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ISBN978-85-62578-00-7

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Cadernos de Estudos Avançados em Design
Coleção do Centro de Estudos Teoria, Cultura e Pesquisa em Design
Escola de Design da Universidade do Estado de Minas Gerais – ED UEMG
Universidade do Estado de Minas Gerais
Reitora
Janete Gomes Barreto Paiva

Vice-Reitor
Dijon Moraes Junior

Chefe de Gabinete
Ivan Arruda

Pró-Reitor de Planejamento, Gestão e Finanças


Mário Fernando Valeriano Soares

Pró-Reitora de Pesquisa e Pós-Graduação


Magda Lúcia Chamon

Pró-Reitora de Ensino e Extensão


Neide Wood Almeida

EdUEMG - Editora da Universidade do Estado de Minas Gerais


Coordenação
Fuad Kyrillos Neto

Projeto gráfico
Centro de Design – Centro de Estudos e Desenvolvimento de Projetos de Design/ED/UEMG
Coordenador: Silvestre Rondon.
Estagiários: Leonardo Lima, Thaís do Amaral, Alice Dias, Ana Beatriz, Braz, Vinícius Souza.
Fonte: Ecran medium - Leonardo Dutra

Diagramação
Marco Aurélio Costa Santiago

Produção editorial e revisão


Daniele Alves Ribeiro

Escola de Design da Universidade do Estado de Minas Gerais


Diretor: Roberto Werneck Resende Alves
Vice-Diretora: Jacqueline Ávila Ribeiro Mota

Design e sustentabilidade / organização Dijon De Moraes.


Lia Krucken. – Barbacena, MG : EdUEMG, 2009.
Inclui bibliografia.
108 p. – (cadernos de estudos avançados em Design)

ISBN 978-85-62578-00-7

1. Design. 2. Sustentabilidade . I. Moraes, Dijon e Krucken, Lia org.


II.
Editora da Universidade do Estado de Minas Gerais - EdUEMG Universidade do Estado de Minas Gerais. III. Série.
CDU 7.05
2009
Elaborada por: Marcos Antônio de Melo Silva - Bibliotecário CRB6: 2461
EdUEMG - Editora da Universidade do Estado de Minas Gerais
Avenida Coronel José Máximo, 200 - Bairro São Sebastião - 36202-284 - Barbacena - MG
Tel.: 32 3362-7385 - eduemg@uemg.br

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A Coleção

Os Cadernos de Estudos Avançados em Design integram a coleção do Centro


SUMÁRIO de Estudos Teoria, Cultura e Pesquisa em Design (T&C Design) da Escola de Design

Apresentação da Universidade do Estado de Minas Gerais ED-UEMG. Sua finalidade é unir do-
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centes, pesquisadores e estudiosos em torno da temática da teoria, cultura e pes-
Níveis de maturidade do design sustentável
na dimensão ambiental quisa, buscando contribuir para o avanço da pesquisa em Design, à luz de sua
Aguinaldo dos Santos 13 abrangente forma de expressão como cultura material.

Design e valores materializados – cultura, O Centro T&C Design opera no universo das questões complexas e ainda
ética e sustentabilidade pouco decodificadas, inerentes ao Design, e se propõe como ferramenta de apoio
Cyntia Malaguti 27
aos programas de stricto sensu nessa área do conhecimento. Os textos reunidos
Ética e estética na produção industrial:
nesta edição são de reconhecidos pesquisadores do Brasil e do exterior, com o
caminhos possíveis para o design no novo século
Dijon De Moraes objetivo de promover um debate de alto nível no âmbito da comunidade de
Clarice Figueiredo 39
referência em Design.
A comunicação da sustentabilidade de Os Cadernos de Estudos Avançados em Design abordam temas complexos,
produtos e serviços
com amplos valores críticos, reflexivos e analíticos, buscando integrar conheci-
Lia Krucken
Christoph Trusen 59 mentos de diversas áreas, através de enfoques distintos como nos atesta o histó-

Design, sustentabilidade e artesanato: reflexões rico de suas recentes publicações:


e práticas metodológicas
Virginia Pereira Cavalcanti
Ana Maria de Andrade Caderno 1 – Design & Multiculturalismo
Germannya D’Garcia Araújo Silva 69 Caderno 2 – Design & Transversalidade

Design de produto e seleção de materiais Caderno 3 – Design & Sustentabilidade I


com foco nos 3R’s Design & Sustentabilidade II
Wilson Kindlein Júnior
Luis Henrique Alves Cândido 85
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A Comissão Científica dos Cadernos de Estudos Avançados em Design é composta
por professores doutores, provenientes de reconhecidas e diversas universidades do
mundo:

Alessandro Biamonti, Dr. – Politecnico di Milano – POLIMI


Alpay Er, Dr. – Istanbul Tecnhical University – ITU
Carlo Vezzoli, Dr. – Politecnico di Milano – POLIMI
Claudio Germak, Dr. – Politecnico di Torino – POLITO
Dijon De Moraes, Dr. – Universidade do Estado de Minas Gerais – UEMG
Flaviano Celaschi, Dr. – Politecnico di Torino – POLITO
Gui Bonsiepe, Dr. – Universidade do Estado do Rio de Janeiro – UERJ
Itiro Iida, Dr. – Universidade de Brasília – UnB
Jairo D. Câmara, Dr. – Universidade do Estado de Minas Gerais – UEMG
Lia Krucken, Dr. – Universidade do Estado de Minas Gerais – UEMG
Luigi Bistagnino, Dr. – Politecnico di Torino – POLITO
Marcela Varejão, Dr. – Universidade da Paraíba – UFPB
Maria Cecilia Loschiavo dos Santos, Dr. – Universidade de São Paulo – USP
Maristela Ono, Dr. – Universidade Tecnológica Federal do Paraná
Rita de Castro Engler, Dr. – Universidade do Estado de Minas Gerais – UEMG
Rui Roda, Dr. – Universidade de Aveiro, Portugal
Sebastiana B. Lana, Dr. – Universidade do Estado de Minas Gerais – UEMG
Silvia Pizzocaro, Dr. – Politécnico di Milano – POLIMI
Vasco Branco, Dr. – Universidade de Aveiro – UA
Virginia Pereira Cavalcanti, Dr. – Universidade Federal de Pernambuco – UFPE

Mais informações sobre o Centro de Estudos Teoria, Cultura e Pesquisa em Design


estão disponíveis no site: www.tcdesign.uemg.br

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Apresentação lativo e lento. Com base nessa hipótese, o autor propõe os níveis como estrutura para
a formulação de políticas setoriais de longo prazo, tendo em vista a efetiva dissemina-
O livro Design e Sustentabilidade conta com a participação de estudiosos de ção dos princípios e conceitos do design sustentável.
diversas universidades brasileiras e do exterior que se propuseram o desafio de “Design e valores materializados – cultura, ética e sustentabilidade” é o tema
refletir sobre uma grande questão contemporânea: a complexa relação entre soci- abordado por Cyntia Malaguti. No segundo capítulo, a autora contextualiza a
edade, produção, consumo e ambiente. incompatibilidade da cultura contemporânea de produção do ambiente artificial,
Destaca-se, nesta publicação, o importante papel facilitador e impulsionador baseada na exploração ilimitada da natureza e no consumo conspícuo, com as
de inovações socioculturais e tecnológicas que a pesquisa em Design vêm assu- principais questões ambientais. A partir da análise do significado dos objetos no
mindo frente às rápidas mutações do mundo contemporâneo. Dessa forma, evi- mundo culturalmente construído, o artigo discute como os objetos participam na
denciam-se os desafios e as oportunidades do Design na busca por soluções sus- materialização e consolidação de princípios e valores que alicerçam o atual mode-
tentáveis no âmbito sócioambiental, econômico e na prospecção de novos estilos lo de desenvolvimento. Finalmente, aponta para novos tipos de associações que o
de vida e padrões comportamentais inerentes a novos cenários possíveis. design pode criar e que são essenciais para a construção de um estilo de vida
O livro busca ainda focalizar novas perspectivas para a sustentabilidade no ambientalmente mais adequado.
âmbito sócioambiental e econômico, evidenciando possíveis relações que o Design No terceiro capítulo desta publicação, Dijon De Moraes e Clarice Figueiredo
pode estabelecer com outras disciplinas paralelas e afins; o desenvolvimento trans- refletem através do tema “Ética e estética na produção industrial: caminhos pos-
versal entre diversos âmbitos do conhecimento; o desenvolvimento de inovações síveis para o design no novo século”. Os autores apontam para o fato de que
colaborativas junto com atores da esfera social, empresarial e governamental e o vários estudiosos que se ocupam da questão industrialização, meio ambiente e
desenvolvimento de soluções integradas (produto, distribuição, serviço e comuni- consumo ressaltam a importância do papel do consumidor para o sucesso da
cação) para atender necessidades em constante evolução, buscando equilibrar sustentabilidade ambiental do planeta. Segundo eles, muitos desses estudiosos
contrastes da sociedade contemporânea globalizada. Sob essa perspectiva, a pes- chegam a apregoar a necessidade do surgimento de uma nova estética que deve-
quisa em Design encontra muitos desafios e oportunidades que são abordados ria ser absorvida pelos consumidores da atualidade.
pelos autores nesta publicação. Essa nova estética teria como base mudanças que vão desde a composição de
No primeiro capítulo, enfatiza-se a proposta de Aguinaldo dos Santos que des- diferentes plásticos e o colorido pontilhado dos papéis de embalagem em objetos
creve sobre os “Níveis de maturidade do design sustentável” na dimensão ambiental, reciclados até o monocromatismo de produtos confeccionados em material único
analisando as implicações práticas e teóricas dos vários níveis da contribuição do e renovável. Nesse novo modelo, que vai ao encontro da sustentabilidade ambiental,
design para o alcance de uma sociedade mais sustentável. Vêm propostos cinco as imperfeições de produtos feitos de novos e diferentes tipos de matérias-primas,
níveis dessa atuação, desde a melhoria ambiental dos fluxos de produção até as produzidos com tecnologia de baixo impacto ambiental ou mesmo semiartesanal,
mudanças nos estilos de vida, de forma a alcançar o consumo “suficiente”. O artigo também, teriam lugar. Concluindo, os autores reforçam que ao aceitarem, de for-
levanta a hipótese de que, salvo a ocorrência de catástrofes ambientais ou crises ma pró-ativa, os produtos desenvolvidos dentro desse modelo, os consumidores
econômicas e sociais, a disseminação do design sustentável segue, de forma legitimariam uma nova estética, possível em nome de um planeta sustentável, e
sequencial e cumulativa, as etapas apresentadas, tendo em vista que esta dissemi- fariam a sua parte na trilogia produção, ambiente e consumo.
nação faz parte de um processo de aprendizado coletivo que é, por natureza, cumu- Ainda tendo o consumidor como foco central, no quarto capítulo do livro, Lia

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Krucken e Christoph Trusen exploram “A comunicação da sustentabilidade de produ- Alves Cândido propõem o tema “Design de Produto e seleção de materiais com foco
tos e serviços”. Os autores ressaltam que as pessoas utilizam as informações apre- nos 3R’s”. Os autores descrevem a importância do design e da engenharia de mate-
sentadas nos produtos para inferir na sua qualidade, portanto, é necessário comuni- riais como fatores fundamentais para a redução do impacto ambiental gerado no
car de forma eficiente e clara, trazendo visibilidade à relação entre quem produz e processo produtivo e no descarte do material. O campo das engenharias contribuiu
quem consome. O objetivo desse trabalho é evidenciar a importância de comunicar as significativamente com diversos métodos voltados para o projeto de produtos, refor-
qualidades de produtos e serviços, focalizando especialmente aquelas relacionadas ça os autores. Assim, a seleção de materiais aplicada ao design de produto é um fator
com sustentabilidade ambiental. As informações contribuem para conscientizar o tecnológico para a inovação. A Engenharia de Materiais, por vez, tem o papel funda-
consumidor sobre as práticas de produção e serviços ambientais associados, bem mental de auxiliar o designer na busca do conhecimento nessa área. Essas duas são
como sobre as escolhas de consumo e os estilos de vida com eles relacionados. As detentoras dos maiores desafios na procura de critérios de avaliação e análise para
dimensões de valor que influenciam nas decisões do consumidor são apresentadas posterior desenvolvimento de produtos ecologicamente corretos. Bem gerenciado,
pelos autores na “estrela de valor”. Alguns produtos e serviços são descritos, visan- esse binômio determina o êxito do empreendimento, projetando ecoprodutos e dimi-
do ilustrar estratégias para comunicar a sustentabilidade. nuindo, assim, o impacto ambiental.
O quinto capítulo, intitulado “Design, sustentabilidade e artesanato: reflexões A trilogia reduzir, reutilizar e reciclar, conhecida como 3R’s, constitui ações,
e práticas metodológicas”, é desenvolvido por Virginia Pereira Cavalcanti, Ana cada vez mais crescentes e praticadas pelas empresas na elaboração de seus pro-
Maria de Andrade e Germannya D’Garcia Araújo Silva. As autoras focalizam a dutos, visando à melhoria das condições ambientais e, consequentemente, da qua-
relação entre design, sustentabilidade e artesanato – tema da clássica dicotomia lidade de vida. A prática dos 3R’s objetiva a construção de um novo comporta-
entre teoria e prática, especialmente quando se considera suas dimensões econô- mento ou atitude diante do ambiente natural, de seus recursos renováveis e, so-
micas e produtivas e dimensões sociais e culturais. Num Brasil de cenários cultu- bretudo, dos não-renováveis, fundamentado no ciclo de vida das matérias-primas
rais complexos, essa discussão se intensifica na constatação de que o artesanato e, por conseguinte, dos produtos delas derivados.
é um patrimônio ainda pouco valorizado, muito embora, em algumas regiões, essa Dessa forma, com mais este volume da coleção Cadernos de Estudos Avança-
atividade seja a grande responsável pela geração de emprego e renda, e no mer- do em Design, espera-se estar contribuindo para o estímulo do debate por meio
cado internacional, essa atividade seja supervalorizada. A urgência em promover do tema Design e Sustentabilidade, intensificando por vez a interdisciplinaridade
o desenvolvimento sustentável sem por em risco o patrimônio cultural é, portanto, e a transversalidade, de forma avançada, na comunidade científica de referência,
o desafio que se impõe com o desenho de modelos de desenvolvimento que, cada a partir de novas visões e cenários possíveis ora propostos e apresentados.
vez mais, incorporem conceitos de sustentabilidade. As experiências realizadas
pelo laboratório “O Imaginário” sinalizam alternativas de diálogo entre tradição Dijon De Moraes
e inovação que geram emprego e renda, melhoram a qualidade de vida e, ao Lia Krucken
mesmo tempo, preservam valores e referências culturais. Nesse ensaio, as autoras
discutem a relação entre design, artesanato e sustentabilidade a partir da aborda-
gem metodológica desenvolvida e experimentada, no ambiente artesanal, pelo
laboratório “O Imaginário”.
No sexto e ultimo capítulo da obra, Wilson Kindlein Júnior e Luiz Henrique

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Aguinaldo dos Santos

Níveis de maturidade do design


sustentável na dimensão ambiental

Aguinaldo dos Santos

Graduado em Engenharia Civil pela Universidade Federal do Paraná (UFPR),


mestre em Engenharia Civil pela (UFRGS), PhD em Gestão de Operações pela
Salford University, pós-doutor em Design Sustentável pelo Politecnico di Milano.
Professor do Departamento de Design da UFPR, vice-coordenador do Programa
de Pós-Graduação em Design, professor no Programa de Pós-Graduação em
Construção Civil e coordenador do Núcleo de Design & Sustentabilidade da UFPR.
FIGURA 1- Processo evolucionário em direção ao consumo sustentável
asantos@ufpr.br
Nas seções seguintes são descritas as implicações práticas e teóricas de cada
um desses níveis destacados na FIG. 1.

Introdução Nível 1: melhoria ambiental dos fluxos de produção e consumo

Para subsidiar as decisões na formulação de políticas de longo prazo ou mes- Neste nível, os esforços são orientados para a melhoria do desempenho ambiental
mo em ações de curto prazo, é importante o entendimento da evolução provável dos fluxos de processos (materiais e/ou informação) e de operações (pessoas e/ou
do design nas empresas e na sociedade de maneira geral. A sustentabilidade re- máquinas), com ênfase na seleção adequada de materiais e energia. Isso é obtido
quer um processo de reposicionamento dos modos de vida da sociedade e isso sem intervenção nas características dos produtos, sendo as ações orientadas ao
implica em um processo de aprendizado coletivo que é, por natureza, lento e com- redesenho dos processos e operações, não ao longo de toda a cadeia produtiva, mas
plexo. Daí provém o argumento de que o progresso em direção à sustentabilidade ao longo de todo o ciclo de vida do produto de forma a torná-los mais eficientes no
segue um caminho evolucionário, sendo que cada nível requer o entendimento e o uso de recursos, prevenindo poluição e geração de desperdícios. Incluindo-se aí as
exercício do nível anterior. ações nos fluxos orientados à reciclagem e ao reuso de produtos. Isso inclui os fluxos
Na FIG. 1 observa-se os níveis de sustentabilidade associados ao consumo e durante a fase de uso, os quais podem também contribuir para viabilizar a elevação
produção sustentável. No extremo inferior, a atuação paliativa nos fluxos de pro- do desempenho ambiental dos processos.
cessos e operações (SANTOS, 1999) e no outro extremo, mudanças na direção de A busca por melhorias na relação entre entradas (materiais, energia, água etc)
um consumo “suficiente” (ALCOTT, 2008), com drásticas reduções no consumo de e saídas (produtos, desperdício, emissões no ar etc) neste nível, segue de modo
recursos naturais. similar o modelo clássico de busca pela melhoria da qualidade e produtividade.

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Níveis de maturidade do design sustentável na dimensão ambiental Aguinaldo dos Santos

Nesse sentido, embora restrita em seus impactos, a busca pela redução das perdas Programas de redução de metais pesados presentes nos processos de produção
nos sistemas de produção pode ser entendida como um instrumento de melhoria são exemplos de ações pertinentes a este nível (European Commision, 2003).
do desempenho ambiental. Shingo (1988) divide as “perdas” no ambiente da pro- A limitação deste nível quanto ao seu impacto ambiental reside em seu redu-
dução em sete categorias: superprodução, retrabalhos/refugos, movimentação, zido efeito nos padrões de consumo. Sua importância para a melhoria do impacto
transporte, processamento, espera. ambiental vai variar de setor para setor. No setor têxtil, por exemplo, os resultados
O lead-time (tempo entre um pedido e a entrega para o cliente) e os tempos do projeto SusHouse colocam a otimização do ciclo de vida e a redução dos recur-
de ciclo de produção são reduzidos com a eliminação/minimização das perdas e, sos utilizados na fase de uso com maior prioridade de melhoria do que a redução
por conseqüência, há maior possibilidade de redução de recursos envolvidos no do consumo de recursos e redução da toxidade na fase de produção (Vezzoli, 2000).
provimento de determinado produto/serviço. Para isso, os princípios heurísticos Pode-se dizer que o principal ponto fraco desta estratégia esteja no risco do
para compressão dos tempos de ciclo encontram-se bastante consolidados como efeito colateral (rebound effect). De fato, a melhoria da eficiência de fluxos de
reduzir o tamanho do lote, reduzir o trabalho em progresso, minimizar distâncias, processos e operações resulta em produtos mais baratos e com menor lead-time,
reduzir a variabilidade, sincronizar e nivelar os fluxos, mudar a ordem do processo, o que pode então estimular o maior aumento do consumo. Esse efeito colateral
isolar as atividades que adicionam valor das atividades de suporte. Outros princí- pode implicar em um impacto ambiental global ainda maior do que a situação
pios pertinentes a este nível incluem o aumento da transparência e a busca pela com produção menos eficiente.
redução da variabilidade na produção, a qual pode ser obtida fundamentalmente
pela padronização, pelos esforços de monitoramento contínuo e atuação nas cau- Nível 2: redesign ambiental do produto
sas de variação, além da implementação de mecanismos poka-yoke (termo japo-
nês que significa “mecanismos a prova de erro”) (SANTOS, 1999). Esta estratégia significa a mera readequação ambiental de um produto exis-
Ações neste nível contribuem para a redução do consumo de energia, água, tente. Essa perspectiva tem sido a dominante no Brasil e até mesmo confundida
matéria-prima em geral e também do próprio esforço físico humano. Muito impor- como o significado maior do design sustentável. Caracteriza-se principalmente
tante levar em consideração que neste nível, as ações de melhoria devem ser pela substituição de materiais não renováveis por materiais renováveis, podendo
orientadas primeiramente para o fluxo dos processos e subseqüentemente para o incluir melhorias no produto de maneira a resultar na maior eficiência do consu-
fluxo das operações. Tal ordem de análise parte do pressuposto que a eliminação mo de matéria-prima e energia ao longo de toda a cadeia produtiva e de todo o
de atividades no fluxo de materiais e/ou informações (processo) tornaria desne- ciclo de vida do produto, incluindo a facilitação da reciclagem e o reuso de compo-
cessários os esforços de melhoria nas operações correspondentes. A inversão des- nentes. Não há a exigência de mudanças reais nos estilos de vida e consumo, mas
sa ordem de análise é um erro bastante comum na área do Design, particularmen- apenas a sensibilização do usuário para a escolha de produtos ambientalmente
te nos estudos de ergonomia. Nesses estudos, a preocupação em melhoria do responsáveis (VEZZOLI, 2007).
conforto do ser humano com o meio físico acaba muitas vezes por orientar a aná- Neste nível, as principais intervenções no produto referem-se à seleção de
lise primeiramente para as operações e depois para o processo. materiais caracterizados por atributos como baixa toxidade, ser “natural”, pos-
O conteúdo dos fluxos físicos pode também ser melhorado neste nível através suir reciclabilidade, ser biodegradável e ter capacidade de renovação. Nota-se que
da escolha apropriada de matéria-prima e processos “limpos”, com o mínimo de Vezzoli e Manzini (2008) chamam a atenção para a ambigüidade desses termos.
risco ambiental nos fluxos ao longo da cadeia produtiva e de todo o ciclo de vida. De fato, um material tido como “natural” tem desempenho ambiental superior ao

