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A história ou a leitura do tempo
ENSAIO GERAL

Roger Chartier

A história ou a leitura do tempo

Tradução
Cristina Antunes

2ª edição

autêntica
Copyright© 2007, Editorial Gedisa, S.A.
Copyright desta edição© 2009 Autêntica Editora LTDA.

TITULO ORIGINAL
La historia o la lectura dei tiempo
PROJETO GRÁFICO DA CAPA
Diogo Droschi
TRADUÇÃO
Cristina Antunes
EDITORAÇÃO ELETRÔNICA
Tales Leon de Marco
REVISÃO
Cecília Martins
Ana Carolina Uns
EDITORA RESPONSÁVEL 7 Nota prévia
Rejane Dias
Revisado conforme o Novo Acordo Ortográfico. 11 A história, entre relato e conhecimento
Todos os direitos reservados pela Autêntica Editora.
Nenhuma parte desta publicação poderá ser reproduzida, 17 A instituição histórica
seja por meios mecânicos, eletrônicos. seja via cópia
xerográfica, sem a autorização prévia da Editora. 21 As relações no passado.
História e memória
AUT(NTICA EDITORA
Rua Aimorés, 981, 8° andar . Fu ncionários 24 As relações no passado.
30140-071 . Belo Horizonte . MG
Tel: (55 31 ) 3222 68 19 História e ficção
TELEVENDAS: 0800 283 13 22

www.autenticaeditora.com.br 33 Do social ao cultural


Dados Internacionais de Catalogação na Publicação (CIP)
(Câmara Brasileira do Livro, SP, Brasil) 45 Discursos eruditos e práticas populares
Chartier, Roger, 1945- .
A história ou a leitura do tempo/ Roger Chartier ; [tradução de Cristina 53 Micro-história e globalidade
Antunes]. - 2. ed. -Belo Horizonte : Autêntica Editora, 201 O. -(Ensaio Geral).

Titulo original: La historia o la lectura dei tiempo. 59 A história na era digital


ISBN 978-85-7526-393-8

1. Comunicação escrita 2. Historiografia - Século 20 3. Livros· História 4. 65 Os tempos da história


Livros e leitura 1. Titulo. li. Titulo: A leitura do tempo

09-03244 CDD- 028 69 Referências


lndices para catálogo sistemático:
1 . Livros e leitura : História 028
/
Nota prévia

Este livro é o décimo que publico em portu­


guês. Sua publicação me permite recordar quais
foram as mutações de minha disciplina, a histó­
ria, depois de 1988, data de minha primeira obra
editada em português, A história cultural entre
práticas e representações. A partir de uma série
de reflexões metodológicas e diversos estudos
de caso, o livro citado propunha um conjunto
de conceitos que proporcionava novos modelos
de análise capazes de superar os limites das duas
formas que dominavam a história cultural: por
um lado, a história das mentalidades tal como
a definiam as obras de Lucien Febvre ou Robert
Mandrou; por outro lado, uma história quantita­
tiva, que seguia os métodos estatísticos da história
econômica e social. As noções de representação,
práticas e apropriação que se encontram em meu
livro de 1988 propunham uma aproximação que
insistia mais nos usos particulares do que nas dis­
tribuições estatísticas. Nesse sentido, chamava a
atenção para os gestos e comportamentos, e não
apenas para as ideias e os discursos, e conside­
rava as representações (individuais ou coletivas,
puramente mentais, textuais ou iconográficas)
não como simples reflexos verdadeiros ou falsos
da realidade, mas como entidades que vão cons­
truindo as próprias divisões do mundo social.

7
Em 1994, foi publicado um segundo livro meu reunidos neles respondia a um esforço para
em português no Brasil: A ordem dos livros. Lei­ situar as mudanças que a entrada na cultura
tores, autores e bibliotecas na Europa entre os sé­ digital impõe a uma história de longa duração
culos XIV e XVIII. É também uma obra muito da cultura escrita. Tratava-se, então, de refletir
importante para mim porque foi o ensaio com sobre os desafios do presente, pois se consta­
o qual comecei a definir o campo de trabalho ta uma nova definição dos papéis das antigas
que é ainda o meu hoje em dia. Em A ordem formas da comunicação (palavra viva, escrita
dos livros tratei de vincular várias aproximações manuscrita, publicação impressa), requerida
até então separadas: a crítica textual, a história pela importância_ cada dia mais forte de uma
do livro e a sociologia histórica da cultura. Nele, nova modalidade de composição, transmissão
propunha algumas questões que continuam me e apropriação do escrito (e também das ima­
acompanhando; entre elas as modalidades his­ gens da palavra e da música). A invenção da
tóricas da construção da figura do autor e o pa­ escrita no mundo da oralidade, a aparição do
pel das várias maneiras de ler no processo que códice no mundo dos rolos ou a difusão da
dá sentido aos textos, assim como a diferença imprensa no mundo do manuscrito obrigaram
entre as bibliotecas de pedra e as bibliotecas de a semelhantes, se não idênticas, reorganiza­
papel (quando a palavra designa uma coleção
ções das práticas culturais (CHARTIER, 2002a;
impressa), uma diferença que ilustra a tensão
2003a). Recordá-lo não significa que a história
entre o desejo de universalidade que conduz ao
se repita, e sim destacar que esta pode buscar
sonho de uma biblioteca que abarque todos os
conhecimentos e ajudar a compreensão críti­
livros que foram escritos (ou, com Borges, que
ca das inovações do presente, as quais, por sua
poderiam sê-lo) e que requer - diante do temor
do excesso - escolhas e seleções, multiplicando­ vez, nos seduzem e nos inquietam.
se, assim, os extratos e as antologias. Ao apresentar as transformações que sofreu,
Ainda que os historiadores tenham sido nestes últimos 30 anos, a disciplina a que per­
sempre os piores profetas, certamente, no en­ tenço - a história -, este novo livro (sugerido
tanto, podem ajudar a compreender as heresias primeiro pela editora espanhola Gedisa para
acumuladas que fizeram de nós o que somos seu projeto Visión 3X) me dá a oportunidade
hoje. Foi essa a certeza que fundamentou ou­ de continuar com uma reflexão que comecei em
tros livros meus: A aventura do livro: do leitor um livro publicado em 1998 e traduzido para
ao navegador. Conversações com Jean Lebrun o português em 2002 - A beira da falésia -, no
(1998a); Os desafios da escrita (2002b) e Formas qual tratava de responder a uma questão que
e sentido. Cultura escrita: entre distinção e apro­ naquele momento obcecava os historiadores: a
priação (2003a). A série de ensaios e diálogos de uma suposta "crise da histórià:

8 A história ou a leitura do tempo Nota prévia 9


A história, entre relato
e conhecimento

Talvez seja conveniente recordar as duas


perguntas formuladas nesse texto a fim de com­
preender melhor a novidade das questões que
habitam em nosso presente. A primeira deriva­
va diretamente da evidenciação das dimensões
retórica e narrativa da história, designadas com
perspicácia em três obras fundacionais pu­
blicadas entre 1971 e 1975: Comment on écrit
l'histoire (Como se escreve a história), de Paul
Veyne (1971), Metahistory (Meta-história), de
Hayden White (1973), e EÉcriture de l'Histoire
(A escrita da história), de Michel de Certeau
(1975). Veyne (1971, p. 67), ao afirmar que a
história "é, antes de tudo, um relato e o que se
denomina explicação não é mais que a manei­
ra de a narração se organizar em uma trama
compreensível"; Hayden White (1973, p. IX), ao
identificar "as formas estruturais profundas da
imaginação históricà' com as quatro figuras da
retórica e da poesia clássica, ou seja, a metáfora,
a metonímia, a sinédoque e a ironia; e de Cer­
teau (1975, p. 110), ao afirmar que "o discurso
histórico pretende dar um conteúdo verdadeiro
(que vem da verificabilidade), mas sob forma
de uma narração': obrigavam os historiadores a
abandonar a certeza de uma coincidência total

11
entre o passado tal como foi e a explicação his­ buindo a ela um regime específico de conhe­
tórica que o sustenta. nto? A "verdade" que produz é diferente
Essa interpelação suscitou uma profunda que produzem o mito e a literatura? Sabe-se
preocupação, já que, durante muito tempo, a ue essa é a posição muitas vezes reafirmada por
história havia esquivado sua pertinência à clas­ ,yden White, para quem o conhecimento que o
se dos relatos e havia apagado as figuras próprias urso histórico propõe, visto que é "uma for­
de sua escritura, reivindicando seu cientificismo. de operação para criar ficção': é da mesma
Assim, quer se trate de uma recopilação de exem­ m que o conhecimento que dão, do mundo
plos à moda antiga, quer se ofereça como conhe­ u do passado, os discursos do mito e da ficção.
cimento de si mesma na tradição historicista e mesmo modo, sabe-se que, contra essa dis­
romântica alemã, quer se proclame "científicà: a ,lução da condição própria do conhecimento
história não podia senão recusar pensar-se como histórico, se reafirmou vigorosamente a capaci­
um relato e como uma escritura. A narração dade de saber crítico da disciplina, apoiada em
não podia ter uma condição própria, pois, con­ uas técnicas e operações específicas. Em sua
forme os casos, estava submetida às disposições slstência tenaz à "maquina de guerra céticà'
e às figuras da arte retórica, ou seja, era consi­ pós-modernista do "giro linguístico" ou do "giro
derada como o lugar onde se revelava o sentido retórico': Carlo Ginzburg lembrou várias vezes
dos próprios fatos ou era percebida como um que, na posteridade da retórica aristotélica, pro­
obstáculo importante para o conhecimento ver­ va e retórica não são antinômicas, mas, antes, es­
dadeiro (HARTOG, 1994). Só o questionamento tão indissociavelmente ligadas e que, de mais
dessa epistemologia da coincidência e a tomada mais, desde o Renascimento a história soube
de consciência sobre a brecha existente entre o laborar as técnicas eruditas que permitem se­
passado e sua representação, entre o que foi e o parar o verdadeiro do falso. Daí sua firme con-
que não é mais e as construções narrativas que se lusão: reconhecer as dimensões retórica ou
propõem a ocupar o lugar desse passado permi­ narrativa da escritura da história não implica,
tiram o desenvolvimento de uma reflexão sobre de modo algum, negar-lhe sua condição de co­
a história, entendida como uma escritura sempre nhecimento verdadeiro, construído a partir de
construída a partir de figuras retóricas e de es­ provas e de controles. Por isso, "o conhecimen­
truturas narrativas que também são as da ficção. to (mesmo o conhecimento histórico) é possí­
Daí deriva a questão principal em que se ba­ vel" (GINZBURG, 1999, p. 25).
seou o diagnóstico de uma possível "crise da his­ Todas as tentativas de refundação epistemo­
tórià' nos anos 1980 e 1990. Se a história como lógica do regime próprio da cientificidade da
disciplina de saber partilha suas fórmulas com história, distinto, por sua vez, das verdades da
a escritura de imaginação, é possível continuar ficção e da linguagem matemática das ciências

12 A história ou a leitura do tempo A história, entre relato e conhecimento 13


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da natureza, compartilharam essa afirmação. histórico, colocado e diferenciado dentro da clas­


