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“PROCURANDO FALATÓRIO”: A OBRA POÉTICA DE STELA DO PATROCÍNIO,

MULHER, NEGRA E LOUCA

Anna Carolina Vicentini Zacharias1

Resumo: Stela do Patrocínio (1941 – 1992) foi uma mulher pobre, negra e interna de
ambiente manicomial a partir dos 21 anos e até a data de sua morte. Durante o período de
internação, recebeu eletrochoques, medicamentos para tratar o diagnóstico de esquizofrenia e
sobreviveu à superlotação da Colônia Juliano Moreira em Jacarepaguá/RJ. Devido aos
avanços da luta antimanicomial, a referida Colônia passou a receber a artista plástica Neli
Gutmacher e seus alunos em um projeto que visava aplicar arte como terapia. Stela foi uma
das internas que participou das atividades, solicitando um gravador para que, nele, pudesse
registrar a maneira como entendia o mundo, as relações e o cotidiano no manicômio, sua
situação enquanto sujeito e enquanto mulher negra interna de uma instituição psiquiátrica.
Esses registros foram por ela denominados “falatório”. Suas falas, que sugerem pausas
poéticas e são marcadas por recursos literários, foram transcritas, organizadas e publicadas
postumamente como livro de poemas intitulado Reino dos bichos e dos animais é o meu nome
(2001), por Viviane Mosé. O presente projeto visa, portanto, analisar sua poesia a partir de um
estudo interdisciplinar, que discute autoria feminina (Woolf; Gubar; Gilbert), autoria negra
(Fanon; Bernd; hooks), ambientes manicomiais (Foucault; Goffman; Frayze-Pereira) e a
consolidação do cânone literário como um dos espaços de manutenção da ordem vigente, que
exclui aqueles que trazem marcas de diferenças sociais.

Palavras-chave: Stela do Patrocínio. Poesia brasileira. Gênero. Raça. Loucura.

Se, por um lado, é verdade que o cânone literário é composto prioritariamente por
homens brancos, por outro, devemos nos atentar ao que é diferença, pois aqui nos referimos
ao enquadramento transmitido àquelas e àqueles que não pertencem à ordem hegemônica
ocidental, que coloca como diferença o que não segue seus parâmetros (de brancura e
masculinidade, por exemplo), e que afasta de possibilidades variadas, como demonstraremos
adiante.
Esse debate será imprescindível para que este estudo, a nível de mestrado, se
complete, e contará com referências como as trazidas neste resumo, além de outras que não
chegaram a constar neste artigo. No entanto, depois da submissão do presente resumo ao 13º
Mundo de Mulheres e Fazendo Gênero, entendemos a necessidade de mudar este título – que,
num primeiro momento, foi válido para que percebêssemos como essa manutenção

1
Licenciada e bacharel em Letras pela Universidade Estadual Paulista “Júlio de Mesquita Filho” (UNESP
Araraquara/SP). Atualmente, cursa mestrado no Instituto de Estudos da Linguagem – UNICAMP, São Paulo,
Brasil – Programa de Teoria e História Literária, sob a orientação da Profa. Dra. Daniela Birman.
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hegemônica se dá, tanto através do funcionamento sócio-político brasileiro, quanto por meios
culturais, onde a literatura está inserida, mas que não poderia ser também título de um
trabalho, visto que essas denominações podem cair na armadilha do exotismo2, que inclusive
é alvo de crítica deste estudo, pois o exotismo não só reifica situações de estereotipação e
subalternização3, como nos afasta da possibilidade de realmente compreendermos os
processos pelos quais a autora e a obra passaram e como seu falatório pode ser interpretado.
Este trabalho, está, então, em constante busca de abordagens, debates e métodos capazes não
apenas de entender e questionar essa ordem imposta – de variadas maneiras, das mais
agressivas às mais aparentemente sutis –, mas de fazer uma virada epistemológica que seja
capaz não apenas de desafiar esses processos de manutenção da ordem, mas que reivindique
alterações nos modos de compreensão da literatura e de outras produções culturais,
entendendo-as como políticas.
Outra mudança bastante significativa quanto ao andamento deste estudo é a
perspectiva: também entendemos que, para que pudéssemos perceber como essas estruturas
hegemônicas são mantidas também pelos estudos acadêmicos, seria – e foi –necessário
discutir algumas questões que ficaram em aberto depois de uma leitura mais atenta da fortuna
crítica de Reino dos bichos e dos animais é o meu nome (Rio de Janeiro: Azougue editorial,
2001), obra aqui entendida enquanto uma produção literária originalmente pautada nas
anedotas orais e, mais adiante, transcrita para a publicação editorial4. Os trabalhos lidos sobre

