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G era ld o Piero n i
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HERÉTICOS E BRUXAS OS DEGREDADOS NO BRASIL-CQLÕNIA/^ f e »

oferece informações sobre aspectos diversos


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do funcionamento do degredo no Brasil colonial, ■■
especialmente sobre o ocorrido durante o século XVI

t . e início do XVII — aspectos com o a legislação referente


ao assunto, os tribunais leigos, a Inquisição, os vários
procedimentos quanto aos degredados, desde o julgamento
até o envio para o Brasil, as reações de autoridades civis
e religiosas aos primeiros degredados do país etc. A l*’ 4:

O livro apresenta também estudos de casos, coligidos


na documentação, de homens e mulheres condenados
a degredo no Brasil, o que permite aos leitores aproximarem-se
daquelas pessoas, as quais vivenciaram notáveis experiências
humanas, conhecendo um pouco de suas trajetórias. tf
Vadios e c ig a n o s , herético s e bruxas —

Os degredados n o B rasil - c o l ô n ia , com base em pesquisa

histórica séria, apresenta o tema do degredo aos leitores


brasileiros e, espera-se, seja capaz de despertar em muitos
deles o desejo de realizarem seus próprios estudos
sobre um dos mais importantes, fascinantes e inexplorados
temas da história do Brasil.”

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O Í

á
ruto de um exaustivo trabalho de pesquisa em
arquivos, livros raros, enciclopédias, coleções de leis
e processos de degredados, o autor traz uma amostra
do que foi o seu trabalho de maior fôlego que resul­
tou na sua tese de doutorado.

historiografia do Brasil-colônia ganha um signi­


ficativo contributo com esta obra, que fez emergir,
para a história brasileira, a categoria silenciada até
então — os degredados e sua trajetória.

J ^ / s Estados Modernos na Europa trouxeram sua


força e impuseram sanção àqueles que transgredis­
sem suas normas, e para isso aplicou o controle
social, neste caso, pelo Estado Português de forma
exemplar, com suas leis sobre o degredo. A m oder­
nidade é também a época da construção do mundo
Atlântico que presenciou as maiores transferências
forçadas de população de africanos e europeus.
A chamada ‘migração forçada faz parte da história
do Atlântico Sul, e o livro trata dos personagens que
fizeram essa travessia em direção norte-sul e sul-
norte. O estudo dessa entrada específica de popu­
lação européia na Colônia veio preencher uma lacu­
na histórica que permite reconstruir as trajetórias
daqueles que atravessaram o Atlântico premidos
pelas necessidades fundamentais do estabelecimento
da colonização na América do Sul.

om sólida documentação, ao desvelar trajetórias


pessoais dos degredados, o autor nos insere nos
primórdios da colonização portuguesa no Brasil.
Há notícias de degredados desde a expedição de
Cabral. E dessa época se fez uma construção, quase
mítica, do sofrimento desses primeiros condenados.
A terra brasileira, não mais São Tomé, passou a ser
o lugar de degredo. Os donatários tiveram que se
haver com eles, com horror, ou, mesmo, com inten­
ção utilitária para a funcionalidade da colonização.

f f a livro Geraldo Pierohi vai além de desvendar


a história dos degredados no Brasil-colônia. Ao des­
fazer algumas das construções da historiografia sobre
degredados, como sinônimos de pessoas marginais
e violentas, ele nos mostra as nuanças das leis e a
lógica da atuação do Estado e da Igreja portugueses
nos séculos XVI-XVII.

Selma Pantoia
Departamento de História - UnB

G eraldo P ieroni é historiador form ado pela


Universidade Federal de Minas Gerais, Fez seu curso
de mestrado na Universidade Federal da Bahia, onde
defendeu tese sobre os portugueses degredados
no Brasil. D outor em História pelo Institut de
Recherches sur les Civilisations de 1’O ccident
M oderne/Université Paris-Sorbonne (Paris IV)
e especialista na história do degredo inquisitorial,
publicou, no Brasil e exterior, livros e artigos, entre
os quais: “Outcasts from the kingdom: the Inquisition
andbanishm ent of NewChristians to Brazil” . In: The
Jews and the expansion of Europe to the west, 1450 to
1800. Edited by Paolo Bernardini and Norm an
Fiering, Berghahn Books, New York-Oxford, 2000;
Os excluídos do Reino. Editora da Universidade de
Brasília e Imprensa Oficial, Brasília-São Paulo, 2000;
“Le viol du secret: anatomie d ’une Institution —
CInquisition et le bannissement”. CAHIERS DU
BRESIL CONTEMPORAIN, n°s23-24, Paris, setem­
bro de 1994.
VADIOS E CIGANOS, HERÉTICOS E BRUXAS
D o autor:

Banidos: A Inquisição e a Lista dos Cristãos-Novos


Condenados a Viver no Brasil
Geraldo Pieroni

V A D IO S E C IG AN O S, HERÉTICOS E BRUXAS:

O s degredados n o B rasil-colônia

3§ EDIÇÃO

BERTRAND BRASIL
Copyright © 2000 by Geraldo Pieroni

Capa: S im on e V illas Boas

CIP-Brasil. Catalogação-na-fonte
Sindicato Nacional dos Editores de Livros, RJ.

Pieroni, Geraldo
P676v Vadios e ciganos, heréticos e bruxas: os degredados no Brasil-
3a cd. colônia / Geraldo Pieroni. - 3a ed. - Rio de Janeiro; Bertrand
Brasil: 2006.
144p.

Inclui bibliografia
ISBN 85-286-0797-6

1.Brasil - História - Período colonial, 1500-1822. 2.


Exilados portugueses - Brasil - História - Período colonial,
1500-1822.1. Título: Os degredados do Brasil-colônia.

C D D - 981.03
0 0-1643 C D U - 98T T 500/1822”

Todos os direitos reservados pela


EDITORA BERTRAND BRASIL LTDA.
Rua Argentina, 171 - Io andar - São Cristóvão
20921-380 - Rio de Janeiro - RJ
Tel.: (0XX21) 2585-2070 - Fax: (0XX21) 2585-2087

Não é permitida a reprodução total ou parcial desta obra, por


quaisquer meios, sem a prévia autorização por escrito da Editora.

A tendem os pelo Reem bolso Postal.


Agradecimentos

Agradeço aos vários amigos e instituições que, gentilmente,


de alguma forma colaboraram neste livro: Kátia de Q ueirós
M attoso, Laura de Mello e Souza, Timothy Coates, Anita
Novinsky, Janaína Amado, Norman Fiering, Jacqueline Donel,
Jean-Paul Teyssier, Margherite-Marie Boffocher, Anne-Marie e
Jean Cochard, Pierre Garoche, João Luiz Moreira, Carmen Lícia
Palazzo de Almeida, João Manuel Mota, Selma Pantoja, Márcio
Rodrigues, Marcelo do Nascimento, Aloízio dos Santos,
Jacqueline Hermann, Marcos Guimarães, Márcio Vianna, Fábio
Wilamy, Miralice Maria Moreira, Eliezer e Cláudia de Souza Costa
e, sem esquecer, meus amigos de Châtillon (Paris) e Parede
(Lisboa), que sempre me acolheram com generosidade.
Ao CNPq, CAPES, Instituto dos Arquivos Nacionais/Torre do
Tombo, John Carter Brown Library e Université de Paris-
Sorbonne (Paris IV), meus sinceros agradecimentos.

Dedico este livro aos Pieroni: Walter, M aria de Lourdes, Rosa


Maria, Marco Afonso, Míriam, Fernando, Teresa, José Luiz, Ana,
Ian, Iulle e Luiz Filipe.
Sumário

PREFÁCIO ......................................................................... 11
IN T R O D U Ç Ã O ................................................................... 15

Os primeiros degredados..................................................... 21
Náufragos ou degredados?................................................... 25
“Piores cá na terra do que peste...”..................................... 31
Os 400 degredados de Tomé de Sousa................................. 37
Nobres e p e õ e s...................................................................... 41
Leis e mais leis: degredar é preciso...................................... 45
Comutações e vendas de p erd ão ......................................... 49
Recrutamento de m ão-de-obra........................................... 55
O gramático degredado e o padre do o u ro ......................... 57
Mulheres de toda qualidade................................................. 63
Degredados: “poviléu rafado dos enxurdeiros”?................. 67
O Regimento dos Degredados............................................. 73
O degredo nas Ordenações Filipinas de 1603..................... 77
O Desembargo do Paço e a Casa da Suplicação.................. 81
Os degredados da justiça secular......................................... 85
Inquisição e degredo............................................................. 91

7
VADIOS E CIGANOS, HERÉTICOS E BRUXAS

O degredo no Regimento Inquisitorial de 1640................. 95


Os degredados da Inquisição............................................... 99
Os ciganos degredados......................................................... 111
Também os escravos eram banidos..................................... 115
As Constituições Primeiras da Bahia de 1707..................... 119

CONCLUSÕES................................................................................................ 123

BIBLIOGRAFIA................................................................................................ 129

8
“Acrescia, ainda, o fato de ter sido o Brasil declarado lugar
de degredo, e do pior grau, para os criminosos do Reino''1

“Temos sido considerados até o presente como o lixo


deste mundo, como a escória da humanidade”1
2

1 Vicente Tapajós, H istória do Brasil, São Paulo, Companhia Editora Nacional,


1953, p. 67.
2 1 Cor 4 (Primeira carta de Paulo aos Coríntios).
PreÉacio

COMEÇANDO A DESVENDAR
A HISTÓRIA DO DEGREDO NO BRASIL

Vadios e ciganos, heréticos e bruxas — Os degredados no Brasil-


colônia, de Geraldo Pieroni, apresenta várias informações, colhi­
das em fontes primárias e em bibliografia, sobre os portugueses
condenados ao degredo para o Brasil, principalmente durante os
séculos XVI e XVII. Trata-se de tema extremamente relevante
para a história brasileira, pois os degredados portugueses estive­
ram presentes no país durante 322 anos, desde 1500 — quando
Cabral deixou os dois primeiros no litoral da Bahia para aí apren­
derem línguas e costumes locais e depois servirem, caso sobrevi­
vessem, como intérpretes e intermediários entre colonizadores e
índios — até a independência, em 1822.
Durante mais de três séculos, esses homens e mulheres que
integraram a população do Brasil, a maioria fazendo parte dos
estratos mais humildes da população portuguesa, foram condena­
dos, em Portugal, por tribunais civis ou pela Inquisição, por cri­
mes que variaram desde “furtar uma mão de trigo” e “cortar árvo-

n
VADIOS E CIGANOS, HERÉTICOS E BRUXAS

res de fruto” até adultério, bigamia, crime de lesa-majestade e


homicídio. Alguns grupos sociais, como os dos ciganos e o dos
cristãos-novos, foram sistematicamente perseguidos, em Portu­
gal, com o degredo colonial.
No Brasil, os degredados viviam em liberdade, porém eram
responsáveis pela própria sobrevivência, ganhando a vida como
soldados, marinheiros, agricultores, pedreiros, carpinteiros, pa­
dres, trabalhadores em obras públicas, desbravadores de áreas do
interior, intérpretes, espiões, capitães-do-mato, pequenos funcio­
nários da Coroa (da mesma Coroa que os punira em Portugal), pe­
quenos comerciantes e proprietários rurais, curandeiros, visioná­
rios, mães de família, parteiras, mendigos, ladrões, prostitutas etc.,
cumprindo papéis sociais diversos, que ainda precisam ser mais
bem conhecidos. Poucos enriqueceram ou alcançaram projeção
social, alguns se arruinaram, uma parte continuou a viver exata­
mente como o fazia na metrópole, sustentando-se graças às esmo­
las, às práticas de feitiçaria e de curandeirismo, aos roubos ou à
prostituição, o que gerava ffeqüentes e amargas queixas das auto­
ridades coloniais. Uma parcela dos condenados retornou à metró­
pole, após o cumprimento da pena ou o perdão real. A prática
penal do degredo, adotada para todas as colônias portuguesas,
possibilitou reforçar a política colonial de Portugal e, ao mesmo
tempo, promover a desinfestação (termo usado em documentos
oficiais) do reino, livrando-o de indivíduos indesejados, conside­
rados agentes de desestabilização social.
O tema do degredo português no Brasil im brica-se com
vários outros e, por isso, ajuda a abrir janelas para a compreensão

