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Traduzido de
CONSTRUCTION ECONOMICS: A NEW APPROACH, THIRD EDITION
Copyright © 2013 Danny Myers
All Rights Reserved. Authorised translation from the English language edition published by Routledge, a member of the Taylor & Francis
Group.
ISBN: 978-0-415-52779-8

Portuguese edition copyright © 2017 by


LTC — Livros Técnicos e Científicos Editora Ltda.
All rights reserved

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Ilustração de capa: Thinstock.com


Produção digital: Geethik

CIP-BRASIL. CATALOGAÇÃO NA PUBLICAÇÃO


SINDICATO NACIONAL DOS EDITORES DE LIVROS, RJ

M995e
3. ed.
Myers, Danny
Economia das construções: uma nova abordagem / Danny Myers ; tradução Bruno Barzellay Ferreira da Costa. - 3. ed. - Rio de Janeiro :
LTC, 2017.
il. ; 24 cm.

Tradução de: Construction economics: a new approach


Inclui bibliografia e índice
ISBN 978-85-216-3277-1

1. Engenharia civil. I. Título.

16-35239 CDD: 624


CDU: 624
Sumário

Lista de Tabelas e Figuras


Agradecimentos

Capítulo 1: Uma Introdução aos Conceitos Básicos


Leitura 1

Parte A Uso Eficiente dos Recursos


Capítulo 2: Sistemas Econômicos para Alocação de Recursos
Capítulo 3: Mecanismo de Mercado
Capítulo 4: Teoria da Demanda
Capítulo 5: Teoria da Oferta
Capítulo 6: Clientes e Empreiteiros
Capítulo 7: Custos das Empresas de Construção
Capítulo 8: Tipos de Estrutura de Mercado na Indústria da Construção
Leitura 2
Leitura 3

Parte B Proteção e Valorização do Meio Ambiente


Capítulo 9: Mercados para os Edifícios Verdes e Infraestrutura
Capítulo 10: Falha de Mercado e Intervenção Governamental
Capítulo 11: Economia Ambiental
Leitura 4

Parte C Crescimento Econômico que Atende às Necessidades de Todos


Capítulo 12: Gestão da Macroeconomia
Capítulo 13: Economia e Construção: Medição e Manipulação
Capítulo 14: Caso de Negócio: Inflação e Expectativas
Leitura 5

Capítulo 15: Construção Sustentável


Leitura 6

Glossário
Referências
LISTA DE TABELAS E FIGURAS

Tabelas
1.1 A indústria da construção — definição geral
1.2 Profissionais que tradicionalmente se envolvem em um projeto de construção
1.3 A indústria da construção — restritamente definida
1.4 Valor da produção da construção na Grã-Bretanha
1.5 Fontes de dados internacionais
1.6 Um breve guia para fontes oficiais de estatísticas do Reino Unido
1.7 Símbolos utilizados para comentar as estatísticas oficiais
3.1 Custos de transação que afetam a construção
4.1 Fatores que afetam a demanda pela casa própria
4.2 Fatores que afetam a demanda por imóveis alugados particularmente
4.3 Fatores que afetam a demanda por habitações sociais
4.4 Fatores que afetam a demanda por edificações industriais e comerciais
4.5 Fatores que afetam a demanda por infraestrutura e construções do setor público
4.6 Fatores que afetam a demanda por reformas e manutenção
4.7 Fatores que afetam a demanda de qualquer produto
5.1 Os cronogramas individuais e de oferta de mercado para uma indústria hipotética composta de três
empresas
5.2 Oferta na indústria da construção na Grã-Bretanha, 2010 (a preços correntes)
5.3 Mudanças nas condições de mercado
6.1 Empreiteiros envolvidos na construção
6.2 As vantagens da parceria
7.1 Rendimentos decrescentes: um caso hipotético na construção
7.2 Custos típicos de construção
7.3 Custos marginais e médios
7.4 Taxas de concentração das indústrias
8.1 Exemplo de manipulação de propostas
9.1 As características dos edifícios comerciais verdes
9.2 Exemplos de edifícios verdes no Reino Unido
9.3 Cinco princípios da habitação sustentável
9.4 Exemplos de produtividade dos recursos (Fatores quatro e cinco)
9.5 Benefícios dos métodos modernos de construção
9.6 Características internas para melhorar a produtividade
10.1 Políticas do governo para lidar com as falhas de mercado
10.2 Falha de mercado e intervenção governamental
11.1 Valores estatísticos da vida humana
11.2 Valor monetário dos serviços ambientais globais
11.3 Valores presentes de um real (R$) no futuro
12.1 Estatísticas macroeconômicas do Reino Unido
12.2 Previsões econômicas de 2012 a 2016
12.3 Funções da Unidade do Setor da Construção
13.1 Estatísticas macroeconômicas para as economias selecionadas
13.2 Avaliação da demanda agregada nos preços de mercado de 2010
13.3 Pegada ecológica das economias selecionadas
14.1 Taxas de inflação do Reino Unido
14.2 Resumo dos índices de inflação
15.1 Três interpretações do desenvolvimento sustentável
15.2 O que torna o desenvolvimento sustentável diferente?
15.3 Países que seguem uma agenda de construção sustentável
15.4 Três interpretações da construção sustentável
15.5 Fatores que contribuem para a construção sustentável
15.6 Relatórios do governo de 1998 a 2011

Figuras
1.1 O trade-off entre produtos militares e civis
1.2 Aumento da produção e a curva de possibilidades de produção
1.3 Um conjunto complexo de mercados para um projeto de construção
1.4 O modelo de fluxo circular: uma economia de dois setores
1.5 Modelo para a economia das construções: uma nova abordagem
2.1 Um espectro dos sistemas econômicos
2.2 O mecanismo de preços em ação
2.3 Os princípios gerais de uma economia centralmente planejada
2.4 Novos dados da construção 1955-2010 (Grã-Bretanha)
2.5 O trade-off entre equidade, eficiência e meio ambiente
3.1 Alocação de produtos e fatores via mecanismo de preços
3.2 Os eixos de um gráfico de oferta e demanda
3.3 Um gráfico simples de oferta e demanda
3.4 A determinação do preço de equilíbrio
3.5 Alterar as condições do mercado leva a um novo preço de equilíbrio
4.1 Curva de demanda de um mercado-padrão
4.2 Alteração em um determinante que independe do preço provocando uma mudança na demanda
4.3 Alteração no preço provocando um movimento ao longo de uma dada curva de demanda
5.1 A curva de oferta para uma empresa individual
5.2 Um deslocamento da curva de oferta
5.3 Oferta perfeitamente inelástica
5.4 Mudanças nas condições de mercado em três mercados
6.1 Iniciativa de financiamento privado
6.2 Ciclo de vida do projeto
7.1 Visão simplificada do lucro econômico e do lucro contábil
7.2a Uma função de produção
7.2b Rendimentos marginais decrescentes
7.3a Custos totais de produção
7.3b Custos fixos médios, custos variáveis médios, custos totais médios e custos marginais de produção
7.4a Tamanho preferencial da planta
7.4b Derivando a curva de custo médio de longo prazo
7.5 Economias e deseconomias de escala
7.6 Economias de escala no setor da construção
8.1 Curva de demanda para uma empresa individual em um mercado perfeitamente competitivo
8.2 Encontrando uma posição de maximização dos lucros
8.3 Equilíbrio perfeitamente competitivo de longo prazo
9.1 Análise do ciclo de vida de edificações e infraestruturas
10.1 Um espectro dos bens econômicos
10.2 Internalização dos custos externos
11.1 Meio ambiente: início e fim
11.2 O modelo de balanço de massa
11.3 Mundo vazio
11.4 Mundo cheio
11.5 O efeito econômico de um imposto sobre a poluição
12.1 Objetivos e políticas do governo
12.2 Flutuações de negócios
13.1 O fluxo circular de receita, produção e despesas
13.2 Modelo de fluxo circular com injeções e perdas
13.3 Curva de oferta agregada
13.4 Três cenários de pegada ecológica, 1960 a 2100
14.1 Cálculo de um índice de preços
14.2 Índices de custo da construção
14.3 Mercado monetário
14.4 Teoria das expectativas adaptativas
14.5 Espiral de preços e salários
14.6 Inflação nos preços dos imóveis no Reino Unido
14.7 Diagrama de teia de aranha demonstrando como os preços dos imóveis podem flutuar
15.1 Estágios de crescimento econômico de Rostow
15.2 As três vertentes da sustentabilidade
15.3 Rede de projetos de construção
15.4 Ciclo da culpa
AGRADECIMENTOS

Embora a capa do livro implique que este seja um trabalho só meu, ele não foi realizado sozinho. A equipe e os estudantes com
quem trabalhei deixaram sutil, mas não tão sutilmente, a sua marca. Em particular, a pesquisa realizada com Kevin Burnside,
um colega solidário, ao longo de vários anos, ajudou a melhorar a clareza do processo de licitação em uma indústria de
construção abalada pela crise financeira e a posterior recessão. Os frutos de nossa discussão devem ficar evidentes nos
Capítulos 7 e 8.
Tornar um manuscrito publicável não é uma tarefa fácil e isto não teria sido possível sem as habilidades de design gráfico,
e da paciência, de Chris Wade, que acrescentou algumas ilustrações novas a esta edição.
Uma grande preocupação desde o início foi a de criar um texto que fosse fácil de ler e usar. Este é um desafio nesta área de
conhecimento, e novamente foi um prazer ter sido apoiado pelas habilidades de edição de Paul Stirner. Sua linha de pesquisa
perceptiva, informativa e detalhada adicionou uma maior clareza e rigor ao texto, tornando todo o manuscrito o mais acessível
possível.
Finalmente, eu devo agradecer o apoio dos editores, em particular a Brian Guerin, que coordenou a equipe envolvida no
comissionamento da nova edição e em sua publicação, e você ficaria surpreso com o número de departamentos que isto
envolve.
Eu espero que você considere o produto final interessante e relativamente fácil de utilizar. Se quaisquer erros ou omissões
permanecerem, eu peço desculpas antecipadamente, e ficaria grato por correspondências que os tragam a meu conhecimento.
Aproveite o livro!
 
Danny Myers
Setembro, 2012
Material
Suplementar

Este livro conta com o seguinte material suplementar:

■ Ilustrações da obra em formato de apresentação (restrito a docentes).


 
 
O acesso aos materiais suplementares é gratuito. Basta que o leitor se cadastre em nosso site (www.grupogen.com.br), faça
seu login e clique em Ambiente de Aprendizagem, no menu superior do lado direito.

É rápido e fácil. Caso haja alguma mudança no sistema ou dificuldade de acesso, entre em contato conosco
(sac@grupogen.com.br).
Este livro foi escrito para estudantes de diversas especialidades: arquitetura, agrimensura, engenharia civil, engenharia
mecânica, engenharia estrutural; construção, projeto ou gestão imobiliária, empreendedorismo, manutenção e, até mesmo,
economia. Estudantes de economia podem achar possível pular algumas das análises-padrão, mas devem ser avisados que em
muitos aspectos a construção é bastante diferente de outros setores da economia. Um importante objetivo deste texto é destacar
estas distinções e esclarecer a natureza única da indústria. No Capítulo 1 começamos a esboçar as principais características das
empresas envolvidas no mercado da construção, introduzindo a complexidade do processo de construção e a diversidade das
atividades. Conforme o capítulo se desenvolve, você perceberá que existem diversas maneiras de descrever a indústria da
construção. A Tabela 1.1 identifica uma gama de atividades que podem ser incluídas em uma definição geral da indústria.
Diferentemente, a Tabela 1.2 divide o processo de construção em uma série de especialidades profissionais, enquanto a Tabela
1.3 esboça um sistema de classificação simples que define a indústria da construção apenas como empresas que somente
constroem e conservam edifícios e infraestruturas.

Tabela 1.1 A indústria da construção — definição geral

  Os principais fatores incluem:

Fornecedores de materiais básicos, como, por exemplo, cimento e tijolos

Fabricantes de máquinas que fornecem equipamentos utilizados no canteiro de obras,


como guindastes e escavadeiras

Fabricantes de componentes construtivos, como janelas e portas

Profissionais de campo que instalam os componentes e materiais

Gerentes de projeto e fiscais que coordenam todo o processo de construção

Projetistas e arquitetos que desenham e planejam novos projetos

Gerentes de instalações que administram e conservam o patrimônio

Fornecedores de produtos e serviços complementares como transporte, distribuição,


demolição, venda e limpeza

Fonte: Adaptada de Manseau e Seaden (2001: 3-4).

O objetivo do texto é demonstrar que, por trás do processo construtivo, da concepção à demolição, há muita economia
envolvida. Como disciplina, a economia não deveria estar unicamente relacionada com a avaliação dos custos. O assunto é
muito mais abrangente, e esta obra apresenta vários ramos da teoria econômica. Estes foram selecionados para fornecer novas
percepções acerca do desempenho das empresas de construção e uma maior compreensão da necessidade de uma abordagem
mais holística se a indústria quiser contribuir para uma economia eficiente e sustentável no futuro. Estas ideias econômicas
devem levar em consideração o trabalho de todos os profissionais interessados na construção e manutenção de edifícios e de
infraestrutura — e, em particular, a forma como eles pensam.
A próxima seção esclarece alguns dos conceitos-chave utilizados pelos economistas. Mais esclarecimentos são fornecidos
no glossário ao final do livro, em que todos os termos econômicos destacados no texto e outras ideias e conceitos relevantes à
economia das construções estão definidos.

INTRODUÇÃO À ECONOMIA DAS CONSTRUÇÕES


A economia das construções — assim como a economia pura, o seu equivalente convencional — está preocupada com a
alocação de recursos escassos. Isto é muito mais complexo do que parece à primeira vista. Muitos dos recursos mundiais
(fatores de produção como terrenos, mão de obra, recursos financeiros e empresas) são limitados, porém as pessoas têm
necessidades infinitas. Estamos, portanto, enfrentando um problema em duas frentes: a todo o momento existe um estoque fixo
de recursos, que se contrapõe a muitas necessidades. Este problema é formalmente denominado escassez. Em uma tentativa
de mitigar este problema, os economistas argumentam que as pessoas devem fazer escolhas cuidadosas — escolhas sobre o que
é feito, como é feito e para quem é feito; ou, em termos de construção, escolhas sobre quais investimentos são feitos, como estes
são construídos e em favor de quem. De fato, em seu nível mais simples, economia é ‘a ciência da escolha’.
Assim, quando uma escolha é feita, alguma outra coisa que também é desejada tem que ser renunciada. Em outras
palavras, em um mundo de escassez, para cada necessidade satisfeita, algum outro desejo, ou desejos, permanece insatisfeito.
Escolher alguma coisa requer inevitavelmente que se desista de outra. Uma oportunidade foi perdida ou renunciada. Para
destacar este dilema, os economistas referem-se ao conceito de custo de oportunidade. Uma definição de custo de
oportunidade é:
o valor da alternativa renunciada pela escolha de uma atividade específica.
Uma vez que tenha compreendido este conceito econômico básico, você começará a entender como os economistas
pensam — o que eles pensam sobre crianças repartindo seu tempo entre jogos diferentes; governos que determinam como seus
orçamentos serão gastos; e empresas de construção decidindo com quais projetos devem prosseguir. Em resumo, custos de
oportunidade permitem que valores relativos sejam aplicados a todos os recursos utilizados.
Esta forma de pensar enfatiza que sempre que uma decisão econômica é tomada, há um trade-off* entre o uso de um
recurso por um ou mais usos alternativos. Do ponto de vista econômico, o valor de um trade-off é o ‘custo real’ — ou custo de
oportunidade — da decisão. Isto pode ser demonstrado a partir da análise do custo de oportunidade de ler este livro. Vamos
supor que você tem no máximo quatro horas por semana para estudar apenas dois tópicos — economia das construções e
tecnologia das construções. Quanto mais você estuda economia das construções, maior será o seu nível de conhecimento para
este tópico; quanto mais você estuda tecnologia das construções, maior será o seu nível de conhecimento neste tema. Existe um
trade-off entre passar uma hora a mais lendo este livro e passar esta hora estudando tecnologia das construções. Neste exemplo,
há uma taxa de trade-off fixa. Na prática, entretanto, algumas pessoas se adaptam melhor a alguns assuntos que as outras, e a
mesma coisa pode ser aplicada aos recursos. Como regra geral, portanto, recursos raramente são igualmente adaptáveis a
projetos alternativos.
Na construção, ou em qualquer outro setor econômico, é raro encontrar uma taxa de custo de oportunidade constante, na
qual cada unidade de produção pode ser diretamente adaptada a um uso alternativo. É muito mais comum, em decisões trade-off
de negócios, ver cada unidade de produção adicional custar mais em alternativas renunciadas do que em unidades produzidas
anteriormente. Esta regra é formalmente designada como a lei dos custos de oportunidade crescentes. A regra é ilustrada
com o argumento das ‘armas ou manteiga’ — esse argumento afirma que, em qualquer momento, uma nação pode ter mais
produtos militares (armas) ou mais produtos civis (manteiga) — mas não em proporções iguais. Por exemplo, considere a
situação hipotética na qual todos os recursos em primeiro lugar são dedicados à produção de produtos civis, e a produção de
produtos militares é zero. Se iniciarmos a produção de produtos militares, a primeira produção irá aumentar de forma
relativamente rápida, já que seria possível encontrar alguns engenheiros que poderiam facilmente produzir produtos militares e
sua produtividade pode ser considerada aproximadamente a mesma em ambos os setores. Eventualmente, entretanto, caso não
tenhamos o talento necessário, pode ser preciso transferir trabalhadores manuais agrícolas empregados na colheita de batatas
para produzir produtos militares — assim, suas habilidades estarão relativamente mal-ajustadas a essa nova tarefa. Podemos
achar necessário utilizar 50 trabalhadores manuais para obter o mesmo crescimento na produção de produtos militares que nós
alcançaríamos contratando um engenheiro para as primeiras unidades de produtos militares. Assim, o custo de oportunidade de
uma unidade adicional de produtos militares será maior quando usamos recursos inapropriados para a tarefa. Usando recursos
inadequados, o custo aumenta na medida em que tentamos produzir mais e mais produtos militares e menos e menos produtos
civis.
A lei dos custos de oportunidade crescentes é mais fácil de explicar utilizando-se a curva de possibilidades de
produção. Utilizando estas curvas, é possível indicar a quantidade máxima de produção que pode ser obtida a partir de uma
quantidade constante de recursos. Na Figura 1.1 apresentamos um trade-off hipotético entre unidades de produtos militares e
civis produzidos por ano. Se nenhum produto civil é produzido, todos os recursos seriam utilizados na produção de produtos
militares e, no outro extremo, se nenhum produto militar é produzido, todos os recursos seriam utilizados na produção de
produtos civis. Os pontos A e F na Figura 1.1 representam estas duas posições extremas. Os pontos B, C, D e E representam
outras várias combinações possíveis. Se estes pontos estão conectados por uma curva suave, a curva de possibilidades de
produção da sociedade é obtida, e demonstra o trade-off entre a produção de produtos militares e civis. Esses trade-offs ocorrem
sobre a curva de possibilidades de produção. A curva está arqueada para fora, para refletir a lei dos custos de oportunidade
crescentes. Se o trade-off é igual, unidade por unidade, a curva não se arquearia para fora, ela seria simplesmente uma linha
reta. Outras observações interessantes decorrentes da curva de possibilidades de produção são indicadas pelos pontos G e H. O
ponto G encontra-se fora da curva de possibilidades de produção e é inatingível no presente momento, mas representa um
objetivo para o futuro. O ponto H, por outro lado, encontra-se dentro da curva de possibilidades de produção e é, portanto,
alcançável, porém representa um uso ineficiente dos recursos disponíveis.

Figura 1.1 O trade-off entre produtos militares e civis


Os pontos A a F representam as várias combinações de produtos militares e civis que podem ser alcançadas. Conectando
os pontos com uma linha suave cria-se a curva de possibilidades de produção. O ponto G encontra-se fora da curva de
possibilidades de produção e é inatingível no presente momento; o ponto H representa o uso ineficiente de recursos no
presente momento.

Há uma série de suposições subjacentes à curva de possibilidades de produção. A primeira se relaciona com o fato de nos
referirmos à produção possível em uma base anual. Em outras palavras, especificamos um período de tempo durante o qual a
produção acontece. Na segunda, presumimos que os recursos são constantes durante todo este período de tempo. Para entender
completamente o que significa uma quantidade constante de recursos, considere as duas listas a seguir, que apresentam (a)
fatores que influenciam as horas de trabalho disponíveis para se trabalhar e (b) fatores que influenciam a produtividade, ou a
produção por unidade de insumo.

FATORES QUE INFLUENCIAM AS HORAS DE TRABALHO DISPONÍVEIS PARA SE


TRABALHAR
O número de horas de trabalho disponíveis para se trabalhar depende da natureza dos recursos humanos na sociedade. Isto é
determinado por três fatores:
• o número de pessoas economicamente ativas que compõem a força de trabalho — isto depende do tamanho da população e de
sua estrutura etária, visto que crianças e pessoas aposentadas são economicamente inativas
• a porcentagem da força de trabalho que opta por trabalhar
• costumes predominantes e tradições (como comprimento típico da semana de trabalho, número de feriados etc.).

FATORES QUE INFLUENCIAM A PRODUTIVIDADE


Existe uma série de fatores que influenciam a produtividade de uma economia ou setor da economia:
• a quantidade e a qualidade dos recursos naturais e artificiais
• a qualidade e a extensão da educação e do treinamento da força de trabalho
• os níveis de expectativa, motivação e bem-estar
• o compromisso com a pesquisa e o desenvolvimento.
A terceira e última suposição feita quando traçamos a curva de possibilidades de produção é que um uso eficiente está sendo
feito de todos os recursos disponíveis. Em outras palavras, a sociedade não pode, no momento, ser mais produtiva com a
presente quantidade e qualidade de seus recursos. (O conceito de eficiência é examinado mais cautelosamente nos Capítulos 2,
5, 6, 7 e 8.)
De acordo com diversos relatórios do governo (Egan,* 1998; NAO,** 2001, 2005 e 2007; Cabinet Office, 2011), dados os
níveis existentes de recursos na construção seria possível aumentar a produtividade em pelo menos 10%. Em outras palavras,
uma curva de possibilidades de produção representando todas as atividades de construção poderia ser empurrada para a direita,
como mostrado na Figura 1.2. Vários tipos comuns de problemas são identificados como a causa principal desta ineficiência.
Primeiro, a indústria demonstra um registro de condições de segurança ruim e uma incapacidade de recrutar bons profissionais.
Segundo, parece que não há uma cultura existente de aprender com projetos anteriores, e não há uma estrutura de carreira
organizada para desenvolver qualidades de supervisão e gestão. Terceiro, há uma preocupação acerca dos baixos níveis de
investimento em pesquisa e desenvolvimento, o que reduz a habilidade de a indústria inovar e aprender com práticas melhores.
O quarto, e possivelmente o mais preocupante problema, é o fato de que a tecnologia (no sentido de TI, inovação, pré-
fabricação e montagem fora do canteiro) não é utilizada suficientemente no setor da construção.
Outro cenário plausível proposto pela abordagem da curva de possibilidades de produção é que a indústria da construção
atualmente estaria trabalhando dentro dos limites da sua curva de produção (ou seja, o ponto A na Figura 1.2). Neste caso, um
aumento na produção poderia ser alcançado simplesmente por meio de uma maior eficiência. Restrições de fornecimento
precisam ser reduzidas, os problemas identificados pelos relatórios do governo, resolvidos, e os fatores comumente
reconhecidos para aumentar a produtividade (listados anteriormente) devem ser direcionados para alcançar todo o potencial da
indústria. Ambos os cenários estão apresentados na Figura 1.2 e sustentam a ideia de que o nível de produtividade na indústria
da construção precisa melhorar.
Em termos gerais, portanto, o estudo da economia (e economia das construções) se preocupa em fazer uso eficiente de
recursos limitados para maximizar a produção e satisfazer o maior número possível de necessidades. Em suma, a base do tema
gira em torno dos conceitos de escolha, escassez e custo de oportunidade.

Figura 1.2 Aumento da produção e a curva de possibilidades de produção


Neste gráfico apresentamos dois cenários: (a) a melhoria da produtividade desloca a curva de possibilidades de produção
inteira para o exterior, ao longo do tempo; (b) a produção pode ser alcançada mais eficientemente movendo-se a curva de
possibilidades de produção para uma posição de potencial total.
Na sociedade moderna, a economia está envolvida em todas as atividades levando à produção de produtos e serviços.
Consequentemente, uma gama de especialidades tem derivado da economia principal, como a economia dos transportes,
economia da saúde, economia empresarial, economia financeira, economia agrícola, economia do trabalho, economia
internacional e, ainda, economia ecológica. Por isso não é particularmente surpreendente que muitos estudantes no século XXI
tenham uma disciplina chamada economia das construções como parte dos seus cursos de graduação. O surpreendente,
entretanto, é que outros cursos não têm uma especialização econômica similarmente evoluída. Por exemplo, estudantes dos
cursos de culinária, educação física, jornalismo, marketing ou computação não são beneficiados com uma gama de literatura
especializada em economia.
As razões geralmente indicadas para justificar que a construção tenha sua própria economia especializada são explicadas
pelo tamanho da indústria, sua profunda contribuição para o padrão de vida da nação e por seus produtos de características
únicas. Colocando-se de forma muito simples, a indústria tem cinco qualidades distintas.
• A natureza física do produto é grande, pesada e cara.
• A indústria da construção é dominada por um grande número de empresas relativamente pequenas, espalhadas por uma vasta
área geográfica.
• A demanda por atividades dentro da indústria é diretamente determinada pelo estado geral da economia como um todo.
• O método de determinação de preço é extraordinariamente complexo devido ao processo de orçamentação realizado em vários
estágios.
• A maioria dos projetos pode ser considerada ‘descartável’, já que geralmente há alguma qualidade que os torna de certa forma
únicos.
Essas qualidades, por si sós, têm justificado o grande número de publicações acadêmicas dedicadas ao tema. Em 1974, foi
publicada a primeira edição da obra Economic Theory and the Construction Industry (Teoria Econômica e a Indústria da
Construção), da autora Patricia Hillebrandt. Subsequentemente, vários outros títulos têm aparecido — para mais detalhes,
consulte a seção Referências, no final do livro — em particular a obra em dois volumes, de coautoria de Ive e Gruneberg
(2000), e o volume editado por Gerard de Valence (2011). Em 1982, Construction Management and Economics (Gestão da
Construção e Economia), uma revista especializada de referência, começou a apresentar relatórios sobre pesquisas, contribuindo
para o novo tema. Essa revista é impressa mensalmente, e mais de 1800 artigos já foram publicados; muitos deles, inclusive,
foram usados para apoiar esta obra. Entre esses artigos, alguns trechos foram selecionados como estudos de caso para consolidar
as três partes deste livro. Outra revista acadêmica relevante é a Building Research and Information (Pesquisa e Informação da
Construção Civil). Esta tem um foco interdisciplinar, com ligações feitas entre os ambientes construído, natural, social e
econômico. Por conseguinte, muitos de seus artigos contribuem para nosso entendimento da maneira como as construções e a
infraestrutura impactam na ecologia, nos recursos, na mudança de temperatura e no desenvolvimento sustentável; vários
exemplos são citados apropriadamente como referências.
Ao lado desses desenvolvimentos acadêmicos, também houve uma sucessão de relatórios do governo investigando os
problemas da indústria da construção civil (por exemplo, consulte Latham,* 1994; Egan, 1998; National Audit Office, 2001;
Fairclough, 2002; HM Government,** 2008; IGT,*** 2010; Cabinet Office, 2011). Esses relatórios destacaram a ineficiência
causada pela grande escala e pela complexidade da indústria da construção. Uma recomendação recorrente é a necessidade de
que o processo construtivo seja observado de uma forma holística por uma equipe multidisciplinar. Isto mostra que a construção
extrai conhecimento de diversas áreas, e uma área importante, porém menosprezada, é a economia. De fato, é muito comum que
projetos estourem o orçamento e sejam entregues fora do prazo, com desrespeito geral pelo cliente. Claramente não deve ser
aceitável que projetos de construção falhem com relação a custo, a prazo ou a expectativas do cliente. Um estudo oficial feito
pelo Professor Flyvbjerg (2003: 16-26) em 258 dos maiores projetos de infraestrutura de transportes públicos construídos na
Europa, nos Estados Unidos, no Japão, e em países em desenvolvimento entre 1927 e 1998, sugere que os custos médios se
excederam em aproximadamente 30 %, prazos são estendidos por até 10 anos, e o nível esperado de demanda não consegue
cumprir as metas em cerca de 40 %. Preocupantemente, as dimensões de custo, prazo e qualidade continuam sendo
problemáticas até os dias de hoje.
Cada um dos textos relacionados com a economia das construções publicados até hoje transmite uma ênfase ligeiramente
diferente. Por exemplo, Hillebrandt (1974, 2000) define a economia das construções como a aplicação da economia ao estudo
da empresa de construção, do processo construtivo e da indústria da construção. Enquanto a preferência de Ive e Gruneberg
(2000: xxiii) é por uma abordagem um pouco menos ortodoxa, adaptando os modelos econômicos tradicionais para capturar
circunstâncias locais, ainda que isto signifique perder a capacidade de generalizar sobre a economia em geral. Como resultado,
não há um consenso conceitual coerente sobre o que constitui a natureza precisa da economia das construções. Como George
Ofori (1994: 304) concluiu, sem rodeios, em sua inspiradora análise sobre o tema: ‘A economia das construções não pode ser
considerada uma disciplina acadêmica de boa-fé. Falta-lhe uma indicação clara de suas principais preocupações e conteúdos.’
Uma situação que De Valence (2011: 1) sugere existir até hoje.
O propósito deste texto é abordar essa falta de consenso e discutir um vocabulário econômico coerente. O ponto crucial do
argumento para esta nova abordagem é a crescente importância de estratégias que objetivam alcançar a construção
sustentável. Em outras palavras, há um crescente reconhecimento de que a indústria contribui de forma importante para o
bem-estar econômico, social e ambiental de um país.

INTRODUÇÃO À CONSTRUÇÃO SUSTENTÁVEL


O governo britânico publicou sua primeira estratégia para a construção sustentável, Building a Better Quality of Life
(Construindo uma Qualidade de Vida Melhor), em abril de 2000. Este documento teve como objetivo fornecer um catalisador
para uma mudança na abordagem dos processos construtivos. Subsequentemente, ele foi revisado e estendido, e Strategy for
Sustainable Construction (Estratégia para a Construção Sustentável), publicado em junho de 2008, expõe a situação atual no
Reino Unido. Agendas semelhantes têm surgido na Europa, América do Norte e em alguns países em desenvolvimento
(consulte o Capítulo 15 para uma discussão mais aprofundada). A construção sustentável pode ser descrita, em termos simples,
• pelo uso eficiente dos recursos;
• pela proteção efetiva do meio ambiente;
• pelo crescimento econômico;
• pelo progresso social que atende às necessidades de todos.
Cada um desses itens é sustentado por conceitos econômicos, os quais fornecem o fundamento lógico para este livro.
Parte A Uso eficiente dos recursos
Esta seção trata da microeconomia e descreve os vários meios de alocar recursos eficientemente entre finalidades
concorrentes. O foco principal está nos determinantes da oferta e demanda por infraestrutura, habitação, edifícios
industriais, propriedades comerciais e manutenção.
Parte B Proteção e valorização do meio ambiente
Esta seção considera falhas do sistema de mercado, utilizando vários conceitos econômicos ambientais e ferramentas para
encorajar futuros membros da indústria da construção a avaliar projetos não só por critérios financeiros.
Parte C Crescimento econômico que atende às necessidades de todos
Esta seção incorpora uma cobertura do cenário macroeconômico mais amplo e descreve os vários objetivos do governo que
precisam ser alcançados junto à construção sustentável. Destaca também a dificuldade de gerenciar uma economia e a
necessidade de que os profissionais que trabalham na indústria da construção adquiram um vocabulário econômico.
Pontos-Chave 1.1
A indústria da construção pode ser descrita de diversas maneiras — por exemplo, reveja a ampla gama de
atividades listadas na Tabela 1.1.
A construção tem cinco características distintas: (a) cada projeto é considerado um produto único e
descartável; (b) a indústria é dominada por um grande número de empresas relativamente pequenas; (c) o
estado geral da economia influencia a demanda; (d) os preços são determinados por concorrência; e (e) os
projetos são caracterizados por sua ‘protuberância’ em termos de escala e custos.
As bases da economia giram em torno dos conceitos de escolha, escassez e custos de oportunidade. Assim,
a economia é o estudo de como fazemos escolhas.
O uso de qualquer recurso envolve um custo de oportunidade porque um uso alternativo é sacrificado.
A representação gráfica dos trade-offs que deve ser feita pode ser apresentada em uma curva de
possibilidades de produção.
A construção sustentável é uma estratégia com o objetivo de encorajar a indústria a (a) utilizar os recursos de
forma mais eficiente, (b) limitar o impacto ambiental causado por suas atividades, e (c) produzir edifícios e
infraestruturas que beneficiem a todos.

INTRODUÇÃO AO VOCABULÁRIO ECONÔMICO


A disciplina de economia emprega sua própria metodologia e linguagem específicas. Consequentemente, para os iniciantes é
necessário a princípio esclarecer alguns significados.

Recursos
Recursos podem ser definidos como os insumos utilizados na produção das coisas as quais desejamos. Economistas tendem a se
referir a esses recursos como fatores de produção para destacar o fato de que somente por meio da combinação de vários
fatores os produtos e os serviços podem ser produzidos. Os fatores de produção são, em geral, categorizados em três grupos
gerais, a saber: terreno, capital e mão de obra — e às vezes o empresário é identificado especificamente como uma quarta
entidade. O ponto é que quantidades de cada fator são necessárias para elaborar um produto ou serviço. Para construir edifícios
ou infraestruturas, por exemplo, mão de obra é necessária para desenvolver um lote de terreno, e instalações e equipamentos, os
quais podem ser alugados ou comprados, são necessários para facilitar o processo. Colocando de outra forma, terreno e mão de
obra são sempre combinados com recursos manufaturados de forma a produzir as coisas que desejamos. Os recursos
manufaturados são chamados de capital ou, mais precisamente, de capital físico, e consiste em máquinas e ferramentas.
A contribuição da mão de obra para o processo de produção pode ser incrementada. Sempre que os trabalhadores passam
por treinamento e aprendem novas habilidades sua contribuição para o rendimento da produção aumenta. Quando há este
aperfeiçoamento nos recursos humanos, dizemos que o capital humano foi melhorado. Um exemplo relevante é o efeito que
uma gerência bem treinada pode ter na eficiência de todo um projeto. De fato, de acordo com Hillebrandt (2000: 104), a
experiência em gestão é um dos recursos mais escassos da indústria da construção em todo o mundo.
A cada novo projeto de construção há uma escolha a ser feita sobre os materiais que serão utilizados e a proporção de mão
de obra, instalações e equipamentos necessários. Na maioria dos casos, a construção tende a ser dominada por custos de
insumos relativos a materiais, componentes e mão de obra. A importância do empresário, entretanto, não deve ser esquecida, já
que sem uma dedicada gestão dos recursos e a coordenação dos outros fatores de produção, praticamente nenhuma organização
empresarial poderia operar. Em outras palavras, um empresário às vezes é considerado um tipo especial de recurso humano
relacionado com a capacidade de tomar decisões de negócios, assumir riscos e promover a inovação. Em uma pequena
construtora, o gerente-proprietário seria o empresário; em uma sociedade anônima, os acionistas iriam assumir esta
responsabilidade. (Para uma discussão mais aprofundada acerca do papel do empresário, consulte o Capítulo 7.)
Cada fator de produção pode ser considerado como recebendo uma forma específica de rendimento. Um senhorio
proporcionando o uso de um terreno recebe um aluguel. Proprietários de capital físico (e monetário) são recompensados, direta
ou indiretamente, e recebem alguma forma de pagamento de juros para cobrir empréstimos. Trabalhadores recebem salários e
empresários obtêm lucro. A distribuição desses fatores de recompensa (fatores de renda) forma um importante ponto de foco
para os economistas clássicos. O trabalho de Ricardo (1817) sugeriu que as recompensas pagas ao senhorio agrícola
determinaram todos os outros pagamentos e isto inevitavelmente levou a uma tensão entre os interesses do senhorio e os dos
consumidores e fabricantes. Igualmente, Marx (1844) estava preocupado com as desigualdades que eram pagas à mão de obra,
alegando que eles estavam sendo explorados pelos proprietários do capital e da terra, como ele observou: um trabalhador não
pode completar sua renda com a renda da terra ou juros sobre o capital. Para fins introdutórios gerais, no entanto, o significado
de dividir os pagamentos de rendimentos recebidos em quatro conjuntos de recompensas ficará evidente quando considerarmos
a medição da renda nacional no Capítulo 13.

Sistemas de Mercado
O conceito de mercado é bastante abstrato, no sentido de que engloba os acordos de intercâmbio tanto de compradores quanto
de vendedores para determinado produto ou serviço. Consequentemente, podemos imaginar muitos mercados para materiais de
construção específicos, habitação, serviços profissionais etc. A característica recorrente de qualquer mercado é a troca de
informações sobre fatores como preço, qualidade e quantidade. A diferença, entretanto, entre um mercado e outro é o grau de
formalidade no qual ele funciona. O mercado de ações em qualquer economia ocidental, por exemplo, fornece informações
instantâneas em todo o mundo sobre os preços e quantidades de ações sendo compradas e vendidas durante o período de
negociação corrente. Em contrapartida, os mercados de construção são menos estruturados e mais informais, e, em geral,
determinados pela localização geográfica.
A indústria da construção está envolvida com a produção e manutenção de uma ampla variedade de edifícios e estruturas
duráveis, e como consequência existem diversos mercados de construção. Como Drew e Skitmore (1997: 470) concluíram em
sua análise dos mercados competitivos para construção: ‘A indústria da construção é altamente fragmentada, sendo o pequeno
empreiteiro a empresa dominante.’ O tipo de construção — particularmente em termos de seu tamanho e complexidade, sua
localização geográfica e a natureza do cliente — definirá o mercado em cada caso.
Vamos considerar com um pouco mais de detalhes o que acontece tradicionalmente quando um novo projeto começa. Em
geral, um empreiteiro encarrega-se de organizar, movimentar e reunir os vários insumos, e então, providencia um serviço de
preparação do local antes do início dos trabalhos, e depois disso a montagem e o gerenciamento do processo.
Subsequentemente, vários subempreiteiros adicionam seus serviços — como encanamento, pintura, revestimento, instalação de
vidros, cobertura, ou qualquer que seja o trabalho específico exigido. Como resultado, o típico processo projetivo pode
facilmente se tornar uma série de operações ‘independentes’ executadas por diferentes profissionais, conforme demonstrado na
Tabela 1.2.

Tabela 1.2 Profissionais que tradicionalmente se envolvem em um projeto de construção

Profissionais Envolvidos Responsabilidades

Fornece assessoria especializada no que diz respeito a


Arquitetos e Projetistas detalhes estruturais, instalações elétricas e mecânicas,
e paisagismo. Identifica as principais especificações.

Gerencia o projeto.

Gerente de Projeto
Faz a intermediação entre o cliente e a equipe de
construção.

Prepara planilhas de quantitativos, planilhas de custo


Consultor de Custos
etc.

Empreiteiro Gerencia o trabalho no canteiro de obras.

Subempreiteiros Fornece habilidades especiais.

Fornece materiais de construção e componentes


Fornecedores
relacionados.

O nível de concorrência para todo este trabalho depende da complexidade da construção (que até certo ponto será refletida
no custo por metro quadrado). A ideia de complexidade é particularmente importante em mercados de construção, uma vez que
determina o número de empresas interessadas em competir pelo serviço. Na maioria dos casos, as empresas não vão se
candidatar para o trabalho além de seus distritos locais, já que os custos de transporte de materiais, equipamentos e mão de obra
são relativamente altos. Viajar é desnecessário quando o mesmo tipo de serviço está disponível na vizinhança da empresa ou em
sua área de influência. Se, no entanto, o projeto de construção é muito complexo e/ou muito grande, os custos por metro
quadrado provavelmente vão aumentar e os custos referentes ao transporte vão diminuir em relação aos custos totais. A área de
influência para este trabalho altamente especializado irá se ampliar. A fórmula seguinte pode tornar isto mais claro:
complexidade + grandeza = empresas concorrentes de uma área geográfica mais ampla
O inverso desta regra explica por que os mercados de construção são frequentemente dominados por pequenas empresas
locais subcontratadas para trabalhar em suas cidades de origem ou próximo a elas. Realmente, apenas as maiores empresas
conseguem competir em nível nacional ou internacional. Os mercados na indústria da construção devem ser definidos, portanto,
como abrangendo as empresas que estão dispostas e aptas a competir por um contrato em uma área geográfica específica. Em
outras palavras, o número total de empresas interessadas em um trabalho de um tipo específico pode ser classificado como o
mercado local.
Na construção, os serviços de uma empresa são muitas vezes fáceis de substituir contratando-se outra empresa com o
mesmo tipo de especialidade. Na medida em que os preços nos mercados de construção frequentemente encontram o seu
próprio nível, a teoria por trás deste comportamento é examinada nos Capítulos 3 a 8. Para o momento, é suficiente entender
que o mercado da construção se refere a uma gama diversificada e ampla de atividades composta de diversos mercados. Para
enfatizar este ponto, considere o diagrama de fluxo demonstrado na Figura 1.3.

Figura 1.3 Um conjunto complexo de mercados para um projeto de construção


No diagrama de fluxo o projeto de construção é representado como uma sequência de etapas. Cada etapa é completada
por uma série de empresas que fornecem seus serviços.

Fonte: Adaptada de Turin (1975: 70).

EXEMPLO DE UM PROJETO DE CONSTRUÇÃO


Na Figura 1.3 representamos um conjunto de mercados que poderiam estar envolvidos na construção de um pequeno edifício
comercial. O processo de construção, desde sua concepção até sua conclusão, é apresentado para compor uma série de mercados
distintos. A conclusão de cada atividade, ou etapa, é a preocupação de várias empresas de construção que competem para
fornecer materiais, componentes, mão de obra etc. A Figura 1.3 destaca a quantidade de atividades fragmentadas envolvidas
apenas na conclusão de um pequeno prédio. Cada empresa independente, na realidade, está mais preocupada com a sua
contribuição específica do que com o projeto como um todo. Em muitos aspectos, o próximo projeto no setor de mercado da
empresa pode muito bem estar competindo por sua atenção, enquanto ela ainda está terminando o presente projeto.
Discutiremos as características da fragmentação e o pobre fluxo de informações resultante nos Capítulos 6 e 9,
respectivamente. Também identificamos essas questões como um problema a ser resolvido no Capítulo 15, no qual analisamos
atividades vagamente conectadas como uma barreira para alcançar a construção sustentável.

METODOLOGIA
O capítulo introdutório pretende explicar do que se trata a economia das construções. Portanto, além de identificar os conceitos
centrais, precisamos considerar os métodos empregados pelos economistas, como a abordagem adotada para uma disciplina que
também ajuda a especificar a natureza do tema. Em termos gerais, a economia é uma ciência social e tenta fazer uso dos
mesmos tipos de métodos que as outras ciências, como a biologia, a física e a química. Como estas outras ciências, a economia
usa modelos ou teorias.
Os modelos econômicos são representações simplificadas do mundo real que utilizamos para entender, explicar
e predizer fenômenos econômicos.
Esses modelos podem assumir várias formas, como afirmações verbais, tabelas numéricas e gráficos — e, em nível mais
avançado, equações matemáticas. Em sua maior parte, os modelos apresentados neste livro consistem em afirmações verbais e
gráficos.
Um desafio particular enfrentado pelos estudantes de economia das construções é que muitos dos processos na indústria
não permitem facilmente generalizações e modelos. Primeiro, a indústria da construção envolve uma ampla variedade de
interesses e profissionais que tornam o processo bastante complexo e atormentado com suposições não comprovadas sobre o
que é possível. Segundo, a análise econômica é somente uma das disciplinas que contribuem para o processo como um todo. E,
terceiro, há uma nítida falta de visão sobre o papel da construção na sociedade e como ela poderia melhor atender aos seus
clientes. Como o Professor Duccio Turin observou poeticamente:

O processo construtivo é um mundo de ‘como se’. É ‘como se’ o cliente soubesse o que queria quando encomendasse o
projeto a um projetista; é ‘como se’ o projetista estivesse em posição de aconselhar o cliente sobre o melhor custo-
benefício que ele poderia obter no mercado; é ‘como se’ os procedimentos contratuais fossem concebidos para garantir
que o cliente conseguisse o melhor negócio possível do profissional e do mercado; é ‘como se’ os fabricantes de
materiais de construção e componentes soubessem, previamente, o que é esperado deles e voltassem sua produção para
tal expectativa; é ‘como se’ o empreiteiro soubesse como seus recursos foram utilizados, estivesse em posição de
controlá-los e fosse capaz de usar esta experiência em seu próximo trabalho.
(Turin 1975: xi)

Apesar de esta síntese da indústria ter sido expressada há aproximadamente 40 anos, à medida que o texto se desenvolve
você irá notar uma semelhança impressionante entre aquela época e agora. É esta natureza complexa, fragmentada e
conservadora que dá apelo ao tema economia das construções — enquanto os economistas procuram desvendar estes tópicos
aparentemente desconexos de comportamento aleatório. Modelos econômicos buscam identificar as inter-relações entre as
principais variáveis e simplificar o que está acontecendo no setor. Assim, embora alguns modelos econômicos possam à
primeira vista parecer abstratos, eles realmente têm aplicações práticas. O ponto principal que estamos tentando esclarecer é que
um modelo econômico não pode ser considerado utópico simplesmente porque não representa cada detalhe do mundo real que
está procurando analisar. Se o modelo elucida as questões centrais a serem estudadas, então ele é válido. Por exemplo, os alunos
podem ter expectativa de começar o seu curso a partir do preenchimento de um exercício baseado em um modelo econômico
teórico da concorrência no mercado. Isto fornece uma simples introdução ao quadro econômico e a oportunidade de demonstrar
como a construção desvia ou reflete este ponto de referência. Em resumo, o modelo fornece um ponto de início que nos
permitirá prosseguir.
Seguindo as recomendações do relatório Fairclough (2002: 34), a indústria da construção deve favorecer modelos que
priorizem estratégias destinadas a aprimorar a sustentabilidade, a competitividade, a produtividade e os valores para os clientes.
Na Parte A, apresentamos modelos de comportamento de mercado que incentivam uma melhor compreensão do significado e
propósito de eficiência, concorrência e lucro. Na Parte C, introduzimos um modelo de agregação para estudar a operação de
toda a economia, que traz uma nova dimensão à produtividade, revendo a produção total da construção e refletindo sobre sua
contribuição para a produção total de uma economia. Na Parte B, trazemos o meio ambiente no modelo tradicional como uma
variável-chave para a construção e a economia considerarem. Quando todo o livro tiver sido estudado, identificaremos um
número significativo de conceitos que sustentam a compreensão da sustentabilidade.
Isto permite que a natureza e os detalhes dos modelos apareçam à medida que o livro se desenvolve e suas finalidades
devem tornar-se evidentes. Uma vez que tenhamos determinado que um modelo prevê um fenômeno do mundo real, a
abordagem científica requer que consideremos evidências para testar a utilidade do modelo. É por isso que a economia é
referida como uma ciência empírica — empírico significa que dados reais são coletados para confirmar que as nossas
suposições estão corretas.

Exemplo de um Modelo Econômico


Antes de encerrar esta seção sobre modelos, revisamos um exemplo específico para analisar e explicar como a renda flui em
torno de uma economia. Os economistas iniciam sua explicação ignorando o setor governamental, o setor financeiro e o setor
estrangeiro — ou seja, o modelo de fluxo circular representa uma economia em escala reduzida simplificada na qual se
considera que as relações existem somente entre os consumidores e as empresas.
Para tornar o modelo eficaz, presume-se que os consumidores vendem fatores de produção para as empresas e em troca
recebem rendimentos na forma de salários, juros, aluguéis e lucros. Isto é exposto na parte inferior da Figura 1.4. As empresas
vendem produtos acabados e serviços para os consumidores em troca de seu consumo. Isto é exposto na parte superior da Figura
1.4. Estas suposições são razoavelmente realísticas. As empresas produzirão somente o que elas podem vender. A produção
exigirá a compra de terrenos, mão de obra, capital e empreendimentos, e as quantias pagas por esses fatores de produção irão
gerar respectivos pagamentos de rendimentos.
Assim, sem considerar nenhuma das complicações do mundo real, começamos a compreender várias ideias ou pontos de
partida. Claramente, há uma estreita relação entre a renda de uma nação, sua produção e o nível de despesas, e isto será
investigado mais tarde no Capítulo 13. Além disso, podemos ver como o dinheiro permite que os consumidores ‘escolham’ os
produtos e serviços desejados, e isto será desenvolvido mais tarde nos Capítulos 2 a 5. O leitor perspicaz notará que o modelo
não inclui nenhuma referência ao meio ambiente e, como explicamos antes, este representa o conteúdo da Parte B. O modelo
também exclui explicitamente referências ao papel dos governos, economias estrangeiras e instituições financeiras, e estes
aspectos estão incluídos na Parte C. Novamente, podemos ver como o modelo nos permite progredir no tema.

Figura 1.4 O modelo de fluxo circular: uma economia de dois setores


Neste modelo simplificado há apenas consumidores e empresas. Produtos e serviços fluem em uma direção em troca de
dinheiro. Esta troca pode ser pensada como um fluxo circular.

O PAPEL DOS GOVERNOS E DAS INSTITUIÇÕES FINANCEIRAS


A importância da indústria da construção para o bem-estar geral da economia significa que a maioria dos governos está
interessada que este se torne um setor altamente eficiente. Como consequência, o papel do governo como cliente, regulador,
decisor político e um patrocinador da mudança é levantado em vários pontos ao longo do texto. Igualmente o papel do setor
financeiro faz uma importante contribuição para a gestão eficaz da economia e para o financiamento de projetos de construção.
Qualquer texto de economia que se preze deve fazer referência à crise financeira provocada pela crise de crédito de 2007 que
prejudicou economias em todo o mundo. Essa crise não está totalmente resolvida no momento em que este livro está sendo
escrito. Em outubro de 2010, Mervyn King, Diretor do Banco da Inglaterra, previu que as consequências dessa crise pairariam
sobre os mercados por muitos anos. Estes assuntos são discutidos ao longo da Parte C deste livro.

ECONOMIA AMBIENTAL
A efetiva proteção do meio ambiente é um elemento essencial de qualquer texto sobre sustentabilidade. Economia ambiental
é importante por diversas razões: primeiro, porque o meio ambiente tem um valor intrínseco que não deve ser esquecido;
segundo, porque a agenda de sustentabilidade amplia o horizonte de tempo de qualquer análise para assegurar a equidade entre
gerações; e, terceiro, as demandas devem ser vistas com base em sua vida útil, e isto é particularmente importante no contexto
de produtos que duram por mais de 30 anos. Qualquer modelo de análise que procura identificar princípios gerais de
desenvolvimento sustentável deve incluir, pelo menos, estas três dimensões. Exploramos essas questões e outros conceitos
relacionados na Parte B e os trazemos todos juntos no Capítulo 15, quando revisamos a possibilidade de atingir a agenda de
construção sustentável do governo.

Microeconomia e Macroeconomia
A economia é tipicamente dividida em dois tipos de análise: microeconomia e macroeconomia. Considere as definições
dos dois termos.
Microeconomia é o estudo da tomada de decisão individual tanto por pessoas físicas quanto por empresas.

Macroeconomia é o estudo dos fenômenos em toda a economia resultantes de tomadas de decisão em grupo em
mercados inteiros. Como tal, lida com a economia como um todo.
Uma forma de entender as diferenças entre essas duas abordagens é considerar alguns exemplos generalizados. A
microeconomia está interessada na determinação de como os preços surgem e se alteram, e a forma como as empresas
respondem a isso. Isto envolve o exame dos efeitos de novos impostos, a determinação do nível de produção que maximize os
lucros da empresa, e assim por diante. Em outras palavras, refere-se ao comportamento econômico dos indivíduos — como
clientes, empreiteiros, fiscais e engenheiros — em vários mercados. Estudamos esse tipo de análise na Parte A. Em contraste, as
questões relativas à taxa de inflação, à taxa de desemprego nacional, à taxa de crescimento de toda a economia e vários outros
assuntos da economia estão no domínio da análise macroeconômica. Em outras palavras, a macroeconomia lida com agregados*
ou totais, e isso forma a base dos três capítulos que compreendem a Parte C.
Você deve estar ciente, no entanto, da combinação de microeconomia e macroeconomia na teoria econômica moderna. Os
economistas modernos estão usando cada vez mais a análise microeconômica — o estudo da tomada de decisão por pessoas
físicas e por empresas — como a base para a análise macroeconômica. Eles fazem isso porque, apesar de os agregados estarem
sendo examinados na análise macroeconômica, estes agregados são constituídos das ações das pessoas físicas e empresas. O
estudo de qualquer indústria em específico envolve tanto a abordagem microeconômica quanto a macroeconômica;
particularmente quando a indústria é multiproduto e tem importância nacional e internacional.
Ao longo deste texto, a interação entre o setor da construção e os outros setores da economia é um ponto de referência
constante. Em alguns textos, uma abordagem setorial é referida como mesoeconômica, derivada da palavra grega mesos, que
significa intermediário. Isto é feito para deixar claro que o estudo de qualquer indústria ou setor específico inevitavelmente cai
entre as categorias microeconômicas e macroeconômicas convencionais. (Esses dois termos também são derivações gregas:
macros significa grande, e micros, pequeno.)
Consequentemente, para obter um entendimento abrangente da atividade de construção, é conveniente abranger três
perspectivas — uma visão ampla da economia, um estudo sobre o setor específico da indústria e uma microanálise detalhada
dos mercados individuais nos quais as empresas de construção operam. Estudar todo o texto, portanto, deve proporcionar uma
maior compreensão sobre ganhar e concluir projetos de uma forma eficiente e sustentável. A Figura 1.5 resume como esses três
elementos contribuem para o entendimento completo de um projeto. De muitas maneiras, ele modela a abordagem geral do
texto.

Figura 1.5 Modelo para a economia das construções: uma nova abordagem
Pontos-Chave 1.2
Precisamos utilizar os recursos escassos, como terreno, mão de obra, capital e empreendedorismo, para
produzir qualquer produto ou serviço econômico.
A troca de informações entre compradores e vendedores sobre fatores como preço, qualidade e quantidade
ocorre no mercado. A construção é composta de uma variada gama de mercados, enquanto a indústria
compreende um grande número de empresas relativamente pequenas.
Todo modelo econômico, ou teoria, é baseado em um conjunto de suposições. O quão realistas são essas
suposições não é tão importante quanto o quão eficaz elas tornam o modelo, ou a teoria.
Microeconomia envolve o estudo das tomadas de decisão individuais. Macroeconomia envolve o estudo dos
agregados. Mesoeconomia combina o território compartilhado pela microeconomia e pela macroeconomia
para estudar um setor específico como a construção.

INTRODUÇÃO ÀS ATIVIDADES DA INDÚSTRIA DA CONSTRUÇÃO


O sistema de classificação industrial utilizado para fins estatísticos e governamentais favorece uma definição restrita da
indústria da construção, que inclui somente empresas envolvidas com construção e engenharia civil. Esta categorização é
derivada da United Nations International Standard of Industrial Classification (ISIC — Norma Internacional de Classificação
Industrial das Nações Unidas). Existem também equivalentes norte-americanos e europeus: North American Industry
Classification System (NAICS — Sistema de Classificação Industrial Norte-Americano) e General Industrial Classification of
Economic Activities (Classificação Industrial Geral das Atividades Econômicas), também conhecida como NACE. Em outras
palavras, as empresas reconhecidas em geral como oficialmente compreendidas no setor da construção tendem a abranger uma
série de atividades ‘de campo’, incluindo aquelas relacionadas com infraestrutura, novas construções, reformas, manutenção e,
eventualmente, demolição. A Tabela 1.3 apresenta o tipo de trabalho classificado em vários desses setores, e a Tabela 1.4
fornece algumas indicações do valor monetário dessas diferentes atividades na Grã-Bretanha.
Como a Tabela 1.4 demonstra, reformas e manutenção são de grande importância e compreendem aproximadamente 40 %
da atividade anual total — isto inclui todo o trabalho dos setores público e privado executados em casas, infraestrutura e
edifícios comerciais. Também é evidente que departamentos governamentais e suas agências são clientes importantes da
indústria da construção. Como as Tabelas 1.3 e 1.4 sugerem, estatísticas oficiais frequentemente fazem uma distinção entre
atividades dos setores públicos e privados. O setor público inclui tudo o que é de propriedade e/ou financiado por governos
locais ou nacionais, como estradas, escolas, o Serviço Nacional de Saúde e centros de lazer locais. De fato, um exame atento das
tabelas revela que aproximadamente 30 % do volume de negócios da indústria da construção estão relacionados com clientes do
setor público. Obviamente, isto inclui uma vasta gama de contratos, variando em tamanho, desde R$ 40.000,00* para um
esquema de defesa contra pequenas inundações, até R$ 37,6 bilhões para as novas instalações e infraestrutura para o Parque
Olímpico no leste de Londres.
A porcentagem de obras do setor público no Reino Unido caiu consideravelmente desde 1980, visto que muitas atividades
tradicionalmente de domínio público foram privatizadas. Serviços e utilidades como gás, eletricidade, abastecimento de água,
telecomunicações e ferrovias eram atividades estatais anteriormente ‘puras’; hoje, são parcerias público-privadas, mas
‘regulamentadas’ e controladas por agências governamentais específicas. Isto significa que há um novo setor em expansão de
trabalho “regulamentado” do setor privado que depende das decisões do setor público antes de ser executado. Mais
recentemente, também tem sido dado ao setor privado maior papel no financiamento, construção e manutenção de instalações
públicas como hospitais, escolas, prisões e estradas. Nessas parcerias público-privadas, o setor privado organiza os fundos
e gerencia os riscos, enquanto o setor público especifica o nível do serviço exigido e detém os ativos — já que eles comumente
retornam à propriedade pública após 10, 15 ou 25 anos. Essas disposições ‘regulamentadas’ e ‘em parceria’ são explicadas nos
Capítulos 2 e 6, respectivamente. O ponto principal para os nossos propósitos é que as despesas com a construção de instalações
públicas são cada vez mais classificadas em dados oficiais como despesas do setor privado. (A Figura 2.4 apresenta a
distribuição do trabalho em todo o setor público e privado ao longo dos últimos 50 anos.)

Tabela 1.3 A indústria da construção — restritamente definida

Áreas de construção Exemplos de tipos de trabalho

Instalações hidráulicas e sanitárias

Energia

Infraestrutura Gás e eletricidade

Estradas

Aeroportos, portos, ferrovias

Setor público/associações de habitação


Habitação
Setor privado (novas propriedades)

Escolas, faculdades, universidades

Pública não residencial


Instalações de saúde, esportes e lazer e serviços
(polícia, bombeiros, prisões)

Fábricas

Industrial privada Depósitos

Refinarias de petróleo

Iniciativas de financiamento privado (e parcerias


público-privadas semelhantes)

Escolas/hospitais (com financiamentos privados)

Restaurantes, hotéis, bares


Comercial privada

Lojas

Edifícios-garagem

Escritórios
Acréscimos e conversões

Reformas e manutenção Reformas e remodelações

Manutenção planejada

Tabela 1.4 Valor da produção da construção na Grã-Bretanha

Valor da Produção (R$ milhões)


 
(Preços correntes)

Tipos de trabalho 2000 2005 2010

Infraestrutura 29.684 30.808 50.64

Habitação — pública 4.216 8.828 19.08

privada 36.800 80.448 57.124

Pública não residencial 15.304 33.116 56.816

Industrial privada 17.796 21.172 14.292

Comercial privada 73.696 104.256 93.248

Reformas e manutenção 106.62 157.708 166.52

Total (de todo o trabalho) 284.116 436.336 457.72

Fonte: Anuário Estatístico da Construção (ONS 2011a: Tabela 2.1).

Fontes de Dados Internacionais


Uma definição restrita da indústria da construção limita os dados estatísticos oficiais para as atividades ‘de campo’ das
empresas envolvidas com construção e infraestrutura. Como a Tabela 1.3 apresenta, esses dados são tipicamente separados em
construção residencial, comercial privada e construção industrial (ou seja, não residencial), infraestrutura (engenharia civil),
reformas e manutenção, e assim por diante. Em toda Europa é possível ver algumas tendências em comum. Somando exemplos
ao longo de 27 países europeus, 26 % da produção da construção é de reformas e manutenção, 19 % de construção residencial,
22 % de infraestrutura e 33 % não residencial (FIEC, 2012).
Uma alternativa moderna, no entanto, é ampliar a definição estatística e ir além dos limites restritos criados pela
classificação internacional, de forma a incluir todo o ciclo de vida da construção: projeto, produção, uso, gerenciamento das
instalações, demolição etc. De fato, o Relatório Pearce (2003)* argumentou que, para compreender totalmente a extensão do que
se entende por uma indústria sustentável, são necessários dados relacionados com o amplo escopo da produtividade da
construção, incluindo seus impactos sociais e ambientais. (A nova abordagem adotada neste texto vai ajudar a esclarecer as
constribuições que o setor faz a estes conceitos mais amplos.) Segundo Pearce (2003: 24), uma definição ampla deve incluir a
indústria de extração de matérias-primas, a fabricação e a comercialização de produtos de construção, e os serviços profissionais
relacionados, como os de arquitetos, engenheiros e gerentes de instalações. Por exemplo, uma análise detalhada dos dados
atuais disponíveis na Grã-Bretanha indica que além dos 1.200.000 empregados no tradicional setor da construção, existem
aproximadamente 450.000 engenheiros, arquitetos, gerentes de instalações e topógrafos licenciados fornecendo serviços
profissionais relacionados com construção, cerca de 650.000 empregados na fabricação de produtos e equipamentos para a
construção, 25.000 trabalhadores na extração de matérias-primas para fabricação de materiais de construção e outros 100.000
vendendo materiais de construção. Na realidade, esta abordagem mais ampla aumenta a importância da construção, já que o
tamanho da indústria praticamente dobra em termos de emprego e produção. As implicações do contraste entre as definições
ampla e restrita serão revisadas no Capítulo 13, no qual explicamos a mensuração da atividade econômica da indústria com mais
detalhes, e na leitura final, momento em que revemos o artigo de Squicciarini e Asikainen (2011) que aborda a incapacidade das
análises estatísticas em capturar o verdadeiro escopo e impacto da construção.
O Conselho Internacional para Pesquisa e Inovação na Construção (CIB) estabeleceu um projeto para analisar a totalidade
do amplo setor da construção e publicou seus resultados em 2004. A nova abordagem do sistema ampliado foi testada em nove
países e as conclusões do projeto confirmaram o fato de que o sistema construtivo como um todo parece ser mais ou menos o
dobro do tamanho do setor da construção tradicional (Carassus, 2004: 190). Por exemplo, no Canadá apurou-se que todo o
amplo setor da construção empregava aproximadamente 1.800.000 pessoas, das quais somente 900.000 trabalhavam no
tradicionalmente definido setor da construção. Similarmente, na França, apurou-se que todo o setor em uma definição ampla era
responsável pelo emprego de 2.358.000 pessoas, das quais 1.600.000 trabalhavam no campo como empreiteiros (Carassus,
2004: 45 e 78).

Tabela 1.5 Fontes de dados internacionais

Federação da Indústria Europeia da Construção (FIEC) www.fiec.org

A FIEC foi criada em 1905 para promover especificamente os interesses da indústria da construção em toda a
Europa. Atualmente, é composta por mais de 29 países e 34 federações nacionais. Eles representam 3,1 milhões
de empresas de construção, empregando um total de mais de 15 milhões de pessoas. Suas publicações incluem
Contruction Activity in Europe (Atividade de Construção na Europa), a qual fornece estatísticas detalhadas para
cada país-membro.

Divisão Estatística das Nações Unidas http://unstats.un.org/unsd/default.htm

Esta organização se empenha no avanço de um sistema estatístico global. Consequentemente, desenvolve


padrões e normas para atividades estatísticas, e apoia os esforços dos países para fortalecer seus sistemas
estatísticos nacionais. Conjuntos completos de dados podem ser acessados e variáveis macroeconômicas
individuais podem ser inspecionadas selecionando os países e anos de interesse.

Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico www.oecd.org


(OECD)

A OECD engloba 30 países-membros compartilhando um compromisso com a economia de mercado (em alguns
setores, o grupo é referido como o clube dos países ricos. Seus trabalhos abrangem questões econômicas e
sociais. As publicações incluem o The OECD Observer (O Observador OECD), uma revista que cobre vários
temas incluindo estatística e desenvolvimento sustentável, e uma série de Indicadores Econômicos Principais,
divididos por assunto (incluindo a construção) e por país.

Eurostat www.ec.europa.eu/eurostat

A Eurostat fornece à União Europeia um serviço de informação estatística de alta qualidade e coopera
estreitamente com outras organizações internacionais de dados (como as Nações Unidas e a OECD). O Eurostat
Yearbook (Anuário Eurostat) é publicado anualmente e apresenta uma ampla seleção de dados estatísticos
abrangendo áreas como mercado de trabalho, economia, comércio internacional, indústria, serviços e o meio
ambiente (está disponível gratuitamente online como arquivo pdf.)

Fontes de Dados do Reino Unido


No Reino Unido, os dados econômicos e da construção são coletados e publicados pelo Office for National Statistics
(Instituto Nacional de Estatísticas) — comumente referido como ONS. Seu website (www.ons.gov.uk) fornece uma ampla
gama de indicadores estatísticos e constitui o ponto de partida para se procurar por mais dados relacionados à sociedade, à
demografia e à economia do Reino Unido. O ONS é livre de influências políticas e seu papel consiste em fornecer uma base de
evidências para a política e tomadas de decisão. O Banco da Inglaterra e o Tesouro Público também são responsáveis por um
número significativo de publicações estatísticas relativas a finanças e ao clima econômico atual, e sua produção é
frequentemente apoiada por comentários de economistas do governo.

Tabela 1.6 Um breve guia para fontes oficiais de estatísticas do Reino Unido

UK National Accounts (Contas Nacionais do Reino Unido)

Esta publicação é normalmente conhecida pela cor de sua capa como o Livro Azul. Publicada anualmente no
outono pelo ONS, é considerada a mais importante fonte de dados para a macroeconomia do Reino Unido, uma
vez que fornece uma análise abrangente do PIB. Como outras publicações do ONS, as edições mais recentes se
tornaram mais amigáveis. Por exemplo, existem agora observações úteis explicando como interpretar as contas,
um índice de tópicos e um glossário de termos.

Economic & Labour Market Reviews (Análise dos Mercados de Trabalho e Econômico)

É uma publicação mensal que cobre questões relacionadas com a economia, com o mercado de trabalho e com
a inflação dos preços. Cada edição contém uma análise econômica atual, previsões independentes e uma
mistura de artigos sobre diversos aspectos de dados. Seu principal objetivo, entretanto, é fornecer uma porta de
entrada para acessar as publicações estatísticas atuais. O conteúdo sempre inclui algumas páginas de dados
principais mais um diretório de tabelas online, para destacar páginas do site do ONS atualizadas recentemente.
Grande parte dos dados da Parte C deste livro foi extraída dessa fonte.

Monthly Digest of Statistics (Resumo Mensal das Estatísticas)

Como o nome indica, é um amálgama de estatísticas; tem sido publicado mensalmente desde janeiro de 1946.
Cobre uma vasta gama de tópicos, incluindo economia e questões sociais e demográficas. Apresenta dados
sobre preços e balanços de pagamentos e de empregos.

Financial Statistics (Estatísticas Financeiras)

Publicação mensal do ONS relacionada com índices financeiros como taxas de juros, taxas de câmbio e formas
de pagamento. Desde 1997 as edições também apresentam dados relacionados com a inflação.

Bank of England Inflation Report (Relatório de Inflação do Banco da Inglaterra)

É publicado trimestralmente com o Quarterly Bulletin (Boletim Trimestral) do Banco da Inglaterra. O Relatório de
Inflação serve a uma proposta dupla. Primeiro, fornece uma revisão abrangente de índices especializados e um
comentário de suas previsões. Segundo, é a publicação oficial na qual as atas do comitê de política monetária
(descrito no Capítulo 12) são disponibilizadas para o público

Para a obtenção de informações específicas relacionadas com a construção, a principal fonte no Reino Unido é o
Construction Statistics Annual (Anuário Estatístico da Contrução). Uma nova edição é publicada todo ano por volta de agosto, e
pode ser visualizado integral e gratuitamente no site do ONS. A maioria das tabelas está disponível na forma de planilhas,
permitindo que as análises trimestrais sejam anualizadas facilmente. A publicação combina todas as estatísticas da construção
produzidas pelo governo local e central, com dados de uma pesquisa trimestral das empresas de construção do setor privado. Ela
também traz um apêndice que fornece observações detalhadas da metodologia e definições para esclarecer as tabelas e as
figuras. Em geral, fornece uma visão abrangente da indústria da construção no Reino Unido ao longo da última década, em
conjunto com algumas comparações internacionais. (Por exemplo, as referências aos setores da indústria na Tabela 1.3 e os
dados sobre o valor da produção mostrados na Tabela 1.4 derivam do Construction Statistics Annual.) Como na maioria dos
dados econômicos há sempre uma defasagem de tempo, a edição de 2011 só apresenta dados até 2010. Consequentemente, os
dados citados neste texto podem estar defasados antes mesmo de o livro ter sido impresso. É importante, portanto, que você
sinta-se confiante para pesquisar dados por si só, e este é um dos motivos pelos quais as fontes dos sites são fornecidas.

PESQUISANDO DADOS
Quando se utilizam estatísticas oficiais nacionais, em cópia impressa ou da Internet, é útil estar ciente das várias convenções
relativas à sua apresentação. Primeiro, os símbolos indicados na Tabela 1.7 representam um resumo das principais notas de
rodapé.

Tabela 1.7 Símbolos utilizados para comentar as estatísticas oficiais

•• Não disponível

- Nulo ou inferior à metade do último algarismo

P Provisório

R Revisado

Essas notas de qualificação deixam claro que estatísticas oficiais publicadas não podem ser mais do que uma estimativa.
Esta observação não está sendo feita para desacreditar tais estatísticas, mas para enfatizar que quaisquer erros ou omissões são
corrigidos o mais rápido possível — o objetivo final é produzir conjuntos de dados tão confiáveis e robustos quanto possível.
Segundo, algumas séries estatísticas não têm dados suficientemente consistentes para se referir ao Reino Unido como um
todo, e somente se referem à Grã-Bretanha ou são simplesmente restritos à Inglaterra, ao País de Gales, à Escócia ou à Irlanda
do Norte. Para dar apenas um exemplo, dados da produção da construção tendem a ser específicos à Grã-Bretanha. Também há
a possibilidade de o conjunto de dados só se referir a um trimestre — neste caso, pode ser necessário multiplicar os números por
quatro para conseguir uma aproximação para o ano todo. Por isso, tome muito cuidado ao ler os cabeçalhos e as notas de rodapé
que estão associados a cada tabela.
Valores relativos ao dinheiro podem ser expressos de três formas.
• O mais simples é representar a atividade econômica em termos de ‘valor nominal’ ou apenas de preços utilizados para
transações diárias. Tais medidas são referidas como preços correntes; um exemplo é apresentado na Tabela 1.4.
• Uma opção mais sofisticada é ajustar os valores para permitir a inflação, já que isso torna as comparações ao longo do tempo
mais significativas; tais ajustes são referidos como preços constantes, visto que eles são expressos em termos de um
ano-base específico. Como em um exemplo examinado na Figura 2.4, em que os níveis da atividade da construção ao
longo de um período de 50 anos podem ser comparados com segurança, uma vez que as distorções causadas por mudanças
nos valores ao longo do tempo foram removidas referenciando todos os preços ao ano de 2005.
• Dados de séries temporais também podem ser expressos em termos de númerosíndice — neste tipo de conjunto de dados,
para o ponto de partida (ou ano-base) é dado o valor de 100, o que permite que mudanças de porcentagem subsequentes
sejam rapidamente identificadas. Números-índice e exemplos de sua utilização são o tema do Capítulo 14.
Finalmente, ao analisar quaisquer dados de construção, deve-se sempre ter em mente que a indústria da construção (em
toda a Europa) compreende um número muito grande de pequenas empresas dispersas geograficamente, e isto faz com que seja
difícil para as agências governamentais monitorar a indústria para compilar conjuntos de dados completos. Além disso, ao lado
de todas as atividades oficiais ‘publicadas nos livros’ e registradas nas estatísticas nacionais, pode haver trabalho não oficial
executado por ‘dinheiro na mão’. Como consequência, as agências de dados em alguns países incluem um valor estimado para a
chamada ‘produção não registrada’. A relação entre o tamanho da economia oficial (formal) e seu equivalente não oficial
(informal) é discutida no Capítulo 13.

Pontos-Chave 1.3
A indústria da construção pode ser definida de muitas formas, mas seus impactos se estendem por toda a
economia.
Uma definição restrita da indústria da construção inclui a construção de edifícios, obras de infraestrutura,
reformas, manutenção e demolição. Exemplos das atividades são apresentados na Tabela 1.3.
Uma ampla definição da indústria da construção acrescenta à definição restrita a indústria de extração de
matérias-primas, a fabricação e venda de produtos de construção, e serviços profissionais relacionados.
Exemplos da ampla gama de atividades são expostos na Tabela 1.1.
O valor anual da produção da construção (expresso em preços correntes), na Grã-Bretanha, para a década
de 2000 a 2010, variou, de R$ 284 bilhões para R$ 456 bilhões.

Leitura 1

A análise de George Ofori da economia das construções se tornou um ponto de referência para aqueles que estão começando a
estudar o tema. De fato, Andrew Cooke (1996: 13) propôs ‘que todos os estudantes de economia em um campo relacionado
com a construção deveriam lê-lo pelo menos duas vezes — uma vez antes de embarcar em seus estudos e outra quando
estiverem prestes a concluí-los’. O seguinte resumo oferece a oportunidade de atender parcialmente a sua recomendação.
Infelizmente, como você verá, uma das principais preocupações de Ofori é que não há um verdadeiro consenso sobre a
definição exata de economia das construções. Contudo, desde que seu artigo foi escrito, o objetivo da construção sustentável
ganhou impulso e a importância de aperfeiçoar a eficiência da economia na indústria tem sido largamente debatida em vários
relatórios governamentais (por exemplo, Egan, 1998; HM Government, 2008; IGT, 2010). Isto levanta duas questões que
devem ser consideradas agora e à medida que o texto se desenvolve. Primeiro, quais são os principais obstáculos na definição de
economia? E, segundo, o desenvolvimento de uma agenda de sustentabilidade fornece o foco necessário para criar uma
abordagem mais coerente?
As questões que dizem respeito a cada uma das leituras são definidas para estimular o debate e uma maior exploração.
Aqueles interessados em buscar as duas primeiras questões devem ver o artigo de De Valence (2006), no qual, em cinco
páginas, ele consegue discutir os problemas de classificação dos limites da área do assunto, ou o capítulo de Brochner (2011),
que considera as forças atuais de mudança dentro da disciplina, e para onde a economia das construções parece estar
caminhando.

George Ofori (1994) ‘Estabelecendo a Economia das Construções como uma Disciplina Acadêmica’, Construction
Management and Economics (Gestão da Construção e Economia) 12: 295-306

O que é economia das construções?


Talvez a característica mais básica de uma disciplina seja uma ideia clara entre seus praticantes e pesquisadores sobre o que ela
implica, seus objetivos e seus limites. Nesta seção, adotando uma abordagem cronológica, são consideradas definições de
economia das construções propostas por vários autores.1
Drewer (1978) sugeriu que Turin tenha sido, possivelmente, o primeiro a tentar impor a ordem científica a uma situação
‘pré-newtoniana’. Turin (1975) observou que ‘... se a economia se concentra na distribuição de recursos escassos, presume-se
então que a economia das edificações deva se concentrar nos recursos de construção escassos’ (p. ix). Stone (1976) observou
que a ‘economia das edificações’ abrange ‘os aspectos de design e produção, e os problemas de organização relacionados, os
quais afetam o custo de uma construção’ (p. xi), incluindo formas de construção, métodos de produção, organização da indústria
e o impacto de novos métodos, materiais, formas de organização e relações contratuais.
Rakhra e Wilson (1982) fazem uma distinção entre ‘economia das edificações’ e ‘economia de um edifício’. Eles sugerem:
‘Economia das edificações tem uma visão agregada do setor de construção’ (p. 51), abrangendo todos os níveis da atividade de
construção, a contribuição da indústria à economia, o impacto de mudanças nas políticas do governo e a natureza, estrutura e
organização da indústria. ‘Economia de um edifício’ é a ‘verificação da transformação de recursos no que chamamos de
construção, em um nível de projeto específico’ (p. 51), abrangendo as consequências de custo-benefício das alternativas de
design e escolha dos componentes da construção, custo do ciclo de vida, efeito de várias combinações de produtividade da mão
de obra e das instalações no canteiro de obras e análise de requisitos de recursos do projeto. Poucos autores se referem ou
adotam a distinção de Rakhra e Wilson (1982); algumas exceções são Bowen e Edwards (1985), Ofori (1990) e Bowen (1993).
Seeley (1983) optou por uma definição muito restrita, observando que ‘... a economia das edificações tem sido largamente
utilizada ... para descrever a investigação dos fatores que influenciam no custo da construção, com especial referência à
interação das variáveis do projeto de construção’ (p. v). Ahuja e Walsh (1983) definem a engenharia de custos, a qual pode ser
considerada uma forma de economia da construção, como ‘... uma abordagem ativa nas fases de concepção, construção e
comissionamento de um projeto, visando extrair o melhor valor possível para o dinheiro ao longo de cada atividade que tenha
implicações de custo’ (p. ix).
Hillebrandt (1985) adotou uma perspectiva ampla, definindo a economia das construções como ‘a aplicação das técnicas e
conhecimentos da economia para o estudo de empresas de construção, dos processos construtivos e da indústria da construção’
(p. 1). Da mesma forma, este artigo define a economia das construções como incluindo a economia de projetos, planejamento de
custos, estimativa e controle de custos, o funcionamento econômico de empresas no setor da construção e o relacionamento do
setor com a economia nacional e internacional. Ashworth (1988) considera a economia das construções como abrangendo as
exigências dos clientes, o impacto de um desenvolvimento em seus arredores, a relação entre o espaço e a forma, a avaliação
dos custos de capital, o controle de custos, o custo do ciclo de vida e a economia da indústria em geral.
Bon (1989), cujo livro procurou ‘oferecer um primeiro passo em direção a um quadro teórico para a economia das
edificações’ (p. xiii), sugere que a ‘economia das edificações trata da economia da utilização de recursos escassos em todo o
ciclo de vida de uma construção...’ (p. xiii) e compreende a ‘aplicação de critérios-padrão de decisão para investimentos em
construções como uma classe especial de bens de capital’ (p. xiii). Johnson (1990) adota uma definição similar, sugerindo que
‘... o conhecimento da economia pode fornecer uma base para a realização de difíceis trade-offs associados ao projeto e a gestão
de longo prazo das construções’ (p. 9).
Ruegg e Marshall (1990) prometem mostrar aos leitores ‘... como aplicar os conceitos e métodos da economia às decisões
sobre a localização, projeto, engenharia, construção, gestão, operação, restauração e disposição das construções’ (p. xi). A
perspectiva de Drake e Hartman (1991) é similar, considerando a economia das construções como interessada nos recursos
escassos na indústria da construção (p. 1057) e listando as principais técnicas que esta abrange. Raftery (1991) sugere que a
‘economia das edificações’ poderia ser considerada principalmente como uma combinação de habilidades técnicas, otimizações
informais, contabilidade de custos, controle de custos, previsão de preços e alocação de recursos. Finalmente, Bowen (1993)
descreve ‘economia de um edifício’ concentrando-se ‘na aplicação de técnicas quantitativas utilizando critérios financeiros para
a prestação de assessoria financeira à equipe de projetos’ (p. 4).
A partir dessa discussão, uma definição comum de economia das construções não existe. A abordagem cronológica
adotada ajuda a demonstrar que a questão não se tornou mais clara ao longo do tempo. Para a economia das construções se
transformar em uma disciplina, uma definição comum é necessária, de modo a definir a estrutura para questões a serem
consideradas e abordagens metodológicas a serem adotadas. A definição deve se relacionar com os princípios econômicos de
escassez e escolha, referir-se ao que está sendo estudado (projetos, práticas, organizações, empresas e indústrias) e indicar o
objetivo global da disciplina.

Segmentos
Dois segmentos distintos da economia das construções surgem a partir da discussão na seção anterior. O primeiro diz respeito
aos projetos de construção, enquanto o segundo se refere à indústria. Ofori (1990) utiliza para isso os termos ‘economia dos
projetos de construção’ e ‘economia da indústria da construção’, respectivamente (termos usados ao longo do artigo).
Entretanto, novamente a partir das definições anteriores, alguns autores consideram um ou outro segmento como todo o campo
da economia das construções ou economia das edificações. Por exemplo, a ‘economia das edificações’ de Bon (1989), Johnson
(1990) e Ruegg e Marshall (1990) e a ‘economia das construções’ de Drake e Hartman (1991) referem-se apenas a projetos e
são similares à ‘economia de um edifício’ de Rakhra e Wilson (1982) e à ‘economia dos projetos de construção’ de Ofori
(1990), respectivamente. Entretanto, a ‘economia das edificações’ de Stone (1976) e a ‘economia das construções’ de
Hillebrandt (1985) incorporam ambos os segmentos. O presente autor prefere e adota o título economia das construções como
uma perspectiva que abrange tanto o projeto quanto a indústria, já que isto permite que todos os aspectos do campo sejam
estudados.
O segmento relacionado com os projetos é basicamente sobre técnicas (como planejamento de custos, custo do ciclo de
vida e engenharia de valores) — Raftery (1991) compara isto à ‘contabilidade e gestão de custos’. Este é mais conhecido, já que
recebeu maior atenção de pesquisadores e em currículos de cursos (Ofori, 1990). No entanto, mesmo aqui, há alguma confusão.
Seeley (1983: 1) parece considerar ‘controle de custos’ um sinônimo de economia de projetos de construção, e Kelly (1983),
assim como Ferry e Brandon (1991), parecem equiparar ‘planejamento de custos’ com economia de projetos de construção.
Male e Kelly (1991) referem-se à gestão de custos e a definem como ‘uma síntese de habilidades tradicionais de levantamento
de quantitativos ... com procedimentos estruturados de redução de custos/substituição de custos utilizando a geração de ideias
por brainstorming ... em uma equipe multidisciplinar’ (p. 25). Por fim, Kelly e Male (1993) combinaram gestão de custos, que
enfatiza a redução de custos na fase de projeto, com gestão de valores, que se concentra nas necessidades dos clientes antes de
projetar, para obter o ‘serviço completo’ da economia de projetos, a qual ‘... pretende controlar o tempo, o custo e a qualidade
durante o projeto e a construção dentro do contexto de funcionalidade do mesmo’ (Marshall, 1993, p. 170).
É necessário esboçar, entrar em acordo e pesquisar continuamente, melhorando seus segmentos, e a economia da
construção deveria ser desenvolvida como um conjunto integrado.
Estrutura conceitual
Cole (1983) distingue entre o núcleo de uma disciplina as ‘ideias totalmente avaliadas e aceitas universalmente’ (p. 111)
encontradas em todos os livros-texto de graduação e a fronteira de pesquisas a qual inclui todos os estudos em curso, a maioria
dos quais, eventualmente, vem a ser de pouca ou nenhuma importância. A economia das construções tem um núcleo de
conceitos confirmados e aceitos?

Alguns termos importantes


Definições precisas e comuns são blocos de construção indispensáveis em qualquer disciplina, a base principal de sua estrutura
conceitual. Autores em economia das construções frequentemente acham necessário definir seus termos principais (por
exemplo, Batten, 1990; Ive, 1990). Bowen e Edwards (1985) e Bowen (1993) definem alguns termos básicos como estimativa,
previsão, custo e preço. Alguns termos de economia das construções, cada qual com uma definição clara na economia geral, são
considerados nesta seção.

A indústria
Não há, por enquanto, uma definição aceita de indústria da construção (Ofori, 1990). Alguns autores a consideram envolvendo
somente atividades de campo, outros incluem as funções de planejamento e projeto e outros ainda a estendem para que englobe
a fabricação e o fornecimento de materiais e componentes, financiamento de projetos ou administração de itens de construção
existentes (Turin, 1975; Hillebrandt, 1985). Isto conduz a dificuldades. Por exemplo, os dados e as inferências básicas dos
autores muitas vezes diferem, simplesmente porque eles adotam definições diferentes de ‘construção’.

Notas
1
Como você verá, na busca por um consenso, Ofori estava disposto a incluir referências de economia das edificações de outros autores.
Ele considera esta simplesmente uma versão restrita de economia das construções. Como Ofori (1994: 296) explicou no início do artigo,
‘dos dois títulos comumente utilizados, economia das edificações e economia das construções, o último envolve o primeiro, abrangendo
também a engenharia civil e outras formas de construção’.

