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Boletim da Fraternidade Leiga

Charles de Foucauld
Ano XLVI - Nº 173 - Setembro - Dezembro de 2019

“Então José se levantou


no meio da noite,
pegou a criança e sua mãe
e fugiu para o Egito”
(Mt 2,14).

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EXPEDIENTE:

Equipe de redação:
Benedito Prezia (preziabenedito@gmail.com);
Roberto Delgado de Carvalho (delcarv@uol.com.br);
Gislene Delgado de Carvalho (giscarv@hotmail.com);
Miguel Savietto (saviprof@ig.com.br);
Renato Bicudo (renatojbicudo@yahoo.com.br);
Regina Mariano (reginafrater@yahoo.com.br);
Maria Júlia A. Lima (Ribeirão Pires).
Editoração e impressão: Renata Lima - A.N.Gráfica Ltda.(11) 3975-9262
Expedição: Roberto Delgado de Carvalho e Márcia Sanches Venturi.

Enviar notícias de seu grupo ou de sua região por e-mail para Benedito Prezia:
preziabenedito@gmail.com

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Depósito via eletrônica (CPF de Vera: 673767627-87).
Os depósitos podem ser feitos também em Casas Lotéricas.
Enviar o comprovante por e-mail (verauaiml@gmail.com) ou avisar Vera de
Lima por telefone ou por WhatsApp (21-99604-1475).

Desenho da 1ª capa: Refugiados: a sagrada família, por Kelly Latimore;


Desenho da 4ª. capa: Nossa Senhora Aparecida, de Tonny Cálices.

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APRESENTANDO

Irmãs e irmãos, paz e bem!

Quero começar agradecendo o retorno carinhoso que


recebemos de irmãs e irmãos quanto ao conteúdo do nosso
boletim. Tentamos fazer sempre o melhor, dentro de nossas
possibilidades e com a colaboração de vocês. Por isso peço que
continuem enviando-nos textos, notícias, fatos e fotos dos seus
grupos. É uma alegria com cada carta e e-mail recebido.
O Natal se aproxima e nossa Mãe/Maria/Mulher logo
estará em Belém à procura de um cantinho para dar à luz ao Seu
Filho e Nosso Irmão. Por isso vamos olhá-la com carinho e nos
prepararmos com Ela, oferecendo nossa oração, entrega e alegria
para receber a Jesus de Nazaré que vem deixar-nos seu rastro de
amor. Sigamo-lo, imitando-o e “gritando sobre os telhados” seu
Evangelho com a nossa vida e em comunhão com todas as etnias
e crenças deste mundo a exemplo do irmão Carlos.
Contamos neste boletim um pouco mais do Encontro de
Jovens da América, realizado em Costa Rica, em julho passado,
pela mão do Renato Bicudo e pelo doce depoimento do nosso
querido João Paulo, o jovem que tão bem nos representou.
Preocupa-nos o migrante em nossos países latinos e Bryan
Barrios, da Venezuela, hoje vivendo no Chile, nos brindou
com algumas considerações sobre essa realidade que ele vive,
seguindo o espírito e mensagem do irmão Carlos: reflitamos!
Continuamos contando e resgatando a história dos 60 anos
da Fraternidade Leiga no Brasil.
Trazemos também o Sínodo da Amazônia, tão importante
neste momento para a Igreja, para o Brasil e para o mundo.
Enviamos uma carta em apoio ao Papa Francisco e ao Sínodo,
que foi entregue por dom Edson T. Damian, nosso querido bispo

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no Amazonas. Deste singular evento surgiu um renovado “Pacto
das Catacumbas pela Casa Comum” elaborado e assinado por
bispos, leigos e membros de outros credos, aproximadamente
200 pessoas, 80 delas bispos, junto ao Papa, num compromisso
real com os povos originários, os pobres e a casa comum. Por
falta de espaço, publicaremos sobre isso no próximo número.
Não poderia faltar aqui a nossa homenagem aos 90 anos
de vida do irmãozinho João Cara, que vive atuando junto aos
moradores em situação de rua de Salvador (BA).
Aproveito para recordar o nosso Encontro Nacional, em
Alagoinha (BA), em julho do ano que vem. Preparemo-nos para
ele e para a eleição da nova coordenação.
No dia 1º de dezembro, na Celebração do Martírio de
Charles de Foucauld em São Paulo, será realizado um evento
especial para a abertura da comemoração dos 60 anos da
Fraternidade Leiga no Brasil, junto aos moradores em situação
de rua. Informem-se conosco e participem!
Contamos também com belos textos de Patrick, nosso amigo
e padre próximo, de frei Inácio do Vale, da irmãzinha Marga,
entre outros depoimentos e notícias.
Que o Pai siga animando-nos na união fraterna em Jesus de
Nazaré e na espiritualidade do nosso irmão Carlos de Foucauld.

Um abraço fraterno,
Marcia

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Por estarmos próximo ao Natal,
trazemos textos sobre Maria, escritos
por nossos irmãos evangélicos,
seguindo a tradição ecumênica de
nossa Fraternidade.

MARIA E A ESPERA INESPERADA


Vanessa Belmonte,
pesquisadora e membro da Igreja Evangélica Esperança, Belo Horizonte

Eu cresci ouvindo histórias sobre Abraão, Isaque e Jacó... E guardava tudo em


meu coração, imaginando a paciência de um Deus que age exatamente no tempo
certo e, quando age, faz tudo de um jeito completamente inesperado...
Então eu cresci... e fui prometida em casamento para um homem justo. José me
olhava com amor e me tratava com respeito... Por isso, doeu tanto em meu peito a
decepção que vi em seus olhos quando contei para ele o que o anjo me dissera...
Fui, então, visitar minha prima Isabel, pois o anjo falara que ela também estava grá-
vida e que isso era um sinal de que nada é impossível para Deus. Quando ela me viu,
também sem saber de nada que havia acontecido comigo, foi tomada pelo Espírito Santo e
exclamou: “Você é abençoada entre as mulheres e abençoada é a criança em seu ventre”...
Quem acreditou nisso? Zacarias não acreditou e estava mudo. Meus pais não
acreditaram. José não acreditou, até que o anjo falasse com ele. E eu apenas guar-
dava tudo em meu coração... Eu me entregava: “Eis aqui a sua serva, Senhor, faça
comigo conforme a sua vontade”.
A visita à minha prima Isabel me fez consciente do que eu estava esperando...
Eu acreditei no que o Senhor dissera que faria, ainda que em meu coração estivesse
confusa e com medo... E eu apenas esperava, confiava e guardava tudo em meu co-
ração... Deus veio até nós. Emanuel.
Vejam, ele está fazendo novas todas as coisas!

Texto em que a autora procurou imaginar Maria diante da surpreendente revelação do anjo.
O resumo do artigo foi feito por Roberto Delgado de Carvalho, da Fraternidade Patriarca-Ari-
canduva, São Paulo. In: ULTIMATO, revista evangélica não denominacional, março/abril de
2019, p. 21-22.

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MARIA, NO OLHAR EVANGÉLICO
Pastor Hermes C. Fernandes

É deveras complicado para um protestante entender a devoção mariana [dos cató-


licos romanos]. E a coisa se complica ainda mais ao deparar-se com a multiplicidade
de “Marias”. Afinal, quantas mães teve Jesus?
No México ela aparece com feições indígenas a um índio asteca, sendo chamada
de Nossa Senhora de Guadalupe. No Brasil sua imagem com feições negras é encon-
trada por pescadores e recebe o nome de Nossa Senhora Aparecida. Em Portugal ela
surge como Nossa Senhora de Fátima, cuja aparição teria sido testemunhada por três
crianças. Em nenhum dos casos foi vista por sacerdotes ou nobres.
Sem entrar no mérito dogmático, percebo aí uma busca que julgo autêntica por uma
fé engajada e radicada no contexto cultural em que emerge. Essas múltiplas facetas de
Maria visam atender ao anseio de rebelar-se contra os padrões vigentes. Uma Maria ne-
gra desafia o flagrante racismo de uma era escravagista. Uma Maria indígena confronta
os vergonhosos interesses dos conquistadores espanhóis. Não preciso endossar uma de-
voção popular para compreendê-la enquanto fenômeno social e psicológico.
As diversas aparições místicas podem ser vistas como projeções do inconsciente
coletivo. O que, diga-se de passagem, não diminui em nada sua importância. Mas de
onde o inconsciente coletivo buscou material para dar à Maria as características que
lhe são atribuídas? Por que surge negra no Brasil e índia no México?
Ao longo dos séculos, o inconsciente coletivo foi acumulando informações via
tradição, bem como anseios e até fantasias, que ao se mesclarem, produziram as múl-
tiplas Marias, bem como uma considerável diversidade de Cristos: Nosso Senhor do
Bonfim, Nosso Senhor dos Passos etc.
Obviamente há um único Cristo, que por sua vez, nasceu de uma única e bendita
virgem. Como protestantes não endossamos qualquer devoção que não seja dirigida a
Deus Trino. Todavia como profetizou o anjo que a visitou, Maria deveria ser honrada
por todas as gerações.
Não faz sentido adorar ao Filho, negando-se a honra à sua bem-aventurada mãe. E
a melhor maneira de honrá-la é submeter-se a seu Filho, bem como destacando suas ine-
gáveis virtudes, dentre as quais, a humildade e a obediência. Jesus é o único caminho que
nos leva a Deus. Maria foi o caminho tomado por Deus para vir ao encontro dos homens.
O desprezo protestante à Maria é uma reação grotesca e exacerbada à devoção
que se presta a ela. Deveríamos antes, optar por uma postura equilibrada. Amemos
a Maria e adoremos o fruto de seu ventre. E ainda que não comunguemos com sua
devoção por parte de nossos irmãos católicos, que possamos respeitá-la e buscar com-
preender o contexto de onde emerge.
No fundo, todos somos marianos, pois nos submetemos à instrução que ela deu
aos serventes em Caná da Galileia: “Fazei tudo o que Ele vos disser” (Jo 2,5).
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MIGRAÇÃO: PROCURA E ENCONTRO
Bryan Barrios Grafe,
membro isolado da Fraternidade de Caracas e migrante no Chiles

Um amadurecimento na fé passa pela descoberta daquilo que é chamado de “lu-


gar teológico”, isto é, tomar consciência de uma situação existencial e geográfica de
onde pensamos Deus e, especialmente, onde podemos descobri-lo. A migração é um
desses lugares onde Deus está presente, sendo uma descoberta pela aproximação ou
pela vivência. Na migração há dois fenômenos: quem empreende o caminho e quem
acolhe ou sai ao encontro do migrante.
Nas origens de nossa espiritualidade foucauldiana, a hospitalidade é de maior
importância e tornou-se uma experiência fundamental. Carlos de Foucauld ficou sur-
preso ao ser acolhido e cuidado pelos tuaregues num momento extremo de quase mor-
te. Por sua parte, Louis Massignon, amigo de Carlos de Foucauld, foi salvo da morte
pelos muçulmanos, quando esteve à beira do suicídio. Foi através dos cuidados deles
que recebeu a "visita", uma experiência mística que o salvou daquela tragédia.
Essas experiências me ajudaram a resgatar e descobrir o valor ético e teológico
desses dois grupos importantíssimos em nossa espiritualidade da acolhida e na sacra-
lidade da hospitalidade na cultura e na fé subjacente nos filhos de Abraão: judeus e
muçulmanos. Para eles, são Deus e seus anjos que chegam através do estrangeiro e não
acolhê-los é um pecado muito grave. E essa foi a razão pela qual Foucauld e Massignon
foram ajudados e salvos, apesar de serem franceses, do país que os colonizava e oprimia.
Penso nisso toda vez que me vejo como migrante. Como migrantes somos um de-
safio, mas também uma oportunidade para sermos acolhido como o Outro que chega.
O estrangeiro, como o povo de Israel, está em busca de sua “nova Jerusalém”, esse
lugar onde poderá ter pão, trabalho, teto, onde poderá ter uma vida digna de ser vivida.
Mas, nós, estrangeiros, estamos também diante de uma dificuldade, que é a apo-
rofobia, essa patologia social tão bem descrita por Adela Cortina1. Nada mais é do
que a rejeição ao pobre e, sobretudo, ao estrangeiro, que é pobre por essa condição.
A rejeição não é apenas à pessoa do estrangeiro como tal, que é rejeitado, mas, numa
visão de fé, é a rejeição ao próprio Deus a quem fechamos as portas.
Nós, migrantes, apresentamos uma bela oportunidade para se acolher a Deus, mas
também para encontrá-Lo naqueles que nos recebem. É por isso que a migração é um
“lugar teológico”, pois é Deus quem sai a procurar e a encontrar. Até ousaria dizer
que é o próprio Deus a quem se procura e se encontra. Interferir nisso ou barrar esse
processo talvez seja uma das piores tragédias do nosso século XXI.
Será que estamos conscientes disso?

