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FILIPE EGÍDIO DIAS DO PRADO

A COMORBIDADE ENTRE TDAH E SPA E SUA PREVALÊNCIA EM ADULTOS

LAVRAS, MG
2016
FILIPE EGÍDIO DIAS DO PRADO

A COMORBIDADE ENTRE TDAH E SPA E SUA PREVALÊNCIA EM ADULTOS

Monografia apresentada ao Curso de Pós-Graduação em


Gestão de Pessoas das Faculdades Integradas
Adventistas de Minas Gerais, como requisito parcial
para a obtenção do título de Especialista em Gestão de
Pessoas.

Orientador/coord.: Prof.(ª)/M.Sc./Dr(ª). Lisiane Strumiello.

LAVRAS, MG
2016
Ficha Catalográfica preparada pelo Setor de Processamento Técnico da
Biblioteca Central da FADMINAS

Esta ficha é feita pela Bibliotecária


FOLHA DE APROVAÇÃO DA BANCA AVALIADORA

Esta folha será incluída na encadernação da monografia, após a realização da sua defesa e das
correções sugeridas pela banca.
AGRADECIMENTOS

Agradeço a Deus e a todas as pessoas que Ele colocou em minha vida e que me apoiaram na
realização deste trabalho: minha esposa, minha mãe e meu pai, meu irmão, enfim, minha
família e amigos. A todos vocês, digo: muito obrigado!
RESUMO

O presente trabalho estuda as características da associação (comorbidade) entre TDAH e SPA,


bem como a permanência desse quadro na vida adulta (prevalência), relacionando-as com
aspectos do cotidiano do homem moderno. Analisa as causas e consequências do TDAH e da
SPA em separado e em interação e os métodos preventivos e de tratamento desses quadros
psicopatológicos isolados e em comorbidade, na medida em que critica o estilo de vida
contemporâneo, caracterizado por um maior número de estímulos audiovisuais estressantes
para crianças e adultos. A pesquisa realizou-se por meio de análises bibliográficas de livros e
artigos científicos, tendo sido feita uma revisão de literatura sobre o transtorno do déficit de
atenção e hiperatividade (TDAH) e a síndrome do pensamento acelerado (SPA).

Palavras-chave: Comorbidade; transtorno do déficit de atenção e hiperatividade (TDAH);


síndrome do pensamento acelerado (SPA); prevalência.
SUMÁRIO

1 INTRODUÇÃO...................................................................................................... 8
2 TRANSTORNO DO DÉFICIT DE ATENÇÃO E HIPERATIVIDADE
(TDAH).................................................................................................................. 9
2.1 Causas.................................................................................................................. 10
2.1.1 Tratamento................................................................................................................... 12
3 SÍNDROME DO PENSAMENTO ACELERADO (SPA)..................................... 13
3.1 Causas.................................................................................................................. 14
3.1.1 Tratamento................................................................................................................... 15
4 A COMORBIDADE ENTRE TDAH E SPA.......................................................... 16
4.1 A prevalência da comorbidade em adultos e o estilo de vida
contemporâneo............................................................. 18
5 METODOLOGIA.................................................................................................. 21
6 CONSIDERAÇÕES
FINAIS........................................................................................................ 22
REFERÊNCIAS.................................................................................................... 23
1 INTRODUÇÃO

A comorbidade, definida como a “presença ou associação de duas ou mais doenças no mesmo


paciente”1, é o fenômeno que se pretendeu estudar. Especificamente a associação de duas
doenças psicológicas descritas relativamente há pouco tempo: o transtorno do déficit de
atenção e hiperatividade (TDAH) e a síndrome do pensamento acelerado (SPA).

As patologias acima citadas manifestam-se na infância, e podem permanecer até a vida adulta.
Foram estudadas as características, as causas e as consequências de cada uma delas
separadamente e, também, da associação, da interação de uma com a outra.

A pesquisa seguiu em busca de explicações sobre a prevalência dessas doenças em adultos,


analisando a ocorrência desses quadros psicopatológicos nas crianças das últimas décadas,
procurando entender por que transtornos psicológicos popularmente relacionados com a idade
escolar estão persistindo até a fase adulta.

O Transtorno do Déficit de Atenção e Hiperatividade (TDAH) é uma alteração psicológica


que apresenta uma prevalência no Brasil estimada em 3,5% a 8% entre as crianças em idade
escolar, sendo que os dados sobre sua prevalência na adolescência e na vida adulta são
limitados (BARBOSA et al., 2005, p. 13). Uma vez que afeta um número tão considerável de
crianças, tornam-se necessários estudos constantes para sua elucidação e tratamento.

Quanto ao impacto na vida do indivíduo e à necessidade de tratamento, basta salientar que se


trata de um quadro de evolução crônica com repercussão em diversas áreas da vida e associa-
se com significativo comprometimento funcional em diversos contextos (acadêmico,
profissional, social). Outro aspecto preocupante é a ocorrência de taxas crescentes de
comorbidade psiquiátrica.

Além das comorbidades psiquiátricas, é possível a associação do TDAH com a Síndrome do


Pensamento Acelerado (SPA). Essa patologia foi descrita recentemente pelo Dr. Augusto
Cury, e devido ao fato de suas causas estarem associadas ao estilo de vida, torna-se
perigosamente possível o aumento de sua prevalência em crianças, adolescentes e adultos que
se submetem a uma crescente utilização de estímulos audiovisuais contínuos.

