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A internet vai à escola: domínio e apropriação de

ferramentas culturais*

Marcelo Giordan
Universidade de São Paulo

Resumo

O objetivo deste artigo é descrever e analisar o processo de in-


trodução da internet em uma comunidade escolar, e verificar
como o domínio e a apropriação da ferramenta cultural e os pro-
pósitos da ação mediada condicionam esse processo. A partir da
descrição e análise desse processo, identificam-se os elementos
condicionantes do domínio e da apropriação das ferramentas
culturais, tendo como suposto o conceito de ambientes
telemáticos. Definem-se ambientes da internet a partir do con-
ceito de ferramenta cultural e das propriedades da ação mediada.
Descreve-se a introdução da internet em uma escola no curso de
um programa de formação continuada, de onde se obtêm evi-
dências da determinação dos propósitos e das formas de uso da
ferramenta cultural pelos agentes sobre os processos de elabora-
ção de significados, e de apropriação do correio eletrônico pelos
professores e pela instituição. Analisam-se as modalidades
discursivas observadas nos diálogos para explicar as ações inter-
nas e externas realizadas pelos professores, a partir das quais se
discute a interação entre a estrutura discursiva e a estrutura das
ações mediadas, bem como as funções do diálogo e da ferra-
menta cultural na elaboração de significados. Apresentam-se ra-
zões para se realizarem programas de formação continuada sobre
o uso da internet, no interior da escola, justificadas pelas trans-
formações observadas na ambiência de ensino e aprendizagem.

Palavras-chave:

Correspondência:
Ação mediada — Discurso — Formação continuada — Internet.
Marcelo Giordan
Depto. Metodologia de Ensino e
Educação Comparada
Faculdade de Educação – USP.
Av. da Universidade, 308
05508-040 – São Paulo – SP
e-mail: giordan@fe.usp.br

* Agradeço o auxílio financeiro, pro-


cesso 99/01817, dado pela Fapesp
para a realização deste trabalho e à
Capes, pela bolsa de pós-douramento,
processo 0309-02-8.

Educação e Pesquisa, São Paulo, v. 31, n. 1, p. 57-78, jan./abr. 2005 57


The Internet goes to school: mastery and incorporation
of cultural tools

Marcelo Giordan
Universidade de São Paulo

Abstract

The objective of this article is to describe and analyze the


process of introduction of the Internet in a school community,
and to observe how the mastery and incorporation of the cultural
tool and the purposes of the mediated action intervene in that
process. From the description and analysis of the process, the
elements intervening in the mastery and incorporation of the
cultural tools are identified, based on the concept of telematic
environments. Internet environments are defined based on the
concept of cultural tool, and from the properties of mediated
action. The introduction of the Internet at a school in a
continuing education course is described, whence evidence is
obtained of the preponderance of the purposes and manners of
use of the cultural tool by the agents over the processes of
creation of meanings, and of the incorporation of electronic mail
by teachers and institution. The discursive modes observed in the
dialogues are analyzed to explain teachers' internal and external
actions, from which a discussion is made about the interaction
between discursive structure and structure of mediated actions,
as well as on the functions of the dialogue and of the cultural
tool in the production of meanings. Reasons are presented for
the provision of programs of continuing education on the use of
the Internet within schools, justified by the transformations
observed in the teaching and learning milieu.

Contact: Keywords
Marcelo Giordan
Depto. Metodologia de Ensino e
Educação Comparada Mediated action — Discourse — School — Continuing education —
Faculdade de Educação – USP. Internet.
Av. da Universidade, 308
05508-040 – São Paulo – SP
e-mail: giordan@fe.usp.br

*The author wish to thank the


financial support to this study from
FAPESP (n.99/01817) and Capes
(0309-02-8).

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Da teoria da ação mediada análise multifocada e integrada da ação huma-
na e de seus motivos.
A idéia de ação mediada que trazemos
para este artigo inspira-se nos estudos de James
Wertsch, discutidas em seu livro Mind as Action
(1998). Vinculado à tradição sociocultural, o autor
apóia-se em estudiosos como Vygotsky para tra-
tar do processo de internalização, Bakhtin para
discutir dialogia e gêneros de discurso, e princi-
palmente em Kenneth Burke, para focar sobre as
múltiplas perspectivas da ação humana.
Wertsch vai buscar em Burke sua abor- Certamente, a complexidade dessa aná-
dagem para analisar a ação humana, que este lise multifocada poderia inviabilizar o estudo
desenvolveu para descrever o dramatismo. Na com o risco de torná-lo superficial e relativista.
análise das ações humanas sob enfoques disci- É nesse sentido que o enfoque na ação media-
plinares, Burke sugere a existência de duas da torna-se atrativo, pois ao considerarmos a
categorias de perguntas, uma de natureza tensão agentes-agindo-com-ferramentas-cultu-
ontológica e outra de natureza metodológica rais (agências na designação de Burke) como
(Burke, 1973). Tais análises costumam se ater a unidade de análise, podemos nos manter
um determinado elemento constituidor da ação comprometidos com o princípio de investigar a
humana, que representa o objeto de estudo em ação, situando-a em seu contexto cultural e
uma perspectiva disciplinar. Burke propõe um institucional. Para tanto, é preciso reconhecer
total de cinco elementos que formam o que a tensão irredutível “agentes-ferramentas
pentagrama das telas terminísticas (Figura 1), culturais” pode ser representativa da ação me-
por meio das quais os estudos disciplinares diada, e pode, portanto, ser adotada como uma
analisam fragmentos da ação. Assim, o estudo unidade de análise capaz de explicar satisfato-
da ação humana sob uma determinada pers- riamente ações humanas diversificadas, como por
pectiva analítica se orienta por uma dada jane- exemplo, aquelas que se realizam na escola. Sob
la terminística e por sua terminologia, que se- esta perspectiva, para saber quem executa a ação
lecionam fragmentos parciais da realidade. ou quem fala em um diálogo é preciso conside-
Burke critica essa conduta analítica de rar não apenas o sujeito isolado, mas também o
focar a realidade por meio de telas terminísticas meio mediacional que ele emprega para agir ou
disciplinares, e sugere uma abordagem que seja falar. É diante da indissociabilidade entre agen-
capaz de vincular as perspectivas, sem reduzi- te e ferramenta cultural que passamos a consi-
las, umas às outras (Wertsch, 1998). Essa abor- derar como ocorre a elaboração de significados
dagem está expressa na conduta metodológica pelos agentes, e como a comunidade escolar
de tratar os elementos do pentagrama como domina e se apropria de tecnologias da comu-
construtos hipotéticos, considerando suas pos- nicação e informação, reconhecendo que tanto
sibilidades de transformação e faixas de com- elaboração de significados como apropriação de
binação e então analisar como esses construtos ferramentas culturais são processos acoplados
podem explicar as ações humanas (Burke, que podem ser explicados na perspectiva da
1969), o que implica rejeitá-los como simples ação mediada.
reflexos da realidade. Nesse sentido, a investi- Para tratar da elaboração de significa-
gação da ação humana passaria a ser conduzida dos consideramos incompleto o conceito de
por uma ferramenta, o pentagrama, que ao internalização, especificamente por suscitar a
vincular os cinco elementos permitiria uma oposição entre processos internos e externos, o

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que rejeitamos em prol de uma relação de mentas culturais sustentam a elaboração de sig-
acoplamento entre ações internas e externas nificados por professores agindo nos planos intra
realizadas por agentes em uníssono com as e intermental, como essas ações são orientadas
ferramentas culturais. Ao considerar a idéia de por um programa de formação continuada, e
zona de desenvolvimento proximal (ZDP), como elas orientam a introdução da internet nas
Bruner menciona ter identificado uma possível práticas escolares.
contradição no pensamento de Vygotsky. Tra- Assim como na abordagem vygotskiana,
tando a ZDP sobre consciência e controle, a teoria da ação mediada concebe os sistemas
Bruner pergunta como poderia o aprendizado semióticos como determinantes do processo de
antecipar-se ao desenvolvimento, se consciên- elaboração de significados, por reconhecer ne-
cia e controle são adquiridos após a função ter les uma construção eminentemente humana
sido espontaneamente internalizada? Bruner desenvolvida no curso das histórias da espécie,
resolve a contradição aparente, observando da sociedade, do sujeito e da própria ação.
que a ZDP está correlacionada à aquisição e ao Dentre esses sistemas, a linguagem verbal se
controle consciente de uma função qualquer, destaca, pois é pela mediação da oralidade e da
controle esse que só se manifestará no apren- escrita que ocorrem não apenas a maioria, mas
diz quando a função alcançar o status de fer- também as principais e mais significativas ações
ramenta. Antes disso, o tutor servirá ao apren- humanas. É tomando por base a centralidade da
diz como forma indireta de consciência ou linguagem verbal nas ações humanas que as
estará compartilhando com ele a ferramenta idéias de Bakhtin a respeito de dialogia e gêne-
capaz de controlar a ação (Bruner, 1985). ro de discurso são incorporadas ao quadro
Bruner evoca a noção de “andaimes” para se epistemológico da ação mediada.
referir a esse papel do tutor, conceito desenvol- Ao discutir os principais conceitos da
vido em um trabalho seminal sobre o papel da teoria dialógica de Bakhtin, Wertsch observa
tutoria na resolução de problemas (Wood; que a heteroglossia, a apropriação das palavras
Bruner; Ross, 1976). do outro, é condicionadora da significação em
Nesse sentido, consideramos que as qualquer ato de fala. Para Bakhtin,
noções de domínio como “saber usar a ferra-
menta cultural” (Wertsch, 1998, p. 50) e apro- a linguagem não é um sistema abstrato de
priação como “tomar algo do outro e torná-lo formas normativas, mas sim uma concep-
seu próprio” (p. 53) são mais adequadas para ção heteroglóssica concreta do mundo.
explicar o processo de elaboração de significa- Toda a palavra tem o “sabor” de uma pro-
dos pelos indivíduos, por meio de ações inter- fissão, um gênero, uma tendência, um par-
nas e externas mediadas por ferramentas cultu- tido, um trabalho particular, uma pessoa
rais. No caso do presente estudo, consideramos particular, uma geração, uma faixa etária, o
que essas ações estão acopladas ao processo de dia e hora. (apud Wertsch 1998, p. 77)
apropriação da internet pela escola. Portanto, é
pela análise comparativa das ações executadas Bakhtin nos fornece a exata dimensão
pelos professores no curso de um programa de da centralidade da heteroglossia no processo
formação continuada, por meio de um progra- de elaboração de significados ao tratar a forma
ma de tutoria envolvendo professores, tutores e e a função dos esquemas enunciativos do dis-
estudo-dirigido, que iremos buscar elementos curso citado como elementos determinantes da
para explicar dois processos, um de natureza apreensão ativa e apreciativa da enunciação do
sociocognitiva e outro de natureza sociocultural. outro. Se, no limite, a enunciação é produto das
Desta maneira, nosso problema reside em expli- vozes que habitam o interior do discurso, for-
car como o domínio e a apropriação de ferra- ma e função da enunciação devem exercer in-

