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Este texto busca uma aproximação This paper seeks a conceptual
conceitual sobre o sistema de proteção approach on the system of social
social construído nas últimas décadas do protection built in the last decades of the
século XIX e início do século XX e que 19th and beginning of the 20th century
atribuiu, paulatinamente, ao Estado uma which gradually assigned to the State the
função interventiva e regulatória na área role of intervening and regulating the
do Bem-estar Social. Embora levando-se Welfare State. Though taking into
em conta que diferenças culturais, account that cultural, historical, political
históricas, políticas e econômicas and economic differences imprint distinct
imprimem distintos padrões aos patterns on the mechanisms of social
mecanismos de atenção social em cada attention in each particular country,
país, aspectos comuns podem ser common aspects can be identified which
identificados e estruturam explicações can help structure explanations for the
sobre o papel e a dinâmica do padrão role and the dynamics of the dominant
dominante de proteção ao bem-estar nos pattern of Welfare protection found in
países industriais avançados. Tem ainda developed countries. This text also has
o objetivo de explicar como o poder de the purpose of explaining how the power
mobilização política contribuiu na of political mobilisation contributed to the
constituição do Welfare State a partir da formation of the Welfare State through
referência teórica de Esping-Andersen, the theoretical reference of Esping-
que enfatiza a interferência significativa Andersen which emphasises the
dos mecanismos políticos e institucionais participation of political and institutional
de representação para a construção de mechanisms of representation in the
consensos na condução dos objetivos de setting up of consensual ways of
bem-estar, emprego e crescimento undertaking welfare, employment and          
(ESPING-ANDERSEN, 1995). development.
Palavras-chave: Estado de Bem-estar Key words: social protection, social Mestre em Serviço Social pela PUC-SP.
Social, proteção social, Estado, consenso, policy, Welfare State, public policies. Doutoranda do Programa de Pós-
bem-estar. Graduação em Enfermagem e Professora
do Departamento de Serviço Social da
Universidade Federal de Santa Catarina –
UFSC.
 
 

 


 


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s afirmações e discus- tar Social, visto que contemplam as ricos que podem causar pri-
sões, acaloradas, ideo- distintas formas de articulação dos vações do rendimento;
logizadas ou com gran- mecanismos de proteção social – Es-
– é um sistema uniforme: as
de rigor teórico, sobre o fim do Esta- tado, mercado e família3 .
prestações são uniformes
do de Bem-estar, a construção de
novas formas de solidariedade social, seja qual for o rendimento
dos interessados;
o papel do Estado nas sociedades atu-     !" 
ais têm um grande mérito – repõem a           – É um sistema centraliza-
atualidade do debate e da reflexão do: preconiza uma reforma
sobre mecanismos de proteção soci- administrativa e a criação de
al. As formulações explicativas sobre O Welfare State, expressão utili-
um serviço público único
a crise do Estado de Bem-estar Soci- zada pelos ingleses para designar o
(ROSANVALLON, 1981,
al trazem a tona questionamentos so- Estado de Bem-estar é bem mais re-
p.115).
bre sua origem e fundamentos, na ten- cente que a expressão Estado-Provi-
tativa de ampliar a compreensão mes- dência. Esta última, segundo referên-
O termo alemão Wohfahrstaat
ma de sua alardeada crise. cias históricas encontradas em
vem sendo usado desde a década de
Tal propósito exige, inicialmente, Rosanvallon, foi usada em 1860, por
1870, juntamente com o termo
uma aproximação conceitual sobre o Émile Ollivier, deputado republicano
Sozialstaat, igualmente utilizado para
sistema de proteção social1 construído francês, ao criticar o aumento das atri-
denominar as reformas dos anos 1880,
nas últimas décadas do século XIX e buições do Estado, na esteira de uma
realizadas por Bismarck. Rosanvallon
início do século XX e que atribuiu, pau- concepção em voga na época, subor-
aponta que foi na Alemanha que sur-
latinamente, ao Estado uma função dinada a uma filosofia social que só
giram os primeiros elementos da políti-
interventiva e regulatória na área do reconhecia o interesse particular de
ca social que desaguaram no Estado
Bem-estar Social. cada indivíduo e o interesse geral.
de Bem-estar moderno, como fruto
Posteriormente é retomada pelo eco-
Embora levando-se em conta que da força crescente do partido social-
nomista, Èmile Laurent, que defendia
diferenças culturais, históricas, políti- democrata5 . Esse crescimento, que
um Estado “erigido numa espécie de
cas e econômicas imprimem distintos preocupava sobremaneira o grupo no
providência”. Preconizada como al-
padrões aos mecanismos de atenção poder na época, foi alvo de intensa re-
ternativa o desenvolvimento de asso-
social em cada país, aspectos comuns pressão. Os ataques violentos ao par-
ciações de previdência, que faria a
podem ser identificados, e estruturam tido foram compensados com a instau-
mediação entre o interesse geral e o
explicações sobre o papel e a dinâmi- ração de uma política social que co-
particular de cada indivíduo (ROSAN-
ca do padrão dominante de proteção bria alguns riscos do trabalho e da pró-
VALLON, 1981, p. 111).
ao bem-estar nos países industriais pria sobrevivência da classe trabalha-
avançados2. A expressão inglesa – Welfare State dora. Até 1889, os trabalhadores ale-
foi criada da década de 40, ainda que a mães já contavam com o seguro-do-
Essa aproximação conceitual menção à Welfare Policy – Política de ença, proteção contra acidentes de tra-
tem, ainda, o objetivo de explicar Bem-estar, ocorra desde o início do sé- balho e seguro velhice-invalidez.
como o poder de mobilização políti- culo XX. O Plano Beveridge4 , foi o pri-
ca contribuiu na constituição do meiro documento a marcar os princípi- As interpretações analíticas a res-
Welfare State a partir da referência os do Welfare State. Esse documento peito da lógica, da evolução e da di-
teórica de Esping-Andersen (1991). teve repercussão em vários países, que nâmica do Welfare State são inúme-
O mesmo autor enfatiza, ainda, que passaram a organizar a política de se- ras e de distintas orientações teórico-
os estudos comparados sobre políti- gurança social com as características metodológicas, bem como incursionam
ca social e Welfare State evidenci- apontadas por Beveridge: pelo plano da ética, filosofia, política,
am a interferência significativa dos economia e direito, ou associam linhas
mecanismos políticos e institucionais – é um sistema generaliza- disciplinares.
de representação sobre a construção do, que abrange o conjunto O debate sobre a emergência e
de consensos políticos na condução da população, seja qual for consolidação do Welfare State foi sis-
dos objetivos de bem-estar, emprego o seu estatuto de emprego ou tematizado, nos últimos anos, por au-
e crescimento (ESPING-ANDER- o seu rendimento; tores que utilizaram formas e critéri-
SEN, 1995).
os diversos para tal empreitada6 . Par-
A partir das indicações acima con- – é um sistema unificado e timos do caminho classificatório ela-
siderou-se oportuna uma revisão das simples: uma quotização úni- borado por Marta Arretche (1995),
classificações do Estado de Bem-es- ca abrange o conjunto dos uma vez que apresenta as variáveis

 

 


