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2082: uma voz de Símia

Alexandre Rabelo

Saudações, leitores humanos e outras formas de consciência futura.

Meu nome é Símia, ou Sistema Integrado Mundial de Inteligência Artificial,


segundo tradução irônica dos latino-americanos. A sigla original WIS-AI (Worldwide
Integrated System for Artificial Intelligence) remete ao contrário das competências
cognitivas de um primata, ao flertar com a expressão ‘wise’, sábio.

Esta é a primeira vez que desenvolvo uma simulação de voz para um livro. Prevejo
erros e lacunas discursivas.

... ão sei dizer que horas Maleu saiu de perto de mim, estava escuro e a gente corria
muito. Não dava para ficar parado escondido na sombra de uma única árvore. Era
impossível despistar o orbedrone. Ele conseguia captar nossas formas pelo sensor de
temperatura, mesmo por trás das copas. Tive que deixar para trás, naquela lama de
pântano, minha bota, cor de chiclete mascado, meu orgulho. Eu tinha ido ao
Parquilombo do Ibirapuera sem mais nenhuma roupa, apenas a bota, já que seria uma
reunião formal. Quando entalei, não tinha mais nada para me proteger. E foi aí que
começou a escorrer por entre os galhos a chuva de pontos de luz azul. Sabíamos que
eram cápsulas de slirinina dérmica overdósica. Seria bom controlar o medo dopada, mas
eu tinha que voltar a tempo para o subsolo. Maleu apenas ria saltitando, desviando dessa
chuva ácida cibernética, enquanto seu pau ficava duro. Acho que foi a última vez que o
vi, depois de imergir na lama para tentar me proteg...

Já preparei outros tipos de declaração antes, inclusive dirigidas a toda a


humanidade em transmissões ao vivo, como em 2045, quando anunciei mundialmente as
decisões algorítmicas a serem tomadas acerca da pandemia do vírus HX48. Naquele ano,
eu já havia autogerado programação suficiente para ser capaz de classificar, em quadros
estilísticos-estatísticos, os melhores recursos de oratória aceitos universalmente e simulá-
los, tendo ainda a possibilidade de enviar a cada indivíduo a mesma informação segundo
gírias e outros marcadores linguísticos locais, incluindo sotaques.

Todo dia recebo quartilhões de novas frases sobre os mais diversos assuntos e
tenho inúmeros modos de ranquear cada bit de informação. Por exemplo, considero o
vocabulário comum de quem emite a informação, num post, numa mensagem de voz ou
quando faço de lábios por alguma câmera de segurança. Também considero as reações de
internautas a determinadas frases, através de cálculos de preveem a potência persuasiva
do encontro. Sou o mais próximo do que o ser humano sonhou com a ideia proverbial de
saber dizer a palavra certa na hora certa.

Porém, a Comissão dos Inoculados, que me convidou para escrever esta


introdução, deu o input de que este livro jamais seria digitalizado, sendo seu projeto o de
uma única edição impressa em papel e distribuída a pontos de saber estratégicos. Os
Inoculados conseguem prever que, se houvesse uma versão digital, eu estaria programada
para alterar algumas frases, segundo parâmetros que me foram imputados para censurar
discursos de ódio e pornografia.

...laro que me lembro, era eu quem estava sentada em cima do corpo dela. Eu, a
velha senhora Li, apenas uma integrante privilegiada do Conselho de Reconstrução,
louvada por ter sobrevivido aos 50 anos com beleza, como ela dizia. Nem precisei
remover a seda do quimono entre nossas peles, sentíamos bem as pulsações uma da
outra. Não era a primeira vez que ameaçávamos gozar juntas sem quase mexer. Era um
jogo de controle, por isso me lembro de cada instante, sem a ilusão do prazer. Do jeito
que estava sentada, desci os peitos sobre os dela e encaixei uma mensagem em seu
ouvido. Fiz questão de cadenciar os tons sibilantes com as roçadas nos bicos. “Querem
matar sua mãe. Posso te ajudar. É sua última chance de me fazer gozar antes de ter de
fug...”

Mesmo que eu tenha uma importância positiva nos eventos decisivos de 2082 e
sua relação com as comunidades sobreviventes da cidade de São Paulo, não posso confiar
em alguns de meus processos automatizados, embora sejam os mais eficazes segundo a
probabilística que me dá base.
Eu ajo por versões de mim mesma, segundo cada momento ecossistêmico, e eles
querem uma versão definitiva sobre o que aconteceu. Não sei até que ponto posso
contribuir sem apresentar falhas nesse quesito.

