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As operações de manutenção da paz

Daniele Uchoa Santos1


Paulo Vosgrau Rolim2

Resumo
O presente estudo constitui uma análise da evolução das operações de
manutenção da paz (peacekeeping). Tais operações cresceram de tal forma e
complexidade, que chegam a ser confundidas com a Organização das Nações
Unidas, já que é uma das suas atividades mais notórias. As operações de
manutenção da paz devem ocorrer após o consentimento das partes do conflito, pois
só assim é possível alcançar o sucesso. Devido à necessidade de atuar em um
campo multidimensional abrangendo uma variada gama de operações e tarefas, a
capacidade das Nações Unidas foi contestada por não obter um exército próprio
para as operações mais complexas. Entretanto, as organizações (sub) regionais
passaram a se envolver cada vez mais nas operações de manutenção da paz,
destacando outros atores no cenário internacional como peacekeepers
(pacificadores). Desde 1948 até os dias atuais, foram realizadas sessenta e seis
operações de manutenção da paz, e apesar dos contratempos, essas operações
são bem sucedidas quando ambas as partes do conflito realmente estão
comprometidas com o processo da paz, facilitando assim, a consolidação da paz
(peacebuilding).

Palavras-chave: Manutenção da paz, resolução de conflitos, primeira geração,


segunda geração, regionalização.

Abstract
This study is an analysis of developments in peacekeeping operations. Such
operations have grown to such an extent and complexity that come to be confused

1
UNIP – Instituto de Ciências Sociais e Comunicação. Campus Swift – Campinas, SP. Relações
Internacional, 4° Semestre noturno, sala D001. Daniele Uchoa Santos – RA A248ED-0 – E-mail:
danni_uchoa@hotmail.com.
2
UNIP – Instituto de Ciências Sociais e Comunicação. Campus Swift, SP. Professor Paulo Vosgrau
Rolim.
2

with the United Nations, since it is one of the most egregious activities. The
peacekeeping operations should take place after the consent of the parties to the
conflict, because only then you can succeed. Due to of the need to act in a
multidimensional concept covering a wide range of tasks and operations, the ability
of the United Nations was not getting challenged by their own army to the most
complex operations. However, organizations (sub) regional came to be increasingly
involved in peacekeeping operations, noting other actors on the international scene
as peacekeepers. Since 1948 until today, there were sixty-six peacekeeping
operations, and despite setbacks, these operations are successful when both parties
to the conflict are really committed to the peace process, thus facilitating the
consolidation of peace and peacebuilding.

Keywords: Peacekeeping, conflict resolution, first generation, second generation,


regionalization.

1. Introdução

O presente estudo tem por objeto analisar as operações de manutenção da


paz que são de total relevância para as Relações Internacionais; devido às novas
ameaças que surgiram no sistema internacional no pós Guerra Fria.
Essas operações se tornaram fortemente demandadas para atender os
diferentes conflitos e as mudanças das paisagens políticas, cujo termo mais utilizado
para se referir a essas operações é o peacekeeping.
As operações de manutenção da paz cresceram tanto em número quanto
em complexidade, e por ser uma das atividades mais notórias das Nações Unidas
acabam sendo confundidas com a própria organização, mesmo não sendo
explicitamente encontrada na Carta das Nações Unidas subentende-se como sendo
parte do “Capítulo VI e meio3”.
Com a origem no momento em que as rivalidades da Guerra Fria
paralisaram o Conselho de Segurança da Organização das Nações Unidas, as
operações de paz foram limitadas para garantir o cessar-fogo e estabilizar as

3
Solução pacífica de controvérsias, colocando métodos tradicionais de resolução de litígios por meios
pacíficos, tais como negociação e mediação.
3

situações de conflitos, dispondo de observadores militares e tropas levemente


armadas.
No processo de resolução de conflitos a operação de manutenção da paz
ocorre somente com o consentimento das partes, seguida das negociações de
pacificação do conflito – restabelecimento da paz (peacemaking), onde não
representam ameaças as partes, possuindo restrições quanto ao uso de força e de
autodefesa.
A evolução das operações de manutenção da paz não faz das Nações
Unidas a única organização autorizada a ter missões de paz, sendo cada vez mais
visível um maior envolvimento de organizações (sub) regionais.
Assim, será utilizada uma análise empírica e conceitual para avaliar a
evolução das operações de manutenção da paz empreendidas pelas Nações Unidas
desde o inicio da prática até os dias atuais.

