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JOÃO PEREIRA COUTINHO

CONSERVADORAS
EXPLI CADAS A
REVOLUCIONÁRIOS
E REA CION ÁR IOS

TRÊS
ESTRELAS
Há muito não se publicava um
pequeno grande livro como
este. João Pereira Coutinho é
um autor desassom brado ao
l i dar com as de li ca dez as da
teori a e um exp ositor m eti cu -
loso ao dar dimensão terrena
aos conce i t os q ue anali sa. Que
outra qualidade se deve exigir
do p ensad or a não s er evi tar
que o b arateam ento d as i dei as
passe por cl areza e a ob scuri-
dad e, por sa bed oria superi or?
Edm und B urke é o Vi rgí l i o de
Couti nho, o personag em que o
conduz pelos círculos, fossos
e vales em que se tentou exi-
l ar o pensam ento conservador,
confundido ora com reaciona-
rismo, ora com anacronismo.
Nas duas perspectivas, o con-
servador o u ser i a um cad áver

adi ado ou j á um fantasm a.


Coutinho expõe a gênese e
as ver tent es do pensam ento
conse rvador e m ergulha, com
destreza, no epicentro de um
equívoco, que pode ser resu-
mido na seguinte indagação:
afi nal, o que t an to se q uer co n-

servar, as injustiças?
Na ver dade , con servadores
querem preservar instituições
que abri gam regr as de con-
vivência para que, na luta de
todos contra todos, em vez de
se r a vi olência a p arteira da his-
tóri a, com o si nteti zou Han nah
A rendt ao se referi r a M arx, que
a partei ra sej a a ne goc i ação 
que reforma o que nos opõe e
fort alece o que nos une.
As idéias conservadoras
explicadas a revolucionários e reacionários

/
João Pereira Coutinho

As idéias
conservadoras
explicadas a revolucionários
e reacio nário s

^ TRÊS
^ ESTRELAS
Cop yrigh t © 2014 Três Estrelas - selo editorial da Empresa Folha da Manhã S.A.

Todos os direitos reservados. Nenhuma parte desta obra pode ser reproduzida, arquivada ou
transmitida de nenhuma form a ou p or nenhum meio sem a permissão expr essa e po r escrito
da Empresa Folha da Manhã S.A., detentora do selo editorial Três Estrelas.

editor A lc ino Leite Neto


editor - a s s i s t e n t e Bruno Zeni
coordenação de produção gráfica Ma riana M etidi eri
produção gráfica íris Polachini
capa Eliane Stepha n
imagem deca pa O filósofo e político irlan dês Edm und Burke , em gravura do
livro Histoi re de France populaire, de Henr i Martin, publicado n o sécu lo XIX - Rue des
Archives/L atinstock
projeto gráfico d o miolo Mayumi Okuyama
preparação leda Lebensztayn
revisão Ca rm en T. S. Costa e Lila Zanetti
índice remissivo Cacá Mattos

Dados Internacionais de Catalogação na Publicação (c i p )


(Câmara Brasilei ra do Livro, sp , Brasil)

Coutinho, João Pereira


As idéias conservadoras exp lica das a revoluc ionários e reacionários /
João Pereira Coutinho. -- São Paulo: Três Estrelas, 2014.

isbn 978-85-65339-25-4

1. Ciências políticas 2. Cons ervad orismo 3. Ensaios po líticos


4. Filosofia pol ítica 1. Título.

14-00526 CDD-320

índice para catálogo sistemático:


1. Ensaios políti cos 320

Este livro segue as regras do Acordo Ortográfico da Língua Portuguesa (1990)»


em vigor desd e 12 de janei ro de 2009.

i
TRÊS
ESTRELAS
A l. Barão de Lim eira, 401, 62 an dar
c e p 01202-900, São Paulo, sp
Tel.: (11) 3224-2186/2187/2197
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w w w .e ditora 3est re la s. co m .b r
Sumário

8 Q u a tt o r d ic i: um a int rodução

20 A ideologia conserva dora

32 Im perfeição hu m ana

42 O sentido da realidade

56 O s tes tes do tem po

66 A reforma prudente

80 A “s oci edade com ercial”

96 Conservador es ou m onom aníacos: um a conclusão

107 Notas
115 Bibliografia
119 índ ice rem issivo
125 Agradecimentos
127 So br e o aut or
“Sometimes”, said Julia, “I feel the past and the future pressing so
hard on either side that there’s no room for the present at all.”*
EVELYN WAUGH, B RI D E S HE A D REVISITED (1945)

* “Por ve zes”, disse Julia, “sinto o passa do e o futur o pressionan do ta nto em


am bos os lados que já não sobra espaço para o prese nte.”
Quattordici:

uma introduçã o
O conservadorismo não existe. Existem conserva dorism os, n o plu
ral, porq ue plurais foram as difer entes expressões da ideolo gia

no tem po e no espaç o. Um a história talv ez ajude a não perder o


pé. No b reve e delicioso C on serva ti sm [Conservadorismo] (1956),
o filó sofo e poe ta am erican o Peter Viere ck rel embra a história
do antigo rei do Piemonte-Sardenha, que deambulava pelas
ruas do reino m urm urando demencial mente a pal avra ottantott.
Para o infeliz monarca, tud o seri a perf eito - ou, pelo menos,
mais perfeito - se o m un do pudess e voltar a 1788, às vésp eras da
Revolução Francesa.1 O ttan tott, expressão em italiano dialetal do
Piem onte que significa “ oiten ta e oit o”, era a utop ia d o rei des
troçado, exem plo pungente d e que nem só os revolucionários
de esquerda têm direito a cultivar as suas u topias. C om o se verá.
Essa história é importan te po r dois motivos fundamentais. O
primeiro, evidente em qualqu er manua l de idéias políticas, por que
radica na Rev olução Francesa de 1789 a emerg ência do con serva
dorismo mod erno com o ideologia. Veremos no p róxim o capítulo
se o conserva dorism o pod e ou não ser um a ideologia; e, em caso
afirmativo, que tipo de ideo log ia ele será. Por ora, entreta nto, n ão
vale a pena cansar o digníssimo leitor com divagações arcanas.
9
Interessa apenas a firmar que a R evo luçã o Francesa, e a reação a
ela personificada no irlandês Edmund Burke (1729-1797), permitiu
que o conservadorismo se autonomizasse como uma resposta
antirrevolucionária e , no ca so de Burke , antiutópica tam bém .

Quase apeteceria dizer que uma das consequências mais feli


zes do ano de 1789, para além da encomenda de Cosí F a n T u tte a
Mozart, f oi a emancipação do conserv adorism o com o ideologia
política: em Paris, ele saiu finalmente da ca sa dos seus pais.
O que não significa, obviamente, que a casa paterna não
tenha sido importante para que o jovem emancipado apren

desse os primeiros passos, as primeiras letras, as primeiras


maneiras. São vários os autores que, em busca de alicerces
teóricos sólidos para o conservadorismo moderno, recuam a
manifestações mais antigas. Anthony Quinton emerge dessa
galeria como o arqueólogo p a r e x c e lle n c e . Lemos Aristóteles,
lemos Cícero, lemos To más d e A qu ino - e encontramos ves
tígios de um pensam ento conservado r, inarticulado com o tal,
que não nasceu apenas com a vigorosa e influente resposta
antirrev olucion ária de Bur ke.2
E, po r falar em Burke , con vém não olhar par a o escritor
e parlamentar irlandês como o primeiro homem a pisar o
planeta conservador. Como sustenta ainda o mesmo Quin
ton em T h e P oli ti cs o f Im perf ect ion [A política da imp erfeição]
(1978), um tratado de rigueur para qualquer interessado na
matéria, Burke se situaria sensivelmente no meio de uma
tradi ção britânica que começa em Richard Hooke r, no século
xvi, e se estende até Michael Oakeshott, no século xx.3Com
a devida vênia a lorde Quin ton, eu m e arri scari a tam bém a

10
esticar um po uc o mais o m an to e a aum entar a lista, incluin 
do Roger Scruton e John Kekes em pleno século xxi. Burke
pod e ser o precursor do conser vado rism o m oderno . Mas, antes
de iniciar essa tradição, ele é parte de um a tradição.

Só que a história do rei que murmura ottantott com a


de sola ção própria dos n áufra gos n ão se limita a apon tar 1789
co m o o ano fundam ental (e fundaci onal) par a a em ergência
do conservadorism o m odern o co m o ideol ogia políti ca. In te
ressa também analisar a atitude do rei: a crença desesperada
de quem via no regres so ao stat us qu o anterior a salva ção para
a desordem posterior. É uma atitude que permite não apenas
a distinção óbvia ent re o pensam ento rev olucionário e o p en 
sam ento an tirrevol ucionário, mas que i lumina igualm ente a
diferenç a entre d ois tipos de pensam ento an tirrevolucionário.
O mesmo Viereck, partindo dos exemplos tutelares de
Burke e Joseph de Maistre (1753-1821), designa o primeiro como
“espírito mod erado” e o segu nd o co m o “reação intolerante”. 4
É um a bo a dist inção, apesar de algumas limitaçõe s: ao escre
ver as suas R e fle x õ e s s o b r e a R e v o lu ç ã o n a F r a n ça [R e fle c tio n s o n
the Revolution in France] (1790), Burke dedicou-se na primeira
parte da obra a reagir intolerantemente contra as inovações
filosóficas e de strut ivas - ou, m ais preci samente, destrutivas
p o r q u e f ilo s ó fic a s - que os fra nceses experim entavam em Pa ris.
V iereck tem razão se o “e spírito m od erad o” se ap li
car com mais propriedade à segunda parte das R e f le x õ e s e,
sobretudo, aos textos finais de Burke: o irlandês podia ser,
aos olho s dos se us i nim igos jacob inos, a encarna ção m ais
próxima do diabo. Porém mesmo Burke, um opositor da

11
Revolução Francesa desde a primeira hora, não deixou de
admitir que ela talvez viera para ficar. E que de nada valia
procu rar ou repetir ottantott até a insanidade p orque o “espí
rito do tem po ” mu dara e não v oltaria para t rás. Nas pal avras

de Burke - palavr as que não deixaram de provoca r séri o


prur id o i nte le ct ual em a leg ad os conse rvador es5 “se uma
grande mudança é para ser feita nos assuntos humanos, as
mentes dos homens adaptar-se-ão a ela, as opiniões e os sen
timen tos gerais con fluirão para esse destin o”. E ele con clui
melancolicamente:

Todos os medos, todas as esperanças a seguirão; e aqueles que


persistirem em se opor a esta poderosa corrente nos assuntos
humanos parecerão resistir aos próprios decretos da Providência
e não tanto aos meros desígnios dos homens. Não serão resolutos
e firmes, mas perversos e obstinados.6

Eis a linha que separa um conservador de um reacio


nário. Porque, apesar de Joseph de Maistre contemplar
igualmen te es sa possi bilidade - a Re voluçã o er a um ca stigo
divino que se abatia sobre a licenciosidade dos franceses,
não cabendo a matéria tão ímpia questionar os insondáveis
desígnios do Altíssimo -, seu propósito era, ainda e sem
pre, o de reverter a desordem revolucionária pela punição
dos seus agentes demoníacos e pela restauração do Trono
e do Altar.
Como escreveu Maistre em suas Considerátions sur la
F r a n c e (1797):

12
Só o Rei, e o Rei legítimo, levantando do alto do seu trono o cetro
de Carlos Magno, pode extinguir ou desarmar todos os ódios,
frustrar todos os projetos sinistros, classificar as ambições pela
classificação dos homens, acalmar todos os espíritos agitados e

criar subitamente em torn o do p oder essa muralha m ágica que


se assume como a sua verdadeira guardiã.7

Não será de espantar que essas palavras, talhadas à medida


dos que não aprendem nada nem esquecem nada, tenha m sido
particulamente revisitadas e aplicadas na segunda década da

Restauração na França (1814-1830), quando Carlos x decidiu


abolir algumas das conquistas “liberais” (a separação do Esta
do e da Igreja, a liberdade de expressão, a existência de uma
Câ m ara de Deputado s etc.) que o seu anteces sor, L uís x v m ,
pelo m en os tentou res peitar a contrag osto. O s resultados não
foram edificantes.

Afirm ei no início que o conservadorism o não existe. Existem


conservadori sm os. O present e ensaio c om eça por ser apenas a ver
são de um deles, filiando-se à tradição co nserv ador a britânica.
Essa filiação apr esenta um a vantagem - e um no vo problema.
Com o vantagem, o conservadorism o britânico, globalm en
te considerado, parece ter sido capaz de reconhecer ao longo
da sua hist ória com o o espírit o revolucion ário não era um ele
mento exclusivo do “jacobinismo” nas suas múltiplas encarna
ções. Olhando para o outro lado do Canal da Mancha, era
possível encontrar pensadores à dir eita, e m esm o p ensadores

13
conservadores de direita, que repetiam e procuravam, com
particular estridência, os seus personalíssimos ottantott. A pri n
cipal diferença entre esses pensadores, e tal como acertada-
mente defende Noél 0’Sullivan, residia em saber se esse estado

de perfeiç ão se situa va no p assado (com o para o refe rido Mais -


tre ou para o seu conte m por âne o L ouis de B onald) o u se se ria
antes um a promess a messiâni ca para o futur o (como nos na cio-
nalism os de M aurice Barrè s ou Charles Maur ras). “Em qualquer
dos caso s”, conclu i 0’Sul livan, “é o elem ento utóp ico in trod u
zido na ideologia conservadora pela procura de limites com

pletamente objetivos sobre a vontade humana que explica a


com pleta inabil idade d a extrema dir eita para acomo dar o m un 
do m odern o”.8
O conservad orismo b ritânico sempre t end eu a olhar com
higiênica distância para essas violentas condenações do pen
samento revolucionário e utópico que passavam, paradoxal
mente, pel a im pos ição de novas e revolucionárias utopias. Te rá
sido essa dist ância que, ainda segu nd o 0’Sullivan , perm itiu ao
conse rvad orism o britânico um apreci ável gr au de acei tação e
de coexistência pacífica com a nova sociedade emergente das
revoluções francesa e industrial.9Que isso nem sempre tenha
sido at ingido p elos prim os id eológ icos da Euro pa cont inental,
eis uma fata lidade que a história do sécu lo x x se encarregaria
de elevar a trágicas altur as.
A filiação na tradição co nservadora britânica poderá ali
mentar a idei a de que tamb ém aqu i falamos de um b loc o id eo 
lógico un iforme, co m posto po r Edmund Bu rke e todos os seu s
fiéis herdeiros. Nada estaria mais longe da verdade. Não que

14
W illia m W ordsworth (1770-1850) ou Samuel Coleridge (1772-
-1834) ou Thomas Carlyle (1795-1881) tenham deixado de recla
ma r es sa herança . Mas , à semelhança d o que acon teceu com
alguns d os au toproclam ados herdeir os continentais de Bur ke,

a herança foi muitas vezes dissipada em lamentáveis projetos,


m esm o que e stes não tenham vingado com o grau de sucesso
(ou, corrigindo, de in su ce ss o ) que fo i possí vel contem plar e m
outros países europeus.
Na sua feição mais extrema, o antiparlamentarismo de
Carlyle e o culto por vezes irracionalista de um “heroísmo”
carism ático co m o fonte da auto ridade e da legi timidade po lí
ticas aproxim am o autor d e outras á guas - que estão longe
do tradicionalismo constitucional de Burke. Soa estranha a
ouv idos burkeanos a proclam ação tonit ruante de Carly le d e
que “a adoração do Herói, feita diferentemente em diferentes
épo cas do m undo, é a alma de todo s os trat os sociais entr e os
ho m en s”.10C om o soa estr anh o saber q ue a biografia hag io-
gráfica que Carlyle escreveu sobre Frederico da Prússia tenha
sido a última leitura de Hitler no b u n k e r .11 Um p orm eno r que,
na verdade, nada t em de anedótico.
Nã o é preciso, entretanto, che gar a essas cores fo rtes para

mostrar as diferentes tonalidades que existem no interior da


mesm a tela conser vadora. Outr os autore s, inegavelmente mais
mo derad os, continuam , apesar de tudo, afast ados de Bur ke em
muitos aspectos relevantes, mesmo que reclamem a decisiva
influênc ia deste. O reqor rente des con forto do estimáv el Ben ja-
min Disraeli (1804-1881) pera nte a “socied ade comercia l” do seu
tem po é apenas o melho r exem plo dessa “dissonân cia” em face

15
de Burke. Um a “dissonân cia” que con tinu aria a s e man isfestar
em sucessivas lide ranças conservad oras na segunda metade do
século x x - até Margare t Thatcher . N ão admira que , ao ch egar
à liderança do partido (em 1975) e do país (em 1979), Thatcher

tenha despertado as mais inflamadas críticas, não apenas


dos seus adversári os po líti cos de esque rda, mas também , o u
sobretudo, daqueles que s e intitulavam os “genuínos conse r
vadores”. Para autores com o Roger Scruton (em T h e M e a n in g o f
C on serva ti sm [O significado do conservadorismo], 1980) e, em
especial, Ian Gilmour (em D a n c in g w it h D o g m a [Dança ndo com
o dogm a], 1992), Thatcher teria atraiço ado o co nse rva doris mo
ao a dota r política s “ne olibera is” (o que quer que isso s eja) que
eram incomp atíveis com o respei to primordial por val ores ou
tradições havia mu ito estabeleci dos.
Não sei se entre esses “valores” ou “tradições” estaria o
autoritarism o, por vezes violento, dos sindi catos; ou o háb ito
alarmante de usar as ro tativas do b an co centr al par a susten 
tar a dívida (e a inflação). Mas compreendo as acusações dos
“genuínos conserva dores”: co m o na história d e Oscar W ilde, a
econ om ia brit ânica podia r egres sar ao m un do dos vivos depois
do estado comatoso em que Thatcher encontrou o país em

1979; co nt ud o o retrato da família cons ervad ora desfigurava


dentro do armário.
Voltarei a esse ponto crucial no pen últim o capítulo deste
ensaio, no qual as relações tensas entre o con serva do ri sm o e o
ca p italism o serão revisitadas. Por ora, importará apenas notar
como Scruton ou Gilmour em nenhum momento parecem
admitir, nem sequer com o hipótese, que a abertura d e Thatcher

16
à “sociedade co m ercial” a coloc av a mais próxim a de Burke do
que os “genuínos conservadores” imaginavam. E que talvez
fosse o Partido Conservador que, durante demasiado tempo,
tivesse se afast ado da m atriz burkeana.

