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todo

mundo
em
pânico
Filmes de terror como Atividade
Paranormal aproveitam-se de uma
característica pouco conhecida
que nós, seres humanos, possuímos:
gostamos de sentir medo. Nossa
intrépida repórter conversou
com especialistas e revelou por
que é tão bom levar sustos.
T rita loiola* f Claus lehman I mauro nakata * Com reportagem de Guilherme Rosa

36_janeiro_2010 janeiro_2010_37
sozinhos no escuro A repórter Rita Loiola ganhou
reações. Aranhas, fantasmas e
a missão de assistir Atividade Paranormal acompanhada apenas de um fotógrafo, que registrou suas
espíritos do mal quase a fizeram pular da cadeira, como você confere nestas e nas páginas seguintes.

Faça seu
próprio filme
de terror
Com dicas de Zé
com as mãos suando e o coração aos saltos, eu previa
uma noite insone pela frente. Mas, coisa incrível, a
experiência não era ruim. E por que não? Será que eu
e as pessoas naquela sala escura gostamos de sentir
medo? O que está por trás do impulso aparentemente
ilógico de dar dinheiro em troca de sustos? Para des-
diz Antônio Nardi, coordenador do Laboratório de
Pânico e Respiração da UFRJ. “Só quando ela perdura
no organismo vêm as reações ruins, como confusão
mental e fadiga.”
Assim, dá para entender, por exemplo, por que os
filmes de terror não dão sustos o tempo todo. É preciso
Jogos Mortais
No entanto, não é todo mundo que sente coisas boas
e ruins com essas cenas. Há quem não se divirta com
sangue de catchup e gritos de horror. Vídeos assim,
afinal de contas, assustam. A explicação para algumas
pessoas gostarem tanto — e outras nem um pouco —
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do Caixão (diretor cobrir a resposta, fui atrás de psicólogos, psiquiatras, um intervalo para causar as variações da dopamina e dos sustos está em um mecanismo mental chamado
de Encarnação do
Demônio) e Hilton antropólogos e historiadores especialistas em medo. provocar o prazer. Mas só isso não explica o mistério “distanciamento”. Alguém que se distrai com eles pre-
Sustos
Lacerda (roteirista Investigando as respostas, surgiram algumas pistas do gosto provocado por quase duas horas de pavor cisa estar em um ponto ideal entre o morrer de medo e Engane seu
de Medofobia) para a solução do enigma. Ao que tudo indica, uma frente à tela do cinema. Uma das hipóteses seria a de o não acreditar em nenhum gritinho. “É preciso uma espectador, crie
pequenas armadilhas
das razões é bem simples: as pessoas gostam do medo que os seres humanos são capazes de sentir emoções distância psicológica para que a narrativa de terror narrativas. Dê um
porque isso é bom. O terror controlado na tela ajuda misturadas, de tensão e prazer, ao mesmo tempo. As- não fique real demais e saia do controle”, diz Paulo susto num terço da
a entender o mundo e a experimentar sensações que sim, o medo prolongado faria sentido. Dalgalarrondo, coordenador de psicologia médica e fita, outro susto num
segundo terço, e
não existem em outro lugar. E a biologia é o primeiro Pensando nessa possibilidade, Eduardo Andrade, psiquiatria da Unicamp. “Alguém que não sente prazer jogue tudo de mais
passo para compreender o que se passa com o corpo professor da Universidade da Califórnia, e Joel Cohen, com o terror dos filmes entra demais na história e sente chocante no final
de alguém exposto a monstros, sangue e atividades da Universidade da Flórida, resolveram testar seus alu-
paranormais de mentirinha. nos para ver o que acontece durante a projeção de cenas
de terror. “Queríamos descobrir a razão de as pessoas se
Saiba o
que tem tirado

