem por boa,fe falva no Tribunal dos Jui
zos humanos,que fóolhão os fins, & não os meyos
de nofas acçoens. Porèm o Povo mais indignado,
cometa fugida,aumentava fuas defordens cõ mayo
res delitos. Afirmafe por coufa rara,que toda a prata,
ouro,& dinheiro q defpojavaó,queimarão na Praça
fem algum refpeito,como coufa petifera, não havê
do entre tanta multidaó (q contava da peor gente
da Republica) húa fô pefoa, que fe movefe a falvar
por feu proveito qualquer joya,das que outros en
tregavão às chamas tão liberalmente.Tal era o odio,
que pode mais que acobiça, mais poderofa q tudo.
Pafou a diante o dano,& forão trazidos ao fogo to
dos os livros reaes,q fervião de regitro aos direitos
Pu
E PANAPHoRA Pol IT IcA I. 31
publicos; romperão as balanças donde fe cobrava o
novo impofio da carne; devafsàrão a cadea, dando
liberdade aos prezos de quem efperavão fer ajuda
dos,faqueâraõ os Cartorios, desbaratando papeis,&
livros judiciaes.Porém em todas fuas acçoés,fe mof
trou fempre mayor à indignaçaõ,ã ó intereffe.
Evora he fegundo Povo de Portugal,em grande
za,& não inferior a nenhú de Efpanha, no efplen
dor, & antiguidade; da qual feu filho, & Cronita o
Metre Andre de Rezende,á o foi tambem das an
tiguidades da Lufitania,compôs hú fó volume,fabio
ainda q breve. Nos tempos modernos, muitos dos
Reys Portuguezes,tiverão naquellaCidade fua Cor
te, por efta caufa,& fua abundancia foi fempre afsé
to de grandes,& illutres familias; das quaes por ef.
ta Relaçaõ fe fará memoria: mas né os fenhores del
la, nem os muitos nobres,de que tambem he opulé.
ta, puderão ajudar efte dia ao dano, ou ao remedio
contra a efperança de todos; porq os Minitros reais
entendião fer da nobreza defendidos, & os Cabeças
do Povo,tinhão por certo lhes não faltaria fua ajuda.
Porém cótra a mefina igualdade,que dos nobres foi
obtervada naquelle trance,alguns tinhão para fi,q á
gente principal não defprazia aquella demontração,
porqfendo nella o perigo sò do vulgo, qintentava a
refiftencia,vinha a fer comú o fiuto de aquelle mo
vimento,fe por elle fe confeguife a emenda dos ma
les,que contaminavão a Republica. Outros enten
dião (não peor) que a nobreza fófora quem detive
I'2'
32 ALTERAçoENS DE EvoRA
ra a furia do Povo,em cuja cegueira não tinha lugar
nenhum refpeito. -

Todavia vendo os grandes, & nobres de Evora,


q fua inquietação paflava já de vingança,&á ás vo
zes havião fucedido as armas; fe ajuntárão em a I
greja de S. Antão,antiga, & principal freguezia da
Cidade,o Arcebifpo D. João Coutinho,D. Diogo
de Catro,Códe do Bafto,Vitorrei q fora de Portu
gal,D.Francifco de Mello Marquez de Ferreira,D.
Rodrigo de Mello feu irmão,D,Francifco de Por
tugal Conde do Vimiofo,D. Francifco de Lécaftre
Comédador mór de Avis,&D.Jorze de Mello. En
tre os quaestratandofe o remedio do fucedido,fe in
tentárão varios meyos dirigidos à prefente modera
ção,& pera o que podia fuceder, fedefpachàráo os
avifos neceffarios. Porêm,como a primeira diligécia
convinha fero focego de aquella multidão,que C2
da hora fe achava mais atrevida & refoluta;fe come
çou com brandas pràticas a tartar a redução do Po
vo. Dezião lhes: Quizeffem deixar tudo ao cui- ,,
dado da Camara, a quem tocava a caufa publica, ,,
pois a ella,& não a elles pertencia a confervação »
de fua Cidade. E pera que o negocio apareceffe ,
diante delRey com mais jutificação,&autorida- ,
de, toda a nobreza que allife achava prefente,{e »
oferecia para interceder com fua Magetade, até »
alcançar fobre o perdão algum bom recurfo, cõ »
que todos ficafem fatisfeitos. 22

Efia propota não fouberão os Inquietos ouvir,


Il CII]
EPANAPHoRA Polirica f. 33
nem refponder,antes convertendo aira para aquella
parte,começárão a temerfe da Congregaçaõ da no
breza. Por fer caufa ordinaria entre os que defor
denadamente feguem hum parecer, julgarem por
inimigos a quantos lho não aprovaó. Queixavaõ
fe,& diziaõ:Qgeos/enhores, º poderºfos de Evora, não
fentiaõ deshumanamente a execução do Povo de fua Pa
tria,porque não eraõ do Povo; que para os Grandes, nunca
havianovas leys, que não fo/em interpretadas em feu co
modo;&º que ainda contra a obfervancia das antigas, fear
mavão deprivilegios;porque ou naõ queriaõ dever, ufando
de fua franqueça,ou não pagar,abufando defua authorida
de.Que procuravaõmerecer com o Principe,á cufia das ruí
mas da patria, & agora fe cºngraçavaõ como Povo,parafe
jufificarem defpois com ElRey,ºferecendo por viºlima, ao
facrifício de/aafidelidade,o inocente, & fimples vulgo, cujº
/angue derrama/e,como de animaes obedientes, cofumava
a barbaragentilidade,porêm que havendo/ejuftificado com
ElReyferiaõ os mais crueis algozes para o Povoyfinalmente,
que ou/e ajunta/em com os Populares,ou entrefi/e dividifº
fem,ºuprocederiaõcontra
publico. •
elles,como contra inimigºs do bem
• • -

Efta tão dura repota,turbou de novo os animos


dos Congregados; porque não sò prometia orifco
da nobreza,mas em o Povo dava moftias de querer
paffaradiante a mais cutofas novidades. Sucedeo
então, que fobrevindo as trevas da noite, fe esfor
çárão tanto os inquietos,que juntos foraó apedre
jar o Paço Arcebi pal, iujuriando com atrevidas
• • pa
34. A Erza Açºrss Pz EvoRA
palavras ao Prelado, & fua familia. Outro feme
lhante, ou mayor tropel, entrou pelas portas do º
Conde Dom Diogo de Catro,a quem aborreciaõ, .
poto que veneravaó, fem outra caufa, que haver
fido grande Miniftro. Mas ovelho, feguro tanto na
autoridade, como na inocencia, fendo advertido de
que o Povo o bufcava,com luzes, & fem armas, de
ceo a recebelo,ouvindofejà dos tumultuarios tãcas
afrontas contra fua pefoa, como palavras: porém
elle, com valerofa contancia,acompanhada de no
va cortefa(de que antes fora falto)lhe dife: Povo
de Evora,que me quereis?/ouvi/o natural; tres vezes go
vermei efte Reyno/em vos fizer agravo. Aqui me tendes,º
fe para vo/a quietaçõ/en e a minha morte,mataime, & fi
cegaivos; /equiverdes pouparme a vida,para vos ajudar ao
remedio que vos convem, obrai como quizerdes; mas não
vos e/?ueçais de que fiis Portugueses, donde nunca hou
ve mancha de deflealdade. Paráraó os mais defatina
dos ás primeiras palavras de Dom Digo, & ou
vidas as ultimas, fe voltárão confufos da delibera
=çaõ,&
falado.gravidade com que os efperàra,& lhes havia
- * •

Contra os mais da Junta não intentàrão coufa al


güa,& dete comedimento nafceraó fofpeitas, de 4
muitos dos mayores della,fe entendião fecretamen
te com as Cabeças do Povo. Huns, & outros bacila
vão entre a temperança,& difcordia, fem faber qual
parte lhes feria mais propicia. Mas em meyo deta
confufaó,feguiaõ os melhores o parecer dos Padres
• da
. EPANAPHoRA Poltrica I. 35
da Companhia,que entre nós com grande honrago
zão o nome de Apofiolos, & faõ em Evora alta
mente refpeitados, pela concurrencia de fujeitos
grandes,que ocupaõ naquella fua Vniverfidade.Po
rem elles,ou foffe pelo antigo amor aos Reys Por.
tuguezes,ou porqfenão atrevefem a contradizer a
inda a furia do Povo,dizem que tacitamente con
tribuião às efperanças de algúa novidade. Queim
mais inftigava os animos a não defprazalla, era(fe
gundo fama)Sebafiaó de Couto,Doutor Theolo
go dos mais celebres do feu tempo, & em cujo fu
geiro as letras,e prudecia guardavão excelléte armo
nia. Da me{ma opiniaõ parece q foraó os Padres,Al
varo Pirez Pacheco, defcendente do grãde Duarte
Pacheco,pefoa de callidade,& virtudes agradaveis:
affi Galpar Correa, & Diogo Lopes, todos fabios
Varoés fobre Religiofos.Mas porq de algúa manei
rafe faria duvidofa a boa opiniaõ de feus letras, &
virtudes,confentindo em aquella voz, que então fe
derramou;& eu agora na pureza hiftorica pofo ex
Vörmas não jutificar,ainda q com digrefaõ motra
rei parte da caufa,que pode mover a eftes Religio
fos,a não encõtarem por entaõ a queixa popular.
Notoria he ao mundo a grande piedade, com
que refplandeceo fobre todos os Principes de feu
tempo, ElRey Dom João o Terceiro de Portu
gºl jà maneira do antigo Numa Pompilio entre os
Romanos, adornou de Religiaõ todo o periodo de
aquelle pacífico Reynado. Foi em feus dias a entra
C2 da,
36 ALTERAçoENS DE EvoRA !
da,q em Portugal fizeraõ os Padres da Companhia,
quando de Roma os trouxe o Embaxador Dom
Pedro Mafcarenhas. Creceraõ eftes Religiofos
em numero de virtudes de tal forte, que falecem
do elRey Dom Joaõ,& ficando o governo em mãos
da Raynha Dona Catherina fua mulher,& Cardeal
Dom Henrique (ambos Principes de fingular de
vaçaõ à Companhia)entrègaraó facilmente a edu
caçaõ do neto, & fobrinho Dom Sebaftiaõ, a al
guns Varoés dos que então foreciaõ uaquella nova
ordem. Com tal doutrina creceo ElRey tendo por
Confefor,& Metre,a Luis Gonçalvés da Camara,
& Leaõ Henriques, homés quaes entre muitos vir.
tuofos,& fabios,fe deviaõ efcolher para taes minif
terios. Sucedeo à puericia delRey, fua fervo
rofa adolecencia;fendo taes feus fucefos, quaes ha
vemos ouvido às lagrimas de nofos paflados; & por
que a caufa exterior de feu laftimofo fim, era de al
gúa forte adjudicada á fevera difciplina em q os Pa
dres havião creado o Mancebo,quáto foi no Reyno
mayora latima;& queixume de fua perda, & mais
cóftãte a opiniaõ da origé della,táto mais na Com
panhia fe arreigava o fentimento da tragedia de a
quelle Principe. Efte amor tão reciproco entre os
Apotolos,& ElRey,fez q muitos Varoés doutifi
mos feguiflem,não só a vulgar duvida de fua morte,
mas que paffiflem a efperar có fua vinda a retitui
gaõ defeu Imperio. He facil de perfuadir ao coraçaõ
a aquellas coufas que defeja; afiigualado efte
* • -- . . - efei

EPANA PHoRA PoLITICA "I.


efeito entre inorantes, & fabios, aquelles fó crião
fegundo a vontade,mas eftes pera que fizefem mais
decente fua opinião,a forão cada vez aumentando
com fentenças de Santos, Oraculos de Profetas, &
uizo de Aftrologos; de tal forte, que interpreta
das, fegundo alguns,as fagradas Efcrituras, nelas a
chavão predi&ta não fó a tranfmigração, mas recu
peração do Reyno Portuguez.
Efte abufo, que quafi fe efpalhou como feita po
litica por todo o mundo,comprendeo não pequena
parte das Religioens, entre as quaes he fama que a
Companhia(não digo que em termos illicitos)par
ticipou do mefmo parecer;donde he certo,q fúda
va a rezão de fe inclinaré aquelles Padres,jà nomea
dos,a defculpar, quãdo não favorecer, a movidade;
poráfe afirma q fegundo a obfervação dos Profef>
fores defta efperança,erão por aquelle tépo chega
dos muitos dos finaes, q havião de anteceder áliber
dade dos Portuguezes; nos quaes (julgando pelos
fucefos,q logo vimos) não deixava de haver ocul
to,ainda q mal interpretado myfterio.
As outras Religioés de Evora,feguião a igualda.
de, aborrecendo ao tumulto,não tanto pela caufa,
como pelos efeitos; que lhes refultavão em dano
temporal,de que fe defejavão livres. Defta opinião
era a mayor parte dos poderofos,fó a Religião Do
minica, tinha defcubertamente o fentimento con
trario. O Cabido tambem dividido em bandos, não
fazia pelo comum, melhor efia, ou aquella facção;
C3 bem
8 A LTERAçoENS DE EvoRA
bem q as pefoas delle como particulares,mais crião,
do q obravão pelas opinioês, & cada qual fegundo
feu parecer.Tal era a meu juizo o eftado de aquel
la Republica,áinda q fuas refoluçoens fe alteravão
muitas vezes,pellas grãdes defconfianças q entre os
grandes fe praticavão; donde vinha q quafi fempre
fe achafem entre fi diverfos.
Recebida em Lisboa a nova do fucefo de Evora,
pella Princeza Margarida,governadora do Reyno,
não fe fez della o verdadeiro juizo; antes ouvida cõ
todo o defprezo, fófe julgou por particular difos
lução de algúas pefoas inquietas, cometendofe a
informação do fucedido aos Tribunaes de Iuftiça,
pera que fizeffem catigar os culpados,como em cri
me ordinario.
Em tanto os de Evora, não contentes do paflado,
começárão a gloriarfe de fuas acçoés, em vez de te
mellas,& o q parecia, & foi mais perigofo contra a
paz publica,era a comunicação, q por cartas intro
duzião cõ os Povos vezinhos,&ditantes; a qué cõ -
forme a cófiáça,ou correfpôdécia, á cõ elles tinhão,
fazião participantes de feus propofitos. Direi algúa
couta do mòdo de fuas Iuntas,& da maneira á cha
mavão pera fua Congregação,pera q feveja atè dõ
de alcança a indutria dos oprimidos; & pera á a to
dos os Principes firva de avifo, a fim de q cuidé de
remediar a oprefaó dos Vafallos, antes q elles fe
difponhão ao remedio della.
Fora poucos annos antes,conhecido em aquella
Ci
E PANAPHoRA PoLIT 1CA I. 39
Cidade,hum homem doudo,& dizidor, & por ifo
aceitiffimo ao Povo,cujo nome era Manoel, & por
jogo,&fua notavel grãdeza irônicamente Manoeli
nho.Ufava fazer pràticas pelas ruas ao vulgo; aqué
com vozes defordenadas,&hiftorias rediculas exci
tava sépre a alegria,dõde procedeo fer na Cidade,&
feus contornos,a pefoas mais conhecida;a cuja lem
brãça recorrêdo algús de aquelles inquietos,foi or
denado entre elles,que todas as convocaçoés, car
tas,editos,& ordés,fe defpachafem debaixo do fi
nal de Manoelinho de Evora; porq afife efcufava
de fer já mais conhecido o Autor deftas obras; fi
cando aquelle nome,defde então, conflituido por
final publico, pera que fe pudefem entender fem
confufam,em feus chamamentos. Nefta obfervancia
amanhecião cada dia fixados pelas praças, & por
tas da Cidade,Provifoens,Bandos, & Decretos per
tencentes ao eftabelicimento de fua defenfa: debai
xo defta forma fe efcrevião, & defpachavão cartas
às Camaras do Reyno, fe defpedião os Miniftros de
feus oficios,& fe acomodavão nelles outros, em vir
tude de hú fimples proviméto,afinado por Manoe.
linho de Evora. Chegou a tanto a autoridade de
feus mandados,ã batava pera que hú Cidadão,Fi
dalgo,ou Miniftro,deixaffe a cidade,cafa, & oficio
ou entregafe fua fazenda,ferlhe affi mandado pela
incerta voz de Manoel;porque jà fe fabia, q nella
era inclufa tacitamente a vontade do Povo, a q ne
nhum poder refiftia. Afife obfervou com muitos
C4 fof
4o ALTERAçoess DE Evo RA
fofpeitofos,dandolhes termos de dias,& deferros,q
forão dos condenados inviolavelmente obedecidos;
porá defpois do preceito,cominavão logo as penas,
qfe feguiáo à fua inebediêcia,as quaes não erão me
nos de morte,& incédio.UIfavão dete arteficio nas
coufas que tratavão tumultuofamente; mas aquelas
que julgaváo conforme a feu poder ordinario, em
publico as refolvião,& com autoridade da Camara,
q violêtada lhe obedecia,erão difpotas. De forte á
détro da propria Cidade (coufa jà mais vita) con
corrião todos os tres modos do governo q afimão os
Politicos;o dos nobres,ã em lugar delRey, finifica
va o modo Monarquico,sépre cótinuava cófuas có
ferécias; o daCamara,á não difitindo de feu exérci
cio cópetéte, reprefentava o modo Ariftocratico;&
&o do Povo,q em beneficio da liberdade procla
mada,exercia hú Regiméto comum, por modo De
mocratico;dõde qualquer do vulgo tinha igual au
toridade, q o mais fábio,ou poderofo.
Chegou,não fe (abe qual primeiro,fe a fama, ou
aplaufo,do fucedido em Evora, aos Povos circunve
zinhos,& pouco defpois aos mais aparta dos da Pro
vincia de Alétejo,dõde tão deprefa foi tudo ouvi
do,como imitado; porã como em todos era comú a
queixa, etava igual a difoofição pera os efeitos do
fentimento,affi era cada dia mayor, & mais irrepa
ravel o dano da defimulação. + •

Mas fobre que todos os lugares commovidos,da


vão grande cuidado ao governo de Portugal, foi
Villa

EPANAPHoRA PoLIT IcA I. 4-t


Villa-viçofa Corte da CafaSerenifima de Bargan
ça,quem lho acrecentou, pelas confequencias que
cada hora fe temião de outro mayor movimenro, a
chandofeo lugar,& gente delle,tão difpoto aqual
quer couta grande,que não sò areceavão os Minif>
tros delRey,por via de difcurfo, mas até os mefmos
Principes de Bargança,por experiencia: fendo cer
to, que a noite da primeira revolução de Villa-vi
çofa,entràrão nella muytos forafteiros, dentre os
quaes felevantàrão vozes,q aclamavão não fó a li
berdade do Reyno,mas a transferencia delle, a feu
fenhor.Poré como Deos queria, q por mais juftifi
cado modo, & mais decête à Coroa dete Reyno,fe
paflafe a cuja era,ordenou como aquella intépeti
|va voz fe reprimife,antes de tomar força: havendo
cutado efa diligêcia tão poderofas demótraçoens,
como fahir de noite pelas ruas,de ordé de feus Pays
fereniffinos, o Duque então de Barcellos, Principe
defpois de Portugal, D. Theodofio de faudofalê
brãça,achádofe em idade de tres annos, a fim de fe
renar cõ fua preséça (já digna de alto refpeito) os
animos populares,& fiftituir a de leu Pay o Duque
D. Joaõ,4 por caufa de húa grave enfermedade ef
tava impedido,para por fimefmo como defejava, fe
empregar em beneficio da quietaçam publica.
A Princeza Margarida, bem que ao principio
[ como efcrevemos] havia desétédido a calidade do
negocio,jà cõ grande af &to naó ceflava de o repre
fentar urgentifimo a elRey D.Felipe,em repetidos
2V1
42 ALTERAçoENS DE Evo RA
avifos, mas quanto tinhão de muytos, padecião de
incertos, porq temerofa de áfe lhe imputafe algúa
culpa no exceflo da execução,ou na dilação do re
medio,referia a elRey(por confelho,& induftria do
Secretario Miguel de Vafconcelos,feu favorecido)
ou mais,ou menos,ou diferentes coufas de aquellas
q verdadeiramentefe pafavão.
Ajunta dos fenhores de Evora, tambem por fua
parte havia concorrido, dádo conta a elRey de feus
progreflosimas como atè então procedia fé mais au
toridade,4 a dozelo,do q obrava, & deixava de o
brar,fe temia igualmente : vito q as mais juftifica
das acçoés eftraga,& transforma húa avefa interpre
tação,como neftes cafos faõ continuas. De maneira,
q né a elRey,né aos Miniftros fuperiores faltou a
noticia,fe não averdade do fucefo. •

Procurava a Princefa neftes dias todo o pofivel,


achar meyos com que a talhar a fedição,& foram os
primeiros de qufou,mandar por novo Corregedor
de Evora,em lugar do aufente,a IeronymoRibeiro
homem de bom natural,& que já com grande apro-.
vação do Povo,havia fervido aquelle propio oficio:
ao qual foi levemente fegunda vez admitido, porq
como fe tinhão apoderado da jurifdição ordinaria,
não temião de q o nome da dignidade,sé exercício
fofe ocupado por efte,ou aquelle Minitro. Mas o
Corregedor, q cada hora conhecia mais quão inutil
era fua affittencia, não ceffava de avifar à Princefa,
pedindolhe acodiffe com remedios de mayor força;
-
de
E PANAPHoRA Pol ITICA I. 43
de que affombrada,&confufa Margarida,proceden
do com feminil refolução,ora abraçava os violêtos,
ora deixava eftes,por feguir os moderados; que foi
acaufa de parecerem cada dia divel fos os fembran
tes de aquelle negocio ; dos quaes fe confiava, &
defconfiavajnntamente,{egundo fua grande varie
dade. Os Confelheiros de Eftado do Reyno, porá
felhe não comunicára a caufa, de q procedeo efte
efeito,deixavão q a Princeza,& os Miniftros q nel
le intervierão,lidafem fó,por fócõ os inconvenié
tes;entédêdo q a Princeza como efirangeira,& feus
favorecidos,como interefados, havião dirigido efta.
máquina, até o eftado perigofo em q fe achava.
Pareceo então, q poderia fer apropofito enviar a
Evora Fr. Manoel de Macedo,da Ordê de S. Do
mingos,pefToa de grãde aplaufo em todo o Reyno,
porem de mais partes,& de mayor ingenho,ã expe
tiencia;pera que prègando naquelle Povo (feu fin
gular exercicio) & praticando com os Cabeças del
ltos pudefe reduzir a quietação. Foi, & por mais
que empregou a efie fim,graça eloquencia, & libe
ralidade, fe voltou brevemente a Lisboa, timido,&
queixofo do defprezo,com que fora tratado, fem.
que de fua jornada (e tirafle outro interefe,que ha
Ver mais húa teftemunha de credito, na informação
do perigo.
Achavafe por efte tépo em Lisboa Fernão Mar
fins Freire, fenhor da Cafa de Bobadella,natural de
Evora,& nellaventejofamente aos mais Fidalgos
bem.
4.4. ALTERAçoess Dz EvoxA
bem quito,& poderofo entre o Povo. Por eta cau
fa foi da Princeza efcolhido,& mandado para qa
judaffe por todos os meyos, a difpôr a concordia;
porêm ainda q por fua calidade,& códiçaõ,Fernão
Martins, mereceffe fazer cópanhia aos Cógregados
da Iúta deSáto Antão,elles o não admitirão,dizédo:
Que aquele congrefo etava já com ordé real cô:
2) ftituido em peflbas certas, pelo á em fua mão não
2) havia poder pera aumentallo com novos fugeitos;
3) que fe Fernão Martins alli fe achâra ao principio,
33 fora elle o primeiro que chamafem,como reconhe
2) cião era o mais capaz de aquelle ajuntamento.Mas
fupoto que as razoens exteriores eraõ etas,as inte
riores concorrião muito diferentes; porq pela pro
pria cauf, q efte Fidalgo pareceo em Lisboa, que
por muito popular feria do Povo bé aceito,por efa
me{ma razaõ lhe naõ queriaõ entregarfeus fegredos
os Congregados da Iunta;fendo eles taes,áfe del
les refultaffe a menor noticia ao Povo, era manife
fo orifco de fuas vidas,& fazendas. Por outra parte
o mefmo Fernão Martins,havédo obfervado o pou
co q a funta obrava na redução do pretendido, & o
credito q ele hia confeguindo entre fuas Cabeças,
não defejava meturar fuas acçoens có as da Iun
ta, parecendolhe que fe os meyos da concordia fe
ajuftafem por fua via, ele em opinião, & intereffe
faria fò ventagem a todos os mais Fidalgos de Evo
ra. Mas efia interior emulação, q á primeira vita,
Parece,afegurava fe esforçariaõ os defignios de hü,
EPANAPHoRA Polirica I. 45
& outros, de nenhúa outra coufa fervio,ã de impe
dillos;porq o poder que nem a Iunta, nem Fernam,
Martins,tinhão para obrar por fisômente a redução |
tinhão pelo menos para eftorvar reciprocamente,
o que de parte a parte fehia obrando; de forte,que
fumindofe entre as queixas os efeitos,fó as queixas
de huns,& outros apareciaõ, infinuando cada qual
por fofpeitofa a intençam da voz que naõ feguia.
As acçoens, cuja calidade muda o animo cõ que fe
obráo,fam impreceptiveis aos homens, & tãto mais
alheas de feu conhecimento,quanto he mais certo,
que nos cafos da fedição,he a melhor cura aquella,
que fe faz pela femelhança,que pela contrarieda
de dos humores; em tal módo,4 pôde fer neceffario
obrar confas muyto contrarias ao proprio fim, a q º
effis obras fe encaminhaõ: as quaes julgadas pel
la aparencia dos inorantes do fegredo,ou pela ma
lícia dos q o interpretam, fempre cofiumaô fer de
grãde perigo para aquelle q as exccuta. Donde vé,
qnenhúVaram fabio deve tomar parte nefte gene»
ro de ferviço, q de ordinario tras aos homés q o fe
gué, trabalhofos fins; de q entre nós, em os tempos
prefentes havemos vito tam latimofos exemplos,
Potão verdadeiro juizo dos coraçoês humanos, he…
refervado fó a Deos. . ' . …
Defpois quafi perdidas as efperanças da confor
midade,tanto em Madrid,como em Lisboa, fe foi
introduzindo a prática do caftigo, & nem por eta +

Via(e facilitava o fim pretendido; porque o poder


# • • .
sua
==

46. A ErzRAçoENs bÉ Evoa.A


em Portugal era muyto pouco, com cuja informa
ção,& certeza crecia cada ora o numero, & foberba
dos inquietos, dos quaes fahiaõ huns ameaços de
terrivel confequencia,para a paz defejada;porque
(ainda de longe) motravam q feu intento era pro
fundo,&naô parava no comodo,ou vingança,como
pareceo ao principio. -

O mais pronto poder de armas, que fe podia em


pregar naquelle ferviço, era o Terço da Armada
Portugueza,q por eftes dias fe achava alojado em o
detri&o de Lisboa; porêm efte nam paflava de oi |
tocentos infantes, defabrigados do refpeito de feus |
oficiaes,porá pela licença do Inverno todos anda
vaõ aufentes de fuas Cópanhias;ajudava tambéfal
tar no Terço feu Mefire de Campo D. Alvaro de
Mello; o qual affitia na Corte,mais como morador,
q pretendente. Nam havia por efte tépo entre nòs
algúa cavalleria, & apenas tinhamos noticia de feu
ufo, pois como mofas guerras eram em tam remotas
Províncias,como o faõ de Portugal, Afia, A fica,&
America, donde guerreavamos, nam neceffitava o
Reyno de algúas armas proprias,fenaõ aquellas,que
na guarniçaõ,& deféfa de fua armada,fe ocupavão,
Aos Miniftros mais prudentes fe fazia(ainda sé.
do pofivel)durifima eta refoluçaõ das armas, por
poto o negocio húa vez nas maõs da violécia, não
era facil tornallo á razam,quanto mais que o vigor |
da noffagente de guerrafe conhecia muyto inferior
ao da inquieta; & como dos proprios Povos era for
E PANAPHoRA PoLIr1cA I." 47 |
çº que fe aumentafe a infantaria,fazendo novasle
vas,como fe podia efperar q os lugares do Reyno,
quafi participantes de aquella opiniam dos de A
lentejo, acudifem com a gente neceffaria para caf
tigar a propria acçaõ,ãhuns imitavaõ,&outros de
Íejavaõ imitar. Pois fe por fugir defa impofibili
dade, fe pediflem a elRey intrumentos para intro
duzir o caftigo, era aventurar não fó a Cidade, mas
o Reyno todo, á furia,&á cobiça de hum exercito
trangeiro;q ainda fendo breve fuperaria a força
de húa Republica confufa,&inadvertida em os me
yos de 4 devia ufar para fua confervação,obrigada à
obediencia,& à defenfa,por leys ambas naturaes. E,
que quando Portugal fofetaõ comedido, q logo fe
fometete ao juizo á felhe prevenia,como feria cer
to,ã a gente militar fe contentafe cõ o caftigo dos
culpados fem exceder,atè chegar aos inocentes:dó
de hú novo perigo etava certo, mayor q aquelle q
pela mão das armas fe queria atalhar ao Reyno;&já
podia fer diziaõ(fecretamente)os mais zelofos: Que
º Principe, ou/eus Minflros pelo menos, quizºfem fazer
participante da culpa de hila Gdade,a tºda a nação Portu
guera,a fim de 4 por hia vez fica/fê della feguros. Acabã:
"do com aquella pequena parte de liberdade, q lhes.
haviaó concedido ao tempo da primeira oprefam,
de 4 logo [&muyto mais,depois]motràram ha
Verfe arrependido. - " --
, , ,

Mas o mal não parava á vita dos difcurfos, ou


Prevençoens, & já alguns Povos defioutra *#
• - -º - 4íQ?
48 . Arrrraçosss Dr Evora. . . .
do Tejo, fehiaó declarando pela opiniaõ dos de
Alentejo, com os quaes fe entendia tinhaõ algum
º trato interno, de fe ajudarem em qualquer trance
huns,a outros, obedecendo,ou defobedecendo jun
tamente. Efte ultimo temor,podemos contar pelo
mais util,porque atè então os Miniftros do Reyno
levavão aquele animo, & caminhavaõ ao proprio
perigo de aquelles, que por fisómente procuraõ a
pagar hum grande incendio, atè que defefperados
pedem focorro, (& as mais vezes fóra de tempo)
quando já o fogo heinfuperavel. Afi defefperada a
Princeza,& temerofa de tomar fobre fi, o pezo da
revolução de Portugal, naõ quiz difimular por ma
is tempo de reprefentar a ElRey o defengano, com
que fe achava,de que não era o poder que no Rey
no tinha,batante a catigar, ou retera furia que le
vavaô os Inquietos; finalmente cófultando à Corte
fua defconfiança, & comprovada com as razoens, de
que procedia, punha em mãos delRey o perigo, &
o remedio. - •

Porém em Madrid,donde governavaõ Miniftros


de mayor efperiencia,á vita detas fegundas infor
maçoens, não poderei dizer(ainda á me achei pre
fente)qual foi o abalo, & efcandalo que efta nova
caufou;porque da maneira que o Medico mais acre
ditado,fe cança com razão,de que o confultem def
pois que o malfe fenhorea do infermo,fuprime,& a
bate o vigor da natureza, do prop rio modo fe quei
xavão os Minifiros grandes,havendofelhe,ão fèra
+ - - - • - • de
EPANAPHoRA Pol ITICA I, 49
de tépo,dado verdadeira cóta do perigo em q Porº
tugal etava pofio:dõde os mais,(pôde fer prefagos
dos futuros fuccfos)feintermetião a pronofticar
por eftes prefétes, outros q perturbafé toda a Mo
narquia;fédo certo,4 fépre fepofue cõ temor, o q
fenão pofue cõ juftiça. Avifavaó: Que/empre o cdio
dos Portuguezesfora naturalaos Caftelhanos,a quê/obre a
razaõ de dominadores, aborreciaõ por bùa herdada contra
digão,4 em o tépo de feu filencio cejara,mas nica/e extin
guira:& era a razão para 4 agºra fe acha/e cómayores fr
gas,de/cã/ando todo o tepo,4/enão havia exercitado em ac
goês publicas. Mas q no proprio têpo defua difimulação, não
podiaõ ocultar os finae, de fua falta obediêcia, cujo efeitº
não tardaria mais,4 a ocafiaõ;como/e bia mofirãdo, tomã
doa ºs Povos antes á lha defè Quenenbäfezudo e/perava
a ruina do edificiº, havendo e/perimentado o tremor: 4já a
tèperança do Imperio Efpanhºl,não tinha cau/a a q/e refe
rife, ºfundamêtos em q a clemencia fe efiribaje:viflo4 a
fgesão dos fúbditos refyalava taõ cegamente.Que era che
gado o tºpo em q os Reys/evia5 obrigados a fe fazer/enho
res do proprio,4 era feujà q a malicia prefente lho mº/trava
duvido/o;porá ElRey, na opinião dos Portuguezes,mais era
ho/pede,4/enhor. E q pois cles/e comedião sómête pelo te
mor da grãdeza fé refeito á Magºfade, ou amor à pº/ca
defeu Principe,fo/e o proprio poder quê os ata/e em outras
cadeas mais fortes, pois os laços da obrigaeão os não deti
nhaõ q cóvinha cógrãde defireza, é brevidade, atalhar a
contagiaõ de feus movimêlos,antes 4 corrõpe/etcda a Re
publica;porque os êrpes da/edicãº, não te outra mefinhº; º
fogº,ês oferro, D NÍas
5o A LTERAçoENS DE EvoRA
Mas cótra a opiniaõ,& difcunfo detes,diziaõ ou
tros:Que fã do E/panha afi cãbatida de rovoluçoes ex
ternas; iiõcõvinhamoitrar algüa defcófiáça defeu, natura
es.Que os movimêtos de Portugal,erão em a menor Provin
cia do Reyno, & defia,só entre agête mais vil,cujo cºfiume
he,comº o das ligeiras nevoas,q por fisômète fe desfazem
antes q o vêto as e/palhe, ou o falas derreta. Que todas asfor
ças impºrtães efiavão feguras,&guardadas de E/panhoes.
geo, Portuguezes não tinhão armas,nê qué/oube/egover
mallas Que a Nobreza do Rºylo; era toda dependente do
Principe;borq/eus Patrimonios não bafiavão,/è ajudas dos
reditos reaes,a fu/tètalla comoda,quãto mais vã9lorio/amète,
T5-lefe podia ter por certifimo,4 aquelles a quê o amor não
obriga/e a feguir as partes da Monarquia, os devia obrigar
fuinterefle:S tã5ê porq/ens grãdes não cabiaõ nos termos,
& lugares de fui Provincia:pello q os mais erão forçados a
bufar a opulêcia Cafielhana. E 4 por yº me/mo q os Tortu
gue/es erão altivos, nao fiberião humilhar/e a outro, q não
fº/? Monarca;á não a cãelhava a prudêcia,á pelo achaque
de hå braçº,cõcuja dór/e podia viver,fe avètura/e a morte
o corpo inteiro.Que o remediofe devia bufcarpella indufiria
& nã5pella força: por4 claro estava, que fe os Va/allos de
(Portugal, intes de provar em húa grande violêcia, aborrecião
o domínio/é cóparaç㺠lhes/eria mais odiolo, de/pois q e/pe
rimèta/É o vergão injurio/0,4 lhes faria º açoute das armas,
de a natureza enfilàra, era o melhorfreyo para o cavalo
desbºcado,largarlhe as redeas hum pouco,afeu alvedrio.Que
bivia muytas razoens,para entender, q/e por breve e/paço,
quivº/e ElReydfimular,com a execuçaõ do novo ferviçº,
• .…" , paf
EPANAPHoRA PoliricA I. 51
pa/ado o ardorde aquela indignação, por penitencia dela,
o proprio Povo pediria a me/ma carga que agora engeitava:
Se os juizos humanos sô fe regulafem pelas leys
da razaó, menor merito, como menor trabalho, al
cançaria a prudencia dos homens: ella he taó rara,
porque he taó dificil, & fe como dificil fora no mú
do eftimada eu naõ duvido que fe quer pelo pre
mio,quádo outro refpeito não houvefle, feria foli
citada de todos, contra o cofiume, que nos obriga a
duvidar, fe falta mais a prudencia no mundo, ou
quem a defeje. |-

Eftes erão os pareceres das Juntas interiores, &


cóferencias dos Miniftros,& Politicos Cafielhanos.
Mas porque os Portuguezes q na Corte affitião jú
to a ElRey, com titulo de Confelheiros fupremos
(por diferéça do Confelho de Eftado,cóftituido no
Reyno)haviaõ de intervir por razão de feu cargo
em outras juntas,criadas sò para efte efeito, allife
difputava indiferentemente a callidade do negocio,
& dos meyos porq devia fer atalhado,donde os vo
tos dos nofos Miniftros de Portugal eraó fêpre os
mais rigurofos julgando que afijutificavaõ,naõ sò
afimefmos,mas a toda a naçaõ, diante dos Cafte
lhanos,que cuidadofamente obtervavaõ feus pare
ceres,tendo por mais fofpeitofo, o mais indignado;
pelo menos em aquellas coufas, em que fenão re
gulava apena,com a culpa.
Entre os requerentes que feguiaõ a Corte : &
de continuo a acompanhavão, D
-
havia
2
boa *#* C1C
2 ALTERAçoENS DE EvoRA
de de Eclefiafticos,& mayor de Seculares, tanto de
Fidalgos, como Nobres; & como neta claffe de
homens, fe cotumaõ praticar mais certamente os
intereffes do etado, eraó elles, fegundo fuas pai.
xoens,quem induzião a mayor temor, ou efperança
os Minitros, acerca das alteraçoens de Alentejo,
porque aquelles que fe davão por favorecidos; ou
fatisfeitos(fe póde haver algús))ulgavaõ qualquer
movimento por indefculpavel, & por etremo in
folente; ao contrario os outros que eraõ mal ouvi
dos,& defpachados,agradandofe interiormente do
defcontétaméto publico,donde efperavaõ a emen
da do feu particular,exageravaõ a razaó,& a poten
cia dos Inquietos;de forte q a caufa comú sépre an
dava vetida das cores do interefe dos particulares.
Não faltavão cótudo, homés prudentes de inteiro
juizo, & fam conciécia,q fentifé cógrãde extremo
o eftado das coufas,tédo por certo, que fegundo os
meyos porque fe difounhão, o Reyno inocente
naõ deixaria de perder,quando naõ a liberdade, a
reputaçaõ, com que ficaria de novo ocafionado à
injuria,ou offenfa de feus dominadores.
O Conde Duque(& por elle ElRey, que pello
vidro dos afectos do Valido,olhava todas as acçoens
dos Vafallos, & etas felhe reprefentavaõ da cor
da indinação do Códe Duque)naó tardou em fe en
tregar a todos os movimentos da ira contra os Por
guezes,logo q reconheceo defprezavaó os inquie
tostodos os finaes de clemencia,que lhes havia fei
fO
EPANAPHoRA PoliricA I. •

tomanifetar.He comum achaque dos Principes fo


frerem mal, ou não fofrerem, que fe lhes engeite a
mercè,ainda quando he defcoveniente a quem a re
cebe;& porque coflumão fermais vezes feveros,que
prodigos, perdoaõ com menos dificuldade a quem
felhes defvia do caftigo, que da magnificécia. Pare
cialhe ao Conde Duque tocava em ofenfa da Ma
getade,a confiácia com que o Povo de Evora pref>
fiftia em fua opiniaõ, fm que foubefe medir, que o
fim para que fe ella declarou não etava confegui
do antes de que o confirmafe o cófentimento del
Rey. Defta terribel paixaõ eftimulado,já revolvia
em feu penfamento todas as forças de Efpanha, que
entendia ajuntar para empregallas no caftigo de a
quella Republica; mas a diverfaõ continua,que Caf
tella padecia de feus inimigos, dava pouco lugar a
qfe efperafe aquelle furiofo,& próto progrefo é o
Conde Duque defejava. Agora para melhor inteli
gencia dete negocio, farei húa breve Relaçaõ das
armas com que dentro de fi,fe achava aquella Coroa
efte anno de mil,& feifcentos,& trinta,& f:te. "
Defpois de rota a guerra entre Dom Felipe o
Quarto,Rey Catholico,& Luis Treze Chriftianifi.
mo; pelas Provincias de Guepuzcua, & Navarra
(que he o canto,ou ilharga do Rio Ebro,a cujo ref.
peito toda aquela terra foi dos Romanos,dita Cariº
tabria)fe conferváraõ de ambas as partes algúas re
liquias de feus primeiros cxercitos", com que fe
deu principio á guerra,cujo fim aindátião. havernos
". . . D3 viflo.
54 ALTERAçoENS DE Evo RA
vito.Governava as poucas armas com que Efpanha
defendia fua fronteira por aquella parte ,Dõ Fran
cifco Carrafa Duque de Nochéra,cujo fegundo Ca
bo, ou Metre de Campo General era Diogo Luis
de Oliveira,Fidalgo Portuguez,affaz conhecido na
quelles tempos por feus ferviços,& pofios que ocu
pou em Flandes,Brafil,& Efpanha. Eftagente entaõ
ociofa por razaõ do tempo(eraõ jà os primeiros de
Novembro)dava ao Conde Duque a mayor confi
ança,porque fobre não ignorar feu pouco poder, &
difciplina,tinha por certo,que para a debilidade, &
defordem de aquelles a quem fe opunha,outras me.
nores forças podiaô fer formidaveis. Movido dete
propofito lhe defpachou ordens para que eftivefle
junta, & marchaffe ao fegundo avifo; mas tambem
nete proprio expediente fe lhe ofereceraõ logo
grandes dificuldades; porque como o General Du
que de Nochèra foffe Napolitano, faziafelhe ao
Conde Duque(& mais ao Confelho de Eftado)af
perifimo, que humºftrangeiro vieffe catigar Elpa
nhoes:& como tambem o Meftre de Campo Gene
ral Diogo Luis,foffe Portugues,ainda a todos feihes
fazia mais dificultofo,que hú natural foffe fer açou
te de fua propria Patria. *

Todavia refervando o comodo detes pontos pa


ra o tempo da execuçaó,como efperava que os In
quietos fedefunifiem só com o temor do exercito
que os ameaçava,hia difimulando com a forma del
lesdonde alguns entendèraó,que netes dias fedef.
r.
. cobri
EPANAPHoRA PoliricA I.
cobriraõ melhores meyos à introduçaõ do tratado,
que pelos bemintencionados fe pretendia. Eftao
piniaõ favoreceo muyto o grande conforto de car
tas, & correyos, que o Conde Duque defpachava
frequentemente à Junta de Santo Antaõ, a fim de
que os fenhores de Evora eftivefem firmes na de
vação delRey;&tambem para que o Povo vendo
continuar as correfpondencias, entre a Junta, & a
Corte,entendefe,que dos partidos começados, fe
não havia levantado a mão;& afife preveniffe er
radamente,antes para refitirá indutria, que à for
ça,com que fe pretendia fuperallo.
Seguia por efte tempo a Corte de Caftella, Frey
João de Vafcõcelos da Ordem dos Prègadores. Va
não por fangue,virtudes,& letras, digno de grande
memoria; a cuja calidade fe ajuntava, a de fer filho
de húa cafa natural,& herdada em Evora, donde era
tido por patricio,ainda que verdadeiramente elle o
não fofe:de modo que pela filiação de Homero, já
contenderão em Grecia muytas cidades. Affi como
etas confideraçoenso inculcàrão para aquelle em
prego,o fiavaõ nelle fer Frey João filho de Manoel
de Vafconcelos,grande Miniftro em Catella, & ir
mão do Conde Figueirô,Francifco de Vafconcelos,
criado da Raynha,no foro de feu Mordomo; & co
mo feja certo,que os Principes de Europa achem tã
ta conveniencia de fe fervirem com homens Reli
liofos em cafos femelhantes, que affio vão profe
guindo,contra a opinião dos Politicos,& demofira
D4 çoens
56 ALTERAçoENS DE Evor.A
çoens dos exemplos; houve o Conde Duque de
eleger a pefloa de Frey Joaõ de Vafconcelos, com
publica aprovaçaõ de todos os que o conhecião,

para empregar em huma nova mentagem,que tinha
interiormente difpofto mandar a Evora: em bene
ficio da qual,foi fama, que o Conde lhe comuni
cou(ou foflè verdadeiros,ou fingidos)todos os de
fignios competentes á authoridade, & proveito da
Monarchia, para que fegundo clles fe difpuzefle.
Tenho por certo lhos veftiria de tão critans con
veniencias,que Frey Ioaõ entendendo fazer a Deos,
a ElRey aquelle ferviço, aceitou a comifiaô, &
& partio a ella,fem outra -forma de defpacho, que
a conferencia entre elle,& o Conde Duque; o qual
com animo de profunda politica, nunca confentio,
que no expediente de toda efta negoceação hou
vefe algum defpacho efcrito em forma ordin uia,
antes tulo fe reduziffe a inftruçoens verbaes, de que
defPois felembrafe,ou efqueceffe,fegundo os efei
tos foflem, ou naõ fofem convenientes; mas como
efa cautela deixafle de fer advertida de Frey João,
por fer homem alheyo de todo arteficio, chegado a
Evora,começou a obrar cóforme fua fingeleza, não
conforme o efpiritu de quem o mandava. . . . .
Tres dificuldadesfe o punhão a feu progrefo: a
feveridade de feu natural,que cultivado com a pro
fifaõ de negocios ferios,o mantinha fempre autero
em afpecto,palavras,&acçoens. A fegunda o gran
de intereffe, em que feus parentes taõ conjunctos,
… "

- º cº
E»ANAngoRA Ponrrca º I. 57
como pay,& irmão, fe achavão com a Coroa Cate
lha. A terceira o modo diferente porã fe havia na
quella ocurrencia, naõ fe valendo de outra algúa
pefoa,q nella o ajudafe; porq ou tudo temia dos
outros, ou tudo fiava de fi. Todavia os Inquietos mo
vídos da grande autoridade de Fr. João, & do total
poder que lhes infinuava,vieraõ facilmente em ou-.
vilo; & como a queixa de nova carga de dereitos,
que não querião receber,era a mais urgente caufa de
feu movimento; porifo mefm o allegárão, que a fe
guiãça do alivio defe novo pefo,devia fera primei
tacoufa fobre que fe conferife,& que antes della
fatisfeita, fenão havia de tratar o remedio de outra
algúa coufa. •

Diferão os Inquietos, & foi confiante efta fua


nova queixa:Que/endo ouvidas de Fr. João, aspa/adas
rarºês logº ne/eprimeira cógre/o, q cãelles teve,lhe prome
teo ab/0/vellos de todos, & quae/quer tributos novºs, dos qua
e defde então os avia por livres, para q nãCa mais lhe f />
pedidos, e q cãigual liberalidade cãeedera em nome delRey,
& pellofeu poder q tinhagèralperdañaos comovidos de E
yora, cõ tãto q vífio,como as nece/sidades do Reyno erão tã
tas, quãtas elles conhecião, para 4 efias/e pode/# remediar
em beneficio do mefinº Reyno,o Povo e/colhefe volátariamête
algum modo de donativo, & não tributo,que basta/e para
Jatisfazer os efeitos, que fejulgavaõneceffarios ao remedia.
de tudo. .
Tambem efia liberalidade foi ouvida fofpeitofa
mente,dos mefmos, que a defejavão,porque como
" 1. __ •
a
QO11C1e
58 ALrra Açorss Dr Evoa.A
conciencia de cada hum he feu intimo confelheiro,
ninguem afi duvida do perdaó, como o que delle
mais necefita. Larga difeuta fundão nete lugar os
Politicos,fobre qual mais convenha ao Principe, fe
o rigor,ou a clemencia que feufa com os movimen
tos populares; por hum,& outro meyo os vimos evi
tados, & profeguidos. Pouca virtude tem neftes ca
fos o exemplo,quafi fempre irregular em feus efei |
{

tos; porque raras vezes faõ femelhantes as caufas. |

Devefe confiderar na eleição detes meyos,o tem


po,o lugar,os homens, & o credito do Principe, o {

brio da naçaõ, o eftado da Republica, o interefle.


dos nobres, o epfiritu dos vefinhos; & como tantas
coufas na diverfidade dos cafos, não pôdem con il
correr igualmente, por efa, razão he fempre diverfo }
o fim detes negocios, donde vem, que o devem fer {
os modos de feu acomodamento.Paffemonos da ad {
vertencia, à narraçaõ.
Foi hum vivo teftemunho do caftigo, que fe pre |
parava aos Inquietos de Evora, a promefa da in |
dulgencia, que julgavaó naõ merecer. Comtudo, {

nem por efe temor deixára de ferrecebida,fe a Jú }


1
|

ta de S. Antaõ tivera por firme efte expediente;por *

que etranhando o largo poder do Enviado, e acha


va com duvida,ou queixa delle; parecendolhe, que 1
|

a clemencia real,devia fer miniftrada pela maõ de |

aquelles,que por autoridade propria, havião repa


rado o dano publico;porque de outra maneira,nem
o Povo lhes agradeceria o beneficio do
--> •
*# baf
|
EPANAvão RA PoLITICA I.
batava para o manter contra a Nobreza,infolente
nemella averia confeguido para cô ElRey,aquel
lemerecimento de lhe averfugeitado o Povo à con
cordia,& arrependimento. Porêm,o que fobre tudo
nete cafo eflorvou o melhor efeito, foi algum agu
do difcurfo, que obtervando a cautela do perdaõ,
fez que os Populares a advertifiem,com a feparaçaõ
que a Junta havia feito das acçoens do Enviado;
motirandolhes,que bem fe via o arteficio do enga
no, a que os levavaó,pois avendo em Evora taõ grã
despefloas,por cuja intervenção tratar o acordo de
tudo,fe bufcára outra para efe efeito, só a fim de
que como não avia de ficar entre elles, para fufen
tar o prometido(como avia6 de ficar os fenhores da
Junta)pudefeu, mais facilmente, & mais fem peri
go Prometer,o perdão que não veria cumprir, nem
quebrantar. , , " … - •

Deaqui veyo húa nova pratica, que fe moveo


entre os Populares, de pedirem, que o perdaõ pro
metido,fe lhes motrafe logo,afinado da mão real;
o que fendolhes por razoens dificultado, todas efas
lhes ferviaõ de efcufa,para que não profeguifem na
defittencia propofta. Por outro mayor accidente, fe
tornàraõ a atrazar as efperanças da concordia; por
que aos grandes males,ou bens,nunca ferve hum sò
acontecimento,muytos concorrem a fua fabrica,co
movemos que para levantar hum alto edificio, fe
neceffita de grandes, & pequenas pedras,de calida
de;&forma diferente. º

--
Haº
6o AtrERAçoENS DE EvoRA" •

. Haviaõfe na Corte recebido os avifos do Envia


da;& os da Junta de Santo Antão;& como o Con
de Duque entendefe o defprezo,com que em Evo
rafe tratára a piedade delRey, q Frey João de Vaf.
concelos lhe oferecera, antes quiz pór nota de ex
cefo em fua demafiada liberalidade, que darfe por
entendido do atrevimento, com que os Populares
lhe repulfavaõ a clemencia,com que os convidára.
Poreta obtervaçaõ afirmava nas Juntas,& Confe
lhos: Qaea ElRey não convinha aprovar o que o Enviado
prometera,fundandofeno conceito,que como Varaópio,podia
fazer do animo de bum Rey,que tinha a Religiaõ por/ºbre
nome;porque o e/piritu de hum particular,não póde compre
hender(dizia elle)os profundos/egredor do coraçaõ de
hum Monarca,/entir com/eus fentidos, difcar/arcón feu:
difcur/os.Que a ElRey era incedente receber a obediencia,
fobrecautelº/a, folicitada porque a magnificencia dos Prinº
cipes,badejer fonte que corra voluntária, não poço de quem
fetire à força dº braço dos homens. Muytos diferaõ en
taõ:Quedentrenós me/mos haviaõ /abido terriveis maxi
mas,contramofla propria quietaçaõ. E que º Conde Duque,
fupo/lo que nestas materias punha defua ca/ia violencia |
(4 só podia acharfe em/eu poder)não punha a malícia;por
que efia repartida em varias/0/peitas, lhe minifravão al
guns dos no/ys pretendentes, que a/sistião na Corte, afim de
jufificar ardulo/imente a defidelidade defeus animos,para
ofuturo acontecimento;/em reparar,que a fraudulenta leal
dade,he indignº de tal nome, & premio porque primeiro co
meça afer defleal aquele que com enganos, & fim
-
?…
gment4
EPANAPHoRA PoLITIcA I. ér
fomenta as fº/peitas, & defconfianças do Principe, contra
fuanação, & feus naturaes, Coufa que jà a antiguidade
condenou pelo mayor delito,vender por interefe
proprio,a fama,& cinza dos paflados:como vendem
aquelles,que contra fua Patria fulminaõ a indigna
çaõ do poder Real. • • • *.. .
Algüas detas cautelas fe infinuaõ, em húa lar
ga carta do Conde Duque, para Frey Joaó, donde
lhe dá grandes motras dos proprios intentos, que
pretédia encubrir: diz deta maneira, em fua propria
linguagem Caftelhana,que fupoto fabemos inteira
mente como em tantos efcritos jà moftramos, toda
via por naõ diminuir fua fè na tradução, a oferece
moscopiada de feu originalme{mo.
O puedellegar mi defconfuelo a más,mi Padre Fray
Juan, que a ver estas materias,en elefiado que las
veo: pues quando e/perava lo que folo bufcamos, lo
que podemos pretender, que es a lo que vueja paternidad
fue:reduzir las cofas aleftado que tuvieren, pedir perdony
Vinir apedir elcaftigo afu Magefiad, pofirados a fuspies,
por los yerros 4 higieron; ver em lugar defio, perfiftir enfi,
te/guedade/os hombres y re/pondena fu Magefiad,4ue ba
tam lo que pudieren,fin bolver a admitir los tributos, porque
/e levantaron, y dar por repartimiento lo que les pareciere.
Confiderevue/a paternidad, le/uplico,ficon unfrayle fºyo
admitiera efiepartido?Ylo quele puedo afegurar ês, que fi
ElRey de Francia,la Republica de Venecia, ofecieram afº
Magºftad,lo4la Ciudad de Evora,/a Magefiadnafe ajuf
bra comellosumire Pue/apaternidad, fiquando º le digº

-)
44°
34 , " ALTERAçoess Dz EvoRÃ , , …
cabeça refonderiaporel.Que le/uplicoyo, no malgº "
empeñoni trate COM! Religiofos,cõ que no {{ menefter
tyútá":

pues fabela/angre que tieney que ha de morir por ElRJ;


ni esya tiempo de andar com más platicas com picarºs, cº"
loverá, y averiguarà que lofonymuyviles, Pigale vue/a
paternidad tambien por chifle,que quando no fuera pºr m*,
que por no dexar que Cafiellanos loobren, nivençam a Por
tugue/es,lo havia de haver porfer más um /olo Portugues"
moel que toda Caftillajunta. En efetio,mipadre Fry luan,
en llegando elcorreo,no avrá negocio,Suplico a vue/apater
nidad,que noveayola defdicha,que feria derramar/angº
J tantay tantas ofen/as de Dios juntas, y tanto defcreditº :
de nuefira nacion em E/paña,porfºlouna rebelion de gen" .
tam baxa,como laquevue/a paternidadrefierey crea vue/
fa paternidad,que aanque tira/em piedras, no fe atrever"
a dar a vue/a paternidad com uma: porque me º visto em º
mi/mo efiado em Salamancay nunca crei,que me baviam de
acertar,como/ucedió: J como vue/a paternidad verá que º
fucede,fiobligan mis pecados a que llegue efte correo,finhº
ver/e ajulado las cofas, pues éntonces avrá de fer por mal
todoy e/ºsCavalleros cafigar con la e/pada,fino pudier" |
prender.loque havia de haver lajuficia.Yporque fe que di
ren los de Evora,que dizen los arrieros e/tremeños, no da:
! • – /

rande comera la gente Cafiellina, niellos entrarán contra


los Portugue/es/ino que antes fe/oblovarân: que me cream,y
molos creakyfe afeguren, quepara remediarfus necefida
des,node/ean otra cofa em este mundo. Digo efio por rifa,
porque loes,fino que e/os menguados no ay difiarate, que nº
ertam enfusõ|uelo,aunquefeatanfinfundamento comoTan
- • •
este.
* * - --••••••• --• --

--*
EPANAPHoRA PoLIrICA I. 65
Tambien advierto a vue/apaternidad, que elprofipueffo
que have, de que espor quatro años elrealde agua, J. elei:
vegon,es equivocacion,como confia de los papeles:pero nº ºfi?
me/toelpunto,fino enqueno espor el huevo,fino por elfue
roy que fiel fuerº fe ajufia,elhuelyoyolo tºmo a micagº.
Por um filo Zios,que nofe derrame/angre, aunque me cue/
tela vida. Dios guarde avue/apaternidad, como de/eo. E
de fua propria mão acrecentava etas palavras. Se
normio,vue/la paternidad me crea,q fifu Padre refucitára,
abra/ira efe lugar,yle bicicraftbrar de/al Suplicº ayuef
Japaternidad,le obedefca afu Magºfady repõga loh chº.
Finalmente foffe,qual foffe,o principio de aquel
lenovo accidente; quando as coufas de Evora efia
vaõ cóforme referimos,apareceo fubitaméte naquel
la Cidade húa ordem, para que Frey.João, deixãdo
tudo nos termos cm qeftava, sé mais avifo fe paflaf
fe logo a Lisboa;& que a Junta de S. Antão, profe
guife na forma,que atè a chegada do Enviado o ha
via feito,difpondo, & avifando dos negocios:o que
fecumprio logo,defpedindofe Frey João da Cida
de,taõ pouco obrigado do Rey, como do Povo, &
não feife defobrigado da Nobreza.
Dife atégora sòmente das alteraçoés da Cidade
de Evora; & por naõ quebrar o fio principal da hif
toia, me fui por ellas adiantãdo aos outros rumores
femelhantes,ã pafavão pelo Reyno, dos quaes ferá
razaó dar algúa noticia, para fazer mais clara a infor
maçaõ de todo efte grãde fucefo, e foi, defla forte,
Entretanto que em Evora fe procedia com a va
|- - * riadade,
66 |- ALTERAçoENSDE EvoRA ,
riadade,& cautela que referimos, toda a Provincia
de Alentejo,a quem Evora ferve de coração, ou ca
beça,participou de feus proprios efeitos, em cujos
lugares,com pouca diferença,foraõ femelhantes os
excefos, fegundo elles eraõ mais, ou menos capa
zes da multidaô,porque eftes movimentos feminif
travaõ. Todavia as Cidades de Beja,& Elvas ainda
que de oufados moradores guardáraó inefperada
moderaçaõ; mas por etes dous Povos de Alentejo,
que faltàrão de feguir a opiniaõ da toda a Provin
cia, Abrantes, & Santarem, deta parte do nofo
Rio,& em nada aos outros inferiores; mais vefinhos
a Lisboa,& porifo de mayor confequencia, come
çâraõ a motrar vontade de grande revolução. Com
tudo,a propria vefinhança,q os fazia mais ocafiona
dos,fervio de lhes impedir mais cedo o movimento:
porq procurandofe por bons meyos feu focego, &
fazendo q para dar calor à juftiça, fe premudaffe a
Santarem,Tancos,& Abrantes,o quartel denofia In
fantaria, que alojava em Cafcais, houve de confe
guitfe a quietação pretédida; a qual fépre feria fa
cil de cófervar, em quáto Lisboa etava firme; aqué
em todos feus intereffes havião propofo de feguir,
não sô as Cidades,e Villas mais proximas a ella,mas
as Provincias da Beira, Minho,& Tras os Montes.
Moftravafe o cuidado dos Miniftros de Madrid
repartido, como feu efcandalo, por todos os luga
res, que afectavaõ a liberdade; mas os verdadeiros
temores, & obfervaçoens, mais fe
• • ·#
•Villa 2
*EPANAPHoRA Polirica I. 67
Villa-viçofa,como jà difemos, Era pequeno feu Po
vo,mas reprefentavalho o temor opulêto da Nobre
za;armas,& defignios,grãdes em fua mefina difimu
lição:como hemais temerofo o pego do rio, donde
aagua recolhida età em grãde ferenidade,que o la
go donde fe efpraya,ou bate na pedra inquietamé
te.Por outra parte, a frefca memoria das pretéçoés
q aquelles Principes haviaôtido á Coroa,o defcon
tentaméto com q os Portuguezes paflavaõ fua fo
geiçaõ,como de cativeiro;o amor que nelles florece
afeu Rey natural,fazia de importante reparo, qual
quer acçaõ publica de Villa-viçofa,fendo neftes ca
fos dificultofo de definguir,qual feja a vontade do
Povo,& qual a do fenhor delle. -

. Pofuia então o Eftado de Bragança o Sereniffi


mo Duque D.João,II. do nome, & VIII no titulo
Ducal;qhoje por epecial mercè de Deos, he o IV.
: Joaõ dos Reys defe Reyno, & XIX na real
Dignidade,defpois á o Reynado fe cótinuou na ef
tirpe de D. Afófo Hériques.Havia herdado D.João
cõ o eftado,o aplaufo,& reverécia de feus naturaes,
em cuja real pefoa,os velhos enxergavaõ ainda húa |
memoria de feus Principes,e os moços defcobriaõ jà
húa efperãça da comúliberdade. E porq fédo Villa
viçoía,defpois de Evora, o primeiro lugar q tomou
fuavos,comovida de femelhátes inftrumétos,por ma
is,demoftraçoés q jà pela Cafa de Bragãça fazião
na Corte feus cófidétes,não fe perdia, ainda q fe di
fimulavaa fofpeita,cõtra ella interiorméte cócebi
da. E2 Acha
68 .” ALTERAçoENsde Evor.A -

Achavafe o Duque convalecéte, de larga enfer


midade,& tão falto de forças, q gozando robuftifi
mo natural,& defejádo empregarfe todo na modera
ção, & concordia de feu Povo, naõ lhe foi pofivel.
Alguns crèraõ q acordadaméte feefcuzára de mof.
trarfe aos olhos de aquela multidão; porq vendoo |
preféte, era coufa para temer, que do grito da liber
dade,paflafem ao da aclamação.
He fama,que nefte tempo, por via de Religiofos
cõfidentes,felhe fizeraó varias lembranças,de q era
tempo de fe reftituir da Coroa ufurpada a feu Avô,
& pay;porém quáto eftas inculcas foraó mais dignas
de fer ouvidas,lhe foraó mais fofpeitofas; achãdofe
de todo inadvertido do fim, a que derigião feupro
pofito,os Povos que fabricavaõ a me{ma novidade,
• 1 • - ----
que não entendião.
. Cõ tudo julgava,que fobre haver obrado cótáta
finceridade,ainda faltava por cófeguir ajuftificação,
& fegurança diante delRey, valido, & Miniftrosde
Catella,em cujas mãos efiava o fiel, q havia de pe
zar a fidelidade Portugueza;& febé univerfalméte
toda a naçaõ dependia detejuto, ou injuto juizo,
eraõ diferétes as razoês, que a Cafa de Bragãça ti
nha para temello;efperãdo delle fua cófervaçaó, ou
ruina:fendo certo,4 a profperidade, ou adverfidade
dos grandes,fépre faz proporção com feu efiado, &
q entre a confiança,& a fofpeita, não tem achado os
Reys atègora algum meyo.
Todos eftes cuidados ocupavaõ o animo de a
quelle
EPANAPRORA Polirica I. 69
quelle Principe, & porque os Duques de Bragança,
mais por grandeza, que negocio, cotumavaó con
fervar fempre junto aos Reys hum Refidente, pou
comenos que Embaixador, refpeitado, & có igual
dade admitido, ocupava por eftes tempos aquelle lu
gar,Francifco de Soufa Coutinho,Fidalgo principal
na Cafa, & Reyno, que ajuntando á claridade do
fangue,a do juizo,com larga efperiencia de negoci
os,fe fazia capacifimo fugeito, das mayores confi
anças de feu fenhor:donde diremos fe enfayou para
ascèlebres Embaixadas,que tem exercitado defpo
is aos Eftados de Olanda,& as Coroas de Suecia,&
França,em que hoje fe acha,fertil de annos,& acer
tos.Porèm Francifco de Soufa, quaf fatalmente ar
rebatado por eftes dias da Corte,a deixára aquelle
Inverno,obrigado de achaques, & de algüas ocur
rencias,que convinha tratar em Villa-viçofa; por
que o curfo dos negocios,a que affitia em Madrid,
dava lugar a mayores defvios. Era como fe fabc,
Dom Frãeifco de Mello dependente de Bragança,
fobre interefado, & conjunto;que fem duvida fo
rão as primeiras abonaçoens, & inculcas de feus me
recimentos,para confeguir os altos lugares,a que fu
bio naquella Monarquia. Porêm D. Francifco, atè
efe tempo,não ingrato, continuava em dar calor, &
ordem,aos interefes da Cafa; ou affiftindo pefloal
mente aos negocios della, ou ajudando com auto
ridade,& confelho, à pefoa que os folicitava. Mas
tambem Dom Francifco,fenão achâra então na Cor
- E3 te»
7o ALT ERAçoENS DE EvoRA
te,ocupado já no grave poto de Plenipotenciario,
na Junta da paz univerfal,que os Principes haviaõ
preparado em Colonia.Todos eftes defvios,acendi.
ão de novo o animo do Duque, & dos que aconfe
lhavaó em mayores cuidados,julgando com o Prin
cipe,os mais praticos de feus intereffes,fer aquellao
cafiaõ para a Cafa de Bragança,de mayor importan
cia,que a primeira das alteraçoens de Portugal:Por
que entã(diziaõ elles)bafava para a/egurar o Eftado,a
def/tencia do Reyno,é agora/empretendero Reyno, fe a
venturava o Eftado; o qual não/ºpergava na opiniaõ do
GRy,& Minfinos,mas em a de qualquer humilde,ignorante,
ou miliciofo homem da Republica; pelo que, convinha que
com fumma diligencia,& autoridade/ de/pachaffe à Corte
algum criadº, ou confidente de Cafa,para que fem perdoar
gºsto, diligencia,& trabalho,fe emprega/e em manifeftar a
ju/#ificação do procedimento de Bragança. Era por efte
tempo feu Agente dos negocios em Madrid, Anto
nio Pereira da Cunha,pratico em os mayores, que
por todo tempo de fua vida exercitàra(como ojeSe
cretario de Guerra)em cuja fuficiencia, & zelo, fe
davão por feguras quaefquer importantes materias.
Mas a grandeza das prefentes,perfuadio a que nella
fe empregafiem novos inftrumentos. Não concorria
por então na Cafa algum fugeito proporcionado a
efta comifaõ; porque os criados grandes, & ricos,
parte por não ferem intruidos nas materias de eta
do, parte por obtervarem as conveniencias de fua
valia(donde a primeira regra enfima,que o favoreci
do
EPANAPHoRA PolITICA I. 71
do naõ feaparta jámais,fem perigo, da prefença de
feu Principe)huns feefcufavaõ da jornada,& outros
a defviavaõ de aquelles,que para ella náo julgavaõ
faficientes. •

Refiro,póde fer que com demafia,todos os acci


dentes dete negocio, para mofirar quaes foraõ as
caufas de minha intervençaó nelle. E fucedeo afi:
que entre as pefoas que na Cafa de Bragança pare
cerão mais a propofito deta confiança,foi húa Dom
Gomes de Mello,que por antigas obrigaçoens, &
modernas mercès, antes cõ o amor, q com os pafos,
affitia ao ferviço de aquelle Principe, difficultado
de grandes impedimentos; pela qual razaó,temédo
fer elegido neta jornada, fez ao Duque lébrãça de
minha fuficiêcia; acrecétandolhe aquellas circúftã
cias,q o parétefco,& amifade, entre nós côtrahidos,
lhe fazião q em mim imaginafe bafáte. Ajudou a
ocafião,melhor q o juizofeu difcunfo; porque nefte
tèpo eu refidia na Corte,pretédêdo cõ melhor fortu
na para os negocios alheios,q para os meus propriºs;
& não fem algúa inteligécia,& graça cógrádes Mi
nitros:tudo júto foi caufa de 4 fe me cófiafe o pe
fo de tão grãde negoceaçaõ q eu aceitei perfuadido
de aquele grande imperio do rogo,& confiado q os
meritos da obediencia, me dariaô forças, para levar
húa carga taõ exceffiva a meu talento.
De pouco tempo eraó então recebidas na Corte
as novas da alteraçaõ de Evora, quando eu, pella
ordem que tinha, com cartas para ElRey, Conde
E4 Du
72 ALTERAçoENS DE Evor.A
Duque,& outros grandes Minitros de Portugal,&
Catella, os informei(fegundo minha intrucçaõ)
da verdade do fucefo; pelo tocante aos movimen
tos de Villa-viçofa,& mais lugares do Eftado circú.
vezinhos,q era sò a parte,que me tocava jutificar.
Em tudo fegui fempre os termos da igualdade; por
que para qualquer fucefo, convinha contrapefar, o
temor da inquietaçaó, com a efperança da concor
dia. Procurei inftruir a todos os Miniftros, dos pro
cedimentos de Bragança,mais em modo de referil
los,que de louvallos,motrandoos de tal forte, que
não pudefem fer ouvidos, femfer acreditados. As
cartas com grande prudencia,fallavaõ do fuceflo, &
da pefoa do Principe,com grave moderaçaó. De
vo dizer,como tetemunha de vita, que na alegria
com que foraó recebidas do Rey,valido,& Minif* #
tros,fe motrava bem qual foffe o cuidado, que an
tes dellas pejava feus coraçoens; não fendo poucos
os que duvidafem deta demoftraçaõ. Sigo o pro
greff, do fucedido,com o Conde Duque, por fer
elle o primeiro mobil de aquella Monarquia; de cu
jo movimento, o recebião todos os Miniftros das
esferas inferiores. Leu o Conde fua carta, & falou
defpois,breve, & fuavemente da pefoa do Duque
de Bragança, exagerou feu animo, & a reverencia
em que tinha feu parentefco; quanto defejava os
aumétos de fua grádeza,& como ElRey a etimava
Contra os Povos motrou mais defprezo,que fenti
mento;&como homé,ãem grande coraçaõ aloja
- V2\
EPANAPHoRA Por IT IcA I. " 7
vaador,&a vingança,ufou(faládo dellas)mais dos
efrãos,que das palavras. Afirmarei, que não perdi
obtervação de feu mais defcuidado moviméto;porq
amefma defconfiança de minha capacidade, meti
nha pronto a todos os oficios de politico, tanto no
calar,como no dizer;& fempre no ouvir, mas fobre
tudo no crer;fendo efta,a meu juizo, a mais impor
tante advertencia, de que necefitaõ todos aquelles
qtratão perigofos negocios á confervaçaõ de Prin
cipes,ou Naçoens menos poderofas, que aquellas
Naçoens,ou Principes,com que fe trataõ.
Vejome nefte ponto necefitado de trazer à me
moria dos que lerem,húa informaçaõ das parciali
dades,que então corrião entre os Miniftros de Caf.
tella,& Portugal; as quaes fupoto que na Corte fe
litigavão mais defcubertamente,tinhaõ nos interef.
fes do Reyno,feu principio:porque detas parciali
dades procedia o mayor dano, que ameaçava à Cafa
de Bragança, & revolvia toda a execuçaõ dete ne
gocio; não fendo pofivel por feus particulares en
contros fatisfazellas ambas, de forte, que juntas o
brafem em o beneficio pretendido:donde vem,que
a relação dellas,feja coufa efencial, aos fuceflos de
minha efcritura;alèm de que fendo(como he)a hif>
toria hum teatro de acontecimentos,donde fe fazem
publicos,para utilidade dos que vierem,os vicios,&
virtudes dos que paffaraó,nada ferà tão proveitofo,
como a manifeftaçaõ dos fegredos, & interefles dos
Grandes,& Minitros da Republica, que pela ma
• yor
74 ArrERAçoENS DE EvoRA
yor parte,faó caufa de todos os accidentes, de que
periga a faude univerfal;os quaes naõ fem dano ig
noraó os Principes, ou Vafallos futuros, nem fem
proveito,os haveràm de conhecer; porque fendo os
tempos etampados huns, por outros, dos paflados
fuceifos,tirão avifo os homens fabios, para fe have
rem nos cafos prefentes. • +

Miniftravaó com induftriofa independencia,os


papeis de Portugal,afino Reyno, como na Corte,
os dous Secretarios de Eftado(que já nomeamos)
Miguel de Valconcelos, & Diogo Soares. Ambos
fe havião conformado nos fins de feus intereffes,
mas em os meyos de profeguillos, erão muyto di
verfos:porque o Soares quanto tinha de menos aóti
vidade,tinha de mais arteficiofo, o Vafconcelos era
a hum mefino pafo, foberbo,& diligente;hum fabia
melhor difimular,& era afimais acomodado a obe
decer; o outro jâmais fe comedia, antes fempre fe
achava pronto ao mando, primeiro que ao minife
rio. Affi procedeo o poder de aquelles Miniftros,
quando por varios accidentes foi acomodado no
lugar de Confelheiro fupremo de Portugal, Dom
Miguel de Noronha Conde de Linhares, pefloa de
grande callidade,& penfamétos;a cabava de gover
nar por feis annos,a Índia,cõ aplaufo femelhante ao
dos primeiros:& fe achava na Corte cóvidado para
as mayores emprefas de aquelle tempo. Ete aplau -
fo, junto ao altivo natural do Conde, fomentavão
de tal forte a grandeza defeu coraçaõ, que a
-
*
• G=
EPANAPHoRA Polir IcA I. 75
fe acomodava com que algum lhe fofe igual na au
toridade,quanto mais fuperior, como Diogo Soares N
fundado em fua valia,o procurava de fer de todos os
Minitros de aquelle Confelho.Porém defengana
do jà por acçoens exteriores, de que o Conde em
nenhúa maneira lhe cederia,foi fama, que temendo
contratar com a natureza do Linhares, o requereo
para amigo,oferecendolhe fua valia,porque feguif.
fefeus interefles:com promefa, ou pacto, de que fe
ria em os proprios ajudado,para que reciprocamen
tefe defendefem das cavilaçoens, que como nevo
as contra o Sol, felevantaó continuamente, contra
os Validos,do mais infimo vapór da Terra. Porém
o Linhares,que ao principio motrou não fedefcon
tentára de fuas propoftas,emtudo o que obrava,foi
defcobrindo hum efpiritu izento; & abfoluto,def
prezador de toda a dependencia. Seguiofe á obra,o
efcandalo,& delle a defconfiança,que acefa por ho
mens, & fucefos,foi brevemente odio interno, &
publica opofição:a qual creceo tão aprefadamente,
que em poucos dias fem algum embaraço dos cargos,
que os obrigavaõ à temperança, eftes dous Minif
tros não negavaõ a contradição, & enemifade que
entre ambos havia. A hú, & outro, feguio dividida
boa copia de pretendentes, fegundo os afectos de
lua ambiçaõ;achandofe da parte do Soares, os me
nos,mas os mais poderofos,& da do Linhares os ma
is,& os menos indignos;mas com tal diferença,que
o dependentes do Soares,obravão por íuas coutas,
---- - CII)
76 ALrxRAçoENspx Evor.A
emvirtude do poder que elle lhes comunicava;& os
afeiçoados do Conde,nem o focorriaõ com algúa o
bra,nem featrevião a defautorizar as de feu inimigo,
duvidofos do fucefo. Quafitodos os votos do Con
felho,corroboravão os interefes do Soares, aborre
cendoo,porque não sò com efalifonja lhes parecia
cultivar fua fortuna; mas agradar, a eu parecer, ao
valido: fendo certo que todo o artifice fe paga de
quem aprova fuas obras; & fendo mais propria eta
condição,em aquellas coufas,de que o entendimen
to he autor,quanto ele he mais fublime, que as Ar
tes mecanicas,a quem fe devem as obras civis.Pare
cialhes a etes, que nas acçoens de Diogo Soares,re
verberava a vontade do Conde Duque, por onde,
bem,ou mal,lhas fazia fer refpeitaveis. Outros por
temor lhe havião entregado a voz,fenão o efpiritu.
Hum sò dos Confelheiros obedeceria ao Linhares,
o qual ele antes tomou para fiquefe lhe entregafe.
O Conde Duque amava ao Soares exteriormente,
& tambem ao Linhares não aborrecia,por hum afe
&o oculto,que fenão eftendeo a demoftraçoens ex
ternas. Creyo que ao Secretario por pequeno, não
temia de favorecer publicamente, & ao Conde co
mogrande,receava de ajudar com publicidade, ob
fervante defua altiveza; de quem conhecia,que fen
do favorecido, podia chegar a necefitalo de ma
yores exceffos para desfazelo,que para levantalo.
Affi procedião as duas parcialidades dos Portu
guezes na Corte; que reconhecidas jà
- -
"………É O
-
" *-* *
EPANAPHoRA Pourrica I. 77
do Reyno, cada hum procurava arrafrar a cafa pu
blica,até fazella fervir a feus interefles,& defignios;
porque o Soares, & fua facção, fundavão grandes
maquinas naquella defobediencia, Dando a entender
a ElRey, & valido, que afegurança de Portugal confifila
em tirar o gºvernº da mão aos Grandes, e crear outros/a-
gritos,que deve/em a ElRey todo/eufer,8 melhor aumen
to,tendo por certo,que ao mefmo paffo que o Rey
no mereceffe a Caftella hum grande caftigo, ficaria
ele abfoluto fenhor dos Portuguezes, de fuas cafas,
& rendas,calificando, & reprovando aquelles que
lhe pareceffe. O Linhares femelhante,e mais verda
deiramente,moftrava: Que a de/e/peração dos Povos,
tomára principio em a violencia,com que os novos Ministros
perfuadidos do Soares, e Vafconcelos, oprimião ao Povo.
Certificando a ElRey, & valido com palavras,&pa
peis: Era mais conveniente a/eu ferviço, deixar perder
humou dous minifros aborrecidos do Reyno, que arri/cará
perdição efeme/mo Reyno,8 a Magºftade Real abum de
facato,que fo/e tão a/pero de cafligar,como de e/quecer Lo
go fegundo feus propofitos,cada hum dos dous Mi
nitros,fe foi apropriando á caufa que lhe convinha,
& enxerindofe nella. O Soares fez fua,a queixa do
Rey,& valido contra o Povo Portuguez: & o Li
nhares a voz,&clamor univerfal, procurando apa
drinhar fuajutificaçaõ. Ambos confideravaõ o pro:
prio cafo,mais,ou menos perigofo, fegundo convi
nha aos fins a que federigiaõ porêm neta conten
da excedia fempre a induftria do Soares, á diligen
• C12}
- AtrERAçoENS DE EvoRA •

cia do Conde,que fiado em fua grandeza, do mais


fazia pouco cafo. -

… Não paffavão etas coufas, tanto nos termos da


moderação, que não foffe notoria a importancia
dellas,pelo menos a todas as pefoas de difcurfo; das
quaes, pôde fer,que informado o Conde Duque, &
fiando mais(como era razão)do fangue,& valor do
Linhares,que da cautela,& valia de feu opofio,mo/-
trava defejo, de que ao Conde de Linhares fe diri
giflem todos os intereffes do Reyno; não só como a
Minifiro grande,mas como a pefloa amiga,& confi -#

dente da melhor parte. Era efte o mefmo caminho,


por donde eu havia procurado que correflem osne
gocios de meu cargo:afi por conhecer no animo do
Linhares igualafe&o,que reverencia,âCafa de Bra
gança,como porque de fua mão havia eu recebido
tantos beneficios, como pela do Soares,injurias, &
femrazoens. Porêm fem embargo que não elegi os
meyos da negoceaçaõ(fendome finalados) & que
ella por naõ fer de ordinario expediente, pendia de
Intrumentos fuperiores,a quem fe encaminhavaõ os
avifos,que eu fominiftrava,era tanta a foberania do
Soares que,tendo por manifefto agravo, apartar de |
fua direcção o curfo detes negocios,começou logo
a fulminar contra o refpeito, & juftificação de Bra
gança; que atè entaõ exteriormente corria aplaudi
do dos Minitros Caftelhanos,& Portuguezes. Afir
mafe haver chegado a tal ponto o odio, que intro
duzindofe efte Minitro nas praticas, que lhe naõ
" . COI1=
EPANAPHoRA Pottr IcA, I.
confiâraó, & concitando porifo mefmo as fofpei
tas entre os Emulos,foi fama, que diffe em húa jun
ta de graves pefloas: Que em Portugal não haveria quie
tação,em quanto não mace/em malvas pelas efcadas,&pa
tios do Paço de Villa-viço/a.Taõ pouco feignorava feu
animo: porque os interefados da façaõ contraria,
com grande defejo de haver de fua parte a autori
dade da Cafa de Bragança, empregavaó todas fuas
forças contra o Soares; fendo cuidadofas atalayas
para defcubrir feus defignios, dos quaes por infan
tes avifavaõ,donde lhes parecia mais conveniente:
porque como Deos cotuma,tirar bens, de todos os
males,ordenou que dos odios, que entre eftes dous
partidos reinavaõ, procedefe àquella util defcófor
midade,da qual então,& agora,fe derivaraõ glorio
fiffimos efeitos à nofa Republica,fédo eftes os inef.
perados meyos de fua liberdade.
. Entretanto que na Corte fe profeguia na pratica
defes arteficios, os Povos Inquietos não paravaõ
em proceder tumultuofamente. Hião depondo os
Miniftros de Juftiça, & creando outros em feulu
º garfegundo a fatisfaçaó que tinhaõ delles. Andava
cada vez mais confufo o Regimento ordinario; de
que queixofos os de melhor juizo, defejavaõ fe a
tabafle de tomar forma conveniente, ou de verda.
deira obediencia,ou de melhor diciplina, porque jà
naõ duvidavão do caftigo.Outros abonando com a
i intenção os excefos, á conta de bem encaminha
dos,os faziaõ cada dia infufiveis.Dizem,que o mais
- - pe
8o ALTERAçoess DE Evor.A
perigofo parecer contra a concordia(porém mais
conforme à fegurança publica)foio de algús que a
confelhavaõ:Trouxe/em a opiniaõ de Alentejo, à Villa
de Setuval,lugar rico,ês por fo/oberbo, com hum porto a.
*
comodado para focorros guardado de dous Cafellos,fabido,
& habitado das Naçoens Efirangeiras:cuja ocupaçaõ feria
de grande conveniencia,para qualquerfuce/jo aos Inquietos;
porque ou já pelos ciumes que podião dar a todo o Reyno,
vendo como o fegundo porto dele,estava em/uas mãos,ou re
almente pela defenfa que lhes afigurava, era conveniente
empreza trazer efia Villa afua devação. Mas efte dif.
curfo encontravaó outros,dizendo:Que Setuval esta.
vaguardado pelas armas Castelhanas,que fem outras ma
is podero/as fenão renderião. Então ferecorria a outro
diferentemeyo mais urgente, & não menos dificul
tofo.Dezião os de Alentejo: Que/* bu/ca/e modo, de
fizer algüa boa tentativa ao Povo de Lisboa; o qual por fua
grandeza,& difiofiçãojà era cofumado, a dar, & tirar co
roas;comº/evira na erecção do Mefire de Avis, é repul/
a ElRey Dom Ioão o Primeiro de Cafiella.Que os fins de/
te grão Povo,com ração,ou/emella,havia de fºguir o Reyno
inteiramente. Animavaos a efperar boa repota,a def
confolação que fe lhe conhecia, & acrecentavaõ:
2ue não muito antes por izentar de hum novo regfiro, intro
duvido aos pe/cadores,fe havia levantado t㺠atrevidamen *

te a menor parte do vulgº, que por hum dia todo apedrejºra


asjanellas do Mêmfiro,de quem o alvitre procedêra,fem lhe
valer o fagrado do Paço Real, donde vivia, nemfer o Cabo
principaldas armas, Cafella fustentava no Reyno. Ulti
_mamen
EPANAPHoRA PoLiricA I. 8r
mamente pareceo(não feife com particular inteli
gencia como então fe dife:Que as cou/as/e/ufienta/#
como efavão,em todos os Povos da opiniaõ, até os princípios
do annofuturo de mil,8feftentos,& trinta,ês oito,pºrque,
como cãelle entravão novos ºficiaes na adminifração popu
lar de todos os lugares,& o affento dos novos tributos,então
fehavia de confiituir,ou relevar,podia fem duvida e/perar
fe,4 agête de Lisboa,incitada defes novos motivos,acaba/
/e defe declararpella obediêcia,ou pela liberdade. E quão
fe tinha por mais certº, 4 ElRey fenão acomodaria cão/Eti
mito do Povo,era tambê mais infalivel,4 a defe/peração cõ
forma/e a Lisboa,tõ ofentimèto de Alêtejo,muito mais de
prº/a á orogº, ou negoceação de aquella Provincia.
Defia propria obfervação fe derivava com
igualmente, confiança aos Inquietos, & temor aos
Miniftros; em o qual conformados os de Portugal,
& Caftella;procuravaõ com activifimas diligenci
as,que o negocio fe acabafe antes,que o anno. Pref>
fitia com tudo o Conde Duque, em que não era
decente à Mageftade de feu Rey, pedir o que de
via mandar. Por eta caufa ambigo fempre nas re
pofias, tanto ao governo do Reyno, & junta de
Evora, quanto ao Confelho de Madrid, contem
porifava com a efperança,& receyo,atè que o exer
cito de Cantabria, que jà havia fegunda vez cha
mado,fe avefinhaffe ás fronteiras do Reyno. Tinha
por intrucção, que marchaffe de Bifcaya, à Pro
vincia de Rioja;della a Campos, donde por Leão
entrafe em Etremadura, com taestranfitos, #
F 1=
••
82 ALTERAçoENS DE Evo RA
diligentemente fe arrimafe, & etendefe, def.
de Valença , atè Badajòs, fazendo roto a Por
tugal ; mas porque o embaraço(que jà aponta
mos)da pouca confiança que para tal emprefa fe
fazia do Duque de Nochèra, General do exerci
to, & de Diogo Luis de Oliveira, feu Metre de
Campo General, todavia efiava empè; fe orde
nou, que ao primeiro felhe concedefle licença pa
ºra acudir à Corte, como por muytos dias preten
dera; & ao fegundo fe lhe conferife o governo
do Caftello de Gante em Flandes; das quaes duas
mercès, forão avifados, antes da marcha do exerci
to;cuja direcção fe encomendou ao Tenente Ge
neral Marco Antonio Gandolfo, até fer na Praça
de armas entregue aos novos Cabos, que já lhe ti
nhão prevenidos. Mas os paflados recebèraõ tanta
mais injuria,q mercè, & della foraõ taõ queixofos,
que brevemente vieraõ ambos prefos à Corte, com
diverfos pretextos. Affi era violento o modo dogo
verno da aquelle Valido, 4 como rayo, empregava
de continuo os efeitos de feu ardor, nas partes mais
altas:donde fe dife: Desbarataria mays Capitães afeu
'Rey,que os exercitos defeus contrarios. Logo contavão
a ruina de D. Gonçalo de Cordova,D. Fadrique de
Toledo,Conde Henrique de Bergas, & de outros,
ainda q menores,famofos Varoés de aquelle tempo;
hús mortos por defgotos, outros defvalidos por in
gratidaó: que foraõ os primeiros finaes do precipi
cio,a quebrevemente veyo aquella Coroa. Cóf>
• -- • - - - - f
-- ••-

----
EPANAPRORA Poliricº I. 83
Cöftava efte exercito de Cátabria, de varios ter
ços de Infãtaria Catelhana,quafitoda forçada para
a guerra; a qual entre a afpereza dos montes de
Guepuzcua, agora detida dos frios, agora dificul
tada do aperto dos pafos , fe confervava , mas
fempre com vivo defejo de liberdade. Eftimava
fefeu numero, dentro dos quarteis, em oito mil
Infantes,que marchando foltos, & por terras lar
gas, & conhecidas, fe diminuiraó de forte, que
antes de arribarem á Eftremadura, eraõ menos de
quatro mil,& menos os que chegàrão ao novo aloja
mento. A mais rigurofa parte de aquellas armas,
confiftia em hum Regimento de Dragoens: nova
milicia entre nôs, & que de Alemanha trouxera
a feu cargo Dom Pedro de Santa Cizilia, de quem
no livro primeiro de nofa Catalunha, fazemos
particular menção. Foi nomeado por General
dete exercito, o Duque de Bejar, moço de defafe
te annos;havendofe fua riqueza, & etado por fufi
ciencia,diferaõ: Queperfer o mayor fenbor da Estre
madura, donde o exercito/ejuntava, lhe competia oposto.
Era pretexto, mas duas as caufas interiores. Apri
meira, porque defejava o Conde Duque, que o
Cabo de aquella guerra, fe governaffe só por fuas
leys,& não pellas da milicia; cuja difciplina em feus
profeflores malfe dobra aos expediétes politicos. A
fegúda, porã para húa emprefa aparente,não fe acha
ria em Efpanha hú General verdadeiro: fupriofe
então o defeito da idade, & efperiêcia do Duque
- - -- -- F2
#
C
84 ALT ERAçoENS DE EvoRA" *
Bejar,dádofelhe por adjútos os Meftres de Campo
Graneros, & Bocanegra. Ambos do Confelho de
guerra; em os quaes não avia mais fuficiécia,á a dos
annos,de q o Bejar era falto.Sépre as cãs faõ indicio :
da fabeduria, mas nem fépre defépenho della. E
porq os prefidios do Reyno,não efavão providos de
Metre de Cápo General,auféte D. Fernãdo de To #
*:
ledo, fe avia nomeado nefte pofio, a D. Diogo de *

Cardenas, tábé Confelheiro de Guerra(melhor ho. {

mé, que foldado)ao qual fe ordenou exercitaffe o |


mefmo oficio de Metre de Campo General, no
exercito do Duque de Bejar, para cuja praça de ar
mas eftava definada a Cidade de Badajós.
Mas como já no Reyno do Algarve,moftrava pa: º
ra revolverfe mayores defignios,foi tábem mayor o
cuidado de fe lhe aplicar o remedio; porque os por N
|

tos,de q aquelle Reyno he abundâte,caufavaó mui- º


to mais receyo,que fuas proprias forças. Por efta ra
zão fe ordenou, que o Duque de Medina Sidonia,
Capitão General da Andaluzia, ajuntafe da gente
de feu cargo,até feis mil Infantes, & com os ginetes
da cofta,& alguns voluntarios,formafe outro exer
cito,com qfe avefinhafe ao Algarve. E que o Mar
quez de Valparaifo, afiftéte por efes dias na Corte,
não mal vito do Códe Duque, & q tinha netas di
recçoês grande parte(por fer para ellas proprocio
nado intrumento)fe foffe logo juntar cõ o Duque
de Medina,a quem fervife entretanto de fegundo
Cabo,ainda que femalgum titulo, para que pondo
o Du-
•- •
- -
|
EPANAPHoRA PoLirica I. - 85
o Duque a autoridade, & o Marquez a induftria,o
acerto ficaffe feguro,em tudo o que fe pretendia.
Pafavaófe de fecreto efas ordens,feaparelhavaó,
& movião os exercitos;fem que da parte dos Portu
guezes,houvefle,atè aquelle tempo, outra preven
ção de defenfa,ou defignio,fenão a caufa que os ha
via excitado á inquietaçaõ. Antes como naturalmé
te fe perturbê, todas aquellas acçoens, em que con
correm muitas vontades, até a propria inquietaçaõ,
fehia por fi me{mo moderando,& de todo chegàra
afer desfeita; porque os Populares jà cançados do
continuo ocio,perdendo o tempo fervil dos exerci
cios do campo, & artes mecanicas de que fe futen
tavaó,foraõ a grande pafo defemparando o corpo
da multidaõ;& defta falta fe começava a produzir o
arrependimento do que havião obrado: porque,fe
gundo a fentença dos filofofos,a defruição de húas
coufas;he principio de outras,não fendo menos cer
tanos afectos, que nas creaturas. - }
Ao contrario pafava entre as pefoas particula
res,que vendo de húa parte o ameaço da defunião,
& da outra o das armas, não cefavaó por todos os
meyos de exercitar aos comovidos, para que fe fou
befem ganhar,ou perder. Temiaõfe já muitos, dos
que como efpiritus interiores,ajudáraó tacitamente
os movimentos do Povo, que ele fem algúaley,fe
acordaffe,não só deixando os perecer na indignação
do Principe,mas inculcandolhos,para fazerem mais
acreditado
\ feu arrependimento:
• - F3 … …. A
-A
36 AETERAçoENS DE EvoRA
<A Junta de Santo Antão, que tudo obfervava,
havia de novo,por efta cauía,concebido firme efpe…
- rança de quietaçaõ;& já tinha por certo,que lhefe
ria mais dificultofo,focegar o animo do Conde Du
que,que o do Povo: porqmoftrãdo efte até aquel
le tempo,que para haver lugar a clemencia delRey,
batava só a reduçaõ dos Inquietos, agora cõ novos
brios,pedia não sòméte a reduçaõ,por modo de ar
rependimento,mas que os tributos ferecebeffem, &
o Povo tornaffe ao mefmo efiado, em q fe achava
antes delles;&tambem a aquelle em que o haviaõ
poto,quando fedefcópufera.Naõ fenegava,ã apo
litica do Côde Duque, era violenta,mas utilifima a
feus propofitos:porque vendofe cõ as armas na maõ,
que com grande difpendio havia juntado, defapro
veitadamente as recolheria,dexando os Povos fole
vados,ou fem caftigo,ou fem obediencia: que eraó
os dous fins, a que fe dirigiaõ todas as maquinas de
tantos penfamentos, |-

Agora para que feveja com fuas proprias pala


vras,retratado feu animo,faço aqui patente ao juizo
de todos, húa larga carta,que por ete tempo efere
via á Junta de Santo Antaõ,que na ocafiaõ propof
ta, ela por fisómente fora digna de grande temor;
& diz defta maneira. , , , , , . ":"
fT Onfieja a VSeñoria,que amino me queda que decir
-a enefamateria,que/entirfi, ciertoy tanto que quádo
mivida fuera muy larga no llegara a enxugar lasks
grimas que me caufa, vereminis dias uma de/dicha, quenafe.
••••• ••••• -•• • - - -

-- # haha
••••••••
EPANAPHoRA PoEITICA I. 87
hallará exemplar,que ajufe a ella, enninguma historia anti
ga,nimoderna;ynofoloque no ajufte de todo, pero com cien
mil legaasipues enun Reyno tamfertil,tam leno de Noble
Rayquieram defcalços,defarmados, bazer cuerpo, & mante
nefeypretender capitular confu Rey; fin tenergyreffeto,
nia la luficia,nia la Nobleza,nia la piedad defu Mage/-
tady queforçadamente nos quieranohlgar a derramarfim
gre de Va/allos proprios.ypomer nota en la fidelidad F/pa
hola. Ele correo de/pacho de pura piedad, & fin ordem,co
mo Cristianoy como Cavallero; entretanto que fe firma la
com/ulta de anotheyfube a fu Magºfad(que no efia aqui))
hazen los de/pachos della. A/egurando a V. Señoria, que
uma hora mas de dilacion, no espo/sible,mi convenientey que
los cuidados de afuera, obligam a no dexar effo imperfeto.
Terof he de recebir de V.Señoria alguma merced, fea que
fe obre fin/angre, y que fios dos dias, º tres,fe reduzga e/>
/agente a conocer/aperdicion forço/a,aunque tuvie/em quã
to, fucº/os do/ean, y quan impo/sibles fon. Pero yo querta que
mientra llega la orden de fu Magºflad, y la re/alucion de la
Con/ulta,ellos reconocie/en lo que ha defer el dia fºguinte,
Jfe pongam a los pies defa Magºfadyen fu obediencia,yfe
reduzgan los tributos alefiado em que fiavam./fife ponêem
e/otroem que fevem,por li nece/sidad4 padecê; yo/algoper
fiador de V.Señoria que nopa/arán nece/Sidad, J foy de
fiar por la fangre com que naci,y tambien lºfº),por el lugarem
que fu Magefiad(Dios leguarde)aunque indgnamente,me
tiene.Queyaye V.S.fi/u Mogeitad nece/sita dedos,6 tres
mil ducados,$paga el ca/co de Evora enefios tributos,º em
los otros; perº vale aJu Magºftad eu fio, los de
- - F4
*# Cy
38 ALTERAçoENS DE EvoRA *
Reynosenteramente,nofolo de Portugal,fino de todafi, Ma
narquia,em todas partes; que alexemplo de quedar e/os re
belados fin otro titulo ninguno,libres de los tributosy confe
guiendulopor e/e camino,no abria Lugar, Província,o Rey
mo,queno intenta/elo mifino,yfalie/le com ello;conrazon, y
juficia,fifu Magestad lobuvie/e defimulado. Ay, fabe
Zios,q acofia de quanta/angre tengo em las venas, tomára
que e/oferemediara/infangre. •

As parcialidades da Corte, aquem feguião as do


Reyno,não cefavão de proceder com a cótradição
que difemos, avifando fempre em beneficio de feus
interefles,huns,que ElRey perdoava,& outros,que cafi
garia. Sucedendo que juntamente recebião os Mini
ftros,que nefte negocio tinhão intervenção, cartas,
& ainda ordensopotas;donde procedeo,que as pro
vifoés,& apretos,de ordinario feperdefem; porque
quanto fe prevenia húa hora, outra já fe defapro
veitava pelo que os juizos iguaes dos homens pru
dentes,andavão atonitos,& havião como perdido a
falculdade
ente.
de difcurfar, & eleger o mais conveni •

Então o Conde Duque,vendo já prontos os infº


trumentos da vingança, quiz aperfeiçoar a fabrica
de feu arteficio,com húa grande motra de jutifica
ção, para a qual, de repéte fez chamar a fua cafa,to
dos quantos Miniftros, Prelados, Titulos, & Fidal
gos Portuguezesfe achavaõ na Corte,ocupados, ou
pretendentes. Mas porque em tudo tiveffe lugar a
cautela,fobre que o decreto Real, não deceffe da or
|-
–- - - • • • ••- - - - - - - - - - - --

# - dem
• *EPANAPHoRA Pol IricÁ I. 89
dem dos Fidalgos, à da gente Nobre,fe difpoz, que
tambem fe convocafe, toda a que em Madrid con
corria,a fim de q védofeos de aquela clafe avétaja
dos cõ efte favor,o pagafem logo, côformandofe cõ
as demoftraçoens mais rigurofas, contra o Reyno
prevenidas;como finalmente fucedeo, porque be
neficiados de efta vangloria, muitos dos circuftan
tes feguiraó com tanto aplaufo o di&ame do Conde
Duque,que naõ sò o aprovavaó publica; & fecreta
mente,mas comunicandofe aos amigos,& parentes,
que tinhaó em Portugal, derão grande reputaçaõ
de Clemencia a aquellas mefmas acçoens donde a
Irafe moftrava mais defcuberta.
Vi,& experimentei,que entre nòs foi a convoca
ção de fumo cuidado; porque como todos ignora
vão o fegredo de aquelle negocio,cujas partes cor
riaõ tão incertas, que apenas os mefimos que o ma
nejavaó,o comprendião,não havia inocencia que fe
defe por fegura, à vita do que fe podia efperar do
poder,& fimulaçaõ,entre cujas mãos nos viamos to
davia.Outros ajudados,ou do melhor difcurfo,ou(o
que he mais certo)de melhor noticia, fe moftravaé
fem algum pejo do chamamento, certificando aos
mais temerofos,de que aquella novidade,fenão pre
venira,em prejuizo particulár,antes por comum be
neficio, , "., .