1. “comorbidade”, in Dicionário Priberam da Língua Portuguesa. Disponível em:


<http://www.priberam.pt/dlpo/comorbidade>. Acesso em: 15 de out. 2014.
9

2 TRANSTORNO DO DÉFICIT DE ATENÇÃO E HIPERATIVIDADE (TDAH)

O Transtorno do Déficit de Atenção e Hiperatividade (TDAH) é um quadro psicopatológico


associado popularmente à fase escolar e caracterizado pela dificuldade de determinadas
crianças e adolescentes em se concentrar nas atividades intelectuais, ou mesmo de permanecer
em seus lugares no ambiente de sala de aula. Apesar de ser visto como um mal que acomete
principalmente crianças e adolescentes, a verificação de um número crescente de adultos
manifestando sintomas característicos do TDAH tem instigado pesquisas científicas, como o
presente trabalho, a investigar o que se tem descoberto sobre as causas desse transtorno, bem
como a prevenção e as formas de tratamento.

Faz-se necessário, porém, antes de qualquer outra análise, determinar de modo claro o que
pode ser considerado TDAH, diferenciando-o de simples formas de hiperatividade próprias da
personalidade de algumas crianças em particular, o que não se constitui como objeto do
presente estudo. Nesse sentido, Barbosa et al. (2005) afirmam que:

Como característica diagnóstica essencial, segundo o Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos


Mentais, 4ª edição (DSM – IV), é preciso haver um padrão persistente de desatenção e/ou hiperatividade-
impulsividade, mais frequente e grave do que o observado nos indivíduos em nível equivalente de
desenvolvimento. Além disso, alguns sintomas hiperativo-impulsivos que causam comprometimento
devem estar presentes antes dos sete anos e em pelo menos dois contextos (p.ex., em casa e na escola ou
trabalho), com claras evidências de interferência no funcionamento social, acadêmico ou ocupacional
próprio do nível de desenvolvimento (BARBOSA et al., 2005, p. 11).

É evidente que muito mais que a hiperatividade temperamental, própria de crianças


hiperativas e desatentas que sempre existiram na humanidade sem que constituíssem um
grupo reconhecido como apresentando alterações no comportamento, os casos de TDAH
implicam em sérios comprometimentos em vários contextos do desenvolvimento do
indivíduo, como a interação social da criança, além das dificuldades de aprendizado. Como já
foi dito, o Transtorno do Déficit de Atenção e Hiperatividade (TDAH) é uma alteração
psicológica que apresenta uma prevalência no Brasil estimada em 3,5% a 8%. Tal variação
numérica é explicada por certas dificuldades no diagnóstico. Como Barbosa et al. (2005)
ressaltam:

Essas variações provocam questionamentos relacionados aos critérios diagnósticos de desatenção e


hiperatividade. Inicialmente, devido à subjetividade da avaliação, ou seja, o que para alguém poderá ser
10

um comportamento inadequado pouca importância terá para outro examinador. Diferenças culturais
poderiam também favorecer apreciações distintas, bem como o fato de uma criança, que está habituada
a um ambiente educacional mais permissivo, ser avaliada por um examinador mais rígido. O importante
é que o TDAH associa-se com significativo comprometimento funcional em diversas áreas (acadêmica,
profissional, social) e, à medida que o indivíduo cresce, ocorrem taxas crescentes de comorbidades
psiquiátricas (BARBOSA et al., 2005, p. 13).

Por mais que haja questionamentos quanto aos critérios diagnósticos do TDAH no que diz
respeito à subjetividade, diferenças culturais etc., alguns sintomas estão bem estabelecidos.
Podem-se citar três sintomas clássicos: desatenção, impulsividade e hiperatividade. Segundo
Barbosa et al.(2005):

De acordo com a nomenclatura atual, o DSM-IV3, o TDAH compreende três sintomas principais,
desatenção, impulsividade e hiperatividade, manifestando-se em diferentes ambientes e com
comprometimento funcional. Sabe-se, também, que o TDAH começa no início da vida e pode persistir
na adolescência (85% das crianças) e idade adulta (50% a 70%). A característica mais exuberante nas
crianças pequenas é a hiperatividade, que diminui com o tempo e com o tratamento farmacológico e
psicológico; ao contrário do sintoma de desatenção que aumenta (BARBOSA et al., 2005, p. 14-15).

Como se pode perceber, os sintomas, além de bastante característicos nos acometidos pelo
TDAH, apresentam certa especificidade de acordo com as fases da vida, demonstrando
prevalência na fase adulta, podendo até aumentar a sua intensidade de manifestação como é o
caso do sintoma “desatenção”.

Diante de tudo isso, o que se sabe sobre as causas ou a etiologia do TDAH? Por que
determinadas crianças e indivíduos adultos são acometidos por essa doença e outros não? É
possível evitá-la?

2.1 Causas

Após a revisão de literatura e a pesquisa sistemática realizada, pode-se afirmar que não existe
estudo científico que aponte para uma causa única para o TDAH. O que existe é um conjunto
de causas que podem desencadear o quadro psicopatológico no indivíduo, sendo esse quadro
mais ou menos reforçado de acordo com fatores ambientais. Barbosa et al. (2005)
exemplificam essa variedade de causas possíveis:

Atualmente, é consenso o conceito de que é improvável a existência de um fator etiológico único que, por
si só, possa ser suficiente para determinar o quadro do TDAH. Ele é, portanto, uma síndrome
11

heterogênea, sendo que a etiologia é multifatorial, dependendo de fatores genéticos e adversidades


biológicas e psicossociais. Ele pode advir de fatores exógenos ou endógenos, os quais são responsáveis
por comprometimento cerebral, manifestando-se por alterações funcionais dos sistemas motores,
perceptivos, cognitivos e do comportamento, comprometendo a aprendizagem de crianças com potencial
intelectual adequado (BARBOSA et al., 2005, p. 20-21).

