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Crise capitalista e a questão indígena ao norte de Roraima

Bruno Peres Gonçalves1

1. Introdução
O presente trabalho é desdobramento de pesquisa realizada junto ao Programa de Pós-Graduação
de Geografia Humana da Universidade de São Paulo, orientado pelo professor Anselmo Alfredo
desde a segunda metade de 2017. Aqui, pretendo discutir o moderno e a questão indígena no Norte
de Roraima, essa última que só pode existir no contexto da primeira2, ensejada por um processo
intrigante, o da permanência e resistência dos povos há muito tempo ali e a demarcação das Terras
Indígenas pelo estado brasileiro, permitindo a reprodução de uma população que se integra ao
estado de uma forma bastante particular; desdobrando-se no questionamento de qual interesse
estatal por trás de sua conservação.
Procurando desvelar essa dúvida, trarei brevemente o tratamento clássico destinado à
ocupação e colonização do território norte brasileiro, que transpassa por um prisma político3, sendo o
Estado incumbindo de gestar e planejar dentro de seus limites, promovendo um bem-estar social4;
assim procuro expor o duplo desse processo, que não podemos perder de vista, a importância da
esfera econômica.
Para isso divido esse escrito em três partes. No próximo texto trarei um histórico da ocupação
territorial do estado brasileiro, cotejando as necessidades do mercado em conjunto às políticas
públicas da coroa à república. A seguir exporei o desenvolver das economias em Roraima,
principalmente hoje, como o garimpo de ouro e diamantes, a biodiversidade, o turismo, pecuária e o
mercado de capitais. A partir dessas historiografia, enquanto uma conclusão bem preliminar, procuro
associar à inserção da questão indígena enquanto tema de política pública como uma “cama de
Procusto”, ou seja, não resta alternativa à sua aniquilação que não deitar em sua cama, este seria o
gabarito que definiria o quanto Procusto esticaria ou cortaria seus “convidados”.

2. Breve histórico

1 Mestrando junto ao PPGH, USP.


bruno.peres.goncalves@gmail.com
2 Ou seja, só no moderno é possível existir Questão Indígena.
3 “O perfil da história colonial de Roraima, (…), guardava como questão prioritária a submissão dos povos
indígenas em favor de uma geopolítica, e a esta discussão me dediquei” (FARAGE, 1991, p 19)
4 Talvez aqui um pensamento da esquerda tradicional, que ao partir do trabalho para uma crítica não entende
uma crítica categorial a própria categoria que se pretende partir enquanto ontologia e acaba reafirmando o
modo de produção e coloca o problema em uma má distribuição da mais-valia global, por isso o ponto de
vista que parte de uma autonomia do estado em relação à economia.
Comecemos com as políticas do governo português em relação à garantia de seus territórios
no final do século XVII, que elege a bacia do rio Branco como espaço de fraca influencia política da
Corôa portuguesa e de risco imanente de invasão. Dessa forma procuram instalar fortificações no rio
Branco e seus afluentes, a fim de defender-se de uma suposta perda de território para holandeses e
espanhóis, um conhecido exemplo de interesse político. No entanto, para alguns autores o que mais
despertava interesse comercial eram os corpos indígenas5, prática que tenta garantir a posse
territorial e alimenta uma lucrativa escravização em massa, assim, partindo desse interesse
econômico, a presença de estrangeiros passa a incomodar as intenções de Portugal em dominar
toda dita região amazônica, entretanto rio Branco era mesmo uma fronteira frágil, pois os holandeses
e espanhóis já sabiam, a partir dele, chegar ou sair para o Caribe. No entanto, essa tentativa de
ocupação teve pouco sucesso,
Ao final do século XVIII, a expansão colonial portuguesa na região do rio Branco estacava,
vacilante: a tentativa de povoamento visivelmente fracassara, toda a ocupação resumia-se a
uma guarnição militar. (FARAGE, 1991, p 169)
Desta maneira, iniciam-se os aldeamentos no rio Branco, onde os próprios indígenas seriam,
agora, as muralhas dos sertões6 para os portugueses, impedindo o avanço espanhol e holandês,
além de, há todo tempo, serem usados como força de trabalho pelos colonos. Para isso, resolveram
estabelecer o Forte São Joaquim, construído à margem esquerda do rio Tacutu, na junção deste
com, o Uraricoera, formadores do rio Branco, em 1775, inaugurando nova fase entre portugueses e
índios, representado pelos aldeamentos, dentro do Diretório Pombalino de 1757, fazendo parte de
uma política defensiva, que visava estender cada vez mais os domínios portugueses no extremo
norte da colônia, em relação a todos recursos presentes na região, inclusive os indígenas, tentando
integrar o índio a sociedade luso-brasileira, transformando-os em súditos dos portugueses. Dessa
maneira, o trabalho indígena pautado pelos moldes da reforma pombalina, foi mobilizado para
diversos serviços, como o transporte de canoa, a pesca, os serviços de construção de fortalezas, o
cultivo das roças para o seu próprio sustento e, também, para guarnições militares (VIEIRA, 2014,
33). Parecendo necessária a inserção desses povos para o sentido da colonização, que é a de
exportar gêneros tropicais para Europa. Tais aldeamentos, denominados diretórios, praticavam uma
formação para o trabalho que tinha como molde a identidade portuguesa, passou-se a exigir das
etnias uma forma de nacionalização ou, ao menos, uma identificação com o estado português, assim

