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Seminário “Marco Legal das ONG’s em debate no Congresso Nacional”

04 de maio de 2005 – Auditório Nereu Ramos

Câmara dos Deputados – Brasília-DF

Organização: Associação Brasileira de Organizações Não Governamentais (Abong);


Fórum Brasileiro de ONG’S e Movimentos Sociais para o Meio Ambiente e
Desenvolvimento (Fboms); Grupo de Trabalho Amazônico (GTA), Rede de ONG’S da Mata
Atlântica (RMA); Rede Brasil sobre Instituições Financeiras Multilaterais (Rede Brasil),
Instituto Socio-ambiental (ISA), Instituto de Estudos Socioeconômicos (Inesc); Centro
Feminista de Estudos e Assessoria (Cfemea).

Realização: Associação Brasileira de Organizações Não-Governamentais (Abong)

MESA DE ABERTURA

Deputada Ann Pontes (PMDB/PA):

Antes de tudo, e neste momento especificamente, eu gostaria de abordar de forma


bastante breve com os senhores e as senhoras os projetos de lei que estão tramitando na
Câmara Federal. Mais especificamente, o Projeto de Lei 3877 de 2004, do Senado Federal,
que trata do registro, fiscalização e controle das organizações não-governamentais, e os
quatro Projetos de Lei, que a ele foram apensados: o PL 2312 de 2002, o PL 3841 de 2004,
o PL 3892 de 2004, e o PL 4259 de 2004.

Esses projetos chegaram à Comissão do Trabalho no ano de 2004. Na época, fui


convidada pela senhora Ruth Cardoso para ir a São Paulo para que nós pudéssemos
discutir, com representantes da sociedade civil, os projetos que eu há pouco listei. Foi
nesse momento que percebi a complexidade que seria analisar os méritos desses projetos,
dadas as implicações que teriam na Constituição e no Novo Código Civil.

Nesse ínterim, a Comissão de Seguridade Social e Família solicitou que também fosse
ouvida sobre o mérito com relação a esses projetos. Em estudo ao Regimento Interno da
Câmara dos Deputados, constatei que nada menos do que 13 comissões temáticas desta
casa teriam, ou têm, competência para analisar o mérito. E diante da complexidade da
matéria, e principalmente diante das repercussões que as decisões desta casa teriam sobre
o terceiro setor, apresentei um requerimento à Comissão do Trabalho, para que fosse
encaminhado à Presidência da Câmara, no sentido de fazer com que mais Comissões
Temáticas fossem ouvidas.

De forma rápida, eu vou listar para vocês terem uma idéia: Comissão de Agricultura,
Comissão da Amazônia, Comissão de Ciências e Tecnologia, Comissão de Defesa do
Consumidor, Comissão de Desenvolvimento Econômico, Comissão de Direitos Humanos e

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Minorias, Comissão de Educação e Cultura, Comissão de Meio Ambiente, Comissão de
Relações Exteriores e Defesa Nacional, Comissão de Segurança Pública e Combate ao
Crime Organizado, Comissão de Turismo e Desporto, sem falar, na Comissão de
Constituição e Justiça.

E, assim, identificamos 13 comissões com essa competência. No meu entendimento, há


necessidade de que seja constituída uma comissão especial, uma comissão própria,
específica para analisar o mérito, dada não só a complexidade da matéria, mas porque eu
entendo que ela não deve ser discutida de forma precipitada por essa casa. E esse foi meu
procedimento, conclui esse requerimento, do qual farei uma leitura breve, resumindo o meu
entendimento sobre a matéria: “É imperioso estarmos absolutamente conscientes do
impacto das decisões que vierem a ser tomadas sobre um dos setores que mais gera
empregos em nosso país e um dos baluartes constitucionais da cidadania, sendo
imprescindível o amplo e minucioso debate técnico e o posicionamento das Comissões
técnicas pertinentes, inclusive, dependendo do número de Comissões às quais a matéria
vier a ser distribuída, a constituição de Comissão Especial para o estudo e deliberação do
assunto, nos termos do art. 34, II, do Regimento Interno”.(veja requerimento completo).

No mais, é fazer uma articulação para que o presidente da casa, o Deputado Severino
Cavalcante, delibere sobre o requerimento apresentado e, mais especificamente, constitua
a comissão especial, garantindo a ampla participação de diversos cidadãos, dos mais
variados segmentos da nossa sociedade e a participação dos Ministérios envolvidos com a
temática. Para que nós possamos nos aprofundar na matéria. É este o meu entendimento.
Muito Obrigada.

Deputado Luís Couto (PT/PB):

Em nome da Câmara dos Deputados, quero parabenizar os organizadores deste evento e,


ao mesmo tempo, dizer que nós não aceitamos que tenhamos uma legislação e diversos
projetos que chegam e querem barrar a autonomia das organizações não-governamentais.

Nós defendemos sempre a autonomia dessas organizações. Primeiro, para que elas
possam cumprir suas metas, suas diretrizes. Quando elas são organizadas, já estão
estabelecidos alguns princípios que todas obedecem, e nós não podemos aceitar alguns
que querem barrar essa autonomia, tentando colocar instrumentos que vêm impedir o
avanço das organizações não-governamentais.

Segundo: além da autonomia, as organizações não-governamentais não podem ser usadas


como quebra galho do Estado, ou seja, elas têm de ter essa autonomia para que possam
realizar o trabalho que vêm realizando em nosso país com muita competência, com muita
dedicação. Nós sabemos o papel e a importância das organizações não-governamentais.
Algumas delas, inclusive, responsáveis pelo enfrentamento de questões que deveriam ser
do Estado. É o que verificamos na Pastoral da Criança, que é responsável pela diminuição
da mortalidade infantil no nosso país, e outras organizações que têm trabalhado na questão
do respeito ao meio ambiente, respeito aos direitos das minorias, das causas indígenas.

Nós queremos dizer que vocês podem contar com a Comissão de Direitos Humanos, e que
podem contar também com a participação deste parlamentar para impedir qualquer
retrocesso em relação às entidades que trabalham neste país em defesa da ecologia, em
defesa dos direitos humanos, em defesa da criança, das mulheres, enfim, em defesa da

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cidadania. Parabéns a todos que estão realizando este seminário, e eu espero que o
resultado possa fortalecer cada vez mais a nossa energia, para que possamos impedir que
o retrocesso venha em relação às nossas entidades, as ONG’S que trabalham neste país.
Muito obrigado.

Deputado Eduardo Barbosa (PSDB/MG):

Nós comungamos com a fala da deputada Ann Pontes e entendemos que a discussão
sobre o avanço de algum Marco Legal nesse setor merece um aprofundamento, uma ampla
discussão. Mesmo porque quando tivemos o conhecimento da aprovação do projeto nº 07
de 2003 pelo Senado Federal (atual 3877/2004), como membro da Comissão de
Seguridade e Família e coordenando a Frente Parlamentar de Assistência, tive uma
surpresa quando essa comissão temática, que acompanha toda a política social do país no
que se refere à seguridade social, não tinha sido priorizada para análise de mérito desse
projeto. Inclusive, foi nossa iniciativa solicitar ao presidente da Câmara que pudesse ser
também distribuído o projeto para a avaliação desta comissão.

Como a deputada Ann Pontes colocou, nós entendemos que, de fato, merecíamos um
espaço específico para o aprofundamento da matéria, dando oportunidade de
parlamentares especializados em várias áreas, em vários setores da sociedade, terem
condições de debater sobre avanços ou não de um novo Marco Legal. Eu coloco avanço,
ou não, inclusive pelas propostas que conhecemos. Em uma avaliação pessoal, a
Legislação que já temos é melhor do que o PL 3877/2004 e seus apensos. E por isso
mesmo, se nós temos que estar discutindo algum tipo de adequação, tínhamos realmente
que nos debruçar em cima de todas as alternativas e avaliações disponíveis.

Eu sinto que a proposta, quando foi apresentada e aprovada pelo Senado, tinha muito mais
um caráter preconceituoso em relação às organizações, e esse preconceito é muitas vezes
sustentado pela irregularidade de algumas ONG’S. Mas o fato de algumas organizações
não-governamentais apresentarem irregularidades não significa que nós temos que criar
aspectos punitivos às milhares de organizações sérias no país, que têm compromissos com
o avanço e a construção de direitos na nossa sociedade.

Nós teremos a oportunidade de participar com vocês numa mesa à tarde, e como
parlamentar, como membro da Comissão de Seguridade Social e Família, como
coordenador da Frente Parlamentar de Assistência Social, nós estaremos atentos e
resgatando essa discussão para que ela de fato se aprofunde. Muito obrigado.

Senador Flávio Arns (PT/PR):

É uma alegria grande estar participando desta abertura, e também desejando que este
evento tão fundamental para o Brasil possa indicar caminhos, alternativas para
posicionamento da sociedade, da Câmara dos Deputados e do Senado Federal, e que, com
isso, construamos uma realidade melhor para todas as entidades que fazem um trabalho
essencial para o Brasil.

Eu quero dizer, em primeiro lugar, que o trabalho comunitário através das organizações
não-governamentais é essencial para a construção da cidadania, para questões
fundamentais da nossa área de meio ambiente, para coisas essenciais na área econômica,
como agricultura, como tantas coisas necessárias para o Brasil.

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As organizações não-governamentais, na verdade, constroem um alicerce, uma sociedade
onde todo o povo tenha possibilidade de participação. Esse reconhecimento deve
acontecer. Temos que ter consciência disto e temos que estar unidos cada vez mais em
função deste objetivo, para defendermos este ponto de vista. Por que defender esse ponto
de vista? Porque nós tivemos, reiteradas vezes, iniciativas para desqualificar o trabalho da
sociedade organizada. Isso é motivo de muita preocupação – entidades sociais, entidades
que atendem o cidadão –, na verdade, existe uma tentativa permanente de se desqualificar
esse trabalho, o que é uma pena para todos os aspectos mencionados, e este é o momento
oportuno para esse posicionamento.

Foi particularmente mencionado o projeto aprovado pelo Senado Federal. O senador César
Borges vai estar aqui hoje à tarde, é uma pessoa totalmente aberta para esse
entendimento, para esse diálogo ou para a discussão que já aconteceu lá no Senado
Federal. Agora, é fundamental dentro dessa perspectiva de valorização, de transparência e
de luta contra a desqualificação, que nós tenhamos um trabalho entrosado entre a Câmara
dos Deputados e o Senado Federal.

É ótimo que o senador César Borges esteja aqui. Existe um clima dentro do Senado
Federal de acolher iniciativas boas, que sejam bem discutidas, porque pensamos na
seqüência do projeto. Se o projeto veio do Senado, ele pode ser recusado ou modificado na
Câmara dos Deputados. Sendo modificado, ele retornará ao Senado Federal para
apreciação, então, é muito interessante que todo esse trabalho seja feito de uma forma
compartilhada, para não haver discussões ou debates maiores, porque o Senado deveria
aprovar certas coisas, já apreciadas aqui pela Câmara dos Deputados, ou recusadas, e se
for um trabalho entrosado, integrado, as possibilidades de sucesso, de bom
encaminhamento serão maiores. Então, nós poderemos conversar com o senador César
Borges, eu faço isso também, podemos falar com as outras lideranças, caso os deputados
entendam que este é um caminho interessante. É interessante, porque aí já haverá um
trabalho coordenado junto com a sociedade, fruto desse esforço que vai se estabelecer
neste seminário.

Eu diria que os encaminhamentos podem ser feitos, é importante que tenhamos uma visão
clara no sentido de dizer “queremos que seja transparente, queremos que seja público, do
conhecimento de todos”, isso eu tenho certeza que é o pensamento de todos nós, que
beneficie, que não dificulte, que não burocratize cada vez mais o trabalho, e que a
Legislação represente esse reconhecimento do Congresso Nacional ao trabalho que toda a
sociedade faz para que tenhamos um Brasil desenvolvido e também justo. Obrigado.

Fábio Abdala (Grupo de Trabalho Amazônico/ GTA):

Agradeço a presença de todos vocês e parabenizo à iniciativa da Câmara, dos


parlamentares e das entidades que estão liderando este processo. Esta é uma
oportunidade, em um momento muito importante, de podermos fazer este diálogo com a
Câmara no sentido de adensar mais, esclarecer, contextualizar a atuação da Sociedade
Civil brasileira, os movimentos sociais, a sua autonomia, a sua complexidade.