Fatores endógenos e exógenos se integram na etiologia do TDAH. Os aspectos exógenos


podem ser analisados segundo as características do ambiente de desenvolvimento da pessoa
com TDAH. De modo geral, essa análise gira em torno do quanto saudável e equilibrado foi o
ambiente em que a criança cresceu, principalmente no que diz respeito às relações humanas.
Os aspectos endógenos apresentam por sua vez uma maior variação entre os fatores que
podem contribuir como causas para o desenvolvimento do TDAH, podendo variar desde
causas genéticas até exposição a drogas “in útero” (Barbosa et al., 2005):

Como em toda a clínica uma doença atual pode estar relacionada a doenças ou condições mórbidas do
passado que merece então ser pesquisada. Pode haver um histórico de abuso ou negligência, múltiplos
lares adotivos, famílias menos estáveis, maiores taxas de divórcio, exposição a neurotoxinas (p.ex.,
envenenamento por chumbo), infecções (p.ex.; encefalite), exposição a drogas “in útero”, tais como,
cocaína e tabagismo, prematuridade, baixo peso ao nascer, traumatismos cranianos ou retardo mental
associados ao TDAH (IDEM, p. 20).

Todos esses fatores contribuem para a ocorrência do TDAH. Entretanto, excluindo-se os


fatores endógenos ou mesmo na presença destes, observa-se uma variação considerável entre
indivíduos que, com os mesmos graus de predisposição genética, são analisados em diferentes
tipos de ambientes. Barbosa et al. (2005) ressaltam que “a prevalência é mais alta no meio
urbano em relação ao meio rural e aumenta em função de condições socioeconômicas mais
precárias” (p. 14) e ainda afirmam categoricamente que:

Todos os sintomas do TDAH tipicamente pioram em situações que exigem atenção ou esforço mental
constante ou que não apresentam atrativos ou novidades; são também mais prováveis em situações de
grupo (p.ex., no pátio da escola, na sala de aula ou no ambiente de trabalho). Os sinais do transtorno
podem ser mínimos ou ausentes quando o indivíduo se encontra sob um controle rígido, encontra-se num
ambiente novo, está envolvido em atividades especialmente interessantes, em uma situação a dois (p.ex.,
no consultório do médico ou psicólogo) ou enquanto recebe recompensas frequentes por um
comportamento apropriado (IDEM, p. 17).

Todas essas evidências indicam que os fatores ambientais também têm promovido diferenças
significativas entre quadros de TDAH e a intensidade com que se manifestam os seus
sintomas. Isso indica que esses fatores devem ser analisados mais acuradamente.
12

2.1.1 Tratamento

Do ponto de vista farmacológico, o tratamento de indivíduos com TDAH é feito com drogas
psicoestimulantes. O mecanismo de ação dessas substâncias é basicamente estimular
diretamente os receptores de neurotransmissores dos neurônios ou a liberação de dopamina e
noradrenalina pelos terminais sinápticos, indiretamente. Isso indica a necessidade de regular
os impulsos nervosos, que desorganizados podem acelerar o pensamento (hiperatividade) ou
torna-lo mais lento (desatenção). Contudo, tais drogas apresentam algumas limitações.
Barbosa et al. (2005) afirmam:

A característica de meia-vida curta requer pelo menos duas doses diárias para a obtenção de uma eficácia
que perdure o maior tempo do dia, podendo reduzir a aderência ao tratamento. Para permitir uma
administração menos frequente da droga foram desenvolvidas formulações de liberação prolongada do
metilfenidato, que proporcionam uma duração maior de efeito após uma única dose, utilizando tecnologia
farmacêutica apropriada (BARBOSA et al., 2005, p. 31).

A complexidade do cérebro humano e a metabolização das substâncias pela bioquímica


cerebral tornam a ministração de drogas algo delicado, ainda mais em altas doses. Além disso,
em muitos casos outros medicamentos são necessários, o que aumenta a concentração de
drogas no organismo. Por mais que possa haver efeitos adversos, os autores ainda advogam
em favor desse tipo de tratamento ressaltando determinada porcentagem de sucesso:

Apesar de bem estabelecido a eficácia e segurança do uso de psicoestimulantes no tratamento do TDAH,


outros medicamentos são frequentemente necessários. Isto se deve ao fato de que 10% a 30% dos
pacientes podem não responder aos psicoestimulantes ou não tolerar os efeitos adversos. Dentro deste
grupo estão os antidepressivos tricíclicos, bupropiona e a clonidina (alfa-2-agonistas). Cerca de 75% dos
casos de TDAH apresentam melhoras significativas com o uso de alguma medicação (IDEM, p. 33).

