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Pressupostos da Dedugao Transcendental (B)* Vinicius de Figueiredo** Resumo: A investigagio transcendental pressupde um exercicio de abstrago, que na Critica da Razdo Pura se aplica ao conhecimento da experiéncia, Sua biparti¢3o em dois modos-de-represen- tapo, contudo, levanta duas dificuldades teoria da objetividade kantiana: como conciliar os elementos separades pela anilise ¢ como assegurar a legitimidade da abstragdo sobre o conheci- mento empirico. Palavras-chave: dedugao transcendental, método critico, Critica do Juizo. I — Logo no inicio da Introdugio 4 Critica da Razdo Pura, deparamos com uma tese que, num timico paragrafo, , a0 mesmo tempo, aponta como seu pressuposto um longo exercicio de abstragiio: “Mas, embora todo o nosso conhecimento comece com a experién- cia, jnem/por isso\todo’ele!Se origina justaniente Wa EXPEFIENEIA, Pois poderia bem acontecer que mesmo o nosso conhecimento da experiéncia seja um. composto (Zusammengesetzes) daquilo que recebemos por impressées ¢ da- Quilo que wnossayprépriagfaculdade;derconhecimento (apenas provocada por * Este trabalho resulta, dentre outras coisas, des scmindrios desenvolvidos junto ao projeto de Légiea e Filosofia Politica do CEBRAP. ** Aluno de Pés-Graduagao do Departamento de Filosofia da USP. 124 Figueiredo, V,, discurso (19), 1992 : 123-134 impressées sensiveis) OMeCOUENMMESM (aus sich selbst hergibt), cujo aditamento nfo distinguimos daquela matéria-prima antes que um longo exer- cicio nos tenha chamado a atengao para cle ¢ nos tornado aptos a abstrai-lo” (KANT 6, vol. 1; 5, p. 23). Com efeito, a distingao entre 0 comego (Anfang) ea origem (Ursprueng) do conhecimento encaminha a investigagao para os principios, as fontes (Quellen) do conhecimento; na medida em que estas se encontram na propria Tazo, a critica faz dela seu objeto, Estl@nsimesimaiiente da razio, que permite a Kant abandonar 0 dogmatismo sem, contudo, tornar-se cético, Tepousa sobre uma abstragao daquilo que, (id. 6, vol. 1, B 117; 5, p. 79), A assimi- ‘aga de dois movimentos, assim, comparece desde 0 inicio: aquele do qual, no plano do conhecimento, resulta um “aditamento” (Zu-satz) da propria razao sobre o material empirico, ¢ aquele que, no plano da critica, consiste num afastamento, num separar-se de (A. b-sonderung, abs-trahere) tudo 0 que, no conhecimento, nao se reduza um uso puro e @ priori da raziio. Note-se que 0 cunho abstraente da investigagdo define seu cardter mera- mente propedéutico diante de todo uso positivo da raziio: “Esta ciéneia (a critica da _razio)...tem que lidar nio com objetos da razio, cuja multiplicidade € infinita, mas apenas com a prépria razio, isto é, como problemas que surgem (entspringen) inteiramente em seu seio ¢ que Ihe sio propostos nao pela natu- reza das coisas, as quais so diferentes dela, mas pela sua propria natureza” (id. 6, vol. 1, B 23; 5, p. 32). Dai a critica apresentar-se como “simples avaliagdo da razio pura, de suas fontes e de seus limites”, possuindo uma utilidade apenas hegativa no que toca especulagio, “servindo ndo para a ampliagao, mas apenas paraa purificag’io de nossa razao” (id. 6, vol. 1, B 25; 5, p. 33). Esta sublimidade, que caracteriza a anilise, justifica que nela nao entre “nenhum conceito con- tendo algo de empirico”’ (id. 6, vol. 1, B 28; 5, p. 33). literatura sobre o criticismo tomou muitas vezes a Critica da Razdo Pura, e, em particular, a Analitica dos principios, como uma metafisica da ciéncia mo- dema, elaborada a partir de Newton)Entretanto, mesmo admitindo certa sinonimia