5 “No rio Branco o que mais despertava o interesse comercial, sem sobra de dúvida, eram os próprios corpos
indígenas”(VIEIRA, 2014, 28)
6 Expressão que dá título ao livro de Farage e explicita um caráter político da ocupação.
proíbem o uso da língua dos indígenas, obrigando-os a falar o português, além do incentivo aos
casamentos entre indígenas e brancos. Além de não serem respeitados, tiveram suas práticas e
cosmogonia violados, diretórios que articulavam um verdadeiro etnocídio das populações ali viventes,
que ou se adequavam ao trabalho e à propriedade ou estavam fora do “jogo”.
Mas já no final do século XVII não eram lucrativos os aldeamentos por toda a Amazônia e o
governo passa a investir em um projeto pecuário para a bacia do Rio Branco, a fim de alimentar a
produção de borracha que acontecia no rio Negro e reafirmar de forma mais agressiva a presença
portuguesa na região, legitimando assim a posse do território. O pé de boi seria a mola propulsora da
ocupação do solo roraimense. Desdobramento dessa situação é a instalação de um projeto pecuário,
que passa a introduzir os primeiros rebanhos no lavrado, juntamente a fundação das “Fazendas do
Rei”, que a posteriori seriam, em sua maioria, griladas por particulares.
“A pecuária, levada adiante por colonos, teve como primeira consequência a disputa pela
própria mão de obra indígena entre os primeiros fazendeiros. Mais do que isso, as terras
indígenas passaram então a ser alvo de cobiça, não mais de portugueses, mas de brasileiros,
dando posteriormente origem aos grandes latifúndios de Roraima; isso porque a expansão da
pecuária, idealizada no final só século XVIII, teria seus primeiros frutos nas últimas décadas do
século XIX e início do século XX, dando finalmente uma base econômica de sustentação para
a região, ocupando cada vez mais as terras indígenas pela violência, escravidão, como
também pelos mais variados expedientes jurídicos.”(VIEIRA, 2014, p 45)
Ou seja, o interesse econômico agora poderia florescer depois de todas investidas estatais
para que a bacia do rio Branco se tornasse produtiva.
Cabe associar à prosperidade da pecuária de Roraima com a economia do Caucho na
Amazônia, o ciclo da borracha ali acontece no final do século XIX e no início do século XX, tendo o
seu apogeu entre 1879 e 1912, após o surgimento do automóvel, quando a indústria automobilística
potencializou o uso da borracha. Obtida a partir do látex da seringueira, árvore originária da Amazônia.
Surgem aí as condições para a generalização das ocupações, que viriam a se tornar propriedades
privadas anos depois, uma vez que o processo de ocupação das terras de Roraima já haviam se
efetivado em boa parte do território, eliminando diversas etnias indígenas. Agora além do indígena
enquanto força de trabalho, estava sendo definido um novo modelo econômico para a região, com o
impulso dado às condições de acesso à terra pela pecuária, passa a operar uma mudança na
composição étnica e demográfica do extremo norte do estado-nação brasileiro. Dessa forma, a
questão da força de trabalho indígena passa a abarcar, também uma questão de terra.
A partir do segundo quartel do século XX, em passagem das “Crônicas do Rio Branco”
escritas por Dom Alcuino, as notícias a respeito da exploração mineral na região aparecem pela
primeira vez. Em uma de suas expedições, relata contatos sistemáticos com o garimpeiro Severino
Pereira da Silva que, vindo da Paraíba, vivia na região do Cotingo há mais de trinta anos, sendo o
responsável em dar início ao processo de garimpagem de ouro e diamante nessa região, como
também o de fazer a chamada “fofoca” sobre o potencial minerário do lugar, como em um relato em
que voo com muito ouro e diamante até o Rio de Janeiro, incentivando, dessa forma, uma forte
migração para o local, dando início a uma frente de expansão econômica e aumentando os conflitos
inter étnicos na região., elucidando essa situação, uma passagem:
“A exploração feita pelos garimpeiros aos nossos índios é um fato notório, essas criaturas no
afã do minério sujeitam os índios a trabalhos forçados, a troco de roupa de fazenda ordinária,
obrigando o índio a trabalhar 30 dias para receber uma calça e uma camisa, duas caixas de
fósforos e um pouco de fumo. Os garimpeiros menos escrupulosos, vão a maloca, levando
cachaça e embriagam os índios adultos, para saciarem os seus instintos libidinosos, outros
levam indiazinhas para suas barracas dentro do garimpo e delas fazem suas concubinas”
(VIEIRA, 2014, 130)7
Nesse período, o processo de ocupação da Amazônia acelera-se, marcado pelo
planejamento governamental, com a formação do moderno aparelho do Estado e sua crescente
intervenção na economia e no território ainda assim não muito uniforme. A fase mais incisiva do
planejamento estatal corresponde a implantação do Estado Novo por Getúlio Vargas8, que, no
entanto, foi mais forte no discurso do que ativa; nesse período temos a Fundação Brasil Central, em
1944, a inserção de um Programa de Desenvolvimento da Amazônia na constituição de 1946, a
delimitação por critérios científicos o que seria a “região amazônica”, acompanhados pela criação da
Superintendência de Valorização Econômica da Amazônia, a SPVEA. Mas apenas no governo
Juscelino, de 1956 a 1961, com os programas “Energia e Transporte” e “Cinquenta Anos em cinco”,
realizados com altíssimos empréstimos estrangeiros, é que a amazônia passa a receber
infraestrutura estatal, como as rodovias Belém-Brasília e Brasília-Acre; que acentuaria a migração em
direção à Amazônia, que teve um crescimento de 400% da população entre 1950 e 1960, de 1 para
5 milhões de habitantes.
Na ditadura militar se formam diversos programas para o desenvolvimento do norte do Brasil,
como o Programa de Integração Nacional, o PIN, o Projeto Calha Norte e o próprio RADAM. Época
em que o antigo território federal, a partir da década de 70, passa a receber massas de migrantes