12
PREFÁCIO

de assuntos importantes para a história brasileira, tais como o


funcionamento do sistema judicial e das penitenciárias no país
(muito mal conhecidos até o final do século XIX), o fluxo das
migrações internacionais, a vida cotidiana, a pobreza, a violência,
a criminalidade, as práticas religiosas, as relações Igreja-Estado...
Apesar da importância histórica do degredo, assim como da abun­
dância de documentos existentes sobre o tema nos arquivos brasi­
leiros e portugueses, são raríssimos os estudos sobre o tema no
Brasil. Nenhum livro específico foi ainda publicado no País sobre
o assunto, consistindo a bibliografia brasileira de apenas alguns
poucos artigos, além de obras históricas de caráter geral, que cos­
tumam referir-se ao tema apenas de passagem.
A carência de estudos sobre a história do degredo no Brasil
ressalta a importância e a oportunidade do lançamento de Vadios e
ciganos, heréticos e bruxas — Os degredados no Brasil-colônia. Seu
autor, Geraldo Pieroni, especialista no assunto, pesquisa o tema há
mais de dez anos, tendo produzido sobre os degredados da
Inquisição para o Brasil sua dissertação de mestrado, apresentada
à Universidade Federal da Bahia, e sua tese de doutorado, defendi­
da perante a Universidade de Paris-Sorbonne (Paris IV). Foi com
base no material coletado durante as pesquisas em arquivos e
bibliotecas, principalmente portuguesas, que Pieroni escreveu o
presente livro.
Em linguagem direta e clara, que se lê com facilidade e prazer,
Vadios e ciganos, heréticos e bruxas— Os degredados no Brasil-colô­
nia oferece informações sobre aspectos diversos do funcionamen­
to do degredo no Brasil colonial, especialmente sobre o ocorrido

13
VADIOS E CIGANOS, HERÉTICOS E BRUXAS

durante o século XVI e início do XVII — aspectos como a legisla­


ção referente ao assunto, os tribunais leigos, a Inquisição, os
vários procedimentos quanto aos degredados, desde o julgamen­
to até o envio para o Brasil, as reações de autoridades civis e reli­
giosas aos primeiros degredados do país etc. O livro apresenta
também estudos de casos, coligidos na documentação, de homens
e mulheres condenados ao degredo no Brasil, o que permite aos
leitores aproximarem-se daquelas pessoas, as quais vivenciaram
notáveis experiências humanas, conhecendo um pouco de suas
trajetórias. Vadios e ciganos, heréticos e bruxas — Os degredados no
Brasil-colônia, com base séria em pesquisa histórica, apresenta o
tema do degredo aos leitores brasileiros e, espera-se, seja capaz de
despertar em muitos deles o desejo de realizarem seus próprios
estudos sobre um dos mais importantes, fascinantes e inexplora­
dos temas da história do Brasil.

Ja n a í n a A m a d o
Departamento de História
Universidade de Brasília

14
Introdução

Maria Seixas era uma típica feiticeira do século XVII portu­


guês. Ela não praticava a magia negra descrita nos terríveis
manuais de bruxaria da Idade Média. Entretanto, evocava o diabo
para melhor surtir efeito nos seus sortilégios amorosos. Freqüen-
temente, utilizando-se de uma “caveira de defunto”, Maria Seixas
fazia os seus encantamentos e magias. Nos buracos dos olhos da
caveira ela colocava duas figurinhas moldadas em cera: uma,
representando um homem, e a outra, uma mulher. Dizia que
aquelas tais “figurinhas” simbolizavam as pessoas que ela preten­
dia envolver com as suas bruxarias. Quando a caveira estava pre­
parada, era colocada debaixo da cama onde dormia a pessoa a ser
afeiçoada. Além do crânio humano, a feiticeira possuía, também,
um “osso de defunto” que ela colocava no meio de sua casa e
espargia com sete ou oito pingas de água-benta, dizendo: “Água-
benta, assim como os vivos e os mortos vão à igreja te buscar,
assim todo mundo nesta casa há de entrar e tenha vontade de tudo
me dar e nada há de faltar.”
Maria Seixas tinha 32 anos quando foi acusada pela Inqui­
sição de Lisboa por causa dos fervedouros que preparava ao invo­

15
VADIOS E CIGANOS, HERÉTICOS E BRUXAS

car o demônio. Ela fazia muitas misturas utilizando mirra, enxo­


fre, alecrim, vinagre e pimenta. Num pequeno caldeirão, ela colo­
cava “três pedras trazidas de três encruzilhadas” e misturava os
outros ingredientes. Quando a poção estava em ebulição, ela evo­
cava os diabos: “Barrabás, Satanás e Lúcifer, entrem todos no
coração de fulano (e pronunciava o nome) para que ele possa me
amar e me dar tudo o que ele tiver.” Nesse momento, saía da cal­
deira uma grande chama, e o xarope que ficava dentro era jogado
sob o portal diante do qual a pessoa, a quem se pretendia obrigar
a vontade, devia passar. Outras vezes ela preparava pequenos boli­
nhos com pão e queijo, os quais ela mastigava e formava nove
bocadas: três para si mesma, três para a pessoa que ela queria
enfeitiçar e as outras três deixava sobre a janela, a fim de lançá-las
na rua entre onze horas e meia-noite, dizendo que seriam para
Barrabás, Satanás e Lúcifer.
Maria Seixas foi severamente admoestada na prisão do Santo
Ofício. Ela confessou aos inquisidores que utilizava a feitiçaria
para ganhar algum dinheiro, mas que ela mesma duvidava da efi­
cácia de tais sortilégios, principalmente porque eles não davam o
resultado que se esperava. Maria afirmou que jamais se havia
afastado da fé no Cristo Nosso Senhor e que nunca havia feito um
pacto com o demônio. Diante dos inquisidores ela se arrependeu,
chorou, implorando perdão e misericórdia; suplicou pelas cinco
chagas de Nosso Senhor Jesus Cristo. Conseguiu livrar-se da fo­
gueira. No entanto, foi admoestada e severamente punida. Du­
rante a cerimônia pública de um auto-da-fé, segurando uma vela
acesa, ela foi condenada a cinco anos de degredo para o Brasil,

16
INTRODUÇÃO

sendo, posteriormente, açoitada pelas ruas de Lisboa. Para forta­


lecer sua convicção católica, ela foi instruída nos mistérios da fé
necessários para a salvação de sua alma.1
Estes episódios da vida de Maria Seixas ocorreram no ano de
1673, mas a história dos portugueses degredados para o Brasil teve
início muito antes. Com Pedro Álvares Cabral em 1500, chegaram
não somente os assim chamados “descobridores” mas também os
degredados que, naquela época, eram colocados nas caravelas e naus
que singravam os sete mares. Os dois primeiros habitantes portu­
gueses que, oficialmente, fixaram morada na terra Brasilis foram
dois condenados ao degredo.
Este livro, evidentemente, não tem a pretensão de abordar
todas as particularidades e problemáticas que envolvem o sistema
de degredo no império português. Tenho a intenção, no entanto, de
traçar as principais linhas do banimento destinado ao Brasil e para
isso utilizo vários documentos, entre os quais muitos são inéditos.
Tanto a justiça secular, através dos tribunais pertencentes à
Casa da Suplicação e ao Desembargo do Paço, quanto a justiça dos
tribunais inquisitoriais praticaram amplamente o degredo como
um mecanismo punitivo aplicado aos criminosos e heterodoxos
das normas sociais e religiosas.
Assassinos, ladrões, falsários, feiticeiras, sodomitas e heréticos
de todos os tipos foram degredados para o Brasil. Outros “crimi­
nosos”, aparentem ente considerados de m enor im portância,

1 Instituto dos Arquivos Nacionais/Torre do T om bo (IA N/TT), Inquisição de


Lisboa, processo 74: Maria Seixas. Auto-da-fé do dia 10-12-1673.

17
VADIOS E CIGANOS, HERÉTICOS E BRUXAS

foram também banidos: vadios, ciganos, alcoviteiros e agressores.


Até mesmo aqueles que matavam “bestas”, cortavam “árvores fru­
tíferas” e arrombavam “portas” podiam ser enviados para as ter­
ras do além-mar.
Hoje, muitos destes delitos podem, aparentemente, se apre­
sentar como insignificantes e, mesmo, ridículos, levando o leitor a
uma indagação: “Por cometerem tais faltas, eles mereciam real­
mente uma punição tão rígida?” Irei analisar também este aspec­
to. No entanto, não se deve, apriori, fazer comparações deste tipo
sem antes penetrar e conhecer a mentalidade social, jurídica e reli­
giosa dos séculos XVI, XVII e XVIII, o período, grosso modo, cor­
respondente à colonização portuguesa no Brasil. É esta a época do
conteúdo temático deste livro. Tempo inserido na longa duração
histórica e, evidentemente, não é possível, aqui, abordar todas as
transformações, rupturas ou continuidades do degredo.
Neste estudo estabelecí uma técnica para dialogar com os per­
sonagens aqui resgatados. Chamei esta metodologia de “fazer-se
um”, isto é, procurei aproximar-me o máximo dos meus interlo­
cutores dos séculos em questão, buscando não somente uma ati­
tude de abertura, de estima e respeito, mas também procurando
esvaziar-me de todos os julgamentos e concepções preestabele-
cidas. Somente depois de compreendê-los é que pude desvelar
suas angústias e medos diante dos tribunais que os condenavam.
Desta forma, antônios, marias e franciscos — representantes
desta porção da humanidade sofredora —, personagens da vida
cotidiana nos tempos da colonização ultramarina e da Inquisição
portuguesa, passam a ganhar lugar na História.

18
INTRODUÇÃO

Durante três séculos, em Portugal, o degredo foi uma prática


muito utilizada pelo Antigo Regime e, no Brasil, desde a chegada
dos primeiros reinóis em 1500 até a independência em 1822, esta
punição jamais deixou de ser praticada, tendo, evidentemente,
períodos de maior intensidade.
Privilegio, particularmente, os séculos XVI e XVII como sendo
o início e o apogeu do envio dos degredados inquisitoriais para o
Brasil. Com relação aos réus provenientes das justiças seculares, o
degredo continuou relativamente intenso ainda no século XVIII.
Insisto no fato de que o conteúdo deste livro representa um
primeiro mergulho no complexo sistema de banimento. Este estu­
do, na realidade, faz parte de um contexto de pesquisa muito mais
amplo e profundo, que é a minha tese de doutoramento transfor­
mada em livro e publicada com o título Os excluídos do Reino.
Espero poder oferecer aos leitores, de um lado, uma visão geral
dos mecanismos institucionais que possibilitaram o degredo e, do
outro, revelar alguns elementos comportamentais da vida cotidia­
na dos nossos réus, na sua maioria homens e mulheres simples,
mas que podiam também, às vezes, ser nobres, ricos e eruditos.
Estudar o sistema de degredo e os detalhes de seu funciona­
mento no império português é trabalho de grande fôlego e, ao
mesmo tempo, fascinante e revelador. Atualmente estou rastrean-
do os documentos do Instituto dos Arquivos Nacionais/Torre do
Tombo (IAN/TT), buscando novas informações acerca dos réus
condenados com a pena de banimento, não para as terras ultra­
marinas, mas para dentro do próprio território português.

