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Freirinha - M.

Delly
Biblioteca das Moças
Volume 61
Freirinha
Tradução revista por ERNANI R. DE LIMA
14ª edição
Companhia Editora Nacional
Do original francês: La Petite Chanoinesse
Proibida a reprodução, embora parcial,
e por qualquer processo, sem autorização expressa dos editores.
Direitos para a língua portuguesa adquiridos pela
COMPANHIA EDITORA NACIONAL
- São Paulo, SP - Brasil
1983 - Impresso no Brasil

Digitalização e revisão: Zaira
08 de abril de 2008

"Nem a distância, nem a morte
podem romper o verdadeiro amor,
que tanto mais se vai entranhando
no coração quanto mais se vê privado
de expansão exterior".
Lacordaire

CAPÍTULO I

NAQUELA tarde de setembro, os hóspedes de Ogier de Chancenay tomavam chá no convés do seu iate,
ancorado num portozinho italiano. De lá via-se a aldeia, com as casas espalhadas em pitoresca
desordem, os jardins meio ocultos pela folhagem de enormes figueiras carregadas de frutos, os seus
bosques de oliveiras e laranjeiras acariciados pelo sol, que declinava. Barcos de velas pandas
avermelhadas vinham regressando, cheios de peixes e guarnecidos por homens de tez morena, que
saudaram, de passagem, aos estrangeiros, indo fundear ao largo do porto, onde as mulheres de cabelos
castanhos, meio encobertos por um lenço escarlate, já aprestavam para carregar o o produto da pesca.
Crianças, tão morenas como os pais e as mães, corriam de um lado para outro, descalças, perseguindo-se
umas às outras, com gritos estridentes, como gralhas, em tardes de verão.
William Horne, jovem inglês, de fisionomia inteligente e viva, disse então ao vizinho, o rotundo barão
de Pardeuil:
— Bela aldeia, hein?
O outro estirou o beiço, num trejeito que certamente supunha do mais agradável efeito:
— Bela?... Ora! Todas se parecem!... Para mim, como sabe, a natureza...
E castanholou com os dedos.
William, reprimindo usm sorriso brejeiro, perguntou-lhe:
— Por que aceitou então o convite de Chancenay para este cruzeiro? Você vai entediar-se
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profundamente, uma vez que a vista destas deliciosas paisagens nada lhe desperta.
— Oh!! não me entediarei! Come-se admiravelmente em casa de Chancenay! Tem um cozinheiro, que é
verdadeiramente um artista!. . . Além disso, como achar longo o tempo em tão amável companhia?
E o barão passeou o olhar pelos convidados masculinos, detendo-o sobre uma linda cabecinha loura,
muito elegante, que se balouçava numa cadeira e falava pelos cotovelos com os vizinhos.
Dificilmente lhe atinaríamos com a idade, tal a frescura do rosto, entretida com muita arte. E não menos
indeciso se tornaria o seu estado civil, caso algum curioso encaminhasse suas pesquisas para esse lado.
Dizia-se francesa, viúva de um húngaro, e fazia-se apelidar por condessa Doucza. Calculava-se todavia
que, tendo uma filha de vinte anos, deveria estar na casa dos quarenta. De inteligência mediana, mas
insinuante e hábil, sabendo adaptar-se a todos os ambientes, conseguira — muito embora pertencesse,
como é costume, a um meio social «indefinido», muito cosmopolita e pouquíssimo escrupuloso quanto
ao capítulo da moral, — fazer-se recebida, mais a filha, na melhor sociedade devido à usual tolerância
mundana de nosso tempo.
Fora assim que Ogier de Chancenay as havia conhecido, alguns meses antes, numa festa de caridade,
organizada pela tia, a viscondessa de Challanges, onde ele comprara algumas flores à bela Sari Doucza.
Havendo esta dado a entender que simpatizava enormemente com ele e que não seria difícil conquistá-la,
Ogier tornara a vê-la de bom grado, pois achava-a interessante e não lhe seria desagradável, de modo
algum, mais essa fantasia que amanhã sacudiria de si como já o havia feito a tantas outras.
Aliás, o juízo que formava da mãe e da filha resumia-se claramente no fato de serem a senhora Doucza e
Sari as únicas senhoras que figuravam entre os conhecimentos masculinos, mais ou menos íntimos,
convidados para esse cruzeiro.
Como ninguém imaginava concorrer como rival do conde de Chancenay, todas as homenagens,
desviando-se da segunda, confluíam para a bela viúva, que as recebia com amável serenidade, dando
todavia alguma preferência ao senhor de Pardeuil que se desfazia em gentilezas.
Só William Horne permanecia insensível. Com sua fleuma britânica, entretinha-se a estudar o caráter
dos companheiros de bordo, acompanhando com olhar tranquilo o namoro do primo Ogier com Sari
Doucza.
— Ei-los de volta, Chancenay e a jovem Doucza! exclamou ele.
Todos os olhares se dirigiram para o porto. O escaler do iate ia-se a pouco e pouco afastando da terra,
banhado pela luz do poente, que lhe arrancava cintilações dos metais, e envolvia com seus raios ainda
quentes os dois jovens sentados à popa.
Sari havia retirado o chapéu, que depusera sobre os joelhos. O sol acariciava-lhe meigamente os cabelos
louros, um tanto ruivos, tomados em grandes bandos, que apenas permitiam ver-se-lhe o rosto de feições
delicadas, a pele fresca e os olhos cinzentos-escuros muito expressivos, nesse momento inteiramente
ocupados no senhor de Chancenay... Era em verdade linda, essa jovem cosmopolita, visivelmente
enamorada do sedutor fidalgo, sentado a seu lado, esse belo Ogier de Chancenay, cuja atenção era
solicitada pelas mundanas mais em vega.
— Estão-se tornando escandalosos... segredou ao ouvido de William Home o senhor de Pardeuil, cioso
do seu hospedeiro.
O inglês, dando ligeiramente de ombros, replicou, algo desdenhoso:
— Oh! Há muito já que ela acabou de se comprometer!... Já agora, pouco mais, pouco menos...
A senhora Doucza, abanando-se, dirigiu um olhar interessado para os que ocupavam o escaler. Ã luz do
ocaso, desenhava-se, nítida, a silhueta do senhor de Chancenay: rosto de traços firmes, a fronte um tanto
altiva. Vincava-lhe o canto dos lábios uma ruga de contrariedade; mas os olhos belíssimos, de reflexos
alaranjados, consideravam, complacentes, a bela a quem pareciam fascinar. Afinal, sorriu-se satisfeita,
sorriso que ainda mais se acentuou a esta reflexão de um dos vizinhos:
— Sua encantadora filha, minha senhora, parece agradar extremamente ao senhor de Chancenay!
Ao que a viúva replicou modesta:
— Realmente, é muito gentil a minha Sari, e agrada-me ver que o nosso hóspede a aprecia como ela o
merece.
Aproximava-se do iate o escaler, deixando atrás de si uma esteira luminosa. Finalmente abordou,
dirigindo-se imediatamente os dois jovens para o convés, onde Sari, logo ao chegar, exclamou com ar
trágico:
— Adivinha, mamãe, a desgraça que nos sucedeu!
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— Desgraça?!... Que desgraça, meu anjo?
— O senhor de Chancenay acaba de receber na posta-restante um telegrama de avô comunicando-lhe
haver falecido, lá para os lados do Jura, ou não sei onde, uma de suas velhas parentas... É necessário que
ele siga para lá, a fim de tratar das exéquias, e pôr em ordem os negócios dela, pois a herdeira é a
marquesa de Chancenay...
— O pôr em ordem os negócios, interrompeu Ogier, poderia ser adiado; mas as exéquias, essas não
podem ser adiadas. Assim, pois, esta noite o iate nos conduzirá a Nápoles, onde tomarei o primeiro trem;
mas meu primo fica encarregado de lhes fazer as honras da «Libélula», como se fora eu mesmo. Logo
que souber quando poderei voltar, telegrafarei para uma das escalas preestabelecidas, onde os senhores
me aguardarão.
Houve exclamações e palavras de pesar... A senhora Doucza, porém, náo pôde dissimular uma real
consternação.
— Mas não poderá o senhor mandar substituir-se por alguém?... exclamou ela. Por outro parente
qualquer?...
Ogier franziu ligeiramente a testa, ao mesmo tempo que respondia em tom breve:
— Ninguém. A mim é que cabe esse dever, e não tenho nenhum motivo sério para subtrair-me a ele.
Sari deixou-se cair numa poltrona, enviesando à mãe um olhar de descontentamento. Ambas
perceberam, ao mesmo tempo, que o senhor de Chancenay não suportaria semelhante ingerência nos
seus negócios de família, ou em outros quaisquer.
Ogier, sentando-se ao lado do primo, tirou de um dos bolsos algumas cartas, entregando-lhas.
— Aí tens, são para ti, Willy.
— Obrigado... Foi a senhora de Valheuil quem morreu ?
— Foi. Com ela extingniu-se esse ramo da família, estabelecido no Condado desde cerca do século
XVI. Eu nunca a vira, e dela só conhecia o que me havia dito minha avó. Era, ao que parece, uma
criatura muito original. Enviuvando muito moça, sem grandes bens de fortuna, vivia há cinquenta anos
retirada num velho solar, ocupando-se exclusivamente em obras de devoção e caridade. Minha avó
mantinha apenas com ela relações por escrito, e isso mesmo uma vez por ano.
— Então, disse William com um meio sorriso, a sua herança não aumentará sensivelmente os teus
cabedais...
Ogier sorriu por sua vez, estendendo a mão para apanhar um cigarro de cima da mesa, colocada ao seu
lado.
— Sim... Um casarão em ruínas, ninho provavelmente de ratos, e uns magros rendimentos. .. E esses
mesmos talvez estejam destinados, por testamento, a obras pias. Aliás, a pobre senhora tinha razão para
assim proceder, pois sabia muito bem que nem meus avós nem eu estamos passando necessidades...
Houve uma risadinha, à volta dele, entre as quais a de Sari, algo estridente.
A moça, enterrando-se numa funda poltrona com seu vestido de branco, divertia-se em fazer saltar,
lentamente, na ponta dos dedos, de unhas muito polidas, a pequena forma de palha fina, guarnecida de
um imenso tope de plumas cor-de-laranja, que lhe servia de chapéu. Por baixo das pálpebras
semicerradas, não desviava, porém, o olhar de Chancenay, que fumava displicente, como distraído,
lançando de quando em quando uma palavra na conversação, enquanto um raio de sol lhe beijava os
cabelos, de um louro carregado, macios e ondeados, e lhe incendiava os belos olhos castanhos, nos quais
Sari, ao invés da paixão que desejava ver, apenas lobrigava, sob a meiguice encantadora do olhar, muito
de ironia... E, de si para si, dizia a moça, ainda uma vez, com certa cólera: «Há nele alguma coisa que
me escapa, e que eu receio me escapará sempre...»
Pouco antes do jantar, entrou Sari no camarote da mãe. Esta, já toda preparada, estava a compulsar umas
cartas postas em sua frente, sobre a secretária. À inopinada aparição da filha, não pôde aquela reter um
movimento de contrariedade, chegando até a fazer um gesto para esconder as cartas na gaveta.
Sari, porém, pôs-se a rir:
— Oh! mamãe! Não sei por que ocultas de mim a tua correspondência! Eu não ignoro que estás
encarregada de ministrar informações a certas potências, que desejam engolir, mais dias menos dias, a
França, e, com esta, toda a Europa. É o teu ofício, que eu não condeno absolutamente, tanto mais quanto
esse teu traficozinho nos permite levar esta vida mundana, que tanto apreciamos. . .
Mesmo falando em voz baixa, a mãe fez-lhe sinal para que se calasse, segredando-lhe em seguida:
— Ninguém sabe... É preciso muita prudência...
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.. já não teremos então necessidade . depois de aceitarem o amor que se lhe ofereceu.. seguido pelo criado. a senhora Doucza. que pairava por cima dos prados e da torrentosa ribeira.. A estima deles vai para as almas virtuosas. Não será... Ogier desceu do trem. O senhor de Chancenay. que.. estendia-se uma bruma. Sou apenas uma simples distração.. querida! aprovou a mãe.. — Assim espero. Sim.. Interrompeu-se. como vai isso ? Vai indo conforme os teus desejos ? Sari sacudiu a cabeça. inquieta. há alguma coisa que não posso definir.. minha filha. CAPÍTULO II Eram quase dez horas quando. fitando os olhos no vácuo.. nesta terra.. os lábios.... Na plataforma. a minar a menina honesta — e até afetar alguma devoção. finge que lamentas as leviandades passadas. — Não. Os homens gostam muito que as mulheres tenham religião. . às vezes. como a do velho castelo! E Celestino apertou. com ligeiro sorriso. mas. dando de ombros: — Porque são assim os homens! Depois que certa mulher se comprometeu por eles.. faz-se muita conta disso nas rodas frequentadas pelo senhor de Chancenay. porém. — Bom. Ogier pôs-se a caminho. Aí está uma idéia que não é para desprezar ! Sempre poderei experimentar. a propósito. perguntou: — Como estão o senhor marquês e a senhora marquesa. — Creio que nos despreza! rugiu Sari. Demais.. já o aguardava o criado. — É muito natural. que desicia das montanhas. desprezivelmente. Mas é preciso que o consiga. Saindo da estaçãozinha. que parara na estaçãozinha de Gouxy.. coisa fácil.. senhor conde. brilhou um clarão de contrariedade. Vamos lá! Fica longe daqui essa aldeia? — Cerca de um quarto de hora.. as roupas necessárias para a cerimónia.. — Oh! que idéia! Por que dizes isso? E Sari. Recordando-se do belo sol que 4 . entregando-lhe a maleta. no dia seguinte. a lhe saírem das mangas muito curtas de gaze cor-de-rosa.. entre dentes. Sobre os bosques.. Mas... ainda que o ame por ele mesmo. — Pois bem muda de tática: finge-te a convertida. cumpre deixar de vez esses negócios. oh! sim. porque é muito orgulhoso. orgulhoso de tudo. Creio que surtirá efeitos magníficos. — Não é preciso carruagem. desejo-lhe também o nome e a fortuna! — Também penso assim. que se tornaram quase negros. apoiou no espaldar de veludo os braços nus..— Está bem! Serei prudente.. — Sim. Isso. Eu bem que procurei uma carruagem. . Divirto-o eis tudo. murmurou Sari. confirmou a mãe. repetiu a senhora Doucza.. e que por isso não acho duro onde morder. de folgazão elegante. já sabes. . dá ótimo resultado. é necessário que eu me torne sua esposa! Porque. E creio-te hábil demais para o conseguires. vê se pões em prática esse novo plano quando ele regressar. De resto. que no próximo inverno será substituída por outra. realmente.. o que nos reservam em troca é tão-somente o desprezo.! É uma natureza cujo ponto fraco ainda não surpreendi.. lhe fora levar.. que a custo se via através desse véu cinzento.. não vai como eu quisera. só existem carriolas. es lábios contraídos. Sim. se conseguires que ele te ame bastante para te oferecer o nome? Sari teve um ímpeto de cólera: — É justamente por isso que ele não oferecerá. que nos aborreçamos durante alguns meses.. Orgulhoso do nome.. É sempre muito senhor de si. Celestino? — Muito bem.. O olhar sombrio de Sari irradiou por instantes... . Vale a pena. Nos olhos.. chegado na véspera. Mas que te importa isso. ou então traquitanas que datam de Matusalém. se algum dia eu chegar a ser condessa de Chancenay. eu bem o sinto! Sob aquela aparência de mundano. . — Naturalmente! Aliás.. muito alvos... a mandado do avô. — Que te parece ? — Decerto. E. Certa reserva. a simular remorsos. — Demais?... para essas que denominam «mulheres irrepreensíveis». A manhã estava úmida e sombria. gosto muito mais de andar a pé. ou desdém. — Como? Não vai bem? perguntou.. Pondo um dos joelhos no divãzinho colocado ao pé da secretária. senhor conde.....

Então... Encontraram-na. vindo ao seu encontro. até amanhã. enquanto Ogier continuou a subir a estrada até uma bifurcação. algumas cabeças. porém. sobre o limiar alto. continuou a avançar o senhor de Chancenay. O senhor de Chancenay entrou para o salão. Há. como a denominam. por demais agradável essa distração. os seus olhos ternos. Ogier perguntou. porém.. senhor conde.. Serão muito modestas. «Não me demorarei aqui!» disse entre si. pela estrada que subia agora sensivelmente. velha e acachapada. porém. Venho justamente de rezar pela senhora de Valheuil.. o parente da senhora de Valheuil. muito móveis. cuja morte é uma grande perda para esta paróquia. Das janelas. é isso mesmo o que eu desejo. senhor conde. essas excelentes amigas da falecida. e muitos exclamavam ou diziam: «Belo rapaz!» Na estrada. retirou-se.. revelando-lhe ousadamente o amor que ele lhe inspirava. as suas finas feições. e desejasse recuperá-la o mais depressa possível. preparada para morrer. a que precedia um pátio fechado por simples cancela de madeira. inteiramente em V.Sari. o «Prado- Bento». Ao aproximar-se. sob essa luz cinzenta. e o padre. — Fiz tudo do melhor modo que pude.. — Perfeitamente. tiver ainda algumas instruções complementares a dar. senhor padre. que o senhor de Chancenay logo reconheceu como o de um padre. senhor conde algum inconveniente em que as exéquias sejam celebradas amanhã. Se V. E. auxiliado pelas senhoras de Prexeuil. passando por diante da igreja. viu-se subitamente diante da aldeia. sua santa parenta. conhecidas aqui pelas «três freiras». já previsto pelo médico. Qualquer que fosse a opinião que Ogier pudesse ter a respeito das mulheres. um tanto escuro. Confio.. Voltando-se para o criado. Foi uma virtuosa senhora em toda a extensão da palavra. já sem vida. —_Sou o cura de Gouxy. A porta. Excia. — Muito bem. em particular. e apenas iluminado pelos 5 . A casa da senhora viscondessa. pelo contrário. Todas as persianas das janelas estavam descidas.. Achava- se. Chancenay sentiu um arrepio de aborrecimento. cujas cortinas estavam cerradas. desenhou-se um vulto escuro. que o seguia a curta distância. sempre em aclive. curiosas. — Eu apenas a conheci de nome. robusto. estava inteiramente aberta. Ogier viu uma mulher já idosa. De que morreu ela? — De um colapso cardíaco.. Enquanto caminhava. «Logo que terminem as exéquias. A Ogier era-lhe.. em geral. Assim informado. porém. e de Sari Doucza. lisonjeava-o ver-se o objeto desses apaixonados sentimentos. Se o senhor conde quiser entrar. Penetrando no vestíbulo. que buscavam sempre os dele. ia evocando a silhueta viva e delicada da bela húngara. senhor cura.. senhor conde.. que se insinuava por entre as velhas pedras. perguntou-lhe: — O senhor é o conde de Chancenay? — Sim. debruçavam-se. muito amigas da senhora de Valheuil. senhor conde. onde residem três senhoras. senhor cura. que é realmente encantadora». Bem o adivinhara . apenas de dois degraus. erguido ao pé de uma larga torre quadrada. no limiar das portas surgiam mulheres e crianças.. antiga construção de aparência pesada e triste. Chegou afinal à aldeia. a santa criatura.. designando o velho solar: — É aquela a residência da senhora de Valheuil? — Não. fisionomia serena e inteligente. ao dizer que não passava para ele de um divertimento. para que agora lhe sentisse as saudades. para ver o estrangeiro. Cruzaram-se os olhares de ambos. Dominava-a um velho castelo.. A uma curva da estrada. peço-lhe que tenha a bondade de comunicar durante o dia. apertando a mão que lhe estendia o senhor de Chancenay. que continuava para além da aldeia. conforme os desejos da falecida. às dez horas? — Nenhum.acabara de deixar.. Rosália. dominadas estas por umas cabeças de mulheres esculpidas em granito. vou de novo ao encontro da «Libélula» e dessa Sari. indo ao encontro de Ogier. uma distração de momento. que se apresentou por si mesma: — Sou. Absolutamente nenhum. fica entre o castelo e a aldeia.. viu-se ele em frente de um moço. esverdeada na base pelo limo. senhor cura. pela manhã. Aquele é o castelo de Prexeuil. a criada da senhora de Valheuil. Há muito tempo já que minha avó a não via. de onde um caminho mais estreito o conduziu até uma grande casa vermelha. Revma.. estamos pois combinados neste ponto. que está a par dos costumes da terra e das vontades da senhora de Valheuil. aos quais entretanto não correspondia. de altas chajminés.

caminhava com andar elegante. O senhor de Chancenay intimamente pensou: «Celestino falou-me de três freiras.. de certo. . é a terceira das freiras!. baixando a voz: Quem é aquela moça ? — A senhora condessa Bathilde de Valromée. — É freira. da pobre senhora viscondessa. que amparava com ambas as mãos. À proporção que este se foi aproximando. o senhor de Chancenay se retirou da sala. Trajava um vestido preto e simples. Este. erguia uma velha cisterna. ao fundo do vestíbulo. contemplando disfarçadamente a desconhecida. rezando no seu rosário. todas floridas. que se ondeavam de cada lado da frente bem modelada... plantadas de arbustos cuidadosamente aparados. disse entre si. introduziu-o Rosália num grande quarto mobiliado de carvalho antigo. e o cabido a recebera aos dezesseis anos. ao mesmo tempo que se inclinava um pouco. e ainda muito jovem. continuava a desfiar por entre os dedos as contas de marfim.. correndo ao encontro da menina. prendendo uma cruz de ouro esmaltada. porém. apertando de encontro ao seio flores de vários matizes. Atraiu a atenção de Ogier um vulto feminino. freira de um cabido austríaco. sim. . depois de ter mudado os seus trajos de viagem. chamava a moça: — Rosália! Por favor. evidentemente. no qual Celestino já havia preparado a instalação do amo. Embaixo. Dando alguns passes para a escada. vestida de preto. — Que idéia extravagante! comentou Ogier em voz alta. meu rico.. senhor conde. e a sobrinha.. Ogier espargiu sobre o caixão umas gotas de água benta.. acendendo um charuto. Eram muito amigas. Elys de Valromée. Erguendo o rosto um tanto pálido. em postura respeitosa. — Oh! murmurou. ergueu-se nas patas traseiras para apoiar as dianteiras nos ombros da moça. À direita. a fim de resguardar as flores. como. que não pensava do mesmo modo. Esbelta. Chancenay distinguia-lhe agora o delicado oval do rosto.. sobre o qual se definhavam flores sem perfume. Custa-me muito chamar-lhe senhora. diga-me cá. à saudação do conde. uma larga fita azul caía-lhe sobre o peito. pendia um salgueiro tristemente os seus ramos. de olhos baixos. de olhos tranquilos. a sua curiosa ferragem do século XVI. despediu o criado e. suspensa de uma fita azul-rei. a delicada alvura da tez. E.. que andava por uma das alamedas. nomeadas pelo cura. . não muito alta. E. acima dos bordos desmoronados.. que abriu. Numa poltrona estava assentada uma senhora ainda moça. a jovem Elys. E.. . desviou-se com o corpo. No primeiro andar. os cabelos castanhos penteados em bandós. latindo alegremente. saiu da casa um cão Terra-Nova. . de que começavam a cair as folhas. os finos lábios purpurinos. Mas. e prestado grandes serviços.. começava o jardim. que elevava. uma cruz idêntica à que trazia a senhora Bathilde de Valromée. venha buscar Liau. forrado de preto. essa que ali está? — Sim. a senhora condessa Antonieta de Prexeuil. continuasse a rezar.círios que ardiam ao redor do ataúde. esta senhora é uma das tais. uma das damas do castelo. Pouco mais além. Mas essa é encantadora!. que agarrou o cão pela coleira. perguntou ainda o senhor de Chancenay: — Tem então essa condessa Bathilde uma sobrinha já em idade de ser freira? — É como diz. Ogier viu-lhe então sobre o peito. porém.. os olhos sempre baixos. — Quer o senhor conde subir para o seu quarto? — Sim. percebeu o conde que era o de uma moça. formado de estreitas platibandas. indo encontrar no vestíbulo com a criada que o aguardava. harmonioso.» Esperava que a desconhecida lhe dirigisse a palavra. forrado de crepes cor-de-granada. nestes dias. Desse lado. . também uma das amigas da falecida. não. ao mesmo tempo que ia 6 .. aproximou-se de uma das janelas. Esta. quero dizer a senhora Elys de Valromée. conservando-se por instantes de pé. a senhora Elys completou há pouco os seus dezoito. levando-o consigo.. têm todas vindo velar-lhe o corpo. Não. A senhora Bathilde há de ter bem os seus quarenta. senhor conde. Os cabelos castanhos formavam-lhe nas fontes dois bandós muito lisos. correspondeu ela. . Notando-lhe em seguida os longos cílios negros. como a tia. que me faz cair as flores! Apareceu então a criada. vivamente interessado: «Desejaria ver os olhos dessa deliciosa criatura!» Nesse momento. com uma inclinação de cabeça. todas três. — Não... os seus largos degraus de carvalho bem encerados.. Liau! exclamou uma voz de timbre puro. hoje não se brinca! Mas o cão. Esta.

que foi a alegria da minha velhice.. o senhor é um perfeito fidalgo como todos de sua raça. perguntou se o senhor de Chancenay aprovava as disposições tomadas.. se curvasse para os roçar com os lábiosI a freira os recolheu. e o jardim recaiu de novo em silêncio.. o que não lhes impediu de serem...» Ao terminar o tabelião essa leitura. não. como os de outra. Entrando em casa.. a mãe do nosso cura. considerável aos seus olhos de modesto tabelião provinciano. Viu-se pois em frente de uma velha dama. regressou à sala.. — Não.. Deve ter sido muito orgulhosa outrora. Ogier travou conhecimento com a condessa Antonieta de Prexeuil.» CAPÍTULO III À tarde. Entrementes.. para que ainda se dê esses ares altaneiros de grande dama. Cortou em meio a frase. pudesse parecer desagradável um ato de cortesia. senhor conde. encerrado na minha caixa de jóias... E estendeu ao rapaz os dedos engelhados. murmurou. alta e forte. «Mulher singular!. Enquanto durou a conversa com Ogier. a que me acostumaram desde menino. num movimento rápido.. onde acabava de se passar a cena com a senhora Antonieta de Prexeuil. Ao senhor de Chancenay. a que pertenciam ela e suas sobrinhas. em seguida. dizia consigo Chancenay: «Espero que não obrigue ao voto do celibato esse cabido. Talvez a idade lhe haja transtornado as idéias. a linda freirinha desapareceu. em companhia de Rosália e da senhora Dambry. cujas feições conservavam ainda traços de beleza. Mas à sua linda sobrinha. a este ruim Liau. porém. não!» Deu alguns passos pelo salão da biblioteca. Esta noite há de ficar de vigília minha sobrinha. A essa. Nada mais simples. por fim. mandara acrescentar a senhora de Valheuil: «Desejo que o meu leque do século XVIII. — Perfeitamente.. Quanto ao dinheiro — uma centena de mil francos —t distribuíra-o por obras diversas. não é assim ? Eu parto amanhã. sobre o vestido preto. No final do testamento. para se despedir do rapaz. e no olhar com que envolveu o senhor de Chancenay podia entrever-se hostilidade. a casa do «Prado-Bento». que vinha informá-lo de que o notário acabava de chegar e desejava falar ao senhor conde.. declarou: — Vou passar uns momentos junto à minha pobre amiga. comunicou o senhor Boudard — homenzinho de tez amarelada... muito avarento. sim.dizendo: — É que a menina o mima tanto. . Ela viera rezar junto ao esquife de sua amiga... não sem alguma altivez: — Nunca imaginei. reverendíssima senhora cônega.. com uma cara sofredora — que a falecida legara à prima marquesa de Chancenay. à paróquia de Gouxy e à velha criada Rosália. inclinando um pouco a cabeça. Ogier disse-lhe num tom aprovativo: — Muito bem! O senhor liquidará isso por correspondência com minha avó. Mestre Boudard. vai às maravilhas o título de freira ou cônega. senhor.. Eh! Quer-me parecer que essa tia deve velar como um dragão por aquela pessoazinha!. eu sentiria muito mais prazer em beijar as encantadoras mãozinhas entrevistas por mim esta manhã!. — Sim. e. não se lhe adoçou. E o homenzinho contemplava maravilhado esse elegante fidalgo. bem sei. pois seria realmente um crime!.» Interrompeu-lhe estas reflexões a entrada de Rosália. Não é gentil evidentemente. Teve algumas palavras de elogio e saudade para a senhora de Valheuil. revidou. pois não é agradável o beijar a mão às velhas. as insígnias do cabido.. senhora.. não podia compreender. 7 . surdamente irônica. aliás muito breve. com sorriso algo escarninho: «Naturalmente. algo deformados pelo reumatismo.. que se não deixava facilmente embaraçar.. . desceu a cumprimentá-la. Não se dê a esse incômodo. com os móveis e algumas jóias de família. que até aprovava tudo. pensou Ogier. parecia bagatela ao senhor de Chancenay. Ogier.. não. que havia dado ordem de o prevenirem. espontaneamente... É inútil!.. Trazia também.. sequer por um instante. a fisionomia severa e fria. e o senhor de Chancenay. sentindo-se penetrado de beata admiração ao pensar que tal soma.. pois tenho amigos à minha espera. seja entregue à minha cara amiguinha Elys de Valromée.. e. A voz era breve. Como ele. que não tivera sequer o menor gesto de contrariedade ao saber que a fortuna da sua parenta ia passar a estranhos.

pouco antes da hora prefixada para a cerimónia. porém. energia bastante para sacudir de si esse despotismo. tudo isso representava para ele uma maçada da qual desejava. porém. foi horrivelmente infeliz com o casamento.. Dona Antonieta. essa pobre moça? Rosália ergueu os olhos para o conde. uma razão. não era desagradável. de modo a fazer-lhe esquecer a «Libélula».. que ele se contentou desta vez em apertar. Principalmente com um rapagão como o senhor. — Extraordinário!. No vestíbulo do primeiro andar.. em louvor de nossa amiga. não veio hoje.. estendendo-lhe a mão. ansiando pelo dia seguinte. pela última vez. se for possível. tanto quanto possível... e a voz. os olhos meigos de Sari. quanto a isso. «Se ao menos aqui estivesse a linda freirinha. pois era-lhe indiferente a morte dessa parenta desconhecida. — Mas isso é odioso!. Ogier fez vigília até meia-noite. — Pois é muito original essa madre cônega de Prexeuil! Creio. antes que chegassem os 8 . O sobrinho. mantinha ela essa mesma distinção da tia. quanto antes.. o senhor de Chancenay encontrou ali as três freiras. hora em que se recolheu de novo aos seus aposentos. E a mulherzinha hesitou.. não sabe ainda o que é a vida... ao entrar na câmara ardente. Quando.. não. o sol da Itália. Mas que motivo terá para assim detestar os homens? — É que uma irmã mais moça. que a sobrinha terá.. e é preferível que seja sempre assim. No seu vestido muito fora da moda. trocou ela algumas palavras com Ogier. Visitam apenas alguns vizinhos que têm filhos muito crianças. de timbre um tanto grave. Essa viagem. irmão de dona Bathilde. ver-se livre. Que idéias? — Que a menina Elys não deve casar. explicou: — Nós desejaríamos rezar. quando alguém tem as idéias de dona Antonieta. encontrou-se com Rosália.. senhor conde.. senhor conde. ou não têm nenhum. a fim de espairecer o tédio...». Ogier conteve a custo um sorriso ante o olhar admirativo da velha criada.. — Que tem isto ? Não vejo razão para que não venha hoje. Há sim. E que diz. para tomar o seu lugar nessa fúnebre vigília. Desta vez. dizia ele entre si. — Perdão. eu já desconfiara. Então a senhora de Prexeuil. Ogier foi passear pelo jardim.. ainda não conhece nada do mundo.. Aliás.. o senhor conde está aqui. com um olhar de constrangimento ou receio... «Eu quisera ver-lhe os olhos. plantou-se-lhe diante. muito tranquila.. Você me disse que ela tem vindo todos estes últimos dias. Talvez venha esta noite com a tia. senhor conde. como o tem feito.. Boa noite. Ela não tem esse direito.. .. a ponto de morrer de desgostos. — Não conhece ainda o mundo. foi também mau marido. — Como?.. deliberou consigo que outro destino teria a jovem Elys. que já havia impressionado ao senhor de Chancenay. o notário se afastou. era contudo de fisionomia simpática. senhor conde. como não casou também dona Bathilde.... — Oh! mas é terrível essa senhora cônega!. Demais. todos estes últimos dias.. e a cerimónia da manhã seguinte. antes de acrescentar: — É que hoje. mas. porém. com a qual. tornou a entrar no salão. viu que lá estava somente a senhora Bathilde em companhia de uma criada. medindo a passos largos os estreitos arruamentos do jardim. senhor conde. perguntando-lhe: — Parece-me que Elys de Valromée não veio hoje? — É como diz. . os que os têm.» Mas. Afastou-se respeitosamente a criada. cerca de nove horas. para retomar o trem. Rosália! * * * Na manhã seguinte. aliás. Então a tia proíbe-lhe que se aviste com os homens a fim de evitar que ela se apaixone por algum deles ? — Sim. que já havia impedido a sobrinha de casar-se. Sem ser bela. exclamou o senhor de Chancenay.. a vida corre sempre a mesma.. o tempo detestável não lhe podia proporcionar uma impressão favorável da aldeia.. porque dona Antonieta é de uma vontade que se não dobra e jamais mudará de idéias!. Ele. que haviam acabado de chegar... rezar com as tias ao pé do corpo da velha amiga. que viera buscar um xale para a mãe do cura.. timidamente. de futuro. são postos à margem. não é verdade ? — Sim. educada por ela como filha. os olhos bem rasgados. essa breve estada no «Prado-Bento». serenos e meigos.Quando depois de muitos e diferentes rapapés. — Ah! ah!. . Sim. em nada se parecia. Em Prexeuil e aqui.. desejando ao senhor conde muito boa noite. .

porém. devem ser azuis. Dirigindo-ise. via-se Ogier sozinho. ao lado da tia. e explicava agora o profundo desprezo que se continha no gesto do dia anterior.. em pouco tempo. Começaram a chegar os convidados.convidados.. castelões dos arredores. Ao erguer a cabeça... compreendeu o senhor de Chancenay a atitude de tal dama. este para logo arrojava de si a rápida impressão que elas aí haviam deixado. Havia muitos anos que a alma se encontrava na indiferença. todo cor-de-cinza à luz dessa manhã soalheira. sob aparência cética e frívola. Os bosques.. Sentiu-se. alcançou o cortejo o cemitério. voltou Ogier a cabeça e deu alguns passos para o sítio em que elas se achavam. Terminado o desfile. Disse-lhe. indo em seguida cumprimentar as senhoras de Prexeuil. que a condessa de Prexeuil lançava a uma parte da humanidade. englobado no geral anátema. encarou rápida e discretamente a moça — o bastante para verificar que nunca olhos mate belos haviam iluminado feições mais encantadoras.. se não fora essa encantadora freirinha. pois. Assistirá ela ao almoço ? Com certeza a tia não lhe permitirá. acercaram-se do féretro quatro robustos aldeões. edificiozinho ogival.. que ele queria livre e descuidada. foi o esquife deposto. incomodá-las. Depois do que Rosália lhe havia dito na véspera. via o senhor de Chancenay o severo perfil de dona Antonieta. que se conservavam um pouco afastadas.. à conta do seu sexo. Todavia. algumas reflexões tentavam incutir- se-lhe no espírito. porém.. Caminhando depressa.» Na capelinha. a senhora de Prexeuil. passeando o olhar pelas velhas abóbadas. São eles que dão tanto encanto a essa fisionomia. que quase lhe ocultava inteiramente a senhora Bathilde de Valromée e a sobrinha. Disso1 aliás. ao perceber que eram apenas duas. longe desse perturbador espécime do sexo detestado. ia ele refle-tindo: «Que cor terão os seus olhos? Pareceram-me azuis.. mas sem cordialidade.. de passagem. onde temos de receber os seus hóspedes. Coava nesse dia a manhã. muito mais bem disposto para com as pessoas e coisas de Gouxy. Ouvia ele distraidamente os cantos litúrgicos. a ela. do outro.. Dona Antonieta havia mandado a sobrinha para lugar seguro. onde a religião era considerada como simples acessório e não como fundamento da própria vida. pois. Além disso.. que marginavam o rio. que vinham espargir sobre a mortalha algumas gotas de água benta. pediu-lhe Ogier cortesmente: — Quer ter a senhora a bondade. rendeiros. Voltando um pouco a cabeça. que o capricho da velha não lhe permitia admirar à sua vontade. que. estava ali a interessante castelãzinha. em cima de um cavalete. Dos prados. foi o senhor de Chancenay eolocar-se em uma das alamedas. a velha dama com fria polidez: — Quer o senhor conde tomar lugar em nossa carruagem? Chegaremos assim mais depressa ao «Prado- Bento». ocultava uma alma impressionável de artista. pôde a custo refrear o desejo de renovar logo o seu exame. por vezes. Não quero. Ogier afastava-as da sua própria existência. dispostas com delicado gosto. Davam-lhe os convidados. que eu apenas pude entrever . Seguiram-no Ogier e os convidados. muito azuis. pelo altar adornado de flores. que me são completamente desconhecidos?.. Sentia-se.. a alguns passos da capela funerária.. — Muito agradecido. Ogier inclinou-se diante de dona Bathilde e de Elys. Profundamente impressionado. condenada ao celibato.. que.. os seus pêsames. Em seguida apareceu o cura. haviam-se colocado as três cônegas. é costume oferecer-lhes? Aquiesceu gentilmente. que lhe não perdia de vista os movimentos. fruto de sua educação demasiado mundana... Lá estava porém essa terrível tia. o seu busto corpulento. vinha um perfume de erva fresca e terra úmida. lá estarei. A agreste beleza dessa paisagem. Camponesas. Prenunciadas as derradeiras preces. no primeiro plano. Enquanto caminhava maquinalmente. uns fracos raios de sol. que se conservara de pé. Se. ao que parece. pois que destarte teria ensejo de contemplá-la à vontade.. agora libertos da bruma. por entre as nuvens. eu bem que o desejaria. destacavam-se nítidos pelas encostas das serranias. Por uma estrada em aclive. E mais. pouco se lhe daria. levantaram-no e levaram-no.. Respeitador das crenças de seus pais. de apresentar-me aos convidados. quando lhe recusara a mão ao beijo cortês e atencioso. a conversarem em voz baixa uns com os outros. 9 .. com o sacristão e o acólito. executados com melhor vontade do que apuro musical. a luz algo velada dessa manhã agradaram a Ogier. auxiliar-me em fazer as honras do repasto. Sim. para logo. já que é uma das amigas da casa. entre círios. um tanto escura. Do lado dos homens. cuja beleza tão profundamente o havia impressionado. Mas conteve a custo um gesto de contrariedade.. pelas estalas de carvalho e pelo tapete já gasto do coro. Pronunciadas as orações da encomendação do corpo.