Particularmente na Amazônia, onde o Grupo de Trabalho da Amazônia atua nos últimos


anos que temos o processo de redemocratização do país, nós tivemos grandes avanços do
ponto de vista da organização da sociedade civil, da participação, do controle social. Ao

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mesmo tempo, somos objeto de um conjunto de impropriedades sobre o que são as
ONG’S, os movimentos sociais, o que fazem, por que fazem e como fazem.

E este aqui é um momento muito rico para aprofundarmos o diálogo entre os nossos
representantes aqui nesta casa e as lideranças sociais que estão aqui presentes. Nós
temos uma agenda de desenvolvimento com sustentabilidade, com cidadania. Muitas
vezes, as conquistas desta agenda remetem a articulações, às redes que vão do nível local
ao nível nacional, internacional ou transnacional. Esta agenda é repleta de complexidades,
e o Marco Legal das ONG’S no Brasil tem de refletir essa complexidade, garantindo
autonomia da sociedade civil e o respeito a essas instituições, para que a sociedade civil
brasileira atue de maneira coerente com seus propósitos, com os propósitos da nossa
agenda de desenvolvimento com sustentabilidade, com cidadania. Agradeço mais uma vez
a participação de vocês, parabenizo a iniciativa e desejo um bom trabalho para todos nós.
Obrigado.

Jorge Eduardo Durão (Associação Brasileira de Organizações Não Governamentais/


Abong):

Inicialmente, em nome da Abong, agradeço a acolhida da Câmara de Deputados a esta


iniciativa. Ficamos muito animados com a perspectiva de um trabalho entrosado e
articulado entre a Câmara dos Deputados e o Senado Federal e, sobretudo, sublinho o
nosso entendimento de que, como observou a deputada Ann Pontes, se trata de uma
matéria da mais extrema complexidade. Não é possível que a Legislação que regula a
atuação de entidades, de organizações da sociedade civil no campo social continue sendo
um imbróglio, o fruto de uma acumulação pouco coerente de legislações de inspiração de
épocas diversas.

E é necessário que finalmente se dê um tratamento com grande profundidade a essa


questão, de modo que o Congresso Nacional defina claramente uma filosofia do Estado
para o seu tratamento, no sentido da facilitação do trabalho dessas organizações que
atuam na defesa de causas que são de interesse público.

Compartilhamos a expectativa expressa pelo deputado Eduardo Barbosa, de que os


projetos em pauta respondem, por vezes, de maneira, a nosso ver, equivocada e casuística
a questão. Ao invés de se promover um retrocesso legislativo, que esta seja a oportunidade
de um avanço e do estabelecimento de uma legislação coerente e progressista para a
matéria. Muito Obrigado.

MESA MANHÃ - “O PAPEL DAS ONGS NA CENA POLÍTICA”

Jorge Eduardo Durão (Associação Brasileira de Organizações Não Governamentais/


Abong):

Ao iniciarmos este diálogo pelo tema “O Papel das ONG’S na Cena Política”, e tendo a
finalidade de subsidiar a questão do Marco Legal, me perece necessário circunscrever o
objeto da nossa reflexão. Pesquisa recente realizada pelo IBGE e pelo Ipea, com o apoio
do Gife – Grupo de Institutos, Fundações e Empresas – e da Abong - Associação Brasileira
de ONG’S, comprovou a existência de 276 mil fundações privadas e associações sem fins
lucrativos no Brasil. Então, evidentemente, falar sobre as ONGS e seu papel político na
sociedade brasileira requer como primeiro passo que saibamos distinguir com clareza o

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lugar ocupado por estas, neste imenso universo profundamente heterogêneo de entidades
sem fins lucrativos que atuam no Brasil.

Trata-se de organizações de natureza tão distinta quanto, por exemplo, clubes de futebol,
entidades de auxílio mútuo, fundações empresarias e as ONGs do tipo das que estão
associadas à Abong, que são entidades voltadas para a promoção e defesa de direitos, que
trabalham a questão de alternativas de desenvolvimento, lutam contra as desigualdades na
sociedade brasileira.

Este debate torna-se ainda mais complexo quando se recorre à noção de terceiro setor. É
difícil falar acerca do papel político do terceiro setor. É necessário compreender que quando
falamos de terceiro setor existe a possibilidade de se confundir o posicionamento político de
pelo menos três universos distintos de organizações da sociedade civil – subconjuntos
estes que têm profundas diferenças do ponto de vista da sua trajetória histórica, das
relações que as entidades que compõem cada segmento mantiveram e mantêm com o
Estado e as diferentes percepções do seu papel na sociedade brasileira.

O importante de toda esta discussão é a questão das relações entre as organizações da


sociedade civil e o Estado, e que esta questão se coloca num contexto histórico
determinado, marcado pela globalização, marcado pelas profundas mudanças no papel do
Estado no mundo inteiro e, particularmente, em países latino-americanos, como aqui no
Brasil. Mudanças essas que tiveram sérias implicações do ponto de vista da capacidade do
Estado de responder ao cumprimento do seu papel social no campo do desenvolvimento.
Isto, inclusive, com implicações em relação ao próprio alcance do processo democrático.

Falando na perspectiva das ONGs, nos colocamos numa posição política definida, inclusive
com relação a este fenômeno da globalização e suas implicações sobre a relação entre o
Estado e a sociedade civil no Brasil. Por isso mesmo, consideramos extremamente
importante que o lugar desse campo de organizações, que corresponde à Abong e a suas
associadas, seja claramente percebido nas suas especificidades. Queremos dizer com isso
o seguinte: não é possível dissolver numa espécie de geléia geral do terceiro setor o
universo das organizações não-governamentais, campo das entidades de assistência social
e o conjunto formado pelas fundações empresariais.

Particularmente esta distinção entre as ONGs e o papel de fundações e institutos


empresariais é importante, porque são organizações que têm vínculos diversos em relação
a essa problemática decorrente da globalização. A atuação das ONGs, muitas vezes na
defesa do meio ambiente e na defesa de questões sociais, envolve áreas de conflito com
empresas. As ONGs têm um compromisso com a sustentabilidade do modelo de
desenvolvimento. As ONGs se opõem, por exemplo, no caso da Amazônia, à exploração
predatória dos recursos naturais, têm um compromisso histórico com a defesa dos
interesses dos povos indígenas. Tudo isso, portanto, gera, muitas vezes, conflitos de
interesses com o mundo das empresas, sobretudo aquelas que têm menor consciência
social.

São, portanto, campos distintos, embora de forma alguma sejam campos que não se
comuniquem ou dialoguem. Ou seja: a nossa posição aqui é de contribuir para o debate
sobre as entidades sem fins lucrativos, o chamado terceiro setor, ao mesmo tempo
acentuando as diferenças, acentuando a especificidade de cada conjunto, mas também

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procurando enfrentar a problemática de cada um desses segmentos como problemática
geral, que nós consideramos ser de interesse público.

Logo, não somos alheios à importância da questão da responsabilidade social das


empresas, muito menos poderemos subestimar a questão da assistência social no Brasil,
política pública à qual a Abong, desde a sua fundação, tem dedicado sistematicamente
grande atenção e tem tido participação bastante ativa em todas as conferências nacionais
de assistência social. A Abong já integrou o Conselho Nacional de Assistência Social,
algumas de suas associadas integram o Conselho. Porém é um outro campo, que inclusive
antecede, do ponto de vista da sua constituição histórica, a própria emergência das ONGs.

Pensando mais especificamente no campo político constituído pela Abong e suas


associadas, é bom dizer que é Associação Brasileira de ONGs e não das ONGs. Desde a
sua fundação, a Abong nunca teve a pretensão de representar todas as ONGs existentes
no Brasil. Nós, pelo contrário, temos um plano político de representar um campo
determinado de organizações da sociedade civil. Definimos e reafirmamos na nossa última
assembléia que a nossa prioridade política é a luta contra as desigualdades sociais – não
só contra a desigualdade econômica e a brutal concentração de renda, que é a
característica da sociedade brasileira, mas a luta contra a desigualdade racial e a
desigualdade de gênero.

É desse ponto de vista que a Abong atua em diferentes campos setoriais: procurando
influenciar as políticas públicas, participando ativamente de inúmeros conselhos de políticas
públicas, monitorando essas políticas. Para desenvolver esse tipo de atuação, é necessário
que as ONGs preservem, como um princípio, a sua autonomia em relação ao Estado. Com
isso, nós temos procurado manter uma linha coerente de atuação desde a constituição da
Abong, em 1991. Atuamos durante o governo Collor, Itamar Franco, Fernando Henrique
Cardoso e, agora, Lula, e sempre procuramos nos pautar com extremo cuidado em termos
de afirmação da nossa autonomia ante aos governos.

Uma questão que muitas vezes repercute de maneira negativa na percepção que a opinião
pública tem em relação à atuação das ONGs é que a nossa experiência como Associação
corresponde basicamente à época de noventa e ao início deste novo século, em que os
rumos da sociedade brasileira têm sido profundamente marcados pela hegemonia da
política neoliberal e das políticas macroeconômicas, que implicam profundas restrições
orçamentárias. O superávit primário e tudo o mais, que faz com que isso resulte, na prática,
em certo minimalismo da ação estatal em relação às políticas públicas.

Nesse contexto, muitas vezes as ONGs têm sido identificadas como se estivessem
associadas a esse tipo de orientação política do Estado. Na verdade, a Associação
Brasileira de ONGs, desde a sua fundação, sempre procurou afirmar, em todos os espaços,
uma posição bastante clara, um reconhecimento do papel indeclinável do Estado em
relação à garantia de políticas públicas de caráter universal. Sempre nos contrapusemos a
um discurso que, infelizmente, durante muito tempo, foi moeda corrente e prevaleceu na
mídia: a valorização das ONGs numa perspectiva de redução do papel do Estado. Portanto,
um discurso de descaracterização do papel das ONGs como organizações autônomas da
sociedade civil e redução dessas organizações como instrumento de terceirização de
determinadas ações governamentais. Coisa a que nós, da Abong, e nossas associadas
sempre procuramos nos contrapor. Reconheço que muitas vezes sem sucesso, tal a força

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desse pensamento dominante que atribui às ONGs um papel meramente instrumental, para
atender subsidiariamente à ação enfraquecida do Estado no campo social.

Acho importante também destacar o fato de que nesse período, no debate que temos
enfrentado publicamente em relação ao Marco Legal, procuramos sempre afirmar a nossa
concordância com a visão da relação entre organizações da sociedade civil e Estado, que
se apóia no conceito de interesse público. Achamos que, de certa maneira, no debate que
precedeu e levou à aprovação da Lei das Oscips – Organizações da Sociedade Civil de
Interesse Público – houve um avanço conceitual real, no sentido de a lei consagrar esse
conceito de que o público não se reduz ao estatal.

Não deve haver uma confusão entre a noção de público e a noção de estatal, o público é
mais amplo do que o estatal, e as organizações da sociedade civil têm um papel, a nosso
ver, muito relevante na consolidação de uma esfera pública ampliada. Ao adotarmos este
conceito, é importante também sublinhar que isso significa que o caráter público da ação
das ONGs não decorre necessariamente de uma função complementar ou suplementar em
relação ao Estado. Nós atuamos no âmbito da própria sociedade civil, atuamos junto aos
movimentos sociais, contribuímos para produzir modificações na consciência social, para
despertar a consciência, por exemplo, das relações de gênero, para despertar a
consciência da sociedade em relação ao racismo que ainda existe na sociedade brasileira.
Isso independe de qualquer tipo de relação com o Estado. Também, muitas vezes, as
ONGs lutam para que determinados direitos que ainda não gozam de reconhecimento pelo
Estado passem a ter esse reconhecimento e sejam inscritos na legislação.

Portanto, existe todo um campo próprio de atuação das ONGs no âmbito da própria
sociedade e que não decorre apenas de uma relação com o Estado. Nos parece um
avanço que esse conceito de interesse público, nesse debate que antecedeu à aprovação
da lei das Oscips – e que na época se deu no âmbito do Conselho da Comunidade
Solidária – tenha explicitamente reconhecido este entendimento sobre a natureza pública
da atuação das ONGs e de outras organizações da sociedade civil. Obrigado!