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de um material sintético. O poliéster, por exemplo, pode ter impacto menor que a sazonalidade, alterações em cartelas de cores, dentre outros fatores. Além da re-
fibra de algodão, dependendo do contexto de sua aplicação (FLETCHER, 2008). O duzida gama de cores, suas fibras podem contaminar algodões brancos. Portanto,
conceito base do produto permanece o mesmo, o que muda é meramente o perfil o cultivo e o beneficiamento devem ser realizados separadamente. Sua produtivi-
dos materiais associados. No setor têxtil, por exemplo, as intervenções neste nível dade é cerca de 10% menor do que as variedades brancas comerciais e a pluma
significam, em termos práticos: colorida nem sempre alcança as exigências da fiação industrial (SOUZA, 1999).
� seleção de fibras naturais com origem em princípios da produção orgânica. Exem- Esse exemplo ilustra a complexidade de utilização de parâmetros ambientais no
plo: a utilização de algodão orgânico no lugar de algodão convencional pode reduzir processo de projeto, o que demanda competências técnicas muito mais amplas,
a toxidade associada a esse material em cerca de 93% (ALLWOOD et al., 2006); além de estarem interligados com as dimensões econômicas e sociais.
� seleção de fibras com baixo impacto ambiental, considerando os requisitos do Embora importante, as ações neste nível não servem para dirimir efetivamen-
produto e a disponibilidade de recursos locais. Exemplo: a utilização de fibras de te, em longo prazo, o problema do consumo no meio ambiente, pois não resolvem,
bambu oferece vantagens ambientais quando produzidas localmente; necessariamente, o problema do crescimento do mesmo acima dos níveis de
� utilização de fibras recicladas, originadas tanto de resíduos da própria produção resiliência do planeta. Contudo, comparativamente ao nível anterior, o nível 2 tem
industrial como do desperdício pós-consumo; repercussão ambiental consideravelmente maior, pois permite alterar o meio am-
� seleção de fibras que requerem menor volume de recursos no processo de manufa- biente de forma mais direta e atua no produto com a possibilidade de repercus-
tura para sua transformação em tecidos. Exemplo: algodão naturalmente colorido; sões positivas em todo o ciclo de vida do mesmo e nos respectivos fluxos de pro-
� seleção de fibras que permitem lavagem em baixas temperaturas, secagem mais cessos e operações.
rápida ou freqüências menores de lavagem. Exemplo: fibras com proteção Embora a ênfase deste nível esteja orientada para a substituição de materiais,
antimicróbica reduzem a freqüência de lavagem requerida para manter a higiene. sua efetividade depende do comportamento apropriado do consumidor no mo-
O redesign do produto neste nível pode também trazer benefícios ambientais mento da tomada de decisão em relação aos produtos concorrentes com maior
associados ao volume de recursos consumidos na pré-produção e produção. No impacto ambiental.
caso do algodão orgânico, por exemplo, com a eliminação da necessidade de
herbicidas, fertilizantes e tratamento do algodão (exemplo: branqueamento das Nível 3: projeto de novo produto intrinsecamente mais sustentável
fibras), há redução dos recursos necessários para viabilização dos processos as-
sociados à sua produção. No caso do uso de fibras de algodão coloridas natural- Este nível procura estabelecer soluções, ainda na fase de projeto, para melhorar
mente, as vantagens incluem a eliminação do uso de corantes na fase de acaba- o desempenho do produto em todas as etapas do ciclo de vida, partindo do próprio
mento do tecido. conceito do produto. Neste nível, há maior complexidade na atuação do designer,
A aplicação deste nível tem como uma das dificuldades centrais o acesso à dado que a ênfase não é meramente redesenhar o sistema existente, mas desenvol-
base de dados e informações confiáveis a ponto de permitir decisões de projeto ver soluções, que já na sua origem, evitem ou eliminem os problemas que o redesign
coerentes e tecnicamente robustas. No caso do algodão colorido naturalmente, ambiental apenas mitiga. Um produto intrinsecamente mais sustentável é obtido
por exemplo, Souza (1999) alerta que o mesmo apresenta desvantagens em rela- através da aplicação de princípios como a minimização de recursos, escolha de re-
ção à variedade das cores obtidas, as quais poderiam ser revertidas com uma cursos de baixo impacto, extensão e otimização da vida dos materiais, e facilidade
mudança de atitude do consumidor em relação à efemeridade da moda diante da de desmontagem (TUKKER et al., 2006).

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Níveis de maturidade do design sustentável na dimensão ambiental Aguinaldo dos Santos

Nesta estratégia, considera-se o desempenho ambiental do produto/sistema Os princípios norteadores do design de produtos intrinsecamente mais susten-
ao longo de todo o ciclo de vida. A ênfase é também na busca para reduzir, ao táveis são conhecidos: utilização de recursos de baixo impacto ambiental,
máximo, as entradas (materiais e energia) e as saídas que apresentam detrimento otimização do ciclo de vida do produto, extensão da vida dos materiais e facilita-
ao meio ambiente. Ações com esse caráter oferecem a possibilidade de eliminar ção da montagem e desmontagem que tem mostrado sua efetividade na obten-
completamente processos e operações que são o foco das atenções no nível 1. ção de embalagens mais sustentáveis3.
Entretanto, a ênfase usual do design em aumentar o valor percebido pelo usuário O desenvolvimento de produtos intrinsecamente mais sustentáveis pode de-
mantém-se presente, uma vez que esse é um fator decisivo para a migração do mandar consideráveis mudanças no estilo de vida do usuário, assim como na es-
consumidor para soluções mais sustentáveis. trutura da própria empresa e da cadeia produtiva envolvida. Portanto, apesar das
Alguns exemplos de intervenções do design neste nível são apresentados a vantagens ambientais deste nível em relação aos anteriores, há maior probabili-
seguir, tomando como base o setor do vestuário (MARTINS; VASCOUTO, 2007): dade de resistências e barreiras para sua implementação em situações reais.
� design de roupas modulares que demandam menor número de lavagens, faci-

litam a separação de partes mais prováveis de ficarem sujas, permitam fácil ma- Nível 4: projeto de sistemas produto + serviço
nutenção e reparo através da possibilidade de substituição das partes eventu-
almente danificadas; O terceiro nível busca desmaterializar todo ou parte do consumo, mediante a
� design de roupas modulares que possam conduzir a uma eventual personalização, satisfação do usuário via serviços associados ao produto. O projeto de novas solu-
permitindo ao usuário variadas composições para uso diário a partir da combina- ções para o produto-serviço que substitua as atuais soluções centradas no bem
ção de módulos; físico e não no resultado final, implica uma reestruturação técnico-produtiva de
� design de roupas “transformáveis” ou multiuso que permitam personalização. forma a atender uma determinada unidade de satisfação. Isso pode gerar ganhos
A partir de uma peça de vestuário, o usuário pode personalizá-la para diferentes socioambientais mais significativos do que as estratégias apresentadas anterior-
situações de uso; mente. Segundo Vezzoli (2007), esta unidade de satisfação é a representação sub-
� design de peças de tamanho único ou do tipo unissex, maximizando a possibi- jetiva da demanda a ser atendida, permitindo a identificação das relações pesso-
lidade de compartilhamento da mesma e permitindo o acompanhamento do cres- ais ou empresariais que precisam existir para satisfazê-la.
cimento do usuário1. Sistemas Produto-Serviço (PSS) podem ser definidos como o resultado de uma
2 estratégia de inovação, redirecionando o foco de negócios do design da venda de
� design de roupas que requeiram menor volume de energia para sua produção .

A substancial redução do volume de recursos associados no caso do vestuário produtos físicos para a venda de sistemas de produtos e serviços que são conjunta-
deve necessariamente levar em conta os insumos utilizados nessa tarefa ao longo mente capazes de atender integralmente demandas específicas de clientes (MANZINI;
de todo o ciclo de vida. Uma significativa parte desses insumos ocorre não na fase VEZZOLI, 2002). Essa mudança de paradigma favorece a desmaterialização do
de produção da matéria-prima, manufatura e distribuição do vestuário, mas na ma- consumo com possíveis benefícios ambientais, econômicos e sociais para todos os
nutenção de sua limpeza. Já existem soluções tecnológicas que permitem a redução atores sociais (governo, empresas e consumidores).
do volume de recursos gastos com limpeza como, por exemplo, tecidos autolimpantes. Há várias formas de PSS, entre elas o aluguel e leasing de equipamento, ativi-

1 3
Vide exemplo do trabalho de Amy Twigger chamado “Keep and Share” - www.keepandshare.co.uk; Exemplos de todo o mundo acerca da aplicação de tais abordagens podem ser vistos na base de dados EcoCathedra.
2
Vide, por exemplo, as roupas desenhadas por Strada (1998) Disponível no site www.design.ufpr.br/nucleo.

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dades de cuidado doméstico terceirizadas, serviços pós-venda, uso coletivo e con- devem ser considerados pelas empresas que os fornecem de forma estratégica em
tratos orientados para resultados. Essas possibilidades já são exploradas em di- seus negócios, pois alteram de forma profunda a relação com o consumidor final e
versos setores da economia, em especial na Europa. Apresentam três formas prin- com os stakeholders ao longo da cadeia produtiva.
cipais de benefícios para os consumidores: geração de valor agregado para o ciclo
de vida do produto; geração de resultados finais para os consumidores e/ou cria- Nível 5: implementação de novos cenários de consumo
ção de plataformas de acesso para os próprios consumidores atenderem suas ne- “suficiente”: descrição
cessidades (MANZINI; VEZZOLI, 2002).
O uso de PSS pode também favorecer o meio ambiente ao estimular a As ações neste nível são orientadas à esfera sociocultural, promovendo novos
ecoeficiência dos produtos industriais. Como o produto pode tornar-se fator de critérios qualitativos associados à percepção de satisfação e felicidade pelo ser
custo ou de lucro para o produtor, há o estímulo a adoção de produtos mais durá- humano de forma a resultar em consumo “suficiente” (ALCOTT, 2008) em
veis e que permitam serviços de reparo com menor demanda de recursos. A emis- contraposição ao consumo “eficiente”. No consumo eficiente (níveis 1, 2, 3 e 4), o
são de resíduos pode ser otimizada com maior controle e processamento, se com- comportamento do consumidor é orientado pela busca de um dado nível de satis-
parada ao nível doméstico devido à concentração no produtor. Além disso, a eco- fação, mas com menor volume de recursos (exemplo: aquecer exatamente a quan-
nomia de escala pode permitir processos mais eficientes e permitir investimentos tidade de água para se fazer uma xícara de café; desligar luzes desnecessárias;
em tecnologias mais inovadoras (MANZINI;VEZZOLI, 2002). compartilhamento de carro).
A implantação dos PSS nas empresas apresenta algumas dificuldades. Ela Embora o consumo eficiente já ofereça oportunidades de redução do impacto
exige experiência e conhecimento no desenvolvimento de sistemas de servi- ambiental, as pessoas podem ainda estar consumindo muito além de suas necessi-
ços em invés de produtos, mudança na forma de julgamento e mensuração de dades reais. Já o consumo “suficiente” significa a revisão dos atributos de satisfa-
resultados baseados em dados e a necessidade de uma equipe de serviços ção, estilo de vida e hábitos de consumo, buscando aproximar o consumo das neces-
experiente. Contudo, apresenta também vantagens estratégicas: oportunida- sidades reais de cada indivíduo e dos limites de resiliência do planeta terra (exem-
des de inovação e desenvolvimento de mercados, incremento na eficiência de plo: não tomar aquele copo de café; utilizar mais a luz natural; não utilizar o carro).
operações, relações mais estáveis, de longo prazo com os consumidores/for- Claramente a busca pelo consumo suficiente não deverá ocorrer sem que haja
necedores; aprimoramento da identidade corporativa e melhor retorno nas mudanças profundas na dinâmica complexa das estruturas da sociedade. Tais
necessidades dos consumidores. mudanças não ocorrem pela simples introdução de uma solução tecnológica ou
Apesar de haver muitos produtos que têm serviços associados no mercado gerencial e sim pela indução, desenvolvimento e implementação de cenários de
brasileiro, via de regra os produtos associados não foram desenhados orientados vida economicamente viáveis, socialmente aceitáveis e culturalmente atrativos
ao serviço e ainda menos à ecoeficiência. Assim, são poucos os casos de efetivo (VEZZOLI; MANZINI, 2008). As inovações neste nível são, portanto, mais radicais.
design de sistemas produto-serviço no país. Sua complexidade demanda maior articulação com todos os stakeholders para
Essa possibilidade de atuação exige que haja aceitação social e reconheci- que as soluções sejam duradouras.
mento quanto à validade das novas propostas, pois interfere na noção de “posse” Talvez o desafio maior para a implementação de um design verdadeiramente
do produto. Os novos sistemas produto-serviço têm, dessa maneira, a mudança sustentável, particularmente as ações do nível 5, é a percepção da maioria das
cultural/comportamental dos consumidores como principal barreira. Para tanto, pessoas de que aumento na qualidade de vida implica necessariamente em au-

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Níveis de maturidade do design sustentável na dimensão ambiental Aguinaldo dos Santos

mento da renda e aumento no uso de recursos naturais e tecnologia. Essa é uma nal de design acerca dos níveis de sustentabilidade apresentados neste artigo
visão individualista e comprovadamente equivocada, na medida em que bens para possibilitar a rápida identificação de oportunidades de evolução e inovação
materiais, tão somente, são insuficientes para efetivamente conferir felicidade às de produtos e serviços.
pessoas. A não consideração de aspectos chave ao desenvolvimento sustentável, Há, entretanto, um grande volume de iniciativas que não segue de forma
como a equidade social e ambiental, por exemplo, tem revertido em detrimento sequencial os níveis de maturidade da dimensão ambiental da sustentabilidade
da própria satisfação e felicidade das pessoas que têm elevado consumo. A violên- propostos neste artigo. Na verdade, há vários exemplos de situação em que o
cia e a poluição nas grandes cidades são exemplos de decorrências das deficiênci- consumidor não tem sequer a noção do desempenho ambiental superior quan-
as na equidade social e ambiental da sociedade, afetando indiscriminadamente do da aquisição de um produto ou contratação de um serviço que tem caracte-
todos os indivíduos, não importa o extrato socioeconômico a que pertençam. rísticas mais ecoeficientes. Esse é o caso, por exemplo, de clientes de sistemas
Como colocado nas seções anteriores, o design e a sustentabilidade trazem de compartilhamento de carros. A decisão pela opção do sistema muitas vezes é
desafios que colocam em cheque o próprio entendimento do que vem a ser o realizada integralmente com base em requisitos econômicos e não no desempe-
escopo de atuação da profissão e isso fica ainda mais evidente quando se trata nho ambiental superior dessa solução de mobilidade em comparação a soluções
da busca pelo consumo suficiente. Por exemplo, um grande desafio no campo do veiculares convencionais.
design de embalagens é que a própria necessidade da embalagem é um dos Apesar disso e conforme propõe Kolb (1984), o ciclo de aprendizado envolve a
primeiros questionamentos a serem realizados num processo criativo. Quando contínua e cumulativa reflexão das pessoas sobre suas ações passadas. Quando
não é possível a eliminação da embalagem, o design sustentável oferece uma esse aprendizado não envolve ruptura brusca de paradigmas anteriores, a resis-
série de ferramentas e princípios que possibilitam a eliminação ou minimização tência à mudança é proporcionalmente menor, o que aumenta a probabilidade de
de seu impacto ambiental. sucesso de iniciativas com esta abordagem. Essa lógica do aprendizado humano
Este último nível trata, portanto, de soluções que efetivamente mudam estilos também se estende para as questões associadas com a migração para padrões de
de vida e, dessa forma, hábitos de consumo e produção de maneira a reduzir ou consumo e produção mais sustentáveis. Portanto, a evolução natural das práticas
eliminar o impacto do ser humano sobre o meio ambiente. Por sua vez, a proposição do design sustentável prescinde o adequado entendimento e experimentação por
e implementação de novos cenários sustentáveis para o consumo e produção impli- parte dos profissionais de design e dos próprios consumidores acerca das virtudes
cam na promoção de novos valores culturais radicalmente diferentes do paradigma e falhas nas práticas dos níveis de consumo e produção precedentes.
corrente. Nesse caso, o papel do designer pode ser desde líder até mero suporte A estrutura proposta neste artigo integra esta dimensão do aprendizado hu-
técnico, optando pela exata participação no processo de mudança, dependente do mano, pois segue níveis de complexidade de forma crescente e cumulativa. En-
perfil de cada um, seja como profissional ou como cidadão. quanto a melhoria ambiental dos fluxos de produção e logística demanda ênfase
em questões tecnológicas que podem ser implementadas em curto prazo, a mu-
Conclusão dança de estilos de vida na direção do consumo “suficiente” é claramente muito
mais complexa e com maior volume de barreiras para sua efetiva implementação.
Há uma demanda crescente da sociedade por profissionais de design que te- Assim, levanta-se a hipótese de que a formulação de políticas para a dissemina-
nham competência em desenvolver soluções de produção e consumo mais susten- ção do design sustentável pode utilizar os níveis propostos como estrutura de
táveis. Assim, faz-se pertinente o adequado entendimento por parte do profissio- ação seqüencial e evolutiva na direção do consumo “suficiente”.

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Níveis de maturidade do design sustentável na dimensão ambiental Aguinaldo dos Santos

Agradecimento SHINGO, S. Non-stock production: the shingo system for continuous


improvement. New York:Productivity Press, 1988.
O agradecimento é feito à Capes, pelo apoio financeiro que contribuiu para a
realização dos estudos de pós-doutorado no Politecnico di Milano que resultaram SOUZA, M. C. M. Têxteis de algodão orgânico: um caso de coordenação estrita
na produção deste artigo. de sub-sistemas agroindustriais. In: WORSHOP BRASILEIRO DE GESTÃO DE
SISTEMAS AGROALIMENTARES, 2. , 1999, Ribeirão Preto. Anais ... Ribeirão Preto:
Referências Faculdade de Economia, Administração e Contabilidade da Universidade de São
Paulo (FEA/USP), 1999.
ALCOTT, B. The sufficiency strategy: Would rich-world frugality lower
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VEZZOLI, C. System design for sustainability. Theory, methods and tools for a
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KOLB, D. A. Experiential Learning: experience as a source of learning and VEZZOLI, C. The clothing care function, final report, Sushouse Project. Published
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Cynthia Malaguti

Design e vvalores
alores materializados - cultura, A relação design - ambiente

ética e sustentabilidade O ambiente artificial em que vivemos, como é de conhecimento geral, é fruto
de uma cultura que determina um “modo” de projetar, produzir, distribuir e
consumir. A cultura de criação desse ambiente, praticada por nossa sociedade
Cyntia Malaguti contemporânea, teve suas bases na Revolução Industrial, mas insere-se, sobre-
tudo, após a década de 80 do século XX, no contexto da chamada sociedade
Designer formada pela Escola Superior de Desenho Industrial da Universidade pós-moderna, caracterizada pelo efêmero, pelo fragmentário, pela
do Estado do Rio de Janeiro (UERJ); doutora em Arquitetura e Urbanismo pela descontinuidade e pelo caos (Harvey, 1989). Esse fenômeno associa-se, ainda, à
Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da Universidade de São Paulo (USP). economia globalizada que procura assegurar a disseminação e manutenção do
Professora do Centro Universitário Senac e do Centro Universitário Belas Artes
de São Paulo. mesmo modelo em escala mundial.
Essa cultura provocou inúmeros problemas ambientais, colocando a ne-
cyntia.smsousa@sp.senac.br cessidade urgente de se repensar a relação homem-natureza apoiada em ou-
tras bases. Aponta-se, em primeiro lugar, para a necessidade crítica de intro-
dução da noção de limite às práticas de projeto, produção, distribuição e con-
Introdução sumo. Num sentido mais amplo, é preciso integrar o conceito de responsabili-
dade ambiental em nossas relações com os objetos e com o ambiente artificial
As reflexões apresentadas no presente artigo se originaram da experiência da como um todo, já que ele quase sempre media nossa relação com a natureza
autora junto a um grupo multidisciplinar, ministrando um módulo do seminário e também com as pessoas.
“Valores que não têm preço”, no período de 2002 a 2007. O evento foi promovido Conforme destacava um trecho da Agenda 21, que integra os documentos
pela Associação Palas Athena, uma organização sem fins lucrativos, voltada para finais da 2ª Conferência das Nações Unidas para o Meio Ambiente, a Eco-92:
estudos filosóficos. Tratava-se de um projeto socioeducativo que incluía um pro- a pobreza e a degradação do meio ambiente estão estrei-
grama regular de seminários mensais voltados para educadores da rede pública tamente relacionadas. Enquanto a pobreza tem como re-
sultado determinados tipos de pressão ambiental, as prin-
do ensino de São Paulo e contava com o apoio institucional da UNESCO, integran- cipais causas da deterioração ininterrupta do meio ambi-
do as atividades relacionadas à consolidação da Década Internacional da Cultura ente mundial são os padrões insustentáveis de consumo
e produção, especialmente nos países industrializados.
de Paz e Não-Violência. Nas palavras da coordenadora da equipe, Laura Gorrezio
Motivo de séria preocupação, tais padrões de consumo e
Roizman, o projeto visava: “amparar e fortalecer o educador nas tarefas de acolhi- produção provocam o agravamento da pobreza e dos
mento e orientação da infância e juventude, ambas vitimadas pela desigualdade desequilíbrios. (ECO 92, 1992)
social, pela falta de oportunidades e expostas à violência”. Outro aspecto importante a ser compreendido é a visão sistêmica de toda
Entre os temas abordados, coube à pesquisadora tratar da relação entre os atividade humana. Como os ecossistemas, as atividades humanas estão profun-
homens e os objetos, um dos aspectos estruturantes dos valores vigentes em nos- damente interligadas e assim, as conseqüências de uma ação mal planejada se
sa sociedade e, portanto, merecedor de atenção especial. fazem sentir, em maior ou menor escala, muito além da área onde a mesma foi