entre feoria e abstragdo, menos que uma teoria do conhecimento, a tarefada Critica (incluindo-se ai o projeto da Légica transcendental) parece sera de uma elucidagio Figueiredo, V., diseurso (19), 1992 : 123-134 125 da raziio em scu sobrevéo metafisico. Numa ocasido em que historia seus méritos, Kant compara a fungao da filosofia transcendental para a metafisica a fungao da gramatica diante da forma de uma lingua, ou da légica diante da forma do pensa- mento: “cla é...uma dissolugao do conhecimento em conceitos, que residem a priort no entendimento, ¢ que posstiem seu emprego na experiéneia”” (KANT 6, vol. 4, A 11). Dissolugao, Au/-loesung, dis-solutio: uma separagao das partes (abstragaio), que significa também “refutagdo” (da tradigio dogmatica). No mesmo passo, Kant admite a prescindibilidade da critica, caso limitassemos os conceitos principios puros do entendimento ao conhecimento da experiéncia, visto que esta “sempre 0 confirma e 0 ratifica” (id., ibidem, A 11). Depreende-se que o interlocutor da filosofia critica é menos a fisica newtoniana que a tradigio metafisica, que se vé agora acalentada nas suas pretensdes Supra-sensiveis, Por outro lado, no outro -extremo do dogmatismo, foi necessario aos sistemas pos-kantianos, a comegar por Fichtee Schelling, abandonar este imperativo terapéutico sinalizado por Kant, a fim de acrescentar ao soluto da razao humana, figurado nas trés Criticas,o prefixo latino que o priva da analise critica, ao menos em sua especificidade kantiana: “- Escolhe teu Ab-soluto, salva-te absolvendo-te da critic II — Voltemos a Critica da Razao Pura, No fim de sua Introdugao, Kant nos adverte da bifureagiio do conhecimento humano em ‘duas fontes principais, sensibilidade ¢ entendimento: “pela primeira sdo-nos dados objetos, mas pelo segundo\sac\pensados” (id. 6, vol. 1, B 29; 5, p. 35). Como assinalam alguns comentadores (por exemplo, GUILLERMIT 3, pp. 68-70), Kantnao deduz esta heterogencidade entre sensibilidade e entendimento, heterogencidade que, seja dito de passagem, justifica, por sua vez, a divisio da doutrina dos elementos uma Esiética e numa Logica tranScendeilais. Todavia, menos que um pres- suposto inexplicado da investigagao, a identificagao dos dois troncos do conhecimento humano exprime uma diferenciagio no interior do aditamento da razio ao conhecimento empirico — e, nesta medida, é j4 resultado daquele exercicia abstraenie a que nos convida Kant no inicio da Introdugdo (e cuja validade, como veremos, repousard no sucesso de uma dedugo do conheci- mento pure). Como comenta Guillermit: “E justamente mas unicamente por nao se poder conceber um conceito sendo como conjungao de um elemento 126 Figuciredo,V., discurso (19), 1992 : 123-134 sensivel ¢ de um elemento intelectual que nos vemos constritos a admitir a dualidade das faculdades que Ihes correspondem” (GUILLERMIT 3, z . Com efeito, se a abstragio exprime o método, devemos supor que é ela quem comanda a exposigao. Sem diivida, isto nao quer dizer que a esta nado se aponham dificuldades — porém sempre admitidas por Kant, sobretudo na medida em que a decomposi¢ao do conhecimento puro exige uma dedugio de sua validade objetiva. Ill — Erigida em método, a Absonderung no apenas justifica a divistio da doutrina transcendental dos elementos; ela também atua diferentemente no interior de cada uma de suas partes. Confirma-o a diferenca assinalada por Kant entre o conhecimento geométrico, cuja certeza apdia-se apenas sobre a evidén- cia imediata da forma da intuigao (sensivel) externa, ¢ o conhecimento prove- niente dos conceites puros do