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A QUESTÃO DE EROS NA FILOSOFIA DO CUIDADO COM O CORPO
THE QUESTION OF EROS IN THE PHILOSOPHY OF CARE FOR THE BODY
LA CUESTIÓN DE EROS EN LA FILOSOFÍA DEL CUIDADO CON EL CUERPO

Enéas Rangel Teixeira1

1
Enfermeiro. Psicólogo. Doutor em Enfermagem. Pós-doutorando em Psicologia Clínica da Pontifícia Universidade Católica de
São Paulo. Professor Titular do Departamento de Enfermagem Médico-cirúrgica da Escola de Enfermagem Aurora de Afonso
Costa da Universidade Federal Fluminense. Rio de Janeiro, Brasil.

PALAVRAS-CHAVE: Enfer- RESUMO: Trata-se de uma reflexão teórica e filosófica, cujo objetivo foi refletir sobre a concepção do Eros
magem. Saúde. Filosofia. – que envolve o desejo, afetividade e a estética nas práticas de cuidado com o corpo. O trabalho constitui
uma síntese de reflexões provenientes de trabalhos que abarcam a subjetividade e a estética do cuidado.
Foram realizadas correlações entre as seguintes categorias: a sensibilidade, a estética, o relacional e a
transdisciplinaridade. Conclui-se que o enfoque estético aliado à ética, pode ser transformador, pois remete
ao sensível e à subjetividade, de modo a criar rupturas com antigos modelos dessubjetivados do cuidado.

K E Y WO R D S : N u r s i n g . ABSTRACT: This study is a theoretical-philosophical reflection whose objective is to examine the
Health. Philosophy. conception of Eros − which involves desire, affection, and aesthetics in the practice of care for the
body. This study consists of a synthesis of reflections derived from work that embrace subjectivity and
the aesthetics of care. Correlations were made among the following categories: sensibility, aesthetics,
relational, and transdisciplinarity. It is concluded that the aesthetic focus allied to ethics can be
transforming, for it reverts to the sensitive and to the subjective in such a way that creates ruptures with
outdated non-subjective models of care.

PALABRAS CLAVE: Enfer- RESUMEN: En el presente artículo se elabora una reflexión teórica y filosófica, cuyo objetivo principal
mería. Salud. Philosophy. fue reflexionar sobre el concepto de Eros − el cual envuelve el deseo, el afecto y la estética en las prácticas
del cuidado con el cuerpo. Este trabajo constituye una síntesis de algunas reflexiones provenientes de
trabajos que incluyen la subjetividad y la estética del cuidado. Fueron realizadas relaciones entre las
siguientes categorías: la sensibilidad, la estética, lo relacional y la transdisciplinariedad. Se pudo concluir
que el enfoque estético aunado a la ética puede ser transformador, ya que remite a lo sensible y a la
subjetividad, creando así rupturas con antiguos modelos desubjetivados del cuidado.

Endereço: Enéas Rangel Teixeira Reflexão teórica
R. Dr. Celestino, 74 Recebido em: 01/11/2006
24.020-091 - Centro, Niterói, RJ, Brasil. Aprovação final: 11/05/2007
E-mail: eneaspsi@hotmail.com

Texto Contexto Enferm, Florianópolis, 2006; 15 (Esp): 186-92.

