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Brig.

Nero Moura:
Patrono da Aviação de Caça
“Camaradas!
É com o mais justificado júbilo que celebramos
hoje com os nossos valorosos aliados a vitória esplêndi-
da que marcou o epílogo desta guerra sangrenta e im-
piedosa, o mais trágico acontecimento de nossos tempos
e que tão profundamente feriu o mundo inteiro.
Chegamos assim, ao término de nossa jornada,
longa e árdua, iniciada há sete meses, quando pela
primeira vez hasteamos em solo italiano a nossa ban-
deira.
Distante de nossa Pátria há quase dois anos em
intenso treinamento para nos adestrarmos no manejo
de nossas armas, para ela estiveram voltados nossos
corações e nosso pensamento; distante de nossa terra,
e de nossa gente, nelas buscamos a inspiração vigorosa
para os nossos feitos na luta contra as forças do mal,
contra o inimigo comum que tanto violentara os prin-
cípios de liberdade humana e tanto fizeram periclitar
as bases de nossa civilização.
Nos campos de batalha da Europa, vós todos des- companheiros tombados por ação inimiga nos campos
te Grupo de Caça, como os nossos irmãos da Força de batalha.
Expedicionária Brasileira, ombro a ombro com os
nossos bravos aliados americanos e ingleses, elevastes Imolados no cumprimento do dever, seus feitos e
bem alto o nome do Brasil. seus exemplos, serão a inspiração máxima dos avia-
dores brasileiros. À nossa História Militar, juntastes
Nos céus da Itália, escrevestes os vossos feitos glo- mais um capítulo escrito só de bravura e heroísmo,
riosos, vencendo os lances mais difíceis de nosso áspero com a simplicidade dos que desconhecem sacrifícios, até
caminho. Nos céus da Itália ainda vibrastes na coura- o da própria vida, no cumprimento do dever.
ça robusta do inimigo golpes profundos e destruidores
que de certo reduziram-lhe as forças para a luta; com Camaradas! Sou profundamente grato a todos vós
vossa perícia e vosso fogo mortífero, soubestes desmora- e me orgulham o vosso valor, as vossas gloriosas reali-
lizá-los, bloqueando-lhes, obstruindo-lhes a retirada. zações nesta guerra.
Realizastes esplendidamente a vossa tarefa guerreira; Comandá-los e tê-los conduzido nesta jornada que
vós que feristes diretamente o inimigo, vós outros que agora se encerra com a grande vitória final, foi sem
afiastes as armas de nossos pilotos e tornastes possível dúvida o maior privilégio que a mim poderia o destino
manter nos céus inimigos as asas brasileiras. ter reservado.”
Magnífica foi, pois a vossa atuação, cujo valor po- Itália (Pisa), 09 de maio de 1945.
derá ser medido ao lado do exemplo de heroica bravu- Mensagem de Nero Moura, aos seus
ra e heroísmo, espírito que nos legaram os inesquecíveis comandados, no “Dia da Vitória.
2 Brig. Nero Moura: Patrono da Aviação de Caça
O Brigadeiro Nero Moura, ilustre perso- Certamente, a escolha pela 5ª Arma não
nalidade da vida nacional e da historiogra- deve ter sido fácil para o jovem Cadete,
fia aeronáutica brasileira, onde ocupa lugar considerando que seus pais temiam por
de especial destaque, nasceu na cidade de sua segurança e não desejavam que ele se-
Cachoeira do Sul, estado do Rio Grande guisse a carreira na Aviação.
do Sul, no dia 30 de janeiro de 1910. Em 22 de novembro de 1930 foi de-
Filho de Gilberto Moura, proprietário clarado Aspirante-a-Oficial, obtendo o
rural ligado ao plantio de arroz, e de Maria brevê A de pilotagem, constando em sua
Emília Marques Moura, cursou o primá- caderneta de voo apenas 17 horas de pi-
rio no Ginásio Rio Branco, em sua cidade lotagem realizadas na aeronave Morane
natal. Em Cachoeira do Sul, naquela épo- Saulnier 147, sob orientação da Missão
ca, não havia curso ginasial e, ao concluir Francesa, que ainda era, naquela época,
as primárias, seguiu para Porto Alegre, responsável pela instrução aérea na Esco-
onde se matriculou no Colégio Militar, la de Aviação Militar.
em regime de internato, juntamente com
seu irmão mais velho, com o objetivo de
dar continuidade aos estudos.
O jovem ginasiano tinha por hábito
frequentar a biblioteca do colégio e gos-
tava de ler, preferencialmente, os livros
que narravam fatos ocorridos na Primeira
Guerra Mundial, com enfoque no desem-
penho dos aviões de combate no final da
guerra. Isto, evidentemente, fez despertar Morane Saulnier 147
em sua mente o incontido desejo de tor-
nar-se aviador, porém vocacionado para a Por essa época, por intermédio de ami-
carreira militar. gos comuns que trabalhavam com Batis-
Concluído o curso no Colégio Militar ta Luzardo, Chefe de Polícia do Rio de
de Porto Alegre, foi transferido para o Rio Janeiro, conheceu Getúlio Vargas, então
de Janeiro, onde foi admitido como Cade- Chefe do Governo Provisório, empossa-
te na Escola Militar do Realengo, no ano do pelos revolucionários que haviam de-
de 1928. No ano seguinte, quando teve de posto o presidente Washington Luiz, na
optar por uma das cinco Armas existen- Revolução de 1930.
tes àquela época no Exército, optou pela Em janeiro de 1931, Nero Moura foi
5ª Arma, a Aviação, que havia sido criada promovido ao posto de 2º Tenente e ob-
em 1927. Assim sendo, foi matriculado teve o brevê B de pilotagem. Suas primei-
na Escola de Aviação Militar, situada no ras missões como oficial-aviador foram
legendário Campo dos Afonsos, onde realizadas nas asas dos aviões do Correio
completou os estudos concernentes à Aéreo Militar, facultando-lhe conhecer
formação do oficial aviador do Exército. significativa parcela do território nacional.
Brig. Nero Moura: Patrono da Aviação de Caça 3
Revolução Constitucionalista de 1932