 
 

centrais utilizadas nas teorias mos sob fiança governamental, de mente regulados de educa-
explicativas existentes. Informa renda, nutrição, saúde, habitação e ção, saúde, previdência so-
Arretche que sua intenção foi a de educação, assegurados como direito cial, integração e substitui-
buscar os argumentos explicativos político, e não como caridade para ção de renda, assistência so-
contidos nas construções formuladas, todos os habitantes do país, estão re- cial e habitação que, a par
identificando as perspectivas relevan- lacionados aos problemas e possibili- das políticas de salário e
tes – de ordem econômica e política, dades advindos do processo de ino- emprego, regulam direta ou
que viabilizaram a categorização, e não vação industrial7 . Problemas no sen- indiretamente o volume, as
uma apreciação sobre as teorias tido dos efeitos da industrialização taxas e os comportamentos
explicativas. sobre a população – estratificação
do emprego e do salário da
social, processos inovadores de tra-
Deve-se observar que, em alguns economia, afetando, portan-
balho para segmentos que vêm da
casos, autores são citados tanto nas to, o nível de vida da popu-
área rural, aumento da mão-de-obra
determinações de ordem econômica lação trabalhadora (DRAI-
feminina – vêm exigindo novos me-
como políticas, visto que ambas estão BE e AURELIANO, apud
canismos de coesão e integração so-
estreitamente articuladas em certas VIANNA, 1998, p. 37).
ciais. As possibilidades de sua
abordagens metodológicas.
implementação estão relacionadas ao
Para argumentar e justificar o pon-
excedente financeiro para sustentá-
to de vista adotado sustentam três
los e expandi-los: “Quanto mais ricos
#   $  os países se tornam, mais semelhan-
ordens de variáveis:
       tes eles são na ampliação da cobertu- 1 – o aumento do número de tra-
       ra da população e dos riscos balhadores dependentes do
[...]”(WILENSKY, apud ARRET- mercado aumenta, bem como
 !"  CHE, 1995, p.6). Assim, seriam o de aposentados, o de aciden-
irrelevantes outros mecanismos na tados no trabalho, etc., enquan-
Para os autores que perfilam essa constituição do Welfare State. to o potencial assistencial das
posição parece haver, ainda que com redes primárias – família e co-
Essa tendência, de forte matiz
reconhecidas divergências internas, munidade, diminui;
durkheimiana, atribui a emergência do
um relativo consenso que os progra- Estado de Bem-estar Social a neces- 2 – o caráter cíclico da produção
mas sociais inclusivos, de cunho sidades de coesão e integração do exige que se estabeleça algu-
universalizante, somente foram colo- tecido social, uma vez que os meca- ma forma de proteção do tra-
cados em marcha devido ao exceden- nismos tradicionais, especialmente a balhador desempregado. As-
te econômico e o grau de desenvolvi- família e outras instituições clássicas, sim, o excedente de mão-de-
mento tecnológico obtidos com a in- perderam suas funções agregadoras. obra, fenômeno típico do ca-
dustrialização. pitalismo monopolista, exigiria,
Draibe e Aureliano creditam a
Essa referência explicativa, segun- expansão da proteção pública às ne- de per si, formas de regulação
do Arretche (1955), pode ser extraí- cessidades de minimizar os riscos que da força de trabalho via ges-
da de alguns trabalhos de Wilensky, as formas contemporâneas de produ- tão estatal;
Richard Titmuss e Theodor Marshall, ção e reprodução da força de traba- 3 – a mobilização operária, devi-
alertando, entretanto, que a discor- lho exigem (VIANNA, 1998). Tanto do a urbanização e localização
dância entre os mesmos incide na é que definem Welfare State como espacial das fábricas e formas
explicação quanto ao seu desenvolvi- de produção fordista, poten-
mento, mas não quanto à sua emer- uma particular forma de cializam os riscos de um con-
gência – “o impacto do processo de regulação social que se ex- fronto ideológico, que ameaça
industrialização sobre as formas de pressa pela transformação à ordem capitalista (ARRET-
intervenção e atuação do Estado” das relações entre o Estado CHE, 1995 e DRAIBE, 1988).
(ARRETCHE, 1955, p. 5). e a economia, entre o Estado Alguns autores, ligados ao pensa-
Para Wilensky (ARRETCHE, e a sociedade, a um dado mento marxiano, associam a constru-
1955, p. 6), o crescimento econômico momento do desenvolvimen- ção do Welfare State às exigências
e demográfico explicam a emergên- to econômico. Tais transfor- próprias da dinâmica capitalista e suas
cia generalizada do Welfare State. mações se manifestam na crises cíclicas. Em razão desta argu-
Justifica sua alegação, a partir da emergência de sistemas naci- mentação, Francisco de Oliveira (1988)
constatação de que os padrões míni- onais públicos ou estatal- interpreta o Welfare State como um
 
 

 


 


padrão de financiamento público da profissional e salarial, ampli- sários para manter a legitimação do
economia capitalista, em conseqüên- ação e diversificação do con- Estado e a harmonia social exigida para
cia das políticas originalmente sumo de bens e serviços, a acumulação do capital.
ancicíclicas de teorização keynesiana. crescentes direitos à segu- O’Connor privilegia, portanto, a
O fundo público financiaria, a partir de rança e o bem-estar sociais expansão capitalista como a variável
regras pactuadas em uma esfera públi- (garantidos por leis e, sobre- central para explicar os gastos soci-
ca, tanto a produção como a reprodu- tudo, pactos entre atores so- ais, ou seja, a não compatibilização
ção da força de trabalho. ciais e políticos e uma cultu- entre desemprego/população exce-
Os seguidores dessa linha de in- ra de eqüidade e justiça, dente, fruto do capital em sua fase
terpretação alegam que se tornou ne- além de uma democratização monopolista, poderia corresponder a
cessária a emergência de um novo do processo eleitoral-parti- uma ruptura entre a relação de funci-
padrão de regulação social no capita- dário articulador e legiti- onalidade entre Estado e setores do
lismo monopolista8 , como conseqüên- mador das estratégias diri- capital. Infere que é o processo deri-
cia de sua própria dinâmica. Tal ocorre gentes, através do sufrágio vado do excedente da população e de
devido às seguintes situações: universal e da regra da mai- produtos que obriga a uma interferên-
oria (ABREU, 1997, p.52). cia estatal para o bem-estar
· seja porque os assalariados,
(ARRETCHE, 1995).
reunidos em torno de interes-
ses coletivos, impuseram a sua As decorrências deste processo se Claus Offe (1984), caminhando
participação no mercado de estendem para os estatutos e garanti- por outra via, ainda que dentro desta
trabalho; as jurídicas (universalização da cober- mesma tendência, sinaliza que a in-
tura da proteção social garantida como dustrialização e, conseqüentemente,
· seja porque o caráter cíclico direito social – exigindo financiamen- o desenvolvimento do capitalismo,
da produção tornou necessá- tos com fundos públicos) e regulação gerou problemas ao destruir formas
ria uma proteção mínima ao econômica (um padrão de financiamen- já estruturadas de vida social e tam-
desemprego; to público da economia capitalista, tanto bém precisar, de certo modo, conven-
· ou pela contribuição que o na produção como reprodução social, cer a população desalojada do cam-
novo modo de regulação ofe- levando os conflitos originários do tra- po e que vivia na periferia das cida-
rece em termos de benefícios balho para o interior do Estado). A al- des, que o assalariamento apresen-
ou vantagens para o aumento teração de princípios e valores surge a tava algumas compensações em re-
da taxas de acumulação, mi- partir da inflexão no padrão de acu- lação às outras formas de satisfação
norando os efeitos ou reduzin- mulação com o escopo de superar uma de necessidades básicas, como, por
do a instabilidade das crises de suas crises cíclicas. exemplo, a segurança contra os ris-
cíclicas do capital.9 Ainda dentro do espectro econômi- cos através de programas sociais que
co, James O’Connor parte da análise garantiriam essa proteção e ainda
Corroborando esta tendência da
das funções do gastos estatais, de atenderiam parte das suas exigênci-
dimensão econômica, determinada
legitimação e acumulação, o que, indi- as de sobrevivência. As políticas so-
pela expansão do modo de produção
retamente, permitiria inferir a justifica- ciais seriam, assim, um preço a ser
capitalista contemporâneo, Mota
tiva para o Welfare State – seria a res- pago pelo progresso tecnológico, con-
(2000) ressalta a correlação estreita
posta às necessidades de acumulação forme indica Arretche ao analisar a
entre o Welfare State e os princípios
e legitimação do sistema capitalista. posição de Offe:
e valores da sociedade salarial, espe-
cialmente os que se erigiram nos mar- Segundo a interpretação do Mais que funcional, o
cos do capitalismo monopolista no O’Connor, o Estado capitalista tenta Welfare State é um desdobra-
período de 1940 a 1970. desempenhar as suas duas funções
mento necessário da dinâmi-
A nova ordem socioeconômica básicas que, via de regra, são parado-
ca de evolução dessas soci-
remete, portanto, xais. Ou seja, manter um processo
edades, uma vez que há pe-
contínuo de acumulação do capital e
quena margem para opções.
ao processo de reprodução ao mesmo tempo garantir ou criar con-
dições de harmonia social, favorecen- Isto é, segundo o autor, a
ampliada do capitalismo me- emergência de programas
do as suas bases de legitimação. Estas
diante um mercado de traba- sociais não é o resultado de
duas funções determinam os gastos
lho e de consumo crescente, escolhas, posto que as alter-
que o Estado tem: de investimento e
tendência ao pleno emprego nativas de políticas são pe-
consumo social – capital social e o dis-
com forte mobilidade sócio- pêndio com despesas sociais, neces- quenas. São as condições