Referências
Ahuja, H. N. and Walsh, M.A. (1983) Successful Cost Engineering, Wiley, New York
Ashworth, A. (1988) Cost Studies of Building, Longman, Harlow
Batten, D.F. (1990) Built capital, networks of infrastructure and economic development. In Proceedings CIB 90 Joint Symposium on
Building Economics and Construction Management, Sydney, 14–21 March, 1, pp. 1–15
Bon, R. (1989) Building as an Economic Process: An Introduction to Building Economics, Prentice Hall, Englewood Cliffs, NJ
Bowen, P.A. (1993) A communication-based approach to price modelling and price forecasting in the design phase of the traditional
building construction process in South Africa, PhD thesis, University of Port Elizabeth
Bowen, P.A. and Edwards, P.J. (1985) Cost modelling and price forecasting: practice and theory in perspective. Construction
Management and Economics, 3, 199–215
Cole, S. (1983) The hierarchy of the sciences? American Journal of Sociology, 89, 111–39
Construction Industry Development Board (1988) Construction Sector in a Developed Singapore, CIDB, Singapore
Drake, B.E. and Hartman, M. (1991) CEEC: The organisation and activities of European construction economists. In Management,
Quality and Economics in Building, Bezeiga, A. and Brandon, P.S. (eds), Spon, London, pp. 1056–69
Drewer, S. (1978) In search of a paradigm: notes on the work of D.A. Turin. In Essays in Memory of Duccio Turin, Koenigsberger, O.H.
and Groak, S. (eds), Pergamon, Oxford, pp. 47–51
Ferry, D. and Brandon, P.S. (1991) Cost Planning of Buildings, Blackwell Scientific Publications, Oxford.
Hillebrandt, P.M. (1985) Economic Theory and the Construction Industry, 2nd edn, Macmillan, London
Ive, G. (1990) Structures and strategies: an approach towards international comparison of industrial structures and corporate strategies in
the construction industries of advanced capitalist countries. Habitat International, 14, 45–58
Johnson, R. (1990) The Economics of Building: A Practical Guide for the Design Professional, Wiley, New York
Kelly, J. (1983) Value analysis in early building design. In Building Cost Techniques. New Directions, Brandon, P.S. (ed.), Spon, London,
pp. 116–25
Kelly, J. and Male, S. (1993) Value Management in Design and Construction: The Economic Management of Projects, Spon, London
Male, S. and Kelly, J. (1991) Value management and the economic management of projects. The Building Economist, 29(4), 25–30
Marshall, H.E. (1993) Value management in design and construction: The economic management of projects. Construction Management
and Economics, 11, 169–71
Ofori, G. (1990) The Construction Industry: Aspects of its Economics and Management, Singapore University Press, Singapore
Raftery, J. (1991) Principles of Building Economics, Blackwell Scientific Publications, Oxford
Rakhra, A.S. and Wilson A.J. (1982) Building economics and the economics of building. The Building Economist, 21, 51–3
Ruegg, R.T. and Marshall, H.E. (1990) Building Economics: Theory and Practice, Van Nostrand Reinhold, New York
Seeley, I.H. (1983) Building Economics: Appraisal and Control of Building Design Cost and Efficiency, 3rd edn, Macmillan, London
Stone, P.A. (1976) Building Economy: Design, Production and Organisation – A Synoptic View, 2nd edn, Pergamon, Oxford
Turin, D.A. (1975) Introduction. In Aspects of the Economics of Construction, Turin, D.A. (ed.), Godwin, London, pp. viii-xvi

Informações extraídas das páginas 298-9 do original mais referências relevantes das páginas 304-6.
__________
*
Trade-off ou tradeoff é uma expressão que define uma situação em que há conflito de escolha, na qual se deve abrir mão de uma coisa
em função de outra. Pode ser traduzida livremente como “relação perde e ganha”. (N.T.)
*
Conhecido como Egan Report (Relatório de Egan) e intitulado Rethinking Construction (Repensando a Contrução), foi um documento
elaborado por uma força-tarefa industrial presidida por John Egan e publicado em 1998. O relatório teve muita influência na melhoria da
eficiência da indústria da construção inglesa. (N.R.T.)
**
NAO (National Audit Office — Órgão Nacional de Auditoria) e Cabinet Office (Gabinete do Governo) são órgãos do governo que
periodicamente publicam informações e estatísticas referentes ao governo parlamentar inglês. (N.R.T.)
*
Conhecido como Latham Report (Relatório Latham) e intitulado Constructing the Team (Construindo a Equipe), foi um documento
elaborado por Michael Latham e publicado em julho de 1994. O relatório teve a intenção de revisar as aquisições e os acordos contratuais
relacionados com a indústria da construção inglesa. (N.R.T.)
**
HM Government é uma logomarca do governo do Reino Unido que significa a abreviação do termo Her Majesty’s (Sua Majestade).
(N.R.T.)
***
IGT (Innovation and Growth Team — Equipe de Inovação e Crescimento) é um órgão voltado para a pesquisa, pertencente ao governo
do Reino Unido. (N.R.T.)
*
Em economia, agregado é uma medida sumária descrevendo um mercado ou uma economia em geral. (N.R.T.)
*
Durante a tradução deste livro será utilizado o seguinte valor de conversão da libra esterlina para o real: 1 £ = R$ 4,00 (cotação em
01/02/2014). (N.T.)
*
Conhecido como Pearce Report (Relatório Pearce) e intitulado The Social and Economic Value of Construction (O Valor Econômico e
Social da Construção), esse relatório proporciona uma metodologia geral que difere substancialmente de outras tentativas de descrever a
indústria da construção e sua contribuição ao desenvolvimento sustentável. (N.R.T.)
Decisões acerca da alocação de recursos são necessárias porque vivemos em um mundo de escassez. Uma revisão das ideias
listadas nos Pontos-Chave 1.1 e 1.2 deve lembrar o leitor de o quão fundamental é esta premissa básica para o estudo de
qualquer ramo da economia. Para dar um exemplo surreal, quando você abre sua porta de entrada no início da manhã não há
milhões de garrafas de leite cobrindo o gramado do vizinho; e também não há nenhuma garrafa. Existem somente as garrafas de
leite suficientes para atender a demanda: por exemplo, as duas garrafas que seu vizinho encomendou. O que este capítulo
procura explicar é como essa alocação de recursos afinada pode ocorrer, dada a multiplicidade dos recursos de construção,
manufatura e serviços que precisam ser simultaneamente alocados.
Os problemas de alocação de recursos são solucionados pelo sistema econômico em funcionamento em uma nação.
No caso da construção, a alocação de recursos tem sido fortemente influenciada pelo setor público. O que é produzido, como é
produzido e para quem pode ser determinado pelo governo central — e frequentemente era — mas agora os governos em toda a
Europa preferem utilizar um sistema de mercado para responder às questões de o que, como e para quem. Em termos gerais,
portanto, é possível prever dois modelos de sistemas. Cada modelo econômico reúne fabricantes e consumidores de diferentes
maneiras e cada um precisa ser avaliado a fim de compreender como as questões universais acerca da alocação de recursos são
resolvidas.

Sistemas Econômicos: Dois Extremos


O problema de alocação de recursos é universal já que todas as nações têm que enfrentar a questão de determinar o que, como e
para quem os produtos e os serviços serão produzidos. Na Figura 2.1 iniciamos a apresentação dos sistemas econômicos do
mundo com a introdução de dois extremos: o modelo de livre mercado e o modelo centralmente planejado
(juntamente com o exemplo de duas nações).

Figura 2.1 Um espectro dos sistemas econômicos


No lado direito da figura está o modelo de livre mercado, e no lado esquerdo, o modelo centralmente planejado. Cuba é um
país cujo sistema se assemelha ao modelo centralmente planejado. No outro extremo estão os Estados Unidos, que se
aproximam do modelo de livre mercado. Entre eles estão as economias mistas das nações restantes.

MODELO DE LIVRE MERCADO


O sistema de livre mercado é representado pelo envolvimento limitado do governo na economia, em conjunto com a
propriedade privada dos meios de produção. Os indivíduos perseguem seus próprios interesses sem restrições do governo: o
sistema é descentralizado.
Uma característica importante desse sistema é a livre iniciativa. Esta existe quando os indivíduos têm permissão de obter
recursos, organizar estes recursos e vender o produto resultante da forma que escolherem. Nem o governo nem outros
fabricantes podem impor obstáculos ou restrições para impedi-los de buscar o lucro pela aquisição de insumos e pela venda de
produtos.
Adicionalmente, todos os membros da economia são livres para escolher o que fazer. Os trabalhadores podem entrar em
qualquer linha de trabalho para a qual estejam qualificados e os consumidores podem comprar os produtos e serviços que
sintam que são os melhores para eles. O maior eleitor em um mercado livre de sistema capitalista é o consumidor, que vota com
o dinheiro e decide quais produtos ‘candidatos’ irão sobreviver. Os economistas se referem a isto como soberania do
consumidor, já que o comprador final dos produtos e serviços determina o que é produzido — e, portanto, ‘governa’ o
mercado.
Outra característica central da economia de livre mercado é o mecanismo de preços. Preços são utilizados para
sinalizar o valor de recursos individuais, agindo como uma espécie de guia ao qual os proprietários dos recursos (fabricantes e
consumidores) referem-se ao fazerem escolhas.

Figura 2.2 O mecanismo de preços em ação


As mudanças de preços coordenam os processos de tomada de decisão de consumidores e fabricantes. Quando a oferta
excede a demanda, o preço de um produto terá que cair para limpar o mercado. Reciprocamente, se a demanda exceder a
oferta, o preço do produto irá aumentar. Para que o mecanismo de preços funcione em todos os mercados, é importante
que os recursos sejam de propriedade privada e possam se mover livremente entre usos competitivos.

O fluxograma na Figura 2.2 sugere como funciona o mecanismo de preços. Por exemplo, quando a oferta excede a
demanda ocorre uma mudança de preços a qual conduz os fabricantes e consumidores à harmonia. Isto é precisamente o que
acontece durante as vendas de janeiro: o preço das ações que não foram vendidas previamente é reduzido, até o ponto em que a
procura é suficiente para limpar o mercado. Reciprocamente, quando a demanda excede a oferta, o preço do produto em questão
vai aumentar até que o mercado esteja em equilíbrio. Isto pode ser visto em um leilão de imóveis em que, para começar, vários
compradores competem por uma propriedade específica: juntos, eles elevam o preço, até que finalmente haja apenas um
interessado preparado para pagar o preço final de compra ao vendedor.
Preços podem, assim, gerar sinais em todos os mercados (incluindo mercados de fatores): eles fornecem informações,
afetam os incentivos e possibilitam que compradores e vendedores expressem opiniões. E, desde que os preços possam se
alterar livremente, os mercados sempre tenderão ao equilíbrio, em que não há nem demanda excessiva nem oferta excessiva.
Colocando de outra maneira, em um mercado verdadeiramente livre, a determinação de preços de produtos e serviços não tem
nada a ver com o governo. Permitindo que as forças da oferta e da demanda operem livremente, a economia encontra seu
próprio equilíbrio natural.
Pode ser evidente agora que os outros termos utilizados para descrever a economia de livre mercado são economia de
‘mercado’ ou ‘capitalista’.

Resumo: O quê? Como? Para quem?


O quê Em uma economia de livre mercado, os consumidores determinam o que será produzido por seu
padrão de gastos (sua votação no mercado). No que diz respeito aos fabricantes, suas decisões sobre
quais produtos produzir são determinadas pela busca por lucro.
Como Desde que os recursos possam ser substituídos uns pelos outros no processo de produção, o sistema de
livre mercado deve decidir como produzir uma mercadoria uma vez que a comunidade vote a favor
dela. Os fabricantes serão guiados (pela disciplina do mercado) a combinar recursos do modo mais
econômico possível para alcançar determinado padrão ou qualidade. As empresas que combinarem os
recursos da maneira mais eficiente alcançarão os maiores lucros e forçarão perdas sobre seus
concorrentes. Os concorrentes serão expulsos do negócio ou forçados a combinar recursos da mesma
forma que elas.
Para quem A questão do ‘para quem’ se preocupa com a distribuição de produtos após a produção. Como a torta é
dividida? Em uma economia de livre mercado, produção e distribuição estão intimamente ligadas,
porque a renda é gerada na medida em que os produtos são produzidos. As pessoas são pagas de
acordo com a sua produtividade; isto é, a renda de uma pessoa reflete o valor que o sistema de
mercado coloca nos recursos daquela pessoa. Uma vez que a renda determina amplamente a fatia da
‘torta’ de produção de alguém, o que as pessoas retiram da economia de livre mercado é baseado no
que elas inserem na mesma.

Pontos-Chave 2.1
Podemos ilustrar e simplificar os diferentes tipos de sistemas econômicos observando dois extremos: o
modelo de livre mercado em uma extremidade e o modelo centralmente planejado na outra.
As principais características de uma economia de livre mercado (modelo) são (a) envolvimento limitado do
governo, (b) consumidores e fabricantes expressam seus desejos por meio do sistema de preços e (c) livre
iniciativa — fabricantes, consumidores e proprietários dos recursos têm total liberdade de escolha sobre a
variedade de produtos comprados e vendidos.
A economia de livre mercado também é chamada de economia de mercado ou capitalista.
Qualquer sistema econômico deve responder a três perguntas. O que será produzido? Como será produzido?
Para quem será produzido?

MODELO CENTRALMENTE PLANEJADO


Um sistema centralmente planejado (também denominado economia de comando) é caracterizado tipicamente por um setor
governamental dominante, juntamente com a propriedade comum dos recursos. Em outras palavras, há uma autoridade central
de planejamento que toma o lugar do mecanismo de preços na alocação dos recursos. A natureza de uma autoridade central de
planejamento depende do sistema político que rege a economia. Entretanto, é interessante notar que os termos ‘socialista’ e
‘comunista’ se referem propriamente a sistemas políticos e não a sistemas econômicos. De fato, uma ditadura de direita poderia
operar um sistema econômico centralmente planejado de modo tão eficaz quanto uma comuna de esquerda.
A motivação comum para se ter um sistema centralmente planejado é a convicção de que os comandos do governo são
mais propensos a produzir a combinação ‘correta’ de produtos, enquanto o mecanismo de mercado pode parecer funcionar em
favor dos ricos. O planejamento central cria a oportunidade de direcionar os recursos para as principais necessidades da
população. Como o respeitado economista norte-americano J. K. Galbraith observou certa vez, uma das poucas vantagens das
economias comunistas em desintegração é que quase todos têm algum tipo de casa, enquanto muitas das economias capitalistas
ainda não resolveram o problema de proporcionar habitações a preços acessíveis para os pobres.
O fluxograma na Figura 2.3 esboça o que um sistema centralmente planejado pode envolver. O processo em três etapas
apresentado é uma simplificação de uma realidade burocrática. Por exemplo, na primeira etapa, deveriam existir várias
comissões de planejamento para considerar setores econômicos e/ou áreas geográficas específicas. De modo semelhante, na
segunda etapa, metas de produção e salários seriam ‘negociados’ com funcionários das fábricas, operários, gerentes e outros
envolvidos na cadeia de produção. Finalmente, na terceira etapa, os planos frequentemente tornam-se carregados de
dificuldades, na medida em que pode haver escassez e/ou excedentes.

Figura 2.3 Os princípios gerais de uma economia centralmente planejada


Para que este sistema funcione, os recursos precisam ser centralmente possuídos e controlados.
No mercado atual, impulsionado pela cultura global, um sistema desse tipo pode parecer difícil de imaginar, mas foi
utilizado por mais de 60 anos, a partir de 1928, quando Stalin introduziu o primeiro Plano Quinquenal da Rússia. Por exemplo,
a Comissão de Planejamento Estatal (Gosplan), na antiga União Soviética, certificava-se de que todos os projetos de construção
identificavam as quantidades necessárias de mão de obra, equipamentos e materiais. Então, todas as exigências de equipamentos
e materiais para projetos que deveriam entrar em operação em cada região em um período de cinco anos eram somadas. Isto
permitiu que a comissão de planejamento empregasse as ordens necessárias aos empreiteiros do Estado, fornecedores de
materiais e aos fabricantes de equipamentos. De maneira compreensível, este sistema foi representado por problemas de
estimativas de custos e de sobre-emprego, porque em uma economia planificada não há competição — não há concorrência —,
não há risco e são poucas as chances de ser demitido.
Um sistema similar de alocação de recursos foi adotado pela República Popular da China a sua revolução em 1949. Depois
da morte do líder revolucionário Mao Zedong, a reforma econômica de 1978 iniciou o processo de abertura das relações
comerciais, permitindo a ação da concorrência. A China está agora se tornando a oficina do mundo e os chineses adotam
claramente o sistema de mercado — embora ainda se considerem socialistas.
Como consequência, a maior parte das economias estatais, previamente centralmente planejadas, está agora envolvida em
uma transição para sistemas de mercado — assunto que será revisado na próxima seção sobre economias mistas. Esta transição,
todavia, não está livre de problemas, já que ainda é influenciada pelo antigo regime de plano centralmente controlado. Há uma
espécie de choque cultural, como uma retirada da ‘mão visível’ — como Rod Sweet (2002) se refere aos planejadores de uma
economia de comando — que leva à necessidade de interpretar os sinais da ‘mão invisível’ do mercado livre. Nos termos do
setor da construção, isto envolve a aquisição de novas competências para gerenciar o tempo, o custo e a qualidade.

Resumo: O quê? Como? Para quem?


O quê Em uma economia centralmente planejada, a preferência coletiva e a sabedoria dos planejadores
determinam o que é produzido.
Como Os planejadores decidem os métodos de produção. Isto significa que eles precisam saber quantos
recursos alocar em cada indústria, muitos dos quais se inter-relacionam.
Para quem As recompensas que as pessoas recebem são estabelecidas pelos planejadores em vez do mercado.
Assim, as forças do mercado não são tão importantes na determinação dos fatores de recompensas.
Pode haver maior possibilidade de obter uma maior igualdade.

Pontos-Chave 2.2
A economia centralmente planejada (modelo) depende das ordens do governo no lugar de mercados
descentralizados. Ela é também referida como uma economia de comando.
As principais características de uma economia centralmente planejada (modelo) são (a) o governo possui e
controla a maioria dos recursos, (b) uma comissão de planejamento identifica as metas de produção, (c) as
recompensas pela produção são normalmente estabelecidas pelo Estado em vez do mercado e (d) há um
desejo de alcançar a combinação “correta” de produtos.
Em qualquer sistema centralmente planejado existem problemas na coordenação dos diferentes setores.
As dificuldades em formular e implementar os planos centrais motivaram a introdução do mecanismo de
mercado em várias economias de comando.

ECONOMIAS MISTAS
Os dois sistemas econômicos apresentados neste capítulo não existem em uma forma pura. Os modelos econômicos utilizados
são representações simplificadas do mundo real. Na prática, a maioria dos sistemas econômicos são muito mais complexos; os
países não são nem puramente mercados livres nem puramente planejados. Na configuração complexa da vida cotidiana, todas
as nações têm uma economia mista. Os economistas, portanto, não estudam sistemas nos quais as atividades dos
consumidores e dos fabricantes interagem livremente por meio de um mercado ou simplesmente de acordo com os planos do
governo. Os economistas estudam sistemas que contêm combinações de tomadas de decisões privadas e de organizações
centrais; as decisões privadas (feitas em resposta às forças do mercado) coexistem com os controles centralizados da legislação
estadual e com planos econômicos.
Uma forma de comparar a variedade de sistemas econômicos que atualmente existem no mundo é imaginá-los localizados
em um amplo espectro (similar ao da Figura 2.1). Teoricamente, cada nação poderia estar posicionada de acordo com a
proporção de recursos de propriedade pública e privada. As nações que possuem uma alta proporção de recursos do governo
poderiam estar localizadas próximas ao modelo centralmente planejado, e aquelas dominadas por recursos privados poderiam
estar localizadas na outra extremidade, próximas ao modelo de livre mercado. Tal exercício ilustra que todas as economias do
mundo real são economias mistas; algumas podem se aproximar mais de um modelo econômico ou de outro, mas nenhuma
nação se encaixa precisamente nas categorias puramente planejada ou puramente de livre mercado. Durante as últimas duas
décadas houve uma movimentação considerável ao longo do espectro. De fato, nós realmente não mostramos a posição exata de
nenhum país na Figura 2.1, porque assim que as economias se instalam, suas posições tornam-se desatualizadas.
Em termos gerais, as economias em transição, como a China e os países da antiga União Soviética, se afastaram
lentamente do modelo centralmente planejado, enquanto muitas das economias europeias (particularmente, a Grã-Bretanha) se
aproximaram do modelo de livre mercado sob a influência da privatização e da desregulamentação. Mas as transições
raramente são suaves, já que é difícil ampliar o empreendedorismo, liberalizar os preços anteriormente controlados pelo
governo, estimular a concorrência e geralmente contestar normas culturais e econômicas já estabelecidas. O Transition Report
(Relatório de Transição) publicado anualmente desde 1998 pelo European Bank for Reconstruction and Development (EBRD
— Banco Europeu para a Reconstrução e o Desenvolvimento) oferece uma análise razoavelmente abrangente do progresso das
economias em transição. O relatório de 2011 observou que uma recuperação da recessão global do final da década de 2000
estava em curso em praticamente todos os países da região do EBRD, embora seu ritmo tenha variado significativamente de
uma região para outra. A recuperação foi vagarosa na Europa Central e Oriental (a antiga União Soviética) e mais rápida nos
países da Ásia Central, como Hong Kong, Índia e Indonésia, com uma diferença de sete pontos percentuais no PIB entre as
economias em transição mais lentas e mais rápidas (EBRD, 2011: 16).
A transição das economias de comando desde a queda do Muro de Berlim em novembro de 1989 tem atraído atenção
considerável tanto da mídia quanto da literatura acadêmica, já que as mudanças das economias para o sistema de livre mercado
refletem mudanças nas aspirações e culturas nacionais. Tanto a Rússia quanto a China, por exemplo, tentaram aproveitar a
eficiência do mecanismo de mercado em uma tentativa de melhorar o padrão de vida do povo russo e chinês e,
consequentemente, o papel do governo nessas nações foi reduzido nos últimos anos. Estas mudanças não passaram
despercebidas. Por exemplo, a China rejeitou a reestruturação caso isto significasse a destruição dos princípios socialistas sobre
os quais o país foi construído.
No Reino Unido e em vários outros locais da Europa, a combinação de atividades do setor público e do setor privado tem
variado ao longo do tempo devido às diferentes filosofias que os principais partidos políticos têm adotado para a intervenção do
Estado. Durante grande parte do período pós-guerra, o desejo de um menor ou maior número de indústrias de propriedade
pública permaneceu no centro do espectro político do Reino Unido entre o Partido dos Trabalhadores e o Partido Conservador.
Em termos de atividades construtivas, de 1955 a 1985, grande parte da produção foi encomendada em nome de autoridades
públicas como um departamento do governo, uma autoridade local, ou uma indústria nacionalizada. Por exemplo, até 1980 eram
comuns trabalhos de construção relativos a ferrovias, aeroportos, telecomunicações, portos, gás, eletricidade, água e habitação
social serem comissionados por autoridades do setor público. Na Figura 2.4, são plotados os produtos da construção (excluindo
reformas e manutenção) da Grã-Bretanha, a preços constantes (2005), para mostrar a divisão histórica entre os setores público e
privado, e claramente a balança pendeu para a iniciativa privada. De fato, nas últimas décadas, a forma como o capital público é
gerenciado sofreu profundas mudanças, com grande parte das operações e da propriedade sendo transferida para o setor privado
— ainda que dentro de um quadro regulamentado. Este foi o caso em vários países do mundo, particularmente na Europa, e
como consequência os dados de infraestrutura começaram a ser registrados separadamente (como na Grã-Bretanha desde 1980).
Hoje, a distinção entre o setor público e privado é turva. A construção nos setores de abastecimento de água, tratamento de
esgotos, fornecimento de energia e telecomunicações é tipicamente financiada pelo setor privado e regulamentada por agências
do governo. Saúde, educação, habitação e redes ferroviárias são financiadas por ambos os setores, público e privado, enquanto
somente os financiamentos relativos à construção de estradas, calçadas, pontes, túneis, usinas nucleares e instalações
governamentais tendem a permanecer como responsabilidade do setor público.
Em termos simples, portanto, as economias não são mais planejadas ou lideradas pelo mercado; como Samuelson e
Nordhaus (2010: xvi) sugerem, hoje em dia a tendência global é operar de um modo centrista (misto), uma abordagem que
‘proclama o valor da economia mista — que combina a disciplina rígida do mercado com uma visão imparcial do governo’.
Esta abordagem reconhece que nem os mercados não regulamentados nem os sistemas planejados com excesso de
regulamentação podem organizar e alocar recursos de forma eficiente. De fato, a crise financeira mundial no final dos anos
2000 destacou como os produtos de mercado inovadores, não regulamentados, podem causar caos, dívidas e colapso
econômico. Como resultado, durante a próxima década, as sociedades serão redirecionadas de volta para um centro mais justo e
mais eficiente — e o futuro próximo parece ser uma crescente dependência da economia mista para alocar os recursos de forma
justa e eficiente.

Figura 2.4 Novos dados da construção 1955-2010 (Grã-Bretanha)

Fonte: Adaptado de ONS (2011b).

Pontos-Chave 2.3
Na realidade, todas as economias são economias mistas, uma vez que elementos de mercado privados e
estatais coexistem em todas as nações.
É o grau de orientação do mercado, ou o grau de intervenção do Estado, que distingue um sistema
econômico do outro.
As economias do mundo estão atualmente em um estado de fluxo e pressões políticas para uma maior
regulação dos sistemas financeiros que trarão mudanças.
A preferência atual é por sistemas mistos de alocação de recursos, baseando-se no mercado sempre que
possível, mas dentro de um quadro regulamentado.

EQUIDADE, EFICIÊNCIA E MEIO AMBIENTE


Grande parte da oposição que existe à reforma do mercado refere-se a questões relativas ao meio ambiente e à questão da justiça
social. Certamente existem muitos problemas ambientais e desigualdades sociais geradas pelo mecanismo de mercado. Por
exemplo, aqueles com maior riqueza têm mais ‘votos’ sobre o que é produzido, enquanto aquele sem renda, se deixado à
própria sorte, não ganha nada. Por outro lado, o mecanismo de mercado prevê um sistema eficiente de comunicação entre os
fabricantes e os consumidores que sinaliza eficazmente ‘o que’ produzir e ‘como’. Ele, no entanto, não consegue capturar
produtos comuns, como poluição ambiental.
Desde a Conferência das Nações Unidas sobre o Meio Ambiente e Desenvolvimento, em 1992 no Rio de Janeiro, a Cúpula
da Terra definiu o cenário para o desenvolvimento sustentável e questões relacionadas, e as ideias e os conceitos sobre
equidade, eficiência e meio ambiente assumiram uma importância crescente. A base de qualquer agenda de
desenvolvimento sustentável, em qualquer setor da economia, deve envolver uma consideração mútua do negócio, da
comunidade em geral e do meio ambiente. Qualquer resultado sustentável, que satisfaça simultaneamente as partes interessadas
que representam estes três interesses (cujas necessidades frequentemente entram em conflito), poderia genuinamente ser
descrita como uma ‘solução elegante’. Uma proposta importante deste texto é que tal solução depende da economia — em
última análise, qualquer política totalmente sustentável se resume a questões de alocação de recursos.

Eficiência
Em economia, a eficiência está envolvida principalmente com a resolução de questões de ‘o que’ produzir e ‘como’. O conceito
é, portanto, geralmente dividido em duas partes — eficiência produtiva e eficiência alocativa, em que ambas são
satisfeitas em uma economia de livre mercado pura.

EFICIÊNCIA PRODUTIVA
Eficiência produtiva significa utilizar técnicas de produção que não desperdicem insumos. Na linguagem dos documentos
políticos relativos à sustentabilidade, significa aumentar as taxas de crescimento ao passo que se reduz o uso de recursos. Em
qualquer economia de livre mercado, as empresas nunca desperdiçarão insumos. Uma empresa não utilizará dez unidades de
capital, dez unidades de mão de obra e dez unidades de terreno quando ela poderia produzir a mesma quantidade de produtos
com somente oito unidades de capital, sete unidades de mão de obra e nove unidades de terreno. Eficiência produtiva, portanto,
se refere à produção obtida ao menor custo possível. Durante a década de 2000, por exemplo, a crescente utilização de
componentes pré-fabricados no campo permitiu melhorias na produtividade da construção, assim como tem incentivado maiores
níveis de produção com menor número de trabalhadores. Estes desenvolvimentos dependem da ‘correta’ resposta dos gestores
frente aos vários preços dos insumos. Quanto mais caros são os insumos, mais incentivo os gestores têm para economizar. O
mercado sinaliza, portanto, ‘como’ a produção deve ocorrer tecnicamente.

EFICIÊNCIA ALOCATIVA
Eficiência alocativa refere-se à maximização do valor total (às vezes, chamado de utilidade) dos recursos disponíveis. Isto
significa que os recursos são movidos para suas utilizações mais valiosas, evidenciadas pela disponibilidade dos consumidores
em pagar pelos produtos finais. O processo de oferta e demanda guia os recursos para seus usos mais eficientes. Os indivíduos,
como pessoas de negócios cuidando de seus próprios interesses, acabam — consciente ou inconscientemente — gerando um
valor econômico máximo para a sociedade. ‘O que’ é produzido, portanto, não deve envolver perdas de bem-estar; a utilidade
de todos os grupos na sociedade deveria ter sido considerada.

Equidade
Equidade, em seu sentido econômico, não significa simplesmente igualdade. Nesta disciplina, equidade se refere à justiça
social. Do ponto de vista de um economista, portanto, discussões sobre equidade tornam-se intimamente relacionadas com
considerações de sustentabilidade, como respeitar e tratar as partes interessadas de forma justa — a questão do ‘para quem’.
Equidade também pode ser dividida em duas partes, equidade horizontal e equidade vertical, ambas dependendo da
intervenção do governo.

EQUIDADE HORIZONTAL
Este conceito envolve tratar as pessoas de forma idêntica. Por exemplo, uma política de governo de equidade horizontal apoiaria
e promoveria oportunidades iguais entre pessoas com experiência e qualificações idênticas, independentemente de raça ou sexo.

EQUIDADE VERTICAL
Este conceito é mais controverso uma vez que está relacionado com ser ‘justo’. A equidade vertical é a redução das disparidades
entre os que ‘têm’ e os que ‘não têm’. Pode envolver o fornecimento de apoio específico do governo para determinadas
categorias de pessoas. Por exemplo, pode envolver tributar os ricos mais pesadamente para prestar serviços de apoio aos pobres.
Deve ficar claro, a partir destas explicações, que equidade e eficiência muitas vezes entram em conflito. De fato, podem ser
imaginadas como extremos polares; tão distantes quanto os dois modelos econômicos apresentados na Figura 2.1. Um modelo
de economia centralmente planejada, baseada em intervenção governamental, é mais capaz de suportar o conceito de equidade,
enquanto um modelo de economia de livre mercado é capaz de promover um maior nível de eficiência. É o trade-off entre essas
duas qualidades que, até certo ponto, conta para as mudanças que os países estão experimentando em seus sistemas econômicos.
O trade-off equidade-eficiência certamente explica por que todas as nações se tornaram economias mistas. Conforme o The
Economist* (2002: 9) observou há mais de uma década: ‘A visão é de uma Grã-Bretanha que fica a meio caminho entre a
América (livre iniciativa) e a Europa (equidade), permitindo que os negócios cresçam rapidamente enquanto fornecem a seu
povo bons serviços sociais.’ Dez anos depois, os governos continuam a lutar com os mesmos tipos de desafio.

Meio Ambiente
Compondo o trade-off bidirecional entre a eficiência e a equidade está o meio ambiente. A agenda da sustentabilidade elevou
significativamente o seu perfil, já que a mídia continuamente nos lembra que os mares estão sendo poluídos, florestas
devastadas, espécies estão entrando em extinção, a chuva está ácida e a camada de ozônio está sendo destruída. Estas questões
ambientais são geralmente consideradas como falhas de mercado e serão tratadas no Capítulo 10. Elas precisam ser
introduzidas aqui, entretanto, já que são fundamentais para a compreensão da sustentabilidade e comprometem todas as
questões de alocação de recursos — ‘o que’, ‘como’ e ‘para quem’.
Na economia, produtos e serviços ambientais são frequentemente discutidos como forma de destacar os problemas comuns
de alocação de recursos, independentemente do sistema. A explicação baseia-se na distinção entre duas categorias de custos:
custos privados e custos externos.

CUSTOS PRIVADOS
Estes são os custos de mercado das ações de um indivíduo conhecidos e pagos diretamente. Por exemplo, quando uma empresa
de construção tem que pagar salários aos operários, ela sabe exatamente quais são seus custos com mão de obra. Quando ela
tem que comprar materiais ou construir uma fábrica, ela sabe muito bem quanto isso irá custar. Da mesma forma, se as pessoas
têm que pagar por consertos no carro, sapatos ou ingressos para shows, elas sabem exatamente quanto isso custará (preço de
mercado). Em resumo, custos privados são aqueles suportados unicamente pelas companhias ou pelos indivíduos que os
incorrem. Eles são ‘internos’ no sentido de que uma empresa ou uma família devem tê-los explicitamente em conta.

CUSTOS EXTERNOS
Estes não são tão simples, já que representam os custos das ações suportadas por pessoas que não foram aquelas que as
cometeram. Eles também são chamados de custos de terceiros ou custos de vizinhança. Por exemplo, considere a situação na
qual uma empresa de construção despeja resíduos provenientes do seu canteiro de obras em um rio próximo ou na qual um
indivíduo suja um parque público ou uma praia. Evidentemente, um custo está envolvido nessas ações. Quando a empresa de
construção polui a água, as pessoas a jusante sofrem as consequências. Elas podem não querer nadar ou beber a água poluída. A
poluição pode também arruinar as perspectivas para a pesca. No caso do lixo, as pessoas que visitam o parque ou a praia após
estes terem sido sujos são os que suportam os custos. Em outras palavras, o criador do custo não é necessariamente o único a
arcar com ele. O indivíduo, ou a empresa, não internaliza todos os custos — alguns dos custos externos são negligenciados.
Problemas ambientais podem ser descritos como situações nas quais os custos externos excedem os custos internos. Isto é
difícil de controlar tanto para sistemas de mercado quanto de comando. O problema é que alguns recursos coletivos são
adquiridos por concessão — e os custos totais da atividade econômica não são contabilizados, apenas os menores custos
privados relativos a alguns recursos. Isto não é nem eficiente nem justo, e os problemas ambientais podem, portanto, ser
considerados a meio caminho no espectro de sistemas econômicos mostrados na Figura 2.5.

Figura 2.5 O trade-off entre equidade, eficiência e meio ambiente


Acrescentar o meio ambiente ao espectro que mostra o trade-off entre equidade e eficiência provoca uma terceira
dimensão, a qual não se presta particularmente aos sistemas de comando ou de mercado. Na realidade, o problema é
triangulado, e atender aos três critérios simultaneamente é um grande desafio.

A sociedade tem que confiar em órgãos públicos como o Órgão Nacional de Auditoria, ou seu equivalente, para
avaliar a eficácia dos gastos do governo e medir seu impacto em todos os recursos. Essas atividades asseguram que alguma
forma de equilíbrio é alcançada entre a eficiência econômica, a proteção do meio ambiente e o gasto do dinheiro dos
contribuintes. Sistemas de gestão de valor também podem ser utilizados para avaliar a eficiência, o impacto ambiental e a
eficácia geral dos projetos. O uso da gestão de valor está lentamente aumentando tanto no setor privado quanto no público, e
será discutido mais adiante em relação a projetos de construção no Capítulo 6.
Um tema recorrente neste texto envolve o estudo de como a indústria da construção pode abranger simultaneamente os
interesses ambientais, sociais e empresariais. Portanto, vamos revisitar várias vezes, implícita e explicitamente, as três vertentes
da eficiência, equidade e meio ambiente, antes de chegar ao capítulo final do livro, que analisa a possibilidade de a indústria da
construção tornar-se sustentável.

Pontos-Chave 2.4
Ideias relacionadas com a eficiência, a equidade e o meio ambiente obtiveram validade desde que a agenda
de desenvolvimento sustentável cresceu em importância.
Existem dois conceitos de eficiência: eficiência produtiva — quando os insumos não são desperdiçados, e
eficiência alocativa — quando os recursos são empregados da melhor forma possível.
Existem dois conceitos de equidade (ou justiça): equidade horizontal — é a igualdade de oportunidades —, e
equidade vertical — são ações para alcançar a justiça social.
Um sistema de livre mercado estimula a eficiência, e um sistema centralmente planejado promove a
equidade.
Existem dois conceitos de custo: custos privados — são os custos do principal envolvido, e custos externos
— são os custos de terceiros. O predomínio de problemas ambientais pode ser explicado pelo fato de que
custos externos podem ser ignorados ou negligenciados por aqueles que consideram somente os custos
privados.
Os problemas relacionados com o meio ambiente parecem permear tanto os sistemas de livre mercado
quanto os sistemas centralmente planejados de alocação de recursos.
Um tema recorrente deste texto é a construção sustentável, que depende de a indústria abranger os três
interesses, de eficiência, equidade e meio ambiente.
__________
*
O Economista, jornal semanal com sede em Londres. (N. R.T.)
No Capítulo 2 enfatizamos que o princípio central de quase todos os sistemas econômicos modernos é uma forte confiança no
mecanismo de mercado (consulte os Pontos-Chave 2.1 e 2.3). Começamos também a reconhecer que as forças da oferta e da
demanda estão intimamente associadas a este mecanismo. Isto foi destacado na Figura 2.2. Para interpretar os sinais de mercado
perceptivamente — quer seja na indústria da construção, no setor de materiais de construção, no mercado imobiliário ou no que
quer que seja — é necessário considerar o mecanismo de preços em mais detalhes. Agora começamos a elaborar nosso
entendimento do mecanismo de preços. Podemos defini-lo mais plenamente como:
um sistema econômico no qual os preços relativos estão constantemente se alterando para refletir mudanças na
oferta e na demanda por produtos e serviços diferentes.
O mecanismo de preços é um sinônimo do termo mecanismo de mercado.
As forças da oferta e da demanda são abrangentes dentro do mecanismo de mercado. Antes mesmo que qualquer produto
ou serviço possa ser produzido, os vários fatores de produção precisam ser empregados e seus preços são afetados pela oferta e
pela demanda. As forças da oferta e da demanda reúnem fabricantes e consumidores de tal maneira que os produtos e serviços
apropriados são fabricados e os rendimentos adequados são pagos. Para destacar esta inter-relação entre a oferta e a demanda
em mercados diferentes, primeiramente consideramos uma visão global da economia de mercado.

ALOCAÇÃO EM UMA ECONOMIA DE MERCADO


A Figura 3.1 exibe como os desejos dos fabricantes e dos consumidores são ‘sinalizados’ pelo mecanismo de preços.
Começando com o mercado de fatores: famílias (consumidores) fornecem recursos econômicos (fatores de produção) para
empresas que precisam deles para realizar a atividade produtiva. Isto é mostrado na metade superior da Figura 3.1. A oferta e a
demanda desses fatores (recursos) determinam os preços pagos por eles no setor específico no qual eles são colocados em
utilização econômica. As famílias recebem diferentes níveis de salários pelo seu trabalho, proveitos pelos serviços que eles
proporcionam, rendimentos pela terra que eles possuem e lucros por suas habilidades empreendedoras, de acordo com o setor
abastecido.
No mercado de produtos, existe um cenário semelhante: as empresas fornecem vários produtos e serviços, de acordo
com a demanda dos consumidores. Novamente, são os preços de mercado que equilibram os interesses das duas partes. Isto é
mostrado na metade inferior da Figura 3.1.

Sinais de Preço e Interesse Pessoal


Para uma economia de mercado funcionar de forma eficaz, é importante que cada indivíduo seja livre para buscar o ‘interesse
pessoal’. Os consumidores manifestam sua escolha de produtos ou serviços através do preço que estão dispostos a pagar por
eles — em sua tentativa de maximizar sua satisfação. Os fabricantes e proprietários dos recursos (e, para a maioria das pessoas,
estes são sua própria força de trabalho) procuram obter a maior recompensa possível, em uma tentativa de maximizar os lucros.

Figura 3.1 Alocação de produtos e fatores via mecanismo de preços


Neste modelo simplificado, as famílias fornecem seus serviços — trabalho, capital, terra e habilidades empreendedoras —
para empresas que precisam deles para a produção. Os preços pagos no mercado de fatores são os itens de
balanceamento que determinam a alocação dos recursos. No mercado de produtos, as firmas fornecem produtos e serviços
para as famílias que precisam deles, e os preços fornecem o item de balanceamento para determinar a distribuição.
Se os consumidores querem mais de um produto do que está sendo fornecido pelo preço atual, isto é indicado por sua boa
vontade em pagar mais para adquiri-lo — o preço é ‘lançado para cima’. Isto, por sua vez, aumenta não só os lucros das
empresas que fabricam e fornecem o produto, como também aumenta os rendimentos pagos aos fatores que fabricam o produto.
Como resultado, os recursos são atraídos para a indústria e há ampliação da oferta.
Por outro lado, se os consumidores não querem um produto específico, seu preço cairá, os fabricantes perderão dinheiro e
os recursos vão deixar a indústria. Isto foi exatamente o que aconteceu com o mercado de ‘novas construções’ durante a
recessão que se seguiu à crise de crédito em 2007. A demanda por novas moradias declinou e os preços caíram; como resultado,
ou os fabricantes se concentraram em outros trabalhos de construção ou faliram. Consequentemente, entre 2008 e 2010, a
conclusão de novas moradias caiu mais de 30 %, alcançando seu nível mais baixo desde 1924.
Em termos simples, portanto, o sistema de preços indica os desejos dos consumidores e aloca os recursos produtivos de
acordo. Ou, nos termos que utilizamos no Capítulo 2, o mecanismo de preços determina o que é produzido, como é produzido e
para quem é produzido. Agora, examinaremos o quão bem esses princípios gerais se aplicam à indústria da construção
britânica.

Sinais de Preço na Indústria da Construção


De acordo com o Cadastro de Empresas Interdepartamental (o qual é utilizado para todas as pesquisas de negócios do ONS),
existem mais de 220.000 empresas que compõem a indústria da construção. Isto torna o mercado bastante fragmentado e muito
distinto do setor manufatureiro. Neste, há normalmente poucas empresas fabricando um produto similar que pode ser livremente
examinado antes da compra. Na construção, parece que acontece o oposto — e um projeto de construção geralmente envolve
muitas empresas pequenas que combinam suas habilidades de campo para produzir um produto específico ‘único’. Este
processo significa que a indústria da construção tende a ser menos eficiente que a indústria manufatureira.
A razão pela qual os indivíduos e as empresas se voltam aos mercados para realizar atividades econômicas é que estes
geralmente reduzem os custos de negociação. Estes custos são chamados de custos de transação porque são parte do
processo de comprar ou vender. Os economistas definem os custos de transação como todos os custos que permitem que as
trocas aconteçam. Eles incluem os custos de serem informados sobre as qualidades de um produto em particular, como
disponibilidade, registro de durabilidade, instalações de manutenção, grau de segurança, e assim por diante. Considere, por
exemplo, os custos de transação na compra de um computador novo. Estes custos incluem ligações telefônicas ou viagens até os
vendedores para se informar sobre os preços e especificações do produto, e, subsequentemente, há o custo de negociação da
venda e, potencialmente, o custo de fazer cumprir o contrato caso a máquina não funcione. Em um mercado puramente teórico
ou altamente organizado, estes custos não existem, já que se considera que todos têm acesso ao conhecimento necessário para
que a troca ocorra.
No contexto da construção, entretanto, estes custos de transação são significativos e de alguma forma explicam o caráter
contraditório da concorrência dentro da indústria. Um problema particular é o fato de que frequentemente o produto que está
sendo criado pela empresa de construção não existe antes de a venda ser efetuada. O produto deve ser precisamente especificado
para garantir a qualidade e a quantidade antes que a venda seja acertada. E, complicando as coisas, as empresas oferecerão os
produtos a preços diferentes. Consequentemente, custos contratuais surgem para esclarecer o que se espera e para cobrir
quaisquer contingências nos procedimentos, como o que acontece se o trabalho é entregue atrasado, acima do preço ou caso não
cumpra a qualidade esperada. Gruneberg e Ive (2000) identificaram seis tipos de custos de transação que qualquer um que
precise dos serviços de uma empresa de construção pode ter que atender. Estes custos de transação estão resumidos na Tabela
3.1.
Alguns economistas argumentam que o aumento do uso da comunicação eletrônica irá reduzir os custos de transação tanto
entre as empresas quanto entre as empresas e os consumidores. De fato, há um debate acadêmico em curso sobre a importância
da nova economia e suas implicações nas transações entre empresas e entre empresas e consumidores. Atualmente, a
indústria da construção não se apresenta efetivamente neste debate, já que o comércio eletrônico teve pouco impacto na forma
como as empresas de construção se comunicam umas com as outras e com seus consumidores. Custos de transação altos,
portanto, são destinados a permanecer como um obstáculo para a eficiência da indústria da construção moderna trabalhando
dentro de um contexto de mercado; revisitaremos os elementos deste debate no Capítulo 6.

Tabela 3.1 Custos de transação que afetam a construção

Custos de procura O custo de descobrir o que está em oferta

Custos de especificação Esclarece precisamente o que é necessário para assegurar a


quantidade e a qualidade desejadas

Custos de contrato O custo de encontrar ou criar condições de contrato para


esclarecer o que é esperado e cobrir as contingências

Custos de seleção O custo de escolher a melhor proposta

Custos de monitoração Mede e controla o preço, o prazo e a qualidade

Custos de execução São as despesas legais relacionadas com a quebra de contratos

Fonte: Adaptada de Gruneberg e Ive (2000: 123-4).

Uma crença na importância dos sinais de mercado remonta aos economistas clássicos. Eles enfatizaram como os preços e
os salários continuamente se ajustam para manter os níveis gerais da oferta e da demanda em equilíbrio. De fato, sua confiança
nas forças do mercado era tão forte, que por um período histórico significativo os economistas recomendaram que a gestão de
uma economia poderia simplesmente seguir uma abordagem laissez-faire.* Milton Friedman, um expoente moderno do
mecanismo de mercado, argumentou fortemente que a necessidade de intervenção do governo é mínima — já que os governos
só são necessários para fornecer um fórum para a determinação das regras do jogo e para atuar como juiz assegurando que as
regras sejam aplicadas. Curiosamente, quando esta abordagem clássica foi inicialmente proposta, durante a Depressão de 1930,
a construção foi um dos primeiros setores que os governos escolheram para manipular.

Pontos-Chave 3.1
O mecanismo de preços é sinônimo do mecanismo de mercado.
As forças da oferta e da demanda em mercados de fatores e de produtos são conciliadas pelo preço (consulte
a Figura 3.1).
A alteração dos preços fornece os sinais de que os indivíduos determinam o que é produzido, como é
produzido e para quem é produzido.
Custos de transação são custos associados a trocas.
Custos de transação são significativos na indústria da construção, e isto reflete a natureza fragmentada e
contraditória das empresas envolvidas no processo.
O reconhecimento da importância do mecanismo de mercado remonta aos economistas clássicos.
ANÁLISE GRÁFICA
A análise do mecanismo de preços (de mercado) tem desempenhado um papel significativo na história da economia. Já em
1776, Adam Smith escreveu em The Wealth of Nations (A Riqueza das Nações) a respeito das ‘mãos ocultas’ da oferta e da
demanda determinando os preços de mercado. Desde então, grande parte dos cursos de economia envolveu o estudo dos
gráficos de oferta e demanda. Isto porque, provavelmente, é mais fácil transmitir uma ideia visualmente — como diz o ditado:
‘uma imagem vale mais que mil palavras’. Um gráfico de oferta e demanda permite que o relacionamento entre preço e
quantidade seja explorado pela perspectiva dos consumidores (demanda) e pela perspectiva dos fabricantes (oferta). Na Figura
3.2, é apresentado o traçado-padrão de cada eixo.

Figura 3.2 Os eixos de um gráfico de oferta e demanda


No eixo vertical é habitual traçar o preço por unidade. No eixo horizontal traçamos a quantidade demandada e/ou fornecida
por período de tempo.

Utilizando os eixos rotulados na Figura 3.2, você pode determinar como o padrão de demanda se pareceria em relação ao
preço? Para colocar a questão em termos mais formais, você pode traçar um cronograma de demanda? Claramente, à
medida que o preço de uma mercadoria sobe, a quantidade demandada irá diminuir, e à medida que o preço cai, a quantidade
demandada irá aumentar. Ou seja, do ponto de vista da demanda, há uma relação inversa entre o preço por unidade e a
quantidade comprada: preços mais altos, menor (isto é, causam menor quantidade de) demanda. Isto é porque os consumidores
procuram maximizar sua satisfação e obter o melhor valor para o dinheiro.
Utilizando os eixos rotulados na Figura 3.2, você pode determinar como o padrão de oferta se pareceria em relação ao
preço? Para reformular a questão em termos mais formais, você pode traçar um cronograma de oferta? Claramente, à
medida que o preço de uma mercadoria sobe, a quantidade ofertada irá aumentar, e conforme o preço cai, a quantidade ofertada
irá diminuir. Ou seja, do ponto de vista da oferta, há uma relação direta entre o preço por unidade e a quantidade ofertada: um
aumento no preço geralmente leva a um aumento na quantidade ofertada. Isto porque os fornecedores procuram maximizar seu
lucro e obter o maior retorno possível para seus esforços.
Como sugerido, estes princípios básicos parecem mais simples de se avaliar quando plotados em um gráfico. Veja se você
concorda, considerando a Figura 3.3.

Figura 3.3 Um gráfico simples de oferta e demanda


A curva de demanda mostra o fato de que a quantidade demandada cai à medida que o preço aumenta. A curva de oferta
mostra a relação oposta: que a quantidade ofertada aumenta conforme o preço aumenta.
Três Observações de Qualificação
Economistas têm concebido diversos procedimentos metodológicos para conferir a suas declarações rigor e valor acadêmico.
Três dessas pequenas, porém importantes técnicas, precisam ser destacadas, especialmente porque os livros didáticos muitas
vezes não conseguem aplicá-las constantemente.

POR PERÍODO DE TEMPO


No eixo horizontal das Figuras 3.2 e 3.3 encerramos a declaração com a qualificação por período de tempo. Isto é para destacar
que a oferta ou a demanda é um fluxo que ocorre durante certo período de tempo. Idealmente, o período de tempo deveria ser
especificado como mês, ano, semana ou o que quer que seja. Sem uma dimensão de tempo, as declarações relativas à
quantidade se tornam sem sentido.

CETERIS PARIBUS
A segunda observação de qualificação refere-se à frase em latim ceteris paribus, a qual significa que todas as coisas são
iguais ou constantes. Esta é uma importante suposição a fazer quando se está lidando com um gráfico que mostra duas
variáveis. Por exemplo, o preço não é o único fator que afeta a oferta e a demanda. Existem várias outras condições de mercado
que também afetam a oferta e a demanda e estas são tratadas nos Capítulos 4 e 5. No exercício da construção das Figuras 3.2 e
3.3, assumimos o ceteris paribus. Nós não complicamos a análise permitindo, por exemplo, que a renda dos consumidores se
alterasse ao discutir as mudanças nos preços de um produto. Se o fizéssemos, poderíamos nunca saber se a mudança na
quantidade demandada ou ofertada foi por causa da alteração no preço ou da alteração na renda. Portanto, aplicamos a técnica
do ceteris paribus e assumimos que todos os outros fatores que poderiam afetar o mercado foram mantidos constantes. Esta
suposição permite que os economistas sejam mais rigorosos em seu trabalho, estudando uma variável significativa de cada vez.
A hipótese do ceteris paribus se aproxima do método científico de um experimento controlado.

CURVAS DE OFERTA E DEMANDA


Quando utilizamos as curvas de oferta e demanda para ilustrar nossa análise, elas serão frequentemente traçadas como linhas
retas. Embora isto seja irritante do ponto de vista linguístico, é mais fácil para o artista que está construindo as ilustrações e é
aceitável pelos economistas, uma vez que as ‘curvas’ raramente se referem à plotagem de dados empíricos. É importante notar,
portanto, que as chamadas ‘curvas’ de oferta e demanda são, em geral, traçadas como linhas retas que realçam os princípios
básicos.
Pontos-Chave 3.2
Em um gráfico de oferta e demanda, o eixo horizontal representa a quantidade e o eixo vertical representa o
preço por unidade.
As curvas de oferta e demanda ilustram como a quantidade demandada ou ofertada se altera em resposta às
mudanças de preço. Se nada mais se alterar (ceteris paribus), as curvas de demanda indicam uma relação
inversa (inclinação para baixo), e as curvas de oferta indicam uma relação direta (inclinação para cima),
como apresentado na Figura 3.3.
Para compreender a premissa sobre a qual os gráficos de oferta e demanda são traçados, é importante
relembrar três critérios: (a) o período de tempo envolvido, (b) a hipótese do ceteris paribus e (c) a forma
das ‘curvas’.

O PREÇO ESTÁ CERTO


Olhe novamente para a Figura 3.3: inevitavelmente, há um ponto no qual as duas curvas têm que se cruzar. Este ponto
representa o preço de mercado. O preço de mercado na Figura 3.3 é P e este reflete o ponto em que a quantidade ofertada e
demandada é igual, ou seja, o ponto Q.
No preço P o mercado limpa. Não há excesso de oferta; não há excesso de demanda. Consumidores e fabricantes estão
felizes. O preço P é chamado de preço de equilíbrio: o preço no qual a quantidade demandada e a quantidade ofertada são
iguais.
A maioria dos mercados tende para um preço de equilíbrio, incluindo o mercado de trabalho, o mercado imobiliário, o
mercado de câmbio, o mercado de tubulações ou qualquer outro. Todos os mercados têm um mecanismo de equilíbrio próprio.
Quando há demanda em excesso, o preço sobe; e quando há oferta em excesso, o preço cai. Eventualmente, um preço em que
não haja tendências para mudanças é encontrado. Os consumidores são capazes de obter tudo o que desejam a esse preço, e os
fornecedores são capazes de vender a quantidade que desejam por esse preço. Este conceito especial de mercado é ilustrado na
Figura 3.4.

Figura 3.4 A determinação do preço de equilíbrio


Neste exemplo, o preço de equilíbrio para cada novo apartamento é de R$ 400.000,00 e a quantidade de equilíbrio é de
2000 unidades. A preços mais elevados, poderia haver um superávit: os apartamentos poderiam estar em oferta excessiva e
permaneceriam vazios. Por exemplo, a R$ 600.000,00 o mercado poderia não limpar; é preciso haver um movimento ao
longo da curva de demanda de H para E, e um movimento ao longo da curva de oferta de h para E. Estes movimentos
exigem que o preço caia. A preços abaixo do equilíbrio, poderia haver escassez: os apartamentos poderiam estar em
demanda excessiva e haveria uma lista de espera. Por exemplo, a R$ 200.000,00 o preço subiria, reduzindo a demanda de
F para E, e aumentando a oferta de f para E. Este mercado tende a se acomodar a um preço de R$ 400.000,00.
O Conceito de Equilíbrio
O conceito de equilíbrio é importante na economia e estaremos nos referindo a ele em diferentes mercados e em diferentes
contextos ao estudarmos a economia. Equilíbrio em qualquer mercado pode ser definido como:
uma situação na qual os planos dos vendedores e os planos dos compradores se entrosam perfeitamente.
O equilíbrio prevalece quando forças opostas estão balanceadas. Em qualquer mercado, a interseção entre uma dada curva de
oferta e uma dada curva de demanda indica o preço de equilíbrio. Se o preço se afasta deste ponto de equilíbrio — por qualquer
que seja o motivo — forças entram em jogo para achar um novo preço de equilíbrio. Se estas forças tendem a restabelecer os
preços no ponto de equilíbrio original, dizemos que a situação é de equilíbrio estável. Um equilíbrio instável é aquele em
que, se houver um movimento de afastamento do equilíbrio, existem forças que empurram o preço e/ou a quantidade para ainda
mais longe deste equilíbrio (ou pelo menos não trazem o preço e a quantidade de volta para o nível de equilíbrio original).
A diferença entre um equilíbrio estável ou instável pode ser ilustrada com duas bolas: uma feita de borracha dura e outra
feita de massa macia. Se você comprimir a bola dura até que mude de formato, ela volta a sua forma original. Por outro lado, se
você comprimir a bola feita de massa macia, ela permanece fora de forma. A primeira exemplifica um equilíbrio estável, e a
última, um equilíbrio instável.
Agora considere um choque para o sistema. O choque pode ser apresentado tanto por uma alteração na curva de oferta,
quanto por uma alteração na curva de demanda, ou por uma alteração em ambas as curvas. Qualquer choque para o sistema vai
produzir um novo conjunto de relações de oferta e demanda, e um novo equilíbrio preço-quantidade. Forças entrarão em jogo
para mover o sistema do antigo equilíbrio preço-quantidade para o novo. Agora vamos considerar um exemplo específico para o
mercado imobiliário.

Alteração nas Condições do Mercado


Para ilustrar a dinâmica do mercado imagine o que pode acontecer se a taxa de juros das hipotecas subir, enquanto as outras
coisas permanecem constantes. Isto irá reduzir a procura por casas próprias de todo e qualquer preço. Esta diminuição da
demanda é apresentada na Figura 3.5 na forma econômica tradicional, deslocando a curva de demanda para a esquerda de D1
para D2. Se os preços das propriedades permanecerem em P, os consumidores só necessitarão da demanda Qa enquanto os
fabricantes (vendedores) continuarão produzindo Q. Consequentemente, haverá uma quantidade excessiva de oferta no mercado
igual a Q – Qa. Entretanto, caso os preços de fornecimento se desloquem para fazer com que a quantidade ofertada e a
quantidade demandada se igualem novamente, os fornecedores serão capazes de se livrar de imóveis vagos reduzindo seus
preços. À medida que o preço cai, os consumidores vão se interessar em comprar, e então a demanda vai aumentar.
Consequentemente, um novo preço de equilíbrio será alcançado. Este novo preço é P1 na Figura 3.5, e a nova quantidade a ser
demandada e ofertada será agora igual a Q1.
O deslocamento da curva de demanda (tal como na Figura 3.5) ocorre somente quando a hipótese do ceteris paribus é
violada. Em outras palavras, as curvas somente se deslocam para uma nova posição quando as condições de mercado mudam.
Esses ‘deslocamentos’ serão explorados com mais detalhes nos dois próximos capítulos.

Figura 3.5 Alterar as condições do mercado leva a um novo preço de equilíbrio


O deslocamento para a esquerda da curva de demanda indica que os consumidores estão agora dispostos e aptos a
comprar menos imóveis de cada faixa de preço, devido ao aumento nas taxas de hipoteca. O excesso de ofertas de
propriedades no mercado pelo preço antigo P provoca o encontro de um novo equilíbrio a um preço menor P1, no qual a
quantidade demandada e a quantidade ofertada se igualam novamente.

NOTA DE ENCERRAMENTO
Finalmente, para completar nossa visão geral introdutória das forças de mercado, precisamos também reconhecer a existência da
falha de mercado. Até agora não consideramos nenhuma distorção do mercado. Por exemplo, levamos em consideração que
a mão de obra se moverá livremente para onde quer que o trabalho seja mais rentável e os consumidores comprarão o que
desejarem em mercados determinados livremente. Contudo, na realidade, monopólios, oligopólios, subsídios, sindicatos,
externalidades, altos custos de transação, e outras imperfeições do mercado distorcem a situação. Examinaremos estas questões
com mais detalhes no Capítulo 10. Porém, são questões importantes de termos em mente ao longo do livro, especialmente
porque nossa análise também está concentrada na forma como as economias modernas conseguem alcançar uma construção
sustentável, e estas imperfeições tendem a criar uma lacuna entre as soluções teóricas e a prática orientada para o mercado.

Pontos-Chave 3.3
Quando combinamos as curvas de demanda e oferta, encontramos o preço de equilíbrio na interseção das
duas curvas. No preço de equilíbrio não há tendência para mudanças, o mercado fica limpo (consulte a
Figura 3.4).
O equilíbrio existe sempre que os planos dos compradores combinam-se perfeitamente com os planos dos
vendedores. O preço direciona os compradores e vendedores para a direção correta.
Se as condições do mercado mudam, a curva pertinente se desloca e uma nova posição de equilíbrio é
estabelecida (consulte a Figura 3.5).
As falhas de mercado existem, e as distorções do mercado formam uma consideração importante na criação
de qualquer agenda que vise alcançar a sustentabilidade.
__________
*
Laissez-faire é hoje a expressão símbolo do liberalismo, na versão mais pura do capitalismo, no qual o mercado deve funcionar
livremente, sem interferência e com os regulamentos apenas suficientes para proteger os direitos de propriedade. (N.R.T.)
Como sugerido no capítulo anterior e revisado nos Pontos-Chave 3.1, os conceitos de oferta e demanda são os blocos de
construção básicos da economia, quer os resultados sejam sustentáveis quer não. Neste capítulo, focamos especificamente na
demanda e no capítulo seguinte lidamos com a oferta.
Quando os economistas falam sobre demanda eles querem dizer demanda efetiva. Demanda efetiva é o retorno
financeiro desejado. Não são as demandas de um bebê chorando ou de uma criança mimada querendo e agarrando tudo o que
vê. A demanda do ponto de vista econômico é real, demanda ‘genuína’, apoiada na capacidade de realizar uma compra. Isto é
diferente de precisar. Por exemplo, em 2012 o número total de famílias na Inglaterra precisando de acomodações excedeu o
número de casas no mercado imobiliário. Somente aqueles que dispunham de meios suficientes para ‘demandar’ acomodações
— ou seja, eles podiam comprar ou alugar a preços de mercado — estavam confiantes de conseguir um lugar para viver. Esta
anomalia explica o número de pessoas desabrigadas vivendo em pensões à custa do governo.

Figura 4.1 Curva de demanda de um mercado-padrão


A curva de demanda para a maioria dos produtos e serviços se inclina para baixo, da esquerda para a direita, já que quanto
mais elevado é o preço, menor é o nível de demanda (com as outras coisas permanecendo iguais).

LEI BÁSICA DA DEMANDA


Já estabelecemos no último capítulo (consulte os Pontos-Chave 3.2) que uma curva de demanda tem uma inclinação negativa.
Ela se move para baixo, da esquerda para a direita. Isto é esclarecido na Figura 4.1.
A forma da curva de demanda para a maioria dos produtos e serviços não é surpreendente quando se considera a lei
básica da demanda. Esta pode ser declarada formalmente como:
a preços mais elevados, uma menor quantidade será demandada do que a preços mais baixos (e vice-versa), com
as outras coisas permanecendo iguais.
A lei da demanda, portanto, nos diz que a quantidade demandada de um produto está inversamente relacionada com o preço
daquele produto, com as outras coisas permanecendo iguais.
Para continuar com esta análise, devemos considerar a frase ‘com as outras coisas permanecendo iguais’ com mais
cuidado. Claramente, a demanda não é afetada só pelo preço. Como já concluído no Capítulo 3, é fácil perceber que outros
fatores podem também afetá-la. A curva de demanda apresentada na Figura 4.1 pode se deslocar para outra posição. As
condições no mercado podem se alterar significativamente, o suficiente para fazer os consumidores mudarem a quantidade
demandada para cada preço. Por exemplo, imagine que a Figura 4.1 representa a curva de demanda de um produto da indústria
da construção. Quais eventos podem causar maior ou menor demanda para esse produto em todos os preços?

DEMANDA NA INDÚSTRIA DA CONSTRUÇÃO


A determinação da demanda por produtos e serviços produzidos pela indústria da construção é um processo complicado. Isso
ocorre em parte devido ao tamanho, custo, longevidade e natureza do investimento dos produtos, e parte devido à ampla gama
do que constitui a atividade de construção. Isto se tornará mais claro à medida que consideramos os fatores que afetam a
demanda para vários setores da indústria.

Demanda por Habitação


Em 2010, havia mais de 27 milhões de famílias no Reino Unido. A grande maioria desses 27 milhões de famílias podiam se dar
ao luxo de ter um lar, mas é importante relembrar o ponto introdutório sobre demanda efetiva e evitar confusões entre
‘necessidade’ e ‘demanda’. Cada família requer algum tipo de abrigo — um apartamento, bangalô, casa com terraço, sobrado,
casa geminada, caixa de papelão, ou o que quer que seja. Os recursos relacionados são atribuídos por meio do mecanismo de
mercado e do poder público, ou pela mistura dos dois. É difícil prever apenas um mercado imobiliário. Na verdade, quando
estatísticos discutem o mercado imobiliário no Reino Unido é normal a distinção de quatro setores.
1 O setor da casa própria — ou seja, imóveis de propriedade definitiva ou sendo comprados com uma hipoteca.
2 O setor de alugados particularmente — imóveis alugados por um valor considerado ‘justo’ para inquilinos e proprietários.
3 O setor de alugados pela autoridade local — imóveis disponibilizados pela autoridade local (município) a uma taxa
subsidiada por fundos públicos.
4 O setor de propriedades sociais registradas — imóveis gerenciados por organizações sem fins lucrativos que combinam
fundos públicos e privados para fornecer moradia para aqueles que necessitam. Grande parte deste setor é composta de
propriedades gerenciadas por associações imobiliárias.
Esses quatro setores foram listados por ordem de tamanho, de acordo com o formato utilizado para medir oficialmente os
títulos de posse no Reino Unido. Em termos gerais, entretanto, é suficiente entender que a procura por habitação pode ser tanto
para a compra como para o aluguel, ou para alguma combinação via patrimônio compartilhado. Consideraremos agora os
principais fatores que determinam a demanda por moradia dentro de três mercados principais.

DEMANDA PELA CASA PRÓPRIA


A maioria das famílias no Reino Unido, na Escandinávia, na Australásia e em grande parte da Europa demandam a casa própria.
Cerca de 65 % das famílias no Reino Unido vivem desta forma, e o tamanho relativo do setor da casa própria na Espanha (80
%), Irlanda (76 %) e Finlândia (78 %) é ainda maior. Esse tipo de propriedade é geralmente apoiado por iniciativas
governamentais que estimulam a demanda, tornando o processo de compra da casa tão rápido, transparente e amigável ao
consumidor quanto possível. No Reino Unido houve incentivos fiscais para a compra da casa própria, na forma de um subsídio
nos pagamentos da hipoteca oferecidos independentemente da renda, embora estes já tenham terminado. A lógica é a de que, se
possuírem as propriedades que ocupam, as pessoas vão mantê-las com mais cuidado. O fator bem-estar resultante da
propriedade da casa própria faz com que os custos de transação da escolha e do financiamento valham a pena, especialmente
porque uma casa proporciona um investimento, assim como um abrigo. Como você pode imaginar, existem diversos fatores que
determinam a demanda pela casa própria, e na Tabela 4.1 identificamos os principais.

Tabela 4.1 Fatores que afetam a demanda pela casa própria


O preço atual dos imóveis

O preço de outras formas de habitação

A renda e as expectativas de mudança

O custo dos empréstimos e as expectativas de mudança

Incentivos do governo, como os benefícios fiscais

Fatores demográficos, como o número de famílias

O preço de produtos e serviços relacionados, como manutenção, mobiliário, impostos,


seguros etc.

DEMANDA POR IMÓVEIS ALUGADOS PARTICULARMENTE


Desde a Segunda Guerra Mundial, houve apenas uma pequena demanda por imóveis alugados particularmente. Hoje,
aproximadamente 16 % das famílias do Reino Unido procuram por esse tipo de acomodação. Isto está em contraste direto com
algumas das economias europeias, em que cerca de 40 % das famílias estão vivendo desta maneira. Houve uma forte mudança
no padrão de demanda por habitações no Reino Unido. No início do século XX, pessoas de todas as classes de renda
habitualmente alugavam de proprietários privados. Em 1915, por exemplo, 90 % das famílias do Reino Unido viviam em
imóveis alugados particularmente. Essa mudança no padrão de demanda está intimamente associada à diminuição da oferta. Isto
aconteceu após a introdução dos controles de aluguel pelo governo, que impôs um teto sobre as rendas e, em decorrência,
criou um grande desincentivo para os proprietários. Como resultado, a demanda atual é atendida principalmente por pequenos
proprietários individuais, que mantêm e gerenciam propriedades em seu tempo livre. Em uma tentativa de reverter tal tendência,
o setor de aluguéis particulares no Reino Unido tem sido amplamente desregulado nos últimos anos.
Em geral, o mercado de imóveis privados para alugar varia muito de país para país, devido a diversas razões culturais e
econômicas. Os principais fatores econômicos que afetam a demanda neste setor estão listados na Tabela 4.2.

Tabela 4.2 Fatores que afetam a demanda por imóveis alugados particularmente

Níveis de renda atuais e as expectativas de mudança

Distribuição de renda — que determina a acessibilidade

O custo dos empréstimos e as expectativas de mudança

A lei sobre os aluguéis e a segurança da posse

Fatores demográficos, como a formação das famílias

O preço da casa própria

DEMANDA POR HABITAÇÕES SOCIAIS


Habitações fornecidas por autoridades locais e proprietários sociais cadastrados, como associações imobiliárias, são geralmente
classificadas como habitações sociais. A origem da habitação social encontra-se na ideia de que os governos devem pagar um
subsídio para moradia, de forma a compensar a escassez de habitações disponíveis para famílias de baixa renda. No Reino
Unido, durante os anos 1980 e 1990 — com ambos os governos, Conservador e Trabalhista, favorecendo políticas de livre
mercado — grande parte do estoque de imóveis das autoridades locais foi transferida para associações imobiliárias para alocá-
los, gerenciá-los e mantê-los, ou foram vendidos aos inquilinos transferindo o estoque para o setor da casa própria. Um processo
semelhante ficou evidente na China, na República Tcheca, na Polônia e na antiga União Soviética, em que a privatização do
estoque de habitações sociais foi uma característica fundamental do processo de transição.
Combinados, os setores das autoridades locais e dos proprietários sociais cadastrados ainda representam ‘lares’ para
aproximadamente cinco milhões (18 %) de famílias do Reino Unido. Os fatores que determinam a demanda por habitações
sociais são bem diferentes daqueles que impulsionam a demanda para as casas próprias e para os imóveis alugados
particularmente. Os principais fatores da demanda por habitações sociais estão listados na Tabela 4.3.

Demanda por Imóveis Industriais e Comerciais


Consideramos agora a demanda para toda uma gama de imóveis, incluindo escritórios, fábricas, armazéns, hotéis, garagens,
lojas — em resumo, quase todos os imóveis, exceto casas. Imóveis industriais e comerciais não são necessários para um
objetivo próprio, mas pelos serviços que podem proporcionar. Consequentemente, a demanda por imóveis industriais e
comerciais é baseada em fatores relacionados com o setor específico no qual a edificação será utilizada. A demanda desse tipo é
conhecida como demanda derivada.

Tabela 4.3 Fatores que afetam a demanda por habitações sociais

O preço atual (renda) da habitação social

O nível de preço de outras formas de posse

Avaliação da necessidade

Disponibilidade de financiamento, como o apoio ao rendimento e hipotecas

Níveis de subsídio do governo

A demanda derivada implica que as edificações sejam alugadas ou compradas não porque geram renda, mas porque podem
ser utilizadas para produzir produtos ou serviços que serão vendidos com lucro. Isto é diferente dos fatores que afetam a
demanda pela compra de uma casa. Após o surgimento de problemas no crédito hipotecário do mercado residencial norte-
americano no final de 2007, a confiança empresarial global foi significativamente prejudicada, e a demanda por propriedades
comerciais e industriais no Reino Unido caiu como consequência durante 2008 e 2009.
Os investimentos em imóveis comerciais e industriais, portanto, dependem da expectativa de que os compradores ou
inquilinos — isto é, as empresas — terão lucros no futuro. Se a confiança das empresas é baixa, não haverá investimento,
mesmo que haja demanda por um aumento na produção ou nas vendas. Os fatores que afetam a demanda por edificações
industriais e comerciais são, em grande parte, dependentes do estado da economia e das expectativas de negócios relativos à
produção e ao lucro. Em outras palavras, como a demanda é derivada, é dependente de muitas coisas além do preço. Alguns dos
principais fatores de demanda para esta ampla categoria de imóveis industriais e comerciais são mostrados na Tabela 4.4.

Tabela 4.4 Fatores que afetam a demanda por edificações industriais e comerciais

Desenvolvimentos tecnológicos

Alterações no gosto ou na moda

Níveis esperados de custo, incluindo as taxas de juros

O estado da economia e a política de governo

A confiança dos empresários

A idade e as condições das instalações existentes

Demanda por Infraestrutura e Outras Construções do Setor Público


Consideramos agora a demanda por projetos de infraestrutura maiores, como hospitais, estradas, escolas, túneis, prisões,
museus, pontes, delegacias de polícia e quartéis do corpo de bombeiros. Essas demandas são criadas por um grande número de
indivíduos que, deixados à sua própria sorte, não são capazes ou não estão dispostos a pagar o preço de mercado pela instalação
desejada. Nesses casos, o governo decide o nível de serviço que deve estar disponível. Isto não quer dizer que o setor público
necessariamente financia esses projetos de infraestrutura. Em muitos países, as políticas públicas, ou a falta de recursos
públicos, significa que o fornecimento dessas instalações foi transferido para o setor privado. Exemplos de fornecimento do
setor privado incluem autoestradas com pedágio. No Reino Unido, a iniciativa de financiamento privado (discutida no Capítulo
6) assegura que muitas instalações previamente fornecidas pelo setor público agora são financiadas pelo setor privado.
A demanda por esses produtos é mais uma vez, em grande parte, derivada. Um excelente exemplo vem da China, onde a
recente construção de estradas ocorreu paralelamente ao desenvolvimento de novas cidades, mudando estilos de vida e
acelerando o crescimento econômico. Em outras palavras, a China não queria as estradas por si sós, mas elas são necessárias
para as formas modernas de transição da atividade econômica, em vez das estradas locais, frágeis e congestionadas.
A demanda por instalações voltadas para a comunidade pode ser julgada em grande parte na mesma base das edificações
comerciais e industriais. Entretanto, avaliar a demanda para esses produtos é ainda mais complexo, já que isto também depende
da avaliação da necessidade e dos fundos disponíveis. Alguns dos principais fatores de demanda desta ampla área da atividade
de construção são mostrados na Tabela 4.5. Considerando esses fatores, é possível entender as dificuldades políticas de escolher
quais, entre as diversas necessidades públicas, devem ser transformadas em demanda efetiva.

Tabela 4.5 Fatores que afetam a demanda por infraestrutura e construções do setor público

Avaliação da necessidade — presente e futura

Disponibilidade de financiamento e níveis de subsídio do governo

Política do governo

A idade e as condições do estoque existente

Demanda por Reformas e Manutenção


A demanda por reformas e manutenção de edifícios e infraestruturas não pode ser ignorada, uma vez que representa a maior
área de atividade na indústria da construção. No Reino Unido, por exemplo, ela representa cerca de 40 % de toda a atividade de
construção, não levando em consideração as atividades de reformas e manutenção realizadas pela economia de mercado
informal, a qual provavelmente contribui significativamente para atender esse tipo de demanda.
Em geral, parece que quanto mais pobre é o país, em termos de PIB per capita, menor a proporção de obras de reformas e
manutenção. Isto pode ser explicado pelo fato de que as economias desenvolvidas possuem maiores estoques de produtos da
construção — assim, haverá uma menor necessidade de novas construções, mas uma maior necessidade por reformas e
manutenção. Além disso, à medida que os países se desenvolvem, eles frequentemente se preocupam em manter e proteger seu
patrimônio cultural. Em alguns casos, as edificações são conservadas ainda que fosse mais barato demoli-las e construir uma
nova. Essa tendência pode se tornar mais nítida na medida em que a campanha por sustentabilidade estimule a preservação de
materiais não renováveis.
Como resultado, existem muitos fatores determinando o nível de demanda por trabalhos de reformas e manutenção, os
quais abrangem uma ampla gama de atividades. Em termos gerais, os principais determinantes encontram-se listados na Tabela
4.6.

Tabela 4.6 Fatores que afetam a demanda por reformas e manutenção

O custo atual das reformas e manutenção

O custo de uma nova edificação

O nível da renda atual


As políticas do governo associadas ao patrimônio e conservação etc.

A idade e as condições do estoque existente (e seu estado de abandono)

O padrão de propriedade, uma vez que a propriedade ocupada pelo próprio proprietário
tende a ser mais bem conservada

UMA EQUAÇÃO DE DEMANDA GENERALIZADA


Se estudarmos cuidadosamente os fatores que afetam a demanda nos vários setores da indústria da construção, demonstrados
nas Tabelas 4.1 a 4.6, podemos identificar rapidamente alguns temas gerais. Por exemplo, parece que os determinantes
recorrentes da demanda são o preço do produto que está sendo considerado, o preço dos produtos relacionados, o nível de renda
e a política governamental. Portanto, podemos avançar rapidamente para a formulação de uma ferramenta generalizada de
análise.
A teoria econômica normalmente não se refere a apenas um setor da economia. A análise é realizada de uma forma tão
geral que pode ser igualmente aplicada em qualquer setor. Por exemplo, a demanda por qualquer produto é algumas vezes
apresentada na forma de uma equação geral, como a seguir:
Qnd = f(Pn, Pn−1, Y, G, ...)
Esta é em geral referida como função demanda. Pode parecer complicado, mas é só uma forma de notação resumida. A
função demanda representa, em símbolos, tudo o que foi discutido anteriormente. Ela determina que Qnd, a quantidade
demandada de um produto ‘n’ é uma função de tudo o que está contido dentro dos parênteses: Pn o preço do produto, Pn–1 o
preço dos outros produtos, Y renda, G política governamental, e... uma série de outras coisas. (A notação relativa à função
demanda básica está demonstrada na Tabela 4.7.) Essas equações podem ser adaptadas e estendidas conforme necessário para
apoiar a análise de um setor específico. Por exemplo, em nossa análise no início deste capítulo, fomos capazes de especificar
alguns outros determinantes — as outras coisas — porque identificamos o que ‘n’ representa especificamente. Por exemplo,
com frequência nos referimos à idade e às condições do estoque existente e a uma avaliação de necessidades.

Tabela 4.7 Fatores que afetam a demanda de qualquer produto

Pn O preço do produto

Pn–1 O preço de outros produtos

Y Renda

G Políticas governamentais

... uma série de outras coisas

Pontos-Chave 4.1
A lei básica da demanda é a de que, à medida que o preço aumenta, menores quantidades são demandadas,
e conforme o preço cai, maiores quantidades são demandadas. Existe uma relação inversa entre o preço e
a quantidade demandada, com outras coisas permanecendo iguais (consulte a Figura 4.1).
Na indústria da construção, parece haver muitos determinantes que afetam a demanda, incluindo o preço
(renda) da edificação ou infraestrutura, o preço de outros produtos (como produtos substitutos), o nível
atual de renda e as políticas governamentais.
Grande parte da demanda da atividade de construção é de natureza derivada, na medida em que as
mercadorias não são necessariamente demandadas por direito próprio, mas pelo que elas podem
acrescentar ao produto ou serviço final que está sendo produzido.
A relação entre a quantidade demandada e os vários determinantes da demanda pode ser expressa como
uma equação. Os termos gerais utilizados na equação são demonstrados na Tabela 4.7.
MUDANÇAS NAS CONDIÇÕES DE MERCADO
Claramente, existem muitos determinantes de demanda que independem do preço, como o custo do financiamento (taxas de
juros), desenvolvimentos tecnológicos, composição demográfica, estação do ano, moda, e assim por diante. Para fins
ilustrativos, consideraremos somente quatro categorias generalizadas — renda, preço de outros produtos, expectativas e governo
— tomando uma de cada vez e assumindo o ceteris paribus em cada caso.

Renda
Para a maioria dos produtos, um aumento na renda conduzirá a um aumento na demanda. A expressão aumento na demanda
significa, corretamente, que mais está sendo demandado em todo e qualquer preço. Para a maioria dos produtos, portanto, um
aumento na renda conduzirá a um deslocamento para a direita na posição da curva de demanda.
Os produtos para os quais a demanda aumenta quando a renda aumenta são chamados de bens normais. A maioria dos
produtos é ‘normal’ nesse sentido. Existe uma pequena quantidade de produtos para os quais a demanda diminui na medida em
que a renda aumenta: estes são chamados de bens inferiores. Por exemplo, a demanda por imóveis residenciais alugados cai
à medida que as pessoas se tornam capazes de comprar suas próprias casas. (É importante reconhecer que os termos normal e
inferior neste contexto são parte de uma linguagem econômica formal, e nenhum julgamento quanto a seu valor deve ser
inferido quando os termos são utilizados.)

Preço de Outros Produtos


As curvas de demanda são sempre traçadas considerando que os preços de todas as outras mercadorias são mantidos constantes.
Por exemplo, quando desenhamos a curva de demanda para o mercado de calhas de chumbo, supomos que o preço das calhas de
plástico é mantido constante; quando desenhamos a curva de demanda para carpetes, admitimos que o preço das habitações é
mantido constante. Entretanto, o preço dos outros produtos considerados constantes pode afetar o padrão de demanda para o
produto específico em análise. Este é particularmente o caso, se o outro produto é um bem substituto (como no exemplo das
calhas) ou um bem complementar (como no exemplo do carpete e da habitação). Os economistas consideram como a
mudança no preço de um produto interdependente, tal como um bem substituto ou complementar, afeta a demanda pela
mercadoria relacionada.
Vamos considerar o exemplo das calhas de forma mais completa. Suponha que tanto a calha de plástico como a de chumbo
custem originalmente R$ 40,00 por metro. Se o preço das calhas de chumbo permanecer a R$ 40,00 por metro, mas o preço das
calhas de plástico cair em 50 % para R$ 20,00 por metro, os construtores utilizarão mais calhas de plástico e menos calhas de
chumbo. A curva de demanda para as calhas de chumbo, a todo e qualquer preço, se deslocará para a esquerda. Se, por outro
lado, o preço das calhas de plástico subir, a curva de demanda para as calhas de chumbo vai se deslocar para a direita, refletindo
o fato de que os construtores comprarão mais deste produto ao seu preço atual. Portanto, uma alteração no preço do bem
substituto provocará uma mudança inversa no padrão de demanda para a outra alternativa.
O mesmo tipo de análise também se aplica aos bens complementares. Entretanto, neste caso, a situação é invertida: uma
queda no preço de um produto pode causar um aumento na demanda por ambos os produtos, e um aumento no preço de um
produto pode causar uma queda na demanda por ambos.

Expectativas
A opinião dos consumidores sobre as futuras tendências de suas receitas, taxas de juros e disponibilidade do produto pode afetar
a demanda — e os incita a comprar maior ou menor quantidade de um produto em particular, ainda que seu preço atual não
varie. Isto é particularmente evidente quando consideramos a demanda por atividades de construção. Considere a demanda por
habitação (consulte as Tabelas 4.1, 4.2 e 4.3). Por exemplo, compradores de casas em potencial que acreditam que as taxas de
hipoteca tendem a subir podem comprar menos propriedades a preços atuais. A curva de demanda por casas se deslocará para a
esquerda, refletindo o fato de que a quantidade de propriedades demandadas para a compra, a todo e qualquer preço, tornou-se
reduzida, devido às expectativas dos consumidores de que as taxas de hipoteca subirão.

Governo
A legislação pode afetar a demanda por uma mercadoria de várias formas. Por exemplo, alterações nas normas de construção,
como o Código de Casas Sustentáveis introduzido em 2007, têm colocado grande foco nos padrões esperados para o uso de
água e energia. Este, por sua vez, tem influenciado tanto o projeto de acessórios e aparelhos utilizados na cozinha, banheiros e
aquecimento geral, quanto a demanda por esses acessórios e aparelhos utilizados. A demanda por esses produtos aumentou,
independentemente do seu preço atual. Ou, colocando de outra forma, a curva de demanda para todos os produtos em
conformidade com o código se deslocou para a direita, refletindo o fato de que grandes quantidades dessas unidades estão sendo
demandadas a todo e qualquer preço. (Ainda levará algum tempo para que os fabricantes possam se ajustar a esses novos
padrões; assim, os preços podem primeiramente subir antes que a tecnologia se desenvolva.) O governo também pode
influenciar o nível de demanda alterando os impostos ou por meio da criação de um subsídio. As Tabelas 4.1 a 4.6 fazem alusão
à influência do governo na demanda por construção, e isto será considerado mais plenamente nos Capítulos 9, 10 e 11, os quais
revisam a política governamental relacionada à proteção efetiva do meio ambiente.

Revisando o Ceteris Paribus


Quando introduzimos a ideia de manter as outras coisas constantes, pode ter ficado a impressão de que estas ‘outras coisas’ não
eram importantes. A seção anterior, entretanto, deve ter destacado o quão errada esta interpretação seria. Realmente, a suposição
do ceteris paribus permite que os economistas enfatizem o fato de que o preço e uma série de outros fatores determinam a
demanda. Sempre que se analisa o nível de demanda por qualquer produto de construção, haverá a necessidade de considerar
tanto o preço como vários outros fatores relacionados. Para esclarecer esta importante distinção entre o determinante do preço e
os determinantes que são independentes do preço, os economistas são cuidadosos ao diferenciar entre eles quando discutem
alterações na demanda.

COMPREENDENDO AS ALTERAÇÕES NA DEMANDA


Já foi explicado que alterações em determinantes que independem do preço fazem com que o cronograma de demanda se
desloque para a direita ou para a esquerda, demonstrando o fato de que mais ou menos está sendo demandado para cada preço.
Essas alterações são frequentemente referidas como aumentos ou diminuições de demanda.
Consideremos um exemplo em detalhes. Como poderíamos representar um aumento na quantidade demandada de
edificações comerciais ventiladas naturalmente (em todos os preços) devido à conclusão de uma respeitada pesquisa que
afirmou que edifícios artificialmente climatizados provocam síndrome do edifício doente? A curva de demanda para
edifícios ventilados naturalmente se deslocaria para a direita, representando um aumento na demanda para cada preço. Isto está
apresentado na Figura 4.2.
Poderíamos utilizar uma análise similar ao discutir decréscimos na demanda devido a uma alteração nos determinantes que
independem do preço. A única diferença seria que a curva de demanda se deslocaria para a esquerda, demonstrando que a
quantidade demandada é menor para cada preço.