7 Memorial apresentado ao Exmo. Sr, Donatini Modesto Dias da Cruz, Diretor do SPI em 5/8/1949. Filme
406. Arquivo do museu do Índio. Rio de Janeiro.
8 Que viria a proibir diversas línguas faladas no que chamamos de Brasil.
incentivadas pelo governo federal a fim de solucionar os problemas de terra no nordeste9 (região
mais antiga e com a propriedade privada já bem instituída) e concomitantemente, tornar a bacia do rio
Branco, dita de fronteira, produtiva para o território nacional, ou mesmo que apareça enquanto
produtiva. Vide um dos slogans da ditadura nesse período desenvolvimentista que dizia “terras sem
homens, para homens sem terras”, concomitante aos seus projetos de colonização. Como
expressão da crise dos anos 70 e da modernização periférica endividada, a qual é forma para todas
ex-colônias, esse contingente migrante formado por colonos desestabilizados pela falta de condições
para venda da sua produção, trabalhadores incapazes de encontrar trabalho nos grandes projetos
agropecuários, de mineração ou de construção civil, posseiros expulsos pela concentração da terra e,
por fim, indígenas em processo de aculturamento, também são mobilizados por grandes projetos
infraestruturais, de colonização, pesquisa ou prospecção, financiados pelo Estado, como a Perimetral
Norte, o Calha Norte, o Projeto Radam 26 e os projetos de colonização realizados pelo INCRA,
visando mobilizar trabalhadores expropriados no Nordeste para a região Norte. São essas algumas
das bases que auxiliam a explicação da “explosão garimpeira” amazônica a partir dos anos setenta
(BECKER, 1990, p21, 22)
É somente a partir da década de 70 que a população indígena terá alguma luz sobre a posse
de sua terra, momento em que ocorre a aprovação do Estatuto do Índio, em 1973, o reconhecimento
formal das Terras Indígenas passa a obedecer um procedimento administrativo, previsto no artigo 19
daquela lei. Tal procedimento, que estipula as etapas do longo processo de demarcação, é regulado
por decreto do Executivo e, no decorrer dos anos, sofreu seguidas modificações10. Juntamente a um
interesse estatal de planejar e tornar produtiva/especulativa a vida dos povos ancestrais que ali
habitam.