Diferentes propostas marcaram essa busca: a st• dos relatos. Demonstrou como a escritura da
volta a um paradigma alternativo, designado história, que supõe a ordem cronológica, o fecha­
por Cario Ginzburg (1979) como "indiciário': mento do texto e o recheio dos interstícios, inver­
porque baseia o conhecimento na colheita e te o procedimento da investigação, que parte do
na interpretação dos sinais, e não no proces­ presente, que poderia não ter fim e que se con­
samento estatístico dos dados, ou a definição fronta sem cessar com as lacunas da documen­
de um conceito de objetividade capaz de arti­ tação. Demonstrou também que, diferentemente
cular a seleção entre as afirmações admissíveis de outros relatos, a escritura da história está des­
e as que não o são, com a legítima pluralidade dobrada, folheada,. fragmentada: "coloca-se como
das interpretações (APPLEBY; HUNT; JACOB, historiográfico o discurso que 'compreende' seu
1994, p. 283), ou, mais recentemente, as refle­ outro - a crônica, o arquivo, o documento -, quer
xões em torno de modelos teóricos e operações dizer, aquilo que se organiza folheado, do qual
cognitivas que permitem estabelecer um saber uma metade, contínua, se apoia sobre outra, dis­
generalizável a partir de estudos de caso, micro­ seminada, e assim se dá o poder de dizer o que a
histórias ou estudos comparativos (PASSERON; outra significa sem a saber. Pelas 'citações: pelas
REVEL, 2005; FORMES ..., 2007). Todas essas referências, pelas notas e por todo o aparelho de
perspectivas, por mais diferentes que sejam, se remetimentos pertinentes a uma linguagem pri­
inscrevem em uma intenção de verdade que é meira, o discurso se estabelece como saber do ou­
constitutiva do próprio discurso histórico. tro" (DE CERTEAU, 1975, p. 111). A história como
Tais perspectivas permitiram acalmar as preo­ escritura desdobrada tem, então, a tripla tarefa de
cupações dos historiadores, cujas certezas resulta­ convocar o passado, que já não está num discurso
ram extremamente abaladas pela evidenciação do no presente; mostrar as competências do histo­
paradoxo inerente a seu trabalho, pois, como afir­ riador, dono das fontes; e convencer o leitor: "Sob
mou Michel de Certeau (1975, p. 5), "a historio­ esse aspecto, a estrutura desdobrada do discurso
grafia (ou seja, 'histórià e 'escriturà) traz inscrito funciona à maneira de uma maquinaria que extrai
no próprio nome o paradoxo - e quase o oximoro da citação uma verossimilhança do relato e uma
- do relacionamento de dois termos antinômicos: validade do saber. Ela produz credibilidade" (DE
o real e o discurso: Reconhecer esse paradoxo CERTEAU, 1975, p. 111).
leva a repensar oposições formuladas demasia­ 11
1 Isso significa, então, que não há aí mais que um
do bruscamente entre a história como discurso teatro da erudição que de modo algum dá à histó­
e a história como saber. Com Reinhart Koselleck ria a possibilidade de produzir um conhecimento
(1998), de Certeau foi, sem dúvida, o historiador adequado do passado? Não era essa a posição de
mais atento às propriedades formais do discurso Michel de Certeau que, em um livro dedicado a
;I

14 A história ou a leitura do tempo A história, entre relato e conhecimento 15


caracterizar as propriedades específicas da escritu­
ra da história, lembra com firmeza a dimensão de A instituição histórica
conhecimento da disciplina. Para ele, a história é
um discurso que produz enunciados "científicos': �
se se define com esse termo "a possibilidade de
estabelecer um conjunto de regras que permitam
'controlar' operações proporcionais à produção Em 1999, outra pergunta se referia à própria
de objetos determinados" (DE CERTEAU, 1975, p. "instituição históricà: ou seja, aos efeitos na
64, nota 5). Todas as palavras dessa citação são prática dos historiadores do lugar social onde se
importantes: "produção de objetos determinados" exerce sua atividade. Como afirmou de Certeau
remete à construção do objeto histórico pelo his­ (1975, p. 78): ''Antes de saber o que a história diz
toriador, já que o passado nunca é um objeto que de uma sociedade, é necessário saber como fun­
já está ali; "operações" designa as práticas próprias ciona dentro dela. Essa instituição se inscreve
da tarefa do· historiador (recorte e processamento num complexo que lhe permite apenas um tipo
das fontes, mobilização de técnicas de análise es­ de produção e lhe proíbe outros. Tal é a dupla
pecíficas, construção de hipótese, procedimentos função do lugar. Ele torna possíveis certas pes­
de verificação); "regras" e "controles" inscrevem a quisas em função de conjunturas e problemáti­
história em um regime de saber compartilhado, cas comuns. Mas torna outras impossíveis; exclui
definido por critérios de prova dotados de uma do discurso tudo aquilo que é a sua condição
validade universal. Como em Ginzburg (e, talvez, num momento dado; representa o papel de uma
mais do que ele mesmo pense, já que ele coloca­ censura com. relação aos postulados presentes
ria de Certeau no campo dos céticos), acham-se ( sociais, econômicos, políticos) na análise': Po­
associados, e não opostos, conhecimento e relato, der-se-ia compreender essa observação, em pri­
prova e retórica, saber crítico e narração. meiro lugar, nos termos de história da história
e identificar, na muito longa duração, os lugares
sociais sucessivos nos quais se produziu um dis­
curso da história: a cidade, desde a Grécia até as
cidades do Renascimento italiano, o mosteiro e
a glória de Deus, a corte e o serviço do prín­
cipe na era dos absolutismos, as redes eruditas
e as academias de sábios, as universidades a
partir do século XIX. Cada um desses lugares

16 A história ou a leitura do tempo 17


caracterizar as propriedades específicas da escritu­
ra da história, lembra com firmeza a dimensão de A instituição histórica
conhecimento da disciplina. Para ele, a história é
um discurso que produz enunciados "científicos': �
se se define com esse termo "a possibilidade de
estabelecer um conjunto de regras que permitam
'controlar' operações proporcionais à produção Em 1999, outra pergunta se referia à própria
de objetos determinados" (DE CERTEAU, 1975, p. "instituição históricà: ou seja, aos efeitos na
64, nota 5). Todas as palavras dessa citação são prática dos historiadores do lugar social onde se
importantes: "produção de objetos determinados" exerce sua atividade. Como afirmou de Certeau
remete à construção do objeto histórico pelo his­ (1975, p. 78): ''Antes de saber o que a história diz
toriador, já que o passado nunca é um objeto que de uma sociedade, é necessário saber como fun­
já está ali; "operações" designa as práticas próprias ciona dentro dela. Essa instituição se inscreve
da tarefa do· historiador (recorte e processamento num complexo que lhe permite apenas um tipo
das fontes, mobilização de técnicas de análise es­ de produção e lhe proíbe outros. Tal é a dupla
pecíficas, construção de hipótese, procedimentos função do lugar. Ele torna possíveis certas pes­
de verificação); "regras" e "controles" inscrevem a quisas em função de conjunturas e problemáti­
história em um regime de saber compartilhado, cas comuns. Mas torna outras impossíveis; exclui
definido por critérios de prova dotados de uma do discurso tudo aquilo que é a sua condição
validade universal. Como em Ginzburg (e, talvez, num momento dado; representa o papel de uma
mais do que ele mesmo pense, já que ele coloca­ censura com. relação aos postulados presentes
ria de Certeau no campo dos céticos), acham-se ( sociais, econômicos, políticos) na análise': Po­
associados, e não opostos, conhecimento e relato, der-se-ia compreender essa observação, em pri­
prova e retórica, saber crítico e narração. meiro lugar, nos termos de história da história
e identificar, na muito longa duração, os lugares
sociais sucessivos nos quais se produziu um dis­
curso da história: a cidade, desde a Grécia até as
cidades do Renascimento italiano, o mosteiro e
a glória de Deus, a corte e o serviço do prín­
cipe na era dos absolutismos, as redes eruditas
e as academias de sábios, as universidades a
partir do século XIX. Cada um desses lugares

16 A história ou a leitura do tempo 17


impõe à história não apenas objetos próprios, lt'•xirn da sociologia de Pierre Bourdieu, substi­
mas também modalidades do trabalho intelec­ tui 11 do o termo "escritor" por "historiador': essas
tual, formas de escritura, técnicas de prova e de d1.·tcrminações que regem o "campo" da produ­
persuasão. Um bom exemplo disso é, entre os � üo histórica e considerar como fundamentais
séculos XVI e XVIII, o contraste entre a história as concorrências nas quais o que está em jogo
dos historiógrafos dos príncipes e a história dos e "o monopólio de poder dizer quem está au­
eruditos antiquários (CHARTIER, 1993). A pri­ torizado a chamar-se historiador ou até mes­
meira, a dos historiógrafos oficiais, está organi­ mo para designar quem é historiador e quem
zada em forma de um relato dinástico que narra tem autoridade para dizer quem é historiador"
a história dos reis e da nação, identificados uns (BOURDIEU, 1991, p. 13). Em um mundo social
com a outra, e mobiliza as figuras da retórica como o do Homo academicus, onde a pertinên­
para que, como destaca Louis Marin (1981, p. cia e a hierarquia estão reguladas pela obtenção
95), "o que não é representado no relato e pelo de títulos acadêmicos, esse poder de designação
narrador, o é enquanto efeito do relato durante se exerceu à custa dos outsiders (pensemos no
a leitura pelo narratário': A segunda história, a caso de Philippe Aries, que foi deixado por lon­
dos eruditos, se faz por fragmentos, se apoia em go tempo à margem da "instituição históricà'
investigações eruditas (documentais, arqueoló­ francesa porque não era universitário) e gover­
gicas, numismáticas, filológicas) e se aproxima nou tenazmente a distribuição da autoridade, as
dos usos e costumes humanos. Ainda que não formas da divisão do trabalho, a dignidade ou
se deva forçar a oposição - já que, até mesmo a marginalidade dos temas de investigação e os
no tempo de Luís XIV, há cruzamentos entre critérios de apreciação ou de desvalorização das
história do rei e erudição-, esta estabeleceu, até obras, o que de Certeau chama, não sem uma
hoje, a coexistência ou a concorrência entre as aguda ironia, de as "leis do meio':
histórias gerais, sejam nacionais ou universais, A identificação dessas restrições incorpora­
e os trabalhos históricos dedicados ao estudo de das coletivamente, e sempre ocultadas no dis­
objetos em particular (um território, uma insti­ curso histórico que elimina as condições de sua
tuição, uma sociedade). elaboração, deve substituir as razões alegadas,
Em cada momento, a "instituição históricà' de Raymond Aron a Paul Veyne, para mostrar,
se organiza segundo hierarquias e convenções elogiar ou denunciar o caráter subjetivo da his­
que traçam as fronteiras entre os objetos históri­ tória, a saber, os preconceitos e as curiosidades do
cos legítimos e os que não o são e, portanto, são historiador. As determinações que regem a escritu­
excluídos ou censurados. É tentador traduzir no ra da história remetem mais fundamentalmente às