2
Como aconteceu, por exemplo, com Carolina Maria de Jesus, a partir do exotismo criado – não por ela, mas por
Audálio Dantas, que publicou o livro – através do subtítulo de Quarto de despejo (1960), que trazia em seus
dizeres: “Diário de uma favelada”, segundo o trabalho realizado por Raquel Alves dos Santos Nascimento, Do
exotismo à denúncia social: sobre a recepção de Quarto de Despejo, de Carolina Maria de Jesus, na Alemanha.
Disponível em: <http://www.teses.usp.br/teses/disponiveis/8/8160/tde-16052016-135117/pt-br.php>. Acesso
em: 04 de agosto de 2017.
3
O conceito aqui utilizado vale-se da explicação feita por SPIVAK, Gayatri. Pode o subalterno falar? Belo
Horizonte: Editora UFMG, 2010, e não será devidamente tratado graças à necessidade de concisão.
4
Stela do Patrocínio (1941-1992), à época paciente interna da Colônia Juliano Moreira (Jacarepaguá/RJ),
produziu sua obra poética utilizando-se do que denominou “falatório”: a partir da mediação de terceiros que
objetivavam aplicar arte como terapia no ambiente manicomial, Stela pôde gravar seus pensamentos,
respondendo a perguntas realizadas no período entre 1986 e 1988. As transcrições desses áudios, que sugeriam
pausas poéticas e utilizavam-se de recursos poéticos como metáforas, figuras de linguagem e figuras de
pensamento foram feitas postumamente por Viviane Mosé, que também organizou e selecionou o que viria a ser
publicado em formato de livro de poemas pela Azougue editorial, em 2001. Vale mencionar que Stela escrevia
poemas em papéis de pão, segundo Viviane Mosé no prefácio à obra, mas esses materiais foram perdidos.
Trouxemos essas informações enquanto nota de rodapé por pretendermos tratar das questões sobre a ausência da
bibliografia de Stela do Patrocínio em outro momento pois, no livro, constam poucos dados que extrapolem o
ambiente manicomial, como nascimento, morte e filiação.
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o livro catalogado enquanto poesia brasileira abrangeram prioritariamente as áreas de letras,
ciências sociais, artes e psicologia.
Tratou-se de uma especulação realizada recentemente, logo após a aprovação no
processo seletivo a nível de mestrado, para que pudéssemos, a partir dessas leituras, entender
como é possível dar continuidade aos debates suscitados por aquelas e aqueles que se
empenharam em tratar do mesmo objeto de pesquisa, o livro de Stela do Patrocínio, e que nos
aponta os andamentos da recepção da obra.
Um dos dados entendidos enquanto uma possibilidade de investigação – dado também
levantado por Telma Baiser de Melo Zara5 em sua dissertação de mestrado – foram as
disparidades encontradas no entendimento da literariedade da obra. Citando Zara, há a
coexistência de
[...] trabalhos em que Stela é vista tanto como uma mulher doente e delirante, quanto
como uma artista lúcida, cuja genialidade era pungente. Seu “falatório” foi
igualmente discutido, sendo visto por alguns autores como uma obra digna de
publicação e, principalmente, merecedor de ser considerado um texto de acordo com
os cânones literários por sua forma e conteúdo e, por outros, apenas como delírios
que só foram dignos de crédito por terem sido produzidos por alguém considerado
louco, pois, de outra forma, não seriam sequer percebidos. (ZARA, 2014, p. 55)