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fluência reguladora sobre os processos internos primeira função será necessário que as locuções
de elaboração de significados, pois, tenham um grau máximo de univocalidade. Da
mesma forma, deve-se considerar a heteroge-
aquele que apreende a enunciação de ou- neidade interna como uma propriedade das lo-
trem não é um ser mudo, privado de palavra, cuções, cuja função é gerar novos significados.
mas ao contrário um ser cheio de palavras Ao discutir a noção de dualismo funcional à luz
interiores. Toda a sua atividade mental, o da dialogicidade e da autoridade das locuções,
que se pode chamar o “fundo perceptivo”, é apontadas por Bakhtin, Wertsch sugere que as
mediatizado para ele pelo discurso interior e locuções podem cumprir essas duas funções, o
é por aí que se opera a junção com o dis- que implica reconhecer uma tensão dinâmica
curso apreendido do exterior. (Voloshinov, entre ambas (1991, p. 79). É essa tensão que
1997, p. 147) buscaremos identificar nos diálogos para verifi-
car como ocorrem as ações de elaboração de sig-
Se a compreensão é forjada no discur- nificados.
so interior, seu elo com o discurso do outro se
encontra na unidade de apreensão ativa, forma- Da ambiência da internet
da pelo comentário efetivo e pela réplica inte-
rior, duas operações que só podem ser isoladas Poucas pessoas percebem as inúmeras
para fins analíticos. É, portanto, na análise das interfaces acionadas cada vez que acessam a
locuções, que habitam tanto o discurso interior internet, sejam elas “duras” ou “macias”. Boa
quanto o exterior, que iremos buscar evidências parte dos usuários dispensa o teclado em seus
da apropriação de formas e funções discursivas acessos, pois muitos já têm organizado um
particulares. Para além do conteúdo e das formas caderno de endereços favoritos e executam os
do discurso, é necessário estender o foco de comandos a partir do mouse. Mas é sem dúvi-
análise para as situações nas quais os agentes da a tela que mobiliza maior atenção e dirige
executam as ações, sejam elas efetuadas no pla- as ações dos internautas. Essas três interfaces
no da conversação, ou no uso do computador, são as de maior visibilidade entre as interfaces
que é o novo instrumento de mediação respon- duras que fazem parte do cenário de ações do
sável pela enunciação de outras vozes. Dessa internauta. Elas mediam operações básicas
maneira, reconhecemos a natureza situada tan- como a execução de comandos, os quais ocu-
to da elaboração de significados quanto dos pam o primeiro nível de uma série de interfaces
atos de fala e indicamos que a constituição do macias, ou aplicações. Aquém dos comandos,
cenário, uma das janelas terminísticas, conta estão as aplicações de nosso objeto de interes-
agora com a presença de um meio propag-ador se, quais sejam, aquelas responsáveis pela for-
de outros sistemas semióticos, que o faz por mação de uma ambiência telemática, em meio
meio de uma ambiência típica. a qual os internautas executam ações mediadas
Devemos ainda considerar, para fins de por ferramentas culturais.
compreensão do processo de elaboração de sig- Como a atenção do agente está focada
nificados, a proposição do dualismo funcional na tela e nos objetos icônicos, imagéticos e
sugerida por Lotman para explicar o entrelaça- textuais que nela se apresentam, quando não
mento de textos em um sistema cultural (Lotman, nos efeitos sonoros provenientes das caixas de
1988). Para o autor, todo texto cumpre pelo som, a maior parte das aplicações permanece
menos duas funções: expressar significados e submersa e fora de seu controle, o que é be-
gerar novos significados. Tomando a locução néfico à primeira vista, pois permite que os
como caso particular de texto, assim como propósitos das ações sejam orientados pelo
Lotman o faz, admite-se que para cumprir a agente, em combinação com co-agentes e com

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as ferramentas culturais. Apesar do benefício, de editar, ler, selecionar e organizar a mensagem
em muitas situações as mudanças ocorridas na são realizadas pelo agente usando a ferramen-
ambiência não são perceptíveis, quando, por ta cultural correio eletrônico, cuja multifuncio-
exemplo, a ação provoca mudança de tela ou nalidade, desterritorialização e virtualidade,
alterações no interior da própria tela. integração com outras interfaces, como a de
Uma das razões que nos fazem conside- envio e recepção de mensagens, teclado, tela e
rar a necessidade de apurar o conceito de fer- mouse, produzem no cenário da ação mediada
ramenta cultural são os efeitos sobre a ação aquilo que chamamos de ambiente de comuni-
mediada provocados pela combinação de várias cação .
camadas de interfaces, particularmente sobre os Uma outra propriedade importante da
propósitos dos agentes e sua repercussão sobre ferramenta cultural é o fato de ela potencializar
o domínio e a apropriação da ferramenta cultu- a transformação da ação mediada (Wertsch,
ral. No entanto, a principal razão para reelabo- 1998). Assim, quando a ferramenta cultural na-
rarmos a noção de ferramenta cultural à luz da vegador é usada para selecionar, organizar,
teoria da ação mediada é a própria natureza das apresentar, e buscar informação, essas ações,
ações realizadas em um espaço desterritoriali- que eram realizadas por meio de outros meios
zado e virtual. Seguramente a desterritorialização mediacionais, são transformadas. Na medida em
e a virtualidade da internet alteram radicalmen- que a integração de meios scripto-áudio-visuais
te a natureza das ações humanas, principalmente e as aplicações de busca local e remota de pa-
por serem decorrentes de uma combinação inu- lavras-chave são propriedades exclusivas do
sitada de propriedades e funções das ferramen- navegador, ao agente é possível combiná-las
tas culturais. Tendo em vista que essa proposta com propósitos prévios ou definir novos propó-
de reelaboração se dá no âmbito dos objetivos sitos para a ação. Em qualquer um dos casos
de investigar os efeitos da apropriação da essas novas qualidades da ferramenta cultural
internet pela escola, iremos considerar apenas as influem com menor ou maior intensidade na
ações mediadas com efeitos diretos sobre o ação mediada, a depender entre outros fatores
contexto escolar, quais sejam, comunicar, infor- do grau de domínio e apropriação que o agen-
mar, simular, publicar, e ensinar e aprender. te exerce sobre ela. Tal combinação inusitada
Primeiramente é preciso reafirmar que a de funções e propriedades confere ao navega-
ferramenta cultural só pode ser considerada en- dor a condição de ambiente de informação
quanto tal, quando o agente dela faz uso para único com alto potencial para transformar a
executar uma ação, o que Wertsch chamou de ação mediada.
tensão irredutível agente — ferramenta cultural A materialidade é uma propriedade ine-
(1998, p. 25). Dessa maneira, durante a edição rente a qualquer ferramenta cultural, pois a fun-
de uma mensagem é a ferramenta cultural cor- ção de transporte do signo somente se realiza se
reio eletrônico que está em uso, assim como houver bases materiais para tal. De todos os
durante a seleção, organização e leitura das desdobramentos da integração de meios
mensagens, o agente executa essas ações com semióticos, a simulação de modelos é talvez
a mesma ferramenta cultural. Para cada uma das aquele que mais se destaca, devido exatamente
ações, o correio eletrônico atende a propósitos à capacidade do navegador, por exemplo, pro-
distintos, que na maior parte das vezes estão videnciar uma base material para a realização
subordinados a um propósito hierarquicamen- desse tipo de ação. A combinação de registros
te superior, como por exemplo enviar uma cor- gráficos, tabelas, movimento de objetos confe-
respondência, o que não é realizado pela díade rem um efeito de realismo ao modelo simulado,
agente-ferramenta cultural, mas sim por uma que só se materializa na medida em que o agen-
aplicação independente. Nesse sentido, as ações te age com a ferramenta cultural de simulação