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Design e valores materializados – cultura, ética e sustentabilidade Cynthia Malaguti

realizada. Os insumos e energia utilizados em determinada atividade ou proces- O design e seus significados na sociedade de consumo
so geram, além do produto ou serviço fim, diferentes efluentes e resíduos. De
algumas fontes vieram os insumos, algum local receberá os efluentes. Nos Para se refletirmos sobre o papel dos objetos na sustentação de determinado estilo
ecossistemas, os efluentes de um processo são insumos para outros, mantendo- de vida, é preciso voltarmos às suas dimensões ou funções. Segundo Berndt Löbach
se numa situação ideal, num equilíbrio dinâmico. Portanto, embora a visão que (2001), os produtos possuem três dimensões principais: a prática ou funcional que
prevaleça hoje seja a de que qualquer atividade humana provoque impacto so- envolve aspectos fisiológicos do uso; a estética que compreende aspectos psicológicos
bre o ambiente, é fundamental que se procure minimizar esses impactos, inclu- da percepção sensorial; e a simbólica que diz respeito aos aspectos espirituais, psíqui-
indo, entre outras análises, um estudo mais criterioso sobre as ligações existen- cos e sociais do uso. Todas essas dimensões, mas principalmente a última, está intima-
tes entre essas atividades. mente relacionada com o significado dos objetos.
Além desse estudo, um novo modelo de prática de relações humanas vem A essas dimensões dos objetos se atribuem valores, termo que se origina do grego
sendo experimentado, embora com conflitos, mas também aprendizados. O novo axiós e significa o que tem sentido, direção; o que é significante, relevante. Segundo a
modelo inclui a busca da complementaridade, da segmentação, dos acordos e Teoria dos Valores, “os valores são fruto das diferentes projeções do espírito humano
parcerias, seja no âmbito das chamadas cadeias produtivas, na utilização de terri- sobre a natureza, desenvolvendo-se e manifestando-se ao longo da história.” (REALE
tórios ou mesmo nas relações sociais. citado por DISKIN, 2005, p.24). Dessa forma, num dado momento histórico, um valor
A percepção da importância da participação do designer nesse processo de pode ser definido também como “uma maneira de ser ou de agir que uma pessoa ou
mudança necessária levou à conceituação do termo “ecodesign”, atualmente inte- uma coletividade reconhecem como ideal e que faz com que os seres ou as condutas
grado ao próprio conceito de design, entendido como “atividade que, ligando o aos quais é atribuído sejam desejáveis ou estimáveis” (ROCHER, 1989, p. 68).
tecnicamente possível com o ecologicamente necessário, faz nascer novas propos- Rocher destaca que o valor se insere de maneira dupla na realidade: como um
tas que sejam social e culturalmente aceitáveis” (MANZINI, 2005). Manzini classifi- ideal que solicita adesão ou convida ao respeito e como manifesto de forma concre-
ca tais propostas em quatro níveis de interferência, sendo o último definido como a ta ou simbólica tanto em condutas como em objetos. Isso quer dizer que, em relação
proposição de novos cenários que correspondam ao estilo de vida sustentável. ao objeto e às dimensões mencionadas, se formulam juízos, apreciações que variam
É sobre o último nível que pretendemos nos debruçar, tomando como ponto de conforme sua utilidade, beleza, significado e relação estabelecida entre eles e outros
partida o conceito de design de sustentação proposto por Tony Fry (2003). objetos dentro do sistema de objetos associados a uma determinada cultura. Os
Embora abrangendo tudo que compreende, o ecodesign valores são relativos, se organizam de forma hierárquica e possuem uma carga afetiva,
atende a uma função mais fundamental: impulsionar uma já que a adesão a eles não é uma escolha puramente racional.
transformação estrutural na direção de uma economia e
Os sociólogos Kluckhohn e Strodtbeck (citado por ROCHER, 1989), investigan-
cultura com capacidade para sustentar-se. [...] Desloca o
objetivo final de alcançar um elevado desempenho do como ocorre essa hierarquização, identificaram valores dominantes e variantes
ambiental, para a qualidade do estilo de vida que o uso ou substitutos, conforme o posicionamento de diferentes culturas diante do que
do objeto sustenta. [...] O design de sustentação começa
pela questão absolutamente básica “do que deve ser sus- chamaram “problemas fundamentais da existência humana”. E considerando que
tentado e por que”'. Significa um maior compromisso com a possibilidade de posicionamento diante dos problemas seria limitada, sintetiza-
o estilo de vida, a forma de trabalho, a tecnologia, a cultu- ram problemas e respostas/posições como observamos no QUADRO 1. O conjunto
ra e a relação entre o tipo de economia, o insustentável e
a sustentabilidade (FRY, 2003, p. 31). de respostas de determinada sociedade a esses problemas corresponderiam à sua

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Design e valores materializados – cultura, ética e sustentabilidade Cynthia Malaguti

visão de mundo, abrangendo uma definição de natureza humana; a sua relação mundo conhecido, não existem apenas as coisas que sabemos que conhecemos.
com a natureza, à categoria privilegiada do tempo e às modalidades de atividades Existe ainda uma última relação crucial: o desconhecido conhecido ou as coisas que
humanas e das relações interpessoais. não sabemos que conhecemos. E segundo Zizek, é com os desconhecidos conheci-
dos que o design lida e por essa razão, é também um aparato ideológico.
QUADRO 1
Diversos desejos e necessidades humanas são associados à valores que susten-
Problemas existenciais humanos e respostas associadas ao sistema de valores tam e estimulam o fortalecimento do estilo de vida atual, materializados nos obje-
tos, tais como a felicidade vinculada ao acúmulo de bens e à riqueza (que se associa
PROBLEMAS RESPOSTAS à idéia do controle da natureza); a juventude eterna e o medo da morte associados
fundamentais da Sistema de valores de uma sociedade
existência humana Dominantes e variantes - sujeitos a mudanças à compulsão pela novidade e pela virgindade, ao descarte e à troca permanente de
Má Neutra boa e má Boa produtos (relacionada à valorização do tempo presente); a aparência de riqueza
Natureza humana Inalterável / perfectível Inalterável / perfectível Inalterável / perfectível
associada ao excesso e ao estímulo ao desperdício; a busca de identidade em
Relações Submissão Harmonia Controle
à natureza com a natureza da natureza
reação ao fenômeno da massificação associada à adoção de sucessivos modis-
homem-natureza
mos; a liberdade transmutada em direito de escolha entre múltiplas opções de
Tempo privilegiado Passado Presente Futuro
consumo (os três últimos aspectos associados à importância da diferenciação, da
Ser Ser-em-devir Fazer
Atividade humana Livre expressão Auto-domínio Eficácia ativa individualidade e à idéia do controle).
Relações Linearidade Colateralidade
Conforme já apontava Moles (1981), o objeto transformou-se numa mensa-
Individualismo
inter-pessoais Ascendentes e descendentes iguais gem fora dele próprio e de sua materialidade. E isso ocorreu a tal ponto que as
Fonte: Kluckhohn e Fred Strodtbeck (citado por ROCHER, 1989). próprias relações humanas em nossa sociedade, muitas vezes, deixam de ser de
pessoa para pessoa. Tornam-se relações pessoa-objeto, onde o segundo perde
Nesse contexto, os objetos e seus significados contribuem para a materialização
sua dimensão de pessoa, passando a preencher uma função apenas utilitária,
do mundo culturalmente constituído em uma dada sociedade. Eles representam,
de serviço, de atendimento a uma necessidade, desejo ou determinação da pri-
sintetizam e, portanto, dão suporte à cultura, à visão de mundo predominante e a
meira. Bauman (2004) ressalta que os outros seres humanos passam a ser julga-
todos os valores e princípios associados. Conforme aponta Bourdieu:
dos segundo o padrão desses objetos, pelo volume de prazer que oferecem e em
os símbolos são instrumentos por excelência da “integração
termos de seu “valor monetário”.
social”: enquanto instrumentos de conhecimento e de co-
municação (cf. a análise durkheimiana de festa), eles tor-
nam possível o consensus a cerca do sentido do mundo A materialização de novos valores e significados
social que contribui fundamentalmente para a reprodução
da ordem social: a integração “lógica” é a condição da
integração “moral” (BOURDIEU, 2004, p. 10). A construção de um caminho para a sustentabilidade passa pela reflexão so-
O filósofo e psicanalista esloveno Zizek (2005) complementa essa visão ao co- bre as possibilidades de mudança na hierarquia de valores e sobre o papel do
mentar sobre o que conhecemos e o que não conhecemos do mundo. Lembra que no design nesse processo. Segundo Kluckhohn e Strodtbeck (citado por ROCHER, 1989)
mundo desconhecido, existem coisas que sabemos que não conhecemos, mas tam- embora exista uma estrutura dominante, o indivíduo ou grupos sociais fazem es-
bém existem coisas que nós nem sabemos que desconhecemos. Por outro lado, no colhas e nem sempre optam pelos valores dominantes, abrindo espaço para ou-

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Design e valores materializados – cultura, ética e sustentabilidade Cynthia Malaguti

tros modelos ou mudanças na sociedade conforme sua visão de mundo, seus ide- Valores e Valores e Práticas
consumo sustentabilidade promissoras
ais de vida, sua ideia do homem, da natureza ou do seu destino.
Mas o contexto vivenciado pela pessoa também influi em suas escolhas. E, conveniência associada outras “conveniências” como serviços de conserto e
ao “use e jogue sobrevivência, manutenção, manutenção,aluguel de roupas
vivemos atualmente num contexto de crise, como sabemos um momento propício fora” equilíbrio e diversos tipos de objeto
para mudanças porque se buscam novas perspectivas, possibilidades, cenários e
virgindade, velhice, história, brechós e customização de
objetos que viabilizem a construção de outros estilos de vida que simbolizem, que novo, memória, experiência e roupas, redes virtuais de sebos,
materializem uma outra visão de mundo. eterna marcas acumuladas com o livros usados; móveis recupera-
juventude tempo, durabilidade dos, patinados ou reutilizados
Arbucle (1994) propõe como caminho para uma vida sustentável, o que cha-
ma de compassionate design, apoiado em três estratégias ligadas à atitudes de luxo como ostentação, luxo como atitude rede de serviços públicos
aparência, exclusividade, comprometida com uma causa, eficiente como transporte
participação e ação: ressimbolizar - criando novas imagens e representações; re- ousadia ou transgressão coragem p/ ruptura,luxo como coletivo, educação,
gratuita qualidade de vida saúde
generar – alimentando novos valores e formas de ver as coisas e reprojetar –
ampliando a capacidade para nos recriarmos e criar nosso mundo. criação de ídolos como respeito e valorização da eventos e oportunidades
referenciais de identidade e diversidade, amplo conceito de para trocas entre
Assim, retomando a questão colocada, que valores sustentam a sociedade de beleza beleza culturas
consumo? Que objetos transmitem tais valores? Seria possível ressimbolizar, re-
propriedade e posse valorização do bem-comum, do mobiliário urbano, transporte
generar ou reprojetar esses objetos ou ainda criar outros, dotados de outros individual coletivo, do comunitário coletivo,jogos cooperativos
significados? Que valores seriam fundamentais para auxiliar na construção de
uma sociedade sustentável? Que papel teria o designer nessas transformações?
Cada uma das correlações apresentadas no QUADRO 2 poderia ser objeto de
No QUADRO 2, procuramos confrontar alguns dos valores ou princípios associ-
estudo, identificando-se atividades, participantes e objetos associados, suas ca-
ados à sociedade de consumo, à valores “substitutos”, indicando ainda algumas
racterísticas e tipo de contribuição na direção da sustentabilidade. Além disso,
atividades que têm auxiliado no fortalecimento dos segundos. De alguma forma,
poderia se discutir o papel do design junto a cada uma.
em várias dessas atividades, o design já participa desenvolvendo ferramentas,
Há ainda uma outra questão fundamental: quem seriam os agentes desse pro-
equipamentos e infraestrutura de apoio.
cesso? Duas dimensões opostas fazem parte da natureza humana. São elas: a de
QUADRO 2 criatura como ser vivo entre outros tantos que habitam o planeta Terra e a de
Valores relacionados ao consumo e à sustentabilidade e práticas promissoras criador como um ser que, para viver, interfere e transforma a natureza, criando um
mundo artificial como segunda natureza. Essa segunda dimensão, a de criador, é
Valores e Valores e Práticas profundamente realizadora para o ser humano como demonstram vários teóricos
consumo sustentabilidade promissoras
sobre as necessidades e desejos humanos. No entanto, desde a Revolução Indus-
consumo no sentido de destruir, cuidado, jardinagem, hortas trial, a sociedade foi dividida entre produtores e consumidores, associando-se o
devorar, gastar até a total conservação, verticais;esportes
destruição fruição “out-door” poder aos primeiros.
A criação dos artefatos progressivamente vinculou-se ao capital, concentran-
acúmulo de coleções ampliação da experiência com reciclagem de objetos e
e experiências os sentidos,novos usos para materiais, exploração do do-se nas mãos de poucos e afastando as pessoas de seu potencial criador, desva-
superficiais objetos som de objetos lorizando a atividade artesanal e dividindo as pessoas em dois grupos: os criado-

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Design e valores materializados – cultura, ética e sustentabilidade Cynthia Malaguti

res e os consumidores. E o design, atividade que se fortaleceu como prática profis- Referências
sional no seio dessa transformação, tem fortalecido essa dinâmica. Assim, o con-
ceito de compassionate design, numa perspectiva de sustentabilidade, deveria ARBUCLE, J. C. Compassionate design. The Human Village Journal, Toronto, v. 1,
contemplar um processo criativo mais compartilhado entre todos os envolvidos n.1, 17-25, 1994.
no processo. Como Manzini menciona:
[…] designers devem aceitar o fato de que eles não po- BAUMAN, Z. Amor líquido: sobre a fragilidade das relações humanas. Rio de
dem mais aspirar a um monopólio sobre o design, já que Janeiro: Jorge Zahar, 2004.
vivemos em uma era onde todos fazem design. Eles de-
vem aceitar o fato de que, atualmente, o design não é
apenas executado nos escritórios de design, mas em todo BOURDIEU, P. O poder simbólico. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 2004.
lugar (MANZINI, 2007).
CONFERÊNCIA DAS NAÇÕES UNIDAS SOBRE O MEIO AMBIENTE E DESENVOLVI-
Considerações finais MENTO – ECO 92, 2., 1992, Rio de Janeiro. Agenda 21 Global - Mudança dos
padrões de consumo. Disponível em: <http://www.mma.gov.br/sitio/
Retomando a proposição inicial do artigo de refletir sobre o significado e os index.php?ido=conteudo.monta&idEstrutura=18&idConteudo=575> Acesso em
valores transmitidos pelos objetos e sobre sua importância no processo de mu- 01/02/2009.
dança, é preciso que se tenha consciência de quais são os valores que se pretende
fortalecer. Mas a consciência não é um requisito suficiente, pois os processos de DISKIN, L. Ética: um desafio à desigualdade. In: Rizman, L. G. (Org.). Valores que
atribuição e apropriação de valor, realizados respectivamente pelo criador e pelo não têm preço. Módulo 1. Textos para aprofundamento e reflexão. São Paulo:
usuário dos objetos, não são necessariamente coincidentes. Palas Athena, 2005. p. 18-26.
Sob esse enfoque, concordamos com Flusser (2007) quando diz que o desafio
do designer hoje não é mais impor uma idéia sobre algo considerado a priori FLUSSER, V. O mundo codificado: por uma filosofia do design e da comunicação.
como amorfo, mas fazer surgir de si mesmo e do mundo circundante uma forma São Paulo: Cosac Naify, 2007.
que abarque ambos, que revele o modo como os homens emergem do mundo
para experimentá-lo. Essa postura não indica uma passividade e sim um outro FRY, T. Ecodesign, sustentabilidade e desenvolvimento. In: Catálogo Prêmio
direcionamento, talvez buscando o que Morace (1990) chama de “produto Ecodesign. São Paulo: FIESP/CIESP; Centro São Paulo Design, 2003. p. 31.
maiêutico”, capaz de fortalecer nas pessoas uma sabedoria no confronto com sua
própria existência, de gerar uma nova qualidade de vida, de atingir percepções e HARVEY, D. Condição pós-moderna. São Paulo: Loyola, 1992.
emoções mais profundas.
LÖBACH, B. Design industrial: Bases para a configuração dos produtos industri-
ais. São Paulo: Edgard Blücher, 2001.

MOLES, A. A. Teoria dos objetos. Rio de Janeiro: Tempo Brasileiro, 1981.

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Design e valores materializados – cultura, ética e sustentabilidade

MANZINI, E. A laboratory of ideas. Diffuse creativity and new ways of doing. In:
MERONI, A. Creative communities: People inventing sustainable ways of living.
Milano: Edizioni POLI.design, 2007, p. 13-15.

MANZINI, E.; VEZZOLI, C. O desenvolvimento de produtos sustentáveis: os


requisitos ambientais dos produtos industriais. São Paulo: Editora da Universida-
de de São Paulo, 2005.

MORACE, F. Controtendenze una nuova cultura del consumo. Milano: Domus


Academy, 1990.

ROCHER, G. Sociologia geral: A acção social, v. 1. Lisboa: Presença, 1989.

ROIZMAN, L. G. (Org.). Valores que não têm preço. Módulo 1. Textos para
aprofundamento e reflexão. São Paulo: Palas Athena, 2005.

