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Universidade Federal de Pernambuco

Curso: Letras (português) EAD


Disciplina: Literatura Brasileira II
Professora: Rafaella Teotônio

Atividade II
A partir da leitura do romanceO guarani, de José de Alencar, faça uma análise da obra
que explique, dialogando com o conteúdo da disciplina, o que significa o termo cor local.
(Mínimo duas laudas) (1,5 pontos)

Enfim, a América deve ser livre tanto na sua


poesia como no seu governo.(Ferdinand
Denis, 1968).

O conceito de cor local está associado à necessidade de o escritor romântico


trazer para dentro de seus textos traços da paisagem natural que o cerca, dos diferentes
tipos humanos com quem convive e das diversas culturas de que faz parte ou que veio a
conhecer dentro de seu próprio país. E, caso sua diegese ocorrer no passado, ele precisa
conhecer a história de sua cultura, de tal forma e a tal ponto que materialize no seu
discurso uma espécie de verossimilhança. Está nisso, a liberdade de que tanto fala
Ferdinand Denis. Parar de imitar os antigos, de copiar a paisagem natural alheia, de se
importar com heróis e com a história de outras culturas que nada diz respeito à realidade
cultural de que faz parte.
Para os escritores românticos brasileiros, esse conceito de cor local se aparentou
com a ideia de nacionalismo, ou seja, procurar dentro do próprio país os elementos
humanos, naturais e culturais que proporcionassem uma literatura capaz de forjar uma
identidade nacional para um povo que tinha acabado de se livrar da dominação
portuguesa.
No entanto, paradoxalmente, segundo Cruz (1995), no romantismo brasileiro, a
cor local não significou uma descrição realista do universo natural, humano e cultural
brasileiro. Entre tantas coisas, havia uma espécie de oposição entre o conceito de cor
local, do modo que entende o senso comum, e as características do movimento
romântico em si próprio. Enquanto o senso comum pensa a cor local como uma
aproximação da realidade circundante, as características do Romantismo levam à evasão
no tempo e no espaço, ao desgosto e à idealização da realidade circundante, ao apego
pelo sonho e pelo fantástico, à entrega à orgia e à dissipação.
Nesse aspecto, o que os escritores românticos conseguiram foi uma polaridade
idealismo-realismo, em que os elementos culturais, naturais e humanos de uma
realidade nacional, idealizada, ganharam vida e movimento a partir da visão de mundo
de um espírito criativo, de um eu-romântico, avesso à realidade.
Mas, nessa construção literária, não se pode esquecer a força manipuladora do
interlocutor, do público consumidor das obras românticas. Afinal de contas, por esse
tempo, já existia uma espécie de sistema literário, conforme nos diz Antônio Candido,
formado por produtores e por consumidores, estes últimos pertencentes às classes altas,
e, excepcionalmente, média, da aristocracia cortesã e da burguesia incipiente dispersa
pelas províncias. Essa aristocracia e burguesia letrada tinham em comum o fato de
estarem acostumados aos enredos de trama fantástica, cheios de aventuras e de final
felizes, dos folhetins franceses (Bosi, 1994, p. 128).
Esse gosto pelo ilógico, pelo fantástico, pela trama “rica de acidentes” do
público consumidor, também influenciou a produção literária dos escritores românticos,
que procuraram aclimatar a paisagem, o meio natural, os tipos humanos e os costumes
da realidade brasileira, idealizada, aos modelos e técnicas narrativas europeias,
notadamente, ao modelo narrativo da literatura romântica francesa.
Assim, ao lermos uma obra como O Guarani, percebemos os esforços do autor
em concatenar os elementos da criação narrativa, principalmente, personagens e
cenários aos elementos idealizados da realidade, com intuito de dar ao romance uma
“cor local”.
Em relação à personagem principal, o indio Peri, há um paradoxo entre os seus
aspectos exteriores e seu aspecto interior, seu caráter, sua personalidade. Por exemplo,
na primeira parte do romance, no capítulo IV, denominado A Caçada, vemos o índio
Peri pela primeira vez.
Em pé, no meio do espaço que formava a grande abóbada de árvores,
encostado a um velho tronco decepado pelo raio, via-se um índio na
flor da idade. Uma simples túnica de algodão, a que os indígenas
chamavam aimará, apertada à cintura por uma faixa de penas
escarlates, caía-lhe dos ombros até ao meio da perna, e desenhava o
talhe delgado e esbelto como um junco selvagem. Sobre a alvura
diáfana do algodão, a sua pele, cor do cobre, brilhava com reflexos
dourados; os cabelos pretos cortados rentes, a tez lisa, os olhos
grandes com os cantos exteriores erguidos para a fronte; a pupila
negra, móbil, cintilante; a boca forte, mas bem modelada e
guarnecida de dentes alvos, davam ao rosto pouco oval a beleza
inculta da graça, da força e da inteligência. Tinha a cabeça cingida por
uma fita de couro, à qual se prendiam do lado esquerdo duas
plumas matizadas, que descrevendo uma longa espiral, vinham rogar
com as pontas negras o pescoço flexível. Era de alta estatura; tinha
as mãos delicadas; a perna ágil e nervosa, ornada com uma axorca
de frutos amarelos, apoiava-se sobre um pé pequeno, mas firme no
andar e veloz na corrida. Segurava o arco e as flechas com a mão
direita calda, e com a esquerda mantinha verticalmente diante de si um
longo forcado de pau enegrecido pelo fogo. (Alencar, O Guarani,
grifos nosso).