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combinando cada uma dessas funções e pro- finalidades e as formas de combinação. É preci-
priedades. É novamente a combinação inusitada so insistir ainda que tanto as funções das ferra-
de propriedades e funções que faz da internet mentas quanto as combinações dos ambientes
um ambiente de simulação, por meio do qual se são condicionadas pelos propósitos, os quais
realizam ações mediadas com valor semiótico orientam os agentes no curso da ação. Mas é
potencial para elaborar significado. também necessário considerar a hipótese de que
Tomando por referência as proprieda- o domínio e a apropriação das ferramentas cul-
des da ação mediada, é preciso considerar ain- turais da internet pelos agentes e pela escola
da as implicações do uso das ferramentas cul- devem condicionar a estrutura das ações e orien-
turais da internet sobre as relações de poder e tar seus propósitos. Dessa forma, estaremos con-
autoridade que se constituem na escola. Nos- centrando nossa análise sobre as ações executa-
so argumento centra-se no fato de as ferra- das nos planos externo e interno, procurando
mentas de autoria e publicação postas à dispo- identificar quais ferramentas culturais estão sen-
sição do internauta criarem condições para que do empregadas, quem são os agentes que as
sua voz seja alçada para além dos muros esco- utilizam, quais propósitos orientam as ações, em
lares. Esta é uma condição que pode alterar quais ambientes e cenários se desenvolvem as
substancialmente as relações de poder e auto- ações, no sentido de identificar como a mútua
ridade na escola e na sala de aula, se conside- influência de ações internas e externas determi-
rarmos que o controle sobre a autoria e a es- na o processo de apropriação das ferramentas
colha da audiência são prerrogativas de um culturais pelos agentes e pela instituição. Assim,
agente que exerce poder por meio de suas passaremos a discorrer sobre o cenário no qual
ações e dos instrumentos que tem à sua dispo- se desenvolveram o programa de formação con-
sição, conforme indicam, por exemplo, os estu- tinuada e as investigações, e em seguida espe-
dos sobre o surgimento da imprensa na Idade cificaremos os procedimentos de análise.
Média (Eisenstein, 1998). É novamente a
simbiose de aplicações e de suas propriedades Programa de formação
que revela o caráter inovador das diversas fer- continuada e a coleta de dados
ramentas culturais de autoria da internet. Por
meio delas, o agente não apenas edita e dá Com a implantação de uma rede local
forma, mas também publica e escolhe o públi- de computadores em meados de 1998, os pro-
co do seu hipertexto, controlando dessa forma fessores da Escola Arte-Ofício (EAO)1 passaram
todas as etapas do processo enunciativo, sem a ter acesso à internet a partir das salas de
precisar se submeter ao crivo de censores. Reu- áreas 2 e de um incipiente laboratório de
nidas, essas funções da ferramenta cultural informática. A escola, que está localizada em
constituem o ambiente de autoria, que somente um campus universitário na cidade de São
tomará parte do cenário para transformar as Paulo, dispõe de boa infra-estrutura física de
ações de poder e relações de autoridade na prédios, com salas de aula reservadas a cada
escola, à medida que os agentes dominem e se disciplina, laboratórios, horta, e mantém algu-
apropriem da ferramenta de autoria. mas parcerias com departamentos da universi-
Combinadas entre si, as funções e as dade. A maior parte dos professores tem regi-
propriedades das ferramentas culturais produzem me de dedicação integral e ocupam uma posi-
ambientes que tomam parte de cenários nos quais ção específica no quadro de carreira da univer-
se realizam ações mediadas. No caso particular da
escola, a combinação desses ambientes suscita a 1.Os nomes da instituição e dos professores foram trocados.
2.Os professores da escola estão organizados em oito áreas: 1 o ao 4 o
formação de ambiências de ensino e aprendiza- ano, português, língua estrangeira, arte, educação física, ciências huma-
gem, que serão tão diversificadas quanto forem as nas, ciências, e matemática.

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sidade. Eles também costumam participar de fase, particularmente no que se refere ao estudo-
programas de formação em serviço, e alguns dirigido. Cada professor-tutor passou a orientar
são pós-graduados. dois professores3 e os pesquisadores se retiraram
O início do desenvolvimento do programa do papel de tutores. Foram organizadas reuniões
de formação continuada, chamado de Telescola, mensais em grupo, que contaram com a partici-
coincidiu com a implantação da rede local e do pação dos professores (tutores e aprendizes) e da
acesso da escola à internet e teve como objetivo equipe de pesquisadores. Ainda nessa fase, os
principal disseminar o uso da internet entre os professores-tutores e os pesquisadores se reuni-
professores e outros profissionais da área pedagó- am duas vezes por mês para discutir o processo
gica. A base do programa de formação constou de de tutoria. Esse grupo também contou com o
um estudo dirigido, cumprido ao longo do semes- apoio de uma lista de discussão específica.
tre letivo com apoio de um tutorial. Na terceira fase, havendo um total de
Semanalmente, foram realizadas reuniões dezessete professores habilitados a orientar, foi
de tutoria entre professores, ora no papel de possível estender o programa para todos os
alunos, ora no papel de tutores, e pesquisado- professores e demais profissionais interessados.
res. Delas foram extraídas uma parcela das en- O processo de tutoria se desenvolveu de forma
trevistas informais , chamadas assim devido ao similar ao desenvolvido na fase anterior. Nessa
seu caráter não estruturado e por ocorrerem em fase porém, não houve reuniões face a face do
situações de estudo diante do computador. grupo de tutores e pesquisadores; apenas o
Mensalmente, os professores e pesquisadores fórum eletrônico dos tutores permaneceu ativo.
se reuniam para discutir aspectos gerais do pro- As reuniões mensais em grupo foram organiza-
grama de formação nas chamadas entrevistas das em dois períodos, devido à incompatibili-
de grupo, e específicos do uso da internet na dade de horários dos professores. Foram forma-
escola, que devido ao caráter semi-estuturado dos quarenta profissionais e apenas quatro
foram chamadas de entrevistas formais , cuja professores optaram por não participar.
pauta era montada com base em conteúdos As entrevistas formais e informais foram
temáticos previamente estabelecidos. Ao final registradas em fitas de áudio e as entrevistas em
de cada semestre, os professores apresentaram grupo foram registradas em fitas de vídeo, que
suas criações em hipertexto para seus tutores e foram posteriormente transcritas. Na primeira
para os futuros participantes do programa. fase foram registradas 39 entrevistas informais,
A execução do Telescola constou de três 18 formais e cinco em grupo. Da segunda fase,
fases semestrais consecutivas. Para a primeira foram obtidas quatro entrevistas em grupo e
fase, foram convidados os professores das áre- foram registradas onze reuniões entre professo-
as de ciências e matemática: duas professoras de res-tutores e pesquisadores. Além de oito entre-
biologia, uma de química, um professor e uma vistas em grupo, a terceira fase produziu tam-
professora de matemática. Também durante a bém quatro entrevistas semi-estruturadas com
primeira fase do projeto, instalou-se uma lista de professores-tutores. Um grande número de
endereços eletrônicos dos professores e pesqui- questionários, mensagens dos fóruns eletrôni-
sadores. Esse fórum assincrônico de comunica- cos e páginas Web também fazem parte do
ção serviu prioritariamente ao propósito de or- extenso volume de dados coletados entre agos-
ganização do trabalho, exposição e resolução to de 1998 e março de 2000.
de dúvidas, troca de informações e experiênci- Como nossa intenção é identificar nas
as de utilização da rede. Algumas discussões falas dos professores as evidências de como a
temáticas também foram realizadas. elaboração de significados e o domínio e apro-
A realização da segunda fase do
Telescola ocorreu de forma similar a da primeira 3. Uma das professoras-tutoras orientou quatro professores.

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priação das ferramentas culturais estão corre- funções de outros sistemas semióticos, na elabo-
lacionados, e sobre como esses processos po- ração de significados, e na apropriação e domí-
dem explicar a apropriação da internet pela nio das ferramentas culturais.
escola, a seleção dos trechos de diálogos (Se- No que se refere à codificação das
qüências 1, 2, e 3) obedeceu em primeiro lu- transcrições, o uso de reticências indica a ocor-
gar ao critério de representatividade das situa- rência de trechos mais longos cujo teor é resu-
ções de estudo dirigido, nas quais os professo- mido na análise. Os colchetes são usados para
res interagiram com o tutorial e com os tuto- indicar situações de sobreposição de atos de
res para aprenderem a usar o correio eletrôni- fala e os parênteses descrevem alguma ocorrên-
co. Para segmentar as sessões de estudo dirigi- cia significativa para caracterizar a ação. Aspas
do em episódios e estes em seqüências, iden- são usadas para identificar trechos lidos a partir
tificamos atos de fala que indicassem nitida- da tela do computador. Extratos e seqüências
mente fronteiras no movimento discursivo, estão identificados no início pela data e pelo
observando a regularidade do padrão temático tipo de evento do qual foram retirados. Profes-
e da estrutura discursiva, e adaptando os crité- sores e pesquisadores são identificados por
rios desenvolvidos por Lemke (1990) na sua letras e seus nomes foram alterados.
análise de aulas de ciências.
O segundo critério aplica-se ao nosso Análise dos episódios
interesse de examinar mais detidamente os pro-
cessos de domínio de apropriação da ferramenta Os primeiros encontros de tutoria fo-
cultural pelo professores, pelo qual selecionamos ram importantes para deflagrar a dinâmica das
trechos de reuniões em grupo (Extratos 1 e 2, e interações do estudo dirigido e nos permitem,
Seqüência 4), que nos trazem elementos para portanto, observar como professores-aprendizes
caracterizar esses processos. Nesse caso, procu- e tutores interagiram diante do computador.
ramos nos pautar novamente pela represen- Passamos então a analisar trechos de diálogos
tatividade dos diálogos e por uma característica extraídos de episódios de tutoria, que por sua
observada recorrentemente nas falas dos profes- vez constituíram as sessões de estudo-dirigido.
sores, o discurso indireto. Por fim, selecionamos
um episódio (Seqüência 5) que reúne diversas Seqüência 1: Tudo o que a gente viu hoje
evidências de um determinado nível de apropria-
ção da internet pela escola, no qual participam +Data: 11/08/98
todos os professores-tutores e os pesquisadores, +Reunião informal.
já na segunda fase do programa. 1. DD: Então olha só, tudo o que a gente viu
A locução, no caso dos extratos, e a hoje. Dani?
cadeia de locuções, no caso das seqüências, são
2. MB: Dani é apelido.
tomadas como unidades de análise. Em todos os
3. DD: É, apelido.
casos, as locuções são consideradas nas suas
4. MB: Tá.
dimensões situacionais, de conteúdo e das
interações entre as vozes que habitam o discurso 5. DD: Hydra?
dos professores, valendo-se do princípio de que 6. MB: É o subdomínio. E aqui é o domínio?
toda locução é uma resposta a alguma coisa e (apontando para a tela)
se orienta para algum interlocutor. A análise 7. DD: Isso. O que é hydra?
considera portanto aspectos estruturais e fun- 8. MB: É o provedor.
cionais das locuções, buscando situá-las no flu- 9. DD: Exatamente. Comercial, br. É isso aí.
xo dos diálogos internos e externos, de modo a tá bom?
identificar as funções da fala, juntamente com as 10. MB: Tá ok.