a fazer prevalecer a sua vontade. Notou-lhe o senhor de Chancenay. Quando. hoje muito amarelecido. A carruagem é espaçosa.».. de certo. velha caleça.. — Acreditava. é possível que a conserve. pois..» E evocava mentalmente as feições ainda moças. Julgou. no correr do almoço. o senhor de Chancenay subia radiante a estrada que ia do «Prado-Bento» ao castelo de Prexeuil. no dia seguinte. eis aí! Willy continuaria a fazer as honras do iate notificando aos hóspedes do primo que este ainda se via retido. Mas bem podia ser que a tia. brilhou um lampejo de satisfação. 10 . o porte elegante e desempenado de sua frívola avó. Ã senhora de Chancenay não preocupavam absolutamente os sentimentos graves. Sim. outrora branco. dentro do qual se continha um velho e magnífico leque do século XVIII.. velho cocheiro. mais gentil fosse a transmissão efetuada pelo próprio neto e mandatário da herdeira.. continuou a senhora de Prexeuil: — O senhor conde não tenciona.. só porque durante quatro séculos vinha sendo habitado por membros da família. Nos olhos azuis. minha senhora! Tencionava até partir hoje mesmo. época de sua construção. Mas a «Libélula». os cabelos sempre louros. velha libré preta com alamares brancos. senhor conde. o culto do passado. esse conjunto um aspecto de antiga aristocracia. » Idéia esta que ainda mais se lhe aferrou. Ora.. Sim. nada teria realmente que opor a respeitável madre cônega!. havia ele comunicado a dona Antonieta esse legado feito à sobrinha. lá num rincão de província. Era o pretexto. todavia. Depois de curto silêncio. aquiesceu Ogier. logo que lhe anunciassem o terrível visitante. algo amortecidos. «E a bela Elys está escondida. Mas foi sempre lícito mudar o homem de idéia. dando-lhe instruções. dizendo-lhe: «Com que então. dissimulando um sorriso: — Sim. porquanto não lhe seria de nenhuma utilidade. a si mesmo prometia Ogier que essa tia aristocrática. e disse entre si: «Está satisfeitíssima com a minha rápida partida. Tinha... e terminou por perguntar: — Julga o senhor conde que a senhora sua avó conserve esta casa? — Tenho as minhas dúvidas. não nos incomoda absolutamente. Durante o trajeto.. mas talvez espere até amanhã de manhã.... Neste pressuposto. .. levando na mão um longo porta-jóias de pele.. não levaria a melhor! Haveria certamente de achar modo de oncontrar-se amiúde com a menina. adeus! CAPÍTULO IV Ora... referiu-se dona Antonieta à falecida. não é verdade? — Oh! não. mercê de alguns artifícios. da velha senhora. que bem se casava com a aparência das castelãs. . Ora! vê-lo-iam um pouco mais tarde. Ã sombra. a senhora de Valheuil que não a venderiam. Parecia-lhe evidentemente o cúmulo do absurdo conservar um velho solar. desde criança. louvando-lhe a caridade. . lembrasse de enviá-la para longe dali. concluiu. estacionava a carruagem de Prexeuil. que lhe não arme alguma para que a senhora madre saiba que me não deixo colher nas malhas do seu maquiavelismo!. contudo. comprazendo-se em os derribar quando lhe surgiam pela frente. contanto que ele visse a encantadora Elys.. demorar-se aqui muito tempo. senhor conde.. o senhor de Chancenay. à noite. pois achava-me justamente realizando um cruzeiro pelas costas da Itália. que excitara o desdém de Celestino. demorar-se-ia ainda por alguns dias ali no «Prado-Bento». minha senhora. que o tolhia de ver a encantadora Elys. velhos cavalos. quando me chegou a notícia do falecimento. uma vez que faz parte do património da família desde o século XVI.— Não. a fim de altcançar um trem mais cómodo.. — Em todo caso. levava sempre a mal os obstáculos que se lhe deparavam. devo dizer-lhe adeus?» respondeu ele. acrescentando que o senhor Boudard ficaria encarregado de lho transmitir sem demora. Ogier lhe escrevia a respeito. Na véspera. pouco depois. quanto a isto. a discreta bondade. à conta dos negócios da sucessão. no seu íntimo. acompanhando as cônegas até fora do cemitério. Tendo por descortesia o escusar-se ainda uma vez ao convite. Afeito. dizia ele consigo: «Eu tenho certeza que não!. tudo iria às mil maravilhas. Mas. falar-lhe dar-lhe a conhecer o que era uma admiração masculina. Eh! senhora cônega! Não sei onde estou. lhe apresentou dona Antonieta as suas despedidas. Já nessa mesma tarde.. ao mesmo tempo. e os amigos.. e Sari?.. não posso dizer com certeza o que dela fará minha avó. Tenho alguns amigos à minha espera. Sim.

e o quanto esta era boa. isso era apenas um brinquedo. Ogier deu então alguns passos ao seu encontro: — Perdoe-me.. serviçal. pagava bem a pena de uma visita a dona Antonieta! — Oh! sim. ela. — Aqui o tem.. senhorinha. bem como a saia preta de graciosas pregas. Mas venho justamente para lhe entregar a lembrança legada pela senhora de Valheuil à sua cara amiguinha. Lançou-lhe Ogier um olhar. todavia. ele bem que os via. ao mesmo tempo que um ligeiro rubor lhe carminava a cútis delicada. O rubor continuava. 11 .. por momentos. Para um esportista como ele. teve um movimento de surpresa. com esse rubor.. Evidentemente. acompanhada agora pelo senhor de Chancenay. E. — Oh! não. Pobre e querida senhora de Valheuil! Ah! desta vez. e ouvir-lhea voz de timbre encantador. Parecia um tanto embaraçada.. Com um brilho de triunfo nos olhos. irritava-o como em geral sucede àqueles acostumados a ver apressar-se toda a gente.. por momentos. portanto. mas sem os apuros da moda. Como era linda essa jovem castelã. alcançava a encruzilhada do caminho.. justamente nesse momento... mas receio ir incomodá-la... a linda freirinha... desembocar na estrada.. senhorinha. a lhe tingir as faces. de talhe elegante. eles se marejaram de lágrimas. para si mesmo.. timidamente. Ogier começou logo a falar-lhe da falecida amiga. sem dúvida.. que ela recebeut agradecendo. absolutamente! E a moça continuou seu caminho. inclinando ligeiramente a cabeça. continuou a caminhar.disse-lhe Elys o afeto que consagrara à senhora de Valheuil. Como trazia na mão o chapéu. que. iluminados da mais pura luz. Lépido e rápido. para corresponder-lhe a saudação. num misto de satisfação e desafio: «Se alguma vez encontrar sozinha a vossa Elys. A senhora sua tia já lhe falou. a respeito ?. Ã vista do estrangeiro. se baixaxa tímido sob o do rapaz. caiu-lhe o olhar num atalhozinho. contemplou-a Ogier. mais ou menos servilmente.Urgia pois surpreendê-las. que conduzia ao castelo. não muito longe provavelmente do castelo. Quase no mesmo instante apareceu Elys. Quem sabe se talvez não passara a lembrar-se de súbito do descontentamento provável da tia?! Porém.. Moldava-lhe a curva harmoniosa das espáduas a blusa branca.. senhor conde. não estava afeita a ser acompanhada por jovens e elegantes cavalheiros como esse. senhorinha! Sentir-me-ia muito feliz em poder apresentar os meus respeitos à senhora sua tia. interposta ao seu desejo pelo que ele chamava «a idéia fixa de uma solteirona rancorosa». Nesse momento.. atencioso e encantador. por sobre os quais flutuava a sombra dos longos cílios castanhos. a alguns metros da alameda de nogueiras. Emprestava-lhe a comoção um brilho ainda mais ardente ao olhar. que vinha por ali caminhando com seus passinhos miúdos e ligeiros. Caminhava com porte harmonioso ao lado de Ogier. esses lindos olhos da freirinha! Eram azuis. decerto. E Ogier estendeu-lhe o escrínio. algo comovido. com certeza. senhora de Prexeuil. derredor sua riqueza e posição social. — Sim. de poder agradecer-lhe também. aveludado.. Minha tia gostaria... à recordação da boa amiga desaparecida. se a interrompo. esse olhar orvalhado. Mas refletiu logo: «Esse caminho vai. cuja alvura acetinada não tinham conseguido alterar o sol e o ar do campo. deixando ver as delicadas presilhas dos pezinhos arqueados. Urge. esses labiozinhos trêmulos! O prazer de melhor admirá-la.. Dentro em pouco. a fim de colocá-la à vontade. de um maravilhoso azul- violeta. — Não quer vir até o castelo? perguntou-lhe. dizia. E viu então levantarem-se de novo para ele esses olhos magníficos.. prestativa. hei de fazer- lhe a corte e ensinar-lhe que nem todos os homens são esses demônios vilões com que a vossa imaginação lhes representa!» Ora. inteiramente cândida.. acariciava-lhe o sol livremente os cabelos castanhos de suaves reflexos sedoscs. Todavia. meu senhor. avançou picando o passo estrada acima.. não lhe era permitido introduzir-se sub-repticiamente em casa delas! Esta dificuldade. que corria mais baixo que a estrada. Em poucas e delicadas palaras. e esse doce brilho lhes aumentava ainda mais a beleza. olhos que denotavam uma alma magnânima. que eu chegue primeiro». e eis se lhe depara Elys.

— anunciou-lhes a voz algo comovida de Elys — aqui está o senhor conde de Chancenay.que diminuía o passo à proporção que iam se aproximando do extremo da alameda. A senhora de Prexeuil estremeceu. — Minhas tias. sorrindo. ao mesmo tempo que um ligeiro frémito lhe correu pelo semblante encantador. sendo afinal introduzido numa grande sala. essa admirável e encantadora freirinha! Nunca mulher alguma no mundo o impressionara tanto como essa! De parte a rara beleza. falando de Gouxy e seus arredores. icomo sei. as freiras de Santa Edwiges não fazem voto de celibato. guarnecido de troféu de caça.. por entre cujas lajes o capim crescia.. E estou certo de que a senhorinha. como em geral sucede com as outras vier a casar. Refleti ontem à noite. ao qual pertencente a senhorinha. E. mudar um pouco os seus hábitos? E ela.. Ogier parou alguns momentos.. com estranho sentimento de inquietação : «Dar-se-á o caso fazerem as associadas desse cabido voto de celibato ao entrar para a irmandade?» E como desejasse sabê-lo aventurou contrafazendo um sorriso: — A senhorinha é muito criança ainda para ter essa certeza quanto ao seu futuro! Se. Encontraram-se os olhares de ambos. penetrou no grande vestíbulo abobadado. Ogier teve uma sensação de alívio... de admirar a ruborizada freirinha.. como o devera ter feito em obediência ao protocolo. a fim de observá-lo melhor. — Oh! não fale assim! Nada é menos certo do que isso! Ergueu a moça para ele um olhar admirado. A menos que não seja isso contrário à regra do cabido. senhor. As duas senhoras ergueram as cabeças. pediu algumas informações a respeito. atravessou com ela o pátio. Ogier acrescentou: — Sim. ainda não parti. com um leve sorriso nos lábios. com que até ali havia conversado.» dizia consigo Ogier diminuindo ainda mais os passos.. com tranquila gravidade. Então.. — Como vê. Essa graça delicada esse recato e essa timidez acrescentavam-lhe à beleza um encanto extraordinário. a que precedia um pátio lajeado.. e na qual se achavam trabalhando as senhoras Antonieta e Bathilde.. uma vez que minhas tias não querem deixar Prexeuil. que deitava para o jardim. Aqui é que eu também hei de passar toda a minha vida.. pela alma e pela educação. baixou-se logo.. que seria preferível aguardar carta de 12 . corou ainda mais. «Nunca vi nada mais delicioso!. grande mole pardacenta de majestosa aparência. irrealizável tal desejo. mas não me detenho muito em tais pensamentos. sem deixart contudo. E há de perdoar-me o não lhe chamar «senhora».. Ao que. lançando ao intruso um olhar de irritada surpresa.. e poucas mais a Pontarlier. sentadas uma em frente da outra. Ela agitou negativamente a cabeça: — Não... e disse-lhe com a meáma gravidade: — Mas não casarei nunca. que ele desejava conhecer melhor. minha senhora... sabendo. por exemplo. simplesmente. o mais demoradamente possível. como os demais. Elys amava estranhamente esse recanto do mundo para além do qual apenas saíra. Ogier pensou logo.. confuso. A moça apressou o passo... algo comovido.. para ir duas ou três vezes a Besançon. E a senhorinha nunca sentiu vontade de ver outros horizontes. senhorita. O de Elys. nesta época!. com um alegre sorriso nos lábios. visivelmente ansiosa de não prolongar por mais tempo semelhante colóquio. inclinando-se um pouco para a moça: — Esse título de freira é muito pesado para os seus dezoito anos. exclamara o senhor de Chancenay: — Mas é extraordinário. a senhora de Valheuil. Em seguida.. Ogier curvando-se diante dela. como dissera a Ogier.. das demais senhorinhas.. que se quis dar ao incômodo de vir em pessoa trazer-nos a lembrança legada pela nossa querida amiga. com um sorriso discreto e meigo disse: — Sim às vezes. — Oh! não! O meu. percebendo que imprimira ao seu protesto mais vivacidade do que fora conveniente. Lançou-lhe de novo Elys um olhar admirativo. sei eu qual há de ser! disse. disse. — Oh! quem sabe ?. ninguém sabe do futuro que o aguarda. tanto mais quanto o castelo acabava de surgir diante deles.... pois queria contemplar. adivinhava-a Ogier muito diferente. também o ignora. explicou então..

bem podia vigiá-la dona 13 .. Julguei então de meu dever.. entender-me-ei a respeito com o notário antes de deixar Gouxy.. É casa por demais modesta. Entregou-me o leque. estou aqui.. e calcam aos pés todos os deveres? A voz da velha dama traduzia um profundo desgosto. devaneava. caminhando um passos pesados. no começo da alameda. as recordações que a ela estão ligadas?. Quando a tia saiu da biblioteca. . Teria obedecido a algum sinal da tia? Ou se teria. que se fitavam nela. a fim de saber o que ela decide quanto ao prédio. foi direito à sobrinha. durante esse quarto de hora... a honra de o hospedar. sim. no entanto sentiu Ogier que.. não se desensombrou o semblante contrariado da velha senhora. de uma inquieta tristeza. é claro. reto e puro. que estendeu apenas a mão ao senhor de Chancenay. porém. atravessou a sala e. Evidentemente acudiam-lhe aos lábios outras perguntas.. Hesitou um momento. ainda mesmo que não seja vendido. um violento desprezo.. corando... de si mesma. com respeito sobretudo à sedutora personalidade do estrangeiro.. mas. não tornaremos a vê-lo. Julguei depois conveniente convidá-lo a vir até aqui. os olhos meigos e pensativos pregados no recém-vindo.. singularmente agradável ao ouvido. Logo que a porta se fechou atrás do visitante. Enquanto ele se assentava. muito triste. tu não podias. a qual assentiu. mas sedutor. Quanto a dona Bathilde. pois que ainda sou momentaneamente o hóspede do Prado-Bento. se estabelecia uma corrente de simpatia. — Triste coisa. não terá por certo. ao recordar-se do olhar ardente que. nublaram-se. entre ela e ele.. Elys. posto que aos seus olhos ele a tivesse. era perfeitamente cortês e plausível. os dedos sempre cruzados sobre o bordado. Elys desaparecia. a prudente Elys. .. a senhora de Prexeuil. Entrou então a cônega numa grande sala mobiliada de estantes e arcas antigas. Dona Antonieta. imóvel.. trazer-lhes os meus agradecimentos pela assistência com que ontem houveram por bem honrar-me.. e o «Prado-Bento». sem grande empenho. interpelando-a: — Não me explicarás o caso de logo seres tu quem havia de introduzir aqui o senhor de Chancenay? A voz vibrava-se-lhe seca e áspera. eclipsado? Não o saberia dizer Ogier. estava Elys . pensativa. sem o seu luxo. o sorriso levemente irónico.com um livro nas mãos... Agradeci-lho. Com os dedos enclavinhados. O olhar. as faces da moça tingiram-se de rubor.. partirá dentro em breves dias. mas respondeu com tranquila sinceridade: — Encontrei-o lá embaixo. Que haveria dito a Elys o senhor de Chancenay?. Mas dona Antonieta julgou de bom aviso afetar que não dava importância ao incidente. Já agora.. minha tia. Elys. que não a viu mais enquanto durou a sua curta visita a Prexeuil. as suas distrações habituais. exclamou. — Enfim — disse. de par com Elys de Valromée.minha avó. com algum esforço: — Sim. o seu principesco modo de vida. os olhos magníficos. se havia encontrado com o dela.. é claro. não: podia. algum tempo. com algumas palavras mais secas que cordiais.. e muita.. O senhor de Chancenay. o pensamento. gritou para dentro: — Elys! Estás aí? — Sim. a piedosa Elys. Contudo. nunca mais. como parece provável. se o virmos habitado por estranhos! — Sim. voava-lhe muito longe dali: voltara à alameda das nogueiras. Ao olhar perscrutador da tia. onde ele morreria de tédio. abrindo outra porta. A ele é que cumpria... após curto silêncio — não há nada de mais nesse teu proceder.. agora que já lá não está a nossa amiga. essa é uma casa fechada para nós.. dirigindo-se a ti. O livro caiu-lhe das mãos sobre a mesa. e. como aceitasse. é que andou mal. não se curvou ao da velha dama. Os belos olhos. por instantes. essa não disse três palavras. levantando-se. que lhe falava com voz bem timbrada. minha tia. retomou Elys maquinalmente o livro... à conta da idade e corpulência. de qualquer modo... para subir sozinha ao castelo. . deixá-lo acolá.. onde.. . caminhava um belo e elegante rapaz.. Tudo isto. por momentos. Que é isso para esses entes que na vida nada mais vêem que o prazer. designou-lhe uma poltrona. Caso queira vendê-lo. Esse jovem tinha o semblante expressivo. como se vê. Mas não podemos fazer nada. E.. permaneceu assim. Elys estremeceu ligeiramente... vir apresentar-lhe as minhas homenagens. — Pobre «Prado-Bento»!. Sentada a uma mesa. E. As tradições. pois dona Antonieta apenas lhe testemunhava a indispensável cortesia.

Antonieta! Para todo o sempre. Ogier reconheceu-lhe logo os traços.. que se insinuara até ali... guarnecido de sólidos móveis antigos. gentil e graciosa. nessa noite. Dela se aproximou Chancenay maquinalmente. um tanto úmida. era mister que ele se fizesse amar. de seu próprio jus. abrindo com mão distraída um desses álbuns.. onde a senhora de Valheuil levara a mesma vida retirada e piedosa de muitas de suas antepassadas. valia bem a pena. já idosa. Voltou a página o senhor de Chancenay. por conseguinte.. A aragem fresca. até esse dia. Porque o «Prado-Bento» fora principalmente o refúgio das viúvas.. essa cândida e encantadora criança vencia-lhe a indiferença. a evocação era mais íntima. Mas ao senhor de Chancenay antolhava-se inadmissível que. — como dissera a Ogier a velha criada. que. a mão pousada na enorme cabeça de Liau. dirigindo-se para o salão vizinho. . só porque nessa tarde lhe havia dito uma boquinha de lábios delicadamente purpurinos : — Eu gosto muito do «Prado-Bento». vários livros e álbuns com fotografias. que quase arruinara a esposa antes de perecer num duelo. mas confortáveis. mantendo-as à margem da lembrança. À direita do fogão. jazia-lhe estendido aos pés.. Depois. sim. bem o adivinhara Sari: ele menosprezava as mulheres que o haviam inspirado. a uma luz nova àquele que até então o considerara com indiferença. que o amem.. da qual era agora a derradeira descendente a marquesa de Chancenay. Esse quadro. no ânimo da velha senhora. a sua mesinha de trabalho. para que pudesse pensar em renovar a visita ao castelo de Prexeuil. falecido aos seis anos de idade. era Elys! E era ainda ela essa outra pouco adiante. cuja morte tornara a mãe inconsolável. sentado numa poltrona. ao pé de uma porta-janela da pequena biblioteca. Porque. urgia que se tornasse a avistar com a moça. eneontradiço com Elys. pairava a sombra dos avoengos. para se fazer. a recordação de gerações extintas. Seria isso.. Liau.. por ventura. Talvez também visse Ogier. de pau-rosa.. E a fisionomia iluminou-se-lhe. Adiante. de quando em quando. que lhe haviam deixado tão-somente recordações indiferentes.. Por sua vida apenas tinham passado alguns caprichos. arrumados. aparecia. A grande dificuldade estaria na oposição da tia.. Só lhe restava.. tapeçaria de tons avelhentados. Aqui. Uma fotografia de 14 . que ele se deixasse prender.. Cumpria confessar. o Terra-Nova. em uma das salas do primeiro andar. o raio ?. condenasse a senhora de Prexeuil a sobrinha ao celibato. resplandecia na penumbra o mogno de um velho pano. já moça. sentia-se Ogier com assaz vontade para o conseguir. estendia-se uma mesa oval. cadeiras pesadas. mas reserva para si toda a independência!» Sim. lançava por terra o projeto que fizera de se não casar senão daí a quatro ou cinco anos. na família de Chatelbray. fisionomia lhana e serena. invadia o aposento. o visconde de Valheuil. ao pé da janela. .. na simplicidade nobre e tranquila dessa residência provincial.. tão diverso dos a que Ogier estava habituado. Logo. coberta de um mantel de veludo desbotado. só. de fato. o cético. Seria talvez difícil fazê-lo mudar de opinião. Ergueu-se. É que essa linda criança risonha e de grandes madeixas. Assim devaneava Ogier. a ampla poltrona da falecida.. esse velho solar. trabalho de um hábil artista. Sim. Elys lhe havia causado uma impressão profunda. nessa noite. envidar esforços. principalmente se Elys o auxiliasse atuando. ainda ela. talvez com amor. nessa noite. sobre a qual se achavam. Essa beleza. Afinal aí estavam. por essa deliciosa freirinha... nas malhas do casamento!. Para isso. Agora. porém. em face de si mesmo. era outra coisa. belo tipo enfatuado. grande peça artesoada onde Rosália acendera dois candeeiros. ainda aí. porém. desconhecida até então. onde só penetrava quando ele bem queria.. tanto ou quanto desdenhosas. Ele. forrada de esmaecida tapeçaria. o único filho do casal. Esta jovem. bem como no suntuoso castelo de Sarjac.. que lhe fora mostrado na véspera pela Rosália. em sua vida solitária jamais se apagaria da memória da freirinha Elys de Valromée a lembrança desses olhos de reflexos vivamente alaranjados que se haviam fitado nos dela com tão cálida admiração.. de quem diziam os amigos: «Chancenay? Qual! Esse não quer grilhões! Permite. refletindo sobre o caso. Sim. que deitava para o jardim. era a senhora de Valheuil. antes do tempo. Ao lado. um açafate de vime com novelos de lã branca e cinzenta.. com olhos mais indulgentes. relacionando-os com o retrato a óleo. . solar patrimonial dos Chancenay.. Mas como ? O acolhimento que lhe fizera dona Antonieta fora em verdade demasiado frio. ele. numa expressão de vivo contentamento. Ao centro da sala. ainda não havia amado. por seu lado. contudo. Ogier teve de o confessar a si próprio: estava positivamente enamorado dessa encantadora Elys. Nessa casa.

Dá-mo. é que eu a torne a ver».. querida vovó. chamando Rosália. que ficara aberto. onde passou grande parte de sua vida e onde viu morrer a sua patroa de tantos anos.. Mas. Hei de. Agrada-me esse velho solar. pois. Ogier. ainda voltar aqui e. pergunta a si mesma se terá de deixar esta casa. está você disposta a continuar aqui. és ideal minha linda freirinha! Deu alguns passos pela sala. 15 . Mas. demaisz pertenceu sempre ao Chatelbray.» Ao ler esta última frase deu Ogier ligeiramente de ombros. e.. E o senhor de Chancenay disse então entre si: «Vou arranjar as coisas de modo que ainda me demore por aqui algum tempo. Com certeza. conservarei no «Prado-Bento» o pessoal que nele assiste. porém. deteve-a com um gesto. antes se não o queres. que fico. falaremos depois. que te não há de ser indiferente.. «Dá simplesmente as tuas instruções. Elys tinha nos lábios um sorriso de criança. Decla-rava-lhe a senhora de Chancenay que. Como sabes. comunicando esta minha decisão à pobre Rosália. para que tudo mais se lhe dissipasse como fumo. raramente sobe até Prexeuil. com certeza. querida vovó. de entregar isto ao carteiro. querida vovó. — Faça o favor2 Rosália. proceder como legítimo senhor. a camareira. a fim de continuar o cruzeiro iniciado. o meu aniversário natalício cai no mês que vem: não busques outro presente. quanto a isto. Oh! E eu que temia que. senhor conde! E Melita também! — Então estamos combinados. mas esqueço-o facilmente quando quero. O amor por essa criança. — entre os quais.. fazia vibrar uma fibra até então ignorada desse homem. por culpa dos que o haviam educado. não te incomodes com isso. a velha criada de quarto e a cozinheira. Não há de tardar por aí.» Acabando de escrever esta carta. se transformara num elegante folgazão e despreocupado egoísta. recebeu Ogier uma carta. pura e encantadora. — Sim. eu não preciso de nada.«amador». a qual apareceu logo. não é verdade ? «Agradou-me muito este sítio. principalmente.. costumo pagar sempre os serviços que me prestam. Depois. Quanto ao ordenado. olhos fitos na carta aberta diante dele. Sari?. E fez menção de retirar-se. ao mesmo tempo. o qual. Tinha nesse momento a sua fisionomia uma expressão meiga. caxingando.. Ainda uma vez. que murmurou : — Sim. existe. que acabara de fechar. de certo. repito. Até breve. CAPÍTULO V Na manhã seguinte.. ensimesmado. senhor conde. que se põe a olhar-me às vezes com uns olhos de inquieta interrogação. sim. — Oh! senhor conde. «Tenciono partir dentro de breves dias. de feito. que lhe não era habitual. tomando uma folha de papel. Ficou alguns momentos pensativo. pois era reumática. pois hás de ver-me em Sarjac... algo comovida. mas. «Mas.. como já sei qual será ela. O que desejo somente é não deixar esta casa! — Não.. pois. a fim de que o mesmo fosse vendido. Esse sorriso parecia dirigir-se a Ogier. e vai depressa ao encontro dos teus amigos. Rosália. Mas o absolutamente indispensável.. falaremos depois.. graças a Deus! A minha boa patroa deixou-me o suficiente para eu viver. «Aguardo. que poderia ter sido a sua. pois essas senhoras não têm correspondências. . Se eu ficar com o «Prado-Bento». a tua resposta. vale dizer. meu caro!» acrescentava ela. além disto. os belos olhos profundos. Entregou-lhe a carta. Você ficará tomando conta da casa. quando ele tornar a passar daqui a pouco. desde já. escreveu: «Não. se encontra algum belo palminho de cara. vou. é ao que me dizem. se entendesse com o notário. mais a Melita? — Ah! O senhor conde vai ficar com a casa?.. não tendo nenhuma intenção de conservar esse velho solar. contemplou demoradamente a fotografia. mas cuja alma conservara por assim dizer a nostalgia da existência útil e nobre. mas muito bem trabalhada.. Oh! já a havia esquecido completamente! A imagem de Elys impunha-se-lhe agora com demasiada força ao espírito. tornando de novo ao álbum. No tocante ao belo palminho de cara. Ogier fez soar a campainha. — Olhe. não vendas o «Prado-Bento». abundante em caça. decerto. logo que eu regresse da Itália. Concordas. que lhe animava.. «Beijo-te respeitosamente as mãos. e.

Essa voz. podia dormir tranquila: o «Prado-Bento» não seria vendido!. colocou-se de modo que pudesse ver o harmônio.A criada retirou-se depois de muitos agradecimentos. do qual seria 16 . o marido que lhe caísse em sorte... Destarte. Dela podia orgulhar-se. onde se celebrava o divino sacrifício. de fato. como escrevera à avó: mas. vocação religiosa?. de quando em quando. tivesse que despender para alcançá-la. Ogier arquitetara um plano a fim de tornar a ver a encantadora freirinha. às vezesx cantava na igreja. em verdade. a troçar de si mesmo: «Mas eu estarei. e havia de reconhecer o erro em que caíra. essa descendente dos Prexeuil e dos Valromée. tinha lá para consigo que a senhora de Prexeuil não seria inexorável se visse. assentara consigo ir até a velha capelinha da aldeia. Não teria ela. naquele vestido já fora da moda. Era. que mantinha os estranhos a distância. pois na antevéspera. dirigiu-se Ogier a Gouxy.. Sem dar conta da atenção com que o olhavam os fiéis.. ao invés de permanecer em Sarjac. o desejo de triunfar na luta com a velha tia autocrata. aonde começariam a chegar os primeiros convidados para as caçadas. cujo tom se diria diminuído. a terminar o cruzeiro iniciado. Contava partir nesses dois dias. fosse um trambolho. Via-a Ogier sentada ao harmónio. a cozinheira do «Prado-Bento».. depois? Sozinha e livre. posto não cultivada. Já agora.. pela moça. mas cuja sobriedade parecia encantadora e de bom gosto aos olhos de Ogier. de futuro. conspiravam para inspirar a Ogier a vontade de superar os obstáculos e conquistar Elys. Mais de uma vez. para vê-la e ouvi-la que o senhor de Chancenay. se fazia ouvir. quisera ela inquirir sobre este ponto o senhor conde.. semelhante à que ela mesma vivia. quanto mais esforços. desde tanto tempo esquecido do dever dominical. seguido de Liau. sempre julguei que o amor. que o tornou a assaltar nas horas que se seguiram. Sim.. surgiu-lhe no espírito uma dúvida atroz. nesses dois dias. fatigados das ridículas extravagâncias e loucuras absurdas do trajar contemporâneo. sob a direção da formosa castelã. Ainda uma vez. não poderia ela seguir a sua vocação ?. o seu olhar se dirigia para o altar. como se vê. admirou a elegância natural da moça. tanto mais. Então. ao pretender condená-la à vida solitária.. uma fidalga. regressaria inesperadamente ao «Prado-Bento» e procuraria meios e modos de tornar a avistar-se com a senhorinha de Valromée... mais tarde. aguardou impaciente a aparição das cônegas. Além disso. e.. colocado à frente dos demais. sem ser visto de dona Antonieta. agrupavam- se algumas raparigas da aldeia entre as quais Melita. a boa Rosália. a amaria. sobrinha de Rosália. depois. quando regressava ao «Prado-Bento». Lá chegando. enquanto passeava a fumar pelo jardim. dissera ela entre si. Aqui é que eu também hei de passar toda a minha vida». O que não podia supor. realmente. por todos os modos. mas nunca tivera coragem de o fazer. a fim de que não dominasse a voz das companheiras. as devidas precauções. depois de ter ouvido o Celestino a respeito da existência mundana do amo: «Não será esse belo rapaz que se há de interessar por este velho solar!. E pensava. embora a custo de grandes dificuldades. Intimidava-a o senhor de Chanicenay com o seu ar um tanto altivo e aquele olhar. chegado a esta altura. adivinhava-a Ogier genuflexa em espírito adorando a Deus e orando de toda a sua alma. no qual tomaram assento as senhoras de Prexeuil e de Valromée. O senhor de Chancenay tentou em vão afastar do espírito esse novo receio.. Ao redor dela. visivelmente penetrada de tranquilo fervor. talvez assim fosse. Não seria justamente por isso que parecia tão certa do futuro que a aguardava? Ela lhe havia dito: «Minhas tias não querem deixar Prexeuil. algo surpreso. O amor. e extasiava-se em contemplar-lhe o perfil. Quando. antes que dona Antonieta soubesse que ele estava na terra e tomasse. era de um timbre encantador.. era que Elys de Valromée entrasse por muito nesse súbito interesse do senhor de Chancenay pelo «Prado-Bento». e incidentemente. No dia seguinte ao em que recebera a carta da avó. lhe havia dito Rosália que Elys de Valromée tocava harmônio e. a fim de assistir à missa cantada de domingo. apaixonado dessa jovem Elys? Todavia. Muitas e muitas vezes. enquanto Elys se dirigia para o harmônio.. a sobrinha apaixonada pelo conde Ogier de Chancenay.. cuja voz. que lhe havia ganho afeição.. por conseguinte. ao entrar. nos raros momentos de intervalo. de indústria. por desventura dele.. Mas. encaminharam-se para o banco de carvalho esculpido. pois. Cantavam todas com melhor vontade que talento. enquanto vivessem as senhoras Antonieta e Bathilde. Era. Se bem que preocupada com o seu papel de organista e diretora dos coros sentia-se que Elys estava concentrada. sua graça aristocrática. Estas.» Enganara-se.

esse padre poderia também ser-lhe um auxiliar precioso. E se a essa magia se aliasse o amor. antes da partida. o ardente desejo de conquista. Bem sabia que lhe não resistiam ao encanto pessoal. Rasgando os lábios num leve sorriso irónico. Ãs quatro horas pôr-se-ia a caminho do presbitério. esse velho solar. enfeitiçada para sempre. todos se equivalem. — Apaixonado caçador. como todos Chancenay. caso a velha cônega teimasse em mostrar-se inflexível. perturbada unicamente pelo olhar com que ele a frechara. as quais zelarão ao mesmo tempo pela sepultura da senhora de Valheuil. por instintivo respeito para com essa pressentida inocência. e muito depressa!. Observador mui sutil dos que o cercavam.. pois. sempre que esta se lhe deparava. porém.. É ridículo!» Contudo.. pois o «Prado-Bento» há de «continuar na família a que sempre pertenceu. reflexionou Ogier: «Olhos baixos. quando muito. morena e esbelta. .. nesses olhos cor-de-violeta. Deixo encarregadas de zelarem por ele a Rosália e a sobrinha. — bela rapariga. senhor cura. que o senhor de Chancenay refreava as palavras de ardente admiração. a qual relanceou ao novo patrão um olhar disfarçadamente admirativo. depois de ter dado uma volta por essa campanha pitoresca. que tinha por mobília uma mesa. Primeiro. cruzou com Melita. já de si pouco fáceis de trilharem o bom caminho. nesse colóquio de dois com um rapaz sedutor. cuja beleza agora tanto apreciava.. certo a freirinha ver-se-ia. nesse olhar de sincera candura. logo. a todas essas filhas de Eva!» E rindo silenciosamente. ao fascínio de Ogier de Chancenay. algumas vezes?. a fim de que esta se lhe tornasse diligente auxiliar na luta inevitável que iria empenhar com a vontade de dona Antonieta. que há de achar muita graça». de moralidade mais ou menos duvidosa. a jovem cozinheira. Ao comunicar-lhe Ogier que o «Prado-Bento» não seria vendido. mas o sítio é aprazível e a caça abundante. senhor «conde. não tentou lutar contra esse sentimento já poderoso. «Prado-Bento». nada disso vira na fisionomia de Elys.. essa sim é que cumpre lhes façamos leal e forte. as manhãzinhas... Bem sei que é muito triste. na sua solidão. Recordou-se então da visita que planejara fazer ao cura. aguarda- 17 . Consultou. A alma. descansado. Quando pela décima vez. se o senhor conde é caçador. Uma hora.. pela sua rara beleza.. . Mas a caça. começou a subir os degraus de carvalho da velha escadaria. um armário de cerejeira e algumas cadeiras de palhinha. o relógio. não seria isso o mais difícil da tarefa.. Deparava-se-lhe Elys como a realização de um ideal até então mui vagamente tconcebido. porém. Mais vale ter fechada essa casa do que a eventualidade moral de uma venda. Nós outros os pastores tememos sempre a intrusão de algum elemento nefasto entre as nossas ovelhas. já usadas. Fique.. enleada.. consciente de suas intenções honestas. porquanto Ogier. Aliás. ideal físico. sabia às maravilhas reconhecer numa mulher a faceirice. manifestou-lhe o padre o seu vivo contentamento.. Mas caí no laço. olhos arrogantes. Ora. grande e pequena. — Sim. «Eis-me agora feito moralista! Fica-me muito bem! Hei de contar tudo isto qualquer dia a Willy. Ogier fixou o ouvido a um som de sinos. — Compreendo o seu receio. para as vésperas. ele o havia percebido como um reflexo {muito vivo. que lhe concedia toda a atenção. . que despertava nele uma emoção desconhecida até ali. Tocavam as vésperas na igreja de Gouxy. que lhe haviam subido aos lábios. Fora por isso. ato esse de elementar polidez. introduzindo-o em seguida num pequeno parlatório ladrilhado. queria fazer-se amar de Elys. CAPÍTULO VI Uma hora depois.. que ele interceptou de passagem. misto de simpatia e saudade. que traria talvez para cá alguma família estranha.. quase sempre de olhos baixos.prudente desvencilhar-nos. Veio abrir-lha o cura. mas também ideal moral. Com um olhar. Como atravessasse o vestíbulo. tendo apenas encontrado em seu caminho muitas consciências femininas frágeis ou perversas apreciava a delicadeza de alma e coração. pelo encanto puro de sua expressiva fisionomia. principalmente se tencionava ser o futuro proprietário do. Ademais. senhor cura.. perguntou o padre: — E o senhor «conde dar-nos-á por ventura o prazer de o termos por cá. media a passos largos o jardim onde já começavam a cair algumas folhas amarelecidas. Agora. as ambições ocultas. o senhor de Chancenay puxava pela campainha à porta do presbitério.