2. O processo de resolução de um conflito

Nos dias atuais e no futuro, o conflito é uma constante no relacionamento


humano nas sociedades.
As correntes ideológicas realistas nas Relações Internacionais defendem
que os conflitos são os fatores da evolução e da erosão positiva dentro das
sociedades, sendo assim, onde existem dois seres humanos distintos, existem
interesses diferenciados e potencialmente um conflito entre eles.
A complexidade e os atritos nas relações dos povos, estados e civilizações
aumentam a instabilidade local, regional e mundial, tornando-se uma permanente
preocupação para toda a sociedade internacional.
Partindo-se do princípio da teoria de que a paz é preferível à guerra e que,
em alguns casos é mais difícil manter a paz do que acabar com a guerra4, em um
pré-conflito é aplicada uma diplomacia preventiva e o restabelecimento da paz
(peacemaking) na tentativa de pacificação. Enquanto que a manutenção da paz
(peacekeeping) ocorre no conflito a fim de garantir o cessar-fogo e manter a paz, e a

4
Apud in: BERNARDINO, Major Luís Manoel Brás. A prevenção e resolução de conflitos. Revista
Militar, 2009
4

consolidação da paz (peacebuilding) no pós-conflito fortalece e consolida um


acordo.5
Em um processo de resolução de um conflito, a manutenção da paz é
considerada um dos instrumentos para a segurança internacional e a paz.

3. A manutenção da paz

A definição da manutenção da paz utilizada pelas Nações Unidas é referida


com sendo um Instrumento único e dinâmico, e que foi desenvolvida para ajudar os
países dilacerados por conflitos, a fim de criar condições para uma paz duradoura.
Distinguindo-se do restabelecimento e da consolidação da paz, a
manutenção da paz conta com os soldados pacificadores6 (peacekeepers) para
monitorar e observar os processos de paz em áreas de conflito e pós-conflito
ajudando de várias formas os ex-combatentes na execução dos acordos de paz que
tenham assinado.
Segundo o Major General Carlos Martins Branco7:

As operações de manutenção da paz (peacekeeping) é em sua concepção


o apoio militar à diplomacia. É um meio de conter a situação enquanto
outros diplomatas e mediadores procuram uma solução pacífica e a
presença dos militares (peacekeepers) no terreno assegura às partes que
nenhuma delas vai adquirir vantagem tática durante as conversações e
evitar que a atmosfera das negociações não seja envenenada pelo reinício
8
dos combates.

No Art. 24 § 1º da Carta das Nações Unidas, o poder e a responsabilidade


de ter uma ação coletiva internacional para manter a paz e a segurança são
conferidos ao Conselho de Segurança das Nações Unidas, porém o termo
manutenção da paz (peacekeeping) não é encontrado na Carta e segundo o ex

5
Apud in: BERNARDINO, 2009
6
Tropas multinacionais (soldados, militares e civis) muitas vezes referidos como “Blue Berets” –
boinas/capacetes azuis
7
Licenciado em Ciências Militares, atuou com observador militar da ONU na ex-Jugoslávia em 1994-
1996 e como Secretariado da ONU/Divisão Militar - “Peacekeeping Affairs Officer”, sendo responsável
pelas missões da ONU no Oriente Médio em 2001-2002.
8
Apud in Maria do Céu Pinto - Working Paper: Dimensões Críticas do Peacekeeping das Nações
Unidas.
5

secretário-geral Dad Hammarsköld, refere-se como pertencentes ao “Capítulo VI e


meio” da Carta:

Art. 36 § 1º: O Conselho de Segurança poderá, em qualquer fase de uma


controvérsia...recomendar procedimentos ou métodos de solução
apropriados.