Será essa matriz que procurarei retomar nas páginas


seguintes. P or dois m otivo s - um pessoal , outro substantivo.
De u m pon to de vista pessoal, Edmund Burke f oi objeto
de estud o de minh a tese de do uto ram en to,12 o qu e desde logo
con stitui uma, digamos, “ vanta gem com petitiva”. Para relem
brar as sábias palavras de W in ston Churchill, talvez o segredo

da longevidade esteja mesmo na poupança de energia. Ou,


co m o ele também afirmava, pa ra que e star de pé qu ando po de 
mos estar sentados? E para que estar sentados quando pode
m os estar d eitados?
Regressar a Burke permitiu-me navegar em águas fami
liares, não direi deitado, mas, pelo menos, confortavelmente
sentado. Neste livro pude agora apresentar, de forma mais
sist emática, alguns princípio s que na t ese eram apenas aflora
dos, ou enquadrados, no contexto específico do pluralismo
político do autor, e que, até o momento, tinham conhecido
apen as tratam entos disp erso s em artigo s va ria d os ,13 sem o
níve l de unidade que se pretende aqui.
Burke é importante para a discussão conservadora, não
apenas pela sua primazia cron ológ ica, mas pela sua sobrev ivên 
cia temporal. Ao partir de um acontecimento revolucionário
(e traumático) nã história m odern a, ele foi capa z de legar alguns
princ ípios ger ais que, para usar a conhec ida form ula ção conser
vadora, sobreviveram aos “testes do tem po”. E, sobrevivendo,

17
oferecem valiosos ensinamentos para o pensamento e para a
ação política presentes. Como relembra David Willetts em
M o d e m C o n se r v a tis m [Conservadorismo moderno], aprender
alguma coisa com um a tradi ção que foi capaz de evitar os males

do radical ismo revolucionário ou d o revanchismo reacionário


- no fundo, um a trad ição que pode se orgul har de não te r san
gue nas sua s m ãos - é tarefa alt am ente recomendável para
todos os tempos e lugares.14
Não é am bição deste ensaio revis itar cada um desses prin 
cípios gerais do conservadorism o bur kean o - tarefa que exigi ria

outra amplitude edi torial. A am bição é mai s modes ta: pro cu 


rar mostrar c om o, a partir de Burke , é possível constru ir um a
m elodi a conservadora contem porâ nea em torno de conc eit os com o
“imperfeição humana”, “pluralismo”, “tradição”, “reforma” e
“sociedade comercial”. Isso significa que, daqui em diante, o
termo “conservadorismo” estará indissociavelmente ligado
ao co nservad orismo de Burke, m esm o que i nteg rando impo r
tantes contribuições de pensadores anteriores ou posteriores
a ele (nem sempre conservadores).
Para regressar ao desolad o rei, ottantott é um lugar dist ante.
O tt an tan ove tamb ém. O con servadorismo , co m o ensina Michael
Oak esh ott em um ensaio que analisar ei a seguir, deve com eça r
pelo present e: pela fruiçã o e con serv açã o deste presente, ainda
que o pass ado e o fu turo se projetem aqui e agora.
Neste ano da graça de 2014, quattordici é uma b oa palavra
para o in ício de uma convers a.
18
A ideologia
conservadora
Todos somos conservadores. Pelo menos, em relação ao que
estimamos. Família, amores, amigos. Lugares, livros, memó-
rias até. C on serva r e d e sf r u ta r sã o dois verbos caros aos hom ens
qu e ainda estimam a lgum a coisa. E , em alguns esp íritos, esse s
verbos são conjugados com m aio r intensidade e frequência, a
po nt o de se transforma rem na sua gramática essenci al.
Eis os hom ens de d is p o s iç ã o conservadora, para usar a elo-
quente formulação de Michael Oakeshott no clássico ensaio

“O n B eing C ons erva tive” [Sobre ser conserv ador] (1956). An tes
de ser “ ideolo gia” ou “ do utrin a”, a intenção do autor é apresen-
tar o conserva dori smo co m o um a disposi ção - um a form a de se r
e agir que leva rá o co ns erv ad or a “usar e desfrutar aquilo que
está disponível, em v ez de desejar ou p rocu rar ou tra co isa”.1
Naturalmente que o conservador sabe, ou pelo menos intui,

que essa “outra coisa” po de ter virtudes apreciáve is. E, em t eo -


ria, é possível imaginar qu e tais virtudes p ossam suplantar os
confortos do presente.
Um homenVde disposição conservadora, porém, tenderá
a valorizar primeiro esses confortos do presente. Não por-
que eles sej am superiores a um a alter nativa hipotética, mas,
21
precisamente, p o r q u e eles n ã o s ã o u m a a lte r n a tiv a h ip o té tic a . São
reais, tan gíveis. Familiare s. E a pos sibilida de de os perd er em
situações de mudança, e sobretudo de mudança violenta e
repentina, afigura-se como uma privação fundamental. Para
um conservador, só abraçam entusiasticamente a mudança,
qualquer mudança, e consequentemente qualquer po ssib i
lidade de perda, “aqueles que são estranhos ao amor e ao afe
to”.2E con clui Oak eshott em passagem repet idamente glosada
nos manuais do tema:

Ser conserva dor, então, é preferir o familiar ao desco nhecido , o


testado ao nunca testado, o fato a o mistério, o atual ao possí vel,
o limitado ao ilimitado, o próximo ao distante, o suficiente ao
abundante, o conveniente ao perfeito, o riso presente à felici
dade utópica.3

Essas conhecidas pa lavras d e Oak eshott procura m re co 


lher e sintetizar o que vários autores do câ none con serva dor já
tinham articulado em obras de fôlego divers o. São i ncontáveis
os tratados sobre o c on serva doris mo que, n as páginas inici ais,
evitam com apreciável esforço a palavra “ideologia” e tudo o
que el a parece significar: um sistema de valores ou princíp ios
gerais que, na melhor tradição marxista, não deseja apenas
interpretar o mundo, mas, sobretudo, transformá-lo.
Para Qu intin Hogg, o con serv ado rism o é “uma força inte
rior e con stan te”4 da natureza hu m ana. N o m esm o sentido,
Foss ey John C obb Hearnshaw aprese nta o conserva dorism o
com o “um tem peramen to”. 5S tanley Baldwi n vai mais longe,
22
falando de uma “fé”, muito semelhante à fé religiosa,6uma
car acter izaçã o que ev ita, providencialmen te, qualquer aná lise
raciona l do fenômeno. Para o escritor John Buc han, o conser
vadoris m o é um “espírito”;7 ou, melhor ainda, um “in stinto”,8
nas palavras de Walter Elliot. E Hugh Cecil, prenunciando a
“disposição” de Oakeshott, entende que o conservadorismo
seria mais bem entendido co m o “uma inclinação pura e natur al
da mente humana”.9
Todas essas definições parecem apontar para o mesmo
sentido: o conservadorismo apresenta uma dimensão exis

tencial que é ante rio r, ou até super ior, a qua lquer ideolo gia
política. Mai s ainda: o con serva dorism o não é um a ideologia,
preferindo encontrar refúgio identitário em “forças interio
res”, “temperamentos”, “fés”, “espíritos”, “instintos”, “incli
naç õe s” - e, claro, “ dis po siçõ es”. A fuga à ide olo gia é de tal
form a generalizada e premen te para e ssa longa galeria d e co n

servadore s - uma fuga que te ria mesm o levado o primeiro-


-ministro britânico S alisbury a pensar em crim inaliza r todo
tipo de pensamento a bstrato1 0- que por vezes é impossível
distinguir com alguma clareza a disposição conserv ado ra do
conservad ori sm o p olí ti co.
A superior validade do ensaio de O akeshott também resi
de aqui : na capacidade que o a utor teve par a op erar essa suti l
distinção. Tão sutil que ela nem sempre foi res peitada o u obser
vada pelos próprios conservadores, para quem um a disposição
conse rvad ora chegava e sobrava para ence rrar o debat e.
Acontece que, por mais paradoxal que pareça, a d isposi
ção conservador a e o con servadorism o político nem sempre
23
coexistem no mesmo indivíduo. E não é preciso apelar para
nenh um trat ado filos ófic o para com provar ess a saga z ob serva
ção. Basta olhar em volta . Basta olhar par a o no sso “pequ eno
pe lot ão ”. Basta olhar para nós. Existem pessoas que, ap esar de
uma dispo sição conserv adora, não sub screvem necessariamen
te uma preferência p o lític a pelo conservadorismo. E o inverso
também sucede: pessoas de disposição mais radical nas suas
personalíssimas condutas que, politicamente falando, subs
crevem p osições conser vadoras. No último capítul o voltare i a
essa distinção de Oakeshott, que se rá mais bem com preend ida
com o con clusã o lógica das páginas que a antecederam.
Por enquan to, im porta apenas a firmar que es te ensaio se
ocupa do con servadorism o po líti co, ou seja, da atuação p olí
tica do a gente conservador. E com eça r p or defini r essa atuaç ão
será reconhecer que, embora uma disposição conservadora
nem sempre implique uma pref erênc ia pelo conservad orismo

político, a verdade é que uma política conserv adora tenderá a


partilhar os traços caract erísti cos da disposição con servad ora
to u t co u rt . Tal com o os hom ens de disposição conservadora, o
conse rvado rism o po líti co tam bém transpor tará pa ra a esfera
da governança esse gosto pelo próximo, pelo suficiente, pelo
conveniente - recusando a “fe licid ade utóp ica” que é tí pica da
atitude revolucionária.
Um a disposição política conservadora, no entanto, não
recusa apenas as ambições utópicas (e futuras) dos revolucio
nários. Ela permite, igualmente , distinguir o conser vador da sua
caricatura habitual: o reacionário. Nas pal avras de Anth on y Qu in-
ton, o reacion ário não se rá mais do que um “revolu cioná rio do
24
avesso”:11 alguém interessado em efetuar um corte semelhante
com o “riso presente”, de forma a precipitar a sociedade, não
para um a “felicidade utóp ica” futura, mas para um a “feli cidade
utó pic a” passada. No fun do, e co mo escreve Samuel Huntington

em Co nservati sm as an l deo logy [Conservadorismo como ideolo


gia] (1957), um influente ensai o pu blic ado n os Estados Unid os
um ano depois do de Oakeshott:

Não existe uma distinção válida entre “mudar para trás” e “mudar
para a frente”. Mudança é mudança; a história não se retrai nem

se repete; e toda a mudança se afasta dostat us quo . À medida que


o tempo passa, o ideal do reacionário distancia-se cada vez mais
de qualquer sociedade real que tenha existido no passado. O pas
sado é romantizado e, no fim, o reacionário acaba por defender o
regresso a uma Idade de Ouro idealizada que nunca de fato existiu.
Ele torna-se indistinguível de outros radicais, e normalmente exibe
todas as características singulares da psicologia radical.12

As palavras de Huntington são importantes porque relem


bram um a verdade que os reacionários tendem a esquecer: a
utopia, entend ida como um estado de perfeição a ser cons truído
po r vontade dos homens, não é exclusi vo dos revolucionários
que eles tanto abominam. Histórica e conceptualmente, e tal
como Isaiah Berlin deixou claro nos seus melhores textos, é
possível encontrar radicais utópico s nos dois extremos do h ori
zon te polít ico. Histor icamente , porque o pensamento utó pico
semp re projetou no passado o u no futuro a “solução final” para
as iniquidades que afligem o presente.13 E, conceptualmente,

25
porqu e reacionários e revolucionários parecem atribuir às suas
particulares utopias as mesm as feições ext eriores: um m un do
harm onioso , está tico e onde os ho men s, porque dotados de
um a na tureza fixa e in alteráv el, desejam n ecessariamente as
mes ma s co isas.14
Um conservador tenderá a recusar essas fantasias, que
partem de uma dupl a fal ácia superiormen te desmontada pelo
referido Berlin: por um lado, a falácia de que os homens pos
suem uma natureza fixa e inalterável e que, por isso, desejam
neces sariam ente as mesm as coisas; e, po r outr o lado, a falácia

corres pon den te de que os valores mais caros à exi stência hu ma
na pode m ser vivenciados na sua expressão máx ima (a má xim a
liberdade, a m áxim a igualdade, a má xim a frate rnidade ) sem
possibilidade de conflito entre eles. Uma revisitação melan
cólica do tenebroso século x x é suf icie nte pa ra contemp lar a s
ruínas mate riais e humanas que o pen same nto utópico, po rque

m on tado nessa dupl a falácia, acab ou fata lmente po r produzir.


O conservadorismo político recusa os apelos do pensa
mento utópico, venham eles de revolucionários ou reacioná
rios. Mas o conservadorismo não se limita apenas a recusar
esses apelos utópicos, que fazem da fuga para o futuro (ou
para o passa do) um programa de ação no mo men to prese nte.
O conservad orism o, por entender o potencial d e violência e
desumanidade que a polít ica utópica transport a, irá tam bém
reagi r defensivamente a t ais apelos - e “reagir” é a palavra cr u
cial par a entender o co nservad orism o c o m o id eo lo g ia .
Foi novam ente Huntington qu em me lhor apres entou es sa
natureza reativa do conservadorismo co m o ideo log ia, mesm o
26
sabendo que a palavra é um anátema para muitos conserva
dores. A multiplicaçã o de “forças i nteriores”, “tempe ram ento s”,
“fés”, “espíritos ”, “instin tos” ou “inclina çõe s” é a exp ressã o
mais evide nte desse descon forto em perceber o con serv ad o

rism o co m o um a ideol ogia. Um d esconforto que l evou Fr ie-


drich Hayek, ironicamente tido hoje como um membro da
família conservadora (sobretudo nos Estados Unidos), a
exp licar nas páginas finai s do seu magistral estudo Th e Cons -
ti tuti on o f Liber ty [A con stitu ição da liberdade ] (1960) po r que
motivo n ã o era um con servad or. E a recusa de Hayek em se
sen tir parte do clube liga- se, entre outras ra zõe s, ao fa to de o
conservadorismo ser, pelo menos aos olhos do ilustre eco
nomista, uma ideologia destituída de “princípios motrizes
cap azes de inf luenci ar desen volvim entos a long o p ra zo ”.15
É exatam ente p or isso, acusa Haye k, que o co nse rva do r “teme
nova s idé ias porque não tem princípios disti ntiv os próprios
para se opor a elas”.16
Ora, a importân cia pione ira do ensaio de Hu ntington está
na defesa explícita de que o con serv ado rism o também é um a i deo
logia, m esm o se admiti ndo que o conservadorismo não apresen 
ta esse “ideal substantivo”17 e que não é possível encontrar na
história das idéias uma “utopia conservadora”18propriamente
dita. Só que, para ele, essa ausência de uma cartilha apriori (e de
“conservad ores u tóp icos ” dispostos a lut ar e até a morre r por
ela), para além de ser um a virtu de em si m es m a, revel a também
o tipo de ideologia que o conse rvad orism o será: um a ideologia
que, ao c ontrário das ri vais, tenderá ap enas a emergir q uando
“os fund am entos da sociedad e são am eaçad os”.19

27
Essa natureza vigilante e reativa será mais facilmente
apree nsív el quand o confro nta rm os a i deologia conservadora
com as restantes. “Os id eais das ideolo gias n ão con serv ad oras ”,
escreve o auto r, “mud am de pen sad or para pensador e de gera

ção para geração, m as a s sua s característi cas fun dam entais


perm anecem as me smas : a atri buição de valor a form ulações
teoricamente definidas e o julgamento da realidade existente
de acordo co m essas form ula çõe s”.20
De fato, e deixando de lado os casos extremos das ideo
logi as rad icais, com o o com un ism o ou o fasc ismo, m esm o

ideologias não radicais como o liberalismo ou o socialismo


dem ocrático pare cem com ungar dest a observação de Hun-
ting ton: um liberal ou um soci alist a dem ocrático poderão ali
nhava r, sem grand e difi culdade, os p rincíp ios que orient am as
suas idéias ou ações políticas, independentemente do co nte xto
em que elas se inscrevem. A defesa da liberdade ou da igual
dade ser á tão rele vante para um liberal ou para um socialist a
dem ocrático do séc ulo x ix com o será par a um liberal ou par a
um social ist a dem ocráti co do século x x i. O liberal ismo e o
socia lism o dem ocrático, apesar das suas múltiplas roupagens
temporais ou espaciais, são capazes de partilhar um ideário

que lhes confere um a recon hecível identidad e. E, pela mesm a


ordem de idéias, um a sociedad e será t ão m ais des ejável quan to
maio r for a liberdade (pa ra um liberal) ou a igualdade (para um
socialista democrático) nela existentes.
Isso não parece acontecer na ideologia conservadora. “O
conse rvado rismo é uma ideo logia posicio nai”, explica Hun-
tington, na medida em que proc ura “enfrentar um a necessidade

28
histó rica específic a”. Consequentem ente, “ quan do essa neces 
sidade desaparece , a filosof ia con serv ado ra su bm erg e”.21
Enganam-se assim os que pensam que o conserva doris mo
nã o é um a ideologi a. Pa ra Huntington, ess e engano r ecorren
te só po derá ser explicado se partirm os do pressu posto de que
todas as ideologias têm de ser obrigatoriamente “ideologias
idea cion ais”, 22 ou se ja, ideo logia s que pro cur am cu m pr ir em
socie dade um programa o u u m ide ári o polít icos. O fat o de o
conservadorism o, pela sua natureza reativa e p o s ic io n a i, não
ser um a ideologia ideacional não signi fic a que el e nã o é tam 

bém um a id eologia.
O conservadorismo poderá ser assim apresentado como
um a “ideologi a de emergência” - e no duplo sent ido da expres
são: po rqu e emerge em face de um a amea ça específica de car á
ter rad ical; e porque o faz quan do essa ameaça põ e em risco
os fundamentos institucionais da sociedade. Quando, na sua

autobio grafia inte lectual, o filóso fo Roger Scruton con fessa que
se descobriu conserva dor ao confrontar- se com a insur reição
de Maio de 1968, em Paris, 23 ele apenas retom ava u m velho
cardápio ini ciado por Bur ke no fi m do século x v m , e também
a propósito de um acontecimento francês (et po ur ca us e. ..): a
Re volu ção de 1789. Será perante a Revoluçã o que o parlamentar
irlandê s irá elabor ar a s uprem a defe sa conserva dora. N ão em
nom e do pas sado ou do futuro - mas e m nom e do p re se n te da
civilização europeia e, em particular, da própria estabilidade
política do Reino Unido.
A s R e fle x õ e s so b re a R e v o lu ç ã o n a F r a n ça serão escritas em
1789 e pub licadas no ano seguinte - ant es de os jaco bin os
29
com eçarem a guilhotinar os s eus ini m igos , r eais ou im a
ginários, com assombrosa industrios idade. Ma s Burke vis
lum brou nos princí pios dos revoluci oná rios o ger m e de
abuso e violência que eles inevitavelmente plantariam na
Fra nça . A Revolução lanç ava- se na busc a de um a perfeição
terrena por meios exclusivamente humanos; tratava-se,
co n for m e ele a designou, de um a “revo luçã o filosó fica”, 24
em que os revolucionários, ali cerçados em doutri nas p o lí
ticas abstratas sobre os “direitos do homem”, encaravam a
comunidade como se esta fosse uma carte b la n c h e 25 para as

suas visõ es da perfeição .


A reação de Burke - a reação conservadora de Burke -
com eça assim p or se ap resen tar con tra a radi calidade de quem
pro cur a des truir o presente para inscrev er, sobre a s suas ruí
nas, nova s formas de org an izaçã o política. Um a atitude revo 
lucionária, e não apenas reformista, que convid aria sempre a

renovados ato s de des truição. Q ua n do está em causa a per


feição da humanidade, faz parte do processo revolucionário
não questionar a de smesura dos m eios e a fer ocidade com
que eles são aplicados. O prêmio final é demasiado precioso
para inspirar condutas de mo dera ção. E, além disso, “os m eios
criminosos, uma vez tolerados, são rapidamente os prefe
ridos ”.26Na s sua s R efle x õ e s , Burke antecip ava a lóg ica sinistra
des sa violên cia “necessária” e “pu rificadora ” que os m o vi 
m entos total itári os do século x x levariam a out ros extremos
de desumanidade.
O conservadorismo pode ser encarado, portanto, como
um a ideologia. Mas não s erá uma ideologia id ea cio n a l e ativa,
30
co m o as r estantes. Aceitan do co m o princípio de análi se a pr o-
po sta de Hunti ngton, o conse rvado rismo será antes uma id eo-
logia p o s ic io n a i e reativa: é perante uma ameaça concreta aos
fun dam entos institucionais da sociedade q ue a ideolo gia con -

serv ad ora d esperta, reage e se de fine.


31
Imperfeição
humana
Todos somos conservadores, repito. Mas, pela mesma ordem
de idéias, todos podemos ser criaturas reativas, que acordam

do seu sono profun do sempre que uma ameaça ronda as no s-


sas instituições e os nossos valores mais preciosos. “Reagir”,
por si só, significa pouco, embora seja o primeiro passo para
defender o que s e encontra sob ameaça.
Existe, porém, um segun do p asso a que Huntington não
co nce de a atenção devida: saber c omo reag e o con ser va do r e,
sobretudo, em nom e d e que será tão importante qu anto reafirmar
a singul arid ade t eór ica do con servadorism o c om o ideologi a
posicionai. Conforme acertadamente defende Scruton, a ausên-
cia de “políticas conservadoras” a priori não equivale a uma
correspon dente ausênci a de “ pensam ento conser vado r” sobr e
políticas con cretas que p odem (e devem) ser seguidas e m concreto.1
A reação conservadora, lo nge de ser apenas um a expressão
primitiva de medo e repúdio em face da inovação rev olucioná -
ria (ou rea cionári a), será inform ada po r certos prin cípio s gerais
que determinam o tipo de reação conservadora.
Em T h e Po liti cs o f Im perf ect ion, A nth ony Q uinton ident ifi-
cou nas páginas inaugurais o primeiro princípio estrutural

33
do conser vadori smo - a im p e r fe iç ã o h u m a n a -, anali sando em
seguida as duas correntes que terão emergido dessa mesma
font e. U ma primeira corrente, de ca riz reli gioso, que s e limita
a reafi rmar a imperfeição do ho m em depoi s da Queda; e uma
segund a corren te, que pref ere ress altar a imperfeiçã o in te le c tu a l
que ma rca indele velmente a nossa espécie.
O presente ens aio não é uma diss ertação te ológica - e tam 
bém por isso convém deixar qualq uer interp retação sobre o
pecad o srcinal e suas consequên cias par a os t eólogos. N ão
apenas porque eles parecem mais bem preparados para lidar

com tais a ssuntos, mas sobretudo porqu e não é necessári o


apelar para a Cidade Celeste de form a a explicar as imperfeiç ões
da terrest re. O que exi ste cá em ba ixo chega e sobra para def inir
os limites epistem ológico s dos sere s hum ano s. São ess es limites
que, segundo Quinton, desautorizam “projetos de mudança
grand iosos e abstr atos levados a cab o p or pensadores isolados
das realidades práti cas da vida p olític a”.2
So mos imper feitos, in tele ctu a lm en te imperfeit os, não po rqu e
tenham os na scido li vres e nos e ncontrem os aprisio nados em
toda parte (a célebre pro clam açã o de Jean-Jacques Rou sseau
que não é mais do que um a corru ptela bíblica sobre a queda do
homem ), mas porque a com plexidade dos fenôm enos sociai s
não pode ser abarcada, muito menos radicalmente transfor
mada rumo à perfeição, por matéria tão precária.
N ão se pr etende com isso d izer que a ideologi a co nser 
vadora nega a possib ilid ade de m elhoria das condições ter
renas - isso ser ia, no mínim o, historicamente obtuso. Porqu e
a crítica conservadora não poderá ser confundida com uma

34
crítica antirracional. O problema, para o conservador, não
reside no papel i nsubsti tuível da razão com o instrum ento de
qualquer conhecimento válido e consequente. Como avisa
Oak eshott, a crítica conserv adora lidará não com a razão, mas
com o racionalismo, entendi do co m o um a subvers ão da razão.
O u, talvez de f orma m ais pr ecisa, com a ambição desmedi da
de atribuir à razão a tarefa hercúlea de construir e recon struir
a sociedade hu man a de for m a radical e perfeita.3 Não é a razã o
p e r se que inspira a crítica conse rvad ora; é, tão só, a arrogân cia
do ra cionalism o mode rno e a sua ideia nefasta de “possibili dade

infinita” 4na condu ção racional dos assu ntos hum anos.
Essa imp ortante distinção será mais f acilmente com pree n
sível se regr essarmos ao lugar de todos os crimes - a Revolução
Frances a de 1789 -, b em co m o aos seus opositores e defe nsore s
coe vos . Sobr etudo aos escritos de Burke e James Mac kintosh
(1765-1832), um jovem autor qu e, antes de re con hecer a validade
da crítica antirrevolucio nária do autor de R e fle x õ e s so b re a R e v o -
lução na França (um reconhecim ento tardio que s eria tamb ém
partilhado por Coleridge ou W ordswor th), com eçou num a fase
inicial por ser um dos mais vigorosos críticos do parlamen
tar irlandês. Pa ra Mackin tosh, Burke exibira nas R e fle x õ e s uma
inco m po rtáve l anti pat ia à razão, recusando a est a qualquer
papel na atividade polític a racional. O ra, para Mackin tosh, e tal
co m o o autor afirma na s ua V in diciae G all icae (1791), “é absurdo
esperar , m as não é absu rdo pro cu rar a pe rfeiçã o”.5 E, em tal
quimera, a razã o terá o papel central na medida em que “a geo 
metria, pod em os justam ente diz er, t em a mesm a relação par a
a mecâ nica que o raciocínio abstrato pa ra a política ”.6

