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21/09/2019 Comunicação entre as células nervosas

Comunicação entre as células


nervosas
Por Silvia Helena Cardoso, PhD

Introdução
Todas as nossas sensações, sentimentos, pensamentos, respostas motoras e emocionais,
a aprendizagem e a memória, a ação das drogas psico-ativas, as causas das doenças
mentais, e qualquer outra função ou disfunção do cérebro humano não poderiam ser
compreendidas sem o conhecimento do fascinante processo de comunicação entre as
células nervosas (neurônios). Os neurônios precisam continuamente coletar informações
sobre o estado interno do organismo e de seu ambiente externo, avaliar essas informações
e coordenar atividades apropriadas à situação e às necessidades atuais da pessoa.

Como os neurônios processam essas informações?

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Isso ocorre essencialmente graças aos impulsos nervosos. Um impulso nervoso é a


transmissão de um sinal codificado de um estímulo dado ao longo da membrana do
neurônio, a partir de seu ponto de aplicação. Os impulsos nervosos podem passar de uma
célula a outra, criando assim uma cadeia de informação dentro de uma rede de neurônios.

Dois tipos de fenômenos esão envolvidos no processamento do impulso nervoso: os


elétricos e os químicos. Os eventos elétricos propagam o sinal dentro de um neurônio, e os
eventos químicos transmitem o sinal de neurônio a outro ou para uma célula muscular. O
processo químico de interação entre os neurônios e entre os neurônios e células efetoras
acontecem na terminação do neurônio, em uma estrutura chamada sinapse. Aproximando-
se do dendrito de outra célula (mas sem continuidade material entre ambas as células), o
axônio libera substâncias químicas chamadas neurotransmissores, que ligam-se aos
receptores químicos do neurônio seguinte e promove mudanças excitatórias ou inibitórias
em sua membrana.

Portanto, os neurotransmissores possibilitam que os impulsos nervosos de uma célula


influencie os impulsos nervosos de outro, permitindo assim que as células do cérebro
"conversem entre si", por assim dizer. O corpo humano desenvolveu um grande número
desses mensageiros químicos para facilitar a comunicação interna e a transmissão de
sinais dentro do cérebro. Quando tudo funciona adequadamente, as comunicações
internas acontecem sem que sequer tomemos consciência delas.

Uma compreensão da transmissão sináptica é a chave para a o entendimento das


operações básicas do sistema nervoso a nível celular. O sistema nervoso controla e
coordena as funções corporais e permite que o corpo responda, e aja sobre o meio
ambiente. A transmissão sináptica é o processo chave na ação interativa do sistema
nervoso

Nós já vimos o processo elétrico do impulso nervoso no artigo anterior. Nesse número,
vamos examinar mais em detalhes como a sinapse e os neurotransmissores funcionam.

Sinapse: O ponto de encontro entre neurônios


Dado que os neurônios formam uma rede de atividades elétricas, eles de algum modo têm
que estar interconectados. Quando um sinal nervoso, ou impulso, alcança o fim de seu
axônio, ele viajou como um potencial de ação ou pulso de eletricidade. Entretanto, não há
continuidade celular entre um neurônio e o seguinte; existe um espaço chamado sinapse.
As membranas das células emissoras e receptoras estão separadas entre si pelo espaço
sináptico, preenchido por um fluido. O sinal não pode ultrapassar eletricamente esse
espaço. Assim, substâncias químicas especias, chamadas neurotransmissores,
desempenham esse papel. Elas são liberadas pela membrana emissora pré-sináptica e se
dinfundem através do espaço para os receptores da membrana do neurônio receptor pós-
sináptico. A ligação dos neurotransmissores para esses receptores tem como efeito
permitir que íons (partículas carregadas) fluam para dentro e para fora da célula receptora,
conforme visto no artigo sobre condução nervosa.

A direção normal do fluxo de informação é do axônio terminal para o neurônio alvo, assim
o axônio terminal é chamado de pré-sináptico (conduz a informação para a sinapse) e o
neurônio alvo é chamado de pós-sináptico (conduz a informação a partir da sinapse).

