Vous êtes sur la page 1sur 1

Proposta indecente

Ah, como são estúpidos os poetas! Cheios de palavras, e frases, e rimas, e dores. Acho que foi
isso em mim que te encantou, e foi isso em mim que te desencantou: tantas palavras, tantos
dizeres e suspiros, tantas promessas de amores, tantas mãos e bocas… não que eu seja poeta,
sou um falsário, um larápio cheio de dedos tocando os teus sertões-interiores; desbravando as
ruínas de antigos falanstérios sem deixar sequer meu número ou nome gravado em alguma
mentira.
Eu não menti pra você.
E agora, à noite, chove. E os carros passam vagando o asfalto molhado e me lembram teus
beijos. E os ventos, teus suspiros, que suspiram.
Olha aí, estou eu de novo, cheio de palavras. Lirismo cínico que enverniza meu vazio, minha
inação, minha indisposição real contra as coisas reais. Nem um sábio taoísta, nem um
depressivo pós-moderno: eu sou apenas preguiçoso, lascivo e diletante.
Mas ainda assim lembro-me de você, e quero tanto te escrever alguma coisa, quem sabe até
dizer que te amo. Mas eu não consigo, porque eu não te amo. Eu queria apenas que a gente se
divertisse em algumas noites. Que jogássemos alguma luz sobre esses vazios que sentimos, e
sondássemos, crianças que somos, esses abismos e, assustados, voltássemos à realidade.
Amanhã alguém vai te amar, e você vai amar essa pessoa. E eu não serei mais do que uma
impressão gravada na memória. Ou pior (pra mim): nada. Nem sequer uma imagem, uma
miragem, um contorno entre as cerrações da tua lembrança.
Agora, prometo!, vou abandonar as metáforas.
O que eu sinto?
Não sei.
Mas eu falo sinceramente que não sei.
Até deixaria que Você me maltratasse!
Eu sei o quanto sou infantil e empanturrado de fantasias:
Eu arroto poesias!
Um Baudelaire numa esquina, um Maiakóvski
Noutra,
Às vezes me saem uns Pessoa quando chuto alguma quina.
Pra mim é tão difícil ver a vida como todos veem:
É tão sádica, e sem amor. Parece-me gelo que não derrete.
Aí então eu fantasio tudo. Misturo mil coisas, empapuço as palavras e superexcito as emoções.
Tudo pra não me grudar à realidade. Não arrumar um emprego maldito.
— Ah, como eu queria ficar rico
de repente.
Sair dando esmolas, remediar algum doente. —
(Eu queria transar com você ao som de Blue in Green,
E esquecer a vida. Mergulhar nos teus beijos.
Em alguma janela eu te olho, distante.
quando acordamos reavivamos as diferenças:
fomos tão diferentes.
Somos tão diferentes).
Ainda assim não consigo parar de pensar em você;
E por isso eu escrevi esse monte de coisa nenhuma:
Pra dizer, que não te esqueço. E não quero te esquecer.
Quero te ver de novo.
Quero que você seja minha amante.

A Paixão segundo Jesus Cristo em carta à Maria Madalena na Sexta-feira Santa.