/ 35
Eis a posição que Burke não poderia aceitar. Não apenas
porque a funçã o da políti ca nã o é responder às perguntas dos
metafísicos (uma certeira observação de Scruton),7mas sobre
tudo p orque nã o é possíve l reduzir o s problemas d e um a co mu
nidade a simple s equações ou p ostula dos que a razão acabaria
po r resolver p or si s ó.
Esse, aliás, é o pro blem a epis tem oló gico central do ra cio-
nalismo moderno, tal como o denuncia Oakeshott: a defesa
apaixonada de que o único tipo de conhecimento válido é o
“conh ecim ento técnico”, ou o con hecim ento de uma téc nica,

cap az de oferecer aos hom ens u m grau de certeza ( e de pureza)


que o “conhec im ento p rático” (ou tradicional ) não co m po r
ta.8Foi essa confiança cega na “teoria”, e apenas na “teoria”,
que levou Alexis de Tocqueville (1805-1859) a denunciar nas
páginas de O A n ti go R egi m e e a R evol ução (1856) a criminosa
ambição dos revolucionários de fazerem uma Constituição

de acordo com as regras da l ógica - e não com a observação,


a pru dên cia e a experiência, que são virtude s insubstituíveis
do exercício po lít ico.9Aqu i res idi a o problema fun dacional
da Revoluçã o Fra ncesa: confun dir a pol íti ca com um cálculo
m atemático; e os se res hum ano s de um a com unidad e re al
com enunciados de um a mera equação. T udo e m no m e de
um estado p erfeito qu e, obvia mente, existi a apenas na cabe ça
dos filósofos.
Trata-se, no fundo, de uma grotesca caricatura sobre a
com plexid ade da rea lidade política, próp ria de quem se de ixa
em briagar pela “ filosofia da vaidade ”10- a vaidade do otim ism o
racionalist a. É pela recus a de um a tal caricatura que o pen sa
36
mento conservador procura recentrar a discussão política na
imperfeição intelectual dos seres humanos.
Um a imperfeição que tende a operar-se em dois níve is, co n
form e defende Robert Merton em ensaio cl ássico sobre as conse

quências imprevistas da ação social.11 Em primeiro lugar, essa


imp erfeição huma na co me ça p or revelar-se nas óbvias limitações
epistemológicas do agente político, que muitas vezes erra na
análise da situação que se lhe apresenta; ou na escolh a do m elho r
curs o de ação a se guir; ou na forma com o executa essa açã o12- as
margens de erro são várias e lidam co m a vida de se res humanos
concretos, não com simplificações numéricas ou abstratas.
Sabem os menos d o que pensam os, e erramos m ais do que
devemos, começa por relembrar o conservador. Ou, como
escreve Burke em carta a Pierre-Marie, Chevalier de Grave,
ministro da Guerra francês por um breve período em 1792,
antes do clássico exíl io na Ing laterra: “Sa be po uc o d a hu m an i
dade a que le q ue não concede um desconto à nossa com um e
inevitá vel fraq uez a”.13
Mas à nossa imperfeição intelectual não se refere apenas
às limitações epistemológicas de quem não se julga um ser
onisc iente, que ol ha para a re alidade terrena s ub sp ec ie a ete m ita tis.

O m es m o M erton fal a ainda de “consequ ências f or tu ita s”14na


ação social, ou seja, de consequências que escapam ao agente
no momento em que este decide atuar politicamente. Essas
“consequên cias fortuitas” referem- se não ao conh ecim ento que
possuímo s - mas ao conheci m ento q ue n ão possuímos porq ue
n ã o o pod em os obter antecipadamente. E que pode subvert er
de form a trágica as mais nobre s intenções primev as.

37
N o fu ndo , Merton re visit a no seu ensaio a s dua s qu estões
centrais que Burke formulara na sua carta ao amigo francês
Char les-]ean- Fran çois Depont, u m jovem mem bro da As sem 
bléia N acional que esperava encontrar em Burke um com pag non

de route no en tusiasmo pel a revoluçã o par isiense . A carta de


Burk e, que s erá expandida com ou tro d ramatismo e violên cia
nas R e fle x õ e s propriamente dit as, com eça por questi onar dire 
tamente o interlocutor francês sobre as imperfeições inte
lectuais dos hom ens na busca quim érica e incontrolada d e um
estado de perfeição ter rena. Serão os hom ens capazes de atin
gi-lo? E, mesmo que o fossem, como garantir que existe uma
ligação direta entre aquilo que se deseja, por mais nobre que
seja, e aquilo que se obtém no final? Não haverá sempre a
possibilidade de um lamentável abismo entre as (melhores)
inte nçõ es e as (piores) con clu sõ es? 15 Os ensaios m od ern os de
lor de Q uin ton e de Mert on limitam -se a repro duzir , em lin
gu age m mais siste mátic a, o que Burke pl asmara na su a infor
malidade epistolar.
Burke , entretanto, não se restringiu a quest ionar; tam bé m
julgou por bem responder. Se os h omens são intelectualmente
imperfeitos, então espera-se de um estadista que ele possa

exibir certas virtudes que estã o ausente s nas condu tas dos
revolucionários. “Humildade” e “prudência” serão assim o
contrá rio da “arrogância” e da “imprud ência ” com que a Fra nça
abis mara o m undo.
E com a defesa de tais virtudes não se pretende susten
tar que a posição conservadora remete toda e qualquer ação
hum ana para o inevit ável fracasso. O ce ticism o conservador não

38
é um a forma d efat ali sm o - nem, a ri gor, d e pes si m ism o. O filósofo
John Kekes é m erit ório ao esta belec er a distinção entre “ o que
v a i acontecer” e “o que p o d e ac on tece r” na ação po lítica .16 A o
alert ar par a a imp erfeição intele ctual humana , a pos ição co n
servad ora deve ser entendida co m o u m apelo d e quem relembra
a segun da form ulaç ão de K ekes: há consequên cias imprevistas
(e imprevisíveis) que podem ser indesejadas (e indesejáveis).
Naturalmente que algumas dessas consequências até podem
ser benignas (Kieron 0’Hara, socorrendo-se recentemente dos
ensinamentos do economista Douglass North, recorda que a

com plexidade das soci edades m odernas acabar á po r implicar


que os resultados indesejados existirão concomitantemente com
os desenvolvimentos positivos).17 Porém a atenção conserva
dora se centr ará nos prim eiros p or entende r que a política não
é um jo go de cassi no em que se aposta livremente “ a essênci a
e o sangue dos outros”. E conclui Burke:

Não posso elogiar aquele bem especulativo que será produzido


com üma boa dose de mal. Eu penso que é possível que planos que
oneram a geração presente em nome do enriquecimento do futuro
podem produzir o que almejam, mas também podem falhar, e o
mal é certo.18

O reconhecimento da imperfeição intelectual humana


conv ida assi m o agen te conser vado r para uma con duta h um il
de e prudente que recusa a po lítica utópica. E essa recusa n ão
é apenas dirigida ao pensamento revolucionário. Para um
con servad or se rá di fic ilmente compreensível, para não dizer
39
aceitável, a posição cara a Joseph de Maistre de que os verda
deiros legisladores atua m se gun do u m “pod er indefinível”1 9 ou
apenas p or “instinto”, e que dessa atividade pulsional e criativa
emerge “ um a certa força moral que dobra as vontades co m o o

ven to dobra um a seara”.20O s excessos da razão, dirá um con


servador, são tão perniciosos quanto a sua ausência. Atuar
politicam ente será sempre at uar escolhen do a via m edia entre os
extrem os - um a caminhada em que o est adista, prec isamente
par a nã o ceder aos ape los il usó rios do radicali smo raciona-
lista (ou irracionali sta), avança sem pre “sensível à sua pró pria
cegueira” e, ainda segundo Burke, com um apurado “sentido
da sua pró pr ia f raq ue za”.21
Mas avançará - e avançará ra ciona lm ente. O que implica afi r
mar que o con hecim ento imp rescindível p ara qualquer agent e
político será um con hecim ento a propriado para a natureza da
sua funç ão . Para regress ar a Oa kesh ott, trata- se de um “con he 
cim ento prá tico” que t erá em con ta o inesc apável papel das
tradições e das circ u n stâ n cia s.
40
O sentido
da realidade
Na história das grande s fras es do século xx , é justo reconhecer
que W in sto n Chu rchill (1874-1965) oc up a um dos lu gares mais

altos. Mas exi ste um a fras e do p rimeiro-m inistro britâ nico que
nem sempre tem merecido a atenção dev ida: “Por mais a bsorto
que um general esteja na elaboração das suas estratégias, às
vezes é importante levar em consideração o inimigo”.1 A senten
ça m erece ser recordada, não apena s pelo seu evidente hu m or
(ao qual a expressão “à s vez es ” confere u m delicioso tem pero),
mas p orque resume, em breves l inhas , o que es te capítu lo p ro 
curará fazer em vários parágra fos: defend er a imp ortân cia das
circun stân cias na conduta do agente político conservador.
Conforme se viu anteriormente a partir do ensaio de
Samuel Huntington, o conservadorismo apresenta-se como
um a ideolog ia posicio nai: ele necess ita de uma amea ça concreta
para se articular como ideologia. Mas as circunstâncias não
desp ertam apenas a reação conserva dora. São tam bé m elas que
determinam o tipo de resposta a se r articulado peran te a amea 
ça - e é precisamente esse du plo papel das circunstâncias que
singu lariza a ideologi a conserv adora relativament e às prop os 
tas ideológic as rivai s, da s mais extremas às mais mod eradas.

43
Em face das ideologias mais extremas, uma dupla aten
ção às circunstâncias começa por desautorizar esse violento
repúdio ao presente que parece definir a teoria e a prática de
revolu cionários ou reacionários. Não é pela recusa das circuns
tânci as, ante s pel a sua observaç ão atenta, que o con serv ad o
rismo com eçará por se afirmar com o ideologi a.
De igual forma, o pensamento conservador distingue-se
tam bém de o utras i deologias mais m oderadas que s e apre
sentam com um ideário a cumprir, de forma transtemporal e
transe spaci al, independentemente das condições ou exigências

da sociedade at ual. Uma sociedade que continu amen te alargue


o espaç o onde cad a um p ossa atuar se m a coerção intencional
de terceiro s (para usar a clássica definiçã o de “l iberdade n ega 
tiva” em Isaiah Berlin) ou u ma socied ade que seja capaz de um a
distribuição mais equitativa dos recursos disponíveis estarão
sempre entre os objetivos de um liberal clássico ou um liber al

“progres sista ” - , para evitar o term o “socialista” de que mu itos


deles fogem com apreciável esforço. Como defende Hunting-
ton, a valorização (ou não) da sociedade dependerá da proxi
midade (ou da distância) que esta apresentará em relação ao
ideário que dá forma ao pens am ento liberal ou “ progressista ”.2
O conservadorismo, ao admitir-se como uma ideologia
posicionai, assumirá desde logo a importância das circuns
tâncias como base de qualquer atuação política consequente e
prudente. São as circ unstâncias que rodeiam o agente a infor mar
o tipo de ação a seguir. Nas palavras de Burke, “as circunstân
cias dão a cada princípio político a sua cor distinta e efeito
disc rim ina tório”. 3Em políti ca, n ão caberá ao esta dist a aplicar
44
sobre a soci edade um program a elaborado em abst rato, p or mai s
perfeito ou intelectualmente substancial que ele seja. Desde
logo, e uma vez mais relembrando Burke, porque “nada de
universal pode ser racionalmente afirmado sobre qualquer

assunto moral o u po lítico”. 4


De um estadista espera-se, em primeiro lugar, que ele
co nh eça as circunstâncias nas quais s e inscreve a po ssib ili
dad e de ação política. São elas que apo ntam para a des ejabi-
lidade (ou não) de determinados cursos de ação. Conforme
escrev eu Berlin, ao defender o “sentido da realidade” que deve
presidi r à atuação po líti ca - essa capacidade para entender a
realidade tal com o el a é e não com o dev eria s er à luz dos noss os
projetos, desejos ou sentimentos particulares5-, o estadista
“realis ta” não surge perante a comun idade “poss uíd o pelo seu
brilhante e coerente sonho”6e interessado em submeter todos
a esse sonh o, que para muito s p oderá trans figurar-se em p esa
delo. D e um esta dist a espera-se, ante s, que el e sej a ca pa z de
captar as “ perman entemente m utáv eis cores dos ac on teci
mentos e os sentimentos e as atividades humanas”:7é essa
capacidade para valorizar a singularidade que determinará a
natureza singular da sua açã o.

Foi essa particular sensibilidade em relação às circuns


tânci as que legou ao pensam ento con servador a s ua recor
rente ( e po r vezes impressionante) m aleabil idade ao long o
da história. Burke vislumbrou na Revolução Francesa o seu
caráter perfectibili sta e destrutivo (ou, m elhor ainda, destru-
ti vo p or qu e perfecti bil ist a ); mas esse foi o mesmo Burke para
qu em a Revolu ção G lorios a de 16 88, na Ingl ate rra, fora um a

45
“convulsão momentânea” (e necessária) para corrigir uma
“doenç a m om entâ nea ”:8o ab solu tism o régio de Jaime n, afas
tado do tron o pelos parti dários de W illiam de Orang e, futuro
W illiam m. A Revolução G loriosa de 1688, para Burke, não fora

propriamente uma revolução efetuada, mas evitada: o afasta


mento do mo narca operou-se, não para des truir a Con stituição
estabel ecida, mas precisamente para evitar es sa destruiçã o.9
Cada situação, cada circunstância, convida a um a resposta
parti cular . No século xix , Disr aeli foi t am bém capaz de identi
ficar (e suprimir) o fosso político potencialm ente per igoso entre

as classes trabalhadoras e a aristocracia, alargando o direito


de voto às primeiras (com o informalmente designado R e fo r m
Act, de 1867) e garantindo até m esm o direitos trabalhistas (a
legalização de sindicatos, o direito à greve etc.), que seriam
anáte ma para a ri gidez de algum pensam ento con servado r da
Euro pa continental. Não admira que , co m o afirma Vier eck em
análise certeira dos governos de Disraeli, o conservadorismo
britânico se orgulha por adotar inovações de esquerda quan do
elas m os tra m a sua validade perante os teste s da exp eriê nci a e
as necessidades do m om en to.10
A liás, é possível ir mais lo nge: um dos m otivo s pelos
quais a Inglaterra foi poupada às convulsões revolucionárias
mod ernas que s e ve rificar am d o ou tro lado do Canal da Man
cha encontra-se, precisamente, nessa recusa de certa “rigidez
progra m ática” pe la observaçã o hum ilde das ne cess idades reais
de uma comunidade real. “Quando desejardes agradar a qual
quer povo”, escreveu Burke a esse respeito, “deveis dar-lhe o
benefício que ele pede - não aquilo que pensais que é melh or

46
para ele.”11 Curiosamente, essas palavras conciliatórias foram
proferidas no contexto da “questão americana”, procurando
con ven cer George m a abandonar a pre ten são da metrópole
- um a prete nsão co ntr a toda a l ógica e t oda a tra dição - em

cob rar impostos nas col ônias. A intr ansi gênc ia do re i em olhar
para as circunstâncias da “qu estã o am erica na” acabaria po r levar,
co m o se sabe, à guerra e ao nascim ento de um a nova nação.
A “maleabilidade” conservadora na atenção às circu nstân
cias ser á a expressão mais eviden te do seu plur alism o político .
E nã o deixa de ser estran ho q ue n a velha Europa (e até na velha
Inglaterra) es sa dimensão crucia l do p ensam ento con serva dor
tenha sido aparent emente esquecida - e que pertença a John
Kekes , um american o, o m érito de ter relembrado a i ncontor-
nável dimensão pluralista de que o conservadorismo pode e
deve se orgulhar.
Contrariamente ao que sucede com ideologias rivais, que,
em bor a possa m reconhecer a multi plici dade e a conflit ualidade
de valores concorrentes em política, consideram sempre que
po dem ser “res olvidas” pela aplicação de um valo r ou de um
con jun to de valor es que terão p riori dade sobre os rest antes ,
em A Case f o r C o n serv a tism [Uma defesa para o conservad orismo ]

(1998) - seguramente um dos mais im portantes livros so bre o


conservadorism o m odern o publi cados nos últ imos anos -,
Kekes defende o contrário: um conservador p lu r a lis ta tenderá
sempre a ne gar a prior idade a um ú nico valor ou a um con jun 
to de valores sobre os d emais. A liberdade ou a igualdade pod em
ter essa prioridade consoan te as circunstânci as. O conservadorismo
entende que uma comunidade pode abraçar determinados

47
valores - valores distintos, nem sempre compatíveis entre si e
muita s ve zes incom ensu ráv eis, co m o diri a Berlin admitindo,
porém, que outras c omun idades podem abr aça r outros va lo 
res. O estadi sta prudente é aquele que co meça p or recon hece r

a verdade do pluralismo, ou seja, a natureza circunstancial e


con dicion al de val ores m últiplos e r iva is em determinadas
circunstâncias.
Pela mesma ordem de idéias, não é função do estadista
conceder a determinados valores, sempre e em qualquer con
text o, p rim azia sobre os rest antes . Um conserva dor entend e

que a realidad e é semp re mais com ple xa , e mais divers a, que a


simplific ação apaziguadora das cartil has ideológi cas. Um a vez
afastada a “falácia agregadora”12 de que fala Scruton (a falácia
de que todos os valores - “liberdade , igualdad e, fraternidade” -
serão com bin áve is na sua expre ssão máxima), ao esta dista cabe
a fun ção m ais modesta de escolher e equilibrar valores mú ltiplos e
con correntes. “Seja a liberdade, seja a igualdade, elas estão entre
os fins prioritários perseguidos pelos seres hum anos ao lon go
de muitos séculos”, escreveu Berlin. Para logo depois avisar:
“Mas a total liberdade para os lob os é a mo rte dos cord eiros ”.13
Acreditar num valor político dogm ático, que deve ter sem
pre prioridade sobre os restantes e deve consequentemente
ser po tencializad o na s ua expressão m áxima, não é apenas
acreditar (erroneamente) na “falácia agregadora” que o plura
lism o de sauto riza. É acredi tar (uma ve z mais, er roneamente)
que a polític a se exerce sobre realidades imutáveis e est anques,
que em nada influenciam ou determinam a arte de governar.
A defesa de um a hierarquia rígida de valores com o base do

48
pensamento e da ação políticos parece ser assim insustentá
vel, tendo em conta a natu reza evolutiva e plural de qualquer
comunidade humana. Conforme relembra Scruton, perguntar
qual a m elhor forma d e gov ern o em abst rat o convid a sempre à
atitude do ateni ense Sólon, qu e devolveu a pergunta c om novas
perguntas : “Govern o p a ra q u e m ? E em que tem po ?”.14

Naturalmente que a “maleabil idade” da posição con serva 


do ra (e plural ista) p oder á abrir-se à crítica recor rente de que o
conservadorismo não será mais do que uma forma de relati-
vis m o cultural e até ético: se o conservador afirm a a existência
de uma multiplicidade de valores, que serão hierarquizados
po r socie dades particul ares sem que exi sta um valor o u um
conjunto de valores que se considerem sempre prioritários
em relação aos demais , isto determinará a impossibilidad e de
tecerm os com parações ou m esm o juízos críticos sobre d eter

minadas sociedades, que escolheram aqueles valores porque


dessa form a determinaram as su as rel ativas condiçõ es.
Leo Strauss f oi particu larm ente sensí vel a essa “fraq ue za”
conservad ora - ou, pa ra usar a s ua li nguagem, à “f raqu eza” da
cham ada “escol a histórica”, segun do a qual “ todo pensam ento
hu m an o é histórico” e, consequentem ente, “ incap az de captar

algo de ete rn o”.15 O que inq uieta Strauss é que a “escola his tó
ric a”, na crítica contun den te às doutrinas de direi to natural que
teriam dado srcem à própria Revolução Francesa, acab ou por
resvalar par a o ex tremo opo sto: para a de fesa de um a “infi nda
variedade de noções de direito e justiça”16que m udam ao sabor
dos tem pos. O problema político dessa forma de relat ivis mo
é que os se res hum anos deixam de contar com “a ún ica bas e

49
sólida de todos os esforços para transcender o atual”.17 Sem
essa “bas e só lida ”, e sem a possibilida de de “transcende r o atu al”
pela vincu laçã o a princípi os imu táveis que não dependem das
circunstâncias relativas de um tempo e de um espaço, os homens

estão condenados a habitar (mas não a julgar ou a recusar) a


“ordem social que o destino lhes reserv ou ”,18p or mais iníqua
ou de sum ana que tal ordem seja. E con clu i Strauss nas páginas
de N a tu r a l R ig h t a n d H is to r y [Direito natural e história]:

A história enquanto história parece apresentar-nos o espetáculo

deprimente de uma vergonhosa variedade de pensamentos e cren


ças e, acima de tudo, do desaparecimento de cada pensamento
ou crença alguma vez detido pelos homens. Parece mostrar que
todo pensamento humano depende de contextos históricos úni
cos que são precedidos por contextos mais ou menos distintos e
que emergem dos seus antecedentes de um modo fundamental
mente imprevisível: os fundamentos do pensamento humano são
estabelecidos por experiências ou decisões imprevisíveis. Uma
vez que todo pensamento humano radica em situações históri
cas específicas, esse pensamento está condenado a perecer com
a situação a que pertence e a ser suplantado p or novos e imprevi
síveis pensamentos.19

Reconhecendo a pertinência da crítica de Strauss, o con


servad orism o tende rá, porém, a refutar ess a extremad a inte r
pretação relativista. Porque existe uma distinção crucial entre
a afirm ação de que sociedades distint as se org an izam distinta
mente (o qu e parece ser um a evidência em pírica que qualquer

50
pes soa racional acei ta e subscr eve) e a afirmação radica lm en
te diferente de que algumas sociedades, para não dizer to d a s,
pod em viver e sobre vive r dispensando cert os valores básicos
e fundacionais.
Na gramática con servadora, esses valores básicos e funda 
cionais conheceram diferentes formulações. Burke, profun
dam ente influenc iado pelo Ad am Smith da Teo ria d os sen tim en tos
m o ra is (1759), cham a-os “sen tim en tos n atu rais”20- e naturais
porq ue brotam, segundo B urke, da nossa natur eza com um sem
pre que nos con frontam os com situaçõ es de justiça ou iniqui

dade. “U ma Providência gentil fez repousar sobre o no sso peito


um ódio à injustiça e à crueldade”, escreve ele, “de forma a que
possamos preservar-no s da crueldade e da injustiça”.21 É por isso
que a crítica à Revolução Francesa, para Burke, começa por ser
uma crítica natural e se n tim e n ta l : evocando o célebre m onó logo
de lady Macbeth na peça de Shakespe are, ele acusa os r evo luc io
nários de terem suspendido “as compun gidas visit as da N atu
reza ”22de forma a p oderem cum prir os seus intentos ma lévolos.
Aliás, foi pela capacidade inum ana de terem “suspendido” esses
“sentimentos naturais” que os revolucionários puderam come
ter todo s os crimes sobre os seus se melhante s sem o mais leve
sobressalto da consciência. Se Burke pertenc e à “escola histó rica”
que tan to ho rro riza Strauss, a verdade é que o parlam entar irlan
dês nunca desprezou um sentido moral mínimo para “trans
cende r o atual” - e para o julgar e condenar m ora lm en te.
E o mesmo sucede na tradição conservadora posterior a
Burke: o apelo a essa dimensão primordial da nossa comum
hum anidad e é feito d e form a recorr ente por vários auto res ,
51
com maior ou menor grau de sofisticação sistemática. Hugh
Cecil falar á das “ ob rigaç ões da ju stiç a” ;23 Qu intin Ho gg, das
“decências fun dam entais da vid a”.24Toda s essas for m ula çõ es
parecem ident ifica r um mesm o ponto: existem “ valores prim á

rios”, para usar a designação expressiva de Ke kes no referi do


A Case fo r Conservat ism , que nós reconh ecem os co m o tais, isto
é, “valores un iversais e objetivos reque ridos p or todas as vidas
boas”.25 Esses “valores prim ários” n ão apenas se apresentam
co m o a base m oral de qualquer sociedade civilizada; eles são a
con diçã o para a existênci a de um un iverso pluralista e das es co 

lhas necessárias que o agente po lític o pod erá efetuar. Nenhu ma


sociedade s e poderá reclamar co m o civilizad a se, anterio rm en
te a qualqu er escolha re lativa, não existir em valores m ínim os
que tornem , desde logo, ess a escolha possível.
E esses valore s m ínimos - ou “primá rios”, na terminologia
de Kekes - decorrem de uma c on cep ção univ ersal de natureza
hum ana qu e indicará não aquilo qu e os indivíduos devem fazer,
mas o que eles não de ve m nem p odem fazer.26
O filósofo Christopher Berry, que dedicou ao tema um
tratado específico, é claro sobre esse ponto:

Acred itar na natureza humana é acreditar que a humanidade


possui alguns atributos comuns. Esses atributos não podem ser
entendidos como “extras opcionais”, mas como pertencentes ao
homem enquanto homem. São universais no sentido de que tais
atributos serão encontrados quando e onde os seres humanos são
encontrados.27
52
Daqui decorrerá, logicamente, que existirão danos fun
damentais - ou, com o Kekes o s des igna, “mal es prim ários” -
que nã o estão sujei tos às inevitáveis variaçõ es cu lturais qu e se
observam entre sociedades. Como escreve o autor, “as vidas

boas dependem da satisfação de necessidades fisiológicas, psi


cológicas e sociais básicas: de nutrição, abrigo e todo o resto;
de comp anh ia, autorrespeito, e da esperança d e um a vida boa
e melhor”. E conclui:

A satisfação dessas necessidades é uma exigência universal e obje

tiva de todas as vidas boas, independentemente do contexto social


em que elas são vividas. Se os arranjos políticos de uma sociedade
promovem essa satisfação, isso é uma razãopara os ter e conservar;
se os arranjos políticos limitam essa satisfação, isso é uma razão
para os reformar.28

No mesmo sentido, Kieron 0’Ha ra relembra-nos co m o


a injustiç a, o crime, a gu erra civil , a po breza - todo s esse s
m ales - são objet ivos, e nã o rel ativ os, porque reconhe cíveis e
reco nh ecido s co m o males p or qualquer sociedade.2 9E quan do
eles ocorr em perante os no ssos olhos, é na tura l que “males pri

m ár io s” desp ertem o n os so “d esgo sto m oral”.30Trata-se de um


sentim ento de inj ustiç a que é assi m recon hecido im e d ia t a m e n -
te , in s ti n ti v a m e n te , n a tu r a lm e n te . E, como defende Scruton, esse
é um sentimento que não pode ser eliminado por nenhum
pod er despóti co, nem p or nen hum process o de “reeduca ção”.
“O m elhor que um dé spota con segu e fazer”, conclui, “é evitar
a sua expre ssão em pú bl ico .”31

53
O conservadorismo com o ideologia pl ura lista reconhe
cerá, assim, a imperiosa necessidade de “valores primários”:
linhas morais mínimas que uma sociedade civilizada não deve
cruzar (não por acaso, Berlin prefere designá-las como “fron

teiras de hu man ida de ”).32Só que a po lítica con serv ad ora seria
uma proposta demasiado frágil se apenas se guiasse por uma
concepção negativa da sua própria atividade. É importante
evitar certos males; mas é também importante conservar e per-
seguir o que Kekes designa por “valores secundários”: valores
que expressam a form a co m o diferentes soci edades vivem e se

organizam em busca de fins particulares.


A função do estadista, abstendo-se de acrescentar à lista de
“males prim ários ” alguns males da sua lav ra, pass a em seguida
por identificar os “valores secundários” que são úteis para a
comunidade hoje. Em política, nã o existe m rotas traçadas a p rio ri
porque a atividade política é ela própria o processo contínuo
que per mite a defi nição de uma rota em consonân cia com as
necess idades da comunidad e.
Mas não só: o fato de não existir uma rota para a navega
ção política não significa que não haja também uma tradição
capaz de inform ar a rota d a navegação presente. Roger Scruton
é particu larm ente enfático sobre esse ponto:

Os políticos podem ter objetivos e ambições para os povos que eles


procuram governar. Mas uma sociedade é mais do que um organis
mo mudo. Ela tem personalidade e vontade. A sua história, as suas
instituições e a sua cultura são repositórios de valores humanos.33
54
Procur ar imp or so bre a comunidade um program a elabo 
rado a p rio r i sem ou vir ante s o que e la tem para nos dizer - o
que ela necessita agora mas tam bém o que ela foi continuamente
preservan do e valorizand o ao long o de geraçõe s34- é quebr ar

o elo fundamental de confiança que deve existir e presidir a


relação entre governantes e governados. Uma vez mais, vale
a pena citar Scrut on co m algum a extensão:

Propor uma receita antes do entendimento é um gesto sentimen


tal: implica olhar para a sociedade como uma desculpa para a

emo ção po lítica... De forma a ev itar o sentiment alismo t emos


que reconhecer que a sociedade também tem uma vontade e que
uma pessoa racional tem que estar aberta à sua persuasão. Esta
vontade encontra-se, para o conservador, plasmada na história,
nas tradições, na cultura e no preconceito.35

“H istór ia”, “tradição”, “cult ur a”, “prec on ceito ”: ver em os a


seguir o que significam esses quatro cavaleiros do apocalipse
prog ressista e que papel e les repre sentam na con du ta p olítica
conservadora e racional.
55
Os testes do
tempo
Converteu-se em clichê a ideia risível de que os conservadores
vivem agarrados às suas “tradições”. O conservador, nessa visão

caricat ural, surg e medrosam ente apegado a velhos co stum es


ou instituições pelo m edo instintivo de os perder o u substituir
por outros. Perante esse quadro fóbico, o conservadorismo,
mais do que um caso político, ser ia, sobret udo, um ca so clínico.
É um fato que o conservador tem uma sensibilidade
apurada, ou pelo menos mais apurada do que os seus rivais
ideológicos, para situações de mudança repentina, em que a
possibilidade de perda é maior. Como afirma Oakeshott, que
dedicou a lgum as das suas me lhore s páginas ao dano poten cial
que as “inovações” em polític a transporta m, só aqueles que nada
estimam podem abraçar entusiasticamente a mudança, qual
quer mudança , em qualquer circunstância.1 Mas será apenas p or
isso, p or esse temor da perda, que os conservadores valo rizam
as tradiçõ es que sobreviveram aos diferen tes “testes do te m po ”?
A resposta está contida na própria pergunta: eles valorizam
as tradições, pois estas, justam ente, sobrevive ram aos “testes do
tempo”. E essa sobrevivência começa por revelar a qualidade
e a validade dessas mesmas tradições, o que recom end a a sua

57
proteção p r e s e n te . A atitude do con serv ado r será assim dist inta
da atitude que Burke detectou nos revolucionários franceses,
para quem a duração das tradições e das instituições não era
motivo suficie nte para prese rvá-las. “ A duraçã o n ão é valiosa
para aqueles que pensam que pouco ou nada foi feito antes do
seu tempo."2Pelo contrário: a antiguidade dessas tradições e
instituições era um m otivo su plem entar par a que elas fossem
inapelavelmente destruídas.3Como se essa antiguidade fosse
expressão de um defeito intrínsec o.
“Antiguidade”, “dura ção”: eis as palavras que o con serv ador

valoriza. E são inúmeros os autores que, sobre o conservado


rismo, estabelecem comparações entre a sobrevivência das
tradições em sociedade e a teoria darwinista em que os seres
mais adaptáveis sobrevivem à seleção natural.4Existe alguma
verdade na comparação, e essa verdade começa por refutar aque
les que questionam a emergência espontân ea das t radições em
sociedade. Co nfo rme sustenta Scruton, parece e xistir no m oder
no pensamento liberal a ideia radical de que todas as tradições
são “inve nç ões” e que, consequ entemente, as tradi ções “inven 
tadas” ( ou, para retom arm os o par alelism o evolucionista, “sele 
cionadas” pela vontade humana) podem ser “reinventadas”,
substit uídas ou pura e simples mente destruíd as.5
Trata-se de um a visão d ema siado estreita do que significa a
palavra “tradição” num con texto político . É evidente q ue muitas
“tradições” - Scruton dá com o exem plos a dança esc ocesa ou
certos códigos de ve stuário - são tradi ções no sentido prosaico
do ter mo, assim cria das e mantidas po r comunidades p arti
culares: alguém pensou em iniciar um ritual, e esse ritual foi
58
continuado pelos que vieram a seguir por razões práticas ou
lúdicas. Mas as “tradições” que importam a um conservador
não são apena s as que res ultam o u resul tara m de um ato con s
ciente d e criação humana. A s tradições mai s profun da s foram
em ergin do natural mente, o que signi fica que elas foram sobre 
vivendo naturalm ente porque sucessivas gerações encontra
ram nelas vantag ens que acon selharam a sua ma nuten ção. Elas
devem ser protegidas não apenas porqu e são nossas (com o um
relógio do avô) ou porque são um produto da nossa vontade
manifesta (como a referida dança escocesa). As tradições não

são relí quias que guardam os na gav eta por m ero g osto esté tico
ou simples idiossincrasia pessoal. El as são nossas p orq ue se tor-
naram nossas. E o fato de con tinu am ente as term os con siderad o
vanta josas e valiosas perm itiu que as legássem os de geração
em geração como se fossem uma herança coletiva. Ao serem
úteis e benignas p ara n ó s, é razoá vel pensar que e las tam bém o

serão para aque les que virã o dep ois de nós.


Tal com o defende Kekes, o co nserva dorism o nã o conserva
tudo. Apenas os arranjos tradicionais conducentes a uma vida
melh or.6Obv iam ente que, nessa atitude, o cons ervado r sabe que
nem todos, no tempo presente, podem desfrutar desses arranjos
- o co nserva dor não é um personagem de Voltaire, acre ditando
que vive no melhor d os mundos possíveis. Atento c om o po u
cos às circunstâncias que rodeiam a sua conduta, e sobretudo
àquelas que são potencialmente disruptor as ou revolucionárias,
o conservad or não é estr anho a situações de pob reza e excl usão
que imped em mu itos s eres hum anos de beneficiar do p atrim ô
nio m oral e ins titucion al de uma socie dade. Poré m, re tom an do
59
o argu mento de Kekes, a ún ica for ma de es tender futura men te
esse patrim ônio aos mais desfavorec idos não significa, log ica 
mente, destruí-lo.7Significa, antes pelo contrário, preservá-lo
(e, com o verem os no próx im o capítulo, às vezes ref ormá-l o)
de m od o que as geraçõe s vindo uras possa m ter “um a casa, e
não um a ruín a”.8
Parti ndo des se imperativo de co nserv ação de princípios
ou instituições que se consideram imp ortantes par a a com un i
dade presente, o conservador vai retirar das tradições os seus
ensinamentos fundamentais. Em primeiro lugar, as tradições

com eçam po r ter uma fun ção educacion al evi dente. Para usar
a linguag em inconfundivelmente poé tica de Oakeshott, são as
tradições d e um a comunidade que perm item ao indivíduo, iso
ladamente considerado, ent rar na “grand e conversa da hu m a
nidade”. As tradições fornecem aos indivíduos a gramática
básica dessa conversa, im pedin do que estes se to rnem , nas
palavras de Burke , meras “m osc as de um verã o”:9existências
breves, desgarradas e desabitadas de qualquer referência social,
cultural ou moral. Um conservador entende que nascemos,
crescem os e atuamos no interior d e uma tradi ção , em bora
alguns dos nosso s com portam entos ou crenças se jam (ou pare
çam) espontâneos e avessos a racionalizações permanentes.
Aliás, m elh or que assim seja, que cada mem bro de uma socie 
dade transporte em si a “segunda natureza” que lhe foi natu
ralment e conferi da p or e ssa m esm a socie dade se m n enhum
esforço perm anente de avaliação crítica e autocrítica.1 0Co m o
afirmaria Burke, sã o as tradições que cob rem a “natur eza nu a”
dos indivídu os com as vest es do co stu m e e do hábito.1 1

6o
E será com esses trajes que os indivíduos participam na
“con ve rsa ” social - que não é apenas fe ita no tem po pres ente ,
com as ambições, as perplexidades e os desejos desse tempo
prese nte. C om o relembra ainda Oakeshott, a “ grande conversa
da hum anidad e” é um proce sso em que existe m e coexistem três
tem pos: o passado, o p resente e o fu tu ro .12 O que sign ifica que :
ao ind ivíduo cabe receber o que foi preserva do; d esfru tar dessa
hera nça c om o fiel depositário; e passá -la às geraçõ es vindo uras
em um a cadei a que s e percebe c om o invi sível e interminável .
De fato, não existe ensaio sobre as idéias políticas conser

vadoras que não apresente a dada altura um a das passagen s


mais conh ecidas e reconhe cidas das R e fle x õ e s so b re a R ev o lu ç ã o n a
F ra n ça . Trata-se do m om en to em que Burke s e refere à sociedade
política como um “contrato”. No entanto, o autor se apressa a
especificar de que “contrato” se trata: não de um contrato de
natureza comerci al, que pode ser dis sol vido pel a m era vo n 
tade das partes. E não será também um “contrato" no sentido
político (e contratualista) moderno, entendido como vínculo
conscientem ente estabelecido entr e governantes e governado s
que fun cionará co m o base da atuação p olíti ca legít ima. Para
Burke, a sociedade será antes um contrato “entre os vivos, os
mortos e os que estão para nascer”.13
Um a tal form ulação sobre a natureza “ contra tual” da socie
dade po lítica sempre se presto u às mais dive rsas interpretações
- e perpl exidades. E staria Bu rke, em po sição m acabra, a con 
vocar os m ortos para nos governarem a partir da sepultura?
Th om as Paine, em R ig h ts o f M a n [Direitos do homem] (1791-
-1792), dirá explicitam ente q ue sim. Burke atribui aos m orto s
61
um a funérea ascendência sobre os vivos. E não existe nada de
mais int oleráve l do que conceder a fantasmas o papel decisório
fundamental de uma comunidade política. Para Paine, cada
geração p re se n te é apenas responsá vel perante a si própria, dis

pensan do a autoridade do s mo rtos - “a mais ridíc ula e inso len


te de todas as tiranias”.14 No fundo, Paine reatualiza a posição
sustent ada um século antes por J ohn Locke sobre a “razoabi-
lidade do cristian ism o”: se existe pe cad o srcinal, es se pecado
com eço u (e, para Lo cke , terminou) c om os at os d e Adã o n o
Paraíso e sua po sterior expulsão. N ão ca be à huma nidade que
veio a seguir carregar as iniquidades de um único homem. Os
presentes são tão livres de pecado como os ausentes e os que
ainda não nas ceram .15
Não se pode deixar de ver na crítica de Paine a Burke o
virtu osism o literário que o autor emprestava a todos os seus
textos. Pena que ele tenha interpretado Burke de uma forma
excessivam ente literal. Porque, em nen hum m om ento das R e fle -
x õ e s so b re a R e v o lu ç ã o n a F ran ça , Burke concede aos mortos essa
do gm ática ascend ência sobre os vivos. Sua intenção foi, antes,
alargar o s h oriz on tes limitados do estadi sta presente, alerta n
do -o para a sua circunst ancial pequ enez hum ana. Escut ar os
mortos, ou pensar nos que e stão para n ascer, começará p or
rel embrar aos vivos a sua natureza tr ansitór ia num m und o
que não lhes perte nce, exce to po r empréstimo. O s m ortos, tal
como os escravos do imperador Marco Aurélio, também nos
segr edam ao ou vido a noss a própria con dição mortal. Som os
“inquilinos temporários” de um mundo de “inquilinos tem
po rár ios ”. É po r esta r conscien te de sua transitoriedade que

62
o agente po lítico preci sa at uar se m caprichos mo men tâneos,
recusando o papel de “legislador da humanidade”. O esta
dista nun ca atua sobre uma tela em branco, nem a soci edade
se apresenta como tal, despojada de valores ou tradições que

são a nteriores a nós e que vã o sobreviver a nó s.


Podem os rec usar todo esse patri môn io; po dem os até nos
rebelar contra ele (e haver á “circun stânc ias” excep ciona is em
que isso n ão apenas s erá necess ário c om o salutar). Porém, não
pod em os agir com o se as tradições não existissem, a menos que
sejam os orgu lhosam ente ignora ntes (e arrogant es). Ev ocando
T. S. El iot - sintomaticam ente um dos gra ndes m odernistas
da literatur a do nosso tem po - , il m ig lo rfa b b ro será aque le que,
aceitan do o u recusa ndo a tradição, escreve ai nda os seus versos
co m a plena consciência d e que repousa sobre o s seus om bros
toda a poesia desde Hom ero.16
No entanto, as tradições de uma sociedade nã o têm apenas
um papel educacional. Pa ra um conservador, el as são valiosas
porq ue terão um papel epistem ológ ico (e polí tico ) fund am en
tal, pois se apresentam como “o banco geral e o capital das
na çõe s e das eras”, 17 cap aze s de oferecer ao estadis ta recu rsos
valiosos para a condução de um a comunidade política.

Se o co nservador recusa uma carti lha a p r io ri que indique


com precisão mecânica o cam inho que dev emos seg uir, i sso
não significa que não existe um caminho a seguir. Mas esse
caminho, para além de sinalizado pelas “circunstâncias” e
necessid ades present es, deve ser igualm ente trilha do à luz das
tradições - esse “fluxo de simpatia”1 8em que o agente recolhe
os elementos necessários para a continuidade da sua viagem.

