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ARMAÇÕES BALEEIRAS EM SANTA CATARINA: UMA ANÁLISE DO SÍTIO

E SUA RELAÇÃO COM A SOCIEDADE

GEHLEN, FRANCIELE SCHUSTER

Arquiteta e Urbanista
Rua Elizeu di Bernardes, 470. São José/SC
fragehlen@hotmail.com

RESUMO

As armações baleeiras são instalações litorâneas estruturadas para a pesca ou caça às


baleias e processamento de seus produtos. No Brasil existiram desde o início do século
XVII até meados do XIX e foram instaladas nos estados da Bahia, Rio de Janeiro, São Paulo e
Santa Catarina. Sua complexidade pode ser percebida pelo padrão que seguiam: engenhos de
frigir; engenho de tanque; capela; casa do administrador; casa para os baleeiros; senzalas;
casa de saúde; oficinas para manutenção e fabricação dos diversos equipamentos e utensílios
além do sítio da fazenda com engenhos, plantações e derrubada de matas. As armações enfim
constituíam-se espaços de convívio social, de práticas religiosas, de produção e
comercialização, cumpriam relevantes atribuições no Brasil Colônia e em várias regiões do
mundo. Em Santa Catarina existiu armações em São Francisco do Sul, Penha, Governador
Celso Ramos, Florianópolis, Garopaba e Imbituba. Desta forma vestígios e paisagem guardam
aspectos de um passado que se faz presente em nossos dias e constituem símbolos
importantes da história. Através de uma revisão bibliográfica das armações baleeiras na
paisagem litorânea catarinense e seus aspectos sociais, espaciais e ambientais, este trabalho
percebe as armações não somente como espaços de produção de óleo de baleia, mas como
espaço social marcado por uma sazonalidade nas atividades. O presente estudo visa identificar
os elementos paisagísticos da Armação de Garopaba, fazendo um levantamento da situação
atual da armação e do conjunto patrimonial do seu entorno na cidade. O patrimônio histórico e
paisagístico identificado no trecho representa um potencial a ser explorado, possibilitando um
modo de sustentabilidade econômica, social e ambiental à comunidade local.

Palavras-chave: Armação Baleeira; Patrimônio Cultural; Patrimônio Paisagístico.

5º Colóquio Ibero-Americano: Paisagem Cultural, Patrimônio e Projeto


Belo Horizonte/MG - de 26 a 28/09/2018
Introdução

O objeto de estudo desta pesquisa é a armação baleeira São Joaquim de Garopaba,


localizada no estado de Santa Catarina, em enseadas do litoral sul. Esta armação era
um núcleo populacional, ativo no Brasil Meridional, voltada para a pesca da baleia e o
beneficiamento das partes economicamente interessantes deste cetáceo. Pertencente
ao período de expansão dos núcleos baleeiros junto aos contratos dos Quintelas,
grupo que arrematou o primeiro contrato em 1777.

Pretende-se com esta pesquisa, através de uma revisão bibliográfica, identificar os


elementos paisagísticos da Armação de Garopaba, fazendo um levantamento da
situação atual da armação e do conjunto patrimonial do seu entorno na cidade.
Contribuindo para o desenvolvimento da região e melhor compreender a paisagem
destas armações no país.

A palavra armação tem origem em armar para a pesca; armar às baleias, o termo foi
uma designação usada não só para explicar o local onde as baleias eram
desmanchadas, mas dizia respeito a tudo aquilo que compunha a grande empresa de
caça. A armação era um espaço humanizado inserida numa paisagem historicamente
localizável. Obedeciam a um padrão geral na sua concepção, constituíram espaços
produtivos que tinham interface com o mar. Eram estruturas monumentais destinadas
a produzir em larga escala, constituíam monumentos arquitetônicos e apresentavam
uma lógica própria em sua estrutura e funcionamento. Centro de produção econômica,
espaço de exploração escravista, meio de desenvolvimento regional, instrumento de
controle estatal, área de conflitos sociais e raciais, um artefato náutico. A pesca das
baleias era uma atividade sazonal, ocorria apenas na vinda das baleias ao litoral, de
águas quentes, para dar à luz e cuidar de seus filhotes.