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O medo
Uma casa mal-assombrada, um casal perseguido Obsessão Macabra exporem a coisas que, aparentemente, não dão prazer, o sono da
por fenômenos sobrenaturais e uma câmera para re- As aulas de ciências ensinam que medo, ansiedade e como esportes radicais ou cenas violentas”, diz Eduar- humanidade
ao longo dos

na História
gistrar tudo. Junte a isso uma produção mambembe, estresse ajudaram o homem a evitar o perigo e a pro- do. Em uma sala com computadores, eles pediram aos
alguns sustos nos momentos certos e está feito o su- gredir. Evolutivamente importantes, eles aumentam estudantes que marcassem em uma escala o grau das séculos
cesso Atividade Paranormal. O filme arrecadou US$ a eficiência do organismo, deixando-o pronto para a sensações negativas ou positivas que experimentavam
110 milhões nos Estados Unidos e estreou no Brasil briga. Assim que o cérebro percebe uma ameaça, um durante a projeção de filmes (documentário, terror e
ser devorado
entre os três títulos mais vistos da temporada de final sistema chamado circuito do medo entra em ação. comédia). Ao final, a descoberta dos pesquisadores foi
O medo do homem pré-histórico
de ano (por enquanto perde para as superproduções Formado por núcleos cerebrais como a amígdala e o que os momentos mais horripilantes eram também os
era o mesmo dos outros animais:
Temas 2012 e Lua Nova). Em 15 dias, 606 mil brasileiros hipocampo, ele libera neuro-hormônios e neurotrans- que mais davam prazer. “Pesquisas das duas últimas
É importante
o de ser devorado por um predador
foram ao cinema movidos pela curiosidade de saber missores para defender o organismo. Dopamina, en- décadas mostram que somos capazes de ter os chama-
mexer com os
medos primários o que acontece enquanto os americanos Katie e Mi- dorfina e adrenalina vão para o sangue, preparando o dos ‘mixed feelings’, ou seja, ter emoções positivas e ne-
Pré-culturais Início da cultura 100.000 a.C.
do ser humano: cah, o casal protagonista do filme, dormem. E isso corpo para a reação. Só que, quando o monstro é de gativas ao mesmo tempo”, afirma Eduardo. “Sem isso
o temor de se porque foi feito em apenas uma semana e com um papelão, o cérebro percebe a pegadinha e suspende a fica difícil aceitar que alguém passe por um momento
afogar, de altura, noite
do escuro, de orçamento que não dá para comprar nem um carro produção das substâncias. E a alta da dopamina, que doloroso, como as cenas de terror, buscando prazer ou
O homem começa a prever e evitar os
ser devorado ou popular: US$ 15 mil (Bruxa de Blair, por exemplo, deixa o corpo atento e alerta durante esses momentos, alívio”, diz. Quer dizer que sentimentos opostos, como
enterrado vivo. perigos que podem ser encontrados
custou US$ 100 mil). dá sensação de prazer e calma. Como se o corpo ficasse amor e ódio, pavor e calma podem aparecer juntos
Use animais: ratos, na noite, na chuva e no mar. Com o
cobras, escorpiões Eu estava entre esses 606 mil destemidos brasi- chapado em segundos. “Liberações rápidas de dopami- enquanto alguém vê seres deformados perseguindo
desenvolvimento da imaginação, passa
e aranhas leiros. Quase duas horas depois do início do filme, na provocam reações agradáveis e muito prazerosas”, garotinhas meigas em corredores sem fim.
1 a temer deuses, demônios e espíritos

