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O GLOBO ● PROSA & VERSO ● PÁGINA 2 - Edição: 20/11/2010 - Impresso: 18/11/2010 — 22: 55 h PRETO/BRANCO

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PROSA & VERSO O GLOBO Sábado, 20 de novembro de 2010
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UM NIILISTA NA ÁFRICA • Continuação da página 1

‘Caridade não tira países da pobreza’


Economista do Banco Mundial critica exploração de saberes africanos e denuncia perseguição política em Camarões
AFP / Issouf Sanogo / 17-03-2009

ENTREVISTA PRESIDENTE essa cerimônia de luto se trans-


formasse num caos sangrento.
de Camarões
Célestin Monga Foi lamentável.
desde 1982,
● Como você vê o regime de
Paul Biya Paul Biya hoje?
O GLOBO: “Niilismo e negritu-
de” aborda saberes tradicionais recebe o Papa MONGA: Dizer que o regime é
africanos com um olhar cosmo- formado por pessoas sem visão
Bento XVI em nem estratégia seria banal. O
polita. Como se dá na África o
equilíbrio entre a preservação 2009: Igreja mais grave é que a miséria ma-
das tradições locais e a necessi- terial se transformou em miséria
tem “relação afetiva e psicológica, a tal ponto
dade de integração econômica e
cultural com o resto do mundo? incestuosa com que cada funcionário regional,
CÉLESTIN MONGA: A África já sobretudo se afunda sob o peso
regimes de um título oficial vazio, se jul-
está bem integrada econômica e
culturalmente com o mundo, opressivos”, diz ga constantemente obrigado a
mas segundo termos que lhe se humilhar para merecer a con-
Célestin Monga sideração do “Grande Mestre”.
são desfavoráveis. Um exemplo
simples: “Waka waka”, a última Suas atitudes se explicam se
canção de sucesso da colombia- pensamos em nossa história po-
na Shakira, nada mais é que uma lítica violenta e no caráter da so-
reprise de uma música do grupo ciedade que construímos. A des-
camaronês Zangalewa. Shakira e confiança e a suspeita dominam
seus produtores na Sony Music as relações sociais. Todos têm
ganharam milhões, enquanto os medo da própria sombra e das
pobres artistas camaroneses palavras do outro, consideradas
que a compuseram apenas ou- a priori perigosas. Escutar o ou-
vem falar dela. Acabo de voltar tro, abrir-se ao outro, é conside-
de uma viagem à China, onde vi rado desonroso. Nesse maras-
indústrias que exploram moti- mo psicológico geral, os ho-
vos e padrões desenhados pelas mens no poder são, paradoxal-
mulheres do Mali para produzir AP / Remy de la Mauviniere / 20-12-2001 mente, os mais vulneráveis. Eles
lindos tecidos, que são vendi- ções, desempenhando um papel absurdo. Entre meus autores depois da independência de Ca- são os que mais têm a perder e
dos ao redor do mundo sem que de assistentes sociais, de men- preferidos estão Emil Cioran, marões e cresci sob o autorita- por isso preferem encobrir sua
as africanas lucrem com isso... A tores, de confidentes e até de Fernando Pessoa, Schope - rismo do partido único que ho- fraqueza com uma agressivida-
questão fundamental é desen- psiquiatras. Mas a instituição re- nhauer e Nietzsche. Mas entre mens como Senghor haviam de primitiva.
volver uma estratégia de gestão ligiosa na África funciona como minhas influências filosóficas teorizado. Por isso me sinto dis-
de seus saberes num mundo as burocracias dos antigos par- conto também minha avó Mami tante dele. ● Existem forças de oposição