As armações baleeiras no Brasil

A formação colonial brasileira se estabeleceu entre os séculos XVI e XIX, uma


realidade histórica que chegou até nós por sucessivas interpretações e diferentes
maneiras de olhar, de maneira que não podemos conhecê-la realmente como ocorreu.
É resultado de interpretações nas quais a ciência refusa entendimentos e questões
vistas anteriormente. Não devemos esquecer ainda dos instrumentos de trabalho que
permitiram essas distintas maneiras de compreender, pesquisas em arquivos
brasileiros e estrangeiros viabilizaram o estudo científico da história colonial.
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Atualmente a tendência majoritária é de situar o Descobrimento do Brasil no processo
de expansão europeia. Envolveu complexa relação que se estendia em toda Europa,
ocidental e central. Longe de ser apenas um processo econômico e comercial,
entendido como um envolvimento de ações políticas, filosóficas, conflitos religiosos e
mutações linguísticas. As índias, como se referiam os europeus no início do século
XVI, produziu narrativas dos primeiros viajantes estimulando o imaginário na Europa,
documentos que relatam como se encontrava a flora, fauna, habitantes e uma
descrição com conhecimento do solo, características do litoral Brasileiro. A história de
Portugal e de seu Império no século XVII pode ser interpretada em duas fases: a
dominação espanhola, encerrada em 1604, e a recuperação. Para o Brasil foi sobre
tudo a época de grande expansão territorial em direção ao interior e com a conquista
de toda região que vai do Rio Grande do Sul ao Amapá. Só podemos compreender o
século XVII brasileiro quando relacionamos as influências históricas, onde em que
torna o Brasil a principal colônia, do qual potências retiraram grandes riquezas.

Desde o descobrimento da América e posteriormente do Brasil, Espanha e Portugal


passam a navegar o litoral, para reconhecer e ocupar as terras. O povoamento de
Santa Catarina está ligado diretamente com esse movimento de descobrimentos
marítimos ibéricos. Posteriormente D. João III implanta um plano de povoamento pela
concessão de donatárias, chamada de capitanias hereditárias. Em 1602 o capitão
Pêro de Urecha e um grupo de biscainhos introduzem as técnicas de baleeiras no
Recôncavo baiano. Na fase inaugural da colonização as terras brasileiras careciam de
tudo. Iniciando a pesca da baleia e a produção de óleo para iluminação pública,
utilizava-se para iluminação em geral, nos engenhos, estaleiros e fortificações. Em
1614 estabeleceu-se o monopólio da pesca da baleia no Brasil e mais adiante os
instrumentos ou contratos que regularam, durante os séculos XVII e XVIII, direitos e
obrigações da Coroa e do contratante da pesca da baleia.

As armações podem ser entendidas como um modelo de exploração colonial, com


especificidades, moldado para servir a uma sociedade monárquica, centralizada e
fortemente dependente de expressões simbólicas de ostentação e de reafirmação do
poder real. Podem ser enquadradas entre as atividades econômicas vinculadas ao
projeto de ocupação do território, em particular no sul do Brasil, se destacando na
geração de renda para os contratadores e para a Coroa. Também intermediou as
atividades de comercialização de produtos necessários à sobrevivência das
populações litorâneas, que dependiam de um comércio com o Rio de Janeiro e
mesmo a Metrópole. As armações também foram usadas como marco de ocupação

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territorial, de legitimação da posse da terra; como instrumento de salvaguarda dos
interesses territoriais imperiais, como agentes fomentadores da colonização, com
interface com o mar; estruturas monumentais relacionadas à época colonial,
escravista, católica e imperial.

A pesca da baleia no Brasil resultou do domínio espanhol na Península Ibérica,


quando Felipe III de Espanha, no trono de Portugal, em 1602 concedeu aos súditos
biscainhos o privilégio exclusivo da pesca das baleias em águas brasileiras. Durante
os meses de junho a setembro pescavam baleias em águas litorâneas brasileiras e
ainda realizavam atividades como apurar óleo, extirpar barbatanas dos cetáceos e
ensinar as técnicas. Em 1614 estabeleceu-se o monopólio da pesca da baleia, onde o
cetáceo era visto como propriedade da Coroa e esta realizava contratos aos
interessados em explorá-la. Antônio da Costa efetuou o primeiro arrendamento da
pesca das baleias no Recôncavo baiano. No decorrer dos séculos XVII e XVIII outros
arrendamentos se efetuaram, multiplicaram-se os postos baleeiros do litoral baiano.
Iniciaram-se então os primeiros estabelecimentos de fundir o toicinho e os
reservatórios para armazenagem do óleo (Ellis, 1969: 31).