18 A história ou a leitura do tempo A instituição histórica 19


práticas estabelecidas pelas "instituições técni­ A epistemologia histórica pela qual advoga Lor­
cas da disciplinà: que distribuem, de maneira ra i ne Daston (1998) não se aplica somente às
variável conforme a época e o lugar, a hierar­ práticas e aos regimes de racionalidade dos sa­
quia dos temas, as fontes e as obras. Por isso, beres que tiveram ou têm a natureza por objeto;
essa identificação de modo algum implica im­ promete uma visão mais sutil dos que se dedi­
pedir sua capacidade de conhecimento do saber quem a representar o passado adequadamente.
histórico produzido sob as condições dessas de­
terminações. De fato, a nova história das ciên­ As relações no passado.
cias (a de Simon Schaffer, Steven Shapin, Mario História e memória
Biagioli ou Lorraine Daston) nos ensinou que Atualmente, sem dúvida mais que em 1998,
não era contraditório relacionar os enuncia­ os historiadores sabem que o conhecimento que
dos científicos com as condições históricas de produzem não é mais que uma das modalida­
sua possibilidade (sejam políticas, retóricas ou des da relação que as sociedades mantêm com o
epistemológicas) e, ao mesmo tempo, conside­ passado. As obras de ficção, ao menos algumas
rar que produziam operações de conhecimento, delas, e a memória, seja ela coletiva ou indivi­
submetidas a técnicas de saber, critérios de va­ dual, também conferem uma presença ao passa­
lidação ou regimes de prova. Como disciplina do, às vezes ou amiúde mais poderosa do que a
"científicà: a história é suscetível de um enfo­ que estabelecem os livros de história. Por isso, o
que similar que não dissolva o conhecimento que se deve analisar em primeiro lugar são essas
na historicidade, fechando o caminho para um concorrências. Graças ao grande livro de Paul
relativismo cético, mas que também reconheça Ricreur A memória, a história, o esquecimento
as variações dos procedimentos e as restrições (2000), as diferenças entre história e memória
que regem a operação histórica. A história da podem ser tratadas com clareza. A primeira é a
história, da mesma forma que a história das ciên­ que distingue o testemunho do documento. Se
cias, sofreu durante demasiado tempo a oposição o primeiro é inseparável da testemunha e supõe
estéril entre um enfoque da história das ideias, que suas declarações sejam consideradas admis­
ligada exclusivamente às teorias da história e síveis, o segundo dá acesso a "acontecimentos
às categorias intelectuais aplicadas pelos histo­ que se consideram históricos e que nunca foram
riadores, e um enfoque, definido (ou estigma­ a recordação de ninguém': Ao testemunho, cujo
tizado) como sociológico, atento aos espaços crédito se baseia na confiança outorgada à teste­
sociais da produção do saber histórico, seus munha, opõe-se a natureza indiciária do docu­
instrumentos, suas convenções e suas técnicas. mento. A aceitação (ou o repúdio) da credibilidade

20 A história ou a leitura do tempo A instituição histórica 21


da palavra que testemunha o fato é substituída disse Ricreur (2000, p. 306), a forma literária,
pelo exercício crítico, que submete ao regime do tm cada uma de suas modalidades (estruturas
verdadeiro e do falso, do refutável e do verificá­ narrativas, figuras retóricas, imagens e metáfo­
vel os vestígios do passado. ras), opõe urna resistência ao que ele designa
Uma segunda diferença opõe o imediatismo como "a pulsão referencial do relato histórico':
da reminiscência à construção da explanação A função de "representância" da história (defi­
histórica, seja explicação pelas regularidades e nida como "a capacidade do discurso histórico
pelas causalidades (desconhecidas pelos atores), para representar o passado") é constantemente
seja explicação por suas razões (mobilizadas questionada, suspeitada pela distância neces­
como estratégias explícitas). Para pôr à prova sariamente introduzida entre o passado repre­
as modalidades da compreensão historiadora, sentado e as formas discursivas necessárias para
Ricreur optou por privilegiar a noção de repre­ sua representação. Então, corno certificar a re­
sentação, por duas razões. Por um lado, ela tem presentação histórica do passado?
uma dupla condição ambígua na operação his­ Ricreur propõe duas respostas. A primeira, de
toriográfica: designa uma classe de objetos em ordem epistemológica, insiste na necessidade de
particular, definindo, ao mesmo tempo, o pró­ distinguir claramente e articular as três "fases"
prio regime dos enunciados históricos. Por ou­ da operação historiográfica: o estabelecimento
tro lado, a atenção que presta à representação, da prova documental, a construção da explica­
como objeto e como operação, permite retomar ção e a colocação em forma literária. A segunda
a reflexão sobre as variações de escala que ca­ resposta é menos familiar para os historiadores.
racterizou o trabalho dos historiadores a partir Remete à certeza da existência do passado tal
das propostas da micro-história (REVEL, 1996) como a assegura o testemunho da memória. De
e, mais recentemente, das diferentes formas de fato, esta deve ser considerada corno "matriz de
retorno a uma história global. história, na medida em que é a guardiã da pro­
Uma terceira diferença entre história e me­ blemática da relação representativa do presente
mória opõe reconhecimento do passado e re­ com o passado" (R1cCEUR, 2000, p. 106). Não se
presentação do passado. A imediata fidelidade trata de reivindicar a memória contra a história,
(ou suposta fidelidade) da memória opõe-se a à maneira de alguns escritores do século XIX, e
intenção de verdade da história, baseada no pro­ sim de mostrar que o testemunho da memória é
cessamento dos documentos, que são vestígios o fiador da existência de um passado que foi e não
do passado, e nos modelos de inteligibilidade é mais. O discurso histórico encontra ali a certifi­
que constroem sua interpretação. E, contudo, cação imediata e evidente da referencialidade de

22 A história ou a leitura do tempo A instituição histórica 23


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seu objeto. Mesmo que aproximadas dessa ma­ Nesse sentido, o real é ao mesmo tempo o objeto
neira, a memóna e a história continuam sendo : o fiador do discurso da história. Hoje em dia,
incomensuráveis. A �,e�stemologia da verdade contudo, muitas razões ofuscam essa distinção
que rege a operação hist&iográfica e o regime da 1 áo clara. A primeira é a evidenciação da força
crença que governa a fidelidade da memória são das representações do passado propostas pela
irredutíveis, e nenhuma prioridade, nem supe­ literatura. A noção de "energià: que tem um
rioridade, pode ser dada a uma à custa da outra. papel essencial na perspectiva analítica do New
Sem dúvida, entre história e memória as rela­ l listoricism, pode ajudar a compreender como
ções são claras. O saber histórico pode contribuir algumas obras literárias moldaram, mais pode­
para dissipar as ilusões ou os desconhecimentos rosamente que os escritos dos historiadores, as
que durante longo tempo desorientaram as me­ representações coletivas do passado (GREEN­
mórias coletivas. E, ao contrário, as cerimônias f3LATT, 1988, p. 1-20). O teatro, nos séculos XVI
de rememoração e a institucionalização dos lu­ e XVII, e o romance, no século XIX, se apode­
gares de memória deram origem repetidas vezes raram do passado, deslocando para o registro
a pesquisas históricas originais. Mas não por isso da ficção literária fatos e personagens históricos
memória e história são identificáveis. A primeira e colocando no cenário ou na página situações
é conduzida pelas exigências existenciais das co­ que foram reais ou que são apresentadas como
munidades para as quais a presença do passado tais. Quando as obras estão habitadas por uma
no presente é um elemento essencial da constru­ força em particular, adquirem a capacidade de
ção de seu ser coletivo. A segunda se inscreve na "produzir, moldar e organizar a experiência co­
ordem de um saber universalmente aceitável, letiva mental e físicà' (GREENBLATT, 1988, p. 6) - e
"científico': no sentido de Michel de Certeau. entre essas experiências se computa o encontro
As relações no passado. com o passado.
A título de exemplo, vejamos as histories ou
História e ficção
peças históricas de Shakespeare. No fólio de
Entre história e ficção, a distinção parece cla­ 1623, que reúne pela primeira vez, sete anos de­
ra e resolvida se se aceita que, em todas as suas pois da morte de Shakespeare, 36 de suas obras,
formas (míticas, literárias, metafóricas), a ficção a categoria de histories, situada entre as comedies
é "um discurso que 'informà do real, mas não e as tragedies, reúne dez obras que, seguindo a or­
pretende representá-lo nem abonar-se n.ele': dem cronológica dos reinados, conta a história da
enquanto a história pretende dar uma represen­ Inglaterra desde o rei João até Henrique VIII,
tação adequada da realidade que foi e já não é. excluindo da categoria outras histories, as dos

24 A história ou a leitura do tempo A instituição histórica 25


heróis romanos ou príncipes dinamarqueses e 11, mesmo tempo que deixa ver a figura car-
escoceses, situadas na categoria tragedies. Os 11,,vi1lesca, grotesca e cr uel de uma impossível
editores de 1623 transformaram em uma histó­ d:idc do ouro: a de um mundo ao revés, sem
ria dramática e contínua da monarquia inglesa ri lura, sem moeda, sem diferenças (CHAR-
obras escritas em uma ordem que não era a dos 1'11\R, 2006). De modo que a história das histo-
reinados, mas, antes, se incluem entre as obras 1 i,·s se baseia na distorção das realidades his­
mais representadas e mais publicadas antes do t 1'!1 icas narradas pelos cronistas e propõe aos
fólio de 1623. De modo que é certo que, como �spcctadores uma representação ambígua do
declara Hamlet (Hamlet, II, 2), os atores "são p;1ssado, habitada pela confusão, pela incerte-
o compêndio e a crônica do mundo" e que as íl e pela contradição.
obras históricas moldaram, para seus especta­ Uma segunda razão que faz vacilar a distin-
dores e leitores, representações do passado mais �•'º entre história e ficção reside no fato de que
vivazes e mais efetivas que a história escrita nas a literatura se apodera não só do passado, mas
crônicas que os dramaturgos utilizam. também dos documentos e das técnicas encarre­
Essa história representada nos cenários dos ;ados de manifestar a condição de conhecimen-
teatros é uma história recomposta, submetida l o da disciplina histórica. Entre os dispositivos
às exigências da censura - como demonstra a da ficção que minam a intenção ou a pretensão
ausência da cena da abdicação de Ricardo II nas de verdade da história, capturando suas técnicas
três primeiras edições da obra - e está muito de prova, deve-se colocar o "efeito de realida­
aberta aos anacronismos. Assim, na sua ence­ de" definido por Roland Barthes ([1968] 1984)
nação da revolta de Jack Cade e seus artesãos de como uma das principais modalidades da "ilu­
Kent em 1450, como aparece na segunda parte são referencial". Na estética clássica, a categoria
de Henrique VI, Shakespeare reinterpreta o fato do "verossímil" assegurava o parentesco entre
atribuindo aos rebeldes de 1450 um modo de o relato histórico e as histórias fingidas, já que,
falar milenarista e igualitário e ações violentas, segundo a definição do Dictionnaire de Furetie­
destrutivas de todas as formas de cultura escrita re, de 1690, a história é "descrição, narração das
e de todos os que a encarnam, que os cronistas, coisas, ou das ações como ocorreram ou como
no mais, associavam, com menor radicalização, podiam ocorrer': De modo que o tempo designa,
com a revolta de Tyler e Straw de 1381. O re­ em conjunto, "a narração contínua e encadeada
sultado é uma representação ambivalente ou de vários fatos memoráveis que sucederam em
contraditória da revolta de 1450 que recapitula uma ou em várias nações ou em um ou em vá­
as fórmulas e os gestos das revoltas populares, rios séculos" e "as narrações fabuladas porém