que foi tra. que gerava paixões. Eros direto e indireto. A mulher. processos cognitivos do ocidente tiveram influência ligado amiúde a uma prática que separa os afetos dos do ascetismo grego e judaico cristão. fazendo assim de sua esposa. Há um desafio atual falar ameaçada por ela. um problema. nesse intercurso. sai vitoriosa. objetividade em filosofia. que permitem lidar com Eros sua própria flecha e se apaixona por Psique. Hoje esse nome é um tanto divul. O mito é marcas da sensibilidade e do desejo. o usava em prol de sua justiça e vingança. na Assim sendo. 15 (Esp): 186-92.1 foi o que aconteceu. Tem. que com o corpo na vida contemporânea. não freqüentemente. Diante do corrido. procuro enfocar determinados intenção dela se apaixonar por um monstro terrível. passa a se relacionar às paixões e ao desejo. isso não seria ancoraram esse processo de teorização. algo depurado. nesse analítica e pela psicanálise. pois carregava em si as humano. consideradas superiores às Para entender Eros precisamos voltar para a paixões e a sensibilidade. apesar da sua presença a uma deusa. Eros fisgava o coração jetividade capitalista e na construção dos processos – considerado na antiguidade como órgão do sentido cognitivos do ocidente. a dificuldade de lidar com a ele poderia se apaixonar e. um regozijo no Olimpo e Eros deixa de ser um “deus Objetiva-se refletir sobre a concepção do Eros – que moleque”. fica furiosa e submete Psique a várias provas que. realiza-se uma crítica da história de Eros. Não obstante. Numa certa cidade da antigui. de modo e da sensibilidade do ser. Eros emerge. mas não de saberes no território da saúde. desmobilizando as construções raciona- listas. que narra a vida dos deuses. devido a suas qualidades de beleza. saber filosófico ficou atrelado às atividades mentais dissociadas dos afetos.A questão de Eros na filosofia do cuidado com o corpo . de caráter defensivo. Eros leva Psique para o Olimpo e Trata-se de uma reflexão teórica e filosófica se casa com ela. .187 - CONSIDERAÇÕES INICIAIS final. portanto. como erotismo. surgir de modo análogo. se desenvolveu com qualidades especiais semelhantes Nesse sentido Eros foi negado. era discriminada e impedida de participar mento do mito possibilitar a compreensão do coração das atividades intelectuais. o conceito de Eros na filosofia Os princípios da incerteza. filho de Afrodite e de Zeus. que não se explica pelo valores na atualidade. mitologia Grega. Diante do mito. uma baseada nos estudos do Núcleo de pesquisa em deusa. que gerando mal estar. o conceito da rela. erótico. conteúdos emergentes dos estudos da subjetividade Entretanto. Era considerado um deus temido no Olimpo. Com efeito.3 De modo conseqüente. Isso. uma “natureza” imortal. porque Apesar das mudanças sócio-históricas. doenças e situações desagradáveis. Diante disso. almeja-se descrever uma breve Nessa perspectiva. tividade na ciência e os diferentes níveis de realidade à dimensão sensível. pode rativa dessa mitologia. ou seja. que excluiu a sensibilidade. devido ao conheci. é afetividade da efetividade do trabalho. 2 de cuidado com o corpo. afetividade e a estética nas práticas o nome de prazer. dos não ditos de nossas vivências do cotidiano. no O trabalho constitui uma síntese de reflexões pro- Texto Contexto Enferm. que tudo o que se referira ao desejo. pois quem era flechado por Por conseguinte. desde que o homem não criasse balhado nessa produção contínua de subjetivações conflitos entre a razão e a sensibilidade. contexto. gostaria de destacar uma nar. propagam-se nas ações de cuidado era sujeito à sua mãe Afrodite. Eros se acidenta com e da biologia amorosa. a deusa mãe envia Eros para a terra. pois à medida que a sensi- Nesse contexto. por dimensão sensível encontra reforço na própria sub- alguém que não era benquisto. que desvinculou Eros é representado por um deus menino. muitos pensadores e inclusive concederam subsí- dios ideológicos ao capitalismo3. Afrodite no processo cognitivo e no cuidado com o corpo. Com o casamento de Eros com psique ocorre subjetividades e cuidado com o corpo na saúde. ou seja. dade nasce uma menina com o nome de Psique. amam e às paixões deveriam ser controladas pela razão. Não obstante. nasce um filho com envolve o desejo. Tais ressonâncias. bem como os dramas e paixões. que sobrevive ao longo da história. Florianópolis. desses fala de essência do humano. eles perduraram através de racionalismo. se emocionam. Da relação dos dois. tendo em vista que os gado pelo senso comum. O mito é considerado um arquétipo. de modo que o efeitos. A busca da mitologia para compreender os modo que uma vida sem sensualidade era preconi- fenômenos humanos já é realizada pela psicologia zada por essa corrente estoicista. as ações do deus destruidor. para se vingar de Psique. de odeiam. ternura e feminilidade. Afrodite se sentiu constante na vida humana. a deusa do amor. 2006. bilidade não é trabalhada no processo de cuidar. à sensibilidade e mesmo sendo imortais.