19
O s prim eiros degredados

Nas possessões ultramarinas portuguesas, recentemente con­


quistadas, havia sempre lugares reservados aos degredados.
Quando os conquistadores tinham dúvidas a respeito da hospita­
lidade dos habitantes de uma terra estranha, faziam desembarcar,
primeiro, um condenado. Se este fosse bem recebido pelos habi­
tantes, seria um grande passo no sentido de travar conhecimento,
estabelecer laços de amizade e começar a conquista dos nativos e
das terras. Caso contrário, se o condenado fosse capturado e
morto por flechas envenenadas ou assado em fogo lento, isso sig­
nificava, simplesmente, um criminoso a menos entre os muitos
que as legislações da época puniam com o banimento.
Desde os primeiros dias da chegada dos portugueses à costa do
Brasil, a presença dos condenados inaugurou a efetiva posse da
nova terra. Pedro Álvares Cabral, em 1500, deixou dois degredados
na terra de Santa Cruz, o Pindorama dos Tupis, que mais tarde foi
chamada de Brasil. Antes de partir novamente em direção às Índias,
Cabral abandonou “os degredados que aqui hão de ficar” para
“aprenderem bem a sua fala (dos índios) e os entenderem”, como o
registrou, em sua longa e bela carta de l í de maio de 1500, Pero Yaz

21
VADIOS E CIGANOS, HERÉTICOS E BRUXAS

de Caminha, escrivão da armada.1 Dos dois degredados que fica­


ram, um era servidor de João de Telo, chamado de Afonso Ribeiro,
e o outro era um certo João de Thomar.12
Num pequeno poema histórico intitulado A Flor de Manacá,
o autor coloca na boca do degredado Afonso Ribeiro, em prantos
ao ver partirem para a índia seus companheiros de viagem, as
seguintes palavras: “Vos ides atingir ao pórtico sublime da fama,
que concede esplêndido troféu. Enquanto vou pagar o meu
suposto crime ante o deserto mar, ante o deserto ceu.”
A Chronica do felicíssimo rei D. Manuel composta per Damiam
de Goes, publicada em 1566, conta a descoberta do Brasil e forne­
ce esta importante informação: “deixando alli dous degredados,
de vinte que levava...”
Um documento do ano de 1512, encontrado num convento de
freiras em Portugal, dizia que, “um dia depois do Natal, feneceu de
langor Elena Gonçalves, natural de Lisboa, filha de Tomé
Gonçalves, mestre de nau, já falecido, que neste convento da Madre
de Deus de Enxobregas fez votos de religiosa por terem posto culpa
de morte a um criado de João (de) Telo, com quem esteve para se
casar e que foi condenado ao degredo na índia, sendo ele inocente
da fama que lhe puseram”. Elena, de tanta tristeza, esmoreceu-se,
em três dias, sem dormir, “rezando e se acabando”.3

1 Carta-crônica do Descobrimento do Brasil escrita ao rei D. M anuel por Pero Vaz


de Caminha, escrivão da armada de Pedro Alvares Cabral, in Damasceno Vieira,
M emórias Históricas Brasileiras (1500-1837), Bahia, Officinas dos D ois M undos,
1903.
2 João de T hom ar é citado por D am asceno Vieira, op. cit., p. 65. A carta de
Caminha cita somente o nom e de Afonso Ribeiro.
3 M. de Vasconcelos, A Descoberta do Brasil, apud Damasceno Vieira, op. rít., p. 65.

22
I

OS PRIMEIROS DEGREDADOS

Se o degredado Afonso Ribeiro foi condenado injustamente,


os documentos não o dizem. O certo é que ele foi deixado no
Brasil. O Visconde de Porto Seguro afirma que os dois degredados
“ficaram na praia, chorando sua infeliz sorte e acompanhando
com os olhos as quilhas pátrias, até que elas se haviam de todo
sumido no horizonte”. Gonçalves Dias completa o quadro dizen­
do que, “enquanto partia a frota, estes homens (os índios), repu­
tados insensíveis e ferozes além da última expressão, os rodearam
e consolavam, compadecidos de sua sorte”.4
Em 1505, D. Manuel, numa carta ao rei Fernando, o Católico,
escreve que, destes dois degredados, “voltou um que sabia a língua
dos indígenas e nos inform ou de tudo”. Na mesma época,
Valentim Fernandes de Morávia, tabelião real, registrou uma nar­
rativa destes dois homens que, na “terra dos antípodas, agora cha­
mada de Santa Cruz, viveram durante 20 meses”. O tabelião decla­
rava que tudo era verdade, de acordo com o que ele havia escuta­
do. Tudo leva a crer que a expedição, a qual o rei D. Manuel faz
referência, era a de 1501-1502.5

4 Ibidem. A referência aos degredados que na praia “ficaram a chorar e os hom ens
dessa terra consolavam-nos e demonstravam ter piedade deles” é extraída da nar­
ração “do piloto anônimo”, in Francisco Adolfo Varnhagen, História do Brasil, São
Paulo, Editoria Itatiaia Ltda.-USP, 1981, p. 71.
s Thom az Souza, O Descobrim ento do Brasil, São Paulo, C om panhia Editora
Nacional, 1946, pp. 160-161. A carta de Pero Vaz de Caminha cita, além dos dois
degredados deixados por Cabral em terras brasileiras, dois grumetes que, às vésperas
de partirem para as índias, fugiram para a costa. Todavia, segundo Varnhagen, “é
possível que tenham voltado antes da partida”, in Francisco Adolfo Varnhagen,
História do Brasil, São Paulo, Editora Itatiaia Ltda.-USP, 1981, p. 71.

23
VADIOS E CIGANOS, HERÉTICOS E BRUXAS

Entre lágrimas e pesares, os degredados ficaram entre os indí­


genas. Mas, tragédia à parte, é verdade que, “por graça real”, o
degredo salvava a vida dos condenados, exigindo que eles, em
compensação, explorassem as novas terras e assimilassem a língua
e os costumes dos indígenas. Esta foi a primeira missão incumbi­
da aos banidos e, portanto, as cum priram depois que “Pedro
Álvares os deixou lá... e um deles retornou a este Reino e serviu
como tradutor”. Alguns, por seus “atos gloriosos”, conseguiram
m ostrar-se dignos do “mais alto favor” de que gozavam, pois
arriscavam continuamente suas vidas em proveito de Portugal e
do rei que preservou suas vidas. Eles deviam servir à pátria nessa
terra ainda selvagem ou sujeitar-se à pena de morte, à qual muitos
deles haviam sido condenados. Para estes homens seria melhor
viver numa Terra Incógnita do que morrer na metrópole. Afinal de
contas, não tinham nenhuma escolha.

24
N áufragos ou degredados?

Passados os primeiros anos, desde que a primeira missa fora


rezada no solo brasileiro, iniciava-se a colonização de forma mais
efetiva. Os primeiros degredados e náufragos que Martim Afonso
e Pedro Lopes encontraram em 1531 viviam em franca intimida­
de com os índios. As expedições navais rumo à Ásia que transita­
vam nos mares da América portuguesa tinham, como Cabral,
abandonado alguns condenados no litoral brasileiro. Da mesma
forma fizeram a armada de 1501 e a expedição comercial de 1503.*1
Além dos dois célebres degredados, cantados em verso e
prosa, a historiografia refere-se também aos náufragos que chega­
ram nas imensas praias onde Portugal fincara a cruz, símbolo de
posse, bem como de conquista espiritual dos índios. Através do
contato com os nativos, alguns desses náufragos conseguiram se
adaptar e se tornaram muito úteis e apreciados pelo rei de
Portugal. Martim Afonso, durante uma viagem à Bahia de Todos
os Santos, encontrou Diogo Álvares, o Caramuru,2 que lhe ofere-

1 Carlos Malheiro Dias (org.), História da Colonização Portuguesa do Brasil, vol. III,
Porto, Litografia Nacional, 1923, p. XVIII.
1 Caramuru foi provavelmente um náufrago.

25
VADIOS E CIGANOS, HERÉTICOS E BRUXAS

ceu abrigo. Em retribuição, Martim Afonso “deu-lhe dois degre­


dados e sementes de plantas úteis, a fim de provar a boa qualida­
de das terras”.3 Caramuru prestou enormes serviços ao capitão
donatário, Francisco Pereira Coutinho, na Bahia de Todos os
Santos. A pedido do rei D. João III, ele participou da instalação do
Governo de Tomé de Sousa, em 1549.4
Foi sobre João Ramalho que a historiografia brasileira tanto
discutiu, procurando elucidar se ele era um náufrago ou um
degredado. João Ramalho vivia num lugar que corresponde, hoje,
aos arredores da cidade de São Paulo, quando Tomé de Sousa o
promoveu a capitão e alcaide-mor do campo. Mais tarde, foi tam­
bém Conselheiro da Câmara de Santo André, cujos livros do
Conselho Municipal de 1555 e 1558 trazem sua assinatura sob a
forma de uma cruz ou de um simples traço em forma de ferradu­
ra, com seu nome sendo escrito pelo escrivão. Ele chegou ao
Brasil, provavelmente, por volta de 1508.5 O padre Manuel da
Nóbrega, num a carta de 1553, escreve: “Neste campo está um
João Ramalho, o mais antigo homem que está nesta terra. Tem
muitos filhos... Quando veio da terra, que haverá 40 anos e mais,
deixou a sua mulher lá, viva, e nunca mais soube dela...”.6

3 Cláudio Thomás, História do Brasil, São Paulo, Editora F.T.D. Ltda, vol. I, 1964,
p. 71.
4 Pero Lopes de Sousa, Diário de Navegação 1530-1532, primeira edição comentada
pelo comandante Eugênio de Castro, vol. 1, p. 153. Visconde de Porto Seguro,
História Geral do Brasil, vol. I, pp. 249-297. Frei do Salvador, História do Brasil
(1500-1627), São Paulo, 1918, p. 150.
5 Francisco Adolfo Varnhagen, História do Brasil, São Paulo, Editora Itatiaia Ltda.-
USP, 1981, p. 99.
6 Vicente Tapajós, História Adm inistrativa do Brasil, Serviço de Documentação —
DASP, 1968, p. 35.

26
NÁUFRAGOS OU DEGREDADOS?

Um outro personagem dos primeiros anos da história brasilei­


ra que foi, talvez, abandonada no Brasil pela frota de 1501-1502,
era o célebre bacharel de Cananéia. “Fazia 30 anos que ele estava
degredado nesta terra”, quando Martim Afonso o encontrou perto
da ilha de Bom Abrigo, a Cananéia de Pero Lopes, em 1531.
Segundo Ruy Diaz de Gusmán, o bacharel degredado chamava-se
Duarte Peres.7 O “diário de navegação da expedição que foi à terra
do Brasil em 1530”, escrito por Pero Lopes de Souza, irmão do
governador Martim Afonso de Souza, registrou que o capitão,
“entrando no porto de Cananéia, encontrou um bacharel portu­
guês que lá estava degredado desde o início de 1502”. Conheceu,
“também, um certo Francisco de Chaves, que falava a língua dos
índios e uma meia dúzia de castelhanos”.8 Essa expedição que
havia partido do Tejo de Lisboa em 3 de dezembro de 1530 era
composta por 400 pessoas. O frei Gaspar da Madre de Deus escre­
ve: “Não vinham mulheres, mas vinte e sete fidalgos, genoveses,
franceses e alemães, além de degredados, soldados e colonos...”9
Os degredados, os náufragos e os aventureiros, heróis de
numerosas epopéias, verdadeiras ou míticas, foram os persona­
gens que engendraram os primeiros mamelucos da terra: os filhos

7 Pero Lopes de Sousa, Diário de Navegação, op. cit. p. 391, e Rio Branco, Efemérides
Brasileiras, Rio de Janeiro, 1946, p. 83. Varnhagen citou o nom e do m esm o ba­
charel Duarte Peres, “o qual havia sido degredado pelo rei D. M anuel”, in Fran­
cisco Adolfo Varnhagen, História do Brasil, São Paulo, Editora Itatiaia Ltda.-USP,
1981, pp. 182-183.
HDiário de Navegação da Armada que foi à terra do Brasil em 1530 sob a capitania-
mor de Martim Afonso de Souza, escrito por seu irmão Pero Lopes de Souza. Pu­
blicado por Francisco Adolfo Varnhagen, Lisboa, Typografia da Sociedade Propa­
gadora dos Conhecimentos Üteis, 1839, p. biiij.
v Vicente Tapajós, História Administrativa do Brasil, Serviço de Docum entação —
DASP, 1968, pp. 29-30.