Ou seja, ou há uma reivindicação pelo enquadramento nos cânones literários, ou


apontamentos que quase tendem a acusar os primeiros de um fetichismo propiciado pelas
condições de Stela enquanto interna de uma instituição manicomial. Outro fato que carece
atenção é o de que aqueles que, dentro da literatura, entenderam a obra de Stela enquanto uma
produção poética e reivindicam a ela um espaço no cânone da literatura, atribuem valoração
política ao seu “falatório”.
Baseando-nos na percepção desses entendimentos tão diversos a respeito de Reino dos
bichos e dos animais é o meu nome, julgamos necessário estabelecer uma espécie de “pré-
debate”, que consiste em tratar de elementos anteriores à discussão propriamente sobre o tema
de pesquisa delimitado, isto é, anteriores à análise, sob a perspectiva literária, da produção de

5
Para acesso ao levantamento da fortuna crítica até 2014, ver: ZARA, Telma B. de M. “Me transformei com
esse falatório todinho”: cotidiano institucional e processo de subjetivação em Stela do Patrocínio. Toledo, PR:
[s.n.], 2014. Após 2014, ainda foram publicados: CORREA, Louise. Do caos à criação: uma leitura da obra de
Stela do Patrocínio (2016); SILVA, Gislene Maria Barral. Stela do Patrocínio e autorrepresentação: uma
poética da loucura. In: Estudos feministas e de gênero: articulações e perspectivas. Org. STEVENS, Cristina;
OLIVEIRA, Suzane Rodrigues de; ZANELLO, Valeska. Ilha de Santa Catarina: Mulheres, 2014. (pp. 96-107);
entre outros.
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Stela, a fim de entender os motivos pelos quais essas interpretações são tão divergentes,
mesmo quando partem do mesmo lugar de estudo.
Consideramos um debate importante não apenas para a compreensão da obra de Stela
do Patrocínio, afastada desses cânones (entendemos, aqui, como espaços de legitimação das
produções artístico-intelectuais), mas também de outras obras literárias que, por motivos que
serão pormenorizados ao longo da feitura do trabalho de dissertação, passam por discussões
acerca da possibilidade dessas produções por pessoas entendidas enquanto subalternizadas –
no caso de Stela, tem-se debatido, como recentemente exposto, o fato de ser mulher, negra,
diagnosticada com esquizofrenia e interna em manicômio a partir dos 21 anos até sua morte,
aspectos sociais que aparecem também como temas em sua poesia –, dos modos de produção,
temáticas e abordagens não convencionais na literatura canônica e da recepção dessas
produções culturais ou intelectuais por parte de um público consumidor, mercadológico e/ou
acadêmico.
A partir do diagnóstico dessas divergências de leitura, entendemos a necessidade de
pensarmos, antes, o que são cultura e produção cultural, considerando as formas simbólicas
utilizadas, bem como os parâmetros de aceite ou recusa dessas produções, e entendendo
cultura, em suma, enquanto ideologia de um dado sistema político e social (Sodré, 2005;
McClintock, 2010; Thompson, 1995), pensando o Ocidente, leituras que serão aqui
brevemente apresentadas para que possamos compreender, então, como as recepções e
entendimentos sobre determinadas obras são construídas, dentro dos âmbitos acadêmico e
editorial, e como obedecem a uma lógica que tende a universalizar algumas produções e
produtores que se enquadram em elementos pré-estabelecidos para serem julgadas enquanto
artísticas ou não e enquanto intelectuais ou não.

Cultura e produção cultural: questões ideológicas em espaços de legitimação artístico-


intelectuais

Este capítulo tem, como recentemente explicitado, o intuito de apreender os processos


pelos quais foram concebidas as ideias de cultura e produção cultural no Ocidente, por
entendermos que se trata de questões já abordadas dentro dos estudos literários, mas que ainda
carecem de mais atenção quando há uma proposição de análises de obras ou de aceites e