de suas qualidades e ações. da interação entre os so de cuidar constitui uma realidade que precisa ser sujeitos e da construção da vida em sociedade está trabalhada. tivo. o gosto. compreensão. o sensível se refere ao que corpo. que é uma prática de cuidado institucionalizado. A sensibilidade. “o cuidado prática de cuidado em termos de relações humanas. dado amplo da vida humana e discorrer sobre tais crítica e transformadora. o relacional e O cuidado tem potencialidade de mudança a transdisciplinaridade. no sentido que trata da subjetividade permeia o indivíduo. família. a reciprocidade. Há de se convir que a dimensão sensível do A partir deste panorama filosófico. financeira e não só libidinal. Nessa perspectiva. estéticas. que do corpo. que implica em investimento afetivo corpo vivo. a de respeito. como um componente da vida humana. do componente estético do cuidado. e investimento de capital. mas no sentido desse cui. sensações e produções teóricas. sensível. é banhado pelos devires políticos. que tem uma base amorosa. O sentir no proces- A base da vida social. Trabalhos de pesquisas timentos e a ecologia no cuidado. pação com o outro. sentimentos positivos no outro. estar-se-á provoca sentimentos. . éticos e estéticos.7:101 É evidente que o cuidado processa-se por meio do contato. motiva a buscar a novidade.6 Assim. seguindo os fluxos dos devires. constitui um desafio. o paradigma ético e estético com o outro. outro e dos grupos sociais. considera-se que a abordagem e amoroso do cuidado. relacionado com a interação. a estética. que redimensiona as práticas de cuidados diretos Esta dimensão amorosa do cuidado humano é e indiretos com o corpo. desejos e aspirações. toque e amor”. é uma condição biológica. Teixeira ER veniente de trabalhos que abarcam a subjetividade tempo. Esta abordagem abre tratada na enfermagem. É sociedade e a ecologia e está cada vez mais apre- importante ser solidário e afetuoso. de fato. a preocu. realizam-se correla. processo de contato com o pensamento. trabalhar no território estético éticas. sendo envolve o sensível. Isto implica numa A SENSIBILIDADE E A ESTÉTICA educação crítica dos conceitos e ações. cuidado. o Enquanto adjetivo. por exemplo. tal atitude traz à tona uma outra abordagem humana. o valor da vida. para não se molestar e nem lesar o outro. sabores. envolve as dimensões amorosas. enquanto atitudes hostis podem levar a reações defensivas e agressivas. no amor.. cializar as ações e com as subjetividades envolvidas nas habilidades. da constrói os grupos sociais. ções entre a sensibilidade. Com efeito. cuidado lida com as emoções no sentido de poten- mensão sensível do cuidado e suas subjetividades. respeito. tindo afetivamente em si mesmo. com certa propriedade. em conhecer nossas cionado aos sentidos. mas que também trabalhe com as emoções envolvidas no Pretende-se discorrer sobre o aspecto sensível processo. nesse campo.8 “A potência Texto Contexto Enferm. o qual é necessário para medicina dos órgãos para uma visão vitalista de um manter a vida. tanto ternos. pode-se falar. como algo genuíno da espécie Enfim.188 . para se cuidar. trabalho e novas tecnologias. psíquico e estético. quando esta destaca o resga. 2006. afe. considerada secundária a outras modalidades do gos. o cuidado do outro envolve uma questão amorosa A dimensão estética do cuidado não pode ser quando se parte de um grupo natural. com suas vertentes Realmente. está rela. e ação transformadora. quanto hostis. tais como a percepção das atitudes. da aproximação Nesse sentido. Assim. o sentimento e a ação. margem para a criatividade. gera envolve os saberes e as práticas de cuidado. mas ao mesmo sentando ressonância na atualidade. ambiente. a palavra. Por isto. pois segundo a sociedade capitalista.4 em condição de permitir a emersão do sensível que Uma ação acolhedora e simpática. com enfermeiras demonstram que elas trazem à neste sentido. distinguindo-se da visão mecanicista. O sensível. O cuidado. vem contribuir de modo eficaz para a tona a base amorosa da enfermagem. ajuda. Florianópolis. 15 (Esp): 186-92. movimentos e intuições. afeto e solidariedade. mas é uma outra forma de competência. grupos solidário entre outros. enquanto substantivo.5 Como. pessoas. o acolhimento e a ex- intrínseca ao ser humano. cada vez que o pressividade inerentes e implicados no cuidado do sujeito investe no outro. discute-se a di. atravessamentos na enfermagem. está indiretamente inves. precisa-se saber lidar com essa afetividade e a estética do cuidado. O estético. que implica. Isto passa por um cores. da subjetividade permite tal possibilidade. ami. pois essa forma de cuidar é essencial para a vida. evidentemente. técnicas e científicas. os sen- te do humano no cuidado. mas ao mesmo tempo. implica uma economia Destarte.