Tipos de sinapses
A sinapse típica, e a mais frequente, é aquela na qual o axônio de um neurônio se conecta
ao segundo neurônio através do establecimento de contatos normalmente de um de seus
dendritos ou com o corpo celular. Existem duas maneiras pelas quais isso pode acontecer:
as sinapses elétricas e as sinapses químicas.

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A Sinapse elétrica

A maioria das sinapses dos mamíferos


são sinapses químicas, mas existe
uma forma simples de sinapse elétrica
que permite a transferência direta da
corrente iônica de uma célula para a
célula seguinte. As sinapses elétricas
ocorrem em locais especializados
chamados junções. Elas formam
canais que permitem que os ions
passem diretamente do citoplasma de
uma célula para o citoplasma da outra.
A transmissão nas sinapses elétricas é
muito rápida; assim, um potencial de
ação no neurônio pré-sináptico, pode
produzir quase que instantaneamente
um potencial de ação no neurônio pós-
sináptico. Sinapses elétricas no
sistema nervoso central de mamíferos,
são encontradas principalmente em
locais especiais onde funções normais
exigem que a atividade dos neurônios
Uma junção de fendas. (a) Neuritos de duas células vizinhos seja altamente sincronizada.
conectadas Embora as junções sejam
relativamente raras entre os neurônios
de mamíferos adultos, eles são muito
comuns em uma grande variedade de
células não neurais, inclusive as
células do músculo liso cardíaco,
células epiteliais, algumas células
glandulares, glia, etc. Elas também são
comuns em vários invertebrados.

A sinapse química

Nesse tipo de sinapse, o sinal de entrada é transmitido quando um neurônio libera um


neurotransmissor na fenda sináptica, o qual é detectado pelo segundo neurônio através da
ativação de receptores situados do lado oposto ao sítio de liberação. Os
neurotransmissores são substâncias químicas produzidas pelos neurônios e utilizadas por
eles para transmitir sinais para outros neurônios ou para células não-neuronais (por
exemplo, células do músculo esquelético, miocárdio, células da glândula pineal) que eles
inervam.

A ligação química do neurotransmissor aos receptores causa uma série de mudanças


fisiológicas no segundo neurônio que constituem o sinal. Normalmente a liberação do
primeiro neurônio (chamado pré-sináptico) é causado por uma série de eventos
intracelulares evocados por uma despolarização de sua membrana, e quase que
invariavelmente quando um potencial de ação é gerado.

Sinapse. Quando um
impulso elétrico ao viajar
para a "cauda" da célula,
chamado axônio", chega a
seu término, ele dispara
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vesículas que contêm um


neurotransmissor as
quais movem-se em
direção a membrana
terminal. As vesículas se
fundem com a membrana
terminal para liberar seus
conteúdos. Uma vez na
fenda sináptica (o espaço
entre dois neurônios) o
neurotransmissor pode
ligar-se aos receptores
(proteínas específicas ) na
membrana de um
neurônio vizinho.

Diagrama e micrografia de
uma sinapse de uma junção
neuromuscular da mosca da
fruta.
1- Vesículas sinápticas;
2- Neurônio pré-sináptico
(axônio terminal);
3- Fenda sináptica ;
4- Neurônio pós-sináptico.

Foto: De Synaptic function, por Kendal


Broadie, PhD, Univ. Utah. Reprodução
autorizada. Diagrama: Silvia Helena
Cardoso, PhD. Univ. Campinas, Brasil

O que dispara a liberação de


um neurotransmissor?

Algum mecanismo deve


existir através do qual o
potencial de ação causa a
liberação do transmissor
armazenado nas vesículas
sinápticas para a fenda
sináptica.

O potencial de ação estimula


a entrada de Ca2+, que causa
a adesão das vesículas
sinápticas aos locais de
Veja a animação liberação, sua fusão com a
membrana plasmática e a
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descarga de seu suprimento


de transmissor. O
transmissor se difunde para a
célula alvo, onde se liga à
uma proteína receptora na
superfície externa da
membrana celular. Após um
breve período o transmissor
se dissocia do receptor e a
resposta é terminada. Para
impedir que o transmissor
associe-se novamente a um
receptor e recomece o ciclo, o
tranmissor, ou é destruído
pela ação catabólica de uma
enzima, ou é absorvido,
normalmente na terminação
pré-sináptica. Cada neurônio
pode produzir somente um
tipo de transmissor.