me igualmente nos nossos domínios de Sarjac, no Béarn... O que não quer dizer que eu não venha, ainda
assim, passar aqui algum tempo, mais para o futuro, agora que sou o proprietário...
Habilmente, fez o senhor de Chancenay derivar a conversa para os arredores pitorescos de Gouxy, vindo
a falar do castelo de Prexeuil.
— Um solar interessante, sob aquele seu aspecto um tanto rude... Fui até lá, anteontem, fazer uma visita
a essas senhoras e entregar à menina de Valromée uma lembrançazinha que lhe legara a amiga.
— Sim, sim; a senhora de Valheuil amava com extremo a essa criança, que se mostrava para com ela
muito filial, sendo como é, de natureza afetiva, delicada, sabendo aliar a mais infantil alegria à gravidade
e aos bons modos, tanto que a deu muitas vezes como exemplo às minhas jovens paroquianas. Havia
entre as duas, muito mais afinidade do que as que existem entre ela e as tias, principalmente com a
senhora de Prexeuil.
— Compreendo.. . Esta pareceu-me. .. de vontade inflexível.
O cura sorriu:
— Sim, para os que a não conhecem bem... A mim, porém, parece-me antes um pouco rígida. Sofreu
muito, porque tinha o coração ardente, muito orgulhoso, que se revoltava ante as miseráveis traições
humanas, e não soube ver acima dessas misérias as compensações divinas, reservadas aos que as sofrem
cem espírito de sacrifício.
— Rosália falou-me de uma irmã que foi muito infeliz...
— Sim, a senhora de Valromée, mãe de dona Bathilde, que se recolheu a Prexeuil para morrer, fugindo
assim ao indigno marido. Depois, foi o filho Jacques de Valromée, o qual, seguindo as pegadas do pai,
arruinou a esposa e morreu não sei onde, no estrangeiro. A pobre esposa veio então refugiar-se em
Prexeuil com a filhinha Elys, mas não sobreviveu muito ao marido a quem amava com extremos ... Eis
aí como a senhora cônega de Prexeuil se viu o único arrimo da sobrinha segunda, ambas órfãs e sem
bens de fortuna, depois de ter visto morrer de desgostos a irmã e a jovem viúva de seu mal-aventurado
sobrinho.
— Isto explica a... prevenção — e valho-me, parece, de um termo muito suave — a prevenção, que
nutre a senhora de Prexeuil contra o sexo masculino...
O cura Dambry esboçou meio sorriso, vendo a fisionomia levemente irôniea do senhor de Chancenay.
— Já lho deu a entender, senhor conde?
— Sim, sim2 em meias palavras... E asseguro-lhe que não fui recebido por ela de braços abertos...
— Compreendo. .. compreendo.. . murmurou o cura, sacudindo a cabeça.
Depois de curto silêncio, perguntou o senhor de Chancenay:
— É exato que ela proibiu a sobrinha de casar-se?
— Ignoro se, realmente, lho proibiu; mas, em verdade, creio bem que lhe deve ter representado os
homens a uma luz tal e o casamento como uma tão terrível aventura, que será preciso à pobre menina
muita coragem para transpor o valo... É uma boa criatura a senhora de Valromée, muito devota, muito
meiga, e caridosa; seu caráter, porém, demasiado passivo, não a predispõe evidentemente a libertar-se da
influência da tia.
— E a sobrinha segunda? Será essa também assim tão dócil? Porque, pelo que me disse Rosália, tem ela
igualmente já traçado o seu futuro, na mesma vida celibatária, pela onipotente dona Antonieta...
— Não lho sei dizer... Já me falaram também nisso; mas, até hoje, o problema ainda não foi posto em
discussão, porque a jovem de Valromée ainda não está em idade de pensar em casar-se. Contudo,
conhecendo, como conheço, as idéias da senhora de Prexeuil, inclino-me a crer que esta queira obrigar a
isso a sobrinha-segunda... Aliás, vejo o prólogo de tais projetos nesse título de cônega, que ela já fez
tomar à jovem, ainda criança, — como, antes desta, já o fizera à senhora Bathilde.
— É realmente, em nossos dias, uma idéia extravagante. Enfim, como nesse cabido não fazem as
associadas voto de celibato, nada impede que, de futuro, a jovem de Valromée venha a casar. Talvez
tenha mais energia que a tia para subtrair-se às idéias respeitáveis decerto, mas algo despóticas de dona
Antonieta.
O padre sacudiu de novo a cabeça:
— Sim energia não lhe falta; é de uma natureza diferente da de dona Bathilde. Mas deve tudo à tia; é-
lhe, por isso, muito reconhecida e tem-lhe grande afeição. Assim, pois, quero crer que nunca se insurgirá
contra a vontade de dona Antonieta, ainda que isso importe para ela um grande sofrimento.
Tais palavras impressionaram desagradavelmente o senhor de Chancenay, o qual, sem o demonstrar,
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observou todavia:
— Não lhe parece, senhor cura, que tal vontade tem um quê de duro e injusto nessa sua autocracia?...
— Decerto. E creia que não concordo, nesse ponto, com a senhora de Prexeuil. De fato, como bem diz o
senhor conde, são respeitáveis as suas idéias enquanto traduzem o temor de que a essa criança venham a
cair também em sorte as dolorosas provações, que traz às vezes consigo o casamento. Ela, porém, vai
longe demais, ampliando essa suspicácia do particular para o geral... E irá, sobretudo, ainda mais longe,
se proibir formalmente a sobrinha de casar-se, caso seja esta a sua vocação.
Ogier disse entre si: «Tenho já aqui um aliado, caso seja necessário». E, aproveitando-se do ensejo que
lhe deparava a última frase do cura, procurou elucidar-se acerca do ponto que o inquietava, observando:
— O modo de vida que leva a jovem de Valromée, as sugestões da tia, não acabarão por lhe infundir o
gosto pela vida religiosa?
— Não sei. . . Pelo menos, até agora, nada o demonstrou... É ainda muito criança, por vezes até quase
infantil... E era isso, exatamente, o que tanto aguardava à senhora de Valheuil.
A conversação derivou novamente para a pessoa da falecida. Pouco depois, o senhor de Chancenay
despedia-se cordialmente do cura que, de pé, à porta do presbitério, ficou ainda a seguir com o olhar o
novo proprietário do «Prado-Bentc». Em seus olhos cismadores, lia-se uma simpatia algo melancólica
por esse rapaz... E, sacudindo a cabeça, murmurou:
— Gostei do seu olhar. Sente-se que esse mancebo sabe querer... Pena, é que um ser tão bem dotado
ande a estragar a vida como provavelmente o faz!...
* * *
No dia seguinte, recebia o senhor de Chancenay o seguinte telegrama: «É teu o «Prado-Bento».
Não duvidara ele, sequer por um instante, do consentimento da avó. Esta e o marido, em sua idólatra
ternura por esse único neto, timbravam ambos em satisfazer, às vezes até antes que as exprimisse, todas
as fantasias de Ogier, menino, adolescente e rapaz. Ele mesmo, por vezes, dizia a si próprio, nas suas
horas de reflexão, que, com semelhante sistema de educação, ser-lhe-ia muito difícil tornar-se um santo,
ou sequer, simplesmente, um homem grave...
No dia imediato deixou Gouxy, tendo o cuidado de nada dizer a Rosália quanto ao seu projetado
regresso.
Aguardava-o a «Libélula» em Nápoles, onde foi recebido com entusiasmo pelos amigos, que viam nele
o camarada facilmente liberal, o gentil anfitrião, cuja hospitalidade franca e luxuosa era por todos muito
elogiada... Sari, porém, experimentou amarga surpresa. O seu alegre entusiasmo para com o senhor de
Chanicenay encontrou da parte deste uma frieza algo desdenhosa, que repulsava para longe todos os seus
ambiciosos planos...
Que haveria, pois, passado durante essa curta ausência?
Não podendo indagá-lo do próprio Ogier, buscou habilmente informar-se com os demais convidados.
Mas em vão. Ogier dissera muito pouco de sua estada em Gouxy, aldeia que parecia não lhe ter causado
outra impressão exceto a indiferença.
Sari, porém dizia à mãe:
— Tenho a certeza de que há por aí rabo de saia. Já lhe tenho observado, às vezes, nos olhos, uma vaga
expressão de sonho; iluminam-se então de um brilho ardente... como o que eu quisera ver quando olha
para mim! Sim, ele ama, tenho disso a certeza! E eu já não sou nada para ele... não passo de um
brinquedo quebrado, a quem damos as costas!
— Mas, meu amor, nem tudo ainda está perdido! Trata de fazer que ele esqueça essa outra... se é que ela
existe. Talvez que isso nada mais seja que uma fase de hipocondria, que tu acabarás por dominar.
Sari sacudiu, descrente a cabeça. Mais esperta que a mãe havia lobrigado uma nova orientação no
espírito de Ogier.
Todavia, não se considerava ainda de todo derrotada, pois era grande o seu amor, e, além disso, formava
de sua pessoazinha um excelente juízo, que fazia que ela intimamente considerasse possível a
recondução do senhor de Chancenay.
Mas todas as suas galantes manobras continuavam sem resultado. Ogier trouxera de Gouxy uma
recordação por demais encantadora que o tornava todo indiferente aos meigos encantos da bela húngara.
Depois de ter contemplado a fotografia de Elys, que havia retirado do álbum do «Prado-Bento», depois
de ter admirado esse delicado semblante, esses olhos de misteriosas e virginais profundezas, essa
boquinha sorridente e alegre, — o rapaz experimentava uma como desdenhosa irritação, que a custo
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dissimulava, ao tornar a ver Sari com aquele seu sorriso equívoco, aquele olhar traiçoeiro, arrogante ou
meigamente terno, consoante as ocasiões, aqueles seus modos muito desenvoltos...
«Certo — dizia consigo — é muito interessante e incontestavelmente bela. Mas é criatura sem alma, que
segue simplesmente os seus instintos... Inteligente, ou melhor, esperta. Não será, porém, comigo que há
de ver satisfeitos os seus planos ambiciosos. Não, Sari Doucza, nunca hás de ser condessa de
Chancenay!»
Assim, pois, considerado esse estado de espírito e o ardente desejo que tinha Ogier de regressar quanto
antes ao «Prado-Bento», foi com imensa satisfação que viu terminar o cruzeiro, uns dez dias depois.
Despediram-se dele a senhora Doucza e a filha, demonstrando-lhe ambas calorosa simpatia, que não
encontrou correspondência no coração de Ogier. Posto se mostrasse com elas mui cortês, mantinha-se o
senhor de Chancenay numa tal ou qual reserva, pois não desejava de modo algum ver continuadas essas
relações de puro acaso, principalmente se se tornasse, como esperava, o marido de Elys de Valromée.
Em companhia do primo William Horne, Ogier partiu a caminho de Sarjac. No velho castelo da família,
recebiam todos os anos o marquês e a marquesa de Chancenay, muitos convidados, que ali iam
participar das caçadas de montaria e das várias diversões, que sabiam muito bem organizar a senhora de
Chancenay e algumas das suas jovens parentas. Ogier auxiliava então os avós na recepção dos hóspedes.
Apaixonado, como os seus antepassados, dos nobres prazeres da caça, trazia perfeitamente aparelhado
todo o trem de caça dos Chancenay considerado um dos primeiros da França. Prezava-se como grande
honra o poder usar-lhe alguém o botão distintivo, honra esta que o senhor de Chancenay não concedia a
qualquer... E todas as belas convidadas sonhavam de se tornar o flerte do jovem castelão, enquanto
durasse a sua permanência em Sarjac.
A marquesa de Chancenay caiu das nuvens, quando, logo no dia seguinte ao de sua chegada, Ogier lhe
comunicou que iria passar algum tempo no «Prado-Bento».
— Hein ?! No «Prado-Bento» ?!
E olhava-o com tanto pasmo, que fez o neto rir.
— A vovó parece que me ouviu dizer a coisa mais assombrosa do mundo!...
— Decerto!... Que vais fazer no «Prado-Bento» ?
— Visitar a região, que me agradou muito, caçar.
— Caçar!... Mas se podes caçar aqui!
— Sim posso; mas... quero mudar um pouco de horizonte... Demais, suponha a minha querida vovó que
é uma fantasia, uma originalidade, o que a vovó quiser...
Tinha no canto dos lábios um sorrizinho de ironia, muito conhecido da avó, e que parecia querer dizer-
lhe: «É inútil procurar saber mais».
Contudo, ainda tentou uma objeção:
— Mas que irão dizer os nossos convidados?
— A vovó lhes dirá que me acho preso lá por uns negócios... Demais, não tenciono demorar-me muito.
Pode ficar tranquila...
O marquês de Chancenay, que ouvia o diálogo, sem dizer palavra e a fumar charuto, piscou
maliciosamente o olho ao neto:
— Ora, vamos. Madalena, não insistas... Há com certeza por lá alguma linda carinha. .. E há de ser, de
fato, excessivamente bela, para que o nosso Ogier se abalance a ir enterrar-se nesse velho pardieiro e
nessa longínqua aldeia!. . .
Ogier esboçou de novo o seu enigmático sorriso, mas conservou-se calado.
Não mais que aos outros, — tirante o primo William, cujo caráter, sério e discreto, ele muito apreciava,
— não confiava Ogier os seus segredos a esses frívolos e gentis avós, que lhe inspiravam apenas ligeiro
afeto, por vezes indulgente, ao qual, de quando em quando, se misturava certa impaciência ou vaga
animosidade.
Maud Dornley, uma das suas primas inglesas, que muito o amava, mostrou-se-lhe inutilmente surpresa e
contrariada por vê-lo destarte afastar-se por tempo indeterminado. Mas apenas obteve, como resposta,
estas palavras ligeiramente escarninhas:
— Mas, querida, eu não vou demorar-me lá todo o outono! Longe disso, quero até encontrá-la ainda
aqui. quando voltar.
— O que não impede que sejam dias furtados aos nossos amigos!...
— Oh! grande desgraça! Não me julgo assim tão indispensável à felicidade deles, posto pareça a prima
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se lhe havia apoderado do coração. Nesse momento diziam. desde a infância. tomada de grande cólera. contava dona Antonieta. E assim pensava. então apenas conscientes. todavia. Tendo assim cortado cerce as objeções da avó. pois assim não teria o desgosto de lhe contrariar outra qualquer. ou melhor.. Elys prezava muito essas visitas. de feito. Nós jamais o ignoramos.. nos arredores de Prexeuil. — Contudo. nunca o mais inocente dos romances caíra sob as vistas de Elys. De casamento jamais se falara.. sofrido o que sofri por amor desse maldito. «Ah! se tivessem. olhos claros e altivos. e dado a entender a Maud a inutilidade de sua insistência. levando-lhes socorros. muito menos abundantes do que ambas desejavam. o amor-próprio o saber-se amado dessa bela Maud. a parte dos aposentos que habitavam. pela alameda de Prexeuil. atendendo sobretudo à natureza e aos gostos de Elys. A senhora de Prexeuil. e sem prevenir a ninguém da sua chegada. e conservarem mais ou menos em bom estado o castelo. Por mais profundamente piedosa que fosse Elys. ocupando-se ela mesma da educação e instrução de Elys. provando possuir os muitos e necessários costados de nobreza. até ali insensível. que Elys adivinhara talvez sob os traços desse jovem desconhecido. esquecendo-se de que era solteirona. ela havia caminhado alguns momentos. e a única que ela podia esperar. como a da sobrinha. Elys costumava. como você não o ignora. não correspondia a esse amor. ele. Destarte. não se sentiam. porque. quando temos a boa sorte de agradarmos. Elys. profundos. que acabava de sair da 21 .. porque lhe era indiferente. nesse mesmo instante. atraídas para a vida do claustro. e a custo reprimia a cônega um esgar de náusea sempre que nos livros dos mais graves autores se versava a questão do amor. Naturalmente. você bem sabe como é amado!» — Evidentemente. pois o seu coração delicado aspirava sempre a devotar-se e derramar-se pelos demais. enquanto ela o contemplava. como fizera dona Antonieta como continuava a fazê-lo dona Bathilde. todos estes planos tinham apenas um defeito: fundavam-se no completo desconhecimento do caráter de Elys e das aspirações. como eu. E... a existência que lhe estava preparando a tia. Havendo assim educado a sobrinha. mantendo-a afastada do mundo. sem o cuidar. Ora. a tia enganava-se. depois das tias. pai e filho. teria ela uma situação honorífica usando o título de condessa. porquanto os viscondes de Valromée.. nos quais dava a ler todos os seus sentimentos àquele que. tímidos. sem pensar. acaso não a solicitasse o estado religioso. a cumprir dignamente os deveres de castelã. desta vez em automóvel. aveludados. um tanto receosos do amor. sim. em companhia de dona Bathilde ir visitar alguns pobres e enfermos. haviam largamente entrado pelos dos Prexeuils de modo que às três cônegas apenas restava o suficiente para viverem num relativo conforto. que.matrimônio. esta já não desejava seguir a vida conventual. Isto não passava de leve gracejo. Ora. que lhe fizera as vezes de mãe. Tinha uns olhos belíssimos esta lady Maud. e quase sem relações. havia tido o cuidado de envolver este assunto num véu de desdenhosa indiferença. ou apresentar-lho a uma luz desfavorável. certo não se refeririam a ele tão de boa mente!» dizia ela entre si. CAPÍTULO VII Duas vezes na semana. incutira-lhe no espírito a cônega de Prexeuil que tal vida seria a mais invejável para a sobrinha. mas é sempre delicioso ouvi-lo dizer por uma priminha encantadora como você. A senhora de Prexeuil agradava imensamente semelhante propensão. e continuaria. dessa alma jovem. solicitara a sua admissão num cabido ou irmandade austríaca.. com franqueza esses olhos: «Sim. obedecendo à direção da tia. que esta aceitaria. pensava ela própria.. do amor. dizendo de boa mente a si mesma: «Creio que a minha querida Elys inclina-se para a vocação religiosa. não podendo ou não querendo contrair. que ela se lembrasse de escolher».querer fazer-me acreditá-lo. assaz orgulhosa e difícil de contentar. Lisonjeava-lhe.. Até àqueles últimos tempos não tivera. evocava ele uns olhos cor-de-violeta. pensava a senhora de Prexeuil.. — o melhor meio. após dilapidarem os próprios bens de fortuna. Tanto melhor. Tal como as moças nobres de outrora. ao lado de quem. nós todos lhe queremos muito bem. porém. nesse solitário solar de Prexeuil. partiu no dia seguinte o senhor de Chancenay para Gouxy.. a jovem outra perspectiva que a de passar toda a sua existência em Prexeui e aí envelhecer no celibato. para desviar desse caminho uma alma sensível e honesta.

.» «Terça-feira de Páscoa. inquieta. a que se mesclava tal ou qual temor.. Alto. porque dona Antonieta não descontinuava. Elys não gastava muito tempo. Elys tinha o coração ardente.. na melancólica solidão em que a encerrava a vontade da tia. aparência distinta e grave. porém. infundiam-lhe novamente no jovem coração um profundo sobressalto. ela. das alegrias. louro... mas existia ainda outra coisa nesse temperamento de moça. pela bela coroa de filhos. Buscava representá-la mentalmente. Bem-aventurado Apóstolo. sentia a jovem descompassar-se-lhe o coração de virgem. era Elys. olhos altaneiros. para uso da jovem. que se casara com Luís-Benigno de Varzon. dera-lhe. que haviam sido jovens casadinhas mães ainda moças. logo que as moças atingiam es quinze ou dezesseis anos. sem o cuidar. ante a piedade. as virtudes e a vida forte e simples das antigas damas de Prexeuil. Senhor. Ao recordá-lo. se haviam amado. como o Luís-Benigno dos sonhos dela.. marquês de Sommelles. esse altivo perfil masculino. — um delicioso mistério.. Por não ter pensado nisto. como era tradição da família. que se tornavam meigos. que aliava aos seus gostos honestos uma pura e tranquila alegria. que era todavia mulher de inteligência muito lúcida. esbelto. se abraçasse a existência que a tia lhe havia destinado. Sim. repleto de profundos pensamentos.. tentava evadir-se a esses transvios da imaginação. esses olhos de ardentes clarões alaranjados.adolescência. Mais de uma vez.. — que nunca poderia gozar. Dona Antonieta. ela já amava a Ogier. Senhora cônega de Prexeuil. Sim. Atraía particularmente a atenção da moça essa Elys de Prexeuil. cujos membros haviam sido. dentro em pouco. desde o encontro com o senhor de Chancenay. teriam talvez permanecido estacionárias.. Em quê? Com quem? Ao seu espirito não se lhe deparava nada de preciso. quantos cuidados daí adviriam a ela! Essas inocentes fantasias com as quais. de resto. mas que se poderiam tornar meigos. quase inconscientemente. os «diários de famílias» também podem infundir nas moças idéias românticas!. de um louro carregado. tal como ela o preferia. E. muito leve. que exteriormente se não denotava. da vida íntima de uma família. a ler o «Diário de Família» dos avoengos. a caminhar ao seu lado... agora menos alegre. A senhora de Prexeuil não percebia. todos os seus deveres». todas as vezes que se lhe apropositava ensejo. que haviam passado em Prexeuil toda ou parte de suas existências. às vezes breves e quase secas. tudo isto. encantador.. não a podia esquecer. para agradecer a Deus estes dez anos de felicidade.. jovens e confiantes. rejubilando-se ou entristecendo-se uns com os outros. aniversário do nosso casamento. algo sonhadora.. em geral.. pela alameda de nogueiras.. marquês de Sommelles. fora ao ler o «Diário de Família». entrava ela amiúde a devanear. Elys.. enamorado. Graças. Satisfeita 22 . em que haviam anotado os sucessos importantes de suas vidas. que outra coisa não era senão o amor. esse sorriso de ironia. Essa meiguice do olhar de Ogier. e até expurgar. a não ser talvez por uma mudança de humor da sobrinha. a fim de que saibam cumprir. E Luís-Benigno? Como seria ele ?. que Elys começara a sonhar com imprecisas alegrias. muitas vezes felizes. Evocava a lembrança das antigas castelãs. que o senhor de Chancenay.. E Elys divertia-se em compor-lhe espiritualmente o retrato. Dona Antonieta tinha a sobrinha em conta de uma criança inteligente. se a moça não houvesse conhecido Ogier de Chancenay. para logo lobrigava nesse olhar cândido. dócil. Era este justamente louro. nossa filha Elys e Luís-Benigno de Varzon. a imaginação entusiasta. se lhe representavam de novo ao espírito. mas. Sim.. tal como a si mesma o figurava. assistimos à missa. imaginava-a -com seus próprios traços fisionómicos. alto. por isso que lhe usava o mesmo nome. muito unidos. e em cujas páginas havia frasezinhas como estas: «Hoje. com admiração ingénua. porém. a fim de que se edificassem.. batizou-se na capela de Prexeuil nosso filhinho João-Maria Francisco. esse estado de espírito. às vezes. como o atestava o «Diário de Família». sem desfalecimentos. porte elegante. não pressentira o perigo que encerravam — até certo ponto — semelhantes evocações. Perturbada. que dás aos teus servos!» «Neste dia da festa dos apóstolos Pedro e Paulo. de lhe mostrar os homens sob cores sombrias. receberam-se em casamento.. Tinha os olhos altaneiros — olhos soberbos. a cônega de Prexeuil. mais que meigos. surpreendera-se a si mesma a rememorar as poucas palavras trocadas com ele. que tivera todo o cuidado de afastar da sobrinha os romances de fantasia. e foram abençoados. rogai por estas crianças que se adoram. dos sofrimentos. portanto. textos de história ou de literatura.

. adornava a capela. Vamos deixa-me! Assim falando. nada havia mudado na existência da jovem freirinha.. trabalhava para os pobres. que a cumprimentou. Entrou no vestíbulo. por quem é! Não se perturbe absolutamente com a minha presença!. reunidas em delicados cadernos. Nesse momento. pois tem gravado o nosso brasão e inscrito o teu nome. disse entre si: «Rosália aproveita o sol para arejar os aposentos. e que tanto bem quisera a Elys de Valromée. Impeliu o portão de madeira.. Cheguei ontem à noite. diligentemente. e ela mandará Melita trazê-lo aqui. Liau. andar. Certa noite.. no dia seguinte. — Bom dia. e não imaginando pudesse jamais voltar — ao menos por enquanto — ao silencioso solar do «Prado-Bento». abrindo a porta do salão. saindo dos fundos da casa. Separaram-se as duas. e trarei ao mesmo tempo o caderno que me falta. disse à cônega de Valromée: — Quer-me parecer que Rosália está cansada ou talvez doente. desenhava ou estudava música.. pelo interior da casa. discreta. Elys possuía algumas delas. deixa-me. com Rosália simplesmente já que te encontras com ela todas as manhãs. assim tão quente». do bem-estar das tias. arte esta em que tivera por mestra a senhora de Valheuil e. as faces subitamente ruborizadas. ao arrumá-los. Bom. parecia à moça. Fala.. — Oh! senhorinha. No limiar da biblioteca. — Ou então eu lhe direi. religiosamente. Depois de o ter em vão procurado. e estacou. para subir ao «Prado- Bento». lembrou-se de que o havia deixado no «Prado-Bento». Bom dia. aparentemente. meu anjo. o senhor de Chancenay. estupefata. Vou. inesperadamente.. — Pois bem.. dizia entre si que. extremamente inteligente sob grosseira aparência. — Perdão.. porque vou à casa do velho Matissou. Tu irás ter comigo. atirou-se para ela. O triste acontecimento lhe fizera esquecer essa circunstância. — balbuciou Elys. em que a sua querida amiga havia passado a última parte de sua vida.. Ocupava-se todos os dias. — Como quiseres minha filha. Dona Antonieta gostava de ouvi-la tocar antigas árias num cravo. vai amanhã ao «Prado-Bento» e pede a Rosália que o procure. uma como verdadeira provação.. que se conservava. na capela.. Mas faça o favor de entrar.. todo esse quadro familiar.. auxiliada de suas disposições naturais. É fácil reconhecê-lo. Assim. agora. Elys.. em Prexeuil. recobrando então um pouco de sua presença de espírito. Liau!. e. disse a senhora de Prexeuil. que abriu como costumava. latindo de alegria. E eu continuo. acabava de aparecer. — Pois sim. como visse abertas todas as janelas do primeiro..com a rápida partida do senhor de Chancenay. Mas... Vinha pedir a Rosália. e em cujas capas se viam gravadas as armas dos Prexeuil. Compreendo que te seja penoso transpor. ao sairmos da missa. custava muito a Elys o transpor agora os umbrais desse solar. amorável e tão delicadamente impressionável. A moça acariciou-lhe a enorme cabeça buscando moderar os entusiasmos do Terra-Nova... à saída da aldeia. Ao saírem da igreja. que ela havia tocado. o que desorientou algum tanto a pobre da Rosália. com que encarou a moça. disse-lhe com tímida hesitação: — Mas.. meu velho!. para deixar passar a moça. — E que manda a este seu criado? Ela explicou em poucas palavras o que ali a levava.. se tornara abalizada executante. continuando a moça o seu caminho. já que o senhor aqui está. que eu vou chamá-la. pois. deixando trair no olhar. e tem razão. notou Elys a ausência da velha criada. ao «Prado-Bento» saber o que há. notou a falta de um desses cadernos. pois. O tornar a ver esses objetos. e entrou no pátio. senhor. todos encadernados em carneira já desbotada. onde já não existe a nossa excelente amiga. justamente na véspera da morte da senhora de Valheuil. agora o limiar daquela casa. afastou-se. Ao aproximar-se da casa. razoável. que tinha por costume assistir à missa todos os dias. seguiu direito à porta da casa. nas horas vagas. em elegante trajo matinal. no caso de haver ele causado alguma impressão no cerebrozi-nho de ElySi tal impressão deveria apagar-se depressa numa natureza tão prudente. E. uma grande surpresa e um vivíssimo contentamento.. e nada romântica . onde apenas subsistia a recordação da boa e lhana senhora. 23 . pois. Eu não sabia que. Como lhe dissera a tia. porque não teremos talvez por muito tempo este bom sol. dissimulados por trás de um bcsquete. parece-me que é ao senhor conde que me devo dirigir..

os olhos súbito marejados se dirigiram para o vão da janela. — infelizmente muito depressa. Porque guardo ainda na lembrança as melhores recordações da senhora cônega Elys de Prexeuil. por me ter achado aqui. baixando um pouco os cílios castanhos.. Considerava-a com meiga ternura. — tornou Ogier.. em que não se fartara de contemplar a fotografia de Elys — ela lhe parecia ainda mais bela. Ogier prosseguiu. Elys corou ainda mais.. satisfeitíssimo. E um sorriso de suavíssima ironia entreabriu-lhe os lábios. que abriu logo as janelas. iluminou em cheio o semblante comovido de Elys. De novo os olhos violetas se fitaram nele num misto de surpresa e comoção profunda. é este.. uma comoção muito forte. e. Deu alguns passos para a porta. Erguendo então a cabeça. num tom de leve e meigo gracejo: — É interessante esse título de cônega. que lhe tremiam os bordos das pálpebras. Designou-lhe ela então uma arca. A moça corou ainda mais. as que mais lhe agradassem.. sim... ignorante ainda no seu perfume perturbador. — Oh! absolutamente! Incômodo nenhum. pois. sim. com um risinho brejeiro. a mesinha de trabalho de pau-rosa.. Depois. que ela me ensinou a querer.. o que lhe revelava que a freirinha entrevia agora horizontes novos. Muito agradecida. sem dúvida.. usado por uma moça como a senhora. seguida do senhor de Chancenay. com o seu fino sorriso. isso nada significa.. um tanto trêmula. há de deixá-lo para casar-se. O sol. Sou eu que lhe peço. Rosália nada tem que ver com isto. — Agora tenha a bondade de me dizer o lugar em que julga possa estar esse caderno.. cuja ardente carícia envolvia ternamente Elys.. durante essa ausência. disse Elys.. prosseguiu com uma graça encantadora.. Ogier sorriu sem insistir. essa cândida sedução do lírio. senhor conde. Depois de um curto silêncio. Quantas vezes não me sentei aí aos pés dela! Conversavamos e ela me dava então os seus conselhos — bons e ternos conselhos.. Eu lhas mandaria levar a Prexeuil.. Mas eu nunca me casarei!. — Sim. invadindo a grande sala de usado mobiliário. dentro em breve. E o seu coração se comovia ainda mais profundamente ante essa beleza. senhor conde!. Elys pôs a mão... Queira perdoar-me o ter vindo incomodá-lo.. Creio que minha tia. senhorinha. essa bela freirinha!. com permissão da senhora sua tia. — Está pensando na sua pobre amiga? perguntou Ogier. que lhe ganhara. .. . — Oh! muito obrigada. isso mesmo. a cestinha atulhada de novelos de lã branca e cinzenta. irá perguntar à senhora de Prexeuil se o permite. faça todas as pesquisas que quiser e me permita também auxiliá-la.. entrou para o salão. — Eu me sentiria muito feliz se a senhorinha escolhesse entre estas músicas. onde ainda se conservavam a grande poltrona estofada. tão deliciosamente comovida! — Pois bem.. enquanto a moça folheava o caderno.. Tomara-a de repente um mal-estar. posto que apenas a tenha visto alguns instantes. não é assim? — Sim. não a deixaria ir-se assim tão rapidamente... porque esta casa a senhora a conhece melhor do que eu. por entre cujas páginas se haviam metido outras. Não lhe passou despercebida a perturbação da moça. sobre a cabeça de Liau que se aproximara. que lhe não desagradavam talvez.. ao quente olhar desse rapaz que lhe falava de um futuro. Depois. o seu vestido cinzento. Sente-se então de tal modo resolvida a seguir o exemplo de suas tias? Elys não respondeu. senhorinha! Sinto-me. Hoje — à conta talvez do amor... balbuciando um agradecimento.. no sentir de Ogier. disse Ogier sorrindo. — Para casar. de pregas elegantes e a sua cruz de cônega pendente da fita azul-de-rei... Sentia-se cada vez mais vexada a linda freirinha — e tão perturbada. nesse momento um tanto tímido: — Sim. — Oh! isso é fácil de dizer. Felizmente. lia-lhe algumas coisas dos seus livros prediletos. desprendidas de outro volume. já que a tinha ali consigo. que nunca até ali ninguém lhe havia feito imaginar... passeando demoradamente o olhar por essa sala... como recordação da sua velha amiga. que o senhor de Chancenay abriu e dentro da qual logo se deparou a Elys o que buscava.. que eu nunca mais hei de esquecer. que lhe era tão familiar.. parou. a ponto justamente de substituir Rosália.. pelo contrário. Mas eu não quisera que. esse encanto juvenil e puro. animando-lhe o olhar... Com um gesto maquinal. 24 .. Mas..— Sim.

de um lindo e palpitante carmim — sorriso discreto. porém. — Suplico-lhe ainda um instante. Eu não lhe posso dizer.... balbuciou a moça.. dele.. baixou Elys as pálpebras. apresentando-me inesperadamente. disse Ogier com leve sorriso irónico. Poderia fazer-lhes nascer idéias que elas não devem ter... — Oh! certamente!. de parte essas peças... pedir à senhora de Prexeuil esta linda mãozinha.. — . respondia mais eloquentemente que os lábios tímidos... se deparou o que secretamente ansiava quase sem o cuidar. sem perda de tempo. Ogier. — Oh! certo que não... porém. a trêmula hesitação daquela alma inocente. E. Elys. excertos dos nossos autores clássicos.. e se lhe não sou de todo indiferente. o qual foi encontrar-se com o de Ogier. Elys. 25 . Ogier sorriu. principalmente os livros dos padres da Igreja. ao menos. — Pois bem...... reteve-a com um gesto. a mais cara preocupação de sua vida... Antes que Elys tivesse podido articular qualquer palavra. pelo menos até nova ordem. não é autor que se dê a ler às freirinhas de dezoito anos.. uma vez que a senhora sua tia nisso conviesse? — Cumpre refletir. — Não... Por quê? — Porque tenho motivos para crer que a senhora de Prexeuil alimenta mui fortes prevenções contra o casamento. O olhar porém. Advertida do móvel de minha visita.. este dele logo se apodera. sendo descoberto por um sagaz colecionador. pense agora.. cujo objeto..— Que livros eram esses ? — Obras. com a mesma voz cálida e uns suaves de gracejo: — Sabe a que eu a comparo?.. era o seu autor predileto. como se não desse por isso. não é verdade?.. Oh! como se fitavam nela esses olhos. porquanto à sua alma até então indiferente. a quem se acabava de patentear uma face da vida. dirigiu-se Elys apressadamente à porta. bem como algumas passagens de Andrômaca... ao passo que. Elys? Irei. — Sim.. antes que outros o descubram. — Posso então.. talvez se recuse a receber-me.. porém... Deu outra vez um passo para a porta. de que ele mesmo não se acreditava capaz. ardentemente apaixonado. Quer? Mas diga-me. senhor conde. não posso demorar mais. esta tarde. ir falar à senhora de Prexeuil? — Sim.. a irradiante alegria.. antes que eu lhe tenha falado? Estampou-se na expressiva fisionomia de Elys uma surpresa um tanto inquieta. .. num movimento rápido. Racine. Inclinando-se. que dava a perceber suficientemente ao senhor de Chancenay qual seria a resposta esperada. ao mesmo tempo que pelo semblante encantador lhe passava um frémito de comoção.. profundamente comovido. ela terá de ouvir as minhas razões! Uma sombra de ansiedade nublou o olhar de Elys. Minha tia Bathilde está à minha espera. saberei pleitear a minha causa. perdido neste nosso mundo de agora todo arte-nova. que até então se lhe ocultara... Quer ter a bondade de nada dizer a respeito à sua tia. já ele lhe havia lido nos olhos o amor ingénuo. Racine.. mas os olhos!. com um tremorzinho na voz.. dizendo: — Agora. — Não sei. para evadir-se ao perturbador império desses olhos ternamente apaixonados.. — Não dizer nada à minha tia?. sobre todos. Esse feliz possuidor faria de tal objeto o mais precioso ornamento de sua casa. porquanto essa cândida criança fazia despertar nele sentimentos de um amor delicado e terno. se lhe não desagrado. E um sorriso iluminou-lhe os lábios finamente desenhados... ... Que coisas novas e maravilhosas lhe diziam eles!. continuou. sobretudo religiosas. acrescentando: — Já compreendeu que a amo. nunca me deu a ler senão Ester e Atalia. De novo. Ogier.. traduzidos ou comentados. desejo saber a resposta que posso esperar de sua parte.. de trêmula comoção. — Aceitaria então o tornar-se minha esposa. esses ainda tinham um não sei quê de ironia. esses belos olhos castanhos! Os lábios.. porém. A um encantador objeto antigo. compreendo. antes. que acaba de citar.. tomou-lhe Ogier a ardente mãozinha... não é verdade.. erguendo as páipebrasz irradiou um olhar de inquieta supresa. Nunca pensei nisso..

ela a interrogará talvez. Sim. Todavia. E. — Então.. Ogier. . tal como a tia Bathilde e ela mesma. sacudia-o um arrepio de cólera e terror. essa graça virginal de flor imaculada. falecidos na flor da idade. sempre melancólico depois da viuvez. sempre pensei que ela exagerava um pouco.. indo.. cada qual a sua. num gesto amedrontado. não tivera a intenção de lhe falar já dos sentimentos que ela lhe inspirava.. tomando-a. se tornou um pouco rígida.. Eu lhe sou muito reconhecida por me ter educado e cercado de cuidados e carinhos! — Mas quer-me parecer que a menina se abria mais com a senhora de Valheuil do que com ela. pois se amavam loucamente. uma giga cheia de pêras... irresistivelmente. Ainda havia pouco..... não poderia proceder de outra maneira. educado pelos avós.. semblante austero e meigo. em que se preparava para fundar um lar. como o senhor há de ver. morta num acidente de carruagem.. ambos. ... Se for preciso. . mas possuía-lhe o retrato. belos olhos de feiticeiro.. não se recordava. de alma pura e ideal. Elys retirou-a logo. que ele adivinhava sob o recato da criança. talvez recusar-se obstinadamente. no dizer dos que 26 .. olhou maquinalmente em frente. reatou-o logo. «Serve-se da mesma expressão do cura». mais tarde. depondo meigamente os lábios nos dedinhos afusados. . muito delicada. Este. Deitado numa das alamedas. surgiam-lhe diante as imagens de seus pais.. sem que lhe deixasse saudades . definhando de dor. pensativamente. porque estava disposto a amar fidelissimamente essa deliciosa Elys de olhos cor-de- violeta. e também com a tia Bathilde. João de Chancenay... que acabavam de se fitar nos dela com tanta meiguice e ternura.. E recordava-lhes a triste história: a jovem senhora de Chancenay.. De volta do pomar. que se achavam abertas.. — E sempre se lhe apresentava ensejo. interrompido assim no seu sonhar. . Muito boa. e de modo tal que se verá obrigada a lhe relatar toda esta nossa conversa .. alguns anos depois.. — Mas é muito boa — refletiu Elys. que ela é muito boa. nós lhe explicaremos depois. Sentia-se dominado de uma profunda e ardente comoção. disse-lhe a velha criada: — Há muitas este ano. porém. logo mais à tarde? — Talvez. espiava Liau com mansidão um gato branco. E. sob aquelas suas frias aparências.. à minha tia. que denotavam a discreta confissão do seu amor acrescentou: — Eu só falarei. inconsolável. e estou certo de que ela perdoará. neste caso. Depois. dobrar aos seus desejos essa cônega autoritária. até logo?.a sua passada existência.. depois da sua visita. em tom convicto — muito boa..— Sim — disse a moça. e. entrou em casa. Nunca se falou de outra coisa. Rosália e Melita traziam. senhor conde. absolutamente fiel. ele lhe provaria que nem todas as mulheres são esposas mártires. Da mãe. ao entrarem os dois naquela sala. Lembrava-se do pai. oficial de caçadores. à noite.. encontrar-se com ela na sepultura de Sarjac. Nesse momento.. Mas as palavras lhe haviam subido aos lábios. Ao passarem por ele.. — Sim. ante essa encantadora beleza. não é verdade? — Sim.. Em verdade. órfão. para o jardim inundado de sol. — é verdade que minha tia sempre me deixou entrever que eu era destinada à vida de celibato. Parando no limiar de uma das portas-janelas. na atmosfera dessa delicada ternura e fina inteligência. esqueceria de bom grado o seu ceticismo. não! Haviam de conseguir. saiu da sala. dizia mal dos homens. Ogier... senhor conde. que me falou acerca desse volume.. deixando a casa. Eu. num enleio encantador: — É talvez como o senhor diz.. deu Ogier alguns passos pelo aposento . que arriçava o dorso2 a alguns passos de distância... Ao lado dela. Tornarei a vê-la talvez em Prexeuil. por isso. Mas. já amava extremamente essa querida Elys! Só em imaginar que a tia poderia levantar obstáculos.. Até logo. Estendeu a branca mãozinha ao senhor de Chancenay. — Oh! sim. hipnotizada pela desgraça da irmã e da sobrinha? E feito isto. trémulos.. Mas. é verdade. Olhe. diga-lhe somente que estou aqui. a tia Antonieta. Parece que a tia Antonieta sofreu muito. curvou-se respeitoso. e que eu lhe prometi ir em pessoa levar-lho a Prexeuil. ardentes. Tornando ao salão. as razões deste silêncio. devo dizer-lhe que falei com o senhor esta manhã. Oh! gostava tanto delas a pobre patroa!.. Ele. suspirando. disse entre si Ogier. não é verdade? Sorriu-se Elys. voltando rápido o rosto ruborizado. e desviando os olhos. rápida. levando consigo a visão daqueles olhos sorridentes e amorosos.