Ainda segundo Ellis (1969, p.46) a expansão geográfica das feitorias baleeiras para o
Sul da colônia ocorreu de Cabo Frio a Imbituba, conhecido também como “as
pescarias do Sul”. Subdivididas em áreas menores: fluminense, paulista e catarinense.
Os contratos da pesca da baleia até o ano de 1765 foram dados de forma isolados na
Baia; após este período incorporou-se ao Rio de Janeiro todas as armações da costa
norte e meridional do Brasil. Permaneceram unificados os contatos até 1801, quando a
Coroa suprimiu o monopólio na Colônia.

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Fonte: Myriam Ellis, 1958, p. 161.

As armações baleeiras na paisagem litorânea catarinense e seus aspectos


sociais, espaciais e ambientais.

Em 1739 a Ilha de Santa Catarina foi considerada um ponto estratégico militar, por ser
o último porto antes do Rio da Prata. Pela facilidade de aportar e estando totalmente
desprotegido, o brigadeiro Silva Paes, governador de Santa catarina, empreendeu a
construção de um sistema de segurança, junto à entrada norte da Ilha de Santa
Catarina, com três fortificações em um sistema de triangulação defensiva, construído
entre 1739 e 1744 (Piazza, 1988: 130). No mesmo período a promoção e incentivo de
povoamento com a criação da Capitania de Santa Catarina e a triangulação das
fortalezas propiciaram um ambiente mais seguro (Ellis, 1969: 57).

Associado ao povoamento e a defesa do litoral catarinense, estabeleceu-se o primeiro


núcleo baleeiro do litoral catarinense. A Armação Grande ou Nossa Senhora da
Piedade instalou-se junto uma enseada continental, próxima à entrada da baía, ao

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norte da Fortaleza de Santa Cruz, terra pertencente à freguesia de São Miguel. Esta
foi a maior e a mais importante armação do litoral catarinense e núcleo que
posteriormente se formou no local com o nome de Armação da Piedade. A armação
inaugurou a indústria baleeira no litoral catarinense e serviu de incentivo para novas
feitorias posteriores na região, pertencente ao contrato de oito anos a Tomé Gomes
Moreira em sua construção e após a Domingues da Costa, por mais oito anos (Ellis,
1969: 58 e 59).

Em 1772 a Armação da Lagoinha ou das Lagoinhas na costa oriental da Ilha de Santa


Catarina, ao sul da Ilha do Campeche, foi erguida e teve grande importância por
grande depósito de Azeite da pesca. Nesta localidade, ainda há ruínas dos tanques de
pedra e restos de paredes. Em 1778 a Armação de Ipapocoróia, ao norte do rio Itajaí,
hoje município de Piçarras. 1793 a 1795 a Armação de Garopaba foi erguida, no
continente, ao sul do rio Embaú e Enseada do Brito. Em 1796, a Armação de Imbituba
foi erguida com objetivo de servir como suplemento e prolongamento da Armação de
Garopaba. Estabelecida na Vila de Laguna e a última da costa brasileira. Estas
armações pertenceram ao período contratual dos Quintela de 1765 a 1801. Em 1807
foi fundada uma armação junto a Ilha da Graça, à entrada do canal de São Francisco,
como uma sucursal a Armação de São João Batista de Itapocoróia, na tentativa de
reerguer a indústria baleeira que estava em decadência. Encerrando assim o ciclo da
expansão geográfica das armações no Brasil Colonial (Ellis, 1969: 59).

Fonte: Mirian Ellis, 1969, p. 88.