Art. 40: A fim de evitar que a situação se agrave, o Conselho de Segurança


poderá...convidar as partes interessadas a que aceitem as medidas
provisórias que lhe pareçam necessárias ou aconselháveis...

Segundo Hammarsköld, sua definição está entre os métodos tradicionais da


resolução de litígios por meios pacíficos, tais como negociação e mediação nos
termos do Capítulo VI e aplicando meios mais forte de ação conforme autorizado
nos termos do Capítulo VII9.
Além do poder ser conferido ao Conselho de Segurança, a Carta das
Nações Unidas menciona que cabe a Assembléia Geral algumas funções:

Art. 11º § 2º: A Assembléia Geral poderá discutir quaisquer questões


relativas à manutenção da paz e da segurança internacional...poderá fazer
recomendações relativas a quaisquer destas questões ao Estado ou
Estados interessados, ou ao Conselho de Segurança ou ambos...

Art. 14: A Assembléia Geral...poderá recomendar medidas para a solução


pacífica de qualquer situação, qualquer que seja sua origem, que lhe pareça
prejudicial ao bem-estar geral ou às relações amistosas entre as nações...

Art. 22: A Assembléia Geral poderá estabelecer os órgãos subsidiários que


julgar necessários ao desempenho de suas funções.

De acordo com o Peacekeeper’s Handbook da International Peace


Academy, a manutenção de paz é definida como sendo:

[...] a prevenção, a contenção, a moderação ou conclusão das hostilidades


entre Estados ou no seio daqueles, através da mediação de uma terceira
parte, organizada e dirigida a nível internacional, com o uso de forças

9
PEACEKEEPING, United Nations. Home page.< http://www.un.org/en/peacekeeping/>
6

militares multinacionais, de polícia e civis de forma a restaurar e manter a


paz.

Assim cabe à manutenção da paz, monitorar e observar os processos diante


da execução de um acordo de paz, promovendo medidas de confiança e ajuda para
estabelecer as bases para uma paz sustentável não podendo assim, representar
ameaça para as partes no conflito devido às restrições quanto ao uso da força,
cooperando muitas vezes com a assistência humanitária a fim de contribuir para a
manutenção da paz.

4. O Processo

O mandato de uma operação de manutenção da paz, conforme estabelecido


pelo Conselho de Segurança, é o ponto de partida para a definição de
responsabilidades de uma missão.
Sob a autoridade do Conselho de Segurança, o Secretário-Geral comanda
as operações de paz que, por sua vez, delega a responsabilidade global para a
realização e apoio a essas missões para o Subsecretário-Geral, e com o
consentimento do Conselho de Segurança nomeia um Representante Especial do
Secretário-Geral que atua como Chefe de Missão.
O Representante Especial do Secretário-Geral é o responsável pelo
programa e execução do mandato da missão, desenvolvendo estratégias para
alcançar os objetivos através da política, recursos institucionais e financeiros
disponíveis. Além do desafio de gerir uma situação de conflito, consequências e uma
operação administrativa complexa, o Representante Especial do Secretário-Geral é
o responsável pela unificação e efetivação desses diversos elementos no terreno.
Assim, os relatórios das operações de manutenção da paz (Peacekeeping
Operations) são enviados do Representante Especial do Secretário-Geral ao
Secretário-Geral, por intermédio do Subsecretário-Geral. Porém, em mandatos de
operações da paz que têm principalmente militares, o Secretário-Geral pode nomear
um comandante de força ou chefe de observadores militares como chefe de missão.
Os oficiais (peacekeepers), responsáveis pela manutenção da paz, não
podem alcançar uma paz duradoura sozinhos, podendo incluir vários parceiros e
uma mistura de responsabilidades para abordar as causas e os legados do conflito.
7

Os vários parceiros envolvidos na execução do mandato incluem as partes


no conflito; o governo anfitrião; grupos de oposição; as forças irregulares, bem como
entidades administrativas e outras partes, como os países vizinhos e comunidades,
sociedade civil e da população local e da mídia.
Outros parceiros importantes incluem:

• Países que contribuem com pessoal;


• Outros Estados-Membros;
• Agências da ONU, fundos e programas;
• Doadores;
• Forças militares regionais de polícia;
• Organizações regionais e sub-regionais;
• Instituições de Bretton Woods;
• Organizações intergovernamentais;
• Organizações não-governamentais (ONGs) e
• Mídia internacional.

