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AmbientalMente

sustentable
Revista Científica Galego-Lusófona de Educación Ambiental
FOLHA DE ROSTO
AmbientalMente
sumário

sustentable 8 prefácio
Revista Científica Galego-Lusófona de Educación Ambiental 11 declaração samé luna

18 tecido 1 - mosaicos da formação


Número especial referente ao IV Imagem da capa A práxis do viver como epistemologia: o saber sentido da/na escola como forma de emancipação
Congresso Internacional de Edu- Registro da Galícia, na Espanha, 21 da condição humana no viver na terra
cação Ambiental dos países e co- feito por Júlio Resende Duarte Cláudia Moraes da Costa Vieira; Cláudia Pato
munidades da língua portuguesa
São Tomé e Príncipe, julho de Ensino e aprendizagem da educação ambiental: contribuições de disciplinas na Universidade de
Os conceitos, ideologias e valores 41 São Paulo
2017. dos artigos publicados não refle- Vivian Battaini; Marcos Sorrentino; Rachel Trovarelli
tem as opções dos editores.
Editores É de inteira responsabilidade dos 63 A EA e os alunos com NEE – Atividades da Vida Diária (AVD), a água e sua utilização sustentável
Michèle Sato & Thiago Cury Luiz autores os possíveis equívocos Olga Santos; Carla Gomes; Mário Oliveira
idiomáticos das línguas portu-
Crianças com NEE, Ensino Experimental das Ciências e Educação Ambiental – perspectiva integra-
Comissão de consultores guesas, galegas, espanholas ou 77 dora
Ad hoc inglesas (resumos). Cátia Sousa
Débora Pedrotti-Mansilla Igualmente, a qualidade e os di-
Herman Oliveira reitos autorais das imagens (fotos Alguns elementos de uma análise da integração da educação ambiental nos currículos escolares
87 do ensino básico e secundário em Cabo Verde
Imara Quadros e tabelas) contidas dos artigos es-
Alessandra Buonavoglia Costa-Pinto
Lúcia Kawahara tão sob o encargo dos respectivos
Michèle Sato autores. 95 A educação Ambiental na Comunidade Rural de Ekovongo-Bié/Angola
Michelle Jaber-Silva José Capitango
Regina Silva
Ronaldo Senra 123 Parque Nacional Obô: Conhecimento e perceções acerca da sua importância em alunos de S. Tomé
António Almeida; Sandra Ribeiro; Helena Botelho
Thiago Cury Luiz
Valores ambientais no nordeste brasileiro: educação para a convivência no semiárido pernambu-
137 cano
Maria Waleska Camboim Lopes de Andrade; Gerlânia Francelino Rodrigues; Tamires Lima da Silva

Breve apresentação da Formação de Formadores em Educação Ambiental e Política Pública


157 brasileira: Potência de Agir ou Força de Existir estimulada pelo Coletivo Educador Ambiental de
FICHA CATALOGRÁFICA Campinas (COEDUCA)/Brasil
Alessandra Buonavoglia Costa-Pinto

Os equipamentos de educação ambiental para a sustentabilidade no cerne do Entre-Norte-e-Cen-


165 tro
Margarida Correia Marques

4 ambientalMENTEsustentable, 2017, número especial ambientalMENTEsustentable, 2017, número especial 5


sumário sumário

O Método de Paulo Freire na Educação Ambiental com o uso de aplicativo de informática para A mediação de Equipamentos para a Educação Ambiental do Eixo Atlântico na relação Comu-
191 dispositivos móveis 365 nidade-Dieta-Alterações Climáticas
Osilene dos S. Rocha; M. A. da Silva; M. Lopes Sara Costa Carvalho; Pablo Angél Meira Cartea; Ulisses Miranda Azeiteiro

209 Construção coletiva de indicadores de Educação Ambiental escolar 381 Capacitação local e processos adaptativos – O lugar dos professores no projeto ClimAdaPT.
Solange Reiguel Vieira; Josmaria Lopes de Morais; Marília Andrade Torales Campos Local
João Guerra; Luísa Schmidt

216 tecido 2 - texturas das políticas e programas A mudança climática global na perspectiva dos professores de Ciências Naturais e as poten-
395 cialidades para a Educação Ambiental
219 Educação Ambiental no contexto da CPLP: Um Desafio Urgente
Luísa Schmidt; João Guerra; Joaquim Ramos Pinto Mariana de Oliveira Tozato; Marília Andrade Torales Campos

Indicadores de monitoramento e avaliação de projetos e políticas públicas de Educação


235 Ambiental no Brasil
Maria H. A. Raymundo; Evandro A. Branco; Semíramis Biasoli; Marcos Sorrentino; Renata Maranhão 400 tecido 4 - pontos e linhas ambientais
Programa Ecológico de Guimarães para a Aprendizagem do Desenvolvimento Ambiental A Educação ambiental e a valorização do património natural de São Tomé e Príncipe – contri-
253 Sustentável – PEGADAS 403 butos e desafios para o desenvolvimento local
Patrícia Ferreira; Jorge Cristino; Carlos Ribeiro Mário Acácio B. M. C. Oliveira; Olga Maria A. P. Santos

Justiça ambiental e o caso das comunidades quilombolas de Oriximiná/PA: por uma crítica
261 contemporânea da Educação Ambiental 413 O papel primordial dos percursos exploratórios na Educação Ambiental – CMIA de Vila do
Conde
Jacqueline Carrilho Eichenberger; Vilmar Alves Pereira Ana Laranja; Sílvia Morim; Rosana M. Afonso

Ritual de dança e gastronomia como viés de educação ambiental numa comunidade negra do
283 município de São Francisco do Conde-Bahia-Brasil 421 Olhar para cima: como sensibilizar gestores públicos para a conservação da biodiversidade
Luiz Roberto Mayr; Claudia de Oliveira Faria Salema
Angélica Santos da Paixão; Cristina M. D. F. Marchi; Edvaldo H. dos Santos
449 Ciência cidadã na promoção da biodiversidade
Ribeiro CA; Carvalho F; Silva N

298 tecido 3 - tramas do alimento e do clima Gestão sustentável dos Resíduos Sólidos Urbanos em São Tomé e Príncipe: Contributos da
457 Educação Ambiental
A Rede de Hortas Municipais de Santiago de Compostela (Galiza) e as súas implicacións para a Gelsa Vera Cruz; Luís Filipe Fernandes; Maria da Conceição Martins
301 Educación Ambiental
Kylyan Bisquert i Pérez A educação ambiental na sustentabilidade da vida em uma experiência de alfabetização de
477 catadores
Projeto Alimentar Mais Desperdiçando Menos: Instigando um olhar sensível do jovem educan- Dinorá de Castro Gomes; Vera Margarida Lessa Catalão
329 do para a mitigação do desperdício de alimentos
Marcelo Zaro 497 Reciclamos o Mundo –Atividades de Educação Ambiental em Escolas do 1º CEB na Maia
Teresa Filomena Pinto dos Santos
354 Aquaponia- uma novidade na Educação Ambiental
Pedro Martins

6 ambientalMENTEsustentable, 2017, número especial ambientalMENTEsustentable, 2017, número especial 7


prefácio prefácio

A Rede Lusófona de Educação Ambiental (Redeluso) foi fundada no


e comunidades da língua portuguesa”, que aconteceu em 2017, na
ano de 2005, em Portugal, durante as jornadas da Associação Por-
Ilha do Príncipe, em São Tomé e Príncipe. Assim, este número espe-
tuguesa de Educação Ambiental (ASPEA). Em 2006 alguns de seus
cial conta com editores diferentes e conselho editorial diferenciado.
membros se reuniram pela primeira vez de forma presencial em Jo-
inville, Brasil, durante o V Congresso Ibero-americano de Educação
A ordem e a arranjo da revista poderia seguir diversas direções.
Ambiental. Neste evento, decidimos realizar congressos periódicos,
Mas foram nossas escolhas eleger a metáfora da rede para tecer a
que teve a cronologia1:
organização deste número especial da AMS. A Redeluso é um tecido
2007 – Santiago de Compostela, Galícia
bordado por diferentes concepções e valores da educação ambien-
2013 – Cuiabá, MT, Brasil
tal lusófona, e não tem a pretensão de deliberar uma razão pura, e
2015 – Torreira, Murtosa, Portugal
nem de adotar algum preceito jurídico ou moral do mundo da lu-
2017 – Ilha do Príncipe, São Tomé e Príncipe
sofonia. É no seu colorido, de entrelaçado diferente, por meio de
vários pontos que se conectam em linhas que a educação ambiental
Em todos os eventos, fizemos esforços para ter a presença de par-
concretiza um labirinto de possiblidades. É exatamente aí, nestas
ticipantes oriundos dos oito países falantes da língua portuguesa:
diferentes dimensões, que o colorido se magnifica trazendo a bele-
Angola, Brasil, Cabo Verde, Guiné Bissau, Moçambique, Portugal,
za do tecido da educação ambiental.
São Tomé e Príncipe e Timor Leste. Além disso, tentamos garantir
localidades de identidade lusófona, como a Galícia ou Hong Kong.
A cada época, vestidos com as roupas da moda, fantasiados ou co-
O próximo evento está planejado para ser concretizada em Guiné
bertos de farrapos, ou até mesmo na nudez dos corpos, a Redelu-
Bissau, no ano de 2019.
so se veste, despe e se reveste com novas proposições, programas,
projetos, jeitos e formas de se pensar, fazer e sentir a educação am-
Nossa esperança era reunir pessoas com identidade idiomática se-
biental.
melhante, capazes de sentir, pensar e fazer educação ambiental em
nossas próprias línguas, jeitos, hábitos e cultura. Reconhecemos de
Na tessitura da educação ambiental deste número especial, trouxe-
que a identidade não é fixa, é mutante conforme nossa cultura se
mos 4 tecidos que brindamos todos os 29 artigos aprovados pelo
dinamiza, e não se confina às regras gramaticais ou ortográficas,
conselho editorial: os processos de formação; a construção das po-
senão a um mosaico de redes e fios na tessitura de novas organiza-
líticas públicas; a tão importante alimentação e as associações com
ções e rearranjos etnográficos.
as mudanças climáticas; e o último tecido agrega pontos e linhas
ambientais que se conectam visando a proteção e a gestão ambien-
Assim também é a proposta da Revista “AmbientalMente Sustenta-
tal.
ble (AMS)”, que tem a Araceli Serantes-Pazos e o Carlos Vales-Váz-
quez como editores chefes bastante talentosos em criar e manter
TECIDO 1: mosaicos da formação
a revista. Agregando muitas experiências e tornando-se referência
Iniciamos com o tecido 1 da FORMAÇÃO, assunto sério e sempre
mundial no campo da educação ambiental, a AMS abriu suas portas
mais popular entre os educadores ambientais do mundo inteiro. Da
para acolher os registros dos conhecimentos produzidos durante
escola à comunidade, as várias faces da organização dos conheci-
o “IV Congresso Internacional de Educação Ambiental dos países
mentos e novos arranjos pedagógicos que desfilam no processo da
1 https://redeluso.blogspot.com.br/p/3-congresso.html. aprendizagem dinamizam a Formação em Educação Ambiental.

8 ambientalMENTEsustentable, 2017, número especial ambientalMENTEsustentable, 2017, número especial 9


prefácio declaração samé nuna

TECIDO 2: texturas das políticas e programas Linhas de Reflexão e Ação


A arte de tecer e fiar as políticas públicas tem seu pano na apresen-
tação de vários relatos, seja por meio de programas, leis e projetos “O Príncipe é uma pequena Terra… A Terra é uma pequena Ilha”.
dos governos e da sociedade civil. Aqui incluímos experiências rela-
cionadas com políticas específicas étnico-raciais e cores essenciais Dada a escala, riqueza e complexidade académica, social e cultural
da Justiça Ambiental. São dimensões que carecem de políticas mais dos produtos que chegaram à comissão relatora, dando conta das
justas, inclusivas e a conotação óbvia de que os dilemas sociais es- visões, recomendações, propostas, desafios e reflexões, fruto dos
tão intrinsecamente bordados com a degradação ambiental. painéis, da apresentação de comunicações, das conferências plená-
rias, das mesas redondas, dos eventos paralelos e outras atividades
TECIDO 3: tramas do alimento e do clima do congresso, estamos conscientes, pela nossa própria natureza
É cada vez mais notório o debate sobre a importância da alimenta- humana que a proposta que aqui apresentamos é mais um conjun-
ção, já que na aurora das revoluções científicas, os seres vivos não to de intuições que de conclusões.
inventaram nada que substitua a alimentação. Na época de agrotó-
xicos e maquinaria demolidora do ambiente na economia do agro- Na abertura o presidente do Príncipe colocou-nos uma pergunta
negócio, este tecido teima em debater a importância da alimen- que poderia fazer parte da filosofia da rede de educadores e educa-
tação conjugada às mudanças climáticas, que trarão (e já trazem) doras ambientais dos países de Língua Portuguesa e Galiza: como
diversas catástrofes socioambientais. poderemos, ainda, edificar a esperança, junto das nossas comuni-
dades, depois do esgotamento de algumas certezas que, nalguns
TECIDO 4: pontos e linhas ambientais casos, supúnhamos intemporais e, até, tinham suporte cultural,
No último tecido, costuramos com vários pontos e linhas coloridas aparentemente insubstituível, que suportavam a nossa velha ideia
que brindam as conexões da importância da proteção ecológica, de progresso económico e social?
totalmente fiada junto com a cultura. Aspectos da conservação se
alinham com a gestão, na tessitura socioambiental que finaliza o A presente declaração aponta possíveis linhas para responder
número especial da AMS. a essa questão. Neste sentido, partimos da necessidade de que a
CPLP e todas as entidades envolvidas, apoiem os seguintes pontos
Temos certeza de que outros tecidos poderiam ser bordados, mas gerais:
nossas agulhas indicaram este mosaico. Oxalá tenhamos consegui-
do revelar a beleza que foi o evento na Ilha do Príncipe, com seus • Criar um grupo de trabalho permanente com um secretariado
bons participantes e os hospitaleiros organizadores. Nossos espe- executivo para apoiar as atividades de continuidade dos congres-
ciais agradecimentos à Telma Fontes, que sempre atenta, paciente e sos. O grupo seria constituído por dois representantes de cada um
organizada, ajudou a construção destes panos coloridos que reves- dos países.
tem a educação ambiental.
• A exemplo do que ocorreu no Príncipe, os congressos subsequen-
Michèle Sato & Thiago C. Luiz tes deverão integrar as comunidades locais em sua programação,
(Editores) valorizando a cultura e os saberes tradicionais. O acolhimento das

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declaração samé nuna declaração samé nuna

evento em promover um processo de formação de formadores diri-


gido a formação escolar a ser construído de maneira participativa e
comunidades locais do Príncipe foi um aspeto positivo destacado apresentado ao secretariado executivo da CPLP.
pelos participantes do evento. Elas nos mostraram uma grande pai-
xão pelo seu modo de viver, por sua capacidade de auto-organiza- • Entre os temas para a elaboração de projetos integradores foram
ção em torno de seu sustento económico (baseadas em modelos apontados os seguintes: mudanças climáticas globais, bio e geo-
de economia social e solidária) e pela integração de todos os mem- diversidade, saúde ambiental, estilos de vida (relacionados a re-
bros. síduos, energia, lixo marinho e alimentação), migrações, riscos e
vulnerabilidades.
• As estratégias educativas são especialmente importantes para o
envolvimento das comunidades na definição de políticas que com-

Foto: Joaquim Ramos Pinto


binem o cuidado das áreas protegidas com a valorização da cultura
e as formas de vida das comunidades locais. As organizações e ins-
tituições deverão assumir o compromisso e a responsabilidade por
manter um equilíbrio entre as necessidades das comunidades e a
sustentabilidade socioambiental.

São Tomé e Príncipe,


no continente africano.

São Tomé e Príncipe,


no continente africano.
Foto: Joaquim Ramos Pinto

• Educação Ambiental não tem fronteiras, pois partilha espaços e


saberes com outras experiências educativas centradas na justiça
• Destaca-se a importância da formação para reforçar o papel da social e ambiental, a igualdade de género, a comunicação ou nos
Educação Ambiental no desenvolvimento de uma cultura de tran- valores da cooperação e da solidariedade. É por isso que se deve
sição para sociedades sustentáveis e equitativas, além das necessi- buscar alianças, contactos e momentos de participação em eventos
dades sociais e seus desafios para os países da CPLP e Galiza. Em comuns, nos quais se encontrem educadores e educadoras ambien-
especial, destacamos a iniciativa de um grupo de participantes do tais e outros agentes sociais. Neste sentido, destaca-se a necessida-

12 ambientalMENTEsustentable, 2017, número especial ambientalMENTEsustentable, 2017, número especial 13


declaração samé nuna declaração samé nuna

de de realizar encontros sectoriais entre cada congresso dos países


de Língua Portuguesa. elemento fundamental na construção da resiliência social. É impor-
tante capacitar a diferentes grupos sociais por meio de metodolo-
• Propor ao secretariado executivo da CPLP que reconheça e viabi- gias participativas para reduzir a sua vulnerabilidade diante das
lize a realização de um mapeamento e uma rede de centros e equi- situações de risco e catástrofe.
pamentos de Educação Ambiental.

Foto: Joaquim Ramos Pinto


São Tomé e Príncipe,
• Estimular e apoiar a elaboração e fortalecimento de políticas no continente africano.
públicas de Educação Ambiental em diferentes níveis e esferas de
organização política, criando condições para evitar processos de
descontinuidade associados às mudanças políticas. Ainda, é funda-
mental a garantia de recursos económicos e humanos para viabili-
zar e executar políticas de Educação Ambiental.

• As comunidades locais organizadas fazem a diferença entre um


coletivo vulnerável e uma comunidade resiliente frente a uma mu-
dança socioambiental global. A Educação Ambiental pode ser um

São Tomé e Príncipe,


no continente africano.

• O acesso responsável à terra, ao teto e ao trabalho são direitos


humanos fundamentais para os quais a Educação Ambiental deve
contribuir. É necessário que a Educação Ambiental incentive e
apoie o conhecimento crítico sobre as necessidades materiais e
simbólicas que emergem do contexto social. Complementariamen-
te, também deve contribuir para desvelar as formas de produção e
consumo baseadas no lucro, no patenteamento da vida, na ganân-
cia e na acumulação privada em detrimento do Bem Comum. Para
Foto: Joaquim Ramos Pinto

isto, é preciso promover a simplicidade voluntária, a frugalidade e


o decrescimento. Para que esses valores se tornem hegemónicos
é necessário formar uma cidadania ambiental politicamente ativa.

• É preciso considerar a transversalidade e pluralidade de atores

14 ambientalMENTEsustentable, 2017, número especial ambientalMENTEsustentable, 2017, número especial 15


declaração samé nuna declaração samé nuna

e agentes de Educação Ambiental (professores e professoras, au- a igualdade de género no acesso à formação.
toridades, gestores e gestoras, etc.) e reconhecer sua capacidade
transformativa. • É reconhecida a necessidade de um estudo sobre o estado da arte do
campo da Educação Ambiental nos países de Língua Portuguesa e Gali-
• As diferenças de género são universais concretizando-se em cada za, baseado em metodologias que permitam um rigor no tratamento dos
lugar pela carga de trabalho com o cuidado da casa e dos membros dados, de forma a auxiliar a planificação e avaliação de políticas públicas.
da família atribuída às
São Tomé e Príncipe, mulheres. É preciso • Rentabilizar Plataformas Digitais existentes no contexto da CPLP, no-
no continente africano. apoiar programas que meadamente, plataforma online “Ambiente CPLP” para uso dos diferen-
visibilizem às mulhe- tes atores sociais, de forma a democratizar a difusão dos conhecimentos
res e sua liderança, que e recursos construídos pela comunidade dos países de Língua Portugue-
incrementem a sua for- sa e Galiza. Nesta linha é preciso impulsionar revistas, espaços virtuais
mação e que equilibrem e outras publicações de carácter científico e divulgativo em que se par-
os rendimentos do tra- tilhem as reflexões e as práticas de EA que se desenvolvem no espaço
balho feito em favor da CPLP e Galiza. A revista “Ambientalmente Sustentable” é o instrumento
comunidade. possível para este fim, podendo outros ser identificados e integrados.
Foto: Joaquim Ramos Pinto

• Os livros escolares e Como encaminhamento final, destaca-se que é preciso iniciar a elabo-
materiais didáticos têm ração de uma agenda comum de pesquisa para partilhar metodologias,
distorções e ausências marcos teóricos, conhecimentos e processos de construção interdiscipli-
significativas sobre as nar e transcultural do conhecimento entre os investigadores e investiga-
alterações climáticas, doras da Educação Ambiental.
a crise socioambiental
global e outros problemas globais como o lixo marinho, por isso há Esta agenda deveria incentivar projetos de investigação e de ação devem
necessidade de melhorar a qualidade destes e aprimorar a forma ter como suporte a perspetiva da cooperação democrática e horizontal
de inserção curricular desta temática. entre os países. Neste sentido, as seguintes edições do congresso deve-
riam dar prioridade à apresentação de pesquisas, relatos de experiências
• É importante identificar e difundir experiências emblemáticas e e programas educativos que impliquem equipas de pesquisa, educadores
boas práticas que são desenvolvidas nos países da CPLP e Galiza, e educadoras ambientais de mais do que um país ou comunidade.
que possam ser replicados em outros contextos geográficos. Como
exemplo, se poderia citar o programa “Príncipe sem plástico”, “Pro- Por fim, os participantes do IV Congresso Internacional de Educação
jeto Rios” e outros que foram apresentados durante o congresso. Ambiental dos Países e Comunidades de Língua Portuguesa e Galiza su-
gerem que, em reconhecimento à contribuição e ao compromisso com
• Ampliar os investimentos e ações de formação em espaços edu- os saberes tradicionais da Terapeuta Tradicional (Stlijon Mátu), “Samé
cativos informais, especialmente no que se refere a formação de Nuna”, que nos deixou no início deste congresso, que este documento se
guias e intérpretes do património natural e cultural, considerando chame Declaração Samé Nuna.

16 ambientalMENTEsustentable, 2017, número especial ambientalMENTEsustentable, 2017, número especial 17


tecido 1 mosaicos da
formação

Foto: Júlio Resende Duarte


Galícia-ESP,
no continente europeu.
Foto: Giseli Dalla Nora

Arco-íris de Rianxo, A práxis do viver como epistemologia: o saber sentido da/na escola
na Galícia. como forma de emancipação da condição humana no viver na terra

Cláudia Moraes da Costa Vieira1


Cláudia Pato2

Resumo
Estudos têm demonstrado a ausência da instituição escolar na trajetória de vida de
grupos empobrecidos como o dos catadores de material reciclável. O objetivo do
trabalho foi compreender as trajetórias de vida e os processos escolares de estu-
dantes filhos de catadores de material reciclável de uma escola pública do Distrito
Federal-DF, localizada no Brasil. Propôs-se o método autoecobiográfico, centrado
em oficinas, observação participante e o diário de campo, baseando-se na fenome-
nologia e na hermenêutica para as análises do processo. Participaram 65 estudan-
tes do 4º ano do ensino fundamental. Pode-se inferir que a sobrevivência e a vivên-
cia no Aterro sanitário apontam para a degradação socioambiental e do trabalho,
mas assinalam a complexidade do encontro da precariedade e da criatividade. A
família é o território das relações afetivas, onde trabalho e vida se entrelaçam. A es-
cola emerge como território de contradição, mas aponta a existência de elementos
de positividade. O pertencimento ao lugar, em que símbolos, relações e histórias
se instituem como elementos fundantes para autobiografias e para a biografia co-
letiva. Destaca-se, portanto, a importância da escuta desses estudantes pela escola
para a constituição de utopias baseadas em autoeducação, autoconsciência e auto-
nomia como um modo de reconectar a educação escolar à vida.

Palavras-chaves: Estudantes filhos de catadores de material reciclável. Educação


Ambiental. Ecologia Humana. Método autoecobiográfico. Trajetória de vida.

Abstract
Studies have demonstrated the absence of the school institution in the life trajec-
tory of impoverished groups such as recyclable material collectors. The objective of
this work was to understand the life trajectories and the school processes of stu-
dents who are children of recyclable waste pickers of a public school in the Federal
District, located in Brazil. It was proposed the autoecobiographic method, centered
in workshops, participant observation and field diary, based on phenomenology
and hermeneutics for the analysis of the process. 65 students participated in the
4th year of elementary school. It can be inferred that survival and living in the land-
fill point to socio-environmental degradation and work, but they point to the com-
plexity of the encounter of precariousness and creativity. The family is the territory
of affective relationships, where work and life intertwine. The school emerges as
a territory of contradiction, but points to the existence of elements of positivity.
Belonging to the place, where symbols, relationships and stories are established as
founding elements for autobiographies and for the collective biography. Therefore,
the importance of listening to the students for the formation of utopias based on
self-education, self-consciousness and autonomy as a way to reconnect school edu-
cation with life is emphasized.

Keywords: Students children of recyclable waste pickers. Environmental education.


Human Ecology. Autoecobiographic method. Life trajectory.

ambientalMENTEsustentable, 2017, número especial 21


Cláudia Moraes da Costa Vieira; Cláudia Pato A práxis do viver como epistemologia

Introdução escolares dos estudantes filhos Para o alcance desse objeti- interpretativa ancorada na abor-
Buscar sentidos para com- de catadores, é necessário consi- vo geral foram elaborados os dagem fenomenológica – herme-
preender o ser humano e suas derar que os processos escolares seguintes objetivos específicos: nêutica. Baseou-se na análise
relações, intervenções e significa- são compreendidos como o viver analisar as trajetórias de vidas interpretativa - compreensiva de
dos atribuídos à existência, reme- e o conviver, individual e coletivo, e os processos escolares dos es- Paul Ricoeur (1994) e na leitu-
te-nos ao desejo de compreender desses estudantes, no decurso tudantes a partir das narrativas ra dos três tempos baseadas nos
a constituição de outros seres, de de seus percursos escolares. São de vida; identificar articulações trabalhos de Souza (2004): Lei-
nós mesmos, em busca do auto- questões concretas e subjetivas, entre as trajetórias de vida e os tura Cruzada e Pré-análise, Uni-
conhecimento e, simultaneamen- vivenciadas a partir das diversas processos escolares dos estu- dades de análise temáticas e des-
te, a constituição da possibilidade relações estabelecidas no territó- dantes; conhecer o olhar que os critivas e Leitura interpretativa e
de vivenciarmos o encontro com rio escolar. estudantes lançam sobre si, para compreensiva.
a humanidade que nos habita. Com base em tais reflexões, a escola e para o grupo ao qual O presente estudo foi realiza-
Assim, para o encontro com o foram levantadas as seguintes pertencem, a partir de suas tra- do na Escola Classe 01 da Cida-
saber sentido, produzido na rela- questões de pesquisa: a) quais jetórias de vida e dos processos de Estrutural, escola pública do
ção do sujeito com o espaço esco- são as compreensões que os es- escolares vivenciados; investigar Distrito Federal pertencente a
lar, faz-se necessária a construção tudantes, filhos de catadores de qual a percepção da escola sobre Secretaria de Estado de Educação
da possibilidade de olhar para a material reciclável, têm de suas os saberes, valores e sentidos ad- do Distrito Federal – SEDF, locali-
escola como um território, e de- trajetórias de vida e de seus pro- vindos da história de vida desses zada no Brasil. A escolha por esta
fini-la como um lugar constituí- cessos escolares? b) De que for- estudantes. escola se deu devido a sua loca-
do por diversas histórias. Pereira ma eles compreendem a escola, a O estudo adotou como ca- lização, a Cidade Estrutural e ou
(2008) compreende que a escola constituição de si e a do grupo a minho teórico metodológico a “Vila Estrutural”, e lá se encontrar
se insere na perspectiva de terri- que pertencem? c) De que modo constituição e a análise pessoal o Aterro Sanitário que recebe dia-
tório, quando se busca enxergá-la os saberes, valores e sentidos ad- e coletiva das histórias de vida riamente os resíduos do Distrito
como um lugar que produz iden- vindos da história de vida desses e dos processos escolares de es- Federal, bem como estão presen-
tificação, gerada pela experiência estudantes são reconhecidos pela tudantes filhos de catadores de tes os catadores que trabalham
entre os seres e o local. É a con- escola? material reciclável e, concomitan- de forma independente e aqueles
cepção de que os espaços e, os Neste sentido, o estudo buscou temente, a constituição de um es- organizados em cooperativas.
lugares existem em função dos compreender as trajetórias de paço de auto formação e de inter- Neste sentido, foram defini-
sentidos e dos valores que as pes- vida e os processos escolares dos venção, para os atores envolvidos dos quatro critérios para a esco-
soas foram atribuindo a eles, no estudantes filhos de catadores de no processo, com a inclusão dos lha dos participantes estudantes:
decorrer de sua existência, das material reciclável de uma escola professores regentes dos respec- ser filho de pessoas que exerciam
histórias que foram construídas. pública do Distrito Federal-DF, tivos grupos, a gestora da insti- a ocupação de catadores de ma-
Para propor um olhar sobre as com o uso do método autoeco- tuição de ensino, como para esta terial reciclável; estarem cur-
trajetórias de vida e os processos biográfico. pesquisadora. sando o 4º ano; aceitarem ser
Utilizou-se as estratégias: voluntários na pesquisa; terem
1 Doutora oficinas autoecobiográficas, ob- a autorização dos pais e de seus
em Educação pela UnB- Docente da Secretaria de Educação do Distrito Federal
– Brasil e do Centro Universitário UniProjeção. E-mail: claudia.moraesdacosta@gmail.com servação participante, entrevis- professores para participarem da
tas semiestruturadas e roda de pesquisa. Assim, a pesquisa foi
2 Doutora em Psicologia e docente na Universidade de Brasília-UNB – Brasil.
conversa. Optou-se pela análise realizada com 65 estudantes, com

22 ambientalMENTEsustentable, 2017, número especial ambientalMENTEsustentable, 2017, número especial 23


Cláudia Moraes da Costa Vieira; Cláudia Pato A práxis do viver como epistemologia

média de idade de 10,75 anos (35 esse se constitui como um ponto vão identificando como algo que criança em idade escolar, mas,
meninas; 30 meninos), dos quais de referência, como um território os faz sentir a sensação de nojo, devido a vulnerabilidade social
36 residem na Ocupação Santa simbólico em que eles vão cons- aversão. Concomitantemente, familiar, coloca-se como mais um
Luzia e 29 na Estrutural. truindo relações com o lugar e relacionam o nome a algo engra- do núcleo familiar a empenhar-se
Nesse universo de 65 famílias, com tudo que o compõe. Uma çado e incômodo no sentido de pelo sustento financeiro. O traba-
41 delas possui a mesma escola- etapa no decorrer das oficinas uma sátira, utilizada por alguns lho infantil é revelado como uma
rização dos estudantes envolvi- autoecobiográficas que denomi- estudantes, que justificam serem das formas de degradação do tra-
dos nesse estudo, em alguns gru- namos de “problematização das dessa maneira que algumas pes- balho e da pessoa criança, como
pos, eles são os que apresentam narrativas” trouxe a necessidade soas denominam aqueles que são consequência do capitalismo e é,
a maior escolarização do núcleo de dialogar sobre o contexto do filhos de catadores de material de certa forma, naturalizado em
familiar, isso revela o processo de filme: O Menino Urubu, em que reciclável, as pessoas que traba- áreas vulneráveis como no Aterro
exclusão deste referido grupo na eles trouxeram na sua essência o lham no Aterro Sanitário e com o Sanitário.
perspectiva da educação formal. significado do olhar reflexivo so- processo de reciclagem. Eles reconhecem que há o tra-
A gestora e os cinco profes- bre o Aterro Sanitário. Reconhecem o contexto, mas balho infantil, mas veem como
sores regentes dos estudantes Alguns foram elencando como buscam estratégias de negarem uma forma de colaboração na fa-
foram participantes da pesqui- “um monte de lixo” e/ou uma as relações de proximidade com mília e mostram que esse modo
sa, para se buscar uma melhor “montanha de lixo”, que permitia suas próprias histórias. Vão nar- de trabalho, pode trazer de forma
compreensão do contexto escolar se manter aceso o fogo de forma rando a partir da história de ou- mais rápida o retorno monetário.
e um diálogo permanente com o permanente e que serviria como tras pessoas e ou eventos vin- Nas pesquisas como de Cavalcan-
processo da pesquisa. fogão ou “fogareiro” para vários culados na mídia. Usam como te (2014), essa condição pode ser
Dessa forma, ao relatarem suas catadores que precisavam aque- exemplos notícias acontecidas. a que atrai as crianças em situa-
trajetórias de vidas e ao mesmo cer o alimento diariamente. De São as histórias de outras pes- ção de vulnerabilidade para o tra-
tempo refletirem sobre o espaço forma consciente, os colabora- soas que trabalham no Aterro balho no Aterro Sanitário, a pos-
escolar, pode-se constatar que os dores, ao narrarem sobre essa Sanitário que são articuladas ao sibilidade de se receber o valor
estudantes vão identificando ou- luz, argumentavam que ela se contexto inicial da conversa. do trabalho na hora da entrega
tros colegas que também vivem originava o efeito do gás metano. do material.
nas mesmas condições, o que Um lugar no qual convivem os Maria (10 anos): “tia eu conheço Trazem um olhar de cuidado e
um menino que trabalha lá, a mãe
contribui para o fortalecimento catadores no trabalho com a re- dele não trabalha, ela fica olhan- preocupação no sentido de trazer
de sua identidade pessoal e cole- ciclagem, mas também em que se do os filho dela, acho que tem 12 como referência a lagoa de cho-
tiva e permite criar laços afetivos encontra a violência e os diversos ou 10 não sei? Ele vai trabalhar rume. Ao relatar, definem a com-
reciclando e depois vende o ma-
e potencializá-los. acidentes no interior do Aterro. terial e pega o dinheiro quando a preensão sobre esse fenômeno.
Ao iniciar a narração autobio- mãe dele precisa, ele pega e dá”. De acordo com a sua compreen-
Os sentidos da sobrevivência e gráfica estabelece-se o primeiro são, o Aterro poderia ser definido
da vivência no Aterro Sanitário contato com o personagem Carni- Na voz da Maria, é desvelada pela lagoa de chorume e os pro-
ça, como estratégia utilizada para a situação de crianças que ainda cessos de violência que ocorrem
As histórias e os contextos vão a aproximação do contexto dos trabalham no Aterro sanitário naquele lugar. Outro aspecto ob-
dando movimento às narrativas estudantes. Alguns colaborado- para manter a renda de suas fa- servado é o estereótipo construí-
dos estudantes, constituindo ter- res ao ouvirem a expressão Carni- mílias. Pela referência dada à ida- do da pobreza. O faz, para que não
ritórios como o Aterro Sanitário, ça, nome dado ao personagem, o de, pode-se concluir que é uma seja revelado o seu conhecimento

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Cláudia Moraes da Costa Vieira; Cláudia Pato A práxis do viver como epistemologia

daquela realidade, pois conhecer Imagem 1 - O Lixão sué, era o que mais o afetava, pois filhos de catadores e pertencen-
naquele momento, com detalhes, a quantidade de carreta o deixava tes àquele contexto. A condição
o Aterro Sanitário, era uma con- preocupado devido aos acidentes os fazia trazer a voz para o diálo-
firmação da sua relação com os que eram ocasionados ali quase go. Isso os permitia identificar o
catadores. que diariamente. local de habitação, as “casinhas”,
As narrativas vão revelando a Percebeu-se que, ao expres- como as denominavam e as carac-
dificuldade que eles têm de trazer sarem suas impressões a partir terizavam. Essas representações
elementos próprios dessa reali- do registro do desenho, foram inclusive revelavam a hierarquia
dade, descrevem o lugar, contudo, tornando-se livres e construindo existente entre os moradores das
lentamente, começam a incluir Fonte: Desenho de João, 12 anos um espaço de liberdade para tra- casinhas, da Ocupação da Santa
nomes de parentes próximos zer as questões subjetivas. Aqui Luzia e da Cidade Estrutural.
Imagem 2 - As carretas do Lixão
como tios, padrinhos, madrinhas a manifestação artística do de- As casinhas eram denomi-
e vizinhos. Descrevem histórias senho infantil rompeu o espaço nadas como as casas de tijolo e
de outras crianças e pessoas que do silêncio, trouxe elementos da madeira onde os catadores mo-
trabalham no Aterro sanitário, realidade, do cotidiano, mas veio ravam e, por isso, justificavam a
ausentam-se de afirmações, mas acompanhada da imaginação na proximidade do lixão. A Santa Lu-
revelam que conhecem de forma perspectiva do sonho de se ter, zia era definida como sendo um
autêntica o modo de vida daque- naquele local, espaços para o des- local um pouco longe da entrada
les que sobrevivem dos lixões e o canso de seus pais. O desenho das principal do lixão, como o Centro
cenário cotidiano daquele lugar. carretas era uma forma de ex- da Cidade Estrutural. Por isso, ela
Fonte: Desenho de Josué, 12 anos
A questão vai se convertendo pressar o sentimento da insegu- era considerada como a Cidade
quando eles têm a possibilidade rança e da dor que o movimento Estrutural, mesmo com a falta
de expressar os pontos significa- Os desenhos foram mostrados demasiado daqueles transportes de infraestrutura na Ocupação
tivos daquele encontro por meio ao grupo pelo colaborador e al- ocasionava entre eles. Alguns es- Santa Luzia, eles consideravam
do desenho em seus diários de guns comentavam que os urubus tudantes colaboradores se apro- um lugar melhor para se habitar.
campo. Nesse momento observa- estavam em tamanho pequeno, ximavam e contavam histórias Outro elemento era o fato das
-se que relatam ao grupo a rotina diante aos que habitavam o local. ocorridas no Aterro Sanitário e “casinhas” serem as casas dos ca-
do trabalho do Aterro Sanitário A árvore representada dentro do outros ainda faziam gestos para tadores e toda a comunidade ter
e interagem de forma coletiva a Aterro Sanitário trouxe indaga- que o colega confirmasse a sua esse conhecimento. Isso dava ao
partir dessa discussão. A conver- ções de alguns, mas para o João versão. Nesse exercício dialógi- local um status de menor aceita-
sa abre espaço para confidências representava o desejo de ter ali co, trouxeram memórias dos mo- ção por eles. Essas diferenças iam
“ao pé do ouvido” e a outras con- um local “com sombras” para que mentos do trabalho, relações com agregando valores às condições
versas que são expressadas em os catadores pudessem descan- seus pais e avós, histórias que da moradia.
voz alta e confirmadas pelo gru- sar. retratavam o Aterro Sanitário em A negação da condição de fi-
po. A imagem abaixo recorda essa Josué lembrava a quantidade um tempo passado. lhos de catadores foi compreen-
confirmação: de carretas que circulava no lixão Essas expressões iam legiti- dida como uma relação de cui-
em todos os períodos. Esses de- mando a condição de filhos de ca- dado consigo, uma autoproteção,
senhos buscaram materializar o tadores e visibilizando esses se- no sentido de se protegerem para
que para eles era mais visível no res. Iam afirmando a condição de não serem ofendidos, e/ou ma-
Aterro Sanitário o, no caso de Jo-

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Cláudia Moraes da Costa Vieira; Cláudia Pato A práxis do viver como epistemologia

chucados por seus pais serem ca- expressavam que seus pais não cussão e preocupação entre os era uma das causas dos acidentes
tadores e trabalharem no Aterro trabalhavam no Aterro direta- colaboradores. Isso tornava-se ocorridos como os citados pela
Sanitário. Essa voz se apresentou mente, somente aleatoriamente. mais delicado quando incluía pa- Luzia. Nos relatos, estabelecia-
em vários subgrupos, mas não se A partir daí, iam agregaram ele- rentes próximos como: mãe, pai, -se um saber consciente sobre a
legitimou no universo coletivo, mentos do cotidiano individual e avó, irmãos e também amigos e realidade na qual estavam inse-
pois havia outro grupo que já nos coletivo e articulando ao passado, conhecidos. Essa era uma afir- ridos. Demostravam uma capaci-
primeiros encontros, assumiu ao presente e trazendo perspecti- mação recorrente e angustiada, dade reflexiva e crítica de olhar a
essa condição. Ao passo que iam vas de futuro ao cenário do Ater- que demonstrava a incapacidade realidade e apontar questões ne-
se fortalecendo, iam verbalizan- ro Sanitário. e a dificuldade de visualizarem cessárias e perceptíveis para as
do, alguns com segurança, outros O Aterro Sanitário vai sendo possibilidades de mudanças para mudanças, mas também reconhe-
de forma tímida e ainda cabisbai- descrito a partir de elementos esta situação. ciam a limitação que tinham, pois
xos: que dão sentido a todo o cenário Era observável na expressão seus pais precisavam continuar
Utilizavam o termo vala para social, histórico, cultural e am- de seus rostos, no tom dos relatos. naquele trabalho para manter
identificar o lugar em que seus biental e revelando um trabalho Essa situação iria se perpetuar suas famílias por uma situação de
pais trabalham no Aterro Sanitá- que é exercido por famílias, como ainda por um processo grande sobrevivência.
rio. Mesmo não sendo a maioria, demonstram os relatos autobio- de tempo ou enquanto houvesse
esse pequeno grupo de crianças gráficos. Mais uma vez, verifica- pessoas trabalhando daquela ma- Amadeu (12 anos) O meu pai é
da cooperativa, lá de Brasília. As
revelou a profissão dos seus pais. -se o trabalho de adolescentes e neira. A velocidade das carretas e vez o caminhão da SLU vai levar
Conscientemente, assumiram as crianças no Aterro. Esses elemen- tratores que circulavam por lá era o lixo lá, aí eles separo. Ele não
consequências desse ato para a tos trazem uma carga de questões um ponto de preocupação: preciso ir no lixão, mas as vez ele
e os catador de lá vai, quando o
escola e para a comunidade, pois subjetivas da trajetória individual caminhão demora ai.
perceberam a presença de outros e coletiva dos colaboradores es- Tomás (11anos): Lá tem um tra-
tor passando toda hora. Máquina
naquela condição. Assim, como a tudantes e vão se aproximando de amassar o lixo. As carreta leva. A diferença mostrada revelou
Mariana, que foi se apropriando do contexto local e constituindo Tem que pegar logo, se não enter- a dificuldade do processo de co-
de suas histórias para estabele- a comunidade dos que trabalham ra.
leta seletiva no Distrito Federal,
cer o pertencimento àquela reali- naquela área. Luzia (10anos): Lá no lixão. Foi onde não há uma continuidade
dade, eles foram se apropriando Demonstraram a preocupação na Cuca. É onde a mulher traba- na entrega desse material nas
da tomada de consciência no pro- da distância entre as casas e a lha. A mulher nem mexia.
cooperativas, o que faz com quê
cesso de refletir sobre o vivido e lagoa de chorume no sentido de alguns dos catadores ainda te-
de identificar um grupo que os demonstrar as consequências da Tomás revela uma das princi-
nham que ir ao Aterro Sanitário
fortalece. localização do Aterro para toda pais causas dos vários acidentes
nos períodos em que o caminhão
No decorrer, foi revelada uma aquela comunidade e para aque- que ocorrem no lixão, a diferença
não faz a entrega do material. O
diferença dos relatos entre aque- le solo. Esta preocupação vinha da velocidade entre o homem e a
Aterro Sanitário está presente
les que os pais trabalhavam no acompanhada com a quantidade máquina. Quando o lixo era joga-
tanto para aqueles que trabalham
Aterro Sanitário de forma inde- de lixo e a forma desordenada do nos espaços de destino, vários
independente, como para aqueles
pendente e aqueles que os pais ti- de como ele era armazenado. A catadores estavam lá para coletar
vinculados a cooperativas e asso-
nham filiação a alguma Coopera- quantidade de carretas e os vá- e separar. Contudo, essa ação pre-
ciações, mas que não conseguem
tiva. Esses que pertenciam a uma rios acidentes que ocorriam ali cisava ser veloz, pois, logo após,
estabelecer uma rede de coleta, já
instituição organizada ao falarem eram outro ponto que gerava dis- viria o trator para enterrar e isso
que a do Estado ainda se encon-

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tra em situação de fragilidade no mas de preencher esse vazio. poderiam compartilhar com to- mãe se preocupa em trazer-lhes
sentido de uma política prática O trabalho é um dos elemen- dos os colegas, iam se agrupando brinquedos.
sobre os resíduos. tos que constitui uma base de como forma de fortalecimento e Joana lembrou que há um va-
Ao narrarem, iam se misturan- relação desse grupo familiar, no espaço de amizade. lor ambiental no trabalho de sua
do o Aterro Sanitário e à Cidade qual filhos e pais vivenciam dia- Para esses estudantes que vi- mãe:
Estrutural, os sofrimentos e do- riamente o contexto dos que so- venciam conflitos e contradições
res dos que trabalham na catação, brevivem da catação. O cuidado desde muito cedo, o trabalho Joana (10 anos): Eu acho esses
negócio de reciclagem são muito
dentro do Aterro, com o sofri- que demonstraram nos relatos exercido por seus pais, de catar bom pro meio ambiente, mas a
mento dos que moram na cidade, em que evidenciavam o trabalho no Aterro os resíduos sólidos, pessoa não cuidam do Meio Am-
devido aos impactos ambientais dos pais, demonstra a relação como maneira de garantir o sus- biente, joga lixo na rua . Eu tam-
bém achei bom minha mãe fazer
produzidos pela localização do entre o trabalho e o viver desses tento da família, parecia revelar esse trabalho, por que ela vai me
lixão. estudantes. A narrativa se consti- sentimentos simultâneos de or- ensinando como recicla as coisas
tuía como exercício árduo, em es- gulho e vergonha conforme ilus- [...].
A família : os laços e nós pecial nos primeiros momentos, trado na fala a seguir.
A família vai se apresentando quando não haviam estabelecido Mais uma vez a figura materna
aos poucos, a partir da afirma- o clima de confiança entre os par- Kédma (10anos): Tem muita gen- é citada. Joana compõe sua nar-
te, assim que trabalha de catado- rativa em um tom de segurança.
ção de serem filhos de catadores ticipantes, entre eles e a pesqui- ra e tem muito filho assim, que
de material reciclável. Revelam sadora. O relato ilustra a aprendizagem
tem vergonha de ter uma mãe
que pertencem a um grupo em Alguns estudavam na mesma catadora, mas eu não tenho, te- que constroem com os pais, das
que trabalho e vida se entrela- sala de aula, mas não falavam
nho muito orgulho de ter a minha contribuições de seus trabalhos
catadora, ela me dá tudo, me dá para a vida individual e das cida-
çam. Identifica-se ali uma base de muito de si. Outros se encontra- boneca, me dá as coisas, assim se
apoio e segurança para a grande vam fora da escola, no Aterro, não fosse por ela eu não estaria des. A reciclagem vai sendo apro-
maioria. Em outros casos a au- onde seus pais trabalhavam. De- na escola. priada por todo o núcleo familiar
sência dessa base é, revelada por monstrava-se certa cumplicidade e constituindo saberes e fazeres
A Kédma eleva a voz ao falar próprios da especificidade da ca-
pais e mães que parecem ser fi- e, intimidade, o que os levava a de sua mãe. O relato revela a dua-
lhos, pela circunstância da idade ficarem mais próximos na sala de tação.
lidade entre o sentimento rela- Esses aspectos também são
e também do processo de exclu- aula e a constituírem pequenos cionado ao orgulho, pois é a par-
são que ainda vivenciam. grupos. identificados nos trabalhos de
tir do trabalho de catação que sua Barbosa, (2012), Teixeira (2010)
A família vai se constituin- mãe garante o sustento de toda a
do nesse território, em que se Antônio (11 anos): tia, eu e o Ta- e Alterthum, (2005). Trata-se de
deu sai daqui e vai catar latina, sua família, a manutenção mate- um saber advindo do viver e so-
aprende desde cedo o valor de né? A gente entra lá pelo campo. rial, e o suporte da formação, pois
se contribuir uns com os outros, Né? (Sorrir muito).
breviver da reciclagem. Percebe-
é a partir dela e do trabalho que -se um vínculo entre o trabalho da
a participar da luta coletiva pela há um vínculo ao valor atribuído
sobrevivência. Diante de diversas Tadeu (11 anos): hoje tenho que reciclagem e o cuidado com meio
pegá peti também. Tia onti nós à educação, ao processo do aces- ambiente, como forma de ameni-
ausências, que se estendem à fal- achou um monte (faz gestos com so a escola. Também há destaque
ta de alguns membros, como os as mãos). zar o dano causado pelo acúmulo
ao cuidado revelado pela infân- e produção de resíduos nas cida-
pais e irmãos mais velhos, esses cia. Mesmo no meio de um traba-
estudantes precisam se mobilizar Esses grupos ou duplas esta- des, mas simultaneamente, suge-
vam sempre próximos. Eram con- lho que se exige atenção e cautela re-se um olhar de desaprovação
para aprender a suprir e criar for- para se desviar dos acidentes, a
textos muito próximos que não das pessoas e da sociedade, ao

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Cláudia Moraes da Costa Vieira; Cláudia Pato A práxis do viver como epistemologia

demonstrar o descuido que vem A escola e a lente do cotidiano uma lente em que se visualiza diversas semelhanças. Isso as fa-
da ação de “jogar o lixo na rua”. A voz das crianças sempre tra- o conteúdo a ser vencido a cada zia enxergar a escola como um
Com isso, considera-se a falta de zia uma questão que inquietava. bimestre. Com isso, as ações vão grupo de pessoas, algumas com
consciência desta importância e a Quando falavam da escola, sur- se tornando mecânicas, naturali- contextos diferentes. Passavam
própria desvalorização das ques- gia a observação sobre atenção: zadas, pois o sistema valoriza as a olhar para os estudantes como
tões ambientais e da figura do ca- “Ah tia, essa escola aqui tem que avaliações de grande escala. As- pessoas que carregavam uma de-
tador de material reciclável. ter mais atenção, uma menina se sim, a escola vai constituindo um terminada história e traziam ele-
Assim, o processo de escola- perdeu” Rodrigo (12 anos). Ao cotidiano de ausências. Ao dialo- mentos de identificação. A venda
rização vai se constituindo dos explicarem o sentido da atenção, gar com as professoras regentes do cotidiano não estava somen-
sonhos daqueles que não tiveram referiam-se ao cuidado, a estarem das turmas, essas apontavam que te nos olhos dos docentes, mas
acesso à escolarização, os cata- atentos a tudo naquele espaço. a pesquisa lhes trouxe elementos também nos olhos dos estudan-
dores de material de recicláveis Esses casos aconteciam quando significativos para olharem aque- tes que enxergavam a lógica da
como no relato da narrativa abai- as crianças entravam em ônibus le universo: escola somente a partir do olhar
xo: errados, ou desembarcavam na da lógica cognitiva. Escondiam a
escola diferente ou se perdiam Profª Danielle: Parece que eles sua constituição, pois nessa or-
Antônio (11 anos): A minha mãe estavam escondidos em algum
dentro do espaço da escola, si- lugar aqui da escola e de repente ganização não havia espaço para
fala que ela manda eu sempre
estudar para sê alguém na vida. tuações que ocasionavam medo esses meninos falam que os pais reconhecerem suas identidades.
Quando eu crescer né. e insegurança devido às próprias trabalham na reciclagem. Eles vi- Ao falarem de valores e sabe-
rão que não só eles, mas quase a
características físicas do espaço. escola toda. Não sei acho que isso res que não estão presentes na ló-
Ana (12 anos): meu pai veio para
cá pra mim estudar, mas eu acho Essas situações os levavam a de certa forma valorizou eles. An- gica escolar, descobrem que têm
que ele qué í embora de novo pro trazer para as discussões e o de- tes eles tinham muita vergonha diversos pontos e trechos da sua
Pernambuco. sejo de uma escola mais atenta. de ser filho de catador. vida que são comuns e isso passa
Isso faz recortar ao que Freire Profª Alinne: Bom eu sou reti- a ser um valor. Percebem que, ao
São mães e pais que buscam (1997) e Josso (2004) chamam rante, descobri isso em uma ma- encontrarem outros que também
na ausência da escolarização uma de atenção consciente, atenta. téria que fiz [...] Filha única, fui vivenciaram aquele contexto,
justificativa de encaminhar seus moradora de rua por um tempo
Uma atenção que está relaciona- grande, por isso que falo sobre o fortalecem-se. Olha para o outro
filhos para escola. Sentem as ale- da à ação de ver o todo e, ao mes- lanche, comer comida para quem com um sentimento de igualda-
grias do progresso e a tristeza de mo tempo, ver as parte que estão passou muita fome é, pensa, mui- de e reconhecimento do que seja
enxergar que alguns repetirão ta fome [...] a minha vida, quer
constituídas ali para possibilitar dizer, foi muito parecida com a viver em situações desfavoráveis,
seus caminhos, irão abandonar a o diálogo. A ausência desta aten- deles. mas que estavam escondidas no
escola por não conseguirem con- ção incomoda e se torna eco nas cotidiano escolar. Situações que
ciliá-la com o trabalho. Esse gru- conversas no decorrer das ofici- São relatos que apontam o só se revelam quando há a cons-
po familiar produz o eco da esco- nas, ressaltando a necessidade de que o cotidiano escolar esconde, trução de um lugar em que se
la, em uma constituição utópica ser visto e ouvido. a constituição da vida de quem possa dialogar sobre outra lógica,
de que é a partir daquele ambien- A ausência da atenção apon- constitui esse universo que é a es- a lógica das vidas, dos saberes e
te que eles irão transformar suas ta para a dificuldade da escola cola. Ao olharem para as histórias viveres do cotidiano.
vidas, ter vidas diferentes das de enxergar as diferenças contidas de vida desses estudantes, as pro- Para alguns professores essa
seus pais. ali, se atendo somente aos con- fessoras observaram que eram realidade se tornava de difícil
teúdos. Isso faz com que se crie próximas das suas e continham compreensão, pois tinham cons-

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Cláudia Moraes da Costa Vieira; Cláudia Pato A práxis do viver como epistemologia

ciência da realidade de alguns encontro produzido no espaço e Esse argumento torna-se coeren- Nesse local observou-se a difi-
grupos, mas só haviam se apro- no tempo da escola. te para aqueles que não conhe- culdade dos catadores que traba-
ximado dessa condição a partir Os estudantes ao se assumi- ciam o lixão. Os que conheciam lhavam de forma independente
da relação entre professor e estu- rem como filhos de catadores, queriam apresentar a pesquisa- quando são acometidos de pro-
dante. Isso causava dores profun- veem o espaço de poderem falar dora e aos outros, mas se obser- blemas de saúde. O pai de Ramon
das, sentimento de impotência. das suas próprias vidas e perce- vava que alguns grupos faziam vi- relatava a preocupação de ficar
Assim, no principio da relação bem que não são só suas, mas de sitas uns aos outros e, conheciam sem o trabalho, pois tinha duas
protegiam-se com o distancia- muitos outros daquele contexto. os familiares. Nesses casos a visi- crianças para alimentar. Explica-
mento. Contudo, aos poucos iam Esse reconhecimento faz com que ta se prolongava. va que no momento só a esposa
se aproximando e compreenden- eles possam, além de se identifi- Cada um deles gostaria de tra- trabalhava, porque ele havia que-
do essa realidade pelo principio carem, identificarem outros e se zer uma foto que melhor apre- brado as duas pernas no trabalho
da abertura de acolher o outro e tornarem grupo. Provavelmente sentasse a sua cidade para ser no lixão. Sobrevive com o benefí-
a si: seja essa a valorização que a pro- levada a escola. Queriam mostrar cio concedido pelo Estado, mas a
fessora Danielle se refere, pois, que mesmo diante dos impactos sua esposa trabalhava no Aterro
Norlene: Tudo pra mim é novo, com o decorrer dos trabalhos al- ambientais da localização do Li- todos os dias.
tenho só três anos de Secreta-
ria, nunca tinha trabalhado com guns traziam listas com nomes de xão, as pessoas que moram ali O grupo insistia em conver-
eles. O primeiro ano foi assusta- colegas que gostariam de partici- cuidavam do seu lixo e que os sar sobre se poder conhecer um
dor, mas a gente vai conversando, par das oficinas. Nesses momen- casos de violência muitas vezes lugar denominado por eles de
sabendo das coisas. Se apegando
a eles sabe. Não é brincadeira a tos não havia mais a “vergonha”. retratado na mídia de massa, não caminho de filme. Ao chegar no
realidade desses meninos. Escu- Seus contextos e suas histórias retirava a liberdade das mães de local a questão apresentada era
tar pela mídia é uma coisa, mas eram mostrados e assumidos. Re- passearem de bicicleta com seus a de buscarem modos de sentir o
viver isso tudo (se emociona). conheciam que não estavam soli- filhos na rua. Esse olhar de po- que esse caminho proporcionava:
O movimento de conversar e tários nesse aprender e conviver sitividade não os impediam de
Tadeu: “Tia aqui parece caminho
olhar para a escola, fez com que com o espaço escolar. registrar os problemas. Algumas de filme, é tão fresquinho”.
professores e estudantes refletis- questões tinham relação com os
impactos ambientais, outras com Valda: “Aqui é muito bonito, olha
sem sobre a condição individual lá” (apontando os vários pássa-
e coletiva de cada ser pessoa. O Olhar para um lugar chama- a ausência do Estado e condu- ros).
Isso trouxe a compreensão das do Estrutural ziam a alguns enveredavam para
A ida a Estrutural trazia di- o caminho da droga e do tráfico. Mariana: “Muito lindo! Dá von-
diversas realidades que foram tade de ficar aqui, só ouvindo”
se encontrando naquele espaço/ ferentes comportamentos. Al- Essas conversas iam surgindo no (referindo-se ao canto dos pássa-
tempo da escola e outras realida- gumas crianças queriam que caminhar pela cidade. ros).
des que foram se constituindo a entrássemos nas casas, conhecês- O Lixão vai determinando o
semos sua família. Para outras, a cenário ao redor, o fluxo do trân- Eles iam apreciando um espaço
partir deste encontro. Alguns se
passagem pelo ambiente familiar sito. Ao se aproximar do entarde- que para eles, naquele momento,
encontravam em alguns pontos
era rápida. Apresentavam os que cer, esse fluxo torna-se arriscado, trazia a percepção de estarem em
de suas histórias e experiências.
estavam no momento e saiam. A pessoas a pé e de bicicletas e di- um local natural. Era uma longa
Outros, contudo, se distanciavam
justificativa para alguns era que: versas crianças atravessando as estrada de chão, na qual se avista-
isso os faziam serem conscientes
“ Tia, é necessário ir no lixão, o ruas, no percurso a onde passam vam várias chácaras. Estávamos
da sua realidade e os o incentiva-
principal né?” (João 12 anos). as carretas. em uma área rural da Estrutural,
vam a buscar um sentido naquele

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Cláudia Moraes da Costa Vieira; Cláudia Pato A práxis do viver como epistemologia

mas que se localizava ao lado do corpos uma calmaria que os tirou vida, as relações com a escola e, laços afetivos e potencializá-los.
lixão. Iam parando, pedindo para daquela realidade. A paisagem, em especial, sobre suas famílias. Dessa forma, a escola se conver-
tirar fotos. Desciam, respiravam, no entanto, começa a mudar: O papel da mãe em suas vidas é te em um espaço em que se pode
pediam aos outros para silencia- algo significativo. São crianças e dialogar, compartilhar histórias.
rem. No dia, já havia chovido e Imagem 7 - Chorume derramando adolescentes que enfrentam si- Nesse processo, exercitam falar
estava caindo aquela chuva bem tuações de conflitos no interior de seus sonhos, suas realidades,
fina. Uma das meninas pedia de suas famílias, mas veem na fa- se reconhecem como capazes
para que todos respirassem fun- mília um núcleo de segurança. de aprender, apesar das limita-
do para sentir o cheiro da chuva, ções atribuídas a si mesmo. Vida
relacionando com o cheiro da ter- Considerações e escola vão dando sentido uma
ra molhada. Assim, iam lançando Os estudantes filhos de catado- a outra na busca de um diálogo
olhares e apresentando o local res são conhecedores de sua rea- em que ambas se alimentam e
com muito entusiasmo. lidade. Possuem um olhar crítico nutrem na direção de uma utopia
Aos poucos, iam percebendo Fonte: Produção Maria Flor, 10 anos constituído por uma percepção para uma educação emancipada
que o cenário ia sendo modifica- consciente, mas simultaneamen- que os faça rever os modos de ser
do, ouviam o barulho dos cami- A realidade da poluição estava te positivo. Trazem questões coe- e habitar o planeta, e sua própria
nhões que estavam muito próxi- próxima. Havia muito lixo jogado rentes sobre a realidade dos que existência.
mos. Voltaram a olhar a realidade pelo chão. Eles demonstravam vivem e sobrevivem nos Aterros, Assim, é necessário possibili-
do Aterro. De forma espantada, preocupações em especial com o relações familiares, seus proces- tar instrumentos para dar voz aos
começaram a apontar e verba- que retrata a imagem do derra- sos de acesso a instituições que estudantes e enxergar a escola e
lizar que já trabalharam ali. Por mamento do chorume. O choru- representam o Estado, como a suas experiências de vida a partir
alguns minutos, observou-se que me escorria para bem próximos escola, e o viver em seus lugares. dos seus olhares e das diversas
eles vivenciavam um afastamento das chácaras, que eram locais Revelam questões de degrada- formas de manifestá-lo. Com isso,
do local. Era como se a cada vez em que se cultivavam hortaliças. ção socioambiental, emergindo a pode-se provocar uma aprendi-
que se parou o carro para que A preocupação do grupo era em degradação da vida, mas alimen- zagem significativa, em que as
descessem e fotografassem, eles saber como impedir aquela situa- tam a utopia da transformação, dificuldades apresentadas sejam
pudessem vivenciar uma outra ção. Reclamavam e contavam his- em que, diariamente, exercitam a dialogadas por todo o grupo, em
realidade de paisagem, mesmo tórias de vizinhos que, ao trazer luta dos seus pais. São apanhado- uma perspectiva de colaboração.
que contemplativa. Havia um de- o material para casa, deixavam res de sonhos na complexidade Possibilitar o encontro e o for-
sejo que aquele momento se tor- o rejeito (as sobras do que não do viver. talecimento dos grupos, como
nasse uma realidade local, com serve para a comercialização) na Ao relatarem suas trajetórias estratégias de potencializá-los a
árvores e, cantar dos pássaros. rua. Pediram que, quando fossem de vidas e ao mesmo tempo refle- partir de uma educação baseada
O silêncio, mesmo que momen- reveladas as fotos, essas fossem tirem sobre o espaço escolar, po- na formação humana e na leitu-
tâneo, trouxe a cada um deles a entregues a eles, para poderem de-se constatar que os estudantes ra de mundo, em que se crie es-
calma, o que alguns verbalizavam denunciar e quem sabe, levar vão identificando outros colegas paços de cooperação, de escuta e
como sendo um sentimento de para a Administração da cidade. que também vivem nas mesmas constituição de utopias baseadas
paz e conexão com aquela natu- O andar com os colaboradores condições, o que contribui para o na superação, na autoconsciên-
reza, que simboliza um ambien- trouxe vários elementos signifi- fortalecimento de sua identidade cia e na autonomia em que seja
te natural. Observou-se em seus cativos sobre suas histórias de pessoal e coletiva e permite criar fundamental o trabalho com refe-

36 ambientalMENTEsustentable, 2017, número especial ambientalMENTEsustentable, 2017, número especial 37


Cláudia Moraes da Costa Vieira; Cláudia Pato A práxis do viver como epistemologia

renciais próximos à realidade vi- 1997. 337 f. Tese Doutorado em Edu-


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38 ambientalMENTEsustentable, 2017, número especial ambientalMENTEsustentable, 2017, número especial 39


Barão de Melgaço, Ensino e aprendizagem da educação ambiental: contribuições de
Foto: Giseli Dalla Nora

no estado brasileiro de Mato Grosso.


disciplinas na Universidade de São Paulo

Vivian Battaini
Marcos Sorrentino
Rachel Trovarelli

Resumo
A partir de 1983, na Escola Superior de Agricultura “Luiz de Queiroz”, da Universi-
dade de São Paulo (ESALQ/USP), inicia-se um processo de desenvolvimento da área
de educação ambiental, que culmina com a criação, já nos anos 2000, de discipli-
nas para graduações e pós-graduações. As disciplinas têm em comum a perspectiva
de estudantes protagonizarem a sua própria formação como profissionais e cida-
dãos/cidadãs. Ancoradas em perspectivas teóricas relacionadas ao ambientalismo,
utopismo e educação emancipatória, desenvolvem duas técnicas destacadas no
presente artigo: Mínima/Máxima Intervenção Possível (MIP) e Diário de Bordo. A
pesquisa que fundamenta o presente artigo é qualitativa, utilizando a observação
participante, avaliações processuais e intervenções educadoras junto aos estudan-
tes das mencionadas disciplinas. Os resultados demonstraram-se positivos sob o
ponto de vista do envolvimento e participação, restando questionamentos sobre
o real aprofundamento de conteúdos específicos. É perceptível o desenvolvimento
do protagonismo, autonomia e capacidade de articulação de conteúdos e ações
nos estudantes. O uso das técnicas citadas sugere favorecer o desenvolvimento de
sujeitos comprometidos com transformações de seu território e apresenta-se como
proposta de aprimoramento de processos de ensino aprendizagem na educação
superior.

