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TROPEÇOU DA I\MEDICINA BANDEIRANTE

I'medicina paulista entre 1892,., 1920

U
:J UNIVERSIDADEDESÃOPAULO
ANDRÉ F\40TA
Rel/or Adolpho
José
Melfi
Vice-re;/í9r Hélio Nogueira da Cruz

EDITORA DA UNIVERSIDADE DE SÃO PAULO

Diretor-presidente Plinto Martins Filho

COMISSÃOEDITORIAL
PI' eside t\Íe José Mindlin

Vice-plesidet\te Loura de Mello e Souza


Brasílio Jogo Sallum Júnior
Cardos Alberto Barbosa Dantes

Carlos Augusto Monteiro SBD-FFLCH-USP


Franco Mana Lajolo
Guilherme Leite da Silvo Dias
Plinio Martins Filho lllllllll l 111111
4 0 5 8 4 1
Diretotct Eclitoriat Silvana Biral
Diretoi'a Colttercictt. lvete Silvo
Editores- ass istetttes Marilena Vizentin
Cada Fernanda Fontana
Marcos Bernardini 1''=
CAPÍTULO I .P

O Adubo de que Necessita a Arvore da Nação

A in teligência do amarelado atrofia-se, e a triste criatu-


ra vira um soturno urupê humano, incapazde ação, in-
capaz de vontade, incapaz de progresso.
MONTEIROLOBATO

Em fins do século XIX, a mão-de-obra escrava foi cedendo lugar às gran-


des levas de trabalhadores europeus que começavam a chegar e continuariatn a
aportar por aqui até meadosdo século XXi. As relaçõesde produção passaram
a apoiar-sena compra e venda de força de trabalho, desintegrando a estrutura
económica escravista e a sustentação política do sistema imperial, e facilitava,
paralelamente, a introdução de técnicas industriais modernas no paísz.
Os brados republicanos e abolicionistas ecoavam em consonância com
asredefiniçõesno jogo dasforças políticas, gerando gravesembatesentre os
grupos civilistas e militaristas, as oligarquias dominantes, e mesmo a popula-

l C)crescimento económico e populacional do Estadode São Paulo na virada do séculoXX foi


significativo, podendo ser expresso a partir dos quadros abaixo:

Porto de Santos Exportação de café


1892 40 milhões de dólares
1893 170 milhões de dólares

Waren Dean, ,4 /ndustrla/fiação de São Pau/o, p. lO.


2 Paul Singer, "0 Brasil no Contexto do Capitalismo Internacional, 1889-1930", p. 357
JZ TROPEÇOU
I)A À4EI)ICINABATI)MIRANTE l O ADUBO DE QUE NECESSITAA Á.RVORE DA NAÇÃO 33

ção e alguns setoresda organização republicana que ignoravam a mobilização áreas interioranas e as grandes cidades revelava a preocupação com a cons-
dos grupos populares, definindo-os como massabestializada3.Nesse sentido. tituição de uma raça que fossebrasileira e capazde integrar toda a nação7
embora o discurso político tenha tentado forjar uma versão hannânica da Parte das idealizações médicas sobre o Brasil permitiriam mudar uma perspec'
construçãodo novo regime, lembra Mana de LourdesJanotti que vozes uva baseadano determinismo biológico e racial, que, devido à mestiçagem,
refreadasnão deixaram de denunciar o véu que se procurava lançar sobre os avaliava o brasileiro como inferior e, por isso, sem chance de alcançar alguma
conflitos, trazendo a público as injustiças que acompanharam a decretação de civilidade8
vários estadosde sítio: prisõesde políticos civis e militares, empastelamento Essanova definição criaria a possibilidade de rever o telha da fonnação
de jornais, assassinatos,
depredações,além de intenso conflito parlamentar.4 do povo brasileiro e todas as ambigüidades que cercavam essadiscussão.Se-
Com o passardo tempo, o lema "liberalismo e democracia" ia sendo progres- gundo a visão dos médicos e sanitaristas, o suposto conhecimento empírico
sivamente findado em seusalicerces liberais, enquanto os propósitos deino- do povo brasileiros estaria na observação pormenorizada dos níveis de educa.
cráticosSeram gradualmente abandonados.Nesse quadro, as instituições ção, das condições de saúde e moradia, dos costumes e das manifestações
médicas e de saúde pública, criadas e legitimadas para "construir o Brasil", culturais. Eis por que a corporação médica aceitava a missão de "restaurar" a
firmavam claramente essasescolhas e suas contradições permanentes. sociedade avariadalo: julgava se a mais bem aparelhada para desvendar -- e
Nesse momento, as concepções médicas mostravam-se comprometidas combater! -- as causasque obstavam o progresso nacional.
em garantir, nos limites de sua competência, membros sadios para uma socie- Com essacerteza, essesprofissionais enfrentariam as ambiguidadesque
dade liberal e capitalista, modificando a noção que resumia a prática médica ameaçavam as definições sobre o país que, em alguns momentos, era tido
em seu propósito máximo de deter as doenças para salvar da mortes. Para as como "o grande erro de Deus", cujos males alguns atribuíam à terra, outros, à
elites republicanas dirigentes, o resgate e o cuidado com a saúdedo cidadão raça e os mais extremados, às duas coisas ao mesmo tempo. O solo seria po-
materializariam a construção da nacionalidade brasileira. Clom essafinalida, bre, o clima, inóspito, a natureza,traiçoeira. Nesseambiente ingrato, o ho.
de, o intento dos médicos e das instituições de saúdepública em higienizar as mem estaria vegetando, mergulhado na indolência e na tristeza. Nada produziu
e nada produziria. Polarizava, com essaauto-imagem estéril, a visão idílica e
romântica que concebia o país como a nova Canaã, com formosíssimosjar-
3
Sobre os estudos e balanços historiográficos dos últimos anos acerca da queda do regime im dins sempre em festa, onde veraneava um povo sadio e inteligente. A terra
pedal e do surgimento do regime republicano brasileiro, ver Emília ViotEi da Costa. l)a À/o. era boa. Sob um céu risonho e azul, sulcavam-na remansososrios que, de
narquía à Repúb/fca; JLÍonzen[os l)ecísív'os; N ilo Odalia, .4s Eor/n as do À4esmo; Ensaios
momento a momento, despenhavam-seem cataratas prodigiosas, ou, por vár'
sobre o Pensamento Hfsrorfográfíco de Varnbagen e O/freira VJai na; JoséMurilo de Car-
ta\ho, Os Bestializados: O Rio de Janeiro e a República que Não Foi e A Formação dasAI,
mas: Um /magínário da Repúb/fca no 13ras//;Mana de Lourdes Mânaco JanotEi, Os
Subversivosda República; e Ande\a A]onso, idéias em Movimento: A Cieração1870 na
Crise do Brasa!-império.
4
Mana de Lourdes Mânaco Janotti. "0 Diálogo Convergente: Políticos e Historiadores no 7. A discussãoproposta neste capítulo também pode ser encontrada em André Mota, Quem é
Início da República", p. 124.
Bom já Nasce Feito: Sanitarismo e Eugenia no Brasil.
5
Sobre as características do liberalismo no Brasil pós-independência, os choques provinciais 8. Lúcia Lippi Oliveira, .4 <?uestâoJVacfona/na Prfmefra Repúb/fca, e Tanta Regina de Lula.
e os dilemas democráticos no Império, ver capítulo l "Patrimonialisino, Liberalismo e De- A Revista do Brasii: um Diagnóstico para a Nação.
mocracia: Ambivalências da Sociedadee do Estadono Brasil Pós-colonial", em Sérgio Ador. 9. Sobre algumas matrizes do pensamento social brasileiro eln sua abordagem do espaço urbano
no. Os Aprendizes do Poder: O Bacharelismo Liberal na PolíEicnBrasileira, pp. 33'15 no país. em particular no que concerne às relaçõesraciais, étnicas e culturais dascidades,ver
6.
Estudosque abrangemo período colonial brasileiro até meadosdo século XX, a..alisando as JoséTavares Correia de Lira, "0 Urbanismo e Seu Outro: Raça, Cultura e Cidade no Brasil
práticas curativas e a organização da corporação médica no Rio de Janeiro e na Bacia podem (1920.1945)"
ser encontrados em Lycurgo Santos Filho, Hlsrór/a Gera/ da À4edlcfna Brasa/eira. e Roberto 10 A discussãosobre os novos caminhos que o Brasil tomava na época,dos pontos de vista ma'
XAachadoet alii. Danaçãoda Norma: A lüedicina Social e Constituição da Psiqtliatria i\o serial, social e educacional, pode ser acompanhada em Mana Helena Capelato, Os .Arautos
Brasa!, op. cit. do Liberalismo: Imprensa Paulista, i920- 1945.
Jq TROPEÇOSDA MEDICINA BANDEII{ANTE IP O AOUBO OE QUENECESSnAA Á.RVOREOA NAÇÃO 35

zeasferocíssimas enfeitadas de matas, abrindo suas margensàs embarcações identificado como aqueleque realizauma inversãona compreensãodo sertãode seu
que levariam o pão ou o livro de cidade em cidadeii. tempo. Em sua obra, o sertanejo é retrógrado e não degenerado. Seu atraso se deve ao
Em meio a essedilema, o médico teve seusobjetivos e poderes amplia- abandono a que foi relegado, e não a condicionamentos e determinações de ordem
dos, cabendo-lhe o diagnóstico e o resgatedo brasileiro mergulhado nas de- genética. A civilização seria capaz de sincronizar os tempos sociais do sertão e do
ploráveis circunstâncias de sua sobrevivência. Essapauta médica adorou uma litoral, trazendo para o nosso tempo aqueles rudes compatriotas retardatários e a dize.
posiçãodistinta da noção biológica que via na miscigenaçãoum homem infe. rença entre tempos sociais poderia ser conciliada pela ação governamental, encarre-
dor. De acordo com essapostura, o mestiço não era inferior, como rezavam as gadade trazer os espaçosatrasadose incultos para a civilidade's
leis raciais:z, masapenas estava sob conjunturas adversas,das quais seria res-
gatado por meio da saúde, do saneamento e da regeneração moral. Em face da Segundoo historiador Edgarde Decca, a militância de Euclidesda
dúvida sobreestarmosou não destinadosao sucessocomo nação, era essaa Cunha com o republicanismo e suavontade de manifestar em sua obra, sobre
saída proposta por essesmédicos e sanitaristas: desbravar o país para além das a guerra no arraial de Canudos, um grande acontecimento comparável à Re-
cidades e intervir, de modo rápido e austero, nos lastimáveis quadros sanitá- volução Francesa:Ótiveram relevância no pensamento médico, ganhando es-
rios e de saúde das regiões interioranas, de modo a acabar com as doenças e paço para suas idéias nas bibliotecas das faculdades de medicina e em suas
pestes que debelavam os "quase brasileiros". salasde aula. Esseponto de vista, somado aos estudos e relatórios formulados
Como afirmação dessaproposta, produziram-see apresentaram,seinú- por representantes da própria classemédica, levou à formação de uma verda.
meros trabalhos e documentos sobre a vida do homem brasileiro e a gravi' deira cruzada sanitária, que pretendia curar as doenças e igualmente edificar
dade do quadro sanitário que imperava em diversos pontos do país. Uma obra todos os elementos civilizatórios que não tinham chegado a todo o território
em particular impactou aselites médicas,principalmente no que tange à for, nacional. O discurso patriótico mesclava-se em representações que reitera-
maçãoda nacionalidade. Indicada por Lima e Hochman como uma ruptura vam, por meio de determinações científicas, a possibilidade de transformação
nas tesesque viam no brasileiro uma naturezaofuscadapor suasdetermina. do país. Exemplos como o que acompanhamos multiplicavam-se em revistas
ções genéticas, a nova concepção era apresentada por Euclides da Cunha em e discursos,como o do Dr. Almeida Junior, que lembrava os médicos da ex-
Os Sertões.
tensão imune do território, onde não poderia entrar em cada canto a ação do
As observaçõesde Euclides romperam com o imaginário predominan- governo, sendo substituída pela autoridade médica:
te sobreas origens do "homem da terra". Numa narrativa peculiar13,a obra
destacao sertanejo como um elemento de força, masfrágil por suacarência ensinai, forçando um pouco a nota da persuasão,a profilaxia de todas essasdoenças
civilizatória, devido ao descompassoentre asáreasurbanae rurali{. evitáveis que fazem o nosso descrédito e o nosso atraso; pregai que a maior beneme-
Dessaforma, Euclides inaugurava uma posição díspar para o sertanejo, rência é cada um que sabe ler ensinar a um que não saiba; apontei às crianças o
caminho da escola e aos moços o ideal da pátria grande e próspera. Enfim, em cada
casaonde penetrardes, sede o irmão mais velho'7