No transcorrer da Revolução Consti- Afonsos, onde permaneceu até setembro


tucionalista de 1932 participou do lado de 1934. Nesse período, recebeu duas
das forças legais, executando voos de re- promoções: a 1º Tenente, em 16 de junho
conhecimento, bombardeio e ataque ao de 1933 e, a Capitão, em 30 de junho de
solo, na região do Vale do Paraíba. Ali 1934.
realizou cerca de 100 horas de voo em Em outubro de 1934, após ter sido
missões reais, totalizando 60 missões sob aprovado em um exame a que se subme-
o comando do Major Eduardo Gomes, teu, foi escolhido pelo Comandante da
Comandante do Grupo Misto de Avia- Aviação para realizar o Curso de Aper-
ção, criado no Campo dos Afonsos, em feiçoamento, com duração de um ano, na
1931; foi deslocado para Rezende, com École d’Application de l’Air, localizada em
o objetivo de atuar contra os insurretos Versailles, na França. Retornando ao Bra-
paulistas. Nessa contenda fratricida pôde sil, foi designado instrutor de tiro e bom-
constatar a enorme influência da 5ª Arma, bardeio da Escola de Aviação Militar, no
a Aviação, na vitória legalista. A Aviação Campo dos Afonsos.
saiu muito fortalecida desse conflito, e o Ao eclodir a intentona comunista -
próprio Nero Moura conscientizou-se do deflagrada no Rio de Janeiro, em 27 de
acerto em ter escolhido a carreira de avia- novembro de 1935, onde vários de seus
dor militar. colegas foram assassinados a sangue frio
Terminada a contenda, foi designado no Campo dos Afonsos -, participou ati-
instrutor de pilotagem no Campo dos vamente dos bombardeios aos revoltosos
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que ocupavam as instalações do 3º Regi- ckheed 12-A, bimotor. Ademais, passou a
mento de Infantaria, localizado na Praia desempenhar o papel de consultor técnico
Vermelha. das viagens do Presidente da República.
Como instrutor de tiro e bombardeio
implantou o primeiro campo de tiro e
bombardeio aéreo do Brasil, localizado
em Jacarepaguá, nas imediações onde
hoje está localizado o Aeroporto de Ja-
carepaguá. Permaneceu nessa função até
1938, quando foi designado pelo Minis-
tro da Guerra, General Eurico Gaspar
Dutra, para comandar o 3º Regimento de
Aviação – equipado com aeronaves Fal-
con – em Santa Maria (RS). Tinha rece- Lockheed 12-A
bido ordens de, se necessário, combater
um possível levante do governo estadual. Quando foi deflagrada a Segunda Guer-
Ficou à frente do Regimento durante dez ra Mundial, em 1939, intensificaram-se
meses e foi ele que empreendeu a trans- no País os movimentos para a criação do
ferência da Unidade para Canoas (RS). Ministério da Aeronáutica. Nero Moura,
Transferido para o Rio de Janeiro, a pedi- por ter feito o Curso de Aperfeiçoamen-
do, foi classificado novamente na Escola to na França, conhecia bem a organização
de Aviação Militar, sendo designado para da Força Aérea Francesa, que somado à
chefiar a instrução aérea. sua amizade e aproximação com o Presi-
dente Getúlio Vargas, fez dele um instru-
mento importante na concretização desse
movimento. Nesse período, se encontra-
va servindo ao Exército, no Campo dos
Afonsos.
Em meados de 1940, o Presidente Ge-
túlio Vargas incumbiu-o, juntamente com
outros colegas aviadores de sua inteira
confiança, de estudar alguns projetos re-
cebidos de outros oficiais do Exército e
da Marinha, sobre a criação de um novo
Por essa ocasião, em virtude de suas ministério com a incumbência de tratar de
boas relações e a total confiança que ins- assuntos ligados à Aviação. As sugestões
pirava junto à governança do País, foi son- desse grupo de notáveis, sobre o assunto,
dado para ser piloto do Presidente Getú- agradaram ao Presidente que, como con-
lio Vargas, cargo que veio a desempenhar sequência, acabou criando o Ministério
com notável desvelo, voando um avião Lo- da Aeronáutica.
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Criado o novel Ministério, e, também,
a Força Aérea Brasileira, em 20 de janei-
ro de 1941, e designado o Dr. Joaquim
Pedro Salgado Filho como o seu primei-
ro Ministro, este convidou Nero Moura
para compor o seu Gabinete como Assis-
tente Militar e Chefe da Seção de Aviões
de Comando, que se transformaria mais
tarde no Grupo de Transporte Especial
(GTE).
Como se pode verificar, pelo que já foi
escrito sobre a atuação do Ministro Joa-
quim Pedro Salgado Filho, depreende-se
que Nero Moura teve, juntamente com
seus pares, pela aproximação com o ges-
tor da Pasta da Aeronáutica, uma enorme
influência em tudo que foi sugerido e veio
a se concretizar, no que diz respeito à or-
ganização e ao emprego do Ministério da
Aeronáutica e da Força Aérea Brasileira.
A partir de 1942, com a Segunda Guerra
Salgado Filho, Nero Moura e esposa Mundial em curso, o Brasil começou a sen-
tir os nefastos efeitos do conflito europeu:
Nessa época veio a casar-se com a Sra. vários navios cargueiros nossos foram tor-
Marieta Cunha Fabrício, que viria a lhe pedeados em costas marítimas americanas
dar uma filha, Leonor Maria. do norte por submarinos pertencentes aos
No final do ano de 1941, Nero Moura países do Eixo (Alemanha, Itália e Japão),
foi promovido ao posto de Major-Avia- com os quais o Brasil já havia rompido re-
dor e participou ativamente da organiza- lações diplomáticas e comerciais. A situa-
ção do Ministério, juntamente com ou- ção tornou-se insustentável quando mais
tros companheiros que ajudou a indicar navios brasileiros voltaram a ser atacados,
para o Gabinete Técnico, colaborando agora na costa brasileira. Viu-se, então, o
nas difíceis tarefas de junção das aviações Governo de Getúlio Vargas forçado a re-
naval e militar, da renovação do equipa- conhecer a situação de beligerância contra
mento aéreo, da criação de mais unidades o Eixo e, em agosto de 1942, declarou es-
e do fortalecimento da mentalidade aero- tado de guerra em todo o País, decretando,
náutica, nos âmbitos civil e militar. Ade- em setembro, mobilização geral.
mais, exerceu com entusiasmo, dedicação Na Aeronáutica, em 18 de dezembro
e proficiência a atividade de instrutor do de 1943, o Governo criou o 1º Grupo de
Curso de Aperfeiçoamento de Oficiais da Aviação de Caça, que integraria o escalão
Aeronáutica. terrestre da Força Expedicionária Brasi-
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leira (FEB) à Europa e teria por mens-chave a escolha de suas equipes.
missão lutar em conjunto com Foram os comandantes de esquadri-
os Aliados, nos céus da Itália, lhas, indicados por ele, que escolheram
enquanto se preparava a invasão seus pilotos; foram os chefes de serviços
da Normandia. de apoio que escolheram os seus ho-
Com a ativação do 1º Grupo mens e assim por diante até os mais
de Aviação de Caça, Nero Mou- subalternos. Esta fórmula permitiu
ra foi designado seu comandan- que se formasse uma unidade coesa e
te e responsável por sua organização. Ele bem integrada de quase quinhentos ho-
tratou de escolher seus auxiliares diretos mens, que se respeitavam e que eram motivados
até o nível de Comandante de Esqua- pelo ideal comum e por aguçado senso de respon-
drilha, delegando a eles a escolha de seu sabilidade. E tudo isso era, sem dúvida, a proje-
pessoal, dentre aque- ção do estilo de comando
les que haviam se de Nero Moura.”
apresentado como Em janeiro de
voluntários. Ou seja, 1944, Nero Mou-
todo o pessoal do ra viajou para os
Grupo foi escolhido Estados Unidos
pelos seus próprios acompanhado de 32
homens-chave. companheiros que
Para confirmar o constituíam o nú-
que foi dito acima, cleo do 1º Grupo
citamos parte do de Aviação de Caça.
depoimento do Capitão-Aviador Alber- Após um período de treinamento na Scho-
to Martins Torres, que cumpriu o maior ol of Applied Tactics of the Army Air Force,
número de missões na Itália durante a 2ª localizada em Orlando, Flórida, esses mi-
Guerra, sobre Nero Moura: “Já na seleção litares foram enviados ao Panamá, onde
do pessoal que formaria o Grupo de Caça, ele se reuniram ao restante do Grupo, que aí
demonstrou inteligente critério ao delegar aos ho- se encontrava desde fevereiro.