CORTINA, A. Aporofobia, el rechazo al pobre. Buenos Aires: Ed. Paidós, 2017, p. 22.
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MENSAGEM DA FRATERNIDADE

CHARLES DE FOUCAULD: O FAROL MÍSTICO


Frei Inácio José do Vale, professor e membro da Fraternidade Sacerdotal

O renomado filósofo e historiador francês Marie-André, no


esboço biográfico de Charles de Foucauld, escreveu: “Entre as
grandes figuras atuais, poucas são tão brilhantes quanto o Padre
Charles de Foucauld. Nada mais admirável, com efeito, do que
ver um mundano, desocupado, libertino, transformar-se, quase
subitamente, em asceta, penitente, contemplativo, apóstolo. A
mudança desse homem provaria, se necessário, o poder da graça
divina, quando unida à vontade humana”.
Pelo menos duas dezenas de institutos e fraternidades de religiosos, padres e
leigos – criados, na maior parte dos casos, após a sua morte e interpretando, cada
qual segundo a sua sensibilidade, a herança de Charles de Foucauld –, continuam
a manter viva a espiritualidade daquele que o célebre teólogo francês Yves Congar
um dia chamou de "farol místico" para o século XX, junto com santa Teresinha do
Menino Jesus.
O cardeal Walter Kasper ao falar sobre a espiritualidade que buscou Foucauld
disse: "Charles de Foucauld me parecia interessante como modelo para realizar a
missão do cristão e da Igreja não apenas no deserto de Tamanrasset, mas também no
deserto do mundo moderno: a missão por meio da simples presença cristã, na oração
com Deus e na amizade com os homens". Em outra passagem afirma: “Charles de
Foucauld é uma figura luminosa, e pode ser também um válido contrapeso diante do
perigo de um emburguesamento e de uma tediosa banalização da Igreja”.
Na espiritualidade de Charles de Foucauld não há espaço para espetaculariza-
ção religiosa, ostentação mundana, pernosticismo intelectual e arrivismo. Os apelos
constantes do Papa Francisco para uma Igreja que saia da sua zona de conforto e se
dirija às periferias foram vividos, antecipadamente, por Charles de Foucauld e, no
seguimento de seus discípulos, pelas instituições que inspirou.
Em 13 de novembro de 2005, Charles de Foucauld foi beatificado na basílica
de São Pedro, em Roma. Aqui está um trecho do erudito papa Bento XVI na beatifi-
cação do Irmão Universal, em meio a uma multidão: “Queridos irmãos e irmãs em
Cristo, Vamos dar graças pelo testemunho dado por Charles de Foucauld. Em sua
vida contemplativa e escondida em Nazaré, ele descobriu a verdade sobre a humani-
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dade de Jesus e convida-nos a contemplar o mistério da Encarnação; neste lugar, ele
aprendeu muito sobre o Senhor, a quem ele queria seguir com humildade e pobreza.
Ele descobriu que Jesus, que veio para se juntar a nós na nossa humanidade, nos
convida a fraternidade universal, que ele posteriormente viveu no deserto do Saara, e
ao amor, do qual Cristo nos deu o exemplo. Como sacerdote, ele colocou a Eucaristia
e o Evangelho no coração de sua vida, as duas mesas da Palavra e do Pão, fonte da
vida cristã e da missão”.
Esse farol místico ilumina, pela sua Espiritualidade de Nazaré, multidões. Ele
inspira de forma abissal a vida mística contemplativa como também a vida ativa
missionária. A Espiritualidade de Nazaré impulsiona os nossos pensamentos, pala-
vras e ações a expressarem o seguimento de Jesus Cristo, levando-nos à vida ativa e
contemplativa sempre mais unidas e de forma mais profunda. De fato, esse legado de
Charles de Foucauld é um grande tesouro para Igreja e para quem deseja caminhar
com pleno sentido em sua vida.

A ATENÇÃO NAZARENA
Ir. Marga, Irmãzinha do Sagrado Coração *

Ir ao encontro do outro requer
uma forma especial de atenção "uma
atenção nazarena". Chamados a nos
descalçar2 para acolher Deus que se
revela a nós sobre a terra do nosso
cotidiano, convidados a embarcar ao
ritmo de uma vida pacífica que nos
permite de centralizar nosso coração
no essencial... Tudo isto exige nascer
em nós, pouco a pouco, uma “atenção” especial.
Os evangelhos mostram Jesus como um homem extremamente atencioso, capaz
de perceber detalhes que passam despercebidos a outros. Esta atenção pede uma ca-
pacidade que leva uma longa aprendizagem e bons mestres. Maria e José ensinaram
a Jesus a não se prender às aparências, mas sim ao interior das pessoas e perceber
valores nos pequenos gestos de total generosidade que são as partilhas dos pobres
(ver a viúva do Templo).

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Descalçar: no mundo mulçumano para rezar é necessário tirar os sapatos, deixando-os na entrada da
mesquita.
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Esta atenção fez de Jesus um homem contemplativo que descobre a ação de
Deus no mundo, a presença do Reino no meio dos homens apesar de todas as apa-
rências. Graças a esta atenção contemplativa, Jesus percebe as dores mais profundas
da humanidade ferida e encontra a palavra e o gesto oportunos para curar e consolar.
A espiritualidade de
Nazaré é uma escola privile-
giada de atenção, a atenção
profunda do coração. Existe
efetivamente uma forma de
"atenção" necessária para
viver em sociedade, mas,
finalmente, é superficial e
se reduz à cortesia e às boas
maneiras. Uma pessoa pode
ter outra “certa atenção”, que responde a códigos precisos de urbanidade, sem por
isto estar verdadeiramente atenta ao que o outro vive ou sofre.
A atenção profunda que nos ensina Nazaré nasce da paz interior e não pode se
desenvolver no meio do stress. Por isto, uma “higiene de vida” psicológica e uma
espiritualidade de relações, é tão importante... Não devemos nos acumular de com-
promissos, de encontros, de leituras, de formação...
Buscar uma atenção que permite encontrar o outro, de acolhê-lo, de escutá-lo
em profundidade.. Quantas vezes vemos sem olhar, e ouvimos sem escutar! Nossa
cultura, cheia de estímulos visuais e sonoros, não nos ajuda muito. É porque a aten-
ção que Nazaré propõe é um valor contra cultural que nos anima a viver bem inseri-
dos no cotidiano. Veja alguns exemplos cotidianos desta atenção que me permite ir
ao encontro do outro no “meu Nazaré”. E cada um pode encontrar outros exemplos:
1- Não posso dar um pedaço de pão a todas as pessoas que pedem no metrô,
mas posso fechar o meu romance ou deixar o meu celular e escutar o que a pessoa do
meu lado diz; ou escutar a conversa de cada um, mesmo que seja monótona e pouco
verossímil. Posso me deixar penetrar por aquilo que a pessoa diz, posso acolher seu
sofrimento ou seu desespero, posso apresentar esta pessoa a Jesus...
2- Não posso evitar as guerras nem os confrontos sociais, mas posso estar atento
a salvar a proposta de cada um, em benefício da dúvida. Posso não intervir para não
colocar “lenha na fogueira”, numa discussão que não vai levar a nada.
3- Posso ajudar um irmão ou uma irmã sem que eles me peçam. Posso responder
com humor e não com irritação a uma pessoa que fica no meu pé o dia todo...
Essas são algumas formas de atenção cotidiana, com o pé na realidade, mas que
mostram concretamente e com realismo os grandes valores que estamos engajados
a viver.
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Certamente, a atenção mútua da Santa Família de Nazaré conheceu também
situações que, na sua banalidade e sua pouca importância, forjaram pouco a pouco o
olhar contemplativo de Jesus.

*As Irmãzinhas do Sagrado Coração formaram o primeiro grupo religioso que seguiu irmão Carlos.
Este texto foi publicado no boletim Les Petites Soeurs du Sacré-Coeur (jan. 2018, p. 27-28) e enviado
por Pedro Paulo, da Fraternidade de São José do Rio Preto.

A FRAGILIDADE DE TODOS NÓS


Irmão Bruno*

Agora sei que a Fraternidade não pode existir sem a fragilidade e sem os limites
de seus membros que lhe dão ‘carne e osso’. E é exatamente esta Fraternidade que
eu amo desde o início. Ela é um tesouro, mas repleta de fragilidade, de humildade e,
frequentemente, de pecados.
O verdadeiro carisma é então o de ser feliz de pertencer à multidão desses po-
bres e pecadores que Deus ama. Se existe, portanto, uma mensagem profética da
parte da Fraternidade, é de testemunhar que na banalidade do ordinário se realiza o
Reino de Deus. A vida ordinária é o lugar onde Deus vem ao nosso encontro e nós O
encontramos em torno dos acontecimen-
tos e sob os olhares de nossos irmãos hu- O verdadeiro
manos. Esse ‘carisma de Nazaré’ não nos carisma é então o de ser
pertence. Ele existe semeado nos sulcos feliz de pertencer
de milhões de vidas de pobres e pequenos à multidão desses
que não sabem mesmo que eles restituem
pobres e pecadores
a Nazaré sempre presente nos espaços e
no tempo pelas suas vidas. que Deus
A nós compete nos deixar evangelizar ama.
por eles e acolher a revelação que Deus
encaminha pela experiência desses múlti-
plos Nazarés onde a vida faz seus cami-
nhos até Deus e onde o Reino acontece.

*Bruno tem 73 anos e 30 anos na Fraternidade


dos Irmãos de Jesus. (In: Les nouvelles de la Fra-
ternité, nº 35, set. 2012, p. 13-14). Texto enviado
por Pedro Paulo, da Fraternidade de São José do
Rio Preto.

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SÍNODO

AMAZÔNIA: NOVOS CAMINHOS PARA A IGREJA E PARA


UMA ECOLOGIA INTEGRAL

Em Puerto Maldonado, no Peru, em plena floresta amazônica, no dia 19 de


janeiro de 2018, num ginásio lotado com representantes de mais de 30 povos indíge-
nas da região, o papa Francisco deu início ao processo sinodal, anunciando-lhes: “Eu
quis vir e visitar-vos e escutar-vos, para (...) solidarizar-nos com vossos desafios”.
Inspirado na Laudato Si’ e no cuidado com a Casa Comum, foi lançada uma
escuta eclesial à Pan-Amazônia, que abrange nove países, Guiana Francesa, Suri-
name, Guiana, Venezuela, Colômbia, Equador, Peru, Bolívia e Brasil, com seus 32
milhões de habitantes.
A preocupação com a Amazônia e seus habitantes já fora abordada pela Confe-
rência de Aparecida (2007): “A sociedade pan-amazônica é pluriétnica, pluricultu-
ral e plurirreligiosa. Nela, cada vez mais, se intensifica a disputa pela ocupação do
território. As populações tradicionais da região querem que seus territórios sejam
reconhecidos e legalizados (Doc. Aparecida, n. 86). “Nas decisões sobre as riquezas
da biodiversidade e da natureza, as populações tradicionais têm sido praticamente
excluídas. A natureza foi e continua sendo agredida. A terra foi depredada. As águas
estão sendo tratadas como se fossem mercadoria negociável pelas empresas, além de
terem sido transformadas num bem disputado pelas grandes potências” (Id., n. 84).
O Sínodo se converte num tempo de graça para a Igreja na Amazônia, e no mun-
do todo! A Amazônia é fonte de vida para o planeta e vida abundante, para os povos
amazônicos, espaço de bem viver e sabedoria ancestral!
No geral, a Igreja nessa região é simples e pobre, expressando a simplicidade das
primeiras comunidades cristãs, com ribeirinhos, indígenas, moradores de periferias
urbanas, migrantes e refugiados/as, que já trazem a semente do novo em seu meio.
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O Sínodo é ainda um tempo especial, um Kairós [tempo de graça], que nasce
da mobilização de forças vivas da Igreja, do diálogo com estes povos, com a incul-
turação e interculturalidade, com o sonho de uma Igreja de rosto amazônico! Neste
caminho em defesa da ecologia integral, trilhado por Chico Mendes, Simão Bororo e
Pe. Rodolfo Lunkenbein, Ir. Dorothy Stang, padres Josímo e Ezequiel Ramin, deze-
nas de outros missionários e missionárias, lideranças comunitárias, gente anônima,
povos historicamente dizimados, juntaram-se à paixão desses mártires e do Cristo no
seu grito do alto da Cruz.
Este profetismo ressurge hoje dos pequenos, contra as ameaças do poder eco-
nômico, orientados pelo extrativismo, mineração, avanço da pecuária, construção de
hidrelétricas e eixos viários, que provocam a contaminação dos rios, lagos e afluen-
tes, com agrotóxicos, vazamentos de petróleo, grilagem de terras, desmatamento e
queimadas. É um poder econômico que não enxerga a floresta na sua profunda signi-
ficação e vê sua biodiversidade apenas no que ela pode gerar de lucro. Vamos ouvir o
grito da floresta, dos povos indígenas, das comunidades, dos empobrecidos, pois, “...
a Igreja é chamada a acompanhar e partilhar a dor do povo amazônico, e a colaborar
para a cura de suas feridas, assim realizando sua identidade de Igreja Samaritana”,
segundo a expressão do Episcopado Latino-Americano e do Caribe, na Conferência
de Aparecida (Id., n. 26).
Ao assumir um serviço na articulação deste Sínodo para a Amazônia, o carde-
al emérito de São Paulo, dom Cláudio Hummes, visitou cerca de 38 comunidades
daquela região, ouvindo desde o chão da floresta, seus habitantes, seus clamores e
anseios! Esse processo de escuta foi estendido a centenas de outros povos, comuni-
dades e grupos nesses territórios.
Como Igreja, [e como Fraternidade] vamos nos perguntar:
- Como nossas comunidades podem participar deste momento tão especial para
a Igreja toda, que é o Sínodo Panamazônico?
- Como a Laudato Si’ com seu chamado a uma ecologia integral pode inspirar a
caminhada em nossas Igrejas locais?
Concluímos com a prece do papa Francisco, inserida na Laudato Si’: Ó Deus
Onipotente, que estais presente em todo o universo e na mais pequenina das vossas
criaturas, Vós que envolveis com a vossa ternura tudo o que existe, derramai em nós
a força do vosso amor, para cuidarmos da vida e da beleza. Ensinai-nos a descobrir
o valor de cada coisa, a contemplar com encanto, a reconhecer que estamos pro-
fundamente unidos com todas as criaturas no nosso caminho para a vossa luz infinita
(LS, 246).