27
VADIOS E CIGANOS, HERÉTICOS E BRUXAS

do piloto João Lopes de Carvalho, levados por seu pai na expedi­


ção de Fernão de Magalhães, em 1519; as filhas de Caramuru, cujos
casamentos tinham sido organizados por Martim Afonso de
Souza; a numerosa descendência de João Ramalho, sob a proteção
dos jesuítas por ocasião da fundação de São Paulo; ou, ainda, a
família mestiça de Jerônimo de Albuquerque, que deixou no Brasil
24 filhos e, portanto, foi chamado de “o Adão de Pernambuco”.101
Em sua célebre obra Capítulos de História Colonial, Capis-
trano de Abreu classificava os primeiros colonos que viveram no
Brasil em duas categorias (“dois tipos extremos”): os que sucum­
biram ao meio, assimilando os costumes locais, “a ponto de fura­
rem os lábios e as orelhas”, e os que lutaram contra os índios,
impondo-lhes sua vontade, como o bacharel de Cananéia, que
forneceu 400 escravos indígenas a Diogo Garcia, companheiro de
Solis e um dos descobridores do rio da Prata.11
Após a chegada de Cabral ao Brasil, várias expedições explo­
ratórias desembarcaram nas costas de Santa Cruz. Para conhecer
a terra recentemente descoberta, foi organizada, oficialmente, a
expedição de 1501, comandada por Gaspar de Lemos. O navega­
dor florentino, Américo Vespúcio, que acompanhava a expedição,
anunciou à Coroa “a grande quantidade de pau-brasil” que exis­
tia na Mata Atlântica. Este produto era conhecido pelos europeus

10 Célia Freire A. Fonseca, A Economia Européia e a Colonização do Brasil (A expe­


riência de D uarte Coelho), Conselho Federal de Cultura e Instituto H istórico e
Geográfico Brasileiro, Rio de Janeiro, 1978, p. 228.
11 Capistrano de Abreu, Capítulos de H istória Colonial, Editora Sociedade Ca-
pistrano de Abreu, Livraria Briguiet, 1954, pp. 80-81. Segundo Varnhagen, o Ba­
charel de Cananéia forneceu a Diogo Garcia “800 índios escravos para enviá-los à
Espanha”, in Francisco Adolfo Varnhagen, História do Brasil, São Paulo, Editora
Itatiaia Ltda.-USP, 1981, p. 99.

28
NÁUFRAGOS OU DEGREDADOS!

desde as Cruzadas, sendo assim importado das índias.12 Sob o


monopólio do Estado, começou então a exploração do “pau-bra­
sil” ou “pau de brasa”. A terra oficialmente batizada Terra de Vera
Cruz tornou-se, aos poucos, a Terra do pau do Brasil.13 O co­
mércio se desenvolveu, e a terra acabou por chamar-se simples­
mente Brasil, o que provocou protestos da parte de João de Barros
(1496-1570): “Naquela terra começou de vir o pau vermelho cha­
mado brasil, e o demônio trabalhou que este nome ficasse na boca
do povo e que se perdesse o de Santa Cruz. Como que importava
mais o nome de um pau que tinge panos que daquele pau que deu
tintura a todos os sacramentos perque fomos salvos, per o sangue
de Christo Jesus nelle foi derramado.”14
Com as expedições, várias feitorias — entrepostos para a
exploração do pau-brasil — foram fundadas. A prim eira, em
1503, em Santa Cruz das Caravelas, na Bahia, seguida pela do Rio
de Janeiro e Cabo Frio.15
Os espanhóis, franceses, holandeses e alemães entraram no
comércio e no contrabando na “costa do pau-brasil”. Adelino de
Luna Freire cita uma feitoria fundada em 1516 e lembra que os
irmãos Parmentier, de Dieppe, explorando a costa do Brasil,

12 O pau-brasil, o “pau de brasa”, era utilizado com o m atéria-prim a nas m an u fa tu ­


ras têxteis da Itália, França e Flandres para a confecção de tinta vermelha.
13 A. H. Oliveira M arques, Histoire du Portugal des origines à nosjours, Paris, 1978,
p. 180.
14 João de Barros (1496-1570), Ásia de Joam de Barros dos feitos que os portugueses
fizeram no descobrimento e conquista dos mares e terra do Oriente, Im pressa per
Fernão Balharde em Lisboa, 1552, vol. I, Livro Q uinto, Cap. 2, foi. 56.
15 Segundo alguns historiadores, foram fundadas feitorias em Pernam buco (1502?),
apud A. H. de Oliveira M arques, Histoire du Portugal des originies à nosjours, Paris,
1978, p. 180.

29
VADIOS E CIGANOS, HERÉTICOS E BRUXAS

tom aram uma carga de “pau do Pernam buco”, como então o


chamavam os franceses: “Encontraram somente um fortim de
madeira que servia para abrigo de alguns portugueses degreda­
dos.”16 Duque Estrada explicou que “muitos aventureiros aqui
aportavam de passagem e permaneciam em companhia de degre­
dados”.17 Malheiro Dias acrescenta que, “quando entrou a haver
feitorias, fossem estas da fazenda real ou de concessionários do
pau-brasil, despacharam-se, a fim de ajudarem o povoamento
local, levas de criminosos: prática geral a todos os colonizadores
da América”.18 Tudo leva a crer, portanto, que as feitorias eram
habitadas por degredados e aventureiros. A colonização definitiva
foi organizada a partir de 1531, quando o rei João III ordenou
uma expedição comandada por Martim Afonso de Souza com a
missão de defender a costa contra ameaças estrangeiras, de deter­
minar as fronteiras do Brasil e de organizar uma colonização per­
manente, de norte a sul, ao longo da costa.19

16 Carlos Malheiro Dias (org.), História da Colonização Portuguesa do Brasil, op. cit.
vol. III, p. 288.
17 Duque Estrada, História do Brasil, Rio de Janeiro, 1918, pp. 28-31.
18 Carlos Malheiro Dias (org.), História da Colonização Portuguesa do Brasil, op. cit.
pp. 296-297.
19 A. H. de Oliveira Marques, Histoire du Portugal des originies à nos jours, op. cit.
p. 181.

30
Piores cá na terra do que peste...'

Em 1534, uma carta escrita por D. João III estabelece que, uma
pessoa “de qualidade e de qualquer condição que fosse fugitiva ou
estivesse ausente por qualquer delito que tivesse cometido, com
exceção dos quatro delitos seguintes— heresia, traição, sodomia ou
falsa moeda — , não poderia, no Brasil, ser presa, nem acusada, nem
proibida, nem forçada, nem executada, de maneira alguma”. Os cri­
minosos portugueses que residiam na colônia brasileira durante
quatro anos “completos e acabados”, se quisessem ir ao Reino “tra-
lar de seus negócios”, poderíam fazê-lo, desde que trouxessem uma
autorização dos Capitães Donatários. Essa carta de privilégio foi
enviada em 5 de outubro de 1534 às capitanias de Pero Lopes de
Sousa e de Martim Afonso de Souza.1 Em 10 de março de 1536, o
mesmo regulamento foi enviado a Pero de Góis, donatário da capi-
lania de São Tomé, que mais tarde iria chamar-se Paraíba do Sul.2
Em 1535, com a intenção de povoar as terras brasileiras,

1 IAN/TT, Chancelaria de D. João III; Doações, in Pauliceae Lusitana M onumenta


Historia (1494-1600), partes V-VIII, vol. I, organizado e prefaciado por Jaime Cor-
lesrto, Lisboa. Publicações do Real Gabinete Português de Leitura do Rio de Ja­
neiro, 1956, pp. 311-313.
> IAN/TT, Chancelaria de D. João III, Livro 22, p. 142.

31
VADIOS E CIGANOS, HERÉTICOS E BRUXAS

João III, “o rei Colonizador”, ordenou que, de agora em diante, os


condenados ao degredo na ilha de São Thomé seriam, ao contrá­
rio, degredados no Brasil.3 Um decreto de 6 de maio de 1536
acrescentou “que os jovens vadios de Lisboa que percorrem o
Ribeira roubando carteiras e cometendo outros delitos (...) se
incorressem nas mesmas faltas e fossem novamente presos seriam
degredados no Brasil e em nenhuma outra parte”.4 Assim foi ofi­
cializado o degredo em terras brasileiras. Um outro documento
de 1549 ordenou a transferência do degredo na ilha do Príncipe
para o Brasil,5 que se tornou a possessão d’além-mar preferida de
Portugal para enviar criminosos metropolitanos. Com a institui­
ção do degredo nas capitanias brasileiras, foi declarado “que não
partiría nenhum navio de Lisboa para o Brasil sem que antes o
governador da Casa do Cível tomasse conhecimento, a fim de
comunicar os degredados que cada navio deveria levar”.6
Duarte Coelho, donatário da capitania de Pernambuco, ficou as­
sustado com o envio dos deportados que chegaram em suas terras e
escreve ao rei, em dezembro de 1546, implorando que não mais
enviasse os degredados: “ Certifico a Vossa Alteza, e lho juro pela hora

3 Alvará de 31 de maio de 1535 (foi. 107 do Livro da Suplicação). Duarte Nunes do


Lião, Leis extravagantes collegidas e relatadas pelo licenciado... per mandado do... Rei
D. Sebastião, l í edição, Lisboa, 1569, Coimbra, Imprensa da Universidade, 1796,
p. 615, in Documentos para a História do Açúcar (legislação 1534-1596), vol. I, Rio
de Janeiro, Instituto do Açúcar e do Álcool, Serviço Especial de Documentação
Histórica, 1954, p. 25.
4 Alvará de 6 de maio de 1536 (Foi. 101 do Livro 4 da Suplicação), Duarte N unes do
Lião, op. cit., in Documentos para a História do Açúcar, op. cit., p. 31.
5 Alvará de 5-10-1549 (Foi. 187 do Livro Verde), Duarte Nunes do Lião, op. cit.,
p. 615, in Documentos para a História do Açúcar, op. cit., p. 95.
6 Alvará de 7-8-1547 (Foi. 184 do Livro 5 da Suplicação), Duarte Nunes do Lião, op.
cit., p. 620, in Documentos para a História do Açúcar, op. cit., p. 43.

32
“ PIORES CA NA TERRA DO QUE PESTE...'

da morte, que nenhum fruto e nem bem fazem na terra, mas muito
mal. Creia Vossa Alteza que são piores cá na terra que peste...”.7
Nos primeiros anos da colonização do Brasil, através do siste­
ma de capitanias hereditárias, antes da fundação da cidade de São
Salvador da Bahia de Todos os Santos, a maioria dos degredados
chegava em Pernambuco na capitania de Duarte Coelho. Esta e a
de São Vicente foram as únicas capitanias que prosperaram entre
as quinze.
A forte presença dos criminosos justifica o horror do donatá­
rio em relação aos degredados, muitos dos quais fugiam para
outras capitanias, sobretudo para aquelas onde os donatários não
estavam fisicamente presentes.8Nessas capitanias menos organiza­
das, os criminosos trabalhavam, geralmente, no contrabando do
“pau-brasil, às vezes em cumplicidade com os franceses”, como
registraram as autoridades da colônia.9 Da mesma forma, mesmo
que não fossem os únicos a fazê-lo, eles “dedicavam-se a ataques ao
longo da costa, enganando e reduzindo os índios à escravidão”.10*1

7 Carta de Duarte Coelho a El-Rei, in Nelson Omegna, A Cidade Colonial, Rio de


lanciro, José Olympio, 1961, p. 170. Mário Nem e, Notas de Revisão da História de
São Paulo, São Paulo, Editora Anhambi S.A., 1959, p. 265.
HFrancisco Adolfo Varnhagen, História do Brasil, São Paulo, Editora Itatiaia Ltda.-
USP, 1981, pp. 227-228.
g 1)iogo de Campos Moreno, Livro que dá razão do Estado do Brasil — 1612, Recife,
Arquivo Público Estadual, 1955, p. 174. Carta de Pedro de Góis (1531), in Carlos
Malheiro Dias (org.), História da Colonização Portuguesa, op. cit., pp. 322-323, apud
( lélia Freire A. Fonseca, A Economia Européia e a Colonização do Brasil (A experiência
ilc Duarte Coelho), Conselho Federal de Cultura e Instituto Histórico e Geográfico
brasileiro, Rio de Janeiro, 1978, p. 270.
111 Carta de Duarte de Lemos a D. João III (1550); Carta de Pedro Borges escrita de
Porto Seguro a D. João II (1550); Carta de Pedro de Góis escrita na Vila da Rainha a
I >. )oáo III (1546), in História da Colonização Portuguesa, pp. 267,268-269,263, res-
ped ivamente, apud Célia Freire A. Fonseca, op. cit., p. 270.