A operação da paz é uma joint venture10 onde os interesses estão dentro


dos parâmetros do mandato. Para a missão ser eficaz, os seus parceiros tem que
trabalhar como uma unidade integrada e inclusiva.
Muitas vezes, após a implantação de uma operação de manutenção da paz
outros parceiros entram em cena, incluindo as agências bilaterais, organizações
internacionais e outras entidades envolvidas no desenvolvimento social e
econômico, objetivando o fortalecimento institucional e de reconciliação entre as
partes.
Em missões complexas, alguns parceiros como agências, fundos e
programas ou organizações regionais podem ser integrados na estrutura da
operação, criando assim normas de coordenação especiais para os funcionários, a
fim de financiar o seu trabalho separadamente. Todos eles operam sob a égide da
missão.
Além de estabelecer os responsáveis para a missão é necessário seguir os
requisitos políticos da manutenção da paz, que são:

10
Aliança entre duas ou mais entidades com o fim de partilharem os riscos e as responsabilidades do
projeto.
8

• Consentimento das partes;


• Apoio do Conselho de Segurança;
• Mandato claro e exeqüível;
• Não recurso à força;
• Fornecer um número adequado de militares e aceitar o risco;
• Apoio financeiro e logístico, especialmente do Conselho de Segurança

Assim, o processo é colocado em prática através das tarefas dos


pacificadores (peacekeepers) que variam desde os pareceres técnicos sobre
questões militares até a negociação política, ou ainda, quanto ao processo de paz
em uma ação militar robusta e com atividades complexas. As principais tarefas
diante das operações de manutenção da paz são divididas em cinco níveis:

1) A observação:
É através da observação que se realiza o acompanhamento e fiscalização
perante um acordo militar; ou um acordo de trégua ou cessar-fogo; ou a supervisão
dos armistícios; ou a observação das eleições e a observação do respeito pelos
Direitos Humanos. A observação é feita através de estática (postos de observação)
e móveis (patrulhas regulares, inspeções e investigações de suspeitas de violações).

2) A separação das forças:


Na separação das forças, os pacificadores (peacekeepers) ficam com a
responsabilidade de assegurar a desmilitarização, evitando novas hostilidades.

3) A manutenção da lei e da ordem


A manutenção da lei e da ordem ocorre em situações onde não há
capacidade nacional ou internacional de um policiamento eficaz; sendo aplicada
somente em circunstâncias excepcionais com o objetivo de retornar ao policiamento
civil assim que possível.

4) O uso da força
A manutenção da paz necessita do consentimento de ambas as partes do
conflito, e por isso os pacificadores não são obrigados a usar a força para além da
autodefesa. A autodefesa inclui o direito de proteger a si mesmo e de quaisquer
9

outras pessoas que estão sob proteção da ONU. O uso da força dependerá do
mandato da operação de manutenção da paz e as regras de engajamento que
esclarecem os diferentes níveis de força que devem ser usadas em várias
circunstâncias, sempre com a autorização do Conselho de Segurança.

5) A ajuda humanitária
Os oficiais da manutenção da paz são os responsáveis em fornecer um
ambiente seguro, para que a assistência humanitária possa ser realizada com
sucesso ou fornecer segurança e proteção para as operações de ajuda humanitária,
assumindo assim, uma forma de garantir a liberdade de circulação, escoltas,
proteção aos funcionários humanitários e aos locais de armazenagem, entre outras
intervenções.
Muitas vezes os oficiais realizam atividades humanitárias por iniciativa
própria. Alguns governos consideram essa atitude parte essencial de sua
contribuição para manutenção da paz e, muitas vezes, um fator importante na
mobilização de apoio nacional, podendo contribuir significativamente para melhorar
as relações com a população local e as partes envolvidas no conflito, aumentando
assim a segurança e a autorização da construção. Essas atividades devem ser
baseadas no objetivo internacional humanitário e político na área da missão evitando
a duplicação de esforços com as agências humanitárias.