(Texto elaborado pelo Fórum de Participação da V Conferência do Episcopado da América Latina e


Caribe de Aparecida, São Paulo, agosto de 2019).
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COMO O SÍNODO PANAMAZÔNICO
PODE NOS SURPREENDER
Leonardo Boff, ecoteólogo, filósofo e escritor

Entre os dias 6-27 de outubro aconteceu em Roma o Sínodo Panamazônico. Já


em 1974 o Papa Paulo VI instituiu a figura do Sínodo, primeiro o dos Bispos, com
representantes de todos os continentes mas também os Sínodos regionais como o
Sínodo dos bispos holandeses em 1980 e o Sínodo dos bispos alemães que está ocor-
rendo em 2019 e outros.
O sínodo, cujo significado etimológico significa “fazer um caminho juntos” re-
presenta uma ocasião para as Igrejas locais ou regionais tomarem o pulso do cami-
nhar de suas igrejas, analisando os problemas, identificando os desafios e buscando
juntos caminhos de implementação e atualização do evangelho.
Especial relevância é o Sínodo Panamazônico, dado um duplo grau de cons-
ciência revelado no próprio tema básico: “Novos caminhos para a Igreja e para a
Ecologia integral”. Trata-se de definir outro tipo de presença da Igreja nas Américas
e especificamente nesta vasta região amazônica que recobre nove países numa ex-
tensão de mais de 8 milhões de quilômetros quadrados. O outro grau de consciência
se revela na importância que a Amazônia possui para o equilíbrio da Terra e para o
futuro da vida e da humanidade.
A Igreja romano-católica na América Latina e na Amazônia era uma Igreja-es-
pelho da Igreja-mãe da Europa. Depois de cinco séculos ela se transformou numa
Igreja-fonte, com um rosto afro-índio-europeu. Na homilia de abertura do Sínodo,
no dia 4 de outubro, o papa Francisco disse claramente: “Quantas vezes o dom de
Deus foi, não oferecido, mas imposto! Quantas vezes houve colonização em vez de
evangelização! Deus nos preserve da ganância dos novos colonialismos”.
Em outra ocasião, em Puerto Maldonado, no Peru, fez um pedido de perdão,
nunca feito antes por nenhum Papa: “Peço humildemente perdão, não apenas pelas
ofensas da própria Igreja, mas pelos crimes contra os povos originários durante a
conquista da América”.
No Instrumento de Trabalho, em preparação ao Sínodo, se pede que sejam or-
denados “viri probati”, quer dizer, homens casados, comprovadamente honrados,
especialmente indígenas, para serem ordenados sacerdotes. O bispo emérito do Xin-
gu, a maior diocese do mundo, dom Erwin Kräutler, sugeriu ao Papa que ao invés de
dizer “viri probati” (homens), que se diga “personae probatae” (pessoas compro-
vadas), o que inclui as mulheres. Diz ele: elas nas comunidades fazem tudo o que o
padre faz, menos consagrar o pão e o vinho. Por que não conceder-lhe também esta
missão? Maria, deu à luz Jesus, o Filho de Deus. Suas irmãs, as mulheres, por que
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não podem representá-lo? Ademais o texto diz que se dará às mulheres uma missão
especial. Bem poderia ser, como é feito em todas as demais igrejas cristãs, que mu-
lheres se tornem, a seu jeito, também sacerdotes.
Esse papa é inovador e corajoso. Dizem os melhores teólogos que não há ne-
nhum dogma ou doutrina que impeça às mulheres de representar o Cristo. Teologi-
camente não é o padre quem consagra. É Cristo quem consagra. O padre apenas lhe
dá visibilidade. Só o patriarcalismo ainda reinante o impede.
A questão mais aguda e importante é a salvaguarda do bioma amazônico. Essa
vasta região foi objeto de pesquisa de grandes cientistas já há dois séculos pelo me-
nos. Dizia Euclides da Cunha em seus ensaios amazônicos: “A inteligência humana
não suportaria o peso da realidade portentosa da Amazônia; terá que crescer com ela,
adaptando-se-lhe, para dominá-la (1976, p.15). Ela é o grande filtro do mundo que
sequestra o dióxido de carbono, mitiga o aquecimento global e nos entrega oxigênio.
Nela a biodiversidade é tanta que “em poucos hectares da floresta amazônica existe
um número de espécies de plantas e de insetos
maior que em toda a flora e fauna da Europa”, "A Terra é cada vez
nos diz o grande especialista E.Salati. mais interconectada
Mas seu significado maior reside na imen-
sidão das águas, seja dos rios volantes (umidade e habitada por povos
das árvores), seja da superfície do rio, seja do que fazem parte de
imenso aquífero Alter do Chão. Sem a preserva-
ção da floresta em pé, a Amazônia pode trans- uma comunidade
formar-se num deserto como o Saara que há 15 global; por exemplo,
mil anos era uma espécie de Amazônia, com o
rio Nilo desaguando no Atlântico. Cinquenta bi- o problema
lhões de toneladas de dióxido de carbono seriam
lançadas ao céu, caso a Amazônia seja desflores-
dos incêndios
tada, tornando impossível a vida no sul do con- na Amazônia,
tinente.
não é apenas
O papa se referiu à situação da Amazônia ao
analisar a situação atual mundial: “A Terra é cada daquela região.
vez mais interconectada e habitada por povos
que fazem parte de uma comunidade global; por
É um problema
exemplo, o problema dos incêndios na Amazô- mundial, assim
nia, não é apenas daquela região. É um problema
mundial, assim como o fenômeno migratório.”
como o fenômeno
Mais e mais cresce a consciência de que o migratório."
bioma amazônico é um Bem Comum da Terra Papa Francisco
e da Humanidade. O apelo à soberania de cada
15
país se move ainda no velho paradigma que dividia o planeta em partes. Agora se
trata de reunir as partes e construir a Casa Comum para nós e para toda a comuni-
dade de vida. O Brasil não é dono da Amazônia (63%), é apenas seu administrador,
agora sob o novo governo, de forma altamente irresponsável, ao fazer pouco caso
dos incêndios e em função dos minérios, do petróleo e de outras riquezas, incentivar
grandes projetos que ameaçam os povos originários – aqueles que sabem cuidar e
preservar a floresta – e o equilíbrio ecológico de toda a Casa Comum.
Corre um projeto subscrito por dezenas de caciques, bispos, autoridades, cientis-
tas e outros a ser apresentado no Sínodo de declarar a “Amazônia, santuário intangí-
vel da Casa Comum”. Como a UNESCO já tombou vários biomas em vários países,
por que não fazê-lo da Amazônia, na qual se joga, em parte, o futuro da vitalidade da
Terra e de nossa civilização?

CARTA DA FRATERNIDADE SECULAR


AO PAPA FRANCISCO

São Paulo, 4 de outubro de 2019, na festa de São Francisco de Assis


Querido Papa Francisco
Paz e Bem!

Somos membros leigos e leigas da Fraternidade Secular Charles de Foucauld


do Brasil, pertencentes à grande Família Espiritual Charles de Foucauld. Estamos
no Brasil há 60 anos a completar-se em 2020 sempre ao lado dos mais abandonados.
Como fermento na massa queremos “gritar o Evangelho com nossa própria vida”
(C. de Foucauld) participando direta ou indiretamente de todas as iniciativas, mo-
vimentos e pastorais ligados à promoção dos direitos humanos principalmente dos
mais pobres.
É por isto que não poderíamos deixar de expressar nosso apoio ao senhor prin-
cipalmente quando denuncia com seus gestos e palavras o que é contrário ao projeto
de Jesus.
Seu profetismo nos convida a renunciar a toda forma de exploração, ao consu-
mismo, à indiferença; ao mesmo tempo nos dá coragem para denunciar tudo aquilo
que é contrário ao Evangelho. Queremos junto com o senhor ser anunciadores da
Boa Nova, pois acreditamos que “um outro mundo é possível”.
Preocupa-nos a imposição de um modelo econômico excludente em nossa Pátria
Grande, a América Latina; preocupa-nos o crescente incitamento da violência insti-
16
tucional como forma de resolução dos con-
flitos e imposição deste modelo econômico
perverso; preocupa-nos a escalada de gover-
nantes autoritários (vide o caso do Brasil) a
serviço de uma minoria privilegiada e que
beira ao mais puro fascismo; preocupa-nos
e nos causa tristeza ao constatar que parte de
nossos bispos, do clero se omite e até mes-
mo apoia essa escalada autoritária.
Felizmente o Espírito suscita na sua
Igreja vozes corajosas, atitudes destemidas,
coerência na vivência do Evangelho. Den-
tre estas vozes está a sua voz profética que
nos enche de coragem e de esperança. Di-
zem que o contrário da fé não é a descren-
ça, mas o medo. O senhor, irmão Francisco,
nos enche de coragem, de esperança e de fé.
Obrigado por ser um pastor com cheiro das
ovelhas, obrigado por ser um companheiro
de viagem nas estradas do Evangelho. Dom Edson Damian, bispo de São Gabriel da
Unimo-nos neste momento ao Povo de Cachoeira (AM), presenteando o papa Francisco
com um cálice e um cibório de pau-brasil. Na oca-
Deus em todos os lugares do mundo para ce- sião entregou-lhe também nossa carta.
lebrar o início do Sínodo da Amazônia. Ver-
dadeiro kairós para a Igreja e especialmente para a região amazônica e seus povos que
“gritam com dores de parto” diante da destruição da natureza e das culturas locais.
No espírito da encíclica Laudato Si’ acreditamos que o Sínodo nos coloca em
comunhão com os povos originários, os indígenas tão brutalmente violentados em
seus direitos: terras invadidas por interesses econômicos; lideranças assassinadas;
destruição da cultura e sabedoria tradicionais.
No mesmo espírito de comunhão, o Sínodo nos coloca à escuta dos quilombo-
las, dos ribeirinhos obrigados à migração involuntária para as periferias dos grandes
centros, vítimas de projetos econômicos que têm a marca da devastação e destruição
da natureza.
Todos nós, da Fraternidade Secular do Brasil, da América e, ousamos dizer, do
mundo inteiro o acompanhamos com nossas orações. Que Charles de Foucauld, o
Irmão Universal, interceda pelo senhor e que a Virgem do Perpétuo Socorro o proteja
e o fortaleça.

Marcia Sanches Venturi, coordenadora nacional da Fraternidade Secular do Brasil

17
PROFETAS DA AMAZÔNIA

Trazemos aqui relatos e depoimentos de pessoas que doaram sua vida pelos povos
da Amazônia, no seguimento de Jesus de Nazaré.

IRMÃ GENOVEVA: PLANTADA NA TERRA TAPIRAPÉ


Antônio Canuto, membro da Comissão Pastoral da Terra-CPT Nacional

Cheguei hoje às 6h da manhã lá,


vindo da aldeia Urubu Branco, onde
estive para os funerais de Irmãzinha
Genoveva, da Fraternidade das Irmã-
zinhas de Jesus. Queria partilhar um
pouco com vocês do que vi e vivi.
Primeiramente, passo as informa-
ções de como foi sua morte, na ma-
nhã da terça-feira, 24 [de setembro de
2013]. Ela estava bem disposta. Tinha
Ir. Genovena, no pátio da aldeia Barra do Tapirapé (Foto:
amassado barro para fazer não sei bem
Benedito Prezia, 1984) que conserto na casa. Almoçou tran-
quilamente com a irmãzinha Odila.
Estavam descansando quando se queixou de dores no peito. Odila foi logo provi-
denciar um carro para levá-la ao hospital de Confresa. No caminho a respiração foi
ficando mais difícil. Morreu antes de chegar ao hospital.
De volta à aldeia, consternação geral. Genoveva viu nascer quase 100% dos
Apyãwa -- é assim que se autodenominam os Tapirapé –, nestes 61 anos de vida
partilhada. Os Apyãwa fizeram questão de sepultá-la, segundo seus costumes, como
se mais uma Apyãwa tivesse morrido. Os cantos fúnebres, ritmados com os passos
prolongaram-se por muito tempo, durante a noite e o dia seguinte. Muitas lamenta-
ções e choros se ouviam.
Segundo o ritual apyãwa, Genoveva foi enterrada dentro da casa onde morava.
A cova foi aberta com todo o cuidado pelos Apyãwa, acompanhada de cânticos
rituais. A uma altura de uns 40 centímetros do chão foram colocadas duas traves-
sas, uma em cada ponta da cova. Nestas travessas foi amarrada a rede que ficou na
posição de uma rede estendida como quem está dormindo. Por sobre as travessas
foram colocadas tábuas. Por sobre as tábuas é que foi colocada a terra. Toda a terra
18
colocada foi peneirada pelas mulheres, como é a tradição. No dia seguinte esta terra
foi molhada e moldada de tal forma que fica firme e espessa como a de chão batido.
Tudo acompanhado com cânticos rituais.
Em sua rede em que todos os dias dormia, Genoveva continua o sono eterno
entre aqueles que escolheu para ser seu povo.
A notícia da morte se espalhou pela região, pelo Brasil e pelo mundo. Agentes
de Pastoral da Prelazia de São Félix do Araguaia, os atuais e alguns antigos, amigos
e admiradores do trabalho das Irmãzinhas foram chegando para a despedida. A vi-
ce-presidente do Cimi, irmã Emília, com os coordenadores do Cimi Regional MT,
de Cuiabá, chegaram depois de uma viagem de mais de 1.100 quilômetros, quando
o corpo já estava na cova, ainda coberto só com as tábuas. Os Apyãwa as retiraram
para que os que acabavam de chegar a vissem pela última vez em sua rede.
Os membros da equipe pastoral da Prelazia de São Félix do Araguaia, junto com
os outros não indígenas, entre os cânticos rituais dos Tapirapé, foram entremeando
cânticos e depoimentos da caminhada cristã de irmãzinha Genoveva.
Ao final, o cacique falou que os Apyãwa estão todos muito tristes com a morte
da irmãzinha. Falando em português e tapirapé, ressaltou o respeito como eles sem-
pre foram tratados pelas Irmãzinhas, durante estes sessenta anos de convivência.
Lembrou de que os Apyãwa devem sua sobrevivência a elas, pois quando chegaram,
eram muito poucos e hoje são quase mil pessoas.
Plantada em território Tapirapé está Genoveva, um monumento de coerência,
silêncio e humildade, de respeito e reconhecimento do diferente, gritando como é
possível, com ações simples e pequenas, salvar a vida de todo um povo.
Valeu a pena ter ido lá nesta oportunidade.