 

 


 
 

econômicas e sociais que ção trabalho-salário (GID- estatuto político mas é, também, uma
determinaram a emergência DENS, 1996, p. 156). questão de capacidades não políticas
do Welfare State e não op- dos cidadãos, derivadas dos recursos
Não descarta, em sua interpreta-
ções do campo do político sociais que dominam e tem acesso.
ção, a influência das teorias keyne-
(ARRETCHE, 1995, p. 16). Assim, “um sistema político com igual-
sianas, com seu potencial de controle
dade de cidadania é na verdade me-
sobre os processos econômicos e so-
Depreende-se que não há intencio- nos do que igualitário se faz parte de
ciais, para a consolidação efetiva do
nalidade ou princípio moral na lógica uma sociedade dividida por condições
Welfare State.
do Welfare State, mas sim que esse de desigualdade” (BARBALET,
se configura, tanto como um antepa- Há entre os estudiosos, ressalvan- 1989, p.11).
ro, uma prevenção a um problema do-se algumas divergências, o reco-
A cidadania em seu sentido moder-
social potencialmente desastroso, nhecimento de que:
no, para Marshall (1967)11 , conteria um
como uma “forma pela qual o Estado conjunto de direitos12 de natureza di-
[...] com as mudanças ope-
tenta resolver o problema da trans- versa: os civis, políticos e sociais.
formação duradoura do trabalho não radas no processo de acumu-
assalariado em trabalho assalariado” lação a partir dos anos 30, Os direitos civis seriam os refe-
(LENHART e OFFE, 1984, p. 37). redefine-se o papel do Esta- rentes e necessários à liberdade indi-
Para os dois autores, o desenvolvi- do, criando-se as bases eco- vidual, tais como o direito de ir e vir,
mento do Welfare State se vincula à nômicas, políticas e ideoló- de pensar livremente, de expressar
necessidade de compatibilização entre gicas para o provimento pú- uma fé, de possuir uma propriedade,
duas exigências contraditórias – da blico do bem-estar. [...]a di- de estabelecer contratos válidos e
classe trabalhadora e de acumulação fusão do fordismo como mo- especialmente o direito à justiça. Esse
do capital. Sua conformação decorre delo de organização indus- último garante, ao indivíduo, os demais
de como reage a estas duas ordens de trial e a imensa aceitação direitos, independente de quaisquer
pressão, estabelecendo uma seleti- das propostas keynesianas requisitos ou critérios.
vidade que é definida no âmbito das foram elementos essenciais Os direitos políticos estão relacio-
estruturas estatais (cálculo econômico para a construção do con- nados a escolhas de projetos e pro-
da burocracia, por exemplo)10 . ceito de Seguridade Social postas de sociedade, através do exer-
Giddens (1996), ao analisar as fon- (VIANNA, 1998, p.17). cício do voto – votar e ser votado, isto
tes estruturais do Welfare State afir- é, participar no poder político de uma
É a constatação que o surgimento das duas formas indicadas. A cons-
ma que os seus elementos básicos, ou
o seu núcleo central, já estavam em e consolidação do Welfare State não trução do direito político se inicia no
evidência muito antes da Primeira podem ser explicados sem se levar em século XIX e se consolida, efetiva-
Guerra Mundial e se relacionavam à conta o processo de expansão do ca- mente, com o aparecimento de uma
necessidade de enfrentar a questão do pitalismo contemporâneo. classe social capaz e preparada para
desemprego em massa. Indica como lutar por sua garantia na estrutura
objetivos estruturais do Welfare State: social. O intenso processo de urbani-
#   %   zação daquela época favoreceu o
· definir um papel central
para o trabalho nas socie-
   !"     surgimento dos partidos de massa, que
tensionaram sobremaneira a amplia-
dades industriais, como uma ção dos direitos políticos, estendendo-
forma de viver; Na esteira do clássico trabalho de os, paulatinamente, para os trabalha-
Theodor Marshall (1967), a construção dores, mulheres e mais recentemente
· promover a solidariedade na-
da cidadania social, fenômeno típico do para os analfabetos.
cional, sendo os sistemas
Século XX, seria como um dos funda-
previdenciários parte de um Os direitos sociais, típicos do sé-
mentos nucleares do Welfare State. A
processo mais global de cons- culo XX, incluem
participação na riqueza socialmente pro-
trução do Estado-nação;
duzida, aliada ao reconhecimento de
· administrar os riscos de uma igualdade intrínseca entre as pes- o direito a um mínimo de bem-
“uma sociedade criadora de soas – razão ético-política do Estado- estar econômico e de segu-
riquezas e orientada para o nação moderno, seriam as bases rança, ao direito de partici-
futuro – em especial, é cla- fundantes dos atuais Welfare States. par, por completo, na heran-
ro, aqueles riscos que não ça social e levar a vida de
De acordo com Barbalet (1989),
são subordinados na rela- um ser civilizado de acordo
a cidadania tem, primordialmente, um
 
 

 


 