Palavras chave: educação ambiental; universidade; ensino-aprendizagem.

Abstract
A process of development of the environmental education area began in 1983 at
Escola Superior de Agricultura “Luiz de Queiroz”, of Universidade de São Paulo
(ESALQ/USP). In the 2000s were creating subjects for graduation and post-gradua-
tion. The disciplines have in common the perspective of students to carry out their
own formation as professionals and citizens. The theoretical perspectives are based
to environmentalism, utopianism and emancipatory education. They develop two
techniques highlighted in this article: Minimum / Maximum Possible Intervention
(MIP) and Logbook. The research that bases the present article is qualitative, using
participant observation, procedural evaluations and educative interventions with
the students of the mentioned disciplines. The results were positive from the point
of view of involvement and participation, remaining questions about the actual dee-
pening of specific contents. It is noticeable the development of the protagonism,
autonomy and capacity of articulation of contents and actions in the students. The
use of the mentioned techniques suggests in favor the development of subjects
committed with transformations of their territory and presents itself as proposal of
improvement of teaching learning processes in higher education.

Keyword: environmental education; university; teaching-learning.

ambientalMENTEsustentable, 2017, número especial 41


Vivian Battaini; Marcos Sorrentino; Rachel Trovarelli Ensino e aprendizagem da Educação Ambiental

Introdução 1999) caracterizada pela diversi- de sonhar novas formas de viver não tem pensar próprio, porque
No ano de 1983 estudantes dade de atores sociais e estraté- possíveis. Para Szachi (1972, p. se ajusta a um padrão; repete
frases e pensa dentro de uma ro-
de engenharia florestal da Esco- gias de organização e ação. 8): “Utopia é, aqui, sinônimo de tina. Não se pode compreender a
la Superior de Agricultura “Luiz No Brasil e na América Latina, ideal moral e social, e utópico é existência da forma abstrata ou
de Queiroz”, na Universidade de no contexto de governos auto- todo aquele que percebe o mal e teórica. Compreender a vida é
compreender a nós mesmos; este
São Paulo (ESALQ/USP), Brasil, ritários das décadas de 70 e 80, busca meios de curá-lo”. é o princípio e o fim da educação.
reivindicam disciplinas relacio- o movimento foi marcado pela Dentre as diferentes categorias (...) A função da educação é criar
nadas à área social e mais especi- defesa e avanço da democracia. de utopias – heróica/escapista; entes humanos integrados e, por
conseguinte, inteligentes. Pode-
ficamente à educação ambiental. Dentre suas diversas vertentes, pessimistas/ otimistas; distopia/ mos tirar diplomas e ser meca-
1
A partir de 1988, são contratados nos aproximamos daquelas que eutopia; de tempo (retrospecti- nicamente eficientes, sem ser
docentes para por elas se respon- lutam “por autonomia e emanci- va/prospectiva) e de espaço; a vi- inteligentes. A inteligência não é
sabilizarem. Adaptam conteúdos pação em relação à ordem domi- são da utopia como manifestação mera cultura intelectual (...). Inte-
ligência é a capacidade de perce-
de disciplinas existentes, apoiam nante e a afirmação de novos mo- da esperança no Inédito Viável ber o essencial, o que é; despertar
grupos de extensão universitária dos de vida” (CARVALHO, 2006, reforça a liberdade do utopista de essa capacidade, em si próprio e
e desenvolvem projetos de pes- p.48). misturar diferentes perfis (RO- nos outros, eis em que se resu-
me a educação (KRISHNAMURTI,
quisa, ensino e extensão na área Em 1992, em decorrência da DRIGUES, no prelo). Manifesta a 1994, p. 12-13).
socioambiental (SORRENTINO, Conferência Internacional de insatisfação com a forma de orga-
1995). São criadas disciplinas de Meio Ambiente e Desenvolvimen- nização sociopolítica do momen- Na perspectiva de uma edu-
caráter obrigatório para os cursos to (Rio 92 ou ECO 92) realizada to presente e com a esperança de cação emancipatória, é possível
de Gestão Ambiental e Engenha- no Rio de Janeiro, o movimento que o futuro possa ser melhor, pensar:
ria Florestal e de caráter optati- ambientalista se fortalece e tam- com planos que contribuam para
vo para as demais graduações. O bém a sua relação com educação esta transformação. que a razão de ser da educação
não é apenas o ato de capacitar
mesmo se deu nos Programas de ambiental por meio da constru- Processos educadores podem instrumentalmente produtores
Pós Graduação em Ecologia Apli- ção do Tratado de Educação Am- ser importantes aliados no cami- humanos através da transferên-
cada e no de Recursos Florestais biental para Sociedades Sustentá- nho rumo às utopias, quando aju- cia de conhecimentos consagra-
dos e em nome de habilidades
da mesma universidade. As disci- veis e Responsabilidade Global. dam o educando a identificá-las, aproveitáveis. Antes disto, e para
plinas têm em comum a perspec- O Tratado aproxima-se das impulsionando-os na direção das muito além disto, ela é um gesto
tiva dos estudantes protagoniza- vertentes do movimento ambien- mesmas: de formar pessoas na inteireza de
rem a sua própria formação como talista relacionadas à busca de seu ser e de sua vocação de criar-
Para instituirmos a educação cor- -se a si mesma e partilhar com os
profissionais e cidadãos/cidadãs um “projeto de sociedade alterna- outros a construção responsável
reta, é indispensável compreen-
ancoradas em perspectivas teóri- tiva” (CASTELLS, 1999). A utopia der o significado da vida com um de seu próprio mundo social e
cas relacionadas ao ambientalis- de sociedades sustentáveis, bem todo, e, para tal, devemos ser ca- vida cotidiana (BRANDÃO, 2012,
pazes de pensar, não rigidamen- p.80).
mo, utopismo e educação eman- como a do Bem Viver (ACOSTA,
te, mas de maneira direta e ver-
cipatória. 2016), entre outras, impulsionam dadeira. Um pensador inflexível Uma educação permanente
A Educação Ambiental é parte a atuar na busca pela transforma-
de um movimento ambientalis- ção social.
ta marcado pela sua multisseto- A utopia tem vários significa- 1 Tal documento foi resultado de um amplo processo de mobilização social, por meio de
rialidade (SORRENTINO, 1988; dos, de maneira geral, pode ser oficinas, debates, aulas públicas, reuniões, fóruns, conferências em cinco continentes,
VIOLA & LEIS, 1992; CASTELLS, entendida como uma capacidade envolvendo diferentes setores e gerações da sociedade.

42 ambientalMENTEsustentable, 2017, número especial ambientalMENTEsustentable, 2017, número especial 43


Vivian Battaini; Marcos Sorrentino; Rachel Trovarelli Ensino e aprendizagem da Educação Ambiental

que valorize a subjetividade, uma o outro, num processo educador a conjuntura da universidade atuação no sistema capitalista.
Educação Ambiental que incenti- e formador, em cuja dinâmica pública e algumas de suas conse- Nesse sentido, a universidade en-
estrutural seus doze componen-
ve: tes interagem de forma circular quências nos processos de ensi- trou numa crise de hegemonia já
e transversal. Sendo incremental no-aprendizagem. que outras instituições têm reali-
em todas e em cada pessoa a von- o método Oca deixa em aberto Autores como Santos (1995, zado atividades de pesquisa e en-
tade e a capacidade de imaginar e o convite à continuidade de sua
enunciar o seu projeto de futuro construção e implantação a fim 2005, 2007), Halffman e Radder sino superior impulsionados pe-
e a disposição de dialogar sobre de colaborar na trilha rumo às (2017), e Chauí (2017), ajudam los agentes econômicos e estatais
ele, aprimorá-lo e construí-lo in- Sociedades Sustentáveis (OCA, a compreender a crise da univer- (SANTOS, 2005).
dividual e coletivamente (SOR- 2016).
RENTINO, 2013, p. 146). sidade pública, não só no Brasil, Chauí (2017) analisa como o
Enunciada a concepção de mas nas sociedades ocidentais. A neoliberalismo surgiu atrelado à
Uma educação comprometida educação emancipatória, o recor- crise posta, segundo os autores, ideologia capitalista e resgata os
com a emancipação humana e o te do presente trabalho se dá em está contextualizada na forma de principais impactos desse siste-
envolvimento de cada um e de to- torno das disciplinas de educação organização social pautada pelo ma na sociedade. No campo da
dos com as transformações de seu ambiental, do departamento de capitalismo, ou seja, com forte in- ciência e tecnologia a autora ex-
território (SORRENTINO, 2013). Ciências Florestais. fluência do neoliberalismo no Es- plicita como essas se tornaram
Alimentada pelo Tratado de Edu- Em termos de metodologia, as tado e, mais especificamente, na forças produtivas, ou ferramen-
cação Ambiental para Sociedades referidas disciplinas têm muitas universidade pública. tas, sendo apenas um suporte
Sustentáveis e Responsabilida- semelhanças, salvo o aprofunda- Para Santos (1995) a universi- para que os agentes do capital
de Global (1992) e pelos pilares mento específico de cada uma de- dade pública nas últimas décadas incrementem sua acumulação
identidade, diálogo, comunida- las. Os programas das disciplinas tem vivido três grandes crises: a financeira. Como consequência,
de, potência de ação e felicidade são apresentados, dialogados e crise hegemônica, a crise de legi- alterou-se a forma de inserção de
(SORRENTINO et.al. 2013). reformulados de forma colabora- timidade e a crise institucional. cientistas e técnicos na socieda-
A inspiração metodológica é tiva entre professor, monitores e A crise de hegemonia envolve a de, pois estão submetidos à força
o Metodoca (OCA, 2016) que foi estudantes. As atividades propos- contradição entre produção de e poder capitalista.
construído por meio das vivên- tas envolvem condução de parte alta cultura, pensamento crítico, A segunda crise, identificada
cias nestas disciplinas, dentre ou- das aulas pelos estudantes, reali- humanístico e científico versus a por Santos (2005), a crise de le-
tras ações educadoras ambienta- zação de pequenas intervenções pressão pela produção de conhe- gitimidade, surgiu à medida que
listas com as quais o Laboratório educadoras de caráter ambien- cimento técnico e instrumental, deixou de ser consenso a posição
de Educação e Política Ambiental talista, passando pelo estudo de para formar mão de obra para de superioridade da universida-
- Oca (ESALQ/USP), se envolveu textos, auto-avaliações e elabora-
desde a sua criação, no final dos ção de pequenos documentos es-
anos 80, até 2016. A metodologia: critos em seus diários de bordo. 2
Seis disciplinas, todas com oferecimento anual: 1) Educação Ambiental, oferecida no 1º
semestre, obrigatória para o curso de graduação em Gestão Ambiental e optativa para
sem a intenção de ser "fórmula
pronta e fixa", parte de princípios, Alguns elementos da conjuntu- demais cursos; 2) Tópicos de Educação Ambiental, oferecida no 2º semestre letivo, optativa
2 a todos os cursos de graduação; 3) Projetos de Educação Ambiental, oferecida no 1º
valores, conceitos e diretrizes, ra na educação superior
bem como de análises conjun- Introduzidos os pressupostos semestre letivo, optativa a todos os cursos de graduação; 4) Política Pública, Legislação e
turais com temáticas geradoras Educação Florestal, oferecida no 2º semestre letivo, obrigatória para o curso de Engenharia
socioambientais, do enunciar das do campo da utopia, ambienta- Florestal e optativa aos demais; 5) Educação, Ambiente e Sociedade, oferecida para a pós
utopias individuais e coletivas, do lismo e educação emancipatória, graduação em Ecologia Aplicada e Recursos Florestais, optativa; 6) Oficinas de Educação
mergulho em si e no diálogo com torna-se relevante refletir sobre Superior, oferecida para a pós graduação em Recursos Florestais, optativa.

44 ambientalMENTEsustentable, 2017, número especial ambientalMENTEsustentable, 2017, número especial 45


Vivian Battaini; Marcos Sorrentino; Rachel Trovarelli Ensino e aprendizagem da Educação Ambiental

de (pela produção de saberes es- universidades mercantilizadas, dade e avaliação e flexibilização congressos, produzindo uma vi-
pecializados) em relação a outras capazes de gerar alívio econômi- da universidade (CHAUÍ, 2017, p. são simplista da pesquisa e dei-
co imediato, como também uma 57).
formas de saberes. Tornou-se evi- redução chocante de benefícios xando de lado a docência (CHAUÍ,
dente que ao restringir o acesso sociais, em favor de ganhos eco- Esta perspectiva de autono- 2017). Chauí (2017) e Halffman
e ao credenciar as competências, nômicos (HALFFMAN e RADDER, e Radder (2017), observam que
2017, p. 12). mia universitária tem o gerencia-
a universidade não tem consegui- mento empresarial da instituição a docência é, dentre os trabalhos
do atender às demandas sociais Evidentemente em uma con- com foco na gestão de receitas e acadêmicos, a menos apreciada,
e políticas de democratização e tradição envolvendo, por um lado despesas, bem como indicadores e portanto, lecionar não entra na
igualdade de oportunidades para a definição de valores e objetivos de desempenho. A qualidade tor- medida de produtividade docen-
as classes socioeconômicas mais da universidade e a reivindicação nou-se sinônimo de “excelência” te, e logo, não é contabilizada na
desfavorecidas. Nesse sentido, de autonomia, e por outro, a cres- e “competência”, com ênfase nas qualidade universitária.
Chauí (2017) reforça a prática cente pressão para adaptar os respostas às demandas da econo-
neoliberal na diminuição dos in- A docência é entendida como
objetivos e valores da instituição mia. A qualidade é orientada por transmissão rápida de conheci-
teresses públicos: à parâmetros de eficácia e produ- quanto é produzido, em quanto mentos, consignados em manuais
tividade empresarial, instalou-se tempo e com qual custo. Ou seja, de fácil leitura para os estudantes,
Em resumo, o neoliberalismo é de preferência, ricos em ilustra-
a decisão de investir o fundo pú- a crise institucional (SANTOS, mede-se qualidade pela produti- ções e com duplicata em suportes
blico no capital e privatizar os di- 2005). Nessa perspectiva neoli- vidade, sem uma mínima reflexão eletrônicos. A docência é pensada
reitos sociais, de maneira que po- beral, as universidades são consi- sobre “o que se produz, como se como habilitação rápida para gra-
demos definir o neoliberalismo duados, que precisam entrar ra-
como alargamento do espaço pri- deradas pelo Estado como “orga- produz ou para quem se produz” pidamente num mercado de tra-
vado dos interesses de mercado e nizações sociais” prestadoras de (CHAUÍ, 2007, p. 58). balho do qual serão expulsos em
encolhimento do espaço público serviço e que portanto, assinam Com o pretexto da “qualidade”, poucos anos, pois tornam-se, em
dos direitos (CHAUÍ, 2017, p. 56) as universidades têm gerado um pouco tempo, jovens obsoletos e
“contratos de gestão” (CHAUÍ, descartáveis; ou como correia de
Analisando a crise da univer- 2017). sistema intensivo de competição transmissão entre pesquisadores
sidade pública na Europa, Half- Essa universidade, celebrado- entre si, entre departamentos, e treino para novos pesquisado-
ra de “contratos de gestão”, Chauí entre professores/pesquisadores res. Transmissão e adestramento.
fman e Radder (2017) visualizam Desaparece, portanto, a marca
a “venda” de departamentos e (2017) designa como “universi- e entre estudantes, por bolsas de essencial da docência: a formação
universidades com a crença de dade operacional”, já que está vol- estudos, financiamento de proje- (CHAUÍ, 2017, p. 60).
que dessa forma seria possível tada para si mesma, com foco na tos e reconhecimento (geralmen-
estrutura de gestão e contratos. te através da corrida incansável Com um ensino pautado pela
manter a infraestrutura neces- transmissão e adestramento, o
sária para a produção de conhe- Hallfman e Radder (2017) no- por publicações de “alto impac-
meiam as instituições com essas to”): “Isso leva a um estado de “estudante consumidor” opta
cimento. No entanto, através da pela imagem da universidade
cooperação com as empresas, es- características como “universida- guerra permanente entre todas
de gerencial”. as partes, que destrói a estrutura com uma vida estudantil mais
pera-se que a universidade pro- atrativa e tende a não se preocu-
duza descobertas e produtos co- social da universidade” (HALF-
Essa definição da universidade é FMAN e RADDER, 2017, p. 8). par com a qualidade da educação.
merciáveis em um curto período o princípio que guia as ações pro- Presos numa lógica que provê
de tempo. E continuam: postas pela Reitoria da USP, que A “qualidade acadêmica”, por-
confere um sentido bastante de- tanto, é entendida pelo número gratificações por desempenho,
Essa promessa não apenas de- terminado à ideia de autonomia de teses e publicações, estágios empréstimos, rasas perspectivas
monstra uma crença ingênua em universitária, e introduz no léxico no exterior e participação em no mercado de trabalho e o fascí-
universitário termos como quali-

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Vivian Battaini; Marcos Sorrentino; Rachel Trovarelli Ensino e aprendizagem da Educação Ambiental

nio pela “ilusão de uma vida con- nal e um projeto de país intrinse- ações emancipatórias, ponde- servados (LAPERRIÈRE, 1984
sumista”, os estudantes se torna- camente ligado ao neoliberalismo rando vantagens e desvantagens apud JACCOUND & MAYER, 2008,
p.264).
ram uma máquina treinada que é (SANTOS, 2005). de cada uma delas que vão des-
pouco potente para incidir sobre Para enfrentar a situação, San- de ações judiciais até sabota- As avaliações processuais fo-
a crise da universidade (HALF- tos (2005) sugere a necessidade gem, manifestações de massa, ram compostas por diferentes
FMAN e RADDER, 2017). de 1) resistências com alterna- greve, contra ocupações, recusa técnicas de avaliação realizadas
Voltando a questão do perma- tivas à pesquisa, extensão e for- coletiva, ação dos sindicatos, etc nas aulas e entre a equipe edu-
nente “estado de guerra”, fruto mação, com tomada de decisões (HALFFMAN e RADDER, 2017). cadora. Por fim, os projetos de
da competição enraizada na es- coletivas; 2) o reconhecimen- Diante desse cenário, o pre- intervenção educadora ambien-
trutura social universitária entre to da crise e busca de reformas sente trabalho objetiva contribuir talista atuam na realidade local
áreas do conhecimento (ciências que fortaleçam a legitimidade da com transformações na educação por meio de processos que fo-
naturais versus ciências huma- universidade, bem como o forta- superior, bem como refletir sobre mentam a transição para socieda-
nas, por exemplo), instituições, lecimento da democracia, da ex- o potencial de estratégias peda- des sustentáveis, o aprendizado
departamentos, laboratórios, do- tensão, da pesquisa-ação, da eco- gógicas de ensino aprendizagem pela práxis (BRASIL, 2006, p.21)
centes e discentes, observa-se as logia de saberes (SANTOS, 2007); no ensino superior utilizadas nas e a realização de pesquisas (OCA,
divisões e desconfianças de uns 3) reformas institucionais; 4) disciplinas de educação ambien- 2016, p.85). As intervenções rea-
com os outros. Essa estratégia de aproximação da universidade tal na Esalq-USP. lizadas nesta pesquisa foram as
“dividir para controlar” fortalece com as escolas públicas; 5) ava- disciplinas de graduação e pós
a individualização e corrói a soli- liação participativa; e a 6) ação Metodologia graduação ministradas na ESALQ.
dariedade, arruinando qualquer do Estado no fortalecimento da A perspectiva da presente
iniciativa de resistência e organi- universidade pública e regulação pesquisa é qualitativa (LUDKE & Resultados
zação coletiva que se opõe a esse das universidades privadas. ANDRÉ, 1986; BATZAN, 1995),
sistema da universidade geren- Halffman e Radder (2017), na em diálogo com vertentes par- Mínima ou Máxima Intervenção
cial ou operacional (HALFFMAN linha de Santos (2005), sugerem ticipativas, em especial com a Possível
e RADDER, 2017). outras vinte propostas de mu- pesquisa-intervenção (ROCHA &
Nesse contexto, não há apoio dança no sentido de provocar AGUIAR, 2003). Nas intervenções educadoras
da sociedade ou apoio público uma reação frente a crise insta- As técnicas de coleta de dados de caráter ambientalista, deno-
para que a universidade tenha lada que vão desde o formato de utilizados foram: observação par- minada MIP, o estudante planeja,
recursos e força para atuar. Al- tomada de decisões envolverem ticipante (BOGDAN & BIKLEN, executa e analisa criticamente
guns dos governantes reconhe- mais participação social e menos 1994; GOLDENBERG, 1999), ava- uma intervenção em grupo ou in-
cem a importância da ciência e da hierarquia, maior acessibilidade liações processuais e interven- dividualmente. Entre os objetivos
educação, mas encontram outras a estudantes aumentando o nú- ções educadoras. estão: projetar, vivenciar e arti-
prioridades de atuação (HALF- mero de vagas, fim da produtivi- A observação participante cular os conteúdos da disciplina
FMAN e RADDER, 2017). dade como critério de análise de permite: com a sua realidade. As temáticas
Diante deste cenário, as trans- pesquisas, a valorização da do- e as técnicas utilizadas na MIP
formações que vem acontecendo cência, apoio ao conhecimento o acesso a informações privile-
giadas, incluindo aquela que ele são escolhidas pelos estudantes
na universidade são eminente- comunitário, entre outros. recebe de sua própria experiên- e acompanhadas pelo docente e
mente políticas e associadas a Os autores continuam com cia (CAPLOW, 1970), graças a monitores da disciplina.
busca por um sistema educacio- mais onze possibilidades de uma compreensão mais intensa
do vivido dos participantes ob- Seu caráter Mínimo se rela-

48 ambientalMENTEsustentable, 2017, número especial ambientalMENTEsustentable, 2017, número especial 49


Vivian Battaini; Marcos Sorrentino; Rachel Trovarelli Ensino e aprendizagem da Educação Ambiental

ciona ao mínimo necessário para vítima de atropelamento numa ção, mas ressignificando os que já dividuais. A intervenção é uma
que o realizador da mesma se avenida central da cidade. existem (Estudante Disciplina de estratégia para vivenciar uma
EA, 2017).
sinta satisfeito com a sua contri- Alguns estudantes motivados educação que diz respeito:
buição para a problemática iden- pela ausência de áreas verdes e As virtudes do processo de en-
tificada. O caráter Máximo asso- de lazer em um bairro de Piraci- [...] antes de tudo às oportunida-
sino aprendizagem promovido des de os seres humanos virem
cia-se as capacidades de análise caba organizaram a construção pelas MIPS identificados nesta ao mundo, encontrarem sua pró-
de conjuntura, identificação de de uma área verde urbana no pesquisa são quatro: (a) desen- pria voz, virem a se constituir
problemática, criação de estra- bairro. Estudantes refletiram so- como seres únicos e singulares
volvimento do protagonismo; (b) (BIESTA, 2013, p.99).
tégias de ação, além do tempo e bre a ocupação dos espaços por fortalecimento da autonomia; (c)
energia disponibilizado pelo seu meio de uma intervenção artísti- capacidade de articulação de con- c) O estudante motivado a agir, se
promotor. ca em um Sarau da Cidade. teúdos e ações nos estudantes; e motiva a estudar, a entender a sua
As MIPs realizadas ao longo A experiência nas disciplinas (d) reflexão sobre incidência em realidade e desta forma busca os
destes anos vão desde ações no traz indícios da contribuição des- políticas públicas. conhecimentos necessários para
microlocal como: sala de aula, ta ferramenta de ensino-aprendi- a sua realização. Neste sentido a
moradia dos estudantes, Centros zagem com o incremento da po- a) A MIP baseia-se numa educa- MIP favorece a reflexão e articu-
Acadêmicos, Universidade; até tência de ação dos estudantes: ção integral que se caracteriza lação dos conteúdos e ações. Dan-
macrolocais que atingem o mu- “pela ideia de uma formação ‘mais do sentido aos conteúdos, sejam
nicípio de Piracicaba ou outros e Ao falarmos em potência de agir,
referimo-nos à capacidade de completa possível’ para o ser hu- eles conceituais, atitudinais ou
eventualmente territórios temá- empreender uma ação ética, li- mano” (MOLL, J. 2009, p.15) na procedimentais (ZABALA, 1998).
ticos mais amplos. bertadora, emancipatória e não qual os sujeitos são considerados
Alguns exemplos foram: Um simplesmente ao ato de realizar
algo. Estamos tratando de um em sua totalidade, conectando d) O caráter da ação é educado-
estudante incomodado com a fal- agir consciente e intencional para suas diversas dimensões (cogni- ra, sendo assim, a aprendizagem
ta de segurança de transportar-se realizar algo desejado (COSTA- tiva, afetiva, ética, social, lúdica, e o alcance da ação estão direta-
de bicicleta na cidade de Piracica- -PINTO, 2012, p.85). estética, biológica, espiritual). mente relacionados com o ama-
ba escolheu a problemática Mo- Nas intervenções realizadas os durecimento e envolvimento dos
bilidade Urbana. A estratégia uti- Neste sentido, convidar os es-
tudantes a refletir sobre a sua estudantes são responsáveis por estudantes e grupos envolvidos,
lizada para intervir foi adicionar todo o conjunto de atividades porém as diferentes escalas de
na sua bicicleta uma estrutura realidade e intervir nela por meio
de um processo educador am- necessárias para a realização da ação permitem uma reflexão so-
demarcando à distância de 1,5m mesma, desta forma são efetiva- bre a relevância e importância de
de cada lado (distância determi- bientalista pode contribuir para
que os mesmos aumentem a sua mente os protagonistas dela. incidência em políticas públicas
nada por lei como obrigatória en- para a sustentabilidade das inter-
tre veículos motorizados e a bici- potência de agir, no sentido de
se motivarem, identificarem sua b) O desenvolvimento da auto- venções.
cleta), locomover-se pela cidade e nomia dos estudantes se dá na
observar a reação das pessoas. importância no processo, se co-
nectarem com a sua realidade e relação que se estabelece entre Soma-se a isso a importân-
Com a mesma temática, porém educador-educando baseada na cia da valorização das vivências
em outra turma e ano, um estu- ambientalizarem a sua prática.
confiança e no fortalecimento dos estudantes, segundo um es-
dante organizou uma passeata na Exercitar a educação ambien- da autoestima, estimulando que tudante, a disciplina é “Um local
cidade, motivado pela morte de tal como parte da prática que já cada um seja capaz de desen- onde as minhas vivências fora da
um amigo naquele mesmo ano, construo, sem a necessidade de volver as suas habilidades in-
inventar novos espaços de atua- sala de aula, minha militância, é

50 ambientalMENTEsustentable, 2017, número especial ambientalMENTEsustentable, 2017, número especial 51


Vivian Battaini; Marcos Sorrentino; Rachel Trovarelli Ensino e aprendizagem da Educação Ambiental

valorizada e não repelida como diante dos objetivos e alcances da tidiana dos estudantes. O diário das habilidades e desejos indivi-
nos outros espaços da Gloriosa” MIP pode atrapalhar o processo. de bordo é realizado individual- duais.
(Estudante da Disciplina de EA, mente de acordo com interesses
2017) c) A MIP tem como objetivo po- e motivações de cada autor. Os re- a) No início do semestre letivo,
Foram identificados limitan- tencializar cada estudante a re- gistros são compartilhados com os estudantes são apresentados
tes ao desenvolvimento das MIPs, fletir sobre o processo de ensi- os responsáveis pela disciplina à proposta de diário de bordo e
destacam-se três: a) tempo ne- no-aprendizagem e a visualizar periodicamente. convidados a utilizá-lo. Em al-
cessário para compreensão e en- o potencial da aprendizagem guns casos o diário de bordo é um
volvimento com a proposta; b) quando os educandos estão ge- A proposta de um Diário de Bor- dos instrumentos de avaliação de
do nasce deste desejo de rom-
capacidade do educador de apre- nuinamente envolvidos com o per com mais uma engrenagem composição da nota final indivi-
sentar e motivar; c) Falta de con- processo. Dessa forma, provoca da linha de montagem, que se dual, com critérios construídos
tinuidade da ação desenvolvida um olhar para o ensino sobre o exemplifica numa pergunta cole- coletivamente entre professor,
tiva que ecoa em todas as salas
na vida dos estudantes: desconti- qual estão envolvidos almejan- de aula: “Professor, isto é para monitores e estudantes. A avalia-
nuidade dos objetivos da MIP na do uma transformação dos pro- copiar?” Em outras palavras, es- ção das disciplinas é processual
vida dos estudantes, cessos de ensino aprendizagem tamos na hora de romper com a e iluminativa e, portanto, o diá-
na Educação Superior. Apesar de fixação e repetição do lugar epis- rio de bordo é um instrumento
têmico do outro, no caso, o pro-
a) Sendo a técnica de ensino não haver uma sistematização fessor, de sua lógica, com seus importante de acompanhamen-
aprendizagem diferenciada das metódica dos dados colimados ao sentidos e suas paragens, com um to do desenvolvimento discente.
habituais, em especial, por exigir longo dos anos que essas discipli- percurso de pensamento, de sen- Alguns autores denominam este
sibilidade e estética, com a sele-
que os estudantes sejam ativos nas são oferecidas, para aferir os tividade de alguns autores e suas tipo de avaliação formativa: “tra-
no processo de ensino-aprendi- potenciais impactos da MIP na vi- formas de subjetivar, enfim, com ta-se de uma avaliação interativa,
zagem é necessário tempo para são de ensino-aprendizagem dos a fixação de sentidos, de ensina- centrada nos processos cogniti-
mentos... tudo isso sempre pla-
amadurecimento da proposta. estudantes, há indícios de que es- nejado previamente, delimitando vos dos alunos e associada aos
Sendo as disciplinas semestrais, tes objetivos se perdem quando marcos zero e pontos de partida, processos de feedback, de regu-
mostrou-se importante dedicar observa-se a participação deles mirando pontos de chegada e lação, de auto-avaliação e de au-
desperdiçando processos de ex-
tempo desde o início da mesma em reuniões sobre revisão dos trema riqueza que acontecem no to-regulação das aprendizagens”
para dialogar sobre a MIP e assim currículos da graduação. As MIP cotidiano das salas de aula e fora (FERNANDES, 2006, p.234 ).
possibilitar seu planejamento, não foram suficientes para provo- delas (MELLO, 2016, p. 200).
ação e reflexão. Porém, a não exis- cá-los a defenderem outros mo- b) O diário de bordo pode se
tência deste tempo pode prejudi- delos de educação? Este trabalho indica cinco tornar um instrumento impor-
car a boa realização da proposta. virtudes do diário de bordo: a) tante de aproximação entre os
Diário de Bordo acompanhamento individual da educandos e educadores, pois
b) Na mesa direção é impres- Outra estratégia pedagógica é aprendizagem dos estudantes; permite que os educadores “en-
cindível o papel do educador no o diário de bordo. Um instrumen- b) aproximação entre educando trem no mundo” do educando,
processo, enquanto, mobilizador. to de registro regular, objetivo ou e educadores; c) exercício e apri- permitido por ele mesmo através
Desta forma, é imprescindível subjetivo, envolvendo conteúdos, moramento da escrita e estimula dos registros. Essa aproximação
que ele esteja preparado e empol- sentimentos, insights e análises a organização de ideias e refle- frequentemente se desdobra no
gado para apresentar a proposta. motivadas a partir da disciplina xões individuais; d) fortalece as incremento de confiança e com-
A falta de clareza do educador e da relação desta com a vida co- associações entre a disciplina e o prometimento, elementos que
cotidiano; e) promove o exercício

52 ambientalMENTEsustentable, 2017, número especial ambientalMENTEsustentable, 2017, número especial 53


Vivian Battaini; Marcos Sorrentino; Rachel Trovarelli Ensino e aprendizagem da Educação Ambiental

podem potencializar o processo dual, permite que o autor exer- b) Frequentemente os estudantes devido a demanda de tempo de
de ensino aprendizagem. cite seus desejos e habilidades apresentam dificuldade de exer- acompanhamento e retorno ao
que vão desde a forma de registro citar a escrita analítica e argu- material.
c) O diário estimula o exercício (poesia, texto, desenho, colagem, mentativa, envolvendo reflexões
da escrita, tanto descritiva quan- etc) até o conteúdo dos mesmos e apresentação de ideias. Muitas O diário de bordo tem contri-
to analítica, contribuindo para (objetivo, subjetivo, abstrato, vezes eles demonstraram capa- buído no fortalecimento dos con-
organização de ideias e reflexões. simbólico, linear, etc). cidade de oratória envolvendo ceitos de identidade e diálogo nas
Frequentemente observamos essas características, mas por ou- disciplinas:
nos estudantes certa dificulda- Mas, o uso do diário de bordo tro lado demonstram dificuldade
de de compreensão de questões também vem acompanhado por de escrita e muitas vezes não se Estimular o exercício do diálogo
é um desafio e uma necessidade
socioambientais complexas, com gargalos. Dentre eles: a) Com- mostram abertos a experimentá- para a Educação Ambiental que
muitas inter relações e conexões preensão dos estudantes do po- -la, praticá-la e exercitá-la. queremos realizar: aquela que
com diferentes temáticas e áreas tencial do instrumento; b) exer- fortalece e confere autonomia
e confiança aos indivíduos, que
do conhecimento. A escrita perió- cício da escrita; c) exercício de c) Algumas vezes o diário se tor- promove a coexistência equili-
dica e analítica contribui para a análise, para além de descrições; na um instrumento burocrático, brada entre as tradições, entre a
compreensão e visualização des- d) dificuldade de leitura e devolu- “para entregar”, mesmo que não tecnologia e o jeito simples de ser.
sas relações. tiva dos educadores. haja pressão direta dos educa- O diálogo é a via de acesso para a
democratização das identidades
dores nesse sentido. O diário é e saberes diversos (SORRENTINO
d) O fortalecimento da relação a) Algumas vezes os estudantes apresentado como uma opor- et.al. 2013, p.37).
entre a disciplina e o cotidiano não compreendem no início do tunidade, inclusive de avaliação
é respaldada por Freire (1987; semestre letivo o potencial deste processual. No entanto, o desafio Os resultados demonstraram-
1997) enfatizando a construção instrumento. Alguns enunciam de escrita, para além da descrição -se positivos sob o ponto de vista
de autonomia para que os estu- que consideram chato fazer os de conteúdos e fatos, pode envol- do envolvimento e participação,
dantes possam “ler o mundo”. A registros, ou que não tem esse há- ver uma dificuldade analítica ou restando questionamentos sobre
partir do conhecimento da pró- bito, ou ainda que se sentem des- então evidencia uma visão buro- o real aprofundamento de con-
pria realidade, o processo de en- confortáveis em fazê-lo. Em mui- crática do instrumento. teúdos específicos.
sino aprendizagem busca o com- tas ocasiões, houve depoimentos É perceptível o desenvolvi-
prometimento dos educandos na de estudantes que no início das d) Em turmas numerosas, de 30 mento do protagonismo, autono-
transformação e ressignificação aulas pensavam dessa forma e ou mais estudantes, é um desa- mia e capacidade de articulação
do contexto que estão inseridos. com o passar dos meses muda- fio para os educadores, especial- de conteúdos e ações nos estu-
Assim, a reflexão analítica envol- ram de opinião e se envolveram mente para o professor quando dantes. De forma geral, os estu-
vendo registro no diário de bordo com o instrumento, reconhecen- não possui monitores, realizar a dantes se envolvem na disciplina,
é uma estratégia que contribui o do suas potencialidades. Mesmo leitura atenta e dar uma devolu- em especial, nas intervenções
exercício de leitura do mundo e assim, registra-se as dificulda- tiva a cada um dos estudantes via educadoras ambientalistas.
busca de estratégias de transfor- des do professor e monitores de diário de bordo. É interessante Na página a seguir, apresenta-
mação. apresentarem as potencialidades que o diário de bordo seja entre- mos um quadro que sistematiza
do diário de forma atrativa e cla- gue duas ou três vezes no semes- as considerações até aqui apre-
e) Sendo o diário de bordo um ra. tre, no entanto, muitas vezes tal sentadas sobre as duas técnicas
instrumento de registro indivi- procedimento se torna inviável de ensino aprendizagem:

54 ambientalMENTEsustentable, 2017, número especial ambientalMENTEsustentable, 2017, número especial 55


Vivian Battaini; Marcos Sorrentino; Rachel Trovarelli Ensino e aprendizagem da Educação Ambiental

fissionalizantes que preparem ciplina e sobre a relação dela com


mão de obra para o mercado. a vida cotidiana dos estudantes,
A perspectiva de estudantes realizados individualmente, de
protagonizarem a sua própria acordo com seus interesses e mo-
formação como profissionais e tivações. Os educadores respon-
cidadãos/cidadãs que dialogam sáveis pela disciplina acompa-
com o campo do ambientalismo, nham o registro nos diários.
utopias e educação emancipató- É perceptível o desenvolvi-
ria, possibilita a construção de mento do protagonismo, autono-
programas das disciplinas que mia e capacidade de articulação
sejam apresentados, dialogados e de conteúdos e ações nos estu-
reformulados de forma colabora- dantes. De forma geral, os estu-
tiva entre professor, monitores e dantes se envolvem na disciplina,
estudantes. em especial, nas intervenções
Atividades que envolvam a educadoras ambientalistas.
condução de parte das aulas pe- O uso das técnicas citadas su-
los estudantes, a realização de pe- gere favorecer o desenvolvimento
Considerações Finais ro. quenas intervenções educadoras de sujeitos comprometidos com
O uso das técnicas citadas O compromisso com uma edu- de caráter ambientalista - MIP, o transformações de seu território
pode favorecer o desenvolvimen- cação superior, pública, gratuita, estudo de textos, as autoavalia- e apresenta-se como proposta de
to de sujeitos comprometidos de qualidade e com todos, deve ções e elaboração de pequenos aprimoramento de processos de
com transformações em seus ter- apostar na construção de autono- documentos escritos em seus ensino aprendizagem na educa-
ritórios e apresenta-se como pro- mias, individuais e coletivas, por diários de bordo são técnicas que ção superior.
posta de transformação dos pro- meio de processos autogestioná- se destacam pelo se potencial de
cessos de ensino aprendizagem rios e autoanalíticos, nas salas de promover aprendizagens signifi- Referenciais
na educação superior. aulas e nas instituições como um cativas. ACOSTA, A. Bem Viver: Uma
O papel desempenhado pelas todo. É importante a compreen- Nas MIP o estudante planeja, oportunidade para imaginar ou-
disciplinas em foco parece ser o são de que o estudante é um adul- executa e analisa criticamente tros mundos. São Paulo. Editora
de estimular qualidades emanci- to e como tal deve criar a capaci- uma intervenção, em grupo ou Elefante, 2016.
patórias, tais como: aprender a dade de direcionar o seu próprio individualmente, com o objetivo BATZÁN, A. Etnografía. Méto-
trabalhar em grupo, fundamentar aprendizado. Tal compreensão de projetar, vivenciar e articular dos cualitativos en investiga-
suas propostas e aprender a pro- alicerça-se em uma visão de Edu- os conteúdos da disciplina com ción socio-cultural. Barcelona:
jetar. É necessária a realização de cação que exige a autonomia sen- a sua realidade. As temáticas e as Editorial Boixareu Universita-
pesquisas relacionadas ao incre- do cultivada em todas as dimen- técnicas utilizadas são escolhidas ria, 1995.
mento da potência de ação dos sões das unidades universitárias, pelos estudantes e acompanha- BIESTA, G. Para além da apren-
estudantes que passaram pelas distanciando-se de modelos das pelo docente e monitoras(es) dizagem. Educação Democrática
disciplinas, no sentido de averi- neoliberais que compreendem a das disciplinas. para um futuro humano. Coleção
guar se caminharam na busca por educação superior apenas como O diário de bordo possibilita Educação experiência e sentido.
projetos de aproximação do futu- transmissora de conteúdos pro- os registros regulares sobre a dis- Editora Autêntica. 2013.

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60 ambientalMENTEsustentable, 2017, número especial ambientalMENTEsustentable, 2017, número especial 61


Foto: Giseli Dalla Nora

Janela do Museu do Mar, A EA e os alunos com NEE – Atividades da Vida Diária (AVD), a água
em Fisterra, na Galícia. e sua utilização sustentável

Olga Santos1
Carla Gomes2
Mário Oliveira3

Resumo
O presente artigo tem como objetivo dar a conhecer atividades desenvolvidas na
disciplina de Ciências da Natureza, do 6º ano de escolaridade, com alunos com
Necessidades Educativas Especiais (NEE), tendo subjacentes Atividades da Vida
Diária (AVD) relacionadas com o consumo de água, visando a consciencialização
para a importância deste recurso, bem como da necessidade da racionalização do
seu consumo.
A água potável é um bem cada vez mais escasso, sendo a sua utilização e gover-
nança sustentáveis, cada vez mais, um propósito que deverá envolver Toda a co-
munidade, o que implica incluir crianças/jovens com NEE, as quais poderão/deve-
rão também contribuir para alcançar tais desígnios.
Considerando a Escola uma instituição de ensino e aprendizagem essencialmente
formal, onde o conhecimento do recurso água, a sua gestão e utilização sustentá-
veis são conteúdos curriculares de abordagem obrigatória para todos os alunos,
foi elaborado um conjunto de atividades práticas alicerçadas nas AVD, permitindo
dessa forma o envolvimento direto dos alunos com NEE nas mesmas, tornando-os
cidadãos de pleno direito, mais conhecedores e, consequentemente, mais inter-
ventivos na comunidade e ambiente que integram.
Palavras Chave: Educação Especial, Educação Ambiental, Inclusão, Atividades da
Vida Diária.

Abstract
The purpose of this article is to present activities developed in Natural Sciences
discipline, of the 6th year of schooling, with students with special educational
needs, with underlying daily life activities related to the consumption of water,
aiming to raise awareness of the importance of this resource, as well as the need
to rationalize its consumption.
Potable water is an increasingly scarce resource, and its use and governance are in-
creasingly sustainable, a purpose that should involve the whole community, which
implies including children/young people who can/should also contribute to achie-
ve such goals.
Considering the School an essentially formal teaching and learning institution,
where knowledge of the water resource, its sustainable management and use are
mandatory curricular contents for all students, a set of practical activities based
on the daily life activities were elaborated, thus allowing the direct involvement
of all students in them, making them citizens with full rights, more knowledgeable
and consequently more involved in the community and environment that they
integrate.
Keywords: Special Education, Environmental Education, Inclusion, Activities of
Daily Living.

ambientalMENTEsustentable, 2017, número especial 63


Olga Santos; Carla Gomes; Mário Oliveira A EA e os alunos com NEE

A Educação Ambiental (EA) vens com NEE, as quais poderão/ nos que compunham o grupo tur- ção de ambientes saudáveis.
promove a aquisição de capaci- deverão contribuir para alcançar ma, cinco tinham NEE, sendo que
dades, comportamentos e atitu- tais desígnios. três deles beneficiavam de Currí- Para os alunos com CEI, as me-
des imprescindíveis para man- Considerando a Escola uma culo Específico Individual (CEI). tas foram simplificadas nos se-
ter o equilíbrio entre o Homem instituição de ensino e aprendiza- Dos alunos com CEI, apenas dois guintes objetivos:
e o Ambiente no que tange aos gem essencialmente formal, onde tinham contemplada a disciplina - Identificar tipos de poluição
seus recursos naturais limitados, o conhecimento do recurso água, de CN no seu currículo, ainda que do ar, água e solo.
como é exemplo a água. Urge, a sua gestão e utilização susten- na atividade também tivesse par- - Mencionar medidas de con-
assim, sensibilizar todos os ci- táveis são conteúdos curriculares ticipado uma aluna que não tinha trolo da poluição.
dadãos do planeta para que os de abordagem obrigatória para esta disciplina contemplada no
impactos negativos a este nível todos os alunos, foi elaborado um respetivo CEI. Relembramos que, Das atividades exploradas, a
sejam minimizados. Quando re- conjunto de atividades práticas, “mais do que informações e con- atividade, denominada “Consu-
ferimos todos os cidadãos, in- promovendo uma abordagem ceitos, a escola se disponha a tra- mo de água e os seus impactes”,
cluímos os que são portadores educacional inovadora, alicerça- balhar com atitudes, com forma- pretendeu sensibilizar os alunos
de deficiência, que não devem das nas Atividades da Vida Diária ção de valores e com mais ações para o desperdício de água e para
ser esquecidos do cômputo das (AVD), permitindo, dessa forma, práticas do que teóricas para que a utilização mais eficiente e sus-
atividades veiculadas pela EA, o envolvimento direto dos alunos o aluno possa aprender a respei- tentável da mesma. Antes da ex-
com o objetivo de formar cida- com NEE nas mesmas, tornan- tar e praticar ações voltadas à ploração desta atividade pelos
dãos informados e esclarecidos. do-os cidadãos de pleno direito, conservação ambiental (Medei- alunos, foi feita uma introdução
A EA deve ter a preocupação de mais conhecedores e, consequen- ros, et al, 2008). à temática, visando simultanea-
desenvolver atividades de acordo temente, mais interventivos na As atividades aplicadas inte- mente motivá-los para o tema,
com o perfil de funcionalidade de comunidade e ambiente que inte- gram-se no currículo de CN do tendo sido visionado e explorado
cada um dos seus destinatários, gram. 6.ºano de escolaridade, um filme vídeo. Foi, posterior-
almejando que cada cidadão pos- O trabalho desenvolvido foi - no Domínio II – Agressões do mente, efetuada a revisão dos
sa dar o seu contributo, por mais aplicado nas aulas da disciplina meio e integridade do organismo, conteúdos programáticos lecio-
elementar que seja. de Ciências Naturais (CN), tendo e nados no 5.º ano sobre a disponi-
A água potável, essencial à vida decorrendo no laboratório de CN, - no Subdomínio 2 - Higiene e bilidade de água doce no planeta.
na Terra, é um bem cada vez mais envolvido alunos de uma turma problemas sociais. Após esta introdução, foi feita
escasso, sendo a sua utilização e de 6.º ano de escolaridade, e re- - nas Metas curriculares: a exploração da atividade 1, que
governança sustentáveis, cada sultante da frequência, pela do- 18.4. Indicar alguns exemplos apresentava várias questões-pro-
vez mais, um propósito que deve- cente, de uma ação de formação de diferentes tipos de poluição do blema.
rá envolver Toda a comunidade, continua destinada a professores ar exterior, da água e do solo. A Questão-problema I – O ser
o que implica incluir crianças/jo- daquele ciclo de ensino. Dos alu- 18.5. Descrever as consequên- humano utiliza água para que
cias da exposição a poluentes do fins?, foi resolvida individual-
ar interior e exterior, da água e do mente, tendo sido as respostas
1 Escola Superior de Educação e Ciências Sociais - IPL/iACT/NIDE. E-mail: olga.santos@
solo na saúde individual, nos se- registadas por escrito, como se
ipleiria.pt. res vivos e no ambiente. pode verificar pela figura 1, e pos-
2 Escola Secundária de Ourém. E-mail: carlagomes80@gmail.com. 18.6. Enumerar medidas de teriormente discutidas em grupo.
3 Escola Superior de Educação e Ciências Sociais - IPL/NIDE. E-mail: mario.oliveira@ipleiria.
controlo da poluição e da promo- As repostas alcançadas pelos alu-
pt.

64 ambientalMENTEsustentable, 2017, número especial ambientalMENTEsustentable, 2017, número especial 65


Olga Santos; Carla Gomes; Mário Oliveira A EA e os alunos com NEE

nos, em grupo, foram sendo re- da atividade e alcançar os seus com todos os alunos em contex- fluenciados pelo processo. Com
gistadas no quadro branco, como objetivos, revelando dificuldades to de sala de aula, optando-se por efeito, processos desta natureza
se ilustra na figura 2. Os alunos no tocante ao registo escrito das enviar as questões 2 e 3 como ta- podem começar com o controle
com NEE resolveram a atividade mesmas. Esta situação justifica a refa para realizar em casa, com a dos consumos domésticos leva-
com a ajuda da professora e dos adequação dos materiais de re- ajuda e sensibilização dos pais. dos a cabo pela criança, podendo
colegas, tendo conseguido acom- gisto como se poderá verificar Esta situação pode contribuir de vir a ser modificados pelos pais,
panhar, oralmente, a evolução adiante. forma indireta para a conscien- se sensibilizados pelos seus fi-
cialização ambiental das crianças lhos, enquanto, simultaneamen-
Figura 1
envolvidas e repetivos pais/fami- te, contribuem como agentes ati-
liares, pois , de acordo com Betto vos nas suas aprendizagens.
(2005) e Pereira (2007), os filhos, Para facilitar o cálculo da
em muitos casos, herdam os im- quantidade de água gasta diaria-
Resposta de aluno sem NEE pulsos consumistas dos pais e do mente por cada aluno, tarefa que
Figura 2 ambiente em que convivem, in- teria de resolver em casa, foi-lhe
cluindo a atividades desenvolvi- fornecido o quadro 1, conten-
das pela família, em casa. Ora, en- do os valores de referência para
volvendo a família em reflexões consumos de água em diferentes
de natureza ambiental, será de atividades e equipamentos do-
esperar que todos os envolvidos mésticos, o qual foi devidamente
acabem por ser positivamente in- explorado em sala de aula.
Quadro 1

As várias respostas da turma à Questão-problema I –


O ser humano utiliza água para que fins?

Figura 3

Posteriormente, foi analisado


um gráfico circular, apresentado
ao lado, na figura 3, representati-
vo da utilização da água no plane-
ta, estimulando a discussão sobre Uso doméstico de água
as ideias dos alunos e procuran- por atividade ou equipamento

do que se constituísse como uma As questões II e III parece te- -problema formuladas. Algumas
síntese do que foi referido pelos rem despertado a curiosidade das respostas fornecidas pelos
mesmos. aos alunos, uma vez que todos as alunos sem NEE podem ser ob-
A questão-problema II – Que realizaram, fazendo as investiga- servadas nos registos constantes
quantidade de água gastas por ções necessárias para que fosse das figuras 4 e 5 apresentadas a
Utilização da água no planeta
dia?, foi explorada em conjunto possível responder às questões- seguir.
(Fonte: Unesco/2003)

65 ambientalMENTEsustentable, 2017, número especial ambientalMENTEsustentable, 2017, número especial 66


Olga Santos; Carla Gomes; Mário Oliveira A EA e os alunos com NEE

Figura 4 As atividades para os alunos vimento das atividades deverão


com NEE foram adaptadas ao seu ser elaborados de acordo com a
desenvolvimento cognitivo, con- faixa etária dos envolvidos, bem
forme se pode constatar da análi- como o seu perfil de funcionali-
se da figura 6, pois, como referem dade. Todavia, foram mantidas as
(Giassi, et all, 2016), as atividades propostas de componente inves-
práticas, reflexivas e materiais di- tigativa presente na atividade dos
dáticos necessários ao desenvol- demais alunos.