Figura 4.2 Alteração em um determinante que independe do preço provocando uma mudança na demanda
Se um determinante da demanda que independe do preço muda, pode-se apresentar seu efeito movendo toda a curva de D
para D1. Consideramos, em nosso exemplo, que o deslocamento foi induzido por alguma pesquisa em favor das edificações
ventiladas naturalmente. Portanto, para qualquer preço, uma maior quantidade deveria ser demandada. Por exemplo, a um
preço P, a quantidade de edificações ventiladas naturalmente demandadas aumenta de Q para Q1.
Em contrapartida, o determinante de preço provoca uma movimentação ao longo da curva de demanda. Isto fica óbvio
quando lembramos que a curva de demanda representa uma relação entre preço e quantidade. Alterações na quantidade
demandada em função apenas do preço são frequentemente referidas como uma extensão ou contração da demanda. Isto
envolve uma movimentação ao longo da curva de demanda. Quando a demanda é maior devido a um preço mais baixo, isto
pode ser considerado uma extensão de uma coordenada da curva de demanda para outra. Quando a demanda é menor devido a
um aumento de preços, a demanda se contrai. Tais movimentos ao longo da curva de demanda são descritos posteriormente na
Figura 4.3.
Antes de começarmos a aplicar nosso conhecimento teórico de demanda, é particularmente importante relembrar a
distinção entre um movimento ao longo e um deslocamento em uma curva de demanda. Estas regras irão nos ajudar não só a
entender a análise gráfica, mas também a reconhecer os vários fatores que entram em jogo quando se interpreta a demanda na
indústria da construção.

Figura 4.3 Alteração no preço provocando um movimento ao longo de uma dada curva de demanda
Apresentamos a curva de demanda para um produto hipotético X. Se o preço é P1, então a quantidade demandada seria Q1;
estaremos na coordenada A. Se o preço cair para P2, e todos os outros fatores do mercado permanecerem constantes,
então haverá uma extensão da demanda para Q2 — da coordenada A para a coordenada B.
Pontos-Chave 4.2
Os quatro maiores determinantes independentes do preço são (a) renda, (b) preço de outros produtos, (c)
expectativas e (d) política governamental.
Se qualquer um dos determinantes independentes do preço se altera, o cronograma de demanda se desloca
para a direita ou para a esquerda, e nos referimos a um aumento ou diminuição da demanda (consulte a
Figura 4.2).
Movimentos ao longo de uma dada curva de demanda são causados por variações de preços e estas são
descritas como contrações ou extensões da demanda (consulte a Figura 4.3).

ELASTICIDADE DA DEMANDA
Para completar esta introdução à teoria da demanda, precisamos adicionar brevemente que os economistas profissionais também
estão interessados em mensurar o grau de reação da demanda a uma mudança nas condições de mercado. A medida da reação é
denominada elasticidade. E pode ser definida como:
a medida do grau de reação da demanda a uma mudança em uma variável externa.
Um valor numérico para a elasticidade da demanda pode ser calculado em relação ao preço, renda ou a um produto afim
utilizando a fórmula:

Neste texto, nos concentramos no preço como a variável-chave. Por exemplo, podemos desejar saber a amplitude na qual uma
alteração no preço da gasolina causará uma alteração na quantidade de demanda por este produto, as outras coisas sendo
mantidas constantes. Digamos que o preço da gasolina aumente em 10 % e que isto leve a uma redução na demanda de 1 %. O
cálculo seria o seguinte:

Esta é uma sensibilidade muito pequena e, em termos técnicos, sempre que esta medida é menor que um, a demanda é referida
como inelástica. A teoria da demanda formula que a quantidade demandada é inversamente relacionada com o preço relativo;
em consequência, a elasticidade-preço é sempre um número negativo — se o preço aumentar, o que é uma variação percentual
positiva, a quantidade demandada cai, o que é uma variação percentual negativa — mas é uma convenção para os economistas
ignorar o sinal negativo quando se discute a elasticidade-preço da demanda. Portanto, se a elasticidade-preço é de 0,3, pode-se
inferir que, se o preço aumentar em 1 %, a demanda cairá em 0,3 % — assim, um aumento de 10 % causará uma queda na
demanda de cerca de 3 %. (Por outro lado, os cálculos relativos à elasticidade-preço da oferta serão quase sempre positivos, já
que normalmente existe uma relação direta entre os dois — na medida em que o preço aumenta ou diminui, o mesmo acontece
com a quantidade ofertada.)
Outro comentário relevante é a importância das alterações percentuais, uma vez que elas nos permitem mensurar as
alterações de preço em termos de centavos, reais ou milhares de reais, e as alterações de quantidade em alguma outra unidade de
medida. O importante é a capacidade de expressar as alterações como valores relativos. Um problema técnico, entretanto, surge
das formas como as variações percentuais podem ser calculadas. A forma-padrão de computar uma variação percentual é dividir
a mudança pelo nível inicial, ou de partida; mas a mesma alteração global vai gerar respostas diferentes, dependendo se o ponto
de partida é o preço mais elevado e de menor quantidade ou o preço mais baixo e de maior quantidade. O caminho para escapar
dessa dificuldade é calcular a média dos dois preços e das duas quantidades ao longo da série em questão e dividir a variação
pela média. Este é conhecido como método do ponto médio, uma vez que utiliza a média dos valores finais e iniciais para
comparar as variações percentuais no preço e na quantidade.
Mesmo que você compreenda o rigor matemático necessário para calcular a elasticidade pelo método do ponto médio,
ainda não é fácil alcançar 100 % de precisão. Isto porque as variações no preço não são os únicos fatores que afetam as
variações na quantidade demandada: outros fatores, como alterações na renda, população e tecnologia, também afetam a
demanda. Desse modo, estimar a elasticidade-preço da demanda é problemático, mas o modelo básico é útil e será examinado
de modo mais detalhado no Capítulo 5, quando discutiremos a oferta, já que será mais fácil neste momento introduzir as
aplicações da elasticidade, que são relevantes para a economia da construção.

Pontos-Chave 4.3
A elasticidade da demanda é dada pela variação percentual na quantidade demandada dividida pela variação
percentual na variável explicativa (como preço, renda, ou um produto relacionado).
Elasticidade-preço da demanda é dada pela variação percentual na quantidade demandada dividida pela
variação percentual no preço.
A forma-padrão para calcular a variação percentual é dividir a variação pelo ponto de partida. O método do
ponto médio calcula uma variação percentual dividindo a variação pela média dos níveis iniciais e finais.
Ao considerar a teoria da oferta, adotamos uma abordagem similar àquela da teoria da demanda no capítulo anterior e, até certo
ponto, ela nos fornece um ponto de partida. Não iremos, entretanto, considerar totalmente o lado dos fornecedores no mercado
até que tenhamos percorrido os três próximos capítulos. Os Capítulos 6, 7 e 8 são particularmente significativos. O Capítulo 6
explora o relacionamento diário entre os empreiteiros e os clientes, e os Capítulos 7 e 8 tratam da teoria da empresa.
Antes de iniciar formalmente com a oferta, é útil distinguir entre o custo e o preço. A diferença básica surge a partir da
perspectiva que está sendo levada em consideração. Por exemplo, do ponto de vista do fornecedor, quando um fabricante vende
uma mercadoria para um consumidor o custo e o preço não devem ser os mesmos. Normalmente, o fabricante espera obter um
lucro — é importante, portanto, que o custo do produto seja menor do que seu preço de venda. Consequentemente, é muito
usual na construção que o custo do projeto seja estimado, e uma margem para lucros (riscos) e despesas gerais seja adicionada
após o preço para a execução do serviço já ter sido determinado. A margem do empreiteiro é a diferença entre preço e custo. No
ambiente atual no Reino Unido, entretanto, muitos clientes têm se informado melhor e vêm se tornando mais poderosos; o
cliente (ou consultores atuando em nome do cliente) predeterminam um preço aceitável, e o empreiteiro tem que tentar alcançá-
lo.
O processo é ainda mais complicado pelo fato de que, na maioria dos trabalhos de construção, um preço precisa ser
determinado antes de a atividade começar — quando todos os custos ainda não são conhecidos. Isto contrasta com as demais
atividades industriais: nestas, o fabricante não tem que determinar o preço até que a atividade esteja completa e todos os custos
tenham se revelado. Além disso, é importante compreender que a forma de determinação de preço mais comum na indústria da
construção se dá por meio de alguma forma de concorrência. Isto, por sua vez, dificulta que potenciais empreiteiros prestem
seus serviços para aproveitar o mercado, já que a menor oferta de preço é frequentemente considerada a mais aceitável. Para
evitar os problemas óbvios que isto pode causar em alguns países, a prática corrente é adotar a média ou o segundo menor
preço, já que os clientes estão conscientes de que a concorrência baseada somente no menor preço nem sempre representa o
melhor valor. Semelhantemente, nos contratos de grande escala no setor público do Reino Unido, tem se tornado uma prática
comum acrescentar uma pequena porcentagem ao preço do lance vencedor para considerar as estimativas de custo irrealistas
que podem ter sido realizadas por empreiteiros ambiciosos tentando submeter o menor preço possível na fase de concorrência
— este ajuste é conhecido como tendência otimista. A concorrência procura alcançar comparações justas em uma base like-
for-like.* O que será destacado nos próximos capítulos é a necessidade de que o empreiteiro eficiente submeta propostas
realísticas com relação a seus custos e a suas capacidades.

LEI BÁSICA DA OFERTA


Já havíamos encontrado a ideia básica de oferta no Capítulo 3 e pode ser útil revisar os Pontos-Chave 3.2 e 3.3. A curva de
oferta se inclina para cima, da esquerda para a direita, demonstrando que à medida que o preço aumenta a quantidade ofertada
aumenta e, reciprocamente, à medida que o preço cai, a quantidade ofertada diminui. Este é o oposto da relação que vimos para
a demanda. A lei básica da oferta pode ser estabelecida formalmente como:
quanto maior é o preço, maior é a quantidade oferecida para venda, quanto menor é o preço, menor é a
quantidade oferecida para venda, com todo o resto sendo considerado constante.
A lei da oferta, portanto, nos indica que a quantidade ofertada de um produto é positivamente (diretamente) relacionada com o
preço deste produto, com todo o resto sendo considerado constante. Ou, nos termos da discussão anterior, a quantidade de
potenciais empreiteiros interessados em concorrer pelo fornecimento de um projeto vai aumentar à medida que a margem de
lucro que o cliente está preparado para atender aumente. Isto é exibido na Figura 5.1.
Figura 5.1 A curva de oferta para uma empresa individual
A curva de oferta padrão para a maioria dos produtos e serviços se inclina para cima, da esquerda para a direita. Quanto
maior o preço, maior é a quantidade ofertada (todo o resto sendo considerado constante).

Cronograma de Oferta de Mercado


Os incentivos dentro de um mercado específico — e as restrições enfrentadas — são, grosso modo, os mesmos para todos os
fornecedores. Cada empresa busca maximizar seus lucros, e cada uma delas está sujeita à lei dos custos crescentes. Conforme
notamos no Capítulo 1, na medida em que uma empresa (ou sociedade) utilize mais e mais dos seus recursos para produzir um
item específico, o custo para cada item adicional produzido aumenta desproporcionalmente. Nós nos referimos a isto como a lei
dos custos de oportunidade crescentes, em que os recursos geralmente se ajustam a algumas atividades melhor do que a outras.
Não é possível aumentar continuamente a quantidade ofertada de um item específico sem aumentar o custo a uma taxa
desproporcionalmente alta. Em outras palavras, quando utilizamos menos recursos adequados a uma atividade produtiva em
particular, mais e mais unidades desses recursos têm que ser utilizadas para se alcançar um aumento na produção.
Os custos de uma empresa também serão afetados por suas despesas fixas. Estas variam de acordo com o tamanho da
empresa e com a natureza de suas atividades. Como explicaremos no Capítulo 7, a empresa de construção típica tem custos
fixos relativamente baixos. A produção dos empreiteiros não se baseia em uma fábrica permanente, com todos os seus custos
fixos. Cada novo canteiro de obras representa a fábrica da empresa, e a maior parte do capital fixo é contratada como e quando
necessário.
Estamos agora em posição de começar a apreciar o conceito de um cronograma de oferta de mercado. A oferta de
mercado de um produto é dada pela soma das quantidades que cada empresa fornecerá a preços variados. Por exemplo, a um
preço de R$ 24,00 por unidade, podemos dizer que três empresas estão dispostas a fornecer 400, 300 e 200 unidades por dia,
respectivamente. Se estas três empresas compusessem toda a indústria, poderíamos concluir que a um preço de R$ 24,00 a
oferta de mercado nesta indústria hipotética seria de 900 unidades por dia. Consideremos este exemplo em mais detalhes. Os
dados relevantes estão apresentados na Tabela 5.1.

Tabela 5.1 Os cronogramas individuais e de oferta de mercado para uma indústria hipotética composta de três
empresas
Percebemos, a partir dos dados, que, à medida que o preço aumenta, os fabricantes se dispõem a produzir maiores
quantidades. Por outro lado, preços baixos podem desencorajar algumas empresas a operar no mercado. Combinando a
oferta de cada empresa dentro da indústria, podemos identificar a oferta de mercado total para cada preço; fazemos isto na
última coluna.
Preço Quantidades Ofertadas

R$/Unidade Empresa A Empresa B Empresa C Oferta Total de


Unidades/dia Unidades/dia Unidades/dia Mercado

16 0 0 0 0

20 300 0 0 300

24 400 300 200 900

28 500 380 250 1.130

32 580 460 280 1.320

36 620 500 290 1.410

40 650 520 295 1.465

Na Tabela 5.1 podemos ver como três empresas que compreendem uma indústria se desempenham individualmente a
preços diferentes. A preços baixos, os fabricantes B e C não oferecem nada para venda; muito provavelmente porque altos
custos de produção os restringem. A preços altos, a lei dos custos de oportunidade crescentes impõe restrições. Somando-se a
produção de cada empresa, a cada preço específico, podemos descobrir a oferta total que as empresas estariam dispostas e
capazes de trazer para o mercado. Destacamos as combinações a R$ 24,00 por unidade. Como um breve exercício educativo,
pode-se tentar traçar o cronograma de oferta de mercado em um gráfico. Se isto for feito corretamente, a curva de oferta para o
mercado deve ser similar àquela para uma empresa individual — uma curva inclinando-se para cima, da esquerda para a direita,
como representada na Figura 5.1.

Pontos-Chave 5.1
Antes que um preço final de fornecimento possa ser determinado, um empreiteiro precisa estimar
cuidadosamente os custos e avaliar um nível aceitável de lucros.
A lei básica da oferta é a de que, à medida que o preço aumenta, mais quantidades são fornecidas, e à
medida que o preço cai, menos quantidades são fornecidas. Esta é uma relação direta, ou positiva, entre o
preço e a quantidade ofertada, com as outras coisas sendo consideradas constantes (consulte a Figura
5.1).
O porte de cada empresa determinará o quanto ela pode produzir a preços diferentes. As despesas fixas e a
lei dos custos de oportunidade crescentes afetam cada empresa de forma diferente.
A oferta de mercado de um produto é derivada do somatório das quantidades que as empresas fornecerão
individualmente a preços diferentes. Plotar essas quantidades totais contra seus preços habilita que se
construa uma curva de oferta de mercado.

OFERTA NA INDÚSTRIA DA CONSTRUÇÃO


Diversas empresas contribuem para a oferta de produtos de construção, incluindo grandes empreiteiros nacionais, fabricantes de
materiais, empresas de locação de equipamentos e de terceirização de mão de obra. Então, embora seja teoricamente possível
estimar a oferta da construção somando-se o quanto as empresas no mercado estão dispostas a fornecer a preços diferentes, a
enorme variedade de empreiteiros envolvidos na construção complica o processo de agregação simples das curvas de oferta
individuais. Existem aproximadamente 220.000 empresas no Reino Unido abastecendo as atividades de construção e, como
discutido nos capítulos anteriores, relativamente à indústria, claramente não se trata de um mercado simples. Pode haver pouca
concorrência no fornecimento de produtos entre um pequeno construtor local envolvido nas atividades de reformas e
manutenção em uma cidade pequena e uma grande empresa nacional de engenharia civil. Essas empresas abastecem mercados
separados. O ponto importante a ser notado é que precisamos considerar fatores que afetam a oferta em setores específicos da
indústria. Isto espelha a abordagem utilizada no capítulo anterior que tratava da demanda. Precisamos encarar a indústria da
construção como vários mercados distintos que afetam a oferta e a demanda.
A oferta total dos produtos de construção na Grã-Bretanha está dividida em atividades específicas, de acordo com o valor
monetário na Tabela 5.2. Construtores de edificações residenciais fornecem aproximadamente 17 % da produção anual.
Empreiteiros que fornecem edificações comerciais e industriais respondem por 24 % da produção total em termos de valores.
As grandes empresas de engenharia civil que realizam complexos projetos de infraestrutura, como autoestradas, estações de
energia, aeroportos e outras atividades do setor público relacionadas com a educação, com a saúde e a polícia, representam mais
24 % da oferta da indústria. Isto faz com que o grande número de pequenos construtores envolvidos em contratos de reformas e
manutenção responda pela maior parte da atividade, com 36 %.

Tabela 5.2 Oferta na indústria da construção na Grã-Bretanha, 2010 (a preços correntes)

Tipo de trabalho Valor (R$ milhões) Porcentagem do valor


total

Novas habitações públicas 19.080  

Novas habitações privadas 57.124  

Total 76.204 16,6

Industrial privada 14.292  

Comercial privada 93.248  

Total 107.540 23,5

Infraestrutura 50.640  

Pública (não residencial) 56.816  

Total 107.456 23,5

Total de reformas e manutenção 166.520 36,4

Total geral 457.720 100,0

Fonte: Anuário Estatístico da Construção (ONS 2011a: Tabela 2.1).

Deve ser assinalado que a mão de obra, o capital e os recursos de gestão empregados em qualquer projeto de construção
podem ser transferidos para outro projeto. De fato, é muito comum em empresas especializadas mover-se de canteiro em
canteiro na medida em que os contratos vão se cumprindo, e poucas empresas permanecem no local durante toda a duração do
projeto. É esta sobreposição natural dos setores que compõem a construção que dá origem a alguns pontos de referência comuns
para fatores de remuneração em toda a indústria. Em outras palavras, taxas de lucro, salários e preços dos materiais tendem para
algum tipo de equilíbrio. De fato, na medida em que a concorrência se intensifica ou enfraquece em determinados setores da
indústria, os fornecedores podem decidir deslocar o uso dos seus recursos para obter lucros maiores. Isto se tornará mais claro à
medida que discutimos nos capítulos seguintes padrões de custo e de contratação caracterizados por diferentes níveis de
concorrência.

OFERTA E O DETERMINANTE DE PREÇOS


A lei da oferta determina que mais produtos são fornecidos a preços maiores, com as outras coisas sendo mantidas constantes.
Isto porque, a preços maiores, há maior possibilidade de as empresas obterem lucro. As empresas que já estão no mercado têm
incentivo para expandir a produção, enquanto preços maiores também podem permitir que aquelas empresas que estão à
margem do mercado entrem na indústria. A preços maiores, portanto, o aumento da quantidade ofertada é composto de
empresas existentes expandindo a produção e uma série de novas empresas entrando no mercado. Por exemplo, na Tabela 5.1
mostramos que, em nossa indústria hipotética a um preço de R$ 20,00 por unidade, a oferta de mercado foi de 300 unidades por
dia, mas preços mais altos atraíram outras empresas para o mercado, e a oferta total aumentou.

OFERTA E OS DETERMINANTES INDEPENDENTES DO PREÇO


Até agora, discutimos a oferta e sua curva relativa considerando que somente os preços mudam. Não consideramos
efetivamente quaisquer outros determinantes que influenciam o comportamento dos fabricantes. Constantemente, reiteramos a
qualificação ceteris paribus, de que as outras coisas são mantidas constantes. Algumas dessas ‘outras coisas’ consideradas
constantes são os custos de produção, tecnologia, políticas governamentais, clima, o preço dos produtos afins, expectativas,
metas dos fabricantes (eles desejam, por exemplo, maximizar os lucros ou as vendas), e assim por diante. Agora,
consideraremos amplamente quatro desses determinantes que são independentes do preço.

Custo de Produção
Sugerimos que os fabricantes busquem maximizar seus lucros. Portanto, qualquer alteração nos custos de produção afetará,
ceteris paribus, a quantidade fornecida. Para ilustrar este princípio, reveja a Tabela 5.1. Se o custo unitário de produção
aumentar R$ 4,00 e este custo adicional não puder ser repassado pelos fornecedores, então eles fornecerão ao mercado uma
menor quantidade de produtos para cada preço. Essa alteração nas condições fará com que o mercado encolha, de modo que,
por exemplo, somente 300 unidades por dia poderiam ser fornecidas a um preço de R$ 24,00 por unidade.
Em termos técnicos, o que acontece é que a curva de oferta se deslocou para a esquerda: menores quantidades são
fornecidas para cada preço. O oposto poderia ocorrer se um ou mais insumos ficassem mais baratos. Este poderia ser o caso se,
por exemplo, houvesse um avanço tecnológico, mas essas oportunidades aparecem muito lentamente na indústria da construção,
que tanto é voltada ao trabalho braçal quanto culturalmente inclinada a investir pouco em pesquisa, desenvolvimento e
treinamento.

Governo
De forma similar, impostos e subsídios também afetam os custos e, assim, a oferta. Por exemplo, a taxa de aterro aumentou os
custos da construção e reduziu a oferta para cada preço. Um subsídio poderia fazer o oposto, e aumentar a oferta para cada
preço, uma vez que para cada produtor seria ‘paga’ uma porcentagem do custo de cada unidade produzida pelo governo. Uma
questão mais complicada é o impacto da tributação geral, já que a maior parte da demanda da indústria da construção é derivada
e depende de como os outros preveem suas necessidades. O impacto mais direto que o governo tem nos mercados de construção
é por meio da legislação. Obviamente, a indústria é afetada por alterações nas normas legais aplicadas à construção, ao
planejamento, à saúde e à segurança.

Gestão da Cadeia de Suprimentos


Raramente uma empresa estaria habilitada a completar qualquer atividade construtiva completamente sozinha — considere, por
exemplo, a variedade de materiais que precisam ser fornecidos para um projeto típico. A maioria das atividades de construção
normalmente envolve a integração e o gerenciamento de uma série de atividades e processos para alcançar o produto final,
incluindo a subcontratação de mão de obra especializada e a aquisição de materiais. Um empreiteiro de médio porte, com um
volume de negócios anual de R$ 960 milhões (composta de contratos em média de R$ 28 milhões cada), alegou que 75 % de
todo o seu trabalho foi subcontratado, 8 % foram gastos com materiais e 4 % foram usados para o aluguel de equipamentos
(Jessop, 2002: 7).
As empresas maiores, especialmente os grandes conglomerados, garantem que seus clientes estão munidos de serviços
rápidos e confiáveis, diferenciando-se, assim, das outras empresas para ampliar seu leque de operações; por exemplo, uma
empresa de construção pode escolher fundir-se com seu fornecedor de materiais para garantir a conclusão dos seus objetivos no
prazo. Tal fusão poderia também eliminar muitos dos custos de transação associados. Em algumas intervenções recentes (as
quais discutiremos no Capítulo 6), o empreiteiro até concordou em assumir uma participação no projeto concluído.
Esta discussão enfatiza que as empresas de construção não só produzem produtos diferentes, mas também operam fora de
sua área de negócios, e, para compreender as implicações na oferta, nos pegamos considerando mudanças em vários mercados
relacionados, assim como nas condições da indústria da construção.

Expectativas
Mudanças nas expectativas sobre os preços no futuro ou nas perspectivas da economia também podem afetar a disposição atual
dos fabricantes em fornecer os produtos. Por exemplo, os construtores podem reter no mercado parte de seu estoque recém-
construído ou reformado se eles anteciparem que os preços aumentarão no futuro. Neste caso, a quantidade atual fornecida para
cada preço diminuiria, e a curva de oferta relacionada se deslocaria para a esquerda.

Pontos-Chave 5.2
A oferta na construção é composta de vários mercados inter-relacionados. A produção é determinada por
milhares de empresas que podem transferi-la para outros setores da indústria caso acreditem ser
vantajoso.
A curva de oferta é traçada supondo-se que as outras coisas são mantidas constantes. Quatro importantes
determinantes que independem do preço são: (a) custos de produção (incluindo mudanças tecnológicas),
(b) governo, (c) questões da cadeia de suprimentos e (d) expectativas.

COMPREENDENDO AS ALTERAÇÕES NA OFERTA


Assim como estávamos aptos a distinguir entre deslocamentos e movimentos ao longo da curva de demanda, podemos ter a
mesma discussão para a curva de oferta. Uma variação no preço de um produto por si só causará um movimento ao longo da
curva de oferta, referido como uma extensão ou contração da oferta. Uma mudança em qualquer determinante independente do
preço, entretanto, deslocará toda a curva, movimento referido como aumento ou decréscimo da oferta.
Vamos considerar um exemplo em detalhes. Se um novo pacote de desenho e custos estimados por computador reduzir os
honorários relativos a novas construções, então os projetistas e construtores seriam capazes de fornecer um maior número de
novas edificações a todos os preços porque seus custos caíram. A concorrência entre empreiteiros para projetar e construir
deslocará a curva de oferta para a direita, como demonstrado na Figura 5.2. Seguindo ao longo do eixo horizontal, podemos ver
que este movimento para a direita representa um aumento na quantidade ofertada para cada preço. Por exemplo, ao preço P, a
quantidade ofertada aumenta de Q para Q1. Observe que, por sua vez, se os custos de produção aumentarem, a quantidade
ofertada diminuirá para todos os preços e a curva de oferta relativa se deslocará para a esquerda.
Para fins analíticos, é útil distinguir a causa das mudanças na oferta. Em nosso exemplo sobre projeto assistido por
computador, teria sido errado concluir que o preço simplesmente caiu e que a quantidade ofertada consequentemente se
expandiu. A razão para o aumento na oferta, em todos os preços, deve-se a uma alteração na tecnologia.

Figura 5.2 Um deslocamento da curva de oferta


Se o preço variar, vamos nos mover ao longo de determinada curva. Entretanto, se os custos de produção caírem, a curva
de oferta se desloca para a direita de S para S1, representando um aumento na quantidade ofertada para cada preço.
Elasticidade
Introduzimos o conceito de elasticidade no Capítulo 4 (consulte os Pontos-Chave 4.3 para um resumo). Os economistas
frequentemente se interessam em como a oferta, ou a demanda, reage a variações nas condições de mercado. Por exemplo, a
medida de capacidade de resposta é denominada elasticidade-preço. Ela pode ser definida como:
uma medida do grau de capacidade de resposta da oferta a uma alteração no preço.
Um valor numérico para a elasticidade-preço da oferta (EPO) é calculada utilizando a mesma abordagem do ponto médio
exposta na seção da elasticidade da demanda no Capítulo 4. Neste caso, a fórmula é:

O que a fórmula nos diz é a quantidade relativa da qual a quantidade ofertada irá mudar em relação à variação nos preços. Por
exemplo, se um aumento de 10 % no preço levar a um aumento de 1 % na quantidade ofertada, a elasticidade-preço da oferta é
0,1. Esta é uma sensibilidade muito pequena. Existem, na realidade, três tipos de medida que os economistas utilizam como
ponto de referência para discutir a elasticidade-preço.
1 Oferta inelástica
Quando o coeficiente numérico da elasticidade-preço da oferta é menor que 1, a oferta é dita ‘inelástica’. Isto sempre
ocorrerá quando o valor percentual para a alteração na oferta for menor que o valor percentual para a alteração no preço.
Um coeficiente EPO de qualquer coisa entre 0 e 1 representa uma situação de oferta inelástica. O exemplo introdutório no
qual um aumento de 10 % no preço levou a uma reação muito pequena na oferta implica uma reação inelástica: o
coeficiente calculado foi de 0,1. Na maioria dos casos em que empresas estão fornecendo para a indústria da construção, a
elasticidade-preço da oferta, ao menos no curto prazo, será inelástica.
2 Oferta elástica
Quando o valor numérico da elasticidade-preço da oferta é maior que 1, a oferta é dita ‘elástica’. Este será sempre o caso
quando a variação percentual na oferta for maior que a variação percentual no preço. Por exemplo, se um aumento de 5 %
no preço levar a um aumento de 50 % na quantidade ofertada, o coeficiente EPO será de 10. Em outras palavras, uma
pequena variação no preço induz a uma grande reação na oferta. Isto seria uma ocorrência incomum nos mercados de
construção e de propriedades — mas não impossível.
3 Oferta unitária
Este é o caso mais hipotético, uma vez que descreve uma situação na qual uma variação percentual no preço conduz a uma
variação percentual idêntica na oferta. Isto sempre vai produzir um coeficiente de valor 1, no caso de os mesmos valores
aparecerem tanto no numerador quanto no denominador da fórmula da elasticidade-preço da oferta.
Cálculos de elasticidade desempenharam um importante papel na revisão da oferta de habitações realizada por Barker para
o governo do Reino Unido no início dos anos 2000. Por exemplo, inspirando-se em diversas estimativas acadêmicas
abrangentes da elasticidade-preço da oferta de habitações no Reino Unido, realizadas entre 1974 e 2003, parecia haver um
considerável grau de consenso de que a oferta de habitações no Reino Unido é relativamente indiferente a variações nos preços,
com a produção aumentando proporcionalmente menos que o preço. As estimativas feitas a partir de diferentes períodos de
tempo sugerem que a elasticidade-preço da oferta das habitações é sempre menor que 1. A maioria das estimativas tende a se
situar entre 0,3 e 0,8 (Barker, 2003: 42).
A maior parte do trabalho de Baker (2003) examinou o modo como proprietários e construtores reagem às alterações das
circunstâncias, como aumento da renda e variações de preços. Por exemplo, foi sugerido que os proprietários do Reino Unido
têm uma alta propensão a consumir serviços de habitação na medida em que a renda aumenta ao longo do tempo. Estas são as
elasticidades comparativas estimadas pelo Tesouro para vários países europeus apresentadas como evidências: Alemanha, 0,0;
Itália, 0,4; Finlândia, 0,5; França, 0,6; Suécia, 0,7; Reino Unido, 1,0; Bélgica, 1,0; Irlanda, 1,1; Holanda, 1,2 e Espanha, 1,9.
Comparado com vários outros países europeus, o Reino Unido tem alta elasticidade na demanda por habitação. Mas esta
posição é complicada pelo fato de que o Reino Unido também tem uma baixa capacidade de resposta de demanda para
mudanças de preço das habitações. Uma baixa elasticidade-preço na demanda por moradias significa que 1 % de aumento no
preço das casas resulta em menos de 1 % de queda nos gastos com habitação. O estudo de Baker estima que a elasticidade-preço
da demanda do Reino Unido é de 0,5. Esses fatores, combinados com a baixa elasticidade da oferta em resposta à variação dos
preços, sugerem que o mercado de habitação do Reino Unido é definido como um caminho de aumento de preços em longo
prazo (Baker, 2003: 39).

ELASTICIDADE-PREÇO DA OFERTA E DEFASAGENS DE TEMPO


Para os nossos propósitos é suficiente entender que, no curto prazo, o movimento do preço dos produtos de construção tende a
não afetar a oferta. Aumentar a oferta de qualquer produto ou serviço leva tempo. Se as empresas possuem alguma capacidade
excedente, elas podem ser capazes de aumentar a produção muito rapidamente; mas, uma vez que eles atinjam plena capacidade
de oferta, esta é fixa até que uma capacidade extra possa ser instalada. Para a construção, esta é uma questão especial — e é
comum falar sobre oferta de curto prazo e longo prazo. O curto prazo é definido como o período de tempo durante o qual o
ajuste total — por exemplo, uma variação de preço — ainda não tenha ocorrido. O longo prazo é o período de tempo durante
o qual as empresas são capazes de se adaptar totalmente à variação do preço.
No curto prazo, os valores de locação e os preços das moradias são determinados pela demanda porque os ajustes não
podem ser feitos rapidamente para a oferta de propriedades. Os mercados para a construção no curto prazo são de oferta
inelástica. De fato, é a oferta inelástica relativa à demanda que faz com que o mercado de propriedades seja instável e
caracterizado pela flutuação dos preços. No curto prazo extremo, a oferta de edificações e infraestrutura é fixa e a curva de
oferta é uma linha reta vertical. Tal cenário é apresentado na Figura 5.3. Isto mostra que a quantidade ofertada por ano é de
100.000 unidades, independentemente do preço. Para qualquer variação percentual no preço, a quantidade ofertada permanece
constante. Olhe novamente a fórmula que calcula a elasticidade. Se a variação na quantidade ofertada é zero, então o numerador
é zero, e qualquer coisa que divida o zero resulta em uma resposta de zero. Isto é definido pelos economistas como
inelasticidade perfeita. (Observe que exatamente a mesma situação pode ser prevista para a demanda, ou seja, uma curva de
demanda vertical representando uma elasticidade de zero para todos os preços. Por exemplo, os preços da eletricidade ou do gás
podem aumentar, mas em curto prazo os consumidores continuarão a demandar a mesma quantidade de energia até que tenham
tempo de mudar para opções de energia mais eficientes.)

Figura 5.3 Oferta perfeitamente inelástica


A curva de oferta é vertical a uma quantidade de 100.000 unidades por ano, visto que a elasticidade-preço da oferta é zero.
Os fabricantes ofertam 100.000 unidades não importando o preço.
O tempo tende a ser o principal determinante da elasticidade da oferta. No período de tempo imediato, a oferta é fixa e
inelástica para o valor de zero; mas, dado o tempo para ajustes, o aumento da oferta pode ser organizado e a resposta se torna
elástica. Esta característica da inelasticidade da oferta é particularmente notável nos mercados imobiliários. Os terrenos se
caracterizam por serem perfeitamente inelásticos; ou seja, na medida em que os preços dos imóveis aumentam, a quantidade
ofertada não se altera. Áreas pouco desenvolvidas podem se desenvolver e áreas existentes podem ter seu uso alterado, mas
essas duas possibilidades levam tempo.
Assim, sempre haverá uma defasagem de tempo entre os sinais de preço e as mudanças na produção na indústria da
construção. A duração do atraso é determinada por vários fatores, incluindo identificação do local, aquisição do terreno,
negociação da permissão de construção e o período de tempo necessário para a obra. Esses fatores são examinados em maior
profundidade no relatório de Barker (2003), no qual se confirma que a elasticidade da oferta será mais alta no longo prazo à
medida que as empresas tenham tempo de alterar seus fatores de produção e/ou métodos de construção. Como Baker (2003: 41)
especificamente aponta, em curto prazo há alguma margem para responder a mudanças na demanda, já que os empreiteiros que
em tempos atuais constroem em um desenvolvimento gradual poderiam aumentar temporariamente a velocidade dos serviços
naquele canteiro (pense que isso poderia ser feito à custa de uma menor produção no próximo período de tempo, caso a oferta
de terrenos não acelere). Além disso, em princípio, poderia ser viável mudar o uso de um terreno para outro. Entretanto, na
medida em que as parcelas de terreno em qualquer região ou área se tornam mais escassas, as oportunidades para substituição se
tornam muito limitadas. Isto em particular é importante dada a natureza localizada da demanda por habitações e
desenvolvimento em geral, e Baker conclui que a oferta de moradias em áreas de grande demanda provavelmente apresentará
muito menos capacidade de resposta ao preço do que outros produtos de consumo duráveis, como carros, televisores e máquinas
de lavar roupas (Barker, 2003: 42).

Pontos-Chave 5.3
Se somente o preço variar, nos movemos ao longo da curva de oferta e há uma extensão ou contração da
oferta.
Se qualquer determinante que independe do preço mudar, toda a curva de oferta se desloca para a esquerda
ou para a direita e nos referimos a uma redução ou a um aumento na oferta (consulte a Figura 5.2).
A elasticidade-preço da oferta é dada pela variação percentual da quantidade ofertada dividida pela variação
percentual do preço.
Curvas de oferta de longo prazo são mais elásticas que as curvas de oferta de curto prazo porque durante um
longo período de tempo mais recursos podem fluir para dentro ou para fora de uma indústria quando os
preços variam. Este é especialmente o caso dos mercados imobiliários.
É a oferta inelástica das edificações que faz com que os mercados relacionados sejam instáveis e
caracterizados por períodos de escaladas de preços.

COMBINANDO OFERTA E DEMANDA


Nestes capítulos sobre a demanda e a oferta, temos confinado nossa discussão a partes isoladas do mercado relativas ao
consumidor ou ao fabricante. Obviamente, esta separação é teórica e somente útil para fins educacionais. Na realidade, há uma
relação muito estreita entre as forças da demanda e da oferta. De fato, já discutimos no Capítulo 3 como a interação da oferta e
da demanda determina os preços. Introduzimos o conceito de preço (ou mercado) de equilíbrio em que os desejos tanto dos
consumidores quanto dos fabricantes são atendidos. Ainda estendemos nossa discussão para considerar os efeitos das mudanças
nas condições de mercado. Conhecer e entender como a oferta e a demanda interagem é um pré-requisito essencial para
interpretar vários mercados, incluindo aqueles relacionados com a construção. Seria interessante, portanto, empregar alguns
minutos revisando o mecanismo de mercado tentando resolver o exercício exibido na próxima seção. Um esboço de resposta
está demonstrado na Figura 5.4.

EXERCÍCIO DE OFERTA E DEMANDA


Trace um diagrama de oferta e demanda básico e considere o novo ponto de equilíbrio em cada um dos três mercados em
transformação descritos na Tabela 5.3.

Tabela 5.3 Mudanças nas condições de mercado

       

Mercado Produto Mudança nas condições Novo ponto de equilíbrio

A Edifícios Uma campanha publicitária bem- Veja a coordenada A na Figura 5.4


energeticamente sucedida pelo escritório de energia
eficientes eficiente

B Projeto assistido por Microchips melhorados reduzem os Veja a coordenada B na Figura 5.4
computador custos

C Novas moradias Uma queda no custo da hipoteca e Veja a coordenada C na Figura 5.4
um aumento nos preços dos terrenos

Obviamente, isso deve ser feito antes de você olhar para as respostas sugeridas na Figura 5.4.

Pontos-Chave 5.4
Combinando as forças da oferta e da demanda, podemos começar a entender vários mercados.
O conceito de equilíbrio demonstra como os desejos dos vendedores e compradores são reunidos pelo preço.
Na realidade, os determinantes da oferta e da demanda precisam ser considerados simultaneamente.

Figura 5.4 Mudanças nas condições de mercado em três mercados


Os três mercados hipotéticos e as alterações descritas na Tabela 5.3 estão plotados. No mercado A, consideramos um
aumento na demanda provocando um aumento na quantidade e no preço. No mercado B, consideramos um aumento na
oferta provocando um aumento na quantidade e um decréscimo no preço. No mercado C, consideramos um aumento na
demanda e um decréscimo de longo prazo na oferta provocando um alto preço de equilíbrio, mas nenhuma mudança de
curto prazo, significativa, na quantidade.
__________
*
Like-for-like é o termo utilizado para designar um método de avaliação que visa excluir quaisquer efeitos de expansão, aquisição ou
outro evento que possam vir a modificar o cenário da concorrência. (N.R.T.)
Nos Capítulos 4 e 5 discutimos duas ideias centrais para explicar o mercado: demanda e oferta (consulte os Pontos-Chave
desses capítulos). Em termos de economia das construções, é importante apreciar que aqueles que fazem a demanda são
referidos como clientes, enquanto aqueles que respondem a suas instruções fornecendo os produtos são referidos como
empreiteiros. Os dois grupos podem assumir muitas formas, e é comum enfatizar que cada projeto é único. A analogia com um
set de filmagem é algumas vezes empregada para ilustrar como os diversos empreiteiros se deslocam, realizam seu trabalho
(concluem um projeto) e, então, seguem para outro local para realizar um trabalho ‘similar’ para outro cliente. Por isso, a
indústria é caracterizada por uma abordagem fragmentada, com cada subgrupo se concentrando em sua própria especialidade.
Estendendo uma ideia de Ive e Gruneberg (2000: 151), a Tabela 6.1 tenta representar os inumeráveis projetos que os
empreiteiros podem atender em resposta às demandas de seus clientes. A localização de determinado projeto, seu design e sua
construção são algumas das razões pelas quais cada projeto é único. Na tabela, também enfatizamos o fato de que a etapa de
construção é realizada por uma vasta combinação de empresas selecionadas entre as milhares que compreendem a indústria. Em
cada projeto haverá várias equipes de trabalho no local, trabalhando com diferentes conjuntos de pessoas. Isto é uma
comparação gritante com as indústrias de transformação e de serviços, nas quais o trabalho em geral é repetitivo e a força de
trabalho é normalmente permanente.

Tabela 6.1 Empreiteiros envolvidos na construção

O leitor mais atento pode questionar a ideia de que somente empresas de construção registradas estão envolvidas na fase de
construção, à medida que laços mais estreitos estão se desenvolvendo entre clientes e empreiteiros. Esses laços serão discutidos
mais à frente neste capítulo, sob o título de parceria. No entanto, primeiro precisamos descrever o arranjo tradicional de cliente
e empreiteiro(s) como duas partes separadas envolvidas na construção de um projeto.

CLIENTES
No núcleo de qualquer processo construtivo estão os clientes. Alguns são bem informados, sabem o que desejam e como isto
pode ser alcançado tecnicamente, mas a maioria parece não ter conhecimento algum. Dentro da disciplina de economia, toda
uma literatura começou a surgir discutindo as transações nas quais algumas das partes envolvidas sabem mais que as outras.
(Esta área de estudo é referida como a economia da informação assimétrica e será discutida mais adiante no Capítulo 10,
quando trataremos das falhas de mercado.) Tem sido sugerido que conselheiros independentes podem ser necessários para
ajudar os clientes. Com um papel semelhante ao dos consultores financeiros, eles poderiam ajudar clientes inexperientes a
decidir o que é especificado e como isto pode ser alcançado. A questão de ajuda ao cliente tem se tornado mais forte nos últimos
anos. Como sugerido no Capítulo 2, o governo não pode mais agir como um cliente monolítico, já que mudanças no
financiamento, gestão e prestação de contas do setor público adicionaram uma nova camada de complexidade para os clientes.
Por exemplo, o Serviço Nacional de Saúde está longe de ser uma única organização, uma vez que compreende uma rede de
médicos, laboratórios, hospitais e lares. Assim, o Departamento de Saúde, o órgão governamental com toda a responsabilidade
pelo Serviço Nacional de Saúde, supervisiona uma gama diversificada de financiadores que gerenciam um vasto espólio de
edifícios. O departamento não tem meios de assegurar que todos os gestores que podem comissionar obras de construção em
nome do Serviço Nacional de Saúde estão cientes das práticas atuais e últimas modificações na indústria da construção.
Para resolver esses problemas, a força-tarefa da construção liderada por John Egan realizou comparações com outras
indústrias que expandiram sua eficiência na medida em que as forças do mercado se expandiram. A força-tarefa reconheceu
que, nas melhores empresas, o cliente conduz tudo — o cliente é ‘rei’. É evidente que o cliente moderno em mercados como o
de carros, aço e produtos de engenharia dá valor ao dinheiro, a produtos livres de defeitos, mercadorias entregues no prazo, boas
garantias e custos de manutenção razoáveis. Infelizmente, o quadro pintado para a construção no final do século XX foi o de
uma indústria que ‘tende a não pensar no comprador (seja o cliente, seja o consumidor), mas sim no próximo empregador da
cadeia contratual’ (Egan, 1998: 16).

EMPREITEIROS
Uma das características mais marcantes da indústria da construção em todo o mundo é o grande número de empresas. Somente
no Reino Unido, existem aproximadamente 220.000 empresas de construção privadas registradas nas estatísticas oficiais do
governo e 90 % delas empregam menos de oito pessoas. Em toda a União Europeia existem mais de três milhões de
empreiteiros — empregando 15 milhões de pessoas. A construção é responsável por aproximadamente 10 % do total de
empregos na Europa. Grande parte deste trabalho ocorre em pequenas empresas. As firmas pequenas dominam a indústria por
dois motivos principais:
• elas podem oferecer serviços que não se ajustam à natureza das grandes empresas, como reformas e manutenção;
• podem fornecer trabalho em regime de subcontratação para as grandes empresas.

Subempreiteiros de Mão de Obra


É uma prática comum em toda a Europa para a maioria dos trabalhos realizados em canteiros de obras que estes sejam
executados por subempreiteiros. Além disso, os subempreiteiros frequentemente organizam os materiais e fazem a manutenção
dos equipamentos. Para o empreiteiro principal, contratar subempreiteiros de mão de obra é a opção mais barata e eficiente, já
que o trabalhador autônomo não tem direito a férias remuneradas, licença médica, direito a pensão, ou a quaisquer outros
benefícios que são revertidos para os membros da equipe permanente.
Como resultado desta tradição, um alto nível de fragmentação é frequentemente associado à indústria da construção
europeia. Após estar há seis meses no cargo, um ministro da construção do Reino Unido comentou certa vez, em uma
entrevista, que, em termos de satisfazer a todas as associações comerciais, ele estava apenas na metade do alfabeto. O
entrevistador acrescentou sarcasticamente que ‘quando conseguisse chegar ao Z ele provavelmente já haveria mudado de cargo’
(Broughton, 2001). De fato, estima-se que existam mais de 500 associações comerciais separadas representando diferentes
grupos de trabalhadores da construção no Reino Unido (Wolstenholme, 2009: 22). Essa fragmentação característica conduz a
muitos dos pontos fortes e das fraquezas da indústria.

FRAQUEZAS
Há uma reconhecida falta de colaboração entre as equipes de construção. Isto, por sua vez, muito frequentemente leva a uma
falta de confiança entre as várias partes e explica a natureza contraditória que caracteriza as relações. Outra fraqueza da
fragmentação é a falta de compromisso com a educação, com o treinamento, a pesquisa e a segurança nos canteiros. Alega-se,
muitas vezes, que os subempreiteiros não parecem adquirir conhecimento de um projeto para aplicá-lo no próximo — um mito
comum é que cada construção é considerada um ‘protótipo’. O nível comum de tensão entre empreiteiros e subempreiteiros foi
interessantemente capturado no início da recessão de 2008, uma vez que a primeira coisa que os maiores empreiteiros
escolheram fazer para proteger seus negócios foi simplificar suas cadeias de suprimentos e reduzir o número de subempreiteiros
especializados que eles utilizavam. Por exemplo, a construtora Wates procurou reduzir sua lista de fornecedores, de 4000 para
500, e a construtora Costains foi igualmente drástica, com uma redução de 18.000 para 2500. Para justificar suas ações, os
diretores dessas grandes organizações utilizaram frases depreciativas, como: ‘vamos dispensar os white van man* em favor das
grandes empresas’, ‘vamos eliminar as pequenas organizações não confiáveis à medida que procuramos trabalhar com menos
subempreiteiros com maior qualidade’; ‘nosso objetivo é ser responsável por algo em torno de 10 a 25 % do trabalho de um
subempreiteiro — [queremos] garantir que nossa posição (como o contratante principal) seja importante para eles, mas não tão
importante!’ (McMeeken, 2008). Além disso, para compor a natureza dessa relação problemática, esperava-se que os
especialistas sortudos o bastante para permanecerem nas listas dos principais contratantes reduzissem cada vez mais suas
margens, assim como transpusessem todos os tipos de entraves relacionados com a saúde, a segurança e sustentabilidade, que
frequentemente incluem o pagamento de esquemas de acreditação associados.
Um resultado genérico desses tipos de problemas é a maneira com que limitam qualquer tentativa que a indústria da
construção possa fazer para construir no prazo, no orçamento e com a qualidade esperada em um mundo preocupado com a
sustentabilidade.

PONTOS FORTES
No lado positivo, é comum identificar um ponto forte da fragmentação: esta permite que a indústria seja flexível o suficiente
para lidar com as cargas de trabalho altamente variáveis que acompanham as circunstâncias econômicas em mutação.
Claramente, as fraquezas prevalecem sobre os pontos fortes e é por isso que os diversos tipos de acordos de parcerias que
estão surgindo são considerados desenvolvimentos promissores. Estes serão discutidos na próxima seção.

Pontos-Chave 6.1
Os clientes criam a demanda para o processo de construção. Cada vez mais, esses clientes estão no setor
privado.
Os empreiteiros colaboram com o cliente para fornecer os produtos, os quais são tipicamente produzidos por
subempreiteiros.
A equipe de construção é caracterizada pela fragmentação, o que leva a fraquezas, como a falta de
colaboração, confiança, treinamento etc.

PARCERIAS
Desde a publicação do Relatório Banwell, em 1964, diversos comitês governamentais e acadêmicos vêm defendendo a parceria
como um importante meio de aumentar o desempenho da indústria da construção. Por exemplo, um relatório do Órgão Nacional
de Auditoria (NAO, 2001: 58) concluiu que ‘a parceria é a maneira de lidar com os problemas inerentes à construção e que
ainda é amplamente considerada como um projeto para organizar a indústria’. Uma revisão abrangente da literatura acadêmica
sugere um consenso de que a parceria leva a um melhor controle de custos, maior qualidade do produto, relações mais
próximas, comunicação aprimorada, melhoria contínua, potencial para inovação, menores custos administrativos, litígio
reduzido, aumento da satisfação e melhoria da cultura (Chan et al., 2003: 524).
Existem várias definições para parceria, e diferentes formas têm sido utilizadas no Reino Unido, nos Estados Unidos e no
Japão. Em termos gerais, entretanto, a parceria se refere a algum tipo de forma de abordagem colaborativa, na qual os clientes e
os empreiteiros estão cada vez mais abertos um com o outro, a fim de alcançar objetivos comuns.
A ideia de parceria começou a ganhar impulso ao longo da década de 1990, e já existia uma série de relatórios do governo
e trabalhos acadêmicos apoiando seu uso. Por exemplo, Bennett e Jayes (1995) argumentaram que a parceria oferece uma
redução de custos que varia de 2 a 30 %, dependendo da parceria. Eles descobriram que a parceria de projeto, a qual é
baseada no cliente e no empreiteiro trabalhando abertamente em um único projeto, produzia uma economia de cerca de 2 a 10
%. Parceria estratégica, a qual envolve o cliente e o empreiteiro trabalhando em uma série de projetos de construção, foi
considerada capaz de proporcionar uma economia de mais de 30 %. Além disso, Bennett e Jayes (1995) afirmam
especificamente que as parcerias proporcionam melhores projetos, tornam a construção mais segura, permitem que os prazos
sejam cumpridos com facilidade e proporcionam um aumento nos lucros de todos. Alguns exemplos atuais de parceria serão
tratados nas duas seções a seguir, para observar como essas possibilidades podem se desenvolver.
Contratante Principal
O contratante principal é um bom exemplo de parceria uma vez que envolve a integração do projeto, construção e manutenção
sob o comando de um contratante principal. Este assume a responsabilidade por tudo, desde a seleção dos subempreiteiros até a
entrega do produto. Consequentemente, o cliente tem apenas um ponto de contato, e o contratante principal se esforça para
cuidar dos interesses do cliente e assegurar que a qualidade, o orçamento e as metas de entrega melhorem.
Os contratantes principais estão atualmente cuidando de propriedades administradas pelo Ministério da Defesa, e novos
supermercados estão sendo construídos em nome de J. Sainsbury plc. Tais contratos geralmente são estendidos por vários anos
— em uma base de negócios repetitivos. Portanto, ambas as partes parecem ter a oportunidade de aprender o que é necessário.

Iniciativa de Financiamento Privado (IFP)*


Esta forma de parceria tem um perfil muito mais elevado, uma vez que envolve os setores público e privado, colaborando em
alguns dos maiores projetos de construção. Estes projetos incluem rodovias, hospitais, penitenciárias, escolas e escritórios do
governo. Desde seu lançamento, em novembro de 1992, mais de 650 contratos IFP entraram em vigor, representando
compromissos futuros de cerca de R$ 1.040 bilhão (HM Treasury, 2011). Acordos semelhantes, como as parcerias público-
privadas (algumas vezes referidas como 3P), são um fenômeno crescente em todo o mundo.
Um projeto adquirido sob a iniciativa de financiamento privado baseia-se em um tipo distinto de relacionamento
entre um cliente do setor público e o setor privado. O procedimento geral é como se segue: empresas privadas operando em um
consórcio concordam em projetar, construir, financiar e gerenciar uma instalação tradicionalmente fornecida pelo setor público.
(Financiar e gerenciar estão em itálico para enfatizar que uma característica distinta desses esquemas é que sob arranjos IFP o
setor privado deverá levantar o financiamento inicial para financiar o projeto e posteriormente gerenciar sua operação.) Em
troca, os clientes do setor público concordam em pagar encargos anuais (chamados de encargos unitários) durante a vigência do
contrato e/ou permitem que o setor privado recolha os lucros obtidos em determinado período. Os contratos geralmente são
executados por 25 a 30 anos ou mais. Desta maneira, ambos os setores podem se especializar no que eles fazem de melhor: com
o cliente do setor público iniciando o desenvolvimento, especificando as necessidades e avaliando as propostas, e o setor
privado assumindo os riscos e determinando a melhor forma de entregar o serviço.
O grupo ao qual o contrato é formalmente concedido é denominado um consórcio ou veículo para fins especiais (VFE).* O
VFE pode abranger várias empresas, como empreiteiras de gerenciamento de construção e instalações, um banco e/ou um
investidor de capital, uma empresa de gestão e companhias sem ligação alguma. (Portanto, o VFE pode subcontratar suas
responsabilidades.) Esse conjunto complexo de relações está implícito na Figura 6.1, na qual as relações IFP foram
simplificadas em um diagrama de fluxo.

Figura 6.1 Iniciativa de financiamento privado

O arranjo IFP tem a vantagem óbvia de que o empreiteiro não ‘constrói e desaparece’ — como nos PÉSSIMOS velhos
tempos — porque os elementos de financiamento e gestão do contrato legalmente amarram o empreiteiro ao projeto, ainda que
esse projeto já tenha sido construído. Quando, desta forma, o setor privado tem dinheiro em risco, existem incentivos muito
maiores para se fazer tudo certo, especialmente porque as empreiteiras do consórcio agora têm que considerar as despesas de
funcionamento e manutenção.
Na realidade, o IFP cria um nível muito melhor de comunicação entre os clientes do setor público e as empreiteiras do
setor privado, já que ambos os lados estão ligados por um objetivo comum. O acordo de colaboração fornece benefícios mútuos
para ambas as partes. Nos termos apresentados no Capítulo 2, o projeto completo deve ser mais eficiente economicamente e
mais sustentável (consulte os Pontos-Chave 2.4 e a Figura 6.1).
A utilização de experiência e capital privado na prestação de serviços para o setor público não é inteiramente novo. Por
exemplo, o trabalho em conjunto entre setores na habitação tem uma história razoavelmente longa — as autoridades têm
transferido a propriedade e a gestão de grandes patrimônios para um grupo do setor privado regulado pelo governo de
proprietários sociais cadastrados. O ponto é que, além da muito debatida iniciativa de financiamento privado, existem
outras formas de parcerias público-privadas, em que os setores público, privado e voluntário trabalham juntos para alcançar uma
ampla variedade de objetivos.

CONCLUSÃO
Concluindo, é fácil perceber por que a parceria, em quaisquer de seus formatos, é uma ideia atraente. Em termos puramente
econômicos, ela claramente ajuda a eliminar a ineficiência na medida em que os custos por unidade produzida são reduzidos. O
conceito de ineficiência x de Leibenstein (1973) pode ser aplicado. Ele argumenta que, quando um departamento
governamental ou uma empresa individual é deixada totalmente livre para escolher o ARQT — atividade, ritmo, qualidade do
trabalho e tempo gasto —, é pouco provável que ela escolha uma combinação que irá maximizar a eficiência. Em outras
palavras, se uma autoridade do setor público ou uma empreiteira individual pode escolher o que construir, como construir,
quanto tempo gastar no projeto, e assim por diante, é pouco provável que maximize o valor da produção. A consequente perda
de valor é aquilo a que Leibenstein se refere como ineficiência x, e sua solução baseia-se em garantir uma estrutura de mercado
mais competitiva. A parceria aumenta potencialmente a dinâmica de um mercado, colocando o cliente com mais firmeza no
banco do condutor, incrementando o fluxo de informações entre os participantes e fornecendo maiores incentivos para
completar o contrato no prazo, no orçamento e com a qualidade esperada. Alguns dos benefícios da parceria listados pelo Órgão
Nacional de Auditoria, em seu relatório sobre como a indústria da construção no Reino Unido poderia se tornar mais eficiente,
estão resumidos na Tabela 6.2.

Tabela 6.2 As vantagens da parceria

Redução da necessidade de alterações em projetos caros

Aumento das oportunidades de replicar as boas práticas aprendidas em projetos


anteriores

Evita relações conflituosas entre clientes e empreiteiros

Empreiteiros têm bons incentivos para entregar no prazo, no orçamento e com alto padrão

A ligação de clientes e empreiteiros deve melhorar a eficiência global da construção —


particularmente, nos termos de sua operação e manutenção

Seria possível expulsar do processo construtivo a ineficiência e o desperdício

Fonte: Adaptada do Órgão Nacional de Auditoria (2001: 6, 31).

Existem, entretanto, algumas ressalvas sobre se os benefícios da parceria são plenamente realizados sob o IFP. Por
exemplo, alterações são inevitavelmente necessárias durante a vida útil de um contrato em vigência por 25 ou 30 anos, seja
devido a uma alteração das necessidades do cliente, seja devido a novos desenvolvimentos tecnológicos, e estes podem ser
particularmente caros para implementar, especialmente quando uma companhia já foi nomeada como o empreiteiro principal. O
Órgão Nacional de Auditoria (2008) confirmou que alterações nos contratos IFP tendem a ser mais dispendiosas do que
alterações equivalentes em projetos adquiridos convencionalmente por uma margem de 5 a 10 % do custo da mudança. Quando
se observa que as autoridades públicas gastaram mais de R$ 720 milhões em 2006 com mudanças em projetos IFP operacionais,
a escala do problema se torna evidente.
A segunda questão é que os custos anuais (unitários) aumentaram na medida em que o programa IFP cresceu. Por exemplo,
a conta anual do IFP para o Serviço Nacional de Saúde aumentou, sozinha, mais de 500 % entre 2002 e 2012, de R$ 1.080
milhões para R$ 6 bilhões, na medida em que os sistemas de saúde operando na Inglaterra subiram de 32 para 114. Claramente,
isso poderia criar dificuldades financeiras na gestão de futuros orçamentos da saúde, e alguns têm argumentado que isso
eventualmente acabará por levar a cortes e encerramentos nos serviços (Hellowell e Pollock, 2007).
Outra desvantagem significativa é que uma parceria de sucesso é muito mais fácil para grandes empresas do que para
pequenas — e a construção ainda é dominada por estas últimas. Em um mercado perfeito verdadeiramente competitivo, toda a
informação está livremente disponível — todos têm acesso ao conhecimento necessário para que as trocas ocorram — e os
custos de transação são zero. Com frequência, os governos tentam assegurar que essas condições prevaleçam padronizando
procedimentos jurídicos e financeiros, a fim de que os participantes do mercado saibam onde estão. Entretanto, em mercados de
construção em que as parcerias e, em particular, o IFP estão emergindo, essas condições não prevalecem. Muitas empresas não
possuem os recursos necessários para entender a complexa informação jurídica inevitavelmente associada a essas formas de
aquisição. Os custos de transação são proibitivamente altos, com honorários de arquitetos, advogados e contadores a serem
cumpridos por todos os participantes. Como resultado, é incomum que mais de três ou quatro grupos de consórcio encontrem
recursos suficientes para a prática do tedioso, longo e detalhado processo de licitação envolvido. De fato, os custos da licitação
IFP podem geralmente ultrapassar os R$ 4 milhões por projeto. As empresas capazes de assumir tais operações de grande escala
e seus riscos são poucas e distantes entre si, e é uma preocupação comum o fato de os acordos de parceria muitas vezes
excluírem empreiteiros menores.
A crise de crédito agravou ainda mais estas questões. Ela levou a uma escassez de financiamento tanto nos setores públicos
quanto privados, conferindo às questões levantadas anteriormente um foco mais nítido. Em alguns aspectos, o IFP parou de
parecer tão atrativo: ele limita financeiramente o governo por muito tempo e não oferece flexibilidade o suficiente para se
adaptar a mudanças. Como consequência, durante as revisões de gastos públicos de 2010 e 2011, o Tesouro teve a oportunidade
de reavaliar a expansão futura do IFP e abriu um debate a respeito da melhor forma de atrair financiamentos privados para os
projetos do setor público. Enquanto este livro é escrito esse debate continua, e novos programas IFP foram colocados em
espera. (The City UK, 2012.)

Pontos-Chave 6.2
Parceria é um termo usado amplamente para descrever diversos tipos de arranjos colaborativos.
A parceria fez grandes avanços nos últimos anos, particularmente no setor público, já que poucos governos
podem atender às necessidades sociais e de infraestrutura somente com fundos públicos. O IFP e outras
formas de contratos são utilizados para destravar o capital do setor privado.
A parceria assume um cenário de ganho-ganho para todas as partes. Vários de seus benefícios estão
resumidos na Tabela 6.2.
Discussões sobre os prós e contras de utilizar o IFP tendem a se concentrar no valor do dinheiro, mas o
debate precisa se ampliar para reconhecer o capital social que o IFP proporciona.

REPENSANDO AS RELAÇÕES ENTRE O CLIENTE E O EMPREITEIRO


A partir dos comentários deste capítulo, parece que a indústria da construção pode ser caracterizada por descontentamento e,
comparada às outras indústrias, pode parecer ineficiente. Na verdade, John Egan atentou para os graves problemas encarados
pela indústria no final da década de 1990, quando criticou as taxas de lucro baixas e não confiáveis que impedem os
investimentos necessários em treinamento, pesquisa e desenvolvimento para sustentar uma indústria saudável. De fato, ele
observou que a visão da Cidade em relação à construção confirmava sua posição como um mau investimento. Como Egan
(1998: 11) observou: ‘A Cidade considera a construção como um negócio imprevisível, competitivo apenas no preço e não na
qualidade, com poucas barreiras para a entrada de empresas de baixa performance.’ Da perspectiva dos clientes, o investimento
foi retratado de forma semelhante, como imprevisível em termos de prazos, orçamento e padrões de qualidade esperados.
Novamente, nas palavras de Egan (1998: 10): ‘O investimento na construção é visto como caro, quando comparado a outros
produtos ou serviços e a outros países. Em resumo, a construção frequentemente falha em alcançar as necessidades dos negócios
modernos que têm que ser competitivos em mercados internacionais, e raramente oferece o melhor preço para os clientes e para
os contribuintes.’
Uma análise posterior das políticas governamentais de P&D para a indústria da construção, Rethinking Construction
Innovation and Research* (Fairclough, 2002), confirmou ainda a impressão de fracasso. Na verdade, Fairclough retratou uma
indústria no início do século XXI, que era ‘suja, perigosa e antiquada’ (2002: 30). Ele enfatizou que, para a construção se
desenvolver, era necessária uma visão estratégica. Curiosamente, a visão foi articulada e centrada sobre a contribuição da
indústria para os objetivos globais de sustentabilidade econômica, ambiental e social.
As conclusões de Egan (1998) e Fairclough (2002) foram redigidas a pedido do governo do Reino Unido, e eles
capturaram a situação no início do século XXI. A imagem que eles apresentaram foi, em muitos aspectos, mais ‘vitoriana’ do
que ‘moderna’, e se aplicou da mesma forma para a maioria das outras nações. Como evidência, há uma série de relatórios
patrocinados pelo governo e análises aprofundadas da indústria da construção. Por exemplo, parafraseando o parágrafo de
abertura de uma análise do estado da construção em Cingapura, a indústria da construção tem uma má imagem e pode ser
facilmente destacada do restante da economia pelas atitudes, tecnologias, processos e cultura que têm, pelo menos, meio século
de idade (Dulaimi et al., 2001: 1). Opiniões similares são expressas na conclusão da análise internacional de políticas públicas
na Europa, nas Américas do Sul e do Norte, na África do Sul e no Japão, realizada por Manseau e Seaden (2001), na qual
concluíram que ‘a construção em quase toda parte é percebida como estando “em apuros”, com baixas taxas de lucro, altos
custos de produção e falta de preocupação com o usuário final’.
Durante a primeira década do novo século, a indústria foi protegida por uma economia saudável e a inércia cultural
prevaleceu. Em outras palavras, a comunicação, a sustentabilidade e os níveis de eficiência alcançados entre clientes e
empreiteiros ainda definhavam no passado. Como a análise de Wolstenholme (2009) acerca do progresso realizado desde o
relatório Egan confirmou, houve poucas mudanças; e, nos termos coloridos utilizados uma vez por Elvis Presley, a indústria foi
solicitada a ter ‘um pouco menos de conversa e muito mais de ação por favor’ (Wolstenholme, 2009: 5). Uma constatação
particularmente forte da análise de Wolstenholme foi a de que as pessoas tendem a escolher os comportamentos que adotam,
baseadas em seu próprio interesse. Assim, muitos clientes podem dizer que querem uma solução que represente o melhor custo-
benefício, ainda que comecem procurando pelo menor preço. De modo similar, o compromisso do empreiteiro com a parceria
com frequência é considerado apenas superficial, uma vez que os chamados parceiros ainda buscam formas de maximizar seus
próprios lucros no lugar de procurar encontrar formas de dividir o risco e colaborar sinceramente para que todos tenham
chances de lucrar. Assim, no início da crise financeira, testemunhamos outro apelo bem-intencionado por mudanças culturais na
indústria para ‘completar e abranger o quadro complexo de como os clientes e empreiteiros podem interagir de modo
sustentável com o ambiente para maximizar a saúde, a prosperidade e a felicidade’ (Wolstenholme, 2009: 5-8).
Até certo ponto, essas dificuldades explicam a atual ênfase que está sendo colocada na gestão de valor. Embora o
processo tenha se originado há mais de 60 anos com o setor manufatureiro norte-americano e tenha sido referido como
engenharia de valor, tem sido cada vez mais aplicado a projetos de construção de grande escala desde a década de 1980. Para
nossos propósitos, os termos gestão de valor e engenharia de valor são sinônimos, mas no Reino Unido o primeiro termo parece
ser usado com mais frequência.

GESTÃO DE VALOR
No sentido mais geral, gestão de valor é um evento específico organizado para identificar e eliminar custos desnecessários,
embora não deva ser interpretado como um simples exercício de corte de custos. Isto pode parecer confuso, mas o objetivo é
otimizar a relação custo-benefício por meio da revisão dos custos, qualidade e função. Não há garantia, portanto, de que os
custos iniciais serão cortados, mas um projeto mais eficiente deve quase certamente emergir.
O processo foi desenvolvido na comunidade industrial dos Estados Unidos, e uma recente anedota descreve sua origem. A
história diz que foi atribuída a Lawrence Miles, um engenheiro de compras da General Electric Company durante a Segunda
Guerra Mundial, a tarefa de adquirir materiais para expandir a produção dos bombardeiros B24, de 50 para 1000 aviões por
semana. Na época, havia uma escassez de materiais e, em decorrência, ele inicialmente teve problemas com fontes de
abastecimento. Entretanto, Miles descobriu muitos componentes substitutos que eram não apenas mais baratos, mas também
melhores que os produtos originais. Nesse momento nascia a ideia de gestão de valor, que foi associada à redução de custos.
Hoje, entretanto, ampliou-se seu escopo e está muito mais relacionada em assegurar o melhor custo-benefício, no sentido de
otimizar os custos da vida útil de um projeto para atender as necessidades de longo prazo dos clientes (HM Treasury, 2006: 7).
A forma usual de implementação da gestão de valor é por meio de workshops estruturados, liderados por um facilitador
independente, para levar em conta questões relativas ao projeto, à construção, operação e gestão. Em resumo, os workshops de
gestão de valor são multidisciplinares. O objetivo é analisar o desempenho e os custos de um projeto durante todo o seu ciclo de
vida. Os protótipos dos workshops de gestão de valor foram estruturados para ocorrer ao longo de vários dias (muitas vezes até
uma semana), mas recentemente a tendência tem sido que esses eventos sejam compactados em um espaço de tempo muito mais
curto. De fato, o resultado das pesquisas sugere que sessões de meio-dia estão se tornando o modelo e, em certas circunstâncias,
são até reduzidas a algumas horas. Parafraseando os comentários de um facilitador explicando essa tendência: o cliente mediano
tem horror a gastar mais de R$ 20.000,00 comigo [como facilitador] e tem uma visão cínica do valor de 16 pessoas sentadas em
torno de uma mesa discutindo o projeto (Ellis et al., 2005: 489).
O formato e a carga horária precisos dos workshops irão variar de projeto para projeto. Teoricamente, não há nada que
impeça que uma análise de gestão de valor aconteça em qualquer fase do processo. Na verdade, a literatura teórica até
recomenda que um tipo de avaliação pós-ocupação deva ser efetuada para documentar as lições aprendidas e oferecer um
feedback. Na prática, entretanto, verificou-se que o processo raramente prossegue para além dos estágios iniciais, pois, embora
o valor dos exercícios pós-conclusão seja aceito, estes raramente são realizados (Ellis et al., 2005: 486).
Na Figura 6.2 esboçamos o típico ciclo de vida de um projeto para enfatizar que, quanto mais cedo um estudo da gestão de
valor é realizado, mais oportunidades surgem para se beneficiar dele. Isto é especialmente importante, já que na maioria dos
casos há somente uma intervenção da gestão de valor (Ellis et al., 2005: 486). Então, se a gestão de valor é para ser utilizada
com bons resultados, a maioria dos participantes concorda que eles precisam se envolver o mais rápido possível no ciclo do
projeto quando escolhas claras têm de ser feitas. Por exemplo, a realização de um workshop para examinar um caso de negócios
permite que todos os interessados tenham tempo e discutam para compreender o projeto, melhorar sua eficiência e o custo-
benefício. O oferecimento do evento de gestão de valor é realizado antes da etapa de licitação; ainda há oportunidade para
discutir diferentes opiniões, buscar melhores soluções, acomodar alterações no projeto e geralmente eliminar custos
desnecessários. Idealmente, isto deveria ser seguido por uma série de eventos de gestão de valor, na medida em que o projeto se
desdobra, e existem casos excepcionais em que vários eventos de gestão de valor se estendem por vários anos.
A gestão de valor é claramente um esforço organizado para analisar funções, valores, custos e sustentabilidade. Em
resumo, ela olha para os projetos de construção como um todo integrado. Não é surpresa alguma, portanto, que o Serviço de
Compras Governamentais, que visa atender às exigências de negócios e entregar projetos de sucesso, está começando a
introduzir as análises de gestão de valor em projetos muito complexos. Onde a técnica foi aplicada, houve reduções
significativas em defeitos, encargos de manutenção e custos globais.

Figura 6.2 Ciclo de vida do projeto

A Administração de Rodovias Federais dos Estados Unidos tem praticado a gestão de valor desde 1995 e tornou-a
obrigatória para todos os projetos acima de R$ 100 milhões. Como consequência, seu site lista algumas realizações bastante
impressionantes. Tomando somente 2010 como exemplo, o relatório anual da Administração Federal de Rodovias se refere a
402 estudos de gestão de valor que foram realizados durante o ano. (Em alguns casos, esses estudos foram realizados em
diversos estágios do mesmo projeto, em vários pontos, desde a concepção até sua conclusão. A Figura 6.2 mostra alguns dos
estágios-chave de um projeto.) Estes estudos fizeram um total de 3049 recomendações, das quais 1315 foram levadas em conta.
Isto gerou uma economia de aproximadamente R$ 8 bilhões em um gasto de R$ 138 bilhões. Em alguns casos, o exercício de
gestão de valor também inclui uma avaliação de benefícios não monetários, como tempo de viagem e redução do impacto nos
ninhos das águias, juntamente com a avaliação de benefícios monetários convencionais, como custos de construção e de
manutenção. Atualmente, há um comprometimento muito maior com o processo de gestão de valor nos Estados Unidos do que
em qualquer outro lugar no mundo. Mas, dado o reconhecimento frequente de que este ‘valor’ é criado nas pranchetas e não nos
canteiros de obras, e de que os projetistas e arquitetos descobriram que conversas sobre como as coisas são construídas podem
criar muitas possibilidades, a engenharia de valor poderia facilmente tornar-se comum em projetos do setor público em outros
países ao longo da próxima década.
Enfim, no contexto deste capítulo, não pode ser esquecido que a gestão de valor oferece igualmente uma ótima
oportunidade de construir uma equipe capaz e alcançar a colaboração eficiente entre clientes e empreiteiros.

Pontos-Chave 6.3
Comparada a outras indústrias, os processos associados à indústria da construção tradicional parecem
antiquados, ineficientes e insustentáveis.
O Relatório Egan (1998) e a análise subsequente de Wolstenholme (2009) enfatizaram que a indústria
precisa se modernizar adotando práticas de construção eficientes, integradas, inovadoras e sustentáveis.
A gestão de valores tem o potencial para tratar as relações entre custo, função e valores. Ela já é utilizada
efetivamente nos Estados Unidos para avaliar o custo-benefício em projetos de infraestrutura de grande
escala.
O reconhecimento de que o valor de um projeto começa na fase de concepção cria muitas novas
possibilidades para a próxima década.
__________
*
Estereótipo utilizado no Reino Unido para os motoristas de pequenas vans comerciais, considerados egoístas, imprudentes e agressivos.
De acordo com o estereótipo, os white van man são profissionais autônomos ou donos de pequenas empresas, para os quais dirigir um
veículo comercial não é sua tarefa principal. (N.R.T.)
*
Do inglês, Private Finance Initiative (PFI). (N.R.T.)
*
Do inglês, Special Purpose Vehicle (SPV). (N.R.T.)
*
Repensando a Política e a Inovação na Construção. (N.R.T.)
Vamos fazer agora uma análise mais íntima da oferta de uma economia — isto é, tentamos explicar como os fornecedores se
comportam. Para começar, traçamos ideias tradicionalmente associadas à teoria da empresa, uma teoria popularizada por
Marshall (1920), para explicar o comportamento da produção das empresas envolvidas na fabricação. A teoria parte da premissa
relativamente simples de que, se a empresa conhece seus custos de produção e suas fontes de receita, deve ser capaz de
identificar uma posição de maximização dos lucros específica. Obviamente, isto requer uma análise detalhada dos fluxos de
custos e receitas que uma empresa enfrenta na medida em que alcança sua escala ótima de produção. Neste capítulo,
examinamos cuidadosamente a natureza dos lucros, produtividade e custos relacionados com o projeto, com a construção,
manutenção, gestão, conservação e remodelação, e no Capítulo 8 vamos nos concentrar mais na questão da receita. Antes,
porém, de iniciar este capítulo, é útil revisar os Pontos-Chave 1.2, 2.4 e 5.1 para recapitular as ideias básicas relacionadas com
os modelos, mercados, com a alocação de recursos, eficiência econômica e com a lei básica da oferta.

A EMPRESA
Começamos definindo um negócio, ou empresa, em termos gerais.
Uma empresa é uma organização que reúne diferentes fatores de produção, como trabalho, terrenos e capital,
para fabricar um produto ou oferecer um serviço do qual se espera a possibilidade de ser vendido com lucro.
O tamanho real de uma empresa irá afetar sua estrutura. Uma configuração comum para uma firma grande envolve empresários,
gerentes e operários. O empresário é aquele que aproveita as oportunidades. Por causa disso, o empresário é quem receberá
todos os lucros conquistados. O empresário também decide quem dirige a empresa. Alguns economistas sustentam que a
verdadeira qualidade de um empresário é a habilidade de selecionar bons gerentes. Estes, por sua vez, são aqueles que decidem
quem deve ser contratado e demitido e como o negócio deve ser organizado. Os operários são as pessoas que por fim utilizam as
máquinas para fabricar os produtos ou oferecer os serviços que estão sendo vendidos pela empresa. Aos operários e gerentes são
pagos salários contratuais. Eles recebem uma quantia específica por um dado período de tempo. Empresários não recebem
salários contratuais. Eles não recebem ‘recompensas’ específicas. Em vez disso, recebem o que sobra — se sobrar algo — após
todas as despesas serem pagas. Os lucros são, portanto, a remuneração do empresário, por assumir os riscos. Perceba que as
funções podem ser combinadas, e, em muitas pequenas empresas que compreendem grande parte da indústria da construção, o
empresário é também o gerente-proprietário.
De acordo com os dados da União Europeia, pequenas e médias empresas — definidas como empresas que empregam
menos de 250 pessoas — fabricam aproximadamente 99 % da produção da construção na Europa. De fato, estima-se que mais
de 20 % da força de trabalho do setor da construção na Europa são de trabalhadores autônomos; no Reino Unido, esse valor está
próximo de 40 %. Realmente, a indústria da construção pode ser caracterizada por empresários que assumem riscos.
Grandes corporações, como as sociedades anônimas, possuem tipicamente muitos acionistas. Estes são os proprietários das
empresas, o que significa que teoricamente são os empresários. Na prática, eles não costumam se envolver no dia a dia da
empresa. Eles, por exemplo, não determinam o nível dos preços ou da produção. Essas tarefas são delegadas aos gerentes
assalariados, deixando os acionistas com um único interesse — o nível de lucro que a empresa consegue gerar.

Lucro
Os custos de produção devem incluir um elemento de lucro para prover um pagamento ao empresário. Se o nível de lucro cair
em uma área de atividade, os empresários podem deslocar seus recursos para uma indústria em que o retorno seja maior. Para
ilustrar esse comportamento, os economistas empregam o conceito de lucro normal. O lucro normal pode ser definido como:
um nível mínimo de remuneração necessária para garantir que os empresários existentes estejam preparados
para permanecer em sua atual área de produção.
O lucro normal está incluído no custo de produção, já que é uma remuneração mínima necessária para atrair o empresário para a
atividade econômica. O conceito de lucro normal também destaca que todos os recursos podem ser empregados de diversas
maneiras (ou seja, todos os recursos têm usos alternativos). Note que o que os economistas entendem por ‘lucro’ difere de seu
significado normalmente utilizado no dia a dia. Para retratar o significado usual de lucro, a seguinte fórmula pode ser utilizada:
lucro = receitas totais – custos totais
Para os economistas, uma fórmula alternativa é necessária:
lucro econômico = receitas totais – custo de oportunidade total de todos os insumos utilizados
A fórmula do lucro econômico se tornará mais clara olhando para duas áreas de alocação de recursos e para os cálculos de
contabilização de custos relacionados. O primeiro recurso é o capital e o segundo é a mão de obra.

CUSTO DE OPORTUNIDADE DO CAPITAL


As empresas entram ou permanecem em uma indústria se elas alcançarem, no mínimo, uma taxa normal de retorno, ou seja, um
lucro normal. Com isso, queremos dizer que as pessoas não investirão seus bens em um negócio, a menos que obtenham uma
taxa de retorno competitivamente positiva – em outras palavras, a não ser que seu investimento compense. Qualquer negócio
que deseje atrair capital deve esperar render pelo menos a mesma taxa de retorno sobre o capital que todas as outras empresas
de risco similar estão dispostas a pagar. Por exemplo, se as pessoas podem investir suas posses em quase todas as empresas de
construção e obter um retorno de 10 % por ano, então cada empresa na indústria da construção deve esperar pagar 10 % como
taxa normal de retorno para investidores atuais e futuros. Estes 10 % são um custo para a empresa – formalmente denominado
custo de oportunidade do capital. O custo de oportunidade do capital é a quantidade de renda, ou rendimento, perdida por
entregar o investimento para outra empresa. O capital não permanecerá nas empresas ou indústrias se a taxa de retorno cair
abaixo do seu custo de oportunidade. Obviamente, a taxa de retorno esperada irá diferir de uma indústria para outra, conforme o
grau de risco e as atividades envolvidas.

CUSTO DE OPORTUNIDADE DA MÃO DE OBRA


O empreiteiro autônomo ou empreendedor individual muitas vezes exagera de modo grosseiro nos lucros, porque, com
frequência, o custo de oportunidade do tempo que eles despendem pessoalmente no negócio não é mensurado da maneira
correta. Tome como exemplo as pessoas que dirigem pequenos escritórios de auditoria. Esses peritos, no final do ano, irão
sentar e contabilizar seus ‘lucros’. Eles somarão todos os seus honorários e subtrairão o que têm que pagar aos funcionários, o
que devem pagar aos fornecedores, os impostos que devem pagar, e assim por diante. O resultado final será chamado de ‘lucro’.
Entretanto, eles não terão computado em seus custos o salário que eles teriam recebido se tivessem trabalhado para qualquer
outra companhia em um tipo de emprego similar. Para um perito, o salário deveria ser de, digamos, R$ 80,00 por hora. Neste
caso, R$ 80,00 por hora é o custo de oportunidade do tempo deste profissional. Em muitos casos, as pessoas que dirigem seus
próprios negócios perdem dinheiro em um sentido econômico. Ou seja, seu lucro, como eles o calculam, pode ser menor que a
quantia que ganhariam caso tivessem gasto o mesmo tempo trabalhando para outra pessoa. Considere um exemplo numérico. Se
um empresário pode faturar R$ 80,00 por hora, então o custo de oportunidade do tempo dele é de R$ 80 × 40 horas × 52
semanas, ou R$ 166.400,00 por ano. Se este empresário está ganhando menos de R$ 166.400,00 por ano sobre os lucros
contábeis, ele está realmente perdendo dinheiro. Isto não significa que tais empresários são estúpidos: eles podem estar
dispostos a pagar pelos benefícios não monetários por ser o chefe.

Figura 7.1 Visão simplificada do lucro econômico e do lucro contábil


Aqui vemos que, no lado esquerdo, a receita total é igual ao custo contábil somado ao lucro contábil — ou seja, o lucro
contábil é a diferença entre a receita total e o custo contábil total. Por outro lado, vemos na coluna da direita que o lucro
econômico é igual à receita total menos o custo econômico. O custo econômico é igual à soma dos custos contábeis com a
taxa normal de retorno sobre o capital investido (além de quaisquer outros custos implícitos).
Consideramos apenas o custo de oportunidade do capital e o custo de oportunidade da mão de obra, mas o conceito se
aplica a todos os insumos. Qualquer que seja o insumo, seus custos de oportunidade devem ser levados em consideração para
calcular os verdadeiros lucros reais. Outra forma de visualizar o custo de oportunidade da gestão de uma empresa é a de que o
custo de oportunidade consiste em todos os custos explícitos (diretos) e implícitos (indiretos). Contadores somente levam em
conta os custos explícitos. Portanto, o lucro contábil acaba sendo o residual, após os custos explícitos terem sido subtraídos da
receita total.
O termo lucro, em economia, significa a renda que os empresários ganham acima de seus próprios custos de oportunidade
de tempo, somada ao custo de oportunidade do capital que eles investiram em seus negócios. Os lucros podem ser considerados
como receitas totais menos custos totais — como os contadores pensam — mas os economistas incluem todos os custos.
Indicamos esta relação na Figura 7.1.

Objetivo da Empresa
No desenvolvimento de um modelo de empresa, vamos supor que, em geral, o principal objetivo do negócio é a maximização
dos lucros. Em outras palavras, o objetivo de uma empresa é fazer com que a diferença positiva entre o total de receitas e o
custo total seja a maior possível. Utilizamos esse modelo de maximização dos lucros porque ele nos permite analisar o
comportamento da empresa no que diz respeito à relação entre os custos e as unidades de produção. Sempre que esse modelo
produzir previsões pobres, examinaremos nossa hipótese inicial sobre maximização de lucros. Talvez tenhamos que concluir
que o principal objetivo de algumas empresas não é maximizar os lucros, mas sim maximizar as vendas, ou o número de
funcionários, ou o prestígio dos proprietários, e assim por diante. Entretanto, estamos preocupados principalmente com
generalizações. Portanto, admitindo que a hipótese de maximização dos lucros esteja correta para a maioria das empresas, o
modelo serve como um bom ponto de partida.

Pontos-Chave 7.1
Uma empresa é qualquer organização que reúne insumos de produção para fabricar produtos ou oferecer
serviços que possam ser vendidos com lucro.
Lucros contábeis diferem de lucros econômicos.
Lucros econômicos são definidos como a receita total menos o custo total, incluindo todo o custo de
oportunidade de todos os fatores de produção.
Pequenas empresas e trabalhadores autônomos frequentemente falham em considerar o custo de
oportunidade dos serviços de mão de obra fornecidos pelo proprietário.
O custo de oportunidade do capital investido em uma empresa geralmente não é incluído como custo quando
os lucros contábeis são calculados. Assim, os lucros contábeis extrapolam os lucros econômicos.
A maximização dos lucros é considerada o objetivo principal quando se considera o comportamento de uma
empresa.
DECISÕES DE PRODUÇÃO
Quando se considera a capacidade de produção de uma empresa, o período de tempo é de vital importância; no restante deste
capítulo, consideraremos um ‘curto’ período de tempo em oposição a um ‘longo’ período de tempo. Em outras palavras, na
análise a seguir, estamos olhando para decisões de produção de curto prazo.
Qualquer definição de curto prazo é, necessariamente, arbitrária. Não podemos falar em termos de curto prazo como um
período específico tal como um mês, ou até mesmo um ano. Em vez disso, devemos considerar o curto prazo em termos da
habilidade de uma empresa em alterar a quantidade de insumos. Para facilidade de compreensão, vamos simplesmente definir o
curto prazo como qualquer período de tempo em que há pelo menos um fator de produção que tenha um custo fixo. No
longo prazo, portanto, todos os custos são variáveis; ou seja, todos os fatores são variáveis.
Quanto tempo é o longo prazo? Isto depende do tipo de indústria. Para o varejo, o longo prazo pode ser considerado como
quatro ou cinco meses — porque é o tipo de período de tempo no qual se podem adicionar novas franquias. Para indústrias
manufatureiras, o longo prazo pode ser de vários anos — porque é o tempo necessário para se planejar e construir uma nova
fábrica.
Na maioria das análises de curto prazo, o fator que tem um custo fixo, ou é fixado em quantidade, é o capital. Portanto,
afirmamos que, em nosso modelo de curto prazo, o capital (assim como a terra) é fixo e invariável. Isto não é sem fundamento
— em um típico canteiro de obras, a quantidade de terreno e o número de guindastes não mudarão ao longo de vários meses. Do
mesmo modo, as localizações do escritório e de seus equipamentos não podem ser facilmente alteradas. O insumo que mais se
altera é a mão de obra. A relação de produção que os economistas usam, portanto, conserva constante o capital e a terra, e
assume que a mão de obra é variável. Esta suposição é particularmente pertinente em uma indústria como a construção, na qual
a mão de obra representa uma proporção significativa dos custos.