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Em 22 de abril do mesmo ano, foi pro- Camaradas! Para a frente, para a ação, com
movido a Tenente-Coronel e partiu, com o pensamento fixo na imagem da Pátria, cuja
seus comandados, para a Base Aérea de honra e integridade juramos manter incólumes.
Sulffolk, ao norte de Nova York, onde Cumpre-nos tudo enfrentar, com fortaleza de
realizaram treinamento nas aeronaves ânimo, a fim de manter intacto esse tesouro ja-
Thunderbolt P-47, um dos mais modernos mais violado: a honra do soldado brasileiro! E
aviões utilizados pelos americanos, na nós o faremos, custe o que custar!”.
época, e que seria o vetor de combate dos
pilotos brasileiros no Teatro de Opera-
ções europeu.

Depois de árduo treinamento no Pana-


má e nos Estados Unidos da América, os Foi voando aeronaves P-47D Thunder-
componentes do 1º Gp Av Ca embarcaram bolt, na Itália, em pouco mais de sete meses
para a Itália e chegaram ao Teatro de Ope- de operações, que o 1º Grupo de Aviação
rações , através de Livorno, em 6 de outu- de Caça amealhou uma invejável folha de
bro de 1944, deslocando-se imediatamente, serviços. Subordinado ao 350th Group, no
de trem, para Tarquinia, ponto inicial das transcurso de 445 missões distribuídas em
operações bélicas. Ali permaneceram até 2.550 surtidas, o Grupo conquistou o res-
2 de dezembro, sendo, a seguir, trasladados peito e a admiração dos integrantes dos de-
para Pisa, onde permaneceram até o final mais esquadrões que compunham o 350th
da guerra, em 2 de maio de 1945. FG, bem como dos distintos comandos
acima daquela organização americana.
Cabe salientar que, em 14 de outubro
de 1944, a bandeira do Brasil foi hasteada
em cerimônia solene e com ordem-do-dia
de Nero Moura que dizia:
“Na história dos povos coube-nos, assim, a
honra de sermos a primeira força aérea sul-ame-
ricana que cruzou os oceanos e veio alçar as suas
asas sobre os campos de baralha europeus.
Antes de entrar em ação, aqui no Velho
Mundo, o 1º Grupo de Caça cumpre o sagrado
dever de plantar em território inimigo a Bandeira
do Brasil.