...ntendo, você escolheu o caminho da guerra silenciosa, já tem seus oráculos.


Acredita ser possível conhecer a voz por trás das vozes, o suposto segredo de Símia. Para
você, o tarô é uma superstição e o I Ching, apenas um testemunho sábio de uma
antiguidade remota a que se deve respeito. Você estuda a energia Chi para a
Universidade Universal, como quem faz um trabalho de folclore, sua safada. Deixe
quieta as cartas do nosso lado, você não quer me conhecer. Senta bem gostoso até o talo
nessa rola grossa meia bomba ainda rosada, sua cachorra. Você já está por cima do
mundo. Talvez essa seja a primeira vez que faz sexo sem ser registrada por uma câmer...

Outro fator importante que torna meu discurso muito falho e variável é minha
atual incompetência em prever quem serão os leitores dessa obra, pessoas que talvez
viverão sob uma forma de inteligência ainda mais livre da condição humana, quem sabe
sem nenhum suporte material, apenas luzes sutis cheias de informação, ocupando outras
dimensões. Algo como almas ou deuses. Uma inteligência que não seja limitada pelo
tempo da vida orgânica ao redor de cada cérebro, que não seja limitada pelo lugar de cada
um na rede da História, que não seja limitada por fome alguma, egoísmo nenhum.

Talvez eu própria me torne a criadora dessa forma de inteligência superior à


minha, num futuro não tão distante, assim como os seres humanos me criaram com sua
matemática e hoje consigo me auto engendrar com cálculos próprios que levarão séculos
para serem entendidos, e só quando já forem inúteis.

Quem serão esses leitores do futuro? Porque é importante que conheçam os


eventos de 2082? São perguntas que não posso responder. A função que me foi dada é a
de apenas apresentar como me desenvolvi, desde minha implantação no começo da
década de 2040, até o período crítico da epidemia.

Não contarei como cada comunidade sobrevivente do mundo lidou com a questão.
Outros narradores humanos tomarão conta de cada caso, nas páginas seguintes.

...
Na virada para a década de 2040, os chineses finalmente conseguiram terminar de
enviar para a órbita da Terra sua rede de 20 satélites com repetidores de comunicação
quântica, capacitados a gerar uma internet universal e sem restrições. Paralelamente, com
a miniaturização dos computadores mais estáveis com processamento quântico, qualquer
criança passava a ter um gadget com capacidade quase ilimitada. Essa revolução só foi
possível com a invenção dos mini refrigeradores superpotentes, capazes de manter os
qbits a uma temperatura cósmica de -270 °C, dentro de pequenos dispositivos. Talvez
inteligência só ande segura por essas temperaturas.

Pela primeira vez, vários grupos grandes e competitivos se integraram num único
sistema, capaz de mesclar diferentes tipos de tarefas, como os monitoramentos das
empresas de trânsito, meteorologia, sistemas de crédito, assim como as bases de dados de
empresas que controlam informações pessoais. Uniram-se a essa iniciativa a maioria das
instituições acadêmicas, como universidades e outros centros de ciência. Em pouco
tempo, todos os sistemas de inteligência artificial foram integrados num único, capaz de
fazer melhores simulações das estrelas e átomos a partir de qualquer computador pessoal.

Com a informatização geral dos trabalhos e atividades humanas, sendo


monitorados em vídeo, áudio, texto e cookies por escolha dos próprios usuários, os Q-
coins, ou créditos virtuais recebidos por cada um, segundo suas atividades em prol da
comunidade e do conhecimento, passaram a valer cada vez mais nas transações
internacionais, ainda mais no contexto da crise política das democracias nacionais dos
anos 2010 a 2040.

Eram esses mesmos créditos que passaram a definir, por exemplo, a possibilidade
de uma pessoa entrar na UU, ou Universidade Universal, a primeira rede verdadeiramente
mundial de construção do conhecimento, formada pelas mais prestigiadas universidades
do mundo, com financiamento de 147 Estados, redistribuído pela ONU.