não constitui um de uma estética que envolve a combinação criativa “cuidado natural”. que muitos anseiem imitar os artistas do corpo. ao afeto. ego narcísica. possui tempo e aspectos distintos e nem sempre acompanhado de espaço circunscrito e os limites são impostos pela uma ética O cuidado estético no sentido geral é doença. da eterna juventude. pois o sujeito pode interferir no meio toricidade e a subjetividade de cada um. de conhecer considerado belo. algo que convém desconfiar. portanto. de cuidado com o corpo recebem constantes influ- Nessa perspectiva. num aspecto Portanto. 2006. ecológica que fala da vida em toda sua potenciali. o sujeito pode dispor de recursos financeiros sentido amplo.189 - estética de sentir. atual. é tendo isso em mente A dimensão expressiva.10 na qual A subjetividade não está restrita ao indivíduo. em nome e o meio no sujeito. não é um termo unívoco. que emana dos grupos humanos. por isso deve ser atraente. ticipação de uma subjetivação original do sujeito. do gosto como algo a ultrapassar. eugênica. esbelto. que se pode compreender a dificuldade que existe foi deixada de lado. das diversidades do ser. a estética tem com o corpo. haja vista que o padrão estético cientificamente. onde esse tipo de estética substitui a ética. e da saúde como componente da felicidade humana. inclusive como condição para se obter geralmente num limite de tempo para o sujeito. o que evidentemente implica em coletivas. mentos não se configura numa gradação de uma instância sobre outra. Esse panorama estético faz parte do contexto atual da O RELACIONAL sociedade ego-narcísica. Amiúde. de Eros Contudo. ainda não está incluída no campo da saúde. embora igual em direito às outras da vida. É evidente que. até Os sujeitos que são cuidados não apresentam porque lidamos com os limites e as possibilidades graus de parentescos e nem vínculos afetivos “na- turais” A relação de cuidado não é formada. apresenta seus limites no território da saúde. tudo que se refere à sensibilidade. a estética do cuidado com a vida e no cuidado.11 Mas é necessário ter dis- cernimento sobre qual estética se está falando. na perspectiva da ética do desejo. em detrimento de uma prática para os intelectuais. Mas ao mesmo tempo. ao imaginário permanecerá sempre dessa dimensão é possível falar do desejo. como o que é considerado feio e o que é – potências de pensar filosoficamente. No entanto.9:203 estética permitem a discussão do sensível. Em razão enquanto as práticas de cuidados com a vida. 15 (Esp): 186-92. no sentido de ser produzido dentro de parâmetros técnicos e científicos. da sociedade do espetáculo. o território e o conjunto das instâncias e sem manchas. no disso. a relação entre esses ele- maior consumo. sem ruga cuidados. Florianópolis. A dimensão arte na saúde e a base filosófica da pensarem todas as suas conseqüências”. pois a partir emoção. Assim. modo crítico e criativo. que merecem estudos e pesquisas. Isto quer dizer que não se Todavia. de modo efetivo e afetivo. à viável a dimensão estética no cuidado.A questão de Eros na filosofia do cuidado com o corpo . Mas eu quero dizer que é dade.9 “Assim. o corpo deve ser explorado ao máximo para obter mas envolve os sujeitos que cuidam. mas artificial. nesse Texto Contexto Enferm. atendendo à lógica de mercado. e as ressonâncias. são realizadas pelo cliente de modo e até mesmo se submeter a sacrifício para obter um mais intenso e contínuo. formados nessa tradição. como parte da sensibilidade. O cuidado de enfermagem se desenvolve considerado. envolvendo de modo que se cria o desejo mimético fazendo com evidentemente a sensibilidade. as práticas corpo belo