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as para a elaboração do significado de endere-
A seqüência se inicia com um ato de ço eletrônico. No entanto, a natureza
fala que mobiliza a atenção da professora “en- assimétrica da interação não inibe perguntas e
tão, olha só”, seguido pelo anúncio da revisão antecipações da professora, orientadas pelo
do que foi visto. O diálogo entre DD e MB se tutorial. Esse aspecto aparece em relevo na
desenvolve dentro de uma modalidade seqüência 2.
discursiva conhecida como I-R-F, na qual I
corresponde ao início da troca, nesses casos na Seqüência 2: É isso o que vai aparecer
forma de uma pergunta; R refere-se à respos-
ta; F ao feedback (Sinclair; Coulthard, 1975; +Data: 11/08/98
Mehan, 1979). Em todas as três trocas, DD, que + Reunião informal
é tutora, inicia com perguntas cujas respostas 1. RJ: Tá. Então quando você clicar em nova
ela já conhece de antemão. Por meio do exem- mensagem, vai aparecer o para.
plo de seu próprio endereço eletrônico, a tutora 2. LH: Isso. Você vai digitar aí o endereço.
pergunta, valida e corrige as respostas da pro- 3. RJ: Tá. O clips é o quê?
fessora. Portanto, a função dessas tríades foi 4. LH: O clips é quando você vai anexar al-
verificar a compreensão dos conceitos discuti- gum arquivo.
dos ao longo da sessão de tutoria, na qual 5. RJ: Quando vai anexar, tá bom. E esse
professora e tutora negociaram o significado aqui?
de endereço eletrônico. 6. LH: Esse daí é o assunto. Você indica pelo
Nesse encontro, desenvolveu-se desde assunto. O assunto normalmente você coloca
o início um estilo de interação assimétrica, na uma ... você clica aqui na janelinha do arquivo,
qual a professora, que ora estava aprendendo, aí digita uma palavra que a pessoa vai identifi-
ora respondia perguntas e era avaliada pela tu- car do que se trata e daí, você clica aqui dentro,
tora. A partir dessa seqüência, percebe-se que na área branca e aí você cria a sua mensagem.
além das locuções, gestos de indicação também 7. RJ: Começa a escrever, tá. “Para. Aqui
sustentam a interação entre professora e tuto- deve-se preencher com o endereço. Assunto.
ra. A indicação, um recurso amplamente obser- Pode ou não ser preenchido, mas é interes-
vado nas sessões de tutoria, foi mediada tanto sante que seja notificado a alguém”. E “caixa
pelo gesto de apontar quanto pela seta do de texto. Onde você vai escrever”. Tudo bem.
mouse. Logo após responder a pergunta da Aí o encaminhar é que está end.
tutora, no turno 6, MB pergunta sobre o domí- 8. LH: Isso.
nio, apontando para a tela do computador, em 9. RJ: “Depois de tudo pronto, clique no en-
um gesto que revela sua atenção ao tutorial e caminhar. Tela de composição”. (pressiona o
dirige a atenção de ambas para a tela do com- mouse e acessa nova tela). “A tela abaixo é a
putador. Em seguida, DD volta a perguntar reprodução da tela normal para a composição
sobre aquilo que MB já classificara como de mensagens...”.
subdomínio e então obtém uma resposta que (...)
lhe satisfaz. A tutora adota, portanto, a estra- 10. RJ: É isso o que vai aparecer, né?
tégia de insistir na pergunta para corrigir a 11. LH: É isso que vai aparecer. Essa é a tela
professora. No turno 9, a tutora qualifica o completa, onde você [vai]
provedor como comercial e ainda se refere ao 12. RJ: [Ah tá, já entendi].
domínio “br” numa clara alusão ao tutorial. A
interação é considerada assimétrica pelo fato de A seqüência 2 é iniciada pela professora
DD e MB estarem de acordo sobre a tutora ser RJ com um movimento que direciona a atenção
fonte de referência das informações necessári- da tutora. Esse ato executa a função de per-

66 Marcelo GIORDAN. A internet vai à escola: ...


guntar, na medida em que RJ solicita um juízo como pelas marcações icônicas e imagéticas do
sobre sua afirmação. Até o turno 7, observam- tutorial, conforme revelam os termos de
se três trocas I-R-F, nas quais a professora ini- indexação “aqui na” e “aqui dentro” no turno
cia com perguntas, mas não avalia. Nesse caso, 6. Há, portanto, uma orientação explícita de
o movimento de feedback das trocas transmi- professora e tutora pelos enunciados do
te à tutora a informação de que a mensagem tutorial, o qual determina o fluxo dos diálogos.
foi recebida. Portanto, quem detém o controle É em meio a esse encontro de vozes
da seqüência é a professora orientada pelo que professora e tutora negociam o significa-
tutorial, pois ela direciona suas perguntas à do de correio eletrônico, tramando uma estru-
tutora, em conformidade com as informações tura discursiva na forma de tríades, como ocor-
veiculadas na tela do computador. Em sua res- rera entre MB e DD. Se na segunda seqüência,
posta mais longa, LH dirige a atenção da pro- ao contrário da primeira, a participação da
fessora para a tela de composição de mensa- professora é ativa e determina a natureza inver-
gens, que passa então a ler o tutorial nos tur- tida das tríades, em ambos os casos o movi-
nos 7 e 9. Nesses turnos, a professora assume mento discursivo indica que a elaboração de
o papel de narradora e lê informações que já significados está acoplada à apropriação da voz
foram veiculadas nas tríades anteriores. A últi- do tutorial, pois à medida que este orienta a
ma frase é lida já em outra página e dirige a atenção das agentes, seja na narração ou na
atenção da professora para a figura que repre- indicação, desenvolve-se um diálogo interno
senta o ambiente de composição de uma men- entre cada uma delas e os enunciados do
sagem, ou seja a “tela normal para a composi- tutorial. Ao mesmo tempo em que opera como
ção de mensagens”. O efeito de simulação do fator estrutural da modalidade discursiva, o
ambiente de composição, provocado pela figura, diálogo interno desempenha uma importante
é apreendido pela professora, que tem sua função reguladora no processo de elaboração
percepção confirmada por meio de uma última de significados, sustentando portanto a ação
tríade I-R-F. dos agentes com as ferramentas culturais que
Nessa interação, observam-se tríades estão em processo de domínio e apropriação.
I-R-F invertidas, ou seja, quem está no papel de Na próxima seqüência, a professora MC executa
aprendiz inicia as trocas com perguntas autên- uma ação mediada pelo correio eletrônico, na
ticas, cuja função é obter respostas da tutora qual é possível observar uma outra situação
(Giordan, 2004). Tais perguntas são fruto do di- típica de elaboração de significado.
álogo entre a professora e o tutorial, pois elas são
claramente orientadas para o entendimento de Seqüência 3: Posso escrever com letra
ícones e palavras que surgem na interação com maiúscula?
o tutorial. Durante a leitura, RJ inicia um proces-
so de elaboração de significados apropriando-se +Data: 12/08/98
da voz do tutorial por meio de um diálogo in- +Reunião informal.
terno, no qual o encontro entre palavras e ima- 1. MC: Tá bom! Agora assim, aqui para es-
gens é orientado pela voz do tutorial. Esse pro- crever, eu posso escrever com letra maiúscu-
cesso se estende pelas locuções produzidas la, minúscula, ou é legal escrever tudo com
pela professora, que busca transpor para o di- letra minúscula?
álogo com a tutora as perguntas encetadas na 2. NT: Exatamente. Tem os cuidados. É legal
interação com o tutorial, na forma de tríades você escrever tudo com letra minúscula. Só
invertidas. Nesse diálogo entre as agentes, re- lógico, o começo das frases, o início do pará-
verbera-se a voz do tutorial também na tutora, grafo com letra maiúscula, o resto minúscula.
que se orienta tanto pelas perguntas de RJ 3. MC: E o nome da pessoa também?