IRMÃ CLEUSA, AGOSTINIANA E MISSIONÁRIA DO CIMI


Conselho Indigenista Missionário-Cimi, Regional Norte I

Brutalmente assassinada às
margens do rio Paciá, em Lábrea
(AM), onde trabalhava junto ao
povo Apurinã, irmã Cleusa era
radical na opção pelos pobres e
intransigente na defesa dos di-
reitos indígenas, gerando a ira
dos poderosos locais.
19
Irmã Cleusa Carolina Rody Coelho tinha 52 anos quando foi cruelmente assas-
sinada, em 28 de abril de 1985. Morreu há 34 anos em defesa da terra indígena e
buscando a paz na conturbada região às margens do rio Paciá, na Prelazia de Lábrea.
Coordenava o sub-regional Norte I do Conselho Indigenista Missionário (Cimi), que
abrangia as Prelazias de Lábrea e Coari. Atuava para minorar a difícil situação dos
Apurinã, que coincidia com a história do extrativismo no rio Purus. A morte dela não
se constituiu num fato isolado, fazendo parte da história regional alimentada pela
cobiça, onde os indígenas foram as maiores vítimas. O martírio de irmã Cleusa se
confundiu com o martírio histórico do povo Apurinã, que ela morreu defendendo.
Natural do Espírito Santo, irmã Cleusa dedicou 32 anos de sua vida missionária
a serviço dos mais empobrecidos, integrando a Congregação das Missionárias Agos-
tinianas Recoletas (MAR). Em 1954 foi uma das fundadoras da casa da congregação,
em Lábrea. Passou um tempo no Espírito Santo, retornando à Lábrea em 1979 e
passou a acompanhar os Apurinã até sua morte, encomendada por latifundiários e
castanheiros, que tinham interesses nas terras indígenas.
Acompanhava e apoiava os indígenas da região de Caititu, onde se dirigiu ao
encontro da morte, após saber do assassinato da esposa e de um filho do cacique
Agostinho Mulato dos Santos. O responsável direto pelos crimes, o Apurinã Rai-
mundo Podivem, que tinha sido policial em Manaus, vinha tentando acabar com a
vida do combativo tuxaua. E irmã Cleusa era uma pedra no caminho e por isso foi
martirizada barbaramente em sua missão de paz. Ao contratar um indígena para exe-
cutar a ação macabra, os poderosos de Lábrea tramaram gerar mais discórdia na área,
emperrando ainda mais o conturbado processo de demarcação das terras indígenas,
para se apropriarem das áreas.
“Comprometer-se com o ín-
dio, o mais pobre, desprezado e “A justiça tem que estar na base de toda
explorado, é assumir firme a sua convivência humana”
caminhada, confiante num futu-
ro certo e que já se vai tornan-
do presente, nas pequenas lutas
e vitórias, reconhecimento dos
próprios valores e direitos, bus-
ca de união e autodeterminação.
VALE ARRISCAR-SE.” Irmã
Cleusa escreveu esta mensagem
profética poucos dias antes de
ser assassinada.
Por causa do compromisso total com os menos favorecidos, tramita no Vaticano a
causa da beatificação dessa mártir da justiça e da paz. E agora no Sínodo da Amazônia,
os bispos da região Norte levaram ao papa Francisco o pedido de sua canonização.
20
PROCLAMAÇÃO-TESTAMENTO
DE PEDRO CASALDÁLIGA

Pedro Casaldáliga, bispo e profeta do Araguaia,


na manhã de domingo 17 de julho de 2011,
ao celebrar a Eucaristia na Romaria dos
Mártires da Caminhada, deixou esta mensagem,
que pode ser tida como seu testamento espiritual.

Possivelmente essa seja para mim a última roma-


ria pé no chão, a outra já seria contando estrelas no
seio do Pai. De todo modo, seja a última, seja a penúl-
tima, eu quero dar uns conselhos. Velho caduco tem
direito de dar conselhos... E a memória dos mártires, o
sangue dos mártires, mais do que um conselho, com-
promisso que conjuntamente assumimos, ou reassumimos.
São Paulo, depois de tantos dogmas que anuncia tantas brigas teológicas, tantas
intrigas por cultura, dá um conselho único: “o que eu peço a vocês que não se esque-
çam dos pobres; o que eu peço a vocês que não se esqueçam da opção pelos pobres,
essencial ao Evangelho, à Igreja de Jesus. A opção pelos pobres”.
E esses pobres se concretizam nos povos indígenas, no povo negro, na mulher
marginalizada, nos sem-terra, nos prisioneiros..., nos muitos filhos e filhas de Deus,
proibidos de viver com dignidade e com liberdade.
Peço também para vocês que não se esqueçam do sangue dos mártires. Tem gente
na própria Igreja que acha que chega de falar de mártires. O dia em que pararmos de
falar de mártires deveríamos apagar o Novo Testamento, fechar o rosto de Jesus.
Assumam a Romaria dos Mártires, multipliquem a Romaria dos Mártires, sempre,
recordemos bem, assumindo as causas dos mártires. Pelas causas pelas quais morreram,
nós vamos dedicar, vamos doar, e se for preciso, morrer, a nossa própria vida também...
E ainda uma palavra: há muita amargura, há muita decepção, há muito cansaço, há
muito tropeço... Isso é heresia! Isso é pecado! Nós somos o POVO DA ESPERANÇA,
O POVO DA PÁSCOA. O outro mundo possível somos nós! A outra Igreja possível
somos nós!
Devemos fazer questão de vivermos todos cutucando, agitando, comprometendo.
Como se cada um de nós fosse uma célula-mãe espalhando vida, provocando vida.
A Igreja da Libertação está viva, ressuscitada, porque é a Igreja de Jesus. A
teologia da libertação, a espiritualidade da libertação, a liturgia da libertação, a vida
21
eclesial da libertação não é nada de fora, é algo mui de dentro, do próprio mistério
pascal, que é o mistério da vida de Jesus, que é o mistério das nossas vidas.
Para todos vocês, todas vocês, um abraço imenso, de muito carinho, de muita
ternura, de um grito de esperança, esse cantar “viva a esperança” que seja uma razão...
Podem nos tirar tudo, menos a via da esperança. Vamos repetir: ‘Podem nos tirar
tudo, menos a via da esperança!’.
Um grande abraço para vocês, para as suas comunidades, e a caminhada conti-
nua! Amém, Axé, Awere, Sauidi, Aleluia!

“O homem é a mais insana das espécies. Adora um Deus invisível e mata uma Natu-
reza visível. Sem perceber que a Natureza que ele mata é esse Deus que ele adora.”
Hubert Reeves, astrofísico canadense

OS PRIMÓRDIOS DA FRATERNIDADE
SECULAR NO BRASIL

Ao completar 60 anos de existência, vamos recuperar a trajetória da nossa Fraterni-


dade, colhendo depoimentos dos antigos e reproduzindo textos já publicados, como
esses abaixo, que saíram nos boletins da Fraternidade, entre 1997 e 1998.

22
A FRATERNIDADE DE LUCÉLIA
Antônio Celso Escada, membro do grupo fundador
e da Fraternidade de São José dos Campos

A Fraternidade foi uma decorrência natural de um comprometimento dos mili-


tantes da Ação Católica, que na década de 50, fizeram a opção pelos pobres, usando
uma linguagem de hoje.
O grande investidor desse ideal de vida foi frei Romeu Dale, dominicano, e assis-
tente da Juventude Universitária Católica-JUC nessa época (1955), no Rio de Janeiro.
Sensibilizado por esse apelo, um grupo de estudantes de Medicina passou a se
articular para ir para o interior do país, onde deveriam desenvolver um trabalho de
equipe. Nela caberiam outros profissionais, ampliando os serviços a serem prestados
na comunidade onde se instalassem.
Outros estudantes faziam projetos dentro dessa perspectiva, para retornar para o
interior de onde vieram, quer trabalhando isoladamente, quer em equipe.
Enquanto essas ideias veiculavam no Rio, outros militantes da JUC de São Pau-
lo, animados e estimulados pelo padre Enzo Guzzo, passaram a se interessar pela
ideia e começaram também a discutir esse programa.
A década de 1950, embora com episódios políticos negativos, foi uma tempo-
rada de democracia e isto forneceu o surgimento de lideranças políticas ligadas aos
movimentos da Ação Católica, que se filiaram ao Partido Democrata Cristão (PDC),
onde o prof. Queiroz Filho agregava na Secretaria Estadual de Educação jovens
políticos como Plínio de Arruda Sampaio, Paulo de Tarso, Chopin Tavares de Lima
e outros, que mais tarde se elegeram deputados e quase todos foram cassados pelo
golpe de 64, a exceção de Franco Montoro.
Esse trabalho de estabilidade democrática favoreceu nossos projetos, pois seria
inútil uma atividade profissional sem uma cobertura política.
Retornando a 1956, foi através do Zaire, médico recém-formado, que se articu-
laram esses estudantes. No ano seguinte, em 1957, fui convidado a participar deste
grupo, quando os primeiros militantes já estavam se instalando na cidade de Paca-
embu (SP), próximo à fronteira com Mato Grosso.
Em princípio, o grupo era constituído pelo Deo e Júlia, ele, médico clínico,
da JUC do Rio, e ela, professora. Zaire, médico cirurgião, e eu, que faria, além de
anestesia, outros serviços de apoio. A nós se juntaram Jair Martins e a esposa Ivone,
respectivamente assistente social e psicóloga.
Mas Pacaembu ficou pequeno para tanta gente e resolveu-se que o grupo se ins-
talaria em Lucélia, onde havia uma Santa Casa abandonada, necessitando de pessoal
técnico e administrativo. E foi para lá que em janeiro de l959 me apeguei ao grupo.
23
Zaire casou-se com Neusa, enfermeira, e eu, com Naná, professora, ex-militante
de JUC como eu. Pouco tempo depois se juntou a nós João Siqueira, dentista de
Curitiba, encaminhado por fr. Romeu. Logo depois João casou-se com Priscila, jor-
nalista e ex-militante de JUC e JEC, também de Curitiba.
Em 1960 juntou-se a nós outro casal, Lúcia, enfermeira, e Brito, que fazia teatro,
vindos de São Paulo. Ela era baiana e ele, paulista.
Este grupo constituiu uma comunidade de vida que pelo menos durante dois anos
tentou viver os ideais de vida dos primeiros cristãos. Mas essa comunidade foi um des-
dobramento de nossa opção e precisaria de muito papel para contar essa experiência
que a nosso ver foi válida, mas que com nossa saída de Lucélia, em 1962, ela se desfez.
A Fraternidade veio praticamente junto com essa comunidade, consolidada em
1960. Era o suporte espiritual que necessitávamos para sustentá-la e foi Frei Baruel
quem levou os ideais de Charles de Foucauld até nós.
Naquela época nosso grupo desenvolveu várias experiências paralelas, confor-
me a vocação de seus integrantes. Eu, Zaire e Priscila nos envolvemos com trabalha-
dores rurais e deste trabalho surgiu o Sindicato dos Trabalhadores Rurais de Lucélia,
colocando-nos em posição de confronto com os donos da cidade.
O grupo teve suas atividades ampliadas: compramos uma carpintaria e come-
çamos a desenvolver o projeto de uma granja. Trouxemos também religiosas para a
Santa Casa local, com a ajuda do bispo de Marilia.
Quando criamos o sindicato, logo depois aconteceu uma greve na fazenda Mac-
-Wieth, uma das mais bem organizadas, mas que explorava o trabalho rural na região.
Conclusão: a elite local colocou-se contra nós, incluindo o bispo. Felizmente o vigário,
o padre Francisco Mahrs ficou do nosso lado, apesar de ser salesiano e conservador.
Lúcia trabalhava como enfermeira e Brito, seu marido, dirigia a economia de
nosso grupo-comunidade. Esta funcionava de tal forma a possibilitar a sobrevivência
de cada um, numa cidade pobre onde não era fácil o trabalho.
Buscávamos nos livros experiências parecidas e a comunidade que mais se ajus-
tou à nossa foi uma que fabricava relógios, a Bois-Mondeaux. Funcionava de acordo
com o que cada um produzia: metade ficava para a comunidade e a outra, para o
companheiro e sua família. Com isso todos tinham trabalho, mesmo os “desempre-
gados”, que recebiam da comunidade a garantia de sua sobrevivência. Evidentemen-
te que nossas famílias, pais e irmãos não concordavam com isso.
Era impossível, que numa pequena cidade, cheia de aventureiros, as pessoas não
percebessem esta forma diferente de viver. Aos mais chegados, explicávamos que
era a forma de vida dos primeiros cristãos. Aos desafetos e aos que se opunham a
nós, pouco ou nada informávamos. É claro que estes últimos logo ficharam nossa
experiência como sendo coisa de comunista e o nosso envolvimento com trabalhado-
res rurais e com os pobres da Santa Casa confirmavam estas suspeitas!...
24
A reação foi violenta. Muitos amigos tornaram-se inimigos, ajudados pelos ati-
vistas do Sindicato Rural de uma cidade vizinha, pertencentes ao quadro do Partido
Comunista e passaram a nos hostilizar, isolando-nos. Tudo isso culminou com nossa
saída da Santa Casa, cujos médicos foram pressionados pelos “donos” da cidade.
Até mesmo os que trabalhavam conosco, mas que não eram do nosso grupo, volta-
ram-se contra nós, embora sabendo de nossas intenções.
Resistimos dois meses sem hospital para internar nossos pacientes. E com as
outras atividades cerceadas, tivemos que nos render à evidência dos fatos: precisá-
vamos deixar a cidade.
É mais que evidente que os pobres ficaram do nosso lado e foi preciso muita
conversa para que não houvesse uma “invasão” da Santa Casa, porque muitas fa-
mílias beneficiadas com nosso trabalho ficaram sem assistência médica. As Irmãs
tiveram também que sair e o hospital ficou na mão dos médicos que comandavam
uma clínica particular, para os quais nosso trabalho representava uma grande con-
corrência.
A única saída era deixar Lucélia e assim nossa experiência terminou em outubro
de 1962. Fomos para São Sebastião, onde todos nos acolheram com muita alegria.
Afinal mil quilômetros de distância apagavam boas e más notícias.
Voltando à Lucélia, havia um grupo de estudantes que frequentavam minha
casa. A escola noturna ficava em frente à minha residência e durante a meia hora de
intervalo das aulas, iam para lá, onde conversávamos de tudo.
Esse contato durou mais de um ano e conseguimos motivar muitos deles para
investir em projetos de vida mais idealistas. Vale a pena contar um episódio ocorrido
com um destes rapazes.
Cinco ou seis anos após termos saído de Lucélia, encontrei-me com um deles,
Veloso, que já morava em São Paulo. Contou-me que pouco depois de termos saído
de lá, viu-se obrigado também a deixar a cidade. Seu pai falecera e o sustento da fa-
mília vinha de um pequeno sítio, que fora tomado pelo Bradesco para pagamento de
dívida. Sua casa teve o mesmo destino. Sendo funcionário do banco, foi despedido
e toda sua numerosa família ficou sem rumo. Arranjou emprestado algum dinheiro e
veio para São Paulo.
No caminho pensava nas reuniões em minha casa, o que o animou. Chegando
à capital, desembarcando na estação da Luz, fez uma loucura: comprou um bilhete
fechado de loteria.
Imaginem o que aconteceu: ganhou Cr$ 600.000,00, uma pequena fortuna na
época! Para se ter ideia, uma kombi custava Cr$ 3.500,00. Assim pôde retornar à
Lucélia, uma semana depois, com o carro do ano e muito dinheiro... para surpresa e
alegria de sua família.
Sempre achou que fui eu quem lhe dei sorte...
25
DE LUCÉLIA A SÃO SEBASTIÃO