33
VADIOS E CIGANOS, HERÉTICOS E BRUXAS

Duarte Coelho lutava para mostrar que, se o Brasil podia “aco­


lher os criminosos”, isso não significava que nas capitanias devia
reinar a insubordinação. Em sua carta (20 de dezembro de 1546)
ele explica: “Os delitos e os malefícios aqui cometidos e feitos aqui
hão de ser punidos e castigados como for razão e justiça, e se de
minhas terras fugirem alguns malfeitores para outras com temor
de castigo, ou d’outras para a minha, esta tal liberdade e privilégio
lhes não deve de valler.” Desolado, concluiu o governador: “Como
outros capitães que costumam diguo senhor e afirmo que se não
povoará a terra mas que em breve tempo se despovoará.”11
Varnhagen atribuiu o fracasso do sistema de capitania, entre
outros motivos, à “insubordinação” que reinava nessas terras, “em
conseqüência dos degredados que choviam da mãe-pátria”.112
Contra essa “semente má” que Portugal plantava no Brasil,
terra “nova e cheia de promessas”, Duarte Coelho não era o único
a combater. Os padres da Companhia insistiram em que a coloni­
zação fosse feita por “boas e honradas gentes”. Sendo assim, seria
preciso mais que paciência: “não se podia esperar em tão pouco
tempo que o Brasil se convertesse em um novo Portugal”, como
alguns já o desejavam. A realidade, de fato, era que a utilização dos
degredados na lide colonizadora era um costume já consolidado

11 Cartas de Duarte Coelho a El-Rei, Documentos para a História do Nordeste, II,


Reprodução fac-similar, leitura paleográfica e versão moderna anotada, José Antônio
Gonsalves de Lello e Cleonir Xavier de Albuquerque, Recife, Imprensa Universitária,
1967, Carta de 20 de dezembro de 1546, in Célia Freire A. Fonseca, A Economia
Européia e a Colonização do Brasil (A experiência de Duarte Coelho), op. cit., p. 268.
12 Francisco Adolfo Varnhagen, História do Brasil, São Paulo, Editora Itatiaia Ltda.-
USP, 1981, p. 226.

34
“ PIORES CÁ NA TERRA DO QUE PESTE...”

no processo penal português. Um dia, o rei D. João, informado da


morte de dois criminosos, comentou: “Melhor teria sido perdoá-
los e mandá-los aos lugares de além-mar, pois, sendo tão valentes,
haveríam de fazer lá muito serviço a Deus e a Sua Alteza.”13 O
padre Manuel da Nóbrega, em suas cartas, queixava-se continua­
mente dos vícios que se encontravam na colônia. Numa carta de
1556, ele atribuiu esse mau comportamento aos atos nocivos dos
degredados: “Nesta terra não vieram até agora senão desterrados
tia mais vil e perversa gente do Reino.”14
Os degredados embarcavam em Portugal em caravelas que
partiam rumo ao Brasil; às vezes em número que excedia ao da tri­
pulação e podia, como temia o governador de Pernambuco em
1546, dominar e tomar posse do barco. Duarte Coelho escreve
então ao rei para informá-lo de que “achamos menos dois navios,
que por trazerem muitos degredados estão desaparecidos”.15
Robert Southey deduziu que, no Brasil, os degredados eram em
proporção maior que “os bons colonos” e, assim, era mais prová­
vel que se desenvolvesse mais a iniqüidade que o bom exemplo.
Ser deportado para o Brasil era uma punição rígida. Em geral,
na colônia, os degredados não podiam enriquecer com as guerras,I

I’ Sói gio Buarque de Holanda, “Do descobrimento à expansão territorial”, in His-


(i)mi Ceral da Civilização Brasileira, vol. I, tomo I, Época Colonial, Rio de Janeiro,
llriliand Brasil, 1 Ia ed., 2000,pp. 118-119.
II Serafim Leite, Cartas do Brasil e mais escritos do padre Manuel da Nóbrega, Uni-
vn sidade de Coimbra, 1955, p. 200. Mário Neme, Notas de Revisão da História de
San Paulo, São Paulo, Editora Anhambi S.A., 1959, p. 265.
' T A . Mello e Xavier C. de Albuquerque, Cartas de Duarte Coelho a El-Rei, op. cit.,
P 19.

35
VADIOS E CIGANOS, HERÉTICOS E BRUXAS

nem tinham a esperança de retornar à pátria, honrados por servi­


ços prestados. Houve somente algumas exceções. Mas esses degre­
dados, apesar do estigma da condenação, eram muito mais consi­
derados nas novas colônias, onde os homens comuns tinham
mais valor do que em outras terras.16

16 Robert Southey, História do Brasil, vol. I, São Paulo, Edições Melhoramentos,


1977, pp. 58-59.

36
O s 40 0 degredados de Tome de Sousa

Com três navios, duas caravelas e um bergantim, Tomé de


Sousa, aos 29 de março de 1549, chegou à Bahia1 e, dois meses
mais tarde, foram construídas cerca de cem casas, enquanto que,
nas ruas, “poucas e estreitas, enxameia uma população chucra,
rude, mesclada”:2 população heterogênea, constituída de homens
de armas, de degredados, de colonos desprovidos, índios e fidal­
gos do Governo. Eduardo Tourinho relata o episódio apresentan­
do, grosso modo, a tripulação e os passageiros da frota que “deixa­
ram o Tejo em primeiro de fevereiro e, após 56 dias de viagem
tranqüila, chegaram à Bahia. Além da tripulação, os navios tra­
ziam cerca de 1.000 homens. Vinham funcionários, os primeiros
jesuítas, aproximadamente 280 colonos, 400 degredados e mais de
300 soldados: atambores, espingardeiros, besteiros e bombardei­
ros. A maioria era constituída de portugueses, mas, entre eles,
havia flamengos, italianos, espanhóis. Dois negros apenas: o gru-
mete Cristóvão e o serralheiro Inácio Dias”3

1 1lélio Viana, História do Brasil, Sâo Paulo, Edições Melhoramentos, 1980, p. 81.
J Alberto Silva, A Primeira Cidade do Brasil, Salvador, 1953, p. 217.
* Eduardo Tourinho, A lm a e Corpo da Bahia, Sao Paulo, Livraria José Olympio
Editora, 1950, p. 23.

37
VADIOS E CIGANOS, HERÉTICOS E BRUXAS

Desde o início, houve uma total liberdade de emigrar-se para o


Brasil, mesmo para os degredados, que podiam ser admitidos no
serviço público em navios de guerra, na armada ou nos ofícios da
justiça e da fazenda, com exceção dos acusados de “roubos ou falsi­
ficações”. Na expedição de Tomé de Sousa, em 1549, além das pes­
soas designadas que compunham o Governo-Geral, teriam chegado
cerca de 600 operários e muitos degredados. Gabriel Soares de Sou­
za, em 1587, avalia em 400 o número de degredados chegados com
o primeiro governador-geral do Brasil.4 Frei Vicente do Salvador,
em 1627, e o frei Antônio de Santa Maria Jaboatão, em 1761, estão
de acordo com a estimativa do cronista Gabriel Soares de Sousa.5
Os historiadores, Varnhagen e Southey, entre muitos outros, confir­
mam sempre o mesmo número.6 Capistrano de Abreu avalia em
600 os degredados vindos com o primeiro governador em 1549.7
Com relação ao número exato de degredados chegados ao
Brasil na armada de Tomé de Sousa, encontramos uma só referên­
cia que cita algumas dezenas dentre eles que estavam sob a guarda
de Antônio Rodrigues de Almeida, um “Servidor do rei” que
“ordenou o pagamento de 55$713 para a compra de roupas para
62 degredados e forçados”. Em 1549, em Salvador da Bahia, os

4 Gabriel Soares de Souza, Tratado Descritivo do Brasil em 1587, São Paulo, Cia.
Editorial Nacional, 1983, p. 126.
5 Frei Vicente do Salvador, História do Brasil (1500-1627), São Paulo, Melhora­
mentos, s.d., p. 50. Frei Antônio de Santa Maria Jaboatão, N ovo Orbe Seráfico ou
Crônica dos Frades Menores da Província do Brasil (1761), Rio de Janeiro, Tip. Bra-
siliense de Maximiano G. Ribeiro, 1858, p. 123.
6 Francisco Adolfo Varnhagen, História do Brasil, Belo Horizonte, Ed. Itatiaia, 1981
Robert Southey, História do Brasil, São Paulo, Melhoramentos, vol. I, p. 167.
7 Capistrano de Abreu, Capítulos de História Colonial, op. cit., p. 105.

38
OS 400 DEGREDADOS DE TOMÉ DE SOUZA

degredados não podiam trabalhar nas obras por falta de roupas


decentes. Mais tarde, em 1551, foram distribuídos “28 jórneas, 28
calções, 28 gualteiras e 56 camisas” aos degredados vindos na
armada do governador.8
Tomé de Sousa, juntamente com os degredados, os índios e os
portugueses voluntariam ente emigrados, fundou, num lugar
pouco distante da praia, a cidade fortificada de Salvador, que “teve
em breve a sua igreja, casas para as principais repartições públicas
e um colégio de jesuítas”.9
Devido à ausência de documentos torna-se muito difícil saber
quais eram os crimes de todos esses banidos embarcados na arma­
da de Tomé de Sousa. Nesta época, a justiça punia com o degredo
tanto os delitos leves como os crimes que nas ordenações mereciam
a forca. Provavelmente, vários crimes castigados pelas ordenações
estavam ali representados: desde os heréticos aos ladrões e assassi­
nos.10 Juntos com todos estes degredados vieram, também, seis
missionários jesuítas sob o cajado do padre Manuel da Nóbrega.

HEdison Carneiro, A Cidade de Salvador — 1549 — Uma Reconstituição Histórica,


Rio de Janeiro, Editora Civilização Brasileira, 1980, p. 140.
g Joaquim Manuel de Macedo, Lições de História do Brasil, Rio de Janeiro, s.d.,
pp. 76-77.
10 Pedro Calmon, História da Fundação da Bahia, Salvador, Publicações do M useu
do Estado, 1949, pp. 130-131.

39
NoL:ires e peões

Os casos de degredo eram tão comuns que, num a carta de


Duarte de Lemos, escrita de Porto Seguro em 1550, é mencionado
um francês chamado Froment, que chegara degredado para sem­
pre, por ter sido um corsário. Almeida Prado comenta que o con­
denado “nada teria de anormal, além da culpa de servir um rei
inimigo do lusitano, a convite das cartas de corso que Francisco I
distribuía”.1 Quase todos os crimes, mesmo os mais leves, eram
punidos com o degredo.
Rumo ao Brasil afluíram então degredados de todas as espé­
cies. Fidalgos como D. Jorge de Meneses e D. Simão de Castelo
Branco, nobres de “alta qualidade” que, em companhia de Vasco
Irrnandes, vieram de Portugal para o Espírito Santo, onde morre­
ram no combate contra os índios.i2 Nobre também era Filipe de
Cuilhen, banido de Portugal em 1538 ou 1539. Ele se encontrava
rm Ilhéus quando Tomé de Sousa pediu-lhe ajuda. Filipe de

i Almeida Prado, A Bahia e as Capitanias do Centro do Brasil, São Paulo, Compa­


nhia liditora Nacional, 1945, p. 163. A carta de 14 de julho de 1550 foi publicada
|Mir Carlos Malheiro Dias (org.), H istória da Colonização Portuguesa do Brasil,
vnl. III, op. cit., p. 267.
‘ 1'. A. Varnhagen, História Geraldo Brasil, vol. I, Belo Horizonte, Itatiaia, 1981. p. 207.

41
VADIOS E CIGANOS, HERÉTICOS E BRUXAS

Guilhen possuía, desde 1528, o título do Hábito da Ordem de Cristo


e “serviu o governador até 1563”.3 Mas a maioria dos degredados
era constituída por “peões”, o que significa que eram pessoas
comuns, como aqueles que suscitaram a cólera e os protestos enér­
gicos de Duarte Coelho, que continuava a queixar-se ao rei a res­
peito deles. Numa longa carta escrita no dia 20 de dezembro de
1546, o donatário escreve que os degredados que “vós me enviastes
nos últimos três anos” não são colonos estáveis, mas, ao contrário,
são malfeitores “que nenhum fruto nem bem fazem na terra, mas
muito mal e dano”, sobretudo no que diz respeito ao relaciona­
mento com os índios. “Não são colonos que se deva desejar”, con­
tinuava Duarte Coelho, pois eles “não são para nenhum trabalho e
vêm pobres e nus” do Reino e vivem a imaginar “suas manhas” e a
projetar suas fugas. O donatário, apesar de rigoroso, não obtinha
nenhum sucesso em recuperá-los, e lamentava: “O que Deus nem
a natureza remediou, como eu o posso remediar?” Duarte Coelho
não tinha esperança alguma em relação aos proveitos que podia
tirar dos condenados e suplicava ao rei que “pelo amor de Deus,
que tal peçonha por aqui não me mande”, pois esses homens oca­
sionavam “antes malefícios à boa obra iniciada da colonização do
que lhes servia de corretivo o degredo”.4
Em 1552, Tomé de Sousa, acompanhado pelo padre Nóbrega,
partiu em direção ao sul para inspecionar a administração da jus­
tiça e a segurança das cidades. Em Ilhéus, ele destituiu o capitão
porque ele era cúmplice dos criminosos que abrigava e o substi­

3 José Gonçalves Salvador, Os Cristãos Novos — Povoamento e Conquista do Solo


Brasileiro (1530-1680), São Paulo, Livraria Pioneira Editora, 1976, pp. 28-29.
4 J. A. M ello e Xavier C. Albuquerque, op. cit., p. 86.