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recusas ao que é entendido – ou não – enquanto artístico, mais especificamente literário, no
caso deste trabalho.
Muniz Sodré explicita as modificações de entendimentos sobre o conceito de cultura
ao longo dos processos históricos no Ocidente:
A palavra cultura emergia como um padrão burguês da saúde ou de excelência capaz
de justificar os horizontes de expansão da nova classe dominante e atribuir vigor
ético e representativo a suas elites. Ao mesmo tempo que atribuía sentido à
produção, à acumulação, ao progresso, a noção de cultura implicava uma estratégia
de distinção social por meio da orquestração intelectual dos componentes do ideário
burguês, que seriam desde então administrados por segmentos privilegiados (frações
de classe) da nova ordem social [...] Em resumo, tratava-se de “voar” cada vez mais
alto, ao mesmo tempo que se mantinham fechadas certas “gaiolas” embaixo. Aí
ficavam os pobres de dinheiro ou de “espírito”, dos quais se distinguiam as elites
pela conquista de elevados padrões de excelência social. A literatura, as artes
implicariam também em dispositivos de controle do sentido produzido pelo conjunto
das classes sociais. Por meio deles, consolida-se a separação entre o sublime e o
vulgar, entre cultura elevada e cultura popular, entre o superior (universal) e o
inferior (SODRÉ, 2005, pp. 19-20)

Segundo Sodré (2005), os conceitos de cultura e civilização estão intrinsecamente


ligados pois, por civilização, entendia-se o grupo detentor de cultura (aquela do “ideário
burguês”), ficando, assim, cultura como o oposto de primitivismo. Tratava-se de um projeto
de expansão colonial para pensar e para dominar as diferenças de outras organizações sociais
não-ocidentais.
A cultura é, portanto, ideológica, entendendo ideologia enquanto a forma de
consciência dominante e o modo de representação vigente, dotada de técnicas de controle do
corpo, da mente, do trabalho e inclusive da fala, pois o Ocidente
[...] concebia apenas seu próprio processo civilizatório como modelo universal de
cultura. Essa palavra desloca-se então de seu raio de ação interna, de dentro de um
mesmo campo de poder, para pensar (e dominar) as diferenças com outros campos,
outras organizações sociais. (SODRÉ, 2005, p. 25)

A ideologia, deve-se pontuar, é coerente, significante do modo de produção capitalista:


coerência do tipo filosófica, que se desenvolveu em oposição à ideia de mito, começando por
constituir o indivíduo como dotado de uma consciência autônoma, depois exacerbando o
racionalismo universalizado enquanto ferramenta para a descoberta da verdade e unindo,
ainda, a especialização dos saberes para essa descoberta:
Na ideologia, tudo concorre para demonstrar ao indivíduo que o mundo é
absolutamente transparente à razão universal: bastaria saber (poder) indagar,
pesquisar, interpretar. Se a verdade do sujeito se esconde, “alienada” numa outra
cena - a do inconsciente -, é preciso restituí-la à luz, à claridade, à transparência, à
univocidade, para que a consciência se produza como racionalmente assumida.

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Numa pintura, num poema, numa narrativa, é preciso acreditar em significados
profundos, em verdades latentes, recalcadas, para que a lei racionalista (a ideologia)
finalmente triunfe (SODRÉ, 2005, p. 51)

Cria-se, portanto, os padrões-modelos do saber que, por sua vez, são caracterizados
não apenas enquanto conhecimento, mas enquanto poder – de decidir, produzir e julgar.
Destarte, se constrói uma falsa premissa: a de que é possível racionalizar toda e
qualquer coisa existente, tarefa da cultura elevada, como uma busca incessante da verdade
que, por sua vez, tende a ser maniqueísta: bem versus mal, sublime (elevado) versus vulgar,
verdade versus mito, etc., tarefa restrita àqueles que podem usufruir de seus dispositivos de
linguagem.
Por outro lado, as produções (de massa, ou mercadológicas), que não visam produzir
nenhuma verdade, são marcadas tanto pela abstração social, ou seja, forjando que “as
necessidades psicológicas do indivíduo são as mesmas, qualquer que seja a sociedade ou a
cultura.” (Sodré, 2005, p. 65) quanto pelo funcionalismo, “que leva em conta as relações
específicas entre o consumidor, os canais usados e a cultura.” (Sodré, 2005, p. 65).
Todos esses aspectos distintivos entre cultura elevada e cultura de massas têm levado
os estetas a veredictos de inferioridade à última. Trata-se, portanto, do que Sodré entende por
culturalização, definida pela produção acelerada de signos, materiais semióticos e modelos a
serem seguidos.
Por esses motivos, e entendendo ideologia enquanto o apagamento da cena simbólica
pela universalização de um particular, com finalidades econômicas, cedendo espaço a alguns
privilegiados e com uma tendência ao que denomina sentido finalístico, ou seja, a tendência
de atribuir sentido a tudo, indiscriminadamente, e de tornar tudo inteligível, transformando o
inteligível em finalidade produtiva,
A cultura ocidental tem [...] erigido como dogmas a profundidade das coisas, o
desvendamento de tudo, a mediação das trocas, a abstração, a irreversibilidade, a
interpretação. No Ocidente, nada é deixado ao acaso, tudo se explica, tudo se diz,
porque tudo se produz - principalmente o sentido. É por isso que toda concretude,
toda reversibilidade, toda recusa de acumulação de excedentes (que gera abstração e
valor) desafia o poder ocidental sobre o sentido. (SODRÉ, 2005, p. 88)