entendimento: “Com efeito, visto que tais conceitos puros falam de objetos nao mediante predicados da intuigo ¢ da sensibilidade, mas do pensamento puro a priori referem-se universalmente a objetos sem quaisquer condigdes da sensil dade” (KANT 6, vol. 1, B 120; 5, p. 80). Note-se a dupla interdigdo sobre a filosofia moderna: de um lado, a acepgao kantiana da matemiatica admite a produgao de uma evidéncia de tipo geoméitrico, cartesiano, incapaz, todavia, de obter qualquer determinagiio real que ultrapasse o nivel das esséncias; por outro, 0 formalismo do entendimento kantiano, tomado como cogitatio eaeca, nao admite o principio de continui- dade lcibniziano a garantir a passagem da esséncia A existéncia”, requerendo uma condi¢ao extrinseca — sensivel — que assegure sua significagao. Por sua vez, a alternativa transcendental, no quadro da decomposi¢io do conhecimento. em seus elementos puros, exprime a primeira grande dificuldade aquele exer- Figueiredo,V., discurso (19), 1992 : 123-134 127 cicio absiraente que comanda o método: afirmada a irredutibilidade entre os modos-de-representagao sensivel ¢ intelectual, como garantir a unidade dos elementos separados pela analise? Aqui, o texto kantiano, particularmente o paragrafo 13 da Critica da Razéo Pura, exibe certa ambiguidade, o que levou a interpretagdes diversas do problema acima proposto™, Com efeito, sé) por um lado, Kant subtrai os conceitos puros de espago e tempo a necessidade de uma demonstragaowde como (wie) possam se referir'a objetos (KANT 6, vol. 1, B 122; 5, p. 81), por outroy afirma que, “com 0s conéeifes puros do entendimento comeca a inevitavel necessidade de procurar a dedug&o transcen- dentalnaorsomentesdeles proprios, mas também do espago”’ (id. 6, vol. 1, B 120; 5, p. 80). No momento, basta-nos reter a diferenciagao interna ao Zu-satz puro que a raziio humana acresce ao conhecimento, salientando que apenas sua dedutibilidade pode assegurar que o exercicio abstraente promovido pela Critica nao consiste em metafisica, mas na sua terapia. Passemos, agora, 4 Deduso dos conceitos puros do entendimento”. IV —A Dedugio tem a tarefa de demonstrar a validade objetiva de cada uma das fungdes de pensamento puro, precedentemente obtidas com o fio condutor da tabua légico-formal do juizo. A idealidade transcendental do espaco e do tempo como formas da nossa intui¢do é ai pressuposta (BAUM- MANS 1, p. 330), ¢, como apontam alguns (GUILLERMIT 3, p. 68), assume um valor paradigmatico diante dd abandono da Logica formal em privilégio de uma Légica que nao abstrai de todo 0 contetido do conhecimento (Logica transcendental). Como assinala D. Henrich (4, pp. 641-647), |@estruturada provasedajem dois passos, cujos resultados so apresentados respectivamente nos paragrafos 20 e 26. No primeiro deles, Kant assegura a validade objetiva das categorias para todas as intuigdes que ja possuem unidade enguanto intuigdes. Com efeito, o texto é inequivoco: o miultiplo é determinado com respeito a uma categoria “na medida em que ¢ dado numa tinica intuigao empirica (so fern es in Einer empirischen Anschauung gegeben ist)” (KANT 6, vol. 1, B 143). Como aponta Henrich, “Einer empirischen Anschaunng” exprime “nio a distintividade de uma intuigio arbitraria qualquer como oposta a outras (singu- 128 Figueiredo, V., discurso (19), 1992 : 123-134 laridade), mas antes sua wnidade interna” HENRICH 4, p. 645). Todavia, a Em contraparte, Kant atribui a condigao de possibilidade da unidade interna da intuiglo A unidade sintética origindria da apercep¢do. Voltaremos a este ponto adiante. Por ora, importa