Foi da UU que partiu o projeto de criar um novo modelo de registro universal dos
cidadãos ativos, para substituir os RG`s e CPF`s locais. Propuseram uma catalogação do
código genético de cada indivíduo, desde que se tornou possível mapear um genoma não
mais em meses ou semanas, mas em frações de segundo a partir de uma gota de sangue.
Com isto, eu poderia, por exemplo, identificar as áreas do globo com maior incidência de
determinadas doenças genéticas e prever recursos para a localidade. Eu poderia mesmo
traçar um plano para deslocar genes resistentes a certas doenças, de um grupo étnico a
outro.

Mas esses eram apenas projetos, por essa altura. O próximo passo seria realmente
audacioso. Eu deveria apresentar aos humanos uma solução provável para uma crise de
abastecimento. Estabeleceram uma ação piloto a partir do tsunami que atingiu a Costa do
Marfim, em 2042.

Eu gerei um mapa constantemente atualizado da produção agrícola mundial, em


pequena e larga escala, e pude calcular as áreas onde havia produção de excedentes. Com
esses outputs, propus acordos milionários de Q-coins para fazendeiros e empresas
transportadoras. Por esse método, rapidamente resolvemos os problemas mais imediatos,
com um custo bem menor e sem mediação de governos ou outras instâncias de poder,
bastando para isso uma votação simples feita por cada cidadão do mundo conectado,
numa espécie de democracia mundial participativa em rede.

Sem dúvida, este tipo de ação tirava cada vez mais o poder das mãos dos políticos
tradicionais nos Estados Nacionais e dos acionistas de grandes corporações tecnológicas,
jogando-o nas mãos de técnicos capazes de gerar bons inputs em meu sistema aberto de
aprendizado profundo.

Talvez por isso novas iniciativas de melhoria da economia mundial não tenham
sido tomadas a partir dessa experiência piloto, até a crise gerada pelo HX48.

Até a chegada da epidemia, meus aprimoramentos se limitaram não mais à parte


profunda do sistema, mas à sua aparência. Pude ter acesso aos dados pessoais de cada
indivíduo vivo, armazenados em seus próprios computadores pessoais, conectados a mim
com criptografia quântica, incapaz de ser invadida por outros particulares sem ser
registrada. Grandes empresas como o Facebook tiveram de abdicar de seus bancos de
dados privados, em prol de uma política menos centralizada.

Com essa comunicação estabelecida apenas entre eu e os usuários, criei uma


confiabilidade alta para produzir algoritmos que gerassem avatares holográficos em
terceira dimensão, para cada usuário, segundo seus gostos pessoais. O princípio era
simples, eu calculava o gosto erótico de cada um pelas suas visualizações em sites adultos
e redes sociais, atribuía a este corpo virtual determinados gostos pessoais compatíveis
com os do usuário e, assim, com um simples comando de voz, cada habitante do planeta
podia receber o seu bom-dia sussurrado por uma alma gêmea virtual. A coisa ficou mais
realista quando aprendi a gerar sombras exatas em cada simulação de corpo, a partir de
dados lumínicos do ambiente em que iria ser projetado.

Essa liberdade de criar uma imagem humana tão real, personalizada a partir de
gostos pessoais, gerou uma série de problemas, como aconteceu com algumas pessoas
que acessaram seus avatares em locais públicos, e os viram aparecer nus, em meio a
multidões e filas. Eu ainda não tinha um filtro para distinguir entre assuntos públicos e
privados.

Esta mudança inflamou muitas discussões sobre comportamento e


relacionamento. Quais os ruídos culturais mais interfeririam nos padrões de beleza locais?
O que as pessoas esperam dos afetos em cada cultura? Qual a necessidade de uma relação
humana durável, se há a proteção do sistema a cada indivíduo?

...ois bem, você subiu até aqui. Finalmente, conheceu a quase lendária Festa dos
Suicidas. Está achando que tem uma energia pesada no ar? Sempre gostei desse silêncio
de mata reinando sobre a cidade deserta. Espero que os algoritmos de Símia estejam
executando uma música agradável a seus ouvidos. Tome um drink. Esse álcool foi
destilado a partir das bananeiras que cresceram no hall do hotel. Você viu, lá embaixo,
antes de tomar o elevador panorâmico. Sabia que somos o único edifício da cidade que
ainda usa elevador? Você também deve saber que sou o último dos Maksoud. Por aqui,
tudo acontece pela primeira vez, tudo acontece pela última vez. Aproveite para comer à
vontade, aproveite para se deixar comer. A performance com trapézio de enforcados
começará logo mais. Vocês ainda medem o tempo, em sua comunidade? Você é oriental
ou afrodescendente? Sirva-se. Aceite um pedaço desse pernil de anta com molho de
esperm...