Figura 6

Resposta de um aluno sem NEE à Questão-


-problema II

Figura 5

Resposta de um aluno sem NEE a uma Resposta de um aluno com NEE e grelha de
atividade proposta registro adaptada

68 ambientalMENTEsustentable, 2017, número especial ambientalMENTEsustentable, 2017, número especial 69


Olga Santos; Carla Gomes; Mário Oliveira A EA e os alunos com NEE

A Questão-problema III: Como no reservatório do autoclismo” Figura 8


podes diminuir a consumo do- pode contribuir para reduzir o
méstico de água?, foi realizada consumo de água; face a essa di-
em grupo, com todos os alunos, ficuldade, não assinalaram essa
sendo de seguida apresentada opção, como se pode verificar
à turma. Os alunos com CEI não através da análise do registo efe-
conseguiram perceber como “co- tuado, apresentado na figura 7.
locar uma garrafa cheia de água

Figura 7

Resposta de um aluno com NEE

Na questão problema III “como O trabalho desenvolvido com


podes diminuir o consumo do- todos os alunos, incluindo os que
méstico e água?”, é possível perce- têm NEE, reforça a importância Resposta de um aluno sem NEE
ber que, de forma geral, os alunos da escola e “do papel da educação
sem NEE revelaram saber como na compreensão das questões
proceder de forma a contribuir ambientais, que usando ou não o dade e a compreensão crítica da os alunos com NEE desenvolvam
para essa redução. Estes alunos adjetivo ambiental, proporcione complexidade do mundo contem- a sua autonomia e, enquanto ci-
conseguem referir algumas alter- nas escolas espaços de sensibi- porâneo” (Giassi, et all, 2016, p. dadãos mais informados, possam
nativas tecnológicas para minimi- lização e capacitação de alunos 28). A criança só aprende aqui- dar o seu contributo, também no
zar os consumos, como adquirir para uma tomada de consciência lo que vive concretamente. Para que respeita às questões ambien-
autoclismos com duas descargas, e ações concretas, aquisição de isso podem e devem ser explo- tais, considerando “um processo
conforme se pode constatar na fi- conhecimentos que permitam radas situações concernentes às num viés mais problematizador
gura 8, na página seguinte. sua integração com a comuni- atividades da vida diária para que direcionado para as questões

70 ambientalMENTEsustentable, 2017, número especial ambientalMENTEsustentable, 2017, número especial 71


Olga Santos; Carla Gomes; Mário Oliveira A EA e os alunos com NEE

mais próximas do contexto de sador de mudança já que os mes- estas preocupações e desígnios XEIRA, F., TENREIRO-VIEIRA,
vida dos participantes” (Giassi, mos relatam “que nas escolas, deverão, estar continuamente C., VIEIRA, R., RODRIGUES, A.
et all, 2016, p. 29). É importante muitas vezes lhes é solicitado que presentes na formação dos seus V. e COUCEIRO, F. (2006). Edu-
que ela faça suas próprias desco- tratem de temas ambientais, que professores e nas práticas letivas cação em Ciências e Ensino
bertas através da manipulação, desenvolvam projetos de Educa- de Todos os alunos. Experimental no 1ºCiclo EB.
exploração do ambiente físico-so- ção Ambiental com seus alunos e Formação de Professores. Lis-
cial, como sucedeu na tarefa em que nem sempre sentem-se pre- Referências boa: Ministério da Educação.
que os alunos tiveram de pesqui- parados para isso” (Giassi, et all, BARCELOS, V. (2009). Octávio MARTINS, I. P., VEIGA, L., TEI-
sar, em suas casas, os consumos 2016, p. 29). Paz – Da Ecologia Global à Edu- XEIRA, F., TENREIRO-VIEIRA, C.,
de água efetuados por si e respe- A importância da abordagem cação Ambiental na Escola. Lis- VIEIRA, R., RODRIGUES, A. V. e
tiva família. das temáticas ambientais na for- boa: Instituto Piaget. COUCEIRO, F. (2010). Sustenta-
Ao proporcionar a crianças mação de professores que tra- BETTO, F. (2005). A publici- bilidade na Terra - caderno de
com NEE exploração de ativida- balham com alunos com NEE é dade infantil deve ser discu- registos para crianças. Lisboa:
des relacionadas com o seu quo- tanto mais importante quanto tida em sala de aula. Portal Ministério da Educação.
tidiano, “a sociedade ganha, pois Sauvé (s/d) defende que o ideal Aprendiz. Rio de Janeiro, 22 MARTINS, I. P., VEIGA, L., TEI-
teremos cidadãos mais prepara- seria que a compreensão dos de junho de 2012. Disponível XEIRA, F., TENREIRO-VIEIRA,
dos para enfrentar os desafios processos educativos consideras- em: <http://portal.aprendiz. C., VIEIRA, R., RODRIGUES,
da sociedade atual cujo maior di- se uma visão complementar do uol.com.br/2012/06/22/ A. V. e COUCEIRO, F. (2010).
lema gira na solução dos proble- ambiente, de uma forma cumu- frei-betto-%E2%80%9Ca- Sustentabilidade na Terra -
mas ambientais, pois envolvem lativa, através de uma cuidadosa -publicidade-infantil-deveria- guião didático para professo-
aspectos econômicos, sociais, re- intervenção, ou preferencialmen- -ser-discutida-em-sala-de-au- res. Lisboa: Ministério da Edu-
cursos naturais, éticos entre ou- te, utilizando um enfoque pe- la%E2%80%9D/>. Acedido cação.
tros (Giassi, et all, 2016, p. 31). dagógico integrado. Até porque em 16 de março de 2015. MEDEIROS, A. B.; MENDONÇA,
Considerando que, conforme a cada dia que passa, a questão FLANNERY, T. (2008). O Clima M. J. S. L.; SOUSA, G. L. de; OLIVEI-
anteriormente referido, as ativi- ambiental tem sido considerada está nas nossas mãos – história RA, I. P. (2011). A Importância da
dades descritas foram realizadas prioritária no sentido de ser tra- do aquecimento global. Cruz Que- educação ambiental na escola nas
na sequência de um curso de for- balhada com toda sociedade e, brada: Estrela Polar. séries iniciais. Revista Faculda-
mação contínua de professores, principalmente, nas escolas, pois GIASSI, M. G.; DAJORI, J. F.; MA- de Montes Belos, v. 4, n. 1.
tomou-se consciência que o ca- “as crianças bem informadas so- CHADO, A. C.; MARTINS, M. C. PENTEADO, H. D. (2010). Meio
minho a percorrer neste domínio bre os problemas ambientais vão (2016). Ambiente e Cidadania: Ambiente e Formação de
ainda é longo, mas essencial para ser adultas mais preocupadas educação Ambiental nas esco- Professores. São Paulo: Cor-
a sociedade em geral e para as com o meio ambiente, além do las. Revista de Extensão, Cri- tez Editora.
crianças com NEE mais em par- que elas vão ser transmissoras ciúma/SC, v. 1, n. 1. PEREIRA, L. F. (2007). Que infân-
ticular. Acreditamos que, neste dos conhecimentos que obtive- GONÇALVES, F.; PEREIRA, R.; cia estamos construindo? Folha
domínio, a desejável renovação ram na escola sobre as questões AZEITEIRO, U. M. M.; PEREIRA, M. de São Paulo, São Paulo, 12 out.
de práticas inovadoras poderá ambientais em sua casa, família e J. V. (2007). Atividades Práticas 2007. Disponível em: <http://
residir na formação e motivação vizinhos” (Medeiros, et al, 2008, em Ciências e Educação Am- www1.folha.uol.com.br/fsp/opi-
dos professores, podendo ser a p. 2). Pretendendo-se que a es- biental. Lisboa: Instituto Piaget. niao/fz1210200709.htm>. Ace-
sua formação contínua um catali- cola seja efetivamente inclusiva, MARTINS, I. P., VEIGA, L., TEI- dido em 16 março de 2017.

72 ambientalMENTEsustentable, 2017, número especial ambientalMENTEsustentable, 2017, número especial 73


Olga Santos; Carla Gomes; Mário Oliveira A EA e os alunos com NEE

PEREIRA, R.; GONÇALVES, F.;


AZEITEIRO, U. (2016). Ativi-
dades Práticas em Ciências
e Educação Ambiental – II.
Lisboa: Instituto Piaget.
SAPELLI, M. L. S.; FREITAS, L. C.;
CALDART, R. S. (2016). Caminhos
para transformação da escola
3. São Paulo: Editora Expressão
Popular.
SAUVÉ, L. Educação ambien-
tal e desenvolvimento sus-
tentável: uma análise comple-
xa. Disponivel em www.arvore.
com.br. Acedido em 9 de se-
tembro de 2017.

74 ambientalMENTEsustentable, 2017, número especial ambientalMENTEsustentable, 2017, número especial 75


Poconé, localizada no estado de Crianças com NEE, Ensino Experimental das Ciências e Educação
Mato Grosso. Ambiental – perspetiva integradora

Cátia Sousa1
Olga Santos2
Mário Oliveira3
Foto: Michèle Sato

Resumo
O presente artigo tem como finalidade dar a conhecer algumas atividades desen-
volvidas com alunos com Necessidades Educativas Especiais (NEE), pertencentes a
uma turma de 1.º ano de escolaridade, recorrendo à metodologia enformada pelo
Ensino Experimental das Ciências e a temáticas ambientais pertinentes, como, por
exemplo, a utilização da água enquanto recurso cada vez mais escasso, domínio
em que a Educação Ambiental se revela preponderante.
Pretende-se que os alunos com NEE sejam cidadãos o mais autónomos e inter-
ventivos possível, numa sociedade cada vez mais complexa e consumista, onde as
escolhas de todos em geral, e de cada um em particular, poderão fazer a diferença
em termos de utilização racional e sustentável de recursos escassos e ameaçados
pela má gestão do ser humano.
Uma escola inclusiva tem a função, enquanto instituição, de criar condições para
que todos os alunos aprendam juntos, independentemente das dificuldades e das
diferenças, tal como preconizado pela Declaração de Salamanca. Sendo a temática
da água um conteúdo curricular de abordagem obrigatória para todos os alunos,
foi elaborado um conjunto de atividades práticas e experimentais com o intuito
de os ajudar a tomar consciência da importância da correta gestão da água e do
envolvimento de todos para alcançar tal propósito.
Palavras-chave: Ensino experimental das ciências, Educação Ambiental, Necessi-
dades Educativas Especiais

Abstract
The purpose of this article is to reveal the activities developed with a small group
of students with special educational needs (SEN), belonging to a class of 1st year
of primary education, using Experimental Teaching of Sciences methodology and
relevant environmental themes, such as the use of drinking water as an increa-
singly scarce resource, educational domain in which Environmental Education is
preponderant.
It is intended that students with SEN be the most autonomous and interventional
citizens possible in an increasingly complex and consumerist society where the
choices of everyone in general, and of each one in particular, can make the diffe-
rence in terms of rational use and sustainable use of resources scarce and threate-
ned by human mismanagement.
An inclusive school has the function, as an institution, to create conditions for all
students to learn together, regardless of difficulties and differences, as recommen-
ded by the Salamanca Declaration. Since the theme of water is a compulsory cur-
ricular content for all students, a set of practical and experimental activities were
developed to help them become aware of the importance of proper water mana-
gement and the involvement of all to achieve this purpose.
key words: Experimental Teaching of Sciences, Environmental Education, Special
Educational Needs

ambientalMENTEsustentable, 2017, número especial 77


Cátia Sousa; Olga Santos; Mário Oliveira Crianças com NEE, ensino experimental das Ciências e Educação Ambiental

A Educação Ambiental deverá minho que deve ser seguido para tomada de consciência da pro- sivamente mais escasso, e onde
ser entendida e abordada como melhorar as condições ambien- blemática ambiental nas últimas a sensibilização para a temática,
um processo que pretende a clari- tais do planeta (…)” (Gonçalves, décadas, fez emergir um conjun- através do papel da Educação
ficação de conceitos e a interiori- et al, 2007, p.16). Quando se re- to de questões significativas para Ambiental, é preponderante.
zação de atitudes e valores, atra- fere “todos os intervenientes”, tal o desenvolvimento do currículo Com efeito, o ensino experi-
vés dos quais os indivíduos sejam implica que as crianças e jovens educativo, sendo a temática da mental das ciências permite de-
capazes de adquirir capacidades com Necessidades Educativas Es- água um conteúdo curricular de senvolver a capacidade de obser-
e comportamentos que lhes per- peciais (NEE) também devem ser abordagem obrigatória para to- var, comparar, questionar, prever,
mitam compreender e julgar, de esclarecidas e alertadas para tais dos os alunos. De acordo com a justificar e interpretar a reali-
forma crítica, as relações de in- problemáticas, uma vez que tam- OCDE (1991), “A multiplicação dade que nos rodeia, na medida
terdependência entre as socie- bém elas poderão dar o seu con- de iniciativas da Escola a favor em que através da experiência a
dades e o planeta (INA, 1989). tributo, muito significativo, nesta do ambiente é testemunho de criança vai construindo ou des-
Durante décadas, os problemas matéria, tornando-os cidadãos que um novo equilíbrio se ins- construindo o seu pensamento
ambientais passaram desperce- mais autónomos e interventivos, taura entre a concepção passiva e as suas ideias. Possibilita, de
bidos, sem qualquer preocupa- numa sociedade cada vez mais da aprendizagem e a concepção acordo com Sá (2002), “ajudar
ção para a humanidade, uma vez complexa e consumista, onde as dinâmica” (p.13), onde o ensino as crianças a pensar logicamen-
que se acreditava que a natureza escolhas coletivas em geral, e de experimental das ciências pode- te sobre o dia-a-dia e a resolver
tinha um comportamento mui- cada um em particular, poderão rá dar um contributo precioso, problemas práticos simples. Tais
to homogéneo e que os seus re- fazer a diferença em termos de proporcionando práticas peda- competências intelectuais serão
cursos naturais eram infindáveis utilização racional e sustentável gógico-didáticas inovadoras e úteis para elas onde quer que
(Gonçalves, et al, 2007). O avanço de recursos escassos e ameaça- facilitadoras da compreensão de vivam e independentemente da
desmedido da tecnologia descu- dos pela má gestão do ser huma- determinados fenómeno e con- profissão que vierem a ter” (p.
rou os efeitos que poderia vir a no. ceitos, ao mesmo tempo que se 32), especialmente quando se
causar em termos de impactos A Escola, denominada inclusi- torna um facilitador na aquisição trata de temáticas relacionadas
ambientais e hoje há situações va, tem a função, enquanto ins- de aprendizagens mais significa- com bens essenciais à vida, como
puramente catastróficas em ter- tituição, de criar condições para tivas e integradoras. é o exemplo da água potável.
mos de deterioração do planeta, que todos os alunos aprendam É neste sentido que surgiram
tornando-se as questões ambien- juntos, independentemente das as atividades desenvolvidas em Experiência em sala de aula
tais um problema central para to- dificuldades e das diferenças, sala de aula, numa turma de 1.º As atividades práticas/experi-
dos, ou pelo menos para os mais tal como preconizado pela De- ano de escolaridade, com alunos mentais desenvolvidas em con-
conscientes. Neste contexto, é claração de Salamanca (1999), com NEE, com recurso à metodo- texto de sala de aula, numa turma
fundamental “alertar e esclarecer abrangendo também as questões logia enformada pelo Ensino Ex- de 1.º ano, com alunos com NEE,
todos os intervenientes para o ca- relacionadas com o ambiente. A perimental das Ciências, que pro- aliadas a temáticas do domínio da
curaram, através de conteúdos e educação ambiental, decorrentes
conceitos específicos na área de da frequência de uma ação de for-
1 Agrupamento de Escolas D. Dinis.
Estudo do Meio, aliadas a ques- mação frequentada pela docente,
2 Escola Superior de Educação e Ciências Sociais – IPL / IACT / NIDE.
tões ambientais, como é exemplo pretenderam ajudar os alunos a
a correta utilização da água po- atingir determinados objetivos,
3 Escola Superior de Educação e Ciências Sociais - IPL/NIDE. tável enquanto recurso progres- nomeadamente, expandir o co-

78 ambientalMENTEsustentable, 2017, número especial ambientalMENTEsustentable, 2017, número especial 79


Cátia Sousa; Olga Santos; Mário Oliveira Crianças com NEE, ensino experimental das Ciências e Educação Ambiental

Imagem 1 Imagem 2

nhecimento e a compreensão do sensorial, era privilegiada a ex-


mundo físico e biológico, estimu- ploração com os alunos da obser-
lar a curiosidade, compreender vação, registo, discussão e formu-
os fenómenos naturais que ocor- lação de conclusões.
rem no seu quotidiano e utilizar Antes da realização das ativi-
diversos procedimentos, capaci- dades práticas/experimentais,
dades e competências no âmbi- os alunos visionaram vídeos com
to dos processos da ciência, tais a finalidade de os alertar para Os alunos, recorrendo a um funil e a Os alunos, utilizando uma colher,
como observar, registar, compa- os problemas da poluição aquá- um copo graduado, colocavam em cada colocavam sal na água potável para lhe
rar, descrever e interpretar, entre tica no mundo, e lhes permitir, garrafa a mesma quantidade de água conferir sabor.
potável.
outros. de seguida, iniciar as atividades
Inicialmente, e em conversa- visando responder à questão
ção com os alunos, ficou decidido problema: “Como sabemos se a As fotografias 1 e 2 ilustram al- se deparavam com uma fonte ou
que uma vez por semana haveria água é “pura” e boa para beber?”. guns momentos da atividade em fontanário, nas saídas de campo
um espaço denominado “vamos Colocados perante a questão pro- questão, na qual os alunos recor- efetuadas à posteriori.
experimentar”, destinado a ati- blema, os alunos debateram as riam a material de laboratório ou, Outro desafio colocado aos
vidades de índole prática/expe- suas ideias, organizando-as e for- em alternativa, a materiais do seu alunos, relacionado com o seu
rimental, sendo que os alunos mulando-as enquanto hipótese a quotidiano, reutilizando-o, numa quotidiano, foi lançado através
iriam assumir o papel de peque- testar experimentalmente, recor- das etapas iniciais do procedi- da questão problema: “Porque
nos cientistas, estando direta- rendo sempre ao preenchimento, mento experimental, depois de mudam de cor as flores?”. Seguin-
mente envolvidos nas atividades tão exaustivo quanto possível, discutida e elaborada a carta de do a mesma metodologia, em que
que iriam se exploradas. de cartas de planificação, docu- planificação. se insistiu sempre na necessida-
Cada atividade teria como su- mento orientador e facilitador Salienta-se, a importância do de de planificar detalhadamente
porte uma carta de planificação, da compreensão da atividade, e envolvimento dos alunos com as atividades de forma a assegu-
onde constava uma questão-pro- não descurando a necessidade de NEE nestas atividade experimen- rar o correto controle das vari-
blema, em que os alunos teriam controlar as variáveis envolvidas. tais implicando realidades do áveis e o registo dos resultados
que seguir todos os procedimen- Dessa forma, após a realização seu quotidiano pois a aquisição alcançados, os alunos puderam
tos nela inscritos e realizar em de várias atividades com água destes novos conhecimentos re- comprovar experimentalmente
conjunto, com a supervisão da imprópria para beber (uma vez lacionados com a alteração das que as plantas que colocaram em
professora, a respetiva atividade que não se apresentava inodo- propriedades da água, em resul- água corada tinham ficado com
prática/experimental. Após ob- ra, insípida e/ou incolor), foram tado da dissolução/mistura de a cor do corante alimentar utili-
servarem e discutirem, em con- testadas as diferentes hipóteses diferentes solutos, se mostrou zado para na água, por oposição
junto, os resultados alcançados, formuladas pelos alunos, permi- relevante para a adoção de no- às depositadas em água incolor.
registavam as conclusões a que tindo-lhes comprová-las ou ne- vos comportamentos em situa- Na sequência da reflexão/deba-
chegaram, respondendo sempre gá-las e, naturalmente, ficar mais ções do seu dia-a-dia, como, por te sobre as conclusões que cada
à questão-problema. Noutras si- atentos, despertos e críticos rela- exemplo, reconhecer a água po- aluno retirou do procedimento
tuações, em que a atividade era tivamente aos temas trabalhados. tável e água não potável quando experimental levado a cabo, foi

80 ambientalMENTEsustentable, 2017, número especial ambientalMENTEsustentable, 2017, número especial 81


Cátia Sousa; Olga Santos; Mário Oliveira Crianças com NEE, ensino experimental das Ciências e Educação Ambiental

possível aos alunos com NEE en- Dessa forma, foi possível aos Um outro tema abordado no dade, os alunos perceberam que o
tender melhor que as plantas, ao alunos refletir sobre os efeitos contexto de ensino experimental óleo não se misturou na água, tendo
obterem os nutrientes necessá- da bioacumulação sobre os or- associado a temáticas ambientais, formado uma camada que ficou a
rios à sua sobrevivência do onde ganismos vivos e apreender al- realizado com crianças com NEE, flutuar. No debate subsequente, foi
se instalam, podem, simultanea- guns cuidados básicos a ter com referiu-se à preocupante situação possível aos alunos relacionar esta
mente, absorver e incorporar ou- a aquisição e manuseamento de relacionada com a poluição dos situação com os impactes sobre os
tros compostos químicos – como, alguns dos alimentos a ingerir no oceanos e orlas costeiras decorren- seres vivos da eventual carência de
por exemplo, produtos fitofarma- seu dia-a-dia. te, em grande parte, de acidentes oxigénio em águas em que tenham
cêuticos existentes no solo e/ou As fotografias 3, 4, 5 e 6 refle- com petroleiros. Nesse âmbito, os sido/sejam lançados óleos ou ou-
água - facto que, no limite, pode tem algumas etapas associadas a alunos tentaram, recorrendo a uma tras substâncias gordurosas, por se
conduzir à sua contaminação e/ esta atividade experimental. atividade prática, ilustrada nas foto- encontrem isolados da atmosfera
ou morte. grafias 7, 8 e 9, responder à questão- pela película de óleo (gordura) que,
-problema: “O que acontece ao óleo por diferença de densidade, fica a
Imagem 3 Imagem 4 quando colocado em água?”. Na flutuar sobre a massa de água onde
sequência da realização desta ativi- existem e a isola da atmosfera.

Imagem 7 Imagem 8 Imagem 9

Os alunos, utilizando um conta-gotas, colocavam algumas gotas de Os alunos, utilizando um funil, colocaram óleo num copo graduado contendo água potável.
corante alimentar no recipiente onde se iriam colocar as flores. De seguida verificaram que se formava uma espessa camada de óleo à superfície, a qual poderia
impedir a passagem de gases (oxigénio) e de luz solar para a água.

Imagem 5 Imagem 6
Conclusão forma a motivá-los a encontra-
De acordo com Fialho (2010), rem respostas para as questões
“as actividades científicas de- problema colocadas e melhorar
vem partir de situações que as a sua compreensão dos fenóme-
crianças têm de interpretar ou nos em estudo. Desta forma, as
de problemas que têm de resol- atividades científicas, segundo
ver” (p.11), pelo que se conside- Fialho (2010), “permitem ex-
ra fundamental partir de proble- pandir o conhecimento e a com-
máticas ambientais associadas preensão do mundo físico e bio-
Os alunos observaram que as flores mudaram de cor, adquirindo a cor do corante alimentar ao quotidiano dos alunos, por lógico” (p.3), contextualizando os
adicionado à água. Ao fim de alguns dias, além da coloração adquirida, a flor estava a morrer.

82 ambientalMENTEsustentable, 2017, número especial ambientalMENTEsustentable, 2017, número especial 83


Cátia Sousa; Olga Santos; Mário Oliveira Crianças com NEE, ensino experimental das Ciências e Educação Ambiental

conhecimentos, aprofundando os cipar nas atividades, seja o mais Referências bibliográficas


conceitos e estimulando a curio- profícua possível. Fialho, I. (2010). Ensino Experi-
sidade dos alunos, conforme se O facto de incluir alunos com mental. Exploração das activida-
constatou através da realização, NEE nas atividades exploradas des experimentais propostas no
pelos alunos, incluindo os alunos revelou vantagens a vários níveis. manual do aluno. Apresentação e
com NEE, do conjunto de ativida- Os alunos estiveram mais tempo exploração de outras actividades
des práticas/experimentais a que empenhados nas atividades pro- experimentais de apoio à prática
pertenciam as três atividades an- postas, tendo por isso apreendi- lectiva do Professor. Porto: Areal
teriormente referidas. do melhor os conceitos trabalha- Editores.
Refletindo sobre o trabalho dos. No entanto, trabalhar com Gonçalves, F.; Pereira, R.; Azei-
levado a cabo, e tendo em consi- turmas numerosas, onde estes teiro, U. M. M.; Pereira, M. J. V.
deração que o mesmo se desen- alunos estão incluídos, mas sem (2007). Atividades Práticas
volveu no âmbito de uma ação par pedagógico para auxiliar à em Ciências e Educação Am-
de formação frequentado pela realização das atividades e pro- biental. Lisboa: Instituto Pia-
docente que o realizou, pode-se porcionar aos alunos com NEE o get.
ainda concluir que as grandes seu espaço e facilitar a sua ação, Instituto Nacional do Ambiente
mudanças verificadas na prática torna-se num processo mais mo- (1989). Apontamentos de In-
pedagógica da mesma se refleti- roso e complexo, atendendo a que trodução à Educação Ambien-
ram aos seguintes níveis: apresentam ritmos diferentes tal. Instituto Nacional do Am-
- Do rigor colocado na seleção, dos demais alunos, decorrentes biente. Lisboa.
preparação e desenvolvimento das respetivas patologias. Agra- Ministério da Educação
das tarefas a realizar com os alu- va o facto de estes alunos, em (2004). Organização Curri-
nos; grupo/turma, reagirem de forma cular e programas- Ensino
- Do cuidadoso controlo das diferente e sentirem-se inibidos Básico -1º ciclo. Acedido em
variáveis envolvidas em cada um e inseguros, daí decorrendo a ne- 3/06/2017 em: http://metas-
dos estudos efetuados; cessidade de trabalhar mais afin- deaprendizagem.dge.mec.pt/
- Da supervisão das condições cadamente para que os outros metasdeaprendizagem.dge.
em que se realizaram as ativi- alunos os aceitem e respeitem no mec.
dades práticas e experimentais, seu tempo e espaço, tendo sido OCDE. (1991). A Ecologia e a Es-
bem como com o enquadramento esse objetivo atingido e tendo os cola. Porto: Edições Asa.
teórico das mesmas; alunos com NEE sido incluídos e UNESCO (1994). Declaração
- No envolvimento dos alunos participado com interesse e mo- de Salamanca e enquadra-
a nível psicomotor, cognitivo e tivação nas atividades propostas, mento da acção na área das
afetivo. evidenciando a sua adequação necessidades educativas es-
Permitiu, ainda, perceber com também para crianças com dife- peciais. Lisboa: Unesco (tra-
clareza o quanto é essencial que rentes ritmos de aprendizagem, dução portuguesa).
os alunos sejam verdadeiramen- decorrentes das patologias que
te motivados, para que a sua in- lhes estão associadas.
tegração e disposição para parti-

84 ambientalMENTEsustentable, 2017, número especial ambientalMENTEsustentable, 2017, número especial 85


Alguns elementos de uma análise da integração da educação am-
biental nos currículos escolares do ensino básico e secundário em
Cabo Verde

Alessandra Buonavoglia Costa-Pinto1


Foto: Michèle Sato

Resumo
No ano de 2012, foi realizada uma Avaliação da Integração da Educação Ambiental
nos novos currículos escolares em Cabo Verde (ensino básico e secundário). Foram
visitadas seis instituições de ensino, sendo três de ensino básico (duas com currí-
culo novo e uma com currículo antigo) e três de ensino secundário uma com currí-
culo novo e duas com currículo antigo), todas na Ilha de Santiago. O novo currículo
foi avaliado positivamente quanto à integração da EA e foram elaboradas orienta-
ções estratégicas, buscando contribuir com o aperfeiçoamento do processo.

Palavras-Chave: Educação Ambiental, Cabo Verde, Curriculum Escolar, Ensino Fun-


damental e Secundário.

Abstract
In the year 2012, an Environmental Education Integration Assessment was carried
out in the new school curricula in Cape Verde (primary and secondary education).
Six teaching institutions were visited, three of which were basic education (two
with a new curriculum and one with an old curriculum) and three from secondary
education, one with a new curriculum and two with a curriculum vitae), all on
Santiago Island. The new curriculum was evaluated positively regarding the inte-
gration of the EE and strategic guidelines were elaborated, seeking to contribute
with the improvement of the process.

Keywords: Environmental Education, Cape Verde, School Curriculum, Elementary


and Secondary Education.

1NUPEEA/UFSB – Núcleo de Pesquisa e Extensão universitária em Educação Ambiental/


Ponta Grossa, cidade brasileira Universidade Federal do Sul da Bahia/Brasil.
situada no estado do Paraná
e-mail: alegubcp@gmail.com

ambientalMENTEsustentable, 2017, número especial 87


Alguns elementos de uma análise da integração da educação ambiental nos cur-
Alessandra Buonavoglia Costa-Pinto rículos escolares do ensino básico e secundário em Cabo Verde

Do contexto... programas dos Ensinos Básico e letivas do trimestre e, que, a se- fundo favorável à integração de
No início da segunda década Secundário (primeira fase e pri- leção das instituições de ensino um tema importante para o de-
do século XXI, Cabo Verde estava meiro ciclo, respetivamente) inte- visitadas, bem como os interlocu- senvolvimento e futuro de Cabo
a implementar uma reforma cur- graram efetivamente as questões tores do MED e do IP foi efetuada Verde. E, que as considerações e
ricular que buscava a transforma- ambientais de forma transversal pela REA. recomendações que se seguiram
ção dos programas curriculares no currículo; A Educação Ambiental (EA) é tiveram o intuito de contribuir
em duas vertentes fundamentais: - Elaborar orientações para a in- aqui compreendida a partir dos aprimoramento do processo.
a) Passar de uma metodo- tegração dos aspetos relaciona- documentos oficiais produzidos No que diz respeito ao ensino
logia de ensino conteudista para dos com o ambiente marinho e em conferências internacionais básico, a integração está facili-
uma metodologia baseada em costeiro aos novos currículos es- sobre o tema, como o Tratado de tada, pois trata-se de um regime
competências; colares. Educação Ambiental para Socie- de monodocência, os professores
b) Promover a integração Os novos programas centram dades Sustentáveis e Responsabili- isoladamente ou em grupo po-
nos currículos de temas transver- o modelo educativo nas compe- dade Global (Rio-92), a Agenda 21 dem abordar os temas de forma
sais de que é exemplo, e ancora, a tências, colocando o aluno como (Rio-92) e as recomendações da transversal e interdisciplinar.
Educação Ambiental. o centro do processo de aprendi- Conferência de Tibilissi (1977), Nos currículos avaliados no-
No ano de 2012, foi realizada zagem. como sendo um processo educa- tou-se um cuidado em integrar
uma consultoria para a Avaliação A metodologia utilizada foi a tivo vinculado à compreensão elementos socioambientais. Con-
da Integração da Educação Am- da pesquisa qualitativa, tendo crítica da realidade local/re- tudo, terá ficado um pouco au-
biental (EA) no currículo esco- como principais instrumentos gional/global e a processos de sente a interdisciplinaridade, por
lar (ensino básico e secundário) análise documental, entrevista intervenção nesta mesma reali- exemplo integrando artes, mate-
promovida pela parceria entre semi-estruturada e observação dade. mática, educação físico-motora e
Programa Regional de Educação participante. Entendendo-se como pensa- ciências integradas em torno das
Ambiental–PREE e REA-Rede Em visita ao terreno foram mento crítico aquele que é basea- simetrias de uma borboleta, num
da Educação Ambiental/UICN/ interlocutores membros de dife- do em informação factual sobre percurso pedestre com algum
PRCM. Cabe ressaltar que a auto- rentes instâncias do Ministério a realidade do hoje contextuali- tempo para observação e poste-
ra do presente texto fez parte da da Educação e Desporto (MED); zada sobre a realidade do ontem, rior representação de borboletas,
equipe de avaliadores. Instituto Pedagógico (IP); Escolas num processo reflexivo sobre as análise de simetrias, breve con-
Tal avaliação teve por objetivo do ensino básico e secundário. transformações ocorridas e os templação de sua beleza e refle-
geral trazer contribuições para o Foram visitadas seis institui- seus porquês – o que mudou? E, xão da sua importância ecológica.
fortalecimento da integração da ções de ensino - três de ensino porque mudou numa determina- Ou, do cálculo do comprimento
(EA) nos currículos escolares. Os básico (duas com currículo novo da direção? da mangueira para a rega gota-a-
objetivos específicos foram: e uma com currículo antigo) e -gota da horta da escola e refletir
- Avaliar o Plano de Açcão para três de ensino secundário uma Da análise... sobre como a água chega até a
Integração da Educação Ambien- com currículo novo e duas com Cabe destacar que os novos horta e sua importância, dada a
tal nos Ensinos Básico e Secun- currículo antigo), todas na Ilha de currículos foram avaliados posi- escassez hídrica em Cabo Verde.
dário - primeira fase do Ensino Santiago. tivamente quanto à integração da Nos currículos de ensino se-
Básico e primeiro ciclo do Ensino Não foi possível conversar com EA, indo ao encontro das propos- cundário, a assimetria da integra-
Secundário; alunos do ensino secundário em tas expressas nos documentos in- ção da EA foi mais marcada, pois
- Avaliar/verificar se os novos função do término das atividades ternacionais, criando um pano de há o desafio de conjugar disci-

88 ambientalMENTEsustentable, 2017, número especial ambientalMENTEsustentable, 2017, número especial 89


Alguns elementos de uma análise da integração da educação ambiental nos cur-
Alessandra Buonavoglia Costa-Pinto rículos escolares do ensino básico e secundário em Cabo Verde

plinas diferentes lecionadas por uma turma de 1º ano, da pré-ex- as turmas aparecem casas, sendo o fato de esses projetos e ações
pessoas diferentes. perimentação e com o 3º ano, do estas todas iguais nos desenhos serem pontuais.
A leitura dos currículos apon- currículo antigo. dos alunos do currículo antigo.
tou a integração de elementos Com os alunos do 1º e 2os Na turma do currículo novo sur- Das estratégias
do ambiente de forma pontual. anos foi realizada uma “chuva de gem casas diferentes, as vezes Aqui são apresentadas, de for-
Alguns currículos, pela positiva, ideias” sobre o que é o ambiente com janelas, cortinas e portas ma sucinta, algumas estratégias
não só incorporaram elementos e o que faz mal ao ambiente e um abertas. de ação, que têm intuito de forta-
ambientais e do cotidiano, mas desenho livre sobre um tema, no Tais aspetos parecem apoiar lecer a integração de EA nos cur-
também buscam estimular um qual cada um escolheu o que con- uma maior audácia por parte dos rículos.
pensamento crítico no que diz siderava muito importante. alunos da pré-exprimentação, a. Para fortalecer a apren-
respeito à sustentabilidade e à Nas turmas da pré-experi- por ventura, menos “presos” ao dizagem por competências, dos
2
contextualização da ‘cadeia de mentação a participação foi mais medo de errar. A professora da alunos: formação de COM-VIDAs
porquês’ de um dado fato. imediata e os temas abordados turma em pré-experimentação, - Comissões de Meio Ambiente e
A maior dificuldade relatada foram mais diversificados. Os alu- do 2º ano, declarou que os alunos Qualidade de Vida nas Escolas.
refere-se à formação de formado- nos estiveram mais interessados, do novo currículo leem melhor e b. Interação com a Comu-
res. Embora existisse um progra- mantendo-se sossegados e par- começaram a ler mais cedo. nidade: diferentes estratégias e
ma de formação dos professores ticipando na dinâmica de forma Com a turma do 3º ano do temas podem ser utilizadas para
experimentadores, esta formação ordenada, sem que a professora currículo antigo, num jogo de as- gerar um proceso reflexivo so-
pareceu não corresponder inte- interferisse na atividade, diferen- sociação livre de palavras sobre bre o futuro desejado e sobre “o
gralmente às necessidades. Pois, temente do que ocorreu na turma ambiente, os alunos mostraram que podemos fazer coletivamente
foi uma formação condensada 2º ano do currículo antigo. algumas dificuldades em distan- para chegar lá”.
que necessitaria de continuidade Nos desenhos os temas abor- ciarem-se da palavra inicial. As c. Projetos Interdisciplina-
no tempo e de acompanhamento. dados incluíram: higiene; lixo; questões abordadas foram pre- res como atividade curricular re-
A formação foi conteudista, deta- ambiente marinho e biodiversi- dominantemente relacionadas gular e continuada, com destina-
lhando o que se entende por com- dade; fauna e flora; ações de pro- com a poluição e o lixo. ção de carga horária semanal.
petências, como se ensina por teção e conservação da natureza; A existência da REA aprece d. Formação de Formado-
competências, como se avalia por água e chuva. como um ponto positivo em prol res: processo baseado na ideia de
competências, mas não permitin- Destacam-se alguns aspetos do novo currículo na medida em “Cardápio”3, aos moldes de Cole-
do aos formandos (professores/ destes exercícios nas turmas de que ela dinamiza projetos e ações tivos Educadores4.
futuros formadores) aprender 2º ano: junto às escolas. O contraponto é e. Avaliação continua/perió-
por competências, vivenciando o - No grupo de currículo antigo,
próprio modelo. alguns dos alunos tiveram neces-
Durante a visita a duas das sidade de abrir o livro e copiar
2COM-VIDA:
escolas básicas foram realizadas desenhos. http://portal.mec.gov.br/secretaria-de-educacao-continuada-alfabetizacao-
dinâmicas participativas com - No grupo da pré-experimenta- diversidade-e-inclusao/programas-e-acoes?id=17456; BRASIL, 2004.
alunos. Numa delas foram efetua- ção os desenhos tinham mais in- 3“Cardápio de Aprendizagem”: http://www.mma.gov.br/estruturas/educamb/_arquivos/
das atividades com alunos do 2º tervenção humana, com ‘balões encontros.pdf.
ano, uma turna do currículo novo de diálogo’.
4Coletivos
e outra do antigo. Na outra com - Em muitos desenhos de ambas Educadores: http://www.mma.gov.br/educacao-ambiental/formacao/item/363-
forma%C3%A7%C3%A3o-de-educadores-coletivos-educadores.

90 ambientalMENTEsustentable, 2017, número especial ambientalMENTEsustentable, 2017, número especial 91


Alguns elementos de uma análise da integração da educação ambiental nos cur-
Alessandra Buonavoglia Costa-Pinto rículos escolares do ensino básico e secundário em Cabo Verde

dica do novo currículo. sos naturais ao longo do tempo


Da integração de elementos e chegar à literatura e à poesia,
marinhos e costeiros relacionando o mar e Cabo Verde,
Foram elencados grandes tópi- podendo trazer elementos para
cos considerados importantes de pensar a situação socioambiental
serem intergrados aos diferentes do país hoje e suas potencialida-
currículos. A título de exemplo des.
seguem abaixo, de forma resumi-
da, dois ‘contextos’ que buscam Referências Bibliográficas
explicitar a interrelação entre CABO VERDE. Currículos do En-
diferentes temas e subtemas pro- sino Básico e Secundário– novo
postos. currículo. Praia: Ministério da
Educação, 2011.
Contexto A CABO VERDE. Plano de Acção
A história da pesca em Cabo para a integração da Educa-
Verde remete-nos às espécies ção Ambiental no currículo
pescadas, seus habitats e a di- escolar. Versão 1. Praia: Mi-
nâmica ecológica dos mesmos, nistério da Educação e Ensino
assim como à construção de em- Superior – Direcção-Geral do
barcações tradicionais de pesca Ensino Básico e Secundário,
e, estas podem levar-nos à che- 2007.
gada da pesca industrial e às suas ONU. AGENDA 21. Conferência
consequências socias, econômi- das Nações Unidas para o Meio
cas, ambientais e políticas, pas- Ambiente e Desenvolvimento.
sar pela gastronomia local e pela Rio de Janeiro, Brasil, 1992.
confeção de artefatos, de ontem TRATADO DE EDUCAÇÃO AM-
e de hoje, e perpassar a questão BIENTAL PARA SOCIEDADES
de gênero na atualidade, remen- SUSTENTÁVEIS E RESPONSA-
tdo-nos às possíveis alternativas BILIDADE GLOBAL. Conferên-
sustentáveis para a pesca que in- cia das Nações Unidas para o
clua a igualdade entre mulheres e Meio Ambiente e Desenvol-
homens. vimento. Rio de Janeiro, Bra-
sil, 1992.
Contexto B UNESCO e PNUMA. TIBILISSI -
A história da colonização de Conferência Intergovernamen-
Cabo Verde – rota dos escravos tal sobre Educação Ambiental.
- que pode levar-nos ao modo UNESCO e Programa de Meio Am-
de vida da época e trazer daí as biente da ONU – PNUMA. Geórgia,
transformações do uso de recur- ex-URSS, 1977.

92 ambientalMENTEsustentable, 2017, número especial ambientalMENTEsustentable, 2017, número especial 93


Foto: Michèle Sato

Rio de Janeiro, Brasil A educação Ambiental na Comunidade Rural de


Ekovongo-Bié/Angola

José Capitango1

Resumo
Ekovongo é uma comunidade rural, cuja população constrói as suas vivências
numa estreita relação com a terra e demais elementos que habitam a natureza.
Nas últimas décadas Ekovongo tem registado uma degradação acelerada do meio
ambiente causada principalmente pela exploração desregrada de florestas, leva-
da a cabo pelos produtores de carvão vegetal, para a sua comercialização, cujos
efeitos se repercutem no empobrecimento dos solos, e, por conseguinte, na baixa
produtividade agrícola.
No âmbito da investigação sob o tema “Educação e Desenvolvimento nas Comu-
nidades Ovimbundu de Angola: Estudo Etnográfico da Comunidade de Ombala
Ekovongo/Bié”, inserido no Programa de Doutoramento ainda em curso na Uni-
versidade de Santiago de Compostela, destacou-se entre vários objetivos o de
preservar a cultura local e o meio ambiente. O presente artigo objetiva, por um
lado analisar a problemática ambiental em seus aspetos mais comuns, por outro,
identificar os problemas ambientais que a comunidade enfrenta atualmente e os
saberes tradicionais que orientam a relação entre comunários e outros seres da
natureza, enquanto fatores de desenvolvimento, que na essência conformam as
representações sociais dos habitantes de Ekovongo em torno da problemática am-
biental.
Palavras-chave: Educação Ambiental, comunidade rural

Abstract
Ekovongo is a rural community whose population builds their experiences in a clo-
se relationship with the earth and other elements that inhabit nature. In recent
decades Ekovongo has registered an accelerated degradation of the environment
mainly caused by unregulated exploitation of forests, carried out by producers of
charcoal, for their commercialization. Whose effects are felt in the impoverish-
ment of the soil, and therefore in low agricultural productivity.
In the framework of the doctoral thesis on the theme: Education and Development
in Ovimbundu Communities in Angola: Ethnographic Study of the Community of
Ombala Ekovongo/Bié , still in progress at the University of Santiago de Compos-
tela, were formulated among others the goals of preserving the local culture and
the environment. This article aims, on the one hand, analyze the environmental
problematic in their common aspects; on the other, to identify environmental pro-
blems that the community faces today and the traditional knowledge that guide
the relationship between comunarios and other natural beings, as development
factors, which in essence make up the social representations of Ekovongo people
around the environmental problematic.
Keywords: Enviromental education, rural community.

1Instituto Superior de Ciências da Educação (ISCED-Luanda)

e-mail: josecapitango@yahoo.com.br

ambientalMENTEsustentable, 2017, número especial 95


José Capitango A Educação Ambiental na comunidade rural de Ekovongo-Bié/Angola

Introdução problemas ambientais que a co- I - A problemática ambiental dependente de suas próprias for-
Ekovongo é uma comunidade munidade enfrenta atualmente, no contexto mundial ças, tendo por objetivo responder
rural, cuja população constrói as assim como os saberes tradicio- Em finais da década de 1960 à problemática da harmonização
suas vivências numa estreita rela- nais que orientam a relação entre e princípio da década de 1970 dos objetivos sociais e econó-
ção com a terra e demais elemen- humanos e outros seres da natu- assistiu-se a uma vaga de refle- micos do desenvolvimento com
tos que habitam a natureza. Essa reza, enquanto fatores de desen- xões e debates acerca dos limites uma gestão ecologicamente pru-
relação engloba as dimensões volvimento, que na essência con- do crescimento, que suscitaram dente dos recursos e do meio”.
(socioeconómica, cultural, reli- formam as representações sociais a primeira Conferência Mundial Uma segunda vaga de reflexões
giosa e espiritual) que se influen- dos habitantes de Ekovongo em das Nações Unidas sobre o am- teve lugar na década de 1980,
ciam mutuamente numa perfeita torno da problemática ambiental. biente humano, realizada em alimentada por uma tomada de
relação dialética. A terra é a base Assim, o artigo estrutura-se em Estocolmo em 1972, no âmbito consciência generalizada e um
da própria existência que provi- duas partes: a primeira versa so- da qual foi adotado o Programa reconhecimento institucional do
dencia os meios de subsistência. bre aspetos teóricos da educação das Nações Unidas para o Meio perigo que a poluição global re-
Nas últimas décadas, Ekovongo ambiental, mais especificamen- Ambiente (PNUMA). A Conferên- presenta ao meio ambiente e à
tem registado uma degradação te, a problemática ambiental no cia de Estocolmo centrou-se na vida.
acelerada do meio ambiente cau- contexto mundial, as correntes ideia do crescimento zero e no A Conferência de Estocolmo,
sada principalmente pela explo- do ambientalismo, desafios po- ecodesenvolvimento2, que (SA- assim como outras realizações
ração desregrada de florestas, lítico-pedagógicos e ideológicos CHS, 1980 citado por RAYNAUT que se seguiram, nomeadamente
levada a cabo pelos produtores da educação ambiental, a susten- e ZANONI, 1993:7), define como o Seminário de Belgrado (1975),
de carvão vegetal para a sua co- tabilidade como paradigma do “desenvolvimento endógeno e no qual foi lançado o Progra-
mercialização na cidade. Os efei- pensamento ambientalista con-
tos da degradação ambiental se temporâneo e a sustentabilidade
repercutem no empobrecimento ambiental em Angola; a segunda
dos solos, e, por conseguinte na aborda a educação ambiental na
2O
baixa produtividade agrícola. comunidade rural de Ekovongo, conceito de ecodesenvolvimento foi formulado por Maurice Strong e difundido por
Ignacy Sachs na década de 1970. Com relação ao meio ambiente, Sachs advoga uma
Como parte de um estudo rea- ou seja, expõe e procede a inter-
gestão prudente que assegure à geração presente e às gerações futuras a possibilidade
lizado em uma comunidade ru- pretação dos saberes tradicionais de se desenvolverem. Nesta linha, defende um projeto de civilização que considere
ral, no âmbito da tese doutoral dos habitantes sobre a relação a cultura como uma componente essencial que deve estar em estreita ligação com o
em andamento sobre: Educação com o meio ambiente. Nesta bre- ecológico e o socioeconómico; com esta perspetiva propõe cinco dimensões a considerar
e Desenvolvimento nas Comuni- ve reflexão advoga-se uma ação no ecodesenvolvimento: 1) sustentabilidade social, que consiste na redução das diferenças
sociais, isto é, considerar o desenvolvimento em sua multidimensionalidade, abrangendo o
dades Ovimbundu de Angola: Es- educativa mais abrangente, mul-
leque das necessidades materiais e não-materiais; 2) sustentabilidade económica pautada
tudo Etnográfico da Comunidade tidimensional e multidisciplinar pela alocação e gestão eficientes dos recursos e por um fluxo regular do investimento
de Ombala Ekovongo, o presente orientada a produzir mudanças público e privado; 3) sustentabilidade ecológica assente no uso dos potenciais inerentes
artigo objetiva, por um lado, ana- de mentalidades e construir uma aos variados ecossistemas, permitindo que a natureza encontre novos equilíbrios através
lisar a problemática ambiental verdadeira cultura de sustentabi- de uma utilização que obedeça ao seu ciclo temporal. Implica também preservar as fontes
de recursos energéticos e naturais; 4) sustentabilidade espacial, que consiste em evitar a
em seus aspetos mais comuns, in- lidade ambiental, não só ao nível
concentração geográfica exagerada de populações, das atividades e do poder, buscando
cluindo uma breve reflexão sobre comunitário, mas também ao ní- sempre uma relação equilibrada entre a cidade e o campo; e 5) sustentabilidade cultural,
a sustentabilidade ambiental em vel de toda a região. pautada por uma pluralidade de soluções particulares, que respeitem as especificidades de
Angola; por outro, identificar os cada ecossistema, de cada cultura e de cada localidade..

96 ambientalMENTEsustentable, 2017, número especial ambientalMENTEsustentable, 2017, número especial 97


José Capitango A Educação Ambiental na comunidade rural de Ekovongo-Bié/Angola

ma Internacional de Educação consumo e de desenvolvimento as economias mundiais, e tantos volução tecnológica. E, como bem
Ambiental (PIEA), a ser imple- presididos pela noção de susten- outros. Numa perspetiva comple- assinala (LANA, 2015:107) “A na-
xa, a realidade que emerge como
mentado em todos os níveis da tabilidade, que como se poderá problemática é algo qualitativa- tureza, em seu sentido ecológico,
educação, tendo definido os ob- observar ao longo deste trabalho, mente e quantitativamente muito inalterada, sob a óptica do capi-
jetivos, os conteúdos e as metas se constitui em um princípio nor- mais grave que a simples acumu- talismo, é vista como ambiente
lação dessas disfunções (SAN-
a alcançar; a primeira Conferên- teador do pensamento ambienta- ainda improdutivo e que, para
TOS, 2009:2).
cia intergovernamental de Edu- lista contemporâneo. expressar a civilidade do homem,
cação Ambiental, realizada em precisa ser explorado e direcio-
Em todo o caso, qualquer que
Tbilissi (1977); o IIº Congresso 1.1. Correntes do ambientalis- nado a oferecer o mesmo subsi-
seja a perspetiva de análise da
de Educação Ambiental realizado mo, desafios político-pedagó- dio para o avanço tecnológico e
presente crise planetária não
em Moscovo (1987); o Relatório gicos e ideológicos da educa- científico”. É bem verdade, que a
deve minimizar a gravidade dos
Brundtland (1987); a Cúpula da ção ambiental revolução científica e os avanços
problemas globais como as al-
Terra ou Eco 92, que adotou im- Há pouco mais de 40 anos tecnológicos que dela despon-
terações climáticas, aumento do
portantes documentos como a que a humanidade vem toman- tam têm beneficiado de diversas
efeito estufa, aquecimento glo-
Agenda 21, a Declaração do Rio do consciência de que existe uma maneiras a humanidade, mas, ao
bal, a desertificação crescente, a
que compreende um conjunto de crise ambiental à escala planetá- mesmo tempo, alimentam o es-
perda da diversidade biológica, a
27 princípios que orientam a in- ria, constituindo-se numa séria pirito de impunidade que acom-
poluição dos rios e mares, o esgo-
teração dos seres humanos com ameaça à sobrevivência de todos panha a ação do homem sobre a
tamento de recursos naturais, o
o meio ambiente, a Declaração os seres viventes incluindo os se- natureza. Entretanto, seria uma
empobrecimento dos solos, etc.,
de Princípios sobre Florestas, a res humanos. Ao analisar a pro- certa ingenuidade postular que
que representam um perigo sem
Convenção sobre Biodiversidade blemática ambiental, (SANTOS, a revolução científica e os avan-
precedentes à sobrevivência da
Biológica e a Convenção Quadro 2009:2) considera a presente ços tecnológicos sejam os únicos
própria humanidade. A comuni-
sobre Alterações Climáticas; a Ci- crise como sendo “ (…) uma cri- fatores que estão na base desta
dade internacional e os estados
meira Mundial sobre o Desenvol- se de conhecimento e de formas crise. A crise é do modelo civili-
que a integram têm empreen-
vimento Sustentável, realizada de conhecimento; um desafio à zacional vigente; desponta fun-
dido esforços na elaboração de
em Joanesburgo (2002), também interpretação do mundo”. Na rea- damentalmente da exploração
agendas concertadas em busca
denominada Rio+10, em que foi lidade, a presente crise ambien- exacerbada de recursos naturais
de possíveis soluções, através de
adotada uma Declaração na qual tal não tem sido suficientemente para atender as necessidades de-
iniciativas analisadas na primei-
os chefes de Estado e de governo difundida de modo a explicitar a correntes da intensificação dos
ra seção, mas a verdade é que os
reafirmaram o seu compromis- verdadeira dimensão da gravida- processos produtivos, estimula-
problemas se agudizam a cada
so com a Agenda 21 e expressa- de que ele representa. Para esta dos pelas campanhas de sobreva-
dia que passa. A busca incessan-
ram uma crescente preocupação autora, lorização e homogeneização das
te do progresso e desenvolvi-
com a perda da biodiversidade, o atitudes e comportamentos, e dos
O que está sucedendo no planeta, mento parece transtornarem a
avanço da desertificação, as alte- hábitos (vícios) de consumo, cuja
neste momento, não é a soma de consciência do homem a ponto
rações climáticas e as catástrofes problemas como a desertificação finalidade é a globalização dos
de este abandonar os laços que
naturais cada vez mais graves. A crescente, o aumento desmedido mercados do capital financeiro,
da demanda energética, a mudan- antes mantinha com a natureza,
ideia dominante de todas estas a consolidação e mundialização
ça climática, a má distribuição de reivindicando para si o poder e a
realizações radica na necessidade renda que acarreta o aprofun- do neoliberalismo como modelo
missão de conquistar o mundo –
de adoção de modos de produção, damento do desequilíbrio entre civilizacional.
uma aventura auspiciada pela re-

98 ambientalMENTEsustentable, 2017, número especial ambientalMENTEsustentable, 2017, número especial 99


José Capitango A Educação Ambiental na comunidade rural de Ekovongo-Bié/Angola

A tomada de consciência de conformar uma nova raciona- a relação entre a sociedade e a natureza: o conservacionismo e o
uma crise profunda e complexa à lidade, por via da produção do natureza, resultando numa diver- preservacionismo.
escala planetária despertou a hu- conhecimento, das políticas e sidade de concepções e correntes O conservacionismo preocu-
manidade para a necessidade de das práticas educativas. Como que permeam atualmente o cam- pa-se em conservar os recursos
um instrumento pelo qual se po- assinala (CARVALHO, 2001 cita- po da educação ambiental. No naturais, protegendo-os do con-
deria mitigar os seus efeitos e que do por MORALES, 2009:162) “A entanto, se por um lado, as mes- tacto com os seres humanos; esta
veio a conformar-se como educa- educação ambiental situa-se na mas apresentam um conjunto de concepção está arraigada nos or-
ção ambiental, da qual desponta confluência dos campos ambien- características específicas que ganismos estatais e nas organi-
a função de principal motor na tal e educativo, porém não emer- as distinguem umas das outras, zações internacionais e consiste
construção de uma consciência giu das teorias educacionais, o por outro, elas não se excluem em defender a ideia do progres-
ética, pela implementação de téc- que implica estar mais relacio- mutuamente, pois nalguns casos so associado ao pensamento uti-
nicas e práticas educativas e de nada aos movimentos ecológicos partilham visões comuns. Assim, litarista. Esta concepção não se
informação, suscetíveis de garan- e ao debate ambientalista do que desde o início do século XIX que dissocia do antropocentrismo,
tir a harmonia relacional entre os propriamente ao campo educa- começam a ganhar espaço a admi- pois, advoga o uso racional e cri-
seres humanos e a natureza. Foi cional e à teoria da educação”. A ração pelas maravilhas da nature- terioso de recursos naturais para
no intuito de repensar a relação expressão educação ambiental za, as atitudes de valorização dos fins desenvolvimentistas e uma
entre a sociedade e a natureza e foi utilizada pela primeira vez em habitats de espécies selvagens, a certa crença de que a ciência e a
da necessidade de descortinar a 1948 por ocasião da fundação da busca do campo como espaço na- tecnologia seriam capazes de dar
interdependência entre os pro- União Internacional para a Con- tural ideal para a contemplação soluções aos problemas ambien-
blemas ambientais e os fatores servação da natureza em Suíça e da natureza, o que veio a estimu- tais. As ideias defendidas por esta
sociais, políticos, económicos e posteriormente na Conferência lar a criação de jardins e parques concepção contribuíram na dé-
culturais que as primeiras inicia- sobre Educação promovida pela nos espaços urbanos. Com esta cada de 1970 para a formulação
tivas de educação ambiental se Universidade de Keele na Grã- valorização da natureza come- do conceito de desenvolvimento
desencadearam para dar lugar -Bretanha em 1965; mas, o termo ça a vulgarizar-se a produção de sustentável que vem animando
a uma ação consciente, crítica e estava associado aos princípios ideias que advogam a conser- as grandes conferências interna-
transformadora do modo de con- da ecologia e da conservação, vação da natureza, e, ao mesmo cionais sobre a relação meio-am-
ceber o mundo, estabelecendo-se pressagiando deste modo uma tempo se intensificam as críticas biente e desenvolvimento. Como
desde logo, a articulação entre as certa confusão com o ensino da sobre o crescimento industrial refere (ARAGUAIA, 2011),
ciências naturais e as ciências so- ecologia. que aumenta a poluição do ar,
ciais e humanas. Entretanto, a narrativa da edu- sobretudo nas cidades, antes re- […] O pensamento conservacio-
nista caracteriza a maioria dos
A educação ambiental tem a cação ambiental apresenta uma putadas como referências do mo- movimentos ambientalistas, e é
sua génese no movimento am- historicidade marcada por uma delo civilizacional e que agora se alicerce de políticas de desen-
bientalista que se propõe a (re) dinâmica de diálogos e disputas tornam objeto de questionamen- volvimento sustentável, que são
aquelas que buscam um modelo
discutir a relação entre a socie- entre diferentes autores e prota- tos de vária índole. Nesta senda, de desenvolvimento que garanta
dade e a natureza, implicando gonistas (investigadores, educa- e segundo (DIEGUES, 1996 citado a qualidade de vida hoje, mas que
a emergência de novos conhe- dores, pedagogos, animadores, por RAMOS, 2006:60), no início não destrua os recursos necessá-
cimentos e saberes que ressig- associações, etc) na criação de do século XIX, nos Estados Uni- rios às gerações futuras. Redução
do uso de matérias-primas, uso
nifiquem as concepções de pro- sentidos e na produção do pensa- dos da América ganham destaque de energias renováveis, redução
gresso e desenvolvimento para mento sobre o modo de conceber duas visões de conservação da do crescimento populacional,
combate à fome, mudanças nos

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padrões de consumo, equidade relação aos demais elementos da a valorização e proteção do am- necessidade de fortalecimento
social, respeito à biodiversidade natureza. Este pensamento subsi- biente natural. Os problemas da sociedade civil, substituindo
e inclusão de políticas ambien- diou o desenho das políticas e es-
tais no processo de tomada de ambientais são apresentados de o comportamento individual pela
decisões económicas são alguns tratégias de gestão das áreas na- modo aparente, desprezando-se construção de uma cultura cida-
dos seus princípios” (ARAGUAIA, turais protegidas como parques3 as causas mais profundas (ques- dã, formação de atitudes ecológi-
2011 citado por SILVA, 2011:16). e reservas naturais. Além disso, tões sociais e políticas). A relação cas e um sentido de responsabi-
o preservacionismo que defende homem-ambiente é dicotómi- lidade ética e social, necessárias
A concepção preservacionista a proteção de populações, espé- ca, sendo o homem considerado para a busca coletiva de transfor-
defende a proteção de uma na- cies, habitats e ecossistemas in- como destruidor; 2) educação mações sociais.
tureza independentemente do dependentemente do local onde ambiental pragmática – pode ter Para os ambientalistas afigu-
seu valor económico e utilitário, estejam situados e a criação de origem nas concepções tecnicis- ra-se deveras importante domi-
a criação de espaços intocáveis, áreas de conservação, reservas e tas de educação; centraliza o foco nar as ferramentas teóricas que
sem sofrer das interferências re- parques, fundamenta-se numa vi- na ação, na busca de soluções dão sustento às ações teórico-
lativas aos avanços do progresso são de ser humano destruidor da para os problemas ambientais e -práticas do campo de educação
e, ao mesmo tempo que, conside- natureza, sem preocupar-se com na formulação de normas e busca ambiental, abrindo horizontes
ra o homem como principal cau- o seu valor de uso, nem com a im- mecanismos que compatibilizem para uma compreensão mais fe-
sador do desequilíbrio natural. portância que representa para a o desenvolvimento económico cunda dos problemas ambientais
Segundo (RAMOS, 2006:61), a espécie humana. com o manejo sustentável de re- que transcenda a visão tradicio-
concepção preservacionista, pelo Outros autores, como (SILVA & cursos naturais permitindo deste nal e reducionista, projetando-se
contrário, centraliza o seu pensa- CAMPINA, 2011:33-34) apresen- modo o desenvolvimento susten- com isso uma postura participa-
mento na reverência e na valoriza- tam uma tipologia de três concep- tável. A ênfase das abordagens tiva e reflexiva impregnada de
ção da natureza concebida como ções de educação ambiental (con- recai na mudança de comporta- elementos (técnicos, científicos,
um mundo selvagem passível de servadora, pragmática e crítica), mento individual, que é suscitada pedagógicos, éticos, políticos e
apreciação estética e espiritual; a cuja essência pode ser resumida pelas informações, normas e leis ideológicos) necessários para a
sua principal preocupação pren- nos seguintes termos: 1) educa- que são apresentadas como so- consolidação de um mundo ver-
de-se com a proteção da natureza ção ambiental conservadora, re- luções acabadas; embora exista dadeiramente sustentável.
perante o desenvolvimento in- monta a sua origem nas práticas um discurso de cidadania em que É interessante notar, que ape-
dustrial e urbano. O preservacio- ambientalistas que partem de um as questões sociais são apresen- sar da existência de uma diversi-
nismo defende a ideia segundo a ideário romântico, inspirador do tadas como parte do debate am- dade teórica refletindo distintos
qual, o ser humano, assim como movimento preservacionista do biental, os conflitos decorrentes posicionamentos político-ideoló-
tudo o que existe na natureza final do século XIX, no qual os dessa relação são apresentadas gicos em torno da temática am-
(animais, vegetais, rochas, água, vínculos afetivos proporcionados em forma de um falso consenso; biental, a educação é sempre vis-
ar, etc) constituem uma única co- pela experiência de integração 3) A educação ambiental crítica, ta como um meio imprescindível
munidade e, ao homem não lhe da natureza trariam bem-estar e cujo suporte radica na perspeti- na busca de soluções (mudança
assistem direitos superiores em equilíbrio emocional, bem como va da educação crítica e no am- de atitudes e comportamentos)
bientalismo ideológico; privilegia que reduzem os impactos negati-
a dimensão política da questão vos ao meio ambiente, cujos efei-
3A ideia de parque como área selvagem desabitada era necessária não só para conservar a ambiental, questiona o modelo tos se repercutem nas diferentes
beleza estética, mas, também, para desanuviar as pressões psicológicas dos habitantes dos
económico vigente e advoga a formas de vida, particularmente
centros urbanos, onde o ser humano poderia contemplar as belezas da natureza pura.