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4. NT: Isso, são esses cuidados. tador envolve ainda o fato de elas estarem prati-
5. MC: Aí pode ir com vírgula? cando uma atividade do tutorial, cuja finalidade é
6. NT: Pode, normal, como se fosse uma car- exatamente escrever uma mensagem eletrônica.
ta. Nela, a professora trabalha sobre uma tela real de
7. MC: Humhum. composição de mensagens, tendo ao fundo uma
8. NT: Fica muito gritante as letras todas em outra tela do tutorial que exemplifica esse proce-
maiúsculas. dimento. No turno 13, logo após enviar a mensa-
9. MC: (digitando mensagem) ponto. Beijos gem, ela fecha a tela de sua caixa postal e tem
(indicando o final da mensagem). Engraçado, novamente diante de si a tela do tutorial, cujos
ela mora nos Estados Unidos, eu escrevi pra passos são anunciados no turno 15. A seqüência
ela (lendo a mensagem) Pode ficar assim? faz parte, portanto, de uma das atividades do es-
10. NT: Pode. Você quer assinar? No final. tudo dirigido, que leva a professora a afastar-se do
11. MC: Aí põe Carolina. Certo? tutorial e orientar-se para a ação de composição
12. NT: Humhum. de uma mensagem, diferentemente da ação simu-
13. MC: Agora eu ponho enviar. Agora eu fe- lada da Seqüência 2. Nesta ação, o diálogo com o
cho. Certo? tutorial submerge e a professora passa então a
14. NT: Humhum. Se você tiver mais mensa- interagir com a tutora, que lhe antecipa respostas
gens para enviar ou para responder, você vai às questões sobre estilo de composição, que serão
fazendo sempre assim. apresentadas no próximo passo do tutorial, “a
15. MC: Tá bom... “Respondendo diretamente questão dos cuidados”. As respostas da tutora
a mensagem”. Eu respondi. Aí, vem a questão atendem às demandas de MC, ao mesmo tempo
dos cuidados. em que se orientam para o tutorial, servindo por-
tanto como elo entre professora e o tutorial, no
Em sua primeira sessão de tutoria, MC e fluxo do diálogo produzido entre as agentes e o
NT estão diante do computador escrevendo uma interlocutor virtual.
“carta” para uma amiga da professora residente É nesse movimento de troca de interlo-
em outro país. Na primeira parte da seqüência, cutores que MC passa a agir com a ferramenta
iniciada com o marcador “agora assim” e con- cultural correio eletrônico, com a finalidade de
cluída com o comentário da tutora sobre o efeito se comunicar com uma amiga, ao mesmo tem-
gritante das letras todas em maiúsculo, negocia- po em que executa uma tarefa do tutorial. Se
se o estilo textual da mensagem eletrônica. Ele- nas seqüências 1 e 2, as professoras dialogavam
mentos como organização do parágrafo, formato com o tutorial e com as tutoras, nesta seqüên-
da letra, pontuação, cumprimentos e identidade cia o ambiente de comunicação é o novo
da missivista são negociados através do diálogo interlocutor direto da professora, com o qual ela
e reunidos em uma “carta”, que passa portanto inicia o processo de domínio da ferramenta
a habitar o horizonte de significados do gêne- cultural, por meio de ações externas como
ro mensagem eletrônica. Novamente, desenvol- digitação da mensagem e execução de coman-
ve-se a modalidade discursiva I-R-(F), desta vez, dos, e por meio de ações internas como elabo-
porém, sem a presença explícita de feedbacks. ração textual e seleção das opções de comando.
As perguntas de MC têm a função de obter in- Paralelamente à interlocução com o
formações sobre a elaboração de uma mensagem ambiente de comunicação eletrônica, a profes-
eletrônica dirigida a uma pessoa de seu círculo sora estabeleceu um diálogo com a tutora e
de amizade, e encontra respostas da tutora com a amiga distante no espaço, mas próxima
dirigidas à produção de um texto no formato de no movimento discursivo. Esta proximidade foi
uma carta. provavelmente a razão do sentimento de estra-
A situação de trabalho diante do compu- nheza anunciado por MC no turno 9. O diálo-

68 Marcelo GIORDAN. A internet vai à escola: ...


go interno e o diálogo com a tutora orientaram professores e pesquisadores uma das atividades
sua elaboração textual no sentido de formar práticas do tutorial, cujo propósito era introdu-
uma concepção sobre o estilo de texto a ser zir alguns sistemas de organização e busca de
empregado. É na segunda parte da seqüência, informações. Em um diretório específico sobre
iniciada quando a professora passa a digitar a escolas, a professora localizou a página Web da
mensagem e encerrada quando ela se prepara escola que havia sido produzida em caráter
para voltar sua atenção ao tutorial, que se tor- experimental por dois alunos. De um modo
nam visíveis quatro diferentes diálogos da pro- geral, observa-se que a professora expressa
fessora. O diálogo com a amiga está visível no contentamento por ter encontrado a página e
turno 9, com a tutora entre os turnos 9 e 15, também por ter se comunicado com os alunos.
com o ambiente de comunicação, nos turnos 9, Além do relato sobre a atividade prática com
11 e 13, e finalmente com o tutorial no turno sistemas de organização e busca de informa-
15. Portanto, além dos diálogos com o tutorial ções, o elemento mais saliente do ponto de
e com a tutora, visíveis também nas Seqüên- vista da estrutura discursiva é a forma usada por
cias 1 e 2, o processo de elaboração do signi- RJ para reportar o diálogo com os alunos.
ficado de correio eletrônico conta com mais Nesse discurso citado, a professora cita
dois interlocutores, o endereçado e o ambien- a si própria para descrever sua atitude ao loca-
te de comunicação. Por meio desses diálogos, lizar a página, que foi a de enviar uma mensa-
realizam-se ações internas e externas que, gem eletrônica, e aos alunos para reportar a
quando estão acopladas, sustentam o proces- resposta deles à sua mensagem eletrônica. Como
so de domínio da ferramenta cultural. a maior parte dos discursos orais citados, a lo-
No extrato abaixo, é possível identificar cução de RJ é marcada por sua entoação de voz,
uma outra situação na qual antigos interlocutores que distingue as vozes citadas e expressa seu
ganharam nova voz e estabeleceram uma contentamento. No curso da narrativa, ela em-
interação raramente observada nas escolas. prega o discurso citado para analisar sua
interação com os alunos, tanto do ponto de vista
Extrato 1: Novos meios, novos diálogos do conteúdo como da forma pela qual ocorreu
a interação. Sobre o conteúdo do diálogo, além
+ Data 28/09/98 de ter expressado satisfação com o trabalho dos
+ Reunião de grupo. alunos, a professora também se referiu à sua
RJ: Aí eu falei: ah! Vou mandar um e-mail pra falta de conhecimento para produzir uma pági-
eles! Aí eu mandei um e-mail pra eles, falando na Web, mas que mesmo assim, ela conseguira
que eu achava legal o que eles tavam fazendo localizar a página. RJ faz perante o grupo uma
ali, que eu não entendia muito bem, que eu análise da sua própria condição de aprendiz,
não sabia fazer página, mas que eu tinha dando visibilidade tanto às suas limitações quan-
achado a página que eles tinham feito, tal. E aí, to às suas conquistas. Ao citar os alunos, ela
eles me mandaram resposta, tudo: professora destaca aquilo que expressa verdadeiramente
RJ, eles devem saber quem eu sou, mas eu não uma mudança nas relações entre professora e
sei exatamente quem são os meninos, né? En- alunos. Primeiro, o correio eletrônico é capaz de
tão achei bem legal isso. E aí, como é que eles identificá-la perante alunos que ela não conhe-
falam? Qualquer problema pode, a gente dá ce diretamente. Segundo, os alunos se colocam
uma força. Alguma coisa assim, né? Então foi à disposição para ajudá-la nas suas dificuldades
legal, achei legal achar a página da escola. com a internet. Trata-se de uma interação pou-
co usual na instituição escolar.
O Extrato 1 é a parte final de uma Sobre a forma como ocorre a interação
narrativa, na qual RJ descreve para o grupo de com os alunos, é importante destacar do pon-

Educação e Pesquisa, São Paulo, v. 31, n. 1, p. 57-78, jan./abr. 2005 69


to de vista de nossa argumentação sobre o dalidade discursiva, a professora denunciou sua
processo de domínio e apropriação de ferra- intimidade com a ferramenta cultural correio
mentas culturais, que a ação de enviar uma eletrônico, o que se torna mais evidente quan-
mensagem foi executada durante um dos exer- do se observa que essa referência explícita de
cícios sugeridos no tutorial, enquanto a profes- uso do correio eletrônico foi feita durante a
sora aplicava-se por si só ao estudo dirigido narração de sua experiência com o uso do
sobre sistemas de organização e busca de in- ambiente de informação.
formações. Assim, mesmo tendo sido motivada Seriam essas as situações típicas que
por fatores internos, a ação de enviar a mensa- caracterizam a apropriação da ferramenta cul-
gem aos alunos surgiu em meio a uma ação tural pelo agente? Nossa análise procura iden-
externa previamente estruturada e dirigida à tificar nitidamente em quais situações o agen-
busca de informações, cujo propósito era diver- te-usa-a-ferramenta-cultural, de tal modo que
so desse novo, pelo qual se inicia o diálogo a origem dos propósitos da ação e as formas de
com interlocutores virtualmente desconhecidos, uso dos ambientes caracterizem o grau de
por meio do correio eletrônico. Portanto, é pela volição do agente sobre a ação. Certamente,
interação com o correio eletrônico que a pro- seu propósito foi determinado por fatores inter-
fessora transforma o caráter da ação anterior, nos, no entanto, o correio eletrônico foi usado
trocando o ambiente de informação pelo am- em meio a uma atividade do tutorial, indican-
biente de comunicação e alterando o propósi- do que a estrutura da ação não fora completa-
to da ação mediada. O uso do correio eletrôni- mente determinada pela professora, mas con-
co em uma situação não premeditada sinaliza tou também com a orientação do tutorial. No
um novo estágio de RJ no domínio dessa fer- extrato a seguir, analisamos uma situação na
ramenta cultural, no qual as operações já são qual identificamos outros elementos que per-
realizadas com sucesso e de forma independen- passam o processo de domínio do correio ele-
te, e podem atender a um propósito diverso da trônico e nos permite caracterizar um outro
ação que vinha sendo executada. Trata-se de estágio de apropriação do correio eletrônico.
um uso autônomo da ferramenta cultural, ain-
da que suscitada por uma ação decorrente de Extrato 2: Do telefone ao correio
uma outra ação organizada pelo tutorial. eletrônico
O último ato de fala desse extrato,
demarcado pelo termo “então”, expressa o +Data: 04/05/99
contentamento da professora sobre ter encon- +Tipo: Reunião de multiplicadores
trado a página da escola durante a realização MC: Gente, vocês lembram o que eu fiz? Eu
de uma das atividades do tutorial. Ao narrar sua marquei, eu organizei o curso na escola, por e-
experiência para o grupo de professores e pes- mail. Assim, eu não conhecia a pessoa, no de-
quisadores, RJ relatou a comunicação que partamento de química. Praticamente foi tudo
manteve com os alunos da escola, o que é um por e-mail, gente. Assim, acho que eu telefonei
forte indício de que sua satisfação tenha resul- uma vez para ela. Primeiro contato foi por te-
tado dessa troca de mensagens e não simples- lefone, depois foi tudo via e-mail. Depois eu
mente da localização da página. A intercalação só fui encontrar com ela lá dentro do curso.
da voz própria e da voz citada para expressar Você acredita? Então é um exemplo assim de
contentamento corrobora essa hipótese. O uso como é uma ferramenta superimportante.
do discurso citado não relata apenas o diálo-
go entre a professora e os alunos, ele também O extrato 2 faz parte de uma seqüência
nos indica que o ambiente de comunicação na qual os professores, agora no papel de tuto-
sustentou esse diálogo. Ao empregar essa mo- res, discutem formas de motivação para engajar