ZIZEK, S. The changing role and challenges of design. Anotações de Palestra


proferida na Conferência Internacional ERA 05 WORLD DESIGN CONGRES, 2005,
Copenhagem. Dinamarca. (PALESTRA)

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Dijon De Moraes, Clarice Figueiredo

Ética e estética na produção industrial: nificativa quando passamos a considerar a relação entre a evolução tecnológica
(em rápida disseminação), as matérias-primas (de livre circulação) e o fenômeno
caminhos possíveis para o design de globalização (entenda-se o aumento produtivo em diferentes partes do plane-
no novo século ta). De acordo com Manzini:
a capacidade do homem em manipular materiais e infor-
mações nunca foi tão profunda e vasta como na atualida-
Dijon De Moraes de, mas o resultado como um todo vem ser a produção de
um ambiente artificial cada vez mais parecido com uma
“segunda natureza”, nos quais as leis ainda não nos pa-
PhD em Design pelo Politecnico di Milano (Itália), vice-reitor da Universidade do
recem claras, mas misteriosas. Tudo isto, nos induz a uma
Estado de Minas Gerais (UEMG) e coordenador do Centro de Estudos Teoria, revisão sobre o mundo artificial ao inserir na cultura do
Cultura e Pesquisa em Design da Escola de Design da UEMG. projeto e na cultura industrial alguns fundamentos para
reflexão (MANZINI, 1990, p. 50).
dijon.moraes@uemg.br
Nesse sentido, uma tentativa de aproximação seria inserir o debate sobre a
sustentabilidade socioambiental, de forma pró-ativa, junto aos consumidores, re-
Clarice Figueiredo conhecendo esses como partícipes incontestes dos resultados que hoje se conhece
no que tange ao impacto ambiental. Muito se tem feito nos dias atuais para sen-
Graduada em Direito pela Università degli Studi di Milano (UNIMI - Itália) /
Centro Universitário Newton Paiva (Brasil) e pós-graduada em Direito sibilizar os consumidores a negarem os produtos provenientes de produções
Internacional pela Faculdade de Direito Milton Campos (MCU / CEDIN). poluentes. De igual forma, grandes esforços foram despendidos em busca da dis-
seminação de um consumo consciente. Por último, muito está sendo feito em bus-
claricefigueiredo@yahoo.com.br ca do controle dos descartes após o uso dos bens semiduráveis e de consumo
diário doméstico.
Porém, deve ser reconhecido que o atual estágio em que se encontra a indús-
Introdução
tria mundial – entenda-se rápida disseminação produtiva e aumento significativo
dos números de consumidores – exige o empreendimento de outras ações em
A partir dos anos 90, as questões relativas à sustentabilidade ambiental vêm
busca da preservação sustentável do meio ambiente. Ações à luz do aumento do
sendo consideradas como de grande importância para diversos estudiosos, fazen-
consumo por parte da população dos Newly Industrialized Countries e, em parti-
do com que a reflexão sobre o tema seja disseminada através de diferentes âmbi-
cular, dos povos habitantes do sul do planeta.
tos do conhecimento, com interesses e enfoques distintos. A abordagem atual
De igual forma, acredita-se que as influências socioculturais exercem um im-
sobre a tríade produção, consumo e meio ambiente se intensifica de maneira sig-
portante papel para a concepção dos produtos industriais, pois todo produto,
1
Artigo publicado nos anais do Changing the Change Conference: Design, Visions, Proposal and Tools. An international
de forma inconsciente ou não, vem a ser fruto da interação dos atores envolvidos
conference on the role and potential of design research in the transition towards sustainability. Organised by Co- na concepção dos artefatos com a realidade sociocultural circundante. Isto se vê
ordination of Italian Design Research Doctorates with Conference of Italian Design Faculty Deans and Programme
Heads. In the framework of WORLD DESIGN CAPITAL TORINO 2008 | © ICSID An ICSID initiative of the IDA. Turin, 10th presente, de maneira mais clara e definida, quando se volta para a produção
– 11th - 12th July 2008 (Italy). Changing the Change Conference Proceedings, Edited by Carla Cipolla (Politecnico di
Milano) and Pier Paolo Peruccio (Politecnico di Torino). Turin (Italy): Umberto Allemandi & C., 2008. v.1. p. 93-104. artesanal popular. O artesanato é o resultado do convívio do homem com a sua

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Ética e estética na produção industrial: caminhos possíveis para o design no novo século Dijon De Moraes, Clarice Figueiredo

cultura autóctone, suas tradições, crendices e religiosidades transformadas em portanto, para a dialética, as coisas não são analisadas na
qualidade de objetos fixos, mas em movimento: nenhuma
cultura material espontânea e popular. coisa está “acabada”, encontrando-se sempre em vias de
Na cultura material, fruto da cultura industrial, por vezes, mesmo que não se transformar, desenvolver. O fim de um processo é sem-
pre o começo de outro. Por outro lado, as coisas não exis-
venha revelado de maneira explícita e sim tácita, constatam-se as influências cul-
tem isoladas, destacadas uma das outras, e independentes,
turais (principalmente do território urbano) na produção em larga escala dos pro- mas como um todo unido, coerente. Tanto a natureza quan-
dutos industriais. É nesse sentido que o Design, disciplina que considera a estética to a sociedade são compostas de objetos e fenômenos or-
ganicamente ligados entre si, dependendo uns dos outros
como parte da qualidade da produção industrial contemporânea, poderá fazer e, ao mesmo tempo, condicionando-se reciprocamente. Stalin
uso de seus atributos como disciplina estratégica e de sua expertise como ferra- (In: Politzer et al., s.d.:37) refere-se a esta interdependência
menta da cultura projetual para inserir junto aos consumidores a possibilidade de e ação recíproca, indicando ser por este motivo que o mé-
todo dialético considera que nenhum fenômeno da nature-
absorção de uma nova estética que considere os princípios éticos ambientais como za pode ser compreendido, quando encarado isoladamen-
referência estética da produção industrial para o terceiro milênio. te, fora dos fenômenos circundantes; porque, qualquer fe-
nômeno, não importa em que domínio da natureza, pode
A estética vem sendo considerada como um reflexo do comportamento do ser convertido num contra-senso quando considerado fora
homem enquanto ser social (aqui entendido como grupo coletivo), das aprecia- das condições que o cercam, quando destacado destas con-
ções referentes às condutas e atitudes humanas. Isso é a ética, que acaba poden- dições; ao contrário, qualquer fenômeno pode ser solúvel
com os fenômenos que o rodeiam, quando considerados
do influenciar a estética da cultura material. Portanto, pode-se dizer que existe tal como ele é, condicionado pelos fenômenos que o cir-
uma estética militar, indígena e eclesiástica, por exemplo, fruto das atitudes e dos cundam (MARCONI; LAKATOS, 2003, p. 101).
comportamentos de diferentes grupos sociais.
Sendo assim, através da ética, percebe-se uma nova forma de sensibilidade Modernidade e industrialização
estética não somente em termos de imagem, mas também como metáfora de um
conjunto de significados (conceitos) e significâncias (valores) que as empresas Não se pode desprezar que a produção industrial, dentro do projeto de
passam a associar. Por isso, através da história, os códigos estético-formais pro- modernidade então vivido, tenha se tornado um dos maiores problemas para a
porcionaram estilos reconhecíveis como, por exemplo, Bauhaus, Streamline e Ulm sustentabilidade ambiental do século XXI. A modernização, no século XX, tornou-
que tinham em suas bases um forte conceito de teoria, cultura e comportamento, se sinônimo de industrialização. Medidas cabíveis não foram previamente
coerentes com as suas estéticas. Eles seguiam as condutas e éticas comportamentais introduzidas no projeto moderno em busca de contornar as consequências que o
nas quais acreditavam e defendiam. desenvolvimento trazia intrínseco a si mesmo. Segundo atesta Bonfantini:
pode-se, todavia, insistir que hoje o nosso ambiente é
Metodologia composto essencialmente de território, colonizado e
transformado no bem e no mal pelos homens, pelas suas
atividades, pelas suas mercadorias e mercados, pelas suas
Por sua afinidade com o fenômeno da complexidade, o método dialético e indústrias e maquinários, pelos seus descartes que de
suas leis – “ação recíproca” (tudo se relaciona) e “mudança dialética” (tudo se certa forma são mais e/ou menos poluentes, seja de
transforma) – são consideradas como referências para este estudo. Assim discor- maneira desejada ou involuntária, mas fruto da coloni-
zação humana; por fim, o mundo inteiro é feito de arte-
rem Marconi e Lakatos: fato (BONFATINI, 2000, p. 9).

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Ética e estética na produção industrial: caminhos possíveis para o design no novo século Dijon De Moraes, Clarice Figueiredo

Porém, se ao longo dos tempos, o mundo contemporâneo foi caracterizado por tos e conseqüências da produção em larga escala industrial para o meio ambiente
artefatos e produtos industriais que de certa forma o completaram, deve-se reco- circundante. Observa-se que nos dias atuais, devido à rápida disseminação produ-
nhecer que o destino final dos descartes e dos desmontes, frutos da evolução tiva pelo planeta, o problema ambiental e o descontrole da natureza deixaram de
produtiva industrial, não foram igualmente considerados. O resultado do processo ter ênfase local, alcançando diferentes localizações, independentemente de suas
de modernização mundial, ao lado das benesses proporcionadas, gerou grandes posições geográficas.
problemas para a humanidade do século XXI. Como o legado moderno permanece Essa nova realidade colocou em cheque a lógica objetiva e linear moderna,
através da evolução tecnológica e pela rápida disseminação produtiva por dife- expondo que os consumidores não foram chamados como partícipes do destino
rentes partes do planeta, medidas urgem como necessárias na busca da manuten- do mundo industrial, mesmo sendo os usuários de objetos descartáveis e de bens
ção, em patamar aceitável, do progresso mundial através do binômio desenvolvi- não duráveis. Isto porque no projeto moderno de grande controle e ordenação
mento industrial e meio ambiente. previsível, não foi considerada a educação ambiental e tampouco a consciência
Dentro da lógica de progresso então estabelecida, com suas formulas pré- ecológica de forma sistemática e coletiva. Portanto, os cidadãos modernos não
dimensionadas, nota-se que o projeto moderno, racional e funcionalista almejava foram educados e preparados para viverem em cenário diferente daquele que o
um melhor ordenamento das organizações sociais e vislumbrava que suas benesses progresso acelerado prefigurou. Nesse cenário, prevalecia a abundância de recur-
fossem disseminadas para toda humanidade. Com seus conceitos coerentes e sos não renováveis e o consumo descontrolado sempre incentivado pela máquina
estruturados, esse projeto norteou a evolução industrial e tecnológica das gran- propagandista, também fruto do projeto moderno. O debate sobre a escassez de
des potências mundiais do ocidente, bem como de parte dos países do bloco co- recursos naturais, a previsão de impacto ambiental, o controle do consumo de
munista por todo o século XX. bens não renováveis e o descarte consciente não fez parte das disciplinas que
O controle de cima para baixo dos destinos da humanidade fazia parte do construíram a solidez moderna.
projeto moderno. Seguindo a opinião de Jeremy Bentham, Michel Foucault assina-
lava que o fluxo do controle de cima para baixo e o fato de tornar a ação de A dimensão ética e o meio ambiente
supervisionar uma atividade profissional de alta competência eram traços que
uniam uma série de invenções modernas como escolas, casernas militares, hospi- A palavra ética tem origem no grego ethos, significando o estudo dos juízos de
tais, clínicas psiquiátricas, hospícios, parques industriais e presídios. Todas essas apreciação referentes à conduta humana; é o modo de ser, de comportar, é o pró-
instituições eram fábricas de ordens e como todas as fábricas, eram locais de prio caráter. (FERREIRA, 1986)
atividades deliberadamente estruturadas em busca de se obter resultados previa- Na Filosofia, a ética significa o que é bom para o indivíduo e para a sociedade.
mente estabelecidos (BAUMAN, 1999, p. 102). Seu estudo contribui para estabelecer a natureza de deveres no relacionamento
Mas o moderno projeto de previsível controle sobre o destino da humanidade, entre indivíduo e sociedade, seus valores em relação ao mundo. Viver em socieda-
em busca de uma vida melhor, parece não ter conseguido cumprir sua missão por de significa respeitar preceitos ético-morais para a convivência pacífica a fim de
completo. O sonho do “mundo moderno”, seguindo uma lógica clara, objetiva e se obter uma harmonia global.
pré-estabelecida de que todas as pessoas (ou grande parte delas) teriam acesso a Os valores morais manifestados por um grupo social adquirem um caráter
uma vida mais digna e feliz através da indústria e da tecnologia, deixa, hoje, normativo e obrigatório. A moral pode então ser entendida como o conjunto das
transparecer as suas imperfeições. Uma das deficiências é não ter previsto os efei- práticas cristalizadas pelos costumes e convenções histórico-sociais. Então, a ética

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Ética e estética na produção industrial: caminhos possíveis para o design no novo século Dijon De Moraes, Clarice Figueiredo

explica o comportamento moral. De acordo com Sanchez Vasquez: em outra direção, a ciência se atém à ética [...] Diante dos
grandes desafios que a humanidade do terceiro milênio
a Ética é a teoria ou ciência do comportamento moral dos tem face às desordens ético-antropológicas que acompa-
homens em sociedade, ou seja, é a ciência de uma forma nharam a construção da modernidade e do progresso atual
específica de comportamento humano”. E continua desta (basta pensar nestas cifras: devasta-se a cada ano uma
forma a sua explanação: “Assim como os problemas teóri- superfície de floresta equivalente a 150.000 km, metade
cos morais não se identificam com os problemas práticos, de um país como a Itália; desaparecem, a cada dia cerca
embora estejam estritamente relacionados, também não se de quarenta espécies viventes), é evidente que a ciência
pode confundir a ética e a moral. A ética não cria a moral. está atenta em estabelecer um pacto de colaboração com
Conquanto seja certo que toda moral supõe determinados uma ética menos antropocêntrica e utilitarista
princípios, normas ou regras de comportamento, não é a (CACCIALANZA, 2005, p. 54-55).2
ética que os estabelece numa determinada comunidade. A
ética depara com uma experiência histórico-social no terre- A ética seria então o fundamento para a preservação e conservação do meio
no da moral, ou seja, com uma série de práticas morais já ambiente em vários sentidos e caminhos possíveis. Ela seria a base para a prote-
em vigor e, partindo delas, procura determinar a essência
da moral, sua origem, as condições objetivas e subjetivas ção da dignidade do ser humano com sua cultura e valores intrínsecos para uma
do ato moral, as fontes da avaliação, a natureza e a função vida sustentável no planeta Terra. Sendo assim, o projeto de mudança só se conso-
dos juízos morais, os critérios de justificação destes juízos e
lidará se repensarmos os conceitos éticos. Para tanto, há que existir uma colabora-
o princípio que rege a mudança e a sucessão de diferentes
sistemas morais (VASQUES, 1997, p. 12). ção efetiva de toda a sociedade, uma construção coletiva, a fim de que o cenário
vigente atual resulte em um novo humanismo planetário.
Portanto, o objetivo da ética é determinar o que é bom, tanto para o indivíduo,
como para a sociedade como um todo. Ser ético é fazer algo que beneficie o outro,
Ética e estética na produção industrial
ou seja, que não prejudique o próximo. São os códigos culturais que obrigam as
pessoas a determinada forma de conduta, mas ao mesmo tempo protege-as. A
O percurso histórico do século XX demonstra que sempre houve um estreito
ética é observadora do comportamento humano, apontando o negativo e o positi-
paralelo entre os movimentos da vanguarda artística e o estilo e a estética dos
vo, o bem e o mal, o justo e o injusto, os erros e os desvios. A ética aponta os
artefatos através dos produtos industriais, dentro do âmbito da cultura material. De
princípios básicos aos quais a conduta do ser humano deve ser subordinada, é
forma ainda incipiente, podemos apontar a estética Art Noveau como uma referên-
considerada por Acquaviva (1998) como uma “filosofia moral dignificante”.
cia do modo de vida e dos costumes dos habitantes das grandes cidades européias
Atualmente, a discussão sobre a ética traz consigo uma preocupação perene
em plena expansão, no final do século XIX e nas primeiras décadas do século XX.
com o futuro e a qualidade de vida no planeta Terra. Porém, não existem possibi-
Naquele momento, os meios produtivos, ainda em processo de consolidação, busca-
lidades éticas se as pessoas não se percebem como responsáveis por seus atos e
ram nas referências florais do oriente o seu elemento estético principal. O estilo de
omissões. Segundo Francisco Albuquerque, “a ética se traduz na busca do conhe-
vida outsider, a exploração das colônias com suas savanas e florestas, o cinema, a
cimento do ser para construir aquilo que deve ser” (ALBUQUERQUE, 1982, p.132).
fotografia e as reproduções através das artes gráficas disseminavam a estética do
Ou seja, a ética é um elemento vital na produção da realidade social, na qual
Estilo Novo que rompia com o passado e prenunciava a era moderna.
espera-se que o homem se torne responsável pela evolução e desenvolvimento
Destaca-se que a relação entre ética e estética no movimento Art Noveau não
das presentes e futuras gerações.
De acordo com Caccialanza: 2
CACCIALANZA, G. Ri-Abitare la Terra: la scienza, l’etica, l’ambiente. In: VALLE, L. (org). La foresta incontra la città:
percorsi epistemici ed etici per il terzo millennio. Como-Pavia: Ibis, 2005.

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Ética e estética na produção industrial: caminhos possíveis para o design no novo século Dijon De Moraes, Clarice Figueiredo

foi concebida de forma consciente e sistematizada pela produção industrial. Ela nos voltar para o artesanato [...] Arte e o povo devem constituir uma unidade. A
ocorreu através de processo natural e espontâneo entre o estilo de vida da época arte não pode ser um prazer para poucos, mas a felicidade e vida das massas”. E
e o processo fabril mecânico em grande fase de crescimento e disseminação, prin- por fim apregoa uma feliz “união entre arte e técnica”.
cipalmente entre os países europeus que lhe deram nomenclaturas distintas como É verdade que encontramos em Deutscher Werkbund (1907) de Hermann
Jungendstil, Sezession e Liberty. Todas essas são traduções do estilo que foi pri- Muthesius e no Neo-Plasticismo de Theo van Doesburg, através do movimento De
meiro aplicado nas artes, nos projetos de interiores e, posteriormente, em objetos Stijl (1921), princípios éticos similares a esses mesmos encontrados na Escola
de uso diário como jóias, louças e mobiliários. Bauhaus. Mas essa escola teve o mérito de melhor sedimentar e traduzir, em for-
De forma mais estruturada e intencional, podemos citar a experiência da ma de ensinamentos didáticos, os conceitos éticos aplicados na produção indus-
Bauhaus como a primeira escola a apresentar uma consistente e estreita relação trial do século XX.
entre a forma, a função e a produção de bens industriais, precedida de uma teoria O teórico Hahn, em análise sobre os primeiros anos da Bauhaus (1919-1923),
ética e comportamental previamente estabelecida. De acordo com Bürdek: segundo ele os anos decisivos para a configuração e modelo definitivo dessa es-
com a exceção do escultor Gerhard Marcks, foram esco- cola, disserta:
lhidos por Gropius somente artistas abstratos ou da pin- é presumível que, se a Bauhaus tornou um evento cultural
tura cubista como professores da Bauhaus. Entre eles, de relevância mundial, isto se deu porque a mesma soube
Wassily Kandinsky, Paul Klee, Lyonel Feininger, Oskar traduzir e pôr em pratica as idéias que já tinham sido de-
Schlemmer, Johannes Itten, Georg Muche e László Moholy- batidas em outros lugares em nível teórico e até utópico.
Nagy. Por causa do avanço dos meios de produção indus- Nos primeiros anos da Bauhaus, de fato, confluíram cor-
trial no século XIX, a ainda existente unidade entre proje- rentes heterogêneas diversas, idéias que diziam respeito
to e produção estava diluída. A idéia fundamental de à política e à sociedade, aquelas do mundo econômico, da
Gropius era que, na Bauhaus, a arte e a técnica deveriam indústria e do artesanato, da arquitetura e da arte, da pe-
tornar-se uma nova e moderna unidade. A técnica não dagogia e não por último da filosofia mas, ao contrário,
necessitava da arte, mas a arte necessitava muito da téc- indo mesmo até o âmbito do pensamento místico e
nica, era a frase emblema. Se fossem unidas, haveria uma esotérico (HAHN, 1996, p. 37).
noção de principio social: consolidar a arte no povo
(BÜRDEK, 2006, p. 28). A passagem abaixo descrita também pode confirmar o grande legado teórico
O próprio termo “consolidar a arte no povo”, de Bürdek (2006), revela diante existente como sustentação do estilo purista e sóbrio da Escola Bauhaus. Ou me-
do posicionamento ético dos idealizadores da Escola Bauhaus. Há que se conside- lhor, o seu empenho em dar vida a um código estético que vai ao encontro da
rar também que o projeto dessa Escola (1919-1933) ocorreu logo após a primeira causa e razão do momento então vivido pela Alemanha e pela Europa em geral.
grande guerra mundial, quando uma Europa pobre e dividida iniciava seu proces- De acordo ainda com Hahn:
so de restabelecimento. Portanto, o estilo reconhecido como Bauhaus surge de quando nasce a Bauhaus, era o amanhecer de uma guerra
uma consciência social que procurou eliminar os motivos decorativos supérfluos perdida e de mudanças políticas, a revolução de novembro
de 1918. Miséria, fome, desocupação e inflação eram as
existentes nos produtos industriais, prevalecendo as facilidades construtivas e pro- palavras da época, atentados e extremismos políticos eram
dutivas fabris. a ordem do dia. Ao mesmo tempo, porém, crescia a espe-
rança de um inicio radicalmente novo [...] Não se pode ima-
O Manifesto da Bauhaus punha em causa a união entre artistas e artesãos
ginar a Bauhaus sem o pressuposto de que muitos dos seus
para o bem comum de todos: “Arquitetos, escultores, pintores, todos nós devemos alunos provinham do ambiente de movimentos jovens de