Ajuntàrãofe os chamados,no apofento do Conde


Duque,que era em cafas do proprio Paço delRey.
E porque a efiranheza da materia, parece que efiá
pe
9o ALTERAçozssor EvorA
pedindo particular relaçaõ della, não duvido de a
fazer; porque jà com efle propofito encomendei à
memoria,atè as menores circunfancias. Coftumava
o Conde Duque dar audiencia em húa grande ga
laria, que fe rematava em húa alcoba portatil, & ef.
cura,donde á maneira de Oraculo refpondia, fendo
vito,& ouvindo,quafiduvidofamente. Aquieftavão
com larga meditaçaõ,difpofios os aflentos, em mais
honrada forma,do que em Cafa Real, & prefença
do Valido fe cotuma: ou foffe folicitar a vaidade de
noff, maçaõ(aquem as mais tem cenfurado de pre
funtuofa fobejamente) ºu porque o muito que lhes |
queriaõ tirar aos Portuguezes naquelle tempo, lho |
quizeffem pagar de antemão,com efta fimulada cor }
tefia.Seriaõ pouco menos de cincoêta pefoas,as có. A
gregadas,entre as quaes concurriaõ tambem alguns a
Miniftros Caftelhanos, afi do Confelho de Eftado #
de Efpanha,como do Real de Caftella;& outros de
húa nova junta, chamada da Execuçaõ; a refpeito |
de feu grande expediente. Eraõ os de Eftado: o
1Duque de Villa-fermofa, tambem do fupremo de
Portugal, cujo Prefidente havia fido, Dom Pedro |
#Pacheco, Marques de Catro forte,Dom Gracia de ,
Aro,Conde de Catilho.E do Confelho Real, Jo.
feph Gonçalvez, & Dom Antonio de Contreiras.
Da junta da Execução(alèm de Villa-fermofa, &
Caftro-forte, que tambem refidião nella) à Dom
Niculao Cide. Afi tio da me{ma forte,todo o Con
felho de Portugal, cujos Minifros entaõ eraõ, o
" Con
EPANAPHoRA PolITIeA I. 91
Conde de Linhares, Dom Francifco Mafearenhas,
Manoel de Vafcõcelos,& Cide de Almeyda. Acha
wafe com elles,Luis Alvarez de Tavora, Conde de
São Joaõ,por Confelheiro de Eftado do Reyno; &
tambem pelo lugar do Confelho delRey, feu filho
oBifpo de Portalegre,Joanne Mendes de Tavora.
Opofia ao lugar,& Cadeira do Conde Duque, fe
via húa mefa,& nella acomodados dous Secretari
os em cadeiras razas,fendo de efpaldas as detodo o
concurfo. Eraó eftes: Diogo Soares, Secretario de
Eftado em nofo Confelho,& Dom Fernando Ru
iz de Contreiras,em o de Guerra de Efpanha,Affen
tados todos, fem que entre f guardaílem mais or
dem,que as precedencias dos Miniftros, efiando jà
tudo em obtervatifimo filencio,fe levantou Diogo
Soares em pè,do lugar em á affia, & começou a
ler húa Propofição em lingua Caftelhana;em a qual
duvidádo,como pouco defiro,feguio a leitura da pro
pota o Secretario Contreiras,dizendo:
Que fua Magºftade atêtando á incõcu/a(era a propria
palavra)fidelidade dos Portuguefes,ês entãalendo q depre
fºnte algãs homèsvilli/simbs, pretendiãoperturbarapazco…
mum, é impedir os efeitos de feuferviçº, nºtificando por in
/portavelope/o dos novos tributos, que ao Reynºfe impu
nhão,por caufadas novas guerras, & nece/sidades 4 todos:
reconhecião:pello qual comoção, a Iufiga havia perdido/ua
autoridade,é os Nobrescõgrande receyo dos Inquietos,de
/fiiraõde/e lhes opôr, como delles/e ºfperava, & cria 4o
*/ja/em;vido por outra parte duaõ preverfºtºg.
* * " " explo,
92 Atrza AçoENS DE Evor.A
exêplo para as mais naçoês de 4/e compunha a Monarquia: {
mandava/e ajunta/jãem aquelle,lugar,a Nobreza de Por
tugal,que por então refidi/li na Corte, a qual/e cófiderava !

fºr boa parte da de todo º Reyno,para quejñta com os Mi


mfiros de nofo Confelbo,ê alguns de Varios Tribunaes de
Cafiella,conferi/em qual/eria o melhor meyo,ês forma que (e
podia dar,a/si à redução dos Povos Inquietos,como ao cafi.
go de aquelas pe/oas que os perturbavão;ês que tudo pron
tamente/e confulta/e4/ua Magºftade,para o mandarafi
executar.Que na me/ma forma ordenava a todos os prefen
tes,fize/em no Reyno por eférito,aquelles bõs oficios,q convi
nhã (fºgundo feume/mo acordo)ao bomfim da concordia,
e obediencia;em que fua Magºfiade, defejava de os vera
ventejados,º naõremijns, por tem/empre ocafião de lhes
fazer novas mercês,& ventagens,dignas defua grãdeza,8;
bem empregadas nos meritos de kāa nação, que fua Ma #

ge#ade eftimava tantojulgando por felicifima a parte do


real de/angue que dela tinha. .
Acabado efte papel, fez o Conde Duque final,
para que fallaffe o Bifpo de Portalegre(a quem de
fecreto fe havia a noite de antes encomendado a re
Pota.)Porêm o Bifeo que fobre fabio não era elo
quente,de algúa maneira embaraçado, gaftou bom
efpaço em entéder,& obedecera ao afeno do Códe
Duque:ou foffe porque não dizia cô o animo,o que
havia de pronunciar com a boca,ou porque as razo
ens prevenidas, não erão de fua boca, ou animo,
nem mais de hum mèro pregaõ, que lhe mandavaó,
lançar por aquele auditorio, donde fe deduziriaao
+ Rey
EPANAPHoRA Pol ITICA I. 93
Reyno,&logo ao mundo. ' . .
Começou a orar com grande defconfiança, que
todos interpretráraõ a certa infelicidade da materia;
Poré defpois de introduzir fua pratica,a foi difpõdo
a melhores termos,& dife:Quaõ grande era a nova obri
gação,que fe devia recºnhecer ao Monarca, o qualpodendo
convocar os Nobres,para que ouvi/em hum terribelZecre
to contra o Povo, os chamava para fazer com fua prefença,
&á vista defua fidelidade,mais digno o perdaõ que lhe con
cedia. Que da propria acção/e estava entendendo, quaõ juf
tificado/eria com os inocentes,bum Principe, que afitrata
ya aos culpados,pois convidandoos com a clemencia, antes.
queria deixar queixo/a afoberania, que a genero/idade.Que
agora amados como Filhos,& defendidos como Va/allos,naã.
lhes ficava mais que defejar,falvº a dilatação de aquelle Im
perio,donde ás culpas/enão fabia o nome,por naõ fazer o caf
tigº/ua confequencia:é que pois em e/quecellas/e antecipa
va,não só a mifericordia,mas a injuria ao proprio dilito, me
lhor vinha a Magºftade, em fen㺠lembrar que fora algäa.
hora ofendida,que em perdoar e/a mefna ºfen/a; por amar
tanto a nação Portugueza,que nem pelo breve intervalo da.
culpa ao perdão, aqueria deixar manchada cõ a nota de in--
fidelidade. Manifetava:Qgeopºfo das novas,é ine/cu/a-
veis impºfiçoens,era mais fenfuelpara ElRey,quepara o Po
votanto/entia/uas cargas; mas pois fua Magºflade/e aco--
modava com a dor/e acomoda/em os Va/allos com a con
tribuição,4efta fora/em duvida,a menos grave parte;pois a
"Rºy tocava no coração,e ao Reyno no hõbro;& erajuftf
* …………………………:
• pelº
9 ALTERAçozss Dr EvonA . . .
pejo,que os fubditos lhafike/em leve, empregando/uesforº
ças em feu defcargo.Que a vaftidão do/enhorio dos Portu
guezes era tal,$nem o cuidado delRey,nê as diligencias dos
Minifros,bafavaõpara o manterfeguro; é que de culpas
gue originava agrande Raynaõ havia que pedir conta, nem a
quem dirigir o caftigº dellas.Que/ua ºcagefiade macera já
por beneficio da graça,dominador da mayor, & melhor parte
do Mundo;/em que da Coroa de Portugal recebe/e outra |
conveniencia,que a perpetuidade da me/ma Coroa: para cuja
defen/a,&guarda,mantinha as mayores guerras de Europa,
cãos mais poderofos emulos 4 nella haviajas quaes códi/pê
dio de gro/as armadas auxiliares,º cufo de cótinuos/ocor
ros,e/tava fomêtãdo em proveito dos Portuguezes. Qual de
vós(diffe então)kaverá taõ ingrato,4 a tal Rey, a tal/e- {
nhora tal Pay,negue algüa parte do amor?Ou qual devós ha }

verà taõ fal/0,que concedendolha do amor, lha negue do fan #


gue?Logo difcorrédocõ varios, mais 4feguros, lou- 1#-
vores do governo,& Valido preféte,lembrãdofe, &
lembrando o merito dos Miniftros mais aceitos,paf |
fou a referir o cafo de Evora, com protervas cifcúf.
tancias ponderado.Defpois,dando algúa volta pel
los fucefos de outros Povos,veyo concluindo: Que
oprincipalinftrumento que ElRey queria ocupar na redução
de aquella Provincia,& mais lugares de fua opiniaõ, era a
mefina Nobreza delles,de quem fe achava/atisfeito: para
4ue vi/e o Mundo, que em meyo dejufiifsimo/entimento,que
pudera ter de aquelles Va/allos Inquietos, fua Magºftade
fabia diffinguir(contra o costume dos Principes ofendidos)
é"pados,de inocentes, Nobres,de Plebeos; é aindafora das
—--- -------- —--- leys
EPANAPHoRA Pobrrica I. 95
lºys do mºtino co/tume,era contente de perdoar aos culpados,
pelo valor dos inocentes,fendo que o mundo fabia que nefies
ca/9/9empadecer os inocentes, pelº delito dos culpados.
Acrecentou: Pois de/de lºgo todos deveis diforvos,por
yºfas pe/joas,8 por vo/jo valor,& por voff indifiria,a fo
licitar a moderaçaõ,emenda,&/atisfação, de aquella mon/>
truof gente,que como Zibora peçonhenta, querfer homicida
da propriamãy,que lhe deu ofer,ês acode com o alimêto;pa
ra que por virtude devo/a dulgencia, & inteligencia, com
amigos,& parentes,âno Reyno tendes,mereção aquelles Po
nos operdaõ4 S. Mag.lhes oferece. E vós outros todos, em
pregados nesta ilufire obra,/ejais o primeiro exéplo da fideli
dade,arredãao deno/a nação,para sêpresaquellefeo labèo de
defleaes,nãCa entre os Portuguezes viflo, & nãea merecido.
Acabando de falar o Bifpo, antes q algú dos pre
fentes pudefe cuidar, fe lhe era permitido o refpõ
der,fe introduzio na pratica o Códe Duque. Come
çou, louválo as razoés do Bifpo: Sobre as quaes(diffe)
lhe ficava pouco q acredêtar.Mas q comº tefiemunha de mais
perto,enterdia 4 era obrigado a manifflar º animo delRJ,
para com a nação Portugueza,aqui fabia amava fila Magºfº
tade demaneira,á aquela obediencia,que por RJ, é por/e-
nbornaõ merecéra(fe houve/e ca/o em que há Rey a define
rece/e)por amigº,quãdo menos/elhenaõpodia negar,fé defe
lealdade:pello 4,vinha a fêr mayor a queixa da migratidão,
com que dos Inquietos fora tratado feu ferviço. E 4-0 mais a
que podia obrigallo/uagrandeza,é º natural ºficio,que aos
Tortuguezes conffya,era a dar lugar, 4 ellesprºprios tor
ma/emfebref,8 revºgº/#cºm bãpublicº arrependimentº
•- -• •••••• • •••••••• ºs
•••
96 A LT ERAçoENSDE Evor.A |
os defitinos àp/ados. Que/ua Mage/lade(como o Bifoo { |

º
difera)havia por bem,que a Nobreza do Reynº toma/e a {
*
..
feu cargº,a redução de aquellagente vil; com tal condiçãº, 1!!!

gue com fuma brevidade/etrata/e defua emenda,reduzin "

do as coufas,ao efiado que tinhaõ,quando fua comoção. E que


para efia obra,º todos o prefentes fe concedia poder, para |
que nilla intervie/em,publica,ºu privadamente, pelos me
jos mais licitos,& frontos, que/e acha/em:dos quaes fua
Magºfladefina tanto,como de aquelles,cujos animos efiava
vendo fempre,calificados em feu ferviço. Que tambem lhes
fazia afaber,como ElRey ordenava,que de tudo o que fe - |
bra/Se em Portugal, ou em Castella,pellofim da redução de
aquelles Povos,fe defe parte ao Duque de Bragança; por
que alèm de quefe lhe devia,como ao mayor do Reyno, pella |
juftificação,que nefte tempo havia mo/trado,fua Magefiade
lhe eflava em tão novas obrigaçoens,que pedião efia,& may-i
ores confianças:e/perando que o Zuque,por/uagrande auto. #
ridade,fo/e o instrumento mais proporcionado da concordia, .
coóperando com a Iunta de Evora, & com qualquer outro
Tribunal,ou Confelho,que em Portugal,ou Cafella,/uperin
tende/e a efia negoceação.
Neftas palavras acabou o Conde
fua pratica, |
ou a crecença que o Bifpo fizera ; quando fem
outra difpofição, ou difcurfo, por modo de acla
maçaõ, fe levantàraó os Minitros do Confelho de
Portugal,& delles os primeiros,o Linhares,& o Vil
lafermofa, aqué feguiraõ os de mais,& fazendo pro
funda inclinaçaõ ao Conde Duque, lhe diferaõ in
formemente(porque falavaõ todos com defordem,
&
EPANAPHoRA Pol ITICA I. 97
& quafi defacato:)Que a elles,nê a aquella Nobreza, nê
ao Reyno todº(do qual cuidavaõ)lhes ficavajá que propºr,
ou que pedir/enão a mão afua Magºflade, para lha beijar,
por tão fingular,8 liberalmercé, como aos Portuguezes fa
viajcuja direcção bê/abião,/e devia à bondade defua Ex
telencia. A eftes,fe ajútárão logo algús dos mayores,
que allicócorriaõ;& quaes cõ demoftraçoés, quaes
com palavras,cada hum sô eftudava naquelle breve
tempo,como poderia avantejarfe em adulaçaõ; ao
mais lifongeiro dos prefentes. Logo entre fi, cfco
lhidos por elles mefinos,o Conde de Linhares,o Bif
po de Portalegre,& a Conde de Figueiró,foraó em
titulo de Embaxadores da Nobreza, beijar a ElRey
a mão,pella mercè,que ao Reyno fizera. A efies fe
guiraõ todos, acôpanhando os mais, feus pafos, mas
não feus di&ames.Porèm a vita delRey,ãquella ora
só foi aos tres concedida; com grande Providencia
(fem duvida)divina: porq fegundo foraõ defegra
das as adulaçoés,que te fizeraõ ao Conde Duque, &
havendo ellas de crecer diante delRey,parece q naõ
podiaõ parar,em menos que Idolatrias.
Tal fim teve aquelle van, & exquifita ceremonia,
fobre a qual procedéraõ varios difcu fos; donde os
melhores,logo conhecéraó:Que toda efia màguina, º as
mais antecedentes,8 /uce/ivas,sófe encaminhavaõ a apar
tar a Nobreza,do Povo fazendolha/o/peito/a;para q a def
união defes dous(direito,é fuerdo)braçºs da Republica,º
em raquece/e,em todos os efeitos 4 defua corre/põdêcia efia--

}ão temendo;ö que pellapropria


•- - - a cauf,4/eprovava
G definir
afo
98 ALTERAçoENS DE Evor.A
afogados braços da Nobreza, º Povº,fe intentaria tambê
privar a Republica da Cabeça,induzindo as me/mas,& ma
yores/o/peitas,para com a Cafa de Bragança:que foi a raçaõ
de introduzir o/enhor della,nos negocios do Reyno.
Porêm os de Evora, em quanto na Corte fe paf •|

favaõ os dias,netas negoceaçoés,tendo dellas parti


cular avifo,& do pafo dos exercitos, q fe avifinha
vão,jà temião igualmente do rigor,q da piedade;&
defejavaõ achar modo, para q fem cairem hús na in
dignaçaõ dos outros, hús dos outros fe apartafem.
Não eraõ menores os cuidados de todos os q na Jú.
ta de S. Antaõ fe achavão; conhecendo já o pouco
fructo que podiaõ tirar de aquella negoceaçaõ; da
qual por oras,temião o perigo, & defefperavaõ da :
utilidade: porá as contendas entre Principes,& Vaf>
falos, faõ da condiçaõ do rozalgar, que por mais
cautela,có q fe intervenha em fua fabrica,de ordina
rio ofédo aos proprios,q a adminitraõ. Algús enté
diaõ:Que os da Iunta,interiormente ciofos,de que fendo ta5 }

grãdes pe/oas,aquellefeu poder/e reparti/e a ºutras muitas


defigunes,& ultimamente/efize/e comñ;&yendo por outra
parte q a autoridade de Bragança,cõ qualquer acção,exce
deria as fuas fizeraõ todo o esforçº pofivel, para perfuadir
aos Populares(cãos quaes já melhor/e entãaião)?/e acomo
da/fáquietação,ainda 4 cedffê do brio, & intere/e,çõ4
fufêtavão/eu parecer,e o julgo aõ jufificado. Mas como
elRey não dava lugar,a q fe viele na abfolvição dos
novos tributos,todas as vezes q fe tratava da cõcor
dia,corria felicemête,atè chegara efe pôto;poréta
- cádo
EPANAPHoRA PolITICA I. 99
cãdo nelle, fe obtinavaõ de novo os coraçoês dos
Populares,a quê os Povos da opiniaõ, fecretamente
perfuadião a obtervancia della; prometendofelhes
por companheiro em qualquer perigo.
. Então o Arcebifpo D. João Coutinho, pefoa de
grande fangue,& riqueza no eftado Ecclefiaftico,&
có elle o Cabido de Evora,o mais opuléto do Rey
no louvavelmente fe ofereceo: Apagar de fuas pro
prias rendas, aquelle exce/04 de nºvo/e impunha à Cida
de,/obre os antigos dereitos:o qual exce/o então/e avaliava
em fótres cótos de reis. Zame/ma/orte a Camara côvinha
em/atisfazer porfeus proprios,ºs bês comñs,outro genero de
Jerviço,pedido áspe/oas particulares.Có o qual ajufiamêto,
o Povo ficava não pagãdomais do ordinario,ElReyfervido,
& a Cidade cótribuindo cõ tudo o á/e lhe havia impofio. E{-
ta cóveniêcia comunicada em Caftella, havia là foa
do agradavelméte;mas como em o acordo de Evora,
naõ cófitia todo o remedio dos outros Povos inqui
etos,néfe achava para elles,curo femelhãte refgate,
permaneciaõ todavia em feu vigor, as razoés da re
voluçaõ:queixofos os lugares, elRey não fatisfeito.
Por eta caufa fe debatia nos Cófelhos,& Jútas va
riamête; parecendo aos Miniftros de Catella, obe
diécia falfifima a q fe propunha: E4 elRey(diziaõ el
les)mais lhe convinha a emêda,q o intere/e. Em meyo de
fia difputa,tábé não faltavaó algús Prudétes aquem
parecia:Que de todos os modos fe aceita/e a reconciliaçaõ;
porque os Estrangeiros,quando vi/em os Va/allos de E/-
panha obtdientes,não iriaõler os acordos
- - • • •- - Gz defeu arrependi
?71671f0;


/**

roo ALTERAçoENS DE EvoRA


mêto:fendo certo,4 para ce/arem as e/peranças,& defignios
que em fua quietação haveriaõfundado,bafava/aberfe que
elles voluntariamente/e/ometeriaõ,ao jugo da vontade real.
Outros diziaõ:Que por nenhum modo era conveniente re
ceberhã Povo,& deixar os mais em fua primeira ob/linaçaõ,
para o que,feria grande remedio diferir operdaõ, a qualquer
dos arrependidos,pellos obrigar aferem iguaes na obediêcia,
como oforaõ nafedição:porá/u/pendêdo/elhe, por algã tem
pe,º efeito da piedede,elles me/mos procurarião unir/e, com
tanta diligencia para obedecerem,como fehavião antes unido
para/e/elevarem.
Defpois que o Povo de Evora,motrou algum fi
nal de comedimento,ouvindo, & refpondendo po
liticamente aos partidos, que felhe propunha6, an
davaó todos os interefados, & dependentes, inven
tando,& provando meyos para o ajutamento; par
te por zelo, parte por intereffe; mas fobre todos a
Junta de Santo Antão: porque com grande caufa
defejava, lhe naõ afaftafe outra induftria, ou auto
ridade,a gloria do fim de aquelle negocio, que def>
de feu principio, com dificultofo perigo (alèm
do trabalho continuo)havia tratado. Nefte proprio
defejo,fundou Luis Alvares de Tavora, Conde de
São João(que já nomeamos)húa propota, que de
feu movimento fez a elRey, & lha ofereceo afinada,
pella qual prometia: Servir, & ajudar á Fazenda real,
com a terça parte dos bês da Coroa,& Ordens,quefe achavaõ
repartidos por toda a Nobreza dº Reyno. Donde tal ofer
ta dizem,naõ havia comunicado. Era o Conde ve
" 1. --
-* lº ----
• E PANAPHoRA Polyric.A I. IO I

lho,de boa inclinaçaõ,& conciencia;melhor Vafal


lo,que politico; julgou que nenhum Fidalgo, ou
Grande de Portugal,fe defyiaria de aceitar aquella
moleftia,ou incomodidade,a troco de ver ferena,&
defcantada fua Republica. Mas o fucefo foi dife
rente,efcufandofe,ainda os mais amigos,de lhe da é
feu confentimento: vindo afi aquelle Miniftro a
juftificar antes o animo,que a prudencia. •

Havia por então vencido as outras defconfianças


o Parecer:Ze que a Evora/ lhe aceita/e a reconciliaçaõ
no modo quefe propunha;com o que ElRey só/aberia,era fer
Yido com as cantidades pedidas,fem que/e lhe explica/e os
efeitos donde faltão,nem a maneira de/iu cobro.Tambem
fe entendeo,que nos outros lugares da opiniaõ, fe
gundo os Nobres delles trabalhavaõ, fe particava
por bons meyos,& fe efperava a concordia:porque
os mais fe acomodariaõ a pagar a pequena cantida
de de fua contribuição,dandofelhe a conhecer ver
dadeira,ou fupotamente:Que ElRey não e/perava pa
na livrallos della,fenão que a aceita/em.
Parecia, que havendo chegado as coufas a efte
ponto,não era pofivel feu deivio; nem o fora,fe ou
tras novas praticas, de particulares interefles, naõ
tornaraõ a perturbalas de novo.Das quaes(cóforme
meu cotume, & obrigaçaõ da hiftoria, como tão
proprias della)ferà util,& deleitofa a informaçaõ.
Era de pouco tempo antes capitulado, Diogo
Soares, com graves cargos de feu oficio, por nego
ceaçaõ dos contrarios,que cô o proprio oficio hº
IOQ A LTERAçoENS DE EvoRA
via fabricado. Muitos feguião efta facçaõ,eftimula
dos de injurias que delle receberaõ; mas entre ef>
tes,tambem havia alguns,aquem o zelo aconfelhava.
Com tudo,huns,& outros, obravaô com affaz temor,
& não menos rifco nas pefoas, que no credito: por
que o Soares,Minifiro poderofo,& homem vingati
vo,por nenhúa via poupava os inimigos. Haviafe
declarado por feu acufador,João Salgado de Arau
jo,Doutor Canonita, Abbade de Pera; de ingenho
agudo,& animo atrevido,de tal forte que fazia vir
tude de feopór aos grandes, & fulminar contra el
les;pelo modo que em Roma; Marco Tulio acufa
va folenemente a Verres,com fuas Verrinas, & com
fuas Philipicas,a Marco Antonio. Porêm ainda que
o Abbade punha de fua parte a oufadia,os efpiritos
que o movião, & animavaã, eraõ muitos,varios, &
poderofos;com o que,cada hora fe fazia mais contin
gente a confervaçaõ do capitulado. Diffefe então:
Que o Conde de Linhares(cuja ruina elle fomentava)
comº algãa vez coftumão os Principes fazerguerra ºfenfi
va,só com animo defua defen/a; trazendo a/gi,por meyo de
feu; dependêtes, ao Abbade queixofo, não só o fornecta de
dinheiro,cõ que pude/ea/s/lir na Corte afeus negocios,mas
q o ajudava cõ grãdes/ocorros,inculcandolhe naõ poucos ca
fos e/candalofos, de 4 em vaõ tivera noticia, naõ podèdo por
fº/ómente remediallos. Eftes oficios,já defcubertos ao
Soares,lhe fervião de grãde etimulo, tanto ao odio,
como à cavilaçaõ,com que devia viver, & vingarfe.
Depois do temor,entrou como o defejo; o r"#;
- - - - -

----
EPANAPHoRA Polirica I. I o3
fito da vingança; da qual parecia que o mais con
veniente pafo, era apartar o Linhares da Corte;
porque fua grandeza, contrapefava a induftria, &
graça do Secretario. Achavafe o Linhares, já do in
verno antecedente, nomeado com grandes venta
gens de titulos,& mercès, General da empreza, &
reftauraçaõ de Pernambuco; lugar,que fobre gran
de,fora infauto em aquella Monarquia:porque nel
lehavia perdido a vida,& libcrdade,Dom Fradique
de Toledo, mayor Capitaõ do Mar, que em feus
tempos vira Efpanha:& da me{ma forte, fenão a vi
dahavia tambem perdido nelle a graça de feu Prin
cipe,Dom Antonio de Avila, & Toledo, Marquez
de Valleda:que fucedeo a Dom Fradique, na elei
çaõ da empreza;por cujo defvio entrou nella, com
femelhante forte aos predecefores, o Conde de Li
nhares,que agora a obtinha. A dificuldade da guer
ralonge,com inimigos vencedores, detros,& pode
rofos,perfuadia a todos,a cujo mando fe encomen
dava,que procurafem levar configo, as forças com
petentes a húa empreza tão ardua. Porèm,ou que ef>
tas forças por então não fofem fuficientes, ou que
os Miniftros, como he ordinario, méção com mais
curta vara,que os Capitaés,as acçoens militares,tan
to no rifco,como no merecimento, o Toledo, o A
vila,& o Linhares,todos fe conformátaõ com húas
proprias petiçoens; fem embargo de ver cada qual
por ellas mefimas,a ruina de feu anteceflor. Fluótua
vanetas negoceaçoens o Linhares,antes
G4
dos nego
C1OS
I o 4. ALTERAçoENS DE Evo RA •\

cios de Evora,ora admitido, ora enganado, ora de


fenganado de aquelles Minitros, a cujo cargo efia
va a expediçaõ de Pernambuco. Eftivera pouco an
tes quafi defpedido della, a que deu ocafiaõ, hña
grande enfermidade,com fofpeitas de veneno:por
que a guerra da Corte,não he menos crua,ou menos
arteficiofa, que a verdadeira guerra.
Sobre todos eftes accidentes, difcorria o Soares,
bufcando modo,para que dentro das obrigaçoés do
pofto do Conde, felhe armafiem os laços, que lhe
fizeffem mais proximo o perigo,ã naõ aquelle, que
na honra, & vida,o efperava, contrafiando có o po
der defproporcionado, de defefperadas emprezas.
Dizem, que da futileza dos que feguiaó a parciali
dade do Secretario, fahio o alvitre, de que fe pro
puzefle ao Conde Duque: Como só a autoridade, & in
du/leia do Linhares,era fuficiente para acomodara/eugof
to os negocios de Evora; em os qutes/e empregaria mais pro
priamente, quanto era mais certo,que a fim defe lhe prepa
rarem as grãdes confi, que pedira para a jornada do Bra
<il,elRey havia gravado novamente os Povos;pello que nef>
ta obra o Linhares/e ocuparia,fobre os interejes de Mºi
mfiro,com aquelles proprios, que cº/iumaõ fever mais leve,
qualquer pe/ida carga; donde/eficarão confºguindo impor
tantífimos fias,para a parcialidade do Secretario:fendo de
todos 3 primeiro,ver au/ente da Corte, & ainda do Reyno,
ape/oa de t㺠grande emulo, & empregado em bum negºcio
de tanta dificuldade;donde outros fugeitos de mayor mode
raçã5,8 artificiºgue º Conde/e haviaõperdido nele.Qg?-
fO
EPANAPEoRA Pol Ir1cA I. IO

to mais,que fe Evorafº comtd/e, empre ao Secretario, lhe


refultava o mérito de oferecer aquelle meya;&/enaõ,alliera
myorfeu intere/e,tendo mais bña ocafilãt:õ oportuna, de
difcampór aº Conde:para cujo efeito não era pequena, curu
im difufiçaõ.fer o me/mo Secretario, o Minfiro por quem
pº/avaõ as ordens neceffarias,ao que o Linhares havia de
ebrar em Evora;donde, ou fofº por força defa negºcençaõ,
ou dapropria infelicidade do negocio,era certifrimo,que ha
via de perder aquella bºa ºpiniaõ, em que o Conde Duque º
tinha,de fiel,& aéliyo para todas as obras,pertencentes aº
ferioreal. Nem era para reparar o perigo, a que fe expu
nha o mefino negºcio: porque do animo do Conde Zuque(a.
quem só convinha agradar);á/e/abia, que mais aceita lhe
feria a defordem,que a concordia de Evora,para que pudef.
/* afi introduzir a forma do governo,4ue defejava/e confe
gui/e em Portugal, a qual ainda que para o Reynofo/e afº
pera,& confufa,para o Secretario/eria mais utilipois aniqui
lidºs os antigos Tribunaes, como/et/perava, & de/pofios as
Minftros mais graves,ficava dependendo defua informa
fão, eminferio,o governo do Reyno inteiramente. Autor di
zem que foi dete difeurfo, Lopo Pereira,homem de
profifaõ & fangue mercantil,que por muito prati
co em contas, & interefles das rendas reaes,o Soares
cófervou fempre configo,atè introduzillo em graves
oficios da Coroa Caftelhana.
Logo começou a fe efpalhar a induftria defla ficº
ção, repartida por todos os que podiaõ ajudalla;
cuja pratica não foi outra, que afirmarem, era sò o
Conde de Linhares, quem poderia compôr asraço--
-• - - - - - - + altº
- - -- -
Io6 ALTERAçoeNs DE EvoRA
raçoens do Reyno.Mas porque efte pretexto por fi
fómente,parece que não baftava a perfuadir o ani.
mo do Conde Duque, paflou o odio a mayores de
fignios, afirmando em religiofo fegredo: Que as e/cu.
fas impertinentes, com que o Linhares dilatava/ua ida ao
Zrazil fundavaõ na e/perança das novidades prefentes:por
que efte Conde,como homem de altivonatural,parece quenaõ
e/lava/atisfeito,vendo/e preferido: pelo q podia/er conve
niente,que/epuxº/e em parte, donde a ocafiaõ o convida/e
a declarar/eu e/piritu;do qualjá havia menos que temer em
fortugal, cercado defeus exercitos, que nos Confelhos de
Madrid,entre os quaes,difimulado da pluralidade dos vo
tos, podia entêderfe com os Inquietos,avifandoos detodos os
face/os,& mantendoos á/ua devaçaõ,para qualquer aconte
cimento. |-

Largo, & incerto caminho feguiria, quem agora


bufcafe no animo do Conde Duque, as caufas de
haver ouvido,& admitido tão nova, & prejudicial
pratica;contra hum Miniftro, de quem fe agradava
quando o julgavaõ por feitura fua;& que fendolhe
manifeftas as razoens da contrariedade,entre o Có
de,& Secretario, não diftinguife as que diótava o
zelo,ou a emulaçaõ:fenão he, que das poucas ver
dades,que cotumava ouvir, jà havia dellas perdi
do o conhecimento.Sempre me admirei à vita def.
ta cófideraçaõ,a qualigualméte ferà admiravel, aos
que lerem efte cafo;cuja defconfiança sò pode fun
dar naquelles naturaes ciumes da fortuna dos gran
des,que atè dos impofiveis fereceyaõ. -

----- - - - - - - - - - - --- -- Ao
-
E PANAPHoRA Pol IT IcA I. 1o7
Ao aplaufo, ou fimulaçaõ, com que o Valido
ouvia as informaçoens contra o Conde,feguiaõ va
rios, & profundos arteficios; de que elle avifado,
fiou(em feu defprezo)mais do que devia, da ino.
cencia,& da grandeza. Bem creyo, que tambem foi
complice nefta defregrada confiança,aquella que fa
zia no animo do Conde Duque; muitas vezes decla
rada em feu beneficio: quando nos pofios que ha
via ocupado,& calumnias que felhe opuzeraõ,acer
ca delles,dera grandes provas de fua afeiçaõ, fupe
rando as criminaçoens contrarias. Tanto mais ou
fadas,ou maliciofas, foraõ eftas fegúdas! Salvo fe a
contece ao favor dos poderofos, o que ás efpadas,
porá a que melhor provou em húa batalha,fica mais
difpoña para faltar na que fe lhe fegue,por razaõ de
efa me{ma experiencia.
Donde primeiro fe começáraõ a ver os efeitos
do poder contrario,foi em fe tornar a praticar, com
infancia,a jornada do Brazil;a qual atè então def
pois de diverfos acontecimentos, efiava irrefoluta,
como dependente de outros fuce{fos da Monarquia.
Efta pratica,como refucitada fòra de tempo, foi lo
go conhecida do Linhares; o que fe confirmava á
vita das forças que hia tomando, & no aplaufo que
achou em todos os Minitros da parcialidade opof
ta.Com tudo,o Conde canfado já da contenda,afi
gido de achaques,& por outra parte proximo a con
feguir feus aumentos,aquella eficacia que antes pu
nha no bom efeito do negocio,& caufa publicº,fºi
1o8 ALTERAçoENS DE Evor.A
convertendoa a feus particulares.Parecendolhe:Que
de hãafortuna já mordida da enveja,não faria pouco,fe lhe
fºi/edas mãos com honra, 6 utilidade. As quaes em as
fortes dos mais,pacificamente ditofos(feha alguns)
fejuntaõ poucas vezes. Do proprio parecer eraõ fe
as contrarios, porque de todos os modos julgavaõ
conveniente fua aufencia; & lhes era mais facila
partallo da Corte,grande,que temello nella, quei
xofo.Deta maneira,eu fofle que para o comprimé
todas mercès,efperafem novas cavilaçoés,ou que a
troco de feu defvio(como difemos)qualquer pre
mio lhes pareceffe moderado,vimos então praticada
húa nova politica da emulaçaõ,ou da fortuna: por
que na mayor profperidade,não pudera, nem efpe
rára,o Linhares fertaõ ditofo,como quando come
çou a cahir na defgraça. Foraó grandes, & exquifi
tas, as mercés que lhe concedèraõ; as quaes fe de an
temão(como alguns querem)eraõ já fimuladamente
feitas,com afaz ofenfa do Principe, compràraó os
Vafallos fua vingança. Todavia julgava(& naõ
mal)Diogo Soares:Que o Conde: acomodado defuas con
veniencias, trataria logº de partirfe, por não perder a boa
monção defeus intere/es, que expunha a qualquer mudança,
detendofe na Corte. Porque havendo feito particular obfer
Vação dos intentos do contrario,via tratando antes, nada de
fi,&
prezatudo
nada.da: empreza, agora tudo tocava defi, & da em

Tal era o eftado dos negocios da Corte,& Rey


no dos quaes ufando com fingular defreza, Diogo
• Soa
. EPANAPHoRA Pol Ir1cA I. Io?
Soares, todas fuas infancias empregava, em cer
tificar ao Conde Duque:Que º ajuflamento de Evorafe
detinha,em quanto o Linhares não chegava a aquella Cida
de Foi ultimamente chamado por elRey, & Conde
Duque,que com grandes palavras, & demoftraçoés
punhaõ em fuas mãos a faude da Patria; dandolhe a
ver, não de menos perto as e{peranças do premio,
aceitãdo,que efcufandofe, as do caftigo. Porèm elle
das ruinas,de que fe via cercado, efcolheo por me
nos rigurofa,a obediencia.Não duvido,fe lhe repre
fentafe que enxerido no clamor do Povo, pudefe
montar fua voz mais na vingança de feus inimigos,
do que pelo remedio de efe me{mo Povo, havia
tevalido nos Fribunaes,&
fe achava. .. Cófelhos,em que na Cor
• -

Pedio sò,para efeito de aquelle ferviço, a com


panhia de algüas pefoas, de quem efperava o aju
dafiem fielmente; & lhe foraõ concedidas, tres; das
quaes,em tudo primeiro, era Dom Alvaro de Mel
lo de Bragança;que fobre fua grande callidade, &
comum aceitaçaõ,entre o Povo de Evora, que co
mo natural o amava, fe conhecia fer fugeito capaz
dos mayores empregos, como(não fem defgraça
fua,& noffa)tem motrado,em beneficio de alheyos
fenhorios. A fegunda pefoa,foi o Inquifidor Anto
nio da Silveira de Menezes, tambem patricio de
Evora, & irmão de Fernão Martins Freire, fenhor
de Bobadella(de quem atras falamos)que em toda
cita negoccaçaõ,teve com o Povo grande autorida
de, —
I I O A LT ERAçoENspx EvoxA
de, & era a caufa de fe lhe mandar por companhei.
ro,a Antonio da Silveira.Eu fui o terceiro dos no
meados,ignorei fempre o fegredo, mas fenaõ conti
nha outro,que o notorio: Era(diziaõ os Minitros)
para intervir,ês comunicar os acordos da Iunta, º Cafa de
Zragança, mº/trando que elRey havia elegido o me/noin
frumento,que làfe elegera para o meyo deflas negoceaçºens.
Porèm a ordem qua aos tres fenos deu, naõ foiou
tra:Que mandarnos elRey affir ao Conde de Linhares,em
todas as materias que elle trata/e em Portugal, concernen
tes áredução,& emenda de aqueles Povos; cujo/erviço lhe
feria particularmente agradavel.
Mas nefte me{mo tempo,que exteriormente fe
eftavaõ tratando os negocios do Reyno(como re
ferimos)corria interiorméte, outra taó diverfa pra
tica,que ou parecia de outro Principe, ou de outro
negocio. Porei aqui(contra meu coftume, mas em
beneficio do credito da hiftoria) hum treflado da
ordem particular,que fe expedio de Madrid, quafi
por etes dias;para que feveja,qual era a malicia, &
cautela de aquelle tempo, qual a oprefaô, de que
Deos quiz livrar efte Reyno,& qual o conceito que
dete negocio, já taõ efquecido, fizeraõ aquelles
Minitros. Diz affi, dando notícia de grandes cou
fas.
N.Eu elReyvos mando muito/audar. Para melhor di/-
pofição do que fe ha de obrar,em o/ocego das inquietaçoens,
que houve em alguns lugares de e/e Reyno,fui/ervido, que
afifi/é em Badajós hum Confelho, & outro em Ayamonte,
&para
EPANAPHoRA Pol IT IcA I. I I I

é para e/cu/ar embaraços no tratamento,çõalgis Minifros,


é pe/oas,com quê/e havião de corre/ponder,tenho ordenadº
fºlhes dênoticia das re/oluço#por cartas do Secretario Pe.
dro Guerreiro,40 he do Confelho de Badajós,& de Mateus
Gñalves de Medrano,4ha de affir ao de Ayamonte,de 4
me pareceo mãdarvo avifar,para 4 conforme a efia orde,vos
correfpãdais tãos ditos Có/elhos,dandolhes noticia de tudo o
ácóvenha,& tiverdes entãqido; é particularmête ao de Ba
dajós,pordõde ha decorrerotocãte ao Alêtejo,& mais luga
res q/einquietàraõde/abãda. 2ãdalhes a/si me/mo conta
dos q/e têreduzido, oureduzirè,e do têpo em q o fazê,para
|
naquelle Cöfelhofe/aber/ebe antes da publicação do perdaõ,
É
é dos 4 de/pois/evalerão delle,ou o naõaceitarê, e o me/mo
fareis a D.Ziogo de Cardenas,do meu Confelho de Guerra,a
quê mãdei cometer aprevêção das armas,q fe vaõ arrimãdo a
efe Reyno,pela parte de Badajós. Avifandoo dº prevenirê
{
ºs levãrados,para 401Duque de Bejar,com elle/gãdo anoti
}
tia 4fe lhes derifação a entrada, conforme as ordès q tenho
{
dado. E porá beyre/oluto, 40 gafio q fizer a Cavallaria, nos
{
#

lugares de Cafiella,º tºpo 4 florer algada,/ejafer cóta dos
culpados,fe farácõta de tudo,º 4 importarã osfocorros,e utê
cilios,qfe lhes ouverê dado. Mãdãdo a/simais 4 nos lugares
vifinhos áraya,(e tomem ho/pitaes,donde fetrate da cura, é
regallo dos enfermos,& á tambéfe po/a fazer nos 4fe forê
/geitando,em 4 naõ ficargente Portugueza. E pelo q toca
aos Clergºs,& pe/oas Relgiofas, 4 ouverem tido culpa nos
alvoratos 4 houve,tenho mandado / enviem ao Confelho de
$adajó fº/e ponhaõemparte decête, cõ fegurança para 4
fenomes Iuliáconheça defuas caafas,vos quitº farºfº,
para
|-

112 ALTERAçoENS DE Evor.A


para que º tinhais entendido,ºnºfia conformidade, acudais
a tudo o que vos tocar. E da forma em que tenho concedido o
perdi㺠daque/ebade terem/ua publicação,e execuçãº,
fevos avifa à brevemête. Advertirieis, para 4 afife po/a
entender,4 tenho mandando,que efiando juntas as tropas,é
havendo/epublicado o perdaõ fºguiem tãtalor dê,4 aos luga
res, que f hºuverem reduzido antes defe publicaryião/elhes
faça mol,/tia/en㺠que taõ fémentefe aljenelles,a gente que
fornec/ario; prºcedêdo cãroda ajufificação,& de maneira
que experimentem o beneficio 4 recebemos reduzidos.E que
fe aloje agºntenos levantados/gundo a capacidade de cada
bum,fem entrar,nem chegar,aos que fempre haõ efiado obe
dientes pará minha vontadehe,relevallos defla carga,& que
/ómête (e corre/ponda com as Iufigas para que os affiaõnº
inexcufivel,tendo conta do que recebem,para quefe reflitua
a cufla dos culpados. -

Não eraõ sò as armas Caftelhanas,aquellas que fe


convocáraõ,& preveniraó côtra o Reyno, mas das
proprias fuas,as mais nobres,& mais religiofas fe a- }
baláraõ;como fe a puniçaõ de Portugal, foffe húa
empreza fanta. Affi o prova a copia de outra provi
faó da Mefa da Conciencia,que dirigida acerto Mi
nitro de Juftiça,aquem fe encomendava a execu
çaõ dete Decreto,dizia.
Dom Felipe,&c.Comogovernador,8 perpetuo adminif.
tradir que fou dos Mefirados de Cavalarias;& Ordens de
nº/ Senhor lesy Chr/lº,Sã tiago da Efiada,8 S Beto de
Avis. Façº/aber anó N.4 para em cafo 4/e cheguã acaf
tígaros Povos de/obedientes(fe antes fenão reduziê meyos
• •
pelos
-

… EPANAPHoRA PolIr IcA I. 113


mejos de que tenho mãdado que feufe)heire/oluto %fe avife
a todos Comendadores,& Cavalleiros das ditas Ordês,mo
radores,ºu a/si/tentes ne/a Comarca,que eftej㺠prontos para
quão'ofe lhes derrecado. Nefta conformidade vos encomêdo,
é encarrego muito,& mandº,4 logo que efia receberdes, &
com a mayordiligencia,$forpo/sivel,avyeis na forma referi
da a todos os ditos Comendadores,& Cavalleiros de/a Co
marca,ainda 4 feia em lugares de Donatorios, é me deis
cóta de afio terdesfeito,çõ relaçaõ dos Comendadores, é
Cavaleiros,a q o tal avifo fefez,dirigindo a repº/la a meu
Tribunal da Mefa da Cóciêcia, & Ordês,a mãos do Eferi
vão da Camara,á efia/ob/creva E afi foi obedecido.
Supoftos eftes avifos, & negoceaçoês, que fecre
tos corriaõ aprefiadamente, aos proprios fins, que
ejles manifeftão,chegou o dia da partida do Conde
de Linhares,tomando da boca delRey, & do Vali
do,as inftrucçoens por donde devia proceder; porá.
as efcritas eraó(como jà diffe) de dificultofas, im
pofiveis.Não deixava de fe entéder em a Corte, nos
ultimos dias da defpedida do Linhares, o termo dos
negocios de Evora,cujo progrefo, antes fe julgava
impedido, que ajudado, com a nova introduçaõ do
Conde.Mas a facção contraria, por todas as vias tra
tava de ocultar efte temor, a fim de q fenaõ mallo
grafe a fabrica de aquella jornada,fobre q tátos de
figniosfe levátavaó por mais q o Linhares fofpeito
fo,ou advertido,naõ receou de defcobrir ao Conde
Duque,todas as artes q o Secretario havia preparado
em feudano,& em cófequécia,da caufa publica.Fº f3 O
1 14 ALTERAçoENS DE Evor. A
rão grandes nefte ultimo ponto, as inftãcias, deparº
te,a parte,não menores as detrezas, & politicas, cõ
que contendião os dous opofios;mas como o Soares
tinha em feu focorro a fortuna, q o hia levantando,
&a do Linhares já refvalava ao precipicio, foi facil |
de vencer,porque os golpes do vitoriofo, todos fe
empregaó a tempo: queifo he fer vitoriofo. Final
mente fahio de Madrid;deixando, & trazendo,va
rios penfamétos,fobre fua aufencia,& fua conferva
ção,da qual em breve, fe começaraó aver os con
trarios efeitos,que difiniraõ ambas: porque chega |
do a Merida,o Linhares.com os mais que o feguiaõ,
o alcançou húa ordem do Conde Duque, que dava
calor,& autoridade, a outra do Protonatorio Jero
nimo de Villa-nova,Miniftro notavel defes tépos :
conhecido ainda mais, que pella voz de fuas valia,
pelo pregaõ de fua injuria. Avifava ao Códe:Que as
pe/oas,de D. Alvaro de Mello,& Antonio da Silveira,fi-
<e/e logo tornar 4 Corte,perfer afi cóveniête aoferviço del.
Tey Que elle Códe,& eu fómête,profegui/emos ajornada,na
forma,em 4/elhe avia cometido.Os primeiros á ignora
vaõ o mifterio deta ordé, foraó os dous chamados,
Mello,& Silveira; poré entre os mais advertidos das
coufas prefentes, logo foi notorio: Que ao Linhares
hião privando de todos os meyos da obra,que lhe encarrega
}ão:para que tropeçando nella,acrecenta/e novºs motivos a
fua calunia,ºu aju/tifica/ecõadverfos acõrecimêtos.Volta
dos a Madrid Dom Alvaro de Mello, & Antonio
da Silveira; o Conde entrou em Elvas primeiro
lugar
EPANAPHeRA Pol Irica I." 1 15
lugardos nofos,& firmiífimo fempre,em meyo das
perturbaçoens da Provincia,para cuja gratificaçaõ,
lhe declarou o Linhares(fegundo a ordem que le
vava)a mercé de a haver elRey feito, do primeiro
Banco aquella Cidade.lfo he darlhe voz,& affento
em Cortes,em lugar mais propinquo á pefoa Real,
na propria linha, donde fe coloca Lisboa, Evora,
Porto,Coimbra,Santarem:callidade para feus Mi
nitros,melhor que para ella,pella ventagem, que a
efe refpeito lhe guardaõ em feus melhoramentos.
Então a Cidade,com publica procifaõ, fez a Deos
acçaõ de graças,pella confervar quieta; & a elRey
+

em feu Miniftro,fe motrou obrigada, & fatisfeita.


0 Defejava o Linhares ver a Cafa de Bragança, por a
feiçaõ,ou conveniencia, mas parecia, que as vitas
envolvião grande dificuldade; porque aquelle real
Eftado,& Cafa, confervandofe fempre em fua pri
meira,& continua grandeza,ou jà movido da fecre
ta efperança do Cetro, núca fe dobrou aos ufos pra
ticos,que com nome de cortefia, introduzio a cere
monia,& póde fer, que a ambiçaõ,fazendo no exte
rior iguaes os mefmos, q defigalou a natureza: cuja
obfervácia,taó religiofaméte foi profeguida na Ca
fa de Bragãça,á né a troco de efcufar grádes incóve
niétes,qdetainteireza fefeguiraó(como largaméte
referimos no nofo Theodofio)fe apartáraõ jámais
hú ponto,os Principes della,de guardaré, & fe faze
remguardar,fuas altas perminencias.
O ajutamétodetenegocio,foi o primeiro oficio
- H > r CTR
-

1 16 ALTERAçoENS DE EvoRA
em que feme deu a exercitar, parte de minha comif
faó;paflando a Villa-viçofa,& propõdo as côveniê
cias de aquelle Congrefo, tam importante ao bem
dos Povos, que nelle fe havia de ajutar fuperior
mente(nôs affi o entendiamos)o modo da univer
fal concordia. Foi qual fe efperava, o efeito da jor
nada,& qual devia fer: porque refplandecendo al
li húa fingular benignidade, naõ era menor a parte
do decoro, & da politica, com que as vitas fe exe
cutâraó; em tal modo, que a autoridade ficou real
çada,honrado o hofpede,& o acordo feito. Enten
di,ã entaõ fe difcorréra: ZDa callidade, & jufificação da
queixa comum dos Povos,& de quanto delles,& nelles/epo
dia temer,é confiar. Qualera bem,que fo/e o remedio. O
mais, generalidades, & noticias de alguns pontos,
tocantes à boa adminiftraçaõ da Republica Portu
gueza; que em quanto não teve os Principes de Bra
gança,por páys, os teve por tutores: donde Deos,
parece,que moftrava, quanto em feu cuidado fecõ
fervou a pofe do nofo Imperio.Pedio o Linhares a
autoridade de Bragança,para poder obrar, & alcan
çou Que a tudo o q convie/e/ua interveção, não faltaria;nê
os Povos,nê os Va/Sallos de aquelle Efiado,farião menos, ou
menores demo/traçoens de arrependimentº, das que fiRefem
os Va/fallos,ês Povos de elRey. •

Eraõ pontualmente os de Evora avifados, dos


intentos, & dos pafos do Conde de Linhares; &
vendo o já caminhar para fua Cidade, procuraraõ
com grande arteficio,encubrir de tal maneira,exte
- fIOf…
-
EPANAPHoRA PoLirica I. 117
riormente fua alteraçaõ, que nem finaes aparecef.
fem dos efeitos della. Entrou em fim o Conde, &
foi recebido, com moderado aplaufo dos grandes;
porém os pequenos, não fouberaõ difimular a ef.
tranheza, ainda que reprimiraõ a ira, fupoto que
fua acção,ou eftava aprendida,ou efiudada;mas co
mo a gente Popular,hea que menos fabe fingir, de
toda a Republica,fuas obras fe difpoem melhor ao
atrevimento,que à cautela.Tratáraóno, em fim, co
mo homem que temião,& os Congregados da Junta
de Santo Antão,o vifitàraó com moftras de grande
confiançº,dandolhes parte das refoluçoens prefen
tes.Sò o Arcebipo de Evora,por refpeitos de anti
gas caufas,não cócorreo à urbanidade da vificaçaõ;
nem o Conde Dom Diogo de Catro, aquem feus
annos,& mais fua aufteridade, tinhaõ apartado, até
do trato dos filhos.Com tudo, felhe mandou ofere
cer,para o que convieffe obrar no ferviço do Prin
cipe Difefe:Que Zom Ziogº,alheyo do modo da vinda do
Linhares(que com elle os mais de Evora, naõ havião per
cebido)/entira interiormête ajornada do Conde. Porque em
verdade,elle havia acodido, como Varaó confian
re, & virtuofo, a todos os accidentes de fua Repu
blica; de tal forte,que,fuas acçoés a naõ podiaõ me
lhorar as alheyas, •

Mas,como na pratica de todos, fe defe já o ne


gocio por ajutado,em virtude da oferta, que refe
rimos,do Arcebifpo,Cabido, & Camara, & do per
dão, que a Junta já havia tido: então começou º
H3 Linha
118 ALTERAçoENS DE Evor.A
Linhares aintroduzir afegunda,& peor parte de fua
eomiflaõ. -

Era o Conde Duque,de natural, vaógloriofo, &


procurava obrar, por modos extravagantes: que fe
no meneyo particular,faõ aborreciveis,faõ pefimos
no governo publico. Os livros politicos, & hiftori
cos q profefara,lhe haviaô deixado algúas maximas
improporcionadas ao humor de nofos tempos; dó
de procedia intentar algüas vezes,coufas afperas,fem
outra conveniencia,que a imitaçaõ das antigas co
mofe os mefimos Tacitos,Senecas,Paterculos, Plini
os,Livios,Polibios,& Procopios, que as aconfelhà
rão,& efcrevèraõ,fendo hoje viventes,não mudáraó
a opiniaõ,âvifa da diferença que fazem os annos,
os interefles,& os cofumes dos homens. Efta foi a
caufa,de q a grandes Varoés já pareceo,ã os muitos
fabios,não fervião para a adminitraçaõ da Republi
ca,contra a antiga opiniaó de Plato, donde fentio:
Que então feria ela bem gºvernada quando os Reys filo/off
fem,ou reina/em os filofºfos. Dizem:Que de ordinario os
bomens de fuperiorjuiz),querem dar ao Regimento popular
aq ela perfeição,que elles alcanção, mas não cabe nelle; 8
de ahi vem,que corrompido ovulgº pelli ºpre/aõ de varias,
é grandes difciplinas,então/e defenfea,ê precipita ama
yores abufos;como fucede ao potro indomito,fe a hum mefino
tempo for obrigado álºydºfrey),ºs efiimulo das e/paras.Que
pela prºpria cauffe julgaúos homê quietos, bê inclinados,
& dejuízº mais cófiante,4 agudo,fãos idoneos para o Ma
gjirado,é mando comñ;porá efies e/taõ mais aptos a#
- fºgum
EPANAPHoRA PoLIr1cA I. 1 19
fegundo as difiofiçõês prefentes,femq/e atem intemperada
mête aos antigºs exemplos, & maximas de efiado dos Auto
res,cuja virtude,4s vezes confife primeiro na armonia, % na
verdade da fêterça,veftida de palavras,antes fermofas,que
uteis como fe o mundo, tambem animal vivente,naõ muda/e
(/gundo os outros)com a idade, os co/iumes, & anatureza.
De aquella vaidade perfuadido,defejava o Con
de Duque,& o havia já revelado a aquelles cõ qué
tratou,em todo ou parte,ete negocio Que aficomo as
naçõês efirãqeiras,livres,ou obedientes, havião ouvido, e vi/-
toos movimentos,& inobediêcias de aquelles Povos de Por
ugal,v/em,& ouvi/em tâbem feu arrependimento,é peni
tencia, a 4 prometia comutarlhes o caftigo. A efte fim orde
nava:Que de cada lugar inquieto, fo/è aparecer na Corte
Ca/telhana,os dous Magi/trados Populares,luis,e Procura
dor. Os quaes todos juntos,vefiidos,de/aco, & cõ cordas ar
refrãdo,entra/5 em publica audiêcia,a pedir perdaõ por/e-
*Povos.Quiça querédo fazer verdadeira,aquella du
vidofa tradição da jornada,que o antigo Egas Mo
nis,dizê fez à Corte,de elRey D. Afófo,por fatisfa
ção do pacto mal guardado,ã cõ elle fizera fobre a
Villa de Guimaraés, no primitivo Reynado de D.
Afõfo Hériques. Pafavafe adiáte;& fe avia difpof
torá elRey affiido de Principes,Embaxadores,e Grãdes,
em Auto de fingular Magºflade, cõcilia/e afi aqueles
'Povos,é imitação do Senado Romano,ês/eus Emperadores,
quão afemalhãtes mê/agês ouviaõ,e re/põdiaõ publicamê
tepara q deflamaneira fo/e igual,obrido do arrepèdimêtº,
"grito da foleyaçaõ,4já/ee/lêdia * Europa,çõgloria
4.
dos
inmit
1 zo ALTERAçoENS DE EvoRA - • -

inimigos de E/panha, é pequeno alvoreçº das outras Prº


vincias, que lhe eraã/ugeitas.Ete dizia fer feu di&ame,
o Valido,etudado,& difpoto com larga meditaçaõ;
o qual não encontrava as prohibiçoens, com que el
Rey lhe podia acabar de cóceder o perdaõ, que ha
via mais infinuado,que prometido. +

Porèm aquelles que do fecreto tinhaõ parte,te


mião com razaó:Querecolhidos hilavez na Corte,os En
viados Populares,a refolução fo/je muito diverfa, e que a
elles,em nome defeus naturaes,fe lhes fize/e a caufa,por Ia
izes,é leys de Cafella. Acrecentavaõ a efte temora
quelloutro,de ver a Portugal, quafi cingido de ar
mas: Zonde,qual/eria o poder(dizião etes)pue fize/e
comedir,ou guardar a e/perãça da palavra,que ainda não ti
nha dado contra a vingança, aquella maçaõ poderofa, ofendi
da,ê dominante? Acrecentavaõ:Que bem/evia, eraãow
tros os itentos do Rey, & Klido,porque efiando,como efia:
»ão os Povos já conformes,fegundo/e lhes pedia, os exerci
tos/enão desfizeraã, antes/aflentados com grandes gafios,
(que já pedião ao Reyno)/ecó/ervavaõ,como para algüagrã
de empreza. Trazião logo á memoria o exemplo de
Dom Alonfo de Vargas,em C, aragoça,& de proxi
mo,o do Duque de Ciudad Real,cõ os Bifcainhos.
De todos eftes difcurfos,fe vinha a concluir, hú ur
gente receyo nos culpados, & nos inocentes, hú1
duvida afaz confufā; com que ninguem fe afirmava,
cm o que devia aconfelhar, aquem mais fe fiava
º delle. •

O Linhares,como foffe pefoa degrande adivi


dade,
EPANAPHoRA PoLiricA I. 1 21
dade,em fuas acçoens, poucas vezes, naquelas que
emprendia, dava lugar ao arrependimento; donde
havendo propofto, & perfuadido aos Populares a
vontade delRey(que elle oufado, & confiadifimo
afegurava)não podia confentir, que em tão juta
# Confelho:fofrendo ainda me
nos,que duvidafem da fua,& da real palavra,aquel
les que havião de minifrar effe Confelho. Afirmo
me,que por varias vezes lhe vi oferecer a vida,&li
berdade,nas mãos do Povo,em refens da vida, & li
berdade,de Sefinando Rodrigues,& João Barradas,
qeraõ os dous pedidos a Evora. Muitos diferaó en
tão:Que o Conde,com grande deflreza, quanto mais via fe
esforçava a duvida, é o temor dos Populares, fazia mayor
inflancia em fe prometer por elles; para que afsificafle cali
ficando melhor/ua diligencia,fem que por ella,a palavra, ou
pe/da,corre/em algum rifco:Vendo cada hum mais certo, que
/*
aprºpria eficacia,com que o Linhares os perfiladia a aquella
{* *
Viagem, era bianova recomendaçaõ, para que a naõ profe
gui/em.
Todavia,como os rogos,& razoens dos podero
fos participem tanto do refpeito,ou virtude de feus
autores,o Sefinando,& o Barradas, obedecendo á
autoridade, mais que ás razoens do Conde, conce
déraõ na jornada:dando palavra,que irião em com
panhia dos outros chamados,à prefença delRey,de
baixo da real fè,äfe lhes oferecia. Defe prometi
mento,fe deu logo avifo a Villa-viçofa, porque fe
esperava,que em os lugares do Eftado de Bragança,
- que
122 ALTERAçoENS DE EvoRA"
que foraõ participantes da opiniaõ de Evora,fedef.
fea mefma ordem parafe profeguir o proprio acor
do que os de Evora havião tomado. Aos outros lu.
gares reaes,fe mandaraó cartas com recomendação
particular às Juftiças,& aos Nobres delles; para que
por fua intervençaõ,& a exemplo de Evora, & Vil
la-viçofa,fe animaílem a mandar feus Procuradores,
os quaes todos fe vief em a aquella Cidade;donde o
Conde de Linhares havia de ficar até fua tornada,
Entaõ me declarou a mi,como elRey ordenava: Fo/
fº eu quem conduzije à Corte,& de/pois reduxe/e à Patria
todos os Magifirados Populares, que fº/em apedir oper
daõ;ponto de que até então, (e me havia dado algúa
IlOC1C12, - }

Em quanto com os mais felitigava, fobre eta


materia, tiveraõ os de Evora lugar de ferem adver
tidos(ou foffe,que por fimefmo feintimidaffem,vé
dofe já taõ proximos a hú fim taõ incerto.)Retolu
tos em desfazerem fua promefa,vierão ao Linhares,
& lhe diferaõ:Que o Povo lhes impedia,cumprijem apa
lavra,que tinhaõ dado,cuja ficava/endo a injuria, ou queixa
defua quebra,mas que elles em/ua propria inconfideraçaõ,
havião mº/trado o defejo,que tinhaõ de obedecerlhe, porque
era vi/lº,que em quanto corria por/ua conta,a vez de aquel.
le Povo,elles naõpodiaõ prometer algüa cou/a,/em/eu comñ
confentimento; pois a natureza mº/tra, que quando a voz
articula a ca/0,algiapalavra/em com/ulta do interior,ellahe
º van, é infruéifera. Foi bem notavel efte accidente
pella revoluçaõ,que fubitamente caufou em obras,
& pala
EPANAPHoRA PoLIr1cA I. 123
& palavras,trocandofetudo com taõ repentino mo
vimento,que nunca da incontancia popular, tocou
mais claro exemplo a efperiencia. Tinhafe por cer
to em Evora,á a jornada dos Procuradores, fempre
fora pouco aceita aos Nobres,fendo 4 entre hús, &
outros corria,aquella comú defafeiçaõ,em q fe con
ferváo eftes dous eftados:donde pareceo q fefe def
amavão publicamente,de fecreto (e entédião algúas
das pefoas delles;as quaes,quantos mayores foflèm,
temeriaõ com mayor razão,não tanto o perigo dos
Enviados,como o feu proprio;fendo certo, q os ho
mês,atroco de efcaparé da mão da morte, entregaõ
|
nella o fangue,& a verdade, impondo a outros feus
delitos, ou defculpandoos cõ a culpa alhea,& às ve
zes á cuta da inocécia:o á de ordinario acõtece en
tre aquelles, que porque podem viver fem honra,
compräo a vida por preço da reputação; & ainda da
conciécia;a
do fe ganha qual rarasmeyos.
por eftes vezes deixa de perdefe, quã

O Linhares,q quafi fempre côfervou entre o va


lora intemperança,védo a refolução do Povo, & 4
por nenhúas outras promefas fe encaminhava ao
cópriméto de fua palavra,& entendêdo igualmÉte,
q faltando a dos Populares de Evora,todo o tratado
cõ os outros Povos ficava incapaz de fer obfervado;
foltou contra os prefentes,feas palavras, & ameaços
terriveis;fazêdo cargo de fua oufadia,á fobeja répe
rãça(q elle então chamava, indigno temor)cõ q a
Junta & Nobreza de Evora,havia contemporizado
, (CO{I}
124 ALTERAçoENS DE Evor.A
com as infolencias de hum Povo folevado, & defo- -
bediente. Achavã6fe prefentes, algús dos Congre
gados da Junta,ã com fimulaçaõ, mas efcãdalo, ou…
viaõ defenvolver entre as culpas dos reprendidos,
fua reprençaõ propria;coufa que pudera cutar grã
des inconvenientes. Mandou entaõ fair os Popula
res,notificandolhes: Que ou/e aparelha/em d jornada,
ou ao cafligo.Que le acon/elha/em do que deviãof Ser, ad
vertindo,que para fºr crime capital, bafavareffti häPaf
falo ao chamado de feu Rey. Entaõ avifado, de que por
meyo,ou parecer, dos Padres da Companhia,fego
vernavaõ as deliberaçoens de aquella Cidade, me
cometeo, lhes fofe fazer lembrança; Zoefiado de a
quele negocio,& dos fins delespedindolles encaminha/#aos
?opulares,áexecução do prometido,fem que fede/e lugar a
revolver/e outra veR,º má, humor do vulgo,cõ4 a/aude de
todos/eperturba/e de novo. Dei cópriméto ao q (e me .
encarregara, & praticando donde fui mandado, as
materias prefentes, fobre achar todos aquelles fu
geitos, conformes no defejo da quietaçaõ, vi que
difcordavão muito, em entenderem, que ella fecó
feguiria por aquelles meyos, a cuja introdução fer
viamos de intrumento.
Defde efte ponto, fehia conhecendo no Povo,
outro mayor defcontentamenro, referido á violen
cia,que o Linhares propuzera, & profeguia, contra
a vótade dos Magiftrados.Jà de noite fe tornavão a
cógregar as cópanhias do vulgo,& jà de dia,oufavão
dizer em publico:Qge/e o Linhares não de/pejº/e a G
dade
EPANAPHoRA PoLITIcA I. 125
dade,o lançarião della.Alguns q melhorfe encaminha
vão à razão,clamavão:Que era cou/a indigna para os na
turaes,q efiando elles conformes, & quietos, pela interven
ção,ê diligencia da Iunta dos patricios,fe houve/e de admi
tirpratica de outro Minfiro,quefefirº/e/enhor do perdaõ,
ºu da concordiatou tambem/epreva/e do cafºgº, quando em
algum defes tres fins,que e/peravaõ,vie/e a parar o movi
mênto. Quem mais dava a temer(porque tambem
mais temia as negoceaçoens do Povo(era feu novo
Corregedor Jeronimo Ribeiro,que com avifos,por
efcrito,& de palavra, não ceffava de manifeftar ao
k Conde feu perigo. Haviafe vito gente armada al
güas noites,junto à cafa do Linhares, que a Juftiça
com grande cuidado, & detreza defviára;& naquel
la noite,que nós dizemos de Anno bom,quando co
meçava o de 1638. a fim defe lhe cantarem certas
Bençoens,& Rogativºs(cotume de nofos anciãos,
que com nome de Janeiras, entoavão placidamen
te Ppellas p
portas dos mais caros amigos)fe
9 cógregou
greg
grande numero de Povo; o qual com animo refolu
.to,era movido a defoprimir(como eles querião)a
Cidade de feus contrarios, não vendo que com fua
inquietaçaõ,a oprimiaõ de novo. A cafa fe poz em
arma,fendo defefperada a defenfa; & com reparti
das centinellas,& rondas,fe pafou a noite: de q dou
fè,pella parte que metocou do trabalho,& rece yo?
Amanheceo,&fomos livres: podiafer que o Povo,
mais confiderado do que cofluma, não quizeite em
Pregar o golpe da ira, doade sôbafava para diaffe
reme
126 ALTERAçoENS DE EvoRA
dirarfe o aceno da indinaçaõ.
O Conde que jà conhecia, como a Nobres, & |
Plebeyos,quafi eraõ iguaes huns interefles,& queso
difiriaõ no modo de folicitallos, obrando eftes com
artificio,aquelles com violencia:logo q o alcançou
propoz de deixar Evora,& feus negocios, retirãdo
fe a Lisboa;temerofo tambem, de que os emulos
lhe prefilhaftem qualquer danofa novidade, que fu
cedefe: julgando fua demôra de grande inconve
niente, afi em feu etado, como no publico. Defia
maneira refoluto, efcreveo a elRey, & ao Valido
com fingular moderaçaõ,& não pouca detreza: ER
eufando/e de fºr autor de qualquer noticia porque defois fé |
lhe não pedi/e conta,do 4 difera,ou deixàra de dizer.Co
mo a mi(annos defpois)me foi pedida; & com pri º
faõ,deterros. & trabalhos, cafligado o filencio que
guardei,fendo voltado à Corteja donde o Linhares
me defpachou,remetendo tudo, por meu mal, à in
formaçaõ q eu dêfe a elRey,& Conde Duque. Efta
fua refoluçaõ,tomada de húa ora,a outra,& na mef.
ma confeguida,aprovou com grande aplaufo o Po
vo,& Nobreza;fobre que em muitos dos mayores,
caufou novo temor,perfuadidos de que o Linhares
feefcufaria com elles, do pouco que havia obrado;
cõ que entre elRey, & Valido,ou podiaõ nacer,ou
confirmarfe fofpeitas cutofas,contra feus procedi
mentos. Com tal penfamento, houve algum, que
particularmente me encarregafe fua jutificaçaõ,
em que obrei tanto,que em vez de o obrigar ,o fiz
ingra
EPANAPHoRA Polir IcA I. 127
ingrato. Por fer, como diz Tacito, cotume dos
Principes, & Grandes, aborrecer os ferviços, ou .
boas obras,ã lhes faõ feitas, defpois que requerem
algúa notavel fatisfaçaõ. Em tal eftado ficàrão as
coufas de Evora, quando o Linhares as deixou pa
n fempre:porque como ó intento,de quem nellas o
introduzira,não era de que elle as compuzeffe, mas
de que fedefcompuzeffe nellas;logo que viraõ feus
intétos executados,& elle aufente,& defcompofto;
não havia para que lhe dar nova ocafiaõ,a novo me
tecimento. •

Fiz caminho à Corre, pela de Villa-viçofa, co


mome era ordenado; donde informei do mefmo,
que já allife entendia,& recebendo tambem novas
ordens, & cartas, entrei brevemente em Badajôs,
donde já o Duque de Bejar,& Dom Diogo de Car
denas, efperavão o avifo que trazia, para que fegü
do as noticias,que de mi alcançafem, fe dirigifem.
i Mas eu logo lhes fiz certo,que a negoceaçaõ,a que
havia fido encaminhado, era muito diverfa, da que
lhes podiacompetir:& como para feu manejo, não
levava ordem,nê coufa para algú moviméto. Orde
níraóme,com tudo,vife o exercito;só em nomes,&
tabos copiofoto mais,pouca géte bifonha, e violêta
da. A ribãdo porém a Madrid, em poucos dia, che
guei à prefença do Valido, q cõ affaz deftreza, pro
curava animarme a informallo,fem algú receyo Fo
fio futis, & intrincadas as preguntas. O Conde ti
"ha alto engenho, & eloquencia pedia sacata5
• tudº a
* 1 28 ALTERAçoENS DE Evor.A
ocafiaõ todas encaminhadas á obfervaçaõ do animo
dos Grandes do Reyno, & agora com refpeitos da
autoridade,agora com força de argumentos, algúa
vez com promefas,& algúa com feveras demoftra F

çoens, armou laços a minhas palavras: referi o fu


cefo,defpido de todo o difcurfo,por naõ fazer ofé.
fa,com minha ignorancia,ou malicia,a algúa verda
de Porêm, quanto o Conde Duque,via em mi ma
yor cautela(que eu fempre lancei à parte da infufi.
ciencia)com mayor eficacia me inquiria; como a
eontece ao Confeflor fabio, quando o penitente he
ignorante.Não ficou fugeito em Portugal,de aquel
- les que podiaõ ter parte na direcçaé publica, fobre
quem me naõ fizefe particular exame, mas donde
mais fe lhe conhecia defejo,de inveftigar fuas acço
ens,era quanto à Cafà de Bragança, ao Marques de
Ferreira,& Conde de Vimiofo. Do primeiro falava
fempre com cautelofa veneraçaõ, & dos dous com
palavras,quebé motravaó as ruins fofpeitofas, que
havia no animo donde fahião. Da repota que então
lhe dei,me formou(como já dife)culpa, tres annos
defpois.taõ fiel depofito era feu peito, das impor
tantes palavras!Sejamelicito efte breve defvio,po
is me toca de taõ perto. /*

Fui o primeiro Portuguez, que em Catella pa


deceo pela fê do Reyno;e vindo prefo à Corte def
de Catalunha(em cujo exercito me achava fervin
do, não inutilmente);á defpois de calificado meu
ºcediméto, por ocultas diligencias,& quatro me
• fes
EPANAPHoRA PoLIr IcA I. 129
º fes de prifaõ aípera,fui folto,& reduzido á prefença
do Códe Duque;o qual vendome, fe anticipou a fa:
larmeefas proprias palavras. Ea Cavalero, elloha fido
merro,pero error cã caufa. Biè/e acordarà lo q me dixo em
el Prado;pues para q pudofer bueno, acreditar tãto aciones
útingêtes? Nofevèquales/e nos bolwierã/a Ny fu NJ fa
. N.A aufteridade hiftorica,bé perdoarà decer a cou
fastaõ particulares.Como vemos ferlicito, aos que
navegaõ por largas viagés,quando chegaó à Patria
gozar fem reprençaõ em fuas cafas do ocio, ou def
caofo, que feu trabalho lhe faz jufio:da me{ma forte,
hedecente,aos Autores,poderé (em aggravo da nar
raçaõ, fazer memoria de fuas coufas particulares,
a quando com ellas encontraõ cm feu proprio afun
to.Agora atando o fio da hiftoria. Profeguia o Con
de Duque fuas interrogaçoés,e quãdo chegou a pre
gütar a caufa da efcufa dos Porcuradores Populares,
contra todo o artificio,moftrou grande indignação;
e como aquelle que fe havia empenhado fobejamen
# te em prometer, ou defejar fua vinda.Logo como a
natureza faz, q figuaõ as palavras, o pafio dos pen
famétos,afi como em feu animo hia paflando da ira,
{}
ao propofito da vingança, afi paflou a preguntar
Pelas forças,& difpofiçaõ,com que fe achava o ex
.
tícito da Etremadura. Informeyo, fcgundo o que
entia:dizendolhe:Que o exercito era pequeno; mas pa
aa moderaçaõ,& defcuido, em qos Portugueses/e achavaõ
muito inferiores forças,feridãexce/#ivas. Entaó receben
#
do de mi as cartas, que levava, & prometendome
-

| os
13o A LTERAçoENS DE Evo RA
os intereffes de meu aumento, fui defpedido de fua
preféça,& da intervéçaõ,q tive em todo ete nego.
cio,fendo o q manifeto;em o qual,fuppoto que atè
feu fim não tornei a fer ocupado,nem por efe defvio
me efcuzei a fua obfervaçaõ: tanto pelo julgar im
portantifimo á Naçaõ Portugueza, quanto porá ti |
nha eu nelle,mais que a parte comú, os pafos, peri
gos,& difpendios,que já me havia cultado. |
|
Recebido em Madrid efte ultimo defengano, fe
depuzeraõ de todo aquelas negoceaçoés, q não fof
fé encaminhadas a rigurofo caftigo. A efte fim,fedef.
pacharaó ordens,para q os exercitos femoveffé, de
tal maneira,que de todo fe motrafe aos Inquietos, |
quaõ vizinha, & inexcufavel tinhaõ jà fua ruina. E º
porquete tempo, os Populares achãdofe interior
méte Reos,da inteireza, cõ que fe haviaõ efcufado {

de aparecer diáte delRey,refolveraõ de efperar, qual


foffe a demoftraçaõ dete fentimento: o proprio fi
lencio, ou temor,que os detinha, julgavaô os Minif.
tros Cutelhanos,a intervallo da preparaçaõ, que os
Portuguetes fariaõ para fua defenfa.
. Por eta caufa, foy mandado de Madrid a Evo.
ra, Dom M guel de Salamanca, pratico na lingoa
Framenga, & de prefença femelhante. Havia ocu
pado em Frandes o Poto de Veador géial, donde
pafou ao de Secretario de Etado do Infáte Regéte
D.Fernádo.Tinha juizo,& induftria para qualquer
negocio, & das materias da guerra, foficiente co
nhecimento. O trajo de peregrinº, difimulava com
|- a lin

EPANAPHoRA Pol.IT IcA I. I31


a lingoa,& fébráte,o animo,& comifaó. Entrou por
Galiza em Portugal,cujas Províncias difcorreo atê
tadifimaméte;pafou a Evora,de ali a Villa-viçofa,
& por Elvas,havédo vito,& notado a força, & dif
po{içaõ da Provincia de Alétejo,entrou em Caftel
la: dando parte de fua obtervaçaõ ao Duque de Be
jar;q defpois,ao mefmo fim,mãdou por algús Capi
és praticos, cófirmar as noticias, 4 de Dom Miguel
havia recebido.Sirva de avifo aos Principes, & Na
çoés,que no tempo da ocurrencia das armas, evitem
todo o concurfo de eftrangeiros; particularméte, os
qcom pretextos da piedade,pretendem atraveflar fu
as Provincias: porque outro afecto os naõ move, fe
não a cautela,& artificio dos emulos.
Litigava,todavia, Diogo Soares, contra os pro
grefos de feuinimigo;& parecédolhe para efte efei
to,lançar maõ do pouco que havia obrado em Evo
ra, começou a culpar as acçoens do Linhares, por
lhe fazer novo cargo, & moftrar ao Conde Duque:
Quaõ perto efth era de tornar a revolver/e o Reyno, por
meyº defua arrogancia. Affi aliviava os culpados,para
carregar aos inocentes:cujas fimulaçcens, de algum
modo,foraó uteis à moderaçaõ; porã com o fe pafla
vaõ ao Linhares,por meyo de aquelle influm éto, as
culpas dos Procuradores, ficavaó elles, & a Cidade
não tão gravados,do novo efcandalo, 4 de fua efcufa
recebera o Valido, aquem fe perfuadia, que a falta
dos Povos confiftira, não em fua vontade, mas no
temor,que o Linhares lhes infurdira.Defa "…:
• I 2. C
132 Abr ERAçoENS DE EvoRA
fe pafava a outra mayor,motrando,como de longe:
0ge ao me/mº Căde era agradável a alteraçaõ para cujo pro.
gre/o/e entendia encaminhar/e aº/pecialidade, com que fºli
citara a pratica,ögraça da Cafa de Bragança.
Eraó eftas materias o afunto, que mais ocupava
os Tribunaes,Juntas,& Miniftros Caftelhanos, dó:
de os que as duvidavaó,convinhão na cautela, com
que devião evitarfe [eus efeitos.Os que mais credi
to davão às fofpeitas(& etes os mais)acudião com
prontos,& violentos meyos de caftigo, fendo de pa
recer:Que/e a fim de ruim confequencia,para outros Va/al
los,fe contemporizava com os Portuguezes, o me/mo vinha a
fºr perdellas todos pela omi/aõ,que pelo atrevimento; fenaõ
que a omi/iõera mayor culpa,pois carregava/obre os Mini/- ^

tros,8 menor o atrevimento, que só/e achava na peor parte Aà

do Povo. O Confelho de Eftado de Efpanha, ainda


que não tão florente, como nos tempos pafados, fe
achava todavia rico de fugeitos de grande pruden
cia, aquem parecia: Que o açonte/oministrado aos In:
quietos,fe devia reger com grande temperança, clhandofe º
efiado do Imperiodilataçaõ;º contrafies de E/panha. Que
por nenhum mºdo fo/> tal,que estimulados de la/tima,ou mê
do,ºs Va/allos,que em Portugal/e achavaõ firmes(mais,8
melhores)quizº/em obrar de maneira, que recebêdo todos o
gºlpe/hi/e mais pequeno a cada hum:porque muitas vezes
feede, pue a porfia,ou exce/O da emenda, efiraga pela de
fº/peraçã5 de muitos,muito mais, que com a pena de poucos
remede 1.Que a revolaçãº/enão deixa/e, nem á ira,nº ao ef>
quecipião, lites ícõygirº/a,3 apre/ida definexº/efe/
* • 62