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nos países em desenvolvimen- a complexidade das realidades rentes em educação ambiental que se resumem na tabela abaixo.
to. No entanto, cabe reconhecer socio-ecológicas” (tradução do
que a contribuição da educação autor). A autora apresenta um Quadro 1. Correntes em educação ambiental (Adaptado de Sauvé, 2003)
ambiental nestes países é por ve- quadro conceptual mais comple-
zes carregada de modismos que xo em que o meio ambiente é des-
reduzem as suas possibilidades crito como
de uma verdadeira agência de
transformação social. Na realida- […] «Natureza» que compreende
os parques nacionais e as zonas
de, são múltiplas as dimensões protegidas; o meio ambiente «re-
do ideário ambientalista que po- curso» própria das estratégias de
dem ser inseridas na grelha das conservação, que encontram eco
na linguagem mais recente do
propostas da educação ambien- desenvolvimento sustentável; o
tal para que esta possa interferir meio ambiente «problema» que
profundamente na construção de não cessa de tocar alarme, desde
novos modelos de interpretação a primavera silenciosa ao desge-
lo dos glaciares; o meio ambiente
do mundo. Uma das propostas se- «sistema» objeto da ciência eco-
ria a opção por temas controver- lógica e da perspetiva eco-sisté-
sos como, por exemplo, os confli- mica; o meio ambiente «territó-
rio» dos povos indígenas; o meio
tos sociais derivados da injustiça ambiente como «meio de vida»
distributiva e suas implicações na dos habitantes rurais e urbanos;
degradação ambiental nos espa- o meio ambiente «biosfera» da
mundialização e também da soli-
ços rurais e urbanos, que no fun- dariedade global; o meio ambien-
do são responsáveis pelo agrava- te como «projeto comunitário»
mento dos níveis de pobreza que que convoca ao compromisso
coletivo para a reconstrução do
esses países ostentam. mundo (SAUVÉ, 2010:7) (tradu-
Retornando ao assunto em ção do autor). A diversidade de correntes am- y posturas teóricas y metodológi-
análise, e tal como já foi referen- bientalistas reflete as intenciona- cas. Há arropado numerosos dis-
ciado, existe uma diversidade de cursos, desde sus vínculos com la
Esta diversidade de concep- lidades e as diferentes opções po- enseñanza de la ecologia (como
autores, cujas obras oferecem um ções influi de modo mais fecundo litico-pedagógicas e ideológicas una rama de las ciências natu-
panorama mais abrangente de na construção de correntes teó- dos intervenientes do processo rales) y la educación para conser-
concepções que concorrem para vación, hasta los enfoques com
ricas e práticas da educação am- de construção do pensamento fuertes cargas en la dimensión
a construção social de saberes biental, pois, ilustra quão é rico ambientalista. Este entendimen- cívica, en la formación ciudada-
que conformam o pensamento este campo que coloca em evidên- to alinha com (GAUDIANO, 2008) na, la educación moral y ética, la
ambientalista contemporâneo. dimensión política, desde el aná-
cia os laços entre o saber e a ação que afirma: lisis crítico de la globalización,
De entre esses, destaque-se (SAU- que se construem reciprocamen- la inequidad social y la relación
VÉ, 2010:7), para quem “ (…) a te. Para tanto, e com o intuito de Desde su legitimación como norte-sur, así como la dimensión
ideia de meio ambiente se amplia campo pedagógico, la educación rural, por citar algunas muy re-
demonstrar a consistência dessa ambiental se há encontrado en presentativas (GAUDIANO, 2008
para um espectro de significações reciprocidade (SAUVÉ, 2010:8-9) un pemanente antagonismo, o al em SAUVÉ, 2010:7).
que permitem apreender melhor apresenta uma proposta de cor- menos divergência, de enfoques

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José Capitango A Educação Ambiental na comunidade rural de Ekovongo-Bié/Angola

Quadro 1. Correntes em educação ambiental (Adaptado de Sauvé, 2003) Quadro 1. Correntes em educação ambiental (Adaptado de Sauvé, 2003)
(cont.) (cont.)

Ora, a educação ambiental é numa dada sociedade e aos con-


uma prática eminentemente po- flitos de interesse que se produ-
litica e está condicionada ao con- zem na dinâmica das relações
texto social e político em que se entre grupos sociais (dominan- aportes, que pueden ser aprove- fende e como afetam as relações
inserem os seus atores, isto é à tes e dominados). Não obstante, chados según el contexto de la ac- entre os diferentes grupos que
forma como os indivíduos se or- a diversidade de correntes pode ción educativa, según el objeto de
aprendizaje y el objetivo buscado. compõem a sociedade? Estas e
ganizam e se relacionam do pon- constituir-se em riqueza deste Cada cual ofrece possibilidades y outras perguntas devem ser fei-
to de vista económico, social, cul- campo, porquanto pressupõe a comporta también sus limites. En tas pelos atores da educação am-
tural, religioso e espiritual, assim coexistência de diferentes pers- la diversidade de proposiciones
se despliega la riqueza del campo biental, para orientar as opções
como ao tipo de valores estéticos, petivas epistemológicas e pe- teóricas e práticas, consistentes
(SAUVÉ, 2010:10).
éticos e morais defendidos e pra- dagógicas. Como bem assinala com o imperativo da transforma-
ticados numa dada sociedade. E, (SAUVÉ, 2010), ção das mentalidades que presi-
Assim, as dimensões (politi-
deste ponto de vista, a educação dem as relações na própria socie-
(…) al igual que el campo de la co-pedagógica e ideológica) da
ambiental está impregnada de dade.
educación cientifica, el de la edu- educação ambiental colocam
tensões ideológicas existentes, cación ambiental se despliega en enormes desafios diante de seus
tanto no ambientalismo, como diversas corrientes (diversas ma- 1.2. A sustentabilidade como
neras de concebir y de praticar atores, pois a sua ação não deve
na própria educação em si; logo, paradigma do pensamento am-
la acción educativa). Cada cual prescindir de questionamentos
a educação ambiental está expos- adopta una postura epistemoló- bientalista contemporâneo
sobre: quais as concepções de
ta às relações de poder vigentes gica particular. Cada cual hace sus A sustentabilidade pode ser
mundo e de homem a mesma de-

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José Capitango A Educação Ambiental na comunidade rural de Ekovongo-Bié/Angola

entendida como a habilidade cial, o humano, o ético e moral, o RO, 2012 em MATTA e SCHMIDT, fontes de energia limpa e renová-
de sustentar algo; é uma condi- étnico e religioso, exigindo desta 2014:110). vel (eólica, solar, geotérmica e hi-
ção que permite a manutenção e feita, o entendimento de desen- dráulica) para reduzir o consumo
permanência de um ente, obje- volvimento para além do modelo O paradigma da sustentabili- de combustíveis fósseis e a polui-
to, processo, etc, por um tempo racional de industrialização. Na dade ocupa nos dias de hoje um ção do ar; criação de atitudes pes-
indeterminado. A aplicação do mesma linha, (BELCHIOR e VIA- espaço privilegiado no discurso soais e empresariais orientadas
paradigma da sustentabilidade NA, 2016) afirmam, ambientalista, social, económi- para a reciclagem de resíduos só-
no pensamento ambientalista co, cultural e até tecnológico; lidos, para reduzir a quantidade
torna-a em uma capacidade dos Ao longo dos anos, termos como mas, é sobretudo a sua dimensão de lixo no solo que absorve dele
desenvolvimento sustentável e ambientalista, conservacionista
seres humanos em interagir com sustentabilidade têm sido utiliza- os minerais; criação de atitudes
a natureza preservando o meio dos, porém, sem muita compre- e preservacionista que o torna de consumo controlado de água
ambiente. Este princípio difun- ensão do que realmente signifi- mais vinculado à ideia de melho- e adoção de medidas que evitem
cam. Devido à multiplicidade das rar a relação entre o ser huma-
diu-se rapidamente tornando-se situações do cotidiano e dos im- a poluição dos recursos hídricos.
uma regra geral, embora persis- pactos ambientais vivenciados,
no e a natureza. Mesmo assim, o Entretanto, apesar de haver
tam diferentes pontos de vista na tais termos são constantemente paradigma da sustentabilidade uma certa convergência entre os
sua apropriação e significado que associados a novos paradigmas, encontra-se em um estado em- diferentes matizes sobre a neces-
novas formas de exploração dos brionário, necessitando ainda
lhe é atribuído, quando se analisa recursos naturais, novos investi- sidade de adoção de uma cultura
o seu papel nos processos de de- mentos, novas tecnologias e va- de subsídios que contribuam à de sustentabilidade, este paradig-
senvolvimento. Assim, para (MO- lores institucionais em harmonia reconsideração da diferenciação ma encerra nuanças que alimen-
com as necessidades das atuais entre o ser humano e os demais
RIN, 2008b; OLIVEIRA, 2006), e futuras gerações (BELCHIOR e tam receios sobre a possibilida-
VIANA, 2016: 73-74). seres da natureza introduzida de de o mesmo não se tornar em
A concepção de sustentabilidade pela modernização. realidade, porquanto, ainda pesa
do desenvolvimento não signifi- Neste particular, recorremos
ca um ajuste no modelo racional Deste ponto vista, conceituar sobre ele a influência da ética an-
de desenvolvimento atual, já que, a sustentabilidade torna-se cada às assertivas de (LEITE, 2013), tropocêntrica, que considera o
no cerne da ideia de sustentabi- vez mais complexo, pois o termo segundo as quais, à sustentabili- homem como sujeito de todas as
lidade está o princípio de soli- dade estão associados conceitos
dariedade, o qual se antagoniza encerra um conjunto de variáveis coisas – o rei que domina todo o
com o princípio de maximização interdependentes, abrangendo correlacionados ao termo, como a universo. A este respeito, (FER-
do ganho, de viés individualis- questões de cunho ambiental, exploração dos recursos vegetais REIRA e BOFIM, 2010), conside-
ta e competitivo, característico económico e social, além de pos- (florestas) de forma controlada, ram
do modelo de desenvolvimento garantindo o replantio sempre
capitalista (MORIN, 2008b; OLI- suir outros significados. Para
VEIRA, 2006 citados por SILVA e (LOUREIRO, 2012), que necessário; a preservação O atual discurso em torno da sus-
SILVA, 2012:4). total de áreas verdes não desti- tentabilidade ainda é centrado
numa perspetiva antropocêntri-
O conceito de sustentabilidade é nadas a exploração económica; ca, conforme observamos em co-
As autoras destacam em suas instigante, complexo e desafia- ações que visem o incentivo a mum nas diversas falas: precisa-
dor, pois abre múltiplas possi- mos conservar o planeta para as
análises o pensamento de Morin bilidades de desdobramento do produção e consumo de alimen-
que considera a dimensão com- tos orgânicos por serem benéfi- próximas gerações; os que virão
termo, assim como possibilita um depois de nós merecem um pla-
plexa da crise da sustentabilida- leque de relações, já que vem das cos à saúde humana; exploração neta habitável… Esta assertiva
de, pois envolve aspetos inter- Ciências Biológicas e enraíza-se de recursos minerais (petróleo, denota uma visão utilitária das
na política e na economia, permi- formas de conceção da vida pla-
dependentes e interpenetrantes tindo diferentes formas de em- carvão, minérios) de forma con-
netária, por focar mais no debate
como o ecológico, o político, o so- prego da nomenclatura (LOUREI- trolada e racionalizada; o uso de

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José Capitango A Educação Ambiental na comunidade rural de Ekovongo-Bié/Angola

de ordem política do que propria- sobre o conceito de sustentabili-


mente na elaboração de ações e adoção de uma cultura de sus- uma verdadeira cultura de sus-
dade, que na opinião de (CAPRA,
de cunho social, participativo e tentabilidade. tentabilidade. Em suma, somen-
planetário (FERREIRA e BOFIM,
1997),
Ora, o paradigma da sustenta- te com a tomada de consciência
2010:38). É uma função complexa, que re- bilidade deve ser entendido como para a adoção de uma cultura de
laciona cinco variáveis de estado: uma obra em construção per- sustentabilidade se poderá con-
O paradigma da sustentabi- interdependência, reciclagem, manente que necessita de uma tribuir efetivamente na preser-
lidade tende a subordinar-se às parceria, flexibilidade e diversi-
dade, não se detendo apenas ao conscientização das nações para vação e manutenção das diversas
ambições incomensuráveis deste tipo de interação humana com o a mudança de atitudes na relação formas de vida no planeta e asse-
mesmo homem predador, arqui- mundo que preserva ou conserva com a natureza, nos modos de se gurar que as futuras gerações ve-
teto da ordem vigente no plane- o meio ambiente para não com- relacionarem entre si e nos mo- nham usufruir dos recursos natu-
prometer os recursos naturais
ta, consubstanciadas no capital e das gerações futuras (KAPRA, dos de realizar as ações com vista rais de que a humanidade se tem
na busca a todo o custo do lucro, 1997 em FERREIRA e BOFIM, ao desenvolvimento, que devem, beneficiado nos dias de hoje.
para engrandecimento pesso- 2010:43). acima de tudo privilegiar a vida
al, ainda que para tal tenha que e o bem-estar de todos. A sua 1.3. A sustentabilidade am-
exterminar a própria natureza Em primeiro lugar, todas as conceção deve orientar-se por biental em Angola
e a si próprio. A atual crise pla- pessoas que vivem neste plane- uma racionalidade que conside- Tal como referenciado no pri-
netária dá sentido às afirmações ta devem perceber que vivemos re os aspetos ambientais, sociais, meiro apartado, os últimos 40
de (BOFF, 2009), pronunciadas uma situação de crise planetá- económicos, culturais e espiritu- anos foram marcados por gran-
na palestra que ele proferiu em ria e que alguns dos problemas ais, etc., que estão interrelacio- des eventos internacionais (con-
2009 no Fórum Social Mundial decorrentes dos desequilíbrios nados e circunscrevem a cadeia ferências, seminários, tratados e
segundo as quais, provocados aos ecossistemas são das necessidades humanas, pois, convenções) consagrados à pro-
irreversíveis. Em segundo lugar, concorrem para o equilíbrio e blemática ambiental, o que indi-
O sistema atual, regido pelo ca- problemas como o aquecimen- harmonia da própria existência. cia um certo comprometimento
pital e pelas leis do mercado, que
em sua natureza, é voraz, acumu- to global, as irregularidades do Infelizmente, e devido a predomi- com a salvaguarda da vida e a
lador, depredador do meio am- ciclo pluviométrico, a perda da nância da visão economicista de necessidade de políticas, estra-
biente, criador de desigualdade biodiversidade com a extinção sustentabilidade impregnada de tégias e programas educacionais
e sem sentido de solidariedade,
atesta a sua falência (…); o siste- das espécies animais e vegetais, lógicas e critérios de capital, mer- que contribuam para a constru-
ma vigente que tem como pilar a infertilidade do solo, a polui- cado, renda, lucro e consumo, as- ção de sociedades sustentáveis.
um individualismo avassalador ção do ar, a redução de recursos siste-se ainda no seio das nações Como é óbvio, Angola não po-
demonstrou-se incapaz de asse- naturais essenciais ao consumo
gurar o bem-estar da humanida- atitudes de indiferença e cinismo, deria estar à margem dos proble-
de (BOFF,2009 em FERREIRA e (água, espécies vegetais, etc.), o que torna difícil a implementa- mas que atravessam o mundo,
BOFIM, 2010:41). afetam a todos sem exceção. Des- ção das agendas adotadas, quer nomeadamente a problemática
te modo, e partindo da tomada de no plano interno, quer no plano ambiental. Ainda assim, cabe su-
Em contrapartida, os autores consciência da necessidade dos internacional. É partindo desta blinhar que a Constituição an-
advogam a necessidade de uma equilíbrios, da interdependência leitura e análise que ganha corpo golana adotada por altura da
convivência com paradigmas con- de todos os seres da natureza, da o imperativo de uma agenda con- Independência do país em 1975
trários, salientando que somente finitude dos seres e da vida, não certada de educação ambiental não contemplava alguma norma
deste modo se abre a possibili- vislumbra qualquer solução má- generalizada, que a curto e médio de proteção ambiental, tendo-se
dade de uma leitura mais ampla gica, senão a mudança de atitude prazo conduza a humanidade a centralizado na visão economi-

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José Capitango A Educação Ambiental na comunidade rural de Ekovongo-Bié/Angola

cista e utilitarista sobre os bens o Regime da Responsabilidade fosfatos, cobre, feldspatos, ouro, espaços urbanos tem acelerado
naturais, que por via dos artigos por Danos Ambientais. Além des- bauxite, urânio, zinco, chumbo, a desflorestação massiva, em de-
8º e 11º se acomete ao estado a tes instrumentos, a Constituição volfrâmio, manganês e estanho); corrência da exploração indiscri-
sua titularidade e a sua gestão Atípica de 2010, por via do arti- de recursos hídricos (bacias hi- minada de árvores para a produ-
de forma a criar riqueza em be- go 219º, acomete ao estado e aos drográficas dos rios zaire, zam- ção de carvão vegetal (principal
nefício de todo o povo angolano. municípios a tarefa de proteger o benze, kwanza, kubango, kuando fonte de energia para a maioria
Este quadro somente se alteraria ambiente e os recursos naturais. e kunene); biodiversidade em da população), forçando des-
com a revisão constitucional de Com efeito, essa intensa produ- fauna (275 espécies de grandes te modo a migração da fauna de
1992, que por via do artigo 24º ção de legislação sobre o ambien- mamíferos, 26 espécies de antílo- seus habitats, retirando do solo
consagra a proteção do ambien- te não surge ao acaso; ela confor- pes, 915 espécies de aves, 15 es- a faculdade de regeneração na-
te, naquilo que veio significar o ma a imperiosa necessidade de pécies de morcegos e 19 espécies tural e destruindo sumidouros
despontar de um novo posiciona- um quadro jurídico-legal capaz de anfíbios); em flora (8000 es- de dióxido de carbono. Por ou-
mento do estado angolano dian- de estabelecer uma normalidade pécies de plantas, florestas den- tro, e como bem revela (GOMES,
te da problemática ambiental. institucional e dar soluções equi- sas semprevirentes, savanas de 2012:2-3), “(…) cerca de 2/3 da
Essa disposição viu-se reforçada libradas à dimensão dos proble- capim alto, savanas de xerófitos, população rural e urbana vive
com a aprovação da Lei Nº 5/98 mas ambientais que a sociedade miombos, prados, estepes, vege- abaixo do limiar da pobreza, com
de 19 de Junho, Lei de Bases do angolana enfrenta atualmente. O tação ribeirinha e mangais) com um rendimento anual de 80 dó-
Ambiente4, que inspirou a produ- mito da bênção e maldição das grande incidência de espécies lares, não dispõe de água potável
ção de importantes instrumentos riquezas naturais, a falta de infor- medicinais (mais de 200 espé- e não tem acesso, nem a serviços
jurídicos, dos quais se destacam: mação atualizada sobre as poten- cies) que são bastante utilizadas de saúde, nem a educação, nem a
o Decreto Nº 51/2004, de 23 de cialidades económicas do país, a na cura de enfermidades pelas transportes”.
Julho sobre o Regime da Avalia- insuficiente capacidade institu- populações rurais. No entanto, A sustentabilidade ambiental
ção de Impacto Ambiental; a Lei cional e o baixo nível de respon- há indícios preocupantes sobre em Angola é crítica, não somen-
Nº 6-A/2004 de 8 de Outubro, Lei sabilidade ambiental da maioria a perda acentuada de fauna, com te pelos aspetos acima descri-
dos Recursos Biológicos Aquáti- da população, sobretudo daquela 175 espécies na lista vermelha da tos, mas também pelos níveis de
cos; a Lei Nº 10/2004, de 12 de que reside em espaços urbanos União Internacional para a Con- desflorestação e a consequente
Novembro sobre o Regime das constituem um enorme desafio servação da Natureza; outras em degradação dos solos, a polui-
Atividades Petrolíferas; o Decre- ao enfrentamento da problemáti- risco de extinção como a palan- ção nos centros urbanos com o
to Nº 59/2007, de 13 de Julho ca ambiental. ca negra gigante, o rinoceronte monóxido de carbono produzido
sobre o Regime da Licença Am- Segundo (GOMES, 2013:33) negro, o chimpanzé e o gorila; e por veículos automóveis, poeiras,
biental e o Decreto Presidencial Angola dispõe de recursos geoló- ainda outras espécies como a ze- acumulação de resíduos sólidos
Nº 194/2011, de 7 de Julho sobre gicos (petróleo, diamantes, ferro, bra de montanha e de planície, a à céu aberto e ainda a contami-
girafa, o ónix que são considera- nação no mar com a exploração
das como extintas em zonas onde petrolífera (derrame nos oleodu-
existiam com abundância. tos) e nos rios com a lavagem de
4Segundo (GOMES, 2012:10) A Lei de Bases do Ambiente (LBA) consagra quatro tipos de Além disso, constata-se, por minérios em que se utilizam pro-
instrumentos de proteção do ambiente: formativos (educação ambiental); preventivos (áreas
de proteção ambiental, avaliação de impacto ambiental, licença ambiental); repressivos
um lado, que o êxodo das popu- dutos químicos.
(auditorias, contravenções e crimes ambientais); e reparatórios (responsabilidade civil e lações rurais para as cidades e No concernente a degradação
seguro ambiental). o consequente alargamento dos dos solos, além de fatores climá-

112 ambientalMENTEsustentable, 2017, número especial ambientalMENTEsustentable, 2017, número especial 113
José Capitango A Educação Ambiental na comunidade rural de Ekovongo-Bié/Angola

ticos (chuva e vento), a pressão uma situação que interpela o po- acelerada do meio ambiente cau- 2.1. Metodologia
humana sobre os recursos flo- der político, as instituições (pú- sada principalmente pela explo- Para a efetivação do estudo op-
restais no litoral e nas províncias blicas e privadas), a sociedade ração desregrada de florestas, tou-se pela etnografia por ser o
do interior, particularmente (Bié, civil e a população em geral para levada a cabo pelos produtores modelo que leva a descoberta de
Huambo, Huila e Malanje), com uma nova postura face à proble- de carvão vegetal para a sua co- construções culturais de um gru-
as queimadas e a desflorestação mática ambiental em todas as mercialização na cidade. Os efei- po ou dos membros de uma comu-
para fins energéticos (produção suas dimensões e complexidade. tos da degradação ambiental se nidade, que o investigador trata
de lenha e carvão vegetal), bem É com base a este emaranhado de repercutem no empobrecimento de descreve-los e interpreta-los
como para fins agrícolas, cons- problemas que se julga necessá- dos solos, e, por conseguinte na para atribuir-lhes significados;
tituem a principal ameaça origi- ria e imperiosa a adoção de polí- baixa produtividade agrícola. o investigador deve permanecer
nada pelos assentamentos hu- ticas e estratégias multissetoriais Como parte de um estudo re- durante um certo período de tem-
manos, que na maioria dos casos e multidisciplinares de educa- alizado em uma comunidade ru- po no local onde se produzem ce-
não têm sido acompanhados de ção ambiental, com vista a cons- ral, no âmbito da tese doutoral nários que constituem objeto de
planos de ordenamento e desen- trução de fundamentos de uma em andamento sobre: Educação estudo e manter uma interação
volvimento sustentáveis. A este cultura de sustentabilidade am- e Desenvolvimento nas Comuni- constante com os participantes
respeito, o Relatório/2006 sobre biental propiciada por processos dades Ovimbundu de Angola: Es- neles envolvidos. Em obediência
o Estado Geral do Ambiente em educativos capazes de produzir tudo Etnográfico da Comunidade a este princípio, o investigador
Angola refere, uma mudança de mentalidades, de Ombala Ekovongo, o presente inseriu-se na comunidade onde
instaurar uma ética ecológica e artigo objetiva, por um lado, ana- permaneceu vários meses, du-
Os solos em Angola sofrem em imponderar as pessoas para o en- lisar a problemática ambiental rante os quais realizou a obser-
mais de 50% processos constan-
tes ou periódicos de erosão pro- frentamento dos desafios da con- em seus aspetos mais comuns, vação participante, vinte e qua-
vocados pelas chuvas, pelos ven- temporaneidade. incluindo uma breve reflexão so- tro entrevistas em profundidade,
tos, e em geral, pela sua exposição bre a sustentabilidade ambiental semiestruturadas (individuais e
aos fatores climáticos. Fatores
antrópicos como a desarboriza- II. A educação ambiental na co- em Angola; por outro, identificar grupais); as mesmas incluíram
ção, o cultivo contínuo sem res- munidade rural de Ekovongo os problemas ambientais que a questões abertas, semi-abertas e
tauração dos nutrientes vegetais Ekovongo é uma comunidade comunidade enfrenta atualmen- fechadas, dirigidas aos informan-
ou sem fertilização, as queima- rural, cuja população constrói as te, assim como os saberes tradi- tes-chave selecionados para o
das demasiado frequentes, com
a consequente exposição do solo suas vivências numa estreita rela- cionais que orientam a relação efeito, aos agentes externos5, aos
à chuva e ao vento, são fenóme- ção com a terra e demais elemen- entre humanos e outros seres da técnicos e aos especialistas em
nos que se verificam um pouco tos que habitam a natureza. Essa natureza, enquanto fatores de de- assuntos de desenvolvimento das
por todo o país e que contribuem
também para a degradação dos relação engloba as dimensões senvolvimento, que na essência comunidades rurais. Para cruzar
solos (MINUA, 2006:167). (socioeconómica, cultural, reli- conformam as representações os dados da observação partici-
giosa e espiritual) que se influen- sociais dos habitantes de Ekovon- pante e as informações recolhi-
A exclusão social e a pobre- ciam mutuamente numa perfeita go em torno da problemática am- das através das entrevistas em
za são outras variáveis que con- relação dialética. A terra é a base biental. profundidade, organizou-se dois
tribuem ao quadro sombrio da da própria existência que provi-
sustentabilidade ambiental em dencia os meios de subsistência.
Angola, e, a ameaça à vida está Nas últimas décadas, Ekovongo 5Agentes externos são funcionários que exercem atividades na comunidade por períodos
presente em todos os biomas, tem registado uma degradação prolongados (residentes e não-residentes).

114 ambientalMENTEsustentable, 2017, número especial ambientalMENTEsustentable, 2017, número especial 115
José Capitango A Educação Ambiental na comunidade rural de Ekovongo-Bié/Angola

grupos de discussão: o primeiro entre humanos e outros seres da lizar. abundante, o solo tinha muita
grupo foi constituído por jovens natureza, que podem ser inte- Enquanto isso, (…) se um indivi- força porque acumulava muitos
de ambos os sexos, com idades grados nos currículos e nos pro- duo pretender construir uma casa nutrientes; agora, devido a fraca
compreendidas entre 18 e 30 gramas de educação ambiental, num determinado lugar e passan- frequência das chuvas, as florestas
anos; o segundo foi constituído não só das escolas formais como do alguns dias encontrar ali aque- não têm crescido em ritmo dese-
por adultos de ambos sexos com também daquela educação que se las formigas bravas (vermelhas) é jável e o solo está empobrecendo
idades compreendidas entre os realiza em contextos informais. sinal de que será perseguido; logo, cada vez mais, o que pressupõe di-
35 e 55 anos. Ambos debateram Neste particular, os informantes- não convém insistir em construir zer que alguns fenómenos da na-
temas sobre educação, pobreza e -chave responderam: naquele lugar. (Sapwile) tureza condicionam o processo de
desenvolvimento, cujas aborda- Os seres humanos se relacio- Quanto à segunda questão re- desenvolvimento. (Pessela)
gens se estenderam aos aspetos nam principalmente com as plan- lativa aos problemas ambientais Existem plantas e árvores como
estreitamente relacionados com tas; são elas que purificam o ar que que a comunidade enfrenta nos a Elembwi7 e a Ulemba que na tra-
a problemática ambiental. Nesta respiramos. As pessoas e as plan- dias de hoje, os informantes-cha- dição umbundu são sagradas; a
senda, e no intuito de identifi- tas se relacionam mutuamente: as ve responderam: Elembwi é vulgarmente utilizada
car os saberes tradicionais que pessoas possuem sangue no corpo Pessoalmente, não gostaria que para neutralizar a ação de espíri-
orientam a relação entre os habi- e as plantas possuem a seiva. Am- alguém ateasse fogo nas minhas tos malignos. A Ulemba simboliza
tantes de Ekovongo e outros seres bos são semelhantes; por isso, é parcelas de terra; ao cultivar, eu a ancestralidade e a perenidade do
da natureza, os informantes-cha- que, sempre que a pessoa adoece viro esse mesmo capim para o poder real. Existem também ani-
ve, participantes das entrevistas se socorre das plantas para curar fundo da terra, e, desta maneira, mais e aves que são sagradas; por
foram solicitados a responder as a doença. Também, são as plantas fabrico fertilizantes de forma na- exemplo, as aves como Onduva8 ou
seguintes questões: que emitem o vapor para formar a tural. (…) A prática de fabricar Anduva e Pumumo ou Epumumu9
-Que relações os seres huma- chuva. (Sapwile)6 carvão para o consumo doméstico são sagradas, porque simbolizam
nos estabelecem com outros se- Além disso, existem pequenos e para a comercialização intensifi- o poder real. A sua presença vo-
res da natureza? animais que emitem sinais aos se- cou-se com a guerra, que provocou luntaria na comunidade ou na sua
-Que problemas ambientais a res humanos; por exemplo, se um a imigração em massa de pessoas periferia simboliza a legitimidade
comunidade enfrenta nos dias de caranguejo vivo se desloca até a das aldeias, que se aglutinaram do poder ali instituído. Qualquer
hoje? casa de alguém, assim como o cá- aqui na nossa área e destruiu as tentativa de violência contra essas
gado – isto é um milagre; mas, se nossas florestas. Nós não podía- aves é considerada como atentado
2.2. Resultados o individuo se deslocar a floresta mos proibir, uma vez que, eles fa- ao poder real e acarreta consequ-
Assim, relativamente à primei- e encontrar ali um cágado vivo é bricavam carvão vegetal para a ência devastadoras ao prevarica-
ra questão, as representações so- sinal de que, os anjos da guarda sobrevivência. (Epalanga) dor. (Grupo de adultos)
ciais apontam para a existência e protetores da lareira familiar, Antes, quando a chuva era Ora estes mitos são transmiti-
de mitos na cultura tradicional que são os seus antepassados es-
dos ovimbundu, que traduzem tão com ele na caminhada e terá
as relações afetivas e educativas sucesso naquilo que pretende rea- 7A Elembwi e a Ulemba, além de serem sagradas, também são utilizadas como medicamentos

para a cura de enfermidades.


8A Onduva ainda permanece na comunidade mesmo nos dias de hoje.
6Os nomes aqui mencionados são fictícios, pois, visam salvaguardar a verdadeira identidade
9O Epumumu afastou-se para uma área longínqua devido a violência da guerra e a
dos informantes-chave.
desflorestação.

116 ambientalMENTEsustentable, 2017, número especial ambientalMENTEsustentable, 2017, número especial 117
José Capitango A Educação Ambiental na comunidade rural de Ekovongo-Bié/Angola

dos às crianças desde a tenra ida- esta última não deve, porém, ser (2015): A educação ambiental biente-pais, 83001e5a-e861-42e-
de, e, durante séculos permitiram considerada como uma institui- diante da problemática socio- 6-aed-4b7e9ffdffa9. Html
a conservação destas espécies. ção totalmente conservadora e ambiental na ideologia capita- RAYNAUT, Claude; ZANONI,
Como se pode observar, as afir- retrógrada, que não se abre a lista, “em”, Revista monogra- Magda, (1993): La construc-
mações e os mitos acima mencio- mudanças. Antes, pelo contrário, fias Ambientais (REMOA), nº tion de l’interdisciplinari-
nados traduzem as relações afeti- é uma instituição normativa e 1, pp. 106-114 té et formation integrée de
vas e educativas entre humanos funcional capaz de integrar novas MATTA, Carolina Rodrigues da; l’environnement et du de-
e outros seres da natureza; além ideias e produzir transformações. SCHMITD, Elizabeth Brandão, veloppement. Paris: UNES-
disso, estão impregnados de um Mas, ainda assim, se faz neces- (2014): O paradigma da susten- CO (document prepare pour
sentido educativo orientado para sária uma ação educativa mais tabilidade: o que pensam pes- la réunion sur les modalités
a preservação de algumas espé- abrangente, multidimensional e quisadores em educação am- de travail de Chaires UNES-
cies animais e vegetais atribuin- multidisciplinar orientada a pro- biental sobre as sociedades CO du developpement durab-
do-lhes uma dimensão divina, duzir mudanças de mentalidades sustentáveis?, “em”, Conjectura le, Curitiba, 1-4 Juillet. www.
que na essência, não visam ou- e construir uma verdadeira cultu- Filos. Educ., nº 2, pp. 108-119 unesdoc.unesco.org/ima-
tros objetivos, senão a sua con- ra de sustentabilidade ambiental, MORALES, Angélica Gois Mul- ges/0009/000967/096732fb.
servação, bem como a proteção não só ao nível comunitário, mas ler, (2009): Processo de ins- pdf
da vida humana. A inquietação também ao nível de toda a região. titucionalização da Educação SANTOS, Elizabeth da Conceição,
dos habitantes de Ekovongo dian- ambiental: tendências, corren- (2000): Educação ambiental
te das alterações climáticas, da Bibliografia tes e concepções, “em”, Pes- e ensino de Ciências: A trans-
destruição das florestas, quer por Revistas quisa em Educação ambien- versalidade e a mudança de pa-
fenómenos naturais, quer pela BELCHIOR, Germana Parente Nei- tal, nº 1, pp. 159-175 radigma. VII Encontro Nacional
ação antrópica, e a consequente va; VIANA, Isna Chaves, (2016): SILVA, Rosana Louro Ferreira da; de pesquisa em educação em
degradação dos solos, revela bem Sustentabilidade e meio am- CAMPINA, Nilva Nunes, (2011): ciências (Enpec). Brasil. Floria-
a importância que eles atribuem biente: reflexões sob o olhar Concepções de educação am- nápolis. http://www.posgrad.
à natureza e ao meio ambiente, da complexidade, “em”, AREL biental na mídia e em práticas fae.ufmg.br/posgrad/viienpec/
enquanto fatores de desenvolvi- FAAR, Ariquemes, RO nº 1, Vol. 4, escolares: contribuições de uma pdf/736.pdf
mento. pp. 72-99. tipologia”, “em”, Pesquisa em SAUVÉ, Lucie, (2010): Educa-
FERREIRA, Fabíola; BOMFIM, educação ambiental, nº 1, vol. 6, ción cientifica y educación
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Diferentemente da educação Sustentabilidade ambiental: do.Canada. Montreal. https://
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derna, ancorada na racionalidade cêntrica?, “em”, ambiental- MINUA, (2006): Relatório do source/view.php?id=1392478
positivista, na crença ao progres- MENTEsustentable, ano v, nº estado geral do ambiente em SILVA, Edcleide Maria da; SILVA,
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tural identitário e na tradição; LANA, Zilda Maria de oliveira, do-relatorio-estado-geral-am- al Brasileiro de Administração.

118 ambientalMENTEsustentable, 2017, número especial ambientalMENTEsustentable, 2017, número especial 119
José Capitango A Educação Ambiental na comunidade rural de Ekovongo-Bié/Angola

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120 ambientalMENTEsustentable, 2017, número especial ambientalMENTEsustentable, 2017, número especial 121
Parque Nacional Obô: Conhecimento e perceções acerca da sua
importância em alunos de S. Tomé

António Almeida1
Sandra Ribeiro2
Helena Botelho3

Resumo
Em S. Tomé e Príncipe foi criado o Parque Nacional Obô em 2006 com a missão de
preservar a importante biodiversidade do território. O presente estudo procurou
verificar o conhecimento e perceções acerca do Parque de 112 alunos a frequentar
duas escolas no Distrito da Capital, 51 do 7.º ano e 61 do 11.º ano de escolaridade.
Para tal foi administrado um questionário que visava saber se os alunos já tinham
visitado o Parque; se sabiam as razões da sua criação; o tipo de atividades que nele
deviam ser ou não permitidas; as vantagens e desvantagens da sua existência; e
se já haviam sido beneficiados ou não pela sua existência. O teor das respostas foi
muito semelhante nos alunos de ambos os anos de escolaridade, tendo a maioria
afirmado nunca ter visitado o Parque e manifestado dificuldades em o localizar
geograficamente. Conseguiram, ainda assim, avançar com razões que estiveram na
base da sua criação, destacando mais vantagens do que desvantagens e afirmam
nunca ter sido prejudicados pela sua existência em termos pessoais ou familiares.
Globalmente, os inquiridos revelam um significativo desconhecimento do Parque
Nacional e a escola não parece ter ainda contribuído o suficiente para a sua divul-
gação e visitação.
Palavras-chave: Áreas protegidas, Parque Nacional Obô, Perceção e conhecimento
acerca do Parque, Ensino Básico e Secundário.

Abstract
In S. Tomé and Príncipe the National Park Obô was created in 2006 with the mis-
sion of preserving the important biodiversity of the territory. The present study
sought to test the knowledge and perceptions of the Park of 112 students atten-
ding two schools in the Capital District, 51 from the 7th year and 61 from the
11th year of schooling. To this end, a questionnaire was administered to determine
whether the students had already visited the Park; whether they knew the reasons
for its creation; the type of activities that should or should not be allowed in it; the
advantages and disadvantages of its existence; and if they had already benefited
from it or not. The content of the answers was very similar in the students of both
years of schooling, and most of them admitted to never having visited the Park and
showed difficulties in locating it geographically. However, they were able to state
several reasons to justify its creation, highlighting more advantages than disadvan-
tages and claiming that its existence was not negative in personal or family terms.
Overall, the respondents revealed a significant lack of knowledge of the National
Park and schools seems not to have done enough to promote knowledge and the
desire to visit.
Poconé, localizada no estado Keywords: Natural Protected areas, Obô National Park, Perception and knowledge
brasileiro de Mato Grosso. of the Park, Basic and Secondary Education.
Foto: Priscilla Amorim

ambientalMENTEsustentable, 2017, número especial 123


António Almeida; Sandra Ribeiro; Helena Botelho Parque Nacional Obô

Introdução parte da população rural utiliza uma área mais pequena para não de se proteger o parque do que as
Os parques e reservas natu- remédios provenientes de plan- pôr em causa a implementação populações que residiam na sua
rais têm vindo a ser criados nas tas que são fáceis e acessíveis de tanto de processos produtivos já periferia. Assim, parece que em
últimas décadas em praticamente colher (Albuquerque & Carvalho, em laboração como a criação de diferentes pontos do globo se as-
todos os países, seguindo quase 2015). novos sobre os quais já existem sinalam posições que vão desde a
sempre o modelo conservacionis- A fauna, embora menos rica projetos e que poderiam ver a sua oposição até à indiferença acerca
ta do mundo ocidental. S. Tomé que a de áreas semelhantes no viabilidade interditada se a refe- das áreas protegidas.
e Príncipe não foi exceção e em continente africano, prima, no rida delimitação incluísse uma Já no que se refere à criação
2006 surgiu o Parque Nacional entanto, pela enorme riqueza or- maior área (Almeida 2007). Ou- de áreas protegidas em países
Obô, com a missão de salvaguar- nitológica. E praticamente todos tras vezes, a procura de recursos em vias de desenvolvimento, os
dar a importante biodiversidade os mamíferos terrestres foram naturais tem também conduzido aspetos referidos anteriormen-
do arquipélago, tendo-se esta- introduzidos na ilha, com impac- à desativação de algumas áreas te podem igualmente verificar-
belecido vários objetivos, entre tos negativos nas espécies nativas protegidas (Borrini-Feyerabend, -se. Todavia, a importação de um
os quais se destacam: assegurar (Leventis & Olmos, 2009). 2002), para permitir a sua explo- modelo conservacionista do tipo
a proteção e a promoção dos va- Todavia, a delimitação de áre- ração sem obstáculos de teor ju- ocidental gera outros problemas
lores naturais, paisagísticos e as protegidas em várias partes do rídico. e é objeto de outras críticas. Na-
culturais; promover uma gestão mundo nem sempre tem sido pa- Nos países desenvolvidos têm ess (1989) lembra que a proteção
racional dos recursos naturais; cífica. Fruto de várias pressões, a surgido com alguma frequência dos grandes mamíferos em África
contribuir para disciplinar as delimitação das áreas protegidas resistências à sua criação, uma com a criação de parques nacio-
atividades agroflorestais, recrea- tem obedecido frequentemente a vez que setores diversos da so- nais ao estilo americano não teve
tivas e turísticas, promovendo o critérios económicos e políticos, ciedade os olham como um en- em conta as implicações sociopo-
turismo de natureza (Albuquer- e não ecológicos. Para preservar a trave ao que denominam de de- líticas desta proteção. Esqueceu
que & Carvalho, 2015). diversidade das espécies, e a sua senvolvimento. Em Portugal, por que, ao mesmo tempo que se pro-
O Parque inclui uma grande viabilidade genética, seria neces- exemplo, há relatos de popula- tegiam estas espécies, se contri-
variedade de biótopos, incluindo sário ter em conta critérios natu- ções de algumas aldeias que têm buía para o desaparecimento de
florestas húmidas de baixa altitu- rais de ocorrência e delimitar as mostrado resistência à sua inte- culturas onde a caça constituía
de, florestas de montanha e man- grandes unidades ecossistémicas gração em áreas protegidas por uma atividade integrante. Assim,
gais. A imensa biodiversidade de acordo com os mesmos, o que motivos que passam pela referida a sua criação nem sempre tem
da ilha tem reflexos na medicina nem sempre acontece. Opta-se perceção de que as mesmas são sido pacífica, dado forçar a sus-
tradicional, uma vez que grande quase sempre pela delimitação de um entrave ao desenvolvimento pensão de determinadas ativida-
(Almeida, 2002). Esta desvalori- des tradicionais, como a pasto-
zação pode ter diferentes graus rícia, a caça, o corte de árvores,
1Escola desde a oposição à indiferença. mesmo em populações que cau-
Superior de Educação de Lisboa; Centro Interdisciplinar de Estudos Educacionais,
da Escola Superior de Educação de Lisboa; Centro de Investigação "Didática e Tecnologia na Por exemplo, Szell & Hallett IV savam um reduzido impacto nas
Formação de Formadores", Universidade de Aveiro. (2013) desenvolveram um estudo áreas agora classificadas. Assim,
2Agrupamento de Escolas D. Carlos I- Sintra; Centro Interdisciplinar de Estudos Educacionais,
na Roménia acerca do Parque Na- em muitas partes da África ocor-
da Escola Superior de Educação de Lisboa; Centro de Estudos Interdisciplinares em Educação cional Retezat e concluíram que reu o afastamento das popula-
e Desenvolvimento, da Universidade Lusófona de Humanidades e Tecnologias.
3Direção
os turistas tinham atitudes mais ções indígenas dos seus recursos
Geral de Planeamento e Inovação Educativa; Gabinete de Execução do Programa
positivas acerca da importância e a deslocalização de populações
acelerar o Desempenho Educativo – PADE.

124 ambientalMENTEsustentable, 2017, número especial ambientalMENTEsustentable, 2017, número especial 125
António Almeida; Sandra Ribeiro; Helena Botelho Parque Nacional Obô

para fora das áreas delimitadas, dem da Natureza, não só através não conhecida pelos outros dois não ocorrer no seu interior;(iv)
na crença de que os nativos fa- da caça, mas igualmente da reco- investigadores, o que pode encer- Constatar se os próprios ou as
zem uma má gestão dos recursos, leção de lenha, frutos, sementes, rar vantagens e desvantagens. respetivas famílias tinham tido
centralizando a sua gestão e, con- etc. Além do mais, as atividades Este estudo teve as seguintes algum benefício ou prejuízo de-
sequentemente, todos os benefí- agropecuárias que desenvolvem finalidades: (i) verificar se os alu- corrente da criação do Parque;
cios (Barrow & Fabricus, 2002). conduzem à desflorestação com nos alguma vez tinham visitado As duas últimas finalidades
Neumann (1998) fala mesmo em consequente perda de biodiver- o Parque e, em caso afirmativo, procuravam verificar se existên-
situações de resistência por par- sidade. quantas vezes o tinham feito e cia do Parque era reconhecida
te das populações, porque a con- Outro aspeto que poderá vir a com quem (família, escola, por como relevante ou se, pelo con-
servação da vida selvagem viola a colocar problemas no futuro de- exemplo); (ii) identificar como trário, era vista como um obstá-
economia local. Todavia, tal como corre do crescimento populacio- percecionavam a existência do culo ao desenvolvimento, mesmo
salienta Borrini-Feyerabend nal rápido que se tem verificado Parque e as razões que motiva- sabendo que os alunos inquiridos
(2002), as atitudes de diferentes na ilha. Segundo os dados demo- ram a sua criação; (ii) saber se não viviam na sua periferia.
comunidades locais para com as gráficos provenientes do Institu- associavam vantagens e desvan- Para atender às finalidades re-
áreas protegidas é muito hetero- to Nacional de Estatística de S. tagens decorrentes da sua exis- feridas foi administrado um ques-
génea: umas adoraram-nas, ou- Tomé e Príncipe, em 2001 a po- tência; (iii) identificar o tipo de tionário com perguntas abertas e
tras odeiam-nas; umas revelam pulação era de 137 599 habitan- atividades humanas que os estu- fechadas (Quadro 1).
um elevado sentido de identida- tes, valor que subiu para 178.739 dantes consideravam poder ou
de, outras sentem-se oprimidas em 2012.
e empobrecidas pela sua exis- Quadro 1: Perguntas do questionário, com referência ao tipo de ques-
tão: Escolha Múltipla (EM) e Aberta (A)
tência. E, certamente que no seio Finalidades do estudo e aspe-
de tão extremadas atitudes não é tos metodológicos
alheio o grau de participação de O presente estudo envolveu
uma determinada comunidade 112 alunos, estando 51 a fre-
na sua gestão. quentar o 7º ano e 61 o 11º ano
Em S. Tomé a delimitação de de escolaridade no ano letivo
Parque Nacional de Obô também 2015/2016, respetivamente com
não tem sido isenta de proble- a média de idade de 13,1 e 17,6
mas. Por exemplo, na periferia anos, e inseridos em duas escolas
do Parque Nacional Obô habitam no Distrito da capital. A escolha
várias comunidades rurais em das escolas foi motivada pela sua
situação de pobreza e que estão proximidade ao contexto de tra-
dependentes da caça para a ali- balho de um dos investigadores,
mentação das famílias e para a mas as turmas e alunos foram es-
economia local, o que constitui colhidos aleatoriamente. Apesar
uma pressão sobre o parque (Le- de um dos investigadores ser de S.
ventis & Olmos, 2009). E como Tomé, considera-se que a presen-
refere Brito (2013), em geral, as te investigação traduziu um olhar
comunidades insulares depen- exterior acerca de uma realidade

126 ambientalMENTEsustentable, 2017, número especial ambientalMENTEsustentable, 2017, número especial 127
António Almeida; Sandra Ribeiro; Helena Botelho Parque Nacional Obô

Todas as perguntas vão ao en- pleta nos alunos mais velhos. ximação à localização do Parque. de ambos os anos para nunca se
contro das finalidades enuncia- Desde logo, apenas 6 (11.8%) Entende-se por aproximação terem deslocado ao Parque Na-
das. E como é fácil de percecionar, alunos do 7.º ano de escolaridade as respostas que não traduzem cional Obô.
algumas delas procuram verificar e também 6 (9.8%) dos do 11.º uma localização precisa do Par- Da análise da tabela pode-se
a existência de algum posiciona- ano afirmaram já ter visitado o que na ilha de S. Tomé, havendo constatar que os alunos do 7º ano
mento crítico associado à criação Parque. Dos alunos do 7.º ano, 5 meramente referência a um lo- salientam essencialmente o facto
do Parque, como nas questões afirmaram tê-lo feito uma vez e cal específico que se encontra no de os pais nunca os terem levado
acerca das desvantagens da sua um duas vezes, tendo igualmen- seu interior, por exemplo, Lagoa lá; já os mais velhos, destacam
existência ou de algum prejuízo te 5 se deslocado com a família e Amélia. Piores foram os resulta- a falta de transporte e nunca te-
associado à sua criação. amigos e um através da escola. Já dos obtidos no 11º ano de esco- rem tido ninguém que os levasse.
O questionário foi previamen- dos do 11º, 4 afirmaram ter visita- laridade, com apenas 4 alunos a Importa referir que dez estudan-
te analisado por dois especia- do o Parque Nacional uma só vez conseguirem alguma aproxima- tes, sendo 8 do 11º ano, afirmam
listas que o consideraram ade- e dois duas vezes, tendo para 4 a ção à localização do Parque. mesmo que não sabiam que o
quado em termos do seu teor deslocação ocorrido com familia- Assim, a maioria dos alunos Parque existia.
face às finalidades do estudo. Foi res e amigos e para os restantes não conseguiu localizar geografi- No que se refere à existência
igualmente solicitada a opinião dois com o Grupo das Montanhas camente o Parque Nacional, ten- de áreas protegidas em S. Tomé,
de dois investigadores naturais Aventuras sem Limites. do alguns indicado referências mais de 70% dos alunos do 7.º
de S. Tomé para que dessem a Os poucos alunos que afirma- erradas, como a Roça Agostinho ano considera o facto muito im-
sua opinião acerca da construção ram conhecer o parque salienta- Neto ou o Distrito Mé-Zóchi que portante ou importante, subindo
sintática das perguntas e do voca- ram ter gostado particularmente apenas inclui uma pequena área este valor para 92% nos alunos
bulário utilizado, a qual foi igual- da diversidade de animais e plan- do Parque. do 11º ano. Importa salientar que
mente positiva. tas, da existência de espécies en- Consequentemente, a maioria os restantes alunos de ambos os
Na análise das respostas, nas démicas, tendo um único aluno do dos alunos dos dois anos de es- anos não souberam fazer essa
perguntas fechadas foi calculada 11º ano afirmado ter gostado dos colaridade nunca se deslocou ao avaliação, não tendo nenhum in-
a frequência absoluta e relati- mangais. O destaque para esta re- mesmo e por razões nem sempre quirido afirmado que a existência
va das respostas; nas perguntas ferência decorre de ter sido a úni- idênticas. O Quadro 2 apresenta de áreas protegidas era irrelevan-
abertas as respostas foram su- ca com um teor ecossistémico. Já as razões evocadas pelos alunos te.
jeitas a análise de conteúdo com em relação ao que gostaram me-
posterior agrupamento de ideias nos, apenas 3 alunos de cada ano Quadro 2. Razões evocadas pelos alunos do 7.º ano e do 11.º ano para
similares, mesmo que expressas referiram aspetos negativos, em nunca se terem deslocado ao Parque Nacional Obô. Recorda-se que cada
de forma diferente. que surgiram a referência à pre- inquirido podia indicar até 3 razões, mas nem todos o fizeram
sença de cobras, o andar muito
Apresentação dos resultados durante a visita e ainda a distân-
Apesar de algumas especifici- cia a que se encontra o Parque.
dades no modo de responder, o No que se refere a consegui-
teor das respostas foi muito se- rem localizar geograficamente o
melhante nos alunos de ambos os Parque, dos 51 alunos a frequen-
anos de escolaridade e, curiosa- tar o 7.º ano de escolaridade ape-
mente, por vezes até mais incom- nas 18 conseguiram alguma apro-

128 ambientalMENTEsustentable, 2017, número especial ambientalMENTEsustentable, 2017, número especial 129
António Almeida; Sandra Ribeiro; Helena Botelho Parque Nacional Obô

As razões avançadas pelos alu- encontram-se sistematizadas no Quadro 4: Razões evocadas pelos alunos do 7.º ano e do 11.º ano que
nos do 7.º ano e do 11.º ano para Quadro 3. justificam a criação do Parque Nacional Obô. Alguns alunos deram mais
a existência das áreas protegidas do que uma razão.

Quadro 3: Razões evocadas pelos alunos de ambos os anos para a exis-


tência de áreas protegidas.

De facto, o número de alunos vado de alunos de ambos os anos


de ambos os anos que não res- que não responderam à questão.
Foi ainda inquirido quais as no seio do Parque. A sua listagem
pondeu foi expressivo. E a prin- No que se refere às vantagens
atividades que os alunos conside- encontra-se no Quadro 5.
cipal razão evocada em ambos e desvantagens decorrentes da
ravam ser permitidas e proibidas
os grupos para a existência das criação do Parque, as vantagens
áreas protegidas decorre da ne- não se afastam das ideias ex-
cessidade de proteger animais e pressas para a sua criação com Quadro 5: Atividades que devem ser permitidas e proibidas no interior
do Parque nacional mencionadas pelos alunos de ambos os anos. Alguns
plantas. Interessante foi a refe- a referência pelos estudantes de
alunos mencionaram mais do que uma atividade.
rência de 3 alunos mais novos ao ambos os anos à preservação de
papel das áreas protegidas na re- espécies, promoção da visitação
gulação do clima. e turismo. Ainda assim, um alu-
Na questão mais concreta de no do 7º ano avançou com a ideia
procurar saber que ideia tinham de que a vantagem do Parque se
os alunos acerca das razões que relaciona também com o evitar
estiveram na base da criação do de ações nocivas do ser humano,
Parque Nacional Obô, as razões como a caça. Já no que se refere
evocadas foram em parte seme- às desvantagens, apenas dois alu-
lhante às anteriores, mas algu- nos de cada ano as referem: os do
mas ideias diferentes foram evo- 7º ano, a ideia de que o país fica
cadas igualmente (Quadro 4). com menos espaço e que os turis-
De entre as ideias novas surgiu tas ficam a conhecer as espécies
a ideia de o parque ser um local importantes do país; os do 11º
de visitação para os turistas e ano destacam o difícil acesso e o
uma fonte de desenvolvimento do se ter de gastar dinheiro na sua
país. De assinalar o número ele- proteção.