A Função de Produção — Um Exemplo Numérico


A relação entre a produção física e a quantidade de capital e mão de obra utilizada no processo produtivo é algumas vezes
chamada de função de produção. O termo função de produção na economia deve sua origem a engenheiros de produção,
pelos quais ela é utilizada para descrever a relação tecnológica entre insumos e produtos. Isto depende, portanto, da tecnologia
disponível.
Consulte a Tabela 7.1, em que demonstramos uma função de produção que relaciona a produção total na coluna 2 com a
quantidade do insumo de mão de obra na coluna 1. Quando não há trabalhadores, não há produção. Quando há a entrada de
cinco trabalhadores (dado o estoque de capital), há uma produção total de 150 metros quadrados por semana. (Não considere,
por enquanto, o restante da Tabela 7.1.) Na Figura 7.2a, apresentamos graficamente esta função de produção hipotética. Mas
lembre-se de que ela está relacionada a curto prazo e que é para uma única empresa.
A Figura 7.2a mostra uma curva de produção física completa, ou a quantidade de produção física que é possível quando
adicionamos unidades sucessivas de mão de obra enquanto mantemos todos os outros insumos constantes. Note que o gráfico da
função de produção na Figura 7.2a não é uma linha reta. De fato, ela atinge seu ponto máximo com sete trabalhadores e depois
começa a descer. Obviamente, a natureza única de cada projeto de construção nos impede de prever um número ideal para cada
função, especialmente porque as habilidades específicas da equipe de construção também influenciam muito a taxa real de
produção. Em termos gerais, entretanto, dentro de qualquer setor da indústria da construção há uma tendência em comum: a
produção aumenta na medida em que mais unidades de mão de obra são empregadas, mas não a uma taxa constante. Para
entender por que tal fenômeno ocorre dentro de qualquer empresa no curto prazo, temos que analisar, em detalhes, a lei dos
rendimentos (marginais) decrescentes.

Tabela 7.1 Rendimentos decrescentes: um caso hipotético na construção


Na primeira coluna, apresentamos o número de trabalhadores empregados por semana em um projeto. Na segunda coluna,
apresentamos sua produção total; ou seja, a produção que cada número específico de trabalhadores pode executar em
termos de metros quadrados. A terceira coluna fornece a produção marginal. A produção marginal é a diferença entre a
produção possível com um dado número de trabalhadores menos a produção possível com um trabalhador a menos. Por
exemplo, a produção marginal de um quarto trabalhador é de 20 metros quadrados, porque com quatro trabalhadores 140
metros quadrados são produzidos, mas com três trabalhadores somente são produzidos 120 metros quadrados; a diferença
é de 20.

Quantidade de mão de obra Produção total (em m2 por Produção física marginal (em m2
semana) por semana)

0 0  

1 20 20

2 60 40

3 120 60

4 140 20

5 150 10

6 160 10

7 165 5

8 163 22

RENDIMENTOS DECRESCENTES
O conceito de rendimentos marginais decrescentes se aplica a diversas situações. Se você afivela um cinto de segurança sobre
seu corpo em um carro, certa quantidade de segurança adicional é obtida. Se você adiciona outro cinto de segurança, obtém-se
um pouco mais de segurança, mas não tanto quanto você obteve com o primeiro cinto. Quando você adiciona um terceiro cinto
de segurança, novamente a segurança aumenta, mas a quantidade total de segurança adicional obtida é cada vez menor. De
maneira semelhante, os valores U — uma medida de perda de calor — relacionados com vidros não diminuem
progressivamente à medida que se adicionam mais painéis de vidro em uma janela. Os valores U tipicamente associados a
vidros simples, duplos e triplos são 5,7; 2,8 e 2,0, respectivamente. Portanto, presumindo que a construção da parede e outros
fatores permaneçam constantes, variar do vidro simples para o duplo melhora o valor U em 2,9, ao passo que adicionar uma
terceira placa de vidro somente melhora o valor U em 0,8.

Figura 7.2a Uma função de produção


Uma função de produção relaciona a produção aos insumos. Tomamos apenas os números das colunas 1 e 2 da Tabela 7.1
e os apresentamos como um gráfico.
A mesma análise é válida para as empresas no uso dos seus insumos produtivos. Quando os rendimentos decorrentes da
contratação de mais trabalhadores estão diminuindo, isto não quer necessariamente dizer que não serão contratados mais
trabalhadores. Na verdade, teoricamente, trabalhadores devem ser contratados até que os rendimentos, nos termos do valor
adicional produzido, sejam iguais aos salários adicionais que têm que ser pagos para aqueles trabalhadores produzirem a
quantidade extra. Antes de entrarmos no processo de tomada de decisão, vamos demonstrar que os rendimentos decrescentes
podem ser facilmente representados graficamente e, subsequentemente, utilizados em nossa análise da empresa.

Mensuração dos Rendimentos Decrescentes


Como medimos os rendimentos decrescentes? Primeiramente, limitaremos a análise a somente um fator variável de produção
(ou insumo). Digamos que o fator é a mão de obra. Qualquer outro fator de produção, como o maquinário, deve ser mantido
constante. Somente assim podemos calcular os rendimentos marginais do uso de mais trabalhadores e saber quando alcançamos
o ponto dos rendimentos marginais decrescentes.
Os rendimentos marginais para insumos produtivos são às vezes referidos como o produto físico marginal. O produto
físico marginal de um trabalhador, por exemplo, é a alteração na produção total que ocorre quando este trabalhador se une a
uma equipe já existente. É também a alteração na produção total que ocorre quando um trabalhador se demite ou é dispensado
de um projeto de construção já existente. A produtividade marginal da mão de obra, portanto, se refere à alteração na produção
causada pela mudança de uma unidade do insumo mão de obra.
No início, a produtividade marginal da mão de obra pode aumentar. Tome uma empresa começando sem operários,
somente com máquinas. A empresa então contrata um operário, que acha difícil executar o serviço sozinho. Quando a empresa
contrata mais trabalhadores, entretanto, cada um deles é capaz de se especializar, e a produtividade marginal desses operários
adicionais pode ser, na verdade, maior que a atingida com poucos trabalhadores. Portanto, no início, rendimentos marginais
crescentes tendem a ser sentidos. Após certo ponto, entretanto, rendimentos decrescentes devem ser definidos; cada trabalhador
tem (em média) menos máquinas para trabalhar (lembre-se de que todos os outros insumos estão constantes). Eventualmente, o
canteiro ficará tão cheio, que os operários começarão a esbarrar uns nos outros e se tornarão menos produtivos.
Utilizando essas ideias, podemos explicar a lei dos rendimentos (marginais) decrescentes. Considere esta
definição:
À medida que aumentos sucessivos iguais de um fator de produção variável, como a mão de obra, são
adicionados a outros fatores de produção fixos, como capital, haverá um ponto além do qual o produto extra ou
marginal que pode ser atribuído a cada unidade adicional do fator variável de produção vai diminuir.
Podemos expressar isso mais formalmente:
À medida que a proporção de um fator em uma combinação de fatores é aumentada, depois de um ponto, o
produto marginal deste fator irá diminuir.
Em poucas palavras, rendimentos decrescentes significam que a produção não aumenta nas proporções exatas do acréscimo nos
insumos, como o número de funcionários empregados.

UM EXEMPLO
A lei dos rendimentos decrescentes pode ser demonstrada em qualquer setor da economia. Tomemos um canteiro de obras como
exemplo. Há uma quantidade fixa de terreno (o terreno para a construção) e, com o fornecimento dos materiais necessários
(tijolos, madeiramento etc.) e algumas ferramentas, a adição de mais operários eventualmente rende decrescentes aumentos na
produção. Um conjunto hipotético de valores, baseados em discussões com gerentes de projeto, que ilustram a lei dos
rendimentos decrescentes já foi apresentado na Tabela 7.1 (e você pode precisar revê-la). Esta é agora representada
graficamente na Figura 7.2b.
A produtividade marginal (a retribuição por ter adicionado mais trabalhadores) primeiramente aumenta, então diminui e,
finalmente, se torna negativa. Quando um trabalhador é contratado, a produção total vai de zero a 20. Desse modo, a produção
física marginal é igual a 20. Quando outro trabalhador é adicionado, a produção total, medida em metros quadrados por semana,
aumenta para 60. Consequentemente, a produção física marginal associada à segunda unidade de mão de obra é 40. A terceira
unidade de mão de obra acrescenta 60 metros quadrados ao total e, depois disso, a produção marginal começa a decrescer. Neste
exemplo, portanto, os rendimentos marginais decrescentes ocorrem após três trabalhadores terem sido contratados.

Rendimentos Marginais Decrescentes e a Teoria da Empresa


Se inserirmos agora os custos da empresa no cenário, podemos começar a entender a importância central da lei dos rendimentos
decrescentes. Por exemplo, considere a relação entre o custo marginal — o custo de uma unidade extra de produção — e a
incidência de rendimentos físicos marginais decrescentes, como ilustrado na Tabela 7.1. Vamos supor que cada unidade de mão
de obra possa ser adquirida a um preço constante. Vamos ainda assumir que a mão de obra é o único insumo variável.
Percebemos que, à medida que mais trabalhadores são contratados, a produção física marginal primeiramente aumenta e, então,
cai após o ponto no qual os rendimentos decrescentes são encontrados. O custo marginal de cada unidade extra de produção
primeiro vai cair, enquanto a produção física marginal estiver aumentando, e então ele aumentará enquanto a produção física
marginal estiver diminuindo. Considere novamente os dados da Tabela 7.1. Suponha que um operário receba R$ 2.000,00 por
semana. Quando partimos de zero para um insumo de mão de obra, a produção aumenta em 20 metros quadrados. Assim, o
custo da mão de obra por metro quadrado (o custo marginal) é de R$ 100,00. Agora, a segunda unidade de mão de obra é
contratada, e esta custa também R$ 2.000,00. A produção aumenta em 40. Assim, o custo marginal é de R$ 50,00 (R$ 2.000,00
divididos por 40). Continuemos o experimento. A próxima unidade de mão de obra produz 60 metros quadrados adicionais;
assim, o custo marginal cai ainda mais para R$ 33,32 por metro quadrado. O próximo operário produz apenas 20 metros
quadrados adicionais; então os custos marginais começam a aumentar novamente para R$ 100,00. A próxima unidade de mão
de obra aumenta a produção física marginal em apenas 10, de modo que o custo marginal se torna R$ 200,00 por metro
quadrado (R$ 2.000,00 divididos por 10).

Figura 7.2b Rendimentos marginais decrescentes


A partir dos dados da Tabela 7.1, no eixo horizontal marcamos o número de trabalhadores e no eixo vertical a produção
física marginal em metros quadrados por semana. Quando partimos de zero para um operário, a produção marginal é de 20.
Isto é mostrado em um ponto situado entre zero e um trabalhador para indicar que a produção marginal refere-se a uma
mudança na produção total, na medida em que adicionamos mais trabalhadores. Quando partimos de um para dois
operários, a produção marginal aumenta para 40. Depois de três operários, a produção marginal diminui. Portanto, após três
trabalhadores, estamos na área dos rendimentos físicos marginais decrescentes. A produção total alcança o auge com sete
operários. De fato, quando progredimos de sete para oito trabalhadores, a produção marginal se torna negativa.
Os custos marginais, por sua vez, afetam o padrão de outros custos, como os custos variáveis médios e custos totais
médios. Uma vez que esses outros custos tenham sido considerados, a importância da análise de custos marginais (e de toda esta
seção) ficará mais clara.

Pontos-Chave 7.2
No curto prazo, todas as empresas alcançam um ponto no qual se iniciam os rendimentos marginais
decrescentes.
A lei dos rendimentos decrescentes afirma que, se todos os fatores de produção, com exceção de um, forem
mantidos constantes, incrementos iguais neste fator variável produzirão eventualmente uma diminuição na
produção.
Os custos de curto prazo de uma empresa são um reflexo da lei dos rendimentos marginais decrescentes.
Dado um preço constante do insumo variável, os custos marginais diminuem enquanto a produção
marginal do recurso variável aumenta. No ponto dos rendimentos marginais decrescentes, ocorre o
inverso. Os custos marginais vão aumentar na medida em que a produção marginal do insumo variável
diminuir.

CUSTOS DE CURTO PRAZO


No curto prazo, o lucro de uma empresa é em grande parte determinado pelo controle de diversos tipos de custos, os quais em
termos gerais podem ser referidos como seus custos totais. Economistas, entretanto, gostam de fazer uma distinção entre custos
fixos e custos variáveis, que explicamos a seguir. Em termos simples, a relação, ou identidade, é:
custos totais = custos fixos totais + custos variáveis totais
Exemplos de custos em cada uma destas categorias são introduzidos na Tabela 7.2. Depois de visualizar os elementos dos
custos totais, descobriremos como calcular os custos médios e marginais.

Custos Fixos
Observemos uma empresa de construção como a Taylor Wimpey.* Os gestores desta empresa podem olhar em volta e ver as
instalações e os equipamentos que a Taylor Wimpey possui, os prédios comerciais que a companhia ocupa e a equipe
permanente pela qual é responsável. A Taylor Wimpey deve ter em conta o desgaste desses equipamentos e pagar a equipe
administrativa, independentemente da quantidade de casas que constrói. Em outras palavras, todos esses custos não são afetados
por variações na quantidade produzida. Isto nos conduz a uma definição muito simples de custos fixos.
Todos os custos que não variam — ou seja, custos que não dependem da taxa de produção — são chamados de
custos fixos, ou custos afundados.
De acordo com a teoria dos mercados contestáveis de Baumol (1982), quando os custos afundados são baixos, as empresas
existentes em um mercado têm uma preocupação constante de que novas entradas são sempre possíveis. Nestas circunstâncias,
os níveis de lucro são limitados (consulte o Capítulo 8 para mais detalhes). Os mercados contestáveis tipificam as empresas de
construção civil, já que elas geralmente possuem custos fixos muito baixos. Muitos empreiteiros não têm instalações próprias —
uma vez que cada canteiro representa o novo local de trabalho da empresa — e a maior parte do equipamento necessário, como
andaimes, gruas, banheiros, escritórios, equipamentos de segurança, refletores, e até mesmo o fornecimento de água, é
geralmente adquirida como e quando necessário.

Tabela 7.2 Custos típicos de construção

Tipo de Custo Exemplos

Custos Variáveis • Mão de obra utilizada no canteiro

• Materiais utilizados no canteiro

• Equipamentos utilizados no canteiro

• Gerenciamento do canteiro

• Concorrência para futuros contratos

Custos Fixos • Contas de energia, água e impostos da matriz

• Salários da equipe permanente da matriz

• Custos com juros bancários e arrendamentos

• Um nível suficiente (regular) de retorno para manter o


empresário na indústria

Custos Variáveis
A diferença entre os custos totais e os custos fixos totais são os custos variáveis totais: ou seja, custos totais — custos fixos
totais = custos variáveis totais. Custos variáveis são aqueles cuja magnitude varia com a taxa de produção. Como são
proporcionais aos custos totais, os custos variáveis na construção tendem a ser muito maiores que os da indústria manufatureira.
Um custo variável óbvio é o salário. Quanto mais uma empresa constrói ou produz, mais mão de obra ela tem que contratar e,
assim, deve pagar mais salários. De fato, um fator limitante à produção de uma empresa de construção frequentemente é sua
gestão: ao contrário das máquinas, os gestores não possuem um ponto de corte de segurança automático quando estão operando
em plena capacidade, e quando as coisas começam a dar errado no canteiro, os custos podem aumentar rapidamente. Na medida
em que o tamanho e o número de seus projetos aumentam, as empresas de construção têm a necessidade de empregar bons
gestores de projeto e de canteiro, e estes podem estar em falta no mercado. É, portanto, difícil de determinar quando os custos
variáveis vão crescer. O mesmo tipo de lógica se aplica à outra principal categoria de custo variável — materiais. À medida que
a demanda por materiais aumenta, sua aquisição pode se tornar mais cara.
Na construção, a distinção entre custos fixos e variáveis pode ser difícil de fazer. Por exemplo, algumas empresas podem
considerar a gestão dos salários como custos fixos. Isto depende da organização da empresa. Entretanto, a forma de evitar uma
alta proporção de custos fixos é encontrar qualquer condição de aumentar a produção a partir da subcontratação, e isto é o que
acontece na indústria da construção civil por toda a Europa.

Curvas de Custo Médio de Curto Prazo


Na Figura 7.3a, traçamos os custos totais, os custos variáveis totais e os custos fixos totais. Pode-se notar que a curva de custos
variáveis está abaixo da curva de custos totais a uma distância equivalente aos custos fixos totais. Em empresas de manufatura,
a distância vertical representando os custos fixos será maior porque suas atividades estão estabelecidas em uma fábrica, a qual
provavelmente abriga equipamentos caros e, portanto, possui custos fixos relativamente altos. A Figura 7.3a é utilizada para
representar as curvas de custo de uma empresa de construção típica — os custos fixos são representados como
proporcionalmente baixos.
A seguir, atentaremos para o custo médio. O custo médio é simplesmente o custo por unidade de produção. É uma questão
de aritmética simples calcular as médias desses três conceitos de custo. Podemos defini-los a seguir de forma bem simples:

A Figura 7.3b apresenta esses custos médios. Vejamos o que podemos observar sobre as três curvas de custo médio do gráfico.

CUSTO FIXO MÉDIO (CFM)


Como podemos ver na Figura 7.3b, os custos fixos médios diminuem em todo o intervalo de produção. De fato, se
continuássemos o gráfico para a direita, constataríamos que os custos fixos médios se aproximariam mais e mais do eixo
horizontal. Isto porque os custos fixos totais permanecem constantes. À medida que dividimos esta quantidade fixa por um
número maior de unidades produzidas, o CFM se torna cada vez menor.

CUSTO VARIÁVEL MÉDIO (CVM)


Consideramos uma forma particular da curva de custos variáveis médios. A forma que ela assume é a de um U achatado:
primeiro ela declina e, então, começa a aumentar. A forma da curva indica que, a princípio, custa menos construir ou produzir
sucessivas unidades, mas, à medida que a lei dos rendimentos decrescentes se aplica, torna-se cada vez mais caro produzir
sucessivas unidades.

Figura 7.3a Custos totais de produção


Figura 7.3b Custos fixos médios, custos variáveis médios, custos totais médios e custos marginais de produção

CUSTO TOTAL MÉDIO (CTM)


Esta curva tem um formato semelhante à curva do custo variável médio. Entretanto, ela decresce ainda mais no início do
intervalo de produção e cresce mais lentamente após ter alcançado um ponto mínimo. Isto porque o custo total médio é o
somatório da curva do custo fixo médio e da curva do custo variável médio. Então, quando o CFM somado ao CVM estão
caindo, o CTM cairá também. Em algum ponto, entretanto, o CVM começa a crescer, enquanto o CFM continua a cair. Uma
vez que o crescimento da curva CVM prevalece sobre o decréscimo da curva CFM, a curva CTM começará a crescer e
desenvolverá seu formato de U. Uma empresa eficaz terá como objetivo alcançar sua produção no ponto mais baixo da curva de
custos médios — já que é neste ponto que cada unidade de produção está associada com seu menor custo possível, dado o nível
de capacidade da empresa.

Custo Marginal
Para destacar precisamente quando o custo médio alcança seu ponto mais baixo, os economistas se interessam muito pelo
princípio do custo marginal. Conforme discutimos previamente neste capítulo, na seção de rendimentos decrescentes, o
termo marginal significa adicional ou incremental. Em nosso exemplo anterior demonstrado na Tabela 7.1, consideramos a
produção física marginal – ou seja, a produção adicional associada com a inclusão de sucessivas unidades de mão de obra – e os
custos marginais desta produção adicional. Por conveniência, os dados da Tabela 7.1 estão reproduzidos na Tabela 7.3
juntamente com colunas estabelecendo os custos marginais e os custos variáveis médios. Estes são calculados utilizando as
mesmas suposições – que cada unidade de mão de obra custa R$ 2.000,00 por semana e que estes são os únicos custos que se
alteram — e o mesmo método utilizado anteriormente. Por exemplo, quando a segunda unidade de mão de obra é contratada,
custando R$ 2.000,00, a produção aumenta em 40. Desse modo, o custo marginal é de R$ 50,00 (R$ 2.000,00 1 40) por metro
quadrado.
Lembre-se de que encontramos o custo marginal subtraindo o custo total de produção de todas as unidades, com exceção
da última, do custo total de produção de todas as unidades incluindo a última, e dividindo o resultado pela produção adicional
relativa à última unidade. O custo marginal pode ser mensurado, portanto, utilizando a seguinte fórmula:

Apresentamos os custos marginais de produção para o nosso exemplo hipotético na coluna 4 da Tabela 7.3, e o custo
marginal equivalente é demonstrado graficamente na Figura 7.3b. A partir da inclusão de dados de custos marginais nesses
gráficos, podemos facilmente identificar a posição de menor custo.
Encontrando os Custos Mínimos
Como a Figura 7.3b demonstra, a curva de custo marginal primeiramente cai e então se eleva muito, como as curvas de custo
variável médio e de custo total médio. Isto não deveria ser uma surpresa: quando o custo marginal é menor que o custo total
médio, este último diminui; quando o custo marginal está acima do custo total médio, este último aumenta. No ponto em que os
custos totais médios não estão diminuindo nem aumentando, o custo marginal deve então ser igual ao custo total médio. Quando
representamos isso graficamente, a curva de custos marginais intercepta a curva de custos totais médios em seu mínimo.
A mesma análise se aplica à interseção da curva de custos marginais com a curva de custos variáveis médios.

Tabela 7.3 Custos marginais e médios


Na primeira coluna, fornecemos a quantidade de trabalhadores utilizados por semana em um projeto. Na segunda coluna,
fornecemos sua produção total; ou seja, a produção que cada quantidade específica de trabalhadores pode produzir em
metros quadrados. A terceira coluna fornece a produção marginal. A produção marginal é a diferença entre a produção
possível, com um dado número de trabalhadores, menos a produção possível, com um trabalhador a menos. Na quarta e
quinta colunas, calculamos os custos marginais e os custos médios por metro quadrado – supondo que cada trabalhador
esteja recebendo R$ 2.000,00 por semana. Por exemplo, a produção marginal de um quarto trabalhador é de 20 metros
quadrados, porque, com quatro trabalhadores, são produzidos 140 metros quadrados, mas, com três trabalhadores,
somente 120 são produzidos. A diferença é de 20. O custo marginal, portanto, é de R$ 100,00 (R$ 2.000,00 ÷ 20), e o custo
variável médio, no mesmo ponto, é de R$ 57,15 (R$ 8.000,00 ÷ 140).

Quantidade de mão Produção total (em Produção física Custo marginal Custo médio
2
de obra m2 por semana) marginal (em m2 (R$/m ) (R$/m2)
por semana)

0 0     0

1 20 20 100,00 100,00

2 60 40 50,00 66,68

3 120 60 33,32 50,00

4 140 20 100,00 57,16

5 150 10 200,00 66,68

6 160 10 200,00 75,00

7 165 5 400,00 84,84

8 163 22 21.000,00 98,16

CUSTOS DOS EMPREITEIROS


A teoria da empresa sugere que um típico fabricante de produtos pode determinar um preço de venda ótimo a partir da análise
dos seus custos. No caso da construção, entretanto, poucos empreiteiros conhecem precisamente seus custos reais, e a maioria
está completamente desinformada quanto à situação de seus custos marginais. Além disso, em geral é o cliente que inicia os
projetos e se espera que o empreiteiro determine o preço antes que o trabalho esteja concluído. É também frequente o caso em
que há apenas uma parte interessada em comprar um projeto específico – esse tipo de mercado é conhecido como
monopsônio – o que confere aos clientes da construção uma posição de barganha extraordinariamente poderosa.

Propostas dos Empreiteiros


O processo de concorrência comum envolve o convite de certo número de empreiteiros pelo cliente, para competir por um
projeto. Subsequentemente, os empreiteiros que respondem a esse convite realizarão diversas estimativas antes de submeterem
uma proposta. A parte mais importante do documento é o preço para executar o trabalho, que está tipicamente relacionado com
dois componentes: uma estimativa de custos, quanto custará ao empreiteiro para completar o projeto, e uma margem para gerar
lucro. Em muitos casos, o principal determinante para realização de uma proposta de sucesso envolve a identificação da
margem utilizada pelos competidores. As implicações disso serão concretizadas posteriormente no Capítulo 8.
É amplamente reconhecido que decisões sobre quando concorrer ou não concorrer, e a que preço, são incrivelmente
complexas. Por exemplo, Shash (1993) identificou mais de 50 fatores que empreiteiros levam em consideração antes de
submeter uma proposta. Seus três principais fatores, em ordem de classificação, foram os seguintes.
1 Necessidade de trabalho – A situação atual do empreiteiro no mercado, tal como a posição da empresa na sua curva de
custos, será um fator significativo na determinação da natureza da proposta. Por exemplo, se os custos fixos não estiverem
espalhados por um volume suficiente de serviços, a empresa estará disposta a aceitar trabalhos a preços mais baixos do que
quando ela está trabalhando com folga. Nas palavras de Shash (1993: 111): ‘Um empreiteiro deve assegurar um designado
volume de negócios ... para cobrir os custos operacionais e obter um lucro razoável.’ Em outras palavras, quanto mais
desesperada por trabalho está uma empresa, menor será sua proposta de preço, e vamos revisar no Capítulo 8 a proposta
mais desesperada de todas – a chamada ‘proposta suicida’.
2 Número de competidores – Empresas operando em uma situação muito competitiva têm que aceitar um preço justo
imposto pelos outros no mercado. Pelo contrário, se somente algumas poucas empresas dominarem o mercado, uma
empresa será capaz de ‘administrar’ seu próprio preço. Esta comparação entre empresas ‘fornecendo’ um preço ou
‘administrando’ um preço se tornará mais clara após o próximo capítulo.
3 Experiência em projetos semelhantes – O grau de complexidade do trabalho requerido, comparado à experiência da
empresa, é obviamente um determinante principal. (Se a pesquisa de Shash relacionada aos 300 maiores empreiteiros
houvesse se estendido à extremidade inferior da indústria, a localização do projeto poderia ter sido também um fator
significante na decisão de concorrer ou não.)

Pontos-Chave 7.3
O curto prazo é o período de tempo durante o qual uma empresa não pode alterar suas instalações
existentes.
O custo total é igual ao custo fixo total somado ao custo variável total.
Custos fixos são aqueles que não variam com a taxa de produção; custos variáveis são aqueles que variam
com a taxa de produção.
O custo total médio é igual ao custo total dividido pela quantidade produzida, ou seja, CTM = CT ÷ Q.
O custo variável médio é igual ao custo variável total dividido pela quantidade produzida, ou seja, CVM = CVT
÷ Q.
O custo fixo médio é igual ao custo fixo total dividido pela quantidade produzida, ou seja, CFM = CFT ÷ Q.
O custo marginal é igual à alteração no custo total dividida pela alteração na quantidade produzida.
A curva do custo marginal intercepta o ponto de mínimo da curva do custo total médio e também o ponto de
mínimo da curva do custo variável médio.
Uma proposta de preço tem dois componentes: uma estimativa dos custos e uma margem para o lucro.
Os empreiteiros consideram mais de 50 fatores para decidir se devem concorrer por um projeto. Três fatores
importantes são: necessidade de trabalho, número de competidores e experiência do empreiteiro em
projetos semelhantes.

CUSTOS DE LONGO PRAZO


O longo prazo é definido como o tempo durante o qual um ajuste completo pode ser realizado em qualquer alteração no
ambiente econômico. No longo prazo, todos os fatores de produção são variáveis. A oportunidade de variar todos os insumos
permite que uma empresa produza a custos mais baixos no longo prazo do que no curto prazo (quando alguns insumos são
fixos). Em outras palavras, ao longo do tempo a empresa tem a oportunidade de ajustar o negócio. Por exemplo, no longo prazo
uma empresa pode modificar o tamanho de suas instalações ou aumentar o número de funções abrangidas pela matriz. Pode
haver diversas curvas de curto prazo à medida que uma empresa se desenvolve ao longo dos anos, porém somente uma de longo
prazo. As curvas de longo prazo são às vezes chamadas de curvas de planejamento, e o longo prazo pode ser considerado o
horizonte de planejamento.
Iniciamos nossa análise das curvas de custo de longo prazo considerando uma única empresa contemplando a construção
de uma única planta. A empresa possui, digamos, três tamanhos de planta alternativos para escolher no horizonte de
planejamento. Cada tamanho de planta em particular gera sua própria curva de custo total médio de curto prazo. Agora que
estamos discutindo as diferenças entre as curvas de custo, de curto prazo e longo prazo, vamos rotular todas as curvas de curto
prazo com um S; as curvas de custo (total) médio, de curto prazo, serão rotuladas como SAC, e todas as curvas de custo (total)
médio, de longo prazo, serão rotuladas como LAC.
Observe que na Figura 7.4a apresentamos três curvas de custo médio, de curto prazo, para três tamanhos de planta
(sucessivamente maiores). Qual é o tamanho de planta ideal para construir? Isto depende da taxa de produção antecipada por
unidade de tempo. Admita por um momento que a taxa antecipada é de Q1. Se a planta 1 é construída, o custo médio será C1. Se
a planta 2 é construída, percebemos na SAC2 que o custo médio será C2, que é maior que C1. Assim, se a taxa de produção
antecipada é Q1, a planta apropriada é aquela da qual a SAC1 deriva.
Note, entretanto, o que acontece se a taxa de produção permanente antecipada por unidade de tempo passar de Q1 para Q2.
Se a decisão for pela planta 1, o custo médio será C4. Entretanto, se a decisão for pela planta 2, o custo médio será C3, o qual é
claramente menor que C4.

Curva de Custo Médio de Longo Prazo


Se fizermos ainda a suposição de que durante o desenvolvimento de uma firma o empresário é confrontado com um número
infinito de escolhas de plantas, então podemos prever um número infinito de curvas SAC semelhantes às três da Figura 7.4a. É
inviável traçar infinitas curvas, mas traçamos algumas na Figura 7.4b.

Figura 7.4a Tamanho preferencial da planta


Se a taxa de produção permanente antecipada por unidade de tempo é Q1, a planta ideal a ser construída seria aquela
correspondente ao SAC1 porque os custos médios são menores. Entretanto, se a taxa de produção aumentar para Q2, será
mais lucrativo ter um tamanho de planta correspondente ao SAC2, já que os custos unitários podem cair para C3.

Figura 7.4b Derivando a curva de custo médio de longo prazo


Se traçarmos todas as curvas médias de curto prazo possíveis que correspondem a tamanhos de plantas diferentes e,
então, traçarmos a envoltória para essas curvas diversas, SAC1 ... SAC8, obtemos a curva de custo médio de longo prazo.
Traçando a envoltória dessas diversas curvas SAC, encontramos a curva de custo médio de longo prazo. Para ser
academicamente preciso, a curva de custo médio de longo prazo (LAC) deveria ser ondulada ou recortada, uma vez que segue a
trajetória das curvas SAC inclusas. Por tradição, entretanto, ela é retratada como sendo tangente ao ponto de mínimo das curvas
SAC a partir das quais ela deriva. De qualquer forma, a curva de custo médio de longo prazo representa a maneira mais barata
de gerar diversos níveis de produção — desde que o empresário esteja preparado para modificar o tamanho e o projeto das
instalações da empresa. Curvas de custo médio de longo prazo são às vezes referidas como curvas de planejamento.

Por que a Curva de Custo Médio de Longo Prazo Tem um Formato de U


Note que a curva de custo médio de longo prazo LAC na Figura 7.4b tem um formato de U. Este é semelhante ao formato da
curva de custo médio de curto prazo desenvolvida previamente neste capítulo. Entretanto, a razão para o formato de U da curva
de longo prazo não é a mesma que para a curva de curto prazo. A curva de curto prazo tem esse formato por causa da lei dos
rendimentos marginais decrescentes. Entretanto, esta lei não pode ser aplicada a longo prazo — neste, todos os fatores de
produção são variáveis; assim, não há um ponto de rendimentos marginais decrescentes, uma vez que não há um fator de
produção fixo. Por que, então, a curva de custos médios de longo prazo tem um formato de U? O raciocínio tem a ver com as
modificações na escala de operações. Quando a curva de custos médios de longo prazo se inclina para baixo, isto significa que
os custos médios decrescem à medida que a produção aumenta. Sempre que isto acontece, a empresa está experimentando
economias de escala. Se, por outro lado, esta curva se inclina para cima, a empresa está sujeita a um crescimento dos custos
médios à medida que a produção aumenta. A empresa então está experimentando deseconomias de escala. Há uma terceira
possibilidade: se os custos médios de longo prazo não se alterarem com as modificações na produção, a empresa está
experimentando rendimentos constantes de escala. Na Figura 7.5, apresentamos esses três estágios. No primeiro estágio,
a empresa está experimentando economias de escala; no segundo, rendimentos constantes de escala; no terceiro estágio,
deseconomias de escala.

Rendimentos de Escala — em Três Estágios


Poupanças (economias de escala) são possíveis na medida em que as empresas progridem para uma produção maior, ou seja,
aumentos na produção podem resultar em um decréscimo no custo médio. Existem cinco tipos de economias de escala.
• Economias técnicas: relacionadas com a habilidade da empresa em aproveitar ao máximo a capacidade de seus equipamentos.
• Economias administrativas: à medida que as empresas crescem, podem se dar ao luxo de empregar — e se beneficiar de —
gestores especializados.
• Economias comerciais: como compras a granel e publicidade.
• Economias financeiras: grandes empresas possuem maior variedade de fontes para fundos e, frequentemente, com taxas
favoráveis.
• Economias de assunção de riscos: grandes empresas podem alcançar vantagens distintas por meio da diversificação em vários
mercados e pesquisando novos.
Quando as economias de escala estão esgotadas, os rendimentos constantes se iniciam. Alguns economistas consideram o início
desse estágio como a escala mínima eficiente (EME), uma vez que esta representa a taxa mais baixa de produção na qual os
custos médios de longo prazo são reduzidos ao mínimo — e nenhuma outra economia de escala pode ser alcançada no período
de tempo atual. A EME é representada pelo ponto Q1 na Figura 7.5.
Evidentemente, economias de escala são mais facilmente associadas a produtos padronizados. Realmente, em muitas
indústrias transformadoras uma empresa tem que ser grande para sobreviver. Este certamente não é o caso da construção. A
natureza única de muitos projetos de construção, somada ao tamanho relativamente pequeno de muitas empresas de construção,
impedem a indústria de perceber todo o potencial das economias de escala.

Figura 7.5 Economias e deseconomias de escala


As curvas de custo médio de longo prazo irão cair quando houver economias de escala, como apresentado no estágio 1, até
Q1. Haverá rendimentos constantes de escala quando a empresa estiver experimentando a produção de Q1 para Q2, como
apresentado no estágio 2. E, finalmente, os custos médios de longo prazo aumentarão quando a empresa estiver
experimentando deseconomias de escala, além de Q2, no estágio 3.

Cooke (1996: 134) demonstra muito claramente as diferentes capacidades das empresas de manufatura e de construção
para se beneficiar das economias de escala utilizando um gráfico semelhante ao da Figura 7.6. Na análise de Cooke, a curva de
custos médios de longo prazo LAC1 representa os custos médios de produção de uma empresa de manufatura típica capaz de
explorar economias de escala. Neste caso, a EME está no ponto Q2. Por outro lado, a LAC2 – posicionada mais à esquerda e
acima da LAC1 – indica os custos médios de longo prazo associados a projetos com níveis mais baixos de padronização, como
aqueles experimentados por uma empresa de construção típica. Na LAC2, uma empresa só pode alcançar economias de escala
para a produção Q1 – de forma tão clara que seria benéfico reorganizar a produção para se situar na LAC1. Isto é exatamente o
que o empreiteiro O’Rourke alcançou com a aquisição da Laing Construction em 2001. Em um ano, O’Rourke estava em
posição de oferecer uma gama de componentes pré-fabricados, padronizados, que podiam ser dispostos de forma a criar
edifícios para atender as necessidades individuais dos clientes. Este desenvolvimento só foi possível devido ao aumento da
escala de operações de O’Rourke. Na realidade, ele deixou de operar ao longo da LAC2 para operar em um programa LAC1
mais eficiente. Tais resultados são muitas vezes a base lógica que está por trás de fusões e aquisições de empresas — mas estas
realizações ainda são exceções, e não regras na indústria da construção.

Figura 7.6 Economias de escala no setor da construção


A LAC1 representa o custo médio de produção para uma empresa capaz de explorar economias de escala, tal como um
manufaturador. Em comparação, a LAC2 é o custo médio de produção para um empreiteiro incapaz de tirar o máximo
proveito das economias de escala, devido à natureza única de cada unidade produzida.
Resumindo, a regra geral parece ser que economias de escala, de qualquer tipo, têm um papel limitado na construção. De
fato, Patricia Hillebrandt consistentemente enfatizou em cada edição de seu livro-texto que ‘muitas empresas de construção
estão atualmente em uma curva de custos de longo prazo crescente’ (Hillebrandt, 1974: 121; 1985: 116; 2000: 121). Ela atribui
o problema à natureza localizada das tradicionais pequenas empresas de construção. Por exemplo, uma empresa que precisa
cavar valas pode contratar operários em uma base de trabalho. Para serviços que exigem até dez trabalhadores, ela simplesmente
contrata os operários e fornece uma pá para cada um deles. Entretanto, para serviços que necessitam de dez ou mais
trabalhadores, a empresa pode sentir que também seja necessário contratar um encarregado para coordenar o esforço de cavar as
valas. Assim, talvez rendimentos constantes de escala permaneçam até que dez trabalhadores estejam empregados, então os
rendimentos decrescentes se iniciam. À medida que as camadas de supervisão crescem, os custos de comunicação crescem mais
do que proporcionalmente; em decorrência, o custo médio por unidade produzida começará a aumentar. Nos termos utilizados
na Figura 7.5, as empresas podem entrar muito rapidamente em deseconomias de escala, na medida em que elas aumentam de
tamanho, se não forem cuidadosas.
De acordo com Hillebrandt, estas deseconomias ocorrem muito cedo na construção, por duas razões principais. Primeiro, a
maioria das empresas somente pode aumentar substancialmente seu volume de negócios estendendo sua área de influência, o
que, por sua vez, aumenta os custos de transporte e supervisão. Segundo, é a natureza indivisível da capacidade empresarial que
faz com que o processo de tomada de decisão bloqueie o crescimento de suas escalas de operações. Este segundo argumento é
muito repetido na literatura tradicional de negócios: muitos analistas observaram um ponto crítico no crescimento de uma
empresa quando ela se torna muito grande para que seus diretores continuem exercendo um controle pessoal efetivo muito
pequeno, proporcionando a contratação de especialidades adicionais. O ponto exato em que isso ocorre depende do caráter da
gestão dos diretores existentes.
Um debate mais atual, capturado na pesquisa de Pan et al. (2008) e Chiang et al. (2008), foca nas novas oportunidades
oferecidas pela produção pré-fabricada (PPF), em que edifícios, estruturas ou peças são manufaturadas ou pré-montadas
antes de sua instalação no canteiro. Isto permite ao empreiteiro as oportunidades de tirar proveito de um ambiente de fábrica,
com possibilidades de aprimorar qualidade, tempo, custo, produtividade e segurança. Contudo, os levantamentos realizados nas
indústrias do Reino Unido e de Hong Kong sugerem que a dificuldade em alcançar economias de escala continua a ser uma
restrição significativa, restringindo a construção a abordagens tradicionais nos canteiros e nas programações de custos (Pan et
al., 2008). O debate sobre se os problemas organizacionais tradicionais ou barreiras tecnológicas modernas limitam uma
empresa de construção é examinado na Leitura 2, em que a opção por pré-fabricados para reduzir os custos médios por unidade
é revisada.

Escala Mínima Eficiente e Níveis de Competição


O setor manufatureiro parece ser um ponto de referência constante nesses debates em que, relativamente falando, os estados da
arte em poupanças e economias de escala são mais facilmente atingidos. De fato, a ideia conceitual de uma escala mínima
eficiente (EME) primeiramente se originou a partir de um estudo abrangente sobre a forma das curvas de custos médios de
longo prazo na indústria manufatureira britânica. Esta foi definida como ‘a escala mínima para além da qual qualquer possível
duplicação subsequente na escala reduziria o custo unitário médio total pelo menos em 5 %’ (Pratten, 1971: 278).
Um dos usos da EME é que ela fornece uma medida aproximada do grau de competição em uma indústria. Se o nível de
produção associado à escala mínima eficiente é pequeno em relação à demanda total da indústria, o grau de competição nesta
indústria é passível de ser alto, uma vez que há espaço para muitas empresas eficientes. Reciprocamente, quando o nível de
produção associada com a EME é grande em relação à demanda da indústria, o grau de competição é passível de ser pequeno.
Por exemplo, os mercados da extração de petróleo e gás, transporte aéreo, fabricação de automóveis e de tabaco são dominados
por algumas empresas muito grandes. Essas indústrias possuem uma alta taxa de concentração, e muitas têm as
características de oligopólios. Em uma comparação gritante, algumas indústrias são caracterizadas por diversas pequenas
empresas, algumas das quais dirigidas por trabalhadores autônomos. Diz-se que essas indústrias possuem baixas taxas de
concentração. A construção é um excelente exemplo desse tipo de indústria e esses mercados são caracterizados como
contestáveis. (Tipos de competição de mercado serão discutidos posteriormente no Capítulo 8.) Os economistas alegam que o
número de empresas que compreendem uma indústria é determinado pela EME, já que eles afirmam que uma indústria é
‘eficiente’ quando a quantidade de recursos utilizados para fabricar a produção total está no mínimo.
A importância das economias de escala para indústrias específicas pode ser determinada pela cota de mercado das maiores
empresas de um setor, tomando o valor bruto acrescido (volume de negócios), a porcentagem de produção total, o emprego, ou
o lucro como referência. Por exemplo, imagine que uma indústria contém apenas dez empresas que respondem individualmente
por 25, 15, 12, 10, 10, 8, 7, 6, 4 e 3 % do volume de negócios, respectivamente. A taxa de concentração das cinco empresas para
esta indústria – o método de medição de concentração mais amplamente utilizado – é 72 (25 + 15 + 12 + 10 + 10). Isto significa
que as cinco maiores empresas respondem por 72 % das vendas desta indústria. No material estatístico publicado pelo Office for
National Statistics (ONS), as variáveis utilizadas para calcular a taxa de concentração das cinco empresas são o valor
acrescentado bruto e a produção. Em outras palavras, o valor acrescentado bruto e o volume de produção das cinco maiores
empresas são calculados como uma proporção do volume de negócios total e da produção total da indústria. A série é baseada
no Annual Business Enquiry and Input-Output Analyses. Note, entretanto, antes de considerar exemplos, que a definição precisa
de qualquer indústria específica é um tanto arbitrária e, consequentemente, à medida que limitamos a definição de uma
indústria, a taxa de concentração aumenta, e vice-versa. As avaliações convencionais também incluem somente a produção
doméstica, e, se a concorrência estrangeira é uma presença significativa, a verdadeira concentração de mercado será muito mais
baixa do que o indicado nas taxas.

Tabela 7.4 Taxas de concentração das indústrias

  Taxa de concentração das cinco empresas

Indústria VAB (%) Produção (%)

     

Construção 5 5

Ferro e aço 48 61

Cimento, cal e gesso 74 71

Radiadores e caldeiras de metal 51 45

Fonte: Análise insumo-produção (ONS, 2006: Tabela 8.31).

A Tabela 7.4 fornece a taxa de concentração das cinco empresas para quatro indústrias. Como observado, quanto mais
precisa é a definição de uma indústria, maior é a taxa. Consequentemente, a classificação geral industrial da construção gera
uma taxa de concentração muito baixa, já que tanto a produção total quanto o volume total de negócios (valor acrescentado
bruto) são dominados por pequenas empresas. De fato, como apontamos no Capítulo 6, existem mais de 220.000 empresas
compreendendo a indústria da construção – responsável por todo o valor acrescentado bruto e pela produção das empresas de
construção do Reino Unido. Entretanto, se definirmos a construção de residências como um setor industrial separado, então este
se torna um mercado mais concentrado – as cinco maiores construtoras imobiliárias são responsáveis por mais de 65 % do valor
acrescentado bruto de todos os construtores em toda a Grã-Bretanha. Isto aumenta as oportunidades de se beneficiar das
economias de escala e muda a natureza da concorrência. De fato, a construção de casas em nível local e regional frequentemente
permite que as empresas ajam como firmas operando em um oligopólio, já que o número de empresas concorrentes neste nível
será bem menor. As maiores construtoras de uma área devem ser capazes de controlar o preço e a qualidade esperada neste
mercado.
A Tabela 7.4 também indica que a taxa de concentração das cinco empresas para a produção de ferro e aço é de 61 %, e um
valor tão elevado já deveria ser esperado em uma indústria baseada em um processo produtivo específico que requer instalações
e equipamentos pesados. Entretanto, esta taxa de concentração caiu nos últimos anos devido a mudanças estruturais
experimentadas pelo setor do ferro e do aço, causadas em parte por um aumento das importações estrangeiras e pela introdução
de novas tecnologias. Finalmente, é interessante observar que a taxa entre a produção e o valor acrescentado bruto das cinco
maiores empresas do setor de ferro e aço é significativamente diferente de todos os outros setores industriais apresentados na
Tabela 7.4, sugerindo que o ferro e o aço de maior valor e de melhor qualidade são produzidos por pequenas empresas
especialistas desse setor industrial.

Pontos-Chave 7.4
A curva de custos médios de longo prazo é obtida desenhando-se uma linha tangente a uma série de curvas
de custos médios de curto prazo, cada uma correspondendo a um tamanho de planta diferente.
Uma empresa pode experimentar economias de escala, deseconomias de escala e rendimentos constantes
de escala, dependendo de se a curva de custos médios de longo prazo se inclina para baixo, para cima, ou
é horizontal (plana).
Economias de escala ocorrem quando todos os fatores de produção aumentam e os custos médios caem.
Existem cinco razões para economias de escala, relativas (a) às economias administrativas, (b) às
economias comerciais, (c) às economias financeiras, (d) às economias técnicas e (e) às economias de
assunção de riscos.
A escala mínima eficiente ocorre na menor taxa de produção na qual os custos médios de longo prazo são
minimizados.
Empresas de construção podem experimentar deseconomias de escala por causa dos limites para o
funcionamento eficiente da gestão, da natureza fragmentada da indústria e das dificuldades
experimentadas no alcance das economias de escala.
Taxas de concentração estimam a importância das maiores empresas em um setor industrial e fornecem
algum índice do nível de concorrência e das oportunidades para se beneficiar das economias de escala.

ECONOMIAS EXTERNAS DE ESCALA


As economias de escala que discutimos até agora neste capítulo são internas à empresa, e poderiam ser descritas como resultado
direto da política de cada empresa. Em outras palavras, economias de escala não dependem do que as outras empresas estão
fazendo ou o que está acontecendo na economia. Elas são formalmente conhecidas como economias (ou deseconomias)
internas de escala. Isto as distingue das economias externas de escala, que beneficiam todas as empresas em uma indústria —
independentemente de seu tamanho ou política. No caso da construção, economias externas são mais importantes que as
economias internas de escala. Na maioria dos países, o setor de construção representa uma das maiores partes de uma economia,
mas ele geralmente compreende muitas pequenas empresas fragmentadas. Economias externas são, portanto, simplesmente um
subproduto de uma empresa envolvida em um grande setor industrial.
Quando qualquer indústria se expande, todas as empresas na indústria se beneficiam, normalmente propiciando uma
economia para todas as empresas envolvidas. As empresas têm a oportunidade de contratar serviços mais facilmente; as
empresas podem se unir para financiar pesquisas e/ou treinamentos; as empresas podem frequentemente se tornar mais
especializadas; associações comerciais podem se formar; conselhos profissionais podem surgir para representar seus membros;
e revistas especializadas podem ser criadas para informar sobre as melhores práticas. Na construção, existem exemplos de todos
esses desenvolvimentos.
Conforme mencionamos no Capítulo 1, houve uma sucessão de relatórios visando aumentar a eficiência da indústria como
um todo. Por exemplo, o Estratégia de Construção do Governo, publicado em maio de 2011, definiu uma agenda nacional para
melhorar o desempenho e a cultura da indústria da construção. As metas relevantes para discussão neste capítulo incluem uma
redução de 20 % nos custos anuais e uma maior integração na indústria. Para alcançar esses objetivos, o relatório estimulou a
padronização no lugar de projetos sob medida, e enfatizou o custo total em detrimento do foco habitual nos custos financeiros
iniciais e a aceitação de novos modelos de aquisição, em que todas as partes concordam com uma referência de custo realista
antes que o projeto se inicie. Para apoiar tais objetivos, o governo determinou que a indústria adotasse o Building
Information Modelling (BIM) para todos os contratos públicos até 2016. Em termos simples, o BIM se utiliza da tecnologia
da informação para centralizar todos os dados relacionados com o design e o custo de um projeto, de modo que possa ser
rapidamente compartilhado, questionado e atualizado. Isto foi formalmente justificado com a base de que a integração dos
estágios de projeto, construção e operação de uma edificação deve conduzir a uma melhor habilidade de desempenho (Cabinet
Office, 2011: 14). Consideramos esta técnica de modelagem mais à frente, no Capítulo 15, como uma oportunidade que apoia a
agenda da construção sustentável.
Outros exemplos de economias externas de escala são as iniciativas empreendidas pelo governo em nome de uma
indústria. Por exemplo, a Construção de Excelência é uma organização patrocinada pelo governo, que oferece às empresas da
indústria oportunidades de aprender como melhorar a prática a partir de estudos de casos e demonstração de projetos.
Constructionline é uma base de dados que reúne informações sobre empreiteiros e consultores para prover os compradores do
setor público (departamentos do governo, autoridades locais, universidades e escolas, e o Serviço Nacional de Saúde) com
acesso instantâneo a uma lista completa de fornecedores credenciados. A lista abrange toda a gama de atividades de construção,
da arquitetura à demolição, e inclui um amplo leque de empresas que variam em tamanho, dos pequenos especialistas aos
maiores empreiteiros. Um último exemplo de uma economia externa provida pelo governo é o UK Trade and Investment, uma
organização que se dedica a ajudar as companhias do Reino Unido a expandir seus negócios internacionalmente. Isto é feito por
meio de uma rede de pessoas que trabalham no Reino Unido e no exterior para ajudar qualquer empresa que deseja exportar.
Exercícios promocionais são realizados em mercados de grande crescimento, e pesquisas são contratadas para identificar
oportunidades para as empresas sediadas no Reino Unido. Por exemplo, ao longo de 2011, foram publicados informativos sobre
o setor da construção pelo Canadá, Chile, pela China, Malásia, pelo México, pela Nova Zelândia, Rússia e Cingapura. Cada um
desses relatórios destacou o potencial para os empreiteiros que buscam se expandir nesses mercados. Resumindo, economias
externas, independentemente de serem providas por associações comerciais, organizações profissionais ou pelo governo,
ajudam a melhorar o desempenho global da indústria.
Todos esses avanços representam as economias externas de escala, já que, em cada caso, as iniciativas da indústria
incentivam a redução dos custos de cada empresa participante.
De acordo com a Figura 7.5, a indústria como um todo deve experimentar um deslocamento para baixo na sua curva de
custos médios de longo prazo, refletindo uma diminuição nos custos em todos os níveis da produção.
Naturalmente, mudanças externas nem sempre irão beneficiar as empresas integrantes de uma indústria em particular. Por
exemplo, à medida que a indústria da construção cresce, pode ocorrer a falta de materiais específicos, de terrenos e/ou de mão
de obra qualificada. Isto poderia elevar os custos por unidade produzida em toda a indústria – ou, nos termos empregados aqui,
a indústria poderia experimentar deseconomias externas de escala.

Uma Nota Final sobre as Técnicas


Antes de avançar ainda mais com a teoria das empresas de construção, pode ser útil enfatizar três pontos que devem ajudá-lo a
evitar qualquer confusão quando estudar outros livros de economia.
1 Você deve entender como os economistas utilizam os gráficos de curvas de custo para fornecer um resumo de suas ideias.
Você deve perceber, portanto, que esses gráficos não se destinam a ser mais do que uma imagem visual — um
memorando. Eles nunca formam uma reflexão precisa de uma empresa em particular.
2 A maior parte da teoria microeconômica foi desenvolvida com foco na manufatura e, portanto, nem sempre se traduz
facilmente à indústria da construção. Como Ive e Gruneberg (2000: 150) enfatizaram, a teoria econômica se refere à
manufatura de produtos fabricados em massa, enquanto a construção é orientada para projetos individuais que tendem a ser
‘produtos únicos’ (com a possível exceção da habitação). Na verdade, na maioria dos livros didáticos tradicionais de teoria
econômica, a indústria da construção nem sequer é citada.
3 Lembre-se de que iniciamos a partir do pressuposto básico de que todas as empresas em todos os setores buscam maximizar
seus lucros. Este é um pilar importante da teoria econômica. Os economistas perseguem este objetivo com um zelo
acadêmico que considera até mesmo o detalhe marginal como crucialmente significativo. Isto será desenvolvido no
próximo capítulo.

Pontos-Chave 7.5
Economias externas de escala referem-se a toda uma indústria, enquanto economias internas de escala
surgem a partir do crescimento de uma empresa, independentemente do que está acontecendo com as
outras firmas.
Bons exemplos de economias externas de escala surgem a partir do trabalho dos departamentos do governo
que buscam oferecer uma melhoria significativa no desempenho das empresas de construção em solo
nacional e estrangeiro.
As técnicas de curvas de custo associadas à teoria da empresa foram desenvolvidas para, e particularmente
aplicadas para, a maximização dos lucros dos fabricantes.
__________
*
A Taylor Wimpey é uma das maiores construtoras da Inglaterra. (N.T.)
A fim de compreender a relação exata entre produção, receita e preço, a empresa deve conhecer a estrutura do mercado ou da
indústria na qual está sendo comercializado seu produto. Existem diversas estruturas de mercado. Em um extremo, há um
monopólio em que um fabricante domina o mercado e controla as decisões sobre o preço e sobre a produção. No outro
extremo, compradores e vendedores supõem corretamente que eles não podem afetar o preço de mercado — esta estrutura de
mercado é conhecida como concorrência perfeita. A maioria das empresas ligadas à construção está envolvida em estruturas
de mercado entre esses dois extremos teóricos. Na linguagem dos livros de economia, elas estão envolvidas em mercados
imperfeitamente competitivos — quando os clientes e os empreiteiros têm que levar em consideração como suas atitudes
individuais afetarão o preço de mercado. (Neste momento, pode ser útil revisar os Pontos-Chave 6.1.) Iremos examinar estes
cenários reais com mais detalhes, uma vez que tenhamos estabelecido um ponto de referência para a discussão.

O PROPÓSITO DA CONCORRÊNCIA PERFEITA


Para começar, consideramos em detalhes o cenário hipotético de um mercado perfeitamente competitivo. Embora nenhuma
indústria real opere efetivamente em tal mercado, isto fornece um ponto de referência importante para os economistas. No caso
da construção, na realidade, existem alguns paralelos interessantes. O mercado perfeitamente competitivo age como um ponto
de referência a partir do qual outras situações de mercado podem ser julgadas. Como iremos demonstrar, uma alocação de
recursos ótima surge de uma concorrência perfeita porque todas as empresas estão produzindo a um custo unitário mínimo.
Consequentemente, seremos capazes de desenvolver um entendimento daquilo que se entende por um preço ‘justo’, um ‘lucro
normal’ e uma indústria ‘eficiente’.

Características de uma Concorrência Perfeita


O termo ‘concorrência perfeita’ refere-se a um modelo específico de estrutura de mercado com as seguintes características que o
definem:
• O produto vendido pelas empresas na indústria é homogêneo. Isto significa que o produto que cada empresa vende na indústria
é um substituto perfeito para o produto vendido por qualquer outra empresa. Em outras palavras, os compradores são
capazes de escolher um produto a partir de um grande número de vendedores, sabendo que este é exatamente o mesmo. O
produto não é, assim, diferente em qualquer sentido, independentemente da fonte de fornecimento.
• Qualquer empresa pode entrar na indústria ou sair dela sem nenhum impedimento sério. Os recursos também devem ser
capazes de se mover para dentro ou para fora da indústria livremente, sem, por exemplo, legislações governamentais
impedindo qualquer mobilidade de recursos.
• Deve haver um grande número de compradores e vendedores. Quando este é o caso, nenhum comprador ou vendedor, por si
só, tem uma influência significativa sobre o preço. Um grande número de compradores e vendedores também significa que
eles estarão agindo independentemente.
• Deve haver informações completas e disponíveis, tanto para os compradores quanto para os vendedores, sobre os preços de
mercado, qualidade dos produtos e condições de custo.
Agora que definimos as características de uma estrutura de mercado perfeitamente competitiva, consideraremos a posição de
uma empresa individual. Definimos uma empresa perfeitamente competitiva como:
aquela que é uma parte tão pequena da indústria total na qual ela opera que não pode afetar significativamente
o preço do produto em questão.
Isto significa que cada empresa na indústria é uma price-taker (aceitante de preço) — ela toma o preço como algo que está
além do seu controle individual.
Como surge uma situação na qual as empresas consideram os preços como estabelecidos por forças fora de seu controle? A
resposta é que, apesar de todas as empresas, por definição, fixarem seus próprios preços, devem sempre considerar os preços de
seus concorrentes. A empresa em uma situação perfeitamente competitiva descobre que ela eventualmente não terá clientes caso
estabeleça seu preço acima do preço competitivo. Vejamos agora com o que se parece a curva de demanda de uma empresa
individual em uma indústria competitiva.

Curva de Demanda para uma Única Empresa


Já discutimos as características dos programas de demanda (por exemplo, veja os Pontos-Chave 4.1). A Figura 8.1 apresenta um
programa de demanda de mercado hipotético enfrentado por qualquer fabricante ou empreiteiro, que, nós assumimos, controla
apenas uma parte muito pequena do mercado total. Este é o modo como caracterizamos o programa de demanda para uma
empresa perfeitamente competitiva — é uma linha horizontal no preço de mercado. É uma curva de demanda completamente
elástica — elevando seu preço em um centavo, a firma individual perderia todos os seus negócios.
No preço de mercado, a demanda é perfeitamente elástica; a empresa pode vender tanta produção quando desejar,
desde que não altere o preço. Se a empresa fosse elevar seu preço, os clientes comprariam as mesmas habilidades, produtos ou
serviços de outro fabricante.

Pontos-Chave 8.1
Existem diversas estruturas de mercado. Os exemplos incluem um monopólio, no qual um fabricante sozinho
controla as decisões relativas ao preço e à produção, e a concorrência perfeita, na qual nenhum fabricante
pode controlar sozinho o mercado.
O mercado perfeitamente competitivo é um extremo hipotético que age como uma referência por meio da
qual os mercados reais (imperfeitos) podem ser julgados.
O modelo hipotético de competição perfeita possui quatro características principais: (a) produto homogêneo,
(b) liberdade de entrada e saída, (c) grande número de compradores e vendedores e (d) informações
completas.
Uma empresa perfeitamente competitiva é uma price-taker (aceitante de preço). Ela toma o preço conforme
este é fornecido. Ela pode vender tudo que desejar pelo preço de mercado. A curva de demanda de um
concorrente perfeito é uma linha horizontal no preço de mercado.

Figura 8.1 Curva de demanda para uma empresa individual em um mercado perfeitamente competitivo
Supomos que o fabricante individual representa uma parte tão pequena do mercado total que ele não pode influenciar no
preço. A empresa aceita o preço como dado. No preço de mercado ela enfrenta uma curva de demanda horizontal. Se ela
aumentar seu preço, mesmo que em um centavo, ela não venderá nada. Reciprocamente, a empresa seria insensata em
reduzir seu preço, porque ela pode vender tudo que ela pode produzir pelo preço de mercado. A empresa é uma price-taker
e sua curva de demanda é descrita como perfeitamente elástica.
QUANTO O CONCORRENTE PERFEITO PRODUZ?
Estabelecemos que o concorrente perfeito deve aceitar o preço fornecido do produto. Se a empresa aumentar seu preço, ela não
vende nada. Se ela reduzir seu preço, ela ganha menos dinheiro por unidade vendida do que, caso contrário, ela poderia ganhar.
A empresa possui somente uma variável de decisão restante: quanto ela deve produzir? Aplicaremos nosso modelo de empresa
para responder a esta questão. Utilizaremos o modelo de maximização de lucros e assumiremos que as empresas, quer
concorrentes ou monopolistas, tentarão maximizar seus lucros totais, ou seja, elas buscarão maximizar a diferença positiva entre
a receita total e os custos totais. (Pode ser útil neste momento revisar a diferença entre lucros contábeis e lucros econômicos,
consultando os Pontos-Chave 7.1.)

Receita Total
Cada empresa deve considerar sua receita total. A receita total é definida como a quantidade vendida multiplicada pelo preço;
ou, utilizando a notação empregada em alguns textos, RT = P × Q. Esta também é a mesma que a receita total da venda da
quantidade produzida.
Na Figura 8.2, supomos que a empresa é uma das várias que compreendem o mercado total, assim ela pode vender tudo o
que produz a um dado preço. Deste modo, a curva de receita total é apresentada como uma linha reta. Para cada unidade
vendida, a receita total é aumentada proporcionalmente na mesma quantia.

Custos Totais
A receita é apenas um dos lados da moeda. O custo total também deve ser considerado. Note que, quando traçamos os custos
totais na Figura 8.2, a curva não é uma linha reta, mas sim uma linha ondulada, devido à existência de rendimentos crescentes e
decrescentes aos quais nos referimos no Capítulo 7. Quando a curva de custo total está acima da curva de receita total, a
empresa está experimentando perdas. Quando ela está abaixo da curva de receita total, a empresa está lucrando. Os locais em
que as duas curvas se interceptam representam pontos de equilíbrio. Observe que, reduzindo-se os custos totais, as empresas
podem obter lucros maiores.

Figura 8.2 Encontrando uma posição de maximização dos lucros


A linha reta preta representa a receita total, já que cada unidade é vendida pelo mesmo preço. O custo total, representado
pela linha cinza, primeiro excede a receita total e, então, ocorre uma perda; assim, ele se torna menor que a receita total e,
então, ocorre um lucro. Encontramos lucros máximos no ponto em que a receita total ultrapassa o custo total pela maior
quantidade.
COMPARANDO CUSTO TOTAL COM RECEITA TOTAL
A partir da comparação do custo total com a receita total, é possível calcular o número de unidades que a empresa concorrente
individual deve ter como objetivo produzir por mês. Claramente, a empresa maximizará os lucros no lugar do gráfico em que a
curva de receita total excede a curva de custo total pela maior quantidade. Na Figura 8.2, isto ocorre a uma taxa de produção e
de vendas de aproximadamente sete ou oito unidades por mês; essa taxa pode ser chamada de taxa de maximização dos lucros
da produção.

Análise Marginal
Outra forma de encontrar a taxa de maximização dos lucros da produção para uma empresa é pela análise marginal. Esse
método envolve a realização de um estudo detalhado da receita marginal e do custo marginal. O conceito de custo marginal
já foi apresentado no Capítulo 7. Foi definido como a alteração no custo total devido a uma alteração unitária na produção. O
cronograma de custos resultantes foi baseado na lei dos rendimentos decrescentes: primeiramente, os custos caem e, então, eles
começam a crescer. Alguns exemplos de cálculos para um cronograma de custos marginais foram apresentados na coluna 4 da
Tabela 7.3. Isso deixa a receita marginal a ser esclarecida.

Receita Marginal
A receita marginal representa um incremento na receita total atribuível à venda de uma unidade de produção adicional. Por
exemplo, se a venda de uma unidade extra de uma atividade de construção aumentar a receita total de um empreiteiro de R$
7.200,00 para R$ 8.400,00, a receita marginal será igual a R$ 1.200,00. Por isso, a receita marginal pode ser calculada com a
utilização da fórmula:

Em qualquer estrutura de mercado, portanto, a receita marginal está intimamente relacionada com o preço. De fato, em um
mercado perfeitamente competitivo, a curva de receita marginal é exatamente equivalente à linha de preço ou, em outras
palavras, à curva de demanda de uma empresa individual, desde que a empresa possa vender toda sua produção (incluindo a
última unidade de produção) pelo preço de mercado.

COMPARANDO CUSTO MARGINAL COM RECEITA MARGINAL


Obviamente, se a receita marginal de um aumento unitário na produção é maior que o custo marginal, parece racional para a
empresa que deseja maximizar seus lucros que produza esta unidade de produção. Reciprocamente, se o custo marginal de uma
unidade extra de produção exceder sua receita marginal, ele causaria perdas e, portanto, seria inapropriado para um fabricante
que esteja maximizando seus lucros que esta unidade fosse produzida. De fato, todas as empresas possuem um claro incentivo
de produzir e vender até o ponto no qual a receita recebida por vender uma unidade de produção a mais se iguala ao custo
incorrido de fabricar aquela unidade. Se a empresa optar por interromper a produção antes deste ponto, esta não terá
maximizado seus lucros: ela não terá extraído o máximo de lucro possível. O maximizador de lucros não deve ficar satisfeito até
que o último centavo de lucro tenha sido ganho. Isto só será atingido no ponto em que o custo marginal se iguala com a receita
marginal. Esta regra é representada pelo ponto E na Figura 8.3.

Figura 8.3 Equilíbrio perfeitamente competitivo de longo prazo


No longo prazo, as empresas perfeitamente competitivas avançam para uma posição na qual a receita marginal é igual ao
custo marginal e ao custo total médio. Em resumo, ‘onde tudo é igual’ — representado pelo ponto E.

Pontos-Chave 8.2
O lucro é maximizado na taxa de produção em que a diferença positiva entre a receita total e o custo total é
maior.
Utilizando a análise marginal, a empresa maximizadora de custos fabricará a uma taxa de produção na qual a
receita marginal se iguala ao custo marginal.
As regras de maximização dos lucros se aplicam a todos os tipos de estrutura de mercado.

NOÇÃO DE UMA INDÚSTRIA EFICIENTE


Para considerar uma indústria como um todo, os cronogramas de custo e receita de todas as suas empresas constituintes
precisam ser reunidos. Em uma indústria com uma estrutura de mercado perfeitamente competitiva, isto não é um problema
desde que os custos e a receita para cada empresa sejam idênticos. Este extremo teórico será relevante quando considerarmos as
noções de eficiência que existem no mundo real. Ele será útil também para aqueles preocupados com o desempenho das
empresas no setor da construção. A maioria das empresas deste setor visa maximizar seus lucros, elas geralmente possuem um
grande grau de liberdade para entrar nas diversas atividades e sair delas, e raramente fixam seus preços sem levar em
consideração os termos expressos por seus concorrentes.

Lucros de Curto Prazo contra Lucros de Longo Prazo


A teoria econômica sugere que no longo prazo todas as empresas em uma indústria competitiva obtêm lucros normais
(conforme definido e discutido no Capítulo 7). No curto prazo, entretanto, o que pode representar um período de tempo
considerável em mercados de construção, algumas empresas venderão seus produtos bem acima de seus custos médios mínimos
e alcançarão lucros supernormais. Como resultado, mais empresas serão atraídas para o setor visando obter uma fatia da
atividade. No tempo certo, esse aumento na concorrência forçará o preço de equilíbrio do produto para baixo, até que cada
empresa esteja obtendo somente lucros normais. Esta situação é apresentada na Figura 8.3.
No longo prazo, a indústria/empresa perfeitamente competitiva encontra-se produzindo a uma taxa Q. Nessa taxa de
produção, o preço é igual ao custo total médio mínimo. Obviamente, é possível que os lucros supernormais provoquem a
entrada de muitas empresas no mercado, e neste caso, o preço de mercado cairia para menos que P e as empresas teriam
prejuízo — lucros subnormais. As empresas poderiam então deixar a indústria e a redução da oferta poderia fazer com que
os preços de mercado aumentassem novamente para P. Neste sentido, a concorrência perfeita resulta em uma ausência de
‘desperdícios’ no sistema produtivo. Produtos e serviços são fabricados e oferecidos utilizando a combinação de recursos menos
onerosa. Esse é um atributo importante de um equilíbrio de longo prazo perfeitamente competitivo, particularmente quando
desejamos comparar as estruturas de mercado que são menos do que perfeitamente competitivas.

Pontos-Chave 8.3
No curto prazo, a empresa perfeitamente competitiva pode obter lucros supernormais.
Em um mercado perfeitamente competitivo, as novas empresas que estão entrando na indústria irão absorver
os lucros supernormais.
No longo prazo, uma empresa (indústria) perfeitamente competitiva produz no ponto em que P 5 RM 5 CM 5
CTM.

ESTRUTURAS DE MERCADO QUE CARACTERIZAM A INDÚSTRIA DA


CONSTRUÇÃO
Até agora temos discutido com algum detalhe a estrutura de mercado hipotética da concorrência perfeita, na qual existem
diversas empresas que fabricam o mesmo produto e não possuem influência sobre o preço: elas são price-takers (aceitantes de
preço). Nesta seção, analisamos os mercados reais nos quais as empresas de construção estão envolvidas. Em geral, estes são
também competitivos, no sentido de que existem normalmente várias empresas fabricando uma parte insignificante da produção
total da construção, e certamente não há restrições formais que impeçam as empresas de participar dos mesmos. A maioria das
empresas que compõem a indústria da construção possui, entretanto, algum controle sobre o preço. De fato, devemos concluir
que, em termos gerais, os mercados que representam a construção são muitas vezes representantes de uma concorrência
monopolista ou de um oligopólio e, na prática, portanto, há um elemento de controle sobre a formação dos preços.
Ao fazer esta comparação entre o mundo da teoria perfeita e a prática real, é importante lembrar que a indústria da
construção, como um todo, consiste em vários mercados diferentes — alguns são definidos por um serviço ou produto
específico; outros pelo tamanho e complexidade dos contratos celebrados no mercado, ou pela localização geográfica do
mercado. Consequentemente, não devemos ter como objetivo classificar todas as empresas em um modelo de comportamento
de mercado. Entretanto, a análise a seguir representa um rápido passeio por alguns princípios generalizados que se aplicam a
partes significativas da indústria da construção. Pode auxiliar sua compreensão se você já tiver algumas empresas de construção
específicas em mente à medida que avançamos.

Concorrência Monopolista
Na verdade, a maioria dos mercados está longe da perfeição. Por exemplo, em qualquer mercado de construção, empreiteiros,
subempreiteiros e fabricantes de material tentarão obter algumas vantagens de monopólio distinguindo seus produtos daqueles
dos seus concorrentes. Eles podem fazer isso insinuando, de alguma forma — ou, de fato, alcançando —, uma melhor qualidade
e/ou confiança. Nesse tipo de mercado, as empresas podem obter lucros acima do normal, mas apenas por um curto espaço de
tempo, porque as outras empresas no mercado responderão fabricando produtos semelhantes. Isso mantém o mercado muito
competitivo e restringe os lucros de longo prazo.
Esse modelo de comportamento é conhecido como concorrência monopolista, já que cada empresa pode facilmente
alcançar um grau de monopólio local, mas é por fim restringida pela presença de muitas empresas concorrentes. Como
sugerimos, esse tipo de concorrência é bem exemplificado pelas empresas na indústria da construção: as empresas tendem a ser
altamente fragmentadas em todo o país, mas estão de alguma forma limitadas pela concorrência potencial de empresas
semelhantes em cidades vizinhas.
Oligopólio
No sentido mais estrito da palavra, oligopólio é quando alguns vendedores concorrem por todo o mercado. A Blue Circle,* por
exemplo, é responsável por cerca da metade do fornecimento de cimento para construtoras no Reino Unido, e outras duas
empresas, a Rugby* e a Castle,* produzem a maior parte do cimento restante. Nesse tipo de mercado, cada empresa tem poder
suficiente para evitar ser uma price-taker (aceitante de preço) — mas elas ainda estão sujeitas a uma quantidade suficiente de
concorrência para saber que o mercado não está totalmente sob seu controle. Em outras palavras, empresas em mercados
oligopolistas fixarão o preço de seus produtos ou serviços de acordo com a forma que eles pensam que seus concorrentes
reagirão. Isso faz com que eles encarem o dilema de não saber se concorrem ou cooperam. Em resumo, o mundo do oligopólio é
uma incerteza.
Parafraseando Lipsey e Crystal (1995: 264), as empresas em uma indústria oligopolista lucram mais se elas aceitarem
cooperar como um grupo; entretanto, se uma empresa se afasta do acordo e/ou se torna agressivamente competitiva, ela gerará
mais lucro para si mesma.
Quando as empresas aceitam cooperar para aumentar os lucros, isto é chamado de conluio. Evidências anedóticas de
gestores e estudantes de pós-graduação que trabalham na indústria sugerem que o conluio é uma prática comum em toda a
amplitude da indústria da construção em que os acordos contratuais são concebidos. A análise teórica de Hillebrandt também
sugere que as formas de comportamento oligopolista seriam difundidas em toda a indústria (1974: 155-7; 2000: 153-5). Mais
recentemente, essas suposições foram confirmadas por uma extensa investigação realizada pelo Office of Fair Trading (OFT).
Em 2008, o OFT descobriu que mais de 100 companhias de construção britânicas estavam participando da manipulação das
propostas. Esse inquérito é descrito mais adiante, mas, primeiramente, como os acordos de conluio parecem caracterizar tantas
transações na indústria, precisamos examiná-los com mais detalhes.

HIPÓTESE DA MAXIMIZAÇÃO DO LUCRO CONJUNTO QUALIFICADO


Já em 1776, Adam Smith, o fundador da economia moderna, fez alusão ao conluio. Ao comentar sobre contratos entre empresas
rivais, ele demonstrou profunda desconfiança. Observou que ‘pessoas do mesmo ofício raramente se reúnem para se divertir ou
festejar, mas, se isso acontece, a conversa acaba em uma conspiração contra o público, ou em algum artifício para aumentar os
preços’.
Foi somente 170 anos mais tarde que essa declaração foi elaborada em uma hipótese pelo professor William Fellner. Ele
explicou como alguns tipos de acordos entre empresas concorrentes do mesmo ramo eram inevitáveis. Os acordos, entretanto,
não eram necessariamente formais. De fato, ele distinguiu entre dois tipos de acordos: ‘acordos explícitos’ e ‘quase acordos’. Os
acordos explícitos seriam hoje considerados como conluios ‘explícitos’ ou ‘secretos’, dependendo se o acordo é aberto ou
secreto. Em contrapartida, um ‘quase acordo’ é muito menos formal — isto é o que Fellner descreve como algo que representa
uma ‘coordenação espontânea’. Um exemplo de um quase acordo poderia ser o tipo de regra não escrita que diz que todas as
empresas devem tomar seu preço de acordo com a companhia dominante no mercado para evitar rodadas de cortes nos preços.
Esse tipo de acordo, quando nenhum acordo formal realmente ocorre, é comumente referido como um conluio tácito.
Embora o comportamento de conluio seja, de qualquer forma, geralmente desaprovado, é totalmente compreensível que as
empresas tentem agir de uma maneira comum para proteger ou promover interesses comuns. A importância do trabalho de
Fellner é que ele demonstra que acordos para proteger interesses comuns não requerem um acordo explícito. Como Fellner
(1949: 16) observou: “A diferença entre um acordo ‘real’ e um quase acordo é que o primeiro requer um contato direto,
enquanto o último, não.” O objetivo básico de sua hipótese era explorar como empresas rivais em um mercado do tipo
oligopolista resolviam o conflito de saber se deviam:
• concorrer com os rivais para obter a maior parte possível dos lucros potenciais;
• cooperar com os rivais para maximizar seus lucros conjuntos.
A energia relativa dessas duas forças — que operam simultaneamente — varia de indústria para indústria, como as cinco
características de mercado seguintes sugerem. À medida que você as lê, tente pensar sobre quantos podem se aplicar a mercados
específicos dentro da indústria da construção. Em termos formais, isto é, quantas dessas cinco características de mercado
poderiam levar a uma maximização do lucro conjunto em um mercado de construção específico.

1 Existem pouquíssimas empresas. Elas se conhecem bem o bastante para entender que uma delas não pode obter mais vendas
sem alguma retaliação. Assim, algum acordo para coordenar suas políticas deve ser alcançado.
2 As empresas fabricam produtos similares. Como resultado, é difícil obter alguma vantagem específica no mercado. Em tal
situação, as empresas podem preferir alguma forma de esforço conjunto em vez do comportamento predatório necessário
para tirar clientes uns dos outros.
3 Existe uma empresa dominante. As outras empresas podem olhar para a dominante visando a seu julgamento sobre as
condições de mercado e assumem a liderança sobre os preços. Em resumo, a empresa dominante se torna um ponto de
referência e o foco para acordos tácitos.
4 As empresas possuem custos médios muito semelhantes. Neste caso, é improvável que as empresas entrem em uma
concorrência de preços. A rivalidade pode surgir de outras formas, a menos que seja alcançado um acordo conjunto para
maximizar os lucros.
5 Novas empresas enfrentam barreiras significativas para entrar. A teoria da concorrência perfeita sugere que altos lucros em um
mercado existente atrairão novas empresas e, como resultado, os preços e os lucros serão reduzidos. Essa atividade
prejudicial ao lucro é menos provável de ocorrer se algum acordo entre as empresas existentes tiver sido feito para impedir
que outras empresas entrem no mercado.

CONLUIO — PREÇOS MANIPULADOS


É complicado calcular a extensão dos acordos maximizadores de lucros conjuntos qualificados, uma vez que em diversos países
eles são ilegais. Existem, entretanto, inúmeras oportunidades que se podem prever, e os exemplos expostos são, sem dúvida,
apenas uma ponta do iceberg. Certamente, existem inúmeras provas de conluio no setor da construção na Austrália, Canadá,
Alemanha, Holanda, África do Sul, Coreia do Sul, Filipinas, Estados Unidos e no Reino Unido (Brockmann, 2011: 31-2). Por
exemplo, no Reino Unido, a investigação realizada pelo OFT ao longo de 2008 sobre acordos anticoncorrenciais resultou em
112 companhias de construção sendo multadas e processadas por um total de 240 incidentes de cobertura de preços.
A cobertura de preços descreve uma prática muito antiga em que um empreiteiro solicita a outro empreiteiro, do mesmo
ramo, que cote um preço que estará acima daquele cotado pelo primeiro. Em outras palavras, isto envolve um ou mais licitantes
conspirando com um concorrente durante o processo de licitação para fixar preços que se destinam a ser elevados demais para
conseguir ganhar o contrato. Como resultado, deixa-se o cliente com uma falsa impressão do nível de concorrência e isto
poderia facilmente resultar no pagamento de preços inflacionados pelo serviço. Resumindo, aqueles que estão envolvidos em
um grande cartel trabalham juntos para decidir quem irá conseguir um contrato e a que preço. Em casos extremos, as empresas
podem até ‘pagar’ àqueles que concordam em não submeter uma proposta, embora os acordos mais comuns pareçam ser
aqueles nos quais a empresa que oferece o ‘preço de cobertura’ faça isso em troca de um favor similar quando contratos futuros
aparecerem no mercado. Nestes casos, o grupo de empreiteiros está praticamente, por meio de uma ação combinada, formando
por si só a estrutura de um oligopólio de modo que eles possam aumentar o nível de lucro e compartilhá-lo em turnos. Como
exemplo deste processo, considere os dados apresentados na Tabela 8.1, os quais representam quatro propostas submetidas à
Newcastle City Council (o cliente) para a reforma completa de 194 casas populares. Como você pode observar, cada uma das
propostas rivais estavam pelo menos 5 % acima da proposta vencedora, mas isto não é surpreendente, já que as evidências da
OFT sugerem que o empreiteiro vencedor foi ‘assistido’ (encoberto) pelas outras três organizações.

Tabela 8.1 Exemplo de manipulação de propostas

Companhia Data de recebimento das propostas Valor da proposta Contrato


premiado

Cityworks 11 de outubro de 2002, antes do prazo R$10.072.600,00  

Connaught 11 de outubro de 2002, antes do prazo R$8.701.936,00  

Frank Haslam Milan 11 de outubro de 2002, antes do prazo R$8.263.152,00 Sim

Mansell 11 de outubro de 2002, antes do prazo R$8.756.976,00  

Fonte: adaptada de OFT (2009: 1011).

Intrigantemente, as 112 empresas acusadas pelo OFT se defenderam alegando que elas frequentemente submetem
propostas para fornecer serviços idênticos e, naturalmente, reagem buscando acordos secretos e informais para gerenciar suas
cargas de trabalho de forma eficiente. Isto é particularmente necessário quando as empresas de construção estão operando perto
de sua plena capacidade, mas desejam permanecer na lista de empreiteiros conhecidos para futuros projetos. As empresas que
estavam se defendendo também fizeram questão de destacar que a concorrência total é uma prática exigente e cara, alcançada
com margens de lucro relativamente apertadas. É também importante notar que, embora em termos estatísticos possa parecer
que a indústria da construção compreenda vários milhares de empresas competitivas, ela é, de fato, fragmentada em negócios e
regiões, e em muitos desses segmentos de mercado existem exemplos de um monopólio local ou de um oligopólio local com um
líder de preços.

TEORIA DOS JOGOS


Nos últimos anos, os economistas começaram a utilizar um ramo da matemática chamado de teoria dos jogos para estudar o
conluio. Neste trabalho, a concorrência entre empresas é analisada como um jogo. Cada empresa decide seu próprio plano de
jogo em termos de preço e produção, mas está consciente de que o resultado ou sucesso de sua estratégia depende da ação de
seus oponentes (as empresas concorrentes).
Em 1994, três teóricos dos jogos compartilharam o Prêmio Nobel de Economia e desde então exemplos de aplicações da
teoria dos jogos se proliferaram nos textos tradicionais. Dois exemplos comuns de jogos são o dilema do prisioneiro e o jogo de
soma zero. O dilema do prisioneiro é utilizado para demonstrar que as empresas concorrentes possuem conflitos de interesse
(como os conspiradores de um crime que são entrevistados separadamente) que podem, ou não, ser resolvidos por algum tipo de
acordo tácito. O jogo de soma zero é utilizado para descrever uma situação na qual os ganhos totais são fixos — alguns devem
perder, se outros ganharem. Isto é semelhante a competir por trabalho por meio de um processo de licitação. (A não ser que, é
claro, haja algum acordo para compartilhar os rendimentos em turnos!)

Pontos-Chave 8.4
A indústria da construção compreende uma diversidade tal de empresas que é impossível classificar todas
elas dentro de um tipo de estrutura de mercado.
Concorrência monopolista é uma estrutura de mercado que se situa entre o monopólio puro e a concorrência
perfeita.
Oligopólio se refere a uma estrutura de mercado na qual existem somente algumas empresas altamente
interdependentes. Em termos muito generalizados, podem-se considerar as empresas de construção como
seguindo esse tipo de comportamento de mercado.
Como o mundo do oligopólio é incerto, existem incentivos ao conluio, e diversos tipos de acordos podem
existir entre empresas, incluindo os acordos tácitos, secretos ou explícitos.
As ações de empresas rivais podem afetar o tamanho dos lucros de todas as empresas em um mercado. Isto
é destacado pela hipótese da maximização do lucro conjunto qualificado.
É difícil calcular a extensão atual e a natureza dos conluios, uma vez que eles são ilegais, mas há muitas
evidências que fazem alusão a uma prática internacional de cobertura de preços.

MERCADOS CONTESTÁVEIS
A maior parte do comportamento de mercado que descrevemos neste capítulo tem se preocupado com as ações das empresas
dentro do mercado. A teoria dos mercados contestáveis foca na possibilidade de empresas de fora entrarem no mercado, e
no efeito que esta concorrência em potencial tem sobre o comportamento das empresas que já se encontram dentro do mercado.
A teoria destaca que os mercados são particularmente contestáveis quando não existem ‘custos afundados’ (ou seja, custos de
entrada ou saída), uma vez que isso permite que as empresas entrem em um setor de mercado, ou saiam livremente deles, sem
incorrer em um risco financeiro muito grande.
A relevância dessa teoria é que os mercados não têm que conter muitas empresas para que os lucros sejam mantidos
próximos a um nível competitivo — a ameaça de um novo concorrente é suficiente para influenciar os preços. Uma pesquisa
baseada no estudo da indústria entre 1990-1994 concluiu que os mercados de construção eram contestáveis, e os períodos nos
quais as empresas podiam explorar o domínio do mercado para obter lucros elevados provavelmente não persistiriam (Ball et
al., 2000). Durante a explosão de crescimento subsequente (1994-2007), entretanto, a contestabilidade dos mercados de
construção tornou-se questionável. Na extremidade inferior do mercado, os sistemas de registro tornaram mais difícil a entrada
de empresas na indústria; na extremidade superior, a crescente tendência por parcerias reduziu o número de empresas aptas a
concorrer. Em resumo, à medida que surgem barreiras à entrada, o nível de competição em uma indústria é reduzido.
A crise financeira do final dos anos 2000 interrompeu o crescimento da construção e mudou radicalmente a dinâmica
competitiva na indústria. A quantidade de capacidade disponível aumentou significativamente, e a oportunidade e a inclinação
por comportamentos de colusão diminuíram. Na realidade, cada empresa teve de se tornar mais competitiva, e o mercado da
construção se caracterizou como um tipo de existência em que lobos comem lobos.
De acordo com o explicado no Capítulo 7, uma proposta para um serviço de construção é tipicamente baseada em dois
componentes: uma estimativa do custo para completar o projeto e uma margem de lucro. A empresa que oferece o preço mais
baixo geralmente conquista o contrato. Conforme a teoria apresentada neste capítulo, quanto maior é a quantidade de licitantes,
menores são as margens. Assim, quanto mais contestável um mercado se torna, mais problemático é garantir qualquer nível de
lucro. Essa tendência pela redução dos níveis de lucro é aquela a que Harris e McCaffer (1989) se referem como ‘a margem
perdida na concorrência’. Levada a este extremo, uma proposta poderia até mesmo ser fixada a um preço que traria prejuízos à
empresa. Isto é conhecido como proposta suicida, porém, como as empresas estão experimentando tempos econômicos
difíceis, algumas podem apresentar propostas para contratos que simplesmente as assegure algum serviço ainda que em
detrimento de lucros. Em resumo, as empresas podem ser forçadas a situações nas quais, na realidade, elas ‘compram’ trabalho.
Embora isso faça pouco sentido na teoria, uma vez que não é economicamente viável, a prática ocorreu muitas vezes no
passado. Latham (1994) advertiu que ‘aceitar propostas com o menor preço não valoriza o dinheiro na construção. As propostas
com menores preços podem não conter margem de lucro alguma para o empreiteiro, cuja reação comercial é, então, tentar
restituir a margem por meio de variações, reivindicações e do leilão holandês* de subempreiteiros e fornecedores’. Quase 20
anos depois, um levantamento de 390 membros do RICS** sugeriu que mais da metade destes tinha recentemente visto
propostas que não foram precificadas em nível suficiente para cobrir o custo do trabalho (Gardiner, 2011).