Categorias de sinapses químicas


Existem dois tipos de sinapses químicas, de acordo com o efeito que causam no elemento
pós-sináptico:

Sinapses excitatórias

Sinapses excitatórias causam uma


mudança elétrica excitatória no
potencial pós-sináptico (EPSP). Isso
acontece quando o efeito líquido da
liberação do transmissor é para
despolarizar a membrana, levando-o a
Um impulso chegando no terminal pré-sináptico um valor mais próximo do limiar elétrico
provoca a liberação do neurotransmissor. A. As
moléculas ligam-se aos canais de íon, cuja abertura é para disparar um potencial de ação.
controlada pelo transmissor, na membrana pós- Esse efeito é tipicamente mediado pela
sináptica. Se o Na+ entra na célula pós-sináptica abertura dos canais da membrana (tipos
através dos canais abertos, a membrana se tornará de poros que atravessam as membranas
despolarizada. celulares para os íons cálcio e potássio.
B. As moléculas ligam-se aos canais de íon, cuja
abertura é controlada pelo pelo transmissor, na
membrana pós-sináptica. Se o Cl- entra a célula pós-
Sinapses inibitórias
sináptica, através dos canais abertos, a membrana se
tornará hiperpolarizada. A mudança resultante no As sinapses inibitórias causam um
potencial da membrana, conforme registrado através potencial pós-sináptico inibitório (IPSP),
de um microeletrodo na célula é visto na figura abaixo porque o efeito líquido da liberação do
(Geração de um EPSP e IPSP). transmissor é para hiperpolarizar a
membrana, tornando mais difícil
alcançar o potencial de limiar elétrico.
Esse tipo de sinapse inibitória funciona
graças à abertura de diferentes canais
de ions na membranas: tipicamente os
canais cloreto (Cl-) ou potássio (K+).

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Nessa figura, o
registro do potencial
elétrico
transmembrana em
função do tempo (em
vermelho) mostra que
há uma deflexão
gradual para cima do
traçado quando uma
sinapse excitatória
(EPSP) é ativada. O
fluxo de íons causa a
despolarização, i.e, a
membrana torna-se
menos polarizada.
Lembre-se que
normalmente a face
externa da membrana
Geração de um EPSP e IPSP. é negativa em relação
ao interior, e que o
potencial de repouso
da membrana pós-
sináptica é cerca de
-70 milivolts. Qualquer
despolarização
diminui esse valor,
tornando-o menos
negativo, e portanto
causando uma
deflexão para cima
(mais próxima ao nível
zero).

O registro do
potencial de
membrama para o
potencial pós-
sináptico inibitório
(IPSP: em verde)
mostra uma
hiperpolarização, i.e.,
uma deflexão para
baixo no traçado
porque ele torna-se
mais negativo que o
potencial de repouso.

Uma única célula


nervosa normalmente
tem centenas ou
milhares de sinapses
químicas excitatórias
e inibitórias que
chegam em seus
dendritos ou corpo
celular. As EPSP e
IPSPs somam-se de
modo que a curva
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resultante (em preto)


podem inclinar-se
para uma
despolarização líquida
ou uma
hiperpolarização. Se a
despolarização líquida
alcançar o valor limiar,
a célula pós-sináptica
dispara potenciais de
ação.

Sinapses no sistemas nervoso central

Diferentes tipos de sinapses podem ser


diferenciados pelo critério de qual parte do
neurônio é pós-sináptico em relação ao axônio
teminal. Se a membrana pós-sináptica está em
um dendrito, a sinapse é chamada axo-
dendrítica. Se a membrana pós-sinpática está
no corpo celular, a sinapse é chamada axo-
somática. Em alguns casos a membrana pós-
sináptica está em um outro axônio, e essas
sinapses são chamadas axo-axônicas. Em
determinados neurônios especializados, os
Arranjos sinápticos no SNC. A. Uma sinapse dendritos formam, na realidade, sinapses entre
axo-dendrítica. B. uma sinapse axo-somática.
C. Uma sinapse axo-axônica.
si, essas são as chamadas sinapses dendro-
dendríticas.