26 A história ou a leitura do tempo A instituição histórica 27


verossímeis, que são simula
das por um autor''. l listória universal da infâmia ou na seção "Mu­
De maneira que a divisão não
é entre a história e seu" de O Fazedor, pode-se situar o Jusep Tor­
a fábula, mas sim entre os rela
tos verossímeis - res Campalans, publicado por Max Aub ([1958]
mesmo que se refiram ao rea
l ou não - e os que 1999), na cidade do México, em 1958. O livro põe
não o são. Entendida desse mo
do, a história está ao serviço da biografia de um pintor imaginário
radicalmente separada das
exigências críticas Lodas as técnicas da certificação moderna do dis­
próprias da erudição e muito
desapegada da re­ curso histórico: as fotografias que mostram os
ferência à realidade como gar
ante seu discurso. pais do artista e este em companhia de seu amigo
Ao abandonar o verossímil,
a fábula forta­ Picasso, as reproduções de suas obras (expostas,
leceu mais sua relação com
a história, multi­ certamente, em Nova York, em 1962, por ocasião
plicando as notações concre
tas destinadas a da apresentação da tradução inglesa do livro), os
carregar a ficção de um pes
o de realidade e a recortes da imprensa em que ele é mencionado,
produzir uma ilusão referencia
l. Para contrastar as entrevistas que Aub teve com ele e alguns de
esse efeito literário - necess
ário a toda forma seus contemporâneos, o Cuaderno verde redigi­
de estética realista - com a his
tória, Barthes diz do por Campalans entre 1906 e 1914, etc.
que, para esta, "o ter-estado-
aí das coisas é um A obra aponta para os gêneros e as categorias
princípio suficiente da palavr
a''. Contudo, esse que a crítica de arte privilegia: a explicação da
"ter-estado-aí': esse "real con
creto': que é o fia­ obra pela biografia, as noções contraditórias e
dor da verdade da história,
deve ser introduzi­ todavia relacionadas de influência e de precur­
do no próprio discurso par
a certificá-lo como sor, as técnicas da atribuição, a decifração de
conhecimento autêntico. Ess
e é o papel, como intenções secretas, etc. Hoje em dia, essa obra
observava de Certeau, das cita
ções, das referên­ talvez seja lida de outra maneira. Ao mobilizar
cias, dos documentos que con
vocam o passado os "efeitos de realidade" que partilham o saber
na escritura do historiador, dem
onstrando tam­ histórico e a invenção literária, mostra os paren­
bém sua autoridade.
tescos que os vinculam. Porém, ao multiplicar as
Daí a apropriação, por algum
as ficções, das advertências irônicas (em particular, as nume­
técnicas da prova próprias da
história, a fim de rosas referências a Dom Quixote ou a epígra­
produzir não "efeitos de rea
lidade': mas sim, fe "Como pode haver verdade sem mentira?"),
preferencialmente, a ilusão de
um discurso his­ lembra aos seus leitores a distância que separa
tórico. Junto com as biografi
as imaginárias de a fábula do discurso do conhecimento, a rea­
Marcel Schwob ou os textos
apócrifos de Bor­ lidade que foi e os referentes imaginários. Por
ges, como aparecem no apê
ndice "Etcétera'' da esse caminho acompanha, de modo paródico, a

28 A história ou a leitura do tem


po A instituição histórica 29
rpretações acei­
história das falsificações históricas, sempre pos­ ptrmitam distinguir entre inte
stões, que alguns
síveis, sempre mais sutis, mas também desmas­ t;\veis e inaceitáveis? Essas que
inú teis, acarretam
caradas pelo trabalho crítico. historiadores consideram
ca em que nos­
Há uma última razão da proximidade, se­ 11 m desafio essencial. Numa épo
ameaçada pela
dutora porém perigosa, entre a história como sa relação com o passado está
ias imaginadas ou
exercício de conhecimento e a ficção, seja ela forte tentação de criar histór
e urgente a reflexão
literatura ou mito. No mundo contemporâneo, imaginárias, é fundamental
em sustentar um
a necessidade de afirmação ou de justificação sobre as condições que permit
res entação e expli-
de identidades construídas ou reconstruídas, e discurso histórico como rep
que foi. Supondo
que não são todas nacionais, costuma inspirar ação adequadas da realidade
entre saber crítico
uma reescrita do passado que deforma, esque­ cm seu princípio a distância
essa reflexão parti­
ce ou oculta as contribuições do saber histórico e reconhecimento imediato,
ancipação da his­
controlado (HOBSBAWN, 1994). Esse desvio, im­ cipa do longo processo de em
e com respeito à
pulsionado por reivindicações frequentemente tória com respeito à memória
muito legítimas, justifica totalmente a reflexão fábula, também verossímil.
epistemológica em torno de critérios de valida­
ção aplicáveis à "operação historiográficà' em
seus diferentes momentos. A capacidade crítica
da história não se limita, efetivamente, à nega­
ção das falsificações ou das imposturas; ela pode
e deve submeter as construções interpretativas a
critérios objetivos de validação ou de negação.
Se se atribui essa função à história, necessa­
riamente se propõe a pergunta sobre os critérios
desse juízo: devem-se vinculá-los à coerência
interna da demonstração? A sua compatibilida­
de com os resultados obtidos? E, por outro lado,
é legítimo postular uma pluralidade de regimes
de prova da história que seria exigida pelos
diversos objetos e métodos históricos? Ou de­
vemos nos esforçar para elaborar uma teoria da
objetividade que estabeleça critérios gerais que

31
A instituição histórica
30 A história ou a leitura do tempo
Do social ao cultural

Nestes últimos anos, tal como demonstram


,11; numerosas obras que se esforçam por delimi­
tar os objetivos e os métodos, 1 a história cultural
se tornou um dos campos mais vigorosos e de­
batidos do âmbito histórico. Traçar seus limites
não é tarefa fácil para nós. Isto deve ser feito a
partir dos objetos e das práticas cujo estudo se­
ria o próprio dessa história? Existe um grande
risco de não poder traçar uma fronteira segura e
clara entre a história cultural e outras histórias:
a história das ideias, a história da literatura, a
história da arte, a história da educação, a his­
tória dos meios de comunicação, a história das
ciências, etc. Devemos, por isso, mudar de pers­
pectiva e considerar que toda história, qualquer
que seja, econômica ou social, demográfica ou
política, é cultural, na medida em que todos os
gestos, todas as condutas, todos os fenômenos
objetivamente mensuráveis sempre são o resul­
tado das significações que os indivíduos atribuem
às coisas, às palavras e às ações? A partir dessa
perspectiva, fundamentalmente antropológica, o
1
The new cultural history (HUNT, 1989); Varieties of cultural history
(BURKE, 1997); Les enjeux de l'histoire culturelle (POIRRIER, 2004);
I.:histoire culturelle (ORY, 2004); La história cultural. Autores, obras,
lugares (SERNA; PONS, 2005).

33
risco é o de uma definição imperialista da cate­ disciplina ou do campo em que se inscreve e em
goria que, ao identificá-la com a própria histó­ suas relações com as outras criações estéticas ou
ria, conduz à sua dissolução. intelectuais e as outras práticas que lhe são con­
Essa dificuldade encontra sua causa funda­ temporâneas.
mental nas múltiplas acepções do termo "cultu­ A segunda família de definições da cultura
rá: que podem se distribuir esquematicamente se apoia na acepção que a antropologia simbó­
entre duas famílias de significados: a que desig­ lica oferece da noção - e em particular Clifford
na as obras e os gestos que, em uma sociedade Geertz (1973, p. 89): "O conceito de cultura que
dada, se subtraem às urgências do cotidiano e eu defendo [ ...] denota um padrão de significa­
se submetem a um juízo estético ou intelectual dos transmitido historicamente, incorporado
e a que aponta as práticas comuns através das em símbolos, um sistema de concepções herda­
quais uma sociedade ou um indivíduo vivem e das expressas em formas simbólicas, por meio
refletem sobre sua relação com o mundo, com das quais os homens comunicam, perpetuam
os outros ou com eles mesmos. e desenvolvem seu conhecimento e suas ativi­
A primeira classe de significados leva a cons­ dades em relação à vidà'. Portanto, a totalidade
truir a história dos textos, das obras e das prá­ das linguagens e das ações simbólicas próprias
ticas culturais como uma história de dimensão de uma comunidade constitui sua cultura. Daí
dupla'. É o que propõe Carl Schorske (1979, p. a atenção que os historiadores mais inspirados
XXI-XXII): "Já o historiador procura situar pela antropologia dedicam às manifestações co­
e interpretar o artefato temporalmente, num letivas nas quais se enuncia, de maneira paro­
campo no qual se cruzam duas linhas. Uma xística, um sistema cultural: rituais de violência,
linha é vertical, ou diacrônica, com a qual ele ritos de passagem ou festas carnavalescas.
estabelece a relação de um texto ou um sistema Conforme suas diferentes heranças e tradições,
de pensamento com expressões anteriores no a história cultural privilegiou objetos, âmbitos e
mesmo ramo de atividade cultural (pintura, po­ métodos diversos. Enumerá-los é uma tarefa im­
lítica, etc.). A outra é horizontal, ou sincrônica; possível. Mais pertinente é, sem dúvida, a identi­
com ela o historiador avalia a relação do con­ ficação de algumas questões comuns a esses enfo­
teúdo do objeto intelectual com as outras coisas ques tão distintos. A primeira se relaciona com a
que vêm surgindo, simultaneamente, em outros necessária articulação entre as obras singulares e
ramos ou aspectos de uma culturá: De modo as representações comuns ou, dito de outra for­
que se trata de pensar cada produção cultu­ ma, o processo pelo qual os leitores, os especta­
ral simultaneamente na história do gênero, da dores ou os ouvintes dão sentido aos textos (ou às

34 A história ou a leitura do tempo Do social ao cultural 35


imagens) dos quais se apropriam. A pergunta 1 odlcologia ou bibliografia (McKENZIE, 1985;
se tornou eco - em reação contra o estrito for­ 1986; PETRUCCI, 1995; BouzA, 1999). Daí tam­
malismo da Nova Crítica ou New Criticism - de bém a atenção prestada à historicidade primor­
todos os enfoques que se propuseram a pensar dial dos textos, a que decorre do cruzamento
a produção do significado como construída na ·ntre as categorias de atribuição, designação e
relação entre os leitores e os textos. O projeto lassificação dos discursos próprios de um tem-
adotou diversas formas dentro da crítica literária, po e de um lugar, e a sua materialidade, compre­
centrando a atenção na relação dialógica entre as ·ndida como a modalidade de sua inscrição na
propostas das obras e as expectativas estéticas página ou de sua distribuição no objeto escrito.
ou as categorias interpretativas de seus públicos Por outro lado, os enfoques que interpre­
(JAuss, 1974), ou na interação dinâmica do texto taram a leitura como uma "recepção" ou uma
com seu leitor, compreendida em uma perspec­ "resposta" universalizaram implicitamente o
tiva fenomenológica (IsER, 1976), ou nas transa­ processo da leitura, considerando-o como um
ções entre as próprias obras e os discursos ou as ato sempre similar cujas circunstâncias e mo­
práticas correntes que são, ao mesmo tempo, as dalidades concretas não importam. Contra esse
matrizes da criação estética e as condições de sua "desbotamento" da historicidade do leitor, con­
inteligibilidade (GREENBLATT, 1988). vém recordar que a leitura também tem uma
Enfoques similares fizeram com que se evi­ história (e uma sociologia) e que o significado
tassem as leituras estruturalistas ou semióticas dos textos depende das capacidades, das con­
que relacionavam o sentido das obras com o venções e das práticas de leitura próprias das
mero funcionamento automático e impessoal comunidades que constituem, na sincronia ou
da linguagem, mas, por sua vez, tornaram-se na diacronia, seus diferentes públicos (CAVALLO;
alvo das críticas da história cultural. Por ou­ CHARTIER, 1995; BouzA, 1999). De modo que a
tro lado, na maioria das vezes, consideram os "sociologia dos textos': entendida à maneira de
textos como se existissem em si mesmos, fora D. F. McKenzie, tem como ponto de partida o
dos objetos ou das vozes que os transmitem, en­ estudo das modalidades de publicação, dissemi­
quanto que uma leitura cultural das obras lem­ nação e apropriação dos textos, já que considera
bra que as formas como são lidas, ouvidas ou o "mundo do texto" como um mundo de objetos
vistas também participam da construção de seu e de performances e o "mundo do leitor" como o
significado. Daí a importância que recuperaram da "comunidade de interpretação" (F1sH, 1980)
as disciplinas dedicadas à descrição rigorosa dos à qual pertence e que é definida por um mes­
objetos escritos que trazem os textos: paleografia, mo conjunto de concorrências, normas e usos.