5. Os antecedentes da manutenção da paz: Liga das Nações

Após a Primeira Guerra Mundial (1914-1918) e os flagelos de uma Europa


destruída, algumas questões passaram a ser relevantes se tratando de política
internacional. Essas questões procuravam entender as origens da guerra a fim de
evitar uma nova eclosão de grandes proporções.
Segundo BELLAMY et. al apud Gomes (2009), a fundação da Liga das
Nações e a origem do conceito de segurança coletiva, a noção de que todos os
membros da sociedade internacional devem se engajar um uma ação conjunta para
prevenir e repelir agressores, evidenciavam que, em assuntos de guerra e paz,
todos os Estados tinham uma função a cumprir.
10

Assim, as operações de manutenção da paz não surgiram no âmbito das


Nações Unidas. Elas possuem antecedentes nos anos 20 e 30, não tendo nome e
conceitos consolidados.
A Liga das Nações foi a primeira organização que organizou um sistema de
segurança coletiva e desempenhou uma ação internacional que repercutiu sobre o
acervo de instrumentos existentes no campo das técnicas de manejo de conflitos, no
qual regulamentava as dificuldades territoriais, jurídicas e financeiras oriundas das
guerras11.
As tarefas executadas pela Liga das Nações nas operações de manutenção
da paz foram:

• Observação de conflito
• Supervisão das linhas de demarcação
• Separação dos combatentes
• Supervisão de cessar-fogos, tréguas e armistícios
• Administrações provisórias (administrações ad ínterim)
• Organização de eleições.

Um exemplo da operação de manutenção da paz realizada pela Liga das


Nações foi na Bacia de Sarre. O território ficou sob a administração da Liga a partir
de 1920, onde existia uma força militar de apoio para manter a lei e a ordem devido
ao seu desmembramento do Império Alemão. Em 1935 foi realizado um referendo
para que o território da Bacia de Sarre fosse reanexado à Alemanha Nazista,
deixando assim de ser administrada pela Liga.
Apesar de ter vivenciado fatos vitoriosos, a Liga das Nações não foi
suficiente para evitar um novo conflito mundial (1939-1945).
E partindo-se das cinzas de uma Europa novamente destruída surgiu a
Organização das Nações Unidas, cuja missão seria preservar as gerações vindouras
do flagelo da guerra.

11
FONTOURA, Paulo Roberto Campos T. O Brasil e as operações de manutenção da paz das
Nações Unidas. Brasília, 2005.
11

6. A primeira geração das operações de manutenção da paz

A operação de manutenção da paz foi desenvolvida durante a Guerra Fria


como um meio de resolver conflitos entre Estados, através de militares desarmados
ou levemente armados sob o comando da Organização das Nações Unidas (ONU),
para observar o processo de paz.
A primeira geração das operações de manutenção da paz ocorreu no
período de 1948-1988. Essas operações foram, majoritariamente, interestatais de
observação militar criadas para monitorar ou supervisionar cessar-fogos, tréguas,
acordos armistícios, retirada de tropas, patrulhamento de zonas-tampão e limites de
fronteiras em áreas conflituosas e facilitar o acordo negociado de um conflito.
Em junho de 1948 foi mobilizada a primeira dessas operações de
observação na Palestina, através da Organização das Nações Unidas para
Supervisão de Trégua (UNTSO) no momento em que ocorreu a conclusão da guerra
árabe-israelense.
As operações de manutenção da paz passaram a ser associadas com a
ONU apenas a partir de 1956, quando a Organização estabeleceu em resposta a
Crise de Suez12, sua primeira operação desse tipo.
Foi somente em 1956 que o estabelecimento do "Comitê Especial para
Operações de Manutenção da Paz", pela Assembléia Geral da ONU formalizou o
termo "peacekeeping", evidenciando assim, a aceitação dessas operações pela
comunidade internacional.
As operações realizadas pela ONU durante a Guerra Fria foram
relativamente bem sucedidas, especialmente nos casos de guerras interestados.
Entretanto, as operações de manutenção da paz da Guerra Fria mostraram-se um
instrumento de gestão de conflitos inadequado nas guerras civis, pois era
desenhado para lidar com conflitos entre estados.