ALOCAÇÃO DE RECURSOS E SUSTENTABILIDADE


Este capítulo demonstrou a importância dos livres mercados e destacou como os recursos deveriam, em teoria, ser usados mais
eficientemente se existisse liberdade de informação, e se as empresas conhecessem sobre os custos e procedimentos umas das
outras. A análise sugere que na medida em que os mercados se tornam mais competitivos, existe uma maior probabilidade de
que o bem-estar da sociedade seja maximizado. Parafraseando o que Adam Smith escreveu dois séculos atrás, na medida em
que as pessoas seguem os sinais da mão invisível do mercado competitivo em busca de seus próprios interesses, elas
involuntariamente promovem o interesse público. Nos últimos 30 anos, muitos governos se debruçaram sobre esta sabedoria
clássica para reduzir a provisão do setor público e a regulação do governo em favor de uma maior confiança na descentralização
para um bem maior. Indiscutivelmente, entretanto, isto levou à atual crise econômica, e o caso está sendo revisto para voltar a
ser uma economia mais mista; uma que combine os incentivos do mercado dentro de um quadro regulamentado pelo governo.
Em resumo, a crise atual poderia recuperar uma abordagem mais ‘centrista’ sobre a questão da alocação de recursos mais
eficiente.
De fato, o Government Procurement Service (GPS), o National Audit Office e o Office of Fair Trading têm a
responsabilidade de assegurar que os contribuintes obtenham o valor do dinheiro. O setor público é certamente o maior jogador
no mercado da construção, e as autoridades locais e os departamentos do governo são, portanto, estimulados a estar cientes dos
benefícios da concorrência. A concorrência na cadeia de suprimentos é considerada saudável, enquanto os acordos dentro da
mesma visando a restringir a concorrência e controlar os preços, não. Consequentemente, onde quer que seja possível, clientes
dos setores públicos (e privados) são estimulados a examinar as licitações e as propostas em busca de acordos de colusão.
É compreensível e necessário que a concorrência seja cuidadosamente monitorada pelo governo e há um histórico
considerável de política de concorrência que se aplica em toda a economia. Por exemplo, nos últimos dez anos foram
realizadas investigações sobre as alegações de atividades anticompetitivas em indústrias tão diversas como varejo de
brinquedos, corridas de cavalo, construção, distribuição de jornais, seguros, crematórios, escolas privadas, transporte de ônibus,
produtos comestíveis, saúde, telefones celulares e aeroportos. A política de concorrência tenta restringir o comportamento
antiético das empresas que agem contra os interesses públicos. Ela é representada por medidas legais operando em âmbito
nacional e europeu. No Reino Unido, a política de concorrência é gerenciada por duas agências: o Office of Fair Trading (OFT)
e a Competition Commission. Suas respectivas competências como aplicadores independentes da legislação do consumidor e da
lei da concorrência estão consagradas no Ato das Empresas de 2002. Para informações mais atuais sobre o desenvolvimento da
concorrência, os leitores devem visitar os sites das respectivas organizações; esses sites foram revisados no Capítulo 2.
Conforme indicado anterior e explicitamente estabelecido no Capítulo 2, os mercados competitivos são meios de assegurar
uma produção eficiente, que não desperdiça insumos e que promove o crescimento econômico. Consequentemente, é importante
uma política de concorrência efetiva, que evite o desenvolvimento de comportamentos antiéticos ou de transações comerciais
desleais. Nosso último pensamento, entretanto, deve nos lembrar sobre a sugestão feita no início deste texto — ou seja, que, em
última análise, questões relacionadas com a sustentabilidade podem ser simplificadas a uma alocação de recursos eficaz — mas
a verdadeira questão que os profissionais envolvidos na elaboração dessas políticas estão enfrentando hoje é, ou isto deve ser
perseguido através de mercados que estão autorizados a operar livremente, ou deve haver uma maior ênfase na regulamentação
e nas alavancas impostas e controladas pelo governo.
Pontos-Chave 8.5
Um mercado será perfeitamente contestável se não houver barreiras para entrar nele ou sair dele. A ausência
de barreiras significa que qualquer empresa estreante pode concorrer com as empresas que já estão no
mercado.
O aumento da contestabilidade torna mais difícil para as empresas atingir margens de lucro mais saudáveis.
Teoricamente, a alocação eficiente de recursos está associada aos mercados competitivos livres.
A atual crise econômica levanta questões sobre o nível de liberdade que deve ser permitido aos mercados.
Um estudo de caso está em desenvolvimento de forma a fazer intervenções políticas mais fortes para
monitorar e garantir a livre concorrência.

Leitura 2

Os dois principais aspectos da Parte A foram explicar a importância da eficiência dos recursos e obter uma visão global das
características das diversas estruturas de mercado. Sugerimos que, na maioria dos casos, as estruturas de mercado no setor da
construção são diferentes daquelas encontradas no setor manufatureiro. A manufatura é, em sua maior parte, dominada por uma
concentração de companhias muito grandes capazes de utilizar modelos de capital intensivo de produção em massa e se
beneficiar das economias de escala. Enquanto, pelo contrário, a indústria da construção é caracterizada tradicionalmente por um
grande número de pequenas empresas, com pouquíssimas barreiras para entrar na indústria, uma estrutura de mercado dispersa e
um nível relativamente baixo de custos fixos. Qual setor que atinge maior eficiência dos recursos (valor do dinheiro) é deixado
em aberto para debate.
No primeiro dos dois artigos relacionados com a Parte A, Blismas, Pasquire e Gibb argumentam que as avaliações de
custo-benefício dos pré-fabricados estão atualmente muito focadas nos custos, e que elas têm de se tornar muito mais holísticas
para aproveitar ao máximo os benefícios dos recursos eficientes oferecidos pela produção de pré-fabricados. Enquanto se estuda
o artigo, portanto, um exercício útil seria tentar identificar algumas das avaliações baseadas em custos para explicar a lenta
ascensão dos pré-fabricados e algumas das vantagens mais amplas dos recursos eficientes que os tornariam mais viáveis
economicamente.

Nick Blismas, Christine Pasquire e Alistair Gibb (2006) ‘Avaliação dos benefícios dos pré-fabricados na construção’,
Construction Management and Economics (Gestão da Construção e Economia) 24: 121-30

Introdução
Relatórios recentes do governo do Reino Unido, incluindo o Relatório Egan (1998), produzido pela força-tarefa da construção,
discutiram a necessidade de melhorias no desempenho da construção no Reino Unido. Egan (1998) identificou as parcerias na
cadeia de suprimentos, a padronização e a produção de pré-fabricados como tendo papéis importantes na melhoria do processo
de construção. A indústria da construção australiana também identificou recentemente os pré-fabricados como fundamentais
para o desenvolvimento da indústria na próxima década (Hampson; Brandon, 2004).
A ascensão dos pré-fabricados na construção é, no entanto, limitada, apesar dos benefícios bem documentados que podem
ser procedentes de tais abordagens (Neale et al., 1993; Bottom et al., 1994; BSRIA, 1999; CIRIA, 1999, 2000; Housing Forum,
2002; Gibb e Isack, 2003). Um dos principais motivos apontados para a relutância em adotar os pré-fabricados entre clientes e
empreiteiros é o de que eles têm dificuldades na averiguação dos benefícios que tal abordagem poderia acrescentar a um projeto
(Pasquire; Gibb, 2002). O uso dos pré-fabricados, por muitos dos envolvidos no processo de construção, é mal compreendido
(CIRIA, 2000). Alguns consideram a abordagem muito cara para justificar seu uso, enquanto outros a consideram como a
panaceia para os males dos múltiplos problemas da indústria da construção (Groak, 1992; Gibb, 2001). Nenhuma dessas
visualizações é necessariamente correta.
Os benefícios dos pré-fabricados são, em grande parte, dependentes das condições de um projeto específico e da
combinação dos métodos construtivos utilizados no projeto. Consequentemente, as decisões relacionadas com a utilização dos
pré-fabricados são obscuras e complexas. A comparação direta dos componentes geralmente não é possível, em razão da
interdependência entre elementos, comércios e recursos. Essas complexidades tornam difíceis a derivação e o uso de métodos
holísticos e, inclusive, de avaliação. A combinação ilimitada de componentes, as condições do canteiro e graus de pré-
fabricação não permitem a derivação de um sistema de avaliação compreensivo; entretanto, fatores comuns suficientes existem
para um grau de análise comparativa válida.
Um estudo-piloto de Pasquire e Gibb (2002) demonstrou que decisões para a utilização de pré-fabricados ainda estão em
grande parte baseadas em evidências anedóticas em vez de dados rigorosos, já que nenhuma estratégia ou procedimentos de
medição formal estão disponíveis.
Em outras palavras, os métodos de avaliação atuais utilizados para comparar as soluções construtivas tradicionais com os
pré-fabricados não levam adequadamente em conta o ‘valor’; logo, não podem ‘registrar’ os benefícios que os pré-moldados
podem promover.
Este artigo investiga a proposição de que os métodos de avaliação atuais para os pré-moldados são baseados no custo — e
não no valor — e, portanto, não podem explicar os benefícios deste material. A consequência disto é que os pré-moldados
invariavelmente aparecem como uma alternativa cara para as opções tradicionais. A próxima seção identifica os principais
benefícios deste material a partir de pesquisas anteriores...

Benefícios dos pré-moldados


Os benefícios atribuídos aos pré-fabricados são inúmeros e bem documentados. Gibb e Isack (2003) conduziram uma ampla
pesquisa com base em entrevistas na qual eles definiram as opiniões dos clientes da construção sobre os benefícios dos pré-
fabricados. Suas descobertas demonstraram que os clientes percebiam os benefícios deste material baseados principalmente no
tempo e na qualidade. A Tabela 1 (na coluna seguinte) resume suas descobertas em ordem decrescente de benefício.
Além disso, aos entrevistados de Gibb e Isack (2003) foi solicitada a elaboração de uma lista de principais benefícios da
entrevista inicial e da literatura, observando tanto a importância do benefício quanto a possibilidade de perceber o benefício
(consulte a Tabela 2).
Os entrevistados classificaram os benefícios, em termos de custos indiretos, como a minimização de operações no canteiro;
a redução de congestionamento no canteiro; a redução no tempo do serviço; as melhorias na saúde e na segurança etc.
Benefícios de custo direto não foram exibidos nesta lista (Tabela 2), embora tenham sido identificados na Tabela 1.
Estas conclusões demonstram claramente que, embora os pré-moldados possam oferecer benefícios monetários diretos (em
termos de custos), os principais benefícios são provenientes de economias indiretas (chamados itens sem custo).

Tabela 1 Percepções dos clientes quanto aos benefícios dos pré-moldados (a partir de Gibb e Isack, 2003)

Benefício Descrição

Tempo Menor tempo de serviço — velocidade da construção*


Velocidade na entrega do produto
Menor tempo gasto com comissionamento
Entrega garantida, maior certeza sobre o
planejamento, redução do tempo de gestão

Qualidade Maior qualidade — no canteiro e na fábrica*


Produto testado na fábrica
Maior uniformidade — maior reprodutibilidade
Maior controle de qualidade, padrões consistentes

Custo Menor custo*


Menores custos preliminares
Mais segurança, menos riscos
Aumenta o valor agregado
Menores despesas gerais, menores danos ao canteiro,
menor desperdício

Produtividade Inclui menor identificação de defeitos


Maior sucesso nas interfaces
Menor desmembramento do canteiro
Menor utilização de água
Remoção das operações difíceis para fora do canteiro
Os produtos são utilizados pela primeira vez
O trabalho continua no canteiro, independentemente
da produção fora dele

Pessoas Menor quantidade de pessoas no canteiro


As pessoas sabem como utilizar os produtos
Falta de mão de obra qualificada
A produção fora do canteiro é independente das
questões trabalhistas locais

Processo O planejamento é dirigido centralmente


Simplifica o processo construtivo
Permite que o sistema seja avaliado

*Indica alta incidência.

Tabela 2 Avaliação de benefícios do maior para o menor, de acordo com a importância e probabilidade de ocorrer (a partir de
Gibb e Isack, 2003)

Benefício (da taxa de classificação mais alta para a mais baixa) Custos relacionados

1. Minimiza o número de operações no canteiro  

2. Reduz áreas congestionadas e interfaces  

3. Minimiza o tempo de duração do serviço b

4. Melhora a saúde e a segurança por meio da redução e maior  


controle das atividades no canteiro

5. Produz acabamentos de alta qualidade ou de qualidade muito  


previsível

6. Minimiza o número de funcionários no canteiro a

7. Traz benefícios quando a mão de obra é limitada ou muito cara  

8. Permite a continuidade do negócio existente  

9. Pode lidar com áreas de armazenamento restritas  

10. Permite a inspeção e o controle dos trabalhos fora do canteiro a

11. Fornece segurança quanto aos custos do projeto  

12. Fornece segurança quanto ao prazo de conclusão do projeto  

13. Diminui o impacto ambiental por meio da redução e maior controle  


das atividades no canteiro

a = custos relacionados; b = impacto no custo.

Baseando-se nessas descobertas, comparações de custo diretas favorecerão as operações tradicionais, que são custeadas em
um sistema baseado em taxas, com despesas gerais, acessos, impostos, consertos e retrabalhos escondidos dentro dos custos
preliminares. Os custos dos pré-fabricados são geralmente apresentados como quantias totais com um ágio para os custos de
fora do canteiro. Tendo estabelecido que os benefícios dos pré-moldados são, em grande parte, identificados como itens sem
custo, o artigo segue analisando diversos casos para determinar a ênfase dos métodos de avaliação de pré-moldados existentes...

Referências
Bottom, D., Gann, D., Groak, S. and Meikle, J. (1994) Innovation in Japanese Prefabricated House-Building Industries, Construction
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BSRIA, compiled by Wilson, D.G., Smith, M.H. and Deal, J. (1999) Prefabrication & Pre-assembly—Applying the Techniques to
Building Engineering Services, Briefing Note ACT 2/99, Building Services Research and Information Association, Bracknell.
CIRIA, compiled by Gibb, A.G.F., Groak, S., Neale, R.H. and Sparksman, W.G. (1999) Adding Value to Construction Projects through
Standardisation & Pre-assembly in Construction, Report R176, Construction Industry Research and Information Association,
London.
CIRIA, and principal author Gibb, A.G.F. (2000) Client’s Guide and Toolkit for Optimising Standardisation and Pre-assembly in
Construction, Report CP/75, Construction Industry Research and Information Association, London.
Egan, J. (1998) Rethinking Construction, The Egan Report, Department of the Environment, Transport and the Regions, London.
Gibb, A.G.F. (2001) Standardisation and pre-assembly—distinguishing myth from reality using case study research. Construction
Management & Economics, 19, 307–15.
Gibb, A.G.F. and Isack, F. (2003) Re-engineering through pre-assembly: client expectations and drivers. Building Research and
Information, 31(2), 146–60.
Groak, S. (1992) The Idea of Building, E and FN Spon, Routledge, London.
Hampson, K. and Brandon, P. (2004) Construction 2020: A Vision for Australia’s Property and Construction Industry, Cooperative
Research Centre for Construction Innovation for Icon.Net Pty, Brisbane, Australia.
Housing Forum (2002) Homing in on Excellence—A Commentary on the Use of Off-site Fabrication Methods for the UK House Building
Industry, Housing Forum, London.
Neale, R.H., Price, A.D.F. and Sher, W.D. (1993) Prefabricated Modules in Construction: A Study of Current Practice in the United
Kingdom, Chartered Institute of Building, Ascot.
Pasquire, C.L. and Gibb, A.G.F. (2002) Considerations for assessing the benefits of standardisation and pre-assembly in construction.
Journal of Financial Management of Property & Construction, 7(3), 151–61.

Informações extraídas e adaptadas das páginas 121-3 do original mais referências relevantes das páginas 129-30.

Leitura 3

Este artigo revisa o processo de precificar e conquistar serviços no setor da construção. Baseia-se na tese de doutorado de Bee-
Lan Oo, que pesquisou as decisões dos empreiteiros quanto às licitações em diferentes ambientes competitivos de mercado.
Para tal, fundamenta-se na literatura clássica sobre a licitação de contratos de construção. Foi selecionado, uma vez que
investiga as variáveis que participam da decisão de concorrer por trabalho. As variáveis básicas foram discutidas na Parte A.
Claramente, todas as ideias relacionadas com parcerias, estruturas de mercado, condições econômicas, e as possiblidades de
realizar conluios parecem relevantes. Como indicado no Government Construction Strategy (2011) e relatórios anteriores de
Egan (1998), a indústria da construção do Reino Unido tende a ser mal comparada com outros setores industriais em termos de
rentabilidade, qualidade dos produtos, satisfação do cliente e investimentos em pesquisa e desenvolvimento.
O entendimento geral é de que os empreiteiros são geralmente selecionados por concorrências, com base no menor preço.
Como consequência, durante uma recessão, a concorrência de preços tende a aumentar e as margens de lucro reduzem na
medida em que os empreiteiros ficam desesperados para conseguir projetos.
O artigo oferece a oportunidade de estender essas ideias e pensar melhor sobre elas. Evidentemente, conquistar o projeto
‘certo’ pelo preço ‘certo’ é um aspecto crucial para a sobrevivência na indústria da construção, e realmente não é necessário um
curso de economia para se entender isto. Entretanto, poderia ser interessante refletir brevemente sobre uma questão que já
ocorreu diversas vezes no texto — a saber, a teoria econômica explica satisfatoriamente a natureza da concorrência na indústria
da construção?

Bee-Lan Oo, Derek S. Drew e Goran Runeson (2010) ‘Análise da concorrência na construção da licitação’,
Construction Management and Economics (Gestão da Construção e da Economia) 28 (12): 1321-29

Introdução
Na indústria da construção, a concorrência é utilizada para uma variedade de vias de aquisição disponíveis para satisfazer as
necessidades dos clientes da construção. Essas necessidades incluem a aquisição tanto tradicional, via projeto-licitação-
construção, quanto as não tradicionais, projeto-e-construção, contrato de administração e construir-operar-transferir. Enquanto
os clientes naturalmente terão como objetivo encontrar o melhor negócio maximizando a intensidade da concorrência, os
empreiteiros poderiam apresentar uma proposta que seja suscetível de proporcionar o melhor retorno, aceitando o custo e o risco
em potencial de realizar um projeto específico. Deve-se notar, contudo, que os empreiteiros nem sempre submetem propostas
para cada serviço que aparece, mas os selecionam por meio de uma matriz de projetos potenciais em constante mudança
(Odusote; Fellows, 1992). A concorrência na construção está interessada, portanto, na tomada de decisões estratégicas dos
empreiteiros a respeito de: (i) seleção de projetos, quando concorrer ou não por um projeto; e (ii) determinação do preço da
proposta, se o empreiteiro optar por concorrer (Skitmore, 1989).
Para atingir os objetivos específicos das empresas, as estratégias de concorrência variam de empreiteiro para empreiteiro, e
cada um possuirá diferentes níveis de preferência ou sensibilidade para com os fatores que afetam suas decisões. Verificou-se
em muitos estudos que existem diferenças no ranking dos fatores que os empreiteiros consideram quando tomam decisões sobre
concorrer ou não, e a respeito das margens de lucro utilizadas; tome como exemplo Ahmad e Minkarah (1988), Odusote e
Fellows (1992), Shash (1993) e Fayek et al. (1999).
Estes estudiosos sugerem que as decisões dos empreiteiros são dependentes de muitas características individuais
específicas da empresa, incluindo algumas que passam despercebidas, ou seja, a noção de heterogeneidade entre os
empreiteiros. Gonzalez-Diaz et al. (2000) sugerem que se possa pensar na heterogeneidade não observada como o estilo de
gestão de uma empresa de construção, o que pode incluir a capacidade de seu administrador, a qualidade de sua produção e sua
estratégia competitiva. Adaptando a definição de heterogeneidade no estudo do comportamento econômico feito por Jain et al.
(1994) ao contexto da concorrência na construção, poder-se-ia esperar que empreiteiros, quando confrontados com determinado
conjunto de variáveis (por exemplo, condições de mercado e número de concorrentes), exibissem diferentes comportamentos
devido a (i) diferenças nas preferências gerais de concorrência — heterogeneidade de preferências; e (ii) variações em suas
reações a um dado conjunto de variações de concorrência — heterogeneidade de reações (Oo, 2007).
Estudos empíricos têm sido realizados para analisar o comportamento dos empreiteiros concorrentes, de acordo com
diversas variáveis, como o tipo e o tamanho do serviço de construção (Drew; Skitmore, 1997), as condições do mercado (de
Neufville et al., 1977; Runeson, 1988; Chan et al., 1996) e o número de concorrentes (Carr; Sandahl, 1978; Wilson et al.,
1987). Esses modelos estavam, entretanto, sendo construídos supondo que empreiteiros individuais pudessem ser tratados como
se comportando coletivamente de forma idêntica (estatística) — a suposição da homogeneidade do empreiteiro. É provável que
modelos no nível de empreiteiros individuais, em vez de modelos coletivos, serão necessários, caso haja heterogeneidade entre
os empreiteiros. Reconhecendo a necessidade de considerar isto, existem apenas alguns estudos que têm como objetivo a
determinação da extensão na qual a heterogeneidade entre os empreiteiros existe na prática. Skitmore (1991) detectou a
existência de heterogeneidade entre os concorrentes em sua tentativa de deduzir uma distribuição de probabilidade de propostas
que representassem o comportamento de todos os concorrentes em três conjuntos de dados. No que se refere aos efeitos das
variáveis da concorrência nas estratégias dos empreiteiros, foi encontrado que existe uma significativa heterogeneidade nas
decisões relacionadas a participar ou não da concorrência (Oo et al., 2007, 2008) entre os empreiteiros de Hong Kong e
Cingapura, e também no que diz respeito a suas margens de lucro (Oo et al., 2009) em reação a determinado conjunto de quatro
variáveis. A implicação significativa desses estudos empíricos é que as futuras tentativas de modelagem da concorrência devem
levar em conta a possível heterogeneidade que existe entre os empreiteiros. Conforme Hsiao (2003) assinala, ignorar os efeitos
da heterogeneidade ou da individualidade poderia levar a (i) parâmetros de homogeneidade nas especificações do modelo; e (ii)
estimativas inconsistentes ou inexpressivas dos parâmetros de interesse.
O método utilizado aqui foi o de aplicar uma abordagem heterogênea para modelar o comportamento individual dos
empreiteiros. A análise da concorrência se concentra em modelos individualizados que consideram a competitividade de um
grande empreiteiro de Hong Kong em relação a um grupo de seus principais concorrentes, de acordo com quatro variáveis, a
saber: (i) tamanho do projeto; (ii) setor de trabalho; (iii) natureza do trabalho; e (iv) número de concorrentes. Ele oferece uma
abordagem mais esclarecida para a identificação dos principais concorrentes, e mostra que o comportamento identificado dos
concorrentes fornece uma ajuda para uma maior compreensão, e oportunidades para uma possível exploração futura por um
empreiteiro interessado, particularmente na formulação de estratégias de licitação visando aos principais concorrentes.

Análise da concorrência
A análise da concorrência na construção civil trata essencialmente da comparação de empreiteiros concorrentes com base nos
preços das propostas. Para a maioria dos propósitos práticos, é suficiente considerar as propostas em relação a uma linha de base
ao considerar a competitividade entre as propostas (Drew; Skitmore, 1993). Neste artigo, o menor preço foi utilizado como
linha de base que tem a vantagem de representar um nível máximo de competitividade no momento da licitação. É a menor
proposta que determina, na grande maioria dos casos, não só a identidade do empreiteiro vencedor, mas também o valor legal
do contrato de um projeto específico (Merna e Smith, 1990) ...

Referências
Ahmad, I. and Minkarah, I. (1988)Questionnaire survey on bidding in construction. Journal of Management in Engineering, 4(3), 229–
43.
Carr, R.I. and Sandahl, J.W. (1978) Bidding strategy using multiple regression. Journal of Construction Division, 104, 15–26.
Chan, S.M., Runeson, G. and Skitmore, M. (1996) Changes in profit as market conditions change: an historical study of a building firm.
Construction Management and Economics, 14(3), 253–64.
De Neufville, R., Hani, E.N. and Lesage, Y. (1977) Bidding models: effects of bidders’ risk aversion. Journal of Construction Division,
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Drew, D.S. and Skitmore, M. (1993) Prequalification and c-competitiveness. Omega, 21(3), 363–75.
Drew, D.S. and Skitmore, M. (1997) The effect of contract type and size on competitiveness in bidding. Construction Management and
Economics, 15(5), 469–89.
Fayek, A., Ghoshal, I. and AbouRizk, S. (1999) A survey of the bidding practices of Canadian civil engineering construction contractors.
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Gonzalez-Diaz, M., Arrunada, B. and Fernandez, A. (2000) Causes of subcontracting: evidence from panel data on construction firms.
Journal of Economic Behavior & Organization, 42(2), 167–87.
Hsiao, C. (2003) Analysis of Panel Data, 2nd edn, Cambridge University Press, Cambridge.
Jain, D.C., Vilcassim, N.J. and Chintagunta, P.K. (1994) A random-coefficients logit brand-choice model applied to panel data. Journal
of Business and Economic Statis-tics, 12(3), 317–28.
Merna, A. and Smith, N.J. (1990) Bid evaluation for UK public sector construction contracts. Proceedings of the Institute of Civil
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Odusote, O.O. and Fellows, R.F. (1992) An examination of the importance of resource considerations when contractors make project
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Oo, B.L. (2007) Modelling individual contractors’ bidding decisions in different competitive environments, unpublished PhD thesis,
Hong Kong Polytechnic University.
Oo, B.L., Drew, D.S. and Lo, H.P. (2007) Applying a random coefficients logistic model to contractors’ decision to bid. Construction
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Oo, B.L., Drew, D.S. and Lo, H.P. (2008) A heterogeneous approach to modelling the contractors’ decision to bid. ASCE Journal of
Construction, Engineering and Management, 134(10), 766–75.
Oo, B.L., Drew, D.S. and Lo, H.P. (2009) Modeling the heterogeneity in contractors’ mark-up behaviour. ASCE Journal of Construction,
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Runeson, G. (1988) An analysis of the accuracy of estimating and the distribution of tenders. Construction Management and Economics,
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Shash, A.A. (1993) Factors considered in tendering decisions by top UK contractors. Construction Management and Economics, 11(2),
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Skitmore, M. (1989) Contract Bidding in Construction, Longman, Harlow.
Skitmore, M. (1991) The construction contract bidder homogeneity assumption: an empirical test. Construction Management and
Economics, 9(5), 403–29.
Wilson, O.D., Atkin, A.S., Sharpe, K. and Kenley, R. (1987) Competitive tendering: the ideal number of tenders, in Lansley, P.R. and
Marlow, P.A. (eds) Managing Construction Worldwide, E & FN Spon, London, pp. 175–86.

Informações extraídas e adaptadas das páginas 1321-2 do original mais referências relevantes das páginas 1328-9.
__________
*
Blue Circle, Rugby e Castle são grandes fabricantes de cimento no Reino Unido. A Blue Circle foi comprada em 2001 pela companhia
francesa Lafarge. A Castle foi rebatizada em 2009 e agora é chamada Hanson Cement. (N.T.)
*
Dutch auctioning pode ser traduzido livremente como leilão holandês ou leilão descendente, em que é iniciado com um valor
extremamente alto, que é reduzido continuamente. O primeiro agente a aceitar o lance corrente obtém o item. (N.T.)
**
RICS (Royal Institution of Chartered Surveyors) é a principal associação do mundo para treinamento e normalização em terrenos,
imóveis e construção. (N.T.)
Uma consideração importante para qualquer empresa que visa controlar o mercado e se destacar da sua concorrência é
satisfazer, ou criar, um nicho de mercado — produzir um serviço ou produto que de alguma maneira é diferente dos seus rivais.
Em termos econômicos, isto é conhecido como diferenciação do produto. Já discutimos como, no caso extremo da
concorrência perfeita, simulamos que o mercado consiste em produtos homogêneos, no qual cada empresa no mercado fornece
um produto (ou serviço) idêntico e possui uma curva de demanda horizontal. Para expressarmos de outra maneira, em um
mercado perfeitamente competitivo há apenas um produto específico ‘indiferenciado’ (consulte os Pontos-Chave 8.1).
Contanto que uma empresa possa realizar a diferenciação de seu produto ou serviço de outros produtos similares —
mesmo que superficialmente — ela pode obter algum controle sobre o preço que cobra. As empresas que fornecem um produto
diferenciado são capazes de alcançar alguma independência de seus competidores na indústria. Elas devem ser capazes de
aumentar seus preços e, desse modo, aumentar seus lucros, sem perder todos os seus clientes. Ao contrário das empresas que
operam no extremo perfeitamente competitivo, elas enfrentam uma curva de demanda ligeiramente inclinada para baixo. De
fato, quanto mais sucesso uma empresa tem na diferenciação do produto, maiores são suas opções de preço — e mais íngreme é
a sua curva de demanda.

OPORTUNIDADES PARA DIFERENCIAR PRODUTOS DE CONSTRUÇÃO


Livros didáticos de economia normalmente enfatizam que as oportunidades para diferenciar um produto ou serviço na indústria
da construção são limitadas. As empresas devem ser capazes de introduzir a si mesmas no mercado como algo superior aos seus
concorrentes em termos de qualidade e segurança, mas elas estão sempre reprimidas pelo grande número de empresas que
concorrem e produzem substitutos próximos. Consequentemente, a capacidade de uma empresa aumentar significativamente
seus preços acima de seus concorrentes é restrita. Gruneberg e Ive (2000: 92) ampliaram sua hipótese. Eles argumentaram que o
processo de concorrência cria uma complicação, visto que se supõe que todos aqueles selecionados para submeter propostas são
indiferenciados — iguais, nos termos do serviço que estão oferecendo.
Um objetivo importante deste capítulo, entretanto, é identificar os argumentos econômicos que podem estimular as
empresas de construção a assumir o desafio verde. Isso depende de as empresas na indústria aproveitarem a oportunidade de
diferenciar seus produtos afastando-se das técnicas tradicionais para aquelas que demonstrem consciência ambiental. Isso
também envolve prestar atenção aos interesses globais, locais e dos usuários, se as empresas estiverem desenvolvendo
edificações sustentáveis e infraestrutura.
Atualmente, uma empresa de construção fabricando produtos ambientalmente sensíveis poderia se distinguir da maioria tão
efetivamente, que garantiria lucros monopolistas de curto prazo — ou seja, até o momento em que os concorrentes reconheçam
os benefícios de seguir o mesmo modelo, trazendo o mercado de volta a algo próximo da concorrência perfeita e, neste caso,
trazendo o mercado para mais perto da ideia de sustentabilidade. Uma tendência pela construção sustentável está lentamente
surgindo e sendo adotada por empreiteiros e clientes, e especificações tradicionais vêm sendo alteradas em favor daquelas que
demonstram benefícios ambientais. As características comuns das especificações ambientalmente sensíveis são discutidas nas
próximas seções.

Mercados Verdes Emergentes


Mesmo na manufatura — com a oferta baseada em técnicas de fábrica e onde os produtos são demandados e utilizados por um
único cliente — é difícil desenvolver um mercado para produtos ambientalmente superiores. Na construção, o desafio é ainda
mais complexo, uma vez que existe uma menor quantidade de protótipos-padrão, e frequentemente os ‘usuários’ dos produtos
da construção não são os proprietários. Conforme sugerimos nos capítulos anteriores, cada produto da construção pode ser
considerado único. Os produtos são montados no canteiro por uma equipe de subempreiteiros. A maior parte da força de
trabalho está muitas vezes afastada do acordo realizado entre o cliente e o empreiteiro. E, por fim, os interesses dos usuários são
frequentemente diferentes dos interesses dos investidores que produzem a especificação original. Isso torna difícil para aqueles
que fornecem os produtos para os usuários finais se comunicarem efetivamente por sinais de mercado. Porém, é no mercado que
as pessoas revelam suas referências verdes.
Não é, portanto, surpresa alguma que o desenvolvimento verde na indústria da construção tenha sido relativamente mais
lento do que na manufatura — mas está surgindo. A maior parte da atividade foi vista no setor comercial, no qual proprietários
começaram a especificar sedes sob medida que refletiam seu caráter corporativo. O nível de atividade verde no setor residencial,
entretanto, não é tão evidente, uma vez que os grandes construtores envolvidos em empreendimentos residenciais especulativos
têm sido lentos em perceber o potencial de mercado de adotar uma imagem corporativa ambientalmente consciente. Existem
algumas exceções inovadoras, particularmente no setor de habitação social financiada pelo governo, e alguns exemplos de casas
projetadas por arquitetos — ecocasas — para clientes ambientalmente conscientes. Finalmente, a consciência está surgindo no
setor especializado em infraestrutura, a qual pode fazer importantes contribuições uma vez que está em alta. Agora
examinaremos cada um desses setores separadamente.

SETOR COMERCIAL
A cada ano, a maior parte dos novos serviços de construção está no setor comercial (amplamente definido como escritórios,
fábricas, depósitos e lojas — consulte a Tabela 5.2). A maioria das atividades deste setor continua fabricando um produto
padrão indiferenciado, que tende a ser mal especificado, ventilado mecanicamente e com alto consumo de energia. Entretanto,
uma proporção altamente significativa (digamos 25 %) das novas construções é capaz de se orgulhar de características
ecologicamente corretas. Sensibilidade com o meio ambiente está se tornando uma questão cada vez mais importante, e as
organizações comerciais querem refletir suas referências ambientais nos tipos de edificações que elas alugam e possuem. Parece
haver bons argumentos corporativos em favor da instalação de estabelecimentos comerciais em edifícios que minimizem os
impactos locais e globais, reduzam as contas de energia e facilitem maior produtividade do trabalhador.
De acordo com o Building Research Establishment Environmental Assessment Method (BREEAM — Método de
Avaliação Ambiental da Fundação de Pesquisas em Edificações) e seu equivalente norte-americano Leadership in Energy and
Environmental Design (LEED — Liderança em Energia e Projetos Ambientais), desenvolvido pelo United States Green
Building Council (USGBC — Conselho Americano de Construções Sustentáveis), é possível auditar e avaliar uma ampla gama
de questões dentro do projeto, aquisição e gerenciamento de um edifício de escritórios. Por exemplo, uma avaliação detalhada
pode ser feita com relação aos materiais selecionados e aos sistemas empregados para iluminar, aquecer e refrigerar o edifício.
Interessantemente, ambos os métodos de avaliação identificaram o novo mercado de escritórios comerciais como possuindo
maior potencial, e este setor se tornou o campo de testes para vários sistemas BREEAM e LEED. O sistema BREEAM para
novos projetos de escritórios foi lançado em 1990, e seu equivalente LEED o seguiu oito anos depois, em 1998.
Subsequentemente, esquemas para a avaliação de edifícios comerciais, casas (tanto novas quando antigas) e vários outros
estabelecimentos, como lojas, escolas, centros de saúde e unidades industriais, foram criados.
Os sistemas BREEAM e LEED possuem a vantagem de partilhar de muitos anos de experiência e seus sites atualmente se
orgulham de que mais de 250.000 edificações já foram certificadas em 121 países diferentes. A maioria destas, entretanto, ainda
está no Reino Unido e nos Estados Unidos. Além disso, esses números simplesmente representam o número de avaliações
ambientais realizadas pelo Building Research Establishment, pelo United States Green Building Council ou pelos seus
avaliadores autorizados. Seria mais interessante e informativo saber quantos outros edifícios verdes existentes não foram
submetidos a um sistema formal de avaliação ambiental. De qualquer forma, o número de edifícios verdes está certamente
aumentando.
Empresas de construção que visam diferenciar seus produtos com base na sua performance ambiental precisam estender
seus ativos em um caminho distinto. Existe uma nova geração de clientes comerciais surgindo que precisa saber que suas
exigências podem ser competentemente satisfeitas pelo empreiteiro. Há uma variedade de características que tipificam o estado
da arte do desenvolvimento verde, e as mais comuns estão listadas na Tabela 9.1.

Tabela 9.1 As características dos edifícios comerciais verdes

Utilização máxima da luz natural

Minimização do consumo de combustíveis fósseis, a partir de técnicas como ventilação


natural, calor e energia combinados, e orientação da edificação para se beneficiar da
energia solar passiva

Redução do uso de água potável, pela reciclagem das águas cinzas para irrigação,
descargas em banheiros etc.

Minimização dos impactos da construção através do paisagismo e da preservação dos


ecossistemas locais

Redução da quantidade de materiais ‘virgens’ utilizados e seleção daqueles que possuem


o impacto ambiental menos negativo

Reutilização e reciclagem de edifícios e canteiros existentes

Minimização do desperdício de materiais durante a construção e demolição

Fonte: Adaptada de Shiers (2000: 354).

A arquitetura que se baseia em algumas das características esboçadas na Tabela 9.1 está lentamente surgindo. Alguns
desses exemplos de edifícios verdes estão listados na Tabela 9.2. Aqueles selecionados na tabela estão em um campus
universitário, ou perto dele, de modo que você pode ter a oportunidade de olhá-los mais de perto.

Tabela 9.2 Exemplos de edifícios verdes no Reino Unido


Essas edificações têm sido desenvolvidas desde o início dos anos 1990. Elas estão listadas em ordem cronológica, com o
edifício construído mais recentemente ao pé da lista.

Queens Building (Escola de Engenharia), Montfort University, Leicester

Edifício da Receita Federal, Nottingham

Edifício Elizabeth Fry, University of East Anglia, Norwich

Centro de Recursos de Aprendizagem, Anglia Polytechnic University, Chelmsford

Sede do Fornecimento de Água de Wessex, Bath

Ateliê de Arquitetura e Planejamento, University of the West of England, Bristol

O Gherkin, Rua Mary Axe 30, Londres

Assembleia Nacional do País de Gales, Cardiff

Sede da PricewaterhouseCoopers (PwC), Londres

SETOR RESIDENCIAL
Todos precisam de algum tipo de abrigo para viver, e há um estoque grande e um tanto quanto variado de moradias em todo o
mundo. Devido às limitações nos dados nacionais seria difícil estimar o número de residências construídas com um padrão
verde ou eficiente de energia. Algumas casas construídas segundo o Código para Casas Sustentáveis do Reino Unido nos níveis
5 e 6 e segundo os padrões europeus Passivhaus* representam bons exemplos do que pode ser alcançado no mercado de hoje,
porém essas exceções representam somente uma proporção minúscula do estoque global de habitações.
O setor residencial como um todo é responsável por aproximadamente 25 % do uso global de energia. Somente no Reino
Unido, o estoque de moradias existentes ultrapassa 27 milhões de unidades, e estas edificações são responsáveis por cerca de 30
% da energia nacional utilizada todos os anos. A maior parte dessas edificações foi projetada em uma época na qual a energia
era relativamente barata e livre de problemas, e que, ao longo do tempo, tornaram-se problemáticas em termos de
sustentabilidade.
Até certo ponto, é inevitável que as casas construídas no passado não alcancem as exigências de hoje, mas o preocupante é
que as novas construções também são relativamente ineficientes em termos de consumo de energia. Além disso, no Reino
Unido, pelo menos, muitos dos novos parques habitacionais compreendem empreendimentos de baixa densidade, em zonas
verdes que são dependentes do uso de carros como transporte. Isto contrasta fortemente com a política do governo. Os governos
têm procurado promover o desenvolvimento em zonas urbanas, projetadas em torno de bons transportes públicos e utilizando
altas densidades, que excedam as expectativas mínimas para a eficiência energética. Os governos também preferem investir em
empreendimentos que incluam o fornecimento de habitações sociais ou de casas que possam ser concedidas a pessoas com
renda relativamente baixa. Este contraste entre a política pública e a prática de construção atual destaca o desafio que o governo
enfrenta no apoio à construção sustentável.
Para completar a frustração do governo, obter edificações sustentáveis com o uso eficiente dos recursos não é uma ‘ciência
de foguetes’ — na verdade, tecnicamente elas podem ser alcançadas pela maioria dos empreiteiros. Tome a eficiência
energética como exemplo: tudo o que é necessário são maiores níveis de isolamento, a vedação cuidadosa de todas as juntas, o
posicionamento das janelas para aproveitar ao máximo a luz solar e o uso de sistemas de troca de calor que permitam que o ar
que está saindo preaqueça o ar que está entrando. Muitos pesquisadores, entretanto, têm sido relutantes em adotar tais medidas
de eficiência energética devido ao custo (e cuidado) extraenvolvido. Eles afirmam que a eficiência energética tem um custo que
não pode ser passado para o consumidor. Naturalmente, construtoras são companhias privadas cujo propósito é gerar dinheiro
para seus acionistas, e não instituições de caridade com a missão de promover a construção sustentável. Alguns economistas
ficaram surpresos ao notar que poucas casas, de todos os tipos, foram construídas no Reino Unido em 2010 e 2011, mas os
lucros das dez maiores construtoras deste país aumentaram muito (consulte Gardiner, 2012).
Edificações com energia zero ou carbono neutro, em que a energia é provida a partir de fontes renováveis (como solar,
vento, geotérmica, biomassa, ou uma combinação dessas fontes) fornecidas em unidades altamente isoladas e hermeticamente
fechadas são comercialmente viáveis. De fato, muitos projetos de energia e carbono zero foram construídos nos últimos anos ou
estão atualmente em desenvolvimento; 15 exemplos oriundos de 15 países diferentes de todo o mundo foram examinados em
2010 pelo National House Building Council. Essa análise não apresentou somente o atual estado da arte, mas também destacou,
em termos globais, o quão lentamente esses empreendimentos excepcionais evoluem. Na maioria dos casos os
empreendimentos são pequenos, tipicamente em torno de 40 unidades, e muitos não são mais do que projetos de demonstração
únicos (NHBC, 2010). No final de 2011, havia apenas 128 unidades concluídas com os padrões de carbono zero no Reino
Unido, e outras 209 unidades de nível 5 — um padrão ligeiramente menos exigente (DCLG, 2012). Esse fraco desempenho se
dá apesar do fato de o governo estar trabalhando desde 2006 em direção ao objetivo de que todas as novas residências sejam
carbono neutro até 2016. Na medida em que esta data se aproxima, o governo começou a recuar e redefinir sua interpretação de
carbono zero.
A abordagem está somente um pouco mais avançada no restante da Europa. O movimento Passivhaus ganhou algum
impulso, mas continua sendo uma exceção em vez de regra. Uma preferência por edificações bem isoladas de alta qualidade que
necessitam de quantias relativamente pequenas de energia para aquecimento vem surgindo, mas elas ainda não dominam a
produção. Embora haja atualmente milhares de casas passivas na Europa, principalmente na Alemanha, Áustria, Dinamarca e
Suíça — estima-se que existam, nessas regiões, de 25.000 a 30.000 casas construídas segundo esse padrão — essas casas só
representam algo em torno de 0,04 % do total (NHBC, 2010).
Os cinco princípios básicos da habitação sustentável são apresentados na Tabela 9.3. Se empreendimentos desse tipo se
tornarem comuns no mercado imobiliário, nós nos tornaremos menos dependentes de combustíveis fósseis e reduziremos as
emissões de gás carbônico.

Tabela 9.3 Cinco princípios da habitação sustentável

1 Melhorar a eficiência térmica até o ponto em que as casas possam alcançar a utilização
de energia de carbono zero

2 Reduzir o consumo de água potável a partir do acúmulo de águas da chuva e reciclagem


de águas cinzas

3 Maximizar o uso de materiais locais recuperados ou reciclados

4 Promover o transporte público e as caronas solidárias para criar um estilo de vida menos
dependente dos carros

5 Projetar os serviços imobiliários para permitir a compostagem local, entrega em domicílio


de alimentos e reciclagem

Fonte: Adaptada de Desai e Riddlestone (2002: 20).

Uma pesquisa competente da literatura (reunindo mais de 80 estudos nacionais e regionais) indicou que há potencial para
reduzir as emissões globais de gás carbônico em aproximadamente 29 % até 2020 nos setores residencial e comercial (Urge-
Vorsatz et al., 2007: 388). Esses cálculos foram elaborados pelo Intergovernmental Panel on Climate Change (IPCC — Painel
Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas) em seu quarto relatório de avaliação, no qual se concluiu que o maior potencial
de economia em qualquer setor (incluindo os transportes) está relacionado à energia gerada para o uso em edifícios.
A discussão sugere que as empresas especializadas na construção de casas (ou outras estruturas) poderiam se beneficiar por
meio da diferenciação de seus produtos de diversas maneiras e pela demonstração de uma maior consciência das técnicas e das
especificações que apoiam a construção sustentável. Dessa forma, elas poderiam conseguir negócios no mercado vencendo seus
rivais em um novo jogo. Como as fontes por trás do relatório do IPCC deixaram claro, alcançar um futuro de baixo carbono
depende de novos programas e políticas para eficiência energética em edificações, que vão muito além do que está acontecendo
hoje em dia (Urge-Vorsatz et al., 2007: 395).

INFRAESTRUTURA
Alguns economistas afirmam que o atual investimento global em projetos de infraestrutura representa ‘uma gota no oceano’,
comparado com a necessidade mundial maciça, particularmente nos países em desenvolvimento, estimada em trilhões de
dólares (Miller, 2011: 72). No Reino Unido o setor de infraestrutura representa, em termos de valor, aproximadamente 25 % da
produção da construção a cada ano. Isto engloba a construção e manutenção de estradas, ferrovias, aeroportos, túneis, pontes,
redes de telecomunicação, centrais elétricas, obras litorâneas e fluviais, abastecimento de água e instalações de tratamento de
águas residuais.
Em um país em desenvolvimento, investimentos em infraestrutura são essenciais, já que são, positiva e significativamente,
correlacionados ao crescimento econômico. Em termos brutos, a infraestrutura fornece as ‘rodas’ da atividade econômica, na
medida em que telecomunicações, energia, água e transporte são peças-chave do processo produtivo em quase todos os setores
econômicos. Não é só a quantidade de infraestrutura que é importante, mas também a qualidade do serviço fornecido. Assim, a
manutenção da infraestrutura é igualmente vital, porque a baixa eficiência operacional e a falta de atenção às necessidades dos
usuários podem reduzir significativamente seu impacto. Em resumo, uma infraestrutura adequada ajuda a determinar o sucesso
de um país e o fracasso de outro em termos econômicos, sociais e ambientais.
Projetos de infraestrutura podem ser especificados com a sustentabilidade em mente. Na verdade, o Institution of Civil
Engineers (Instituto dos Engenheiros Civis) apresentou seus primeiros prêmios de reconhecimento à excelência ambiental no
verão de 2003. O CEEQUAL (Civil Engineering Environmental Quality Assessment and Award Scheme — Sistema de
Premiação e Avaliação da Qualidade Ambiental na Engenharia Civil) é uma avaliação realizada por auditoria semelhante ao
BREEAM, mas apropriado para projetos que não sejam de edificações. Ele demonstra como a infraestrutura pode ser construída
de uma maneira amigável ao meio ambiente. As características que identificam uma infraestrutura verde são de muitas formas
semelhantes àquelas listadas nas Tabelas 9.1 e 9.3 — a minimização do desperdício, o uso de agregados reciclados, a proteção
da vegetação, da ecologia e da arqueologia, a gestão do ruído, e o uso eficiente da água e da energia. Até 2012, mais de 130
projetos foram avaliados sob esse sistema, com mais de 240 projetos em andamento. O valor acumulado de todos os projetos
avaliados até o momento se aproxima de R$ 80 bilhões (CEEQUAL, 2012). No Reino Unido e na Irlanda, onde a maior parte
desses projetos está localizada, isto representa uma porcentagem significativa dos gastos com infraestrutura, e pode-se
argumentar que a construção ‘verde’ teve um maior impacto na infraestrutura do que nos outros setores da indústria.

EDIFÍCIOS EXISTENTES
De longe, o maior desafio da sustentabilidade no ambiente construído se refere às casas, escritórios e infraestrutura existentes.
De fato, a maioria das estimativas baseadas em dados do Reino Unido sugere que, em média, somente 1 % das edificações são
substituídas a cada ano, e níveis de substituição semelhantes são registrados nas nações mais desenvolvidas. Seriam necessários,
portanto, mais de 100 anos para substituir todo o estoque existente por edifícios eficientes construídos com os padrões
ambientais atuais. Entretanto, embora exista a tecnologia para projetar os novos edifícios de modo a aumentar a sustentabilidade
em 50 % ou mais, a maioria das novas construções (por volta de 0,9 %) atinge pouco mais do que os padrões mínimos
estabelecidos nas normas de construção. Assim, sem a intervenção do governo, levariam 1000 anos para substituir todas as
edificações por outras com o desempenho energético alcançável atualmente.
Outra maneira de expressar o desafio é reconhecer que 60 % das edificações que existirão em 2050 já foram construídas.
Na realidade, o maior potencial para as edificações verdes se situa no setor de reformas e retrofit, e isso será importante se as
reduções das emissões de carbono tiverem que atingir as metas ambiciosas estabelecidas pelos governos. Muitos países
introduziram sistemas de concessão e incentivos fiscais para estimular aos proprietários de imóveis a tornar seus edifícios mais
eficientes energeticamente. Por exemplo, sistemas para estimular ou subsidiar melhorias a partir de um melhor isolamento e um
maior uso da tecnologia de energias renováveis têm sido apoiados pelos governos dos Estados Unidos, Austrália, Bélgica,
Canadá, Dinamarca, França, Alemanha, Japão e Reino Unido. O sistema alemão é particularmente interessante, pois já
conseguiu melhorar o desempenho energético de mais de 3000 edificações existentes na medida em que, em termos energéticos,
estes agora superam significativamente os novos edifícios construídos com os mais elevados padrões de conservação de energia.
Com base nesta evidência, o Ministério Federal de Transportes, Urbanismo e Habitação anunciou um ambicioso programa de
redução de energia para atualizar todas as propriedades construídas antes de 1984 na Alemanha até 2020. Utilizando um sistema
de empréstimos, concessões e benefícios fiscais, o sistema cobrirá uma estimativa de 30 milhões de unidades de todos os tipos
(incluindo escolas, escritórios públicos e edifícios residenciais). O programa de retrofit das edificações trará uma contribuição
importante para que a Alemanha atinja sua meta de reduzir as emissões globais de gás carbônico em 40 % até 2020 (Powers,
2008).
No Reino Unido, com a Lei de Energia de 2011, o governo estabeleceu um sistema semelhante, porém menos ambicioso,
para melhorar a eficiência energética das propriedades britânicas. O chamado ‘Green Deal’ (Acordo Verde) prevê o corte de 2
milhões de toneladas de emissões de gás carbônico por ano. O princípio fundamental é bastante simples — medidas de
eficiência energética, como isolamento de sótãos e aquecedores, serão realizadas por uma empresa privada sem nenhum custo
inicial para o consumidor, e o pagamento pela obra será recuperado ao longo do tempo através de taxas adicionais nas contas de
energia dos consumidores. A ‘regra de ouro’ desta política é a de que as medidas de eficiência energética só poderão ser
oferecidas se a economia esperada nas contas de combustíveis forem maiores do que as taxas para pagar o valor da obra, dentro
de um período máximo de 25 anos.
Assim, no coração do programa do governo, está um inovador sistema de financiamento que permite aos consumidores
pagar os custos da melhoria da eficiência energética em suas futuras contas de energia. Se o morador se muda, e deixa de ser o
pagador da conta de energia da propriedade, a obrigação financeira se transfere para o próximo inquilino. Desta forma, o Green
Deal se difere de outros programas governamentais convencionais baseados em incentivos fiscais e concessões, já que este é, na
verdade, um empréstimo financiado pelo capital privado.
Ao lado do Green Deal está outra proposta legislativa a qual dispõe que, a partir de abril de 2018, os imóveis privados
alugados devem ser elevados a uma classificação de eficiência energética mínima de nível E. Será ilegal alugar residências ou
estabelecimentos comerciais que não atinjam esse padrão mínimo. Em resumo, os proprietários de edifícios energeticamente
ineficientes (aqueles que são classificados como F ou G) terão de tomar medidas para melhorar o desempenho de suas
propriedades. O Green Deal, em conjunto com a classificação de nível E para as propriedades alugadas, deverá impactar na
natureza e na escala dos projetos de reforma das edificações, na medida em que incentivem os moradores e os proprietários a
melhorar a eficiência energética dos edifícios existentes.
Este foco crescente no desempenho energético das edificações reflete o ponto de vista amplamente aceito de que o setor
imobiliário pode desempenhar um papel fundamental na redução das emissões de carbono. O International Panel for Climate
Change* (IPCC, 2007: Capítulo 6) notou que, em comparação com outros setores da economia, a construção oferece
oportunidades significativas de melhorias de baixo custo para a eficiência energética, alinhadas com as estratégias
internacionais, reduzindo desse modo a demanda por aquecimento e energia. O foco em edifícios permitiria que os governos
explorassem aquilo que o painel se refere como ‘frutos mais baixos’. Estendendo ainda mais esta analogia, alguns críticos
observaram que: ‘Uma vez que a “cenoura” do Green Deal está na mesa, os proprietários podem enfrentar a ameaça de se
tornarem incapazes de alugar suas propriedades, caso se recusem a comê-la’ (Mactavish et al., 2012: 50).
Em síntese, esta abordagem parece bastante simples contanto que, é claro, as edificações antigas sejam reformadas de
acordo. Porém, os aspectos práticos da implementação dessa estratégia (independentemente de quem suporta a carga inicial do
custo do trabalho — o setor público ou privado, o proprietário ou o inquilino) podem revelar-se complexos e desafiadores.
Subsídios do governo, créditos fiscais e empréstimos a juros baixos para reformas podem também estar na mesa, mas o serviço
ainda precisa ser autorizado, aprovado, financiado e realizado com um alto padrão antes que os objetivos políticos estejam
garantidos. Os consumidores precisam estar convencidos de que o aborrecimento de se organizar para que o trabalho seja feito
compensa, em virtude dos benefícios econômicos e ambientais. No Capítulo 10, explicamos como os governos nem sempre
alcançam suas metas, uma vez que diversas barreiras, como falhas de mercado e questões comportamentais, podem ficar no
caminho. Essas barreiras podem limitar o nível de aceitação, e isto levanta questões acerca da potencial eficácia de sistemas
como o Green Deal.

Pontos-Chave 9.1
O desenvolvimento de edifícios verdes é importante para a construção sustentável.
A diferenciação dos produtos pode levar a lucros de monopólio de curto prazo.
Uma empresa de construção pode diferenciar o seu produto por meio da introdução de especificações
ambientais, e oportunidades para alcançar isto estão surgindo nos setores comerciais, residenciais e de
infraestrutura.
Em termos relativos, existe somente uma pequena quantidade de edifícios verdes (alguns exemplos estão
listados na Tabela 9.2). As características que eles apresentam estão demonstradas nas Tabelas 9.1 e 9.3.
Políticas destinadas a promover a reforma dos projetos ambientais e de eficiência energética são difíceis de
implementar. Este assunto é mais bem discutido no Capítulo 10.

EFICIÊNCIA DOS RECURSOS


Implícita nas características dos edifícios verdes e da infraestrutura está um melhor uso dos recursos. Isto é particularmente bem
ilustrado por projetos de baixo carbono e pela evolução das casas passivas na Europa, as quais podem alcançar até 90 % de
redução no consumo de energia. Níveis semelhantes de obtenção de recursos são evidentes quando construtoras reutilizam e/ou
reciclam materiais, desenvolvem áreas urbanas, minimizam o desperdício, estimulam o transporte público e empregam mão de
obra local. De fato, conseguir maiores níveis de produção com menor quantidade de recursos é fundamental para alcançar a
construção sustentável.
Alguns analistas afirmam que uma eficiência de recursos muito maior é possível. Na década de 1990, um importante
relatório otimista — Factor Four: Doubling Wealth, Halving Resource Use* (Weizsäcker et al., 1998) — alegou que a
produtividade dos recursos poderia ser aumentada por um fator de quatro. Obviamente, tal aumento na eficiência poderia
reduzir a demanda depositada sobre o ambiente natural. Para demonstrar que uma quadruplicação da produtividade dos recursos
era tecnicamente possível, o relatório incluiu 50 exemplos. Vinte deles eram relacionados à produtividade energética em
diversos contextos, de geladeiras a hipercarros; outros 20 tratavam da produtividade dos materiais, abrangendo desde a
eficiência da água residencial até edifícios com estruturas de madeira. Uma década depois um objetivo ainda mais ambicioso foi
estabelecido na sequência, Factor Five: Transforming the Global Economy** (Weizsäcker et al., 2009). Este trabalho focou em
quatro setores, a saber: edificações, agricultura, transportes e indústria (aço e cimento), e apresentou diversos bons estudos de
caso, que incluem toda uma abordagem de sistemas para edifícios comerciais e uma análise detalhada do movimento casa
passiva. Estimulantemente, no contexto da economia das construções, muitos dos exemplos foram relevantes para os mercados
de edifícios verdes e de infraestrutura, e alguns desses estão listados na Tabela 9.4.

Tabela 9.4 Exemplos de produtividade dos recursos (Fatores quatro e cinco)

Estruturas de aço ou madeira versus concreto

Iluminação fluorescente compacta e LED

Ar condicionado versus refrigeração passiva

Televisores com tela de cristal líquido (LCD) e telas de computador

Reforma de casas abandonadas em bairros pobres

Superjanelas e reforma de grandes escritórios

Sistemas de energia solar

Conservação versus demolição


Fonte: Adaptada de Weizsäcker et al. (1998, 2009).

Ao discutir os diversos exemplos, Weizsäcker et al. (1998 e 2009) destacaram as vantagens competitivas que poderiam ser
alcançadas a partir da exploração da eficiência dos recursos. As possibilidades e oportunidades que eles descreveram são
alcançáveis pela maioria das empresas em qualquer parte do mundo que estejam buscando diferenciar os seus produtos. Na
maioria das indústrias, se fosse oferecida aos fabricantes a oportunidade de adaptar a produção para executá-la
significativamente mais rápido, com maior qualidade e com um potencial de economia de até 80 % dos recursos, eles dariam
uma chance. A construção, entretanto, é notoriamente lenta no aproveitamento de novas oportunidades que lhes são
apresentadas. O debate sobre a difícil aceitação dos pré-fabricados foi introduzido no Capítulo 7 e na Leitura 2. Esse debate está
em andamento por mais de 20 anos e constitui parte importante da agenda da construção sustentável. Ele tem sido informado e
impulsionado por diversos relatórios do governo. Por exemplo, o relatório da Equipe de Inovação e Crescimento, publicado em
2010, mais uma vez estimulou a indústria a perceber os benefícios que o ambiente controlado de uma fábrica poderia oferecer
para alcançar uma redução nos custos de construção, nos prazos de entrega e nos defeitos das edificações. A pré-fabricação,
afirmou o relatório, habilitaria as equipes de projeto a entregar produtos de melhor qualidade a um custo significativamente
menor (IGT, 2010: 49). De modo similar, o Órgão Nacional de Auditoria (2005) destacou que métodos modernos de construção
tornam possível a construção de até quatro vezes mais casas com a mesma quantidade de mão de obra enquanto reduz o tempo
de obra até pela metade. A próxima seção explora os argumentos a favor e contra a utilização de métodos de eficiência dos
recursos no setor da construção.

MÉTODOS DE CONSTRUÇÃO — PRÉ-FABRICADOS


Os métodos modernos de construção utilizam diversas inovações que transferem o trabalho do canteiro de obras para a
fábrica. Eles abrangem uma grande variedade de abordagens conhecidas por vários termos diferentes, como fabricação externa,
produção externa, pré-fabricação, padronização, construção enxuta e construção modular. São exemplos comuns de elementos
construtivos que são produzidos utilizando técnicas de pré-fabricação: louças para banheiro, estruturas de madeira e de aço e
telhados. A ampla gama de benefícios que seguem como resultado da escolha desses métodos está resumida na Tabela 9.5.

Tabela 9.5 Benefícios dos métodos modernos de construção

O trabalho fora do canteiro leva a uma maior segurança

O ambiente controlado da fábrica leva a uma maior produtividade

Os custos fixos são reduzidos, à medida que a estanqueidade e a eficiência energética


são melhoradas

Redução do tempo de obra

Reduções significativas no preço

Menor desperdício com materiais excedentes e danificados

Menos defeitos e menores impactos ambientais

Claramente, esses benefícios auxiliariam uma empresa a alcançar a eficiência dos recursos, melhorar a qualidade do
produto e assegurar um maior nível de lucro. Na verdade, existem alguns exemplos excepcionais na China e no Japão, e aqueles
que estiverem interessados devem assistir ao notável vídeo de um hotel de 30 andares (16.700 metros quadrados) construído
quase inteiramente com componentes pré-fabricados na China (pelo Broad Group) em 360 horas (somente 15 dias). No entanto,
apesar das vantagens óbvias dessas modernas tecnologias de pré-fabricação, diversas barreiras são relatadas pelas empresas de
construção nos Estados Unidos e na Europa, tais como custos de capital mais elevados, dificuldades de alcançar economias de
escala significativas, preocupações relacionadas à capacidade de fabricação, natureza fragmentada da estrutura da indústria,
escassez de mão de obra qualificada e uma cultura avessa a riscos (Pan et al., 2008: 61).
Conforme Weizsäcker et al. (2009) apontaram, as restrições para alcançar ganhos na produtividade dos recursos não são
tecnológicas, mas sim institucionais. Esta descoberta foi reforçada pelos resultados de uma pesquisa com 100 construtoras no
Reino Unido. Diversas empresas responderam que a falta de experiência prévia as impediu de fazer uma utilização mais intensa
dos pré-fabricados (Pan et al., 2008: 62). Em resumo, inércia e questões culturais estão por trás das barreiras para a mudança.
Como o presidente do Buildoffsite (uma organização do Reino Unido que faz campanha a favor da pré-fabricação — consulte
as Revisões da Internet no início da Parte B para mais detalhes) comentou sarcasticamente: ‘Este é o século XXI; já fomos à
Lua. Certamente, as pessoas podem pensar em uma casa que foi construída na Polônia e transportada para o Reino Unido’
(citado em Wright, 2010). Esta linha de argumentação sugere que a reforma dos processos construtivos, ou o desenvolvimento
econômico em geral, e a introdução de uma abordagem mais sustentável são um desafio tanto para nossos valores pessoais
quanto para nossos sistemas políticos e econômicos.

Custos de Capital contra Custos Operacionais


Um importante exemplo de inércia é a maneira como o mercado tende a favorecer o curto prazo em detrimento do longo prazo.
Até certo ponto, isto é exemplificado pela relutância de grandes construtores em produzir casas energeticamente eficientes por
medo de que isto possa reduzir os seus lucros (veja a discussão anterior). Esse tipo de visão de curto prazo é particularmente
comum, sempre que uma pessoa paga pelos ganhos de eficiência e outra parte recebe os benefícios. Isto é fácil de perceber no
setor comercial, no qual as prioridades dos proprietários e dos inquilinos são frequentemente consideradas distintas. Uma regra
geral comumente citada para edificações comerciais tradicionais é que os custos operacionais geralmente ultrapassam os custos
de capital em uma proporção de 10:1 ao longo de um período de 25 anos. Mais especificamente, um estudo realizado em nome
da Royal Academy of Engineering* (Evans et al., 1998) estimou que os custos para uma edificação comercial típica ao longo de
um período de 20 anos estão em uma razão de 1 (para os custos de construção): 5 (para custos de manutenção): 200 (para as
despesas com pessoal). No entanto, a atual cultura na indústria da construção continua tendendo a colocar maior ênfase no custo
de capital inicial, enquanto demonstra pouca consideração pelos custos incorridos pelos usuários finais. Em termos de
eficiência, esta atitude cria grandes implicações nos custos dos recursos — na realidade, os números sugerem que podemos estar
desperdiçando até dez vezes mais recursos do que utilizamos.
Esta linha de análise cria outra oportunidade para as empresas de construção diferenciarem seus produtos e serviços. Uma
abordagem integrada — que leva plenamente em conta o usuário final — torna muito mais fácil sugerir que a empresa agrega
valor ao futuro negócio do cliente. No entanto, um cliente que faz um pedido por uma sede de negócios que use materiais
naturais, luz solar, eficiência energética, baixo nível de ruído, áreas verdes e um verdadeiro fator de bem-estar para seus
funcionários encontraria uma disponibilidade de empreiteiros muito restrita.

PRODUTIVIDADE
É importante que os edifícios de escritórios sejam favoráveis ao trabalho, ainda que, em muitos casos, haja evidências do
contrário. Existem até acusações de que alguns prédios comerciais causem aos seus funcionários dores de cabeça, sentimentos
de letargia, irritabilidade e falta de concentração — e, em alguns casos, podem ser responsáveis por altas taxas de absenteísmo.
Ainda mais preocupante é a ideia de que o ambiente do escritório possa causar irritação aos olhos, nariz, garganta e pele.
Embora alguns desses sintomas soem como os efeitos colaterais de passar uma noite no bar, ou muito tempo na piscina, eles se
distinguem por serem predominantes entre a força de trabalho de alguns edifícios comerciais e não de outros. De fato, os
sintomas geralmente desaparecem algumas horas após deixar o edifício ‘afetado’. Esse tipo de condição é comumente
classificado como a síndrome do edifício doente (SED) e conduz claramente a uma utilização ineficiente dos recursos
humanos. É importante lembrar que ultimamente os edifícios são ‘máquinas para se trabalhar’, e o investimento em construções
verdes deve também resultar em um ambiente de trabalho mais eficiente.
Exemplo interessante de um edifício verde altamente integrado é o Rocky Mountain Institute, no oeste do Colorado.
Afirma-se que os funcionários que lá trabalham são produtivos, atentos e bem-dispostos durante todo o dia — sem ficarem
sonolentos ou irritados. Weizsächer (1998: 13) atribui a alta taxa de produtividade à ‘luz natural, ar interior saudável, baixa
temperatura do ar, alta temperatura radiante e alta umidade (muito mais saudável que o ar quente e seco); ao som da cachoeira
(sintonizado aproximadamente no ritmo alfa do cérebro para ser mais repousante); a falta de ruídos mecânicos, pois não existem
sistemas mecânicos; a virtual ausência de campos eletromagnéticos;... As áreas verdes’.
Ocasionais dias de ausência por doença significam que os funcionários estão sendo remunerados, mas não estão
produzindo. Igualmente preocupante e prejudicial para a produtividade global é a situação em que os funcionários comparecem
ao trabalho, mas passam parte do dia se queixando de seu ambiente de trabalho — e, por fim, eles podem estar tão fartos que
acabam decidindo procurar por outro emprego. Claramente, tudo isto se soma a um desperdício de recursos.
O custo anual do absenteísmo tem recebido pouca atenção dos economistas, porém foi proposto em 2007 que 15 estados
membros da União Europeia (com uma população de 375 milhões) poderiam aumentar significativamente a produtividade
tornando os ambientes internos dos escritórios mais saudáveis e confortáveis. O relatório estimou que isso poderia proporcionar
um retorno de mais de 960 milhões de reais por ano (EU, 2007: 8). Esse número, porém, não considera especificamente os
efeitos da síndrome do edifício doente. Como os cálculos seguintes sugerem, esta é uma omissão significativa.
De acordo com uma pesquisa (Hedges; Wilson 1987) envolvendo funcionários de 46 edifícios comerciais de várias idades,
tipos e características, a incidência da síndrome do edifício doente é bastante difundida. Os participantes da pesquisa foram
questionados sobre o quanto eles achavam que as condições físicas do escritório influenciavam em sua produtividade. A
maioria respondeu que achava que sua produtividade era afetada em pelo menos 20 %. Isto é equivalente a tirar um dia de folga
a cada cinco dias trabalhados. A autoavaliação dos funcionários, entretanto, pode estar sujeita ao exagero. Mas, mesmo se
aplicarmos uma redução de 10 %, isto ainda representaria um custo significativo. Por exemplo, supondo que R$ 80.000,00 é o
salário médio do escritório, então uma organização empregando 1000 pessoas poderia estar perdendo em torno de 8 milhões de
reais por ano. (O cálculo é simples: um efeito de 10 % de perda de produtividade devido à SED representa R$ 8.000,00 por
funcionário por ano, multiplicando-se por 1000 funcionários obtém-se uma perda potencial de R$ 8.000.000,00.)
Indiscutivelmente, esses números representam o pior cenário possível, e nem todos são igualmente afetados pela SED — a
literatura sugere que 55-60 % do quadro de funcionários em edifícios problemáticos podem ser afetados. Parece mais plausível,
talvez, aceitar uma estimativa de R$ 4.000.000 de reais a cada 1000 funcionários por ano. A estatística mais preocupante é a de
que o setor de serviços emprega mais de 15 milhões de pessoas todos os dias em escritórios. Este cálculo implica um custo
nacional com a SED no Reino Unido, de algo em torno de R$ 60 bilhões. Novamente, este pode ser o pior cenário, porque
supõe que todos os edifícios estão afetados pela SED. Entretanto, o ponto importante é considerar como certos tipos de
construção podem resultar em usos ineficientes de recursos e definir parâmetros para debate.
Conforme o relatório Egan (1998: 22-3) frisou, a construção precisa ser observada como um processo mais integrado,
prestando muito mais atenção às necessidades do usuário final — até o ponto em que os projetos concluídos sejam avaliados
pelo consumidor, e o conhecimento adquirido realimente a indústria. Isso acontece atualmente, em uma extensão limitada, e as
avaliações pós-ocupação começaram a identificar as características suscetíveis de influenciar e melhorar a qualidade e a
produtividade no ambiente interno — algumas delas estão listadas na Tabela 9.6. A mensagem geral é que a construção precisa
mudar sua abordagem. É preciso dar às exigências do usuário tanto o respeito quanto as especificações de construção, pois
edifícios mal concebidos falham em atender às necessidades dos eventuais ocupantes. Investimentos em projetos de boa
qualidade podem alcançar um ambiente de trabalho mais eficiente e reduzir os custos operacionais. Conforme um extenso
relatório sobre a cultura e o desempenho da construção recentemente propôs, chegou o momento para que a linguagem utilizada
na construção seja revista: construções inteligentes e sistemas integrados devem se tornar a norma, juntamente com questões de
custos do ciclo de vida, qualidade, produtividade e sustentabilidade (IGT, 2010: 155). Para se ter certeza de que os interesses de
todas as partes envolvidas na cadeia da construção — particularmente o inquilino — estejam incluídos na avaliação.

Tabela 9.6 Características internas para melhorar a produtividade


Uma atenção cuidadosa às especificações dos edifícios pode aumentar a qualidade do ambiente interno e melhorar a
produtividade para além dos níveis alcançados em edificações que utilizam práticas padrão. Essas características tendem a
auxiliar a qualidade interna.

Sistemas naturais de ventilação

Materiais de construção e mobiliário de baixa toxicidade

Uso da luz natural

Iluminação energeticamente eficiente com baixa taxa de cintilação para reduzir as dores
de cabeça

Controle do usuário sobre a temperatura e ventilação

Atenção a manutenção e operação dos edifícios para reduzir a proliferação de agentes


microbianos

Fonte: Adaptada de Heerwagen (2000: 354).

Em termos de economia, o ponto importante que surge é de que, na medida em que a amplitude da experiência exigida de
uma empresa de construção aumenta, o número de empresas abastecendo o mercado diminui; em resumo, há uma oportunidade
maior para se fazer uma distinção entre as empresas. Apontamos esse tipo de consequência no Capítulo 6 quando analisamos os
contratos IFP e há paralelos interessantes aqui. Projetos concluídos com sucesso, tanto do tipo verde quanto IFP, têm o
potencial para serem mais eficientes economicamente e mais sustentáveis. Porém, ambos os tipos de projeto parecem, no
presente, favorecer as grandes empresas e não as empresas pequenas que caracterizam a indústria.
Uma possibilidade em longo prazo é que equipes de pequenas empresas começarão a trabalhar em conjunto para garantir
um lugar no mercado verde. Esta foi uma das maneiras que o relatório Egan tinha expectativas de que a indústria iria se
desenvolver. Conforme Egan (1998: 32) expressou: ‘Alianças oferecem a cooperação e a continuidade necessárias para permitir
que uma equipe aprenda e tenha uma participação na melhoria do produto. Uma equipe que não é unida não tem capacidade de
aprendizagem e nenhuma chance de realizar as melhorias que aumentam a eficiência no longo prazo’.

Pontos-Chave 9.2
Pensar no longo prazo em vez de curto prazo contribui de forma importante no sentido de alcançar uma maior
eficiência dos recursos no ambiente construído.
Alguns analistas afirmam que a produtividade dos recursos pode ser aumentada por um fator de quatro, e que
as barreiras para alcançar esses ganhos são culturais, e não tecnológicas.
Para edifícios comerciais tradicionais, os custos operacionais ultrapassam os custos de capital em uma
proporção de pelo menos 10:1.
Um fator importante de qualquer atividade econômica é levar em consideração o usuário final. Por exemplo,
na construção, o projeto de interiores de um edifício de escritórios deve ser propício ao trabalho.

ANÁLISE DO CICLO DE VIDA


É evidente que qualquer empresa interessada em fabricar produtos para o mercado verde precisa considerar uma ampla
variedade de critérios. E as poucas empresas que começaram a levar a sério seu desempenho ambiental adotaram procedimentos
de auditoria que vão muito além de medidas estritamente financeiras. Auditando a quantidade de energia utilizada e quanto
desperdício é gerado em cada etapa da vida de um produto, os fabricantes podem aumentar a eficiência dos recursos e reduzir o
impacto ambiental do produto. Porém, decidir onde começar e onde parar com essas análises ambientais é uma questão
controversa, e os limites precisam estar claramente definidos. Por exemplo, uma empresa de construção poderia considerar
eficiência energética a reutilização de materiais de construção, a energia incorporada na fabricação e no transporte dos materiais
para o canteiro e a utilização do edifício ao longo de toda sua vida útil etc. De fato, parece haver diversas oportunidades para
entrar em vários novos mercados. Em um mundo ideal, todos os aspectos referentes à vida útil de uma edificação deveriam ser
analisados, mas isso levaria uma empresa a realizar avaliações detalhadas dos impactos de primeira, segunda e terceira geração.
A mensagem importante é identificar cuidadosamente as qualidades e as especificações do produto a ser comercializado, antes
de decidir o início e o fim da vida da edificação para fins específicos. Tal abordagem conduziria uma empresa a uma jornada de
melhorias que proporcionaria uma diferenciação clara e responsável do seu produto. A Figura 9.1 apresenta um modelo muito
simplificado das oportunidades que a análise do ciclo de vida pode oferecer à construção.

Figura 9.1 Análise do ciclo de vida de edificações e infraestruturas


Neste modelo simplificado, o meio ambiente é a fonte de combustíveis fósseis e de matérias-primas, e um ralo para o
desperdício.

É evidente que, em cada etapa, o processo de construção sobrecarrega o meio ambiente com muitos custos. No início do
ciclo de vida, uma grande quantidade de insumos naturais é necessária para a fase de construção e, como é bem documentado, a
indústria da construção em toda a Europa consome mais matérias-primas do que qualquer outro setor industrial. Durante a fase
operacional, as edificações também são responsáveis por uma quantia muito significativa (40-50 %) da emissão de gases do
efeito estufa, porque os edifícios dependem fortemente da energia dos combustíveis fósseis à base de carbono para o
aquecimento, iluminação e ventilação. E, finalmente, em todas as fases, incluindo a demolição, há uma grande quantidade de
desperdício associado. De fato, estima-se que a indústria da construção responda por 50 % do fluxo de resíduos total na Europa.
A análise do ciclo de vida de uma edificação é ainda mais complicada pelo fato de poder haver diversos ocupantes, com
diferentes regimes de reforma, manutenção e melhorias ao longo de sua vida útil. Sempre, entretanto, há um fluxo de recursos
do meio ambiente para o produto construído e vice-versa, com impactos variados no ambiente em diferentes estágios.
Consequentemente, não importa o quão exemplar é a especificação ambiental inicial na etapa de construção, o impacto global
de uma edificação será influenciado pela forma em que é utilizada.
Para os nossos propósitos, é importante lembrar que não estamos lidando aqui com ciência ambiental. Este texto pretende
introduzir conceitos econômicos e:
• comparar as ideias dos principais economistas com suas contrapartidas ambientais;
• compreender as inter-relações entre a economia e o meio ambiente.
Esses assuntos formam um foco importante dos capítulos incluídos na Parte B.

Neoclássico contra Economia Ambiental


A economia neoclássica convencional propõe que as forças de mercado determinem os recursos específicos alocados para
construção. Introduzimos essas ideias no Capítulo 3, no qual explicamos como o livre ajuste de preços fornece um sistema de
sinalização eficiente que determina o que é feito, como é feito e por quem é feito. (Alguns leitores podem desejar revisar os
Pontos-Chave 3.1.) A partir desta perspectiva, os economistas podem facilmente explicar por que os produtos artificiais com
intensa utilização de energia podem ser empregados no lugar dos produtos ambientalmente amigáveis. Com base na análise
neoclássica, se os insumos se tornam escassos, o preço aumenta; isso, por sua vez, cria um incentivo para uma pessoa
empreendedora identificar uma lacuna no mercado e fabricar um substituto. Esses substitutos frequentemente dependem do uso
inteligente da tecnologia e, na medida em que o tempo passa, produtos mais naturais são repostos (ou substituídos) por esses
artificiais equivalentes. Assim, por exemplo, os aumentos acentuados dos preços do petróleo durante as últimas décadas, que
são brevemente descritos no Capítulo 14 como uma das causas da inflação mundial, têm destacado o crescente problema da
demanda por petróleo superando sua oferta. Realmente, o preço do barril de petróleo alcançou seu maior valor em 2012. Esse
aumento significativo e persistente de preços empurrou para cima o preço da gasolina e do aquecimento, e assinalou a
necessidade de substituir a energia gerada pelo petróleo pela energia gerada por outras fontes e de utilizar os desenvolvimentos
da tecnologia para melhorar a eficiência energética. A razão de termos apresentado este cenário aparentemente simples, no qual
nenhuma consideração explícita é dada ao meio ambiente, é para salientar que na análise econômica tradicional todo o sistema é
autodeterminado. Em termos neoclássicos, não há necessidade de recorrer a qualquer forma de intervenção governamental para
alcançar uma economia de baixo carbono, já que em determinado momento as forças que operam livremente no mercado farão
com que isso seja uma inevitabilidade econômica.
Em contraste direto, a economia ambiental não aceita que o ecossistema, ou a natureza, seja meramente outro setor da
economia que possa ser tratado pelas forças de mercado. Economistas ambientais partem da premissa básica de que há um
extenso grau de interdependência entre a economia e o meio ambiente; e não há garantia de que qualquer um dos dois irá
prosperar no longo prazo, a menos que os governos apliquem medidas que façam as empresas reconhecerem os custos do ciclo
de vida completo decorrentes de sua atividade econômica. Daly (1999: 81) caracterizou grosseiramente as ideias da escola
neoclássica: ‘O animal econômico não tem nem boca nem ânus — somente um intestino circular fechado — a versão biológica
de uma máquina de movimento perpétuo’. O importante conceito que Herman Daly e seus contemporâneos ambientalmente
conscientes trazem para a economia é a contribuição extremamente desvalorizada que o meio ambiente faz para o sistema
econômico. Na verdade, o meio ambiente fornece todos os recursos naturais e matérias-primas necessárias para iniciar
quaisquer processos de construção de edificações ou infraestrutura, como terrenos, combustível e água. O ambiente também
fornece mecanismos para absorção de emissões e de resíduos. Em resumo, nesta visão moderna, a economia é vista como um
subsistema do meio ambiente!
Em debates sobre a sustentabilidade, as dimensões ambientais não podem ser ignoradas; contudo, os principais livros
didáticos de economia tradicionais não se referem a análises do ciclo de vida ou qualquer sistema de auditoria equivalente que
mensure os impactos ambientais. O único ponto de referência é o dinheiro e a economia é apresentada como um sistema linear
— similar àquele retratado pela Figura 9.1. Para corrigir essa imagem ilusória, economistas ambientais geralmente representam
o sistema linear econômico dentro de uma caixa maior, ou círculo, para representar o meio ambiente. Esta abordagem é adotada
no Capítulo 11. Isto é utilizado para ilustrar que há uma relação interdependente entre o meio ambiente e a economia; de que o
ambiente fornece os insumos de entrada e arrebata os resíduos de saída e não pode ser tido como certo. Como exemplo da
representação da abordagem ambiental, consulte a Figura 11.4.
Infelizmente, entretanto, a mentalidade convencional daqueles que atualmente gerenciam as empresas na indústria da
construção se espelha na abordagem feita pelos economistas neoclássicos. Para que isso seja substituído por uma perspectiva
sustentável genuína, um compromisso com a compreensão das ideias da economia ambiental torna-se mais importante.
Vale a pena encerrar este capítulo com a observação de que tanto os economistas neoclássicos como os ambientais
compartilham uma crença comum de que consumidores e fabricantes manifestam preferências por meio de sua disponibilidade
em pagar. Isso pode parecer irônico, mas parece que, em última análise, a maioria dos economistas está preocupada em
expressar tudo em valor monetário. Isso se adapta aos economistas neoclássicos, cujo principal ponto de referência é o comércio
de bens materiais e serviços nos mercados a preços especificados. É muito mais problemático para economistas ambientais que
procuram aplicar valores monetários em produtos e serviços ambientais normalmente tratados como produtos ‘gratuitos’.
Vamos trabalhar mais neste assunto no próximo capítulo e lidar especificamente com as técnicas de avaliação no Capítulo 11.

Pontos-Chave 9.3
A análise do ciclo de vida envolve um estudo detalhado dos impactos de um produto durante todo o seu
processo de fabricação. No caso das edificações e infraestrutura, ela enfatiza a grande quantidade de
recursos e resíduos envolvidos no processo construtivo.
Economistas neoclássicos têm uma forte crença de que os mercados orientam a economia.
Economistas ambientais enfatizam que a economia é dependente do meio ambiente para diversas funções
que a análise do ciclo de vida ajuda a avaliar.
A economia ambiental oferece à indústria da construção uma perspectiva que poderia ajudar a garantir
resultados mais sustentáveis.
__________
*
Do alemão, casa passiva. (N.T.)
*
Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas. (N.T.)
*
Fator quatro: dobrar a riqueza, utilizar metade dos recursos. (N.T.)
**
Fator cinco: transformando a economia global. (N.T.)
*
Academia Real de Engenharia. (N.T.)
Em toda a Parte A, enfatizamos que o sistema de mercado aloca recursos de forma eficiente. Descrevemos como o mecanismo
de preços fornece um incentivo para que as empresas entrem nos mercados e saiam deles em suas buscas por lucros, e como
cada mercado chega ao equilíbrio. Na verdade, até o último capítulo, o tema dominante foi que a maioria dos problemas
econômicos pode-se resolver permitindo que o livre mercado trabalhe (consulte os Pontos-Chave: 2.1, 3.1, 5.4, 6.1, 7.1, 8.1 e
8.2). Para um exemplo específico e intrigante, veja o argumento apresentado por economistas tradicionais relativo ao preço
crescente do petróleo como uma solução para o problema das mudanças climáticas, repassado no Capítulo 9.
O mercado, entretanto, nem sempre funciona. Existem algumas circunstâncias que impedem que o mecanismo de preços
alcance a eficiência produtiva e alocativa. Esse parece ser particularmente o caso de mercados que envolvem ou têm impacto
sobre o meio ambiente; mercados nos quais os produtos não são de gestão privada, mas de propriedade comum. Nesses casos,
alternativas não comerciais precisam ser consideradas. Uma das forças não comerciais mais importantes é o governo, e este
capítulo revisa o papel deste em mercados deficientes. Iremos, entretanto, reconhecer a possibilidade de que os governos
também podem falhar em alcançar resultados eficientes, e isto é discutido no final do capítulo.
Falha de mercado descreve uma situação em que as forças da oferta e da demanda não alocam os recursos
eficientemente. Pode ser definida como:
um mercado no qual o sistema de preços irrestrito faz com que muitos, ou muito poucos, recursos sejam
alocados em uma atividade econômica específica.
Como sugerimos no Capítulo 2, a maioria dos problemas ambientais, como mares poluídos, florestas devastadas, espécies
extintas, chuva ácida, e a vaporização da camada de ozônio são exemplos de falhas de mercado.
Economistas se referem a esses tipos de problemas para justificar um papel para uma intervenção do governo. Como
Milton Friedman, um publicitário do sistema de mercado por mais de 40 anos, enfatizou consistentemente, a existência de um
livre mercado não elimina a necessidade de um governo. Pelo contrário, a intervenção do governo é essencial como um foro
para determinar as regras do jogo e como um provedor de bens públicos (Friedman, 1962).