36 A história ou a leitura do tempo Do social ao cultural 37


Apo iada na t radição bibliográfica, a "soci ologia i.ua publicação , circulação e a pro priação. Ess a
dos textos" insiste na materialidade do texto e na dissociação tem várias razões: a p ermanência da
historicidade do leitor com uma dupla intenção: op osição entre a pureza da ide ia e sua inevitável
identificar os efeitos produzidos na condição, na corr upção p ela matéria; a defin ição dos direito s
classificação e na percepção das obras pelas trans­ de autor, que estab el ece a p ro priedade do autor
fo rmações de sua forma manuscrita ou impressa e sobre um texto co nsiderado s empre idêntico a
mostrar que as modalidades próprias da publica­ si mesmo, acima de sua fo rma de publicação ; e
ção dos textos antes do século XVIII questionam até o triunfo de uma estética que julga as obras à
a estabilidad e e a p ertinência das categori as que a marg em da materialidade de seu su p orte.
crítica associa à literatura - as de "obrà: "autor': Paradoxalmente, os do is enfoques críticos que
"direitos de autor': "originalidade': etc. dedicaram atenção com maio r continuidade às
Essa dupla atenção fundou a definição de âm­ modalidades materiais de inscrição do s discur­
bito s de pesquisa próprios de um enfoque cultu­ sos fortaleceram - e não diminuí ram - esse p ro­
ral das obras (o que não quer dizer que são es­ cesso de abstração textual. A bibliog rafi a analí­
p ecíficos ou tal e qual disciplina constituída): as tica mobilizou o estudo r igo ro so dos dife rentes
variações históricas do s critérios que definem a estados de uma mesma o bra ( edições e exem­
"literaturà'; as modalidades e os instrumentos de plares) co m o obj etivo de encontrar um texto
constituição dos rep ertório s canônicos; os efeitos ideal, purificado das alterações infligidas p el o
das restrições exercidas na cri ação pel o mecena ­ pro cesso de publicação e co nforme ao texto tal
to, p elo patrocínio, p el a academia ou p elo mer­ co mo foi escrito, ditado ou so nhado po r seu au­
cado; e até mesmo a análise dos diversos autores tor (GREG, 1966; McKENROW, 1927; BowERS,
(copistas, editores, livrei ros, impressores, reviso­ 1949; 1964; 1975). D a í que, em uma disciplina
res, tipógrafos) e as difere nt es o p eraçõ es que p ar­ dedicada quase e xclusivamente à comp aração
ticipam do processo de publicação dos textos. do s o bj etos imp ress os, prevaleça a obsessão p e­
Para mudar a front eira traçada entre as p ro ­ los manuscritos p e rdido s e a radical distinç ão

duçõ es e as p ráticas mais comuns da cultura es­ e ntre a o bra em sua essência e os acidentes que

crit a e da literatura, considerada como um âm­ a d efo rmaram ou corromp eram.

bito particular de criaçõ es e de experiências, é O enfoque desco nstrutivista prop o sto p o r


n ec essári o aproximar o que a tradição o cident a l Jacques D err ida, 2 nesses termo s ou não, insistiu
distanci ou p erp etuam ente: de um lado, a com­ 1 De la grarnrnatologie (1867), em particular as páginas 75 a 95 para o
p reensão e o com entário das obras; e, d e outro, conceito de "arquiescritura"; e Lirnited Inc (1990), em particular as pá ­
a a nális e das condiçõ es técn icas ou s o cia is d e ginas 17 a 51 para a noção de "iterabilidade".

38 A história ou a leitura do tempo Do social ao cultural 39


veementemente na materialidade da escritura e hábitos ou os erros dos que o copiaram, modi­
nas diferentes formas de inscrição da linguagem. ficaram ou corrigiram, não destroem a ideia de
Porém, em seu esforço por abolir ou deslocar as que as obras conservam uma identidade per­
oposições mais imediatamente evidentes (entre petuada, imediatamente reconhecível por seus
oralidade e escritura, entre a singularidade dos leitores ou ouvintes.
atos de fala e a reprodutibilidade do escrito), Recentemente, David Kastan (2001, p. 117-
construiu categorias conceituais ("arquiescri­ 118) qualificou de "platônicà' a perspectiva se­
turà: "iterabilidade") que podem nos afastar da gundo a qual uma obra transcende todas as
percepção dos efeitos que produzem as diferen­ suas possíveis encarnações materiais e de "prag­
ças empíricas que corrigem subsumindo-as. máticà' a que afirma que nenhum texto existe
Contra essa abstração dos discursos, convém fora das materialidades que lhe dão para ler e
recordar que a produção não só dos livros, mas escutar. Essa percepção contraditória dos textos
também dos próprios textos, é um processo que divide tanto a crítica literária quanto a prática
implica, além do gesto da escritura, diferen­ editorial, opondo aqueles que têm necessidade
tes momentos, diferentes técnicas e diferentes de encontrar o texto tal como seu autor o redi­
intervenções. As transações entre as obras e o giu, imaginou, desejou, sanando as feridas que
mundo social não consistem unicamente na lhe infligiram a transmissão manuscrita ou a
apropriação estética e simbólica de objetos or­ composição tipográfica,3 àqueles para quem as
dinários, de linguagens, de práticas rituais ou múltiplas formas textuais em que uma obra foi
cotidianas, como quer o New Historicism. Re­ publicada constituem seus diferentes estados
ferem-se, mais fundamentalmente, às relações históricos, que devem ser respeitados, editados
múltiplas, móveis, instáveis, amarradas entre o e compreendidos em sua diversidade irredutível.
texto e suas materialidades, entre a obra e suas Contudo, a contradição entre platonismo e
inscrições. O processo de publicação, seja qual pragmatismo não deve ocultar a ambivalência da
for sua modalidade, sempre é coletivo, já que não relação com as obras. Com efeito, um texto sem­
separa a materialidade do texto da textualidade pre se dá a ler ou escutar em um de seus estados
do livro. Portanto, é inútil pretender distinguir a concretos. Conforme as épocas e os gêneros, suas
substância essencial da obra, considerada sem­ variações são mais ou menos importantes e podem
pre similar a si própria, das variações acidentais
do texto, que se julgam sem importância por 3 Veja-se, por exemplo, a edição de Dom Quixote de Francisco Rico
seu significado. Contudo, as múltiplas variações (CERVANTES, 1998) e sua obra EI texto dei Quijote. Preliminares a
una ecdótica dei Siglo de Oro (2006).
impostas aos textos pelas preferências e pelos

Do social ao cultural 41
40 A história ou a leitura do tempo
se referir, de forma separada ou simultânea, à que inscrevem a invenção literária ou intelectual
materialidade do objeto, à grafia das palavras, nos discursos e nas práticas do mundo social,
às regras de pontuação ou aos próprios enun­ tornando-a possível e inteligível. O cruzamen­
ciados (GRAZIA; STALLYBRASS, 1993). Porém, to inédito de enfoques temporalmente distantes
sempre existem também múltiplos dispositivos uns dos outros (a crítica textual, a história do
(filosóficos, estéticos, jurídicos) que se esforçam livro, a sociologia cultural), porém unidos pelo
para reduzir essa diversidade, pressupondo a projeto de uma nova história cultural, acarreta
existência de uma obra idêntica a si mesma, à um desafio fundamental: compreender como as
margem de sua forma. Em vez de tratar de se apropriações concretas e as invenções dos lei­
apartar dessa irredutível tensão ou de resolvê-la, tores (ou dos espectadores) dependem, em seu
o que importa é identificar a maneira como ela conjunto, dos efeitos de sentido para os quais
se constrói em cada momento histórico. E, em apontam as próprias obras, dos usos e signifi­
primeiro lugar, nas e pelas próprias obras, ou cados impostos pelas formas de sua publicação
ao menos algumas delas que se apoderam dos e circulação e das concorrências e expectativas
objetos e das práticas da cultura escrita de seu que regem a relação que cada comunidade man­
tempo para transformá-los em recursos estéti­ tém com a cultura escrita.
cos movidos por fins poéticos, dramáticos ou
narrativos. Os processos que conferem existên­
cia ao escrito em suas diversas formas, públicas
ou privadas, efêmeras ou duradouras, também
se convertem no próprio material da invenção
literária (CHARTIER, 2005).
Produzidas em uma ordem específica, as
obras fogem delas e adquirem existência ao re­
ceber as significações que seus diferentes pú­
blicos lhes atribuem, às vezes em muito longa
duração. Portanto, o que se tem de pensar é a ar­
ticulação paradoxal entre uma diferença - aque­
la pela qual todas as sociedades, com modali­
dades variáveis, separaram um âmbito concreto
de produções textuais de experiências coletivas
ou de prazeres estéticos - e dependências - as

Do social ao cultural 43
42 A história ou a leitura do tempo
Discursos eruditos
e práticas populares

As relações entre a cultura popular e a cul­


tura letrada mobilizaram apaixonadamente a
história cultural. As maneiras de concebê-las
podem ser agrupadas em dois grandes mode­
los de descrição e de interpretação. O primeiro,
desejoso de abolir toda forma de etnocentrismo
cultural, trata da cultura popular como um sis­
tema simbólico coerente, que se ordena segundo
uma lógica estrangeira e irredutível em relação
à da cultura letrada. O segundo, preocupado
em recordar a força das relações de dominação
e das desigualdades do mundo social, aborda a
cultura popular a partir de suas dependências e
de suas faltas no que diz respeito à cultura dos
dominantes. De modo que, por um lado, a cul­
tura popular é pensada como autônoma, inde­
pendente, fechada sobre si mesma, e, por outro
lado, é definida por sua distância no que diz res­
peito à legitimidade cultural. Os historiadores
oscilaram durante longo tempo entre essas duas
perspectivas que mostram, simultaneamente,
todos os trabalhos realizados sobre a religião ou
a literatura, consideradas como especificamen­
te "populares': e a construção de uma oposição,
reiterada com o decorrer do tempo, entre a idade
de ouro de uma cultura popular livre e vigorosa