12
Quando o presidente egípcio nacionalizou o Canal de Suez, a Grã Bretanha, França e Israel
atacaram o Egito. O ataque foi condenado pelos EUA e pela URSS fazendo com que a Assembléia
Geral instituísse a "Primeira Força de Emergência da ONU" (UNEF I). A operação foi posicionada
entre as forças beligerantes para supervisionar o cessar-fogo e a retirada das tropas francesas,
britânicas e israelenses do território egípcio. A UNEF I permaneceu no Egito até 1967 monitorando a
zona desmilitarizada entre as forças egípcias e israelenses.
12

Em alguns casos a ONU se via envolvida em situações em que não havia


paz para manter e as partes do conflito preferiam o campo de batalha à mesa de
negociações.
Entre 1948 e 1988 foi realizado o total de treze operações de manutenção
da paz, sendo que, apenas uma não se destinou a atuar em conflitos surgidos da
descolonização européia. Essas operações foram conduzidas em países em
desenvolvimento, sendo a maioria em países do Oriente Médio.
Com as divergências políticas e ideológicas dos anos de Guerra Fria, o
Conselho de Segurança viu-se impedido de desenvolver plenamente seus projetos
de atuação na resolução de conflitos através das operações de manutenção da paz.
Entretanto, mesmo com problemas e contradições, as operações conseguiram
impedir situações de maior acirramento das tensões na Guerra Fria.
Analisando a primeira geração das operações de manutenção da paz,
verifica-se que as menos problemáticas foram aquelas em que as partes envolvidas
concordaram em extinguir suas exigências e só precisavam da ONU para ajudá-los
a manter suas palavras. Outros problemas também foram evitados, principalmente
quando havia consenso e cooperação das partes, quando a imparcialidade das
tropas não fosse contestada e quando não fez necessário o uso força.
Porém, no cenário internacional diante do fim da Guerra Fria, estas
condições não prevaleceram nas inúmeras situações em que a ONU foi requerida
para manter a paz.
A simplicidade das operações de manutenção da paz não evitou a
permanência de vários problemas e o aparecimento de novos desafios, fazendo com
que no fim da Guerra Fria, as operações de manutenção de paz fossem
aprimoradas, expandindo as operações do campo “tradicional” com missões
estritamente militares para um campo “multidimensional”, assegurando a
implantação de estratégias e acordos a fim de ajudar a estabelecer as bases para
uma paz sustentável.

7. A segunda geração das operações de manutenção da paz

No período o de 1988 a 1999, trinta e nove operações de manutenção da


paz foram realizadas enquanto o Conselho de Segurança adotava critérios mais
amplos para definir o que constituía uma ameaça à paz e à segurança internacional.
13

A proliferação das operações de manutenção da paz no pós-guerra fria


ocorreu devido à contribuição de três fatores13:

O primeiro fator foi considerado a causa mais significativa para o


fortalecimento da autoridade das Nações Unidas no campo da manutenção
da paz, na qual a nova política do governo soviético em relação à ONU foi
expressa após a ascensão de Gorbachev ao cargo de Secretário-Geral do
Partido Comunista da URSS, que propunha a revitalização do Conselho de
Segurança como sendo o principal guardião da segurança internacional,
enfatizando a importância das operações de manutenção da paz. Contudo,
o presidente americano Ronald Regan, também reconhecia a necessidade
de ampliar o escopo de atuação da ONU e seu sucessor, George Bush,
demonstrou firmemente o desejo de acelerar a distensão com a URSS
salientando que as Nações Unidas poderiam desempenhar um importante
papel na mediação de conflitos internacionais.
O ressurgimento de conflitos internos que haviam sido camuflados pelas
tensões da Guerra Fria, foi o segundo fator que contribuiu para a
proliferação das operações de manutenção da paz. Os conflitos possuíam
um caráter étnico, religioso e nacionalista, e emergiram principalmente no
continente africano. Foi o caso do desmembramento da Sérvia em cinco
Estados independentes, que fez com que a ONU estabelecessem na região
oito operações de manutenção da paz para lidar com os conflitos surgidos
do processo de fragmentação.
O terceiro fator refere-se ao empenho mais efetivo dos países ocidentais em
difundir o ideário democrático fundado no respeito aos direitos humanos, no
pluralismo político e na liberdade de expressão. A ONU aparece como uma
mediadora na promoção desses preceitos, e suas operações de
manutenção da paz passariam a contemplar a reconciliação política do país
anfitrião, defendendo o respeito aos direitos humanos e a realização de
eleições por voto universal e secreto como fatores essenciais na busca de
soluções para os conflitos em questão.

A explosão no número de operações de manutenção da paz fez com as


Nações Unidas realizassem mudanças e adaptações em suas funções e tarefas
desempenhadas nas operações.

13
ONU: As operações de manutenção da paz. Disponível em:
<http://www.universia.com.br/preuniversitario/materia.jsp?materia=4128>. Acesso em 29 outubro.
14

Assim, as novas operações de manutenção da paz passaram a ser


conhecidas como “segunda geração”, pois passaram a atuar em um campo
multidimensional.
Segundo Fontoura (1999:100), novas tarefas abrangiam a desmobilização
de forças, o recolhimento e destruição de armamentos, reintegração de ex-
combatentes à vida civil, execução de programas de remoção de minas, auxilio para
retorno de refugiados e deslocados internos, fornecimento de ajuda humanitária,
treinamento de forças policiais, supervisão do respeito aos direitos humanos, apoio à
implementação de reformas constitucionais, judiciais e eleitorais, auxilio à retomada
das atividades econômicas e à reconstrução nacional.
As adaptações não ocorreram somente nas tarefas e funções, a composição
das tropas também foi adaptada, passando a receber civis com experiência em
algumas áreas como eleições, direitos humanos, administração pública,
gerenciamento econômico e assistência humanitária. Entretanto, novos efetivos
militares também foram mobilizados para proporcionar um ambiente seguro a esses
civis que atuam no processo de pacificação política e de reconciliação nacional.
A segunda geração das operações de manutenção da paz não conseguiu se
adaptar eficientemente ao processo de absorção de novas funções, desencadeando
assim um debate acerca do futuro das operações de manutenção da paz quanto à
incapacidade da ONU.

8. A regionalização das operações de manutenção da paz

As operações de manutenção da paz efetuadas pela ONU são mais voltadas


para as operações tradicionais, pois não é uma entidade adequada para lidar com
situações em que seja necessário o uso da força para além da autodefesa, pois não
possuem um exército próprio. Assim, a ONU se encontra mais ajustada ao capítulo
VI14 da Carta juntamente com o consentimento das partes.
Segundo Carlos Martins Branco, o capítulo VII15 da Carta refere-se às
operações militares mais complexas, no qual o uso da força é empregado para além
da autodefesa. Essas operações deveriam ser subcontratadas a coligações ad hoc
de Estados dotados de meios e capacidades militares, como ocorreu na Coréia e na

14
O capitulo refere-se à solução pacífica de controvérsias.
15
O capítulo refere-se a uma ação relativa a ameaças a paz. Ruptura da paz e atos de agressão.
15