38_janeiro_2010 foto: 1 shu t ter sorck janeiro_2010_39


3 tanto desconforto que bloqueia a diversão de saber
que aquilo não é real. Ou, então, não acredita em uma
vírgula do que os protagonistas dizem.”
Cultura, sociedade e até educação entram em cena
para determinar se alguém vai se divertir ou não com
Atividade Paranormal. Algumas reações ao medo po-
dem ser condicionadas e vivenciadas por cada pessoa
cionados. Por isso é possível transformar os estímu-
los de terror em algo positivo.” Assim, os meninos,
normalmente, sentem menos medo que as garotas
porque esse é o papel esperado dos homens. Mesmo
que a sensação física do medo não desapareça e seja
semelhante em todo mundo, a resposta emocional po-
de ser positiva ou negativa, prazerosa ou angustiante.
emoções fortes e primitivas, e o medo é a primeira de-
las”, diz Armando Rezende Neto, psicólogo da Unifesp.
“Esportes radicais e filmes de terror são uma maneira
de experimentar fisicamente essas sensações sabendo
que as consequências estão sob controle.” Ou seja, o ser
humano não gosta do medo pelo medo. Ele gosta das
sensações de medo controlado, preso nas fronteiras do
vale mais a pena ficar só com o prazer e dispensar o
lado negativo? A explicação está no papel cultural,
psicológico e social do terror, um componente cru-
cial na vida humana. E isso vem de longe, desde o
começo da civilização ocidental. Quando o filósofo
grego Aristóteles (384 a.C. - 322 a.C.) resolveu definir
o efeito esperado da tragédia, ele disse que ela devia
de maneira diferente. Pais, irmãos, colegas e amigos No fim das contas, todos sabem (ou deveriam saber) irreal e com um fim bem preciso. Assim, ele supre essa provocar no público a catarse, por meio da piedade
ensinam como se portar diante de fatos ameaçadores que o monstro do filme não vai sair da tela e arrancar necessidade de adrenalina sem que o fim seja trágico. e do... adivinha? Terror. Só assim os espectadores
Humor e, pouco a pouco, é possível aprender a não entrar em um pedaço dos espectadores. “Isso só é bom porque é uma emoção forte que depois conseguiriam purgar seus conflitos e se arrepender Início
Quando passa o Todo filme tem
susto, dá vontade pânico quando um zumbi raivoso aparece em cena. É esse terror controlado nos limites da tela e a cons- acaba. A realidade, depois do terror, é sempre um final de seus pecados. As cenas terríveis de Édipo arran- que ter um
de rir. O terror em “Nossa mente é tão complexa que consegue asso- ciência de que, depois da sessão, o mundo volta aos feliz”, diz o psicólogo. cando os olhos ou matando o pai tinham, na Grécia gancho nos
si traz um pouco ciar o pavor a algo completamente oposto como o eixos, o responsável por grande parte da diversão. As Antiga, a função de fazer a audiência depurar seus dez primeiros
de humor. É legal minutos. Algo
aproveitar isso, prazer”, afirma Márcio Bernik, diretor do Laboratório duas horas de sustos e gritaria só funcionam como O Exorcista próprios sentimentos. que atraia para
fazendo um terror de Ansiedade do Instituto de Psiquiatria da USP. “A entretenimento porque não passam de fantasia. Ali, a Emoções fortes, prazer, alívio. Também sentimos isso A definição faz sentido para o mundo de hoje quando dentro do filme,
exagerado, com intensidade do medo gera a parte física, como o suor angústia tem hora certa para começar, acabar e trans- ao sair de férias, quando recebemos um aumento de lembramos que a arte é o espaço ideal para viver ex- que faça o
coisas absurdas público querer
e personagens nas mãos e o coração batendo, mas os sentimentos, formar-se em prazer. “O apelo dos filmes de terror salário ou uma boa notícia inesperada. Por que, então, periências que não seriam possíveis ou permitidas no saber o que vai
engraçados pensamentos e emoções associadas a isso são condi- é grande porque o ser humano busca, por instinto, escolher o terror e seu lado angustiante? Será que não mundo real. O principal dispositivo da arte é o pacto acontecer

bárbaros peste 1870 - Marcianos 1945 - Ataque Nuclear 1968 - A Noite dos Mortos-Vivos
O medo de ser erroneamente A peste negra aterroriza a Europa. Encontramos indícios Depois das bombas atômicas em Com o filme de George Romero,
diagnosticado como morto e enterrado O medo de ser devorado por lobos de vida em Marte. Os Hiroshima e Nagasaki, o homem os zumbis passam a fazer parte
vivo é bastante comum. As primeiras cria a lenda dos lobisomens. Os alienígenas começam passa a temer o holocausto do imaginário da humanidade. Em
civilizações começam a temer os seres ladrões de crianças medievais são os a fazer parte de nuclear. A ciência finalmente pode 1996 eles chegam aos videogames
humanos vindos de longe, os bárbaros primeiros serial killers nosso imaginário acabar com toda a humanidade com a série Resident Evil