Taciana Gouveia (Articulação de Mulheres Brasileiras/ AMB):

Em primeiro lugar, eu vou informar e esclarecer o que é a AMB. A AMB é a Articulação de


Mulheres Brasileiras, que se constituiu a partir de 1994. É uma articulação de mulheres,
portanto, não é uma associação. Isso tem uma importância no que falaremos aqui, porque
ela é constituída por fóruns, sua base de constituição são fóruns estaduais. Atualmente, é
constituída por 27 fóruns estaduais e, dentro destes, temos militantes, que chamamos de
autônomas, ONGs e outros tipos de entidades.

Atualmente a AMB tem uma secretaria executiva, com sede no S.O.S. Corpo - Instituto
Feminista para a Democracia, uma ONG feminista da qual eu faço parte. A primeira coisa
para entender o que é a AMB e o que estamos fazendo aqui neste debate é explicar que a
AMB é uma articulação feminista, anti-racista, não-partidária, que articula e potencializa a
política feminista nos planos nacional e internacional.

A defesa das mulheres, tanto no plano legal quanto no da legitimidade social, é o centro
das nossas ações. E por que eu faço distinção entre legalidade e legitimidade? Em primeiro

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lugar, porque sabemos que nem tudo que está normatizado como lei, ou como direito,
significa necessariamente o melhor, ou o mais justo, ou o mais democrático. Se assim
fosse, eu acho que não estaríamos aqui discutindo o Marco Legal das ONGs. A dimensão
jurídica não é isenta de disputas políticas que reproduzem a estrutura e a dinâmica da
dominação.

Além do que, essa disputa obviamente não se dá apenas no campo ou nas esferas
legislativas e judiciárias, ela reflete expressões político-sociais mais amplas. Aqui entra a
questão da legitimidade, processo este que se constitui na esfera da vida cotidiana e que
reflete evidentemente os valores que essa sociedade dinamiza, mantém e pouco
transforma. Um exemplo bem recente, para mostrar esta articulação direta entre legalidade
e legitimidade e como esses processos são articulados de modos muito complexos a partir
dos interesses dos vários sujeitos políticos que compõem determinado cenário: na
segunda-feira passada, o presidente da Câmara, Deputado Severino Cavalcante, em
entrevista, afirmou que o estupro era um “acidente terrível”. Ainda que no decorrer da
matéria ele tenha afirmado que esse era um crime hediondo, se valendo até da pena de
morte, um tipo de penalização que nem existe na Constituição brasileira como algo a ser
aplicado nesse caso, o que ficou valendo foi a formulação eticamente absurda que tal crime
pode ser, de algum modo, comparado a um acidente – o estupro, algo que supõe acidente,
a ausência de intencionalidade daquele que o pratica. Com uma frase só, o presidente da
Câmara transformou um crime hediondo em mero acaso. Frase infeliz? Com absoluta
certeza. Exploração da imprensa? Pode até ser. Mas isso não isenta a responsabilidade e a
intencionalidade de quem a pronunciou, ainda mais quando sabemos que o contexto em
que tal violência simbólica foi cometida não era um debate sobre mudança de legislação
referente ao crime de estupro, mas, sim, um debate sobre a revisão da legislação do
aborto, que está em curso.

Ou seja, o que constitui o campo do direito, ou da lei, necessariamente se constitui em uma


disputa política por meio dos vários sujeitos. E isso também tem a ver com a discussão do
que é a constituição do Marco Legal, porque o deputado, ao pronunciar isso, estava
dialogando não apenas com aquela pessoa que lhe entrevistava, mas especialmente
dialogando conosco, mulheres do movimento feminista, que temos levado a luta da
legalização do aborto adiante.

Bem, essas dinâmicas políticas fazem com que nossa ação de defesa dos direitos das
mulheres se realize também, e principalmente, na disputa dos sentidos políticos e nas
transformações dos valores e práticas, que na sociedade brasileira ainda são fortemente
conservadoras e especialmente opressoras, no caso das mulheres e da população negra.

De acordo também com a nossa perspectiva política, sabemos que não é possível avançar
na conquista dos direitos das mulheres em uma sociedade tão profundamente desigual e
injusta como a nossa, onde, apesar dos diversos avanços alcançados, não podemos dizer
que vivemos em uma democracia plena, em que todos e todas atuem e sejam
reconhecidos como sujeitos de direito. Na verdade, a plenitude democrática é inalcançável
em sociedades autoritárias e violentas, e esse ainda é infelizmente o nosso caso. Por isso,
o projeto político da AMB toma os valores da igualdade, autonomia, da liberdade, da
radicalidade democrática, ampliação e efetivação dos direitos humanos, como elementos
fundantes da construção de uma sociedade sustentável e justa.

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É por isso que a AMB, como articulação, atua a partir de um determinado campo e junto
com outras articulações em processos políticos. Por exemplo, a AMB faz parte da Inter-
Redes1, ela atua junto e diretamente nos processos do Fórum Mundial Social e também no
Fórum Social Nordestino, atua junto com a Articulação de Mulheres Negras, atua junto com
a Rede de Saúde e também junto com a Abong, até porque muitas das ONGs feministas
são associadas da Abong.

Bom, anteriormente eu mencionei que a AMB não é uma associação de ONGs, ainda que
muitas ONGs feministas participem da AMB por meio de associações nos fóruns estaduais.
O modo de organização da AMB, por ser uma articulação de fóruns e não uma associação
de ONGs, expressa uma característica importante das ONGs feministas, do modo como
atuam, pois nossa origem é a partir do próprio movimento, ou seja, nós nos constituímos
como ONG para fortalecer determinado movimento social, que é o movimento feminista de
mulheres, e não ao contrário. Isso para nós é um ponto importante.

Somos uma ONG que se identifica e atua como um movimento social, então, se quisermos,
podemos até dizer que existe uma categoria chamada ONGs-movimentos ou que assim se
intitula. Essa não é uma característica exclusiva das organizações feministas, encontramos
perfis desse tipo de organização, muito semelhantes vinculadas ao movimento negro e ao
movimento ambientalista. Isso não significa que qual ou tal modo de identificação seja
melhor, mas, sim, reconhecer que são as dinâmicas políticas que geram e que determinam
as conformações organizacionais assumidas pelos vários sujeitos políticos.

Assumir essa perspectiva tem, entrando mais proximamente aqui no debate colocado, duas
decorrências importantes: primeira, não há possibilidade de neutralidade numa nomeação
chamada ONG, há intencionalidades políticas, ainda que não necessariamente explícitas;
segunda, ao se reconhecer que a dinâmica do campo das ONGs – porque estamos falando
do campo – é uma dinâmica de sujeito político e com intencionalidade política, temos que,
por exemplo, considerar que o debate sobre o Marco Legal só pode situar-se na esfera do
político. Não é uma escolha guiada por uma racionalidade jurídica ou uma racionalidade
econômica, não vamos construir o Marco Legal por essas questões, o debate do Marco
Legal é um debate político.

Trazer ou revelar a política como lócus do debate significa tencionar e complexificar os


termos em que ele se dá, porque se posicionar como campo que se auto-intitula como
campo político, que disputa os rumos da sociedade brasileira, é algo importante. Significa
também disputar os sentidos da própria nomeação ONG. Jorge Eduardo, quando estava
falando, já tocou na questão da identificação do campo vasto que são as ONGs. Nesse
campo vasto tem um determinado campo que se articula com a Abong, onde estão as
ONGs feministas, que é um campo que se considera tendo um projeto transformador.

Mas hoje em dia a situação está um pouco complexa. Consideramos que a constituição da
identidade política das ONGs, desde o princípio, é incômoda. Primeiro, porque a nomeação
não foi escolhida por absolutamente nenhuma ONG. Ela surge dentro do sistema ONU,
dentro do contexto pós-guerra, é uma denominação escolhida pelos outros. Depois, porque
é uma definição pela negativa, ou seja, ONG diz apenas o que não somos, sem explicitar o
que somos e, ainda por cima, essa palavra é referida apenas a um campo, ao

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A Inter-Redes: Direitos e Política é um espaço de articulação de redes e fóruns de organizações da sociedade civil
brasileira, que atuam, de diversas formas e com diversos temas, para o fortalecimento da esfera pública, a promoção de
direitos e a proposição de políticas.

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governamental, e não ao campo da sociedade civil e eu acho que isso já tem questões
políticas importantes.

O tempo que as ONGs se articulam como associação é o mesmo tempo, por exemplo, que
a AMB se articula, são os anos 90. Ao mesmo tempo as redes começam a se articular como
redes, a partir dos anos 90. Se somos, como organizações portadoras de uma lógica
específica, mais originárias dos anos 80, as articulações de ONGs começam a aparecer
nos anos 90. E nesses anos 90, conseguíamos politizar um pouco mais e definir melhor a
fronteira desse campo que é a ONG pensada como sujeito político.

Atualmente é um esfumaçamento bastante complicado, porque tem um número imenso de


organizações que se intitulam ONGs e, para complicar de vez a história, surgiu essa
estranha comparação entre ONG e terceiro setor. Longe de ser apenas uma nomeação
descritiva: “Ah, agora o que é ONG também é terceiro setor”, para nós essa idéia “terceiro
setor” tem uma suposição da existência de três esferas da sociedade que seriam Estado,
mercado e o tal terceiro setor. Não tem nome, é terceiro setor, é algo tão difuso que não
tem nem nome, que parece que buscou dividir a dinâmica socioeconômica e política em
territórios de determinados agentes. Ou seja, o Estado se identifica com a política, o
mercado com o econômico e o tal terceiro setor com o social.

Essa fragmentação busca, na nossa perspectiva, numa operação ideológica, esvaziar o


conflito, recriando a funcionalista idéia de que há complementaridade entre o econômico, o
político e o social, de que somos muito mais um campo de complementaridade do que
realmente somos. Nós sabemos que na prática somos todos e todas atravessadas por
questões econômicas, sociais e políticas, e há muito mais de contradição e até de
antagonismo entre os sujeitos políticos de cada um desses campos do que qualquer idéia
de complementaridade ou harmonia que possa parecer. Nessa sociedade cada um cuida
de um pedacinho como se não fosse hierarquizada, isso é funcionalista demais.

Essa idéia de complementaridade realiza ainda uma operação perversa, já que busca
reduzir nossos projetos de transformação radical da sociedade a uma atribuição de
responsabilidade de tomarmos conta do social, dimensão essa da vida, o social que, como
as ONGs e os movimentos sociais, parece cada vez mais relegada a uma espécie de
resíduo do que se desenrola na esfera econômica e no âmbito estatal, que parece que é
onde existe o que realmente conta.

Esclarecido assim o campo a partir do qual a AMB está falando, eu gostaria de apontar
algumas tensões e contradições que têm marcado o debate sobre o Marco Legal, ou
melhor, definir quais são as disputas em torno do nosso lugar como ONG, movimentos ou,
ainda, ONGs-movimentos neste debate. O primeiro aspecto, que é posicionar o debate do
Marco Legal na esfera política, se refere ao fato de que nos últimos anos há uma espécie
de quebra provocada. Para mim, é uma quebra dos monopólios dos partidos políticos como
únicos sujeitos com aptidão e com garantia para disputar os projetos políticos da
sociedade, ou seja, o aparecimento de ONGs, movimentos sociais, a partir da década de
80, no formato novo, fazendo com que fosse ampliada a concepção de política para além
das ocupações do aparelho estatal.

Podemos afirmar que tanto os movimentos sociais quanto as ONGs, em especial o


movimento feminista e o movimento negro, dentre outros, tiveram um papel fundamental
em demonstrar a insuficiência das plataformas políticas partidárias que, até hoje, com

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raríssimas e localizadas exceções, são quase completamente blindadas no que se refere
às desigualdades e injustiças oriundas das relações de gênero e raciais.

Evidentemente, esta concepção mais ampliada de política e seus sujeitos tem uma baixa
apropriação no conjunto da sociedade, e isso não é à toa. Uma coisa que me chama
atenção: a reforma política é sempre pensada a partir das lógicas partidárias, ou seja, se
você vai fazer reforma política, significa que você está tratando dos partidos. Isso significa,
na nossa compreensão, que não há uma correspondência real e necessária entre o que
dinamiza realmente a vida política brasileira e as institucionalidades que devem dar conta
dela.

É como se operássemos, nós, movimentos e ONGs, em uma espécie de mundo paralelo,


então nós temos uma normatização aqui e o campo da esfera política fica em outro lugar.
Por isso, consideramos que os processos relativos a um Marco Legal para as ONGs devem
também abranger o debate sobre as novas institucionalidades dentro do aparelho do
Estado. Isso faz com que nessa tensão entre a política e o social, como mencionei
anteriormente, haja uma tentativa de nos colocar, ONGs, movimentos, e ONGs-movimento,
no restrito campo do social.