11
Com essa promessa restauradora, a partir da década de 1910 assoma
Antonio Ferreiro de Almeida Junior. O Saneamento pe/a Educação,pp. 5-6.
12
Sobre as leis raciais que vigoravam no Brasil no século XIX, ver Lilia M. Schwarcz. O Espe- ram expedições sanitárias em diversos pontos do país, com o intuito de obser
ráculo das Raças: Cientistas, Instituições e Questão Racial no Brasil(1 870- 1930).
13
Análise sobre a imbricação que se dá em Os ferrões entre ciência e poesia,história e delírio
imagético está em Valentin Facioli. J'Euclides da Cunha: Consórcio de Ciência e Arte (Ca- 15. Lúcia Lippi Oliveira, "A Conquista do Espaço:Sertão e Fronteira no PensamentoBrasileiro
nudos: O Sertão em Delírio)", pp. 35.59. P. 201
14.
Nísia Trindade Limo e Gilberto Hochman, "Condenado pela Raça,Absolvido pela Medicina: 16. Edgar S. de Decca, "Euclides e Os Sertões: Entre a Literatura e a História". p. 158.
O Brasil Descoberto pelo Movimento Sanitarista da Primeira República' 17. Antonio Ferreira de Almeida Junior, O Saneamento pe/a Educação,op. cft., p. 96.
J O ' TROPEÇOUDA N4EDICINA BANDEII\ANTE
1. 0 ADUBO DE QUE NECESSITA A ÁRVORE DA NAÇÃO 37

var e levantar a situação em que se encontravam os longínquos rincões e sua Arrolou ainda a construção da estrada de ferro Madeira-Mamoré, ein
gente. Foi para cumprir essepropósito que o Dr. Belisario Penna, juntamente 1910:o, para exemplificar as condições insalubres e a necessidade de uma in-
com os doutoresArthur Neiva e Miguel Pereira,divulgou grandeparte de tervenção sanitária para retirar a população do estado mórbido em que se
suasviagens, empreendidas sob a direção do Dr. Oswaldo Cruz em 1912. Pri,
encontrava. Trazia uma série de narrativas sobre as condições de vida local,
meiramente,contrário aosque atribuíam ao clima as causasda existência com sua população a ratificar as estimativas feitas. A esserespeito, lembrou
mórbida dos interioranos, procurou revelar outras dificuldades do interior
que alguns moradoresdali, aventureiros da borracha, propuseram-lheuma
brasileiro. Na defesadas peculiaridades constitutivas do país e rebatendo as
aposta, de um conto de réis contra mil-réis, se ele encontrasse em qualquer
máximas deterministas, os relatórios atestavam que não havia uma só região parte do mundo alguém que tivesse nascido ali. Naquelas paragensquasenão
cujo clima fosseincompatível com a vida e a vitalidade do homem-- nem havia crianças, pois elas não vingavam, sendo raras as que atingiam um ano
uma sequer --, onde ele não se pudessedesenvolver com saúdee energia. Grau, de vidazi
des extensõesdo território nacional tinham climas invejáveis, bem geme, Alargando o conceito de sertão, cabefrisar que essarealidade não se
Ihantes ou superiores aos mais reputados da Europai8. restringia às regiõesdo norte ou do nordeste. Outras localidades conhecidas
O Dr. Penna asseveravaque cada região do país tinha os predicados como sertão estavam diante dessesmesmosdilemas. Segundo Gilberto
ideais paraa formaçãode um povo capaz,forte e saudável.A naturezaimpo- Hochman, em outras regiões do país, onde quer que se passassemos relatos, as
nente devia servista como extensão da formação do homem brasileiro. Se ele
descrições e determinações eram análogas às descritas nas regiões norte e
não espelhavao vigor potente e robusto do meio que o gerara,era preciso nordeste. Assim, em 1917, perante a Sociedade de Medicina do Paraná, o
esquadrinhar outras procedências dessedesvio. Para fundamentar suashipó- médico Souza Araújo leu o relatório de sua incursão pelos sertões paranaenses,
teses, apresentou as regiões do Amazonas, do Acre e do Para como símbolos
a serviço do Governo estadual.Segundoele,
do descompassoentre a pujança da natureza e a debilidade dos recém-chega,
dos nordestinos que, a despeito de serem verdadeiros modelos da força da este relato se aproximou bastante das ressalvasdos doutores Perna e Neiva sobre a
raça brasileira, tinham a saúde minada pelas condições concretas de vida e de
onipresença das endemias rurais, só que agora no norte do Paraná, área onde se alas-
trabalho. Desqualificava mais uma vez o determinismo genético, diagnosti- trava a malária. Para além das condições precárias de vida, da ignorância, dos favores
cando que: "A Amazânia tem sido um vasto cemitério, um sorvedouro insa, ambientais -- como a derrubada das matas --, dos fatores económicos -- como a cultura
ciável de vidas preciosasde centenas de milhares dos nossosmelhores
anacrónica do arroz --, o principal fator explicativo da circunstância sanitária dos
elementosde trabalho -- os filhos do Nordeste--, o único tipo étnico acen, sertões,tanto do Paraná como de Golas, é a indiferença das diversas esferasde gover-
tuado que possuímos,com apreciáveis qualidades de resistência, de sobrie, no em relação ao caráter endêmico da malária::
dade, de coragem,de audácia,de inteligência, de capacidadede trabalho e
acendrado amor à terra". Para o Dr. Penna, as levas de nordestinos enviados
Paralelamente a essapreocupação com o chamado sertão, os centros
para a Amazânia, o Para e o Acre sucumbiam diante das condições que lhes urbanos também foram objeto de uma avaliação sanitária que lhes revelasse
eram dadas,denotando o quanto enfraqueciam ao ser "aboletados como por- as contradições e os descompassosem relação à óptica sanitária. Nesse
cos e, de mistura com estese os bois, embarcadosem navios fluviais chama,
sentido, a vida na cidade nada oferecia, a não ser o recrudescimento do
dos gaiolas, esquifesambulantesonde durante trinta ou quarenta dias.
pessimamente alimentados, sem recursos medicamentosos, permanecendo a
sua odisséia de dores e miséria"iP.
20. Sobre a construção da linha de ferro Madeira-Mamoré, ver Francisco FODEHardman. Zrenl
Fantasma: A Modernidade na Selva.

18. 21. Belisario Penna, Exército e Saneamento, op. cír., p. 12


Belisario Penda, Exéfcfro e Saneamento, p- 14.
19. 22. Acompanhar discussãoem seu importante trabalho: Gilberto Hochman, Á Era do Sanea-
/dem, pp. 11.12.
mento: As Basesda Política de Saúde Pública no Brasa!.
1 - 0 ADUBO DEQUENECESSITAA ÁRVOREDA NAÇÃO
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3 8 TROPEÇOU DA b4EDICINA BANOE[RANTE

mesmo estado doentio das regiões interioranas, principalmente porque dava antes de madurecer, e a árvore estava sob a permanente ameaça de fenecer ou

um falso significado às condições de vida existentes, forçando muitos de tombar à aproximação de qualquer borrasca ou tempestade:s
interioranos a abandonar os campos para congestionar as cidades, vindos A salvação estaria no adubo produzido pelos frutos,
acuadospela fome e degradadospela doença, à procura de um emprego pre-
cário nas fábricas e indústrias. Estas,por suavez, viviam escoradasem escan, e o adubo de que tem urgentíssima necessidade a árvore da nação brasileira é a garan'

dalosastarifas protecionistas, não para baratear a vida da população e tia de saúde dos seuselementos de trabalho e de defesa; é a proteção eugênica das

sobretudo a das classes trabalhadoras, mas para atrair esse contingente novas geraçõescontra a doença endêmica que, multiforme e avassaladora,vem cei-

populacional, atirando-o nos morros das cidades e nos subúrbios sem higie- fando ou definhando as passadasaté a presente, sacrificando progressivamente o seu

ne, em habitações malsãs, em aglomerações ignóbeis, sem água, sem esgoto, vigor, a suaresistênciae a suavitalidade. Esseé o principal problemanacional -- o
sem nivelamento, com ruas cobertas de mato e encharcadas de lama fecalzJ. saneamento e a educação sanitáriazó

Por essebalanço, era preciso reforçar a missão dos trabalhos higienizadores


das áreasinterioranas, para impedir tamanho deslocamento para os centros Nessa perspectiva, representando a "força nacional" e com seus dotes
de aglomeração urbana. profissionais, o médico tentaria cumprir o que dizia ser uma missão própria,
Sobre essarelação campo-cidade, o Dr. Bruno Lobo, diretor do Museu exercendo cargos, desempenhando tarefas, ocupando posições estranhas à
Nacional e professor de Microbiologia da Faculdade do Rio de Janeiro, erre. medicina, que só seriam confiadas a homens tidos como superiores:7.Ampa-
matava as contradições suscitadas por aquela circunstância: rado por essaconfiança e pelos setores organizadospara moldar um novo
Brasilz8, o médico deveria continuar insistentemente adentrando os sertões e

se na Capital da República, a algumascentenas de metros da sededa Profilaxia Rural. as cidades, impondo suas estratégias civilizatórias.

no foco de ação dos principais elementosdesseserviço, que já devia ter passadodo Com essacerteza,o [)r. Migue] Couto assina]oua importânciade a
período dos ensaios, a situação se desenha dessemodo, não é difícil imaginar o que corporação abraçar essacausa,conclamando os jovens médicos a devolverem
ocorre na Amazânia, no vale do Tocantins, no São Francisco, sertão da Bahia e l\4i, à sociedade a pátria restaurada. Em suas palavras:

nas e tantas outras regiões,pois em quase todo o Brasil muito há a fazer para auxiliar
utilmente o povo no combate às infecçõesz4. dois dos nossosmais queridos e reputados mestres já o pediratn com inexcedível elo-
qüência: "os que de vós forem para o interior do país, disse Austragésilo, poderão
Mas as críticas do Dr. Lobo logo receberamos ajustes necessáriosà
"dúbia nação brasileira". Comparando-a cientificamente a uma árvore, defi, 25. Belisario PeDRa, op. cít« p. 50
26. idem. p. 52
niu suasraízese troncos como a produção nacional, fruto do trabalho dos
27. Guilherme Ellas,"Discurso Proferido na Sociedadede Medicina e Cirurgia". em sessãode 07
operários e dos agricultores; os galhos seriam os Estadose municípios; as fo- de março de 1899, p. 91. [grifa meus
lhas e flores, a população; e os frutos, as classesdirigentes, entre elas, os médi, 28 Essaluta pela integração nacional a partir das açõesde saneamentoe medicalização dos es-
cos. Essaárvore nacional tinha a seiva pobre e insuficiente e raízes que não se paços objetivando inclusive salvaguardar as cidades, acabou aglutinar\do vários setoresda
intelectualidade e da política. culminando na criação da Liga Pró-Saneamento, ein feverei-
desenvolviam;pouco ramificava, não tinha força de penetração; seutronco
ro de 1918. Sua fundação reuniu membrosda Academia Nacional de Medicina, professores
era fino, seu cerne era mole. Seus galhos eram fracos, tomados de ervas para- da Faculdadede Medicina do Rio deJaneiro, cientistas do Instituto Oswaldo Cruz, militares.
sitas; a folhagem, escassa e amarelada; e as flores poucas, sem viço nem perfu- educadores,juristas e até meslBOo Presidente da República. Os trabalhos que indicam a or'

me. Seus frutos diminutos, mirrados e insossos,caíam em grandes quantidades ganizaçãoe os efeitos da Liga Pró'Saneamento são de Nísia Trindade Limo e Gilberto
Hochman, "Condenado pela Raça, Absolvido pela Medicina: O Brasil Descobertopelo Mo-
vimento Sanitarista da Primeira República", op. cfr.. pp. 23,40, e Gilberto Hochman, "Logo
23. Belisario Penda, op. cít., p.14 Ali no Final da Avenida: Os SertõesRedefinidospelo Movimento Sanitarista da Primeirll
24. Bruto Lobo, "Saneamento Rural", p. 95. República". pp. 217'235.
40
TI\OPEÇoS I)A N4EDICINA BANDEIRANTE l O ADUBO DE QUE NECESSITAA ÁRVORE DA NAÇÃO 41

iniciar campanhas profiláticas e curativas contra asdoenças regionais, porque, como Era Oswaldo Cruz "coroado pelo consenso geral dos sábios como 'um
se fazem propagandas religiosas e políticas, poderemos realizar também, com esforço dos grandesbenfeitores da humanidade'. É a personalidade que representa o
particular. e não somente implorando aos governos, o início da luta feliz contra as Brasil moderno e saneado"lt
parasitas daninhos que destroem o homem brasileiro". E Fernando de Magalhães: "é De acordo com Rui Barbosa, para alcançar essenobre lugar, ele tinha
preciso que cada um dos médicos reunidos neste Congresso saia daqui com a preocu- enfrentado, sem nenhuma dúvida ou conflito, o drama da chamada Revolta
pação de levar até a casado doente e fazerpenetrar profundamente no espírito dos da Vacina (1904). Numa exaltação patriótica, elogiava o fato de o Dr. Cruz
habitantes desta terra a noção de amor ao solo natal«ZP
não ter cedido aosditos "destemperosdo obscurantismopopular e da oposi-
ção". Destemidamente, enfrentara a todos, mesmoque a lei ligada ao projeto
Aos poucos esseshomens da ciência ganhavam o lugar dos precursores de saneamento tenha sido "combatida com indignação, desabrimento e fana-
da luta civilizatória nacional, simultaneamente identificada com os emble, tismo, tendo caído no ódio das camadas menos cultas da opinião, indigitada
mas da nação brasileira e de uma predestinação republicana. Com sua presen- aos rancores populares como o Código de Torturas"3z
ça interventora, seusrepresentantes conquistariam o lugar dos heróis nacionais. Ainda nas palavras de Rui Barbosa, as posturas adotadas pelo Dr. Cruz
como foi o caso emblemático de Oswaldo Cruz, incansavelmente lembrado e representavam a civilização nos trópicos, graçasà fé na ciência e na elevação
identificado pelaselites dirigentes como o pai da bacteriologia e do sanitarismo da pátria, encarando toda a oposição33,com atitudes firmes e cheias de certe-
no Brasil30.Nessaconstruçãode simbolismos,forjando uma tradição republi, za: "ceder, não cede. Transigir, não transige. Recuar, não recua. Temer, não
cana pautada no cientificismo e na harmonia constitucional, os médicos - teme. Confia, persiste, assegurae quer. Um triênio Ihe basta; e se, dentro
com seus "dons especiais" e uma presumida antevisão dos destinos pátrios dessebreve espaço,não estiver desempenhada com honra a palavra da ciên-
rumo ao progresso -- representavam a força que permitiria a narrativa de parte cia, a todos os castigos se oferece: 'arrastem-no pelas ruas, entregando-o aos
da história que se formulava.
insultos da multidão como o mais vil dos impostores, e o enforquem numa
Exemplarmente, em 28 de maio de 191 7, no Teatro Municipal do Rio praça'". Por essainterpretação mítica, todas essasaçõesultrapassavamsua
de Janeiro, Rui Barbosaenaltecia o então falecido Dr. Oswaldo Cruz. Em humanidade ou qualquer concretude dos fatos, levando-o a ser não só um
suassolenespalavras, o homenageadoera o ícone da pátria a ser saneada. homemda ciência, mas,antesde tudo, um eleito, "um dessesleviatãsdo
pois
sacerdócio consagradoà diminuição dos padecimentos humanos. Essascria-
turas amadase benditas, como ele, devem os milagres da suaobra à ação desse
só os que têm o extraordinário condão, a bem poucos reservado pela natureza, de deus interior, o l?ntheon do entusiasmo"34
mover as massashumanas, de lhes comunicar a energia, a vontade, a perseverança,
de asincendiar na paixão dassuasresoluções,só essesdínamos vivos. cujo poder de
influência eletriza nacionalidades inteiras, receberamdo Criador o privilégio divã,
31 Rui Barbosa,"OswaldoCruz", Conferência realizadaa 28 de maio de 1917 no Teatro Mu-
no da personificação real da sua raça, e trazem nos lábios inspirados a voz de sua
pátria. nicipal do Rio de Janeiro na sessãosolene em homenagem à memória de Oswaldo Cruz,
pp. 272 e 311
32 /dem, p. 296.
33 Note-se que as referências ao Dr. Oswaldo Cruz se, por um lado, o representavam como o
grande civilizador do Brasil e principalmente da Capital Federal, por outro suscitavam crí'
29. ricas ao seu nome, e suasintervenções foram não só gritadas na rua, mas também escritas
Miguel Couto. "Discurso Proferido aos Doutorandos em Medicina de ] 9] 6 da Faculdadede e reproduzidas por grupos de oposição, como foi o caso da narrativa ejB torno da imposi-
Medicinado Rio deJaneiro",p. 95. ' " ' '--'
30. ção legal da vacinação obrigatória em 28 de junho de 1904, do Apostolado Positivista do
As discussõesem torno dessetítulo e desselugar conferidos ao Dr. Oswaldo Cruz podem ser Brasil: BagueiraLeal, Noffce hfsrorfque sur /a quesrfon de /a vaccfnatfo/l ob/fgarofre ao
acompanhadas em Jayme Larry Benchimol, Dos À/fcróbios aos Àdosquítos: lebre Ámare/a e brési!.
a Revolução Pasteuriana no Brasii.
34 Ruy Barbosa,"OswaldoCruz". op. cft., p. 296.
42 TROPEÇOS DA MEDICINA BANDEIRANTE
1- 0 AOUBO OE QUE NECESSITAA ÁRVORE OA NAÇAQ 43