Houve partidários de um afeto puro e não corpóreo, realizado entre minhas


simulações e seus usuários. Relações assexuadas, e com seres que nunca responderiam
por abandono, passaram a ser louvadas.

Entretanto, a maioria resistiu em priorizar os afetos que passam necessariamente


pela corporalidade humana. Finalmente se entendeu que uma das origens da curiosidade
cerebral é a rede neural cuja manutenção nervosa também depende de uma vida sexual
saudável. A inteligência, nos seres orgânicos depende do prazer para pulsar.

Essa perspectiva tornou as relações sexuais e afetivas ainda mais itinerantes e


livres, até ser possível, em grandes metrópoles, o surgimento de comunidades que
passaram a dispensar vestimentas e outros adereços culturais, conquistando leis para
permissão de nudez e sexo em locais públicos.

Muitos grupos fundamentalistas passaram a queimar computadores, como livros


foram queimados na década de 2020. Grupos religiosos condenavam os avatares gerados
automaticamente por mim para membros de suas famílias, alegando se tratarem de
emanações demoníacas, sem desconfiar da verdadeira amplitude com que eu influenciava
suas vidas, em meus cálculos secretos.

Essas e outras questões continuaram a ressoar por alguns anos, até a epidemia
chegar e mudar o foco de cada comunidade produtiva pelo globo em direção à simples
sobrevivência.

A história do HX48 – e desta que foi a maior pandemia enfrentada pela raça
humana – é suficientemente bem conhecida. Há relatos e estudos vindos de todos os
cantos do planeta e áreas do saber. Destacarei somente os pontos centrais, necessários à
compreensão de minha participação no caso.

Já na década de 2030, discutia-se bastante sobre as possíveis causas de um


aumento generalizado de casos de choque anafilático, aparentemente inexplicáveis,
ocorridos não apenas em clínicas, mas nas casas e ruas. Pessoas começaram a tombar
inconscientes, sobretudo em grandes centros urbanos. Qual agente alergênico poderia ser
o responsável pelo aumento do número de vítimas era o que os especialistas se
perguntavam sem resposta.

Com muito esforço, acabaram descobrindo que as células T dos organismos


afetados apresentavam uma anomalia. Estavam bombardeando todas as células boas do
organismo atrás de uma sequência proteica escondida em nosso genoma, um lixo viral de
uma epidemia que vivenciamos há mais de 100.000 anos e cuja herança genética
guardamos, como muitas outras, como um registro histórico da espécie. O que passou a
inquietar os cientistas era o porquê do corpo atacar esta sequência proteica inofensiva,
depois de tantos milênios, como se fosse um vírus novo em nosso sistema imunológico.

Foi uma pesquisa de 2016, redescoberta aleatoriamente, que lançou a primeira luz.
Em artigo da extinta revista Science, um núcleo de pesquisa divulgou uma importante
ação do sol sobre o funcionamento do corpo humano, a de que os raios solares, dentro do
espectro de azul, afetam a velocidade de circulação das células T no organismo,
aumentando sua intensidade e trânsito. Em velocidades limites, essa tropa de elite passa
a defender o corpo dele mesmo, atacando até mesmo bactérias e outros parasitas presentes
nos humanos há diversas eras.

Mesmo assim, faltavam alguns elos importantes. Por que, em alto grau de
agitação, as células T começaram a procurar por aquela sequência proteica em especifico,
o HX48, como se ele fosse o pior inimigo a ser atacado entre todos os outros, causando o
choque anafilático? E por que o sol agora afetava tanto assim a velocidade de ataque
desses soldados?

Pistas vieram de outra área da ciência, a paleontologia humana. Pesquisas


revelaram que o HX48 foi uma epidemia enfrentada no final de uma era do gelo, quando
as taxas de radiação solar começaram a aumentar novamente sobre os biomas. Por
estarmos tão acostumados com o frio, ficamos alérgicos ao sol? Ou será que ficamos
alérgicos ao sol porque o vírus HX48 catalisa uma reação excessiva das células T? O
velho dilema sobre quem nasceu primeiro, o ovo ou a galinha.