I
E PANAPHoRA Poltr1cA I. 133
fºcauterkando aquelle erpe interior,que lavra) apellocorpo
da nação Portuguesa,primeiro que chega/e ao coraçõ,e fé
fiReje mortal,decepandoo da união da Monarquia.Que o re
medio;continha duaspartes:a prefente de cafgº,que/eba.
via de executar logo, & afutura de prevençaõ que tambem
defde logo,fe avia de ir introduzindo. Mas que medidas am
bas,não eraõ de tãia importancia a primeira,como afegãqa.
Haviafe ordenado pelo Confelho de Portugal,
á Princefa Margarida, enviafle a Evora, hum Corte
gedor da Corte(cargo preminente aos mais do Rey
no,em todas as materias crimes)& afi foi feito:paf
fando a Evora,Diogo Fernandes Salema, com toda
aquella companhia de miniftros inferiores, & gente
} que o acompanhava, quanta era conveniente para
fua fegurança,& autoridade.
Porèm,os Populares de Evora,inconfiderada
mente, naõ tinhaõ até entaõ entendido, como ou de
que,deviaõ temerfe:defcuidandofe de fua conferva
çaõ,remedio,ou defenfa,em quanto naõ viaõ,que o
exercito Caftelhano batia feus muros.Entaõ achan
dofe fubitamente vificados da Juftiça, que animada
do mefmo exercito,não motrava algum receyo em
obrar o neceffario; começaraó todos a defordenar
fe,cófufos,& temerofos, femfaber que meyo fegui
riaõ: porque o medo,cõ o perigo já era igual em os
que punhaõ as mãos,ou entendimento na prefiften
cia da revolução publica. A Juftiça foi profeguindo
em fuas averiguaçoens,até profcrever, como Reos
de fediçaõ,& cabeças de amotinados, a Sefinando
- - - - - I3 Ro
I 34 A LTERAçoENS DE EvoRA
Rodrigues,& Joaõ Barradaspelo qual crime,foraó
condenados à morte,& em etatua jutiçados, com
horrédos pregoês,& bandos,prometedores de grã
de honra,& intereffe,a qualquer pefoa, que vivos,
ou mortos,os entregaffe nas mãos da Juftiça. Algús
outros dos que na alteraçaõ tiveraõ menor parte, &
porifo menos advertidos fe confiaraó,foraõ tábem
prefos,& condenados, huns à forca, outros a galês, {
& deterros perpetuos; mas todos homés vis, & fem {

nome,& que os mais eraõ delinquentes, & por ou


tros delitos merecedores das penas, que so ao cafo
da fedição referião.
Em quanto em Alentejo, & fuas fronteiras,ou jà
o sMiniftros das armas,ou da juftiça, procedião def.
ta forte,pelo Reyno do Algarve, andava mais fo
berba a vingança. Eftava feu caftigo(como dife
mos)4 conta do Duque de Medina Sidonia, que jà
havia arribado a Ayamonte,com hum fuficiéte tro.
ço de exercito,de gente mais luftrofa, que difcipli.
nada. He certo,que aquelle Duque,não tinha outras
ordens de mayor rigor,que o de Bejar,acerca da en
trada no Reyno; mas ou porque julgando femais fo
berano, lhe pareceffe q o negocio donde fua pefoa
intervinha,della só havia de fer dependéte ou porá
o Marques de Valparayzo, que o acófelhava, por de
terrrivel natural, o guiafe por caminhos mais afpe
ros,determinou proceder no Algarve, mais q o de
Bejar,em Alentejo,rigurofo, & abfoluto. O q con
ferido cõ Hérique Correada Silva, Governador
• • • •• •• •• • Reydo
EPANAPHoRA PoLITICA I. 135
Reyno(por meyo de Confiantino Cadena,aquema
Princefa mandara por Comifario da Infantaria,que
alojaffe,& conduzife,quando fofe neceffario)fe a
comodou. Em que algüas Companhias Caftelhanas pa/af
fim o rio,õe/e vie/em alojar nos lugares mayores. Porque
sò afilhe parecia,poder fuperar a foltura do Povo:
que obtervando os pafos de Evora,como fe lhe vio
igual na culpa, naõ efperava de lhe fer defigual no
caftigo.Mas efia eleiçaõ,defcubrio defpois grandes
inconvenientes,havendofelhefeguido mayores de
litos,de roubos, homicidios, forças, & efcalamen
tos, obrados pela gente de guerra, que os mefmos,
pelos quaes, vinhaó minifrar a pena aos morado
res.Se as armas faõ licenciofas nas mãos dos amigos,
como nas dos inimigos poderão fer moderadas?Mã
dou logo entrar o Valparayfo,feis mil Infantes,em
lugar das companhias que fe lhe haviaõ confentido;
& concorrendo nas refoluçoens o Governador,co
mohofpede,& os hofpedes,como Governadores,af
#
fentado por todos,fe confultava com o Duque,que
defde Ayamonte,difpunha o que julgava mais con
veniente;cujas refoluçoens, cá fe executavaõ, pelos
Minitros da Juftiça Portugueza;q a Princefa Mar
garida, juntamente havia defpachado ao Algarve,
quando a Evora. Entre elles o principal, Pero Vieira
da Silva,Doutor em leys, & Defembargador dos a
gravos,q neta comifaõ, deu grandes finaes da pru
dencia,& modetia,com que havia de exercer o fu
Premo lugar de Secratario de Eftado, que agora ex
I4 ercita,
136 ALTERAçoENS DE EvoRA
ercita.Defta maneira fe procefaraó as coufas, for
mátao os proceflos, & pronunciarão as fentenças;
fendo as de morte, em numero, & calidade, quafi
iguaes às que em Evora fe havião executado; a cu
jo fim,fucedeo a defpedida das armas Caftelhanas,
que contra o parecer do Valparayzo, húa vez entra
das no Reyno, não convinha deixallo; defejando
perpetuar no Algarve,aquelle prefidio, como havia
pedido,& confultado a ElRey de Catella.
Nefte tempo,a Junta de Badajôs, profeguia em
dar forma,náo só ás materias militares, & judiciaes,
mas també às politicas: porã a tanto fe eftendia fua
comifió; da qual o poder,cada dia fe dilatava,defe
jando o Conde Duque,que pois não obrara grandes
coufas, obrafle diladamente; para que afi o go
verno de Portugal, & os animos dos Portuguezes,
fofem perdendo o receyo, á eftranha forma do Re
gimento, que procurava introduzirlhes. Pareceo:
Que pois Eyra/e havia comedido aos novºs tributºs, convi
nha que là em Badajás/e ajufia/e a defribuiçaõ,8 affento
deles. De que à Princefa Margarida fe hia avifando,
requerendo de fua jurifliçaõ,sô a parte fervil,com
que havia de concorrer a eftes efeitos. E porque tal
negocio fejulgava,fer húa boa parte do caftigo co
mum,de aquelles Povos,pois o fuplicio,& pena de
dano,a poucos havia alcançado, não fe parava hum
sòintante,neta articiofa execuçaõ.
porêm, como fegundo o acordo, que eftava to
mado nas materias do Reyno, ainda etando con
- - -- -

cluida
/ •

EPANAPHerº A PolITICA I. 137


cluida a primeira parte de fua refoluçaõ, quanto ao
cafligo faltava a fegunda, quanto à precauçaõ, con
vinha que nefta fegunda, & mais importante parte
do remedio, naõ houveffe algúa detença. Para o que
por fecretas inteligencias, que com Portugal feti
nhaõ verificadas,ácufta do bem publico,poi húa lar
ga,& interior obfervaçaó, foi informado o Conde
Duque,de quantos,& quaes feria ó os fugeitos, que
convinha levar do Reyno, tranfplantandoos à Cor
te, debaixo de varios pretextos: à maneira que os
antigos Reys Affirios, arrancáraó de Jerufalem os
cepos das mais nobres, & opulentas familias, de to
da a regiaõ de Judà,que defpois efpalharaó por Af
fria,Media,& Babilonia. Com tudo, havendofe en
tendido,que o chamamento dos Grandes,fendo co
mo confequencia das alteraçoens do Reyno, em
tempo que elle efiava já focegado, podia ocafionar
nova, & mayor revoluçaõ, fe tratou de evitar efia
fofpeita, com a pratica de outra futil materia de Ef.
tado:tendo por feguro remedio defe inconvenien
te, aquelles que o difpunhaõ: Q e/e os Portugurves
YWã chamar a Cafella,entre as pe/?as que lá pedia5/er de
agãº/o/peitº,ºutras das que naquella Corte tinhaãmyor a
plauf,ficilmente entenderiaõ, que a todas convocava hum
proprio e/piritu; o qualnão podia fer perigº/0,çõtra os figei
tºs demyor efiniçaõ para aquella Coroa,entre os quaes,os
outros haverião/em fala,de pa/ar a propria fortuna. Efta
arte cuja utilidade era muy aparente, julgou o Cô
de Duque,fuficiêtifima para nofo engano; porque
VÊÊ
138 ALTERAçoENS DE EvoRA
verdadeiramente elle: & os outros Miniftros Cate
lhanos,temiaõ mais nofia refoluçaõ,que nofla indu
ftria;donde procedia, que eftimandonos atè temer.
nos no valor,no confelho,nem nos temiaõ,nem nos
eftimavaõ.
Difpoto tudo, fegundo etatençaõ, foraó cha.
mados muitos de aquelles, á na opiniaõ do vulgo,
naõ corriaõ na Corte algum perigo. As cartas con
vocatorias,só diziaô Que fua Magºftade,defejo/ode dar
forma a algüas cou/as,lue acerca da adminifiraçaõ do Reynº
era informado,necefitavaõ de emenda, tanto nos Tribunaes
da Fazenda,como nos de Iuftiça; queria formar bña junta,
apar, de fila Realpe/oa,dos mayores Minftros,& mais pra.
ticos de Portugal,para entender delles,como de talentos que |
tanto eflumiva,quaes feriaãos meyos proporcionodos, ao me.
lhºramento, lue /e pretendia:para cujo efeito,tanto que re
cebº/em a carta;por mãos da Prince/a Margarida,/epu.
</em logo a caminhº, º fo/ema/ua realprefença; porque
com todo o afeclº de Principe amigo,os efierava.
Foraó,pois,os chamados: Dom Rodrigo da Cu
nha, Arcebifpo de Lisboa, Prelado,a quem o Povo,&
Nobreza, amou igualmente.Com a virtude propria,
efmaltava a herdada, que em iluftre fangue lhe foy
repartida,& com o exercicio de divinas,& humanas
letras,fez digno de mayor aplaufo, o fangue,&a vir
tude. Dom Sebaftiaõ de Mattos de Noronha, Arce
bifpo Primás de Braga,fujeito de grandes penfamé
tos,muis difereto, que prudente. Amava os negoci
os,porque os naõ praticara. Seu luftre, & valor o fa
Z12O
EPANAPHoRA Pol.IT IcA I. 139
ziaõ antes etimado, que bemquifo. Dom Joaõ
Coutinho,Arcebifpo de Evora, Fidalgo de grande
cafa,& parentes;rico, & efplendido, mais que bene
ficiofo;porèm de tanta bondade, que muito pri
meiro gozou, que mereceu,a aceitaçao comum que
, pofuia. Dom Ga{par do Rego da Fonfeca, Bipo
do Porto,homem que devia á arte, o que naõ à na
tureza;&á fortuna,muito mais que á arte. Animo
apero,quanto cxecutivo, o fez fubir, & manteve
emhum alto efiado. Supria com a diligencia, a in
dutria,& com a feveridade,fe negava ao exame de
feu talento;havido por mayor, dos q e o conhece
raó menos. Dom Diogo da Silva,Conde de Portale
º gre,Governador que fora do Reyno,com juizo ma
yor,que util.O mando que confeguio, apeteceu, &
deprezou igualméte. Herdara mais parte da futile
za,que da difciplina do Pay,Minifiro fabio,em tem
pos fabios,â diferença do filho,aquem os prefentes,
ou maliciofos,ou ignorantes, naõ refponderaó com
igual fetividade. Diogo Lopes de Soufa, Conde de
Miranda,do Confelho de Eftado, & Prefidente da
Fazenda: que nos primeiros Magitrados alcançou
mais fama,que nos ultimos; donde a calumnia,fenaõ
fez golpe,ameaçou algúas acçoens, que conferidas
com as primeiras pareciaé defiguaes. Taõ eftimada
foy a principio fua reputaçaõ1Dom Martinho Maf
carenhas,Conde de Santa Cruz, Capitaõ dos Gi
netes, Prefidente do Paço, & do Confelho de Efta
do, pefoa de graõ modetia, mas inferior …";
14o ALTERAçoENSDE EvoRA
de.Nunca ofendera algum interefle; do publico era
defenformelhor com o defejo,que com a execuçaõ.
Dom Francifco de Caftello branco, Conde de Sa.
bugal,Meirinho môr do Reyno, aquem zelava,& de
quem era etimado. A defgraça lhe derà mayorglo
ria,que a fortuna:porque vivendo como Cidadaó,al
cançou hum refpeito, que o preferia, aos mayores
Miniftros. Dom Francifco Luis de Lencaftre Co
mendador mòr de Avis;que como atè entaõ paflafe
fem ocupaçaõ publica,feria havido como procedef.
fe. Fora de particular, ainda que igual procedimento,
mais fe lhe efperavaó os empregos que pretendia,
pelos meritos pafados,que prefétes. Francifeo Lei
taõ, Defembargador dos Aggravos, cujas letras fe
adornavaõ de eloquencia,em que fe defcubria efpiri
tu facil para receber os relevos que lhe imprimife
a força do intereffe.Diligente, & futil inftrumento
para obrar vontades de Poderofos. Pouco depois
deftes Minitros, foraó com a mefma eficacia, cha
mados tres grandes fugeitos da Companhia,dos qua
es já antecedenteméte havemos feito mençaõ.Eraõ,
ol2outifimo Padre Sebatiaõ do Couto, que por
fua larga idade,& doença que o efcufou da jornada,
antes de fer excufo della,deixou de a por em efeito.
O Padre Alvaro Pires Pacheco que partindo de Lis
boa,a executalla,foi divertido no caminho,com fof
peitofa violencia;a qual o deteve oculto até a liber
dade do Reyno. O Padre Gafpar Correa, que paf
fou à Corte,para dar razaõ de fi,& dos mais convo
| { cados3
-
EPANAPHoRA Polrr ICA I. 14 1
cados; & que defpois de trabalhos indignos a fua
Religiaõ,juizo,& pefoa,foi reduzido à Patria.
Eftes eraõ os Prelados, Miniftros, & Religiofos
que ElRey mandou acudir a fua prefença; & fup
poto que de todos os Eftados foraõ muitos mais os
fujeitos, qfe detinaraó para aquella tráfmigraçaõ,
pareceo:Queella/e difuxe/e cõtal ordem, q antes q hãs
fedefenganºfenfº/Sem com ocandos os ºutros. *_

A vita de húa demoftraçaõ tam defuzada, fele


vantaraó por toda Efpanha varios juizos, nos quaes,
com os Caftelhanos, & Portuguefes, concorriraó i
gualmente os efirangeiros.Todos os Politicos fein
troduziraó a difcorrer fobre a caufa defla novidade,
como coufa que envolvia, & ameaçava o repoufo,
naõ sò de Efpanha, mas de toda a Monarquia. Os
Portuguefesa temiaô cõ mayor afecto, & entre nós
**
•• mais,aquelles fobre quem efiava iminente o perigo.
} Por huns,& outros corria jà vaga a fama de, que Por

l? tugal/eria de/pojado da dignidade de Keyno,reduzindo a


4,
4 Provincia,a qual fe haveria de unir com as outras de

| Efpanha,com quem fe faria comum em leys, habito,


} & lingua.Diziaõ:Que para este efeito,fe haviaõ já aber
to in/enfivelmente os alicerces,& como o primeiropa/fo de a
quella obra,era enfraquecer os Portuguezes, de armas, navi
oi, gente,& dinheiro; logo que fehou) e/e confumado a evacu
açaõ destes perigofos generos,em quej fe entendia, era tem
po de por as mãos,na nova forma da Republica. A outros
parecia: Quehum Rey Catholico,ês juão, não deria dar tã
violento remedio,contra o que ao mefino Rgnº, fºlchement
fro
141 ALrERAçoeNsDE Evor.A
prometera,$jurara.Que baflavareter aquelles Grandes,é
Trelados,fem os quaes(& os outros que fe e/peravaõ.)nãof.
carião no Reyno,fugeitos capazes de fazer algum movimen
to. E que quantº á Cafa de Bragança, El Rey devia por taes
modos confialla,& trazella afsi,que oproprio fenhor della,fe
entregº/evºluntariamente em/uas mãos. Porém, que efia
diligencia,já/eria mais dificulto/a, naõ havendo/ido a pri
metra;& que entretantº os face/os da Monarquia, o rendi
mento,ou impaciencia, dos Portuguezes iria mo#rando o mo
do pelo qual convinha chegar ao fim defegravi/simo negocio.
Tais eraõ as couÚs praticas dos Caftelhanos fempre
queixofos de noffa competencia. •

Mas aquelles Miniftros, que não sò pela obriga


ção comum,fe vião forçados, a difpor o comodo de
fua Coroa, mas pela particular, defejavaõ de não
cótradizer o goto do Valido,não cefavaõ de véril
rar, a cerca dos meyos mais proprios a nofla ruina.
Alguns detes, porque participando da contrarie
dade das Naçoens, obravaó fegundo ella; outros
orque deta opiniaõ efperavaõ grandes aumentos:
por fer callidade das coufas temporaes, que húas
não pofão aumentarfe,fem que outrasfe diminuão.
Nefte tempo,os Portuguezes chamados, não eraõ
ouvidos,nem haviaõ recebido outro avifo delRey,
fenão:Q4e/egui/em a Corte,atéfe lhes declarar o negocio,
para que a ellafraó vindos. Efta refoluçaõ, produzio
muito contrarios efeitos,dos que efperavaó os Caf
telhanos,8: os Portuguezes temiáo; porque as pef>
foas,ã fe achavão no Reyno,affombradas do golpe,
• que
EpANAPheRA Polirica I. 143 º
|
que vião fobre os convocados,forão cobrando novo
animo. Entendendo:Quefe as culpas contra eles prºfa
midas,forão da pe/sima calidade de que fereceavão lhas ar
gui/em/em falta,que com menos temperança,fe haveria já
com todos chegado ao exame, & ao cañigo. Da propria
forte,aos chamados pareceo:Que com a retençaõ de fu
as pe/joas,por algum tempo na Corte,fe havia de moderar a
indignação,contra o Reyno concebida. Pelos quaes difcur
fos,huns, & outros,aquelles esforçados, da confian
ça, & eftes foportando do receyo, fe confervaraó
mais confiantes,do que por ventura puderaõ, fe o a
perto fe profeguira,como havia começado. Com ru
do a dilação naõ era temperança,mas arteficio:por
que como as deliberaçoés, que fe queriaõ praticar
em Portugal,eftavaó dependendo(fegundo já dife
mos)de outras ocurrencias da Monarquia,ellas vari
as,& dificultofas,naõ davaó lugar a introduçaõ das
novidades elegidas,nem por entretanto, parecia pe
quena politica,guardar inviolavelmente aquelle fe
gredo,até o dia,que ajutados os negocios exterio
res,fe pudefe voltar aos de Cafa,com toda a eficacia
de que elles necefiravaó. º |-

- Mas para que em nada fe perdefe o tempo,& das


mefmas conturbaçoens publicas, fe tomafe motivo
para diffimular melhor a paixaõ particular; atirulo
da guerra de França,& defignios dos grandes inimi
gos da Coroa de Efpanha,(e ordenou, como o Rey»
no foffe fangrado das mayoresforças; da forte que
os Medicoscoftamão, purgar primeiro os corpos,
<! - que
144 ALTERAçoENS DE EvoRA
que pertendem fejão curados, com dilatadas mefi.
nhas.Mandaraó: Que Dom Afonfo de Lenca#re, Mar
ques de Porto/eguro,firº/fe em Lisboa húaleva de Caval.
ria,/em algã limite de numero,nem/ubalternaçaõ a outro al.
gum Minifiro,ou Tribunal.Que em no/as Ilhas/elevanta/
fem varios terços de Infantaria,ºs quaes navega/emáCoru.
nha:pouco tempo de/pois de bia copio/a leva, % haviapºjado
das ne/mas Ilhas,águerra de Pernambuco. Deu/e a Digº |
Soares,º cargº de fuperintendente, ne/ie/erviço; que ele er |
comêdou,a Belchior Correa da Franca,& Francifco de Be.
tantor,bum fafeitura,& ºutronão mal efeclo.Que nº Ry
nofeforma/em quatro Regimentos,degente paga, & efelli.
da; os quaes ElRey,de/pois defeitos, G pagos pelo dinheirº
de Portugal,cham We ao/erviço de Cafiella.Como logofe
• {
vio,mas com contrario fucefo. Detes quaes fe deu à
cargo a Jorze de Mello,que pela parte de Coimbra,
& Comarcas vifinhas, ajuntou grande, & bom nu.
mero de gente.O me{mo a Alvaro de Souza,aquem
coube o partido de Entre-Douro,& Minho: donde
fez mais luzida,que obediente leva. Affi Dom Pedro
Mafcarenhas,pela Beira, & Etremadura; & Rodri
go de Miranda, em o Campo de Ourique, que teve
pro praça de armas;como o Mafcarenhas, Caftello.
branco,o Mello Coimbra, & Guimaraés o Souza,
Mandavaó:Que juntamente com e/tes,fe levanta/em mais •

dous terços de Infantaria voluntaria; logo afinados para


marcharem águerra,donde a ocafiaõ mais vivafo/je.Fuieu
cncarregado do primeiro,o fegúdo naõ houve efei
to; & femcrepartiraõ as Comarcas de Elvas, Piº
- - nhel,
E PANAPHoRA Pol1ricA I. 145
nhel, Porto, Viana, Miranda, & Moncorvo.Que os
galioès que fe achafiem no Reyno, fofem logo en
tregados a Cabos,& Miniftros Cafielhanos,& aflife
executou cõ o galião S.Tereja, hum dos melhores,
que viojamais o mar Oceano; & São Baltezar,pou
coinferior a efte os quaes forão pofios, à ordem do
Almirante, Dom Thomâs de Chauburu, que com
varias fortunas,& para a mayor tragedia, conduzio
a Tereja à Curunha; donde defpois paflou a pade
cer incendio, no conflito do Canal de Inglaterra:
cujo fuceflo,tâbom havemos cfcito. Por caufa dos
contrarios ventos,cfcapou São Baltazar, que ainda
hoje dura,vencedor dos inimigos, & tempefiades.
Quizeraõ:Que à (afa de Bragãça/epedijè mil Waffellos
armados;cuja leva governo,& condução/e encarregou a D.
Antonio Tello. E que como em Cfella, na Iunta de Corone
lias,fe praticava,/e pratica/e tambem no Reyno,º ajuflamê
to depofios,& mercês,a todos os Va/allos, que por a/into
quire/em encarregafe de fervir a EIRO,com levas de Ca
}'allaria, Infantaria, Navios,& baftimentos; donde como ce
lº do aumento,a que por aquella via/e encaminhava, no lu
garhuma,é intere/e,muito mais depre/ja,que por qualquer
outra;os homens femºvidº,ês esforçavaõ,a emprende é cou
farmayores,que feu cabedal,& /uficiêcia; de que o Ronore
teberianós!yinha
tntre aquelle danno,que
a fer muitoapurou a fuflancia de Cfella, &
mais irremediavel. •

Jà entaõ entenderaõ os Portuguezes, que tan


tas prevençoens,& abalo, davaõ final de algum grã
de defignio. Mas ou enfraquecidos,kdo mcfino #
- • • O •
146 ALTER AçoENSDE EvoRA
folpeitavaó, ou folpeitofos, do mefino que os en
fraquecia,fobre que todos fe encaminharaó ao fen
timento,nenhum ao remedio: porque nos Reynos,
(a diferença das Republicas)fendo o perigo de to
dos,o cuidado he de poucos; donde vem que em po |
tencias iguaes,as Monarquias faõ mais fuficientes ao
aumento, as Republicas, à confervaçaõ- Todos os
Grandes,& Minitros de Portugal, conheciaô com
quáta diligencia caminhavaó ao precipicio; mas co:
mo o mòdo de evitallo, eftava à conta da Princeza
Margarida,que quando não obediente, interefada,
fempre fe obrava à vontade delRey, & difpofiçoés
do Valido;por mais que todos (e vião perder aquel
le que mais fazia,fe defviava do perigo; mas não com "
o braço,ou grito,detinha os outros,para que deixafº {
fem de cair nelle. {}
Entaõ havendofejà entendido na Corte, como º
em Portugal,fenão parava nas obras referidas, do nº
de muitos trabalhavaõ por edificar a ruina, huns |
por temor, outros por intereffe, alguns por igno.
rancia; pareceo ao Conde Duque, era jà tempo
de lhes dar a beber aos Portuguezes, aquelle amar
gofo vafo, que na preparaçaõ não fora menos de
fabrido, que na experiencia. Affi refolveo, que
para que naquelle procedimento, houveffe algúa
fombra de legalidade, devia fer a primeira diligen
cia,interrogar, & ouvir os Prelados, & Miniftros,
que jà tratava em foro de Reos. Logo difpota com
extraordinario fegredo a negoceaçaõ, foraõ avifa
dos
EPANAPHoRA PoLITICA I. 147
dos em hum dia, ora, & inftante, para que todos
dentro em breve efpaço, acudiflem à cafa de varios
Minifiros Caftelhanos,cominandofelhes aos Portu
guezes,crime de lefa Mageftade, fehuns, a outros,
comunicaflem o chamamento, nem algúa outra ma
teria,que da conferencia dependefle. Para o exame
do ArcebiÍpo de Lisboa, foy nomeado o Cardeal
Borja; o de Mofcofo,ao Arcebifpo de Evora, & o
Confeflor delRey,Inquifidor geral de Efpanha, ao
Arcebifro de Braga; ao Conde Dom Diogo, o
Duque de Villa fermofa; ao de Miranda, o Con
de de Caftrilho, Prefidente de Indias, & do Con
felho de Eftado; ao Conde de Santa Cruz, o Mar
ques de Santa Cruz, do Confelho de Eftado, Mor
domo mòr da Raynha; ao de Sabugal, o Conde de
Onhate,do Confelho de Eftado, & Prefidente do
r Confelho de Ordés; a D. Francifco Luis de Lécaftre
J o Marques de Cafro-forte,do Confelho de Eftado
} de Efpanha,& a Francifco Leitaõ,Joze Gonçalves
} do Cófelho Real, & da Camara; hum dos mayores,
{ & mais aceitos Miniftros, togados, de aquelle tem
po.Tal foy aquella grave conferencia, cujo rigor,
& defignios,correfpondeo ao fecreto cõ q fe obrou;
& efte de tal maneira obfervado,que ainda hoje me
tidos os annos de por mcyo,& a mudança dos Impe
rios, alcançamos poucas,& incertas noticias, da for
malidade de aquelle acto: donde muitos entende
raõ,que manifefiandofelhes aos convccados, como
irrevogavela propofa,da nova forma do governº,
k2 & le
148 ALTERAçorNS DE EvoRA
&leys,que ElRey mádava dar a Portugal, só fe lhes
pedia parecer,acerca do modo, porque mais ficil.
mente fe devia introduzir; fem dar lugar a diffuta,
de ferou naõ fer juta,ou inconveniente. Muitos af
firmácaó:Que a cadahum dº aquelles Minjiros Portugue:
xºs,felera em mºdojulicial o libello, procefo, & fºntença,
que ocultamente foraõ contra o Reynº fulminado, femfer
ºuvido,pela qual/entença, era privado da Regia dignida
de; dando/e ElRey por abfolvido do juramèto, que lhefizera:
do qual,aperfidia Portugueza(diziaõ elles), havia def).
brigado,fegundo o parecer de feus Theologos,& Iuristas.E
que para prova de e/Sa(que elles chamavão, perfidia)n㺠à
fe articulava a prefente alteraçaõ,mas/e deduziaõ ca/ºs, ou
vãos,ou corrutos,ou/upofios: defde o tempo do primeiro Rey
nado, de Dom Felipe o Segundo:huns, a outros fice/snot,
como obf?inaçaõ continuada: dos quaes em nenhum dos pre
fentes,tão sómente havia noticia,quanto mais culpa.
Duvidoufe a ceremonia da cefáo;do intento nú
ca:& ao afIombro dos que concorreraó nella, deve
mos melhor informaçaõ, de fua iniquidade, que a
propria eloquencia a pudera haver feito, fe pude
ra.Os mais praticos na materia de Eftado,diziaõ: Que
outra confº/enão e/perava para a execuçaõ, que hum braçº
podero/0,que obra/e conforme o coraçaõ,ês vºz do Principe.
E que de/3cupado o poder maritimo, que Dom Antonio de
Oluendo, Almirante Real do mar Oceano,trazia afeu cargo
contra França, no mar Mediterraneo(que de/pois contra
Olinda pa/hu ao Canal de Inglaterra)deceria logo a inver
mar a Lisboa; dõde/e havia de principiar a mudáia das cou
•- - - - - -- - - - fás
E PANAPHoRA PolyricA I. I49
fis publicas.Mas o Altifimo Deos, que pelas jutif.
fimas leys, defua fapientifima vontade, julga as Co
roas do mundo,revogou, por impenfados meyos, a
fentença dos homens: ordenando,que aquela pode
rola armada,que fedefinava para nofo açoute, o re
cebeffe,taõ grande pelas mãos de feus inimigos com
miferavel fuga,& horrivelincendio;que naõ só per
defe à vita delle,a força,& o confelho,mas tambem
a mayor parte do vigor Efpanhol,celebre em outras
idades. - -

Efte taõcutofo defvio, nos fervio de embargos


árigurofa execuçaõ, a que efiavamos condenados.
"
E porque as ruinas de Efpanha,fe foraõ ocafionan
do húas,das outras,fucedendo, pouco defpois, o le
vantamento de Catalunha, a que fe feguio a liber
dade felicifima,defe Reyno, nos refervon Deos,
do ultimo golpe da injuria,que para nôs caminhava,
ou nòs para elle. Sendo efte o fim das alteraçoés de
Evora;as quaes,como faufto, & elegante preludio,
da redençaó Luftana, afirmaõ muitos dos diligen
tes inveftigadores das coufas futuras, que fe achaõ
prediâas de longos tempos, no Oraculo da Sibilla;
& que os Aftrologos haviaõ pronoticado efte no
tavel,& mifteriofo movimento: trazendo a efe fim,
Verfos,& Vaticinios,a que dou menos credito, que
ao proprio Cafo. O qual,em favor de nofla Re
publica, nunca pôde fer taõ bem ex
plicado,como fucedido.
k3 NAV
15 o
NAUFRAGIO.

DA ARMADA PORTVGVEZA
EM FRANC, A. Anno 1627.
E P A N.A.P HORA TRA G I CA
Segunda,de Dom Franci/co Manoel,Efrita a hum
Amigo.
#EVEM os homens amantes da razão(Ami.
#) go N.)guardar em fuas acçoens húa tal or
dem,que a propria armonia dellas, moftre fe
rem guiadas pela luz racional:não sô efcolhendo as
obras dignas,mas as competentes.
Toda efia propofição, parece que ignoro,ou que
branto,convidandovos agora,& de tão longe, a let |
húa Relaçaõ, que nem pela materia, nem pelo efta e
do,nem pelo tempo,fe julga em algúa parte,confor.
me à precifa obfervação,que vos tenho propoto.
Porque quanto à materia:eu fenhor, vos convido |
a ouvirdes a hiftoria de hum fucefo lamentavel, cu-|
ja lembrança, tão longe eftà de fer grata aos ouvi
dos dos homens, que antes lhes poderia fer molefta,
fegundo as tragedias que refere. -

Quanto ao etado: quafi de outro mundo vos ef>


crevo,pota entre mim, & vós não sò Africa inteira, |-

& os imentos mares, que dividem America, da Eu


ropa;mas interpotos filencios,annos,& fucefos,que
Por larguillimo intervallo nos apartarão.
Po
NAvFRAG1 o DA ARMADA 15 1
Pois pelo tempo:ainda parece que nefa partein
corro em mayot defproporção,referindo hum cafo,
já não lembrado no mundo: porque hoje em o dia
que dou principio a efcrevelo, fe prefazem trinta
annos,que elle teve feu fim.
Porèm para que pofa dar algúa defculpa a minha
inadvertencia, ou por ventura reputação, á adver
tencia com que agora ponho a mão neta obra. Di
rei.Quepelamelancolia calidade della, não deve certo/er
de/prezada. Convem vos lembreis que o feu preço,
he femelhante ao que coflumamos dar a húa lamina,
que pintou algum famofo artifice,fem embargo,que
contenha trifleshiftorias.Quem diria fer mais delei
tavel,como ver copiados de húa rude mão, os triun
fos de Bacho , ou dilicias de Venus , fendo ale
gres; que as tragedias de Adonis, ou naufragio
de Leandro, do pincel de Apelles, Zeuzis, ou Thi
mantes?Porque ou feja na pintura, ou na efeitura
(entre as quaes ha tanta femelhança,que jà diferão
fabios: Era a pintura muda h floria,&º a historia elegante
pintura, )não fe preza,nem olha tanto as figuras, mor
tas, ou vivas,que allife nos oferecem, quanto o no
bre primor, com que a natureza fe vé imitada, ou
quafi comprida,da mão dos eminentes varoés, que
ou debuxando,ou efcrevendo, a retratârão.
Quanto mais(amigo)que aquelles prazeres da
tenra mocidade,troca,& engeita por outros exerci
cios,fenão taõ contentes, mais oportunos, a idade
madura:julgando por defiguaes, ou indignos, os em
k4 pre
152 EPANAPHoRA TRAGIcA II.
pregos,em q a puericia faz feulanço.Já lá vaõ aquel
ies annos,em 4 nas Cortes de Portugal, & Catella
(donde fomos companheiros)idolatramos a fuavi
dade dos enganos deleitaveis; aquella afitêcia dos
teatros,aquella porfia dos pafleos; os dias q fe gaf
tavão em delicadas converfaçoés,as noites em mufi
cas primorofas; noflas difputas futilifimas, noflas
Academias elegantes.Tudo,fenhor,olhado agora cá
do lóge da vida,he sé falta ocupaçaõ inutil,& não fei
fe efcádalofa, comparada cõ a importãcia das verda
des, q agora nos cópetem. Donde infiro, q não por
demafiadaméte fevero o cafo,fobre q vou armando
efte difcurfo,elle deixaria de feu avofo efludo con
veniére: nem à doutrina de aquelles,ã nelle quizeré
aproveitarfe,para outros negocios femelhantes,
Ora que direi por efcufarme da de paridade do
lugar, & tempo?Direi a verdade do que me fucede
para que vejais fe vos fatisfaz efa defculpa. Eferevo
hú fuceflo maritimo;porq ha dias á vivo entre dous
mares,que com feu obtinado movimento, me efáo
fempre oferecendo efpecies produzidoras de feme
lhãres lébranças. Húa Relaçaõ de tempeftades:porq
as que de prefente padeço em minha forte, não me
deixão admitir imaginaçaõ mais ferena: fendo fem
duvida,de mayor perigo as injirias do animo, que
as da vida. Que quereis que efcreva,ou que quereis
que cuide hum afligido, fenaó afliçoês? Os Medi
cos que bem filofofaó pelos fonhos do enfermo, in
dicão a callidade do molbo predominante:vito que
* C II]
NA*FRAG1 o DA ARMADA. 153
em males,& bens,cada coufa engendra outra coufa
qfe lhe parece. Ajuntarfe aqui a memoria não ociofa
em feus efeitos; porque(como jà dife)cumprindofe
hoje trinta annos, que paflei cfte naufragic(não fei
fe para confolar, ou agravar os prefentes) me efiá
a memoria com tanta viveza, reprefentando aquel
les trabalhos pafados, como fe realmente agora me
vira entre elles:donde Themiftocles refponde o avi
fadamete contra a prelunçaõ de Simonides, por bo
ca do nofo Poeta,
Se me defes hía arte,que em mens dias
Me não lembro/enada dopa/ado,
… O quanto melhor obramefarias?
He verdade, que de muitos annos a efta parte, me
difbuz a efcrever alguns fuceflos notaveis de nofia .
Republica, entre os quaes logo elegi o prefente;
tãto por fes nofo,& meu,& fc achar em efqueciné
to,ou defprezo de nofos autores; quanto porque as
circunflancias que nelle concorrèraõ, pódem fer de
grande utilidade á obfervaçaõ de materias, já Mili
tares,jà politicas.
Ainda mal, porque para acreditar, o que difer
neta Relação, tenho jà tão curto numero de tefte
munhas,que eu ferei so o autor della. Pois dos pou
cos que defie naufragio efcaparão vivos, faó hoje
mortos,quafi todos. Grande cófufaõ por certo, para
o defcuido có q vivemos! Perdoáolhes aos homés, a
furia das ondas,a braveza dos vétos,o rigor dos peri
gos,cõ mais facilidade, á abrandura das oras; 5 fur
da,
154 ERANAPheRA TRAgica II.
da, & fuaveméte,os vai cófumindo.Có tudo afi pelo
q eu tenho na imaginaçaõ apontado(4 até aquelle
tépo,etava em limpo,por fenão haveré nelle efcri.
to outros trabalhos(como pelas memorias, q guar
dei defde aquelles tépos de minha mocidade, em al
gús papeis mais verdadeiros,q elegantes; efpero que
por defeito da verdade, não deixe minha hiftoria,
de merecer tão alto nome. Della fez a primeira men
ção.D.Manoel de Menezes,Heroejútaméte,& Cro.
nita dete fucefo: não pela nobre ocupação de fer
Cronita mòr do Reyno; mas porq cõ mais comodo,
udefe referillo aos Miniftros,diáte de qué fejufti
ficava. Eftafe etápou em Lisboa,o anno de 1627.
fendo efcrita em Madrid a quinze de Mayo do mef.
mo anno. Logo Dom Gonçallo de Cefpedes, nafua
hitoria de Felipe Quarto, efcreveo tambem nofo
naufragio; mas taõ brevemente que não temos que
lhe agradecer a noticia, ou condenar o filencio; fu.
poto lhe não faltaraó boas informaçoens,que mui
tos lhe comunicâraó,& eu lhe dei particularmente;
por fero Cefpedes,pefoa de minha amifade, & vefi.
nhança,efcritor de nofos tempos,& coufas; menos
defafeiçoado aos Portuguezes, que outros de fua
naçaõ Catelhana:juto agradecimento à boa hofpe
dage,que achou em Lisboa,donde muitos annos vi
veo,defpois de perfeguido,& deterrado da patria;
que com femelhantes provas de defprezo,parece que
faz alegitimaçaõ dos filhos benemeritos: como jà
Roma,& Grecia,fizeraõ aos mefmos,que lhes deraó
IIllº
NAvFRGIo DA ARMADA I 55
mayor nome. Por cuja acçaõ, Dom Gonçalojúfti
ficou melhor a limpeza de feufangue, & cotumes;
que Geronimo FranquiConaftagio Genoves,que fe
intitula Gentilhomem de aquella Republica: o qual
ingratifinamente,havendo achado na nofa,mayor
amparo,& fendo de naçaõ,por nenhum intereffe o
pofta aos Portuguezes, com a qual fempre guarda
raõ boa correfpondencia;procurou quanto pode in
famar,antes que efcrever as acçoens,que com atrevi
da pena furtou a nofos hiftoriadores; molhandoa
mais vezes,que na verdade,na adulaçaõ,ou interefle,
com que deftruio a gloria,& credito,que por feu en
genho merecia; em tal maneira, que podemos dizer:
0ge ele/e roubou a/gimefino,mais que a nós. Pois a pefar
das impofturas, com que quiz efcurecer nofia fama,
os Portuguezes ficàraõ reputados, por gente vale
rofa,no mundo, & elle por autor fabulofo do tem
PO •Luis de Torres de Lima,em o livro a q deu nome
|-

Avifos do Ceo,cifrou nas poucas palavras, de hum


breve Capitulo efta Tragedia; porqlhe fervio de
mayor aflunto a fuas exclamaçoens, que a fua hifto
ria. Mas em lugar dos nofos, Gabriel Bertholameu
Gramondo, Prefidente do Parlamento Tolofano,
em os feus elegantifimos Annaes de Luis Treze,
Rey de França,trocando a inteireza, pela eficacia,
defcreve de tal modo,efte acontecimento, que lhe
devera Portugal para fempre, fenão a fidelidade de
fua efeitura,a benevolencia, com que …………C}}
- •
O
I <6 EPANAPHoRA TRAGICA.
feu credito pelo nofo. •

Porém havendo jà dito tanto, ainda vos não dif.


fe a razaõ; porque cá de tão longe, vos vou bufcar,
là entre os arvoredos de vofia Quinta;com tão defi
gual prefente.Seria por ventura, por entender, que
os erros que aqui fe acharem, ninguem melhor que
vós, os poderia emendar; pois ao largo efludo da
poetica hiftoria,& policia,ao alto juizo, que em vôs
ha,tambem logrado,& conhecido entre nòs; digna
ocupação podia fer a correcção dos defconcertos
de hum amigo, que tanta etimação, & provas tem
feito de voffa amifade. Seria porque tratando eta
Relação de algúas materias militares, a ningué me
lhor que vós,(e podia oferecer? Tudo foi porque a
experiencia,& valor, que em tudo tendes motrado
(jà paffando a Africa,contra os Pagãos nos primei
ros annos,já defendendo em outros mais adultos a
Patria de feus inimigos)fempre deu gloriofo exer
cicio,a efas tátas lingoas da Fama: que para vôs erão
mais que as cento,afinadas dos antigos: porq eraõ
todas as lingoas,de quantos com juto louvor, apre
goavaõ vofo merecimento.Bem fe vio;quando con
tra a fentença do Filofofo,que afirmou: Era mais de
pilo,perder pelos Principes a vida, que a faude; vivendo
vôs de effa riqueza tão falto,não só mil vezes ofere
cetes a vida ao cutello da morte, mas outras tantas
entregaftes a faude,aos fios da enfermidade. Podere
mos afi dizer:Que não levºu só Homero de/pois de mor
tº,aghri, da cºntenda das/ete Cidades, que procuravão a
|- pº/e
NAvFRAG1 o DA ARMADA 157
po/e defuas cinzas; porque já agora vimos, que fobre
voflos achaques contendião muitos poftos,a qual os
havia de lograr, ocupados em fi me{mo. Se era sò
mente para fe apia darem de húa tão defm.crecida,
infelicidade, juíta foi a ocafião de fua difcordia; fe
para vos afligir(como era)com novas obrigaçoens
cuidados,& molefias, não merccião cm verdade o
facrificio,que de vós mefmo lhe fizeftes: pois não
confente a razão natural, nem o direito civil, afligir
aos afligidos:coufa que hoje entre nòs sò vemos,que
fe confente(ó Deos, & que tantas vezes! )perdoe o
direito,& a natureza.
Agora que entendo, defcançais,de tão honrofas
fadigas, neffe voffo bom retiro(porque he jufio o
melhor)refolvi fazervos efte prefente, por duas ra
zoens.A primeira, para que pofais lograr com ma
yor agradecimento a mercè,que Deos vos fez livrá
dovos da perigofa vida do mar, cuja deflealdade jà
conheceftes em as navegaçoés,que haveis feito a In
glaterra, & Barbaria. A fegunda porque pondovos
Deos,no lugar,em que vos efpero, avalieis com cer
tas noticias, os meritos de aquelles que fervem aos
Reys,não jà tanto expofios ao furor da guerra dos
homens,quanto á dos Elementos, Moncerrate An
tartico,5 de Fevereiro de 1 657,
V. A. 1), F. M.

Hamou, com elegancia, o Poeta Portugues:


Trinceza das Cidades do Mundo, á noffa infigne
- - - - - - - -- - - - - - - - - - - - - -- Cida
158 , EPANAraenº TRAGICA. II.
Cidade de Lisboa,minha Patria. E não com menor
propriedade,lhe chamou outro Pºeta: Taynha das a.
guas do Valvejº Olhando bem a Mageftade com que
fobre as prayas do Tejo(que lhe fervem de folio)
prefidea todas as Ribeiras do mar Occeano, cujo
golfo,como praçº, lhe preparou diante a natureza;a
qual praça fe dilata, até as remotifimas ourelas da
America fetentrional, que tem por muro, á parte
do occidente,com mais de millingoas de terreiro,en
tre a Cota da Hefpanha, que leva o mar Athlanti
co,& o remanente da Florida, que vem decendo do
Polo Artico,porfe enxirir nas efendidas Províncias
da nova Efpanha:em tal modo, que Lisboa, como
joya da teta de Europa(cuja cabeça fe nos propoem
a antiga Iberia)efia oferecendofe, antes que outro
Porto,ou Cidade, para defcanfo de todos os Pere
grinos navegantes,que de Afia, America, & Africa,
vem bufcar aquelle celebre Emporio, como o mais
certo,capaz,& feguro de todo o occidente. -

Por eta caufa affentaraõ os Politicos, & confir


mou a experiencia:Que aquelle Principe, que fenhoreaf
fº efia manifica Cidade/e habilitavº para dominar todos os
mares,& terras,quejarem no Emisfério opofio, além dasa
guas.Donde com tão jutarazaó,comº efperança, os
Reys Portuguezes,fe intitulavaó, fenhores dos Pai
zes(ito faõ Algarves na lingoa Arabigº) de alèm do
mar, não fe limitando sò às fraldas da Mauritania
(como alguns entenderaó)nem defprezando a glo
fia de Conquita Navegação,& Comercio da Erhi
opia,
NA vFRGIo DA ARMADA I 59
opia, Arabia,Perfia,& India,& feus adjacentes: dos
quaes titulos, a pelar do Hugo Colfio,que os contra
difie no feu Mare liberum,compuzeraõ o real ditado
nofos Monarquas,com o qual, até os tempos prefé
tes,feus fucefores fenomeáo.
Provafe melhor efte difcurfo,em aquelle elegan
tifimo livro do Sitio de Lisboa, que efcreveo do
&amente,Luis Mendes de Vafconcelos; autor não
menos iluftre na erudiçaõ,que no fangue:o que bem
fe corrobora, & fortifica, com o novo Opufculo de
nofo piadofo, & fabio amigo, & metre, o infigne
Varaó Manoel Severim de Faria, Chantre de Evo
ra; que a morte ha poucos tempos nos roubou, por
que ainda que de larga idade, copiofa em frutos de
letras,& virtudes; fempre duraó pouco ao mundo,
os Varoés,que como efte vivem nelle. A mbos eftes
graves autores, em feus difcurfos(afiftidos de toda
a obfervaçaõ de divinas, & humanas letras)deixaõ
affentada a maxima referida,na cófideraçaõ de nof
fo etado; pelo felicifimo fitio, de taöiluftre Cida
de:em ordem ao qual,já dos Romanos foi chamada,
Iulia Felis Efta verdade,bem fe confirma na emula
çaõ dos eftrangeiros; entre os quaes, nem o Botero,
nem o Bodino,deixâraõ de reconhecer a ventagem,
com que nofos Reys fe preferiaõ aos mais de Euro
pa, pela difpofiçaõ de fe etabelecerem no fenho
rio das Conquitas do Univerfo.
A eta caufa foraõ fempre contínuas, & podero
fas as Armadas de Portugal,tanto na viagem de fuas
# I$-
I

19o EPANAPHoRA TRAGICA?


remotifimas Regioés,& Colonias,quanto na guar
da das cotas do Reyno. Porêm receberaõ mayor |
lutre,& credito, pela temperança(fe já não difer
mos defcuido(que começou a haver em a guerra de
Africa, reduzindofe fómente á defenfa das praças,
Ceita,Tangere, & Marzagaõ. Introduziofe por efia
caufa nas Armadas, o ferviço da nobre juventude |
do Reyno,que antes em Africa, como foberba efco
la do valor Portuguez,fe executava; fendo louvavel
cotume, dos nofos,que durou alguns annos,defpo
is da perda delRey,Dom Sebaftiaõ,não cingir efpa
da dentro na Corte, algum filho de Fidalgo princi
pal,antes ao modo da antigua Cavallaria, pafavaõ
a Africa,por receber fua ordem;ufo, & preceitos da
mão dos famofos Generaes, que então com menos º
pompofo nome,dos que agora fe coflumão não com º
menos gloriofo oficio,só com o titulo de Capitães |
{e contentavaõ. --,

Ajudou defpois a eta mudança, atrásferencia,


que os Reys fizeraõ das cartas, que chamaô de Co
menda,para as firmadas da Cofta, fendo ellas orde
nadas,pelo fáto intituto de nofia Religiaõ de Chri
fto para fuftentar a guerra, contra Pagãos, inimigos
de feu fantifimo nome, conforme a Bulla aurea de
noffa intituiçaõ,expedida em Avinhaó, pelo fanto
Padre João XXII, no terceiro anno de feu Pontifi
cado,que foi o do Senhor 1319. Por efta caufa os Fi
dalgos Portuguezes,começaraó a fe entregar águer
ramaritima, fervindo de continuo em as Armadas
por
NAvFRAG1 o DA ARMADA 161
porque ainda que os difcomodos, & rifcos da nave
gação,fejão grandes,fe achava por mayor conveni
encia affitir cinco verãos,fôra de cafa, defcanfando
nella,a mayor parte do anno, que portres inteiros,
deterrarfe do mimo da patria:porã os tres annos de
Africa,foraõ comutados a cinco Armadas da cofta,
quafiáimitaçaõ dos Cavalleiros Hofpitalarios,q em
cinco femelhãtes caravanas fe habilitaõ para Comé
dadores de fua Ordem Jerofolimitana.
Em alguns, & naõ poucos tempos, continuâraó
affinofas Armadas, a cargo de diferentes pefloas
As mayores que as governarão,em propriedade:ou.
tras que as tiveraõ annualmente. Dos primeiros fo
1ão os Condes da Feira Dom Joaõ Pereira, Anto
nio Pereira de Berredo,& Chriftovaõ Falcaõ de Sou
fa. Muitas vezes cofumavão os Reys Cafielhanos,
que então região efte Reyno, mandar afiftir fuas
forças navais,no porto de Lisboa; cuja ordem quafi
durou tanto, como o oficio de General do mar
Occeano, em a pefoa de Dom Luis Fajardo (no
bre Cabo, de aquelle tempo) pelo qual repeito
noíla Coroa de Portugal, nunca formou Armada,
propriamente fua: ou por naõ artifcar, a autorida
de das pefoas,que nella ocupafe, cm companhia de
aquelles, que pela ventura de fua Nafgaõ, fempre
queriaõ fermayores; ou por fe julgar defnecefaria,
tam grande defpeza, que convinha mais aplicar aos
grofos difpendios das conquitas. Eftes annos
concorria Portugal sómente com algús navios,bem
- L for
162 EPANAFHoRA TRAgica II.
fornecidos, que fe incorporavaõ com a Armada #
Caftelhana: fempre porèm capitaneados de Fidal
gos Portuguezes, de grande callidade, & mereci |
- ImentOs
Com tudo deta propria prevençaõ,fe nos feguio
mayor damno que utilidade; porque como nofas
Armas naõ tiveflem Cabo, que as governafe por
fi mefmo; tambem não tinhaõ Miniftro, que
procuraffe fua confervaçaõ ; donde fe feguio
a perda, ou falta, que defpois em vaõ fe la
mentava, vendo que os Navios, Galés, Artilha.
ria, & pertrechos, de nofa Coroa, feitos, & fabri
cados a feu difpendio, quafi como coufa divoluta,
nos era arrebatada: donde procederaõ aquellas no.
taveis fummasde todos os generos de muniçoês mi |
litares,de que, fegundo afirmaõ nofos manifetos, ^^º
foy defpojada eta Coroa: havendo alguns, que fo
bem a numero de tres mil pefas de artilharia, as que
Catella tirou de Portugal,durante o tempo de nof.
fa fogeiçaõ.
Por ete,& outros motivos,fe teve por certo, que
a refoluçaõ de aquelles Principes, & Miniftros, em !
confervarem fempre junto de nòs fuas armas, naó
era cafual; antes procedida de algúa profundifima
confideraçaõ de eftado; porque naõ fatisfeitos dos
prefidios do Reyno,cujas fortalezas etavaó em feu
poder, defejavaó lançar mais poderofo fiador, ou
mais repetido,a fua defconfiança. Elefta forte enté
diaõ os melhores: Naõ era/ómente a boa di/pofiçaõ de
--* - - -* - ---

- - - - - - - - - - --- ** - Eis
–- ••• •
NAv FRAGIo DA ARMADA 163
Lisboa para o aprºfio, & de/pacho das Armadas, a 4 obri
gava a taõ continua affiencia;mas aprofunda política de a.
quellamaçaõ,que /empre a infligou a viver com no/co preve
mida: porque naõ ha mayor eftimulo em a guarda da
coufa,que fe poflue, que o efcrupulo interior com
que felogra como alhea. Efia propria defconfiança
havia feito,que contra a liberdade do Reyno,fe def
fe o governo de fuas galés a Cafielhanos; como foy
primeiro,ao Côde de Elda,& defpois ao Marques de
Barcarrota:bem que como ainda não eftava defém
buçada a violencia,que andãoo mais os annos, acre
centou o filécio comum, & interefle particular; ho
nefáraó efia força, pondo os dous Generaes referi
dos:que o primeiro era filho de Portugueza,& ofe
gundo com tanto fangue, afinidade, & vifinhança de
Portugal,que juflamente fe efperava fofem ambos
(como o foraó)gratos a toda a Nobreza. Ufaraó affi
com nofco,os primeiros Minitros Cafielhanos co
mo o defiro cavaleiro, que unta de melo duro fre
yo,com que efpera domar"o potro, de que preten
de fervirfe em guerra, & paz. Alguns tempos def
pois,quando jà efia Armada de galês, por unirfe có
as de Efpanha, e havia extinguido,tornou a refuci
tar; mas sòmente em fua vazia dignidade,com o pre
minente titulo de General, das galés de Portugal,
que foi dado a Dom Jorge de Catro,Filho de Dom
Martim Afonfo de Catro,Viforrei que fora da In
dia;por cuja morte,fucedida em Genova, na ultima
guerra de aquella Republica, & Carlos Emanuel
… L2 Du
.
164 E PANAPHoRA TRAGICA"
Duque, de Saboya, pelos annos de 1625;pafou a
D. Affonfo de Lencatre, filho do Duque de Avei
ro,D. Alvaro:que tábem,fem já mais meter feu car
go em exercicio,faleceo,naó ha muito, em Cafiel
la,cujas partes feguio nas prefentes alteraçoés: de
maneira, q foube achar aquella Coroa, por conve
niencias de feu ferviço,dous Caftelhanos,que pare
ciaõ Portuguezes, & dous Portuguezes, que pare
ciaô Caftelhanos:donde fe ocafionou a extinçaõ da
Armada de galèstaõ antiga,nobre,& util,para a de
fenfa de nofos portos,& meneyo das frotas,que en
traõ,& faem nelles: a qual a juízo de muitos prati
cos: Se tem por igualmente nece/aria a Armada de alto
bordo, que todavia fe conferva: fuppoto que pelo
defprezo, que havemos vito fazer deta adverten
cia,nem os Principes,nem os Miniftros devem cô
fiderar efte modo de defenfa taõ importante,como
efes praticos o ponderaõ. *

Segundo cremos, naõ fe havia dado forma atè a


quelle tempo, acerca das preminencias, que para
com nofas Armadas deviaõ gozar as Caftelhanas,
ou nòs acerca dellas: nem taõ pouco, quaes feriaõ
as dos Portuguezes, para com as outras Nafçoens
da Monarquia. Entrou entaõ no governo do Rey.
no,pelos annos de 15 e 16. Dom Diogo da Silva,
Marques de Alemquer,filho do Principe Ruy Go
mes da Silva,Fidalgo Portuguez, que pafou a Ca
ftella em ferviço da Infanta Dona lfabel, quando
foya fer mulher de Carlos Quinto, Emperador de
Ale
NAvFRAo 1 o DA ARMADA. 165
Alemanha; & como o Marques Dom Diogo,fofe
homem difereto,& fem duvida, amante da Naftão
Portugueza(cujo natural não mudava, ainda q mu
daffe,a opinião de fua origem)tratou de acomodar
entre as duas Coroas,a dignidade das Armas, da de
Portugal,& outras fuas perrogativas; as quaes deíde
os primeiros anros de nofla uniaõ, os Aragonezes,
por ler feu Reyno,mais antigo q o nofo(e em a Mo
narquia tambê mais antigo)encõtravão com papeis
demandas,& oficios,de que refultou a nofa Coroa
não pequeno prejuizo; agradavel aos Caftelhanos,
porque entendião,que em quanto litigavamos com
os Eftados inferiores em ordem à igualdade, não af
pirariamos com elles à competencia. He de faber,que
as bandeiras navaes do Reyno de Caftella, de gran
des tempos a efia parte,só pintaõ em o Campobrã
co,hum Efcudo coroado,& nelle as armas de Cafiel
la, & Leaõ:fem mais adorno,timbre,ou folhagem: &
quando muito, por introduçaõ reprehenfivel, feha
| via permitido acomodar nos dous angulos inferio
res da Bandeira,duas breves tarjetas, com as armas
dos Generaes (upremos; o que aos outros fenaõ con
fentia. A forma defia bandeira, naõ queriaõ os Mi
nifiros de Caftella, fe equivocaffe com algúa outra
da Monarquia;& como os Portuguezes,tambem de
longo tempo,a trouxefem femelhante, sònosba
zoês diferente, fe acordou no Confelho de Eftado
de Cafella,que a Armada de Portugal offle de fua
antiga bandeira; porém que fe diftinguife vifivel
L3 InCIltC
166 EPANA PHoRA TR GrcA II.
mente da bandeira Cattelhana. Entaõ o Marques
de Alenquer,vendo que em feu governo, & por fua
intervençaó tivera efeito efte negocio, aludindo à
Silva de feu apelido,fez lançar pelo campo branco
de noff bandeira,húa filva verde,procedida do mef>
mo efeudo(naõ fem mifteriofa vaógloria), qual fil
va ocupava taó efpefamente todo o claro do pano,
que quafio fazia parecer de outra cor;com cuja pre
vençaõ os Miniftros Caftelhanos,federaõ por fatis
feitos,quanto algús Portuguezes por ofendidos, vé.
do afi enlaçar as altas infignias de feus Principes,
com as dos Vafallos particulares. Talhe o coftume
dos nofos, que naõ me determino a dizer,fe foy ma
yor efte fentimento,fe a enveja,de ver taõ fublima
da aquella frondoza filva,que a muitos fervia de efti.
mulo,algüas vezes defordenado.
Porém fendo eta a bandeira contituida quanto
á forma,quanto ás preheminencias, fe refolve favo.
ravelmente a nofo partido, fe por ventura ouvefe
tençaõ de obfervar o refoluto. Ordenoufe: Que a Ca
pinana de Portugal,abate/e/ua bandeira por guinda mais
na(como chamaõ os maritimos,que he decer, & fu.
bir o Etendarte)à Capitana de Cafiella, que por dife
vença das outras Capitanas, gozava o nome de Real
de E/panha;ºmefino afua Almiranta Real,(que em tu
o recebe iguaes preheminencias)& que as Capitanas |
dos outros Reynos da Monarquia, u/a/em com a Capitana |
de Portugal,é o me/mo comedimento, que ela com a Re:
alde E/panha,º que nas/alvas,foroes, & ordens, houve
|-
-
-
\,
- - {
NAvFRGIo DA ARMADA 1 67
fº/emelhante corre/pondencia: a qual nós, pelo difcurfo
dos annos,melhor pagamos,que recebemos.
Era por efte tempo,General da Armada de Por.
tugal,Dom Afonfo de Noronha;cujo nome he ain
dataó lembrado,que me efcufa de outro Elogio. E
porque, fegundo a nova ordem, havia de fer Dom
Afonfo o primeiro que lhe defle fatisfaçaõ, achou
elle,por mais conveniente a fua honra, eximirfe do
cargo de General perpetuo, q começava a exercer,
que não fer o Miniftro primeiro de aquelles abati
métos; em q prefumia abater,naõ sò a opiniaõ de fua
pefloa,mas ainda parte da autoridade do Reyno; o
qual,como bô Portuguez, tanto defejava levantar.
Deixou,finalméte,o pofio em que, de fervétia, lhe
fucedeo Joaõ Rodrigues Roxo, pratico marinheiro
& foldado valerofo;a quem grande copia de annos
& ferviços,fez fubir a lugar tam alto: porque naõ
ha efcada mais certa,para os grandes cargos,que fer
viços continuados com paciencia:donde foy fenté
ça,& opiniaõ de hú grande Miniftro,de cuja boca,
como fentença, & como confelho a ouvi muitas ve
zes. Que aquelle que contra vontade dos Valdos, qu//e
mandar os exercitos defeu Rey,/ofrendo,vivendo,& fe vin
do;o configuiria infalívelmente.
Dom Geronymo de Almeyda, Fidalgo de mais
valor, que ventura, ocupou tambem annualmente
ete poto de General; atè que pouco defpois, foy
declarado nelle,com callidade de perpetuo, D. An
tonio de Atayde;o qual,andando os tempos, naõ sé
L4 cuftofos
168 EPANAPheRA TRAGICA, II.
cuftofos intervallos,vimos Conde de Crafto de Ay
ro,por merce delRey D.Felipe, & da Catanheira,
por fuccefaó; Embaxador extraordinario a Alema
nha,fobre as ocurrencias das bodas de Fernãdo(ho.
je Emperador III.dete nome,entaõ Rey de Ungria
(& Infanta de Efpanha D.Maria, q faleceo Empe
ratriz.Naõ parou aqui a forte do Conde D. Auto
nio:pafou a Governador de Portugal,donde defpo
is deceo a Prefidente da Mefa da Conciencia. Afi
joga com os grandes a fortuna; que já pela propor
çaõ de fua propria grandeza,parece,emprega em fe
ns golpes,às grandes forças, que para os abalar, faó
nece flurias.
Porém,fucedendo que os emulos, ou as defgra
ças(que faõ fombras infeperaveis dos homens, co
no a fombra o he do corpo)levantafem ao General
D. Antonio,certa calunia,pello omifo focorro,que
dèra(ou pelo focorro que não dêra)à nao, em que º
da India vinha,o anno de 1 622. Dom Luis de Sou
za,por Capitão o qual defpois de tres dias, de vale
rofa peleja,ferendeo a defoito navios de Argel,que
defronte da Eiceira,poucas legoas ao mar,a envef.
tirão, & em parte queimaraó)durante pois a caufa
de feu livramento,que pendeo no Juizo dos Caval
leiros, & Tribunal das Ordés(donde defpois fahio
abfolvido, & com o titulo de Conde gratificado)
foy feito provimento, de Governador da Armada
em a pefloa de D. Manoel de Menezes, de quem?
muito diremos adiante.
Tal
NAvFRAcio DA ARMADA. , 169
Tal era o efiado, & ordem de noflas forças ma
ritimas,quando o anno de 1624. foy ocupada dos
Olandezes,a Cidade da Bahia,a vinte, & quatro de
Mayo, por Jacobo Vilichenio,General de 26. naos
{ grofas,que alojavão tres mil combatentes: exce fiva
força,por certo,para acabar mayor empreza, quanto
mais contra húa Cidade aberta, & defendida de oi
tenta foldados pagos,que não pafava defe numero
feu prefidio:pelo que antes, podemos contar, por
vencedor o defcuido de Portugal, que não o valor
de Olanda;fendo que neta parte,a nenhum inimi
go fou devedor; porque conheço fer diftante cou
fa,confeflar o esforço dos emulos,do que fua razaó.
Alguns quiferaõ defenderfe,& o intentàraõ; porém
os mais naõ quiferaõ, conforme o Governador Di
ogo de Mendoça defejava; o qual procurou facrifi
car comCidade.
quella elles as vidas na defefperada defenfa de a -

Efte taõ violento accidente fez dar outra forma


áscoufas de noff, Armada; a qual de novo fornecida
degente,navios,& vitualhas,em companhia da Real
deEfpanha,& feu General Dom Fadrique de To
ledo(Heroe principal de aquelles tempos)levou em
focorro da Bahia o General Dom Manoel de Mene
zes,em tal conformidade,que efe foy o primeiro a
nuncio da vitoria:porque a prudencia, & indufiria
dos Cabos, venceo a competencia dos fubditos em
todas fuas difcordias. Confeguiofe em quarenta di
as aquelle triunfo, com nova reputaçaõ dos Portuº
guezess
17o EºANAPHoRA TRAGICA.
guezes,que em difpendios,oufadia,& confiancia, fe #
fizeraó egunda vez conhecidos, & louvados das
nafgoés amigas,& inimigas.Porem a me{ma felicida
de á lhe concedeu,a fortuna das Armas,lhe naó ou
torgou,o infortunio das ondas; cujo trabalho, & pe
rigo fepultará entre elas,a muitos nobres:outros en
tregarà nas mãos dos emulos, dos quaes pouco havia
os fizera vencedores:taõ varia he em fuas profperi
dades efta mulher montruofa! Com duas rodas mo.
ve o feu carro; porèm fem comparaçaõ he mais ve
loz,& cruel aquella,que piza fobre o mar,que efiou
tra,que trilha fobre a terra.
He cotume das Batalhas,que ninguem faya del
las,fupoto que vencedor, com taõ inteiras forças,
que não necefite do longo defcanço, para reftau
rallas:donde pôde fer que olhaffe quando diffe San
to Agoftinho: Fora mais dano/a a Roma, a vitoria de
Cartagº,que/ua propria refftencia; porque a vitoria, trouxe
o ocio, & a contenda,o vigor; por cuja caufa jà enfinâraó
os Sabios:Que duas mãys de diver/o parecer, engendraõ
filhas,tambem diver/as; mas trocadas recíprocamente: por
que a guerra,fendo fea, bemã) da parfermofi;& a paz bel
li/sima heyniy da torpe ocio/idade: razaõ porq os Gre
gos proferiaõ aquelle celebre Proverbio: Da guerra,
a paz, da paz, a abundancia, da abundancia, o ocio, do ocio,
a malicia,da malícia,a guerra: como vemos,que em con
tinuo movimento pelas Refpublicas fucede.Compe
tente era logo o defcanço a nofas Armas, defpois
de tantos trabalhos padecidos,fe por mão do excef
# fo
NA vFRAG1 o DA A RMADA 171
fo fenão eftragafie: porém parece, pela mefma ra
zaó,que os homens foraõ nafcidos, para trabalhos
(cuja herança lhes pertence do mais antigo avoêgo)
de efcufaó, a fua natural ocupaçaõ, amando taô fo
bejamente o repoufo,que não querem parar nelle,
até não tornarem de licito, viciofo, & de louvavel
reprehenfivel,
Defia maneira podemos afirmar, fucedeu às Ar
mas Portuguezas, que cançadas da viagem, guerra,
& volta,da reftauraçaó da Bahia, forão entregues a
tamanho defcuido,como fe já entre nós, não pudef
fe haver ocafiaõ de tornar a ellas, contra a obferva
çaõ do certifimo cotume das Monarquias; que el
las(fegundo o corpo humano)quanto mayores fe
jaõ,eftaõ mais fugeitas à variedade, & corrupção de
humores pefimos, de que adoecem,& morrem, co
mo nas pafladas fe tem vito: & no corpo da Monar
quia de Efpanha, fe experimentou cutofamente;
donde sêdo nofa Coroa hum principal membro,fi.
cou tanto como os mais,expofto ao côtagio das en
fermidades do tempo.
Entaõ ordenou ElRey Dom Felipe:Que pois a au
/encia de fuas Armadas, deixara fem abrigo as coifas de
Tortugal,& Cafiella,havendo nºva ocafiaõ de temºr inva
fãs,afifi/e no Porto de Lisboa o General Thomás de la
Te/pur. Efte em propriedade governava os galeoês
da prata,foldado antigo,& pratico nas coufas da na
vegaçaõ,em que muito tem florecido a gente Bif
cainha, Juntou por efia ordem Thomás de laRefe
t Purº
172 EPANAPHoRA TRAGICA. •

pur,algús navios de varias efcoadras,& veyo juntar


fecom Dom João de Mendoça,Marques de Inojo- k
fa,que por Capitaõ geral dos prefidios Cafielhanos, e
era de pouco tempo vindo ao Reyno, a fim de de- |
fender uas cotas, dos affaltos, que não pouco felhe |
temião; cujo receyo foy tão eficaz em aquelles Ca- |
bos Caftelhanos,& Portuguezes, aqué efiava enco |
mendada nofa defenfa,que os obrigou a lançarem º
as primeiras trincheiras a Lisboa,defiguaes, & fracas |
para qualquer acõtecimento: Havendo afi quebrãta. |
da(como algús dizião)"grande opiniaõ de aquella famo- |
• fa Cidade, que emfua imen/agrandeza tinha até aquele |
tempo a/entado o credito de fua melhor guarda: naõ cert e {

em a diligenciados reparos comuns. Dizem: Que aquella


fºrtificaçõ(ºs outras que defpois infelicemente,parafenaã !
prºfigur,fe começaraó)ráficou/ervindo,de conf/ar ágê- )
tes de Europa,era Lisboa capaz dos me/mos temores, &
perigos que as mais Cidades do Mundo. Algús não jul- }
gando efa acção a impiricia, mas a conveniencia,
entendião:Que o Marques Dom Icão bufcava meyos para
fe perpetuar;nooficio,& a/siflencia de Portugal,compeu/a-
mento,ºu defejo de governalioficilitand-lhe operigo,que es
forçava as dificuldades que para configuilo reconhecia.
Por conta das prevençoês,fe havião nefte tempo
fabricado em Lisboa dous navios, de mayor grande
za,que perfeição;feus nomes São Felipe. & Santia
go; cujas capitanias nomeou o Marques, com poder
efpecial,em Acento de Siqueira de Vafconcellos,
& João de Soufa Falcão; nos quaes não faltando
OL! •
NAvFRAo I o DA ARMADA. 173
outros meritos,foy por entaõ o mayor acomodaré
fe ambos a receber da maõ do Miniftro Caftelhano
os pòtos,de que outros Fidalgos Portuguezes, fize
raó honrado,mas impertinente efcrupulo. Ambos
cftes Capitaês,em feus navios,guarnecidos, de pou
ca,& bizonha gente,fe agregaraõ à Armada de Ref
pur,cujo Capitaõ General o mefmo Marques feno
meava;entendendo: A poderia confervar / parada do
mais exercito naval, que governava Dom Fadrique: naõ
fem penfamento,de que a troco defla vaidade, a fu
fientafe nofa Coroa; pois(fegundo os Miniftros
de Catella afirmavaó)só a beneficêcianº/a, fe havia cõ
gregado aquelle poder no mar,com grandes expe/as da Mo
narquia: porêm deprefa trouxe o fucefo o denfen
gano,fendo brevemente divertido efe poder, para
o ferviço de outros Reynos,
Avizinhavafe o tempo de fair a c{perar nofas
frotas de Oriente, & Occidente; que de ordinario,
pelos fins de Setembro, vcm demandar a altura de
Lisboa; mas parecia aos Miniftros impoffivel, difpor
na mõçaõ preféte Armada,capaz deftes efeitos.
Governava aquelle anno de 1626. ao Reyno,
por fisómente,sé outro acópanhado,o Côde D.Di
ogo da Silva(que o fora de Portalegre)aufente en
taõ em Catella,o Códe do Bafto D.Diogo de Caf
tro,outro de nofos Governadores: que à imitaçaõ
dos Confules de Roma,defpois dos Reys, & antes
dos Emperadores,tinhaõ no governo fucedido: &
fupofio que o Códe D.Diogo da Silva,era Minit #
C
I EPANAPHoRA TRAGICA.
de grãde cuidado, fuave modo, & alta diferiçaõ (de
quem jà difemos muito em a primeira de noflas Re
laçoés)elle proprio côfeflava fua confufaõ,procedi
da do pouco aparelho,que entaõ havia para confe
guir o neceffario. •

Contava toda a força,& numero de navios Rea


ys, que fe achavaõ em Lisboa,de poucos, & defba
ratodos vafos; entre elles o melhor a Capitana, que
viera da Bahia. A nao chagas, q o anno anteceden
te havia chegado da India. O galeaõ Saõ Joaõ, que
tinha feito a mefma viagem. O galeaó Santo Anto.
nio,que por fejulgar defeituofo, a naó fizera. A fio
motrou defpois,o anno feguinte, em o focorro da
Rochella,fervindo de familiar efcolho, a toda afro
ta que acompanhava de Efpanha, & França; donde |
muitos viraõ taõ perto, o naufragio, quanto viraó a
efte navio perto de fi me fmo; porque em fortaleza,
& imutabilidade,pouco fe diferençava de qualquer
penhafco perigozo,dos que em feus golfos, & cof
tas,o mar conhece. O galeaõ Saõ Jofeph, que viera
do Brazil detroçado. Os dous novos galeoês Saõ
Felipe,& Santiago,que atràs nomeamos; & a Urca
Santa Ifabel,que fendo das menores, & menos bem
reputada nao,que aos Olandezes foraó tomadas na
Bahia,houve por ifo de caber em fatisfaçaõ do def
pojo, tocante a nofla Coroa. Deftes oito vazos
era força fe formafe a Armada,de aquelle anno;mas
quando nelles fe achaffe; o numero fuficiente, tam
bem em o da Artilheria,(e confiderava grande falta;
por
| NAvFRAG1 o DA ARMADA. 175
porque na defenfa,& guarda da Bahia,ficára de nof.
fa Coroa a mayor parte, & outra fe havia perdido
com os navios que naufragâraõ deida, & volta.De
gente naõ havia menor impofibilidade,pela propria
razaõ,da que ficará,& fe perdéra; porêm de todos,
feria mais facil o remedio defte defeito, pela certe
za que ha de naõ faltarem foldados, onde fe achaõ
Portuguezes. . •

O modo da milicia, que hoje fe ufa em Europa,


naõ he antigo, fupoto que naõ de todo diverfo da
conflituiçaõ dos primeiros exercitos; & porque
pôde fer materia agradavel, direi della brevemente.
Nofos paflados,que punhaõ a mayor felicidade das
batalhas,em óvalor, & conftancia com que as liti
gavaõ com feus inimigos;naô fabemos que na guer
ra fe governafem por regras fcientificas. como os
Romanos,& ainda os Gregos; fegundo lemos em os
efcritos de Vegecio,& Onoflandro Platonico, que
dos preceitos militares de húa,& outra naçaõ,foraõ
excellentes recopiladores. Entendo que a caufa de
fta noffa antiga omiflaó(fejà naõ foy demafiada ou
fadia,inimiga de ordem, & fuas vagarofas obterva
çoés)feria por ventura,porque guerreando nós tan
tos centenarios de annos, com naçoês diverfas, que
nos vieraó a inuadir á patria, naõ acertamos o colli
gir de todos,hum modo certo de guerra, por ferem
varios aquelles de quem eramos oprimidos,nem nos
atrevemos a receber a difciplina militar de húa sò
gente, porque logo fe experimentava inutil
• t para
com
176 EPANAPHoRA TRAcicA. II.
com a outra. Comtudo, pelo que fe efcreve nashif.
torias,& com bom juizofe pôde entender dellas,eu
creo que da milicia dos Mouros(cótra quem outros
feculos campeáraõ as armas de Efpanha)recebemos
a mayor parte dos intitutos militares; tanto por fer
eta a ultima Naçaõ,com que batalhamos, quão por
fe julgar por mais bellicofa, que as antigas; como fe
vio no efeito: pois em breviffimo tempo meteu de
baixo de feu jugo, o pefcoço, nunca de antes bem
domado,de huns,& outros. Efta doutrina fobre bar
bara,proveitofa, fe eftendeu mais efpecialmente ao
ufo da Cavalaria,em que os Africanos motraõ ma
yor detreza;& a nòs paflou com feus termos,armas,
& nomes,inteiramente.De aqui veyo,que antes que
Carlos Quinto Rey de Catella,pafafe alguns Caf.
telhanos a Alemanha, & de aquellas Provincias
trouxefe às nofas,alguns etrangeiros; em todas as
guerras de Catella, Navarra, Aragão, & Portugal
fenão conhecia o modo militar prefente, que pelos
moradores do Norte,começou:bem que muitos an
nos defpois,não fubio à perfeição fcientifica,em que
hoje o vemos.
A eta caufa fendo a Infantaria, a principal po
tencia dos exercitos, della fenão fervião os Cabos,
CII) aquella ordem, que convem; antes repartida a

gente em partes defiguaes,a que ora chamárão Hof


tes,ora bandeiras,quafitnmultuofamente pelejavão,
fem receber da arte algum beneficio;com a qualve
mos,que poucos bem ordenados, não sò fe defen
• dem,
NAvFRAG1 o DA ARMADA 1 7%?
dem,mas fuperaõ,a muitos malcõduzidos. Efta nó
tavelcófufaõ durou entre nôs,quafiatè os tépos del
Rey D.Afonfo o Quinto, q com mais luz, & juizo
difpos hum particula regimento de fua milicia;q an
dando tempo,melhorou ElRey D.Manoel; & o le
vou antes à perfeiçaõ,ã ao exercicio, ElRey D. Se
baftiaõ:mas hum, & outro, ainda femeados de abu
fos,fe os houveflemos de cóparar, com a ultima pra
tica da nova guerra. •

Deceu, finalméte,de Alemanha,& Italia, aquelle


louvavel coflume,de repartir em determinadas por
çoés,toda a Infátaria do exercito. A cítas partes cha
máraó os Romanos: Legioes, mas cóftavaõ de nume
ro muito crecido;porq a Legiaõ antiga cóprehédia,
feis mil foldados;& os Regimentos Alemãos(que afi
nomeaó elles fuas Legioés, a que nôs chamamos
Terços, ou Coronelias)naõ paflaraõ nunca de tres mil
Infantes, como oje os Terços Efpanhoes excedem
poucas vezes de mil; por ventura, de efe numero
chamados:Terços,por fera terceira parte de hum Re
gimento Alemaõ. Defpois alguns roformadores da
milicia,có animo de efcufar foldos, mais em lifonja
da fazêda dos Principes,q em ordem á utilidade mi
litar;inflituiraó em nofos tempos os Terços de doº
us mil, & quinhentos Infantes, repartidos em dez
companhias,com duzétos, & fincoenta foldados ca
da húa;cuja pratica cedo fejulgou impraticavel,naf
acendo(c omo
tranfgref aõ.he ufo)de hum mefino parto,aley, &

M Fo
178 EPANAvaoRA TRAcrca II.
"Foraó os Portuguezes os ultimos, q abraçáraõ as
regras deta milicia,q ainda hoje, cõ graviffimo da
no da guerra do Oriéte,{enaô póde introduzir. Era
a razaõ,porque nas guerras particulares de noff gê
te,que fe reduziaõ a conquitas da India, & praças
de Africa,naõ parecia de grande conveniencia, mu
dar a forma primeira, com a qual ellas fe ganharaõ,
& foraó confervadas.O mefmo fe podera entender
na India,em quanto naõ foy invadida das Nafçoés
Setétrionaes,que com fua entrada, praticaraõ logo
todos as ordens, & riguroza difciplina de Europa;
a cuja defenfa, quafi inutilmente, fe opoem nofo
valor,regulado pelos antigos preceitos, & effes mal
obfervados;os quaes com facilidade(como vemos)
contrafia a milicia moderna,defprezando a vaidade,
com que naquella parte, prefite na defordé da guer
ra antiga,nofa Nafçaõ.
Porém,defpois de unidos os Portuguezes, & os
Catelhanos,naõ herazaó, negarlhes a gloria, de os
havermos tido por Metres, da nova fciécia militar;
em que nos pagaraó outros bons ufos, que de nòs a
prenderaõ: felevantaraó em Portugal alguns Ter
ços regulares, de Infantaria Portugueza, fupofto
que volantes, & naõ de firme pè de exercito: dos
quaes,naquelles primeiros annos, foraó Mefires de
Campo, Gafpar de Soufa(defPois Governador do
Brazil,& do Confelho de Etado do Reyno)& Dom
Jorge Mafcarenhas, que em ambos os lugares igua
lou?..o primeiros & em outros guitos Potos,& #
{tl}OS
NAvFRAG1o DA ARMADA. I

tulos lhe excedeo.Ete he aquelle Dom Jorge,


foy varaó, entre os nofos, afaz notavel(& ainda
entre os do Mundo) pela defigualdade de fortu
nas q pafou,atè fer dellas rendido: ocafionandolhe
a morte,dentro de duvidas,muralhas, & cadeas;fo
bre largos annos de vida, & ferviços. Tépos defpois
detes Metres de Campo, alcançon Dom Joaõ de
Menezes que diferaõ de Penamacor)o me{mo car
go; levantando no Reyno hum Terço de Portu
guezes,para paffar a fervir nos Eftados de Frandes,
onde breveméte faleceo. E porque a nofla Nafgaõ
trafplantada em alheas terras, dizem os efirangei
ros,lhe fuccede o que aos pomos da Perfia(ditos por
ella Perficos)q notavelmétefe melhoraó em fabor,
& virtude; lembrado o Archiduque Alberto, do
| valor dos Portuguezes, que por finco annos go
vernara,pedio a ElRey Dom Felipe III. feu cunha
do: Se confêrva/e/empre nos Paizes baixos,bum Terço de
no/agente;naõ menos pela utilidade de Portugal, que pela
dos Paizes:porque para efte Reyno, feria e/colla de Cepi
taês,é para aquelles Eftados, feminario de valentes. En
taõ foy promovido a ete lugar, Diogo Luis de O
liveira,do Confelho de Guerra de Efpanha, pefoa
de grandes meritos, jà entaõ, pelas callidades do
fangue, & experiencia, que nelle concorriaõ, às
quaes acrecentando feis annos de Meftre de Cam
po em Frandes,foy transferido ao governo do Bra
zil,que exercitou tres trienios; donde pafou a Me
fire de Campo General,da guerra de Efpanha, con
M2 [[2
& EPANAPHoRA TRAGICA. .
rança,pelos annos de 1 637. & foy o primeiro
que em Caftella, com taltitulo, capitaneou exer.
citos dentro da patria: na difcordia obtinada, que
todavia cótinua,entre os Reys, Catholico, & Chrif |
tianifino.
Depois pretendeo Dom Francifco de Mello
(hú dos mayores Minifros da Monarquia)acomo
dar na fucefaõ daquelle Terço de Frandes, a Dom
Alvaro de Mello,feu irmaõ, de quem havemos falº
lado em a Relaçaõ primeira; mas os accidentes da
nova guerra de Pernábuco,naõ evitando o efeito do
pofio,breveméte cófeguido, lhe divertio pelo me
nos,o do lugar;aplicãdofe ao Eftado do Brafil,aquel
le Terço levárado para Frandes. Porém defpois,fe
naõ ferena, aliviada a Republica, por efte ou por
outros fins(como cuidaraó algús Eftaditas)foy por
diáte a pratica,& execuçaõ dos Terços,para aquel
le ferviço confignados; dos quaes a mi me coube boa
parte,tendo ocupado,em aquelle q fe pertédia con
fervar nos Paizes baixos,adõde paffei,efperando al
cançar a imitaçaõ dos nobres exemplos, que alime
haviaõ deixado taõ grãdes antecefores; mas as mu
dãças de Reynos,& Monarquias, mayores intentos
cofiumaõ mudar:porque os negocios grandes, nunca
Paraó em pequenas confequencias.
Entendefe por efte largo, mas naõ inutil difcur
fo,como em noflas emprezas, naõ tinhamos ufado,
antes dete tempo,a códuçaõ dos Terços militares;
fervindofe todos aquelles annos as Armadas do
Rey:
NAvFRAGIo DA ARMADA 18 I
! Reyno,degente collecticia;juntasômête para húa,
ou outra ocafiaõ; a qual cefando fe efpalhava; de
maneira,que jà mais podiamos confervar, nem Ca
pitaés, nem foldados velhos. Efte inconveniente
procurou fe atalhaffe, & atalhou Dom Antonio de
Atayde, fendo provido de General perpetuo da
Armada Portugueza(como temos dito)porque lo
go que felhe conferio o cargo de ella, alcançou or
dem delRey,para que em Portugal felevantafe, &
foffe fixo na Armada hum Terço de Infantaria na
tural,cujo primeiro Metre de Campo, foy o Almi
tante(tambem perpetuo)Dom Francifco de Almei
da pefoa de grande fuficiencia, para mayores ocu
: paçoens,como já tivera,pafando á India;& defpois
quando lhe encarregáraó os governos de Mazagaõ,
& de Ceita,donde por condiçaõ dos tempos, foy o
ultimo Portuguez,que a governou: mas não ferá o
ultimo dos Portuguezes, que a governem.
Durou efte Terçosò,& em boa difciplina, até q
com a perda da Bahia,fe entendeo era neceffario fa
zer mayor esforço de gente, para fua reftauraçaõ;
pelo que refoluto o governo do Reyno, fobre re
elutar o antigo, mandou levantar novo Terço, com
nome de Terço do/ocorro (porá ao velho chamavaõ,
da Armada)& cõ animo de que acabada a empreza do
Brazil/e reforma/e: porque os Miniftros Caftelha
nos,com algúa efiudada diffimulaçaõ, fomentavaõ
nofo defcuido;naõ lhe fendo intrinficamente defa
gradavel,ver defarmados os Portuguezes;
• M3 jà como
pre
18: EPANAPHoRA TRAGIcA II.
prefagos do fucefo de nofa liberdade, que infenfi
velmente lhes pruia nos coraçoês: de que eu pofo
dar grandes provas,pelo muito tempo de minha vi
da,que gatei na pratica de aquelles Miniftros, em
guerra,& paz.
Foi encarregado efte fegundo Terço, a Antonio
Monis Barreto,fidalgo mancebo;porèm já entaõ de
grandes ferviços,& conhecido valor; cuja e fpecio
fa prefença,outra forte lhe prometia,fendo elle hum
dos homens de melhor arte,& figura, que houve em
feu tempo,em toda Efpanha,cuja gentil difpofiçaõ
lhe trouxe,como fucede,ocafioés de honra,& de pe
rigo. Pudera dizer delle mais, fenelle me fora me
nos;ferá com tudo,força nomeallo, & julgallo neta
Relaçaõ muitas vezes, como a etranho; porque
quem he amigo de Plataó, ainda he mais amigo da
verdade.
A propria caufã(como apontamos)& outras ma
yores,que havia defbaratado os navios de noffa Ar
mada, confumira tambem a melhor parte da gente
de ambos Terços,velho,& novo, depois da jornada
da Bahia. As poucas, & faltas Companhias,que fo
raõ chegando,fe alojaraó em Cafcaes, onde com ou
tragente miliciana, recolhida para defenfa da Pra
ça, affitiraó aquelle veraõ de 1 626. fem proprio
Cabo que governaffe a Infantaria; porque o Gene
ral Dom Manoel de Menezes,& o Metre de Cam
po Almirante, Dom Francifco de Almeida,haviaõ
Paflado à Corte de Catella, em feguimento de fuas
pre
NAvFRAG1 o DA ARMADA. 183
pretençoés;&o Metre de Campo Antonio Monis,
fe achava reformado por premio da viagem; enten
dendofe,que para defcanto da Fazenda Real, convi
nha alivialla de fuperfluos gatos. Se os Miniftros
fempre alcançafem a verdadeira diftinçaõ do fu
perfluo, ou neceffario grãde ferviço fariaõ aos Prin
cipes, efcufandolhe as cufofas de mafias, que con
fomem os patrimonios Reaes; mcfira,todavia, o fu
ceflo,que muitas vezes feefcufa o precifo, & fe pro
fegue com o defneceffario, de que procedem novas
defordens; & por hum que fe poupa com violencia,
feefperdiçaõ cento liberalmente. Confefo que não
fou dos mais amantes da parcimonia, mas conheço,
que hum dos laços,em que mais vezes tem caido a
improvidencia dos Principes,he eta dourada propo
fiçaõ de feu alivio,& defempenho; que de ordinario
lhes ocafona,miferaveis perdas,& incomodos.
a Ete(que referimos)era o efiado das armas,que fe
empregavaõ em guarda da Cofia do Reyno.O qual
bem confiderado pelo Conde Dom Diogo da Sil
va,fazia inflancia por confultas, & lembranças ao
nofo Confelho de Caftella, que afiftia junto a El
Rey:(fonte das difpofiçoés de todos os negocios)
Para que a nova Armada que febia preparando, defeis na
vios,fe declara/em os Cabos, & Capitaês, que haviaõ de
gºvernalla.Quando defpois do tempo muito entrado,
recebeo em Madrid ordens Dom Manoel de Mene
zes: Para que vie/e/ervir/euffo, agora em a proprieda
de confirmado;como a Antonio Moniso
--------------- M 4de Almirantepetuº
• fer
184. EPANAPHoRA TRAGICA.
petuo,º Mefire de Căpo da Infitaria, do modo 4 D.Frã
c/co de Almeida(promovido ao governo de Mazagaõ)o ex
ercitava.Que os quatro navios restantes,fereparti/#. O pri.
meiro a D. Antonio de Menezes,filho herdeiro de D. Carlos |
de Noronha.Ofegã do a Göçalo deSou/a, filho herdeiro de
Fernaõ de Sou/a,Governador de Agolla,& Veador q fora |
da Cafa de Braçãça. O terceiro,a Manoel zºias de Andra
de fidalgo da Ilha da Madeira antigo Capitaõ de mar, & |
guerra:e o quarto a Chrfaraó Cabral, Cavaleiro de S. Ioaõ
filho de Antonio Cabral,Chãeelerda Corte e Relaçaõ de Lis
boa,o qual Chriftovaã Cabral,era Capitaõ do Terço novo;&
4 Zoomingos Gil da Föfeca, natural de Viana, Capitaõd, |

mefno Terçº,fe embarca/º com fua Companhia,que confiava


de boa gente de guarniçaõ na Capitana Real. !