Ah! ele desejava que ela se tornasse sua esposa! Dissera-lhe que a amava! Esses olhos ternos e ardentes. contrariado. os preconceitos para com os representantes do sexo masculino. os olhos cheios de luz. realmente. alma que sustivera. que a sociedade. e. a satisfação de levar uma vida útil. — pesar de não ser agora esse homem. mais de uma vez... E estremecia a um tempo de alegria e temor. Caminharam.. Ao recordar-se dos olhares. eles também. oficial ccmo o pai. destarte. a matilha.. você aqui não pode ser tratado convenientemente! Fica todo o dia ao desamparo. estes se lhe impunham ao espírito com mais força e persistência. instintivamente. nada sabia. Cansadas de tão grande teimosia.. Todavia... E Ogier. se desprezar um pouco aos próprios olhos. se. — Mas. porque seus filhos vão para o trabalho. Desejava. sério e grave. Não deveria. ele se prometia a si mesmo que essa encantadora Elys havia de ser feliz. pleitear a sua causa. Bem se recordava Elys da animosidade que esta havia manifestado a respeito do novo proprietário do «Prado-Bento».. sentiu Elys um demorado calafrio de terror. Elys. que quase a afogava tão grande felicidade. Imaginava então esse Ogier. Não teria andado mal em dar-lhe ouvidos?. cujas cavalariças. mais de uma vez. — Não importa. e um elegante esportista.. O rapaz deu de ombros. o jovem esposo dessa distintíssima senhora.. Depois do quê. confidenciar tudo isso às suas tias? Não! À tia Antonieta. minha senhora. logo.haviam conhecido Anabel de Chancenay: feições de traços delicados. Cravava-se no coração um pesar.. e arrastara para o bem João de Chancenay. demais. consciente de seus deveres. Comumente não se demorava em tais pensamentos. minha mãe a amaria também . sozinho. a vida mundana de prazeres não tinha podido aniquilar. boca cismadora. tinha Ogier de Chancenay o poder de fazê-la sofrer. o resto.. perguntando por vezes a si mesma se não estaria a sonhar. que ele amava.. muito feliz. mais digno da moça intimorata. nada deixavam a desejar. corno se sentia apaixonada deles!. por sua vez..... . Chegou afinal à choupana.. de alegria. sendo enfim outra coisa mais que uma simples personagem em evidência na alta roda. denotando uma alma enérgica e delicada... a desagradável impressão de. Sim. perguntou dona Bathilde: 27 . primeiramente. sem dúvida. Que lhe importava. nobremente submisso a uma disciplina moral. meu pobre Mateus. ou levantar algum obstáculo.... despediram-se do pobre homem as duas senhoras. E tão depressa! Já agora o seu coração pertencia todo a esse estrangeiro. muito embora compreendesse.. fazendo-se de volta ao castelo.» E o coração descompassou-se-lhe num pulsar mais apressado. ou torná-la a mais feliz das mulheres! Sim. conheceria hoje. educado por esse pai e essa mãe. cumprindo os seus deveres. em suma. dizia ele.. doravante. Eu quero morrer aqui. pensara consigo mesmo que. que ela apenas conhecia. de certo. pois. eles se mostram muito carinhosos para com você. o qual se recusava obstinadamente a ser internado num hospital. ao recordar as lindas faces ruborizadas. erguendo os olhos para a sobrinha.. onde a senhora Bathilde se esforçava por convencer o seu protegido. CAPÍTULO VIII Elys apressava o passo a fim de chegar quanto antes no casebre do velho campônio. a este assistia o direito de explicar-se. morrer ali em sua casa. guiara. a senhora de Prexeuil decidiria. Depois.. a moça já lhe havia percebido. porém. não!. o iate. a que agora dava as costas com absoluta indiferença ? E pensava: «Certamente. todo esse passado. em silêncio.... que.. prevenida. como lhe haviam falado.. ola não quisesse receber o senhor de Chancenay?. aonde fora em piedosa visita dona Bathilde.. nesse instante!. nos quais havia surpreendido tão doces promessas de amor. das palavras de Ogier.. Sentia-se a moça um tanto aturdida. tão feliz. Aliás. Dava-se sempre pressa de afastar de si estas intempestivas icensuras de uma consciência. e de quem. esse homem. e aplaudiria com prazer esta minha escolha... Ã idéia de que a tia poderia recusar o seu consentimento. nada conseguiu. Nesse ponto começou a sentir tal ou qual inquietação. Se.. Esse não teria. Nessa manhã. tudo iluminado por um olhar profundo e límpido. que dele teria feito a educação materna.. mas. por momentos. como a minha defunta. sobretudo.. sentia-se tão feliz. sim..

... Gostas desse moço? — Sim. Lá embaixo. Ao cabo de longo silêncio. que não penses em casamento ? Com um gesto. subindo com passo igual a íngreme estrada que levava a Prexeuil. — O que ele te disse?! Que te disse ele minha filha? — Que desejava casar comigo. chegou ontem. logo.... — Ele vai pedir a tua mão?.— Viste Rosália? — Não... é o que sucederia.. Então. ao que parece.. enfiando o braço no de Elys. mas todos sofremos. esta tarde.. Sim.. aquelas feições comovidas... . pondo a descoberto a folhagem variegada das matas de um amarelo- pálido. por simples preconceito. vendo perigar a sua esperança. E tu não lhe disseste que. toda a sua alegria. qualquer que seja o estado em que nos vejamos. inquieto.. E foi ele então quem te recebeu?. ele mesmo o levará a Prexeuil. perguntou com hesitante meiguice. Somente lá no céu é que havemos de gozar. «não».. continuaram o caminho as duas senhoras. Era. Dona Bathilde parecia acreditar que nada demoveria das suas idéias a tia Antonieta... — Sim.... — Sim.. Sentia-se Elys cada vez mais inquieta. minha querida filha! receio que a tia Antonieta..creio que seria muito feliz. não! Não trazes o caderno?. que o outono já começava a vestir de suntuosa ramagem.. inútil? Apertou-se... Demais. titia. titia? — Mas.. — Oh! exclamou Elys.. minha filha... não é assim? — Oh! de certo. para tua felicidade... murmurando em seguida: — Mas a tia Antonieta se interessa pela vida daquelas a quem ama. E. banhando as árvores. filhinha! Refletiria. sem ao menos desejar saber o que valia o pretendente .. a senhora de Valromée. a moça protestou energicamente: — Para a minha felicidade? Pelo contrário... E um verdadeiro pasmo descompôs a fisionomia de dona Bathilde.. nós vimos a este mundo para sofrer. Por que. tia Bathilde!. com certeza.. Sobressaltou-se a senhora de Valromée à vista do frêmito que sacudiu o lindo semblante ruborizado da sobrinha e do brilho ardente que lhe chispava nos belos olhos aveludados. não vês que a tia Antonieta julga preferível. Foi a ele que pediste a autorização para trazer o caderno?... que encarava. 28 .... — Quer me parecer.. pela encosta. surpresa.sim. que sofremos sempre. o coração de Elys. porque outras já passaram por duríssimas provações.. Nos olhos tranquilos da cônega fuzilou um clarão de puro assombramento. para não recebê-lo.. Creio. aceder ao casamento da sobrinha-segunda.. sim... como lhe disse. Sacudiu a cabeça. cor-de-rosa e cor-de-laranja muito vivo.. por simples animosidade. Você — não é verdade? — você me compreende! Você não diria. todavia. — Inútil?...... impossível que esta recusasse. Sim. que acabaram matando-as. No flanco das cumeadas a bruma matinal acabava de desaparecer num halo de ouro. estendia-se uma luz clara. seria. inclinando-se para a senhora ae Valromée. titia... — Ah!. não é assim... outros menos.. tia Bathilde? O senhor de Chancenay deve vir.. .. disse a moça: — Você não dirá nada à tia do que eu lhe contei. — Oh! tia Bathude! Se soubesse o que ele me disse... E ao mesmo tempo.. — O senhor de Chancenay?. aqueles olhos brilhantes.. . faz que muitas de nós soframos cruelmente.. — Sim... — À tia Antonieta?!. Fui recebida pelo senhor de Chancenay... juntando as mãos.. Não me diga que ela recusará!. Uns mais.. A moça estacou na estrada. Colheria informações.. não me diga isso... titia.. eu creio que... pasmada. e não convém que ela se faça invisível. E um ardente rubor tingiu as faces de Elys.. — Minha filha. Neste ponto. o que ele me pediu!.. Que irá hoje à tarde pedir a minha mão à tia Antonieta.. Verdade é que o casamento.. Como?. algo ansiosa: — E tu quererias casar?. Mas.. compreendo.. sem prevenir ninguém..... titia.. — Não. repetiu.

— Receio que esse Bardilasse não me esteja a sair um patifório. você me está fazendo medo!.. Mas o senhor de Chancenay não procedeu bem.. marquês de Sommelles. mas também. Até ali.. pois receava demonstrar a sua comoção ao ter de lhe falar do senhor de Chancenay.. Fora ele. De olhos baixos. fazendo-a vibrar de comoção. que a senhora de Prexeuil logo afastara. confirmou Elys.. com esta diminuição de rendas. jovem e encantador.. que se haviam pousado um instante sobre eles. de vinte anos. achava-o delicioso.. vinha ele ao encontro dela ali. inebriante. deixara a todo momento cair sobre os joelhos o trabalho começado.. algo romântica. muito boa aparência. Elys?» Revia ainda esse olhar iluminado.. Depois do almoço. Soavam-lhe ainda nos ouvidos as palavras ditas por essa voz de tão cálidas inflexões: «Já compreendeu que a amo. Não sei como havemos de sair disso. havia conhecido coisa semelhante. tia Bathilde. Ao chegarem ao castelo. de si mesma. Amava-a esse estrangeiro. Oh! Como se sentia a freirinha ansiosa e comovida! Quantos pensamentos. a fim de que o conheçamos melhor. A senhora de Valromée soltou um fundo suspiro ao mesmo tempo que lançava à sobrinha um olhar de compassiva ternura. pôs-se a senhora de Prexeuil a rever as contas em companhia de dona Bathilde.. tu apenas conheces esse homem. se apaixonara de um gentil vizinho. não é assim. a despeito de tua pouca idadet para que não reflitas tu mesma acerca de tão grave eventualidade. os seus lindos dedos de patrícia. moça também e graciosa. murmurou Elys: — Oh! tia Bathilde. ao recor-dar-se do ardente contacto dos lábios sanguíneos. perturbada. Um raio de sol.. a fronte de uma delicada alvura de rosa nacarada. por uma chama muito viva. o rosto pensativo e palpitante.. declarando que já lhe bastava ter visto morrer de desgosto duas damas de Valromée. Agora. um não sei quê de comoção. olhos vagos no espaço.. na vida. sofria do golpe próximo que aguardava a jovem — tanto mais quanto.. em te falando logo à primeira vista. e punha-se a sonhar.. foram dona Bathilde e Elys encontrar dona Antonieta ocupada em verificar as contas que lhe prestava o seu rendeiro.... subiu para o seu quarto. confidenciando. nunca ouvira Elys falar em semelhante coisa! Agora. descendo até a moça. E certamente.. que tive de mandar fazer na ala esquerda. após curto silêncio. que unira outrora Elys de Prexeuil e Luis-Benigno de Varzon. tão diligente. Me. Tais cuidados preocuparam tanto a cônega que esta nem pensou de informar-se se Elys havia passado pelo «Prado-Bento». de certo. a reaver o caderno de música. Com o que muito se alegrou a moça... — De fato. saíra a senhora de Prexeuil de rosto mal humorado.. bem sabia ela sobre qual decisão iria embater o coração de Elys... para ver chegar Ogier de Chancenay. havendo o ano transcorrido muito mal. não andou bem. que encarou a sobrinha.. quando. Mas eu só peço à tia Antonieta que não diga «não». não lhe podia pagar senão dois terços da importância devida... o coração palpitante.. — De certo!. contemplava a freirinha os seus dedos afusados. Demais. ele sempre há de ter feito os seus negociozinhos.. que espere. de antemão..Com os lábios trémulos. não sabes absolutamente quem ele é... se a tia Antonieta o sabe.. querida. durante o almoço. onde se sentou junto à janela.. para que esta não desabasse completamente. Em seguida.. e ao mesmo tempo. Já.. teria talvez feito melhor se.. e o rubor lhe carminava as faces.... sim. alegria. porém.. naquela solidão... Não. De tal colóquio.. Elys corou de novo. sonhadora. porém. 29 .. isso não basta... de certo.. Ela... da boa senhora de Valheuil. Tem. esse primo.. mas o seu belo olhar não se desviou do da cônega. tão laboriosa.. Sem embargo do que diz... que ele se lhe revelara súbito. queria saber a minha opinião. veio beijar-lhe os cabelos sedosos.... — E que lhe respondeste? — Que eu não podia decidir já.. pálpebras descidas. os seus cuidados às sobrinhas. pois a nossa receita orça com a despesa. O amor. antes de tentar esse primeiro passo junto da titia. és uma moça de muito bom pensar. tomando de um trabalho qualquer. Soltou dona Bathilde outro suspiro. Mais bem instruída que a sobrinha acerca das razões de dona Antonieta. desejos e temores não lhe tumultuavam revoltos no espírito. observou: — Mas.. enquanto Elys. mas que iria refletir. E devemos ainda os consertos. mas. Parece-me que isto é muito razoável. é muito gentil. — Sim. de temor.. Declarava este que. vinha trazer-lhe.

como sabe. eu mesma sofri muito. duros e brilhantes..Levantando os olhos. que se não deixava facilmente desarmar.. a fim de fazer-lhe um pedido.. de meu pai e minha mãe foi a mais perfeita possível. eu não 30 . Se ela seguir os meus conselhos. como meu sobrinho Jacques. foi muito mal sucedida a nossa família no tocante a matrimónios.. nestas últimas gerações... Não. eu não pretendo achar-me isento de qualquer censura.. bastante inexperiência. respondeu. Não. além disso. minha senhora. — Julga pois que não adivinho quem o senhor é?... — Oh! senhor.. Eis porque não quero que Elys afronte as eventualidades dessa terrível aventura. posto que.. — Pois passou. ao mesmo tempo que. É pois a mão dela que eu venho solicitar. as feições congestas por mal contida indignação. uma dura experiência pessoal.. senhor de Chancenay! Empertigou-se agressiva. Tenho a experiência. Aqui está o volume pertencente à senhorinha de Valromée... no íntimo. para verificar que ela seria uma linda vítima a torturar. Depois. — «Eles» também diziam a mesma coisa antes de se casarem. Depois de tê-la visto?. se sentisse vivamente comovido: — Sim. sou órfão completamente livre. — Mas. tenho a certeza de que hei de fazer a felicidade da senhorinha de Valromée... — Sim! Isso apenas lhe bastou. tendo. — Não se faz necessário vê-la muitas vezes.. já desconfiada. depois a mulher de meu sobrinho. Duas?.. Eu não sabia que minha sobrinha tinha passado pelo «Prado-JBento». e verá que lhe hão de dizer que Ogier de Chancenay procedeu sempre de acordo com as leis da honra. Ogier prosseguiu no mesmo tom tranquilo.. para sabermos o quanto ela vale. Como meu cunhado... Vi sofrer muito minha mãe. que é o casamento... pelo menos durante algum tempo. senhor! Basta! Quero preservar a minha Elys de semelhante sorte. — Senhora! Ela envolveu-o num olhar de desprezo. com forçada serenidade — não se compõe o mundo apenas de lares infelizes.. não serei eu quem o negue. minha senhora. ao longe.. qual tem sido até hoje a sua vida? Poderá dizer-mo? Pasmado um instante ante a violência do assalto. E o coração entrou a bater-lhe descompassado. Mas. gentil cavalheiro.. tomada de angústia. — Sim.. ocioso.. explicou então Ogier: — Cheguei ontem à noite. Três?... dizia para si mesma: «Queira Deus que o ouça minha tia!. como já o fiz com minha sobrinha Bathilde. contendo a custo a impaciência: — De feito. o senhor de Chancenay. minha senhora. — Vem então pedir-me a mão de Elys de Valromée?. Fora.. cujas feições se descompunham e se congestionavam um pouco.. evidentemente. por exemplo.. Aymard de Valromée. sim. Mas poderá informar-se a meu respeito. pois tinha de subir hoje a Prexeuil. não se há de casar.. a esbelta silhueta de Ogier. mas o fato é que. pelo que me diz respeito. como esses! A união.. minha senhora. senhor! Eu sei muito bem o que isso é!.. Que ela não diga «não» sem querer primeiro refletir!» CAPÍTULO IX Via-se agora o senhor de Chancenay face a face com a velha cônega. mais correto que de tal pedido se encarregasse meu avô. ao mesmo tempo que os olhos. A cônega deu uma risadinha surda. caminhando pela alameda.. se fitavam no senhor de Chancenay.... Depondo o caderno de música sobre a mesa... depois de terem sofrido todos os insultos! Eis aqui. em verdade. não era preciso dar-se a esse incômodo . Sim.. abandonadas. tendo vindo aqui a negócios .. em todo caso. Queria ela mesma trazê-lo mas eu disse-lhe que o traria comigo.. e poupar-lhe qualquer surpresa desagradável.. minha senhora — objetou Ogier. viu.. cujas pobres esposas se finaram de dor. — Um pedido? repetiu dona Antonieta. um pedido. E... magníficas precedentes a urgirem comigo para que eu lhe conceda a mão de minha sobrinha. e eu tive até o prazer de cumprimentá-la.. Atalhou-o com um gesto breve a senhora de Prexeuil. Quantas vezes?. a velha dama.. para se deixar trair sem protestos.. É que eu não pude ver a senhorinha de Valromée sem experimentar por ela a maior admiração. de repente. e amá-la no mesmo instante. porque a amo mui sincera e profundamente. Rico. visivelmente surpreendida com semelhante reaparição. minha irmã. há lares felizes.

» — Por quê ? repetiu Elys. — E como sabe a titia? — Eu tinha essa impressão. Quando ele desapareceu. dei a conhecer esta manhã à senhorinha Elys — mas tranquilize-se. para fazer dele. fi-lo muito corretamente! — os sentimentos que ela me inspira. sentando-se ao lado da sobrinha. Foste culpada de dissimulação para com a tua velha tia. o que «ele» me pedira. enquanto a voz lhe soava quase imperativa. — Quê?. diga-me uma coisa. — Ah! Realmente!.. teve um ligeiro sobressalto. Ogier pôs-se de pé. que ficara um instante imóvel. Fitou o olhar nos olhos comovidos da moça. a titia. E ela nada me disse.. apertou a moça a mão da cônega: — Perdoe-me! Eu não tinha a intenção de lhe ofender.. — Neste caso... implicitamente. não é verdade? Pois bem senhor. mas cedeste um instante às sugestões do senhor de Chancenay.. para deitar a perder os pobres cérebros das mulheres.. hão de lhe sair errados os cálculos! Não espere que hei de tornar atrás nesta minha recusa. Tremeram ligeiramente as faces da velha dama. que te educou com todo o carinho. posto que a alma lhe fervesse de raiva. saiu da sala. porque é do futuro dela que se trata.. pedindo-lhe que me releve o ter vindo importuná-la. . — Titia! E. subiu a escadaria de pedra. por que receava que eu o não recebesse. curvando-se. 31 . tia Antonieta! — Bem sei. A senhora de Prexeuil. os quais. recusou-lhe o pedido?... dizendo-lhe num tom. Elys empalideceu ainda mais. só me resta retirar-me. o qual a senhora quer arriscar assim. .. reconhecê-lo. há de compreender. Buscou então o senhor aliciá-la. Elys é uma moça bem comportada e de muito bom senso.. o rosto contraído de ansiedade. contudo. eis transtornado para logo o teu juízo! Ah! minha filha! Felizmente. — De certo!.. Fuzilou no olhar da cônega um clarão de contrariedade.. qualquer que seja a impressão que o senhor haja produzido em minha sobrinha. felizmente. tomou de uma cadeira.. .. tomando de assalto esse pobre coração.. e o rubor tingiu-lhe as faces. Pode perder toda esperança. sempre muito cortês. Mas. E despediu-se.. Estremeceu de novo dona Antonieta. não se baixaram. — Porque esse homem não é digno de ti. não é verdade?. dizendo asperamente : — Ah! Começavas a te deixar prender no laço. ao mesmo tempo que empalidecia.. ao pé de mim.. pelos quais passava um clarão de sofrimento. Aliás. caso eu julgue necessário comunicar-lhe esta sua tentativa. A moça. Era a única resposta que eu tinha para dar-lhe. Por quê? Animavam-se os olhos de Elys de uma ardente expressão de angústia... e o meu ardente desejo de fazê-la minha esposa. antes de assentar de vez essa sua decisão. que a senhora reflita. E ele mesmo acaba de. que estava pensativa. de fisionomia simpática.. de certo.. Neste ponto. Aliás. Não falaremos mais sobre isto.. E tu? Fizeste o que ele te pediu. para dizer-te: «Urge que o esqueças. em passos pesados. — Assumo toda a responsabilidade. para velar por ti. . levantou-se a senhora de Prexeuil.. como também lhe disse. tudo agora está acabado.. —. e quer afastar de ti essa desgraça.darei nunca esta criança inocente ao homem que o senhor deve ser.... que «eles» sabem tão bem prodigalizar. isto é. aproximando-se. . há de também ser ouvida a senhorinha de Valromée. que te soprou com certeza essas palavras douradas.. tia Bathilde já o sabia. por que me ocultaste que havias estado esta manhã com o senhor de Chancenay? — Eu esperava dizer-lhe ainda. um seu aliado. que não falasse à titia antes da visita que tencionava fazer-lhe. Creio que. as mãos cruzadas sobre o trabalho. — Sim. — Elys. Depois. minha senhora. porque sabe lisonjear. contudo. por lho haver dito logo eu mesma.. como ingênua e inocente criaturai que és? Só porque é moço. Elys se levantou... abaixando lentamente as pálpebras sobre os olhos. . com os lábios trémulos. titia.. esse desconhecido. e entrou no quarto de Elys. que denotava a cólera que lhe rugia no peito: — Espero. Então. as razões desta minha recusa.. aqui estou eu. mentir com bonitas palavras.. já lhe havia falado sobre isto? — Sim....

No seu quarto.. Retirou-se a cônega do aposento.. .. minha tia...» E a esta idéia. que se opunha aos seus desejos. de que já te ocupas. Não. dizia entre si: «Jamais cederá!. tentarei esquecer. que jurei a mim mesma premunir-te contra semelhante sorte. mãos cruzadas sobre os joelhos. Elys. até naquela solidão. Depois. que comoveu a cônega. erguendo os olhos para dona Antonieta. Eu as vi sofrer tanto. uma como indiferença dolorosa. quando te vires só no mundo. incapaz de te guiar. e os próprios lábios pareciam lívidos.... Ao retirar-se de Pre-xeuil.. passou a senhora de Prexeuil os dedos nodosos de reumatismo por sobre a mão gelada da sobrinha. disse Elys em voz quase extinta: — Ê muito grave o que exige de mim.. Essa criança louca era bem capaz de sofrer por algum tempo. caso não queiras continuar em Prexeuil. Se não discutiu mais com a velha dama. peço-te somente consideres que sempre tive em vista o poupar-te a sofrimentos. ele se veria forçado a renunciar à encantadora Elys. ..... eu quisera deixar-te a salvo das surpresas de tua fantasia.. murmurou Elys. com todo o cândido entusiasmo de sua inocência de menina e moça. porém. é fraca. Bem sabes que o que eu desejo é que te aproveite a minha dura experiência. Elys. Ah! maldito amor. ele deixaria agora Gouxy! Ele também tinha uma vontade que se não dobrava facilmente ante os obstáculos. Haveria 32 . Inclinando-se. Ela. já que se fez mister. Felizmente. Conservando sempre os olhos baixos.» Percorreu-lhe os membros um arrepio de dor. havia o senhor de Chancenay apelado para toda a sua educação de homem de sociedade. tua mãe. pois a fotografia representava a viscondessa de Valromée. continuarás com as tuas obras de caridade. te recolherás como pensionista a um convento. Elys ainda permanecia imóvel. Vamos. dos arrebatamentos de teu coração. — Eu já estou velha — prosseguiu a cônega — posso. falemos hoje mesmo. a única mulher que lhe havia tão fundamente tocado o coração?. — Eu não exijo. para lhe dar a provar o seu maléfico poder! . Eu só desejava tratar deste assunto daqui a dois ou três anos. nem levantou as pálpebras. nos seus olhos. titia2 cumprir o que me pede. ser chamada à presença do Senhor. como provavelmente já não existirei daqui a alguns anos. todas ardentes e grossas.. vindas daquele coração alanceado... se lhe iria apagando da memória a lembrança encantadora do belo Chancenay. seguidas logo de outras e outras. e.. Vincava-lhe a fronte uma ruga de contrariedade. De uma cesta saiu um gato que veio manso e manso até a janelax saltando-lhe ao parapeito. que já se havia dado inteiro. Num gesto autoritário. a fim de conservar-se ícalmo e conter o seu desespero ante a vontade rígida e assentada.... Dizia consigo mesma: «Por que fiz eu tal promessa à minha tia?. não podia ser! Não se confessava de modo algum vencido.. Ver-te-ás então sozinha com tua tia Bathilde. Fugira-lhe das belas faces o sangue. Elys. pouco depois do casamento.. olhando maquinalmente o retrato da mãe... dona Antonieta beijou a sobrinha na testa. — Sim. e pelas faces deslizaram-lhe duas lágrimas. ele.Seguiu-se um longo silêncio. é que adivinhou a inutilidade de tal insistência ante semelhante prevenção. das suas torpezas. e pois. E havia na sua voz. a miar a fim de atrair a atenção da jovem. — Ouve. das suas desilusões. Eis por que. minha tia. porém. refreia a tua imaginação de jovem ainda ignorante da vida. minha filha.. não se moveu. pareceu meditar um instante. com a mesma serenidade. CAPÍTULO X Durante a sua curta entrevista com a cônega. esquece quanto antes este episódio. a freirinha de Valromée. tua avó tiveram com o casamento as mais dolorosas das existências. Uma vez que não nos podemos casar. Elys não se moveu. tomava-se de uma surda cólera. disse tranquilamente: — Prometo-lhe. mas. — És de bom pensar. Elys.. Ora.. eis por que te peço o seguinte: promete-me que hás de repelir sempre todos os pedidos de casamento que te forem feitos depois de minha morte. assim derrotado... Então porque essa solteirona se empedrava numa idéia fixa. Viverás aqui com tua tia Bathilde. de um momento para outro. imóvel. muito moça ainda. minha filha... ele ainda não tivera tempo de fazer grandes estragos no coração da moça. colocado diante dela: delicado semblante de olhos meigos e sorriso alegre. a pouco e pouco.. Era-lhe forçoso vir buscar. e muito se enganava a senhora de Prexeuil se acreditava que.

Com um quê de severidade na voz.. Recordava-se talvez de que. Sem dúvida. e sem circunlóquios.. sim senhor cura! Também assim o creio.. porque o coração. replicou-lhe o cura: — Assim também o espero. em particular. Depois de uma curta troca de palavras insignificantes. tomada de um ligeiro tremor. senhor cura! Não creia que me conservei solteira por vocação! Oh! Não! Eu também fui noiva. Sim. traía-me com outras. que repercutira profundamente naquela natureza... Que se vá daqui. esses belos senhores! Conheço isso muito bem. deixara uma bela menina que lhe tomassem de assalto o coração ardente. jamais poderá Elys ser sua esposa! — Mas.. O que desejo é fazer-lhe apenas algumas observações. Esquece-o». — Ah! fez-lhe as suas confidências?.de ver a velha cônega! Na manhã seguinte. porém... eu também amei... os lábios trémulos. Contemplava-a comovido o abade Dambry. de 33 . para saber que. qualquer que fosse o pretendente? — É exato. com esta senhora. esse não se inflama assim tão depressa. — Oh! exclamou o padre. de novo.. Bem lhe queria parecer que essa mulher sofrera na vida uma grande decepção sentimental. esforçando-se visivelmente por falar com muita calma: — Infelizmente. — Sim. O que. em geral. ainda agora. Mas a senhora não tinha o direito de arrancar tal promessa a uma jovem inexperiente. ... de nada serviam tais rodeios. Será exato que deu a entender ao senhor de Chancenay que estava decidida a desviar do matrimónio sua sobrinha-segunda... Aí estava a génese dessa violenta hostilidade contra o sexo masculino. E obtive dela a promessa de que jamais se casaria. que era o fim de sua visita. — Não venho aqui como embaixador. Foi uma desgraça a vinda desse Chancenay! Que ele parta. para conhecer já decepção desse gênero... num baile. que o não esqueçam facilmente! E a senhora de Prexeuil. o que sofri eu mesmo!. portanto conhecia demais o caráter de dona Antonieta.. — Estive esta manhã com o senhor de Chancenay.. num vivo movimento de protesto. todavia.. à simples evocação desses momentos. porém. porque nunca. recebi um golpe tão cruel que.. friamente: — É preciso. Ao cabo de curto silêncio.. Amei muito! Mas o miserável. olhar coruscante.. ao mesmo tempo que me fazia os mais ardentes protestos de amor.. quanto antes!. Calou-se.. outrora. mais me admira é que se faça o senhor cura embaixador de um indivíduo que o senhor não sabe quem seja. Note bem que não lhe quero.. minha senhora. Calou-se. o padre continuou: — A senhora exagera. agora que se lhe falhou o golpe. . continuou a cônega.. A cônega deu uma das suas risadinhas. Contou-me o pedido que lhe fizera e a resposta que a senhora lhe deu.. mas também pelas encantadoras virtudes da menina Elys.. Uma mulher virtuosa. Pensativamente. que.. Mas se assim procedo é para o bem dela! Eu não quero que se arrisque a sofrer o que já sofreram outras ao redor de mim.. senhor cura. e teve com o cura uma longa conversa. Tão somente o cérebro. fez-se o senhor de Chancenay a caminho do presbitério. permita-me que lho diga. por amor dessa moça. orgulhosa e apaixonada. por gratidão. Estou convencido de que esse rapaz se sente mui lealmente atraído não só pela beleza. desde essa noite muito teria ela sofrido se lhe dissessem: «Não penses mais nele. agora. ventilou ele o assunto.. e que o esqueçam! O padre sacudiu a cabeça: — Receio. a considerarmos o gênero de vida que tem levado. Queira o senhor cura repetir ao senhor Chancenay o que já ontem lhe declarei: não alimente nenhuma esperança. Ensombrou-se logo a fisionomia da velha senhora. minha senhora. que é ainda uma criança. e que. prepara-se para deixar Gouxy?. — Sim... o abade Dambry subiu até Prexeuil. . Por volta do meio-dia. esse mui sedutor Chancenay conseguiu impressionar o cérebro de Elys. tenho a certeza.. senhor cura! Ah! Custou-me caro o conhecê-lo!. de quem deveria até desconfiar muito. confirmou em tom firme a senhora de Prexeuil. não se pode admitir essa recusa sistemática!. ainda mesmo depois de minha morte. é tudo o que eles desejam.. nada lhe pode recusar! — Não tenho o direito!?. Ao sabê-lo.. e os rapazes solteiros. sinto que se me confrange o coração.

. ao que me pareceu. nesses embargos que a senhora opõe à vocação dessa jovem. Oh! esses senhores!. É quase ódio o que sinto por eles! E empertigava-se. admiravelmente dotado sob todos os aspectos. De passagem.. repousando em 34 . mais do que nunca. sob pretexto da pouca idade de sua sobrinha? Entrementes. de elegante ocioso. mais uma vez.. — Aliette. exigirá desse homem. inútil qualquer insistência de sua parte. atalhou-o a senhora de Prexeuil: — Basta. não será nunca o esposo de Elys! Sim. Depois. comprometendo-se.. buscará a senhora informações fidedignas. Oh! meu Deus. o padre. ela seria muito desgraçada! Aguarde um ano. por enquanto. não! Eu não posso convir num prazo tão longo. Esse belo rapaz. assim procedeu com a esposa o meu sobrinho Jacques!. Quanto a isto.... muito inteligente.. com uma lealdade que muito me agradou. entrou no «Prado-Bento». minha senhora: por que não vai adiando a sua resposta para daqui a um ano.. caso continue a pretender a mão da menina de Valromée. cheios de amor e confiança. «Eles» tripudiaram sobre as ilusões delas.. até. contrariando a vocação de sua sobrinha. Uma mulher como a menina de Valromée. de reparação. daí por diante.. se. não! Nunca! O senhor de Chancenay — nem ele. E Teresa. não perturbe ainda mais o coração dessa pobre moça! Vendo-se. bem como. senhor cura! Não falemos mais em tal assunto. — E. os olhos reluzentes de rancor feroz.. Mais tarde. senhor cura? Levantou-se. Ela. a minha querida Aliette. a fim de convencê-la de que a tia não tem o direito de lhe extorquir semelhante promessa! — Não. para comunicar ao senhor de Chancenay o resultado da sua missão. — Palavras não são essas de cristã.. morrer a cônega?. a levar vida mais útil. quando penso. para semelhante missão. e ao cabo. certo desdém.. juntando as mãos engelhadas. nesse intervalo. o padre: — Talvez reflita ainda melhor. Contudo. severamente.. então.. Mas não posso!. sobre os seus jovens corações. obrigada à sua promessa! Não. onde a senhora lhe aferiria o caráter sem que. porquanto V. por enquanto. O senhor de Chancenay — como aliás ele mesmo o reconheceu em conversa comigo. ainda que se torne ermitão. minha senhora! retrucou-lhe. Ao lhe dizer o padre que a cônega fizera a sobrinha lhe prometer que jamais se casaria.. porém. ela há de compreender que era eu quem estava com a razão... mais nobre.. E... dois anos. despediu-se o abade Dambry e retirou-se. aconselhar.. fazer que eu mudasse de pensar. Seria isso verdadeira prova. as feições contraídas. crente convencida.. que eu consinta em que tente essa terrível aventura a minha inocente Elys?! Não.. alma honesta e nobilíssima. Julgar-se-á então a senhorinha de Valromée. ele. solicitada entre a inclinação pelo senhor e a afetuosa gratidão para com a tia. de vida bem regrada! Assim procedeu comigo.. nem nenhum outro. mais tarde. repare ele os erros do passado.. ao mesmo tempo. Mas eu buscarei modo de me avistar com Elys de Valromée.. um desconhecido.. que tenho feito esforços para consegui-lo!. temos pois conversado não é assim. — Seja! Assumo inteira responsabilidade dos meus atos como já o disse ao senhor de Ghancenay. . Ogier deu um salto de pura indignação. e aos quais deita a perder a culposa condescendência dos pais. não vingaria. eu os conheço a todos. passando a mão trêmula pela testa orvalhada de suor. Secamente.. senhor conde. e confesso-o. faça por merecê-la. apertava-as convulsivamente.. murmurou em voz surda: — Parece-me que não.. cujo caráter deverá ser estudado e posto à prova. E aqui está o que lhe desejava dizer.. Rvma. Ah! Asseguro-lhe. quando penso. a mulher de Jacques.. sistematicamente. tentaremos.. . — o senhor de Chancenay tem até agora vivido como vivem em geral a maior parte dos rapazes. é ainda muito criança.. prejudicado o futuro. Vendo. E quer V. Entrementes.. minha senhora.. acentuada lealdade e energia. ao mesmo tempo. — terá o prazer de fazer dessa alma o joguete de sua fantasia. o seu beneplácito a esse casamento.. ou dois. — Oh! Não! Isso é demais!. Rvma.. notei nele. sei o que valem os seus protestos de arrependimento. lentamente. que tanto sofreu! ..modo nenhum. demover a senhora de Prexeuil de suas obstinadas prevenções. que dispõem de grande fortuna. Vejo que nada perdoou! A cônega.. quando aos ouvidos de Elys chegarem esses ecos tristíssimos da vida. houvesse de se censurar a si mesma de ter. senhor cura. em estado latente pela sua existência atual de mundano. O que lhe repito é que de parte a personalidade do pretendente — eu não posso convir nessa sua recusa sistemática... poderia talvez ser o instrumento de transformação desse homem.