reter que 0 resultado da prova no paragrafo 20 contém uma restrigio — apenas aquelas intuigdes que j4 possuem unidade encontram-se sob as categorias —, a qual, como indica o pardgrafo 21, devera ser superada no paragrafo 26, onde a validade das categorias sera assegurada para todos os objetos de nossos sentidos. Este movimento, comenta Henrich, Justifica~ se pelo fato de que Kant se questiona se a desproporgdo entre a consciéncia e 0 dado — ou, noutros termos, entre o entendimento e a sensibilidade — pode ser excluida para todas ou apenas para parte das aparéncias sensiveis: “A diferenga entre estas duas possibilidades, portanto, define a difcrenga entre o resultado da prova do primeiro e do segundo passos da dedugao” (id., ibidem, p. 647). Com efeito, ‘Kant odiite, eot B 123, que podena bem aoottecer wo conforme (gemaess) disieondigdeside\sualunidade, Visto (i) ser esta possibilidade o que torna a dedugio ‘um imperativo, e que (ii) no paragrafo 20 a objetividade das categorias s6 € valida ante aquelas intuigdes que ja possuem unidade, entio a restrigao do primeiro passo da Prova (“Todo miltiplo, na medida em que é dado numa tinica intuigdo empirica...” (KANT 6, vol. 1, B 143) se traduz na pressuposigao de uma sensibilidade complementar ao entendimento puro®, gragas 4 qual o miltiplo numa intuigdo dada encontra-se necessariamente sob categorias. A primeira proposigao do pardgrafo 20, entretanto, parece contradizer nossa conclusio: “O dado miultiplo fornecido numa intuigio sensivel esté necessariamente submetido a unidade sintética origindria da apercepgao, pois unicamente mediante esta é possivel a unidade da intuigao” (id., 6, vol. 1, B 143; 5, p. 89, paragrafo 17), Todavia, se examinarmos a argumentagao que, no pardgrafo 17, permite o resultado retomado pelo paragrafo 20, veremos que, ali, o cstabelecimento da unidade origindria da apercep¢io como condigao da unidade da intuigio também faz apelo A complementaridade entre entendi- mento ¢ sensibilidade. Confirma-o a nota aduzida logo no inicio do paragrafo Figueiredo, V,, discurso (19), 1992 : 123-134 129 . Nesta ultima acepgao, evocada para justificar a submissao do mu tiplo da intuigdo a unidade da apercepgdo, “o espago € 0 tempo ¢ todas as suas partes sao infuigdes, por conseguinte repre- sentagdes singulares (efnze/ne) com o miltiplo que contém em si (ver a Estética transcendental)” (KANT 6, vol. 1, B 136; 5, p. 86). Assim, (i) a equivaléncia das condicées da ligagio das representagSes sensiveis numa consciéncia com as condigdes da unidade sintética originaria da apercepgo (pardgrafo 17, B 137) opera-se sobre a conjungio entre os modos-de-representagao sensivel e intelectual; (ii) visto que esta conjuncao, embora pressuposta, nao ¢ expl tada no paragrafo 17 ¢ tampouco no paragrafo 20, (iii) 0 carater restritivo do primeiro passo da prova, apontado por Henrich, se explica pelo fato de Kant ai ser incapaz de considerar o pensamento puro a parte da sensibilidade pura, sem, em contrapartida, explicitar sua alegada conjungao. Passemos agora ao segundo passo da prova, que compreende os Hiaiseraia 72-26. Henrich aponta como sua inovagao sobre a restrigao contida no paragrafo 20 a demonstrag&o de que “as categorias sao validas para todos 98 objetos de nossos sentidos” (HENRICH 4, p. 646). A dedugiio € levada a cabo, acrescenta ele, pela seguinte argumentagio: (i) onde houver unidade, esta unidade é ela mesma possivel por meio das categorias, ¢ determinada em telagao a elas; (ii) as representagdes do espago e do tempo contém unidade, e, a0 mesmo tempo, incluem tudo o que pode