Repartidos os navios nefta forma,tocava a Dom i


Antonio o Galeaõ São Jofeph. A Gonçalo de Sou-º
fa,Santiago. A Manoel Dias de Andrade, São Feli
pe,& a Chriftovão Cabral,Santa Ifabel. O General *
ocupou fua Capitana; ao Almirante vinha afina.
do por navio de mayor porte,o galeão São Joaó de
mil toneladas; o qual por fua ruim fabrica,& marea
ção,era o mais inhabil do exercicio, paraque fora
eleito ºm Madrid dos Miniftros de nofo Confelho,
como defpois fe vio em fua latimofa tragedia.
Eftes,& mayores defconcertos,procedem de que
as materias fedefwiem das pefoas, experimentadas;
porque fe bem o juizo dos homés feia capaz de todo
oh mano conhecimento,tem eta regra fua limita
gaó nos actos Praticos; cuja comprehenfaõ rº. ,
NA vFRAG I o DA ARMADA. 185
da fciencia experimental,já mais fem ella difpenfa
do,a algum grande talento. E como a futil efpecula
ção, poucas vezes (e humilha aos rendimentos das
coufas, todos os difcurfos fundados fomente na teo
rica dos Minitros,ou Efiaditas, refvalão defpois de
praticados,a grãdes inconvenientes. Vemos que não
obtante tantos defenganos,os Principes fe acomo
dá o a menear fuas expediencias, & negocios, antes
por mão dos efpeculativos,que dos praticos;não fa
zendo algum cafo dos exemplos,que lho contradi
zem. He pois,queftão profunda dos politicos, qual
feja a caufa defte comum defacerto? Eu crco fer a
} femelhança,ou afinidade, que ha entre os Princi
pes,& os Efpeculativos; o qual fenão acha entre os
Principes,& os praticos; porque já mais hum Rey,
pôde faber perfeitamente as materias infimas, neu
ainda as mediocres,as quaes sò conhece confufamen
te,por beneficio de algúa leve contemplaçaõ;o que
lhe naõ fucede em os negocios de alta importancia,
que os Monarcas coftumaõ profeflar, como doutri
na propria de fua dignidade.
Etando jà proxima a faida da Armada, a cujo a
prefto,notavelmente adiantou a declaraçaõ dos Ca
bos della,entrou no governo do Reyno, por tercei
ro Governador, Dom Affonfo Furtado de Mendo
ça, que fora Arcebifpo Primas de Braga, & vinha
# promovido ao Arcebifpado de Lisboa. Era D. Afon
fo,Varaó de grande peito,onde mal podia cubrir có
o Roxete pacifico o ardor do anime belicofo,
?
#
mor
!
186 E PANAPHoRA TRAGICA.
moftrava em todas as materias militares. Tomou o
juramento de feu cargo, Domingo dez de Setêbro,
de aquelle anno,& no feguinte dia, recebeo a prefi
dencia da femana,na Mefa do defpacho ordinario,
que alternativaméte entrefi detribuhiaõ os Gover
nadores:preferindofe aos mais,em voz,mando,affen
to,& firma, aquelle que prefidia. Defta jurifdiçaõ
ocafionado,ou compelido de feu natural, procurou
o Arcebifpo Governador,expedir a Armada, den
tro de fua femana; mas não fendo pofivel pela
contingencia das coufas maritimas fe contentou
com vifitalla algüas vezes, deixandoa taõ difpofia a
fazer viagem, que sò o vento para fair, & navegar
lhe faltava.
Agora parece, que nefte lugar devo fazer men |
çaõ das pefoas de callidade,& póftos,q por aquelles
navios fe embarcâraó,naõ achando outra mais con
.
veniente parte,para referilas, nem fendo razaó ef
quecer dos companheiros nos trabalhos, entre os
quaes, os homens contraem mayor afeiçaõ; porque
como da fortuna trifte,fempre fuja a ambiçaõ, & fe
defvie a enveja,vemos que nefa fortuna fe amaõ os
homens cordealmente: porque obraó entaõ como
devem, as obrigaçoens da natureza. Quanto mais,
que fe por tirar feus nomes do efquecimento, nos
puzemos a efte trabalho, particular obrigação nos
corre, de os fazer manifeftos,
Erão os Aventureiros, que fe embarcáraõ,com
o General Dom Manoel de Menezes (direi primei
|- TO
NA vFRAG I o DA ARMADA 18
ro os mortos)Ruy Gomes da Silva, filho de Joaõ
Gomes da Silva. Chriftovão de Mendonça, filho de
Joaõ de Mendoça que diferaõ Cafaõ. Nuno de
Mello, filho de Antonio de Mello, o de Bucelas.
Manoel de Soufa Coutinho, filho de Chriftovão de
Soufa Coutinho, fenhor de Bayão, que faleceo def.
pois sédo o ultimo Governador da Malaca,Antonio
de Figueiredo de Vafconcelos,& Luis Gomes de Fi
guereido feu irmaõ, filhos de Iorge de Figuercido
de Alarcaó,& ambos,com outros dous irmãos feus,
morrérão na guerra
viva,em varios tempos,em fervi
ço defe Reyno.Dom Joaõ da Silva, filho de Dom
Fernando da Silva de Campo Mayor, Joaõ de Sou
fa Falcaó,filho de Chriftovaõ Falcaó de Soufa, Ge
neral que foy da Armada de Portugal. Egas Coelho,
filho de Egas Coelho,fenhor da Ilha de Mayo,Luis
Barreto Sernige,filho de Manoel Barreto, Luis Bor
ges de Catro,filho de Simão Borges, Ayres Ferrei
ade Miranda,filho de Antonio de Miranda; Mano
elda Camara,filho de Domingos da Camara,Gene
ral que foy da China: Dom Francifco de Soufa, fi
lho de Dom Francifco de Soufa, que foy Capitão
de Ormuz; Dom Antonio de Lima, filho de Dom
Joaõ de Lima, Joaõ Freire de Andrade, filho de
Reymão Pereira, fenhor de Baleizão. O Capitaõ
Domingos Gil da Fonfeca, o Capitaõ Lourenço
Moufinho; o Capitaõ Ignacio de Mendoça de Vafº
concellos. E dos vivos: Luis Martins de Soufa, que
ojegouerna Angolla, Ruy Dias Pereira, irmão de
João
188 EFANAPHoRA TRAGICA. II.
João Freire(de quem já difemos)Lourenço Cirne
da Silva, filho de João Cirne, Senhor da Agrela,
Gonçalo da Cota Coutinho, filho do Doutor Pero
da Cota,Cofmo do Couto Barbofa, q varias vezes
foi defpois Almirante da Armada defe Reyno, D.
Francifco Manoel,que para fºr mais conhecido, lhe
afinamos por finaes feus infortunios. .
Em companhia do Almirante Antonio Monis,fe
embarcou hum filho feu natural; por nome Luis
Barreto, Martim Affonfo de Tavora, filho do Re
oteiro mór Ruy Louréço de Tavora,Dom Diogo
de Carcome,filho herdeiro de D.João de Carcome,
Francifco de Moura,filho de Alexandre de Moura,
que governou Pernambuco: Alexãdre de Moura de
Albuquerque,filho dete FrãCifcode Moura,DMa
noel Lobo,filho de D. Francifco Lobo,Duarte Dias
de Menezes, filho de Damiaó Dias de Menezes,
Gafpar de Soufa da Cunha,filho de Joaõ de Soufa;
o Sargento mòr Sebaftião Galhardo.
Com D. Antonio de Menezes; Nuno da Cunha,
filho herdeiro de Joaõ Nunes da Cunha, Senhor
dos Morgados de São Vicente da Beira; & pay de
de Joaõ Nunes da Cunha(aqué não he juto apartar
mos detas memorias, como nunca o apartamos da
lébraça)Pero Lopes Lobo,filho de Luis Lopes Lo
bo.Simaõ Mafcarenhas do Habito de S.Joaõ,filho
de Pero Mafcarenhas,Comédador de Alcaçar, An
tonio Gonçalves da Camara, filho de Joaõ Fogaça
Déça,Governador que foy da Ilha da Madeira. An
[OI]1O
189
NAvFRAGIo DA ARMADA
tonio de Sampayo,filho de Manoel de Sampayo,fe
nhor de Villa flor,D. Lourenço de Almada, filho
mais velho de D. Antaó de Almada, Embaxador de
Inglaterra,D.Manoel Coutinho, filho herdeiro de
D. Luis Coutinho,gétilhomem que foy da Camara
do Principe Filiberto de Saboya, D. Joaõ de Vive
ros,filho de D.Francifco de Viveros Fadrique Al
varez de Toledo,filho de Pedralvares,d’Abreu, fe
nhor da Bezelga.E D.Francifco de Menezes, filho
herdeiro de D.Bernardino de Menezes, pefoa nef
tes tempos afaz conhecida em Caftella,& Portugal
por fua alcunha,partes,& progrefos.
{
A Gonçalo de Soufa,acompanhavaõ D. Duarte
{ Lobo,filho de D.Rodrigo Lobo, que foy General
da Armada Portugueza:Fernando da Silveira, filho
de D. Luis Lobo da Silveira,fenhor de Sarzedas, q
foy em propriedade,Almirante da me{ma Armada,
& do Confelho de Guerra.
A Manoel Dias de Andrade: Dom Antonio Lo
bo,filho de D. Pero Lobo de Elvas,feu cunhado An
tonio Correa de Cuniga de Setuval. Antonio de
Freitas da Silva, que defpois foy Tenente de Mef>
tre de Campo General do Brafil.Felis Ferreirra,pef
foa de conhecido valor,& induftria, Alvaio da Cof
ta da Silva,de iguaes procedimétos, & outros mui
tos nobres da Ilha da Madeira, que por naõ ferem
naturaes nofos,naõ eftamos em feus nomes taõ pre
fentes,como delejavamos; por contribuir raó só à
verdade, mas a obrigaçaõ, cm que aquela
*-- -- - - - - -
#
&#lat
19o EPANAPheRA TRAgica; II.
& iluftre Ilha,com beneficios, & aplaufos, nos tem
pofto.
A Criftovaõ Cabral,feguio a mais luzida, & pra.
tica gente,que entaõ fe achava em Lisboa; entre os
mais,Diogo Gomes de Figueiredo, agora Meftre de
Cápo,& q o foi no ufo das armas, em que he excel
lente, do fereniffimo Principe de Portugal, Dom
Theodofio, que Deos haja.Paulo de Parada,que em
quanto fervio entre nòs,procedeo fempre có grande
opiniaõ de bom foldado;& com a mefima,foy no ex
ercito de Catalunha,Meftre de Campo dos Vetera
nos Portuguezes: & defpois que làfe efqueceo da
Patria,mas naõ das obrigaçoens,fubio por feu com
primento,a eminentes lugares da Milicia, naquella
Coroa. Francifco de Freitas, filho do Sargento mór
Manoel de Freitas,foldado de exquifito valor, def.
treza,& boas partes, cultivadas das letras, que lhe
comunicâra feu tio,o douto Padre Frey Serafim de
Freitas,da Ordem da Mercè:Varaó entre os nofos,
taõ fabio,que lhe foy cometida a impugnaçaõ, &
repota, ao livro que Hugo Golfio, Olandes, fa
bio herege, efcreveo da liberdade do Mar, contra
o poder das Chaves de Saó Pedro; &juftificaçaõ
dos titulos Reaes,que a nofos Reys pertencem, por
invetidura Pontificia; em cuja defenfa,Frey Sera
fim efcreveo o feu, & nofo livro,de Jafio Imperio
Lufitano.
Etas foraó,por mayor, as pefoas de mais conta,
que na Armada de aquelle anno fe embarcaraó, em
foro
NAvFRAGIo DA ARMADA 191
foro de Aventureiros; fem referir muitos outros
Capitaés,& Oficiaes reformados, por fer numero
proluxo,& mais competête aos livros da Emmenta,
que aos das hiftorias.Com tudo, poderia fer, que al
guns fugeitos naõ menos notaveis, que os referidos,
efqueceffem por 4 a memoria he potêcia fragil; po
rêbaftará q a malicia,naô tenha algüa parte em fua
ofenfa,quando da pena fe dem por agravados.
Depois de haver tres vezes, em vaõ, intentado
fair a Armada(cujo repetido impedimeto, fe decla
vou a prefagio)ultimamente fe fez á vela,quarta fei
ra pela menhãa,vinte,& quatro de Setembro,feguin
do em tudo a forma defeu Regimento; pelo qual fe
lhe ordenava:Oue pºurãdo confervarfena altura de 38.
graos,& dous terços,fintôentalegoas apartada da Cºfia,ber
defa/e ata ao,de Outubro;porque naõ fe encõtrando as na
os da India, atè aquelle tempo, o governo de Portugal,teria
cuidado de acodir com novas ordens,fegundo os accidentes,
mafirafemfernece/farias.
Pota a Armada,na altura de feu Regimento, fe
profeguiraó com bom tempo as voltas, em que fe
havia de fuftentar;atè que fazendo terça feira, trin
ta de Setembro,o caminho de Lesfuefie, por todo o
quarto da Alva, ou Modorra(como lhe chamañ os
rudos, que he entre nôs a terceira vigia da noite)e
defcubriraõ ao romper da menhäa, pela volta do
Loes noroefie, defafeis embarcaçoés, ó navegando
em boa ordem, dirigiaõ fuas proas a nofia Armada;
de que avifado o General Dom Manoel de Mene

----
2es
192 EPANAPEoRA TRAgica!
zes(primeiro por fua propria vigilancia, que pelas
rondas,& oficiaes do navio)mandoufe puzefle em
ordem de guerra; o que fe fez com tal preteza, que
affi por efia ordé,como pelas forças de aquella grã
de Capitana(que foy a melhor náo, q em feus tem
pos navegou no Mundo)ella sò,parcce que prome
tia a vitoria de mayores emprezas: taõ foberba, &
fofrega fe motrava da batalha. Antonio Monis,
quanto ainhabilidade defua Almiranta, lhe deu lu
gar, reduzio os mais navios a forma de peleja. Po
rèm declarandofe o dia,jà de todo, forão, reciproca
mente conhecidos ambos os Eftendartes de Por
tugal,& Caftella. .

Era eta efquadra húa principal parte, a que fe


reduzira em Cadis,aquella Armada feita em Lisboa,
em que antes fallamos. que do governo do Gene
ral Refpur,havia pafado ao do General Francifco
de Ribeira,ete fora aquelle venturofo Capitão, que
no Archipelago, cõ poucos navios, que governava
no Viforreinado de Napoles do Duque de Ofuna,
Dom Pedro Girão(cujos feitos, & ditos, tanto cele
brou nofo amigo Dom Francifco de Quevedo)des
baratara fetenta, & duas galés da Armada do Tur:
co. Almiranteava ao General Ribeira, Dom Nico
las Judice Fiefco,Gentilhomem de Genova,& pro
prio governador de húa efquadra de navios,fabrica
dos naquella Republica; cujo fegundo Cabo era
Dom Paris Judice,Irmão do Governador Dom Ni
colas. Tambem por etes navios fe tripulárão(afi
•• cha
NAvFRAc 1 o DA ARMADA. 193
(affi chamañ os foldados à deftribuiçaõ, que fe faz
delles)algúas bandeiras da Infantaria Portugueza,
que o Marques da Inojofa(como jà difemos)a ex
penías da Coroa Caftelhana, levantàra no Reyno
o anno antecedente. Tres hiaõ a cargo de Capitaés
naturaes nofos. Dom Diogo de Cifneiros, naf.
cido em Portugal, ainda que de fangue Caftelha
no. Dom Joaõ de Ribeira das me{mas callidades;
filho de Martim de Ribeira, Sargento môr do Caf.
tello de Lisboa; & Dom Pedro Mafcarenhas, fi
lho de Dom Jorge Mafcarenhas; defpois Conde
de Caftello-novo, & neftes tempos, Marques de
Montalvaõ.O qual Dom Pedro entre muitos filhos
de feu pay,que todos foraó de conhecidos meritos,
|- guardou a forte para inftrumento da ruina de fua
cafa, pela propria inconfiderada acçaõ, com
que entendeo engrandecela. Affierraó por ambi
çaõ nofos juizos! -

Aviftandofe nefta forma, ambas as Armadas,


houve lugar a primeira vez, (& creyo que a uni
ca) de fe exercitar com a Capitana de Portugal
aquellas cortezias, & preheminencias, que pelos
novos acordos(jà referidos)lhe efiavaõ determina
das; mas fupoto que o General Cafielhano duvi
dafe alguns pontos do afentado:fiandofe da inter
pretaçaõ das ordens, que he a origem dos mayores
desferviços,q fe fazem aos Reys, houve de acomo
darfe,fem inftancia,afeguir de dia a Bandeira, & de
noute o Forol da Capitana Portugueza:
- - - - - • -N fupoto[\Q4
-
194. EPANAPHoRA TR.GIcA II.
no abatimento do Eftendarte, fempre fe confervou
refiftente,recolhendoo,& foltandoo, como he ufo.
As falvas foraõ como de menor, a mayor Cabo.
Começou o General Ribeira, defparando de fo
tavento fete pefas, a quem Dom Manoel refpódeo
com finco, & com duas boas viagens(cotume ur
bano dos navegantes)às tres,cõ q o falvou o Ribei
ra. Aos Governadores, & Almirates, refpondia com
húa sò peça,falvandoo com finco, & outra boa via.
gem,& toque defpois de Clarim; com o qual, fem
peça, nem boa viagem, fatisfazia a todos os mais
navios, que com tres peças, & tres boas viagens, o
faudavaó.
Nofa Almiranta,por inteiro pagava as falvas dos
Cabos Caftelhanos,& aos mais com algúa ventagem
da Capitana,correfpondia: os outros navios fe tra
tavaó igualmente,
Seja difculpavel a dilaçaõ, que contra meu cotu
me faço,na informaçaõ detas materias; porem co
mo pretença a pratica de coufa util,para ocafioés que
cada día fucedem,jà que etas duvidas, poucas vezes
fe foltaõ pelo preceito,fenaó pelo cotume,conveni
ente ferà os futuros,deixarlhes advertidos os exem
plos pafados: pois tambem o mais honeto fim da
hiftoria,naõ he sómente deleitar com a relaçaõ dos
fucedos, mas fazer delles liçaõ para os vindouros,
donde fe funda fua mayor utilidade.
Pelo Sargento mòr Guadalupe, fez logo o Ge
neral Francifco de Ribeira, comedida mentagem a
1Dom
NAvFRAc 1 o DA ARMADA , 195
Dom Manoel de Menezes, onde referio: Como havia
alguns dias, que de Calis partira em/na demanda,por haver º
recebido ordens Reaes,que atè 15. de Outubro, o acompa
nha/es/gui/e,& obedece/e naqueles mares, para aindar
tã a Armada defeu cago,ao recolhimêto de no/as náos da
India. Porém q/e até e/e dia,elas naõaparece/Emma cofia,
elle General Ribeira,/evolta/e a barlaventear/obre e Cabo
de Saõ Vicente,e/perando alli osgaluês da prata; nos quaes
feu antece/Or,Thomás de la Relpur,havia de vir aquellean
no,do Mundo novo.
Dom Manoel,reconhecédo a ordem, & moftran
do eflimala,repondeo,efta próto á fua obfervãeia,
pelo que della lhe tocafe. O me{mo executou cada
qual de aquelles Cabos,com toda a demoftraçaõ de
externa benevolencia;porã por evitar emulaçoés,&
defconfianças,D. Manoel prudéteméte defviou os
cógrefos,& vitas de hús,& outros,declarãdo tal ufo
por ab{urdo de ruim difciplina; sédo, como faõ, taõ
violêtos os accidentes da navegaçaõ, q pela fobeja
côfiança,de algús Cabos,tem fucedido no mar gran
des incóveniêtes: entre os quaes, foy exquifito o acõ
tecimento de Dom Antonio Tello de Menezes,que
fendo Capitaõ de húa náo da India, por femelháte
defcuido,fe partiraó ellas,deixando o em terra: falta
jelle defpois valerofamente fatisfez; porque faindo
fem efeito,em feguimento da Armada,em húa ligei
racaravella,tornou das Ilhas ao Reyno, & delle por
terra partio, & chegou á India, vinte dias antes de
fua volta a Portugal. . .
- * N2 Os
196 EPANAPHoRA TRAGICA!
Os dias fe paffaraó fem encontro, nem novidade;
& como os Cabos Caftelhanos, quafi violentamen
te obedeciaõ,julgandofe o primidos, fem algúa utili
dade(como era certo a naó havia,para fua ocupaçaõ
naquella parte)apenas fe havia cumprido, o termo
que traziaô por ordem, quando com iguaes ceremo
nias ás primeiras fe apartàraó. Profeguio a Armada
Portugueza algum tempo mais, por aquella paragé,
aos bordos de mar, & terra,em que fe futentava,po
rém, vendo Dom Manoel, que nem as nàos fedef.
cobriaõ, nem os Governadores avifavaó, exceden
do fua affittencia, aos dias que trouxera para conti
nuala;& confiderando,igualmente,que o tempo re
verdecia,& quaó perigofas,fobre horrendas, faõ as
primeiras tempetades do anno, na cota do Reyno;
{e refolveo em bufcar terra, donde tom affe infor
maçaõ do fuceffo das náos,& frota.
A terra naõ era defcuberta,quando fe reconhecê
raó algúas embarcaçoés, que della vinhaõ, na volta
do mar, bufcando a Armada; a qual naõ a cafo, mas
como fe fofle conduzida de graõ providencia, nave
gava a encontrallas: porque o detino das coufas, fòe
induzir os homens,aos mefmos fins,de que ha de fer
executor nelles.
Com duplicadas vias avifavaõ a Dom Manoel os
Governadores de Portugal: Comº por jufas caufas, ha
via ElRey defiichido ordés,de/pois de faida a Armada,pe
ra que as m4us da India arriba/em ao porta da Corumba em
Galkº, mas jue/endo logº melhº informado(he de no
tar»
NAvFRAG1o DA ARMADA. 197
tar,quaõ vizinhas andaó,na atéçaõ dos Principes, a
verdade, & a mentira);ápor mar, é terra/e lhe haviaõ
remetido varios avifos, para que profegyjem a Lislo1 /ua
yiagem; o qualporto,podericõ vir bufcar, defviando/equa
#
renta legoas dºrofia, donde achariaõ a Armada, que as e/>
perava. Pelo que,elle Dom Mancel, devia logo ife navclia
de Galiza,outras quarenta legoas apartado da terra, para
que vindo as mãos, comopodia e/perafe, decendo de mayor
altura,f/e certo/eu encontro; porque era pº/sivel, que/em
embargo de toda a diligencia dos avifos;elles naõache/em as
náos donde as bufcavaõ. E que por quanto a mefina contin
"
gencia/e confideravato/sivelentre a Armada,ês as mãos,a-
|
quelle ca/ofe ficava conferindono (cmfºlho de Efladº, para
} que defua refoluçaõ.fe lhe de/pache/e cutra Caravela, que
… por ventura chegaria antes de ferpçfio a caminho.
Porêm, pouco defpois de haver Dom Manoel
refpondido fegundo convinha: Queficava obediente
ao que/e lhe ordenava, contra todas as dificuldades, que fe
lhe opunhaõ. Chegou terceira ordem, do me{mo go
verno,referindo: Como já as mãos havicó entrado nº pºrto
da Corunha,/obre cuja certeza,º Confelho de Eflado difu
fºra que elle Dom Manoelf/elogo juntar/e com elas, por
que o inimigo, que fe afirmava aprefiar/e em fua demanda,
breve,º poderofamente, naõtivejº lugarde intentar algãa
| fºrte nos the/ouros do Oriente,que em aquellas ràos fe com du
.
viaõ,º que mais fe podia recear, pelºs defºjos da Vingança
que havia mo/trado; & naõ menos porque a vizinhança de
Galiza,& Inglaterra(cujo Principe era cntaõ o may
or emulo de Efpanha, como adiante diremos bem
- N3 cou
1 98 EPANAPHoRA TRAGIcA II.
convidova /uas armas a qualquer atrevimento.
Quem bem reparar, na variedade, & repugnancia
detes avifos, duas confas acharà nelles, dignas de
grande confideraçaó:a primeira feja, o ver por quaõ
exquificos caminhos, caminhou para nòs a infelici
dade dete fuceffo; a fegunda,notar a improvidencia,
com que fe governava húa Monarquia taõ grande;
pois,fegundo o que fe colhe da pouca confiancia das
orden, referidas,todo feu erro procedia por falta de
informaçoês verdadeiras, que certificafem aos Mi
nitros,dos difignios contrarios; fem a qual obferva
çaõ, nenhum Principe pôde governar, como con
vem,feus Eftados. Porêm, porque varias vezes ha
vemos aqui feito mençaõ detes inimigos,& dos te
mores, que delles procediaõ,ferá juto, & agradavel
aos que leré, dar algú razaõ, de quem fofem eftes
emulos de Efpanha, & da caufa de fua inimizade
com ella. |-

Defpois da morte da impia Raynha Ifabel de In


glaterra, fucedeo em fua Coroa, com as de Efoocia,
& Irlanda,Jacobo Etuardo, filhoda fanta Princef.
de Efcocia, Maria Etuarda, prima de Ifabel, & #
ficeitora imediata,por ella tiranicamente degolada,
com falfos,& injutos pretextos;os mais da verdadei
ra Religiaô,que Maria profeffava, & Ifabelaborre
cia.Porém,o altifino Deos,Juiz recto das Monar
quias; motrou aos fequazes de Ifabel, que pelo mef>
mo cafo á ella pretendèra apagar com o fangue,as
luzes de Maria,efè mefinofágue(como a agoaOacéde
- - - - • lu[\lº:
NAV FRAo 1 o DA ARMADA, 19
olume da canfora)acendeo mayor claridade,na def.
cendencia da inocente Raynha; entregando a feu fi
lho Jacobo,o cetro de toda a Graó Bretanha; que na
Europa,por fitio,valor,& potencia, foy em todas as
idades, Reyno particularmente finalado. Sabio El
Rey Jacobo Efluardo,Principe de grande fabiduria
valor,& induftria; & porque como tal, reconhecera
em os Ingrezes, além da natural elevaçaõ de feus
pentamentos,algum interior defcontentamento,ven
do a Coroa Britanica em efiranha cabeça(porque o
Rey,fegundo moftramos,naõ era nafcido em Ingla
terra)defejava fabiamente Jacobo, unife por cafa
mentos,com a Cafa de Auftria;julgando fua poten
cia,& autoridade,fuficiente arrimo da Cafa Eftuar
} da para qualquer fucefo,que jà parece que previa. A
efte fim precedendo artificiofa comunicaçaõ de fe
usinterefles,com Dom Diogo Sarmento da Cunha,
I Conde de Gondomar,Embaixador ordinario de Ef
panha,junto a fua pefoa;refolve o mandar húa em
baixada,indicadora de feuspenfamentos, a ElRey
D.Felipe o IV.de Caftella:ã poucos annos havia,en
trára no regimento de feus Reynos; tanto por efia
cauía,como porque Jacobo, fabio mefire da Politi
cajulgava por grandes árras em feu partido, nego
cear com hum Rey mancebo. Elegeo para efia fun
çaõ o Milord Digbi, Conde de Bitol(Milord, foa
ainda em Inglaterra, fegundo antigamente entre
… nós, os Ricos homens; ou tambem como Monfieur
| em França, no rigor da palavra, que
N4
hoje deflocou a
COICQ

|
2oo EPANAPHeRA TRAGIcAº II.
cortezia,&a lifonja: porque, Mi, he a mefina parti
cula que meu, & Lord, quer dizer fenhor, como tam
bem no proprio finificado diferaõ: Monfieur,os Fran
cezes. A efte nome Milord, correfponde no eftado
feminil o nome Lèle.) Partido o Milord Digbi a
Efpanha, o Parlamento de Londres fe deu por mal
fatisfeito da mentagem,& mais do fegredo, que del
la propria, por lhe naõ fer de todo manifeta antes
de expedida. Motrava tanto fentimento contra El
Rey, que lhe pareceo a elle neceffario afegurar aº
quelles Minitros com hum grande razoado: cuja
copia fe acha efcrita na Quinta parte das Pontificais
de Frey Marcos de Guadalaxara,capitulo 2. pagina
559. A efte fe opuzeraõ tambem alguns poderofos
do Reyno,& entre elles, com pretexto de Religiaõ,
tomou a voz da duvida o Arcebifpo de Cantarberi,
que Cantuºria chamaraó os Latinos:lugar jà illuftra
do por feu gloriofo Pontifiee Santo Thomás Can
tuarienfe.Mas ElRey,havendolhe refpondido, dou
to,grave,& elegáte, defprezou feu parecer(defpois
de o haver confutado)& nelle todas as contrarias o
pinioens dos mais Miniftros Parlamentarios, que a
fua contradiziaó:pela qual opiniaõ, procedeo tanto
adiante, que enviou feu proprio filho com novo
exemplo,pretender fuas bodas à Corte delRey Ca
tholico, por pouco diverfo modo de aquelle que
fe acha nos fabulofos livros de Cavalarias; donde (e
efcrevem por efte modo,os famofos cafamentos dos
Principes de Grecia,Trapizonda,& Catayo.
-- - - - - •

Efia

NAvFRAG1 o DA ARMADA 2O I

Eta acçaõ, que em aquelles tempos foy de toda


a Europa difputada, & contravertida; ou ainda dos
mais julgada por leve(& como tal indigna de hum
Reyfabio)fe conheceo defpois fer profundifima;
porque receofo Jacobo de algüa violencia intentada
por feu Parlamento, quis falvar do perigo do incen
dio(como o outro Pintor Romano)a mais valiofa
de fuas imagens: tendo por certo, que achandofe o
Principe Carlos,feu filho, hofpede delRey de Efpa
nha,naõ oufaria,o Parlamento de Inglateria, come
ter acçaõ contra feu pay, q pelo filho, & pelo ami
go naõ foffe terribelmête catigado. Motraraó def
pois os tépos, q toda efta maquina fora movida pel
la eficacia de hú coraçaõ prefago; tédofe por certo,
qfe o cafamento de Carlos,Principe de Gales, hou
vera o pretédido efeito cõ a Infanta da Efpanha D.

| Maria,o naõ ouvera, de q o me{mo Carlos, jà Rey


de Inglaterra,chegafe á miferavel tragedia, em que
ha poucosannos,perdeo,como Reo,naõ como Rey,
avida;em hum teatro publico. •

He defviado de meu intento,referir aqui por me


norosaccidentes deflagrande negoceaçaõ, da qual
sòmente,me pertence dizer:que fendo ella desfeita,
por impenfadas razoés, com defprazimento de am
bas as Coroas;quanto mais ElRey Jacobo fe tinha
(a defpeito dos feus)empenhado na execuçaõ, tan
to mais fentio o eftorvo de feu bom efeito; & como
feja pefiu o cotume das amifades humanas, q quã

do chegaõ a fe corróper,logoferefolyem em finiti
ER).6>
-•
2o2 EPANAPHoRA TRAGICA.
mo odio,fucedeo,que todo o amor,& afeiçaõ,quea
quelles Principes Ingrezes tinhaó moftrado para có
Epanha,fe paffou a húa proterva corrupçaõ de von
tades; pelas quaes, o Rey, & Reyno de Inglaterra,
eraó movidos a difpôr, contra os Efpanhoes,terribe.
is efeitos de vingança. •

Segundo ete fim,fe preparavaõ,por todo o Nor


te, grandes Armadas, que favorecidas da aufencia,
que o anno paflado haviaõ feito(como jà difemos
as forças maritimas das cotas de Efpanha, paflando
ao Brazil, puderaõ infetallas; como aconteceo, na
interpeza intentada contra Cadis,pelas armas Ingre
zas,que com poderofa frota,de cento,& mais navios,
fe difpuzeraõ ao faco, na ocupaçaõ de aquella Ilha.
Foy contrario o fuceffo,à efperança dos emulos; os
quaes,fegundo os Miniftros Catelhanos eraó infor
mados,no anno prefente,determinavaõ fatisfazerfe,
da quebra paflada,interprendendo nofas náos da In
dia:porque nós, com todo o defcuido,a que deu o
cafiaõ a larga paz,affi navegavamos os vaftos Mares
do Oriente,& Occidente, como fenaõ transferira
mos, de húa a outra parte; as riquezas do Mundo, ou
nelle fofejà morta a cobiça da gente.
Eftes,que havemos referido, eraó os inimigos, &
efta a caufa de fui inimizade; agora tornaremos a
pegar do fio dos acontecimentos, que vamos refe
rindo.
A primeira coufa que o General Dom Manoel
de Mºnºzes intentou, depois de haver recebido a
pulti
NAvFRAGIo DA ARMADA e o3
ultima ordem,foy repartilla com fua Armada; dan.
do ao Almirante,& Capitaés della,novo regimento,
fegundo o novo ferviço,que lhe era mandado fazer.
Mas,porque todas as coutas, por fecleta difp fiçaõ
da Providencia,fe fofem encaminhando á perdiçaõ
que eftava definada;fucedeo,que havendofe aquel
la menhãa, antecedente aos avifos, defeuberto dous
navios de Mouros,dos quaes fe achava mais vizinha,
a Urca Santa Ifabel,por fer o tempo calmofo, fe en
tendeo della, jajudada dos reboques, fe poderia a
diantar,até combater com o inimigo, o qual a força
da vella,& remo procurava apartarfe.Chamaõ rebo
: car,os Maritimos,quafirevocar,a aquelle movimen
to de impulfo, que as embarcaçoés pequenas com
municaõ ás mayores,para que pofaô em alguns cafos
melhorarfe:verbo naõ taõ barbaro,que naõ feja fú
dado no Dialetico Latino.
Continuou Chriftovaô Cabral, Capitaõ de a
quella Urca,antes com obtinaçaó,que efperança, o
alcance,que hia dando aos dous piratas; de tal forte
que veyo a defenganarfe, de que os naõ entrava, a
horas,que a penas as faluas da Armada tiveraõ tem
po para fe recolherem a feus navios.Logo fobrevin
do aquella noute,o primeiro temporal do anno, foy
taõ fübita a furia dos mares, que nenhúa diligencia
aproveitou, para que as faluas fe falva fem. Era o dia
18 de Outubro, em que a Igreja celebra a feta de
Saõ Lucas Evangelifta. Parece que nefte dia tem
particular imperio as tempetades, fegundo as lem
branças
204. EPANAPHoRA TRAGICA!
branças que ainda temos da memoraveltormentade
Saõ Lucas,no anno de 1 6 1 1. fenaõ he que o touro
bravo do Mar, por mais indomito, fe embravece de
novo, o dia que vè triunfante aquelle fagrado Cro.
nita,vendo que ele recebe outro touro, por mifte
riofa infignia fua.
Depois da perda das embarcaçoés ligeiras, ficou
o Generalimpofibilitado a poder, cõ a brevidade
conveniente, avifar aos navios de feu cargo, da jor
nada a que fe dirigia.Eles jà carregados de graõ pe
fo do vento Suduete,cada qual, fegundo fuas for.
ças,o futentava;donde procedeo, que o dia feguin
te todos fehaviaõ defwiado,& mais que todos, a Al
miranta,por ferruim nào de governo. Efta correo
quafiao Norte,& os mais com pouco melhor volta,
foraó recebendo o vento de modo que menos os tra
balhaffe. Dom Manoel, vendofe apartado de fua
Armada, confiderou, como fumamente pratico nas
materias da navegaçaõ,que os companheiros, mais
compelidos da tempeftade, que naõ fua Capitana,
haveriaõ cortado largº(chamaõ afios Marinheiros ao
hir mais à vontade do vento)mandou: Se fize/e com
/uando o mefino caminho, atè que rendendo o tempo,
voltou ao Suete;pelo qual rumo, navegando com
pouco pano,brevemente houve vita da mayor par
te dos navios,com que logo fe incorporou: & nef
tes bôrdos de Noroete, & Suete, fe entreteve até
25. de Outuro,a fim de efperar pela Almiranta, da
qual fe entendeo podia acharfe à parte do Noroete,

don
…"
NAvFRAGIo DA ARMADA 2o5
: donde pareceo aos pilotos haver corrido, devian
dofe da cota. Mas era a verdade, que o Almirante
Antonio Monis,vendofe oprimido da borrafca, en
tràra a fe reparar della,na Ria de Vigo. Era taó efpe
cial refugio de nefas Armadas, que lhe pareceo a
muitos Capitaés dete tempo,fe deviaõ empregar as
forças de Portugal antes em fua ocupaçaõ, que em
outras defaproveitadas emprezas, a que felicemente
fe divertiraó: fe he certo que ás honrofas ocafioens
como efas foraó,fe lhes póde fazer cargo da inutili
dade.
Tornou o tempo,com novas furias,aos progreffos
pafados, cujo impetu tomando em popa no fla Ar
mada,& avizados já os navios da nova viagem, foy
em demanda do Cabo de Finis terra,aquem de va
rios nomes ornarão os antigos Geografos, & Hito
riadores,pois fendo hum sò Promontorio, agora lhe
chamão: Hierna;agora: Nerion, ou Nerico: agoa: Stri
nio, Aratrabo;& tambem Artabro, como lhe chama o
nofo Poeta,& fe pôde ver em Florião do Campo.
}.3.cap.28. Fique para os Filofofos,e Mathematicos,
a razão da perpetua luta de ventos,que de contino a
chão os navegantes fobre os Cabos do mundo; entre
os quaes não ha outro algú em Epanha tão fertil de
tormêtas como efte de Finisterra;fegundo foraõ a
quellas que para dobrallo varias vezes, tenho paffa
do bem puderamos, com licença dos Geografos, af>
fentar no Nappa dous Cabos Tormentorios; ainda
que da gloria, deta cruclantonomázia, ficaffède
- - - - frauda
206 E PANAPHoRA TRAc1cA.
fraudado o nofo taõ celebre Cabo de Boa e/perança;
a quem a obtinaçaõ do atrevimento humano,fabre
dourou os perigos,com o falfo refplandor detaõ fua
VC Il O Ill C.

Falta de Piloto pratico, foy a Capitana em bufca


do Cabo, que fendo vito, mas não conhecido, de
nofos marinheiros, era forçofo apartar da terra por
toda aquella noute. Porêm, voltando a ella ao ou
tro dia, & vendo, que faltava por muitas horas, fe
entendeo haverfe dobrado: porque correndo a co
fta de Efpanha, defde o Promontorio Sacro(hoje
dito de: S. Vicente)pelo rumo de Norte Sul; defte ca
bo de Felis,até outro que lhe demora ao Nordette,
dito dos naturaes,com nome humilde,de Prioulo(que
parece fer o Celtico Promontorio, que diferaó os anti
gos)fe encurva a terra, formando hum fimircirculo,
ou arco mixto, de varias porçoés, ou fegmentos de
de rumos; donde porèm,os mais fe avizinhaó a Lef
nordette, & Oesfuduete, em cuja diftancia, poucas
vezes(Tem embargo das cotas)fe eftende rectamé
te a linha de Nordete fuduete. Conforme eftain
formaçaô, & fem mais noticia que as incertas dos
viciados, ou viciofos Roteiros, fe foy a Capitana,
com vento largo,correndo a terra de longo, em de
manda da Torre de Hercules, mais notavel baliza da
quela cofta; que etando meya legoa apartada da
Corunha, ao Norte della, ferve de atalaya para fe
bufcar feu porto. Acerca deta Torre, fe convertem
em fabulas,as Hitorias, que vulgarmente lhe cha
IYll O
NA vFRAG I o DA ARMADA 207
maõ de Hercules, afirmando por incerta tradiçaõ,
que na fublimidade della havia hum efpelho,em cu
jolume fe viaõ as Armadas,quando decia ó do Nor
te. Na cidade de Coimbra fe acha celebrada, tam
bem por obra de Hercules, a Torre Quinaria, que
húa, & outra, fegundo as mais verifimiles obferva
çoens da antiguidade, foraõ obra de Romanos,em
tempo de Julio, & Auguto Cefar. E por ventura
defes Monarcas,ou de feus Miniftros, ou Artifices,
confagradas a Hertules, de quem tomâraõ o nome,
em beneficio, & obtequio de fua fortaleza, & du
raçao. •

Ao Sul deta famofa Torre Herculea, pafla da a


Ilha Cezarga(tambem afas conhecida dos antigos)
fe prolongaõ huns perigofos baixos,que noflas Car
tas mal apontaõ,ditos dos naturaes: Iacentes. A par
taöfe da cofia por menos de húa legoa;eftendendo
fe mais de outra, com certifimo perigo de fua vizi
nhança.Era já de noute,quando fobre elles deu fú
do a Capitana,taô determinadamente, como fe por
derrota vieffe bufcallos. Por fua popa furgirad Saõ
Jofeph, & Santiago; porque Saõ Felipe, & Santa
Ifabel, cortaraó mais ao mar, naó fiando da cofia;
donde,voltando fobre a terra, dous dias depois en
tráraõ na Corunha fem perigo,
Entre os de aquelle baixo, quafi infenfivelmen
te, pela ferenidade do tempo, fe achava a Capita
na, porque fendo o vento manfo, & fobre a terra,
com marè chea,& de agoas vivas, naõ rompe o bai
XQ
2o8 EPANAPHoRA TRAGICA.
xo em modo que pareça. Mas como Dom Joaõ |
Fajardo,Marques de Efpinar, que entaõ governa- :
vao Reyno de Galiza(procedendo fegundo a dif |
ciplina maritima, que muitos annos profeflára no |
poto de Almirante Real,de feu pay Dom Luis Fa- |
jardo)fofe avifado pelas vigias da cota, do lugar
em que os Portuguezes haviaõ furgido,o que fe con-|
firmou com agrofa artilharia, que Dom Manoel a k
tempos fazia defparar,para que lhe acudifem da ter- |
na com Piloto da Barra;defpachou diligentemente :
tres faluas, com Antonio del Cafto, bem pratico }
mareante de toda aquella cota, & outros mais,que ]:
fe dividifem pelos navios,como logo fe fez:sédo ree é
cebidos, naõ com pequena turbaçaõ dos hofpedes,-
aos quaes, em chegando, denunciáraõ o mortalpe
rigo,em que etavaó, fe a baixa mar os achaffe fur
stos. Dom Manoel mandou que governaffe o Piloto
mór de Geliza;elle entaó, recebendo a nào em feta
governo, fez com grande diligencia, picar a amar
ra; & fendo dos mais navios imitado, com notavel
preteza,fe fizeraõ todos ávella. Era o véto Sufuef>
te, que fem algum rifco os foy apartando da teura:
porém,cerrandofe a noute, & fobrevindo efcuros,
& pefados chuveiros,hora do Sul, hora do Suete,cõ
taõ grandes embarcaçoés entre Cabos vizinhos, &
ignorados,da mayor parte dos navegantes; hecer
to, que foraõ aquellas horas de perigofa confufaõ,
arahuns, & outros,naõ faltando muitos, que era -
tre o que viaõ, & confideravaõ, interpretafem a
ruitra
NAvFRAG1 o DA ARMADA , ao9
ruim pronoflico, que em dia dos Finados(como nos
chamamos a aquella celebridade, que pelos defun
tos fieis, faz a Igreja, o fegundo de Novembro)
fofe o me{mo dia em que fe paflaffe o Cabo de
Finis;& em cuja noute fucedefem, & fe armafem
tátas ocafioés,para dar motivos,& defculpas a qual
quer agouro,fe os agouros defculpa tiveffem. Có tu
do o Piloto Catro,com grande confiança, prometia
tomar porto a todo o tempo, fiado em fua larga
experiencia;naõ pouco fofpeitofa,& repugnada dos
Pilotos de altura Portuguezes, q julgavaó, a grande
temeridade os alheos modos de aquella fua extraor
dinaria navegaçaõ: pela qual, defpois de render
varias vezes o bòrdo com húa,& outra volta,achan
dofe cada vez mais fotaventado da abra da Coru
nha(cuja entrada, & fahida, necefitaõ de mais de
hum vento)havendo licença do General,& confor
midade dos Oficiaes do Mar,foy cometer a entrada
do Ferrol, para donde o vento em popa lhe fervia.
Quem vife em noute tenebrofa, & de graó tempef
tade,húa náo, a mayor que entaõ havia em Euro
pa, proejar contra húa alta ferra, nunca vifa dos
que a bufcavaõ, entre a qual muito defendido de
grofos montes, & fumido entre elles, defemboca
o porto de Ferrol, he fem duvida, que quando naõ
temefe,julgar podia a maxima temeridade, tal re
foluçaõ, que mais horrivel faziaõ os bramidos do
mar, que foáva, vizinho de húa, & da outra par
terompendofe na barbara penedia;
••• •- - - - O da qual,contra
3S
2 1o EPANAPHoRA TR orcA- II.
as ondas, feguarnece toda aquella enfeyada. Poº
rém,como o caftigo prevenido a noflagente, para
mayor pena, oujutificaçaõ, etava difpoto a mais
longo prazo, ordenou o Ceo, que vencidos tantos
rifcos evidentes, fem tropeçar em algum delles, a
Capitana tomafe porto, na terceira guarda da nou
te;com tanta fegurança,& boa viagem, como fe em
dia fereno,entrafe pela amiga barra de Lisboa, con
duzida de algúa aprafivel viraçaó.
. Secas, & infrutiferas fe pôdem chamar aquellas
Hiflorias, das quaes fenaõ tira outro fruto, que a
precifa narraçaõ do fucefo dellas, & ao contrario,
utilifimas, & deleitaveis aquellas, que fem perder
o fio dos acontecimentos propôftos, nos levaó por
tal caminho, que juntamente chegamos ao fim da
informaçaó dos fucefos,& ao da côprehéfaó de va
rias materias, que com a hiftoria de elles, fazem ar
monia. Por efte modo de hifloriar(que he aquelle
que eu defejo ler)pretendo efcrever fempre; in:
ftruindo breveméte aos leitores das ocurrencias da
acçaó,que lhes ofereço, conforme feverá nas Hifº
torias,que tenho publicado: & como efta regra,fe
gundo minha opiniaõ, favorecida da melhor par
te dos Autores Hiftoriografos, tenha lugar em to
dos os negocios, que fe defejaõ perpetuar na lem
brança das gentes, parece que muito mais propria
métefe póde introduzir nefte modo de cópor Hiflo
rias,que agora feguimos em Relaçaõ; a qual naõ
requeretaõ epicas obfervaçoés, como a praticular.
NAvFRAo I o DA ARMADA. 211
hiftoria, de hum fujeito heroyco: tendo mais pro
porçaó,com o Poema mixto, que com a Epopeya.
Poreta caufa, & a de aliviar aos que houverem li
do,& fe aparelha ó para ler as tormentas, trabalhos,
& tragedias,de que conta a narraçaõ dete Naufra
gio; me pareceo, naõ improprio defvio, oferecer
nefte lugar húa fumaria noticia do Reyno de Ga
liza(quejá com Portugal fez hum proprio Eftado,
#

quando pofuido delRey Dom Garcia, que o foy


feu, & nofo)por haver fido efte Reyno principal
teatro das acçoens,que referimos, conformando me
tambem neftecotume com os antigos,& modernos
Efcritores. =4

Galiza,he Reyno antigo de Efpanha,que jà foy


Coroa feparada de Leaó, & Cafella. Dá parte do
Sul,fe divide de Portugal 3 pelo Rio Minho; ao O
riente,tem Leaõ; ao Norte, as Afluvias; pelo lado
do Occidente, a fralda Maritima de Galiza, com
prehende toda a terra, que fe acha entre os Rios,
Minho, & Oviedo. O primeiro que entra no Oc
ceano occidental,entre Bayona, & Caminha; & o
fegundo,pouco abaixo de Ribadeo,com 65.legoas
de diflancia de hum a outro; porque começando
em Bayona, que jàs húalegoadomar, cercada de
certas Ilhas, a que os Geographos diferaó, Crias;a
finco legoas fedefcobre a Ria da Redondela; da
qual,a Ponte vedra,principallugar de Galiza, con
taõ treslegoas, & feis de Ponte vedra ao Padraõ.
onde fevenera, pouco ditante do povo, aquelle
*--*--—
-
. * . *-- -----

……… O2
2 12 EPANAPheRA TRAGIcA. II. -

taõ conhecido pafo, chamado vulgarmente: Burá


co de Santiago. Do Padraõ a Muros,bom porto, que
faz o Tamar,rio falgado,ha finco legoas, quatro de #
Muros a Corcoviaõ: cujo nome he triftemente
famofo,pella perda,que naquela cota fez, a gran
de Armada do Adiantado. Defte porto ao Cabo de
Finis(de quem já difemos)ha duas legoas; & delle
a Mugia,quatro: aqui jàz aquele grande, & peti
gozo penhafco, dito dos naturaes: Villaõ de Buria."
De Mugia a Laja,ha tres legoas; da Laja a Malpi.
ca,quatro;de Malpica a Cayon, outras quatro. Paf |
fado Cayon,fe acha a Corunha,a duas legoas. Abre
fe aqui a terra a receber o mar, donde forma húa |
fermofifima abra, pella qual te fervem tres grandes
portos: Corunha, Ferrol, & Betanços; a efia abra º
chamàraó os antigos: A Ganude. Da Corunha ao Fer
rol,contaõ duas legoas; & dete porto ao Cabo de
Prioulo,outras duas: faye efia ponta, do continente
da terra, largo efpaço, & vay encontrar as ondas
que temerariamente a combatem. Do Prioulo á En
feyada de Cedeira, faõ quatro legoas: he eta En
feyada notavel,por fer frequente de latimofifimos
naufragios. A duas legoas defpois, fe fegue Orti
gueirafaõ ali os nomeados Penedos, que tomaõ o
me{mo nome. Delles a Biveiro, fe medem tresle
guas;& de Biveiro a Saõ Cebriaõ, duas. Defronte
fevem as antigas Ilhas Trileucas; de Saõ Cebriaõ
a Bufma,poem tres leguas;& de Bafma, a Rebadeu,
finco;em cujo termo acaba a cota de Galiza, divi
} …… - dida
NAvFRAGTo DA ARMADA. 2 13
dida,das Afurias,pelo proprio rio Oviedo,que deu,
ou recebeu, o nome,a fua antiquiffima cidade Corte
dos primeiros Reys,reftauradores de Efpanha,o qual
rio,entra no mar pouco abaixo deflavilla.
Joaõ de Viterbo, & Berozo, querem que Noë
vieffe a Efpanha; & entre outros povos ,e dificafe
a Noya,em Galiza: perfuadidos, por ventura, da fe
memelhança do nome. Efe he aquelle povo, a
quem Ptolomco chama: Novium,& Eftrabaõ: Noe
via. Por mais verofimilfe tem, que o Patriarcha Tu
bal,em memoria do Avó,confºgrafe a fua lembran
ga,aquella fundaçaõ,fe a calo,em tanta miferia, co
mo hoje padece, fe pôde conceder taõ,iluftre anti
: guidade.Mas o Berozo,& o Viterbo, faõ de fofpei
, tofa fè,em feus efcritos,adulterados por Joaõ Aneo:
conforme a do&a centura,que lhe faz,nofo eminen
tifimo antiquitario, o Conego Gafpar Barreiros,
: que anda incorporada,em o famofo livro de fuas me
\ morias.
Alguns foraõ de parecer, que Teucro, Capitaõ
º G ego,dos que fobejaraó da guerra Troyana, fun
# datle a cidade de Elenes: a qual, fegundo a doutri
na de Floriaõ do Campo, parece fer Ponte vedra,
# o que fe confirma com parte de feu nome; porque
Yedra,no vulgar de nofla lingua (entaõ com ú a Por
tuguezes, & Gallegos)val o me{mo que vetera, na
# latinidade. Outros dizem, que Anfilecords, q de pois
º fechamou Anfiloquia: taõ varias faõ as opinioens do
º principio defla Provincia, em cuja hiftoria referem
} - - - O3 {aftl -
2 14 E PANAPHoRA TRAc1cA. II.
tambem: que da terra de Suevia fairaõ gentes Gre
gas,ditas: Almuçudes,ou Almovides; os quaes por fua
familiar aftucia, ocuparaó o porto da Corunha; &
que neta ocupaçaõ fe quebrou o Efpelho fatal,que
havia na Torre de Hercules; mas eftremando, como
herazaõ,as verdades das fabulas;he certo, que Gali
za foy affi chamada corrutamente do nome Gallecia,
em o qual jà fe havia tambem corrompido, o mais
proprio que primeiro tivera, fendo chamada: Gallo.
grecia, pela miftura dos Gallos, (hoje Francezes)&
os Gregos,que na primeira idade a ocuparaô.
He terra de bom tomperamento,declinante a fria,
& feca,mas naõ excetivamente;fendo com exceffo,
excellentes fuas aguas, & frutas,pela amenidade dos
valles, em que póde competir com a famofa Arca
dia. Seus mais notaveis rios faõ,o Minho, de opu
lentas aguas.O Syl,iluftre pelo vermelhaõ, que em
ficria. Avia, pelos vinhos generofos. A parte Orien
tal da terra,he montuofa,& bem provida de boflues,
& animaes filvetres; a gente he inclinada ao traba
lho,pobre,& contenciofa. A nobreza antiga, & grã
de; que penofamente fe conferva pela falta de bis,
de que géralmente toda a Provincia carece em feus
eftados. Efta he Galiza. •

Chegado o General Dom Manoel de Menezes


a Ferrol, fe intei ou das noticias de tua Almiranta,
recebendo breve carta de Antonio Monis,onde avi
fava:Como em 1 9. de Novembro, defois de trabalho",
& Pergºs, tomara oporto da Corunha, que viera bufcando,
ém
NAvFRAo I o DA ARMADA. 215
em raçaõ do recado q lhe der a hãa das Caravelas, q áCa
pitana o levará por e/trito.Que já por conferencia, cõ os mais
Cabos Portuguezes,& Cafielhanos, que all concorridã(em
aufencia delle General)haviaõ dado cõta a elRey defeu cã
greja,para que de/de Madrid/e lhes de/pacha/e a ordem 4
haviaõ defeguir. Eraõ aquelles Cabos(alèm do Almi
rante Antonio Monis)o Governador do Reyno D.
Joaõ Fajardo, & Vicente de Brito de Menezes, Ca
pitaõ mór das nàos da India; fidalgo velho, que fu
pofto fora ornado, de antigos meritos, fe achava já
in capâz, por fua idade, de fofrer os trabalhos de
tam larga navegação: & menos ainda, a afiftencia
dos negocios,que della procediaô:em cujo meneyo,
por extravagante modo, naõ deixaraó de intervir,
aquelles particulares refpeitos, & interefles, que fe
tem encarregado da perdiçaõ do Mundo. Direi dos
prefentes, o que sò fervir para intelligencia defe
cafo,fem culpar a algum dos que nelle tiveraõ par
te;mas culpando,em feu lugar, a ruim natureza dos
|
| homés,a cuja maliciofa influencia podemos adjudi
car(fobre os pecados,que tambem de fua corrupçaõ
procedem)as caufas de taó latimofos panos.
Dom Manoel de Menezes, foy homem de ma
yor difciplina, nas fciencias, & valor militar, que
Prudencia civil, donde procedia,tratar, naõ poucas
vezes,os negocios,& as pefoas, com mais fecura, &
liberdade,do que pede o trato urbano das cortes: &
como elle,nas materias das nauticas, foffe mais fabio
que todos os homens, que naquelle
• • • • • O 4 tempo ferviaõ
*• CIIA
2 16 EPANAPHoRA TRAGIcA II.
em Portugal(& ainda em Caftella)por efia propria
razaó,que intervindo nas refoluçoens,nenhum feria
oufado, a contradizelo; defejavaó os mais Cabos,
por acomodar feus penfamentos(fe jà naõ f.fem
feus interefles)Qge aufente Dom Maucel, da Corunha,
onde ellºs concorriaõ,/e determina/e a jornada; parecende
lhes melhor, darlhe de/culpa, do que/em elle obrafm, que
naõ lhes dar elle lugar,a obrarem como pretendiaõ. Neta
forma confultavaó a ElRey,& ElRey a elles; ou en.
tendendo, que o General fe achava prefente nas
confultas,ou que pela difancia, naõ poderia acha
fenellas.Porém,Dom Manoel,alcançando, por al
güa boa obtervaçaõ, que entre os tres, Dom Joaõ
Fajardo,Vicente de Brito,& Antonio Monis, havia
jà pouca concordia,procurou quanto pode, defviar
fe de fuas negoceaçoés, prevenindo o ruim fucello |
dellas. Diziafe:Que Antonio Monis procurava a vinda 4 ||
Lisboa,de qualquer maneira,a fim de mo/trar, que a antia
pagaõ da jornada, era fruto de fua diligencia. Que Vicente
de Brito,defejava/er afi abfolvido do cargo: porque defiá
chando/e/ua fazenda fºra do Reyno, & defendendoatin
bem fára,lhere/ultariamayor comodidade. Que D.Ioaõ Fá
jardo,folicitava a de/carga das nàos em feuporto, & jurif
diçaõ;& com pretexto
pa,a aumentar de a/egurar os te/ouros Reais, afira
os proprios. •

Era por ete tempo ElRey Dom Felipe IV. que


nós governava;mancebo de vinte, & humannos:&
porque nos animos dos moços, ainda que Principes
fejaõ, todos os apetites obraõ violentos; fucedeo,
• que
NAvFRAG1 o DA ARMADA 2 17
que fendo ElRey aconfelhado, ou induzido, mof.
trou:Que de/javayer(outros diferaó,bayer)tado o co
fre da pedraria, que as náos traziaõ; etimado aquelle
anno em grande fumma de cruzados: & para que
eta cuftofa novidade tivefe meihor pretexto, fe
defpacharaó ordens pela Coroa de Caftella, & feu
Confelho de Fazenda, a Dom Joaó Fajardo(fe
gundo afirmaõ,que ele as havia pedido)para que:
Logo trata/e de afegurar aquelle preciofo Erario, & códu
vilo por terra a Madrid, com boa contaguarda,& raçaõ;&#
que perfuad/e aos Minifros,& Cabos?ortugue/es,que alli
fº acha/emferºfia/ua mayor conveniencia: para que entaõ
}
houve/e mais facilmente lugar defer elRey provido dos dia
mantes nece/arios a certas jºyas,que mandava obrar;por cu
. ja caufa, comproprio diferidio/é obrigava a enviarºrema
uente da pedraria a Lisboa,para que lá/e entregº/e,aquem
pertence/e,é a tomada/e pagaffe.
Naõ foyefta ordé de Catella taõ fecreta, que o
nofo Cófelho de Portugal, refidéte na Corte, naõ
tiveffe notictas della; o qual, prevenindo o remedio
de tantos danos,& ruins confequencias,para o Rey
no, ordenou prontamête a D.Manoel de Menezes:
Sepa/Sa/e lºgo do Ferrol à Corunha,donde com os cabos, &
pilotos Portugueses fizé/e celebrar hia junta, acerca do
modo da viagem;& que o me/mo Confºlha ficava confuitã do
a ElRey, quãtas razãs havia,para que/e revºgº/e a ordem
dada pelo Confelho da Fazenda de Castella.
Diferaó:Que erão muitos,os inconvenientes,& que afºi
/e/ºguião. Primeiro,º ruim exemplo porfº entender, ";/*
- • --••••--• •

43
2 18 EPANAPHoRA TRAc ICA.
hña vez por mãos de outros Mi nistros,(e menea/e o negºcio
do Oriente,era elle taõ/uave, que a troco de qualquer pre
texto,lhes ficaria em nºfo dano e/e Comercio. O /gundo,
que como em º cofre da pedraria não tem os Reys mais que
/eus direitos(porque o cabedal Real vem em pimenta
sómente)era/obre injufio inpraticavel, que au/entes os do.
nos de tanta riqueza,ela fe distribui/e pelo arbitrio degê
te incerta,ºu imperita na pratica do valor de aquellas cou/as,
O terceiro, quefe os direitos pertencentes à Coroa de Portu
gºlfendo hia boa parte das rendas do Reyno,º todo o prin:
cipal,de que fe torna a aprestar a Armada da India; não a
acudifem com tempo a Lisboa,/eficava impo/gibilitando a
futura frota, que em Marçºfeguinte havia de fazer viagê.
O quarto, que a experiencia tinha enfinado, que jamais a
quelles negºcios/e difyiaraõ da primeira ordem em que mo/
fos Reys os haviaõ pofio,que naõ fo/e para/uaruina. Quinto,
que querêdo ElRey fervir/e das joyas, em que/efallava,def
de Lisboa/e remeterião os diamantes e/colhidos, ou li.
vrados,pelos mais excellentes ártifices, que ali concorrem;
por
cariadonde ElRey/em
melhor fervido. queixa particular, ou dano publico,fi-

Chegada eta confulta às mãos Reaes, he muito


para engrãdecer,o animo, juftiça, & clemencia de
aquelle Principe; porque dentro do mayor afecto
de feu defejo,fe deixou vencer da razaó(o que cer
tamente muito nos obriga a louvalo)Conformoufe cõ
o Confelho de Porugal,ê aprovou o me/mo que elejà havia
difiofio, acerca da fabida da Armada; porque alèm das
raven: rferidas, ela/e julgava conveniente, em quanto
()$ /{tl/11
|- NAvFRAGIo DA ARMADA 2 19
ºs Rumbergues e/lavão,por caufa do inverno, em/eus portos
recolhidos.Chamavaõ entaõ Rumbergues,a certos po
derofos navios Ingrezes, de que fe formou húa Ar
mada Real; diziaõ, que por ter o me fmo nome, o
metre que os fabricâra. , .
O Governo de Portugal, com repetidas ordens,
& meyos proporcionados difpunha defde Lisboa,a
execuçaõ,do que o nofo Confelho de Madrid ha
via refoluto, porque o Governo igualmente com o
Confelho,eftava receando:Que/e defe em alg㺠difi
culdade invencivel/upºfio haverem/e já vencido as primei
A** •

{
ras que fe opuzeã). He porque a cobiça tendo prefen
te,o que defeja,nunca fe acobarda,em procurar feu
logro,âcuta dos mayores inconvenientes. Afirmo
que havia razão,para que temefem aquelles Mini
tros; fupoto q a naõ houveffe para taõ fobeja cau
tela. Quantas diligencias fe fizeraõ por homés,& té
pos pela confervaçaõ de aquelle tefouro, podemos
dizer:Que foraõ enxadadas, que lhe abriraõ em meyo das
agoas,miferavel/epultura.
O General,avifado da jornada, que felhe man
dava fazer,em beneficio do cõgref>,partio por mar
a aquella Cidade, levando configo algúas pefoas
particulares,além dos oficiais deputados para a con
ferencia, . * *

Sendo chegado,& recebido, com grande aplau


fo,fe deu principio á Junta,q por algús bons refpei
toºfy celebrada em cafà do Governador D. Joaõ |-

Fajardo,cujo hofpede era D.Manoel. Os mais,che


gando
22 o EPANAPHoRA TRAGICA?
ando a votar, foraó de parecer: Que fenão perdefe
ocafiaõ da fabida,efiando/empre aparelhados,para receber
os primeiros tempos. Eftes, com as brizas do Norte, &
Nordete, cotumaõ decer do Polo, pelos ultimos
dias deJaneiro,logo que o Sol fedefpede do Tro
pico contrario: porque os vapores da terra, coados
pela neve boreal, que ocupa fuas regioés, refultaô
em ventos frios,& futis, aquem vulgarmente nofos
marinheiros chamaõ: Brixa ventante, que de ordina
río fe esforça com a nova influencia, que o Sol lhe
vay mandando;fe já naõ difermos,que o nome Bri
za, fe deduz do antigo,verbo, Brizar:que hoje dize
mos, Embalar;fendo tal o efeito de aquelle podero
fo vento; & tem proporçaõ com o nome Grego: .
|
Trephos,que fignifica, a criança, por fer efia Briza, o
primeiro vento do anno,dito Infante de effa caufa. i.
* {

Porèmºcomo fe conheceffe, que para fair da Co +-


**

runha,onde a terra,&o mar formaõ hum feyo revol. \,

to,a feiçaõ da Linha foiral,que dizem os Geometras,


fiõ neceffarios ventos Suetes,& Lesfuetes, com os
quaes naquelles mefes, fenaõ póde navegar para
Lisboa,fem evidente perigo, foy por todos aflenta
do: Que as náos,& Armada/a/em da Corunha com os ter
rais, darfundo na Abra, que difemos dos tresportos; &
que achando/ all furta,fe lhe fata/e o vento ao Nordf.
te,com que a Capitana Real podia fair do Ferrol, ella/abf.
fe logº,a fe ajuntar com a Armada,ês nàos;porêm, que feto
davia o vento Suefie,Sul ou Sudueste, que corria,permane
ce/>,as há 5,3 mais havios, entra/em no Ferrol, donde
- (Olh1
NAvFRAGIo DA ARMADA 22 1
como primeiro bom tempo,poderiaõ fair todosjuntos, a nave.
gir pela volta de Lisboa.Tal foy o acordo geral; que
só teve de defacordo,o deixar contingente a ida das
}
náos,& Armada,ao Ferrol,a fe ajuntar com a Capi
{
tana Real,fua cabeça.Pelo que, em todos os cafos,
donde já os fubditos moftràraó afeiçaõ, a fe defviar
da obediencia devida,convem,que fe lhe naõ deixe
algúa porta aberta à defculpa, da execuçaõ de fua
vontade; fenaõ que com imperiofifimo preccito, fe
lhes evite toda a interpretaçaõ, ou arbitrio das or
dens fuperiores; porque, fem falta,o defejo humano
he artifice de muy cuftolas maquinas, que a todo o
rifco o conduzem
dido. a aquelle fim, algúa vez preten

Voltou o General,a fe fazer prefles; o que fe có


feguio breve,mas naó facilmente, por fer à cufa de
grande difpendio,& trabalho. Eraó os primeiros di
as da fegunda década de Dezembro; mas outo, def.
pois de fua chegada,etava D. Manoel jà difpoto
para fair a navegar, fem outra falta que a do vento,
por todo aquelle mes curfante,do Sul ao Lesfuete.
Jàz o Ferrol,como havemos dito,coroado de ou
teiros eminentifimos,de afpera fubida, donde lar
gamente o marfe defcobre;& com grande diftinçaõ,
&vizinhança,o porto da Corunha. Em hum detes
montes,fez o General,fe provefe húa fentinela,que
avizafe do movimento dos navios. Eraõ 1 H. de De
zembro,fefta de Saõ Thomé,Apoftolo do Oriente,
quando as nàos fizeraõ fembrante, de querer fair:
- • por
***
222 EPANAPHoRA TRAc ICA:
por fer,a feujuízo, fauto dia o do Apotolo India.
no para qualquer acçaõ das náos da India, Avizou o
foldado da vigia,a difpofiçaõ do que eftava vendo,
& como a frota fe levava, & fazia à vella; da qual
nova,perfuadidos por gozo,ou curiofidade, muitos,
deixando o navio, cometiaô a fubida do monte; a
cujo alto chegáraó poucos, & fuy eu hum deles;
porque a idade pueril,antes que juvenil,em que me
achava,me deu mais azas,que forças, para acabar a
empreza. De todos os que fubiraó foraó, vitos os
navios,já bordejando fôra do porto. Efperavaõ que
a Capitana das nàos, & Almiranta da Armada(ulti
mas embarcaçoés,que desferiraõ o pano)lhes defem
forma,& exemplo do que deviaõ fazer.Tinhafema
is,que outro navio,à parte do Ferrol,a Almirantada
India, governada de Pedro de Anhaya(foldado de
grande valor, & experiencia)o qual em virtude do
affento,& obtervaçaõ dos ventos, que curfavaõ, en
tendia tomar com os companheiros aquelle porto;
porèm,fendo jà na Enfeyada toda a frota, difparan.
do a Capitana húa pefa, & outra a Almiranta da
Armada, com vento affaz efcaço, pois naõ pafava
de Lesfuete, fe foraõ faindo ao mar, fem fazer al.
gum movimento de virem demandar o Ferrol, como
eftava difpoto,em cafo que curfaffe o mefmo ven
, v fi .…" -
to,que corria. " " #
Pôde duvidarfe entre os praticos, a razaõ porque
as Capitanas da India, em nofos mares, como nos
feus proprios,ufaõ actos,que parecé de preferencia,
} •
ainda
NAvFRAo I o DA ARMADA 223
ainda quãdo acompanhadas de nofas Capitanas, &
Almirantas Reais:fendo que o cargo de General de
noíla Armada,he muito preminente ao de Capitaõ
* mór da viagem da India: porque temos vito, que
femintermifaõ de outros pófios, paflou a Viforrey
de aquelle Eftado,D.Afonfo de Noronha, deixan
do, o de General da Armada, & que do proprio go
verno da India veyo a General da Armada,o Conde
Antonio Tellez,que agora o defrocou, pelo Vifor
Ieynado da India:donde bem fe prova,quaõ fuperi
or poto feja,ao de Capitaõ mór das nàos; pois naõ
fenegando, que nelle fe empregaráó em todos os
; têpos, as pefoas de mayor calidade do Reyno,toda
1 via,aquella razaó de fer hoje oficio anual, & venal, º
&lhe abate algúa parte da preminencia, cõ que come
:çou. Porém,como em noflas nàos da Índia fe nave
guem os mayores interefles, & cabedais do Reyno,
& fua principal conquita,para cuja boa guarda, &
cobro,as Armadas fe inftituiraó, pede a difciplina
militar,que naõ por parte da mayoria,mas da impor--
tancia,efas proprias náos fejaó as que fação os fina
is,& ufem das infignias, com que melhor pofiófer
leguidas,& acompanhadas.Defta caufa procede(&
não de mayor antiguidade,que alguns alegarão ina
dvertidamente)o cotume, em que as Capitanas da
India eftão,de fazerem de noute o forol,em cuja vi. ·
gia as feguem as Capitanas,& Almirantas Reais;dif> »
pararem,para render obôrdo; & todos os mais ufos
maritimos,que exercitaõ,a fim de fe confervar #
Cll 48
224 EPANAPHoRA TRAGICA.
ellas, conforme companhia,a fua guarda convenien
te. Pafou adiante algüa pefoa efcrupulofa nas ju.
rifdiçoês,vendofe em lugar, donde podia examinar
a caufa dellas; & motrou vontade,de deftoucarde
fuas bandeiras do tope(que faõ as fublimes)às Ca.
pitanas da India,dizendo: Que pois de noute faziaïfi.
rol,pelos refeitos referidos, deviaõ reconhecer de dia af
perioridade devida às Capitanas Reais; porá entaõejaf -
vaõ a infºgria da Bandeira ficandofe,comº era ju/lo,poral.
gńa demofiraçaõ,denotando a obediencia, que as mais A
madas reconheciaõd Real do Reyno: cuja opiniaõ,com
algús exemplos fe favorecia.
Efte negocio naõ foy pouco difputado, quando
feligitou,tanto que para refolvelo, mandou ElRey |
Dom Felipe,fazer em Madrid, húa grave Junta de
Minitros Caftelhanos, & Portuguezes, de Guerra,
& Eitado; os quaes, defpois de madura confidera
#
çaõ,affentàraõ: Que por tres razoês deviaõ/empregozar
fuas Bandeiras as Capitanas da India: Aprimeira pela
arbanidade devida a ho/pedestaõ importantes ao Reyno";
quaes a troco de imenfos trabalhos, trãsferiaõ as riqueèas do
Oriente,em beneficionaõ à de Portugal,mas de toda Eu.
ropa. Afegunda,porque na melhor parte houve/Selugar a hõ.
ra,que o grande Rey D. Manoel,inftituidor deflas frotas 0.
rientais,lhe quis conceder,dandolha por premio defua ou/a-
dia. A terceira,porque a bandeira das náos da India,naõerá
infignia Real,mas feligio/a; & por e/a caufa, ornadada
Cruz de Chrifto:4 qual milicia compete todo o util domini,
** (º"1"fias Orientais; cuja original juri/diçaõ,/eencar. {


por4
NAvFRAG1 o DA ARMADA. 225
fºra em º Summº Pontifice, cabeça da Igreja. Pelo quena?
feria raçaõ, abater/e hãainfignia quafi/agrada, & ecdefi
ºfica, ante as infgnias, pº/loque/oberanas, meramentefe
culares. •

Perfuadime a eta digrefaõ, por dar noticia de


hum negocio, igualmente oculto, que importante;
do qual,fegundo conferi,naõ poucas vezes,có minif
tros,& foldados, nenhüa noticia fe achava entre el
les. De aqui procedeo, que movendofe, ha poucos
annos,outra duvida femelhante,no Reyno; por oca
fiaõ da Capitana,da nova fota do Brafil,já por fenaõ
terinteiro conhecimento deta materia,vieraõ ellas
!, a cair,em muitos inconvenientes perduraveis, & de
{ grande confequencia.
Da extravagante viagem,que as náos, & Armada
{ levavaó, foyavifado logo Dom Manoel, por todos
} que a notáraõ; porêm, como entre eles não havia

pe{foa pratica na navegaçaõ, todos os oficiaes della
| fe perfuadiaõ,que era engano, & confufaó de gente
bizonha.O General quafi feguia o me fmo parecer,
mas vindo a menhäa,& {ubindo, & decendo homens
de experiencia,ao mefmo lugar, donde os primeiros
tinhaõ vigiado, fenaõ defubrio em todo o mar na
vio algum, & sòmente finais de tempo vario, com
motras de vir a tempeftuofo. Poderci afirmar, que
foraõ eftas novas a Dom Manoel, as primeiras que
teve de feu naufragio, logo delle predicto; em cuja
opiniaõ profeguio taõ vehemente,que alguns efira
nharaõ entaõ fua Porfia.
• • P Alra\
226 EPANAPHoRA TRAGICA.
Altamente difcurfou nofo metre, o famofo Hi
floriador,& Filofofo,Joaõ de Barros, quando refol
ve,que feria grande mingua da Natureza, havendo
ella repartido taõ fabias prevençoêsa o inftinto dos
animais rudos,naõ dotar o homem,animal foberano,
de algú fecreto,por onde tivefe luz de feu futurope.
rigo. Efte talhe,sé duvida,aquelle interior movime
to,q fe acéde nos coraçoês humanos;pelo qual húas
vezes oufaó,& outras temé, emprefas,naõ defiguaes,
defigualmente; a q chamaõ os Filofofos: Coraçãº
pre/ago,fempre verdadeiro na fentença do nofo Po
eta,que tambem teve a mefma opiniaõ que o nofo
Hitoriador,porque fem duvida parece que partici
paraõ ambos,fupoto q de diverfos rayos influidos,
da luz de húa propria mente. |-

Saõ miferaveis aquelles erros(& faô eftes,os maiº, "


& mayores da Republica)q naõsò cóprehendé aos "It
me finos,que os obraõ mas alcáçaõ por participaçaõ, L!.

exemplo,ou confequécia,aos inocentes,q nelles naó


tiveraó parte.Bem conhecia D. Manoel(como dil 1.
temos)o perigo,mas tambem conhecia, lhe era for
gofo,fer participante delle. Por efia caufa logo fe fez
pretes, para fair,& correr a mefma fortuna, que naó
merecia: por fer obrigaçaõ do mayor, igualarfe no
trabalho com os fubditos.Com tudo, o Ceo parece
que embargava efia refoluçaõ, interpondo invenci
veis dificuldades,Có razaô foraó, chamados já Gue
1,& defitimidas,muitas leys da honra, quando encó.
trañas da razaô,& natureza.
Cor
NAvFRAG1 o DA ARMADA 227
Corriaõ os ventos Suis, & Sufuetes, que dura.
raõ tres dias inteiros, defpois da faida da fora, até
que em 24 de Dezembro, havendofe acalmado,
faltou fubiramente o ár ao Norte, com motras de
pouca etabilidade. Atè aquella hora naõ haviano
ticia entre nòs,da caufa de novos accidentes, taõ po
derofos,que obrigafemas nàos, & Armada, a pro
feguir fua viagem, fôra de tempo, & contra o pro
metido; mas chegando efe dia por terra, hum cor
reyo do Covernador de Galiza, fe entendeo delle,
que na hora da faida da Armada, motrando o ven
to algüaventagem, fe afentara entre os mais(fen
do do proprio parecer elle Governador)Que fenaõ
perde/e,a melhora do tempo; o qual/e punha deforte, que
eflufandolhe a aquellas grandes nàos,andar tomando portos,
convidaria tambem a Capitana Real para fair,de aquelle em
que/e achava,ção que todos(fegã do convinha)navega/em a
Lisboa: nem elle Dom Manoel ficava nece/sitando de outro
| avifo,que efe que lhe daria o bom tempo, & anoticia,de que
o companheiros,pelo naõgastar em vaõ, cometiaõ ajornada,
º contra o */entado.
Quem notar os enleyos detas ordens, & parece
res, Jó opofios, quando deixe de entender por el
les,o curto fer da prudencia humana, naó deixarã,
pelo menos, de conhecer, quaõ ocafionadas fejaó
ao perigo, as refoluçoens, que fe tomaõ em mate
rias da navegaçaõ:donde o vento, femfirmeza, he o
principal inftrumento deta obra. -

Era pela madrugada, o dia de Natál ,quandº a


|- pº Ca
228 EPANAPHoRA TRAGIcA II. *

Capitana fe fez à vella,rebocada pelo canal do Potº


to,de 22.barcos bem e(quipados. A eta mefmaho
ra,cfcreveo Dom Manoel a ElRey, húa carta, que
fegundo o difcurfo,que continha, provado defeois,
pela verdade do fuceffo,mais pareceo vaticinio, que
avifo;porque havendo referido, em confiantes, &
breves razcês(quaes craõ as dete varaó, em todas
fuas praticas)todo o progrefo de aquelle negocio,
remotava dizendo eftas ponderofas palavras; Com tu"
dos/enhor por feguir a efies cegos, vou perderme com elei;
julgando/er a/sim yor/erviço de V.Magestade, & honra |
minha,que e/capar para ouvir/ua trifle forte, & dar a V.
Magºflade(ainda que fem culpa)ta5 ruim conta, das ar.
mas,1ue me tem encarregado.Afirmáraóme, que junta
mente cometa delRey,fe defpedira por letra,dosa
migos aufentes. Foy notavel, & obfervado de algús:
Que achandofetaõ firme no conhecimento do perigo que efe
rava: Pois o incitou a efcrever neta maneira: nunca
mais falou nelle, antes com animo forte, mostrou fempre
de/prevallo Afecto affaz convenieniente a todos a.
quelles, que por obrigaçaõ de feu poto, devem
repartir contancia aos fubditos,dentro dos mayores
perigos.
Havendo gaftado a Capitana, quafi todo o
dia em fair do canal, era jà poto o Sol, quando
fº achou no meyo da enfeyada, conduzida de al
gúas bafagens do Nordette, que efmorecido da
tempetade(que já o vencia)ou tarde, ou pouco ref *
Pirava. Confirmoufe o final della, com hum pare:
- - - ------ - - • - - daó
- - -- - -
NAvFRAo1o DA ARMADA. 229
daó de grofas,& negra nuvens, que da parte do Su
duete vinhaõ fubindo, a qual os mal advertidos
marcantes, julgavaõ embate do Nordete, que no
mar ventava rijo; por fer coftume detes ventos re
franger nas nuvens opoftas, donde batem, como a
pela na parede; de que procedem talvez no mar
grandes enganos,acerca da pronofticaçaõ dos ven
tos:como acontece aos pilotos, quando demarcaó o
Sol,por caufa das reflaçoens,perfuadidos de fua apa
rente figura; que imprefa nos vapores trafparentes,
interpofios na parte ortiva do orizonte; naó fendo
o verdadeiro Sol amanhecido obfervaó falfamente
o retrato,que delle reflataõ as agoas, à maneira que
fe motra no efpelho: o que jà deu cauía a naõ pe
quenos erros, que fe pagañ com laftimofos naufra
gios,trazendo errados pontos nas cartas, pelo ruim
ufo da demareaçaõ,do qual ainda que de pafo, qui
zemos advertillos.
Com aquelles bafos do Nordete, fupoto que
frouxos,& intercadentes,fe fez atè meya noite o ca
minho de Loesfuduete,a fim de deixar a cofia,pois
o vento era largo,para poder apartar della; mas acal
mando de repente,tardou pouco em foprar da parte
do Suduete, procedido de melencolicos nublados,
que jà vinhaõ toldando o Ceo.Pouco antes da mo
nhãa,curfava o véto forte com mares,que bem mof
travaõ fer de longe impellidos de grande força de
tempo.Todavia, fe navegou o dia feguinte, pela
volta de Loesnoroefle,não femP3
- •
abatimçnto;porém
ainda
23o EPANAPHoxA TRAGICA.
ainda afi,em refpeito da volta antecedente, havia
largo mar por onde correr,fem impedimento doca
bo de Prioulo, que demorava por aquelle rumo, fe
gundo o parecer dos Pilotos. Acendiafe por inftan.
tes a tempeftade, fendo coftume, ou malicia de a
quelles ventos o proprio, que contra a faude huma
na,vemos na febre aguda: que fempre someça com
pulfo igual,& diftinto, por #### mortal ca
lidade,atè que chegados os termos decretorios, ou
criticos, fedefcobre a peçonha do mal, quandoj
}
tem menos remedio.O mefmo acontece nas grandes
tormentas, que ellas já mais ao principio infinuão a
ferofidade,que defpois motrão. Affi podemos afir:
mar,fucedeo nefte notavel diluvio;porque parecen:
do antes tão mais,que hum tempo ordinario,fegun
do a eftaçaõ do anno,em q nos achavamos, em bre
ves dias chegou a taõ exquifito furor, que os mais
experimentados homens na proluxa navegaçaõ do
Oriente,& Occidête,em q nofos Portuguezes daó
quafi inteiro abraço ao Mundo,confefaraó naõ ha:
ver vito femelhante luta de ventos, & mares, como
a que fe padecia.
Pareceme que pofo fer culpado, dos que forem
lendo efta Relaçaõ,naõ achando atè aqui continua:
da a dos fucefos das naos, & navios, que as feguiaõ,
dos quaesha tanto,que naõ fazemos memoria. Mas
he de faber, que as concertadas hiftorias, que de fa:
mofos Autores achamos efcritas, faó muito feme.
lhantes a húa trança de mais,ou menos fios; a qual
por
NAvFRAG1 o DA ARMADA 231
poderia mal guardar feu lavor perfeito, fe todos el
les naõ foré entretecêdofe igualmente,agora pará.
dohuns,para que dem lugar ao curto dos outros; &
outras vezes trabalhando aquelles,que ha pouco ef.
tavaõ quedos,& detendofe os q trabalhâraõ até en
taô.Por efia caufa feguindo nòs,até aqui o fio dos a
contecimentos referidos à Capitana da Armada,co
mo parte principal della, voltaremos agora a dizer
dos mais companheiros,que tambem a feu tempo
havemos de deixar em filencio, quando convenha
aplicar a pena aos fucefos da Capitana, tanto pelo
po fer, como por fer o anfiteatro donde os padece
ImOS,

Deprefa conhecèraõ fua ruim eleiçaõ os nave


gantes,porque os tempos que efperavaó favoraveis
aos principios do novo anno de 1627, parece que
de propofito fe opunhaõ com dobrada força, ás ef
peranças de fua falvaçaõ.Qué primeiro que os mais,
receou o perigo, a que fe havia expofio, foy o Pilo
tomòr das náos da India, Manoel dos Anjos; hum
dos mais excellentes,& experimentados mareantes,
que curfâraõ aquella larguifima carreira. Efte ven
dofe em mar taõ cingido,com taõ poderofas embar
caçoens;a porfia do tempo,& falta de pórtos, a que
fe ajuntava a ignorancia delles; as noutes grandes,
os dias cubertos, agente, parte defmayada, & toda
impirita na navegaçaõ que faziaõ; julgando afia
perdiçaõ por infalivel, propós configo proprio de
efcapar por todas as varias ao naufragio, ainda que
O 4. foffe
232 EPANAPHoRA TRAGIcA II.
fofie focorrendofe de hum dos portos de Inglaterra:
donde ha muitos capazes de receber as mayores ná
os do Mundo; com efe penfamento quanto podia,
bolinava pelo Noroefte; porem como a náo fofle
grande;& já pelo trabalho da viagem mal mareada,
era talfeu abatimento, que quando aproava ao No
roefte,fazia o caminho do Nordefle: & ainda me
nos; pelo qual rumo era impofivel poder montara
ponta da menor Bretanha, chamada: Heifant, com
parcel de finco legoas, que bota ao mar alèm de feu
arrecife. Efta foy a ultima efperança de falvaçaõ,que
perdeo o Piloto mòr, Manoel dos Anjos, naõ tam
bem encuberta delle, defpois de perdida, que naó
fizeffe participes de feu feyo, aos companheiros; os
quaes, em continuo trabalho,preces, & defefpera
çaõ,caminhavaõ em demanda da morte. Naó era taó
eficâz o temor dos mais navios; porque, por falta de
pericia,naõ lhes foy tambem igual o conhecimento
do perigo,em que fe achavaó, perfuadidos engano
famente os mandadores, que com pouco favor do
vento, poderiaõ montar ao pégo de Bretanha. Po
rém,quanto mais porfiavaõ por aquella volta, mais :
abatiaó, & fe chegavaó á cota, avizinhandofe, ao
ultimo rifco,
Dentro delle achou a vida, o galeaõ Santiagº,
governado de Gonçalo de Soufa; porque vindo có
vento Oefte,bufcara terra ao Sufuete,encontrou na
Concha de Guetária,pequeno porto de Bifcaya, a
donde dando fundo, & fendo prontamente focorri
*- • do
NAvFRAGIo DA ARMADA 233
do dos Bifcainhos,name{ma hora em que fe aperce
biaõ para acabar,felhes trocou o perigo,em falvaçaõ
(fendo só efte o navio deta frota, que Deos foy fer
vido refervar do naufragio)& defpois com gloriofo
fuceflo,havédo pelejado, à entrada de Lisboa, com
quatro náos Olandezas,tomou porto.
Eraó jà dez de Janeiro, quando em a fegunda
conjunçaõ da Lua(em cuja melhoria tinhaõ pofio
fua confiança, os afligidos navegantes)creceraõ de
novo as tempeftades, que com arrebatadiffmo cur
fo, vieraó trazendo todos os navios ao naufragio.
Poucas vezes fehaviaõ encontrado no tempo da via
gem,huns a outros;& da Capitana da Armada, sô
teve vita,& falla,por húa tarde, o Galleaõ Saõ Jo
feph,que dife: Havia pouco tempo/e apartára, da Almi
ranta da India;porém, que(como a fcmelhança do jui
zo final, cujo retrato em parte aqui foy vito)naõ/e
puderaõ valer bãs a outros, os amigos,xem os parentes, por
fer cotume da colera da fortuna, naõ deixar obrar
as cortezias da natureza.
Dom Manoel, amava com juítas canfas, a Dom
Antonio de Menezes, Capitaõ defe navio Saõ Jo
feph;donde, além de fua pefoa, de tanta calidade,
como virtudes morais,corria manifefio perigo,a ma
yor parte da nobreza de aquella Armada, que a D.
Antonio feguia.Mas era tal o efiado do Galeaõ, cm
apertos,laftimas,& defconfianças, de que avifavão,
os en barcados nelle;que a Capitana, tem «mbargo
da compaixaó,oficio, & amifade, foy forçada, ºfe *


234 EPANAPHoRA TRAGICA.
defviar por naõ incorrer fabidamente, no inefcuf
vel naufragio,a que já via entregues os cópanheiros;
dos quaes,aquella noute, feapartàtão, atè o ultimo
dia.De tal forte encarregou Deos ao homem, a vida
ue lhe deu,que como coufa fua, o obrigou, a guar.
dalla,contra todo o interefe da alheya confervaçaõ,
dandonos cuidado sò da propria,fem ofenfa da hu
manidade.
Etemefmo dia, ao pór do Sol, houve a Capita
na vita de húa náo grande, que fe entendeo, fera
Capitana da India, a qual já com determinada for.
ça,ou impaciencia,navegava,a bufcar a terra, em que
fe perdefe. Foy fama, que entendendo a tinha mais {

longe, encalhara eff noute fobre hum branco de | |

aréa,que jàz ao mar da cota da Madalena, junto ao # |

Cabo dito Cabriton; da qual nào, fendo pofante, & |}


bem fornecida de gente, naõ fabemos que efcapaf. 0
fem mais de finco pefoas, tres Portuguezes, hum :
Cafre,&hum Indiano; mas detes Portuguezes cam #
bem fabemos que nenhum chegou a Portugal; por
fe dizer, haveremfe largamente aproveitado de feu >

defpojo.
Defta maneira achou a vida, Vicente de Brito de
Menezes,Capitaõ mór das náos da India, em idade
de fetenta annos, muitos delles gaftados em ferviço
delRey,no mefmo Eftado,&em varias partes;& naõ
poucos,em os perigos,que tras configo a idade juve
nil;principalmente em aquelles,que fem temperan
ça fe entregaõ à fua liberdade;dos quaes,Vicente de
Brito
NAvFRAGIo DA ARMADA 235
Brito diferaó, haver fido hum de efles, vivendo in
temperadamente,boa parte de feus annos, mas fem
pre com valor empregados, que lhe póde fervir de
honrofa defculpa, aos impetus da mocidade. Nefia
propria não acabou a vida, naõ fendo larga, Dom
Francifco Manoel,filho de Dom Rodrigo Manoel,
que viveo em Evora:o qual Dom Francifco, achan
dofe na India Capitaõ de Dio,cafado,& com filhos,
fem haver acabado o trienio de feu governo, o dei
xou generofamente, por fe ir embarcar aventureiro
com o General Nuno Alvarez Botelho(famofo de
nofos ultimos Herôes de aquelle Eftado)em cuja
companhia fe achou, na batalha do Poço de Gurra
te,que nas cotas de Perfia,deu,& ganhou Nuno Al
varez,aos inimigot de Europa: da qual batalha, fain
do Dom Francifco mortalmente ferido, fe embar
cou para o Reyno, com pouca convalecencia; don
de,por falta de cura, fiftulandofe a chaga, nem por
taógrande ocafiaô; nem o fer paflageiro, além das
perfuaçoés dos medicos,& amigos,fe quis voltar por
terra,a Lisboa,conforme as ordés, que recebéra elle,
& Jorge de Albuquerqne, filho de Fernaõ de Al
buquerque,Governador que fora da India, que na
não tambem vinha;& obedeceo logo. Mas D. Fran
cifco,chamado da voz da opiniaõ, às potas da mor
te,contra todas as mais, que lhe advertiaõ feu peri
go,correo para elle,deixando aos fuceflores mais no
bre,que felice exemplo,nada premiado,nem de to
do conhecido;razaõ que me fez dilatarefas regras
Cill