Analisando essas porcentagens, e associando-as ao fato de que os índices de TDAH têm


variado em relação ao ambiente em que as pessoas vivem, com uma prevalência maior no
meio urbano em relação ao meio rural, intui-se a necessidade de uma maior valorização do
tratamento psicoterapêutico, através da busca por ambientes mais estáveis e estilos de vida
equilibrados, que sejam adequadamente estimulantes, mas não estressantes. Os mesmos
autores que apoiam o tratamento com psicoestimulantes reconhecem que:

Conforme relatam Toledo e Simão, vários estudos com diferentes técnicas têm demonstrado que a
terapêutica medicamentosa isoladamente não implica em melhoria do sintoma, necessitando de uma
intervenção multidisciplinar envolvendo além de médicos, psicólogos, pedagogos e outros profissionais
que estejam relacionados com a criança no ambiente familiar e escolar (IBDEM, p. 33).
13

3 SÍNDROME DO PENSAMENTO ACELERADO (SPA)

A Síndrome do Pensamento Acelerado é um quadro psicopatológico associado aos sintomas


de hiperatividade e desatenção. Tem sido descrito e relacionado a indivíduos psiquicamente
doentes, acometidos por estresse devido a um volume muito grande e rápido de pensamentos,
o que consome energia cerebral, gerando ansiedade, irritabilidade e, também, sintomas
psicossomáticos associados. Essa descrição tem sido encontrada de maneira mais frequente na
obra do Dr. Augusto Cury, médico psiquiatra e autor de diversos livros em que apresenta a
sua Teoria da Inteligência Multifocal. Segundo ele,

Pensar é excelente, pensar muito é péssimo. Quem pensa muito rouba energia vital do córtex cerebral e
sente uma fadiga excessiva, mesmo sem ter feito exercício físico. Este é um dos sintomas da SPA. Os
demais sintomas são sono insuficiente, irritabilidade, sofrimento por antecipação, esquecimento, déficit
de concentração, aversão à rotina e, às vezes, sintomas psicossomáticos, como dor de cabeça, dores
musculares, taquicardia, gastrite (CURY, 2003, p. 59).

Em sua teoria, o Dr. Augusto Cury defende a ideia de que a construção de pensamentos é um
processo ininterrupto, podendo apenas ser alterada a velocidade com que acontece. Haveria
uma espécie de “autofluxo” constante de pensamentos, cabendo a cada indivíduo gerenciar
esse processo da maneira mais equilibrada possível. Ou seja, o “fenômeno do autofluxo é o
fenômeno que lê continua e diariamente inúmeros territórios da memória produzindo uma
"usina" de emoções e de pensamentos cotidianos” (CURY, 2006, p. 151).

De acordo com a teoria, todo ser humano possui uma “ansiedade vital”, uma característica
saudável e natural a todo ser humano, e que motiva cada pessoa a buscar suas realizações
pessoais. Entretanto, existem também variações dessa ansiedade natural de pessoa para
pessoa. Cury (2006) afirma que:

Embora todo ser humano tenha essa ansiedade vital, ela é qualitativamente diferente de pessoa para
pessoa. As crianças hiperativas ou hipercinéticas têm uma ansiedade vital intensa; por isso, provocam
inconscientemente e de maneira exacerbada os fenômenos que fazem a leitura da memória, gerando um
hiperfluxo de transformações emocionais e motivacionais e uma hiperconstrutividade de pensamentos,
que se expressa na hiperatividade psicomotora (CURY, 2006, p. 152).

Mas quais seriam as causas para a variação da ansiedade vital entre as pessoas? Existiriam
fatores sociais, ou apenas genéticos e relacionados ao desenvolvimento de determinados
traços hereditários pelo convívio com os pais, família e amigos durante a primeira infância?
14

3.1 Causas

As causas da variação da ansiedade vital entre indivíduos podem se relacionar com as causas
da Síndrome do Pensamento Acelerado (SPA). Por isso, é válido analisar quais seriam as
causas da variação da ansiedade vital. De acordo com Cury (2006):

A ansiedade vital está ligada psicodinamicamente tanto à qualidade quanto à velocidade da leitura da
memória e, consequentemente, à qualidade e velocidade dos processos de construção da psique, e
também, consequentemente, à qualidade do processo de formação da personalidade. Diversas variáveis
atuam psicodinamicamente na ansiedade vital determinando seus níveis qualitativos, tais como os
microcampos de energia físico-química determinadas pelo metabolismo neuroendócrino (determinado
geneticamente), o pool de experiências vivenciadas no meio ambiente intrauterino, a qualidade da história
intrapsíquica, a estimulação socioeducacional, a operacionalidade psicodinâmica do fenômeno da
psicoadaptação, etc (CURY, 2006, p. 153).

Assim existe uma relação estreita entre o autofluxo, que movimenta a energia psíquica
lançando mão para isso do metabolismo neuroendócrino, e a ansiedade vital. Isto é, em alguns
casos o autofluxo de pensamentos é tão grande e rápido que o indivíduo manifesta uma
ansiedade psicomotora. Em outros casos o autofluxo é tão intenso que leva a criança a se
distrair das atividades presentes e mergulhar em seu mundo próprio de pensamentos. Desse
modo, tanto o déficit de atenção quanto à hiperatividade seriam faces de uma mesma moeda:
o autofluxo de pensamentos desregulado e a ansiedade vital exacerbada. Cury (2006) comenta
que:

Uns pensam e logo se concentram nas suas tarefas. Outros pensam tanto que se desligam do que estão
fazendo, por isso têm grande déficit de concentração e, consequentemente, se esquecem facilmente dos
fatos cotidianos. Todavia, esse déficit de memória não é neurológico, mas psicodinâmico, portanto não é
grave. Ele é fruto apenas da hiperprodução de pensamentos, situação que ocorre quando alguém vive
intensamente o fenômeno do autofluxo. As pessoas hiperativas e as estressadas frequentemente
apresentam esse déficit de memória psicodinâmico (CURY, 2006, p. 154).