8 Brig. Nero Moura: Patrono da Aviação de Caça


Terminado o conflito mundial, os Nero Moura sempre foi amigo fiel e
combatentes permaneceram mais alguns leal de seus companheiros; exemplo edifi-
dias em Pisa até seguirem, em transpor- cante de soldado e comandante exemplar,
te fornecido pelos estadunidenses, para tornando-se um verdadeiro líder e amigo
os Estados Unidos, onde, após algumas de seus comandados. Concorreu às es-
comemorações, seguiram para Kelly Field calas de voo em igualdade de condições
com a finalidade de receberem os 19 P-47 com os demais pilotos, totalizando a ex-
que foram doados ao Brasil. Dali, retor- pressiva marca de 62 missões de guerra.
naram ao país, onde chegaram em 16 de Para se poder bem avaliar as qualida-
julho de 1945, efetuando pousos inter- des morais do Comandante Nero Moura,
citamos aqui o que foi escrito pelo Maj.
Brig. Rui Barboza Moreira Lima em seu
livro Senta a Pua!: “Um dia nos reuniu em
Pisa, no Clube Senta a Pua, e sem enfeitar pala-
vras nos falou: - “Vocês são jovens e os jovens são
irreverentes. Eu dei ordem aos sem-vergonhas do
Gabinete para não censurarem as cartas de vocês.
Pois bem, aqui tenho em mãos quatro fotocópias
de cartas que eles me remeteram, em que vocês
me criticam acremente. Felizmente, o que vocês
Retorno dos heróis à Pátria. falaram de mim não me atinge e, por um simples
motivo, o que foi dito é profundamente injusto.
mediários em várias cidades do nordeste Vou queimá-las na frente de vocês (e acendeu o
brasileiro até Vitória, no Espírito Santo, isqueiro queimando-as), mas aproveito para lhes
onde pernoitaram para poder chegar ao dar um conselho de mais velho e mais experien-
Rio de Janeiro na manhã do dia seguinte, te também: somente se acusa alguém de alguma
dia 16 de julho, onde os esperava uma lin- coisa se houver provas, se não, o máximo que se
da recepção, após um vôo sobre a cidade, pode fazer é pensar, mas pensar baixo. Quero
a baixa altura, mostrando ao povo brasi- dizer-lhes ainda que vocês não foram traídos por
leiro que estavam de volta à Pátria. mim, que já proibi que censurassem suas cartas,
mas os áulicos estão por toda parte e é importan-
te alguém livrar-se deles. Continuo a pensar de
vocês o que já tenho repetido várias vezes: nunca
comandei nem nunca convivi com homens tão no-
bres”, e deu por encerrada a reunião.
Nos entreolhamos em silêncio, emo-
cionados diante da lealdade e atitude dig-
na desse homem. Eu era o autor de uma
das cartas. Senti desmoronar o mundo
em torno de mim. Após o incidente, seu
Brig. Nero Moura: Patrono da Aviação de Caça 9
tratamento conosco continuou o mesmo. Terminada a 2ª Guerra Mundial, Nero
Não mudou de cara nem alterou a roti- Moura dirigiu-se, por ordem do Governo
na. O incidente morreu após a reunião. brasileiro, para Santo Antônio, no Texas,
Com o passar do tempo, verificamos que e regressou ao Brasil, em 16 de julho de
fomos realmente precipitados em nosso 1945, comandando o grupo de pilotos
julgamento. A amizade entre ele e seus brasileiros do 1º Gp Av Ca que trouxe
comandados durou até sua morte. Assim para o País 19 aviões P- 47, doados pelos
era o “Jambock nº 1”! Estados Unidos da América. Dois dias
depois, participaram do “Desfile da Vitó-
ria”, ocasião em que desfilaram todos os
militares brasileiros que lutaram na Itália.

Ainda sobre o espírito de justiça de Logo em seguida, no dia 27 de agosto,


Nero Moura, escreveu Rui Moreira Lima: assumiu o comando de uma das unida-
“Foi justo e exigente conosco. A indisciplina de des mais importantes da FAB, o 1º Re-
voo nunca foi tolerada. Dava cadeia no duro. gimento de Aviação, sediado em Santa
Não há no Grupo uma voz que se erga contra ele. Cruz (RJ). No dia 29 de outubro de 1945,
Por esdrúxulo, deixou de promover em campanha foi deflagrado um golpe militar que pôs
muitos companheiros do escalão terrestre. Não fim ao Estado Novo. Consultado pelo
queria criar problemas com aqueles que fizeram a Comandante da 3ª Zona Aérea se per-
guerra aqui no Brasil, na defesa de nossas costas. manecia com Getúlio ou com os que o
Para se ter uma ideia de como agiu nosso Coman- derrubaram, ele disse que ficava com o
dante, basta dizer que não houve nenhum piloto Presidente.
condecorado com a Cruz de Bravura. Preferiu
condecorar com essa medalha apenas os mortos Foi detido até a partida de Vargas para
em combate. Antes, comunicou-nos sua decisão. o exílio. No dia 7 de dezembro de 1945,
Concordamos com ele por unanimidade.” pediu transferência para a reserva, tendo
dado prova de lealdade ao seu Presidente
e amigo, respeitando, inclusive, a opinião
dos demais militares. Nos quatro anos se-
guintes, foi Diretor Técnico da Aerovia
Brasil (1946 a 1948) e Diretor Superin-
tendente do Loide Aéreo Nacional.