Ora! Não há nada mais funcional a um Estado com contornos tão fortemente liberais do que
a existência de organizações que se responsabilizam pelo que não interessa à ordem da
dominação realizar. Se todas as ONGs fossem do perfil filantrópico tradicional, acredito que
nós nem estaríamos aqui discutindo, e para muitos e muitas estaríamos no melhor dos
mundos: o Estado executando suas políticas sociais com baixíssimo custo e a sociedade
aliviando sua culpa cristã pela miséria do mundo.

Digo isso porque a sociedade brasileira, em geral, não entende ou não aceita organizações
não-governamentais ou movimentos sociais que tenham discurso político de transformação
radical, que contestam as estruturas e os valores sociais que são antidemocráticos por
princípio. A sociedade prefere, seja para doar recursos, seja para dar apoio às suas causas,
organizações que ajudam ou que aliviam a indignidade cotidiana. Isso é uma coisa bem
simples de provar. No plano da política pública, se pegarmos a adesão das pessoas a
ações como o Fome Zero, teremos uma reação: “ah, é bacana, é legal”, ninguém
questiona o Fome Zero, mas todo mundo questiona a política de quotas para mulheres e a
população negra nas universidades, ou seja lá o que for. O que explicaria essa lógica?
Essa lógica, apesar de perversa, é muito simples: as ações na base, que chamamos de
filantropia tradicional, quando damos um cobertor, damos um quilo de alimento não-
perecível, tiramos uma horinha pra pintar escola, damos o que nos excede. Quando vamos
discutir ações transformadoras no campo dos direitos, corremos o risco de, ao implementar
direitos, perder privilégios, e numa sociedade autoritária como essa; violenta, conservadora
e machista, perder privilégio ninguém quer.

Enquanto houver grupos sociais que têm privilégios, ninguém tem direito assegurado. E a
isto prestamos pouca atenção. Eu ainda pergunto, por que na esfera estatal tem sido muito
mais fácil, historicamente, conceder isenções fiscais às instituições religiosas, geralmente
cristãs? Por que as instituições de matriz afro não têm os mesmos privilégios que as
instituições cristãs, por que tem sido mais fácil conceder privilégios ou isenções a estas
instituições religiosas? É por que elas fazem caridades? Penso e pergunto: Qual é a melhor
opção ética e política para um Estado que se pretende republicano, democrático e laico: a
caridade ou a efetivação dos direitos?

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São essas e outras escolhas que também estão em jogo quando discutimos o Marco Legal.
Essa contradição que fica o tempo todo nos empurrando – “vocês são social, vocês que
tomem conta do social” – revela uma outra tensão, que é o reconhecimento de que
determinados campos de ONGs e movimentos realmente são sujeitos políticos e realmente
estão disputando os rumos da sociedade brasileira. Eu digo isto porque neste debate sobre
o Marco Legal há um discurso que é extremamente complexo e confuso, que é uma crítica
dizendo que parece que tem um controle sobre as ONGs e um discurso paranóico
conspiratório que parece que somos agentes de um sujeito externo que quer fazer alguma
dominação, que eu não sei bem qual é.

Seria cômico se não fosse perverso! Por que perverso? Porque seja lá de que campo for,
pode haver problemas com uma ONG, ou com um movimento, com relação à sua
prestação de contas, mas isso não significa que um campo inteiro tenha uma determinada
prática equivocada. Em primeiro lugar as ONGs têm controle sim, elas prestam contas e
são transparentes, e são mais transparentes ainda em uma outra coisa, são transparentes
em dizer: estamos, sim, disputando projetos políticos de sociedade, somos contra essa
lógica dominante, nós vamos contra uma lógica que mantém desigualdade e opressão.

É claro que temos um projeto político e não há nenhuma coisa escusa nisso. O mundo não
é maniqueísta, e as ONGs e movimentos assumem seu discurso político. Nós estamos,
sim, disputando no presente para criar outras possibilidades no futuro. Isso é claro e
transparente, não sei de onde vem essa estrutura paranóica que pregam que as Ongs
estão vinculadas a algum ente esquisito que quer dominar o mundo. Eu sei de onde vem,
mas não precisa dizer.

Outra coisa tem a ver com recursos acessados pelas ONGs. Receber recursos da
cooperação internacional, dos agentes internacionais... Parece assim: um mundo funciona
de um jeito e o outro, de outro. Ficam sempre achando que recebemos dos outros para
fazer sempre alguma coisa escusa. Não se questiona, seja a sociedade em geral, seja
inclusive o campo do Parlamento, os horrores que são os acordos com a OMC
(Organização Mundial do Comércio). Raramente se questiona lugares onde não há
controle: acordo com a OMC, acordos com o FMI (Fundo Monetário Internacional), acordo
com o Banco Mundial, acordo com o Banco Interamericano ou qualquer outro. Isso não tem
controle e não tem transparência! E aí: “tudo bem?”, “não tem problema?”

Ainda bem que, de vez em quando, explicitam-se processos políticos que dão resultados
diferentes. Um exemplo impressionante e recente: semana passada o governo brasileiro,
Ministério da Saúde e Coordenação DST/AIDS recusou, não assinou, um convênio de 40
milhões com a Usaid (agência bilateral de cooperação do governo estadunidense), porque
entre suas condicionalidades, dizia que as organizações que trabalham com – eu não sei
nem o que possa ser, mas o linguajar é este – as “devotas da prostituição”, não poderiam
ter acesso a esses recursos, e que o governo brasileiro deveria fazer uma condenação
pública contra a prostituição.

Ora! Isso se chama intervenção e inconstitucionalidade. Isso se chama a perda do nome


que se gosta de utilizar que é soberania, e isso nunca é questionado. Ainda bem que o
governo brasileiro não aceitou! Me parece muito interessante observar que a lógica da
globalização, no sentido econômico e social, que gera exclusão, que mantém a posição da
desigualdade, que continua a separar o mundo, muito mais do que unificar, essa pode,

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essa é bacana, essa é boa! Mas as relações dos movimentos e das entidades de
cooperação da área internacional necessariamente não são.

As relações dos movimentos que são de caráter internacionalistas devem ser


compreendidas na sua essência, inclusive na essência do próprio movimento feminista: a
gente está interessada em um mundo melhor! A cooperação e a solidariedade internacional
dos movimentos e das organizações, elas são de pensar um outro mundo. O que acontece
lá na Nigéria, com uma mulher da Nigéria, com uma mulher do Sudão, com uma mulher do
Iraque, da China, da França tem a ver comigo, tem a ver com todas nós. Agora, essa é a
lógica que é combatida e condenada, essa é a lógica que é pensada na suspeição.

Eu poderia continuar um tempão falando, por exemplo, de distribuição de recursos: acesso


ao fundo público é o nome que se dá ao mundo das ONGs e movimentos que acessam
determinados recursos públicos. Como que é o nome que se dá a todo acesso de fundo
público que vai para os projetos de desenvolvimento? Como é o nome que se dá à isenção
fiscal das empresas? Isso também seria acessar fundo público? Pensando na globalidade
dos fundos públicos e do recurso estatal, o acessar fundo público vai reproduzir toda
estrutura de dominação e opressão.

Para terminar, tem um filósofo eslavo que diz que, hoje em dia, estamos em um momento
em que a verdadeira liberdade de pensamento significa questionar o consenso liberal
democrático pós-ideológico dominante. Ou fazemos isso ou a liberdade de pensamento não
significa nada. Com isso, ele quer dizer que a primeira coisa que temos que fazer é
conseguir trabalhar no sentido oposto à negação do pensar que existe hoje em dia, à real
política que nos obriga a achar que o que temos é o melhor, porque se avançarmos mais
pode ser pior. Nisso eu não acredito. Eu acho que as ONGs acreditam, sim, que ainda é
possível ter utopia, e esta, pelo menos, é a perspectiva do movimento de mulheres, e da
Articulação de Mulheres Brasileiras, em particular. Muito obrigada!

MESA TARDE – “DESAFIOS NA CONSTRUÇÃO DE UM MARCO LEGAL DAS ONGS”

Senador César Borges (PFL/BA):

Começaria dizendo o porquê do meu envolvimento com a questão, além do fato, é claro, de
ser um parlamentar e como tal estar envolvido com todas as questões importantes do
nosso país, como é o caso das ONGs.

Corria no Senado Federal um projeto de lei do Senador Mozarildo Cavalcante, de número


PLS 246 de 2002, e também o PLS 07 de 2003, oriundo de uma CPI que foi feita com
relação às ONGs. O trabalho dessa CPI foi de 19/02/2001 a 12/12/2002 (22 meses),
portanto, na legislatura anterior. Foi aprovado o relatório final da CPI no dia 12/12/2002. Na
composição dessa comissão estavam diversos partidos – PMDB, PFL, PSDB – e, na
época, como bloco de oposição, o PT tinha a representação do Senador Tião Viana e da
atual Ministra e Senadora Marina Silva.

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Esse projeto de lei chegou em nossas mãos, para relatório, na Comissão de Constituição e
Justiça (CCJ). Posteriormente, o autor do projeto 7 de 2003, o Senador Mozarildo
Cavalcante, diante da demora do processo legislativo da Comissão de Constituição e
Justiça, fez um requerimento e esse projeto foi a plenário, com a assinatura de todos os
líderes partidários pedindo urgência na tramitação. Eu, como era o relator da CCJ continuei
relator no plenário. O projeto foi a plenário, e lá procuramos fazer um entendimento entre
todos os interessados na questão.

Lembro-me muito bem do envolvimento do Senador Flávio Arns, que esteve aqui na
abertura do seminário, do próprio Senador Mozarildo, das lideranças do governo e das
lideranças de diversos partidos. Assim, saiu um substitutivo que, para a minha surpresa,
tinha como titular César Borges. Então, desde já, eu quero renunciar a esse título honorífico
de ser o titular do projeto de lei. Na verdade, procuramos fazer o que era a vontade dos
parlamentares dentro do plenário do Senado. Saiu um acordo, um substitutivo que foi
aprovado por unanimidade dentro do Senado e que agora tramita na Câmara dos
Deputados, levando o número 3877/2004. Um projeto que tramita na Câmara dos
Deputados, que eu espero que os senhores tenham conhecimento, e se eu não me
engano, o relator é a Deputada Ann Pontes.

Isso é apenas para dar uma ordenação de como as coisas evoluíram no Senado Federal. A
Câmara tem agora toda a oportunidade de discutir amplamente esse Projeto de Lei do
Senado e, eventualmente, modificar ou manter de forma democrática. A Câmara dos
Deputados tem toda a opção de se posicionar

Partindo daí, eu encontrei também diversos projetos tramitando dentro do Senado Federal,
mostrando o quão polêmica é essa questão e as preocupações dos parlamentares sobre as
ONGs, no sentido de que efetivamente mantendo o princípio constitucional de livre
associação e verificando a importância também dessas organizações, por outro lado, ter
um mínimo de conhecimento e sempre poder diferenciar o que é bom do que não é bom, o
joio do trigo.

Em momento nenhum nós encontramos no Senado, e eu refuto essa idéia, que iríamos
cercear a ação das ONGs, que iríamos contra a Constituição Federal. Porque eu sei, não
precisa ninguém vir me dizer, que a Constituição diz que é permitida associação livre e sem
interferência do poder público. Acredito apenas que a fiscalização seria importante para dar
uma transparência, uma legitimidade e não se misture, como se diz na minha terra, “alhos
com bugalhos”, porque há organizações sérias e realmente meritórias. Eu tenho certeza
absoluta de que, em sua grande maioria, efetivamente são importantes, sérias e trabalham
corretamente, mas como em todo o meio amplo, como se transformou no caso as ONGs –
e aí se confunde com fundações, associações recreativas, assistenciais ou tantas outras
coisas –, claro que se pode fazer essa interpretação de que há no meio alguém que não
esteja trabalhando com os princípios de ética, de moralidade e seriedade, que se pretende
em qualquer setor da sociedade.