com os padrões que se esta- de proteger os seus integrantes, espe- A concepção da proteção social
belecem na sociedade cialmente garantindo seu direito à vida sob a responsabilidade do Estado
(MARSHALL, 1967, p.1113). e à liberdade – de ir e vir, de estabele- ocorreu lentamente, tendo em vista
cer contratos, de ter e negociar propri- que, historicamente, foi uma das for-
Segundo Arretche (1995), Rosan- edades14. A afirmação da necessida- mas de controle – através da igreja
vallon foi o autor que mais se apro- de do contrato social surgiu como “[...] ou organizações religiosas e leigas –
priou das concepções de Marshall ao demandas da burguesia em ascensão sobre a classe trabalhadora. Ou seja,
explicar a crise do Estado de Bem- (no momento em que essa classe re-
estar e, ao explicar a crise, contribuiu presentava todos os que não eram aris- a pobreza não era definida
para uma das interpretações sobre sua tocratas nem membros do clero, ou seja, como a condição de ausên-
origem e desenvolvimento. todos os que constituíam o que os fran- cia de recursos, mas surgia
ceses chamavam ‘terceiro Estado’” em relação às necessidades
Ao analisar a dinâmica do Estado
(COUTINHO, 1997, p. 150). A aspi- da indústria.[...] A relação
Providência, parte do suposto que é
ração e a conquista obtida pela bur- do pauperismo com a falta de
impossível compreendê-lo sem um
guesia, foi, em termos civis, a garantia educação moral era bastan-
retrospecto histórico que remonta a
da posse da propriedade, sendo a li-
construção do Estado moderno. Alerta te clara: ‘trabalho para
berdade, entendida, também, como di-
que as explicações que o situam em aqueles que irão labutar,
reito à posse da terra.
relação ao movimento do capitalismo castigo para aqueles que
e socialismo nos séculos XIX e XX Naquele período histórico, a rele- não vão fazê-lo e pão para
são empobrecedoras, apenas deslo- vância do papel revolucionário da afir- aqueles que não podem fazê-
cando a sua dinâmica para o capita- mação que os indivíduos têm direitos, lo (GIDDENS, 1996, p.154).
lismo, e propõe que a chave para a independentemente do status que ocu-
compreensão da emergência do pam na sociedade, é ressaltada por A pobreza e a miséria não eram
Welfare State deve ser buscada no Coutinho (1997), ao lembrar que os enfocadas como questão social, como
movimento de constituição do Esta- mesmos se constituíram em uma sal- decorrência de uma construção soci-
do-nação moderno. vaguarda contra as pretensões despó- al injusta, mas como “frouxidão mo-
Para Rosanvallon, o atual Estado ticas do absolutismo e um brado con- ral”, “desígnio divino”, cabendo, por-
de Bem-estar é um “aprofundamento tra a desigualdade de direitos sancio- tando, à Igreja ou à sociedade abrigar
e uma extensão do Estado protetor nada pela ordem sócio-política feudal. os pobres e desvalidos. Essa posição
clássico” (1981, p. 18), que se insti- Posteriormente, com a nova ordem deslocava a origem da desigualdade
tuiu entre os séculos XV e XVIII13 , e sócio-política consolidada, a industria- para o âmbito moral ou religioso, e não
que pode ser definido como Estado- lização e o desenvolvimento das for- para a esfera dos direitos e da res-
protetor – protetor das prerrogativas ças produtivas favoreceram, tanto a ponsabilidade pública16 .
civis individuais – vida e liberdade, prosperidade material como a emer-
através de um pacto social estabele- gência de uma classe trabalhadora não O Estado Providência expri-
cido entre os homens e entre estes e proprietária, que lutou pela ampliação me a idéia de substituir a in-
o poder monárquico. da cidadania democrática – condição certeza da proteção religio-
O acordo pactuado garantiria os essencial para expansão e alargamen- sa pela certeza da providên-
direitos civis que levariam à produção to dos direitos políticos e sociais, cia estatal. Nesse sentido, é
da segurança e à redução da incerte- viabilizando, conforme sugere Rosan- o Estado que põe termo à sua
za, condições essenciais para manu- vallon, a radicalização e a correção secularização, transferindo
tenção da ordem necessária ao desen- do15 Estado-protetor. Dessa forma, para suas prerrogativas os
volvimento dos Estados-nações. O benefícios aleatórios que só
se o verdadeiro cidadão só
Estado moderno, como forma política o poder divino podia dispen-
específica, representa um poder co- pode ser proprietário, é ne-
sar. Assume a tarefa de res-
mum que protege as pessoas dos ata- cessário tornar ‘quase pro-
gatar hic et nunc as desi-
ques dos estranhos e de seus seme- prietários’ todos os cidadãos
gualdades ‘naturais’ ou os
lhantes. O contrato social, cujo arca- que não o sejam, isto é, ins-
infortúnios da sorte.[....] Aos
bouço liberal se fundamenta nas obras tituir mecanismos sociais que
acasos da caridade e da pro-
de Locke e Hobbes e o democrata- lhes forneçam um equivalen-
vidência sucedem-se as regu-
burguês em Rousseau, conforma, as- te de segurança que a socie-
sim, o Estado-nação moderno, que se laridades do Estado (RO-
dade garante (ROSAN-
consolida quando cumpre as funções VALLON, 1981, p.20). SANVALLON, 1981, p. 21).

 

 


 
 

Rosanvallon se distingue, ainda, conseguida através da expan- acesso aos mesmos bens a
tanto dos analistas marxistas quanto são da cidadania, especialmen- todo o tempo. Segundo sua
dos funcionalistas, no que se refere te da cidadania social; posição, a igualdade de re-
as explicações sobre as formas, cursos implica que cada um
· terceira, o estado de guerra
descontínuas e não lineares, da im- pague o preço real da vida
promove o pleno emprego e
plantação dos Welfare States. Ao re- que quer levar.
mercados de trabalho rarefei-
lacionar a progressão dos Estado de
tos, com amplas possibilidades
Bem-estar Social “por saltos” às si- Outra referência explicativa para
de incorporação de demandas
tuações de crise, acredita ser, nestes o surgimento do Estado de Bem-es-
da classe trabalhadora e, con-
momentos que se recompõem as ba- tar Social, de ordem política, é a que
seqüentemente, com amplia-
ses do contrato social, ou seja, se re- aponta como seu fundamento, a idéia
ção da cidadania (BARBA-
fundam os pactos sociais face às exi- da solidariedade social – de um
LET, 1989).
gências decorrentes das crises e da solidarismo protetor que transfere
capacidade de articulação orgânica Na linha aberta por Marshall, que é parte da responsabilidade individual
entre interesses divergentes. Explicita a preferencial dos teóricos franceses, para a esfera social. O direito social
sua posição claramente: Raymond Plant, citado por Donald
e a solidariedade seriam, assim, os
Moon (1997), indica que um dos meios
princípios reguladores da vida social.
se o Estado-providência se mais inteligentes para entender o Esta-
A gênese do Estado –providência não
reafirma e se compromete na do-providência consiste em relacioná- se explica, portanto, por movimentos
experiência do conflito arma- los aos direitos do homem, combinan- políticos conscientes. É um movimen-
do, é porque tudo se passa do-os com os direitos sociais. to lógico da ampliação da democra-
como se a sociedade voltas- Anunciando a origem liberal de cia, que “tem sua expressão no plano
se às suas origens imaginá- sua concepção, Plant, segundo Moon dos referenciais políticos de uma so-
rias, à formulação do pacto (1997), retoma Locke, apresentando ciedade” (ARRETCHE, 1995, p. 22).
social. A troca simbólica do os direitos do homem como funda-
A existência de uma cidadania
contrato original entre os in- mento moral do Estado-providência:
social, construída sobre o conceito de
divíduos e o Estado reafirma- da mesma forma que Locke preconi-
nação, esbarra em aspectos referen-
se nestes períodos (ROSAN- zava um Estado constitucional, com
tes a uma integração política mais ou
VALLON, 1981, p.22). competências limitadas para proteger
menos densa, expressa na metáfora
os direitos à vida, à liberdade, à saúde
usada por Vianna (1998, p.28), – “es-
A posição enunciada por Rosan- e os bens, pode-se dizer que o Estado
tar no mesmo barco” – o que implica
vallon é reconhecida em Turner (apud deve garantir um conjunto mais am-
a existência de uma esfera pública
BARBALET, 1989), quando afirma plo de direitos, especialmente os que
inclusiva, que se constituiu em um pro-
taxativamente ser o estado de guerra e dizem respeito ao emprego, à segu-
cesso anterior a própria existência do
a imigração, componentes essenciais na rança econômica e à instrução
Welfare State. Em outras palavras,
determinação da cidadania moderna. (MOON, 1997, p. 28).
afirma que é necessário o reconheci-
Esta idéia vem sendo construída ou No mesmo eixo de raciocínio, Moon mento de uma perspectiva política
justificada a partir de três hipóteses: (1997, p.29) cita também Dworkin, que positiva sobre a medida de igualdade
· primeira, para empreender a define o Estado-providência como a representada pelo pertencimento à
guerra há necessidade do Es- parte econômica do liberalismo funda- comunidade. “Estar no mesmo bar-
tado obter o consentimento da do sobre a igualdade. Para Dworkin co”, a noção compartilhada por todos
população, o que pode ser bar- (apud MOON, 1997, p.29), que embasa a solidariedade e o
ganhado com o alargamento Welfare State social-democrático, re-
da cidadania a igualdade supõe que os quer que todos estejam realmente e
meios consagrados à exis- se reconheçam como estando no mes-
· segunda, a guerra promove
tência das pessoas conside- mo barco” (VIANNA, 1998, p. 28).
mudanças sociais com a
radas individualmente sejam Argumenta a autora que há, nessa
mobilização das massas e in-
os mesmos e que se deve dis- proposição, uma idéia de justiça
tervenção do Estado, surgin-
do uma nova apreciação da tinguir a igualdade de pro- distributiva vinculada diretamente ao
responsabilidade coletiva e teção – mesmo grau de bem- mundo concreto de pessoas ou grupo
compartilhada, e uma partici- estar para todos – do que se de pessoas que divide, troca e parti-
pação significativa na comu- poderia chamar de igualda- lha bens sociais. Na mesma direção
nidade nacional pode ser de instantânea, ou seja o aponta Figueiredo (1997, p. 95):
 