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Ética e estética na produção industrial: caminhos possíveis para o design no novo século Dijon De Moraes, Clarice Figueiredo

protestos (Jugendbewegung) e neles suas mentes ferviam velocidade as suas referências projetuais. Essa prática acaba por influenciar tam-
de idéias de reforma da própria vida, da exaltação aos
Wandervogel pelo retorno à natureza, ao habito vegetaria- bém outros produtos distantes dos princípios aerodinâmicos como rádios, câmeras
no, ao jejum, ao nudismo, à medicina natural e à vida co- fotográficas, eletrodomésticos e máquinas de escritórios que eram conteúdos sim-
munitária [...] Muitos dos alunos da Bauhaus eram prove-
bólicos sem nenhuma motivação funcional.
nientes da guerra – da qual, muitas vezes cheios de entusi-
asmos patrióticos, tinham participado como voluntários – O Streamline torna-se, portanto, a tradução da modernidade americana, bem
salvando pouco mais que a vida nua e crua. Zelar pela pre- como a sinalização para o mundo de sua capacidade produtiva através de uma
cariedade social dos seus estudantes foi para a Bauhaus
por anos um dever, e o fizeram de tal maneira que lhes potente linha de montagem industrial. De acordo com Burdek:
ofereciam alimentação gratuita (HAHN, 1996, p. 38-39). os designers viam a sua tarefa, como tornar produtos mais
irresistíveis, isto é, procurar interpretar os desejos ocultos
Podemos então compreender que estava pronto o cenário para o surgimento de
e esperanças do usuário e projetá-los sobre os objetos, de
um código estético que caminhasse junto com a realidade social e comportamental forma a estimulá-los à compra. Separados das soluções
de um povo, isto é, recíproco à conduta ética e comportamental vigente. Os profes- técnicas, os designers eram empregados apenas para re-
solver os problemas da forma (BÜRDEK, 2006, p. 181-182).
sores e alunos da Bauhaus foram capazes de traduzir com perfeição esse momento
e deixaram, através dos princípios éticos e estéticos da escola, um legado inconteste Nessa época, alguns designers se destacaram por ajudar a consolidar o estilo
para a cultura material não somente européia, mas mundial. Streamline. Entre eles Raymond Loewy, que cunhou a expressão “o feio não ven-
Do outro lado do mundo, nos Estados Unidos da América, uma outra experiên- de”; Henry Dreyfuss, Norman Bel Geddes, Orlo Heller, Richard Buckminster Fuller e
cia merece atenção. Diferentemente da Europa do pós-guerra, os EUA, no início do Walter Dorwin Teague.
século XX, tinham uma indústria em franca expansão e iniciavam seu processo de Percebe-se, portanto, que o papel do design americano, no inicio e até meados
supremacia tecno-fabril pelo mundo. A forte imigração, acontecida por longo perí- do século XX, foi de inserir o design na indústria como meio de aumento das
odo, proporcionou o recebimento de diversas influências culturais e novas possibi- vendas e busca do sucesso comercial para as empresas. Segundo Heskett, “ex-
lidades de estilo e de estética àquele país. pressar a velocidade e a modernidade era um símbolo de potência, e não diminuía
A tradição do produto orientado para o mercado e a grande difusão do consu- necessariamente a eficiência de um objeto, mesmo que não expressasse a fun-
mo fizeram com que o design americano tivesse uma forte ênfase nas vendas e na ção” (HESKETT, 1990, p. 120).
obtenção de sucesso mercadológico, durante as primeiras décadas do século XX. Se a isso somar o fato da existência de uma grande massa de consumidores,
Nesse sentido, o design americano fez uso da forma e do estilo dos objetos mais surgida pela expansão de uma forte classe média local, pode-se perceber que estava
como apelo às vendas do que como conteúdo intrínseco ao seu produto industrial. feita a fórmula: o consumo induzido alimentava as vendas, que aumentava a produ-
Logo, na concepção americana, o design era tido como algo que pudesse ser inse- ção, que incentivava o consumo. Percebe-se que o comportamento ético da época,
rido, posteriormente, ao produto como uma maquiagem cosmética final. fez surgir a estética streamline de forma coerente com a realidade então vivida, ou
Surgiu assim, nos Estados Unidos, o reconhecido styling que deu suporte para seja, o momento de expansão industrial e econômica americano.
a concepção de sua derivação de maior glamour e reconhecimento, o Streamline, Retornando à Europa, destaca-se outra experiência que em muito contribuiu
entre os anos 20 e 50. Esse movimento teve como base os princípios aerodinâmi- para a consolidação do Design naquele continente, principalmente no âmbito aca-
cos oriundos da eficiência das formas orgânicas de peixes e pássaros, bem como o dêmico, que foi a Hochschule Fur Gestaltung - Hfg, a Escola de Ulm (1946-1968).
da gota d’água aplicada aos desenhos de aviões, trens e navios que tinham na Assim como ocorreu com a Bauhaus, os professores pioneiros da Escola de Ulm

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tiveram suas origens na Arte Concreta, como a de Max Bill e Tomás Maldonado, físicos, dos meios de transportes, dos instrumentos de trabalho e da comunicação. Ulm
seus dois primeiros reitores. Sobre Maldonado assim discorre Anceschi: intensificou a função social do design e inseriu o debate sobre a questão dos países
são mais de cinquenta anos que Maldonado trabalha em periféricos e dos subdesenvolvidos nos seus ensinamentos. De acordo com Bonsiepe:
universidades: a partir de 1954 fez parte do corpo docente o exame sobre a relevância do modelo de Ulm nos paí-
da Escola de Ulm, a Hochschule Fur Gestaltung, herdeira da ses periféricos pressupõe a definição das características
dialética da Bauhaus, e em poucos anos torna-se o seu Rei- principais deste modelo. Seguramente, a composição in-
tor e seu guia intelectual. Enquanto que, anteriormente, toda ternacional, seja dos docentes seja dos estudantes da
a sua formação de homem de cultura foi desenvolvida no Hfg-Ulm, não foi casual. De fato, o programa tinha ca-
húmus cultural, ético e civil da sua cidade natal, que é a racterísticas que se estendiam para fora do cenário in-
mais européia e sutilmente intrigante das cidades Sul Ame- terno da Alemanha federal. Isto não significa que a Hfg-
ricanas, isto é, Buenos Aires (ANCESCHI, 2001, p. 159).3 Ulm pretendesse ter uma validade internacional. Era con-
É sabido que a Escola de Ulm, assim como sucedeu com a Bauhaus, foi institu- cebida para o contexto dos países industrializados, o
Centro ou Metrópole, mas reunia também os países que
ída após o advento de uma grande guerra, tendo novamente a Europa como palco viam a industrialização como um instrumento para re-
e cenário principal. Trata-se da Segunda Guerra Mundial. Através da Escola de duzir a própria dependência tecnológica, para gerar ri-
queza e que aspiravam por uma cultura moderna autô-
Ulm, conceitos como racionalização, funcionalidade, economicidade, normatização noma […] O racionalismo de Ulm se opunha à pobreza
e neutralidade vêm novamente à luz na Europa. Para Andrea Branzi: e ao exotismo e impedia o comportamento paternalista
do assistencialismo (BONSIEPE, 1995. p. 130-133).
a metodologia proposta por Ulm, para impor-se naqueles
anos, seguiu a forma de uma regra objetiva, incontestá- Nesse sentido, podemos afirmar que a ética e os conceitos teóricos de Ulm fo-
vel, de apontar um novo caminho a uma Alemanha e a
uma Europa em busca de certezas, após uma guerra per-
ram condizentes com os resultados estéticos das suas produções concebidas na cul-
dida e depois de tantos horrores e sonhos errados. Qual tura material moderna. A estética desenvolvida, ou melhor, decodificada e posta em
foi então o teorema central de Ulm? Qual estratégia apro- prática no modelo de Ulm, foi concebida para o “centro” e sua realidade vivida
ximativa é sinalizada para o universo dos seus objetos
industriais? A escola, de fato, propôs um substancial através da neutralidade e pureza formal, mas foi ampliada e aceita no contexto da
“resfriamento” do próprio objeto, uma neutralização dos “periferia”. Ulm colocou em foco a antítese da estética que enaltece o consumo e
seus valores e significados expressivos, através de uma
faz referencias ao supérfluo e inseriu uma nova estética, fruto do racionalismo e da
codificação formal de grande pureza e corretismo, e que
ao mesmo tempo impedia a petulância visual e a arro- funcionalidade, no contexto da cultura do projeto. Ulm também sustenta, como refe-
gância mecânica (BRANZI, 1988, p. 41-42). rências para o projeto, a facilidade produtiva, a tecnologia fabril e os rigores
Percebe-se, portanto, que o racionalismo proposto pela Escola de Ulm ia ao en- metodológicos e, no âmbito teórico, se aproxima da razão e do positivismo.
contro do projeto de modernidade crescente no ocidente e trazia, como colabora-
ção, o rigor científico e metodológico aplicados à atividade de design. Dentro do Conclusão
cenário então vivido, Ulm trazia, intrínseco ao seu modelo projetual, o conceito de
disseminação das benesses da produção industrial para todas as pessoas. Ele ainda Percebe-se, na evolução deste artigo, que a ética como modelo de comporta-
ampliou a atuação do design para as áreas médicas, para o âmbito dos deficientes mento e de estilo de vida e a estética como decodificação formal do significado e
significância do comportamento social humano sempre mantiveram uma estreita
3
ANCESCHI, G. In: BUCCELLATI, G.; MANETTI, B. Ad Honorem: Achille Castiglioni, Gillo Dorfles, Tomás Maldonado,
Ettore Sottsass, Marco Zanuso. Milano: Hoepli, 2001, p.159.
e recíproca relação entre si e se completam em constante estado de mutação. Isto

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é, o homem como ator social e a indústria como agente produtor de bens de uma inconteste revolução dos costumes e hábitos nos habitantes do século XX,
consumo de massa atuam em um cenário onde o comportamento ético serve de não soube de igual forma instituir novos cenários que apontassem para uma cul-
referência para a produção industrial e essa se espelha na demanda humana para tura socioambiental capaz de permear entre a ética ecológica e a ética ambiental.
a concepção dos seus novos artefatos. A aplicação de um modelo linear mecanicista, racionalista e antropocêntrico para
O percurso histórico da relação entre a ética e a estética, aqui narrado e apre- o projeto do mundo moderno e o distanciamento da relação entre o desenvolvi-
sentado através dos casos emblemáticos do Art Noveau, Bauhaus, Streamline e mento industrial e meio ambiente tiveram como resultado a poluição das águas,
Escola de Ulm (também caberia nesse contexto a interessante experiência da Van- do ar e da terra. Além desses, o buraco de ozônio, o efeito estufa, o desflorestamento,
guarda Russa), demonstra e comprova a existência da estreita inter-relação. De a desertificação e o aumento dos fenômenos naturais, isto é, as catástrofes. O
igual forma, a ambiência e as relações socioculturais humanas, através do com- filosofo ambiental Valle assim completa:
portamento e estilo de vida, se apresentam como elementos a serem no que tange, por vez, à relação com a natureza, o “mo-
decodificados como referenciais estéticos da produção industrial. derno” deu passos para traz ao ser comparado com as
grandes tradições religiosas e filosóficas do passado. Não
Como cenário complementar, a descoberta ou invenção de novos materiais,
soube manter, por exemplo, aquela sabedoria do “habi-
bem como o surgimento de novas tecnologias produtivas acabam também por tar” que pode ser sintetizada pela afirmação taoista: o
influenciar a concepção e a forma estética dos produtos industriais. Hoje, como homem sábio vive em harmonia com o Céu e a Terra
(VALLE, 2005, p.23-24).
jamais visto, a evolução da tecnologia produtiva e o surgimento de novas maté-
rias-primas propiciam uma verdadeira revolução nos aspectos de uso e na for- No limiar deste século XXI, apenas iniciado, destaca-se outras relações possí-
ma dos artefatos. A isso se soma a influência sociocultural como fator veis dentro da trilogia ética, estética e produção industrial. A estética do novo
determinante para a configuração e codificação formal dos produtos dentro da milênio, nesse contexto, passaria a ser diretamente atrelada à ética ambiental, no
cultura material. No conjunto desses fatores e atributos, os objetos passam hoje sentido de procurar interagir comportamento social e sustentabilidade do plane-
a ser concebidos não somente na perspectiva de aspectos funcionais e produti- ta. A reflexão e o debate entre ética, estética e consumo já demonstram amadure-
vos, mas de igual forma dos fatores estéticos, isto é, relativos à sensibilidade, à cimento para configurar uma fisionomia de contornos próprios ou mesmo uma
emotividade e ao sentimento. própria forma epistemológica. Mas, quanto às questões industrialização, meio
É legitimo dizer que o aparecimento dos novos materiais como polímeros, ambiente e consumo ressalta-se, de igual forma, a importância e o papel do con-
termorrígidos, termoplásticos, compósitos, ligas leves, fibras sintéticas e outros sumidor como ator protagonista para o sucesso da sustentabilidade ambiental do
possibilitou a redução do tempo de processo produtivo fabril, reduzindo também planeta. Somente através dos consumidores poderá ser legitimado o surgimento
o número de componentes nos produtos e trazendo aos consumidores novas men- de uma nova estética, condizente com a realidade vivida na atualidade. Esse é um
sagens éticas, novas referências estéticas e, por fim, novas experiências de consu- desafio em busca da preservação ambiental e da qualidade de vida para as gera-
mo. A capacidade dos novos materiais de serem macios, leves, transparentes e ções futuras. Essa nova estética poderia ter como base, por exemplo, a composi-
translúcidos, dentre outras características, fez surgir produtos que despertam nas ção de diferentes plásticos reutilizáveis, o colorido pontilhado dos papéis de em-
pessoas valores que antes eram de difícil mensuração, como, por exemplo, a balagem em objetos reciclados e até mesmo o monocromatismo de produtos con-
emotividade, a estima e a qualidade percebida. feccionados em material único e renovável.
Mas essa mesma capacidade tecno-produtivo-fabril que bem soube introduzir Nesse novo modelo estético apontado como uma estrada possível para o sé-

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culo XXI e que vai ao encontro da sustentabilidade ambiental do planeta, teriam Referências
lugar também as imperfeições de produtos feitos de novos e diferentes tipos de
matérias-primas, produzidos com tecnologia de baixo impacto ambiental ou mes- ACQUAVIVA, M. C. Dicionário jurídico brasileiro. 9. ed. rev. e aum. São Paulo: Edi-
mo semiartesanal. De acordo com Manzini, tora Jurídica Brasileira, 1998.
o desenvolvimento de produtos limpos pode solicitar tam-
bém a existência de tecnologias limpas, mas exige certa- ALBUQUERQUE, F. U. et al. Introdução ao estudo do Direito. São Paulo: Saraiva, 1982.
mente uma nova capacidade projetual (é possível mesmo
chegar a produtos limpos sem especiais sofisticações
tecnológicas). Dentro deste quadro destaca-se o papel do BARRESE, M. La terra un patrimonio comune. London: Sperling & Kupfer, 1992.
design que pode ser sintetizado como a atividade que une
o tecnicamente possível com o ecologicamente necessá-
rio, promovendo novas propostas sociais e culturalmente BAUMAN, Z. La società dell’incertezza. Bologna: Il Mulino, 1999.
apreciáveis (MANZINI; VEZZOLI, 2003, p. 23).

Ao aceitarem de forma pró-ativa os produtos desenvolvidos dentro desse mo- BECK, U. Che cos’è la globalizzazione. Roma: Carrocci, 1999.
delo, os consumidores da atualidade, em nome de um planeta “limpo e sustentá-
vel”, acabariam por legitimar uma nova estética possível para o design no tercei- BENKO, G. Economia, espaço e globalização na aurora do século XXI. São Paulo:
ro milênio. Além disso, fariam a sua parte na trilogia produção, ambiente e consu- Hucitec, 1999.
mo. Mas esses conceitos não fizeram parte dos valores exatos e objetivos das
disciplinas que construíram a solidez moderna do século XX. BERARDI, F.; BOLELLI, F. Per una deriva felice. Milano: Edizioni Multipla, 1995.
Cabe a esta geração fazer uso dos avanços industriais alcançados pelo projeto
moderno e inserir nesse contexto a criação de produtos ecossustentáveis e BERTOLDINI, M. La cultura politecnica. Milano: Bruno Mondadori, 2004.
ecoeficientes, tendo como referência a ética e a estética ambiental para a concep-
ção dos novos artefatos da produção industrial, à luz da segunda modernidade a ______. La cultura politecnica II. Milano: Bruno Mondadori, 2007.
ser construída no século XXI.
BOCCHI, G.; CERRUTI, M. La sfida della complessità. Milano: Feltrinelli,1985.

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Ética e estética na produção industrial: caminhos possíveis para o design no novo século Dijon De Moraes, Clarice Figueiredo

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Lia Krucken, Christoph Trusen

A comunicação da sustentabilidade desse processo de decisão pode orientar os esforços dos diversos atores para o
desenvolvimento de uma visão estratégica e para a definição de objetos compar-
de produtos e serviços tilhados. Ou seja, significa buscar conscientemente a coerência do sistema que
origina o produto e, portanto, do próprio produto.
Lia Krucken Promover a “visibilidade”, assim como o desenvolvimento de condições para
Doutora em Engenharia de Produção pela Universidade Federal de Santa que o potencial dos recursos locais seja convertido em benefício real e durável, é
Catarina (UFSC), com pesquisa junto ao Departamento de Design Industrial uma necessidade que vem se acentuando com a globalização e representa um
do Politecnico di Milano. Pesquisadora e professora da Universidade grande desafio para economias emergentes.
do Estado de Minas Gerais (UEMG) e em programas de inovação no O design1 pode contribuir significativamente nesse contexto, buscando formas
Instituto de Competências Empresariais da FIAT e na Fundação Dom
Cabral. para tornar visível à sociedade, a história por trás dos produtos. Contar a “história
do produto” significa comunicar elementos históricos, culturais e sociais associa-
lia.krucken@gmail.com dos, possibilitando ao consumidor avaliar e apreciar o produto de forma mais
ampla, considerando, por exemplo, os serviços ambientais embutidos no próprio
produto. Dessa forma, a comunicação pode contribuir para a adoção e valorização
Christoph Trusen
de práticas sustentáveis na produção, comercialização e consumo.
Doutor em Ciências Agrárias, graduado em Economia, especialista em
Desenvolvimento Rural e no Manejo de Recursos Naturais. Consultor da Qualidades e valores dos produtos e dos serviços
Cooperação Técnica Alemã no Programa Piloto para a Proteção das Florestas
Tropicais do Brasil (PPG7).
O modo como as pessoas avaliam a qualidade é um processo subjetivo, forte-
christoph.trusen@gmail.com mente influenciado por questões culturais. Várias “dimensões de qualidade” são
consideradas na escolha de um produto ou serviço. Para o consumidor, o valor de
um produto está diretamente relacionado à sua “qualidade percebida”2 e à con-
Introdução fiança que se constrói em relação ao produto, sua origem e local em que está
exposto e comercializado.
Um produto ou serviço que compramos e usamos resulta de um conjunto de A qualidade percebida de um produto ou serviço é o resultado conjunto de
atividades e escolhas, conscientes ou não, que foram valorizados por parte dos ato- seis dimensões de valor:
res que compõem sua cadeia de valor. Envolve o uso de recursos da biodiversidade a) valor funcional ou utilitário – mensurado por atributos objetivos, caracteriza-se
próprios de um determinado território e ecossistema a partir de modos de saberes pela “adequação ao uso”. Refere-se às qualidades intrínsecas do produto, sua
relacionados ao cultivo e ao processo de fabricação de elementos combinados que
1
determinam sua essência e personalidade. “Design é uma atividade criativa que tem como objetivo estabelecer as múltiplas qualidades dos objetos, processos,
serviços e seus sistemas em todo seu ciclo de vida. Portanto, o design é um fator central para a humanização inovadora
Desta forma, a configuração final de um produto representa uma série de de- das tecnologias e um fator crucial para a troca econômica e cultural” - International Council of Societies of Industrial
Design - ICSID (2005).
cisões e escolhas projetuais, conscientes ou não, alinhadas ou não. Ter consciência 2
Esse tema foi primeiramente abordado por Zeithaml (1988) na avaliação da qualidade de serviços.