pois eu. Fazendo um gesto de impaciência. mas. quase violento do amo.. não me 35 ... mulher! A ti é que compete velar por tua sobrinha. e notara-lhe a palidez e uma ruga de tristeza nos cantos dos lábios. toda uma parte do gênero humano! Como Rosália surpreendida por estas palavras e pelo tom áspero. em companhia da mãe. V. sem remissão.. ao mesmo tempo que o olhar fuzilou relâmpagos: — Desistir?!. obter dela que lhe prometesse envidar esforços junto da tia. e sem embargos da tia há de a senhorinha de Valromée tornar-se minha esposa.. nada tenho que ver com isso.» E a própria Maud dizia numa carta ao primo: «Sarjac. — É o seguinte. eu esperaria. sem que alcançasse o desejado resultado. De feito. Essa teimosa cônega empedrada no seu rancor.. Sacudiu o padre a cabeça. Ou então reenvia Melita aos pais. onde lia os jornais. tudo dominava. fazia ao mesmo tempo sofrer duas criaturas. acrescentou secamente o senhor de Chancenay: — Sim.. sim. Ogier fez um gesto altivo de protesto.... pois a ardente resolução que acabara de ler no olhar do moço lhe revelara bem o sentimento apaixonado de que Elys era objeto. guardando-lhe fidelidade absoluta. O que eu quisera era poder vencer a vontade inflexível dessa velha tia. Certo. Rosália. Ogier queria tornar a ver Elys. Enxergara-a. Seria disso causa a obstinação da tia? A esta idéia. jurara a si mesmo que ela não levaria a melhor! Correram assim oito dias.. um tanto constrangida. e quer-me parecer que a deves trazer de olho. Mas a dificuldade estava. algo hesitante.. de um dia para outro. Sem embargo do que lhe havia dito o cura.. quer que lho diga com franqueza? Julgo melhor o senhor conde desistir. não me conhece. já agora. enquanto aqui eu estiver: mas. Mas nada receie senhor cura. Rvma. A despeito daqueles olhos sempre no chão. vê se te arranjas lá com o Juliano. nele.... parece-me horrivelmente triste». — Pois dize logo. antes que houvesse atingido o alvo dos seus desejos! Certa tarde. Mas eu queria dizer-lhe uma coisa. e eu vejo que esta se vai deixando embeiçar. inquiriu. é uma grande namoradeira — namoradeira e sonsa.. quisera poder esperar por outra coisa mais que a simples mudança de idéias numa velha senhora. Mas como? Retirou-se o abade Dambry um tanto inquieto. desde que o mundo é mundo. por favor.. que se achava agora em Biarritz. oito dias volvidos após a ida do abade de Gouxy a Prexeuil. esperaria. porém. algumas vezes. — Olhe. continuasse imóvel a encará-lo com olhos estupefatos.. O criado do senhor conde anda a arrastar a asa à Melita. Entretanto. E certo. deveria ter-se acautelado a senhora de Prexeuil.. é o que é! Ah! Só aos homens é que sabem lançar os anátemas! Como se. sentia Ogier uma impressão de cólera.. os obstáculos só têm forças para me incitar à luta! A despeito. não tivesse havido mulheres a lhes oferecer o fruto proibido. Ele.. Entreabriram-se num riso breve. que pode morrer. de mim.. Teve a mesma sorte uma cartinha de Sari Doucza. e toma outra cozinheira. Por amor dessa moça que adoro... espreitou-a o senhor de Chancenay. senhor conde. o padre..esperança tão frágil!. que eu tenho por ela o mais profundo respeito. impedindo a sobrinha de sair sozinha. sabendo que Ogier estava na aldeia. os lábios de Ogier... sem ti.. sim. A tais leituras.. Durante os dias que se seguiram. — Peço perdão ao senhor conde de vir incomodá-lo. Que pretende fazer.... rasgando as cartas com impaciência. algo irónico.. falar-lhe. E então lembrei-me que o senhor conde poderia dizer uma palavrinha ao Juliano. pelas cercanias de Prexeuil. — Que há. Maud já perdeu toda alegria. ao senhor de Chancenay as dificuldades aumentavam a força desse amor que. viu o senhor conde de Chancenay entrar-lhe na biblioteca.. vivamente. daqueles modos muito recatados. tudo para ele era indiferente..... Sarjac não o tornaria a ver.. Eis em que deveriam meditar bem certas pessoas demasiado parciais. empedrada na sua teimosia até o derradeiro suspiro!.. Rosália? perguntou.. — Não sei ainda. senhor conde?. mas sempre acompanhada de dona Bathilde. dava de ombros Ogier. a velha criada de quarto. a fim de mudar as idéias desta. que condenam.. a fim de impedir que. escrevia ao neto a senhora de Chancenay: «Quando queres então voltar? Todos aqui o perguntam. Ogier atalhou rápido a velha criada: — Pouco me importam essas coisas.. senhor cura! Para mim. em poder encontrá-la sozinha. Vira-a também na capelinha. — Que tenciona fazer?... Exceto Elys de Valromée.

dissera Rosália ao senhor de Chancenay. Desejo ter com a senhorinha uma explicação. E quando Ogier penetrou na alameda das faias. levando consigo o cesto cheio. ao passar um dia pelo caminho que contorna Prexeuil. Chegando à cerca de Prexeuil.. de certo. andei mal. caminhava uma criada.» Eis aí por que. que precede o castelo. conduzindo a escada e outra cesta. em certo pontoa se alargava de tal sorte que formava verdadeira brecha. sonhadores. Queria fazer ainda uma última tentativa. Pararam as duas mulheres junto da pereira. que me opõe a senhora sua tia. acompanhava-as um gato em passos lentos e macios. pois bem sabe o quanto a senhora condessa faz empenho de que esses belos frutos não apodreçam. A certa altura. trazendo na mão. pereiras cujas folhagens amarelecidas deixavam ver. ondulando o corpo elástico. uma grande cesta. mas eu não devo ouvi-lo. dirigiu-se o senhor de Chancenay por um caminho que perlongava exteriormente o velho muro. como outros tantos prenúncios desse fim de ano. irradiando-Ihe nos cabelos de suaves e acetinados reflexos. surgiu um vulto de mulher.. Elys. ter paciência e esperar. já libertos da bruma.. E Ogier dizia consigo. de volta do jardim do «Prado-Bento».. a criada. proceder à colheita nesse dia — o prazo fatal. vendo surgir-lhe diante o senhor de Chan-cenay.. a fim de colher os frutos. Seu caráter voluntarioso e enérgico não recuava ante a audácia de semelhante decisão. Atrás dela. que lhe feriu o ouvido. no extremo de uma das alamedas. senhor. certificou-se de que as frutas ainda estavam na pereira. — Sim. sem guarnições.. Retirou-se a criada.. O sol.. que já se haviam desprendido das árvores. uma fita azul sobressaindo-lhe no corpete de pregas. encheram assim um dos cabazes. __ Andou mal?. Retirando-se a criada. por essa clara e luminosa tarde soalheira. para comprazer com a mania da tia. o vestido cinzento.. senhorinha — disse ele. porquanto. Os bosques. Bem sei que o modo como o faço não é lá muito correto. Caminhava em passinhos ligeiros. ao vê-la passar. Eu me encarrego de colher as outras. Na véspera. Se Elys for sozinha ao pomar... Uma destas. fê-la voltar-se rumor de passos. mas não podia escolher outro. poderei vê-la.. apoiando-lhe no tronco a escada.. carregadas de frutos. a caminho de Prexeuil. trêmula e com as faces incendiadas de rubor. pois. E é a jovem Elys quem se encarrega de tal tarefa. talvez falar-lhe.. (1) Esta santa é celebrada aos 8 de outubro. que o iam carcomendo a pouco e pouco. lembra-me ter visto essa pereira. estava ele ao pé da brecha. que se achavam mais no alto.. Fez-se. no pomar de Prexeuil. ao pé do velho portãozinho. Ogier dissera maquinalmente: — Ah! sim. dentro em pouco. Então Elys. recuou alguns passos. subiu por esta.. E abafou um grito. podes ir. pêras magníficas. aonde fora à busca de um derradeiro cabaz de pêras.. inquieto e impaciente: «Deus queira que venha sczinha!» Esteve assim quase meia hora. dissera entre si: «Mas Santa Brígida é amanhã!. pela fenda do muro. é muito natural que — 36 . sobre os olhos tristes. que preciso muito falar-lhe. Já no outro dia.. Elys continuou cuidadosamente a colheita. diminuía sensivelmente de altura e mostrava mais numerosas fendas. Maria Luiza. Mas. Vemo-la muito bem. Foi a senhora de Prexeuil quem a convenceu disso? Contudo. Dona Antonieta — é uma das suas manias — quer que somente as colham pela Santa Brígida¹. Senão quando.. que estão ao alcance do meu braço. que dava para o pomar e de onde a vista podia abranger os estreitos arruamentos que se alinhavam por entre macieiras. Elys de Valromée viria. revestido de parasitas. a balançar.azucrines com essas questões. Só lhe restava.. em parte desnudadas pela aproximação do outono. nessa tarde... disse para a criada: — Agora. como erguesse a mão para colher um dos frutos. pois não posso absolutamente submeter-me à recusa. a uns cem metros de distância. lhes notara a beleza: — Existem da mesma qualidade. cerejeiras e ameixeiras. estadeavam as primícias de seu esplendor outonal. que segurava a escada e dirigia a operação.. pois. calcaram seus pés as folhas mortas. descobrindo-se — sou eu.. Era Elys. Num olhar. o qual. Ogier levantou-se da cadeira e tomou o chapéu. projetava-lhe uma ardente claridade sobre a cútis delicada. Em pouco tempo. Por último. pendentes e pesadas. para ver a sua Elys. — Desculpe-me. pouco depois. Esse muro. mas ainda maiores.

. Não responde?.. com um gesto de indiferença. Perdoe-me Elys. e eu fiz-lha livremente. cujo límpido fulgor tanto admirava. prometa-me que procederá respeitosamente. Elys!... Agora cumpre-lhe esquecer-me. É que então adivinhei! E aproveitaram-se do ensejo para lhe arrancar essa promessa. comunicou-me tão somente esse desejo. — Como?! Que lhe importa?. murmurou em voz convulsa: — Deixe-me. perguntou Ogier. Nem a senhorinha devia fazer-lha! Na sua idade! E amando-me. se a senhorinha se curva cegamente à decisão arbitrária. num movimento tão rápido que Ogier não teve tempo de reter a mãozinha gelada e trêmula. Por que me faz sofrer assim? Não! Nunca.. É impossível. Elys!... que ele apertava entre as suas. baixando o rosto trémulo. coberto de ardente rubor. — Mas eu?. E Ogier. — Ou melhor. porque eu sei que me ama! A moça. olhando-o bem de frente.. Ela desviou dele o olhar. E demais.. que lhe arrancaram pela pressão exercida sobre a sua vontade. jamais daria à minha tia o desgosto de me casar contra a vontade dela... — Demais? Cresceu de tal modo o rubor à moça. para não fazer de boa mente o sacrifício que ela me pede.. indigno de sua pessoa? Ela retirou a mão e. em primeiro lugar.. junto da senhora de Prexeuil a fim de que ela mude de pensar! Elys recuou ainda mais.. inclinando para ela. sacudindo negativamente a cabeça. Elys fez pé atrás... Elys!. parecia até muito disposta ao casamento e sentia-se realmente feliz. com trémulo enleio: — Não creio seja eu a esposa que lhe convém.... mas com a minha Elys!.. disseram-mo.. pelo menos. e ainda mesmo que a não houvesse feito. é verdade. — Não ma exigiu minha tia. Depus na sua pessoa todas as minhas esperanças de felicidade! 37 . senhor!... os olhos incendiados e ansiosos cravados nos dela perguntou-lhe imperiosamente: — É verdade que lhe prometeu que nunca se casaria? — Sim. nunca renegarei essa promessa.. — a senhorinha aceita de boa mente a sorte que assim lhe preparam? — Que me importa a mim! murmurou Elys. Não pensa então no que sofro. «deram-lhe» a entender que eu não sou o marido que lhe convém?. — Não. disse imperativamente : — Olhe bem para mim. que hesitou.. — Então... estampou-se uma cândida estupefação... com firmeza... a uma linda cidade que eu conheço. eu?.. com mal contida cólera. no quanto sofrerei? Porque eu a amo. nos quais buscava ler o olhar apaixonado de Ogier... apoderou-se Ogier da mão da moça.conhecendo principalmente as disposições da senhora sua tia queira eu saber. posto estremecesse até a medula: — Sim. Parta imediatamente! — Sim. em qualquer tempo.. um indignado protesto: — Senhor! Eu não compreendo que. Num movimento rápido.. é verdade.. antes que esta tivesse tempo de se defender. E... — Por caridade não insista!. Eu a levarei à Itália.o senhor me julgue capaz de. — Sim.. — Esquecê-la! Ah! não.... o que a levou a fazer tão facilmente semelhante promessa? Que eu seria. ter como não feita essa promessa. Devo muito à minha tia.. Seria porque a persuadiram de que tal casamento comigo era impossível. esquecer-me e partir....como também é natural que eu saiba. O círculo escuro que lhe orlava os olhos cheios de tristeza e angústia volveu-se-lhe mais profundo.. Sim... caminhando-lhe ao encontro e tomando-lhe de novo a mão. — Mas isso é odioso! Ela não tinha o direito de exigir-lhe semelhante promessa!. . onde nós nos casaremos. — Não. e desviando os olhos cheios de icomoção... de que foi objeto.. não! Hei de apelar da sentença que me condenou.. a sua opinião. hoje.. disse Elys em voz quase extinta. Mas a senhorinha não dizia isso lá na sala do «Prado-Bento»! Pelo contrário. mas com energia. que tranquilizaria para sempre a senhora de Prexeuil. bem sei! Mas prometa-me.. senhor! Por quem é! suplicou Elys de mãos postas.. sim. Vamos!. E nesses olhos cor-de-violeta. dizendo afinal.

. Cumpre esquecer. até as de Maud. E. se crêem entes de razão. mas. dizia consigo que. contigo. balbuciou Elys.. CAPITULO XI No dia seguinte. como o marido. Willy? Estou com vontade de partir para as Índias. E Maud. as suas finas qualidades de observador. Ogier sentia dentro de si despedaçar-se-lhe o coração. sacudindo a cabeça: — Não. tornando à fenda.. para lançar um derradeiro olhar a Prexeuil. foi ele recebido com entusiasmo. alegou que ainda não dera pela mudança do humor do primo. de alma pura e enérgica.. . primo comum dos dois. quase indiferente. como as demais. parecendo apenas recordar-se do que o entretivera na véspera.. segundo a descrição que o senhor de Chancenay lhe fizera de Elys de Valromée. murmurando: — Sim. que dedicava ao primo. .. William. este pobre amigo não a esquecerá tão cedo!» Uma tarde. Notaram que parecia preocupado. disse-lhe Ogier: — Sabes. Chancenay. Ele. o que sempre havia sido eis aí — hoje. dizia. enquanto nos olhos lhe revia flagrante a violenta comoção que lhe agitavam a alma. pois o neto não lhe fazia confidências.. Que lhe terá acontecido? A avó sacudia a cabeça.... que não saíra ao agrado do rapaz. uma vez sequer. por tanto tempo indiferente. duradouro. amanha. ou então de uma ironia mordaz. ao passear com William peio parque de Sarjac. sem se voltar. adivinhara logo a dor oculta que mordia o coração do amigo. a olhar o estreito arruamento. depois dessa estada lá na aldeia! dizia ela à senhora de Chancenay. — Urge esquecer. dizia o moço entre si: «Compreendo! É uma criatura deliciosa! Há um mundo de coisas naquele olhar. que parecia tê-lo profundamente acabrunhado.. Sabia tanto quanto Maud. 38 . chumbado ao solo. Meto-me na «Libélula». E começou a descer para o «Prado-Bento». experimentara ele uma viva satisfação à idéia de que Ogier encontraria. nao escapava a esses saltos de humor. saiu do pomar inundado de sol e perfumado dos aromas do outono. já lhe haviam de há muito feito adivinhar naquele um caráter muito superior às aparências. permaneceu ainda ali. estirado ao soalheiro. seguiu por uma das alamedas que o sol iluminava.. Por isso. as mulheres. No castelo. Eu também. lastimava de todo o coração o irremediável revés.. rodando sobre si mesma. onde a cônega Elys de Valromée aceitara viver para todo o sempre solitária. às vezes até quase triste. havia aí alguma aventura amorosa. negava. pois Ogier lhe havia dito sumariamente: — A cônega de Prexeuil recusa dar-me a sobrinha. com certeza.Falava com ardor apaixonado.. A moça. Mas não se admirou. se quiseres ir também. e vou até lá. levantando os ombros: — Oh! como vocês. Censurou- o gentilmente Maud Dornley. Mas a verdade é que ele sabia tudo. e que ela sabia o mais íntimo amigo de Ogier. por mais ousada que fosse a jovem inglesa com relação ao primo.. Outras vezes1 mostrava-se de uma alegria forçada. que lhe fizesse mudar de vida. Passou lentamente a mão pela fronte. fora sempre um tanto enigmático. nem sequer a seguiu. O maharajah de Cawor já por várias vezes me tem convidado a ir visitá-lo.. que o conhecia melhor que ninguém.. Tentou ainda Maud inquirir William Horne. Ogier deixou o «Prado-Bento»1 retomando o caminho de Sarjac. Recordando-se da fotografia que o primo lhe havia mostrado certa vez. — Realmente.. Por momentos.. sem dúvida.. atualmente.. encarava o desconhecido. O afeto quase fraternal. o elevaria até ela e lhe faria da vida uma existência útil. a icujas censuras... enleando a que mais lhe agradasse nas malhas feiticeiras de um namoro. tem razão.. onde o gato. E William. não falsearia jamais o seu dever de gratidão para com aquela que lhe servira de mãe. Julgava-o bem capaz de um sentimento profundo. Bem sabia que essa criança leal. uma grave preocupação. quando da primeira vez regressara de Gouxy. Sem que lhe fosse necessário dizer mais. encerrando aí a sua mocidade e a sua beleza. porém. muito gentil. porém. nessa moça a companheira que. moralmente. Era. quase súplice. Ogier está agora irritado. Não a chamou Ogier. apenas concedia distraída atenção. que entravava logo quaisquer tentativas de flerte. Não me resta nenhuma esperança. Agora. quando trazem alguém de olho!. aí há com certeza outra coisa! Um cuidado muito sério. animado pela presença de numerosos hóspedes. Sim. Depois.

esse teu sonho desfeito. que te conheciam. Ogier em Paris. pois. E eu que a introduzi no círculo das nossas relações!. Dir-se-ia que a distância e o obstáculo invencível aumentavam ainda mais as forças desse amor. nada no mundo lhe poderia fazer vibrar..— Fazes questão da minha companhia? — Faço.. meu caro. regressa a Paris o senhor de Chancenay. tratada ali como íntima — uma Sari algo mudada.. meu amigo. — Que me dizes!. com proveito.. é para logo admitida em nossa intimidade. E advirto-a até com franqueza. porque desejo que esqueças. referindo- se compungida a cerimônias religiosas na Madalena ou em Santo Agostinho. Pouco depois. * * * Cinco meses depois.. em plena estação mundana. após uma longa estada nas Índias. muito hábil!. como um flerte muito interessante! informou Ogier. E segundo.. sim. . e sei que não lhe sou de todo indiferente. do que aliás não me arrependo absolutamente. que parecia achar graça nos modos aborrecidos da tia. O senhor de Chancenay. pelo contrário. replicou: — Conheço muitas moças de nossa sociedade que poderiam. a senhorade Challanges. Todavia. A mãe também é muito gentil. teve a surpresa de encontrar-se de novo com Sari Doucza. Retomou logo os seus hábitos com indiferença. — Esquecer? Ogier sorriu amargamente. não confundamos! Eu não me faço. Parecia-lhe que tinha a alma vazia. tão honesta. que aceitei a colaboração da filha nas minhas obras de caridade.. E William compreendeu que o amigo desejava que o silêncio pesasse sobre a recordação de Elys. polido e frio.. À vista de Ogier. será difícil afastá-la. parece tão boa pessoa. e William mais de uma vez pensara consigo mesmo: «Quer-me parecer que esta viagem será absolutamente inútil. Reaparecia. e. dando uma risadinha. sempre lhe direi. que se apoderara inteiramente de Ogier. Não se lhe apagava da lembrança o belo perfil de Elys.. e não se ocupou mais com ela nesse dia. fiador da honorabilidade dessas senhoras Doucza. de modo algum. Já a conhecias? — Sim. essa jovem!. já agora. — Como?. que os modos de Sari Doucza eram algo diferentes o ano passado. — Em primeiro lugar. tem o seu sainetezi-nho de estrangeira. tenha um vocabulário ousadamente mundano e se atribua — real ou falsamente — o conhecimento de algumas importantes personagens. achando-se a sós com o sobrinho.. Que pena que não tenhas aparecido aqui mais cedo! ter-me-ias prevenido em tempo.. compreendo. — Pois aceito com todo o prazer o convite... pediu-lhe notícias da mãe.. e foi. ocupando-se dignamente de obras patrocinadas pela senhora de Challanges.. isso prova que tais moças não são nenhum modelo. nem roupas caríssimas. — Ah! perdão. que lhe não havia contudo trazido o desejado esquecimento. acrescentando: — Não será fácil! Mas passou logo a falar de outras coisas. É bela... já sem os modos provocantes. pois. minha tia. consentem que as filhas se afeiçoem cegamente a essa 39 ... titia. dizia a este a senhora de Challanges: — É realmente encantadora esta Sari!.. é a única que me é agradável no estado de espírito em que me encontro.. Ogier continuou com ironia: — Isso prova que minha tia não é observadora. quando eu a conheci.. Mostrou-se consternada a senhora de Challanges. demonstrou ela um discreto contentamento. sentenciou com um sorriso meio irónico: — Aí está um dos resultados da facilidade com que hoje em dia se travam relações com qualquer pessoa. Embaraçada. Nada lhe pudera distrair daí o pensamento. e que nunca mais. que sempre a existência de ambas — principalmente a da mãe — é algo equívoca. às vezes. Com esta reflexão se mostrou melindrada. principalmente por isso. Em casa de sua tia de Challanges.. — Sim.. Ele. quanto antes.. Elas já me haviam dito. regrar os seus modos de proceder pelos dessa moça. Uma vez que essa pessoa traje com elegância. ela se conferia a si própria essa qualidade. quanto ao fim que ele procura».... até. Inteligente.

. ainda o ano passado. mas é admiravelmente auxiliada por Mme. É recíproco este sentimento. é mulher muito franca!. onde ocupava um pavilhão independente... Berta. que já perderam. Minha filha gosta muito dela.. no clube... pois conseguira tornar-se persona grata para a senhora de Challanges. não se dando até por achada ante a frieza.. Minha mãe está encantada! Quanto a mim. A pobre Sari. que te faz tomar o preto pelo branco. — Sim. Mas. — Dois namorados. Com que então. — E agora? disse ele. a senhora de Chal-langes. as insinuações. sim. que é muito meiga... Mas tu farias melhor se me alvitrasses um conselho em vez de estares para aí a escarnecer de mim. ... . e acrescentou: — Impagável! — Como!.. com doces palavras.. de sociologia. pessoa de muito boa fé. pelo menos. Tinha a senhora de Pardeuil. Bastava que alguém se chegasse. Não era a primeira vez que Ogier via em semelhantes palpos de aranha a boa tia. O barão casquinou uma risada. homem cruel! — Um conselho?. que lhe estremeceu os largos ombros. — Tem graça!. tenaz.. que se vê agora em apertos para se desembaraçar dela.. ao rememorar a conversa que tivera com o senhor de Pardeuil: «E se eu me divertisse em arrancar a máscara... a mãe afiança que a filha é sincera.. Em tais manobras.... sempre apressada.. O barão de Pardeuil. Não a toma você a sério? perguntou Ogier. Que grande aborrecimento!. passar lá alguns momentos. que lhe era às vezes natural! Meus parabéns!... Aqui. ocupava-se. acariciando lentamente o queixo escanhoado: — .. a que pertencia — ambição esta mui comum nas senhoras que se querem dar a aparência de uma honorabilidade. pois tenho observado que Paula parece tratá-la com íntima.. — sim. geralmente patrocinadas por personagens da governança. Mas para que quer conselhos.. fala de religião.. ironizou Ogier. pois não há de representar indefinidamente o papel de convertida. etc. com o que Sari não se havia também dado mal. Como também gosta muito de Sari. — Teremos amanhã o prazer de ver o meu caro Chan-cenay na reunião literária organizada por minha mãe ? — Farei o possível de.. com a atividade pelo menos igual à daquela. murmurou: — Talvez isso até me distraísse. É então amiga íntima da senhora de Pardeuil? — Muito íntima! Minha mãe aprecia-lhe imensamente o tato. depois de havê-la acolhido de braços abertos». primava a senhora Doucza. considerando a fisionomia preocupada da tia. E ela. Mas.. com ar entre risonho e sério. . morava com a mãe. dizia entre si o senhor de Chancenay: «Ah! meu paspalhão. Todavia. como te deixar embrulhar por essa criatura. que aborrecimento !. de várias obras pias mas de rótulo muito «leigo». por parte de sua família. viu o senhor de Chancenay vir-lhe ao encontro o obeso barão de Pardeuil. confesso que me agrada enormemente.. deu-se o barão uns ares de importância.. jamais tinha tempo de verificar — para que fosse bem acolhido e logo introduzido nas comissões de obras pias... Doucza.. já não é a mesma: tem agora uns modos graves.. — Absolutamente.. Franca. meu caro!. . sempre alegre.. Como se vai haver a minha querida tia para sair-se desse embaraço ? Previno-a que ela é hábil... dizia consigo Ogier. cuja autenticidade ela. que... numerosas relações nas rodas políticas.pessoa. Nessa mesma noite.. com ar levemente irônico. que afivelou ao rosto essa Doucza? Prestaria assim um serviço à minha tia. também. Como a senhora de Chancenay. . Ogier sorriu de novo. então ?.. a quem o estou a dizer!. viúvo havia alguns anos... Que mulher amável e inteligente.. flertava deliciosamente com o senhor conde Ogier de Chancenay. simulando zelos e alegando recomendações. a inesgotável gentileza. Mas. é a própria simplicidade.. mais ou menos gentis. Nada de circunlóquios. meu caro!. Mme. Entrementes.. atalhou impaciente. sempre ocupada. muito engraçada. Em seguida. com um sorriso mesclado de amarga ironia.. sempre ocupada a senhora de Pardeuil? — Ê verdade! Ela agora se fatiga um pouco.. que a titia possa fazer-lhe. sempre bem disposta..» Daí a pouco. ou em perpétua 40 . Doucza! Tanto quanto Sari essa gatinha toda astúcia... titia? Só lhe cumpre aguardar que mude de idéias a senhorinha Doucza — o que talvez não demorará muito. E de uma bondade!. ao regressar ao palacete Chancenay.. que lhe educava o filho único.

Decididamente.. Como Sari acabava de sentar-se. de outro lado pertencesse a família de seu defunto marido à nobreza conservadora. com as quais.. — Porque. para aceitar o braço do filho de um ministro. essa senhora de Challanges!». sentia-se descoberta... no ano precedente. Assim ele procedeu nessa tarde. moça muito elegante e muito em evidência. cujo divórcio... Deixamo-nos arrastar pelo mundanismo. que. levantara algum rumor. Apressou-se logo Sari em estender-lhe a mão.. ao tornar a vê-lo depois dessa tão demorada ausência.que está representando uma comediazinha.. considerava semelhante aliança. erguendo para ele um olhar meigo. respondendo a custo aos seus galanteios mui bem torneados. venho encontrá-la em plena fase de conversão. . deixando-se arrebatar pelo cavalheiro ao ritmo da valsa. ao que parece. não pôde.. cruzou com o senhor de Chancenay.. Olhe. grande cético? Um sorriso de ironia entreabriu os lábios de Ogier.. E se bem me recordo. arianjava as coisas de modo a fazer. — E esse momento já chegou para a bela Sari ?. Ainda uma vez. finamente enluvada: — Oh! Até que enfim. pode ficar certa. falar de obras pias.. despedindo com gracioso agradecimento o «filho do papai». é muito mais agradável se lhe convenho assim.expectativa de ascenderem até essas alturas.. não era dos que se deixavam facilmente colher nas malhas da rede esse belo Chancenay.. Como esta baixasse modestamente os olhos. Tenho disso a prova em sua pessoa. ei-lo de volta dessa interminável viagem!.. A menos que. súbito.. com suas obras pias. haja decidido nunca mais me aceitar por seu cavalheiro.. muito aristocrático. «Tanto pior!» pensava ela. durante esses cinco meses. — que de mestre na arte se vangloriava ele!.. quando. pois já me vai aborrecendo extraordinariamente. «Afinal. simples ato de presença. — Porque a conheço muito bem. Tomou de uma cadeira. por ventura? — Quem sabe ? Tudo pode acontecer!. ouvi-lhe outro dia.. Ter-se-ia tornado globe-trotter. cujas maneiras ou opiniões lhe desagradavam. magníficos. Como. alias — pareceu-lhe a dama singularmente distraída.. Com um faceiro movimento da sua bela cabeça de cabelos ruivos. lá recomeçou a orquestra.. com que o bombardeava a senhora de Pardeuil. quando. o qual entretanto conversava animadamente com a irmã mais moça do senhor de Pardeuil. Mas chega afinal um momento em que refletimos.. CAPÍTULO XII 41 .. — Oh! Ora essa!. em casa dela.. o que lhe permitia não acotovelar por muito tempo pessoas. numerosos. por volta das cinco horas. tanto havia devaneado. Fulgiram-lhe. sentando-se ao lado de Sari. ver o brilho sarcástico que fuzilou no olhar do seu interlocutor.. que se ia tornando algo insolente. erguendo a cabeça. viu que Ogier se encaminhava para ela. que não surtirá nenhum efeito comigo. Estava terminando a sessão literária: mas haviam organizado umas danças para entretenimento dos convidados jovens.. não sem despeito que a atenção da encantadora criatura se concentrava inteira no senhor de Chancenay.. Minha tia de Challanges fez- me o seu elogio.. mais do que nunca. realmente. do qual.. Como nem sempre podia recusar os convites. de sermões a que assistira. era o seu salão um como terreno neutro. porém. à avenida do Trocadero. por advertir.. E por que não acredita o senhor que eu haja. Ogier. ocupado pela baronesa. — . Acabou. eu a convido para esta valsa. — Como?.. viu Sari a incredulidade irônica estampada nas pupilas de reflexos alaranjados..... Sari. por isto.. se sentia agora apaixonada. uma ou outra vez. Deixara Sari Doucza o seu lugar. mudado de idéias. murmurou em tom de censura: — Parece-me que está pensando que. Ao seu par — gentilíssimo. Surpreende-me! Desta vez. os olhos ao corresponder sorrindo à saudação do rapaz... por penitência.. — Sim. onde essa hábil senhora conseguiu manter a harmonia dos partidos. — Que terrível irónico é o senhor! murmurou Sari. penetrou nos salões do belo apartamento. Se as suas resoluções de vida nova não vão até ao ponto de suprimir os prazeres mundanos.

visitando os pobres da aldeia. delicadamente leal.» Mas. minha tia. esse belo riso de criança feliz. pensava ela. tornou a fechar o livro. a fim de que. malqueria agora a cônega ao amor. constrangido. que se entristecia e inquietava. haveria... Já se lhe não ouvia agora o riso álacre. ocorrera a idéia de reformar a sua decisão. pensava ela.. posto que. devido a que Elys possuía uma alma muito nobre. muito acima do seu rancor. no desejo de lhe poupar os grandes sofrimentos.Havia o inverno passado lento em Prexeuil. cujos protestos corajosamente abafava. e. se me amasse. até então aparente e algo frio. de sua parte. sim. tinha conhecido muito pouco esse rapaz. pairava a imagem encantadora de Elys. Esforçava-se em vão para envolver também a moça no mesmo ressentimento profundo que sentia por dona Antonieta. que soubera despertar nele sentimentos até então não suspeitados. Em uma de suas páginas Elys escrevera: «Prometi hoje à minha tia que não me hei de casar nunca. que dedicava à sobrinha. Elys. Emagrecera-lhe um pouco o belo semblante. por intermédio dos seus parentes de Paris. que seria substituída pelo esquecimento. no íntimo. dizia ele. Até lá. O seu sorriso tinha mesmo algo triste. horas difíceis que passar. colhesse informações a respeito do senhor de Chancenay.» Depois. É melhor que te persuadas. que ao seu coração cétiso pareciam muito estranhos. Não fosse agora a pobre moça adoecer! Mais do que nunca. a qual te reservaria atrozes decepções. implicitamente. todo palpitante de amor profundo. começara a tia a misturar alguma ternura ao afeto. que fazia as pessoas do lugar dizerem: — Como Elys está mudada! Estes sintomas de uma dor secreta — pois Elys nunca mais se referira a Ogier — não escaparam absolutamente a dona Antonieta. Desde o incidente. a cônega dissera certo dia à sobrinha: — Como faço questão que julgues por ti mesma a impossibilidade de semelhante casamento. que havia ido muito longe. escrevi há dias à nossa prima de Baillan. não lhe tinha nenhum rancor pela recusa que lhe truncara o belíssimo sonho. nunca mais entre elas foi pronunciado o nome de Ogier de Chancenay. o seu amor teria mudado 42 . A pouco e pouco. a dona Antonieta. cuidando do bem-estar das tias e dos pequenos trabalhos caseiros. Ogier também não conseguia esquecimento. * * * Assim como Elys. Agora. com semblante calmo e olhos em que se lia um cismar grave e melancólico. Elys. continuava Elys a desempenhar as tarefas habituais. Mas. Compreendia que a senhora de Prexeuil assim procedia para seu bem. Um ligeiro arrepio percorreu Elys. que pareciam agora de uma cor mais carregada. por maior que fossem os seus cuidados. nem por um instante. de que tanto gostava a senhora de Valheuil. como já te disse. ao mesmo tempo que ela respondia com voz algo estrangulada: — Se assim é. Porém. para varrer do pensamento essa imagem tão querida. fez muito bem. para que dele conservasse inesquecível lembrança. reconhecera quanto à sua própria pessoa. de que tua velha tia afastou de ti o doloroso martírio de uma malfadada união. ao senhor de Chancenay e todos os hereges da mesma casta. sem que lamentasse a promessa que fizera de se conservar solteira. certo. «porque. muito pelo contrário. em parte. se lhe desenhavam emoldurados nos círculos ligeiramente oscuros que as insônias lhe cavavam. se lhe iria enfraquecendo essa dor. Como antigamente. mas o trabalho e as orações a auxiliariam eficazmente nessa luta íntima com a imaginação — porque a cônega continuava a pensar que o coração da moça não fora profundamente atingido. enquanto os olhos. meu anjo. pelo que já te expus. se bem que tudo fizesse para esquecer. Recebi hoje a resposta.. para sempre. E desde esse momento. permanecia fechado o «Diário da família».. A vida que leva não oferece nenhuma garantia para a felicidade de uma mulher. que haviam atribulado a mãe e a avó de Elys de Valromée.. a qual vem confirmar o meu juízo e o que ele mesmo. Seu coração. pertencia ainda a Ogier. pois acabava de encerrar dentro dele toda a sua cstuante vida de mocinha. a moça de fato estava convencida. sempre tivesse amado muito a encantadora criança. muito suaves? Procedesse ela como em semelhante conflito teriam procedido outras. tudo isso de modo tranquilo e pontual. Não seria isto. sem que a freirinha de Valromée conseguisse esquecer-se de Ogier. não deveria revoltar-se para obter a todo custo o consentimento dessa velha e autoritária? Derrubar todos os obstáculos como ele estava decidido a fazer?. Pouco tempo depois da partida do rapaz.

que tanto o haviam divertido o ano anterior.. Quando a filha lhe perguntava: «Que tens mamãe?». — Imagine que a mamãe decidiu ontem. quando o olhar se torna distante.. Aí fingindo uma carinha amuada.. com impaciência a custo dissimulada.. onde se achavam reunidas umas vinte pessoas. uma jovem atriz. E apoiou a cabecinha ruiva no ombro de Ogier. Mas.. eu não me importaria se não me visse assim privada de sua companhia. um velho oficial reformado. — Que queres. — Ah! boa idéia! Até lá. abriu-se em confidências. fora encerrada numa gaveta. vou viver somente dessa esperança. respondia com evasivas. que precisa respirar os ares marinhos. de fato. ao mesmo tempo que dizia displicente: — Se ainda estiverem em Biarritz nos princípios de setembro.» — Disso estou convencida agora!. um especialista em laringologia. e. que continuava ainda hoje a perfumar esse amor. visivelmente preocupada. — Quem lhe meteu isso na cabeça? disse o senhor de Chancenay. a bela húngara deixava-o indiferente. libertar-se dessa visão que o perseguia por toda parte. Este. com uma mesinha e algumas cadeiras. enquanto.. acedendo ao convite da senhora Doucza. com que se distrai. porfiadamente pacifista. sim!. ao voltar de Dinard e antes de ir instalar-me em Sarjac. irei talvez até lá passar alguns dias. num gesto distraído. continuo a ser apenas uma distração momentânea e nada mais. a despeito de toda tua habilidade. pelas suas partidas engraçadas. — Oh! não! Que guerra!... de unhas polidas e brilhantes. não insistia demasiado preocupada também pela redobrada atenção com que a tratava agora o senhor de Chancenay. meu bem ? ponderava a senhora Doucza. perdido essa flor delicada de estima e confiança. naturalmente. Mas.. e dizia à mãe: — Sinto-lhe sempre tão longe de mim! Para ele. para que então torturar o espírito com a sua lembrança? Cumpria- lhe. ou melhor. saberá lembrar-se do seu magnífico passado de honra! — Oh! sim. em quem ele pensa. uma adiposa aenhora vizinha no mesmo andar ocupado pelas senhoras Doucza.... trazida do «Prado-Bento». cujo filho exercia elevadas funções no estado-maior... Porque.. para evitá-la. foi passar alguns momentos no claro e elegante salão da bela húngara. mas sempre espirituoso e encantador. que. De resto. para que se tomasse de cuidados pelos atos e gestos da mãe. é que se tornam mais belos os seus olhos!. sedento de renome.. no momento decisivo. O elemento masculino era representado por uma alta personagem política. pronto! — foi-se o encanto! E torno a encontrá-lo irónico. Não é isso o que eu quero dizer. Receio muito que não conseguirás fazê-lo mudar.. . tomou-lhe os dedinhos um tanto curtos. é fidalgo muito orgulhoso. espero.. A França é.. ela se submeterá a tudo!. pois havíamos combinado ficar aqui até 4 ou 5 de agosto... que nunca mais abrira. amiga de Sari.. Sari atraíra Ogier para um canapé.. tomes algum partido! Como bem te dizia uma vez. Sari. É preciso que. Então. Mas. a alguns metros de distância. logo que lhe falo... — um lindo brinquedo. de sua parte. Aliás... sacudindo os ombros. o qual. afinal. um jornalista. que nos olha do alto de sua grandeza. prosseguiam as conversas das demais pessoas. Havia já algum tempo. como que uma saleta dentro do grande salão. entre as quais uma romancista em voga.. a qual trazia toda uma exposição de belíssimas jóias sobre o ofuscante corpete cor-de-laranja. antes de chegar a declaração de 43 . já o tomava de novo a corrente das distrações mundanas. afastar de si essa lembrança. sempre assíduo ao lado da bela viúva. por trás de altas plantas verdes. procurava insinuar-se em toda a parte. Enfim. Certa noite de julho. Diz que se sente fatigada. minha querida. porém. O que digo é que. de repente. pressentem. A fotografia. O que eu quisera saber é em que. no íntimo. que se deixa amar — mas que não ama nunca. Ouvia-lhe a mãe os queixumes. e toma uma expressão inteiramente nova — expressão de tristeza.. às vezes mordaz. que partiríamos para Biarritz por estes dias! Não sei que idéia foi essa que lhe passou pela cabeça. nas quais procurava aturdir-se. de desejo ardente. para um belo dia atirá-lo a um canto quando se sentir aborrecido. sentia-se muito nervosa.. — Mas não se alegre muito com a idéia. com vivacidade um tanto ríspida.de natureza. a todo custo.. colocado em um dos ângulos da sala. que.. Ogier. o senhor Chancenay... ela não se deixava enganar. fazendo deslizar por eles os elegantes anéis que os guarneciam. sob aquela gentileza de mundano. se tivermos a guerra. se Elys permanecia inacessível. como alguns. buscava aparentemente interessar-se pela graça astuciosa de Sari. A França nunca a aceitaria! Antes. o senhor de Pardeuil. formava.. O tempo vai parecer longo!. Em tais momentos.