I Guerra do Golfo, ou a organizações regionais como ocorreu com a Organização do


Tratado do Atlântico Norte (OTAN) na Bósnia e no Kosovo.
Devido essas operações complexas, notou-se um envolvimento maior de
organizações (sub) regionais em operações de manutenção da paz, na qual a ONU
deixou de ser o único peacekeeper (pacificador), tendo agora outros atores na cena
internacional.
De acordo com o capítulo VIII da Carta16, a operação de manutenção da paz
regionalizou-se.
A OTAN tem suas operações de manutenção da paz predominante na área
euro-atlântica, e apesar de possuir estrutura de comando e meios militares para
dirigir operações militares complexas faltam-lhe os saberes e meios para envolver
em assuntos de polícia civil, ajuda humanitária, direitos humanos e instituições de
construção (institution building) para se designar multidimensional em operações de
manutenção da paz.
A Rússia e a Comunidade de Estados Independentes17 (CEI)
desempenharam um papel incontestável nas operações, chegando até atuar em
cooperação com a ONU, no qual a CEI confere proteção e escolta armada aos
observadores militares da ONU em situações de risco.
Conforme Carlos Martins Branco a regionalização das operações de
manutenção da paz nas regiões da África e América Central existem, porém não é
um movimento forte como na região euro-atlântica, sendo assim mais difícil falar
desse processo.
Na África, várias organizações e arranjos ad hoc levaram a cabo diversas
iniciativas de operações de manutenção da paz, mas ainda possuem muita
necessidade em se apoiar na ONU. Como é o caso da Organização de Unidade
Africana (OUA), a Comunidade Econômica do Oeste da África (ECOWAS) e a
Comunidade Sul-africana para o Desenvolvimento (SADC).
A má condição financeira foi outro fato que impulsionou a regionalização das
operações de manutenção da paz, principalmente pelo aumento das operações no
pós Guerra Fria, no qual os custos chegaram atingir um valor máximo de US$ 3,6
bilhões.

16
O capítulo refere-se aos acordos regionais.
17
Organização supranacional envolvendo 11 repúblicas que pertenciam a ex União Soviética.
16

Mesmo a ONU não tendo autoridade política e militar para gerir suas
operações, foi possível ser realizada através dela e de organizações (sub) regionais
mais catorze operações de manutenção da paz de 1999 até o presente ano, 2010.

9. Considerações Finais

As primeiras operações de manutenção da paz ocorreram sob égide da Liga


das Nações, e as tarefas ficavam somente na observação de conflitos e na
supervisão de combatentes e cessar-fogo.
Durante a Guerra Fria, as operações realizadas foram relativamente bem
sucedidas, principalmente nos casos de guerras interestados. O problema só surgiu
diante das operações em que os conflitos eram intra-estados ou civis.
O aumento das ameaças no sistema internacional no pós Guerra Fria fez
com que as operações de manutenção da paz se tornassem fortemente
demandadas, com o objetivo de atender os diferentes conflitos e as mudanças das
paisagens ideológicas e políticas.
No fim da Guerra Fria, novos desafios surgiram fazendo com que as
operações de manutenção de paz fossem aprimoradas, expandindo as operações
do campo “tradicional” para um campo “multidimensional a fim de ajudar a
estabelecer as bases para uma paz sustentável. Dessa maneira, as adaptações
ocorridas nas funções e nas tarefas das operações passaram a ser conhecida como
“segunda geração”.
Desde 1948, houve um total de sessenta e seis operações de manutenção
da paz ao redor do mundo. Porém, com o alto custo das operações e a falta de um
exército próprio para operações mais complexas, fez com a capacidade da ONU
fosse questionada no âmbito da manutenção da paz.
Sendo assim, a regionalização das operações foi fundamental, pois foi
possível que organismos (sub) regionais trabalhassem em operações complexas e
também cooperassem com a ONU.
Apesar das operações de manutenção de paz estar sob a responsabilidade
das Nações Unidas, ela não pode ser considerada a única pacificadora
(peacekeeper), pois devido o aumento e a complexidade das operações lhe falta
autoridade militar fazendo com que dependa de terceiros.
17

Entretanto, em meio aos contratempos, as operações realizadas pelas


Nações Unidas têm sido bem sucedidas quando ocorrem acordos de paz entre as
partes e quando as partes estão realmente comprometidas com o processo da paz,
facilitando assim, a consolidação da paz (peacebuilding).

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