45
e os tempos das censuras e das pressões que a Nessa brecha se insinuam as reformulações, os
condenam e a desmantelam (BuRKE, 1978). desvios, as apropriações e as resistências (de
Sem dúvida, devem-se suavizar ou rechaçar CERTEAU, [1980] 1990). E, pelo contrário, a im­
distinções tão categóricas. Em primeiro lugar, posição de disciplinas inéditas, a insinuação de
está claro que o esquema que opõe o esplendor novas submissões, a definição de novas regras
e a miséria da cultura popular não é próprio da de conduta sempre devem ceder ou negociar
idade moderna. Acha-se nos historiadores me­ com as representações arraigadas e as tradições
dievali stas, que designam o século XIII como o partilhadas. Portanto, é inútil pretender identi­
tempo de uma aculturação cristã destruidora ficar a cultura, a religião ou a literatura "popu­
das tradições da cultura popular laica dos sécu­ lar" a partir de práticas, crenças ou textos que
los XI e XII. Caracteriza, desse modo, o movi­ seriam específicos delas. O essencial está em ou­
mento que, entre 1870 e 1914, fez passar as so­ tro lugar, na atenção sobre os mecanismos que
ciedad es ocidentais de uma cultura tradicional, fazem os dominados interiorizarem sua própria
campesina e popular para uma cultura nacional, inferioridade ou ilegitimidade e, contraditoria­
homogênea, unificada e solta. E supõe-se que mente, sobre as lógicas graças às quais uma cul­
um contraste similar distingue, no século XX, tura dominada consegue preservar algo de sua
a cultura das massas imposta pelos novos meios coerência simbólica. A lição vale tanto para o
de comunicação de uma antiga cultura comuni­ confronto entre os clérigos e as populações ru­
tária e criadora. Como a fênix, a cultura parece rais na velha Europa (GINZBURG, 1976) como
renascer de suas cinzas depois de cada um de para as relações entre vencedores e vencidos no
seus desaparecimentos. O verdadeiro problema mundo (GRUZINSKI, 1988).
não é, pois, datar o desaparecimento irremediá­ Daí se depreende o principal desafio que
vel de uma cultura dominada, por exemplo, em se apresenta à história cultural: como pensar a
1600 ou 1650, mas sim compreender como, em articulação entre os discursos e as práticas. O
cada época, tecem-se relações complexas entre questionamento das velhas certezas adotou a
formas impostas, mais ou menos restritivas, e forma do "giro linguístico': que se baseia em
identidades salvaguardadas, mais ou menos al­ duas ideias fundamentais: a de que a língua é
teradas (DAVIS, 1975). um sistema de signos cujas relações produ­
A f9rça dos modelos culturais dominantes não zem, por si mesmas, significados múltiplos e
anula o espaço próprio de sua recepção. S empre instáveis, fora de toda intenção ou de qualquer
existe uma brecha entre a norma e o vivido, controle subjetivo; e a de que a "realidade" não
o dogma e a crença, as normas e as condutas. é uma referência objetiva externa ao discurso,

46 A his tória ou a leitura do tempo Discursos eruditos e práticas populares 47


mas é sempre construída na e pela linguagem. posições sociais que caracterizam, em suas dis­
Essa perspectiva afirma que os interesses sociais crepâncias, os diferentes grupos sociais não são
nunca são uma realidade "pré-existente': mas apenas um efeito do discurso, mas, antes, tam­
sim sempre o resultado de uma construção sim­ bém designam as condições de possibilidade.
bólica e linguística, e considera que toda prá­ O objeto fundamental de uma história que
tica, seja qual for, se situa necessariamente na se propõe reconhecer a maneira como os ato­
ordem do discurso (BAKER, 1990). res sociais dão sentido a suas práticas e a seus
Contra esses postulados, é necessário recor­ enunciados se situa, portanto, na tensão entre,
dar que, se as práticas antigas não são acessíveis por um lado, as capacidades inventivas dos in­
senão, na maioria das vezes, através dos textos divíduos ou das comunidades e, por outro, as
que se propunham a representá-las ou organizá­ restrições e as convenções que limitam - de ma­
las, prescrevê-las ou proscrevê-las, isso não im­ neira mais ou menos clara conforme a posição
plica afirmar a identidade de duas lógicas: a que que ocupam nas relações de dominação - o que
governa a produção e a recepção dos discursos lhes é possível pensar, dizer e fazer. Essa obser­
e a que rege as condutas e as ações. Para pensar vação é válida também para as obras letradas e
essa irredutibilidade da experiência ao discur­ as criações estéticas, sempre inscritas nas heran­
so, das lógicas da prática à lógica logocêntrica, ças e nas referências que as fazem concebíveis,
os historiadores puderam se apoiar na distinção comunicáveis e compreensíveis. É válida, desse
proposta por Foucault (1969) entre "formações modo, para as práticas ordinárias, disseminadas
discursivas" e "sistemas não discursivos': ou na e silenciosas, que inventam o cotidiano.
estabelecida por Bourdieu ( 1997) entre "sentido A partir dessa observação, deve-se compreen­
prático" e "razão escolástica': der a releitura, pelos historiadores, dos clássicos
Essas distinções previnem contra o uso des­ das ciências sociais (Elias, Weber, Durkheim,
controlado da noção de "texto': com frequência Mauss, Halbwachs) e a importância de um
aplicada indevidamente a práticas cujos proce­ conceito como o de "representação': que veio
dimentos não são, em absoluto, similares às es­ designar, praticamente por si mesmo, a nova
tratégias que governam o enunciado dos discur­ história cultural. De fato, essa noção permite
sos. A construção dos interesses pelas linguagens vincular estreitamente as posições e as relações
disponíveis em um determinado tempo sempre sociais com a maneira como os indivíduos e os
está limitada pelos recursos desiguais (materiais, grupos se percebem e percebem os demais. As
linguísticos ou conceituais) de que dispõem os representações coletivas, na maneira como são
indivíduos. De modo que as propriedades e as definidas pela sociologia de Durkheim e Mauss,

48 A história ou a leitura do tempo Discursos eruditos e práticas populares 49


incorporam nos indivíduos, sob a forma de es­ exercício da autoridade, fundada na adesão aos
quemas de classificação e juízo, as próprias divi­ signos, aos ritos e às imagens que a fazem ver e
sões do mundo social. São elas que transmitem obedecer (MARIN, 1981); a construção das iden­
as diferentes modalidades de exibição da iden­ tidades sociais ou religiosas, situada na tensão
tidade social ou da potência política tal como entre as representações impostas pelos poderes
as fazem ver e crer os signos, as condutas e os ou pelas ortodoxias e a consciência de pertinên­
ritos. Por último, essas representações coletivas cia de cada comunidade (GINZBURG, 1966; GE­
e simbólicas encontram, na existência de repre­ REMEK, 1980); ou até as relações entre os sexos,
sentantes individuais ou coletivos, concretos ou pensadas pelas representações e práticas como
abstratos, as garantias de sua estabilidade e de insinuações da dominação masculina e como a
sua continuidade. afirmação de uma identidade feminina própria,
Nestes últimos anos, os trabalhos de histó­ enunciada exteriormente ou com consentimen­
ria cultural fizeram grande uso desse tríplice to, pela rejeição ou pela apropriação dos mode­
sentido da representação, nesses termos ou em los impostos (SCOTT, 1996). A reflexão sobre a
outros, por duas razões fundamentais. Em pri­ definição das identidades sexuais constitui uma
meiro lugar, o retrocesso da violência entre os ilustração exemplar da exigência que hoje ha­
indivíduos, que caracteriza as sociedades oci­ bita em toda prática histórica: compreender,
dentais entre a Idade Média e o século XVIII e ao mesmo tempo, como as representações e os
que deriva do confisco (no mínimo tendencial) discursos constroem as relações de dominação
do Estado sobre o uso legítimo da força, substi­ e como eles próprios dependem dos recursos
tuiu (ao menos parcialmente) os enfrentamen­ desiguais e dos interesses contrários que sepa­
tos diretos, brutais e sangrentos por lutas cujos ram aqueles cuja potência legitimam daqueles
instrumento e desafio são as representações ou daquelas cuja submissão asseguram (ou de­
(ELIAS, 1939). Por outro lado, a autoridade de vem assegurar).
um poder ou a dominação de um grupo depen­ Entendida dessa maneira, a noção de repre­
dem do crédito outorgado ou recusado às repre­ sentação não nos afasta nem do real nem do
sentações que proponham de si mesmos. social. Ajuda os historiadores a se desfazerem
A atenção dispensada à violência simbóli­ da "ideia muito magra do real': como escrevia
ca, que supõe que quem a sofre contribui para Foucault, que durante longo tempo foi a sua, in­
sua eficácia, ao interiorizar sua legitimidade, sistindo na força das representações, sejam elas
transformou profundamente a compreensão interiorizadas ou objetivadas. As representações
de várias realidades essenciais: precisamente, o não são simples imagens, verdadeiras ou falsas,

50 A história ou a leitura do tempo Discursos eruditos e práticas populares 51


de uma realidade que lhes seria externa; elas
possuem uma energia própria que leva a crer que Micro-história e globalidade
o mundo ou o passado é, efetivamente, o que di­
zem que é. Nesse sentido, produzem as brechas �
que rompem às sociedades e as incorporam nos
indivíduos. Conduzir a história da cultura escri­
ta dando-lhe como pedra fundamental a histó­ Em 2000, um dos principais temas do XIX
ria das representações é, pois, vincular o poder Congresso Internacional de Ciências Históricas
dos escritos ao das imagens que permitem lê-los, realizado em Oslo foi a "global history" (RüsEN,
escutá-los ou vê-los, com as categorias mentais, 2000). Essa proposta se baseava em uma série de
socialmente diferenciadas, que são as matrizes rejeições: rejeição do marco do Estado-Nação
das classificações e dos julgamentos. que delimita, retrospectivamente, uma entidade
social e cultural já presente até mesmo antes de
seu advento político; rejeição dos recortes tradi­
cionais da monografia histórica que explora as
especificidades de uma província, uma região
ou uma cidade; e, por último, rejeição do enfo­
que micro-histórico, suspeito por haver descui­
dado dos horizontes distantes.
Diante dessas maneiras de escrever a histó­
ria, como construir uma história pensada em
escala mundial? Deve ser uma forma nova de
comparativismo, tal como havia proposto Marc
Bloch em 1928, em uma apresentação que se
tornou clássica e que foi pronunciada no VI
Congresso Internacional de Ciências Históri­
cas, também realizado em Oslo? Deve ser com­
preendida como a identificação de diferentes
espaços no sentido braudeliano, que encontram
sua unidade histórica nas redes de relações e de
intercâmbios que os constituem, à margem das
soberanias estatais? Ou se deve considerar que