e aparentemente desejável. algo que nos atrai para a terra. de nossa época”. . produzido humanos e o processo de viver se fragilizam e fogem nas circunstâncias institucionais. a de tecnicista e racionalista. envolvendo as transversalidades de manter a eterna juventude. sem a par. os laços O cuidado direto ou indireto. de corpos no seio dos agenciamentos coletivos de enunciação magros.8:130 A estética comprometida com a ética da vida. de agir politicamente − talvez valorizado é o da vertente da estética que remete à esteja em vias de ocupar uma posição privilegiada sociedade do espetáculo. sem a afetividade. beleza. o modelo apresentado pela ências da cultura e do modo de vida globalizada sociedade capitalista midiática é do corpo do atleta. certamente. de modo a ser aceito e valorizado. os que são prazer. imitarem a vasta temática ecologia e. de efetivo. urge trabalhar com a estética. O sensível pode soar como um estranho para que suplanta a diagnose e as terapêuticas nosoco- os racionalistas desvinculados de uma abordagem miais. esse eugenismo e narcisismo. e do cuidado. pois tende a negar a his. geram preconiza uma forma determinista do agir humano mal-estar no sujeito atual.

os toques. que não se pode esquecer a alienação e os transtornos Todavia.. É importante considerar o ambiente a personalidade de quem cuida também. se nas atitudes e expressões do profissional é captada existir uma afetividade. É evidente mentos. de modo a melhorar o conforto e a quali- precisa ser mais estudada e trabalhada no cotidiano. quando as condições da saúde estão em jogo. Esse O ambiente tem seu efeito estético e ecológico processo é utilizado com recurso terapêutico na psi. neutralidade ou “frieza” no tratamento. a realização rada pela ética. percepções. Os sujeitos que são cuidados contexto da saúde tende a ignorar o sujeito que fala querem viver. trago uma compreensão são essenciais. as técnicas. Mas mesmo nas práticas circunscritas pelas agradável e interativo. os olhares. predicados cores. no qual a empatia. Essa sociologia sensível. cuidado mas se for numa relação terapêutica com- tos e expectativas para o cuidador e vice-versa e mui. os odores. mesmo estando fragilizado pela que precisam ser transformados. a ecologia. extraíram esse componente humano de proximi. . preensiva. que são oriundos da psicologia e da modo que se trabalhe com a subjetividade. O cliente também pode não gostar do Toda pessoa que é cuidada transfere sentimen. de modo que. que abarca os seres vivos mo exacerbado e a produção em série do cuidado. a relação precisa ser terapêutica e nesse ambiente. mais ainda. si mesmo e pensar como se aprende a conhecer e Nesse sentido. se preocu- de seu contexto. como algo vivo. o estético implicações humanas na relação. Enfim. de parentesco. de causas e efeitos. os nossos pensa- função de promover. A relação. temos a conhecimento. O tecnicis. se favorece a terapêutica do ações instrumentais de cuidado. tratado. trazem algo que falam que os Chamãs e os Pajés possuíam. Mas mesmo se tratando de ações artificiais. é necessário via. as dade. existem as cuidado. um prazer de cuidar bem. humanos. no pro- a compreensão e as atitudes de promoção da saúde cesso das ações de saúde. atual implica em entender as transversalidades que Texto Contexto Enferm. formação. Com efeito. não neuróticos que distorcem o desejo de vida humana. interativo. existentes e seus processos culturais e sociais. podemos colocar conjuntas sobre o processo de ensinar/cuidar. significa que se trata de uma relação de amizade. que emanam cuidado eficaz. Teixeira ER sentido.190 . científicas. tentando desacreditá-lo. Destarte. o sujeito precisa ser cuidado. 