Devemos nos atentar ao fato, no entanto, de que esses saberes são, muitas vezes,
convenções que dissimulam verdades, a partir das leituras do que costumeiramente se entende
como o Outro, ou seja, aquelas e aqueles subalternizadas/os, não detentoras/es dos meios de
produção de saberes e não detentoras/es de poder.

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Faz-se, com isso, um jogo de produções de saberes. McClintock (2010) produz um
debate interessante nesse sentido, pois afirma que
[...] a estória não é simplesmente sobre relações entre negros e brancos, entre
homens e mulheres, mas sobre como as categorias de brancura e negritude,
masculinidade e feminilidade, trabalho e classe passaram a existir historicamente
desde o início (MCCLINTOCK, 2010, p. 39)

Segundo a autora, a literatura também tem papel nisso, pois a própria separação entre
política e literatura, legitimada por diversos teóricos e críticos, é uma separação política,
marcada pela fuga para o esteticismo que está, antes, relacionada à ratificação da consciência
dominante, não a uma pura e simples consciência estética.
Ou seja, entendendo esses mecanismos e seus intuitos, podemos encontrar uma das
explicações para as divergências em relação à literariedade – ou poeticidade – das transcrições
de Stela do Patrocínio, pois percebe-se que, dentre os estudiosos que defendem a obra de Stela
enquanto “merecedora” de um espaço no cânone, há, conjuntamente, um entendimento de que
a produtora do “falatório” não obedece à lógica convencionalizada.
Citamos dois exemplos: o primeiro, encontrado em um artigo de Marcos Roberto
Teixeira de Andrade: “Mas o fato é que seu texto comporta uma lógica própria, lógica que,
não fazendo parte do nosso universo lógico, parece-nos ilógica. Deveras, o texto patrociniano
sustenta uma lógica-ilógica.” (Andrade, 2007, p. 5); por outro lado, Gislene Maria Barral
Silva, cuja produção sobre a obra de Stela do Patrocínio será referência durante todo este
estudo de mestrado – tanto pela quantidade, quanto pela qualidade dos seus escritos –, afirma
que “Stela desperta interesse por ser capaz de criar uma tensão em que seu discurso, que se
inicia ordenado, fragmenta-se e constrói-se sempre dentro de uma lógica particular,
mergulhada no delírio” (Silva, 2003, p. 103).
Ora, sendo Stela uma mulher cujo perfil social é automaticamente afastado da
possibilidade de uma fala a ser levada em consideração, pois nele constam fatores de exclusão
de saberes e de poder, como o fato de ser mulher, negra, pobre, sem diploma de ensino
superior e entendida como louca6, talvez fique evidente não apenas a possibilidade de fala,