3. A economia hoje em Roraima


Cabe ressaltar qual importância de algumas terras indígenas para o estado-nação, a partir daí
exporemos as atividades econômicas realizadas nas áreas indígenas estudadas.
Área Indígena Raposa/Serra do Sol é riquíssima em recursos naturais e minerais.
Levantamentos apresentados à Comissão Especial indicam reservas de diamante,
molibdênio, ouro, ametista, cobre, caulim, barita, diatomito, zinco, titânio, calcário e nióbio, além
de indícios de ocorrência de urânio e tório. Seus principais rios – Cotingo, Surumu, Maú e
Itacutu – apresentam significativo volume de água, mesmo durante a época de seca. A região

9 Retomar o argumento de Martins.


10 Modificações na lei, decreto 1.775, de 01/1996; decreto 22, de 04/02/1991, decreto 94.945 de 23/09/1987;
decreto 88.118 de 23/02/1983; decreto 76.999, de 08/01/1976.
possui rico e variado patrimônio natural, onde se inclui o Parque Nacional do Monte Roraima,
criado em região de floresta tropical pelo então presidente José Sarney, em 1989. Considerada
uma das mais belas paisagens da Amazônia brasileira, o parque tem fauna e flora
diversificadas e abundantes. Vale lembrar que a Amazônia constitui o maior banco genético do
planeta e conta com um quinto da disponibilidade de água e 1/3 das florestas tropicais do
mundo, além de riquezas incalculáveis no subsolo. Tal patrimônio – do qual o Brasil detém
substancial parcela – representa um potencial estratégico que tende a assumir ainda maior
importância no futuro. (Relatório Comissão Externa destinada a avaliar, in loco, a situação da
demarcação em área contínua da "Reserva Indígena Raposa Serra do Sol", no Estado de
Roraima, https://acervo.socioambiental.org/sites/default/files/documents/0BD00515_0.pdf, p 53)

3.1. Ouro
Após uma corrida do ouro em Roraima, na década de 90, hoje, coma proibição do garimpo,
restam faiscadores dentro das próprias terras indígenas, geralmente os próprios. No norte do estado
encontram-se importantes extrações minerais de ouro, principalmente na Terra Indígena Raposa
Serra do Sol e na Terra Indígena Yanomami, como percebe-se nos relatos vindouros. Concomitante
a uma vertiginosa subida nos preços do ouro após a queda do acordo de Breton Woods.
Em trabalho de campo realizado no começo de 2018, havia sido mordido por uma piranha
caju às margens do rio Branco. Esse episódio se desdobraria mais a frente, nas estadas com
Zacquini11 e sua equipe, onde descobro a existência de estudos afirmando que o rio Uraricoeira está
poluído com mercúrio, proveniente do garimpo de ouro, sendo o principal rio a cortar a Terra Indígena
Yanomami12, e que devido a falta de alimento, as piranhas estavam migrando para o rio Branco. Davi
Kopenawa Yanomami, Xamã e líder político de alguns ditos Yanomami, em uma entrevista ao El
País relata:
A Terra Yanomami foi homologada, mas não está sendo respeitada. Os garimpeiros
começaram a voltar devagar em 2001, 2003. E nós continuamos falando para a Funai, em
Brasília, para a Polícia Federal. As autoridades, o presidente do nosso país não está
interessado em ajudar. Em 2013 entrou outra vez o garimpeiro com força, no rio Uraricoera, o
maior rio que temos na floresta onde a gente mora. Entrou muito garimpeiro. Em 2014, o
Exército, a Funai, o Ibama tentaram tirar. Tiraram, mandaram embora, mas não mandaram
para a cadeia. E como eles não entram na cadeia, passa duas, três semanas e eles voltam.