42
NOBRES E PEÕES

tuiu por Gonçalves D rum ond. O governador, mesmo tendo


admitido, em 1550, a presença de banidos no Conselho Municipal
da Bahia, constatava os inconvenientes de uma colonização feita
por degredados e aventureiros. Ele sonhava com uma povoação
ideal, sem condenados ou fugitivos e, chegando ao Rio de Janeiro
maravilhado pela beleza da enseada, o governador manifestou o
desejo, segundo uma carta que ele escreve ao rei, de ali fundar
uma cidade formada de “pessoas boas e honradas”.5 O seu sonho
não durou muito tempo.
Um manuscrito de 1610 refere-se a um certo João Pais, “o
mais rico senhor de engenho” da época e que era “degredado de
Portugal”.6 Thomas Turner registra a existência no Brasil de 18
engenhos de açúcar com dez mil escravos que pertenciam a João
Pais, “degredado de Portugal e próspero, a ponto de adquirir essa
incrível riqueza”.7
É difícil avaliar essa estimativa, a qual, em princípio, pode
parecer excessiva, uma vez que dez mil escravos pertencentes ao
mesmo senhor parecem exagero. Alguns desses degredados soube­
ram muito bem tirar proveito de suas situações de proscritos e
prosperaram. No entanto, a maioria dos banidos não enriqueceu e
nem teve a projeção social de João Pais. Era muito difícil que a
pena de banim ento pudesse realmente corrigir os erros destes
colonos forçados. A terra, imensa; a administração, precária; a
vigilância, ineficiente. A pena de degredo era negociável. Podia-se

' ( âáudio Thomás, História do Brasil, vol. I, São Paulo, Coleção F.T.D. Ltda., 1964,
|>. 140.
'■/ hicumentos para a História do Açúcar, op. cit., p. XV.
' |. A. Mello e Xavier C. de Albuquerque, op. cit., p. 26.

43
VADIOS E CIGANOS, HERÉTICOS E BRUXAS

a qualquer m om ento com utar as penas dos degredados ou


distribuir-lhes perdões, desde que, de alguma forma, eles contri­
buíssem na labuta cotidiana da colonização. Os banidos estavam
ali condenados para purgar os delitos cometidos na Corte e, ao
mesmo tempo, eram utilizados como elementos para o povoa­
mento e m ão-de-obra naquilo que a lide colonizadora exigia
deles.

44
Leis e mais leis: degredar é preciso

O Regimento de Tomé de Sousa, de 16 de dezembro de 1548,


estabelece, entre outras decisões, que as pessoas “não poderão
passar de uma capitania para outra sem autorização dos capitães
donatários”.1Tais autorizações eram outorgadas, “com muita par­
cimônia”,2 a todos os que dela tinham necessidade, salvo aos
degredados que “permanecerão sempre nas capitanias às quais
foram destinados”.3 Por causa da escassez de gente para exercer
certos serviços, o rei admitia, nesse mesmo documento, que os
degredados no Brasil pudessem servir “nos navios da armada ou
cm terra para qualquer outra coisa de meu serviço”. Ademais, os
degredados podiam ser treinados para trabalhar nas funções da
justiça e da fazenda, sob a condição de não haverem sido conde­
nados por roubos ou por falsificações.4 Mais tarde, segundo o
Regimento de 8 de março de 1589, numerosos eram os degreda­

1 Regimento de 16-12-1548, in Documentação para a História do Açúcar, op. cit.,


I>
1 M.ix Fleiuss, História Administrativa do Brasil, Rio de Janeiro, 1922, p. 17.
1 Regimento de 16-12-1548,in Documentação para a História do Açúcar, op. cit., p. 59.
* Regimento de 16-12-1548 de Tomé de Sousa, in Documentação para a História do
A\iicar, op. cit., p. 60.

45
VADIOS E CIGANOS, HERÉTICOS E BRUXAS

dos do Reino que iam para o Brasil e, por isso, ordenou-se que o
governador-geral devia estabelecer os lugares de degredo onde os
condenados seriam mais bem empregados a serviço do rei. Se os
banidos trabalhassem seriamente a ponto de merecer o perdão
real, poderíam ser aceitos nas funções da administração, salvo os
culpados “de falsificação e delitos de maus exemplos”.5
Aos 30 de junho de 1567 foi proibido que os cristãos-novos
saíssem de Portugal por mar. Os contraventores dessa lei eram
punidos com penas de confisco dos bens e de degredo no Brasil
por cinco anos.6 Uma lei de 3 de novembro de 1571, contida nos
Regimentos de Navegação do Reino, punia com penas pecuniárias
e com o degredo no Brasil todos os mestres dos navios que par­
tiam do Reino sem levar as ordenações e certificados que deviam
ser apresentados nos portos de destino.7 Além disso, o rei D.
Sebastião, em 1577, confirmou que “as capitanias do Brasil vales­
sem como Coutos aos homiziados deste Reyno”.8 A lei ordenava
que todos os criminosos podiam ser enviados ao Brasil, mesmo se
eles já tivessem sido condenados à pena de morte. Todos, exceto os
criminosos implicados em delitos de “heresia, traição, sodomia e
falsa moeda”: quatro crimes considerados como os mais graves
contra Deus e contra o rei e, portanto, imperdoáveis. Uma vez

5 Regim ento de 8-3-1588, in Documentação para a H istória do Açúcar, op. cit.,


pp. 362 e 374.
6 Alvará de 30-6-1567 sobre cristãos-novos, in Documentação para a História do
Açúcar, op. cit., pp. 197-198.
7 Lei de 3611-1572 sobre navegação, in Documentos para a História do Açúcar, op.
cit., p. 234.
8 Ordenações Filipinas, Livro V, Título CXXIII; Dos Coutos ordenados para se couta­
rem os homiziados, e dos casos em que lhes devem valer, N ota 7.

46
LEIS E MAIS LEIS: DEGREDAR É PRECISO

degredados, os criminosos não seriam mais perseguidos pela jus-


Iiça. Apesar desta lei, veremos, mais adiante, também os heréticos,
traidores, sodomitas e falsários que foram banidos para as terras
brasileiras. A legislação, através dos milhares de decretos e alvarás,
era, a todo momento, modificada.
Os portugueses que viviam no Brasil podiam ser banidos para
lora do território brasileiro. Todos aqueles que não obedecessem às
ordens estabelecidas pelos regimentos, pelas cartas de doação e
pelos decretos que concediam ao governador plenos poderes eram
i igorosamente punidos. Os criminosos, nobres ou gente comum,
"sofrerão uma condenação de dez anos de degredo e de até cem
cruzados de multas, sem recurso nem apelação”,9 e a perda de
todos os seus bens. Além disso, eram condenados ao degredo per­
pétuo na ilha de São Thomé todos aqueles que moravam no Brasil
e que comercializavam o pau-brasil que “me pertence sempre”,
ordena o rei D. João, na carta de 24 de julho de 1534, destinada ao
donatário de Pernambuco.10 A “Carta de Doação” da capitania de
IVro Lopes de Sousa, de 6 de outubro de 1534, estabelece as mes-
uiiis regras.11

" < ,ii In de Doação de 10-3-1534; Capitania de Pernambuco, in Documentos para a


I Ihhii in do Açúcar, op. cit., p. 9.
111( ,11 tos Malheiro Dias (org.), op. cit., vol. III, pp. 312-313.
II l\mlicca L usitanaM onum enta Histórica (1494-1600), vol. I, Lisboa, publicação do
IO',d <labinete Português de Leitura do Rio de Janeiro, 1956, p. 314.

47
Comutações e vendas de perdão

Aparentemente, o degredo foi a fórmula encontrada por Portu­


gal para povoar as terras de além-mar. Entretanto, no caso do Brasil,
os donatários e os governadores-gerais não estavam lá muito entu­
siasmados com estes condenados que chegavam do Reino. Mem de
Sá, assim como Duarte Coelho, fizeram as suas reclamações. Do Rio
do Janeiro, em 31 de março de 1560, ele escreveu ao rei explicando-
llie o que se passava na Bahia, Ilhéus, Espírito Santo e São Vicente.
Nossa carta, relatava os inconvenientes ocasionados pela chegada
dos banidos e lastimava-se pelo fato de que, no Brasil, numerosos
i o Ioiios eram “degredados malfeitores que os mais deles mereciam
ti morte e que não têm outro ofício senão urdir males”.1Para sancio­
nai' a indisciplina, ele ordenou a “construção, em cada cidade, de
iiiii pelourinho com um tronco”, a fim de que o oficial de justiça
pudesse castigar, com o açoite, aqueles que cometiam delitos leves.2
I )o Brasil, o governador, colérico e desanimado, fazia severas
11 nicas aos critérios das nomeações feitas no Reino: “Cá não há

I Mario Nem e, N otas de Revisão da H istória de São Paulo, São Paulo, Editora
Anli.nnbi S.A., 1959, p. 256.
I I‘iiuliira Lusitana Monumenta Histórica, op. cit., p. 283.

49
VADIOS E CIGANOS, HERÉTICOS E BRUXAS

oficial que preste, nem capitão que defenda uma ovelha, quanto
mais capitanias, de tanto gentio e degredados”.3
A população de portugueses no Brasil era insuficiente em
relação às necessidades colonizadoras das cidades nascentes e,
além disso, muitos dentre eles eram degredados e, portanto, não
podiam, segundo a lei, exercer certas funções. O capitão-mor da
costa, Pero de Goes, responsável pela defesa do litoral, escreveu ao
rei informando-o de como foi difícil combater um galeão francês
que chegara ao Rio, uma vez que não havia quase ninguém para
ajudá-lo. De fato, faltavam “bombardeiros para efetuar os tiros no
combate na baía de Cabo Frio”. Na sua armada, ele tinha somente
três bombardeiros em cada caravela e nos dois bergantins, além de
alguns “aprendizes que não sabiam nada e jamais haviam entrado
no mar”. Pero de Goes queixava-se de ter tão poucas pessoas e que
não tinha um único homem para remar e, “ainda que o governa­
dor da Baía me quisesse dar, não o tinha porque ele ficara só entre
degredados sem ter ninguém consigo senão os de sua casa”.4
A solução para m elhor utilizar estes condenados era
conceder-lhes o perdão, a única condição para que pudessem
prestar serviços, até então proibidos. Foi exatamente o que Duarte
da Costa decidiu. Ele escreveu ao rei pedindo a remissão da pena
para todos os degredados, a fim de utilizá-los nos serviços reais.
Numa carta de 3 de abril de 1555, ele pediu ao rei que enviasse aos
governadores locais “autorizações para que eles possam vender

3 Almeida Prado, A Bahia e as Capitanias do Centro do Brasil, São Paulo, Editora


Companhia Editora Nacional, 1948, p. 121.
4 Paulicea Lusitana M onumenta Histórica, op. cit., p. 329.

50
COMUTAÇÕES E VENDAS DE PERDÃO

perdões aos degredados”. Duarte da Costa propôs que, uma vez


perdoados, pudessem servir nas “obras ou nos bergantins”. Mais
que uma solução para resolver temporariamente uma urgência,
esse negócio era muito lucrativo, pois o montante das vendas seria
enviado ao hospital da cidade de Salvador que, a partir de 1555,
passou a chamar-se Nossa Senhora das Candeias. O governador
alegava que “a Santa Casa” é “muito pobre e tem muitas necessi­
dades porque se curam nele todos os enfermos, tanto os que adoe-
icm na terra como os que vêm dos navios”.5
Comutar uma pena ou vender um perdão era uma prática
corrente na época. Aos 2 de maio de 1575, o rei Sebastião ordenou
aos governadores do Brasil a destinação da metade do dinheiro
ilas comutações dos degredos “às obras dos colégios dos jesuítas”.
A outra metade, os governadores podiam utilizá-la “como quises­
sem”. Iniciado durante o provincialato de Inácio Tolosa, o colégio
loi inaugurado na Bahia em 1590-1591.6
Em meados do século XVI, São Vicente tinha necessidade
in gente de construir duas pontes e um caminho pelo qual pudes­
sem ser transportadas víveres dos campos à sede da capitania.
Para realizar esse trabalho, o donatário contava com os serviços de
dois degredados, e o ouvidor-mor pediu então “que o rei per­
doasse seus degredos”.7
Para servirem como soldados defendendo o território, um de-
i ido datado do dia 12 de setembro de 1632 ordenava que os pri-

'• Ibiilcm, p. 339, e Alberto Silva, A Cidade d ’El Rei, Salvador, 1953, p. 57.
'■ Serafim Leite, História da Companhia de Jesus no Brasil, vol. I, Lisboa, 1938,
| T . 52-53.
' l arlos Malheiro Dias (org.), vol. III, op. cit., pp. 342-343.