130 ambientalMENTEsustentable, 2017, número especial ambientalMENTEsustentable, 2017, número especial 131
António Almeida; Sandra Ribeiro; Helena Botelho Parque Nacional Obô

Assim, os estudantes de ambos Conclusões parece corresponder a um fraco dos benefícios que as mesmas
os anos destacaram como ativi- Como conclusões do presente envolvimento com as ideias pre- encerram, sendo a promoção da
dades humanas a permitir no seu estudo ficam algumas ideias e al- servacionistas que conduziram à visitação a estas áreas uma via
seio a realização de passeios, tirar gumas questões que necessitam criação das áreas protegidas. igualmente importante.
fotografias, assim como as visitas de clarificação. A primeira é a Todavia, os alunos não referem
escolares, para além de outros as- constatação de que o Parque Na- impactos pessoais e familiares Os resultados do presente es-
petos com menor frequência. De cional de Obô é desconhecido da decorrentes da criação do Parque tudo são meramente indicadores
entre estes, um destaque para os grande maioria dos inquiridos. As e de entre os benefícios obtidos de algumas tendências que ne-
3 alunos do 11º ano que salien- razões parecem decorrer de ser nunca referem ganhos diretos de- cessitam de futura investigação,
taram a recolha de espécies para dada pouca relevância ao tema correntes da sua existência. Mas atendendo à natureza explorató-
pesquisa. Já nas atividades proi- dos parques nacionais no currícu- talvez os resultados fossem dife- ria deste mesmo estudo. Ainda
bidas destacaram o evitar a des- lo e também porque a mobilidade rentes se os inquiridos fossem de assim, e tendo por base o desco-
florestação e a caça de animais. na ilha não parece corresponder localidades rurais na fronteira do nhecimento dos inquiridos em
De relevar ainda o elevado núme- a padrões ocidentais, algo que é Parque. Ainda assim, o resulta- relação a vários aspetos do Par-
ro de inquiridos de cada ano que perfeitamente compreensível. De do é muito semelhante ao de um que, importa pensar que estraté-
não menciona qualquer atividade facto, não parece ser uma área a estudo desenvolvido por Namu- gias devem ser delineadas para a
a permitir ou proibir. que as famílias se desloquem nos konde & Kachali (2015) acerca promoção das áreas protegidas
Por último, pretendeu-se iden- seus momentos de lazer, nem tão das perceções e atitudes para em jovens em idade escolar.
tificar eventuais benefícios ou pouco a escola parece desempe- com o Parque Nacional Kafue, na
prejuízos decorrentes da exis- nhar um papel importante na sua Zâmbia, embora este estudo en- Referências
tência do Parque. Como dado re- visitação. volvesse comunidades locais que Albuquerque, C.; Carvalho,
levante, nenhum dos estudantes Ainda assim, muitos estudan- habitavam na fronteira do parque A. (2015): Plano de Manejo
de ambos os anos considerou ter tes conseguem identificar ra- e uma amostra maioritariamente 2015/2020 do Parque Natural
sido prejudicado em termos pes- zões que podem estar na base da constituída por não estudantes. Obô de São Tomé. São Tomé e
soais ou familiares pela existên- criação de um Parque Nacional, Por último, concorda-se com a Príncipe, RAPAC, ECOFAC V.
cia do Parque. Todavia, também embora as respostas sejam mais ideia de que a preservação da na- Almeida, A. (2002): Abordar
foram muito poucos os que se completas e conseguidas nos es- tureza dificilmente terá sucesso o Ambiente na Infância. Lis-
afirmam beneficiados, apenas 7 tudantes mais jovens, uma dife- sem o envolvimento das popula- boa, Universidade Aberta.
estudantes do 7.º ano de escola- rença que necessita de ser me- ções locais (Barrow & Fabricius, Almeida, A. (2007): Educação
ridade e 5 do 11.º ano. As razões lhor compreendida. 2002), uma verdade que se con- Ambiental – a importância da di-
dos estudantes de ambos os anos Por último, a ideia com que se sidera válida para qualquer país, mensão ética. Lisboa, Livros Ho-
foram muito semelhantes, com fica, decorrente do olhar que se independentemente do seu grau rizonte.
destaque para a importância do assumiu como exterior à realida- de desenvolvimento. Para tal, Barrow, E.; Fabricus, C. (2002):
Parque na qualidade do ar e pela de de S. Tomé, é que a realidade para além de modelos de gestão “Do rural people really benefit
existência de plantas medicinais, das áreas protegidas permanece comunitária, a inclusão do tema from protected áreas – rheto-
benefícios aliás que tanto são de alguma forma pouco interio- das áreas protegidas nos currí- ric or reality?”, Parks - The
pessoais como coletivos. rizada nestes estudantes, o que culos escolares revela-se igual- International Journal of Pro-
mente essencial para uma mais tected Areas and Conserva-
efetiva perceção dos estudantes tion, 12 (2), 67-79.

132 ambientalMENTEsustentable, 2017, número especial ambientalMENTEsustentable, 2017, número especial 133
António Almeida; Sandra Ribeiro; Helena Botelho Parque Nacional Obô

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134 ambientalMENTEsustentable, 2017, número especial ambientalMENTEsustentable, 2017, número especial 135
Foto: Priscilla Amorim

Poconé, localizada no estado Valores ambientais no Nordeste brasileiro: educação para a


brasileiro de Mato Grosso.
convivência no semiárido pernambucano1

Maria Waleska Camboim Lopes de Andrade


Gerlânia Francelino Rodrigues
Tamires Lima da Silva

Resumo
Estreitar relações entre as instituições que começaram a partilhar uma área geo-
graficamente delimitada, dispondo-se a preservar suas características naturais e
possibilitar o desenvolvimento sustentável é o problema que direcionou o estudo
cujos primeiros resultados aquí se relata. O local é conhecido como Fazenda Saco,
área de 3.200 hectares situada no Sertão do Pajeú, administrada pelo Instituto
Agronômico de Pernambuco (IPA). Dentre as instituições beneficiárias da partilha
estão a Unidade Acadêmica de Serra Talhada, o Parque Estadual Mata da Pimen-
teira e o Assentamento Ivan Souto de Oliveira. Objetivou-se delinear a identidade
cultural e ecológica da comunidade de moradores da Fazenda Saco, de maneira a,
numa etapa subsequente, e fundamentado nos valores que os seus membros jul-
gam importantes, adaptar um programa de treinamento sobre os valores Coope-
ração e Respeito, visando tornar a relação cultura/ambiente enriquecedora para
todos. O método de pesquisa-ação possibilitou identificar dados socioeconómicos
e o que orienta a preocupação ambiental da comunidade residente na Fazenda
Saco (preocupação biosférica, altruista ou egoística). Essa metodologia permitiu
establecer também um início de relação cooperativa entre as instituições envolvi-
das e o respeito mútuo.

Palavras chave: Assentamento, meio ambiente, valores humanos.

Abstract
Closer the relations between institutions that began to share a geographically de-
limited area, preparing to preserve their natural characteristics and enable sustai-
nable development is the problem that led to the study whose first results are re-
ported here. The site is known as Fazenda Saco, an area of 3,200 hectares located
in the Sertão do Pajeú, administered by the Agronomic Institute of Pernambuco
(IPA). Among the beneficiaries of the sharing are the Serra Talhada Academic Unit,
the Mata da Pimenteira State Park and the Ivan Souto de Oliveira Settlement. The
goal was to outline the cultural and ecological identity of the community of resi-
dents of Saco Farm, so that, at a subsequent stage, and based on the values that
its members deem important, adapt a training program on the values Cooperation
and Respect, aiming at making the relationship culture / environment enriching for
all. The action-research method made it possible to identify socioeconomic data
and the environmental concern of the community residing at Saco Farm (biosphe-
ric, altruistic or egoistic concern). This methodology also allowed us to establish
a cooperative relationship between the institutions involved and mutual respect.

Key-words: Settlement, environment, human values.

1Apoio FACEPE (Fundação de Aparo à Ciência e Tecnologia do Estado de Pernambuco).

ambientalMENTEsustentable, 2017, número especial 137


Maria Waleska de Andrade; Gerlânia Rodrigues; Tamires Lima da Silva Valores ambientais no nordeste brasileiro

Introdução bucana de Defesa da Natureza, Fazenda Saco, verificou-se que certa sociedade atribui significa-
O presente estudo insere-se preocupados com a explo-ração haviam poucos dados cataloga- dos culturais intertextuais espe-
em um programa mais amplo de lenha na região e com a neces- dos sobre quem eram e como vie- cíficos. Com base em elementos
que visa estreitar relações entre sidade de manter a diver-sidade ram a habitar o local. Propôs-se como esses, o indivíduo e o grupo
as instituições que começaram de organismos na área e um es- então uma aproximação sistema- social formam a convicção de que
a partilhar uma área geografica- paço de 300 hectares de mata vir- tizada a fim de permitir que estas compartilham uma cultura (HUN-
mente delimitada, dis-pondo-se gem. Desde então, vem-se procu- pessoas conhecessem melhor al- TINGTON, 1997). Esse é um pen-
a preservar suas carac-terísticas rando estreitar as relações com a guns dos membros da comunida- samento que é construído e não
naturais e, ao mesmo tempo, pos- comunidade habitando o entorno de acadêmica presentes em sua que existe por si só; como afirma
sibilitar o desenvolvimento sus- do Parque sem que tenha havido vizinhança e que estes pudessem Bauman (2005) a identidade só é
tentável. grandes avanços. conhecê-los a partir de seu ponto revelada como algo a ser inventa-
O local é conhecido como Fa- Verificou-se então ser neces- de vista. do e não descoberto.
zenda Saco, área de 3.200 hecta- sário conhecer primeiro quem Considerou-se distinguir Modernamente tem-se con-
res, situada no sertão do Pajeú, seriam esas pessoas e descobrir quem seriam esses moradores, -siderado que identidades tradi-
administrada pelo Instituto Agro- uma forma conjunta de atingir os observar qual a visão que teriam -cionais, que prevaleceram du-
nômico de Pernambuco (IPA) objetivos gerais de preservação de si mesmos, do ambiente em rante muito tempo para certas
e que, desde inícios do século do bioma caatinga e de promoção que vivem e de como cuidam do so-ciedades, estão em processo
XXI, vem sendo partilhada com: do desenvolvimento sustentável, meio ambiente. Ao assumir uma de fragmentação na esfera indivi-
a Universidade Federal Rural de uma vez que tudo está se trans- identidade própria, os morado- dual e na social. Novas identida-
Pernambuco, através de sua ex- formando no mundo atual. res deveriam passar a exercer um des culturais surgem e provocam
tensão, a Unidade Acadê-mica de Assim, no estudo aqui relatado pensamento autônomo enquanto a denominada “crise de identida-
Serra Talhada (UFRPE-UAST); o procurou-se delinear uma iden- comunidade e, ao mesmo tempo, de”, que é parte de amplo e pro-
Parque Estadual Mata da Pimen- tidade cultural e ecológica dessa estabelecer uma relação de con- fundo movimento de transforma-
teira (PEMP); a Univer-sidade comunidade de moradores da fiança com membros de outras ção que desloca as estruturas de
Estadual de Pernambuco (UPE); zona rural do município de Ser- comunidades e instituições. identidade cultural das socieda-
a Associação de Morado-res e As- ra Talhada, PE. Visava-se encon- A identidade cultural de um des modernas dos seus centros
sentados do Assentamento Nova trar uma maneira de adaptar um grupo social é formada de dife- tradicionais de referência. Torna-
Aliança; a Escola Municipal Brás programa de treinamento sobre rentes elementos culturais que ram-se instáveis os critérios com
Magalhães e o Posto de Saúde os valores Cooperação e Respei- podem ter distintos significados base nos quais indivíduos e gru-
Municipal Diomedes de Oliveira. to, objetivando tornar a relação intertextuais para cada indiví- pos sociais construíam sua iden-
O PEMP, primeira unidade de cultura/ambiente enriquecedora duo ou grupo. São elementos tidade cultural (HALL, 2005).
conservação Estadual do Bioma para a comunidade, o meio am- culturais: os valores sociais e os No passado, aponta Seixas
Caatinga foi criado em 2012, por biente em que vive e sua percep- modos de pensar, os costumes e (2008), os contatos culturais en-
iniciativa de professores e alunos ção social. o estilo de vida, as instituições, tre povos diferentes progrediam
da UAST que buscaram a Prefei- a história comum, os grupos ét- lentamente, durante séculos, na
tura do município de Serra Talha- Justificativa nicos, o meio ambiente natural medida em que se aperfeiçoavam
da, ambientalistas, o Comitê Es- Quando se constatou a neces- e cultural, os pressupostos filo- os meios de transporte e de co-
tadual da Reserva da Biosfera da sidade de conhecer mais de perto sóficos subjacen- tes às relações municação. Por isto, os diferen-
Caatinga e a Associação Per-nam- a comunidade de moradores da sociais e outros elementos a que tes povos tinham tempo razoável

138 ambientalMENTEsustentable, 2017, número especial ambientalMENTEsustentable, 2017, número especial 139
Maria Waleska de Andrade; Gerlânia Rodrigues; Tamires Lima da Silva Valores ambientais no nordeste brasileiro

para assimilar elementos cultu- dente de cooperação. Supunha-se mília se organiza para conseguir refletido no amanhã. Procurou-se
rais uns dos outros e para incor- que esta era a maneira de desper- determinado fim, e que pode ser ainda demonstrar, visivelmente,
porar tais elementos em sua pró- tar, desde o início da interrelação classificada seja como uma ação condutas corretas, que implicas-
pria cultura, conforme se fazia com as comunidades que habi- padrão ou como ação espontânea. sem na proteção do planeta que
necessário ou conveniente. Atu- tam a Fazenda Saco, uma manei- A ação padrão é desenvolvida vem dando mostras de estar no
almente, esse processo é muito ra de relacionamento produtivo no interior de cooperativas, sen- limite (PERCEGONA, 2008) e que
mais intenso, quase instantâneo, na realização de ações conjuntas do racionalmente construída à cuidar do meio ambiente contri-
afirma este autor, daí resultam os que promovessem o desenvolvi- luz de um código, por sujeitos que bui para a melhoria nas ativida-
fenômenos da descentralização, mento sustentável, assim como a possuem certa divisão social de des agrícolas, por exemplo.
deslocamento e fragmentação preservação e o respeito ao meio trabalho, mas que visam, entre- Segundo Guanziroli et al.
cultural a que todos se submetem ambiente, resultando em uma tanto, à equidade tanto na lucrati- (2001 p.15) os países capitalistas
na fase contemporânea da globa- melhor qualidade de vida. vidade quanto nos prejuízos, uma que possuem hoje os melhores
lização. Cooperar significa combinar vez que possuem objetivos co- indicadores de desenvolvimento
O presente estudo interes-sou- esforços individuais com a fina- muns. Já a ação espontânea, como humano, apresentam uma forte
-se pela construção da identidade lidade de realizar propósitos co- o próprio nome sugere, acontece presença da agricultura familiar,
da comunidade do Sa-co. Quem letivos. Cooperar é também uma de forma natural “inerente a de- cuja evolução teve papel funda-
poderiam ser estas pessoas? For- forma de organização, sem fins terminados grupos e derivada de mental na estruturação de econo-
mariam de fato várias comunida- financeiros, para garantir a so- suas tradições e costumes, funda- mias mais dinâmicas e de socie-
des ou uma só? Enten-de-se aqui brevivência. mentada na reciprocidade adia- dades mais democráticas e justas.
comunidade como sen-do “todas Na perspectiva de uma or- da” (SCOPINHO, 2006). A difusão da agricultura fami-
as formas de relacio-namento ca- ganização comunitária e de as- Diferente das cooperativas, a liar alicerçou-se na garantia do
racterizado por um grau elevado sentamentos, cooperar tem sido cooperação espontânea tem sido acesso à terra, que assumiu uma
de intimidade pesso-al, profun- associado ao cooperativismo, identificada como um valor para forma particular em cada país.
deza emocional, engaja-mento movimento que se caracteri- habitantes das zonas rurais, não Além de auxiliar para impulsio-
moral (...) e continuado no tem- za pela preocupação política de seguindo uma lógica estritamen- nar o crescimento econômico, a
po”. Como “a fusão do sentí-men- transformação social. Significan- te economicista e tendo um papel agricultura familiar exerceu uma
to e do pensamento, da tradi-ção do aceitar a ideia de que a supe- na forma de solucionar neces- função hábil que tem sido releva-
e da ligação intencional, da par- restrutura social é determinada sidades e problemas concretos, do em algumas análises.
ticipação e da volição.” (NISBET, pelas mudanças na infraestrutura como lidar com a escassez, en- No Brasil, o problema da má
1974, apud SAWAIA, 2007, p.50). ou com cooperativas, “associação frentar a pobreza e preservar o distribuição das terras, existe
Durante a pesquisa, manteve- autogestionária de pessoas, re- meio ambiente. desde a colonização. Paradigma
-se presente a ideia de que os va- gida por princípios de igualdade Procurou-se assim demons- regrado no feudalismo que per-
lores que a comunidade em estu- no que se refere à propriedade, trar que os pesquisadores esta- durou na Idade Média na Euro-
do julga importantes podem ser gestão e repartição” (SCOPINHO, vam investidos de uma preocu- pa, e é uma conformação de lati-
considerados como fazendo parte 2006). pação com o meio ambiente do fúndio, escravagista, com ampla
de sua identidade social. Era ne- Scopinho (2006) afirma que qual se é dependente para viver. abundância de terra nas mãos de
cessário também deixar claro que cooperação é uma ação social cuja Que cuidar do meio ambiente uma minoria.
o valor que os pesquisadores de- função é solucionar um problema significa preservar a própria es- O INCRA, através da reforma
tinham era o valor autotranscen- concreto, como quando uma fa- pécie, pois tudo que se faz hoje é agraria, tenta promover uma dis-

140 ambientalMENTEsustentable, 2017, número especial ambientalMENTEsustentable, 2017, número especial 141
Maria Waleska de Andrade; Gerlânia Rodrigues; Tamires Lima da Silva Valores ambientais no nordeste brasileiro

tribuição mais justa das terras, para que a qualidade ambiental ambiente, tendo este se mostra- do PEMP com relação aos cuida-
mediante modificações no regi- melhore, sendo a cooperação a do válido para diferentes popula- dos com a natureza. Por exemplo,
me e uso, a fim de atender aos melhor alternativa para se obter ções. vem sendo condenada a prática
princípios do desenvolvimento bons resultados. O modelo proposto por Stern tradicional entre eles de prender
rural sustentável, aumento de Este estudo preocupou-se, as- e Dietz (1994) foca nas atitudes passarinhos, de desmatar utili-
produção e da justiça social (Es- sim, também, com as atitudes e e comportamentos ambientais zando queimadas, de caçar e de
tatuto da Terra - Lei nº 4504/64). valores das pessoas da comuni- derivados de uma consciência queimar os resíduos sólidos. Tais
A reforma agrária tem por objeti- dade do Saco com relação ao meio quanto às consequências para informações parecem gerar certo
vo, propiciar a redistribuição das ambiente em que vivem. Muitas “entes valorizados” de danos ao conhecimento entre os membros
propriedades rurais para a reali- pesquisas psicológicas vêm exa- meio ambiente. Os “entes valori- da comunidade do Saco, mas não
zação de sua função social, visan- minando as atitudes com relação zados” estão orientados em torno parecem corresponder a uma ati-
do a implantação de um modelo ao meio ambiente baseadas nos de três fontes básicas: o self, as tude conscientemente tomada ou
de assentamento rural baseado valores humanos (GRUNERT&- outras pessoas ou todos os seres uma orientação de valor que se
na sustentabilidade ambiental, JUHL, 1995; NORDLUND&GAR- vivos. Preocupações egoísticas reporte à proteção do meio am-
no desenvolvimento territorial e VILL, 2002; SCHULTZ&ZELE- focam no indivíduo. Em outras biente. A aplicação do modelo
na viabilidade econômica. Mas as ZNY, 2003; STERN, DIETZ, ABEL, palavras, pessoas com atitudes dos três fatores vem possibilitar
comunidades rurais precisam ser GUAGNANO,&KALOF, 1999; ambientalmente egoísticas se conhecer o tipo de preocupação
melhor agenciadas em suas espe- TANKHA, 1998). preocupam com o meio ambien- ambiental que orienta os mem-
cificidades. Existe um lapso entre as at- te, mas suas preocupações estão bros da comunidade da Fazenda
Pensar no futuro significa pre- titudes e o comportamento das no nível pessoal: nos efeitos da Saco.
servar o meio ambiente e para pessoas no que diz respeito à poluição sobre sua saúde, por
isto estão surgindo movimentos questão ambiental (GRUNERT&- exemplo. Atitudes altruísticas di- Método
ambientais em prol da preser- JUHL, 1995). Os valores são, con- zem respeito a uma preocupação Construção da Identidade
vação do mesmo, para garantir a tudo, considerados como mais geral para com todas as pessoas, Não existia, no início desta
vida na terra, evitar que a biodi- estáveis (ROKEACH, 1973) e têm ou seja, pensa-se nos problemas pesquisa, um mapa roteando o
versidade diminua e evitar que uma influencia sobre o compor- ambientais porque estes afetam interior da Fazenda Saco, nem
várias espécies animais entrem tamento em prol do ambiente, outras pessoas. Atitudes biosfé- sinalização sobre os caminhos a
em extinção. A preservação de- mediado pela identidade social ricas estão baseadas em todos os seguir. Procurou-se conhecer os
pende de ações coletivas, para o (GATERSLEBEN, B. MUR-TAGH, E. seres vivos. Schultz et al. (2005) membros dos 10 diferentes gru-
bem atual e das próximas gera- & ABRAHAMSE, 2014). acrescentam que, no geral, cada pos ou comunidades e seus locais
ções, visando melhorar a quali- Baseado na teoría de Stern um desses três tipos de atitudes de habitação pelas indicações
dade de vida, relacionadas não et al (1995b, apud SCHULTZ et implicam preocupações com o que foram apontadas oralmente.
somente aos níveis de educação al. 2005), que tenta explicar a meio ambiente, mas cada um está Empreendeu-se uma metodolo-
e saúde, mas também associa- relação entre atitudes e compor- baseado em valores fundamen- gia de observação e entrevistas
da ao meio ambiente. Percegona tamentos ambientais e o mode- talmente diferentes. (MOREIRA, 2002). A abordagem
(2008) afirma que a qualidade de lo de valores desenvolvido por No presente estudo, verificou- sugeria que se conhecesse a his-
vida só é possível se houver pre- Schwartz (1992), Schultz (2001) -se que os membros da comuni- tória do lugar através da memó-
servação do meio em que se vive, testou um modelo de três fatores dade do Saco vinham recebendo ria das pessoas mais velhas e
sendo necessário tomar atitudes sobre a preocupação com o meio informações por parte da gestão como o informante e sua família

142 ambientalMENTEsustentable, 2017, número especial ambientalMENTEsustentable, 2017, número especial 143
Maria Waleska de Andrade; Gerlânia Rodrigues; Tamires Lima da Silva Valores ambientais no nordeste brasileiro

se situavam nela. -rentesco entre os membros das tos, com ver-tentes dissecadas. Açude do Saco ocupa 500 hecta-
Participaram da pesquisa, comunidades. A vegetação é basicamente com- res da Fazenda Saco (SANTOS et
como informantes, 35 pessoas, Pelas anotações das entrevis- posta por Caatin-ga Hiperxerófila al.,2013).
entre membros das comunida- tas semiestruturadas procurou- com trechos de Floresta Caduci- Durante a década de 1950, o
des, trabalhadores do IPA e auto- -se identificar o que se repetia no fólia. cultivo do algodão encontrou sua
rida-des. Foram recenseadas 194 discurso dos participantes para Historicamente, a Fazenda fase áurea no Brasil. Sendo culti-
pes-soas, com idades variando de assim organizar uma forma mais Saco pertenceu à família do Se- vado na Fazenda Saco atraiu mui-
0 a 77 anos, de ambos os sexos, e linear de contar a história de suas nhor Agostinho Nunes Maga- tos trabalhadores que aí vie-ram
que são membros das comunida- origens e hábitos. O estudo finali- lhães, capitão-mor de uma esqua- residir. O algodão era chamado
des então presentes na Fazenda zou com as oficinas onde se pro- dra portuguesa que arrendou a de “ouro branco” do sertão e es-
Saco. curou vislumbrar uma identidade sesmaria Casa da Torre às mar- teve presente, de forma indisso-
Foram utilizados como fonte própria; foram apresentadas aos gens do rio Pajeú no século XVIII. ciável, na vida social e econômica
de informação os registros fei- participantes as informações re- Posteriormente, o Coronel Brás sertaneja, até meados da década
tos pelos agentes de saúde, eles constituídas no estudo sobre eles Magalhães, descendente de Agos- de oitenta do século XX, quando
mesmos membros da comunida- mesmos, ilustradas por fotos e ví- tinho e bisavô do ex Governador a praga do bicudo acabou com a
de. Estes apontamentos, comple- deos. Estas serviram como mar- do Estado de Pernambuco, Aga- importante ativida-de cotonicul-
mentados por comentários for- cos de uma relação de confiança menon Ma-galhães, construiu a tora e definiu uma das maiores
necidos pelos próprios agentes que se inicia. parede de terra do primeiro Açu- crises enfrentadas pela região
de saúde, permitiram o recense- Em resumo, foram reuni-das de do Saco em 1848. Em 1930, o (CARDOSO e LOPES, 2015). Os
amento dos habitantes, suas co- informações documentais e orais, Coronel Cornélio Soares vendeu a trabalhadores do IPA e suas famí-
munidades e relações de paren- qualitativas, sobre o local, as pes- Fazenda ao governo do Estado de lias permaneceram, em geral, na
tesco. As entrevistas efetuadas soas e as comunidades. Ficou evi- Pernam-buco para aí ser implan- Fazenda Saco.
em suas residências e/ou locais dente que se trata de uma única tada a Estação Experimental Lau- Alguns grupos comunitá-rios
de trabalho possibilitaram pre- comunidade, e não de várias, com ro Be-zerra a cargo do IPA. Plan- dentro da Fazenda Saco foram
encher um pou-co da história do características socioeconômicas taram-se sementes selecionadas pesquisados (Ver Tabela 1). Es-
lugar e da ori-gem das famílias. próprias. de algodão arbóreo, milho e feijão sas comunidades são for-madas
As duas ofici-nas que foram reali- de corda; reprodutores caprinos, por pessoas que antes da chegada
zadas propor-cionaram momen- Resultados bo-vinos e equinos, pecuária em do IPA já moravam nos arredores
tos de aproxi-mação mais social, A Fazenda Saco fica a cerca regime de semiconfinamento, da Fazenda Saco ou em outros
coletiva. de três quilômetros do cen-tro além do manejo florestal e pesca distritos e foram atraídas pelo
A partir dos dados censitá-rios urbano do município de Serra eram outras atividades exercidas emprego ofertado pelo IPA. Nu-
coletados na unidade de saúde Talhada. Santos e colaboradores ali. Em convênio com o INFOCS merosos filhos e parentes foram
foram elaboradas estatísticas (2013) a descrevem como uma atual DNOCS (Departamento Na- casando-se entre si e aí perma-
des-critivas (Ver Tabelas I; II e unidade geoambiental inserida cional de Obras Contra a Seca) foi necendo. Por exemplo, D. Emília,
III). Estes dados foram também na Depressão Sertaneja, carac- construído o paredão de pedra e hoje com 104 anos, veio com o
inseridos no My Heritage para tereza-da por uma superfície de cal do atual Açude do Saco, que marido e três filhos do distrito de
a construção de árvores genea- pedipla-nação monótona, relevo é abastecido pelo riacho do Me- Santa Maria (município de Miran-
-lógicas, facilitando a leitura da predomi-nantemente suave-on- déia cuja nascente fica na Serra diba) a chamado de sua irmã cujo
informação sobre o nível de pa- dulado, cor-tada por vales estrei- do Triunfo. Em época de cheia, o marido já estava empre-gado nas

144 ambientalMENTEsustentable, 2017, número especial ambientalMENTEsustentable, 2017, número especial 145
Maria Waleska de Andrade; Gerlânia Rodrigues; Tamires Lima da Silva Valores ambientais no nordeste brasileiro

lides da estação Lauro Bezerra. vididos em 57 lotes. Atualmente apenas uma está assumindo o seu sim mais acessível.
Teve mais sete filhos na Fazenda. apenas alguns lotes estão ocu- espaço, a outra continua com a Nos Currais Velhos, habita a
Outro exemplo é o do Sr. Antônio pados por pessoas que aí cons- mãe na Vila de Baixo. O pai delas família Viturino, em grande parte
Laurentino, 77 anos, morador da truíram suas casas de taipa. Os é funcionário do IPA. composta de pessoas que vieram
comunidade Barragem, veio do outros beneficiários relutam em A Barragem tem esse nome por da Fazenda Xique-Xique. Forma
agreste com os pais e os tios e aí mudar-se para lá, uma vez que se situar perto do local construí- um grande círculo de casas, a
se instalaram, sob os auspícios do é mais dificultoso habitar no lo- do para barrar a saída das águas maioria de taipa rebocada, que
Padre Cícero Romão2, antes de o cal que fica na margen oposta do que formam o Açude do Saco. O também dá passagem ao ca-mi-
Coronel Cornélio Soares vender açude, mais distante do que suas local fica na entrada do “Saco”, vi- nho para o Assentamento Ivan
as terras para o Governo do Es- casas atuais e por terem que criar zinho à UAST e a UPE. Seus mora- Souto de Oliveira. Seus morado-
tado. Muitos casa-ram com os ha- o novo habitat ou por resistirem dores foram solicitados também res são também assentados, ape-
bitantes da Vila Xique-Xique, vi- a deixar o local específico em que a retirar-se do local e dirigir-se ao sar da diferenciação de lotes
zinha da Fazenda Saco, e vieram sempre moraram. Haras, mas relutam em fazê-lo. Os irmã Elisa, ainda não entende-
trabalhar e habitar no local. O Sr Romero, por exem-plo, mais antigos, como o Sr. Antônio ram bem sua real situação e per-
A construção da árvore gene- cercou o seu terreno e cavou um Laurentino e sua irmã Elisa, ain- ma-necem no mesmo local em
alógica evidenciou que os fa-mi- poço com o qual mantém uma da não entenderam bem sua real que viveram toda a sua vida.
liares casaram-se entre si, fo-ram plantação de fruteiras e cria ove- situação e perma-necem no mes- e estruturação das moradias.
construindo suas próprias casas lhas, empreendimentos conse- mo local em que viveram toda a As comunidades de Palmas e do
e permaneceram vivendo no local guidos com subsídios do INCRA. sua vida. Sítio Piau estão fora do perímetro
formando pequenas comu-nida- Mantém, contudo sua casa de tai- Devido ao agravante em torno da Estação Experimental, mas é
des. Ao todo foram identificados pa na Vila de Baixo, onde mora, de pesquisas agronômicas do IPA, de se ressaltar que suas ações po-
três troncos familiares nos quais local bem mais perto para o des- os moradores ganharam lotes de dem afetar diretamente o Parque
seus membros se entrelaçam em locamento de suas filhas que cur- terra para reunirem-se na área Esta-dual Mata da Pimenteira.
relações de parentesco. sam o ensino médio na cidade e do Assentamento, embora essa Seus moradores são também an-
O Assentamento Ivan Souto os dois outros que estudam na distribuição de lotes não te-nha tigos e atuais funcionários do IPA
de Oliveira foi criado para aten- UAST. atendido a todos. Na visão do Sr. e instituições instaladas no local
der às demandas das famílias dos Diferentemente, a Sra. Auci- Antônio Laurentino, a instala-ção e formam com os assentados uma
antigos funcionários do IPA, que cléia habita com seu marido e de “firmas” nas terras da Fazenda comunidade em condições pare-
aí estavam residindo, e que se vi- cinco filhos no lote mais extre- é apontada como um motivo que -cidas. Os habitantes das comu-
ram ameaçadas pela mudança na mo do assentamento, o que faz os fazem retirar-se do local. As ni-dades Vila de Baixo e Tamboril
política administrativa desta ins- fron-teira com o Xique-Xique. Seu toscas casas da Bar-ragem, cons- estão aguardando definição para
tituição. lote também foi cercado, mas eles truídas pelos seus ancestrais, no sua situação.
O Assentamento Ivan Souto de encontram mais dificuldades em início do século passado, pos- Verificou-se certo equi-líbrio
Oliveira mede 900 hectares, in- explorá-lo, embora seja este o seu suem uma bela vista do açude e entre os sexos, com ligeira pre-
cluindo as áreas de reserva legal desejo. Duas de suas irmãs tam- de grande parte da Fazenda, além dominância do sexo mascu-lino.
nas encostas das serras, subdi- bém ganharam um lote, contudo de se situarem no local da fazen- A distribuição das faixas etárias
da que fica mais próximo à entra- foi feita considerando-se mais ou
2Antigo sacerdote católico que teve, antes de sua morte, e continua tendo até hoje grande
da do Saco e ao centro da cidade menos períodos do ciclo de vida
influência e prestígio na região Nordeste do Brasil. de Serra Talhada, tornando-se as- estando, por isso, desi-guais em

146 ambientalMENTEsustentable, 2017, número especial ambientalMENTEsustentable, 2017, número especial 147
Maria Waleska de Andrade; Gerlânia Rodrigues; Tamires Lima da Silva Valores ambientais no nordeste brasileiro

termos de número de anos que está quase seco. A pesca envolve da identidade e o desenvolvimen- por ser desenvolvidas em outros
abrange cada uma, mas poden- não apenas uma atividade tradi- to sustentável. segmentos da população local. A
do indicar certa amostragem das cional da comunidade, mas tam- Durante o processo de par- comunidade do saco tira parte de
idades, por etapas de vida. Assim, bém a estação pesqueira do IPA, tilha da Fazenda Saco, que vem seu sustento da pesca artesanal
é possível dizer que 51 (39,7%) a Associação dos Pescadores do ocorrendo desde o final do sécu- e é estimulada a tirar todo o seu
dessas pessoas são crianças e Saco, o curso de engenharia de lo XX, foi criado o Assentamento sustento da terra.
adolescentes em idade escolar, 31 pesca da UAST e o projeto Flor & Ivan Souto de Oliveira, sob su- Estas informações são impor-
indivíduos (17,3 %) são jovens Pesca de aproveitamento dos re- pervisão do Instituto Nacional de tantes quando se quer res-pon-
que eventualmente deveriam de- síduos, entidades que estabelece- Colonização e Reforma Agrária der questões como: quais são as
mandar o ensino universitário ou ram relações ainda precárias. (INCRA), no qual foram instala- necessidades dessa população?
técnico, somando 82 pessoas que Moradores se referem ao tem- das 57 das famílias que habitam Quais os seus direitos e deveres?
um dia irão demandar trabalho e po em que podiam plantar e que na área da Fazenda. Para Medei- Como irão se desenvolver e ocu-
moradia. 35 (19,6 %) são jovens colhiam com fartura. Essa prática ros et al. (2004, p.141), a criação -par o espaço? Que tipo de pla-
adultos em idade de trabalhar, foi proibida nas terras do IPA há de assentamentos rurais provoca neja-mento pode ser feito para
que se somam aos 35 que possi- alguns anos e hoje não se encon- alterações nas localidades onde assegu-rar a qualidade de vida e
velmente ainda não estão apo- tra nenhuma plantação no local, eles se inserem e no modo como a integri-dade ecológica? Como
sentados. Constituindo a maioria a não ser aquela que serve para os assentados percebem sua nova essa popu-lação pode conviver
da população. Apenas sete (3,9 alimentar o gado do IPA. Alguns inserção na sociedade. No caso com o Parque Estadual Mata da
%) tem mais de 60 anos e prova- moradores mais velhos relataram da comunidade em estudo, mui- Pimenteira ajudando a mantê-lo
velmente contribuem para a ren- que estudavam na escola do IPA tos demoraram a se aceitar sob e se benefici-ando de sua existên-
da familiar com suas aposentado- durante um turno e trabalhavam tal inserção e se auto denominam cia?
rias, além do seu trabalho. na roça no outro turno. Assim, agricultores apenas por ser uma Complementando as informa-
Com relação à renda dessas aprenderam a práti-ca agrícola exigência do órgão administra- ções socioeconómicas sobre a co-
pessoas verificou-se que pelo me- e ressentem-se de que não mais dor. munidade do Saco, procurou-se
nos um membro de cada família existam plantações. A geração se- O INCRA fornece alguns be- conhecer que tipo de orientação
trabalha na cidade, no IPA ou na guinte a esta vem mantendo a tra- nefícios para a manutenção dos esta segue conside-rando objetos
UAST. Os que trabalham, em ge- dição da pesca artesanal e procu- mesmos, mas desincentiva ati- valorizados assu-mindo as con-
ral, ganham em torno de um sa- ra passá-la para seus filhos. Mas a vidades comerciais pelos assen- sequências da ação humana da-
lário mínimo. Todos sobrevivem geração hoje em idade escolar pa- tados. Isto contraria as pers- nosa sobre o meio ambiente para
com a renda familiar a qual incor- rece não adquirir essa formação pectivas de fortalecimento da o futuro do planeta, para a huma-
pora a aposentadoria dos mais de trabalho, nem agricultura nem agricultura familiar através de nidade em geral e para cada um
velhos e o bolsa família3, além da pesca, e insere-se no grupo de atividades pluriativas e comple- individualmente, ou seja as preo-
atividade comum a todos os lares “jovens cibernéticos” caracterís- mentares. Dessa forma, diversas cupações biosféricas, altruísticas
das comunidades que é a prática tica da juventude moderna. Nes- atividades que poderiam ser rea- e egoísticas.
da pesca artesanal realizada prin- se estudo, procurou-se descobrir lizadas pelos assentados acabam
cipalmente no Açude do Saco que como esse grupo de jovens pode
hoje, depois de seis anos de seca e deve contribuir para a formação

3Programa de assistência do governo federal.

148 ambientalMENTEsustentable, 2017, número especial ambientalMENTEsustentable, 2017, número especial 149
Maria Waleska de Andrade; Gerlânia Rodrigues; Tamires Lima da Silva Valores ambientais no nordeste brasileiro

Tabela 1. Número de famílias e de pessoas por núcleo familiar das comu- Consciência ambiental composto por quatro itens, com
nidades da Fazenda Saco. Participaram desse estudo 77 Eigenvalue de 4,04, explicando
** Comunidades fora do perímetro da Fazenda, mas com fronteira com a Mata da Pimenteira.
pessoas com idades variando de 33,73% da variância total e con-
13 a 70 anos, sendo 59,7 % do sistência interna (Alfa de Cronba-
sexo feminino e apenas 14,7 % ch) de 0,81. O segundo componen-
alcançou o Ensino Médio. te identificado foi a preocupação
Utilizou-se uma escala Likert, ambiental biosférica, composto
estudada por Schultz (2001), de três itens, com Eigenvalue de
para medir a preocupação am- 1,73, explicando 14,48% da va-
biental. Os participantes rece- riância total e consistência inter-
biam uma pergunta e deveriam na (Alfa de Cronbach) de 0,82.
indicar o grau de importância que O terceiro fator foi chamado de
dariam a um conjunto de itens va- preocupação ambiental altruísta,
Tabela 2. Quantitativo de pessoas por sexo, habitando nas comunidades lorativos. Foi feita uma análise fa- composto por quatro itens, com
do Saco. torial considerando as respostas Eigenvalue de 1,30 explicando
dos participantes para a questão: 10,88 % da variancia total e con-
“Preocupo-me com os problemas sistência interna de 0,81.
do meio ambiente por causa das Com essa configuração, os re-
consequências ruins que podem sultados confirmam o modelo
ter para...”, em que deveriam assi- trifatorial estudado por Schultz
Tabela 3. Quantitativo de pessoas por faixa etária, habitando nas comu- nalar a importância que davam a (2001). O componente com maior
nidades do Saco. cada um de 12 itens. média foi o da Preocupação Am-
O teste (Kaiser¬Meyer¬Olkin) biental Altruística (m = 4,62; sd
KMO = 0,70 e o Teste de Esferi- – 1,20) seguido da Preocupação
cidade de Bartlett = 303,604 a Ambiental Biosférica (m = 4,56;
um nível de significância de 0,00, sd = 1,24) e a menor média ficou
demonstram a consistência geral com a Preocupação Ambiental
dos dados. Os dados observados Egoística (m = 4,45; sd = 1,25).
ajustam-se ao modelo de três fa- Schultz (2000) argumen-tou
tores propostos por Stern et al. que existem diferenças indivi-
Foi feita uma análise de compo- duais no grau pelo qual as pes-
Tabela 4: Preocupação das pessoas com os problemas causados no meio nentes principais com rotação soas incluem a natureza em suas
ambiente. Oblimin e obtiveram-se três fato- representações cognitivas de si
res explicando 68% da variação mesmo. Para indivíduos com um
total. Ver Tabela 4. alto grau de inclusão, o self e a na-
Os resultados desta análise in- tureza são interconectados e as-
dicaram três componentes, sen- pectos da natureza têm um valor
do o primeiro, denominado de inerente. Num nível de inclusão
preocupação ambiental egoística mais baixo o self e a natureza es-

150 ambientalMENTEsustentable, 2017, número especial ambientalMENTEsustentable, 2017, número especial 151
Maria Waleska de Andrade; Gerlânia Rodrigues; Tamires Lima da Silva Valores ambientais no nordeste brasileiro

tão separados e a natureza é va- do num assentamento apoiado necessidade de se trabalhar mais GUANZIROLI, C.; ROMEIRO, A.;
lorizada apenas na extensão em pelo INCRA. Sua principal fonte a questão afetiva. BUAINAIN, A.M.; SABBATO, A.
que esta afeta o self. de renda é o trabalho assalariado Outros estudos encontram-se Di.; BITENCOURT, G. (2001):
No presente caso, observa-se complementado pelo Programa em andamento para orientar o A agricultura Familiar e Re-
uma prepoderância da preocupa- Bolsa Família, a Aposentadoria programa de treinamento para a forma Agrária no Século XXI.
ção ambiental altruística sobre a e a Pesca Artesanal. São pessoas vivência dos valores cooperação Rio de Janeiro, Garamond.
egocêntrica. Valores autotrans- que se dispõem à agricultura e à e respeito à natureza. INCRA, Instituto Nacional de Co-
cendentes vem se apresentando criação. Mantém uma Associação lonização e Reforma Agrária, dis-
pela população nordestina em de moradores na qual se pode Referências bibliográficas ponível em :< http://www.incra.
outros estudos (L. de Andrade, pensar na gestão cooperativa, ALVES, A.R.; PASQUALI, L. (2006): gov.br/reformaagraria>, acesso
2000). Esse resultado também principalmente com a participa- “Validação do Portraits Ques- em: 20/07/2017, 21:34
corrobora os estudos de Sch- ção feminina. tionnaire-PQ de Schwartz para o L. de ANDRADE, M. W. C.
wartz, Sagiv e Boehnke (2000) Quanto à relação com o meio Brasil”, In: II congresso de Psico- (2000): A dimensão valora-
que apresentaram uma correla- ambiente, os moradores se refe- logia Organizacional e do Tra- tiva do sentido da vida. João
ção positiva entre valores de auto riram a práticas que são proibi- balho. Pessoa:
transcendência e preocupações das e que portanto não as fazem. AZAMBUJA, L.R. (2009): “Os L. de ANDRADE, M. W. C..; LIMA,,
altruísticas e biosféricas. Conviver com a seca, a falta de Valores da Economia Solidá- T. DA S.; RODRIGUES, G. F.; SILVA,
Dessa perspectiva, valores au- água, não é um modo de vida fá- ria”, Sociologias, n. 21, p. 282- J. L. N. DA. (2016); “Sociodiver-
to-transcendentes refletem um cil, moldando uma relação des- 317. sidade, identidade e valores no
grau maior de inclusão – uma va- confiada para com a natureza. O AXELROD, R.; DION, D. The Fur- semiárido”. I Congresso Inter-
lorização de objetivos e entes que consumo e o mundo urbano tor- ther Evolution of Cooperation. nacional da Diversidade do Se-
não estão diretamente ligados ao na-se mais atraente. Aplicando a Disponivel em:<http://www- miárido (CONIDIS), v.1.
auto interesse (igualdade, união escala trifatorial, foi possível dis- -personal.umich.edu/~axe/re- MEDEIROS, L. S. de; LEITE, S.;
com a natureza, mente aberta, tinguir os três tipos de preocupa- search/Axelrod%20Dion%20 SOUSA, I. C. de; ALENTEJANO,
um mundo de paz). ção ambiental entre os membros Further%20EC%20Science%20 P. R. (2004): Assentamentos
da comunidade do Saco. A preo- 1988.pdf acesso em Agosto de rurais: mudança social e dinâ-
Considerações finais cupação ambiental altruísta, con- 2017. mica. Rio de Janeiro, Manual.
O presente estudo traz os re- sidera que é importante que os CARDOZO, J.R.A.; LOPES, M.F. MOREIRA, D. A. (2002): O méto-
sultados da pesquisa que vem problemas ambientais não pre- (2015). Disponível em:< www. do fenomenológico na pesqui-
sendo feita nas comunidades ha- judiquem outras pessoas. Bios- caldeiraodochico.com.br/a- sa. São Paulo, Pioneira Thomson.
bitantes da Fazenda Saco, sua his- férica, significando “eu sei que -importancia-preterita-do-al- PERCEGONA, C. G. (2008):
tória, suas características socio- algumas práticas são danosas, godao-para-o-nordeste-br> Qualidade de Vida e Respei-
-econômicas e sua preocupação embora não entenda bem o por- acesso em Agosto de 2017 to ao Meio Ambiente: Artigos
ambiental. quê”. E egoísticas, pois os resul- CAMPOS, C.B.; PORTO, J.B. (2010): Sobre Políticas Públicas para
Verificou-se que existem em tados danosos feitos à natureza “Escala de Valores Pessoais: va- Implantação. Concurso de Tra-
torno de 300 pessoas morando na podem me atingir. lidação da versão reduzida em balhos sobre os Objetivos de
área de estudo, a Fazenda Saco. Em resumo, o estudo indica amostra de trabalhadores brasi- desenvolvimento do Milênio.
Que a maioria dessas pessoas são uma potencialidade para o cuida- leiros”, Psico (PUCRS. Online), v. SAWAIA, 2007. Comunidade:
aparentadas e estão se instalan- do com o meio ambiente. E uma 41, p. 208-213, apropriação de um conceito tão

152 ambientalMENTEsustentable, 2017, número especial ambientalMENTEsustentable, 2017, número especial 153
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154 ambientalMENTEsustentable, 2017, número especial ambientalMENTEsustentable, 2017, número especial 155
Foto: Regina Silva

São Pedro de Joselândia, localizada no Breve apresentação da Formação de Formadores em Educação Am-
estado brasileiro de Mato Grosso.
biental e Política Pública brasileira: Potência de Agir ou Força de
Existir estimulada pelo Coletivo Educador Ambiental de Campinas
(COEDUCA)/Brasil

Alessandra Buonavoglia Costa-Pinto1

Resumo
Esse texto apresenta uma análise da formação de formadores em educação am-
biental (EA) desenvolvida pelo Coletivo Educador Ambiental de Campinas (COEDU-
CA), estimulada por uma política pública no Brasil. O objetivo foi formar educado-
ras/es ambientais numa perspectiva crítica, libertária e emancipatória, buscando
conferir maior poder de regulação da sociedade sobre o Estado, ou seja, formar
cidadãs e cidadãos atuantes na defesa e ampliação de seus direitos e que se auto-
determinam a agir para, assim, contribuir com a construção de sociedades susten-
táveis. O foco analítico é o aumento e/ou diminuição da potência de agir.

Abstract
This text presents an analysis of the training of trainers in Environmental Education
(EE) developed by the Campinas Environmental Educator Collective (COEDUCA),
stimulated by a public policy in Brazil. The objective was to educate environmental
educators in a critical, libertarian and emancipatory perspective, seeking to give
greater power to regulate society over the State, that is, to educate citizens who
are active in the defense and expansion of their rights and who are self-determi-
ned to act, thus contributing to the building of sustainable societies. The analytical
focus is the increase and/or diminution of the action potency.

Palavras-Chave: Educação Ambiental, Política Pública brasileira de Educação Am-


biental, Potência de agir, Espinosa, Formação de Formadores.

Keywords: Environmental Education, Brazilian Public Policy on Environmental Edu-


cation, Action Potency, Espinosa, Training of Trainers.

1NUPEEA/UFSB – Núcleo de Pesquisa e Extensão em Educação Ambienta/Universidade


Federal do Sul da Bahia/Brasil. E-mail: alegubcp@gmail.com.

ambientalMENTEsustentable, 2017, número especial 157


Breve apresentação da Formação de Formadores em Educação Ambiental e
Alessandra Buonavoglia Costa-Pinto
Política Pública brasileira

Esse texto apresenta breve- trelaçam-se influenciando-se mos ideias cognitivas a partir dos PAP2 são indivíduos e represen-
mente uma análise1 da formação mutuamente, embora gerem con- nossos afetos (sentimentos, emo- tantes das instituições que fazem
de formadores em Educação Am- sequências distintas, pois a se- ções, motivações). “Pensamos e parte do CE no território e que
biental (EA) estimulada por uma gunda remete-nos ao percurso agimos não contra os afetos, mas têm o compromisso de formar
política pública no Brasil (Pro- individual da busca da suprema graças a eles” (Chauí, 1995:71). educadores ambientais PAP3. Os
FEA) desenvolvida pelo COEDU- felicidade (expressão máxima de Isto é, a partir do que sentimos, quais são os atores sociais que
CA - Coletivo Educador Ambien- nossa força de existir ou potência de como afetamos e somos afeta- participam da formação e defla-
tal de Campinas. de agir), e a primeira refere-se à dos construímos ideias, teorias e gram ações socioambientais nos
A Análise refere-se ao proces- inserção do indivíduo numa esfe- regras para gerir a sociedade em territórios, através das quais têm
so formativo, de 2004 a 2012, que ra coletiva de participação políti- que vivemos. o intuito de fomentar/fortalecer
teve como objetivo formar educa- cossocial. Na estrutura dos Coletivos grupos de ação-reflexão em cada
dores ambientais numa perspec- As infinitas possibilidades de Educadores (Brasil, 2004), os comunidade, que já vem enfren-
tiva crítica, libertária e emancipa- combinação entre os três afetos grupos de Educadores Ambien- tando uma determinada proble-
tória, de modo a conferir maior básicos, desejo, alegria e tristeza, tais são nomeados como PAP mática socioambiental, sendo
poder de regulação da sociedade são o cerne do conceito de potên- esses os potenciais Educadores
sobre o Estado, ou seja, formar ci- cia. De forma abreviada: desejo é Ambientais PAP4, ou seja, a co-
Coletivo
dadãos atuantes na defesa e am- o que nos move; alegria, nas suas Educador PAP4… munidade em geral.
pliação de seus direitos e que se diversas manifestações, é a ex- …

autodeterminam a agir e, assim, pressão psíquica do aumento de PAP COEDUCA e Potência


AP3 PAP4…
contribuir com a construção de nossa força de existir e tristeza é A educação é vista como um
PAP2 P3
sociedades sustentáveis. a expressão psíquica da diminui- PAP4… pilar importante para o desenvol-
O foco é o aumento e/ou dimi- ção de nossa potência - a qual se PAP3 vimento. Por quê?
PAP1 PAP4…
nuição da potência de agir. Apre- relaciona diretamente com as va- Porque por meio dela alcança-
sentar-se-á o quê o processo riações do ânimo em função dos PAP4… mos um estado de maior alegria,
formativo desencadeou nos indi- afetos gerados pelos encontros PAP3 maximizamos a nossa potência e
PAP2
PA
víduos e não como o processo foi que podem ser bons/alegres/po- 4… preservamos o nosso ser.
desencadeado. tencializadores ou maus/tristes/ PAP4 Cabe colocar que todo o pro-
PAP3
O conceito de potência é cen- depotencializadores. Ou seja, re- cesso formativo, deflagrado pelos
PAP4…
tral em Espinosa, pois nos remete laciona-se com a nossa capacida- PAP2, utilizou-se da estratégia
à problemática da participação de de afetar e de ser afetado (EIII, denominada Cardápio de Apren-
em duas dimensões (eticopolí- prop 59, esc). dizagem (Tonso, 2005), balizada
tica e metafísica), as quais en- Espinosa nos diz que construí- – Pessoas que Aprendem Parti- na ideia de que o processo de for-
cipando/Pesquisando, podendo mação deve oferecer diferentes
ser PAP 1, 2, 3, 4, etc. estratégias educativas, chama-
PAP1 são integrantes do Ór- das Itens de Cardápio, que as/os
2O texto apresentado é parte de uma tese de doutorado: COSTA-PINTO, Alessandra gão Gestor da Política Nacional educadoras/es PAP3 escolheram
Buonavoglia. (2012). Potência de Agir e Educação Ambiental: aproximações a partir de uma de EA que têm como papel apoiar a partir das suas próprias neces-
análise da experiência do Coletivo Educador Ambiental de Campinas (COEDUCA) SP/Brasil. o planejamento das atividades sidades de realizar a ação educa-
Tese de doutorado, São Paulo, USP, (Programa de pós-graduação em Ciência Ambiental) &
dos Coletivos Educadores (CEs). tiva socioambiental de formação
Lisboa/Portugal, Universidade de Lisboa (Departamento de Filosofia).

158 ambientalMENTEsustentable, 2017, número especial ambientalMENTEsustentable, 2017, número especial 159
Breve apresentação da Formação de Formadores em Educação Ambiental e
Alessandra Buonavoglia Costa-Pinto
Política Pública brasileira

dos PAP4. que nos alimentem com poesia, Contudo, não é possível afir- como ação que se expressa como
Nessa proposta os temas/con- que desenvolvam o sentido lú- mar que o conhecimento adquiri- alegria/aumento de potência/
teúdos não devem “se limitar à dico, afetivo e estético” (Tonso, do pelos PAP provenha exclusiva- força de existir. Quando esta-
questão técnica objetiva de ofe- 2005:53). Ou seja, o processo mente da vivência formativa, mas mos potentes, somos capazes de
recerem somente informações, educativo deve ser entendido não sim que é fruto desse processo nos afastar dos maus encontros
mas devem propor atividades como um acúmulo de conheci- em sinergia com aprendizados (degradantes, tristes) e buscar/
que brinquem conosco, que nos mentos, mas e principalmente, advindos de tudo mais que foi fomentar bons encontros (poten-
tragam à memória nossa história, como um processo de autoco- vivido, nas diferentes esferas da cializadores, alegres).
vida de cada um, durante este pe- Abaixo são apresentados de-
ríodo. poimentos que explicitam os
Espinosa propõe uma terapia aprendizados dos PAP a respeito
cognitiva dos afetos para atingir a de si próprios ao longo do proces-
felicidade suprema (TCI, § 1, 2, 16 so:
e 18), que se configura como um
“o COEDUCA transformou a mi-
processo reflexivo sobre a causa nha vida, o jeito como eu me re-
primeira dos nossos afetos, inci- laciono com os meus filhos, com
tando-nos a percorrer o caminho o meu marido, com os meus cole-
gas de trabalho. (...) tem a ver com
imaginação (projeção) – razão enxergar mais o outro, (...) de se
(junção dos aspectos cognitivos e colocar no lugar do outro e saber
afetivos) – felicidade (libertação que naquele momento é daquela
dos afetos tristes) e, assim, con- forma que ele [(o outro)] dá con-
ta de saber fazer. (...) também eu
ferir alegria a existência humana. sou mais tolerante comigo, tenho
Para o filósofo, a reflexão sobre mais paciência, sou menos opres-
a causa dos nossos sentimentos/ sora de mim mesma, sei que na-
quele dia é assim que eu dei conta
motivações nos permite ter ideias de fazer” (PAP2).
crítico-reflexivas, possibilitando “(...) me fez perceber o meu po-
a transformação do próprio de- der e algumas inflexibilidades (...)
este trabalho do COEDUCA me
sejo. O aspecto intelectual/cog- deixou mais flexível. (…) ajuda
Atividades formativas do COEDUCA, 2007-2009. [Fotos: COEDUCA]
nitivo nos ajuda ordenar e com- também a perceber o outro e qual
preender melhor o que estamos é o seu limite” (PAP2).
nhecimento visando a uma maior cipalmente, pelo conhecimento “(...) essa vivência do construir
sentindo/pensando, de modo a uma proposta educativa coleti-
capacidade de ação individual e técnico adquirido, tanto na área propiciar uma reflexão que nos vamente, de ouvir o outro e ter
coletiva. educacional como na socioam- permita ressignificar nossos afe- que se rever [tem me ajudado a
Os resultados aqui, parcial- biental, que relaciona-se à ca- tos/pensamentos e, consequen- me conhecer melhor], é o que me
permite hoje responder às críti-
mente, apresentados referem-se pacidade do indivíduo de com- temente, permita a elaboração de cas/coisas/demandas de manei-
à dimensão individual da potên- preender, o melhor possível, sua outras ideias - cognitivas ou afe- ra mais amorosa” (PAP2).
cia em relação ao processo edu- inserção na área da educação am- tivas. “Entrar no COEDUCA foi quase
cativo desenvolvido. O foco da biental (dimensão ético-política como salvar a minha vida, pois se
Em Espinosa, esse processo abriu para mim um mundo novo”
análise é a alegria gerada, prin- da potência). de ressignificação constitui-se (PAP3).

160 ambientalMENTEsustentable, 2017, número especial ambientalMENTEsustentable, 2017, número especial 161
Breve apresentação da Formação de Formadores em Educação Ambiental e
Alessandra Buonavoglia Costa-Pinto
Política Pública brasileira

samento de Espinosa, que, no ponentes como crítica social que rilena Chauí). São Paulo, Abril
“(…) parte da estrutura cognitiva século XVII, diferentemente dos busca, efetivamente, alternativas Cultural, 3a edição. (coleção:
[da pessoa] vai se constituindo pensadores de sua época, com- que possibilitem a edificação de Os pensadores).
relacionada ao conhecimento de preendia a razão não como a ne- sociedades sustentáveis, rom- LEITE, S. A. da S. (2006): “Afetivi-
si própria (…)” (Leite, 2006:27). gação dos afetos mas sim como pendo com valores hegemônicos, dade e práticas pedagógicas.” In:
um processo interpretativo/re- hoje exacerbados, como competi- LEITE, S. A. da S. (org.). Afetivi-
O acima exposto, aponta à in- flexivo sobre eles na busca pelo tividade e individualismo. dade e práticas pedagógicas.
dissociabilidade entre afeto e reconhecimento de suas causas, Assim, essa experiência apon- São Paulo: Casa do Psicólogo.
processos cognitivos, além de pois como dito anteriormente, ta à importância de termos pro-
demonstrar a atualidade do pen- são nossos afetos que fazem com cessos de EA, preocupados com o
aprendizado ético-afetivo, como
centrais em políticas públicas
educacionais e ambientais, tendo
em vista o que Espinosa nomina
de ‘vida na concórdia’ , isto é, a
sustentabilidade em sentido am-
plo.