11 É missionário da Consolata e um dos responsáveis pela criação da CCPY, Comissão para Criação do Parque
Yanomami.
12 Especial preparado pelo ISA mostra o estudo inédito realizado em conjunto com a Fiocruz sobre a presença
de altos níveis de mercúrio em habitantes da Terra Indígena Yanomami, em Roraima. http://isa.to/povo-
yanomami-contaminado-por-mercurio
Agora tem muito garimpeiro, balsa, barranco, pista de pouso.
(https://brasil.elpais.com/brasil/2017/04/20/politica/1492722067_410462.html)
Mas também não podemos nos esquecer de uma ideia que permeia a formação de
cidadãos brasileiro, que é a necessidade de ensiná-los a serem brasileiros, modernos,
trabalhadores… Partindo disso, muito são os relatos de que os garimpeiros ‘ensinaram’ os Yanomami
a garimpar, ‘ensinaram’ usar roupa, enfim, ensinaram-nos a serem modernos, mesmo em condições
periféricas da negação das próprias categorias do capital.
Além dos famosos garimpeiros invasores das Terras Indígenas Yanomami, também me
deparei com indígenas Macuxis que garimpavam para viver. Um deles é João, que ao nos ver logo
soltou um sorriso e com naturalidade se aproximou, estávamos em um ponto de ônibus na Vila
Brasil, sede da prefeitura de Amajari, sob um sol escaldante às nove da manhã, o Macuxi trazia
consigo uma garrafa pet com água congelada pelo freezer de um dos poucos botecos da redondeza,
estávamos no limite do perímetro urbano, talvez próximos da casa de João. O Macuxi não falava
muito português, mas me compreendia muito bem; nesse caso o problema de comunicação partia
da total ignorância da língua macuxi por parte do pesquisador, no entanto pudemos trocar algumas
ideias, dentro dos limites de minha compreensão.
Mesmo havendo algumas dificuldades, procurei sondar a vida de João, que nos era sempre
muito simpático. Logo que perguntei como ele vivia ali, me responde de pronto que garimpa para
sobreviver, como se esse fosse seu trabalho, no entanto no decorrer da conversa, revela-nos que
também caça e pesca para se alimentar, assim como provavelmente fez sua casa e muito de seus
utensílios. Ao falar de garimpo, o Macuxi chamou nossa atenção, dizia ele que garimpava desde
‘muito tempo’, sendo essa atividade ‘fácil’, contando com leveza como garimpa ouro em troca de
comida. Se lhe dessem sessenta quilos de rancho13, podia trabalhar por duas semanas facilmente
enquanto houvesse comida, mas caso a ‘barriga morresse’14, não poderia mais trabalhar. Para retirar
o ouro, levavam, além de toda alimentação e os utensílios de cozinha, picareta, enxada, pá, bateá,
isso sem contar a insalubridade de tratar diretamente com o azougue (Mg) e seu gás, com tudo isso
nas costas, ruma por cerca de cinco quilômetros até um morro que aponta ao longe. Lá,
possivelmente em algum leito de rio, cava, em média, um metro o solo a fim de encontrar o cascalho,
onde, possivelmente, estará o ouro, após separar o cascalho deve passá-lo em esteiras junto à
corrente d’água, para que os metais mais densos fiquem em seu fundo, após essa etapa, os