“globalizado”. Trata-se de se or- tidos únicos. Muitos de seus Madé, uma senhora de quase 90 ativas no país?
ganizar para continuar a par membros exploram abusiva- anos que vive num vilarejo nas ● No livro “Um banto em MONGA: Existe por todo lado
com o mundo, participar ativa- mente sua posição de “reserva montanhas do oeste de Cama- Washington”, que será publica- no país um imenso estoque de
mente das trocas intelectuais, moral” para satisfazer suas fan- rões e ainda trabalha dez horas do no Brasil em breve, você vontade, energia e criatividade.
culturais e econômicas, renovar tasias de poder. Outros são pa- por dia. Também admiro o filó- narra os episódios que levaram Mas as instituições públicas e
constantemente sua criativida- ranoicos e veem o mal por todo sofo camaronês Fabien Eboussi à sua prisão em 1991. Esse tipo privadas não chegam a canali-
de preservando seus interesses. lado. Prisioneiros de sua amar- Boulaga, o historiador senegalês de coerção política ainda existe zar essas forças para o bem es-
É o que o poeta e ex-presidente gura e nauseados pela perma- Cheikh Anta Diop, o sociólogo no governo de Paul Biya? tar coletivo. Os camaroneses
senegalês Léopold Sédar nência em querelas étnicas mi- camaronês Jean-Marc Ela; os es- MONGA: Infelizmente, sim. também têm dificuldade de tra-
Senghor (1906-2001) chamava croscópicas, eles vivem mal sua critores Sony Labou Tansi (Con- Ainda que as técnicas de auto- balhar coletivamente. Resulta-
de “o encontro do doar com o vocação e se perguntam por que go), Chekih Hamidou Kane (Se- ritarismo estejam um pouco do: nossa capacidade de ação é
receber”, uma expressão muito não são promovidos a “funções negal), Mongo Beti e Paul Da- mais sofisticadas, sobretudo limitada, apesar da profusão de
bonita. Ninguém pode fazer isso importantes”. Recitam as Escri- keyo (Camarões), entre outros. contra personalidades de talentos. A verdadeira transfor-
sozinho. Os Estados precisam O POETA Léopold Sédar Senghor turas e carregam a cruz de Jesus maior destaque, os reflexos são mação que devemos buscar é
organizar seus quadros institu- sobre o coração, mas são habi- ● Que papel tiveram na sua for- os mesmos. Jornalistas pouco em nós mesmos, em nossa for-
cionais e regulamentares para programas sanitários. Mas ele tados por uma dose de cólera e mação os intelectuais do movi- conhecidos, mas que incomo- ma de agir e no grau de exigên-
esse tipo de coordenação. não pode ser a receita mágica maldade que espantaria os per- mento Negritude (corrente de dam muito, são intimidados — cia que estamos dispostos a
do desenvolvimento. O proble- sonagens menos recomendá- pensamento que defendia a va- alguns desaparecem misterio- adotar em nosso cotidiano. Os
● Como funcionário do Banco ma de muitos países africanos é veis da Bíblia. lorização da cultura negra em samente, outros são presos e líderes de oposição precisam
Mundial, acredita na necessida- acreditar que o Banco Mundial países africanos colonizados)? torturados até a morte nas pri- sair de seus egos para realizar
de de auxílio internacional à pode resolver seus problemas ● Como sua noção de “niilis- MONGA: Um papel essencial, sões. O mesmo regime conti- um trabalho político verdadei-
África? Que tipo de auxílio? por eles. Isso os coloca numa mo” pode ajudar a pensar a mas minha “negritude” não tem nua no poder. Em agosto, fui a ro que permita eleições justas e