O QUE CAUSA AS FALHAS DE MERCADO?


Tradicionalmente, os economistas identificam quatro causas comuns para explicar por que os mercados falham. O primeiro
conjunto de explicações geralmente refere-se à promoção da competição justa entre empresas, já que monopólios e outras
formas de competição imperfeita permitem que as grandes empresas fraudem os mercados e mantenham os preços
artificialmente elevados. Esses problemas já foram considerados brevemente no Capítulo 8. Nesta parte do texto, entretanto,
estamos preocupados com a proteção e o aprimoramento do meio ambiente e, portanto, nos restringimos às outras três causas
comuns das falhas de mercado. Estas são:
• externalidades;
• problema do free-rider;*
• informação assimétrica.

Externalidades
Introduzimos os parâmetros conceituais necessários para entender as externalidades no Capítulo 2 (consulte os Pontos-Chave
2.4). Contrastamos custos privados e custos externos — uma distinção que ajuda a explicar um amplo conjunto de
problemas ambientais. A análise relacionada representa uma tradição importante na economia do bem-estar, que remonta ao
início do século XX.
A ideia de que a eficiência econômica deveria descrever uma situação na qual ninguém pode lucrar sem que alguém tenha
prejuízo remonta algo em torno de 1890 no trabalho de Vilfredo Pareto, um cientista social italiano. De acordo com Pareto, em
um mercado competitivo verdadeiramente eficiente, todas as trocas que os membros da economia estão dispostos a fazer têm
que ser acordadas a preços justos. Em tal situação, ninguém pode se beneficiar, a menos que tire proveito de outro. Há um
equilíbrio geral. Todos os membros da economia enfrentam os custos de oportunidade reais de todas suas ações orientadas para
o mercado.
Em muitos mercados reais, entretanto, o preço que alguém paga por um recurso, produto ou serviço é frequentemente
maior ou menor que o custo de oportunidade que a sociedade como um todo paga pelo recurso, produto ou serviço. Em resumo,
é possível que decisões tomadas por empresas e/ou consumidores em uma transação afetem outras partes não envolvidas nesta
transação em particular em seu benefício ou detrimento. Para simplificar, no mercado competitivo, um acordo é firmado entre o
comprador e o vendedor para trocar um produto ou serviço a um dado preço; porém, juntamente com esta atividade em dupla,
existem possíveis repercussões para terceiros — ou seja, pessoas externas à atividade de mercado específica. Os benefícios e os
custos a terceiros são denominados externalidades.
Esclarecer ainda mais o conceito poderia ajudar você a fazer uma distinção entre o custo econômico total e o custo básico
de um produto ou serviço. O custo básico leva em consideração todas as etapas da produção, que poderiam incluir a extração,
fabricação, transporte, pesquisa, desenvolvimento e outros custos empresariais, como o marketing. Em outras palavras, os
custos básicos cobrem todos os custos que normalmente são somados para formar o preço de mercado. O custo econômico total,
entretanto, inclui todos os custos básicos possíveis mais as externalidades; ou, dito de outra maneira, os custos econômicos
totais são os verdadeiros encargos suportados pela sociedade em termos monetários e não monetários. Resumidamente:
custos econômicos totais = custos básicos + externalidades
Exemplo de uma externalidade é a poluição de um rio, do ar ou de um espaço público aberto causada por um processo de
construção. Isto conduz a uma perda geral de bem-estar para a sociedade. Se esta não é compensada por essa perda, então o
custo é externo ao processo de produção. A empresa de construção haverá criado uma externalidade negativa. Na construção de
um edifício, a empresa pagou por insumos como terrenos, mão de obra, capital e empreendedorismo, e o preço que ela cobra
pelo produto final reflete todos esses custos. Entretanto, a empresa de construção adquiriu um insumo — a disposição de
resíduos em rios, no ar ou em espaços abertos — gratuitamente. Ela está, na verdade, tendo uma liberdade; a empresa não está
pagando por todos os recursos que utiliza. Ou, olhando de outra forma, a empresa está contribuindo gratuitamente com uma
parcela de degradação ambiental em todos os produtos.
Qualquer tipo de efeito que cause poluição ambiental é chamado de externalidade negativa porque existem custos de
vizinhança, como água contaminada, perda de moradias e problemas de saúde, associados como problemas respiratórios que a
sociedade como um todo tem que pagar. Em outras palavras, esses custos comunitários são externos à transação econômica
entre a empresa de construção e os compradores do edifício concluído. Uma importante meta dos economistas ambientais é
fechar a lacuna entre custos privados e custos externos. O objetivo é fazer com que o poluidor pague — para ter certeza de que
aqueles responsáveis por causar a poluição são obrigados a pagar as despesas. Essa ideia de fazer o poluidor pagar é discutida
mais adiante neste capítulo. Note, entretanto, que, se esses custos devem ser faturados, de alguma forma precisamos saber o
quanto cobrar, o que, na realidade, significa colocar um valor sobre o ambiente — e vamos analisar formas de mensurar os
custos ambientais com mais detalhes no Capítulo 11.
Antes de deixarmos o tópico, entretanto, devemos admitir que nem todas as externalidades são negativas. A produção de
um produto ou serviço pode gerar benefícios colaterais para terceiros. Nesses casos, a falha de mercado não é tão problemática.
Os governos podem escolher financiar esses produtos ou serviços que geram externalidades positivas por meio de subsídios ao
setor privado — assegurando que as companhias sejam recompensadas pela produção de um produto ou serviço que, se deixado
às forças de mercado, poderia ser subproduzido. Uma alternativa mais simples é o governo tomar para si a responsabilidade pela
fabricação de um produto ou prestação de um serviço. A próxima seção sobre free-riders vai confirmar o apelo desta
abordagem.

O Problema do Free-Rider
Sempre que externalidades positivas excedem em muito os benefícios privados, o produto ou serviço em questão se torna não
lucrativo no contexto de mercado — na realidade, alguns benefícios associados ao produto ou serviços são distribuídos
gratuitamente. Por exemplo, se você pagar por vários postes de luz para iluminar a rua e a calçada do lado de fora de sua casa, o
benefício privado (para você mesmo) seria muito pequeno em relação ao custo. E o benefício externo para seus vizinhos desta
iluminação pública seria significativo, pois estariam recebendo uma rua mais iluminada gratuitamente. O problema é que o
sistema de mercado não pode fornecer facilmente produtos e serviços consumidos em conjunto. Para que o mercado funcione
eficientemente, um acordo bipartidário é preferível. Se as partes não pagantes não puderem ser facilmente excluídas dos
benefícios de um produto ou serviço, temos o problema do free-rider. Bons exemplos desta situação são os mercados de
serviços de esgoto, espaços públicos, pavimentação, iluminação pública, controle de inundações, drenagem, estradas, túneis,
pontes e serviços de proteção contra incêndios.

Informação Assimétrica
A maioria dos textos econômicos identifica os problemas criados por uma empresa dominante, ou por um grupo de empresas
coniventes, como causas típicas das falhas de mercado. Como exemplo, reflita sobre as estruturas de mercado que caracterizam
as empresas na construção e suas possíveis oportunidades para celebrar acordos sobre os lucros conjuntos (ou ao menos revise
os Pontos-Chave 8.4). Neste texto, escolhemos enfatizar que qualquer acordo contratual realizado em favor de uma das partes
pode contribuir para a falha do mercado. Existe um problema geral de informação unilateral. No Capítulo 6, discutimos a ideia
de informação assimétrica.
Uma situação na qual alguma das partes envolvidas em uma transação econômica possui mais informações que
as outras é definida como assimétrica.
Os mercados podem não alcançar resultados eficientes quando o consumidor tem de submeter-se a um fabricante mais
informado. Vamos desenvolver essa ideia um pouco mais com um exemplo simples. Quando a maioria dos consumidores vai a
uma loja de música para comprar um CD, eles têm informação suficiente para tomar uma decisão racional. Quando eles
contratam os serviços de um construtor, a situação é frequentemente muito diferente. Neste caso, os compradores não sabem
exatamente o que eles querem alcançar — mas eles têm que contar com a experiência e com as recomendações do construtor
para especificar o que eles precisamente necessitam que seja executado.
Esta situação — em que umas das partes detém a maioria das cartas — é uma causa comum de falhas de mercado. Uma
nova abordagem acadêmica para a análise de mercado está surgindo e foca no acordo contratual entre o ‘chefe’ (ou seja, o
cliente) e o ‘agente’ (o empreiteiro). Este foco na relação chefe-agente questiona o equilíbrio de poder entre o cliente menos
informado e o agente bem informado. O debate fica em torno do âmbito no qual o agente age visando ao interesse do cliente. A
análise desta relação demonstra como as habilidades e a experiência do agente podem levar a uma situação em que um cliente
pode ser enganado. As discussões iniciais sobre esta relação apareceram na economia da saúde: neste contexto, fica claro que o
médico (o agente) possui muito mais informações médicas que o paciente (o chefe). Consequentemente, somos muito
confiantes de que os médicos agem de acordo com nossos interesses.
A análise chefe-agente pode ser igualmente aplicada no contexto da construção — para gerentes de projeto, engenheiros e
arquitetos. Muitos projetos de construção de grande escala são tecnicamente complexos e não são facilmente compreendidos
por leigos. Embora os custos de uma escolha equivocada possam não parecer tão terríveis como nos casos médicos, eles são
igualmente difíceis de reverter. Por exemplo, se os clientes ou compradores de um grande empreendimento desejam reduzir o
impacto ambiental do processo de construção, eles são completamente dependentes da perícia dos empreiteiros para alcançar
esses resultados. É bem possível que o uso da energia não seja tão eficiente quanto poderia ser, ou que o desperdício não seja
minimizado conforme solicitado. O ‘agente’ contratado nem sempre age de acordo com os interesses do cliente, e ele é capaz
disto devido ao conhecimento incompleto do ‘chefe’.

Pontos-Chave 10.1
A falha de mercado ocorre sempre que as forças livres de oferta e demanda superalocam ou subalocam
recursos para uma atividade econômica específica. Exemplos parecem estar muito difundidos em todo o
meio ambiente.
Três razões para a falha de mercado são (a) externalidades, (b) problema do free-rider e (c) informação
assimétrica.

INTERVENÇÃO GOVERNAMENTAL E FALHA DE MERCADO


Os governos intervêm de diversas formas para corrigir as falhas de mercado. Historicamente, a preferência tem sido pela
correção por meio da legislação, porém cada vez mais a correção é procurada pela influenciação de preços e pela informação.
Alguns exemplos típicos são esboçados na Tabela 10.1. Isto indica, de modo muito geral, algumas das abordagens utilizadas
para lidar com tipos diferentes de falhas de mercado. Como a imprensa os descreve, as abordagens da vara, da cenoura e do
pandeiro desempenham um papel importante. Para esclarecer o que isso significa, nas próximas seções discutiremos algumas
das abordagens utilizadas pelo governo para resolver cada uma das três causas de falhas de mercado, antes de passar a verificar
sua eficácia.
Tabela 10.1 Políticas do governo para lidar com as falhas de mercado

Falha de mercado Instrumentos Despesas públicas Publicidade e Regulamentações


baseados no informação governamentais
mercado

Externalidades Taxa de descarte de   Análise de custo- Legislação relativa à


negativas resíduos benefício qualidade da água

  Taxa de energia      
comercial

  Taxa de exploração      
de agregados

Problema do free-   Fornecimento de   Legislação de


rider bens públicos proteção ao habitat
e às espécies

    Benefícios fiscais    
para
descontaminação

Informação Acordo verde   Certificado de Normas de


assimétrica desempenho construção
energético

      Faturamento Códigos para casas


detalhado sustentáveis

Impostos do Governo
O governo do Reino Unido atualmente coleta em torno de R$ 2,4 trilhões em impostos a cada ano. A maior parte é obtida de
taxas sobre os rendimentos pessoais e lucros das empresas, e uma quantia relativamente menor é levantada de taxas ambientais
como aquelas cobradas sobre os resíduos, uso de carbono, poluição, e assim por diante. Entretanto, o sistema de tributação está
evoluindo do simples recolhimento de fundos para a prestação de serviços públicos essenciais para os padrões de alteração de
despesas privadas. Como os políticos gostam de dizer, a carga fiscal está começando a se afastar de ‘bens’ como o emprego,
para ‘males’ como a poluição e os danos ambientais. Em resumo, a tributação moderna está sendo utilizada para determinar a
alocação de recursos influenciando o preço final de mercado de um produto ou serviço. Ironicamente, se o incentivo fiscal é
eficaz na mudança de comportamento, então o governo poderia previsivelmente recolher menos impostos como resultado. Por
exemplo, estima-se que a receita corrente de impostos sobre o uso de veículos a motor (impostos fiscais do veículo e sobre o
consumo de combustível) pode cair em 35 %, de R$ 152 para R$ 100 bilhões a cada ano, na medida em que os motoristas
optarem para carros elétricos, híbridos e eficientes em termos de combustível. Em outras palavras, com base nos incentivos
fiscais correntes, é esperado que a receita de impostos sobre a indústria automotiva diminua em R$ 52 bilhões por ano até 2029,
embora o nível atual de tráfego nas estradas tenha previsão de aumentar em 50 % no mesmo período (IFS 2012).
Impostos e subsídios que operam por meio do mecanismo de preços para criar um incentivo para a mudança podem ser
descritos como um instrumento baseado no mercado, já que teoricamente esses instrumentos fiscais buscam internalizar
os custos externos no preço de um produto ou atividade. Interessantemente, muitos dos últimos exemplos de impostos
apresentados para reduzir as externalidades negativas referem-se à indústria da construção.

TAXA DE DESCARTE DE RESÍDUOS


A taxa de descarte de resíduos foi introduzida em outubro de 1996. Ela foi estabelecida para fornecer um incentivo para
minimizar o desperdício e promover a reciclagem — para internalizar os custos para a comunidade dos resíduos enviados para o
aterro. Dependendo da natureza do resíduo, o imposto corrente pode ser de até R$ 256 por tonelada para o chamado ‘resíduo
ativo’ que desprende emissões, e R$ 10 por tonelada para os ‘materiais inertes’, como tijolos de concreto e solos escavados não
biodegradáveis. Isto é, potencialmente, uma penalidade significativa, embora no caso da construção a maioria dos resíduos seja
inerte e atraia a taxa mais baixa. Atualmente, pouco mais do que 100 milhões de toneladas de resíduos de construção e
demolição podem acabar como aterros — dos quais 16 % aparentemente são materiais entregues e depois descartados sem uso.
O governo indicou que realizará aumentos anuais contínuos da taxa-padrão do imposto de descarte de resíduos, e espera-se que
ele aumente para R$ 288 por tonelada em 2013.
Embora haja alguma incerteza sobre a quantidade precisa do desperdício na construção, é largamente aceito que a indústria
é a maior produtora de resíduos. Espera-se que o aumento das taxas e metas relativas aos aterros envie um sinal claro para
aqueles que trabalham na construção acerca da necessidade de redução dos custos externos associados ao grande volume de
produtos desperdiçados, bem como forneça um incentivo econômico para o desenvolvimento da reciclagem. De fato, é
interessante observar que a proporção de resíduos que está sendo enviada para os aterros no Reino Unido na realidade diminuiu
11 % entre 2004 e 2008 (DEFRA, 2011).

TAXA DE ENERGIA COMERCIAL


A taxa de energia comercial começou a ser aplicada em abril de 2001. É basicamente um imposto sobre o uso comercial da
energia, e ele cobre o uso da eletricidade, gás, carvão e gás liquefeito de petróleo (GLP) utilizados pelo setor não doméstico. A
cobrança é imposta em cada conta de energia da empresa, de acordo com a quantidade de quilowatts utilizados. Existem taxas
diferenciadas para diferentes fontes de energia. A taxa é cerca de três vezes maior para eletricidade (R$ 0,02036 por quilowatt-
hora) do que para gás ou carvão (R$ 0,00468 por quilowatt-hora). Essa diferenciação foi estabelecida porque o uso de cada tipo
de combustível cria diferentes níveis de emissões de gases do efeito estufa. A cobrança aumentou os custos com energia no
setor comercial em 10 a 15 %.
O propósito da taxa de energia comercial é estimular as empresas a internalizar — ou seja, pagar — pelas externalidades
negativas associadas com as emissões dos gases do efeito estufa das quais são responsáveis pela geração. As empresas que
utilizam tecnologias energéticas ambientalmente corretas, como sistemas fotovoltaicos, biocombustíveis e energia eólica, ou
sistemas de cogeração de energia, estão isentas da cobrança. As indústrias, mineradoras e empresas de serviços, foram as mais
atingidas pela introdução dessa arrecadação. Ironicamente, o impacto na indústria da construção poderia ser benéfico: a taxa
estimula as empresas a utilizar a energia de forma mais eficiente, e como todas as empresas ocupam edifícios, a experiência da
indústria da construção poderia ajudar a implementar escritórios e fábricas mais eficientes energeticamente e, portanto, reduzir
os custos com energia.

TAXA DE EXPLORAÇÃO DE AGREGADOS


A taxa de exploração de agregados entrou em vigor em abril de 2002. Este é o imposto aplicado à exploração comercial de
pedras, areias e cascalhos. Ele se aplica às importações de agregados, bem como aos agregados extraídos no Reino Unido.
Exportações de agregados não estão sujeitas à cobrança. O propósito dessa taxa é fornecer às empresas que operam no Reino
Unido um incentivo para comparar os custos totais — incluindo todas as externalidades negativas — de utilizar agregados
virgens com os custos da utilização de materiais alternativos ou reciclados.
Para explicar de outra maneira, o imposto foi estabelecido para reduzir o barulho e as marcas associados à exploração de
pedreiras. Esses custos ambientais não podiam continuar sendo ignorados, e a cobrança é destinada a encorajar o poluidor a
pagar. A intenção é que a indústria da construção reduza sua demanda por materiais primários por meio da reciclagem tanto
quanto possível e pela redução do desperdício no canteiro. Os principais beneficiados com a remoção dessas externalidades
negativas seriam aqueles que vivem perto das pedreiras. E é interessante observar que suas opiniões foram solicitadas em uma
pesquisa preparatória que estabeleceu o nível inicial da taxa de exploração de agregados em R$ 6,4 por tonelada. Até 2012 ela
aumentou marginalmente para R$ 8 por tonelada, e em abril de 2013 haverá uma nova revisão para R$ 8,4 por tonelada. A
determinação de um valor exato para os custos ambientais da extração em pedreiras será examinada no próximo capítulo.

Despesas Públicas
A segunda área identificada como uma causa da falha de mercado refere-se ao problema do free-rider. O problema básico aqui
é excludente. Os benefícios de alguns produtos ou serviços — devido à sua própria natureza — não podem ser excluídos dos
não contribuintes. Até mesmo os defensores do livre mercado, de Adam Smith a Milton Friedman, reconheceram que existem
alguns poucos produtos e serviços que o mecanismo de mercado não fornece de forma eficaz. Estes são geralmente
denominados bens públicos.
A fim de explicar a natureza precisa dos bens públicos, é útil começar pela outra extremidade do espectro e esclarecer a
definição de bens privados. Na realidade, até agora neste texto, os bens privados estiveram no coração da análise. Discutimos
principalmente as atividades de empreiteiros privados que fornecem produtos e serviços privados. Esses produtos privados (e
serviços) são distinguidos por dois princípios básicos. Um pode ser denominado princípio da rivalidade, isto é, quando o
consumo de um usuário reduz a oferta disponível para os outros. Por exemplo, quando eu utilizo os serviços de um encanador,
ele não pode estar trabalhando ao mesmo tempo no seu sistema de água e aquecimento. Competimos pelos serviços do
encanador; somos rivais para esse recurso. Os serviços dos encanadores são, portanto, precificados de acordo com os nossos
níveis de demanda e com a oferta disponível do tempo deles, e o sistema de preços permite que os encanadores dividam sua
atenção entre os consumidores. Outro princípio que caracteriza um bem privado é o princípio da exclusão. Isto implica
simplesmente que um usuário pode ser impedido de consumir um produto ou serviço a menos que ele pague. Em resumo,
qualquer um que não pague pelo produto ou serviço é excluído. Por exemplo, se uma ponte rodoviária possui um pedágio, então
o elo de comunicação que esta ponte oferece está disponível somente para aqueles que pagarem. Todos os outros são excluídos
pelo mecanismo de preços.
Esses princípios de exclusão ou de rivalidade não podem ser aplicados a bens públicos puros. Eles são não excludentes e
não rivais em suas características. Em livros didáticos, defesa nacional, iluminação pública e representações no exterior são
exemplos comuns de bens públicos puros. Algumas vezes, uma distinção é feita entre bens públicos puros, os quais são tanto
não excludentes como não rivais, e os bens quase (próximos ou impuros) públicos, que não têm essas duas características. A
principal característica dos bens quase públicos é que eles são consumidos em conjunto, porém podem ser excludentes em
alguns aspectos. Por exemplo, acessar uma fonte de gás ou de eletricidade, ou um sistema de posicionamento global, exige o
pagamento de uma taxa de conexão para se beneficiar de uma rede. Desta forma, é possível a aplicação de um sistema de preços
discriminatórios e a prestação de tais serviços como um tipo de bem privado.
Há, portanto, certo número de características distintivas de bens públicos que os separam dos bens privados normais, e
estas estão retratadas na Figura 10.1, a qual apresenta um espectro que contrasta as características dos bens públicos puros
contra aquelas que tipificam os bens privados puros. Desenvolvendo a Figura 10.1, podemos descrever os bens públicos em
mais detalhes, da seguinte maneira.
• Os bens públicos puros são geralmente indivisíveis, e estes produtos não podem ser fabricados ou vendidos em pequenas
quantidades.
• Os bens públicos podem ser utilizados por um número crescente de pessoas sem nenhum custo adicional; tanto o custo de
oportunidade quanto o custo marginal de mais de um usuário são normalmente zero.
• Usuários adicionais de bens públicos não privam os outros dos benefícios.
• É muito difícil cobrar as pessoas por um bem público com base na quantidade utilizada, e eles não podem ser comprados ou
vendidos no mercado.

Figura 10.1 Um espectro dos bens econômicos

BENEFÍCIOS FISCAIS
Os bens públicos superam a falha dos mercados em fornecer produtos ou serviços que geram benefícios externos. Em outras
palavras, eles habilitam que os governos interfiram para fornecer recursos que as forças de mercado poderiam de outro modo
subalocar. Igualmente, o governo poderia proporcionar incentivos fiscais ou subsídios para estimular o setor privado a inovar de
uma maneira que beneficie a sociedade como um todo, tanto agora, quanto, de forma ainda mais importante, no futuro. Existem
diversos incentivos fiscais e subsídios para encorajar a pesquisa e o desenvolvimento em todos os setores. Por exemplo,
pesquisadores estão sendo incentivados a conceber formas de limpar solos contaminados a partir da prestação de um crédito
fiscal de 150 % para os custos incorridos.

REGULAMENTAÇÃO, PUBLICIDADE E INFORMAÇÃO


Em cada uma das ações corretivas descritas até agora, as empresas têm sido estimuladas a reduzir a incidência de danos
ambientais, seja respondendo a sinais de preços modificados que incluem os custos ambientais, seja com a atitude do governo
em assumir a responsabilidade pelo fornecimento de bens públicos ou do pagamento de subsídios por meio de incentivos
fiscais. Em contrapartida, outro conjunto de opções seria o governo definir normas regulamentadoras ou usar sua autoridade
para fornecer informações que auxiliem na tomada de decisão. Como esses regimes são relativamente menos propensos a elevar
os custos das empresas, eles são considerados instrumentos bastante ineficazes. Porém, em alguns casos, existem poucas opções
alternativas, e esses mecanismos continuam tendo um papel a desempenhar.

REGULAMENTAÇÕES GOVERNAMENTAIS
Na história das intervenções do governo nos mercados existem mais exemplos de regulação do que qualquer outra coisa. Esta
generalização não se aplica somente a regulamentos destinados a melhorar os mercados no setor da construção, mas também à
economia como um todo. Nesta seção, portanto, poderíamos abordar todos os tipos de falhas de mercado, como regulamentos
relativos a patentes e comércio justo. Entretanto, vamos nos concentrar naquelas relativas a problemas de informação
assimétrica.
Para começar com um exemplo que tem muitas implicações em todo o setor imobiliário e de construção, é
responsabilidade do governo evitar que as empresas recusem a responsabilidade pelo impacto ambiental de seus produtos e
serviços. Isto parece ser particularmente importante, pois estamos cada vez mais conscientes de que o meio ambiente precisa ser
conservado, a qualidade da água precisa ser mantida, as emissões de carbono precisam ser reduzidas, locais de interesse
científico protegidos, e as normas de construção seguidas. A legislação desse tipo está bem estabelecida — por exemplo, o
sistema atual de regulamentações de planejamento tem uma história de mais de 50 anos, e o conjunto de normas de
construção tem mais de 25 anos.
De acordo com o Ato da Construção de 1984, normas de construção podem ser elaboradas na Inglaterra e no País de Gales
para os fins de assegurar a saúde, segurança, bem-estar e conforto das pessoas dentro e em torno das edificações, para promover
a conservação de combustíveis e energia, e para evitar o desperdício. A responsabilidade pelo cumprimento das normas cabe
aos construtores e projetistas. O objetivo é garantir ao público que certo nível de precisão tecnológica foi alcançado em qualquer
obra e os impactos ambientais reduzidos.
As normas de construção (ou códigos, como por vezes são denominadas) definem uma linha de base de padrões mínimos
esperados da indústria. Como tais, elas ficam atrás dos padrões impostos pelos conjuntos de normas equivalentes em muitos
outros países do norte europeu. Este é particularmente o caso da eficiência energética, à medida que, embora as normas de
construção sejam continuamente revisadas e atualizadas, uma quantidade impressionante de energia poderia ser economizada,
indo-se além dos padrões mínimos estabelecidos nas normas. O novo código para casas sustentáveis é um impulso nesta
direção, que se destina a melhorar as 2006 normas de construção, aumentando a eficiência energética em 25 % até 2010, 44 %
até 2013, e finalmente, atingindo um padrão de energia de emissões de carbono zero até 2016 (DCLG 2008).

PUBLICIDADE E INFORMAÇÃO
A informação é colhida pelo governo na tentativa de apoiar e influenciar as decisões de mercado. Esta abordagem é
particularmente importante quando os mercados carecem de transparência devido a problemas de informações assimétricas. Os
exemplos assumem diversas formas, da simples coleta de dados a uma campanha governamental para aumentar a
conscientização ou divulgar resultados, por meio de requisitos legais para recolher informações de modo a suportar uma
transação de mercado. Seguem-se dois exemplos contrastantes desse tipo de iniciativa.
O Carbon Trust foi estabelecido pelo governo do Reino Unido em 2001 para promover uma maior conscientização das
oportunidades de negócios relacionadas a tecnologias de baixo carbono e retrofits. Sua missão é ‘ajudar os governos,
companhias e as organizações do setor público a alcançar os benefícios do crescimento econômico e da redução do carbono’.
Ele se orgulha de nos seus primeiros dez anos ter ajudado clientes a economizar mais de R$ 14,8 bilhões em custos de energia e
reduzir as emissões de carbono em 38 megatoneladas (Carbon Trust, 2011: 2). Endossando essas conquistas, uma revisão
realizada pelo National Audit Office confirmou que o Carbon Trust é útil para ajudar a reduzir as emissões de gases do efeito
estufa (NAO, 2007a: 5). Apesar deste registro, o Carbon Trust não foi isento de cortes do governo e, daqui para frente, pode
apresentar alguns novos desafios. Porém, seu propósito inicial continua representando um bom exemplo de uma organização
apoiada pelo governo ajudando a sociedade a evitar a inércia e a ignorância no que diz respeito ao seu desempenho ambiental, e
encorajando a existência de mercados de energia mais transparentes e eficientes.
O governo também pode escolher legislar sobre o nível e a qualidade da informação exigida para apoiar uma transação de
mercado. Um bom exemplo deste tipo de intervenção é a exigência europeia de que um certificado de energia deve ser emitido
antes de um edifício ser vendido ou alugado. Por exemplo, no Reino Unido é uma exigência legal que cada edificação
(comercial ou residencial) que esteja no mercado para a venda ou aluguel seja examinada para que a pessoa interessada em
ocupá-la possa ter alguma indicação de quanto pode custar o aquecimento e a iluminação, e que melhorias de baixo custo
poderiam ser feitas para alcançar uma melhor classificação. Estes certificados de desempenho energético (CDEs) fornecem aos
ocupantes informações sobre como fazer para que suas casas ou escritórios sejam mais eficientes energeticamente e como
reduzir os custos de serviços. Embora esta medida tenha sido tomada para aumentar a confiança nas questões de eficiência
energética, não há exigência jurídica para que se aja conforme as recomendações do relatório que acompanha o certificado
energético.
Idealmente, essas campanhas e a legislação para aumentar o fluxo de informação deveriam criar uma maior simetria entre
as expectativas dos consumidores e o conhecimento dos fornecedores, conduzindo a uma alocação de mercado mais eficiente e
mais justa. Também é possível para as medidas de informação reforçarem os objetivos de novos incentivos fiscais. Por
exemplo, informação sobre gases do efeito estufa podem ajudar as pessoas a reagir positivamente a impostos sobre o carbono
que o diferencia entre as fontes de combustível, e as recomendações que vêm com o CDE podem levar as pessoas a aproveitar
as oportunidades do Green Deal discutidas no Capítulo 9. Desta maneira, a melhoria dos serviços de informação deve aumentar
a confiança e proporcionar mercados mais eficientes.

Pontos-Chave 10.2
Os governos podem utilizar diversos dispositivos para corrigir a falha de mercado. Isto inclui impostos para
internalizar as externalidades, o fornecimento de bens públicos para superar o problema do free-rider, e
publicidade e legislação para reduzir os problemas associados aos fluxos imperfeitos de informação.

A INTERVENÇÃO DO GOVERNO É EFICAZ?


A hipótese de que a alternativa para um mercado deficiente é um governo brilhante está errada. Os governos podem falhar
também. Diversas das medidas corretivas que discutimos têm problemas. Estes estão brevemente resumidos na Tabela 10.2 e
examinados posteriormente nesta seção.

Problemas de Medição
Os esforços do governo para minimizar as externalidades negativas exigem medições. O princípio do poluidor pagador é
muito bom, contanto que as partes culpadas sejam fáceis de identificar e que seja possível determinar um preço justo para que
elas paguem. Dado que muitas externalidades se manifestam em questões ambientais globais e nacionais e incluem bens livres
— como o ar, a camada de ozônio, o ambiente, a flora, hidrovias, e a paz e o sossego —, sua medição (e avaliação) causa
problemas intermináveis.

Tabela 10.2 Falha de mercado e intervenção governamental

Causa da falha de mercado Exemplo de intervenção Natureza do problema

Externalidades Impostos e taxas Medição

Problema do free-rider Bens públicos Créditos fiscais Carga tributária

Informação assimétrica Campanhas publicitárias Normas de Aplicação


construção

Para analisar esses problemas, é útil considerar a Figura 10.2. Aqui temos a curva de demanda D e a curva de oferta S para
o produto X. A curva de oferta inclui somente os custos privados (internos à empresa). Deixado livre para agir, o livre mercado
encontrará seu equilíbrio a um preço P e uma quantidade Q. Assumiremos, entretanto, que a fabricação do produto X envolve
externalidades que não são contabilizadas pela empresa privada. Essas externalidades poderiam ser a poluição do ar, destruição
do cinturão verde, poluição sonora ou qualquer custo de vizinhança. Sabemos, portanto, que os custos sociais de fabricar o
produto X excedem os custos privados. Isso pode ser ilustrado pelo deslocamento da curva de oferta para a esquerda, uma vez
que isto indica que, teoricamente, os custos de fabricação de cada unidade são mais elevados. (Você deve se recordar, do
Capítulo 5, que alterações em determinantes de preço ou não determinantes de preço — como um imposto — são representadas
de formas diferentes em análises gráficas. Revise os Pontos-Chave 5.3 para maiores esclarecimentos.)

Figura 10.2 Internalização dos custos externos


Apresentamos a demanda e a oferta para X da maneira normal. A curva de oferta S representa o somatório dos custos
privados, internos à empresa que fabrica o produto X. A curva à esquerda, S1, representa os custos totais (sociais) de
produção. As setas cinza indicam os custos externos que foram adicionados. Na situação incorreta, o equilíbrio é Q, P. Após
a imposição de um imposto (P1 – P), o equilíbrio correto seria Q1, P1.

O gráfico destaca o fato de que os custos de produção estão sendo pagos por dois grupos. Ao preço mais baixo P, a
empresa está pagando somente pelos insumos privados necessários. A diferença entre o preço mais baixo P e o mais elevado P1
é a quantia paga pela sociedade — os custos externos. Para que estes custos externos fossem internalizados, o governo
precisaria introduzir um imposto igual a P1 – P. Isto resultaria em uma menor quantidade de recursos sendo alocados nesta
atividade — com menor demanda e oferta Q1 — já que o imposto conduziria ao aumento dos preços e forçaria os potenciais
compradores a levar em consideração os custos impostos sobre os outros.
É fácil observar que, em um mercado irrestrito, os custos externos não são pagos e os recursos são superalocados para uma
produção ambientalmente prejudicial. Um imposto ajudaria a mitigar o problema, mas as questões práticas quanto ao valor do
imposto e quanto a quem irá ser tributado com a despesa são difíceis de resolver.

Carga Tributária
Como já explicamos, bens públicos puros não seriam devidamente fornecidos por uma estrutura de mercado por causa do
problema do free-rider. Por motivos semelhantes, bens quase públicos também seriam subalocados. O incentivo para contribuir
com o custo de produção de bens públicos é muito reduzido devido ao conhecimento de que cada indivíduo vai ser beneficiado
potencialmente, independentemente de sua contribuição. Em decorrência, a maioria dos governos intervém para fornecer
produtos e serviços como a lei e a ordem, representações no exterior, infraestrutura e gestão ambiental. A demanda simultânea
por estradas, túneis, pontes, prisões e quartéis de bombeiro e de polícia, embaixadas no exterior, áreas de lazer, sistemas de
controle de inundações etc. esclarecem como os governos se tornaram clientes tão importantes da indústria da construção. De
fato, no Reino Unido estima-se que as despesas do setor público, em termos de valores, respondem por aproximadamente 40 %
dos negócios feitos por empresas de construção (Cabinet Office, 2011: 5).
A desvantagem para este nível de compromisso é o custo, especialmente na medida em que a maior parte dos produtos que
o governo fabrica é fornecida aos consumidores finais sem troca direta de dinheiro. Obviamente, isto não significa que o custo
desses produtos para a sociedade é nulo; significa apenas que o valor ‘cobrado’ é nulo. O custo de oportunidade total para a
sociedade é o valor dos recursos utilizados na fabricação de produtos fornecidos pelo governo. Por exemplo, embora ninguém
pague diretamente por unidade de consumo de defesa ou proteção ambiental, todos pagam indiretamente por meio dos impostos
que financiam as despesas do governo.
No Reino Unido, o governo arrecada algo em torno de R$ 2,4 trilhões em impostos todos os anos. Os gastos com a lei e a
ordem, com a defesa, com o meio ambiente, com cooperação internacional e com transportes são responsáveis por
aproximadamente 25 % dessas despesas. Na realidade, o cidadão médio no Reino Unido tem que trabalhar do dia 1o de janeiro a
março ou abril somente para pagar todos os seus impostos diretos.
Essa carga tributária é claramente uma parte significativa da renda de qualquer cidadão, e levanta algumas das questões
mais espinhosas que qualquer governo tem de enfrentar. No Reino Unido, e em grande parte do mundo desenvolvido, as
despesas públicas cresceram relativamente descontroladas até que a crise financeira, que se iniciou por volta de 2008, colocou o
problema em foco. Agora, muitos governos estão exercendo cortes ‘austeros’ na tentativa de atender a regra de ouro — a
qual, em termos simples, significa que os governos não permitem mais que as despesas correntes excedam as receitas correntes.
A regra de ouro constitui um elemento central da política do governo e sua função será discutida no Capítulo 12.

Problemas de Aplicação
O sucesso de qualquer política de governo não pode depender unicamente de um forte argumento teórico. Apoio político, apelo
eleitoral e sorte são igualmente importantes. Em outras palavras, só porque um governo debateu cuidadosamente e aprovou no
parlamento uma nova política, lançou uma campanha publicitária ou deu início a outro conjunto de normas, isto não garante
automaticamente o sucesso.
Medidas baseadas em regras, como regulamentos, criam toda uma série de custos associados. Há os custos devidos à
implementação, aplicação e administração da legislação. Por exemplo, as normas de construção (ou códigos) são planejadas
para definir os padrões mínimos, como, por exemplo, quanto isolamento deve ser utilizado, que tipos de janelas devem ser
instaladas e quão eficiente o aquecedor deve ser. Até o momento, nenhum construtor foi processado por descumprimento!
Esse fato bastante surpreendente foi notícia em 2011 quando Andrew Stunnell, o ministro do governo responsável por
normas de construção, criticou os construtores pela sua incapacidade de construir segundo os padrões exigidos. Seus
comentários destacaram as diferenças existentes entre a energia prevista e a realmente utilizada em novas casas, projetadas a
partir de vários estudos detalhados. Por exemplo, um estudo de 15 casas de baixo carbono relatou perdas de energia através da
estrutura de cerca de 70 % maiores que o previsto (Bell et al., 2010). Estudos semelhantes por todo o Reino Unido sugeriram
que as lacunas entre as perdas de calor medidas e previstas variam consideravelmente, de um caso em que os resultados foram
realmente melhores que o esperado em 1 % até um número significativo de moradias em que a perda de calor era 120 % maior
que a prevista nas especificações de projeto (GHA, 2011). Problemas equivalentes, mas em maior escala, são catalogados para
edifícios comerciais pelo CarbonBuzz (consulte o Capítulo 9). Edifícios testados para o cumprimento das normas de ventilação
também falharam em atender às novas exigências. A diferença entre o desempenho previsto e o real — referido como o
intervalo de desempenho — é um problema cada vez mais reconhecido. Ele sugere que os construtores não podem manter-se
com os rigorosos padrões exigidos na construção.
Isto levanta questões acerca do sistema atual de controle de edificações. O sistema se tornou mais prescritivo e complexo.
Normas de construção estão sujeitas a revisões frequentes. Entretanto, essas normas especificam como fazer as coisas, mas não
o que alcançar; elas tendem a mensurar mais os insumos do que a produção. Conforme uma análise do governo intitulada The
Future of Building Control (O Futuro do Controle da Construção) reconheceu, ‘o sistema não está quebrado, mas ele possui
sérias falhas e fraquezas que devem ser combatidas se quisermos garantir que ele permaneça adequado a seus propósitos no
mundo de hoje e no futuro’ (DCLG, 2007: 5).
Mesmo quando os códigos de construção são aplicáveis, os regulamentos proporcionam poucos incentivos para ser
inovador. Na verdade, tem-se argumentado que é a natureza fortemente regulamentada da atividade de construção que explica
as atitudes conservadoras que caracterizam a indústria. Há normalmente pouco incentivo para ir além dos padrões; assim, as
empresas de construção típicas fazem somente o mínimo exigido. Poucos construtores excederão os padrões estabelecidos nas
normas, a não ser que um cliente informado solicite algo especial. Semelhantemente, se os governos contam com campanhas
publicitárias para mudar as atitudes, no lugar de aumentar os custos de produção, então todas as empresas, de construção ou de
outros setores, não têm nenhum incentivo real para evitar a utilização de produtos e métodos poluentes.
As empresas podem melhorar o desempenho. Alguns exemplos excepcionais de projetos de recursos potencialmente
eficazes foram dados no Capítulo 9 (consulte, por exemplo, a Tabela 9.4). Sugere-se que em vários casos é possível exceder o
desempenho tradicional em fatores de 4 e 5. Mas, em termos gerais, a indústria da construção sofre de inércia, e não é
particularmente inovadora ou sustentável.

Pontos-Chave 10.3
Um método para internalizar os custos externos é estipular um imposto. Porém, é difícil estabelecer taxas de
impostos de modo que o poluidor pague a quantia correta.
Para superar os problemas de alocação de recursos, os governos normalmente fornecem uma gama de bens
públicos. Inevitavelmente, estes criam uma série de custos associados, que são, em última análise,
financiados pelos contribuintes.
Somente porque um governo tem alguns procedimentos regulamentares carimbados ou porque lançou uma
campanha publicitária, isto não significa que automaticamente melhores práticas serão executadas de
modo eficaz ou introduzidas voluntariamente.

FALHA DO GOVERNO
Para concluir este capítulo, devemos reconhecer que a falha de mercado não pode ser simplesmente remediada por uma ação do
governo — ou seja, governos perfeitos não resolvem mercados imperfeitos. Na verdade, textos de economia moderna também
reconhecem a ocorrência da falha do governo.
A falha do governo é compreensível, uma vez que o processo político por sua própria natureza é suscetível de ser
ineficiente na alocação de recursos. Quando preferências são expressas por meio do mecanismo de mercado, o preço obriga que
os indivíduos absorvam a maior parte dos custos e dos benefícios. Os políticos, entretanto, alocam os recursos mais na base do
julgamento. Julgamentos públicos são muitas vezes distorcidos pela falta de incentivos financeiros, lacunas na informação e
pressões aplicadas por diferentes grupos de interesses que precisam ser reconhecidos para a reeleição.
A base desta ideia é derivada de um ramo da ciência econômica e política conhecido como teoria da escolha pública.
Esta estuda a forma como as decisões do governo são tomadas, partindo da premissa de que os políticos são basicamente
guiados pelo desejo de agradar a seus apoiadores e serem reeleitos. Isto faz com que os ministros do governo estejam mais
preocupados com o que eles dizem do que com o que eles fazem. Muitos anúncios ministeriais grandiosos se demonstraram
difíceis de implementar. Como um ex-ministro da construção comentou em retrospecto: ‘em muitos casos, a conclusão é que a
política é impraticável, e após um discreto período de silêncio, ou uma implementação abortiva, ela está calmamente morrendo’
(Raynsford, 2012).
Há também a preocupação sobre a atividade de corrupção mais explícita no setor público. A corrupção é evidente quando
políticos eleitos e funcionários públicos agem de forma a conseguir ganhos pessoais a partir da exploração do poder a eles
confiado. Exemplos típicos são a aceitação de pagamento por informação, o desvio direto de recursos públicos e o recebimento
de propinas em relação aos contratos públicos. Desde a metade da década de 1990, a Transparency International (Transparência
Internacional), uma organização não governamental baseada em Berlim, vem monitorando e divulgando o suborno e a
corrupção no setor público em 180 países. Seus índices anuais de suborno e corrupção sugerem que há um alto nível de
atividade de corrupção em relação a projetos de construção por todo o mundo. Traçamos alguns comparativos no Capítulo 13.
Mesmo em nações relativamente não corruptas, a escala de gestão de um país a partir do centro é problemática. Existem
problemas de distribuição, medição, aplicação e financiamento. Esses problemas conduzem a um uso ineficiente e
desperdiçador de recursos. Na verdade, quanto mais ampla e detalhada se torna uma intervenção, menos provável os benefícios
justificarem os custos.
Consequentemente, tem havido uma tendência a acreditar que os mercados poderiam fornecer meios mais eficientes e
equitativos de alocação de recursos naturais, particularmente na medida em que os sistemas de governo tendem a se tornar
burocráticos, inflexíveis e excessivamente caros para se executar. Além disso, na medida em que a intervenção do governo
aumenta, a liberdade individual é reduzida e o espírito competitivo diminui. Na verdade, a ideia de menor intervenção do
governo é parte das razões para os cortes do setor público (os denominados pacotes de austeridade) introduzidos por toda a
Europa como uma reação à crise financeira do final dos anos 2000.
A tendência atual, portanto, é fornecer incentivos através do sistema de mercado e sempre que possível reduzir a escala de
intervenção do Estado. Isto significa que os impostos ambientais e outros instrumentos econômicos provavelmente continuarão
a ser as principais ferramentas utilizadas para alcançar o progresso ambiental. O quão longe essa tendência deve continuar é
discutível, pois não é apenas uma questão de eficiência econômica, mas política também.

Pontos-Chave 10.4
A falha de governo é um fenômeno recentemente reconhecido. Este sugere que a intervenção por meio de
iniciativas políticas não melhora necessariamente a eficiência econômica.
A falha de governo é causada por diversos fatores, como falta de bom senso, falta de informação, incentivos
inadequados, escala do problema e, em alguns casos, corrupção.
__________
*
Em português, pode ser denominado como “problema do carona”; porém, o termo mais utilizado é seu equivalente em inglês. (N.T.)
Os economistas gostam de proceder a partir de um quadro modelo para simplificar a realidade e criar um ponto de referência
para suas análises específicas. Por muitos anos, entretanto, os modelos utilizados pelos principais economistas tendiam a
negligenciar as interações entre a economia e o meio ambiente. Os benefícios da atividade econômica eram exagerados e
contabilizados, enquanto os custos ambientais eram ignorados. Apresentamos esta principal distinção quando discutimos o ciclo
de vida do produto no Capítulo 9. Entretanto, sugerimos que o meio ambiente não pode ser ignorado, uma vez que fornece os
recursos no início do ciclo de vida do produto e absorve os resíduos no final do ciclo. Esta importante vertente do pensamento
econômico começou a ganhar credibilidade na década de 1960, traçando uma importante linha divisória entre as economias
ambiental e neoclássica (consulte os Pontos-Chave 9.3).
O significado do meio ambiente para as empresas de todos os tipos é representado de forma sucinta no diagrama de fluxo
na Figura 11.1. O ambiente é a base que fornece recursos renováveis e não renováveis que permitem o início da produção. Na
outra extremidade da vida do produto, também se espera que o ambiente absorva os resíduos gerados. (O ambiente também
pode oferecer oportunidades, como uma comodidade, para diversas atividades de lazer.) O processo é fácil de exemplificar no
setor da construção, já que a indústria consome recursos e gera resíduos em uma escala que ofusca completamente os outros
setores da economia.

Figura 11.1 Meio ambiente: início e fim

Em primeiro lugar, é o meio ambiente que fornece o terreno no qual os edifícios e a infraestrutura estão localizados. Segundo, é
o meio ambiente que fornece muitos dos recursos utilizados para produzir materiais de construção. Conforme admitido no State
of the World Report (Relatório sobre a Situação Mundial), a indústria da construção consome mais de um terço dos recursos
globais, mais de 10 % de toda a água doce e é responsável por 30 a 40 % dos resíduos sólidos. Os edifícios também são
responsáveis por 25 a 40 % de toda a energia utilizada e aproximadamente 30 a 40 % das emissões globais de gás carbônico
(Taipale, 2012). Finalmente, mas não menos importante, é também o ambiente que por fim é responsável por absorver e
processar os resíduos que surgem a partir das diversas etapas do processo de construção até a demolição. Em outras palavras,
sem o meio ambiente não haveria recursos para a construção e nem maneiras de gerenciar os resíduos decorrentes dos processos
envolvidos na manutenção dos edifícios e de sua infraestrutura.
Neste capítulo, nos concentramos especificamente nas maneiras pelas quais o meio ambiente e a economia interagem, e
exploramos três importantes áreas conceituais que caracterizam a economia ambiental. Estas são o modelo de balanço de massa,
custos privados contra custos sociais, e valoração ambiental.

MODELO DE BALANÇO DE MASSA


O modelo de balanço de massa tornou-se uma referência introdutória padrão para novos estudantes de economia ambiental. Este
se concentra na energia utilizada e desperdiçada pela atividade econômica. A primeira lei da termodinâmica fornece um ponto
de partida. Esta lei explica a ‘física’ da atividade econômica, uma vez que afirma que não podemos destruir a matéria, mas
somente transformá-la. Qualquer recurso extraído do meio ambiente deve ser devolvido a ele de uma forma ou de outra — o
que entra deve sair.
O modelo transmite o processo de produção como a transformação de certo número de insumos em determinado número
de produtos. Alguns produtos podem ser valorizados positivamente, mas outros serão indesejados e de valor negativo. Em
outras palavras, toda atividade econômica resulta em um produto desejado (o produto ou serviço convencional) mais um
produto indesejável (como a poluição). Por exemplo, quando argila e areia são combinadas e aquecidas a altas temperaturas por
vários dias obtêm-se diversos produtos: os tijolos convencionais ou desejados, e as partículas indesejadas de carbono e dióxido
de enxofre. Em resumo, apresentamos dois conceitos relacionados: o princípio da produção conjunta, que destaca como
qualquer atividade econômica inevitavelmente produz diversos tipos de produtos; e o modelo de balanço de massa que
trabalha com a premissa de que a matéria não pode ser criada ou destruída. O conceito de produção conjunta é derivado da
economia clássica e do modelo de balanço de massa da ciência física. Seu significado geral para os economistas ambientais é
enfatizar que tudo está ligado a todo o resto.
A Figura 11.2 apresenta a ideia básica por trás do modelo de balanço de massa, de que a massa dos insumos materiais em
uma economia é equilibrada pela massa dos produtos e resíduos que estão deixando o sistema. Em outras palavras, há
equivalência entre a massa dos insumos (matérias-primas) fluindo para dentro de um sistema e a massa da produção (produtos e
resíduos) fluindo para fora dele — daí o termo balanço de massa.

Figura 11.2 O modelo de balanço de massa


O balanço de massa para toda a economia é representado pelos fluxos: A = B + C

No modelo, o ambiente é retratado como tendo uma relação com a economia similar à que uma mãe tem com uma criança
que ainda não nasceu, na medida em que proporciona seu sustento e leva embora os resíduos. Uma perspectiva alternativa é
visualizar o meio ambiente como um grande escudo protetor em torno do sistema econômico. Infelizmente, este escudo é
frequentemente tratado como um bem ‘gratuito’ e foi ignorado pelos economistas tradicionais por muitos anos.
A relevância do modelo de balanço de massa é destacada no Strategy for Sustainable Construction* (HM Government,
2008). Esse relatório observou que a indústria absorve quase um quarto de todas as matérias-primas utilizadas na economia
(uma estimativa de 420 megatoneladas anualmente de um total de 1508 megatoneladas). Isto faz da indústria da construção a
maior usuária de materiais no Reino Unido, e sua eficiência de recursos é, portanto, fundamental para a agenda da
sustentabilidade.
Dados provenientes das primeiras tentativas de auditar os fluxos de recursos na indústria da construção devem esclarecer o
significado da teoria de balanço de massa. Como exposto, a indústria utiliza cerca de 420 megatoneladas de materiais a cada
ano, das quais as novas construções (edifícios, estradas e outras infraestruturas) respondem por aproximadamente 270
megatoneladas. Isso deixa um saldo de 150 megatoneladas de desperdício (quase três toneladas de resíduos de construção per
capita no Reino Unido). Estimou-se que aproximadamente 46 megatoneladas de materiais foram reciclados e, embora esta não
seja claramente uma quantidade adequada, deve-se reconhecer que não é possível quantificar os recursos reutilizados no
canteiro sem processamento, tais como solos escavados que podem ser ‘reutilizados’ como parte de trabalhos de ‘corte e aterro’
no mesmo canteiro (Smith et al., 2003; Forum for the Future, 2006).
Embora a precisão dos dados seja questionável, a magnitude dos valores destaca o importante papel que a indústria da
construção desempenha na economia e seu potencial impacto ambiental. Os governos por toda a Europa estão começando a
levar em conta os fluxos de recursos; atualizações regulares sobre os fluxos de materiais na economia já podem ser encontradas
nas contas ambientais no Reino Unido, atualizadas anualmente. Este monitoramento de dados é parte de um guia do governo
para melhorar a produtividade dos recursos e está claramente relacionado ao alcance do desenvolvimento sustentável.
Os dados e os conceitos decorrentes dos relatórios de balanço de massa devem encorajar as empresas a pensar além dos
tradicionais métodos de produção de uso intensivo de recursos. A ineficiência dos recursos reduz a competitividade, consome os
recursos primários e cria um desperdício excessivo. Em teoria, o desperdício na construção poderia ser reduzido a zero se os
materiais descartados por um empreiteiro pudessem ser utilizados por outro, mas isso exigiria um processo de colocar os dois
juntos. Da forma como é hoje, os empreiteiros tendem a jogar fora materiais valiosos. Evidências anedóticas sugerem que cerca
de R$ 40 milhões poderiam ser economizados a cada ano pelos maiores empreiteiros.
Manter o estoque de capital natural é um pré-requisito fundamental para compreensão e gestão do desenvolvimento
sustentável. E, de acordo com economistas, existem duas abordagens diferentes para atingir este objetivo. Conforme esboçado
no Capítulo 9, a premissa básica da análise econômica neoclássica é que, deixado livre para agir, o mecanismo de mercado
fornecerá os incentivos necessários para estimular soluções tecnológicas para problemas de recursos. Em resumo, a inovação
tecnológica deveria fornecer substitutos para qualquer ‘escassez’ no ambiente. Como resultado, a economia poderia crescer para
sempre. Conforme Robert Solow (1974: 11), um economista premiado com um Nobel, escreveu há mais de 30 anos: ‘É muito
fácil substituir os recursos naturais por outros fatores... O mundo pode, na realidade, passar sem recursos naturais’. Uma velha
frase utilizada para destacar a supremacia do sistema econômico era que a economia poderia ‘crescer em torno de’ alguns tipos
de escassez, tais como problemas de recursos. A tecnologia inventaria um caminho mais fácil! Essa visão tradicionalmente
tecnocêntrica é baseada na abordagem do capital constante, na qual quaisquer reduções nos recursos naturais são
substituídas por aumentos nos ativos artificiais.
Economistas ambientais apresentam as coisas de forma diferente. De acordo com suas análises, a economia e o meio
ambiente são inextricavelmente integrados. O ecossistema e o sistema econômico são vistos como complementares, em vez de
substitutos. De fato, a maioria dos economistas ambientais segue com o modelo de balanço de massa para afirmar que a
economia é um subsistema constrangido pelo ecossistema, uma vez que depende deste último como fonte de matérias-primas e
depósito de resíduos. Esta visão ecocêntrica adota a abordagem do capital natural, que se baseia na premissa de que é
impossível substituir o capital natural com o capital físico. De acordo com Lovins et al. (1999: 158), defensores desse tipo de
abordagem, ‘a produção é cada vez mais limitada devido aos peixes do que devido aos barcos e às redes, por florestas em vez de
motosserras, por solos férteis do que por arados’. Em outras palavras, os fatores materiais que compreendem o ecossistema são
únicos e não podem ser substituídos a nenhum preço.

Mundo Vazio Contra Mundo Cheio


Para fazer uma distinção entre essas duas abordagens contrastantes, é comum que os economistas ambientais apresentem dois
modelos. O primeiro, um sistema aberto, o qual mencionamos na Figura 9.1, em que retratamos os recursos fluindo de forma
linear, sem respeito algum pelos limites impostos pelo meio ambiente. E o segundo, um sistema fechado, mais restrito, no qual
o meio ambiente fisicamente contém e sustenta a economia. Alguns economistas se referem à visão tradicional do sistema
aberto como um modelo de ‘mundo vazio’ para contrastar com o modelo de ‘mundo cheio’, que é o sistema fechado moderno.
A Figura 11.3 é outra forma de ilustrar o modelo de mundo vazio — o subsistema econômico é pequeno em relação ao
tamanho do ecossistema. Isto retrata o passado, quando o mundo estava vazio de pessoas e de capital feito pelo homem, mas
cheio de capital natural.
Em contraste, a Figura 11.4 representa o modelo de mundo cheio, que descreve uma situação mais próxima da atual, na
qual o subsistema econômico é muito grande em relação ao ecossistema. Isto destaca o fato de que, a não ser que mudanças
qualitativas ocorram, o ecossistema será empurrado além dos seus limites. De fato, existem sinais de que este ponto é iminente,
como, por exemplo, aquecimento global, diminuição da camada de ozônio, erosão do solo, perda da biodiversidade, explosões
populacionais e esgotamento de recursos.

Figura 11.3 Mundo vazio


Fonte: Adaptada de Goodland, Daly e El Serafy (1992).

O professor Kenneth Boulding apresentou este contraste de uma forma colorida em seu artigo de 1966, “The economics of
the coming spaceship Earth” (“A economia da futura nave espacial Terra”). Em seu artigo, ele traçou uma analogia entre o
mundo vazio e o mundo cheio. Ele se referiu ao mundo vazio como uma economia cowboy, já que isto caracterizava
efetivamente a visão tradicional dos economistas sobre os recursos da terra — abundantes, ilimitados e capazes de sustentar um
comportamento imprudente, explorador e violento. De forma totalmente contrária, ele se referiu ao mundo cheio do futuro como
a ‘economia astronauta’ — uma única nave espacial, sem nenhum reservatório ilimitado, seja para a extração ou para poluição.
A essência de seu argumento era de que o planeta não deveria ser forçado além de seus limites. Levando esse contraste a sua
conclusão lógica, podemos prever dois tipos de economia: uma economia ineficiente, na qual todos os serviços ecossistêmicos
são tratados como bens gratuitos e utilizados abundantemente, e um sistema econômico eficiente, no qual todos os recursos são
alocados de acordo com o preço. Esta análise claramente destaca os problemas de se perseguir o crescimento tecnológico
ilimitado e constitui um forte argumento a favor de um crescimento sustentável.

Figura 11.4 Mundo cheio


Fonte: Adaptada de Goodland, Daly e El Serafy (1992).

Pontos-Chave 11.1
O sistema econômico e o sistema ambiental são inextricavelmente integrados, uma vez que produtos e
serviços não podem ser fabricados ou consumidos sem que o ambiente forneça recursos no início do ciclo
de vida do produto e absorva os resíduos no final do ciclo.
O modelo de balanço de massa se concentra na energia utilizada e desperdiçada pela atividade econômica.
Isto destaca a natureza intensiva dos recursos de construção e induz a um contraste entre o ‘mundo vazio’
do passado e o ‘mundo cheio’ de hoje.
Existem duas abordagens contrastantes para alcançar o desenvolvimento sustentável: uma baseada em
tecnologia, na qual reduções no capital natural são substituídas por ativos artificiais; e outra que coloca
uma ênfase muito maior sobre a natureza crítica do capital natural.

CUSTOS PRIVADOS CONTRA CUSTOS SOCIAIS


Quando os economistas ambientais falam sobre custos eles caem em três categorias: privados, externos e sociais. Primeiro, há
os custos das ações de um indivíduo que são conhecidos e pagos diretamente. Por exemplo, quando uma empresa tem que pagar
os salários aos funcionários, ela sabe exatamente o custo da mão de obra. Quando ela tem que comprar recursos para iniciar a
produção, ela sabe quanto eles custarão. Semelhantemente, quando os inquilinos têm que pagar o aluguel por seu apartamento,
eles sabem exatamente qual valor será. São os custos diários normais associados à maioria das atividades econômicas
tradicionais; denominam-se custos privados e formaram o foco da Parte A. Esses custos foram formalmente introduzidos no
Capítulo 2 (consulte os Pontos-Chave 2.4). Custos privados são aqueles suportados apenas pelos indivíduos que os incorrem.
São internos no sentido de que a empresa ou família deve explicitamente levá-los em conta.
Segundo, há os custos externos, criados pelas ações de outras pessoas. (Esses custos também foram discutidos
previamente nos Capítulos 2 e 10; assim, reveja os Pontos-Chave 2.4 e 10.1.) Consideramos situações nas quais uma empresa
despeja os resíduos de seu processo de produção em um rio próximo, e outra em que indivíduos causam desordem em uma
praia. Obviamente, há um custo envolvido em cada uma dessas ações. Quando a empresa polui a água, as pessoas rio abaixo
sofrem as consequências, e podem não querer nadar no rio ou beber a água poluída. No caso do lixo comum, as pessoas que
vêm logo após o lixo ter sido despejado são as que arcam com os custos. Os custos dessas ações são suportados por outras
pessoas e não por aquelas que os praticaram. O poluidor não pagou, os custos não foram internalizados; eles são, como
resultado, referidos como custos externos.
Quando somamos os custos externos aos custos internos ou privados, chegamos à terceira categoria — custos sociais
ou totais. Poluição — como todos os problemas pertencentes ao meio ambiente — pode ser vista como uma situação na qual os
custos sociais excedem os custos privados. Porque alguns participantes econômicos não pagam todos os custos de suas ações,
mas somente seus custos privados (mais baixos), suas ações são ‘socialmente inaceitáveis’. Se houver uma divergência entre os
custos sociais e privados de uma atividade específica, podemos observar recursos ‘demais’ alocados nesta atividade. Para citar
apenas um dos muitos exemplos, quando os motoristas entram em seus carros, eles certamente não pagam todos os custos
sociais de dirigir. Eles pagam pela gasolina (que inclui um elemento significativo do imposto sobre os combustíveis),
manutenção, depreciação, pedágios e o seguro de seus carros. Entretanto, eles causam um custo adicional — a poluição do ar —
que eles não são obrigados a contabilizar quando tomam a decisão de dirigir. A poluição do ar gerada pelos escapamentos é um
custo que os motoristas não suportam diretamente, porém esta causa danos a outros indivíduos que sofrem com a
inconveniência das doenças respiratórias, e com roupas e edifícios mais sujos. O custo social de dirigir inclui todos os custos
privados mais os custos externos, como os custos da poluição do ar que a sociedade suporta. Decisões tomadas somente com
base no custo privado, portanto, levam a uma condução ‘demasiada’!

Externalidades
Como vimos no Capítulo 10, quando um custo de mercado privado difere de um custo social, este é um problema de
externalidades — os tomadores de decisão individuais não estão internalizando todos os custos. Em outras palavras, alguns
dos custos permanecem do lado de fora do mercado e são externos ao processo de tomada de decisão. O tomador de decisão
individual é a empresa ou o cliente, e os custos externos (e os benefícios) não entrarão no processo de tomada de decisão
individual ou da empresa. O ponto importante para os economistas ambientais destacarem é que o custo total de utilização de
um recurso escasso é suportado, de uma maneira ou de outra, pela sociedade. Ou seja, a sociedade tem que pagar o custo de
oportunidade total de qualquer atividade que utilize recursos escassos.
É interessante observar o problema da forma como foi apresentado na Figura 10.2. Nesta, utilizamos um gráfico de oferta e
demanda de mercado para enfatizar que a curva de oferta convencional inclui somente custos internos, ou privados.
Consequentemente, o preço de equilíbrio determinado pelo mercado e a quantidade não incorporam as externalidades, uma vez
que estas não são levadas em consideração pelos fabricantes ou compradores individuais. A quantidade produzida é ‘excessiva’,
e o preço é muito baixo, porque não reflete todos os custos. No Capítulo 10, consideramos a possibilidade de internalizar o
custo externo a partir de alguma forma de tributação, para corrigir a falha de mercado e cobrar todos os custos sociais de
produção. Este tema é repetido na Figura 11.5.

Figura 11.5 O efeito econômico de um imposto sobre a poluição


A curva de oferta S se baseia nos custos da empresa que fabrica o produto, sem nenhuma consideração de seus custos
ambientais. Se um imposto é introduzido, os custos totais da empresa aumentam e a curva de oferta se desloca para cima,
na quantidade do imposto, para S1. Na situação incorreta, em que a poluição estava sendo dada como certa, o preço de
equilíbrio é Pe e a quantidade de equilíbrio é Qe. Após o imposto ser introduzido, o preço de equilíbrio sobe para Pt e a
quantidade vendida cai para Qt.
O PRINCÍPIO DO POLUIDOR PAGADOR
Uma empresa que enfrenta uma cobrança ou imposto pela poluição poderia reagir de três maneiras.
• Ela poderia instalar equipamentos de redução da poluição ou mudar as técnicas de produção para diminuir a quantidade de
poluição.
• Poderia reduzir a atividade que causa a poluição.
• Poderia simplesmente escolher pagar o preço pela poluição.
Os custos e benefícios relativos a cada opção para cada poluidor determinarão qual deles, ou qual combinação será escolhida.
Permitir a escolha é a maneira mais eficiente de decidir quem polui e quem não polui. A princípio, a cada poluidor é dado o
incentivo para atender ao custo social total de suas ações e ajustar a produção de acordo. Em teoria, deveria haver uma menor
poluição ambiental e o preço pago pelo consumidor deveria aumentar. Isto é explicado na Figura 11.5.
O imposto sobre a poluição faz com que a curva de oferta S suba para S1. O efeito do imposto é aumentar o preço do
produto. Como resultado, a quantidade consumida diminui na medida em que o custo aumenta para o comprador. Porém, o
rendimento recebido pelo fabricante após o imposto ser pago ao governo, Pp, é menor do que era antes de o imposto ser
introduzido, Pe. O custo ambiental é, portanto, dividido entre o fabricante e o consumidor do produto. Suas contribuições
relativas dependem da inclinação das curvas de oferta e demanda. Quanto mais competição houver no mercado, menos o
consumidor pagará.

IMPOSTO UNIFORME É APROPRIADO?


Embora a tributação ofereça uma maneira de forçar os fabricantes a levar em consideração os custos sociais, pode não ser
apropriado cobrar um imposto uniforme de acordo com a quantidade física de poluição. As mesmas atividades não têm
necessariamente um impacto idêntico em toda parte — devemos estabelecer a quantidade de dano econômico no lugar da
quantidade de poluição física. Uma autoestrada principal em Londres provoca um dano econômico muito maior que uma
autoestrada que passa por uma área menos povoada. Já existem inúmeras demandas sobre o ar em Londres. Milhões de pessoas
poderiam respirar ar poluído e, assim, incorrer em problemas de saúde, como dores de garganta e asma, que podem até levar a
uma morte prematura. Os edifícios se tornariam mais sujos. Determinada quantidade de poluição, portanto, provoca maiores
danos em ambientes urbanos concentrados do que em áreas rurais menos densamente povoadas. Se quisermos estabelecer
alguma forma de tributação para alinhar os custos privados com os custos sociais — para forçar as pessoas a internalizar as
externalidades e obrigar ao poluidor a pagar — de alguma forma devemos chegar a uma medida de custos econômicos em vez
de quantidades físicas. Como o custo econômico para a mesma quantidade física de poluição varia de acordo com fatores, como
a densidade populacional, a formação natural de montanhas e rios, os chamados impostos ótimos sobre a poluição devem variar
de local para local. (No entanto, um imposto uniforme pode fazer sentido, uma vez que os custos de administrar um imposto
variável, principalmente de apurar os custos econômicos reais, são relativamente elevados.) De qualquer jeito, o dilema que um
governo enfrenta é o de quanto deve cobrar por uma quantidade ‘admissível’ de poluição, e alguma luz será lançada sobre esta
difícil questão na próxima seção.

GANHO DE PLANEJAMENTO
Antes de encerrar esta seção, deve ser observado que nem todas as externalidades representam um custo, algumas são
benefícios. O princípio do ganho de planejamento fornece um exemplo clássico. Estes são acordos nos quais um
fomentador fornece benefícios para a comunidade que se estendem para além da produção comercializada em troca da obtenção
de autorização para o desenvolvimento do local. Nos últimos anos, esses acordos tornaram-se uma característica reconhecida
das negociações de planejamento. Eles são justificados na base de que quando a permissão de planejamento é concedida, duas
coisas acontecem. Primeiro, o desenvolvimento impõe externalidades à comunidade local; segundo, os fomentadores privados
normalmente se beneficiam do fato de que sua terra ou propriedade agora possui maior valor econômico. De alguma forma, da
perspectiva de um fomentador, o ganho de planejamento pode ser visto como uma espécie de ‘suborno’ ou ‘adoçante’, oferecido
para acelerar a proposta a partir do processo de planejamento. Da perspectiva das autoridades locais, o ganho de planejamento,
se devidamente negociado, pode abrir oportunidades para oferecer a infraestrutura certa para suportar maiores benefícios para a
comunidade e permitir que os planos locais tomem forma. Exemplos de instalações fornecidas com esses arranjos incluem
estradas, parques, habitações sociais, escolas e centros de saúde. Devido à natureza prolongada das negociações, esses ‘acordos’
frequentemente permanecem discretos. Ambas as partes se empenham em assegurar seus próprios interesses, e existe uma
ampla gama de consequências. A troca que está acordada como resultado pode parecer, a partir de algumas perspectivas, desleal
ou injusta, mas tem sido estimulada pela legislação, como o Town and Country Planning Act, de 1971.
Na tentativa de tornar as negociações mais equitativas, um esquema foi introduzido para permitir que as autoridades de
planejamento imponham uma taxa de desenvolvimentos definida nas suas áreas locais. Este esquema opcional entrou em vigor
em abril de 2010. Com efeito, a taxa de infraestrutura comunitária é um tipo de imposto de desenvolvimento que as
autoridades locais poderiam escolher aplicar. A taxa poderia ser calculada tanto por habitação (como os R$ 72.000,00 de
‘imposto de telhado’ que está sendo atualmente testado em alguns novos conjuntos habitacionais em Milton Keynes)* quanto
por área (como os R$ 200,00 por metro quadrado cobrados sobre os novos escritórios em Westminster ou o astronômico preço
de R$ 2.300,00 por metro quadrado propostos para os novos escritórios em locais à beira-mar em Nine Elms, bairro londrino de
Wandsworth). A taxa real de impostos é deixada para que as autoridades locais decidam (enquanto este livro estava sendo
escrito, somente cinco autoridades estabeleceram formalmente um programa de cobranças) e, assim, o bairro londrino de
Wandsworth pode achar que a taxa de Nine Elms revela-se muito alta, uma vez que pode fazer com que o desenvolvimento se
torne inviável. Cada autoridade local precisa ter em conta os valores de mercado em sua área em particular e a infraestrutura
local necessária, mas se uma autoridade consegue o equilíbrio certo, um sistema de ganhos de planejamento baseado em uma
taxa, ou tarifa, poderia fornecer o caminho para uma base mais clara e rápida para garantir os benefícios e desenvolvimentos
privados e públicos.
Benefícios externos causam problemas menores que custos externos. Consequentemente, os economistas ambientais
tendem a dar-lhes menos cobertura. Conceitualmente, entretanto, eles não são muito complicados de entender, como a simetria
dos dois primeiros pontos-chave sugere.

Pontos-Chave 11.2
Custos internos (privados) + custos externos = custos totais (sociais).
Benefícios internos (privados) + benefícios externos = benefícios totais (sociais).
Custos privados são aqueles custos explícitos suportados diretamente pelos consumidores e fabricantes
quando eles se envolvem em qualquer atividade que utilize recursos.
Custos sociais incluem os custos privados e quaisquer outros custos que são externos ao tomador de
decisão.
Quando os custos sociais excedem os custos privados, existem externalidades.
Uma forma de fazer com que os custos privados se igualem aos custos sociais é internalizar a externalidade
a partir da imposição de impostos e regulamentos. Em teoria, esses impostos deveriam ser equivalentes
ao dano econômico causado pela atividade.
VALORAÇÃO AMBIENTAL
Conforme discutimos neste capítulo e em vários pontos do Capítulo 10, para superar algumas das falhas de alocação de recursos
criadas pelo mecanismo de mercado é importante atribuir valores monetários às externalidades. Isto pode ser tentado por
diversos métodos. Três das abordagens mais comumente empregadas são: a valoração contingente, o método do custo de
viagem e os preços hedônicos. Cada um deles está brevemente descrito a seguir.

VALORAÇÃO CONTINGENTE
O método da valoração contingente se baseia em um levantamento de dados. As pessoas são convidadas, em um
questionário ou entrevista, a expressar o valor que elas atribuem a um ativo ambiental específico. Por exemplo, na pesquisa que
antecedeu a introdução do imposto sobre a exploração de agregados em 2002, cerca de 10.000 pessoas que vivem em
comunidades em torno de pedreiras foram questionadas sobre o quanto elas estariam dispostas a pagar, na forma de aumento de
impostos ao longo de um período de cinco anos, para que a pedreira local fosse desativada. A pergunta se baseava na suposição
de que a área da pedreira seria restaurada para se misturar com a paisagem natural, e que todos os trabalhadores da pedreira
encontrariam outros empregos adequados. Outras 1000 pessoas, que não viviam muito próximas a uma pedreira, foram
questionadas acerca de quanto estariam dispostas a pagar para desativar uma pedreira em um Parque Nacional, como o Peak
District ou o Yorkshire Dales (HM Treasury, 2002: 19).

CUSTO DE VIAGEM
O método do custo de viagem coloca um valor monetário em ativos ambientais calculando o custo de se chegar a
instalações de lazer, como reservas de vida selvagem, florestas e canais. Os custos relevantes incluem tarifas de transporte
público e/ou gasolina e o tempo de viagem.

PREÇOS HEDÔNICOS
O método dos preços hedônicos tenta identificar um valor de mercado implícito para serviços ambientais, analisando um
pacote de características que compõem um produto, a fim de anexar um valor específico ao elemento ambiental. Este processo
tem sido descrito como estabelecendo um ‘mercado de aluguel’. O método é facilmente exemplificado no mercado imobiliário:
duas propriedades podem ser idênticas, exceto por sua localização; assim, o preço que as pessoas estão dispostas a pagar por
uma casa próxima a um rio, a um bosque, a uma área de preservação ou com uma bela vista pode ser quantificado.

Valor da Vida Humana


O princípio fundamental empregado em todos os exercícios de avaliação é o custo de oportunidade e isto é mais claramente
ilustrado quando os economistas tentam identificar o valor de uma vida humana. O método de cálculo convencional é basear o
valor da vida em estimativas de contribuições perdidas para a economia; o fluxo de ganhos perdidos na carreira. Em outras
palavras, o custo de oportunidade da vítima média envolvida em um acidente é baseado em uma abordagem de risco salarial ou,
como alguns economistas têm preferido denominar, a abordagem do capital humano. Em contraste, um método mais recente
segue os princípios da valoração contingente: as estimativas são baseadas na disponibilidade dos indivíduos em pagar para
reduzir os riscos e melhorar a segurança ou, reciprocamente, na quantia que as pessoas estão dispostas a aceitar para compensar
pela perda de uma vida. Não surpreendentemente, os valores baseados na abordagem da disposição em pagar tendem a ser duas
vezes mais altos que os estimados pela abordagem do capital humano, já que as pessoas tendem a valorizar suas próprias vidas
bem acima do seu potencial de ganhos. E aquelas que vivem em países mais pobres tendem a colocar valores monetários mais
baixos em suas vidas que as pessoas nos países mais ricos.
Economistas do governo por todo o mundo têm adotado esses métodos aparentemente rudes para avaliar grandes projetos
de infraestrutura e de transporte. Em termos de recursos, isto permite considerar uma dimensão que a avaliação de
investimentos tradicional normalmente negligencia — isto é, o valor das vidas, perdidas ou salvas, devido a acidentes. A rede
de benefícios estimada para a sociedade começa a se mostrar muito diferente, uma vez que a avaliação incorpora um valor
monetário atribuído à vida.

Tabela 11.1 Valores estatísticos da vida humana

País R$ 000
Estados Unidos 12.756

Reino Unido 8.428

Suécia 7.816

Alemanha 5.064

França 2.356

Grécia 804

Portugal 224

Fonte: Adaptada de SafetyNet (2009: 9).


Nota: Preços de 2002.

A Tabela 11.1 apresenta os valores utilizados em diferentes países para avaliar o valor monetário de uma fatalidade em um
acidente de trânsito. Curiosamente, devido a diferentes culturas, diferentes estágios de desenvolvimento econômico e diferentes
métodos de cálculo, os governos parecem incapazes de chegar a um consenso quanto ao preço monetário que deve ser atribuído.
Na verdade, os números sugerem que uma vida norte-americana, por exemplo, vale muito mais do que qualquer outra.

O Princípio da Precaução
Atribuir valores monetários a qualquer externalidade é um processo inexato; os números produzidos não são mais que
estimativas baseadas em julgamentos de valores. Muitas vezes argumenta-se, entretanto, que é melhor ter uma estimativa
grosseira do que ignorar completamente as externalidades. De fato, este é o pensamento que sustenta o princípio da precaução
que a maioria dos governos tem seguido desde a Cúpula da Terra de 1992. A declaração do Rio definiu o princípio da
precaução da seguinte forma:
se houver ameaças de danos sérios ou irreversíveis, a falta de certeza científica não deve ser usada como uma
razão para o adiamento de medidas de custo eficazes para evitar a degradação ambiental.
Em resumo, cuidados devem ser tomados hoje para mitigar a possibilidade de problemas no futuro. Como consequência,
diversas externalidades foram trazidas para o quadro financeiro. Estas variam desde questões globais, como a poluição
atmosférica, a questões locais, como a perda de um sítio arqueológico. Um compreensivo conjunto de exemplos está listado na
Tabela 11.2. Esses se baseiam em um preço inicial de uma pesquisa preliminar publicada em 1997, e, subsequentemente,
debatida em diversas revistas — de fato, de acordo com Peterson (2010), este é o artigo mais citado que já foi publicado sobre
serviços ecossistêmicos. O objetivo da pesquisa (Constanza et al., 1997) era fazer com que o caso das ações de precaução se
justificassem: ela demonstrou que, dada a relativa importância dos ‘serviços’ ecossistêmicos, já não podemos correr o risco de
desperdiçá-los. Os autores queriam destacar a enorme contribuição econômica dos serviços ecossistêmicos e salientar que não
fazia sentido ignorar as externalidades que danificavam ou ameaçavam o ecossistema global. Os resultados da pesquisa
sugeriram que o valor econômico total dos serviços ecológicos foi quase duas vezes o valor anual da produção global de todos
os produtos ou serviços: US$ 33 trilhões por ano (preços de 1994) comparados a uma produção global anual de US$ 18 trilhões
(preços de 1994).
Claramente, os vastos sistemas econômicos que evoluíram ao longo dos séculos degradaram o ecossistema, e isto é, em
grande parte, devido aos serviços do ecossistema dados como certos. Nos termos introduzidos no Capítulo 10, o problema com
os serviços ecossistêmicos (tais como solos férteis, ar puro, um clima estável e um ciclo de carbono balanceado) é que eles
possuem as características de um bem público puro. Nenhum indivíduo pode ser excluído dos benefícios de um ecossistema
melhorado (eles são não excludentes) e um indivíduo que se beneficia de um ecossistema melhorado não afetará outros
indivíduos (os serviços são não rivais). Resumindo, embora haja um valor real para esses serviços, nenhum incentivo deve ser
pago para mantê-los; assim, na realidade, todos os obtêm gratuitamente. Isto cria um desequilíbrio na forma como as decisões
econômicas e ambientais são tomadas e na forma como o meio ambiente é utilizado. Assim, a tendência é focar em ganhos
materiais de curto prazo à custa de um declínio do ecossistema e do estoque de recursos naturais.

Tabela 11.2 Valor monetário dos serviços ambientais globais


Valor monetário em preços de
Serviço ecossistêmico Exemplos de funções ecossistêmicas 1994 (trilhões de dólares por
ano)

Litoral Processa nutrientes 12,6

Controla a poluição

Trata os resíduos

Proporciona o turismo

Oceanos Gera oxigênio e absorve gás carbônico 8,4

Proporciona habitat para os peixes

Pântanos Armazena e conserva a água 4,9

Protege contra tempestades e controla


inundações

Florestas Regula os gases do efeito estufa 4,7

Evita a erosão do solo

Fornece madeira e medicamentos

Cria oportunidades de lazer

Lagos e rios Armazena e conserva a água 1,7

Controla as inundações

Cria oportunidades para a pesca

Áreas cultiváveis e pradarias Promove a polinização das plantas 1,0

Controla a poluição

Regula as condições atmosféricas

Fonte: Adaptada de Constanza et al. (1997: 254, 256).

O trabalho de Costanza destacou esse desafio e iniciou um enfoque mais amplo e aceitável na valorização dos serviços
ambientais. Isto pode ser visto no Projeto de Avaliação Ecossistêmica do Milênio das Nações Unidas, que vigorou de 2001 a
2005, e no programa A Economia dos Ecossistemas e da Biodiversidade, iniciado pela Comissão Europeia em 2007 e retomado
pela United Nations Environment Programme (UNEP — Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente) a partir de 2011.
O que esses estudos deixaram muito claro é que os serviços ecossistêmicos ficam de fora do mercado e são frequentemente
ignorados ou subvalorizados.
Curiosamente na Rio+20, em 2012, o princípio da precaução ainda estava no topo da agenda. Entretanto, o debate se
ampliou para refletir uma maior preocupação com a biodiversidade e com a qualidade dos ativos ambientais, e uma avaliação
mais profunda da riqueza natural. A estratégia da União Europeia agora inclui um foco na utilização mais eficiente das
matérias-primas e na redução da poluição, e isto também demanda maior proteção dos bens de capital natural, como terreno,
água e biodiversidade. Além disso, tem sido aceito que o ecossistema precisa ser restaurado, o desperdício de resíduos reduzido
para próximo de zero e os riscos sistêmicos para a economia do meio ambiente, evitados. Uma visão do futuro pode ser
detectada a partir de um conjunto de indicadores que mensuram a produtividade dos recursos referindo-se a fluxos de materiais,
emissões de carbono e outros impactos ambientais (EU, 2011). As Nações Unidas compilaram um índice de riqueza por meio
da realização de uma análise abrangente dos bens de capital de um país, incluindo o capital manufaturado, humano e natural, e
seus valores correspondentes. O índice refletiu o estado dos recursos naturais, ou condições ecológicas, de 1990 a 2008, para
um grupo inicial de 20 países, de forma a determinar onde as políticas nacionais são sustentáveis em longo prazo (UNEP,
2012). Lacunas significativas no processo de avaliação permanecem, porém o trabalho de Costanza et al. (1997) claramente
desencadeou um movimento internacional que influenciará os sistemas de contabilidade nacionais por muitas décadas. O único
problema é que o debate sobre a avaliação ambiental é de certa forma visto como uma distração do problema real de perseguir a
meta do crescimento econômico contínuo e sustentável — isto fará mais sentido, uma vez que você tenha estudado os sistemas
de contabilidade convencionais utilizados para mensurar a atividade econômica esboçada no Capítulo 13.

Pontos-Chave 11.3
Colocar valores monetários nas externalidades é problemático. Existem três métodos básicos: valoração
contingente, custo de viagem e preços hedônicos.
Após a publicação do influente artigo de Costanza (1997), um controverso catálogo de indicadores foi
produzido para capturar o valor dos serviços ecossistêmicos mundiais.
Na Rio+20, foi confirmado que as nações precisavam ir além da medição do sucesso econômico puramente
com base na quantidade de bens e serviços que os cidadãos consomem por ano.

ANÁLISE DE CUSTO-BENEFÍCIO
Quando os custos totais e os benefícios de um projeto não podem ser adequadamente representados pelos preços de mercado,
cabe utilizar um método alternativo de avaliação de investimentos. Os recursos que não são alocados através dos mercados, e
que, portanto, não possuem um preço de mercado, precisam ser considerados. É aqui que a técnica de análise de custo-
benefício pode ser útil.
Este método de alocação de recursos inclui as externalidades como parte do processo. Por isso, consegue incluir aspectos
que a maioria dos métodos de alocação de recursos omite. Nessas análises, os custos e benefícios externos são considerados em
conjunto com os custos e benefícios internos (privados) para fornecer um quadro mais completo. Obviamente, para que esta
técnica funcione, todas as questões devem ser expressas em um denominador comum para que um ‘preço total’ seja calculado.
Como resultado, o que pode não parecer viável nos termos da contabilidade financeira convencional pode ser viável na
avaliação de custo-benefício mais ampla.
A análise de custo-benefício é mais simples na teoria do que na prática. Existem os problemas de avaliação (conforme
discutimos antes) e as questões relacionadas à seleção das externalidades. Inevitavelmente, a seleção do que é e do que não é
relevante depende de decisões normativas baseadas em julgamentos de valor. Por exemplo, ao identificar os custos externos de
uma nova linha de metrô em Londres, os economistas que conduziam o estudo de custo-benefício não incluíram nada
relacionado a ataques terroristas a passageiros.
Apesar das dificuldades, economistas têm realizado muitos estudos de análise de custo-benefício para avaliar os
investimentos específicos do setor público. Os exemplos incluem a construção do Túnel do Canal da Mancha, a transferência do
Covent Garden e a proposta da terceira pista no aeroporto London Heathrow. Na maioria desses estudos de custo-benefício, um
aspecto recorrente tem sido a medição do tempo economizado expresso em termos monetários. A precificação de um benefício
indireto (como a economia de tempo) é tão difícil como a precificação de um custo indireto, porque as forças de mercado
falham ao determinar estes preços. De fato, uma boa maneira de diferenciar entre preços diretos (internos) e indiretos (externos)
é que os custos ou benefícios privados (diretos, internos) sempre terão um valor monetário definido. Na prática, alguns custos e
benefícios externos serão expressos em valores monetários em uma análise de custo-benefício, e outros não. Por exemplo, ao
avaliar novos projetos rodoviários, os economistas do governo geralmente optam por não colocar valores monetários no ruído
do tráfego, nas obstruções visuais, na divisão da comunidade, nos impactos sobre pedestres e ciclistas, nos problemas durante a
construção e nos impactos sobre as alterações climáticas. Suas desculpas são de que esses custos são incertos e complicados de
definir.
Entretanto, o influente Relatório Stern (2007) afirmou que os governos estavam cometendo um sério erro ao ignorar os
futuros custos com as mudanças climáticas. Nicholas Stern incitou-os a identificar e utilizar um custo social do carbono. O
governo do Reino Unido reagiu estabelecendo um preço sombra para o carbono, de R$ 100,00 por tonelada. Isto representa o
que estamos dispostos a pagar agora pelos danos futuros causados pelas emissões de carbono (Defra, 2007: 2).
Conforme Stern (2007: 33) explicou, consumo não é apenas sobre os bens que podemos comprar no supermercado, na
medida em que as pessoas também valorizam sua saúde e o meio ambiente; e embora expressar mortalidade e qualidade
ambiental em termos monetários levante profundas dificuldades, isto é essencial para evitar o desastre global. Um pouco mais
adiante, o relatório Stern (2007: 54) acrescenta o aspecto do ‘tempo’, defendendo a necessidade de avaliar o fluxo de custos e
benefícios ao longo de certo número de anos para comparar efetivamente o bem-estar e o valor das futuras gerações com os de
hoje em dia. Ele apoia fortemente a adoção da convenção de expressar os cálculos em termos de valor presente, utilizando o
processo de ‘descontos’ (o qual é descrito na próxima seção). Em outras palavras, Stern aprova a abordagem dos economistas
ambientais de que a melhor forma de enfrentar o complexo problema das emissões de carbono é assegurar que cada atividade
que produza carbono seja precificada de maneira que reflita seu custo real para a sociedade ao longo do tempo.
As recomendações realizadas por Nicholas Stern foram levadas em consideração, em algum grau, quando o Departamento
de Transportes (DfT, 2007) conduziu uma análise de custo-benefício para apoiar sua investigação sobre a proposta de construir
uma terceira pista no aeroporto London Heathrow. Os cálculos do departamento adotaram um projeto com uma vida útil de 70
anos, e isto concluiu que os benefícios totais estavam estimados em R$ 68,4 bilhões (em valor presente líquido), enquanto os
custos totais estavam entre R$ 47,6 e R$ 50,8 bilhões (dependendo da infraestrutura). Esses custos incluíram R$ 19,2 bilhões
para compensar os danos causados pelas alterações climáticas (ou seja, 40 % do custo total). Resumindo, os benefícios
econômicos totais de uma terceira pista no aeroporto London Heathrow superariam os custos econômicos totais. Para ser franco,
o projeto gera um benefício líquido entre R$ 17,6 e R$ 20,8 bilhões — ou, cinicamente, em torno do mesmo valor do custo
considerado para as alterações climáticas. Interrogando a base dos cálculos (como a quantidade de emissões de carbono
projetadas e os custos considerados para mitigar os seus danos), os críticos vêm acusando o governo de criar uma economia do
tipo Alice no País das Maravilhas (Elkins, 2008).
As análises de custo-benefício, portanto, não fornecem respostas claras aos investimentos do setor público. Elas envolvem
julgamentos de valor e estimativas (muitas vezes duvidosas) as quais inevitavelmente levantam preocupações sobre a
confiabilidade do processo. A avaliação de custo-benefício oferece não mais que um quadro para os departamentos do governo
se embasarem ao considerar diversas opções. Deve ser enfatizado que a técnica é meramente um método de identificação de
externalidades; ela não as controla automaticamente. Entretanto, no Reino Unido, o Serviço Econômico Governamental apoia
firmemente a utilização da análise de custo-benefício entendendo-se que o setor público — preocupado com questões
econômicas, ambientais e de bem-estar — precisa considerar os custos e benefícios sociais quando toma decisões relacionadas à
política (Price, 2010).