6
Trataremos dessas questões em outro momento, porque também entendemos que o caso da loucura,
considerando o perfil social de Stela do Patrocínio, ultrapassa seu diagnóstico médico pelas condições de sua
internação e pela proximidade dos perfis sociais das outras internas, também com o mesmo diagnóstico, na
Colônia Juliano Moreira. Para mais informações sobre a referida Colônia, ver: VENANCIO, Ana Tereza;
POTENGY, Gisélia Franco (Org.). O asilo e a cidade: histórias da Colônia Juliano Moreira. Rio de Janeiro:
Garamond, 2015. Acreditamos que essas questões influenciam não só seu diagnóstico, mas esse encadeamento
de acontecimentos também influem o olhar daqueles que recebem, estudam e interpretam sua poesia.
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mas a capacidade de sua fala ser ouvida, pois esses fatores sociais não correspondem à ordem
hegemônica e, portanto, podem trazer menos vínculos em relação a essa necessidade,
apontada por Sodré e McClintock, da criação de sentidos e parâmetros nos moldes da
ideologia dominante.
O que Sodré (2005) faz, e também o intuito deste trabalho, é uma “indicação da
possibilidade de uma outra perspectiva de cultura, de uma recusa do valor universalista de
verdade que o Ocidente atribui a seu próprio modo de relacionamento com o real” (Sodré,
2005, p. 102).
Pensar alguns textos não-canônicos torna-se, portanto, uma tarefa de compreensão de
outras possibilidades de entendimento de cultura, de interações e de produções, que não
obedecem à produção de verdade nos moldes Ocidentais.
Talvez o “falatório” de Stela não esteja exatamente na chave da “lógica-ilógica”, mas
seja necessário que os olhares daqueles que recebem a sua poesia estejam menos afetados a
todo o processo aqui levantado em relação a essa ideologia.
Percebemos a necessidade dessa mudança de perspectiva nas análises de algumas
obras literárias, como dissemos, devido à existência de escritoras e escritores que talvez sejam
entendidas e entendidos equivocadamente pela crítica convencional, que obedece, via de
regra, essa lógica de categorização e seguem vieses de debates pré-estabelecidos.
É preciso considerar as formas de reversibilidade (em que outros grupos vão buscar
sua coerência), que escapam ao modelo histórico (realístico, acumulativo, linear e
irreversível) do Ocidente [...] É preciso sobretudo considerar que o modelo ocidental
de produção de coerência (a ideologia moderna) não controla nem esgota as
possibilidades humanas de relacionamento com o movimento do sentido (sempre
entendido como a dimensão cultural de esvaziamento da Verdade, de extermínio das
posições de sujeito” (SODRÉ, 2005, pp. 116-117)

Dito isto, prosseguiremos às considerações finais, que consistem mais em levantar


questões em relação ao que tem sido feito nas análises de literatura, mais especificamente com
a literatura produzida por Stela do Patrocínio, do que uma tentativa de encontrar respostas.

Possibilidades de encaminhamento

Optaremos por, finalmente, demonstrar como produção de Stela do Patrocínio foi


concebida. Abaixo, recortes da entrevista que consta na parte final do livro, intitulada “Stela
por Stela”:
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“[...]
Como é o seu dia a dia aqui na colônia?
Segunda terça quarta quinta sexta sábado
domingo
Janeiro fevereiro março abriu maio junho julho
agosto setembro outubro Novembro dezembro
Dia tarde noite
Eu fico pastando à vontade
Fico pastando no pasto à vontade que nem cavalo
[...]
E você gosta dessa vida?
Gosto, gosto de ficar pastando à vontade
Ficar só pastando
E você não tem vontade de fazer outra coisa?
Não, eu não tenho vontade de fazer outra coisa
A não ser ficar pastando
Pastar pastar pastar ficar pastando à vontade
O bom pastor dá a vida pelas suas ovelhas
A lei é dura mas é lei
Dura lex sed lex no cabelo só gumex
[...]
Stela, quais são teus desejos?
Meu desejo é crescer e multiplicar
Crescer você tá bem crescidinha e multiplicar? Você nunca teve filhos?
Eu já botei tudo pra fora
Depois que botei tudo pra fora fui obrigada a
botar pra dentro
E me ensinaram a ser rápida, ligeira e a ter velocidade
E atualmente você bota as coisas pra fora ou pra dentro?
Pra dentro
O que você tá botando pra dentro agora?
O chocolate que eu botei pra dentro
Você que eu tô botando pra dentro
A família toda que eu tô botando pra dentro
O mundo que eu tô botando pra dentro
De tanto olhar
De tanto?
Olhar
De tanto enxergar olhar ver espiar
Sentir e notar
Tô botando tudo pra dentro porque botando
pra dentro eu botei pra fora
Você gostou da visita que a gente fez ao zoológico?
[...]”. (PATROCÍNIO, 2005, pp. 147-152)