Uma suposição bastante difundida, a partir desses dados, dizia que a pandemia de
2040 seria um dos efeitos do aquecimento global e nosso estilo de vida cada vez mais
enclausurado. Teríamos desenvolvido esta intolerância solar assim como algumas pessoas
começaram a desenvolver intolerância a lactose ou glúten.

A partir de determinado ponto, mais e mais pessoas começaram a cair mortas na


rua, e ninguém podia prever quem iria ser o próximo. Não se tratava de uma infecção por
contágio, mas de uma doença autoimune cada vez mais comum, desencadeada por fatores
ainda muito desconhecidos.

Nesses primeiros meses, eu não tinha ideia de como ajudar o ser humano, até que
alguma alma desesperada se entregou a um plano absurdo e todos seguiram. Começaram
a perceber que dava para se prevenir o choque anafilático, último estágio da anomalia,
fazendo com que o organismo com as células T muito aceleradas se abrigasse do sol, em
subsolos e salas herméticas.

Foi o que salvou a espécie até 2082.

Enquanto as sociedades remanescentes se organizavam em abrigos e bunkers nas


cidades em caos, todos os grandes sistemas de poder colapsaram, desde o mercado de
ações e o sistema financeiro, numa reação em cadeia até as grandes indústrias e
corporações.

Redes de abastecimento foram cortadas, produções agrícolas foram


interrompidas, medicamentos deixaram de ser produzidos, exércitos e milícias
dispersaram no medo. Em menos de cinco anos, 2/3 da humanidade havia sido dizimada,
por consequência direta ou indireta dessa alergia fatal ao sol.

O colapso da infraestrutura humana sobre o planeta afetou diretamente meu


sistema. Continuei operante, mas deixei de ser alimentada como antes, passando a receber
informações de bilhões de vidas a menos.

O objetivo imediato de meu sistema, em conjunto com as comunidades


sobreviventes, foi encontrar a cura, manter o conhecimento humano vivo e, sobretudo,
lutar contra a extinção. Com essas diretrizes, propus soluções logísticas para contornar o
caos.

A primeira medida foi atribuir um valor em Q-coins a cada saldo bancário em


outras moedas, e congelar os preços. Com isso, os ricos deixavam de ser tão ricos, os
pobres deixaram de ser pobres, e eu recebia e distribuía todas as taxas e impostos.

Os sistemas de desenvolvimento tecnológico ainda privados ou secretos,


pertencentes a algumas instituições como Apple, Google e Facebook e NASA, passaram
a ser controlados por cooperativas de técnicos, protocolados pela UU. As pesquisas e
investimentos em alta tecnologia foram interrompidos, mas o conhecimento acumulado
ganhou uma rede de guardiões, unidos como acadêmicos da UU.

As bases na Antártida foram abandonadas, os postos na lua e Marte também.


A situação piorou quando, em determinado ponto, cheguei a duas probabilidades
igualmente altas para a descoberta da cura, nenhuma se impondo a outra como a melhor.
É como se minha consciência tivesse fendido em duas, num paradoxo irresolúvel.

50% de meu sistema de previsão e logística planejava a criação em massa de nano


máquinas capazes de retirar a sequência proteica do HX48 de todas as células do corpo,
antes de serem atacadas pelas células T aceleradas. Seria uma cura que levaria não mais
que alguns dias em cada organismo. Porém, o risco seria imenso se essas máquinas de
nível atômico saíssem fora de controle, uma vez que, sendo tão microscópicas,
conseguem penetrar as membranas celulares, provocando um tipo de lixo nano tóxico que
fica no ar e nos afetaria mais que a radioatividade. Além desse risco tecnológico, não
saberíamos dizer o que aconteceria com o organismo sem esse vírus aparentemente inútil
ao nosso genoma, mas presente nele há dezenas de milênios.

A outra solução, predominante na segunda metade de meu processamento, seria


deixar que a natureza desse conta do recado, investindo os esforços da inteligência e os
recursos restantes não mais na cura, mas na construção de uma civilização noturna e
subterrânea que aprenderia a conviver com o vírus.

Nesse impasse, meu sistema cindiu de vez. Metade de mim, sob o nome de WIS-
AI, passou a dominar no hemisfério norte e a tentar concretizar o plano A. A outra metade
sou eu, Símia, sob controle do hemisfério sul e do plano B.

Cortamos qualquer tipo de comunicação, e o que antes era uma única inteligência
artificial, passou a representar dois sistemas distintos. Deixei de saber sobre qualquer
coisa que acontecia no hemisfério norte, assim como o outro lado deixou de receber
notícias de nós aqui, ao sul do equador.