52 A história ou a leitura do tempo


53
essa história há de ser, antes de tudo, uma his­ que o historiador deseja ver. Quanto ao mais, a
tória dos contatos, dos encontros, das acultura­ observação pode se referir a uma mesma esca­
ções e das mestiçagens? la de análise e evitar uma definição unívoca do
Essa história em escala muito grande, seja enfoque micro-histórico. Com efeito, há uma
qual for sua definição, propõe uma questão difí­ grande distância entre a perspectiva que consi­
cil para as práticas historiadoras: como conciliar dera os recortes micro-históricos como labora­
o percurso dos espaços e das culturas com as tórios que permitem analisar intensamente os
exigências que regem o conhecimento histórico mecanismos de poder que caracterizam uma
desde o século XIX, no mínimo, e que supõem estrutura sociopolítica própria de um tempo e
a análise das fontes primárias, o domínio das um lugar determinados (LEVI, 1985; CoNTRE­
línguas em que estão escritas e o conhecimen­ RAS, 1992) e a que considera esses mesmos re­
to profundo do contexto no qual se situa todo cortes como uma condição de acesso a crenças
fenômeno histórico em particular? Grandes e a ritos que normalmente as fontes omitem
exemplos mostram que é possível encarar esse ou evitam e que remetem, até mesmo em sua
desafio; porém, o fato de que os defensores mais "anomalià' (o termo é de Ginzburg), a uma base
fervorosos de uma história global geralmente cultural partilhada por toda a humanidade.
não façam mais que referências a obras publica­ Nesse último sentido, não há nenhuma contra­
das em um só idioma - o inglês - não deixa de dição entre uma técnica de observação micro­
ser preocupante ... histórica e uma descrição macroantropológica
A volta a uma história global não pode ser (GINZBURG, 1989).
separada da reflexão sobre as variações de es­ O caminho é estreito entre a recusa, simulta­
calas em história, como a que Ricreur (2000, p. neamente, de uma história global, compreendi­
267-292) realizou recentemente. Este observa: da como uma figura moderna da velha história
"Em cada escala vemos coisas que não se veem universal (KosELLECK, 1975), e a de uma histó­
em outra escala, e cada escala tem sua própria ria comparada, compreendida como puramente
regrà: Portanto, é impossível totalizar essas dife­ morfológica (DÉTIENNE, 2000). O que importa é
rentes maneiras de ver o mundo, e é inútil buscar a eleição de um marco de estudo capaz de tornar
a "saliêncià' de onde poderiam ser vistas como visíveis as connected histories (SuBRAHMANYAM,
comensuráveis. A advertência é útil para evi­ 1977) que relacionaram populações, culturas,
tar falsos debates sobre a suposta superioridade economias e poderes. A escolha pode privilegiar
epistemológica de tal ou qual observação: a re­ uma soberania exercida em territórios dissemi­
ferência atribuída a uma ou a outra depende do nados em vários continentes e dentro da qual

54 A história ou a leitura do tempo Micro-história e globalidade 55


se produzem a circulação dos homens e dos que constituem suas significações próprias. O
produtos, a transmissão das informações, o segundo dá conta com rigor das transmissões
intercâmbio de conhecimentos e a mestiçagem e apropriações, sempre contextualizadas com
dos imaginários. Nesse caso, as cadeias de in­ precisão, mas com o risco da "eliminação" da
terdependência que vinculam, a uma distância identificação do fundamento antropológico
muito grande, os indivíduos e as comunida­ universal que faz o "ser-homem': como diria Ri­
des estão situadas em um espaço fragmenta­ creur, e que torna possíveis os reconhecimentos
do e descontínuo, porém governado por uma além das diferenças e das descontinuidades.
mesma autoridade política (GRUZINSKI, 2001). A abertura dos espaços, possibilitada nos
Outra opção possível consiste em identificar a séculos XV e XVI pelos descobrimentos, inter­
transmissão e o reemprego das mesmas refe­ câmbios e conquistas, permitiu, pela primeira
rências, dos mesmos mitos, das mesmas profe­ vez, a confrontação dos conhecimentos pró­
cias em contextos muito diferentes e distantes prios de diferentes culturas e a possibilidade
(SUBRAHMANYAM, 2001). de comparações aplicadas mundialmente, e
A alternativa remete à tensão entre o enfo­ não apenas pelos europeus (SuBRAHMANYAM,
que morfológico, que faz o inventário dos pa­ 2005; GRUZINSKI, 2004). Portanto, a consciên­
rentescos que existem entre diferentes formas cia de globalidade dos contemporâneos leva, a
( estéticas, rituais, ideológicas, etc.) à margem de seu modo, à dos historiadores. Por isso, uma
toda certificação de contatos culturais, e o enfo­ das práticas possíveis da história global se ape­
que histórico, que identifica as circulações, os ga às passagens entre mundos muito distantes
empréstimos e as hibridações. Cario Ginzburg uns dos outros (DAVIS, 1995; 2006) ou mesmo
( 1991) demonstrou com perspicácia, a propósi­ reconhece nas situações mais locais as interde­
to da utilização do mortuório duplo (o morto e pendências que as ligam ao longe, sem que ne­
uma imagem do morto) em numerosos ritos fu­ cessariamente os atores tenham clara percep­
nerários, a difícil, e até mesmo impossível, con­ ção disso. A união indissociável do global e do
ciliação entre esses dois modos de compreen­ local levou alguns a propor a noção de "glocal",
são. O primeiro conduz ao reconhecimento de que designa com correção, se não com elegân­
constantes, necessariamente relacionadas com cia, os processos pelos quais são apropriadas as
sua universalidade, mas também com o risco da referências partilhadas, os modelos impostos,
descontextualização de um elemento concreto os textos e os bens que circulam mundialmen­
no que diz respeito ao sistema simbólico que lhe te, para fazer sentido em um tempo e em um
dá sentido e aos usos localizados e específicos lugar concretos.

56 A história ou a leitura do tempo Micro-história e globalidade 57


A história na era digital

'"""'
Outra questão de nosso presente, menos
aguda há dez anos, é a das mutações que im­
põem à história o ingresso na era da textuali­
dade eletrônica. O problema já não é o que,
classicamente, vinculava os desenvolvimentos
da história séria e quantitativa com o recurso ao
computador para o processamento de grandes
quantidades de dados, homogêneos, repetidos
e informatizados. Agora se trata de novas mo­
dalidades de construção, publicação e recepção
dos discursos históricos (CHARTIER, 2004).
A textualidade eletrônica de fato transfor­
ma a maneira de organizar as argumentações,
históricas ou não, e os critérios que podem mo­
bilizar um leitor para aceitá-las ou rejeitá-las.
Quanto ao historiador, permite desenvolver
demonstrações segundo uma lógica que já não
é necessariamente linear ou dedutiva, como é a
que impõe a inscrição, seja qual for a técnica, de
um texto em uma página. Permite uma articu­
lação aberta, fragmentada, relacional do racio­
cínio, tornada possível pela multiplicação das
ligações hipertextuais. Quanto ao leitor, agora a
validação ou a rejeição de um argumento pode
se apoiar na consulta de textos (mas também de
imagens fixas ou móveis, palavras gravadas ou

59
composições musicais) que são o próprio objeto prova e as modalidades de construção e valida­
de estudo, com a condição de que, obviamente, ção dos discursos de saber.
sejam acessíveis em forma digital. Se isso é as­ Um exemplo das novas possibilidades aber­
sim, o leitor já não é mais obrigado a acreditar tas tanto para a consulta de corpus de docu­
no autor; pode, por sua vez, se tiver vontade e mentos como para a própria construção de
tempo, refazer total ou parcialmente o percurso uma argumentação histórica é a dupla publica­
da pesquisa. ção (impressa, nas páginas da American Histo­
No mundo dos impressos, um livro de his­ rical Review, e eletrônica, no site da American
tória supõe um pacto de confiança entre o his­ Historical Association) do artigo que Robert
toriador e seu leitor. As notas remetem a docu­ Darnton (2000) dedicou às canções subversi­
mentos que o leitor, no geral, não poderá ler. vas recolhidas pelos espiões da polícia do rei
As referências bibliográficas mencionam livros nos cafés parisienses do século XVIIl. 4 A ver­
que o leitor, na maioria das vezes, não poderia são eletrônica oferece ao leitor o que o impres­
encontrar senão em bibliotecas especializadas. so não pode lhe dar: uma cartografia dinâmica
As citações são fragmentos recortados por dos lugares onde são cantadas as canções, os
mera vontade do historiador, sem possibilida­ informes da polícia que recolhem as letras sub­
de, para o leitor, de conhecer a totalidade dos versivas, o corpus de canções e, graças à gra­
textos de onde foram extraídos os fragmentos. vação feita por Hélene Delavault, a escuta dos
Esses três dispositivos clássicos da prova da textos tal como os ouviram os contemporâneos.
história (a nota, a referência, a citação) estão Assim se estabelece uma relação nova, mais com­
muito modificados no mundo da textualidade prometida com os vestígios do passado e, possi­
digital a partir do momento em que o leitor é velmente, mais crítica com respeito à interpre­
colocado em posição de poder ler, por sua vez, tação do historiador.
os livros que o historiador leu e consultar por Ao permitir uma nova organização dos dis­
si mesmo, diretamente, os documentos anali­ cursos históricos, baseada na multiplicação
sados. Os primeiros usos dessas novas modali­ das ligações hipertextuais e na distinção en­
dades de produção, organização e certificação
tre diferentes níveis de textos (do resumo das
dos discursos de saber mostram a importân­
conclusões à publicação dos documentos), o
cia da transformação das operações cognitivas
livro eletrônico é uma resposta possível, ou ao
que implica o recurso ao texto eletrônico. Aqui
menos apresentada como tal, à crise da edição
há uma mutação epistemológica fundamental
que transforma profundamente as técnicas da 4 Ver tambem a página web da AHR: www.historycooperative.org/ahr.

60 A história ou a leitura do tempo A história na era digital 61


nas ciências humanas.5 Em ambos os lados do permitiriam pensar que é assim. Porém conti­
Atlântico os efeitos são comparáveis, embora nua pendente uma questão: a da capacidade
as causa principais não sejam exatamente as desse livro novo de encontrar ou produzir seus
mesmas. Nos Estados Unidos, a questão prin­ leitores. Por um lado, a longa história da leitura
cipal é a redução drástica das aquisições de mo­ mostra fortemente que as mudanças na ordem
nographs pelas bibliotecas universitárias, cujos das práticas costumam ser mais lentas que as re­
recursos são devorados pelas assinaturas de voluções das técnicas e que sempre estão defa­
publicações científicas que, em alguns casos, sadas em relação a estas. A invenção da impren­
têm preços consideráveis (entre 10.000 e 15.000 sa não produziu imediatamente novas maneiras
dólares por ano). Daí a hesitação das editoras de ler. Por sua vez, as categorias intelectuais que
universitárias diante da publicação de obras que associamos com o mundo dos textos subsistem
são consideradas por demais especializadas: diante das novas formas do escrito, enquanto
teses de doutorado, estudos monográficos ou que a própria noção de "livro" se acha questio­
livros de erudição (DARNTON, 1999). Na Fran­ nada pela dissociação entre a obra, em sua coe­
ça, e sem dúvida mais amplamente na Europa, rência intelectual, e o objeto material que asse­
uma redução similar da produção, que limita o gurava sua imediata percepção e apreensão. Por
número de títulos publicados e recusa as obras outro lado, não se deve esquecer que os leitores
demasiadamente concretas ou as traduções de­ (e os autores) potenciais dos livros eletrônicos,
masiadamente caras, provém sobretudo da di­ quando não se trata de corpus de documentos,
minuição do público de leitores assíduos - que são ainda minoritários. Continua existindo uma
não era formado apenas por universitários profunda brecha entre a obsessiva presença da
junto com a queda do volume de suas compras revolução eletrônica nos discursos e a realidade
(CHARTIER, 2000). das práticas de leitura, que continuam estando,
A edição eletrônica dos livros de história que em grande medida, apegadas aos objetos im­
as editoras não querem ou não podem publicar pressos e que não exploram senão parcialmente
é a solução para essa dificuldade? As iniciativas as possibilidades oferecidas pelo digital. O fra­
tomadas nesse sentido, com a criação de cole­ casso e o desaparecimento de numerosos edito­
ções digitais dedicadas a publicar livros novos, res que se haviam especializado no mercado dos
ensaios e dos romances em formato eletrônico
5 Ver, por exemplo, o projeto desenvolvido pela Columbia University
Press, em Nova York: Electronic Publishing lnitiative @ Columbia e
nos lembram que seria um erro considerar que
sua série "Gutenberg e-series of monographs in History". o virtual já é real.