51
VADIOS E CIGANOS, HERÉTICOS E BRUXAS

sioneiros condenados com o degredo fossem todos enviados para


o Maranhão mesmo que estivessem já destinados ao degredo para
outros lugares.8
Além das decisões régias requeridas pelas autoridades admi­
nistrativas que decidiam comutar ou perdoar as várias penas com
o objetivo de utilizar os condenados na rude batalha da edificação
da colônia, muitos réus utilizaram esse recurso em proveito de
seus interesses. Eles alegavam misérias, achaques e, sobretudo
para as mulheres, o temor de serem desonradas.
O agricultor Antônio Henrique, acusado de sodomia, foi con­
denado ao degredo por três anos para o Brasil. Alegou estar quase
cego e ter quatro filhos pequenos para criar. Pagou cem cruzados
e sua pena foi perdoada.9 Leonor de Febos Villanova, acusada de
judaísmo, solteira, 33 anos, havia sido condenada ao degredo para
o Brasil. Na sua petição declarava “ser mulher donzela, muito
pobre e desamparada, e que na viagem podia ser desonrada por
soldados e marinheiros”.101Manuel Fragoso, em 1630, pediu a
comutação de sua pena de morte pela de um banimento para o
Brasil, apresentando-se como soldado em Pernambuco.11 Muitos
outros obtiveram suas comutações que podiam amenizar seus
sofrimentos. Um certo Alexandre, um Manuel e um Francisco
haviam, os três, sido condenados ao trabalho forçado, sem soldo,
nos remos das galés. Em 1623, a pena deles foi comutada para o

8 Arquivo Histórico Ultramarino (AH U), Códice 43, f. 15v.


9 IAN/TT, Inquisição de Coimbra, processo 8931: Antônio Henrique.
10 IAN/TT, Inquisição de Lisboa, processo 7844: Leonor de Febos Villanova.
11 IAN/TT, Desembargo do Paço, Repartição da Justiça e Despacho da Mesa, Livro
8, f. 287.

52
COMUTACÔES E VENDAS DE PERDÃO

Maranhão, que naquela época necessitava urgentemente de mui-


los soldados que garantissem a defesa do estado que dois anos
antes, em 1621, havia sido desvinculado do governo-geral. O
Maranhão, como estado autônomo, resistiu até o ano de 1774. Os
novos recrutas escaparam das temíveis galés: uma punição tão
rígida que quase ninguém conseguia ali resistir mais do que três
anos. Era opinião comum, à época, que trabalhar numa galé era
morrer lentamente.
As várias petições dos condenados requerendo suas comuta-
çOes de penas enquadram-se perfeitamente no complexo sistema
burocrático do Santo Ofício e dos demais tribunais da época.
Esses recursos eram seguramente vistos e revistos, comutando a
pena original segundo as necessidades. Se analisarmos todas essas
petições dos réus, poderemos melhor entender como funcionava
ii institucionalização do uso dos condenados como elementos de
povoamento, colonização e manutenção do vasto império portu­
guês. Esta é ainda uma investigação a ser feita. É necessário agru­
par todos esses documentos para a verificação das continuidades
e rupturas neste procedimento, e a partir disso analisar as várias
Kinjunturas daí emergidas.

53
Recrutamento cie mão-de-obra

Na colônia brasileira o que não faltava era trabalho. A mão-de-


obra era m uito preciosa, sobretudo quanto custava pouco aos
cofres régios. Um decreto de 13 de dezembro de 1590 ordena o
envio a Gabriel Soares de Sousa de todos os condenados às galés
que fossem “mineiros, fundidores, artilheiros (...) e todas as outras
pessoas que tinham ofícios como artífices”. Gabriel Soares de
Sousa encontrava-se no Brasil e tinha sido nomeado capitão-mor
e governador da Conquista e Descobrimento do Rio de São
Francisco. Neste momento mais urgente que os trabalhos nas galés
era a exploração do rio São Francisco e por isso foi comutada a
pena desses criminosos pelo fato de serem eles trabalhadores espe­
cializados.1 Em tempos de construções incessantes, as autoridades
do Brasil ansiavam pela vinda dos trabalhadores. Nesse mesmo dia
foi publicado um outro decreto que concedia o perdão a “toda pes­
soa que fosse condenada ao degredo em qualquer outro lugar e que
pudesse servir na dita Conquista”. As cartas de perdão seriam dis­

1 Paulicea Lusitana Monumenta Histórica, op. cit., p. 411. Gabriel Soares de Sousa
escreveu em 1587 o Tratado Descritivo do Brasil, célebre obra de história do Brasil
do século XVI.

55
VADIOS E CIGANOS, HERÉTICOS E BRUXAS

tribuídas de acordo com as decisões do capitão-mor e do governa­


dor, atestando que “tal pessoa serviu no dito trabalho”.2
Gabriel Soares de Sousa, devido à sua investidura como
capitão-mor da Conquista e Descoberta do Rio de São Francisco,
entre outros poderes que possuía, podia “tirar das prisões e levar
consigo os condenados a degredo que escolhesse”.3 Mais uma vez,
as prisões funcionavam como depósito de artífices que podia ser
utilizada nos momentos de crise da colônia. Esta prática não era
prerrogativa somente dos portugueses. Outros povos tiraram pro­
veito deste mesmo sistema que, ao que tudo indica e na falta de
uma outra possibilidade, solucionava momentaneamente certos
problemas. Assim fez Maurício de Nassau, que durante a presen­
ça holandesa no nordeste escreveu de Olinda uma carta ao seu
parente, o príncipe d’Orange, pedindo o envio “a este delicioso
país” de todos os colonos alemães que pudesse encontrar e, se não
fosse possível tê-los voluntariamente, ordenasse o esvaziamento
das prisões e das galés, transportando os criminosos ao Brasil,
“onde com útil e virtuoso trabalho se purgassem de seus delitos”.4

2 Ibidem, p. 412.
3 Ubaldo Osório, A Ilha de Itaparica — História e Tradição, Salvador, Editado pela
Fundação Cultural do Estado da Bahia, 1979, pp. 52-53.
4 Robert Southey, História do Brasil, São Paulo, Edições M elhoramentos, 1977,
pp. 392-393.

56
O gramático degredado e o padre do ouro

Numa carta de 10 de julho de 1552, Nóbrega pediu ao padre


Simão de Vasconcelos para enviar ao Brasil alguns sacerdotes e
“com eles alguns meninos de bom exemplo e boas falas” que
pudessem, pelos “bons princípios”, servir de exemplo aos índios.
Nóbrega acrescentou que “nesta terra, custa muito pouco se fazer
um colégio e sustentar-se porque a terra é muito farta e os meni­
nos da terra sustentam-se com muito pouco”. No entanto, logo em
seguida, lamentava que foi difícil construir a escola da Bahia por­
que a “terra era povoada de pouco e os mais dela serem degreda­
dos e gente pobre”.1Quase um ano depois, precisamente em 15 de
junho de 1553, o missionário afirma, num a outra carta, que o
colégio estava funcionando e que havia um professor de latim,
“um mancebo gramático de Coimbra, que cá veio desterrado”. Ele
mio cita o nome desse mestre condenado. Quanto aos alunos, ele
mesmo responde que o colégio se ocupava de “sete irmãos gran­
des e muitos meninos órfãos e outros filhos de gentios”, entre os

1 ( àirta do padre Manuel da Nóbrega ao padre Simão Rodrigues, Baía, 10 de julho


de 1552, in Serafim Leite (org.), Acta Universitatis Conimbrigensis, Coim bra,
Universidade, 1955, pp. 118-123

57
VADIOS E CIGANOS, HERÉTICOS E BRUXAS

quais ele tomou apenas “os grandes e principais” por “não termos
com que os manter”. Ele lamentava-se pelo fato de que “os meni­
nos andem nus”.2 Numa outra carta escrita em São Vicente,
Nóbrega informa que “nesta terra têm os meninos os seus traba­
lhos bem ordenados. Aprendem a ler e escrever e vão muito avan­
te; outros a cantar e tocar flautas; e outros, mamelucos, mais des­
tros, aprendem gramática”.3 Os alunos eram, portanto, órfãos
portugueses e alguns “meninos da terra”, mamelucos e índios.
Tudo leva a crer que o crime cometido pelo “mancebo gramá­
tico” foi considerado uma falta de menor importância. Serafim
Leite comenta que este condenado, provavelmente, não devia
estar degredado por pena infame. Lembra que, nesse mesmo ano,
deixou Lisboa para ser banido para a índia um outro gramático de
Coimbra que foi ninguém menos do que Luís de Camões.4
Um outro caso curioso é o do padre Antônio de Gouveia,
condenado pela Inquisição de Lisboa em 1561. O padre Antônio
foi acusado de fabricar mezinhas, isto é, remédios caseiros para
curar certas doenças e, por meio de superstições, podia localizar
objetos de ouro e prata. O clérigo, além da proibição de exercer
cargos eclesiásticos, foi, nessa ocasião, condenado ao isolamento

2 Serafim Leite, H istória da Com panhia de Jesus no Brasil, vol. I, Lisboa, 1938,
p. 253. Nas cartas do padre Manuel da Nóbrega, as preocupações principais são: a
luta entre os portugueses e os índios, as atrocidades que os portugueses cometiam
contra os índios, o pouco interesse que os habitantes portugueses tinham pela ter­
ra, os padres pouco virtuosos, os degredados e a falta de mulheres brancas, in
Cartas do Brasil (1549-1560) — P adre M anuel da Nóbrega, prefácio de Valle
Cabral, Rio de Janeiro, Officina Industrial Graphica, 1931, p. 2.
3 Carta do padre Nóbrega ao padre Simão Rodrigues: Baía, fins de agosto de 1552, in
Serafim Leite (org.), Acta Universitatis Conimbrigensis, op. cit., p. 163.
4 Ibidem ,pp. 171-172.