236 EPANAPHoRA TRAGIcA. II.


em féus louvores,fe já nome, appellido, & fangue,
naõ forem baftantes, para me abfolver da centura,
quando com taõ pequeno elogio, pareça demafiado,
Outros muitos foldados de importancia ficáraõ fe.
pultados entre aquellas aguas; dos quaes eu defejei |
trafladar os nomes; pois naõ podia os offos, a etas
letras,para immortal memoria delles: porque, pois
Deos me livrou do rifco de aquelle naufragio, os li
vrafe eu fe pudefe a elles, tambem do naufragio do
efquecimento.
Por todas as barbaras arèas de aquella eftendida
praya de Arcajona, que fe dilata entre a Concha de |
Saõ Joaõ de Luz,atè Burdeos, cidade principal da |
Gafcunha, foraõ tomando lugar de fepultura,nofos
navios, & os Portuguezes, que nelles navegavaõ.
Haviafe já em nove de Janeiro perdido a Almiran
ta de Portugal,com Antonio Moniz, feu Cabo, & .
todos os fidalgos,& pefoas de poto, de aquelle na
vio;fendo, para mayor latima, tal o modo de fua
trifte morte, que a fez ainda mais fenfivel, pelas cir
cunftancias,que pelo fuceffo.Tinha o Alferes An
tonio Rapozo(pefoa bem intelligente no mar, &
criado antigo do Almirante)prevenido húa balfa
de madeira,bem ligada de cordas, em que pode fal
varfe,& configo afeu amo, & capitaõ;da qual, fen
do jà entregue, no derradeiro ponto do naufragio,
& acompanhado de marinheiros efcolhidos, felan
çou às ondas,levando em meyo da balfa,o Almiran
te,&feu filho;de tal maneira acomodados, que fe
- gundo
NAvrRAoio DA ARMADA 237
gundo o aperto do tempo,naófe pudera achar mais
fegura embarcaçaõ,para chegar com vida. Era com
tudo grande a luta das ondas, & a èa, naquella ulti
ma parte,que chamaõ:Lingua de agua,ou Rollo do mar,
os navegantes. O que tudo fe fazia mais perigozo,
&incerto, pela multidaô de lenhos cípedaçados,
que andavaó foltos vagando fobre a agua; de cuja
furia, revolvida húa pezada lata, armada de agudos
prégos,cõ que fe arrãCâra do navio,detal forte enca
leou fobre a balfa,& os q nella vinhaõ, que revol
vendofe entre todos,com hum de aquelles cravos a
travefou a garganta ao Almirante,de que logo ficou
morto,participando o filho, que nos braços trazia,
do proprio golpe,& fuceflo;que fe fez mais latimo
fo,chegando a terra,o pay,& o filho, nefa maneira
atraveflados: fem que, dos que conduziaô aquelle
tragico teatro,algum perdefle a vida, fenaõ aquelles
mefmos,para cuja falvaçaõ,elle fora fabricado.Aqui,
vemos com que liberalidade de perigos,fe cofiumaõ.
haver os Fados para aquelles, que faltamente faõ
perfeguidos; porque na tragedia defes miferos nau
fragantes, andavaõ as mortes em competencia, a
qual primeiro havia de empregar nelles,a crua força
de feu braço. Por efta caufa,agora, os vemos junta
mente fumergidos do mar, degollados do ferro,
Precipitados das ondas; finalmente, tragados
das arèas,que atè os fins dos tempos houveraó deu
furpar feus ofos, fe a piedade, & amor maternal, à
culta de grandeslagimas,& difpendios, naõ fizeffe
• , {Q}}>
238 EPANAPHoRA TRAGIcA.
conduzilos a outro melhor porto, nas prayas figa
das do nofo Tejo, donde para fempre repoufaôna
religiofitima Cafa da Madre de Deos de Lisboa;
para que,em memoria de aquelas aguas, fuas homi.
cidas,lhas pofaó lançar bentas, & de perdaõ qual.
quer afeiçoado;á fua boa lembrança. .
Muitos foraó a efte tempo, de opiniaô.Que aite
rior de/confirmidade,que havia entre os dous Cabos myra
1Dom Manoel de Menezes, & Antonio Monis, dera caufia
esta perdiçaõ.Naõ duvido eu,que a difcordia entre os
que mandaó,feja origem de grandifimos danos,nem
taõ pouco ignoro,comotetemunha de vita, a pou
ca afeiçaõ, que entre os dous fe achava; por razaó
do diverfo natural,que em ambos obrava diferentif
fimos efeitos,porque Dom Manoel, fobre velho, &
muito entregue as regras da Filofofia(que profef
fava, mais fevera do que comvinha a hum varaõciº
vil)era peffba de condiçaõ auftera, com conhecida
mittura de extravagancia; & a de Antonio Moni,
fe motrava de grande afabilidade,& policia, ainda
que naõ de todo foffe perfeito da difciplina conve
niente. Acrecentavaõ: Que defla defuniaõ procediaº
Generalmal ºbedecido; porque o Almirante era mais ama
do em quefefundava,º defejo, & difiofiçaõ de fe apartar,
facilitando portodos os mºyos, a curta gloria, de meternº
fReynº(aufente o General) is naos, & Armada, que eflavió
a cargº alhyº.Tal foy a pratica,ou centura,que entaõ
correo entre os mais difcurfivos, & melhor informa
dos dos Publicos fucefos; q cada qual esforçava,
- - - - - • • ou
defen
NAvrRAGIo DA ARMADA 239
defendia,fegundo o odio,ou afeiçaó,com q fe acha.
va.Podemos afirmar, que fe em o Almirante houve
culpa,por emulaçaõ, ou ruim confelho(certo vicio
dos mancebos)foy fobejamente da fortuna cati
gado.Juizos faô altifimos de Deos,conformar pou
cas vezes, a nofos olhos,as penas, & as culpas, por
, confundir nofos juizos;que naõ poucas vezesfe a
trevétaõ; a querer fondar a profundidade da Provi
dencia divina. -

| Ainda nas horas da defgraça parece, ha melho


res, & peyores infantes. A vita da Almiranta de
. Portugal,que acabou com fim taõ funeto,deu a cof
ta,o galeaõ Saõ Felipe,que acertando ditofamente,
a inveftir com hum fofo alto, que o mar tinha aber--
to na arèa,pode futentarfe nelle direito, de tal forte,
que faltandolhe o leme fóra, do primeiro toque,
veyo logo em penfamento aos oficiais do már, que:
fe no leme(pois jà efiava firme na praya)pudefem
afixar hum cabo do navio, a gente fe falvaria com
pouco rifco,ainda que naõ com pouco trabalho: ao
que oferecendofe alguns marinheiros, defros nada
dores,muitos pereceraõ na empreza, & outros antes.
della, perdèraõ animo,& forças. Crecia o mar entre
tanto;& como a efte fim creceffe o defejo do reme
dio, pela medida do perigo, felançou a nado com
gentil determinaçaó,o Alferes do navio Antonio de
Araujo Moguemes foldado de valor; & que andan
do o tempo,padeceo outro menos honrofo,mas naõ
mais pio naufragio,em defefperadas ***
#A
24o EPANAPHoRA TRAcica II.
bem,nem para efte etava guardada a gloria, da fal
vaçaõ dos companheiros,logo felizmente executa
da por Felix Ferreira, natural da Ilha da Madeira,
honrado nella por nafcimento,& por valor, em toda
a parte.Ete com animo,& forças invenciveis, mais
arrifcados,que Cefar,foi ele a barca de fimefmo,dô
de naósô efcapou fua fortuna, mas a de tantos, que
por fua induftria recebèraõ a vida. Chegou a terra,&
obrando quãro os outros defejâraó,ou prometèraõ;
& foy caufa, de q aquella parte do povo Lufitano,
naõ a pé enxuto pelas agoas, mas quafi pelos ares,
transferife o amargofo pafo da morte à vida; pelo
qual facilmente,todos a confeguiraõ menos vinte,&
tres homens,que fofregos de feu dano, felançaraó
ao mar antes do tempo, como fe houveflehora, em
que elle lhes faltaffe para perecerem fem remedio.
Com pouca diferença de fortes, fizeraó feu nau
fagio a Almiranta da Índia; cujo Cabo fe perdeo
nella,com quafitoda a gente.O galeaõ Saõ Jofeph,
&a urca Santa Ifabel, da qual com poucos compa
nheiros fe falvou o Capitaó Chriftovaó Cabral.
Mas do galeaõSaõ Jofeph, porque a alaftima ffe
mais fenfivel,naõ efcapou outra algúa pefoa,de no
me,que Dom Francifco de Menezes, aquem os ef>
tranhos fuceflos que lhe efperavaô, parece que o ef
tavaô chamãdo da Corunha a Lisboa,primeiro que
a partida da Armada; a qual voltando a bufcar, naõ
achou já no porto: comprando por efe breve def.
gafio, naõ menos que a vida.Semelhante forte, mas
por
AvFRAo I o DA ARMADA. 24 1
por diverfa caufa, fucedeo a Joaõ de Soufa Falcaó
Todos os mais dignos de melhor fim, ficàraó entre
ondas,& os combates de defa piadados lenhos; mais
crueis,que a propria tempeftade;porque fendo elles
nellas,o azilo dos homés;aqui foraó feuflagello. A
cabaraó nefta tragedia muitos herdeiros de nobres
cafas,que algúas de todo acabaraó com elles també;
entre os quaes foi o mefmo D. Antonio de Mene
zes,Capitaõ do navio;em cuja imtempeftiva morte
a Patria perdeo hum Alumno, Marte hum dicipulo,
as Mufas hum amigo.
Já em todos os galeoés, & nàos fe havia executa
º do a ultima fentéça,ásô a Capitana de Portugal em
º bargava,naõ tanto cõ as exquititas,& incanfaveis di
º ligencias q fazia,quanto com perpetuos rogos,& lu
grimas ao Ceo,em q todas as oras fe ocupavaõ os na
vegátes.Poderia acontecer,q outro algum navio do
- mundo,padeceffe igual trabalho, mas tantos juntos,
naõ he verifimilfe achafem em outro.
Tres dias defpois de fua infaufta navegaçaõ, fe
naõ acendo fogo; nem pelo difcunfo da jornada
havia a efte refpeito outro mantimento, de que fofº
tentarfe,que algúns frutas, que para refrefco feha
viaõ recolhido.Os grandes balanços da nào, abalá
raõ feus matros de maneira, que por fenaõ afºgu
rarem delles os oficiaes da mareaçaó, poucas vezes
felargava ao vento, o pouco pano, que ele havia
deixado.Era o véto cada vez de tátomayor força, 4
a propria enxarcea,feivia develame. Do continuº
- - -- ---- Q comº
242 EPANAPHoRA TRAGICA! -

combate das ondas, veyo pelo difcurfo dos dia",º


defconjuntarfe de forte,o grande corpo de aquele
navio,que naõ havia em todo ele juntura, Por don
de ao tempo do balanço,naó coubefe húa mão em
algum perigo. Por efia caufa faltàraólogo os matº
reos,& os matros ferendéraó de modo,que foi má
ravilha permanecerem firmes todo o tempº dº
tempeftade. Porêm como fe todos eftes trabalhº
naõ batafiem para catigo, permitio Deos, fazellº
mais horrivel,húa madrugada, a tempo que as fº"
mentas de novo fe enfureciaõ: porque armando:
bem eminente ao navio, húa negra trevoada foi tãº
furiofa de rayos, que caindo algúsjunto dele, hum
fe lhe chegou tanto, que fendeo o matro grandº
defde o alto,até o lugar donde fe encaixa; deixandº
queimada a vela mayor,& afombrados de fua vita,
& etrondo, muitos homens. As agoas do marcº
travaó já de maneira pelos defconjuntamentos dº
nào,que bem fe via fe anticipavaó as agoas, a tomº
poffe della;porêm as ondas golofas de feu rifco, ji
naõ queriaó entrar,fenaõ por cima do bórdo, comº
ufaó os valerofosfoldados, na efcalla de algúa fo"
taleza. Seguindo eta confufa defordem, crecidº
curfo cada hora dos lamentaveis defaftres: folta"
dofe húa vez o cabretante,com que fe pretendial:
vantarhum pouco a verga grande,caufou na debili.
tada Infantaria tanto damno, como fe algum tropº
de futiofas couraças,a desbarataffe em campo razº
Do alto da em matreaçaõ, fe precipitavaó cada hº
fa
"AvFRAG1 o DA ARMADA. 243
ra ao mar,ou ao mefmo navio com mayor rifco, os
mais oufados marinheiros, que fe aventurávaõ a fo
bir, para remediar qualquer obra. Muitos roubà
raó os mares, de dentro do convès; & eftes eraó de
outros julgados, por mais ditofos que os que fica
vaõ dentro:aquelle acabava de húa só morte, & os
que ficavaõ padeciaô tantas, como gozavaõ de inf.
tantes de vida;vendofe a cada inftante nas mãos de
mais crua morte.Contra o cofume do medo, parece
que ainda as noutes,eraõ menos penofas(fendo hum
vivo retrato do Inferno):ô porque fe diffimulava
entre as fombras da efcuridad,aquelle horror, a que
a luz do dia, dava mayor fealdade. Ninguem jà Fe
dia,ou defejava vida,antes parece que caufava alvo
roço a vifinhança do ultimo damno,por fer o derra
deiro. Os homeus, a quem a continuada fadiga,naõ
dava efpaço ou termo, andavaõ defafigurados, &
vendofe cada hora,cada hora fe defconheciaõ. To
davia,o General contantemente vigiava, animando
aos feus,com razoés, & exemplos; poucas vezes, &
em pouco,feguido dos oficiaes maritimos, que co
mo foraõ os primeiros a levar os trabalhos da tor
menta,foraó tambem os primeiros, que a defempa
1âraó. Dou fè,que fendo força ferrar denoute, húa
contra mezena,naõ fe achou mais que o Mefire,que
fubife à pena della,fendo velho de fetenta annos,&
feis, ou fete fidalgos moços,que ali acodiraó; fem
que a violencia,ou a obediencia pudefem obrigar a
gête do mar,para que regeffe a …… 2
do "gº.
a
244 ERANAPheRA TRAcica II.
Cafo houve em que o General confirangido dane
cefilade,& difciplina,tomou o timaõ, & governou
manualmente,como qualquer marinheiro, mas me
Ihor que o mais detro.
Nefte efiado corria a Capitana de Portugal, o
dia catorze de Janeiro; que amanheceo de novo
atribulado, & melencolico: como veftido jà dos ca
puzes anunciadores, de quantas mortes tinha pre
venidas. Juntamente pela confufa claridade da me
nhãa,fe defcobrio a terra,alta,& grofa,& júto della
húa pequena embarcaçaõ, que pela propria volta
a demandava. A vita da terra caufou novo temor,
q acrecentava o naõ fer conhecida,por falta de Pon
to,já na carta perdido; porque entre os defanove
dias da tépetade,húa só vez fe pode ufar do Afro {

labio, & nenhúa do Radio, ou Balefilla. Por efta


caufa,cfquivandofe os pilotos de aquella volta, qui:
feraó cortar mais largo,procurando feu defVio; po
rém como Dom Manoel confiderafe, que a embar
caçaõ de que houveraõ vita, com toda a diligencia
bufcava a cotagentendeo, que fem falta feria(como
era)navio pratico da terra, a que fe dirigia:pois có
tra as leys da navegaçaõ,hia a bufcalla; & porã em
taõ miferavel fortuna, qualquer noticia lhe podia
fervir de remedio, ordenou: Que velejando o pºfiº
Yel, governa/e a Capitana pela esteira do navio, Que
com pequena diftancia fe lhe adiantava. Era ef>
ta emba caçaõ, húa Zabra Bifcainha, da companhia
de vinte,com que Dom Martim Ediaquez, faira do
*QItO
NAvFRAG1 o DA ARMADA 246
porto de paflagem na Guepuzcua,com hum focorro
de Infantaria,& dinheiro, para os Eftados de Flan
desia qual Frota, fcm efcapar húa só embarcaçaõ,
fez com a noíla Armada, igual naufragio, name{ma
cofta.
Naó fe tinha atè o meyo dia defcuberto outra ter
ra, que aquelles altifimos montes; cuja eminencia
desfalecia antes de decer ao mar.Porem sédo já mais
chegados à cofta,fe foi defcobrindo a barlavento,ou
tralingoa de terra baixa, que demorava pelo rumo
do Noroefte.Servio a vita della jà de ultima defef
peraçaõ,por feentender era impofivel montalla, a
inda que convieffe. Entaõ porque o temor naõ he
racional, havendo grande perturbaçaõ em todos,
caufada do fobtefalto dete defengano, fem embar
go de fero mefmo qbufcavaõ;reconhecédo D. Ma
noela novidade,& quaõcutofo podia fer o enleyo
a todos os que o padeciaõ;com palavras confiantes,
& animo feguriffimo,ordenou: Que o navio torna/e a
fer/eguido,naforma de antes. Com tal refoluçaõ fe fez
o mefmo caminho, fervindofe da embarcaçaõ, co
mo de norte carta,& Piloto. Quando já pelas duas
horas da tarde, foy reconhecida húa breve abra,
que fe fazia na volta da terra alta, mas taõ pratea
da das efcumas do mar; que fenaó olhava para
parte, onde as mefimas efcumas naõ motrafem
que efperavač com a mortalha, aos afligidos na
vegantes. Acrecentou efe temor o vifivei naufa"
gio do proprio navio, que atèQ_3
• -
fºcº
aquelle tempo tima
247 EPANAPHoRA TRAGrcA.
timava,como intrumento da falvaçaõ;porque hum
pouco fotaventado do pequeno porto, que mofixou
querer tomar,enveftionas aréas; as quaes apenasha
via tocado,quádo pota em falvo a gente(a que deu
facil modo, o pequeno porte da embarcaçaô)enca
pelou fobre o mar,taõ furiofamente, que de Poucos
golpes a desfez em meudos pedaços.
Dom Manoel avifado dete fucefo(naõ fe foi
tando jà mais a fonda da maô)mandou logo dar fun
do por avifarem fe achava a não em quinze braças;
mas naõ foi com tanta preteza, que fe executafe,
antes de eftarem nove. Era já taõ curta a diftancia
do navio,á terra,que pelas prayas fe divifava a gen
te que a ellas concorria; a qual pelo modo do trajo,
fe pode conhecereftrangeira,& por efemefmo final,
pareceo de França.O fobrefalto prefente, naõ dava
forças ao difcurfo,para que em nada advertife,viaõ
fesômente os profiofos finais,que de terra fe faziaó,
perfuadindo,fe cortafem todos os matros:as quaes
de motraçoés. foraõ taõ repetidas, que reparando
nellas a gente do mar,& declaradas pela necefidade,
que cedo fe conheceo, ácuta das feridas que a nào
logo começou a dar fobre no fundo,antes de lhe fal
tar o leme fôra(o que naõ tardou muito)fe deu prin
cipio a cortar os matros, & fe acabaraõ de cortar
brevemente; mas elles fe por húa parte lhe ferviraó
de alivio,por outra lhe dèraõ nova guerra, porque
prezos pela exarcea de fotavento,combatiaõ contra
o cafco do navio,furiofamente,impelidos da refaca,
que
NAvFRAG1 o DA ARMADA 248
que o mar defde fóra vinha levantado: pelo modo,
que jugavaõ contra as antigas muralhas os Arietes,
ou Vayvens Romanos. Cutou defpois feu defyio,
naõ poucos perigos,& mortes, dos que nelles inter
vieraõ.Seguiofe ao cortamento dos mafiros,o desfa
zer as obras mortas,com iguallaftima,que confufaó;
por ferem todas de entalhamento preciofo,ficou afi
o navio mais leve; pofto que eraõ defordenados os
balanços,que dava continuamente; & de tal forte, q
nem atados os homens, podiaõ paflar de hum bór
do,a outro por acodir às faenas necefarias. Agoa de
fundo,vinha por inftantes fobindo, & vencendo o
navio,já cativo de feu pezo; o que obrigou a fenaõ
parar toda aquella tarde,& noite,com bombas,& ga
motes,procurandofe confervar até o dia, aquellasta
boas,nas quaes sò tinhaõ pofto a efperança do hu
mano remedio.
Qual a noite foffe,fendo das largas do Inverno,&
em altura grande;poderà bem confiderar, quem fe
haja vito em femelhante fortuna.Toda fe pafou em
confiçoens,votos,& tetamentos; outros mais provi
dentes,que piadofos,em fazer jargadas, & prevenir
artificios,donde pudefem lançarfe ao mar, no final
aperto,que por infantes aguardavaô. Dom Manoel
naõ ignorando orifco,em que fevia igual,& comum
ao de qualquer outro,moftrou fempre animo intei
ro,& com tanto excefo confiante, que pafava a re
prehenfivel: porque naõ faõ menos obrigados os
Varoés fabios,que os outros homés,a obtervar as º
- - - - Q_4 porta
249 FPANAPheRA TRAc1cA. - II.
portunidades dos tempos. Sou bem lembrado de
húa notavel coufa, a efte propofito, por haver ºu
nella tambem fido parte. Mas fôra de tempo foyfr
ceder ella entaó,que referilla eu agora. Afliticom
Dom Manoel quafitoda a noite de aquella tribula
çaó, porque lhe devia amor,& doutrina;& querendo
ele mudar veftidos,como todos, a feu exemplo fi
zemos, ornandofe cada qual do melhor que tinhº;
porque morrédo,como efperava,fofe a vitofa mor
talha,recomendaçaõ para a honrada fepultura. Em
meyo defla obra,& confideraçaõ a que ella excita
vatirou Dom Manoel os papeis que configo trazia
entre os quaes abrio hum, & voltando para mi(que
já dava motras de fer afeiçoado ao efludo poètico)
me difle focegadamente: Efe he hum foneto de Lºpe dº
Zeiga que elle me deu,quando agora vim da Corte;louva nek
le ao Cardeal Barbarino,legado a latere do Summo Pontifi |
ce Ubano VIII.A etas palavras feguio a liçaõ dele,
& logo feu juizo; como fe fora examinado em hú,
ferena Académia;tanto que porrazaõ de certo verfo,
que parecia ociofo naquelle breve poéma,difcorreo,
enfinandome o que era: Pleona/mo, e Acirolºgia,& nº
que diferiaõ; com tal focego,& magifterio,que fem
pre me ficou viva a lembrança de aquella acçaõ,co
mocoufa muito notavel:fendo tudo explicado com
taõ boa fombra,que influio em mim grande defcui
do do rifco:donde vim a entender, que a efe fim, de
via de mover comigo taõ e tranha pratica para o
tempo.
POI
----"
1-4
NAvrRAcro DA ARADA 25 o
}
Por todas as horas defla tremenda noute, le fo
raó lançando ao mar, homens atrevidos, & incon
fiderados,havendofe armado das prevençoens, que
julgavaõ convenientes a feu remedio: & como nem
delles,nem do fuceflo,houveffe quem voltaffe com a
nova,alguns dos q ficavaõ, fe perfuadiaõ ao mefmo;
naó ouvindo, nem vendo naufragar aos outros pel
la ditancia,horror,& efcuridaô, que a tudo confun
dia. Porêm, dos que defpois fe falvaraó, foy en
tendido naõ efcapar algum detes. Era no principio
do quarto d'alva, quando milagrofamente chegou
à Capitana,húa falúa rompendo os mares, com duas
pefoas sóméte q informáraõ fer aquelle o porto de
S. João de Luz,logo com o fecreto pofivel, foraõin
troduzidas ao General,em cuja prefença fem algum
fecreto (que o perigo poucas vezes he continente}
de parte do Magiftrado de fua Villa, reprefentá
raõ a Dom Manoel: Como os/enhores de feu governo,
mandavaõ falvar naquella embarcaçaõ/ua pe/Soa, perfer
hum General Efpanhol, & Portugues, fegundo mofirava
Jeu Estendarte; a cuja na/gaõ tinhaõ particular afélo, &
defejo de valer em tudo, como haviaõ mostrado com os
mais. Que na deliberaçaõ naõ para/e, porque hãa hora só
podia haver de intervalo, de aquelle ponto à morte,/ua, &
dos que o acompanhavaõ. Dom Manoel, com digno
repoufo,refpondeo: Seria o ultimo; mas os Enviados
manifeftàraó: Que traziaõ por ordem, naõ embarcar a
ºutra algãa pº/a primeiro que elle, nem fria pº/shel
/alvar os mais, antes do General poílo em terra; porque
251 EPANAPHoRA TRAGICA!
entaõ partiriaõdella, outrasfalúas, que fe ficavaõ prepa
rando para remedio da mais gente. A efta temerofa fen- }
tença,acudiraõ todas as pefloas de conta à Camara,
donde Dom Manoelfe achava; das quaes foi inftan.
tifimamente rogado, fe embarcafe por falvaçaõ,
quando naõ foffe fua,dos companheiros. Todos pe.
diaõ o me{mo: huns porque criaõ fer afi o que os
Francezes diziaõ;outros porque aufente o General,
aos mais ficava difculpavel o defemparo do navio,
porque cada qual defejava romper já os laços da o
brigaçaõ,defpois de ver rotos,os fios da efperança.
Defta forte perfuadido Dom Manoel, nomeou
algúas pefoas de mayor experiencia para guarda da
Capitana;a fim de que em boa ordem difpuzefem a
embarcaçaó da géte della. Foraó os nomeados: Luis -
Martins de Soufa,Nuno de Mello,Luis Barreto,Luis
Borges de Catro,com os Capitaés, Cofme de Cou
to,& Lourenço Moufinho; dos quaes sô dous efca
páraó.Logo,levando em fua companhia a Ruy Go
mes da Silva, Chriftovaó de Mendoça, Dom Joaõ
da Silva,Manoel do Soufa, com o Capellaõ môr
Frey Paulo da Etrella, que defpois foy Bipo de
Meliápor(varaó de valor, virtude, & fingileza,lou
vavel)Fizico,& Curgiaõ mór,&o Efendarte Real;
fe embarcou com igual rifco,do que podia pafar no
conflito do naufragio; mas ajudado do favor divino,
chegou a falvamento a terra; por beneficio da tregua
que o mar,& vento cotumaõ fazer, quando o Sol
fe defcobre no orizonte.
• - - - - Im:
>--

NAvPRAcro DA ARMADA. 252


Importou fua prefença, a vida dos que fe falva
raõ; & de tanto premio necefitava o emprego da
vida,& opiniaô,com que por efia jornada, comprou
feu remedio. Fez logo com maravilhofa petreza,
de pachar doze faluas, & algúas pinaças(faõ em
barcaçoens mais feguras, que ligeiras(em demanda
da gente,que jà lutava com os braços da morte, naõ
como antes com feus ameaços. Tal era a defefpera
çaõ,que muitos por fazer mayora necefidade,fe lan
çavaó do navio ás ondas, a fim de que na falvaçaõ
fofem aos outros preferidos: os quaes fenaõ perfe
riaõ nefa falvaçaõ aos outros, lhe preferiaõ na mor
te;que inconfiderada, ou medrofamente o antici
pavaõ.Taõ ruim confelheiro he o medo, que abor
1ecendo a morte diftante,por fugir della,bufca outra
mais vifinha.
A penas repontou a marè, quando os mares nos
vamente embravecidos,ao modo do defro, lutador
que fe arma de mayores forças, para o ultimo con
bate;invetiraõ juntos aquelle miferavel, & disfor
me vulto;com tal furia,que os montes que de longe
eftavaõ olhando a defigual contenda, parece que fe
abalavaõ,ao impetu de tamanhos golpes. Efte viole
tifimo accidente repartio novo temor aos France
zes,que governavaõ as falùas, receando, com razaó,
outro femelhante cafo,qual o que poucos dias antes
havia fucedido a feus naturaes; porque a fim de fo
correr a náo Almirante da India, tragâra o mar 4c,
Pefoas, das que nas embarcaçoés futis(quaes eraõ
- •
efias
253 EPANAPHoRA TRAercA II.
eraô)haviaõ intentado aquella obra. Todaviaani:
mados pela força do influxo, que os movia, femfe
vencerem do temor que fe lhes reprefentava, foraó
chegando á Capitana,& recebendo, como de falto,
poucas pefoas; porque com a preza de duas, outres,
fe apartavaõ.
Naõ fe pôde bem referir a defordem, efpanto, &
confufaó,dete tempo;ainda fe imagina melhor, dos
que nunca o vitaõ,do que fe conta pelos experimé
tados. Tres ondas, que parece tinhaõ a feu cargo o
fim deflas tragedias,derrubáraó o feu teatro;tres mº.
res,naõ foraõ mais, fumiraó horrendamente aquel.
la celebre Capitana:Santo Antonio, Saõ Diogo, &
SaôVicente;porque ainda fendo tantos os Patroés,
& Tutelares della,como diffe o Profeta, que os San
tos sò rogaõ o digno,em o tempo oportuno, parece
que o naõ foy efte,para que diante do Senhor inter
puzefem fuas rogativas. Da força do primeiro mar,
feromperaõ todas as amarras que eftavaõ no fundo.
O fegando encotou o buco, fobre os bancos do ar
recife. O terceiro o fumergio com tanta brevidade,
que defejando Dom Manoel regular o tempo que
duraria o naufragio(com feus olhos vito de terra)
afirma nas certidoés que pafou delle,haverfe desfeiº
to aquella Capitana, em menos da outava parte de
hum quarto de hora;que fegundo boa computaçaõ,
matematica,fe hum quarto tem 15. minutos, em sò
dous minutos de dilaçaõ, & ainda menos algunsfe.
gundos(que vem afer humbreviffimo infante# 4º
--- *\
Cab0U
NavFRAG1 o DA ARMADA 254
cabou a Mageftade de taõ potentifimo,& vitoriofo
lenho; aquelle que pouco tempo antes coroado de
bandeiras vencedoras, cortando por quafi meyo
mundo, os Paralelos,os Climas, & os Meredianos,
de húa,& outra Esfera, triunfou dos Mares, Regio
&s,& Inimigos.
Sempre antes de tempo chega a morte por mais
prevenida,& chamada que feja: fem embargo, que
taõ avifados do perigo, como de fubito, & impen
fadamente,fe acharaõ a faltados todos os trifles na
vegantes,naquelle momento de feu naufragio.Naõ
efcapáraõ alguns por virtude de humana diligencia,
falvo por aquella altifima eficacia,que os tinha ef
crito no livro da vida;em cuja obediencia, dos pro
prios inftrumentos do damno,eraõ refpeitados; ha
vendo porèm,a fortuna baralhado,mortos, & vivos,
que em breve efpaço povoáraõ indiftintamente to
das as prayas: onde a cada paflo, fe achavaó lafti
mofos efpe&aculos;porque naõ só fe viaó jà defun
tos,& horriveis aquelles que pouco antes converfa
vamos; mas feus corpos efpedaçados, & ainda quen
tes,jà naõconhecidos.Jaziaõ os troncos humanos sé
cabeças,& as cabeças fem corpos, nadavaõ fobre as
ondas. Em outra parte fe juntavaõ braços de dife
rentes eflaturas, pernas de diverfa compofiçaõ;
muitos,em quem a vida tinha por termo, o mefmo
termo da terra;fe lhes acabava artes de chegar á ter
ra,o termo da vida. •

Se com o exºtº dº tragia, algum pode


• 1gua:
••

255 , EPANAPRORA TRAGICA! -

igualarfe,foi só o da piedade,com que o recebeo,&


confolou aquelle generofifimo Povo: donde as ma
tronas mais principaes, & as donzellas mais recata.
das difcorriaõ pelas largas,& foberbas arèas, obran
do com os naufragantes, fingulares acçoés de con.
forto:com tal afecto, como fe cada hum de aquelles
miferos,que jà mais haviaõ vito, foffe feu filho, ir
maõ,ou efpofo. Alcance o vigor da verdade nete
encarecimento,o que naõ alcança o mayor trôpo da
eloquencia humana;deixando atràs todos os hiper
boles,de que a Retorica fe adorna. Poderei mais que
algum outro dar razaõ defe fuceflo; porque ou já
pela pouca idade,em que o padeci, o fentifle menos,
ou por particularmercé divina,eu me achaffe em me
1hor difpofiçaõ,que outro algum dos efcapados, fuy
encarregado do enterro dos mortos; os quaes deraõ
carga a noventa,& feis carros,que para os conduzir
ao povo,me foraó remetidos. Sendo tantos, a todos,
felhes deu eclefiaftica fepultura, todos alcançáraó
fufragios da Igreja,com tal cômodo, que alguns fe
houveraõ enterrar, menos honradamente fe falle
cefem no deproprio leito,da patria. •

He Saõ Joaõ de Luz,povo vifinho ao Rio Vida>


ço,que divide por aquella parte, Efpanha, de Fran
ça;& jàs pouco defviado para o Norte, das eminen
tes ferranias,onde algúas legoas antes do mar,fe aca
baõ os famofos Montes Pirinéos, que pondo termo
á Galia,º Hiberia(como lhes chamáraõ os antigos)
procedem Por efpaço de outenta, & quatro legoas,
que
NAvFRAGIo DA ARMADA. 256
{
que fe contaõ de Saõ Joaó de pè do Porto vifinho,
ao mar Cantabrico, atè o Cabo de Creuz, ou Cru.
zes,fegundo eftremo dos Pirinèos, que fe molha6
no mar Mediterraneo;com o que fe convence de fal
fo,o que Lucio Marrineo Siculo,refere: Haver acha
done/tes montes,parte,donde atrave/andoos, pode ver am
bos os mares de Setentriaõ, & meyo dia. O proprio povo
dito:SaõIoaõde Luz,fe divide em duas villagens, a
tadas de húa larga ponte,fobre hum efteiro falgado:
onde aquella parte que olha a Efpanha, dizem os
naturaes(Saõ Vicente de Siburu, como SaõIoaõ de Luz
a outra,que olha para França; mayor, mais rica, &
principal. A lingoa comum, he Vafconfa, que fe ef
º téde a toda a Gafcunha,Guepuzcua, Bifcaya, Alava,
& boa parte das Navarras;ã he aquella a grande ter
ra, a quem os Romanas chamàraó: Cantabria,quafi,
Canto,ou ilharga do Ebro,fupofio que a propria Pro
vincia, em que Saó Joaõ de Luz età fundado, feja
chamada em Frãça:Terra de labor:ã cõ o principado.
de Bearni,& fenhorio da baixa Navarra, entrou em
a Coroa Criftianifima. •

Os cotumes detes Va/cor,ou Ga/coês,como de or


dinario faó chamados;todos parecem dignos de ho
mens bons:Guardaõ verdade em tratos, & palavras,
de que faõ zelofos, & amigos de que fe lhes mante
nha,prezaó muito a liberdade, & nas paixoés do a
nimo, poucas vezesfe moderaõ; fervem lealmente a
feus Principes,por cujo obtequio,tem padecido grã
des damnos na guerra prefentes da qual os mayores
Pro
257 EPANAPHoRA TRAorcA, II.
progrefos(como já na nofa Catalunha deixamos
efcrito)fe executàraó,poreta terra de Gafcoês, &
feus contornos,com varios fucefos, como na guerra
2COntCCC (Tl. " •

Se conforme pretendemos referir, houveffemos


de louvar,a nobreza, & humanidade detes Povos,
exercitada com todos aquelles, que em fua cota
naufragaraõ;grandes elogios, em compiofas fumas,
naõ eraó batantes, para engradecer a menor parte
da hofpatilidade, que os Portuguezes acháraône.
tas catolicas gentes; pelo que agradecido dignamé.
te o o nofo Confelho de Portugal,fez confulta a El.
Rey,propondo:Qge por gratificaçaõdo afeêlo, que os vº}
filos defia Coroa axperimentàraõ em aquelles pºvos,parecia
que Sua Magelade devia ordenar, que jà mais os navios,
(3 mercadores delles,paga/em direitos algãs das fazendaí,
que comerceafSem para Portugal, ou ao menos Je lhes court
de/ee/lafranqueza,por boa copia de annos, em memoriaú
beneficio,que delles havia recebido efe Reynº em feus nati.
raes. Foi Autor deta confulta, Dom Francifco de
Bragança,filho de D.Joaõ,& neto do Duque Dom
Jaime de Bragança,& de fua fegunda mulher,a Du
queza D. Joana de Mendoça. Era Dom Francilco |
Miniftro Eclefiaftico de nofo Confelho,& faleceo
eleito, nnico Patriarcha do Oriente. Naõ fabemos
que ElRey fecóformaffe com o confultado, & pro
poto;antes pelo contrario em nofa injuria, vimos
que por razaõ de eftado da Monarquia, poucosan.
nos defPois, e retiveraõ embargados em Lisboafel?
- - - - - --- --- --- * ....…… -- . fenta
. . NAvFRAo 1o pº ARMADA 259
fenta navios q de S.Joaõ de Luz,Siburu,& Bayona,
vinhaõ carregar de fal; fendo efta a ultima viagem,
que em frota fizeraõ a nofo Reyno,aquelles honra
dos moradores,com que naõ sò por vãos pretextos,
perdemos a nobre acçaõ do agradecimento, mas a
util,como era efte gentil comercio. E pois da noffa
parte,em modo publico, naõ houve(por culpa dos
tempos pafados)algum genero de reconhecimen
to para cometa naçaõ;iufto fetá,que nès agora nef>
te lugar,façamos de noflas obrigaçoés,húa perpetua
lembrança aos tempos vindouros: fendo certo que
he boa parte da fatisfaçaõ de importantes dividas, a
memoria dellas; & que nenhúas efiaú tanto no vi
gor de feu beneficio, como aquellas a quem por o
bra,nada diminuio o agradecimento.
Talfoy finalmente a origem procefo, & fim do
naufragio, que prometi relatarvos; cuja perda na
quelle tempo, quizeraõ os mais rèpublicos, fe pu
e defe avaliar nefte Reyno pela mayor, que ele pa
deceo defpois da DelRey Dom Sebatiaõ. E porque
, della (e pofa fazer verdadeiro juizo, vos apontarei
, aqui em junto, as addiçoés do que fe perdeo nefte
º latimofo fucefo. Duas nãos da India, que fegun
do o melhor computo, importavaó aquele anno
, tres milhoés; nellas mais de feis centos homés, cõ a
, melhor marinhagé de fua carreira; fincoenta,& duas
, pefas de bronze, que por ambas fe repartiraó. As
pefoas de Vicente de Brito, Capitaõ mór dellas,
, feu Almirante;infignes
-- pilotos, & metres, além

dos
nobres,
26o EPANAPHoRA TRAGrcA II.
nobres, que alli nauf agaraó, de que jà tenho feito
algua memoria; a Almiranta de Portugal, notavel
navio de quaréta canhoés,quinhétos Infantes, o Al
mirante Antonio Monis, todos os fidalgos, & ho
mens de poto; o galeaõ S.Jofeph, de trinta pefas;
feu Capitaõ,&iluftre cópanhia,có quatro cétosho
mens;o galeaõ S. Felipe de vinte,& oito pefas,on
de por efcapar a mayor parte da gente, foy menor a
perda,& a latima. A urca Santa Ifabel de vinte, &
feis pefas,& cõ ella duzentos cópanheiros, q eraõ a
flor de nofla Infantaria. A Capitana de Portugal,
que foy em feu tempo,o mais real,& pofante navio,
que navegava,com a mayor parte dos fidalgos,& of
ficiaes delle,feffenta pefas, quatrocentas, & feten
ta,& nove pefloas;quanto mais,qa mais importante:
calidade dete naufragio, foy perder nelle Portugal }
todas fuas armas maritimas; donde fe pode comra ?
zaó lamentar(& ainda agora póde)naõ sò a perdas
das armas,naõ só a dos tefouros, mas a da nobreza;;
havendo afi inutilmente acabado, tantos homens}
ilutres, tantos herdeiros de cafas principaes, tantos
cafados,que ficàraó faltando a fuas familias, tantos :
capitaês valentes,tantos mancebos de altas e{peran
ças,tantos foldados detriffimos, tantos pilotos, &#
marinheiros expertos, que faó as alfayas mais im: |
portantes ao adorno, & utilidade de húa Republi
cº, & que naõ fem grande
ajuntarfe; dilaçaõ pôdem tornar º }|

Mas porque entendo defejareis faber ainda emi


Par:
NAv FRAGIo DA ARMADA 2é I
| particular,o remate dete fucef,fegundo o efiilo,
|

que guardei em referilo, continuando com os a


contecimentos da Capitana; como cabeça do corpo
de aquella Frota, & os de D. Manoel de Menezes,
General della; da qual cópanhia pela afiftencia,que
, eu lhe fiz,poderei dar melhor razaó;reta por faber:
Que fendo jà manifefio nofo naufragio, con
correo logo com acçoés de comprimento, devido à
pefoa de hum General delRey de Efpanha, o Con
de de Agramont, Governador perpetuo de Bayona
de França,tres legoas, difiante de S. Joaõ de Luz,
para a banda do Norte; porque fupoto que toda a
Provincia dc Gafcunha, era entaõ pertencente ao
governo gèral,do Duque de Efperno, o qual affitia
em Bordeos;havia o Conde de Agramont, em par
ticular tenencia aquella Cidade. Efte defpedindo
pela pòta hum genro feu, por nome: Monfieur de
lº/ale,com o pefame do fuceffo; veyo fazer de par
te do fo$ro, & daCidade, honrada vifita a D. Ma
noel;o qual o recebeo como era devido,refponden
do ao Conde,& Magiftrado, em cartas latinas(por
lhe fer lingoa familiar)em as quaes fobre: lhe reco
nhecer a compaixaõ que mº/travaõde/euface/h, recomen
dava o trato de no/Sagite,é cobro da fazenda Real; inter
pondo por femelháte caufa,femelháte rogo ao Du
que de Efpernon, a quem tãbem efcreveo em igual
efilo. Mas etes Minitros delRey Criftianifimo,
jà por feu proprio ferviço, haviaõ mandado ordens
convenientes, fegundo o interefe de fua Coroa;
-- R 2 por
262 EPAsAPHoRA TRAGICA!
porque potas gentes pela marinha, oficiacs de juf
tiça,& guerra, evitafem o oxcefo, com que as fazê
das que efcapavaô dos mares, naõ efcapavaõ dos *

homens. •

Sobre as grandes riquezas,que cada dia,com mais


ou menos dano,fe hiaõ defcobrindo, foy fama antes
de noff faida de França,eftarem jà em falvo em fuas
prayas,cento, & fincoenta canhoés de bronze, dos
quaes defpois,eu,& muitos,vimos alguns em praças,
& navios delRey de França. E porque ainda q as
Coroas etavaó entaó pacificas,& o Cófelho de Por
tugal,concorreo có recomendaçoés ao Embaxador
de Efpanha,Marques de Mirabel,4 refidia júto a el
Rey Critianifimo, folicitadas por Jurdaó de Frei-}
tas da Silva,& Alvaro Galvaó, falecendo o primei #
ro,& aufentandofe o fegundo; naó houve efeito a- #
quella julta negoceaçaó, até que com a rotura da
guerra do anno de 1635, fe acabáraó de perderas #
efperanças de algum cobro. +)

|

Dom Manoel,tanto a efte fim, como ao de reco \


Iher a Infantaria, que efcapára, & lhe dar a forma
conveniente,para reduzir(e a Portugal; porque com º
o duro inverno de aquella Regiaõ,naó padeceffe na
terra novo trabalho; deu avifo a Bilcaya, onde a va
rios,& importantes negocios da Monarquia, havia
decido o Secretario de Eftado de Catella, Martim
de Arotigui;o qual cõ grande cuidado acodio logo
com efeitos,& creditos,para que o General,& a In:
fantaria,foffe focorrido;& fe trataffe de fua reduçaó
a ER
NAvFRAGIo DA ARADA 263

a Efpanha, naõ menos pela opiniaõ, que pela uti
lidade.
Eftando as coufasneftes méritos,arribou a aquel
e lugar, defde Flandes(donde paflava por terra à
: Corte de Madrid)o Marques Ambrofio Spinola,
que a D. Manoel fez grandes honras, & agafalhos,
aconfelhandoo,q logo faifle de Frãça, donde menor
pefoa,batava para dar forma aos negocios,porqlnel
la fe detinha.Defte parecer perfuadido,D. Manoel,
poz em efeito fua jornada à Corte, & foy nella re
cebido dos prudentes Miniftros, mais como Profe
ta,que Capitaõ, pelo avifo taõ confiante, que lhes *
havia dado,do fim de fua viagem, logo no principio
della.Todavia o vulgo que só julga pela ley dos fu
cefos,em parte culpava a D.Manoel, porque era só
aquelle a qué via prefente;de cuja opiniaõ(esforça
da por ventura dos êmulos)ElRey fe fez tambem
participante,negando por algúsmezes, os ouvidos a
feu General,afligido,& inocente.
Mas vendofe Dom Manoel tocado inftantemen
te de aquele mal,a que os Medicos modernos cha
maõ: Flatos hypocendriacos, que com menos pom
pofo nome, os antigos chamavaó: Vento/idades me
lancólicas, deixando os negocios temporacs, por fe
entregar aos do efpiritu,já com facil licença, q del
Rey havia alcançado, fe partio a Portugal; donde
poucos dias defpois de chegado, agravandofelhe
a enfermidade,faleceo em 28 de Julho de 1628.&
foi mifteriofamente enterrado na Igreja da Madre
R3 de
264. EPANAPHoRA TRAo IcA. II.
de Deos, junto à fepultura de Antonio Monis, feu
Almirante;que affi fez a morte conformes, aquelles
a quem a vida diferentes.
Foi Dom Manoel de Menezes, filho de D. Joaõ
de Menezes,que diferaõ de Campo Mayor, por fer
herdado na vifinhança de aquella Villa. Quando
moço,Dom Manoel, deu moftras de grande aplica
çaõ ás boas letras;tanto que fendo filho mais velho,
etudou como para letrado.Inclinoufe com felicifi.
mo progrefo,ás fciencias Mathemáticas, em que te
ve por Metre ao Padre Delgado, difcipulo de Cla
vio. Soube com perfeiçaõ a mufica, & profefou a
hiftoria Romana,& Grega: de cujo idioma tinha al- |
gum conhecimento:& fingular noticia, por longo |
etudo,das linhagens do Reyno, logrado com talfa
tisfaçaõ de fi proprio, que muitas vezes lhe ouvi: ^
De/ejàra ter oficio de poder ca/ar,elle sómente, aos homens }
de Portugal,porque só elle, lhes poderia dar a cada hum, a
mulher que lhe competi/e. Amava a Poefia, & della an
tes a poetica,que a verfificatoria:o que lhe procedia !
de fernos verfos(que talvez provou a fazer)infeli
cifimo; quaó pratico nos preceitos da arte, afino :
modo Lirico, como no Comico, Satirico,& Epico.
O feu Autorlatino era Tacito, o Grego Tucidides;
& dos Poetas vulgares, etimava pela variedade o
Arioto: confefando fobre os heroicos, a eminencia
do nofo Camoés,
Viveo largos annos retirado; em os quaes fazen:
do grande cabedal de etudos,fe declarou pretendé
[C
NAvFRAGIo DA ARADA 265
te ao oficio de Cronita mòr, que alcançou pelos
annos de 1618. por morte do famofo Hitoriador
Frey Bernardo de Brito; o qual oficio(pela de D.
Manoel)tornou logo á Religiaõ de Saõ Bernardo,
em que fe continua;fucedendolhe,a defpeito de va
rios,& dignos pretendentes, o Doutor Frey Anto
nio Brandaó; cujo fobrinho dicipulo, & fucefor
imediato,he hoje o Doutor Fr. Francifco Brandaó,
que tantos eruditos teftemunhos, como livros, tem
| dado de feu talento.O mefmo ponto fez D. Manoel
na pretéçaõ,ao cfficio de Cofmógrafo mór,que dias
havia etava vago por Manoel de Figueiredo, difci
pulo do nofo infigne Pero Nunes; & elle bem inf.
truido nas navegaçoês; o qual oficio por faleciméto
de D. Manoel, pafou ao Defembargador Antonio
de Maris,que diferaó: Agulha fixa; porque na averi
guaçaõ defefegredo,navegou à India, prefumindo
o tinha alcançado por propria efpeculaçaõ,cõ a qual
faõ infinitos os enganados.
. Na ocupaçaõ de Cronita,fabendo eu tudo,o que
. Dom Manoel efcreveo(porque jà naquelle tempo,
elle me tratava como a difcipulo,já o ajudava a dif
pôr alguns papeis,& anotarlhe as noticias,que conti
nhaó)me afirmo,em que sò deixou efcrito, boa par
te da Cronica,delRey Dom Sebafiaõ, com que,vi
olentado de ordens Reaes,determinava fair a luz em
breves dias;& nos que durou a jornada, que taõ tra
gicamente rematamos, efcreveo em mar, & porto, a
reftauraçaó da Bahia, tambem R
• -
por4.exprefo manda
ImcintO
266 EPANAPHoRA TRAGICA.
mento delRey:húa,& outra eraó hitorias fecas, &
de extraordinario etilo,porêm fiel;ã ambas fe devé
côfervar entre feus papeis,& livros. Tinha de mui:
tos annos imprefia húa Relaçaõ em Portugues, &
latim do fucefo,& batalhas q teve na não Saõ Ju
liaô,com a qual sédo Capitaõ môr de aquella viagé,
fe perdeo na Ilha de Comoro, alèm de Madagakar,
ou Saõ Lourenço. Aos ordinarios livros de linha
gés,havia feito certos efcolicos, & notas, muito mais }
conformes com a verdade, que com a politica, Del
pois efcreveo,& fez etampar,abreve Relaçaõ,dele
naufragio,que ao principio refetimos. Tais foraók
us progrefos,na faculdade das letras; mas ferârazºó
que tambem demos notícia dos empregos das armas,
que continuou largamente; fendo ele em Portugal, º
& em qualquer outro Reyno de Europa, hum dº b,
Varoés,que melhor juntàraõ nefte tempo, a profitº
faõ de Letras,& Armas.
Começou a fervir na guerra, quando a vinda dº
Ingrezes a Lisboa,que o Prior do Crato, Dom Anº
tonio,conduzio com grande Armada,em focorrº de
feus direitos,& como Dom Manoel fofle entaóniº
cebo,& fofetal,naõ fendo comunmente conhecidº,
com prefença muito femelhante aos naturaes dº
Norte,fucedeo, que por algúas companhias de genº
te miliciana,foy prezo,com vôs: De que era efiadº
Ingreves, que entre os Portuguezes le difsimul"
Por efta caufa,reteve toda a vida, a alcunha de Frº
mengo: como em Portugal viciofamente faó chº
mados,
NAvFRAG1 o DA ARMADA. 267
mados,fem diftinçaõ, todos os Etrangeiros. Paffi.
da efia ocafiaõ; continuou o ferviço da guerra nas
Armadas,em as quaes foy brevemente Capitaõ dos
melhores navios; & quatro vezes defpois Capitaõ
mór das náos da India, donde sò duas viagens fez a
falvamento, & das reftantes, húa fe perdeo, & arri
bou outra,de que lhe refultáraõ mais calunias, que
mercès pelas duas que acertou;ambas de mayor cre
dito,que interefe: o qual ele defetimava, & a pe
nas conhecia, por fer de coraçaõ alto, & cxquifita
mente defapegado de pompas,que reprehendia com
fobejo defprezo.
Afiftindo em Madrid o anno de 1 6 1 1. pafou
a Paris, em companhia do Duque de Paftrana, feu
É parente,em grao naõ remoto, quando foy por Em
baxador delRey Dom Felipe III, concertar as bo
das entre as Coroas,Catolica, & Criftianifima. Afi
o nomea a hiftoria Pontifical, em fua quinta parte,
quando efcreve eta celebre embaxada; da qual D
Manoel, vindo pouco fatisfeito, naõ admirava, co
mo parece o mereciaõ,as grãdezas da Corte de Frá
ça.Defpois fe retirou a viver, junto de Campo Ma
yor,em a fua famofa quinta, quafi folar feu: & jáz
bem no meyo da linha,que divide Portugal, de Caf
tella, hoje por efia caufa,devoluta. Defte 1etiro,a
modo dos antigos Capitaés Romanos,foy chamado
para o governo de nofas Armas maritimas, q man
dou finco annos; levando no exercito, que condu
zio á Bahia,debaixo de fua maõ,mayor nobreza,que
Otl [fa
268 E PANAPHoRA TRAc ICA.
outra algúa pefloa,que naõ fofle Real, tinha até en
taõ mandado,entre os nofos. Nefta empreza taóft
lice,ganhou nova opiniaõ,ou confirmou a antiga de
valerofo foldado, homem robufto, deftro marean.
te,&limpifimo miniftro; voltando ao Reyno, naó
teve outra ocupaçaõ, ou defpacho, que a continua
çaõ de feu poto; havendo elle dado finaes aos mí
nitros de Etado,de defejar o governo do Algarve,
por viver,como dizia:Abraçado com os feus livros, 60;
feus compa/os:dos quaes era taõ afeiçoado, que pou
cos dias antes que faleceffe,tinha determinado abrir
húa Aula de Cofmografia,por obrigaçaõ de feucar.
go,em o Convento de S. Vicente de fóra;a cujali.
çaõ,convidava com grande gofto aos amigos.Sirva
de nova gloria a lembrança das moderadas preten
çoés,& curtos defpachos dete Varaó,a aqueles que
na idade prefente,tem confeguido com tanto meno
trabalho,tanto mayores premios.
Efta foy a vida, & acçoens de Dom Manoel de
Menezes; o qual, como fe vê no difcurfo, defebre.
ve epifôdio,fe pôde efimar por hum dos grãdesho
mens, que deu Portugal, de muitos tempos a efia
parte; porque em calidade, meritos, & virtudes, fe
igualou aos mayores, de que temos lembrança: en:
tre as quaes virtudes,refplandecia nelle, hum entra
nhavelamor à nobreza dete Reyno, que pois lho
naõ fatisfez quando vivia, fendo de alguns nobres
murmurado,fem razaó,razaô ferá defempenharpa |
ra os prefentes,& futuros, com as demotraçoés de
reVC
NAvFRAGIoDA ARMADA. 269
reverencia,& afeiçaõ à fua memoria, aquelle amor,
com que fe faltou á fua vida. Emendaremos afinòs
em o que pudermos, efta falta,para os prefentes, &
futuros; pois aos pafados naõ podemos advertir fua
obrigaçaõ.Eu pelo menos, nem a elle, nem a outro
algum digno de fama,terei já mais por acrédores da
gloria, que lhes pudera adquirir em meus efcritos,
contribuindolhes, quanto à limitaçaõ de minha pe
na,for pofivel;a ver fe por ventura, tambem
defpois de meus dias,acontece que algum
vindouro honre ao meu,nome quanto eu
procuro eternizar, & engrandecer
o dos paflados.

DESCO2
27o
DESCO B R IMENTO
DA I L HA
DA MAD E IRA. Anno 141o.
E PA NA P HORA A MORO SA. |

Terceira de Dom Francifco Manoel, e/crita a hum


Amigo.
C)
É# MIGO.Muitos tempos ha, que defejo ali.
# viar o animo, e(crevendo algüa obra demais
* divertimento,que as pafladas; porque elleo.
primido de cuidados grandes, acurva como o hom
bro,ao pefo da defigual carga. Atè o proprio Atlan
te,de cujas forças a fabulofa antiguidade, fiou o mú
do inteiro,fe vio neceffitado das robnftas coftas de
Hercules, para que fobre ellas defcançaffe, ou pelo
contrario correraõ perigo o mundo, & o Atlante
que o foftinha.
Jà fabeis, & os nofos, & os efiranhos, como o
meu genio(bem, ou mal)apetece efte exercicio da
pena,& tinta; & que dos varios empregos que fiz,
com minha efcritura, mais reprehenfivel póde fera
obra,que a materia. Provei as Hitorias, as Poefias,
as Politicas,as Moralidades: em todas achei incon
veniente.E fupoto que aos mayores vence a gloria,
ou o intereffe; eu ignorando ambos eftes afectos,cõ
º fovos que me acho medrofo,para Coronita,rudo
- para
DEsco BIMENTo DA ILHA DA MAD. 271
para Poeta,confufo para Filofofo,malencolico para
Moral; mas para tudo me acho ainda menos,que pa
ra me achar ociofo.
Comecei os annos pafados, a efcrever algúas
memorias de fucefos notaveis de nofia naçaó, que
ou foraõ mal efcritos,ou o naõ foraõ. Aquelles cujas
informaçoés,eu naõ pediffe ao eftudo dos livros, &
só de minha lembrança facilméte os recebeffe; por
que alèm de que faltando(como a mim me faltaó)o
gofto,& faude,logo o efludo he moleto; haveis de
faber,Amigo, que de ordinario vem a efquecer no
**
Mundo as coufas,que nelle traziamos mais prefeu
…º
tes:a razaõ he,que por velas de contino circúfian
# tes, nunca tememos, que nos faltem; ámaneira que
da agoa, ninguem faz tefouro, por fer coufa, ainda
que eftimavel,ordinaria.
Alguns dos difcurfos,que vos digo,tenho acaba

do,& outros perto do fim,nenhú da perfeiçaõ. Mas
havédo(jà ha muitos annos)lido aquellas fingula
**
#
res Relaçoés do Cardeal Bentivolo, tanto ha q fiz
{
Propofito de o imitar, com outras, em nofia lingoa
Portugueza. E quádo cheguei a ler a fuga do Prin
}
cipe de Códê,& notei o vagar, & galátaria, cõ que
hum taõ grave juizo; fe deteve em retratar os afe
dos do amor humano:certificovos,q me fez enveja;
entendendo eu entaõ de mi,q para femelhantes ma
terias,era mais conveniête a minha pena,ã a do Car
deal:poto que fabio,velho,& religiofo.
Vendome agora nefa folidaó, a cujo favor '#
- - - - - - - - lº
272 E PANAPHoRA A Mo Ros.A III.
fugindo da jutiça,ou da injutiça do povoado, me
puz a difcorrer vagarofamente,fobre de que manti
ra eu poderia fatisfazer, aquella interior promelli :
efcrevendo a relaçaõ de algum fiicefo grande, que :
pertencefe a efte Reyno:procedido,ou ilufirado,de |
afectos amorofos.Mas defpois de larga volta de dif |
curfos,me pareceo, que nenhum era mais propor
cionado, ao que eu defejava, que o notavel deko |
brimento da noffa celebrada Ilha da Madeira; em º
qual(como vereis neta Relaçaó, que delle vos ok: #
reço) e achaõ todas as varias acçoens, que fizeraó
intricadas,& porifo agradaveis,as hitois do Mú |
do;ou com adorno retorico, ou fingileza hittori |
cafe relatem, na erudiçaõ profana dos Gregos, ºk.
Latinos. … . . … * #
Refta acomodarvos o prefente. Porêm qual dº a
que vos conhecé,duvidarà que nos cafos de Amº", º
& de oufadia,naõ ha entrenòs outro mais pratiº#
Affi vos etimaõ,galante, as damas, como os inim"??
gos vos confefaõ valerofo; porque naõ fem propº#
fito o voto Cupido, là foyfer filho de Marte: "Em
feignora,que cotumaõ fer Martes, todos os filhº,
de Cupido. Filhos chamarei do Amor(por eta" #
zaõ Martes)aquelles cuidados taõ valentes, aquº'#
las refoluçoés taõ deliberadas,contra o mayorpº"
go;ou fenaõ chamarlheshei,Hercules, que por jogº
no berço fe enfayava, efpedaçando ferpentes. À"|
hú amorofo penfaméto,já ao primeiro dia fe esforº #
a lutar,có impofiveis,& feavéfa a vencelos. #

Po.A
DEscoBRIMENT o DA ILHA DA MAD. 273
Pois fe por parte do amor,vejo em vôs tantas a fi
nidades,com efte meu afunto,quantas mais poderei
achar,difcorrendo pelos outros acontecimentos, de
que he compofio?Porque fe por viagés, por naufra
gios, peregrinaçoés,perigos, & tragedias, o vou ven
do,de todas efas acçoêsa vofa vida,he hum retrato.
Navegaftes moço a climas inclementes. Combatef.
tes na menoridade,com varonil esforço. As tempef.
tades do Occeano, deixáraõ em vofo animo, náõ
receo,mas difciplina.Os perigos,& tragedias milita
res,anticipandofe em curfo ao tempo,& em numero
aos annos,sô vos ferviraó de pullir,naó contraftar, a
fortaleza.Pois na peregrinaçaõ, quem vos igualou?
Ainda os proprios companheiros, que vos imitáraó
na forte,em a conftancia,com que a fofrefles,vos pu
deraõ emular,mas naõ competir, vos puderaó com
petir,mas naõ exceder. Quando os mancebos iluf.
tres vofos iguaes, pifavaõ em Portugal os efirados
do Paço, ou o mimo dos jardins de Lisboa, com
molle paffeo; vós entaõ fim abrigo, quanto mais a
dorno, hieis atravefando os incognitos defertos de
nofla barbara America:afperos atè para às feras,que
antes os recebem por patria, que morada. Là vos fi
Zefes digno de aquelle nome, que para naõ perder
des,fois obrigado a confervar com obras arduas; do
qual,nem a inveja,nem a ingra tidaó, quando fe vos
oponhaõ, confintais que vos defpojem. Mas fe vos
vimos madrugar ao trabalho, tambem vimos que o
aplaufo,naófoy preguiçofo para vôs. De ahi veyo,
• que
{
274 Erasaraoxa A MoRos.A III.
} que os póftos grandes, & as emprezas efimadas,
correflem para vofo cuidado,antes que vós parafia
pretençaõ.Defta maneira cotuma o Sol, tocar pri.
meiro os montes mais altos, fem que fe queixemo,
valles,de que defpois lhes amanheça.
Perèm fe confiderandovos taõ grãde,me façode
vedor de húa oferta, que vos feja proporcionada;
razaó ferá advertirvos, naõ defprezeis efta por meu,
eu feu valor,fer pouco. A vontade ferve nas obras
do animo, como a cifra na Arifmetica: fempre da
preço a todas as coufas, a 4 fe ajúta. Da minha vóti
debé creyo qeftais feguro; mas fe ferà por ventura
por fime{mo,pouco para etimareta materia? Naó
ferárque já a etimâraõ muito,engenhos grandes,de
quem foy tratada,& a qué oferecida. O nofo Lívio
Portugues(bem fe fabe que digo Joaõ de Barro
começou a efcrever della,em a fua primeira Déca:
da de Afia. O Doutor Manoel Clemente, que fy
Prègador de tres Pontifices em Roma, compoz del
ta hiftoria,hum livro em latim, q dedicou á Sãridade
de Clemente VII. Poucos annosha, q Manoel Tho
mas,nofo amigo, publicou da propria acçaõ, ofeu
Poema,chamado Infulana. Antes, & melhor que to:
dos,Francifco Alcaforado, efcudeiro do Infante D.
Henrique,fez de todo o fucefo húa Relaçaõ, que
off receo ao mefmo Infante, taõ chea de fingileza,
como de verdade; por fer hum dos companhcio
nefe defcobrimento: a qual Relaçaõ original, cu
guardo,como joya Preciofa,vindo à minha maõ por
* - -- - --*"
DesconRIMENTo
extraordinario caminho.DA ILHA DA MAD * 275

Refirovos o avoengo deflas memorias, porá a an


tiguidade as tem jutificado, & ennobrecido. E tam
bem porque conheço, naõ he meu credito batan
te,para que por fisômente, inculque ao Mundo, co
moverdadeira,húa hitoria taõ exquifita, Bellas 9.
de Setembro de 1654.
V. A.
T). F. M.

A Quella antiga, & grande Bretanha, que 1) OS


tempos primeiros, foy Selua, Calidonia, Albion,
entre algúas gentes, Anglia defpois,& agora Inglater
ra; governava pacificamente, o grande Rey Dom
Duarte Terceiro, que foy pay do Duque de Len
º caftre,Joaõ de Gand;& ete, fegúdo genro delRey
D.Pedro o cruel de Catella, & fogo pelo primeiro
matrimonio,de D. Joaó o Primeiro de Portugal, a
quem juítamente chamára ó de boa memoria.
Era já Londres Corte Ingreza, Cidade princi
palifima, èmula das mayores do mundo, em opu
lencia,& affento; a quem o Thâmais Rio natural,
que nace em os campos de Oxfordia, lhe ferve de
moldura, com abundantes agoas, pela parte que
olha ao Setentriaõ; donde defpois vem decendo,
para fer a mais groflavea, em o braço do Occeano
Boreal: que fe eftende, com nome de Canal de In
glaterra,entre as famofas Provincias, Graó Bretanha,
& França.
- • s | Antes
276 EPANAPHoRA A MoRosA III.
Antes foy celebre,& agora verificada a fentença
do Grego,que nos dife: Era beli/sima dama apaz, porê
que com tudo concebia a Ocio/idade fea,&indigna,mas ordi
naria filha,de mãy taô bella. A ociofa opulencia de Ló
dres(fempre como vemos, & lemos)ocafionada a
grádes feitos,convidava á mefa de fuas delicias, aos
mancebos Ingrezes. Entre os mais, Roberto o Ma
chino,nobre da fegunda ordem, defprezando os jo
gos, & banquetes, a que o perfuadiaõ feus iguaes,
com praticas,& exemplos,fe fingularizava, em pen
famentos mais altos. Animo forte juizo excelente,
idade gentil, fortuna profpera; eraõ feus intimos
confelheiros:ajudandofe das partes pefoaes,que em
Roberto(naõ a cafo)fizeraõ concurfo.
Com mayor callidade, & fuperior riquezas, cele
bráva entaõ a fama por toda a Cidade de Londres,o
nome de Ana de Arfet, donzella fermofifima: &
com cuja beleza,os outros dotes de corpo, & efpiri
tu,tinhaõ feito aquella paz,que lhes falta em os mais
dos fugeitos, donde fe defencontraõ. A feu matri.
monio afpiravaó Principes. Da Corte, Provincia, &
Reyno, etimada como húa maravilha de muitas |
maravilhas.Era efmalte de fuas prefeiçoés, feureca
to. Entaõ o Amor,que tomou dos rayos, entre que
foy nacido, o cotume de forcejar contra o mais ro
buto,ordenou como reciprocamente, fofem ouvi
das,& defejadas as partes de ambos.Dias ha, que da
noticia para o agrado,fe traçou húa efcada fecretifi
ma por donde ordinariamête fe ferve(naõ sé preci:
- picios)
-*-* - - -
DescoBRIMENTo DA ILHA DA MAp. 277
| icios(hum certo afecto,que algüas vezes fe chama:
Curiofidade,mas fempre he apetite.
& Naõ efcrevo amores,fenaó o fucefo delles: força
ferà,com tudo, temperar fegundo o tom, o inftiu
mento: prevenhafe defta confideraçaõ, o animo de
aquelles,a qué talvez,parecer reprehenfivel a bran
dura da pena,ou o affeo do etilo,có que fe efcreve.
Perigâraõ,em fim,no exceflo, as finezas de Ro.
berto,& Ana. Foy logo efcandalo a correfponden
cia;porque a inveja veftida de zelo,começou a foli
citar como emmenda, o que era vingança. Os pays
de Ana advertidos, queixofos os parentes, ElRey
avifado,refolveo com feu Parlamento,que Roberto
foffe prezo, & Ana cafada a eleiçaõ dos feus; que
com hum Milord de alto eftado(afi chamañ em In
glaterra aos grãdes fenhores)tinhaõ já feito capitu
laçaõ,jútamente de feu matrimonio, & feu defvio:
ajuftando,que Ana,& feu efpofo,fe faifem á cidade
de Britol(que fe aparta de Londres,muitas legoas)
cujo affento,he no mar Hibernico, em hum Canal,
que da propria cidade, toma o nome:Ze Briflol, pel
}
lo qual,he afàs conhecido dos navegantes.
Roberto oprimido da dor,& da prifaõ,como ho
mem difcreto, todo feu cuidado empregava em af
fegurar a fé de Ana,& a indinaçaõ delRey; bufcádo
& feguindo os meyos convenientes,a fazer propicia,
nella,a firmeza,& nelle a piedade.Tudo cófeguido,
aufente Ana,ElRey fatisfeito,Roberto livre; entaõ:
lhe pareceo,qjà era tempo de defagravar
} - - • S2 o amor,
gotoº
228 , E PANAPHoRA A MoRosA III.
goto,& a hóra. E poråsépre foi força cófiar,de qué
he precifo valer, defcobrio, a parentes, amigos, &
criados,a oufada refoluçaõ, em q fe achava. Juntos
hum dia todos em fecreto,parece que lhes diffe.
3 m indigno fora eu de vº/S, companhia,fe com tais com
panheiros naõ intentara coifas grandes. Araxaõ do meuá
gravº,e/cu/adobe lembrarvola,naõ vos compadeceis ví taõ
mal de minha honra,naõ vos vaynella taõ pouco, que vos e/-
queça?Zem/eieu,que/ef/e taõ vil, que pa/a/e por eflis
injurias,vos/ois taõ honrados, que me naõ deixarieis pa/ar
por ellas. Naõ ha em nos,mais de hãa só alma, contra o en
Tgano de aquelles que prejumem,heella toda inteira, apofentº
de aquella vaidade,que elles chamaã; conveniencia. E pois
he certo, juehum só,elpiritu nos animalà ne/ee/piritu tem
Jua morada o Amor,lá o Gºfº, là a Vingança, Thõgrandes
hº/pedes tragº em meu peito. O amorferido da injuria, º
gºfº da perda.Sº a vingança/e acha inteira, & briofa,pa
ra tornar pelos agravos dos outros. Mas/em vôs comofir?
ifio?Naõ afrontaõ os inimigºs, quando ofendem, os amigºs
fi,quando faltaõ em ajudar a emenda,das ofenfas dos inimi.
gos. Aquelle que me de/emparar de nºs outros, e/ he o q me
agrº va, s㺠quell qnetem queixº/). Vede quilderói que:
rei à fazer o mefinº que aborreceis, em todos que fais a
borrecendo. Nenhã exce/ofe definancha,(em outro exce/h.
Se quixera eu obrar de maneira, % poupaje os vo/js rifcos.
Mas comºjº naõ pude eflufar,afdemafiadas se razõês pade
cidas,agora naõ poderei diminuir o empenho dos perigos, cõ4
nºs havemos de/atisfRer delas:queixanos de quê nos oca
fionou tantº,niõ de que tantoyospede. Porém/e algum

do;
circunfº
DEsco BIMENTo DA ILHA DA MAp. 27 o
circunstantes, provou já ogolpe de hum de/prezo, acom/elke
aminha dor,os remedios da fun;/e o naõ provastes,º naõ tre
ais que antes da mortes/e/atifas hum amor ofendido!
Entaõ recebida hús de outros,fé,& palavra,pro
metèraõ todos, de fojeitarfe a húa propria fortuna.
Concertáraó,ã paflafiem cautelofos,& acautelados
á Cidade de Brifol,em varias cópanhias; dõde pre
venindo os mais conformes inftrumétos que podiaõ
afegurar fua fugida,roubafiem a Ana de Ai feit;cu
jo confentimento (induftriofamente comunicado
de Roberto(era o norte,que lhes influia, & cintila
va,a prefiftencia defia refoluçaõ. A vefinhança do
mar,afegurou o facil modo da fuga; França pouco
diftante feu breve cómodo;amparo, a emulaçaõ de
aquellas duas Coroas. A profpera fortuna efperava 5
do valor de todos;&o valor,da coufa,á emprédiaõ;
porque fegundo aliçaõ dos exemplos, menos oufa
dos,que o amor,tem feito a gloria. \\

Seguiofe ao Cófelho a execuçaõ.Ffta he húa ar


vore,que quer felhe recolhaõ flores,& f atos junta
mente. As fermofas razoés,faõ flores,frutos, as obras
a que nos perfuadem;fe o tempo fe interpoem, entre
as flores, & os frutos,digo entre o cófelho, & a exe
cuçaõ,inutilmente fe corrompe húa, & cutra novi
dade de flores,& de frutos.
Affentára ó, como hum dos mais deftros compa
nheiros de Roberto, entrafe por criado, em cafa do
efpofo de Ana; cujo nome por decoro deixou de cf
crever o mefino Roberto,a quéS 3devemos efia bifio
- - • ria.
28o E PANAPHoRA A MoRos.A III.
ria.Sucedeo como fe difpoz,& defpois de recebido
para palafreneiro,tomou cargº de péfar húa fermo
fa pia,em á Ana faia algúa vezes ao cápo: ou sò, ou
acompanhada de feu marido;porã a fingeleza de a
quelles tépos teve para fi,que o mais fevero guarda
damas, era a honra das mulheres honradas: duvido.
fe afi o prefume, o tempo prefente.
He Briftol,húa das cidades de mais comercio, de
toda Inglaterra;& porqa efe refpeito, fe achaõ em
feu porto muitas nàos aparelhadas, para fair delle
havia já Roberto,& feus cõpanheiros,poto os olhos
(entre aquellas qeftavaõ mais prótas para navegaré)
em húa poderofa embarcaçaõ, q de forte,ligeira; &
guarnecida,tinha o melhor nome; o defcuido de feu
Capitaõ,o cuidado de Roberto,prometiaõ della cer
tifima preza;sòlhes faltàra o tempo para intenta\la;
Porque como as mais difpofiçoés prevenidas, naõ
era dependente de fua oufadia. Haviaôfe preparado
de hum barco,á lhes franqueaffe a paflagem da terra
ao mar; em o qual, todos os dias a hora finalada, dif
corriaõ,como por divertiméto a marinha; sé q de al
gúa pefoa fofé notados:côtra o coftume de agora,
4 em nofagête atè, ou atè chegar a incêdio,porã fa
zé do da malicia providécia, quizemos purificar táto
o vicio das fofpeitas,que as fubifemos a virtude.
Eraó entrados os nortes:monçaõ que fe efpera
va, para executar o roubo de Ana. Ella avifada do
criado,amigo, & companheiro de Roberto,propoz
o dia,em que fem falta fairia a feu paffeo: o qual de
ordi
DEsco BRIMENTo DA ILHA DA MAD. - 28r
ordinario foia fer pela ribeira do mar, que frequen
tava em feu batel Roberto;fendo efia a mais defem
baraçada parte dos olhos do vulgo. Affi para q a for
ça fofe em tudo focorrida da induftria, & ambas jú
tas fe facilitaffé, ufou de tal arte o fingido criado de
Ana,q tres dias antes de fua faida, pos em defefpe
rada fede a pia,de q curava,naõ lhe confentindo be
ber algúa vez, em todos aquelles tres dias,a fim de q
melhor confeguife feu intéto:como fucedeo logo
Ana qfe achava deliberada ao ultimo precipicio,
tratou de acomodalo de forte,4 lhe fofle menos pe
nofa a falta de fua riqueza. Recolheo as mais precio
fasjoyas de feus côtadores,em grãde preço etima
das;de qem fimefmo fez tefouro,entre as quaes foi
memoravel,hú Crucifixo de fubido valor pela obra
que era exquifita,& pela materia,ã era ouro,& dia
mantes. Efte lhes foy defpois a mais fiel cópanhia,q
Ana,& Roberto achâraõ,em as tragedias futuras.
Tudo,& todos aponto;a hora chegada,jà o amo
rofo aventureiro,com feu barco,& fua gente, eftava
efperando bem armado,na eftãcia cotumada. Quiz
o e{pofo de Ana,fazer fatalmente, mais folene fua
defgraça, acompanhandoa aquelle dia; o que ella
com bom fembrante,moftrou haver eftimado.Mas a
penas faindo ao campo,defcobriraõ a marinha, & fe
oryio diftinto o ruido das agoas,quando reconhecê
}
doas,desbocada,& furiofamente a faca de Ana, cor
reo a felãçar nas ondas,sé á a força,ou indufiria do
fingido criado, ja levava de redea, pudefefazer ou:
S4

tra
* 282 EPANAPHoxA A MoRosA III.
tra coufa,õ dirigir aquelle cego animal,para o lugar
mais proximo ao barco de tãoberto,ãjà reconhecia
Elle,q para começar fua vétura a feu parecer,lhe naó
faltava mais q o fim de aquella defgraça, faltãdoli.
geiraméte em terra,como levado a cafo de piado/a
dilig écia,na alina, & nos braços, recebeo o golpe de
taõ mifteriofa queda. Foi breveméte focorrido dos
feus,& com incrivel preteza, embarcados Ana, &
Roberto,& os mais, defaparecéraó da praya, antes
de fe advertir o defaftre,quanto mais o delito.
Suavemente os Etnicos, quizeraõ deixar fi
bianoffa ignorancia,disfarçando no deleite, a dou
trina; porq os afperos exéplos q propunhaóà pºr
teridade,lhe naõ fofé taõ enojofos,ã e tremecidadº
horror dos fucefos,fe fugife por rigurofo,do util c{-
carméto. Afiungimos de amargofo azebre,atetº fa
borofa,de q queremos defi feiçoar o minino:aliem
doce afucar; revolvemos a de fabrida purga, q femi
nitra ao enfermo A Infácia do múdo,necefitoude
fabulas,que encobriflem verdades, para ferem recº
bidas; & ainda hoje a doença dos tempos, pºde
ficçoés, que diffinulem a faude,para que feja agº
davel. Aquelle Jupiter,agora em Ouro, agora cº
Cifne,agora em Novilho disfarçado,que tátasdeveiº
com feus artificios, preverteo a honeftida da;
mais recutadas Ninfas, nenhúm outra coufa quiz%
falvo aquelle cuidado,com poder, & induftria, mº
que humano(que porifo o fingiraõ Deos)que fot
facilitar impotliveis, a fim de fatisfazer fuas delº"
%
}
: ! -- dens.
DzscobRIMENTo DA ILHA DA MAD. 283
dens.Saiba pois quem tiver Ledas, Denaes, & Eu.
ropas em fua guarda,que naõ he menos que hum Ju
piter, quem intenta fua ruina; como contra hum
Jupiterferecate. O q antes foraõ Ninfas, faó ago
Ia mulheres,& que ferà hoje das mulheres,que que
rem fer Ninfas?
Igualmente, que o roubo de Ana, fora de antes
refoluta a interpeza do navio; aquelle que, como
difemos, haviaõ jà entrefi elegido, Roberto, & os
que o acompanhavaõ. Era o dia de fefta, achavafe
defempedida a embarcaçaõ de feus oficiaes, & ma
rinheiros, por onde com grande facilidade foy ocu
pada. Naõ faltavaõ entre os amigos de Roberto, al
guns que tivefem conhecimento da nautica, aos
quaes encomendada a derrota(que era aos portos
de França(& a diligencia a todos, porque a todos
convinha pôr em feguro,vidas,& liberdades: em hú
intante, picaraó as amarras, desferiaõ, marcáraõ, as
velas, & fairaõ profperamente do porto,mais à von
tade da fortuna,que da fciencia; porque o vento es
forçandofe cada vez mais, fe apoderava fem ley al
gúa das velas do navio, & da liberdade dos nave
gantes.
O efcádalo,que na Cidade de Briftol, & em toda
Inglaterra, fe feguiria ataõ atrevida novidade, o
fervor com que (e lhe previniria lá o caftigo, parece
que fica encarecido, com fe contar o fuccflo. Mas
porque os olhos do temor , nem fempre faó cegos,
fazendo Roberto o melmo difcurfo, que podiaõ fa
- -- -- - - - --- * ZÇT
284. EPANAPHoRA A MoRosa III. |

zer feus ofendidos,& vendo que ao marido de Ana, º


feria coufa facil,ajudado da juftiça, ordenar, quete
defamarrafem outras algúas nàos, que com o pro.
prio bom vento,viefem em demanda da fua;tomou º
or confelho dos mais,refoluçaõ de velejar, quanto |
lhe fofe pofivel:porque fe na parte que retavado |
dia,perdefem de vita aterra,depois de noite, fut
tariaõ o rumo a qualquer embarcaçaõ, que osfolk |
feguindo. Affi determinados, largaraó como foube º
raó,ao ar todas as velas, navegando por aquelle dia,
& noite, taõ velozmente, como coftumaõ quantos
caminhaõ afua ruina;atèque amanhecendo, engºl |
fados no mar,& nos receyos,começàraõ a conhecer
como o Amor he o mais ruim dos pilotos. Oventº
atè alli profpero, fupoto que naõ mudado, elºjº
mais tempetade, que monçaõ; porque o comp"
mento,ainda de nofos defejos,nunca para, fenaó"
o caftigo delles.
Ana atè alli, como fufpenfa, pela efiranhezadº
que lhe fucedia, pouco acordo lhe fobejara do Pi R
meiro acidente,para fentilo, ou eftimalo. Porêm, dº Q
modeftas caricias de Roberto,lhe tinhaó dado a enº"
tender,navegava mais fegura fua honra,em fua pºr #
pria vontade, que na náo fuas vidas: O roub (dizi* #
elle)que della havia feito, sófora refgate, por naõ ver "
mãos depº/hidor injusto,aquelas perfeiçõês, que aven"
lhe vendera,aperº definexas. Que º Amormais lgtimº, ht #
º mais avarº,é o liberalnunca verdadeiro; porque(dafriº F
44° 0;ambiciºfos) é/e emprega em ajuntarfeu tefurº, m* #
*- - " *-* - - - -- nº
--*
DescobriMENTo DA ILHA DA MAD: 285
naõ em po/Suilo3º em º amar,öguardar,em gozallo nunca
pois he certo,que dos averes,& dos amores,tudo quanto felo
gray/e diminue,quanto/egafia/e perdesfetade chamarin
: ftlice o cuidado,a quem só a impo/Sibilidade fez comedido;
: 6 ditofi/simo aquelle, que de/prezando as licenças da oca
a fiaõ,permanece limpo. Ninguem podia levantar/eu nome, fo
bre os mais amantes,ferevolto nos co/iumes dos outros,f/e
i como hum delles. Queellea/pirava/empre afer amador mais
alto,/ubindo a mais alto fim, agloria defeus penfamentos;
porque/endo o defengano noite,do dia dos amores,jamais era
po/sivel
intere/esdeclinar
haviaã aoamenhecido.
aborrecimente,aquelle a quem nunca os

. A taes razoês correfpondeo Ana, fegundo lhe


permitio o temor,& alvoroço: que fempre foraõ da
difcriçaó, os mayores inimigos.Entaõ ambos de no
\vo refignados, hum na vontade do outro, cada qual
prometeo:De tomar por ley, o gufo alheyo, E por fiador de
Juas verdades,ao tempo. Aquelle tempo que,a pagar as
dividas de todos por qué fica,fora a mais pobre cre
atura do mundo.
Quando a Dama algüas vez,mais aliviada das mo
leftias do mar, & elle mais efquecido de fua fober
ba,faia a divertirfe,vendo as agoas, tambem Rober
to as via em fua vita;mas com diferente afecto,quaó
diferente he o temor,da faudade. As ondas fefe me
neavaó à maneira de jogo, diminuiaõ os cuidados
de Ana, & os feus olhos fefe humedeciaõ, como
por lifonja, aumentavaõ os de Roberto. As nuvens,
que guiadas do vento, vinhaõ da mcfma parte #
CIIÇ$
286 EPANAPHoRA A MoRosA III.
elles deixavaõ,entendia Ana, que lhes traziaõ re
cados de fua patria;acufando a ingratidaó,com que
della fehavia partido. As efcumas que hiaõ corren
do contra o curfo do navio,&fe ficavaõ atrás delle,
julgava ella,felhe ofereciaô para levarlhe repofta.
Tudo em fim era latimas, fem ver outra coufa, que
hum mar nunca vifto,& hum ceo defufado: de que
no coraçaõ de Anafe começavaõ a alevantar gran
des afectos de faudade. --

E pois parece, que lhes toca mais aos Portugue


zes,que a outra naçaõ do mundo, o darlhe cóta def.
ta generofa paixaõ, a quem sòmente nòs fabemos o
nome,chamãdolhe: Saudade; quero eu agora tomar
fobre mieta noticia.Florece entre os Portuguezes
a faudade,por duas caufas, mais certas em nôs, q em
outra gente do mundo; porque de ambas elas cau
fas, tem feu principio. Amor, & Aufencia, faó os
pays da faudade;& como nofo natural, he entre as
mais maçoés,conhecido por amorofo, & nofas dila
tadas viagés,ocafionaõ as mayores aufencias, de ahi
vem,que donde fe acha muito amor, & aufencia lar
ga,as faudades fejaõ mais certas,& eta foy fem falta
a razaó, porque entre nôs habitafem, como em feu
natural centro.Mas porque tenho por certo, que fui
eu o primeiro nefte reparo, parece que naõ ferà re
prehenfivel,que me detenha algum tanto, por fazer
anotonia em hum afecto; o qual ainda que pade
cido de todos, naõ temos todavia averiguado, fe
compete às injurias,ou aos beneficios, que do amor
* [CCC
--—- --•
DzscoBRIMENT o DA ILHA DA MAD, 28
recebem os humanos ou fe fem amor, tábem,fe pô
dem experimentar faudades.
Do Amor,houve ques dife: Era o unico offio de
mo/a alma; porq até o Odio,que he do Amor a coufa
mais desfemelhante, fe afirma fer o mefmo Amor;
porque he certo,que # pôde ter Amor a húa
: couta que naõ tenha odib á coufa que for contraria,
àquella que ama; ou de outro modo: ninguem pode
odiar húa coufa, que naõ ame aquella coufa contra
ria da que aborrece. Se efta regra fofle certa(de cu
ja validade naõ difputo)bem fe feguia, que fcm A
mor,naõ pôde haver faudade:com tudo nòs, vemos
que muitas vezes a faudade fe contrahe com coufas,
a que antes da faudade naó amavamos.
1 He a Saudade,húa mimofa paixaõ da alma,& por
ifo taõ futil, que equivocamente fe experimenta,
deixãqonos indiftinta a dor, da fatisfaçaõ. He hum
mal,de que fegofta, & hum bem, que fe padece;
quando fenece,trocafe a outro mayor contentamé
to,mas naõ que formalmente fe extinga: porque fe
fem melhoria fe acaba a faudade,he certo, que o a
mor,& o defejo, fe acabáraó primeiro; naõ he afi
com a pena:porque quanto he mayor apena, hema
yor a faudade,& nunca fe pafla ao mayor mal, antes
rompe pelos males; conforme fucede aos rios im
petuofos,confervarem o faborde fuas agoas, muito
efpaço defpois de miturarfe com as ondas do mar,
mais opulento.Pelo que,diremos que ella he, hum
fuive fumo do fogo do Amor,& que do proprio #
-
O?
28S E PANAPHoRA A MoRos.A III.
do que a lenha odorifera, lança hum vapor leve al
vo,& cheirofo, afia Saudade modelta, & regulada,
dàindicios de hum Amor fino, cafto,& puro. Naó
necefita de larga aufencia: qualquer defvio lhe baf.
ta,para que fe conheça. Afi prova fer parte do na
tural apetite da uniaõ de todas as coufas amaveis, &
femelhantes; ou fer aquella falta, que da devifaó
defas taes coufas,procede. Compete por efta caufa
aos racionaes, pela mais nobre porçaõ, que ha em
nòs; & he legitimo argumento, da immortalidade
de nofo efpiritu,por aquella muda illaçaõ, q fem.
pre nos età fazendo interiormente, de que fôra de
nós; ha outra coufa melhor, que nós mefmos,com q
nos defejamos unir.Sendo efta tal,a mais fubida das
faudades humanas:como fe difeffemos hum defejo
vivo, húa remenicencia forçofa, com que apetece F
mos efpiritualmente, o que naó havemos vito já.
mais,nem ainda ouvido: & temporalméte, o que ef.
tá de nós remoto,& incerto. Mas hum, & outro fim,
fempre debaixo das primitas de bom, & deleitavel.
Etaheem meu juizo a theorica das faudades, pel
los modos,que femas conhecer,as padecemos, ago
ra humana,agora divinamente.
Sinco dias havia,que navegavaõ,fem que a terra,
que hiaô bufcando,fe lhes defcobrife; porque a fal
ta de governo, & fobejo vento, que de ordinario
corria, fora caufa, de que infenfivelmente fe apar
tafem da cofta de França,adonde fe encaminhavaó
(mas em vaõ)feus defejos. Os amigos de Roberto,
• - - - - - cujos
DEsco BRIMENTo DA ILHA DA MAD. 289
cujos animos ainda eraõ livres, de afectos mais po
derofos,que o cuidado da vida, como he o amor, co
meçáraõ a temèla. Porêm a fortuna, tinha jà iguala
do,culpados,& inocentes: ou pelo menos, como a
contece nos grandes delitos, naõ fazia diftinçaõ de
culpa,a culpa,para lhe proporcionar o perigo.
Por horas conheciaõ os miferaveis navegantes,
caminhavaõ à perdiçaõ, com aquelles proprios paf
fos,que ignoravaõ;& mais o remedio delles. Sobre
todos,mifero Roberto,padecia em feu rifco,o de to
dos, mas incomparavelmente fentia mais o traba
lho,em que por fua caufa etava vendo a coufa, que
mais amava:nem o proprio confentimento de Ana,
lhe diminuia parte da latima, que lhe tinha;porque
o Amor,nunca foy homem de jutiça. Fique embora
para a razaõ o deixar padecer a cada hum,o fruto de
feus erros,que o Amor naõ pôde achar razaõ, para
que padeça qué fe ama,ainda que padeça menos do
que merece.Se o Amor perdoa fuas proprias ofefas,
como acufarà as que sò forem da prudeucia, olhan
doa mais como inimigo,que como diferente? •

Quafi defabrigada de todo governo, corria def


pois de treze dias de viagé,a nào de Roberto, pelos
largos,& perigofos defertos do mar Occeano;quã
do ao amanhecer à parte do ponente, fedefcobrio
fãs vifinho o fembráte da terra, que fegundo cada
infiáte com os rayos do Sol, que nella defcanfavaõ
(porque da larga carreira de feu oriente, atè aquel
lesmótes,naõ haviaõ parado em parte algüa)fe hia
|- - - - -- - - - - - - moftrar
29 o EPANAPHoRA AMoRos.A III.
motrando altifima,& povoada de barbaro arvore
do. Foi fua vita a todos alegre; mais a Ana de Arfet,
que afligida com as moletias de taõ incerta, & tra.
balhofa viagem,julgava haver achado nova vida, &
feguro repoufo,em a nova terra, que felhe oferecia:
taõ facilméte erra nofo juizo,fobornado do defejo.
Roberto por dobrados motivos, anciofo do por
to, fes como ácuta de muito trabalho, fe tomafe;
dõde já fendo entrados,fe lhes mudou em affóbro o
receyo.Nenhú dos companheiros conhecia aquelle
lugar,& os mais experimentados na navegaçaõ, du
vidaraó,pudefe aver terra,em húa paragem do mun
do,nunca atè entaõ,defcuberta dos homés. Efta o
piniaõ esforçavaõ os finais, que com igual maravi
lha,que curiofidade eftavaõ de continuo obfervádo,
os confufos navegautes, nenhum ratro de que fofe
habitada, fe defcobria na terra, porém todos de ha
bitavel. A immenfa cátidade, & fimpleza dos pafla
ros,caufava nova admiraçaõ nos homens,& nos pal
faros, nenhum efpanto fua companhia; porque va
rios nas cores,& figuras, quanto conformes na ina
dvertencia, de qualquer enxarcea do navio, faziaõ
ramo,campo de fuas praças, dos homés companhei
ros: bem parece que os naõ conhecia, quem tanto
delles fe confiava. |-

A cobiça,ou por melhor dizer, a necefidade, le


vou diligentemente ao porto os mais oufados, armã.
do por efe efeito,com fuficiente guarda o batel do
navio. Quis Robertofer dos primeiros, mas nem
Ana,
DescoBRIMENTo DA ILHA DA MAD. 291
Ana,nem os amigos lho confentiraó. Porém inten.
tada, & fucedida fem algum defafire, a viagem da
nào à marinha, tornáraõ brevemente cheos de ali
vio,& efperança de coufas mayores;& havendoa re
conhecido,relatâraó: Que a terra era deferta, mas/au
davel,& pacifica;& q verdadeiramente era terra,ê não ilu
&ão:do q ainda muitos fenaõ certificavaõ.Chegadas
as novas,que fe efperavač, para defembarcaré, logo
a defembarcaçaõ fe poz em efeito, faindo do navio,
Ana,& Roberto;fenaõ com todo o regalo, cõ toda
aquella comodidade,que a ocafiaõ concedia. Acõ
panhoufe Ana de fuas joyas, fendo em primeiro lu
gar,e{colhido por mais intima perola, o Crucifixo
devoto, de que fempre fe acompanhava. Com taõ,
breve apreto, & doze dos melhores,que o feguiaô
(& eraõ as pefoas,com quem Roberto tinha mayor
parentefco,& confiança)fe paffaraó á terra, deixan
do a não guarnecida do reto da gente, & com fuave
navegaçaõ chegaraó à marinha: núca atè alli pifada.
de pé humano.
Iluminava entaõ o Solos arvoredos,cujos ramos,
meneados brandamente da matutina viraçaõ, mof
travaó(como por amotra de fua riqueza)diferen
tes cores,mas todas naturaes,& cócertadas. As agoas
igualmente deleitofas aos olhos,& ouvidos,enchia 5
a vita de fermofura, a orelha de armonia. Nenhum
animal oftentou a força,ou a ligeireza porque def>
de a meninice do múdo,atè efia hora, ignoravaõ co
mo os homés, aquelle tráfico,que defrois
• T
deveraõficaa

292 EPANAPHoRA A Moxos.A III.
fua induftria. As brenhas, & floretas efpiravaõ fau
denunca nem agora, penetradas de algum veneno
fo bicho. A pratica, parece que ficou a cargo das
aves,que com eftranhas vozes, naõ fefabe fe culpa
vaõ,ou engrandeciaô o atrevimento humano; que à
cufia de tantas tragedias, quiz cozer os retalhos da
terra, por induftria de aquella agulha, que duvi
davamos fenos foy dada, por galardaó, ou caftigo.
Corria o àr,naõ sô puro, mas perfumado das flores,
fobre as quaes pafava fua leve carreira. Ellas jámais
logradas da vita, ou do olfato,para que foraó feitas,
parece, que como em dia de fuas bodas, fe haviaô
compofto de nova fermofura.Eminêtes os oiteiros,
& profúdos os valles,em fua defproporçaó, guarda
vaõ arquitetura,rigurofa,& agradavel; aquellespe
jando,o véto de ramos foberbos, & etes de peja ºs
de todo o impedimento das floreftas, convidavaõ,
as mãos ao roubo, & as plantas ao paffeo, fobre ervas
fandaveis,& cheirofas.
Pouco ditante da praya, fedefcobria hum fitio,
donde parece,que a natureza havia efmerado, todos
feus primores. Formava hum campo breve, & re
dondo; cujas paredes eraó loureiros,iguais, na rama,
& altura; a quem como verde tapeçaria de folha
gens,armavaõ batifimas eras.Em aparte fuperior,
fevia húa arvore, que como mais mimofados ele
mentos,fobia fobre as outras; feu nome foy ignora
do de todos os que chegàraõ a vela: afifua opulen
cia,afifua fermofura. Havia o tempo, aberto em feu
tronco,
DescosRIMENTo DA ILHA DA MAD. 293
tronco,húa capaz morada, toda cuberta de finifi
mo,& dourado muzgo. A vifinha ribeira,que da fer
ra ao mar,contente hia caindo, miniftrava a aquelle
fitio,conformes a dilicias,& a comodidade; ferviaô
lhe de ladrilho as mirnofas areas,que o rio por fobe
jas engeitava,& defpedidas da corrente, fe efpalha
vaó por húa,& outra banda, fem dano da amenida
de dos prados,que lhe ferviaõ de leito.
Reconhecido efte lugar,foi logo ocupado de Ro
berto,& Ana,& todo o refio entregue ao defcanfo,
& morada de feus companheiros; para que ali edi
ficafem os reparos convenientes, contra a inclemê
cia dos tempos, o tempo que na terra fe detiveffem.
Mas em quanto os mais fe entretinhaõ na fabrica de
. fua filveftre morada, Ana, & Roberto, perfuadi
dos interiormente,de mayor defejo, que o repoufo
de fuas fadigas,buícaraõ modo de confagrar a Deos
aquella planta,& o lugar, que nella mais perfuadia
as delicias humanas.Como cofiumaõ os Capitães in
fignes,purificar cócritaõ facrificio,os templos mais
profanos,dos povos que avafalaõ, affi foy levantado
novo Altar ao Senhor; donde com fingular deva
çaõ, colocâraõ a imagem de Chrifto Crucificado,
que Ana levava configo.Naõ eftranhou os defertos,
aquelle divino etendarte, pois jà defde fua figura,
quando vara,&reconhecido.
do,fora delles quando ferpente,fora nelles arvora
|- •