Depoimento de frei Baruel, dominicano, e primeiro assistente espiritual do grupo de


Lucélia, transcrito de uma entrevista feita para nosso boletim, em 1998.

Durante mais de um ano acompanhei esse grupo de médicos. Uma vez por mês
ia à Lucélia. Saia na sexta feira e voltava na segunda-feira. Tomava o trem da Com-
panhia. Paulista de Estrada de Ferro, na Estação da Luz, às 8 h da manhã, e lá
chegava às l8 h. Apesar de longa, era uma viagem muito agradável. Eu ficava no
carro-restaurante, onde podia ler a viagem toda.
No sábado atendia as pessoas individualmente, e no domingo, tínhamos oração
à tarde toda. E à noite fazíamos uma confraternização.
A experiência desse grupo era muito bonita, onde tudo que recebiam ficava em
comum, como uma comunidade de trabalho e de vida. Era uma coisa meio utópica,
mas era bonito. Alguns já se preocupavam com o futuro, quando os filhos cresces-
sem. Será que iriam aceitar aquela forma de vida que eles haviam escolhido?
Desde o início ficou muito clara a opção do grupo pelo espírito da Fraternidade
Charles de Foucauld. Podemos dizer que três coisas caracterizaram o grupo: o com-
promisso com os pobres, a partilha total de vida e a oração, com acento na eucaristia.
O serviço aos pobres fez com que o trabalho que desenvolviam na Santa Casa
fosse combatido, por uma espécie de ciúmes, de inveja, por parte dos outros médicos
locais, sendo que vários deles eram japoneses [nisseis]. Como o prefeito era também
japonês [nissei], ele apoiou mais os médicos que defendiam suas clínicas particula-
res que ficaram prejudicadas. Como o atendimento dos médicos da Fraternidade era
de melhor qualidade e de graça, é claro que o povo não ia para os médicos particula-
res. Foi assim que foram pressionados a deixar a cidade.
Outro ponto importante na vida do grupo foi a oração. Além de terem momen-
tos de oração próprios, participavam também da paróquia, organizando a liturgia. A
vida deles ali era como “o fermento na massa”.
O terceiro ponto foi o desprendimento pelo dinheiro. Era um grupo jovem e
idealista. Alguns ainda nem eram casados, como o João e a Priscila.
Quando ocorreu a saída deles de lá, um amigo meu, o dr. Paulo Savaya, que tra-
balhava no Instituto de Oceanografia da Universidade de São Paulo e que tinha uma
casa em São Sebastião, convidou-me para ir ao litoral passar uns dias.
Naquela época era uma aventura a viagem até São Sebastião. A estrada era pés-
sima, de terra e com muita curva. Pouca gente ia até lá. Tanto é que o governo tinha
construído uma Santa Casa, mas que não funcionava por falta de médico. Isso foi
no início dos anos 60. Contei para dr. Paulo, sobre este grupo de médicos de Lucélia,
26
que estava sendo obrigado a deixar a cidade,. Foi então que ele propôs para que fos-
sem para lá para assumir a Santa Casa local.
Foram para conhecer o lugar e ficaram encantados. Ainda me lembro do Zaire,
indo à noite pescar de barco, com lanterna...
Foi assim que começou a experiência da Fraternidade em São Sebastião. Como
fui transferido para Recife, onde devia começar uma comunidade dos dominicanos,
deixei de acompanhar o grupo.
Lembro-me que nesta época começou a funcionar em São Paulo uma espécie de
Fraternidade Leiga, com oração eucarística e revisão de vida. Depois não tive mais
notícias desse grupo3.

NOSSOS IRMÃOS MAIORES

JOÃO CARA: 90 ANOS DEDICADOS AO SENHOR

OS ANJOS DA
TRINDADE
Benedito Prezia, Fraternidade
de São Paulo - grupo Centro

Se houve algumas limita-


João Cara, ao centro, de bengala, entre os moradores da Igreja da Trin-
dade, vendo-se em primeiro plano, à direita, irmão Henrique.
ções do espaço físico na As-
sembleia Nacional de 2014, devido, sobretudo, ao calor de Salvador, acredito que as
experiências vivenciais que tivemos, superaram-nas enormemente. Por isso gostaria
de compartilhar com os irmãos algo que senti naqueles dias, sobretudo na visita à
Igreja da Trindade.
Uma das grandes graças de nossa Assembleia foi a presença de Henrique, o
peregrino, como nosso palestrante. Falou-nos dos encontros com Deus que ocorrem
em nossa vida. Falou-nos longamente de Gabriel, um morador de rua, que foi viver
numa igreja abandonada, na ilha de Itaparica, tornando-se um novo mensageiro de
Deus. Foi chamado de Santo Anjo da Divina Luz.
No final de suas palestras recebemos duas estampas: uma, com a foto de Ga-

3
Dra. Deise, que mais tarde formou um grupo de Fraternidade em São Lourenço da Serra, fez parte
dessa primeira Fraternidade Leiga de São Paulo.
27
briel, com suas mensagens; outra, com a reprodução do famoso ícone dos três anjos
que visitaram Abraão, mas redesenhado num contexto nordestino. Ambas as ima-
gens foram de muito significado para todos. A foto de Gabriel nos recordará sempre
como Deus fala pela boca dos “pequeninos”. Dele é a frase: “Aqui oro por toda a
humanidade sofrida”. E essa imagem bíblica dos anjos, no sertão do Nordeste, que
está na Igreja da Trindade, foi uma preparação para entrarmos no clima da visita
que ocorreu no dia seguinte. Se no relato bíblico, os anjos comunicaram a Abraão o
nascimento de um filho, na visita que fizemos à igreja da Trindade, pudemos ver um
local onde os excluídos de nossa sociedade, da zona do porto, da região do meretrí-
cio tornaram-se os “escolhidos de Deus”.
Que grata surpresa quando ali chegamos, ao sermos recebidos por aqueles “anjos”.
Os antigos moradores de rua, com suas neuroses e transtornos mentais parecem que aos
poucos vão encontrando uma nova vida. Muitos nos acolheram com um grande sorriso,
perguntando nossos nomes... Outros seguiam no seu mundo, meio ausentes...
Logo fomos conduzidos à nave da igreja, onde o “arcanjo” João Cara, da Frater-
nidade dos Irmãos do Evangelho, nos fez sentar no chão para uma pequena apresen-
tação. Um pouco mais magro, com o cajado de pastor, mas com voz forte, nos falou
sobre o que foi aquele “milagre” da recuperação da igreja abandonada.
Esse templo era o retrato da situação em que viviam os moradores de rua da-
quela grande cidade, não muito diferente do que se vê nos grandes centros urbanos
do Brasil. Aquela área do porto tinha um ambiente semelhante às áreas degradadas de
muitas cidades brasileiras: dependentes químicos, moradores de rua, prostitutas... e pe-
quenos assaltantes. O abandono da igreja era a imagem do abandono dos “verdadeiros
templos” ocupados pelo Espírito Santo, mas que estavam jogados na sarjeta...
Até que um grupo resolveu mudar aquele local. Henrique, o peregrino, o Irmão
João Cara e mais alguns voluntários decidiram recuperar a igreja, transformando-a
em local de acolhida para os pobres. Decisão tomada, foram ao cardeal dom Geraldo
Majela solicitar a autorização para ocupar a velha igreja. Num mutirão de limpeza,
retiraram mais de 300 sacos de lixo! Não foi fácil negociar a saída dos viciados e de
pessoas que usavam a igreja para “encontros amorosos”...
Aos poucos o santuário tornou-se um novo espaço de convivência para os mo-
radores de rua. A pedido desse grupo, João, que morava sozinho na sua Fraternidade,
em outro bairro de Salvador, decidiu mudar-se para lá. Solicitou a autorização de
seus superiores, sendo-lhe construída uma casinha entre algumas árvores que exis-
tem ao lado da igreja. E assim passou a ter sua nova Fraternidade... junto com o povo
em situação de rua.
O grupo tem uma dinâmica própria, fazendo a sopa todos os dias, a partir de
restos de verdura recolhidos numa grande feira, que fica próxima à igreja. E às 5ª.
feiras, no final da tarde, é celebrada a eucaristia durante o “sopão”. A missa não é
28
antes e nem depois, mas durante o “sopão”, recuperando o que fez Jesus na última
ceia e o que faziam os apóstolos no início do cristianismo.
E nessa visita, nosso grupo, atento, ouviu João Cara explicar a dinâmica des-
se centro de convivência. A semente está dando frutos, sendo uma referência de
trabalho social com essas pessoas, procurando devolver-lhes a dignidade, sem pa-
ternalismo ou assistencialismo. No último dia daquele ano, convidaram o cardeal
dom Geraldo Majela para celebrar uma missa. Foi algo inexprimível, que certa-
mente marcou a vida do cardeal, pois a partir daí, todo final de ano ele passou a
visitar a comunidade, celebrando aí o “réveillon”, de forma bem diferente dos
demais locais de Salvador.
Aquela igreja não é um templo igual aos outros. Com exceção do belo quadro
dos anjos visitando Abraão, que está na frente, sobre uma espécie de altar, o local
não tem mais o ar de templo, tornando-se um grande espaço comunitário. Em cada
nave lateral, dormem separadamente os homens e as mulheres que fizeram dali sua
casa. Ali mesmo guardam seus pertences, o que deixa o local parecendo uma grande
oficina, como devia ser a casa de Jesus, em Nazaré.
Acredito que o Senhor está contente de ver sua casa ocupada pelos “eleitos do
Pai”, bem diferente das outras igrejas do centro histórico de Salvador, que mais pare-
cem museus do que “casa de oração”. Naquelas outras igrejas históricas tínhamos que
pagar a entrada para apreciar as obras de arte. Nessa, fomos acolhidos fraternalmente
para conhecer essas novas obras de “arte viva”, oriundas das sarjetas e das marquises.
Visitamos em seguida o pequeno bosque, onde foi construída uma capelinha, mui-
to convidativa à oração. Ao lado há também duas “celas”, próprias para os que desejam
fazer um dia de retiro. No canto está a casinha onde João morava. Infelizmente teve
que deixar o local, depois do atentado que sofreu no Natal de 2011. Foi graças aos
“anjos da Trindade” que não morreu, pois um deles ouviu seu gemido, depois que um
louco pulou o muro, entrando na casinha para roubar. Sem encontrar nada de valor,
furioso, espancou João na cabeça, que teve o queixo perfurado por um estilete. Ficou
estendido no chão das 21h às 4h da manhã. Por um milagre sobreviveu a esse atentado.
Levado para o hospital próximo e, depois de permanecer alguns dias na UTI, foi
operado. Uma nova cirurgia fez na Itália, onde moram seus parentes. Já recuperado,
pediu aos Irmãos da Fraternidade Geral para voltar à “sua Fraternidade”.
Assim está lá, recuperado, junto com seus “irmãos”. No final da visita, comen-
tou comigo: “Está vendo por que não quis ficar na Itália? Aqui está minha vida”.
De fato, aquele ambiente e os desafios do dia a dia dão muita energia a esse
“Anjo” com mais de 80 anos... Que Deus o conserve, ele e todos que trabalham na
Igreja da Trindade e que continuem sendo os “anjos” na cidade de São Salvador.