MONGA: Nenhum país em de- posição de auxiliados perma- África contemporânea? Que nada a ver com a deles. Quando Camarões para a cerimônia fú- livres. Só a ação política de ba-
senvolvimento saiu da pobreza nentes. Acostumar-se ao auxílio pensadores mais influencia- encontrei Aimé Césaire na Mar- nebre de Pius Njawe, o jornalis- se, fundada em ideias novas e
por causa do auxílio ou da cari- é nefasto como todo vício, pois ram seu trabalho? tinica, em 1988, disse a ele que ta com quem fui julgado em críveis e em soluções concre-
dade internacional. O desenvol- infantiliza e desresponsabiliza. MONGA: Quis mostrar outras era o homem da minha vida, e 1991. Ele faleceu num acidente tas para os problemas econô-
vimento é o resultado de um Áfricas, aquelas que invalidam ele sorriu. A leitura de seu livro automobilístico durante uma micos e sociais do país, pode
processo endógeno pelo qual os ● “Niilismo e negritude” tem os clichês. Quis compreender a de poemas “Caderno de um re- conferência em Washington e produzir alternância de poder.
agentes econômicos de um país passagens críticas sobre a in- extravagância da bondade em torno ao país natal”, aos 15 sua família me convidou a ler Também seria ótimo se a comu-
se organizam para mobilizar os fluência da Igreja Católica como lugares onde se supõe não ha- anos, me ensinou sobre a impor- um texto em sua homenagem. nidade internacional parasse
fatores de produção, como a for- “instituição social” em Cama- ver nada além de sofrimento. A tância do amor-próprio. Eu o ad- Havia cerca de 20 mil pessoas de menosprezar as demandas
ça de trabalho, o capital e os re- rões. Quais são os pontos mais esperança é a verdadeira maté- miro muito. Por outro lado, em- no funeral. No momento em de liberdade que vêm de todo
cursos naturais, para criar ri- negativos dessa influência? ria prima e verdadeira riqueza bora eu considere Léopold Sé- que me levantei para ler, vi cor- canto na África. Quando os ci-
queza e aumentar constante- MONGA: O histórico das igrejas da África, mas se trata de uma dar Senghor um grande poeta, rer em minha direção um indi- dadãos saem às ruas da Ucrâ-
mente a produtividade. O auxí- da África é manchado pelos esperança niilista, confinada, era a meu ver um intelectual me- víduo agitado, acompanhado nia, da Geórgia ou do Irã exigin-
lio ao desenvolvimento não po- equívocos coloniais e assom- sensata. O niilismo não é apenas diano e um político medíocre. de um soldado. Era o governa- do liberdade, os dirigentes oci-
de substituir esse processo in- brado por sua relação incestuo- uma “mortal fadiga de viver, Seus 15 primeiros anos de poder dor local que, agindo em nome dentais escutam. Mas se a mes-
terno. Ele pode contribuir, de sa com regimes políticos opres- uma morna percepção da inuti- no Senegal foram autoritários, de seu presidente, vinha arran- ma coisa acontece em Cama-
forma marginal, para a constru- sivos. Muitos homens e mulhe- lidade de todo esforço”, como ele nunca conseguiu libertar seu car o microfone de mim. A mul- rões, Quênia ou Senegal, nin-
ção de infraestruturas ou o fi- res de igreja fazem um trabalho dizia Paul Bourget. Na África, é imaginário dos estigmas da co- tidão ficou furiosa e queria lin- guém em Washington ou Bruxe-
nanciamento da educação e dos honorável em prol das popula- sobretudo uma celebração do lonização francesa. Nasci logo chá-lo. Mas não deixamos que las presta atenção. ■