Referências bibliográficas
BRASIL. (2004): ProFEEA - Pro-
Atividades formativas do COEDUCA, 2007-2009. [Fotos COEDUCA] grama de formação de educa-
dores(as) ambientais. Por um
Brasil educado e educando am-
que tenhamos ideias cognitivas a cia o aumento de nossa potência bientalmente para a sustentabili-
respeito das coisas (do mundo e de agir e, passa necessariamente dade. Brasília: Ministério do Meio
de nós próprios). pelo reconhecimento de nossas Ambiente/Diretoria de Educação
Considerações finais potencialidades e limitações indi- Ambiental.
Espinosa fala-nos de um viduais e coletivas. CHAUÍ, M. (1995): Espinosa,
aprendizado ético-afetivo carac- O COEDUCA sempre teve a uma filosofia da liberdade.
terizado pela reflexão sobre nos- preocupação com esse aprendi- São Paulo, editora Moderna.
sos afetos passivos, ou seja, so- zado ético-afetivo apresentado ESPINOSA, B. (2007): Ética/Spi-
bre nossas ideias imaginativas/ por Espinosa como modo de al- noza; [tradução e notas Thomaz
projeções – hábitos culturais, cançar a felicidade/libertação Tadeu]. Belo horizonte: Autêntica
crenças, experiências afetivas dos afetos tristes. A partir disso, Editora.
que determinam nosso funciona- podemos apontar que a expe- ESPINOSA, B. (1983). Pensa-
mento psíquico, valores sociais riência educativa propiciada por mentos metafísicos; Tratado
cristalizados, conhecimentos téc- este coletivo tem substrato para da correção do intelecto; Ética;
nicos imprecisos ou superficiais possibilitar a potencialização do Tratado político; Correspon-
etc. - que têm como consequên- pensar e do fazer de seus com- dência (Seleção de textos: Ma-

162 ambientalMENTEsustentable, 2017, número especial ambientalMENTEsustentable, 2017, número especial 163
Foto: Regina Silva

Os equipamentos de educação ambiental para a sustentabilidade


no cerne do Entre-Norte-e-Centro
Margarida Correia Marques1
Fabíola Salvador Hipólito2
Rossano Lopes Bastos3

Resumo
Um equipamento de educação ambiental para a sustentabilidade (EqEA) é um im-
portante potencializador do desenvolvimento local. No presente trabalho preten-
deu-se construir uma estratégia em educação ambiental com a instalação de um
EqEA no território cunhado como cerne do Entre-Norte-e-Centro. Este território,
charneira entre as regiões Norte e Centro de Portugal Continental, é constituído
por sete concelhos: Aguiar da Beira, Castro Daire, Moimenta da Beira, Sátão, Ser-
nancelhe, Tarouca e Vila Nova de Paiva. Nesta área territorial rural ressalta a cul-
tura de pomares de macieiras, destacando-se as variedades de maçã tradicionais
certificadas. Salienta-se a existência de um EqEA registado no Sistema Nacional de
Informação de Ambiente. A opção de implantar neste território a “Quinta Peda-
gógica da Maçã” surge por ser um EqEA inovador com múltiplas valências – não
existe nenhum EqEA com caraterísticas semelhantes na Península Ibérica –, que
acrescenta valor aos recursos endógenos existentes. Sugere-se que a “Quinta Pe-
dagógica da Maçã” se localize no concelho de Moimenta da Beira ou de Tarouca,
por deterem a maior área ou com pomares de frutos frescos ou para futura intro-
dução, mais recursos hídricos e fáceis acessos. Este EqEA terá projeção, atrativi-
dade e competitividade se o empenho dos sete concelhos for coeso, cooperativo,
participativo e inovador.
Palavras-Chave: Educação ambiental, equipamento, desenvolvimento local, inova-
ção, sustentabilidade.

Abstract
Equipment of environmental education for sustainability (EqEE) is a major boos-
ter for the local development. The present paper was focused around creating an
environmental education strategy through the installation of an EqEE in a territory
known as the core of the Entre-Norte-e-Centro. This territory, located between the
northern and central areas of mainland Portugal, includes seven municipalities:
Aguiar da Beira, Castro Daire, Moimenta da Beira, Sátão, Sernancelhe, Tarouca and
Vila Nova de Paiva. The cultivation of apple trees’ orchards stands out in this rural
territorial area, and the existence of an EqEE registered with the National Envi-
ronmental Information System should also be noted. The option to establish an
"Apple Pedagogical Farm" in this land emerges as an innovative EqEE with multiple
valences - there is no EqEE with similar features on the Iberian Peninsula - and
adds value to the existing endogenous resources. There is a suggestion for the
"Apple Pedagogical Farm" to be located at the municipalities of Moimenta da Beira
or Tarouca, as they present the largest area in the territory, or hold sectors with
fresh fruit orchards or even include optimal areas for their future introduction, in
addition to having more water resources and easy accesses. This EqEE will have
projection, attractiveness and competitiveness, if the overall commitment from
the seven municipalities ends up being cohesive, cooperative, participatory and
innovative.
São Pedro de Joselândia, localizada no Key-Words: Environmental education, equipment, local development, innovation,
estado brasileiro de Mato Grosso. sustainability.

ambientalMENTEsustentable, 2017, número especial 165


Os equipamentos de Educação Ambiental para a sustentabilidade no cerne do
Margarida Correia Marques; Fabíola Salvador Hipólito; Rossano Lopes Bastos
Entre-Norte-e-Centro

Introdução zação nas questões ambientais conectada com o sistema de edu- aposta nos recursos endógenos
Desde meados do século XX (FENRINHA, 2011:13; CORREIA cação e em princípios definidos para a construção da sustenta-
que a Educação Ambiental (EA) MARQUES et al., 2015a:71,75; pela qualidade do pensamento, bilidade neste território, levou
se tem instituído e expandido, JACOBI, 2003). É, também, funda- capacidade em modelar e cons- a considerar a EA, em particular
devido à conjunção de vários fa- mental na promoção da capacida- truir o futuro, valores morais, um dos seus recursos – os Equi-
tores, tais como a crescente dos de das populações para intervi- ideais e apetência espiritual. pamentos para a Educação Am-
problemas ambientais, o debate rem nas decisões com impacte no Os objetivos da EA são formu- biental ou de Educação Ambiental
a nível internacional, nacional e ambiente e na qualidade de vida, lados com base nos problemas do para a Sustentabilidade (EqEA) –,
local sobre esses problemas, e o bem como, na consciencialização desenvolvimento da sociedade como um desafio, mas também
papel atribuído à educação como para a envolvência na resolução internacional. Convêm notar que como uma oportunidade. Este re-
fator-chave na solução destas do problema ambiental e para a a EA, bem como a sua filosofia, curso, instituído de forma orga-
questões (ALMEIDA, 2007:13- necessidade de políticas públicas difere de país para país (ZAKHA- nizada, orientada e estruturada,
19; AMADO e VASCONCELOS, nesta área (ALKIMIN, 2015:17; ROVA et al., 2015:1182,1185). é um importante potencializador
2015: 357; BLANCHET-COHEN RODRIGUES e COSTA, 2015; ROSA Em Portugal, as preocupações do desenvolvimento local.
e REILLY, 2013; CARVALHO, et al., 2015:215; ZORRILLA-PUJA- ambientais iniciaram-se em di- Neste contexto, o objetivo ge-
2015:33-44; COSTEL, 2015:1384; NA e ROSSI, 2016:152). ferentes períodos (CARVALHO, ral do trabalho realizado foi de-
FERNANDES et al., 2007; NEVES O conceito de EA tem vindo a 2015:60-65; FERNANDES et al., senvolver uma estratégia em EA
e OSSWALD, 2014:245-253; TAN- evoluir ao longo dos tempos, e 2007:36-38; HIPÓLITO, 2016:36- para a seleção e implantação de
NOUS e GARCIA, 2008; UNFCC, tem estado ligado diretamente 38), no entanto, só em 2017 se um EqEA no território multimu-
2017). Conforme França e Souza à evolução do conceito de am- concretizou o lançamento de uma nicipal sob apreço – o cerne do
Neto (2015:391) indicam, a EA é biente e à forma como este é per- estratégia para a EA (RESOLUÇÃO Entre-Norte-e-Centro. O conceito
“um instrumento capaz de pro- cecionado (FERNANDES et al., DO CONSELHO DE MINISTROS de EA em que se baseia esta es-
mover a transformação cultural 2007; HESSELINK e ČEŘOVSKÝ, n.º 100/2017 de 11 de julho). tratégia é de caráter multidisci-
e a superação da crise ambiental 2008; SAUVÉ, 2005; SERANTES O presente trabalho surge plinar, transformador e holístico.
que vivemos”. e BARRACOSA, 2008; TANNOUS e na sequência do Plano Regional Detém uma visão de ambiente
A EA constitui um instrumen- GARCIA, 2008). A Educação para de Desenvolvimento Integrado, centrada na relação dos seres
to essencial no processo de alte- o Desenvolvimento Sustentável solicitado pela empresa EGSP - com o mundo, no sentimento de
ração de valores, atitudes e com- (EDS) “concentra a sua atenção Energia e Sistemas de Potência à pertença ao lugar onde se vive, na
portamentos a nível individual e nos problemas de igualdade pela Unidade de Ambiente da Univer- postura crítica e na adaptação às
coletivo, ao sensibilizar a socie- educação e na própria educação” sidade de Trás-os-Montes e Alto diferentes realidades, bem como,
dade para uma coresponsabili- (NASIBULINA, 2015:1078). Está Douro, para um território multi- na integração das preocupações
municipal. Este território, deno- sociais e económicas. Interligado
minado por CORREIA MARQUES a este conceito está a ética am-
1Centro de Investigação e de Tecnologias Agroambientais e Biológicas – CITAB; Unidade de et al. (2015b) como o “cerne do biental, que procura formar o ci-
Ambiente da Universidade de Trás-os-Montes e Alto Douro, Quinta de Prados, 5000-801 Vila Entre-Norte-e-Centro”, é consti- dadão empenhado na vida em co-
Real, Portugal. Email: mcm@utad.pt
2Unidade de Ambiente da Universidade de Trás-os-Montes e Alto Douro, Quinta de Prados,
tuído por sete concelhos: Aguiar munidade, na consciencialização
da Beira, Castro Daire, Moimenta da coresponsabilidade pelo futu-
5000-801 Vila Real, Portugal.
3Instituto do Património Histórico e Artístico Nacional – IPHAN
da Beira, Sátão, Sernancelhe, Ta- ro, na coexistência pacífica com
rouca e Vila Nova de Paiva. A forte os outros cidadãos, na proteção
Praça Getúlio Vargas, 268 CEP: 88 020-030 Centro. Florianópolis, Santa Catarina, Brasil.

166 ambientalMENTEsustentable, 2017, número especial ambientalMENTEsustentable, 2017, número especial 167
Os equipamentos de Educação Ambiental para a sustentabilidade no cerne do
Margarida Correia Marques; Fabíola Salvador Hipólito; Rossano Lopes Bastos
Entre-Norte-e-Centro

e defesa do ambiente e no res- impacte (ALVES et al., 2013:74). de EA temáticos. 2013:23), sendo da responsabi-
peito pela ação, pelo sentimento Pode-se considerá-los laborató- • EqEA de perspetiva di- lidade das Comunidades Autó-
de pertença à comunidade e pela rios de aprendizagem individual dática ou educativa e didática nomas o diagnóstico relativo aos
participação ativa para o desen- e social de boas práticas a nível – nesta tipologia centram-se as EqEA implantados no seu terri-
volvimento da mesma. ambiental; são flexíveis, adap- quintas pedagógicas, as aulas de tório. No entanto, desde 2006,
tando-se às diversas exigências e natureza, as aulas ativas, o campo o Centro Nacional de Educación
Equipamentos para a educação necessidades. Na Figura 1 apre- de aprendizagem. Ambiental – CENEAM (MAGRA-
ambiental na Península Ibérica sentam-se os critérios e os ele- • EqEA de perspetiva socio- MA, 2017) compila anualmente
De todas as iniciativas em EA, mentos que definem os EqEA. crítica ou social – enquadram-se informação sobre os EqEA exis-
os EqEA são o recurso com maior Os EqEA classificam-se nas neste modelo os centros de de- tentes no território espanhol, ten-
senvolvimento rural, as vila-es- do registado mais de 700 EqEA.
cola, os centros de EA, as aulas Atualmente o CENEAM verifica o
experimentais. desaparecimento de muitos des-
• EqEA de perspetiva lúdi- tes EqEA devido à crise económi-
ca e turística – fazem jus a esta ca.
tipologia as casas da natureza, o Em Portugal, a entidade res-
turismo rural, os albergues da na- ponsável pela georreferenciação
tureza. dos EqEA é a Agência Portuguesa
• EqEA como centros de re- do Ambiente I.P. (APA). No Siste-
ferência – residem as iniciativas ma Nacional de Informação de
que coordenam e gerem recursos Ambiente (SNIAmb), em agosto
para outros EqEA. de 2017, estavam registados 175
O critério “impacte social” dos EqEA, incluindo: 9 Centros de
EqEA permite distinguir e inte- Ciência Viva; 54 Centros de Edu-
grar em dois grupos as tipologias, cação Ambiental; 44 Centros de
anteriormente identificadas: 1) Interpretação Ambiental; 5 Eco-
EqEA de alto impacte social; 2) tecas; 11 Parques Ambientais; 15
EqEA de baixo/médio impac- Quintas Pedagógicas; 37 Outro
Figura 1: Critérios que constituem um EqEA (adaptado de ALVES et al., 2013; te social (ALVES et al., 2013:76; (APA, 2017). A forte aposta tem
BOCOS, 2007; GUTIÉRREZ et al., 1999; PAZOS, 2006; SERANTES e BARRACO- CARVALHO et al., 2011:437). En- sido em EqEA ligados aos rios e
SA, 2008) quadram-se no primeiro grupo: ao mar. Verifica-se uma carência
os centros de EA, as aulas de na- de iniciativas em territórios de
seguintes categorias/tipologias conservacionista/institucional –
tureza, as quintas pedagógicas; baixa densidade populacional.
– que não se excluem reciproca- exemplos desta perspetiva são os
no segundo grupo: os centros de Vários autores defendem que
mente, mas completam-se – (AL- centros de visitantes, os centros
interpretação e de visitantes, os as atividades proporcionadas
VES et al., 2013:75-76; CARVALHO de interpretação, os museus e os
zoológicos, os museus. pelos EqEA devem recair numa
et al., 2011:436-437; SERANTES parques etnográficos.
Em Espanha, os primeiros maior integração da dimensão
e BARRACOSA, 2008:179-180): • EqEA de perspetiva atitu-
EqEA surgiram nos finais dos sociocultural, resultado de um
• EqEA de perspetiva na- dinal/comportamental – a título
anos 70 (SERANTES e GARCÍA, diagnóstico às iniciativas realiza-
turalista/conservacionista ou exemplificativo tem-se os centros

168 ambientalMENTEsustentable, 2017, número especial ambientalMENTEsustentable, 2017, número especial 169
Os equipamentos de Educação Ambiental para a sustentabilidade no cerne do
Margarida Correia Marques; Fabíola Salvador Hipólito; Rossano Lopes Bastos
Entre-Norte-e-Centro

das pelos EqEA, que são maiori- ria nem aeroportuária, embora
tariamente focadas nas perspeti- exista um heliporto em Aguiar da
vas naturalista/conservacionista Beira. Para garantir e promover
(MEIRA CARTEA e PINTO, 2008; o acesso ao futuro EqEA (ver ca-
PAZOS, 2006:206). Para comba- pítulo 5) há que repensar a rede
ter as dificuldades, as carências e de transportes no território sob
as limitações que os EqEA detêm, apreço. Esta deverá ser flexível,
MUÑOZ (2002:67) defende que inteligente, amiga do ambiente e
“deveria criar-se um modelo em sempre que possível recorrer à
que a política institucional seja utilização dos recursos endóge-
centrada no público, nos servi- nos da área territorial em análise.
ços educativos, na divulgação, na A rede hidrográfica é abun-
comercialização e nas relações dante e diversificada. No Cerne
Figura 2: Localização dos sete concelhos, que constituem o cerne do Entre-
públicas, e que os processos de do Entre-Norte-e-Centro locali- -Norte-e-Centro, em Portugal Continental.
comunicação e educação se con- zam-se as cabeceiras e as nascen-
vertam na sua principal função”. tes de importantes rios, tanto da Os solos com aptidão agríco- nantemente, as explorações agrí-
bacia do Douro, como ainda do la elevada correspondem a 0,9% colas têm dimensões compreen-
O cerne do Entre-Norte-e-Cen- Vouga e do Mondego. A rede de da área do território em análise didas entre 1 ha a 5 ha. Todavia,
tro abastecimento de água e de dre- e localizam-se principalmente registam-se algumas exceções,
O cerne do Entre-Norte-e-Cen- nagem de águas residuais é com- nos concelhos de Moimenta da nomeadamente em Moimenta da
tro possui uma área de cerca de plexa, devido à sua dispersão, à Beira, Sátão Sernancelhe e Ta- Beira onde prevalece a produção
151 195 ha. Insere-se nas regiões existência de pequenos aglome- rouca (CORREIA MARQUES et al., intensiva de maçã e em Sernance-
Norte e Centro de Portugal Con- rados e à complexidade da gestão 2015b:24). O concelho de Sátão lhe com a produção intensiva de
tinental (NUTS II) e conseguintes do domínio hídrico regional. apresenta-se como o mais apto castanha. A macieira, a cerejeira, a
sub-regiões Douro e Dão-Lafões Do ponto de vista geológico e a nível florestal e agrícola, tendo pereira, a figueira e outros poma-
(NUTS III), que por sua vez per- geomorfológico, o território sob grandes áreas com moderada e res de frutos frescos são bastante
tencem aos distritos de Viseu e apreço situa-se no Maciço Anti- elevada aptidão. Com vista à im- relevantes nesta área territorial,
da Guarda (Figura 2). Está divi- go, na Zona Centro-Ibérica (COR- plantação de um EqEA no cerne mas são os pomares de macieiras
dido em 76 freguesias (CORREIA REIA MARQUES et al., 2015b:20). do Entre-Norte-e-Centro, aquan- que têm a maior expressão. Real-
MARQUES et al., 2015b:8). Embora não exista legislação que do do seu projeto de execução, ça-se a produção de maçãs tradi-
No que diz respeito às infraes- imponha zonas de proteção para deverá ter-se em consideração a cionais certificadas como a “DOP
truturas rodoviárias, e apesar as falhas geológicas deve-se con- aptidão dos solos para uso agrí- – Maçã Bravo-de-Esmolfe” e a
de, nos últimos anos, terem sido truir o EqEA em conformidade cola, de forma a colocar o equipa- “IGP – Maçã da Beira Alta” (as va-
substancialmente requalificados com as mesmas, ou seja, com ma- mento numa área adequada que riedades deste fruto são: Golden
os acessos a este território, a sua teriais de construção adequados não condicione o potencial agrí- Delicious; Royal Gala; Jonagored;
sinalização precisa de ser mui- e fundações resistentes, especial- cola da área sob apreço. Granny Smith; Reineta).
to melhorada. O cerne do Entre- mente no caso de a sua localiza- A área agrícola corresponde a A agricultura é a principal fon-
-Norte-e-Centro não dispõe de ção ser na proximidade de uma 33 791 ha, isto é, 22% da área do te de rendimento da maior parte
nenhuma infraestrutura ferroviá- destas falhas geológicas. território em análise. Predomi- da população residente no cerne

170 ambientalMENTEsustentable, 2017, número especial ambientalMENTEsustentable, 2017, número especial 171
Os equipamentos de Educação Ambiental para a sustentabilidade no cerne do
Margarida Correia Marques; Fabíola Salvador Hipólito; Rossano Lopes Bastos
Entre-Norte-e-Centro

do Entre-Norte-e-Centro. A ele- nascimentos e à fraca fixação da Equipamentos de educação ra de Lamosa que disponibiliza
vada faixa etária (cerca de 43% população no território em aná- ambiental para a sustentabili- informação sobre o património
dos produtores têm idade igual lise. O grupo etário de população dade num e para um território natural e construído de Lamosa
ou superior a 65 anos), os níveis residente com maior expressão, multimunicipal e dos territórios desta freguesia
de instrução baixos (cerca de em 2011, correspondia ao estra- que fazem parte da Rede Natu-
59% dos produtores terminaram, to da população adulta ativa, 25- Equipamentos existentes ra 2000, do sítio de importância
apenas, o 1.º ciclo do ensino bási- 64 anos (50%). O grupo etário da No cerne do Entre-Norte-e- comunitária Rio Paiva; 3) O Par-
co) e a insuficiente formação dos população idosa, >65 anos, surgia -Centro, em agosto de 2017, es- que Botânico Arbutus do Demo,
produtores (somente 0,24% dos em seguida com 25%. A taxa de tava registado no SNIAmb apenas em Queiriga, onde se encontram
produtores têm formação pro- desemprego atingiu o seu valor um EqEA: o Centro de Interpreta- espécies botânicas autóctones –
fissional agrícola) resulta na má mais elevado no concelho de Vila ção e Informação do Montemuro dispostas por usos etnobotânicos
utilização de produtos químicos Nova de Paiva (14%) e o seu valor e Paiva (CIIMP). Situado em Cas- e industriais, propriedades medi-
na atividade agrícola e, também, mais baixo no de Aguiar da Bei- tro Daire, o CIIMP está aberto du- cinais e características aromáti-
no abandono das terras agríco- ra (9%). As habilitações escola- rante todo o ano e tem uma admi- cas –, e ainda estruturas de apoio,
las (CORREIA MARQUES et al., res predominantes no território nistração local, do setor público. como uma sala de interpretação
2015b:72). No município de Moi- (73%) correspondiam ao ensino Das atividades que pode realizar audiovisual.
menta da Beira localizam-se as básico (INE, 2011). destacam-se: eventos comemo- No concelho de Aguiar da Bei-
duas organizações de produtores A estrutura empresarial no rativos/espetáculos, trilhos in- ra está em construção um Centro
que existem neste território: a cerne do Entre-Norte-e-Centro é terpretativos, projeção de audio- Interpretativo Vivo do Castanhei-
Cooperativa Agrícola do Távora, composta por pequenas e médias visuais, campos de ocupação dos ro e da Castanha para a promoção
CRL; e a SOMA – Sociedade Agro- empresas (PME), em que cerca de tempos livres/férias e oficinas/ e o reforço da cultura do casta-
-Comercial da Maçã, Lda. Estas 98% das empresas detêm menos atividades experimentais (APA, nheiro.
organizações deverão ser envol- de dez pessoas ao serviço (mi- 2017). Convêm reforçar que todos
vidas no projeto e funcionamento croempresas) (CORREIA MAR- Existem outros EqEA no cer- os EqEA se deverão registar no
do EqEA proposto, pois poderão QUES et al., 2015b:105-106). ne do Entre-Norte-e-Centro não SNIAmb de forma a se promove-
proporcionar e adicionar conhe- A distribuição de empresas na registados no SNIAmb. A título rem e adquirirem maior visibili-
cimentos, experiência e parcerias atividade cultura de pomóideas exemplificativo mencionam-se dade, tanto no território como a
ao mesmo. (maçãs, peras, marmelos, entre dois localizados no concelho de nível nacional ou mesmo inter-
Em 2011, residiam no cerne do outras) e prunóides (pêssegos, Sernancelhe (CMS, 2017) e um nacional. Para que isto aconteça,
Entre-Norte-e-Centro 62 363 in- cerejas, nectarinas, ginjas, alper- terceiro situado no de Vila Nova esta plataforma terá que ser mais
divíduos (INE, 2011). A densida- ces, ameixas, entre outras) detêm de Paiva (CMVNP, 2017): 1) O e melhor divulgada, nomeada-
de populacional apresenta uma uma maior expressão no conce- Centro Interpretativo da Aldeia mente junto das câmaras muni-
diminuição nos últimos anos: em lho de Tarouca (66%), e menor da Faia, aberto durante todo o cipais. Relativamente, aos EqEA
2016, o valor correspondia a cerca expressão no concelho de Castro ano e administrado pela Asso- existentes no cerne do Entre-
de 42 habitantes/km2; em 2011, Daire (6%). Ainda no setor pri- ciação Dinamizadora Aldeia da -Norte-e-Centro sugere-se adicio-
a 44 habitantes/km2 (INE, 2011; mário, verifica-se que as empre- Faia; 2) O Centro Pedagógico de nalmente que haja uma maior di-
INE, 2016). Esta diminuição de- sas com sede em Sernancelhe são Lamosa e o Centro Interpretativo vulgação nos portais oficiais das
ve-se ao envelhecimento da po- as que exportam mais, seguindo- da Biodiversidade da Rede Natu- câmaras municipais.
pulação, ao reduzido número de -se as empresas de Tarouca.

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Os equipamentos de Educação Ambiental para a sustentabilidade no cerne do
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Entre-Norte-e-Centro

Seleção do tipo de equipamen- tiva didática ou educativa e didá- enquadra-se nos moldes da EA Entre-Norte-e-Centro tem em se
to e temática a implantar tica é o que melhor pode aproxi- não formal e permite dar respos- dinamizar e, portanto, conta com
Como mencionado no capítu- mar a EA à população e fomentar ta às necessidades crescentes de objetivos que venham valorizar o
lo 2, os EqEA são o recurso com a formação de uma cidadania contacto das populações com a que esta área territorial tem para
maior impacte junto das popu- ambiental que assuma e promova natureza e o mundo rural. É uma oferecer à população residente e
lações quando se aborda a EA. mudanças relevantes noutras es- ideia inovadora a que acresce o a todos os que a queiram visitar
Tendo em conta o panorama a calas territoriais. facto de, até ao presente, não exis- e explorar. Esta proposta surge,
nível da Península Ibérica (onde O critério de “impacte social” tir na Península Ibérica nenhuma também, da mudança de para-
se verificou a oferta de um vasto (ver também capítulo 2) mais Quinta Pedagógica que centre to- digma que se quer efetuar em
leque de experiências) e ao nível adequado ao EqEA proposto im- dos os seus esforços apenas num Portugal, como é o caso do com-
do território em análise, o EqEA plantar no território sob apreço produto. bate à desertificação do interior.
a implantar deverá apostar na di- corresponde ao EqEA de alto im- Sugere-se que a “Quinta Pe- Será um espaço socioeducativo
ferença, na inovação e no desen- pacte social, uma vez que neste dagógica da Maçã” adote a agri- que centra as suas atividades no
volvimento local. É essencial que nível de impacte é necessário que cultura biológica na produção Ciclo da Maçã; um recurso com-
o EqEA tenha um papel ativo na as atividades propostas sejam de da maçã, bem como em todas as plementar e facilitador de apren-
educação e seja uma referência cariz participativo, proporcio- culturas produzidas. Deve respei- dizagem de conhecimentos, in-
estável para toda a população, nem o contacto com a realidade, tar as normas específicas estabe- tegrando tradições, costumes e
colabore na formação ambiental, permitam a descoberta e a intera- lecidas pela União Europeia e a valores, que deverá assegurar o
desenvolva projetos educacionais ção, e desenvolvam-se em longos legislação em vigor em Portugal respeito pelos objetivos definidos
com continuidade no tempo, crie períodos de tempo. sobre este modo de produção na cimeira da ONU “Transformar
postos de trabalho, seja atrativo Do cruzamento das seleções (DECRETO-LEI n.º 256/2009 de o nosso mundo: Agenda 2030 de
a um elevado número de partici- atrás efetuadas e contabilizando 24 de setembro), enquadrando- Desenvolvimento Sustentável”,
pantes, gere outros programas e os recursos endógenos do terri- -se, assim, na atual Estratégia Na- que decorreu em Nova Iorque,
incremente a investigação a nível tório sob apreço (Figura 3) res- cional para a Agricultura Biológi- em 2015 (UNRIC, 2017).
local, que seja um recurso capaz salta como tipologia para o EqEA ca (RESOLUÇÃO DO CONSELHO Para a concretização de todos
de abordar estratégias de ação a implantar: a Quinta Pedagógica. DE MINISTROS n.º 110/2017, os objetivos a que a “Quinta Pe-
local. Do estudo diagnóstico no cerne de 27 de julho). A boa qualidade dagógica da Maçã” se propõe são
Neste contexto, as categorias/ do Entre-Norte-e-Centro ressal- do ar ambiente no território sob necessários os recursos básicos
tipologias de EqEA (ver capítulo ta a forte aposta na produção de apreço (CORREIA MARQUES et (e.g. recursos materiais, huma-
2), que mais se enquadram e que maçã, resultando, por vezes, uma al., 2015b:40-47) contribuindo nos e metodológicos) para um
poderão ter sucesso no cerne do grande quantidade de maçã de positivamente para a produção desenvolvimento próspero. Uma
Entre-Norte-e-Centro, são: 1) refugo (CORREIA MARQUES et biológica será também um atra- administração forte e uma equi-
EqEA de perspetiva didática ou al., 2015b:69; ver também capí- tivo para o público-alvo visitar a pa educativa sólida resultará em
educativa e didática; 2) EqEA de tulo 3). Desta constatação surge a “Quinta Pedagógica da Maçã”. ótimos recursos metodológicos e
perspetiva sociocrítica ou social; temática para a Quinta Pedagógi- materiais. A “Quinta Pedagógica
3) EqEA de perspetiva lúdica e tu- ca – o Ciclo da Maçã – composto Quinta Pedagógica da Maçã da Maçã” será pensada e adap-
rística. Porém, tendo em conta os pelas quatro fases apresentadas A proposta de criação da tada ao público-alvo, designada-
recursos endógenos do território na Figura 4. “Quinta Pedagógica da Maçã” sur- mente nos seus conteúdos, nas
sob apreço, um EqEA de perspe- A “Quinta Pedagógica da Maçã” ge da necessidade que o cerne do atividades propostas (incluindo a

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Os equipamentos de Educação Ambiental para a sustentabilidade no cerne do
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sua duração e os materiais a utili- • Investigar e inovar nas


zar), nas suas infraestruturas, na várias fases do Ciclo da Maçã, no-
sua avaliação e em todas as par- meadamente na produção, na co-
ticularidades na envolvente do lheita, no armazenamento e/ou
projeto, de forma a responder às na transformação, para colocar
necessidades locais, regionais e à disposição da população uma
até internacionais. rede de conhecimentos;
• Promover a inclusão, a
Público-alvo e objetivos participação, e o envolvimento
O cerne do Entre-Norte-e-Cen- dos intervenientes nas ações de-
tro é um território de baixa den- senvolvidas pelo equipamento;
sidade (ver capítulo 3). Por esta • Contribuir para o desen-
razão, o EqEA foi pensado e es- volvimento do turismo de qua-
truturado para todas as pessoas lidade, isto é, com produtos de
que queiram usufruir de um es- qualidade, requinte e acessíveis a
paço descontraído, enriquecido todos;
em cultura e em conhecimento, • Dinamizar o cerne do En-
sejam elas nacionais (do territó- tre-Norte-e-Centro;
rio ou não) ou estrangeiras, de • Criar postos de trabalho.
Figura 3: Seleção do equipamento para a educação ambiental a implantar no modo consciente e com respeito
território em análise. pelos recursos naturais e pelo Gestão e funcionamento
ambiente. No público-alvo inclui- O projeto educativo da “Quinta
-se: a população escolar de todos Pedagógica da Maçã” deverá ser
os níveis de ensino; os professo- realizado pela administração do
res; os investigadores; as empre- EqEA, antes da sua implantação
sas; os agricultores; a população no território em análise, contan-
jovem; a população adulta ativa; a do desde o início com o apoio da
população idosa e as famílias. equipa educativa, de preferência
Os objetivos a que o EqEA se já especializada nesta matéria.
propõe são: Pretende-se que a equipa educa-
• Educar, sensibilizar, moti- tiva seja o mais multidisciplinar
var e acompanhar o público-alvo possível, estável e profissionaliza-
para a concretização de boas prá- da. As dimensões da Quinta irão
ticas na produção, colheita, arma- determinar o número de colabo-
zenamento e/ou transformação radores necessários para o seu
da maçã; funcionamento. Todos os postos
• Valorizar e potenciar os de trabalho a criar serão verdes
Figura 4: Temática para a Quinta Pedagógica – o Ciclo da Maçã – fases deste
recursos endógenos, as tradições e sustentáveis, uma vez que es-
ciclo a partir da informação da Associação dos Produtores de Maçã de Alcoba-
ça (2017). e os costumes; tes “reduzem de forma gradual os

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impactes ambientais e sociais das vidade económica; a eficiência na A certificação da “Quinta Pe- com as escolas profissionais pode
diversas atividades económicas” utilização da água; o estado das dagógica da Maçã” através de contemplar a lecionação de aulas
e contribuem “para os objetivos águas de superfície; o estado das sistemas de gestão ambiental práticas, bem como a coorienta-
e as metas da sustentabilidade” águas subterrâneas; os fertilizan- contribuirá para o sucesso da sua ção de trabalhos académicos e
(DIAS e RAMOS, 2010:4,17). tes agrícolas; a gestão ambiental concretização e para a melhoria estágios que promovam a inclu-
As entidades responsáveis e responsabilidade social; a ges- contínua do seu desempenho am- são dos alunos no mercado de
pela administração da Quinta – tão de resíduos; a ocupação e uso biental. Poderá ser definida como trabalho. Com os agricultores po-
públicas e/ou privadas – deverão do solo; a produção agrícola cer- parte do sistema global de gestão, derá desencadear-se o desenvol-
realizar uma gestão adequada ao tificada; a produção e consumo que inclui: a estrutura funcional; vimento de atividades realizadas
tipo de EqEA, transparente, res- de energia primária; e a qualida- o planeamento das atividades; a por eles e para eles, o volunta-
ponsável, participativa, eficiente, de do ar. definição das responsabilidades; riado e a aprendizagem de novas
eficaz, coerente, dinâmica, que Propõe-se que o processo de os procedimentos e os recursos técnicas na agricultura e mais es-
possibilite a redução da pegada avaliação ocorra ao longo de todo necessários para concretizar, pecificamente para os pomares
ecológica e, simultaneamente, o projeto, podendo ser compos- manter, desenvolver e rever de de macieiras.
melhore os recursos a nível local. to pelas etapas apresentadas na modo continuado a política am- O EqEA deverá oferecer, ain-
Deverá recorrer-se a um sistema Figura 5. É importante que os biental da Quinta. da, um funcionamento regular ao
de indicadores de desenvolvi- resultados desta avaliação sejam A criação de uma Marca Regis- longo do ano, isto é, deverá estar
mento sustentável para a ava- incorporadas no melhoramento tada para a “Quinta Pedagógica aberto ao público mais de 120
liação da evolução dos níveis de e na evolução dos programas, ati- da Maçã” certificará a qualidade dias/ano. O horário de funcio-
sustentabilidade da Quinta. Dos vidades e serviços da Quinta para do EqEA e dos serviços prestados namento poderá ser variável ao
indicadores-base deste sistema incitar à melhoria do ambiente, à ao público-alvo. Além da marca, longo do ano. Como critério para
destacam-se os com interesse di- melhoria da EA, ao crescimento sugere-se a criação de um percur- a escolha do melhor horário su-
reto na avaliação das boas práti- profissional da equipa, à melho- so pedestre – a ser posteriormen- gere-se, por exemplo, a época alta
cas ambientais no Ciclo da Maçã: ria do seu funcionamento, ao for- te homologado –, que venha dina- e a época baixa de turismo ou a
o consumo da água; o consumo talecimento da relação da equipa mizar os pomares de macieiras. influência das estações do ano no
de eletricidade produzida a partir com o público-alvo, a uma maior A “Quinta Pedagógica da Maçã” ciclo da maçã.
de fontes de energia renováveis; probabilidade de contrair finan- deverá realizar parcerias com as
a ecoeficiência dos setores de ati- ciamentos e outros apoios. Organizações de Produtores do Infraestrutura
Território (ver capítulo 3), as es- A “Quinta Pedagógica da Maçã”
colas profissionais, as empresas pode ser inserida de duas formas
ligadas ao setor da agricultura, os distintas no cerne do Entre-Nor-
agricultores, e com todas as enti- te-e-Centro: a primeira hipótese é
dades que tenham interesse no e a recuperação de uma zona agrí-
para o desenvolvimento próspe- cola abandonada e/ou de um edi-
ro da Quinta. Estas parcerias irão fício ou até de uma quinta já exis-
proporcionar novas experiências, tente, da forma mais sustentável
transmissão de conhecimentos, possível; e a segunda hipótese é
associativismo, inclusão e be- a construção sustentável de uma
Figura 5: Constituição do processo de avaliação do equipamento a implantar
no território em análise.
nefícios económicos. A parceria infraestrutura para o efeito. Em

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ambos os casos é necessário res- tor de uma cozinha/laboratório 5. Zonas de circulação entre utilizar nas atividades; aplicações
peitar o ecossistema e todos os onde se realizará a transforma- os diferentes espaços. móveis; e um website.
seus princípios, minimizar os ção da maçã e algumas das ati- Todas as atividades realizadas
impactes que possam causar ao vidades (e.g. workshops, ateliers A criação de um espaço para a na Quinta deverão ter uma com-
ambiente e utilizar de forma efi- e/ou oficinas de trabalho), bem realização de investigação cien- ponente sociocultural relevante
ciente os recursos. Implicará: a como de um espaço para o arma- tífica nas várias fases do Ciclo da para recuperar costumes e valo-
minimização da produção de re- zenamento do fruto, outro para Maçã poderá resultar em docu- res tradicionais, bem como para
síduos e de emissões (de prefe- exposições e receção dos visitan- mentos científicos e técnicos que potenciar os recursos endóge-
rência Resíduo 0 e Emissão 0); a tes; um espaço direcionado para avaliem as possibilidades de in- nos do território sob apreço e a
utilização eficiente dos recursos a comercialização dos produtos vestimento nesta área e na cons- dinamização do mesmo. Tanto a
energéticos e hídricos, recorren- da Quinta; e um espaço para bar trução de uma rede de conheci- população residente como as em-
do aos recursos endógenos do e/ou restaurante; mentos que possa ser partilhada presas locais poderão participar,
território sob apreço; a maximi- • Alojamento – Espaço que com o público-alvo, empresas e envolver-se e realizar atividades
zação da durabilidade dos edi- proporcione aos visitantes esta- todas as entidades interessadas. na Quinta Pedagógica, contri-
fícios; a utilização de materiais dia (e.g. bangaló, casa rural/tra- Uma das áreas com interesse a buindo com os seus conhecimen-
ecoeficientes. Salienta-se que não dicional), de forma a desenvolver nível científico é a análise de ciclo tos na área e fomentado laços e
se deverá implantar a “Quinta Pe- turismo de qualidade; de vida da maçã, visando a oti- parcerias. É indispensável pro-
dagógica da Maçã” em zonas de • Unidade de investigação mização dos processos que com- mover a inclusão nas atividades
falhas geológicas nem nas suas científica – para aprofundar o co- põem este ciclo. de pessoas com mobilidade redu-
proximidades e em zonas que nhecimento sobre as várias fases zida e/ou deficiência, com neces-
haja risco de incêndio (ver capí- do Ciclo da Maçã e inovar nesta Atividades sidades especiais e carenciadas.
tulo 3; CORREIA MARQUES et al., área; Na “Quinta Pedagógica da Na Tabela 1 apresentam-se su-
2015b:20-21,62-63). • Estufas e viveiros; Maçã” será privilegiada a edu- gestões de atividades na promo-
Sugere-se que a dimensão da • Edifício de apoio ao po- cação, sensibilização e acompa- ção do Ciclo da Maçã que podem
“Quinta Pedagógica da Maçã” seja mar – que possibilite guardar as nhando do público-alvo na con- ser realizadas e adaptadas para
igual ou superior a 2 ha, uma vez ferramentas e os recursos mate- cretização de boas práticas no as diferentes faixas etárias. Na Fi-
que irá deter espaços de conforto riais necessários; Ciclo da Maçã, ao mesmo tempo, gura 6 ilustra-se de forma sucinta
e bem-estar, assim como, espaços • Estábulo e curral – no que se promove a sua inclusão, algumas das possibilidades que
para atividades interiores e exte- caso de optar-se pela utilização participação e envolvimento. podem ser trabalhadas nas ativi-
riores destinadas ao público-alvo. de organismos auxiliares (e.g. ga- Para tal será necessário desen- dades dirigidas à transformação
Deverão criar-se condições para linhas, ovelhas) na limitação das volver programas e atividades de da maçã.
a receção de pessoas com mobi- pragas na agricultura biológica; oferta regular que respeitem as
lidade reduzida e/ou deficiência, 2. Um espaço de grande am- diferentes etapas a ter em consi- Localização
que necessitem de cuidados es- plitude com um pomar de maciei- deração: idealização, preparação, A “Quinta Pedagógica da
peciais. Poderão ser adotados os ras realização, avaliação e reformu- Maçã” poderá localizar-se em
seguintes espaços: 3. Uma horta pedagógica lação. A equipa educativa deverá qualquer um dos sete concelhos
com uma estufa de apoio; elaborar materiais de apoio so- em análise. Porém, com o intuito
1. Edifícios: 4. Espaços que valorizem a bre esta temática, como: guias de de conhecer quais as áreas com
• Edifício principal – deten- paisagem; informação; folhetos; materiais a maior aptidão para a sua im-

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Os equipamentos de Educação Ambiental para a sustentabilidade no cerne do
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plantação, definiram-se macro concelhos, ilustrando ainda áreas


critérios imprescindíveis para a com potencial para a introdu-
seleção destas áreas: 1) Recursos ção de pomares de macieiras e
hídricos – devido à necessidade as áreas a evitar na implantação
que a Quinta terá em abastecer- da Quinta por estarem já ocu-
-se deste recurso, sobretudo na padas pelas urbes. A rede rodo-
produção de maçã; 2) Uso e ocu- viária mostra o mesmo nível de
pação do solo – para observar distribuição nos sete concelhos
a distribuição espacial da área que constituem o cerne do Entre-
agroflorestal e da área urbana -Norte-e-Centro. Essencial para o
no território sob apreço; 3) Rede desenvolvimento deste projeto,
rodoviária – com o propósito o acesso pela A24 e pelo IP3, si-
de analisar as acessibilidades à tuado em toda a extensão norte-
“Quinta Pedagógica da Maçã”; 4) -sul do concelho de Castro Daire,
Tabela 1: Atividades a realizar por todas as faixas etárias para a promoção do
Pomares de frutos frescos – de possibilitará a comunicação com
ciclo da maçã.
extrema importância para criar estradas municipais, nacionais
informação sobre a sua distribui- e internacionais. Os pomares de
ção e dimensão no território sob frutos frescos – com dimensões
apreço. Utilizando o software Ar- inferiores a 2 ha, compreendidas
cGis 10.3.1. cruzaram-se as cartas entre 2 e 5 ha e superiores a 5
correspondentes a estes macro ha – predominam nos concelhos:
critérios (CORREIA MARQUES et Moimenta da Beira e Tarouca,
al., 2015b:11,31,61,73; HIPÓLI- concentrando-se quase exclusi-
TO, 2016:91), de forma a obter a vamente a norte destes. Como foi
malha de macro localização para sugerido atrás, a “Quinta Pedagó-
os possíveis locais onde se pode- gica da Maçã” deverá deter uma
rá implantar a “Quinta Pedagógi- dimensão mínima igual ou supe-
ca da Maçã”. rior a 2 ha – não se aconselhan-
Verificou-se que os recursos do o investimento em áreas com
hídricos têm uma distribuição se- dimensão inferior a esta.
melhante por todo o território em Tendo em consideração esta
análise, portanto onde quer que análise recomenda-se que a
se pretenda implantar a “Quin- “Quinta Pedagógica da Maçã” seja
ta Pedagógica da Maçã” ter-se-á implantada no concelho de Moi-
sempre um bom abastecimento menta da Beira e/ou no de Tarou-
de água à mesma. Do uso e ocu- ca, uma vez que detêm a maior
pação do solo ressalta que a área área com pomares de frutos fres-
Figura 6: Atividades no âmbito da transformação da maçã, sugeridas para a agroflorestal está distribuída de cos, fáceis acessos, uma forte rede
Quinta Pedagógica a implantar no cerne do Entre-Norte-e-Centro. modo semelhante por todos os de abastecimento de recursos hí-

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Os equipamentos de Educação Ambiental para a sustentabilidade no cerne do
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dricos, e em caso de necessida- o estudo preliminar de macro rante todo o projeto. No cerne 31(8), 15-27.
de de introdução de pomares de localização efetuado sugere que do Entre-Norte-e-Centro deve- ALMEIDA, A. (2007). Educa-
macieiras, possuem várias áreas seja implantada nos concelhos rá desenvolver-se uma rede de ção Ambiental. A importância
onde se poderá fazê-lo. de Moimenta da Beira ou de Ta- transportes que garanta e facilite da dimensão ética. Lisboa, Li-
rouca, por aí existirem, simulta- o acesso à “Quinta Pedagógica da vros Horizonte.
Considerações finais neamente, uma maior área com Maçã”. Esta poderá integrar, por ALVES, J.; CARVALHO, S.; MEI-
A construção de uma estraté- pomares de frutos frescos, me- exemplo, uma rede de bicicletas RA-CARTEA, P.; AZEITEIRO, U.
gia em EA para a seleção e implan- lhores acessos rodoviários, uma distribuídas pelo concelho onde (2013): "Diagnóstico sobre Equi-
tação de um EqEA num território relevante rede de abastecimento o EqEA for concretizado associa- pamentos para a Educação Am-
multimunicipal – o cerne do En- de recursos hídricos e, em caso da a uma rede de veículos flexível, biental no Distrito de Lisboa. As-
tre-Norte-e-Centro –, fundamen- de necessidade de introdução inclusiva, acessível e de emissões pectos Biofísicos e Socioculturais
talmente, assenta na conjugação de pomares de macieiras, áreas reduzidas. nos Projetos Educativos.", em
de três pilares: 1) compreensão onde se poderão cultivar. A estratégia em educação am- CAPTAR 4(1), 72-91.
de conceitos como, a EA, a ética Para dar continuidade à pre- biental desenvolvida no presente AMADO, M.; VASCONCELOS, C.
ambiental e os recursos de EA sente proposta deverá realizar-se trabalho poderá ser reproduzida (2015): "Educação para o de-
que causam maior impacte; 2) o projeto educativo e definir-se a em diferentes territórios. Da me- senvolvimento sustentável em
um preciso e atual diagnóstico micro localização do EqEA. Suge- todologia adotada convêm desta- espaços de educação não for-
ambiental e socioeconómico do re-se a promoção de um concur- car a importância da realização mal: a aprendizagem baseada
território sob apreço; 3) o conhe- so de ideias para a realização da de um diagnóstico ambiental e na resolução de problemas na
cimento do tipo de EqEA existen- arquitetura/estrutura da “Quinta socioeconómico detalhado, para formação contínua de profes-
tes na Península Ibérica. Pedagógica da Maçã”, seguindo-se compreender os desafios e as sores de ciências", em Interac-
Verificou-se que não existe ne- a concretização do respetivo pro- oportunidades da área sob aná- ções, 39, 355-367.
nhuma Quinta Pedagógica na área jeto de execução. Paralelamente lise, bem como da seleção da ti- APA – Agência Portuguesa do
territorial em análise e que na Pe- deverá efetuar-se uma campanha pologia do EqEA com contributo Ambiente, I.P. (2017): Promo-
nínsula Ibérica não há nenhuma de divulgação contínua, abran- decisivo no desenvolvimento sus- ção e Cidadania. Equipamen-
que se centre apenas num produ- gente e direcionada ao público- tentável e sustentado do territó- tos e materiais. Sistema Nacio-
to. Desta constatação associada -alvo. Uma aposta adicional será rio. nal de Informação de Ambiente.
às caraterísticas do território sob a criação de uma marca registada http://www.apambiente.pt/in-
apreço, surge uma estratégia em e um percurso pedestre homolo- Agradecimentos dex.php?ref=16&subref=142&-
EA que aposta no desenvolvimen- gado. Ao designer Luis Gabriel um sub2ref=698; http://sniamb.
to local e na inovação, e que resul- Existem ainda outros esfor- especial agradecimento pelas fi- apambiente.pt/Home/Default.
ta na proposta de implantação da ços a serem feitos para o desen- guras e tabela efetuadas. htm [Consult. em 29 de agosto de
“Quinta Pedagógica da Maçã”. volvimento próspero da “Quin- 2017].
A “Quinta Pedagógica da ta Pedagógica da Maçã”, como o Bibliografia ASSOCIAÇÃO DOS PRODUTO-
Maçã”, um espaço socioeducativo investimento em parcerias com ALKIMIN, G. (2015): "O panora- RES DE MAÇÃ DE ALCOBAÇA
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188 ambientalMENTEsustentable, 2017, número especial ambientalMENTEsustentable, 2017, número especial 189
Foto: Regina Silva

O Método de Paulo Freire na Educação Ambiental com o uso de


aplicativo de informática para dispositivos móveis

O. dos S. Rocha1
M. A. da Silva2
M. Lopes3
Resumo
A problemática ambiental relaciona-se ao comportamento humano, demonstra-
do na falta de consciência necessária à preservação da natureza. O trabalho tem
como objetivo central verificar a viabilidade do Método de Paulo Freire na prática
de ensino-aprendizado da educação ambiental, mediante o uso de aplicativo de
informática, em dispositivos móveis, visando à conscientização sobre a questão da
preservação ambiental. A pesquisa, de natureza qualitativa, utilizou o estudo de
caso. A investigação fundamentou-se no Método de Paulo Freire, considerando o
princípio da dialogicidade do ato educativo. A metodología, desenvolvidamedian-
te a análise das práticas pedagógicas realizadas em escola do Ensino Fundamental,
utilizou como instrumento pedagógico jogos informatizados. A investigação ba-
seou-se no principio da dialogicidade do ato educativo de Paulo Freire. Os resul-
tados parciais constataram as afirmações de Rabelo (2011) e Silva (2007) ao afir-
marem que o uso pedagógico de software, integrado às dimensões dialógicas dos
conhecimentos adquiridos, por meio dos círculos de cultura, gera a socialização
dos alunos,transformando as concepções dos educandos, sobre o meio ambiente.
Com base nos resultados, esta pesquisa propõe ao processo educativo o método
de ensino Freiriano, integrado ao uso de aplicativos para dispositivos móveis, sina-
lizando para uma educação renovada e alinhada aos novos contextos sociais.
Palavras chave: Método de Paulo Freire, Educação Ambiental e Aplicativo de Infor-
mática, Dispositivo Móvel.