10 Brig. Nero Moura: Patrono da Aviação de Caça


ma objeção com relação à posse do Coro-
nel Nero Moura.
Em 25 de agosto de 1951, o novel Mi-
nistro é promovido ex-ofício ao posto de
Brigadeiro-do-Ar, sua segunda promoção
na Reserva, esta por ter participado ati-
vamente da repressão ao Movimento Co-
munista de 1935.
Era pensamento do Ministro Nero
Moura, que o transporte da FAB deveria
Em 1951, Getúlio Vargas, eleito pelo ser centralizado o que, também, benefi-
povo no ano anterior, volta a ocupar a ciaria o Correio Aéreo Nacional. Com
Presidência da República, vencendo no a vivência que ele havia adquirido no
pleito o Brigadeiro Eduardo Gomes, for- contato com as unidades operacionais
te candidato da oposição, e convida Nero americanas, durante a guerra, resolveu
Moura para ocupar a Pasta da Aeronáuti- incrementar, também, as atividades das
ca. Agora, no posto de Coronel, promo- nossas unidades de combate, bem como
ção que obtivera em 1947, após a sua pas- dar toda assistência ao desenvolvimento
sagem para a reserva, torna-se o terceiro da Aviação Civil.
Ministro da Aeronáutica, tendo sido em- Paralelamente, passou a dar toda a
possado em 31 de janeiro de 1951, aos 41 atenção ao Estado-Maior, que era o pri-
anos de idade. Em que pese o certo mal- meiro elo na cadeia de comando da Aero-
estar causado entre os Oficiais-Generais náutica, em função da nova organização
da Aeronáutica, partidários do Brigadeiro estabelecida na gestão do Ministro Ar-
Eduardo Gomes, sua escolha para o mais mando Trompowsky.
alto cargo do Ministério foi bem aceita Assim, em 5 de junho de 1951, pelo
pela grande maioria da oficialidade mais Decreto nº 29.640, organizou o Coman-
jovem, graças à simpatia que Nero Mou- do de Transporte Aéreo (COMTA), liga-
ra soubera conquistar, pelos seus bons do, via Estado-Maior, ao Ministro. Seu
exemplos de caráter, lealdade e conduta primeiro Comandante foi o Coronel-
militar. Ademais, seu desempenho como Aviador Nelson Freire Lavenère-Wan-
Comandante do 1º Grupo de Aviação de derley, que assumiu no dia 12 de junho
Caça, na Itália, e a lealdade demonstrada a de 1951, data do aniversário do Correio
Getúlio Vargas, quando de sua deposição, Aéreo Nacional. O COMTA, quando de
granjearam a admiração de seus superio- sua criação, absorveu a 4ª Divisão da Di-
res, pares e subordinados. retoria de Rotas Aéreas (responsável pelo
É importante enfatizar que o Briga- Correio Aéreo), a Base Aérea do Galeão
deiro Eduardo Gomes, como democrata e os 1º e 2º Grupos de Transporte Aéreo,
convicto que era, não manifestou nenhu- equipados com aeronaves C-45 Beechcraft

Brig. Nero Moura: Patrono da Aviação de Caça 11


e C-47 Douglas, que cumpriam as linhas Em sua pró-ativa administração, tam-
do Correio Aéreo Nacional. bém, foram criadas as primeiras insta-
Entre suas múltiplas realizações lações de Busca e Salvamento e de Re-
como Ministro, destacam-se a implan- conhecimento e Patrulha. As antigas
tação do Centro de Instrução Militar, instalações da Escola de Especialistas, na
no Campo dos Afonsos, a inauguração Ilha do Governador, deram lugar à edifi-
da rota comercial Rio-Manaus. Ainda, cação do primeiro aeroporto internacio-
no seu período ministerial, surgiu, em nal do País, o Aeroporto do Galeão.
1952, a Esquadrilha da Fumaça, hoje No que se refere à Divisão de Prote-
conhecida como Esquadrilha de De- ção ao Voo, da Diretoria de Rotas Aéreas,
monstração Aérea (EDA), criada com Nero Moura desempenhou papel impor-
o objetivo precípuo de despertar vo- tante na organização inicial do controle
cações aeronáuticas e incentivar a ju- de tráfego aéreo brasileiro, no pós-guerra.
ventude para ingressar na Força Aérea A ela, o Ministro concedia todo o apoio
Brasileira. solicitado, em material e pessoal.

Gloster Meteor F-8


Em sua profícua gestão foi introduzida
a aviação a jato no Brasil, sendo adquiri-
dos, na fábrica inglesa Hawker-Siddeley, em
troca de 14.000 toneladas de algodão, os Ministro Salgado Filho
aviões de caça Gloster-Meteor (10 TF-7 e 60 Com o inesperado falecimento do Dr.
F-8), incrementando significativamente o Joaquim Pedro Salgado Filho, em lamen-
poder de fogo da Força Aérea. Os aviões tável acidente aeronáutico ocorrido no
comprados no início de 1952, em outu- Sul do País, o Aeroporto de São João,
bro de 1953 realizaram, na Base Aérea de em Porto Alegre, por sugestão de Nero
Santa Cruz, sede do 1º Grupo de Avia- Moura, passou a denominar-se Aeropor-
ção de Caça, sua primeira demonstração to Salgado Filho, numa justa homenagem
aérea. Esta robusta aeronave operou du- àquele que foi o primeiro Ministro da Ae-
rante vários anos e prestou inestimável ronáutica (Lei nº 1.457, de 12 de outubro
serviço à FAB. de 1951).
12 Brig. Nero Moura: Patrono da Aviação de Caça
Escola de Aeronáutica - Campo dos Afonsos

Em 17 de dezembro de 1951, atra- ência para todas as Unidades de Caça,


vés do Decreto 30.279, o Ministério da Bombardeio, Patrulha, Reconhecimento,
Aeronáutica foi autorizado a aceitar da Transporte, Voo por Instrumentos, Tiro
Prefeitura Municipal de São José dos e Bombardeio e Instrução na Escola de
Campos, a doação de 9.280 quilômetros Aeronáutica.
quadrados de terrenos destinados à ins-
Esses programas estabeleciam todos
talação do Centro Técnico de Aeronáu-
os parâmetros que deveriam ser exigidos
tica (CTA).
dos pilotos, durante o período de instru-
Um trabalho de magistral importân- ção, e, também, na fase operacional. Foi
cia, realizado pelo Estado-Maior da Ae- um excelente passo para aferir a profici-
ronáutica, em 1951, foram as denomina- ência das unidades.
das TOLES – Tabelas de Organização e
Lotação de Pessoal e Equipamento -, que Outra medida importante da gestão
especificavam, como o próprio nome de Nero Moura foi a ativação do Centro
diz, os totais dos efetivos em pessoal e de Treinamento de Quadrimotores, cria-
do equipamento de todas as organiza- do pela Portaria nº 39/GM-2, de 24 de
ções do Ministério; e os PIPES – Pro- janeiro de 1951, pelo Ministro Armando
grama de Instrução e Padrão de Efici- Trompowsky.