DESCONTOS
Outra dificuldade associada à precificação das externalidades ambientais — e geralmente à análise de custo-benefício — é que
os governos têm que comparar os custos e os benefícios dos investimentos hoje contra os custos dos danos ambientais que se
acumularão ao longo dos próximos anos. Empresários privados enfrentam um tipo de problema similar ao tomar decisões sobre
os investimentos de capital que garantirão um fluxo de receitas e de lucros no futuro. O processo utilizado para auxiliar nessas
decisões é conhecido como desconto. Isto envolve o cálculo do valor presente dos fluxos de dinheiro esperados para algum
momento no futuro.

Tabela 11.3 Valores presentes de um real (R$) no futuro

Taxa de juros anual composta

Ano 3% 5% 8% 10 % 20 %

1 0,971 0,952 0,926 0,909 0,833

2 0,943 0,907 0,857 0,826 0,694

3 0,915 0,864 0,794 0,751 0,578

4 0,889 0,823 0,735 0,683 0,482

5 0,863 0,784 0,681 0,620 0,402


6 0,838 0,746 0,630 0,564 0,335

7 0,813 0,711 0,583 0,513 0,279

8 0,789 0,677 0,540 0,466 0,233

9 0,766 0,645 0,500 0,424 0,194

10 0,744 0,614 0,463 0,385 0,162

15 0,642 0,481 0,315 0,239 0,0649

20 0,554 0,377 0,215 0,148 0,0261

25 0,478 0,295 0,146 0,0923 0,0105

30 0,412 0,231 0,0994 0,0573 0,00421

40 0,307 0,142 0,0460 0,0221 0,000680

50 0,228 0,087 0,0213 0,00852 0,000109

A principal razão para realizar este cálculo é que qualquer desembolso de capital tem um custo de oportunidade: este pode
ser o custo dos empréstimos ou os rendimentos que podem ser conseguidos em um investimento alternativo. Em ambos os
casos, as taxas de juros podem ser usadas para ligar o presente com o futuro. Por exemplo, se você tem que pagar R$ 110,00 no
final do ano, quando você pega R$ 100,00 emprestados, a taxa de juros de 10 % cobrada lhe fornece uma medida do custo do
empréstimo. Assim, o valor presente (o valor hoje) de R$ 110,00 a serem recebidos em um ano é R$ 100,00, se a taxa de juros
do mercado for de 10 %.
O ponto é que R$ 1,00 no bolso, hoje, vale mais que R$ 1,00 no futuro porque, se você tem R$ 1,00 hoje, você poderia
colocá-lo para trabalhar para ganhar juros. Disto, segue-se que R$ 1,00 a receber no futuro deve ser descontado para encontrar o
quanto ele vale hoje. Por exemplo, a uma taxa de juros de 10 %, R$ 1,00 a receber em três anos vale hoje cerca de R$ 0,75. Para
expressar de outra forma, a 10 % ao ano, anualmente compostos, R$ 0,75 aumentará para R$ 1,00 em três anos. Não é
necessário calcular esses números individualmente, uma vez que existe uma abundância de programas de computador
disponíveis, assim como tabelas de taxas de juros anuais compostas como a Tabela 11.3.
Em termos de análises de custo-benefício, ou qualquer outra avaliação de investimentos abrangendo vários anos, é possível
utilizar as técnicas de desconto para comparar o valor presente dos custos com o valor presente dos benefícios. O problema com
esta técnica é que o valor presente de qualquer valor monetário é dependente do julgamento correto de três fatores: a época, a
extensão dos custos futuros (e renda) e a taxa de juros. Quanto maior for a quantidade de tempo em que um benefício é
acumulado (ou um custo é incorrido) ou quanto maior a taxa de juros utilizada, menor será o valor presente deste benefício (ou
custo). Tomando um exemplo extremo, se um acidente nuclear ocorre em 500 anos, impondo um custo econômico de R$ 40
bilhões sobre as desafortunadas gerações futuras, este será reduzido a um valor presente de 25 centavos supondo uma taxa de
descontos de 5 %. O mesmo ocorre com os benefícios: uma árvore que precisa de muitos anos para amadurecer e custa R$
100,00 em termos atuais poderia, assumindo uma taxa de desconto de 5 %, ter um valor futuro de R$ 8,70 após 50 anos. O
desconto, portanto, fornece um sistema para comparar os custos atuais com os benefícios futuros; entretanto, ele
necessariamente minimiza o custo dos danos ambientais para as futuras gerações.

Pontos-Chave 11.4
A análise de custo-benefício contabiliza os valores monetários de todos os custos e benefícios internos e
externos para identificar um preço total (social).
Os departamentos governamentais empreendendo avaliações de investimentos são estimulados a utilizar a
análise de custo-benefício.
Os problemas com a análise de custo-benefício são: (a) o que incluir como externalidades ‘relevantes’; (b)
como quantificar as externalidades em termos monetários; e (c) como ‘descontar’ efetivamente os critérios
para julgar todos os valores em termos atuais.

Leitura 4

A Parte B enfatizou que a indústria da construção é uma usuária significativamente intensa de recursos. Ela também demonstrou
como economistas ampliaram suas análises para integrar o mundo material com o mundo natural. Como consequência, abordar
questões relacionadas ao meio ambiente e aproveitar oportunidades de realçar a imagem da empresa poderia ser de grande
importância para aqueles envolvidos no meio empresarial moderno.
O resumo do artigo a seguir relata as diferentes atitudes relacionadas à sustentabilidade e à responsabilidade social
corporativa no setor da construção. Os dados são baseados em uma análise de conteúdos detalhados dos relatórios anuais e
declarações de objetivos de 300 companhias relacionadas à construção listadas na Bolsa de Valores de Nova York. A análise
abrange 75 empreiteiros, 75 empresas de projetos (engenharia e arquitetura) e 150 empresas clientes dos setores de energia,
utilidades e transportes. Em cada categoria, a amostra foi retirada das empresas líderes com base no tamanho do volume de
negócios em 2006. Os resultados sugerem que poucas companhias relacionadas à construção adotaram positivamente a agenda
da sustentabilidade na época. Esta pesquisa levanta uma série de problemas interessantes sobre os quais vale a pena pensar.
Conforme Milton Friedman (1962) declarou enfaticamente, ‘As empresas têm uma e somente uma responsabilidade: utilizar
seus recursos e empreender atividades planejadas para aumentar seus lucros’. Isto levanta uma série de questões significativas.
Primeiro, por que uma empresa deveria se preocupar com responsabilidades ambientais e sociais? Desde que se envolva em
uma concorrência livre e justa, qual o problema? Segundo, quais tipos de exemplos um pesquisador poderia procurar para
evidenciar que uma empresa está genuinamente demonstrando responsabilidade social corporativa? Finalmente, que tipos de
medida um governo deveria adotar para promover o desenvolvimento sustentável no setor do ambiente construído como um
todo?

Timothy Jones, Yongwei Shan e Paul Goodrum (2010) ‘Uma investigação das abordagens corporativas para a
sustentabilidade na engenharia norte-americana e na indústria da construção’, “Construction Management and
Economics” (“Gestão da Construção e Economia”) 28: 971-83

A população global explodiu ao longo do último século. Espera-se que a população da Terra ultrapasse os 8 bilhões dentro dos
próximos 20 anos (US Census Bureau, 2008). Entretanto, os recursos disponíveis permaneceram limitados, e muitos recursos
naturais agora são consumidos a taxas muito superiores à sua reposição (Woodruff, 2006). O desafio de fornecer um padrão de
vida melhor para uma população em crescimento exponencial, com recursos disponíveis limitados, está ficando cada vez mais
difícil. Para resolver este problema, o conceito de sustentabilidade surgiu na última década.
Em 1987, a Comissão Mundial sobre o Meio Ambiente e Desenvolvimento (ou Comissão Brundtland) emitiu o Relatório
Brundtland (United Nations, 1987). Neste relatório, a sustentabilidade se refere ao ‘desenvolvimento que atende às necessidades
do presente sem comprometer a capacidade das futuras gerações em atender a suas próprias necessidades’ (Beheiry et al.,
2006). Desde o Relatório Brundtland, o conceito de sustentabilidade tem sido desenvolvido e agora consiste em três aspectos,
ou pilares: os pilares ambiental, econômico e social (Beheiry et al., 2006). O desenvolvimento sustentável é agora classicamente
retratado como a interface entre a sustentabilidade ambiental, econômica e social (Goodland; Daly, 1993).
O aspecto ambiental da sustentabilidade envolve a redução dos impactos ecológicos atuais a fim de preservar o meio
ambiente para as gerações futuras. O aspecto econômico se refere à previsão de um crescimento econômico positivo. O aspecto
social se concentra na responsabilidade das corporações em conduzir seus negócios de forma ética, especialmente enquanto
buscam oportunidades de desenvolvimento no exterior. A sobreposição de todos os três aspectos-chave — o social, o
econômico e o ecológico — é referida como desenvolvimento sustentável. Outros pesquisadores propuseram que os esforços de
sustentabilidade surgiram para focar mais no meio ambiente em comparação aos outros dois aspectos, porém este ponto de vista
ainda não foi examinado em detalhes e é, portanto, uma das principais motivações para a pesquisa aqui descrita.
Este artigo examina as percepções quanto à sustentabilidade de companhias relacionadas ao setor da construção. Esta
percepção é examinada a partir de análises dos documentos das companhias, como as declarações de missão, visão e valores e
de seus relatórios anuais. A declaração da missão fornece um guia para os comportamentos e decisões (Falsey, 1989; Ledford et
al., 1995), desenvolve um objetivo único dentro da organização (Campbell et al., 1990), motiva a equipe (Collins; Porras, 1991)
e melhora o desempenho (Pearce; David, 1987). O futuro é o domínio da declaração de visão. Esta descreve o estado futuro
desejado da organização dentro da arena de competição definida na missão (Raynor, 1998). A declaração de valores descreve os
princípios ou conceitos de valor intrínseco com os quais se alinham a ação como um fim em si mesma (Raynor, 1998).
Hopwood (1996) sugeriu que os relatórios anuais se tornaram um produto altamente sofisticado do ambiente de projetos
corporativo, e seu objetivo principal é construir proativamente uma visibilidade e um significado particular, em vez de divulgar
‘o que estava lá’. Até certo ponto, esses documentos refletem as práticas e os princípios sobre como uma companhia conduz
seus negócios.

Objetivos da pesquisa
Este artigo apresenta um estudo da atual abordagem estratégica da indústria da engenharia e da construção em direção a uma
construção sustentável. Três grandes grupos de companhias foram incluídos no estudo para que a amostra fosse representativa
da indústria: clientes, empreiteiros e empresas de projeto. Tipicamente, os empreiteiros desempenham atividades relacionadas à
construção; assim, os termos empreiteiro e empresas de construção são utilizados alternadamente ao longo do artigo. Este
estudo foi realizado para alcançar três objetivos primários:
(1) Identificar quais conceitos relacionados à sustentabilidade são mais frequentemente utilizados pelas companhias para
descrever seus programas de sustentabilidade. Este objetivo inclui que a compreensão dos conceitos fundamentais da
sustentabilidade esteja sendo ou não enfatizada uniformemente.
(2) Determinar se existem quaisquer desconexões atualmente entre grupos de empresas, por exemplo, se existem ou não
diferenças significativas de foco na sustentabilidade entre empreiteiros, projetistas e seus clientes em potencial.
(3) Determinar se atualmente existem quaisquer desconexões ao enfatizar os conceitos de sustentabilidade entre subgrupos
industriais e comerciais, para proprietários, empreiteiros e empresas de projetos...

Discussão dos resultados


Os resultados... Tendem a apoiar a hipótese de que as companhias clientes e os empreiteiros usam o conceito de sustentabilidade
de maneiras diferentes. A partir dos dados pode ser visto que 20,0 % das companhias clientes publicaram um dedicado
Relatório de Sustentabilidade Empresarial para exibição pública, enquanto somente 2,7 % dos empreiteiros e 4,0 % das
empresas de projeto também publicaram um relatório desse tipo. Clientes, mais do que as empresas de projeto e construção,
podem tentar usar os esforços de sustentabilidade para ganhar uma imagem pública positiva para fins de relações públicas. Isto
é bem razoável, uma vez que a maioria das empresas tipicamente comercializa um produto para o público geral, enquanto as
empresas de construção e projetos, não. As empresas clientes criam mais frequentemente um relatório concentrado nos esforços
para a sustentabilidade e, então, exibem esse relatório proeminentemente ao público em seus sites. Uma vez que os conceitos
verdes e o ambientalismo são muito populares nos fóruns públicos, publicar um relatório de sustentabilidade para exibição
pública pode ser uma forma de melhorar a imagem da empresa; portanto, eles são motivados a garantir a opinião pública mais
favorável para suas empresas. Publicar um Relatório de Sustentabilidade Empresarial pode também ser visto favoravelmente
por agências do governo. As empresas tanto de construção como de projetos, por outro lado, raramente comercializam um
produto para o público. Elas se concentram em comercializar serviços para várias entidades (empresas privadas, agências do
governo etc.). Elas estão menos propensas a oferecer um Relatório de Sustentabilidade Empresarial, preferindo destacar
realizações de segurança e qualidade em seus sites e documentos...

Referências
Beheiry, S. M. A., Chong, W. K. and Haas, C.T. (2006) Examining the business impact of owner commitment to sustainability. Journal
of Construction Engineering and Management, 132(4), 384–92.
Campbell, A., Devine, M. and Young, D. (1990) A Sense of Mission, Hutchinson: London.
Collins, J. and Porras, J. (1991) Organizational vision and visionary organization. California Management Review, 34, 30–52.
Falsey, T. (1989) Corporate Philosophies and Mission Statements, Quorum Books: New York.
Goodland, R. and Daly, H. (1993) Poverty alleviation is essential for environmental sustainability, Divisional Working Paper 1993-42,
Environmental Economics and Pollution Division, World Bank, Washington, DC.
Hopwood, A. G. (1996) Introduction. Accounting, Organization and Society, 21(1), 55–6.
Ledford, J., Wendenhof, J. and Strahley, J. (1995) Realizing a corporate philosophy. Organizational Dynamics, 23, 5–19
Pearce, J. and David, F. (1987) Corporate mission statements: the bottom line. Academy of Management Executive, 1(2), 109–16.
Raynor, M. (1998) That vision thing: do we need it? Long Range Planning, 31(3), 368–76
United Nations (1987) Development and International Economic Cooperation: Environment Report of the World Commission on
Environment and Development: ‘Our Common Future’, Official Records of the General Assembly, 42nd session, Supplement No. 25,
Brussels, Belgium.
US Census Bureau (2008) North American Industry Classification System 2007 Version, available at
www.census.gov/epcd/www/naics.html (accessed 4 August 2008).
Woodruff, P. H. (2006) Educating engineers to create a sustainable future. Journal of Environmental Engineering, 132(4), 434–44.
Informações extraídas das páginas 971-2 do original mais referências relevantes da página 983.
__________
*
Estratégia para a Construção Sustentável. (N.R.T.)
*
Cidade no sudoeste da Inglaterra, distante cerca de 72 km a noroeste de Londres. (N. R.T.)
As questões macroeconômicas de gestão parecem dominar as páginas da imprensa nacional. Na década de 1930, economistas e
políticos do mundo industrial enfrentaram a grande depressão, que levou milhões de pessoas a perderem seus empregos.
Quarenta anos depois, durante a década de 1970, o grande problema foi a estagflação, uma combinação de estagnação
(crescimento lento ou nulo) e inflação (aumento dos preços). Em 2012, outros quarenta anos mais tarde, a questão
macroeconômica é a crise no sistema financeiro mundial, resultante da crise de crédito e de problemas de dívida soberana.
Isso tem perturbado o equilíbrio de longa data nos mercados financeiros e causou o aumento da inflação e uma profunda
recessão. Neste contexto, os governos se esforçam em transmitir estabilidade econômica ou, como é por vezes expressado por
políticos no Reino Unido, alcançar altos níveis de crescimento que atendam as necessidades de todos.
Neste capítulo, revisamos as políticas que sustentam esta visão de crescimento econômico. Devemos considerar também a
previsão econômica. Tudo isso tem relevância direta para qualquer um que precise compreender, gerenciar e/ou planejar a
capacidade de construção durante um período de tempo de médio a longo prazo, já que a demanda por produtos de construção
sempre deriva das atividades em outros setores. Inevitavelmente, então, os economistas da construção precisam de habilidade e
convicção para interpretar estatísticas econômicas relacionadas à economia em geral. As estatísticas econômicas são
consideradas nos Capítulos 12 e 13; assim, os capítulos devem ser lidos em conjunto.

CINCO OBJETIVOS MACROECONÔMICOS


Todos os governos, independentemente de sua convicção política, buscam atingir metas econômicas. Na economia, essas metas
são denominadas objetivos macroeconômicos. Parece haver algum consenso político e econômico a respeito dos cinco
objetivos macroeconômicos dominantes: estabilidade de preços, pleno emprego, taxa de crescimento econômico sustentável,
balança comercial positiva com parceiros estrangeiros e proteção efetiva do meio ambiente. Cada um desses objetivos é
considerado separadamente a seguir. Estatísticas macroeconômicas recentes da economia do Reino Unido, que mostram o grau
em que esses objetivos estão sendo alcançados, são apresentadas na Tabela 12.1.

Preços Estáveis
Preços estáveis são cruciais para aumentar a confiança dos empresários, facilitar os contratos e permitir que o sistema de taxa de
câmbio funcione sem problemas; por outro lado, preços que aumentam persistentemente causam problemas para a maioria dos
setores de uma economia. A estabilidade de preços se tornou o principal objetivo da maioria dos governos que desejam
assegurar o crescimento de longo prazo e o pleno emprego. Os economistas não acreditam mais que tolerar altas taxas de
inflação pode conduzir a uma maior taxa de empregos ou de produção em longo prazo. No Reino Unido, o objetivo do governo
é manter a inflação dentro da faixa de 1-3 %, e o índice de preços ao consumidor (IPC) é monitorado em uma base
mensal. Uma amostra de estatísticas IPC anuais para a economia do Reino Unido é apresentada na Tabela 12.1. Como a tabela
demonstra, até recentemente a tendência geral tem sido por volta de 2 %, e isto é considerado encorajador, não como um fim
por si só, mas devido à sua significância em atingir todos os objetivos do governo. A estabilidade de preços é tão fundamental
para compreender a gestão macroeconômica moderna que apresentamos, no Capítulo 14, uma explicação completa de sua
medição e de seus impactos sobre as expectativas das empresas.

Tabela 12.1 Estatísticas macroeconômicas do Reino Unido


Existem diversas fontes para estes dados, mas aqui utilizamos o site do Instituto Nacional de Estatísticas (consulte a revisão
da Internet no início da Parte A). Três pontos precisam ser enfatizados; primeiro, dados econômicos são um tema sujeito à
revisão; segundo, são calculados de diferentes formas por cada nação; terceiro, a compreensão adequada depende das
notas de rodapé.
  1995 2000 2005 2007 2011

Inflação1 2,6 0,8 2,1 2,3 4,5

Desemprego2 2,3 1,0 0,9 0,9 1,5

Crescimento 2,8 3,1 2,7 2,5 0,7


3
econômico

Balança de pagamento4 –34,0 –99,2 –124,0 –231,2 –111,2

Notas: 1 Preços ao consumidor (aumento percentual sobre o mês anterior)


2 Desemprego (média anual, em milhões)
3 Aumento percentual anual no PIB real
4 Valores atuais (total para um ano inteiro, R$ bilhões)

Pleno Emprego
O pleno emprego não significa que todos em idade economicamente ativa estão empregados; como em qualquer economia
dinâmica, algum desemprego é inevitável. Por exemplo, sempre vão existir indivíduos entrando e saindo do emprego, na
medida em que trocam um trabalho por outro, e sempre haverá fatores sazonais, tecnológicos e exteriores que causam
flutuações nos trabalhos disponíveis em diferentes setores. Os problemas surgem, entretanto, quando existe um grande número
de desempregados por longos períodos de tempo, já que uma grande quantidade de trabalhadores desempregados representa um
desperdício de recursos. Isso também gera muitos custos, não somente em termos de perda de produção, mas também em
termos de sofrimento humano e perda de dignidade. Todos os governos registram o número de trabalhadores desempregados,
embora a forma de realizar essa medição mude de tempos em tempos. Atualmente, o desemprego ‘oficial’ no Reino Unido é
estimado pelo número de pessoas cadastradas no seguro-desemprego. O desemprego se expressa tanto como uma taxa
percentual — o número de reclamantes do seguro-desemprego como uma porcentagem da força de trabalho total de 31 milhões
— quanto como um número absoluto. A taxa de desemprego tem estado abaixo de 10 % por mais de uma década, com o
desemprego atingindo um pico de aproximadamente 2,3 milhões na metade da década de 1990.

Crescimento Econômico Sustentável


Um objetivo de longo prazo de todos os governos é alcançar aumentos constantes na capacidade de produção. Estes medem o
crescimento econômico a partir da alteração anual na taxa de produção, e a medida mais comumente utilizada é o Produto
Interno Bruto (PIB). Os números do PIB são utilizados por todo o mundo como representantes do progresso de um país a
caminho da prosperidade: uma vez que, quanto mais dinheiro um país lucra, maior é o crescimento de seu PIB, supõe-se que
aumentos no PIB significam que os cidadãos daquele país estão gozando de um melhor padrão de vida. A forma como o PIB
mensura a produção pode ser vista como um gigante rodeando todas as transações que ocorrem em um país. Para retratar
precisamente a taxa de alteração da produção atual, o PIB deve ser corrigido por mudanças de preço de um período de tempo
para outro. Quando isto é feito, atingimos o que é chamado de PIB ‘real’. Assim, uma medida de crescimento econômico mais
formal pode ser definida como a taxa de alteração no PIB real ao longo do tempo (normalmente um ano). Como as notas de
rodapé indicam, os dados da Tabela 12.1 foram corrigidos corretamente. Isto é, portanto, um indicador claro de boom ou de
recessão. Uma explicação mais completa do PIB e de como este é calculado é dada no Capítulo 13.

Equilíbrio Externo
Todas as transações econômicas internacionais são registradas nas estatísticas da balança de pagamento do país. A situação
ideal representa uma posição na qual, ao longo dos anos, uma nação gasta e investe em outras nações menos do que as outras
nações gastam ou investem nela. As transações econômicas com outras nações podem ocorrer em diferentes níveis e, para fins
contábeis, essas transações são geralmente agrupadas em três categorias: conta-corrente, conta de capital e conta financeira.
Entre as três, a mais amplamente citada é a conta-corrente. Esta envolve todas as transações relacionadas com a troca de bens
visíveis (como itens manufaturados, o que pode incluir os materiais de construção), a troca de serviços invisíveis (como
trabalhos no exterior realizados por consultores) e os ganhos de investimento (como lucros externos). Claramente, em qualquer
ano, o déficit na balança de pagamento de uma nação corresponde a um superávit na balança de pagamento de outra nação —
ultimamente, entretanto, isto não é sustentável e, em longo prazo, as dívidas devem ser pagas. Os dados na Tabela 12.1 mostram
uma tendência preocupante, na medida em que os números da conta-corrente do Reino Unido são todos de quantias negativas.
Entretanto, além da compra e venda de produtos e serviços no mercado mundial, também é possível comprar e vender ativos
financeiros e estes são registrados separadamente na conta financeira. A posição anual do Reino Unido em sua conta financeira
está normalmente em equilíbrio. Uma observação de qualificação adicional sobre o comércio exterior é reconhecer que registrar
precisamente os números das balanças de pagamento é extremamente difícil. (De fato, de todas as estatísticas apresentadas na
Tabela 12.1, as estimativas da balança de pagamento estão sujeitas, de longe, às maiores alterações.) Na prática, portanto,
estatísticas relacionadas ao equilíbrio externo precisam ser consideradas em um contexto histórico mais amplo.

Proteção Ambiental
O meio ambiente obteve um elevado perfil político nos últimos anos, e há um reconhecimento de que uma economia saudável
depende de uma base de recursos saudável. Já reiteramos diversas vezes que a proteção do meio ambiente, e de fato, sua
valorização, constitui uma vertente importante da agenda de desenvolvimento sustentável. Também examinamos
(particularmente na Parte B) o problema de que — deixados à própria sorte — os mercados não podem lidar efetivamente com
impactos ambientais. Atualmente, há um debate abrangente surgindo das preocupações de que algumas atividades econômicas
deterioram o meio ambiente, e os políticos estão começando a considerar a proteção ambiental em conjunto com outras metas
macroeconômicas. Como resultado, os governos estão cada vez mais escolhendo intervir para influenciar na alocação de
recursos, preservar a biodiversidade e reduzir a poluição. Entretanto, não há nenhum acordo sobre a forma de mensurar o
impacto das iniciativas de proteção ambiental e, assim, não há nenhum indicador para este objetivo na Tabela 12.1. Já
debatemos os problemas de integrar os custos ambientais no mercado e iremos mais uma vez avaliar brevemente as implicações
ao considerar a medição da produção nacional no Capítulo 13 e ao introduzir a possibilidade de medir a pegada ecológica de
uma nação.

PRIORIDADES: UMA PERSPECTIVA HISTÓRICA


A ordem de prioridade na qual esses cinco objetivos macroeconômicos são apresentados varia de governo para governo. Mas
todos os governos, em todas as nações, por fim, buscam esses objetivos em sua procura por estabilidade macroeconômica. De
fato, desde o final da Segunda Guerra Mundial, houve um consenso de que os governos devem tomar medidas para estabilizar a
atividade econômica. Por exemplo, o White Paper* sobre o emprego, publicado em maio de 1944, estabeleceu que o governo
aceita a responsabilidade pela manutenção de níveis altos e estáveis de crescimento e emprego, e esses temas dominaram as
agendas dos governos no século XX.
Desde a década de 1980, entretanto, a ordem de prioridade mudou e os governos tornaram-se mais interessados em conter
a inflação. Declarações orçamentárias feitas durante a década de 1990 enfatizaram que a estabilidade de preços era considerada
uma condição prévia para assegurar níveis de crescimento e de emprego altos e estáveis. Conforme os cenários político e
econômico se desenvolvem, é previsível que, em algum momento de um futuro não muito distante, haja outra mudança na
ênfase, na medida em que o objetivo de proteger o meio ambiente se torne suficientemente importante para aumentar sua
visibilidade e rebaixar a inflação, o emprego, o comércio e o crescimento de suas posições atuais de quatro principais objetivos
econômicos dos governos. Em outras palavras, embora atualmente possa haver algumas dúvidas sobre a prioridade em anexar
as questões ambientais, o interesse demonstrado nas mudanças climáticas e no desenvolvimento sustentável está ganhando
impulso em todo o mundo e uma nova ordem é iminente.

Pontos-Chave 12.1
Para alcançar a estabilidade econômica, são perseguidos cinco objetivos macroeconômicos principais: (a)
pleno emprego, (b) preços estáveis, (c) equilíbrio externo, (d) crescimento constante e (e) proteção
ambiental.
A ordem de prioridade conferida a esses objetivos macroeconômicos varia de governo para governo.

INSTRUMENTOS DE POLÍTICA DO GOVERNO


Em suas tentativas de alcançar seus objetivos macroeconômicos, todos os governos, independentemente da convicção política,
empregam os mesmos tipos de instrumentos políticos. Novamente, apenas a ênfase parece mudar. Esses instrumentos podem ser
agrupados em três categorias políticas gerais:
• política fiscal;
• política monetária;
• política direta.

Política Fiscal
No Reino Unido, a política fiscal emana, em nome do governo, do Ministério do Tesouro. A política fiscal consiste em
grande parte de tributação (de todas as formas) e de gastos públicos (de todas as formas). A palavra ‘fiscal’ é derivada do latim,
‘bolsa do Estado’ — e esta é a mais apropriada, na medida em que a tributação é a principal fonte de renda, a partir da qual os
governos financiam os gastos públicos. Em resumo, a política fiscal se concentra no fluxo de dinheiro do governo entrando no
erário público e saindo dele.
Elementos importantes do quadro fiscal atual devem certificar-se de que ambos os lados do balancete do governo sejam
gerenciados eficazmente. Qualquer dívida do setor público deve ser mantida em um nível prudente e estável com relação ao
PIB, e empréstimos são aceitáveis apenas para cobrir as despesas de capital. Em termos técnicos, essas duas regras do Tesouro
são:
• a regra de ouro, que afirma que durante o ciclo econômico o governo pode fazer empréstimos somente para investir e não
para financiar despesas correntes;
• a regra do investimento sustentável, que afirma que durante o ciclo econômico as dívidas do setor público expressas
como uma proporção do PIB devem ser mantidas a um nível estável e prudente.
Gastos com o fornecimento de produtos e serviços para serem consumidos no mesmo ano (como despesas com remédios no
Serviço de Saúde) são classificados como despesas correntes. Gastos que produzem um fluxo de produtos e serviços para serem
utilizados por muitos anos (como financiar um novo hospital) são classificados como gastos de capital e podem ser financiados
dentro de parâmetros razoáveis por empréstimos do setor público.
As duas regras do Tesouro fornecem um ponto de referência contra o qual o governo pode julgar seu desempenho fiscal e
estabelecer um quadro estável para a economia como um todo. Elas fornecem um quadro por meio do qual o Reino Unido visa
gerenciar seus assuntos fiscais de maneira transparente, estável, justa e eficiente. O endividamento público excessivo cria
instabilidade e precisa ser mantido em um mínimo absoluto. O problema é que muitos dos gastos do setor público atuais são
determinados pela demanda (por exemplo, a despesa com remédios pelo Serviço Nacional de Saúde é determinada pelos níveis
de doenças diagnosticadas) e muito dos gastos de capital do setor público são determinados politicamente, no sentido de que já
estão comprometidos com anos de antecedência (por exemplo, os hospitais construídos sob planos IFP estão sujeitos a
pagamentos anuais que foram determinados muitos anos atrás). Assim, o objetivo fixado pelo governo para equilibrar a conta-
corrente do setor público é um desafio.

Política Monetária
A política monetária é implementada na maioria dos países por um banco central, tal como o Bundesbank na Alemanha, o
Federal Reserve nos Estados Unidos e o Bank of England na Inglaterra. No Reino Unido, antes de 1997, a política monetária
era definida pelo governo — em outras palavras, o Banco da Inglaterra simplesmente seguia as instruções do governo. Em maio
de 1997, o governo estabeleceu um novo quadro para a política monetária, transferindo a responsabilidade operacional para um
comitê de política monetária (COPOM) independente. O comitê é responsável pela estabilidade monetária e financeira.
Neste papel, ele define as taxas de juros a cada mês e fornece apoio para o crescimento econômico por meio de um sistema de
flexibilização quantitativa. A medida global da eficácia dos COPOM é julgada por sua habilidade em manter a meta geral de
inflação do governo. Atualmente, o objetivo é um aumento de 2 % no índice de preços do consumidor. (Um relato mais
abrangente do trabalho do COPOM e a medição da inflação são explicados no Capítulo 14.)
O comitê de política monetária é composto por dez especialistas trazidos de dentro e de fora dos círculos governamentais.
Nas reuniões mensais, o painel de peritos realiza uma análise aprofundada de um amplo conjunto de dados. As atas do comitê
de política monetária publicadas (extraídas do Relatório de Inflação mensal do Banco da Inglaterra) sugerem que a análise
inclui o estado geral da economia mundial, tendências da procura interna, o mercado de mão de obra, o mercado imobiliário e
os mercados financeiros, e por último, mas não menos importante, diversas medidas de inflação e custos em setores específicos
da economia. O comitê trabalha a partir da premissa de que as taxas de juros representam um custo geral da atividade e,
portanto, depois de permitir um período de tempo para transmitir através da economia as taxas de juros, em última análise,
controlam o nível de preços, a liquidez de financiamento e a demanda agregada.
Para permitir que o Banco da Inglaterra se concentre em questões relativas à estabilidade monetária, a responsabilidade de
supervisionar as instituições financeiras individuais foi entregue à recém-criada Autoridade de Serviços Financeiros em 1997.
Esta separação de funções sobreviveu a uma década de estabilidade econômica (de 1998 a 2007), entretanto, sérios problemas
no setor bancário causados pela crise de crédito levaram a apelos globais por uma maior regulação do sistema financeiro. Em
particular, os bancos comuns precisavam estar protegidos contra as atividades de maior risco de seus investimentos. Como
consequência, reguladores ao redor do mundo fortaleceram suas regras e aumentaram o nível de capital exigido pelos bancos
para suportar seus ativos. O Reino Unido planeja que a legislação separe as funções de banco comum (varejo) e investimento
(cassino) da atividade de um banco e espera-se que essas exigências sejam completamente empregadas até 2019 (consulte
Vickers (2011) e o Capítulo 14 para mais detalhes).

COORDENAÇÃO DA POLÍTICA FISCAL E MONETÁRIA


Um ponto importante a ser notado nesta conjuntura é que as políticas fiscal e monetária são igualmente importantes na gestão da
macroeconomia. Uma mudança para qualquer política tem amplos efeitos em muitos dos objetivos macroeconômicos
principais. Consequentemente, todos os governos empregam ambos os instrumentos, embora a ênfase se altere, de governo para
governo. Até 1997, o chanceler do Tesouro dirigiu a operação tanto da política fiscal quanto da política monetária do Reino
Unido. Embora isto teoricamente significasse que poderia haver um alto grau de coordenação entre os dois braços da política
macro, na prática isto frequentemente não era o caso. O governo trabalhista de 1997-2010 orgulhava-se dos níveis de
estabilidade que se seguiram à introdução do novo regime monetário em 1997. O governo de coalização que chegou ao poder
após as eleições de maio de 2010 estabeleceu o Office for Budget Responsibility (Escritório de Responsabilidade
Orçamentária — OBR) para realizar avaliações independentes das finanças públicas. Essas duas alterações resultaram em uma
maior clareza dos papéis e responsabilidades entre o Banco da Inglaterra e o Tesouro.

Política Direta
Muitas outras políticas econômicas do governo tendem a ser mais ‘objetivas’ em comparação com as diversas opções de
políticas fiscais e monetárias macro que consideramos até agora. Referimo-nos a este instrumento como política direta,
também conhecido como controle direto e intervenção direta. Uma característica deste tipo de política é que esta tende a ter um
menor impacto sobre os preços globais do mercado que as grandes mudanças macro para impostos ou taxas de juros.
A política direta tende a ser de natureza legislativa. Exemplos de livros didáticos de economia convencional incluem a
legislação destinada a controlar os preços, salários ou importações para auxiliar na estabilização dos preços e do comércio;
legislação para apoiar a pesquisa e desenvolvimento, educação e treinamento para influenciar no crescimento de longo prazo; e
apoio geral para estimular as empresas de pequeno porte. Bons exemplos de políticas diretas dentro da área da economia da
construção incluem normas e códigos de construção estabelecidos para elevar a qualidade e o desempenho dos produtos finais, e
a Estratégia para a Construção Sustentável (HM Government, 2008) introduzida para mudar atitudes culturais em relação à
produtividade, segurança e ao meio ambiente. Essas iniciativas destinam-se a estimular o crescimento, a estabilidade e o
desempenho ambiental do setor da construção.

POLÍTICA E OBJETIVOS MACROECONÔMICOS


O gerenciamento econômico eficaz não é uma tarefa fácil. As políticas e os objetivos básicos estão resumidos na Figura 12.1.
Uma macroeconomia afinada é ilusória. Existem trade-offs a serem realizados entre um objetivo e outro, e entre uma política e
outra. Como consequência, não existem fórmulas mágicas ou curas milagrosas com as quais os economistas possam concordar.
Em vez disso existe um vigoroso debate político que destaca as dificuldades que se encontram por trás da gestão da
macroeconomia.
Vamos considerar brevemente um exemplo de instabilidade macroeconômica. A crise financeira que perturbou as
economias ao redor do mundo, de 2008 a 2012, foi desencadeada por uma instabilidade nos mercados financeiros norte-
americanos em meados de 2007. Entretanto, a crise logo se espalhou por todo o mundo, com sérias implicações para o Reino
Unido e outros países. O sistema financeiro internacional chegou perto do colapso no outono de 2008, após a falência do
Lehman Brothers, e o pânico subsequente em torno dos mercados globais levou a ações sem precedentes pelos bancos centrais.
Por exemplo, o Banco da Inglaterra cortou as taxas oficiais de juros diversas vezes e forneceu bilhões em fundos extras na
medida em que tentava estabilizar o sistema financeiro.
Apesar dessas iniciativas de políticas monetárias, bancos e sociedades de construção (os credores) elevaram os custos e
restringiram a oferta de empréstimos em seus esforços para permanecerem solventes.

Figura 12.1 Objetivos e políticas do governo


Em outras palavras, as taxas de juros disponíveis para os tomadores de empréstimos aumentaram em todo o setor financeiro
(apesar dos esforços dos bancos centrais para baixá-las). Esta ação foi inédita já que a prática usual (esboçada no Capítulo 14)
era de que a mudança nas taxas de juros sobre hipotecas e empréstimos oferecidos pelos bancos se movesse exatamente na
mesma direção das alterações feitas na taxa oficial — e, em geral, no mesmo dia. Após 2008, entretanto, as instituições do
mercado financeiro estavam mais lentas na alteração de suas taxas e menos inclinadas a espelhar mudanças na taxa oficial. Elas
começaram a revisar suas margens e aumentar os custos dos empréstimos para alcançar um novo equilíbrio.
Como resultado, os gastos dos consumidores e os investimentos das empresas foram cortados — e isto, por sua vez,
reduziu a demanda por produtos e serviços. Este corte nos lucros das empresas conduziu a demissões. O aumento do
desemprego comumente impõe uma pressão sobre a política orçamentária, já que os desempregados não pagam mais o imposto
de renda (reduzindo as receitas do governo) e recebem benefícios do Estado (aumentando os gastos do governo). Os baixos
lucros das empresas também reduzem as receitas do governo recebidas a partir de impostos sobre as companhias. A
necessidade de financiamento do setor público — o déficit anual do governo — consequentemente aumentou. Por sua
vez, isto provocou um debate sobre a necessidade de cortar gastos do governo em outras áreas, levando a mais desemprego. Na
medida em que a produção cai, obviamente o crescimento econômico desacelera. Contudo, na medida em que o crescimento
econômico declina, há a possibilidade de um dano ambiental relativamente menor.
Esse período de instabilidade econômica enfatiza a natureza complexa da macroeconomia, a incompatibilidade de alguns
objetivos e políticas do governo, e a natureza global da interação macroeconômica. Outro ponto de complicação é o fato de que
poucas políticas têm um efeito imediato. Decisões monetárias são tomadas mensalmente e decisões fiscais são efetivamente
apenas realizadas anualmente no orçamento do governo, e as políticas que são executadas podem levar anos para dar resultado.

Pontos-Chave 12.2
Todos os governos utilizam uma combinação de políticas fiscais, monetárias e diretas.
A política fiscal se concentra nos gastos do governo e na tributação.
A política monetária se concentra em alcançar a estabilidade monetária e financeira a partir da manipulação
das taxas de juros e da flexibilização quantitativa.
O gerenciamento eficaz da macroeconomia é difícil devido à natureza incompatível dos objetivos políticos e
defasagens de tempo.

GESTÃO MACROECONÔMICA
A maioria das economias visa aumentar sua taxa de produção a cada ano. Isto foi atingido no Reino Unido — em média,
durante os últimos 60 anos, houve um aumento anual de 2,6 % na atividade econômica. Infelizmente, entretanto, o crescimento
de longo prazo não é alcançado a uma taxa constante, e sempre existem flutuações periódicas acima e abaixo da tendência geral
de alta — este conceito é retratado na Figura 12.2. Estas flutuações são relativas às atividades na economia mais ampla.
Às vezes, o clima geral de negócios é ameno: poucos trabalhadores estão desempregados, a produtividade está aumentando
e poucas empresas estão indo à falência. Em outros momentos, entretanto, os negócios não vão muito bem: existem muitos
trabalhadores desempregados, estão ocorrendo cortes na produção e um número significativo de empresas está em liquidação.
Esses altos e baixos nas atividades da economia são denominados ‘ciclos de negócios’, porém o termo não parece mais
apropriado, porque ciclos implicam recorrência predeterminada ou automática e, hoje em dia, não estamos experimentando
ciclos recorrentes automáticos. As alterações sutis que caracterizam a natureza geral da atividade econômica no século XX são
atualmente citadas como flutuações de negócios.
De fato, evidências empíricas destacam como a natureza das contrações e expansões mudou. Uma revisão dos dados de 28
economias avançadas cobrindo o século passado mostrou que a fase de recessão tem a tendência de encurtar a duração, e esta
raramente excede 15 meses. Os períodos de expansão aumentaram, e em alguns casos, nas economias asiáticas recém-
industrializadas, o crescimento sustentável foi alcançado por mais de 20 anos. Nos últimos anos, os períodos de expansão se
tornaram o modelo, enquanto as recessões têm sido relativamente raras (International Monetary Fund, 2007: Capítulo 5). Nem
os Estados Unidos nem o Reino Unido sentiram uma recessão (ou seja, dois trimestres consecutivos de crescimento negativo)
durante o período de 12 anos, de 1995 a 2007; em vez disso, eles tiveram mais de uma década de crescimento ininterrupto.
Alguns economistas e jornalistas iniciaram o século XXI celebrando o ‘fim dos altos e baixos’ da economia; contudo, dez anos
depois, na medida em que os anos de 2008 a 2012 testemunhavam uma crise atípica, comentaristas falavam de depressões,
recessões de duplo mergulho e ‘crise’.
Quando há sucessivos declínios reais no PIB, economistas e políticos ficam igualmente perturbados. Esses declínios na
produção são usualmente classificados como um curto período de recessão.

Figura 12.2 Flutuações de negócios


A linha contínua preta representa a tendência de crescimento de longo prazo em torno da qual a atividade econômica flutua.

Entretanto, quando o crescimento abaixo da tendência continua por diversos trimestres consecutivos, cria-se uma linha
preocupante entre uma recessão e uma depressão. Por exemplo, em abril de 2012, a economia do Reino Unido ainda permanecia
mais de 4 % abaixo de seu pico de 2008. Esse período de inatividade poderia ser categorizado como uma depressão. Quando
uma economia emerge de uma recessão com um curto período de crescimento, mas rapidamente cai de volta em uma recessão
— chamada de recessão ‘em forma de W’ ou de ‘duplo mergulho’ (como demonstrado na Figura 12.2). Isto ocorreu no Reino
Unido quando a economia vivenciou um mínimo entre abril de 2008 e julho de 2009 e, posteriormente, passou por um novo
período de crescimento negativo de outubro de 2011 a março de 2012.
A linguagem, os termos e as características das flutuações macroeconômicas estão constantemente sob revisão. É
interessante notar que o National Bureau of Economic Research (Escritório Nacional de Pesquisas Econômicas) nos Estados
Unidos se colocou formalmente em uma posição em que uma recessão é qualquer período de reduzida atividade econômica. Ele
identifica um mês quando a economia alcança um pico de atividade e um mês mais tarde quando a economia atinge um mínimo
— o tempo entre um mês e outro é uma recessão. Por exemplo, na depressão do final da década de 2000, o NBER identificou
dezembro de 2007 como o pico do ciclo econômico anterior na economia norte-americana e junho de 2009 como o mínimo,
quando o ciclo recessivo foi formalmente declarado completo (NBER, 2010). Nos termos da Figura 12.2, uma nova tendência
ascendente tinha começado, tudo muito abaixo da trajetória de crescimento de longo prazo. Nos termos do NBER, o ciclo de
negócios é caracterizado por picos e mínimos na atividade econômica. O período entre um pico e um mínimo é descrito como
uma contração ou uma recessão, e o período entre um mínimo e um pico como uma expansão. O NBER não define
separadamente depressões nem define uma recessão de duplo mergulho. Dois períodos de contração serão tanto duas recessões
separadas quanto partes de uma mesma recessão. O tempo dirá se a formulação do NBER se tornará mais amplamente aceita.

Interpretando as Flutuações de Negócios


Existe uma coleção de estatísticas econômicas que podem indicar onde estamos, onde estivemos e, mais importante, para onde
parece que estamos indo. Suas origens remontam à década de 1960, e ainda são denominadas indicadores conjunturais.
Elas permitem aos governos prever as mudanças que estão ocorrendo em uma economia. Essas previsões são baseadas em um
conjunto composto de estatísticas consideradas à frente da tendência econômica geral. Isto porque as coisas não acontecem
simultaneamente — alguns indicadores podem apontar no sentido ascendente, enquanto outros retratam uma tendência de
queda, especialmente nos ‘picos’ e nos ‘mínimos’ (o ponto de inflexão) de um ciclo.
As estatísticas que supostamente antecedem a tendência geral da economia alterando-se de 6 a 12 meses antes da tendência
principal são denominadas principais indicadores. Esse grupo é subdividido em dois subgrupos: um índice principal mais
longo (o qual busca pontos de inflexão cerca de um ano antes) e um índice principal mais curto (o qual indica pontos de
inflexão aproximadamente seis meses antes). Exemplos de principais indicadores são: construção de moradias, venda de carros
novos, otimismo empresarial e quantidade de crédito ao consumidor. Indicadores de atraso, por sua vez, se alteram
retrospectivamente, em geral cerca de um ano após uma mudança no ciclo econômico — eles confirmam o que já sabemos, e,
em termos de previsão, não são tão importantes. Exemplos de indicadores de atraso incluem desemprego, investimentos em
edificações, máquinas e instalações, níveis de estoque e pedidos de produção para a engenharia. Estatísticas econômicas
pensadas para rastrear o ciclo atual são chamadas de indicadores coincidentes, e o exemplo óbvio é o PIB.

Previsão Econômica
A interpretação de eventos econômicos é um processo complexo, especialmente porque os instrumentos da política
macroeconômica podem afetar diversas variáveis de uma só vez. Tomando o exemplo mais simples possível, alguns
prognosticadores sugerem rapidamente que a visão de um número crescente de guindastes no horizonte, visíveis da janela de
seus escritórios, significa que estamos prestes a testemunhar o início da próxima recessão. Porém, esta seria uma insinuação
ridícula, já que existem muitas outras variáveis que precisam ser levadas em consideração como base para uma previsão. Na
verdade, a arte de prever envolve o preenchimento de uma imagem utilizando o máximo de dados existentes possíveis e a
combinação desta análise com evidências anedóticas para se chegar a uma visão global. Para evitar muitos julgamentos
subjetivos, os modelos tendem a ser baseados em programas de computador, utilizando equações matemáticas para vincular
certo número de variáveis econômicas. Para nossos propósitos, essas variáveis podem ser categorizadas em dois tipos
principais. Variáveis exógenas são externas à economia, na medida em que são determinadas por eventos mundiais e
políticos (os exemplos incluem os preços do petróleo e as taxas de câmbio). Variáveis endógenas são dependentes do que se
passa dentro de uma economia (exemplos incluem o emprego e a inflação). Existem mais de 120 variáveis exógenas e centenas
de variáveis endógenas — e os maiores modelos tradicionais da macroeconomia contêm milhares de conexões. A tendência
atual, entretanto, é por modelos menores e que raramente excedem 20 equações fundamentais.
Previsões do Tesouro são informadas por 36 modelos independentes geridos por instituições da cidade e outras. A Tabela
12.2 apresenta a previsão de maio de 2012 para a economia do Reino Unido até 2016. A tabela resume as médias e não
demonstra o intervalo de estimativas que compõem a previsão. Por exemplo, as maiores e menores previsões para a variação
percentual do PIB em 2013 foram 3,0 % e 0,5 %, respectivamente; os valores para o IPC foram 3,2 % e 1,5 %.

Tabela 12.2 Previsões econômicas de 2012 a 2016

Projeções médias 2012 2013 2014 2015 2016

Crescimento do PIB (%) 0,3 1,8 2,2 2,5 2,4

IPC (%) 2,8 2,1 2,3 2,3 2,4


IPV (%) 3,2 2,6 3,4 3,7 3,9

Desemprego (milhões) 1,69 1,77 1,71 1,65 1,57

Conta-corrente (R$ -113,6 -97,6 -89,6 -73,6 -70,8


bilhões)

Fonte: Adaptada de HM Treasury, 2012.

Compreensivelmente, vez que é difícil prever precisamente o comportamento de milhões de consumidores e empresas
detalhadamente, as previsões econômicas estão frequentemente erradas. Além disso, as previsões são limitadas, porque se
baseiam em pressupostos sobre políticas que podem ter de mudar devido a eventos repentinos, ou estatísticas revisadas. Existem
também problemas relacionados a defasagens de tempo, já que por vezes levam-se anos para que um instrumento monetário ou
fiscal específico funcione completamente por meio de um sistema econômico.
O ponto mais importante, entretanto, é a mensagem transmitida pela previsão; a tendência não tem que ser 100 % precisa.
Modelos de previsão não são diferentes de qualquer outro modelo econômico, já que tentam simplificar a realidade. No caso da
economia, é uma realidade complexa, e um modelo de previsão somente identifica, mede e monitora as principais variáveis.
Compreender parte do quadro, entretanto, é melhor do que não enxergar nada.

Gerenciando a Indústria da Construção


Como você poderia esperar, as flutuações na produção da construção partilham um padrão similar com a economia como um
todo e são denominadas ciclos de construção. Curiosamente, os economistas têm uma longa história de estudos dos ciclos
de construção, não porque estão particularmente interessados na indústria da construção, mas sim porque há uma forte
possibilidade de que ela possa contribuir para um melhor entendimento das flutuações de negócios. Entretanto, a simetria entre
as flutuações de negócios e os ciclos de construção é complicada devido ao fato de o desenvolvimento econômico estar
normalmente associado com uma mudança do investimento em novas construções para os gastos com reformas e manutenções.
Em outras palavras, na medida em que o PIB aumenta, a proporção de novas construções diminui. Bon e Crosthwaite (2000)
confirmaram esse padrão. Sua revisão internacional demonstrou que existe um declínio inevitável da parcela da construção no
PIB, à medida que a economia amadurece. De fato, temos observado que os novos países em desenvolvimento vivenciam até o
dobro da taxa de despesas com construção do que os países mais desenvolvidos. Exploraremos isto mais a fundo no Capítulo
13.
Outra comparação notável entre o setor da construção e o resto da economia é que os ciclos de construção tendem a exibir
uma amplitude muito maior que os ciclos equivalentes nas atividades de negócios em geral. Em outras palavras, períodos de
declínio são muito mais severos na construção do que na economia em geral, e reciprocamente, períodos de expansão são mais
flutuantes. Por exemplo, quando o Reino Unido entrou em recessão durante o primeiro trimestre de 2012, uma redução
relativamente pequena de 0,3 % no PIB foi acompanhada por um decréscimo significativo de 4,8 % na produção da construção
(variações percentuais com base no trimestre anterior). Existe, portanto, uma situação única e distinta na construção — a
tendência de longo prazo é que o crescimento na produção da construção diminua na medida em que a economia amadurece,
ainda que a variação de ano para ano possa ser bastante volátil.
Esta linha de análise não se destina a retratar uma indústria em depressão, já que a construção é, sem dúvida, um setor
importante e permanente de qualquer economia. Na verdade, no Capítulo 13, vamos argumentar que este é, possivelmente, o
setor mais importante. Ele certamente não é como outros setores que podem expandir e contrair e, então, desaparecer. O setor da
construção sempre tem trabalho — para manter o estoque existente, para repor o estoque demolido e construir um novo estoque
— mesmo que possa estar a uma taxa decrescente.
A partir da perspectiva de gestão da economia, a indústria da construção é importante, e as economias mais desenvolvidas
têm um departamento governamental ou uma comissão para coordenar as atividades do setor. No Reino Unido, existem muitas
interações do governo com a indústria. Os departamentos envolvidos com estradas, habitações, saúde, educação, energia, defesa
e meio ambiente procuram produtos da indústria — de fato, de uma forma ou de outra, cerca de 40 % da atividade da
construção é derivada, direta ou indiretamente, do setor público. Existe também uma Construction Sector Unit (CSU —
Unidade do Setor da Construção) baseada no Department for Business Innovation and Skills (BIS — Departamento de Inovação
e Habilidades Empresariais). Este é dirigido por um funcionário do alto escalão (que é o principal conselheiro de construção do
governo), reportando-se a um político (o Ministro dos Negócios). Os principais interesses desta unidade consistem em
transmitir uma melhoria significativa no desempenho dos negócios na construção civil, em termos de produtividade,
rentabilidade e competitividade. As funções do dia a dia da unidade estão resumidas na Tabela 12.3. Na realidade, isto significa
que a indústria possui representantes no nível de governo para discursar a seu favor e o governo tem um mecanismo para
transmitir suas mensagens de cima para baixo. Iniciativas governamentais atuais referem-se ao incentivo da adoção do
Building Information Modelling (e isto será tratado adiante no Capítulo 15), cortando os custos das aquisições públicas,
promovendo a inovação no setor e aumentando a compreensão da construção verde (Cabinet Office, 2011).
O Green Construction Board (GCB) fornece um exemplo de como estas diversas questões são tratadas. Sete grupos de
trabalho consistindo em mais de 150 representantes provenientes do governo e da indústria se encontram regularmente para
tentar desenvolver um quadro estratégico de longo prazo. Esse grupo está coletando evidências para criar um ‘banco de dados’
sobre pesquisa e desenvolvimento com baixo carbono para apoiar o trabalho da Força-Tarefa da Construção Sustentável. Juntos,
esses grupos pretendem criar um mapa para estabelecer a direção que a indústria deve tomar até 2050. O único problema então
será implementar a rota de viagem. Em resumo, o GCB é um fórum consultivo que proporciona a oportunidade para o governo
e para a indústria da construção, amplamente definida, promover a inovação e o crescimento sustentável. Formalmente lançado
em novembro de 2011, é muito cedo para julgar seu impacto, ou quais as políticas que o GCB poderia adotar para fazer valer
suas intenções (BIS, 2012).

Tabela 12.3 Funções da Unidade do Setor da Construção

Promover a pesquisa e o desenvolvimento para aumentar a inovação e a adoção de novas práticas

Aprimorar o processo de construção, as tecnologias e as técnicas

Abordar questões pessoais, como recrutamento, saúde e segurança, treinamento e diversidade

Melhorar as práticas de pagamento na indústria da construção civil

Melhorar o conhecimento dos benefícios da tecnologia da informação

Conduzir a sustentabilidade na construção

Promover as atividades no exterior pela indústria da construção

Envolver a indústria na regulação e no desenvolvimento de políticas

Fonte: Adaptada do site do BIS (2012).

Pontos-Chave 12.3
A maioria das economias modernas alcançam o crescimento de longo prazo, mas o padrão não é constante,
pois há períodos característicos de flutuação acima e abaixo da tendência geral de alta (consulte a Figura
12.2).
Os principais indicadores (cíclicos) são de particular importância na previsão macroeconômica, já que eles se
alteram de seis a 12 meses antes da principal tendência de negócios.
Os modelos utilizados para previsão e avaliação política são frequentemente baseados em programas de
computador vinculando variáveis endógenas e exógenas.
A simetria entre flutuações de negócios e ciclos de construção é complicada. A produção da construção
declina como uma porcentagem do PIB, na medida em que a economia amadurece; assim, a variação de
um ano para o próximo pode ser bastante volátil.
A maioria das economias desenvolvidas possui um departamento governamental ou uma comissão para
coordenar as atividades no setor da construção. A Unidade do Setor da Construção realiza esta função no
Reino Unido.
__________
*
Um White Paper (Livro Branco ou Relatório Branco) é um documento oficial publicado por um governo ou uma organização
internacional a fim de servir de informe ou guia sobre algum problema e como enfrentá-lo. (N.R.T.)
A indústria da construção civil é um importante foco da política de governo. Isto se deve largamente ao reconhecimento da
importância da construção para as economias nacionais. Definindo amplamente, a indústria da construção — incluindo
fabricantes de materiais de construção, equipamentos e componentes, e os diversos serviços profissionais oferecidos por
arquitetos, consultores, engenheiros e gerentes — normalmente representa cerca de 15-16 % da atividade econômica anual total.
(Você deve se lembrar de que comparamos a definição ampla e restrita da atividade construtiva no Capítulo 1; e pode ser útil
revisar os Pontos-Chave 1.3.)
Estatísticas oficiais, entretanto, geralmente tendem a limitar o setor da construção à definição restrita da indústria,
avaliando a atividade das empresas que constroem e fazem a manutenção de edificações e de infraestruturas — ou seja, somente
aquelas empresas que realizam atividades de campo. Consequentemente, a parcela da atividade econômica anual total atribuída
à construção pelas estatísticas oficiais nos países totalmente industrializados raramente é maior que 12 % e normalmente está na
faixa de 7-10 %. Nos 27 países da União Europeia, o setor da construção representou em média 9,6 % da atividade econômica
em 2011. Note, porém, que, como explicamos no Capítulo 12 (consulte os Pontos-Chave 12.3), a produção da construção tende
a declinar como uma proporção do PIB de um país na medida em que sua economia amadurece.
Além da contribuição da indústria ao fluxo econômico total, isto também implica um impacto significativo nos padrões de
vida e na capacidade da sociedade de produzir produtos e serviços. Em outras palavras, a construção é importante para a
economia porque ela produz bens de investimento. Estes são bens que não são desejados por si sós, mas por conta dos produtos
e serviços que eles podem criar. Em todos os 27 Estados membros da União Europeia, a construção representa 51,5 % de todos
os bens de investimento. A construção também pode ter efeitos extremamente significativos no nível de emprego, uma vez que
tende a absorver mais mão de obra que os outros setores. De fato, na Europa a construção é o maior empregador industrial,
representando cerca de 15 milhões de empregos. (Todas as estatísticas foram tomadas da Federação da Indústria da Construção
Europeia, FIEC, 2012.)
Neste capítulo exploramos a relação entre a indústria da construção, outros setores e a economia nacional. Como o
contraste entre as definições ampla e restrita da indústria ilustra, existem muitos setores intimamente associados à atividade da
construção. Deve ser levado em consideração que a construção afeta e apoia indiretamente atividades nos setores financeiro,
manufatureiro, de atacado, de varejo, residencial e de serviços. Em decorrência, os dados das atividades relacionadas à
construção são frequentemente confusos nas pesquisas das indústrias de manufatura e de serviços. Essas relações diretas e
indiretas possuem importantes implicações para o gerenciamento da macroeconomia, e sua análise é facilitada pela publicação
anual das contas de renda nacional, frequentemente referidas simplesmente como contas nacionais.

AVALIANDO A ATIVIDADE ECONÔMICA


O quadro da contabilidade nacional fornece uma descrição sistemática e detalhada da economia do Reino Unido e, seguindo as
convenções internacionais de contabilidade, permite que sejam feitas comparações com outros países. Não é nossa intenção
aprofundarmo-nos nas minúcias deste sistema, mas somente estabelecer os conceitos gerais de medição necessários para discutir
o papel mais amplo da construção.
Para iniciar a análise, consideramos uma economia simples sem um setor de governo, um setor financeiro ou um setor no
exterior — ou seja, nosso ponto de partida é um modelo de economia simples de dois setores, e analisamos somente a relação
entre proprietários e empresas. As complicações do mundo real serão consideradas mais tarde. Já retratamos a atividade
econômica utilizando esse tipo de modelo no Capítulo 1 (consulte a Figura 1.4), e por conveniência uma versão modificada é
apresentada na Figura 13.1.
Para tornar eficaz nosso modelo inicial, tomamos estas hipóteses:
• proprietários recebem renda para vender qualquer fator de produção que possuam;
• empresas vendem imediatamente toda sua produção para os proprietários, sem acumular qualquer estoque;
• proprietários gastam toda sua renda com a produção das empresas.
Essas três hipóteses parecem realísticas. As empresas só produzirão o que elas puderem vender. A produção implica o
pagamento pelo terreno, mão de obra, capital e à empresa, e estes serviços geram pagamentos de rendimentos — aluguéis,
salários, juros e lucros — os quais, por sua vez, são despesas. O modelo de fluxo circular esboçado sugere que há uma relação
íntima entre receita, produção e despesas. Essas conexões estão apresentadas em um formato tradicional na Figura 13.1.
A partir da Figura 13.1, fica claro que as empresas recompensam os proprietários dos fatores de produção (terrenos, mão
de obra, capital e empreendimentos) por meio do pagamento de aluguéis, salários, juros e lucros e, por sua vez, esses fatores de
recompensa (rendimentos) formam a base das despesas do consumidor. Este modelo demonstra que é possível mensurar a
quantidade de atividade econômica durante um período específico de tempo, somando-se o valor total da produção, ou o total
dos rendimentos, ou o total das despesas. Na realidade, é necessário adotar somente uma dessas três abordagens, uma vez que
elas são conceitualmente idênticas — até mesmo nas contas nacionais atuais elas raramente diferem mais que 0,5 %. A pequena
discrepância deve-se ao fato de que cada uma é calculada utilizando métodos estatísticos diferentes.
Para obter uma maior noção da magnitude dos números envolvidos, os leitores são orientados a consultar uma cópia do UK
National Accounts: The Blue Book* (ONS, 2011c). As Tabelas 1.1 e 1.2 resumem todos os três métodos de avaliação —
denominados abordagem da produção, abordagem das despesas e abordagem dos rendimentos. Analisando
essas estatísticas, é possível obter uma boa compreensão da economia, especialmente porque os dados cobrem, normalmente, os
últimos 10 anos. Embora pouquíssimas pessoas atualmente estudem a discriminação detalhada das contas do início ao fim, elas
são uma fonte de dados essencial para qualquer interessado em macroeconomia. Na verdade, as contas nacionais são muito mais
importantes que as alterações indicadas apenas no PIB; elas formam uma referência fundamental para aqueles que desejam
ampliar seu conhecimento da economia e de sua avaliação.

Figura 13.1 O fluxo circular de receita, produção e despesas


O diagrama destaca dois fluxos: um fluxo monetário e um fluxo real de produtos e serviços. Os dois fluxos inferiores indicam
o mercado de fatores — os proprietários trocam seus fatores de produção com as empresas em troca de um pagamento. Os
dois fluxos superiores demonstram o mercado de produto — as empresas fornecem um fluxo de produtos e serviços em
troca de um custo monetário.

PIB e Crescimento
Antes de considerar quaisquer números, entretanto, devemos compreender o que eles transmitem e o significado de qualquer
mudança em sua dimensão. Em termos simples, produto interno bruto (PIB) pode ser considerado o volume de negócios
anuais domésticos; ou, empregando a analogia utilizada no Capítulo 12, o resultado de um gigante rodeando todas as transações
que ocorrem em um território específico. Em termos formais:
o PIB representa o valor monetário total de toda a produção que ocorreu dentro de um território específico
durante um ano.
Uma medida alternativa é o rendimento nacional bruto (RNB). Este é muito similar ao PIB, mas inclui um valor líquido
para emprego, propriedades e rendimento empresarial fluindo para dentro ou para fora da economia de um país a partir do
exterior — em outras palavras, o RNB agrega todas as atividades que geram renda para um país em específico. Na prática, o
PIB e o RNB representam valores muito semelhantes. Por exemplo, o PIB de 2010 do Reino Unido totalizou R$ 5.832 bilhões e
o RNB foi de R$ 5.916 bilhões, ou seja, R$ 84 bilhões a mais. Nos estados europeus, o PIB e o RNB raramente diferem em
mais que 1 ou 2 %, mas a diferença pode ser substancialmente maior em economias menos desenvolvidas.
Quando os valores do PIB são ajustados de preços correntes para preços constantes para permitir a inflação, é possível
calcular o valor real de qualquer alteração na atividade econômica entre um ano e o ano seguinte. Efetivamente, o crescimento
econômico só pode ser declarado se o PIB ‘real’ tiver aumentado. Se o PIB real diminuir, isto é descrito como uma recessão.
Na maioria dos anos durante a última metade do século passado os valores registrados têm sido positivos.
Uma vez que o Reino Unido compartilhe com outros países um conjunto comum de convenções contábeis, podemos fazer
comparações internacionais do PIB e do RNB. Alguns valores são apresentados na Tabela 13.1 para seis países selecionados. A
última coluna, que mostra o crescimento do PIB, é obviamente expressa em relação à atividade econômica nos anos anteriores.
O termo ‘real’ enfatiza que a inflação foi removida do cálculo, com os valores do PIB de cada ano sendo expressos em um ano-
base acordado (para converter os preços correntes em preços constantes). A atividade econômica mundial tende a estar em um
caminho ascendente e, como a Tabela 13.1 apresenta, todas as economias selecionadas cresceram fortemente no período de
2000-2006. Em particular, houve grandes aumentos na Índia e na China, embora ambos os países estivessem crescendo a partir
de uma base econômica relativamente baixa. Para facilitar a comparação internacional é necessário levar em consideração o
tamanho do país. Isto é alcançado expressando-se o PIB ou o RNB em uma base per capita, dividindo-se o PIB ou o RNB
totais pela população total, para se chegar a uma quantidade por cabeça (consulte a coluna de dólares per capita na Tabela
13.1).

Tabela 13.1 Estatísticas macroeconômicas para as economias selecionadas

  Rendimento Nacional Bruto (RNB) PIB

Países em ordem de Bilhões de dólares 2010 Dólares per capita 2010 Taxa de crescimento real
classificação (%) 2000 – 2010

Noruega 427 87.350 1,7

Estados Unidos 14.646 47.340 1,8

Japão 5.334 41.850 0,9

Reino Unido 2.377 38.200 1,8

China 5.721 4.270 10,8

Índia 1.554 1.270 8,0

Fonte: Adaptada do Banco Mundial (2012: Tabelas 1.1 e 4.1).

As estatísticas na Tabela 13.1 foram retiradas dos Indicadores de Desenvolvimento Mundial, um conjunto abrangente de
dados produzidos anualmente pelo Banco Mundial. A primeira tabela na série sempre aborda ‘O Tamanho da Economia’. A
publicação atual lista dados relevantes para a maioria das principais economias nacionais em ordem alfabética. Em anos
anteriores, entretanto, esses dados foram apresentados em ordem de classificação de acordo com o RNB per capita. O conceito
de ‘ordem de classificação’ demonstra a importância desses valores, já que são utilizados para criar um tipo de tabela
classificativa, na qual (em 2010) Noruega, Estados Unidos e Japão estiveram à frente do Reino Unido, uma vez que o
rendimento nacional bruto (RNB) dividido pela população é maior em cada um desses países do que no Reino Unido. Se o RNB
‘total’ fosse o ponto de referência, a Noruega se deslocaria para o final da nossa lista, e a nação mais rica do mundo seria os
Estados Unidos, com um RNB de US$ 14.646 bilhões em 2010. Como se pode notar a partir da Tabela 13.1, há uma grande
diferença entre a maior e a segunda maior economia (medidas em termos de RNB per capita). Existem 309 milhões de norte-
americanos e 5 milhões de noruegueses; uma vez que o tamanho da população seja levado em consideração, a Noruega pode
oferecer um padrão de vida material mais elevado do que os Estados Unidos — US$ 87.350 comparados com US$ 47.340,
respectivamente. No outro extremo, a China e a Índia com as maiores populações do mundo são relativamente pobres, com uma
renda anual per capita de US$ 4.270 e US$ 1.270, respectivamente. De acordo com o Banco Mundial (2012), países de baixa
renda são aqueles com menos que US$ 1.005 per capita (o que é, possivelmente, menos que alguns estudantes no mundo
ocidental ganham por mês, mesmo enquanto estão estudando) e isto fornece alguma indicação do baixo padrão de vida médio
na Índia.
Deve-se ressaltar que esses valores derivados das contas nacionais não medem efetivamente a distribuição de riqueza ou
níveis de satisfação da sociedade. Pesquisas recentes no Reino Unido descobriram que cada aumento de R$ 400,00 na renda
nacional desde 1977 tem beneficiado desproporcionalmente aos ricos (particularmente, quando estão incluídos pagamentos de
bônus) e que desde 2008 a metade mais pobre da população (definida como 11 milhões de adultos em idade ativa, com renda de
baixa a média) não percebeu prosperidade alguma. Nas palavras do autor, os salários médios no Reino Unido ficaram
estagnados de 2003 a 2008, apesar do crescimento do PIB em 11 % nesse período. Tendências semelhantes são evidentes em
outras economias avançadas, dos Estados Unidos à Alemanha. Por algum tempo, o pagamento daqueles na metade inferior da
distribuição de renda não conseguiu seguir o caminho do crescimento econômico (Whittaker; Savage, 2011:2). Similarmente, os
valores da renda per capita demonstrados na Tabela 13.1 escondem a dura realidade da distribuição de renda desigual. Por
exemplo, 70 % daqueles que vivem na Índia e 30 % dos que vivem na China sobrevivem com menos de US$ 2 por dia, o que é
muito menos do que os respectivos valores per capita anuais sugeririam (Banco Mundial, 2012).
Há um debate iniciando sobre a ‘felicidade’ em um contexto econômico, pois há aqueles que argumentam que, embora as
pessoas tenham se tornado mais ricas na sociedade ocidental, elas não se tornaram mais felizes. Existem coisas que o dinheiro
não pode comprar, como boa saúde, relacionamentos duradouros, comunidades fortes, empregos interessantes e um belo meio
ambiente. Assim, a felicidade de uma sociedade não necessariamente se equipara a seu nível de rendimentos. O problema é que
nenhum método de medição de qualidade de vida, ou bem-estar, foi estabelecido até agora. O trabalho de Richard Layard no
Centro de Desempenho Econômico na Escola de Economia de Londres pode eventualmente preencher este vazio. Ele
certamente teve o estímulo de políticos de todos os partidos para identificar o que às vezes é referido como ‘índice de
felicidade’. A afirmação de Layard (2011) é que, na medida em que a sociedade consumidora se tornou dominante nos últimos
50 anos, a felicidade diminuiu. Ele aponta que nos tornamos mais ricos, saudáveis, temos melhores casas, carros, comidas e
mais feriados do que tínhamos meio século atrás, mas, apesar do crescimento econômico aumentando aos trancos e barrancos, a
felicidade no Ocidente estagnou. Isto levanta algumas questões sérias sobre a busca do crescimento econômico, e alguns
argumentam que este objetivo político não é sustentável nem desejável.

Pontos-Chave 13.1
As contas nacionais medem o nível anual de atividade econômica e o crescimento econômico é identificado
pelas alterações no PIB ‘real’.
O PIB representa o valor monetário total de toda a produção criada em um país durante um ano. O RNB inclui
a renda gerada para os cidadãos deste país por atividades no exterior.
O PIB per capita é uma medida ampla da renda nacional, mas é pouco útil como um indicador do bem-estar
da sociedade.

PIB E CONSTRUÇÃO
A construção é uma parte significativa da economia total. Em 2010, a construção, no sentido mais restrito da definição,
produziu cerca de 7 % do PIB do Reino Unido. Em comparação, a manufatura produziu 16 % do PIB, enquanto a agricultura
respondeu por somente 1 %. A maior parte da atividade econômica recaiu sobre a categoria de serviços, que inclui os setores de
atacado e varejo. Em 2010, o setor de serviços respondeu por 76 % do PIB (ONS, 2011c).
Em países em desenvolvimento, o setor da construção pode contribuir de 15 a 20 % do PIB porque este responde por uma
quantia significativa do investimento durante o desenvolvimento de um país. Na medida em que a industrialização prossegue,
fábricas, escritórios, infraestrutura e moradias são necessárias e a produção da construção, como uma porcentagem do PIB,
alcança um pico. Em outras palavras, a construção é responsável pela produção das edificações e infraestrutura das quais a
maior parte das atividades econômicas depende.
Uma vez que a economia tenha se desenvolvido, a demanda por produtos de construção, em termos relativos, declina e a
produção da construção como uma porcentagem do PIB reduz gradativamente. Em uma nação industrializada, o parque
imobiliário é bem desenvolvido e, portanto, a necessidade de aumentá-lo é menor. Grande parte da infraestrutura e muitas
edificações podem estar envelhecendo, mas a necessidade de novas construções é geralmente menor — entretanto, é provável
que haja uma grande necessidade por trabalhos de reforma e manutenção. Geralmente, portanto, quanto maior o PIB per capita,
maior a proporção de trabalhos de reforma e manutenção no setor da construção. Esta relação é descrita pela curva de Bon
(consulte a Figura 1 da Leitura 5, no Capítulo 14).
A análise de Bon (1992) estudou todo o caminho do desenvolvimento, dos países menos desenvolvidos àqueles com um
estado industrializado avançado. O quadro que surge é aquele no qual a parcela da construção no produto interno bruto tende a
aumentar com o nível de renda per capita, durante os primeiros estágios do desenvolvimento econômico. Entretanto, uma vez
que um país alcança certo nível de desenvolvimento, a produção da construção, em termos relativos, declina em relação à
produção nacional — ou seja, ela diminui relativamente, mas não absolutamente. A análise de Bon sugere que, quando certo
nível de desenvolvimento é alcançado, a parcela da atividade construtiva se estabelece por volta de 6 a 8 % do PIB de um país.
Tome a China como exemplo; durante as duas primeiras décadas de sua época de reforma (1978-1999) ela era um país menos
desenvolvido; a construção como uma porcentagem do PIB cresceu de 3,8 para 6,6 %. Durante a década seguinte, na medida em
que estradas, portos, redes ferroviárias, aeroportos, centrais elétricas, fábricas e moradias foram concluídas, a produção da
construção na China aumentou em 13 % no PIB. Uma vez que a China amadureceu completamente em uma economia de alta
renda, era de se esperar que essa taxa fenomenal de crescimento da construção diminuísse, porém, devido à escala do país e à
população, este não será o caso por pelo menos outra década.
Seguindo a lógica da análise de Bon (1992) e o subsequente corpo de pesquisa que esta desencadeou [consulte a Leitura 5
e Choy (2011) para referências], agências de desenvolvimento e organismos internacionais, como o Banco Mundial e as Nações
Unidas, tornaram-se mais confiantes no papel fundamental desempenhado pela infraestrutura no desenvolvimento de um país
pobre. Eles afirmaram que os países pobres se encontram em uma armadilha da pobreza, e escapar desta armadilha exige
grandes investimentos na construção da infraestrutura básica (estradas, redes de eletricidade, portos, água e saneamento,
terrenos viáveis para habitações a preços acessíveis) e na gestão ambiental (Foster; Briceno-Garmendia, 2009). Resumindo,
existe uma grande correlação entre crescimento econômico e a atividade da construção civil em países em desenvolvimento.
A relação entre o PIB e a produção da construção é discutida nos três estudos de caso deste capítulo. Entretanto,
terminamos esta seção inserindo algumas advertências gerais sobre a confiabilidade dos dados de construção. É difícil obter
dados precisos da produção do setor da construção por três razões. Primeiro, a indústria da construção engloba um grande
número de pequenas empresas dispersas geograficamente e que executam principalmente pequenos projetos. Isto torna difícil a
compilação de conjuntos de dados abrangentes para as agências do governo que monitoram a indústria. Segundo, a maior parte
do trabalho de construção é subcontratada e, consequentemente, existe um risco de uma dupla contagem; a divisão de
estatísticas de construção da ONS não busca os dados da produção dos incorporadores, já que estes são considerados clientes
dos empreiteiros. Terceiro, juntamente com as atividades oficiais ‘citadas nos livros’ e registradas nas contas das empresas, há
uma economia informal significativa — trabalho não oficial realizado mediante pagamento à vista. (Há também o dilema do
trabalho realizado pelo próprio proprietário.)
Os exemplos mais extremos de dados duvidosos parecem vir de países menos desenvolvidos ou daqueles em estado de
transição. Meikle (2011) chega ao ponto de sugerir que a construção ‘informal’ poderia possivelmente representar a maior parte
da atividade de construção em alguns países em desenvolvimento. Ele afirma que na África 90 % ou mais das edificações
residenciais rurais e mais de 50 % das construções urbanas são de produção informal. Nos países da OCDE (Organização para a
Cooperação e Desenvolvimento Econômico) com maior renda, a construção informal também é uma questão, com algumas
estimativas avaliando esta atividade em torno de 18 % da produção da construção oficialmente registrada (Jewell et al., 2005).
A produção da construção é difícil de mensurar porque muitas das pequenas empresas de construção não são capazes de atender
(ou não querem atender) as demandas burocráticas dos sistemas de contabilidade nacionais. Os dados podem ser incertos. As
pesquisas podem ser concluídas com base no valor das cotações para novos pedidos, e estes podem ser reenviados mais tarde,
possivelmente a um preço menor, criando uma lacuna de credibilidade nos dados. Existem também empresas de construção que
não declaram alguma parte ou todo seu trabalho para evitar impostos. A sonegação de impostos reduz a renda do governo e
também pode fazer com que o valor real da produção da construção seja subestimado. Alguns países determinaram um valor
para a produção da construção informal, mas o último conjunto de revisões do método para compilar dados da produção da
construção, o qual entrou em vigor em 2010, eliminou qualquer estimativa para a produção não registrada. Pode-se argumentar
que não existem garantias de que qualquer estimativa para a atividade informal seja justa, assim é mais transparente deixá-la de
fora completamente. Entretanto, esta alteração na abordagem introduz uma descontinuidade nos valores do Reino Unido, já que
os dados publicados antes de 2010 foram compilados em uma base diferente e incluíram uma pequena parcela da atividade
informal.
Pontos-Chave 13.2
A indústria da construção pode ser definida de diversas maneiras. Definições amplas sugerem que, em geral,
esta indústria responde por 14-16 % da atividade econômica anual total; na definição restrita, ela responde
somente por cerca de 6-8 %.
Existe uma relação entre o nível de atividade construtiva e o estado de desenvolvimento de um país. A
construção pode ser considerada o motor do crescimento econômico.
Na maioria dos países, a atividade construtiva é dificilmente avaliada precisamente e, em muitos casos, é
sub-relatada nas contas nacionais.

DO MODELO DE FLUXO CIRCULAR PARA A REALIDADE


O modelo de fluxo circular de dois setores apresentado na Figura 13.1 sugere que a quantia de dinheiro circulando em uma
economia é sempre constante — os números do PIB nunca mudam; o crescimento econômico é sempre igual a zero. Isto porque
o modelo é baseado em uma hipótese de que os níveis de despesas determinam precisamente os níveis de rendimentos, e as
despesas são, por sua vez, determinadas pela renda, e assim por diante. Neste modelo teórico de economia de dois setores, os
níveis de renda e de despesas são permanentemente estáticos: não há crescimento nem declínio. Esta economia poderia ser
considerada como estando em equilíbrio neutro.
Na realidade, entretanto, todas as economias vivenciam perdas (retiradas) do fluxo circular. Isto ocorre nos setores que
inicialmente excluímos: instituições financeiras, governo e exterior. Simultaneamente, pode haver injeções de fundos na
economia através desses setores, por exemplo, das exportações (ou seja, ganhos que entram a partir do exterior).

Perdas e Injeções
A Figura 13.2 expande o modelo de fluxo circular para incluir as perdas e as injeções. Três perdas de despesas são
demonstradas: poupanças, importações e impostos. Contrabalançando essas perdas, existem três injeções: investimentos,
exportações e gastos públicos. As decisões que determinam o tamanho global dessas perdas e injeções de fundos são tomadas
por diferentes grupos de indivíduos, com diferentes motivações. É muito improvável, portanto, que as perdas e as injeções
sejam iguais e cancelem umas às outras.

Figura 13.2 Modelo de fluxo circular com injeções e perdas


Para completar o diagrama de fluxo circular, as perdas devem ser subtraídas na medida em que os proprietários poupam,
gastam dinheiro com importações e pagam impostos ao governo. E as injeções precisam ser adicionadas na medida em
que as empresas se beneficiam dos fundos de investimentos, das receitas de exportação e dos gastos do governo.
Se o nível total de perdas for maior que o nível de injeções, a economia se tornará fraca, aumentando o nível de
desemprego e reduzindo os padrões de vida. Tomando um exemplo extremo, se cada proprietário decidisse gastar seu dinheiro
em importações, então isto poderia representar uma grande perda de fundos para o fluxo circular interno e um impulso
significativo para outros países. Reciprocamente, se o nível total de injeções for maior que o nível de perdas, a economia será
impulsionada, aumentando o número de oportunidades de emprego e elevando a renda nacional.

EQUILÍBRIO DA MACROECONOMIA
Equilíbrio significa um ‘estado de equilíbrio’. No contexto macroeconômico, isto significa que níveis de renda, despesas e
produção se ajustam continuamente para cima ou para baixo para se manterem alinhados um com o outro. Por exemplo, quando
as perdas excedem as injeções, as despesas com a produção doméstica são inferiores aos fatores de renda. Consequentemente,
as empresas não possuirão receita suficiente para cobrir seus custos de produção.

Os estoques se acumularão e as empresas cortarão a produção e a renda, até que se igualem às despesas novamente. Um novo
nível de equilíbrio terá sido alcançado. É a natureza dos desequilíbrios entre as perdas e as injeções que incita mudanças na
produção de ano para ano. Essas mudanças conduzem a diferentes níveis de renda circulando dentro da economia —
representando diferentes níveis de atividade econômica. O dilema para os economistas, entretanto, é que, apesar de todas as
economias tenderem ao equilíbrio, o nível associado de atividade não é sempre suficiente para apoiar o pleno emprego.
Deve estar claro agora que a análise da renda nacional é unidimensional, na medida em que se concentra inteiramente no
valor monetário dos bens materiais e serviços. Sempre que discutimos perdas e injeções, as dimensões ambientais (tratadas na
Parte B) são ignoradas. A interação entre a economia e o meio ambiente não é mensurada efetivamente nas contas nacionais
convencionais. De fato, qualquer dinheiro gasto na limpeza do meio ambiente simplesmente contribui para as despesas totais,
da mesma maneira que o dinheiro gasto com o despejo de lixo, com o combate ao crime, ou com a preparação de ataques
militares. Atualmente, toda a produção é considerada uma contribuição ao bem-estar econômico. Em termos históricos, uma
explicação para essa atitude positiva com toda a produção se deve a sua associação com o emprego. Isto ficará mais claro na
próxima seção.

Pontos-Chave 13.3
Exportações, investimentos e gastos do governo representam injeções para o fluxo circular. Importações,
poupanças e impostos representam perdas. A dimensão das injeções fixadas contra as perdas determina o
nível anual de atividade econômica.
Todas as economias tendem ao equilíbrio, mas isto não garante o pleno emprego.
As contas nacionais convencionais não medem sistematicamente as interações entre a economia e o meio
ambiente.

MANIPULANDO O NÍVEL DE ATIVIDADE ECONÔMICA


Nos últimos 60 anos, tem havido alguns debates entre economistas sobre as políticas que deveriam ser adotadas pelos governos
para gerenciar a economia. A discussão prosseguiu em duas fases principais. Durante os anos que se seguiram à Segunda
Guerra Mundial, o consenso de opiniões parecia ser pela estratégia intervencionista. Essa abordagem foi esclarecida pela teoria
keynesiana da gestão da demanda. O principal objetivo era manter a economia funcionando em plena capacidade, sem
incorrer em grandes flutuações na produção. Durante os últimos 20 ou 30 anos, o consenso keynesiano deu lugar a uma
economia pelo lado da oferta, com mercados livres irrestritos fornecendo a base teórica dessa discussão. O objetivo
econômico dominante da economia pelo lado da oferta é controlar a inflação a fim de alcançar níveis altos e estáveis de
crescimento e emprego. As duas abordagens contrastantes de gerenciar o nível de atividade econômica são consideradas
adiante.