Abstract
The environmental problem is related to human behavior, demonstrated in the
lack of awareness necessary for the preservation of nature. The main objective
of this work is to verify the viability of the Paulo Freire Method in the teachin-
g-learning practice of environmental education, through the use of a computer
application in mobile devices, aiming to raise awareness about the issue of en-
vironmental preservation. The research, of a qualitative nature, used the case
study. The investigation was based on the Paulo Freire Method, considering the
principle of the dialogicity of the educational act. The methodology, developed
through the analysis of pedagogical practices carried out in elementary school,
used as a pedagogical tool computerized games. The investigation was based on
the principle of the dialogicity of the educational act of Paulo Freire. The partial
results confirm Rabelo's (2011) and Silva (2007) statements by affirming that the
pedagogical use of software, integrated with the dialogical dimensions of acquired
knowledge through culture circles, generates the students' socialization, transfor-
ming the conceptions of On the basis of the results, this research proposes to the
educational process the Freiriano method of teaching, integrated with the use of
applications for mobile devices, signaling to a renewed education and aligned with
the new social contexts.
São Pedro de Joselândia, localizada no Key-words: Paulo Freire's Method, Environmental Education and Information Te-
estado brasileiro de Mato Grosso. chnology Application, Mobile Device.

ambientalMENTEsustentable, 2017, número especial 191


O método de Paulo Freire na Educação Ambiental com o uso de aplicativo de
O. dos S. Rocha; M. A. da Silva; M. Lopes
informática para dispositivos móveis

Introdução dos de Paulo Freire e meios para dos e recriados, a partir da fala ambiente sustentável, a partir
O objetivo deste trabalho foi organizar a própria experiência do saber do outro, estimulando dos resíduos que são gerados.
verificar a viabilidade do Método durante a dinâmica do aplicativo a compreensão e os significados
de Paulo Freire no conhecimento do jogo. dos seres, das coisas e dos fatos. Conscientização do espaço na-
e na prática da educação ambien- Para justificar a temática da Nisso observou-se que é no diálo- tural preservado e um ambien-
tal, com o uso de aplicativo de educação ambiental no processo go que a relação e o conhecimen- te sustentável
informática, em dispositivos mó- ensino-aprendizagem, no contex- to se consolidam. Nessas condi- Historicamente, a sociedade
veis, visando à conscientização to de sala de aula, considerou-se a ções foram se produzindo ações e foi capaz de reproduzir ao lon-
sobre a questão ambiental dos problemática ambiental vivencia- reações dos sujetos envueltos de go do tempo um modelo de de-
estudantes. Essa tendência em da pelos próprios alunos no seu modo espontâneo. Nessa relação senvolvimento injusto, moral e
utilizar aplicativos no ato educa- cotidiano e nas suas relações com e inter-relação com o outro e o ambientalmente insustentável.
tivo torna extremamente neces- a comunidade. Outro fator impor- meio, Freire (1996, p.28) afirma Santos (2016, p.16) destaca que
sário para o enriquecimento e tante trabalhado foi a comunica- que “aprende-se o conhecimento “é ambientalmente insustentável
transformaçãodo fazer pedagógi- bilidade entre os participantes, já sistematizado e se produz o co- porque busca atender padrões
co em sala de aula e fora dela. com o intuito de promover a ex- nhecimento ainda não existente”. de produção-consumo infinitos a
Em se tratando da temática pansão da consciência crítica, ao O envolvimento dos alunos na partir de uma base natural finita”.
da educação ambiental, perce- inter-relacionar os vários aspec- exploração dos aplicativos, me- Assim sendo, ao analisar os
be-se como problemática a falta tos: econômicos, sociais, políti- diante a investigação dos conteú- atuais padrões de consumo na
de conscientização da sociedade cos, culturais e ecológicos, visan- dos abordados sobre educação percepção do impacto ambiental
na preservação do meio ambien- do ajudar as pequenas e futuras ambiental, pode-se notar que o e a recente emergência e crescen-
te. Por esse motivo, investigação gerações a participarem do con- aluno se torna um desafiador no te centralidade, outro autor, Por-
buscou trabalhar o Método de texto sócio-ambiental. modo de repensar e (re) construir tilho (2005, p.25) ressalta que
Paulo Freire, utilizando inicial- Dessa forma, ao mencionar os conceitos percebidos na socie- isso “está se dando por meio de
mente palavras geradoras sobre as contribuições do Método de dade, para retornar a articulação “deslocamento”, da percepção do
os temas ambientais, na perspec- Paulo Freire, com o diálogo, bus- dos significados, compreendidos discurso e da definição da proble-
tiva do ensino-aprendizado, a fim cou-se torná-lo o elemento indis- nos círculos dialógicos, como mática ambiental, indicando uma
de tornar o alunoum sujeito par- pensável e mobilizador de todo ato de “feedback” do processo transformação no campo dos de-
ticipativo, dinamicamente crítico, o processo educativo, a partir do próprio aprendizado. Nesse bates e das práticas sobre o meio
autônomo e inovador no proces- dos temas geradores. Tais temas processo de relação com o objeto ambiente”.
so de construção do seu próprio surgiram das situações-limites, de estudo, por meio da educação Ainda segundo Santos (2016,
conhecimento. Para tanto, pro- da contextualização da aprendi- ambiental e o uso de aplicativo de p.11) “são gerados resíduos como
pos-se a interação com os méto- zagem, assim foram sendo cria- dispositivo móvel, os resultados conseqüência do crescimento da
obtidos podem conduzir a uma população, dos avanços tecnoló-
mudança de concepções ou re- gicos, do aumento da produção/
1Instituto construção de conceitos e idéias consumo entre outros proces-
Federal de Educação e Tecnologia do Ceará (Brasil). E-mail:osilene.dsrocha@
gmail.com. sobre as problemáticas ambien- sos”. Sendo assim, o crescimento
2Instituto tais. O próximo tópico abordará da população imprime grande
Federal de Educação e Tecnologia do Ceará (Brasil). E-mail: smart.alves@gmail.
com. a questão da conscientização do pressão sobre os recursos am-
3Universidade de Avero (Portugal).E-mail: myr@ua.pt. espaço natural preservado e do bientais. Todos, ao mesmo tempo,

192 ambientalMENTEsustentable, 2017, número especial ambientalMENTEsustentable, 2017, número especial 193
O método de Paulo Freire na Educação Ambiental com o uso de aplicativo de
O. dos S. Rocha; M. A. da Silva; M. Lopes
informática para dispositivos móveis

demandam alimentos, roupas, de de suporte da natureza de sua antrópicos é refletir sobre a ca- mem.
água, diversas formas de energia diversidade ecológica pela socie- pacidade de suporte da produ- Sendo assim, o conhecimen-
(elétrica, combustível, etc), bens dade. ção/consumo pelo homem, bem to sobre educação ambiental
(duráveis e não-duráveis) e ser- Nesse proceso, verifica-se a como, na produção ou manejo tornará acessível ao cidadão, in-
viços, sendo que tal demanda é importância das futuras gerações de resíduos sólidos, segundo a terferindo na sua a formação, e
incompatível com a capacidade em absorverem esses velhos e compatibilidade da natureza de ajudando a minimizar a faixa de
de suporte da natureza e, princi- inadequados hábitos que pode- se recuperar ou causar impacto deterioração do meio natural a
palmente, com o seu ritmo de re- rão posteriormente implicar em irreversível. ponto de não mais se descartar
cuperação. um ciclo de comportamentos fa- Parte-se da concepção de que os resíduos em espaços inade-
No entanto, cabe lembrar a cetados sobre a forma de conser- aconceituação, portanto, de so- quados.
grande importância das propos- var e preservar o meio ambiente. ciedades sustentáveis exige a A seguir, apresentam-se as
tas de políticas públicas para a Isso implica no reconhecimento elaboração de novos paradigma- concepções dialógicas do Método
adequação dos espaços ideais da existência de uma grande di- samparados na necessidade de freiriano.
para o despejo de resíduos urba- versidade ecológica, biológica e conservar a diversidade ecoló-
nos a fim de minimizar ou evitar cultural entre os povos. Assim, gica, social e cultural dos povos, Paulo Freire e a relação dialó-
a poluição do ar, do solo, da água das culturas e modos de vida; gica
causando dentre outros transtor- não existe um único paradigma com opções econômicas e tec- Procurando evidenciar a re-
de sociedade do bem estar (a oci-
nos os vetores de doenças, mau dental) a ser atingida por meio do nológicas diferenciadas voltadas lação dialógica na comunicação
cheiro, além de causar hábitos desenvolvimento e do progresso principalmente para o desenvol- humana, Freire (1996) orienta
nas populações no descarte inde- linear, mas, vários tipos de socie- vimento harmonioso das pessoas que as palavras geradoras devem
dades sustentáveis, "ancoradas
vido até mesmo nos corpos hídri- em modos particulares, históri- e de suas relações com o conjunto surgir a partir de uma reunião
cos cos e culturais de relações com os do mundo natural. de grupo, na forma de conversa
Vale ressaltar que, devido às vários ecossistemas existentes na A partir dos argumentos apre- e desse meio deve-se citar pala-
divergências multiculturais, de- biosfera e dos seres humanos en- sentados, assegura-se que a edu- vras as quais serão chamadas de
tre si". (Diegues, 1992, p.22).
ve-se analisar e repensar, as con- cação ambientaltraz o desafio so- geradoras por proporcionarem a
diçõesde utilizar e reutilizar os Com efeito, Diegues (1992, p. bre as mudanças necessárias ao formação de outras. Essas pala-
recursos naturais em funçãodas 29) refere-se às conceituações entendimento e ações relaciona- vras devem favorecer a reflexão,
diferentes formas de conceituar sustentáveis da sociedade à ne- das às idéias de modelo de desen- o entendimento e, ao significá-las
o desenvolvimento sustentável. cessária reelaboração de novas volvimento sustentável baseado a partir de uma situação-proble-
A partir de cada sociedade per- mudanças de paradigmas que nos aspecto sociais, políticos, ma, deve possibilitar uma visão
cebe-se como estão fragmenta- possam adaptar as novas socie- econômicos e aos recursos am- crítica de pensar do mundo, de se
das as necessidades de consumo dades, em função da sua diversi- bientais no meio ambiente lati- humanizarem e sensibilizar, pois,
nos diversos setores (alimentício, dade e cultura voltadas para uma no-americano. Sendo assim, uma isso faz o homem refletir sobre a
vestuário, produtos tecnológicos melhor relação do homem natu- proposta de política de educação conscientização da sua totalidade
entre outros) tornando imensos reza. com base nos círculos de cultura e atuação no mundo.
geradores de resíduos em quanti- Com base nessas reflexões, poderá contribuir na formação Para melhor compreensão e
dade fora das condições sustentá- pode-se dizer que avaliar um am- cidadã nas gerações de hoje e nas importância das palavras gerado-
veis, mostrando por certo a falta biente sobre a forma de absorver futuras gerações, constituindo ras, o autor esclarece:
de reconhecimento da capacida- resíduos geradores por agentes num direito fundamental do ho-

194 ambientalMENTEsustentable, 2017, número especial ambientalMENTEsustentable, 2017, número especial 195
O método de Paulo Freire na Educação Ambiental com o uso de aplicativo de
O. dos S. Rocha; M. A. da Silva; M. Lopes
informática para dispositivos móveis

“Esses temas se chamam gera- realizar uma observação, utili- considerando o aprendizado do gem, onde a ação-reflexão-ação
dores porque, qualquer que seja zando palavras geradoras, suas outro, ou seja, “falar com ...”. se manteria de forma continua
a natureza de sua compreensão
como a ação por eles provocada, percepçõessão capazes de definir Dando continuidade ao ex- e constante, viabilizando a cons-
contêm em si a possibilidade de cada situação-problema. Assim, posto, para se manter um olhar cientização sócio-ecológico. O
desdobrar-se em outros tantos os profesores deverão fazer ati- freiriano mais preservacionista próximo tópico abordará a ques-
temas que, por sua vez, provo-
cam novas tarefas que devem ser vidades didáticas, com os alunos, e conservacionista da natureza e tão da educação ambiental com o
cumpridas”. (Freire,1982, p. 110). provocando-os a dialogarem so- também efetuar decisões de for- uso do dispositivo móvel.
bre o tema ou palavras geradoras, ma consciente, é necessária uma Educação ambiental e aplica-
Em outras leituras, Freire por exemplo: quando a investi- educação ambiental classificada ção de dispositivo móvel
(1982, p.117) ao destacar sobre gação versar sobre o tema reci- com base em duas grandes esfe- Com o desenvolvimento de
os temas geradores, ressalta que clagem ou resíduo urbano (lixo), ras: EA Críticas e EA Não-Críticas. aplicativos para dispositivos mó-
existe uma percepção específica espera-se que os educandos se Figueiredo (2003, p.70) orienta veis, foi possível promover outras
do homem da realidade de mun- tornem sujeitos do saber, citan- optar por um respeito ao saber posibilidades as diversas áreas
do, onde há um processo de cons- do com coerência entre o que se popular visandoà sustentabili- do ensino. Desse modo, este estu-
trução das relações de acordo diz e faz, ou seja, suas ações no dade solidária. Possibilitando, do, de natureza exploratória, foi
com o esforço da consciência da cotidiano. A partir dessa dialógi- assim, a construção de uma eco- desenvolvido a partir de três apli-
realidade, essencial para o pro- ca, inicia-se diálogo mediado com práxis parceira, com a vivência cativos para dispositivos móveis,
cesso educativo. Dessa forma, a fundamento ligado ao cotidiano de uma lógica multidimensional, também denominados de “jogos
percepção e construção por meio da comunidade do entorno e o conducido por uma EA Crítica educativos”: O Recicle4, o Green
dos temas não serão iguais para tema gerador possibilitando o ato Dialógica, herdeira e companhei- Guard5, e o Desafio de Gaia6. To-
todos. educativo. ra de Paulo Freire; incorporando dos esses aplicativos foram se-
A partir desse processo, Conforme Freire (1996, p. 24- a pedagogia libertária, da autono- lecionados com o propósito de
25), referindo-se ao saber do- mia problematizadora, que se faz explorar a temática da educação
o ponto de partida freireano ini- cente, “ensinar não é transferir na superação de situações-limi- ambiental, sendo os temas abor-
cia-se pela busca, pela investiga-
ção acerca do tema gerador: [...] conhecimento, mas criar as possi- tes, na direção do inédito viável. dados voltados para os resíduos
a “codificação” e “descodifica- bilidades para a sua produção ou Nesta proposta de ensino- sólidos, que seram enfocados a
ção” permitem ao alfabetizando a sua construção”. Isso permite a -aprendizado pode-se inserir a seguir.
integrar a significação das res- reflexão do respeitar os variáveis dialogicidade por meio de temas Para Santos (2016, p.20), den-
pectivas palavras geradoras em
seu contexto existencial – ele a círculos de cultura do saber na geradores mediante situações- tre os resíduos existentes, os mais
redescobre num mundo expres- produção de novos conhecimen- -problema sobre as questões gerados são os Resíduos Sólidos
sado em seu comportamento. À tos e conceitos, visto que a a ex- ambientais, relacionando-as à Urbanos (RSU) que tem causado
“descodificação” é a “análise e
conseqüente reconstituição da pectativa de sensibilizar e aplicar contextualização da aprendiza- impactos e vem se manifestando
situação vivida: reflexo, reflexão uma nova cultura social nos paí-
e abertura de possibilidades con- ses da América Latina, visando
cretas de ultrapassagem” (Freire,
1987, p. 06). uma conscientização mais sus- 4Game (desenvolvido por Jonathan Rodrigues, versão 1.0.2, 2015 a 2017).
tentável. Freire (1996, p. 24-25) 5(desenvolvido por: Zhi Yong Information Technology Co., Ltd. Fuzhou, versão:8.4, ASIN:
Dessa forma, as questões am- descreve, ainda, que é necessário B00HZDWQ7A data original de lançamento: 23 de janeiro de 2014 atualização mais recente
ensinar-educar dialógicamente, do desenvolvedor: 23 de setembro de 2015).
bientais quando abordadas num 6(desenvolvido pelo autor: Napalm Studio Games, última versão: 1.1, data de publicação:
espaço onde os alunos possam mediante uma postura de escuta,
2014-11-17).

196 ambientalMENTEsustentable, 2017, número especial ambientalMENTEsustentable, 2017, número especial 197
O método de Paulo Freire na Educação Ambiental com o uso de aplicativo de
O. dos S. Rocha; M. A. da Silva; M. Lopes
informática para dispositivos móveis

de forma interativa no meio bió- mudanças no repensar e saber exercício interdisciplinar, volta- besalientar a cerca do uso dos
tico (fauna e flora). Eles são os ensinar dos profesores, para pos- dos para as questões ambientais, recursos tecnológicos compu-
mais representativos, quando se sibilitar o alcance do saber em como construção permanente do tacionais, em sala de aula, como
observa que o “verde” de rema- seus diversos campos, de forma conhecimento e do desenvolvi- forma de implementaçãodos re-
nescentes áreas do meio urbano interdisciplinar. Portanto, o uso mento profissional. cursos didáticos, provendo um
constata com a multiplicidade de de aplicativo de dispositivos mó- En segundo lugar, esses impe- ambiente de aprendizado para-
cores dos mais diversos tipos de veis, são importantes instrumen- cílios implicam no aprendizado, permitir maior interatividade no
residuos depositados, por exem- tos pedagógicos na sala de aula. visto que os aplicativos de in- processo de ensino.
plo: papel, papelão, PET, metais, Isto posto, para que o objeto de formática não são instrumentos Para tanto, deve-se fazerum
vidros, cerâmicas, trapos, plásti- estudo e a visão da realidade ofe- somente de navegação de texto, planejamento de ensino, com o
cos e borrachas e outros. reça condições de ensino apren- redes sociais, jogos esporádicos intuito de incentivar, principal-
Verificando a reminiscência da dizado, por meio do uso de recur- e outras funções. A funcionalida- mente, as temáticas ambientais. A
problemática abordada, percebe- sos tecnológicos, o mesmo deve de do aplicativo, poderia vir a ser utilização e exploração dos recur-
-se, antes de tudo, que os hábitos proporcionar uma nova manipu- um instrumento viável de trans- sos tecnológicos digitais, como os
culturais devem ser primeira- lação dos elementos conceituais missão de informações que não dispositivos móveis, debe apre-
mente considerados, enfrentando e reais. A partir desse entendi- dificultasseas (dis)associação sentar um desing para posibilitar
as mudanças de conceitos e con- mento, deve-se refletir, o quanto com o cotidiano. a atração interativa e educativa
flitos com as idéias de desenvol- antes, sobre as palavras gerado- Segundo dados registrados do aluno. Neste sentido, haverá,
vimento sustentável, em função ras, a fim de que elas possam con- pelo Ministério de Educação mais fortemente, condições de
do aumento da produção/con- templar os conhecimentos que (MEC) o grande impacto da tec- simular, com maior precisão, as
sumo. A partir daí, contribuindo os alunos possuem, mediante a nologia não é permitir que os ações que contribuirá ricamente
para evitar o excesso de resíduos exploração no aplicativo. Isto de- alunos procurem informações na para aprofundar a formação cida-
urbanos e os transtornos diários. verá propiciar informações que internet ou que conversem com dã na consciência da preservação
Assim sendo, os efeitos da desca- determinará a construção do co- seus amigos, mas, do meio ambeinte.
racterização paisagística de uma nhecimento e o desenvolvimento Ribeiro et al. sugerem, a este
cidade, traz o entendimento de de habilidades cognitivas. a maior consequência é que eles respeito que:
podem usar as diversas modali-
valorização da educação ambien- No entanto, há certos empeci- dades de construção que as tec-
tal. Neste sentido, as futuras gera- lhos no processo de alcance des- nologias digitais oferecem para Os jogos digitais, ao permitirem
expressar seus interesses intelec- a simulação em ambientes vir-
ções, demonstrada principalmen- se conhecimento no uso das tec- tuais, proporcionam momentos
tuais e científicos, suas paixões,
te nas crianças de hoje, poderão nologias móveis: Primeiramente, sua indignação com os proble- ricos de exploração e controle
adquirir uma nova postura ativa e no ensino pelos profissionais, mas do mundo, criando artefatos dos elementos. Neles, os jogado-
novos, seja um documentário, um res – crianças, jovens ou adultos
consciente de preservação e con- quando não existe capacitação – podem explorar e encontrar,
servação dos recursos naturais, ouqualificação que deveria ser in- modelo robotizado, um programa
de computador, uma teoria sobre através de sua ação, o significa-
visto o investimento de políticas cluídaem programa de formação o aquecimento global, um sistema do dos elementos conceituais, a
públicas formal e não formal. de professor. Outro aspecto que de coleta de dados ambientais ou visualização de situações reais e
uma estação meteorológica auto- os resultados possíveis do acio-
Frente a essa realidade, um deve ser considerado um meio de namento de fenômenos da rea-
matizada. (MEC, 2007, p. 158)
novo processo de ensino-apren- dificultar o proceso seriam a falta lidade. Ao combinar diversão e
dizado, que se encontra nas salas de técnicas de adesão e coordena- ambiente virtual, transformam-
Enquanto a relação do apren- -se numa poderosa ferramenta
de aula, remete à necessidade de ção entre as novas tecnologias e o narrativa, ou seja, permitem criar
diz com o objeto de estudo, ca-

198 ambientalMENTEsustentable, 2017, número especial ambientalMENTEsustentable, 2017, número especial 199
O método de Paulo Freire na Educação Ambiental com o uso de aplicativo de
O. dos S. Rocha; M. A. da Silva; M. Lopes
informática para dispositivos móveis

histórias, nas quais os jogadores proposta desenvolvida amparou- situações-problemas, com estudo Estudo de caso: refletindo ações e
são envolvidos, potencializando -se nas concepções pedagógicas de caso, simulando determinadas situação-problema do cotidiano;
a capacidade de ensino-aprendi-
zado. (RIBEIRO et al., 2006, p.11). de Paulo Freire, quanto à questão problemáticas ambientais, a fim 3) Exposição temática geradora
Pelo exposto, vale salientar da Educação Ambiental, enfati- de demonstrar críticas de pensa- sobre a problemática ambiental,
que um meio de contribuir e in- zando as problemáticas ambien- mentos e de interpretações hu- com auxílio de vídeos que refle-
centivar a aprendizagem nas tais. manizadas, na sua totalidade de tiam as questões diárias do uso
instituições de ensino seria atra- Na primeira etapa, foi realiza- mundo. dos resíduos e da sustentabilida-
vés do computador, utilizando-o do um estudo de caráter biblio- Nesta etapa, a proposta do de dos recursos naturais; 4) Pro-
como artefato de ampliação das gráfico, em que foram analisados minicurso de extensão realizado moçãodos jogos nos seguintes
funções do profesor. O que gera- três trabalhos voltados para apli- e promovido pela Diretoria de aplicativos: Separando o Lixo/
ria mudanças nas condições e no cação da tecnologia de informáti- Extensão (DIREX), do Instituto Recicle, Green Guard e Desafio de
processo de ensino aprendiza- ca (software educativo). Utilizou- Federal do Ceará (IFCE), tendo Gaia; 5) Realizar um feedbak por
gem. Dentre outra funções, opro- -se o Método de Paulo freire nas como público alvo alunos de uma meio de questionários sobre o ní-
fessor, deverá se apropriar da práticas dos profesores. As ativi- escola pública selecionada pre- vel de satisfação de cada jogo, sua
tecnologia, “descobrindo as pos- dades foram realizadas em esco- viamente. Para a aplicação das importância para a aprendizagem
sibilidades de uso que ela permi- las públicas e particulares. atividades ambientais, contou- e a conscientização ambiental.
te na aprendizagem do aluno, fa- Na segunda etapa, foi propos- -se com a colaboração da gestão As atividades realizadas du-
vorecendo, assim, o repensar do ta um micurso de extensão na pedagógica (direção e coordena- rante o minicurso de extensão,-
próprio ato de ensinar” (SODRÉ; escola pública. Foi selecionada, ção) da escola. foi fundamentado no Método de
HORA, 2014, p. 3). inicialmente, atividades teóricas As ações desenvolvidas foram: Paulo Freire, seguindo, respecti-
Outros autores, como Rocha, de Educação Ambiental, funda- 1) Promover o convite aos alunos vamente, os objetivos: 1) Propor
Cruz e Leão (2015, p. 4) contri- mentada nas Teorias Pedagógicas de séries finais de ensino funda- temas dinâmicos geradores so-
buíram, de modo pertinente, so- de Paulo Freire, cuja concepção mental; 2) Disponibilizar sala de bre a temática ambiental em que
bre a utilização de aplicativos no se baseou na educação popular informática e o espaço recreativo, “o construído se constrói durante
telefone celular, no contexto da e libertadora. A partir de uma do IFCE, a fim de representar o as relações”; 2) Elaborar e aplicar
educação, centrando nas possibi- problematização, provocou-se meio ambiente; 3) Exposição do estudos de caso cuja investiga-
lidades de impacto de seus usos, perguntas, nas quais, exigiam-se estudo de caso, na forma de círcu- ção temática foi construída por
no processo de ensino e apren- respostas que refletissem um diá- los de cultura,a partir de palavras meio de “um esforço comum da
dizagem, não no acesso propria- logo crítico e libertador, além da geradoras; 4) Subsidiar os temas consciência da realidade e, auto-
mente dito, mas na incorporação consciêntização de mundo. geradores, com o uso do aplicati- consciência na medida que cada
dessa tecnologia como ferramen- Na terceira e última etapa, foi vos, abordando os temas ambien- pensar da criança”; 3) Fornecer
ta para ensinar e aprender. realizado o planejamento de te- tais,de forma interdisciplinar. ferramentas para a aplicação na
mas geradores, que segundo o A proposta pedagógica foi educação ambiental, com enfoque
Metodologia conceito, são chamados “gerado- aplicada por meio das seguintes e interações na temática ambien-
Esta pesquisa aplicou uma ras” porque proporcionam a for- atividades: 1) Integração com os tal, abordando a problemática
proposta de ensino, que contem- mação de outras palavras sobre o participantes, a partir dos textos dos resíduos e sustentabilidade;
plou três etapas básicas, para o contexto em questão. seleccionados, abordando ques- 4) Incentivar a aprendizagem
desenvolvimento do processo da Com base na educação am- tões ambientais, desenvolvidas através do jogo, com o dispositivo
aplicação do dispositivo móvel. A biental formal, foram elaboradas de modo reflexivo e dinâmico; 2) móvel, utilizando-o como instru-

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O método de Paulo Freire na Educação Ambiental com o uso de aplicativo de
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informática para dispositivos móveis

mento de ampliação das funções tiram-se atuantes, participando tamento dos resíduos, por meio foram demonstrados pelos sujei-
do professor, para promovero ativamente do proceso de apren- da reciclagem. tos, ao perceberem os impactos
processo de ensino-aprendizado; dizagem, articulando de modo A partir das discussões ocor- causados quando se descarta, in-
e, 5) Facilitar a reflexão dos te- reflexivo. Neste momento, foi fo- ridas, concluíu-se também que devidamente, os resíduos e como
mas ambientais abordados com ram construídos novas ideias e os resultados se tornaram mais deve ser tratado as diferentes
dispositivos. conceitos, a partir dos ciculos de significativos no aprendizado em posibilidades de utilizá-los como
cultura de Paulo Freire. relação aos destinos de determi- material didático.
Resultados e discurssões A primeira fase, caracterizada nados resíduos. Dessa forma, esta fase ressal-
O processo de investigação como ciclo de cultura dos temas Quanto a confecção dos jogos touo efeito da aplicação do Méto-
fundamentou-se no princípio da geradores, obtive os seguintes educativos exibidos nas figuras, 2 do de Paulo Freire, a respeito da
dialogicidade do ato educativo, resultados: a ressignificação de (B) e 3 (C), intitulados de “Jogo da relação dialógica na comunicação
feito de forma reflexiva, inovado- conceitos e ideiasde sociedades velha”, “Jogo das varetas”, “Corri- humana; realizada a partir de
ra e autônoma representada pelo sustentáveis, fazendo surgir no- da maluca” e o “Jogo das formas”,
Método de Paulo Freire. vos paradigmas, apontados pelos foram produzidos pelos alunos,
Ao apresentar as atividades alunos. com material reciclado. A ativi-
de Educação Ambiental formal, Em decorrência disso, os alu- dade permitiu a construção de
como o estudo das situações pro- nos entenderam a importancia da material didático, possibilitando
blemas, foram simulados deter- confecção e do destino de deter-
minadas problemáticas ambien- minados resíduos urbanos, que
tais, que permitiram aos alunos são encontrados nos diferentes
demonstrar suas críticas, pensa- espaços da sociedade.
mentos e interpretações humani- A Figura 1, apresentada abaixo,
Figura 3: (C) Atividade Lúdica
zadas na sua totalidade de mun- faz menção do que foi explicitado
Fonte: do autor
do. sobre os temas geradores, expli-
Assim, para compreender a cados anteriormente, e referido- uma situação-problema, deven-
dinâmica da Educação Ambien- -se as questões ambientais. Na do, portanto, possibilitar uma vi-
tal, com o uso do aplicativo em atividade, as contribuições apon- Figura 2: (B) Atividade Lúdica são crítica de pensar do mundo.
Fonte: Os autores Após a construção dos jogos
dispositivo móvel, os alunos sen- taram a minimizaçãoeo aprovei-
didáticos, os alunos apresenta-
melhor destino do descarte diá- ram as diversas significações das
rio dos resíduos no meio ambien- palavras geradoras, influencian-
te. do na instigação do aprendizado
Nesta fase a pesquisadora per- durante a realização dos jogos
cebeu o despertar dos alunos ao com dispositivos móveis.
se manifestarem com questio- Os aplicativos utilizados no es-
namentos e observações sobre tudo de caso foram obtidos por
novas atitudes de destino, dos meio de pesquisa na internet.
resíduos utilizados diariamente. Buscou-se explorar a temática
Figura 1:(A) Análise da temática Ambiental – Resíduos e sustentabilidade Novos conceitos e paradigmas domeio ambiente e a sustentabi-
Fonte: Os autores

202 ambientalMENTEsustentable, 2017, número especial ambientalMENTEsustentable, 2017, número especial 203
O método de Paulo Freire na Educação Ambiental com o uso de aplicativo de
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lidade. A exploração dos conteú- firmando que o Método de Paulo Participaram da pesquisa 35 específico: orgânico, plástico, pa-
dos envolveu, além da temática Freire, trabalhado sob o ponto de alunos, da turma de 8ª série do pel e vidro. Cerca de 27,2% dos
ambiental e sustentabilidade, vista da dialogicidade provoca ensino fundamental, mas apenas alunos consideraram o nível de
analizou-se a hierarquização dos as mudanças de concepções do 22 destes compareceram em to- satisfação regular para aprendi-
temas, o nível de dificuldade e a mundo a sua volta, a partir das das as atividades. Iniciou-se os zagem, deixando a desejar que
satisfação do público trabalhado. telas dos aplicativos. Em seguida, trabalhos com a orientação sobre seria necessário melhorar a va-
Cada tipo de jogo implicou serão apresentadas as telas de as regras e fases de cada dispo- riedade temática na área preten-
num recorte do meio ambiente e um dos jogos mais significativos sitivo móvel. Em seguida, os alu- dida a explorare a velocidade de
suas problemáticas. Isso refletiu na percepção dos alunos, durante nos foram divididos em grupos concretização do jogo.
nos alunos um repensar e a relei- a fase de experimentação das ati- de três, onde cada grupo ficou Enquanto na descrição do jogo
tura de seus conhecimentos, con- vidades realizadas. responsável por um tipo de jogo. “Green Guard”, este apresentou
Nesta fase, obteve-se resultados sete recursos diferentes. O apli-
significativos quanto à proposta cativo educativo para dispositi-
de educação ambiental, ao apli- vos móveis foi desenvolvido com
car o Método de Paulo Freire. sete cenários interativos e diver-
Nos três jogos aplicados, os re- tido para refletir a preservação
sultados revelaram, progressiva- ambiental trabalhando a limpeza.
mente, à realidade sócio ambien- No entanto, a maioria dos alunos
tal e o interesse, dos alunos em consideraram o jogo infantil, mas
participar como sujeito atuante. o classificaram com nível bom,
Durante as atividades, ficou evi- justificando que os cenários pos-
dente que os alunos passaram a sibilitam ainda uma consciência
Figura 2 – (A) Atividade com Dis- Figura 2 – (A) Atividade com Dis- resignificar suas percepções e o que requer responsabilidade tan-
positivos Móveis positivos Móveis seu papel preventivo e na possi- to individual quanto coletiva, no
Fonte: Tela do jogo “O Desafio de Fonte: Tela do jogo “O Desafio de bilidade de uso sustentável dos processo de conservação. Cerca
GAIA” GAIA”
recursos naturais. de 36,36% dos alunos considera-
A análise de cada dispositivo ram o jogo bom para o aprendi-
móvel, foi feita por meio da apli- zado.
cação de questionário, o qual foi Entretanto, foi a partir do jogo
dividido em dois temas: Registro “Desafio de Gaia”, que percebeu-
de Aprendizagem e Conscientiza- -se maior interação entre os alu-
ção Ambiental. No geral, os resul- nos, devido ser constatado o re-
tados apresentaram os seguintes gistro das percepções e reações,
pontos: diante dos diferentes temas inte-
O jogo “Separando o Lixo/Re- rativos de energia, água, resíduos
cicle” teve como objetivo selecio- e mobilidade urbana apresenta-
Figura 2 – (B) Atividade com Dis- nar cada resíduo nos coletores dos em cada fase. Finalizando as
positivos Móveis
seletivos, arrastando cada resí- observações feitas, esse jogoevi-
Fonte: Tela do jogo “O Desafio de
GAIA”
duo para em direção ao coletor denciou uma didática, superior

204 ambientalMENTEsustentable, 2017, número especial ambientalMENTEsustentable, 2017, número especial 205
O método de Paulo Freire na Educação Ambiental com o uso de aplicativo de
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aos outros jogos anteriores, dei- dores foi importante considerar o Freiriano, integrado ao uso de tabilidade Ambiental, Con-
xando nítido para os alunos uma aluno como o sujeito do processo aplicativos para dispositivos mó- sumo e Cidadania. 255p. São
visão mais real de uma cidade de transformação, respeitando as veis, sinalizando para uma edu- Paulo, Cortez Editora.
sustentável como: o consumo de diferenças e coerências entre o cação renovada e alinhada aos RIBEIRO, L. O. M. et al. (2006),
água, energia, o destino seleti- que se diz e o que precisava ser novos contextos sociais. Modificações em jogos digitais e
vo do lixo e a utilização do meio feito e não somente determinar seu uso potencial como tecnolo-
de transporte alternativo menos para eles o significado das coisas. Referências bibliográficas gia educacional para o ensino de
poluente ao meio ambiente. Nes- Verificou-se, também, que ensi- DIEGUES, A.C.S. (1992), Desen- engenharia. Revista Novas Tec-
te jogo ficou registrado cerca de nar dialogando com os alunos volvimento sustentável ou nologias na Educação, v. 4, n. 1,
40,9%do nível de satisfação do exigiu uma busca de afetividade, sociedades sustentáveis - da p.11, Porto Alegre: UFRGS.
jogo pelos alunos, consideranda na medida em que procurava-se crítica dos modelos aos novos ROCHA, L. A. G.; CRUZ, F. de M.;
bom para o aprendizado. escutá-los, para torná-los inclu- paradigmas, v. 6(1/2): n. 22– 9, LEÃO, A. L. (2015), Aplicativo
sivosão estímulo da cognicidade. p.29S. Paulo em Perspec. para educação ambiental. Fó-
Conclusão Portanto, a importância significa- FIGUEIREDO, J. (2003), Edu- rum Ambiental da Alta Paulis-
Ao repensar o processo de en- tiva das contribuições do Método cação Ambiental Dialógica ta. Periódico eletrônico. Edu-
sino-aprendizado e as mudanças de Paulo Freire, com o círculo dia- e Representações Sociais da cação Ambiental, vol. 11, n.
do saber e do ensinar dos profes- lógico e a consideração do saber Água em Cultura Sertaneja 11, p. 4.
sores, pode-se verificar a impor- do outro, torna-se fundamental Nordestina: uma contribui- SANTOS, G. O. (2016), Resíduos
tância da abordagem de estudos para aproveitamento do saber vi- ção à consciência ambiental sólidos e Aterros sanitários:
de casos articulado ao Método vido pelo aluno, posibilitando-o em Irauçuba-CE (Brasil). Tese em busca de um novo olhar. 80p.
de Paulo Freire. Esta pesquisa uma aprendizagem com base nas (Doutorado em Ciências Bio- Recife.
propõe trabalhar com círculo de questões ambientais. lógicas / Ecologia / Educação SODRÉ, M. N. R.; HORA, N. N.
cultura, integrando palavras ge- Quanto a relação do Método Ambiental) – Universidade Fe- (2014), Interface entre Edu-
radoras, para atingir o objeto de freiriano com a ferramenta tecno- deral de São Carlos - UFSCar, cação, Ambiente e Tecnologia:
estudo pretendido. O Método lógica, ou seja, os jogos informa- São Carlo, p. 348. São Carlos, Articulação na Formação de
fririano assinala uma orientação tizados, em dispositivos móveis, SP. Professor. Revista Renote -
e posterior reflexão da realidade uma vez inseridos no contexto FREIRE, Paulo (1982), Pedago- Novas Tecnologias na Educa-
das questões ambientais, no pro- da educação ambiental, permitirá gia do oprimido. 11. ed., p. 107, ção, v. 12, n. 2, p. 1-10, Porto
cesso ensinar-educar dialogica- ainvestigação dediversos enfo- Rio de Janeiro: Paz e Terra. Alegre.
mente. ques dialógicos, devido à inclusão FREIRE, Paulo (1987), Peda- Vamos cuidar do Brasil: concei-
Durante o ato educativo, me- de temas ambientais, ocorridos gogia do oprimido. O mundo tos e práticas em educação am-
diado por diálogos, observou-se nos três tipos de jogos, onde in- hoje, 17. ed. v. 21, p.110, Rio de biental na escola / (2007). [Coor-
que os alunos puderam construir corporam-se vários ambientes e Janeiro: Paz e Terra. denação: Soraia Silva de Mello,
as palavras transformadoras, co- ações diversas do cidadão sobre FREIRE, Paulo (1996). Pedago- Rachel Trajber]. – Brasília: Minis-
locando seu idealismo, suas críti- o meio. gia da Autonomia: Saberes ne- tério da Educação, Coordenação
cas e reflexões a partir das situa- Com base nessa experiência cessários à prática educativa. p Geral de Educação Ambiental:
ções-limites codificadas por meio e nos estudos realizados, esta 28. (São Paulo, SP: Paz e Terra. Ministério do Meio Ambiente,
de texto, poema e imagens. pesquisa propõe ao processo (Coleção Leitura). Departamento de Educação Am-
Na discussão dos temas gera- educativo o método de ensino PORTILHO, F. (2005), Susten- biental: UNESCO.

192 ambientalMENTEsustentable, 2017, número especial ambientalMENTEsustentable, 2017, número especial 193
Foto: Michèle Sato

Vila Nova de Gaia, em Portugal.


Construção coletiva de indicadores de Educação Ambiental escolar

Solange Reiguel Vieira1


Josmaria Lopes de Morais2
Marília Andrade Torales Campos3

Resumo
Esta pesquisa apresenta uma análise do processo de construção participativa de
uma matriz de indicadores de Educação Ambiental (EA) para avaliar a dimensão
ambiental das escolas. O trabalho foi realizado envolvendo oitenta e quatro sujei-
tos da comunidade escolar de nove escolas públicas estaduais localizadas no mu-
nicípio de Curitiba, estado do Paraná, Brasil. O caminho metodológico escolhido
foi a abordagem qualitativa por meio da pesquisa documental, bibliográfica e de
metodologias participativas. O processo subsidiou o desenvolvimento e aperfei-
çoamento de uma matriz de EA, que possui três dimensões: gestão, currículo e
espaço físico, contemplando dez indicadores e cinquenta questões descritoras. O
trabalho desenvolvido foi avaliado de forma positiva pelos participantes. O proces-
so permitiu reflexões sobre as condições socioambientais de cada escola, gerando
conhecimento do trabalho coletivo e da temática ambiental a partir do desafio de
estabelecer indicadores de avaliação. Os resultados indicaram as potencialidades
da ferramenta para promover uma reflexão coletiva visando a ação-reflexão-ação
em relação a EA no contexto escolar.

Palavras-Chave: Espaços educadores sustentáveis. Escolas sustentáveis. Indicado-


res. Metodologias participativas.

Abstract
Therefore, this research presents an analysis of the process of participatory cons-
truction of a matrix of Environmental Education (EE) indicators to measure the
progress of the environmental dimension of schools. Eighty-four persons from the
school community of nine state public schools located in the city of Curitiba, state
of Paraná, Brazil, participated in the study. The methodological approach chosen
was the qualitative approach. We used documentary, bibliographic research and
participative methodologies for the production of data. The process subsidized
the development and improvement of an EE matrix, which has three dimensions:
management, curriculum and physical space, including ten indicators and fifty des-
criptive questions. The participants evaluated the work in a positive way. The work
developed allowed reflections on the socio-environmental conditions of each
school, generating knowledge of the collective work and the environmental theme
from the challenge of establishing evaluation indicators. The results indicated the
potential of the tool to promote a collective reflection aiming at action-reflection-
-action in relation to EE in the school context.

Keywords: Sustainable educative spaces. Sustainable schools. Indicators. Partici-


patory methodologies.

ambientalMENTEsustentable, 2017, número especial 209


Solange Reiguel Vieira; Josmaria Lopes de Morais; Marília Andrade Torales Campos Construção coletiva de indicadores de Educação Ambiental escolar

Introdução a análise do processo de cons- fases (Figura 2) e a análise do processo subsidiou o aperfeiçoamento da
Diante da emergente proble- trução participativa de um ins- matriz.
mática socioambiental é funda- trumento denominado matriz de
mental repensar nossas ações/ indicadores de EA desenvolvido
decisões individuais e coletivas. para avaliar a dimensão ambien-
A resposta social para o enfrenta- tal de escolas.
mento dos desafios ambiental de-
manda aprofundamento em rela- Caminho metodológico
ção a amplitude e complexidade A compreensão do contexto e
do tema, mas também, perspecti- o processo de produção de dados
vas metodológicas de ação. Nesse realizou-se por meio da pesquisa
contexto, a escola está desafiada documental, bibliográfica e técni-
a se inscrever num processo polí- cas de metodologias participati-
tico de transformação da realida- vas.
de (re)inventar um mundo sus- Foram selecionadas 9 escolas
tentável (LEFF, 2012). estaduais do município de Curiti-
A construção de indicadores ba-PR-Brasil, sendo uma (escola
de EA pretende apontar alterna- A) para construção coletiva dos
tivas como ferramenta de avalia- indicadores e outras (escolas B a
ção de sustentabilidade, essencial I) para aplicação da matriz cons-
para o desenvolvimento da EA truída. Participaram da pesquisa
(ESTEBAN; BENAYAS; GUTIÉR- 84 sujeitos da comunidade esco-
REZ, 2000; MAYER, 2006). Assim, lar, de adesão livre e voluntária
este artigo, que decorre de uma (Figura 1). Figura 2: Esquema das etapas da pesquisa, aprovada em comitê de ética em
pesquisa.
pesquisa acadêmica, apresenta A pesquisa foi realizada em 2

Na etapa 2, foram realizados 4 encontros quinzenais (Figura 3).

Figura 1: Caracterização das escolas e dos participantes dos grupos.

1Doutoranda em Educação pela Universidade Federal do Paraná. E-mail: solgeografia@


gmail.com.
2Doutora em Química (UFPR). Profa. do Programa de Pós-graduação em Ciência e Tecnologia

Ambiental da Universidade Tecnológica Federal do Paraná.E-mail: jlmorais@utfpr.edu.br.


3Doutora em Ciências da Educação (Universidade de Santiago de Compostela). Profa.
Adjunta da Universidade Federal do Paraná – Setor de Educação. E-mail: mariliat.ufpr@ Figura 3: Imagem do roteiro de trabalho da escola A.
gmail.com.

210 ambientalMENTEsustentable, 2017, número especial ambientalMENTEsustentable, 2017, número especial 211
Solange Reiguel Vieira; Josmaria Lopes de Morais; Marília Andrade Torales Campos Construção coletiva de indicadores de Educação Ambiental escolar

Nos encontros foram utiliza- interacional e variações intragru- estudos de avaliação qualitativa é colar, que possibilita avaliar a
das diversas técnicas com en- pais, bem como a opinião sobre a concebida [...] como uma ‘produ- dimensão ambiental escolar, por
foque participativo. No terceiro técnica utilizada e a matriz apli- ção reflexiva’, em que o observa- meio de uma reflexão coletiva, do
encontro, concretizou-se a cons- cada. Além disso, foi avaliado o dor é parte e parcela do contexto protagonismo e da emancipação
trução da ferramenta. A elabora- potencial da matriz desenvolvida e da cultura que busca entender dos sujeitos para a ação-reflexão-
ção das questões descritoras dos para diagnosticar o estágio da es- e representar […]”. Neste contex- -ação na tomada de decisão dos
indicadores resultou em 36 ques- cola participante rumo a susten- to, essa construção se constituiu caminhos a serem trilhados pela
tões dos subgrupos e 71 questões tabilidade. num processo formativo, coletivo escola. Concluindo, o percurso
da pesquisadora, totalizando 107. Por fim, realizou-se a adequa- e colaborativo, com a participa- realizado permite afirmar que a
Após análise, foram validadas 50 ção da matriz de indicadores de ção dos diversos sujeitos que vi- matriz construída poderá ser uti-
questões que atendem ao crité- EA com base nos resultados das venciam o cotidiano escolar. lizada como instrumento de ava-
rio de estarem relacionadas com etapas anteriores e a elaboração Os trabalhos realizados na liação no âmbito escolar, da ges-
as dimensões da EA conforme a de orientações para o uso da fer- escola colaboradora “A” foram tão e da pesquisa em EA.
legislação estadual, sendo 20 de ramenta. primordiais para redefinir o per-
Gestão, 15 de Currículo e 15 de curso da pesquisa. A aplicação Referências
Espaço Físico. Resultados e discussões do Questionário 1 no início do ESTEBAN, G.; BENAYAS, J.; GU-
Na fase 2, para cada grupo re- A matriz desenvolvida, está primeiro encontro foi relevante TIÉRREZ, J. La utilización de
unido foi apresentada e aplicada organizada nas 3 dimensões da para conhecer os participantes e indicadores de desarrolo de la
a matriz desenvolvida durante o EA, constituída por 10 indica- adequar o roteiro preliminar. As- educación Ambiental como ins-
uso coletivo do instrumento de dores (Figura 4), avaliados por sim, os resultados possibilitaram trumentos para evalución de po-
pesquisa. Foram observadas e 5 questões descritoras, as quais identificar o perfil dos partici- líticas de educación ambiental.
analisadas as contribuições na apresentam 3 opções de respos- pantes, suas percepções/concep- Tópicos en Educación Ambien-
adequação das questões dos in- ta: frequente – F, eventual – E, e ções sobre atitudes sustentáveis tal. n. 2, v.4, p.61-72, 2000.
dicadores, as interações grupais, nunca – N. Ressaltamos que o e a importância do trabalho em GATTI, B. A. Grupo focal na
as vivências, os posicionamentos instrumento construído deve ser equipe e da participação em pro- pesquisa em ciências sociais
dos atores, os consensos, os dis- utilizado coletivamente. Para Mi- jetos de EA. Também possibilitou humanas. Brasília: Liber Livro
sensos, os silêncios, a dinâmica nayo (2009, p. 90) “a validade dos experienciar e utilizar técnicas Editora, 2012.
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ção coletiva da ferramenta. MAYER, M. Criterios de calidad
A matriz de indicadores de EA e indicadores en educación
Figura 4: Imagem do quadro contendo dimensões e indicadores de EA da ma- desenvolvida, representa uma ambiental. Perspectivas inter-
triz desenvolvida. contribuição à comunidade es- nacionales […] Década de las

212 ambientalMENTEsustentable, 2017, número especial ambientalMENTEsustentable, 2017, número especial 213
Solange Reiguel Vieira; Josmaria Lopes de Morais; Marília Andrade Torales Campos Construção coletiva de indicadores de Educação Ambiental escolar

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214 ambientalMENTEsustentable, 2017, número especial ambientalMENTEsustentable, 2017, número especial 215
tecido 2 texturas das políticas
e programas

Canal da Barra, em Laguna, cidade brasileira


situada no estado de Santa Catarina
Foto: Michèle Sato
Educação Ambiental no contexto da CPLP: Um Desafio Urgente

Luísa Schmidt1
João Guerra2
Joaquim Ramos Pinto3

Resumo
Os países lusófonos registam diferentes patamares na promoção da Educação Am-
biental (EA). Um primeiro levantamento realizado em 2017 mostra que a EA é, em
geral, competência dos Ministérios do Ambiente e da Educação, estando reservado
um papel específico para o poder local e para as escolas. O apoio público está ge-
neralizado na maioria dos países, sendo, no entanto, mais significativo no Brasil e
em Portugal. Já o apoio das organizações internacionais verifica-se, sobretudo, nos
países de África e em Timor, enquanto as ONG nacionais, fundações e empresas
nacionais a atuar no campo da EA estão presentes, ainda que a diferentes níveis,
em todos os países e contextos. Em suma, estes primeiros resultados demonstram
que a EA já entrou nas agendas pública e política de todos os países, embora de
forma desigual e nalguns países ainda seja embrionária. Torna-se, assim, particu-
larmente importante aprofundar o conhecimento e a análise do campo da EA nos
países da CPLP, de modo a reforçar a eficácia da sua implementação e a melhorar
as políticas públicas nestes territórios, garantindo maior resiliência para enfrentar
os desafios que se aproximam.

Palavras-Chave: Educação Ambiental; Países lusófonos, Inquérito; Desempenhos


nacionais.

Abstract
Portuguese-speaking countries are at different levels in promoting Environmental
Education (EA). A first survey conducted in 2017 shows that EA is mostly the res-
ponsibility of the Ministries of Environment and Education, with a role reserved
for local administration and schools. While more significant in Brazil and Portu-
gal, public support is widespread in most countries. The support of international
organisations is mainly found in African countries and East-Timor while, albeit at
different levels, national NGOs, foundations and national companies are present
in all countries and contexts. In sum, although unevenly and in some countries still
embryonic, these early results demonstrate that EA has already entered the public
and political agendas of all Portuguese speaking countries. Therefore, to enhan-
ce the effectiveness of implementation, to improve public policies, and to ensure
greater resilience to face the coming challenges, it is of particular importance to
deepening the analysis and the knowledge of the EE field in the Community of
Portuguese-Speaking Countries.

Keywords: Environmental Education, Lusophone Countries; Survey, National per-


formances.

1ICS-ULisboa. E-mail: mlschmidt@ics.ulisboa.pt.


2ICS-ULisboa. E-mail: jfguerra@ics.ulisboa.pt.

Santiago de Compostela, na Galícia 3ASPEA. E-mail: joaquim.pinto@aspea.org.


Foto: Michèle Sato

ambientalMENTEsustentable, 2017, número especial 219


Luísa Schmidt; João Guerra; Joaquim Ramos Pinto Educação Ambiental no contexto da CPLP

Introdução uma crise que, embora planetária, ça, quer nas comunidades e suas respetivos desempenhos nacio-
As questões ambientais são afeta sobretudo as populações práticas, quer nas políticas públi- nais; iii) os principais promoto-
hoje centrais para o futuro da Hu- humanas mais vulneráveis, o que cas, nomeadamente dos países res da EA e apoios disponíveis;
manidade e de qualquer comu- implica o reforço da sua aquies- da CPLP, emergindo como instru- iv) as dimensões curriculares in-
nidade ou país. As crises globais cência, resiliência e capacitação. mento crucial na transição para troduzidas abordando a temática
têm apontado o agravamento Neste contexto, “a educação é um modelo de sociedade mais ambiental e, por fim, v) algumas
progressivo de muitos problemas tanto um objetivo em si mesmo inteligente, construtivo e susten- notas conclusivas para reflexão.
ambientais com impactos gra- como um meio para atingir todos tável. Pode, portanto, revelar-se
vosos para a vida económica e os outros ODS. Não é apenas uma numa ferramenta crucial para Estratégia metodológica e
social a várias escalas – do local parte integrante do desenvolvi- ultrapassar as insuficiências do construção da amostra
ao global. A ONU tem lançado vá- mento sustentável, mas também proclamado, mas permanente- Tratando-se de uma primeira
rios alertas neste sentido e, vem um fator fundamental para a sua mente adiado, desenvolvimento abordagem exploratória que tem
preconizando uma convergência consecução” (UNESCO, 2017:1). sustentável (Reclift, 2005; Moore, por objetivo fazer um diagnós-
entre as agendas do desenvolvi- Mais especificamente, a Edu- 2011) tico da situação atual em nove
mento e do ambiente, através de cação Ambiental (EA) tem ganho O objetivo do Primeiro Inqué- países distintos, ainda que liga-
caminhos e soluções que recen- uma atualidade crescente ao lon- rito sobre Educação Ambiental dos por laços histórico-culturais,
temente foram traduzidos nos go das últimas décadas. Desde a na CPLP, levado a cabo pelo Ob- a estratégia de recolha de dados
Objetivos de Desenvolvimento Conferência Intergovernamental serva (ICS-ULisboa) e pela ASPEA centrou-se num inquérito por
Sustentável (ODS). Nesta nova de Tbilisi (CIEA, 1977) que alguns foi, por isso, fazer um diagnóstico questionário, aplicado online e
agenda para a sustentabilidade objetivos específicos – e.g., fo- preliminar da realidade da EA e por email, entre 26 de maio e 15
(Agenda 2030), a educação ganha mentar a consciencialização am- encontrar o seu lugar nos siste- de junho de 2017. Para potenciar
particular importância, surgindo biental; alargar os conhecimen- mas de educação formal e infor- taxas de resposta mais significa-
explicitamente formulada como tos e a informação dos cidadãos; mal nos países da CPLP. Os resul- tivas entre as instituições, recor-
um objetivo independente (i.e., estimular a mudança de valores tados aqui apresentados devem, remos ainda ao método de ‘bola
ODS 4 – Educação de Qualidade), e as atitudes; desenvolver capa- no entanto, ser vistos como uma de neve’, por via de contactos di-
assim como em numerosas metas cidades para uma participação primeira tentativa de análise que retos (i.e., por email e por telefo-
e indicadores de outros objetivos eficaz dos cidadãos – têm vindo a estará longe de esgotar a comple- ne), solicitando explicitamente a
(UNRIC 2016). ser defendidos. Passadas quatro xidade existente. Procura-se, tão resposta ao inquérito, bem como
Aprovada em 2015 e constituí- décadas, nem sempre os resul- só, avançar com pistas de refle- informação sobre eventuais in-
da por 17 objetivos desdobrados tados serão o que se esperaria, xão que certamente precisarão formantes privilegiados sobre EA
em 169 metas, a Agenda 2030 mas, em termos gerais, a evolu- de novos enfoques e novas abor- nos respetivos países. Nesta pri-
tem implícita uma mudança so- ção parece inegavelmente positi- dagens para as consolidar. Após meira abordagem interessou, ba-
cial que, para dar resposta aos va, assistindo-se a um crescendo uma breve introdução `temática sicamente, recolher informação
desafios da crise ambiental glo- global na consciencialização am- da Educação Ambiental, neste de fontes ligadas à promoção e ao
bal, decorrerá, em boa parte, de biental, sobretudo entre as gera- artigo apresenta-se: i) a estraté- desenvolvimento da EA: adminis-
processos educativos e/ou for- ções mais expostas a ações de EA gia metodológica e construção tração pública e ensino, ONG, em-
mativos potenciadores das neces- (Schmidt, Nave e Guerra, 2005). da amostra do inquérito aplicado presas, órgãos de comunicação
sárias dinâmicas mobilizadoras e Neste processo a EA pode resul- aos países lusófonos sobre EA, ii) social...
participativas. Trata-se, afinal, de tar numa ferramenta de mudan- o enquadramento institucional e As taxas de resposta e peso re-

220 ambientalMENTEsustentable, 2017, número especial ambientalMENTEsustentable, 2017, número especial 221
Luísa Schmidt; João Guerra; Joaquim Ramos Pinto Educação Ambiental no contexto da CPLP

diversificação de respostas e o de cada um dos países, o que ex-


simultâneo enfoque nos oito paí- plicará a presença relativamente
ses lusófonos (mais a Galiza) re- dominante de instituições da ad-
sultou em 6 tipos diferenciados ministração pública.
de respondentes que deterão
diferentes responsabilidades na Enquadramento institucional e
promoção da EA. De acordo com desempenhos
a Figura 1, predominam as insti- Vejamos, então, como referem
tuições ligadas à Administração os inquiridos o quadro político-
Pública (34%), as ONG e as Uni- -legislativo que enquadra a sua
versidades (25% cada), a que se ação. De acordo com a Tabela
Tabela 1 – Inquérito sobre EA aplicado nos países de língua portuguesa juntam os órgãos de Comunica- 2, podemos distinguir entre i)
(taxas de resposta) ção Social (9%), outras institui- presença do ambiente na Cons-
ções (5%) e, ainda, o setor em- tituição Nacional que resulta de
lativo na amostra (Tabela 1) dão nais, exibem das maiores taxas presarial com 2% das respostas. informação avançada esponta-
conta da diversidade presente em de resposta e pesos relativos no A disponibilidade para responder neamente pelos inquiridos5 e ii)
termos de dimensão do país, mas total da amostra só ultrapassados depende do interesse e responsa- presença da Educação Ambiental
também em termos de interesse pelo do Brasil. Nesta fase, no en- bilidades assumidas na promo- na constituição.
pela EA nos vários contextos na- tanto, a preocupação central foi ção e prossecução da EA ao nível No que toca ao Ambiente, de
cionais e até da capacidade de garantir a recolha de informação
penetração da equipa de investi- tão abrangente, diversificada e
gação em cada um deles4. Assim, coerente quanto possível, tendo-
se olharmos para os casos de São -se recorrido, quando necessário,
Tomé e Príncipe e Cabo Verde, ve- a pesquisa documental confirma-
rificamos que, apesar da reduzida tória.
dimensão em termos populacio- Seja como for, o esforço de

Tabela 2 – Ambiente e EA na construção nacional

acordo com as respostas obtidas, -Bissau, São Tomé e Príncipe, Ti-


apenas a Guiné-Bissau não o in- mor-Leste e Galiza, embora, nes-
clui na Constituição. Mais concre- te último caso, o facto de se tratar
tamente, a EA tem uma presença de uma região autónoma de Es-
Figura 1 – Tipologia de instituições representadas nas respostas menos geral, estando ausente da panha possa ter determinado a
Constituição de Angola, Guiné- resposta negativa. Para efeitos
4Envio do questionário e/ou pedido de resposta a inscrito/as no Congresso e a contactos
pré-existentes da ASPEA e do ICS-ULisboa/Observa. 5As “não-respostas” de Moçambique e de Timor-Leste poderão, afinal, resultar desse facto.

222 ambientalMENTEsustentable, 2017, número especial ambientalMENTEsustentable, 2017, número especial 223
Luísa Schmidt; João Guerra; Joaquim Ramos Pinto Educação Ambiental no contexto da CPLP

práticos e, de acordo com as res- ambiental. De acordo com os re- sobretudo, a Cabo Verde, Moçam- Em países como o Brasil e Portu-
postas galegas, a Estratexia Gale- sultados (Tabela 3), todos os paí- bique, Portugal e Galiza. gal as competências alargam-se a
ga de Educación Ambiental existe ses dispõem de uma Lei de Bases E quem aplica esta legislação? um campo vasto que vai desde a
e recomenda-se. do Ambiente, assim como uma lei De acordo com os resultados, disponibilização de informação e
Aprofundemos, então a análise sobre as Áreas Protegidas e so- especificamente a EA é compe- desenvolvimento de campanhas
procurando indagar que leis tem, bre Ordenamento do Território tência de dois ministérios que, de sensibilização e formação, à
cada um destes países, disponí- (ainda que as denominações nem através de diversos departamen- parceria com escolas e ONG, e
veis para proteger a qualidade sempre coincidam6). tos e secretarias, trabalham em ao financiamento de atividades e
complementaridade: Ministério equipamentos de EA. Nos restan-
do Ambiente e Ministério da Edu- tes países o papel do poder local
cação. Com exceção da Guiné- limita-se, sobretudo, à sensibili-
-Bissau, onde as respostas foram zação e disponibilização de infor-
sistematicamente negativas, o mação e, eventualmente, a algu-
poder local é outro dos importan- mas parcerias com ONG de cariz
tes intervenientes nesta matéria. internacional.