ser apresentado a nossos sentidos; (iii) assegura-se, assim, que todo o miltiplo dado encontra-se, sem excegao, subordinado as categorias. Facil notar que, embora correta, a proposta interpretativa de Henrich nao explicita a relagdo subordinativa que a intuigdo formal do espago ¢ do tempo TMantém diante da unidade sintética origindria da apercepgdo. Sem esta eluci- dacdo, entretanto, fica inexplicado como a unidade da representagao possibili- tada pela intuigdo formal torna-se remissivel. unidade sintética originaria da apercepeao, e, nesta medida, determinavel pelas categorias (ponto (i)). Rete- nhamos de seu comentirio a operacionalidade que ele permite conferir, no Ponto (ii), ao espago ¢ ao tempo no segundo passo da dedugio: € gragas a sua 130 Figueiredo, V., discurso (19), 1992 : 123-134 ambiguidade como responsaveis pela unidade da representagao e como formas da receptividade que Kant pode suspender a restrigdo do pardgrafo 20, esten- dendo a validade objetiva das categorias a todo miultiplo dado. Admitida esta hipdtese de leitura, 0 primeiro passo da dedugio deve ser complementado pelo segundo na medida em que este assegure a completa superposigdo da espontaneidade das categorias a todo miltiplo dado na sensi- bilidade. O sucesso da prova da validade objetiva das categorias, assim, repousa, nfo na convertibilidade do elemento sensivel ao elemento intelectual ou vice-versa — o que contrariaria o resultado da abstragado que, isolando o entendimento puro, nos obrigou a sua dedugao —, mas antes na mediagao entre cles. No primeiro passo da prova, a duplicidade do tempo e do espago como. formas da intuigdo e intuigGes formais ja antecipa este tema, deixando-o contudo indeterminado sob a forma de uma remissio a Estética transcendental (ver nosso comentario a B 136 na segdo IV acima). No segundo passo, ele é retomado a partir do paragrafo 24 sob o titulo da sittese transcendental da capacidade da imaginagéo. E ela o que assegura a unidade originaria da apercepgao a possibilidade de determinar 0 sentido interno mediante o mil- tiplo dado conforme (gemaess) a sintese intelectual, matriz das categorias, promovendo a unidade sintética do miltiplo da intuigdo sensivel a priori a condigao sob a qual precisam estar todos os objetos de nossa intuigio™. Note-se que, no contexto inicial do segundo passo, Kant considera esta sintese transcendental da imaginagao “um efeito do entendimento sobre a sensibilidade ¢ a primeira aplicagao do mesmo (ao mesmo tempo o fundamento de todas as demais) a objetos da intuigao possivel a nds” (KANT 6, vol. 1, B 152; 5, p. 93). Contudo, na primeira nota aduzida ao pardgrafo 26, onde dao desfecho 4 dedugao das categorias, Kant situa a sintese mediadora entre 0 miltiplo sensivel e a unidade categorial sobre um plano que nao é recoberto exclusivamente nem pela Logica nem pela Estética transcendentais: “Representado como objeto (como realmente se requer na Geometria), 0 espago contém mais do que a simples forma da intuigiio, a saber, a compreensdo (Zusammenfassung) do dado miltiplo segundo a forma da sensibilidade numa representagao inturtiva, de modo que a forma da intuigdo dé somente o miltiplo, Figueiredo, V., discurso (19), 1992 : 123-134 131 mas a intuigdo formal a unidade da representagao. Na estética, enumerei essa unidade meramente como pertencente a sensibilidade para apenas observar que precede todo o cenceito, nao obstante pressuponha uma sintese que nao per- tence aos sentidos, mas mediante a qual todos os conceitos de espago ¢ tempo tornam-se primeiramente possiveis. Com efeito, visto que mediante