13 Também conhecida como saco, é a quantidade de comida necessária para uma empreitada garimpeira,
geralmente financiada por portadores do capital.
14 Expressão usada por alguns indígenas no Norte de Roraima que significa ‘estar com fome’.
minerais mais pesados são misturados ao mercúrio para que o ouro presente nesse cascalho seja
atraído pelo azougue, que depois será fervido, evaporado restando apenas ouro. Após todo esse
processo, agora com, aproximadamente, seis gramas de ouro em mãos (quase novecentos reais),
dirige-se ao capanguista ou atravessador, provavelmente fazendeiro na região, que realizará a troca
para ele. Nosso novo amigo acha vantajosa a transação do ouro obtido em duas semanas de
trabalho por uma perna de boi, mal sabendo ele que no mercado essas seis gramas de ouro valem
ao menos um boi inteiro. Após essa pouca proza, João se despede e segue seu rumo, mas antes de
entrar na trilha que levava à sua casa, oferece a Oswaldo, um passante, seu rancho que fica “logo
ali”, apontando para o meio do mato. O galego se interessa, o macuxi entra no mato sorrindo e
dizendo que logo voltaria. Após sua partida, Oswaldo me conta, em tom confidencial, que naquela
região os indígenas todos garimpam, geralmente para políticos da região, também afirma que
Romero Jucá15 é um dos grandes garimpeiros da região, tendo tanto influência, que sabe com
antecedência os horários e datas das operações da fiscalização, podendo, com tempo, esconder seu
maquinário em meio à floresta, retomando as atividades assim que os fiscais se retiram.
Reafirmando esses relatos, recentemente, em artigo publicado pela BBC Brasil, apareceram
mais alguns indícios da importância do garimpo de ouro na região. Os garimpos ilegais há décadas
acontecem em Roraima, como já demonstramos no pequeno histórico que apresentamos. Sendo o
ouro extraído negociado no mercado negro, assim sua origem não aparecia nas estatísticas do
governo. No entanto, agora, ao menos parte das transações tem entrado nos cadastros federais.
Investigadores trabalham com as hipóteses de que o garimpo ilegal cresceu tanto que ficou difícil
ocultá-lo dos registros oficiais e de que há um esquema para fraudar a origem do ouro proveniente de
áreas indígenas. Desde setembro de 2018, 194 kg de ouro originário de Roraima foram exportados
para a Índia, segundo o Comex Stat, portal do Ministério da Economia sobre comércio exterior.
Iniciadas em setembro de 2018, as vendas de ouro oriundo de Roraima já renderam US$ 7,8
milhões (o equivalente a R$ 30,2 milhões), no entanto Roraima não possui nenhuma mina operando
oficialmente, mesmo assim as vendas para a Índia em 2019 já somam US$ 6,5 milhões e tornaram o
ouro o segundo produto mais exportado por Roraima, atrás da soja. Todo esse ouro vendido pela
empresa Caieira, na Grande São Paulo.

15 Uma vez que a ONG Caiuá é quem cuida da saúde indígena em Roraima e é apadrinhada por Jucá.
(https://theintercept.com/2017/09/30/caiua-a-ong-de-r-2-bilhoes-que-se-tornou-dona-da-saude-indigena-no-
brasil/?fbclid=IwAR1T91SYnkUL6vNVXZJH1z1mUrq2UY2PH9U3mqWwZ84izhE2NWFaWTstIbQ)
“Tudo leva a crer que o ouro esteja saindo de garimpos ilegais”, afirma à BBC News Brasil
Eugênio Tavares, representante da ANM em Roraima e ex-superindentente do Departamento
Nacional de Produção Mineral (DNPM) no Estado.
Tavares diz que o metal exportado está provavelmente saindo da região do rio Uraricoera, na
Terra Indígena Yanomami. No fim de maio, uma comitiva com líderes dos povos yanomami e
ye'kwana denunciou a órgãos federais em Brasília que ao menos 10 mil garimpeiros atuariam
dentro do território. (https://www.bbc.com/portuguese/internacional-48534473)

3.2. Biodiversidade
A biodiversidade também é mercadoria comercializada há muito na bacia do rio Branco, no
entanto passam a exercer papel estratégico para uma soberania nacional em relação as suas
matérias-primas e recursos naturais, já que são de grande importância para os ramos farmacêuticos,
cosméticos e de alta tecnologia. O principal propósito da Convenção sobre Diversidade Biológica,
que aconteceu em 1992, “era regular o acesso aos recursos genéticos e garantir a repartição de
benefícios de deles se originassem. Até então, os recursos genéticos eram considerados patrimônio
da humanidade” (Carneiro da Cunha, pg 315). Assim, os indígenas, que a partir da Agenda 21
passam a ser considerados sujeitos de direito, tornar-se-ão importantes portadores de saberes
milenares acerca da biodiversidade, já que alguns conhecimentos é exclusivo de cada povo. Assim, a
Convenção da Diversidade aparece para os países do Sul como um instrumento de justiça
redistributiva, ou seja, legalmente foram criados mecanismos que permitiriam o desenvolvimento dos
países periféricos.
Podemos tomar inúmeros exemplos de mercadorias da biodiversidade, mas devido o pouco
espaço me focarei em apenas duas, as castanhas vendidas pelos Way-Way e os fungos utilizados
pelos Yanomamis em suas cestas que foram catalogados cientificamente por mulheres da própria
comunidade. Em artigo publicado pelo Instituto Socio Ambiental lê-se,
A safra prevista para 2018 é de 330 toneladas de castanha. O preço da lata de 10 quilos, em
acordo com a empresa Wickbold de pães, é de cerca de R$ 44 –76% acima dos R$ 25
praticados por atravessadores na região.” (https://medium.com/hist%C3%B3rias-
socioambientais/t%C3%AEtko-a-jornada-%C3%A9pica-da-castanha-do-povo-wai-wai-
cfb89427f5ab)
Já sobre as cestas Yanomami,
Floriza da Cruz Pinto Yanomami, 48, que estudou até a 5ª série no Instituto de Educação do
Amazonas, em Manaus, realizou o sonho de todo jovem biólogo: ser primeira autora de
trabalho descrevendo uma espécie nova. Sem ela e 30 coautores, o mundo não conheceria o
Marasmius yanomami. (https://www.socioambiental.org/pt-br/noticias-
socioambientais/mulheres-yanomami-lancam-livro-que-apresenta-nova-especie-de-fungo)
Só com esses dois exemplos vemos como o mercado científico e alimentício já se
aproveitam desses novos produtores de mercadorias.