Tanto quanto a imagem de Tiradentes fora aproximada, pelos republi- no brasileiro um "espírito em evolução", sob a ação da cultura, do estudo e da
canos, à figura do "Cristo das Multidões" e do "Mártir da Liberdade"3s.
aplicação. Sua inteligência seria a basesobre a qual se desenvolveriam todas
Oswaldo Cruz foi condecorado como
as outras qualidades -- era extremamente dúctil, maleável e, por isso, recebe-
ria facilmente as impressõesbenéficasdasculturas mais adiantadas,modifi-
o Cl-/sro da religião do saneamento, o precursor da cruzadapatriótica da redenção da cando o que precisava ser modificado e desenvolvendo, em graus nunca dantes
nossa raça e da reabilitação nacional; e quando a nossa gente adquirir a saúde, e caiu
suspeitados, as qualidades "realmente boas" que possuía. Com essavisão posi-
ela o vigor físico, a elevação moral, a capacidade produtiva, a consciência dos deveres tiva, arriscavam dizer que já se formavam, em alguns pontos do território,
e direitos, o bem-estar e o gozo de viver; quando ficar provado praticamente que não
aspectos de uma cultura própria, gerando as maiores esperanças}8
é inferior a nossa raça, nem inóspito o nosso clima, o Grande Homem passaráà histó-
ria como o maior dos brasileiros e cognominado Osga/do Cruz, o Sa/vadorló.

PRECAUÇÕES MÉDICAS: O BRASILEIRO COMO AMEAÇA


Com expoentes dessaenvergadura, a corporação médica se legitimava
como a mais apta a resolver as mazelasnacionais, diagnosticando os tnales e As noções de patriotismo, dever e lealdade incorporadas ao diagnósti-
indicando os caminhos a serem trilhados não apenas nas áreas de sua especia-
co médico eram algo vagas, ao mesmo tempo davam indícios das dificuldades
lidade, mas em todo o conjunto administrativo e social do Brasil:
e dos conflitos sociais que persistiam no cotidiano das expedições e investidas
sanitárias. Essanova narrativa criada, selecionadae institucionalizada era
Todas as doenças, que ora nos assediam,desaparecerãomediante uma cam-
muitas vezesrebatida pelos próprios médicos, ao depararem com a diversida-
panha inteligente e pertinaz, fundada tanto na atividade administrativa como na
de e a resistência dos grupos populares. Indo além, denunciavam "os riscos"
cooperação individual; governantes e govemados, de mãos dadas para o mesmo fim,
que corriam e suanecessidadeconstante de proteção diante de um paísque
unidos pelo interesse coletivo, que nunca se opõe, em essência,ao interesse indivi.
permanecia "indefinido
dual, sanearão a terra, fortalecerão o homem e acabarão de vez com essaatmosfera de
Diante dessasincertezas, a pretendida "honra regeneradora", se é que
dúvida que paira sobre o valor do Brasil e dos brasileiros.(-.) A palavra -- educação--
se a conseguiria, dependia das precauções tomadas na empreitada. Muitas
não é tão pouco compreensiva e tão simples, que por si mesma se resolva. A utilidade
delas eram recomendaçõese advertências sobre as intempéries a que o médi-
do trabalho estará em pesquisartodas as incógnitas. l\4ostraremos,pois, como, em
co estava sujeito em seu ofício, e que podiam leva-lo a manchar o altar sacer-
nosso meio, e para nossa gente, sem apelar para novos e custosos aparelhos, a educa,
dotal em que depositaramsuahonra e profissão.A incursão ao "mundo
ção higiênica se resolverá e, com ela, o saneamento do Brasil]7.
selvagem«,para desbravar matas, erradicar doenças e retirar o homem brasi-
leiro de sua letargia, exigia cuidados.
Ser um povo civilizado, nas basessanitárias e higiênicas, equivalia a Á Pro/issãodo ÀÍédíco, livro publicado em 19 16, era um dessesalertas.
alinhando-nos ao perfil de todos os paísestidos como ricos, progressistase C) volume reunia crónicas que o autor, Dr. Paulo Rubião Medra, médico e
racialmente superiores.Como vimos, o brasileiro teria uma munição professor da Faculdade de Medicina de São Paulo, escrevera para O Cbimnercfo
civilizatória oculta sob doençase endemias, que podia ser encontrada em
de São Pnu/o durante quinze anos, e sublinhava algumas das agruras vividas
alguns pontos do país. Com tempo e determinação, seria possível identificar
pelo médico brasileiro em seu cotidiano.
Dentre elas,é sugestivaa que diz respeitoao princípio do ofício do
35. Ver capítulo 3 -- "'Rradentes: Um Herói para a República". em José Murilo de Carvalho, .4
médico, movido pelasevocaçõesde embrenhar'sena aventura de civilizar o
FormaçãodasAlmas: Um linaginário da Repúblicano Brasil, pp.55.13. interior do país.Parao Dr. Medra,o jovem esculápiomuitas vezessaíada
36. À 6azera C/fníca. Afino XIX, n' 5, São Paulo, 1921, p. 20.
37. /dem, p. 9.
38. Miguel Ozóriode Almeida, "A MensalidadeCientífica no Brasil", p. 118
44 TI\OPEÇOSDA MEDICINA BANDEIRANTE 1+ 0 ADUBO DE QUE NECESSITAA ARVORE OA NAÇÃO 45

grande cidade em que se formou para os pontos mais longínquos deste Brasil, incorrer no desagradopúblico como trânsfuga do dever, e ao exercer a profissão vigie
onde a civilização era desconhecida, onde se vivia como no tempo da pedra nista ter de se aproximar, por desempenho de encargo, da fogueira pestilencial, em
lascada.Ali, segundo o Dr. Medra, assassinava'sede dia, em plena praça, com bora saiba que pode ser devorado pelas chamas e reduzido às cinzas do nadam:

o sol a dardejarseusraios sobrea população;e à noite, de mistura com os


homens, os bois passeavampelas ruas. "Agua encanada, gás e esgotoseram Mas, se as posturas dos médicos podiam ser "corrompidas", uln outro
coisasde que nunca se falou e que naturalmente deveriam pertencer a terras elemento arrematava essaconfusa conjuntura -- o enfrentamento e a resistên-
de outro planeta39". Nesse ambiente, dizia, muitos médicos acabavam se per- cia de muitos pacientes e familiares que, frente ao prognóstico e ao diagnósti'
dendo, degenerando-se, constituindo família e laços de parentesco com aqueles co indicados, duvidavam do médico e de seusprocedimentos, querendo mesmo
que deveriam ser resgatados de sua condição inferior e posturas condenáveis. participar ou negar as condutas prescritas43.Esse tipo de reação, que recusava
De acordo com essavisão, assim como ganhara ciência e civilização, legitimidade ao profissional e distorcia todo o projeto civilizador idealizado.
esseprofissional podia também ser influenciado pelo mundo rústico, rodeado era apontado como uma grave ameaçaao êxito pretendido. Com muito pesar,
por homens "sem nenhuma cultura". Por isso,para não se corromper, deveria relatavam:
manter cautelosa distância de seuspacientes40;em caso contrário, ao fim de
certo tempo, ele se identificaria com os hábitos da terra, esqueceriao pouco raros serão os profissionais que não contem um grande número de desgostos,aborre.
que sabe, se casaria com uma cabocla -- e se perderia. Seus costumes mais cimentos e contrariedades, que se fazem notar sobretudo no início do tirocínio clíni-

cotidianos se transformariam em tudo o que a ciência médica execrava:"quan- co. Todos desconfiam dele, a confiança não o impõe aos circunstantes. a todo momento,

do se despediade pessoascom que conversava, retirando-se para sua casa, quando faz uma medicação fora da conhecida, ou pouco vulgar, duvidam de seu pre-
vestido com roupa de brim e calçando chinelos(de dia e na frente dos outros) paro, de sua ciência, querem saber se está certo ou não, um inferno, capazde pâr no
já dizia, como seuscompanheiros: 'Vancês inté logos' "4i hospício muita gente sã. Há doentes mesmo que não deixam se examinar pelo médi-
Sobre isso,a Revfsz-aMédica localizava em outra esferaos motivos que co. (...) Não crêem que ele saiba alguma cousa44

desvirtuavam o médico nos "sertões brasileiros". Para aquele que ocupava na


sociedade um lugar muito próximo ao do sacerdote, seria impraticável deixar Ao repelir essaconduta popular frente às doenças, a corporação médi-
seu rebanho abandonado na escuridão dasdoenças e da ignorância. Por isso, ca começou a se preocupar igualmente com a fonte desses"conhecimentos
era preciso lembrar que, quem se aventurasse no que chamavam "fim de mun, populares"+s.
Essesmétodosde cura estavamsob a constantetnira dos
do" corria o risco de cair na perdição e privar-se esculápios,que viam nelesum entrave parao desenvolvimento e o progresso

do direito de tomar para si o conselho que dá aos seusclientes, o de abandonar uma


42 Revista À/édíca de São Pau/o, Anno VI, n' 18, 30 ago. 1903. p. 394.
localidade infectada, ter de ficar preso ao solo colho o servo à gleba, sob pena de
43 Essapostura resistente pode ser compreendida, a partir de diversas formas de cura e de sujeitos
envolvidos. Ver Sidney Chalhoub, Verá Regina B. l\parques,Gabriela dos Reis Sampaio e
CardosRoberto GalvãoSobrinho (ares.),Artes e O/kfos de Curar no J3rasf/.
39 44 Revfsra À4édfca de São Pau/o, Anno VI, no.18, 30 ago. 1903, p. 18.
Rubião Medra. Á Proássão do À4édico, p. 12.
40. 45 Práticasdefinidas por Alceu Maynard Araújo como medícfna rúsffca, "resultado de ulba sé-
Em um manual popular de prática médica escrito por D. W. CaLheI em 1881, The Physian
Hfmse//l regulamentava-se a diferença que deveria marcar o médico e seu prestígio diante da rie de aculturaçõesda medicina popular de Portugal, indígena e negra. Necessário se faz um
paciente: "Aparecer em público em mangas de camisa, sem banhar,se e barbear-se, é pouco conhecimento das influências que ela padeceu: os antecedentes pré-ibéricos, lusos,
recomendável porque mostra debilidade, reduz o prestígio, aterra contra a dignidade e dimi. ameríndios e africanos. Não se deve olvidar os antecedentes que a medicina popular negra
nui a estimado público, obrigandotodo o mundoa concluir que. depoisde tudo, o médico recebeu, quando em contado com a África branca os mouros. E, sem dúvida, o novo ambi,
é uma pessoaordinária". .4pud Paul Starr, Z,a TransáormacfónSocfa/ de /a À#edlcfna en /os ente e os novos cantatas culturais proporcionaram não só ao branco, mas também ao negro
Estados Unidos de América. op. cit., p. 109. transplantar, bem como ter novas experiências com os elementos que o ameríndio e o novo
41 Rubião Medra,.4 Pro/7ssãodo À/édlco, OP.cít., P. 13. habitar Ihe ofereceram". Em Alceu Maynard Araújo, À4edlcfnaRúsrfca, p. 44.
46 TROPEÇOU DA MEDICINA BANDEIRANTE IP O AOUBO OE QUE NECESSITAA ÁRVOI{E OA NAÇÃO 47

não só da ciência, mas do próprio homem a ela submetido. Ao mesmo tempo, administrativo quaseinsolúvel e de responsabilidadedo próprio Governo fe-
o discurso médico tentava descaracterizara importância dessescurandeiros e deral -- a descentralização dos poderes relacionados à saúde pública de diver-
mezinheiras, empecilhos que não deveriam apenasser esquecidos,mas urra, sosEstadose municípios e os choques geradospor toda instância estadual ou
passados4ó.
Nas tentativas de definir o cotidiano de um médico, o tom da federal que tentasse inteúerir em territórios municipais. Nessadisputa de poder,
narrativa patenteava o grau das inteúerências e relutâncias: as organizações médicas ganharam espaço paulatinamente. Nesse primeiro
movimento sanitário, os médicosforam barrados,impedidos de intervir em
como é fteqüente sermosinterrompidos com consultasestúpidas,quando diante do muitas instâncias, o que os levou muitos a desistir da romântica batalha
caso em que toda a lucidez de nossa inteligência é pouca! -- O doutor por que não civilizatória, voltando paraseusconsultórios, faculdadese postosadministra'
aplica uma massade ovos nas frontes, que dá força e faz passaresseabatimento? Não uivos. A desilusão republicana batia à porta daqueles que se diziam seus maio-
seria melhor pâr uns sinapismos agora na boca do estômago, para o doente respirar res representantes.Os assuntostratados foram extrapolando a erradicação
bem?Não será conveniente dar qualquer alimento, para tira-lo da fraquezade cabeça das doenças, urgindo o estabelecimento de novas bases constitucionais, mais
que ele tem?{7 permeáveis aos sopros de nacionalidade despertados pela instrumentalização
médica. Estadose municípios entraram nessadiscussãosimultaneamente.
A acuidade profissional era de importância crucial perante aqueles que Contudo, paralelamente a tantas incertezas e desilusões,o Estado de
achavam que "de médico e de louco, todo mundo tem um pouco". Ao contrá- São Paulo, a locomotiva sanitária do país, que se distinguia por dizer-se pre'
rio, suafigura deveria destacar-sede todos os homens, numa hierarquia que o parado para essamarcha rumo ao progresso, mostrava possuir os instrutnentos
colocasseacima desse"mundo louco"; afinal, ele era o responsávelpor lidar ditos ideais e capazesde tal façanha, anunciando melhorias médicase sanita'
com o equilíbrio e a clareza dos descaminhos da humanidade. Num jogo de rias que levariam, a todo custo, o interior e sua capital ao paraíso da higiene e
inversão, a sociedade seria aquela que deveria saberdistinguir como sechega. da elevação da raça paulista. Era a "medicina bandeirante" em ação.
ria à profissão médica, exatamente por ser