Nesse ponto é importante esclarecer a importância e os papéis da memória nesse quadro


psicopatológico. O fenômeno do autofluxo é um processo contínuo, ininterrupto e
involuntário. Nesse processo existe o encadeamento de correntes de pensamento de forma
rápida a partir de palavras, situações ou sensações que atuam como um gatilho, o chamado
“gatilho da memória”. Desde criança esse processo se dá na mente humana. Ao ouvir, por
exemplo, a palavra “escuro”, uma criança tem automaticamente a sua memória lida e esta traz
15

ao seu consciente, de maneira automática e instantânea, um conjunto de experiências vividas,


e, geralmente, traumáticas relacionadas a ambientes escuros. Isso gera ansiedade e reforça o
medo e seu registro na mente do indivíduo em questão. Nas palavras de Cury (2006):

Milhares de pensamentos são produzidos por dia no palco da mente de um bebê, através das leituras do
fenômeno do autofluxo. Num ano são milhões. Cada pensamento é registrado automaticamente pelo
fenômeno RAM, tornando-se um pequeno e precioso tijolo da arquitetura do "eu". Quando uma criança
de três anos diz que tem medo de ficar num quarto fechado, esta pequena reação fóbica não é produzida
apenas pela palavra medo, mas pela consciência do medo, uma consciência que é gerada pela leitura
instantânea de milhares de informações contidas na sua memória, ligadas à ausência de sua mãe,
insegurança, sentimento de solidão, vazio, angústia (CURY, 2006, p. 155).

O registro automático de memória (RAM) torna impossível que, após uma experiência seja
vivida, as lembranças desta sejam deletadas ou apagadas da memória, a não ser por traumas
ou doenças que levem a perda da memória. Isso sugere um grande problema para o ser
humano, principalmente para aqueles que sofreram traumas psicológicos e vivem em
ansiedade, pois:

O fenômeno do autofluxo lê multifocalmente a história intrapsíquica, produzindo em grande parte do


processo existencial diário, inúmeras matrizes de pensamentos essenciais históricos. Essas matrizes
atuarão no campo de energia emocional e motivacional, produzindo uma usina psicodinâmica de emoções
(...) sem a determinação consciente do eu, ou seja, através de mecanismos psicodinâmicos espontâneos
que envolvem a ansiedade vital, a estimulação da energia motivacional, a leitura da história intrapsíquica,
a formação das matrizes dos pensamentos essenciais, a leitura virtual dessas matrizes, a produção de
pensamentos dialéticos e antidialéticos na esfera da virtualidade ou da perceptividade (IDEM, p. 157-
158).

A mente humana é, por assim dizer, fotográfica no que diz respeito ao registro de situações e
experiências, sobretudo aquelas que envolvem emoções mais intensas como o medo ou a
euforia. Contudo, uma vez registradas automaticamente na memória as experiências
traumáticas vividas desde a vida intrauterina, que geram ansiedade e que não podem ser
apagadas serão fardos que os seus portadores terão que carregar a vida toda? Que tratamento
pode ser realizado?

3.1.1 Tratamento

Independentemente de quaisquer experiências e traumas que um indivíduo possa ter, a sua


mente é dotada, além dos mecanismos automáticos e involuntários descritos acima, de
16

consciência existencial ou autoconsciência. A principal forma de tratamento de traumas e


desequilíbrios patológicos como ansiedade exacerbada, desatenção, hiperatividade, segundo a
teoria multifocal é o conhecimento desses processos psíquicos, para que se possa tanto quanto
possível ter controle e redirecionar os pensamentos para uma abordagem mais racional do
medo ou problema. Segundo o autor da teoria:

Os estímulos extrapsíquicos provocam primeiramente a atuação do fenômeno da autochecagem da


memória, que produz cadeias de pensamentos essenciais, dialéticas e antidialéticas e, depois, acionam o
fenômeno do autofluxo. Ao observar o comportamento de uma pessoa (estímulo extrapsíquico),
produzimos o primeiro grupo de pensamentos através do fenômeno da autochecagem da memória; porém,
o segundo grupo de pensamentos será fruto do gerenciamento do eu ou do fenômeno do autofluxo. Se o
segundo grupo de pensamentos foi aleatório, sem uma agenda lógica e coerente, ele normalmente foi
construído pelo fenômeno do autofluxo (CURY, 2006, p. 158-159).

De acordo com Cury, a consciência existêncial ou o “eu” deve ser estimulado em cada
indivíduo para que cada ser humano possa se analisar e avaliar mais criticamente e
racionalmente seus objetivos, necessidade, medos e ansiedades. É evidente que em crianças
muito novas esse é um processo diferenciado, trabalhado de forma pedagógica, mas que deve
ser adaptado para a realidade delas, a fim de que desde cedo estejam se desenvolvendo
indivíduos que conheçam a condição humana, conheçam as suas mazelas, seus traumas
pessoais e respeitem isso nos seus semelhantes, entendendo, também, os princípios
psicológicos de tratamento para esses pensamentos mórbidos.