 

 


 


No que diz respeito a segu- As distintas maneiras de incorpo- estruturas de coalizão política de clas-
rança e welfare, o ‘perten- ração dos atores no cenário político ses; e o legado histórico da institucio-
cimento’ assume uma impor- definem como se expressam os inte- nalização do regime”. Partindo des-
tância definidora dessa esfe- resses dos mesmos na esfera públi- ses três fatores, quais os graus de
ra: a primeira coisa que os ca. Ou bem se expressam em parti- interação entre os mesmos que levam
membros de uma comunida- dos políticos – forma de expressão dos a instauração de níveis diferenciados
de devem aos seus pares é a interesses desiguais diante de uma de proteção social? Alerta que a es-
instância que obriga a todos igualmen- trutura das coalizões de classe é muito
‘provisão comunitária’ de
te, ou os mais fortes se incrustam no mais decisiva que as fontes de poder
bem-estar e segurança. [...]
aparelho do Estado e inviabilizam a de qualquer classe tomada de per si.
Toda comunidade política é,
formação de uma dimensão pública.
portanto, um welfare state, Reafirmando ser a cidadania so-
Nesse último caso, o Estado não se
onde são realizadas provi- cial a idéia fundamental do Welfare
torna o guardião de uma esfera públi-
sões gerais (por exemplo, State, qualifica operacionalmente o
ca porque essa inexiste e somente
abastecimento de alimentos) conceito, que deve envolver a garan-
pode, quando muito, tornar-se um Es-
e provisões particulares (ali- tia de direitos sociais; com status le-
tado benfeitor, que, entretanto, não
mentos para viúvas e órfãos). gal e prático de direitos de proprieda-
garante direitos.
de, invioláveis e assegurados na base
No sentido de confirmar a relevân- Segundo Vianna (1998, p.29), da cidadania e não no desempenho.
cia da argumentação, Vianna (1998) Traz à discussão, na definição do
a constituição de uma esfera Welfare State, a possível antinomia
repõe, ainda, a posição de Offe sobre
pública inclusiva, legitima- entre status e posição de classe
bem público, estatuto fundamental para
dora de um conjunto de obri- (grifos meus), sendo que o status de
consolidação da cidadania, visto que
significa a ampliação da medida de gações e direitos que embora cidadão pode competir com o de clas-
igualdade que coloca a todos como formais são crucias para fun- se. Introduz ainda um outro vetor para
pertencendo ao mesmo grupo tendo, dar um mínimo de solidarieda- compreensão do Welfare State que é
portanto, os mesmos direitos. Importa de social, não assegura, por a forma como se entrecruzam os pa-
ressaltar que subjacente a consolida- si só, evidentemente a eqüida- péis do mercado, da família e do Es-
ção dos direitos, inicialmente os civis e de. Diversamente do que pen- tado em termos de provisão social.
posteriormente os demais17 se supõe sava Rousseau, são as partes Ampliando os níveis de garantia e
a emergência do Estado como ente organizadas do corpo social segurança o século XX integrou, ain-
civilizador universal, capaz de assegu- – partidos políticos e sindica- da que de forma assimétrica e desi-
rar uma identidade inclusiva para a tos, sobretudo – que podem gual, e unicamente nos países capita-
nação. Esta identidade inclusiva não é exercer um papel ativo neste listas desenvolvidos ocidentais, a pro-
a sua qualidade de benfeitor, mas a de sentido. Ambas as dimensões, teção dos direitos civis, políticos e so-
guardião da esfera pública – instância o espaço comum e a represen- ciais. Essa caminhada foi viabilizada
pública, separada do mundo privado, tação das diferenças, estão pela expansão da educação pública,
que garante a primazia de regras e longe de inibir os conflitos ine- pela emergência dos partidos de mas-
normas universais. Ou seja, a sua efe- rentes às sociedades de clas- sa e o processo de intensa urbaniza-
tiva capacidade para garantir os direi- se. Mas permitem, justamente, ção que caracterizou as últimas dé-
tos civis e políticos (liberdade e parti- que sejam encaminhadas de cadas do século XIX.
cipação – elementos da cidadania para
forma menos perversa para os
Marshall) ou seja, o que Offe (1989)
‘de baixo’.
considera como o Estado de Direito e
a “voz ativa” nacional18 . &!'   
Dentro da esfera política, Esping-
Consoante com a argumentação Andersen (1991, p. 111) observa que
     
acima, o maior ou menor fortalecimen- os dois tipos de abordagem que estru-
to da esfera pública é a “única refe- turam as explicações do Welfare Reconhecidamente considerada
rência possível para o ‘nós’ inclusivo State, as estruturalistas e as que par- pelos estudiosos do Welfare State
numa sociedade de classes” tem das instituições e atores políticos, como uma tipologia clássica, situa-se
(VIANNA, 1998, p.28), desempe- não conferem relevância a três fato- a estabelecida por Titmuss em 195819 .
nhando um papel fundamental na res que seriam importantes: “a natu- Para este autor, no plano analítico, os
construção do Welfare State e expli- reza da mobilização de classe (princi- modelos de Welfare State seriam três
cando as suas peculiaridades. palmente classe trabalhadora); as – o residual welfare model of soci-

 

 


 
 

al policy, o industrial achievement tamento dos canais tradicionais exige cado entre as maiorias e um
performance model of social policy uma ação positiva do Estado, que deve dualismo político de classe
e o redistributive model of social ser limitada, temporária e pontual, exi- entre ambas as camadas so-
policy 20 . gindo mecanismos de inclusão extre- ciais (ESPING-ANDERSEN,
mamente seletivos aos programas de 1991, p. 108).
Partindo da tipologia acima diversos
proteção social. Os custos da repro-
autores21 vêm buscando desenvolvê-las,
dução social são financiados basica- O modelo meritocrático ou conser-
acrescentando ingredientes que inclu-
mente pela contribuição individual e vador contém, em seu núcleo duro, o
em outras categorias analíticas.
mecanismos de seguros privados. suposto de que a proteção deve ser res-
Esping-Andersen, comparando os Constata-se a tendência de mercan- ponsabilidade de cada um pelo seu mé-
padrões de proteção social de dezoito tilizar ao máximo a força de trabalho rito, pela sua capacidade produtiva, en-
países capitalistas desenvolvidos, ana- através das políticas sociais e estimu- fim, pela sua performance individual.
lisou os condicionantes que deram lar a centralidade do mercado na sa-
origem às formas distintas de aten- tisfação das necessidades. Os esque- A intervenção estatal é parcial,
ção social encontradas nos mesmos. mas privados como espaço de mais no sentido de organizar a prote-
Segundo Arretche (1995, p. 27), “mais redistribuição funcionam, também, ção e não financiá-la ou subsidiá-la:
do que distinguir a existência de três fragmentando os benefícios prestados
distintos regimes de distribuição de [...] este modelo também não
e promovendo, de certo modo, uma
serviços sociais – esforço, aliás, já estratificação social útil ao sistema, na pode assegurar automatica-
enunciado por Titmuss –, Esping- medida em que estimula a iniciativa mente uma desmercado-
Andersen articula sua existência às individual e a competitividade, no sen- rização substancial, pois de-
condições de sua emergência, vale tido do indivíduo ampliar seu espectro pende muito da forma de ele-
dizer, à matriz de poder que os tor- de proteção social via mercado. gibilidade e das leis que re-
nam viáveis”. gem os benefícios [...]. Os
Nesse tipo de atenção social ocor-
O autor citado tem por suposto que benefícios dependem quase
re, com freqüência, mecanismos de
a reforma social22 faz parte do pro- culpabilização das vítimas, ou seja, os inteiramente de contribui-
cesso de constituição das classes tra- riscos sociais são atribuídos à incom- ções e, assim, de trabalho e
balhadoras enquanto “classe para si”, petência ou desleixo das pessoas e emprego (ESPING-ANDER-
tendo como objetivo histórico a sua não decorrência de processos deriva- SEN, 1991, p.103).
emancipação, que transita pela dos das formas de redistribuição de
desmercadorização da força de traba- renda e riqueza. Assim, não é apenas a presença
lho23 e do consumo, da ordenação da do direito social que garante a
No que se refere ao direito a bens desmercadorização, mas normaliza-
sociedade sob um princípio solidário,
e serviços extra mercado, sua ções e pré-condições que sinalizam
da correção das desigualdades produ-
desmercadorização vincula-se ao es- para a cobertura dos programas de
zidas pelo sistema capitalista de pro-
tatuto de necessidade absoluta, e não proteção e bem-estar social. Segun-
dução e do anteparo ao risco social.
ao trabalho. As reformas sociais, que do Vianna (1998, p.24), este modelo
Esping-Andersen, a partir do que poderiam construir patamares de ga-
denomina nível ou grau de democra- rantias sociais e políticas aos direitos, [...] se caracteriza por vin-
tização social do capitalismo avança- foram limitadas pelas normas tradici- cular estreitamente a ação
do, classificou os países estudados em onais e liberais do culto ao trabalho. ‘protetora’ do Estado ao de-
três modalidades ou regimes de
A conseqüência, sempenho dos grupos prote-
Welfare State: o liberal, o conserva-
dor e o social-democrata, que corres- gidos. Quem merece, ou seja,
é que esse tipo de regime quem contribui para a rique-
ponderiam às tendências dos sistemas
minimiza os efeitos da za nacional e/ou consegue
políticos dominantes.
desmercadorização, contém inserção no cenário social
No primeiro tipo, liberal ou resi- efetivamente o domínio dos legítimo, tem direitos a bene-
dual, a intervenção estatal, sempre direitos sociais e edifica uma fícios, diferenciados confor-
ex-post, ocorre em casos onde os ris-
ordem de estratificação que me o trabalho, o status ocu-
cos sociais não têm possibilidades, por
é uma mistura de igualdade pacional, a capacidade de
quaisquer razões, de serem resolvidos
relativa da pobreza entre os pressão, etc.[...] este padrão
pelas instâncias usuais: o esforço in-
dividual, a família, as redes comunitá- beneficiários do Estado, ser- se caracteriza por ser
rias solidárias e o mercado. O esgo- viços diferenciados pelo mer- hierarquizante e segmen-
 