Civilização 3500 a.C. Idade média 476 d.C. Idade moderna / Contemporânea

bruxas 1831 - Frankenstein 1917 - Comunistas 1960 - Psicose


A Igreja Católica promove o medo O livro de Mary Shelley mostra A revolução russa faz o Os serial killers começam a aparecer no cinema com o filme
do fogo do inferno, das bruxas e o primeiro monstro construído Ocidente temer um novo de Alfred Hitchcock. 14 anos depois, O Massacre da Serra
do apocalipse. À noite, passamos pelo homem. A ciência passa a tipo de invasão bárbara: Elétrica volta ao tema. Em 1991, O Silêncio dos Inocentes traz
a temer os vampiros e fantasmas fazer parte de nossos temores os ataques comunistas um novo tipo de assassino, mais frio e manipulador

fotos: Reprodução
emoção no decorrer de um filme
envolvido no filme Com mecanismo de distanciamento*
Medo dos que não gostam

Intensidade da emoção

Intensidade da emoção
de filmes de terror

Medo dos que gostam


de filmes de terror

Felicidade dos que


gostam de filmes de terror

Felicidade dos que não


gostam de filmes de terror
Tempo do filme Tempo do filme

* Para reduzir o medo das pessoas envolvidas na pesquisa, fotografias dos atores do filme na vida real foram coladas ao lado dos monitores nos quais as cenas eram exibidas. Fonte: Pesquisa On the Consup-
tion of Negative Feelings, publicada pela Universidade de Chicago.

de que, durante certo tempo e em um ambiente de- iluminar áreas sentimentais escondidas. E o prazer que
finido, existe um faz de conta. “Coisas assustadoras sentimos com o terror está ligado a essa descarga de
ou censuradas são admitidas nesse lugar por meio da sensações internas e ao triunfo sobre o medo e o pavor.
licença poética”, diz Mário Costa Pereira, professor de No fim das contas, o que está em jogo seria a capacida-
psicopatologia clínica da Unicamp e da Université de de de resistir e dominar seus próprios fantasmas. “O
Provence, na França. “Há coisas da vida em sociedade horror é um fenômeno tão duradouro porque, no fundo,
que precisam ser abafadas para que ela funcione, como é muito mais que uma diversão. É um momento sério

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atividade
desejos homicidas, mesquinhos, medos e preconceitos. de contato com questões profundas do ser humano de
paranormal:
E a arte é onde o homem dá vazão a essas coisas muito forma muito crua e até física”, diz o professor. “Sem
Enquanto você
profundas, onde ele demonstra esses sentimentos.” nos darmos conta, ele discute dilemas como a morte, dorme, coisas
Filmes de monstros e fantasmas, então, são os me- o mal, o sentido da vida e até a existência de Deus. estranhas
lhores lugares para deixar vir à tona o lado obscuro do Existe algo mais sério do que isso?” aconontecem
ser humano. Não é à toa que inseguranças, dúvidas,
sentimentos de solidão e abandono, pavor e sexualidade A Hora do Pesadelo
são os temas por excelência das histórias de terror. E E se isso tudo é tão importante, por que diabos (opa!) psiquismo. Essas coisas assustadoras e disformes, ção é boa. “Prazer e desprazer são polos opostos entre
o sucesso milionário das histórias vem do reconheci- ele adquire justamente a forma de bichos bizarros e parte do mundo interno e primitivo de qualquer um, os quais o homem caminha o tempo todo. Quanto mais
mento de algumas facetas dessas emoções. “Há um seres de magia negra? Como se desconfia, a estética vão tomando forma com as imagens dos sonhos ruins perto da realidade e mais arriscada for a cena, mais
lado da personalidade humana que se identifica com do horror está intimamente ligada aos pesadelos que, e das histórias pavorosas. “Essas narrativas tiram emocionante. Assim, a identificação com o que a pessoa
Sangue
Evite mostrar
aspectos do mal representado. Por isso, vampiros e volta e meia, assustam as noites. E aí vem mais um o medo que está dentro do ser humano, projetando está sentindo é quase perfeita”, diz o psicanalista.