4 A COMORBIDADE ENTRE TDAH E SPA

Ao se observar as descrições de ambos os quadros psicopatológicos, podem-se perceber


muitas semelhanças, principalmente no que diz respeito às causas externas. Estas se
relacionam com ambientes estressantes e traumáticos em que crianças podem se encontrar
desde a vida intrauterina. Dentre esses ambientes com características estressantes, destaca-se
aqueles próprios do dia-a-dia contemporâneo, em que se verifica a existência de um grande
volume de estímulos audiovisuais contínuos no cotidiano de crianças, desde os primeiros anos
da infância até a adolescência e vida adulta.
17

Tanto o TDAH quanto a SPA estão relacionados, na grande maioria das vezes, ao estereótipo
da criança agitada, hiperativa, que não larga o videogame, tablet, computador etc, e demonstra
pouco interesse por atividades em sala de aula que não envolvam atividade física ou uso de
tecnologia audiovisual. Isso porque o ato de submeter-se a tão alto grau de estímulos
audiovisuais desenvolve uma dependência por cargas iguais ou maiores de estímulos dia após
dia e a produção de neurotransmissores que eles produzem. Quase como um vício em
narcóticos, as maiores concentrações de neurotransmissores gerados pelos estímulos
audiovisuais contínuos criam um desejo cada vez maior pelo efeito psicoestimulante da
bioquímica cerebral acelerada. De acordo com Cury (2003):

A maior consequência do excesso de estímulos da TV é contribuir para gerar a síndrome do pensamento


acelerado, SPA. Nunca deveríamos ter mexido na caixa preta da inteligência, que é a construção de
pensamentos, mas, infelizmente, mexemos. A velocidade dos pensamentos não poderia ser aumentada
cronicamente. Caso contrário, ocorreriam uma diminuição da concentração e um aumento da ansiedade.
É exatamente isso que está acontecendo com os jovens. A ansiedade da SPA gera uma compulsão por
novos estímulos, numa tentativa de aliviá-la. Embora menos intenso, o princípio é o mesmo que ocorre
na dependência psicológica das drogas. Os usuários de drogas usam sempre novas doses para tentar
aliviar a ansiedade gerada pela dependência. Quanto mais usam, mais dependentes ficam (CURY, 2003,
p. 58).

Esse enorme fluxo de imagens e pensamentos pode ser prazeroso em certos momentos, mas
como é próprio do uso de psicoestimulantes, após determinado tempo as quantidades usadas
não fazem mais efeito, e a ausência dos estímulos audiovisuais é recebida com irritabilidade e
pouco interesse pelas “monótonas” atividades de sala de aula. Cury (2003) afirma:

A síndrome SPA gera uma hiperatividade de origem não genética. (...) Quais são as causas da SPA? A
primeira, como disse, é o excesso de estímulo visual e sonoro produzido pela TV, e que atinge
frontalmente o território da emoção. Notem que não estou falando da qualidade do conteúdo da TV, mas
do excesso de estímulos, sejam eles bons ou péssimos. A segunda é o excesso de informações. Em
terceiro lugar, a paranoia do consumo e da estética, que dificulta a interiorização. Todas essas causas
excitam a construção de pensamentos e geram uma psicoadaptação aos estímulos da rotina diária, ou seja,
uma perda do prazer pelas pequenas coisas do dia-a-dia. Os portadores da SPA estão sempre inquietos,
tentando garimpar algum estímulo que os alivie (CURY, 2003, p. 60).

O resultado não poderia ser diferente: pergunta-se aos “professores com mais de dez anos em
sala de aula se eles percebem que os alunos atuais estão mais agitados que os do passado, e a
resposta unânime é afirmativa” (CURY, 2003, p. 58-59). Esses alunos podem ser
considerados desinteressados ou hiperativos, e, até mesmo, diagnosticados como acometidos
pelo TDAH, quando na verdade muitos deles estão sendo vítimas das causas da SPA, e têm
18

manifestado seus sintomas. Um dos mais terríveis deles é o cansaço devido ao excesso de
informações que bombardeiam o homem contemporâneo desde a infância. Isso gera uma
grande dificuldade em tranquilizar a mente e encontrar a paz interior para crianças e adultos.
Cury (2003) traz alguns interessantes dados sobre isso:

Com respeito ao excesso de informação, é fundamental saber que uma criança de sete anos de idade da
atualidade tem mais informações na memória do que um ser humano de setenta, há um ou dois séculos. Essa
avalanche de informações excita de maneira inadequada os quatro grandes fenômenos que leem a memória e
constroem cadeias de pensamentos. Quem tem SPA não consegue gerenciar os pensamentos plenamente, não
consegue tranquilizar sua mente (CURY, 2003, p. 60).

Contudo, tanto os acometidos pela SPA quanto pelo TDAH podem tratar esses quadros
através da mudança de estilo de vida e da escolha consciente, pois até mesmo as “crianças (...)
são frequentemente capazes de controlar os sintomas com esforço voluntário ou em atividades
de grande interesse” (BARBOSA et al., 2005, p. 27).

4.1 A prevalência da comorbidade em adultos e o estilo de vida contemporâneo

Quanto à prevalência desse quadro comórbido de TDAH e SPA em adultos, basta um pouco
de observação e análise do estilo de vida contemporâneo para concluir que este é um campo
promissor para o aumento dos casos de hiperatividade e/ou déficit de atenção devido à rotina
estressante. O TDAH em meios como esse pode até superar as estimativas de sua prevalência
em adultos, que vem sendo estimada entre 2% a 7% (BARBOSA et al., 2005, p. 28).