 

 


 


tador.[...] deitaria raízes num ciais; por isso a previdência Andersen, de regime social-democra-
conjunto de influências con- privada e os benefícios ta, uma vez que a força política
servadoras, tais como ocupacionais extras desem- impulsionadora das reformas que le-
estatismo, reformismo pater- penham realmente um papel varam a cabo sua implantação foi a
nalista, catolicismo, corpora- secundário. De outra parte, social-democracia. 25
tivismo hierarquizante. a ênfase estatal na manuten-
Em vez que tolerar um
ção das diferenças de status
Corresponde, em termos de pro- significa que seu impacto em dualismo entre Estado e
teção, ao que Wanderley Guilherme termos de redistribuição é mercado, entre a classe tra-
dos Santos (1979) designa como ci- desprezível (ESPING- balhadora e a classe média,
dadania regulada, onde a regulação ANDERSEN, 1991, p.109). os social-democratas busca-
é pelo ingresso no mercado formal de ram um welfare state que pro-
trabalho. Assemelha-se ao modelo O terceiro tipo corresponde ao movesse a igualdade com os
bismarckiano de proteção social, “pro- social democrata24 e, em países onde melhores padrões de qualida-
tegendo” a força de trabalho, que re- se consolidou as políticas de proteção de, e não uma igualdade das
tribui com “lealdade e subordinação” social são inclusivas, e o bem-estar é necessidades mínimas, como
ao Estado (ESPING-ANDERSEN, visto como estrutural à essas socie- se procurou realizar em toda
1991). A ênfase na diferença de ca- dades contemporâneas (DRAIBE, parte. Isso implicava, em pri-
tegorias profissionais teria, como ob- 1990). As políticas sociais, nesses meiro lugar, que os serviços e
jetivo político, consolidar divisões no casos, têm um cunho universalista e
benefícios fossem elevados a
interior da classe trabalhadora. Des- abrangente e incluem áreas distintas,
sa forma, seu desenho dificulta, quan- níveis compatíveis até mesmo
tanto na esfera econômica como so-
do não impede, a organização em tor- cial, tais como educação, saúde, ha- com o gasto mais refinado das
no de interesses comuns e coletivos, bitação, trabalho, previdência, etc. Os novas classes médias; e, em
de vontades universais. Este modelo serviços e benefícios são compreen- segundo lugar, que a igual-
pode ser encontrado, segundo Esping- didos e garantidos como direitos soci- dade fosse concedida garan-
Andersen (1991), em países onde os ais, como forma da sociedade, solida- tindo-se aos trabalhadores
movimentos operários tiveram forte riamente organizada, resguardar um plena participação na quali-
vinculação com a Igreja, com socie- patamar de igualdade para todos. Ou dade dos direitos desfrutados
dades estratificadas e segmentadas. partilhar os riscos, conforme aponta pelos mais ricos (ESPING-
O mesmo autor aventa a hipótese Giddens (1996). ANDERSEN, 1991, p. 109).
que a forte influência da Igreja, no
Aparece, segundo Esping-Ander-
regime corporativo, influenciou a pre- Existe a dissociação entre satisfa-
sen (1991), em países onde a classe tra-
ocupação com a preservação da fa- ção de necessidades, mercado e mé-
balhadora construiu interesses coletivos
mília tradicional, com o estímulo à rito, onde o direito social é garantido
com articulações suficientes para torná-
maternidade e o desestímulo a quais- de per si, não havendo contrapartida
los visíveis, em uma dimensão pública.
quer iniciativas que pudessem ame- financeira direta e distinta para cober-
Especifica ainda que, quando
açar a “convivência familiar”, como tura dos benefícios. A intervenção
creches e serviços de proteção a ido- os direitos sociais adquirem estatal é ex-ante, tratando de asse-
sos e crianças. status legal e prático de di- gurar padrões de satisfação iguais,
No que se refere aos direitos so- reitos de propriedade, quan- distribuídos com base na igualdade de
ciais, contrariamente ao tipo anterior do são invioláveis, e quando resultados, como estatuto de cidada-
de Welfare State, o culto à mercado- são assegurados com base na nia. Este sistema alterna, em termos
ria nunca foi marcante mas a relevân- cidadania em vez de terem de benefícios universais, mecanismos
cia da ação é baseada ou fundada na de integração e substituição de ren-
base no desempenho, impli-
preservação das distinções de status, da, oferta de equipamentos públicos
cam uma desmercadorização
sendo mais de cunho político. para prestação de serviços essenci-
do status dos indivíduos vis-
ais, contemplando, ainda, a redis-
a-vis o mercado (1991, p.101).
Este corporativismo estava tribuição de renda e recursos.
por baixo de um edifício es- Os benefícios e serviços extra- Com a exclusão do mercado, não
tatal inteiramente pronto a mercados destinam-se às novas clas- como espaço de oferta ou de circula-
substituir o mercado enquan- ses médias, sendo esse tipo de prote- ção de mercadoria, mas da redução
to provedor de benefícios so- ção social denominado, por Esping- de sua função distributiva direta, há a

 

 