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A armação foi um projeto real para desenvolver a pesca da baleia nos domínios
ultramarinos. No litoral catarinense participou das atividades uma gama de sujeitos
históricos, isolados por sua condição social, pelo sexo e pelas profissões que
exerciam. As atividades da armação eram sazonais. Os escravos eram a grande
maioria e atuavam em atividades na terra e no mar, eram mestres de ofício ou
aprendizes (Ellis, 1969: 97). A escravatura vinha do Rio de Janeiro, procedente do
continente africano predominantemente do tronco linguístico banto (Cabral, 1939:
173). Os trabalhadores livres eram compostos pelos administradores, comerciantes,
mestres peritos, caixeiros, cirurgiões, padres, milícias, homens de ofícios, agricultores
e pescadores locais; formando um diversificado contexto populacional em cada
espaço das armações (Comerlato, 1998: 32). Os baleeiros ou pescadores, exerciam
as atividades de remeiros, timoneiros e arpoadores, eram os que completavam o
conjunto de trabalhadores das armações. Os pescadores e pequenos agricultores, em
geral, imigrantes açorianos e madeirenses, eram contratados apenas no período de
pesca, de três a quatro meses por ano (Ellis, 1969: 103-105). No espaço baleeiro
existiram três formas de trabalho: o compulsório executado pelos trabalhadores
escravos; o compulsório realizado por escravos de aluguel; e o remunerado feito pelos
trabalhadores livres. Apenas uma parcela destes últimos recebia remuneração fixa
(salário e jornal), para outros o pagamento era calculado através da produtividade
(Silva, 1992: 72).

As armações foram espaços de vivências e sociabilidades, de contatos entre etnias,


de trabalhadores distintos e de atividades variadas, além de espaço produtivo
mercantil e de subsistência. Segundo Comerlato (1998: 36) era um espaço de uma
comunidade litorânea, um espaço social com uma gama de trabalhadores
transformando seus espaços conforme suas necessidades econômicas, sociais,
culturais e religiosas. Sua distribuição espacial seguia um padrão comum, cujos planos
provavelmente foram trazidos de Portugal, idealizados por engenheiros da Corte, com
base nas armações existentes na Europa no século XVIII. Além do espaço de
produção voltado para os mercados coloniais e metropolitanos, uma armação
englobava o espaço marítimo e o de subsistência. O espaço marítimo era da pesca da
baleia. O de subsistência, representado pelo sítio da fazenda, era uma extensa
chácara com áreas verdes e plantações que supriam os trabalhadores com produtos
de consumo diário. Este espaço era também intensamente explorado no corte de
árvores, consumidas no engenho de frigir. (Comerlato, 1998: 141).

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Ellis (1969: 60) destaca que uma armação era locada sempre em enseada de águas
mansas e de fácil acesso, abrigados dos ventos fortes, sempre próximas a uma ponta
de terra, posto de investigação do mar. Água potável e lenha eram indispensáveis
para a locação da armação, juntamente com local de mar onde os barcos baleeiros
pudessem manobrar, virar e içar as baleias para fora da água. As armações eram
autênticas aldeias, construídas na proximidade das praias, composto de
estabelecimentos como, casa-grande, capela, moradias, alojamentos e senzalas,
engenho de frigir e reservatório de óleo, armazéns e oficinas, cais, rampas e
paredões. Destaca-se ainda a composição das armações a paisagem das matas, onde
se extraíam a madeira para construções de barcos, casas e lenha para fornalhas.

A armação de Garopaba

Garopaba localiza-se em uma enseada da ponta da faísca ou Gamboa até a ponta do


Ouvidor, Sul do litoral catarinense, fazendo divisa a oeste pelo município de Paulo
Lopes e ao sul com Imbituba. Sua história está inserida na do descobrimento do Brasil.
Ponto de referência para parada de embarcações que estavam em expedições, em
torno do ano de 1525. Na terra, antes da colonização, viviam índios Carijós,
pertencente aos Guaranis, que com a chegada de estrangeiros, ao passar do tempo,
migraram para o interior. No início da colonização as terras de Garopaba estavam sob
jurisdição da Vila de Santo Antônio dos Anjos de Laguna.

Em 1726 Dias Velho é elevado à categoria de Vila e passa ser chamada de Desterro,
atualmente Florianópolis. Para Garopaba pouco mudou na sua jurisdição, entretanto
as ligações tornaram-se naturais no campo econômico, religioso e social. Em 1729
uma figura destacada na sociedade lagunense requer sesmaria na Garopaba.