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A comunicação da sustentabilidade de produtos e serviços Lia Krucken, Christoph Trusen

composição, origem e propriedades; à segurança de consumo (controle sanitário Essas dimensões podem ser representadas na “estrela de valor” (FIG. 1).
quanto à natureza das matérias-primas, ao modo de produção e comercialização,
aos ingredientes e aditivos, à segurança da embalagem etc.) e à aspectos
ergonômicos;
b) valor emocional – de caráter subjetivo, incorpora motivações afetivas relacio-
nadas às percepções sensoriais, que compreendem componentes táteis, visíveis,
olfativos e gustativos, e ao sentimento vinculado à compra e ao consumo/utiliza-
ção do produto. Incorpora ainda a nossa dimensão “memorial”, relativa a lem-
branças positivas e negativas de acontecimentos passados;
c) valor ambiental – vinculado principalmente à prestação de serviços ambientais
por meio do uso sustentável dos recursos naturais como as florestas. Os principais
serviços ambientais são a proteção das bacias hidrográficas (produção de água
em boa quantidade e qualidade), a conservação da biodiversidade e o sequestro FIGURA 1 - Estrela de valor: dimensões de valor de produtos e serviços.
de carbono no contexto das mudanças climáticas; Fonte: KRUCKEN (2005, 2008), adaptação dos autores.
d) valor simbólico e cultural – profundamente relacionado às outras dimensões da
Os valores se estabelecem de forma integrada e dinâmica. Pode-se consi-
qualidade, relaciona-se à importância do produto nos sistemas de produção e de
derar, portanto, que a qualidade resulta do modo como o produto é produzido
consumo, das tradições e dos rituais relacionados, dos mitos e dos significados
e consumido: envolve o sistema de produção e de consumo, produtores, con-
espirituais, da origem histórica, do sentido de pertença que evoca. Está associado
sumidores e toda a rede que se desenvolve em torno do produto ou serviço.
ao desejo de manifestar a identidade social, pertença em grupo étnico,
Se considerarmos uma abordagem ampla de sustentabilidade, observamos
posicionamento político, dentre outras intenções. Fortemente influenciado pelo
que todas as dimensões de valor de produtos ou serviços estão inter-relacio-
contexto sociocultural (época, local) e pelos fenômenos contemporâneos, esta di-
nadas. O consumidor, ao adquirir produtos de forma consciente, desempenha
mensão está relacionada ao “espírito do tempo”3 e à condição de interpretação
papel fundamental na valorização e preservação dessas dimensões de quali-
do produto em um referencial estético;
dade. Conforme reforçam Manzini et al. (2006), as relações entre a qualidade
e) valor social – relaciona-se aos aspectos sociais que permeiam os processos de
dos produtos (nas suas diversidades biológicas e culturais) e os produtores e
produção, comercialização e consumo dos produtos (exemplo: repartição equitativa
entre os locais de produção e os consumidores precisam ser reconhecidas.
dos benefícios, inclusão, qualidade das relações, bem-estar, reconhecimento). Os
valores morais dos cidadãos e a atuação e reputação das organizações na socie-
Como comunicar a sustentabilidade de produtos e serviços?
dade também se incluem nesta dimensão;
f) valor econômico – de caráter objetivo, baseia-se na relação custo/benefício em
Ao avaliar um produto, as pessoas buscam informações que possam atuar
termos monetários.
como “garantias” ou “pistas”: a identificação dos produtores, os elementos
3
O “espírito do tempo” ou zeitgeist (do alemão) refere-se ao clima intelectual e cultural de uma época, ao espírito e da história do produto, marcadores de identidade e indicadores de qualidade
à aparência de uma geração. (The American Heritage Dictionary of the English Language, 2008). socioambiental do processo de produção. Essas informações ajudam a perce-
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A comunicação da sustentabilidade de produtos e serviços Lia Krucken, Christoph Trusen

ber se o produto é autêntico e rastreável. O consumidor, portanto, pode fazer Estratégias para comunicar a sustentabilidade de produtos e
uma decisão consciente e através da compra de um determinado produto, serviços: exemplos
contribuir para a conservação da biodiversidade ou para o combate das mu-
danças climáticas. Iniciativas para promover a conscientização sobre as escolhas do consumidor
As duas características – autenticidade e rastreabilidade – vêm se tornan- e o impacto de seu estilo de vida vêm se destacando nos últimos anos. Com o
do cada vez mais importante devido à proliferação de produtos no mercado e propósito de ilustrar a reflexão conduzida neste texto, são apresentadas duas ilus-
às crises alimentares como a crise da vaca louca e a gripe das aves. As catás- trações de estratégias para comunicar a sustentabilidade em produtos e serviços.
trofes alimentares, de fato, anunciam que os limites do sistema de produção e
Ilustração 1- Tabela ambiental
de consumo atuais já foram ultrapassados e sinalizam a necessidade de mu-
dança para produzir e consumir menos e melhor.
A tabela ambiental fornece informações sobre a origem e o impacto dos ingre-
A rastreabilidade4 técnica de produtos está diretamente relacionada com
dientes usados nos produtos e embalagens (FIG. 2). É uma iniciativa promovida
a segurança do consumo e com seus atributos objetivos. No entanto, é neces-
pela empresa de cosméticos brasileira Natura.
sário considerar outros aspectos para avaliar sua qualidade.
Os principais elementos objetivos e subjetivos que apóiam a percepção da
qualidade de um produto são: a) indicações geográficas da origem, b) indicações
da qualidade técnica do produto, do processo e de seu controle; c) indicações da
qualidade socioambiental e econômica do produto e de sua cadeia de produção.
Informações relacionadas ao comércio e à produção da agricultura famili-
ar são exemplos de indicações que apóiam o consumidor a avaliar o perfil do
produto quanto à sua sustentabilidade. A comunicação de práticas utilizadas
na produção também é essencial.
Os indicadores são especialmente importantes para consumidores distan-
tes do contexto de produção ou que não conhecem produtos e serviços, mas FIGURA 2 - Tabela ambiental adotada em produtos cosméticos pela empresa Natura
necessitam de sinais de confiança. A comunicação eficiente traz visibilidade à Fonte: Natura, 2008.
relação entre quem produz e quem consome, contribuindo para conscientizar
Na tabela são apresentas informações que compreendem desde a matéria-prima
sobre a importância das práticas de produção e das escolhas de consumo.
até o descarte da embalagem. O objetivo é estimular a conscientização do consumidor
Especialmente sobre valor ambiental de produtos e serviços, observa-se a
em relação ao impacto de suas escolhas sobre o ambiente, a sociedade e si próprio.
tendência de buscar estratégias para promovê-lo e comunicá-lo em nível mun-
dial. Esse tema é também abordado por Trusen (2008), Krucken (2009) e Paggiola
Ilustração 2 – O “Custo Real” e emissão CO2
et al. (2005).

4
Rastreabilidade é “a capacidade de traçar o histórico, a aplicação ou a localização de um item por meio de identificações
“Custo Real” é uma iniciativa que tem como objetivo promover a conscientização
registradas” (ABNT, 1997). sobre o impacto ambiental de escolhas que os usuários da internet fazem diaria-

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A comunicação da sustentabilidade de produtos e serviços Lia Krucken, Christoph Trusen

mente. As informações sobre o “custo real” de um serviço se assemelham a uma de produtos “ético-solidários”5. Por meio das embalagens e materiais de apoio (posters,
tabela nutricional de produtos alimentícios, porém, indicam as emissões de gás livros, calendários etc), o consumidor recebe informações que contribuem para identi-
carbônico. Ao comprar uma passagem aérea, por exemplo, pode-se comparar os ficar as qualidades dos produtos e os serviços ambientais associados6.
impactos ambientais da escolha de viajar utilizando avião, automóvel, ônibus, trem Para que essas qualidades sejam perceptíveis ao consumidor é necessário de-
e outros meios de transporte (FIG. 3). senvolver estratégias de comunicação adequadas aos diferentes contextos, estimu-
lando a conscientização sobre os valores envolvidos na produção e no consumo. Em
outras palavras, é necessário que haja uma “tradução” dos valores embutidos no
produto em informações e imagens de fácil compreensão pelo consumidor.

Considerações finais
Alguns indicadores podem efetivamente auxiliar o consumidor a avaliar a
sustentabilidade de um produto ou serviço. As informações devem dar transparência
em relação aos itens que apóiam esta avaliação como a identificação dos ingredientes,
processos de fabricação, origem, impacto ambiental, embalagem, valores adotados
pelos produtores, serviços ambientais associados ao produto/serviço, dentre outros.
Para que a comunicação esteja alinhada à mensagem que se deseja transmitir
é essencial considerar alguns aspectos:
- as imagens e os textos devem ser de compreensão fácil e rápida;
- a linguagem deve ser adequada ao público-alvo;
- a mensagem deve motivar e mostrar coerência em relação aos valores dos produ-
tores, marca e estilo de vida do público-alvo;
- o meio de comunicação deve apoiar a mensagem, oferecendo outros elementos de
referência (exemplo: uma embalagem que permite o uso de refil comunica valores
relacionados à sustentabilidade e podem fortalecer a imagem do produto).
FIGURA 3 - Indicação do “custo real” de uma passagem aérea.
Por fim, destacamos o design como importante aliado no desenvolvimento e
Fonte: www.therealcost.com, 2008.
na comunicação de soluções inovadoras e sustentáveis, aproximando produtores
Nesse processo de conscientização sobre as alternativas de escolha pode-se e consumidores, dando transparência e fortalecendo os valores que perpassam a
estimular a transformação de um consumidor passivo em um cidadão engajado – produção e o consumo.
segundo os idealizadores da estratégia de visualização do “custo real”. 5
O comércio justo é “uma parceria baseada no diálogo, transparência e respeito, que procura maior eqüidade no
comércio internacional [...]. Organizações de Comércio Ético e Solidário (sustentadas pelos consumidores) estão
A busca pela transparência dos produtos visa estimular uma participação ativa do ativamente engajadas em apoiar produtores, a conscientização e em campanhas para mudanças nas regras e práticas
consumidor que, por meio das suas escolhas, pode apoiar o desenvolvimento de cadei- do comércio internacional convencional.” (International Fair Trade Association – IFAT, 2008. Disponível em: www.ifat.org).
6
Várias publicações sobre produtos da economia solidária foram organizadas por Lorigliola (2004), visando a
as de valor sustentáveis. Uma iniciativa que reforça esta consideração é a comercialização conscientização dos cidadãos sobre o papel do consumidor na promoção de cadeias de valor sustentáveis.

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A comunicação da sustentabilidade de produtos e serviços Lia Krucken, Christoph Trusen

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Virginia Pereira Cavalcanti, Ana Maria de Andrade, Germannya D’Garcia Araújo Silva

Design, sustentabilidade e artesanato: A relação entre design e sustentabilidade: um cenário possível

reflexões e práticas metodológicas A grande problemática ambiental vivenciada pela sociedade nas últimas déca-
das tem transformado os paradigmas de várias áreas do conhecimento e entre elas,
o Design. As questões relacionadas com a produção e o consumo têm impulsionado
Virginia Pereira Cavalcanti a revisão de metodologias e da prática profissional, como também dos fundamentos
e das teorias que norteiam os processos de ensino e aprendizagem do design.
Doutora em Estruturas Ambientais e Urbanas pela Faculdade de Arquitetura e
Há uma urgência na reflexão sobre os problemas ambientais e suas interfaces
Urbanismo da Universidade de São Paulo (USP); graduada em Desenho Industrial
pela Universidade Federal de Pernambuco (UFPE). Líder do Grupo de Pesquisa com o Design e de como designers, pesquisadores e profissionais podem colabo-
Design, Tecnologia e Cultura e da linha de pesquisa (homônima) no mestrado rar para a minimização dos mesmos. Nesse sentido, o desenvolvimento de pesqui-
em Design da UFPE; coordenadora do laboratório O Imaginário da UFPE; membro sas científicas e tecnológicas vinculadas à aspectos sociais, econômicos e ambientais
do Centro de Estudos Teoria, Cultura e Pesquisa em Design junto à
é imprescindível para a promoção do desenvolvimento saudável em regiões de-
Escola de Design da Universidade do Estado de Minas Gerais (ED-UEMG)
e pesquisadora e bolsista de produtividade do CNPq. senvolvidas e em desenvolvimento, indispensável para mudanças de comporta-
mento que priorizem a preservação do homem e da natureza.
cavalcanti_virginia@pq.cnpq.br O conceito de sustentabilidade evoca, num sentido mais amplo, a ideia de algo
que se mantém duradouro, sendo um conceito relacional e, portanto, como ideia
Ana Maria de Andrade isolada não tem sentido. Esse direcionamento para uma sociedade sustentável se
propõe conciliador de necessidades econômicas, sociais e ambientais. Como impulsor
Mestre em Educação pela Temple University (EUA); graduada em Arquitetura da inovação, de novas tecnologias e da abertura de novos mercados, o desenvolvi-
pela Universidade Federal de Pernambuco (UFPE). Professora do Departamento mento sustentável contribui para o ambiente de competitividade global.
de Design da UFPE; membro do Grupo de Pesquisa Design, Tecnologia e Cultura;
Nesse cenário, segundo Manzini (2005), os atores sociais que atuam racional-
coordenadora do laboratório O Imaginário da UFEP.
mente em termos econômicos deverão agir positivamente também em termos
ecológicos, ou seja, como mediadores de ações capazes de promover uma socie-
Germannya D’Garcia Araújo Silva dade sustentável. Esse mesmo pesquisador propõe duas macrodimensões neces-
sárias para o cenário de uma sociedade sustentável: a econômica e produtiva e a
Doutoranda em Engenharia Mecânica; mestre em Engenharia de Produção,
especialista em Ergonomia; graduada em Desenho Industrial, todos pela social e cultural.
Universidade Federal de Pernambuco (UFPE). Pesquisadora do Grupo de Pesquisa A classificação ganha outra roupagem pelo Instituto para o Desenvolvimento
Design, Tecnologia e Cultura; professora do Núcleo de Design da UFPE – Campus do Investimento Social (IDIS)1 que trata das dimensões econômica, social e
Avançado do Agreste; coordenadora de produção do laboratório ambiental da sustentabilidade. Embora as duas acepções sejam próximas, Manzini,
O Imaginário da UFPE.
sob o ponto de vista do Design, considera que o tema ambiental permeia as ques-
germannya@yahoo.com.br 1
O Glossário IDIS – Instituto para o Desenvolvimento do Investimento Social classifica as dimensões em econômica,
social e ambiental, sendo que ao introduzir o conceito de “desenvolvimento sustentável” são incorporadas mais duas
dimensões: a política e a cultural.

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tões econômicas e produtivas, sociais e culturais. Já o IDIS, segmenta a questão a partir de diferentes pontos de vista e por isso mais abrangente. Compatibilizar inte-
ambiental numa dimensão própria. resses de setores econômicos, de grupos políticos e religiosos, e de estados e nações é
Quando a proposta é um cenário sustentável, um dos grandes questionamentos o desafio que a humanidade tem encarado, nem sempre com sucesso.
que envolve a dimensão econômica e produtiva é como praticar o crescimento Pela ameaça da própria continuidade da espécie, a médio e longo prazo, e
econômico, hoje conduzido com base no aumento da produção, insumos e lixos pelo sofrimento imputado à comunidades e países, o argumento da sustentabilidade
dele resultantes, sem desconsiderar a urgente necessidade de redução dos recur- ambiental pode mobilizar esforços na construção de um novo acordo de convivên-
sos ambientais? cia e uso dos recursos naturais. Reduzir impactos ambientais significa contribuir
Em muitos casos, a situação fica evidenciada com a utilização, frequentemen- para mudar estilos de vida de usuários e consumidores. O designer pode contribuir
te indiscriminada, das reservas nativas de matéria-prima, muitas vezes não para essa mudança de comportamento de consumidores e usuários, oferecendo
renováveis, sem um planejamento adequado para sua extração. Esse quadro é soluções ambientalmente sustentáveis
agravado quando o desperdício e a manipulação inadequada durante processos Essa contribuição pode ser ainda mais efetiva quando existe uma estratégia
produtivos provocam perdas de produtos e insumos. de abordagem metodológica voltada para os conceitos de ecoeficiência e durabi-
Quando a proposta é um ambiente de sustentatibilidade, o entendimento deve lidade. Por meio de uma avaliação do ciclo de vida de um produto (desde a obten-
ser que a dimensão econômica está pautada na ideia de durabilidade no tempo. ção da matéria-prima até o descarte) é possível equacionar as implicações
Nesse sentido, o empreendimento deve ter características que assegurem sua per- ambientais e os fatores econômicos com soluções criativas.
manência nas suas relações com o mercado. As orientações para a viabilidade eco- A discussão de abordagens metodológicas vem ao encontro das necessidades
nômica de uma sociedade sustentável fundamentam-se nas condições necessárias como um ambiente para troca e produção de conhecimento teórico e aplicado
para sua sobrevivência e assim, a relação entre custo e benefício das práticas produ- com foco na solução de problemas relacionados ao tema do design e da
tivas e de consumo devem se equilibrar para alcançar padrões sustentáveis. sustentabilidade na contemporaneidade. A complexidade dessas relações aumen-
Quanto à dimensão social e cultural, a sustentabilidade está diretamente rela- ta quando se inclui questões de preservação do patrimônio imaterial e da inclusão
cionada à melhoria da qualidade de vida, à redução das desigualdades e injusti- social, relativas à produção artesanal.
ças sociais e à inclusão social por meio de políticas de justiça redistributivas. Como
pano de fundo, a questão ambiental deve ser considerada no sentido de permitir Artesanato: contexto e conflitos
que o ecossistema tenha capacidade de absorver ou se recuperar das agressões
derivadas das atividades humanas. E assim, alcançar um novo equilíbrio entre as Os artefatos revelam hábitos, valores, conhecimentos, conceitos e necessi-
taxas de emissão ou produção de resíduos e as taxas de absorção ou regeneração dades que analisadas em conjunto permitem compreender o processo da evolu-
da base natural de recursos. ção da humanidade. Como testemunhas silenciosas de uma civilização, os arte-
Nesse sentido, as questões de sustentabilidade têm sido discutidas nos diver- fatos representam sua cultura, não apenas a material, mas também aspectos da
sos ambientes produtivos, na esfera governamental e pela sociedade civil organi- cultural imaterial como os modos de fazer, as formas de organização e gestão
zada na busca de soluções que tragam benefícios econômicos, sociais, políticos e do que se produz.
ambientais. Não é de se estranhar que a forma de produção de artefatos tenha marcado,
Esse desafio implica numa forma de olhar o mundo sob outra perspectiva, construída por tanto tempo, a distinção entre design e artesanato. Atualmente, as discus-

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sões ganham outras perspectivas e se comprometem com questões de oportunidades de sobrevivência nas grandes cidades. As famílias dos artesãos e
sustentabilidade. Nesse sentido, as diferentes formas de produção artesanal, artistas populares tradicionais, desestimuladas pelo pequeno retorno financei-
umas voltadas para peças autorais únicas, outras resultado da produção de pe- ro, já não mais repassam seus saberes e fazeres para as novas gerações. Assim,
ças utilitárias produzidas coletivamente; ilustram as diversas possibilidades de esses conhecimentos se transformam em um patrimônio cultural ameaçado de
interface entre o artesanato e o design. extinção no Brasil, especialmente no Nordeste. Na contramão dessa realidade,
Em se tratando de sustentabilidade, principalmente em países em desenvol- no mercado internacional, a atividade artesanal tem sido supervalorizada, favo-
vimento como o Brasil, o artesanato ganha importância pela possibilidade de recendo o crescimento de empreendimentos no setor.
gerar renda e incluir socialmente comunidades localizadas em meios urbanos e Em Pernambuco, o problema associa a urgência de promover o desenvolvi-
rurais. Enquanto atividade sustentável, o artesanato necessita de conhecimen- mento tecnológico e organizacional da cadeia produtiva do artesanato com a ne-
tos específicos cuja abrangência atende aspectos sociais, ambientais e econô- cessidade de construir um modelo de desenvolvimento sustentável para as regi-
micos. É justamente no encontro desses conhecimentos que se dá a grande ões do Sertão, Agreste, Zona da Mata e litoral do estado, sem comprometer a
interface com o design, pois sem perder o foco no artefato, equilibra o diálogo sobrevivência de valores tradicionais e da cultura local. É nesse contexto, que a
entre as questões sociais, culturais e econômicas. valorização da cultura e da tradição podem ser usadas como argumento para o
A interlocução do design com o artesanato é, sem dúvida, facilitada pelo uso design atender as expectativas das comunidades que vivem da atividade artesanal.
de metodologias de design. A forma de abordagem do problema e a lógica de Não é por acaso, portanto, a crescente valorização da participação do design
procedimentos permitem que as questões relativas ao uso, forma e significado na formulação de políticas de desenvolvimento e, principalmente, aquelas vol-
sejam tratadas também no âmbito do artesanato. Isso, considerando que a per- tadas para a inclusão social e sustentabilidade. Discussões que transitam pela
manência da situação de marginalização cultural do artesanato brasileiro, alia- forma de abordagem metodológica aplicada ao universo artesanal e aos atores
da a modelos obsoletos de organização produtiva, tem contribuído para manter envolvidos.
escravizados a miséria um grande número de artesãos e artistas populares de
enorme talento e potencial criativo. Design: instrumento para uma ação sustentável
Tal cenário é especialmente difícil no Nordeste do país, onde a evolução da
indústria de bens de consumo tem ocorrido de forma mais lenta do que em Reconhecendo os benefícios da relação universidade - sociedade, O Imagi-
outras regiões do Brasil. Isso contribui para a existência de um grande percentual nário, laboratório da Universidade Federal de Pernambuco, tem buscado ofere-
de população para a qual as únicas opções de geração de trabalho e renda cer soluções de design baseadas em pesquisa e comprometidas com o desen-
permanecem atreladas ao exercício de atividades manuais ou artesanais. Assim, volvimento sustentável. Formado por professores, técnicos e estudantes de di-
gerações inteiras sucedem-se repetindo práticas produtivas de grande riqueza versas áreas do conhecimento, especialmente designers, o laboratório atua nos
cultural, mas com baixíssimo nível de inserção no mercado consumidor e, ambientes industrial e artesanal.
consequentemente, pouco sustentáveis. No que diz respeito à produção artesanal, a aplicação do conhecimento pro-
Nesse contexto, muitos são obrigados à abandonarem suas atividades em duzido tem contribuído para o fortalecimento dos grupos produtivos. Nesse sen-
busca de alternativas de renda em regiões mais desenvolvidas, somando-se a tido, as atividades desenvolvidas junto com comunidades artesãs promovem a
uma população de migrantes rurais que tampouco consegue construir outras geração de emprego e renda, a consolidação e o surgimento de lideranças e,

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principalmente, a valorização da cultura local. A abordagem multidisciplinar é ambientais e culturais sem, entretanto, deixar de observar questões econômicas
orientada para a melhoria da qualidade de produtos e de processos de produ- e de mercado.
ção, considerando o respeito às questões humanas, ambientais e culturais. Para compreender as diferentes realidades e, ao mesmo tempo, propiciar
Sua atuação abrange os estados das regiões Sul, Centro-Oeste e Nordeste, a uma ação conjunta e eficaz, foram definidos cinco eixos norteadores.
exemplo dos estados de Pernambuco, Rio Grande do Sul e Mato Grosso. Desde
2001, mais de 500 artesãos, distribuídos em 15 comunidades, desde a Zona da
Mata até o Sertão, foram atendidos. O Imaginário acredita que ao garantir o
acesso de artesãos ao mercado consumidor por meio de ações articuladas e
sustentáveis, estará promovendo a valorização da cultura e das formas
organizativas das comunidades artesanais. E assim, assegurando a moderniza-
ção de sua produção e fortalecendo as estruturas locais voltadas para o desen-
volvimento sustentável.