tal sintese (na medida em que o entendimento determina a sensibilidade) 0 espago e 0 tempo sao pela primeira vez dados como intuigdes, entio a unidade desta i Jo a priori pertence ao espago e ao tempo, é ndo ao conceito do entendi- mento ” (KANT 6, vol. 1, B 160-161; 5, p. 96, paragrafo 24). Assistimos, ai, nao apenas 4 retificagdio do paragrafo 24 no que toca a origem nao-categorial desta atividade sintética, mas também sua atribuigdo 4 imaginagao transcendental, como o confirma a nota seguinte, onde Kant afirma aconformidade entre a sintese da apreensao e a sintese da apercepgio (id. 6, vol. 1, B 162; 5, p. 97). Por sua vez, como procuramos apontar, é sobre esta conformidade que Kant se apdia para demonstrar, com pleno éxito, a validade objetiva das categorias. W1I—Concluamos que, na leitura da Dedugao transcendental, deparamos com uma infragdio de Kant Aquele exercicio abstraente ao qual ele proprio nos convidava no inicio da Critica. Afinal, vimos que seu desfecho s6 foi possivel mediante a complementaridade entre entendimento ¢ sensibilidade, assegurada pela fungdo mediadora da imaginagao transcendental no interior da Analitica dos conccitos, Pouco adianta evocar (como sugere uma nota ao pardgrafo 22 dos Prolegdmenos (id. 6, vol. 5, A:90)) a Analitica dos principios a fim de ressarcir tal objegao, visto que, como exprime o titulo desua Introdugao, nela Kant nos apresenta uma doutrina da faculdade-de-julgar, postergando para o futuro sua critica. Ainda noque concerne 40 texto da primeira Critica, é verdade que, no paragrafo 10 (id. 6, vol. 1, B 104; 5, P. 73), Kant identifica trés elementos puros necessarios ao conhecimento: 0 multiplo da intuigdo pura (sensibilidade), a sintese deste multiplo (imaginagao) , finalmente, @ unidade desta sintese (conceitos do entendimento), Contudo, o reconhecimento ta tripartigéo do acréscimo da razdio ao conhecimento empirico opera-se ainda 132 Figueiredo,V., discurso (19), 1992 : 123-134 no plano metafisico, que precede ¢ demanda uma deducio transcendental. Vimos, entretanto, como a estrutura argumentativa desta ultima apdia seus resultados justamente no apelo a fungado mediadora da imaginacdo, omitindo-se, porém, a conduzi-la ao tribunal critico da razo. O resultado é Obvio: a imaginagaoatua como pressuposto nao elucidado da demonstragdo de como o entendimento puro é im- prescindivel ao conhecimento empirico. Cabe, num outro artigo, buscar as razées que expliquem esta limitagao. De todo modo, jd fica assinalado neste que estas taz6es remetem a Critica do Juizo, onde Kant toma objeto de critica justamente esta conformidade entre imaginagao, 14 assinalada como “faculdade de intuigdes”- (KANT 6, vol. 10, B 155), ¢ 0 entendimento. Nao é a-toa que dois de seus comentadores depararam com a enigmatica nota do pardgrafo 26, um deles nos advertindo que, “tomado 4 letra, este texto circunscreve © campo da Reflexdo” (LEBRUN 7, p. 338; cf. também GUILLERMIT 3, pp. 70-71). Quem sabe a teflexio tematizada na Critica do Juizo nao venha explicitar 0 que, dado o apego que mantém ao conhecimento, a Critica da Raz@o Pura assume como pressuposto? A dificuldade que apontamos na estrutura da dedugdo das categorias reforea essa suspeita, sobretudo se lembrarmos que, na Critica do Juizo, o exercicio abstraente proposto jano inicio do criticismo pord entre parénteses nao apenas a parte empirica do conhecimento, mas sim todo conhecimento, convertendo em objeto de critica o que antes resultava em doutrina (KANT 6, vol. 10, BX). Abstract: The transcendental investigation supposes an exercise of abstracti Critique