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lagoas de sangue. perseguidores são personagens clássicas: há sempre um indício para desvendar o fascínio humano pelo terror. para fora os objetos de pavor”, afirma o psicanalista O mesmo vale para a relação entre os contos de
Sangue é uma lado perseguidor e sugador dentro de cada um de nós”, Crianças, mesmo as menorzinhas, adoram histórias de Ernesto Duvidovich, diretor do Centro de Estudos fada (que em suas versões originais sempre são mais
coisa tão especial
que você deve
afirma Mário. “Filmes de horror são chances de elabo- monstros devoradores de gente, muito sangue e confu- Psicanalíticos de São Paulo. violentos que as adaptações da Disney) e os longas
reservar para ração de questões pessoais por meio das imagens.” são. E é nesse período que elas têm mais pesadelos. Daí a contrapartida psicológica para o alívio físico de terror. “Os filmes de horror modernos têm para
determinadas Assim, essas histórias também viram oportunidades A explicação de Freud, o austríaco fundador da sentido durante os filmes de terror. Quando um medo o adolescente a mesma função que os contos de fada
cenas. Use-o até
três vezes no filme, para, além de confrontar emoções sombrias, descobrir psicanálise, para o fenômeno é que a molecada pre- ou uma angústia sem sentido começa a ter forma e é para as crianças, ou seja, para avisar que existe mal
senão banaliza como lidar com elas, encontrar soluções ou mesmo cisa dessas narrativas apavorantes para construir seu direcionado, a sensação de desafogo vinda da explica- nos lugares menos suspeitos”, afirma o psicólogo Je-
ffrey Goldstein, professor da Universidade de Utrecht,
na Holanda, em seu livro Why We Watch: The Attrac-
tions of Violent Entertainment (Por que Assistimos: As
Atrações do Entretenimento Violento, sem edição em
1973 - Exorcista 1975 - Tubarão 1999 - A Bruxa de Blair Anos 2000 português). “Além disso, um dos objetivos é o desejo
O filme de Steven Spielberg O medo da magia e do O Bug do Milênio de controlar imagens ameaçadoras ou demonstrar a
William Friedkin mistura os medos do escuro se misturam num é o primeiro dos habilidade de tolerá-las.”
atualiza o medo mar e de ser devorado novo tipo de filme de temores do século Afinal, medos e fobias, em seu princípio mais primi-
do demônio para para criar o primeiro terror, que junta ficção 21. Com o ataque tivo, são apenas formas que encontramos para ensaiar Locação
o século 20 blockbuster do cinema e documentário às torres gêmeas, o que fazer frente a situações angustiantes reais. Por Grave naqueles
o medo de meio de cenas imaginárias, treinamos as reações para dias em que o
vento sopra,
estranhos se volta sabermos exatamente o que fazer no mundo real. as árvores se
aos terroristas mexem e há
islâmicos. O Faces da morte relâmpagos no
ar. A melhor luz
cama de hospital 1980 - O Iluminado apocalipse não Por isso, cada época tem seus monstros. No início do para um filme
Com o avanço da ciência, o temor Os fantasmas aparecem tanto no filme de sai de cena século passado, os vampiros apavoravam as noites de terror é a de
não é mais ser enterrado vivo. O Stanley Kubrick quanto em Poltergeist. Em (2012). E o medo escuras e sem eletricidade com seus longos caninos. um dia cinzento
e com garoa,
medo agora é de uma morte lenta 1999, O Sexto Sentido, com Bruce Willis, dá dos fantasmas Nos anos 90, continuaram malvados, mas ganharam resultando numa
e dolorosa, adiada pelos médicos um novo sentido ao medo de espíritos continua representação na pele pálida de galãs como Brad Pitt e fotografia triste