70 Marcelo GIORDAN. A internet vai à escola: ...


os professores-aprendizes no estudo dirigido. As outra atividade que afeta diretamente sua rotina e
formas de motivação sugeridas pelo grupo são a rotina de sua sala de aula. De seu relato é pos-
os exemplos significativos de uso da internet e sível também depreender que o uso da ferramen-
do computador. Até essa locução, os exemplos ta cultural ocorre de forma completamente
tinham se referido às possíveis experiências de desvinculada do tutorial, pelo menos no que diz
interesse dos professores-aprendizes, como por respeito a qualquer das finalidades do estudo di-
exemplo, obter e organizar informações da rigido. Observa-se, portanto, que a estruturação do
internet. Nesse momento, MC usa o vocativo, cenário para a ação de organizar o curso foi de-
seguido de uma pergunta, para mobilizar a aten- terminada pelos propósitos da professora e de sua
ção e evocar a lembrança dos colegas, com o interlocutora, e também pelo uso autônomo da
intuito de iniciar uma argumentação que se ferramenta cultural, ou seja, sem recorrer explici-
constrói sobre um relato de experiência. O nú- tamente à interlocução com o tutorial. Nesse sen-
cleo da argumentação está no fato de ela ter tido, a substituição de encontros face a face, o
agendado e organizado um curso por meio do planejamento de atividade e a estruturação do
correio eletrônico, que é expresso na forma de ambiente de comunicação com a interlocutora são
resposta à sua pergunta retórica. Relato de ex- ações executadas pela professora usando o correio
periência pessoal é uma modalidade discursiva eletrônico que indiciam um estágio avançado de
comumente empregada para trocar informações. apropriação dessa ferramenta cultural.
No entanto, seu emprego para argumentar sobre Uma das funções mais importantes do
a importância da ferramenta revela uma capaci- correio eletrônico é a possibilidade de enun-
dade de discernimento sobre o uso da ferramen- ciação para grupos sociais diversos, o que am-
ta, que só se justifica caso a narradora esteja plia o potencial dialógico das locuções que cir-
segura do valor e dos efeitos oriundos das ações culam por meio dessa ferramenta. Em termos
executadas por ambas, ferramenta e agente. A computacionais, essa ampliação se viabiliza por
modalidade discursiva empregada na situação do meio de listas de discussão, cujo princípio se tra-
diálogo com os pares cumpre uma função retó- duz na reunião de um conjunto de endereços
rica de dar visibilidade ao domínio da ferramenta eletrônicos em um único endereço eletrônico,
cultural correio eletrônico pela professora. adicionando tantas outras funções quanto mais
No seu relato de experiência, a professo- se deseje sofisticar o sistema de circulação das
ra empregou o discurso direto para se referir à co- mensagens (Giordan, 1998). Assim, o fórum ele-
municação com uma convidada, por meio da qual trônico de discussão sustenta um encontro
ela agendou e organizou um curso. Ela menciona assíncrono de vozes, por meio de locuções pro-
ter usado dois meios de comunicação antes de pagadas em mensagens eletrônicas. É a partir da
encontrar com uma pessoa desconhecida. No pri- análise dos relatos dos professores sobre o uso
meiro contato, o telefone foi usado e a partir de dessa nova modalidade de comunicação, que
então, as trocas ocorrem por meio do correio ele- passamos a identificar os elementos indiciantes
trônico. A despeito de essas mensagens serem a do domínio e da apropriação da ferramenta cul-
principal fonte de dados para se avaliar as mudan- tural correio eletrônico pela comunidade esco-
ças ocorridas no processo de organização de um lar em estudo. O extrato a seguir revela um pri-
evento típico da escola, observa-se a partir do meiro estágio desses processos.
relato, que MC usou maciçamente o correio eletrô-
nico para realizar uma atividade colaborativa, que Seqüência 4: Porque eu olho, eu leio
até então não dispensava encontros face a face. É, a lista
então, por meio da ferramenta cultural correio
eletrônico que a professora dialoga com uma +Data: 31/08/98
interlocutora externa à escola para planejar uma +Reunião de grupo.

Educação e Pesquisa, São Paulo, v. 31, n. 1, p. 57-78, jan./abr. 2005 71


1. RJ: Aí eu ia olhando o JN, eu falava: gen- voz do outro, por meio de mensagens trocadas
te! Esse pessoal está muito avançado. por correio eletrônico, e tomá-la como elemento
2. MC: Nem olha, nem olha, esquece. constituinte de seu diálogo interno. Mesmo
3. MG: Olhando aonde RJ? não sendo visível nesta seqüência, RJ também
4. RJ: Na lista. já usa a ferramenta para enunciar suas locuções
5. MG: Ah! na lista? e alimentar assim o diálogo com outros agen-
6. RJ: Na lista, porque eu olho, eu leio todos tes. Está posto em relevo, nessa seqüência, um
os e-mails lá da lista. fator que estrutura a elaboração de significa-
7. MG: Tá. dos, a interanimação de vozes nos planos inter-
no e externo que é agora mediada por uma
Esta seqüência aparece logo no início ferramenta cultural alicerçada na escrita. Por-
da primeira reunião do grupo de professores e tanto, na internet e no correio eletrônico em
pesquisadores na primeira fase do projeto. particular, as interações para elaborar significa-
Nesse momento, RJ está contando para o gru- dos ocorrem por meio de locuções escritas e
po quais têm sido suas dificuldades com o assincronicamente enunciadas, que encontram
estudo dirigido e logo após descrever os pro- no fórum eletrônico um locus para congregar
blemas com a compatibilidade das versões do as diferentes vozes que as enunciam.
navegador, ela se refere ao desempenho de seu Até o final da primeira fase do projeto,
colega JN. o fórum eletrônico era usado pelos professores
Ao citar JN, a professora usa o discur- com propósitos majoritariamente relacionados à
so indireto não para se referir a ele, mas a si temática do próprio projeto. Com o início da
própria, em uma evidente atitude de análise de segunda fase, um outro fórum foi instalado,
uma situação e de seu papel nessa situação. RJ reunindo desta vez os professores-tutores e os
observa JN e compara indiretamente o desem- pesquisadores, com o objetivo de estender para
penho do colega com seu próprio desempenho, o meio eletrônico as discussões sobre o pro-
no que é seguida por MC, que usa da ironia cesso de ampliação do uso da internet entre os
para respaldar sua análise. O fator mais expres- demais professores e funcionários da escola. Na
sivo desta seqüência, do ponto de vista do seqüência abaixo, extraída de uma reunião
processo de domínio e apropriação da ferra- entre tutores e pesquisadores, pode-se identi-
menta cultural correio eletrônico, está no fato ficar aquilo que consideramos o principal indí-
de, em sua análise, RJ ter encontrado no cor- cio de apropriação do correio eletrônico pela
reio eletrônico uma ferramenta constituinte do escola, a instalação do seu próprio fórum ele-
ambiente de comunicação, a qual permite trônico.
acompanhar ou, nas palavras da professora,
olhar e portanto avaliar comparativamente seu Seqüência 5: Mas gente, é muita lista
desempenho com o de seus colegas. RJ já re- para participar!
conhece uma função estrutural do novo ambien-
te de comunicação, que é promover os diálogos +Data: 30/03/99
interno e externo, por meio do encontro de vozes. +Tipo: Reunião de tutores
O fato de RJ ler todas as mensagens da 1. JN: Agora essas coisas vão diminuir, por-
lista significa que ela “olha” as locuções e faz que nós, eu estava falando com a Carol né,
desse olhar uma nova forma de sustentar realmente nós criamos a lista da Escola Arte-
interações, que já não se resumem apenas aos Ofício.
encontros face a face, como nesse em que ela 2. RJ: Vocês criaram uma outra lista? fora a
relata seu diálogo interno. RJ nos revela, por lista, ah é !?
meio do discurso citado, ser possível ouvir a 3. MC: Agora nós temos três, teleaplica,