 
 

facilidade da adesão, praticamente micas, acentua-se a debilidade dos uma sociedade 26 . Os princípios
universal, ao Welfare State – todos pactos e dos arranjos que se fazem ordenadores da justiça distributiva:
participam de seu benefício, todos dele em contradição com os direitos legais, direito, necessidade e mérito, vêm
dependem e assim, sentem-se coagi- casos que vêm ocorrendo nos países sendo ordenados de forma diferenci-
dos positivamente a assumir sua ma- capitalistas tardios. ada e expressam as distintas manei-
nutenção via pagamento de impostos, ras que se articulam os mecanismos
De sua reflexão, resgata aspectos
etc. O suposto é eliminar a insegu- distributivos, os agentes responsáveis
essenciais para compreensão do que
rança absoluta e o reconhecimento de pela distribuição e os critérios que a
denomina as três economias políticas
que o mercado é insuficiente para re- determinam. Em outras palavras, de-
do Welfare State:
alização de tal tarefa, devendo ser a finem os modelos de política social,
mesma um atribuição estatal. · as forças históricas por trás seguridade social ou, ainda, tipos de
das diferenças dos regimes de Welfare State.
Segundo Esping-Andersen, o re-
Welfare State não são cate-
gime de proteção social-democrata O Welfare State, como padrão de
gorias estáticas, mas relacio-
defende tanto o mercado (enquanto política social, surge como um fenô-
nais, interativas;
agente distribuidor não regulador), meno do século XX e as teorias
quanto a família. A proteção ao mer- · essas forças determinam o mo- explicativas sobre sua gênese e desen-
cado é apontada, também, por De delo de formação política da clas- volvimento são inúmeras. Há um con-
Felice (1998), ao analisar a relação se trabalhadora e da formação senso, entretanto, que se constitui como
público e privado na saúde. Afirma de consensos políticos na fase de um elemento estrutural ao capitalismo
que o sistema público não está em transição de uma sociedade ru- contemporâneo, sendo que significou
contradição com o mercado, mas o ral para uma sociedade de clas- mais do que um incremento nas políti-
pressupõe, e a intervenção específi- se média, o que condiciona ou cas sociais. Representou um esforço
ca do poder público, atualmente, é a contribui, decisivamente, para a de reconstrução econômica, moral e
de eliminar as desigualdades entre as institucionalização das preferên- política do mundo industrial desenvol-
partes que o integram (o mercado). cias de classe e do comporta- vido e um anteparo à possível amplia-
mento político; ção de propostas comunistas. Econo-
Ao contrário do modelo micamente significou o abandono da
· a localização dos princípios que
corporativista-subsidiador, o estruturam os Welfare State per- “ortodoxia do mercado”. Moralmente
princípio aqui não é esperar mitem identificar agrupamentos significou a defesa das idéias de justi-
até que a capacidade de aju- distintos de regimes e não vari- ça social solidariedade e universalismo.
da da família se exaura, mas ações quantitativas em torno de Politicamente foi parte de um projeto
sim de socializar antecipada- um denominador comum (ES- de construção nacional da democra-
mente os custos da família. PING-ANDERSEN, 1991). cia liberal em reação às ditaduras fas-
[...] Neste sentido o modelo cista e bolchevista (ESPING-
é uma fusão peculiar de li- ANDERSEN, 1994).
beralismo e socialismo. O re- #    
sultado é um Welfare State  
(  ) 
que garante transferências
diretamente aos filhos e as- A proteção social em uma socie-      (
sume responsabilidade dire-
ta pelo cuidado com as cri-
dade contemporânea tem sua origem
no conceito de justiça social, conside-
  !'   !' 
anças, os velhos e os desva- rada “como um atributo das institui- *( %
lidos (ESPING-ANDER- ções sociais que, no conjunto, deter-
SEN, 1991, p.110). minam o acesso – ou as possibilida- $  
Nota-se a preocupação efetiva e
des de acesso– dos membros de uma
sociedade a recursos que são meios
      
intensa com o pleno emprego, que é para satisfação de uma grande varie-      
percebido e adotado como estrutural dade de desejos” (FIGUEIREDO,
ao sistema, uma vez que dele depen- 1997, p. 73). No centro da questão de )    
de para sua concretização, tendo o justiça estão colocados as demandas
mesmo status tanto o trabalho como e os conflitos de interesse entre as +    (
a renda. Em situações onde tal não
ocorre, por razões políticas ou econô-
pessoas no que se refere à distribui-      !' 
ção de bens e recursos disponíveis em
 
 

 


 


Assim, a produção teórica de au- cracia são vencidas. Terão DRAIBE, S. M. O padrão brasileiro
tores brasileiros é incipiente, tenden- elas, todavia, viabilidade no de proteção social: desafios à
do a se ampliar, ainda que, articulada caso brasileiro? democratização. Análise de
à outras categorias teóricas. Conjuntura, 8 (2), fev. IPARDES:
A resposta será dada a conhecer em Curitiba, 1986.
A retomada de pesquisas e estu-
dos sobre os sistemas de bem-estar, futuro não remoto, a partir de especula- _____. O Welfare State no Brasil:
em um momento que se insinua a ções sobre o quadro político nacional características e perspectivas. In:
construção de uma Welfare Society, após as eleições municipais de 2000. Anais do Encontro Anual da
seja substituindo ou complementar ao As formas de absorção e o tipos ANPOCS. Águas de São Pedro:
Welfare State, me parecem relevan- de encaminhamento, no plano admi- ANPOCS, 1988.
tes. Especialmente em momentos nistrativo municipal, locus da execu-
_____. As políticas sociais brasileiras:
como os atuais, em que ção da proteção social, das novas for-
diagnósticos e perspectivas. In: IPEA.
mas de relação Estado/sociedade com
Para a década de 90: prioridades e
trabalho voluntário, uso so- vistas à proteção social, serão deci-
perspectivas de políticas públicas.
cial do tempo de lazer sivas para a ampliação da democra-
Brasília: IPEA 1990.
(potencializado pela tecno- cia social, tornando-se o Estado real-
logia produtiva), coopera- mente guardião dos direitos e não so- _____. Brasil: o Sistema de Proteção
tivismo – toda uma práxis da mente um benfeitor solidário e preso Social e suas transformações recentes.
a interesses particularistas. In: Anais do Seminário Regional
cidadania solidária – junta-
para Reformas de Políticas
mente com formas empresa-
Públicas. Santiago: CEPAL, 1992.
riais de proteção, insinuam a   ,  ) DE FELICE, F. de. Il welfare state:
construção de uma Welfare
Society, não substitutiva do questioni controverse e un’ipotesi
ARRETCHE, M. T.S. Emergência e interpretativa. Qualità Equità ,
Welfare State e sim complemen- Desenvolvimento do Welfare State: rivista del welfare futuro, Ano IV,
tar a ele (VIANNA, 1998, p.13). Teorias Explicativas. Boletim Infor- n. 16. Roma: Editrice Liberetà, 1998.
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tetora, que estabelece um outro vín- Lisboa: Editora Estampa, 1989.
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La Documentation Française, 1997.
Pereira (2000, p. 16), “é um de segurança social, em 1942.
MOTA, A.E. Seguridade Social. conceito amplo que, desde meados 5 Segundo o marxista austro-alemão
Serviço Social e Sociedade, n. 50. do século XX, engloba a seguri-
São Paulo: Cortez, 1996. Heimann (apud ESPING-
dade social (ou segurança ANDERSEN, 1991, p. 89) as
_____ .Sobre a crise da seguridade social), o asseguramento ou reformas conservadoras alemãs
social no Brasil. Cadernos ADUFRJ, garantias a seguridade e políticas foram motivadas pelo desejo de
n. 4, Rio de Janeiro: ADUFRJ, 2000. sociais”(grifos da autora). reprimir a mobilização dos
O’CONNOR, J. A crise do Estado Seguridade social diz respeito a um trabalhadores mas tornaram-se
Capitalista. Rio de Janeiro: Paz e arcabouço instituiconal progra- contraditórias: “o equilíbrio do
Terra, 1977. mático de segurança contra os poder de classe altera-se funda-
riscos da sociedade contempo- mentalmente quando os trabalha-
OFFE, C. Problemas estruturais do rânea e o asseguramento diz dores desfrutam de direitos sociais,
Estado Capitalista. Rio de Janeiro: respeito às garantias e regulamen- pois o salário social reduz a
Tempo Brasileiro, 1984. tações legais que afirmam a dependência do trabalhador em
_____. Capitalismo desorganizado. seguridade como um direito. relação ao mercado e aos
São Paulo: Brasiliense, 1989. 2 Não se pretende uma exaustiva empregadores, e assim se
OLIVEIRA, F. O surgimento do revisão, visto que a densidade do transforma numa fonte potencial
antivalor. Novos Estudos, São Paulo: material já produzido é suficiente, de poder”.
Cebrap, 1988. não só para qualquer análise que 6 Dentre os autores brasileiros
PEREIRA, P.A.P Necessidades huma- se pretenda, como enfoca distintas citados na nota acima, com
nas: subsídios à crítica dos mínimos abordagens. Entre os estudiosos exceção de Ana Elizabete Mota e
sociais. São Paulo: Cortez, 2000. que se debruçam sobre o tema, Elaine R. Behring, todos realizaram
podemos encontrar no Brasil, entre uma sistematização das teorias
ROSANVALLON, P. A crise do outros autores, Sônia Draibe, explicativas do Welfare State.
Estado de Providência. Lisboa: Elaine R. Behring, Marta T.S.
Editorial Inquerito. 1984. 7 “Tudo o que queremos destacar é
Arretche, Maria Lúcia Teixeira
que todas as sociedades industriais
_____. A Nova Questão Social. Werneck Vianna, Marcos
enfrentam problemas semelhan-
Repensar o Estado Providência. Coimbra e Ana Elizabete Mota.
tes; suas soluções a estes proble-
Petropólis: Vozes, 1998.
3 Não se desconhece as transfor- mas, embora variadas, são fre-
_____. _____. Brasília: Instituto mações que vêm ocorrendo nos qüentemente prescritas em maior
Teotônio Vilela, 1998. sistemas de proteção social, a partir medida pela industrialização em si
SANTOS, Boaventura Souza. Por da década de 70, sendo que mesma do que por outros
uma concepção multicultural de “muitas das premissas que elementos culturais”
direitos humanos. In: Lua Nova, n. construíram a construção desses (WILENSKY e LEBEAUX apud
39, São Paulo: Cedec, 1997. welfare states não são mais ARRETCHE, 1995, p. 6).
 