fotos: Reprodução janeiro_2010_43


entrevista

Com susto é melhor. Nada mais


normal que sentir medo e prazer ao mesmo tempo. É o que
defendem Eduardo Andrade, da Universidade da Califórnia, em
Tom Cruise. Agora são adolescentes branquelos, quase
inofensivos, que brilham como diamantes à luz do sol
e tentam evitar pescoços apetitosos. A explicação para
esSa mudança está na cultura: até o conde Drácula
precisa se adaptar aos novos tempos.
A forma de lidar com a morte e o perigo são únicas
“O horror oferece uma forma de compreender a reali-
dade atual que não existe em outro lugar.”
Ou seja, suando frio, com os olhos arregalados e o
coração aos pulos, o conhecimento do mundo que o
terror oferece é físico, além de intelectual. “Uma coisa
é entender a sociedade, a política e a cultura com a
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em cada época e essa é a razão por que nossos objetos cabeça e outra, completamente diferente, é compreen-
Berkeley, e Joel Cohen, da Universidade da Flórida, que, em 2007, de medo mudam. “Ensaiamos” melhor o que fazer der tudo isso com o corpo. O horror nos tira da zona

publicaram uma pesquisa intitulada “Sobre o Consumo dos quando o mal aparece. É só lembrar como, duran-
te a Guerra Fria, explodiram filmes sobre invasões
de conforto e expõe coisas que, de outra forma, não
teríamos coragem de enfrentar. E é essa combinação
Sexo
Terror sem mulher
Sentimentos Negativos” (On the Consuption of Negative Feelings), de aliens nos Estados Unidos. “Essa era a forma de que atrai tantas pessoas para o cinema”, diz.
não é terror. A
sensualidade
no Journal of Consumer Research, publicado pela Universidade experimentar o pavor da invasão russa por meio de
símbolos e narrativas”, diz a historiadora Joanna Bou-
É possível dizer que foi a confiança contemporânea
nos registros digitais, na honestidade simples dos
faz parte desses
filmes. Mas hoje
de Chicago. Andrade explicou a Galileu como isso funciona. rke, autora do livro Fear: A Cultural History (Medo: filmes caseiros do YouTube e na tecnologia moderna
em dia as pessoas
não gostam da
Uma História Cultural, sem edição em português). que produziu o fascínio pelo fenômeno Atividade Pa- mocinha muito
São tantas frágil, ela tem que
“A linguagem do terror transformou medos privados ranormal. “Fazemos parte de uma sociedade na qual
emoções: "Medo ter força para se
e prazer andam * Está provado que filmes de
terror causam pavor e prazer
e a outra metade, a escala
negativa. Repetimos várias
gosta, provavelmente, acha as
cenas verdadeiras demais para
em eventos sociais, como prova decisiva de que o
indivíduo não estava sozinho.”
tudo pode ser gravado e essa é a única prova de que
estamos vivos. E esse filme brinca com o fato que as
defender
juntos quando
ao mesmo tempo? vezes, distribuindo as medidas ter prazer. Por isso, colocamos De forma bem criativa, elA tem uma ligação estreita gravações podem revelar coisas de nossa própria vida
vemos filmes de
Andrade: Durante muito tempo aleatoriamente. Assim, pudemos fotos dos atores na “vida real” com a evolução do sagrado, do religioso e da morte que, de certa forma, não queremos saber. Familiar e
terror", afirma
acreditamos que as pessoas constatar que as sensações ao lado das cenas de terror no através dos séculos. “Narrativas de desastre ou horror ao mesmo tempo assustador — porque, se pararmos
Eduardo Andrade
não eram capazes de sentir positivas e negativas acontecem momento em que elas eram são jeitos seguros e rotineiros de brincar com a morte. para pensar, ninguém sabe ao certo como funciona
sensações mistas. A explicação ao mesmo tempo, na mesma exibidas. O resultado foi que Elas são respostas para o mais prosaico e persistente um computador ou uma câmera digital. Apenas fin-
para o fascínio do homem pelo pessoa, enquanto assiste às cenas. quem não gostava dos filmes dos medos: o medo da morte”, diz Joanna. gimos que controlamos a tecnologia”, diz Adam. “E o