72 Marcelo GIORDAN. A internet vai à escola: ...


telescola, e ... cuções provocados pela sobreposição de atos de
4. RJ: Quem está gerenciando? fala (indicados por colchetes). O fluxo do discur-
5. JN: É assim, eu fiz a proposta para a Isaura, so é basicamente orientado por locuções que
escrevi a proposta entreguei para ela, e ela visam agregar informações sobre as característi-
encaminhou para o Mateus para ser criado no cas do novo meio de comunicação da escola,
Liet, e aí o Liet, o Mateus porque tinha que que, segundo os professores, cumprirá uma fun-
ter alguém não sei o quê, e me colocou como ção complementar às reuniões gerais.
[gerenciador da lista] Na primeira parte da seqüência, RJ e
6. RJ: [Mas você vai gerenciar?] MC estão inicialmente atentas à quantidade de
7. MF: Ai que bom. fóruns já criados e logo em seguida o grupo
8. RJ: Então agora a gente já pode, mas gen- passa a trocar informações sobre nome, ende-
te, é muita lista para participar ! reço eletrônico, participantes e outros detalhes
9. JN: [Mas a] do fórum, os quais foram omitidos da seqüên-
10. MC: [Você viu como você é uma pessoa cia. O motivo da atenção com a quantidade de
importante?] fóruns se revela no turno 8, no qual RJ deixa
11. JN: Mas que é assim, uma coisa é uma lis- de completar uma idéia para dar vazão à sua
ta ligada a um projeto né? Que você de re- preocupação em ter de participar de um núme-
pente começa a falar de qualquer coisa, vira, ro excessivo de fóruns de discussão. Esse ato
perde os objetivos. de fala denuncia uma característica permanente
12. RJ: É mas essa pode ser uma lista de in- do processo de apropriação de ferramentas
formes né? culturais, que é o fato de haver sempre resis-
13. JN: Ah! sim, essa vai ser a idéia, que essa tência de algum tipo (Wertsch, 1998).
lista substitua todos aqueles informes Na segunda parte, JN, a pretexto de se
infindáveis que você tem no início. identificar como gerente da lista, relata por
14. MC: Aí a gente só vai falar assim na reu- meio de discurso direto o processo de criação
nião, [leia a lista]. do fórum, dando destaque à interlocução na
15. RJ: [Concordo]. qual ele, a diretora da escola e o técnico que
16. JN: Oh! estava lá tal, você leu? trabalha nos serviços de informática estão en-
17. MC: Ah! vamos pôr a plaquinha, já imagi- volvidos. JN legitima sua posição de responsá-
nou, ganha um pirulito. vel pelo fórum com base em sua atitude de
18. JN: Eu até coloquei para a Carol, um propor formalmente à direção a abertura do
exemplo de utilização que é superimportante, fórum, e também pelo fato de ser necessário al-
assim hoje nós temos um conselho, conselho guém ocupar o papel de gerente. Tal legitimi-
de escola né? Mas não é todo mundo que dade é reconhecida tanto por MF no turno 7
participa [então] como por RJ no turno 6, que antecipa a con-
19. RJ: [Sim], colocar o que aconteceu no clusão de JN, sobrepondo-se ao final da narra-
conselho. tiva do professor com uma pergunta cuja fun-
ção é confirmá-lo nesse papel. A pergunta de
A Seqüência 5 inicia-se com o professor MC no turno 10 é dirigida a JN também no
JN anunciando a criação do fórum eletrônico da sentido de respaldá-lo.
escola. Sua locução é decorrente de uma discus- Reconhecida a legitimidade, JN passa a
são sobre algumas contingências das reuniões responder à preocupação de RJ sobre o excesso
gerais do coletivo de professores da escola, par- de fóruns. A partir desse momento, o grupo se
ticularmente o excesso de informes. O anúncio concentra em elaborar os objetivos do novo
causou euforia entre os professores, o que se fórum, por meio da comparação com as situa-
verifica na entoação e nos truncamentos das lo- ções desencadeadas na reunião geral e por

Educação e Pesquisa, São Paulo, v. 31, n. 1, p. 57-78, jan./abr. 2005 73


meio de um intenso processo de negociação. todos esses elementos indicam que, para a ins-
Inicialmente, JN separa os objetivos dos fóruns tituição escolar, a ferramenta cultural tem como
do projeto, dos objetivos do fórum da escola função viabilizar ações orientadas por seus
que estão em processo de elaboração. Em se- próprios propósitos que são portanto indepen-
guida, RJ propõe a função de circulação de dentes das ações do programa de formação, o
informes para o fórum da escola, no que é que caracteriza um estágio adiantado de apro-
aprovada pelo colega, que identifica nessa fun- priação da ferramenta cultural.
ção uma forma de inibir a prática de relatar os
“informes infindáveis”. Continuando a compara- Discussão
ção com as reuniões gerais, os professores lan-
çam mão do discurso indireto nos turnos 13, Conforme indicamos na introdução,
14 e 16 para se referir a si próprios em um buscamos com este trabalho compreender as
diálogo hipotético com seus pares. Essa se- formas como ocorrem o domínio e a apropria-
qüência, incluindo a ironia do turno 15, res- ção de ferramentais culturais pelos professores
ponde às críticas sobre as contingências das e pela escola no curso de um programa de for-
reuniões gerais e simultaneamente confere ao mação continuada. Optamos por analisar si-
fórum uma função de difusor de informações. tuações de estudo dirigido e discussão em gru-
Uma segunda função começa então a ser dis- po, exatamente por elas conferirem visibilidade,
cutida no turno 18, onde JN retoma a narrati- no primeiro caso, aos processos individuais de
va para se referir ao conselho de escola e à par- domínio da ferramenta cultural, e, no segundo
ticipação restrita dos professores. RJ identifica , por indiciarem os estágios de apropriação em
pela segunda vez outra função para o fórum que se encontravam tanto os professores como
que é dar voz ao conselho de escola, provavel- a escola. Seguiremos essa mesma aproximação
mente por meio dos representantes. para discutir as formas de apropriação do cor-
A instalação de um fórum eletrônico reio eletrônico.
constitui o primeiro marco do processo de Nas situações de estudo dirigido, verifi-
apropriação do correio eletrônico pela escola camos a ocorrência de modalidades discursivas
como instituição. Não apenas como ato isola- do tipo I-R-F, que tiveram tanto caráter
do, ou simplesmente como a organização de avaliativo (Seqüência 1), como elicitativo (Se-
um conjunto de endereços eletrônicos, a insta- qüências 2 e 3). Nas Seqüências 2 e 3, as tríades
lação do fórum é fruto da iniciativa de uma se caracterizaram por serem invertidas, ao con-
parte do coletivo dos professores, que encon- trário da primeira em que a tutora controlou o
tra respaldo na direção da escola. Os professo- fluxo da interação. Além dessas características, os
res, que agora ocupam o papel de tutores, diálogos entre professoras e tutoras desempe-
percebem que no uso da ferramenta cultural nharam duas funções principais que caracteriza-
correio eletrônico está a possibilidade de con- ram as ações realizadas nos cenários do estudo
tornar problemas identificados em situações dirigido. Na seqüência 1, o propósito visível é a
concretas do cotidiano escolar. Desenha-se negociação do significado de endereço eletrôni-
também uma separação nítida entre as finalida- co, o qual está associado à função da tríade de
des dos fóruns de discussão do projeto e des- verificar o grau de compreensão mútua entre
se novo fórum, o que sinaliza para o fato de o professora e tutora, o que se realiza transmitin-
uso do correio eletrônico ser decorrente das do significados por meio das locuções. Mesmo
próprias necessidades da escola e estar, portan- com a troca de papéis entre professora e tutora
to, orientado pelos propósitos das ações desen- no controle do fluxo do diálogo, as tríades in-
cadeadas dentro da instituição e não mais pe- vertidas serviram adequadamente para transmi-
las ações do programa de formação. Reunidos, tir significados. A diferença entre essas modali-

74 Marcelo GIORDAN. A internet vai à escola: ...


dades está no fato de o fluxo dos diálogos não sua locução por meio de citação indireta, quan-
ser determinado exclusivamente por quem já do a professora relata ter dito aos alunos que
domina a ferramenta cultural, ao contrário do encontrou a página que eles criaram, sem men-
que tem sido observado nas salas de aula, uma cionar como ocorrera a ação. Se pudemos obser-
vez que a despeito de quem responde, o teor das var a voz dos alunos e a análise feita pela pro-
respostas indica a intenção do agente em veicu- fessora naquela citação, tendo como suposto
lar seu juízo de valor sobre o tema em causa. que “a análise é a alma do discurso indireto”
Seguindo o princípio do dualismo funcional (Voloshinov, 1997, p. 159), podemos também
sugerido por Lotman (apud Wertsch 1991), é ouvir a voz do tutorial reverberando na interação
possível afirmar que uma das funções dos diá- entre professora e alunos, já que a localização de
logos é obter um grau máximo de univocalidade páginas foi uma atividade anunciada pelo
entre as locuções, o que se cumpre por meio da tutorial, e distingui-la como uma voz infiltrada
transmissão de significados pelas locuções. na locução da professora. É essa infiltração que
A segunda função dos diálogos torna- nos indica ter havido a interanimação das vozes
se visível quando o terceiro interlocutor ganha do tutorial e da professora durante aquela ação.
voz nas locuções da professora e da tutora, o Por termos considerado atividades prá-
que denuncia uma outra característica estrutu- ticas na produção do estudo dirigido, pudemos
ral desse encontro de vozes, a heterogeneidade observar a presença dos ambientes da internet
interna das locuções. Longe de considerar o em todas as sessões de tutoria, nas quais os
tutorial como a voz enunciadora do significa- próprios professores usaram as ferramentas cul-
do compartilhado, ambas agentes travam diá- turais para realizar as ações. Tenham o navega-
logos com aquilo que Lotman qualificou como dor, nas Seqüências 1 e 2, e o correio eletrô-
“dispositivo de pensamento”. Sob esta perspec- nico, na Seqüência 3, estado presentes nos ce-
tiva, as locuções não são receptáculos ou con- nários das ações, ou tenham eles sido referidos
dutores passivos, mas funcionam como um direta e indiretamente nos demais episódios
gerador e a essência do processo de geração analisados, é fato que esses ambientes media-
está na interação entre estruturas, o que ram ações concretas como seleção, organiza-
Lotman comparou a um sistema semiótico em ção, edição, leitura, e envio de mensagens ele-
funcionamento (apud Wertsch, 1991). Assim, as trônicas, bem como busca, leitura, edição e pu-
“locuções” do tutorial, bem como a das agen- blicação de páginas Web. Para realizar essas
tes, servem como dispositivos de pensamentos ações, conforme também foi relatado nos Ex-
para as interlocutoras quando os diálogos tratos 1 e 2, os agentes combinaram as funções
cumprem a função de elaborar significados. e propriedades das ferramentas culturais com o
É na interlocução entre a voz do tutorial propósito geral de se comunicar com seus
e a voz da professora que se pode melhor veri- interlocutores, sendo, portanto, ferramentas
ficar a função dialógica das locuções. Nessas culturais e propósitos, dois elementos
interações, a professora confrontou sua visão de determinantes da estrutura das ações. Da mes-
mundo e portanto seus significados sobre a ma forma, ferramentas culturais e propósitos se
comunicação eletrônica com aqueles veiculados combinaram às tríades I-R-F e à citação do
no tutorial, orientando-se pelo objetivo de tutorial, determinando as estruturas dos diálo-
aprender a usar o correio eletrônico. Para reali- gos e das ações internas.
zar as ações foi preciso que, no início, a profes- À luz da proposição do dualismo fun-
sora citasse diretamente o tutorial, como na Se- cional, as análises dos diálogos extraídos de si-
qüência 2, reconhecendo sua autoridade. Em tuações de estudo dirigido diante do computa-
outras situações, como a exemplificada no Ex- dor e de discussões em grupo indicam que
trato 1, a voz do tutorial já aparece infiltrada à tanto a função unívoca, quanto a função