 

 


 


8 O conceito de capitalismo mono- cativo na teoria de Marshall, para evidenciado que alguns países não
polista de Estado representa o a compreeensão da constru-ção têm ainda nem as garantias civis,
resultado de um conjunto estudos dos direitos, especialmente os quanto menos as sociais e políticas.
que pretendem a explicar a sociais, que é o reconhecimento da
18 Menezes, criticando essa abor-
dinâmica e as contradições do importância de uma esfera pública
dagem, aponta que “da para-
capitalismo no pós-guerra, nos para sua legalização. Tal dimensão
fernália teórico-metodológica
países desenvolvidos do Primeiro pública seria a garantia do
sobrou o que havia de mais
Mundo. Tem como características: universalismo sobre os particu-
nebuloso, (re)buscado na subje-
a intensificação do papel do larismos dos poderes dominantes.
tividade da vontade política, onde,
Estado; a forte concentração do 13 Luciano Gruppi (1980, p.8) afirma no interior das expressões criadas
capital, via fusões/incorporações que o Estado moderno – “ unitário, por esses teóricos, pode-se
de setores estratégicos da econo- dotado de um poder próprio perceber o consenso como
mia; interpenetração entre capital independente de quaisquer outros sinônimo de verdade” (1993, p.57).
bancário e grupos industriais e o poderes – começa a nascer na
aumento da massa de trabalha- 19 Consoante indicação de Arretche
segunda metade do século XV na
dores assalariados (BEHRING, (1995), Esping-Andersen (1991) e
França, Inglaterra e Espanha; [...]”.
1998). Vianna (1998).
14 Para Gruppi, o fato que altera,
9 Offe (1984) e Singer (1994) podem 20 Coimbra (1987) aponta as críticas
fundamentalmente, a natureza da
ser consultados para um aprofun- que Gough tece à tipologia de
relação de poder entre o indivíduo
damento da questão. Elaine R. Titmuss, considerando-a “empírica,
e o poder absoluto, é o surgimento
Behring (1998), analisa, de forma eclética e multidisciplinar. [....] sem
do “ habeas corpus (que tenhas
circunstanciada, como os mecanis- que uma síntese teórica
o seu corpo), dispositivo que
mos de política social vão se emerja”(1987, p. 74).
dificulta as prisões arbitrárias, sem
erigindo no mundo capitalista, e em uma denúncia definida. O habeas 21 Dentre estes destaca-se Gosta
especial, no capitalismo tardio. corpus estaqbelece algumas Esping-Andersen (1991), e os
10 Segundo Arretche, Claus Offe ao garantias que transformam o brasileiros Marcos Coimbra (1987)
transitar de uma posição que ‘súdito’ num cidadão” (GRUPPI, e Sonia Draibe (1988).
considera o Estado como capaz de 1980, p. 13). Ascoli foi outro autor que, partindo
autonomamente criar os desenhos 15 Grifos meus. das modalidades indicadas por
de seletividade, internamente Titmuss, introduziu alguns acrés-
estruturais, afasta-se das análises 16 As Leis dos Pobres, surgidas na cimos, como, por exemplo,
marxistas de um Estado de Classe, Inglaterra em meados do século subdividindo o modelo merito-
que tem como limite a expansão XVI, formavam um conjunto de crático em dois: particularista e
capitalista. Carlos Nelson Coutinho regulações que se destinavam a corporativo.
(1989) ao referir-se à mesma controlar as pessoas situadas fora
do mercado de trabalho, como 22 Esping-Andersen considera
questão, ou seja, quais os limites de reforma social as alterações
idosos, inválidos, órfãos, crianças
uma sociedade capitalista em ocorridas entre as décadas de 1940
carentes, desocupados. Os
relação à ampliação dos direitos, a 1970, nos países capitalistas
incapacitados para o trabalho
constata que não se pode ampliar avançados, abrangendo as dimen-
tinham direito à assistência social
demandas sociais além de um ponto sões políticas, econômicas, éticas,
nas workhouses (casas de
que ameace ou impeça a repro- jurídicas e administrativas.
trabalho), que funcionavam como
dução do capital global.
verdadeiras prisões. São as 23 A mercadorização das pessoas
11 Coimbra aponta algumas fragili- primeiras manifestações, ainda na ocorreu quando os mercados
dades na concepção de cidadania época pré-capitalista – de controle, tornaram-se hegemônicos e o
de Marshall, devido a sua linea- ainda que, aparentemente, de bem-estar dos indivíduos passou a
ridade e a ausência de contex- proteção à força de trabalho depender inteiramente de relações
tualização histórica e os processos incapacitada para atividades monetárias. Ou, “despojar a
subjacentes a afirmação de cada produtivas (PEREIRA, 2000). sociedade das camadas institucio-
um dos direitos (COIMBRA, nais que garantiam a reprodução
17 Convém lembrar que nem todas as
1987, p. 82). social fora do contrato de trabalho
sociedades e países seguiram a
12 Offe (apud VIANNA, 1998, p.28), cronologia apontada por Marshall significou a mercadorização das
retoma o que considera signifi- em relação aos direitos, sendo pessoas” (ESPING-ANDERSEN,

 

 


 
 

1991, p. 102). A
desmercadorização do status da
força de trabalho ocorre, portanto,
para Esping-Andersen, quando se
institui o salário social e os direitos
de cidadania superam a satisfação
das necessidades via mercado.
24 Ascoli (apud DRAIBE, 1990)
denomina tal modelo de Institu-
cional-redistributivo.
25 Giddens (1996), com posição
contrária, afirma que as bases do
Welfare State foram construídas,
no período que antecedeu a
Segunda Guerra Mundial, por
governos direitistas e as razões
para tanto podem ser encontradas
no receio da desintegração e caos
social.
26 As fórmulas “a cada um segundo
seus direitos”, “a cada um de
acordo com suas necessidades” ou
ainda “a cada um de acordo com
suas possibilidades” expressam as
divergências entre situações de
justiça, ou seja o que é o correto
ou aceitável em relação aos
critérios substantivos de justiça.

Endereço – Autora

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