Então, coloco que encontramos esses projetos de lei aqui. Eu procurei listar nove projetos,
que estão tramitando mais ou menos sobre a mesma questão no Senado Federal. Quero
reconhecer que é inegável que as ONGs representam hoje essa força na formulação,
implementação e fiscalização das políticas públicas, do interesse da sociedade. Essas
instituições, volto a dizer, prestam excelente serviços e prestam serviços a uma crescente
demanda da sociedade brasileira por participações que visam o interesse público.

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O exercício da cidadania e a valorização da ética e da solidariedade, muitas vezes, estão
em pauta porque têm uma ação positiva das organizações não-governamentais, que se
transformaram em fenômenos importantíssimos na sociedade brasileira. Um envolvimento
cada vez maior de pessoas e instituições nas políticas públicas qualifica, inclusive, o debate
político e traz resultados concretos em áreas da maior importância para o bem estar da
população, como educação primária, meio ambiente, comércio e defesa dos direitos
humanos.

Além disso, eu quero relatar aqui números, que os senhores já conhecem, mas que para
mim demonstram a importância dessa área. É o crescimento que as fundações privadas e
as associações sem fins lucrativos e as organizações privadas tiveram nos últimos anos.
Um crescimento de 157%, que hoje compõe um universo de 276 mil entidades, segundo
estudo feito pelo IBGE, em parceria com o Ipea, a própria Abong e o Grupo de Instituições,
Fundações e Empresas, o Gife. Em 1996, as ONGs empregavam um milhão de pessoas e,
hoje, empregam um milhão e meio, segundo as informações que eu tenho.

O poder público tem que ser sensível a esse fenômeno e acho que tem sido, na medida em
que tem estabelecido parcerias com essas organizações da sociedade civil de interesse
público, criando inclusive leis específicas: as Oscips, criadas pela lei 9790 de 1999. Essa
legislação estabelece critérios mínimos para a cooperação financeira entre o Estado e o
terceiro setor. Representou, sem sombra de dúvidas, um avanço, no sentido de valorizar a
transparência e a melhor gestão dessas instituições.

Entretanto, há uma parcela, mesmo que pequena, mas com certeza há uma parcela, e o
noticiário às vezes está a expor essa parcela, de algum tipo de organização da sociedade
que não tem a mesma transparência e, por isto mesmo, incorrem em atos que são
condenáveis pela sociedade. Alguns exemplos, eu não quero citar os nomes, mas a
imprensa noticiou e todos aqui conhecem.

É nesse contexto que eu acho que os parlamentares – pelo menos eu vi no Senado, não
posso responder pela Câmara, porque eu não sei ainda o sentimento da Câmara –
procuraram participar do debate e se interessar pela questão. Eu vi no Senado um desejo
inegável de transformar, quanto mais claras as regras de funcionamento das ONGs, quanto
mais eficientes os mecanismos de socialização, maiores serão os impactos positivos do
trabalho desse terceiro setor da sociedade brasileira.

Do meu ponto de vista também, e aí eu não vou transferir para o Senado, seria benéfico
para aqueles que trabalham corretamente se houvesse o máximo de transparência, sem, é
claro, um cerceamento em momento nenhum dessa atividade, e eu vou mostrar que o
Projeto de Lei do Senado (PLS 7 de 2003) aprovado efetivamente não procura trazer
nenhum cerceamento.

O que tem de importante nesse projeto de lei do senado? Primeiro, é um cadastro nacional
que seria feito para se ter conhecimento e transparência de todas as organizações que
atuam no país. Isso seria centralizado no Ministério da Justiça. Também tem um artigo que
coloca a prestação anual de contas ao Ministério Público, ou seja, você encaminha uma
prestação de conta e o Ministério Público faz, se achar conveniente, o acompanhamento,
faz de forma aleatória. Aí fica por conta do Ministério Público que hoje tem uma ação muito
ampla dentro da sociedade brasileira, com uma série de obrigações, que vai até os direitos

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difusos e coletivos da sociedade. Portanto, esses são os pontos mais importantes do
projeto de lei que foi aprovado pelo Senado.

Eu quero deixar mais uma vez claro que essas proposições em momento nenhum foram no
sentido de aumentar a burocracia, que todos nós brasileiros sofremos com a burocracia e
não queremos a burocracia. E tão pouco no sentido de desestimular a mobilização da
sociedade civil, o que é impraticável, porque a sociedade civil está mobilizada, e é um
benefício para o país que ela continue mobilizada.

O controle social deve ser para todos. Se é da sociedade, das organizações para o
governo, que também haja transparência daqueles que fazem o próprio controle social. Eu
acho que é um princípio básico das relações da sociedade. Ninguém tem o direito de
procurar se escamotear diante de qualquer situação, ou diante de qualquer tipo de
legislação, para dizer que se transforma em um privilégio da sociedade. Esse é o
sentimento que eu vi no Senado.

No caso da aprovação do projeto de lei, o artigo primeiro diz o seguinte: “São livres a
criação, a organização, a estruturação interna e o funcionamento de entidades de direito
privado sem fins lucrativos, cujos objetivos e normas estatutárias visem fins de interesse
público, sendo vedado ao poder público negar-lhes reconhecimento, ou registro dos atos
constitutivos e necessários ao seu funcionamento”. Além disso, considerando a grande
quantidade de organizações em atividade, foi estabelecido o cadastro único.

Para finalizar, a elaboração de um Marco Legal dá autonomia ao trabalho das próprias


organizações, e esse controle, que seria a distância, no cadastro e pelo Ministério Público,
está fundado também nos interesses públicos e até na preservação de recursos públicos
que são transferidos, muitas vezes, sem licitação, sem obediência de qualquer princípio de
concorrência. Então, ficaria transparente, para que o Ministério Público, que hoje tem uma
função tão ampla, pudesse também acompanhar esse setor.

Iniciativas como esse debate que temos aqui contribuem democraticamente para que essa
discussão seja ampla e aberta e que ela possa trazer, na Câmara dos Deputados,
melhorias, aperfeiçoamentos ou manutenção do que nasceu dentro do Senado Federal. Era
isso. Espero ter mantido o meu tempo e cumprido com aqueles que me convidaram para
participar desse debate.

Deputado Eduardo Barbosa (PSDB/MG):

Eu gostaria, em um primeiro momento, de me situar. Eu participo de uma ONG, inclusive a


minha representatividade na Câmara dos Deputados é fruto do espaço que nós temos de
trabalho com entidade social. Então, isso também nos coloca numa condição de estar aqui,
junto com vocês, e numa defesa constante e permanente, numa discussão ampla da
sociedade civil e do Estado, desenhando e definindo esses papeis e essa inter-relação.

Apesar de nunca ter utilizado a representatividade numa luta corporativista ou em luta


específica de um segmento, sem entendimento maior de como as forças de inter-relação
entre Estado e sociedade civil têm que ser construídas, garantindo de fato o consenso, um
processo democrático e aquilo que a sociedade tem condição de assimilar como importante
para ela em cada momento histórico.

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Eu vou tentar fazer a minha exposição no sentido de aproveitar o momento para fazer uma
análise e dentro daquilo que eu percebo, que o próprio parlamento e a Câmara dos
deputados especificamente pensa e avalia, até chegarmos na proposição que está sendo
discutida.

Nós sabemos que esse termo organizações não-governamentais é uma questão muito
recente, muito nova para o nosso país. Foi introduzido em 1996 no Brasil e, desde então,
uma série de questões passou a rondar a todos que desenvolvem atividades privadas num
setor reconhecido como de interesse público, porém não-estatal e sem fins lucrativos.

Em primeiro lugar, com a novidade do termo vem a nebulosidade em torno da origem do


chamado terceiro setor, e eu vejo isso muito presente aqui na Câmara dos Deputados. Nós
mesmos não sabemos de onde surgiu, como surgiu esse termo, e de repente estamos
lidando com ele. Terá sido na década de oitenta, da construção teórica de alguns
intelectuais liberais, supostamente preocupados em superar a dicotomia público-privado? É
uma pergunta que fazemos. Ou vem antes mesmo da década de sessenta e setenta, por
meio de novos movimentos sociais e das ONGs? Eu acredito que esse seminário poderia
tentar até chegar em alguma resposta, se possível, em relação a essas indagações.

Seria o terceiro setor ligado às instituições de caridade, benemerência ou filantropia? Ou


ele existe desde a própria formação da sociedade? Comumente a teoria identifica o público
com o Estado, e o privado com o mercado. No Estado em crise, no mercado com a lógica
do lucro, transfere-se à sociedade a responsabilidade de responder pelas questões de
interesse público no campo da atividade privada.

A segunda questão é saber quais são as entidades que compõem o terceiro setor. Não
existe um consenso entre os teóricos e os pesquisadores sobre quais entidades o
integrariam. Talvez para o parlamento isoladamente conseguir fazer uma identificação, ele
vai sofrer as mesmas mazelas do não entendimento ainda feito pela sociedade como um
todo.

Fala-se que seria formado por entidades privadas, não-governamentais, sem fins lucrativos,
autogovernadas e de associação voluntária. Alguns autores incluem apenas organizações
formais, outros contam até as atividades informais, individuais. Para alguns devem ser
excluídas as fundações empresariais, em outros casos sindicatos, movimentos políticos, as
seitas (igrejas), ora são consideradas pertencentes, ora são excluídas do conceito.

Talvez, eu acredito, que a grande dificuldade do senador César Borges quando foi
presenteado com essa relatoria foi justamente, a partir de um projeto de lei, tentar
identificar todas as questões e conseguir um texto que pudesse responder a tudo o que não
era respondido por ninguém. Inclusive, quero salientar que o senhor fez muito no tempo
que lhe deram, no tempo recorde que foi dado até que se tentou não cometer erros
maiores.

A terceira questão é entender, que conceito é esse, que reúne, no mesmo espaço, uma
diversidade tão grande de segmentos da sociedade, que segundo Carlos Montaño, muitas
vezes, ao invés de se estabelecer sobre um setor da sociedade, confunde, pois de acordo
com as interpretações variadas dos autores, ele mescla diversos sujeitos com aparentes
igualdades nas atividades, porém, com interesses, espaços e significados sociais diversos,
contrários e até contraditórios.

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Assim, quando nos propomos a discutir o Marco Legal do terceiro setor, nós devemos levar
em conta que estamos falando de um setor que não reúne consenso sobre a sua origem,
nem sobre a sua composição, tampouco sobre as suas características. Além de que,
quando consideramos primeiro, segundo e terceiro setor, estamos contribuindo para
desarticulação do social, dividindo a realidade social em três esferas autônomas: o Estado,
o mercado, e a sociedade civil.

Daí a dificuldade de se saber de fato qual é a verdadeira concepção, quais os interesses e


ideologias sobre o terceiro setor, utilizados na construção da legislação existente, e também
por cada um dos autores das inúmeras propostas legislativas que tramitam no congresso
nacional. Esse é um momento muito importante para nós tentarmos fazer essas
identificações dos verdadeiros interesses.

As organizações sem fins lucrativos no Brasil já são reguladas por um vasto arcabouço
legal. É a minha impressão. Começando pela constituição federal, que assegura a
liberdade de associação como direito e garantia fundamental, perpassando pela legislação
infraconstitucional, lei 10.406 de 10 de janeiro de 2002 (Novo código civil brasileiro), que
conceitua as associações, estabelece requisitos para a sua constituição, prevendo as
formas de associação e fundação, independentemente de autorização, como também leis
antigas ainda vigentes, como a lei 91 de 1935, que trata das regras para a concessão de
títulos de utilidade pública federal, dentre outras.

O reconhecimento institucional das entidades é feito por meio de inscrições, registros e


títulos, que criam tipologias para diferenciar as instituições e concedem uma condição
especial do Estado em relação às isenções, taxas, impostos, imunidades e realização de
projeto. A mais recente regulamentação se deu em 1999, por meio da Lei 9.790,
regulamentada pelo Decreto 3.100 de 1999, conhecida como Lei das Oscips. Ela foi
resultado da atuação conjunta de entidades da sociedade civil, do Poder Executivo, do
Poder Legislativo, articulada pelo Conselho da Comunidade Solidária, e qualifica as
pessoas de direitos privados sem fins lucrativos como organizações da sociedade civil de
interesse público e cria o termo de parceria.

Inclusive, essa lei, para surpresa nossa, apesar de ter tido uma articulação da sociedade
civil organizada, eu nunca vi um projeto de lei ser aprovado aqui tão rapidamente. Eu nunca
vi um consenso no caso da Câmara Federal em relação a uma proposta que eu imaginava
ter um debate maior naquela época, mas foi aprovado por unanimidade. Não houve
nenhuma resistência de nenhum partido naquele momento.