62 A história ou a leitura do tempo A história na era digital 63


Os tempos da história

'""'-'

O título deste ensaio é A história ou a leitura


do tempo. Nesta conclusão, desejaria colocá-lo
no plural e recordar, sendo fiel à obra de Fer­
nand Braudel, que a especificidade da história,
dentro das ciências humanas e sociais, é sua ca­
pacidade de distinguir e articular os diferentes
tempos que se acham superpostos em cada mo­
mento histórico. Aqui se deve voltar à constru­
ção temporal que sustentava todo o edifício da
história global e, mais além, da ciência do so­
cial, tal como as definia Braudel ([1958] 1997,
p. 189-190): "A história se situa em patamares
diferentes, diria de bom grado, em três patama­
res, mas essa é uma maneira de falar muito sim­
plista. [...] Na superfície uma história factual se
inscreve no tempo curto: é uma micro-história.
A meia encosta, uma história conjuntural segue
um ritmo mais largo e mais lento. Foi estudada
até aqui sobretudo no plano da vida material,
dos ciclos ou interciclos econômicos. [ ...] Para
além desse 'recitativo' da conjuntura, a história
estrutural, ou de longa duração, coloca em jogo
séculos inteiros; está no limite do móvel e do
imóvel e, por seus valores fixos há muito tem­
po, faz figura invariante em face de outras his­
tórias, mais vivas a se escoar e a se consumar,

65
e que, em suma, gravitam em tomo delà: Hoje relações de dominação: "É preciso entender por
se pode propor três questões a esse modelo das acontecimento não uma decisão, um tratado,
durações superpostas e heterogêneas. Em pri­ · um reino, ou uma batalha, mas uma relação de
meiro lugar, são tão irredutivelmente diferentes forças que se inverte, um poder confiscado, um
umas das outras? Não se há de considerar, como vocabulário retomado e voltado contra seus uti­
faz Paul Ricreur em Temps et récit (1983, p. 189), lizadores, uma dominação que se enfraquece, se
que "a própria noção de história de longo termo distende, se envenena e uma outra que faz sua
deriva do acontecimento dramático, no sentido entrada, mascarada. As forças que se encontram
que acabamos de dizer, isto é, de acontecimen­ em jogo na história não obedecem nem a uma
to-armado-na-intrigá: e que, por isso, os três destinação, nem a uma mecânica, mas ao acaso
tempos braudelianos estão estreitamente vincu­ das lutas. Elas não se manifestam como formas
lados e remetem a uma mesma matriz tempo­ sucessivas de uma intenção primordial; como
ral? O tempo longo do Mediterrâneo deve ser também não têm o aspecto de um resultado.
compreendido como uma grande trama, cons­ Elas aparecem sempre na álea singular do acon­
truída segundo as fórmulas narrativas que re­ tecimento" (FOUCAULT, [1971] 1970-1975, p.
gem o relato do acontecimento e que articulam 148). Se bem que o acontecimento, nessa leitura
as temporalidades construídas do relato com o nietzschiana, seja aleatório, violento e inespera­
tempo subjetivo do indivíduo. Na escritura do do, não designa a espuma dos fatos, e sim as rup­
historiador, o tempo do mar e o tempo do rei se turas e as descontinuidades mais fundamentais.
constroem segundo as mesmas figuras. Por último, pode-se considerar as temporali­
Portanto, deve-se delimitar o "acontecimen­ dades como externas aos indivíduos, como me­
to" à sua definição tradicional, a que o vincu­ didas do mundo e dos homens? Pierre Bourdieu,
la ao tempo curto, às decisões conscientes, ao nas Méditations pascaliennes (1997, p. 265), fri­
político? Em um ensaio dedicado a Nietzsche, sa com insistência que a relação com o tempo
Michel Foucault associa estreitamente uma é uma das propriedades sociais mais desigual­
crítica devastadora da noção de origem a uma mente distribuídas: "Seria preciso descrever as
reformulação do conceito de acontecimento. diferentes maneiras de se temporalizar, referin­
Para ele, a brutalidade do acontecimento deve do-as às suas condições econômicas e sociais de
se situar não nos acidentes no decorrer da his­ possibilidade': Ser dono de seu próprio tempo,
tória ou das escolhas dos indivíduos, mas sim controlar o tempo dos demais ("o todo-podero­
no que aparece aos historiadores como o me­ so é aquele que não espera e que, ao contrário,
nos "factual': a saber, as transformações das faz esperar" [BouRDIEU, 1997, p. 302]), não ter

66 A história ou a leitura do tempo Os tempos da história 67


nenhuma influência sobre o tempo e, de súbito,
deixar-se levar pelos jogos do acaso que "per­
Referências
mitem afastar-se do tempo inutilizado de uma
vida sem justificação e, sobretudo, sem compro­
e---,
misso possível" (BouRDIEU, 1997, p. 295) são
algumas das modalidades incorporadas da re­
lação com o tempo que expressam o poder dos
dominantes e a impotência dos desfavorecidos. APPLEBY, Joyce; HUNT, Lynn; JACOB, Margaret. Telling
the truth about history. Nova York; Londres: W.W. Norton
De modo que as diversas temporalidades não and Company, 1994
devem ser consideradas como envoltórios ob­
AUB, Max. (1958). Jusep Torres Campalans. Reedição.
jetivos dos fatos sociais; são o produto de cons­ Barcelona: Destino, 1999.
truções sociais que asseguram o poder de uns
BAKER, Keith M. Inventing the French Revolution: Essays
(sobre o presente ou o futuro, sobre si próprios on French political culture in the eighteenth century. Cam­
ou sobre os demais) e levam os outros à deses­ bridge: Cambridge University Press, 1990.
perança. Atualmente, a arquitetura braudeliana BARTHES, Roland. (1968). I.effet de réel. ln: BARTHES,
das durações embutidas (longa duração, con­ Roland. Le bruissement de la Zangue. Essais critiques IV. Pa­
juntura, acontecimento) sem dúvida merece ser ris: Éditions du Seuil, 1984. p. 153-174. (Trad. português: O
repensada. O fato é que a leitura das diferentes rumor da língua. São Paulo: Martins Fontes, 2004.)
temporalidades que fazem que o presente seja o BLOCH, Marc. Pour une histoire comparée des socié­
que é, herança e ruptura, invenção e inércia ao tés européennes. Revue de Synthese Historique, n. XLVI,
1928, p. 15-50.
mesmo tempo, continua sendo a tarefa singular
BOURDIEU, Pierre. Le champ littéraire. Actes de la Re­
dos historiadores e sua responsabilidade princi­
cherche en Sciences Sociales, n. 89, 1991. p. 4-46.
pal para com seus contemporâneos.
BOURDIEU, Pierre. Méditations pascaliennes. Paris: Édi­
tions du Seuil, 1997. (Trad. português: Meditações Pasca­
lianas. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 2001.)
BOUZA, Fernando. Comunicación, conocimiento y me­
moria en la Espafta de los siglos XVI y XVII. Salamanca:
Publicaciones del SEMYR, 1999.
BOWERS, Fredson. Bibliography and textual criticism.
Oxford: Clarendon Press, 1964.
BOWERS, Fredson. Essays in bibliography, text, and editing.
Charlottesville: University Press ofVirginia, 1975.

68 A história ou a leitura do tempo


69
nenhuma influência sobre o tempo e, de súbito,
deixar-se levar pelos jogos do acaso que "per­
Referências
mitem afastar-se do tempo inutilizado de uma
vida sem justificação e, sobretudo, sem compro­
e---,
misso possível" (BouRDIEU, 1997, p. 295) são
algumas das modalidades incorporadas da re­
lação com o tempo que expressam o poder dos
dominantes e a impotência dos desfavorecidos. APPLEBY, Joyce; HUNT, Lynn; JACOB, Margaret. Telling
the truth about history. Nova York; Londres: W.W. Norton
De modo que as diversas temporalidades não and Company, 1994
devem ser consideradas como envoltórios ob­
AUB, Max. (1958). Jusep Torres Campalans. Reedição.
jetivos dos fatos sociais; são o produto de cons­ Barcelona: Destino, 1999.
truções sociais que asseguram o poder de uns
BAKER, Keith M. Inventing the French Revolution: Essays
(sobre o presente ou o futuro, sobre si próprios on French political culture in the eighteenth century. Cam­
ou sobre os demais) e levam os outros à deses­ bridge: Cambridge University Press, 1990.
perança. Atualmente, a arquitetura braudeliana BARTHES, Roland. (1968). I.effet de réel. ln: BARTHES,
das durações embutidas (longa duração, con­ Roland. Le bruissement de la Zangue. Essais critiques IV. Pa­
juntura, acontecimento) sem dúvida merece ser ris: Éditions du Seuil, 1984. p. 153-174. (Trad. português: O
repensada. O fato é que a leitura das diferentes rumor da língua. São Paulo: Martins Fontes, 2004.)
temporalidades que fazem que o presente seja o BLOCH, Marc. Pour une histoire comparée des socié­
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Referências 77
76 A história ou a leitura do tempo
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EM PAPEL PóLEN BOLD 90 G NA DEL REY GRAFICA E EDITORA.


1
1
I
Este ensaio reflete sobre as interrogações que per­
meiam, hoje em dia, a escritura da história.
A partir dos anos 1970 e das obras de Paul Veyne,
Hayden White e Michel de Certeau, os historiadores
discutiram duas questões essenciais: de um lado, a
tensão entre a forma retórica e narrativa da história,
partilhada com a ficção, e seu estatuto de conhecimento
comprovado; de outro, a relação entre o lugar social em
que a história como saber se produz (agora a univer­
1 sidade, anteriormente a cidade antiga, o mosteiro, as

1
cortes, as academias) e a seus temas, técnicas e retórica.
Recordando e deslocando essas questões clássicas,

1
este ensaio destaca três problemas mais recentes: 1)
A concorrência para a representação do passado entre

1 história, literatura e memória; 2) As possibilidades e os


efeitos da comunicação e da publicação eletrônicas sobre

j
a investigação e a escritura históricas; 3) A construção
da relação entre as experiências do tempo e a construção
do relato histórico.

LEIA TAMBÉM DA COLEÇÁO ENSAIO GERAL:

■ Homofobia: História e crítica de um preconceito


DANIEL BORRILLO

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