3.3. Turismo
Já o turismo caminha a passos lentos, citarei aqui dois exemplos, o Festival da Panela de
Barro,
Para contribuir com a valorização da arte milenar dos indígenas macuxi, as panelas de barro
serão tema de um Festival na Comunidade Indígena Raposa I. A 5ª edição do Anna Komanto
Eseru - Festival das Panelas de Barro ocorre nos dias 8, 9 e 10 de novembro. De acordo com
Enoque Raposo, a proposta é divulgar e o fortalecer os movimentos de valorização cultural na
comunidade indígena. O evento é aberto para qualquer pessoa que queira conhecer um
pouco mais da cultura indígena. A expectativa é receber tanto indígenas de outras etnias, como
a população em geral. (https://folhabv.com.br/noticia/Comunidade-divulga-tradicao-com-festival-
de-panelas-de-barro/45907)
E o caso dos guias Yanomami que passarão a levar turistas ao topo do pico da Neblina,
monte sagrado para esse povo, pela portaria de 9 de maio de 2018 fica decidido.
Aprovar o Plano de Visitação Yaripo no ParqueNacional do Pico da Neblina, localizado no
estado do Amazonas,constante do processo administrativo n.º 02070.012217/2017-
11(http://pesquisa.in.gov.br/imprensa/jsp/visualiza/index.jsp?data=11/05/2018&jornal=515&pagi
na=53&totalArquivos=90)

3.4. Pecuária
Na década de 80, a Diocese de Roraima programou o "projeto do gado", com o objetivo de
promover a ocupação do lavrado, transformando os índios em pecuaristas. Que daria mais
legitimidade às reivindicações da demarcação da Raposa Serra do Sol.
Atualmente, as comunidades macuxi estabelecidas em cada aldeia possuem coletivamente
pequeno rebanho de gado bovino, obtido através de projetos iniciados pela Diocese de
Roraima, pela Funai e pelo governo do estado de Roraima. A criação de bois, mantida em
currais e retiros, bem como a de aves e suínos empreendida por famílias individuais, é hoje
considerada indispensável, em vista do progressivo escasseamento de caça.
(https://pib.socioambiental.org/pt/Povo:Macuxi)
Segundo a Folha de São Paulo,
Para enfrentar a desnutrição e contrariar o rótulo de improdutivos, indígenas que vivem em
Roraima criam gado e cultivam plantações em fazendas que, muitas vezes, "herdaram" de
ruralistas da região. Segundo o governo do Estado, cerca de 150 comunidades das terras
indígenas de São Marcos e Raposa Serra do Sol possuem hoje um total de 120 mil cabeças
de gado. Os animais são consumidos pela população indígena e, em menor escala, vendidos
para custear insumos agrícolas, tratamentos de saúde e cursos técnicos a seus membros.
(https://www1.folha.uol.com.br/poder/2018/01/1954274-indios-em-roraima-criam-gado-em-
fazendas-herdadas-de-ruralistas.shtml)
Em trabalho de campo pude perceber a forte relação dos macuxis com a profissão de
boiadeiro, em Uiramutã, cidade enclave no meio da Terra Indígena Raposa Serra do Sol, pude
presenciar uma festa tradicional de peão, com corridas de cavalo.