Crescer em ambientes estressante, saturados de estímulos audiovisuais contínuos poderá,


também, aumentar a proporção de crianças que continuam a apresentar os sintomas de
desatenção até a fase adulta. Barbosa (2005) destaca que:

Estudos longitudinais realizados nos últimos 10 anos mostram que 30% a 70% das crianças com TDAH
continuam a apresentar o mesmo comportamento na fase adulta, porém, com o crescimento, os sintomas
de hiperatividade tendem a diminuir, mas os sintomas de desatenção permanecem constantes
(BARBOSA et al., 2005, p. 14).

Algumas estimativas, entretanto, indicam que a desatenção pode até aumentar com o avanço
da idade. O mesmo autor ressalta que a “característica mais exuberante nas crianças pequenas
é a hiperatividade, que diminui com o tempo e com o tratamento farmacológico e psicológico;
ao contrário do sintoma de desatenção que aumenta” (BARBOSA et al., 2005, p. 15).
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Associando esse dado com o fato de que a “prevalência é mais alta no meio urbano em
relação ao meio rural e aumenta em função de condições socioeconômicas mais precárias
(BARBOSA et al., 2005, p. 14), tem-se uma evidência muito forte de que o estilo de vida
caracterizado por maiores índices de estimulação audiovisual artificial – próprio do ambiente
urbano – é responsável, pelo menos em parte, pela prevalência da comorbidade TDAH/SPA
em adultos residentes nas cidades. Isso porque é onde se encontram mais comumente os
fatores causa (intensa estimulação audiovisual, poluição visual e sonora, trânsito, cotidiano
mais agitado e estressante etc.).

Apesar de parecer uma verdade auto evidente, muitos têm fechado os olhos para os fatos,
talvez por entrarem em choque com seus interesses comerciais e econômicos, mantidos pelo
mercado de produtos tecnológicos, que parece crescer na medida em que desenvolve maiores
formas de interação e excitação através das funções interativas de aparelhos eletrônicos e
jogos digitais.

A própria televisão sobrecarrega o córtex visual das pessoas desde a infância, pois o “excesso
de estímulo visual e sonoro produzido pela TV (...) sejam eles bons ou péssimos (...) [implica]
que uma criança de sete anos de idade da atualidade tem mais informações na memória do
que um ser humano de setenta, há um ou dois séculos” (CURY, 2003, p. 60). Isso tem
sobrecarregado determinadas regiões do cérebro responsáveis pelo armazenamento da
memória visual, e feito dos jovens de atualmente uma geração de corpos jovens com cérebros
mais “velhos”, “cansados”, sem disposição para atividades mentais com pouca estimulação
visual, como a leitura.

Matérias sobre as deficiências de redação dos alunos brasileiros percebidas na prova do


ENEM circulam na mídia, indicando consequências nefastas desse processo de desinteresse
pela leitura formal. A despeito disso, não há incentivo a um uso equilibrado da tecnologia.
Como Cury (2003) comenta:

Muitos cientistas não percebem que a SPA é a principal causa da crise na educação mundial. Ela é
coletiva, atinge grande parte da população adulta e infantil. Os adultos mais responsáveis apresentam
uma SPA mais forte e, por isso, ficam mais estressados. Por quê? Porque têm um trabalho intelectual
mais intenso, pensam mais, são mais preocupados (CURY, 2003, p. 59).

Assim, na medida em que são feitas maiores exigências às pessoas no que diz respeito ao
desenvolvimento de seu potencial intelectual e profissional, o modo como isso tem sido
conduzido vem afetando a sua saúde física e mental. O homem contemporâneo entrou em um
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círculo vicioso em que quanto mais precisa se dedicar ao trabalho, mais seus filhos têm sido
expostos aos entretenimentos digitais, saturados de estímulos audiovisuais estressantes.
Crescendo sob os “cuidados” dessas babás eletrônicas, as crianças de hoje se tornarão os
adultos estressados de amanhã, e a comorbidade TDAH/SPA será objeto de cada vez mais
estudos.
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5 METODOLOGIA

Primeiramente deve-se explicitar que o método que caracteriza a presente pesquisa é o


qualitativo. Esta pesquisa foi realizada por meio de análises bibliográficas de livros e artigos
científicos, a fim de concluir uma revisão de literatura sobre o transtorno do déficit de atenção
e hiperatividade (TDAH) e a síndrome do pensamento acelerado (SPA).

Com isso, pretendeu-se determinar se existe na literatura científica evidência de que esses
dois quadros psicopatológicos estão em associação na maioria dos casos atualmente, o que se
denomina comorbidade.

Por fim, pretendeu-se analisar se os dados das pesquisas realizadas até o presente momento
são consistentes o suficiente para confirmar ou refutar a hipótese de que a prevalência dessa
comorbidade é mantida nos indivíduos pela submissão contínua de crianças, jovens e adultos
a um alto volume de estímulos audiovisuais estressantes. Isso feito, houve espaço para uma
breve discussão sobre os impactos psicológicos e sociológicos causados pelo estilo de vida do
homem contemporâneo.
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6 CONSIDERAÇÕES FINAIS

Uma das motivações para a escolha do tema do presente trabalho foi a percepção de que,
apesar da realidade estressante do mundo contemporâneo ser algo reconhecidos por todos,
poucos são os que relacionam esse fenômeno com o uso indiscriminado de tecnologia
audiovisual no dia-a-dia. Os quadros de estresse muitas vezes são sintomas de psicopatologias
mais complexas como o TDAH e a SPA, e essas doenças psicológicas podem estar mais
ligadas a causas ambientais do que se imagina.