(Texto transcrito do Boletim da Fraternidade Leiga, n. 156, junho de 2014, p. 8-10).


29
MINHA TRAJETÓRIA JUNTO A JOÃO CARA
José Airton Otávio, Fraternidade de Teresina

Em 1980 fui fazer um curso


no ISPAC (Instituto Superior de
Pastoral e Catequese), em Salva-
dor. Em um dos módulos do curso
veio João Cara, acompanhado de
três candidatos da congregação
dos Irmãos do Evangelho: padre
Edson Damian (atualmente bispo
no Amazonas), Teófilo e outro pa-
dre do qual não recordo o nome.
Os três, no final do noviciado, não
permaneceram, voltando para a
João Cara, entre Saló e Airton, da Fraternidade de Teresina, por
ocasião da Assembleia Nacional, realizada em Salvador, em 2014. diocese de origem, Santa Maria,
no Rio Grande do Sul.
Depois que retornei a Teresina, continuei comunicando-me com o João Cara
através de cartas, para dizer que gostaria de conhecer o caminho dos Irmãos do
Evangelho. E por quatro anos, nas férias do meu trabalho, passava uma semana na
Fraternidade. Esse tempo com o João foi de muito aprendizado, sobretudo, para ter
um outro olhar sobre o ser cristão, católico, numa realidade bem sincrética, pobre e
de muita luta comunitária, como era a realidade de Salvador.
Em 1985 fui morar na capital baiana para ser acompanhado por João, que era
responsável dos candidatos à Fraternidade. Naquela época havia dois lugares para se
fazer uma experiência de vida religiosa: João Pessoa, com os Irmãos de Jesus, e Sal-
vador, com João. Em 1989 havia ido a João Pessoa, onde conheci os irmãos Chico
e Guido. Mas João disse que por causa da minha saúde – uma cirurgia no coração e
problema da coluna – era melhor fazer essa experiência em Salvador, onde poderia
trabalhar em alguma coisa mais leve. Em João Pessoa teria que trabalhar no corte da
cana. Naquele mesmo ano voltei de Salvador, pois avaliei que para morar naquela
realidade, algumas vezes teria que ser dispensado de certos trabalhos devido à minha
condição física. E João concordou, pois esse período de experiência até o noviciado
é um tempo mais exigente e também para discernimento.
Em 1994 iniciamos, em Teresina, nossa Fraternidade Nazaré com a espiritu-
alidade de Irmão Carlos. Por isso, em 1996, convidamos João para vir à Teresina
orientar nosso retiro.
Outras vezes quando estive em Salvador sempre fazia uma visita a João. E nos-
so último encontro foi na Assembleia da Fraternidade Leiga, em 2014.
30
PRESENÇA DOS JOVENS

ENCONTRO DA COSTA RICA


Renato Bicudo, Fraternidade de São Paulo

Tive a honra e a confiança da Fraternidade Leiga do Brasil, de ser convidado


como observador e acompanhante do João Paulo, nesse encontro de jovens. Uma
de minhas tarefas principais seria ajudar um pouco na tradução, principalmente do
português para o espanhol e vice versa. Acredito que isso foi quase totalmente dis-
pensável, face ao maravilhoso clima de amizade, entrosamento e partilha que havia
entre os jovens lá reunidos. Apenas em alguns raros momentos intervim com meu
pobre espanhol. Nos reunimos de 7 a 14 de julho de 2019 no Sítio de Ângela e José,
em San Antonio, distrito de Limón, nas montanhas gélidas e profundamente verdes
de variadas vegetações, que enriquecem esse país. Fomos brindados com um mara-
vilhoso visual de uma vasta e extasiante natureza.

João Paulo (ao centro) num momento de partilha do Encontro

Já de início, se pudesse definir esse Encontro de Jovens da Costa Rica, eu defi-


niria como um encontro e um local onde imperou de forma harmônica e maravilhosa
o grande tesouro da AMIZADE. Sim, não relutaria em dizer que esse encontro foi
uma grande celebração da amizade, da partilha, da alegria do convívio sem fronteiras
e sem barreiras de qualquer espécie. Foi maravilhoso ver os jovens se relacionando
como se se conhecessem há vários anos. Penso que nesse ponto eles foram coerentes
e precisos, em um dos pilares de nossa espiritualidade foucauldiana, ou seja, a ami-
zade! Só por isso, creio que esse encontro teria valido a pena.
31
Mas outros afazeres e trabalhos fizeram parte da agenda dos jovens. Optaram
pelo clássico e infalível método didático/pedagógico do Ver, Julgar e Agir.
Dias de oração, trabalho, reflexão, partilha e muita, muita, alegria, risadas e
inesquecível camaradagem entre todos nós. Não houve dirigismos, não houve censu-
ras, não houve autoritarismo, não houve supremacia dos “antigos” ante os “novatos”
e principalmente, ninguém foi admoestado a ficar quieto, a se calar, a ouvir passiva-
mente sem se manifestar favoravelmente ou não. Éramos genuinamente latino-ame-
ricanos. Livres e espontâneos. A presença de irmãos mais “velhos” foi importante
para os jovens que puderam se dedicar mais ao encontro, enquanto nós, os mais
“antigos”, cuidávamos dos afazeres e de outras ocupações. Além da hospedagem ri-
quíssima de Ângela e José, outras irmãs amáveis e queridas se ocuparam da cozinha,
nos brindando sempre com deliciosas refeições, doces e quitutes, muitos deles por
nós desconhecidos, como o indescritível café da manhã, denominado “Gallo Pinto”,
que para nós foi algo por demais inusitado. Nessa refeição já comíamos uma gene-
rosa mistura de arroz com feijão preto, coentro e demais temperos, (cheiro verde),
pimenta, ovos mexidos, pão com manteiga tostado, copiosos pedaços de abacate, e
muito, muito café (servido em canecas).
Outro serviço de inegável valor prestado pelos “maiores” foi o de motorista, pois
estávamos muito longe tanto da cidade, quanto da vila mais próxima. Não havia ne-
nhuma outra condução a não ser os carros (jipes 4x4) dos irmãos da fraternidade, ou
de vizinhos amigos.
Realmente, éramos uma grande e diversificada família. Não havia wi-fi, e esse
era compartilhado por quem o tinha. A madura responsabilidade de Yonar e outros
jovens, irmãos e irmãs da Costa Rica, nos mostraram o quanto eles vivem com os pés
no chão nossa espiritualidade e a sempre novidade do Evangelho.
Também os jovens se dedicavam aos serviços braçais de limpeza e organização.
Isso é maravilhoso em se tratando de amigos de Foucauld. Eu sempre tive essa in-
tuição: quem se afasta dos serviços da cozinha, da limpeza, dos banheiros, do lixo
e outras “baixezas” ainda não entendeu integralmente nossa proposta de vida. É só
assim que eles e nós entendemos o que é o supérfluo, o anticonsumismo, a pobreza,
a escolha do último lugar, a amizade com os pobres e desvalidos, o carinho e res-
peito com os marginalizados de todos os espectros, e de certa forma a Encarnação
do Senhor. Eu percebia que esses trabalhos manuais dignificavam a vida dos jovens.
Outro momento de uma beleza ímpar e de uma grandiosidade tremenda foi o
dia de Deserto. Há algumas fotos que mostram os jovens em momentos solitários, de
silêncio, meditação e leitura da Palavra, que são marcantes pela força das imagens.
São maravilhosos. Impressionante como o silêncio é um bem que devemos sempre
resgatar e ter presente em nossos encontros e convivência. Também na vida privada.
Foi tocante para todos nós.
32
Não poderia deixar de falar da pessoa do João Paulo. Amigo e jovem fraterno,
respeitoso, inteligente e sensível, aproveitou cada momento do encontro, desper-
tando em todos um imenso carinho por sua pessoa, tendo feito uma grande rede de
sólidas amizades.
Embora todos jovens e repletos de vivacidade, foi impressionante ver e consta-
tar a maturidade espiritual, humana e vivencial desses jovens. Vários assuntos deli-
cados e dolorosos, bem como belos e repletos de vida, como os passeios que juntos
fizemos para a praia (Porto Velho), para um sítio de plantação de cana (Trapiche),
onde se faz o nosso melado, a nossa rapadura, tudo isso marcaram momentos mara-
vilhosos e inesquecíveis. Sempre havia um olhar atendo desses jovens, tudo à luz da
fé, do Evangelho e de nossa espiritualidade.
Não quero ser cansativo, entrando em detalhes sobre as discussões e delibera-
ções do Encontro. Penso que isso cabe aos jovens que lá estiveram. Poucas vezes
nós os adultos nos manifestamos, interviemos no andamento do encontro, a não ser
quando éramos enfaticamente solicitados. Eu, em dois momentos, dei uma contri-
buição com minha fala. Quando se discutia a questão dos jovens e da Igreja, eu falei
que eles deveriam ter um olhar atento, misericordioso e atualizado sobre a questão
dos jovens LGBTs, que ainda são discriminados na comunidade eclesial, tidos como
ovelhinhas desgarradas e marginalizados. Disse-lhes que se a Igreja (católica) não os
receber como são, sem querer interferir em suas subjetividades, nós perderemos de-
finitivamente esses jovens (que são muitos em nossas comunidades). Há hoje muitas
Igrejas “inclusivas” de caráter “evangélico” ou até neopentecostal, que sabem muito
bem pastorear esses jovens irmãos e irmãs. Da mesma forma que aconteceu com
os trabalhadores, por volta da Revolução Russa, em 1917, quando esses obreiros,
organizados em sindicatos e partidos, foram de certa forma abandonados pela Igreja
e engrossaram as fileiras do comunismo ateu. Não há nisso uma crítica à opção po-
lítica legítima e necessária, mas sim a constatação de um dado, de que a instituição
Igreja foi negligente com essa população, afastando-a de si.
Quando falei sobre a questão dos presidiários, lhes relatei que no Brasil a grande
quantidade de jovens presos são pobres, negros, desvalidos e vítimas de uma política
equivocada de combate às drogas, que prioriza o castigo, o encarceramento em vez
de se preocupar com o resgate da saúde individual e pública. Disse-lhes que a ques-
tão das drogas deveria sair da esfera da polícia, da segurança pública e passar para a
esfera da saúde. Também falei sobre uma urgente, necessária, novíssima, inteligente
e atualizada legislação sobre o uso, porte e despenalização de determinadas drogas,
seus usos e suas consequências. Só isso poderá reduzir a vexaminosa, criminosa e
sofrida população carcerária existente em nossa América Latina.
Também na finalização do Encontro, quando me permitiram falar alguma coisa,
disse aos jovens de forma incisiva e olhando profundamente em seus olhos, citando
33
a lapidar frase de dom Pedro Casaldáliga: Na dúvida, fiquem com os pobres. Parece
que foi muito bem entendido por eles. Houve um profundo silêncio de todos...
Penso que um termômetro dos dias que estivemos juntos foi a nossa despedida.
Horas antes da saída das delegações, já se percebia um clima de tristeza e dor em
todos os presentes. Saímos todos banhados pelas lágrimas dos jovens que ficaram,
dos adultos que nos acolheram, enfim, cada um de nós foi tomado por uma grande
emoção que acompanhou nossas despedidas. Esse fato dá uma clara dimensão da
maravilha desses dias que juntos passamos.
Terminado o Encontro, eu e João Paulo viemos para a cidade de São José da
Costa Rica. Ficamos em um hostel pequeno e simpático bem no centro da metrópole.
Pudemos conhecer muito a cidade, seus entornos, lojas, livrarias, galerias de arte,
museus, bem como fazermos um passeio turístico com um guia local, isso juntamen-
te com os jovens chilenos. Eu e João Paulo conhecemos o vulcão Irazu, a cidade de
Cartago, antiga capital e onde se encontra o santuário nacional de Nossa Senhora dos
Anjos, padroeira do país, bem como a cidade praiana de Puntarenas. Também co-
nhecemos bares espetaculares, com deliciosas comidas e bebidas. Um povo alegre,
acolhedor e festivo, tanto quanto nós brasileiros.
Acredito que esse meu modesto relato possa trazer um pouco de informação e
também servir como um crédito de esperança para todos nós, que ansiamos pela vin-
da de uma nova e dinâmica geração de homens e mulheres para a perene continuida-
de de nossa pequena semente, da nossa porção de fermento na massa, nesse mundo
em que vivemos e para o qual aspiramos a vinda do Reino de Deus.
Quanto às conclusões do Encontro feita e escrita por eles mesmos, penso que foi
tudo muito bem explicado e relatado. Apenas diria que – no meu modesto modo de
ver – faltou nesses dias do Encontro uma mais incisiva discussão sobre os dilemas
vividos neste momento por alguns países da América Latina, que estão oscilando
entre ditaduras e estado de exceção, passando pelo nefasto liberalismo e os requintes
perversos do autoritarismo. Tanto à esquerda, como à direita, temos visto regimes
que se distanciam dia a dia da genuína democracia. À direita, podemos citar Argen-
tina, Equador, Brasil, Chile e Peru. À esquerda, dolorosas decepções como as que
temos acompanhado tanto na Venezuela como na Nicarágua. Há outros exemplos,
mas penso serem estes os mais candentes. Esse dilema deve ser motivo de profundas
reflexões entre nós. A história atual nos pede que não fechemos os olhos para essas
evidências. “Não podemos ser cães mudos, sentinelas adormecidas” (Ir. Carlos).
No mais, creio firmemente que este Encontro dos Jovens na Costa Rica foi sem
dúvida um auspicioso kairós para todos nós da Família Espiritual de Charles de
Foucauld.