Essa lei surgiu da necessidade de se superar as incompatibilidades existentes entre o


marco regulatório existente e a intenção do governo federal de instituir parcerias com
entidades da sociedade civil para assumirem um papel importante na realização de ações
de enfrentamento à pobreza e combate à exclusão social no novo modelo de Estado
desenhado a partir da reforma administrativa de 1995.

O projeto de lei foi elaborado a partir de um processo de interlocução política dedicado à


promoção do diálogo entre governo, comunidade solidária e sociedade civil e buscou a
construção de consensos e propostas para a elaboração dos princípios da nova lei. Por
meio de consultas foram levantados os principais problemas enfrentados pelas
organizações, justamente os registros e cadastros administrativos, contratos e convênios,
mecanismos de auto-regulação, mecanismos institucionais de responsabilização, doações

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e a busca de um novo modelo de financiamento, regulamentação do voluntariado, contrato
de trabalho por prazo determinado e sistemas eficientes de informação. Nós tivemos, na
época, acesso a essas consultas, e de fato, todas as sugestões apresentadas foram
canalizadas para esses itens.

A consulta apontou como maior problema as dificuldades das organizações terem acesso
ao reconhecimento institucional, seja pela burocracia, seja pelo não reconhecimento legal
de vários tipos de organização. Alguns desses problemas não tiveram solução com a lei
das Oscips, ora por falta de consenso no processo de interlocução, ora por terem
esbarrado em limitações jurídicas, por exemplo, o caso do trabalho por tempo determinado,
que encontrou limitações impostas pela CLT, ou ainda, por terem recebido
encaminhamentos distintos e terem sido disciplinados por outras normas jurídicas, como foi
o caso do trabalho voluntário, inclusive regulado por lei específica.

A falta de consenso foi clara no caso das doações, tanto que não teve prosseguimento. O
mecanismo tradicional de incentivo às doações é o abatimento da base tributável do
imposto de renda, e os impedimentos legais para isso foram obstáculos à construção da
chamada responsabilidade social dos empresários, da filantropia privada, afetando
diretamente a sustentabilidade financeira das organizações. A lei 9249 de 95 já havia
reduzido o limite de dedução das doações do imposto de renda de pessoa jurídica de 5%
para 2% sobre o lucro real, além de passar a exigir da entidade receptora o título de
utilidade pública federal, para que a doação seja dedutível, e a lei 9250, também de 95,
impediu a dedução das doações por parte das pessoas físicas.

Falando de doações entramos na problemática do financiamento. No geral, a adoção do


termo de parceria não foi bem vista pelo conjunto de organizações, uma vez que o critério
de concursos de projetos apontava para uma dificuldade de acesso a recursos financeiros
por parte das entidades menores, as quais não possuem quadro de funcionários
especializados, além de reduzir a participação das entidades a mera prestadora de
serviços.

Esse último fato, na verdade, não se diferencia em muito dos outros casos em que há
repasse de dinheiro público por meio de convênios, como por exemplo, as instituições de
assistência social e de saúde.

Na tramitação do projeto lei das Oscips, o principal embate político foi em relação às
questões relacionadas com os interesses corporativos ligados a instituições filantrópicas,
especialmente sobre as isenções a que estas têm direito. Embora não houvesse proposta
de modificação da regulamentação em vigor, muitos temiam a sua extinção e outros temiam
que tais benefícios fossem estendidos a todo o tipo de instituição. No entanto, apesar de
ser restrita às entidades de educação, saúde e assistência social, a isenção da cota
patronal do INSS, importante financiamento indireto, volta e meia preocupa as
organizações, sobretudo por conta de escândalos estampados na mídia, e também por
esse assunto virar pauta do governo sempre que se fala em déficit da previdência social.

Na realidade, existem várias opiniões sobre a eficiência da lei das Oscips. É comum
ouvirmos que ela não cumpriu o papel a que se propôs, que não deu conta de resolver o
problema do reconhecimento institucional das ONGs no processo de consolidação da
democracia e, principalmente, a questão do financiamento e acesso transparente aos
recursos públicos, que sempre foi o pano de fundo das discussões sobre a legislação das

20
entidades sem fins lucrativos. Mas é opinião comum, também, que ela avançou quando foi
elaborada com a participação da sociedade civil organizada, e o resultado foi o que era
possível na época.

Hoje o que motiva a formação desse seminário é principalmente o projeto de lei 3877, que
chegou a essa casa, originário do Senado Federal, onde teve a sua elaboração também
estimulada a partir da CPI das ONGs, sob o argumento de que atualmente há um aumento
descontrolado no número de ONGs nacionais e estrangeiras, sem a existência de
mecanismos de controle de suas atividades, bem como sobre a origem e aplicação dos
seus recursos financeiros, inclusive recursos públicos.

A relatoria do projeto de lei do Senado foi do Senador César Borges e a principal questão
em torno do texto do Senador Mozarildo Cavalcante se relacionava à sua
inconstitucionalidade, pois exigia uma espécie de autorização para o funcionamento de
pessoas jurídicas de direito privado sem fins lucrativos, o que se configurava em restrição
clamorosa às liberdades coletivas em afronta à carta constitucional do país. Esse aspecto
felizmente foi suprimido no substitutivo do nobre Senador César Borges, que, no entanto,
na nossa impressão não apresentou solução para os demais problemas trazidos com o PL.

Destacamos que o mesmo traz mais burocracia ao instituir o cadastro nacional de ONGs,
inclusive uma questão aqui a ser debatida é se os cadastros existentes atendem às
exigências e se contemplam o que nós precisaríamos. O projeto de lei mantém a ingerência
de agentes públicos em assuntos privados, ao exigir que as entidades privadas sem fins
lucrativos estejam obrigatoriamente enquadradas como ONGs e façam prestação de contas
anual ao Ministério Público, de quaisquer recursos recebidos através de convênios, de
subvenções públicas ou privadas, ou mesmo de doações.

O projeto estabelece confusões conceituais ao estabelecer que só podem ser ONGs as


entidades de direito privado com interesse público, e, sobretudo, contribui e muito para o
enfraquecimento da sociedade civil e sua participação no processo democrático, ao definir,
no artigo primeiro, que o funcionamento das ONGs será reconhecido a partir da sua
inscrição no cadastro. E se a inscrição for rejeitada? Mas não é só esse projeto de lei que
busca regulamentar as atividades do chamado terceiro setor. Existem, no total, dezessete
proposições tramitando na Câmara dos deputados e é preciso considerar outros aspectos
em relação a essas iniciativas.

Para finalizar, constatamos que algumas propostas foram apresentadas no passado e


arquivadas por término da legislatura, e depois reapresentadas com o mesmo teor por um
segundo parlamentar. Isso nos leva a pensar que proposições que tiveram essa tramitação
venham ao encontro de grupos que se articulam com o Congresso Nacional para tal
objetivo, mas podem significar também que a participação da sociedade no processo é
pequena e que o parlamentar, muitas vezes, fica solitário e com atuação isolada na defesa
do projeto.

Isso pode levar à facilidade para a ocorrência de outros casos, quando o espaço fica livre e
são apresentadas proposições para defender interesses de pequenos grupos, muitos deles
com vista a por limites à participação da sociedade. No entanto, não podemos
desconsiderar a legitimidade da iniciativa, uma vez que o parlamentar tem prerrogativa de
elaborar projetos de lei. A contribuição da sociedade é fundamental para que iniciativas que
ameaçam o processo democrático não ganhem corpo no Congresso Nacional. Por isso

21
mesmo, nós vemos que esse debate, esse seminário, desencadeia na Câmara dos
Deputados um novo processo de articulação das ONGs com o parlamento, e a partir desse
momento que nós estamos vivendo, aí de fato nós podemos entender e conceber o que o
Brasil precisa em termos de legislação reguladora desse setor, Obrigado.

Sílvio Sant’Ana (Fundação Grupo Esquel):

As duas intervenções anteriores colocaram alguns problemas chave do ponto de vista da


questão do Marco Legal. Se formos trabalhar a discussão sobre o Marco Legal das ONGs,
para mim é um campo, mas as duas intervenções foram num sentido um pouco mais
amplo. O deputado Eduardo, para mim, foi mais genérico e abrangente, o que me parece,
no caso brasileiro, talvez mais apropriado para nós trabalharmos, então, eu vou tentar
balizar a minha discussão sobre isso.

Eu tinha um mapeamento de 24 iniciativas no Congresso sobre esses assuntos da


sociedade civil. Agora pelas informações do senador e do deputado são 26. Mas das 24, 18
delas se referem a mecanismo de repressão, fiscalização e controle, 4 são para incentivos
para as entidades da sociedade civil e 2 são mais ou menos neutras. Eu diria que são
neutras, porque elas visam a aprimorar algum aspecto específico de uma relação que já
existe entre o poder público e essas entidades.

De um lado, como colocou o senador, é realmente muito importante que exista


transparência, que a sociedade seja informada, e que os representantes das entidades
também sejam informados do que está acontecendo dentro desse país. Mas, de outro lado,
me parece que existe um certo desequilíbrio quando vemos que há uma preocupação
muito maior de vermos o que está acontecendo, do que gerar incentivos para a sociedade
expressar a sua cidadania.

Todo mundo está de acordo que num Estado Democrático de Direito a coisa mais
importante que se tem é a expressão da cidadania. Essa expressão, entre outras formas,
se traduz em criação de associações, organizações dela mesma, com as finalidades que
ela queira criar. Então isso, no nosso campo, devia ter um valor máximo, temos que
incentivar a iniciativa da cidadania para que ela se expresse e se manifeste, além da
participação da cidadania nos processos de toda a democracia representativa, nos
processos que já conhecemos. Isso para mim é um dos elementos chaves.

Outro problema que poderíamos resumir num limite extremo é o seguinte: por que o
governo se interessa pelas entidades da sociedade civil? O governo só deveria se
preocupar realmente com isso se ele estivesse repassando recurso para ela ou se essa
entidade estaria se envolvendo em algum tipo de atividade ilícita. São duas situações
extremas, ou seja, ou é uma atividade ilícita, o governo tem que proteger a sociedade
dessa ilicitude, ou então o governo de alguma maneira está repassando recursos para essa
entidade para ela desenvolver algum tipo de ação.

Temos de ser bem práticos nessa questão quando formos discutir Marco Legal, porque no
fundo a realidade é essa, o Estado só deve se preocupar com a sociedade civil na medida
em que o dinheiro que ele arrecadou da própria sociedade vai voltar de alguma maneira
para aquele grupo. O resto se desenvolve no campo do debate político, do debate

22
ideológico, das idéias que essas associações possam ter inclusive em relação ao governo.
Ninguém aqui na casa, eu imagino, se preocupa com o clube de bridge ou o clube dos
amigos do curió, digo do passarinho, não do deputado. Não faria muito sentido uma
preocupação dessa natureza. Seria até interessante que se preocupasse, porque é uma
coisa bonita, uma coisa interessante, da mesma forma que a manifestação da sociedade,
mas no limite temos que ver que a grande questão é a questão do recurso público, do ilícito
e pára um pouco por aí.

Muitas das proposições que vieram da CPI me pareceram carregadas de hipótese de ilícito,
e por isso então se cria uma série de cadastros, de mecanismos, que como disse o
deputado Eduardo, eles são bastante burocráticos, ou seja, no dia que o Ministério Público
tiver que examinar 270 mil prestações de contas anuais, o Ministério fecha. Ele não tem
condições, não tem nem como fazer um trabalho completo com as fundações, que é um
subgrupo pequeno no conjunto dessas 270 mil entidades.

O problema que eu percebo e já tem uma discussão antiga, e vários companheiros aqui
presentes já tiveram a oportunidade de discutir sobre isso, na questão do Marco Legal, em
primeiro lugar, temos que desenvolver uma capacidade da cidadania, da sociedade e do
governo de identificar as entidades. É um problema de identidade, assim como eu tenho
meu CPF eu tenho que ter um mecanismo de identificação das organizações, esses
mecanismos de hoje são muito pobres. O senador colocou, “nós precisamos separar o joio
do trigo” e isso é verdade, todos nós estamos de acordo com isso, ainda que isso possa ser
bastante complicado na prática. Quando vamos ver o que é isso, é extremamente
complicado, porque eu tenho certeza que para muitos companheiros da Abong que existem
muitas entidades consideradas por uns como o joio e, para outros, trigo, e isso é muito
complicado. Eu mesmo considero algumas da Abong joio e outras, trigo. Então fica difícil, é
uma coisa muito subjetiva, mas existe a necessidade real de que melhoremos a capacidade
da sociedade e do poder público de identificar uma entidade, ou seja, por que essa
entidade é boa? Por que essa entidade é confiável? Temos que desenvolver alguma
capacidade dentro da sociedade, dentro do estado para que isso possa ficar mais claro.