terror era de que ele não sentia conseguiu se divertir mais que Por isso, hoje, bactérias, micróbios e doenças fora de filme brinca com esse temor tecnológico inconfessá-
medo e achava tudo uma grande
comédia, ou de que no final o
* E quem não gosta de filme de
monstro, como fica?
antes. Cenas de bastidores
também ajudam a lembrar que o
controle tomaram o lugar dos espíritos do mal de outras
épocas e cientistas substituem as bruxas em uma era
vel por meio de uma estética caseira, barata, que dá a
ideia de que poderia acontecer com qualquer um de
alívio era tão bom que a dor Andrade: A diferença entre fãs de filme é uma ficção. em que a ciência é tão ameaçadora como as pestes da nós. E aí está o principal fator de medo da história:
valia a pena. Mas nossa pesquisa filme de terror e quem não gosta Idade Média. As bombas, armas nucleares e as bacté- o terror está em toda parte.”
provou que sentimos emoções
opostas, ao mesmo tempo.
está só na sensação positiva. O
nível de medo de uns e outros é
* A história da sensação de
alívio no fim das cenas de
rias assassinas que horrorizam os cinemas do século
21 foram criados em laboratórios, da mesma forma que
Em uma sala escura, feita para levar a audiência
a um outro plano da realidade, cercado de pessoas Final
quase idêntico, mas quem não terror é pura balela? o mal dos tempos antigos era obra do capeta. que compartilham os mesmos temores (o slogan do O final tem
que ser revelador,
* Como você chegou a isso?
Andrade: Pedimos a alguns alunos
gosta fica com a escala de prazer
praticamente no zero.
Andrade: Quem gosta delas
tem picos de emoções positivas
“Quem vê um filme de terror não está apenas ten-
tando fugir da realidade, mas sim tentando entendê-
filme é “não assista sozinho”), o espectador sente-
se ao mesmo tempo aterrorizado e calmo ao ver e
além da capacidade
de antecipação
que vissem cenas de filmes e negativas nos momentos mais la melhor”, afirma Adam Lowenstein, professor de lidar com o horror. “O filme de terror funciona como do público. E, se
não estiver bem
e marcassem em uma escala
a quantidade de sentimentos
* Por que isso acontece?
Andrade: Um fã de terror tem um
assustadores. E, depois do filme,
a sensação de alívio não
cinema da Universidade de Pittsburgh e autor do livro
Shocking Representation: Historical Trauma, National
uma vacina, é como usar o mesmo veneno que está te
matando em pequenas doses para te curar”, afirma
resolvido, crie
um teaser, dando
positivos e negativos que distanciamento ideal em relação é maior para quem ama ou Cinema and the Modern Horror Film (Representações Lowenstein. O que significa que vou continuar com brecha para uma
continuação. É uma
experimentavam. Metade do ao filme. Ele envolve-se com as odeia os filmes. Ela é igual para Chocantes: Trauma Histórico, Cinema Nacional e o medo, mas, pelo menos, agora entendo por que isso boa solução para
grupo recebia a escala positiva cenas, mas não tanto. Quem não todo mundo. Filme de Terror Moderno, sem edição em português). pode ser tão fascinante. falhas no roteiro
g

Como
sobreviver
em um filme
de terror
Por Halder
Gomes, diretor
de The Morgue,
lançado no
Brasil com Não beba. Se beber, Obedeça aos pais. As Não namore a garota Não pare na estrada. Se Não adianta correr. Se vai matar, mate direito. Não seja um clichê. O vilão
o título você vai ser o primeiro vítimas sempre estão mais gostosa do você vir passar alguma Mesmo se você for o Normalmente, o personagem segue uma ordem na matança,
Cadáveres 2 a morrer fazendo alguma coisa às colégio coisa pela janela de homem mais rápido do dá uma traulitada no vilão, com os mais estereotipados à
escondidas. A morte é seu carro, continue seu mundo, o vilão te pega do acha que o matou e não dá o frente. Quem sobrevive no fim
como um castigo percurso mesmo jeito golpe de misericórdia é o mais normal

44_janeiro_2010 foto: Divulgação janeiro_2010_45