Botucatu (SP), no dia 9 de agosto de 2019, comemorando Santa Edith Stein.


34
O QUE VIVENCIEI NA COSTA RICA
João Paulo de Caria

É difícil colocar no papel tudo que vivi neste encontro da Costa Rica. A partilha
do pão, das histórias de vida, do suor de cada um daqueles jovens a encontrar...
No meio deste ano de 2019 tive a oportunidade de conhecer um pouco mais da
nossa Fraternidade, a partir dos jovens. Junto com o amigo Renato Bicudo, aprendi
um pouco sobre alguns dos países da América Latina, suas diferentes economias,
seus problemas sociais, a luta da juventude que atravessa diariamente os centros
urbanos em busca de seus sonhos, nos transportes coletivos, entre universidades e os
escassos trabalhos para sobreviver.
Apesar disso, todos carregam também a esperança em outro tipo de sociedade,
formada, recriada em nossos passos. Passos, que se entrelaçaram nas montanhas da
Costa Rica e, cheios de alegria, viram que é possível acreditar em um novo tempo,
em outro mundo possível.
Fui muito bem acolhido, e rápido me adaptei às comidas, ao jeito, à língua, e,
assim, fui notando como o Amor verdadeiro rompe os muros ilusórios que por vezes
insistimos em cultivar. O café da manhã bem servido – com muito café, arroz e feijão
numa receita típica chamada “Gallo Pinto”, abacate, pão e ovos –, ficará para sempre
em minha memória como símbolo do carinho, da beleza e da presença de Deus nas
mais simples trocas, no cuidado, na busca do Bem Viver.
Percebi então que nunca haviam sido de nós desconhecidos aqueles rostos,
apenas não nos enxergávamos com total nitidez. A cada nova conversa, porém, a face
de Cristo se fazia presente, um por um, e ali nos reconhecíamos como irmãos, sem
euforia ou show pirotécnico. Era somente a graça de compartilhar nossas vidas de
peito aberto, através dos momentos de oração e da divisão das tarefas nas refeições
e limpeza do sítio que nos acolhia.
As distâncias geográficas e culturais passaram a nos aproximar, para nos
conhecermos melhor e aprendermos mais sobre os outros e sobre nós mesmos. Então
pudemos ficar à vontade para cantar e dançar “cueca”, tango, samba e saber mais
sobre o jeito de ser feliz nos vários lugares e regiões que habitamos.
Agradeço imensamente aos irmãos da Costa Rica que não poderiam ter nos
recebido melhor. Povo alegre, simpático, sempre disposto a ajudar...

E concluo com a expressão ouvida quase a cada momento, como sinal de


educação, de gentileza e certeza de que podemos ter empatia e estabelecer bons e
fortes laços com aqueles que cruzam nosso caminho: Pura Vida!
35
DESAFIOS PARA NOSSAS FRATERNIDADES LEIGAS:
MENSAGEM DE HONDURAS
Guillermo Rivera, Fraternidade de Honduras

Texto enviado para a Assembleia do Líbano, de 2018, mas que continua de grande
atualidade.

A partir do texto refletido por Benedito Prezia, do Brasil, por ocasião da


Assembleia do Líbano, foi possível perceber que as Fraternidades que nos precederam,
em muitos países, foram importantes protagonistas em seu tempo, na sua época, e
agora se vêm mais maduras, não conseguindo se renovar através de fraternidades de
jovens. Por outro lado, a proximidade que existe entre alguns países do continente
não tem sido favorável a essa renovação, sendo desconhecido o surgimento de novas
Fraternidades em outros países.
Diante dessa situação, consideramos que, neste milênio, principalmente de
2018 em adiante, devemos assumir novos desafios, sendo que alguns podem ser
comuns, mesmo que em cada região ou
país existam realidades diferentes. No
entanto, concordamos que as Fraternidades
do continente devem estar abertas a
mudanças e acolher as Fraternidades dos
jovens. Para se renovar, é preciso aumentar
a proximidade entre todos os países e,
especialmente, com as Fraternidades
nascentes.
...as Por outro lado, acrescentamos que
Fraternidades do nossas Fraternidades devem ser focos
de vocações, tanto para a vida religiosa
continente devem de nossa família espiritual, quanto para
leigos que optam por viver celibatários em
estar abertas sua secularidade como Jesus em Nazaré,
porque nem todos são chamados à vida
a mudanças matrimonial.

e acolher as Precisamos responder também ao


chamado do papa Francisco por meio de
Fraternidades sua encíclica A Alegria do Evangelho,
sendo discípulos e missionários, vivendo ou
dos jovens... trocando experiências missionárias entre
os países de nossas Fraternidades.
36
TEXTOS E REFLEXÕES

TEOLOGIA DO ESGOTO
Pe. Patrick Clarke*

Andar pelas ruas da cidade de São Paulo, o que faço


com frequência, é uma experiência provocativa: emoções e
reflexões abundam geradas pelo estado de calamidade em
que se encontra neste mundo subterrâneo onde homens, mu-
lheres e crianças, vivendo a face invisível da exclusão.
Há a sensação de que as ruas e as pessoas que as habi-
tam são um desfio não apenas para a política, a economia e
a fé religiosa, mas também uma interrogação para qualquer
pessoa que passa por aí, no que toca ao essencial da nossa
humanidade comum.
Esta verdade me veio de maneira bem forte, recente-
mente, enquanto caminhava em direção à estação Belém do
metrô. No caminho percebi um senhor se aproximar carre-
gando em dois sacos plásticos todos os seus pertences. Eu,
que tinha passado adiante, de repente parei para me indagar:
Por que eu não reparei na existência deste homem? Poderia,
no mínimo, ter feito algum gesto de reconhecimento. Uma
saudação de “bom dia! Como está?”
Nada disso fiz. Somente reafirmei aquilo que ele estava
cansado de saber: que ele era um ser inexistente.
Percebendo o que tinha feito, desci os degraus do metrô,
retornando ao local onde tinha visto o homem anteriormen-
te. E ai estava ele, sentado em um degrau de concreto ao lado de seus pertences.
Cabeça e ombros caídos, como se estivesse se protegendo da indiferença do entorno
que o cercava.
Ao aproximar-me, não quis assustá-lo, muito menos invadir seu mundo. Mas
consegui perguntar como estava. Se ele tinha comido naquele dia. E algumas outras
banalidades do cotidiano. Então, antes de me despedir, procurei algumas moedas no
bolso, porem, encontrei apenas uma nota de R$50,00 e uma barra de chocolate. E
agora? Depois de alguns momentos de hesitação estendi para ele as duas mãos.
“Vou escolher a barra de chocolate se me permitir, porque o essencial você já
me deu!” respondeu ele.
37
Enquanto seguia o meu caminho muita coisa passou pela minha cabeça: Grati-
dão por esta 'aula' gratuita no meio da rua; gratidão pelo professor andarilho sem lar;
gratidão pelo ensinamento de valores de simplicidade e dignidade. E gratidão pelo
insight que me remeteu ao grande educador e filosofo Paulo Freire: “Cada pessoa
que ensina também é um aprendiz. E cada um que aprende também ensina”. A rua
tinha reafirmado aquilo que Paulo Freire frisara no seu livro A Pedagogia do Opri-
mido. Mas, nem todos, sejam da rua ou de qualquer outra periferia, possuem o dom
de perceber isto. Muitos, se não a maioria, provavelmente internalizam o opressor.
Consciência crítica nenhuma!
Sorte para nós no início do nosso trabalho sócio pastoral nas favelas da região
Leste da cidade de São Paulo na década de 1970. Paulo Freire voltava dos seus
dezesseis anos de exilio. Por causa dele, começamos a entender a abordagem es-
trutural, e não apenas individual, relacionada às questões da miséria daquela época.
Abordagem esta que exigia respeitar os valores daqueles que são marginalizados.
Ou seja, conforme esse educador era essencial juntar a JUSTIÇA, a CARIDADE, o
PÃO e a POESIA.
Pessoalmente a primeira tentativa neste sentido iniciou-se com um projeto de es-
goto numa das maiores favelas da cidade. A questão, segundo Freire, não era simples-
mente chegar e 'decretar a solução’, dizer que o esgoto cheio de ratos é um desastre.
O essencial era toda uma abordagem pedagógica junta com a comunidade e que
precisava se iniciar na escuta das estórias contadas diariamente pela boca do povo.
Neste exercício, a história mais contada era sempre de cunho religioso.
Críticos mais puristas teriam dito que tais conversas eram “conversas para boi
dormir”. Mas, para entrar no processo pedagógico de Freire, era necessário ser “uma
mosca na parede”. Assim, a gente foi se juntar aos frequentes encontros de oração
juntos com os ratos e o fedor.
A prática continuou durante um ano, indo de casa em casa. Finalmente, o povo
sacou que o padre também era um aprendiz, e que, embora ele tivesse “leitura”, ele
não sabia tudo! Em contrapartida, o povo, embora não tivesse “leitura”, sabia muita
coisa que o padre não sabia!!!
Cinco anos mais tarde, depois de muito cavoucar com pá, com enxada, até com
a mão, depois de muitas encrencas, lutas, decepções e momentos de graça em que
muita gente crescia em experiência, maturidade e estatura, a obra foi concluída. E os
ratos e o fedor se foram.
Era o inicio de uma longa estória daquela favela e do Movimento das Favelas em ge-
ral. Uma estória que continua até hoje. Que nasceu com a oração e continua com o louvor.

*Pe. Patrick é o coordenador do Sítio dos Anjos, em Ribeirão Pires, e da Comunidade Oscar Romero,
na favela de Vila Prudente, em São Paulo.

38
NOTÍCIAS DA FRATERNIDADE

URBANO POR ELE MESMO

Decidimos reproduzir um texto antigo em que nosso irmão Urbano faz uma
retrospectiva de sua vida e que foi publicado em nosso boletim (julho de 2008, p.
9). Poucos devem conhecê-lo e não sabem que a música que serviu de fundo para o
vídeo "Frutos do Deserto" é de sua autoria. Grande saxofonista, possui vários CD’s
de música religiosa.

Sou Urbano Medeiros, casado, pai de três filhos. Sou


saxofonista erudito e especializado em música do Oriente
Médio. Nasci numa família judaico-sefaradita (marrana), na
região do Seridó, no Rio Grande do Norte. Seridó vem de
Shirit-ó (= sobreviventes d’Aquele).
Meu pai é primo de minha mãe, um costume muito forte
em nossa região. Não somos judeus ricos, apegados ao dinheiro.
Não! Somos anawin [judeus piedosos], do “resto de Israel”...
Como Maria, a mãe de Jesus.
Minha família é toda formada de artesãos, ferreiros, músicos, carpinteiros e gen-
te que vem da zona rural. A carne preferida na minha região é a de carneiro. O porco
não é usado.
Os homens, geralmente, não vão à igreja. E quando vão, entram pelas portas la-
terais, de uma forma muito silenciosa e discreta, para não fazer genuflexão diante do
Santíssimo Sacramento. Muitos preferem ir à missa aos sábados, no velho costume
do Shabat judaico...
Existe o hábito de usar chapéu em lugares fechados. Há tantos e tantos costumes
judaicos que ficaram na cultura desse povo, inclusive aquela coisa de “olho por olho
e dente por dente”...
A família está sempre em primeiro plano. A mesa é farta e gostamos que acolher
as pessoas em nossas residências. A nossa música é muitíssimo parecida com a da
Palestina!
P.S. De Urbano recebemos uma rápida mensagem no dia 5/9: Que-
ridos irmãos. Sim, tô no SERIDÓ. Bastante doente da próstata, mas... lu-
tando muito. Abraço de fraternura a todos, como dizia nosso lindo Paulo
Freire.
Seu pequeno urbano e família

39
FRATERNIDADE DE CAMPINA GRANDE (PB)

Saudações, Fraternidade!