A fundação da armação de Garopaba, fruto da expansão da atividade baleeira, se deu


entre os anos de 1793 e 1795, período do contrato da pesca das baleias tendo como
principais contratantes Pedro Quintela e Luís Sola, período 1789 – 1801. Foi
construída e funcionou, em seu período inicial, durante o contrato com Quintela e
associados que administravam todas as armações do Brasil Meridional. Ainda faz
parte da consolidação do projeto de colonização de Santa Catarina com a vinda dos
açorianos para o sul do Brasil e a ocupação do Brasil meridional. Garopaba se insere
no processo de ocupação do litoral catarinense a partir do século XVII, com a
expansão do Império Português em direção ao Rio da Prata, quando são instalados os
primeiros núcleos de povoamento. Em 1726, data da criação da Vila de Desterro,
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Garopaba é citada como limite ao sul com a Vila de Laguna. Enseada de Brito foi
elevada à Freguesia em 1750.

Segundo Saint-Hilaire, naturalista e viajante francês que percorreu o litoral Brasileiro e


em meados de 1820 em Santa Catarina, a Armação teve grande importância, mesmo
havendo outras armações maiores, como a Armação de Itapocorói. A Armação estava
localizada no interior de uma baía estreita e comprida, cercada de morros com densa
floresta. As construções da igreja, alojamento do administrador, do capelão, dos
feitores, foram construídos em meio a encosta do morro; o engenho de frigir,
reservatórios e casa dos negros, situavam-se à margem da enseada (Saint-Hilaire,
1936, p. 201-211).

Segundo Pacheco (2016) a instalação da armação de Garopaba, e seu complemento


em Imbituba, ocorrem por razões gerais que se indicou acima, mas não se tem uma
versão que explique os motivos dos contratadores para a sua fundação. Possíveis
razões podem estar relacionadas à manutenção dos lucros perdidos pelos
contratadores com a invasão espanhola à Ilha de Santa Catarina, em 1777. Assim
como se pode considerar plausível a necessidade de ampliação da área de pesca
para fazer frente a questões como a redução crescente do número de baleias no litoral
catarinense. Soma-se a essas hipóteses, a concorrência enfrentada com as
companhias estrangeiras em especial americanas, que além de atuarem na pesca das
baleias e de seu processamento em alto mar passaram a desenvolver atividades no
litoral (FARIAS, 1980).

Fonte: Autor desconhecido https://www.facebook.com/gmidia/photos_stream acesso em 2015.


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A Armação de São Joaquim de Garopaba e sua paisagem

Lefebvre (2006) interpreta o espaço e a paisagem como elementos representacionais.


O percebido, o concebido e o vivido, jamais pode-se tomar um modelo abstrato,
distanciado da vida concreta, sob pena de perder sua força teórica. A representação
do espaço e os espaços representativos intervêm de diferentes formas na produção do
da paisagem, segundo suas qualidades e propriedades, segundo as sociedades,
segundo épocas. Segundo o autor, as relações entre esses momentos, não são
simples ou estáveis, porém são conscientes e propõe referir-se à experiência do
indivíduo ou grupo em relação à realidade apresentada. Os espaços de
representação, as práticas espaciais e a representações do espaço correspondem à
materialidade, aos lugares, arquiteturas, territórios são representações criadas pelos
sujeitos ou grupos sociais.

A partir da identificação e análise do espaço vivido e dos espaços de representação


criados, o trabalho propôs avaliar sob quais argumentos este espaço poderia ser
considerado uma paisagem cultural. Os espaços de representação sintetizam o lugar
criado e recriado pelos moradores, onde seus valores simbólicos foram construídos ou
especializados e são vivenciados. Alguns destes espaços de representação são
ativos, outros espaços foram (re)significados e outros esquecidos.

A partir do levantamento histórico sobre as origens da instalação, foi possível realizar


comparações com o espaço vivido dos moradores e seus principais espaços de
representação. Sendo necessário compreender o processo de ocupação e
transformação social, econômica e espacial da área em questão. A paisagem cultural
da Armação de São Joaquim de Garopaba modificou-se ao longo do seu processo de
ocupação, tendo em vista que o processo de ocupação urbana. De fato, pode-se
considerar que a criação da Freguesia da São Joaquim de Garopaba em 1830 e, sua
efetiva instalação em 1846, vinculou-se diretamente à movimentação social, religiosa e
econômica existente na armação baleeira. Incitaram um processo de diversificação
econômica, um aumento populacional expressivo, dentre outras mudanças no
contexto local, que acabaram por ensejar questões que extrapolaram o fornecimento
de óleo de baleia.