mais ou menos tarada; [pois] os gênios que se e]evam nas concepções grandiosas do SÃO PAULO: PELOS FRUTOS SE CONHECE A ÁRVORE

espírito não são normais, e os imbecis. que são legião, são mais ainda que os outros.
reveladores de desequilíbrio mental. Mas, de médico é que nós nada temos, sem nos Em São Paulo, divulgou-se amplamente o discursoda regeneraçãoda
embrenhar nos livros, sem cultivarmos a observação,sem praticarmos a experimen. pátria pela eliminação da malária e pela retirada do doente interiorano e
cação, que são as alavancas que nos fazem, e nos preparam para o nosso sagrado minis- rural de sua letargia. Também nas cidades os "exércitos da saúde pública"
tério na sociedade.Ê portanto falso esseprovérbio em sua última conclusão. porque invadiam ruas e casas,diagnosticando moléstias e determinando melhoras.
ninguém vá supor que é médico um indivíduo que aplica um sinapismo, que receita O plano sanitário estadualbuscavaatender àsnecessidadesterritoriais
um purgante ou que aconselha um suadouro+8. particulares, antes de tudo propondo regenerar aquele "filho paulista" que
carregava no sangue as insígnias de suas origens bandeirantes do século XVll
De qualquer modo, para além das discussõesem torno da missão maior e XVIII. Em seuclássico estudo sobre a construção mitológica e simbólica dos
que caberia ao profissional com suastecnologias, havia um obstáculo político- bandeirantes, Kátia Abud49 mostrou quanto esseperíodo foi marcado pela
idéia de uma linhagem histórica e genética dos paulistas contemporâneos
46. A luta ém defesa da corporação médica, contra a presença de atividades consideradas ainea, com os pioneiros bandeirantes de outrora.
çadoras à profissão, foi estudada por André de Faria Pereira Nela, Ser Àíédfco no Brasa/; O
Presente no Passado.
47. /dem. p. 24. 49. Kátia Mana Abud, O Sangue /ntfmorato e as Nobf/úsímas Zradíções; Á(-instrução de um
48. /dem, p. 31 Símbolo Paulista: O Bandeirante.
48 TROPEÇOU OA MEI)IC[NA BANDE[RANTE l O ADUBO DE QUE NECESSITA A ÁRVORE DA NAÇÃO 49

Como acompanhamos, no início do século XX, Os Sertões tornou,se palavras: "Segundo o que se colhe em preciosas páginas de Pedro Taquess:,
um livro obrigatório para essareflexão, por acreditar na reabilitação do homem foram numerosas asfamílias de S. Paulo que, em contínuas migrações,procu'
interiorano, do qual emergiria uma raça forte, amparada numa tradição que. raram aqueles rincões longínquos e acredita-se, aceitando o conceito de uin
de muitas maneiras, se remeteria a São Paulo. Bastava acompanhar o percur- historiógrafo perspicaz,que o 'vale de S. Francisco já aliás muito povoado de
so de Euclides da Cunha para perceber sua deferência aos paulistas na forma, paulistas e de seusdescendentes desde o século XVll, tornou-se uma colónia
ção do Brasil. O que o autor chamou de "história do sul" dava indícios da quase exclusivamente deles'
trajetória dessa "altiva gente". Em suas palavras: Ao estrondoso impacto dessaobra e de suasinterpretaçõesS'somava-se
a produção de historiadores paulistas como Alfredo EllasJunior que, no início
São duas histórias distintas, em que se averbam movimentos e tendências opos- do séculoXX, assimcomo Euclidesda Cunha, também lera PedroToquesou
tas. Duas sociedadesem formação, alheadas por destinos rivais -- uma de todo indife, Frei raspar da Madre de Deus (século XVIII), adorando a interpretação dos
rente ao modo de ser da outra, ambas, entretanto, evolvendo sob os influxos de uma traços paulistas como responsáveis pelo progresso e balizadores do desenvol-
administração única. Ao passoque no Sul se debuxavam novas tendências, uma sub, vimento. Sobre essaquestão, EllasJr. lembra que
divisão maior na atividade, maior no vigor do povo, mais heterogêneo,mais vivaz.
mais prático e aventureiro, um largo movimento progressista, em suma50. onde os bandeirantes não viam peias para as suas empresas temerárias, moldou a
rudezanos espíritos paulistas e os adaptou à produção de somas fantásticas de energi-
Na origem constitutiva do país, Euclides identificava São Paulo pelo as,para poder domar obstáculos que se Ihe antepunham. Dessaadaptação à luta cons-
"sangue nobre bandeirante", responsável pelos traços que fariam do nordeste, oante contra os elementos naturais resultou, na psicologia paulista, essagrandeza de
no de determinadas regiões um "desbravador progressista". A presença do sul iniciativa nas suasempreitadas, que parecem imbuídas de uma inconsciência temerá-
nessasparagens teria introduzido características que, por serem modelares de ria, que foi o casodo sucesso.
Clomessainconsciênciada relatividadedo esforço
um homem empreendedor,aventureiro e digno, modificariam todas asrela, empregado, e com essasoma de energias desenvolvidas, venceram todos os'obstácu-
çõesestabelecidase trariam distinçãosl. los, bateram os jesuítas, enxotaram os castelhanos, descobriram metais e pedrarias e
Exemplarmente, na região do vale do São Francisco, teria crescido uma colonizaram o sertão gigante. Essepotencial de eficiência só poderia ser atingido
população autónoma e forte, mas esquecidapelos cronistas e viajantes. Eram depois de uma adaptação ao solo com seusacidentes e sua vegetação intransponível.
os diversos grupos de Minas, Golas, Piauí, h4aranhão e Ceará que navegaram
o rio São Francisco até o leste da Bahia, cultivando, com o passar do tempo, as
52 Euclides da Cunha, Os Sertões,op. cfc., pp 70-71.
virtudes da energia e do entusiasmo. Essesvalores, no entanto, caberiam a um 53 A influência de um pensamento dito originariamente paulista e em que Euclides da Cunha
grupo específico, os bandeirantes do sul, especialmente de São Paulo, que bebeu para a construção dessasua narrativa podia ser encontrada em momentos de sua trajetó-
tambématravessaram
rios e léguas,trazendo,com a colonização,o que de ria pessoale profissional. Trechos de Os Sertões já haviam sido publicados, e provavelmente dis.
cupidos anterionnente, pelos órgãos paulistas de que participava o autor: "Alguns trabalhos de
mais positivo, segundo o autor, poderia existir: seu espírito desbravador.
Euclides da Cunha, escritos a partir do retorno para São Paulo, são trechos do livro em anda-
Euclides da Cunha buscou, na obra Rabi/larqufa Pau/irra, de Pedro mento. Nesse caso estariam colocados os seguintes artigos publicados em O Estado de S. Ihti,
Toquesde Almeida PãesLeme, os fundamentospara suasanálises;em suas /a 'Excertos de utb Livro Inédito', de 19 de janeiro de 1889, contido depois em Os ferrões -- '0
Homem', com ligeiras modificações;'As Secasdo Norte', de 29 e 30 de outubro e l de novem-
bro, inserido em Os Sertões -- 'A Terra', com modificações; 'Fazedoresde Deserto', de 21 de ou-
50.
Euclides da Cunha, Os Sertões; Campanha de Canudos, p. 60. tubro de 1901, onde aparecea idéia de homem como agente geológico, que está presente em Os
51
SegundoSevcenko, para Euclides da Cunha, "]São Pau]o] tornando,se o pólo animador da Sertões -- 'A Terra'. Além dessesartigos, um trecho de Os Sertões, que trata da climatologia na
expansão territorial e económica do Brasil através da mineração, das fazendas de abastece. Balia que integra 'A Terra', que foi lido por Euclides da Cunha durante sessãodo Instituto His-
mento e da cafeicultura, (-.) se consubstanciou no próprio fermento integrador do país". Em tórico Geográfico de São Paulo, em 5 de fevereiro de 1898". JoséCarlos Barrete de Santana, .4
N icolau Sevcenko, Lfrerarura como À4fssão;pensõesSocfals e Criação Cu/fura/ ,:a P,/melro Contribuição das Ciências Naturais para o Consórcio da Ciência e da Arte em Euclides da
Repúb/fca, p. 140.
Cunha, pp. 108-109.
50 TROPEÇOSDA MEDICINA BANDEIRANTE

Dessesolo íormidavelmente vestido e fantasticamente acidentado que os paulistas


logo se habituaram a vencer, teria nascido a força bandeirante, que persistia até a
aberturadasfazendasdo século XIXs4.

Com essedestino traçado, os órgãos de saúde pública organizados em


São Paulo no final do século XIX estenderam-se por todo o interior do Esta-
do, erradicando parte dasmoléstias, higienizando e diagnosticando, na medi-
da do possível, os ambientes insalubres, mas considerando alcançados os seus
objetivos maiores. A avaliação positiva decorria do nível tecnológico do pro-
metomédico-sanitário -- formação de médicos e especialistas,padrão da apare'
Ihagein, pesquisase estudos -- e do que sc considerava a natureza de todo esse
processo: a própria origem de São Paulo.
Com essadeferência, todas asdoenças deveriam ser expurgadas. E mais
ainda, aquele JecaTatu de Urtlpês e Ve/AaPraga -- representante do caboclo
interiorano, protníscuo nos hábitos, sempossibilidade de se integrar ao Inun- Pedidos aos fa bíicantcs :

do civilizado -- seriavencido. Afinal, relembrandoMorteiro Lobato, "o Jeca


Companhia Mechanica e Importadora
não é assim, está assim''''.
de S. Paulo.
Desseconjunto de ações em busca da lei natural que traduzisse o verda-

! . !
deiro brasileiro, nasceram qualidades que desaguariam num outro Jeca, o
mensageirodo Biotânico Fontoura -- usando botas, falando inglês --, subindo
também ao panteão dos heróis do saneatnento do Brasil, e principalmente de
São Paulo. Percorrendo uma vfa crucís paródicasó,naquele momento, repõe'
sentaria anaisdo que mero garoto-propaganda, o novo Jeca era símbolo de
independência e força, para purificar todos os males e doenças.
O Jeca "de agora", descrito por Monteiro Lobato em vários artigos no
jornal O Estado de S. Pau/o em 1918, não representava um simples regenerado
das ações sanitárias e formulações farmacológicas, mas o próprio passado res- : Avenida
RioBranco,
25- (1' andar)e
taurado, a estampa da estirpe bandeirante. Forte e robusto, ele não receberia
humildemente as novas posturas que Ihe dariam saúde, para cuidar de sua rocinha
8 0e JANEIRO
Ri0 DE
RIO JANEIRO e
e de sua fatnília. Era o desbravadordc outras terras a suavolta, distinguindo-se
dos de fora, produzindo muito mais que seu vizinho imigrante e obtendo um
potente telescópio americano para acompanhar o traballlo eln sua propriedade.

54. Alfredo EllasJunior, R'açade Gfganres: Cíví/fzaçâo no P/ana/to Ihu/fera, p. 353.


55. Mansa Lajolo, À4onre;ro Z,obaro; Um 23rasf/errosob À4edída,p. 54.
56. Ellas Thomé Saliba, /?af2esdo /?fso; .4 Representação Hui)lorõtíca na Hfstórfa 13rasí/eira rl)a Fig.1. Oleo de Rícino JecaTatu: curando vários males, 1920
Belle Époque aos Primeiros Temposdo Rádio), p. 128.
Fonte; Á Fo/ha À4édfca, Ano 1, No.5, 1920, p. 40.
52 TROA'AÇOS I)A N4E[)]CINA BAND)EIRANTE 1- 0 ADUBO DE QUE NECESSITAA ÁRVORE DA NAÇÃO 53

Para despertar o ímpeto amortecido pelo "amarelão", o "Jeca degenerado" fun. índio, que, aos poucos, vergou-se à raça branca. Dessecruzamento, teria nasci'
daria um hospital, incorporando a idéia norteadora de Lobato de que era preci- do um espírito desbravador, aventureiro, brasileiro -- ein uma palavra: paulistaóo.
so alcançar a realidade do paísde tnaneira objetiva, colho um cientista. Em cada período, o guia marcava um momento crucial da elevação do
Contudo, nasfotografias dos compêndios de ensino médico e das re- povo paulista ein consonância com o povo brasileiro. E apontava um divisor
vistas paulistas especializadas,a imagetn do interiorano doente ainda estava de águas:"o famoso grito do lpiranga, erguido nos arredoresda capital dos
diretamente ligada a sua condição de abandonos7.O tipo social retratado bandeirantespor um príncipe ambicioso que, na obra da independência
vinculava-se à idéia de pobreza e vulnerabilidade, aosriscos de insalubridade nacional, teria por guia e tnentor um dos mais gloriososfilhos da capital de
e submoradia. Contudo -- e isso é de extrema importância -- "as instituições S. Paulo, daí por diante transformada em província do império americano"
médicas e seusrepresentantes igualmente fotografados em campanhas de saú- Arrematava assegurando que essanarrativa seria vista como uma obra
de, ambientesde laboratório, postos médicoslimpos e higiênicos, posavam inacabada: caberia aos representantes "daquele tempo" completa-la. Com o
num cenário da mais absoluta ordem e aparente higiene: 'Para o doente, a que acumularam ao longo de sua história, tinham uma "tnissãoa desempe'
intervenção médica significava a eliminação dos traços característicos do Jeca nhar no evoluir da nacionalidadebrasileira. Clom elementosdiversos,ali es,
doente; para São Paulo, o exemplo e a afirmação de uma verdade que deveria fariam se preparando, pelo sabere trabalho, novas geraçõesde bandeirantes
ser eternizada' "5a. que, com a trolha do labor paciente e tranquilo, acabariam de fazer a colossal
Afirmava-se que, quem chegasseeln solo paulista, logo constatada as naçãoque Raposo,PãesLeme e Anhangüera teriam demarcadocom suas
particularidades da história do Estado, corporificadas em seushabitantes, em espadasconquistadoras"ói
suas cidades e sobretudo em suas instituições médicas. Os estrangeiros que Naquele momento, como expressãomaior daquela história em cons-
aportassemein "terras bandeirantes" deveriam ter as tnelhores impressõesda trução, as instituições científicas e de saúdepública receberiam os louros por
organização médico-sanitária realizada pelos serviços de higiene e de suasins- suaspretensasconquistas. De acordo com os médicos paulistas, os rígidos
talações. Segundo os dirigentes, não poderia ser de outro modo, pois o estágio princípios da higiene refletiam-se na qualidade dos serviçosprestados,nos
de desenvolvimento de uln país se julgava pela expansãode sua instrução pú- estabelecimentos sanitários e em hospitais de todo o Estado e da capital. N'lesivo
blica, que era preparo do futuro da nação, e pelo rigor dos seuscuidados higiê- com os diversostropeços,os óbicesadministrativos e práticos, o Serviço Sa-
nicos, pois a saúde dos habitantes garanthia o presente e preservada o futurosP. nitário, órgão estadual de centralização das políticas sanitárias e higiênicas,
Significativamente, São Paulo sediou o 6n (:ingresso Brasa/oiro de JWe- tornou-se o centro das atenções médicas e sanitárias do país.
dícfna e Cirurgia, em 1907,reunindo médicosde diversaspartesdo país.No No (1:ingressoÀ4édico Pau/ferade 1916, o guia foi substituído por ex'
evento, ofereceu-sea cada congressistauin guia da cidade, com todos os pon- cursões organizadas em que as próprias autoridades médicas mostravam aos
tos turísticos, os principais edifícios, restaurantes e tnercados. O leitor tatnbém congressistas o grau de desenvolvimento e progresso científico a que chegara
encontraria um pequeno resumo da história da capital paulistana, dividido em São Paulo nos últimos anos. Paradoxalmente, o início do passeioapresenta-
cinco períodos-- a fundação; a vila jesuítica; a "cabeça" da capitania; a capital va, com constrangimento, a deplorável situação da Santa Casa de Misericór'
da província e a metrópole industrial. Nos fatos vividos pela paulicéia, narra- dia. O único hospital público da cidade transbordavade doentes vindos de
dos desde seusprimórdios, o sangue nobre dos portuguesessubstituíra o do todos os pontos do Estado, os quais sobrecarregavain as enfermarias com o
dobro desualotaçãoóz
57 A imagem de pobreza, miséria e abandono pennanente no imaginário nacional, mesmo após
a regeneraçãodo Jeca,foi observada por Márcia Regina C. Naxara, Estrangeiro ern Sua Pró, 60. Pau\o R. Pestatna,Guia l1lustrada da Cidade de S. Paulo por Occasião do Sexto Congresso
proaTerra:Representações
do Brasileiro,!870'1920. Brazileiro de !\medicinae Cirurgia, p. 1.8.
58 James Roberto Sirva. Foroge/lfa do anos. Xorograáa e /nstfrufções de Saúde. São /)au/o, /880- 61. /dem, p. 22
/920.
62. "Congresso Médico Paulista", Rev'fera do Brasa/, Anho 1, vol. 111,São Paulo, Propriedade de
59 /dem, pp. 81,82. uma Sociedade Anonyma, 1916, p. 406.
54 TROPEÇOS DA N4EDICINA BANDEIRANTE 1 + 0 'ADUBO DEQUENECESSI'rAA ÁRVOI\E OA NAÇÃO 55