Abordagem metodológica: design x artesanato x


sustentabilidade

A abordagem metodológica de atuação de O Imaginário no ambiente


artesanal tem demonstrado eficácia na geração de estratégias capazes de pro- FIGURA 1: Representação gráfica da abordagem metodológica do laboratório O
mover a inclusão social de comunidades em situações de vulnerabilidade. Prioriza Imaginário
ações estratégicas destinadas a valorizar a identidade cultural das comunida-
des, otimiza a produção artesanal através de assistência tecnológica, amplia a A gestão que promove a articulação, a formação e o fortalecimento de grupos,
divulgação e comercialização do artesanato produzido, contribui com a inclusão incentivando a construção de acordos coletivos e a busca pela autonomia.
social dos artesãos e promove o desenvolvimento sustentável. O design desenvolvido a partir da valorização do saber popular, do reconheci-
O Imaginário propõe um formato de intervenção direcionado para uma ges- mento das tradições, habilidades e do uso dos materiais, sempre com a participa-
tão autônoma, promovendo a autoestima dos participantes, e, ao mesmo tem- ção do artesão, refletindo seus valores culturais e sociais e, ao mesmo tempo,
po, investindo no crescimento da corresponsabilidade para a realização de pro- compatível com as demandas do mercado, promovendo a sustentabilidade econô-
jetos coletivos. A metodologia multidisciplinar complementa o direcionamento mica da atividade.
e atende, de forma sustentável, comunidades tradicionais e não tradicionais, A comunicação que gera informações capazes de sensibilizar e mobilizar a opi-
produtoras de artesanato. nião pública para o valor do artesanato e os direitos de seus criadores, instituindo
Com base numa atuação multidisciplinar, as ações são orientadas para a um selo de origem e qualidade que reafirma a história, a cultura e o sentimento de
melhoria da qualidade de vida da comunidade artesã com enfoques nos produ- pertencimento.
tos e processos de produção, considerando o respeito às questões humanas, O mercado que direciona a produção das comunidades parceiras para seg-

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mentos específicos capazes de reconhecer o valor agregado ao produto, garantin- açúcar, período cuja produção de tijolos e telhas se voltava apenas para o consu-
do uma remuneração justa e a continuidade do fazer artesanal. mo da própria usina e para a moradia de seus trabalhadores. Com o passar dos
A produção buscando a otimização dos processos produtivos, a melhoria das anos, as olarias, locais de produção de cerâmica, se tornaram independentes para
condições de trabalho e o uso sustentável dos recursos naturais, com base nos produzir e vender artefatos utilitários como potes, panelas e moringas para a po-
modos de produção e no respeito ao ritmo de vida das comunidades. pulação do entorno. Tal tradição, transferida de pai para filho, continua viva gra-
A atuação possui uma abordagem participativa, a partir do entendimento que ças às recentes intervenções que, estimulando a inovação, mantém aquela produ-
as artesãs e artesãos são sujeitos de suas práticas; coletiva, por meio do incentivo à ção atual e competitiva.
construção de acordos coletivos e o reconhecimento de lideranças; individualizada, Diante desse quadro, coube o desafio de, junto aos artesãos e outros parcei-
através do reconhecimento de habilidades e competências dos envolvidos; crítica, ros, definir uma estratégia de abordagem que fortalecesse a produção artesanal
na medida em que leva artesãs e artesãos a fazerem uma leitura de seu próprio da cerâmica utilitária no Cabo de Santo Agostinho.
fazer artístico e contextualizante, já que a intervenção está calcada nas necessida- No primeiro momento duas questões chamaram a atenção. A primeira e ime-
des, nos desejos e no respeito aos valores identitários de cada comunidade artesã. diata foi o processo de queimar a lenha e a segunda, o beneficiamento da argila.
No acesso ao mercado, as comunidades produtoras de artesanato têm como Os dois fatores impediam que a produção de cerâmica utilitária de mesa atendes-
base a preservação dos valores identitários e dos princípios que norteiam o comér- se aos requisitos do mercado nacional e internacional. A tentativa de solução do
cio justo. Nesse sentido, cabe a difusão entre os consumidores da importância de problema foi investir na melhoria dos processos de beneficiamento, queima e
adquirir produtos comercializados de maneira responsável, possibilitando a remu- esmaltação. O diagnóstico do processo de produção da cerâmica identificou que:
neração justa e condições de trabalho favoráveis, incluindo o uso sustentável dos � na comunidade do Cabo, a extração da argila para o artesanato cerâmico ocorre

recursos naturais. sob a autorização do Complexo Portuário de Suape e a fiscalização da Agência


Nesse cenário, segundo Manzini (2005), os atores sociais que atuam racional- Estadual de Meio Ambiente e Recursos Hídricos de Pernambuco (CPRH). Entretan-
mente em termos econômicos deverão atuar positivamente também em termos to, é necessário o acompanhamento sistemático para garantir o uso correto da
ecológicos2. Esse novo paradigma econômico pode ser visto na experiência junto reserva, evitando o desperdício e a manipulação inadequada da jazida;
ao grupo de ceramistas do Cabo de Santo Agostinho. � a etapa de extração tem início na retirada da argila e o consumo médio mensal

é de 72 toneladas/mês de argila in natura, sem mistura, para uma produção de


Teoria e prática da abordagem metodológica: processo e resultados 10.300 peças distribuída entre seis olarias;
� a etapa de beneficiamento influi negativamente na qualidade dos produtos

O município de Cabo de Santo Agostinho, localizado no litoral sul de cerâmicos produzidos pelo grupo, uma vez que não há o tratamento adequado
Pernambuco, a 41 km do Recife, possui um cenário que reúne o maior pólo indus- para estabilização do material orgânico e homogeneidade dos grãos;
trial e portuário do estado, belas praias e manifestações culturais seculares, entre � o processo de modelagem em torno, tradição produtiva da comunidade, pode ser

elas, o artesanato. melhorado;


A cerâmica artesanal produzida no Cabo remonta à época dos engenhos de � a queima das peças é realizada nos fornos de arquitetura tipo torre, alimentados

a lenha, sem a devida proteção contra intempéries e, consequentemente, a falta


2
Manzini (2005) destaca a importância dos atores sociais como mediadores de ações capazes de promover uma
sociedade sustentável.
de controle de queima não favorece a qualidade dos produtos.

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A partir da situação encontrada, foi reorganizado o processo produtivo cerâmico,


através da implementação de novos equipamentos na etapa de beneficiamento e
da alteração da tecnologia de combustão por um forno a gás para aumentar e
controlar a temperatura durante a queima. A inserção dos novos equipamentos na
etapa de beneficiamento implicou na adequação do espaço de produção. Para a
etapa de modelagem foi desenvolvido um novo torno cerâmico elétrico, conside-
rando questões ergonômicas e a avaliação de uso dos artesãos.
FIGURA 3 - Centro de Artesanato Arquiteto Wilson Campos Júnior

A abordagem multidisciplinar e a dinâmica do processo de interação entre a


comunidade e o seu entorno instigou novos desafios. Com esse olhar, novas parce-
rias foram estabelecidas, envolvendo indústrias locais que junto com a comunida-
de artesã passaram a compartilhar as soluções para o destino de resíduos. A In-
dústria Cerâmica Porto Rico, sediada no Cabo, disponibilizou o resíduo da sua
produção. Experimentos realizados com mistura da argila original geraram uma
massa com características de plasticidade compatíveis com as necessidades dos
artesãos. Essa iniciativa diminuiu a retirada da argila natural e reduziu os custos
de produção para os ceramistas.
O uso de novas tecnologias associado à disponibilidade dos novos espaços
FIGURA 2 - Forno a gás instalado no Centro de Artesanato do Cabo para produção e venda de produtos abriram perspectivas que incluíram outros
atores da comunidade. Jovens foram incorporados ao grupo para complementar
A instalação do forno foi feita através de parceira entre a prefeitura do habilidades não encontradas entre os artesãos como, por exemplo, o uso de recur-
Cabo de Santo Agostinho, o Ministério da Ciência e Tecnologia (MCT) e o Ban- sos de informática tanto para divulgar os produtos, como para gerenciar venda e
co do Nordeste do Brasil. Para a instalação foi construído o Centro de Artesa- estoque de produtos.
nato Arquiteto Wilson Campos Júnior, onde estão contempladas as etapas de O novo forno, associado ao uso de esmaltes naturais com matérias-primas
modelagem, secagem, queima, esmaltação e estoque de produto acabado. O locais, amplia as oportunidades para a produção cerâmica do Cabo. Dessa forma,
forno contribui para a redução do impacto ambiental causado pela extração e a linha de cerâmica artesanal utilitária de mesa poderá atingir os padrões técni-
queima de madeiras, ao mesmo tempo em que garante o aumento e controle cos exigidos pelo mercado nacional e internacional. Para viabilizar essa alternati-
da temperatura de combustão e, conseqüentemente, a homogeneização da va foi necessária uma parceria com o SENAI. A participação de estudantes do
queima das peças. Em paralelo, novos produtos foram desenvolvidos, diminu- curso técnico de cerâmica tem facilitado a operação e manutenção do forno, a
indo o uso de recursos naturais e ampliando o portifólio ofertado para dife- composição de nova massa cerâmica com adição de matéria-prima refratária e
rentes segmentos de mercado. ampliado o desenvolvimento de novos esmaltes.

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Design, sustentabilidade e artesanato: reflexões e práticas metodológicas Virginia Pereira Cavalcanti, Ana Maria de Andrade, Germannya D’Garcia Araújo Silva

O suporte das instituições permite o desenvolvimento de pesquisa, uma vez que Enquanto designers, acredita-se que a mediação entre a teoria e a prática com
estão garantidos o acompanhamento dos estudantes pelos professores e o uso de base numa metodologia multidisciplinar pode favorecer soluções criativas, dura-
laboratórios. Ao mesmo tempo, a convivência diária dos estudantes com a comuni- douras e de impacto positivo para gerações presente e futura.
dade permite a troca de conhecimento entre artesãos e técnicos em formação. As experiências do laboratório O Imaginário junto com a comunidade de ceramista
A gestão da produção e comercialização foi outro desafio encarado pelo grupo do Cabo de Santo Agostinho é um exemplo que conjuga o saber acadêmico e o
de artesãos. A gestão do Centro de Artesanato Arquiteto Wilson de Queiroz Campos popular, estabelecendo o diálogo entre a inovação e a tradição.
Júnior exigiu a construção de acordos, a ampliação de parcerias e a incorporação de Nesse sentido, o reflexo das experiências tem contribuído para a formação dos
novas habilidades. Com inspiração em espaços de discussão, observando os perfis e estudantes da Universidade Federal de Pernambuco em geral e, particularmente,
competências, foi construído um modelo de gestão, em funcionamento, que integra dos estudantes de Design, à medida que permite aos futuros designers conhecer
parceiros institucionais, artesãos e representantes da comunidade. realidades e utilizar ferramentas que abrem novas possibilidades de atuação pro-
fissional no estado.
Assim, o designer como mediador de questões materiais e imateriais desem-
penha um papel significativo, facilitando diálogos entre artesãos e técnicos, pro-
dução e mercado e articulando redes de parceiros indispensáveis na construção
de modelos sustentáveis.
A experiência também revela a importância do investimento em pesquisa e
desenvolvimento. Sem isso ficam comprometidos o desenvolvimento sustentável,
a inclusão social e a geração de renda. A expectativa do laboratório O Imaginário
é transmitir a experiência vivenciada no Cabo de Santo Agostinho para futuros
designers e artesãos que atuam no estado.

FIGURA 4 - Grupo de artesãos do Cabo de Santo Agostinho

Conclusão

Os avanços tecnológicos oferecem novas dimensões à relação espaço-tempo e


deixam mais explícitos os conflitos e contradições da sociedade contemporânea.
Cenários complexos e mutantes exigem, cada vez mais, que o cidadão desenvolva
sua capacidade de buscar informações, fazer perguntas e saber lidar com as dife-
renças. Enquanto sociedade, o futuro da humanidade está vinculado à prática de
ações sustentáveis. Essa talvez seja a única certeza.

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Wilson Kindlein Júnior, Luis Henrique Alves Cândido

Design de produto e seleção de materiais Clipes, telefones ou automóveis são exemplos de produtos que podem ser com-
postos de um a centenas de materiais. Estima-se, segundo Waterman (1991), que
com foco nos 3R’
3R’ss temos de lidar com aproximadamente sessenta mil materiais disponíveis no merca-
do. Assim, a extração, refinamento, transporte, reciclagem ou deposição final desses
Wilson Kindlein Júnior materiais são exemplos da complexidade do impacto ambiental gerado pelo grande
número de materiais atualmente existentes (KINDLEIN JÚNIOR et al., 2002c).
Pós-doutor em Design Industrial (França); doutor na área de Engenharia dos Durante o último século, os problemas ambientais eram muitas vezes vistos
Materiais. Bolsista de Produtividade nível 1D do CNPq; coordenador do Comitê
como problemas locais, devido ao impacto de um determinado produto. No entan-
de Assessoramento de Desenho Industrial da Coordenação do Programa de
Pesquisa em Engenharias (CA-DI/COENG); coordenador da Pós-Graduação Strictu to, hoje em dia, com a globalização, torna-se mais evidente que os problemas são
Sensu em Design da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS); muito mais complexos e relacionados a todas as fases do ciclo de vida de um
coordenador do Laboratório de Design e Seleção de Materiais (LdSM-UFRGS). produto (LENNART; KEVIN, 2003). Esta situação faz com que as empresas, muitas
vezes pressionadas por órgãos públicos, legislações e até pelo consumidor, repen-
kindlein@portoweb.com.br
sem seus processos industriais e suas metodologias para a projetação e fabrica-
ção de produtos mais sustentáveis (AMARAL; HEIDRICH; KINDLEIN JÚNIOR, 2002).
Luis Henrique Alves Cândido Embora ações venham sendo tomadas, pode-se dizer que existem pelo menos
quatro problemas básicos, complexos de resolver nos dias atuais. Cita-se, por exem-
Graduado em Desenho Industrial-Projeto de Produto; mestre em Engenharia de
Materiais pelo Programa de Pós-Graduação em Engenharia de Minas, Metalúrgica plo, o excesso de consumo, a utilização descontrolada dos recursos naturais, a
e de Materiais da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (PPGEM-UFRGS); poluição e o excesso populacional (CNI, 1998).
doutorando em Engenharia de Materiais pela PPGEM-UFRGS. Bolsista de apoio Não existe nenhuma forma simples de desenvolver produtos sustentáveis sem
técnico a pesquisa nível 1A do CNPq; pesquisador no Laboratório de Desing e que haja, no mínimo, um baixo nível de impacto (CAEIRO, 2003). No momento em
Seleção de Materiais (LdSM-UFRGS); professor no Curso de Design-Projeto de
Produto do Centro Universitário Feevale-RS. que se inicia qualquer processo, o impacto ambiental começa a ocorrer, resguar-
dadas as proporções de cada um.
pslhc@ibest.com.br Segundo Amaral (2005), no ciclo global dos materiais, apresentado na FIG. 1, a
cadeia inicia na terra (A), de onde se realiza a prospecção, mineração ou colheita
Introdução dos elementos que irão compor a matéria-prima bruta (B), carvão, minérios, ma-
deira, petróleo, rochas e plantas. A partir daí, através de um processo de extração,
A crescente preocupação com o ambiente vem a cada dia ganhando mais refino ou processamento, obtém-se a matéria-prima básica (C), metais, papel, ci-
ênfase em todos os setores da sociedade (KINDLEIN JÚNIOR; NGASSA; DESHAYES, mento, fibras, produtos químicos. Esses fornecerão as condições necessárias, atra-
2006). Isto porque inúmeros países têm adotado legislações severas aos efeitos vés de processos de transformação, para a obtenção da matéria-prima industrial
nocivos causados por materiais inadequados, que após serem utilizados na fabri- (D), pallets, chapas, barras, tarugos, rolos etc. O último servirá para fabricação ou
cação de diversos produtos são descartados e lançados diariamente no ambiente montagem de produtos industriais, caracterizando os bens de consumo (E), tais
(BITENCOURT, 2001). como máquinas, acessórios, utensílios, embalagens, ou seja, produtos diversos.

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Design de produto e seleção de materiais com foco nos 3R’s Wilson Kindlein Júnior, Luis Henrique Alves Cândido

diversidade de resíduos que são produzidos diariamente pelas empresas e resi-


dências. É preciso pôr em prática a desejável política dos “3R´s” (reduzir, reutilizar
e reciclar) e não continuar produzindo e gerando mais resíduos, deixando sem
solução adequada seu tratamento e disposição. Nesse sentido, segundo Kindlein
et al. (2002b), o primeiro “R de reduzir” consiste em processar determinados pro-
dutos (sistemas e subsistemas) novamente, não obrigatoriamente como da forma
original. Esse mesmo foco pode ser dado para redução do número de componen-
tes de um produto na fase de projeto. O segundo “R de reutilizar” significa utilizar
novamente os sistemas e subsistemas dos objetos em sua forma original, incluin-
do também a reutilização dos materiais descartados para fabricação de outros
produtos. O terceiro e último “R de reciclar” consiste em aproveitar os materiais
dos produtos descartados que podem voltar para as indústrias como matéria-
prima para a fabricação de novos produtos. A facilidade de desmontagem dos
componentes tem um papel primordial nesse processo, pois tende a favorecer
essa operação. A FIG. 2 sintetiza o ciclo da utilização dos 3R`s.
FIGURA 1 - Ciclo global dos materiais
Fonte: AMARAL, 2005.

Ainda segundo Amaral (2005), esses bens possuem determinados ciclos de


vida útil e, no futuro, transformam-se em sucatas ou resíduos através do seu uso
ou serviço (F). Nesse estágio, o material proveniente da sucata retorna para o
meio ambiente, podendo afetar a continuidade da mineração da matéria-prima
bruta através de contaminações. No entanto, se ele passa a ser reutilizado, recu-
perado ou reciclado, diminui esforços para novas produções industriais.
Observa-se na FIG. 1 que as áreas relacionadas, que buscam interação com o
Design, são a Ciência e Engenharia do Meio Ambiente (AMARAL, 2005) e a Ciên-
cia e Engenharia dos Materiais (CALLISTER, 2004). Isso evidencia a importância
FIGURA 2 - 3R‘s
da relação entre design, materiais e ambiente no desenvolvimento do produto
Fonte: KINDLEIN JÚNIOR et al., 2002, adaptação nossa.
ambientalmente correto, com foco na recuperação, reutilização e reciclagem dos
materiais, ou seja, é uma forma de aplicação dos 3R’s (ANNES, 2003). Outro conceito de projeto, fundamental no processo de desenvolvimento, é o
Segundo Marques (2008) é fundamental que governo e sociedade assumam DfX, que tem como referência principal o Design for Enviroment (DfE). O primeiro
novas atitudes, visando gerenciar de modo mais adequado a grande quantidade e conceito do DfX é o Design for Assembly (DfA) que considera, durante a fase de

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Design de produto e seleção de materiais com foco nos 3R’s Wilson Kindlein Júnior, Luis Henrique Alves Cândido

desenvolvimento do produto, sistemas que facilitem a montagem do produto, ou facilidade de desmontagem é fundamental para o processo de reutilização e
seja, facilitem a manufatura. O segundo conceito é o do Design for Manufacture reciclagem dos componentes e de seus respectivos materiais. Porém, o produto con-
(DfM) que contempla a seleção de materiais, seleção de processos, projeto modu- templa um componente, mostrado na FIG. 3(B), denominado de lâmina de depila-
lado de componentes, padronização de componentes, desenvolvimento de partes ção, que é de vital importância para a utilização de todo o sistema e que, se não for
multiuso e montagem direcionada para a minimização através de módulos. trocado ao final de sua vida útil, comprometerá irreversivelmente sua utilização.
O terceiro conceito descreve o Design for Service (DfS) que tem como preocu- Na impossibilidade da manutenção da lâmina, o produto será totalmente des-
pação os serviços de manutenção executados durante a vida útil do produto. O cartado, mesmo que todas as outras partes estejam em perfeitas condições. Nesse
último conceito contempla o Design for Disassembly (DfD) que tem como foco a sentido, é de primordial importância que exista a possibilidade de compra e subs-
facilidade de desmontagem e visa a redução do trabalho necessário para a retira- tituição dos componentes, mesmo que o modelo venha a ser substituído. Assim,
da de partes do produto, a redução do tempo de manutenção, a separação dos pretende-se aumentar seu ciclo de vida útil, reduzindo o descarte final e conse-
materiais compatíveis e incompatíveis e gera um maior interesse na reciclagem qüentemente, refletindo na redução do impacto ambiental.
final do produto em centros de triagem.
Com a aplicação do conceito dos 3R’s e do DfX na pratica projetual sistemáti- Seleção de materiais para o produto
ca, busca-se a redução do impacto ambiental do produto em todas as esferas do
ciclo global de produção e de uso. A FIG. 3 apresenta um produto que foi concebi- Os materiais sempre estiveram presentes na evolução do homem. Mesmo sem
do segundo o DfX e que envolve também a pratica dos 3R’s. entender esta interdependência, os materiais eram e ainda são utilizados para a
sobrevivência humana. Mas, ao longo do tempo, esta prática foi sendo incorpora-
da em todas as culturas, tornando-se substância de realização em todas as esferas
das civilizações. Basta lembrar que as diversas eras pelas quais o homem passou
são caracterizadas pelo grau de desenvolvimento e utilização dos materiais: idade
da pedra, idade do bronze, idade do ferro etc (CALLISTER, 2004).
Uma das incumbências do designer é transformar os materiais e tecnologias
existentes em objetos de uso, ou seja, a materialização do contato do homem com
o meio, através da forma tridimensional física do objeto (KINDLEIN JÚNIOR et al.,
2002a). Por mais avançada que seja a concepção de um projeto, ele fracassará se
não resultar em objeto funcional. Portanto, o conhecimento dos processos de fa-
bricação e dos materiais é indispensável para que o designer consiga materializar
um projeto conceitual ou ideológico (ASHBY; JOHNSON, 2003).
FIGURA 3 - Produto concebido através do conceito do DfX A FIG. 4 mostra um panorama evolutivo e a importância relativa de alguns
materiais ao longo dos tempos (AMARAL, 2005). Na figura é possível verificar que
O produto apresentado na FIG. 3(A) pode ser totalmente desmontado com a houve uma inflexão na curva (década de 1960), a partir da utilização em larga
utilização de ferramentas muito simples como, por exemplo, uma chave de fenda. A escala dos polímeros.