Em paz, fe pofuio tres dias a paz do Porto; os


quaes, alguns gafaraó em faborofo comercio da
- T2 ter
- - 294. EPANAPHoRA A MoRos.A III.
terra, ao navio, outros em penetrar, & defcobrir
atentamente o certaõ da Ilha. Já enredandofe nos
laberintos de feus boflues,já vencendo as altifimas
ferras, por alcançar a ver as agoas, de que ferodea
va. Mas como a fortuna do mar,feja ainda mais ava
ra de factabilidade,que outra algúa, difpos como
na noite fucefliva,ao terceiro dia de fua bonança,fe
levantade taó fubitamente, húa taõ rigurofa tem
peftade,da parte a que os marinheiros chamaõ Noro
efle(&he aquelle vento,cujo lugar achamos, igual
mente diftãte do Norte,& Occidente)q fem refPei
to às forças,ou indutria humana(em vaõ opoftas ao
comum perigo)a nào foy impelida dos ventos, &
das ondas,& como defpojo de ambos, de improvifo
arrebatada,em tal maneira, que mais perdidos fe jul
gavaõ os qhiaõ com tanta violencia, que os que fi
cavaõ em tanta defefperaçaõ. Viofe defpois como
foraõ iguais os perigos,mas por mais breve, foy me
noro dos navegátes; os quaes em dous dias puferaó
termo aos trabalhos do mar,trocádofelhes aos de hú
miferavel cativeiro,porque naufragando em as areas
de, Africa, paflaraó da tumba, podemos dizer, á fe
Pu'tura:tanto monta da nào, às mafmorras de Marro
cos. Os Mouros da cota,avifados do coftume, de ca
fos femelhantes, deceraõ dos montes á marinha,para
naõ perdoarem a aquelles proprios, a quem o mar
perdoafetanto mais inimigos dos homens, faõ os
homens,que os elementos, tanto mais ambiciofo o
interefle, que a morte.
Ama
DEsco BRIMENTo DA ILHA DA MAD. 295
Amanheceolhes mayor tempeftade a Roberto,
& Ana,que a mefma,que hiaõ padecendo feus com
panheiros; quando havendo paflado a tormenta de
aquella noite,viraó pela menhäa o porto,& naõ vi
raõ o navio;& febem a furia dos ventos,& mares fe
havia mitigado, bem advertiraõ todos os que fica
vaõ em terra, como ainda que em feus companhei
ros houvefle animo, naõ havia fciencia para tornar
a refgatallos dos braços,da ultima defefperaçaõ, cõ
quem jà andavaõ abraços.Quanto mais,que eftavaõ
crendo,os que melhor entendiaõ, a náo feria breve
mente foçoborada das ondas, fegundo a defefpera
çaõ,com que navegava, & a pouca arte de aquelles
que a regiao- •

Duro fucefo, temerofo atè á confideraçaõ


quando a pena pretende referillo! Com tudo naõ
,# tomou efte golpe,defapercebido o leal coraçaõ de
Ana;porá fidelifimo confelheiro, de fde o primci.
ro pafo de feu caminho,ou de feu defcaminho, lhe
prometia hum fim lamétavel; mas como a prefença
dos males, feja horrivel, fraco o mais forte peito
das mulheres,& o perigo, côtrario do difcurfoso ef>
piritu de Ana (e eftreitou tanto, que defde aquella
hora,até a de fua morte, nunca mais as palavras lhe
fouberaõ o tráfito do coraçaõ, à boca, Cofiumaõ os
olhos,fer nefte cafo fuftetutos das razoés; porque
a alma, naõ necefita do efirondo das palavras, para
explicarfe, mas nem o alivio defas mudas praticas,
lhe deixou a forte,ao defaventLurado
• •• • | — T3 manceito, ven
do
296 EPANAPHoRA A Mo Ros.A III.
do que fua querida dama,havia poto igual filencio
na vita,q nas razoés: nunca mais abrira os olhos e
quer,para fazer mais faudofa,aquella ultima,& eter
na defpedida.
Tres dias gaftou a morte, em acabar efta empre
za. Suas pafadas oufadias, motráraõ que naõ fora
refpeito o dilatala; antes providencia, & mifericor
dia,divina; para dar mais lugar ao arrependimento,
& defengano.Bem fe vio em a quietaçaõ,& alegria,
com que Ana defpedio a alma, fixos os olhos em o
Chrifto,o coraçaõ levantado a Deos. Morreo Ana,&
Roberto,naõ acabou a vida logo;porque lhe ficavaó
ainda muitas latimas, que negocear, primeiro que
acabafe. Jà diferaó os Sabios: Que a morte para /er
hum dom/uavi/Simono mundo,só lhe faltára ºfer bem man
dada,& obediente;porque fe a morte acodi/e a tempo, ato. |
dos ºs brados dos mofinos,sêfalta podia contar/e por benefi
cio cele#ial. Hevoluntaria, furda,& difcortês; porém
refponde:Que ella naõ veyo ao mãdo por ferva, mas fºnk
ra dos mortaes. Ha quem lhe diga contraito?
Naõ fehavia defpedido de Ana, cô o efpiritua
fermofura,antes parece, que de novo a informava;
né Roberto com a vida,fe havia apartado dos pès de
Ana,atè que deféganado,de que o defmayo era per
petuo,começou a fe lamentar neta maneira.
Emfim,/enhora, tu acabafte; e /ou eu a caufa de que
prdefesa vida!que me fica agora ami que perder, para fa:
tisfazerteiperdertebeia tipropria,pois a ti, sócontigo, pº}
"…………………………………# }}
DescosRIMENTo DA ILHA DA MAD. 297
nho perdido.O maldito amor! O defefirada fé!que tantocre
dito te merecéreõ. Quem tal prefumira? porque para te fer
menos custo/o,te qu/era menos; mas eu fiz quanto pude, pa
rate defobrigar,pois/em meritos entrei,até querer. Maispo
diaõ entaõ temerfe os meus excejos, que os teus precipicios.
Tu,/enhora,tu,me defe o valor que me faltava, & que ou
trem me naõ pudera dar, tanto era o valor, que me faltava
para chegar dignamente a/er de ti conhecido, que só em ti
podia acharfe,ês e/la liberdade,do muito que tu eras,naõ era
eu podero/opara diminuirte,nem recebendo o grande/er que
me defleporque elle em tifytaõ grande, que nem quando
me enriquecias de merecimentos, ficaste delles menos rica.
Aborrecerá o mundo defde agora(com muitaraza5)meumo
me,como a complice defua mayor tragedia. O como fara bem
o mundo! à como eu o efimo!Ta/arei por amor do meu amor,
mais e/la/em razaõ,ês esta mofina,mas acabefe de crer,&
feja agora,que só o negar adoraçaõ ás perfeiçoês,he idolatria;
naõ o adorallas,pofio que femperfeiçaõ. Poiseu que fiz mais
que os outros,em tejulgar por divina? Haver entendido me
lhor o que tu eras?E/abe a culpa. O meu amor hum fiador
fy,das dividas que todo o mundo te devia. Tu naõ mace/te,
Ana,para/er vista,femfer amada. Pregãtalhe agora a cau
fa, de te haver a/sifeito,a quem te fez? Se algum/aber,oufe
algum queixume,fe atreve a inquirir este/egredo. Ameite,
eu o confe/o,& te oferecei eu só porjunto,todo aquelle amor,
que todos juntos te deviaõ.Errei? ou atrevime?ou quando só
por mime/mo te quize/e, era delito,quererte de hãa vez, o
que te havia de amar por toda a vida?Os teus merecimen
tos montavaõ tanto, que afar delles,nenhum
• - •••• • •••• T4 ext/,erace/o
ex
298 EPANAPHoRA AMoRos.A III.
ce/5.2em fevê logº, que nem por te adorar exce/sivamète,
fis mais do que era obrigado;orafº/je embora maleficio: por
unico pudera e/capar,como inocente, em tempos, donde tºdas
as culpas do amor,nacem do que falta, naõ do que fobtj1.Tal
fè,dondefyyfia?enveja puderafer dos Airos,que/obre nós
influiem,/e o odio fenaõhouvera entronizado,entre as efirel
las,1ue já hºje,mais com fua di/cordia, que conformidade,
ou nos movem, ou nos enfinaã. Tu acabafie, he verdade: tu
acabafte; pois comece defle agora amor, a bufcar Tem
plas depedra, com vulgar divindade, em que fer venera
do;porâ aquelles taõ limpos coragoens, que tinha por altares,
&fazia5/eu culto diferente, jazem em cinzas por terra.
Ayfermº/ura donde estàs, que aqui naõ apareces, nem me
ajudas a chorar a perda de ambos?mas eu q ignoro?naõ apa
reces,porquejà de/apareceites do mundo. O ditofos, à mofi
nos viventes, os que vierem a tempo,1ue naõ po/fã haverte
Visto?que grande forte vos e/pera a todos, vivendo defobri
gados daslys da fermofural que grande de/grça a todos vos
comprende,naõchegando a ver agloria, que aquife tem hoje
desfeito! Ilufire Solbumano, Je alguem te negou, que eras
Sol, venha agora a reconhecêr entre efias agoas teu occiden
te. Sol fo/le logo em nafcendo,porque teu refplandor, para
alumiar o mundo,naõ e/perou a cerimonia dos dias. Solfofte
Vivendo,& tua vida foy auge, de mayor claridade; por q nem
os olhos do aplaufo,quão mais os da enveja,puderaõ/ubir taõ
altos como tuvivias. Solffte morrendo, porque agora háã
de crecer no ocafº de tuas luzes,féus maravilhº/os efeitos.
Mayor has defer na morte,4 vista da firmeva,que parecefie
na vida,4)'fia da afeiçaõ por{ue estas lágrimas minhas, te
---- baõ
----*
DzscoBRIMENTO DA ILHA DA MAD. 299
baõ de mo/trar sºpre a e/ºs pºferidades,igualmète crecido,
que adorado. Porém,eu,que choro?quando piado/, o Ceo com
no/os efiremos, teveyo/epultar na parte mais inocente, fs
mais e/quecida;afim de que a paz,8 a veneraçaõ,jámais te
faltem.E pois no mundo,naõ havia / pulcro,que tef/e dig
mo,por 1/2 quis que fo/e ignorado. A misó me fez merecedor
de que o acompanha/e, & o/oube/e; minha memoriafer2o
Yafo de tuas cinzas, & minhas cinRas/eraõ a uma de tuas
memorias.O quêm pudera divermeyeferia delito, o acabar
contigo logº? Naõ pôde fer; que/ºja licito, antes fora ou/adia
fenecer contigo de hum proprio golpe. As flores mais mimo.
fas da Primavera,/aõ as que primeiro acabaõ, que quanto ás
ervas,º plätas rufticas,ou/e lhes dilata, ou/e lhes muda o
fim,para o Eftio:socõ as ro/as falecê as ro/as;& eu vivirei de
puro, naõ oufar a morrer como defejo; mas cótudo,bem pude
ra a morte/er nesta ocafia5 de/entendida,permitindome efte
primeiro,& ultimo atrevimento.
Entaõ abraçado com os pès da defunta dama, fe
entregou todo a hum terribel defmayo. As lagrimas
dos circunftantes, multiplicavaõ a confufaõ,& a fau
dade:quando tornado em fi Roberto;por diligencia
dos companheiros,& licença do mal, que interca
dente ás vezes,defcanfava, para tornar mais furiofo
(cofiume de algoz tirano)hum dos circunfiantes,
mais anciaõ que os outros, & mais experimentado
nos fucefos de amor,& do tempo,tomãdo pela maõ
ao miferavel mancebo,em prefença de todos lhe fal
lou nefte fentido.
ge he fio Roberto? E tu por ventura taõ vanglorio
fo,
3oo EPANAPHoRA A MorosA III.
f),que ainda da miferia em que teves,queiras tirar vaidade?
Entendes, pue os futuros admiraráõ por unica, tua de/grafº
outuafirmeza?Como te enganas, porque entre as tragedias
de hum mundo fempre tragico, nenhã a filmada novidade,
tras a mayor de/aventura. Se tu viras acabar todos felices,
os amores dos homens, eu te concedera, que tomaras para ti
a preminencia das infelicid ades,porém quem vio jámais vida
amorofa,que naõ aviJe afogada,nas lagrimas do defa/treºu
do arrependimento?Tu ignoras,haver cingido a Providencia
divina,º/tecuidado humano(ou deshumano)de perigos,& d
eftarmentos ,afim de que os homens pude/em Viver no mun
do?Se ainda cegº, º refolutono/o engano, atropella tantas
ley contra nos me/mos, que ferta,fe pela boca do horror, nos
naõ fo/em intimados e/les decretos?A crueldade que/e exe
cuta(/e/e executa)nos delinquentes,he mifericordia, para os
que haviaõ de/er malfeitores, feella naõ fo/Se: pois as laiti
mas dos outros, te naõ advertiraõ, razaõ he,que te percas; {
mas naõ,que/eperca em teu/ace/o,aquelle e/carmento, que
já de/de agora,º Ceo efia definando, por liçaõ,a outros, que
melhor fieis afeus preceitos, haveraõ de recebela. Zeixa a *

fortuna,que inocente em teus de/varios,/enão feri,/e ab/0/- 4


#

ve delles facilmente;porque em vão prefilhamos no/os defa {


tinos, a fua inconfiancia;quando be certo,que mais que afor
tuna,fomos nofoutros a ventura,º a de/graça,de nºs me/mo.
Cada qualhe/eufado proprio,(eu atro nojo juizo, fua e/-
trella,no/a vontade.Quefins dito/os, he licito que e/pere a
quelle,que por ruins principios,fe encaminha? O edificio, me
lhor/e conhece pelo alicer/e,que fe lhe abre, que pelo defenhº
que/e lhe dikuxa;entre a pintura, & a fabrica,/e interpoem
O C0hl
Desco BRIMENTo DA ILHA DA MAD. 3o I
o confelbo, & a mudança,0bras,5 pen/amentos,correm/em
prefraudulenta irmandade. Confefo,que /ão irmãos; mas á
maneira de aquelles antigos Cáflor, & Pólux, que nunca
vemos luzir conformemente.Bom he, Roberto, que tu queiras
hoje,receber hia def/perada morte,porque te não/ahio pro/-
pero teu delito!Qge mais fizeras, fe foras tu o juiz contra ti
proprio? O dito/o fique pôde cançar/e da ventura,que goza;
pois nós/dmos tais,que até do bem,de/ejamos mudança. Mas
porque o de/dito/0,ajudará, com fua de/e/peraçaõ, Jua pro
pria defgraça?E/pera,detente,que a/orte que tu levas, não
levaruim geito de te fazer pouco de/graciado; para que te
anticipas tu a recebela? Não me dirás que e/peravas, quan
do a emprendeste? A ca/o enganoute o amor?não por certo;
4
porque ele não costuma a dar menos fadigas, das que pro
{
mete,nem te prometeo menos, das que te tem dado. O dia,
que te puzeste ao exce/o,de que agora te lamentas,cºm efia
fua condição,/eguifie os atrevidos ºfendartes de feus aven
tureiros. Porque te queixas?de que defe/peras? fe e/e 4 1/10/
teu amigo(ou teu inimigº)nãofo para ti mais confiado, ou
mais cautelofo,em tuas demafias,que,/oefer para o mais juf
tificado em feus empregos?Olha melhor teus pa/los, engana
do moço,verá que tua dor he/obeja; porque foyfal/a tua ef.
perança; não porque tua de/graça,f/e excefsha. Amafie,
fofte amado,atreve/lete, & achafte quem por ti fe expuxe/e
ao ultimº perigo.0 quantos com menos fatisfação,te excedem
nos efiragos! Não chores pelo que não gozafe; porque tudo o
gue/e te defviou ao logro,tês poupado ao aborrecimento.Que
resverfe ganha/teiora mède ador do que perdeste, pelo que
já te cuia;que logº conhecerasyi㺠tinhas cabedal para coº
tribuir
3o? EPANAPHoRA AMoRos.A III.
tribuir a obrigações mais valio/as, Tua Ana,hefalecidadk
cretamente. Enterroua na folidaõ defes de/ertos afima,
que defde ºpovoado a vinha/egundo, Sperleguindo. Aos.
zes que atèaquiforaõ de e/candalo,ou naõ pa/araõ adiante,
ou/epa/Wirem,tu as verás trocadas de e/candalo,em piada
de.Ouviráo mundo esta bifloria,já a tempo, que todos/ecó
padeçaõ; porque chegandolhes mais cedo a notícia da trage
dia,que a da liviandade,naõ haverà quem deixe defe laiti.
mar daprimeira,antes que fe indigne da fegunda. Tu procu
raste deixemos acabar aqui,junto de aquelle teu amorºfo ef
pe&laculo,os poucos dias que te reftão de vida?como podefer,
4 Roberto?que tu queiras fobejar árazão de teu amor, &a-
confelbafios, que faltemos nºs a denº/a amifade. Ami/ade,
& Amor,tudo be o me/mo; mas/e por ter melhores fins,que o
amor,a amifade,queres que Jeja mais debil,ijo, he negarlhes
todo o valor is virtudes.Queres morrer perto do que quiz ef.
te,porque lhe tês querido,nós queremos viver, ou morrerem
companhia tua,porque te amamos.Porque te amamos, te/-
guimos,pois porque te /eguimos,queres que te deixemos? Ze ++nº
?
*
no/os aufentes companheiros, eitou/eguro,/entiraõ là donde
os levou ofido,muito mais o deixarnos,que feupropriori/co;
o que eles fizeraõ forçados da força de tantos elementos,
naõ ferá razaô, quemôs o façamos voluntarios. Hña forte
nos trouxe,abña igual de/aventura;outodos efcapemos del
la,ºu pereçamos todos nella. Tuvielle obrigado dos afélas
do amor, a quem ninguê reffte, nós de outros mais racionais:
por fio,mais forte devefer o laço de no/a obrigaçãº, quanto
a razaõ efia mais que o amor,em feufentido. Somos nºs me
nºsºbrigados */guir,º que a raçaõ nos acom/elha, do que tu
{$
DascoBRIMENTo DA ILHA DA MAD. 3o3
às a obedecer,o que o amor te manda? Dous remedios, toda
vianos ficaõ,ê naõhe defe/perado o mal, donde/e pºdem f.
colher os meyos de fair delle:efta terra he habitavel, aquipo
deremos viver,em quanto tardaõ para nos vir bufcar outros
mofinos, com cuja perda nos ganhemos. Não pºdem tardar
muito,porque as de/graças de não caberem jamas cortes, &
cidades, nece/sitão de novos limites, adonde e/palhem frus
acontecimentos.Se teparece melhor,tentar com nova oufadia
os mares,& os ventos,quanto mais cedo o começarmos, vere
mos mais depre/a,/e estão ja(como creyo)arrependidos de
nº/aperfeguição. Em quanto / nos conferva inteiro, aquelle
barco(que não a cafo nos deixou aliafortuna)$ em quanto
Jenão corrompem ºs mantimentos,que aquitemos guardados,
façamos emborafegãaaviagem,em bufca da vida,jà que da
primeira q fizemos,só avemos vindo a encõtrar a morte. Ani
mate Roberto,e como mais valero/opaganos,enfinandonos a
vencer perigos, aquelles que nós vencemos, por obedecerte.
?ara hãa,é outra fortuna,nºs tês fideli/simos:ó não troques
não ovalor de obrigaºens tão grandes, pelo ºfficio de huãs
inuteis lagrimas, que fempre(com as memorias de que pro
cedem)podes levarcontigo.
Quem confiderou jà cortezia da miferia? Novo
amor,nova fidelidade, fe acha em o eftado infimo;
donde quero infirir, que a mais ardente febre, de
q adoece, & morre toda amifade do mundo,he a en
veja dos homens. Entaõ porque a enveja não tem
entrada nos cafos adverfos, cefando feu pefimo
efeito,fica nos primeiros termos, a humanidade,pa
ra obrar naturalmente, de huns, a outros. Eftahe
2 falº
|-
304. EPANAPHoRA A Moxos.A III.
a razaõ,de que no comum perigo,vemos, que osho
mens (e valem,fe acodem,& fe latimaõ, como gen
teracional; & que raras vezes fucede fora dete fu.
cefo.
Aquelles companheiros de Roberto,que fe acha.
vaó em terra,defprezádo as vidas, á vita de fua def.
graça,lhas ofereciaõ contantes,para remedio della.
Porém ele infiftia firme em fua defefperaçaó,como
feella foffe, de aquellas que defcobrem nos aper.
tos dos homes,alguns raros caminhos, para fair del
les.Muitos tem achado perto da defefperaçaõ, ofe.
guro,para o mayor perigo;eu naõ quifera curar meus
males,com ervas difinitivas, que mais vezes mataô,
que remedead. Mas pois fenaõ perde o difcurfo, em
averiguar o proveitofo,acabemos eta materia, naó
facil,mas neceffaria.
O humano juizo, alimentado de erros(como das
peçonhas o outro Mitridates)porque de ordinario
confunde o valor das coufas,de ordinario ignora, o
que helicito dar por ellas; donde procede, que por
algúas vilifimas, cotuma fazer excefos, & porou
tras de grãde utilidade,naõ quer moverfehú só paí
fo. Aquelles cafos,para cujo fim, fe neceffita de cóf.
tancia,& diligencia, podem remediarfe com defet
peraçaõ do remedio; porq a furia, a que a defefpe
raçaõ nos incita, brevemente fe converte em obti
naçaõ,que fas fortaleza,& em ira, que produz dili
gencia; pelo que já fe diffe,que o furor miniftrava as
armas,fendo eta a razaõ de fe falvar,talvez, do peri.

DescobriMENTo DA ILHA DA MAD. 3o;
go,o que fe defefpera nelle. Porêmifto, naõ fucede
em os cafos,ãsô da téperáça, ou humildade, podem
receber melhoramento: por que neftes tais, nunca a
deleperaçaõ feria conveniente, produzindo, como
difemos, efeitos opoftos,aos que lhe faó neceffarios,
quaes a paciencia,& efquecimento. Afivemos, que
oferro ha mifter o fogo, que o lavre; &logo o bar
ro,apetece a agoa que o molifique; o vidro, pede o
ir para q lhe dê forma;&o graõ,ama sò a terra, em á
pode produzirfe;& affi viramos que o fogo queima
riograõ,o ár fecara o barro, a agoa imaniquilàra o
vidro,& a terra deftruira o ferro;fe o ufo dos elemé
tos,ou das materias,fe lhes trocafe,naº ha regra gê
tal para curar os efeitos. Húas de nofas defordens,
faõ violentas,outras profiofas. As paixoés, primeiro
fehaõ de conhecer,que catigar.Ninguem próveas
emendas de hús,para outros, que a todos lhe viraõ
fêm medida: eftragarâ a virtude das mefinhas, & a
e{perança da cura dos males. Afientendo, fallando
nos termos licitos da defefperaçaõ,tantas vezes ina
dvertidamente receitada;pararemedio de humanos
trabalhos.
Defpois de largo,&latimofo debate, foy mais
latimofo o conceito: prometendo Roberto aos
feus,que fe a vida lhe duraffe finco dias, ele feem
barcaria com os mais, para donde a fortuna quizefe
lançallos; mas que fe fua morte fucedefe primeiro,
elles,fe fofem logo,dando antes a feu corpo fepul
“ura,junto ao cadaver de Ana; o qual com comum
COI]*
306 EPANAPHoRA AMoRosA III.
confentimento, & proluxas lagrimas, haviaõ jà en
terrado ao pè de aquelle altar,que contituiraó; fet
vindolhe de cabeceira,& docel,o tronco, &rama da
fermofa arvore, que ao principio difemos.Ornâraó
de húa grande Cruz de madeira,aquelle barbaro, &
piadofo tumulo,porteftemunho de fuareligiaõ;apar
do qual,em verfos latinos, elegiacos, efcreveo Ro
berto fua hiftoria,na maneira, que fielmente procu
ramos referilla;acabandofe em hum elegante Apol.
trofe:em que pedia:Oue/eem algum tempo, algãa gente
da ley de Christo, vieje a povoar aquelle de/erto, por reve.
rencia do SenhorCrucificado(que alificava tomando pºfº
de aquella pequena parte do feu mundo)quize/e edificar
em o lugar proprio,donde como em Betel. Se lhe havialevan
tado aprimeira Arahum templo a lesy Salvador,porfer afri {
voto de nova piedade,que em taõ inculto deferto, louvàra o
fanto nome de Chrio#.
Em quanto o faudofo amante,fe ocupava em fuas
lagrimas,& exclamaçoés,ã de cótinuo ao Ceo fazia
junto á fepultura de Ana;os mais feentretinhaõ em
preparar agoada, matar, & fecar aves, acomodar as
vélas,& reparar a embarcaçaõ, a que pretendiaõ en
tregar,fegunda vez,as vidas Naõ sò o termo conce
dido ao mancebo,mas o tempo os de tinha; atè que
entrefi concertadas(parece)húas,& outras fortes, a
menhãa do dia quinto, defpois da morte de Ana,
indo bufcar o trifte Roberto, miferavel vital o a
chavaõ morto fobre o mefino teatro.
Júto
. detectpectaculo, naõ feiqual foffe mayor:
- • • a lifti
• |-

IDzscoBRIMENTo DA ILHA DA MAD. 3o7


a latima, ou a faude? Em fim vencidas, foi aberto
humigual fepulcro a Roberto, que fora para Ana a
fepultura,& com femelhante infcripção de fua mor
te, o deixárão, de tantos trabalhos, repoufar em
paz para fempre. -

Lugar era efte, para que eu me detiveffe hú pou


co, a praticar com os amantes, que ha no mundo;
mas que lhes difera eu, que o mefmo mundo lhes
não haja muytas vezes dito? Que lhes contàra,que
elle lhes naõ haja motrado? Ou de q mais ferviraõ
minhas amoeftaçoens, q feus proprios defenganos.
Em fim, embarcados os peregrinos Ingrezes fo
raõ em breves dias, fazendo a propria viagem, que
antes em a náo, havião feito feus companheiros.
º Deulhes porto a proprria inimiga aréa de Africa,
que elles faudarão, como de falvaçaõ, fendolhes de
pefado cativeiro. Affi fucede, que anofos bens, &
males,poem taxa, aquelle efiado de que vimos a el
les. Algum Tirano, teve jà por clemencia o golpe,
que miniftrava,a quem podia tirar a vida. O eativei
ro lhes pareceo repoufo a eftes mofinos, porque fu
gião ameaçados do cutello da morte.
Pafaraó em breve da efcravidão do mar, à dos
barbaros,& delles,a o poder del Rey de Marrocos;
ao qual fendo levados, o primeiro alivio que encó
tràrão, foi a miferia de feus companheiros, que em a
náo havião corrido femelhante forte.
Eraõ então(como hoje, as de Argel)as mafmor
ras de Marrocos, ocupadas de grande numero de
—º
Catoli
3oS E PANAPHoRA A MoRos.A III.
Catolicos,com iguallafima,que injuria da Crifan
dade; entre os quaes, fe achava hum cativo, de na
ção Caftelhana, natural de Sevilha; cujo nome era
Ioão de Morales (a quem João de Amores,chamàraó
erradamente alguns antigos: quiçá por quererem
fazer de amores toda efia hitoria) era Morales,ho
mem prátieo na arte de navegar, que largos annos
em oficio de piloto, havia experimentado, fegundo
a rudeza, com que naquelles tempos a navegação fe
exercitava. E como por pefoa induítriofa, nas cou
fas do mar, fe afeiçoafle mais eficazmente á relação,
que lhes fazião os Ingrezes, procurou durante fua
companhia, que foi de largos annos, entender del
les a fituação, paragem, finais,& noticias de aquella
nova terra; da qual,taõ maravilhofas coufas lhe re
feriaô, & foi de forte a diligencia, que pos no exa
me, & memoria de tudo, que fe fes igualmente ca
paz, que os proprios de quem aprendia,em o mefmo
que lhe enfinaraô: donde procedeo, que pella grã
de efperança, prefagamente concebida de aquelle
fegredo, ele o guardou para fi fomente, todos os
annos que tardou, em naõ poder delle aprovei
tarfe.
Agora farei húa digrefaõ,em beneficio deta hi{-
toria; porque tomandofe o conhecimento dos ter
mos importantes, ao fim do que fe conta, vai o jui
zo claro, & confiado, fem fazer reflexão aos antece
dentes, que lhe naõ he neceffaria, pois todas as no
ficias, que pertencem, ao que fe lhe manifefta, Jun

acha
DescobRIMENTo DA ILHA DA MAD. 3o9
juntas configo. Saõ neftes cafos, etas tais digrefo.
és, verdadeiros Tropos hiftoricos, & naõ proluxos
. Pleonafmos, pelo que nunca cofumo defculpar
me delles. -

Vendofe o nofo Rey Dom Joaõ Primeiro, de


boa memoria, já defocupado das guerras de Caftela,
naõ quis, como varão confiantifimo, efperdiçar
a ferenidade de fua Republica, em o repoufo, com
que licitamente pudera gozalla, defpois do largo
trabalho de fua recuperação, & defenfa. Armou
nobre exercito; cõ o qual paflando o Mar, antes q
algum Principe de Efpanha, conquiftou a os Mou
ros, a iluftre Cidade de Ceita, & antigo povo de
Africa, a quem deu memoravel nome a perda de
Efpanha,que por fuas portas teve principio. Alcan
çou Dom João, efte triunfo, pelos annos de 1415.
ajudado não fô dos Vafallos, como filhos, mas dos
filhos, como Vafallos, fervindolhe de Capitães de
fuas hotes, o Principe, & os Infantes; entre os qua
esfe finalou,em valor, &difciplina,feu terceiro filho
Dom Henrique, Meftre infigne de toda a arte mili
tar, & de nofa milicia de Chrifto; por fer mais rico,
& afeiçoado ventajofamente, a emprezas dificul
tofas; cujos intentos,crecendo em a virtuofa emula
çaõ do que via confeguir a elRey feu pay, em fi
mefmo (e etava cada hora enfayando, para mayo
res efeitos,
Havia o Infante eftudado, entre as materias Ma
thematicas, com mais afeição, a Cofmographia;
V 2 & çomo
31 o EPANAPHoRA A MoRos.A III.
& como em Africa,praticafe acerca della,có muy
tos Judeos,& Mouros,noticiofos das Provincias te
motas,& das cotas, & mares,que as cercão, infan
temente fe inflamava feu coração, em o defejo de i
defcobrilas, & ganhalas;não para acrecentar os do
minios temporaes, mas para dilatar a Fè Catholica,
& reverencia do nome de Chrifto; de cujo divino
oraculo,he fama, foi animado à tal empreza.
Refoluto, em fim, a fazer a Deos efte ferviço, &
efte beneficio ao mundo todo; para melhor execu
tar feus propofitos, recolhêdofe da jornada de Ceiº
ta, fe ficou no Algarve;donde em a Angra de Sagres
húa legoa apartada do antigo Promontorio, que
Sacro, diferão os Romanos(&dahi Sagro, a Sagres,
a quem chamamos hoje Cabo de Sam Vicente)fundou |
húa villa em ordem à fua afiftencia, & mayor co
modo das navegaçoens que intentava: à qual deu
por nome: Terça Nabal, quafi Nabal Tercena;de
notando o exercicio, para que a havia levantado.
TDáfen 1, & Ar/enal, chamão os Venezeanos a feu
famofo Almazem de galés, donde fe fabricaõ, & |
guardaõ; a que nôs dizemos: Tercena, Taraçana, &
Ataraçana, os Efpanhoes. He nome célebre, a quem
muytos tem por voz Perfiana; & dos Perfas difú
dida aos Arabes; porque Ters, em idioma Pérfico,
finifica naviô, & Hane, cafa: como fe difeffemos
cafa de navio. Outros querem que feja nome
Arabigº: quafi obrador, ou cafa donde fe tra
balhº: deduzindofe, da raiz Dafena}, & al
gus
DescobriMENTo DA ILHA DA MAD. 311
gús dizem que Hebreo,dizendo: Darafinalí que tu
do difere pouco; cujas memorias trazemos; por
que feveja cõ quanta erudiçaõ,aquelle fabio Prin
cipe, poz o nome a fua villa : Terçana Nabal, cu
Terça Nabal. Que defpois em mais Portuguez, &
grato modo,foi dita:Villa do Infante.
Por efte tempo, & defde efte lugar, começou
D.Henrique novas conquitas, & defcobrin entos:
revolvendo cada dia fuas embarcaçoens, os mares
do Atlantico,& Occidental;cujos feyos, por muy
tas centenas de annos, efiveraõ incognitos; & ain
da a juizo dos melhorer, nunca foraó trilhados de
outras gentes. Supofto que os Gregos,ambiciofos
do louvor de fuas acçoens,com mayor pompa, que
verdade,as engrandeceraõ; donde achamos efcrito
em Herodoto: Que os moradores do Ponto Euxino, ti
nhão por cou/a certa,que o Mar Atlantico/ecommunicava
com o Mar roxo, ou fºyo Arabico. E profeguem: Que
nos Annaes de Egypto, felia, como hum antigº Rey,cha
mado Neco, mandara alguns Fenices, que de/de o Mar
roxo, core/em todo o Meridional, & entrando pelas co
lunas de Hercules pa/ajem ao Egipto. O que diz fi
zeraó, com periodo de dous annos. Tambem afir
mão: Que no tempo de Xerxes , o Capitão Sata/pes,
dobrou o Cabo de boa E/perança, & ferecolleo a Egypto,
feno efireito Gaditano. Efrabo conta,por fè de Arif,
tonico Gramatico: Que Meneláo, navegou de Cadir à
India, Pomponio Mela: Que Eudoxo, figindo de Ia
thico Rºy de Alexandria, falo pelo/go Arabico, & che
" " " " V3 | gºli
3r2 EPANAPHoRA A MoRos.A III.
gou itê Cadiz.O m-fimo parece que diferaó, Plinio,
Solino, Marciano, Artemidoro,Xenofonte, Lamp
faceno; porêm naquelles tempos de notas conqui
ftas,entre as gentes de Europa, & Africa, nenhüa
noticia fe achava,de taes navegaçoens,nem defpois
a defcobriraõ os Portuguezes,em os povos de Afia;
o que não pouco enfraquece o credito dos Autores
referidos,& faz muyto pela opinião dos nofos, có
quem fe conformou o Poeta Portuguez,quãdo dif.
fe:Por mares nunca de antes navegados,
Entre as pefoas,que o Infante D.Henrique ocu.
pava neftes defcobrimentos,foi principal(pelo me
nos,nao fe fabe de outra mayor) hum nobre Caval
leiro de fua cata, que diferaó: Ioão Gonçalves Zar
co.Duvidafe,fe por alcunha,apelido,ou façanha.Fo
ra criado no Paço, & difciplina delRey Dó Ioaõ o
Primeiro, & por elle,dado em grande eftimaçaõ ao
Infante.Naõ havia ainda nete tempo, os livros dos
Filhamétos,dõde permanece efcrita a Nobreza civil
cuja invéçaõ,ou forma,fe achou no Reynado de D.
Afonfo Quinto.Por eta razão, naõ por falta de cal
lidade,que em Ioaõ Gonçalves houveffe(pois fegã
do afirmaõ os que delle efcrevem,era fobeja, & a
diantada à de feus cópanheiros,como felé em Ioaõ
de Barros ( & fe achava nelle menos,o titulo de Fi
dalgo,da cafa do Infante; a qué fervia nos potos de
mayor confiança, & autoridade:qual o mando que
lhe entregou com fuas armas, em que deforça havia
de concorrer a mão delRey; cujo Capitam mòr do
mar,
DescosRIMENTo DA ILHA DA MAD: 313
mar algús dizem que era;&ete o mayor titulo, que
nofos Reys,davaõ aos Cabos, de feus exercitos,no
"
mar,ou no campo,He tambem de advertir, que nas
armas do Infante, feincluyaõ as da Religiaõ de
Chrifto;de cujas rendas,Dom Henrique fornecia
feus navios; o que fendo, como he, fem duvida,
refulta em mayor honra, da pefoa de Ioaõ Gon
galves, & preminencia do grande lugar, que logo
em feus principios,ocupou nete Reyno; o qual fe
lhe conferio por fangue,& merecimentos; havendo
fido hum dos Capitaés,que elRey Dom Ioaõ o Pri
{ meiro,armou cavalleiro, o dia do afalto de Ceita;
#
& que defpois em todas as emprezas de Africa, acõ
" panhou a elRey feu fenhor,& o Infãte feu amo, cõ
} táta fingularidade,que fe diz delle: Foi o primeiro Ca
pitaõ,1ue introduzio em os navios,o ufo da artelharia.
Nefta forma governando fua Armada, difcorreo
| Ioaõ Gonçalves,pello etreito de Gibaltar,a fim de
paflarfe á cota de Africa,nos principios do anno de
142 o havêdo jà em o anno atras pafado de 1418.
como acafo,defcuberto a Ilha do Porto Santo; vin
do arribado por razão de grandes tormentas da via
gem,que aquelle verão fizera,em demanda do Ca
boBojador.Naõ etavão ainda as contendas de Por
tugal,& Caftella,porete tempo tam acabadas,que
entre os fubditos,não houveffe algúas ocafioens de
difcordia,donde procedia,que Portuguezes,& Caf
telhanos,cotumavão prenderfe, quando no mar_fe
achavaõ,fem outro pretexto,que julgarfe o agrefor
mais poderofo. V4 Fa
314. EPANAPHoRA AMortos.A III.
Falecera em Catella,a 5. de Março de 1416, o
Metre de Calatravo,D. Sancho, filho ultimo del
Rey D.Fernando de Aragaõ; o qual Metre dei
xâra em feutetamento,hum rico legado por fua al
ma; para que de Marrocos,foflem refgatados muy
tos cativos Caftelhanos; & entre eftes foi hum dos
que receberaõ primeiro liberdade(pelo refgate do
Metre de Calatrava)o Piloto Ioaõ de Morales, de
quem havemos feito particular mençaõ, & correrá
igual por todo efte tratado.Navegàra aquelles dias,
de Africa,a Tarifa,em húa fufta, q códuzia a Efpa
nha,a mayor parte dos refgatados Caftelhanos, quã
do fendo defcuberta,da Armada de Hooó Gonçal
ves, & perfeguida dos navios mais ligeiros, veyo,
fem algúa defenfa,a feu poder;mas o Capitão aten
tando a miferia gos rendidos, como tam certo da
elemencia do Infante Dom Henrique, lhes deu lo
go liberdade,refervando só para fi, a Ioaõ de Mo
Tales,que como pefoa mais prática, & de longo ca
tiveiro,quiz aprefentar ao Infante;entendendo,po
deria alcançar delle,algúas das noticias, que bufca
va; do qual propofito, fendo certificado Ioaõ de
Morales,tam pouco refufou a nova prifaó, q como
homem aftuto, fe ofereceo voluntariamente, para
fervir com húa grande oferta, à curiofidade do In
fante Dom Henrique praticando defde logo a Ioaõ
Gonçalves,parte do fegredo,da nova terra, que el
perava inculcarlhe, & corroborando as noticias,
que dellatinha,com a hitoria do Ingrez Roberto,

|
Dzscopa IMENTo DA ILHA DA MAD: 3 15
|-
| fegundo de feus companheiros a havia entendido.
}
Mais rico defia efperança, que de outra alguma
#
prefa,fe voltou logo Ioaõ Gonçalves, ao porto de
Terça Nabal; donde fazendo relaçaõ de fua breve
viagem, & facil encontro,aprefentou ao Infante, a
pefloa de Ioaõ de Morales; a quem deu conta de fua
arte,& fegredos. O que tudo fendo do Infante, ou
vido,& examinado,ja naõ fabia a hora, em que ha
via de começar tam grande empreza,& tanto a feu
genio acomodada: porque fobre fer coufa fabida,
que os Princepes fazem ventagem aos mais homès,
na futileza de feus efpiritus,em nada fe moftra mais
exprefamente,que no apetite, a diferença, ou me
hora,que ha entre feus,& nofos afectos.
Iulgo que nas obras do animo,as quaes fam fem
pre agitadas de dousa gentes:razão,& gofto;aquel
las donde só a razaõ influye, fe executão vagarofa
mente:como vemos,que a terra cria com grande ef>
paço,as ervas que lhe trafplantão,por mais que lhas
cultivem; & pelo contrario, produz com grande
vigor,& diligencia,as fuas plantas proprias, fem be
neficio da humana cultura. A fimefmo os homens,
faõ eficacifimos em obrar,fegundo fua condição,&
femiflos, quando contra ella; mas entaó ferà dili
gente,& regulada,aquella acção,em que a juftiça,
& o apetite, activamentefe conformem; com tudo,
porque efias coflumão feras menos vitas no mun
do porifo vemos o defigual pafo,com que proce
dem as coutas jutas,& injutas.Aquelle Principe;
ferà
16 EPANAPHoRA AMoRosA III.
ferà pronto,& felice em fuas operaçoens, que tiver
vontade de obrar como deve. -

Foya primeira refoluçaõ do Infante, que Ioaõ


Gonçalves,pafafe logo a Lisboa, donde fe achava
elRey feupay,para lhe comunicar efte negocio; &
para fatisfaçaõ, afi delRey, como dos Minitros,
trouxefe logo configo o Piloto Ioão de Morales,
que com boas razoens,fatisfizeffe às duvidas,que lhe
feriaõ opotas,porque aquelles,que não tiveraõ for
te,ou arte,para achar coufas novas,foem vingarfe da
ventura,ou detreza, dos que as defcobriraó,fazen
doas impofiveis,fe valiofas,& quando po fiveis de
nenhum preço.
A efte fim,proveo o Infante logo a Armada de
outro Cabo,& Ioaõ Gõçalves,na maneira propof |

ta,fe paffou de golfo, a golfo;do mar,â Corte: adõ- |


de o acompanharaõ as pefoas de mayor poto,&in
teligencia,como forão os Capitaês:Ioaõ Lourenço,
Francifco do Carvalhal,Ruy Paes, Alvaro Afonfo,
& Francifco Alcofarado, primeiro Cronita defa
hitoria,com alguns outros homens de Lagos, práti
cos na navegaçaó,que fe dizão: Antonio Gago, &
Lourenço Gomes; a cuja memoria não quero fer
devedor, antes quero que eles o fejão a minha lem
brança.
Não batou o bom afe&o,com que elRey D.Ioão
ouvio a Ioaõ Gonçalves,& feu Piloto,nem o muito
goto, pouco rifco,& menos difpendio, cõ que o In
fante reprefentava aquella empreza, para que ella
dei
DescobarMENTo DA ILHA DA MAD. 317
deixaffe de fer,por alguns Miniftros reprovada;por
que o Infante Dom Henrique,tinha junto delRey
emulos,a quem naó era grata fua grandeza. Quãdo
as pretençoens dos Princepes naufragão,& feper
dem nas ondas da Corte,& nos bancos que a atra
vefaõ,como feefcaparâõ as dos humildesvafallos?
Como chegarâõ ao porto de bom efeito?mas cófo
lenfe os pretendenrcs, que as mefmas Cortes, tam
bem tomaõ de mar aquelle cofume, que regüla os
perigos,& naufragios,pelos tamanhos dos navios,
que nelle navegão,donde procedeo o antigo,como
vulgar proverbio:Que atormenta, he tão grande,como a
embarcação,que a padece. -

Íoaõ Gonçalvcs, em Lisboa honrado, mas naõ


defpachado delRey,avifou ao Infante,do ruim ca
minho,que tomavaõ fuas pretençoens:& como lhe
cutava tanto trabalho,perfuadir aos Minitros del
Rey,que recebeffem os tefouros.que para o Rey,&
Reyno,vinha a oferecerlhes,como pudera cutarlhe
fe para fi os pretédefe,pedindo os ao Reyno, & ao
Rey;mas D.Henrique,fendo igual na actividade,&
paciencia(como devé feros Varoés grandes)tomou
diligentemente refoluçaõ de avifarfe com elRey
feu Pay; a cuja prefença ja chegado,desfez logo as
duvidas,que detinhaõ ao defpacho de IoaõGonçal
ves; portal maneira,que no principio de Iunho de
aquelle anno,fayo em demanda da Terra-nova, em
hú navio,bem armado de gente, & petrechos, com
húvarinel,que o acompanhava(embarcaçaõ de re
mo,
318 EFANAPHoRA AMoxos.A , III. •

mo,que entaõ ufavaó;cujo nome ainda retemosnas


varinas futis,de que hoje nos fervimos)tal foi afro
ta,có q partio de Lisboa:porto naõ sòméte celebre
entre os melhores do mundo, por fi me{mo,mas por
haver fido aquele notavel ponto, donde fe tiraraó
linhas de gloriofas conquitas, & incriveis defco
brimentos, a toda a circunferencia de todo o Uni
verfo.
Corria defde o defcobrimento da Ilha do Porto
Santo(adonde Joaõ Gonçalves, agora dirigia fua
viagem)húa confufa fama, entre os Portuguezes,
que alli povoaraó: Que de/de aquella Ilha, á parte do
Norde/te,aparecia no gºlfo do mar,certa e/curidaócõtinua,
é cerrada defle a agoa ao Ceo; a qual jamais/e desfazia,
ou alterava,mas com medonho ruido(que algüa vezfe ouvia
no Porto Santo)parecia guardada fobre naturalmente. E
como até aquelles tempos, por falta do Aftrolabio,
& Baleftilha(mais moderna)ninguem navegava por
altura; mas júto à cota;era julgado por impofivel.
ou milagrofo:Que quem perde/e a terra devifa, pude/
fe tornar a ella. Efta inadvertencia,tinha os homés taó
rudos nas coufas do mar, q de todo ignoravaó feus
fegredos:donde vinha,que aparagem deta efcuri
daõ,era gèralmente julgada,por hum abi/mo, & ain
da com efe nome nomeada. Outros afeguravaó
fer: Bica do Inferno, favorecidos da opiniaõ de algús
Theologos, que participantes do proprio temor,
queos fimples,moftravaã fer pofivel,com argumé
tos,& autoridades.Os que das hiftorias,fe prezavaó
de
DescosRIMENTo DA ILHA DA MAD. 31
deter melhor noticia, tinhão para fi: Que ela foje
aquela antiga Ilha Cipango, por miferio de Zeus encuber
ta; donde foifama,/e retirarão os Bi/pos, & povo Catholico,
Lufitano, & E/panhol, quando a oprefão dos Serracemos;
{
é que tratar da averigação desta verdade, feria erro, &
peccado manifefio, contra a Providencia Divina: que ain
da não era fervida declarar aquele fecreto, com cs finaes
que precediríao afeu de/cobrimento; cs quaes/e achamef.
critos (dizem elles)nos antigos vaticínios, que defia ma
ravilhafahão. Tal, & tão confufo era o juizo, que já
fe fazia de aquella remota fombra: donde fem duvi.
da, tiverão feu principio as vaidades,que ainda hoje
predominão nos coraçoés de algúa géte abraçadora
de vans efperãças; os quaes erros,como principiados
de fombra,não he muyto,ã tragão efcuros, & ofuf
cados aos entendimentos dos homés, q os recebem.
Navegava na volta da Ilha do Porto Santo,João
Gonçalves, com calmarias proprias do tempo, &
proprias ao intento,que levava; & porque com o ef
curo da noite, lhe não fucedefe:e/correr a terra. (A fi
dizem a feu defencontro, os marinheiros)recolhia
em a noite todo o pano, para naõ navegar mais de
noite, do que pudefe ver de dia; com tudo, não foi
larga a viagem;& em breve tempo chegado ao Por
to Santo, cótinuou logo em obtervar, có os mais da
terra,aquelle temerofo fembrãte, que efiavã vendo,
o qual, o Piloto Morales, julgava fer principio da
terra nova,que hião bufcando.Feito confelho pare
ceo:Que na Ilha fe detivº/épor todo o quarteiraõ da Lua
pre
22 o EPANAPHoRA A MoRos.A III.
prefeite, a fim de fenotar, fe a fombra fe desfixia, ou fê
mudava. Mas ella fempre apareceo em hum lugar
proprio, com que denovo,deu grande temor à gen
te ruda, em vez de lhe poder dar efperança.
O piloto contantifimo, era de parecer: Que/e-
gundo a informaçaõ dos Ingreves, & roteiro, que porellaha
via formado, naõ podia efiarmuytº longe,a terra encuberta;
certificando a João Gonçalves: Que por cau/a do alto,
& yaftfimo arvoredo, os rayos do Sol, nunca enxugavaõ,
campo, donde procedia taõ grande humidade, que ella era
caufa dos vapores, de que o Ceofe cobria, & e/a/em falta a
e/curidão que estavão vendo, por donde tinha por acertado,
que em derrota f/em logo, a demandar aquelle nevoeiro,
debaixo do qual tinha por certo, acharião a terra, ou certos
finais della. -

Todos entendiaõ o contrario, & fe opunhaõ ao


voto de Morales, dizendo: Que ele por fer Cafielhano,
& mortal inimigº do nome Portuguez, pretendia expôrá
tanto perigoos circuylantes. Que ajás fazão os homens em
pelejar com otros homens, mas nam era de feu poder,contra/
tar os elementos: antes oufadia de gente idolatra, quereref
perar outra cou/a ,que a morte; º caminhar a bufcalla,
fem mais e/perança, era tentar a ZDeos, & merecerlhe fo/e
defapiadado o perigº; que ome/mo Infante,/e daria por mal
fervido, gº/tandolhe/em raz㺠tais criados, & peor el Rey,
vendo e/perdiçar vida de Va/allos, tanto para/epouparem
para maisyteis emprezas. Que Ioão Gonçalves/equeria fer
grände, ja lhe baftavaófeus ferviços: & que dos valentes,
nuncafRera afortuna os de/e/perados: conferva/emos,é
regef
Desco BRIMENTo DA ILHA DA MAD. - 32 1
rege/emos bem as terras, que po/hiamos,/em ir furtar ao
mar, a que Deos para fi lhe dera, foporfazelas participan
tes de noff, defiario. Finalmente, que elles nam eram alli
vindos, nem fe inculcayão para mais que homens.
Sô o Capitaõ, prevalecendo em feu animo,& de
fejo, fe deliberou configo proprio: Aque pois vinha a
Vencer perigos, & dificuldades, a primeira que fe havia de
vencer, era a vontade defens/aldados que tão contrariada
/ua, experimentava. Aosquaes, havendo com diffimu
lação ouvido, & confortado, como o tempo deu lu
gar, fem que a algum defe parte de feu intento, fe
fes à vèla, húa madrugada,com o varinel de fua con
ferva: & deixando a ilha da Porto Santo, lançou a
proa,para a parte de aquella temerofa paragem,aon
de a fombra fe via; fazendo toda a força de vèla,
para que o dia lhe naõ faltafe com luz bafiante, a
fim de reconhecer, tudo o que pudefe, da terra que
c{perava achar facilmente. Aumentavafe com a vi
finhança da cfcuridão, o receyo de todos; porque
cada vez parecia mais alta, & cerrada, totalmente
chegou a fe fazer horrivel. Quando ao meyo dia, fe
ouvio rebentar o mar,com medonhos bramidos,que
atroavaó inteiramente, o ambito do Orizonte. Não
fº via final algum de terra; porque a nevoa cobria
já a agoa, & o Ceo, defpois que pela vifinhança,
k metèráo debaixo della. A vita de tam notavel
confufão, & quafinas mãos do perigo, felevantou
hum publico clamor, requerendo a João Gonfal
Ves:Que arriba/e, & nam quize/e tomar por/ua conta, º
dano
22 EPANAPHoRA A MoRosA III.
dano de tantas almas. Porêm elle por fazer mais juti
ficada fua confiancia, que o receyo, a que a voz pó
blica o induzia, chamando ao convez do na vio, os
marinheiros, & foldados, lhes falou deta maneira:
E quem vos dife avós amigos, & companheiros, que não
amava eu minha vida, como vôs otros as vo/as? Eu certo,
não fuio quevos perfaadi, porque feria prefarme, falfamete,
de mayor coração, dos que vos vejo; os quaes eu conheço bem
defle os perigos p / idos, quando vêncendoos com vo/cº,
alcançamºs para todos,honra,& premio. Se agºra ou/e mais
do conveniente, he porqre vos levo comigo. Pois porque vos
tendes vôs, em menos conta, daquela em que vos eu tenho?
Conhecer o rifco, em que estamos, & 0 a que podemos ir, vos |

louvarei muyto; porque a/i/everá no mundo, que não aca/0,


{
mas de propofito, atropellamos, mais que humanas dificulda
}
des. Não efiranho ofim de vo/o temor, os meyos do reme {
dio dele, /ovos n㺠aprovo: /enão dizeime: Com quejuftiça
podeis vo/outros lograr a gloria, que entre as gentes vos ºftá }
efperando, featroco della, não entra/eis aventurando as
vidas. Não fabeis, que os mercadores, quandonam arri/cão,
nam podem ginharlicitamente? Quereisfer mayores,qno/os
iguais, na fama, fendo iguais com eles, no repou/0? E/a be
v/ura defal/ reputação. A que faímos (me diRei) deno/a
2atria? A que nos mandou aquelle, que temos por fenhor?
Para que nos honra? Para que nos fustenta? Para que fica
fendº pay de no/is mulheres, e filhos? Para que fe confli
tuyefiador de nº/is obrigações? Ajunta/e tudo isto, por vé.
tura, para que deixemºs no melhor, em vão, feu ferviço, &
def.p? Ora ºlhai, fenbytes, comº a vida bebia/9,8 bia/,
*
4 morte;
DzscosRIMENTo DA ILHA DA MAD. 323
a morte logo/em vazaõ,temeis mais os elementos, que os ho
mens;poránê os elementos vos mataraõduas vezes,nê os ini
migos,quandopº/aõ,deixaráõ de vos tirar bña vez a vida,
Ogemais alivia,a quem a perdeyer pilouro, ou de e/padafe"
bomícida? O cutello de ouro,na maõ do algoz, naõ ferá cutel
lo? Da propria maneira/evos não negais a oferecer a vida por
Teos,pelo Principe, & fella Patria,çõtra/eus êmulos, que
mais cruelvos/erá o úr, ou a agoa,de q agora temeis,4 a lã
ga, ou afecha inimigo,º q andais ferecidos,/ tudo vos trás
a morte? Pe/Giora hã pouco em vo/ojuizo, a diferença,cãá
entraremos pellas portas de nojo Rey,& Infante, dandolhe
razão de ter já por mº/as mãos, fºgeitas afeus pès, novas
provincias,ou nam lha dando,mais que dovil temor, com que
difistindo da empreza a que nos mandeu, lhe defobedece
mos. Em verdade,amigos que me/le ca/o os perigos/e troca
rião;porque fugindo nos delles, & cuidando os deixavamos
a tras,elles nos perfeguirião,atê nos aparecer lá diante:& en
tão feria bem mais mifaravel cou/a morrer lá da injuria,que
aqui da de/graça. Tende,tende, por certo, que vencido efte
receyo,que agora nos oprime, todos os inconvenientes fe tem
facilitado. Nunca a noite he tam efcura,como quando quer
amanhecer.A força defia confusão,que agora nos cerca,be o
mayor finaldafelicidade,aqueja eftamos vifinhos Pa/emos
animo/os a diante,examinemos bem a verdade defesa/om
Eros,custemnos mais que o receyo;&o que atégoras? befan
tefia,/eja experiencia. Demos do perigo,no efcarmêto;&quã
do de todo a forte, & a natureza/enos oponhão, eu ferei o
primeiro,4 trate devos/alvar as vidas. Porém vejamos an
*estãos ºlhos,aučnos ºfende, & de 3Xcontrariofagimos.To
*-- --- --- ------- "+ - -- - - •
324 EFANAPhoxa AMoRosa III.
Todos com nova alegria, limpos jà fubitamente
do temor pafado,diferaõ:Que estavão dispostos a mor
ver com elle,$com elle.Que gºverna/e,não só como Capitãº
dos homês,mas/enhor da vidas,& liberdades; porá a tudº
lhe odedeceríaõ levemente. O tempo femotrova cal
mofo,& para que as corrêtes das agoas,nao levafem
o navio, contra fua derrota, mandou Joaõ Gonçal.
ves,efquipar dous bateis, que revocafem comfor
ça, & diligencia o navio, & varinel; dando cargo
detes revoques,a Antonio Gago,& Gonçalo Luis,
homés de conhecido valor, & efperiencia. Com tal
prevençaõ foraõ correndo de longo da nevoa,levá
do por baliza o etrondo do mar, chegandofe, ou {
defViandofe,fegundo elle era mais ou menos. V

Para a parte do nacente, não corria tamlonge a


neblina,nem fe motrava tão efcura; porém,fempre |
as ondas bramavão com epantofo eftrépito. Afi
profeguia Joaõ Gonçalves,fua viagem, quando por |
entre a efcuridão, defcobrirão huns vultos, ainda
mais negros, que ella. Não deixou reconhecelos a
ditancia, nem faltáraó alguns ( como de ordinario
fucede, donde muitos concorrem)que afirmafiem,
haverem vito, Gigantes armados, de temerofifima
grandeza. Entendeo(e defpois,que as penhas de que
he guarnecida a terra pelas prayas,fazião fembran:
te detas imagens, que confufa, ou medrofamente,
vião aquelles navegantes. Achavafe já o mar mais
claro,& a agua mais batida, verdadeiro final de colº
ta,que pouco depois, com fubito alvoroço,& fumº |
-

COilº
DEsco BRIMENTo DA ILHA DA MAD. 325
contentamento,fe defcobrio diftintamente; vendo
fe húa ponta de terra, não muyto alta, a quem João
Gonçalves,logo chamou: Ponta de S. Lourenço; por
que como he ufo, hia invocando o favor defte glo
riofo Martyr, para que lhe confervafe profpero o
vento que levava. -

Notavel coufa he, o coraçaõ humano, poucas


vezes prefiftente em hum afecto, feja de gofto,ou
pena. Ver aquella facilidade, com que felança do
prazer,ao pezar,& do nojo,à alegria;fes como mui
tos fabios o defprezafcm. Com tudo,fe com melhor
filofofia meditarmos neta fua condiçaõ,acharemos,
que com grandiffimo cuidado, a Providencia nos
dotou efte attributo, de que injutamente nos quei
xamos 3 porque quem pudera viver com o homem
de coraçaõ immutavel? Que força bafaria a doma
lo? Que razaõ aperfuadilo?Se détro em fua fraque
za,fagil,& debilifimo, concebe tam duras refolu
çoens, que feria fentindo(e armado de hum vigor
firme,& robuto? Efta foi a rezaõ(có que ja fe con
fundiraó alguns antigos)do mifterio, por elles naõ
alcançado,com que a natureza negou ofos, & ner
vos ao coraçaõ,concedendoos aos outros membros
humanos.Foi (como em tudo fabia,& quãdo cfcafº
fa,providéte)a fim de q fenaõ achafeno coraçaõ do
homé, materia de propria fortaleza; para q vendofe
della neceffitado,sô vieffe a recebella, por mercè da
razaõ,ficãdolhe affi sêpre vafallo, & obediête. Efta
incontancia
… de afectos,ã com facilidade
• X2 fe transfe
fCII)
326 EPANAPHoRA AMortos.A III.
rem, & fe convertem, huns, em outros, núca fe acha
taõ exprefa, como nos homens q navegaõ: porque
em húa me{ma hora,jà fevem na morte,já na vida,já
na profperidade, ja na miferia. Agora prometem
não tornar ao perigo, & logo feefquecem delle; or
denando afi Deos,eta variedade de feu afecto, para
ornamento, & comercio do mundo: o qual fora im
ofivel confervaife, fe os homés felembrafem fem
pre do trabalho, ou do defcanfo: dõde jà hum fabio
chamou: Fermo/ura da vida,ao e/quecimeto da morte.
Dobrada a primeira ponta, que defcobria, para a
parte do Sul, fe viologo a terra alta, povoada de ef
pefiffimo bofgue, defde a eminencia das ferras, atè
a fralda do mar; recolhida por aquellabanda hum
pouco, a nevoa, que fócoroava os montes. Aqui
fe confirmou o prazer, & fe defpedio de todo, a
defconfiança; vendofe como tudo o que já fevia,
era terra natural, & verdadeira. Abraçaraófe hús, a
outros,& todos (havendo a Deos rédido graças)as
déraó ao Capitaõ, pelos animar,a fim tam gloriolo;
& ao piloto, pelos haver guiado a elle. Quem em
mais tivera os perigos, agora mais os defprezava.
Pouco defpois,fe foi vêdo húa Bahia grande;a qual,
reconhecida de Joaõ de Morales, entendeo logo,
fer o Porto dos Ingreves, que atè entaõ, toda efia ter
ra por efte nome, era demandada. Chegou ainda cõ
dia, Joao Gonçalves,º furgir nelle;mas porque oSol
fº trafpunha, ordenou, que com grande vigilancia,
fe Paflafle a noite. O fono, he hum baixo, que
#14O

DEsco BRIMENTo DA ILHA DA MAD. 327


não eflà nas cartas dos mareantes,em q mais naufra
gios tem fucedido,ã em nenhú outro q nellas efleja.
Ruy Paes, o dia feguinte, em feu batel armado,
coteou a terra,de ordem de Joaõ Gonçalves, que
delle fiava muito. Topáraõ a me{m rocha, a cujo
pè defembarcou Roberto; & guiados de alguns fi
mais, que Joaõ de Morales trazia em lembrança, &
confirmavaó por alli, não poucos gaftados veftigi
os, caminhátão por entre o mar, & o arvoredo,achá
do alguns troncos feridos do machado,& outros raí
tros certos,de que a terra fora já pifada de homens.
Pafarão adiante, quando como atalaya de toda a
! florefta, fe impinava a grande Arvore, aqui nome
ada tantas vezes. A huma parte, & acutra fe viaõ,
as duas agreftes fepulturas, faudandofe com igual
faudade. As Cruzes, & os Epita fios, confirmavaõ o
primeiro teftemunho; cuja vifa, ainda que jà pre
venida das noticias, produzio logo em todos piado
fifimas lagrimas. Difle o Seneca: Que entre os paren
te/cos dos homens, era o primeiro grab, a humanidade.
Voltaraófe o proprio dia dando a Joaõ Gonçalves
a ultima certeza, de quanto o piloto havia prometi
do. Entaõ difpòs fua defembarcação, que executa
da com cautela, & folenidade pofivel, tomou logo
pófe de aquella llha,ou terra firme fofe, por clRey
D. Joaõ de Portugal,& pelo Infante D.Henrique,
Ordem, Metrado, & Cavallaria de Chrifto. Foi
então cõ as cerimonias catholicas,béta aquella agoa
por dous Religiofos,& com ella
• • X 3purificado o ár&a
(CT[2
328 EFANAPHoRA AMoRosA III.
terra, invocando a Deoscóprèces, & rogativas fá
tas, ordenoufe o verdadeiro altar, cófagrandofe có
o alto facrificio da Miffa;& foi levantado em o pro
prio,que Roberto,& Ana,havião erigido,fazendofe
ao Ceo particular commemoração de fuas almas. E
fucedeo,com algúa proporção, fer feita eta nova vi
fita do Senhor, a aquellas montanhas, o proprio dia
que a Igreja celebra, a Vifitação de Santa Ifabel,
a quem a Virgem Santifima foi bufcar, & nella o
Divino Verbo Encarnado, tambem às montanhas
de Judéa, outro tal dia.
Mandou defpois Joaõ Gonçalves, que a fua gen
te cingeffetudo o que etava defcuberto, por todas
as veredas que fe achaffem, até ver fefe encontrava
algúa povoação,ou ratro de gente, & animais,pro
curando trazerlhe qualquer,que fofe vito,vivo, ou
morto; mas fendo executado com nenhuma outra
coufa fe recolhèraõ, os defcobridores, que com al
guns paflaros de diverfas maneiras, que fem algum
trabalho,ou indutria,ás mãos tomavão.
Rico,a feu parecer,dete facil defpojo, fetornou
ao navio Ioáo Gonçalves; donde chamado a confe
lho,fe afentou: Não volta/e ao Reyno, sº? (evifº mais
particularmente o reflite da terra,pois otêpo dava lugar para
4 a/fife fize/º. E porá a fralda da marinha toda era
fragofa,foi de parecer Ioaõ de Morales, como homé
pràtico:Que da bã4a do mar,ºs dêtro da agoa,poderia ter
o proprio defeito, pelo q feria mais conveniente profguir
(como até então /etinha ufada ) «de/cuberta em bateis,
• que
DescosRIMENTo DA ILHA DA MAD. 329
que não em os navios,livrandoos defla forte dos perigos de
baxos,& corrêtes, que podião acontecer em cofia não conhe
cida. Affi foi feito, tomando Joaõ Gonçalves, para
fua pefoa, & companhia, o batel do navio, & dãdo
|
cargo do outro, ao Capitaõ Alvaro Afonfo.
Paflada huma alta ponta, que demorava ao Po
nente, fe vião entrar juntas no mar, quatro famofas
Ribeiras de agoa purifima, de que Joaõ Gonçal
ves, fes encher logo algüas vafilhas; porque defta
talagoa, fe mofirava o Infante Dom Henrique, taõ
fequiofo, como o Santo Rey David, das agoas da
Cifterna de Belem: naõ conduzida com mayorrifco
de feus Vafallos, a fua prefença, nem efia, pelo In
fante, menos a Deos facrificada. Pafáraõ avante, &
defcobriraõ hum valle, que outra ribeira fendia gra
ciofamente, mandou reconhecelo por alguns folda
dos, que fô de fontes o acharaõ abundante. Segui
ofe outro de fermofo arvoredo, & como em lugar
de batalha, que o tempo lhe tinha dado, fe viaô fem
ordem, derrubados grofos troncos de arvores ex
quifitas. Dos quaes ordenou o Capitaõ, felevantaf
fe huma altifima Cruz, com que deu nome a aquel
le fitio: Santa Cruz. Seguindo a cofa lhe faitaõ de
húa lingua de terra, que mais que as outras felan
çava por entre as ondas, tantos bandos de aquellas
importunas aves, aquem os Latinos chamáraõ: Mo
medula, por fna condição cobiçofa, Graculus també,
donde nos: Grálbos, de que a gente pareceo malfe
gura,fegundo fua fome, & multidaó. Efta foi a cau
X 4 fa
33o EPANAPHoRA A MoRos.A III. •

fa de q aquella Ponta,fofe nomeada como os pro


prios paffaros, que habitão; nome que ainda lhe
dura. Outra fe divifava logo,como duas legoas mais
abaixo, abrindofe entre a que deixava, & a que fe
defcubria, huma fermofa enceada, cingida de terra,
menos foberba, a quem hum igual arvoredo fervia,
como de Coroa; cujas mais altas pontas, fignifica /

vaó os Cedros,que de quando,em quando,fe ergui


aó, fobre as outras arvores, quafi em proporciona
dos termos: certificando affi, o que dos Cedros dif:
feraõ os antigos: Que donde os ha, fempre excedem º
quae/quer prantas defeu contorno; donde foraõ com
parados aos foberbos, ou fymbolo delles, confor
me felé no Sábio: Vi o justo, levantafe comº os Cedras
do Líbano, & quando tornei a pa/ar, ja de ali, havia def
aparecido. Porque deta arvore taõ arrogante, affir
mão os naturaes: Que tras/empre fuas raizes á/uperficit
da terra; & os moradores de nofas Ilhas, affi o con
firmaõ: nas quaes elles nacem em grandeza, & boa
dade, avantejados aos antigos de Syria. Com tudo,
feu cheiro,& incorrutibilidade,os fas célebres,entre
as famofas arvores, que no mundo fe conhecem.
Defta enceada dos Cedros, forão pafando a ou
tro valle, do qual procedia húa lagem, que entrando
no mar, como hum natural, & capaciffino caes,a-
percebia facil defembarcaçaõ do mar, à terra; de que
convidado Joaõ Gonçalves, ordenou, que Gonçalo
Ayres, a efperimentafe;defembarcando em aquel
levalle, com bom numero de foldados para que pe Il C
DescosRIMENTo DA ILHA DA MAD. 231
netrando mais o Certaõ, do que até alli fora feito,
pudefe trazer as ultimas noticias, do que havia pel
la terra dentro; mas Gonçalo Ayres, voltou breve
mente fem outra nova informação,que haver viflo,
como o mar cercava toda a terra; donde fe acabou
de conhecer, que ella era Ilha, & não Continente de
Africa, como a alguns até então lhes parecia.
Ainda afli, fenão deu o Capitaõ por fatisfeito,
entendendo, que por ventura,a llha podia ter algúa
povoaçaõ mais aparrada; pelo que procedendo cõ
fua viagem, fempre arrimado à terra defcobrio hum
efpaçofo campo, delpejado do importuno boflue,
que por qualquer parte fe encontrava. Viafe todo
cuberto de viçofifimo funcho: medicinal erva, atè
para as ferpentes; das quaes feefcreve, não pódem
fem efta méfinha, mudar a pèlle antiga com que fe
remoção; q a fer concedida para os homés, fora de
fingular preço: Marathen, lhe chamáraô, fubliman
doa,os Gregos, Feniculum,os Latinos,donde ròs Fã
tho, Ea copia delle, que nefte campo fe levantava,
tomou nome: Funchal, ha muytos annos celebrado,
pella Cidade alli edificada, cõ o porprio nome Me
tròpoli da Ilha,& q no foro efpiritual,o foi ja de to
do o Oriente. Os Portuguezes antigos, com gran
de diferença das outras naçoés, conquifladoras do
múdo, moftràraõ a fingeleza, & pouca ambição de
feus animos, nos nomes que derão às terras de feus
defcobrimentos,não lhes mudando os q tinhão,&fe
de novo lhos impunhão,eraõ aquelles ja natureza,
H12O
332 EPANAFHoRA AMorosA., III.
naõ a vaidade, lhes oferecia. Procediaõ deftevalle
do Funchal ao mar, tres caudalofas Ribeiras, & de
fronte delle, na boca da praya em que fe rematava,
fe erguiaõ dous Ilheos, que como guardaventos, ou
briombos, de aquelle lugar ameno, para feu reparo
tinha alli prevenido a natureza.
Neftes Ilhèos, tomou abrigo para fuas embarca
çoens, Joaõ Gonçalves, & nelles agoa, & lenha, de
que jà fe via falto. Porém debaixo de toda apaz, &
fegurança, que via, como efperto Capitão, nunca
confentio, que feus foldados dormifiem algúa noite
em terra, em quáto ella de todo não eftiveffe fabida.
O dia feguinte, fazendo a me{ma derrota, che
gou a ver a ultima ponta, que para o Sul havia devi
fado. E nella mandou logo arvorar aquele Santi
fimo Padrão da Cruz, que em todas as partes, por
ordem, & devação, deixava levantado. Dobrada ef.
ta ponta, apareceo húa praya, que por fua capaci
dade, & manfidaó das agoas, que nella quebravaó
vagarofamente, chamou: Praya fermofa. Pafãdo ma
is abaixo, entre duas pontas, dèfagoava húa furiofa
corrente, mas de taõ claras agoas, que brindâraõ á
curiofidade de alguns, que lhe pedifem licença para
ir vela. Concedeoa o Capitaõ a dous foldados de La
gos, que ele muyto prefava. Os quaes defprezando
ováo,& mais as vidas,quizerão paffar a nado fua tor
rente, que de novo afanhada, parece, de tanta oufa -
día, arrebatou os mancebos; & de tal forte os levou,
ià (em acordo, que a não ferem dos companheiros
pron
DzscoBRIMENTo DA ILHA DA MAD. 333
prontamente focorridos, logo alli pereceraó. Deu
etefucefo ocafião, a que aquella Ribeira, fecha
mafe, dos Acorridos, como nofos antigos pronunci
avão, & nós hoje, dos Socorridos; com mais decente
memoria, que a celebre enceada dos Agravados, de q
no mar de Arabia (tambem por outro fucefo) fazé
menção noflas hiftorias. -

Pouco adiante fe motrava húa rocha delgada, 4


mais que as outras fe erguia, abraçada de hum braço
do mar (ou já feja rio) que por entre o outeiro, &
a rocha, fe entremete fazendo largo remanço. Reco
lheraófe ali os bateis,parecendolhe ao Capitão,que
por ventura aquelle lugar guardaffe mayores fegre
dos, que os paflados; porque a marinha toda fe efta
|va vendo, fovada de pès de animais, o que atè então
em nenhüa outra parte havião achado; porém cedo
forão defenganados deta novidade, começando a
faltar na agoa, com grande alvoroço, muytos lobos
marinhos (de taõ efpantofa, como eftranha prefen
ça) defde a concavidade que fe fazia, pela fralda
do monte, naqual fe formava húa lapa grande a ma
neira de camara, lavrada pelas ondas (que furiofas
baté na terra)com barbara arquitetura;dôde aquel
les animais, tomavaõ recreaçaó,& faziaô vivenda:
da qual camara dos lobos, que nella forão defcuber
tos, por ventura, à maneira q em Roma, os Germa
nicos, & os Africanos,pellas Provincias que trouxe
rão ao Imperio; veyo quafi infenfivelmente o apel
lido: de Canana de lobos, a Joaõ Gonçalves, que defº
• " …, pois
334. EPANAPHoRA AMorosA III.
pois deu nome a fua familia, & defcendencia: hoje
entre nós não fô conhecido, mas iluftre, fegundo
moftraremos, pelo que delle nos cabe.
Aqui (e tornava a cerrar, tanto a nevoa cõ o mar,
fe erguiaõ tanto os rochedos, & femultiplicavatan
to o eftrondo das agoas, que parecia impertinente
audàcia, fobre o paflado, aventurar a hum ruim fu
cefo, todos os bons, que fe haviaõ confeguido def.
ta jornada. Detriminando o Capitaõ, & noticiofo
de quanto a Ilha continha, ferecolheo aos Ilhéos,
donde deixára furtos feus navios; & dentro em pou
cos dias, preparado de agoa, lenha, aves, prantas,er
vas, terra, & todos os outros finais que pode haver,
& ao Infante feriaõ mais agradaveis, fe voltou para
o Reyno; aonde com profpera viagem, chegou pel
los ultimos de Agofto do mefmo anno. Mas aben
do que o Infante Dom Henrique,o efperava na Cor
te delRey feu pai, fem fazer demôra no Algarve, fe
partio a Lisboa; em cujo porto entrou, fem haver
perdido navio, ou homem, & havendo ganhado pa
ra efte Reyno,a melhor Ilha do Mar Occeano Occi
dental.
ElRey, & o Infante, receberaõ a Joaõ Gonçal
ves com fuma alegria, a qual, dos finais de feus gene
rofos peitos, refultou a todo o Povo. Deraõ publi
camente graças a Deos, pela mercè que lhes havia
feito,defcobrindolhes novas terras, & mares,que fo
geitara a feubendito nome. Defpois deta folenida
de, parecco.conveniente, ouvir
- • . -- - a Joaõ Gonçalves,
• Fare
*
|-

– #
DzscoBRIMENTo DA ILHA DA MAD. 335
em audiencia publica, para que os Embaxadores,
& Efrangeiros, que frequentavaõ a Corte Portu
gueza, pudefem fazer mayor conceito defla acçaõ,
comunicandoa a feus Principes, & naçoens: arte que
entre os grandes Monarcas, fempre foi obfervada:
difimular igualmente, as ruins novas de feus fucef.
fos, & inculcar as boas. Da qual arte não devia de
ter noticia, certo miniftro, de papeis de nofo tem
Po, que com importuna cifra, remetia a relaçaõ das
profperidades do Eftado, ao Embaxador, q afiftia
na Corte do Rey,de quem efiava mais depédente.
Chegado o dia da audiencia,&prefentes todas as
pefoas Reais, & os primeiros fenhores do Reyno,
q então concorriaõ na Corte de Lisboa. Os Emba
xadores,Miniftros,& Criados;com toda a põpa decê
te, entrou na falla, Joaõ Gonçalves, acompanhado
das pefoas de mayor conta de fua Armada;&pcfio
de joelhos diante delRey(fegundo nofo antigo ufo)
lhe beijou a mão, com os mais q o feguião; & feito
ao Infante Dom Henrique, o acatamento cóveniête,
fédo por elRey nãdado alçar, falou defia maneira.
Contarvos, Senhor poderoffmo, os trabalhºs q "fºfa
mos nefta perigrinaçaõ proluxa, ainda que breve, por mares
nunca vifos,é terras nunca difcubertas,fora em algum mo
do prezar os ferviços, que nella vos fizemos; mas eles,p Ho
que grandes,jánaã tem valia, junto da mercè, que nos fais
fazendo, folgando de nos ver, & ouvir em veja realprefn
gathonrainos menos poderemos dizer mais. Agoratado pare
cerà infrior anº/a cbrigação,ainda que/ asa,ºu/**fine
por
338 EFANAPHoRA A MorosA III.
Pouco defpois foi ordenado, que no veraõ fe
guinte (porque o prefente etava já no fim:)Tornaje
Joao Gonçalves à Ilha da Madeira, com título de Capitaõ,
ts povoador dela. Ao qual hoje acrecentaõ, o de Con
des, aquelles que potuem feu môrgado. Houve a
jornada efeito, em Mayo de 1421. Concedendolhe
elRey: Pude/e levar dº Reyne, alem da pe/oas que lhe
pareceffe, que com elefo/em voluntaris, todos os crimino
fos, ºs os condenados que houve/e. Porêm, Joaõ Gon.
çalves, com nobre advertencia, naõ admitio a fua
companhia, neta (egunda viagem, algum homem, |
que de culpa ou acufaçaõ fea, etivefle notado.Def
ta forte apercebido, com fua mulher, Confiança
Rodrigues de Sà, aquem outros dizem, de Almei
da, & Joaõ Gonçalves, feu filho herdeiro. Elena,&
Beatris fuas filhas, que defpois cafaraó nobremente
faio de Lisboa, & chegou em breves dias á Ilha, já | |-

dita,da Madeira,lançando ferro, em aquelle proprio


porto que atè entaõ fechamava: o dos Ingrezes; ao |


|-

qual,João Gõçalves,por memoria,&hõra de Rober +

to, O machino,feu primeiro defcobridor,deu nome:


(Porto do Machino,que defpois vulgar mente fe dife:
Machin,& Machino,coms hoje fenomea,pelo vicio,
que em nós ha, de pronunciar curvamente a letra,K,
dizendo fempre, Cha, em lugar de, Ca, quando o, H,
fucede ao C, a que os Litinos deraõ ocafião, fuprin
do o caracter proprio dos Gregos, K, com etas duas
letras,C, H, porque do, K, Grego, fò ufaõ em duas
dicçoens, Kalendas, & Kriºs, & nofos vulgares em
nenhúa
DesoBRIMENT o DA ILHA DA MAD. 339
nenhúa; cfcrevendo, Monarchia,& Chiromancia, com
os mais femelhátes,fempre por as letras,C, H,dizen
do fóméte Monarquia,& Quiromancia:obfervação que
os rudos eftragaõ, ou defentendem.
Saindo João Gonçalves em terra,como o melhor
edificio, que fe confagra á efperança, feja aquelle,
que abre feus alicerces em o agradecimento; a pri
meira coufa que fes,foi traçar húa Igreja da invoca
ção de Christo Salvador,como em fua infcripção,o In
gres Roberto,inftantemente pedia, aos futuros habi
tadores. Para efte efeito fe cortou a notavel arvore,
que cobria o Altar,& fepulturas;& o novo Templo
{e fabricou em tal modo, que a Capella,teve por pa
vimento, os ofos dos dous defditofos amantes, sô
nefta ocafião bemafortunados.
Pafoufe logo ao Funchal, porque para reparo
das embarcaçoens, eraõ, como difemos, os llhèos
mais acomodados; que a cofia;& parecendolhe pel
la abundancia da agoa, & fermofura do vale dos
- funchos, efte fitio muy idôneo de povoação, deu
nele principio á Cidade do Funchal, que em breve
fesiluftre; cujo primeiro Altar ofereceo a Deos,fua
mulher Contança Rodrigues, matrona piadofifi
ma,debaixo do orago,& patrocinio de Santa Cate
rina Martyr. Contra o que (não taõbem informado
como cofluma)efcreveo João de Barros,em fua pri
meira Decada da Azia,antepondo a efta fundação,a
de outras duas Igrejas. Da mefma forte, he força
que duvide do incendio,que ele afirma,durou fete
• 21h11OS
44O E PANAPHoRA A MoRs.A III.
annos por toda a Ilha. Ao que, parece, impilcão os
bofques,q fempre nella premanecerão, dos quaesha
tantos annos, fe cortão madeiras, para fabrica dos a.
fucreside 4 dizéchegou a haver na Ilha,céto & cin.
coenta ingenhos; q mal poderião continuamente
fuftentarfe, defpois de hum incendio taó univerfal,
& menos produzirfe defpois delle: mas fique fem
pre falvo, o credito de tal Autor.
Morto el Rey Dom João, & confiderando feu
fucefor, & filho, el Rey Dom Duarte, os grandes
difpendios,que o Infante Dom Henrique,{eu irmaõ,
havia feito,no defcobrimento, povoação,& cultura,
da Ilha da madeira,lha doou pelos dias de fua vida.
Foi feita eta mercè em Cintra, a 26. de Setembro
de 1433. Defpois pelos proprios refpeitos, como |
Principe religiofo, & magnânimo, q el Rey Dom
Duarte era,concedeofe à noffa Ordem de Chrito,
a perpetua jurifdição efpiritual; que correndo os
tempos, tábem defpois confirmou elRey D. Affon.
fo Quinto, em o anno de 1439.
Tanta era a benignidade, & atenção de nofos
Reys, para augmentar a honra de feus vafallos, que
com grande etudo,tratou elRey Dom João,de iluf
trar de novas armas, o apellido, pefoa, & defcenden
cia de João Gonçalves, nem faça novidade,que lhe
mudaffeo brazão, vendo os exéplos em os proprios
Reys Portuguezes, cujo primeiro efcudo,fendo húa
Cruz fômête,fe trocou ao q hoje vemos,có não pou
ca variadade, pelfo difcurfo dos tempos. "… C |
DesoBRIMENTo DA ILHA DA MAD. 441
elRey % Ioão Gonçalves, tema/e em memoria da Ca
mara dos lobos,que ele de/ccb, ára,& que então fetinha por
lugar mais finalado, em toda a Ilha, hãa torre de pratacu
berta, é rematada em hãa Cruz de ouro, & dous lobos de
Jua propria cor,em pè,rompendo contra a torre? verde o cam
po do E/cudo,que taes faó hoje deta familia as armas,
Da propria forte que ellas fe mudâraó, fe acre
centou també o apellido; ajuntando ao de Gonçal
ves, q não perderaó, o de Camara, dizendofe Camara º
de lobos ao principio, q defpois forão deixando. A
chei em Catella, ete apelido na Cidade de Gua
dalaxara, & feus contornos, em pefoas de muyta no
breza,mas não pude averiguar, cõ q origê, ou fe dos
Camaras de Portugal o havião recebido. Elle entre
| nòs, teve logo em feu começo, o cuidado dos Reys,
não fó para o favorecer, mas para guardallo; porq
fucedendo, q Simão Gonçalves da Camara, filho do
,fegundo João Gonçalves,fegundo herdeiro da cafa;
porã não naceo primeiro , & a herdou por morte
de feu irmão mais velho João Gonçalves da Camara
continuou deípois de herdado, em fe chamar: Simão
de Noronha,como antes de herdeiro fe chamava (por
fer filho de Dona Maria de Noronha,á fora filha de
D. Diogo Henriques, filho bafardo do Conde de
Gijão D.Afonfo)lhe mandou elRey D. João o II.
Que ou/e chama/e da Camara, comº feus pa/ados, ou dei
xa/e/eus bens afeu irmão, q estava prestes para com/ervar
feu apellido. Como fe lê na Cronica de aquelle Rey,
não fem caufa,de nòs, & do múdo,chamado: Principe
perfeito. Y 2. NMas
442 EPANAPHoRA AMoRSA III.
Mas por dizermos tudo, diremos, que a cerca da
Patria de João Gonçalves da Camara,ha duvida en
tre os Geneologicos? porque huns o fazem natural
de Tomar,outros de Portalegre,alguns de Matozi.
nhos, com que parece conformarfe feu cafamento,
que foi com a filha de Rodrigo Anes de Sà, fenhor
da terra de Almoym,& Gaya,& do Caftello daFei
ra, vifinho, & herdado naquelle deftrito. Não pou
cos cuidarão fer de Entre Douro, & Minho, pare
cendolhe, qofobrenome Zarco, podia fer Arco, ou
Arcos,corrutamét e dito; mas algüs Nobliarios anti
gos, dão a entender, como coufa certa,que o cogno
mento Zarco, ou Zargo, era alcunha procedida da
cor dos olhos; porque aos azuis claros em demafia,
chamamos deta maneira. Outros querem fe lhe
trásfèrife o apelido:Zargº,havédo morto em Afri
ca, hun Capitão Mouro dete proprio nome. Poré
os que duvidáraõ da Patria, fempre foraõ cóformes
em teu nobre nacimento, que iluftrado de copiofi,
& clara fuceffa5, nada vemos que lhe falte, para cóf.
tituir a João Gonçalves,hum varão famofo entre os
nofos; por q não contando as cafas mais antigas, de
que por incertas, não fazemos memoria, poucos ho
mens havemos tido em Protugal, de tão opulentas
defcendencias,a quem devem fua Baronia,tres Có
des dete apellido: Calheta, Villa franca, & Atou
guia; fupoto q o ultimo, por pofluidor de alheos
mórgados,o não ufe. A cafa de Abranches,& Cama
13,5 em tudo pode igualarfe às titulares, & fe acha
hoje |
. DescosRIMENTo DA ILHA DA MAD. 443
hoje guarnecida de grandes potos, fazenda, tem
a propria baronia. E por cafamentos, procedem de
João Gonçalves, a 1. titulos defe Reino (como bé
podé averiguar os curiofos linhagifas)que faõ Fei
ra, Cantanhede, Serèm, Santa Cruz, Obidos, Caf
telmelhor, Vidigueira, Villa nova, Sortelha, Ta
rouca, Penaguião, Ericeira,Vnhão, Villapouca,Ba
fio, Atalaya, Sabugal,Palma, Abrantes, Figueirò,&
hoje em Cafiella, Torresvedras; com todos os fe
gundos, & defcendencias deflas nobilifimas cafas.
E das que não faõ titulares, tem de João Gonçalves
a propria defcendencia: a cafa dos Alcáçovas, a do
Marichal, a do Almirante, os herdeiros do Porteiro
mòr, os do Alcaide mòr, & Comendador de Cafiel
lo Branco, a do Mòrgado de S.Vicente,a do Alcaide
mòr de Lamego. Até vós,Senhor,tendes em vof a ca
fa o herdeiro da de vofo pay, & avôs, neto tambem
de João Gonçalves. E porque em fuas coufas, naõ
pareça inválido meu tetamnuho, he rezão, que eu
me conte em a propria lifta de feus fuce flercs; não
com menor obrigação, que alguns que tenho refe
rido: pois tirando os que pofluem os mòrgados de
fuas baronias, fou eu quem goza o mayor mòrgado
da familia dos Camaras, inftituido por Antão Ro
drigues da Camara, que foi materno avó, de meu
avó paterno;& neto de João Gonçalves da Camara
filho de feu fegundo filho, Ruy Gonçlaves, fenhor
da Ilha de S. Miguel, donde fundou ( mas não me
nor ) a fegunda cafa titular defe apelido; &donde
------ - Y3 Antão
444 E PANAPHoRA A MoRos.A III.
Antão Rodrigues da Camara, ficou bem herdado.
Agora vereis, Amigo (fe cá tanto adiante vos
deixarem chegar por eta leitura, a ocupação, ou o
enfadamento)como fem neceflitarmos dos exéplos
de alheas hiftorias (como vos propuz no principio
deta) achamos mais certas,& vifinhas,détro de nof.
fa cafa, aquellas de que podemos receber doutrina,
& exemplo. Nefta facil pintura,fem os retoques da
erudição antiga, fenos reprefentou vivamente o pe
rigo, de hú Amor defordenado. A variedade de húa
Fortuna violenta; cujas noticias, melhor nos depe
dem, que perfuadem a outra forte femelhante: por q
cegaméte oufarà aquelle, que em fuas demafias ef.
perta a fer mais ditofo, que os que por ellas fe perde
raó. De outra parte fe età vendo o valor,& contan
cia de hum Capitão excelente, coroado de iluñres
premios de intereffe, & gloria. A excelencia de
Principes magnificos; & como no ferviço dos
Reys, a pefar de toda a opofição, he
ÇCICO O AU1II1CIltO.