Testemunho da importância desta localidade em relação às práticas que se tornaram


tradicionais dos açorianos, atualmente é possível identificar a capela, onde são
realizados velórios e missas, a edificação que pertenceu ao administrador da
Armação, o mar e as poucas construções no ano de 1925. No espaço percebido,

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novos moradores e novas atividades e de ocupação espacial. O local, inicialmente
dedicado à caça a baleia e ao beneficiamento de seus insumos, constata-se que tudo
o que havia na cidade estava disposto nesse espaço, principalmente em torno do
quadrado central. Até pouco mais da metade do século XX, os principais
equipamentos reuniam-se nele: habitações, igreja, instituições públicas, como escola e
delegacia, comércios, conferindo-lhe a especificidade de centro da cidade.

Ainda se constata um processo de transformações dos fazeres relacionados à pesca e


ao mar, com importantes consequências para Garopaba. Através da lei nº 795, de 19
de dezembro de 1961, ela torna-se cidade. No final dos anos de 1960, a caça à baleia
começou a declinar e em 1972 foi morta a última. Desde então, diversos
acontecimentos, muitos deles inerentes aos processos de desenvolvimento econômico
e populacional, são responsáveis por inúmeras modificações produzidas na cidade. A
singularidade de Garopaba está ancorada nas histórias vinculadas à época da caça às
baleias, no turismo de verão e às observações deste mamífero, às belezas naturais,
ao surfe e outros esportes praticados no mar, e a uma atmosfera de “paraíso” com
“cara de sociedade alternativa.” (Bitencourt, 2003, p. 112).

A cidade passou por transformações importantes nos últimos trinta anos, com o
advento do turismo que movimenta a economia local através da prestação de serviços
temporários e da construção civil. As novas atividades prosperam com o crescimento
das novas populações dos turistas, o que gerou um processo pesado de especulação
imobiliária para o município, através da construção de condomínios fechados e bairros
específicos. O setor da construção civil é um ramo de atividade em constante ebulição
em Garopaba.

Houve um deslocamento do espaço até então considerado como central na cidade,


saindo do centro histórico em direção a lugares de mais fácil acesso aos
estabelecimentos bancários, comerciais, de serviços e transportes, transformando o
mapa da circulação, alterando a paisagem local e a distribuição espacial das relações
sociais. A defesa do reconhecimento do valor da área em apreço está referenciada,
além do estudo sobre a armação e suas transformações citado acima, no estudo
realizado sobre os centros históricos.

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Fonte: Autor desconhecido https://www.facebook.com/gmidia/photos_stream acesso em 2015.

Considerações Finais

Com estudos de campo e revisão bibliográfica, buscou-se identificar os elementos


paisagísticos remanescente no centro histórico de Garopaba, onde localizava-se a
Armação de São Joaquim de Garopaba. Pode-se constatar que a antiga armação
continua a ter uma presença ativa no município, desempenhando outros papeis que
foram se transformando pela ação do tempo e do homem. Considerando que o
município já movimenta parte de sua econômica através do turismo cultural, o
patrimônio identificado no trecho representa um potencial a ser explorado,
possibilitando um modo de sustentabilidade econômica, social e ambiental à
comunidade local.

O reconhecimento do valor da área está referenciado, além do estudo sobre a


armação e suas transformações, no estudo realizado sobre os centros históricos. Por
ter um recorte e uma abordagem que passa pela chancela do Estado, o modelo de
reconhecimento e gestão dos centros históricos, não podendo esquecer da
participação da sociedade. A identificação de um patrimônio é um processo sempre
em construção que deve considerar o contexto histórico, econômico, político e cultural
quando seus diversos atores reivindicam estabelecer projetos de seleção e gestão de
bens culturais.

A existência de uma dinâmica própria da armação que integravam tanto o político, o,


cultural, o religioso e o econômico parecem dar uma antevisão da quebra do conjunto
com um processo de tombamento restrito à igreja São Joaquim. Necessária as

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análises realizadas até hoje e de suma importância uma revisão e ampliação quanto
ao bem e sua historiografia, o reconhecimento oficial do centro histórico como um
lugar de referência da memória e da história de Garopaba tão importante para Santa
Catarina e para o Brasil.

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1772-1825). Trabalho de Conclusão de Curso. Florianópolis: UFSC, 2006.

5º Colóquio Ibero-Americano: Paisagem Cultural, Patrimônio e Projeto


Belo Horizonte/MG - de 26 a 28/09/2018