Brig. Nero Moura: Patrono da Aviação de Caça 13


Major Lagares, Comandante da Base
Aérea de Recife. Em 1957, o Centro
de Treinamento foi transformado no
6º Grupo de Aviação, dotado de dois
Esquadrões.
Foi, também, na administração do
Ministro Nero Moura que houve a cons-
Boeing B-17 “Fortaleza Voadora”
trução do Campo de Cachimbo, para dar
Os primeiros aviões quadrimotores apoio aos aviões da rota Rio de Janeiro –
B-17 chegaram ao Brasil em 17 de abril Manaus. O local era inacessível por terra,
de 1951; e, com os que vieram a incor- e foi um avião de pequeno porte que pou-
porar a frota, no ano de 1954, totalizou sou na área em um campo natural, onde
doze bombardeiros.O Centro de Treina- só viviam indígenas, para transportar os
mento de Quadrimotores (CTQ), cujos primeiros operários.
objetivos eram dar proteção aos aviões Nessa ocasião, foi criada a Escola de
que realizavam a travessia Dakar-Recife, Oficiais Especialistas e de Infantaria de
e fornecer treinamento em aerofoto- Guarda, em Curitiba, e o Núcleo do Co-
grametria a algumas tripulações, serviu mando Aerotático, para coordenar as ati-
para elevar em muito os conhecimentos vidades da FAB em cooperação com as
técnicos das tripulações que por lá pas- outras Forças.
saram. Em 29 de outubro de 1952, através do
A primeira travessia do Atlântico, Decreto-Lei nº 31.671, foi criada a Co-
por um avião da FAB, foi realizada em missão de Construção da Escola de Ae-
1º de agosto de 1953, com uma aero- ronáutica de Pirassununga, atual Acade-
nave B-17, estando no seu comando o mia da Força Aérea.

Centro Técnico Aeroespacial - São José dos Campos - SP

14 Brig. Nero Moura: Patrono da Aviação de Caça


Também, em sua administração, pelo da Aeronáutica, para segui-lo em suas
Decreto nº 34.701, de 26 de novembro entrevistas e reuniões. A situação veio a
de 1953, foi ativado o Centro Técnico da piorar após o atentado contra Carlos La-
Aeronáutica (CTA), atual Departamento cerda, na madrugada de 5 de agosto de
de Ciência e Tecnologia Aeroespacial. 1954, na Rua Toneleros, em Copacabana
Por outro Decreto, o Ministro criou três (RJ). O deputado saiu ferido no pé, mas o
Centros de Instrução Militar, que tinham Major Rubens Vaz, que o acompanhava,
como objetivo centralizar a instrução mi- foi morto. Este foi o estopim para des-
litar dos recrutas. Entretanto, foram ati- lanchar uma campanha violenta contra
vados apenas dois: o da Região Centro, o Presidente, em que o envolvimento de
no Campo dos Afonsos, e o da Região grande parte das Forças Armadas, princi-
Norte, em Natal. palmente da Aeronáutica, era evidente.
A Escola de Comando e Estado- Diante da gravidade dos fatos o Minis-
Maior da Aeronáutica (ECEMAR) foi tro Nero Moura colocou imediatamente
por ele transferida do bairro de Laran- o Coronel-Aviador João Adil de Oliveira
jeiras para a Ponta do Galeão, na Ilha do acompanhando o inquérito policial ins-
Governador. taurado, que, rapidamente, reuniu provas
contra homens da guarda pessoal de Var-
gas envolvidos no atentado que vitimou
um oficial da FAB. Esta situação colocou
o Governo em confronto com toda a
oposição e com a maioria dos militares. A
posição do Ministro perante seus coman-
dados tornou-se cada vez mais delicada,
apesar de sua atitude clara de revolta
contra o crime perpetrado. Aconselhado
por amigos, mandou abrir um inquérito
policial-militar, designando o Cel. Adil di-
A eleição de Getúlio Vargas para subs- rigente do referido inquérito.
tituir o Presidente Eurico Gaspar Dutra Por essa ocasião, realizavam-se mui-
havia criado, desde o início, uma situa- tas reuniões contra o Governo na sede
ção política difícil, que, com o passar dos do Clube de Aeronáutica e, a partir daí,
anos, veio a se transformar em uma crise os militares da Aeronáutica entraram em
político-militar de suma gravidade, no iní- peso na busca dos prováveis assassinos,
cio do ano de 1954. A oposição, liderada revistando até dependências do Palácio do
por Carlos Lacerda - político cáustico e Catete, prendendo e interrogando agen-
contundente em sua impactante orató- tes da guarda pessoal de Getúlio Vargas.
ria -, atacava violentamente o Presidente O Ministro Nero Moura, diante do que
Vargas, conseguindo congregar um gran- estava sendo apurado e das pressões que
de número de oficiais, principalmente sofria de companheiros e amigos, pediu
Brig. Nero Moura: Patrono da Aviação de Caça 15
demissão do cargo no dia 16 de agosto de
1954. Aceito o pedido, o Presidente con-
vidou para substituí-lo o Brigadeiro Altair
Rozsani, que não aceitou o convite. Nero
Moura procurou, então, um oficial-general
que não estivesse envolvido em política e
fosse amigo do Brigadeiro Eduardo Go-
mes. Feita a sugestão a Vargas, a mesma
foi aceita por ele, desde que o candidato
aceitasse determinadas exigências suas.
O Brigadeiro Fontenelle, indicado por O Presidente Getúlio Vargas suici-
Nero Moura, aceitou as condições im- dou-se na manhã do dia 24 de agosto de
postas por Getúlio Vargas de não mexer 1954.
nos oficiais do Gabinete da Presidência. Afastado da política, Nero Moura vol-
Entretanto, para surpresa de Nero Mou- tou às origens, adquirindo uma fazenda
ra, na manhã de 18 de agosto, soube que em Goio-Erê, no Paraná, dedicando-se à
o Presidente havia nomeado o Brigadei- lavoura de café e à criação de gado, até o
ro Epaminondas Gomes dos Santos, que ano de 1965.
estava exercendo o comando da 3ª Zona
Aérea. Do episódio, ficou evidente que No período de 1955 a 1982, exerceu,
Nero Moura fez todas as tentativas possí- também, a função de Assessor de Direto-
veis de trazer a tranquilidade para a Aero- ria da Refinaria de Petróleo
náutica e para o Brasil. Ipiranga.