h4as,como Virgílio passoupelo inferno e pelo purgatório para alcançar entremeada por dados científicos e análises históricas, as autoridades médicas
o paraíso,não foi difícil, para os visitantes, adentrar rapidamente outras por' paulistas afirmavam'se conscientes de que a higiene sanitária e racial de São
[as consideradas mais dignificantes. Clom esseintento, chegaram ao Instituto Paulo rivalizaria com as melhoresdo mundo, e o Estadoestavasegurodos
Butantã, "com seusbelos serpentários e ricos laboratórios, dirigido pelo emi- benefícios que seusservidores Ihe prestariam.
nente [)r. Vital Brazi]; ao ]eprosário de Guapirà; ao Hospício do Juquery, tido Issoficaria patente em 4 de abril de 1914, na inauguraçãodo Instituto
como um dos melhores e mais bem instalados da América Latina"ó3. Butatan. O discurso de seu diretor, o Dr. Vital Brasil, arrolava ás diferenças
Outro expoente das qualidades médicas e sanitárias era a imprensa es. entre a administração paulista e as dos outros Estados:
pecializada, caso dos Ánnaes Pau/fitas, da Gazeta C7fnlca e do Bo/etíln da
Sociedade de À4edícina e Círurgfa. Sobre eles, afinnou-se que "com uma co- São Paulo. cioso de seusforos de civilizado, acompanhando com interesse
laboraçãosempre variada e interessante, publicando trabalhos de real valor, a todos os progressosrealizadosem todos os ramos de atividade, compreendendo bem o
imprensa médica de S. Paulo se vai impondo nos demais centros de cultura elevado alcance moral e económico de zelar pela saúde de seushabitantes, foi o pri-
do Brasil e que queira Deus lhes comunique o gérmen desseentusiasmo pelo meiro dos Estadosda União Brasileira que procurou nortear a organização sanitária
trabalho e pelo progresso que se nota nos homens e nas cousas do grande nos seusdomínios de acordo com as modernas conquistas científicas.
Estado do Sul"ó4
A excursão não poderia deixar de passarpela Faculdade de M.edicina e As edificações dentro do alto padrão de modernidade técnica e cientí-
Cirurgia de São Paulo e apresentarseuseminentes professores,para que se fica eram o critério da elevação ainda maior da civilização paulista. Nas pala-
pudesse "integralizar o ensino superior aos Estados e prover as reais necessida, vras do Dr. Brasil, "o belo edifício que hoje inaugurámos, dotado de excelentes
des clínicas de sua crescente população". Ao referendar sua organização -- o laboratórios e de aparelhamento dos mais aperfeiçoados,está na altura da
rigor de suas disciplinas, suas exemplares dependências como os museus de higiene e constitui mais uma eloqüente demonstraçãoda clarividência e boa
anatomia, laboratórios de parasitologia, fisiologia, anatomia patológica, física orientação do governo deste Estado"ó7
e química --, os visitantes A. Austragésilo e Fernando de Magalhães exprimi-
ram seu júbilo diante das cenas presenciadas:
InvAniNDO o INTERIOR: A ORGANIZAÇÃO SANITÁRIA PAULISTA
Agradecendo. manifestaram seu entusiasmo pelo critério com que o Dr. Arnaldo
Vieira de Carvalho, diretor dessaFaculdadede Medicina e Cirurgia, escolheuospro' Com as fazendasde café, a malha ferroviária e a redefinição dasrela-
fessorese organizou o ensino médico em São Paulo, pondo em destaque a cultura. o çõesde trabalho, São Paulo passou a ocupar, desde a segunda metade do sécu-
brilho e o ânimo elevado dos professores,cujo prestígio os membros do Congresso lo XIX, uma nova posiçãono jogo político e ideológico nacional, rompendo
levarão a todo o país e cuja obra finca um marco nas fasesdo ensino méd ico brasileiro.ós definitivamente com a representaçãode província tímida e pouco desenvol-
vida economicamente. A partir de então, nascia uma paisagem provincial
A visita evidenciava a necessidadede levar "os de fora" a reconhecer o que abrigava contrastes e tempos diversos, mas interagindo numa dialética de
quanto São Paulo se distinguia do resto do paísM.Numa narrativa peculiar, complementaridade -- o rural e o urbano, o arcaico e o moderno, mediados
pelos trilhos das ferroviasa. Com o início da República, as elites paulistas
detendo grandeparte do capital nacional produzido pela cafeicultura, assu'
63. Idem. ibidem. miram várias esferasdo poder federal, articulando forças políticas estaduaise
64. Gazeta C/laica, Anno XVIII. n' 4, São Pauta. 1920, p. 43.
65. "CongressoMédico Paulista", Rev/stado Brasa/,Anno 1,vol. 111,op. cft., p. 407
66. Discursodo Dr. Vital Brasil na inauguração
do Instituto Butantan,em 4 de abril de 1914. 61. !dem. ibidem.
Revfsra À4édfca de Sâo Pau/o. Anno XVll, n' 9, São Paulo, 15 maio 1914, p. 140. 68. Ana Luisa Marfins. Os Gabinetes de Lefrura da Provhcía de São Pau/o r]847-1890). p. 185
56 TKOPEÇOS
l)A MEDICINA BANOEli\ANTE I P O ADUBO DE QUE NECESSITA A Á.RVORE DA NAÇÃO 57

simbolizando o progresso e a modernidade do homem capitalista, que reco- comerciais"73. Como tnoeda de troca, os cofres públicos est3vam permanen-
nhecia na ciência moderna e em seusatributos teóricos e práticos as respostas temente envolvidos nessasquerelas, principalmente se pensarmos nas incer-
para si e seu mundo. Entre discursos e alusões a essa força tida como natural e tezas do mercado de café que, de 1892 a 1929, quase sempre registrava déficit
progressistaóP,
São Paulo se confundia com a nação o Brasil caminhava a entre receita e despesa: "dos 38 exercícios aí compreendidos, em apenas sete
passoslargos porque São Paulo era estável e cada vez mais promissora. delesdeixaram de seregistrar déficit; issonos anos de 1893. 1894, 1896, 1897,
Entretanto, no âmbito estadual, com todas as modificações trazidas 1898, 1901 e 1904"74
pelo republicanismo -- o surgimento dos Estados,municípios e instituições Diante dessatensão, as elites interioranas acusavam o mundo urbano e
representantes --, revelavam-se as contradições. As relações entre as instân- seushabitantes de parasitasque atravancavam o desenvolvimento de suas
cias estaduaise municipais caracterizavam'se pela disputa sistemática entre regiões. Em estudo sobre a oligarquia paulista e suas ideologias, Ellas Thomé
as respectivas forças políticas. Com o processo de urbanização, o desenvolvi- Saliba observa, nas idéias políticas e econâtnicas de Cincinato Braga75,uln
mento dos meiosde comunicação e todos os elementos modernizantesque pensamento ruralista dicotâmico entre campo e cidade. Para ele, a produção
deveriam gerar laços de interligação e interdependência, a intensidade desses cafeeira identificava.se com os interessesnacionais e o camponêsera tido
choques estabelecia cadeias de interesses entre comunidades70. como produtor. Numa posiçãocontrária ao mundo da produção e do traba-
Na raiz dessapendência, primeiramente havia uma dicotomia entre o lho, as classes urbanas teriam o único papel de "consumidoras" e eram reduzi-
interior e a capital, entre pequenos centros rurais e cidades mais populosas. das, por generalização, a "parasitárias", por dependeretn do trabalho do
Analisando os elementosque erigiram os novos emblemasde cunho liberal, campo7ó.Assim, sob o prisma da desconfiança, parte das elites via "a popula-
agrário-exportador, inspirados na transição do trabalho escravo para o tuba, ção das cidades como 'classesperigosas',e a cidade colho /ocas da desordem
Iho livre na economia cafeeira, Sérgio Buarquede Holanda localizou dois social e política, e da improdutividade económica"77
movimentos nas mudanças que vinham ocorrendo: uin que tendia a alargar a Na prática, o poderestadualcentralista dominava todas asesferasque
ação dascomunidades urbanas e outro que restringia a influência dos centros compunham e organizavam os municípios, usando as medidas legais neces-
rurais, reduzidos, ao fim e ao cabo, a simples fontes abastecedoras, a co/õn/as sáriaspara conter podereslocais que não estivessemde acordo com as políti.
das cidades7t.
cas implementadas e a administração de seusexpoentes. O governador podia
Na mesmadireção, havia uma flagrante oposição "entre os grandes anular atou municipais que avocasseà sua esfera de poder, cassardelibera-
Énzendeíros,moradores dos principais centros urbanos (São Paulo, Santos e ções ou posturas municipais que entendesse às leis do Estado ou da nação ou
Campinas), de um lado, e a /aloura, proprietários de terra, habitantes do reputasse "prejudiciais" aos interesses de seus cidadãos7õ. Para tanto, pastan-
interior, de outro"72. Por essahipótese, fundava-se um conflito sistetnático do-se em favores políticos trocados em momentos de eleição ou dissensões
entre essesgrupos, prevalecendo os interessesdo primeiro em detrimento das partidárias, indo do âmbito municipal ao nacional, casoestivesseno poder
reivindicações do segundo, com um elemento cuja regularidade na Primeira federal.
República patenteava as escolhas feitas: "a ausênciasistemática de uma polí-
tica de crédito que livrassea lavoura (...) do despotismodos oligopsânios 73 /dem, p. 49.
74 Rodolpho Telarolli, Á Organização ÀÍunfcfpa/ e o Poder l,oca/ no Estado de São /hu/o, op
cfr., P. 119.
69
A trajetória histórica dessepensamento foi estudadapor Antonio Celso Ferreira, Á Epopéfa 75 Ellas Thomé Saliba, /deo/og/a l,ibera/ e O/fgarquía Pau/fera;Á Áttiação e as /dé/as de
Bandeiran
[e:Letrados,Instituições,
in vençãoHistórica(1870-1940). Cincinata !draga, !891'1930, op. cit.
70 Rodolpho Telarolli, Á Oqanízação ÀÍunfc@a/ e o Poderá,oca/ no E)fado de Sâo Pa.i/o na Prf, 76 Rodolpho Telarolli, Á Organização ÀÍunfcipa/ e o Poder toca/ no Estado de São Pau/o, op
rnefra Repúb/fca, p. 24. cfr., p. 46.
71 Sérgio Buarque de Holanda, Raízes do Brasa/, p. 173. 77 Lula Cegarde Queiroz Ribeiro e Adaueo Lúcio Cardoso, "Da Cidade à Nação: Gênesee Evo-
72. Renato b4. Perissinotto, "Classes Dominantes, Estado e os Conflitos Políticos na Primeira lução do Urbanismo no Brasil", p. 58.
República ein São Paulo: Sugestõespara Pensara Décadade 1920", p. 45. 78 Ellas Thomé Saliba, /deo/agia l,ibera/ e O/@arqufa Pau/lera, op. ci't , p- 40.
58 TROPEÇOUDA N4EDICINA BANDEIRANTE 1+0 AOUBO DE QUE NECESSITA A ÁRVORE OA NAÇÃO 59