2006. já produz para a qualidade de vida de quem cuida e de quem efeito na relação do cuidado. Ao invés de nos limitarmos a uma perspectiva norteado pela ética de cuidado. linear ou multifatorial. Desse modo. sentimentos estão condicio- que o sujeito pode aceitar ou recusar esses cuidados. dade de vida de quem é atendido e de quem trabalha Com efeito. nados aos antigos modelos de atenção em saúde. pois é cognoscente. precisamos nos conhecer em nas relações familiares.6 Por conseguinte. Assim. Toda. O poder relacional no no contexto da saúde. 15 (Esp): 186-92. e metabolizada pelo cliente. por vínculos afetivos. tais como se observa Certamente. que é obviamente ampa. os recursos técnicos e transdisciplinar dos saberes relacionados à arte do a personalidade do enfermeiro estão em jogo no cuidar. Mas desenvolve-se um laço afetivo terapêutico. para favorecer a compreensão maneira de perceber instiga cada um a voltar para desse aparente paradoxo. prevenir e cuidar. que repercutem no bem-estar o processo transferencial de quem é cuidado pode das pessoas que são tratadas e que também trabalham ser positivo ou negativo. confiança e aliança terapêutica. e nem que temos que A TRANSDISCIPLINARIDADE atender às demandas de cunho neurótico do sujei- to. implicado na saúde. amorosas e solidárias. Nesse caso. nossas singularidades e. mesmo aprender conhecer como ocorre o processo de estando consciente ou inconsciente. pensar o cuidado em saúde progresso terapêutico. técnicas. Quem cuida pode gostar ou não gostar do Por mais técnico que o sujeito seja. e essa motivação que se expressa pode ser bem efetivado no seu sentido amplo. tal situação emerge e cuidado. toda relação que envolve seres como isso se processa. dos antigos modelos é necessário realizar reflexões padronizadas. por dizer que a relação é afetiva. do sensível. e o cuidado só entra em cena. de alguns aspectos. Isso quer dizer que uma aparente e prazer no trabalho são importantes e necessários. Para se deslocar doença. pode modificar sua percepção e trans- tos desses sentimentos evolvem questões psíquicas. dentre outras. Claro nomeá-lo como problema ou doença. buscam a qualidade de vida. é cuidado. Quando se cria um ambiente coterapia. podendo pam com sua imagem corporal e uma estética. do gosto. apresenta implicações psicoafetivas. Florianópolis. mais uma vez. existe uma gratificação de um conscientes e inconscientes do sujeito.

rias binárias de oposição por uma unidade aberta. A biologia amorosa e relacional inclui a A transdisciplinaridade transgride as catego. Neste sentido.12 A cista e o modelo capitalista que separa a afetividade transdisciplinaridade permite a compreensão das da efetividade. na perspectiva trans- A pluralidade das coisas e a diversidade moti. emerge o trans.191 - envolvem esse processo. nas de saúde e áreas afins. é imprescindível um trabalho transdiscipli- trans. disciplinar. tendem a ignorar a dimensão de transversalidades que envolvem os processos huma. mecanicista e dessubjetivado. não teria mais razão de perenes produzidas sobre o corpo. que transcultural. nidade traz à tona a dimensão sensível e vitalista que atravessa. a guerra entre as culturas. é tolerante e com. Florianópolis. que vai além. precisa-se refletir inclusive sobre a impo. ritório das práticas de saúde institucionalizada. O deradas atitudes transdisciplinares: rigor. Eros nas relações e atenção em saúde. pois representa tona esse corpo do desejo. abertura e corpo expressa os efeitos das subjetivações criadas tolerância. o corpo não é mais mecânico. como únicas e verdadeiras para o sujeito cliente/grupo e entre os próprios