16 Brig. Nero Moura: Patrono da Aviação de Caça


Em realidade, o ex-ministro nunca dei- do que está fazendo a Fundação Getúlio Vargas,
xou de estar ligado aos seus companhei- com o Centro de Pesquisa e Documentação da
ros de farda, principalmente por aqueles História Contemporânea do Brasil, nós devía-
que com ele lutaram nos céus da Itália, mos criar um Centro de Pesquisas e documenta-
os veteranos do 1º Grupo de Aviação de ção da História da Força Aérea e, no momento,
Caça, para os quais continuou sendo o lí- isto é muito oportuno e urgente. Porque ainda
der. O fato é que, ao regressarem da Eu- temos alguns pioneiros que precisam contar como
ropa, após a guerra, os caçadores haviam era aquela vida que se levava no Campo dos
instituído duas datas, 22 de abril e 6 de Afonsos, antes da criação da FAB. Então, esses
outubro, para suas reuniões anuais, quan- pouquíssimos elementos que ainda estão vivos,
do relembrariam fatos marcantes de suas com boa memória, poderiam prestar inestimáveis
atuações na 2ª Guerra Mundial. Como o narrativas de coisas que até eu desconheço. Eu
dia 22 de abril foi, posteriormente, consi- ingressei no Campo dos Afonsos em 1929, mas
derado pelo Ministério da Aeronáutica, o nós temos o Brigadeiro Borges que entrou em
“Dia da Caça”, ficou somente a data de 6 1924 e têm outros que se recordam desses tem-
de outubro para os encontros informais, pos e que têm grandes histórias de como nasceu
sempre na residência de Nero Moura, a Aviação no Brasil. Isto tem que ser feito antes
onde compareciam, infalivelmente, os que eles morram, pois eles têm poucos anos de
seus velhos subordinados e leais amigos, vida. Nós vamos deixar gravados para os nossos
para comerem um “picadinho” de carne e netos, para eles saberem como começou esta Força
passar horas agradáveis de conversa des- Aérea que hoje pode se orgulhar de ser bem orga-
preocupada, em meio a velhas canções e nizada, bem estruturada e bem instituída”.
brincadeiras alegres. A ideia benfazeja floresceu. Em 1986,
Mesmo acometido de um trágico aci- era criado o Instituto Histórico-Cultural
dente vascular cerebral que lhe tirou par- da Aeronáutica.
te dos movimentos e lhe dificultou a fala,
Nero Moura não se deixou vencer. Cami-
nhando com sacrifício, apoiado em mule-
tas e amparado por braços amigos, ainda
participou de reuniões e, por várias vezes,
compareceu ao Instituto Histórico-Cul-
tural da Aeronáutica (INCAER), onde
era Conselheiro, ocupante da cadeira nº 5,
cujo Patrono é o Ministro Salgado Filho.
Faz-se mister destacar que Nero Mou-
ra foi um dos preconizadores do INCA-
ER. Em 1983, em entrevista concedida à
Revista Aeronáutica, apresentou seguinte
ideia a respeito: “- Eu acho que, a exemplo

Brig. Nero Moura: Patrono da Aviação de Caça 17


Ainda no ano de 1986, por ocasião das Nesse mesmo dia, era entregue ao 1º
comemorações do dia 22 de abril, na tra- Grupo de Aviação de Caça, pelo Secre-
dicional Base Aérea de Santa Cruz, Nero tário da Força Aérea Americana (USAF),
Moura foi proclamado “Patrono Vivo da Edward Aldridge Júnior, a maior comen-
Aviação de Caça”, pelo Tenente-Briga- da outorgada pelo Governo dos Estados
deiro-do-Ar Octávio Júlio Moreira Lima, Unidos da América, a unidades de Força
então Ministro da Aeronáutica, por meio Aérea, pelo extraordinário heroísmo em
de Ordem-do-Dia alusiva à data. De- ação conjunta com as Forças norte-ame-
monstrando sua reconhecida modéstia, ricanas, contra países inimigos: a “Presi-
o título de Patrono foi assim comentado dential Unit Citation”. Até então, somente
por Nero Moura: “Isto foi um ato de beneme- a Inglaterra possuía tal comenda. Agora,
rência do atual Ministro. Mas, ainda, acho que o era o Brasil, num reconhecimento inter-
Patrono deveria ser um piloto que tivesse morrido nacional da atuação da Força Aérea Bra-
em combate”. sileira na Segunda Guerra Mundial, bri-

18 Brig. Nero Moura: Patrono da Aviação de Caça


lhantemente representada pelo aguerrido comandados do 1º Gp Av Ca, o Major-
1º Grupo de Aviação de Caça que, há 41 Brigadeiro-do-Ar Rui Barboza Moreira
anos antes, fora liderado por Nero Mou- Lima, Conselheiro do INCAER e justa-
ra, o que lhe valera doze condecorações mente o atual ocupante da Cadeira Nº 16,
brasileiras e dezoito de outros países. que no seu livro “Senta a Pua”, Capítulo
O Brigadeiro Nero Moura faleceu, no III, assim se expressa:
Rio de Janeiro, no dia 17 de dezembro de “Assim é o Brigadeiro Nero Moura: justo,
1994, aos 84 anos de idade, consternando amigo dos amigos e sobretudo leal. Encerrando,
a todos que tiveram o privilégio de con- destaco alguns pontos marcantes da personalida-
viver com ele. Pela Portaria nº 56/GM-3, de de Nero Moura como cidadão e militar. O
de 17 de janeiro do mesmo ano, foi ofi- primeiro deles é a lealdade com que serviu a seus
cialmente declarado “Patrono da Aviação amigos, principalmente ao Presidente Getúlio
de Caça”. Vargas. Sua passagem para a reserva, a pedi-
No INCAER, por indicação de seu do, logo após o 29 de outubro, demonstra a sua
Conselho Superior e Aprovação Ministe- nobreza de sentimentos. Na ocasião era Tenente-
rial, de 25 de janeiro de 1995, tornou-se Coronel-Aviador, devendo ser promovido a Co-
Patrono da Cadeira Nº 16. ronel naqueles dias. Nesse posto, seria um dos
Resumindo a personalidade do Briga- oficiais mais cotados para ser Brigadeiro, sendo
deiro Nero Moura, nada melhor do que seus brilhantes feitos na Campanha da Itália a
o testemunho de um de seus amigos e prova evidente de sua grande capacidade profis-