3#
&###

CON.
co NFLITo "
DO CA NA L DE INGLATER R A
Entre as armas Efpanholas, & Olandezas.
Anno 1639.
EPANAPHORA BELICA QUARTA DE D.
Franci/co Manuel.E/crita a hum amigo.
# AVENDO eu comunicado cõ homés dou
# tos, o intento que tinha, de efcrever algüas
Relaçoens hiftoricas, dos fuceffos grandes,
de nofa nação Portugueza, & dandolhes parte dos
afuntos dellas; quando cheguei a efia, que agora
vos ofereço, houve quem a julgafe quafincompe
tente, ou defviada do fogeito propofio: não fendo
elle outro,q referir para engrãdecer os feitos de me
us naturaes. Iuftifiqueime cntão com boas razoés,
entre as quaes eta muyto valia: Que grande parte das
armas, ocupadas naquelle congre/o, forão regidas porno/os
Lufitanos. Forças,navios,ês difendios de Portugal, nos fa
vião proprio feu emprego. Quanto mais, que eu não entendia
wfupar a gloria de algãa alhea nação, repartindo por outras,
a lembrança de tañgrande perda. A mefma loftima,eu cem
fura,que lhe re/ulta dife/ucefo,deixo expºfia a cauf dele:
pillo que, nem os amigos, nem os emulas, ficaõ em algia con
Veniencia defraudados; para que feus historiadores, me de
mandem de/pois a utilidade da honra,cu fama,que lhes tiro,
tomando para nós, a parte que nos couber do e/carmento, ou
da confiancia.
Z4 Mas
446 E PANAPHoRA BELICA IV.
Mas fe em aquelle tempo, tivera eu ja a grãde ra
zão, que hoje tenho, para dar aos críticos, fó defa
ufara. Diferalhes: Que achandovos no manejo dos negocios
de 14gliterra;em cuja Corte,vos faReis taõ benemerito, como
aplaudido por Prudencia, Fidelidade, & Luzimento,ba/-
tante/borno, me feria para obrigarme a referirvos negºcios
tam arduos, que me/ propria Corte/epa/arão; donde por
ventura, may is vezes havereis encontrado/uas noticias, &
nam duvido, que feus exemplos.
Refta que a memoria me focorra, com todo o ca
bedal neceffario, para duas grandes obras. A pri
meira ferá húa incorrupta informação da verdade.
A fegunda, húa fuficiente força, para refutar os in
certos efcritos, que fobre efte cafo publicàraõ Ef>
panhoes, & Etrangeiros. •

Virgílio Malvezi, Autor iluftre, mas animofo, q


por cotume, ou pena de fua infeparavel adulação,
quis pezar os fuceflos, de trinta & outo na Livra, &
efcrever os de trinta & nove na Hifloria, por mais 4
motra haverfe informado de huns, & outros, bem
denuncia, quanto teme referir efte fuccffo, que eu
me difoonho a ef>rever; o qual, Virgílio em poucas,
& confufas regras definintio, & abreviou, dando ao
filencio por fiador da verdade.
Seguiofe Galeazo Gualdo, na fegunda parte de
flas Memorias univer/ais; mas taõ defeituofo na averi
guação dos acontecimentos, como fempre cutu
mão os que efcrevem de longe, & fem autoridade
de Principe,que lhe franquee as portas dos fegredos
E por
CoNFL IT o Do CANAL 447
E porque pela afinidade de nofas profifoens,mi
nha,& de Gualdo,eu me compadecida perda, & rif.
co, em que fe via o credito defte Autor (digno, por
certo,de aplaufos) lhe efcrevi a Veneza, por mãos
de Alexandre Móra, eu patricio, advertindo o de
algumas circunftancias competentes, com que bem
podia ornar de proveitofas emendas, afegunda edi
ção de fua hiftoria, como jà fes Paulo Jovio, pelas
doutas cenfuras,de nofo infigne Cronologico,Gaf
par Barreiros. Mas malogrãdofe meu bó zelo (como
as mais vezes lhe fucede) fui refpondido de Italia: 4
Galeazo/e achava na Baviera,chamado de aquele Eleitor
porã ainda là parece, que chamão os Principes aos
Sabios)& avifava Que de volta a Veneza,me mandaria a
repofia, (s/atisfação,que até agora não tenha viflo.
- Menos culpo o error, com que logo os Olande
zes, em feu familiar Mercurio, manifeftáraõ ao mü
do fua vitoria; porque o goto he fempre violento,
junto à caufa de que procede: & quanto deles foi
menos efperado efte funeto triunfo, fe esforçou
mais defordenadamente a alegria de publicado. O
grave cofume de aquella Républica, na moderaçaó
de feus louvores, fes parecer efte fucefo menos fiel,
quanto a Relação delle, foi menos confiderada.
Por tantas verdades,& por tantas queixas, ha de
tomar agora a minha pena: & e/pero confeguilo cõ
felicidade, inda que á cufta de grãde trabalho;porã,
como de tudo fui teftemunha, achandome em todos
ºs açõtecimétos defes negocios,não deixarei algús
$( [G
448 E PANA PHoRA BELICA IV.
a memoria devida,pella preséça de todos. Por outra
parte,havédo ele já pafado ha tátos annos,eftão os
afectos ferenos,domados,& obedientes,affi á razão,
como à lébrança; de forte, q fenão poderà dizer de
mi, como de outros: Que efcrevo com pena parcial a al
gum partido: pois fobre annos, efcarmentos, & defin
tereffes, o proprio curfo dos cafos, me foi levando a
hú eftado, q nem com o louvor, né cõ o queixume,
devo, ou pofo, exercitar lifonjas, nem vinganças.
Quanto mais, que fatalmente parece, que fou o
brigado a referir ao mundo efte fuceflo; porque com
efta (aótres vezes, as que o tenho compoto, fem q
de húa a porveitaffe para outra, hum fôtermo, ou
hum papel fómente.
Compus a primeira Relação, logo que cheguei a
Flandes na mefma Armada, por efpecial ordem,
do Cardeal Infante Dom Fernando, que governava
aquelles Eftados. Então fua Alteza,por não dilatar
o avifo,o pouco tépo que fe gaftava em copiar o dif.
curfo, q eu lhe aprefentei; mandou o proprio, a el
Rey Dom Felipe, feu irmão.Defpois para fuprir ef
ta falta,me pedio o original,feu fecretario de efiado,
Dom Miguel de Salamanca; o qual de minha mão
recebeo, para nunca mais fer delle reftituido.
Seguiofe à jornada, que fiz, de Fládes,a Catella,
outra de Catella, a Aragão; donde achandome al
guns mefes ociofo, antes de darmos principio a a
quella infauta guerra de Catalunha (& eu tambem
a fua hittoria ) tornei alli a efcrever ete proprio
Con
. CoNFLIT o Do CANAL 449
Conflito do Canal de Inglaterra, fem ter do pafla
do opufculo outra ajuda, falvo efte nome, que em
todos lhe confervei. Porêm, efia fegunda Relação,
eftandofe jà copiando, deu o mundo tantas voltas,
& tantas comigo minha fortuna,que em breves tem
pos,vim prezo á Corte de Madrid,& na do exercito,
me forão tomados meus papeis;os mais, & melhores
que atè então havia efcrito, & q até hoje me não
tornaraô á mão, ficando em as de D.Gregorio, Ro
meiro de Morales, q tinha a Secretaría de aquella
guerra; donde entre outros originais, que não pude
reftaurar, perdi tambem efte, a que agora (como
já vos diffe ) terceira ves, dou principio: para que
não fô me foffe cutofo o perigo, que em aquella o
cafião paflei; mas atè o referillo,me cuftafe trabalho.
Terceira ves, difponho agora a Mente ao novo
dibuxo deta hiftoria; mas conforme ao premio, que
} ja levo de antemão,em vos dar contentaméto,venho
{ a prefumir, que foi por muytas razoens ordenado,
que primeiro paffaffe tantos inconvenientes, pois
havia de alcançar por elles: Ter a Platão por ouvinte;
coufa que jà o Orador de Athenas etimava,em ma
is que achar o mundo inteiro por auditorio
Procurarei, que a verdade de fou valor, pague o
que faltar na eloquencia; & defia efpero igualmente
alcançar, aquelle cabedal neceffario, para que nem
difluftre,nem confunda a imagem do cafo,que retra
tamos aos tempos.
Pudera fofazere{crupulo, de lhefutaraosnrgº
- •cios
45 o E PANA PHoRA BELICA IV. ,
cios, que tendes a vofo cargo, aquelas horas de a
tenção, que derdes a efia leitura; fe não vira, q voto
grande talento,excede à copia dos negocios do mef.
momôdo, que vofia confiancia à das dificuldades, q
delles fe produzem; para que de tantas maneiras, fi
quem vencidos os interefles, que a tantos outros fo
rão venenofas biboras, que docemente morderaó,
& inficionaraó, com perigo da vida da fama, que os
Varoens altos,preferem à natural,por aquella gran:
de ventagem,que aos dias leva a eternidade; da qual
vos efpero herdeiro, defpois de grandes felicidades
temporaes, fe pode havellas no tempo. Do Efpi
nhel em trinta de Setembro de 1 659.
V. A. 1). F. M.

Vebrantadas em Alemanha as armas dos


Godos, em que fucederaõ os Suecos do Grã
de Guftavo Adolfo, pelos Imperiais, & Ef.
panhoes, junto à Villa de Norligun, que deu nome
a fua memoravel batalha deceo triunfante aos Paí
zes baixos, o Cardel Infante Dom Fernando de
Auftria; o qual, pofto que começou o governo de
Flandes, com alguns felices eventos,que como atro | {
propicio, parece lhe tinha pronoficado a primeira
vitoria; cótudo, como a guerra feja o mais incerto
teatro,que a fortuna fenhorea no mundo, logo nelle
fe foraõ reprefentando contra os Efpanhoes,taó cu
fofas variadades, quaes fe virão no incurfo de Ter
limon, & Lovayna, &na perda de Bredá, & outros
fitios
CoNFLIT o Do CANAL. 45 1
fitios; porque concitadas as armas delRey Cliftia
nifimo,da propria melhora dasCatolicas,pella jufti
ça, felicidade, efcandalo ou artificio, dos Auftria
cos, fizerão comum,com os Olandezes,feus antigos
aliados, & dependentes, o interefle da ruína Cafte
lhana, & Germanica. /

Então as forças Efpanholas,repartidas à opofição


de dous poderofos contrarios, como ja fe moftravão
pelas Provincias de Gueldres, & Artoes chegaraõ
a ver, que não fó as perdas,mas as vitorias lhe cufta
vão exce fivo dano. Fora pouco tépo antes iluftre a
refittencia do dique de Calò;porém comprada,apre
ço de mil & trezentas vidas de Efpanhoes, com me
nos de meya hora de combate. Pouco mais barata a
retirada do Frances, fobre San Omer, & nos recon
tros de San Nicolâs,& outros femelhantes, em Vlft,
& na Gueldria, fehavia perdido de gente, quanto
fe ganhâra de reputação.
O reparo detas quebras, & a prevenção q fe po
dia ter por certa, pellas q reciprocamente padece
raó os contrarios,obrigou ao Infante Cardeal,ã viva
*
mente folicitaffe em Efpanha, hum poderofo focor
to. Aquelle Confelho de Eftado (donde fe acha
, vão muytos, q havião governado na guerra de Flan
des)veyo por razão, & afecto: Em 4/e de/e 5 gran
de brevidade ao Infanee, hãagrº/a affiencia de gente, &
} dinheiro, cõ q poder melhorar feu partido,no verão fºguinte.
orq inutilmente fe canfa, em ajuntar forças,quê
*
divididas as deu,defpois adefbaratar a feu "#
CRT
45 2 E PANAPHoRA BE LICA IV.
Pertence à ventura dos Princepes,fer bê aconte
lhados de feus miniftros; tmas incúbe fobre fua con
ciencia eleger miniftros,äbé os aconfelhem. Os ho.
mês méramente civis,& cortefaós, que jâmais vefti.
raó as armas,não só as ignoraó,mas as aborrecê, dou
raõ de zelo,o odio,& fingindo defamar a licença da
guerra,fimuladaméte encontraõ aquella foberania,
de que fe adornão os efpiritus nella exercitados.Da
guerra,(e aflombrão cõ o tacito perigo,& dos guer.
reiros có a excetiva ventagem;donde procede, que
os miniftros pacificosjámais fedefvelad pelas ocu
récias militares. Não affi aquelles que as experimé
taraó,porq de ordinario fe a diátaõ a prevenilas,pel
la viva aprehenção de cafos femelhantes,q por elles
paffaraó. Mifero ferà o regimento de hum Principe,
que as expediçoens de feus exercitos, encomendar
a pefoa, que já mais padece o feus incomodos.
Os Cófelheiros de Caftella refolutos,como referi
mos,bufcarão todos os meios,de ajútar géte, & em
barcaçoés;& os efeitos,cõpetétes ao grãde difpédio,
a q fe expunhão.Sucedeolhe neta o cafião à Coroa
Caftelhana,o q aos doétes perigofos,q em defconto
do rifco,&atroco da faude nenhú remedio engeitão
Deta maneira,vimos abraçar algús modos indecê
tes, a fim da códução dete focorro, porq fazêdofe
cõ pefoas particulares(&muytas indignas) affentos
fobre graõ numero de géte,q fe o brigavão a meter
nas praças de armas propofias, as quaes logo foraõ
declaradas,Cartagena,&Corunha;acôteceo,q no co
raçao
CoNFL 1T o Do CANAL. 453
ração das melhores Cidades de Efpanha, & na pro
pria Corte,andafsé de dia,& de noute, como as Ca
bildas em os defertos da Arabia,de géte armada, ca
tivando os miferaveis inocétes, q atrave favão def
cuidados,as praças,& ruas,de fuaRépublica. Efes sé
algú remedio,ou Te regatavão por boas fomas de di
nheiro,ou em groflas cor étes erão tráfportados, a
entregar nos portos prevenidos: mais deshumana
méte,que nofos Criftãos proprios,faõ vendidos no
barbaro Soco de Argel.
Deta efcandelofa defordem, procederaõ muytas:
defpovoando jà o temor dete perigo, de tal ma
neira os lugares mais populofos, que levantando os
Grandes de Efpanha, por efte tempo, & para o pro
prio efeito, levas de gente, com que eraõ obrigados
a contribuír ao ferviço público; nem nos lugares de
feu dominio,nem em os Reais,fe achava hum sò ho
mem, que voluntariamente quizefle fentar praça de
foldado; oferecendolhe por vandos,& ediótos, gro
fiffimos focorros cada dia.Lembrome haver vito na
Villa de Talaveira do Tejo(a quem chamão da Rai
nha,& diferaõ Telebrica,os Romanos)povo rico, &
grande do Reyno de Toledo, que pelo focorro de
defafeis reales cada dia, prometidos a cada foldado,
pello Códeftable de Caftella,& Duque de Infanta
do, q alli formavão fuas côpanhias, não fe achou al
gum mancebo,que acodife a fogeitarfe,debaixo de
algúa de aquelas honradas, & proveitofas bandei
ras. A vitadeíta obfervação,fervirà de efpanto aos
<i-se
454. E PANA PHoRA BELICA IV.
que vierem,fabendofe certo, que no mefmo tempo
que em Efpanha fe padeceo eta careftia de gente,
houve dous homens, cujos nomes etão: Don Ventura
de la Canal,5 Don Luis de Monçalve (ambos conheci,
& tratei por muyto tempo) que por affento com el
Rey, conduziraó fem humanidade, mais de dez mil
Efpanhoes, pelo modo referido; recebendo por
cada cabeça, nas praças de armas, vinte & humdu
cado Caftelhano, que da nofia moeda, fazem nove
mil & duzentos & quarenta reis.
Era mayor a infolencia: porque mu ytos receben
do a autoridade detes dous, que elRey lhes déra,
ou a cafo, fòméte paleada permifaó, eles felança
vão a cativar gente, fem exceição, ou refpeyto, jà
pelos caminhos, já pelos campos; aquella que em
fè de fua paz,& utilidade,os cultivava.Talvez den
tro das cafas proprias, com falfos pretextos,eraõin
folentifimaméte, affaltados os moradores,aos qua
es defpois efcondidos em covas & cafas fubterrane
as, vendiaõ feus opreflores, a aquelles obrigados a
elRey, por cutofo preço;fabricando deta horrivel
maldade, húnegocio tão corrente, como o de qual
quer licita comutação, & mercancia de gados trans
feridos, de hum termo, a outro.
Efcreveo cô toda a inteireza, o que vi muytas ve
zes, & quafi me pafou pelas mãos; porque como
em aquelle proprio tempo, & para a mefma guerra,
eu levantaffe hú Terço em Portugal;& defpois em
Catella o reto delle,fui muytas vezes convidado
dos
CoNFL I To Do CANAL. 455
} que tinhão efte trato (que juflificou a malicia de
Antonio, Lepido, & Auguto, tão declamados no
Mundo) para proverem de alguns foldados, que fal
tavão por efte atrozifimo meyo; do qual fe Deos
quis,que eu não uzafe,vi ufar a muytos: que foi fem
falta o primeiro aufpicio infauto, cõ q fe começou
a infelice empreza, que referimos.
Tambem à nofa Coroa, coube grãde parte def.
tas afliçoens comúas;fendo ordenado: Que em Portu
gal/ºfive/Sem levas para quatro Terços. Não fei, fe com
mayor necefidade, de acodir com grande copia de
Portuguezes, aos movimentos externos da Monar
quia,ou fecó mayor defejo de prevenir os internos,
que no Reyno podião temerfe avifados das revolu
çoens de Evora,pouco antes fucedidas;as quaes dei
#
xamos efcritas, em a primeira de nofas Relaçoens,
na Epanaphora Politica.
Por efta caufa executadas as levas, já dos quatro
Terços, que podemos dizer Municipais,ao modo an
tigo,por ferem aplicados ao ufo das Legioensivrbanas
procederão adiante as cundutas dos Portuguezes,
fem que as noflas Ilhas, tendo por fofo,todo o mar
Occeano, fe pudefem defviar, ou defender do rigor
das ordens, que para levas femelhantes, fe pafáraó;
primeiro a Dom Diogo Lobo, filho de D. Rodri
go, que por fangue, & minifterio,tinha com as Ilhas
proporção; defpois a Francifco de Betácor de Să,
cã callidade, & mèritos nellas refpeitaveis, pafla
1ão ambos o mar, em bufca de dous Terços de
Z gente
56 EPANAPaoxA BEL tcA IV.
gente defobrigada; da qual, havia famo, abundavío
aquelles Povos, pelo # fe julgava a beneficio, o
metim º que pouco de(pois pode fer fua ruina. A
mim me coube em forte,a Provincia da Beira,Dou
ro,& Minho com Tras os Montes,& parte de Alen
tejo; don de com menos dificuldade, não cõ menos
difpendio, & por ifo cõ menos dificuldade,levantei
quinhétos Infãtes,de q fora encarregado. ABelchior
Correa da Franca (q defpois padeceo míferavel tra
gelia no vovo reynado) tocou o reto de Alentejo,
có Lisboa; mas pouco defpois houve eu de gover
nar todas etas tropas de Portuguezes; porá D.Dio
go pafou ao Brazil, o Betancor não chegou à Praça
de Armas, & o Correa fôra de tempo.
Bem notou aquelle moderno, como etimado Po
lytico, que dife: Era danof, a fama, comº fe provanº
grito do Ca/cavel, que acõPanha as aveas de rapina;as qua
es em vão procurão definentir feus voos, em quanto dellefe
acompanhão. D propria maneira fucede às acçoens }
dos Principes, cujo aparato ja mais pode fer oculto
á obtervação dos inimigos. As grãdes preparaçoens }
*

de Efpanha, foraõ outros tantos avifos, dados ao


Confelho dos Olandezes, para que advertidos da
formidavelpotécia,que elRey D. Felipe aparelha.
va contra elles; procurafem logo cõ todas fuas for
ças, fuprimir as contrarias.
Cotumavão os annos antecedentes, como pràti.
cos na milicia
naval, ganhar os potos de Flandes
com fuas Armadas, antes que fahiffe a delRey,
Por
CoNFLITo Do CANAL. 457
porque:lho aconfelhava,afia boa difciplina da ter
ra: donde largamente fe tem vito, que fempre fe
conferva, fenhor da campanha, aquelle poder que a
domina primeiro, Martin Hetps Tromp. Tenente
General das armas maritimas dos Eftados,com doze
naos grofas, ufava em os principios de Março, dar
fundo fobre a barra de Dunquerque, melhor porto
do Condado de Flandes, & proprio de fua Provin
cia: cujo nome em a lingoa Belgica, diria o mefmo
que em a nofla: Igreja das Arêas? porque ao que nós
dizemos-Mêdas,dizem Zunas os Framengos,& Ker
Ken, ao que nàs Templo. Era então praça de pouca
defenía Dunquerque: hoje famofa por arte, & por
fortuna, debaixo de varios fenhorios. Bufcavão os
º Olandezes efte porto, como porta de Flandes, que
minifrava igualmente a entrada aos focorros dos
Efpanhoes, & a faida aos pyratas Brabantezes; ella
fechada de fua poderofa mão, pela confiancia de
feus navios, etavão feguros de invafones, & affaltos
porq odo.reto
cuida dos pôrtos de Fládes,lhes dava pouco
• •

Fez varias vezes, dano a todos os Eftados fieis,


ete pelado fitio, que alguns annos prevaleceo con
tra os elementos,por effaço de outo,& nove mefes.
Seis navios grandes, com o General delles, ocupa
vão de ordinario a boca de aquelle porto; dous Ni
uport(ito he Portonovo,famofo pelo Real,que nelle
aflentou Alberto,cõtra Ofiéde)Outros dous a boca
defeu rio. —
Os ultimos fobre a Herr
• Z 2ada de Mardic;
&
! #8 EPANAPHoRA BELICA IV
& nóvo Molle de Gravelingues. Afife repatiaõ
as doze nàos, mudandofe embarcaçoés. & gente,
cada dous mefes, fem que hús felevantaflem do
furgidouro, antes que os outros défem fundo nel:
le. - |-

De aqui veyo,que muytas vezes intentafem,não


fò fer moletos aos portos,mas danofilimos às cida
des, que inquietavão com continuas, & furiofas ba
terias:caufadoras de ruina,& efpanto, aos morado
res. Em opofição dete novo modo de guerra,fe for :
mou aquella nova defenfa de efplanadas portâteis,
a que diferaó: Pontoês,& nós não fei,com que caufa
chamamos: Bichas. Eraõ barcas grandes razas, &
fortifimas, capazes de feis canhões inteiros, que a
lojavão;&gumenas,fazião afeu propofito camara
da de vinte & quatro canhões, temerofa aos profi
ofos Olandezes; que talvez cõ perda cófideravela
experimétarão. Mas entretáto para defpachar avi
fos a Efpanha, de Fragatas fingemas, como chamão
às embarcaçoés futis, q não paflaõ de dez pefas;
era neceffario, que cubertas de fombra da noute, có
força de homens, & artificios, por cima de bancos
de area, & ácuta de immenfo trabalho, fofem lã
çadas: neceficando de tantas ocurrencias, confor
mes para húa falda felice, que raras vezes felograva
fua fadiga, & difpendio neftes avifos. • •

Com tudo,tal modo de guerra,fe julgou conveni


ente, em qnanto o poder Naval de Efpanha, não fu
bia ao Norte; porque havendo de efperafe, #
: >, VI
CoNFLIT o Do CANAL. 459
vinha previnir opofição tam poderofa, que contra
pezafe agloria, com a conveniencia. O que bem
conhecido pelos eftados, ferefolveraõ em armara
quele anno de mil & feiscentos & trinta & nove,
húa Frota de quarenta & quatro nàos, com que có
fiadamente podefem oporfe á Armada Catelhana,
&lhe dar batalha,fe convieffe.Mas fupoto que no
tavão algúns Miniftros de Olanda: Que 4/ua Repu
blica não era vtiltam grande empenho,/obre materia incerta
(afi julgavão ainda a expedição, & encontro dos
Efpanhoes) cótudo, efta dificuldade fevencia com
a oferta, que de feus poderes fazião aos Eftadosas
duas companhias de Oriente, & Occidente; & de
outros particulares, que como em guerra fanta(tal
lhareprefentava o odio,que exercitavão)fe preveni
são em favor dos defignios, & interefles publicos.
Do Confelho à aprovação, houve fô em meyo
º difcurfo,que pode calificala: & della, à execução,
fòmente fe interpoz o tempo necefario para a obra.
Em tal maneira corria o apreto da Frota Olande
za, que o General Tromp ja navegava os ultimos
de Junho, com as quarenta & quatro nãos, bem ar
madas; feu Almirante VViten, VViticén. Fifcal,
, ou terceiro Cabo,Bankert, & entre os mais de graõ
nome, os Capitães, Foran, Cornicen, Van Colfier,
Nam, Nalghoorn, Ringelz,Vlieger Poft Garbrätz,
* Kamp, & Brederode. •

. O General Efpanhol,D. Lope de Offis, & Cór


dova, fe confervava no governo
- - - Z 3 de hum troço
- - - • Armadade
46o E PANAPHoRA BELICA IV.
Armada extravagante,que ele por induftria, & au
toridade, pretendia eximir da obediêcia da Real de
Efpanha. Dizendo: Que/ucedera aos Generaes, Fran
cifco de Rhera, & Thomas de la Ra/pur, para quem o anno
de mil é feis centos & cinco, ach and /e Dom Fa
drique de Toledo, Generaldo Occeano, fºra de Eurºpa;
el Rymandára criar nova, diferente, & independente Ar
mada, para defenfl dos incur/os, que os Ingrezes intenta
vão nas co/tas de/eus Reynos. Dizia: Que o propria
(Ry, que déra fer, & autoridade, 4 primºnra Armada,
apodia comunicar igual, ou/emelhante à fegunda; como
fucedia, que nem por ter muytos exercitos na terra, bam
me/no Principe, era costume /egoverna/Sem buns a ou
tros, & quenos exercitos do mar,procedia a me/ma izenção.
Contava a Armada do Offis, de varios tro
ços, que pretencião aos diferentes fenhorios, de
que fe compunha a monarquia. Alguns foltos na
vios de Rifcaya. A Efguadra de Galiza; cujo Ge
neral era, Dom Andres de Catro, filho do Mar
ques de Sárria, tam iluftre, como infelice Ca
bo, Seu Almirante Francifco Feijo, de nação Ga
lego: aquelle curiofo Autor dos preceitos milita
res da guerra maritima, em o feu breve Opufcu
lo, que intitulou:0 Sargento Embarcado.De Portugal
fe efperavão mais navios com S. Balthezar, que foi
fauta Almiranta nofa, mas o nofo galeão S. The
reza, fuperior Capitania deta Forta, podia fer bem
contado, fò por húa efquadra. Concorria outra de
Napoles, mandada atè Cartagena, debaixo da mão
CoNFL I To Do CANAL 46 r
do Marques de Leiva, cuja extravagancia, fes que
alli a deixafe,ao governo de feu Almeirante, D. Pe
dro Veles de Medrano. Porêm a melhor parte defa
Frota, confiftia em a efquadra de Dunquerque, a
cargo de Miguel de Orna, que fucedeo a Jaques
Collarte, Pay de D. João Collarte, que agora por
oufadas piratarias, he conhecido. Era Miguel de
Orna, marinheiro Bifcainho, & não menos defiro
foldado; cuja boa reputação,& induftria, o fes efii
madifimo aquele tépo;fupoto q o General propio
defla Armada,fofleL).Joaõ Claros de Gufmão,Mar
ques de Fótes,filho de D.João o VI Duque de Me
dina Sidonia.Direi a efe fim,para mayor clarefa, &
pode fer q exemplo o efiranho módo de governo, 4
então havia nefia Armada de Dunquerque.
Seu General de propriedade, cõ éU efcudos de
foldo cada anno,era fempre o Governador da Villa
de Dunquerque;como ao Cafielhar o de Cambray
anda anexo o pofio de General de Cambrez). Os
Capitaés do prefidio da praça, eraõ os proprios Ca
pitaés dos navios, q entre elles repartia o General.
Os Metres,q tambem confervão a propriedade dos
pòftos,& a qué có melhor nome, chamão Capitais do
mar os Caftelhanos, governavão nefas jornadas os
navios; os quaes cafualméte, fegundo o pedia a oca
fião,fe guarnecião de mais,ou menos, infantaria do
prefidio;aquella que tocava ao Capitão da praça, q
tinha nome de Capitaõ do navio. Efe de fua cópa
nhia,nomeava húcabo obediente ao Me fire,cõ 3o.
Z4 até
462 EPANAPHoRA BELICA FV.
até 5o.foldados armados.Deta forte fahião a nave
garbé fornecidos,té no modo de batecer os navios,
havia diferença das mais Armadas Efpanholas. A
jutavafe pelo Provedor General,o numero de géte
diftinta por feus termos, qual pertencia à guerra, fo
go, & marinhagem; & logo por affento, que o me
itte, ou capitão do mar,fobre fi tomava,era obriga
do a futentar por partido certo, cada boca aos
mefes; de que anticipadamente lhes livravaõ algúas
pagas. Fazia, quando mais alto preço, tres vintens
nofos cada dia o cuto, de húa boca dos marinheiros
que no premio fe aventajavão aos mais. Pretencia
o governo da efquadra, ao metre da Capitana, có
patente de Capitão do mar della. Etes foraó os
motivos, de que entrafe o Orna, & prefitife no
mando de fua Armada. Mathias Rombau, por ter
metre da Almiranta, fazia de Almirante o oficio.
Os Capitães de mais nome,Jaques Dible, Jofpitre,
Clenche,Salvador Rodrigues,& Francifco Ferreira,
ambos Portuguezes,que nas ocurrencias maritimas,
parece tem lançado a mão, de húas, em outras pro
vincias do mundo,não fe achando nelle parte, don
de os nofos com admiração,não hajão dado motras
de oufadia, indutria, & contancia: verificandofe
affi, aquella fabulofa propriedade,que fe conta dos
frutos Perfianos,aos quaes torna fuâves, de veneno
fos,o terreno alheyo,como cantou nofo Poeta.
Jà mete tempo chegavão por Inglaterra, varios
avifos, defpachados pelo Infante c…;
CoNFLIT o no CANAL. 463
do poder cõ q o inimigo havia engrofado fua Frota
Muytos delles (como fucede) excedião a verdade,
poto q feu excefo não necefitaffe de algüa exege
ração.Os Francezes també por fua parte, em obter
vancia de feu tratado,davão grande prefa ao a pref>
to de húa Armada;em a qual cõ tanta diligencia, &
liberalidade, fazia trabalhar o Arcebifpo de Bor
deos,Henrique de Sordis, General della, q fe affir
ma,fupria de noute a falta da luz do Sol,có o cutofo
lume,de mil tochas acezas,que ardião a cada noute,
para q na obra fenão parafe, né aquellas horas, q a
natureza detinou para defcanfo dos homés. Prezafe
de fer tão poderofo o apetite dos Princepes, que fe
poem a vencer,o tempo vencedor de tudo.
Defta propria diligencia, tomâraó os Miniftros
de Efpanha, melhor a caufa, que o exemplo; a fim
defe igualarem nella com os êmulos em prontidão
femelhante. He digno de admiração, que fendo os
Efpanhoes nas obras particulares, a nação mais
viva,& determinada,{eja em as comús, a mais frou
xa,& irrefoluta da Europa; donde provèm grande
parte dos ruins fuceflos militares: por fer a prefe
za na guerra, húa das virtudes mais neceffarias, naõ
sò aos grandes Capitaés,mas aos bós Cófelheiros.
Có tudo,fe deftribuião ordês gérais,a fim de mar
charem os focorros às praças de armas; & porq pa
receo, que fe o Terço que D.Simão Mafearenhas,ti
nha levantado em Andaluzia, cõ breve,& util efei
to, efeerafe pelos outros, receberia grande danºs
&
464 EPANAPHoRA BE LICA IV.
& paísãdo logo por fer copiofo, não pequena cóve
niêcia os Eftados,foi refoluto,ã em náos Ingrezasha
vidas a frete, fe defpachaffe prontainéte aquella In.
fantaria, q junta co algúas levas de particulares,che.
gava a numero de 2UEfpanhoes,entédiafe,mas có
tra o q motrou a experiencia defpois, & antes fofº
peitava a prudencia:Que em virtude das pazes de Olan
da,& Inglaterra, os Ingreves pa/artão livres pelas e/pua
dras do Tromp.
Algús diferão,fobejaméte politicos:Qge/endo D.
Simão filho do Marques D. Iorge Mafcarenhas, Minijiro
grande em Portugal;feus êmulos lhe havião/olicitado aquele
rifco. Outros: Que os amigos,de/jºvão/e anticipa/e efie
Terço, para que chegando primeiro, fo/e pela antiguidade
preferido aos mais de aquelle focorro. Sey qD. Sim㺠cõ
incauta actividade, defculpadas; porem nos annos,
Procurava quanto podia por efiranhos meyos,ocafi
onar & adiantar fua ruína. Finalmente navegando
a Flädesencõtrou no meyo do Canal cõ húa efqua
dra de Oláda,a qué,sé a menor preperaçaõ de defé.
fa,fe entregaraõ os Ingrezes;perdendo os Efpanho
es logo nefte principio,com mais de vinte Capitães
quafi dous mil foldados: donde feu Meftre de Cam
po, por beneficio da induftria, & amifade do Capi
tão Ingres, que o conduzia, efcapou em trajos de
marinheiro, & fua roupa em titulo de mercancia.
Efte fuceffo,podendo fervir de grande avifo, pa
ra cafos femelhátes, que defpois fe viraó, em aquel
la, & noíla Coroa, por ignorado, ou não crido, até
de
CoNFLIT o Do CANAL. 46
de feu exemplo, nos não miniftrou algúa utilidade,
quanto mais de fi proprio.
Létamente hião entrando nas praças de armas, as
levas dos fenhores,ã e efperavão, & ainda as reais,
nem pela diligencia, & comodo dos miniftros, fe
a prefavão muyto. Porém na forma que chegavão,
eraõ logo repartidas, & agregadas aos Terços, que
fe etavão formando, fegundo a autoridade, & valia
dos Cabos delles. Deftes fe entregou o primeiro,
a D. Jeronimo de Aragão, irmão do Duque de Te
rra nova, & herdeiro, que dizem fer, de fua cafa; cu.
jo Sargento mór, foi declarado, D. Pedro Baigorri,
de nação Navarro, hú dos mais praticos, & antigos
, foldados de Flandes: hoje moderado, & prudente
governador do Rio da Prata. O fegundo Terço, fe
formou a D. Martin Alonfo de Sartha, Cavalleiro
Bifcainho; cujo Sargento mòr, foi D. Alvaro de
Carvajal. A mim me coube o terceiro Terço, que
contava de 1 17o, praças, com 57o Portuguezes,
6oo Caftelhanos; os primeiros có cinco, & os ulti
mos com feis Capitães, cada qual da nação de feus
foldados. Por Sargento mór,me foi nomeado o Ca
pitão João de Hita,em qué nunca conheci outra fuf
ficiencia,q fer primo, & feitura do celebrado Simão
que naquelle tempo era Porteiro, defpois Gentil
homem, & fempre favorecido do Conde Duque,
pefoa,que por notavel no mundo,fefes digna defer
nomeada em publicos efcritos,
Outra levado cargo do Condetavel de C afiel,
não
466 EPANAPHoRA BELICA IV.
não pode chegar a tal numero, que della fe formafe
hum Terço inteiro, por eta caufa,& pella reveren
cia que fe devia ao Autor della,fe confervou fempre
em governo a parte, debaixo da conduta,de D.Fran
cifco Fernandes Palominos, com titulo de Sargento
Mayor, & mayor cortezão que foldado: o qual def
pois em Flandes, matáraó em defafio. De Francifco
de Betancor, & Blechior Correa, ambos Portugue
zes, & q nete Reyno levantáraô (como atraz dei
xamos dito) foraó chegando varias tropas, que tam
bem fe confervavão divididas: mas todas me foraõ
logo entregues, em falta de feus metres de Cápo. A
Infantaria da Armada, fò tinha por cabos feus Ge
neraes, & Almirantes, com o metre de Campo D.
Gufpar de Carvajal,do Confelho de guerra,foldado
de valor, & difciplina. Efta contava de hú fuficien
te numero de foldados, para fua defenfa. O Reyno
de Galiza,& todas fuas armas,governava oMarques
de Valparaizo, de cuja pefoa, verdadeiramente fal
lamos, no primeiro livro de nofa Catalunha. Não
fe ajudava,de outro algum Cabo da Infantaria, per
tencente ao Reyno de Galiza q de Fernão Sanches
de Baamonde, Metre de Campo de aquelle pre
fidio; & que pouco tinha fervido fôra delle: o qual
indiftintamente, fazia varios oficios da guerra, &
paz, ignorando quafi todos: por fer homé donde
não havia outra fuficiencia, que a dos annos; não
fempre importante, mas fempre refpeitada.
Netectado fe achava a guarnição, & aprefio da
Corunha,
CoNFLIro no CANAL. 467
Corunha, quando elRey informado das inteligen
cias de França, Olanda, & Inglaterra, efcreveo ao
Governador de aquelas armas: Eftive/e/obre avifo,
para repulfar as dos Francezes, á brevemente/e entendia,
podiáo demandar as cºfias de E/panha. O Valparaizo,
que a ultima virtude que perdeo, foi a preteza, a
qual ainda retinha, & lhe durou igualmente com a
vida;fes chamar à Corunha todos as forças do Rey:
no, Nobreza, Cavallaria, Soldados, pagos, & mili
cianos. Entendefe que chegarião a defouto mil hor
mens, os que fe juntàraó: fupria o numero feu de
feito, Mas a Corunha, que he terra de inferior co
{
modidade, para tam grande guarniçaõ, cedo, como
he ufo, lhes fes perder o defcanfo,& faude, miniftrã
dolhes mayor eftrago do mal, q do inimigo. A fo
me,& deséparo erão iguais,& a eftes males,os q lhes
ferviraõ de confequencia. O Povo curto, & pobre,
para emmendar tam grandes faltas, com todas as di
ligencias,que fazia pelo remedio,ficava delles mais
defemediado. Eraó de mayor receyo as faltas de
munição,para a defenfa, que as do mantimento,para
a vida; porque parecia, como he certo, q menos ma
târa a guerra com a fome, que com a defprevenção.
Eis aqui o modo de efperar os combates,que en
tão feufava em as principais praças de aquella Co
roa, que como os baixos fe pintão nos mapas, efere
vemos para advertencia, não para exemplo, Porém,
quanto mais os foldados práticos defconfiavão da
vitoria, quando o inimigo chegafe a ganhar os
* * * pof>
488 E PANAPHoRA BELICA IV.
potos da terra, os marinheiros fe esforçavão na fa
brica de húa cadea, q cingifle,3 dificultaffe o ponto.
Era de maftros que rodeava boa parte do furgidou
ro, fazendo hum arco capacifimo; cuja principal
ponta, começava no forte de Santo Antão, & fecha
va em o de Santa Luzia. E porque he meu coflume
aproveitar tudo o que pofo, com a hiftoria que ef>
creveo,por efia caula,farei defcrição da fabrica defa
cadea; poderà por ventura fervir a outros,algüa ho
ra, de remedio.
Contava de cento & fetenta matros grofos, 4
talingados ( dizétalingados q nós dizemos liados, os
marinheiros) fendo atados fortifimamente, huns, a
outros, com fortes gumenas, & boças de ferro,fica
… vão em tal maneira unidos,que jugavão facilmente,
afi como fazem os fuzis em os grilhoens das corren
tes, ou como em noflas mãos proprias, tem feu mo
vimento os ofos, ligados por beneficio dos nervos,
ue os meneão juntos, & diftintos. Todo o refinto
defta fabrica,fe afirmava em cincoenta ancoras, que
no fundo lhe fervião de firmifiuo alicerce; eftas
eraõ foftidas de amarras grofas, que fe tiraraó para
effe efeito da Frota,& Almazem; mas principalmé
te da Armada de Dunquerque, que nas prevenço
ens, a que os nauticos chamão: Mèfrança, atodas as
de Efpanha,fazia grande ventagem. Dez chalupas,
bem armadas de falconetes, efmerilhoés, & berços
de bronze, lhe davão cótinua guarda de noute; tal
·
era a guarnição de Infantaria, & diligêtes remado
- TCS
CoNFL Iro Do CANAL 469
res.Defta rondavão cinco por fôra,& cinco por den
tro, do refinto da cadea,pelo que fefes horrivel,&
defenfavel ao inimigo. Eftava porem outra parte,
fempre,defpejada,& como porta do muro, por don
de com grande diffimulação, pudefem entrar os fo
corros dos portos vifinhos,& fair os navios da Arma:
da, a combater com os inimigos, como quafitodos
os dias fe executava. •

Não he crivel,qual foi em Efpanha,França,& O


láda, a fama deta defenfa; fei que era mais valente
*
na aparencia, que na força,& que os contrarios a te
mião tanto, como della, defcófiavão os proprios na
turais: não fendo novo no mundo,que por húa mef
ma acção, ouzem huns, & temão outros defordena
, damente, fegundo os olhos, ou difcurtos, com que
vem, & julgão as obras dos émulos, & tambem dos
# amigos.
. •
* •
. . •

Em muyta parte fe achava eta obra imperfeita,


quando aos quatorze de Junho,de mil & feis centos
& trinta & nove, entrou na Corunha hum pataxo
de Londres, que por affento, conduzia panos grof
fos,para fardar a Infantaria do prefidio: o qual deu
conta, & trouxe carta, ao Marques de Valparaízo,
do General da Armada inimiga;donde com boas ra
zones, efcritas cortèfmente em fua fermofa lingoa
gem Franceza, manifefiava a qualquer General de
, Elpanha, que na Corunha fe achafe: Como havendo
, elefeito boa preza em aquele navio; logo que fora informa
dº da nece/idade dos/oldados Efpanhoes, refilveramam
darlho,
47 o E PANA PFoRA BELtCA IV.
darlho de prefente, como fazia: entendendo que a Mge/
tade Crifian/ima, de feu/enhor, não defjava fazer guerra
afeus emulos, /ocorrida dos auxilios do tempo, fenão pela
força defeus armas,& vigor defua razão, Afirmavão os
Ingrefes: Que legundo o vento que trouxerão, é lugardon
de havião encontrado a Armada de França, poderia tardar
fº dous dias, em/e me/tar a aquela Cidade;donde julgavão
fe dirigia tam grande poder. De fuas forças falarão com
encareciméto, que tô fe igualava com o da benigni
dade de quem asnf
reor a.ndo
gima
Valparaifo,i com diligencia a elRey,
& Reyno: de todos foi mal focorrido, porque a dif>
rancia, & afpereza do caminho, defde a Corunha à
Corte(donde contão cento& dez legoas)defculpa
va toda a tardança. Não he todavia a diftácia,o ma
yor embaraço que achão nas cortes, os avifos dos
capitães, para ferem brevemente focorridos; mas a
quelles mayores longes que ha,& houve fempre en
tre os cuidados dos Capitães,& dos mais Miniftros,
Huns julgáo, não fó conforme ao aperto da ocafião,
mas ao defcuido de aquelles,a quem pedem o reme
medio de efe aperto. Outros entédem, que feusa
pertos,mais fe fundão na prefunção do defcuido dos
amigos, que no cuidado dos inimigos. Defta forte
vemos,que poucas vezes he crido o rifco alheio, an
tes de fer chegado o dano proprio; donde procede
que em tempos femelhantes não ha dano pequeno,
porqueja mais feremedea, fenão defpois de fer tão
grande, que os mais não tem remedio. •

"-.- - • Com
\* *
. CoNFLIT o Do CANAL. 47 r
Com tudo,menos que algús Grãdes,houve muy.
tos naquella ocafiaô, q louvavelmente fe defapega
raõ das delicias de Madrid, & vieraõ animofos, em
bufcadas moletias da guerra;porq nunca vimos té
po taõ miferavel, em que a virtude naõ fofefegui
da de alguns,permitindoo affi Deos,por fenão per
der no mundo feu exercício. Outras pefoas de me
noreftado, mas todas poucas em numero, & menos
em difciplina, acodiraó à praça de Armas. Muytos
diferaó:Que fua chegada, embaraçára, mais com a práti
ca dificil de preminencias, que lºgº/e excitou entre todºs,do
que foravtil 4 defen/a, Por outra parte, eftes Grandes,
faltos então de cabedal, pela univerfal penuria de
Efpanha a efte tempo, naõ obráraó efas gentilezas
antigas,que delleslemos,& fe efperavão;como fem
pre deve ferufo dos fenhores na guerra, quando fe
difpoema darem feu lado aos foldados; cuja irman
dade não fôlhes deve ferhonrada,mas util. "
Nefta maneirafe achava a Corunha, quando em
defafeis de Junho, felhe motràraô formidaveis, de
fenrolados os eftendartes de França, fazendo toda
fua Frota,força da vela,por dobrar o Cabo de Priou
lo, feis legoas diftante da Cidade, pelo rumo do
Nornoroete.
Repartiraófelogo os pòtos,com tanta confufaõ,
como fempre acontece, aos que guardão para a pre
fença defeus inimigos, as prevençones contra elles.
Não poderaõ, com tudo, queixarfe os Portuguezes
de que a confufaõ lhes fofe contraria, faltando
|- Aa
••••• •
-

\*
lhes
472 EPANAPHoRA BELICA IV.
lhes por ella, os lugares de reputação: & menos (e
poderàó queixar os Galegos,de que os Portugueles
lhes faltafem a elles na defenfa dos pòftos, que lhes
cófiarão. As trincheiras de toda a marinha,foraó en
carrégadas ao meuTerço,&do me{mo modo a guar
nição do principal forte do mar, que he o de S. An
tão, onde confifte a mais importante defenfa de a
quelle porto. A D.Geronimo de Aragam, fe enco
mendaraó alguns pafos, donde podia defembarcar
o inimigo. O Bahamôde guarneceo a muralha da
capaz de refitécia,fegundo o modo antigo.O Sarfia
havia paflado de pouco tempo, ao governo de Bay
ona: praça forte, vifinha ás fronteiras de Portugal,
& para elle, não de dificultofa vitoria, mas de facil
confervação, & importante capacidade, pela dif:
po{ição de feu porto,& terreno.Palomino,& outras
tropas,fe repartíraõ convenientemente pellas etan
cias que rodeavão a praça: a qual jas fitiada em húa
Peninfula breve, que o mar quafitem cortado, def
de a praya que dizem Organ, & demóra ao Loefte
da Cidade, á marinha interior que olha á levante,
donde corre o burgo externo,que chamão: Pe/cada
ria, entre os quaes lugares, pouca terra intrepota
impede o braço de húas,& outras ondas,quafi sépre
furiofas, em cuja area confifte fua mayor defenfa.
A cavallaria do partido de Bargantinhos, pouca,
& mal armada. Como lhe era pofivel fazia a Patru
lha da campanha;có tal nome,q funda em algúa ori
gem de lingoa efirangeira quizeraó os militares, no
t45.
CoNFLIT o Do CANvl. 473
tar a diferença da ronda da cavallaria, à dos Infátes,
Paflavão de fetentavellas as de que fe compunha
a Armada inimiga,entre ellas algüas de extraordia
naria grandeza, como o Galeão Almirante da Frota
chamado: Reyna,& fabricado, cm obfequio da Ra
inha Máy Dona Anna de Auftria; porém quafilin
capaz, por fua disformidade, do ufo pratico da na
vegação.Os navios fe motravão tam foberbos, co
mo fejà principiàrão a vitoria,& não a batalha.
Convem à grandeza dos Reys, o adorno,& pom
pa de fuas armas,que muitos tiveraõ, pro obferva
ão conveniente a boa difciplina. He a razão,porq
o lutro das coufas,produz húa certa alegria,em que
fe funda a confiança dos amigos,& defcôfiança dos
inimigos.Os q a gozão,fe côfirmão,os q a invejaõ,
a temê, dõde vemos q muitas vezes o contrario, pe
la fantatica oufadia concebe, temor, que faz o fu
cefo menos contingente, fendo menos difputado.
Todo aquelle efcandalo, que recebeo Efpanha,
vendo que hum Varaõ fagrado, qual era, o Arcebif
po de Burdeos, fe intermetia, em dirigir exercitos
contra Catolicos,fe declarou logo, em fatisfação, &
grande credito da divina Providencia; porque fe de
aquella emprefa foffe encarregado outro algum Ca
pitão experto, os negocios da guerra tomâraô dife
rente caminho: por fer coufa, fem duvida, que lan
çando em terra o General Francés(na propria ho
ra que furgio no porto) á gente velha, à fombra do
horror, & fumo de fuas baterias, fe apofára com
2aA pouca
474 E PANAPHoRA BELtcA IV.
pouca refiftencia da cidade; porque fendo oslo
dados,que a defendiaõ,bifonhos, & achandofeno
fos Terçostam faltos de muniçoés, que por ordem
exprefa,& bem advertida(defpois falfaméte intre
pretada)fe guardáraõ para o ultimo conflito, era |
quafiinexcutavel o dano.
O Deos! E que coufastam varias, & fem fun- |
damento ouvimos dizer, & clamar, a aquelle rudo,
& medrofo povo,quando vendo feu inimigo presê
te,poderofo,& aftuto, não virão logo,como defeja
vão, que intantemente foffe rebatido. Não havia |
treição que não crefem, & que não imputafem,pre f
filhandoa aos Cabos, fegúdo o o dio q delles tinhão |
concebido. Efta fofpeita brevemente pafada do co
ração á lingoa, fe divulgou logo em queixas, & ala
ridos disformes. Jà não havia injuria, cõ que os ca
pitães,& fua gente não fofem vituperados. Certo
aquella gloria, que fe adquire pela fortuna das ar
mas,ella he a mais propria dos homens: porque he a
que mais cara lhes cuta,entre todas as que fe alcan
ção; não tanto, pelo immenfo trabalho que fopor
taô de cótinuo, nem pelo urgente rifco da vida, a 4
fe expoem, quanto pela facil perda da honra, que
os età fempre ameaçando;havendo de fer julgadas
fuas acçoens por pefoas,que de todo as ignórão:
infelicidade, que nenhüa outra profifaõ igualmen
te padece. Conheço fer fublime a fama dos capi.
taés iluftres, mas tam cercada de defcontos de
grande pezo, que ainda não fey determinadamente
fe
CoNFL tro Do CANvb. 475
pezo, que ainda não fey determinadamente,fe for
tuna porpremio,ou por caftigo, os levanta a grãdes
emprezas. -

Erão jà esforçados os combates da Armada ini


miga contra a cidade, porém como a difancia fofe
larga, caufavão os tiros mayor efpanto, que ruina.
, Hüaballa desbaratou parte da torre de Sant Iago,
Igreja matriz da Corunha; outra, como fe fora ad
vertidaméte,vifitou o Cófitorio dos Juizes,q na ca
fa defeu defpacho etavão confultãdo os meyospo
liticos da defenfa, Foi exquifito, como lho era a o
cafião,o pavor dos letrados,vendo que as balas info
lentes tráfgredião,sé algúaley, os muros veneraveis
de fua claufura; efquecidos, parece, de quantas ve
zes a violencia das armas, violou as immunidades do
Capitolio.Não paràraó defpois eftes Miniftros,an
tes de haver defcompoftamente defamparado feu
tribunal, fenão em húa cafa fubterranea, que fervia
de almazem aos viveres recolhidos na praça.Os fol
dados, que com malicia,ou ignorancia, tem para fi
haver fifica contrariedade, entre as armas,& as letras
dizião:Que naquella ocafiaõ/e quiserão das letras, vingar
as armas,fazendofereconhece/e,que fendo o me/mo Genio,
Minerva, & Palas, céde/empre a Toga pacifica, quando
/eyè diante do Sago militar.
Procuravão igualmente os inimigos, reconhecer
a força da cadea, em que côfideravão confiftir a de
fenfa do porto; & o General da Armada de Efpa
nha,tomar pratica do poder da Franceza, para que
-i > Aa3 fegundo
476 EPANAPHoRA BELICA IV.
fegundo ella, fe empregaffe emfua ofenfa; porém
foi defigual o juizo de ambos os Cabos; porão Frá
cez entendeo ferinvencivel aquelle reparo,& o Ca
ftelhano fe perfuadio,que o poder contrario não era
invencivel, errando por ventura ambos igualmente.
Para efte efeito fez fair outo fragatas de Dúquerque
da cadea para fôra, as quaes com vento favoravel,
fem fe alargarem muyto do amparo das fortalezas,
& navios grandes, em hú,& outro bordo,efcaramu
çavão cõ os inimigos, dando,& recebendo boas car
gas; porque os Frácezes da mefma meneira, fempre
que o mar, & vento os favorecião,não tinhão ociofa
fua artelharia. Pequeno era o dano,ou comodo def
tes cõbates, com tudo mais conveniente ao partido
Efpanhol, que por elles etorvava a defembarcaçaõ
dos Francezes, quafireceofos, de ferem enveftidos
da Armada Caftelhana, que em numero de quaren
ta navios, ao abrigo de fuas forças, bem podião in
tentar qualquer proveitofa interpreza;& quando jà
fenáo confeguife mais,que evitar as continuas ba
terias, que a Frota Franceza fazia na Cidade, dia, & |
noute ( as quaes fô ceffavão, fendo acometida dos
navios Dunquerquezes) não era pequeno o intere{-
fe detas faldas, de que então procedia a quietação
dos outros.
Porêm, porque paflando tres dias,fem que o ini
migo houvefle intentando facção algúa,q motrafº
fe difenho de fitio,ou affalto; ao quarto dia fizeraó
levar os menores navios,que vieffem, como vieraõ,
• • dar

* •
CoNFL1 ro Do CANAL. 477
dar fundo mais arrimados áterra do Ferrol, que he
principal Porto de Galiza,& defemboca na propria
Abra da Corunha, & o fegundo de Efpanha, fe co
mo alguns querem, houveffemos de conceder ven
tagem ao de Cartagena de levante,a qual outros ne
gão. He o Ferrol húa Ria efireita,limpa, profunda,
& de firmifima tenfa: a terra que fe cruza fobre a
boca do canal, lhe impede a entrada dos mares. Os
altifimos montes que o rodeão, tem mão nos vétos,
para que jà mais inquietem aquelle porto. Dentro
fe alarga em forma redonda, como o antigo, & ce
lebrado porto de Oftia, fazendo dentro na terra hú
feyo capaz, de cento, & mais naos grofas, de igual
fundo no centro, que na ourela da ria; com outo,
& dez braças de agoa em qualquer parte. Acheime
jà nelle por todo hum inverno têpeftuofo,fem q em
todo elle, a pefardas torméras, o navio femovefe
mais, que as penhas vifinhas. Donde por efta caufa,
difehum Varaõ fabio, eminente nas coufas da na
vegação: Que o Ferrolera algibeira do mundo. Podéra
contarfe por húdos melhores pórtos de Europa, fe
lhe devefe tanto à Arte, como à Natureza: mas foi
de forte acerca dele, o defcuido dos Reys, ou dos
Míniftros, que de grãdes tempos o deixãraõ defen
dido, pelos principios de tres Cafellos, de tão pe
quena força, que ainda defpois de acabados, todos
tres,podião malformar húa boa defenfa.
Entendido o defignio dos Francezes, pela novi
dade defeu movimento, logo aquella noute fedeu
* - " -- - Aa4
- - - ordem;
478 EPANAFBox A BELICA IV. __
ros e/colhidos(entre os quaes era amayor parte de fºldados
velhos) marcha/Se logº na volta do Ferrol. Affi foi execu
tado, à cuta de granda trabalho; porque por caufa
dos rios interpotos,& outras cortaduras q o mar té
aberto pello certão, có as rias de Betanços, Bergan
tinhos,& Ponte de Eume,era neceffario andar mais
de doze legoas, para chegar ao fim das tres, q aque
lle porto fe aparta da Corunha,por caminho do mar i
direito. Foi cõ tudo, tanto a diligencia, & pràtica
de D. Pedro, que faindo pella tarde da Corunha,
nella, & na feguinte noute, chegou a ocupar a pafo
da defembarcãção, pelos Francezes pretendida; a
taõ bó tépo, q ellessé fazer alto,Caminhavão como
por paiz proprio, em demanda do porto finallado.
Alojou Dom Pedro os foldados Efpanhos, em
hum fitio baixo,a quem as areas da marinha fortale
cião, como parapeito; logo tirando varias mangas
de mofguetaria,carregou tão forte, & impenfada
méte ao inimigo,4 defpois de quatro horas de cruel
peleja, os Francezes fe retiraraó, ficando de am
bas as partes alguns mortos,que em numero,& valor
pouco de figualavão.
Então o General Arcebifoo, determinou focor
rer fua gente com mayor poder, & alli fora o fim da
empreza, pela culpa univerfal, com q todas no mú
do fe perdé na falta,& fobra de Cófelho. Ajuntou o
de feus Cabos;poré a variedade q nelles havia, con
formou logo a necefidade de outro acordo,em 4os
pos
CoNFLIT o Do CANAL. 479
posa força do véto, qrijamente fe levãrou da par
te do Suete, cõ finais de temerofa tépetade:a qual
fendo em feu proprio ajuntamento conhecida dos
mareantes,fupofto que o tempo era diverfo, achan
dofe em vinte & tres de Junho, pareceo: Que mais
conveniente leria,mandar logo recolher as tropas Francezas
& embarcallas, fe pude/em;preparando fua Armada,para
qualquer
lhes ficº/o, dos que afortuna do mar, mo/trava haver
prevenido. •

Affi houve efeito, ja com manifeto rifco; por


que os mares feridos do açoute dos ventos, que por
aquella parte cruzão abras, & portos, etavão já fo
berbos de maneira, que mal confentião navergarfe.
VeIpora de S. João,fétimo dia da afitencia da Ar
mada, fe acabou de recolher penofamente a Infan
taria inimiga, que defembarcára em terra; a cuja
embarcação fe feguio húa excefiva calma, & me
donho e(curo,que obrigou a prevençaõ,húas,& ou
tras armas,pello efpaço de toda a noute. Pouco an
tes da menham, fe defaforou a tormêta,jà da parte
do Sufufte, com tal foltura, que parecia procurava
antes a detruíção, que a paz do Mundo Cedo co
meçàraõ a efperimentar feus efeitos os navios Fran
cezes; porque como os mais havião furgido da parte
de fóra, & o vento que curfava por cima da terra, os
achaffe defabrigado, ainda fobre ferro, os ameaça
va ao naufragio. Vinhão ja hús caindo fobre outros,
fervindolhe de novo embaraço as ordinarias fay
nas em que trabalhavão por levar fuas ancoras,
para
48o E…NAngoRA BELICA . IV. .
parafe fazerem à véla;quando a Almirãte, cuja dif.
forme grãdeza,a fazia mais tormétofa,foi a primeira
4 não sé perigo feu,& dos outros,largou o pano. Se
guiraõ aquelle bordo,os q fe achavão mais leftes, ou
mais arrifcados:defpois todos;tem duas horas de di
ferença, entre o defcuidado, & cuidadofo.
Tão brevemente, & por modo tão inefperado,fe
vio Efpanha defoprimida das armas FrãCezas:bata
lhando em feu favor as naturais,miniftradas pela al
ta Providencia do Deos altifimo dos exercitos:dá.
do com tal exemplo mais outraliçaõ aos Principes,
para q naõ troquem as razoés divinas, pelas huma
nas,nem fiem da força, mais que da jutiça.
Verificoufebê nefte fucefo a fentença antiga do
vulgar Proverbio Romano:Despois da guerra,º jocorro.
Porque defpejado o mar de inimigos, fe começou
a povoar de amigos aterra. Todos chegaraó fora de
tempo, fenão as muniçoens efperadas: cuja tardan
ça,pudera haver cutado a perda da praça,& dao
pinião que não valmenos,& mais vagarofamêtefe
reftaura.
Não he de meu afunto feguir os pafos da Arma
da Franceza, que com manifetorifco, & perda, co
mo efcrevem feus autores (& então nos contaraõ fe
us Mercurios) havendo tomado incertamente os
portos de Belifa, Rochella, Breta, & Nantes, tor
nou pouco defpois a fair florente, em demanda de
Bifcaya; em cuja cota,fez o mefmo dano,que pude
ra qualquer efquadra de Pyratas; pois de tanto cuf
to,
CoNFLIT o Do CANAL 43r
to,& aparato, não vimos outro emprego,ã havera
brazado em Santander, dous imperfeitos vafos de
Galeoés,que eftavão fem defenfa em feu eftaleiro.
ElRey Dom Felipe,& feus Miniftros, etimulados
dos progreflos dos Francezes, apertavão as ordens,
para que hum grande poder naval fe juntaffe na Co
runha, ainda aquelle veraõ, com que obrar feu defa
gravo, por fer parte no defempenho delle, não me
nor, a prefeza, que o excefo da vingança, fegundo
as leys da reputação humana.Ja na antecedête pri
, mavera fe havia a efte fim ordenado: Vieffe a Galiza,
Dom Antonio de Oquendo, Almirante Realdo Mar Occe
ano, Que fe achava em as coftas mediterraneas do
Reyno de Napoles.Havia entrado as portas de Her
cules, por fazer opofição em aquelles mares, ás Ar
madas de França: que com grande poder, ameaça
vão Italia, defpois do affalto, que por ellas foi dado
às Ilhas de Santo Honorato, & Santa Margarida;
por cujo refpeito a Armada do Oquendo, inverná
ra em Maon,famofo porto de Malhorca, cabeça das.
Baleares, Difcorrèra defpois aquelles pôrtos, dos
quaes para pofar aos do ponente,fenão pode confe
guir fem dilação, & trabalho: pela diverfidade de
ventos, de que fe necefita, para cofear boa parte
de Europa, com diverfas derrotas. O qual inconve
niente, o mefmo General efperimentàra, em demã
da femelhante,quando o anno de mil & feifcentos&
vinte & fete, faindo de Càdis, ajuntarfe com Dom
Fadrique de Toledo, no Porto da Corunha, bar
* -" , , laven
482 EPANAPHoRA BELICA IV.
laventeou, em vão, trinta & fete dias, por dobraro
Cabo de Finiterra; o que não podendo cónfeguir,
deu caufa a fe cometer infrutuofamente a jornada
da Rochella, que Dom Fadrique, com o Duque de
Guiza, General da Armada Franceza, hião a focor
rer pafando tanto adiante efte dano, que fuftrou
por aqualla vez a gloria de húas, & outras Armas:
não cõ pequena nota do Oquédo, que lébra do dos
ruins efeitos, que tão cutofamente havia efperimé
tado, com anfia extraordinaria, procurava difpor o
fim de fua vinda a Efpanha, & porto nomeado.
Tres mefes durou a viagem de Napoles a Coru
nha,donde com vinte & dous bons navios de guer
ra, entrou pelos primeirõs de Agofto. Trazia por
fua Capitana a Real de Efpanha:dita Sant lºgo, que
foi eftreado no porto de Lisboa, do real eftendarte
de Efpanha, vindo a elle do da Paffage, donde fora
fabricada; guarneciafe ete Galeão de feffenta &
feis peças de bronze. De Napoles os melhores navi
os, & fua moderna Capitana Santo Agoftinho, em
uem a fortaleza, & fermofura,que poucas vezesfe
achão, fe achavão iguais. Parecia húa joya feita de
ouro, & bróze, rica,& valente,taõ ornada era,&taó
fortalecida. Fazia nella o ficio de Almirante de a
quella efquadra Dom Eftevão de Olite,de nafcão
Arraguecès,antigo fervidor de Catella,& fobrinho
do primeiro General Olite, de fua propria Repu
blica: que deu nome á famofa Olifa, Capitana do
Efireito, em qué D. João Fajardo, fervio muytos
• annos,
CoNFL Iro no CANAL. 483
annos,& alcançou bons fuccfios.Entre as mais, tin
ha grãde lugar a efquadra, que chamavão de S. Io/ef,
& tambem dizião de Afonfo Cardofº, mercador Por
tugues, que por affento, & debaxo da tutella de taõ
grande Patriarcha, a havia fabricado. Era fua Capi
tana, o Galeão dito Santo Chrifo de Burgos, que go
vernava, com os mais dete affento, o Almirante
Francifco Sanches Guadalupe, bom, como velho
Capitão, entre os do exercito maritimo de aquelle
tempo. - * * * .

A Capitana de Bartelofa,de quem jà era fenhor;


& fucefor,o General afsétita Geronimo Mafibra
di, tambem vaffalo de Arragucia, fe achava cópan
heira do Oquendo, como jà o fora na batalha,ã A
drião Patria, lhe aprefentára, com a Armada de O
landa, nos mares Brazilicos, pelos annos de trinta
& hum. Todos os navios dete cargo mandava,au
fentes os Cabos mayores, Mafibradi, & Nicolao A
legrete, & o Almiráte Mateo Esfrondati, de fua pro
pria republica. Dous Metres de Cápo, guarnecião
eftes vinte & dous navios; àlem de outra Infantaria
folta de fua lotação: eraõ D. Gafpar de Carvajal do
Cófelho de Guerra, foldado antigo, & de bõ nome
entre os antigos,& modernos: cujo Sargéto mayor,
era D.João Acenfio; ofegundo D. Antonio de V.
lhoa,Cavaleiro Genizero Napolitano, q governava
húTerço de foldados bifonhos,naturaes do mefmo
Reyno, aquem fervia de Sargento mayor, Onufrio
Ricio,da propria nação,& boa difciplina. Che
|
I
48 E PANAPHoRA BELICA IV. j

Chegado Oquédo à Corunha,fe começou cógáde


caufa,a duvidar do governo fuperior,de aquela gá
de Frota, qià fubia ao numero de 7o. navios; porq
fe entédia, 40 proprio.General da mayºr parte, D. LºpeO/
fis,n㺠cediria de pertêderfu . izenção,º cãmelhor motivº,
quã do chega/e a ver q as ordes do Almirãte Real Oquido,
eraõ gerais,e naõ determinavaõ cã ae/pecilidade nece/jaria
ocafº prefente. Por efta caufa chamou o Valparaizo 3.
cófelho,os Cabos, & ao Duque de Villafermofa,D.
Fernando de Borja,& a feu irmão D. João de Borja
(hoje Caftelhano de Anveres) q forão os primeiros
fenhores da Corte, q chegàraó ao focorro da Praça,
e os ultimos,ã della fairaó,depois de focorrida. Có
tinha a propota do Valparayfo,dous pontos princi
pais.O primeiro:a cerca da fºrma q/e havia dar aquelas
armadas,defºrte,4 unidas em b㺠corpo,leva/#hãa só cabe
ça: o fegüdo:acerca do modo porápoderião obrar melhoros
dous ferviços,para 4 elRey a deflinára; o q d'algúa manei
raparece (e côtradifia (laftima grande,ã devendo os
Reis de expedir as ordés demaneira,á sò felhes guar
dé, as defpaché mais difpotas à interpretação qào C

bediencia)porá lhes era ordenado:Que a Frota de E/-


panha bu/ca/e a Franceza,& cõ ela peleja/e até rompela;
& q/endo já/aída dos mares de feudominio,indo jùtar/e có
a de Oláda,como receavão,de todo procura/e desbaratalla,
inda q fo/Se detronosportos de Inglaterra,se embargo de fer
amiga,& cãquebrãto de qualquer neutralidade; porq a pre
/ente razõ de estado a/io pedia: achando/e/er mais facil,
cõpor a queixa do Principe defcontête,4 jñtar outro tal poder
que
CoNFL tro Do CANAL. " 48
que contrafia/e o do iningo, Ordem foy efia, que fatal
mente aprovou outra tentença femelhante, quãqo
defpois, contra Efpanha, a pronunciou o fucceflo.
Erão muitos os que votavão na Junta prevenida;
a qual o Marqués, por mayor decencia, não quis fa
zer em feu Paço, & a foy celebrar no Convento de
Sam Domingos de aquella Cidade,mais antigo que
grande. O General, D. Lope de Offis, fe achava cõ
mayor numero de amigos,que fabia bufcar com pru
dencia,& cultivar com beneficios; não affi o Oquê
do, homen de ingenho curto, & condiçaõ deia
gradavel. Com tudo, vendo Offis, que pela porfia
dos pareceres, lhe feria impofivel, fuftentar fua au
toridade,quis antes facrificalla,que ofendella, fendo
o primeiro que falou,defpois da propofição de Val
paraízo. Dizendo: Que para dar melhor fundamento ao
difcurfo dos circuitantes, declarava, que/obre ter grandes
razoé, deferivento do mando do Almirante Real O quem
do, não queria ufar delas, antes obedecelo; mas que fe não
cuida/e, que a falta de feu direito o incitava a tão grande
comedimento; porque o merito de aquelle/eu filencio, queria
oferecer por conveniencia ao/erviço do Principe. Que/epa
rece/e ficarfaa pe/da em Galiza, & entregar a Armada
defeu cargo, tambem tinha confiança para o fazer,/apoiio
que lhe fºi/epenofo, deixar defer companheiro nas vitorias,
que e/perava lhe dé/e Zeos a aquelle exercito; mas (e com
tudojulga/em,4/eria apropofito hum D. Lºpe de 0//is,em
aquele conflito, fácãir ocupando opºfio de Capitã, da graõ
Tereza, ria de boa votade,/em 4 o obriga/em,ou elle pre
- - - - tende/-
486 E PANAPHoRA BELICA IV.
pretende/e, outra algüa juri/diçaõ na/ua propria Armada.
Pezoulhe ao General Oquendo, que o General O{-
fis tomafe efte caminho; tanto porque moftrando
fe mais humilde,negociaria o favor de todos, quan
to porque efcufandofe de aquella forte do manejo
das coufas, não feriu facil traz elo à fua pretenção:
que era outra, fenão obrigalo a qlhefofe fervindo
de Almirante.Todavia,pareceo tal a jutificaçaõ de
Dom Lope, que qualquer dos prefentes defejoufe
lhe concedefe mais do que pedia. Affi com palavras
de grande honra,lhe rogâraó todos: Naõquivº/edef.
viar/e defeu exercito, mas continua/e o governo das Armas
que elRey lhe entregára;nê/e emprega/e em pedirthe o ali |
yio do pe/ dellas,pella grande importancia, de que lhe eraõ
feus hombros. Cótra eta perfuação, Offis fenão opos f

{
interiormente certificado,de que o General Oqué
do era taó violento, que feu proprio excefolhear {

rebataria logo das mãos o governo, de que defejava }

verfeliver.Tais erão as razoens comúas; mas as par | (


ticulares, contra feu natural altivo(feja virtude,ou
defeito dos Cordovezes)o confervavão tao repor
rado em meyo dos agravos prefentes, pelo interef. |

fe de hum Titulo, & húa praça do Confelho de In


dias,tudo de muytos dias prometido para a volta de
Flandes; que de nenhum outro negocio tratava cõ
eficacia, fenão de dar hum fim,qual foffe, a etajor
nada, em que feu aumento devia de ter principio.
Donde, por ventura, fe os Principes confiderafem
os inconvenientes dete genero de mercés promif.
- - - - - fôrias
CoNFL1ro do CANAL. 487
, fòrias, echarião que era menor inconveniente, o
que ha, em dar antes do ferviço, que o prometer pa
ra depois delle; porque como o penfamento dos ho
mens, depende mais da efperança, que do intereffe,
julgão por de mayor preço, o que podem vir a me
recer, que o que fabem,tem já merecido; regulam
do defpois ovalor da caufa, não pelo que dellalo
grão tanto, como pelo que lhes cutou o cófeguilla.
Aqui com pequena duvida, ou quafifem ella, foi
logo elegido para Almirante da Frota, D. Andres
de Catro, do Confelho de Guerra, & General da
Armada de Galiza. Foi D. Andres de Catro, filho
do Marques de Sarria, neto de Conde de Lemos, &
i dos fucefores, irmão, & tio, que grão Tio chamárão,
em Catella naquele tempo, por fua grande idade,
& dilata diffimosparentefcos;achandofe nete grao,
com quafitodos os grandes de Efpanha. Eftudou,&
viveo em habito ecclefiaftico, muytos annos fendo
Conego de Toledo; onde cafou illutremente. Mas
por q lhe era já neceffario tomar nova forma de vida
feguio as armas, a tempo que pudera deixallas,fe an
tes as houvera feguido.Porfua callidade o hórara el
Rey, cõ o lugar de Confelheiro de Guerra,& o aco.
modou no Generalato de Galiza, reputãdolha como
Patria. Motràraõ defpois os fucefos, fegúdo vere
, mos adiante, q não he a vida dos homés,capaz teatro
para reprefétar con perfeição,duas figuras diferen
CCS.

Ajultado efte ponto,fe difcorreo:Sobre baterfe de


* Bb achar
488 EPANAPHoRA BE LIcA IV.
achar forma, em que fo/em obedecidas todas as ordens rea
ys, que entre fi invencivelmente, parece,fe opunhão; porque
/e o principal efeito de aquela Frota, era como/efabia/ocor
rer de gête E/panhola aos Eftados de Flädes,tudo parece/e
expunha a hãagrande contingencia,divertindo/e de effe fim,
por andar bufcando a Armada Franceza, por feus mares,
6 pºrtos, ou pelos dos vifinhos: donde,ainda q cão primeiro
intento/e diffen/Sa/e, não havia certa conveniencia, quepu
defe obrigar a/eguir ofegundo, achandofe já o tempo tanto
adiante, que fenão confiderava poder principiar efia viagem
fenão em os ultimos dias de Setembro, quando por aquelas
alturas, rompem furiofamente as tempefiades. }

Efte inconveniente fe julgava de dificil reme


dio aos circunftantes; & tantos mais, quanto os
mayores Cabos da junta, eraó pefoas não fó pra
ticas, mas interefadas em a navegação, a quem
fenão podião moftrar razoens melhores, que as
oferecidas. Mas defpois de varios difcurfos, ulti
mamente fe acordou: Que faíndo a Frota antes de
quinze de Setembro, fe chega/e á Costa de Bifcaya, por
ver fe por aquella parte fe encontrava o poder de Fran
ça; mas fê de/pois, navega/em por derrota, a bufcar a
boca do Canal; porque /obre fere/e caminhº, o que
devião feguir, era tambem o mais certº, donde Jeba
veria de encontrar o inimigo, ou dividido, ou junto;
que de todas as maneiras parece? obra facil/ua batalha,
pois as armas de E/panha continhão toda a força, com
que fui Coroa/e achava então nos mares. Efte voto, fen
do por todos feguido, feremeteo por #
ult4
• -

• CoNFLITo Do CANAL. 489


fulta a elRey D.Felipe,para qfe fervifle de aproval
lo, ou mandar o q osfupremos miniftros tive fiem
por mais conveniente, Cotumão os Principes buf
car para tudo, aos grandes; como fe a pràtica das
coufas, confiftife em a autoridade, & não em adif>
ciplina dos que astratão porém o Confelho de Efta
do, efta ves, não pouco advertidamente, deixou de
conformafe com a volta de Bifcaya, refolvendo:Que
a jornada/efize/e direitamente a Flandes; donde a ocafi
ão/ervia de premio, & incentivo; mas que em tal modo fe
}
#
navega/e por aquella derrota,que/ena pa/agem/e oferece/-
fe o encontro de algüa Armada,/e aventura/e o cabedal,
{ é intentos, a troco de confeguir /ua ruína. Tal foi
{ a refolução, que em breves dias voltou da Cor
tC.

: Dom Geronimo de Aragão, vendofe entre os


Metres de Campo dos bifonhos, mayor por eta
do, annos, & ferviços; determinou com deftreza,in
troduzirfe em o governo dos mais, contra o efti
lo dos E{panhoes: referindo fua pretençam
que antes feguia, que manifefiava) à antigui
dade de fua patente; a qual a todas as outras,
por mais de hum anno, preferia. Com efte pre
texto cofumava a deftribuír algüas ordens, em
trajo de avifos, reportandoas com tudo, fempre
ao Marques General, de tal modo, que fem fof
peita fofem obedecidas: porque fe prefuadião en
ganadamente os companheiros, que a propria def
tribuição de ordens,lhes tocaria outra vez, fegundo
Bb2 ocircu
49o EPANAPHoRA BELICA IV.
o circulo das guardas procedefe; por quanto em a
praça fenão achava, por então, algum Tenente de
Metre de Campo General, q de ordinaria fe efeu
fa,por evitar as duvidas, que fóra de exercito tem de
continuo cõ os Metres de Campo, no exercicio das
ordens comúas: julgandofe coufa monitruofa, que
fendo o Tenéte voz do Metre de Campo General,
haja de eftar a voz, donde não età o corpo,
Andavaó já os Metres de Campo refentidos do
Aragaõ tomar por fua conta o meneo, que lhe não
tocava, ao que alguns deliberadamente lhe refil
tiaó. Por efta caufa,defpois de ajutadas na junta dos
Cabos, todas as difpofiçoens neceffarias para a falda
da Frota, diferão: Que allyme/mo fe devião repartir os
navios, para que todos os recebe/em com mayor fatisfação,
Mas o Valparayfo,que favorecia muyto as partes de
#
Dom Geronymo de Aragão, & lhe queria encarre
gar efte manejo, fe efcufou de terminar a propofa,
com falta de tempo,deixando o negocio com mayor
dúvida, & perigo.
Defpois houve pràtica: De que leria conveniente afº
fentar por aquela vez, º dificulto/opreceito de q os Mefires
de Cápo mais modernos f/ºpellos mais antigo gºvernados,
|
fempre q os antigos cõ os modernos cõcorrefã.Não fe duvi
dava q foffe conveniête, havêdo cafos em q por falº
ta dete a cordo, quando fe dividem em Brigadas os
exercitos, he neceffario defcompor a melhor for
ma delles, para lhe dar cabeça, que reja aos Mefires
de CãPo, que fe apartão cõ feus Terços, a ferviços
Parts
_*

CoNFLITo Do CANAL. 49 I
particulares. Com tudo,os Mefires de Campo mo
dernos, aconfelhados ainda com os mefmos antigos,
fe defendèraõ de aquella compofiçaõ; por fer affen
tado, que húa das mayores prerrogativas de feu po{-
to, era não poder receber ordem de pefoa, que não
feja hum dos Generais do exercito. Dom Martim
Afonfo de Sarria, & tu fomos os que mais pugna
mos contra o exemplo; que defpois nos agradecê
rão, & aplaudirão alguns dos proprios, que fe nos
opunhão. Os nofos Portuguefes, entre as armas
defte Reyno, tomâraõ louvavel méte novo parecer,
por acabaré entre fyhüa contéda, q foy perjudicial
a todas as Provincias, q a padeçeraõ: cujo louvor, &
noticia he a razaó de o haver aqui expofto.
O Marques fe havia empenhado com elRey defe
ordenadamente, como fará qualquer que prometer
pellas vontades alheas: Prometera de prefazer para
} a jornada, o numerº de oito mil infantes, com que pude/em
fer/ocorridos os Eftados;acudindo cã algüas levas do Kono
para /uprir a copia dos que falta/em, dos fenhores de Cafiel
la, & Portugal. E porque em ordé aos ruins alojamé
tos, & baftimentos peores,os foldados adoeciaô ca
da hora, & faltavão muitos, fe havia minorado tan
to o numero dos outo mil, que neceflitava o Mar
ques de mais que a quarta parte de efe nume
ro, para fatisfazer fua promefa; pafou da in
duftria á força, & repartindo pelos lugares
circunvizinhos miniftros de juftiça, & guerra,
prendéraó em poucas horas,
- • Bb 3& a húa só hora
COITA
422 E PANAPHoRA BELtcA IV.
com notavel horror, & efcandalo,grande cantidade
de innocentes. Não febufcava, como devia, o ocio
fo, criminal ou defobrigado; mas em lugar deftes,
foraõ trazidos aquelles, que mais confiadamête po
dião viver feguros em fua Republica, & eraó dig
nos de ferpellos outros defendidos, & fuftentados;
por ganharem no cápo, & cidade, para fi, & para os
outros ácuta de feu trabalho, o comum fuftento.
Com tal exceffo,& defordem fe fez a execução,que
fe póde afirmar: foi ete hum dia de mayores lati
mas, & lagrimas, que fe vio em Efpanha ha muytos
annos, quati prometedores de aquellas, a que efas
ferviraõ de miferavel preludio. As cadeas, & gri
lhoés,que arraftavão os prefos, fazião temerefifimo
etrondo; porém os alaridos, & prantos das máys,
mulheres, & filhos, que os cercavão, excedia o uni
verfal queixume, dos á fe viaõ cativos de feus pro
prios naturaes, & por feus mefmos irmãos tiraniza
dos. Nem para os ultimos abraços da perpetua def
pedida, fe lhes concedera aquella licença, que a
morte não nega em feu mayor curfo. Juntamente
parecia, que o ceo, & a terra,fe haviaõ enfurdecido;
mas muyto mais os homens, de quem dependia o
immediato remedio. Todos os Cabos da Armada,
feretiráraõ a fuas cafas, por não darem com a pre
fença, algúa fombra de aprovaçaõ, a tão latimofo
cípectaculo: porque juntos aos dous mil prifionei.
ros, eraó mais de feis mil pefoas de fraco fexo, as q
fomíniftravão eta tragica reprefenteção. *

O Mar
1. CeNFL1 ro no CANAL. 493
O Marques,pofto que homem de afpero natural,
moftrando defprazer das execuçoens,que via,fe ef
cufava de fua violencia, com a que lhe davão as or
dens delRey, Procurou então livrarfe da pena pre
fente,& deu logo em outra mayor, por ferruim cô
dição dos exceflos, que para desfazer huns, he ne
cefario fabricar outros de novo. Mandou: Que/em
pa/ar a noute na cidade, f/im aquela tarde embar
cados os prefôs todos; donde fe renovou o dilu
vio das magoas,à vita das incomodidades. Ningué
eftranhe a demafia com que refiro efia acção; por
que fendome encarregado o ultimo golpe della,có
a embarcação que ordenei a efia mifera gente, te
nho ainda nos ouvidos o eco de fuas queixas, & no
coração a fombra de fua trifteza.Não pude efcufar
me de fer hum dos inftrumentos defla tyranha, ofe
recendo minha indifpofição por difculpa. Era tal o
trabalho, que aos faôs podia cuflar a vida, quanto
mais,aos convalecétes a faude;fcm embargo fisem
barcar em dous dias, nove,para des mil homens; do
qual trabalho,fe me originâraõ outras largas doen
ças,que padeci por mais de tres annos fucefivos.
O Cardeal Efpinola (filho do grande Marques
Ambrofio de Efpinola) que então ocupava a Ca
deira de Sant-Iago em Compoftella,informado das
miferias, com que os Galegos, & mais foldados do
focorro, fe embarcavão, fes acodir feus efmoleres
com dinheiro, mantimentos, regalos, & roupas,que
repartião liberal,& Bb4
• • • •
prudentemente, com necefis

os mais
494 EFANAPHoRA BELICA IV.
neceffitados. Aos enfermos haviajà o Cabido en
viado por feus Conegos, algúns efmolas de grande
magnificencia,dando a todos lauvado, & louuavel
exemplo; porq do pingue,& opuléto Paó de Chrifº
to,que no tefouro da Igreja fe encerra,faõ os pobres
os primeiros acrèdores. Mas parece que he tempo de
dar razão da falda da Armada, & lifta della, para que
fe façaõ mais proprios,&agradaveis,os termos defa
Relação.
O dia vinte&fete de Agofto, feitos os ordinarios
finais, largou a véla a Capitana Real de Efpanha,
Sant-Iago, com feu Almirante General, Dom An
tonio de Oquendo, & o Governador Miguel de
Orna,a qué tirou da Capitana de Dunquerque,cuja
efquadra lhe obedecia; a fim de q elle lhe governaf
fe a Real de Efpanha.Logo foi feguido da mefma de
Dunquerque, S. Salvador, a quem mandava Dom
Geronyno de Aragão. Junto a eta fua Almiranta,
N. Senhora de Monte Agudo, donde fe embarcou
o Metre de Campo,D.Martim Afonfo de Sarria,&
por Capitão della, Mathias Rombau de nação Fra- ,
mengo. Seguiafe o Galeão S. Francisco da propria
Armada Dunquerqueza, a cargo de Salvador Ro
drigues Portuguez, & natural de Almada; o qual de
grumete, & marinheiro em nofas nãos da India(dó
de foy prezo dos Ingrezes na batalha do Poço de
Currate )fubio antes de 4o annos de idade,porfeu
valor, & induftia, nas coufas da navegação,ao pol
to de Almirante de Dunquerque; nete navio,pelo
nome>
CoNFLIT o Do CANAL 495
nome, & pelo Capitão, fis eu viagem, governádoo
fegundo a fuperioridade do oficio,ã exercia. Logo
São Vicéte Ferrer,em q embarcou Belchior Correa
da Franca,& por feu Capitão, Gafpar Ferreira,tam
bem Portuguez, & natural de Argra, cabeça das
Ilhas dos Aflores. Ao navio S.Vicéte, feguião todos
os mais Dunquerquezes de aquella Armada;defpois
a efquadra de São Jofcf, de que atrás havemos feito
menção, governada de feu Almirante Francifco Sã
ches Guadalupe, com doze navios os melhores da
Frota, debaxo de fua códuta; E defpois deta efqua
dra, a de Mafibradi, à ordem do Almirante Mateo
Esfrondati, com nove navios.Na retaguarda defes,
navegava a Tereza, que fora para Capitana defte
Reyno, fabricada por Bento Francifco, homem no
tavel entre os nofos; cujo nome he bem que ande
em memoria, pelos poderofos,& excellétes navios,
que fes neta idade: pois affi como o pay natural de
filhos nobres, & grandes,he digno da veneração da
pofteridade, não menos o deve fer, aquelle, q artifi
cialméte gèrou obras, não fó iluftres por fua magef
tade, mas utilifimas profua fortaleza à Republica,
em aqual virtude não fabemos outro, q atè o pre
fente,mayor lembrançahaja merecido.
Na Tereza, como em fua Capitana propria,
navegava Dom Lope de Offis, fem bandeira, nem
flamula, nem outra algúa infignia, que fua grande
za. Servia de Capitão dete notavel navio, o Al
mirante Dom Thomas de Chabuiú, Bifcainho,
• - - & bem
- •
496 E PANA PHoRA BELICA IV.
|
& bem prático na difciplina nautica, feffentaca
nhoés grofos, & feifcentos mofgueteiros a guarne.
cião. Porfua popa navegava em o Galeão S. Jofef;o
Metre de Campo da Armada Real, Dom Gafpar
de Carvajal. A feu lado em o Galeão S. João,o Sar
gento mòr Dom João Afcencio. Seguiafe a efqua
dra de Napoles, conduzida de Dom Pedro Velez
de Medrano, em a nào Orfeo. Júto deta Saõ Pedro
o Grande, a cargo do Metre de Campo D. Anto.
nio de Ulhoa. Em o ultimo troço da retaguarda, a
Capitana de Galiza, que por aufencia do General
Dom Andres de Catro(o qual como difemos,paf
fou a fazer o oficio de Almirante General)gover
nava feu proprietario, Almirante Francifco Feijó,
a quem feguião os navios de feu cargo. E defpois
delle, nove nàos Ingrezas, recebidas a foldo, para
conduzir Infantaria a Flandes; das quaes fes affento
Duarte Chapel, mercador Ingrez,& com elle inad
vertidamente os oficiaes delRey; ignorando toda
via, o fucefo referido,de Dom Simão Matcarenhas,
Rematava,como he ufo, a Almiranta Santo Agofti
nho, Capitana que foi de Napoles eta fermofa re
fenha: a qual (egúdo difemos mandava por mayor
o General Dom Andres de Catro,& por menor o
Almirante Dom Etevaõ de Olite. Era finalmen
te a Frota de tal maneira, que conforme aos livors
da Vedoria geral,fe davão cada dia em toda ellavin
te & cinco mil raçoés, entre gente de mar, fogo, &
guerra, afim a pretencente á guarnição de húas &
O UltraS
CoNFLIT o Do CANAL. 497
outras efquadras,como às companhias do focorro.
Noventa & fete Capitaés de Infantaria, cincoenta
& tres de mar, tres Generais, feis Meftres de Cam
po, feis Almirantes,quatro Confelheiros de guerra;
muniçoés em abundancia, & dinheiro para as pa
gas do verão feguinte: o qual fobre fe haver em
barcado fecretamente,havia quem fubife a quanti-,
dade do contante, a numero de outocentos mil cru
zados. -

No proprio dia, que a Armada deu à vela,perdeo


a terra devifa, navegando com pouca diferença
da ordem referida, porque a temperança dos tem
pos claros,& cóveniétes,a deixavão obfervar igual
mente. Defte dia até os onze de Setembro, que en
cheo a altura do Canal, não houve fucefo algum
digno de lembrança; porque fem duvida fe prepara
vão entretanto os accidentes,que pouco defpois a
contecerão, para que todos jútos lografem fua vio
lencia nos fucefos, que lhe etavão detinados. Os
navios ligeiros de Dunquerque, como mais pràti
cos naquella navegação, forão os que anticipada
méte fe atravefaraó a bufcar fúdo,em altura de qua
renta & outo graos, & dous terços para láçar,a fon
da, medir as agoas; porque naquelles mares fófe
governão pelo fundo os mareantes,o qual cotuma
acharfe de noventa, atè outenta braças, & fe conhe
ce a cota mais vifinha; porque da parte de Ingla
terra, fe tras area grofa, vermelha, & branca, & da
de França,os finais que faz no cevo do Prumo, a #
[] [] 2
-
98 E PANAPHoRA BEL I c A IV.
nha talhada miudamente, que corre atè feus portos,
por donde os mais faõ incapazes de navios grandes,
como em tudo pelo contrario fucede aos de Ingla
CCTT2.

Reconhecida aquella boca do Canal, q tátas Ar


madas de Efpanha té comido, foyelle logo entrado
deixando ao Noroefte o tomerofo baxo dito Sor
lingues: Ilhas baxas fomidas das ondas, que compli
ces obtinados forão fempre dos mayores naufra
gios,q o Norte padeceo. Pouco adiante foy reconhe
cido o Cabo, q chamão: Gaude/tert, primeiro de In
glaterra, q Rabo depa/aro, por fua femelhãça,foa em
noff lingoagé. Defpois fe deu vita ao chamado Zi
garte, reconhecido continuamente, pelos q navegaõ
aquela cofta;a qual côvéto largo difcurria a Arma
da,com todo o def;áfo, & comodo,que pôde ofere
cer húa viagem profpera: não havendo até aquelle
dia, fucedido algum defconto em tam grande frota,
falvo o apartamento das naos Ingrezas do Chapel;
as quaes na primeira noute fe engolfáraó de forte,
q nunca mais vieraõ ajuntarfe cõ a Capitana; ainda
cótra o capitulado có ellas; mas efte inconveniente,
fegúdo foy melhor efperado, que prevenido,a nin
guem caufou novidade.
Os Reys da Gram Bertanha, que neta forma,
por decente antiguidade, fe nomcavão, os Princi
pes Ingrezes, denotádo afi a uniaõ das tres Coroas:
Inglaterra, Efcocia, & Hibernia; crecétão tanto em
autoridade Portodo o Setentriaõ, que entendéraó
- lhes
CoNFLIT o Do CANAL 499
lhes competia dar leys aos mâres, fegúdo lhe havi
aõ dado volta; & como entre os vifinhos coroados
era mais fublimada, que a dos outros,a potencia na
val, em que floreciaô; porque a pobreza dos portos
em França,lhe fas neta parte inferior aquelle gran
de dominio:& da me{ma forte Flandes,né Olanda a
feus principios, podiaô difputarlhe o imperio das a
goas ; por efia caufa, a feu parecer juftificada,
chegáraõ a conflituirfe arbitros do Canal, que cha
mão de Inglaterra, & de Flandes tambem: por fera
eftrada comú de aquelas Provincias; naõ permitin
do q outra Armada de algú Principe deixafle de ce
der, & abater feu eftendarte à Capitana dos Ingre
zes; & paflarão a diante nefta foberania, de tal mo
do, que qualquer navio Real, conhecido pelas fiá
mulas, & divifas, diferentes dos mercantis, preten
dia q cõ elle feguardafem as proprias preeminen
cias,arrogadas a fy,de fuas grandiofas Capitanas.
Nefte cofiume fundou a oufadia de húa peque
na fragata delRey de Inglaterra,para que encontran
do em meyo de fua Armada a Real de Efpanha,
chegafe a lhe demandar o devido ecatamento a Coroa
Ingreza, em falta defua Capitana; que ainda entam fe
não defcobria. O General Oquendo lhe mandou
refponder com mayor temperança, do que fe julga
va merecer fua propofa, dizendolhe: Que quando
fe encontrafe com a Capitana Real delRey de Grão Berta
nha uzaria com ella os comedimentos que elReyfu/enhor
lhe mandava; & afi poderia certificallo aº General
• -- Ingres,
5oo E PANAPHoRA BELtcA IV.
Ingrex, logº em o vendo.Por qfe entendia,q o General
uífera fazer em aquella forma efperiencia do ani
mo, & ordé do Oquendo,para q fegundo efa obter.
vaçaõ, fe difpuzefle a defviarte, ou a feguilo.
Eraó quinze de Setembro, quando depois de
defpedida a fragata, arribou fobre a Capitana de Ef
panha hum navio marchante Ingrez, que vinha de
Londres, o qual, em premio do bom tratamento,
ue a chou entre os Efpanhoes (por fer devida to
da a urbanidade dos efirangeiros, aos naturais, mas
nem de todos obfervada; porque a foberba he ini
miga da razão,não menos q da conveniencia)avifou
q o dia antecedéte fe encôtràra a Armada de Olan
da;aqual difcorria em demanda da Efpanhola,o cur
to mar, que fe comprehende entre os Cabos, que fe
chamão: Cale E/clif & Beverzi, aquelle da parte de
Bretanha, & efte de Fráça; o qual he a mais Occi
dental põta de terra,que fas a enceada do Rio Soma,
& o pafo mais etreito de todo o Canal de Ingla
(ICTT2.