integrantes do ter- encontrar a felicidade. a complexidade da vida. e terapêuticas. no entanto. para qual um dos imperativos é saúde e nos seus níveis de atenção. quanto nas práticas populares. que inclua os cuidados com plexo. a perspectiva transdisciplinar toritário. é um Texto Contexto Enferm. em dissonância com as conquistas sociais. A transdisciplinaridade tem dimensões: no contexto social e por sua vez o coletivo é cons- política. que desemboca no trans-religioso. é tolerante e complexo. ameaça cada vez mais Nas perspectivas transdisciplinares e da complexidade. que se insere no mundo uma regressão ética. de modo que esse O objeto da transdisciplinaridade é a compreensão enfoque favorece um trabalho contextualizado na do mundo presente. procura trazer à também devem ser combatidas. que vai além. 15 (Esp): 186-92. . Conseqüente- a “unidade” do conhecimento. junto com a efetividade. a junção da categoria afetividade respeito àquilo que está ao mesmo tempo entre as dis. subjetividade e uma concepção de corpo vitalista. energético e desejante diferente do corpo da medi- que envolve o ser humano e o universo. a pós-moder- nos e não humanos. Com efeito. tendo em vista que existem diferentes olhares institucionalizada. 2006. mesmo nas práticas oficiais cismo – dificulta a criação de espaços para trabalhar de saúde. compreendendo as A transdisciplinaridade é.A questão de Eros na filosofia do cuidado com o corpo . A construção do saber. Uma atitude hegemônica aliada ao poder au. os quais nesse território.15 num processo dinâmico e relacional. da mídia. o prefixo “trans” diz de. olhar nos cuidados com o corpo. Embora a tradição filosófica de cunho estoi- plinaridade sempre é a pesquisa disciplinar. newtoniano-cartesiano na saúde − da visão organicista plinar. A finalidade da pluri e da interdisci. Assim. da religião e de outros elementos de relações humanas e não humanas. cina dos órgãos. emerge o mente. A aderência ainda eficaz da matriz do modelo O campo da saúde é por si mesmo transdisci. São consi. o qual envolve uma teia de da cultura.12-13 Assim. tal sição de saberes e práticas verticalizadas sobre a perspectiva elimina a sensibilidade nas relações com população. Conseqüentemente. pode ser apropriada pelos profissionais vam a romperem fronteiras e permitir passagens. ressonâncias na malha social. bem como as mutações presente em nossa época. bem como formas de tratamentos e realçam o racionalismo. na arte de cuidar. que destaca o aspecto psíquico. o corpo em sua complexidade. através delas e além de qualquer disciplina. da pluridisciplinaridade e da interdisciplinarida- de. pois tenta dominar as demais da linguagem e constrói para si o que se chama de profissões da saúde em suas dimensões cuidadoras saúde ou o que se chama de doença. tais como as ser”. o mecani- cuidados com o corpo. num processo dinâmico e relacional. distinta possibilidades e limites desse território.12:139 Vê-se que esse é um caminho para entender intervenções das instituições de saúde. por sua finalidade: a compreensão do mundo CONSIDERAÇÕES FINAIS presente. Desse com a subjetividade. “Através do tituído por uma rede de produções subjetivas. contribui para um novo ciplinas. diferentes níveis de realidade. impossível de ser inscrita na pesquisa disciplinar. de modo a realçar a subjetivi- quais diferentes conceitos e devires possam transitar dade em suas ações específicas nos cuidados em saú- nesse processo de criação. o modelo produtivo atual. ecológica e trans-religiosa. que atravessa. com a pluralidades das coisas e modo. nar nas ações de saúde. Neste sentido. envolvem a economia política e libidinal. a dessubjetivação.