Tabela 3 - Legislação de proteção ambiental existente nos vários países


Tabela 4 - Equipamentos de EA disponíveis
Pelo contrário, o litoral e o ar tros, as questões relacionadas
são matérias sobre as quais nem com os solos (Brasil e Guiné-Bis-
todos os países legislam, como sau), a água (São Tomé e Prínci- Para levar a cabo uma estraté- para desenvolver projetos e ativi-
são os casos de Angola, Guiné- pe), ou os resíduos (Guiné-Bissau gia de sucesso, os equipamentos dades de EA. Em sentido contrá-
-Bissau, São Tomé e Príncipe e e Timor-Leste). Importa, no en- de EA podem potenciar as ações rio, ainda de acordo com os dados
Timor-Leste. Importará, na con- tanto, assinalar a transversalida- educativas. Interessou, por isso, expostos na Tabela 4, surge Ango-
tinuação deste estudo, procurar de que as questões ambientais perceber até que ponto estavam la, cujos respondentes apenas re-
perceber como são defendidos já assumiram na legislação dos disponíveis. Como se verifica na feriram “museus” generalistas.
estes valores ambientais nestes vários países, ainda que quadros Tabela 4, Brasil, Portugal e Gali- Se tomarmos Angola como
países, assim como, nalguns ou- legais mais completos se limitem, za destacam-se com o pleno de exemplo, a falta de equipamentos
equipamentos disponíveis no seu parece repercutir-se nas temá-
6 *S.Tomé e Príncipe: Lei sobre a Propriedade Fundiária; Angola: Lei de Terras; Timor- território. Importaria saber da ticas exploradas. De acordo com
Leste: Lei de Terras e Lei de Expropriações por Utilidade Pública. ** No site do Governo qualidade e quantidade, mas os a Tabela 5 a biodiversidade e as
de Timor-Leste não há referência a: Lei de Bases do Ambiente, Lei da Água, Lei das Áreas dados recolhidos apenas nos per- áreas protegidas são o único as-
Protegidas, mas as respostas foram afirmativas. *** Para a Galiza não houve representantes mitem sublinhar uma discrepân- sunto a conseguir o pleno entre
da administração pública a responder.
cia que vinca diferentes recursos os países inquiridos. Nas restan-

224 ambientalMENTEsustentable, 2017, número especial ambientalMENTEsustentable, 2017, número especial 225
Luísa Schmidt; João Guerra; Joaquim Ramos Pinto Educação Ambiental no contexto da CPLP

nizações Não Governamentais sando pelo financiamento, até à


de Ambiente), e, em menor grau, execução.
também as fundações e as empre- Aliás, quanto a recursos finan-
sas são mencionadas como finan- ceiros, os inquiridos sublinham
ciadoras ou promotoras (muitas invariavelmente uma escassez
vezes executoras) de atividades clara que, quando disponíveis,
e projetos. Em Portugal, Brasil e têm maioritariamente origem
Galiza o desenvolvimento e exe- pública. Esta situação verifica-se,
cução de projetos surge, antes de sobretudo, em Portugal e no Bra-
Tabela 5 - Temáticas exploradas em ações e projetos e EA desenvolvidos pelo mais e de forma clara, atribuído sil, mas também em Cabo Verde e
poder local às ONG nacionais. Nos restantes em Moçambique. Nesta matéria,
países africanos e em Timor des- Angola e Timor-Leste destacam-
tes áreas temáticas, as questões balmente persiste em ignorar, “a tacam-se as ONG internacionais e -se pela negativa: de acordo com
do litoral e dos resíduos surgem preocupação em renovar as espe- as agências de cooperação inter- as respostas recolhidas, nestes
em segundo lugar, logo seguidas ranças para trazer a compreensão nacional que, em grande parte, países, não existem sequer fun-
pela água e pela floresta. Comu- do sentido da integridade da EA” assumem todas as fases dos pro- dos públicos específicos disponí-
nidades indígenas/tradicionais, (Sato, 2001). Na prática, apesar jetos: desde a elaboração, pas- veis para apoiar atividades de EA.
áreas degradadas e, por fim, as da retórica do desenvolvimento
questões de género espontanea- sustentável, Mantém-se em vigor
mente menos referidas fecham o o divórcio entre as consequên-
conjunto de temáticas exploradas cias no ambiente físico e as con-
pelo poder local nos países de sequências sociais da crise global
língua portuguesa. Note-se que – ambiental, económica, social e
os respondentes galegos, talvez institucional (The Commission
porque os representantes da ad- of Inquiry into the Future of Civil
ministração pública falharam na Society, 2010), num tradicional
resposta, não responderam, en- e persistente acantonamento da
quanto o Brasil se destaca com EA nas questões ecológicas e con-
respostas positivas em todas as servacionistas (Schmidt, Nave e
áreas. Guerra, 2010).
Verifica-se, assim, que as ques-
tões de género e até das comuni- Promotores e apoios disponí-
dades indígenas/tradicionais que veis
parecem pouco apelativas para Que recursos estão, então, Tabela 6 - Organizações internacionais presentes no apoio à EA.
a maioria dos países, apesar de disponíveis nestes países? A ní-
serem questões prementes em vel nacional, a generalidade das E qual o papel das Organiza- cular importância nos países afri-
qualquer dos contextos geográfi- respostas confere às ONG o pa- ções Internacionais no financia- canos e em Timor-Leste (Tabela
cos. Estaremos, pois, perante uma pel prático mais importante. Em mento da EA? Existem organiza- 6). Segundo os dados obtidos, o
fragilidade transversal que, glo- todos os países as ONGA (Orga- ções internacionais presentes em apoio que estas organizações dis-
todos os países, assumindo parti- ponibilizam é, em grande parte,

226 ambientalMENTEsustentable, 2017, número especial ambientalMENTEsustentable, 2017, número especial 227
Luísa Schmidt; João Guerra; Joaquim Ramos Pinto Educação Ambiental no contexto da CPLP

financeiro, embora em muitos baseados em recursos naturais São Tomé existe mesmo uma dis- Se, para o desenvolvimento e
casos a intervenção das organiza- (i.e., água, saneamento, energia, ciplina dedicada à EA, enquanto execução de projetos e ativida-
ções internacionais se alargue à resíduos…) que apoiam e desen- em Angola a EA está integrada des de EA nas escolas e, conse-
própria elaboração e desenvolvi- volvem atividade nesta área. numa disciplina. Nos restantes quentemente, para a mobilização
mento do projeto, ao apoio técni- países, a EA surge como matéria e envolvimento da comunidade
co, à produção de materiais peda- Educação Ambiental nos curri- transversal a ser tratadas pelas escolar, a importância dos profes-
gógicos, aos aspetos logísticos e, cula escolares várias disciplinas. Serão, portan- sores é indiscutível, nem sempre
ainda, à formação. O sistema formal de ensino nos to, os professores (muitas vezes eles próprios se sentem prepa-
A origem de recursos (finan- seus vários níveis (i.e., dos Jardins com apoio de ONG, empresas e rados para tal tarefa. Até porque,
ceiros e outros) pode, no entanto, de Infância à Universidade) cons- municípios) que assumem ativi- a julgar pela disponibilidade de
ter outras fontes como, por exem- titui o promotor fundamental da dades e projetos num esforço em- cursos nas universidades ligados
plo, as empresas. Para além de educação ambiental e o que me- penhado e generoso, nem sempre à EA, dificilmente fez parte da sua
Timor-Leste, cujos respondentes lhor indica o sentido da mudan- devidamente reconhecido (Sch- formação de base.
referem não existirem empresas ça formativa. Como nota Jackson midt, Nave & Guerra, 2010). Com efeito, como se constata
públicas ou privadas a intervir (2009), a escola é lugar de forma-
neste campo, em todos os ou- ção e, portanto, ferramenta não
tros países e particularmente em descartável para o processo de
Portugal e no Brasil, há empre- transição que, a mal ou a bem, to-
sas, normalmente ligadas à pro- dos teremos que enfrentar.
dução/distribuição de serviços Começámos, então por inda-
Tabela 8 - Presença da EA nos currículos do ensino superior.

na Tabela 8, a EA está ainda longe máticas contíguas são ainda, ba-


de garantir um lugar de destaque sicamente, exploradas nas licen-
nas universidades, em qualquer ciaturas de ambiente e ciências
dos contextos geográficos pre- naturais.
sentes. Na Guiné-Bissau e Timor- A formação de professores e, já
-Leste a temática nem sequer é agora, de outros técnicos que, de
abordada. Em Portugal e em Mo- alguma forma, com eles possam
çambique existem já licenciatu- colaborar (e.g., técnicos autár-
ras em EA, mas são relativamen- quicos, técnicos de ONG…) é, por
Tabela 7 - Educação ambiental nas escolas. te recentes e detêm ainda pouca isso, um instrumento imprescin-
visibilidade. Finalmente, ainda dível para levar a bom porto os
gar de que forma a EA é ministra- ainda que, numa análise qualita- que no Brasil, em Cabo Verde, em objetivos da EA. Daí que importe
da nas escolas. De acordo com os tiva, em Timor-Leste essa impor- Portugal, em São Tomé e Prínci- indagar sobre a disponibilidade
resultados alcançados (Tabela 7), tância pareça menos expressiva. pe e na Galiza se tenham vindo a da formação nos vários países.
em geral, os sistemas educativos Pelo contrário, de acordo com as instituir alguns mestrados e/ou De acordo com os resultados
reconhecem a importância da EA, declarações dos inquiridos, em doutoramentos em EA, a EA e te- (Tabela 9), em São Tomé não

228 ambientalMENTEsustentable, 2017, número especial ambientalMENTEsustentable, 2017, número especial 229
Luísa Schmidt; João Guerra; Joaquim Ramos Pinto Educação Ambiental no contexto da CPLP

térias ambientais nos curricula nas ações diárias, e é maravilho-


em diversos graus de ensino. so que a educação seja capaz de
Como aspetos menos positi- motivar para elas, até dar forma a
vos e a carecerem de medidas um estilo de vida (…)” Francisco,
Tabela 9 - Formação disponível para professores e técnicos.
específicas, regista-se a escassez 2015: 154).
generalizada de equipamentos e
está disponível nenhum tipo de ra, mais justa (Guerra e Schmidt, materiais pedagógicos de EA, ex- Referências
formação, seja destinada a pro- 2016), parece existir um défice cetuando nos casos de Portugal, CIEA (1977). Declaração da
fessores, seja destinada a outros de meios formativos que, quase Brasil e Galiza, e acima de tudo, a Conferência Intergovernamen-
técnicos. Já em Angola, na Guiné- invariavelmente, se reduzem a ausência de formação de técnicos tal sobre Educação Ambiental.
-Bissau e em Timor-Leste exis- ações pontuais. e de professores, bem como a fal- Tbilisi, Geórgia: Conferência In-
tem apenas ações pontuais que, ta de articulação entre escolas e tergovernamental sobre Educa-
de acordo com os respondentes, Notas conclusivas universidades, o que é particular- ção Ambiental.
são pouco significativas. Por seu Fazendo o balanço dos resul- mente relevante pois permitiria Francisco, Santo Padre (2015).
turno, em Cabo Verde e na Galiza tados deste inquérito que cons- um salto qualitativo nas práticas ‘Laudato Si’: sobre o cuidado
existe formação especifica para tituiu uma primeira abordagem à de EA. da casa comum - Segunda car-
professores, mas não para outros problemática da EA nos países da Em suma, os processos de mu- ta encíclica do Papa Francisco.
técnicos. Finalmente, no Brasil e CPLP, conclui-se desde logo que, dança para um modelo de susten- Lisboa: Paulus
em Portugal parece apostar-se apesar do muito curto espaço de tabilidade mais efetivo implicam Guerra, João e Schmidt, Luísa
mais na formação que, de acordo tempo da sua aplicação, o índice o envolvimento das comunidades (2016). Concretizar o Wishfull
com os respondentes brasileiros de respostas foi elevado e envol- e das populações. Para isso, tor- Thinking – dos ODS À COP21. Re-
e portugueses, está disponível veu diferentes entidades, o que na-se imperativo romper o ciclo vista Ambiente & Sociedade, 19
para os dois grupos. indicia o interesse pelo tema. Re- vicioso de incapacitação (Sen (4): 179-196.
Resta saber até que ponto esta flexo disso mesmo é a existência 2006), investindo na educação Jackson, Tim (2009): Prospe-
formação disponibilizada está de um quadro legislativo e insti- formal e informal. Dos vários pro- rity without growth: economi-
adequada às necessidades o que, tucional sobretudo nos ministé- cessos formativos disponíveis, a cs for a finite planet. London,
será impossível responder a par- rios do Ambiente e da Educação, EA constitui um contributo de- Earthscan.
tir dos resultados deste inqué- bem como o envolvimento dos terminante para fazer compreen- Moore, Frances C. 2011. «Toppling
rito. Uma análise qualitativa das poderes locais no que à EA diz der as interdependências entre the Tripod: Sustainable Develo-
respostas, deixa intuir que, antes respeito em praticamente todos sociedade e ambiente. A EA surge pment, Constructive Ambiguity,
de mais, existe uma maior dispo- os países. Outro aspeto positivo a como um ‘driver’ para a capacita- and the Environmental Challen-
nibilidade de ações e programas sublinhar é a existência de apoios ção que dará sentido à participa- ge». The Journal of Sustainable
no Brasil, seja para professores, financeiros nacionais e interna- ção pública efetiva com impacto Development, 5 (1): 141-150.
seja para outros técnicos. Mas, cionais para projetos e ações, direto na mudança de práticas, Oliveira Martins, Guilherme
de forma geral e tendo em conta bem como o papel relevante de- normas e valores sociais, tal como (coord.) (2017): Perfil dos
a fulcralidade da EA para tornar sempenhado pelas ONGA e a con- se pretende com os ODS. alunos à saída da Escola-
viável uma mudança social que, sagração generalizada de Áreas Como refere o Papa Francisco, ridade Obrigatória – Docu-
apesar de inevitável, pode ser Protegidas. Ainda positivamente, “é muito nobre assumir o dever mento elaborado pelo Grupo
menos tumultuosa e, porventu- assinale-se a introdução das ma- de cuidar da criação com peque- de Trabalho criado nos termos

230 ambientalMENTEsustentable, 2017, número especial ambientalMENTEsustentable, 2017, número especial 231
Luísa Schmidt; João Guerra; Joaquim Ramos Pinto Educação Ambiental no contexto da CPLP

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232 ambientalMENTEsustentable, 2017, número especial ambientalMENTEsustentable, 2017, número especial 233
Foto: Michèle Sato

Lagoa dos Patos, em Rio Grande, cidade brasileira


Indicadores de monitoramento e avaliação de projetos e políticas
situada no estado do Rio Grande do Sul públicas de Educação Ambiental no Brasil
Maria Henriqueta Andrade Raymundo1
Evandro Albiach Branco2
Semíramis Biasoli3
Marcos Sorrentino4
Renata Maranhão5
Resumo
Este artigo apresenta o processo participativo de estruturação do monitoramento
e avaliação de projetos e políticas públicas de educação ambiental (EA) no Brasil. O
processo vem sendo desenvolvido pela ANPPEA – Articulação Nacional de Políticas
Públicas de Educação Ambiental com o objetivo geral de contribuir para o forta-
lecimento das políticas de transição para sociedades sustentáveis no país. Deste
modo, está em desenvolvimento uma plataforma digital ancorada em um banco
de dados subsidiado por indicadores de monitoramento e avaliação. O arcabouço
teórico-metodológico que dá suporte ao projeto da Plataforma Brasileira de Mo-
nitoramento e Avaliação de Políticas Públicas de Educação Ambiental está refe-
rendado em políticas públicas multicêntricas, nas quais governo e sociedade têm
responsabilidades compartilhadas e se colocam como parceiros para a formula-
ção, implementação e monitoramento das políticas. O arcabouço permite também
um olhar multiescalar sobre as políticas públicas de EA, partindo da identificação
de atores em suas diversas áreas e escalas de influência espacial, oferecendo re-
levantes elementos para as análises da extensão e relação entre políticas públicas
nos territórios. Até o momento cerca de 300 pessoas de representações diversas
foram envolvidas neste processo que resultou no diagrama de dimensões articu-
ladas de indicadores de monitoramento e avaliação de políticas públicas de EA.
Palavras-chave: políticas-públicas, monitoramento, avaliação, plataforma e indi-
cadores.

Abstract
This paper introduces the participatory design of monitoring and evaluation fra-
mework for projects and public policies in environmental education in Brazil. This
process has been developed by ANPPEA – National Articulation of Enviromental
Education Public Policies, with the general objective of contributing to the streng-
thening of the policies of transition to sustainable societies in the country. Thus, a
digital platform based on database and indicators of monitoring and evaluation is
under development. The theoretical-methodological framework that supports the
Brazilian Platform for Public Policies in Environmental Education Monitoring and
Evaluation project is based on multicentric public policies concept which govern
and society has shared responsability and put themselves as partners to the for-
mulation, implementation and monitoring of public policies. This framework also
allows a multiscalar approach over public policies of environmental education,
starting from the identification of actors in their different fields and spatial sca-
les, providing relevant subsidies for the analysis of the extension and relationship
between public policies in the territory. So far, about 300 people from different
sectors were involved in the process that resulted in the diagram of articulated
dimensions of indicators for monitoring and evaluation of public environmental
education policies.
Key words: Public-policies, monitoring, evatuation, plataform, indicators.

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Maria H. A. Raymundo; Evandro A. Branco; Semíramis Biasoli; Marcos Sorrentino; Indicadores de monitoramento e avaliação de projetos e políticas públicas de
Renata Maranhão Educação Ambiental no Brasil

Introdução NEA possa ser considerado um âmbitos local e nacional, sobre instituições privadas, coletivos
A política pública de educação avanço, ainda existe um longo ca- Políticas Públicas de Educação educadores, organizações não
ambiental (PPEA) no Brasil teve minho a ser percorrido para for- Ambiental com a participação e governamentais, unidades de
um importante marco históri- talecer a EA no Brasil, o que exige apoio do Ministério da Educação conservação, comitês de bacia hi-
co com a lei federal nº 9795/99, sinergia e articulação entre as di- (MEC), Ministério de Meio Am- drográfica e outros atores.
que institui a Política Nacional versas políticas públicas, setores, biente (MMA), Prefeituras Muni- Com objetivos de promover a
de Educação Ambiental (PNEA). conhecimentos, tecnologias, ter- cipais e da Universidade de Brasí- sinergia entre atores e ações de
Pautada em princípios democrá- ritórios e atores. lia (UNB). Os seminários tiveram EA e contribuir para o fortaleci-
ticos, participativos e por pro- De acordo com Sorrentino et o objetivo de propiciar reflexões mento das políticas públicas de
cessos educativos continuados e al. (2005, p.287) as políticas pú- sobre a elaboração e implantação educação ambiental de transição
permanentes, o Órgão Gestor da blicas de educação ambiental po- de políticas públicas integradas e para sociedades sustentáveis no
PNEA, composto por represen- dem ser compreendidas na pers- comprometidas com a sociedade. país, como parte do Simpósio, foi
tantes dos Ministérios do Meio pectiva de um “processo dialético Dando continuidade aos diá- realizado um diagnóstico partici-
Ambiente e da Educação e asses- e compartilhado entre Estado e logos, reflexões, intervenções e pativo sobre demandas, desafios,
sorado por um Comitê com par- sociedade civil”, e necessitam de diagnósticos sobre as políticas expectativas e oportunidades
ticipação diversificada da socie- estudos e intervenções com abor- públicas de educação ambien- referentes a formulação e imple-
dade brasileira, realizou consulta dagens pluralistas e abrangentes. tal, com aprofundamento e re- mentação dessas políticas públi-
pública voltada a construção do O autor também afirma que “a sultados práticos, em maio de cas no Brasil.
Programa Nacional de Educação urgência de transformação social 2014 a Oca realizou o Simpósio Dentre os resultados do diag-
Ambiental (ProNEA). tratada pela educação ambiental “Políticas Públicas de Educação nóstico identificou-se que a for-
O ProNEA, neste sentido, assu- visa à superação das injustiças Ambiental para Sociedades Sus- mação é deficitária tanto nas IES,
me como seu fundamento o Tra- ambientais, da desigualdade so- tentáveis – municípios, escolas e como entre gestores de governos
tado de Educação Ambiental para cial, da apropriação capitalista instituições de educação superior municipais e profissionais das es-
Sociedades Sustentáveis e Res- e funcionalista da natureza e da que educam para a sustentabili- colas. O diagnóstico apontou que
ponsabilidade Global, elaborado própria humanidade” (p. 297). dade socioambiental (SPPEA)”, a formação é uma carência para a
pela sociedade civil planetária Em 2013, a Oca/ESALQ/USP6 com o apoio da Coordenadoria institucionalização das políticas
durante a Rio92. Embora o Pro- realizou cinco seminários nos de Aperfeiçoamento de Pessoal públicas de EA, desde sua criação
de Ensino Superior (CAPES) , da à implantação, passando também
Superintendência de Gestão Am- pelo monitoramento e análise
1Oca – Laboratório de Educação e Política Ambiental – ESALQ/USP e Fundo Brasileiro de biental da Universidade de São dos processos, resultados e ava-
Educação Ambiental - FunBEA. E-mail: henriquetasss@gmail.com. Paulo (USP), Itaipu Binacional, liação. Da mesma forma, foi apon-
2Centro de Ciência do Sistema Terrestre – CCST/INPE.
MEC e MMA. tada a demanda de investimento
3Fundo Brasileiro de Educação Ambiental - FunBEA. O SPPEA envolveu aproxima- na criação de indicadores de
4Oca – Laboratório de Educação e Política Ambiental – ESALQ/USP. E-mail: sorrentinoea@ damente 600 pessoas provenien- avaliação das PPEA. Num ques-
gmail.com. tes das cinco regiões administra- tionamento sobre a necessidade,
5Departamento de Educação Ambiental do Ministério do Meio Ambiente - DEA/MMA. tivas do Brasil, representando o desejos e disponibilidade para a
6O Laboratório de Educação e Política Ambiental (Oca) da Escola Superior de Agricultura poder público em suas múltiplas estruturação de uma articulação
Luiz de Queiroz, campus da Universidade de São Paulo (ESALQ/USP), criado em meados dos esferas, as instituições de edu- nacional de políticas públicas de
anos de 1980, atua no campo das políticas públicas de educação ambiental por meio do cação superior (IES), escolas, educação ambiental 98% do pú-
ensino-aprendizagem, pesquisa, extensão e gestão compartilhada.

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blico envolvido no Simpósio res- atuantes nos territórios; cons- Plataforma Brasileira de Mo- oficinas, rodas de conversa, pa-
pondeu positivamente, sugerindo truir e produzir conhecimentos nitoramento e Avaliação de lestras, círculos de cultura, mesas
encontros presenciais e comuni- técnicos, científicos e populares Projetos e Políticas Públicas de redondas que propiciam a cons-
cação a distância para construção integrados sobre a formulação e Educação Ambiental trução coletiva do delineamento
de estratégias de articulação. execução de políticas públicas de Com objetivos de cadastro, da plataforma de monitoramento
Em busca de efetivar os en- educação ambiental. monitoramento e análises espa- e avaliação.
caminhamentos dados sobre ar- Os específicos são: mapear ciais por meio de indicadores de Quanto ao eixo técnico-cientí-
ticulação, sinergias e monitora- projetos e políticas públicas de ações estruturantes, projetos e fico, se refere à elaboração e de-
mento de políticas públicas de EA EA, em seus diversos matizes, políticas públicas de EA, nasce o senvolvimento de metodologias
a Oca firmou uma parceria téc- proponentes e escalas; promover projeto da Plataforma. Para tanto, participativas para o eixo educa-
nica com o Fundo Brasileiro de intercâmbio e divulgar os proje- foi definida uma metodologia que dor-pedagógico, às sistematiza-
Educação Ambiental (FunBEA) e tos e as políticas públicas de EA; se desenvolve em três eixos arti- ções e análises das produções co-
com o Centro de Ciência do Siste- criar espaços dialógicos sobre culados e integrados: a) político- letivas, em específico em relação
ma Terrestre (CCST) do Instituto formulação, execução, monitora- -institucional, b) educador-peda- à proposição e desenho de indica-
Nacional de Pesquisas Espaciais mento e avaliação de projetos e gógico, c) técnico-científico. dores, bem como a elaboração de
(INPE), contando com o respaldo políticas públicas de EA no país; O eixo político-institucional suas fichas metodológicas, defini-
político do Órgão Gestor da PNEA. construir e sistematizar indica- se refere às articulações neces- ção e aplicação de métodos de va-
A parceria permitiu dar início dores e instrumentos de análise sárias com a diversidade de ato- lidação dos indicadores, constru-
ao delineamento de uma plata- de dados, inclusive espacialmen- res, estabelecimento de parcerias ção do banco de dados espacial
forma para o cadastro e análises te, visando o monitoramento con- e agendas, captação de recursos de suporte ao mapeamento das
espaciais de ações estruturantes, tínuo dos projetos e políticas pú- financeiros, potencialização e PPEAs, além da previsão de tec-
projetos e políticas públicas de blicas de EA no Brasil. capilaridade das ações em de- nologias de webgis e ferramen-
educação ambiental do país. Nes- O lançamento da ANPPEA ge- senvolvimento. As atividades do tas de análise espacial e de redes
te contexto, em agosto de 2015, rou amplos diálogos, reflexões e eixo são reuniões, elaboração de (network analysis).
foi lançada a ANPPEA – Articula- encaminhamentos sendo a sua termos de cooperação técnica e Com os três eixos adotados foi
ção Nacional de Políticas Públi- secretaria executiva formada projetos, contratações, prospec- possível estabelecer as seguintes
cas de Educação Ambiental com pelo FunBEA, CCST/INPE; Oca/ ções financeiras, mapeamentos etapas metodológicas de constru-
o apoio e participação da diver- ESALQ/USP; Departamento de institucionais, etc. ção da plataforma:
sidade de atores envolvidos no Educação Ambiental do Minis- O eixo educador-pedagógico a) definição do marco referen-
diagnóstico realizado pelo men- tério do Meio Ambiente (DEA/ diz respeito a essência demo- cial e conceitual que dão a base
cionado Simpósio. MMA) e Coordenação Geral de crática, participativa, crítica e da plataforma;
Os objetivos gerais da ANPPEA, Educação Ambiental do Mi- emancipadora da EA. Portanto, as b) caracterização do frame-
são: contribuir para o fortaleci- nistério da Educação (CGEA/ informações que vem sendo pro- work utilizado para a construção
mento das políticas públicas de MEC). Como primeira missão da duzidas resultam da participa- dos indicadores;
EA de transição para sociedades ANPPEA, foi assumida a constru- ção, do diálogo de saberes e plu- c) construção participativa dos
sustentáveis no país; propiciar a ção da Plataforma Brasileira de ralidade das ações e atores que indicadores;
sinergia entre prefeituras, esco- Monitoramento e Avaliação de atuam nos territórios do Brasil. d) a definição do processo de
las, instituições de educação su- Projetos e Políticas Públicas de Neste eixo são criados espaços validação para os indicadores
perior e a diversidade de atores Educação Ambiental dialógicos com a realização de propostos;

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e) construção do conceito e de- estes que serão tratados a seguir. influenciam de forma recíproca instituintes presentes em todo o
finição das áreas de abrangência De uma maneira geral é pos- e permanente e se caracterizam ciclo da política pública (KING-
(espacial) de cada política públi- sível afirmar que políticas públi- no chamado ciclo da política pú- DON, 2003, 2006).
ca de EA potencial na plataforma; cas são o conjunto de ações es- blica : 1) dimensão de conteúdo, Alguns conceitos e concepções
f) criação do banco de dados, truturadas desencadeadas pelo ou policy; que se refere aos con- da política do cotidiano a funda-
incluindo as estratégias para co- Estado, em suas diversas esferas teúdos concretos, à configuração mentam conceitualmente. São
leta contínua e colaborativa; e escalas, como propostas de dos programas políticos, proje- eles: A relação entre instituído e
g) construção dos arquivos ve- enfrentamento a determinados tos, ações e problemas técnicos instituinte (BAREMBLIT, 2002) e
toriais, com a identificação das problemas públicos (FREY, 2000; e conteúdo material das decisões a relação entre regulação e eman-
feições espaciais e tabelas de SOUZA, 2006). A essência do con- políticas, 2) dimensão das insti- cipação trabalhada por Boaven-
atributos; ceito de políticas públicas, entre- tuições, polity, que se refere à or- tura de Sousa Santos, junto aos
h) definição de critérios de tanto, está no problema público, dem do sistema político, às nor- três pilares da sociedade: estado,
consulta, acesso à base de dados, cujas causas e consequências mas e legislações, às previsões mercado e sociedade.
inserção e validação de novos da- abarcam toda uma coletividade orçamentárias, delineadas pela O Instituído tem relação com
dos, comunicação e hospedagem. (SECCHI, 2013). estrutura institucional do siste- os poderes reconhecidos por
Neste sentido, na perspectiva ma político-administrativo; 3) di- meio da legalidade e de padrões
Abordagem Multicêntrica e multicêntrica, as políticas públi- mensão de atores e dos processos tais como universalidade, coerci-
Multiescalar da Plataforma cas são consideradas como pro- políticos ou politics, que trata das tividade e legalidade. Trata-se do
Brasileira de Monitoramento cessos complexos e dinâmicos, e forças em jogo, frequentemente reconhecimento das instituições
e Avaliação de Projetos e Polí- passam a incorporar nas decisões de caráter conflituoso, no que se e processos legais, normativos.
ticas Públicas de Educação Am- e ações de governo, outros atores refere à imposição de objetivos e Apresenta a materialidade das
biental sociais (HEIDEMANN, 2009). O às decisões de distribuição. instituições, tais como os poderes
Todo o desenvolvimento do que importa não é se o tomador Sugere-se, no contexto das executivo, legislativo e judiciário,
arcabouço teórico-metodológi- de decisão tem personalidade ju- políticas públicas multicêntri- e outros como a instituição da
co que dá suporte ao projeto da rídica estatal ou não estatal, e sim cas, a incorporação da dimensão igreja, a família e tantos outros
Plataforma Brasileira de Monito- o que confere contornos coletivos da política do cotidiano (BIASO- presentes em nosso cotidiano.
ramento e Avaliação de Projetos no sentido de compromisso com LI, 2015), cuja realização se dá a Já o Instituinte é aqui concebido
e Políticas Públicas de Educação o bem comum, ou os pactos com partir de processos permeados como forças vindas da base, as
Ambiental parte da adoção do objetivos coletivos, da res públi- pela perspectiva pedagógica e próprias forças sociais instituin-
conceito de políticas públicas ca, é que darão a legitimidade do implementados com planejamen- tes, ou indivíduos e atores sociais
multicêntricas, nas quais governo adjetivo “pública”. tos participativos. A política do que se unem para ações conjun-
e sociedade têm responsabilida- Frey (2000) identifica três di- cotidiano, neste sentido, trata da tas e em prol do bem comum. O
des compartilhadas e se colocam mensões fundamentais para a atuação política por meio da in- Instituinte está presente com a
como parceiros para a formula- compreensão e análise dos pro- serção da perspectiva pedagógica organização social. Forças ins-
ção, implementação e monitora- cessos de políticas públicas: poli- no ciclo da política pública, valo- tituintes são a materialidade na
mento das políticas. Neste mesmo cy, polity e politcs. Tais dimensões rizando os componentes subjeti- vida concreta da socialização dos
contexto, busca-se também tra- nos ensinam que uma política vos que motivam a participação indivíduos.
zer a ótica da educação ambiental pública é feita por um amplo individual e coletiva, e assim se Monitorar e avaliar políticas
instituída e instituinte, conceitos conjunto de elementos que se preocupa e fortalece as forças públicas de educação ambiental,

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requer análises de conjuntura da não há equilíbrio. Ocorre excesso soli (2015) e a impossibilidade materialidade ao monitoramento
crise socioambiental e civilizató- no pilar da regulação, com forte de se considerarem os processos e avaliação de políticas públicas
ria e para tanto, respaldado em desenvolvimento do estado, mer- políticos como lineares. Ao con- dentro da perspectiva multicên-
Santos (2002, 2008), na relação cado e das racionalidades moral- trário, as dimensões são interati- trica, foi desenhada uma estra-
regulação-emancipação descrita -prática, com o monopólio da pro- vas, de modo que um determina- tégia de abordagem multiescalar
pelo autor. Santos defende que dução e distribuição do direito, e do contexto pode condicionar a das Políticas Públicas de Educa-
a atual sociedade se assenta em da cognitivo-instrumental, com a criação de interesses específicos, ção Ambiental, partindo da iden-
dois pilares: o pilar da regulação prevalência dos ideais da indivi- que, por sua vez, influenciam as tificação do universo de atores-
e o da emancipação, sendo assim dualidade e da concorrência. instituições políticas que vão in- -proponentes – que extrapolam a
é possível perceber um desequilí- Estabeleceu-se um círculo vi- termediar o processo político e esfera pública - em potencial, bem
brio a favor da regulação ao longo cioso entre estes princípios e ló- são características presentes em como por suas diversas áreas e
dos dois últimos séculos. gicas do qual estado e mercado toda política pública, indepen- escalas de influência espacial. Tal
O pilar da regulação é consti- saíram reforçados, enquanto o dentemente de sua área temática. abordagem pode oferecer fortes
tuído pelo princípio do estado, princípio da comunidade e a ra- O destaque da política do coti- subsídios, por si só, às análises da
princípio da comunidade e prin- cionalidade estético-expressiva, diano se dá no sentido de trazer extensão e relacionamento entre
cípio do mercado, enquanto o pi- na qual se encontram as ideias de para o ciclo da política pública a políticas públicas nos territórios.
lar da emancipação consiste em identidade e de comunhão, estão perspectiva dos processos peda- É importante salientar o papel
três lógicas de racionalidade: a desfavorecidos. Os dois pilares gógicos e a valorização das forças da análise espacial, usualmente
racionalidade estético-expressiva (regulação e emancipação) se re- sociais instituintes, que majorita- realizada por meio de Sistemas
(das artes e literatura), a raciona- lacionam tanto com os poderes riamente estão fragilizadas nos de Informação Geográfica (SIG),
lidade instrumental-cognitiva (da instituídos, como com as forças processos de construção das po- na descrição e sistematização de
ciência e tecnologia) e a racionali- instituintes. líticas públicas. processos espaciais complexos
dade moral-prática (da ética e do A figura 1 demonstra a inter- A Plataforma tem, portanto, (HEPPENSTALL et al, 2012), com
direito) (SANTOS, 2002). dependência entre as dimensões como princípio, coletar dados, grande potencial para a avaliação
Na sociedade contemporânea propostas por Frey (2000) e Bia- monitorar e avaliar políticas pú- de políticas públicas. Com o obje-
blicas e projetos à luz também tivo de mensurar propriedades e
das forças instituintes, e não so- relacionamentos, considerando a
mente ou preferencialmente dos localização espacial do fenôme-
poderes instituídos. Estas quatro no em estudo, a análise espacial
dimensões do ciclo de políticas de dados é composta por proce-
públicas que respaldam a cons- dimentos encadeados cuja finali-
trução da Plataforma Brasileira dade é a caracterização da forma
de Monitoramento e Avaliação e estrutura espacial (CÂMARA
de Políticas Públicas de Educa- et al, 2004) sob a qual os dados
ção Ambiental, demonstram a estão dispostos e, desta forma,
complexidade e a necessidade de contribuir para a análise de um
compreensão de suas relações de determinado fenômeno.
forma sinérgica. Para o caso específico do es-
Figura 1: Ciclo das Políticas Públicas ampliado. Fonte: Biasoli (2015). Neste contexto, visando dar tudo de políticas públicas, as

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técnicas de análise espacial são o monitoramento participativo, Indicadores, desta forma, po- as alterações ligadas às mudan-
instrumentos relevantes tanto permitindo maior transparência, dem ser compreendidos como ças relacionadas à tal dimensão; a
nas etapas de identificação de governança e controle social. “instrumentos que permitem inteligibilidade, ou a transparên-
problemas e formulação, quanto Para Cintrão e Bizelli (2013), identificar e medir aspectos re- cia metodológica de construção
nas fases de avaliação, na medida dar estruturação e transparên- lacionados a um determinado do indicador; a periodicidade, ou
em que permitem produzir, anali- cia aos processos e resultados conceito, fenômeno, problema o intervalo de tempo da atuali-
sar e integrar dados diversos em das políticas públicas, por meio ou resultado de uma intervenção zação do indicador, propriedade
uma mesma base geográfica (GE- de sistemas de monitoramento e na realidade” (MPOG, 2007). São diretamente relacionada à facti-
NOVEZ, 2005). Tal característica avaliação, exige o uso de tecnolo- fundamentais como subsídio às bilidade (ou economicidade), ou
adequa-se e permite intensificar gias de informação e comunica- etapas de planejamento e formu- a viabilidade econômica em sua
a exploração de políticas públicas ção que promovam a governança lação de políticas públicas, além obtenção; a estabilidade, relacio-
dentro da perspectiva multicên- como um compromisso moral de possibilitarem seu acompa- nada à capacidade do estabele-
trica, tomando o território como dos governos. nhamento, monitoramento, ava- cimento de séries históricas que
elemento balizador. liação e revisão. permitam monitoramentos; e a
A introdução e o desenvolvimen- De modo mais abrangente, in- desagregabilidade, ou a capaci-
to desses sistemas de Monitora-
Indicadores de monitoramen- mento & Avaliação no processo dicadores podem ser definidos dade de representação regiona-
to e avaliação das políticas pú- de governança pública pressu- como parâmetros, ou funções de- lizada, considerando a dimensão
blicas de educação ambiental põem, por um lado, que os sub- rivadas deles, com a capacidade territorial.
sistemas setoriais implantados
O monitoramento e avaliação internamente na máquina admi- de descrever um estado, condição Sabendo-se da complexidade
que se pretende a partir da Plata- nistrativa sejam abertos e com ou uma resposta do(s) fenôme- do processo de análise e monito-
forma é parte de um movimento possibilidades de interatividade no(s) que ocorrem em um meio, ramento de políticas públicas, é
educador ambiental que constrói e, por outro lado, que na comuni- de forma sumarizada, focada e primordial que a construção e se-
dade sejam desenvolvidas habili-
sinergias, propicia intervenções, dades que permitam a absorção e condensada, dada a complexi- leção de indicadores seja prece-
ensino-aprendizagem e produz utilização de forma crítica e cida- dade do fenômeno real (OECD, dida da definição formal do mar-
conhecimentos e informações dã dessas informações, transfor- 1993, SINGH et al., 2008). co referencial de suporte, como
madas em um processo de gestão
capazes de potencializar as polí- do conhecimento (CINTRÃO & De acordo com Jannuzzi um modelo conceitual existente
ticas públicas de EA, procurando BIZELLI, 2013, p.58) (2003), são propriedades essen- ou proposto que auxilie na opera-
enfrentar seus desafios, aprimo- ciais de indicadores: a validade cionalização de conceitos de base
rar suas ações e atender suas de- A plataforma, neste contex- ou a capacidade de representar a da política pública, identificando
mandas. to, vem sendo construída como realidade que se deseja medir; a e organizando as questões que
Tratando-se de políticas públi- um sistema de monitoramento e confiabilidade, ou a qualidade do definirão o que se pretende me-
cas de EA numa perspectiva mul- avaliação, que articula e dialoga levantamento dos dados usados dir (KRONEMBERGER, 2011).
ticêntrica, há que se destacar que na diversidade de olhares e sabe- no seu computo; a sensibilidade, Desta forma, tomando como
o monitoramento e a avaliação res, com instituídos e instituintes, ou a capacidade de refletir mu- base sete dimensões colocadas
propostos pela Plataforma não além de um banco de dados sub- danças significativas se as con- pelo MMA (RAYMUNDO et al,
se reduzem ao gerenciamento sidiado por um conjunto de indi- dições que a afetam se alteram; 2015) para avaliar a educação
que auxilia a tomada de decisão cadores quali-quantitativos fruto a especificidade, ou a capacidade ambiental em políticas públicas
de gestores públicos, refere-se a de um processo educador partici- de refletir estritamente a dimen- socioambientais, a ANPPEA de-
uma estratégia que promoverá pativo. são do fenômeno de interesse ao flagrou o processo de construção

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participativa dos indicadores. Portanto, a partir dessas di-


Cabe destacar que a origem mensões a ANPPEA vem reali-
das sete dimensões é relevan- zando um processo participativo
te por ter sido fruto também, de para a construção da Plataforma
um processo participativo, este que envolveu até o momento cer-
realizado pelo Departamento de ca de 300 pessoas representando
Educação Ambiental do Ministé- governo - federal, estaduais e mu-
rio do Meio Ambiente, no período nicipais, escolas, instituições de
de 2014 a 2015, na elaboração do educação superior, coletivos edu-
seu Projeto Político Pedagógico cadores, redes de educação am-
(PPP). O PPP do MMA foi cons- biental, setor privado, movimen-
truído junto às suas instituições tos socioambientais, comissões
vinculadas, além da participação interinstitucionais de educação
do Comitê Assessor do Órgão ambiental, unidades de conser-
Gestor da PNEA, com objetivo ge- vação, comitês de bacia hidrográ- Figura 2: Diagrama de dimensões articuladas de indicadores para o monitora-
ral de fortalecer a EA nas políti- fica e outros atores. Com vistas a mento e avaliação de projetos e políticas públicas de educação ambiental.
cas públicas de meio ambiente de aprofundar, aprimorar e validar
âmbito federal. as sete dimensões, bem como,
Como parte do PPP do MMA criar novas o processo desenvol- O diagrama de dimensões ar- Construção Coletiva: refere-se à
foi realizada uma pesquisa que vido adotou algumas questões ticuladas de indicadores para o necessidade de criação e fortale-
identificou quais eram as caracte- provocadoras que foram dialoga- monitoramento e avaliação de cimento dos espaços democráti-
rísticas necessárias para verificar das em grupos de trabalho e ou- projetos e políticas públicas de cos permanentes de participação
se a EA estava presente de forma tras técnicas participativas junto educação ambiental, resultante e controle social. Prioriza a sen-
satisfatória nas políticas públicas aos mencionados atores envolvi- do processo desenvolvido até o sibilização, mobilização social,
socioambientais. O processo en- dos. presente momento, apresenta organização comunitária e empo-
volveu gestores públicos, analis- Como resultados desse pro- oito dimensões, conforme descri- deramento da sociedade na cons-
tas e educadores ambientais das cesso participativo excluiu-se to a seguir: trução coletiva.
referidas instituições e colegiado uma dimensão, validou-se seis - Dimensão Diagnóstica: trata - Dimensão da Formação Dia-
resultando nas sete dimensões propostas pelo MMA e acrescen- de um processo humanizado de lógica: compreende o desenvol-
que significam parâmetros ini- tou-se duas novas, chegando-se contextualização histórica da ter- vimento de processos educativos
ciais de análises sobre a formu- ao diagrama de dimensões ar- ritorialidade com suas relações permanentes e continuados com-
lação, execução e monitoramento ticuladas de indicadores para o sociais, econômicas, políticas, prometidos com os princípios e
da EA em políticas públicas so- monitoramento e avaliação de ecológicas e culturais, além da concepções da EA em seus aspec-
cioambientais (RAYMUNDO et al, políticas públicas de EA, apresen- identificação dos interesses, ne- tos democráticos, críticos, eman-
2015 p. 164). tado a seguir: cessidades, potencialidades, pro- cipatórios, cooperativos, solidá-
blemas e suas causas, o tempo e o rios e libertários.
espaço dos acontecimentos junto - Dimensão da Intervenção So-
à sociedade. cioambiental: trata da inclusão
- Dimensão da Participação e das práticas como exercícios de

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Considerações finais vo que culminou na definição de


cidadania e materialização dos protagonismo dos sujeitos como Monitorar e avaliar políticas oito dimensões de indicadores.
valores, princípios e diretrizes da produtores críticos e criativos da públicas de educação ambiental Para o monitoramento e ava-
EA contextualizados na realidade informação. é um desafio posto que requer liação de políticas públicas de
local. É preciso demonstrar num - Dimensão Institucional: en- diálogo, articulação e fomento de educação ambiental que se pre-
processo da práxis, de ação-re- volve a capacidade institucional, sinergias entre a diversidade de tendam estruturantes, radical-
flexão-ação, o comprometimento destacando-se a infraestrutura, atores, conhecimentos e tecno- mente democráticas, participa-
com a transformação. orçamento, equipe, dispositivos logias da informação e comuni- tivas, dialógicas e comunicativas
- Dimensão Indivíduo/Subjeti- jurídicos de fortalecimento da EA cação. Destaca-se a necessidade e que, portanto, caminhem na
vidade: aborda o reconhecimento e programas institucionais esta- de processos de formação conti- transição para sociedades sus-
e valorização das especificidades belecidos, além do monitoramen- nuados e permanentes para que tentáveis, tem sido importante
humanas, explora as subjetivida- to e avaliação como necessidade indicadores, monitoramento e o progressivo amadurecimento
des próprias do ser humano e a de controle social, revisão e apri- avaliação sejam desmistificados, sobre as distintas interfaces da
complexidade da sociedade que moramento permanente e conti- compreendidos e inseridos no dia política pública e seu relaciona-
se constrói do micro ao macro, nuado. a dia do ciclo de políticas públicas mento com as forças instituídas
das singularidades a pluralida- O diagrama de dimensões arti- multicêntricas e multiescalares. e instituintes da sociedade. A ar-
de. Trata da atenção aos sujeitos culadas de indicadores de moni- Construir e implementar um ticulação de distintos atores so-
num fomento à potência de agir toramento e avaliação de projetos sistema de monitoramento e ava- ciais neste processo e o caráter
nos indivíduos levando ao movi- e políticas públicas de educação liação de políticas públicas multi- incremental e participativo dessa
mento coletivo de transformação ambiental abrange aspectos da cêntricas de educação ambiental Plataforma é, neste sentido, um
das realidades indesejadas. pluralidade e complexidade das exigem esforços conjuntos de go- elemento que a caracteriza e pau-
- Dimensão da Complexidade: políticas públicas de EA em seus verno e sociedade para garantir ta seu gradual desenvolvimento.
diz respeito a articulação e inte- contextos locais, regionais ou na- o exercício da democracia com
gração a outras políticas, a cone- cionais. O diagrama se constitui diagnósticos, análises, revisão Referências
xão entre o local e global, teoria como a base da Plataforma que e aprimoramentos capazes de BAREMBLIT, G. Compêndio de
e prática, indivíduo e coletivi- será alimentada de modo colabo- fortalecer essas políticas para o análise institucional e outras
dade, entre os inúmeros temas, rativo pela diversidade de atores enfrentamento da crise socioam- correntes – teoria e prática. 5.
públicos, instituições, territórios, na perspectiva de instituídos e biental civilizatória. ed. Belo Horizonte/MG: Instituto
demandas, problemas e expecta- instituintes. É importante ressal- O desafio assumido pela Ar- Félix Guatarri.2002. 187p.
tivas. É a integração das partes tar, entretanto, que ainda existe ticulação Nacional de Políticas BIASOLI, S. Institucionaliza-
num todo dentro da teia existente um caminho a percorrer no deta- Públicas de Educação Ambien- ção de políticas públicas de
na vida. lhamento das dimensões do dia- tal – ANPPEA de construir uma educação ambiental: sub-
- Dimensão da Comunicação: grama em fichas metodológicas Plataforma, que contribua para sídios para a defesa da polí-
ressalta a necessidade da demo- de indicadores, trazendo suas o diagnóstico e para a educação tica do cotidiano. Tese (Dou-
cratização da informação, tra- especificidades e abrangências, de distintos atores sociais com- torado). Escola Superior de
zendo aspectos da comunicação métricas, tornando assim cada prometidos com a formulação e Agricultura Luiz de Queiroz.
institucional, mas, também a dimensão uma fonte incremental implantação de políticas públicas Centro de Energia Nuclear na
educomunicação na intenciona- para a avaliação e monitoramen- na área, se materializa na elabo- Agricultura. Piracicaba, 2015.
lidade educadora que requer o to quali-quantitativo da EA. ração de um processo participati- CÂMARA, G. MONTEIRO, M. V;

248 ambientalMENTEsustentable, 2017, número especial ambientalMENTEsustentable, 2017, número especial 249
Maria H. A. Raymundo; Evandro A. Branco; Semíramis Biasoli; Marcos Sorrentino; Indicadores de monitoramento e avaliação de projetos e políticas públicas de
Renata Maranhão Educação Ambiental no Brasil

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250 ambientalMENTEsustentable, 2017, número especial ambientalMENTEsustentable, 2017, número especial 251
Programa Ecológico de Guimarães para a Aprendizagem do Desen-
volvimento Ambiental Sustentável – PEGADAS

Patrícia Ferreira1
Jorge Cristino2
Carlos Ribeiro3

Resumo
Inserido no âmbito de um projeto municipal mais amplo que visa o desenvolvi-
mento sustentável do território, o programa PEGADAS – Programa Ecológico de
Guimarães para o Desenvolvimento Ambiental Sustentável pretendeu reforçar a
educação e sensibilização ambiental num contexto de promoção dos objetivos
mundiais consagrados na Agenda 2030 e que impõe como objetivo essencial a ga-
rantia da aquisição de “conhecimento e habilidades necessárias para promover o
desenvolvimento sustentável por meio da educação para o desenvolvimento sus-
tentável e estilos de vida sustentáveis”, ao mesmo tempo que coloca como priori-
tários os eixos da proteção ambiental, através do uso de energias renováveis, ação
contra as alterações climáticas, proteção da vida marinha e terrestre, produção e
consumos sustentáveis ou desenvolvimento de comunidades sustentáveis (Centro
Regional das Nações Unidas para a Europa Ocidental, 2016). Tem como princípios
a equidade, a transversalidade e a abrangência de ação nas suas interações com as
escolas em particular e a comunidade alargada no geral.

Palavras-Chave: Educação; Sustentabilidade; Sensibilização; Transversalidade; De-


senvolvimento.

Abstract
As part of a broader municipal project aimed at sustainable development of the
territory, the PEGADAS program - Ecological Program for Sustainable Environmen-
tal Development of Guimarães aimed to reinforce education and environmental
awareness in a context of promoting the global objectives enshrined in Agenda
2030. The main goal is to guarantee the acquisition of "knowledge and skills ne-
cessary to promote sustainable development through education for sustainable
development and sustainable lifestyles". At the same time PEGADAS assume as
priority the environmental protection, through the use of renewable energy, ac-
tion against climate change, the protection of marine and terrestrial life, the sus-
tainability of production and consumption and the development of sustainable
communities (United Nations Regional Center for Western Europe, 2016). Its prin-
ciples are equity, transversality and scope of action in its interactions with schools
in particular and the community in general.

Key Words: Education; Sustainability; Awareness; Transversality; Development.

1Câmara Municipal de Guimarães. E-mail: patricia.ferreira@cm-guimaraes.pt.


2Câmara Municipal de Guimarães.
3Laboratório da paisagem de Guimarães.
Foto: Giseli Dalla Nora

Fisterra, na Galícia-ESP

ambientalMENTEsustentable, 2017, número especial 253


Programa Ecológico de Guimarães para a aprendizagem do desenvolvimento
Patrícia Ferreira; Jorge Cristino; Carlos Ribeiro ambiental sustentável

da um carácter inclusivo e trans- Operacionalização


geracional, não pretendendo ter Desenhado com um conjunto
apenas como alvo as escolas, mas alargado de atividades (mais de
também as IPSS, permitindo o cem atividades), através da agluti-
envolvimento dos seniores atra- nação de mais de trinta parceiros
vés de um conjunto de atividades em seis áreas temáticas distintas
para os “+65”, contribuindo deste (resíduos, energia, natureza/bio-
modo para um envelhecimento diversidade, água, agricultura e
ativo e utilizando a partilha de co- mobilidade), o programa PEGA-
nhecimento entre gerações para DAS direciona-se a todas as esco-
o desenvolvimento de ações de las do concelho, sendo coordena-
caráter de educação ambiental. A do e gerido pelo Laboratório da
implicação direta das famílias na Paisagem de Guimarães.
Figura 1 – Programa de Educação Ambiental - PEGADAS realização de atividades traduz- A particularidade desta ges-
-se na abrangência dos resulta- tão, num centro de Investigação e
dos comunitários. Desenvolvimento, permite igual-
A Educação Ambiental é hoje 2016). Também já anteriormente
Guimarães tem aliás assumi- mente contribuir de forma pio-
assumidamente um dos pilares a Agenda 2020, tinha estabeleci-
do como primordial o desenvol- neira para a divulgação de ciência
fundamentais de uma estraté- do metas ambiciosas para redu-
vimento sustentável, através de e investigação científica, permi-
gia que vise o desenvolvimento ção de 20% de emissões de gases,
estratégias integradas e concer- tindo maior proximidade aos tra-
sustentável de um território e a incremento do uso de energias
tadas, como atesta o enfoque na balhos de investigação nestas
alteração de alguns paradigmas renováveis em 20%, ou mesmo
criação de novos espaços verdes áreas.
e comportamentos, a prova dis- redução de 20% do consumo
no concelho, da criação da Horta Contudo, o PEGADAS não pre-
so é a recente apresentação da energético, metas consubstancia-
Pedagógica, agora rede Munici- tende apenas disponibilizar um
Estratégia Nacional de Educa- das nos programas Europa 2020
pal de Hortas Comunitárias, bem plano de atividades às institui-
ção Ambiental 2020 que aponta e Portugal 2020.
como o investimento pioneiro na ções, mas também assumir-se
como “crescente a importância
investigação e desenvolvimento como um programa flexível e di-
da atuação dos técnicos, tanto Princípios Orientadores
na área da sustentabilidade atra- nâmico que possibilite às esco-
das autarquias como dos equipa- A criação do programa am-
vés de fundos municipais e par- las o desafio aos parceiros para a
mentos de educação ambiental biental PEGADAS teve como ob-
cerias com as Universidades do realização de atividades diversas
no desenvolvimento de projetos jetivos principais tornar-se num
Minho e de Trás-os-Montes e Alto por estas desenhadas, contando
ou programas de Educação Am- projeto transversal em temáticas
Douro ou como projetos vários com as ideias e os contributos de
biental”, reconhecendo já a “exis- para o ambiente e sustentabilida-
integrados no plano estratégico todos para melhorar o desenho e
tência na grande maioria dos de, sendo inclusivo e abrangente
para o desenvolvimento susten- a sua articulação. De igual modo,
municípios de profissionais liga- pelas parcerias criadas através de
tável – Guimarães mais Verde – e o plano de atividades delineado
dos aos pelouros de Ambiente e outros programas conexos, como
que servirá de base para a Can- obedece ainda a critérios de ar-
Educação com competências téc- o caso do programa Eco-Escolas;
didatura de Guimarães a Capital ticulação com as diferentes áreas
nicas específicas que promovem agregador e impulsionador de
Verde Europeia 2020. curriculares, podendo assim
já um conjunto de atividades nes- comportamentos e práticas eco-
constituir-se como ferramenta
ta área” (República Portuguesa, lógicas. O PEGADAS assume ain-

254 ambientalMENTEsustentable, 2017, número especial ambientalMENTEsustentable, 2017, número especial 255
Programa Ecológico de Guimarães para a aprendizagem do desenvolvimento
Patrícia Ferreira; Jorge Cristino; Carlos Ribeiro ambiental sustentável

adicional ao trabalho de aprofun- maior abrangência do seu impac- sensibilização da sociedade civil, ambiental.
damento realizado em contexto to na comunidade escolar e, sub- através da comunidade escolar,
de sala de aula ao nível da apren- sequentemente na comunidade para os problemas, necessidades Balanço dos Resultados
dizagem. alargada. Este conjunto de ativi- de proteção e valorização dos sis- Ao longo do primeiro ano fo-
De forma a tornar mais eficaz dades pressupõe a sua assunção temas ribeirinhos. Neste âmbito, ram organizadas 193 atividades
a coordenação e implementação em todos os estabelecimentos o Laboratório da Paisagem tem distintas, das quais resultaram
das ações disponibilizadas pelo de ensino de acordo com as suas em desenvolvimento um projeto 579 ações na totalidade das es-
programa, o PEGADAS solicita próprias especificidades. Destas científico de monitorização da colas concelho (95), e o envolvi-
a indicação de um coordenador destacam-se algumas das presen- qualidade da água e estado eco- mento de 19.227 alunos e 1.780
PEGADAS, por estabelecimento tes neste vasto programa de edu- lógico das linhas de água possi- professores, com a colaboração
de ensino, com o qual é realizado cação ambiental: Programa Eco- bilitando não só a identificação de 39 parceiros. A concretiza-
o contacto direto e que permite a -Escolas – Incentivo às escolas do de focos de poluição como a su- ção do programa levou ainda ao
adaptação do trabalho desenvol- concelho à inscrição no Programa gestão de medidas interventivas incremento em cerca de 40%
vido às especificidades do con- Internacional Eco-Escolas; Eco que contribuam para a melhoria do número de escolas inscritas
texto de cada uma das escolas. Parlamento - Assente nos princí- do estado ecológico das linhas no programa da Eco-Escolas da
O PEGADAS permite prover a pios de Democracia Participativa de água; Brigadas do Ambien- ABAE, o que demonstra o com-
cada estabelecimento de ensino Jovem, visa atrair os jovens para te – Criação de brigadas para a promisso de toda a comunidade
um leque de atividades, sem que o debate municipal, refletindo interpretação, monitorização e educativa pelas temáticas da sus-
para isso tenha sido obrigado a sobre o desenvolvimento sus- preservação dos recursos natu- tentabilidade.
um reforço orçamental, propon- tentável da cidade de Guimarães; rais, ecossistemas e equipamen- Estes números, acompanha-
do-se a fazer mais e melhor pela Guimarães Mais Floresta – pro- tos urbanos existentes nas proxi- dos dos indicadores de avalia-
rentabilização dos recursos e jeto tem como objetivo primor- midades das escolas e no próprio ção do programa (relatórios das
projetos existentes. dial alertar para a importância da espaço escolar; Biodiversity GO! escolas e entidades promotoras,
preservação da floresta, promo- – criação de uma base de dados comunicações orais em congres-
Ações Âncora vendo maior consciencialização da biodiversidade de Guimarães. sos nacionais e internacionais)
Atendendo à dimensão e signi- deste tema nos jovens e na comu- Não menos relevantes, apon- permitem atestar do sucesso des-
ficância de alguns temas aborda- nidade, bem como o seu envolvi- tam-se agora algumas das ações ta iniciativa. O PEGADAS foi ain-
dos neste programa, bem como à mento na proteção deste ecossis- complementares do PEGADAS: da considerado exemplo de boas
sua coadunação com objetivos e tema. O resultado desta atividade EducaBicla – promotor do trans- práticas pela ABAE e reconhecido
estratégias específicas do Plano será traduzido na plantação de porte ciclável; Teatro Bus - apre- como amigo do Ano Internacio-
de Ação Municipal para a área do 15 a 20 mil novas árvores autóc- sentação de uma peça de teatro nal para o Entendimento Global
Ambiente e Sustentabilidade, al- tones; Projeto Rios – Consideran- itinerante “A Viagem”, versando (IYGU), sendo que uma das suas
gumas das atividades assumem do a estratégia municipal e o Pla- as questões ambientais, e que é iniciativas, - “Eco Parlamento”, foi
um caráter chave para o trabalho no de Despoluição para o Rio Ave, levada às escolas no autocarro apontada como medida exemplar,
desenvolvido ao nível da educa- esta ação, articulada com a AS- Teatro Bus, local onde a peça de- pela forma como através do prin-
ção e sensibilização ambiental. PEA - Associação Portuguesa de corre ou o Café com Ambiente – cípio da Democracia Participativa
Estas ações são consideradas Educação Ambiental, visa a ado- Tertúlias mensais de carácter in- Jovem, atraiu jovens para o deba-
primordiais no trabalho a desen- ção e monitorização de troços de formal, versando temas diversos te concelhio sobre o desenvolvi-
volver pelas escolas, potenciando rio, com o intuito de promover a no âmbito da sustentabilidade mento sustentável do território.

256 ambientalMENTEsustentable, 2017, número especial ambientalMENTEsustentable, 2017, número especial 257
Programa Ecológico de Guimarães para a aprendizagem do desenvolvimento
Patrícia Ferreira; Jorge Cristino; Carlos Ribeiro ambiental sustentável

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Figura 2 – Balanço do primeiro ano de implementação do programa PEGADAS


em Guimarães

258 ambientalMENTEsustentable, 2017, número especial ambientalMENTEsustentable, 2017, número especial 259
Foto: Regina Silva

Justiça ambiental e o caso das comunidades quilombolas de


Oriximiná/PA: por uma crítica contemporânea da Educação
Ambiental

Jacqueline Carrilho Eichenberger1


Vilmar Alves Pereira2

Resumo
O artigo pretende elucidar questões relacionadas ao pensamento ecológico con-
temporâneo, filosófico, antropológico e social relacionado à Justiça Ambiental, tra-
zendo para o debate o caso das comunidades de Oriximiná/PA junto com uma pro-
funda crítica aos paradigmas dominantes do conhecimento ambiental e da própria
Educação Ambiental. A investigação aponta que a justiça ambiental, assim como
a educação ambiental, se estabelece no espaço que é do conflito, da disputa pela
reapropriação da natureza e da cultura, onde natureza e cultura resistem frente à
imposição de valores e processos ao se transformarem em valores de mercado. No
Brasil, as “populações tradicionais” vêm sendo ao longo de décadas, deslocadas
de suas terras para dar lugar a represas, projetos de mineração, agricultura em
grande escala, construção civil, turismo de massa, retirada de madeira e rodovias,
muitas vezes com base no paradigma da “propriedade”.

Palavras-chave: Justiça Ambiental; Educação Ambiental.

Abstract
The article aims to elucidate issues related to contemporary ecological, philosophi-
cal, anthropological and social thinking related to Environmental Justice, bringing
to the debate the case of the communities of Oriximiná/PA, Brazil, together with a
deep critique of the dominant paradigms of environmental knowledge and Educa-
tion itself Environmental. The investigation points out that environmental justice,
as well as environmental education are established in the space that is the conflict,
the dispute for the reappropriation of nature and culture, where nature and cultu-
re resist the imposition of values and processes as they become values of the mar-
ket. In Brazil, "traditional populations" have for decades been displaced from their
lands to give way to dams, mining projects, large-scale agriculture, construction,
mass tourism, logging and Basis of the "property" paradigm.

Keywords: Environmental Justice; Environmental education.

São Pedro de Joselândia, localizada no 1E-mail: jaque.carrilho@gmail.com.


estado brasileiro de Mato Grosso. 2E-mail: vilmar1972@gmail.com.

ambientalMENTEsustentable, 2017, número especial 261


Jacqueline Carrilho Eichenberger; Vilmar Alves Pereira Justiça ambiental e o caso das comunidades quilombolas de Oriximiná/PA

Primeiras reflexõe