A descrição possui uma força e energia impressionantes. É impossível não ser


tomado de empatia por essa personagem forte, viril, cuja “boca forte de dentes alvos”
dava ao seu rosto graça e inteligência. Os detalhes, marcados em negrito, faz a grande
diferença na narrativa, pois cobre o personagem, de cima a baixo, com uma “cor local”,
ao mesmo tempo em que pretende materializar uma espécie de verossimilhança.
Porém, para um leitor mais arguto, a caracterização física do personagem se
apresenta de todo idealizada. O excesso de material descritivo, que pretende dar
verossimilhança, acaba por descrever um índio oriundo não de uma taba, não de uma
comunidade indígena, mas de um compêndio naturalista, desses em que os viajantes
estrangeiros costumavam retratar em pinturas as maravilhas naturais e humanas do
Brasil-colonia.
Lá, pela segunda parte, no capítulo II, intitulado A Iara, quando Peri encontra
Cecília pela primeira vez, o autor justifica o amor “platônico”, uma verdadeira
adoração, no fato do índio ter associado a beleza da moça branca à da Iara, a deusa
indígena das águas dos rios.
De repente, entre o dossel de verdura que cobria esta cena, ouviu-se
um grito vibrante e uma palavra de língua estranha:
— Iara!
É um vocábulo guarani: significa a senhora.
D. Antônio levantou-se; volvendo olhos rápidos, viu sobre a
eminência que ficava sobranceira ao lagar em que estava Cecília, um
quadro original. De pé, fortemente apoiado sobre a base estreita que
formava a rocha, um selvagem coberto com um ligeiro saio de
algodão metia o ombro a uma lasca de pedra que se desencravara do
seu alvéolo e ia rolar pela encosta. O índio fazia um esforço supremo
para suster o peso da laje prestes a esmagá-lo; e com o braço
estendido de encontro a um galho de árvore mantinha por uma tensão
violenta dos músculos o equilíbrio do corpo. A árvore tremia; por
momentos parecia que pedra e homem se enrolavam numa mesma
volta, e precipitavam sobre a menina sentada na aba da colina. Cecília
ouvindo o grito erguera a cabeça, e olhava seu pai com alguma
surpresa, sem adivinhar o perigo que a ameaçava. (Alencar, op. cit)