Gestão da Demanda
Quando um governo se depara com uma situação na qual os recursos não são empregados e a economia está normalmente
operando abaixo de sua capacidade plena, ele pode intervir de diversas maneiras para reflacionar a economia. A opção mais
fácil é aumentar seus próprios gastos e, assim, injetar fundos no fluxo circular. Essa ideia, conhecida como gestão da demanda,
esteve na moda em toda a Europa entre 1945-1975. Era uma opção atrativa porque injeções de fundos do governo pareciam ter
um efeito multiplicador no nível de renda e emprego nacional.

TEORIA DO MULTIPLICADOR
A teoria do multiplicador baseia-se no conceito de fluxo circular — na ideia de que as despesas determinam o nível de
produção e seu rendimento associado. Em outras palavras, quando as pessoas estão empregadas elas gastam seus salários em
produtos e serviços gerados em outros setores da economia, os quais, por sua vez, geram empregos e despesas em outros
lugares, criando uma espiral ascendente. Keynes argumentou que, se a quantidade atual de despesas é insuficiente para manter o
pleno emprego, torna-se aconselhável para o governo intervir — ou, expressando em termos jornalísticos, ‘dar a partida’ ou
‘impulsionar’ a economia.
Considere este cenário: suponha que um governo invista R$ 160 milhões em uma nova estrada. Isso fará com que as
despesas e a produção aumentem na mesma proporção. Para incrementar a produção, será necessária maior quantidade de mão
de obra. Novas empresas podem surgir. Os recursos recém-empregados serão remunerados com a renda do valor da injeção
inicial. Entretanto, na medida em que essse dinheiro circula ao redor da economia, uma parte dos R$ 160 milhões irá escoar do
fluxo na forma de poupanças, importações ou impostos. Os economistas se referem a isto como a propensão marginal a
poupar (PMP). O conceito da margem — conforme discutimos no Capítulo 7 — se concentra em valores adicionais ou
incrementais. A propensão marginal a poupar, portanto, representa a proporção da renda ‘adicional’ que não é utilizada para o
consumo. Se considerarmos uma PMP de 25 %, podemos rapidamente calcular que os proprietários irão gastar R$ 120 milhões
de sua renda aumentada em bens de consumo. (Certamente, se os beneficiários da renda injetada pelos gastos do governo
estivessem desempregados anteriormente, poderíamos esperar que essas famílias gastassem qualquer renda adicional em
consumo em vez de poupar.) Essa despesa adicional irá acrescentar um novo impulso às despesas totais. Por sua vez, as
empresas que produzem bens de consumo aumentarão a produção, precisarão de mais recursos e terão que desembolsar mais
com juros, salários e aluguéis a fim de obter maiores lucros. Novamente a renda irá aumentar. Isso levará a sucessivas rodadas
de novas despesas. Se continuarmos a calcular o aumento nas despesas adicionais que ocorrem como resultado do investimento
adicional do governo de R$ 160 milhões, perceberemos que a renda nacional é ‘elevada’ em uma quantia significativamente
maior. Neste exemplo, poderia ser de R$ 640 milhões. O fator determinante é o tamanho da perda, porque o multiplicador é
igual ao inverso da PMP. Nas economias europeias desenvolvidas, as perdas são bastante grandes e, consequentemente, o efeito
multiplicador é significativamente menor que o sugerido pelo nosso exemplo.
Esse cenário não está muito distante da realidade do pós-guerra. A política do governo era investir na indústria da
construção para aumentar o volume geral de atividade econômica. A construção foi especificamente escolhida porque na
maioria dos países ela era, e ainda é, uma atividade de trabalho intensivo e desempenha um papel importante no
desenvolvimento da capacidade produtiva da economia. De fato, muitos economistas do período pós-guerra consideraram a
indústria da construção como um ‘regulador’ da economia. Com base nisto, um grande grupo de empreiteiros apresentou uma
proposta de investimento contínuo do setor público durante a recessão de 2009, alegando que para cada R$ 4 investidos na
construção, a produção aumentaria o PIB em R$ 11,36. Eles argumentaram que, em termos relativos, a construção depende
menos das importações que os outros setores (como a fabricação de motores), de modo que a atividade adicional beneficiaria
significativamente o Reino Unido (UKCG, 2009). Em outras palavras, apoiar os trabalhos de construção deveria promover
ainda mais o emprego na economia como um todo.

Demanda Agregada
Uma peça fundamental da análise keynesiana é a demanda agregada (DA).
A demanda agregada pode ser definida como a despesa total em bens e serviços produzidos em toda uma
economia.
No início deste capítulo consideramos as despesas totais, no nível teórico, em uma economia de dois setores. Em tal modelo, a
demanda agregada seria igual às despesas de consumo (por exemplo, em cerveja e chocolate) para as famílias e às despesas de
investimento (por exemplo, em edifícios e equipamentos) para as empresas. Na realidade, entretanto, precisamos adicionar os
gastos do governo (como a construção de estradas) e as receitas de exportação da produção do Reino Unido (como a compra de
carros Jaguar pelos Estados Unidos). A demanda agregada (DA), portanto, consiste em quatro elementos: gastos do consumidor
(C), despesas de investimento (I), gastos públicos (G) e despesas com exportação (X). A demanda agregada é o total desses
quatro elementos com um ajuste: para sermos tecnicamente corretos, as despesas com importações (M) a partir do exterior
precisam ser subtraídas, uma vez que este não é um dinheiro gasto em produtos do Reino Unido. É tradicional a utilização de
uma notação abreviada para expressar a demanda agregada a partir da seguinte fórmula:
DA = C + I + G + X – M
Neste momento, você poderia estar vivenciando o sentimento de déjà vu. Anteriormente neste capítulo, discutimos a
contabilidade da renda nacional e deduzimos um valor monetário para a atividade econômica. A demanda agregada é, de fato,
análoga ao PIB. A Tabela 13.2 apresenta os componentes da demanda agregada do Reino Unido em 2010.
As técnicas de gestão da demanda provaram ser ferramentas difíceis de utilizar. Uma das dificuldades era a temporização
da ação. Isto se tornou particularmente difícil quando o setor utilizado para a entrega é o da construção, uma vez que as
defasagens tendem a ser longas e variáveis. O segundo problema, e mais óbvio, era o excesso — acrescentar uma injeção
grande demais a qual faz com que a economia superaqueça. O excesso de demanda subsequente não alcança nada além do
contínuo aumento dos preços — resultando em uma maior inflação. Em resumo, revelou-se muito difícil utilizar as técnicas de
gestão da demanda para conduzir a demanda agregada ao nível necessário para garantir o pleno emprego, no momento certo.

Tabela 13.2 Avaliação da demanda agregada nos preços de mercado de 2010

Componentes da demanda agregada C   +   I   + G   +   X   –   M   =   D A

Valor referente em R$ bilhões ao longo de 4604 + 896 + 500 + 1748 – 1904 = R$ 5.832 bilhões
2010

Fonte: Contas Nacionais do Reino Unido (ONS, 2011c).


Nota: O total da DA pode não conferir exatamente com a soma, pois os valores foram arredondados para o bilhão mais
próximo.

Estes problemas foram cuidadosamente analisados pelo Professor Frank Paish durante a década de 1960. Ele propôs que o
problema com as técnicas de gestão da demanda keynesianas se assemelham aos conceitos de capacidade produtiva e produção
atual; argumentou que, aumentando a capacidade produtiva, gera-se renda antes de gerar uma produção real. Portanto, para
alcançar a estabilidade, Paish recomendou manter uma margem de capacidade produtiva não utilizada.
O foco agora se deslocou para preocupações acerca da produção potencial e real. Uma vez que a capacidade ociosa tenha
sido utilizada — e o pleno emprego dos recursos tenha sido atingido — a produção real será restringida no curto prazo. A
resposta para o problema, portanto, parece envolver a garantia de uma quantidade de capacidade produtiva não utilizada e/ou
aumentar a produção potencial de uma economia. Aumentar o nível de produção, no ponto de pleno emprego, exige maior
capacidade, e esta é determinada pela utilização eficiente dos recursos. Tecnicamente falando, os economistas têm se
preocupado com o lado da oferta. Patricia Hillebrandt (2000: 66) sempre considerou a capacidade do setor da construção como
uma restrição e ela identificou três episódios — em 1964, 1973 e 1989 — quando a indústria ou seus fornecedores de materiais
estenderam sua capacidade. Curiosamente, cada episódio resultou em períodos de inflação acentuada, e os últimos dois também
conduziram a períodos de recessão em 1974 e 1991.

Pontos-Chave 13.4
Durante os anos imediatamente posteriores à Segunda Guerra Mundial, a estratégia para a manipulação da
atividade econômica foi esclarecida pela teoria de gestão da demanda keynesiana.
Um aumento nas despesas do governo produz um efeito multiplicador no nível de renda nacional. Quanto
maior a propensão marginal a poupar, menor o efeito multiplicador.
A demanda agregada é a soma de todas as despesas em uma economia. É normalmente considerada em
quatro categorias e, utilizando a notaçãopadrão, é definida pela fórmula C + I + G + X – M.
Atualmente, as técnicas de gestão da demanda estão intimamente associadas ao problema da inflação.

ECONOMIA PELO LADO DA OFERTA


Uma das principais marcas da política econômica desde 1979 tem sido a preocupação com o lado da oferta da economia. O foco
mudou, dos gastos do governo e da demanda agregada, para a produção e oferta agregada. A oferta agregada pode ser
considerada a produção total e, claramente, muitos fatores influenciam na sua dimensão, como o nível dos lucros, a facilidade
de movimentação para dentro e para fora dos mercados, o nível dos salários, a eficiência do capital e da mão de obra, o nível
dos custos fixos etc. Como resultado, a política orientada pelo lado da oferta deu origem a medidas para aumentar os incentivos
na economia. Na verdade, os economistas interessados nesta perspectiva preferem as forças de mercado que a intervenção do
governo. A Declaração de Intenções sobre a Tributação Ambiental (HM Treasury, 1997) foi um dos primeiros exemplos desta
abordagem. Esta estabeleceu a intenção do governo do Reino Unido em utilizar o sistema tributário para promover o
crescimento sustentável, deslocando a carga fiscal das coisas ‘boas’, como o emprego, para as coisas ‘ruins’, como a poluição.
A política procurou alcançar um ‘duplo dividendo’ — aumentar a capacidade e reduzir o dano ambiental.
A política pelo lado da oferta, portanto, é voltada para fazer com que os mercados funcionem de forma mais eficiente. Isto
tem sido atingido por meio da redução da rigidez estrutural que atravanca muitos mercados. Por exemplo, as juntas
comerciais foram despojadas de muitos de seus poderes na década de 1980 e formalmente abolidas em 1993; as atividades
das organizações sindicais foram restringidas e, como resultado, as filiações foram reduzidas significativamente; e a
concorrência no mercado foi aberta a partir da privatização e da desregulamentação. Semelhantemente, os governos fizeram
grandes reduções nas taxas de imposto de renda — de 33 % para 20 % na taxa básica e de 83 % para 50 % na taxa máxima —
de forma a fornecer maiores incentivos para as pessoas trabalharem mais. Na realidade, parece que nenhum mercado escapou da
infinidade de medidas do lado da oferta.

Oferta Agregada
Com a elaboração de métodos pelo lado da oferta para promover a concorrência no maior número de mercados possível, os
governos acreditam que podem reduzir o dinheiro que eles gastam em intervenções diretas e estimular o espírito empreendedor
que conduz a produção. Em termos técnicos, essa política é projetada para deslocar a curva de oferta agregada para a direita.
Isso é demonstrado na Figura 13.3. Uma curva de oferta agregada representa a relação entre a produção que as empresas
estariam dispostas a ofertar e o nível geral de preços.
Seria bom concluir simplesmente que a curva de oferta agregada inclina-se para cima porque quanto maior a faixa de
preços, maior o incentivo dos fabricantes para produzir mais. Porém, deve ser enfatizado que não estamos falando sobre
alterações em preços específicos individuais — o eixo vertical representa as mudanças no nível geral de preços; é um índice da
média ponderada de todos os preços. A fim de compreender o verdadeiro propósito da curva de oferta agregada, examinamos
quatro situações:
1 grandes quantidades de capacidade não utilizada;
2 plena capacidade;
3 uma faixa intermediária entre as duas;
4 aumento da capacidade no longo prazo.

Figura 13.3 Curva de oferta agregada


Em uma faixa de preços P1, a curva AS é uma linha horizontal alinhada com o ponto no qual a produção é Y1. Assim, existe
um estágio intermediário — alguns setores da economia estão vivenciando um excesso de capacidade, mas outros não. Em
Y2 não existe capacidade imediata em qualquer setor da economia, e os preços sobem. No longo prazo, entretanto, deve
ser possível aumentar a capacidade produtiva e deslocar a curva AS para a direita.

CAPACIDADE NÃO UTILIZADA


Quando uma economia possui diversas fábricas operando abaixo da capacidade, existe uma subutilização geral das capacidades
produtivas e é possível aumentar a produção sem qualquer pressão nos preços. Se existe uma capacidade não utilizada, os
fabricantes podem aumentar a oferta sem precisar pagar preços mais altos pelos fatores de produção. Se eles precisam de mais
mão de obra, eles podem contratar alguém desempregado — não é necessário pagar salários maiores para atrair as pessoas.
Contanto que existam níveis significativos de desemprego e de capacidade não utilizada, os custos por unidade de produção
permanecem os mesmos, não importando o volume de produção. Nestas circunstâncias era de se esperar que a curva de oferta
agregada fosse uma linha horizontal na faixa de preços atual. Considere uma faixa de preços P1, conforme indicado no eixo
vertical da Figura 13.3. A linha horizontal rotulada como ‘excesso de capacidade’ representa a parte da curva de oferta agregada
AS1 em que um aumento na produção não causa pressão nos preços. Dentro desse intervalo, a oferta é perfeitamente elástica.

SEM EXCESSO DE CAPACIDADE


Consideremos agora outro extremo, no qual a economia está funcionando em plena capacidade e não há desemprego. Em tal
situação, é impossível que qualquer produção adicional seja gerada. Há somente uma coisa que pode acontecer — a faixa de
preços pode subir, porém nenhum outro aumento na produção é fisicamente possível. A curva de oferta agregada tem que ser
uma linha vertical, como demonstrado nas taxas de produção Y2 e Y3 na Figura 13.3. Neste ponto, a oferta pode ser dita
perfeitamente inelástica; qualquer aumento de preços acima de P2 produz absolutamente nenhuma mudança na quantidade
ofertada.

FAIXA INTERMEDIÁRIA
Quando existe algum excesso de capacidade em partes da economia, mas não existe esse excesso em outras partes da mesma,
então na medida em que a produção aumenta os chamados gargalos ou restrições da oferta podem se desenvolver.
Conforme as empresas tentam aumentar sua produção, elas podem vivenciar a escassez de alguns insumos, mais frequentemente
em certos tipos de mão de obra especializada. Quando isto ocorre, as empresas podem tentar atrair uma maior quantidade do
insumo em escassez, por meio da oferta de um preço maior. Elas concorrem umas com as outras pela oferta limitada de pessoas
com habilidades escassas, elevando, assim, os salários. Isto eleva seus custos de produção e, então, elas reagem aumentando
seus preços, sempre que possível.
A forma da curva de oferta agregada na faixa intermediária é explicada por esses gargalos. Na medida em que a curva de
oferta agregada começa a se inclinar para cima, ela se torna mais íngreme quando a produção em plena capacidade se aproxima,
porque mais e mais restrições à oferta aparecem. Essas restrições forçam alguns preços a aumentar e, conforme a produção se
aproxima da plena capacidade, os vendedores podem elevar seus preços sem perder consumidores. Uma vez que a faixa de
preços é um indicador de todos os preços, se alguns deles permanecerem constantes e outros subirem, o nível geral de preços
subirá também. Isto significa que, se aumentarmos a produção a partir de Y1 na Figura 13.3 — no final da taxa de produção em
excesso de capacidade — os níveis de preços irão aumentar juntamente com a renda nacional. Neste intervalo, há uma relação
positiva entre a renda nacional e o nível de preços. Enquanto as restrições à oferta se tornam maiores, a oferta se torna cada vez
menos elástica. Aumentos sucessivos nas despesas conduzem a menores aumentos na produção e na renda, até alcançarmos a
plena capacidade.

AUMENTO DA CAPACIDADE NO LONGO PRAZO


No longo prazo, na medida em que a tecnologia avança e o estoque de capital aumenta, será possível incrementar a capacidade e
produzir mais — assim, a linha vertical que demonstra a plena capacidade de produção se deslocará gradualmente para a direita.
Isto é apresentado pela AS2 na Figura 13.3. Os aumentos na renda e na produção nacionais de Y2 para Y3 são atingidos pela
nova capacidade. Isto representa como, ao longo de um período bastante longo, a produção pode começar a crescer e os preços a
cair.
Considerando os interesses da construção, manipular o lado da oferta fez com que o papel do governo ficasse cada vez
menos transparente. Atualmente, os governos dependem cada vez mais de mensagens sutis para aperfeiçoar a eficiência de
mercado da indústria da construção, estimulando as empresas a adotarem ideias inovadoras como tecnologias modulares pré-
fabricadas e parcerias. O objetivo é estimular a construção a abranger a inovação e a integração vertical, e capturar algumas das
vantagens alcançadas na fabricação no canteiro. Se a capacidade da indústria da construção pudesse aumentar efetivamente, a
curva de oferta agregada global poderia certamente se deslocar para a direita, possibilitando que a produção total aumentasse
sem colocar pressão sobre os recursos. Isto porque a construção influencia a capacidade de vários outros setores da atividade
econômica. A melhor evidência do aumento da capacidade e do crescimento por meio de métodos de construção de alta
tecnologia pode ser vista no Japão, e é por isso que este é um dos três estudos de caso nacionais apresentados neste capítulo.
Obviamente, os governos desejam que a curva de oferta agregada se desloque continuamente para a direita, de forma a
atingir o crescimento sustentável e preços estáveis. Infelizmente, entretanto, isto é frequentemente complicado para uma
indústria que parece unida com abordagens de baixa tecnologia.

Pontos-Chave 13.5
Desde 1979, a política econômica tem se interessado pelo lado da oferta da economia. O foco da atividade do
governo se deslocou para a produção e para a oferta agregada.
Os economistas se tornaram cada vez mais interessados nos princípios da microeconomia que sustentam a
oferta agregada.
A economia pelo lado da oferta gira em torno da abertura dos mercados e da redução da intervenção direta
do governo.
A curva de oferta agregada descreve várias etapas baseadas em níveis diferentes de capacidade. Quanto
mais perto a economia fica da plena capacidade, mais provável a inflação se torna (consulte a Figura
13.3).

TRÊS ESTUDOS DE CASO


Existe uma relação muito próxima entre o setor da construção de um país e seu PIB. Isto porque, em parte, a indústria da
construção envolve a reunião de produtos muito diferentes, provenientes de diversos setores industriais. Como sugerimos na
introdução deste capítulo, as atividades de construção possuem impactos muito mais amplos do que as principais estatísticas
oficiais indicam. De maior importância, portanto, é o fato de que a construção proporciona o investimento que sustenta o
desenvolvimento, uma vez que fornece moradias para se viver, edifícios para se trabalhar e infraestrutura para permitir a
comunicação e o transporte. De fato, diversos estudos demonstraram que a indústria da construção possui ligações significativas
com outros setores da economia. Consequentemente, tornou-se uma prática comum utilizar a indústria da construção como um
tipo de regulador para a economia global. Os três estudos de caso a seguir demonstram como isso pode ser alcançado em
diferentes culturas.
ESTUDO DE CASO 1: CHINA
A República Popular da China é um milagre do século XXI, uma vez que sua economia tem sido rapidamente transformada de
um estado centralmente planificado, rural e um pouco atrasado, para um sistema orientado para o mercado urbano moderno.
Como resultado, a China está vivenciando um boom da construção. Os valores são surpreendentes: mais de 260 novas cidades a
serem construídas dentro de 20 anos, 75.000 milhas de vias férreas a serem assentadas, mais 100 aeroportos a serem
adicionados à sua rede existente de 140 instalações e mais de US$ 120 bilhões destinados à atualização da rede nacional de
energia e sistemas de infraestrutura hidráulica e sanitária. Sem dúvida, a China se tornou o maior mercado de construção do
mundo, com um gasto anual equivalente a R$ 2.000 bilhões (Richardson, 2012).
Por isso, mesmo existindo uma crise financeira global e as economias de muitos países estejam perdendo a força, a China
conseguiu continuar se expandindo. O crescimento econômico anual foi em média 8 % desde 1990, e apesar da contínua crise
econômica europeia, a China alcançou 9 % de crescimento em 2011 e foi previsto que ampliaria outros 7,5 % em 2012. A China
tem sido consistentemente a economia que mais cresce no mundo por vários anos. A proporção do valor acrescentado pela
construção ao PIB está atualmente na faixa dos 10 %, e o número de empregos na indústria está em torno de 40 milhões. Para
contextualizar, observe que a China possui uma população total de mais de 1,3 bilhão de pessoas e uma força de trabalho de 798
milhões.
Claramente, o trabalho intensivo da indústria da construção tem desempenhado um papel importante nesta rápida
transformação. Na reunião do Partido Comunista chinês em 1994, a construção foi explicitamente identificada como um dos
quatro pilares industriais que poderiam ajudar a China a iniciar um novo ciclo de crescimento econômico. (Os outros três pilares
industriais eram a fabricação de automóveis, refinarias químicas e de petróleo, mecânica e eletrônica.) O estabelecimento de um
novo ministério da construção deu impulso ao setor. O ministério assumiu um papel de liderança na implementação de novas
estratégias para a indústria. Essas estratégias incluíam a abertura de mercados de construção, o estabelecimento de um sistema
de licitação competitivo, a permissão de autonomia para as empresas estatais e a tentativa de eliminar o suborno como forma de
obter contratos, empréstimos e materiais. Essas políticas resultaram em uma expansão substancial do número de empresas de
construção chinesas, consideradas como um importante motor na condução do crescimento econômico. O governo chinês tem
se esforçado para evitar a dominação estrangeira, e embora os investimentos estrangeiros sejam permitidos, não são autorizados
em contratos para o abastecimento de água, gás ou sistemas de metrô.
A indústria da construção claramente contribuiu significativamente para o desenvolvimento da economia chinesa, mas os
acadêmicos reconhecem que o processo de rápida urbanização e modernização indica que ainda há um longo caminho a
percorrer para se alcançar padrões de classe mundial, e deve ser observado que isto se iniciou a partir de um nível baixo.
Reformas essenciais são necessárias em áreas como investimentos privados, utilização do mecanismo de preços, qualidade dos
materiais e equipamentos e, mais significativamente, na redução do consumo de recursos e dos impactos ambientais graves
(Yang; Kohler, 2008). Curiosamente, em 2009, o Conselho de Estado chinês se curvou à pressão internacional e se
comprometeu a reduzir sua intensidade de carbono — a medida da emissão de dióxido de carbono de um país por unidade do
PIB — em pelo menos 40 % até 2020. E seu plano atual de cinco anos até 2015 identifica o ambiente construído como uma
chave para alcançar este objetivo, e inclui medidas como a introdução de um programa de retrofit, o comprometimento com
uma série de grandes projetos de energia renovável, a criação de 200 ecocidades e o desenvolvimento de oito projetos de baixo
carbono em cinco regiões (Richardson, 2012).
Finalmente, deve-se observar que nem tudo está perfeito. Em algumas áreas a corrupção é abundante, e a China é um
mercado difícil de penetrar. Guanxi (traduzido grosseiramente como relações) são extremamente importantes e fundamentais
para se fazer negócios. A necessidade de investir tempo e esforços no desenvolvimento de conexões e redes não pode ser
exagerada e, em vez disso, uma pesquisa com empresas comerciais em 28 países indicou que os chineses são bastante propensos
a se envolver com suborno quando as redes de negócios são formadas (Hardoon; Heinrich, 2011).

ESTUDO DE CASO 2: JAPÃO


Durante as duas últimas gerações, os japoneses desenvolveram rapidamente seu país em uma das nações mais ricas do mundo;
grande parte deste sucesso é atribuído ao setor da construção do Japão. Realmente, o Japão é digno de um estudo de caso, não
somente porque a indústria da construção japonesa é extremamente eficiente em termos de produção, mas também porque o
setor provou ser ‘extraordinariamente rentável’ (Constructing Excellence, 2010).
Em economias industrializadas avançadas, a construção raramente responde por mais de 10 % do PIB. Entretanto, durante
a década de 1990, a construção japonesa — no sentido restrito — representou cerca de 12 % do PIB. A indústria da construção
japonesa é, de fato, distinta por muitas características excepcionais. Aqui, citamos somente três exemplos mais significativos.
• A maioria das edificações comerciais é construída para os proprietários em vez de investidores.
• A relação entre os empreiteiros gerais, os subempreiteiros especializados, os trabalhadores e os clientes é frequentemente
caracterizada em termos de colaboração e integração, em vez de conflitos e fragmentação. Em uma análise do setor da
construção japonesa, Reeves (2002: 421) ainda vai mais longe, sugerindo que todo o mecanismo no setor ‘opera para
fornecer benefícios mútuos a todos os envolvidos’.
• As empresas competem com base na tecnologia, em contraste com a habitual concorrência baseada nos preços, que conduz o
processo de construção.
É este terceiro ponto que torna a indústria da construção no Japão única. Na maioria dos países, a construção é considerada
tradicional, conservadora, com alta utilização de mão de obra e pouco interessada na inovação; no Japão, é exatamente o oposto.
O governo japonês considera os edifícios ‘inteligentes de alta tecnologia’ fundamentais tanto para a infraestrutura do país
quanto para o desenvolvimento de uma economia baseada no conhecimento. Isto, portanto, promove o uso da tecnologia no
gerenciamento de uma edificação.
A tecnologia também é adotada no canteiro de obras, em que a construção de todas as edificações utiliza a pré-fabricação,
a robótica, a automação e a tecnologia da informação. Na verdade, a ‘construção integrada por computador’ já é uma parte
importante da política corporativa de vários dos principais empreiteiros japoneses. Por exemplo, a fabricante de carros Toyota
também é responsável pela construção de aproximadamente 5000 casas por ano. Os módulos de estrutura de metal pré-fabricada
estão 85 % concluídos antes de deixarem a fábrica, são mais ou menos livres de defeitos e com garantia de 60 anos. O tempo
total desde o recebimento do pedido até a conclusão final no canteiro normalmente gira em torno de 25 dias, realizado por um
processo muito rápido que utiliza o mínimo de tempo e de mão de obra no canteiro; de fato, uma vez que as fundações da casa
tenham sido assentadas, a construção no canteiro leva aproximadamente 12 horas. Um forte contraste com as tradicionais casas
de madeira ou tijolos, que levariam 12 semanas para serem construídas.
Conforme o Professor David Gann (2000: 113) explica em sua análise da inovação e da mudança no mercado de
construção global: ‘Companhias japonesas ricas investiram pesadamente em tecnologias eletrônicas para suas novas
construções. Além disso, o governo desempenhou um papel maior que em outros lugares ao patrocinar o conceito de edifícios
inteligentes. As empresas de construção japonesas competiam com fabricantes de eletrônicos, telecomunicações e equipamentos
de escritórios para produzir edifícios de prestígio’. Em outras palavras, o nível de inovação tecnológica na construção é
associado a um compromisso maior que o normal com a pesquisa e o desenvolvimento (P&D). Na maioria dos países da
OCDE, a P&D na construção raramente ultrapassa 0,4 % da produção anual total da indústria. No Reino Unido, raramente
ultrapassa 0,1 %. No Japão, normalmente está acima de 1 % — e já ultrapassou os 2 %. Comparado à manufatura, isto ainda é
muito baixo, uma vez que as empresas de manufatura geralmente investem 3-4 % de sua produção anual total em P&D. O ponto
mais importante para nossos propósitos, entretanto, é que o Japão novamente se destaca como uma exceção à regra. O país
desenvolveu cinco empresas de construção, muito grandes, integradas verticalmente (Kajima, Obayashi, Shimizu, Taisei e
Takenaka) que acreditam na utilização da tecnologia para obter uma vantagem competitiva. Novamente, em contraste com
outros países, a pesquisa na construção se concentra no setor privado, e existem mais de 20 empresas que possuem seus
próprios institutos de pesquisa tecnológica. Para finalizar com um dos exemplos históricos de Gann (2000: 198), em um ano de
exercício (1992-1993), Kajima — uma das ‘cinco maiores’ empresas japonesas — investiu mais de R$ 600 milhões em P&D.
Por outro lado, no mesmo período, todos os empreiteiros privados do Reino Unido tiveram um gasto combinado em P&D de
somente R$ 70 milhões.
Dez anos depois, estatísticas oficiais das empresas de construção privadas do Reino Unido sugeriram que eles continuaram
a investir comparativamente pouco em P&D, preferindo adotar novas ideias e tecnologias de outros setores para aprimorar suas
operações (Ozorhorn et al., 2010: iv). As despesas anuais em P&D de todo o setor da construção privada no Reino Unido são
muito baixas, considerando o tamanho e a importância do setor. A construção japonesa, entretanto, está claramente no outro
extremo, demonstrando um compromisso com a P&D e colhendo os lucros de ser o setor de construção mais inovador do
mundo.

ESTUDO DE CASO 3: ÁFRICA DO SUL


A África do Sul foi escolhida como um estudo de caso porque é uma economia em desenvolvimento clássica. O residente médio
sobrevive com menos que US$ 6.000 por ano e cerca de um terço dos sul-africanos atualmente sobrevive com menos que US$ 2
por dia (World Bank, 2012). Essa nação possui uma população de 50 milhões (comparada com os 62 milhões do Reino Unido),
porém tem um estoque residencial de somente 12,5 milhões de unidades, e a qualidade destas dá uma ideia do padrão de vida.
Oito milhões e meio de casas são unidades formais (tipicamente construídas com tijolos de cimento e argila) e cerca de um terço
(4 milhões de unidades) das residências são categorizadas como habitações informais em favelas e barracos em quintais,
construídas com terra e telhados de zinco. Cozinhar nessas habitações exige o uso de biomassa como madeira e carvão. Este
setor é o foco do programa de habitação do governo sul-africano, que se compara com a agenda de moradias populares no Reino
Unido (citado em Milford, 2009: 14-16).
Os negros e os brancos na África do Sul foram segregados durante o apartheid, mas isto acabou há quase 20 anos, com a
primeira eleição verdadeiramente democrática acontecendo em 1994. Entretanto, um grande número de distorções econômicas e
sociais ainda existem desde a época do apartheid; e grande parte da força de trabalho possui baixos níveis de qualificação.
Melhorias significativas têm sido feitas às redes de infraestrutura fornecendo eletricidade, água corrente e estradas, mas ainda
há muito a fazer, particularmente nas áreas da habitação, saúde e educação. A resposta habitual do governo é que os recursos
são limitados, mas isto tem pouca credibilidade quando os ministros são acusados de gastar quantias exorbitantes do erário
público em carros e entretenimento (Drew, 2010).
O mercado da construção civil na África do Sul tem atualmente um valor estimado de R$ 64 bilhões, o que representa
cerca de 9 % do PIB (dentro da faixa esperada para uma economia em desenvolvimento); a infraestrutura é o setor dominante.
As principais áreas de desenvolvimento têm energia, telecomunicações, transportes, abastecimento de água e tratamento de
esgotos, e estas representam cerca de metade da produção da construção gerada durante a última década. O orçamento do
governo da África do Sul em 2011 priorizou as despesas em infraestrutura social, e isto significa um maior foco na educação e
na saúde na próxima década.
Claramente os projetos de infraestrutura do setor público são os principais contribuintes para o crescimento econômico e
para a redução da pobreza. Entretanto, a má administração e a corrupção durante o planejamento, a implementação e a
monitoração dos projetos de construção enfraquecem os benefícios sociais e econômicos esperados. Como um relatório do
governo reconheceu recentemente, existem fortes indicações de que a corrupção no setor da construção civil da África do Sul
aumentou rapidamente e atingiu um ponto de inflexão além do qual pode ser muito difícil de reverter (CIDB, 2012).
Fraude e corrupção são os principais problemas, evidenciados por mentiras, subornos e propinas, particularmente durante o
mal gerenciado processo de licitação. Esse problema não é exclusivo da África do Sul e, de várias maneiras, a construção
adquiriu a duvidosa fama de ser o setor industrial mais corrupto em todo o mundo. Como a Transparência Internacional (2010:
76) reconheceu, tanto nos países desenvolvidos como nos países em desenvolvimento, a construção é consistentemente
classificada como um dos setores mais corruptos. Nos termos dos três países apresentados nestes estudos de caso, a China é
classificada como mais corrupta que o Japão e a África do Sul. De fato, de acordo com o índice de percepção de corrupção
(produzido anualmente pela Transparência Internacional) de 178 países ao redor do mundo, somente o Japão parece
relativamente limpo; ele está classificado na posição 17, três lugares acima do Reino Unido.

Um Papel para o Governo


Os governos têm um papel fundamental a desempenhar na promoção de mudanças na indústria da construção. No período
dominado pela política keynesiana (1950-1975), os governos optaram pela intervenção direta. Na verdade, até a década de
1970, 50 % de todo o trabalho de construção foi adquirido pelo setor público no Reino Unido. De 1975 a 2010, entretanto, a
política do governo depositou uma confiança muito maior nas forças de mercado. Esta corroeu a capacidade dos governos em
controlar diretamente a produção da construção. Agora, após o quase colapso do sistema bancário na Europa e nos Estados
Unidos, existe certa relutância em permitir que os livres mercados continuem não controlados (consulte o Capítulo 14 para mais
detalhes). Assim, diversos governos atualmente se encontram diante de um dilema, uma vez que possuem políticas para
estimular a proteção ambiental, promover a inovação e estabelecer padrões legais para apoiar a transparência e a concorrência,
porém não têm certeza da melhor forma de implementar tais estratégias. Iniciativas para estimular a construção sustentável
constituem um exemplo interessante de como os governos têm tentado manipular a atividade de construção; essas iniciativas
são revisadas no capítulo final deste livro, no qual também realizamos outra revisão do papel que os governos desempenham na
gestão da indústria da construção.

Pontos-Chave 13.6
Independentemente do nível de desenvolvimento econômico, da cultura e da tradição de um país, o setor da
construção desempenha um importante papel em qualquer economia.
Na China, no Japão e na África do Sul, a indústria da construção tem proporcionado um motor para o
crescimento econômico.
O investimento em P&D da construção japonesa é o maior de todos os países da ODCE. Na maioria dos
países, entretanto, é atribuído aos governos a iniciação das políticas para promover metas de longo prazo.

AVALIAÇÃO DOS IMPACTOS AMBIENTAIS


Conforme indicado no Capítulo 12, nos últimos 50 anos ou mais, os acadêmicos têm debatido como estabelecer uma avaliação
internacional padrão que efetivamente monitore a ampla utilização dos recursos ambientais. Isto atualmente está se tornando
cada vez mais urgente. Várias medidas para esta finalidade têm sido testadas, e muitas delas se referem ao PIB como um ponto
de referência. Por exemplo, expressando alterações no PIB real em relação à energia utilizada (medida em milhões de toneladas
equivalentes de petróleo), é possível calcular a quantidade de energia necessária para suportar certo nível do PIB ou, de forma
mais simples, a energia consumida por unidade de produção. Com ganhos de eficiência é possível diminuir a energia, e as
emissões, por unidade de produção. A maneira formal de se referir a este fenômeno é dizer que é possível ‘dissociar’
crescimento de uso de energia, ou aceitar que não é inevitável que o crescimento econômico sempre produza uma deterioração
equivalente na qualidade ambiental.
Pesquisas sobre a utilização de recursos têm progredido desde 1960, e a última parte das Contas Nacionais do Reino Unido
é atualmente dedicada a questões ambientais, detalhando as reservas de petróleo e gás, emissões atmosféricas, uso de energia
etc. Grande parte dos dados na seção é detalhada em unidades de medição física ou em volume, e isto leva a debates sobre sua
utilização e valor. Embora haja alguma concordância de que o governo precisa de um critério para monitorar e medir os
impactos ambientais totais impostos pela humanidade no ecossistema, não há um consenso sobre o melhor caminho a seguir.
Em resumo, precisamos de um sistema de avaliação autorizado concebido para capturar a atividade ambiental, que funcione de
modo semelhante ao PIB na captura da atividade econômica.
O sistema que talvez, atualmente, tenha o melhor potencial para cumprir esse papel é a pegada ecológica. Contas
baseadas neste sistema já existem para 150 países, dos anos 1960 a 2008. São produzidas por uma organização denominada
Global Footprint Network (Rede de Pegadas Globais), que utiliza dados fornecidos pelas Nações Unidas. Uma importante fonte
de interesse e de financiamento para esse trabalho vem da União Europeia. A visão dessa organização é fazer com que a pegada
ecológica seja um sistema tão proeminente quanto o PIB até 2015.
A base do sistema é oferecer uma maneira de avaliar o quão produtiva a terra deve ser para sustentar a vida em termos de
produção de alimento, energia, água e madeira, e arrebatando o lixo associado. O cálculo das demandas que impomos ao
planeta pode ser feito em nível individual, nacional e global. Isto é realizado levando em conta o uso do recurso e comparando-o
com o que está disponível atualmente. A convenção é indicar os dados com referência aos hectares globais disponíveis por
pessoa. Isto é explicado na próxima seção.

Medindo a Pegada Ecológica


O cálculo começa com a suposição de que a terra produtiva da qual a vida depende pode estar em qualquer lugar do mundo. Isto
parece razoável, já que as pessoas de um país normalmente consomem recursos e serviços ecológicos de todo o mundo. Os
cálculos da pegada ecológica são, portanto, especificados em hectares globais (gha). Um hectare global é um hectare de espaço
biologicamente produtivo. Em 2008, o mundo tinha 12 bilhões de hectares de área biologicamente produtiva, correspondendo
grosseiramente a um quarto da superfície do planeta. Os 12 bilhões de hectares incluem 2,4 bilhões de hectares de água e 9,6
bilhões de hectares de terra. A área de Terra inclui 1,8 bilhão de hectares de terras cultiváveis, 3,4 bilhões de hectares de pastos,
4 bilhões de hectares de florestas e 0,2 bilhão de hectares de áreas urbanas. Áreas marginais não produtivas, como desertos,
calotas polares e oceanos profundos, não estão incluídas nos 12 bilhões de hectares globais de espaço biologicamente produtivo
(GFN, 2012).
Para expressar a capacidade disponível para cada pessoa, os 12 bilhões de hectares globais de área biologicamente
produtiva estão divididos pela quantidade de pessoas na Terra. A população mundial era de aproximadamente 6,7 bilhões em
2008, resultando em 1,8 hectare global per capita. Isto significa que, em princípio, a quantidade média de capacidade produtiva
ecológica (a biocapacidade) que existe no planeta, por pessoa, é de 1,8 hectare global. (Este simples cálculo de biocapacidade
disponível supõe que nenhuma capacidade é posta de lado para as exigências das espécies selvagens.)
Se cada pessoa pudesse sobreviver com 1,8 hectare, ou menos, o mundo seria sustentável. Entretanto, as últimas contas da
pegada ecológica publicadas pela Global Footprint Network indicam que estamos muito distantes de alcançar o
desenvolvimento sustentável. Os números mostram que, em média, cada pessoa na Terra está utilizando 50 % a mais do planeta
do que este pode regenerar naturalmente. Em outras palavras, a pegada ecológica da humanidade está 50 % maior que a
capacidade do planeta de produzir esses recursos. Isto significa que há um excesso ecológico — atualmente, leva cerca de um
ano e seis meses para o planeta regenerar o que utilizamos em um único ano. Você poderia perguntar como isso pode ser
possível? Com base na analogia financeira utilizada pelo World Wide Fund for Nature* — WWF (2012: 40), assim como é
possível retirar dinheiro de uma conta bancária mais rapidamente do que este é gerado devido aos juros, recursos renováveis
podem ser colhidos mais rapidamente do que eles podem se desenvolver novamente. Porém, da mesma forma que o capital em
uma conta bancária, eventualmente o recurso pode se esgotar. Atualmente, as pessoas muitas vezes são capazes de mudar para
outra fonte quando um recurso se esgota. Entretanto, nas taxas de consumo atuais, essas fontes eventualmente ficarão sem
recursos também — e alguns ecossistemas entrarão em colapso.
Na linguagem do desenvolvimento sustentável, para satisfazer as necessidades de hoje, estamos acabando com a herança
dos nossos filhos, deixando-os com menos para o futuro. Se todos os seres humanos adotassem os estilos de vida das pessoas
que vivem nos países de alta renda da Europa Ocidental e dos Estados Unidos, o mundo estaria vivendo muito além de seus
meios. Sustentar toda a população mundial com um estilo de vida atualmente desfrutado pelo cidadão médio dos Estados
Unidos exigiria uma área produtiva equivalente a cinco planetas.
Um breve resumo dos dados da pegada ecológica é apresentado na Tabela 13.3. Para fins comparativos, esta tabela mostra
os resultados para os mesmos países selecionados na Tabela 13.1. A análise das duas tabelas, portanto, indica os recursos que
estão sendo consumidos para preservar os níveis atuais de atividade econômica (GNI). Os valores devem ser lidos com bastante
cuidado. É evidente que em uma base per capita, os países com baixa e média renda, representados aqui pela Índia e pela China,
possuem menores pegadas ecológicas que os países de alta renda. Entretanto, devido a suas populações extremamente
numerosas, tanto a Índia quanto a China possuem uma pegada ecológica total muito maior que muitos países de alta renda,
maior que países como o Japão, a Noruega e o Reino Unido. A Tabela 13.3 lista os países, de acordo com sua pegada ecológica
total. De fato, dois países sozinhos — os Estados Unidos e a China — são responsáveis por mais de um quarto da pegada
ecológica mundial; 28 % com base nos valores de 2008 e possivelmente maior atualmente.

Tabela 13.3 Pegada ecológica das economias selecionadas

Pegada Superávit
Pegada ecológica per Biocapacidade ecológico
População Ecológica Total capita per capita (déficit)
Dados de 2008 (milhões) (milhões de gha) (gha/pessoa) (gha/pessoa) (gha/pessoa)

Mundo 6739,6 18192 2,7 1,8 -0,9

China 1358,8 2895 2,1 0,9 -1,3

Estados Unidos 305,0 2193 7,2 3,9 -3,3

Índia 1190,9 1036 0,9 0,5 -0,4

Japão 126,5 528 4,2 0,6 -3,6

Reino Unido 61,5 290 4,7 1,3 -3,4

Noruega 4,8 23 4,8 5,4 0,6

Fonte: Adaptada das Contas da Pegada Ecológica Nacional, edição de 2011.

Outra maneira de avaliar a sustentabilidade em nível nacional é comparar o consumo de um país com sua biocapacidade —
ou seja, os recursos que ele pode produzir sustentavelmente (incluindo o gerenciamento dos resíduos) no interior de suas
próprias fronteiras. A biocapacidade nacional pode ser expressa em termos de hectares globais, ou hectares globais por pessoa,
no país que está sendo considerado, e a biocapacidade per capita nacional para os seis países estudados está apresentada na
quinta coluna da Tabela 13.3. Com exceção da Noruega, todos os países na Tabela 13.3 excedem sua própria biocapacidade.
Conforme a última coluna demonstra, a maioria dos países possui um superávit ecológico negativo — em outras palavras, eles
possuem um déficit ecológico. Este déficit mensura a quantidade pela qual a pegada de um país excede sua biocapacidade.
Somente cerca de um terço dos 150 países para os quais a pegada foi calculada apresenta um superávit ecológico — esses países
possuem algumas reservas ecológicas, uma vez que nem toda sua capacidade (biológica) nacional é utilizada para o consumo,
ou absorção de resíduos, por suas próprias populações. Esta reserva ecológica, entretanto, não permanece necessariamente
intocada, já que pode ser utilizada por outros países por meio da produção para exportação.
A biocapacidade da maioria dos países (determinada pelos recursos disponíveis dentro de suas fronteiras) é menor que sua
pegada ecológica (a qual é baseada nos recursos que eles realmente consomem). Você poderia pensar que este é particularmente
o caso em países de alta renda, e certamente os Estados Unidos e a maioria das nações da Europa Ocidental possuem déficits
ecológicos significativos. Entretanto, alguns países desenvolvidos, como a Noruega (como a Tabela 13.3 apresenta), Canadá e
Austrália, apresentam superávits ecológicos porque possuem recursos relativamente abundantes. Reciprocamente, muitos países
em desenvolvimento possuem déficits ecológicos, porque têm poucos recursos ou porque possuem populações muito grandes
em relação à sua base de recursos.
Isso indica um quadro muito assustador, uma vez que a única forma de reduzir a pegada ecológica de um país, ou melhor, a
pegada ecológica global, é diminuir a população, ou se pudermos encontrar uma forma de reduzir o consumo médio por pessoa
e aumentar a eficiência dos recursos a partir de alterações na tecnologia. Este último poderia ser alcançado, em parte, com a
utilização de menor quantidade de combustíveis fósseis para reduzir as emissões de carbono, e nos tornando mais dependentes
da energia obtida a partir de fontes renováveis.

PEGADA ECOLÓGICA E CONSTRUÇÃO


A escala das demandas impostas sobre o meio ambiente é facilmente exemplificada pela construção, uma vez que o setor (na
definição ampla) consome recursos e gera resíduos em uma escala que despreza completamente os outros setores da economia.
Para começar, é o meio ambiente que fornece os terrenos sobre os quais as edificações e as infraestruturas estão localizadas.
Subsequentemente, é o ambiente que fornece muitos dos recursos utilizados para produzir os materiais de construção.
Finalmente, é também o meio ambiente responsável por assimilar e processar os resíduos que surgem das várias etapas do ciclo
de vida de uma propriedade, de sua construção à sua demolição. A escala do problema foi discutida no Capítulo 11. Neste,
consideramos a natureza intensiva do uso de recursos nos insumos e produtos da construção, e discutimos os problemas de uma
indústria que produz três toneladas de resíduos de construção para cada homem, mulher e criança no Reino Unido.
Alterações na forma como as edificações são projetadas e utilizadas poderiam causar um impacto significativo na escala da
pegada ecológica. Atualmente, grande parte da pegada ecológica é gerada por meio do consumo de energia, na medida em que
as emissões de carbono compõem cerca de metade da pegada total. Esta poderia ser reduzida a zero, a partir do projeto de
edifícios que aproveitassem os recursos renováveis, as chamadas soluções de carbono neutro, que dependem do vento, do sol ou
de fontes de energia geotérmicas. De modo semelhante, a energia incorporada que responde por uma quantidade
significativa da energia utilizada na etapa de construção poderia ser reduzida por meio da reciclagem de materiais, conservação
das edificações para reduzir a necessidade de novas obras e utilização de materiais de fornecimento local para evitar o
transporte desnecessário.

Três Cenários
Os cenários são frequentemente utilizados pelos economistas para explorar consequências lógicas de diferentes conjuntos de
condições ou escolhas. O WWF desenvolveu uma tradição de revisar as contas da pegada ecológica nos termos de três cenários:
o de conduta normal, o de mudança lenta e o de mudança rápida. O cenário de conduta normal é baseado em um crescimento
constante da economia e da população, e este supõe que até 2050 a demanda da humanidade sobre a natureza seria de duas
vezes a capacidade produtiva da biosfera. Neste ponto, o colapso do ecossistema é altamente provável. Os outros dois cenários,
entretanto, sugerem a possibilidade de alcançar a sustentabilidade, ou como uma lenta mudança no caminho do
desenvolvimento atual, ou como uma transição mais rápida em direção à sustentabilidade.
O cenário de mudança lenta supõe que a pegada ecológica da humanidade poderia ser reduzida em até 40 %, de 2,7
hectares globais em 2008 para 1,5 hectare global em 2100, contanto que os respectivos cortes sejam atingidos nas emissões
globais de CO2 etc. O cenário de mudança rápida, entretanto, poderia resultar na eliminação do excesso até 2080 e em um
modesto alívio de 10 % na biocapacidade, que poderia ser utilizado por espécies selvagens. Este cenário supõe que as
exigências feitas sobre a pegada ecológica poderiam ser reduzidas em até 50 %, de 2,7 hectares globais em 2008 para 1,3
hectare global em 2100. Alcançar isto exigiria a redução das emissões de CO2, o aperfeiçoamento da tecnologia e um
crescimento significativo da capacidade das terras agrícolas, da pesca e das florestas (WWF, 2012).

Figura 13.4 Três cenários de pegada ecológica, 1960 a 2100


Fonte: Adaptada de WWF, 2006: 3 & 2012.

Os três cenários do WWF são distintos dos exercícios econômicos anteriores devido ao foco nos serviços ecossistêmicos e
à sua habilidade em sustentar a humanidade. Os cenários começam em 1960 e continuam até 2100. A Figura 13.4 sugere o
resultado das abordagens alternativas.
Uma linha semelhante de análise foi apresentada por Nicholas Stern (2007: xv) em seu relatório internacional sobre A
Economia das Alterações Climáticas. Ele concluiu que o custo da redução das emissões de carbono provavelmente seria cerca
de 1 % do PIB global, enquanto a inatividade levaria a um custo de 5 a 20 % do PIB global. Em resumo, Stern descobriu que os
custos de um cenário de conduta normal são extorsivos e superam as economias que poderiam ser alcançadas pela ação imediata
do governo.

CONCLUSÃO
O sistema de pegada ecológica ainda está sendo desenvolvido e aperfeiçoado. Adotar esta medida — ou algo similar — será
controverso. O sistema obriga os governos (e as pessoas) a comparar as demandas ecológicas atuais impostas sobre o planeta
com a capacidade dos ecossistemas que sustentam a vida na Terra. Isto sugere fortemente que não estamos vivendo dentro dos
limites sustentáveis do planeta. Os ecossistemas estão sofrendo, e quanto mais continuarmos neste caminho de consumo
insustentável, mais difícil se tornará proteger (e restaurar) a biodiversidade do planeta. Os governos não serão capazes de
resolver esta questão corretamente até que tenham uma maneira acordada para monitorar e medir o problema. Os desafios são
enormes; são acessíveis, mas irão exigir uma ação combinada em nível local e internacional e alterações significativas em
setores com utilização intensa de recursos como a construção.

Pontos-Chave 13.7
A pegada ecológica mede o consumo de recursos naturais necessários para suportar o padrão de vida
existente. Os cálculos foram realizados para 150 nações.
A visão da Global Footprint Network é transformar a pegada ecológica em um sistema tão proeminente
quanto o produto interno bruto (PIB) até 2015.
A pegada ecológica global se altera conforme o tamanho da população, consumo médio por pessoa,
eficiência dos recursos, alterações na tecnologia, reciclagem, e com atitudes com relação à conservação.
__________
*
Contas Nacionais do Reino Unido: O Livro Azul. (N.T.)
*
Fundo Mundial para a Natureza. (N.T.)
Em qualquer literatura do governo que vise estimular a construção sustentável, o principal argumento é o caso de negócio. Isto
faz sentido, já que as empresas privadas — o principal alvo desses apelos do governo — estão acima de tudo no mundo dos
negócios. O ponto de partida é que as empresas têm que ganhar o suficiente para pagar suas contas. Consequentemente, embora
o objetivo final da política de sustentabilidade seja criar uma indústria de construção, social e ambientalmente responsável, o
caso de negócio é visto como a maneira de conduzir isto adiante. A Estratégia para a Construção Sustentável do governo do
Reino Unido explicitou esse ponto em suas páginas de abertura, quando afirmou que o aumento da rentabilidade pela utilização
eficiente de recursos está no centro do caso para a construção sustentável (HM Government, 2008: 5). Isto requer uma
economia estável e competitiva, exercida de acordo com os objetivos macroeconômicos estabelecidos no Capítulo 12 (consulte
os Pontos-Chave 12.1).
No centro de uma economia estável e competitiva encontra-se uma baixa taxa de inflação, e um objetivo explícito da
política monetária é o controle da inflação. Se os preços estiverem em constante alteração, os empreendedores hesitarão em
entrar em contratos, uma vez que eles não podem planejar os resultados de longo prazo de seus investimentos. Isto é agravado
pelos problemas causados pelas alterações nas taxas de juros e pelas flutuações das taxas de câmbio, as quais frequentemente
acompanham a inflação. É muito mais simples trabalhar dentro de um ambiente econômico estável. Estabilidade significa que
os custos e os preços de qualquer projeto ou investimento podem ser estimados com maior segurança e transparência,
permitindo que as empresas planejem com maior confiança. Na verdade, os economistas definem os impactos da inflação
associados às empresas como custos de menu. Esses custos surgem devido à necessidade de revisar contratos existentes,
novas propostas e licitações, na medida em que a inflação se estabelece. Obviamente, conforme as taxas de inflação se tornam
maiores e mais voláteis, os custos de menu ficam mais exigentes e, em circunstâncias extremas, podem incluir custos associados
com alterações em máquinas de venda automática, custos de impressão de listas de preços revisadas, tempo gasto renegociando,
e assim por diante.
A inflação também afeta aqueles que não são economicamente ativos. Se os preços sobem, então aqueles com rendimentos
fixos, como pensionistas, estudantes e aposentados, sofrem. Como consequência, muitos aspectos da atividade econômica são
ligados a um índice para permitir a inflação. Por exemplo, poupanças, contratos comerciais e pensões podem ser ajustados em
função da inflação. Tudo o que é necessário é um índice de preços confiável.

A INFLAÇÃO E COMO ESTA É CALCULADA


A inflação é um aumento persistente no nível geral de preços.
A letra em itálico na definição é importante, uma vez que qualquer aumento no nível de preços deve ser mantido para ser
categorizado como uma situação inflacionária. Aumentos de preços anuais contínuos, entretanto, como aqueles vivenciados no
Reino Unido, são definitivamente classificados como inflação.
A Tabela 14.1 apresenta as taxas de inflação anuais médias do Reino Unido para o período de 1951-2010, e destaca que as
décadas de 1950 e 1960 foram períodos de baixa inflação, com os preços subindo menos que 6 % na maioria dos anos. Na
década de 1970, as taxas de inflação foram muito mais altas e voláteis — de fato, durante o ano de 1975 os preços aumentaram
24 %. A década de 1980 testemunhou a segunda maior alta de preços ao consumidor do período pós-guerra, e muito disso
refletiu o aumento dos custos em pagamentos de hipotecas e conselhos fiscais. O período mais recente apresentado na tabela, de
1990 a 2010, poderia ser caracterizado, em relação às duas décadas anteriores, como um período de baixa inflação, com taxas
raramente excedendo os 3,5 %.

Tabela 14.1 Taxas de inflação do Reino Unido

Período Alteração média anual nos preços


1951 – 1960 4,1%

1961 – 1970 4,1%

1971 – 1980 13,8%

1981 – 1990 6,6%

1991 – 2000 3,1%

2001 – 2010 2,8%

Fonte: Office for National Statistics.

Deflação, definida como uma queda sustentada no nível geral de preços, é o completo inverso da inflação, mesmo na
medida em que esta resulta tipicamente de uma queda na demanda agregada, em resposta a qual as empresas reduzem os preços
a fim de vender seus produtos. Inevitavelmente, como uma forma de instabilidade de preços, a deflação também tem
consequências econômicas adversas, e isto representa dificuldades particulares ao gerenciamento econômico — uma delas é o
fato de que, já que as taxas de juros não podem cair abaixo de zero, o Comitê de Política Monetária (COPOM) do Banco da
Inglaterra não seria capaz de reduzir as taxas de juros para estimular a demanda. O objetivo macroeconômico, portanto, é
conduzir a um percurso estável entre a inflação e a deflação. Para alcançar a estabilidade de preços, o objetivo atual é manter a
taxa de inflação do Reino Unido por volta de 2 % — e certamente não deve ser permitido que ela diminua abaixo de zero.
Medidas de inflação envolvem a representação das alterações de preços ao longo de um período de tempo. Os dispositivos
estatísticos mais adequados para este propósito são os números-índices. Estes são uma forma de expressar os dados relativos a
um ano-base específico. Eles permitem que o custo de um conjunto específico de produtos seja expresso como uma
porcentagem do custo do mesmo grupo de produtos em um determinado ano-base. O princípio básico é demonstrado na Figura
14.1. O mesmo conjunto de mercadorias deve ser colocado no cesto para o ano-base e para o ano-calendário. Ou seja, o sistema
é dependente de comparações de preço like-for-like,* ou o mais próximo possível, de um período de tempo para o próximo.

Figura 14.1 Cálculo de um índice de preços


No exemplo, dois cestos de produtos são comparados e o ano-base de 2000 é selecionado. O ano de 2010, expresso em
relação a 2000, fornece um índice de preços de 117; em suma, um aumento de 17 %.

Esta abordagem é utilizada para produzir índices relativos à construção. Por exemplo, o Investment Property Databank
(Banco de Dados em Investimentos em Propriedades) compila informações de propriedades a partir da comparação de valores
de capital e de valores de locação de mais de 50.000 propriedades comerciais em uma base regular. A pesquisa compreende 23
países, com alguns mercados retrocedendo ao ano-base de 1981. De modo semelhante, os dois maiores credores hipotecários —
a Nationwide e a Halifax — publicam um índice de preços residencial todos os meses, baseado em comparações de preços de
quatro tipos diferentes de moradias em 13 regiões do Reino Unido. Essas duas instituições financeiras baseiam seus índices nas
ofertas de hipotecas que eles fizeram no mês anterior. Residências com um custo acima de quatro milhões de reais são
excluídas, uma vez que se supõe que isto pode distorcer o valor médio. Uma forma de avaliação mais abrangente, porém menos
atualizada, é proveniente do Registro de Imóveis. Este índice se baseia em transações com impostos e, portanto, cobre todos os
negócios imobiliários na Inglaterra e no País de Gales. Entretanto, ele revela lentamente o que está acontecendo no mercado,
uma vez que o imposto é pago no final da transação imobiliária, e isto pode acontecer quatro ou cinco meses após o preço de
venda ter sido acordado — e os preços dos imóveis podem subir ou cair até 20 % em três meses. Recentemente, dois sites — o
Hometrack e o Rightmove — adicionaram mais índices a este conjunto. Eles coletam informações de 4000 agentes imobiliários
acerca dos preços desejados e dos preços de venda, e cobrem mais propriedades que a Nationwide e a Halifax. Todos esses
índices são monitorados e conferidos pelo Department for Communities and Local Government (Departamento para as
Comunidades e para o Governo Local — DCLG) para criar mais uma avaliação dos preços das moradias.
Cada índice de preços imobiliários produz uma estimativa diferente da inflação dos preços. Isto porque os índices são
dependentes tanto dos dados da amostra utilizada para compor cada cesto específico, quanto da maneira como cada índice é
calculado subsequentemente. Por curiosidade, comparamos as informações do DCLG com os índices da Nationwide, Halifax e
do Registro de Imóveis na Figura 14.6.
Os índices de preços imobiliários são importantes porque são utilizados pelo governo e pelo Comitê de Política Monetária
como um indicador para avaliar a economia. Para um debate para comparar seus pontos fortes e suas fraquezas, consulte o
comentário metodológico do Escritório Nacional de Estatísticas feito por Dey-Chowdhury (2007).
Muitas outras instituições e órgãos profissionais também produzem índices especializados. Alguns são particularmente
relevantes para a indústria da construção. Por exemplo, a Royal Institution of Chartered Surveyors (em ‘tradução livre’,
Instituição Real de Inspetores Qualificados) produz o Building Cost and Information Service (Serviço de Custos e de
Informações de Construção — BCIS), o qual é publicado trimestralmente. Os dois principais índices BCIS são brevemente
considerados mais adiante, mas primeiro precisamos explicar como as avaliações mais comuns da inflação são calculadas.

Índices de Custo de Vida


No Reino Unido, os índices de preços mais utilizados são o índice de preços no varejo (IPV) e o índice de preços ao
consumidor (IPC). Os dois índices são muito similares. Ambos fornecem uma avaliação dos preços dos produtos e serviços
adquiridos pelo consumidor típico. De fato, uma boa forma de pensar sobre o IPV e o IPC é imaginar um carrinho de compras
repleto de produtos e serviços nos quais as pessoas normalmente gastam seu dinheiro; mas, neste caso, o carrinho inclui tudo, de
alimentos e moradias a entretenimento. Movimentos no IPV e no IPC, portanto, refletem as alterações no custo de vida, e eles
são as medidas aceitas utilizadas para calcular a porcentagem de aumento na inflação.
Para sermos precisos, as medidas do IPV e do IPC são baseadas em comparações regulares de preços de aproximadamente
650 itens. Obviamente, só é possível calcular um preço médio significativo para produtos-padrão — produtos e serviços que
não variam em qualidade de um mês para outro ou de um ponto de venda para outro. Os preços desses 650 itens-padrão são
registrados em diversos pontos de venda em 150 locais em todo o Reino Unido. Compreendendo esse índice mensal, portanto,
aproximadamente 100.000 (150 vezes 650) preços são registrados; entretanto, somente as médias nacionais são publicadas.
Um importante objetivo é assegurar que o carrinho de compras seja representativo dos bens e serviços de consumo
normalmente adquiridos pelos consumidores. Por isso, é revisto todos os anos a fim de mantê-lo tão atualizado quanto possível
e para refletir alterações nos padrões de compras. Os itens são descartados do carrinho de compras quando se tornam mais
difíceis de encontrar nas lojas ou não são mais aqueles nos quais as pessoas normalmente gastam dinheiro comprando. Por
exemplo, compras de discos de vinil eram comuns durante as décadas de 1960 e 1970. Entretanto, com o advento dos discos
compactos e dos downloads de músicas, os discos formam agora um nicho de mercado e não são mais incluídos como itens
representativos, desde o início da década de 1990. De modo semelhante, os gastos em TVs convencionais CRT (tubos de raios
catódicos) já não são incluídos, e os gastos com televisões de tela plana tomaram seu lugar. É igualmente importante que novos
itens sejam adicionados para representar os mercados emergentes, consequentemente, sistemas de navegação via satélite, rádios
digitais e tablets foram adicionados nos últimos anos.
Os vários itens considerados no IPV e no IPC recebem uma ponderação estatística para levar em conta sua importância
para o consumidor comum. Aos itens que consomem a maior parte do rendimento das pessoas é dado um maior peso. Por
exemplo, o peso estatístico da comida é maior que o do tabaco e do álcool, uma vez que as alterações nos preços dos alimentos
afetam a todos, enquanto os preços do tabaco e do álcool somente afetam os que fumam e bebem.
Os conteúdos dos carrinhos de compras utilizados para o IPV e para o IPC são muito semelhantes, mas não idênticos. O
carrinho de compras do IPV contém diversos itens escolhidos para representar custos de habitação, incluindo os pagamentos de
juros de hipotecas, os conselhos fiscais e os aluguéis, todos excluídos do IPC. Em contraste, o carrinho de compras do IPC
inclui as taxas pagas por pessoas que vivem em alojamentos coletivos, como clínicas, casas de repouso e residências
universitárias. Os itens chamados domicílios institucionais são excluídos do IPV, já que o foco deste é exclusivamente nos
consumidores privados do Reino Unido. Além disso, o IPC também inclui alguns itens que representam os custos enfrentados
por visitantes estrangeiros no Reino Unido. Estas sutilezas formam as principais diferenças técnicas entre os dois índices.
A maior distinção entre os índices está no seu uso e na sua origem. O IPV foi estabelecido como uma forma de avaliação
da inflação dos preços no Reino Unido desde 1947. O IPC tem sua origem em um sistema que é comum à União Europeia (UE).
Inicialmente chamado de índice harmonizado de preços ao consumidor, ele permite comparações diretas a serem feitas
com as taxas de inflação em outros estados-membros da UE, e se tornou o índice oficial utilizado pelo governo do Reino Unido
para atingir a inflação de janeiro de 2004. O IPC tende a produzir uma taxa de inflação menor que o IPV. Por exemplo, se o IPC
é utilizado para compilar uma versão da Tabela 14.1 demonstrando as taxas de inflação do Reino Unido, a taxa média para as
últimas duas décadas seria de 2,7 e 2,1, respectivamente; em média, a diferença é de aproximadamente 0,6 %.
A fim de se distinguir entre os dois, seria útil pensar em uma taxa global e em uma taxa oficial. A taxa de inflação
global é a que aparece na imprensa e normalmente se refere ao IPV. A taxa de inflação oficial constitui o alvo para os
propósitos do governo e, atualmente, é o IPC. Finalmente, uma breve referência deve ser feita ao índice de preços no varejo
excluindo o pagamento de juros (IPVE), uma vez que foi a taxa oficial do governo, de janeiro de 1998 a dezembro de 2003. As
três medidas são comparadas na Tabela 14.2.

Tabela 14.2 Resumo dos índices de inflação

IPC Inflação calculada pelo índice de preços ao consumidor, medida do governo do Reino
Unido desde 2004.

IPV Inflação calculada pelo índice de preços no varejo, em utilização desde 1947.

IPVE Índice de preços no varejo excluindo o pagamento de juros, medida do governo do Reino
Unido de 1998-2003.

Índice de Custos da Construção e Índice de Preços de Propostas


Nenhum dos índices de custo de vida — IPC, IPV e IPVE — refletem os preços que se defrontam aos construtores e a seus
clientes. Esses índices somente indicam o movimento dos preços de produtos e serviços obtidos pelo consumidor médio, não
levando em conta o movimento dos preços que afetam a construção. Os consultores da Davis Langdon* rastrearam as variações
nos custos dos insumos de obras em diversos setores desde 2000, e isto destaca como a taxa de aumento dos custos de
construção ultrapassou consideravelmente o índice de preços ao consumidor.
Como a Figura 14.2 indica, os índices de construção apresentam inflação ano a ano para o período de 2000 a 2012, porém
em um ritmo muito mais acelerado que o registrado pelo índice de preços ao consumidor. A tendência demonstrada na Figura
14.2 tem sido típica para os últimos 100 anos, na medida em que os custos de construção (especialmente dos materiais de
construção) sempre cresceram mais rapidamente que o índice geral de preços — em outras palavras, o custo real da construção
tem aumentado. Isto pode se provar potencialmente complicado para as companhias na indústria da construção, porque a longa
duração de grandes contratos significa que frequentemente o trabalho tem seu preço fixado antes de o projeto começar.

Figura 14.2 Índices de custo da construção


Fonte: Davis Langdon.

Para auxiliar e apoiar o processo de licitação, o BCIS publica um índice de custos da construção e um índice de preços de
propostas, que podem ser utilizados para monitorar alterações nos preços da construção. O índice de custos da construção avalia
alterações nos custos de mão de obra, materiais e instalações — ou seja, abrange os custos básicos enfrentados pelos
empreiteiros. O conjunto é compilado a partir de taxas de mão de obra acordadas em nível nacional e pelos preços dos
materiais. O índice também inclui previsões para ajudar a prever quaisquer alterações nos preços que possam vir a ocorrer no
período entre a submissão de uma proposta e a conclusão do projeto.
O índice de preços de propostas envolve uma análise das propostas bem-sucedidas para contratos de valor superior a R$
1.000.000. Este inclui mudanças nos salários, nos descontos, nos custos de instalações, nas despesas gerais e no lucro — ou
seja, ele indica o custo básico de construção para o cliente. Na realidade, o índice de preços de propostas é uma avaliação da
confiança na indústria sobre sua carga de trabalho atual e futura. Quando a demanda por serviços de construção é alta, não só as
margens dos empreiteiros aumentam, mas também as margens de seus fornecedores e os salários; assim, podem-se notar
aumentos no índice de preços das propostas. E, reciprocamente, quando a demanda pelos serviços da indústria diminui, todos
esses fatores diminuem também e, portanto, exercem pressão sobre o índice de preços.
A dimensão da lacuna entre esses dois índices sugere algo sobre as condições de mercado. Durante uma recessão, os
índices poderiam convergir, com as propostas certamente a um nível mais baixo que durante um boom. A explicação é simples:
quando há menos trabalho disponível, os empreiteiros ficam satisfeitos em apenas obter um contrato e cobrir seus custos;
quando o mercado está aquecido, os preços das propostas aumentam na medida em que os empreiteiros aproveitam a
oportunidade de fazer mais do que apenas cobrir seus custos.
Da mesma forma que com os índices de preços no varejo, é importante assegurar que, no cálculo dos índices de
construção, os preços que estão sendo registrados sejam para itens comparáveis. As maçãs estão sendo comparadas com maçãs,
e não com laranjas? Em outras palavras, os dados estão sendo utilizados para comparações consistentes? As qualidades físicas e
funcionais das estruturas que estão tendo seus preços fixados devem ser muito semelhantes para formarem um índice válido.

Pontos-Chave 14.1
Inflação é um aumento persistente nos preços, e controlá-la é a grande prioridade de todos os governos.
Muitos dos contratos modernos estão atrelados a índices para proteger os economicamente ativos e aqueles
com renda fixa dos efeitos da inflação.
Os índices de preço comparam o custo atual (o custo de hoje) com o custo do mesmo item em um ano-base.
Tanto o IPV quanto o IPC são utilizados como medidas da taxa de inflação geral no Reino Unido.
Existem diversos índices de preço especializados, e alguns exemplos que se aplicam ao setor da construção
incluem os índices de custo da Davis Langdon, o índice de custos da construção e o índice de preços de
propostas.

CAUSAS DA INFLAÇÃO
Embora haja muitas explicações diferentes para a inflação, consideraremos apenas as duas principais. De acordo com essas duas
explicações, a inflação ocorre ou porque um aumento na demanda eleva os preços, ou porque um aumento no custo de produção
empurra para cima o preço dos produtos finais.

Inflação de Demanda (demand-pull)


Conforme já explicamos no Capítulo 13 (e revisamos nos Pontos-Chave 13.4 e 13.5), quando a demanda agregada está
aumentando em uma economia, a inflação pode ocorrer. A gravidade do problema depende de quão perto a economia está de
seu nível de capacidade total (ou seja, do pleno emprego). Conforme a Figura 13.3 ilustra, durante qualquer período de tempo
específico há uma taxa de produção fixa na economia, e se a demanda aumentar além deste ponto, a única maneira de as
empresas reagirem é por meio do aumento de seus preços. De fato, após um ponto de capacidade total, nenhuma produção
adicional é fisicamente possível, e as pressões do excesso de demanda só podem ser combatidas com o aumento dos preços. Em
outras palavras, quando a demanda total na economia está subindo e a capacidade de produção disponível é limitada, a
inflação de demanda pode ocorrer.

Inflação de Custos (cost-push)


Os preços também sobem quando a economia não está nem perto do pleno emprego. A economia do Reino Unido vivenciou a
inflação durante um período de recessão em meados da década de 1970 e novamente durante 2011. Consequentemente, outras
explicações acerca da inflação se desenvolveram. Uma característica comum dessas explicações é o foco nas alterações dos
custos das empresas, causadas por fatores como: aumentos salariais, ampliação das margens de lucro ou aumento dos preços de
importação de matérias-primas.
Consideremos os preços do petróleo, uma vez que eles têm um histórico de aumentar rapidamente. Por exemplo, esses
preços triplicaram em 1973-1974 após a ação da OPEP (Organização dos Países Exportadores de Petróleo) para limitar a
produção de petróleo. Eles mais que duplicaram em 1978-1979. Trinta anos depois, uma saga parecida aconteceu com os preços
do petróleo bruto aumentando de US$ 30 o barril no início dos anos 2000 para mais de US$ 100 o barril em julho de 2008 e
novamente em 2011. Em cada caso, a maioria dos países exportadores de petróleo vivenciou períodos de inflação. Isto porque a
gasolina, o propano (GLP), o diesel e o querosene (combustível de aviação) são todos derivados do petróleo cru, e este também
é utilizado na manufatura de produtos químicos, plásticos, fertilizantes e têxteis. Em resumo, a alma de qualquer economia
desenvolvida é o petróleo. Na medida em que o preço do petróleo aumenta, os custos de produção são empurrados para cima, os
quais, por sua vez, são repassados ao consumidor na forma de preços mais altos. Este fenômeno é conhecido como inflação de
custos.
Duas reflexões finais a respeito desses períodos de instabilidade dos preços do petróleo colocam o problema da inflação de
custos em um foco mais nítido. Primeiro, uma reação tem sido tornar a eficiência energética um importante critério ao projetar
edificações e, assim, têm surgido experimentos baseados na arquitetura solar passiva e outras tecnologias renováveis. Segundo,
juntamente com a procura por fontes de energia alternativas, o aumento do custo do petróleo fornece o impulso necessário para
desenvolver campos de exploração deste produto que previamente não eram economicamente viáveis, como aqueles abaixo do
leito do oceano, que excedem a profundidade de 2000 metros ao longo da costa da África e do Brasil, e aqueles que se
encontram sob o gelo, na região Ártica.
Outras soluções para problemas inflacionários são mais orientadas para a estratégia econômica do governo, e algumas das
políticas seguidas nos últimos 40 anos são brevemente revisadas nas duas próximas seções.

CURAS PARA A INFLAÇÃO


A partir de uma ampla visão cronológica, três ‘curas’ para a inflação foram implantadas desde 1970:
• políticas de preço e de renda;
• controle da oferta de moeda;
• manobras nas taxas de juros.

Políticas de Preço e de Renda


Durante a década de 1970, os dispositivos políticos preferidos para parar, ou pelo menos desacelerar, a inflação de custos foram
as várias versões do controle de salários e de preços. Em termos gerais, os empregadores envolvidos, os sindicatos e os
governos se reuniam para estabelecer uma ‘norma’ anual para os aumentos salariais. As negociações, entretanto, se mostraram
difíceis de gerenciar e, na melhor das hipóteses, as políticas de preço e de renda somente restringiam efetivamente a inflação de
custos por determinado período de tempo.
Controle da Oferta de Moeda
A década de 1980 testemunhou uma mudança de ênfase política, já que alguns economistas afirmaram que a inflação,
especialmente a inflação de demanda, parecia estar inextricavelmente relacionada ao tamanho da oferta monetária de uma
nação. A explicação superficial, popularizada na mídia, era que, ‘muito dinheiro estava perseguindo poucos produtos’. É difícil
apreciar totalmente o argumento da oferta de moeda até que seja compreendido que ‘moeda’, em uma sociedade moderna, não
inclui somente notas e moedas, mas também participações em contas bancárias, cadernetas de poupança e títulos do governo.
Não precisamos, entretanto, nos preocupar muito com a complexidade desse método de controle: ele se destruiu na medida em
que governos em todo o mundo vivenciaram muitas dificuldades no direcionamento e controle da oferta de moeda. Em 1977, a
OCDE publicou uma tabela demonstrando como os 24 países-membros da organização estavam utilizando 23 definições
diferentes da oferta de moeda. De fato, havia quatro definições diferentes da oferta de moeda sendo utilizadas no Reino Unido
durante o funcionamento dessa política.

Manobras nas Taxas de Juros


Desde a década de 1990, os governos têm tentado manter a inflação sob controle utilizando as taxas de juros. Isto é feito
mediante o entendimento de que a taxa de juros em vigor influencia significativamente as decisões das despesas, e, em
particular, afeta as decisões tanto das empresas quanto dos consumidores sobre a possibilidade de contrair empréstimos (ou seja,
de incorrer em dívidas) para pagar por investimentos e bens de consumo. Na medida em que as taxas de juros tornam-se mais
altas, e mais voláteis, as empresas e os consumidores geralmente se tornam menos confiantes na realização de novos
investimentos e na negociação de contratos futuros. Ou seja, em igualdade de condições, maiores taxas de juros devem
encorajar a poupança e desencorajar as despesas com consumo e investimentos. Para seguir uma sequência, maiores taxas de
juros tenderão a aumentar o custo de financiamento na compra de imóveis e, assim, reduzir a demanda e diminuir (ou retardar a
taxa de crescimento) os preços dos imóveis. Em síntese, portanto, alterações nas taxas de juros exercem uma forte influência no
nível de despesas de uma economia.
Conforme detalhado no Capítulo 12, o processo de decisão sobre as taxas de juros começa com o COPOM. O COPOM
tem total responsabilidade pela determinação da taxa de juros utilizada pelo Banco da Inglaterra ao lidar com outras instituições
financeiras que tentam levantar fundos no mercado monetário. A taxa básica oficial é muitas vezes referida nos círculos
monetários como a taxa repo (que representa a taxa a qual um banco central está disposto a emprestar recursos para outros
bancos). Esta frase se refere aos acordos de recompra (e venda) de ativos, tais como títulos do governo entre o Banco da
Inglaterra e suas contrapartes no mercado monetário. A equivalente da zona euro fixada pelo Banco Central Europeu é chamada
taxa de refinanciamento, e a taxa de juros utilizada pelo Federal Reserve nos Estados Unidos é chamada de taxa de
desconto. No nível introdutório não é preciso preocupar-se muito com a diferença entre as terminologias norte-americana,
britânica ou europeia: o importante é que, em cada caso, o Banco Central defina cuidadosamente uma taxa de juros única que
determine a taxa a qual ele emprestará em curto prazo para o setor bancário. Posteriormente, este determina a taxa de juros de
curto prazo que os bancos cobram para empréstimos entre si. (Esta taxa é por vezes chamada de LIBOR, abreviação para
London Interbank Offered Rate.* A sequência correta está bem capturada na Figura 14.3.)
Por sua vez, negociações no mercado interbancário afetam a taxa de juros adotada na economia em geral por todas as
outras agências de crédito e instituições financeiras, como os bancos comuns. Nenhum banco poderia emprestar a seus clientes a
uma taxa menor que aquela a qual ele toma emprestado, já que este é um negócio para gerar lucros e não perdas. Assim, quando
os bancos estão enfrentando tempos econômicos mais difíceis, eles tendem a aumentar as taxas cobradas em seus empréstimos e
podem até decidir racionar a quantidade de crédito que estão dispostos a oferecer — na realidade, essas duas ações foram
capturadas na expressão crise de crédito. O mais importante é que ela plantou a semente que desencadeou a crise financeira
que dominou as manchetes de 2008 a 2012, e isto será explicado na próxima seção.

Pontos-Chave 14.2
A inflação de demanda ocorre quando a demanda total por produtos e serviços cresce mais rápido que a taxa
de crescimento da oferta.
A inflação de custos deve-se a um ou mais dos seguintes fatores: (a) aumentos salariais, (b) ampliação das
margens de lucro, e/ou (c) aumento nos preços das matérias-primas.
Políticas de preço e de renda, controle da oferta de moeda e manobras nas taxas de juros são utilizadas
como tentativas de reduzir as pressões inflacionárias.
CRISE DE CRÉDITO
A famosa crise de crédito surgiu da instabilidade do mercado hipotecário norte-americano durante 2007, em que uma
combinação de taxas de juros crescentes e uma queda nos preços dos imóveis revelaram empréstimos de má qualidade, os quais
conduziram a um aumento acentuado de inadimplência das hipotecas. Posteriormente, um período de pânico atingiu os
mercados financeiros em toda a Europa e América; houve a propagação da incerteza, o aumento da inadimplência, a evaporação
da liquidez, e os bancos centrais foram convocados para dar suporte financeiro e introduzir novos instrumentos para manter à
tona diversas instituições. O problema primordial é que os bancos não possuíam capital suficiente para cumprir com suas
obrigações, e um número significativo de bancos norte-americanos e europeus e de credores hipotecários foram forçados a
fusões de proteção, nacionalizações e até falências. De fato, a Countrywide, Fannie Mae, Freddie Mac, Bear Stearns, Lehmans,
Merrill Lynch, Northern Rock, Alliance e Leicester, HBOS, Bradford e Bingley, KSF, Dexia e Bankia, todos foram vítimas do
desastre da crise de crédito.
Os bancos e sociedades de construção sobreviventes aumentaram o rigor dos critérios de concessão de empréstimos e
também suas taxas de juros, apesar do fato de os bancos centrais, tais como o Banco da Inglaterra, terem cortado suas taxas
diversas vezes. Esta atitude não possuía precedente, já que a prática usual é que as taxas de juros espelhem os ajustes e
certamente movam-se na mesma direção das alterações feitas na taxa (repo) oficial — e normalmente no mesmo dia. Entre 2008
e 2012, entretanto, as instituições no mercado financeiro não reagiram à taxa repo desta forma; elas começaram a revisar suas
margens e aumentaram os custos dos empréstimos para alcançar um novo equilíbrio de mercado. Resumindo, a crise financeira
representou um período no qual os mercados financeiros globais procuraram correção.

Figura 14.3 Mercado monetário

Parte do problema foi o fato de os bancos centrais manterem suas taxas próximas a zero por um período significativo: uma
taxa básica de 0,5 % conduziu o mercado interbancário por mais de três anos, de março de 2009 em diante. Entretanto, uma taxa
básica baixa não fornecia mais uma garantia de que as outras taxas permaneceriam baixas ou de que os fundos seriam realmente
emprestados. A crise de crédito levou a uma mudança abrupta, a estabilidade financeira foi substituída por instabilidade e os
mercados entraram em um modo de ‘crise’. Houve uma nítida perda de confiança entre os bancos, e os empréstimos entre estes
diminuíram. Esses bancos também se tornaram relutantes em emprestar aos mutuários. Isso acarretou severas consequências à
economia em geral. Parkinson et al. (2009: 4) observaram o ciclo descendente nos setores imobiliário e de construção, onde
rapidamente se tornou evidente que a turbulência financeira significava que os credores não emprestariam mais, os mutuários
não podiam pedir emprestado, os construtores não podiam construir e os compradores não podiam comprar. No mais simples
dos termos, a crise de crédito acabou com a capacidade produtiva da economia.
Isso levanta um desafio político importante, particularmente se a política monetária se concentrar muito na inflação e não o
suficiente na estabilidade financeira. Quando as taxas de juros oficiais se aproximam de zero, o efeito que elas têm na
regulamentação da economia torna-se nulo. Consequentemente, os governos procuram outras formas de afetar o valor do
dinheiro. Uma abordagem é aumentar a oferta de moeda circulando na economia. Isso é feito por meio de um processo
conhecido como flexibilização quantitativa, e este foi somente experimentado no Japão, nos Estados Unidos e no Reino
Unido. Entre março de 2009 e julho de 2012, o Banco da Inglaterra bombeou R$ 1.500 bilhões na economia do Reino Unido a
partir desse sistema. Perceba que o objetivo do banco central aqui ainda é derrubar as taxas de juros enfrentadas pelas empresas
e pelos consumidores e, ainda mais importante, criar dinheiro novo para uso na economia.
O impacto monetário da flexibilização quantitativa espalha a negociação de ativos no mercado, e novamente a Figura 14.3
é útil como auxílio. Se um banco central como o Banco da Inglaterra deseja injetar dinheiro na economia ele pode comprar
ativos (como títulos do governo ou dívidas de alta qualidade emitidas por companhias privadas) de companhias de seguro,
fundos de pensão, bancos ou empresas não financeiras. O resultado — independentemente dos ativos particulares adquiridos —
é que a conta bancária do vendedor é creditada e o sistema se encontra com mais fundos. Além disso, quando um governo
compra ativos em grande quantidade, isto tende a elevar seus preços e reduzir sua taxa de rendimento, uma vez que a taxa de
retorno desses tipos de ativos é normalmente fixa. Na teoria, portanto, a flexibilização quantitativa aumenta a oferta de moeda e
diminui a taxa de juros de longo prazo. Esta abordagem devia impulsionar a economia de diversas maneiras, mas infelizmente
isto não aconteceu, pelo menos não na medida que o Banco da Inglaterra julgava que era necessário para reviver os gastos do
consumidor e o crescimento econômico.
O único consolo para as tentativas sem sucesso do governo é que leva algum tempo para esse tipo de instabilidade
econômica se desenvolver. O modelo macroeconômico do Banco da Inglaterra reconhece que as alterações nas taxas de juros
podem levar até um ano para afetar a demanda e a produção, e quase dois anos para que todos os efeitos se reflitam na taxa de
inflação (COPOM 1999: 3). Com a experiência da flexibilização quantitativa, entretanto, a evidência não está muito clara. Ela
só tem sido utilizada como uma medida de emergência durante a recessão e ainda não se sabe se ela impulsiona ou destrói a
confiança na economia. Ela poderia facilmente revelar-se contraproducente. Os bancos podem muito bem encontrar-se com
mais reservas, mas é questionável se isto irá encorajá-los a aumentar os empréstimos aos consumidores e empresas; eles podem
preferir manter as reservas extras sem aumentar os empréstimos, e isto poderia levar a uma pressão inflacionária.
A flexibilização quantitativa é uma política não ortodoxa e, até agora, só foi utilizada em épocas de crise. Ninguém sabe o
quanto é necessário ou quanto tempo irá levar para se atingir o efeito desejado. Enquanto este livro era escrito o Banco da
Inglaterra estava trabalhando em conjunto com o Tesouro Nacional para lançar uma nova medida de emergência, o ‘esquema de
financiamento de empréstimos’, projetado para impulsionar os empréstimos para empresas por meio da possibilidade de os
bancos pegarem empréstimos com o governo. Embora faça sentido na teoria, ainda deve ser confirmado se isto promove algum
crescimento na economia. Mas funciona como uma espécie de confirmação de que a flexibilização quantitativa pode não
funcionar.
Sem dúvida, uma maior estabilidade financeira é necessária se as economias desejam se recuperar. As pessoas e as
empresas tiveram que se adaptar às novas taxas de juros do mercado sobre seus investimentos, sua poupança e suas dívidas. As
empresas têm vivenciado cortes significativos na quantidade de pedidos recebidos. A quantidade de empregos caiu e os níveis
de remuneração diminuíram e, por meio de um efeito multiplicador, isto levou a novas reduções na demanda doméstica. As
grandes empresas tiveram que apertar os termos contratuais oferecidos aos fornecedores e as pequenas empresas muitas vezes
não conseguiram sobreviver. Muitas empresas de pequeno e médio porte faliram. Entre 2009 e 2011, mais de 50.000
companhias declararam falência no Reino Unido e, destas, significativos 20 % pertenciam ao setor da construção civil
(Insolvency Service, 2012).
Claramente, a crise de cr