Despertava-lhe. Mas.. substituindo a indolência do espírito e do coração. elas não se hão de ver mais incomodadas que outros. caso ouse cometer essa loucura? Ogier estremeceu ligeiramente. é preferível que seja eu e não outro. talvez fosse melhor continuar a visitá-las. Ogier... Impacientei Ogier disse: — Que necessidade tem esse imbecil de contar a todas essas pessoas semelhantes coisas?.» Depois. tudo o impacientava. para me inteirar da verdade. já que nos não consentem sermos um do outro! CAPÍTULO XIII Na tranquila aldeiazinha de Gouxy a notícia da guerra e da mobilização havia como que lançado por 44 . — Se por lá ficar. ou amigos da França. talvez?. — quando não protegido». a menos que não estejamos absolutamente certos.. ouvindo o comandante entrar em algumas minúcias. Não é verdade. tomado de uma espécie de alegria triunfante. Com que fim? «Espionagem. em prol de quem nada mais posso fazer. que importância isso pode ter? Aqui só se acham reunidos bons franceses.. não é verdade? distraidamente Ogier respondeu: Sem dúvida. Nesse instante.. uma impressão tão desagradável?. Mas quem é esse idiota. cujo procedimento suspeito é benevolamente tolerado. é verdade.. Doucza e das atenciosas e gentis censuras da mãe. agitavam- se nele. apesar da insistência de Mlle. — Assim creio.. na realidade. neste caso... devido a uma ambiência demasiado frívola. . respondeu : — Mas. essa voz.» pensava ele.. que tudo se acha a postos. Pelo menos. cheios de profunda candura. depois de curto silêncio. Era o segundo dia da mobilização.. «A senhora Doucza diz-se. minha única bem-amada! Indo em defesa da França. para repelir o invasor. Nós estamos infestados por essa raça. O rapaz partia. vovó. que está aí dizendo tantas bobagens? Era o político que. A bravura hereditária dos Chancenay... minha sempre bem-amada...guerra. e murmurava apaixonadamente: — Roga por mim. nessa noite. como para uma festa. tantas vezes ouvida por ele. minha querida francesinha.. fruto dessa vida de elegante ocioso e de homem muito adulado.. Antes de aí colocá-la. não se demorou muito tempo no salão claro. ardido e impetuoso. E demais. respondendo a uma pergunta da dona da casa. no tocante às lacunas existentes no exército. ouviu-se a voz calma e astuciosa da senhora Doucza: — Oh! meu caro senhor. francesa. nesse instante.» Mas. murmurou: «Mas. cortara de vez essas relações.. Tal falação não era enfadonha à senhora Doucza. «É possível. Por que lhe produziria. patriotas de coração! Eles nos mostram bem a força que a França representa — força moral e também força material. Sari pôs-se a rir. porque. Por isso. o gosto pelas armas. com um sorriso um tanto amargo nos lábios. o patriotismo sempre vivaz mas um tanto adormecido. pelas gloriosas aventuras da guerra. que se lamentava. . até os olhares amorosos de Sari. que lhe perguntou: Antes da nossa partida nos veremos. — É possível. «Estes indivíduos são muito linguarudos!» dizia com certa irritação.. ela esgotará todos os meios para persuadir. — tudo. como são interessantes esses pormenores para todos nós. não é prudente desconfiarmos sempre.. para quê? Admitindo que eu esteja com a verdade. comandante.. Elys. é a ti também que eu defendo. mas o fato é que ninguém sabe o que ela é. despedia-se dos avós.. Levava na carteira a pequena fotografia de Elys. derramava-se em digressões acerca das relações exteriores da França. quanto à discrição dos nossos interlocutores?» Aliás. no seu uniforme de sargento de dragões. — Ora. que lhe desagradavam profundamente.... À senhora de Chancenay. este é o dia mais belo de toda a minha vida! E acrescentou. Descobria-lhe agora uns tons singularmente falsos. * * * Depois de dez dias. embora não fosse habitual nele pelo menos até esse ponto.. terei assim prestado algum serviço ao meu país. e desmascará-las. Um instinto o advertia de que a bela viúva e a filha — esta conscientemente ou não — estavam armando uma cilada.. havia contemplado demoradamente o meigo semblante de olhos sorridentes. A Sari. que despertavam nele uma vaga desconfiança.

a quem a idade e os frequentes insultos reumáticos impediam de seguir as sobrinhas nesse caritativo e piedoso ofício para com a pequena população desprovida de auxílio espiritual. curtos momentos de felicidade que ali gozara... Mui diligentemente. sobretudo. com os quais. que regressavam da aldeia. tanto quanto pudesse. se recordava dele agora. não raro sublinhados de dolorosa indignação.. a minha fita e a minha cruz. Ao que respondera a senhora de Prexeuil: — Tens razão. desde que se encerrara naquele seu retiro. para falar às «senhoras». todos os dias. E ei-los pondo já mãos à obra. as duas ensinavam o catecismo às crianças.. arrolado como maqueiro. um estímulo. certamente.. pensava na França ameaçada. que lhe recordava não somente a velha e querida amiga. aliada aos nossos piores inimigos. pessimista. dona Antonieta. enviaria ao cabido austríaco essas insígnias com a tríplice demissão. que pertence à nação sem honra... Paris. Eu também retiro-as. pela França invadida. Senhor!» ela rezava «mas. A esta idéia. privados dos seus pela requisição. Às vezes. as relações. cheios de esperanças. numa prece especial. todos os dias. e os seus dois velhos cavalos laboravam nas terras dos agricultores. dona Bathilde e Elys. à tarde. fora ele. deixava a humilde paróquia. seguiam-se os longos dias. disse Elys a dona Antonieta. violada pelo estrangeiro. Depois. se haviam a pouco e pouco. Jovem vigoroso. principalmente à linda menina Elys. substituindo assim. fremia de ardente esperança à idéia de que Metz tornaria a ser francesa. iam visitar enfermos.toda parte a angústia e o terror. que se havia imposto a si mesma. era à Prexeuil que logo se dirigia. nos soldados arrebatados aos seus lares. confortadoras palavras. de raça lorena pelo lado materno. lá em nossas fronteiras iluminavam tantos espetá-culos de horror. todos animosos. como um dever afastar de si.. as mulheres e as crianças. para que a sua alma. E tu. nas citações de ordens do dia encontravam-se nomes conhecidos — nomes de antigos amigos. Escrevia então algumas palavras de simpatia e conforto reatando os laços afrouxados ou rotos no correr dos anos felizes. para lhe erguerem com os corpos uma muralha invencível — pensava sobretudo em um deles. A senhora de Prexeuil. reuniam na igrejinha de Gouxy parte da pequena população. essa. A estes incumbia o dever de recolherem a safra. e. na sua tão querida França. Não era sem um aperto de coração que a pobre moça transpunha o limiar dessa casa. onde apenas ficavam os velhos. já não traziam as três castelãs de Prexeuil as suas insígnias de cônegas. Logo. que se fora para sempre. muito alquebrada havia já algum tempo. se converta à tua lei!» Agora. cuja lembrança lhe fazia descompassar apressado o coração. conheceram essas boas francesas todas as angústias das almas patriotas. não 45 . mas ainda a doce e triste lembrança da confissão de amor. reconfortava-se com as suas fervorosas orações. Viveria mesmo ainda? Diziam que já haviam caído tantos. nesse período inicial das hostilidades !. se é culpada. fizeste muito bem. definitivamente rompido. E ela. Nesses dias de terrível incerteza. pelos mortos. O abade Dambry. reservando para depois os comentários. Todas as manhãs. porque nada mais quero ter de comum com esse cabido. a fim de salvarem o pão da França. a lembrança de Ogier. Um dia. ou de parentes distantes.. E quando alguém tinha necessidade de um conselho. E dona Antonieta prometeu a si mesma que. no grande salão em que Ogier lhe havia dito: «Já compreendeu que a amo. Chegara o inverno. a moça ficava possuída de terror. Bathilde ? Sem hesitar um instante. ocupavam-se dona Bathilde e a sobrinha dos que haviam ficado na aldeia. em dezembro. na lista dos mortos gloriosos. Em Prexeuil. tricotava sem descanso para os valentes defensores da França. num tom de vibrante indignação: — Retirei. «para que lhe conserves a vida. dona Bathilde. ao sol ardente desses longos dias de verão. de visita a Rosália. a ausência do pastor. os longos meses de expectativa. a moça punha-se a ler o jornal para a velha tia ouvir. logo que fosse possível. com denodo. que tinha sempre nos lábios meigos. para que todos orassem juntos pelos vivos. a principio espaçadas.. que os deixara desprovidos de socorros espirituais. boa senhora cheia de zelo. retirara igualmente a senhora de Valromée a fita azul-rei e a cruz de ouro esmaltada. no momento em que iam atingir o alvo: de suas ambições. titia. Auxiliadas pela mãe do cura... no que podiam. sempre judiciosos. Ouvia-a em silêncio a senhora de Prexeuil. quando regressavam de Gouxy. que. a cidade onde esses filhos do sanguinário Odin já se prometiam despojos magníficos e realizariam todos os seus sonhos de orgia à alemã. minha filha. um dos primeiros a partir!. dando graças afinal ao céu quando o inimigo se viu paralisado pelos heróicos soldados da França. no primeiro dia da guerra. Os rapazes haviam partido. Elys. entraram no «Prado-Bento».

foram as duas caridosas visitantes encontrá-la de cama. tal audácia e sangue-frio.. chegou às citações das ordens do dia. em família. que observava de viés esses sintomas. que hão de fortalecer a nossa Elys. vindo a sentar-se ao pé de dona Antonieta. eu. enviara-lhe a seguinte resposta: «Venham depressa vocês três para nossa boa terra do Béarn. mas no pavilhão do parque. Mas um observador sagaz teria notado que os lábios. enquanto o coração lhe batia apressado. recusava-se a pagar-lhe a renda. hoje um desses heróicos oficiais. sempre que se fazia mister trazer algum conforto. tenente do. amealhadas por dona Antonieta. Não lhes parece. Mesmo estando cada vez mais fatigada. calou-se a menina embargada pela mais violenta comoção. Depois dos comunicados. temos muito que fazer. Em várias circunstâncias. Ferido quando carregava à frente dos seus soldados. essa continuou a tricotar tranquilamente. assim. Tornando ao castelo. acrescentou: — Talvez o senhor de Chancenay tenha também ficado por lá. seria conveniente escrevesse eu umas palavrinhas à senhora marquesa. «Quanto à questão financeira. Súbito. e vocês nunca se decidiram a atender ao meu desejo! Desta vez. que nunca se queixava. e foram obrigadas a socorrer-se de umas magras economias. Pois não será. ao pensar nos perigos sem número a que se via exposto o jovem mundano de ontem. na Bélgica. e sobre as faces estendia-se-lhe um ardente rubor. muito doente... dos artigos de fundo e das notícias diversas. Além disso. A senhora de Prexeuil. enriqueceriam magnificamente o glorioso patrimônio da França. hesitou.. continuou a acompanhar dona Bathilde. ainda que houvesse recolhido a safra em boas condições e vendido por alto preço parte do seu gado. falaremos disso aqui. Elysi depois de ter mudado os trajes de passeio. como o demonstram a persistente melancolia e alteração de sua saúde. Referiram-se elas então a uma família da aldeia. «que se tornara insuportável desde que o criado de quarto do senhor conde lhe havia dado volta ao miolo». que transformei em sanatório para os nossos caros feridos.. — sinal evidente de grande contrariedade. se lhe contraíram. Dona Antonieta. pois sendo como somos. não será preferível nestes tempos calamitosos reunirmo-nos quando o podemos fazer?» 46 . que lograram restabelecer situações difíceis. Há quatro anos que eu as convido para virem. que sempre se mostrara para ela uma excelente amiga. como dizia a pobre velha. agora mal cuidada pela sobrinha. disse consigo: «Foi o demo que lhe fez ver isso!. Elys. pois vira correr um frêmito pelas faces pálidas da sobrinha. não em minha «vila». onde habitamos.. tomou do jornal. Ofereço-lhes a todas hospitalidade. Rosália. auxiliando-a ao mesmo tempo nos cuidados para com a senhora de Prexeuil. Ao que.. Oficial de bravura e inteligência pouco vulgares. muito poucas. regimento de dragões. é preciso que todos soframos um pouco nestes tempos que correm».é verdade. minhas senhoras. esse prestígio de herói que lhe fará diminuir a força da lembrança que ela ainda lhe conserva. você deve mesmo fazê-lo. Elys?» Contudo. sossegada. E assim passou o inverno. «porque. em sérios embaraços. pretextando achar-se mobilizado o marido. não hesitava nunca. para lhe fazer a costumada leitura. minhas senhoras. «De Chancenay. Elys prosseguiu finalmente a leitura. cuja saúde parece que te dá algum cuidado. já agora. tornou ao fogo logo depois de medicado. longo e triste. A rendeira. sacudindo a cabeça. que. Admirável comandante. e sem condições! Depois. que acabava de saber da morte de um filho. vertiginoso. Ares puríssimos. reconstituintes. subitamente. no coração de Elys. como convém nestes dias de luto. Durante alguns instantes. algum auxílio a Rosália. minha filha e as crianças. de certo. e à qual comunicara a senhora de Prexeuil a aflitiva situação em que se achavam.. eu as intimo. como se a brilhante citação dissesse respeito a um desconhecido. Nesse dia. Tem sempre solicitado para si as missões mais perigosas».. essa profunda admiração — e também todos os cuidados. desde esse malfadado incidente!» De fato. que a faziam tremer. sua parenta. sempre torturada pelo reumatismo. Vida simples. a voz de timbre puro tremeu. Mas que seria delas quando se esgotassem essas reservas? A senhora de Baillans. a fim de saber notícias do senhor conde ? — De certo — respondeu dona Bathilde. Rosália.. A vez tremia-lhe ainda. pois sobre elas pesavam agora graves preocupações financeiras. mas sem se lamentar. As senhoras de Prexeuil encontravam-se. E mudou logo de conversa. tem mostrado. Viviam as castelãs quase pobremente. ao amor sempre vivaz vinha agora juntar-se esse secreto entusiasmo. para que nada falte aos nossos caros pensionistas. ela e Bathilde encontrarão aqui em que empregarem a sua atividade — toda a sorte de trabalho.

nem podemos pagar aos criados. não! contraveio Elys. brilhantemente levado a efeito. achou-se Elys suficientemente forte para empreender essa viagem.. depois que a senhora de Prexeuil formalmente declarou que. depois de lhe haver feito um exame rigoroso... de um tratamento sério... Tem-se portado sempre como herói». sacudindo a cabeça. a sua constituição é perfeita. uma mudança de ares. Oficial do mais alto valor. via sem entusiasmo a perspectiva dessa viagem ao outro extremo da França. residente em Béarn.. Pouco tempo depois. que lia agora os nomes dos oficiais caídos para sempre no campo de honra. depois que o médico partiu.Ã leitura desta carta. — Talvez seja possível. É de lamentar! Cumpre então distraí-la. Em seguida. «Estas moças românticas não esquecem assim com tanta facilidade. ficou perplexa a senhora de Prexeuil.. . eu lhe aconselharia. uma palavra dessa jovem deu-me a perceber que ela não faz muito empenho de viver. há muito que insta conosco para que vamos lá passar algum tempo. na sala de espera. cujo caráter assaz grave exigiu a vinda do médico. foi trazido por um dos seus soldados sob um chuveiro de balas.. muito repouso. que espero dominar em poucos dias. Mas se não temos como viver em Prexeuil. privados de pastor. principalmente a um feiticeiro como esse de Chancenay». .. pelos fins de março. Na estação de Besançon. Enfim. a fim de o ler... flácido. não! Tenho aqui uma tarefa que não posso desamparar — a assistência a esta pobre gente. pois. Exerce sobre os seus comandados extraordinário prestígio moral. anuviados. ligeiramente. refletiremos ainda sobre o caso. habituada a não deixar nunca Prexeuil. à outra parte. mas com repouso.» Por isto. Uma de minhas parentas.. A senhora de Prexeuil estremeceu.. leu a lista dos mortos. Deixaram... A titia deve aceitar... fazer-lhe esquecer.. doutor. física e moralmente. Elys reabriu logo os olhos. quanto antes. é que ela passe aqui o próximo inverno. Sim. Per minha causa. doutor. disse à senhora de Prexeuil: — Esta moça precisa. mas que todas três aceitavam de bom grado. só a preocupava a saúde da sobrinha. nessa tarde. que. acrescentou: — Não existirá também uma causa moral para esse depauperamento?. — Não. Um casamento impossível.. por enquanto. muito anêmica. Talvez lhe fosse favorável. capitão do. esboçando um sorriso. Ferido gravemente no correr de um assalto. Prexeuil por uma esplêndida tarde de maio. de infantaria.. Não era sem tal ou qual apreensão. A senhora de Prexeuil teve apenas o tempo de receber nos braços a sobrinha desfalecida.. conduzindo-os para onde quer. Parece-lhe ao doutor que esse clima conviria à minha sobrinha? — Perfeitamente!. Leve-a para lá logo que ela se restabeleça desta gripe.. desdobrou-o. Partiram afinal as duas. tanto para ela como para a tia e a sobrinha. que se instalou no presbitério. — Sim. Se fosse possível uma mudança de ares. julgando-o de pouca monta em comparação com os terríveis transes que ensanguentavam a França.. Sacrifício penoso essa separação. Mas foi somente uma ligeira síncope. caíram-lhe sob os olhos as nomeações para a Legião de Honra. «Isso é fácil de dizer!» disse entre si dona Antonieta. E o coração agitado cessou de bater alguns segundos.. declarou imediatamente dona Bathilde: — Isso havia de fazer muito bem a Elys. foi ainda com o coração aos trancos... indispensáveis a uma grande easa como esta ?. que a experimentasse. Ao comunicar às sobrinhas o oferecimento da prima. mas disse francamente: — Sim... mas acho-a muito fatigada. Elys caiu doente com uma forte gripe.. a velha senhora. o clima é demasiado rude para uma saúde tão abalada. «De Chancenay. Só nos cemeços de maio. a fim de continuar com a senhora de Dambry a sua missão junto dos pobres aldeões. comprou Elys um jornal e... Mas.. O que não convém. a que somente se decidira. Felizmente... — Ah!. a fim de 47 .. Pediu transferência da cavalaria para a infantaria.. ficando em Gouxy dona Bathilde. de modo nenhum. Sempre que o fazia.. e o busto declinava.. Resvalou-lhe das mãos tremulas o jornal.. ao despedir-se da enferma. E. depois de um curto silêncio. Ainda há pouco. ela pensava: «Irei ler o dele?. ao mesmo tempo que as pálpebras lhe desciam sobre os olhos.. parece-me que há qualquer coisa. Este. minha senhora. era bem verdade que lhe dava muito que pensar a saúde da sobrinha.. e não tem nenhum órgão especialmente lesado..

exclamou logo que se viu a sós com a prima: — Mas é adoravelmente linda a tua Elys. porém. mas. Sentavam-se tia e sobrinha à sombra de um pinheiral mui próximo 48 . ao ler no jornal que ele fora mal ferido... pobres rapazes! Mas o pavilhão tem saída independente para a estrada e para o bosque de pinheiros. a senhora de Prexeuil e a sobrinha. Demais.. são soberbos — a mais bela propriedade da região. que as devia conduzir. não a poderão raptar nunca!. Súbito. que ela havia oferecido. Foi aí que apareceram. semelhante vizinhança não agradou absolutamente à senhora de Prexeuil. Não o esqueceu então ? Não admira... sito no pequeno parque da «vila».. Fabiana. nessa hospitaleira morada. auxiliada pela mãe e sob a chefia de um médico. A senhora de Baillans. como em sua casa.. a senhora Jarmans..tranquilizar a tia.. não te aflijas. tomaram-se logo de repentino entusiasmo pela «linda priminha». Da rouparia. — Decerto. Ocupada. passava por um ligeiro sono. enquanto Elys. da qual ja não se separavam. mas é encantadora! Já agora. Em viagem.. mesma Ursau. dizem todos que é encantador!.. — Oh! querida que grande serviço o que me prestas! dizia Gabriela a Elys que logo se prontificara a lecionar as duas priminhas. não te parece? A despeito de tais afirmativas.. tenho descurado muito da instrução delas. arrugaram-se-lhe as sobrancelhas. como estou sempre na «vila». certa manhã. trouxe-lhe ainda a senhora Jarmans um trabalho de agulha para Elys e alguma lã. que dona Antonieta diligentemente tricotava. parece que foi gravemente ferido. que ainda a não conhecia. até a chegada do trem.. Ainda ontem. minha boa Antonieta!. acharam-se tia e sobrinha inteiramente à vontade. se ela ainda conserva tão profunda lembrança do senhor de Chancenay. a sua saúde me preocupa muito. que havemos de restabelecer completamente o mais breve possível.. no começo da guerra. para respirar os bons ares.. — Oh! coitadinha!. Demais. não pronuncies nunca diante dela esse nome.. e suas duas filhinhas. eles devem passar pelo parque. agradecendo às pessoas que haviam acorrido em seu auxílio. ocupava ela um grande pavilhão. pois era impossível evitar esse inconveniente.. minha boa amiga. — Sim. Entretanto. em verdade. CAPÍTULO XIV A dois quilómetros da cidadezinha pirenaica de Ursau.. assim em tua companhia hão de achar mais curto o tempo que passam longe da sua mamãe.. confortável mas sem luxo.. ainda muito pálida. e a sua direção confiada à filha da ofertante. .. Atalhou-a logo dona Antonieta: — Pelo amor de Deus. a administração militar julgado preferível utilizar para esse fim outra propriedade situada na. sim palidazinha. Sim. Tereza e Lúcia. Seria um casamento magnífico se não fora esse teu receio de fazeres dela uma infeliz! São nababescamente ricos os Chancenay!.. Pertencem agora a esse Ogier. tão expansiva quanto era a filha comedida.. pois o avô faleceu o mês passado. Desde o primeiro momento. quase silenciosas. a vinte quilómetros daqui. E agora com essa auréola de glória e de martírio. para que aí instalasse o governo um hospital auxiliar.. Gabriela Jarmans.. não te parece. o que é mais certo.. acomodou a jovem em uma das poltronas da sala de espera de primeira classe. porque. agradou logo a Elys. E a propósito. Está.. que a presença desses oficiais... Os seus domínios de Sarjac. a «vila» Branca fora aceita como sanatório para oficiais feridos. sem dúvida. se os meus pensionistas se apaixonarem por ela. tomou dona Antonieta o jornal. muito fraquinha.... ambas alquebradas de fadiga. nada há de que recear pelo seu coração. exercia agora as funções. Mas. terei o cuidado de não aludir jamais a ele diante da nossa querida Elys. não me admira que o senhor de Chancenay morra de amores por ela!. Fabiana.. a senhora de Baillans possuía uma enorme «vila». a Gabriela há de pedir-lhe que leve a passear as crianças. Com a senhora de Baillans e suas duas filhas (o marido caíra prisioneiro logo que se romperam as hostilidades). Tendo. Esta. que possuindo já o diploma de enfermeira. porque.. Irás alojar-te lá com Elys. enquanto murmurava consigo mesma: — Bem me queria parecer que eram ainda negócios do senhor de Chancenay!. Acreditam até que não poderá mais voltar para o front. Mas... Mas teve de resignar-se. .. inteligente e honesta. muito. percorrendo-o febrilmente com os olhos.. onde se conservaram ambas. teve um desmaio.

. rico industrial. precedido de um pátio ensaibrado e ornamentado de floridos alegretes. sacudindo a cabeça. Mas quem será? Provavelmente. A princípio não foram muito longe... uma estrangeira. ao mesmo tempo que vigiavam as crianças. e os Bignards sabem tanto como os outros.. Parece-me grande imprudência o consentirem que assim se introduzam em nossas ambulâncias sanitárias umas estrangeiras. — Há muito desperdício ali dentro! dizia a senhora Salbert.. tratavam de uma centena de feridos. É bem desagradável a presença de semelhante namoradeira.. são todos muito corteses. Por isto. e punham-se ali a trabalhar. precedidas pelas crianças. natural do lugar. onde. e. de volta detinham-se em Ursau. — Imprudência que pode até sair-nos cara — corroborou a senhora Jarmans. Traz dentro de si alguma coisa que a martiriza. com isto. Mas dizem que é muito recomendada.. se ela se houvesse lembrado de oferecer-me os seus serviços. para o bem desses defensores de nossa amada França.. Elys pôde então apreciar um bela semblante e uns cabelos cor-de-fogo acamados em fartos mantos ondeados sob a touca branca. que folgavam ao redor delas. não admira que esses senhores façam os maiores elogios ao modo como são aí tratados.. «um verdadeiro mimo!». sem dúvida para chamar mais a atenção sobre a sua pessoa. Uma principalmente. Gabriela levava a passeio as filhas e a priminha. muito simpáticos... — Não sei o que há de ser dessa pobre Elys! dizia à filha a senhora de Baillans.. Chegara doente. disse em voz baixa a senhora Salbert. como dizia ela à senhora de Baillans. velha e gentil dama. Traz sempre ao peito flores. com o auxílio de algumas enfermeiras. havia alguns anos.. Durante alguns segundos cruzou-se com o dela um olhar curioso.. a essa hora. ao que parece. minha boa amiga. ninguém o poderá dizer. ainda que guardassem uma certa melancolia. lá vai ela.. o aspecto era melhor. ao que diziam. — Olhem. que desejava saber se havia nobre vivido. a linda jovem do pavilhão. em casa de uma amiga da senhora de Baillans. tão bela e altiva. não mui distante da branca igrejinha do lugar.. tomou-se logo de viva simpatia por Elys. Essas senhoras não se entendem absolutamente.. como essas. A mulher e a filha haviam estabelecido nessa sua residência de Ursau uma ambulância. passou-lhe por diante a jovem personagem. só pelo seu aspecto.. E sentia um calafrio à idéia de que. . Na estrada cruzaram com um grupo de jovens oficiais convalescentes que as cumprimentaram respeitosos. caprichosamente colocada. ou se. a tal moça Doucza. que a haviam contemplado com tão grande paixão. De fato. Uma tarde. Mas não podemos fazer nada. Jerónimo Bignard. e em geral. e como Bignard não quer ficar mal com o governo. jamais Antonieta descerá das suas prevenções! 49 . Gabriela. há de provavelmente conservá-la aqui enquanto ela quiser. personagem influente nos centros políticos. mas não as recobrava tão depressa como sem dúvida aconteceria se não fora o seu constante pensamento. duas ou três das enfermeiras não têm os modos gue seriam para desejar.. Pertencia a um indivíduo. muito desagradável. antipatizei logo à primeira vista com essa menina. a quem visitava sempre. em nossa cidade! — Certamente. Aliás. cujos antecedentes todos ignoramos. irmãos de armas do meu querido André. esse amor pelo senhor de Chancenay! Mas.. tomando o caminho da «vila». ainda lépida. como a senhora Salbert acompanhasse até o limiar da porta da rua as suas visitantes. Começavam já a conhecê-la. — Ah! mas a sua casa. Em seguida. Sem dúvida. — São realmente!.do pavilhão. linda demais até para essas funções. aos cuidados de que você os cerca. que dizem ser rumena. que se tornara.. os olhos iam perdendo aquela expressão de cansaço.. Elys sentia que as forças iam volvendo. E essa Doucza fica à espreita. viram elas sair da casa de Bignard uma jovem enfermeira.. poderiam talvez estar cerrados para sempre esses belos olhos ardentes. E não poucas vezes. — Faço o que posso. Aliás. eu a teria despedido delicadamente. para que Elys não se fatigasse. Linda. Em frente da casa erguia-se um vasto edifício de pretensiosa elegância. a pregar garridamente na blusa um lindo ramo de pequenas rosas encarnadas. sobretudo com os modos que tem. é uma casa-modelo!.. lançando todavia uns olhares admirativos para Elys. E demais...... despediram-se da senhora Salbert as duas primas. que habitava um casarão coberto de velhas telhas. A senhora Salbert.... mas algo triste. Várias vezes na semana. Mas já se ia tornando mais forte.. E. admitindo mesmo que escape aos graves ferimentos. sempre voltado para o glorioso ferido.

enquanto ela lá estava presa no leito de dores. Em fins de julho. assentava maravilhosamente o azul-pálido do uniforme de guerra. tão ardente. no estado em que se acha. se as coisas não caminharão trazendo felicidade para a nessa querida Elys?. porém. apenas experimentam com isso um efeito muito superficial... o oficial se nomeou «capitão de Chancenay». se é o que suspeitamos.. mas ardentemente sonhadora. chegava à «vila» Branca novo comboio de convalescentes... hás de convir que as informações que te ministraram não eram absolutamente satisfatórias. pois logo à primeira vista simpatizei extremamente com esse conde de Chancenay!. E. Agora ou depois a velha senhora viria a saber. quando levantava os feridos no combate. feito para os grandes devotamentos..— Contudo. Infelizmente. assim é. o encanto.... Entre eles. para onde eu fora internado há já alguns meses — acaso.. O rosto de linhas nítidas e viris.. ou então diligências feitas por minha avó sem o meu conhecimento. como era. — Sim.. 50 . sim.. de um castanho-alaranjado e expressão enérgica. a nossa Elys tem razão de estar apaixonada. sabendo que as suas parentas lhe haviam ocultado semelhante fato. diga o que disser! Procuraria.. — Se neste momento estiver em Sarjac. A senhora de Jarmans sacudiu negativamente a cabeça: — Elys não é das que esquecem. não eram. minha senhora.. tivera de amputar a perna esquerda. — Eu. Ambas chegaram à conclusão de qne não deviam ocultar à dona Antonieta a presença do antigo pretendente de Elys... de comandante!. observou ao oficial: — Oh! Esta é sua terra. Sorrindo. As provações por que tem passado. Demais. sorrindo por sua vez. e desveladamente tratada por Elys. ao contrário... Mas deve ter mudado. dizes bem: há um obstáculo moral ao completo restabelecimento de Elys. outros. atingido por um estilhaço de granada. se fosse Antonieta. porte elegante. esbelto. Assim passaram junho e julho. dona Antonieta foi acometida de uma crise de reumatismo tão violenta. Que soberba fisionomia!. que recebia os recém- vindos à descida da carruagem: «Que bela fisionomia de soldado. Ah! sim. sofrendo corajosamente. Também a senhora de Prexeuil bem sabia o motivo da persistente melancolia que nublava aqueles belos olhos cismadores. a custo reprimiu um movimento de surpresa e comoção. — Sim para alguns. desse modo. sempre muito ocupada. a todo momento. só pode aumentar o afeto num coração como o seu. suspensa sobre a cabeça.principalmente se o senhor de Chancenay se demorasse algum tempo na «vila» Branca — e ficaria.... tão entusiasta. soube-se em Ursau que o abade Dambry. Estou persuadida de que pertence ao número das que dificilmente amam duas vezes. Sim. a inteligência!. com certeza. . colocava- a em contato «com rapazes distintos — que sempre há ainda assim. que me enviou para cá lá do hospital de Bordéus. a morte. compreendo!. fazê-la esquecer o senhor de Chancenay. ao invés de me obstinar em não querer que ela se case.. vinha um jovem capitão de infantaria que trazia o braço direito suspenso de uma tipóia.. dessangrado pelos aturados sofrimentos. quem sabe. os grandes sacrifícios. Foi um acaso feliz. não pode ainda retirar-se.. a quem já havia comunicado o nome do belo oficial. respondeu. a idéia de que talvez esse moço esteja enfermo.... Por ela. — Sim.. capitão!.» E quando pouco depois. Ora. mamãe. Recebiam amiúde boas notícias de dona Bathilde.. — Elys. havia Gabriela adivinhado perfeitamente o que se passava no coração de Elys. Ao vê-lo a senhora Jarmans.. acrescentou a senhora de Baillans. Observadora. A mãe acabava de partir para Toulouse. agora que já vi esse moço. onde o haviam hospitalizado. e não seria eu que teria coragem de a censurar por isso.. — E efetivamente está. cujo aspecto havia também fortemente impressionado a senhora de Baillans. Espero até receber-lhe a visita um destes dias.. Porque Sarjac não fica muito longe daqui.. sofrendo. não podemos fazer nada. a senhora Jarmans teve uma breve conferência com a mãe. sem dúvida. iluminava-se ao fulgor de uns olhos magníficos. É necessário que saiba que eles podem se ver novamente — que se encontrarão. magoada. que se viu forçada a ficar acamada. Depois de acomodar convenientemente os seus novos pensionistas. Mas. traços acentuadamente aristocráticos. A esse belo rapaz. compreendo. Gabriela. a senhora de Chancenay poderá vir mui facilmente vê-lo em Ursau. E um olhar em que se lhe estampam a distinção.

quando a respeito dele falassem à prima. sem afetação. Talvez ele já nem pense em mim. que procurou ela refrear o entusiasmo da mãe. A guerra transformara-o com as suas terríveis provações. se torna a vê-lo... Primeiramente. «Ele!» Sim. dois anos. pensou: «Ah! mas prometi que nunca me casaria!. enquanto os oficiais da «vila» Branca tomavam lugar nas estalas.. seria difícil convencê-la de que essa mesma Providência bem podia ter querido conduzir de novo ao encontro de Elys o senhor de Chancenay.. CAPÍTULO XV Ao saber que Ogier de Chancenay era agora hóspede da «vila» Branca. minutos depois ergueu-se. Acreditará agora em outra vida?» Nessa manhã perturbavam frequentes distrações as ardentes preces e ações de graça da ex-freirinha de Prexeuil. A senhora de Prexeuil sacudiu a cabeça. ficará paralítico. — Realmente. mas regulares. sei.... não faltava mais nada!..Também essa era a impressão da senhora Jarmans.» Sim. era impossível retirar-se dali. para que ela não percebesse a simpatia que Ogier de Chancenay inspirava às parentas dela. Tudo isso. — Mas.. E. Elys soube da presença do senhor de Chancenay logo no domingo seguinte. Além disso.. a alma de Elys iluminou-se de deliciosa esperança. então.. era ele!. daí a pouco. súbito. E sentia-se afogar por violenta comoção ao pensar que.. que queres... sentindo que o coração lhe parava um momento dentro do peito. acreditava firmemente na ação da Divina Providência! Mas o orgulho inato.. tinha que se resignar ao inevitável.... mais dias menos dias os dois se encontrariam. Certo. ou no corpo mesmo da igreja. Elys. Pálido mais magro. talvez 51 . Por momentos. quando. Agora. levava-a frequentemente a colocar em primeiro plano as suas idéias pessoais. pelo sofrimento!.. — Sim.. mas tão belo como outrora. Como quer que fosse. oficial. combinar as coisas de modo que revertam em bem para a nossa boa e piedosa Elys.. Não posso pôr na rua esse glorioso oficial.. Quase sem perceber olhava para o jovem oficial. Assim procedera sempre no tocante à vocação de Elys. concluiu a senhora de Baillans... então.. muita paciência. com dona Antonieta. imobilizava-a por algum tempo o reumatismo. e agora. Mas logo com um calafrio de terror.. pode ser que Elys não o veja. realmente....... e não encontrava nenhum! Sem dúvida.. observando seu ar grave.. depois.. mas como ainda o amava!. Já se passaram dois anos!. ajoelhou-se apoiando a fronte na mão. Além disso. Orai aconteceu que tendo chegado cedo. que foi crivado de ferimentos e cujo braço direito... «nessas coisas todas. trêmula de profunda alegria. o médico havia recomendado que não passasse Elys o inverno em Prexeuil.. Mas. era digno de que ambas procurassem mudar as idéias da velha tia em favor dele. porque o via nimbado pelo heroísmo.. que saberá. Gabriela. — Seria um caso inaudito!. que faremos? — Confiar na Divina Providência. E assim foi. e sempre vivaz. O que devo fazer é retê-la aqui dentro de casa a maior parte do tempo. não dispondo dona Antonieta dos meios necessários para estabelecer-se em outro lugar.. parece. que deveria mostrar completa indiferença para com o jovem. E agora.. estremeceu. exigia muita prudência. Ogier dirigiu-se para uma das estalas. Era necessário ter precaução. mas.. Elys já estava restabelecendo aos poucos. voltarão os problemas. os soldados ocupavam do hospital de Ursau os bancos colocados diante da teia do coro.. és mestra». estudariam melhor esse rapaz. — Isso não Antonieta! Ela tem necessidade de exercícios moderados. a senhora de Prexeuil testemunhou um visível sentimento de consternação e mau humor. nem sequer para afastar-se dali momentaneamente. Na missa das oito horas. ficando de pé. a tia Antonieta já não poderia fazer objeção. e veriam então se. mais do que nunca. agora. tato. Mas com que cuidado e surda impaciência! Ficava imaginando um modo de impedir que a sobrinha tornasse a ver Ogier. a ingênua moça seria arrebatada de novo pela imaginação... melhor do que nós. minha pobre Antonieta! Eu nada posso fazer! dizia a senhora de Baillans. porém.. pensou consigo: «Estará mudado?. à vontade de cada um. Depois. onde começava o santo sacrifício. face voltada para o altar. Elys de Valromée passeava maquinalmente o olhar pelos assistentes. concentrado.

minha filha... nesse tempo. muito gentil e parece também que muito distinto. o conde de Chancenay.. perguntou a jovem à companheira: — Parece-lhe. E se já não continuar fazendo objeção.. Hoje. não é verdade? E sorriu ante a perturbação da moça.. Na tua idade. ao seu físico tão simpático. logo que se encontrou com a tia. e esforçando-se debalde para que o rubor não lhe subisse às faces.. Antonieta não veria com bons olhos estes nossos segredinhos... — Quê!?... porém. Fora. e encantadora como és!. que desejava casar contigo. e sobre o qual me pediu outrora tua tia algumas informações? — Sim. encontraram a senhora Salbert. — Ah! ah!.. nossa amiga. — Oh! querida prima! Lançando um olhar malicioso ao belo semblante. eu e Gabriela tomaremos a nosso cargo saber de fonte limpa o que vale o senhor de Chancenay. — Ela. Elys inclinou-se para beijar a excelente senhora. disse-lhe Elys esforçando-se por não tremer a voz: — Parece que o senhor de Chancenay é um dos convalescentes chegados nestes últimos dias. Com a voz um tanto trêmula. pois. O capitão de Chancenay.. sob todos os pontos de vista: muito inteligente. No braço da senhora de Baillans.. Mas a senhora de Baillans. e ela tornaria a ver então esses mesmos olhos. dizendo até que a marquesa de Chancenay é quem herdaria o «Prado-Bento». que as esperava. O que teve tantas citações. a senhora de Valheuil.. Bastante intrigada. é esse o senhor de Chancenay. Demais. onde já lera outrora toda a força de um imperioso amor.. ela já sabe que ele está aqui. lembra-me agora que Antonieta me escreveu a esse respeito.se encontrassem ambos na passagem. sem falar dos sofrimentos!. moralmente. a senhora de Baillans declarou: — Ah! sim é verdade. será melhor... e afagando-lhe a mãozinha... deva eu dizer à titia que vi o senhor de Chancenay? — Sim. — Ah! sim. a senhora de Baillans. perguntou a senhora de Baillans: — Então o amas ainda? — Não o esqueceste. querida? — Oh! não! murmurou Elys. digamos. porém. quando ele foi lá por ocasião do falecimento da prima. cuja presença tanto impressionou esta manhã todas as mulheres? — Não sabe?.. querida.. com tremulo sorriso. — Sim. me fez prometer-lhe que não me casaria nunca. querida.. Olhe lá. já reanimado pela esperança. pasmada. exclamou a senhora de Baillans... realmente. afianço-te que faremos com que a tia Antonieta mude de opinião! Como não havia ninguém na estrada.. E ele não era indiferente a ti. e tudo o mais que se pode granjear na guerra. talvez já esteja outro. Elys sacudiu a cabeça: — Ah! a titia é muito tenaz nas suas decisões.. respondeu: — Eu estava pronta a aceitar. Ao regressarem à «vila» Branca. Mas disse-me a titia que ele não era digno de mim. querida.. informou Elys: — Nós o conhecemos em Gouxy há dois anos. perguntou-lhe com meiguice olhando fixamente para a meça: — Então. — respondeu Elys. Esta. estávamos bem longe de supor que nos veríamos reunidos em tais circunstâncias. Atendendo a isto. E se ele realmente mudou.. Não. ele não era lá. não pode ser! É preciso que ela reconsidere. ferido no braço. corando de novo. tua tia não terá agora motivo para insistir na recusa. fala-lhe francamente. castelão de Sarjac. a legião de honra. e bem conhece a quase impossibilidade do vocês não se verem e se encontrarem. é ele... — a curiosidade era o seu defeitozinho! — indagou a velha senhora: — Quem é esse belo capitão.. Assim.. arranjou as coisas de modo que saíssem da igreja depois de o grupo de oficiais ter-se afastado. — Pois havemos de ver!. prima Fabiana. Vi-o hoje 52 .. Nessa ocasião.. um rapaz encantador. se corresponde. estremeceu a mãozinha de Elys. julgando melhor aguardar outra ocasião. minha amiga! E o que ele está pensando fazer aqui de bom e bonito entre o nosso mundo feminino?. com tremor na voz. Olha. prima. Como se aproximassem do pavilhão... Como se somente agora lembrasse desse fato. estacando.. Interrompeu-a a senhora de Baillans: — É.. enfiando o braço no de Elys.