63
São e ssas inform ações que permitem aos hom ens “sabedo ria
sem reflex ão”19 - um a form a de de signar os p re co n ce it o s que
todos tem os e de que todos precisamos.
O tem po atual não f oi brando co m certos termos da gra 

mática conserva dora - e “preconc eito” é um deles. Ter “preco n


ceitos” é hoje o supr em o crime, sobre tud o qu ando a “ filos ofia
da vaidade” - o ep ítet o com que Burke brinda o senti menta-
lismo de Rousseau - aconse lha os hom ens a se apres enta rem
sem precon ceitos, num estado d e pureza srci nal que prova
velm ente só existiria no tem po das cavernas. Ironicamente,

essa é um a hip ótese que co loca os mais radi cais progressis tas
no m esm o patam ar a-hist órico dos m ais radi cais reacionár ios.
Acontece que os “p reconceitos” que interessam a um con
servador não podem ser entendidos, ou confundidos, com
meras idéias irracionais sobre determinados com portam entos,
minorias ou indivíduos - o senti do atual e r asteiro do termo. Se
todas a s pala vras tamb ém têm uma tradição, impo rta recordar
que “preconceito” deve ser entendido no sentido clássico, ou
seja, como p r a e ju d ic iu m - um pre ced ent e ou um jul gamento
baseado em decisões ou experiências passadas que, pela sua
validade comprovada, inform am decisões ou experiências pre
sent es e futu ras .20Será ess a dim ensã o de “pr ec on ceito ” que
interessa a um conservador: o tem po troux e até ele princípios
ou instituições que sobreviveram aos “testes do tempo”; essa
sobrevivência cria uma razão favorável à manutenção e con
servação de tais princípios ou instituições. E será a eles que
devemos recorrer como se recorre a ensinamentos válidos e
testados. Ou, melhor dizendo, v á lid o s p o r q u e te st a d o s.

64
A ssim se entende co m o a fun ção das tradições não se
esgota no processo educacional que elas oferecem. Existe
tam bém o que Keke s desi gna com o “a dimensão valorati va de
um a tradi ção mor al” - um a dimensão que nas ce da profund a

fam iliaridade que se estabelece entre os ser es hu man os e a su a


cu ltu ra .21 Será ess a fam iliaridad e que p erm itirá ao estadista
conservador, n a formulação de Oakeshott, “ fazer um am igo
de cada oc as ião ho stil”. 22Porque são as tradições qu e evitam
que o agente, “no momento da decisão”, se encontre “cético,
co nfu so e ind ecis o”.23
Por últim o, as tradições n ão se lim itam a oferecer es ses
instrum entos de resolução política. Com o se verá no pró xim o
capítulo, elas são também o ponto de partida para qualquer
atit ude reformist a. Invertendo a con hecida máxim a de Burk e,
uma sociedad e incapaz de conserva r é uma sociedade incapa z
de se reformar.
65
A reforma
prudente
“Para que mudar, se as coisas já estã o tão r uins?” A piada é
conhecida e, no seu exagero, pretende expressar a ideia de

que o con serva dor não se disti ngue do imobilis ta, resis tindo
estoicam ente à mud ança, a qualquer uma, por tem er as sua s
consequ ências nocivas .
Aliás, a piada não apresenta apenas o conservador com o
um imobilist a. Va i mais longe e apr ese nta- o com o u m im ob i
lista fa t a lis t a e p e ss im is ta : qualquer mudança, mesmo que esti-
mável em te ori a, não apen as não resolve o problema com o qual
o estadista se confronta como, pior ainda, acabará fa t a lm e n te
po r agravá-io. De onde se con clui que a inação será s empre
prefer ível a qualquer ação inevitavelmente destr utiva.
Como piada, a pergunta diverte. Porém não deixa de ser
inquietante a forma com o ela conheceu um tratamento acadêmi
co respei tável, embora sem o h um or srcinal. Alb ert Hirschman
(1915- 20x2) ocupa, nessa matéria, um lugar destacado, e a obra
T he R het ori c o f R eact ion [A retórica da reaç ão] , um clássico da
soc iolo gia polític a, é o prod uto final de quem levou demasiado
longe um a caric atura. P ara Hirschman, o pensamento co nse rva
dor, que o au tor tam bém radica na posiç ão a ntirrevolucion ária

67
de Bur ke e seus herdeiros, parece sofre r de três maleitas - “três
teses r eacioná rias”, para usar a sua lingu agem - que o defi nem
ao lon go de mais de dois séc ulos.
A primeira dessas teses é designada por Hirschman co mo a
“tese perversa”: para um conservador, os resultados obtido s pela
ação revolu cion ária (mas tamb ém reformista) acabarão sempre
por gerar p erv ersa m en te o opost o dos objetivos que se propun ham
alcançar. A bu sca po r libe rdade só trará p erv ersa m e n te servidão;
a busca pela igualdade só trar á p e r v e r s a m e n te desigualdade; a
busca de fraternidade só trará p e r v er s a m e n te egoísmo e violên

cia.1 Hirschman pod eria reformu lar a piada: “P ara que mud ar
se os resultados serão perversamente contrários às melhores
intenções d o agente?”.
Mas o con servad orism o não se limita a de clarar qualque r
ação política, qualquer mu dança p olíti ca, c om o “perversa”.
A ação será tam bém “fútil”, dirá Hirschm an em nome dos con
serv adore s. A s mu danças, para um conservador, serão apena s
“superficiais” ( mud anças de fachada, digamos), na medida em
que as estruturas mais profundas da sociedade p erman ecerão
intocada s.2“Pa ra que mudar, s e as coisas ficarão sempre co m o
estão o u s ão?”, eis a ad aptação pos síve l da piada para a “tese
fútil” de Hirschman.
L a s t b u t n o t lea st, o conserva dorismo partilha a inda um ter 
ceiro vício - ou um a terceira tese: a chama da “tese ameaçadora”.
Para um conservador, o preço da mu dan ça ser á sempre dema
siado elevado ao pôr em risco ganhos ou feitos prévios (e pre
ciosos). 3E a única variaç ão substancial à pi ada c om que se a briu
o prese nte ca pítu lo. A questão j á n ão será: “Pa ra que mudar
68
se as coisas estão tão r uin s”, mas antes: “Para que m ud ar se a s
coisas n ã o estão tão ruins?”.
N ão vale a pe na perde r mu ito tem po c om as análi ses d e
Hirschman, que constituem uma contradição evidente: se o

conservador, como ele sustenta, entende as mudanças como


irremed iavelm ente fúteis pela in capac idade (e superficialidade )
de alterar o que u m ma rxist a designaria com o a “superestr u-
tura” d e um a socie dade, não se entende por que m otiv o essas
mudanças serão igualmente “perversas” ou “ameaçadoras”.
A m udança pode ser “fútil” ou, em alternativa, “p erversa” e
“amea çado ra”: a primeir a anula as segun das, ou vice-versa.
Mais ainda: partilhando do delicioso espírito conspirati-
vo de Hirschman, seria legítim o suspeitar que o conservador
apoiaria sempre as reformas “superficiais” de forma a defender
os seus interesses mais obscuros e profundos. Essa é a tese de
Co rey Robin, que em libelo recente contra a “mente r eacio nária ”
afirma que o que interessa a um conservador (que Corey, sem
surpre sa, con fund e co m um reaci onário) ser ia fazer suas as
palavras do príncipe de Lampedusa e mudar tudo para que
tudo continue do m esmo j eito. 4
Hirsc hm an constrói uma cari catura sob re uma carica

tura. Em relação à “te se per versa", creio qu e já ficou b em cla


ro com o a revalorização das “ consequências fortu itas” não
equivale à afirmação de que tudo resultará necessariamente
no seu contrário. Aquilo que é fortuito implica in d e t e r m in a -
ção: os resultados de qualquer mudança apresentam sempre
um a m argem de imponderabi lida de que tanto pode frustrar o
agente , com o contentá-lo mu ito para além da s suas melho res
intenções srcinais. Como afirma o sempre estimável (e hoje
esque cido) H. B . Ac ton , há acasos fel izes: a viagem de Co lom 
bo é apenas um exem plo.5 Se, co m o sustenta Hirschm an, o
conserva dor fosse “perverso”, defendendo que toda m udança

está irremediavelmente condenada ao fracasso, então, sim, o


con serv ado rism o seria i ndistinguível de outras ideologias ri vais
(e racionalistas), que defendem com preocu pan te otim ism o que
tudo está con den ado ao sucesso desde que os homen s tragam
os problemas da sociedade perante o tribunal último de uma
razão “clara e distinta”. Porém, essa é uma interpretação de
Hirschman que o conservadorismo aqui versado explicita
mente rejeit a.
Entretant o, nã o é apenas a “t ese p erve rsa” que se apresenta
com o um a caricatura d e um a cari catura. As outras du as tam 
bém o serão, ao aconselharem a inação política com o a única
forma de ação política, se ja porq ue as m udan ças são “fúteis”,
seja porque elas se apresentam como “ameaçadoras”.
Trata-se de um a caricatura, desde logo, p orque a ideologia
conservado ra tende s empre a olhar para a soci edade com o u m
organismo vivo. E , conform e lembra An tho ny Quinton sobre
esse princípio organicista, um “organismo vivo” é, pela sua

própria definição, do tado de vida próp ria, o u seja, de evoluçã o


e trans form ação .6Pr etender re verter ess a evo lução e transfor
mação , co m o se isso fos se possível o u até de sejável, se ria não
apena s um a qu imera lunáti ca, própr ia de lunáticos, e por isso
destinada ao fracasso. Pior que isso, seria um esforço condu-
cente ao tip o de socie dades totalit árias em que o século x x foi
trist emente pródigo: sociedades em que o pod er político teri a

70
que limitar, ou até determinar, o comportamento de todos o s
seus mem bros. Com o lembra Noèl 0’Sulliva n, se a car icatu ra
im obilista fosse para levar a sério, a ún ica sociedad e ideal para
um con serv ado r seria a vida das cavernas,7partindo d o pressu
post o de que as cavernas não seriam já uma c orru pçã o evident e
de um estado ainda mais primitivo e impermeável a qualquer
mudan ça. Para um reacioná rio (mas não para um conservador),
é sempre possível recuar até o primeiro hominídeo.
Mas as caricaturas nã o par am po r aqui. Po rque existe uma
outra sobre o conservador co m o im obilista, segundo a qual e le
teme a mudança po r ver em qualque r mudança uma ameaça
potencial às suas tradições mais preciosas. Creio que ficou
claro n o capítu lo anterior que a adesão ao “tradiciona lismo ”,
outro dos pri ncípi os fundamentais do conservadorismo,8 lon 
ge de ser um a atitude t ípica de antiquário, é ant es um a ad esão
perfeit amente raci onal po r se vi slum brar na tradi ção u m rele
vante papel educacional, epistem ológico e político que seria
um erro despr ezar.
É pos sível afirm ar algo mais: s e a tradição desa utor izass e
a mud an ça e a reforma, seria preciso perguntar sobre o que se
emp reende um a reforrpa.

A questão já foi respondida, e brilhantemente respondida,


po r Benjamin Di sraeli. R econhecen do que a mudança é inev i
tável em qualquer soci edade co mpo sta po r seres vivos, Disraeli
afirma qu e ela não deve pro ced er de doutrinas ger ais ou p rin 
cípios abstratos (e arbitrários). As mudanças devem fazer-se
por referência (e em deferência) “às maneiras, aos costumes,
às leis, às tradições de um povo”.9

71
Em outras palav ras: a reforma nã o só n ão exclui a tradição
como exige uma tradição, entendida como ponto de partida
para qualquer ação reformista. Reformamos o que existe e,
mais importante ainda, reformamos p o r q u e a lg o e x is te e p o r q u e

al go cheg ou até nós. Tal como defende Karl Popper, as tradições


são a base de qualqu er atuação po lítica por que elas oferecem
ao agent e “algo sobre o qual po de mos op erar ” e “algo que po de
mos criticar e mu dar”.10No fundo, Popper reatualiza o que Bur-
ke afirmara duze ntos anos an tes, qu and o este def iniu a política
com o um exercício em que é preciso respei tar “um princípio
seguro de conser vação e um princípio seguro de t ransmis são,
sem excluir um princípio de m elh oria ”.11 Conserva ção, tran s
missão, melhoria: a ordem dos fatores não é arbitrária.
E foi precisam ente ess a dim ens ão tradicional da reforma
que Viereck d etectou na própria gênese dos Estad os Unidos.
Cha m and o a s i a tarefa ingrat a de cartografar o “con ser va do 
ris m o am ericano ” - e ingr ata porque, à primeir a vi sta, um
país privado de um a ari stocraci a autó cton e e que nasceu num
contexto rev olucionário n ão ser ia o candidato mai s óbv io
para fi gurar no curs us hono rum da ideologia conservadora -,
Viereck discord a daqueles que explic am o conservadoris m o

político se gun do um a “teoria aristocrática”, ou seja, co m o um a


ideologia de reação “das cla sses fe udo-a ristocrático-agrárias
contra a Revolução Francesa, o liberalismo e a ascensão da
burguesia em finais do século x v m e durante a primeira m eta
de d o sécu lo x ix ”.12
Por mais parad oxal que pareça, a Rev olução A m erica na é
apresentada po r Viereck com o um a “revolução conserva dora”:

72
quan do os colon os com eçaram a exigir não se rem taxados por
um Parlamento no qual não se encontravam representados
(o célebre bordão “no taxation without representation”), eles não
estavam apelando para doutrinas abst ratas, co m o a conteceria

alguns anos mais ta rde em Par is. Ap ena s se limitavam a reivin


dicar “liberdades e privilégios” constitucionalmente estabele
cidos na m etrópole e qu e o re i Geo rge iii suspendera d e forma
arbitrária. Ora , é essa atitude con serv ad ora de se apelar para a
con stituiçã o estabel ecida que, segundo Viereck, me lhor distin
gue a Revolução A m ericana de out ras revoluç ões posterio res,
cujo radicalismo apontava para a criação de novas liberdades e
de um a nova ordem. O s colon os, pelo contr ário, ape lavam para
a conservação das velhas liberdades e da velha ordem. Será tam 
bém por isso que, ainda de acord o com Viereck, não apenas os
Estado s Unidos têm um p ed ig ree conservador, que acabaria por
desaguar na fei tura de um a C onstituição e de um país, com o
esses pergaminhos são anteriores a Burke e às suas R e fle x õ e s
sobr e a R evol ução na França .13

Sem pretender questionar a interpretação de Viereck


sobre a gênese conservadora dos Estados Uni dos - com a qual,
escusado será di zer, conco rdo plenament e -, parece-me j usto

cor rigir o seu entusiasmo para sustentar que a prim azia teórica
na inte rpretaç ão conservadora da Revolução Am erican a per
tence, uma ve z mais, a Burke. Aliás, é possível m esm o defender
que a interpretação de Viereck sobre a Revolução America
na se aproxima claramente da interpretação feita à época por
Burke sobre o m esm o a contecim ento. Para este, go vern ar a
A m érica não passava pela im posição de “idéias abstratas de

73
direitos” nem de “teorias gerais de governança”. O trato com
a colôn ia dever ia atender à sua “na tu re za ” e “circun stân cia”.14
Qu er diz er: “Se e la tem m atér ia tri butável, que p ossa co bra r
os seus im pos to s”.15 Será apenas perant e a im po ssibilid ade de

qualquer reconciliação entre Londres e Filadélfia que Burke


entenderá a independência dos Esta dos Unidos co m o o m enor
de todos os males, sobretudo quando o conflito era entendido
pelo autor como uma guerra civil entre irmãos. Aqueles que
acusam Burke de te r atraiçoado a sua defe sa dos co lono s norte-
-american os co m a críti ca à Revolu ção Francesa, de duas, u ma:
ou não entenderam o caráter geneticamente conservador da
Revolução Americana, ou não entenderam o caráter radical
mente novo da Revolução Francesa.
As tradições são o ponto de partida de qualquer ação refor
mista consequen te e pr udente . Mas é possív el tamb ém a firmar
que a reforma é, ela própria, um imp ortant e mecan ism o de co n
servação. “Um estado sem a possibilidade de alguma mudan
ça é inca pa z de se con ser va r”,16 dirá Burke em um a das suas
procla mações mais conh ecidas. A reform a é neces sária para se
prese rvar (e melho rar) o que se encontra em risco - um imp era
tivo que dev ia ter sido acautelado na França pré-revolucionária.

Utilizando com maestria as metáforas arquitetônicas que são


recorrentes ao longo das R e fle x õ e s , o país é apresentado como
um v elho edifício de pare des degr adadas. Mas o estado do edi
fício não justificava a sua dem oliçã o pu ra e sim ples; exigia, pelo
contrário, reparar es sas paredes, man tend o o edifício de acor do
com a sua velh a fo rm a.17 Foi por terem recu sado a reforma que
os franceses se condenaram, e condena ram a Europa à revolução.

74
Trata-se de uma observação sagaz que sublinha, uma vez
mais, a im por tânc ia preventiva da reforma para que se evitem
situações p otencialmente revolucionárias. Co mo lembra Keke s,
a reforma não é apen as mais um princípio banal da gram ática

conservador a; ela será especialm ente rel evante para um conser


vador avesso ao radicalismo político e às situações extremas que
o alimenta m. Porq ue não basta conser var as condiçõ es morais
e institucio nais que s e con sidera m relevant es para o pros seg ui
mento de vidas boas. É importante estender q u a n tita tiva m en te
essas condições, de forma a evitar que um elevado número de
indivíduo s atue radical mente p orqu e nada te m a perder e tudo
tem a ganh ar.18“Para que pos samos amar o noss o país”, escreveu
Burke, “o nos so país deve ser am áv el.”19 Um a reco m en da ção
conserva dora que, infel izmente, mu itos conservadores foram
perdendo pelo caminho.
O conservadorismo político surge assim indissociável de
um a ideia de reforma. Mas não de um a ideia qualquer de ref orma,
como se o mero ato de mudar fosse suficiente, ou até positivo,
em si me sm o. O akesho tt es tabelec e uma disti nção rel evante -
embo ra, com o se verá a seguir, não inteiramente srcinal - entre
inovações (ou reformas) que são exógenas ao conservador; e

inov ações (ou reformas) que o cons ervad or entende empreen der
por considerá-las necessárias para a manutenção de princípios
ou instituições relevantes para a com unidade.
Sobre as mudanças ex ógenas, o conserv ador deve ter em
con ta que a inovação traz sem pre um a perd a inevi tável e um
ga nh o possí vel, o que signi fica que cabe a quem pr op õe a refe
rida mu dan ça mo strar claramente a s vantag ens da inov ação

75
sobre a s certez as da t rad ição.20No fun do , O ak esh ott repete o
que Burke afirmara em A n A p p e a lf r o m th e N e w to th e O ld W h ig s
[Um apelo do N ov o aos Velhos Whigs], u m texto que de ve ser
lido com o com plementar da s R e fle x õ e s:

O ônus da prova repousa pesadamente sobre aqueles que desfa


zem o enquadramento e a textura do seu país, de modo a que não
encontrem outra forma de estabelecer um governo talhado para os
seus fins racionais que não passe por meios desfavoráveis a toda a
felicidade presente de milhões de pessoas, e à total ruína de várias

centenas de milhar. Em seus arranjos políticos, os homens não têm


o direito de colocar o bem-estar da atual geração totalmente fora de
questão. Talvez o único imperativo moral com alguma certeza que
repousa nas nossas mãos seja cuidar do nosso próprio tempo.21

A s m u d an ças, entretanto, n ão são apenas exógenas;


exi ste m m udan ças endógenas empreendidas pelo conserv a
dor que, segundo Oakeshott, devem obed ecer a c ertos critéri os
operati vos. A inova ção dev e par tir de um a situação con cre
ta, não de me ro desejo abst rato. D eve ser um a resposta a um
defeito preciso. Deve ser pequena e parcelar. Deve operar-se

lentamente e ser acom panh ada p asso a passo. E deve ser lim i
tada à parte que se encontra em falta, de forma a minorar as
consequências indesejadas e incontroladas que po dem emergir
da ação refo rm ista.22 Uma ve z mais , O ake sho tt repe te quas e
ipsis verbis o que Burke escrevera séculos antes ao estabelecer
quais o s princíp ios reformistas que devem ser observad os pelo
agent e conserva dor.