O TDAH tem sido tradicionalmente explicado por fatores endógenos e exógenos, sendo que
nestes últimos não consta como algo relevante a influência de estímulos audiovisuais
estressantes contínuos. A SPA, por sua vez, em sua conceituação dada pelo Dr. Augusto Cury
está totalmente relacionada com esses fatores ambientais contemporâneos, e uma associação,
ou comorbidade com quadros de TDAH é algo totalmente plausível, dada a semelhança dos
sintomas e pelo fato de possuírem em comum o substrato orgânico onde ocorrem as
alterações, isto é, o córtex cerebral, com sua formação de pensamentos e impulsos nervosos
que podem estar mais ou menos acelerados.

A única deficiência nessa teoria – algo certamente significativo e necessário – é a falta de


apoio experimental. Entretanto, essa realidade parece estar mudando devido a um sensível
aumento de publicações de experimentos que dão sustentação a essa hipótese. Entre esses
estudos, podem-se citar dois deles que foram mencionados pela Dra. Susan Greenfield em
entrevista concedida à revista “Ser Médico”, do Conselho Regional de Medicina do Estado de
São Paulo, n.62, Jan-Mar 2013.

Nessa entrevista, a neurocientista e professora de farmacologia sináptica na Universidade de


Oxford e de fisiologia no Lincoln College, Inglaterra, mostra os perigos para a saúde quando
há excesso de uso da internet. Para respaldar suas afirmações, ela relata a existência de dois
trabalhos científicos que trazem resultados que confirmam a hipótese de que estímulos
audiovisuais em exagero têm prejudicado a saúde psicológica e física do ser humano. Um
deles foi realizado pelo cientista Fuchun Lin, da Academia Chinesa de Ciências (revista
PLOS One, 2012), e concluiu que “jovens que navegam demais nas redes apresentam
mudanças cerebrais semelhantes àquelas verificadas em compulsivos por jogos de azar.” O
outro estudo foi realizado pela cientista Daphne Bavalier, da Universidade de Rochester,
EUA, (Neuron, 2010), e “mostra a grande correlação entre exagero no computador e
anormalidades cerebrais.” (p.8).
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A Dra. Susan Greenfield em uma das suas últimas considerações afirma que “Se o ambiente
for limitado a duas dimensões, visão e audição, por um período de dez horas diárias ou mais,
o cérebro terá seu funcionamento modificado. ... Conexões podem ser perdidas e, com elas, a
oportunidade de tornar-se uma pessoa normal.” (p.7). Declarações como essas vindas de
respeitáveis neurocientistas tendem a aumentar à medida que novos estudos forem realizados.
Assim, fazem-se necessárias novas pesquisas científicas para a elucidação de até que ponto os
estímulos audiovisuais têm gerado estresse no ser humano, e contribuído para transtornos
psicológicos como a comorbidade TDAH/SPA, que tem acompanhado pessoas desde a
infância até a vida adulta.
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REFERÊNCIAS

BARBOSA, L. F. et al. Síndrome do pensamento acelerado (SPA) e transtorno do déficit


de atenção e hiperatividade (TDAH): revisão da literatura. 2005. TCC (Especialista em
Psicanálise e Inteligência Multifocal) - Faculdade Michelangelo e Instituto Saber, Brasília
(DF), 2005. Disponível em:
http://scholar.googleusercontent.com/scholar?q=cache:j9WBYRsngP8J:scholar.google.com/+
revisar+na+literatura+a+s%C3%ADndrome+do+pensamento+acelerado+&hl=pt-
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CONSELHO REGIONAL DE MEDICINA DO ESTADO DE SÃO PAULO. Ser médico,


São Paulo, n.62, p. 4-8, jan./mar. 2013. Disponível em:
http://www.cremesp.org.br/?siteAcao=Revista&id=648. Acesso em: 20 de jan. 2016.

CURY, A. J. Inteligência Multifocal: Análise da Construção dos Pensamentos e da


Formação de Pensadores. 8ª ed. rev. São Paulo: Ed. Cultrix, 2006. 454p. (e-book).

CURY, A. J. Pais Brilhantes, Professores Fascinantes. Rio de Janeiro: Ed. Sextante, 2003.
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DE SOUZA, Isabella GS et al. Dificuldades no diagnóstico de TDAH em crianças. J. Bras.


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POETA, L. S.; ROSA NETO, F.. Estudo epidemiológico dos sintomas do Transtorno de
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3, p. 150-5, 2004. Disponível em: http://www.scielo.br/pdf/rbp/v26n3/a04v26n3.pdf Acesso
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SABOYA, Eloisa et al. Disfunção executiva como uma medida de funcionalidade em


adultos com TDAH. J Bras Psiquiatr, v. 56, n. supl 1, p. 30-3, 2007. Disponível em:
<http://www.scielo.br/pdf/jbpsiq/v56s1/a07v56s1.pdf> Acesso em: 16 ago. 2014.

TOLEDO, M. M.; SIMÃO, A. Transtorno e Déficit de Atenção/ Hiperatividade. In:


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