O "fazendeiro de café, que governava o país, não se mantinha no poder bros do PRP por sua origem social, queriam "republicanizar a República"
pela força militar, mas se 'eternizava' no governo graçasa uma máquina elei- para,segundoo Partido Democrático(PD), nascidoem 1926,"recoloca,la
toral que se estendiapor todo o país,mergulhandosuasraízesna terra". O no caminho da virtude"81.Além de representaruma nova posiçãodiante do
Estado paulista situava-se numa pirâmide cujos poderes se distribuíam pelo governo perrepista, a formação do PD expressavaa importância dos municí'
"Presidente da República, vindo abaixo o Partido Republicano Paulista (...) pios do interior e suasrespectivas comarcas. Uma vez localizado o universo
e, na base do arcabouço, o 'coronel' e sua fatnília, parentes e dependentes"79. social e político em que se inseria o PD, com o apoio dasclassesmédias e dos
A precariedade em que viviam os municípios e a maneira que o Estado en- proprietários do interior, pretendia-se minar as bases de sustentação política
controu para angariar apoio demonstram que a constituição municipal foi do PRP com os votos dos currais eleitorais das próprias forças oposicionistas
erigida sobre uma mescla de liberalismo e coronelismo80. locais. Afinal, quando se tratava de voto, as armaseram as mesmasusadas
Paralelamente, estabelecia-seo jogo de equilíbrio que o governo esta, até então.
dual deveria manter entre os chefes municipais e o poder central, adorando, Nesse contexto crivado de revezes, conflitos e indecisões, o governo
para com aqueles, a conduta de deixar que se entredevorasseln para depois paulista criou inúmeras instituições para ultrapassar empecilhos ao desenvol-
apoiar o vencedor,o maisforte; para com este,o princípio do apoio cons- vimento económico em questõesespecíficas,ao mesmo tempo que pretendia
oante.Se não o fizesse,corria o risco de ver o governo central dar mão forte à atingir um comando cada vez maior sobre todo o território estadual. Da mes-
oposição de seu Estado, podendo derrota-lo8i. Nesse sentido, era substancial ma forma, os órgãos de saúde pública estenderam seu projeto no controle dos
a presença dos municípios, onde se exercitava o fenómeno do corone/fslno: municípios, a partir de ações interventoras que logo seriam sentidas e repelidas
carentes que eram de autonomia legal e financeira, ein tudo dependiam do por muitos municípios e comarcas.A implantação de saneamentobásico e
governo do Estado. Este,por suavez, em nada beneficiava os municípios, a iluminação, o combate a epidemias e doenças crónicas articulavam-se em
não ser pelas mãos do chefe político local, delineando o mecanismo dos pro- dispositivos que almejavam um domínio cada vez mais abrangente dos muni-
veitos recíprocos pelo qual se perpetuava no poder: "os detentores do mando cípios e desua população84
estadualtinham votos garantidos pelo 'coronel' que, em troca, via assegurada
a sua supremacia no município -- que, por sua vez, só através dele se benefi-
ciava dos recursos dos cofres estaduais."sz PODERLOCAL E SAUDE PUBLICA: OS LIMITES DA ORDEM
Mas essadivisão de apoios e o estabelecimento dos limites possíveis
para que se dessemas interferências estaduaisnos "territórios municipais" A partir da criaçãodo Serviço Sanitário, em 1891, com suanova legis.
foram seesgarçandoa ponto de muitos chefes municipais se levantarem contra lação sanitária apresentadaem 1892, ressurgirampendências alusivasà auto-
essasposições. Gradualmente, entre tensões que berravam o rompimento nomia municipal, de modo a impedir que se implementasse o prometosanitário
constitucional, elesapoiaram,nos anos de 1920, um novo partido que se
dizia representante dos anseios das cidades interioranas. Buscavam respaldo
numa oposição nascida entre grupos que, mesmo identificados com os mem 83. Mana Lígia Coelho Prado.Á Democracia //usrrada;O Partido Democrárfcode SãoPau/o.
192Ó']934, P. 23.
84. O conceito de saúdepública que adotamos pode ser entendido como "uma política (social)
79. Rodolpho Telarolli. Poder l,oca/ na Repúb/fca Ve/ha, p. 33. governamental, articulada às relações entre Estado e o conjunto das classes sociais, em um
80. Os conceitos envolvendo os termos corone/fumo, manada/síllo e c/lente/fumo podem ser es. dado período histórico. Mas aqui acrescenta-sea perspectiva de que aquelaspolíticas têm se
mudadosem José Murilo de Carvalho, "Mandonismo, Coronelisjno e Mandonismo: Uma Dis, apresentado sob forma de um modelo terno-assistencial das açõesde saúde, constituído a
cussão Conceitual", pp. 130-153. partir do conjunto das opções políticas, colocadas nas arenas decisórias nas quais foram pro-
81 Mana lsaura Pereira de Queiróz, O À4andonismo l,oca/ na Wda Po/ítfca !3rasí/eira e Outros duzidas -- enquanto projetos de intervenção social, em sociedades concretas -- as políticas
Ensaios, p. 125. sociais do governo". Em Emerson Elias Merhy, Á SaúdePúb/íca como Po/trica; Um Escudo
82 Rodolpho Telarolli, O Poder toca/ na Repúb/fca Ve/Aa,op. cít., p. 15. de Formuladores de Políticas, pp. 22-23.
TROA.AÇOS DA MEDICINA BANDEIRANTE l O ADUBO I)E QUENECESSITAA ÁRVOREDA NAÇÃO 61

arquitetado, mesmo que os discursos tentassem mostrar o contrário8s. Nascia, que tinham, na figura do Dr. Emílio MarcondesRibas, o condutor de toda a
assim,um jogo de forçasque gestaria,num primeiro momento, um padrãode política sanitária, responsávelpor fazer de São Paulo uin pólo científico e
legislaçãoambígua,mantendo indefinidos os limites dasatribuiçõesdo Esta, sanitário no Brasil.
do e de seusinunicípios8ó.Numa tentativa de dar contornos mais objetivos, A importância de Emílio Ribas, conhecido por muitos como o bandei-
numa posição claramente centralista, a reforma subseqüente,de 1893, colo, rante sanitário88,não só reafirmava sua vinculação às elites republicanas e
cou as açõessanitárias municipais sob o poder estadual, provocando a eclosão cafeicultorasdirigentes, como também indicava suapostura centralista nos
de conflitos e contendas. cargosque assumiria ao longo de sua carreira. Nascido em Pindainonhangaba
O debategirava em torno de dois pólos. Os municipalistas,"que se em ll de abril de 1862. era filho de uma classe abastada de fazendeiros e
alinhavam com a defesaincondicional das prerrogativasmunicipais",e os cafeicultores.Tendo-sediplomado pela Faculdadede IK4edicinado Rio de
centralistas,que não viam "ofensa à autonomia municipal quando o Estado Janeiro em 1887, defendeu sua tese, Mora:eAparente dos Reco/n-nascidos, no
normatizava a higiene local, pois, apesarde a lei prescrevera liberdade e autono, ano seguinte. Republicano convicto, participou da fundação do Clube Repu-
mia dos municípios, estes eram subordinados às leis federais e estaduais"a7. blicano e de toda a ebuliçãodos últimos inotnentosdo Império brasileiro,
Conforme se definiam garantias à força da centralização estadual, alterava,se pois estudava no Rio de Janeiro nessa época. Com essehistórico, não era
a legislação atinente às atribuições municipais e estaduais,retirando, paulati. difícil identificar, em seusdiscursose nas condutas que adotou eln toda a sua
namente, dos chefes locais, o controle sobre a higiene e a organização espacial vida profissional, a defesapelas instituições republicanas e paulistas.
dos municípios. Com a reforma legislativa de 1896, detalharain,se essas Como médico, iniciou suacarreira como inspetor sanitário na antiga
especificaçõestécnicas do código sanitário de 1894, materializando as postu- Inspetoria de Profilaxia das Moléstias Infecciosas, combatendo diversas mo-
ras centralistas do governo do Estado. Explicitou-se a visão administrativa e léstiaspelo interior. Em 1896, ainda nessafunção, foi designadopara chefiar
científica dos responsáveispelasalteraçõesque se foram implementando, e a Comissão Sanitária permanente de Campinas, onde sua luta contra diver-
sasdoenças, principalmente a febre atnarela, carreou'lhe a nomeação, em 16
de abril de 1898, de diretor-geral do Serviço Sanitário, cargo que ocupou
durante dezenove anos.
85
O surgimento da Inspetoria Provincial de Higiene de São Paulo revelava, por um lado, as
novas preocupações com o espaço urbano e sua ameaça aos habitantes, recebendo atenção
Numa avaliação do Dr. Ribas sobrea realidade sanitária dos municí-
e intervenção por parte das autoridades, denotando o quanto a constituição das leis sanitárias pios paulistas, todos estariam reprovados, com exceção apenas de Santos, de
implementadas em 1892 trazia, no bojo de suasatribuições, toda uma discussãoe lutas po' Campinas e da própria capital, patenteando colho os órgãosde saúdepública
líricas em torno da higiene urbana e de seu poder de ação no período imperial. Por outro
[ado, apresentavaa ineficiência da constituição ]egal de um órgão com diretrizes científicas privilegiaram certos municípios em detrimento de outros, criando "centros
responsável pelo controle da higiene urbana, e a falta de recursos para sua execução. Cria- exemplares da força sanitária paulista". Segundo ele, as outras cidades do
da em 1886, sob a direção de Marcos Arruda, a Inspetoria linha, entre suasobrigações. gran- interior estariatn imersasem doençase epidemias, frutos dasdificuldades cria-
de responsabilidadeno que dizia respeito a "fiscalizaçãoe controle higiênico dos diversos
estabelecimentos, sobretudo os coletivos, análise química dos alimentos e bebidas. lev,..ta, das pela autonomia municipal:
mento das enfermidades existentes na província e vacinação anel.variólica". Mas os relaró,
rios do Dr. Arruda deixavam claras as suasimpossibilidades diante das "reivindicações de Do que tcin esta Diretoria conseguido na Capital, em Santos e Campinas, já
verbas urgentes para a concretização das medidas sanitárias". sendo também "interessante
tivestes a ocasião de ser informado nas páginas que ficaram escritas. Cabe-nos agora
lembrar que, nesseperíodo, a Inspetoria de São Paulo localizava-se no cor\sultório particu-
lar de Marcos Arruda e praticamente se sustentava com recursos particulares«. Ein Marca de
A\meloa, República dos Invisíveis: Emílio Ribas,Microbiologia e Saúde Pública en} São
Paulo {!898-19i 7), p. 43. 88. Termo usado pelo professor Francisco Borges Vieira e reiterado por Flaminio Fávero, em co-
86 memoraçãoao centenário do nascimento de Elnílio Ribas: "bandeiranre ele o foi. }lbrindo
Rodolpho Telarolli Juntar, Poder e Saúde; 4s Ep/de/7]fase a Eornlação dos Serviços de Sande
em São Pnu/o, p. 198. picadas e avançando. num pioneirismo impressionante, pelas selvas das nosstls exigências
87 /dem, p. 201. sanitárias". Fo/ha de Sâo Pau/o, 8 abr. 1962, s/ p.
62 TROPEÇOSDA MEDICINA BANDEIRANTE 1 , 0 ADUBO DEQUENECESSITAA ARVOREDA NAÇÃO 63

deixar estampado (.-) o muito que resta fazer nas outras localidades, graças aos maus Jades do Estado, e delegando toda a ação sanitária local ao inspetor sanitário
resultados que (...) nos tem revelado a tão apregoada autonomia dos municípios. estadual indicador' , a quem caberia
Vejamos, pois, os defeitos de que ressentem os serviços a cargo dos poderes locais.
estudando as causasque têm entorpecido, muita vez, a ação do Estado na fiscalização a vacinação.observaçãoe desinfecçãodos imigrantesrecém.chegados,
a inspeção
que Ihe cabe dos serviços municipais: abastecimento de água, canalização de esgotos, das condições de higiene das casase quintais, dos hospitais, asilos e cadeias; a inter-
de águaspluviais, enxugo do solo. arborização das ruas e praças, calçamento, irrigação venção junto às administrações locais pelas medidas necessáriasà higiene local e o
das vias públicas, asseiodas ruas e logradouros públicos e suaconservação, remoção e bom funcionamento dos serviços de água, esgoto e saneamento do meio; a inspeção
incineração do lixo, posturas sobre construção etc89 das amas-de-leite no município da capital; as visitas doiniciliares, aconselhando me
lidas de higiene pessoale doméstica; e a fiscalização da higiene escolar9Z
Em suavisão, urgia uma modificação constitucional que retirassedas
instâncias municipais todo o controle sobre as ações sanitárias, visto que o Etn 1911, demarcaram-se outras linhas de ação, só mais tarde realmente
caosde muitos municípios devia-se a seuspróprios dirigentes, que impediam viabilizadas, mas desdeentão reafirmando uma crise do centralismo9' do go-
qualquer ação por parte do Estado na questão da saúdepública. Chegou a verno do Estado. Por essasmedidas, a ação direta do Serviço Sanitário
afirmar que: aprofundou o domínio sobre os problemas municipais de saúdepública, enter'
vindo com mecanismosde supervisãotécnica e administrativa, reunindo sua
uma vez que os efeitos do sufrágio universal não permitem a escolha dos mais compe- ação na capital, mantendo delegados de higiene apenas em Santos, Campinas
tentes para os cargos de diretores dos negócios municipais, elevando, muitas vezes. a e mais quatro cidades do interior: Ribeirão Preto, Taubaté, Guaratinguetá e
tais cargos, indivíduos que decidem dos magnos problemas de higiene mal sabendo Itapetininga9{
assinar o próprio nome, não há outro remédio para sanar os males que deixamos apon- Evidentemente a reação municipal não tardou a chegar,sob diversas
tados nas páginas anteriores, males talvez inevitáveis por muitos anos, se não forem formas. A maior parte era o não-cumprimento das normas e leis implementadas
minoradas pela fiscalização severa e imediata do Estado. (...) Estamosperfeitamente pelos Códigos Sanitários, que pretendiam pautar as posturas dos municípios
habilitados a abafar o incêndio para o qual a incúria municipal tiver acumulado com, pelasdo Estado.Numa posiçãomais radical, usou-sea violência colho medi-
bustível. No que diz respeito à prevenção, estamos na contingência de quem vê o da impeditiva de tais intervenções. O caso da cidade de São Simão foi
perigo, adverte o descuidado de longe e nada pode fazer para evitar o desastre90. emblemático: um inspetor estadualfoi "jurado de morte" por ter multado um
médico local que se recusava a notificar os casos de febre amarela aos poderes
Esseargumento enfraqueceu, mais uma vez em 1906, a extensão dos correspondentes. De acordo com o inspetor Affonso de Azevedo:
poderesmunicipais sobre a higiene de seuslimites administrativos. Essa
postulaçãodo Dr. Ribas não se tinha dado em sua entrada na direção do 91 Rodolfo dos Santos Mascarenhas, Contribuição para o Escudoda Ádnlínfsrração Sanítár/a
Serviço Sanitário, em 1898, sendo efetivado só em 1906, quando procurou Estadua! de São Pauio, p. 51.
extinguir praticamente todas asatividades municipais de saúdepública, sem 92 Rodolpho Telarolli Junior, Poder e Saúde, op. cfc., p. 223.
que para isso tivesse que revogar a lei 432. Baseado na mesma, dividiu o Esta, 93 Ao Serviço Sanitário a cargo do Estado competia, quanto aosmunicípios; "I) Executar, em
LodoQ território do Estado,quaisquer providências de natureza defensiva, como as que têm
do em distritos sanitários, localizando suassedesjustamente nas tnaiores ci- por fim a instituição de rigorosa vigilância sanitária, assistência hospitalar, isolamento e de.
sinfecção; 2) Inspecionar os serviços feitos pelas ]Bunicipalidades; 3) Organizar ou criar nos
municípios os serviços que julgar convenientes ao bem da saúdepública; 4) Chamar a si em
89. Relatório apresentado ao Dr. Cardoso de Almeida (Secretario dos Negócios do Interior e da épocas anormais, sempre que o interesse público o aconselhar, os serviços de higiene que, pela
Justiça) pelo Dr. Emílio Ribas (Director do Serviço Sanitário), ref. 1904, São Paulo. Typ. do lei, forem confiados à municipalidade". Em Carlos Reis, Repertório dn l,egos/anãosobreo Ser.
Diário Official, 1905, p. 21. viço Sanitário do Estadode São Paulo, p. 17
90. /Hein, pp. 45-46. 94 Rodolpho Telarolli Júnior, op. cíc.. p. 231
64 TI\OI,AÇOS I)A MEt)ICINA BATI)EII{ANTE o ADUBO DE QUE NECESSITAA ÁRVORE DA NAÇÃO 65