76
O prime iro des ses princípios co nvidará o estadista a fazer
um a distinção, nem sempre fáci l, ent re as im perfeiçõe s tole
ráveis e as imperfeições intoleráveis para o “edifício” que se
pro cur a conservar. O esta dist a deve dist inguir “coisas acide n

tais de c ausas per m an entes ”, na m edida em que nem todas as


“irregularidades” constituem um “desvio total” no curso da
ação po lítica.23Para um agente conservador, é tão im por tante
saber reformar (e o que reformar) como saber n ã o reformar
(e o que n ã o reformar).
Mas a reforma conservadora não se limita a essa distin
ção. Tal como Oakeshott relembra, a reforma não procede
de doutrinas abstratas que exigem aplicação direta sobre a
com unidad e esta belecida. “A ciênci a de construir um a c om u
nidade, ou de renová-la, ou de reformá-la”, já avisara Burke,
“é, com o qualquer out ra ciência experimental , algo que não
pod e ser ens inado a p r i o r i .”24Par a voltar a águas já co nhecida s,
são as “circunstâncias” que determ inam a natureza da ação
reformista - um a açã o que não apenas proc urará r esponder
a um problema esp ec ífico como se fará por referência a uma
tradição es p ec ífica . O político conservador, antes de reformar,
deve “ver” com os seus próprios olhos, “tocar” com as suas

próprias mãos. E acrescenta Burke:

Eu tenho que olhar para todas as ajudas e todos os obstáculos. Eu


tenho que encontrar os meios de corrigir o plano, onde esses cor
retivos são necessários. Eu tenho que ver as coisas; eu tenho que
ver os homens.25
77
A reform a, contu do, n ão deve apenas partir das “circuns
tâncias” presentes ou passadas de determinada comunidade.
A reform a co nservadora, até pelo que já foi exposto, deve ser
atempada, fe ita a tem po de evi tar situa ções revolucionárias,

que são o contrário de uma reforma prudente. As reformas


atempa das, con form e escreveu Bu rke, são feitas “com o sangue
fri o”, e nã o p recipitada s por “estados de in flam açã o”26típic os
da mentalidade revo lucion ária e dest rutiv a.
A lém disso, cabe ao agente p o lítico refo rm ista e c o n 
servador proceder à distinção criteriosa entre o que deve ser
reform ado e o que deve ser preservado. Trata- se de um crité
rio que, um a ve z m ais, reforç a a natu reza reativ a da ideologia
conservadora: ao estadis ta exi ge-se um a atit ude vigilant e que
seja capaz de separar o todo da parte em falta, ref orm ando -s e a
p a r te em fa lta s e m a ltera r a su b stâ n c ia d o to d o . A refor ma, especifica
Burke, deve ser aplicada “à parte que produziu o necessário
desvio”. E quando se opera a mudança, é imperioso evitar “a
de com pos ição de toda a massa política e civil”, própria de quem
pret ende arrogantemente gerar “um a n ova ordem civi l a partir
dos prim eiro s elem entos da socied ad e”.27
A reform a conservadora efetua-se através de ajustamentos

e reajustamentos - engenharias “parc elares” , com o as chamaria


po ste rior m en te Karl Popper2 8- , o qu e significa que ela se fará
passo a passo, e por vezes erro a erro, de form a a que se pos sam
avaliar no prazo devido as consequências mais tangíveis de
cada ação reformista antes de s e avançar para uma nova ação
do mesmo tipo. Como diria Hugh Cecil no seu breve tratado
sobre essa matéria, só q uand o a reform a é feita passo a passo é

78
poss ível afast ar todos os m edos que habitam o des con hec ido.29
Afastar e, acrescento eu, e m e n d a r .
Por último, e não menos importante, a ação reformista
de um agent e político co nse rva do r será sempre i nseparáve l

da consciência que ele terá do seu próprio conhecimento


im perfeito - ou, para reg ressar ao início des te ens aio, da sua
própria im p e r fe iç ã o in t e le c tu a l. Um a tal asse rção não deve ser
vista com o um convite ao im obilismo político - esse vício que,
co m o diria Mary Wollstonecraft, transforma o ato de govern ar
nu m a c ons tan te “inatividade gela da”.30Trata-se, apena s, de um
con vite à hum ildade política, e à hum ildade em política, o que
permitirá afastar do horizonte da espécie humana qualquer
am bição perfec tibil ista ou u tópiça. Melhoramos o que p od e
m os. Ma s, ret omand o Bu rke, élm po rtan te também que c ada
reforma presente possa deb^ir espaço para novas e melhores
reform as futu ras .31

I
79
A “sociedade
comercial”
Para alguns espíritos, nada será mais estranh o do que analisar as
difíce is relações en tre o cons erva dor ism o e o capitalismo. Se, na
im agin açã o simples do s simples, a direita olha para o m ercad o
co m devo ção e zelo, onde estão os proble mas de convivênci a,
afinal? A ideia do mercado livre como ameaça para a virtude
dos h om ens e para a ordem social onde ele s vivem e trabalham
é um adágio exclusivo da esquerda, qâ o da dire ita. A direita
nun ca visl um brou no cap itali smo o tipo de vícios desum anos

que a esquerda s e esp ecializ ou em d etectar e denunciar .


A con tece que, para espanto desses m esm os espíritos,
seria possível escr ever um lon go man ual anti capital ista só com
autores conservado res e suas procla mações co ntra a “sociedade
comerc ial” (a feliz expressão de Adam Smith que pass arei a utili
zar a partir de a gora). Para um a parte substanci al d o pensam ento
conserv ador, a “soci edade com erc ial” cóm eça po r revelar as suas
lamentáveis feições ao reduzir as relações pessoais a critérios
meramente “economicistas” de ganhos e perdas, sem que haja
outras co nsiderações - mais nobres, mais aut ênticas, mais incor-
rom pida s - construindo tais relações. Po rque a “socie dade co mer 
cial ” tende a corro mper a alma humana, dirá um autor ca nô nico
81
co mo Thom as Carlyle: a adoração do “cash-payment” apenas gera
host ilidade e desunião en tre os hom ens .1 0 que permite imag i
nar, ainda nos passos de Carlyle, que talvez tenha existido um
tempo, antes da em ergência da “sociedade c om ercial”, em que a
humanidade vivia num estado de am or permanente pelo próx i
mo, indif erent e aos encan tos destrutivos do dinhe iro.
O livr e-comércio, em suma , só con segue produ zir uma
sociedade de “filiste us” - um term o que, não à toa, tanto o co n
serv ador Matthew Arn old com o o patri arca Ka rl Marx pedi ram
de empréstimo a Heinrich Heine.2E o fizeram para designar o

me smo proble ma: a lamentá vel mental idade comercial e indus


trial das novas classes médias emergentes, tiranizadas por um
am or à ri que za mater ial qu e imp lic ava um rebaixamento da
dignidade básica (e fraternal) da natureza humana.
Entr etanto, a acusação con serva dora à “soc iedade com er
cial” nã o se limita aos pern iciosos efeitos que o livre-com ércio
exerce sobre a al ma dos hom ens. A existência do livre-comér
cio cria tensões e disrupções na sociedad e tradi cional, acarre
tando permanentes mudanças que coloc am em risco pri ncípio s
ou in stituições que, apesar de terem so bre vivid o aos “te stes do
tem po”, po de m não resistir às “destru ições criativas” de que a
sociedade com ercial é tão pródi ga.
O ca so de Justus Mõse r (1720-1794), jus tam ent e le mbra do
po r Jerry M uller em The M ind and the M arket , é um dos exem
plos mais express ivos desse tem or tradici onalista e organicista,
sobretudo qu and o temos em conta a central idade d e Mõser no
pensam ento con serva dor da Europa continental. Para Mõser,
o livre-comércio, para além dos seus vícios intrinsecamente

82
imorais, era também entendido como um perigo político, ao
co loc ar em risco uma sociedade tradi cional q ue se d esejava pre
servar na sua quietude (qu ase) medieval. A fluidez das relações
com erciais e a abertura ao m un do que el as im plicam surgiam

assim co m o um a ameaça a t radições e m odos de vida esta bele 


cidos que um conserva dor va lor iza (e protege) acima de tud o.3
Não será portanto de admirar que, perante um histórico
tão assustadiço, as preocu paç ões tradicionalistas, organ icistas e
obviamen te mora listas t enham emergido uma vez mais duran
te os anos d o governo de Margare t Thatc her no Reino U nido

(1979-1990). De a cordo co m a narrativa d e muitos co ns erv ad o


res, That cher tr ouxe para o co nservad orismo tal zelo ideológ ico
em defe sa do l ivre-com ércio - um “ma oísm o de direi ta”,4para
usar a simp ática expressão de John G ray - que difíc il se t orna
ver no Partido Conservador da prim eira-m in is tra qualq uer
semelhança com os líderes conservadores a antecederam.
Desde logo, porq ue Thatcher parece reunir as du as dim ensões
pecam inosas que o li vre-com ércio infl ige aos s eres hum anos
e às suas comunidades.
De u m pon to de vista moral, e seguindo a viole nta crítica
de Ian Gilmour, o “filistinismo” agovernan-
ça de um país a meras contas de superm ercado5 - um a acusação
particularm ente insu ltuosa quan do se sabe que Thatcher er a
filha de um comerciante de Grantham, no condado de Lin-
colnshire. Incapaz de vislumbrar nas relações humanas um
pr op ós ito m ais el evado do qu e a rasteira contabilidade de um
merceeiro, ela comungaria dos mesmos vícios que Carlyle já
denun ciara nas s uas diatribe s con tra “o evangelho da gan ânci a”.

83
Thatcher, porém, não representava apenas uma ameaça
moral para os seus contemporâneos. O perigo era também
político, na medida em que a premiê britân ica abraçav a o que
John Gray designou como “um regime de mudança inces

sante e de revolução permanente” que apenas destruía o laço


tradicional e histórico que confere um sentido identitário a
comun idades há m uito estabel ecidas .6
Não cabe aqui fazer uma análise pormenorizada dos
governos de Margar et That che r; m uito m enos um a aferi ção
teórica m inu ciosa sobre a imp erdoável traição que e la te ria
cometido sobre o patrimônio da família conservadora. Não
apenas por qu e essa tare fa já foi emp reend ida po r autor es mais
competentes na m atéri a,7mas sobretudo porque as acusações a
Thatcher, que s e crist alizaram na ignorância do tem po, partem
de um equ ívo co mon umen tal: o de se acreditar que, na histó ria
do Parti do C onservador, a “sociedade co m ercia l” sempre foi
olhada com patológica desconfiança e que as mais vociferan-
tes vozes conservadoras contra o livre-com ércio repre sent am
todo o c onser vado rism o na su a pureza virgi nal. Ao pret ender
“delimitar as fronteiras do Estado”, Thatcher estaria a come
ter, segundo Gilmour, Gray ou mesmo Scruton antes da sua

edificant e experiên cia co m as eco no m ias planificadas do Les te


Europeu, um crime de lesa-majestade.
Infeli zmente, para G ilm ou r e tutti qua nti , o crime de “deli
mitar as fronteiras do Estado” era, em essência, a história do
Partido Con serv ad or desde o sécu lo x ix , ainda que e ssa história
tenh a sido mom entaneam ente esquecida nos anos poster iores
à Segunda Guerra Mundi al. Com o escreve David Willet ts, “em

84
meados da década de 1970, os conservadores tinham perdido
a noção dos seus próprios princípios fundamentais, e coube
à sra. Thatcher recordá-los ao partido”.8E continua Willetts,
em imp ortante revi sitaç ão histórica sobre a prát ica do Partido

Conservador:

O sucesso desta estratégia de retirar o Estado de muitas áreas


da atividade econômica já tinha sido a base da prosperidade e da
confiança vitorianas . A prosperidade vitoriana não apareceu po r
acaso; foi o resultado de um programa explícito de desregulamen-

tação, liberalização e baixa de impostos levado a cabo por líde


res políticos ao longo de várias décadas e que remonta ao assalto
intelectual que Adam Smith e Edmund Burke efetuaram sobre a
sabedoria convencional [isto é, mercantilista].9

\
Curiosamente, quando Gilm our afirma que o “thatcher is-
m o” não pass ava de uma forma de indiv idual ismo do século x ix
vestid o com trajes do século x x ,10ele tinha inteira razão - mas
nã o pelo s m otivos que imaginava. Se Thatcher representa algo
de substancial n a históri a do conser vado rism o foi prec isam en
te po r te r mostr ado - ou, m elhor dize ndo, relem bra do - como
é possível articular uma defesa conservado ra da “sociedade
comercial” sem haver qualquer contradição entre os termos.
E compreender essa defesa conservadora da “sociedade
comercial” implica regressar, tal como Thatcher regressou, à
fonte de todas as fontes: Edmund Burke. Não apenas porque
Bur ke ocupa um pap el fundador no cânone do con serva do
rismo. Mas porque é aconselhável revisitar os argumentos de

85
alguém que, fund and o esse cânone, er a igualmente considerado
pel o próprio A dam Smi th com o um dos mais vál idos interl o-
cutores nos debates sobre a nova teoria e co nô m ica .11
Revisitar esses argumentos co meça desde logo por mostrar

como não parece existir em Burke o tipo de hostilidade que os


seus herdeiros, sejam britânicos ou da Europa continental, man i-
festaram e m relação à “sociedade com erci al”. Esse fato com eça
por ser explicado por motivos obviamente circunstanciais: se,
como já foi dito, a função de um conservador é em primeiro
lugar conservar princípios ou in stituições que se c onsideram

importantes para uma comunidade estabelecida, então é ine-


vitável concord ar com Huntington, para quem a comunidade
estabelec ida que Burke procurava p reserva r já era uma “soc ie-
dade com ercial” desde o co meço. E exem plifica Hunti ngton :

O século x v m assistira à emergência do Banco da Inglaterra, ao


crash da Companhia dos Mares do Sul, a empresas cotadas na Bolsa,
à expansão da navegação e do comércio, à acumulação de fortunas
comerciais e capital industrial, e ao crescimento sustentado das
manufaturas. O comércio era “o fator dominante” na Inglaterra
do século xv m .12

Porém, a adesão de Burke à “sociedade comercial” do


seu tempo não se explica apenas por motivos meramente
circunstanciais. Existem razões s u b s ta n c ia is que ser ão melh or

entendi das s e olharm os para e le co m o u m seguidor dos argu -


mentos d e A da m Smith s obre o m ercado co m o um “sistema
de liberdad e n at ur al”.13

86
Se a fun ção de um go ver no é resp eitar, por princ ípio, a
natureza hum ana, importante é também que e le respe ite uma
das propriedades funda men tais dess a mesma natureza: o fato
de existir nos homens uma propensão para “negociar, per-

muta r ou troca r uma coisa pela ou tra”, 14cujo objetivo é fazer


co m que os indivíduos p ossa m “melhorar a s ua con diç ão ”.15
Como relembra a historiadora Gertrude Himmelfarb, contra
os moralistas de extração diversa que consideravam a “socie
dade com erc ial” um a subversão da nossa natureza “autêntica”,
Smith e Burke contrapun ham o argum ento de que a vontad e e
a necessi dade hum anas de m ercadejar era m das mais “autên
ticas” paixões naturais, e só um pod er político tirânico pod ia
suspendê-las ou destruí-las.16
O conservadorismo, portan to, dev e com eçar po r res pei
tar a natu reza dos hom ens. E isso signi fica observa r a vo nt a
de des tes em participar num sist ema em que são as escolhas
naturais e livres dos indivíduos, e não a imposição autoritá
ria de um padrão único de preferências ou comportamen
tos, que devem ser soberanas. Essa é a po sição que T hatcher
reforçará dois séculos depois dos escritos de Smith e Burke:
antes d e valo rizar m os as vantagen s materi ais de um a “socie 

dade comercial”, devemos começar por relembrar a supe


riori dade éti ca de ssa soci edade. “O suces so eco nô m ico do
mundo ocidental”, escreveu Thatcher, “é um produto da sua
fil osofia m oral.” E especif icou: “O s result ados ec on ôm icos
são melhores porque a filosofia moral é superior. É superior
porque começa pelo indivíduo, pela sua singularidade e pela
sua ca pacida de de es colh a”.17

87
Será, aliás, esse respeito primordial pela “capacidade de
escolha” que parece colidir com a pretensão dos que se apre
sent am c o m o “legis lador es da hum anida de”: governantes ou
inte lect uais apaixona dos pelas suas elucubrações a pon to de

não tolerarem os que não este jam, com o eles, enfei tiça dos p or
idéias vanguardistas e iluminadas. Irving Kristol, que estava
longe de ser um entusiasta fanático da “sociedade co m ercia l”,
tem razão a o assumir q ue o capitalismo “ é a conc epçã o m enos
romântica de uma ordem pública que uma mente humana já
con ceb eu ”.18De fato , e com a exce ção dos rom ances toscos de
Ayn Rand, o capitalismo não parece despertar o mesmo fervor
que outros idea is econô m icos ou éticos. Não existe, com o afir
ma Krist ol, um a dim ensão “transcende nte” no capita lismo.1 9
Porém, um conservador d eve com eçar p or valorizar um a
“soc iedade com ercial”, não p or m otivos tr a n s c en d en te s - antes
po r mo tivos em píricos e imanent es. “O a m or ao l ucro , em bo
ra po r vezes levado a excess os ridícu los e vicio so s”, adverte
Burke , “é a gran de cau sa da prosper idad e de todos o s Esta
dos.”20E, quan do com parad a co m as al ternati vas eco nô m icas
rivais, a co m eç ar pelas desas trosas experiên cias coletivistas do
século xx , a “soci edade com ercial " fu n c io n a . Funcio na dupla

mente: na criação e distribuição de riqueza e, além dis so, co m o


expressão das livres aspirações humanas daqueles que dese
ja m sim plesm ente “m elh orar a sua con d ição”, partic ip ando
no sistema.
A q u i en co n tram o s um seg u n d o argu m en to que nos
permitirá reconciliar o conservadorismo com a “sociedade
comercial”: recordando aos incrédulos que o mercado livre,

88
mais do que uma ameaça a tradições estabelecidas, deve ser
visto também como uma tradição estabelecida.
Começa por ser uma tradição pelo motivo prosaico de
que sob reviveu aos sucessivos “teste s do tem po ”. E sobre viveu

pelas razõe s mater iais e hum ana s previamen te aprese ntadas .


Mas ex iste uma dimen são operativa mais profunda que expli
ca a natureza tra dicio na l do mercado livre: como acontece em
qualq uer tradi ção digna desse nome , ele se apresenta com o uma
“ordem espontânea”, para usarmos a eloquente formulação
de Hayek. O que significa, ainda na conceptualização desse
autor, que e ssa ordem emergiu natural e espon tane amente pela
interação livre e ob viam ente in controlad a dos seus dife rente s
ele mentos. A o contrári o d o qu e suce de numa “orga niza ção ”,
em que a natureza e as funções da ordem são o resultado de
forças exteri ores a ela, o m ercad o liv re não op era segu ndo
“com an do s” e “obediências” - “com and os” de quem des enha
e controla a ordem, “obed iências” de quem se subm ete a e la. A
“ordem espont ânea” não é o p rod uto ^e nm desí gnio humano
centralizado; a sua evolução dependerá sempre da multipli
cidade de interações que se verificam internamen te entr e os
diferentes elemen tos dessa o rd em .21

É imp ortante sublinhar es se aspect o ep istem ológ ico da


“ordem espon tânea” , e não apenas po r razões econ ôm icas. D o
po nt o de vista dos result ados, é fato qu e uma ordem na qual
cada indivíduo pode u tilizar seus conhecimen tos e preferências
na pros secu ção dos seus fins será mais eficaz do qu e um a “orga
niz aç ão ” submeti da a um a ún ica mente limitada, ou a um co n
junto restrito de mentes limitadas. Mas, para um conservador,

89
a dimensão epistemológica da “ordem espo ntânea” tem t am -
bém uma crucia l im portância política, ou seja, um relevan-
te papel antiautoritário. Porque a “ordem espontânea” nega o
monop ólio da decisão a um restrito clube de mentes l imitadas .

O princ ípio da imperfeição inte lectual dos ser es hum anos tem
aqui uma nov a palavra a dizer ao desau torizar a int olerável exi-
bição da arrogância racionalista dos que pretendem determinar
o que seres hum anos livres podem e devem procu rar por sua
conta e risco. Na “ordem espontânea”, os indivíduos serão os
melhores juizes em causa própria porque eles são também a
parte mais in teressada, e mais informada, d os seus p rojetos e fin s.
Não adm ira po r isso, e tal co m o suste nta Krist ol com sua
típica argúcia, que aquilo que parece inquietar o intelectual
anticapi talist a não seja tanto o m érito ou o demé rito da “socie -
dad e com ercial” de um pon to de vist a m eramente econ ôm i-
co. À esquerda e à d ireita, o que per turb a verdadeiramente os
“engenheiros da s almas hu mana s” é a perda de rev erênci a p or
qualquer teoria explicati va ge ral capaz de captar a com plex i-
dade da vida social e de prescr ever um a s oluçã o última para a s
suas várias iniquida des. A mentalidade m onista do intelect ual
secula r con vive m al com indivíduos que procur am livremente
os seus fins de vida sem atender em às recom end ações paterna-
listas e tantas vez es autorit árias de um a elite polít ica, filosófica
ou religiosa.2 2A feliz ex pressão live and let live é um anáte ma
para espíritos concentracionários.
Naturalmente que nesse live and let live existirão excessos, e
mesmo excessos destrutivos (e pouco criativos), que podem
coloca r em causa a ordem tradicional que se procura preservar.

90
O respeito pela liberdade das escolhas humanas não pode ser
confundido com uma reverência acrítica a qualquer resultado,
por mais perverso que seja, simplesmente porque ele é o subpro
duto dessa sacra liberdade. Um conservad or entende, c om o pou 

cos, que a imperfeição humana que define os homens


determinará muita s vezes lamentáveis condutas - e lamentáv eis
consequências. Para evocar um exemplo caro a Burke, ninguém
celebra a l iberdade de um lo uc o que fugiu da sua ce la para ate r
ror iza r a vizin han ça em volta.23O alerta de Burke pretende subli
nhar, uma v ez mais, a impossibilidad e de aferirmos a qualidade

de um valor - no caso, o valor da li berdade - apenas tendo em


con ta “a nu dez e o isolam ento da abstração m etafísica”.24
A um a tal inquietação, é fu nção de um conservador arti
cular u ma resposta éti ca e p o lític a que, longe de apo uca r a “soc ie
dade co m erc ial”, a engrand ece e a torna possível .
Eticament e, uma p osição conservadora dev e co m eçar por
defender que o mercado, além de ser uma aspiração humana,
apres enta -se ig ualment e co m o um tipo d^ord em que não se
sustenta, m m se pode sus tent ar, sobre um vaz io ax iológico e nor
mativo. Retomando a formulação clássica de Adam Smith, a
“sociedade com ercial” parece exigir um conjun to de vi rtudes
que perm itirão aos s eres hum anos , na busca dos seu s próprios
interesses, servirem igua lm ente os intere sses d e terceiro s. Nas
con hec idas palav ras d e Smit h:

Não é pela benevolência do açougeiro, do cervejeiro ou do padeiro


que podemos esperar o nosso jantar, mas pelo cuidado que eles
têm em relação aos seus interesses. Nós apelamos não para a sua

9i
humanidade, mas para o seu egoísmo, e nunca lhes falamos das
nossas necessidades, mas antes das vantagens para eles.25

O açougueiro, o cervejeiro ou o padeiro têm algo para


vender; haverá quem deseje comprar. Apela ndo ao interesse
próprio de cada u m a das p artes, o m ercado livre s urge com o
um sistema no qual deságuam interesses próprios, porém
reconciliáveis. E nem o fato de ssa conflu ênc ia ser mediada pelo
“vil metal” deve desqualificar m o ra lm en te cada um a das partes .