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A multiplicidade de possibilidades de escolha dos materiais e processos


que afetam de forma diferenciada distintos grupos sociais e de interesse,
bem como o ambiente e a qualidade de vida, caracterizam a dimensão das
inovações que hoje são possíveis na área do design. Dentre essas inúme-
ras possibilidades, a utilização de um determinado material ocorre desde
que suas propriedades físicas, mecânicas, químicas, o custo e sua disponi-
bilidade no mercado possam atender as especificações de projeto (ASHBY
et al, 2004). Ao contrario disso, o desenvolvimento do produto pode ser
abortado devido às incertezas que podem ser geradas, principalmente quan-
to à usabilidade dele.
Na concepção atual de um produto é possível utilizar materiais e proces-
sos de fabricação que até bem pouco tempo não eram considerados (ASHBY;
JOHNSON, 2003). Um exemplo é o titânio que até recentemente era visto
FIGURA 4 - Panorama evolutivo e importância relativa de diferentes materiais como um material exclusivo, caro e para uso militar. Atualmente, ele tem
Fonte: AMARAL, 2005. sido utilizado para outros fins como próteses humanas, relógios, acessórios
para alpinismo etc.
O surgimento dos polímeros possibilitou a desvinculação da relação direta O mesmo acontece com a fibra de carbono que foi desenvolvida para apli-
material/produto existente até então (OKUDANA, 2006), ou seja, uma faca cações específicas como colete à prova de balas e pontas de ogivas nucleares.
não precisa ser fabricada somente em aço, mas pode ser construída com a Atualmente, ela é utilizada para outros fins que fazem uso de suas caracterís-
utilização de outro material como o polímero ou a cerâmica. ticas peculiares, a alta resistência mecânica aliada à leveza. Esse material
O processo inovador na área do design é potencializado quando existe o está sendo largamente aplicado em objetos de uso diário como bicicletas, ra-
interesse e a apropriação comercial de invenções ou a introdução de aperfei- quetes de tênis, chassis de veículos etc.
çoamentos nos bens e/ou serviços utilizados pela sociedade (CNI, 1998). Nes- As tendências, muitas vezes criadas pelo design inovador, impõem neces-
se sentido, a evolução dos materiais (FIG. 4) propiciou ao designer o aumento sidades que são atendidas porque existe uma condição para isto. Como exem-
do número de oportunidades e da quebra de paradigmas. plo, pode-se citar o projeto de um óculos, que precisa ser ao mesmo tempo
Podemos dizer que o surgimento dos polímeros para uso mercadológico pro- leve e resistente. Para isto, necessita de um material com essas características.
porcionou um caráter radical à inovação dos produtos, o que modificou comple- Assim, a fibra de carbono, tão disseminada atualmente, poderia ser utilizada
tamente as práticas técnico-científicas e sociais. Porém, suas derivações que como matéria-prima nesse caso.
originaram materiais compósitos podem ser caracterizadas como um aperfeiço- O titânio e a fibra de carbono estão entre os aproximadamente sessenta
amento dos produtos, processos e serviços existentes (LESKO, 1999). Cabe res- mil diferentes materiais que utilizam diversos processos e técnicas de trans-
saltar que o termo aperfeiçoamento, no contexto descrito, é utilizado com foco formação disponíveis hoje (WATERMAN; ASHBY, 1991). No cenário de quase
tecnológico e de desempenho, não levando em conta aspectos ambientais. infinita possibilidade de utilização de materiais, o Designer passa a ter a ne-

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cessidade de adquirir conhecimentos até então específicos das Engenharias,


tais como estrutura e propriedades dos materiais (UNIVERSIDADE FEDERAL
DO RIO GRANDE DO SUL, 2007).
Ocorre que, mesmo para a Engenharia, estes conhecimentos, baseados em
ciência e tecnologia, vêm sendo suplantados frequentemente, com tempos cada
vez mais curtos, entre a pesquisa e a disponibilidade do material para o merca-
do. Isto certamente é estimulado pela concorrência entre os desenvolvedores de
matérias-primas. No campo do design, os ciclos de criação e maturação das
ideias são também cada vez mais rápidos, não sendo raro um produto manter-
se no mercado por apenas 30 ou 40 semanas.
Assim, torna-se necessário agilizar e estreitar a relação entre os projetis-
tas (ASHBY et al., 2004), sejam designers ou engenheiros, e favorecer a
intercomunicação entre ambos (KINDLEIN JÚNIOR; WOLFF, 1999), pois, em mui-
tos casos, os produtos são mal sucedidos devido à falta de sinergia entre o
design e a seleção de materiais, ou ainda, devido à escolha incorreta do pro-
cesso produtivo. Assim, pode-se afirmar que a relação design e materiais é
vital em todas as etapas do desenvolvimento de um produto. A premissa vale
também para o desenvolvimento de produtos sustentáveis.
Na FIG. 5, Deng e Edwards (2007) descrevem as várias etapas do desenvol-
vimento de novos produtos em que a seleção de materiais permeia. Os auto-
res demonstram a importância da seleção de materiais e como ela pode resol-
ver problemas de projeto.
Na coluna da esquerda (FIG. 5), é demonstrada a relação entre materiais
e design na fase da concepção do produto. A primeira etapa constitui-se da FIGURA 5 - Relação entre materiais e design na fase projetual
identificação dos possíveis materiais que podem ser aplicados no projeto. Fonte: DENG; EDWARDS, 2007, adaptação nossa.
Na segunda etapa, ocorre a seleção dos materiais, onde são avaliadas as
possibilidades de uso, tendo como referência os materiais existentes no Observa-se na FIG. 5 que a fase da seleção de materiais deve ser vista pelo
mercado. Se os materiais existentes não satisfazem os requisitos do projeto, designer como de vital importância para o sucesso funcional do produto. Se a
então existe a possibilidade do desenvolvimento do material em uma tercei- escolha do material não for correta, o produto poderá sofrer danos de baixa até
ra etapa. Após a definição do material, o projeto pode prosseguir para ou- graves conseqüências, dependendo de sua utilização pelo usuário.
tras etapas de desenvolvimento. A seleção de um material é tradicionalmente feita por informações técnicas
como demandas de preço, resistência dos materiais, temperatura de utilização,

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estabilidade dimensional, densidade, dureza (BUDINSKI, K.; BUDINSKI, M. 1999). No Do ponto de vista de aplicações, voltadas ao desenvolvimento de produtos,
entanto, para o sucesso do produto, esses fatores técnicos já não são suficientes. essa abordagem não fornece a necessária visão geral em termos de seleção de
Segundo Ferrante (1996), pode-se dizer que a seleção de materiais, com foco materiais e o compromisso com o produto final. Nesse sentido, pode-se dizer que
em uma visão técnica, sem levar em conta outros fatores não técnicos, é, em mui- a Ciência dos Materiais é a ligação entre a Engenharia de Materiais e o desenvol-
tos casos, complexa e arriscada. Cita-se, como exemplo, as roupas feitas de fibras vimento de produtos. Ela pode fornecer ao designer e ao engenheiro informações
sintéticas, são mais fáceis de limpar e manter livre de rugas ou dobras. Porém, os técnicas e científicas a respeito das propriedades, estrutura e processamento dos
materiais naturais, como o algodão, são geralmente mais populares devido à sen- materiais.
sação agradável que transmitem ao serem tocados. Os produtos podem ser classi- Assim, o desenvolvimento de produtos, no que se refere aos materiais, deve
ficados como produtos com apelo emocional, ou seja, com Emotion Design ser embasado em pesquisas, visto que existe uma gama enorme de materiais dis-
(KINDLEIN JÚNIOR; COLLET; DISCHINGER, 2006). Um produto que foi desenvolvi- poníveis no mercado. Um modelo para representar a Ciências dos Materiais, com
do levando-se em conta o Emotion Design poderá transmitir ao usuário sensações foco na indústria, é apresentado na FIG. 6.
que farão com que o consumidor fique mais tempo com o produto sem descartá-
lo, reduzindo o impacto desse produto no ambiente e ampliando a faixa de uso ou
serviço, como descrito na FIG. 1.
Segundo Ferrante (2000), em sua atuação, o engenheiro de materiais trata de
atividades que podem ser definidas como a correlação de propriedades com o
desempenho final do produto, que se traduz em fabricação ou melhoria desse.
Consequentemente, o escopo desse tipo de atividade se estende desde a adapta-
ção de matérias-primas até a avaliação do desempenho final (ASHBY; JONES, 1998).
Conforme Padilha (2000), pode-se afirmar que a divisão dos materiais em di-
versos grupos e subgrupos tem origem industrial e que esta abordagem dos mate-
riais em tipos estanques foi então absorvida pelas universidades. Boa parte dos
FIGURA 6 - Inter-relações nas Ciências dos Materiais
cursos de Engenharia Metalúrgica, assim como das organizações e publicações
Fonte: PADILHA, 2000.
técnicas e científicas, ainda classifica os materiais metálicos em aços, ferros fundi-
dos e metais não ferrosos. As outras classes de materiais, não raras vezes, são A estrutura dos materiais é definida como o arranjo interno dos componentes
classificadas como não metálicos. da matéria e é classificada em estrutura atômica, estrutura cristalina, microestrutura
Por sua vez, os materiais cerâmicos são ainda, frequentemente, subdivididos e macroestrutura. Muitas propriedades dos materiais, tais como limite de escoa-
em cerâmica vermelha, cerâmica branca, vidros e cerâmicas especiais. A aborda- mento, limite de resistência, tenacidade à fratura, resistência ao desgaste e resis-
gem dos materiais por grupos e subgrupos tem naturalmente vantagens e desvan- tência à corrosão dependem da estrutura do material. As propriedades são classi-
tagens. A principal vantagem é o estudo dos problemas e características específi- ficadas como propriedades físicas, químicas e mecânicas, sendo consideradas em
cos de cada material. A principal desvantagem é que esta abordagem confere uma cada aplicação específica e sua exigência.
visão isolada de cada grupo. Os processos são aplicados quando os materiais precisam adquirir forma e di-

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mensões para serem utilizáveis na indústria e são definidos em função das proprie- Ao focar somente no contexto da seleção de materiais, Ferrante (2000) descre-
dades dos materiais iniciais e das propriedades necessárias para fazer frente às ve que esse processo pode ser comparado à forma de um funil (FIG. 8). Inicialmen-
condições de serviço da peça ou componente. Por fim, tem-se o desempenho que te, deve-se considerar um grande número de possíveis materiais de modo a não
demonstra como os materiais se comportam nas condições de serviço (UFRGS, 2007). perder nenhuma oportunidade razoável. Porém, a aplicação sucessiva das restri-
Segundo Joseph (2008), a seleção de materiais é uma atividade que envolve ções transforma a abordagem inicial em uma abordagem mais detalhada e seleti-
uma gama de conhecimentos técnicos, cuja amplitude dificilmente é abrangida va à medida que o processo se move para a direita da figura.
por um só tipo de profissional. A amplitude vai desde o desenvolvimento do proje-
to até a análise de desempenho em campo e, necessariamente, reúnem profissio-
nais de diversas especialidades. Em outras palavras, interdisciplinaridade e
interatividade são particularmente exigidas na seleção de materiais, na qual o
design do produto também faz parte (ASHBY; JOHNSON, 2003).
A FIG. 7 mostra, esquematicamente, as relações interativas ou de retroalimen-
tação que conectam materiais, processo e projeto. Isso evidencia que o caminho
que une a concepção inicial de projeto ao produto final compõe-se de um certo
número de etapas, cada uma necessitando de informações de diversas naturezas
FIGURA 8 - Afunilamento no processo de Seleção de Materiais
(FERRANTE, 2000).
Fonte: FERRANTE, 2000, adaptação nossa.

Ao analisar o processo de seleção, verifica-se que em todas as fases de


afunilamento, as propriedades dos materiais são avaliadas. Isto é de fundamen-
tal importância para o projeto de produto, pois tende a garantir os requisitos
necessários para que o produto seja concebido e lançado no mercado, com a
certeza de que o item (material) teve sua seleção embasada em características
técnicas. Nota-se que muitas abordagens técnicas atuais não avaliam a variável
ambiental, o que faz com que a grande maioria dos projetos de produtos seja
ambientalmente insustentável.

Design e seleção de materiais – percepção do usuário

Para Löbach (2001), um dos critérios principais na produção industrial é o uso


econômico dos materiais para o desenvolvimento do produto. Nesse sentido, a
FIGURA 7 - Relações interativas do processo de desenvolvimento do produto seleção de materiais tem um papel fundamental de classificar os materiais segun-
Fonte: FERRANTE, 2000, adaptação nossa. do as características desejadas no produto. Ainda segundo Löbach (2001), a natu-

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reza da superfície aparente dos produtos industriais tem uma grande influência metais, polímeros, cerâmicos, vidros, elastômeros e compósitos. Diante desse fato,
sobre seu efeito visual e, na maioria das vezes, depende da correta escolha dos a seleção de materiais é de vital importância e a correta classificação, durante a
materiais e do acabamento superficial. Sensações como frio, calor e texturização fase projetual, pode auxiliar no sucesso do produto. Segundo Ferrante (1996), as
podem ser repassadas ao usuário através da superfície externa do produto. propriedades mecânicas, físicas, processos de fabricação, suprimentos, custos,
Conforme Munari (1998), a indústria que apresenta o problema de um pro- certificações, acabamentos e reciclagem são as principais características a serem
duto ou de processo ao designer ou engenheiro tem certamente uma tecnologia abordadas para a correta seleção dos materiais.
própria, capaz de trabalhar certos materiais, mas fica limitada, não podendo Segundo Lennart e Kevin (2003), existem muitas ideias diferentes sobre como
utilizar outros materiais devido à restrição de processo. Ainda segundo Munari a seleção dos materiais para um produto deve ser feita e muitas delas consideram
(1998), é inútil pensar em soluções de projeto que desconsiderem os dados somente a criação de um produto funcional. Entretanto, um produto funcional não
relativos aos materiais e às tecnologias de transformação. As duas áreas pre- é o bastante para muitos consumidores. Como exemplo, Lennart e Kevin (2003)
cisam caminhar paralelamente para que ocorra uma perfeita sinergia entre o citam que diversos consumidores requerem somente um simples relógio para
produto e a seleção do material. mostrar o tempo, mas que, para outros, um design avançado em combinação com
Para Ashby e Johnson (2003), os produtos alcançam sucesso com uma com- um material inovador seria a solução ideal.
binação entre o bom projeto técnico e o projeto industrial criativo, sendo os Lennart e Kevin (2003) propõem um método de desenvolvimento de novos
materiais e os processos usados para fornecerem a funcionalidade, a usabilidade produtos que leve em consideração o desenvolvimento do produto integrado. Na
e a satisfação na compra. A satisfação é extremamente influenciada pela estéti- proposta é apresentada a unificação da seleção de materiais, o marketing e a
ca do produto, pelas associações do usuário e pelas percepções que o produto análise do projeto como ferramentas para o desenvolvimento do produto. Os au-
transmite ao usuário. tores descrevem que existem muitos métodos diferentes para a seleção de mate-
Segundo Baxter (2000), pesquisas realizadas em mais de 500 produtos de- riais. Entretanto, a maioria dos métodos se limita ao material como uma entidade
monstraram que da primeira ideia até se chegar a produtos lucrativos, existe uma física para dar forma a um produto. O modelo desenvolvido pelos autores incorpo-
taxa de mortalidade de 95% dos produtos. O usuário mudou seu perfil e está mais ra fatores tais como a forma do produto, tendências do mercado, aspectos cultu-
informado, mais exigente e com altas expectativas de qualidade, serviço e design, rais, estéticos e ambientais.
além de desejar preços baixos. Pesquisas apontam que aproximadamente 90% de todos os bons produtos
Dentro desse contexto, a atividade de seleção de materiais exerce forte influ- técnicos não são um sucesso no mercado (LENNART; KEVIN, 2003). Um produto
ência, pois o material escolhido deve se adequar perfeitamente ao conjunto de pode ser desenvolvido com uma técnica avançada, levando em consideração a
atributos esperados pelo produto como a forma almejada, usabilidade e respeito seleção dos materiais, função e estética, mas, por muitas razões, o produto é
ao meio ambiente (KINDLEIN; KUNZLER; CHYTRY, 2002). uma falha do mercado (LESKO, 1999). Segundo Lennart e Kevin (2003), para um
Manzini e Vezzoli (2005) descrevem que atualmente, para o desenvolvi- produto ser bem aceito, os usuários devem compreender também suas vanta-
mento de um produto, não há apenas um material que se mostra como esco- gens físicas, aceitá-las, aprendê-las e apreciar suas vantagens abstratas. A van-
lha óbvia, mas existem inúmeros materiais diferentes que podem atender as tagem física é a característica material do produto como a seleção dos materi-
necessidades esperadas. ais, ciclo de vida ou reciclabilidade. Nas características abstratas existem valo-
Conforme Waterman e Ashby (1991), existem milhares de materiais como res que aguçam os sentidos como a imaginação, conhecimento, experiências

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passadas e ideias pré-concebidas do produto.


Conforme Lennart e Kevin (2003), desenvolver um produto avaliando somente as
questões tangíveis pode ser um erro. Porém, para que isto seja evitado, deve existir um
balanço entre o tangível e o abstrato, visando assim uma maior satisfação do usuário.
Segundo Ashby e Johnson (2003), a seleção dos materiais para o desenvolvi-
mento do produto é uma maneira de compreender o que o material significa. A
seleção clássica dos materiais envolve a especificação sistemática das exigências
físicas, dentre as quais citam-se os mapas de seleção, uma maneira teórica que
abrange cálculos matemáticos. Tais métodos são interessantes para a seleção te-
órica do material, mas para a questão psicológica que o produto transmite ao
usuário, a forma clássica de seleção tem seu efeito reduzido. Então, segundo Ashby
e Johnson (2003), entra a experiência do designer com relação ao aspecto estéti-
co, de usabilidade e emocional que o produto deve transmitir.
Os autores demonstram uma forma de desmembrar o produto segundo as
principais etapas de projeto, levando em conta aspectos físicos e psicológicos.
Observa-se na FIG. 9 que os materiais e processos estão diretamente ligados a
FIGURA 10 - A personalidade do produto
todo o contexto de desenvolvimento do produto, ou seja, são responsáveis pelo
Fonte: ASHBY; JOHNSON, 2003, adaptação nossa.
aspecto tangível do produto.
Na FIG. 10(A), o usuário percebe as questões relativas à sua própria relação pesso-
al como feminino ou masculino, estilo de vida, satisfação, insatisfação etc. Na FIG.
10(B), é considerada a associação que o usuário faz em relação à experiências passa-
das como contato com carros, brinquedos, pessoas etc. Na FIG. 10(C), é considerado o
aspecto estético do produto, onde são contempladas características como cor, forma,
FIGURA 9 - Funções físicas e psicológicas do produto
textura, inclusive as relações das percepções como cheiro, som, paladar etc.
Fonte: ASHBY; JOHNSON, 2003, adaptação nossa.
Ao analisar a FIG. 10, pode-se concluir que, segundo Ashby e Johnson (2003),
A definição dos materiais depende diretamente do perfil do usuário para o o processo de concepção de um produto passa por etapas que vão desde aspectos
qual o produto será projetado (CAEIRO, 2003). Essa característica é definida estéticos até abstratos, balizados através de informações do meio social e que já
como a personalidade do produto, na qual as escolhas diferem para um produto estão registrados na memória das pessoas. Pode-se dizer que a concepção de
desenvolvido para crianças, pessoas idosas, esportistas e outros. Para cada usu- projeto tende a fazer com que o usuário sinta-se integrado ao produto como, por
ário ou grupo de usuários, é requerida uma seleção de materiais específica, as- exemplo, emocionalmente através de histórias de uso do passado.
sim como o tempo de utilização e a ocasião. A FIG. 10 mostra a característica e Ao projetar um produto que transmita a percepção, a chance do usuário
sua ligação com o usuário. ficar com o produto por um período maior de tempo, postergando seu descarte,

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poderá ser maior e desse modo propiciar a minimização do impacto ambiental. Referências
O conceito dos 3R’s e do DfX, quando aplicado a produtos e materiais, é muito
mais que uma simples variável de projeto e torna-se um novo estilo de projeto AMARAL, E. Um sistema informacional e perceptivo de seleção de materiais com
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WATERMAN, N. A.; ASHBY, M. F. CRC: Elsevier Materials Selector. Oxford:


CRC,v.1,1991.

Este livro foi composto pela EdUEMG e impresso pela gráfica e editora Santa Clara,
em sistema offset, papel AP 90g, capa em Triplex 250g, em maio de 2009.

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