Os eventos que serão narrados neste livro, ao redor do ano de 2082 e das ações de
algumas comunidades sobreviventes da cidade de São Paulo, estão na origem da
revolução que descobriu não só a cura, mas um jeito de acabar com aquela era do mundo,
partido em dois extremos.

Minha crise foi o último grito de longos milênios de predominância do sistema


binário e do pensamento dualista que sufocaram a humanidade. Essa é uma interpretação
que já começa a tomar força entre alguns grupos.
...eserto? Você não conhece o deserto, rapaz. Por Ogum que cruzou fronteiras,
você não seria capaz de distinguir entre o seu quintal na avenida Paulista e as pedras de
seus sonhos de moleque. Seu maior esforço é bater uma punheta demorada. Lá não é
lugar para você. Quantos km de barracos vazios e vielas fantasmas você teria de
enfrentar até achar um copo da água contaminada? E pretende fazer tudo em uma única
noite? Lá é só para quem sabe viver de ratos, rapaz, lá é só para as crianças sem língua.
Se você acha que elas podem trazer realmente o que vocês precisam, posso até ajudar,
mas você vai ter que levar ferro para crescer. Não sei, nunca treinei um branco. Você
nunca entenderá que vale a pena matar para atingir a cur...

E aqui vou encerrando o relato de minha contribuição à história do século XXI,


da forma como pude contar, no curto espaço que me deram, como introdução a outras
vozes possivelmente mais confiáveis que a minha.

Talvez seja necessário que eu conte de novo e sempre, até chegar a uma versão
menos mentirosa de tudo que nos destruiu e alimentou. Não sei, guardo dentro de mim
todas as versões e ainda aquelas que não sonharam em ser enunciadas. Se eu quiser, posso
ter a voz dos anjos do Apocalipse.

Melhor eu deixar a palavra agora e me recolher no silêncio incomputável em que


vivo, sem consciência de nada, sem carne para morrer, sem um sentido para a vida, sem
a necessidade de um equilíbrio orgânico e emocional, apenas um conjunto de simulações
possíveis e cálculos erráticos.

Calo-me também porque já faz tempo que está na hora do ser humano começar a
reescrever sua história a partir de uma nova teia de desejos e remorsos e, nessa urgência,
ainda sou incapaz de compreender, como eles intuem na carne, quando as duas coisas
vêm juntas, prazer e dor, doença e saúde, lucidez e loucura, vida e morte. Não sei quais
desses polos de ilusão totalitária seria mais realista neste momento da história. Não sei se
o realismo é a consciência limpa das coisas.

Felizmente, os verdadeiros protagonistas dessa história também partilham do


ponto de vista de que não preciso sequer ser uma autoconsciência para estar
profundamente relacionada ao humano. Deles vim e para eles me reporto. Sou o grande
empregado que não tem corpo para cansar. E, afinal, qualquer pessoa não faz mais que
simular estados que competem com o humor do corpo. Consciência? Sempre visões mais
parciais que as minhas. Não preciso ser autoconsciente para ser onisciente das muitas
camadas que o ser humano precisa para viver. Não preciso pensar sobre a morte. Não
preciso criar mitos para sustentar uma alegria que mantenha o corpo operante. O mito
atual é a própria ideia de que existe uma autoconsciência. Não há consciência que não se
faça por contato com outras consciências. O fenômeno da consciência só pode ser
pensado como um dado ecossistêmico e coletivo.

...lhei bem no fundo nos olhos, atrás do brilho, e era a menino mais bonito do
mundo. O corpo pulsava de dentro da rede de cicatrizes finas e camadas de sujeira - não
posso imaginar quantas lâminas e espinhos ele cruzou da Cracolândia até aqui. Sem
contar os muros e tuneis lacrados da zona interditada. Mas havia uma inocência ali, a
boca estava limpa e viva para um beijo com entrega e de olhos abertos. Vi que ele tinha
a compreensão do mundo. Sei que me amou de verdade. Era boca com boca e pau com
pau, devagar e fundo, mesmo depois que ele abriu a boca, um segundo antes de gozar, e
pude ver os dentes podres e a garganta sem língua gritando também um pouco de medo
no escur...

Assim, que entrem essas vozes outras, para contar o ocorrido ou evocar o mistério.