organizadora. Florianópolis. Eros é compreendido como o amoroso e o sensível 15 Teixeira ER. que interage de modo dinâmico dimensão instigante na pós-modernidade. corpo íntegro ou não. Cuidado humano: o resgate como por exemplo. Conclui-se que o enfoque estético aliado à 11 Teixeira ER. O cuidado con. (RJ): Ed. . Porto Alegre (RS): Sagra Luzzatto. Belo Horizonte (MG): Ed. Reflexões sobre a crise do da vida humana que para existir precisa ser culti. Através São Paulo (SP): TRIOM. da vida em grupo e em sociedade. Essa ética pode nortear a estética na 6 Maturana HR. ações humanas. Rio de Janeiro (RJ): Record e para as ações cuidadoras. em saúde no ensino universitário de enfermagem: uma perspectiva transdisciplinar. Psicanálise e contexto cultural: imaginário que engloba a historicidade do ser. São Paulo é preciso sensibilidade e uma ética norteadora das (SP): Palas Athena. Conseqüentemente. Lidar com o estético de Eros e Psique. Varela FJ. Isso remete ao gosto de 8 Guatarri F.192 . 14 (1): 89-95. vívio humano. para ter senso estético as bases biológicas da compreensão humana. REFERÊNCIAS ceptam por um processo caosmótico) descola-se do esteio realista positivista. ampliando seu campo perceptivo para a vida objetividade em filosofia. Eros e os processos cognitivos: uma crítica da sujeito. das ações de cuidados pode-se produzir a estética da 13 Domingues I. além psicologia feminina. É uma estética 10 Costa JF. favorecendo que o sujeito se reencante transdisciplinaridade. O manifesto da transdisciplinaridade. Tavares CMM. A dimensão sensível abre caminho para o com. 34. organizador. Teixeira ER corpo que sofre metamorfose. da nosografia biomédica 1 Teixeira ER. 1996. com o exercício da arte de cuidar. Rio de Janeiro (RJ): do sensível e do ético. Conhecimento e existência. 1996. SHE: a chave do entendimento da ponente artístico e sinaliza que a enfermagem. (RJ): Vozes. Caosmose: um novo paradigma estético. cuidado passe a ser confortável e o sujeito encontre 9 Maffesoli M. sível e à subjetividade. grupos e psicoterapia. 2001. no processo de criação de práticas e saberes. que são indicativos do con. de modo que o Rio de Janeiro (RJ): Ed. vida e morte. independente como ela se apresenta para ser cuidada. UFMG/IEAT. 2001. da sensibilidade no cuidado com o corpo. 1997 Set-Dez. cuidado de enfermagem. 2001. É no campo estético que é possível falar do 2a ed. Belo Horizonte (MG): Ed. 1996. imbricado de desejo vado Os saberes e práticas precisam lidar com essa e subjetividade. sua subjetividade. com o social. 12 Nicolescu B. 1989. pode contribuir para potencializar os sentidos do 3 Schott R. 6 (3): 271-90. Belo Horizonte (MG): Ed. Conhecimento e temporâneo envolve a afetividade e a efetividade transdisciplinaridade II: aspectos metodológicos. desejo. ve a lógica da realização do desejo. 2001. EdUFRJ. necessário. pois remete ao sen. Produções de subjetividades do cuidado e da lógica do necessário para o campo do gosto. 2005. psicanalítico. E o 5 Maturana HR. 15 (Esp): 186-92. de modo a criar rupturas 2005 Jan-Mar. paradigma científico na enfermagem. possui uma estética. 7 Waldow VR. O ético e o estético nas relações de ética pode ser transformador. organizador. 2 Johnson RA. 14 Domingues I. com antigos modelos dessubjetivados do cuidado. comprometida com as vidas humanas. 4 Lalande A.. No fundo das aparências. ciência e vida enfermagem. Varela FJ. o cuidado com o corpo (real. 1993. Texto Contexto Enferm. Vocabulário técnico e crítico de filosofia. pela vida e conseqüentemente sinta-se confortável UFMG/IEAT. Rio de Janeiro a relação entre o dentro e o fora do corpo. UFMG. Rosa dos Tempos. idade. uma interpretação baseada no mito da técnica. A árvore do conhecimento: inverso também é verdadeiro. que envol. 2006. São Paulo (SP): Martins Fontes. simbólico e imaginário que se inter. 2006. saúde e doença. que é transversalizado por plurais devires. São Paulo (SP): Mercuryo. Texto Contexto Enferm. 1999. Enfim. 1993. Texto Contexto Enferm. Campus. procurar novas maneiras adaptativas. cotidiana. Cognição. Petrópolis uma estética do viver com boa qualidade.