Afirmava atè então, não fô o receyo, mas o dif.


curfo: Que a Armada do Arcebi/po de Bordeos Sordis,/e
achava junta com a do General Tromp, que governava a de
Olanda; cujos dous poderes unidºs à fombra de fuas provin
cias,º pórtos farião/em falta, duri/ima o pofição aos E/-
panhoes. Mas agora certificados, de que os Olande
zes e fperaváo fómente com fuas forças a batalha, &
ainda efFºs divididas em varias efquadras,não houve
quem os n㺠julgafe derrotados,& a_vitoria por Ef
panha. Püblica
CoNFL IT o Do CANAL. 5or
Publicajà por toda a Armada, a vifinhãça do ini
migo, pareceo aos Cabos, acodir de novo a conful
tar com o General;o modo da peleja; porque fu
pofio que os regimentos o tinhão difpofto, não era
em tamboa maneira, que não faltaffe muito q con
ferir, & que emendar. Porêm, o Oquendo, levado
da colera, ou artificio, moftrando defeftimar tanto o
º poder contrario, como a dúvida dos fubditos, nem
com a ordem, nem com o agradecimento fatisfes a
a huns, nem a outros: dandofe por pouco agradado de
aquella advertencia. Sete, ou outo oficiais mayores
de Mar,& de guerra,eoncorrérão juntos em fua Ca
º pitana. Não me efque cêrão ja mais as palavras com
que delle fomos defpedidos,que atè pelas não vari
ar, efcrevo em feu romance proprio: Ea/hores)nos
dife:) elenemigo espoca ropa, cadayno haga fu mejor, que
yº lindo caballo tengo; la Realdará buenos exemplo, Tam
grande era fua confiança, mayor, fem falta, que fua
prudencia.Não direyfe o deixàraõ mais defconten
te, ou o vieraõ delle, todos os que o bufcàraõ; nem
fe foi pronoftico, ou defejo aquele afecto; com que
efperàraõ fer vingados, pela confufaõ, no perigo,
como fucedeo brevemente.
- A quella tarde, & noute, fe gatou em aparelhar
para a batalha;por q o inimigo fedefcobria na volta
da Armada. Muytos quiferaõ entender, que as or
dens primeiras etavão ja revogadas, dando porra
zão: Que não vindo o inimigº em aquele modo,quenas mef.
mas ordes/econfiderana, era força afir de outras mais pro
- - - prtas,
5o2 EPANAPHoRA BELICA IV.
prias, que funda/em na difiºfição contraria. He verdade
ue o mais felice accidente que a hum capitão póde
fuceder em húa batalha, he concederfelhe tempo,
para que pofa dar a feu exercito a forma conveni
ente, com que refita, & ofenda a feu inimigo; por
fer certifimo, á imaginada maneira em q fe côfide
ra,não póde trazer aquellas noticias tão prefeitas co
mo a vita delle produz,quãdo feté diáte dos olhos.
Amanheceo o dia, quarta feira, defafeis de Setê
bro, & com elle fe viraõ os navios de Efpanha aper
tados, huns dos outros; como fe aquella noute a for
tunados contrarios os houvefe governado: porque
compaflandofe cada qual diverfamente, & procu
rando todos bufcar lugar mais a feu propofito, para
o combate, andavão confufifimaméte cortando os
mares,& embaraçando, huns o curfo, & intento dos
outros, com incrivel defordem. Por eta caufa, &
pello zelo com que defejo efcrever, aproveitando
nas obtervaçoés hiftoricas, aconfelharei a quantos
houverem de dar batalhas com poder grande: Que
antes della,o dividão em e/quadras, com 4 combatão difin
tamente: Porque a efperiencia tem moftrado, como
a aquelle capitão, que affi o fabe melhor difpor, &
aquelle que melhor o obferva,lhes importa efia di
ligencia, não menos que a vitoria.
Seria pelas fete horas da menham, quando fe
defcobrio de todo a Armada Olandeza, que com o
Proprio vento Noroete, com que navegava a Ef.
Panholana outra volta, vinha em fua demanda, Po
ICIII
CoNFLIT o Do CANAL 5o3
remerão taõ poucos os navios, que jà fe duvidava,
fe por ventura feria engano, o mefmo que eflavaã
reconhecendo, & aquella algúa efquadra Ingreza.
Só onze nàos de Olanda fe contavão jútas,feis mais
diftantes, em bordo diferente.
O General Oquédo, anciofo do Combate, mof.
trou mais, & com mayor dano, aquellaves em fua
vida,quanto preferia o animo de foldado,ao efpiri
tu de capitão. Largou todas as vélas ao vento; &
fem cuidado algum do mais refio da Armada fe foi
perlongando com a Capitana inimiga, feguido fó
mente dos mais veleiros navios de Dunquerque,
a quem tocava o lugar da vanguarda, & o focorro
da Real; entre os quaes,fe adiantou aos outros aCa
pitana de aquella efquadra,& os que fe acharaó por
# menores,& de menor perigo,fimpre juntos á Rcal,
& com eles o galeão, q governava o Sargento môr
D. João Afcenfio.
Diferaó muytos,que não fehavia vito atè entaõ
dia, em q o receyo da batalha tiveffe melhor difcul
Pa: fucedédo, q por falta de ordés accidétais,ã dé
tro no acidête fe puderão bem repatir, muytos ca
pitães, que etavão perto do inimigo, feapartavaó
delle, com o cafiaõ de acodirem a bufcar feu pcto,
fegundo o lugar, que na planta lhe tinhão finalado.
Alguns achandofe a barlavento do inimigo, o per
dião facilméte: porque os Cabos do troço, em que
} craõ comprehendidos, amanhecerão fotaventados
}
da mais Frota. Efes defconcertos, quafimomenta

Cc InCO$
304. EPANAPHoRA BELIcA IV.
neos,nas coufas da navegação,té defpois de cometi
dos, dificultofo remedio: por onde aos Generais
do mar, mais comven olhar para os amigos, do que
para os inimigos, no tempo da peleja; contentando
fe com ferem caufa dos acertos dos uotros como cá
em o faó dos erros, quando lhes não poem o reme +
dio, que devem.
O General Tromp, cujo propria nome era: Mar.
tim Herps, com título de Tenente General do mar
(porque feu governo, e n propriedada, pertencia ao
Principe de Oranje) não era informado inteiramé
te do poder das armas de Efpanha; fendo certo,que
os Eftados gerais, ou que não vieffem por feus con
fidentes a alcançar a vinda da Armada de Italia, ou
que lhes parecefe diffinular a ventagem,que cõ ela
os Efpanhoes lhes fazão, fempre certificàraõ a fe
us Cabos, era fó o braço de Dom Lopo de Offisa.
quelle, a quem fe havião de opor, reprefentandolhe
a batalha. E como para com etas forças, as de Olan
da etavaõ fuperiores,a fim de que tão honrofo com |
bate lhes não faltaffe,fes dividir o General Olandes,
em tres efquadras os navios,com que fe achava: húa |
que fe fizeffe na volta do mar do Norte, a cargo #
Capitão Ban Karth, fe acafo foffe certa,(como fe
dizia ) a vinda por fôra de Inglaterra, conforme a
principio tentárão fazer os Efpanhoes; outra, #
rondaffe todos os portos de aquella ilha, encomen:
dada ao Almirante Viten Viticen; & aquella qu:
comfigº trazia, fobre a cota de Flandes o me>
II10.
CoNFLIT o Do CANAL. 505
momelhores
as General;dos
queEftados.
não paflava de onze náos, porém•

Reconhecendo pois o Tromp, no graõ poder


-
da Frota de Efpanha, feu engano, & o que lhe era
feito por feus mayores, a tempo que fô o valor lhe
podia dar remedio, lançou bandeira de cófelho de
fronte do inimigo, & chamando a fios Capitães, cõ
que fe achava, nefte proprio sétido, me afirmou el
le defpois, que lhes difera:
O nafcimento nos obriga a morrer pela patria, o ficio
pela Republica, a honra por nós mefnts.para fla hora, ka
tantos annos que nos fuflentão os Fflados de Olanda; nin
guem pode dizer que he enganado, fucedendolhe o me/mo,
que fempre devia de e/perar. Ali fá o estendarte de E/-
panha, que nunca vimos nefies mares, fenão para abatello
diante deno/a bandeira. Não vos pareça foberbo,nem ala
to, pelo verdes acompanhado de tantos, que lhe obedecem;
pois na forma em que já o tempofio a confideração do perigº,
fe conhece quanto farão, por fenão verem nele. Se/óv/a
vifla os embaraça, que não acabará vo/a força? Quem teme
das aparencias,tem dado palavra deferenderás demostra
goens. Alguns navios poderofos de E/panha, estou acoláre
{ conhecêdo,mas os navios, como fortalezas,corpos/5/em al
} ma, quando lhes não ferve de e/piritu, o e/pirito dos bravos
homens, que làfaltão para defendellos. Aquelles beficês de
(Borgonha 4 tremolão nas popas de effes navios brabantezes,
} ninguê ignora, q têmais virtude nas mãos de feus pyratas, 4
nas de feus capitães;porq o intere/e ajudado da prática,ex
cede muyto qualquer efeito da obediencia,a quem de/irrea
Cc 2
•- • … vontade
------+
5o6 EPANAPHos.A BELICA IV.
vontade,fenprerem/h em fêmelhantes accidentes: pois a
queles homens,a quemfis ou/ados a cobiça, poucas, ou nº
nhñas vezes/em ella,de/prezã, a vida; porque fogeitos vís,
não achaõ na gloria o/abr,que no proveito. Os mais navios,
qui vedes de/correr /em difciplina, acrecentão o numero,
não asforças;$comº só/ervem de ministrar a confufaõ,cer
to,quantos mais trouxerã), mais/egura nos dariaõ a vitoria.
Com tudo,eu digº, que fe com onze navios, que aqui nos a
chamºs,quizermos dar batalha afetenta, que temos diante,
temeridade parecerá, mas fenôs destes onze,pude/emos/a-
zer hum tón vio,aquelles,que tal monstruo comete/em, ef
fes feriiõos tenerarios:porque quem com razão viva, é º
lhos abertos,fe determinaria a enve/tir hã, penha incõtraf
tavel,fendo guarnecida de quinhentas pe/as de artelharia,
que entre nós todos fêrepartem; donde não feife º furor,
ou a defireza, fe excede. Procurai lºgo, a/fim fi
briquemos esta nova maquina, da qual nos faremos aos
bifolhos horriveis; & e/les/am quafi todos /eus foldador.
Aos valentes feremos dificultofos, com tal modo de teleja,
umamonos pois amigos,em corpos,& almas,no/a vontade fe
jabão sônjos braços,quaes os de hum corpo; que como fi- +

çamos comum a morte,& vida;hã que nos matem, vingare


mos como/e fo/e injuria de todos,hum que viva,triñfará por
todos juntos. He nece/ario;que pois quantos aqui me ouvis
foi práticos na difciplina do mar;obreis de maneira,quee/les
nofos navios/eju tem,tanto,que por nenhum terigº deixem
penetrar/e de algia força contraria. Faleça cada qual em feu
lugar,porque o ir acabar em outro, naõ dá algum privilegie,
mem ámºrte, nem ávid : Mau 1uando /obre todo o valor,
----
- CoNFLITo bo CANAL 5o7
& industria, prevaleça a de/graça, lãa hora havia de fer,fe
}
efiava nos Ceos afia/entado: pois que importa que feja fia?
#"
Ditofos aquelles, que apreçº defeu rifco comprarem afegu
*

rança da patria, mulheres, religião!


Eraõ os Capitães, que fe achavão no Confelho
de Tromp: Colfter, Nam, Cornicem, Foraó, Port,
Kamp, Brederode, Baosk, Horcling, Rtngelz; os
quaes fem outras razoens que a obediencia, voltá
raólogo afuas náos; & ajuntadoas diligentemente,
de tal modo as compaffaraó, que os goroupezes de
húas, beijavão fempre os foròes das outras; fem que
por entre todos,pudefe atraveffar a mais futil falúa.
Igualmente era de fproporcionada a forma dos Eí
panhoes, que em huns a etranheza, em outros a im
piricia, fomentava. A Armada de Dunquerque em
melhor ordem,que os outros,feguia a Real. Os mais
navios, cada hum donde fe achava, fazia porque
fevife, que o feu propofito era chegar ao inimi
O.

O General Oquendo, ocupado de inutilifima


vaidade, defejando fazer fua toda a vitoria; veyo a
tiralla de fy, & dos feus, entregádoa ao inimigo: co
mo não poucas vezes fucede aos homens,que cega
mente procuraõ as coufas, pelos me{mos caminhos,
que dellas fe vão defviando. Era feu animo inveftir
a Capitana contraria, fem difender algum tiro de
bombarda, ou mofouete: a efte fim feguido defor
denadamente de alguns navios, fe igualou com os
Olandezes, para que juntas ambas as Capitanas, at
Cc 3 ribaffe
5o8 EPANAPHoRA BE LICA IV.
ribafe fobre a do inimigo, Porèm como as coufas
do mar, fejão tão violentas, &tam incertas, que de
ordinario a tropellão toda a prevenção, & pericia
humana, ao tempo que a de Efpanha, quis lançar à
banda,por caír fobre a Olandeza,ficou já de tal mo
do defencontrada,& táto a traz della, ja naõ pode
ferrar, como entendia, & procurava. Entrou a cami
nho logo para fe melhorar, mas a tempo que felhe
havião adiantado, todas as naos contrarias, Quis cõ
tudo o Oquendo,não perder o acometimente, don
de fenão confittia a vitoria, confiftia a feu juizo, a
opinião da batalha: errademéte por certo, porque
contra os triunfos que fe alcanção, não ha tam fe
vero juiz, que peça conta da forma, porque fe
alcançàrão, antes de toda a maneira fe aplaudem.
Aficótinuou envetindo defpois a Almiranta, que
detrifimamente fe defviou de feus arpeos, deixan.
do em vão as fantefias, & ventagens Efpanholas.
Mas o Tromp não contente do fucedido, rendeo
o bordo com todos feus Capitães, & carregando fo
bre o Oquendo, & dandolhe furiofifimas cargas de
artilharia,com fuas onze naos,lhe fizeraó tanto dano
que paflado o fumo do primeiro combate, fó pello
lugar, em que fe defcobria a Capitana de Efpanha,
foi de fua Frota conhecida. As bandeiras com que
feadornava, voaraô rotas pelos ares. As xarceas pa
recião bandeiras, tremolando triftemente açoutadas
do vento, & cortadas dos pelouros de cadea inimi
gos. Então o Oquendo da propria forte, que fuce.
de
CoNFL1ro bo CANAL. 509
de ao bravo touro, quando de muytos libreos hefe
rozmente acometido, que cegamente felança apoz
dos que o tem afrontado; afi elle com a nào cheya
de feridos, efpedaçados, & mortos( que fe afirma,
foraõ defte primeiro encontro, mais de cento & cin
coenta) galbardamente hia arribando contra os que
lhe ficavão mais perto;os quaes carregou de horren
das baterias de feus canhoés, & cótinuas cargas de
mofouetaria, de que o inimigo por fua vifinhança,
recebeo confideravel dano. A efe tempo fe achava
jà com a Real: bó numero de feus navios, que «m-
baraçãdofe com os Olandezes, eraõ baftantes a de
tellos, todo o tempo necefario, para que chegafe o
reto da Frota;da qual não podia efcapar o inimigo,a
pefar de fuas artes, Esforçoufe a efte tempo, entre
hús & outros o combate,julgãdo tambem,hús & ou
tros, por Efpanha o bom fucefo, porque fupoto q
o Almirante Viten Viticen, com cinco grandes nà
os, & duas defpois das mefma efquadra, fe haviaja
incorporado com o General Tromp,de nenhúa ou
tra coufa lhe podia fervir naquella hora o focorro,
de lhe fazer mayora perda, & dar mais callidade, &
interefle à vitoria de Efpanha; a qual fem duvida fe
começava a declarar por fua parte, com o incendio
de húa nào Olandeza, a quem por grande chamavão
o Grão Chrift naã Ardeo por fogo furtuito,procedido
de defcuido, ou defgraça; mas como os Cabos Ef
{ panhoes eftavam tam fequiofos de alguns nobres
feitos,até aquelle ponto naõCcfucedidos:
- 4. •dou fé,que
feis
5 ro EPANAPHoRA BELICA IV.
feis pefoas de grande poto, foraó pretendentes da
honra defta tragedia, atribuindo cada qual a fua pro
pria força, a ocafião do fuceflo; donde pereceraó a
brafados, até cento & vinte Olandezes, porque o
reto de fua guarnição fe falvou indiferentemente
por amigos, & inimigos.
A chavafe o Tromp,não pouco cófufo,mais ain
da pelo fitio em que fe via, que pela grande Ar
mada que o cercava. Aquela ponta de terra de Frá
ça, donde fe forma o arco da enfeada de Bolonha
(dentro da qual,em prayas de grande parcel, de fem
boca o Rio Soma, de que a tràs fizemos menção )
lhes tomava aos Olandezes jà o Barlavento, demo
randolhes pelo rumo de Loesnoroefte; era impof
fivel dobralla, como elles neceffitavão, para poder
falvarfe, fem cair em mãos da Frota, que em modo
do efquadraõ,chamada dos foldados: Grande ferente
os tinha reduzidos a hum breve fitio, entre a terra,
& okio. De outra parte pelo Suete, Sul,& Suduef
te, corrião os bancos, & baxos,que por toda aquela
cota, & portos fe eftendem: donde ajuizo dos pra
ticos, nenhúa outra diligencia lhes faltava aos Efpa
nhoes, para arrecadar os depojos contrarios, que
profeguir a me{ma volta que levavão; pois nave
gando diante navios de tanto porte, os mefimos Olá
dezes, por não encalhar nos baxos (que lhes ferião
mais crueis inimigos,que os Efpanhoes) ameaçando
as vidas de todos, dos dous danos eminentes, a que
fevião expofios, cfcolherião antes a entrega, que o
naufra
CoNFLITo Do CANAL. 51 r
náufragio: Quãto mais,q oferecidos á defenfa, fem
pre os homés lhes farião melhor partido, que os pe
nhafcos. •

{
Afi navegava fobre eles a Armada de Efpanha,
quafi como em montaria fucede, em húa fermofa
ala, q algúas vezes,mais, ou menos fe eftende; quan
do o Ceo, q tinha detinado em outro modo, o fim
de a quella obra, por fecretos juizos de Deos, per
mitio que o General Oquendo, engeitafe a gloria
de aquelle dia. Differão muytos: Que por não com/entir
ferepartiffe della com os émulos; porque lhe nãoffeo o co
ração altivo,& defafeiçoado,que quando ele nãopodia pele
jar, efine/em eles vencendo. Indigno refpeito,por cer
to, de entrar em hum coração grande: reprehenfi
vel em o de hum igual, & condenavel em o de hum
fuperior; que em todas as acçoens de feus fuditos,
tem herança de gloria, ou vituperio.
Refolveofe Dom Antonio de Oquendo,a voltar
pello contrario rumo que levava. Dife: Que por dous
fins: ambos aparêtes. O primeiro,porque temerofo da volta
do inimigo, era proceder como prudente, fazer os rifcos dos
yencidos, atalays dos vencedores; o fegundo, que voltando,
não poderia perderavitoria,antes a a/egurava mais util,re
cebendo por melhor modo aquellas fermo/as mãos, que cami
nhavão afer de/pojos das ondas no parcelvífinho.Se faltou
no difcurto, dirà o fuceffo;porque voltandofe,como
he ufo, o vento pela tarde, & aproveitandofe do
terral, foi cofteando o Tromp a terra de França,
femalgú perigo nella em tal maneira, que ao outro
• dia
12° EPA NA PHoRA BELtcA IV.
dia eftava fora da enfeada, & do inevitavel dano, &
já a barlavento da Armada Efpanhola.
A todos cutou húa melencolica trifteza, ver def
pediríe por aquelle modo, da boa fortuna que fua
vemente os conduzia a hum prezado triunfo. Doze
horas ferião do dia, & feis da batalha,quando a Real
rendeo o bordo, mas em duas mais fenão refolveraõ
a feguilla os outros Cabos, atè que repetindo o
General os ordinarios finais de retirada, com multi
plicadas pefas, fes recolher a todos, levantando ao
Tromp (podemos dizer ) a menagem da prifad,em
que jà o tinha como prefo.
Navegaraó a tarde toda ambas as Armadas; com
que a Olandeza houve defe melhorar em fitio, for
ças, & vento, faindo do eftreito mar, em que come
çou a batalha.Pouco defpois felhe ajuntou a fegú
da efquadra de quinze náos boas, do cargo de feu
Almirante Viten, cuja pefoa não montava menor
focorro, que elas. Ja refpirava o ar por fuas popas,
& refpiravão jà os oprimidos Olandezes, do gran
de perigo, em que pouco antes fe havião vito. Por
efta caufa em fabulas, & fimbolos mifteriofos, de
buxârão os antigos aos olhos do corpo, & efpiritu,
algúas doutrinas de grande utilidade: donde aquel
la virgem, chamada Occafiaõ, pintàraõ com a revería
parte da cabeça defpovoada da fermofa melena, que
diáte enriquece, & adorna fua fronte; motrando
fabiamente,como fempre ficará efcarnecido,aquelle
que topandofe cometa varia donzella, fe defcuida
de
CoNFLIT o Do CANAL. - 51
!
de a prender pelas primeiras trãças, que ella lhe o
ferece, efperando detela pelas ultimas,
A noute do dia, deza feis de Setembro, & o dia
todo feguinte, fe gaftou de ambas as partes, em cu
rar feridos, aparelhar as armas, & reparar os navios.
Porém Tromp, paflando a mayores intentos, fe oc
cupava em difpor a batalha feguinte, Affi por não
efcorrer a boa paragem donde fe achava, levado da
violencia da marè, que aly defce impetuofamente.
Deu fundo, & com elle fua frota; o que vito pella
de Efpanha, fes como, alguns navios della fe
guifem feu exemplo: & pouco defpois a Real, re
conhecendo o defvio, a que fe expunha navegando,
Porèm a Tereza, que entre fuas perfeiçoens, não
havia ainda confeguido o dote da ligeireza(não por
defeito da fabrica, mas do aparelho) fem lançar
ferro, como os mais, gaftou toda a noute,& dia com
pouco pano largo em fe adiantar ao refio dos Efpa
nhoes; por cuja boa diligencia fe achou na diantei
ra o dia defouto, & junto della, alguns Galeoés dos
mais pefados, & fortes, que todos ferviraõ de forta
lecer o combate, como veremos.
A penas feria rendido meyo quarto da terceira
guarda, quando o General Tromp, começou a mo
verfe. Efta vigia, coflumão chamar os que vèlão de
noute, com vulgar nome, a nofo parecer: Modorra,
por fer mais que os outros, ocafionado ao pefo do
fono,mas fe revolvermos a erudição,acharemos que
Por morros em Grego,que os latinos dizem morio,Il OS
&
16 E PANAPHoRA BE LICA IV.
vimos, & foubemos, que nas Dunas,povo de Ingla
terra, cinco legoas diftantes do lugar do combate,
tremeo de tal maneira a terra, que a gente fe (ahio
ao campo, por quafi todas as horas da peleja. Em
Calés de Fráça, que por mais de fete legoas fe apar
tava de aquelle fitio, forão rotas quafitodas as vi
drafas das janellas;& contandofe do mefmo lugar a
Cambray, vinte & duas legoas, fe contavão em a
quella graó Cidade, os tiros dos canhoés, diftinta
inente.

Não foi com tudo igual o dano, ao efpanto: por


que como as Armadas fe achavão pouco vifinhas, &
muyto confufas, pela fombra da noute, não havia
lugar de que fe obfervaffe nas cargas a detreza, &
arte da pontaria. Era pequeno o eftrago recebido
de huns, & outros; porèm a defpeito de qaffi fe co
nhecia de ambas as partes, nem por effa razão para
vão os Olandezes, antes profeguião as baterias: dó
de alguns Cabos Efpanhoes, entendèraõ, & afir
máraó Que o Tromp com grande artificio, quizera di/pen
dorf is muniçºens naquella forma,porquefendolhe nece/2-
rio eferimentar de/pºis o golpe da fuperioridade, é vigor
EfpanholffSejá a tempo, que fendolheforçº/a a retirada,/*
atribui/e antes á falta das muni纺s,que á das forças.Seria
por ventura efte juizo fabricado pela malicia dos
émulos.
Veyo o dia, & fe cemeçou de novo a pelejar cõ
mayor furia, mas não com mayor concerto: porque
como a Armada de Efpanha, não havia recebido
II] 215
CoNFLITo Do CANAL. 5 17
mais ordem,que a primeira,tinhão fófobre fios Ca
pitães della, por Juis feu proprio valor, ou difcipli
ma, tudo em muytos defigual,& em outros incertos:
porque na guerra, fempre foi menor o numero dos
melhores, A Frota inimiga fe defcobrio, formada
em duas alas, que húa trazia Tromp,& outra Viten:
os quaes, á maneira de defiros cavalleiros, em praça
fetiva, entravão, & {ahião, dando podcrofas cargas
fobre os Efpanhoes, que já mais lhas recebião em
forma femelhante; porque juntos em hum corpo
prolongado,como aquelle efquadrão,que os folda
dos chamão: Pobrete; & Paralelo, quafi Gramino, os
Geômetras: cujo lado direito, fervia de vanguarda,
por ferem de aquella parte acometidos; fe ficavão
guarnecendo de quatro, ou finco fileiras de navios,
por tal modo que fô a primeira dava, & recebia as
cargas competentes, & os mais que fe achavão fora
do perigo, não procuravão entrar nelle,parecendo
lhes, q naquelles lugares, que lhes foraó afinados,
cumpria cada qual com a obrigação defeu pofio.
Porêm ajuntando hum erro a outro erro,era laftima
ver o barbarifmo,com que dando cargas aos contra
rios, a menos mal empregada, defcarregava nas on
das; porque muytos tirando aos proprios compa
nheiros, que fe achavão mais perto do inimigo, fò
fervião ao desbarato dos mefinos companheiros.
H via tomado Oquendo feu lugar na batalha;
porque a Tereza na vanguarda, pelejava de forte,
que qualquer outro valor efiava cfcurecendo. Nem.
3 OS
518 EPANAngoRA BELICA IV.
aos amigos confentia à ilharga,né aos inimigos di
ante. Foi averiguado, que difparou efte navio na
quellas horas,sô da parte de Eftibordo (affi chamam
os navegantes ao lado direito) nil;& quinhentos &
vinte canhonaços,pella conta dos cartujos, que c{-
tavaó feitos:Cartujos,fam huns vafos de pano,perga
minho,ou papel, q de fer dito Carta,fe diferaõ, Car
tujos, os quaes contem a certa medida da polvora,
com que fecarrega qualquer peça, para fazer bom
efeito, & tem proporção matematica com os dia
metros,de que a pefa he fabricada ) foram muytos
outros tambem os tiros,que fem cartujos fe difparà
raó;& acrecentaõ notavelmente efte numero. Era
medonha,mas fermofifima, a vita que refultava da
força de feu combate,fundada não sò no valor, &
copia dos combatentes,mas na mefua fortaleza do
navio; que como fe foffe forjado de finifimo aço,
"raõ fatalmente,como fingio a antiguidade das armas
de Aquiles, por todo feu grande corpo parecia im
penetravel.Taó robuftas faõ as madeiras de aquella
falicifima Provincia de Lufitania, q jaz entre 1)ou
ro,& Minho, &he affi chamada: donde fe achaõ, &
trazem melhores plantas, que as celebradas dos mó
tes de Nicomedia na Azia,taõ preciofa,que por ter
ra, levadas de Camelos, as fez transportar o Graõ
Turco,ao mar vermelho,para fabrica das Armadas,
que com as nofias,haviaõ de cóbater nos mares In
dicos:fegundo fe lê nas hiftorias portuguezas. Cer
tifico, que ao dia feguinte, vi efcrever ao General
*
Dom
CoNFLIT o Do CANAL. - 5:19
D.Lopo cartas a ElRey,que me deu a ler, como a
pefoa interefada nos louvores da patria,onde entre
outras difcretas razoens,dizia: Eraõdignos de ferguar
dados,como o proprio cerro do Potofi ( que he mórgado
das riquezas do mundo) aquelles montes de Portugal,
onde tais madeiras fe criavam.
O inimigo etimulado,de ver que hum fó navio,
fizefle em os feus tam grande eftrago, & a todos
tanta refiftencia,por varias vezes fe difgoz a envef
tilo,com efquadras e{colhidas das melhores nàos,
& capitaens:outo,& dez juntamente arribavam fo
bre a valentifima Tereza,q aguardandoos, fem al
gú movimento,ja quádo fc achavaô bé vifinhos,ju
gava fua mofouetaria,& artelharia "de camarada;de
cuja força obrigados,voltavaõ logo,cõ mayor dano,
q reputaçaõ. Algüas vezes, durãte a batalha, fuce
deo dete proprio modo;de tal forte,q os Oládezes
cóbatiaõ sépre melhor pelo coftado,&retaguarda,
q pelo poto,&lugar da diáteira:como nofos Por
tuguezes châmaraõ,ao q Văguarda,fe diz hoje.
O General Oquendo,coftumava fahir do corpo
do batalhad,em que fua frota fe cópunha,& fendo.
mais avante della,fe alargava com grãde oufadia, a
receber,& dar as cargas.Obravafe com deftreza, &
valor,mas feu colèrico efpiritu, afi o trazia em be
bido na furia,que em todo o difcurfo da peleja,por
mais defcõcertos,que nos fubditos teconhecia, naõ
deu,nem mandou,húa só ordem, para remediallos.
Pelo proprio modo, hia procedendo o Almirante
- - - - - - - - - - Dd . DJin
F

52 o ERANAPHor. A Be LicA IV.


Dom Andres de Caftro, mas fem atè entaõ haver
obrado coufa digna de louvor, ou vituperio. Nam
afi outros Cabos; porque muytos, com feu procedi
mento(foffe,temor,ou omifaó) ajudâraõ a infelici
dade de aquelle dia. Algum houve, que por ter fa
bido, era o principal de fignio de aquella empreza,
focorrer a Flandes,intentou defam parar a batalha,&
tomar com teu navio, & outros que o feguiflem na
errada opiniaõ,& temor facil, os portos de Düquer.
que,ou Hotende;onde poderia ó falva (e,a titulo de
focorro.Senaõ fofetam fagrada a obrigaçaõ da hif
toria,como a me{ma verdade, eu efeufára de entrif.
tecer minha Relaçaõ com a lembrança de propofi
tos indignos.Cô"meus proprios olhos, vi, & notei a
efteCabo,cometer por duas vezes taó infame defvio.
Não affi os Almirantes, Francifco Sanches Gua
dalupe,& Mateo Esfrondati, que ambos perdéraó a
vida, em demanda da honra. O primeiro, gover
nando fua efquadra de Sam Jofeph (da qual have
mos atrás feito larga mençaõ.) pelo tiro de húa bó
barda,que o dividio em partes,mas naõ poderá def.
baratar a gloria de feu nome. O fegundo, com ma
yor defgraça:porqfendo elle, entre os Efpanhoes,
quem sò rendeo o bordo, & arribou fobre a Capi.
tana do inimigo, ao tempo á fe metia por entre os
contrarios,lhe levou a cabeça húa palanqueta; dei
xando a todos feus foldados,naõ sò fem cabeça, mas
fem coraça 5:donde procedeo,que havendo duvidas
entre alguns capitaens de Infantaria, dos bifcnhos,
|- • COII]
CoNFLITo Do CANAL 52 1
com que efia Capitana fe tripulava de guarniçaõ,a-
cerca do regimento della, fe confundio de forte a
#
marinhagem, que fem acordo, foi feguindo a pro
pria volta,que fe encaminhava ao centro da batalha
dos Olandezes; os quaes,por ventura có novo odio,
pelo defdrezo qfe fazia de fuas forças,a envefiraõ
com cinco boas nàos, que com duro, mas breve có
bate,entràraõ;& rendèraõ aquelle bravo navio; ha
vendo ja paflado forte femelhante(na defgraça,naõ
na defenfa)húa urca de Dinamarca, que fervia aos
Efpanhoes,dita o F/guevem,
Foi tamgéral o fentimento da perda de aquella
nào principal de Bartelofa,que cada hum tomou fo
bre fi a vingança de tal agravo.Havia a Real feito o
Proprio caminho, que o Almirante Matee; porém
delle recolhida ao grofo da Frota, agora como fu
riofa liôa,a quem furtàraõ o filho debaxo dos pei
tos, fe poz de novo na propria volta, tocando feus
clarins a algúa defefperada enveftida: a quem fegui
raó todos com firme refoluçam de fe atracarem, &
queimarem, com os navios inimigos, fe elles tanto
quizefem efperar,como de antes tinham motrado.
Porèm Tromp,q ja havia entèdido o fim da vitoria,
a qual fe ainda naõ cófumàra,fizera pelo menos cer
ta(fegundo as regras de humano difcurf) naõ quiz
efperar o choque da Armada de Efpanha:cujo afro
parece,que de melhor afpecto, que atè aquella hora,
influla ja nos Efpanhoes hum valor extraordinario,
por rettituiçaõ do ordinario,de que começou a pri
* * Dd 2 vallos
522 EPANAPHoRA BELIcAIV.
vallos ao principio de aquella empreza.Tromp me
dife defpois: Que porfalta de polvora/e havia de/viadº
da batalha,antes q cãe/e conhecimento anima/e os inimi
gos, Rudo he o homem,que para honetar fua caufa,
naõ acha razoés fuficiétes; mas como efcrevemos os
fuceflos,& naõ os juizos,fónos toca referir os acon
tecimentos,naõ ajuftiça delles.
De pouco tempo havia a Real demandado na
outra volta a Frota inimiga, quando ella voltan.
do tambem, foi dirigindo a proa contra o porto
de Calès de França;feriam ja as quatro da tarde, &
como a rendida Capitana de Bartelofa, fazia de
ter os Olandezes, pella dificuldade com que de
faparelhada navegava,pella força das toas, que lhe
davam outros navios,fe refolveo o Tromp em alar
gar aquella prefa, contentandofe de motrar em
França,& Olanda fuas bandeiras, por teftemunhas
da vitoria. Foi logo executado antes de pode é defº
balijar o navio; porque fazendo toda a vétagem de
vela,que lhes era pofivel os galeoens ligeiros de Ef
panha, déraó fobre elle de tal forte,que os Olande
zes quiferam antes pafar a injuria da retirada,que o
perigo da envetida;de que advertido D. Antonio
de Oquendo,& confilerando, q o breve, & incerto
mar,4 contágia côtra fua reputaçam ao Tróp,para
que fe abrigafe do porto(fendo elle taõ pràtico na
quela cota,como natural della)có mayor razaó, &
mais evidente rifco, o obrigava para haver de fazer
º mefmo. Pello 4 fem dilaçaó, recebendo em meyo
- , * • de
\

- CoNFLIT o Do CANAL. 523


de fua Armada ao navio recobrado, fe encaminhou
logo,antes que a noute,chegaffe na volta das Dunas,
em Inglaterra; de cujo furgidouro fe achava mais
perto,ãos Olandezes do de Calés de França;em os
quaes dous portos,cô pouca diferéça de tempo, de
raõ fúdo ambas as Armadas,Efpanhola, & Olãdeza.
Será de aqui por diante efia Relaçaõ de materias
mais altas,& agradaveis: porque defcançando por
algum efpaço os furores de Marte, daremos a pena
a recitar as aftucias de Mercurio. O mefino Tacito
confefa, que a femelhança das coufas que fe repe
tem, caufa faftio aos leitores. Façolhes defia mu
dança, prevençaõ a todos os que (acafo defabri
dos pelo efirondo das armas ) defejarem de ouvir
acçoens de mayor artificio, de que as cortes faó tea
tro,& figuras feus miniftros,como agora veremos.
Antiga máxima he dos Principes, procurarem
contrapefar, huns de outros,a grandeza; porque to
dos pofaõ viver feguros,em quanto iguaes:o que da
formidavel mayoria,nunca pode efperarfe. Por efia
caufa a potencia dos Reys de Efpanha, defpois que
Carlos Quinto, & Felipe Segundo, congregaraó
em huma fócoroa, muytos reynos, foi fempre eno
jofa aos Reys vifinhos. Da mefma forte fucedeo
aos Efpanhoes,contra os Ingrezes, quando Jacobo
unho ( por morte de Ifabel, & de Maria ) os rey
nos de Efcocia, Irlanda, & Inglaterra; nem menos
para com França,ao tempo que o grande Henrique
Quarto,atou fuas flores de lis,com
• • Dd3 as cadeas devarra
-
Na
524 E PANAPHoRA BELICA IV.
varra. Etes ciumes reciprocos dos cetros,defvelaó
perpetuamente, aos Monarcas, provandolhes com
mil exemplos a Fortuna,que os olhos da cautela, en
veja,temor,ou ambiçaó,jamais adormecem. Do qual
cotume avifados,o Reys,& minitros Ingrezes,logo
que a Armada de Efpanha, dentro em feus mefinos
portos,começou a ter mais que ordinaria reputaçaõ,
começaraó elles tambem,a lhe inquirir os pafios,&
prevenirlhe os intentos; agora por meyo das efpias,
agora por força dos difcurfos. Entam,como a efcola
politica,contra a filofófica, haja affentado,que o ex
ceflo da defconfiáça,nas materias de efiado, naõ dei
xa de fervirtude (por fer a defconfiança, fecundif
fima mãy da prevençaõ,que he cufodia das monar
quias) os Ingrezes,com precatado efpiritu,procedião
em todas aquellas acçoens, de cuja licença, ou con
tradiçaõ, podia feguirfe à Armada Efpanhola, def.
pois de eftar em feu porto,dano,ou cômodo.
Pareceolhes avifar a todas as cofias da graõ Bre
tanha, & mais particularmente ás de Irlanda ( cuja
firmeza,& conformidade de Religiaõ, fazia que os
Ingrezes,fempre duvidafem da fè de feus Ibernios)
24e os cabos,é minifiros reays de Inglaterra, tive/em em
boaguarda /uas cidades,castellos;& prefidios:pois pellopre
texto e/piritual (dizião os Ingrezes) fe achavaõ aquelles
fiblitos,mais devºtos ao Rey Catolico, que ao Britanico.
Esforçavaõ feu receyo,havendofe obtervado,que
alèm da comum razão, que ao vaffalo oprimido faz
gratifima qualquer novidade, por outros particula
[CS
CoNFI, IT o Do CARAL 52
resintereffes,& efperanças de Irlanda, ella fe havia
moftrado parcial de Efcocia,em os proximos movi
mentos, que fatalmente incitára o Coronel Lezle;
donde, como defpois vimos, tomou principio a mu
dança da Coroa Ingreza,em Principe,& Republica,
Para confirmaçaõ defta quiméra,fomentada fem
pre dos Parlamentarios(a fim de fazer interpor fof.
peita entre o Reyno,& os Catolicos) houve de fu
ceder,que o Governador da Ilha de Huyt (principal
praça então de Inglaterra) poucos dias antes, que a
Armada de Efpanha apareceffe por aquella parte,
fendo vificado de fua mãy,& parêtes, lhes fez tal fef>
ta,& recebimento de falvas de artelharia,& furriadas
de mofouetes,que reprehenfivelméte,deixara a pra
ça, quafi de todo falta de polvora fe he crivel,ãhum
, tam importante prefidio,com tam pequeno difpen
dio,fe impofibilitafe.
Porém,efte fuceflo manifeftado em Londres,pel
la aflucia dos emulos de Efpanha, que contra a ver
dade o interpetravão,fundáraõ logo nelle, como em
{| vafa capacifima,grandes maquinas de fofpeitas; dá
do a entender fimuladamente a ElRey Carlos Pri
meiro, que então pofuido o Reyno: Como º governa
dor de Huit,fe entendia com ElRey de E/panha: é que a
intempeftiva chegada de aquella Frota,encobria mayor de
fignio,que ordinario/ocorro de Flandes, o qual à lhe fervia,
de pretexto,porque aquelle focorro/empena de E/panha, nº
cuidedo dos yifinhos,cofumava a navegar todos os annos in
Jenfivelmente, Mas que a materia de Dd4
• - - • efiado delRey Catoli
co,
526 EPANAngoRA BELICA IV. -

co, era costumada a fazer revoluçaõ no fangue dos va/a5;


alheyos;dondeporventura fiava Lezle, & feus amigºs 4
ºu/adia,com que/e opunha aogoflo,& mandado real.
A mafcara do engano, que fe exercita com os
Principes,he fempre luftrada do polimento de hum
fervorofo zelo, & difereta providencia,com que ex
teriormente fe jutifica,& perfuade; porque em feu
proprio fembrante, naõ houvera olhos tam cegos,
que não defprezafiem a lifonja,& a mentira. Carlos,
que era mais difcurfivo, que confiado,naõ deu in
teiro credito,nem repulfa, a aquella advertencia; a
qual fem duvida, deixou em feu coração algúa nó
doa,que a huns, & outros negocios fez perjuizo; por
fer dificultofa fciencia nos Principes a eleiçam, do q
devem crer,& guardar,ou reprovar,& defpedir.
A eta facil difoofiçaõ,para qualquer foípeita, q
havia no animo delRey Carlos, fe feguio na corte
de Londres a nova de haver entrado a Frota Efpa
nhola em o porto das Dunas;& como a opiniam de
fua entrada não fofe tão favoravel,como là fe temia
o fucefo; em o mefmo tempo produzio contrarios
efeitos no animo dos miniftros Ingrezes, temédoa,
& defprezandoa,interiormente:mas o queja não era
tempo, que pudefe fazer a prevençaõ do dano, ne
gociava o defejo da vingança, em defconto do re
ceyo antecedente.
Por aufencia do mancebo,Códe de Unhate(a quê
defpoisvio Europa, occupado em grandes cargos,&
difcurfos)fe havia reduzido, aquelles annos a Em
baxa
CoNFLIT o Do CANAL. 527
baxada de Inglaterra por Epanha, a húa ordinária
refidencia;porque o Conde reprefentàra ao Confe
lho de Eftado,defpois de vindo,tais queixas delRey
Carlos, quantas eraõ neceffarias para fatisfazar a El
Rey Dom Felipe, das que o mefmo Carlos, lhe ti
nha mandado de aquelle Embaxador. Elle paflan
do da feveridade à foberba, por fer caminho di
reito, tivera por todo o tempo de fua affiftencia,
queixofo a ElRey,Corte,&Minitros de Inglaterra.
Por eta caufa, pareceo na corte, mandar alli hum
miniftro de menor oftentaçaõ, para o que foi elegi
do Dom Alonfo de Cârdenas,& Peralta,em foro; &
titulo de Cavaleiro Enviado; como na coroa Caf
telhana fe cotuma ufar algúas vezes, & os Principes
de Europa, vam por feus refpeitos, introduzindo
Era Dom Alonfo, irmaõ de Dom Luis de Peralta,
genro de Dom Carlos Coloma,do Confelho de Ef
tado de Efpanha,que exercitava, com tanto mèrito,
como autoridade:Autor, Capitaõ, & Confelheiro
excellente;cuja criatura Dom Alonfo fora, & co
mo tal confervava.Porém,fupoto que o juizo, & di
ligencia do Cardenas, fofem capazes de qualquer
grave expediente,ete houve de correr por taõ ocul
tos caminhos, que necefitava de mayor inftrumen
to, para q fe atrevefe ás obfervaçoens de q depédia.
Achavafe tambem, por aquelle tépo, no ferviço
da Camara delRey Carlos, hum gentil-homem In
grez, da fegunda ordem de fua nobreza, por nome;
29m Antonio Port; o qual havia Paflado a Eipanha
• (ER?
$28 EFANAPsor A Belvc.A IV. •

em ferviço do proprio Rey, quádo Principe de Gl.


les,& em femelhante foro, de Ajuda da Camara, fi,
càra fervindo a ElRey Dom Felipe: o quemuytos
entendéraó entaõ,com bons fundamentos, era efiu
do do velho Rey Jacobo, Pay de Carlos, por intro
duzir das portas a dentro, de hum Rey grande,& naó
pequeno émulo,tam fiel cípia, como lhe poderia fer
feu proprio vaffalo, & criado.Se efia materia de efia
do foffe certa em os Ingrezes poderemos afirmar, q
ou nos Efpanhoes foi incertifima,ou que elles fize.
ram,como Fálaris,perecer a Perillo em feu proprio
intrumento:fendo naõ menos valor da induftria, a
proveitar do mefino meyo, que o contrario bufca
para a propria defenfa, a fim de o ofender com fuas
armas,que o tirar a Maça da mão a Hercules, & ren
dello pelos golpes della.
Porém como o Port (por natureza, ou indufiria)
moftrafe fertaõ afeiçoado ao partido Efpanhol,que
fempre fe lhe confeffava agradecido publica, & fe
cretamente,agora,fe bem,interpofios muitos annos,
& que a nova refidencia, tambem feita por muytos
annos;na camara do feu Rey, o podiam tornar a fa
zer fofpeitofo;nem porrantas razoens, quiz o Rei.
dente D.Alonfo,temer que ele naõ foffe confiden
re;antes fiandofe do Port como amigº, o tomou por
guia,para que o levaffe pelos pafos, q devia feguir,
&o defviaffe,dos que fe devia defwiar. Elle a tudo
procurava acodir com tam grande defwelo,pellos in
terefles delRey de Efpanha,que na opinia ó dos af.
• ELICOS
*
CoNFL Iro Do CANAL. 529
tutos polyticos,eta exquifita pontualidade,batava
para fazelo duvidofo aos Ingrezes, fenaõ tivefem
delle interior fegurança.
Tambem fe confiderava fervidor de Efpanha, o
Conde de Arundel,minitro antigo,& grãde,do Cô
felho de Eftado, & Prefidente da India; naõ menos
por Catolico(como fempre fora) com louvavel zelo
da Religiaõ, mas por defcendente de nofos primei
ros Reys Portuguezes.O mcfmo afecto q em Port,&
Arundel, fe obfervava em o Secretario de Eftado,
por razoens,ainda que naõ menores,diferentes. Po
rém os outros miniftros,& criados delRey Carlos fe
guiaõ diverfas parcialidades (por fer efte o cofiume,
a que a naçaõ Ingreza,com todas as do Norte, fein
clina perigofamente.) Huns procurando a melhora
de Olanda,outros a de França: os menos a fua pro
pria,que fora menos culpavel intereffe.
O primeiro movimento dos Tribunais, & minif
tros de Inglaterra, foi eftranharem com admiraçam,
a vinda intempeftiva de tam poderofa Frota, fem q
por ElRey de Efpanha,fofem della avifados. Afi
pretendiaõ franquear o caminho a toda a fofpeita,
defejando jutificalla para qualquer facefo. ElRey
que naõ era muyto pronto nas refoluçoens, quando
por Dom Alófo, ouvio a arribada dos Efpanhoes á
graõ Bretanha,refpondeocó palavras de mayor be
nignidade,que proveito: naõ negando, nem conce
dendo coula,que fe lhe pediffe de aquellas, que D.
Alonfo logo lhe manifetou, necefitavaõ os "E:
- S
53o E PANAP o RA BELICA IV.
los de feu Rey. Mas o Cârdenas,quanto era mayor a
juftificação de fuas pretençoens, entendia, que as
ganhava,levandoas por via de grande clareza,& ver.
dade,a que os êmulos punham nome de fimulaçaõ,
& artificio,dizendo:Queem vão haveria Deos deixado
no mundo,a e/periencia, /e os homens havendo vífio operigº
alheyo,/enaõ defengana/em antes de e/perimentar o proprio.
Tais eftavam os negocios,com a primeira noticia
da vinda dos Efpanhoes,ao abrigo de aquelle Rey.
no; quando ao dia feguinte de fua entrada, nas Du
nas, chegou a dar fundo no mefmo porto,em fé da
boa amifade que profeflavaó,o General Tromp, a
companhado de vinte,& quatro nàos,que efcolhera
em fua Frota.Surgio mais ao mar da Armada de Ef
panha,vendendo por modetia aos Ingrezes, aquella
cortefia,que só fe encaminhava a confervar hum lu
gar,donde juntamente pudefe impedir os focorros,
& avifos,que de Flandes viriaõ logo aos Efpanhoes,
& etorvarlhes rodo o modo de recurfo, que da fai
da ao marfe lhes podia feguir.
O avifo deta grande novidade,começou logo
a perturbar na corte todos os animos; não havendo
algum tam fereno,a quem,por feu caminho,nam to
caffe boa parte de afeiçam, ou aborrecimêto, a qual
uer dos Principes interefados:donde, conforme a
diverfidade dos afectos, procedia a dos accidentes
deta negoceaçaõ.Poremhe força referir o efiado de
ambas as Armadas nefte tempo; & o de Flandes, &
Olanda, onde fundavam as poffes de huns, & as ef
peranças de outros. Tromp,
CoNFLIT o Do CANAL. - 531
1 Tromp, que havia chegado a Calès, de todo falto
de muniçoés,có q poder defenderfe,dizem q achâra
alli,em Monfieur de Bordeos, Governador de aquel
la praça,o grande focorro de quatrocentos quintaes
de polvora,comballas,corda, & os mais petrechos
competentes. Foi tal a proutidam defla amifade,
que todos fe perfuadiam,haviaja anticipada ordem
delRey Criftianifimo, para que o Bordeos ajudaffe
ao Tromp,neta maneira; fem que para crer o con
trario (como os Frácezes publicàraõ de fpois) valef.
i fe a razão, que aos proprios Efpanhoes ofereciam
por difculpa,devendofe della inferir coptrariamon
te; porque para com os Efpanhoes,naó fe eftendia o
avifo delRey de França,a mais,que ferlhes dado aos
Olandezes porto feguro:{em outro genero de con
currencia,com algum de feus penfamentos.
Defia maneira fornecido, pode facilmente o
Tromp,acudir fem dilaçam ao porto das Dunas, co
mo o executou (fegundo difemos)havendo depa
chado a Olanda,feu Almirante Viten,& outro Ca
pitaõ,naõ fó para dar avifo do fucedido, mas para
perfuadir aos Eftados: Quiz/femmanda lhe a nece/i-
ria afiftencia,atroco de confeguir por ella, a ruína do poder
E/panhol; a qual/em duvida/e jegurava pºr rasºens, &
exemplos.Os navios que fe achavam com dano irre
paravel, mandou tambem com o Almirante Viten:
a fim de que em feus portos,fofem trocados por ou
tros,de forças mais inteiras;o que tudo prontifima
mente fe difeoz; porque havendo antecedentemen
{$
532 EPASArgos A Belicº IV.
te os Olandezes intentado a ocupaçaõ de Gueldres,
foraó rebatidos,fem q pelo fucefo de Ulft, feme
lhorafem tanto,ã naõ tem-fein vieffe a feraquelle
focorro de Efpanha, de terrivel confequencia, aos
progrefos das armas de fua Republica. Por efia cau
fa inftantemente ferefolvéraó em aparelhar navios
do Eftado,em gram numero,& fuperior fortaleza;&
porque etes fe acompanhafem de outros,ainda que
de menos porte,convocaraó todos os de fuas cógre
gaçoens,affi gerais, como particulares; pedindo ás
Companhias da India Oriental,& Occidental,todo
o poder,com que feachafem pronto,em feus portos.
Fretaraó muytos navios mercantes; huns para con
dozir mantimentos,& outros para levargente frefca,
com que engrofar,& defcáfar fua Armada. Do mel
mo modo,fabricáraó defafete embarcaçoens de fo
go,por entenderem,fegundo feus definios,& nego
ciaçoens,que a batalha,ou feria dentro do porto, ou
naõ longe dele;& com incrivel, mas natural prete
za,juntáraó em breves dias tantas nàos, que fizeram
entrar no porto de Dunas,cento & dez fôra futebé
petrechadas (fem outras,que º fimáraó em numero
de feffenta vélas) que de contino andavam atravef
fando os mares,por fe oporem a qualquer focorro, q
de Efpanha,ou Flandes, vieffe aos Epanhoes.
Mas eftes com diverf fortuna,fe bem no cuidado
lhes naô defigualavam, lhes ficaraõ fempre inferio
res; porque como o Cardeal Infante fe achaffe em cá
Pº,& com cle os mais Cabos, fi da guerra, como:
da
CoNFLITo Do CANAL. 533
, da polytica de Flandes, primeiro que fe pudefiem
, juntar forças,com que ajudar a Armada Cafielhana,
fehaviam adiantado os Olandezes grandemente nas
, prevençoens.Todavia,pareceo ao Infantº, & feu
. Confelho,largar os negocios do exercito, & aplicar
fe todo ao recebimento do focorro, que lhe vinha
*
|-
na Armada; o qual fem arte,ou força,era certo à naó
poderia chegar em paz, aos portos: pelo q cm bre
ves dias, mandou pelo Mefire de Campo Dom Si
mão Mafcarenhas,que fem Terço havia arribado a
*
} Flandes(como deixamos eferito) vifitar, & confiar
* + ao General Oquendo, & mais Cabos Efpanhoes;
fendo a primeira encomenda de fua inftrucçaõ: Qué
trata/felgo com Dom Antonio, o modo porque fe poderia
transferir de Inglaterra a Flandes,agente que pertencia a
feu /ocorro,ês as muniçoens,& dinheiro,que na Frota /* en
viava,tanto para pagamento dos/allados velhos, 4fetirada
da campanha,como para as conduçºens, que em Colonia, fi
zia para o me/mo Eflado,o General Lambo, & º Cronel
Gil de Akchamado de Milão a Flandes: cujos bon; efei.
tos dependidº, de que/enaõ malºgrafº aquelle tam prometi
do, & e/pera do focorro. He o premio,de tanta força nos
peitos humanos, que a efperança delle os corferva
oufados,contra todo o trabalho,& perigo prefente.
Chegado Dom Simaõ,& afegurando:Que o Infã
te Cardeal com toda a corte do exercitº, fºvinha aliar {'???
Dunquerque,para ficar mais prºta dircalor; º juda a
fua Armada, & negºciar outro tal efeito com elRey de In
glaterra, a primeira coula,fobre que fe fez fecretif- Z
fimo
534 E PANAPoRA BELICA IV.
fimo confelho entre os Cabos, foi: Acerca do modo de
enviar a Infantaria,& o contante para "landes. Mas porq
o melhor parecer nefta materia, era o mefmo que o
Infante avifava,havendoo comunicado com as pef
foas pràticas na marinhagem,efe foi,o que fe feguio
por todos,conformemente,aflentandofe: Que o Infan
te dº/pachaffe de Dunquerque a mayor cantidade de em
barcaçoens ligeiras,quefo/epo/fivel,affi depe/cadores, co
mo outras,que fervem ao tráfego do país,ditas:Sumacas, é
Balandras; as quaes amanhecendº nas Dumas entre a Fro
ta,arrimada cada quala/eunavio,pude/em ape/ar das tê
tinelas do inimigº, fair de noute carregadas, &guarnecidas;
porque fe cófiderava que ainda quando por aquel
le modo,fenaõ repetife a jornada, da primeira que
fizeffem,fe aproveitaria muyto fua paflagem.
Mas porque defpois de partido Dom Simaõ, cõ
efte acordo o General Oquendo, entendeo cõ bós
fundamentos,que para todo o fucefo feria conve
niente difpor mayor esforço,pois aquella faida avi
faria de modo ao Tromp,que lhe naõ foffe pofivel
achallo em femelhante defcuido;mandou, Que treze
navios(entre os quaes entravam alguns da efquadra
de Dunquerque)eflive/empre/tes parafe fazer á veta,
fem lhes diver,quandº,nem adonde. E de tal maneira, &
com tamboa induftria difpoz eta acção, que total
mente a ignoraraó os mefmos, que haviam de exe
cutalla." .
A Menham de vinte, & fete de Setembro, fedef.
cobríraõ juntas no Porto, cincoenta, & feis embar
caçoés
CoNFLIT o Do CANAL. 533
caçoens de Flandes, de que os Olandezes naõ fize
ram outro juizo:Que entender,traziam refre/co á Frota de
E/panha,que remeteria nelas feus feridos.Nefta fè, & ob
fervancia da paz do porto, houve lugar de que todo
o dia fe manejafe a tripulaçam da gente, que havia
de Pafar;& porque convinha, que os Terços do fo
corro de Flandes, fenão arrifcafem por inteiro, foi
ordenado:Que fe dev/empellos barcos, é navios,de tal
maneira,que perdendofe parte de huns, ou outros, fempre al
gãafica/e em falvo. Eta ordem não comprehendia aos
oficiaes maiores; porque eftes fe refolveram Que para
todo o fute/o
Terçoso não convinha
eftive/em de todo. fe embarca/em, antes que/eus

Socorreo a noute com húa efpeza nevoa, & com


o vento,que a trouxe de parte de Loes noroete, aos
defignios de Efpanha, com tanta felicidade,que fain
do ás nove horas, a outras tantas do dia fe achâram
todos os navios, & a mayor parte dos barcos, dentro
do porto de Dunquerque; donde pôde haver de trá
fito, atè quinze legoas. Porèm as fragatas Olande
zas, que etavam mais junto de terra, divifando por
entre a neblina algúis vélas, que cofteando preten
diam fair do porto,fe levâram atràs dellas, com tanta
diligencia, que tomáram fete, ou outo balandras,
carregadas de Infantaria,com capitães, & bãdeiras de
varios Terços, donde recebeo de todos mayor da
no, o do Metre de Campo Dom Martim Alonfo
de Sarria. He razam dizer,como por agradecimento
à boa fortuna(a quem nos mais fuce{os de minha #
Ec 23
536 E PANAPHoRA BELICA IV.
datam poucas graças lhe devo: ) Que do Terçº,4 engº
vernava, fen㺠perdeohum homem fomente: havendo algum,
quenefia ocafião, lhe foraõ preços trezentos/oldados,çõcin
co capitães,º bandeiras.
Porèm o Tromp, fendo avifado dete acometi
mento, & queixofo da falta de vigia dos feus, orde
nou logo: Que o Capitam Blankart, com huma e/quadra
de doze navios, fal/e por verfe podia encontrar aos E/pa
nhoes; é quefe detive/e fora,rondando aquelles portos, 8
pa/agens,de modo,que/enaõ pude/e intentar outra acção/e-
. melhante. Julgando,que muytas outras,lhe feriam ne
cefarias aos Efpanhoes, para poder introduzir em
Flandes o focorro pretendido."
O Infante,em algüa maneira aliviado, por aquel
le barato,q a ventura lhe oferecera,cõ novo alento,
tratava de q fenão perdefe algúa ocafiáo de valera
Armada de Efpanha, & fendolhe jà por avifo do
Cârdenas, & do Oquendo, defcubertos os ciumes,
com que os Ingrezes haviam olhado o poder Efpa
nhol, ordenou: Que Dom Geronimo de Aragam, Jaille
de feum vio,$pa/a/e a Londres, donde informa/e a Zõ
.Alon/0,das cou/as nece/arias para a Armada.Defta forte
o executou Dom Geronimo; porém como lá de
mais peito vifle, que o negocio pedia mayor infru
mento, fes certo de fua importancia ao Infante,
que cuidadofo por eftas noticias, pos em confelho:
{\ge pe/3a mandaria a Londres? Foi fama,que Dom
Joáo Claros de Guzmão, Marques de Fontes, que
ocupava o poto de Metre de Cápo General do ex
- CICI[O
CoNFLIT o Do CANAL. 537
º ercito oppoto. a França, fe oferecera para fer elle,
" o que paflafea Inglaterra, exegerando o rifco,& va
lor do negocio. Outros quiferam que elle fe encar
regaffe ao Marques de Velada,D. Antonio de Avila?
mas porque o Cárdenas tinha no Confelho alguns
amigos (q fè em tais cafos naõ deixão de parecelo,
º ainda á conta do ferviço dos Principes) vendo eftes,
- que pefoastaõ grandesabateriam o mèrito do Refi
* dente,& que por efte modo tambem fe confunderiaõ
as diligencias, fe acordou: Que o Infante emprega/e
naquelle ferviço a D.3tartin Garcia Nieto,fuperintèden
te da justiça, nos exercitos de Flandes: a cujo lugar havia
fubido; de Alcayde de Corte de Valhadolid, por fer
EDom Martim, além de bom legita, homem difere
to,politico, & fobretudo moderado.
* Convida efta eleiçam a todo o juizo, para que
brevemente difcorra, acerca das que nos tempos pre
fentes coftumão fazer os Reys, de algús miniftros de
letras,que os militares,& politicos,com varias objec
çoens reprovão. Motram os exemplos, que em toda
a antiguidade, feufou dos fabios para femelhantes
ferviços: donde já parece que foi força fingirem a
Mercurio, Deos da eloquencia; pois o detinavam
para, embaxador dos deofes. Nam foi Marte, por
que vemos tambem ( como diffe o nofo Poeta)
que Marte irado, já mais póde fer facundo. To
davia na duvida defas opinioens,fempre entendo, q
a profifaó dos Embaxadores; deve fer da cor do
negocio; porque para humaEefoberba
2.
materia, t㺠cãº
• • VII 12
538 EPANAPHoRA BELICA IV.
viria enviar a hum efpiritu pacifico,nem hum fugêto
altivo para hum rogo:fendo certo, que por mayo,
que feja o artificio dos homés, fempre fuas acçoens
recebem algum goto do animo,cm que fe fabricam.
Por efta caufa efiranhâram muyto os advertidos,que
eftandofe confundindo Inglaterra, com armas inter
nas, & externas, & fendo o negocio pertencente a
feu exercicio, & etimaçam; fe entregafe a pràtica
deta embaxada a hum letrado; cujos oficios diante
delRey,& dos miniftros, não foram outros, que ale
gar por parte do Dereito das gentes, os textos que
induzem, & obrigam ao neutral, para cbfervar ain
deferença, que jà mais vimos conforme em peitos,
& palavras. Affi fucedeo neta o currencia, em que
os Comifarios Ingrezes, que a Dom Martim foram
nomeados, defpois de muytas conferencias, nunca
chegaram a prometerlhe, ou afegurarlhe coufa par
ticular de que fe podeffe fazer firme conceito ; pel
lo que, havendofe elle por defpedido de Londres,
deixou ao Cárdenas o profeguimento de feu por
prio enleyo, para o qual o Cárdenas fe achava bem
difpofto;porque füdado nas promefas de Dom An
tonio Port, nam fô cria, mas fazia crer aos miniftros
de Flandes,có mayor perigo: Que os de Inglaterra,/em
róperem a capa da neutralidade,haverião de favorecer os in
tere/es de Epanha. O q táto pelo cótrario fe paflava,
q todas as preparaçoés dos Ingrezes olhavaõ naõ me
nos,á prevenção das coufas,q á ruina dos Efpanhoes.
A etc fim ordenou logo elRey, ao General

Pi.
ninton,
CoNFLITo Do CANAL. 539
ninton, o qual governava fua Armada de quinze na
vios: Que juntandolhe outros tantos marchantes do melhor
armados,que acha/ºpellosportos vi/inhos,pa/a/Selogo a Zu
mas de Plimud, donde refidia. He Plimud boa Cidade na
Provincia de Cornualha, em a boca do Rio Pli, que
ifo finifica o proprio nome: Pl,que he o Rio,& Mud,
que he boca,no antigo Britanico; para que furgindo
entre huma,& outra Armada de Efpanha, & Olanda,
fizeffe entre ellas, aquelle oficio dos Gregos Cadu
ceadores,lançando em meyo o batam del Rey de In
glaterra,á os êmulos ambos refpeitarião,como as Ser
pes fecõtiverão,quádo o Silenio lhes intrepozavara,
donde tomou a poteridade, a infignia, & o exem
{
lo.
} Efta ordem, fendo pelo velho General obedeci
"
da, foi em breve executada; porque ao decimo dia
da entrada das Frotas, furgio ele pela parte do mar
com trinta & hum navios, fuficientemente armados?
com cuja vinda, abatèraõ logo feus eftendartes as
as Capitanas etrangeiras,que no porto fe achavão;&
foi Pininton obfervando , & fazendo obtervar os
mais cofumes, de meter a guarda ao anoutecer,dif
parando huma pefa, defpois da qual, todos guarda
vão filencio,& romper com outra o nome; tocavam
feus clarins às alvoradas, as quaes fºguião as outras
Capitanas, com luftrofa competencia. Porèm fobre
que as falvas, & corte fias, foão grandes,de huns, a
outros Cabos reciprocamente, não chegarão a vifi
tarfeo General Ingrez, & Efpanhol : efculandofe ".

Ee 3 cfte
54o EPANAPHoRA BELICA IV.
efte com razoens de melhor difciplina, que urbani
dade.Naõ afi pafava entre o Tromp, & Pininton,
que varias vezes fe viaõ,& convidavaõ,contra o pa
recer de aquelles que entendiaó, naõ dava a neutra
lidade do Porto,lugar a fe declarar a afeiçaõ, por al
gum dos dous opoftos partidos. Mas os Ingrezes fe
defendéraó deftaleve calumnia, dizédo: Que os vin
culos da Religiaõ,eraõ mais fortes,que os da amifade:S que
afemelhança,ou uniaõ de crenças, entre Ingrezes, & Olá
dezes,naõ permitia/er perturbada de algum refpeito politi
co,em ofen/a da confraternidade e/piritual,que entre aquel
las duas maçoens/e contrabia.
Ao mefmo tempo,que o Enviado,Dom Martim
Garcia,partio de Flandes a Inglaterra,foi defpacha
do outro femelhante, de Amfterdam a Paris, pretê
dendo os Olãdezes perfuadir a elRey Chriftianifi
mo:Quanto intere/e/ua Coroa receberia, cºm o efiragº da
Armada Efanhola,que já tinhaõ/egura, quafi debaxodº
chave defeu poder:porque fendo taócõmuns os interejes de
França,é Olanda,que quafi/ejulgavaõ indivifiveis, naõ fe
dava caufa,para que a França deixa/e de fergrata, & util
efia empreza;& com mayor razao,quando a fortuna lhe vi
nha rogar éporta,com tal vitoria, como metendolha pelas
portas dentro Que º bom mercador,/empre deve comprar, ou
vender,quando be rogado: é que as prevençoens de Olanda,
aliviavaõ agora os di/pendios,8dilaçoens de França,º quem
só convidavaõ ao banquete de aquella ventura; a qual lhes
cuflaria pouco mais,que querer aceitallo: achãdo/e as coufas
………………………………………;
- - túll!
------
|- |- •

CoNFLIT o Do CANAL. 541


tãre para acabar efte negºcio Que cõmayor cau/a,devia que
rer sºmente para fi,hum premio de tanta importancia, pois
Olanda por feuproprio perigo, havia reduzido a E/panha a
talefiado que pufiamête lhes era licito difor/4 dos de/pºjos
como fe efine/em confeguidos. •

Eftas,& outras razoens oferecèraõ os Olandefes


a elRey Chriftianifimo,contra o juizo dos mayores
politicos de Olanda; aos quaes parecia ociofa dili
gencia:Querer partir o triunfo, com quem naõ havia entre
do 4parte no perigo,com que elle fe con/cguira. Mas os có
felheiros de França,conhecendo que aos inter fes
de fua coroa,naõ convinha a deforoporcionada grã
deza dos Eftados, acordâraó: Que exteriormente fe
convie/e com os rºgos dos ministros Olandezes;porêm, que
por fecreto avi/o/e ordena/e a Monfieur de Zurdeos, fº/Se
dilatando (eu aprefio; de modo, que nem testemunha, nem
complice,pude/e/er do conflito entre º E/panhºl,9 Olandes.
O que Burdcos com grande artificio defpois,execu
tou,de modo,que antes aparecefie, q faltava ao fer
viço de feu Principe, que o Principe a fua Palavra.
Eftahe,naósò fineza, mas obrigaçaõ dos miniftros,
contra o coftume de alguns, que por fe fazer agra
daveis aos pretendentes, revelando individamente
o fegredo de feus fenhores,juto,ou injuto, os rela
xaõ ao odio popular, entregando fempre fuas de
terminaçoens ao povo,a pefar do fecreto,& da reli
giofa ceremonia do voto, que era devido obferva
fem; ou levados de hum engano inutil, que contra
a me{ma conciencia os faz cfcrupulofos; ou do inte
• • • - | Ee 4 refe
542 EPANA PHoRA BEL1cA IV.
interefe da reputação,q pertedem aumétar,diminu
indo o credito, & fama dos Reys:coufa que o múdo,
não poucas vezes té vito,& pode fer jefteja vêdo.
Entretanto Dom Alonfo de Cárdenas, regulando
a importancia de fuas efperanças,pello valor do que
lhe cutavão de ouro,affegurava ao Cardeal Infante,
& ao General Oquendo, tres coufas, em as quaes
recebia de a quelles miniftros,tam grande engano,
como miniftrava aos Efpanhoes. Dife:Que faría, que
a neutralidade f/e inviolavelmente obfervada, dando/e
tantas marés de ventagem, para que faí/e a nevegar a Fro
ta de E/panha, quãtas ella havia entrado no porto primeiro,
é a Olädeza:& 4/endo efas marés quartro,havia tºpo baf
tãepara 4/eperigo, pude/etrãsferir/e das Dunas á Her
rada de Mardique, donde podia efir fºgura. Porêm,
que quando os Olandezes impedi/em esta liberdade de
fia fídi.el Rey mandaria, que a Armada do cargo de
'Pininton, fe encorpora/e com a E/panhola, é a pue
zeffe fora dos mares de Inglateira:& que como efia
e/colta fe fazia por parte da opiniam, com menos força,
que inteniefe del Rey de Inglaterra nefas acçºens, elas
fe poderião obrar com todo a figurança. Mas em tercei
ro lugar ºffirmava, que fe a ca/o qualquer defles parti
dos , fenam con/gui/e, elle Dom Alon/) tinha já aju/
tado com o (onde Notaborlan, Almirante do Reyno [ a
quem por officio,& comi/ampertencia effe expediente)lhe
manda/e francamê e prover de muniçõs a Frota Efpanho.
la,a expenfas del Rey Catholico Fundava D. Alófoetas
Promefas,não fo em as que os minitros Ingrezes
lhe
CoNFL I To Do CANAL. 543
} lhe havião feito,mas em os grãdes finais,ã em el Rey
achára, porque como ptfloa de docilifimo natural,
ou não cofumava negar coufa, que fe lhe pediffe,
ou veftir a negaçam de tais palavras, que fempre ti
veffe cada hum,dos que lhas ouvião, lugar de efperar
feu melhoramento.
Mas fendo Dom Alonfo inftado do Cardeal In
fante: Que era já tempo de prover a Armada de polvo
ra, porque de nenhuma outra parte lhe podia entrarfºgu
ramente . Quando quis a proveitarfe dos acordos,
foi refpondido pelo proprio Notaborlan, em quem
mais confiava: Que os Olandezes haviam finificado ael.
Tey, fe quebrantava a neutralidade,noproprio diaque a pol
vora fo/e entregue aos E/panhoes. Cuja repofta, fupoto
que diffimulada de hum juto pretexto, envolvia
grande artificio; porque intervindo o Port, & o Se
cretario de Eftado, neta negociação, acharam modo
Para dar a entender a Dom Alonfo: Que fervindo elle
a el Rey,com algäa boa ventagem no preço,porque a comprafº
fim,lhe ficavão dando hãa nova razão, com quefe defender
das ºpofiçoens dos Olandezes:a quem/ua Mage#ade Brita
mica/atisfaria, dizendolhe,n㺠podia impedir, que os merca
dores de Londres, vende/emportão altavaliafias fRen
da",quando a ocafião/e lhes oferecia, afrifivoravela/eus au
mentos. Servio fóeta pràtica de afegurar a autorida
de dos interafados,porem não a dos neceffitados;an
tes foi o vltimo golpe, q fe deu em ruina da Armada
Efpanhola: porque tendofe por indubitavelete fo
corro de polvora, fenão pelvinio outro, que #"
- fr •
544 EPANAPHoRA BELIeA IV.
fºi do mais contingente,fe podia confiderar mais cer
to,fominifrado da força,ou induftria,com que os Ef
panhoes devião procurallo.
Todavia,vendofe Dom Alonfo afi primido da di
ficuldade,veyo em oferecer boa foma de dinheiro,por
ferviço del Rey Carlos;& de fecreto,foi fama,que ao
Códe Notaborlan, lifongeara com o prefente dedo
us mil efcudos,em ouro;& cõ poucos menos aos ou
tros miniftros,afectos ao partido de Efpanha: com cu.
ja diligencia fe deu o negocio por feguro.Porem avi
fado das duvidas antecedétes,& parecendolhe,que era
tempo de fe o pór com razoens;aos fecretos oficios,q
o Embaxador Olandez fazia com os minifros Par
lamentarios,alcançando particular audiencia del Rey
falou defte modo:
Hè chegado o tempo, ó Rºy potentifimº, de que vejao
mundo,qual be o parente/co, que entre f tem as Coroas, para
que fe conheça,que o ouro,de que a Britanica be fabricada,fºi
tirado em a me/ma mina da jufiça fanta, & da ley natural,
donde fetirou o ouro de noff, Catºlica Diedema.zºo,hum já
no mundo,quis quena unidade,como no ºficio,lhef/fm/eme
lhantes of Principes do mundo. Todos os outros modos de go
vernº,que algüas regicês abraç4ão,não fºi, parece, copiado do
gºverno divinº: antes de aquela original protervia, com que a
pluralidade dos e/piritusfoberbos, quisy/arpar para fiº cre
dito da fingular Magefiade. Se fio he afin(? Sire) lhai a
quê perticeis?Vede destes dous nomes: Mornarquia,8Tepu
blica, qualvos he melhor/oante? qual decoro tem com vo/co
nver/anguinidade? Ponde os olhos no fim de cadalgºvernº
defes,
CoNFLIT o Do CANAL. 545
# defles,vereis a htonarquia? grave, igual, confiada, amiga,
#, prefiante;vereira Republica/ervil,informe, duvido/a, emula,
intere/ada.Eu que vos rogº,que atenteis para os outros co/iu
{ mes?atentai,Sire,para os vo/os:não pereis os intere/es alhe
| yos,ponde os propriºs em balança: que facil/erá de conhecer a
} defigualdade das importancias, com que vos pºdem retribuir,
ou a Monarquia de Epanha, ou os Eftados, das Províncias
} unidas. Seu me/mo nºme denota/ua inutilidade: unenfe entre
| fihum vinculo defeus intere/es;para que nenhum outrore/pei
{ to,as penetre,nenhum outrocomodo, as de/acomode.Pella pro
{ pria razão,que/aõ unidas para cófigo/aõ de/unidas dos ami
* gos,& dos aliados. Naõeflâ claro? Senaõ diga/eme, qual/erá
# aquelle laço taõ forte,que as tenha atadas ao amor vo/0,ou de
{ outro Principe?0/angue,naã he;porque a Republica,não em
arentajàmais com os Reys. Apolitica naõ hesporque he diver
fº/Sima a cóveniencia entre o Reyno,8 a Republica. Pois q he?
fenaõ feuproprio intere/e:o qualcomo fingiraõ os poetas defua
Clície,jámais permanece em hum lugar firme,antes/e vira cã
forme/e vaã virando os tempos, & os re/peitos. Fareisgrandê
ca/oda/emelhança da Religiaõ,e/e/erà,e/ehe,º motivo,com
que querem fortificarvo/So animo em fua amifade. O mayor
e/candalovo/o? Sire,podiafundar/e ne/a propria raçaõ por
quejº que os Olandezes naõ crem,como nós, porque naõ crem
como vós"Defyiaraõ/e deno/afé,com pretexto de conciencia
livre, & de e/apropria liberdade, naõ querem vale/epara
vos imitarem.Eufem licença de meu Principe quero agorafa
ver igual/ua Magestade,cõ as Altezas dos estados. Medió
ra, as demoftragoens(já namfallo nas e/peranças)4 deveis a
bña, º ºutra nagam. Que prºftimo recebefes de Olanda; de
- -- - --…--• •4 - - - - -
6 - -- - - - -
546 EPANAngoRA Belicº IV. -

de E/panha, % e/candolosfcerto a inutilidade beºgº/ano,4 roe


a mifade,atèque destruida só deixa della as cinzas. Vós, Sire
v#es o coraçaõ de E/panha,nam sº º dos reynos,mas o do Rey.
fe aquelleyltimo nó devº/as bodas,em que todos defamos
apertary/ja,& no/a Coroa,/e defatou;qui,4/eria porque lhe
nam devejemos ao parente/co; a raçaõ da reciproca amifade,
/* nam às razoens,8ás acçoens della Amefe E/panha,& In
glaterra,porq devê amarfe,eporá mutuamète/e corre/põdão,(7
tais refiládores de virtudes,que n㺠po/aõ deixar de amar/
provincias tamgenero/as. Naõ haja,pois,entre ellas nece/i-
dade de outras dependêcias, & beneficios.Quãdo a amifade
depêde das boas obras, nunca he firme,porque ou cefando, ou
trocandofe em outras,ceja,oufe troca a am/ade. Quando as
boas obras,/aõ confequencia da boa amifade, entam/l, que as
obras,8 amifade/a5 perpetuas. Pois fe/obre as razãsgèra
is fizermos lifa das particulares, que diremos? Olhai, Sire, e
neutralidade pode/er virtude, em quanto os re/peitos forê gu
is, porque a jufiça defiributiva, nam confifte em dar tantos
hum,como a outro,que efia entam,feria improvident/ima par
cialidade; confifte em dar a cadahum º que merece. Pois fe
merecendo Efpanha tanto mais, que Olanda, os efeitos devo
fa amifade, quando vos afetais neutral entre Olanda,& Ef
panha, entam tirais a E/panha, aquella parte, que lhe devieis
de ventagem de amor;&# e/a lhe ficais devendo, gualandoa
com quem vos merece muyto menos. Porem/epello que nos toca,
duvidais a reflução; confiderai bem o negºcio, & verei que
igualmente efioufallando por vo/os intere/es, que plus nof.
for…/inda não e/juece ao mundo os principios deflapotencia.
Pede ora quanto há que pajaram de prender os mares con
fias
CoNFLIT o Do CANAL. 547
fuas redes,ºfºjugallo com fúas leys. Se esta dominaçam dá
quatro pajos mais, pela felicidade a diante, donde vereis
fabidos aqueles que já cuidam/evem vº/os iguais? Não/a-
be agrão2retanha, que por nam cederem a feuilustre eflen.
darte,intentáram,8 confeguiram abrir a vº/o Canal, outras
portas,por dondefe firvão flas Frotas do Oriête, debaxo de
afuti/simos pretextos?Obtevitai, que efies Paladioens, que
pretende derrubar os muros naturaes de vo/aprovincia, não
introdução nella,ofogo vestido de a bufo,çõá os Gregos atro
pelarão o muro Frgio. Grãde laflima/erá q vós me/mos
lhe/ominifirei os materiaes,de qelles querê fabricar fuagrã
deza,& vo/a ruína.Senão dizeime,4outra cou/a intétãfazer
de vós os Olädeves,falvo o me/mo,4 o caçador afluto,quãdo a
pos do veado genero/o/olta os libreos diligêtes,qlho de tenhão?
?Nam be o dardo o homicida da fera, o ventar fi, e o
fabujo que lha param; efe he feu homicida. O trafgo do
mundo,que tantos annos tive/tes nas mãos, já dellas vollº
tem arrebatado os Olandezes. Digao Europa em todos
feus emporios. Digao Africa em todos feus refgates.
2igao ARia em todas /tias Conquifas. Zigao America
em todos/eus defcobrimentos.
Ouevos deixaõ que nos deixão,ou de que querê fºgoze,8
feenriqueça o reflo do mundo? Aquelle Tºfamento de Adam
que tantas vezes tem requerido,que lhes mºfixº,para defe
far aos Portuguezes, do fruto de fias glorio/a; emprezas;
porque nollonam manifflam agora,a ver/e foram elles, os fi
lhos melhor herdados,ou os herdeiros mais beneméritos,defas
Ventagens?Os Eftados(Sire)fam como os rios, 4 quando au
mentam em demºfia/eucaledal,redundam,derrºgam,e tira
mizamºs
548 EPANAPHoRA BEL IcA IV.
mixão todos os campos vifinbós.Malpode crecer Glanda, fem
que Inglaterra diminha. Concedo que a E/panha tocaparte
da inundação defe diluvio, mas vês nam negareis, que/erá
mais tarde,porque efld mais difante.Sou certo, que feus mi |
n/tros vos fizerão /o/peito/a no/avinda. Se andaramos a
bu/car,como elles,pretextos com quejuftificar mo/as acçoens,
ainda affinos nam faltáram muitos,com que calificarmos efia
jornada. Porventura ignorais vôs, que o meu Rey be compeli
do dellesme/mos,a defenderfeus Estados? Porventuraigne.
ra o mundo,quam caras nos cufium as vitorias que deleste
mos? Por ventura befingidonoff, direito,ouno/a ocurrencia;
ou a porfia com que mollanega efia naçaõ venturofa? Naõ Po
is/e/obre tantas verdades affentamino/Sas difiofiçoens, de 4
parte vem a/o/peita? DReinos,Streguenos falta por fatisfa
zer?Mandai que feme diga, que eu diante dominífiro mais
e crupulo/,fareilegala caufa de meu Principe.Orafendo fia

eria bem contado pelo univerfo, que voff am fide com el


Rey de E/panha, venha afervir de teatro ao faplicio de/aas
armas? Seforeis nofo inimigº foramos mais venturfos, pºr
que defviandofe noff, Armada devofloamparo,achara(nam
ba duvida)mayorfocorro na de/esperacuã,do que na amifade.
(Bufcamos a fombra de vº/a Coroa, para corroborar á fombra
deta,as forças, que haviamos defendido: $/enam achara
mos vo/jos pôrtos, quiçá quenos proprios braços dos E/panho
es de/cobriramos mais certo refugio.Se a neutralidade sºem
baraça/e o auxilio,que podieis darnos,nam me queix㺠del- .
la tanto,mas obrigarnºs a que nós proprios/em vº/a (fºrça,
nos mam defendamoshe terrivel confequencia. Nem e/pera
º meu Rºy, hem/eur minijiros intentam, que por/uas armas
• '' - empe
• CoNFLITo Do CANAL. 549
empenheis as voffs em fua ajuda,tanto namo ó pedimos,nem
tanto nos he nece/ario. Bafia que fe a neutralidade vos detem
que ela vos detenha, para que publica,nem/ecretamentes/e-
jam devº/os min/tros preferida, as obrigaçoens,que tendes a
Olanda,a quanta a no/a E/panha confº/jais. Istovos peçº,
iftovos rogº,istovos requeiro. , , .

Foram as razoens de Dom Alonfo, referidas com


tam grande afecto, & defpois realçadas com oficios
tam eficazes,que os Olandezes entráram em grande
receyo, de que elRey por fer benevolo, & de condi
çam facil, feinclinafe a favorecer o partido de Ef
panha; contra o qual a hum proprio tempo feeftava
fulminando em Inglaterra,Olanda,& França junta
mente:neta cógrandes promefas, naquella com grã
des diligencias,& com grandes aftucias em aquellou
tra. Cadadia fairam papeis manufcritos,&imprefios,
perfuadindo a todo o Norte,obrafe fegundo o efpi
ritu dos Olandezes; que cõ politico artificio fe em
pregavam em dar a entender ás provincias vifinhas,
quanta conveniencia recebiam da ruina E{panhola:
trazendolhe a efe fim, à lembrança, todas as acçoens
de aquela naçam, & feu Principe, intentadas, ou in
terpretadas,em dano de todos aquelles,a quem agora
requeriam a vingança.Mas o Refidente de Efpanha,
quanto fe fententia mais culpado no defcuido, com
que ao principio procedera, tanto mais esforçava de
novo os pafos,que havia dado nofta negociação del
la,que a propria natureza, fendo incorruta, & beni
: Sna, catiga com efterilidade o anno, que as calmas,
* . - - --- - - •
chuvas,
- - - -
55 o EPANAPHoRA BELICA IV.
calmas,& frios vem fora de tempo. Ao contrario, ef.
tava fucedendo ao Embaxador de Olanda, que fe:
guindo todos os meyos pofiveis, fem deixar algum
por indccente,folicitava a melhora de feus intereffes.
Os quaes havendo bem affentado com o General Pi
ninton,&com o proprio Conde Notaborlan; a qué
dizé,obrigou cógrandes fomas de dinheiro,para q fe
detiveffena condução,& entrega da polvora, q eta
vavendida,& paga para a Armada de Efpanha,pedio
logo aclRey audiencia particular, onde com razoés,
a feu parecer ou defejo, mais fortes, fe opuzefe ás q
tinha oferecido a elRey, o minitro de Efpanha. Ef.
te confelho,lhe haviam dado os Ingrezes, feus parci
ais,que vife a elRey, & obrafe cõ fua propria auto
ridade:porque a razão tem tal virtude, que jà mais fé
clla, pode nenhúa aftucia confeguir o que pretende.
O mais iniquo,& tirano homem do mundo, não cõ
feff, que obra contra razão,mas prefere a fua a qual.
quer outra,com agravo da melhoria da melhor. Nôs
vemos,que ainda aquelle difoluto Juliano, nam fe
atreveo a negar a razão no mundo, ao mefmo tempo
que a adulterava.Não diffe o tirano, nem os tiranos
dizem:Que obrava o que queria,& mãdava/em razão, mas
dizem elles,que fua votade,he a razão do que querem, mas
dam,& obram.
Confeguida pelo Embaxador de Olanda a au
diencia delRey Carlos,falou nefte fentido, Sire que
chaga de/com/alado avoff), pês,tras configo hum novo motivº
para felevantar delles/em afliçaõ porque a Magºflade, é a
ml/e-
|
CoNFL1ro do CANAL. 55 1
"
•|
miferia/amcomo a luz,8 a fombra: nam pºde existir muyto
} a fombra diante da luz, Coifjo que venho aqui com grande
*

dor,pois mefas conhecer a nece/idade de tornar a can/arvos
.
••
com efias proprias razºês, nam ávaleraãellas pouco diãte de
|
+
• vo/a 3tage[tade,mas? as nam./oube repre/entar em tal ma
nera,que logo fica/eis/em algúa duvida,acercadelas.Ode
feito foi do Orador,naõ de cau/a; porque eu me certifico, que
fe avós, Sire, fevos refirira como ela he, nenhum efcrupulo
vos ficára de obrardes,como vos pedimos: só vos ficâra aquel
lefêntimento,4 acompanha aos virtuofos, na dilaçaõ do exer
cicio de qualquer obra boa. Pois á razº? haverá, de 4 a minha
Republicapague º 4 eu errei? Sºfalta ñ naõ foube reprefen
tarvos ajustiça de no/a cau/a:&º esta culpa,por ventura que a
tive/e aquellagrãde abundancia de motivos q ha paraju/tifi
calla. Naõ ferei o primeiro a quê a copiafes e/ca/o. Suceder
mebia,como fucede aos caminhantes,á em grande concurrécia
de caminhos,nao fabem por qual/e lancê. As fobejas razoens,
Sire,4 naõ a falta delas,fariaõ como eu naõ atina/e a decla
rar a V. Maga confiança,3 minha Republica têem vo/hani
mo,ês a obrigaçõreciproca q ha entre vo/os,& no/os interef
fes,para 4 nele fäde esta cõfiança. Por ventura,agraõ Breta
nha, dominai,começºu a favorecermos quãao lho nam mere
ciamos(/alvo em vifinhança,º afeição)paranos de famparar
defois que com obras,/obre afeclos, vos famos acrèdores de
tantas e/perãças?Quem tal cuidaria? Ainda eftais indetermi
nado fenhor,no modo porqvos havereis entre os Olandezes,6
E/panhoes?Quebe fio?Quenê voa foitão atrevida,4 quis che
gar a efurecer o alto Olimpo devo/o altifimo entãâimento?
" prefençao míniº
Zºdítavºs,Sire,mandá eispiFFay/aféal fºO

••••• •**
552 E PANA PHoRA BELICA IV.
tro de E/panha,meu opofio,para que,prefentes ambos, dife
ta/semos da validade de/uas razºens,& das minhas; viria:
quão abatida ficava diante da jufiiça dos Bátavos,a arrogan.
cia dos Ca/telhanos. Alf volo regàra eu, fe pretende/emos
que vós pelas cau/as quenos tocam,vos move/eis a deliberar
ne/tecafo. Num queremos,nam pedimos,/enhor, que vos lem
breis de no/a amifade,deno/a conformidade;fendo que com
vinculos de alma,& corpo,estam unidos; só defejamos, que de
vá mºfnovos lébreis. De/cuidai embra da có/ervação,é dº
aumento de Olanda,mas porque defuedareis do aumento,$
da confervação de Iglaterra º Zºmbe que os E/panhoes vos
perfuadão,4/enhor,que nam contribuais com alg㺠diligencia
importante ano/a grandeza,metèdovos em receyo della,comº
/e fora menor perigo,deixar crecer h㺠potencia grandi/ima,
até fazer/eformidavel,que có/entir na melhora de outra, que
quando a muyto chegue,nunca lhe fráigual. Zºke lhe quenos
deixem fertam grandes,como eles/am,ou comº vá/ois;&#
para je tempo guardem as inculcas dos ciumes, a que vesin
duvem,com mº/afelicidade. Quem viojamais no mundo, te
mer com mayor exce/O a enchente de hum rio, que º fluxo in
contrafiavel do mar Occeano? Ainda cà,tam apartados, nos
não quer deixar em fè fle temerofo Neptuno?Se pela guar
da de feus mares,& portos,fiRera demafias, fermo/pretex
to tinha nas prºprias leys naturais, que mam/? acom/elham,
mas obrigam á confervação no/a,& dono/lo,mas porque nam
efará elRey de E/panha,pella/Etêça do Altufino,4 posni/?
liberdade,no fios denº/as armas, & afes delles depêdente?
Jºgºra quer apel ir defe decreto, de/pois q có/entio por tãtos
anno, em nºja kºyam?Que importãopaves,ou treguas, 6 Si.
, **º
CoNFLIT o Do CANAL. 553
re, cõ aquele que não reconhece outra palavra,q a q tem dado
a /ua conveniencia: /e/omente em quanto lhe não for pofivel,
ob/ervará os tratados 4 com vo/co täfeito? Aefletal, melhor
he 4/empre o tenhamos nece/itado;porque a/fifeverifica a sê
tença do Polytico,que afirmou : convinha mais aos Principes,

ter muytos dependentes, que ter muytos obrigados. Pois/e com


a obrigaç㺠em 4 vos eflá,õSire,a Coroa de E/panha,achais q
a nam tédes obrigada,provaiagora outro meyº,º procuraide
a ter dependente.Quantos annosha,4/ocorre a Flandes/emo
ruido/em o diffendio,4 preparonefte anno??rou) e/e a Zeos
que /ua confirvação lhes cuflara aos E/panhoes tam cara, ou
ao