. A jovem de Valromée? — Ela mesma.. fizera Ogier desaparecer as máculas de sua existência passada. E com um sorriso. linda também. que se achava na «vila» Branca... — Ah! exclamou simplesmente dona Antonieta. onde residem. é um tanto altiva.. Não! Agora. por causa da moça. criatura encantadora! Sim.. vê-se disso às vezes! comentou Ogier maquinalmente. purificando-se no sofrimento. estacando de repente... no heroísmo. muito bonita. dobrou a esquina da rua.. Um desses. do sítio em que estavam. tão forte égide nesses dias de provações ? Inundava-lhe o coração uma profunda alegria... Quer-me até parecer que cuida mais de angariar admiradores. levou a mão ao quepe. e de outro gênero. indicando a graciosa habitação guarnecida de trepadeiras. desde o momento em que lhe pedira. Com elas reside também atualmente uma prima dessas senhoras. ouvia. que lhe jorrava de todo o ser. E designava com o dedo o telhado da casa Bignard.. ele não se julgava indigno de Elys do Valromée. — Sim. depois que cederam a «vila» aos feridos. como procedera antes da tormenta. haviam os dois oficiais alcançado Ursau. pois sai amiúde a passeio com dona Gabriela ou com a senhora de Baillans. um pouco triste. à tarde. Ela era. e não tem nada de namoradeira. se via além.. pois o pensamento já lhe fugira de novo para Elys.. distraído a conversa do companheiro. mas menos do que esta. que. a mão da sobrinha. para sempre incapaz de voltar a desperdiçar sua vida. Aliás vê-la-emos um destes dias. — Ê parenta dessas senhoras? indagou Ogier. há já quinze dias. Nesse mesmo dia. rapazes solteiros. estamos a par de tudo!. 53 . exclamando com alegria: — Oh! meu capitão! — Olá. das suas responsabilidades. Era outro homem agora. no arrependimento sincero do crente. Demais1 todos nós. parou súbito o senhor de Chancenay. na dedicação pelos seus comandados. o tenente Blavet.. por entre as árvores.. quando sua alma havia iconhecido a verdadeira luz. — Provavelmente.. — Parece que sim. Iria tornar a ver aquela que fora para ele uma tão pura. a qual procura muito dar nas vistas dos rapazes que aqui estão. Fui ferido pela segunda vez. naturalmente nos interessamos muito por essa deliciosa criatura. — Afianço-lhe que bem o merece a jovem de Valromée! Num movimento abrupto.. o tenente acrescentou: — Como vê. talvez fosse possível convencê-la da mudança que se operara nele. é a mesma.. Conhece-a ? Mas já o outro havia dominado a comoção. — Sim. meu capitão.. — É ali que moram a senhora Jarmans e a mãe? perguntou Ogier. porém.. Estava ali a sua muito amada freirinha!. encantadora! O que eu tenho visto de mais belo em minha vida! — Que entusiasmo. Outros soldados feridos saudavam-nos quando eles se cruzavam no caminho. onde chegara havia um mês. por isso. — Conheci pessoas desse apelido. Vieram ambas do Jura. realmente.na igreja com os outros oficiais da «vila». No sangue de suas feridas. Paulet! Estás internado aqui neste hospital? — Sim. E não se falou mais do novo hóspede da «vila» Branca. Ogier de Chancenay. que está com a saúde algum tanto abalada.. meu amigo! disse Ogier sorrindo. onde de certo teria ficado2 se o capitão não me houvesse salvado! Enquanto o senhor de Chancenay dirigia algumas palavras carinhosas ao ferido. Mas ali estava também a velha tia. como fonte por longo tempo represada.. É a antítese de uma enfermeirazinha do hospital de Ursau. Assim conversando. Mas como convencer disto mesmo a senhora de Prexeuil?.. Ela. — Hein?!. aconteceu passar o senhor de Chancenay próximo do pavilhão em companhia de um dos seus camaradas de regimento. nestas terras pequenas.. Contudo. simulando indiferença. mas não tão gravemente quanto da primeira. consciente dos seus deveres. que de tratar dos feridos.. pela primeira vez.. Está com ela uma velha tia..

para suspeitar que ela buscaria meios e modos de reatar com ele as relações interrompidas pela guerra. Mas.. Sari: — Pois aceite os meus parabéns!. a fim de alcançar os camaradas. não sabendo se deveria. corando de orgulhosa alegria. não é verdade? — Muito melhor. Mas que havemos de fazer? Você sabe tão bem quanto eu. Conhecia muito bem essa Sari Douza... bem a estou reconhecendo. — im. — Paulet é um bravo rapaz. Portou-se como herói. astuciosa.. porque lhe deve muito. creio seria conveniente indagar-lhe da verdadeira nacionalidade. o que lhe valeu sem dúvida. que deixou escapar esta exclamação : — Oh! o senhor de Chancenay! Ogier voltou-se retendo a custo um movimento de viva contrariedade. acrescentou: — Sim... senhorita. — É um dever tão fácil o mostrar-se a gente bom e caridoso para com esses pobres rapazes. — . uma estrangeira que pertence a uma das nações nossas inimigas? — Ah! meu caro! Isso entra na categoria de certos mistérios perturbadores.. — Ccmo é modesto!. que pretendia ser francesa.. ou não. meu amigo. senhor meu capitão.. como para despedir-se.. livrar-se do campo de concentração.. E. como ele mesmo nos contou. conheci-a há tempos.ao pé deles. que ele apertou com a ponta dos dedos.. a senhorita Doucza diz-se agora romena.. E. 54 . sempre a mesma.. para salvar a dele. — Justamente! Ogier esboçou um sorriso de desprezo: — Não me causa espanto. Mas.. que me parece deve estar prestando bons serviços aos nossos inimigos... serviu-se a filha dessas mesmas relações.. como se explica o fato de ser admitida num hospital francês.... como o seu capitão arriscou a vida.. para insinuar-se em um dos nossos sanatórios... — Foi ferido gravemente?. Veio-me esta idéia pouco antes da guerra. Conhece o nosso Paulet.. Vá visitar-me um destes dias à «vila» Branca.. — Ah! Bom!.. muito elegante. enquanto os olhos esverdeados se fitavam nos dele com apaixonado interesse.. Verdade é que existem romenos na Hungria. o que torna plausível essa transformação.... não é verdade? E designava o soldado.. Semelhante encontro contrariou demais ao senhor de Chancenay. E a mãe. continuou: — Dizia-se húngara. — . estamos aqui a retê-la. quanto à mãe.. depois. que há olhos que voluntariamente se fecham para não ver. há já alguns dias. — Sim.... E.. uma enfermeira.. Essa senhora procurava então granjear influentes relações nos meios políticos.. porém. — Sim.. Ele já contou a todos no hospital. que ficará sem ação. Com o mais meigo dos seus sorrisos explicou então Sari: — Esse homem tem pelo senhor um verdadeiro culto! E não é para menos.. cuja gratidão o torna gentil. porquanto nada mais fiz que o meu dever. e dizendo com surpresa glacial: — Ah! a senhorita Doucza! — Que inesperado encontro! Acha-se então na «vila» Branca ? E estendia-lhe falando. com altiva polidez. ao que dizem. Já veio duas vezes ver a filha. há tantos heróis no exército francês! Eu não tenho o direito a essas singulares felicitações. afora o braço. friamente: — Oh! minha senhora. E Ogier.. Quer-me parecer que era a ela que você se referia há pouco?... que continuava perfilado. loura. despedindo-se e retirando-se com o colega. que não incumbe a nós outros elucidar!. — Ah! Mas então isso é muito grave! — Se é!.. habilíssima. sim. por parte do pai. — Conhece então a senhorita Doucza? perguntou o tenente. sacudindo os ombros. E saudou-a. após curto silêncio. senhora.. retirar-se. Reteve-o. saudou-a.... que é feito dela? Seria interessante sabê-lo. Mas agora já está melhor.. a mãozinha. Ê uma linda criatura.. com muito prazer! E. apressou o soldado o passo.. — Dizem que está residindo em Bíarritz. Aliás. Com certeza.

Que fervedouro de intrigas não seriam essas atoardas!. Esteve um pouco adoentada. — De Maud. na qual já se haviam aberto alguns claros.. que se alistara logo no começo da guerra. — alma enérgica.. A viuvez e os cuidados pelo neto não lhe haviam modificado a frivolidade de espírito. pois parece que essa senhora se ocupa de negócios um tanto equívocos. que fariam ficar em apuros quem está a servi-la. Nessa tarde. onde tem sido visto constantemente em companhia de uma tal senhora Doucza. Existe.. — Pois. ao levantar-se para se despedir do neto. Ogier. não te assentaria tão bem! Ou então. Sempre pensei. pois Ogier nunca dizia mais do que queria dizer. Continuava a tingir os cabelos. Todavia. Entristeciam-no essas dissonâncias entre as suas duas almas. Às vezes. a se arrumar com muita arte. A senhora de Chancenay lançou um olhar interrogativo à fisionomia um tanto irônica do neto. refletida. vovó. se ela pudesse ver o abismo que se cavara entre o senhor de Chancenay de antigamente e o de agora. tão perto dele. Ogier tirou da algibeira uma carta. principalmente considerando que a senhora de Prexeuil e a sobrinha podiam ouvir falar em semelhantes relações. a fútil marquesa lhe fazia uma reflexão deste gênero: — Como te vai bem. sim a mulher ideal. com um sorriso malicioso: — Não te hão de ter faltado admiradoras. — Tens então alguma em vista? — Tenho.. enganou-se. tal perspectiva era muito desagradável para Ogier. por experiência. deu-lhe a senhora de Chancenay notícias da parentela. deixava explodir a impaciência quando. que isso seria inútil.. que fosse ela a mulher ideal. hein. claro é que ele nada receava de Sari... decerto.. mas não é Maud.. essa Elys bem-amada. que não condizia com o respeito devido à avó. meu filho. Entre outros. a primeira a não acreditar que o senhor de Chancenay — o animal imundo de outrora — ignorasse as avançadas dessa linda criaturinha. que viera de Sarjac em automóvel. num vilarejo como esse. agora regenerado... divide o tempo entre Paris e Biarritz. de que precisas. — Quem é? — Permita-me vovó. que ainda não lhe responda à pergunta. Ogier recebeu a visita da avó.Muito tenaz. mas futilmente.. de que preciso. E dona Antonieta seria. que mulher haveria no mundo capaz de lhe fazer esquecer. vovó! Tudo isso não passa de bagatelas e tolices. Jovem encantadora. no último inverno.. por exemplo. em que pudesse confiar e vazar os seus cuidados. sequer por um instante. — Oh! essa querida Maud!.. Essa garridice de velha dama irritava Ogier. — Ah! isso então continua?. disse-lhe ainda: — Tive ultimamente notícias de Pardeuil pelo nosso primo Veuillaumont.. a marquesa não procurou insistir.. Ademais. o idiota... Apesar da grande curiosidade. o vácuo moral que existia nessa senhora que o amava... 55 . de todo orientado para uma nova vida! Por si mesmo. Pouco depois.. meu lindo e gentil oficial! Ao que o neto replicava com involuntária secura: — Deixemos essas ninharias. que ali estava.. que a muito custo conseguia dissimular a impressão desagradável... que ele iria talvez tornar a ver dentro em breve? CAPÍTULO XVI No dia seguinte.. sobretudo porque isso lisonjeava o amor-próprio dela. Pois será bom que ele tome cautela. desprendido do ceticismo de outrora. tenho mais que fazer e em que pensar! Tais visitas não eram muito desejadas por Ogier. esse uniforme! Se houvessem escolhido de propósito. Bem sabia. William Horne. caso a polícia se decidisse a ver claro nesse assunto. aspirava encontrar uma afeição inteligente e forte. E entristecia-se tanto mais quanto o seu coração. fora morto em Flandres. inteligente. senão após muitas e vãs tentativas . naturalmente não passariam despercebidas.. Reformado como cardíaco. Quanto às admiradoras. a trajar um luto elegante sabiamente combinado. e só agora pôde reassumir as suas funções de enfermeira. tornando-os louros. a quem desprezava mais do que nunca!. Ora. que ofereceu à avó.. porém. ela não se deixaria desanimar. as quais..

creio. este a deteve. o rapaz via somente Elys.... porquanto necessita poupar-se. gentilmente. envolvendo-a num olhar curioso. No belo semblante ruborizado pousou um quente e curioso olhar. aguardava-a o automóvel.. Elys. O senhor de Chancenay observou: — Nunca nos aborrecemos quando tornamos útil a nossa vida. No pátio. !É essa uma doença. estendendo a mão à moça.. à nossa querida senhora de Valheuil tão boa. que eu apresente minha avó à nossa dedicada enfermeira? Acrescentou ainda algumas corteses palavras de gratidão. Com voz.. E entreabria-lhe os lábios um sorriso — dulcíssimo sorriso. — Queria muito à nossa aldeia. indestrutível. Súbito.. É curioso encontrá-la aqui!. — Ah!. O médico não quer que eu passe o inverno em Prexeuil. mais do que nunca. ele estremeceu. transpondo com a marquesa o portão da «vila». o amor de ambos. propôs-lhe: — Vamos caminhar um pouco a pé ? A vovó tomará depois o carro.... que ela nunca se aborreceu com isso.. porém.. em Gouxy. meu querido! O tempo está belíssimo e a tarde não está quente. o sofrimento. Iam-se encontrar de novo. que lhe dava novo encanto à fisionomia.. tão dedicada!. disse a senhora de Chancenay. Numa delas reconheceu imediatamente a senhora Jarmans. mais ardente.. A senhora de Chancenay falava. e. e o médico recomendou-me que fizesse exercícios..... Vinham vindo pela estrada duas senhoras.. comunicou o oficial: — Vou apresentar-lhe.. enquanto o neto lhe respondia distraidamente. que a senhorinha também. em vão. Também ela. Havíamos perdido de vista uma a outra.. vovó. correspondendo apenas à saudação do oficial. pois essa pobre Valentina acreditou de seu dever encerrar-se de vez na solidão.. já a havia reconhecido o coração. com o seu modo superficial.. e. É uma dessas cosmopolitas que os franceses acolhem com demasiada facilidade. A outra é uma prima que reside com as tias no castelo de Prexeuil.. 56 ...... Mas creio que não será nada de grave? — Oh! não! Sinto-me até muito melhor depois que aqui cheguei.. nossa excelente diretora e enfermeira. a senhora Jarmans.. e ambos leram nos olhos um do outro que a separação. Assim conversando. onde ela fez algumas relações. que.. dirigindo-se a Elys: — Dizia eu agora mesmo à minha avó que vocês foram as amigas fiéis de nossa prima de Valheuil. E. — Está doente. todos os dissabores apenas tinham podido tornar mais forte. minha prima e eu. à qual prestou grande serviços. dizendo-lhe: — Permite-me... não conhece. lhe ocupava o pensamento. acrescentou: — . havia logo reconhecido aquele que. — Vamos. a senhorinha?. de longe. às quais. — Ah! sim. precisamos forçá-la a descansar. A outra. antes mesmo que lhe pudesse distinguir os traços. o senhor de Chancenay e a avó saíram da «vila». buscava desviar os olhos... minha senhora. Ogier... essas senhoras eram as amigas da senhora de Valheuil. Correspondíamo-nos. às vezes. passasse por eles.. que se esforçava por conservar tranquila. estando desde há dois anos com a saúde um tanto abalada. Ogier deu ordens ao chofer. ganharam a estrada num passo vagaroso.. de quando em quando. se associou a senhora de Chancenay ... minha senhora. Pardeuil apresentou-a nas rodas que a mãe frequentava. depois de se haverem julgado separados para sempre! Como Gabriela.— Conheces.. — Sim. Mas enquanto falava.. essa senhora? — Sim. mais a companheira. E afianço-lhe. então. — Espera demorar-se aqui por muito tempo? — Talvez até a próxima primavera. tomada de comoção.. pois diz que é muito frio. Foi a senhora Jarmans quem respondeu: — Elys é uma tão infatigável trabalhadora que..... que lhe podem ser muito úteis hoje em dia. toda ruborizada. Qual delas? — A mais alta. para não engordar. um pouco. — Tenho muito prazer em conhecê-la. discretamente. pois os olhares de ambos se encontraram. nós lhe queríamos muito. avançava automaticamente ao lado da senhora Jarmans..

. a que às vezes o provocava... de que preciso. e da vida que levavam em Prexeuil. Apressando o passo. sentia-se agora como que apercebido de uma nova arma. confesso que a prefiro mil vezes com esses vestidinhos simples. Enquanto assim falava. porém. se pertenciam um ao outro para sempre — e mais do que nunca! Continuando a caminhar de braço dado com o neto. na solidão. de qualquer modo. e esse modesto chapeuzinho.. ela havia. se dava a si mesma... se viu sozinho experimentou o senhor de Chancenay uma sensação de alívio. fez-se de volta à «vila». que parecia sair de um sonho. é deliciosamente linda!.. Eis aí por que regressou de lá. cala-te! Nem quero pensar no que poderia ter acontecido! — Sim. representado pelo tenaz propósito de dona Antonieta. ainda na tipóia. — Sim. minutos depois. Ogier ouvia.. Simpatizei muito com ele. sim.. O que não impede que. muito distinta.» Depois que. ocupando-se dos pobres com o auxílio da mãe do nosso cura. a sua clarividência até o ponto de pensar que essa moça sem bens de fortuna. contudo. Bem vestida. ou de uma afamada modista. é linda. querido. leal... se haviam baixado um instante sobre as gloriosas condecorações que ornavam a túnica do oficial. reatar aqui o idílio interrompido. essa senhora Jarmans. flertar com ela. e terei muito prazer em tornar a vê-lo. a casta e profunda ternura da cândida enamoradazinha. preciosas aliadas na senhora de Baillans e sua filha. que desaparecera pela graça divina.. a mulher ideal. e cada dia mais lhes aumentava a simpatia por ele. Porque. que a torna encantadora... — Este não me servirá para nada mais! Preciso acostumar-me a ser canhoto. aliava o capitão Chancenay uma perfeita bondade. Ao se separarem. aproximado estes dois fatos: a presença dessa linda criatura em Gouxy.. continuava a existir como antes.. onde quer que apareça! Ogier.. observou a senhora de Chancenay: — Muito simpática. pode ter a certeza de que ninguém a eclipsará... que lhe haviam amputado uma das pernas. com toda a certeza... mal humorado. as considerações desenvolvidas pela avó. A tia Bathilde ficou em Gouxy. quer dizer enroupada nas criações de uma costureira elegante. e o interesse que Ogier demonstrara durante algum tempo. — disso se convenceu Gabriela no decurso das conversas. para lutar contra a velha dama.. de sacrifício. até vestida num saco.. pelo coração e pelo desejo. que se empenharia em fazer desaparecer-lhe a beleza sob o ridículo da moda! De mim. É morena. Era esse seu passado de um ano... 57 . de um azul tão raro!. e respondia em frases curtas às perguntas que esta lhe fazia acerca da senhorinha de Valromée. — E o senhor?. que apagava o outro. quando eu voltar ao «Prado- Bento». sabiam ambos que. O coração saltava-lhe dentro do peito invadido de felicidade. E ainda fui muito feliz por ter ficado com um deles! — Oh.. das tias.. brilhantes de uma comoção dificilmente reprimida. ardente. Ogier pôde ler neles o vibrante entusiasmo. distraído. «Quis. Ogier conseguira sem o saber.» Tais eram as explicações que a marquesa de Chancenay... sim. fosse a de quem lhe havia dito Ogier: «Existe. Ogier não tirava os olhos do lindo semblante de Elys. afora a alma generosa.. Pobre rapaz. sobretudo. Quando se ergueram de novo.— E tem razão!. a fim de dar graças a Deus por lhe haver devolvido o neto não de todo inválido.. ainda por cima!. mas as tias cortaram-lhe as asas. Que belos olhos aveludados.. longe da sociedade. vovó! Mas é preciso pensar. de conversão... Estão também aqui as senhoras suas tias? — Somente minha tia Antonieta. E concluiu: «Vai. Quanto à moça. passado todo feito de bravura. isso talvez o distraia!» Não ia... grave e concentrada. Ãs maneiras de oficial gentil-homem. tendo posto a avó na carruagem. sem dúvida. por menos observadora que fosse a senhora de Chancenay. mas elegantes. disse em tom irônico: — Bem vestida. não ousando pedi-las ao neto. Estudavam-no ambas discretamente. Como vai do seu braço? Ogier sorriu. erguendo com a mão esquerda o braço inerte. educada modestamente. Além disso. pelo «Prado-Bento». Porque o obstáculo. — Ah! Pobre abade Dambry! Soube por um dos seus colegas. Todavia. cujos belos olhos cor-de- violeta.

tornarei a partir imediatamente..... fazia todo o possível para se avistar com o capitão de Chancenay. recolocar-me à frente dos meus bravos rapazes. replicava o tenente. 58 . uma vez curado. — Depois da guerra.. — Não há palavras que possam definir-lhe o heroísmo e o sangue-frio. logo que se lhe apresentasse ensejo. Em todo o caso. Como sair desse passo difícil? A velha senhora. Ogier.. você há de ir verme em Sarjac. ou a ligeira corrida de uma lebre. empreendendo com o seu amigo Blavet longos passeios pelos arredores.. conservou-se sempre friamente polido. ora! são idéias que hão de passar. porque ele não me acreditaria mais do que outrora». belo e quente ainda nesse país de Béarn.. Durante esses passeios. Demais. a tenaz criaturinha não desistia. isto é. reservava-as Gabriela para dar a conhecer à senhora de Prexeuil. perguntou à senhora de Baillans — e era a primeira vez que lhe tornava a falar do jovem oficial: — Ainda se demorará aqui por muito tempo o senhor de Chancenay? — É provável que sim. — Pois eu ainda tenho muito que esperar. não quererão... Atravessavam campos e prados... então matará por mim a minha caça.O tenente Blavet fez-lhe um dia o mais entusiástico elogio do amigo.. extraordinariamente sério! Todas estas informações e outras mais. desde logo se convencera do seguinte: nenhum homem no mundo era mais digno do que Ogier de Chancenay «dessa pérola de Elys». Sem dúvida.. por outro lado. De outra feita conversando Blavet com a senhora Jannans acerca do hospital de Ursau. observou o tenente: — Sem uma direção enérgica e inteligente.. a qual. à vista da indiferença anteriormente afetada por dona Antonieta.. mas havia lá duas ou três que se mostravam diabolicamente namoradeiras . dentro de um mês.. E. já estarei bom para servir de alvo aos inimigos. O doutor prometeu-me que. «e amo-o cada vez mais! Por isto. que dava ensejo a que o murmurassem na região. Porque... a existência mundana e a vida dos prazeres! Mas. não lhe havia «comunicado o seu encontro com Ogier. ia rapidamente recuperando as forças.. portavam-se bem essas senhoras. O major está aplicando um tratamento elétrico. Ogier dizia.. Ele. Com certeza. Não te disse ainda que está agora muito mudado que. não se pode conter o pessoal nos limites da moralidade. porque eu agora... Ogier tinha por vezes o desgosto de encontrar-se com Sari. Também por isso foi recompensado. Um dia. aproveitou o ensejo a senhora de Baillans para insinuar um discreto elogio ao capitão de Chancenay. — Sim. é inútil que eu simule devoção e zelo religioso.. não achava saída. muito enfraquecido. porém. dissimulando não ver a consternação da prima. o braço e dois dos ferimentos exigem ainda séries cuidados. Mas. por mais que procurasse. tudo. Porque.. ainda aqui estará no começo do inverno... Blavet. e. indiferente. se tornou católico praticante e está disposto a queimar o que tanto adorava. «Nunca deixei de amá-lo». Mas uma altiva frieza respondia aos seus sorrisos e aos seus olhares de inusitada admiração. É um rapaz muito sério.. com este maldito braço. Em sua maior parte. porque é querido de todos eles.. Muito bom para os subordinados. inquietava-se à idéia de que a cura da sobrinha. Valente com as armas. pois todo ele é recrutado nas mais diferentes camadas.. que ia recolhendo..... como ele previra. de certo. de si já muito demorada. se eu voltar.. pudesse ressentir-se de novas comoções. nos eletrizava a todos! Ah! é um oficial admirável!. para mim. seguindo com olhares de inveja o vôo das aves. como dizia a senhora de Baillans. E acrescentou sorrindo: — Principalmente com Chancenay. escrevia ela à mãe. Chancenay e eu.. para vencer a indiferença dele!.. sem esforço. porquanto eram ambos grandes caçadores. Oh! se ele tivesse querido!. logo que observou mais vivacidade nos movimentos de Elys e um brilho não habitual nos olhos da sobrinha. pois foi um deles que o salvou com risco da própria vida. não admitia sequer por um instante o pensamento de uma capitulação. algum tempo num hospital auxiliar das cercanias de Bordéus. passamos. CAPÍTULO XVII Entrara o mês de setembro.. Quanto a ela. sim. obstinada na sua decisão. Antes de virmos para cá. devido aos seus sofrimentos... posto que enérgico.. segundo dizem.. A moça.. farei tudo. Mas a velha senhora adivinhou sem custo que eles se haviam avistado.

facilmente parcial. as nobres qualidades... senhorinha? perguntou inquieto um deles.. assim é preciso. nós nos oferecemos para isso. diziam!. que vinham em sentido contrário. para que me ajude a carregar Teresa. indo quase esbarrar com dois oficiais. Precisava buscar socorro no pavilhão porquanto a criança era pesada demais para a transportar no colo. que devia conduzi-la mais depressa ao pavilhão. o prazer do outro encontro. e rolou no chão. quando a sobrinha entrou em casa. Pobre dona Antonieta! Como bem previra. corria daqui para ali. latentes nessa alma de homem. rápida. reagia com todas as suas forças. Ora. atendendo a esse caráter autoritário. E. tornava-se. Uma tarde. conservando ainda nos olhos soberbos o reflexo das horas terríveis que vivera. sem que fosse necessário que Elys lhe comunicasse ter-se encontrado com o moço oficial: adivinhou-o logo. Quando Elys. em vista de uma chuva torrencial e ininterrupta. — Lúcia. — Que lhe aconteceu. Histórias! Pois não fingira também seu sobrinho Jacques haver-se tornado um santinho. amedrontada. por quem a senhora de Baillans e Gabriela pareciam tão ridiculamente enfeitiçadas?. enquanto eu vou correndo até a casa buscar Melânia. o capitão de Chancenay. Precisavam ter precaução. para trocarem entre si um discreto olhar de amor.. Blavet? — Claro! — Eu não queria incomodá-los. verificou a moça que o tornozelo inchava rapidamente. haviam magnificamente irrompido em meio do perigo. Diga antes prazer! Sentimo-nos felizes em poder ser-lhes úteis. sedutor como outrora. entrecortado por acessos de secreta rebeldia. meu bem. exuberante de vida.. dizia Gabriela. um concentrado calor. Detinham-se apenas os dois grupos alguns minutos. — Incômodo. Sim. mais do que nunca.. A idéia de uma capitulação. era-lhe por demais pesada e. cuja ardente ternura lhes inundava de alegria o coração. a criança soltou outro grito. prendeu-se-lhe o pé entre duas pedras. mas não desenvolvidas pela educação.. mas diferente. senhorinha?. deixava-se levar por um triste fatalismo. por isso. soltando um grito de dor. sob a influência da responsabilidade. E a velha senhora. Elys conduziu Teresa e Lúcia a um curto passeio pelas cercanias. vais ficar aqui junto de tua irmã. — Uma das minhas priminhas torceu o pé.. criança travessa de seis anos. Enquanto Lucinha dava prudentemente a mão à prima. Oh! como Elys amava esse olhar de Ogier! Havia nele uma força.. clausurada durante os dois dias precedentes. A energia. enfiando por um atalho.Mas também Ogier tivera. que acompanhava Gabriela e as filhinhas desta. Então. Nada tens que recear. ferido. pelo amor de Deus! — Mas. Ela corou. porque demasiadamente apaixonado em suas idéias. Teria então de ceder? Teria de dar a sua querida Elys a esse Chancenay.. largou a correr. à mãe: — A afeição que dedica a Elys há de acabar por abrandá-la. que já lhe pertencia todo inteiro! Ela percebeu tudo. em que a moça não pudera sair. Mas.. não é verdade. prima Elys.. tão folgazão quanto ela. porém. das privações. Não demoro muito. seguida de um cãozinho dos Pirinéus. — Não. continuavam habilmente os seus trabalhos. aureolado pelo prestígio dos heróis. Dessa fornalha saíra um novo ser. 59 . Não me deixes agui sozinha. recomendou ela. numa dessas corridas. o de Elys. trocando algumas palavras. descalçando-lhe o sapatinho e a meia. cuja tranformação se afirmava no olhar. e dos altos pensamentos que nunca sublimavam a alma. em germe. — Não é preciso. gemeu a criança. Mesmo com receio de deixar sozinhas as duas crianças. Em vão Elys tentou contê-la. a mais velha. e eu vou depressa ao pavilhão chamar alguém que me ajude a transportá-la. quis pô-la novamente de pé. ajudando-a a levantar-se. do triunfo desse homem. mas a menina. Esse luminoso olhar denotava-lhe todas as impressões da alma. a quem acompanhava o tenente Blavet. por duas vezes. reconhecendo o senhor de Chancenay. a quem outrora havia tão energicamente recusado a mão da sobrinha. o senhor absoluto desse jovem coração. quando foi do casamento dele? Cumpre dizer que o orgulho entrava em grande parte nos sentimentos de hostilidade de dona Antonieta para com Ogier. compreendendo a sua impotência. isso porém bastava a esses jovens. será somente por aí que nós a venceremos... — parecia nesse dia um verdadeiro animal em liberdade. não havia outra alternativa.. que não existiam no de Chancenay de antes da guerra. Estava convertido. As primas.

dando alguns passos para o grupo. Ao vê-la agora.. — Sim.. chegava a senhora de Baillans. hoje. Para transportar Teresa ao pavilhão. — Minha boa amiga. quase se zangou a senhora de Baillans: — São terríveis as tuas prevenções. Nós mesmos levaremos a criança até ao quarto. satisfeita de tão pronto socorro. a senhora de Prexeuil. era preciso que o grupo passasse diante de dona Antonieta. O que não o impediria de fazer das suas. que muito se admirou de ver o senhor de Chancenay rosto a rosto com dona Antonieta.. a primeira muito comovida e algo inquieta. deixando a senhora de Prexeuil entregue às suas reflexões.. Era já um grande passo — um passo de gigante. o que seria.. — se admiti que recusasses o senhor de Chancenay.. Conduza-nos aonde está a criança. Entretanto. interrogou os dois oficiais sobre seus ferimentos.. Que acolhimento ela faria ao senhor de Chancenay? A princípio.. A senhora de Prexeuil deu uma risadinha de escárnio. pois que a entorse não oferecia gravidade como ela mesma verificara.... como senhora bem educada. perguntou. Notava-lhe o olhar de interesse. falar-lhe. desviando-se em seguida.. a coisa caminhava bem. os dois oficiais carregavam a Teresa. Tremeram-lhe então as faces. A senhora de Baillans considerava a prima. para ir ver Elys. respondeu o tenente Blavet. depois de curto silêncio. num tom. chegando até. pronto sempre a todos os sacrifícios... o melhor meio de proceder para com esse espírito orgulhoso.. Seguia-os Elys e Lúcia... da elevada concepção de dever. Ao mesmo tempo. Ele também não fazia nenhuma alusão a Gouxy. Desta vez.. como em tudo mais. que melhorara desde alguns dias. incomodar ninguém. encantadores.. tal como ele era há dois anos. senhora. depois. a fim de agradecer-lhes... — declarou francamente a prima. que andas favorecendo as pretensões desse moço e o afeto que lhe dedica. A conversa girava em torno das generalidades do momento.. com tal ou qual impaciência. instou com eles para que tomassem chá.. E retirou-se. a senhora de Baillans disse com ar de pura satisfação: — São encantadores esses rapazes!.. sim. senhor.. Alguns instantes depois. ouvi-lo. fora sentar-se no jardim. algo irritado: — Desconfio. no decorrer da conversa a elogiar discretamente a bravura de ambos. via-se a senhora de Prexeuil obrigada a achar-se de novo em presença desse detestado Chancenay.. sem querer atender às discretas desculpas dos rapazes. Antonieta! Não posso discutir contigo. Não foi nada grave..Elys.. a velha senhora viu apenas Teresa nos braços dos oficiais. Informou-se do incidente. despediram-se ambos da criança acarieiando-lhe a face. ninguém diria que o senhor de Chancenay já era seu antigo conhecido. não obstante as dores que sentia.. que se fitava de contínuo na bela fisionomia enérgica e leal.. apenas uma entorse. olhando-a de viés. Encantadores! Que te parece. Desviando os olhos do olhar sereno de Ogier. guiando-os para a entrada do pavilhão.. Depois de terem deixado Teresa sobre a cama. Ao desceremi encontraram-se de novo com a senhora de Prexeuil. logo que lhe desse na telha. — Sim.. — Como queira. Antonieta?. pensava ela. que nós nos encarregaremos de levá-la ao pavilhão. chama as criadas!. Já Elys precedia os oficiais. ainda aí.. — Não vale a pena. e.. Depois que os oficiais se despediram.E Ogier acrescentou sorrindo: — Há de ver que o meu único braço ainda pode servir para alguma coisa. dava mostras Ogier de sua grande inteligência. Elys. a quem Elys friccionava o tornozelo dolorido. E. Sim... A velha deitou um olhar àquele que assim lhe falava. do seu vibrante patriotismo.. acrescentou dona Antonieta. cujas feições não pôde logo distinguir. Levantou-se. pois a personalidade do rapaz impunha-se para logo à atenção e simpatia dos que o ouviam.. firme no seu temor e na sua 60 . uma vez que o senhor de Chancenay continua a ser hostilizado pela tua obstinação. minha senhora.. eu não poderia compreender que te não sentisses feliz e orgulhosa de dar Elys ao homem de alto valor em que ele se tornou.. Justamente nessa tarde.. se a senhora o consentir. e encarou depois o companheiro. que os aguardava. exultava com o incidente. muito bem!. No íntimo. disse com voz ligeiramente agitada: — Oh! senhores. Dona Antonieta. indo ver a netinha. Mas. que incômodo! Darem-se a este trabalho!.. Fabiana. assustada: — Que aconteceu? — Não se aflija.