3.5. Mercado Fictício


Cabe notar o crescimento de mercadorias de capital, como os selos de qualidade que a
preservação proporciona e também a grande massa de capitais ociosos nos países centrais que
precisam ser investidos de alguma forma, mesmo que não gerem lucros satisfatórios, ao menos
puderam valorizar alguns títulos nas bolsas de valores pelo mundo. Em Roraima não é diferente,
como podemos ver com a Fundação Ford junto ao Conselho Indigenista de Roraima - CIR e o
governo da Noruega junto ao Instituto Socioambiental. No pretendendo desvelar o processo aqui,
então cito alguns números. Sobre o Fundo da Amazônia, a BBC nos informa,
Hoje, a Noruega é responsável por mais de 90% das doações do Fundo Amazônia, lançado
em 2008 como o maior projeto da história de cooperação internacional para a preservação da
floresta amazônica. Em 11 anos, os noruegueses doaram cerca de US$ 1,2 bilhão (ou R$ 4,6
bilhões, em valores corrigidos) para o fundo. Em seguida estão os alemães, que doaram cerca
de US$ 100 milhões (ou R$ 380 milhões). (https://www.bbc.com/portuguese/brasil-
48875532?ocid=socialflow_facebook&fbclid=IwAR2-ayx-
hgduD71LorK2Uk4zRIpfpJlu5h0dE6vzys82nAgvaHxkXYd3gfc)

Todo esse dinheiro de cooperação internacional é revertido em anuência para suas emissões
de carbono nos diversos ramos produtivos do petróleo que a Noruega controla.

4. Conclusão - Cama de Procusto para os indígenas


Parece-me que, para os indígenas, uma das possibilidades de manterem sua integridade
física e um pouco do que restou de sua cultura, foi o de abraçar o direito comunitário da
biodiversidade, que lhes coloca como papel central no desenvolvimento das novas biotecnologias,
uma vez que seus saberes só são seus. Ou seja, a terceira revolução industrial, que abre caminho
para as discussões identitárias, trás em seu bojo a possibilidade de sobrevivência desses povos que
estavam fadados a um processo de colonização violento ao extremo, assim
“Os povos indígenas só tem duas opções: ou direitos de propriedade intelectual coletiva ou um,
regime de domínio público. Ambas opções obrigam os regimes indígenas a se encaixar em
leitos de Procusto. Diante dessas alternativas limitadas, não é de espantar que os povos
indígenas tenham pragmativamente preferido a opção dominante, reivindicando direitos
intelectuais de propriedade coletiva e com isso frustrando as esperanças daqueles que os
defendiam, os setores progressistas que se opõem aos direitos absolutos de propriedade
intelectual.” (Carneiro da Cunha, pg 323)
Com isso a demarcação de suas terras passa a ser importante para o estado brasileiro, para
além de uma colonização nos moldes clássicos.

5. Bibliografia
BECKER, Bertha K. Amazônia. SP, Ática, 1990.
CUNHA, Manuela Carneiro da Cunha. Cultura com aspas e outros ensaios. São Paulo, Ubu Editora,
2017.
FARAGE, Nádia. As muralhas dos sertões: os povos indígenas no Rio Branco e a colonização. Rio
de Janeiro, Paz e Terra, ANPOCS, 1991.
VIEIRA, Jaci Guilherme. Missionários, fazendeiros e índios em Roraima: a disputa pela terra – 1777 a
1980. Editora UFRR, 2014.

5.1. Sites acessados em 06/07/2019


- https://acervo.socioambiental.org/sites/default/files/documents/0BD00515_0.pdf, p 53
- https://www.bbc.com/portuguese/brasil-48875532?ocid=socialflow_facebook&fbclid=IwAR2-ayx-
hgduD71LorK2Uk4zRIpfpJlu5h0dE6vzys82nAgvaHxkXYd3gfc

- https://www1.folha.uol.com.br/poder/2018/01/1954274-indios-em-roraima-criam-gado-em-fazendas-herdadas-de-
ruralistas.shtml

- https://pib.socioambiental.org/pt/Povo:Macuxi

- https://medium.com/hist%C3%B3rias-socioambientais/t%C3%AEtko-a-jornada-%C3%A9pica-da-castanha-do-povo-wai-
wai-cfb89427f5ab

- https://www.socioambiental.org/pt-br/noticias-socioambientais/mulheres-yanomami-lancam-livro-que-apresenta-nova-
especie-de-fungo

- https://medium.com/hist%C3%B3rias-socioambientais/t%C3%AEtko-a-jornada-%C3%A9pica-da-castanha-do-povo-wai-
wai-cfb89427f5ab
- https://folhabv.com.br/noticia/Comunidade-divulga-tradicao-com-festival-de-panelas-de-barro/45907