Como afirma H. B. Acton, não sem algum humor, uma ajuda

remun erada nem por isso deixa de ser ajuda.2 6


Mas o açou gueiro , o cerveje iro ou o padeiro não se limitam
a satisfazer o interesse de terceiros pela realização dos seus
próprios inte resses. Ser á também aconselhável , em n om e des-
ses interesses, que o açougueiro, o cervejeiro e o padeiro exi-
bam certas v ir t u d e s que o mercado tende a reconhecer e a

premiar: um açougueiro indisciplinado, um cervejeiro deso-


nesto ou um padeiro q ue não acorda cedo não terã o chances
de sobre vivê ncia . Valores co m o a disciplina (e a autodiscip lina);
a confiança (e a autoconfiança); a honestidade (para com os
outros e pa ra conosco ) fazem parte dos inte res ses do aço u -
gueiro, do cervejeiro e do padeiro para não perderem a sua
clientela e arruinarem os se us negóc ios. Con form e relembra
Samuel Gregg, que tem dedicado à “mo ralida de” dos mercados
algumas das melhores páginas contemporân eas,

A vida comercial exige, por exemplo, que os indivíduos corram ris-


cos prudentes, confiem nos outros e sejam diligentes, industriosos
92
e confiáveis. Por outras palavras, viver numa economia de mercado
encoraja certas formas de comportamento virtuoso.27

E quando ess e comp ortam ento não é virtuoso? Responder

a es sa questã o - ou, mel hor, procu rar sabe r por que m otivo os
seres humanos nem sempre ag em vir tuosamente nu ma e co 
nom ia de mercado - é o tipo de indagação fi losófic a que não
cab e no presente ensa io. Sobre essa questão, porém , é funç ão
de um conservador relembrar duas posições de princípio.
A primeira é questionar se com portamentos viciosos dentro

do merca do são devidos à natureza e ao func ionam ento des se


mercad o - ou, an tes, a f alhas morais que sã o anterior es a qual
quer participação no sistema e qu e podem igualmente emergir
em contexto s exteri ores ao p róprio mercado. Ente ndemos,
tal com o A cton compreende, que a tendênc ia pa ra imputar
ao mercado comportamentos reprováveis do ponto de vista
ético mais não é do que um lamentável expedie nte para des-
culp ab ilizar moralmente os indivíduos. Nesse tópico , convém
não desprezar a influência prévia que as família^, as escolas,
as igrejas e todos os restantes “pequenos pelotões” desempe
nha ram (ou não) na form açã o mo ral de um caráter .28 Também

aqui não há almoços grátis: o que somos dentro do mercado


depende do que fomos (e somos) fora dele.
Entretanto, para além dessas considerações gen éticas sobre
as virtudes (ou falta delas) dos indivíduos que participam no
mercado livre, importante será também defender como uma
“soci edade com ercial” não dispensa - el a a ntes exige - con di 
çõe s institucionais pa ra a sua existência e perm anên cia. C om o

93
relembr a Jerry Mulle r - uma lembrança espe cial mente impor
tant e par a os herdeiros libert ários de Adam Smith que nunca
o leram com a atenç ão devida o Estado é a mais im po rtan 
te instituição para o bom funcionamento de uma “sociedade
comercial”. Porque só o Estado garante a defesa da paz e da
ord em; a co nstru ção onerosa de grandes infra estrut uras que
não pod em depender a penas d o vo luntarism o da i nic iativa
priv ada; e a adm inistração independente da justi ça, cap az de
defender a propried ade privada, o resp eito pelos c ontra tos fir
mados ou a punição de crimes e abusos com etidos p or hom ens

que nã o sã o a njo s.29


Mesm o M argaret That cher, caric atu rad a co m o a bete noire
do pape l intervencion ista do Estad o nu m a so ciedade l ivre, em
nenhum m om ento desprezou a neces sidade de o Est ado assu
mir os encargos refer idos po r Adam Smith - a que acrescent ou,
com o m ulher do seu tempo, a ass ist ência aos mai s desfavo
reci dos. “O g ov ern o também tem o claro dever d e aj udar a
cuidar dos doen tes e dos velho s”, afirm ou a primeira-ministra,
“e de providenciar uma rede de proteção para todos aqueles
que, sem culpa alguma, caem no desemprego, na pobreza e
na pri va çã o.”30
Ironicamente, o clichê anedótico do “capitalismo selva
ge m ” só fun cion a para quem se imagin a a vive r na s elva.
94
Conservadores
ou monomaníacos:
uma conclusão
Co nservad orism o: qu ando a lguém é acusado de sofrer de maleita,
não se pretende afirmar que a infeliz criatura adere a um con

ju nto válido e racional de idéias ou valores que definem uma


ideologia pol ítica. Ao conservador não se aplica o m esm o tipo
de tolerância ética ou ep istem ológic a que se conced e ao liberal,
ao soc ialista e até, Deus seja louva do, ao co munista im penitente.
O conservad or é outra hi stória. Um im ob il ista, dirã o alguns:
alguém que s e opõe à mud ança, a qual quer mud ança, porque
assim dete rmina a s ua viciosa persona lidade. O u então é um
re a cio n á rio , dirão outros: alguém que não apenas se opõe à
muda nça, a qualquer mu dança , co m o pretend e reve rtê- la de
form a a reg ressa r a um paraíso perdido que, ao s seus o lhos
nostálgicos, é simp les mente o avess o de um m un do que s e
enco ntra d o ave sso.
Para o fanatismo progressista, o conservador n ã ó é um a
alm a qu e persiste no erro. É, resumida mente, um herege. E não
será de excluir, seguindo a s lições do preclaro Th eod or Ad orno
em T h e A u th o r ita r ia n P er so n a lity (1950), que se esco nd am out ros
vício s por detrás da heresia conservadora: uma personalidade
com inclinação para o autoritarismo e, já no século xx, para

97
as exper iência s fascistas q ue destro çaram a Europa. Recapitu-
lando: conservador, imobilista, reacionário, autoritário, fas
cista. Para que perder tempo com porm enores ?
Este ensaio, que agora termina, procurou perder tempo

com pormenores. Porque, se Deus está nos detalhes, o demô


nio também está. As caricaturas que usualmente distorcem
o tipo de con servad orism o que aqui se apresent ou só pod em
ser expli cáveis, mas não justif icáv eis, po r ignorância ou má-fé.
A ten h o-m e apenas à mais grave: a identificação entre
“conservador” e “fascista”. Creio que já ficou claro, seguindo

as importantes contribuições de Anthony Quinton e Samuel


Huntington sobre o assunto, como os termos são incompa
tíveis entre si. E incompatíveis porque o fascismo, tal como
o comunismo, adquire aos olhos de um conservador contor
nos inapelavelmente revolucionários e utópicos. Escusado
será dizer que a reação conservadora que aqui se radicou em
Edmund Burke com eço u p or repudi ar esse tipo de radical ismo
político que pro cura co nstruir paraísos futuro s pela impiedosa
destruição d o present e.
Para um conser vador, o f asci smo e o com unism o co m e
çam por se aprese ntar com o tirania s gêmea s, ao parti lharem
a mesm a co nce pçã o violenta e primária do exercício polí tico.
E “primária” é o termo: ao confrontar-se co m o procedim ento
dos revolu cionários na Fr ança, Burk e já havia notado c om o
um dos vícios principais das suas condutas estava na forma
com o se procu rava evit ar a intr ínsec a dificuldade (e complexi
dade) da política tal com o ela é . “ A dificuldade é um instrutor
severo”, escrevia o autor irlandês, na medida em que tende a

98
“fortalecer o s n ossos m edos e a apur ar a nossa capacidade.”1
A ação revolucio nária, pelo contrário , obedece antes a um
“princípio de preguiça”: a preguiça de quem é incapaz de
pacientem ente estuda r e reform ar a com unidad e real, op tan do

antes p or “atalhos” e pelas “faci lidades falaciosas” da dest ruiçã o


e da recriação totais.2
Obviam ente, o que é válido para um revolu cionário será
válido para um reacionário: rep etindo a certeira observação
de Huntington, é indiferente saber se a destruição no presente
se faz em nom e de um a utopia passad a ou futur a. D estruição

é destruição. E uma utopia será sempre um a utopia.


O conservadorismo, co m o ideologi a reativa que é, define-se
pela sua atitude geneticam ente antiutópica. E i sso será mais
facilm ente com preen dido se, nestas páginas finais, def inir-se
qual a função do poder político num a perspect iva conser
vadora. Sem surpresas, essa função estará necessaria m ente
moldada pelos princípios que ficaram para trás: pela defesa
da imperfeição intelectual humana perante a complexidade e
as contingências com que nos confron tam os no ato de gover
nar; pelo reconh ecimento das di ferentes conc ep ções do bem
que d efinem as sociedades abertas, d emo cráticas e plur alist as;
pelo respeito às tradições úteis e benignas que sobreviveram
aos diferentes “ testes do te m po ”; pela apolog ia de um a atitude
reformista que seja capaz de evitar a degradação do ^edifício”
que se pr ocura conservar; e pe la valoriz ação e proteç ão de uma
“sociedade comercial”, entend ida co m o con dição primeira par a
a realização da natureza dos homens e para o bem-estar das
suas sociedades.

99
A defesa da im perfeição intelectual humana co m eça por
desautorizar a procu ra de ideais utóp icos, sejam el es revolu
cionários o u reacionár ios, porque essas quimeras assentam na
arrogância própria de quem s e considera onipotente e onis

ciente, igno ran do “a sua própria cegu eira” e as contingências


inevitáveis que sempre se abate m sob re a cond uta dos homens.
Não é po r acaso que o primeir o con servador moderno
reagiu precisamente con tra ess a intolerável arro gânci a: a R ev o
lução Francesa, mais do que uma reforma, apresentava-se
co m o u m a prom essa total de que er a possível realizar n a Ter

ra o que e spíritos mais mod estos esperavam apena s encontrar


no Céu. Essa busca de perfeição, pela sua basilar impossibili
dade, apenas con du ziria a atos crescentes de violência política.
Tal com o sustenta Noèl 0’Sull ivan, o que m ov e Burke é a pe ri
gosa ideia da “plasticidade”3do mundo e da natureza dos
homens, co m o se am bos pudessem ser objeto de transforma
ção radi cal. Um a pretensão qu e, logicam ente, po de te r com e
çado na França do século xviii , mas que não se esgota ali:
com o rel embr a o m esmo 0’Sullivan, a oposição conservadora
à “fé” progressista do século xix e aos apelos totalitários do
séc ulo x x fez -se de ac ordo com os mesm os princí pios - uma
consciê ncia primeva da no ssa i mp erfeição int ele ctual - e co n
tra a m esma am bição - a crença patética d e que o m und o e os
seres humanos existem para serem radicalmente moldados
segundo os cap richos de terce iros. 4
Um gov erno conservador s erá um gov erno neces sariamen
te mais m od esto e prudente na sua fun çã o - e essas virtudes
recon hecem e refletem os re stantes prin cípios aqui abordados.

100
Em primeiro lugar, um governo modesto e prudente
começará por reconhecer, como diria Isaiah Berlin, a multi
plicidade de val ores e ob jetivos de vida que os ser es hum ano s
perseguem por sua conta e risco no contexto de um a socie dade

pluralis ta. Es sa afirmaçã o tem várias imp licações - e várias


aplicaçõe s. O reconhecimento de um universo d e escol has plu
ralistas signi fica que não ca be a o po de r político decidir a hierar
quia de valores sob a qual tod os os indivíduo s terão de vive r as
suas vidas. P o rq u e sã o o s in d iv íd u o s q u e v iv em essa s v id a s; e são eles
que, falhando o u acertando, devem perseguir os ob jetivos que

entendem sem a mão p aternalis ta do Es tado. Tal po siçã o n ão


apenas distingue o con serva dor ism o de alternativas ideológicas
rivais à esquerda, mas à direita também e, em particular, em
confronto com outras tradições conservadoras de natureza
monista, ou seja, defensoras da aplicação de um valor, ou de
um conjun to de valores absolutos, sobre um a reali dade que
acreditam ser caótica ou decadent e.
Será isto a afirmação tipicamente liberal de que o Estado
deve se r neutro perante dif ere ntes con cepç ões d o bem? Não
necessariamente. Retomand o a importante distinção entr e “va lo 
res primários” e “valores secundários” de John Kekes, é função
do go ver no preservar e garantir a exi stência d e am bos. Porque
am bos fazem parte da nossa pai sagem moral. Um gov erno co n
servad or dev e evitar “males prim ário s” - males universal mente
reconhecidos como tal, independentemente das inevitáveis
variações culturais que existem entre sociedades distintas (ou
até no interio r de uma mesm a soci edade) - pelo simples fato de
que a natureza humana é co mum a todos. Parafraseando o bardo,

101
todos nós sangram os, rimos e mo rrem os de igual manei ra.
É por isso que, t al com o escreve H . B. Ac ton , “um a moralidade
mínima que proíbe o homicídio, a agre ssão, o roub o e a men tira
é igualmen te aceita p or liber ais e tradicionalistas”. 5
Um g ov ern o conserv ador nã o se li mita, entre tanto , a essa
“moralidade m ínim a”. Se os “val ores sec un dário s” são igual
ment e importantes para a vi da de um a com unidade - valore s
que os hom ens adquirem por participarem ness a comunidade
com o seu s mem bros -, será função do po der polít ico prot eger
e preservar es sas tradições em face de “ males secun dár ios”, ou

seja, que privam as gerações present es e vindo uras do pa trim ô


nio ético e epistemológico das gerações passadas.
Tal não significa que idéias de reforma, ou necessidades
de reforma, não possam ser empreendidas. Só que a reforma
deve operar-se de acordo com um princípio de c o n se r v a çã o ,
não de ino v a çã o . Um cínico, um a ve z m ais, poderia re peti r que
é importante que algo mude para que tudo fique como está.
Quase. A frase correta seria dizer que é importante que algo
mude par a que tudo evolua co m o deve.
Por últi mo, e em homenagem a um conservador hetero
doxo como Hayek, não é função de um governo transformar
uma “or dem espon tânea”, com o o m ercado, num a “orga niza
çã o”, sujeita aos “com andos” abusiv os (e usualmente apedeutas)
de um a elite dogm ática. N ão apenas po r mo tivos de eficiênci a
econôm ica. Mas porque não compete ao p oder políti co a auto
ridad e de decidir centr almente esc olha s livres de s eres hum a
nos liv res que proc uram apen as “melh orar a sua cond ição”,
partic ipando n o m ercado sob o im pério da le i.

10 2
A o mesmo tempo que defende o mercado livre sob o impé
rio da le i, um con serva dor entenderá qu e a criaçã o de ri queza
será sempre condição basilar para que uma comunidade civi
lizada possa resgatar da pobreza e da privação os mais velhos,

os mais doentes e os menos afortunados. O reconhecimento


de uma natureza humana comum será também uma forma de
repetir a velha máxim a de que, em cada desti no am argo, p od e
ría tam bé m estar o meu destin o.

Será possível s er um con serva dor em política e um radica l em


tod o o resto? A pergunta pertence a Michael Oakesho tt em “On
Being Con servative”, e ela cont inu a a causar surpresa em certos
gostos , para quem o c ons erva dorism o político se con fun de com
outro s tipos de com porta mento s sociais, artís ticos, pessoais et c.
Repito e concluo: o presente ensaio é um ensaio p olítico,
nã o estético ou ps icoló gico . E, politicamente, o que deve inte
ressar a um conse rvad or é de finir, com o defende Oa kesho tt,
a específica ( e limit ada) vo ca çã o de um gov erno :6aqu ilo que
ele pode e deve fazer, mas sobretudo aquilo que ele não pode
nem de ve fazer .
E o que um governo conservado r não pode nem deve faze r
é “im por atividades substan tivas”7 sobre tercei ros, co m o se a
vid a alheia pertencesse a um dono sem rosto. De u m governo
con serv ad or espe ra-se, ante s, que seja capaz de garantir “a pro 
visão e a custódia de regras gerais de co nduta” que perm itam
a terceiros perseguir os o bjetivos que entendem .8A atividade
política não pode ser o pretexto ideal para cum prir u m projeto

10 3
part icular, qu alquer que ele seja e p or m ais nob re - em teoria
- que s eja. O s p rojetos parti culare s pertencem , precis amente,
aos p a r tic u la r es. C om o afirmaria T. S. Eliot, o m otiv o pelo qual
não existem “c ausas ganhas” e m p olítica é porque também não
existem “causas perdidas”: para um conservador, o imperativo
da c o n tin u id a d e é mais importante d o q ue a promessa de que
algo irá triunfar.9
Respondendo à pergunta de Oakeshott, é perfeitamente
possív el se r um conserv ador em p olítica e um radical em todo
o resto. Aliás, a ten tação final des te ensaio seria simp lesmente
dizer que a ún ica form a de “viverm os e deixarm os viver” pres
supõe a inexistência de radica is a governar-nos. “Nós toleramos
mo nom aníacos, é o nosso hábit o faz ê-lo”, afirma Oakeshott,
“mas po r que mo tivo devem os ser g o v e r n a d o s por eles?”10
Eis talvez o mais imp ortante princ ípio de uma so cie

dade política tole rável : evitar que o p od er sej a exercido p or


monomaníacos.
10 4
Notas

QUAT TORDI Ci : UM A INTROD UÇÃ O

1 Viereck, Conservatism, p. 11.


2 Quinton, “Conservatism”.In: A Com panion to Contemporaty P oli ti cal Phi-
losophy, pp. 248-9.
3 Quinton,T he Poli ti cs 0/Im p erjection, p. 56.
4 Viereck, Conservatism, p. 6.
5 Cf. Strauss,N atural R ig h t and H istory, pp. 317-9.
6 Burke, “Thoughts on FrenchAffairs”. In:W orks, v. 4, p. 377.
7 Maistre,Oeuvres, p. 266.
8 0 ’Sullivan, Conservatism, p. 38.
9 Ibidem, p. 82.
10 Carlyle,P ast and Pre sent, p. 33.
11 Viereck,Conservatism, p. 38.

12 Coutinho,P olí tica e perfe ição.


13 A esse respeito, ve r: “Em busca do equilíbrio”. In:D ieta &contradicta, 2009.
e “Dez notas para a definição de uma direita”. PIn: or que virei à direita , 2012.
14 Willetts,'M o d e m C onservatis m , p. 70.

A ID E O L O G IA C O N S E R V A D O R A

1 Oakeshott, R a tio n alism in P o litics, p. 408.


2 Ibidem.
3 Ibidem, pp. 408-9.
4 Hogg, Th e Case fo r Conser vati sm, p. 13.
5 Hearnshaw,Conservati sm in Englan d, p. 22.
6 Baldwin, prefácio aElliot, Toryism and the Twenti et h Century, pp. tx-x:
7 Buchan, prefácio a Bryant, T he Spiri t o f Conse rvat is m , p. v i i.
8 Elliot,Toryis m and the Twentie th Century, p. 6.

10 7
9 Cecil,Conservatism, p. 8.
10 Gilmour,Inside R ig h t, pp. 109-10.
11 Quinton,T he Polit ics o f Imperfect io n, p. 19.
12 Huntington, “Conservatism as an Ideology”. In: Th e A m eri can Pol it ic al
Science Review, p. 460.

13 Berlin,Liberty, p. 212.
14 Berlin,The Cro ok ed Ti m ber o f Hum ani ty, p. 20.
15 Hayek,Th e Co nstit ution o f Li ber ty , p. 411.
16 Ibidem, p. 404.
17 Huntington, “Conservatism as an Ideology”. In: Th e A m eri can Poli ti cal
Science R eview , p. 457.
18 Ibidem, p. 458.
19 Ibidem,pp. 460-1.
20 Ibidem, p. 458.
21 Ibidem, p. 468.
22 Ibidem, p. 460.
23 Scruton,G entle Regret s, p. 33.
24 Burke, “Reflections on theRevolution in France”.In:Works, v. 3, p. 407.
25 Ibidem, p. 440.
26 Ibidem, p. 339.

IMPERF EI ÇÃO HU M AN A

1 Scruton,The M eaning o f Cons er vat ism, p. 1.


2 Quinton,T he Polit ics o f Imperfe ct io n, p. 13.
3 Oakeshott,R a tio n a lism in P olitic s, p. 10.
4 Ibidem, p. 9.
5 Mackintosh,Vindiciae Gallicae, p. 114.
6 Ibidem, p. 119.
7 Scruton,Th e M eaning o f Cons er vat ism, p. x.
8 Oakeshott,R a tio n a li sm in P olit ics, p. 15.
10 8
9 Tocqueville,L A n d e n t R eg im e et la R év olutio n , p. 240.
10 Burke, “Letterto a Member of the National Assembly”. InW
: orks, v. 4, p. 26.
11 Merton, “The Unanticipated Consequences foSocial Action”. In:S o cio -
logi cal Am biva lence a nd other Ess ays, pp. 145-55.
12 Ibidem, p. 152.
13 Burke, “Tothe Chevalier de Grave - 24 August 1792”. In:Correspondence,
v. 7, p. 182.
14 Merton, “TheUnanticipated Consequences of Social Action”. In: Socio-
logi cal Am biva lence and other Es says , p. 151.
15 Burke, “To Charles-Jean-François Dep
ont - [November 1789]”. In:Cor
respondence, v. 6, p. 48.
16 Kekes, A Case fo r Conser vati sm, p. 191.
17 0 ’Hara,Conservatism, p. 54.
18 Burke, “To Adrein-Jean-François Duport - [post 28 March 1790]”. In:
Correspondence, v. 6, p. 109.
19 Maistre,Oeuvres, p. 233.
20 Ibidem, p. 234.
21 Burke, “A Vindication of Natural Society”, In:W orks, v. 1, p. 6.