of Pure Reason applies to the kwnowledge of experience. Nonethcless, its division in two modes of representation implies two difficulties for the Kantian theory of objectivity: how ean the elements pointed out by the analysis be eonciliated among themselves and how is it possible to obtain the legitimacy of the abstraction on the empirical knowledge? Key-words: Transcendental deduction, critical method, critique of judgement Figueiredo, V., discurso (19), 1992 ; 123-134 133 Notas (oe VUILLEMIN 9, p. 14; para um confronto entre o intuicionismo cartesiano versus 0 formalismo leibniziano, ver BELAVAL 2, Cap. I, sobreudo p. 32 e segs. (2) Vuillemin, por exemplo, explica o problema da unidade entre o elemento sensivel ‘eoelemento intelectual do conhecimento por “um movimento propriamente fenome- noldgico”, através do qual a intuigdo sensivel pura “encontra sua 'verdade" apenas quando é julgada a partir do principio supremo da experiéncia possivel; ou seja, no momento em que, tendo a Analitica transcendental dado a razao da Estética transcen- dental, a matemdtica adquire seu sentido coma ingrediente necessario da fisica matemdtica, como elemento constituinte da experiéncia possivel” (VUILLEMIN 9, p. 14). Entretanto, como pretendemos mostrar adiante, também a “verdade” da Analitica transcendental (ao menos dos conceitos) depende de incorporar a Estetica, _ (3) Restringimo-nos ao texto da segunda edicdo. (4) De acordo com P. Baummans, Kant demonstra a validade objetiva das categorias no primeiro passo da prova “a partir de sua fungao-de-apercepgao para um material dado na forma aperceptivel fin apperzeptibler Form) da intuigde empirica” (BAUM- MANS |, p. 331). (3) “O pardgrafo 17 tem convo fungéo especifica soldar as duas partes da Elementar- lehre, ¢ de fazer mostrar como a primeira parte encontra seu termo ¢ coroamento na Segunda" (VLEESCHAUWER 8, p. 119). Note-se que, no plano geral, a inferpretagao de VUILLEMIN 12, sob este aspecto particular, remonta ao. comentario de Vieeschau- wer. De nossa parte, interessa-nos apontar como este reenvio da Dedugao transcen- dental a Estética atua sobre a propria estrutura da prova, e, finalmente, sobre seu resultado. (6) KANT 6, vol. 1, B 130 (a trad. brasileira, KANT 5, p. 92, comete uma omissdo neste trecho (“... und so synthetische Einheit der Apperzeption des Mannigfaltigen der sinnlichen Ansechatung a priori denken..."), tornando-o ininteligivel). 134 Figueiredo,¥., discurso (19), 1992 : 123-134 XN 5 ~ 2 ° - GUILLERMIT, L, L'elucidation critique du jugement de goiit selon Kant. Patis, CN Bibliografia - BAUMMANS, P. Kans tranzendentale Deduktion der reinen Verstandesbegriffe (B), Kantsstudien, 82, 3, 1991. - BELAVAL, Y. Leibniz, critique de Descartes. Saint- Armand (Cher), Gallimard, 1978. 1986, | HENRICH, D. The proof-structure af Kant’s transcendental deduction. The Review of Metaphysics, 22, 1969, . KANT, |. Critica da razao pura, Tradugao de Valétio Rahden e Udo Baldur Moosburger, Sao Paulo, Abril Cultural, 1983, vol. 1. (Colecdo Os Pensadores) -Werkausgabe. Edigdo de Wilhelm Weischedel. Frankfurt aM., Subrkamp, 1977, Vol. 1: Kritik der reinen Vernunft; vol. 4: Forschritte der Metaphysik; vol. 5: Prolegomena zu einer jeden kitnfiigen Metaphysik die als Wissenschaft wird aufireten déinnen; vol. 10: Kritik der Urteilskraft, . LEBRUN, G. Kant et Ia fin de la métaphysique. Paris, Armand Colin, 1970. . VLEESCHAUWER, H.J.de. La deduction transcendentale dans louvre de Kant. N. York e Londres, Garland Publishing, 1976, . VUILLEMIN, J. Physique et métaphysique kautiennes. Paris, PUF, 1955.