Somos a Fraternidade
de Campina Grande e vamos
contar nossa breve história.
Tudo teve inicio nos sonhos
de padre Paulo e de Dulce,
que desejavam uma casa
de acolhida, onde trabalha-
ríamos o acolhimento aos
pacientes e acompanhantes
dos hospitais que não têm
onde dormir, tomar um ba-
Fraternidade de Campina Grande (PB), por ocasião da visita de Euzimar, nho e fazer alguma refeição.
da Fraternidade de São Paulo, no ano passado (sentada ao centro). Vêm-se São pessoas pobres, que
Anilda e Edvando, antigos coordenadores nacionais, no canto à esquerda, e
Joana, atual coordenadora, em pé, à direita. vem de longe, sem dinheiro
e sem saber se voltam para
casa com um diagnóstico e o tratamento da sua enfermidade.
Também temos a realidade do bairro do Araxá, onde se encontra a nossa Casa
de Acolhida Rosa Mística, que faz frente a uma comunidade carente de políticas
públicas e a realidade de ver tantos jovens morrendo cedo com a violência. En-
tão abrimos espaço para atender também essa comunidade, apresentando bordado,
karatê, terapia comunitária, aulas de flauta em parceria com o SESI, e outras ati-
vidades.
Pe. Paulo já fazia parte da fraternidade sacerdotal e logo nos apresentou Charles
de Foucauld e sua vida com os mais pobres. Ficamos apaixonados pela ideia e foi
então, que em 2017, na Casa de Acolhida Rosa Mística, surge a Fraternidade Leiga.
Assim, nessa casa que acolhe a todas pessoas de Boa Vontade, independente de sua
religião, nós, leigos da Fraternidade, estamos trabalhando como voluntários.
Temos católicos carismáticos, seguidores da Teologia da Libertação, espíritas,
seguidores do candomblé e até quem não acredita muito na Bíblia por não aceitar
uma religião que só condena. Somos, pois, pessoas unidas no Amor. Em nosso grupo
algumas sabem ler, outras não. Tem gente com formação universitária e tem gente
com formação da escola da vida. Charles de Foucauld e Irmãzinha Madalena de
Jesus nos ensinaram a acolher o outro com o Amor de Jesus.
Joana D’arc Nascimento
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Lindolfo Euqueres, que já fez parte da Fraternidade dos Irmãos, mesmo morando
em João Pessoa, tem dado um grande apoio a esse grupo nascente. Em15/10 escre-
veu-nos: A Fraternidade de Campina Grande caminha bem. Dia 27/10 agendamos
nosso retiro, depois de muita conversa para encontrar uma data, quando as demandas
do dia a dia são tantas... Em geral eu animo o retiro, ajudo a organizar o roteiro a partir
de nossas conversas, pensando juntos os apelos, desafios, mas também o que celebrar.
Logo distribuímos as tarefas: liturgia-missa-adoração-deserto, alimentação, reflexão,
vivências com dança circular, contação de histórias, momentos profundos de silêncio e
muita escuta. Tudo simples, mas bonito. Estes são os tempos de contato mais forte que
tenho com a Fraternidade de lá. No retiro do ano passado, convidamos Raminho para
falar sobre a Irmandade do Servo Sofredor e sobre Alfredinho. Abraços.

SARAU LITERÁRIO DAS FRATERNIDADES DE SÃO PAULO

No dia 27/10 pessoas das várias Fraternidades de São Paulo participaram de um


sarau literário, organizado por Regina Mariano e pelo casal João e Zilda Coutinho.
Esse encontro ocorreu no Arsenal da Esperança, um maravilhoso centro que acolhe
diariamente 1.200 pessoas em situação de rua.
Éramos cerca de 30 pessoas, incluindo vários abrigados, que não só assisti-
ram, como também participaram do sarau com cantos e depoimentos. A presença
de jovens foi marcante, sobretudo da família de Regina Mariano, que reuniu três
gerações: mãe, filhas e netas. Além de poemas e textos em prosa, o sarau contou com
vários números musicais, sobretudo canto.
O sarau é uma tradição da Fraternidade de São Paulo, tendo havido cerca de oito
encontros ao longo desses anos. Convém dizer que as Fraternidades de São Paulo
possuem vários escritores com livros publicados, como Gislene Carvalho (Pés no
chão, Rastros, Lembranças feitas à mão, Tic-tac), João Raimundo Coutinho (Mis-
celâneas em prosa e em verso), Nicomedis Vieira (Memórias de minhas memórias),
Renato Bicudo (Chá de Lírio), Benedito Prezia (História da Resistência Indígena,
Povos Indígenas, terra, culturas e lutas).
Entre nós temos também outros escritores e poetas, e apesar de não terem livros
publicados, mostraram, em nosso sarau, ser de grande qualidade, como Maria Dilma
Watanabe e Tomás Padovani.
Não podemos esquecer de outros escritores com livros publicados, como Antô-
nio Celso Escada, de Fraternidade de São José dos Campos (Nos cantos da memória,
Memórias e Histórias), e Lourenço Marins, da Fraternidade do Rio de Janeiro (Tupã,
no mundo da Lua). Esperamos em outros boletins trazer textos desses nossos irmãos.
Benedito Prezia
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CARTAS DOS IRMÃOS/ÃS

Carolina Oliveira (irmã de Martha Menezes) – 29/8: Gostei muito do boletim,


sobretudo, com as notícias que trouxe. Vendo a foto de minha irmã chorei muito,
pois foi para mim uma grande perda. Mas me consolei, pois vi que outros partiram
também e que isso faz parte de nossa vida.
Vera – Fraternidade Rio/Niterói – 1/9: Quero parabenizar toda a equipe do bo-
letim. Ficou muito bom este último: textos, informações e homenagens às pessoas
queridas que nos deixaram. Adorei.
Renato – Fraternidade São Paulo - 4/9: Mais uma vez fomos brindados com um
belo e inspirado boletim. Ele realmente nos ajuda e dá força e alento para continuar-
mos na caminhada, sem esmorecer. Parabéns a todos nós!
Ir. Auxiliadora, das Irmãzinhas de Jesus – 4/9: Apreciei como sempre o boletim...
obrigada. Já passei pra frente depois de ler tudo. Gosto muito dessa partilha que vem
no boletim. Vamos indo... as idades avançam e as forças diminuem... Somos ainda
10 brasileiras vivas com a Fraternidade profundamente dentro do nosso ser. Um
grande e afetuoso abraço.
Bernadette Masereel – 5/10: Ontem consegui ler o boletim da Fraternidade do Brasil,
que recebi por e-mail. Fiquei surpresa pelo tanto que compreendi, e acredito que isso
foi devido ao meu conhecimento (moderado) do espanhol. Pude constatar que a Fra-
ternidade do Brasil está bem viva. Há muita juventude e muitos sorrisos e alegria. Ale-
gria! Isso é muito importante. Mesmo sem muito tempo, espero enviar-lhe de tempos
em tempos minhas notícias e espero que você faça o mesmo. Será uma ponte, entre ou-
tras, que podemos construir sobre o Atlântico, entre os dois continentes. É importante
construir pontes... Ouvi falar sobre o Sínodo da Amazônia, mas sem muitos detalhes.
Vou procurar informar-me melhor. Unidos em oração, fraternalmente,
Essa nossa irmã é belga e participou da Assembleia Internacional do Rio, em 2000.
Foi professora de História no ensino médio e fazia parte de uma Fraternidade na
Bélgica de língua francesa. Segue nova mensagem enviada por ela no dia 15/10,
contando mais sobre sua trajetória de vida:
Tive quatro filhos, sendo que o caçula faleceu há cinco anos, vítima de um acidente
de paraquedas, quando se chocou com o solo. Sobreviveu por 16 meses, embora
vivendo num estado vegetativo. Tenho seis netos, dos quais procuro me ocupar na
medida do possível. Vivo como “membro externo” de uma abadia de Irmãs Trapis-
tas, ramo feminino daquela mesma ordem onde viveu nosso Irmão Carlos após sua
conversão. Há pouco mais de um ano consegui formar uma pequena Fraternidade
que se reúne na minha casa, em Chimay. Abraços.
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Irz. Odila – 13/10: Irmãzinha Odila viveu longos anos na Fraternidade na Terra
Indígena Urubu Branco, do povo Tapirapé. Por falta de vocações, após a morte de
irmãzinha Veva, teve que voltar para França, a pedido da Fraternidade Central das
Irmãs. Embora longe, continua muito ligada ao Brasil.
Olá Márcia, que coisa boa receber o boletim assim via mail. Sou muito grata... e o
mandarei a algumas Irmãzinhas que sabem o português e a outros amigos/as, se eles
se interessarem... Nesse mês de setembro fizemos alguns encontros para celebrar os
nossos 80 anos de vida... Aqui na Europa e em outros lugares estamos "definhando"
em número... A vida dirá quanto tempo resistiremos como grupo, mas como espiri-
tualidade a Fraternidade seguirá ... Assim avalio...
Ainda me sinto como num terreno entulhado e muito diferente. Mas vou devagar... Nes-
ses dias o Partido Comunista Francês fez sua festa anual em Paris... Um dos meus irmãos
foi... Não pude participar, pois já tínhamos vários eventos... mas por meu irmão vou
tentar conhecer uma amiga do MST. Parece que mora aqui e é brasileira ... Assim é, dia
após dia vamos tecendo as relações e as atividades... Depois tentarei partilhar do que li
e vi no boletim ... Gosto muito do contato que tenho via Whatzapp... Um abração amigo.
Pe. Tiago – 16/10: Voltei agora para diocese de Cahors, no sul da França, diocese que
me ordenou e que me enviou para Brasil, onde passei 30 anos, como sacerdote Fidei
Donum. Tive alegria de conhecer vocês, irmãos e irmãs da Fraternidade Leiga do Brasil,
vivendo no discipulado de Jesus de Nazaré e na escola do irmão Carlos. Quero agradecer
a cada um de vocês e manifestar a minha comunhão e gratidão. Aqui, na França, me
pediram para acompanhar a Pastoral dos Migrantes e dos Ciganos. Assim me sinto feliz
em continuar no caminho, com vocês, a serviço dos mais empobrecidos e necessitados.
Sou grato por ter a felicidade de poder acompanhar a vida da Fraternidade pelo Boletim.
Deus queira que o Sínodo da Amazônia ajude o "velho mundo" a acolher "os novos
caminhos" para Igreja. Continuemos em comunhão orante e no serviço missionário, na
escola do irmão Carlos e no seguimento de Nazaré. Comunhão, gratidão e abraço
fraterno, Pe. Tiago Hahusseau.

CELEBRAÇÃO E ABERTURA DOS 60 ANOS


DA FRATERNIDADE SECULAR NO BRASIL
No dia 1º de dezembro, domingo, às 10h, na Casa de Oração do Povo da Rua, em
São Paulo, haverá uma celebração festiva, marcando a abertura do 60º aniversário
da Fraternidade Secular no Brasil.
Essa missa contará com os membros das Fraternidades da região de São Paulo,
com amigos e pessoas próximas à Fraternidade.
Endereço: Rua Djalma Dutra, 3 - Bairro da Luz (acesso metrô Luz, entrando pela
Rua 25 de janeiro).

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ORAÇÃO A NOSSA SENHORA APARECIDA,
PADROEIRA DO BRASIL

Mãe de Jesus, Senhora Aparecida,


padroeira do nosso Brasil,
ajuda-nos a construir, na justiça e na paz,
o Brasil que sonhamos.
- Ajuda-nos, ó Mãe Aparecida!

O Brasil da reforma agrária e da agricultura familiar,


sem latifundiários e sem fome.
- Ajuda-nos, ó Mãe Aparecida!

O Brasil da floresta respeitada,


das águas limpas e livres, da ecologia integral.
- Ajuda-nos, ó Mãe Aparecida!

O Brasil da educação, da saúde e do trabalho


para todos os filhos e filhas do Brasil.
- Ajuda-nos, ó Mãe Aparecida!

O Brasil sem violência e sem drogas,


sem imoralidade e sem corrupção.
- Ajuda-nos, ó Mãe Aparecida!

O Brasil religioso,
adorador do Deus da Vida,
uma grande e alegre família
de irmãs e irmãos verdadeiros.
- Ajuda-nos, ó Mãe Aparecida!

Orai conosco, conosco caminhai,


no seguimento de Jesus,
na procura e na esperança do Reino.
Amém, Axé, Awiri, Aleleuia!

Pedro Casaldáliga

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