0 SENTI DO D A REAL IDADE

1 Gilmour,Inside R ig ht, p. 128.


2 Huntington, “Conservatism as an Ideology”. In:The American Political
S cien ce R evie w , p. 458.
3 Burke, “Reflections on the Révol
ution in France”.In:Works, v. 3, p. 240.

4 Burke, “An Appeal from the New to the Old Whigs”. In: Works, v. 4, p. 80.
5 Berlin, The Power o/ídeas,p. 134.
6 Berlin,P ersonal Im pressio ns, p. 28.
7 Ibidem.
8 Burke, “Reflections on theRévolution in France”.In:Works, v. 3, p. 263.
9 Burke, “Speech onthe Army Estimates”.In:Works, v. 3, p. 226.
10 Viereck,Conservatism, p. 47.

10 9
xi Burke, “Speech on Conciliation with America”. In:Works, v. 2, p. 139.
12 Scruton,The Uses o fPess im ism , pp. 153-65.
13 Berlin,The Cro ok ed Tim ber o f Hum ani ty , p. 12.
14 Scruton,T h e Meaning o f Con ser vat is m , pp. 26-7.
15 Strauss,N a tu ra l R ig h t a n d H isto ty , p. 12.
16 Ibidem, p. 9.
17 Ibidem, p. 15.
18 Ibidem, pp. 13-4.
19 Ibidem, pp. 18-9.
20 Burke, “A Letter to a Member of the National Assembly”. In:Works,
v. 4, p. 28.

21 Burke, “Letters ona Regicide Peace- iv”. In: Works, v. 6, pp. 89-90.
22 Burke, “Reflections on the Revolution in France”.
In:Works, v. 3, pp. 216-7.
23 Cecil,Conservatism, p. 246.
24 Hogg,Th e Case fo r Conser vati sm, p. 73.
25 Kekes,A Case fo r Conser vat is m , p. 34.
26 Essa sutil distinção, nemsempreentendidano argumentário pluralista
(e conservador), é analisada de forma superior por Quinton em
T he P oli ti cs
o fIm perf ect io n, p. 62.
27 Berry,H u m a n Nature, p. 58.
28 Kekes,A Case fo r Conser vat is m , p. 35.
29 0 ’Hara,Conservatism, p. 101.
30 Kekes, A Case fo r Conser vati sm, p. 102.
31 Scruton,Th e M eaning o fConse rvat is m, p. 79.
32 Berlin,The Cro oke d T imber o f Hum anit y, p. 204.
33 Scruton,T h e Meaning o f Cons erv ati sm, p. 13.
34 Essa contínua oscilação entreo passado eo presente naatuação “expe
diente”do estadista conservador é objeto de análise em: CharlesVaughan,
S tu dies, v. 2, p. 121.
35 Scruton,Th e M eaning o fCo ns er vat ism, p. 14.
110
OS TES TES DO TEMPO

1 Oakeshott, R a tio n a lis m in P oli tics, pp. 408-11.


2 Burke, “Reflections on the Revolution in France”.In:Works, v. 3, p. 191.
3 Ibidem, p. 347.
4 A esse respeito, ver o interessante paralelismo de Hampsher-Monken
tre o “conservadorismo” e o “darwinismo” em: A
H isto ry o fM o d e r n Politica l
Thought, p. 274.
5 Scruton,T h e Meani ng o f Conse rvati sm, p. 31.
6 Kekes, A Case fo r Conservati sm, p. 9.
7 Ibidem, p. 8.
8 Burke, “Reflections on the Revolution in France”. In:Works, v. 3, p. 357.

9 Ibidem, p. 334.
10 Kekes, A Case fo r Conser vat is m , p. 117.
11 Burke, “Reflections on theRevolution in France”.In:Works, v. 3, pp. 241-2.
12 Oakeshott,Th e Poli ti cs ofF aith, pp. 86-7.
13 Burke, “Reflections on the Revolution in France”.In:Works, v. 3, p. 359.
14 Paine,R ig h ts o f M a n , pp. 11-2.
15 Esse importante paralelismo entre Paine e Locke encontra desenvolvi
mento em 0 ’Sullivan,Conservatism, p. 10.
16 Eliot,S elected Prose, p. 38.
17 Burke, “Reflections on the Revolution in France”. In: Works, v. 3, p. 346.
18 Oakeshott,R a tio n a li sm in P o li tics, p. 59.
19 Burke, “Reflections on the Revolution in France”. In: Wc>rHAU3, p. 274.
20 Wilkins,T he P robl em o f Bu rke’ s Po li ti cal Phil osophy, p. 110.
21 Kekes, A Case fo r Conservat is m , pp. 113-4.
22 Oakeshott, R a tio n a li sm in P oli tics, p. 60.
23 Burke, “Reflections on the Revolution in France”.In:W orks, v. 3, p. 347.

A R E F O R M A PR U D E N T E

1 Hirschman,The Rhet ori c o f Reaction, pp. 11-2.


2 Ibidem, p. 43

111
3 Ibidem, p. 7.
4 Robin,Th e React io nary M ind, p. 24.
5 Acton,The M orais o f the Market s, p. 173.
6 Quinton,T he Po li ti cs o f Imp erf ect ion, p. 20.
7 0 ’Sullivan,Conservatism, p. 9.
8 Quinton,T he Polit ics o f Imperfe ct ion, p. 16.
9 Citado em Viereck, Conservatism, p. 43.
10 Popper,Conjecture s and Refutations, p. 176.
11 Burke, “Reflections on the Revolution in France”.In:Works, v. 3, p. 274.
12 Huntington, “Conservatism as an Ideology” In: The American Political
Science R evie w , p. 454.

13 Viereck,Conservatism, p. 87.
14 Burke, “Speech on Conciliation with America". In:Works, v. 2, p. 109.
15 Burke, “Speech on American Taxation”. In:Works, v. 2, p. 72.
16 Burke, “Reflections on theRevolution in France”.In:Works, v. 3, p. 259.
17 Ibidem, p. 562.
18 Kekes, A Case fo r Conser vati sm , p. 8.

19 Burke, “Reflections on the Revolution in France”.In:Works, v. 3, p. 280.


20 Oakeshott,R a tio n a li sm in Polit ics, p. 411.
21 Burke, “An Appeal from the New to the Old Whigs”. In:W orks, v. 4, p. 80.
22 Oakeshott,R a tio n a li sm in P olitics, pp. 411-2.
23 Burke, “Letters on aRegicide Peace- 1 ”. In:Works, v. 5, p. 234.
24 Burke, “Reflections on the Revolution in France”.In:Works, v. 3, pp. 311-2.
25 Burke, “A Letter to a Member of the NationalAsembly”. InWorks,
: v. 4, p. 43.
26 Burke, “Reflections on the Revolution in France”. In: Works, v. 3, p. 280.
27 Ibidem, p. 259.
28 Popper,Th e Pov er ty ofH istori cism , p. 61.
29 Cecil,Conservatism, p. 18.
30 Wollstonecraft, A Vindi cat io n o f the Right s o f M en, p. 8.
31 Burke, “Speech on the Plan for Economical Reform”. In:Works, v. 2,
pp. 280-1.

112
A “ S O C IE D A D E C O M E R C IA L ”

1 Carlyle,P ast and Present, p. 32.


2 Muller,The M ind and t he M arke t, p. 208.
3 Ibidem, p. 95
4 Gray,E n li g h ten m en t’s W a ke, p. 87.

5 Gilmour,D a n c in g w ith D o g m a , p. 273.


6 Gray,E n lig h ten m en ts W a ke, p. 106.
7 A esse respeito, são imprescindíveis os trabalhos de David Willetts
(M odem Cons er vat ism, 1992) e de E. H. H. Green
Ideolo
( gies o f C on serva tism ,
2002, em particular o capítulo “Thatcherism: A Historical Perspective”,
pp. 214-39).
8 Willetts,M o d e m C onservatism , p. 46.
9 Ibidem, p. 10.
10 Gilmour,D a n cin g w ith D o g m a , p. 9.
11 Buckle,Introduction to the H isto ry o f C iv il iza tion in E n gland, p. 25911.
12 Huntington, “Conservatism as an Ideology” In:The A m eri can Pol iti cal
S cie n ce R eview , p. 462.
13 Smith,The W eal th o f N a tio n s, v. 2, p. 273.

14 Ibidem, v. 1, p. 117.
15 Ibidem, p. 443.
16 Himmelfarb,The Roads to M odernity, p. 68.
17 Thatcher, InD efen se o f F reedom , p. 25.
18 Kristol, TwoCheersfor Ca pit ali sm , p. x.
19 Ibidem.

20 Burke, “Letterson a Regicide Peace- m”. In:Works, v. 5, p. 455.


21 Hayek,Law, L egisla tion and Liberty , pp. 35-54.
22 Kristol, TwoCheersfor Capitali sm , p. 58.
23 Burke, “Reflections on the Revolution in France”.In:Works, v. 3, p. 241.
24 Ibidem, p. 240.
25 Smith,The W eal th o f N ati ons, v. 1, p. 119.
26 Acton,The Morais o f th e M arket s, p. 47.
113
27 Gregg, “Markets, Morality and Civil Society”. In:A r g u in g C onserva tism ,
P- 44 3-
28 Acton,The M orai s o f the Market s, p. 13.
29 Muller,The M ind and the M arke t, pp. 76-7.
30 Thatcher,In D efe n se ofF reed om , p. 12.

CONSERVADORES OU MONOMANÍACOS: UMA CONCLUSÃO

1 Burke, “Reflections on the Revolution in France”.In:Works, v. 3, p. 453.


2 Ibidem, p. 454.
3 0 ’Sullivan,Conservatism, p. 11.
4 Ibidem, pp. 14-6.

5 Acton, The M orai s o f the Markets , p. 185.


6 Oakeshott,R a tio n a li sm in P olitic s, p. 429.
7 Ibidem, p. 424.
8 Ibidem.
9 Eliot,Selected P rose, pp. 199-200.
10 Oakeshott,R a tio n a li sm in P olitic s, p. 428.
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índice remissi vo

A C
Acton, H.B. 70, 92-93,102 capacidade de escolha 87-8
Adorno, Theodor 97 capitalismo 16,81,88, 94
Antigo R e g im e e a Revolução, O Carlos x 13
(Tocqueville) 36 Carlyle, Thomas 15,82-3
A p p e a lfr o m th e N e w to th e O ld Ca se fo r Conser vati sm , A (Kekes)
W hi gs, A n (Burke) 76 47 . 52

aristocracia 46,72 Cecil, Hugh 23, 52,78


Aristóteles 10 ceticismo 38
Arnold, Matthew 82 Churchill, Winston 17,43
A u th o r it a r ia n P erso n a lity , T h e Cícero 10
(Adorno) 97 circunstâncias 40,43-50, 59, 63,74,
autoritarismo 16, 97 77-8,86

classes trabalhadoras 46
B
Coleridge, Samuel 15,35
Baldwin, Stanley 22
Colombo, Cristóvão 70
Barrès, Maurice 14
comportamento v irtu oso 93
Berlin, Isaiah 25-6,44-5,48,
comunismo 28, 97-8
54 .101
conservadorismo americano 72
Berry, Christopher 52
Conservatism (Viereck) 9
Bonald, Louis de 14 Con servati sm as an Ideol ogy
B r id e s h e a d Revisitei (Waugh) 7
(Huntington) 25
Buchan, John 23 Considerátions surla Fra nce
Burke, Edmund 10-12,14-18, (Maistre) 12
29-30,35-4 0 ,44-6, 51, 58, Con sti tuti on o f Libe rt y, T h e (Hayek)
60-2,64-5,68,72-9,85-8,
27
91, 98,100
CosiF a n T u tte (Mozart) 10
11 9
D Himmelfarb, Gertrude 87
D a n c in g w ith D o g m a (Gilmour) 16 Hirschman, Albert 67-70
Depont, Charles-Jean-François Hitler, Adolf 15
38
Hogg, Quintin 22, 52
déspota, despotismo 53 Homero 63
“disposição conservadora” Hooker, Richard 10
(Oakeshott) 21, 23-4
Huntington, Samuel 25-9,31,33,
Disraeli, Benjamin 15,46, 71 43-4, 86, 98-9

E
I
Eliot, T. S. 63,104 ideologia posicionai,
Elliot, Walter 23 conservadorismo como 28, 31,
Europa 14,46-7,74-5, 82,86,98 33- 43-4

imperfeição humana 18,34,37,39,


F 79, 90-1, 99-100
fascismo 28,98 Inglaterra 37,45-7,86
fé 23, 27 irracionalismo 15,35,40
França 13,30,38,74, 98,100

Frederico da Prússia 15 J
jacobinismo 13

G Jaime 1146
George m 47,73
K
Gilmour, Ian 16,83-5
Kekes, John 11, 39,47, 52-4, 59-60,
governo conservador 100-3
65,75,101
Gray, John 83-4
Gregg, Samuel, 92 Kristol, Irving 88, 90

guerra civil 53,74


L

Lampedusa, príncipe de 69
H
Leste Europeu 84
Hayek, Friedrich 27, 89,102
liberalismo 28,72
Hearnshaw, Fossey John Cobb 22
liberdade 26,28,44,47-8,68,73,86,91
Heine, Fleinrich 82

120
livre-comércio 82-4 O

Locke, John 62 0 ’Hara, Kieron 39, 53

Londres 74 0 ’Sullivan, Noél 14, 71,100

Luís x v iii 13 Oakeshott, Michael 10,18, 21-5,


35-6,40, 57. 60-1, 65,75-7,103-4

M “On Being Conservative”


(Oakeshott) 21,103
Mackintosh, James 35
Orange, William de (William m)
Maio de 1968 29
46
Maistre, Joseph de 11-2,14,40
“ordem espontânea" (Hayek)
mal 39
89-90,102
“males primários” (Kekes) 53-4,101
Marx, Karl 82 P
Maurras, Charles 14 Paine, Thomas 61-2,111
M e a n in g 0/Conservatism, The Paris 10-1,29,73
(Scruton) 16 Partido Conservador 17,83-5
mercado 81,86,88-9, 92-3,102-3; ver
pensamento liberal 44, 58
também livre-comércio
Pierre-Marie, Chevalier de Grave
Merton, Robert 37-8
37
M in d a n d th e M a r k e t, T h e (Muller) 82
pluralismo 17-8,47-8
M o d e m C o n s e r v a tis m (Willetts) 18
pobreza 53, 59, 94,103
Mõser, Justus 82 P o litic s o flm p e r fe c tio n , T h e (Quinton)
Mozart, Wolfgang Amadeus 10 10.33.110
Muller, Jerry 82,94 Popper, Karl 72,78
multiplicidade de valores 49,101 p r a e ju d ic iu m (preconceito) 55, 64

N Q
N a tu r a l R ig h t a n d H is to r y (Strauss) Quinton, Anthony 10, 24,33-4,
50 38.70.98.110
natureza humana 22, 52, 82, 87,
101,103
North, Douglass 39
12 1 ^
R S

racionalismo 35-6 Salisbury 23


radicalismo político 75, 98 Scruton, Roger 11,16, 29,33,36,
Rand, Ayn 88 48-9, 53 - 5 , 58, 84

razão 35-6,40,70 “sentimentos naturais” (Adam

reacionário 12, 24-6,44, 64, 69,71, Smith) 51


97-100 Shakespeare, William 51

R e fle x õ e s so b re a R e v o lu ç ã o n a Smith, Adam 51, 81, 85-7,91, 94


F ra n ça (Burke) 11,29-30,35,38, sociedade comercial 15,17-8,80-2,
61-2,73-4,76 84-8, 90-1, 93-4, 99
R e fo r m A c t 46 Sólon 49
reforma 18, 66,71-2,74-5,77-9,100, Strauss, Leo 49-51
102
reforma conservadora 77-8 T

Reino Unido 29,83 Teoria dos senti m entos m or ai s


Restauração na França 13 (Smith) 51

revolução 30,75,84,121 Thatcher, Margareth 16,83-5,


87, 94
Revolução Americana 72-4,
thatcherismo 85
121
“revolução conservadora” (Viereck) Tocqueville, Alexis de 36
72 Tomás de Aquino 10
Revolução Francesa 9-10,12,29-30, totalitarismo 30,70,100
35-6,45 , 4 9 . 51, 72-74,100 tradição 18, 55, 58, 63-5,71-2,76-7,89
Revolução Gloriosa 45-6
revolucionário 9, 24-6,30,36, U

38,44, 51, 58,98-100 utopia 9,14, 25-7, 98-9


Rhet ori c o f Reacti on, T he
(Hirschman) 67 V
R ig h t s o f M a n (Paine) 61 valores 16,22,26,33,47-9,51-2,
Robin, Corey 69 54,63,92,97,101-2
Rousseau, Jean-Jacques 34, 64 Viereck, Peter 9,11,46,72-3
122
Vin diciae Ga lli cae (Mackintosh) 35
virtudes 21,27,36,38,81,91-3,100
Voltaire 59

Waugh, Evelyn 7
Wilde, Oscar 16
Willetts, David 18, 84-5,113
Wollstonecraft, Mary 79
Wordsworth, William 15,35
Agradecim entos

Escrever sobre o conservadorismo era uma ideia antiga, que


foi resgatada e se tornou possível pelas mãos de Otávio Frias
Filho, diretor da F o lh a d e S .P a u lo , e de Alcino Leite Neto, editor
da Três Estrelas. Ag rad eço a am bos: o convite para pu blica r este
ensaio e, sobretudo, a infi nita paciência que ti veram co m as
idiossincrasi as de um auto r que, na m elhor tradição neurótica,
acordava n o m eio da noite com a possibi lidade angustiante d e
um a vírgula fora do lug ar.
Quero ainda agradecer aos meus colegas do Instituto de
Estudos Políticos da Universidade Católica Portuguesa, em
Lisboa, com quem fui conversan do ao longo dos anos sobre o s
temas aqui tratados. Uma palavra especial é devida ao diretor
do instituto, professor João Carlos Espada, que no primeiro
seme stre do an o acad êmico de 2013-2014 me desa fiou a lecionar
um cur so especificamente de dicado aos dif erentes conservado-
rismos. Isso me perm itiu ler mu ito, com parar tradições, apurar
con ceitos e depois te stá-l os co m alunos atentos e , em certos

casos, implacáveis. Este livro é dedicado a eles.


Ou, parafraseando alguém onipresente neste ensaio, o
melhor de suas páginas é dedicado aos alunos presentes, aos
passados e, espero bem, aos que ainda estarão para chegar.

L is b o a , ja n e ir o d e 2 0 1 4
12 5
Sobre o autor

João Pereira Coutinh o nasc eu em Portugal, em 1976. Form ou-se


em história na Faculdade de Letras da Universidade do Porto.
Do utorou -se em ciência política e relaç ões inte rnacionais pelo
Instituto de Estudos Políticos da Universidade Católica Portu
guesa, em Lisbo a, onde tam bém é professor. Colunista da F o lh a
de S.Pa ulo e do diá rio portugu ês Corr ei o da M an hã , pu blicou no
Bras il o volum e de crônicas A v e n id a P a u lis ta (Record, 2007) e,
pela editora Três Estrelas, a coletânea de ensaios P o r q u e virei à
direita (com Luiz Felipe Pondé e Denis Rosenfield), em 2012.
127
Este livro foi com po sto na fonte Albertina
e impresso em m arço de 20 14 pel a Corprint ,
sobre papel p ólen bo ld 90 g/m2 .
Nestes dias de depredado 9
res, como esquecer o passeio
de Lênin em companhia de
Trótski pelas ruas de Lon-
dres, segundo relato de Isaac
Deutscher? O veterano dizia
ao jovem, apontando monu-
mentos: “Esta é a Westminster &
r-

deles; este é o Museu Britâni


co deles”. Lênin estava errado
naquilo, como no resto. Era a
Westminster dos homens, o
Museu Britânico dos homens.
Os que reformaram conser
vando fizeram nossos o Museu
Britânico e a Abadia de West |
minster, e os que revoluciona-
riam destruindo fizeram milhões
de mortos. Que revolucionários
e reacionáriostenham a chance í
de aprender com agenerosa e |
amigável exposição de Coutinho.

E que
que todos nos lembremos
o conservadorismo de
é, antes
de tudo, um humanismo.

R einaldo A zevedo
Jornalista, colunista da Folha de 1
S.Paulo, da Veja e comentarista da ■'
rádio Jovem Pan, é autor de Opais J
dos petralhas (Record), entre outros.

J oão P ereira C outinhoé jornalista |


e cientista po
lítico, professor da .
Universidade Católica Portugue-
sa. Colunista da Folha d e S.Paul o
e do diário português Correio da
Man hã, é autor de A v e n id a P a u - |
lista (Record) e coautor de Por |
que vir ei à direita (TrêsEstrelas). 1
Em um país de democracia recente e marcado
historicamente por ditaduras como o Brasil, o

pensamento político conservador costuma ser


associado ao autoritarismo e à supressão das
liberdades individuais. O audacioso objetivo
deste livro é desfazer esse equívoco e apresen-
tar ao leitor as idéias conservadoras, que não
se confundem com as doutrinas reacionárias.

Para o jorn alista e c ientista político João Pereira


Coutinho, o conservadorismo é o modo de a so-
ciedade preservar o melhor q ue, com base na tra -
dição democrática, ela criou para garantir a paz, a
liberdade dos cidad ãos e o vigor das insti tuições.
Com linguagem clara e envolvente, o autor

expõe o pensamento dos principais filósofos


conservadores, ao mesmo tempo que tece uma
reflexão polít ica de impo rtante signifi cado para a
atualidade. Contra radicalismos crescentes à di-
reita e à esquerda, Coutinho defende o primado
da lucidez e do equilíbrio.