Tem algumas coisas simples, por exemplo, a polícia usa uniforme, então todo mundo sabe
que o cara é polícia, então, o uniforme é uma forma de identificação imediata. A questão da
lei das Oscips, uma lei de utilidade pública, filantropia, etc., são todos sinais que o Estado
busca qualificar algumas organizações, para se dizer que esta é diferente das outras, e por
isso elas merecem apoio do Estado e merecem apoio de vocês da sociedade. Esse um
dos primeiros pontos-chave, e se não conseguirmos melhorar isso, não vamos avançar
muito na questão do Marco Legal. A questão para mim não é ficar aqui se prontificando em
dizer o que é o joio e o que é o trigo, não compete a nós ficar fazendo isso. O que nós
temos é que equipar a sociedade para ela dizer o que é joio e o que é trigo, e temos que
melhorar a capacidade da cidadania de identificar o que é bom e o que não é bom para ela.

Quando criamos um instituto como a filantropia, como uma utilidade pública ou um


interesse público, etc., fazemos uma demarcação, ou seja, um grupo de entidades, de
associações que tem certas características que merecem o nosso apoio, tanto de governo
quanto da própria sociedade, indivíduos que apóiam, etc., e ao fazer isso, realmente
criamos uma segmentação. O deputado Eduardo disse, “muitas entidades não são Oscip,
para ser Oscip é uma complicação”. É difícil mesmo, e se é de utilidade pública, pior ainda,
tanto é que tem seis mil, ou oito mil, das 275 mil, tem só 8 mil, então não é uma coisa tão
simples. E tem um custo para essas organizações manterem essa condição que é muito

23
elevado. É tão elevado que muitas das organizações que poderiam ser hoje de utilidade
pública não querem, porque dá mais trabalho do que benefício, então, elas deixam para lá,
o que é ruim, porque elas não deixam para a sociedade estar identificando quem é mais
preocupado com certas causas públicas do que outras organizações. Isso é um primeiro
problema que nós temos que tratar ao longo de qualquer discussão que se faça a respeito
de Marco Legal.

E o segundo é o problema com o financiamento, o tratamento tributário das organizações


da sociedade civil, que é um tratamento dos mais esquizofrênicos que podemos imaginar,
porque de um lado você tem a imunidade tributária das entidades beneficentes de
assistência social, etc., que o deputado Eduardo colocou como a questão da isenção da
cota patronal, e esse é o limite extremo, o único lugar no mundo que existe isso é aqui no
Brasil. A imunidade tributária de uma entidade privada. Esse é um negócio especialíssimo,
e do outro lado, você tem que as entidades são tratadas como empresas, quer dizer, do
ponto de vista tributário a diferença entre a minha entidade e a Fundação do Banco
Bradesco é zero, do ponto de vista real do tratamento tributário, a única coisa que eu não
faço é pagar imposto sobre o lucro, porque eu não tenho lucro, mas também as empresas
privadas não pagam, então ficamos iguais. No fundo a diferença é muito pequena, e eu
inclusive acho que as empresas não deviam mesmo pagar, mas isso já é outra história.

O que aconteceu nesse campo nos últimos anos foi terrível, porque enquanto nós
estávamos discutindo a lei das Oscips, buscando criar um campo para facilitar e incentivar
as entidades da sociedade civil, a voracidade tributária do governo estava aumentando. Eu
peguei um balanço da Fundação Banco do Brasil, que não é um exemplo mundial, mas é
um exemplo interessante, e no começo, em 94, eles aplicavam dez reais em ações diretas
nas comunidades, nos projetos deles, e um real era pago em tributo. Quatro anos depois,
dos onze reais eram oito em projeto, e três em tributo, então, é um negócio muito
desajustado. Temos que pensar nisso, por que não pensamos num Simples (tipo de
imposto) para as entidades sem fins lucrativos? Isso resolveria o problema tributário de
taxação, etc., de relacionamento, de formalização e de várias questões para 80% das
entidades de uma forma simples e direta. O Estado aceita, você aceita que uma entidade
de fins lucrativos, que é uma empresa privada de benefício individual use o simples, agora
uma entidade sem fins lucrativos que muitas vezes beneficie a comunidade, ou parcelas da
comunidade não pode. Esses desequilíbrios são realmente necessários de serem vistos.

A questão trabalhista e previdenciária eu já falei que é a mesma coisa, essa questão da


imunidade me parece absolutamente necessária de ser re-trabalhada e revisada, e vou
insistir muito sobre isso, que me parece um privilégio. Na minha opinião, deveríamos
acabar com a imunidade das entidades de todo tipo, todas deveriam ter um tratamento
especial do ponto de vista tributário e previdencial, mas todas deveriam pagar.

E finalmente tem a questão com o setor público em geral, ou seja, essa questão de que o
governo via recursos orçamentários repassa recursos para as entidades da sociedade civil,
que já é antiga, mas o fato é que nós temos um quadro legal, extremamente bem bolado,
bem trabalhado sobre a fiscalização de uso de recursos públicos. O que acontece é que o
Estado e as organizações de controle interno e externo do Estado não conseguem
acompanhar isso, grande parte dos projetos que estão circulando aqui, estão naquela
história de chover no molhado.

24
Já existem instrumentos legais usados sobre a questão do uso de recursos públicos por
agentes privados ou públicos que têm que ser aplicados, o problema é que não
conseguimos aplicar. Temos de dar um tratamento diferente para algumas coisas, ainda
mais hoje que está tudo misturado. Existem certas ações que são razões de governo, quer
dizer, o governo precisa fazer alguma coisa e ele não consegue fazer, então, ele pede a
uma organização da sociedade civil para que faça, isso é uma terceirização pura e simples,
extremamente legítima, válida e não vamos nem discutir sobre isso.

Depois, você tem algumas parcerias que são de programa, ou seja, são razões do Estado,
não são razões apenas de governo, vão além desse governo específico. Existem certas
ações que são empenhadas e desenvolvidas pelo governo, mas que vão além desse
governo atual, se é que se pode pensar que são parcerias diferentes, ou seja, governo,
Estado e organização da sociedade civil. Como nós aqui estamos nos preocupando, não
com o que acontece nesse governo, mas com a relação do Estado com essa sociedade
civil, quer dizer, como vamos regular isso ou se isso vai além, é uma parceria no sentido
mais puro da palavra, porque somos sócios na busca de uma solução para essa questão
que não beneficia especificamente uma política de governo, mas que vai definir uma
situação futura.

E depois tem um outro tipo que é o mais complicado de todos, e aí o Estado tem mais
dificuldade, de repente ele tem até que ficar fora disso. É o seguinte, a sociedade tem
razões que a própria razão desconhece, e de repente um grupo de indivíduos decide se
unir e criar um tipo de atividade que o Estado não pode nem antever como possível. O
Estado, como definição, é obrigado a seguir a sua constituição, de repente eu posso estar
fazendo alguma coisa que não está prevista na constituição, desenvolvendo modelos
extremamente inovadores e distintos do que está aí e o Estado não pode nem chegar perto,
porque se o Estado entrar num negócio desse, o governo pode ser ilegal.

Então eu acho que são três problemas distintos, e que temos que trabalhar de maneira
absolutamente distinta. Nesse ponto os americanos são bem práticos, eles falam que vão
regularizar todos os pontos da sociedade civil com o Estado a partir da questão tributária, e
ponto, o resto é firula. Por exemplo, uma organização privada que receba mais de 70% do
orçamento do governo, de qualquer instância de governo, é uma organização tratada como
se governo fosse, ou seja, não paga CPMF, não paga nada, é igualzinho o governo, igual a
uma prefeitura. É muito simples, se você recebe mais de 70% de verba do Estado, você é
tratado como se Estado fosse, da mesma forma que uma empresa grande, como a Ford, no
caso dos americanos, ela tem uma fundação, e o tratamento dado para essa fundação não
tem nada a ver com o tratamento dado a Fundação Ford que conhecemos aqui, o
tratamento tributário.

Eu queria concluir e chamar atenção de que temos que ser bem realistas e tentar ser
bastante simples para não sacrificar essa busca que nós estamos, tentando não sacrificar
aquilo de mais sagrado e mais importante, que é o seguinte, o cidadão tem o direito de
fazer o que der na telha desde que a lei não o proíba. Então nós temos que incentivar para
que a sociedade floresça e desenvolva suas iniciativas, era isso que eu queria comunicar a
vocês.

25
José Antonio Moroni (Associação Brasileira de Organizações Não Governamentais/
Abong):

Falar por último na mesa é sempre um desafio, ou vantagem. O primeiro desafio é não
começar querendo responder às falas anteriores, que eu acho que foram bastante ricas e
cumpriram bem o nosso objetivo, que era justamente de estabelecer, não só nessa mesa,
mas no seminário como um todo, um diálogo entre as diferentes concepções, posições
presentes aqui no parlamento e, portanto, presentes na própria sociedade. Porque eu acho
que o Parlamento sempre é o reflexo da sociedade, ele não é desvinculado das posições,
das práticas presentes na sociedade. Ele é muito o reflexo disto, da sociedade como um
todo, e não estou falando da sociedade civil organizada. Podemos identificar isso nesse
debate todo da questão do Marco Legal das ONGs.

Eu acho que a primeira pergunta que tem que se fazer é se é possível fazer o Marco Legal
das ONGs. É possível? Dentro do que entendemos do Marco Legal, que seria todo um
aparato jurídico que dê sustentabilidade institucional para as organizações. Não é uma
questão simples, porque envolve a sociedade estável, portanto, envolve uma concepção de
democracia e acho que isso é que trava um pouco o nosso debate.

Também tem a questão do princípio constitucional da liberdade de associação, que quando


você vai para legislações específicas, mesmo as que tratam hoje dessas relações
sociedade-Estado colocam limites para essa livre associação.

Eu queria abordar um pouco, para entendermos por que razão, a todo o momento, surge na
agenda política essa questão das organizações não-governamentais e por que as
organizações podem ser tão incômodas.

Por exemplo, eu atuei por muitos anos na questão da criança e do adolescente, fui
educador social de rua, com meninos e meninas de rua. E quando começou aquele
processo de denúncias, da questão da violência, dos grupos de extermínio, íamos para os
debates na Câmara dos Vereadores. Aconteceu que tivemos que sair pela porta dos fundos
por causa da reação dos parlamentares, dos vereadores e, às vezes, até por parte da
população contra as questões que estavam se colocando. Na época, o debate era assim:
quantos meninos têm nas ruas? Quantas ONGs? É muita ONG que cuida de meninos de
rua, e com que recursos? Precisa cadastrar, precisa autorizar para trabalhar, e tal. Naquela
época aquele trabalho estava ferindo interesses, porque a partir do momento que essas
ONGs começam a crescer, se fortalecer como um sujeito político, um ator político na
sociedade, isso causa constrangimento, causa reação, porque está ferindo interesses.

E quando se fala de organização “boa e confiável”, eu pergunto: para quem? Boa e


confiável para quem? Do bem e do mau, para quem? Para mim, a grande maioria das
organizações ambientalistas, todas que eu conheço, são boas e confiáveis. Para o
madeireiro, para quem quer explorar minério da Amazônia, das terras indígenas, não são
boas e confiáveis nunca. Essa “boa e confiável” tem o viés político, então, o que eu quero
dizer com isso é que você não pode desvincular esse debate das disputas políticas que têm
na sociedade.

Se for pegar, por exemplo, tudo o que se tem hoje das propostas aqui do Congresso, da
CPI das ONGs e das outras que estão para ser instaladas: por que o foco é a Região

26
Amazônica? E daí pegam os ambientalistas, os indígenas e as populações quilombolas,
porque há um conflito forte naquela região a respeito da questão do desenvolvimento.