[FICÇÃO][FICÇÃO][FICÇÃO][FICÇÃO] um chinês ocidentalizado e se-


Sudd, de Gabi Martínez, tradução

Nos pântanos da África Central


dutor, o comandante do navio
de Mario Fondelli, Editora Rocco, e sua filha Leila, que se inicia
336 páginas, R$ 53,50 nas artes da navegação e usa
Elias Fajardo nelas a habilidade que adqui-

O
riu manejando videogames.
personagem principal O navio encalha entre duas
deste romance do es-
critor catalão Gabi
Em romance de Gabi Martínez, o multiculturalismo vai parar num atoleiro ilhas e o suspense cresce.
Quem irá retirar sua tripulação
Martínez é o pantanal de uma armadilha que parece
da África Central, uma das vel de situações e cenários, dade podem também aconte- fatal: o trabalho coletivo e bra-
maiores áreas alagadas do mais sua narrativa ganha em cer em meio ao sufoco? É pos- “HÁ MOMENTOS EM QUE O IMPENSÁVEL DÁ UM PASSO ADIANTE çal de tentar abrir caminho em
mundo, com seus meandros interesse. E isto ocorre não sível haver entendimento e e toma corpo na consciência, assumindo outra dimensão. meio a uma vegetação intrinca-
enganadores, no qual enormes exatamente pela carpintaria amizade entre seres de raças e Quando, por exemplo, achamos que um homem possa nos da; a esperteza das lideranças
massas vegetais dificultam a dramática, mas por que dela nacionalidades diferentes, ou devorar. Quando os pesadelos e a ficção das histórias em ou daqueles que pretendem li-
navegação. As margens e a ter- emergem momentos de dolori- as relações entre eles são ine- quadrinhos, os contos, as notícias referentes a lugares derar ou, finalmente, os pró-
ra firme parecem apenas uma da humanidade. vitavelmente distantes se apresentam como parte da realidade, quando prios desígnios da natureza,
miragem neste labirinto de Uma viagem marcadas pelas a emoção e o pavor acumulado ao longo dos anos, as que paira acima de todos, indi-
fronteiras movediças onde ho- programada para diferenças cultu- conjecturas alinhavadas como que num jogo coincidem. ferente às súplicas e ao desejo
mens e animais se perdem e se ser um veículo de rais e por interes- Tudo se torna uma coisa só, e aquilo que no começo era de tentar dominá-la?
acham, uma metáfora viva que integração nacio- ses econômicos e fulgurante diversão transforma-se pouco a pouco em Um dos pontos altos do ro-
o autor compara à imensidão nal e internacio- políticos? O que é inquietação que lateja à espera da sua hora.” mance se dá justamente quan-
gelada dos pólos, vórtice devo- nal num país afri- mais temível: as do o navio encontra uma comu-
rador de esperanças de aven- cano que se recu- dificuldades obje- Trecho de “Sudd”, de Gabi Martínez nidade perdida que vive no
tureiros e de pessoas comuns. pera após uma tivas que uma si- pantanal praticamente sem
Ultrapassar o labirinto guerra sangrenta tuação limite co- contato com o resto do mundo.
aquático sem GPS é bem mais torna-se um pesa- loca para aqueles aprofundá-las. A linguagem, o gay e mal humorada; Wad, um De um lado, a miséria dos tripu-
difícil do que encarar as 50 pri- delo, a bordo de que a vivenciam instrumento básico de comu- negro enorme, ex-guerrilheiro lantes à deriva no grande char-
meiras páginas do romance, uma nau de de- ou o medo e as nicação, funciona aqui tam- acusado de matador implacá- co; de outro, o olhar curioso
nas quais Martínez — autor da sesperados onde fantasias que se bém como uma ferramenta de vel e acometido de um desejo dos nativos que aprenderam a
novela “Ático”, de livros de há espaço para desenvolvem a poder e de barganha financei- intenso de não matar mais; As- viver na água, num cemitério de
viagens e outras obras que o intrigas, mortes, desejo, pre- partir delas? Essas são algu- ra, mas esse poder pode ser chuak, uma pintora egípcia navios, às custas dos restos
tornaram uma referência no conceitos, estranhamentos mas das questões levantadas, esvaziado com a mesma facili- que se mantém escondida no que a civilização abandonou ou
jornalismo literário espanhol mútuos e barganhas de todos principalmente, através do dade com que o sol evapora as camarote guardado zelosa- perdeu e que eles aprenderam
— apenas arma situações e en- os tipos. O homem é sempre o narrador, um tradutor espa- águas barrentas do rio. mente por Wad; Osman, um a utilizar e a fazer frutificar. ■
gendra personagens. Quanto lobo do homem quando a água nhol que manipula palavras Na extensa galeria de figu- político árabe hábil e disposto
mais ele se afasta do jornalis- e a comida se tornam escas- para aparar arestas entre a tri- ras exóticas de “Sudd” desta- a explorar a seu favor todas as ELIAS FAJARDO é jornalista e
mo enquanto registro perecí- sas, ou a alegria e a solidarie- pulação do navio ou para cam-se uma bióloga francesa vicissitudes da viagem; Chang, escritor