Mesmo no capítulo nomeado “Stela por Stela”, única parte em que as entrevistas não
estão cortadas com as transcrições apenas das respostas de Stela do Patrocínio às perguntas
realizadas, nota-se uma constante abrupta de questionamentos que, se pudéssemos analisar
aqui com mais possibilidades de nos estendermos, perceberíamos que as perguntas são,
muitas vezes, desconexas – tomamos por exemplo a última em destaque no fragmento acima.
Não se tratava sequer de um diálogo, mas de um modelo comumente visualizado em

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entrevistas, com o distanciamento daquela que pergunta e segura o gravador (como se o
gravador fosse, de fato, um objeto de legitimação daqueles momentos propiciados para
recolherem os materiais do “falatório”, objeto esse do qual a própria faladora nunca dispôs
por conta própria).
Algumas artes seguem parâmetros de feitura similares, não apenas em relação à escrita
em contraposição à oralidade aqui presente, mas pensando os perfis sociais dos escritores
legitimados dentro do cânone literário, suas condições de trabalho artístico, suas estéticas a
que os estudos literários se habituaram, como recentemente afirmamos, e que correspondem a
uma ideologia (vale lembrar que Stela, ela mesma, dizia contar anedotas), porque o cânone
literário já se mostrou insuficiente para abranger produções artísticas, visto que também
contribui para a manutenção da ideologia dominante.
Como pudemos perceber, Stela artista não é “convencional”, e estudar sua produção
sem, antes, compreender os motivos de seu afastamento social e seu aprisionamento dentro de
uma instituição manicomial, bem como seu afastamento póstumo do campo literário ou da
possibilidade de ter seu falatório legitimado, traria resultados dissimulados.
Como resultado disso tudo em uma sociedade fundamentada no patriarcalismo,
racismo e racionalismo, Stela parece não ter sido ouvida – resta saber se por incapacidade
daqueles a quem teve contato, talvez por sustentações de poder, seguindo a lógica do
afastamento da razão de que falam tantos autores que pensam a negritude, o sexo feminino, a
loucura, a pobreza e o Ocidente7.
Apesar de ter sido escrita, no contexto da feitura da obra, não chegou a falar por si,
porque isso pressupõe uma liberdade que o modelo de entrevista automaticamente retira, uma
vez que insere questões, temas e elementos que, via de regra, conduzem as respostas. Além
disso, a publicação do livro consistiu em transcrever, recortar, selecionar e organizar o que
Stela disse.
Se tentarmos legitimá-la dentro dos moldes do cânone, matamos a produção de Stela.
Se quisermos fazer com que sua literatura seja compreendida, e aqui não nos referimos à