. alistava-me desde já no número dos seus pretendentes! Sim. vê. Tenha confiança. porque — com razão. — Sem dúvida. é preciso que essa jovem. Será duro. O senhor de Chancenay não falara nunca à senhora de Baillans ou a Gabriela sobre seus sentimentos.. não nos vimos mais. Você? Então já a conhecia?. porque — digo-lhe com toda a franqueza — a nossa simpatia pelo senhor. Desde algum tempo já... porquanto prometeu à tia que nunca se casaria.. que você bem merece! — acrescentou calorosamente Blavet. o que jamais há de fazer.animosidade. a senhorinha de Valromée há de ser sempre. — Ah! bom... adiantando : — Como quer que seja. para ela.... porque.. E daí — quem sabe? — talvez a senhora de Prexeuil se decida a ceder mais cedo do que o supomos. — Pois que. — Ah! Que me diz? Como sabe. bem o reconheço agora — ela me julgava um ruim demonio. Teresa e Lúcia tornaram-se grandes amigas do capitão de Chancenay e do tenente Blavet.já não terá a tia motivo para manter a sua recusa! — De fato. muito duro. um dia. um inválido como você!. num só diaf a esse resultado. Julga então que a senhora de Prexeuil possa qualquer dia renunciar à decisão tomada? — Tenho quase a certeza.... que as divertiam. capitão. Não há. necessidade de precipitar as coisas. aliás. porque agora estou inválido. Eu porém não posso reiterar o pedido. Ah! se eu não fosse um mísero plebeu. para poder fazer a felicidade dessa jovem. a grande estima em que temos o seu caráter.. é inútil que eu dê largas à imaginação. mas o senhor não deixará tão cedo a «vila» e a nossa prima. — Oh! — Então. fazem-nos considerar esse casamento como um presente do céu à nossa querida Elys. Desde o incidente da entorse. capitão. Fez bem em prevenir-me. que eu e minha mãe trabalhamos para isso. se referiu a isso. Lúcia. senhora! Eu então tinha sem o saber tão grandes aliadas? Como lhes sou reconhecido!. — Pois bem.. via-se dona Antonieta forçada a recuar ante esta perspectiva/ desagradável para o seu amor-próprio: desligar a sobrinha da promessa que ela lhe havia quase imposto. Contudot espero ainda que Deus me conceda essa grande felicidade! — .. depois de ter notado o ar imponente e a inteligência de dona Antonieta.. já agora. e fique certo de que a sua gloriosa invalidez seria.. Ogier apresentou-lhe as mesmas objeçoes que já apresentara ao amigo.. mais meiga.. todo absorto na recordação dos seus queridos olhos cor-de-violeta. — Mas é isso.. Chancenay? E o tenente fitava pasmado Ogier. o meu amor. mais carinhosa que a irmã mais velha. Quando os dois oficiais iam ao parque. — Já. Ogier. cujo generoso coração não se ressentia de nenhum ciúme do amigo. É muito orgulhosa. mas há de fazê-lo... aqui tem o nosso romance em duas palavras: a senhora de Prexeuil recusou-me a mão da sobrinha. de volta.. prima Elys.. Olhe. muito teimosa. pois receia de ver ressentir-se com isso a saúde de Elys. é obrigada a passar aqui o inverno. Que fisionomia encantadora!. Chancenay. um motivo a mais para atrair a simpatia de minha prima. bom!.... O que é preciso.... — Não preciso recomendar-lhe segredo sobre confidência?. «E depois. meu amigo. — Oh!.. — Sim..... Este.. e muito admiradora da bravura heróica. justamente. Desde então. Enfim. pelo contrário. entrou a exaltar a beleza da senhorinha de Valromée. Os dois oficiais regressaram vagarosamente à «vila». — Uma maravilha!. por várias razões.. — A você!. uma ardente patriota. para mim.. Mas se ela o ama. meu amigo. pode ter muitas esperanças quanto à mudança de idéias da nossa autoritária prima.. deixava o companheiro falar.. pois.. brincava com Ogier.. E ela quer? — Não sei. à moça. — Sim. 61 . porque eu não me atreveria. compreendo muito bem o seu escrúpulo.. falamos de ti» dizia ela. Foi a senhora Jarmans quem. seria inútil. faça compreender a você que a intenção dela não mudou. é que o senhor tenha paciência! Não chegaremos.. nem da recusa oposta outrora ao seu pedido. de si mesma. que só a senhora de Prexeuil pode resolver a situação.. e me deixe tomar de amores. Mas agora. CAPÍTULO XVIII Pouco a pouco. naturalmente. O coração de Elys de Valromée já não é livre desde há dois anos... viam muitas vezes as duas crianças correr para eles.. sob aqueles seus modos frios.

aliás. muito simples. e não disse mais nada enquanto durou a conversação. Hás de ver que ele também saberá fazer feliz a tua Elys! — Sim. é impossível constituir para ela sequer um pequeno dote. não podem resistir por muito tempo às solicitações da consciência. Gabriela comunicou ao senhor de Chancenay a feliz notícia. Gabriela acrescentou em seguida: — Aliás. Vemos bem que sofreu. por vezes. capitão. — se é sincero.. Certo dia. — Eu não esperava esse resultado tão cedo! — Nem eu. o que me impele a decidir tão depressa. sorrindo. mais sedutor do que nunca — como era forçoso confessar.. sentiu bater-lhe radiante o coração. tomando a mão da velha senhora.. Ainda que essas reviravoltas sejam muito naturais em semelhantes situações. preciosamente conservado na família. Entre as mais desagradáveis recordações de minha vida.. do bem que era fácil fazer em favor deles.. Já que ele não hesitou em sacrificar a vida pela pátria.. e também um prazer. — respondeu a senhora de Prexeuil. mas que... Elys estava presente. obra-prima de cinzeladura. posso afirmá-lo. ainda uma vez. Mas previne-o de que ela é pobre. e que.. E afianço-lhe que não era coisa fácil! Ao que ele replicou alegremente: — Oh! Eu o sei por experiência!. ao ouvir estas palavras. Dona Antonieta contemplou.. 62 . que falava dos seus soldados. feito por ela mesma. que há de fazer a sua felicidade.. — E esse apostolado. está o acolhimento que ela me fez em Prexeuil. descobrira sob essas rudes aparências. — parecem-me excelentes. — Amanhã. uma vez abertos os olhos. Gabriela Jarmans convidou os dois amigos a virem até ao pavilhão. se esta tem ainda a seu respeito as mesmas disposições. E como poderia ela resistir à soberba lealdade desse homem. a bela fisionomia leal e enérgica. — Fiz. sem lhe mostrar visível má vontade. contraía um pouco os lábios. — Não se pode negar que é de inteligência acima do comum.. cuja alma lhe irradiava do límpido olhar? Pouco depois. confesso-lhe. acho bom que decidamos logo isto de uma vez. que ouvia isso. muito interessante. e depois acrescentou: — Diga a ele que o autorizo a vir pedir-me a mão de Elys. por momentos..... ele não renovará o seu pedido.. acolher esse terrível Chancenay. — Oh! prima! E eu não creio que ele se preocupe com isso! Nessa mesma noite. — Sim! Mas.. a senhora Jarmans observou. o senhor o exerceu? perguntou dona Antonieta. a fim de lhes mostrar um curioso cofre do século XVI. meditou... já que foi um dos heróicos defensores das mulheres. dos velhos. acho que o senhor a conquistou de vez. à sua invalidez. Ouviu até com evidente interesse o jovem oficial. disse-lhe dona Antonieta em tom constrangido: — Se tu e tua mãe são de opinião que Elys deve casar-se. deliciosamente bela no seu vestido branco. Mas o senhor de Chancenay ainda deseja casar-se com ela?. justamente.... prima? — Sim. sinceras em suas próprias injustiças. Quando os dois rapazes se retiraram.. Gabriela. ao menos por agora. pelo menos. apertando o laço azul que prendia os cabelos de Lúcia: — É muito interessante ouvir esse senhor de Chancenay falar. serviu-lhes chá. agora é possível. — Pois é ela. Em seguida. e deu à sua vida um fim mais elevado. devido.Elys ficava emocionada. Quanto às suas idéias.. e a senhora de Prexeuil. Desta vez. Fê-lo. Já não tem o mesmo olhar. — É um apostolado magnífico para quem sabe compreendê-lo... eu já não tenho o direito de lhe recusar a minha querida Elys. o que podia — respondeu ele simplesmente. — Sim. dos clarões de bondade moral que... E. Calou-se um momento. amanhã. que lhe causou grande admiração. Elys. por um sentimento de delicadeza. E dona Antonieta teve de. das crianças e dos nossos lares ameaçados. apertou-a demoradamente: — Ah! prima! Eu bem sabia que não haverias de ser sempre inexorável!. se ele quiser.. Até que enfim sua tia fazia alguma justiça a Ogier. achando-se sozinha com Gabriela Jarmans.

as moradoras do pavilhão. Enquanto ele se inclinava diante delas.. os dois jovens se fitaram mutuamente. ameaçando a todo momento arrebatar-me deste mundo.No dia seguinte. porque são para oferecer à minha noiva... que o senhor não acredita que acrescentou por si mesmo uma nova glória ao seu nome e que uma mulher.. sem deixar a mãozinha trêmula. — Está bem!. porém. .. — Creio que estou falando sério!. dizendo entre si. — Senhora!. Eu não posso esquecer que.. adiantou-se. Elys de Valromée.. sou para sempre um inválido. tão absorvidos estavam um com o outro. que eles não viram. Uma delas envolveu-os num rápido olhar. — Um...... que a minha vida de mundano e ocioso deviam inspirar-lhe alguma desconfiança. porque. murmurou: — Oh! Elys. recolheu-se ao quarto.. Um instante. então. já agora. Ogier. a velha senhora disse-lhe com impassível dignidade.. Aqui se interrompeu súbito a comunicação. Ogier de Chancenay chegava ao pavilhão. estava disposto a fazê-la feliz tanto quanto em mim coubesse. A companheira observou: 63 .... nesse instante. se estás a falar a sério nesse casamento. Sentir-me-ei muito feliz e orgulhosa de unir para sempre a minha vida à desse glorioso inválido!.. felizmente.. Certo. onde já o aguardavam dona Antonieta e a sobrinha.. entre todas. que o senhor será sempre digno dela. com irritação. Para ti? — Sim.. pedido?. parece-me que não tem bens de fortuna! Ogier reprimiu seu mau humor. engana-se redondamente!» No dia seguinte. senhor. e o em que me tornei. é considerado pelos demais como um fenô-0meno. para um negócio importante.. detiveram-se um momento a conversar com o senhor de Chancenay e o tenente Blavet. para mim. Cavou-se um abismo entre o Chancenay. — Pois tanto melhor! replicou ele.. e surpreendendo os jovens namorados. e espero. Ah! mas se minha avó me supõe partidário dessas idéias. perguntou sorrindo: — Tem.. E dona Antonieta.. domingo... já não é mais assim.. sentiu um ligeiro tremor ao mesmo tempo que os olhos esverdeados se incendiavam. temperada de comoção: — Parece. esforçava- se por conservar uma atitude impassível.. Estás gracejando!.. «Não cansam nunca de falar no dinheiro! Se o homem não se casa com uma fortuna. pelo menos igual à sua.. capitão. sentindo que a comoção lhe estrangulava a garganta. Mas.. irei amanhã.. que fui. Mas tu me espantas. estendendo-lhe a mão: — Sim.. passavam duas enfermeiras. Hoje. entretanto. Ogier. Elys! Foi tudo o que ele pôde dizer nesse momento.. Ogier. .. reconheço. Tenho o bastante para os dois.. com apaixonados olhares. desde o momento em que pedi a minha querida Elys. num impulso de entusiasmo.. brancas. Precisamente. — Oh! isso lho prometo eu por minha honra de fidalgo e de soldado.. por isto que me concede o seu precioso tesouro ? — Sim. possa orgulhar-se de usar esse nome?. adquiri a consciência de todas as minhas responsabilidades. vovó. Elys e Ogier trocaram a meia voz algumas palavras..... não desejando continuar a conversa. Ah! Olhe traga-me umas flores das estufas de Sarjac.. muita confiança em mim agora. o senhor de Chanisenay telefonou à avó: — Venha cá amanhã.. ao saírem da missa. — Um pedido de casamento. Era o que lhe faltava agora!.. — Que estás dizendo?!. — Uma dúzia?.. Até amanhã. Elys. — Que negócio. apoderando-se da mãozinha e depondo nela um demorado beijo. meu filho? perguntou a senhora de Chancenay. depois de ter passado uma hora no pavilhão. Recorda-se ? — Essa linda menina. com apaixonada alegria... os olhos radiantes. minha senhora. Regressando à «vila» Branca.. Enfim. com quem nos encontramos quando aí estive? — Essa mesma.. depois que vi a morte ceifar largamente em torno de mim. compreendi o que deve ser a vida. diz muito bem minha tia. que se entregava à dele. Será possível?. e até mesmo para uma dúzia de filhos. naturalmente. pelas duas horas da tarde. creio mesmo. Foi imediatamente introduzido no salão..

. deixou o hospital. Sobre a relva da margem. e lançando-lhe um olhar de desdém. ou mesmo impossível. Aliás. quase bem demais. afastou-se.. diria eu. sentou-se Sari alguns instantes. cujas águas borbulhavam ao passar por sobre grandes rochedos. meu amor. alvadios e polidos pelo contínuo atrito da corrente.» perguntava ela a si mesma: «Sua noiva.. Ia ela descendo por estreito caminho à beira de um declive relvoso. alcançou-o: — Ogier. por achar-se atacada de forte enxaqueca. E Sari estacou súbito. o senhor de Chancenay está agora convertido». dando de ombrcs. chatos. e medindo-a com olhar altivo. Dizia a senhora Doucza: «Vem ter comigo a Biarritz. Acabo de sair-me às maravilhas de um negócio. cujas folhas a aragem suave fazia ramalhar.. unicamente por excesso de prudência. que a muito custo conseguia dissimular. Voltando-se. Sari rasgou as folhas em inúmeros pedacinhos. que lhe chegara às mãos nessa manhã. Em caso de alarma. Quer-me.. o moço respondeu: 64 .. achou-se ela junto de Ogier antes que este pudesse fazer qualquer movimento. não me trate assim com menosprezo! Deixe-me ao menos falar-lhe. que me valeu muitos cumprimentos vindos de muito alto e transmitidos pelo nosso amigo B. como dizes. Conheço muito bem a tenacidade da minha Sari. Depois. ao mesmo tempo que os olhos despediam clarões de ódio. após curto silêncio: — Sabe quem ela é? — Provavelmente. Mas. a fim de receber as necessárias instruções relativas aos nossos negócios que. é o melhor que tem a fazer. ergue-se de um salto e.. que ainda está instalado em San Sebastian.. parecer que a coisa não será tão fácil. rodando nos calcanhares. ao mesmo tempo que os belos olhos irradiavam um clarão de alegria. E em seguida. houvesse por bem dispensar-lhe os serviços essa manhã. como dissera... pediu à diretora que... Para acalmar os nervos superexcitados por esse incidente. — Então! Já não dá a menor atenção a esta mísera Sari.. com um livro nas mãos.. pode ser difícil. os lábios contraídos. porém. murmurou em tom irritado: — Eu também creio que há de ser difícil!.. É encantadora a menina. existe o que eu suspeito. se. querida».. principalmente se. de fato.. pois. pôs-se a ler uma carta da mãe.. Esqueça-se de que me conheceu.. porém. respondeu a senhora Bignard.. Não estou a par. que ficava para além da rua principal de Ursau. talvez? Olhavam-se com tanto amor. que ela espalhou pelo mato... que descia em escarpa suave até uma torrente de um belo verde cintilante. Isto não quer dizer que eu receie alguma coisa: pelo contrário. vai tudo muito bem.. com um gesto de irritada impaciência. saltando para o declive. Sobre as ondas fugidias. que ela sabia lhe assentavam muito bem. mas parece- me ter ouvido a senhorita Robin falar de uma moça muito bonita. mais ou menos. Sari Doucza era considerada como uma enfermeira original. Ah! compreendo agora por que não faz caso de mim!» E crispava os punhos. E. vão «muito bem». a senhora Salbert a Elys e a Gabriela Jarmans. «Sim. Sobretudo agora. se fosse supersticiosa. com quem está a conversar! — É. telefonar-te ou telegrafar-te. Preciso que estejas a meu lado neste momento — bem sabes por quê.— É um belo rapaz esse capitão de Chancenay!. Bastava-lhe prestar ao namoro e vestir os trajes de enfermeira. os cenhos carregados. porque ele poderia ser-nos muito útil. Ao terminar a leitura desta carta.. agora que o senhor de Chancenay se encontra aí onde estás.. isso não me desagradaria. à proporção que avançava. pois que eu já não me recordo da senhora. de modo que a senhora Bignard não se atrevia a fazer-lhe polidamente compreender a inutilidade de sua presença ali... repito. sim. replicou: — Poupe-me a recordação de um tempo que já vai longe. sem se admirar com isso. afastando-a. inclinavam as árvores os seus ramos.. estava sentado um oficial. «É. que desceu em alguns segundos.. que eu desejaria ter-te ao pé de mim. sem o menor cuidado de prestar realmente serviços aos feridos.. indo espairecer pelo campo. De passagem. que escolhia as tarefas segundo os seus gostos ou seu capricho. Com uma agilidade de cabra. Continuo a ir vê-lo de quinze em quinze dias. pôs-se logo de pé. Mas o oficiai. que ela logo à primeira vista reconheceu. Mas não creio absolutamente que correspondas a este meu desejo. disse simplesmente Sari. para não duvidar de que ela fará todo o possível para atrair a atenção desse belo capitão e dele se fazer amar. Sari. «Quem será essa moça?. inclinando para Ogier a cabecinha ruiva com o mais terno dos seus olhares.. Recolhendo-se ao seu quarto.. protegiam-na ocultas influências. havia tempos.. a quem outrora achava muito interessante? Deixou-se cair sobre a relva.. De caminho. Regressou Sari ao hospital num estado de tão grande irritação. uma das parentas hóspedes da senhora de Baillans.

65 . uma licença por ocasião do nosso casamento. em seguida. Sari permaneceu imóvel. a senhora de Chancenay mostrou-se muito gentil. para que ainda conservasse a mais leve esperança de vê-lo um dia interessar-se por ela. — E eu. E deu-lhe de novo as costas... porém. que vão ficar sozinhas!. quando te vi ao pé do caixão de minha prima Valheuil. Inclinando-se para ela. hás de fazê-lo de outro modo. Agora. e dona Antonieta suficientemente afável. Eu deveria ficar ainda alguns meses aqui na «vila» Branca. te enfraqueceram? — Sim. com certeza. irei a exame na comissão de reforma. hás de te restabelecer depressa. estendendo o punho para o oficial... murmurou entre dentes: — O senhor de Chancenay me pagará caro!. que decidirá do meu destino. com seu ar de grande dama. e por isso podia ter a fantasia de casar com uma moça pobre. Contudo. ainda quisera poder continuar a servir à minha pátria! — Sim.. obterei.... Ogier! Agora. eu jamais teria tido semelhante idéia. E Elys continuou. mas já a serviste magnificamente. e iremos para Sarjac. mas antes eu já me sentia um pouco fraca. — concluiu ela. Devido à diferença de caráter dessas duas senhoras. uma vez terminada a convalescença e decretada a reforma.... Elys? Por causa da recusa da senhora de Prexeuil? Ela sacudiu afirmativamente a cabeça. E corou mais ainda. de fato.. De boa vontade. Ogier compreendera. para aquela moça com quem conversava esta manhã.. pareceu-lhe uma velha senhora decorativa. A menos que prefiras o «Prado- Bento». por conseguinte. e. murmurou com a voz trêmula de comoção: — Por minha causa. relembrando como se haviam conhecido. Mas invadiu-lhe o coração uma onda de ódio.. como se tinham amado quase desde o primeiro olhar: — Sim. Por isso. pois estamos reunidos e noivos. — Meu amor!. afastando-se um pouco dos demais.. os olhos chamejantes de patriotismo: — Contudo. perguntou em tom de meigo interesse: — Foram os dolorosos sucessos do ano passado a esta parte que te combaliram a saúde. ao cabo de alguns instantes.. minha Elys. Vamos nos casar dentro de um mês ou seis semanas. livre. as feições contraídas num afluxo de cólera.. A tia Antonieta tem envelhecido muito depois dessas crises reumáticas. acrescentou. É provável que me julguem agora incapaz para servir como oficial. estarei. Depois. Inclinando-se mais ainda. depois de curto silêncio: — Pobres das minhas tias. onde me pediste que fosse tua esposa. corando. Ogier beijou-lhe demoradamente a mão. Ogier depôs-lhe um beijo nos sedosos cabelos... Quanto aos noivos.. algo emagrecido..... — Onde eu disse que te amava! Trocaram um longo olhar de ardente ternura. Depois de alguns momentos de silêncio. e os nossos olhares se cruzaram um instante. eu pensava também em ti muitas vezes.— Não compreende então quanto é ridícula e humilhante para a senhora essa sua insistência? Lamento ser obrigado a dizer. — Todavia. é o que é.. Desta vez. mas o restabelecimento se realiza mais depressa do que julgavam. ela concordava em que Ogier dificilmente encontraria mulher mais encantadora. — Havemos de fazer as coisas de modo que estaremos frequentemente junto delas. é claro que não podia existir simpatia entre elas. — Oh! sim! o «Prado-Bento»! Boa idéia!. Lera demasiado desprezo e indiferença no olhar de Ogier. A casa dessa velha e querida amiga. adoentada. de mim mesmo. contemplando um instante o semblante encantador. CAPÍTULO XIX Na tarde desse mesmo dia. E comecemos por saber o que ele é. fez a senhora de Chancenay o pedido de casamento à dona Antonieta. meu querido. Dona Antonieta. desde esse momento — confessou ela. conversavam a meia voz. para que a pequena reunião tomasse logo um caráter de cordialidade.. afastando-se. desde esse momento eu só tive um desejo: o de tornar a ver-te.

apesar de sua invalidez?» e que. sobre as tias. mas cuja alma contém. Recolhendo-se ao seu quarto. os seus bens de fortuna. E a cólera da antevéspera. E. Que será?.. sobre o qual. encontrou-se com a filha da senhora Bignard. que ainda é moça e tem saúde..— Sim. Todavia. abriu um cofrezinho de onde retirou um envelope. com um sorriso diabólico nos lábios. instintivo. Por isso. respondera espontaneamente: «Oh! sim. pois terei comigo Bathilde. ainda muitas virtudes domésticas e alguns resquícios da religião que lhes ensinaram. No caminho. Vi de perto a bela missão — bela e difícil — que nos cumpre realizar ao pé desses homens de cérebro inculto e idéias falsas. testemunhavam apenas que nem sempre a senhorinha Doucza lhe fora uma estranha.. muito bem educado. de considerações sem fim. soube do fato a senhorinha Doucza. que lhe entregou um telegrama. em que a custo acreditava. o destino. devia ter para Sari um sentido terrível... de algo mais elevado. A promessa que lhe fazia Ogier. para nos visitar de quando em quando.. «Bem me queria parecer!. sim. com a sua esguia caligrafia. atribuíam a Ogier uma riqueza colossal. quase igual à de um milionário americano. de informações ministradas por pessoas «que conheciam de perto» as famílias dos noivos.. as senhoras. meteu-as noutro envelope. escreveu o seguinte endereço: Senhorita Elys de Valromée Pavilhão de «Vila» Branca. minha filha. um tanto inquieta. mais ou menos desocupadas.. Além disso. minha Elys. sentira a jovem o profundo pesar que a perspectiva de tal separação causara na tia. estupefata e trêmula de alegria. Vai encontrar-se com ele em San Sebastian. inteiramente a cargo de suas primas do pavilhão. Tais palavras muito valiam na boca de dona Antonieta. foi isso inesgotável assunto das conversas. pois. é assim a vida: vão- se os moços. orgulhosa. como em toda cidadezinha que se preza. — Acabam de trazê-lo! «E esta?!. * * * Logo se soube em Ursau do noivado do capitão de Chancenay e Elys de Valromée. titia! Mais do que nunca!» — apresentara-se logo ao espírito da jovem uma objeção que ela imediatamente formulara em voz alta: — Mas.. ainda não de todo acalmada. Fechou a sobrecarta e saiu para colocá-la no correio. E ainda eu não sou das mais infelizes. Na antevéspera. podes ficar certa. declarou a senhora de Prexeuil. depois. subiu de intensidade. mas sincera: provavam a mudança que no espírito da velha senhora se havia produzido a favor de Ogier de Chancenay. em alguns. no estilo habitual da sua correspondência. tanto mais quanto não deve ter guardado boas recordações de mim.. conversavam também sobre essa novidade. DUPONT». — É ser muito gentil. Releu-as Sari. se me casar eu deverei deixá-la? — Certamente. sem nenhum escrúpulo. o nada e outras tantas caraminholas. aceitar esse casamento. continuando o caminho abriu e leu: «Teu tio te chama. aparentemente pouco inquietador. os velhos ficam sós.. recusando- lhe a mão da minha querida Elys. Queira Deus não nos tenha acontecido alguma!» pensou logo Sari. Este telegrama. tirou ao espírito de Elys uma grave preocupação. Acredito-o..» disse ela a si mesma. Escritas em tom despreocupado. enquanto que Elys não passava de uma pobre moça sem bens. querida Elys. depois que dona Antonieta lhe fora perguntar: «Estás disposta a casar com o senhor de Chancenay. apressou-se em lhe comunicar a promessa do senhor de Chancenay. No fim do dia. titia. Foi assim que. nesse mesmo dia. de caráter muito leal. Podes... espirituoso. Pedirás somente a teu marido que te leve. mais consolador que o acaso. não encerravam nada de muito terno ou muito apaixonado. logo que tornou a achar-se sozinha com dona Antonieta. pois 66 . em outros um desejo latente. as suas predileções. e sabendo compreender os motivos que me faziam proceder como procedi. Mas não te preocupes! Nós nos arranjaremos. contendo três cartas — cartas que Ogier havia outrora dirigido a Sari Doucza. porque não hei de ser mais o ente inútil de outrora.. eu e Bathilde. porém. E. incapaz de longos ressentimentos. Como nessa ocasião havia poucos pensionistas no hospital. sob a aparência tranquila do tom e da fisionomia..

Vou tomar o primeiro trem.. lançando fora as cinzas. pois.» Ao deixar a estação de Ursau. escritos quando procedia erradamente. Então.. sem que previamente as entregasse a uma das suas tias. Sari soltou então um suspiro de alívio. Será o bastante. o senhor merece toda a minha confiança.. No estado de inquietação em que se achava. — É justamente o que faço. com toda a lealdade. Recostan-do-se no canto do compartimento. e a fisionomia. subindo depois para o ônibus. Reconheço agora. senhorita? — Não. Sari subiu para um compartimento de segunda. colocou as cartas no bolso. depois. chegado há poucos dias a San Sebastian um pouco adoentado. Foi. partiu de novo o trem. Nessa tarde. regressou apressadamente ao hospital. do qual se viam as árvores e as paredes de tijolos do pavilhão. outro dia. E tomando as cartas das mãos do rapaz.. e do modo como lhe dei a entender. que estava vazio. ao mesmo tempo. meu filho. que imaginou vingar-se assim da completa indiferença que eu lhe tenho desde que cheguei aqui. voltarei imediatamente. acrescentando: Agora. há muito perigo.. mesmo aos vinte anos. que eram inúteis e ridículas todas as tentativas desse gênero... Logo que meu tio melhore. queimou cuidadosamente alguns papéis de apontamento. não é? — Sim. traía uma expressão de angústia. a senhora de Prexeuil quem abriu e leu as cartas. dar um rápido adeus às senhoras Bignards e a algumas enfermeiras. Estas cartas. aproveitando-se de um momento em que Elys se afastara. Não são para ti... Até à fronteira.. 67 . Lançando rápido a carta no correio. Ao cabo de dez minutos. Estava insegura. apenas uma valise. Sentados num banco. Mas a presença de dois policiais parecia-lhe muito desagradável. chegou o trem.. indo instalar-se a um canto. O senhor de Chancenay tomou-as. vencendo uma elevação. dominava um pouco os jardins das casas e o parque da «vila» Branca. * * * Mas Sari Doucza ignorava isto: Elys de Valromée. É uma estrangeira. Depois disso. a estrada ia margeando prados e pomares. há de ver que o seu belo Ogier nem sempre foi o santinho que hoje parece ser. Foi uma rápida visão. Terminada a leitura.. minha senhora. Leva a sua mala. dizendo à sobrinha: — É engano. Mas quem as teria enviado de Ursau? — A pessoa a quem escrevi outrora estas cartas é atualmente enfermeira no hospital. pertencem a um passado. com ar severo e silenciosamente. dona Antonieta disse a Ogier. em seguida. Vinham dirigidas a Elys. Afinal. reconheceu-os logo. murmurou baixinho... E que ainda não tenham me localizado! Antes de partir. disse em voz surda: — Ah! miserável! Que audácia!... Ao ver-se na plataforma à espera do trem. e. tinha o costume — agora de todo obsoleto — de não abrir nunca as cartas que lhe eram dirigidas. onde explicou com a voz ligeiramente alterada: — Fui avisada de que um de meus tios. E foi preparar apressadamente a maleta.. pois não pretendo demorar-mc muitos dias. agora que já não era observada.empalideceu ao mesmo tempo que o papel azul lhe tremeu nas mãos. — Queira Deus que eu ainda tenha tempo! murmurou. Foi. que já vai longe. Mas. rasgou-as. recomecei uma vida inteiramente nova. pois fui eu quem abriu o envelope. lançando- lhes um olhar. às três e vinte. ser-lhe-ia impossível manter qualquer conversação.. estendendo-lhe as cartas: — Recebi isto esta manhã. com um brilho de ódio nos olhos: — Amanhã ela receberá as cartas. voltando-lhes sempre as costas.. tentou acalmar o seu estado nervoso. às três e vinte. que a devia conduzir à estação. deseja que cu vá vê-lo por alguns dias. a fim de evitar que alguém a reconhecesse e viesse sentar-se junto dela. Sari Doucza. disse para consigo mesma: «Ainda não passou o perigo. porque se conservou do lado oposto ao em que eles estavam. mi lououraa de outrora que eu lamento de toda a minha alma e peço-lhe que não tome em consideração estes miseráveis papéis. muito longe.. viu de mãos dadas um oficial em uniforme azul-pálido e uma moça vestida de branco. A Elys! — Minha sobrinha não as leu.

... por acaso. Gozavam de fama pouco lisonjeira. junto de oficiais e soldados. antes da guerra. porque algumas personagens conhecidas seriam acusadas... safou-se para a Espanha. realmente. Elys e Ogier. que um punhado de dinheiro e muita bondade podem tornar a vida menos amarga. hão de estar em segurança na Espanha. disse a senhora de Chancenay: — Sabes. Quanto à mãe.... sem saber como demonstrar a sua boa fé. de imprudência culposa. dos que se acham no hospital de Ursau. simulando até. bem como a filha. porquanto o terrível flagelo deixaria após si inúmeras ruínas. etc.. Ogier.. financeiras. o que acaba de me dizer o senhor Varzeil?. atravessado por saltitante regato.. inclinando-se respeitoso. meu futuro sobrinho. talvez o senhor conde a tenha visto por lá. Pardeuil escapou um destes dias de se ver envolvido num processo de espionagem! — Sim?!. em vista da indulgente proteção. Minha tia sentiu- se um tanto embaraçada — ela.. e — mais por vaidade estou certo. que tem que ver com tudo isso o nosso Pardeuil? — Ora. Como foi isso? E o senhor de Varzeil explicou: — É uma história que abafaram logo. Reunia em sua casa muitas personagens políticas. que hajam podido escapar! Creio que a presa não teria sido má. William Horne. Em companhia dele. e enquanto se assentavam a moça e os dois homens. não tenho a menor dúvida em acreditar. diferentes do que teria feito o Chancenay de outrora. É apenas um idiota. «Que beleza!» exclamou Elys.. dizem.. — com certeza. pelo menos.. em sinal do perfeito acordo que existe atualmente entre os adversários que fomos um do outro. Parece que está aterrado com a aventura. . na qual. — Sim. Conhece-as ? — Sim.. que lhe suavizavam a fisionomia : — Autorizo-o agora a beijá-la. enquanto Ogier lhe ia comunicando os seus projetos. talvez. conheci-as. Como lhe agradeço! Dona Antonieta estendeu-lhe a mão. 68 .. A mãe. introduziam-se em toda parte. disse a velha senhora com um dos seus raros sorrisos. mãe e filha. provavelmente. Mas. Soube ontem. — De fato. a intuição do papel que ela representava. repito. e convencidas. piedade. Ocupavam-se então de obras de caridade. A esta hora. um dos automóveis de Sarjac conduzia ao antigo solar patrimonial dos Chancenay a senhora de Prexeuil.. para ir encontrar-se com a mãe. decerto o campo para essas sementeiras da caridade.. — Penso também como o senhor.. dores inconsoláveis!. que lhe queriam muito bem. a alteraçoes nas disposiçoes dos efetivos.. militares. principalmente.. sem dúvida. Porque são senhoras.. Quanto à senhora Doucza. Elys visitou os magníficos aposentos. um bobalhão.. Depois de o apresentar a Elys. essa! Pardeuil era íntimo amigo da senhora Doucza. que gostava de lhe ouvir às vezes algumas bobagens interessantes. decorados com um luxo aristocrático. os noivos encontraram aí a conversar com as senhoras de Chancenay e de Prexeuil um dos mais próximos vizinhos de Sarjac. que viera visitar a castelã. enfermeira no hospital de Ursau. os jardins e o parque.. Tornando a entrar no castelo... ajudar todos os pobres.. CAPÍTULO XX Dez dias depois. evidentemente. com comovido reconhecimento. o qual desejava mostrar à noiva a futura residência de ambos.. como lhe chamava o pobre de meu primo. teria que prestar apertadas contas. Como ele apenas a apertasse. Não lhes minguaria. que ela havia partido. Mas. — As senhoras Doucza. pois conheço-o muito bem — servia-lhe de intermediário junto das pessoas de quem ela desejava obter esclarecimentos importantes. mas prevenida a tempo.— Oh! Minha senhora! exclamou Ogier. — informações quanto a operações militares. se a polícia a tivesse apanhado! Quanto à filha é acusada de haver tentado obter — muito habilmente so que parece. aflições físicas e morais. noto agora. contando mesmo na pessoa do barão um dos seus maiores admiradores. Procurariam. É uma aventureira e muito esperta. É pena. De resto. — Oh! sim. Encontrei até a filha como amiga íntima de minha tia de Challanges e de minha prima Paula. estava muito amiga dos Pardeuil. disse vivamente Ogier. os dois. quo julga ter um faro extraordinário! — quando lhe fiz ver o mesquinho valor moral daquela a quem chamava a «sua encantadora Sari». — Elas mesmas!. que dispensavam a essas estrangeiras.. que era. eu havia tido. ao que parece. importante industrial da terra. então foi acusada de espionagem? — Sim.

. de como me fugiste. ou não. ainda que deste negócio se fale muito pouco. que preferiu instalar-se ali. na simplicidade compatível com a vossa posição. O perfume do outono invadia também agora a grande sala. acompanhada de Elys e Ogier. lhe permitiria retomar o santo ministério.. porque essa senhora tem irmãos e irmãs. Agora. à noite a paralisia a atacou. e creio aliás ter tido razão. no pomar de Prexeuil. e eu entrego-te a ele com toda a confiança. obtida pela aua gloriosa mutilação..muito vaidoso.. conduzia a Sarjac a ex-freirinha de Valromée. pois.. Apertando em seus braços a esposa. afinal. onde o depositaram no jazigo da família. — nós as pagamos com o nosso sangue. Uma tarde de outubro. — logo. Sim. inclinando-se e beijando-lhe demoradamente a fronte macilenta... reviveram os recém-casados a cena de outrora. sentia-se a senhora de Prexeuil muito ansiosa. sinto-me satisfeito por saber que o solo da França já se desembaraçou. ela via com serenidade aproximar-se a sua hora.. de pessoa autorizada. regressaria. Uma tarde. que apoiava a cabeça no ombro dele.. envolvendo a moça num olhar de profunda ternura: — Quisera eu poder ver ainda o teu filhinho. concluiu: — E eu também! * * * Um mês depois. partindo em seguida para Gouxy. Um deles estabeleceu-se na Espanha antes da guerra. com certeza. Mas. essas bobagens. às senhoras Doucza.. era a este que a espia ministrava as informações que ia obtendo.. minha filha ?. Podes orgulhar-te. Mas eu supunha que assim procedia para teu bem. estaria perto dela sempre que necessário. — Oh! tia Antonieta! exclamou Elys. firmemente resignada. Vão. disse a Elys. alemã! O pai havia-se naturalizado francês. entravam pelas portas-janelas abertas sobre o jardim. excelente instrumento nas mãos de uma mulher hábil como essa. murmurando: — Fiz-te sofrer. tens nele um verdadeiro apoio.. como lhe dizia. um amor sincero e fiel. cumprindo os deveres. eu rogarei por vós e pelos vossos filhos! Certa manhã. do marido que possuis. prestaria aquela mais serviços. O abade Dambry. qual a verdadeira nacionalidade dessa dama? Conseguiram saber? — Oh! Alemã. perguntou: — Lembras. No salão. assim como os mexericos. que vivem na Áustria e na Alemanha. Elys e Ogier acompanharam-lhe o corpo. quando Ogier fizera a Elys a confissão do seu amor.. que se instalariam por toda a primavera no «Prado-Bento». — admitindo que sejam somente bobagens.. Dona Antonieta opunha-se a que a sobrinha permanecesse com ela. Elys.. senhor conde. que perdera por momentos. Finalmente. Voltando... a velha senhora extinguiu-se docemente. Daí. dessas criaturas! E mentalmente. pôr uma pedra em cima disso. tal qual uma cabritinha montesa. minha querida! Deus.. de lá viera especialmente para abençoar esse casamento. menos triste e também menos frio que Prexeuil.. havendo recuperado a palavra. E a senhora de Prexeuil continuou. onde ainda os móveis familiares conservavam os seus antigos lugares. pelo menos. já falecido. alegando que lá. 69 . a Gouxy. Em abril.. Debateu-se longamente a questão de saber se dona Bathilde que viera também assistir ao casamento. todos concordaram que a senhora de Valromée passaria ainda dois meses no pavilhão. querida. não o quer. não residindo muito distante. hospitalizado em Toulouse.. Tudo isso. porém.. E esse aroma de folhas mortas e frutos maduros reavivou em Ogier outra recordação. tais como os havia deixado a senhora de Valheuil. que a não desamparara um instante. Viveu ainda alguns dias. na aldeia. nesse momento. É justamente a isto que Pardeuil deve não ter conversado mais demoradamente com a justiça. partira para o Jura. as indiscrições semeadas um pouco por toda a parte pela imprudência e estupidez. e lera nos belos olhos cor-de- violeta que era também amado. mas que caem o mais das vezes em ouvidos suspeitos. procuram abafar o processo. e não se falará mais em tal processo. até Gouxy. Mas um imprevisto veio derrubar todos estes projetos. era húngaro. minha filha. o que não impediu educar os filhos no ódio à França. não é verdade. Tranquila. com a qual acabava de casar-se na igrejinha branca de Ursau. eu soube ontem. o senhor de Chancenay. suavemente. onde a necessária reforma. por ser o antigo solar menos afastado. a sua vontade! Ê um sacrifício. Faça-se. Sejam sempre muito amigos. Lá em cima. porém. pois. em perfeito juízo. — Todavia. já definitivamente desobrigado de todo dever militar.. dona Antonieta tornaria para Prexeuil. que eu lhe ofereço em expiação do meu orgulho.. Demoraram-se ainda uns quinze dias no «Prado-Bento» com dona Bathilde. O marido. porém.

Ogier!. E leu: «Prometi hoje à minha tia que não me hei de casar nunca». o nosso filhinho. Apoiando a face no ombro do marido... Olha. Oh! quanto sofri nesse dia.. Eu também escrevi nele algumas linhas. Elys: o nascimento de nosso filhinho..E pensar meu querido Ogier.. ferido em combate pela França..aonde me introduzira para falar à linda freirinha. Que Deus nos abençoe e nos conserve sempre no bom caminho!» Sorrindo. Tinha a impressão de que enterrava a mim mesma num sepulcro. tomou um velho livro encadernado em couro desbotado. — Vê como me tremia a mão quando escrevi isso.. que eu poderia permanecer toda a minha vida a freira de Valromée! Toda a vida. Lê! E ele leu ainda: «Minha tia desligou-me da promessa. Ogier depôs um longo beijo na fronte que lhe roçava quase os lábios.. Olha! Vê aqui esta data. Elys murmurou num tom de jubiloso recolhimento: — Oh! sim.. será preciso mencionar aqui outra coisa.. sem ele.. que me haviam recusado impiedosamente? — Se me lembro!. Dirigindo-se a uma secretariazinha. Casei-me esta manhã com o conde Ogier de Chancenay.... numa página cuja tinta ainda não ganhara o tom amarelado das linhas anteriores. Que o Senhor o conserve. Elys disse de mãos postas: . Uma viva comoção brilhou nos belos olhos aveludados e um sorriso de felicidade entreabriu os lábios trémulos da moça.. — Oh! meu amor!. — É o «diário» de nossa família.. o nosso filhinho!. tornando com ele para o lado do marido. a quem já amo tanto! Passados nove meses. e nos conceda a graça de uma prole numerosa!» Com o olhar de amor para o entezinho adormecido no berço a seu lado. Ogier escrevia mo “diário de familia”. o dia em que a titia me disse que eu não podia casar contigo. sustinha o livro aberto diante dele. E que escreveste em seguida ? — Ah! isso é outra coisa. sem o nosso filhinho! FIM 70 ... disse Ogier: — Dentro em breve.. vou até mostrar-te uma coisa. sob o olhar radiante da jovem mãe: «Veio ao mundo hoje o nosso primogênito Jacques de Chancenay. Inclinada sobre Ogier.. sem ti...

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