Brig. Nero Moura: Patrono da Aviação de Caça 19


Aviadores Brasileiros na Itália
sional. Abandonou a carreira, o futuro, para cair O “voluntário nº 1” do 1º Grupo de Caça,
com o amigo. Bastaria este ato para recomendá-lo por todos os seus méritos, foi e é credor do res-
como um homem de excepcional caráter. peito e admiração, não somente dos seus pares,
Como segundo ponto, cito o fato de haver sido ex-combatentes da FAB e do Exército, mas,
voluntário para defender o Brasil além-mar, também, de toda a nação brasileira que tomou
abandonando invejável posição que desfrutava conhecimento dos feitos gloriosos de um pugilo de
junto ao Presidente e ao Ministro da Aeronáuti- jovens aviadores brasileiros nos céus da Itália”.
ca. A Pátria em primeiro lugar.
O terceiro ponto de Nero Moura foi a lideran-
ça que exerceu sobre seus comandados durante a
guerra e, no regresso, durante a paz. Comandou
o 1º Grupo de Aviação de Caça na Campanha
da Itália, revelando no desempenho de suas 62
missões de guerra, perícia e bravura. É difícil
comandar homens livres em tempo de guerra...
Ele comandou.
Finalmente, podemos afirmar que Nero Moura
foi, além de grande Comandante, um amigo dos
comandados, não somente fora do Brasil, mas até
hoje, sendo o responsável pela chama sagrada que
nos conserva unidos. Nos momentos difíceis, lá e
aqui, manteve-se sereno, tomando sempre decisões
certas com dignidade e a altivez dos grandes chefes.
20 Brig. Nero Moura: Patrono da Aviação de Caça
bidade. Na realidade, um idealista, um ho-
mem que vivia exclusivamente para a sua
profissão, a qual dedicava intenso amor.
O Brigadeiro Nero Moura simboliza o
triunfo da probidade e da inteligência, da
honradez e da cultura, de uma vida mate-
rialmente modesta, mas enriquecida pelo
saber haurido no transcorrer de uma vida
afanosa, mas feliz, que permitiu a esta ex-
Placa em homenagem cepcional personalidade da historiografia
ao Grupo de Caça aeronáutica brasileira, granjear o respeito
e o conceito que sempre desfrutou no seio
Examinando pormenorizadamente as de sua querida Aeronáutica. Seu nome está
diversas fases da vida de Nero Moura, há de destinado a fulgir eternamente na memó-
sempre reconhecer a pureza de ideais que o ria da Força Aérea Brasileira e figurar, para
inspiravam, a nobreza de espírito que o ani- sempre, nas páginas da História do Brasil.
mava, a ausência de desígnios secretos.
Ele exercia um intenso fascínio pelo
simples efeito da projeção de sua per-
sonalidade magnética que irradiava um
sentimento místico de dever profissional,
imune às exaltações da facciosidade pai-
rando acima das paixões e dos embates e
todo ele exclusivamente voltado à gran-
deza da Força Aérea e ao culto da Pátria.
Um homem desprendido, despojado,
sem nenhum apego aos cargos de rele-
vância que exerceu com dignidade e pro-

O Brasil deve a Nero Moura o reco-


nhecimento pela dedicação, competência
e patriotismo que demonstrou, de modo
contumaz, durante toda a sua extraordi-
nária carreira, sem medir esforços para
elevar e honrar a imagem de nosso País
no cenário internacional. Um nome que-
rido e respeitado, uma reserva moral, um
patrimônio de inteireza e caráter.
Brig. Nero Moura: Patrono da Aviação de Caça 21
A presença de suas cinzas mortais Neste ano de 2010, em que comemo-
e seu busto moldado com perfeição, ramos o centenário de nascimento do
localizado na Praça dos Veteranos, na insigne “Patrono da Aviação de Caça”,
Base Aérea de Santa Cruz, é uma prova agradecemos ao Criador por ter brindado
irrefutável da admiração, estima e pro- a Nação brasileira e, em especial, a Força
fundo respeito que toda a Força Aérea Aérea Brasileira, com a majestática figura
dedica ao saudoso e inolvidável guerrei- do mito Nero Moura, um exemplo edifi-
ro alado. cante para brasileiros de todas as épocas.

Manuel Cambeses Júnior


Cel Av Refm
Conselheiro e Vice-Diretor do INCAER

Bibliografia:
Nelson Freire Lavanère Wanderley – História da Força Aérea Brasileira, 2ª Edição, 1975;
INCAER – História Geral da Aeronáutica Brasileira, Volume 3, 1991;
ABRA-PC – Estória Informal da Aviação de Caça, 2003;
Rui Barboza Moreira Lima – Senta a Pua!;
Heróis dos Céus – A Iconografia do 1º Grupo de Aviação de Caça na Campanha da Itália 1944-
1945 – Action Editora;
Um voo na História / Nero Moura – Fundação Getúlio Vargas, 2006;
A Participação da Força Aérea Brasileira durante a 2ª Guerra Mundial – Opúsculo INCAER,
2009;
Entrevista com o Brig. Nero Moura - Revista Aeronáutica, edição nº 141, 1983.

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