Neurotransmissores: Mensageiros do Cérebro


Quimicamente, os neurotransmissores são moléculas relativamente pequenas e simples.
Diferentes tipos de células secretam diferentes neurotransmisores. Cada substância
química cerebral funciona em áreas bastante espalhadas mas muito específicas do cérebro
e podem ter efeitos diferentes dependendo do local de ativação. Cerca de 60
neurotransmissores foram identificados e podem ser classificados, em geral em uma das
quatro categorias.

1) colinas: das quais a acetilcolina é a mais importante;

2) aminas biogênicas: a serotonina, a histamina, e as catecolaminas - a dopamina e a


norepinefrina

3) aminoácidos: o glutamato e o aspartato são os transmissores excitatórios bem


conhecidos, enquanto que o ácido gama-aminobutírico (GABA), a glicina e a taurine são
neurotransmissores inibidores.

4) neuropeptídeos: esses são formados por cadeias mais longas de aminoácidos (como
uma pequena molécula de proteína). Sabe-se que mais de 50 deles ocorrem no cérebro e
muitos deles têm sido implicados na modulação ou na transmissão de informação neural.

Neurotransmissores importantes e suas funções


Dopamina
Controla níveis de estimulação e controle motor em muitas partes do cérebro. Quando os
níveis estão extremamente baixos na doença de Parkinson, os pacientes são incapazes de

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se mover volutáriamente. Presume-se que o LSD e outras drogas alucinógenas ajam no


sistema da dopamina.

Serotonina
Esse é um neurotransmissor que é incrementado por muitos antidepressivos tais com o
Prozac, e assim tornou-se conhecido como o 'neurotransmissor do 'bem-estar'. ' Ela tem
um profundo efeito no humor, na ansiedade e na agressão.

Acetilcolina (ACh)
A acetilcolina controla a atividade de áreas cerebrais relaciondas à atenção, aprendizagem
e memória. Pessoas que sofrem da doença de Alzheimer apresentam tipicamente baixos
níveis de ACTH no córtex cerebral, e as drogas que aumentam sua ação podem melhorar a
memória em tais pacientes.

Noradrenalina
Principalmente uma substância química que induz a excitação física e mental e bom humor.
A produção é centrada na área do cérebro chamada de locus coreuleus, que é um dos
muitos candidatos ao chamado centro de "prazer" do cérebro. A medicina comprovou que
a norepinefrina é uma mediadora dos batimentos cardíacos, pressão sanguínea, a taxa de
conversão de glicogênio (glucose) para energia, assim como outros benefícios físicos.

Glutamato
O principal neurotransmissor excitante do cérebro, vital para estabelecer os vínculos entre
os neuroônios que são a base da aprendizagem e da memória a longo prazo.

Encefalinas e Endorfinas
Essas substâncias são opiáceos que, como as drogas heroína e morfina, modulam a dor,
reduzem o estresse, etc. Elas podem estar envolvidas nos mecanismos de dependência
física.

Veja Neurotransmissores

Para saber mais:

Neurotransmissores
Visão geral de neurotransmissores e sinapses químicas
Neurotransmissores cerebrais
Neurotransmissores - Informações básicas
Moléculas de neurotransmissores
Sinapse
Capítulo 6: Comunicação ao longo e entre os neurônios - Eckert & Randall - Capítulo #6
Neurofisiologia e Farmacologia de Receptor de droga y
Armazenagem vesicular - ( Pequenos Neurotransmissores )

O Autor

Silvia Helena
Cardoso, PhD.
Psicobióloga,
mestre e
doutora em
Ciências.
Fundadora
e editora-chefe
da revista
Cérebro &
Mente.
Universidade
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