Educação e Pesquisa, São Paulo, v. 31, n. 1, p. 57-78, jan./abr. 2005 75


dialógica das locuções determinaram o fluxo co interfere na estrutura e nos propósitos des-
dos diálogos, os quais, por sua vez, sustenta- sas ações, podemos afirmar que o processo de
ram as ações mediadas por ferramentas cultu- apropriação da ferramenta cultural pela escola
rais e também a elaboração de significados teve início quando coletivo passou a usar a
pelos agentes. É nesse sentido que considera- ferramenta cultural com propósitos próprios da
mos os processos de domínio e apropriação do instituição, transformando o caráter das ações
correio eletrônico pelos agentes como tendo que já eram realizadas por meio de outras fer-
sido determinados pela co-ocorrência de ações ramentas culturais. Antes disso, apenas os indi-
internas e externas, pois a co-ocorrência de víduos poderiam ter dominado ou se apropriado
ações mediadas pelo diálogo e pelas ferramen- do correio eletrônico. A partir da apropriação da
tas culturais pressupõe a interação de suas ferramenta pela escola, um outro estágio de apro-
estruturas. priação é exigido dos professores, que é exata-
Podemos discutir agora as evidências mente o de considerar os propósitos e usos da
que indiciam o estágio de apropriação do cor- ferramenta cultural pelo coletivo na realização de
reio eletrônico pela escola no curso do progra- suas próprias ações. Nesse sentido, ter observado
ma de formação continuada. O primeiro aspec- que o uso do correio eletrônico transformou o
to a ser considerado é o fato de o programa ter caráter das ações mediadas na escola é a prin-
atingido praticamente todos os profissionais cipal evidência da apropriação da ferramenta
envolvidos em atividades pedagógicas. Ainda cultural pela instituição.
que a universalização do uso do correio eletrô-
nico pelos indivíduos não explique a apropria- Implicações
ção da ferramenta cultural pelo coletivo, o fato
de os professores estarem aptos a se comunicar Diversas pesquisas têm mostrado que
por esse meio é condição necessária para a ins- para se construir significado na sala de aula é
talação do fórum eletrônico. Esse é um novo necessário considerar as vozes dos alunos no
espaço de encontro de vozes, que viabiliza a papel de interlocutores ativos (Coll; Edwards,
comunicação “muitos a muitos”, estende tempo- 1998; De Laplane, 2000; Macedo; Mortimer,
ralmente as interações e é capaz de interferir em 2000). Se por um lado a instalação de uma
outras ferramentas culturais já apropriadas pelo atmosfera dialógica na sala de aula abre novas
coletivo, como a agenda de discussão das reu- perspectivas para o processo de elaboração de
niões gerais e do conselho de escola. significados, por outro, ficamos obrigados a
Da perspectiva da ação mediada, é líci- compreender aspectos da forma e da função
to afirmar que os propósitos de uso do correio dos movimentos e modalidades discursivas que
eletrônico, suscitados pelo grupo de professores se instalam na sala de aula. Dessa maneira, será
quando se criou o fórum eletrônico da escola, possível conceber formas de planejar o ensi-
independem das ações de formação continuada no considerando a centralidade dos meios
e de pesquisa realizadas pelo programa de for- mediacionais no processo de aprendizagem,
mação. Os novos propósitos atendem em um pri- conforme pesquisas recentes têm mostrado
meiro instante às necessidades administrativas e (Mortimer; Scott, 2002).
políticas da escola. Posteriormente, com a criação Apesar de a formação dos gêneros
de um fórum sobre prevenção de uso de drogas discursivos se iniciar e continuar se desenvol-
na escola, a ferramenta cultural também passou vendo fora da sala de aula (Rojo, 1999), é nes-
a ser usada com finalidades pedagógicas. se cenário que ocorrem as ações dirigidas para
Apesar de somente a análise das ações a elaboração de significados que agregam valor
mediadas pelos fóruns da escola poder susten- científico à visão de mundo dos alunos (Candela,
tar a discussão sobre como o correio eletrôni- 1998; Wells, 1998). Portanto, se para se conhe-

76 Marcelo GIORDAN. A internet vai à escola: ...


cer o mundo, não se pode prescindir da criada pelos agentes que se apropriarem desse
interlocução do aluno com o professor e com os meio mediacional na escola. O que defendemos
materiais de apoio ao ensino, também não se neste trabalho é que a ida da escola à internet
pode querer cessar sua interlocução com as vo- deve tomar como pressuposto a formação de seus
zes “estranhas” à sala de aula. Da mesma forma, professores e da equipe pedagógica dentro da
se pressupomos o diálogo permanente com as própria escola, o que equivale a considerar em
comunidades que fazem parte do universo cul- uma primeira fase o movimento de ida da internet
tural do aluno, é necessário introduzir um nível à escola.
de interlocução capaz de aproximar as vozes de Como vimos nas seqüências e extratos
outras comunidades envolvidas com a constru- analisados, diferentes modalidades discursivas sus-
ção de significados das culturas científicas. Pro- tentam os diálogos que surgem à medida que se
mover esse encontro de vozes tem se tornado desenvolvem ações com o propósito de promover
uma tarefa cada vez mais complexa, especial- a apropriação da internet pelos professores. Nas
mente por termos à disposição uma grande di- situações de tutoria, nas quais o professor ocupa
versidade de meios de enunciação e estarmos a posição de aprendiz, emergiram tríades avalia-
assistindo a uma revolução nesses meios. tivas e elicitativas freqüentemente observadas na
Se a internet passa a fazer parte do ce- sala de aula (Edwards; Westgate, 1994; Mercer,
nário escolar, é preciso considerar então a forma 1998), como “subversões” dessa mesma modalida-
como ela está sendo introduzida (Lacerda Santos, de (Candela, 1999). Se no papel de aprendizes os
2003), na medida em que as novas vozes agre- professores buscam tomar o controle do fluxo do
gadas à ambiência polifônica irão interferir dire- diálogo, por que então não considerar que os alu-
ta e indiretamente na dinâmica discursiva da sala nos assumam esse papel em determinadas situações
de aula e portanto na elaboração de significados, da sala de aula? Nesse sentido, as ações desenca-
pois esta é a marca revolucionária da internet, deadas em um programa de formação continuada
qual seja, dispor de ambientes nos quais as dife- não devem servir apenas para dominar um deter-
rentes vozes se cruzam para transformar as for- minado conteúdo ou alguma ferramenta cultural;
mas de ação da comunidade escolar. Assim, con- são fundamentalmente oportunidades para que o
trariamente àqueles que advogam pela posição coletivo de professores reflita sobre as formas de
dialética entre os campos da informação e comu- aproximação de culturas diferentes, como ocorre
nicação (Belintane, 2002), defendemos a dimen- na sala de aula, onde o concerto polifônico é um
são dialógica de comunicação e elaboração de sig- fator determinante da elaboração de significados,
nificados como a principal contribuição a ser tal como se apresentou para eles.

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Recebido em 26.02.04
Modificado em 24.01.05
Aprovado em 10.02.05

Marcelo Giordan é bacharel e doutor em Química. Atualmente é professor do Departamento de Metodologia de Ensino e
Educação Comparada da Faculdade de Educação da USP. Realizou programa de pós-doutoramento no Centro de Linguagem
e Comunicação na Faculdade de Educação e Estudos da Linguagem da Open University, no Reino Unido.

78 Marcelo GIORDAN. A internet vai à escola: ...


Errata

Em nosso número anterior (v. 31, n.1), as referêncais bibliográficas do artigo “A Internet
vai à escola: domínio e apropriação de ferramentas culturais”, de autoria de Marcelo Giordan, foram
publicadas de forma incompleta. Reproduzimos abaixo as referências corretas:

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O arquivo disponível sofreu correções conforme ERRATA publicada no Volume 31 Número 2 da revista.