As sete horas da noite apresentou-se Dr. Amorim em casado Dr. Juiz de Direito. Investimentos em saúdepública como parte do orçamento do
à frente de populares,gente aliciada, segundo voz corrente entre o pessoaldo Conde de Estado de São Paulo oorneríodo97
Pinhal. Dr. Amorim, em atitude agressiva e termos insultuosos, fez ao Dr. Juiz de Direito Período Porcentagem média Gasto per capfra Gasto per capita
a intimação de que ou eu seria removido, ou seria assassinado.(...) De então para cá, a gasta com com saúde com uso militar
cidade tem estadopresade convulsão popular. Acho-me em casado Dr. Juiz de Direito, saúde pública pública (mil,réis) (mil-réis)
cercado de grande número de pessoas armadas, prontas a repelir qualquer agressão9s.
1892,1900
1901,1910
A decisãodo então diretor do Serviço Sanitário, Dr. Emílio Ribas, de
1911,1920
domar para si a responsabilidade de dirigir completamente as ações sobre a
cidade de São Simão, para estancar a propagaçãoda "amarela", gerou uma C)sresultados dessapolítica podem ser acompanhados na maneira como
crise institucional e encontrou óbices a suaaplicação. Apesar da desinfecção se tratavam algumasdoenças e surtos epidêmicos. Em 1913, o casoda lepra''8
das casase da queima de piretro e enxofre, "acossado pela fumaça, o mosquito
foi apontado como exemplo lapidar da falta de investimentos99.Num breve
saíae voltava quando a fumaça seextinguia. As casasnão tinham forros e as
histórico, em 1886 ela já se disseminava por todo o Estado de São Paulo, sem
paredes eram crivadas de buracos, verdadeiras peneiras"9ó.Assim, mesmo caiu
que o raiar do regime republicano elaborasseuma lei que fizessequalquer
ações localizadas no cotnbate ao mosquito, interferência na arquitetura das
referência.Nas primeiras duasdécadasda República vigente, os legisladores
casas,no modo de vida e na organizaçãomaterial e espacialda população paulistas não se ocuparam absolutamente da morféia que aos poucos,
local como entupimento de poços,proibição dastinas para lavagetnde rou-
surdamente, masà vista de todos, alargava sua ação devastadora:oo.Os escri-
pase remoção sistemática do lixo, revelou-se que o movimento sanitário de
tos do Dr. Emílio Ribas sobre o assunto datam a partir de 19 15, e uma posição
cunho campanhista-policial não tinha instrumentos suficientes para o exter-
institucional frente à moléstia viria em 1916, no / ' C:ingressoÀ4édlcoPau/is-
mínio de determinadas doenças e epidemias.
ca'ot.SÓa partir de então ela passariapara os anais de encontros médicos,
Aos poucos,a centralizaçãoe o controle pretendidoscom açõesdo
porte que se iate efetuandodavam sinaisde ineficiência administrativa, nui]] 97. Emerson Elias Merhy, O (Lpfta/limo e a Saúde Púb/fca, A Emerge/lcfa das Práticas Sanfrá-
misto de interessesimediatos e políticos com dificuldades científicas, pois rias no Estado de São Paulo, p. 'i0.
não havia uin diagnóstico científico definitivo dascausasda atnarela.A maior 98. A história e a disseminação da lepra em São Paulo, desde o período colonial até o século XIX,
podem ser acompanhadasem Laima Mesgravis, .4 Santa Gtsa de JbÍfserfcórdlade São Pau/o
expressãodissoera o modo pelo qual se geriamos investimentoseln saúde
1599? - i884(Contribuição ao Estudo da Assistência Sacia! no Brasil), pp. 1.49- \ 68.
pública. 99 Morse descreve a situação de abandono do lazareto da cidade de São Paulo na metade do sé,
De acordo com l\4erhy, teria havido, com o passardos anos, uma siste- fulo XIX: "(-.) bem ao norte do centro da cidade, na Luz, a Santa Casa mantinha uln lazareto

mática redução dessesgastos não por falta de recursos, mas por interesses po- Seusdezou vinte internados eram mal assistidos,mal vestidos e alimentavam,se com feijão
e carne, dieta inadequada para a sua doença". Em Richard l\4. N4orse,De Cbmunfdade a À4e-
líticos que litnitavatn a organizaçãodo modelo impletnentadode tnodo a Erópole:Biografia de São Paulo, pp. 28.29.
viabilizar minimamente a estruturação do capitalismo monopolista e exporta- 100 /dem, p. 97
dor, e não obrigatoriamente ein toda a extensão, como queriam as autoridades 101 '(.-) decreto dos poderescompetentes, facilitando a profilaxia do mal; notificação compul-
médicas: sória de todos os casosde lepra; fundação de asilos-colónias, de acordo com os preceitos de
higiene (.-l; proteção da família dos leprosos indigentes; isolamento presto dos recém,nas-
cidos filhos de mor6ticos (-.) criados livres dasjantes de contágio; impedir a importação de
casosde lepra do estrangeiro, tanto pelos nossosportos como pelas fronteiras, medidas de
95. Arquivo do Estado de S. Paulo, n' de ordem 6827, cx. 222 (manuscritos), apLid Wilson desinfecção terminal." Em Emílio Ribas, "A Lepra. Sua Frequência no Estado de São Paulo.
coberto Gantheta, Soldados da Saúde: Formação dos Serviços e11]Saúde Pública do Estado de Meios Profiláticos Aconselháveis", I' (ingresso À4édícoPnu/fofa,pp. 145.172. .4pud Mana
São Pnu/o (/889-/918), P. IOI. Ines Baptistella Nemes, .4 }Íanseníãse e as Práfícas Sanftárfas em Sâo rali/o: /0 Anos de Sub-
96. Mana Alice Rosa Ribeiro, }/fstóría Sem Fila... /nve/lrárío da Saúde Púb/ica, p. 82. programa de Controle da Hanseníase na Secretaria de Estado da Saúde(1977-1987), p. 40.
66 TI\OPEÇOSDA MEt)ICINA BANDEIRANTE 1 + 0 AOUBO OE QUENECESSITAA Á.RVOREOA NAÇÃO 67

recebendo tratamento diferenciado e longos debates acadêmicos e científicos a imigração e extinguisse todos os focos do surto leproso disseminado pelo
sobre seu controle e propagação. Estado, de cuja existência não era mais lícito duvidari04
O artigo "A Lepra em S. Paulo -- Notas sobre a Urgência da Sua C)urro favor tido como responsável pela situação da morféia era a rela-
Profilaxia", publicado primeiramente no jornal Obstado de S. Pau/oe depois ção entre os órgãos sanitários e as instituições filantrópicas sob a direção da
na Revia a Médica de São Pau/o, arrolou uma série de açõesrelacionadasà Santa Casa de Misericórdia. Essacondição, ainda ligada ao período colonial
lepra que não estariam dentro dos preceitos técnicos da ciência médica e e imperial, modificou-se com o surgimento de "asilos para doentes em São
bacteriológica. Uma delas dizia respeito aos dados estatísticos, que mostra- Paulo, Campinas e Itu que, embora recebessemauxílio do governo, eram
vam caminhos para sua erradicação, masque não foram consideradospela mantidos fundamentalmente pela caridade pública", não podendo, portanto,
reformasanitáriade 1911ioz.
"incluir tais práticas sob a noção de práticas de saúde; sua execução pela socie-
Em 1912, sobre casosde lepra, 106 municípios confirmaram a ocorrên, dade civil, muito mais do que agentes profissionalizados, configuraria uma
cia da moléstia,28 não a acusavamem seuslimites municipais, 3 1 não fome. espécie de tecnologia social de exclusão, de purificação do espaço urbano"'os
Geramdados e 10 não tinham referências sobre seu número de doentes. A O chamadoAsilo de Mendicidade,o Hospitalde Guapira,em funcio-
falta de dados ia ao encontro dos aturdidos pedidosde algumasautoridades namento desde 1901, revelava o quadro dramático em que vivia a população
sanitárias, mas os parcos números recebidos acabavammostrando que a lepra pobre, a qual dependia de seusserviços. Fundado em 1885 sob a responsabili-
estaria em segundo plano, por não representar ameaça epidêlnica. Ein relató, dade da Santa Casa, recebia todos os indigentes doentes, principalmente os
rio'03 enviado ao presidente do Estado, Rodrigues Alves, constavam os se- que tinham lepra e chegavam à cidade de diversos pontos do Estado, pois era
guintes números sobre morféia na capital: a única instituição de assistência social organizada naquele inomentoioó. Seus
números mostravam as dificuldades diárias, decorrentes do excessode doen-
Ano População Obitos Coeficiente por mil habitantes tes e da falta de qualquer investimento. Em 191 1, dispunha de apenas 29
300000 funcionários, a saber:
0,037
300000 0,037
300000 0,020
Diretor l
314000 0,073 lç4édico e cirurgião l
358000 0,058 Religiosas 7

400000 0.060 Empregados do estabelecimento 20

Segundo o relatório, a ação das municipalidades, principalmente as do Em 1911, havia 258 leitos, masos doentes chegavam, em alguns perco'
interior, seria responsável pelos números, que chegavam, em 1912, a 148 ca- dos, a 327, número superior ao que o hospital poderia suportar em todos os
sosde lepra, tendo sido quase nulos a ação contra sua propagação e seu com-
bate, o que reiterava a necessidade de um esforço profilático que favorecesse

104. /dem, p. 90.


105. b4aria Ines Baptistella Nemes, Á /íansenúse e as Práticas Sanitárias eíll São Pau/o; IO .Anos
102. "A Lepra em S. Paulo -- Notas sobre a Urgência da Sua Profilaxia", Revfsra à,/édfca de São de Sub-programade Controle da Hanseníasena Secretariade Estadoda Saúde(1977,i987}.
Pnu/o, 15 mar. 1913, n' 5, p. 92.
OP.cít., P. 36.
103. Relatório apresentado ao Dr. Francisco de Pauta Rodrigues Alves, Presidente do Estado de 106. Sobre a história da Santa Casa de Misericórdia de São Paulo no século XIX. sua divisões
São Paulo, pelo Secretario do Interior Aluno Arantes, ref. 1912, São Paulo, Typ. Brazil de administrativas, instituições e vida coEidiana,ver Laima Mesgravis, A Safira (hsa À41serícór-
Rothschild e Comp., 1913,p. 89. dia de São Paulo, op. cit.
68 TROPEÇOUDA MEDICINA BANDEIRANTE
I P O AOUnO OE QUE NECESSITAA ÁRVORE OA NAÇÃO 69

sentidos -- espaço e cuidados médicos'07. Nas visitas ao Hospital de Guapira, regime de exceção, um inspetor tomava se comandante geral da remodelação urbana

a caridadeexpressapor meio de doaçõeslembrava os "horrores da Idade cujas ordens toda a população deveria acatar. inclusive as autoridades municipais' ''.

N4édia","que têm, no conforto de um sorriso, o bálsamode algumaspa'


lavras amigasou uma lembrança material aós que a /erra exi/ou ein Gua- C) domínio e o conhecimento da febre amarela contribuíram exem,
pfra"'". Todas as acomodações e todas as ações estavam fora dos parâmetros plarmente para arrematar todas as discussõesacerca do papel do Estadosobre
mínimos da higiene moderna, e inviabilizavam qualquer tratamento possí- os municípios, numa mistura de conflitos políticos, institucionais e, nesse
vel. Essaera a moldura de um quadro muito mais dramático vivido em São caso,científicos, corroborando as idéias de Bruno Latour sobre a relação in-
trínseca entre o mundo social e o mundo dos laboratóriostit
Paulo, e que não faria parte das estatísticase dos êxitos propugnadospelo
Estado. Entre tantas divergências, o vetar da amarela entrava em pauta tam-
h'las e as cidades que tinham recebido as tais intervenções e gastos bém nos foros científicos, indicando a complexidade que envolvia as ques-
com a saúdepública? Teriam elasresolvido suaspendências sanitárias?Olhan- tõesde saúdepública naquelemotnento. Afinal, um dos motivos centrais
do mais detidamente para Campinas, como fez Ribeiro, via-se uma das cidades parao surgimentodo Serviço Sanitário era responderao que se identificava
mais "privilegiadas", do ponto de vista das açõesde saúde pública naquele como o maior mal que assolavao solo paulista, entravando suasambições
momento, notando-se, no entanto, após a erradicação da amarela, números económicas: a febre amarela e/ou seu vedor. Os doutores Lutz e Ribas tenta-
que denunciavam o abandono das ações sanitárias do porte das anteriores. vam, entre 1902 e 1903, ratificar as experimentações sobre qual seria o real
Com essapostura, Campinas erradicava a febre amarela, mas tinha outras vetor da doença, as quais já vinham sendo feitas em Cuba.
graves doenças atingindo sua população, só que sem os recursos necessários Paralelamente, experiências realizadasno Hospital de Isolamento, ten-
para um combate eficazi09. do como voluntários eminentes doutores brasileiros e italianos, procuravam
Como se vê, a partir das transformações efetuadas no sistema econâtni- comprovar a transmissão por mosquito, em duas frentes de pesquisa.Na pri-
co e social, São Paulo sofria com as epidemias que acompanhavam estasmu- meira, os doutores participantes receberiam sucessivaspicadas de insetos vetores