A questão de fundo da CPI das ONGs do Senado, por exemplo, essa que propôs esse
projeto (PLS 7 de 2003) e outros também, era de um conflito sobre o modelo de
desenvolvimento na Região Amazônica, que inclui, a expansão da fronteira agrícola, da
soja, a questão da exploração de minérios nas terras indígenas, nas terras quilombolas,
nos parques, nas reservas, a questão da madeira.

Ou seja, essa questão toda tem um viés especialmente político. Então, temos que estar
atentos a isso, porque quando você parte para pensar o Marco Legal, ainda mais na
conjuntura que estamos, isso não está isento dessa questão política. Porque, hoje, o que
denominamos como modelo de desenvolvimento, engloba não só a questão econômica,
mas também a questão democrática, a questão do controle, da participação social, do
combate a todas as desigualdades, e aí um destaque para a questão das desigualdades
oriundas da questão de gênero e raça.

Isso tem um contexto, ninguém questiona aquelas organizações que são unicamente
executoras de políticas públicas. Tudo bem, não há um desconforto em relação a essas
organizações, há um desconforto em relação àquelas organizações que se posicionam
politicamente por uma transformação, por uma mudança do que aqui está.

Eu receio também que pensar o Marco Legal nessa conjuntura pode significar pensar um
Marco Legal com a questão do controle mesmo, e não é do controle social que nós
falamos. Quando criticamos essa questão do controle, não é que não queremos ter nenhum
tipo de fiscalização, porque nós temos. Mesmo a associação que não tem nenhum tipo de
recurso público ou não maneja nenhum tipo de recurso, como têm muitas. Dessas 270 e
poucas mil, do levantamento que foi feito pelo IBGE/ Ipea/ Abong/ Gife, 77% não emprega
ninguém, 77% dessas 270 mil organizações não têm nenhum profissional. Como você pode
pensar um Marco Legal que dê conta dessa complexidade? É super-complicado, porque ao
mesmo tempo você tem as fundações, as ONGs que têm um nível de profissionalização, há
as organizações que atuam mais em cima do trabalho da militância, voltadas para questões
pontuais, locais. Você tem organizações para executar políticas públicas, você tem
organizações não-governamentais que são muito mais do nosso governo.

Aqui no GDF (Governo do Distrito Federal) tem um caso clássico, que é o Instituto
Candango de Solidariedade, que fazia e ainda faz todo o trabalho de contratação dos
agentes de saúde da família. Se você for ver, é uma ONG, mas uma ONG que não tem
nada a ver com as ONGs do campo da Abong. Se você pegar, é uma associação, segue
todo o rito que hoje a legislação define, mas é para executar políticas públicas. É por
exemplo, para o Estado fugir da sua responsabilidade, fugir da lei de licitação, de contratar
funcionário só através de concurso, porque daí vem o clientelismo e todas essas práticas
que lutamos para eliminar.

Então, esse conceito hoje nasce dentro de uma perspectiva, e daí eu tenho discordância de
vários pontos das falas do Sílvio, por exemplo. Como sou diretor da Abong, estava
ajudando com a construção desse seminário, e quisemos trazer o Sílvio porque ele tem
questões polêmicas, das quais nós discordamos, mas achamos importantes para o debate.
Mas Silvio, quando você coloca essa questão do financiamento e traz o exemplo norte-
americano, onde uma organização que tem 70% dos recursos públicos é tratada como

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governamental, do ponto de vista tributário, para mim é uma coisa, mas do ponto de vista
político, é outra. É completamente outra e isso é preocupante quando você traz esse
exemplo. Eu acho que quando você coloca as organizações do ponto de vista tributário no
mesmo nível das empresas... Êpa, espera aí!

Mas ao mesmo tempo, quando você pensa, e tem um movimento forte nesse sentido, com
relação a questão de flexibilizar as leis trabalhistas e outras leis para o chamado de terceiro
setor, que para mim é um conceito terrível. Nesse caso é complicado. Nós vamos começar
a criar subcategorias, inclusive tem um projeto de lei aqui na Câmara sobre isso. Como
você trata a questão da universalização do direito com todas essas questões que vão
surgindo, que vão fragmentando.

A defesa da Abong está aqui neste livrinho 2 que distribuímos, que é bastante claro, no
sentido do que nós entendemos do que seriam os elementos do Marco Legal, e o primeiro
é o reconhecimento, que as organizações da sociedade civil são essenciais no processo
democrático. Isso está embutido dentro de uma concepção, de uma idéia de democracia,
na qual a democracia é a sociedade criar mecanismos de controle do Estado, e não ao
contrário. A ditadura é o contrário, é justamente o Estado suprimir, eliminar a sociedade. A
democracia é o inverso disso. Reconhecer as organizações da sociedade civil como
essenciais ao processo democrático, nos coloca num patamar de sujeitos políticos.

Hoje, durante a mesa pela manhã, a Taciana Gouveia colocou muito bem um ponto
importante. A reforma política pensada atualmente está muito restrita a uma reforma da
democracia representativa, via partidos, via representação, via todo o processo eleitoral.
Não se está pensando em uma reforma dos processos de tomada de decisão, que seria
sim, uma verdadeira reforma política.

Então, o primeiro ponto essencial para a democracia é a existência de uma sociedade civil
organizada, autônoma, livre e forte, isso para nós é essencial. Outro ponto é que não só
reconheça, mas garanta um elemento essencial, de valor, que é a questão da pluralidade
que nós temos. Nossas organizações não são iguais, não tem padrão. Se qualquer
legislação quiser pensar um padrão, ou quiser enquadrar num padrão, não consegue,
porque não existe padrão. Ainda bem.

Logo, a questão do reconhecimento deve se dar pela questão plural, pela diversidade,
porque a riqueza da sociedade civil é justamente essa, inclusive nas formas de se
organizar. Nós só identificamos a sociedade organizada naquelas organizações que tem o
nosso padrão de organização, mas tem muito movimento cultural na área de Hip Hop,
outros que se organizam de uma forma completamente diferente da nossa e têm um nível
de organização às vezes muito melhor do que nós entendemos.

Uma outra questão é que se esclareça, e esse é um dilema também, a questão do


interesse público. E daí o tema organização não-governamental complica, porque nos
definimos pelo negativo, definimos porque não somos Estado, então somos não-
governamental, o que dá margem para esse chamado terceiro setor. A partir do momento
que nós não somos Estado, nós damos margem para que se construa esse conceito do
chamado terceiro setor, que me dá arrepio... Mas que se defina o que é interesse público. O
que é interesse público? Precisa-se ter uma definição de interesse público, assim como
aquela questão do “boa e confiável”. Para mim interesse público é o Estado universalizar
2
Ação das ONGs no Brasil: perguntas e respostas. Disponível na página eletrônica www.abong.org.br

28
direitos, e o desinteresse público é terminar com a vinculação de receitas orçamentárias
para a área da saúde e da educação. Então, o que é esse interesse público?

Um outro aspecto que temos, e nesse eu concordo com a fala do Sílvio, é a questão do
acesso aos recursos públicos. O acesso aos recursos públicos para mim não pode ser
questão pontual. O acesso aos recursos públicos por parte das organizações tem que estar
dentro de uma política pública, você define o recurso para a política pública. Por isso, tem
que estar definida uma política pública, em todas as áreas, ter o financiamento garantido
dentro dessa política pública, qual é o papel do Estado, qual é o papel da sociedade e
como a sociedade acessa recursos públicos para essa política.

Para mim isso define um pouco o que é interesse público, senão fica uma coisa
fragmentada. Afinal, política pública tem que ser um processo da sociedade como um todo.
Para mim só faz sentido as organizações pensarem acessar recursos públicos dentro de
uma definição de política pública, só que nós temos que ampliar o nosso conceito, a nossa
concepção de política pública. Porque, por exemplo, para mim faz parte de uma política
pública a questão da participação, do controle social, da construção de novos direitos. O
Estado não pode estar de costas a isso, porque daí coloca um dilema.

Nesses processos participativos que existem hoje coloca-se uma grande questão: só
conseguem participar as organizações que têm recurso, a pequena organização que não
tem recurso não consegue. Isso é um ponto de tensão, sim. Se naquele primeiro ponto que
eu coloquei reconhecemos essas organizações como essenciais para o processo
democrático, nós temos que pensar a questão do acesso a recursos públicos dentro de
uma política, mas dentro dos processos que criam a democracia. É um fundamento da
democracia a participação, o controle social, então, deve-se ter recursos também para isso.
Não se pode pensar no acesso aos recursos públicos só para executar política, a questão
do atendimento. Para mim é uma coisa mais ampla, são questões que teríamos que pensar
sobre o Marco Legal.

Vou aproveitar a presença do senador para levantar a questão do Projeto de Lei (PLS 7 de
2003). Nós acompanhamos toda a tramitação, todo o esforço que foi realizado, e o texto
final foi o que se conseguiu consensuar no Senado a respeito do projeto de lei. Isso foi o
que se conseguiu consensuar, não é nenhuma crítica ao relator, mas ele está dentro de
uma lógica perversa, que é a lógica do controle político das organizações. Ele parte de um
pressuposto de que as organizações não têm controle, não têm fiscalização. A fala do Sílvio
já respondeu isso, mas quando ele fala: “Fica criado o cadastro nacional das organizações
não-governamentais administrado pelo Ministério da Justiça, no qual serão inscritas todas
as ONGs atuantes a qualquer título no país”, a lei obriga, todas terão que estar
cadastradas, se não estiverem cadastradas, não estarão legais. O parágrafo primeiro desse
artigo fala do cadastro, e no cadastro tem que ter informações sobre fontes de recursos,
linhas de ação, tipos de atividades de qualquer natureza que pretenda realizar no Brasil, o
modo de utilização de seus recursos, o processo de contratação, os nomes e qualificações
de seus dirigentes e seus representantes, e quaisquer outras informações que sejam
consideradas relevantes para a avaliação de seus objetivos. O Estado vai avaliar os
objetivos dessas organizações. O que é isso? Cadê o princípio constitucional da liberdade?
Então esse não é um cadastro democrático, é um cadastro que tem como objetivo avaliar
os nossos objetivos.

29
Depois, quando se fala: somente poderão ser beneficiadas de fomento governamental
através de convênio as que estiverem cadastradas. O artigo terceiro diz que todas deverão
ser inscritas. E fala das Oscips. Uma interpretação possível é que só de uma organização
ser isenta, obriga a ser Oscip, a não ser aquelas tituladas como de utilidade pública, que
tem o registro do CNAS, qualificação como organização social ou entidade de apoio.

Por exemplo, as que têm o título de utilidade pública federal devem todos os anos mandar
para o Ministério da Justiça o relatório, o balanço, a prestação de contas. O Ministério da
Justiça não tem estrutura nenhuma para analisar essa documentação. Recebe aquilo por
um controle burocrático. Entregou, está OK. Mas para que fazem isso, qual é o real objetivo
de fazer isso, mesmo as que não acessam recursos públicos. Se o projeto de lei for
aprovado esses controles burocráticos serão duplicados.

E para encerrar, pegando um pouco isso que o Silvio coloca. A característica dessas
organizações que atuam mais na defesa de direitos, na construção de novos direitos, da
cidadania, na ampliação dos espaços públicos, de desenvolver novas metodologias, de
trazer para o debate novos temas, é uma característica muito nossa. Porque muitas vezes
o Estado e a sociedade de um modo geral não estão nem atentos a isso. Uma das funções
nossas é justamente ser quase um laboratório dessas questões para desenvolver um
intenso conhecimento, toda uma metodologia para que isso se torne política pública.

Alguns dos programas que hoje estão incorporados como uma política pública pelo Estado
nasceram das nossas experiências. Só que nós, as organizações, não temos e nem
queremos ter a amplitude e a capilaridade que o Estado tem, nós não queremos substituir
Estado, nós não queremos um Estado fraco. O nosso objetivo é fortalecer os processos
democráticos e para isso precisa ter uma sociedade civil organizada, forte, autônoma e
independente do Estado e de partidos.

O cerne da questão, e para mim é muito preocupante como este debate é realizado, tanto
na imprensa como no próprio Congresso, talvez pelas questões políticas e todas as outras
que eu já disse aqui, o debate vem com a questão do controle, controle político. Eu me
preocupo quando se criam títulos para o Estado reconhecer, nós precisamos ter o
reconhecimento do Estado? Eu acho que tem algumas questões que colocam uma
complexidade que volta a pergunta: é possível pensarmos um Marco Legal? Obrigado!

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