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A título de exemplo, em sequência: debates sobre a negritude: FANON, Frantz. Racismo e cultura. In: Em
defesa da Revolução Africana. Luanda: Instituto Nacional do Livro e do Disco, 1980; sobre o sexo feminino:
WOOLF, Virginia. Um teto todo seu. Tradução: Vera Ribeiro. São Paulo: Círculo do livro, s/d; e, como
contraponto, WALKER, Alice. In search of our mother’s gardens. Harcourt, Brace, Jovanovich, 1983; sobre a
loucura: FRAYZE-PEREIRA, João Augusto. O que é loucura. 3. ed. São Paulo: Brasiliense/Abril Cultural,
1984; por último, sobre o Ocidente: BHABHA, Homi K. O local da cultura. Belo Horizonte: Ed. UFMG, 1998.
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racionalidade propriamente dita, conforme trazida nesta discussão, então talvez precisemos
nos desvencilhar de vícios nas análises. Eles não são a única possibilidade, nem sequer o livro
impresso é o modelo mais adequado para compreendermos sua produção.
Talvez estejamos diante de um exemplo de que ainda há muito o que ser entendido, ou
desentendido – e talvez desexplicado –, deixando de lado o exercício de categorizar,
sistematizar, padronizar e fixar, buscando modelos anteriores de produções para o “encaixe”,
e trazendo, sempre, não apenas a pergunta sobre a possibilidade de fala do subalternizado,
mas o exercício de voltar os olhos àqueles responsáveis pela manutenção de todo esse
funcionamento, que produz subalternidades, pois esses enquadramentos são dados a partir de
operações sociais, políticas, econômicas, intelectuais, artísticas, e também obedecem a uma
ordem simbólica.
Nesse sentido, Thompson (1995) alerta-nos sobre as estratégias de construção
simbólica para a operação ideológica, que passam pela Legitimação, justificada nas ideias de
racionalização, universalização e narrativização; Dissimulação, que consiste em ocultar, negar
ou obscurecer relações de poder, a partir do deslocamento ou eufemização de fatos; entre
outros.
Pretendemos considerar esses mecanismos para pensar as recepções de obras como as
de Stela do Patrocínio, não apenas por seu conteúdo, mas porque entendemos que o sujeito
que produz também influencia grande parte do processo de “valoração” no qual os estudos
literários se inserem. Segundo Thompson,
Discursos e documentários, histórias, novelas e filmes são estruturados como
narrativas que retratam relações sociais e manifestam as consequências de ações de
modo tal que podem estabelecer e sustentar relações de poder. Nas histórias
cotidianas, estamos, continuamente, engajados em recontar a maneira como o
mundo se apresenta e em reforçar [...] a ordem aparente das coisas. Pelo fato de
contar histórias e de recebê-las contadas por outros (escutando, lendo, olhando),
podemos ser envolvidos em um processo simbólico que pode servir, em certas
circunstâncias, para criar e sustentar relações de dominação (THOMPSON, 2005, p.
83)

Ficam, então, duas questões principais em relação à recepção de Reino dos bichos e
dos animais é o meu nome: o subalternizado pode falar? Aquele que subalterniza – ainda que
não ativamente, mas sustentando ideias e concepções postas pela ordem e que mantém o outro
enquanto sendo sempre o outro – se disporia, de modo a respeitar outras concepções lógicas
não-dominantes, outros métodos de geração de sentido e outros parâmetros artísticos e

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culturais não enquadrados ao que já é concebido e legitimado com a finalidade de manter o
duo saber e poder em interdependência, saberia ouvi-lo?

Referências

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Patrocínio. Revista Gatilho. Ano III. Volume 5, julho de 2007. Disponível em:
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“Looking for gabble”: the poetic work of Stela do Patrocínio, a mad black woman

Abstract: Stela do Patrocínio (1941 - 1992) was a poor and black woman, which stayed in a
psychiatric hospital since she was 21 to her death.
During the hospitalization period, she was submitted to eletroshocks, medications to treat the
diagnosis of schizophrenia and survived the overcrowding of Juliano Moreira Colony in
Jacarepaguá/RJ.
Due to the advances of the antimanicomial fight, the referred Cologne began to take visits of
the plastic artist Neli Gutmacher and its students in a project that aimed to use art as therapy.
Stela was one of the inmates who joined these activities, requesting a tape recorder to register
the way she understood the world, the relationships and the daily life in the asylum, her
situation as a human being and beeing a black woman inside a psychiatric institution. These
records were called "gabble".
Her speeches, which suggest poetic pauses and are featured by literary resources, have been
transcribed, organized and published posthumously as a poems book titled Reino dos bichos e
dos animais é o meu nome (2001).
The present project aims to analyze her poetry from an interdisciplinary study, which
discusses female authorship (Woolf; Gubar; Gilbert), black authorship (Fanon; Bernd; hooks),
asylum environments (Foucault; Goffman; Frayze- Pereira) and the consolidation of the
literary canon as one of the spaces of maintenance of the prevailing order, which excludes
those who bear the marks of social differences.
Keywords: Stela do Patrocínio. Brazilian poetry. Gender. Race. Madness.

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