O aspecto psicológico de amor-devoção do índio à mulher branca vai marcar


todo o romance e, a cada oportunidade, vai ser devidamente lembrado e posto em
comparação ao amor dos outros personagens masculinos da obra, Lauredano e Álvaro.
Essa devoção vai configurar-se numa força motriz capaz de reger não só os
pensamentos, mas também as ações do índio, tudo matizado por uma carga linguística e
emocional que acaba transformando-o numa mistificação: um homem adulto, bruto e
fértil que não deseja a concretização carnal com sua amada, mas, acima de tudo, anseia
por uma compensação interior, pura e infinita.
As cortinas da janela cerraram-se; Cecília tinha-se deitado.
Junto da inocente menina adormecida na isenção de sua alma pura de
virgem, velavam três sentimentos profundos, palpitavam três corações
bem diferentes.
Em Loredano, o aventureiro de baixa extração, esse sentimento era um
desejo ardente, uma sede de gozo, uma febre que lhe requeimava o
sangue; o instinto brutal dessa natureza vigorosa era ainda aumentado
pela impossibilidade moral que a sua condição criava, pela barreira
que se elevava entre ele, pobre colono, e a filha de D. Antônio de
Mariz, rico fidalgo de solar e brasão. [...]
Em Álvaro, cavalheiro delicado e cortês, o sentimento era uma afeição
nobre e pura, cheia de graciosa timidez que perfuma as primeiras
flores do coração, e do entusiasmo cavalheiresco que tanta poesia
dava aos amores daquele tempo de crença e lealdade. [...]
Em Peri o sentimento era um culto, espécie de idolatria fanática, na
qual não entrava um só pensamento de egoísmo; amava Cecília não
para sentir um prazer ou ter uma satisfação, mas para dedicar-se
inteiramente a ela, para cumprir o menor dos seus desejos, para evitar
que a moça tivesse um pensamento que não fosse imediatamente uma
realidade. [...]
Assim o amor se transformava tão completamente nessas
organizações, que apresentava três sentimentos bem distintos; um era
uma loucura, o outro uma paixão, o último uma religião. (Alencar, op.
cit.)

E nisso reside o paradoxo. Um índio de complexão física saudável e pungente,


transformado num arremedo de cavalheiro medieval assexuado e místico. Isso até pode
ter saciado o público consumidor da época, cujo preconceito de classe e de raça, jamais
toleraria ou acreditaria num amor carnal entre uma mulher branca e um índio, mesmo
sendo ele um herói com infinitas capacidades e habilidades como o índio Peri. Porém,
para o leitor atual, tudo soa muito irreal e estranho.
Se alguém imaginar que o livro O Guarani foi fruto de um entrevero intelectual,
de uma crítica contumaz de Alencar sobre a obra A Confederação dos Tamoios, de
Gonçalves Magalhães, em que ele reclamava da falta de elementos “nacionais”, da cor
local na obra em questão, pode até entender a excessiva carga semântica presente na
obra alencariana. O Guarani representou o modo de Alencar mostrar aos demais
escritores românticos a forma correta de se escrever um romance que representasse a
nacionalidade brasileira. Contudo, como vimos, existe uma oposição incontornável
entre os conceitos de “cor local”, significando realidade, e o idealismo e a fuga da
realidade princípios presentes no Romantismo.

Referências:

ALENCAR, José de. O Guarani. Disponível em:


http://objdigital.bn.br/Acervo_Digital/Livros_eletronicos/o_guarani.pdf. Acessado
abril/2019.

BOSI, Alfredo. História concisa da Literatura brasileira. 42º ed. São Paulo:
Cultrix, 1994.

CRUZ, Claudio. O conceito de cor local no romantismo brasileiro e a sua


presença no romance A Divina Pastora de Caldre e Fião.Revista Letras de
Hoje. Porto Alegre, v. 30, nº 1, p. 29-47, março de 1995.
http://revistaseletronicas.pucrs.br/ojs/index.php/fale/article/view/15630.
Acesso em: abril/2019.

DENIS, Ferdinand. Considerações sobre o caráter que a poesia deve


assumir no novo mundo. In Resumo da história literária do Brasil.
Tradução e notas de GuilherminoCésar. Porto Alegre: Lima, 1968. p.29- 39.
Disponível em: http://www.ufrgs.br/cdrom/denis/denis.pdf. Acessado em
abril/2019.

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