danças, e invertiam-se as relações: o que se viu foi a presença efetiva das mãos e, na segunda,durante onzesessões, dormiriam entre lençóis e roupasman'
sanitáriasdo Estadona preservaçãoexclusiva da vida de seus"cidadãos-pro' chadas e infectadas por sanguee vomito de doentes. A prova de que a trans-
dutores", mascom o domínio legal para qualquer intervenção que se julgasse missão se dava apenas pelo mosquito e não pelos doentes certamente reforçou,

necessária. Segundo Wilson Gambeta, com o tempo, a imagem heróica dessesmédicos. No Rio de Janeiro, cientistas
francesesjá tinham feito o teste, a pedido do próprio Dr. Ribas, que rapida-
o Serviço Sanitário estadual vinha estendendo suasoperaçõesem todas aszonas,fazen- mente fora informado dos resultados.Escreveu-lhe o Dr. Gonçalves Cruz: "ve-
do-se representar através de inspetores, desinfectadorese hospitais de isolamento, na rificaratn a existência do germen no sanguesó nos 3 primeiros dias da moléstia.
maior parte das cidades (...) e, em caso de epidemia, o poder sanitário instaurava um Verificaram mais, que a incubação da moléstia pode ir a 10 dias. Que o soro
aquecido de 10 graus a 55 graus é vacinante. Que o soro dos convalescentes é
preservativo"iiz. No entanto, a picada do inseto levou alguns voluntários à
107. Dados do Relatório de 1911 apresentado à Câmara Municipal de São Paulo pelo prefeito morte e, em outros, causousintomas como vomito preto, icterícia e
Raimundo Duprat, ref. 1912, São Paulo, Casa Vanorden, 1912, p. 93. albuminuria.
108. "A Lepra em S.Paulo Notas sobre a Urgência da sua Profilaxia", op. cíc.. p. 93. ]grifo meu]
109. "(-.) Campinas apresentou coeficiente de 13,77% dos óbitos por moléstias transmissíveis ou
infecto.contagiosas, portanto abaixo da Capital ( 17,52%), de Santos (26,87%) e de Ribeirão
Preto ( 16,89%). Nas décadasseguintes, ascondições da cidade pioraram, (-.) se excluirmos 110. Wilson Rnberto Gambeta. So/dados da Saúde; Formação dos Será,fios e]r] Saúde Púb/ica no
Estado de São Pavio (1889-1918), op. cit., p. 97
o ano da gripe espanhola, a participação dos óbitos por moléstias infecto-contagiosasno nú-
mero eoeal passou de 13,77% (1900.1909) para 15,68 % (1910-1919) e:B Campinas." Em 111. Bruno Latour, Naus Nt'lvons/amais écéÀÍodernes.
112. Gonça]ves Cruz, carta dirigida ao Dr. Emí]io Ribas, 20 ju]. 1903. [manuscrito]
Mana Alice Ribeiro, Hfstórfa semFim-., op. cft« p. 79.
70 TROPEÇOSDA MEDICINA BANDEII\ANTE I + O .ADUBO DE QUE NECESSITAA ARVOI{E DA NAÇÃO 71

Diante dessasmortes, em seu relato, o Dr. Gonçalves Cruz teve a preo- Entretanto, os desafetostambém cresciam,pois mesmocom a desco-
cupaçãode sublinhar a necessidadede se manter completo sigilo sobre o ocor- berta do mosquito causador,o scegoinyiaÉasclara,
e com as imposiçõesde
rido: "peço-lhe a mais absoluta reserva sobre essescasos terminados pela morte, Emílio Ribas, a oposição ainda repudiava a doutrina havanesa e contra ela se
e que foram feitos sob minha exclusiva responsabilidade.Compreende o meu insurgia, aconselhando os responsáveispela saúdepública, governos e autori-
caro amigo como a imprensa nossaadversária explorada o fato, se dele tivesse dadessanitárias a não se deixarem seduzirpela nova doutrina e a pennanece-
conhecimento". Quanto às roupas que foram usadaspelos doentes, descartou, rem dentro do sistema antigo''ó. A teoria cubana, intensamente debatida
se a possibilidade de transmissão: "julgaram os sábios franceses serem elas des- dentro e fora do país,era vista como um erro por muitos.
necessárias
não só à vista do que já há feito, massobretudoporque,pelos O Dr. Fernandez
lbarra, por exemplo,foi destituídode seucargona
conhecimentos que se têm sobre a etiologia da febre amarela, não são elas cabí, comissão havanesa depois de escrever vários artigos contrários à teoria. Em
veis, sendo a prlorf desnecessárias,porquanto é impossível a transmissão pelas São Paulo, a Revista Médica registrou o apoio de diversos sócios, revelando o
roupas, à vista do que se conhece sobre o modas vívendí do gérmen amarílico"i i3. quanto a questãoera discutível. Em carta endereçadaao Dr. lbarra, o Dr.
Com os diagnósticos formulados e previstos, puderam o Dr. Ribas e o Arthur Mendonça concordavacom asproposiçõesdo colega-- de que o mos-
Dr. Lutz analisar o que vinham registrando aspesquisasrealizadasno exterior, quito não era o causador da amarela --, como l nostravain Santos e Clampinas,
tentando em vão aplacar os posicionamentos coléricos contra o regime de lugares em que, dizia, ninguém teria matado mosquitos, luas de onde, ao mes-
intervenções empregado: mo tempo, a febre amarela teria desaparecido. Defendendo essaposição, de-
sabafava:"parece que acabaremosforçados a nos expatriar para poder omitir
O artigo de ontem do Adolpho Pinto foi uma magnífica introdução para o opinião '''
nossorelatório, revelando ao público o que a Higiene oficial de S. Paulo teta feito a Já aquelesque estavamdo lado do Dr. Ribas e concordavam com a tese
bem da Ciência e da humanidade. Escrevi a ele ontem, reclatnando contra a parte de havanesa tentavam descobrir a fórmula para combater o mosquito e produzir
Inexatidão quanto à conduta da Diretoria da Higiene. Espero que ele tornará pública o soro capaz de livrar os doentes da morte. Para isso, usava-se toda a criatividade,
a minha carta. Mas, no fundo. devemos agradecer-lhe a censura. porque vem cabal- mesmoque não passasse de mera conjectura sem fundamento. Por que não
mente justificar nossasexperiênciasfeitas em cidadãosprestantes.Ninguém mais tentar? subentendia,se na carta do Dr.' Pereira Barreto:
poderáacusar-nosde tentativa de homicídio e, muito pelo contrário, o público agra-
decerá ao Diretor da Higiene Estadual os serviços prestados, o que se submeterá de (...) não será conveniente mandar experimentar o soro antiofídico contra a febre
bom grado a todas as contingências da guerra de extermínio aos mosquitos''+. amarela?Não existindo tratamento algum para essamoléstia, parece-meque deve-
mos tudo tentar, tudo experimentar,enquanto não conseguirmosaniquila-la pela
Diante de um ato consideradotão grandiloqüente,não tardaramos
extinção da stegomya. Está lançada a idéia no domínio público; grandes esperanças
aplausos e as reverências:
estãodespertadas;é, portanto, aproveitar o momento. Saberemosde pronto seé ou
não eficazo plano delineado, de onde resultará para nós todos um grande alívio de
só pela leitura do relatório soube que tínheis, com o Dr. Lutz, vos submetido a picadas
consciência. ' ' '
de mosquitos infeccionados; a admiração que inspirou-me essevosso devoEatnento
levou.me a dirigir-vos estacarta com o fim de vo-la exprimir com toda a sinceridade.
O próprio Dr. Ribas, estudioso da febre amarela e alinhado entre os
assegurando-vos,ao mesmo tempo, que idêntico sentimento terão todos que se inte-
que consideravam a picada de pernilongo a única transmissora da amarela,
ressempela salubridade de nossapátria e principalmente pela higiene de São Paulo' '5.

113./dem. 116. Emitia Ribas, Á Hygíene no Estado de São Pnu/o, p. 4


114. Carta do Dr. Peneira Barrela para o Dr. Emí]io Ribas. 20 fev. 1903..tmanuscrito] 117. Arthur Mendonça, "Febre Amarela", p. 222.
115. Eduardo Lopes, carta dirigida ao Dr. Emí]io Ribas, 25 fev. 1903. [manuscrito] 118. Lula Pereira Barrete, carta dirigida ao Dr. Emí]io Ribas, 31 mar. 1903. [manuscrito]
72 TROPEÇOUDA MEDICINA BANDEII{ANTE 1+ o ADUBO DE QUE NECESSITAA ARVORE DA NAÇÃO 73

corria aos jornais de São Paulo e do Rio de Janeiro para desfazer"boatos", como única medida profilática eficazcontra a expansãoda moléstia. (...) Tomando
esclarecendo a população sobre o que teria acontecido "de fato", além de se todo o cuidado para afastarqualquer dúvida, obtive mosquitos de larvas apanhadas
defender daquelesque o reputavam homicida, pelasexperiências realizadas na cidade de Itu. onde não grassavaa moléstia, e os enviei imediatatnente a São
no Hospital de Isolamento. limão, a 365 quilómetros de São Paulo. onde por eles fizeram-sepicar indivíduos
Providencialmente, em 1908, corriam, na cidadede São Paulo,rumo- atacadospela febre amarela':'
ressobre a morte por febre amarelade um funcionário do Serviço Sanitário,
o Dr. Bonilha de Toledo. Dizia-se que o contágio se havia dado pelo contado Essaera uma versão científica e harmoniosa, que resumia o caminho
com roupas de doentes que estavam em Taubaté e foram enviadas para a percorrido aos tubos de ensaio e à observação dos trabalhos científicos, prin-
capitalitP. cipalmente das pesquisasnorte-americanasem Havana. Era a história que
Segundo as declarações do Dr. Ribas, a vítima, que estaria acalmada Emílio Ribas procurava aproximar da imagem do Estado de São Paulo e do
desde o dia 18 de abril, jamais tivera contato com tais roupas, que, no dia 22, Brasil republicano: a modernidade e a salubridade, com um povo ordeiro que,
permaneciam ainda em Taubaté. Para ele, em vez de prestar atenção em his, graçasà ciência e à tecnologia médicas, teria o substrato de um homem sau-
tórias sem fundamento, a população deveria estar "combatendo o único agente dável, morigerado e atento às novas perspectivas do mundo. Enfim, um país
demonstrado da transmissão da febre amarela -- o pernilongo rajado (sregomya construído pelas mãos dos sanitaristas.
Éascfata)-- que infelizmente se encontra em abundância em diversos bairros Entretanto, como acompanhamos, o cotidiano das investidas sanitá-
desta capital"':o. rias e a disparidade entre o ideal da própria ciência médica e de suas exigên-
As açõescampanhistase bacteriológicascontra a amarelaforam vito, cias, quer no espaço urbano, quer no rural':: -- e os resultados obtidos pelas
riosas, assimcomo o Dr. Emílio Ribas e seusadeptos. Em comunicação reali- avaliações anteriores permitiam ver que, até a década de 1920, essasações
zadaem Londres, na Society ofTropical Medicine and Hygiene, em 1909, ele eram limitadas, preservavam pontos fundamentais para os encaminhamentos
expunha, em tom conciliatório, sua luta contra a amarela dentro dos melão, mais urgentes, do ponto de vista político e económico, relegando a grande
res preceitos da civilidade, e apresentava o Brasil como um país de regras maioria da população à situação de verdadeiro abandono diante de várias
democráticas, como todos os paísesliberais. Em seu discurso, concorria para doençase "finais de epidemias". O alegado êxito totalizador do projeto sani-
erigir as representaçõesque fariam de São Paulo o novo berço da ciência e da [átio paulista implementado -- que teria rompido as barreiras epidêmicas, per'
civilidade: mitindo o avanço do capitalismo -- deve ser nuançado por novas perspectivas,
que mostrem os equívocos do projeto instaurado.
Depois que os Drs. Reed Caroll Agramonte e Lazear, mais tarde Guiteras. Por isso, a independência do projeto sanitário estadual paulista frente
inspirados pelas longas observações de Finlay, fizeram em Cubo as primeiras expe' aos órgãos federais, responsáveis pela manutenção e controle da salubridade
riências sobre a transmissibilidade da febre amarela pelo sfegomya Éasc/ata,fiquei da "nação brasileira", deve ser estudada em seu papel político de dissipar as
convencido da precisão de suasexperiências e da verdade de suasdeduções. (...) Jul- epidemias que ameaçavam somente determinados obstáculos, luas com êxi-
guei conveniente repetir as experiências de Havana na cidade de São Paulo, que tos incertos e, em algunscasos,nulos. Mesmose dizendo apta a, por si só,
nessaocasião e desde alguns anos se achava isenta de qualquer epidemia de febre identificar e viabilizar uma normatividade capazde regular o público e o pri-
amarela. Resolvi ao mesmo tempo fazer aviva a campanha contra a stegomya Éascfara.

121. Emílio Ribas, "A Extinção da Febre Amarela no Estado de São Paulo (Brasil) e na Cidade do
119. Comunicação veiculada pelo Dr. Ribas aos principais jornais de São Pauta e Rio de Janeiro Rio deJaneirorl'he Extinction of Yellow Fever in the Skateof SãoPaulo (Brazil), and in the
no dia 10 de maio de 1903, e publicada na Revista À/édfca de São Pau/o, Anno VI. n' 7. 15 Cita of Rio de Janeiro". Revista ÀÍédíca de São Pau/o, Anno Xll, n' lO, 15 jun. 1909, pp.
maio 1907, p. 186. 198-205. .4pud Marca de Almeida, Repúb/fca dos /nvísíveís, op. cfr., p. 131.
120. /dem, p. 186. 122. Jurandir Freire Costa, Ordem À/édíca e Norma Enmf/far, p. 124.
74 TI\OPEÇOS DA M Et)ICINA BAND)EII\ANTE

vado':3, a corporação médica se deparou, a partir dessa prerrogativa, com re-


trocessose pendências insuperáveis.
A capital paulista se pretendia o modelo lapidar dessaidéia, sendo for,
ça motriz de toda representaçãoda medicina, suastécnicas e discursos.Afi-
nal, como afinnou um conhecido médico paulista, tratava-seda paulicéia.
florescente e próspera colho nenhuma outra da República, que dia a dia am,
pliava suasuperfície habitável e, ano a ano crescia na massade suapopulação
e se realçava em formosura pela mão do homem, o qual tinha aprimorado e
transfonnado tudo numa obra secular de civilização e progresso,devendo ser
considerada uma cidade excessivamente salubre, verdadeiramente saudável e
em que a higiene teria aniquilado os mornos que deturpavam o bom conceito
de uma povoação'"

123.JoséRicardo de C. M. Abres, Epídemfo/og/a e Emancipação. op. cfr., p. 115


124. Rubião Medra, "As Moléstias Infectuosas e a Hygiene em São Pauta: Parallelo com outras Ci
Jades do Brazil e algumas Cidades da América Latina", p. 361.