58
0 GRAMÁTI CO DEGREDADO E O PADRE DO OURO

perpétuo. Ele devia cumprir sua pena no Colégio da Sé; porém,


após sua fuga, é novamente preso pelos inquisidores, os quais,
desta vez, “por causa da sua audácia”, condenaram-no aos traba­
lhos forçados. Chegou às galés reais e, em 13 de novembro de
1564, não suportando tais sofrimentos e enfermidades devido ao
fato de que “o sol lhe havia m udado a pele do braço direito”,
implorou o perdão, pedindo aos juizes inquisitoriais a reconside­
ração de seu calvário. O perdão lhe foi provavelmente recusado
ou, então, nosso infeliz padre não teve a paciência suficiente para
esperar a decisão do Santo Ofício, que, normalmente, agia com
grande lentidão. O que sabemos é que ele fugiu das galés e passou
pela Itália, França e Alemanha. No estrangeiro, “vendo-se quei­
mar entre as diversas heresias e com a certeza de não seguir
nenhuma delas”, o padre Antônio, arrependido, retorna ao Santo
Ofício da Inquisição de Lisboa e, “pela virgindade da Sagrada Mãe
de Deus”, pede perdão de seus pecados. Ele propôs aos inquisido­
res de retirar-se na ilha Terceira, onde havia nascido. Os deputa­
dos, representantes do Santo Tribunal, “por causa da qualidade da
falta e da desobediência que o acusado tinha cometido” e por ter
feito “isso com muita audácia e pouco temor de Deus e do Santo
Ofício”, condenaram-no a dois anos de degredo no Brasil. Aos 17
de outubro de 1567, Antônio de Gouveia foi conduzido, com uma
carta de remessa, ao mestre da nau São Mateus. Os inquisidores
advertiram-no de que jamais ele poderia entrar em Lisboa sem
licença do Santo Ofício, sob pena de ser novamente condenado às
galés “pelo tempo que bem conviesse ao tribunal”. Chegou ao
brasil. O tempo do degredo extinguiu-se, mas o padre não foi
embora. Longe da Metrópole e atraído pela vida, sem m uitas

59
VADIOS E CIGANOS, HERÉTICOS E BRUXAS

regras e menos vigiada, nosso clérigo esqueceu completamente o


motivo de sua condenação e reincidiu em suas velhas práticas
supersticiosas.5 Em 1571, o bispo D. Pedro Leitão visitou a capita­
nia de Pernambuco e ali encontrou o padre degredado. A vida
colonial abria novos horizontes a seu espírito atorm entado e
aventureiro. Por causa dos conhecimentos de alquimia “que havia
adquirido confusamente graças a suas leituras e com sábios
estrangeiros, aliado ao desequilíbrio mental de que era dotado”,
Antônio de Gouveia foi rodeado de tal prestígio que foi conside­
rado um “grande especialista das minas”, um “descobridor de
ouro e prata” e, por essas qualidades, recebeu o epíteto de o
“padre do ouro”. O governador Duarte Coelho Albuquerque, que
tinha uma certa admiração pelo padre ou pelas capacidades que
possuía, encarregou-o de ir ao sertão para capturar nativos,
dando-lhe trinta homens e duzentos índios. Frei Vicente do
Salvador explica que o “padre do ouro” recusou levar mais gente
do que seria necessário. Chegando “a qualquer aldeia do gentio,
por grande que fosse, forte e bem povoada, depenava um frangão
ou desfolhava um ramo e, tantas quantas penas ou folhas lançava
para o ar, tantos demônios negros vinham do inferno lançando
labaredas pela boca, com cuja vista somente ficavam os pobres
índios, machos e fêmeas, tremendo de pés e mãos, e se acolhiam
aos brancos que o padre levava consigo, os quais não faziam mais
que amarrá-los e levá-los aos barcos...”6

5 IAN/TT, Inquisição de Lisboa, processo 5158: Antônio de Gouveia.


6 Frei Vicente do Salvador, História do Brasil (1627), nova edição revisada por Capis-
trano de Abreu, p. 202, apud Solidônio Leite Filho, Os Judeus no Brasil, Rio de
Janeiro, Editor J. Leite e Cia., 1923, p. 83.

60
0 GRAMÁTI CO DEGREDADO E O PADRE DO OURO

Mas os anos em liberdade no Brasil não se prolongaram. Aos


25 de abril de 1571, o “padre do ouro” estava na casa do juiz ordi­
nário da cidade de Olinda, Henrique Afonso, e foi novamente
preso pela Inquisição, representada, nesse momento, pelo padre
Manuel Fernandes Coriçado. Foi enviado ao mestre da nau São
João e retornou aos calabouços do Santo Ofício lisboeta. Segundo
seu processo, Antônio de Gouveia dizia ter um livro de Alberto, o
Grande, e uma clavícula de Salomão. Confessou que fez um pacto
com o diabo e que este lhe deu uma fórmula para abrir o mar e aí
encontrar moedas de ouro.7 Em Lisboa, o procurador do Reino
declarou que não encontrava nenhuma falta contra o padre. A
conclusão de seu processo foi remetida ao Conselho-Geral do
Santo Ofício e, a partir daí, não se tem mais notícias do nosso
degredado, o célebre “padre do ouro”.8
Como está nitidamente constatado nestes dois casos de con­
denados que chegaram no Brasil, a inserção deles no mundo do
trabalho colonial não foi muito difícil. Estamos ainda no século
XVI, tempos de incertezas e improvisações na administração.
'Iodo português desembarcado nos portos brasileiros podia ser
útil, desde que, evidentemente, se submetesse às ordens das auto­
ridades. Muitos outros degredados, sobretudo aqueles provenien­
tes da Inquisição, lamentavam continuamente suas dificuldades
de adaptação nas terras do Brasil.*1

> IAN/TT, Inquisição de Lisboa, processo 5158: padre Antônio de Gouveia.


11Solidônio Leite Filho, op. cit., p. 83.

61
Mulheres cie toda qualidade

Além dos órfãos que chegaram de Portugal para servir de m o­


delo aos pequenos tupiniquins, Nóbrega explica ao rei da conve­
niência de virem do Reino algumas mulheres, a fim casarem-se e
constituírem no Brasil “boas famílias”. Ele escreve uma primeira vez
que “é necessário que venham muitas mulheres órfãs e de toda qua­
lidade, até meretrizes, porque há aqui várias qualidades de homens;
e os bons e os ricos casarão com as órfãs...” Quanto às prostitutas,
no entender de Nóbrega, seguramente se casariam sem dificulda­
des. De uma outra feita, o padre Manuel da Nóbrega, que, sem des­
canso, combatia para reformar os “maus costumes que até então
dominavam o Brasil”, insistiu: “Já escrevi a Vossa Alteza a falta que
nesta terra há de mulheres com quem os homens se casem e vivam
em serviço de Nosso Senhor apartados dos pecados em que agora
vivem. Mande Vossa Alteza órfãs e, se não houver muitas, venham
mistura delas e quaisquer, porque são tão desejadas as mulheres
brancas cá, que quaisquer farão cá muito bem à terra...”1 Em res­
posta ao pedido de Nóbrega, as moças educadas no “Convento das
Órfãs da Rainha Dona Catarina” chegaram então ao Brasil.

1Mário Nem e, op. cit., p. 265.

63
VADIOS E CIGANOS, HERÉTICOS E BRUXAS

Tudo indica que, com exceção das primeiras órfãs desembar­


cadas nos portos brasileiros, as outras não encontraram tão facil­
mente “homens de qualidade” com quem casar. Em 1563, Mem de
Sá sugeriu à Coroa que desse emprego aos homens que se casassem
com as órfãs enviadas à colônia, “porque, senão, elas não se casa­
riam”. Em 1568, o padre Nóbrega, então vigário do Rio de Janeiro,
celebrou o casamento de Maria Brás e Diogo Martines, um degre­
dado que Mem de Sá aprovou para ocupar um cargo político na
condição de contrair matrimônio com essa moça.2 Dessa vez, o
perdão para esse condenado foi concedido graças ao casamento.
Apesar das reclamações das autoridades coloniais a respeito do
comportamento dos degredados, eles eram muito úteis. Numa
carta dos oficiais da Câmara de São Paulo destinada à rainha Dona
Catarina e datada de 20 de maio de 1561, a propósito da guerra
entre “as pessoas da capitania e dos índios ajudados pelos france­
ses”, os oficiais pediram à rainha que enviasse para a cidade de São
Paulo de Piratininga, na capitania de São Vicente, “degredados que
não sejam ladrões”, a fim de que pudessem ser “trazidos a esta vila
para ajudarem a povoar”. Acrescentaram: “Há aqui muitas mulhe­
res da terra, mestiças, com quem casarão e povoarão a terra”.3
Além das moçoilas órfãs, muitas mulheres, “de toda qualida­
de”, foram banidas de Portugal e chegaram ao Brasil. Entre elas se
encontra, por exemplo, uma Maria Machada, “mulher de vida
pública”, solteira, a qual foi sentenciada com o degredo em
Angola, porém sua pena foi substituída por outra “porque de pre­

2 Ibidem, pp. 265-266.


3 Paulicea Lusitana Monumento Histórica, op. cit., p. 351.

64
MULHERES DE TODA QUALI DADE

sente não há navios para a dita parte de Angola e estando a ré nos


cárceres há quinze meses o degredo foi comutado para o Brasil
para sempre”.4
Não eram somente as prostitutas que chegavam degredadas
para a América portuguesa. Damas da nobreza aportaram, bani­
das, também elas, como foi o caso de Violante de Mesas, presa no
dia 27 de dezembro de 1660. Violante, 34 anos, casada, era uma
mulher pertencente a uma família fidalga. Ela tinha o privilégio de
ser chamada de dona, direito concedido somente à nobreza. Foi
acusada de judaísmo, heresia e apostasia, tendo seus bens inventa­
riados. Ela possuía, além de várias casas, olivais e herdades, mui­
tos móveis de pau santo e moscóvia, requintadas louças da China,
porcelanas da Índia e finos cristais de Veneza.5 Deixou tudo em
Portugal, levando para o Brasil somente o necessário.

4 IAN/TT, Inquisição de Lisboa, processo 11.860: Maria Machada.


5 IAN/TT, Inquisição de Évora, processo 10.716: Dona Violante de Mesas.

65
Degredados: "poviléu rafado dios emcurderros
de

O autor dos Diálogos das Grandezas do Brasil, Ambrósio


Fernandes Brandão, escreveu que o Brasil era povoado essencial­
mente por degredados e por “gente de mau viver”, sem nobreza,
privados de bens materiais e pouco habituados aos bons modos;
mas a terra lhes foi tão generosa que seus filhos gozam de uma
situação social e econômica melhor, diluindo as taras das origens.1
Dois personagens desse diálogo, Brandônio e Alviano, falam dos
degredados que ficaram ricos e cujos filhos lavaram todos os
“vícios de sua velha pele”:
Brandônio: “Haveis de saber que o Brasil é praça do mundo, se
não fazemos agravo a algum Reino ou cidade em lhe darmos tal no­
me; e, justamente, academia pública, aonde se aprende com muita
facilidade toda a polícia, bom modo de falar, honrados termos de
cortesia, saber bem negociar e outros atributos desta qualidade.”
Alviano: “Antes isso devia de ser pelo contrário, pois sabemos
que o Brasil se povoou primeiramente por degredados e gente de
mau viver, e, pelo conseguinte, pouco política; pois bastava care­
cerem de nobreza para lhes faltar a política.”

1 José Gonçalves Salvador, Os Cristãos-novos — Povoamento e Conquista do Solo


Hrasileiro (1530-1680), São Paulo, Livraria Pioneira Editora, 1976, p. 7.

67
VADIOS E CIGANOS, HERÉTICOS E BRUXAS

Brandônio: “Nisso não há dúvida. Mas deveis de saber que


esses povoadores, que primeiramente vieram a povoar o Brasil, a
poucos lanços, pela largueza da terra, deram em ser ricos, e com a
riqueza foram largando de si a ruim natureza, de que as necessida­
des e pobrezas que padeciam no Reino os fazia usar. E os filhos
dos tais, já entronizados com a mesma riqueza e governo da terra,
despiram a velha pele, como cobra usando em tudo de honradís­
simos termos, com se ajuntar a isto o haverem vindo depois a este
Estado muitos outros homens nobilíssimos e fidalgos, os quais
casaram nele e se liaram em parentesco com os da terra, em forma
que se há feito entre uma mistura de sangue assaz nobre.”2
É muito freqüente a afirmação de que o Brasil foi povoado por
desclassificados sociais de todos os tipos. Com regularidade a histo­
riografia refere-se aos degredados como sendo a ralé vinda de
Portugal. Em alguns estudos tenta-se explicar, de maneira quase
sempre determinista, o infeliz destino político brasileiro devido ao
fato de ter convergido para o Brasil “toda a escuma turva das velhas
civilizações... povo gafado do germe da decadência”.3 Os degreda­
dos, nessa ótica, são “o enxurro da sociedade continental” e “tudo
que havia de mau”,4 já que, como disse Vicente Tapajós, “o Brasil
havia sido declarado lugar de degredo, e do pior grau, para crimi­
nosos do Reino”.5 No mesmo tom fatalista, Roy Nash acrescentou

2 Ambrósio Fernandes Brandão, Diálogos da Grandeza do Brasil (1618), Imprensa


Universitária, Recife, 1962, p. 512.
3 Paulo Prado, Retrato do Brasil, São Paulo, Ibasa, 1981, p. 25, apudLaura de Mello e
Souza, O Diabo e a Terra de Santa Cruz, São Paulo, Companhia das Letras, 1986, p. 81.
4 Affonso Ruy, História Política e Administrativa da Cidade de Salvador, Salvador da
Bahia/Tipografia Beneditina Ltda., 1949, vol. I, pp. 12-13.
5 Vicente Tapajós, História do Brasil, São Paulo, Companhia Editora Nacional, 1953,
p. 67.

68
DEGREDADOS: “ POVILÉU RAFADO DOS ENXURDEI ROS” ?

que “quase tudo quanto Portugal fez pelo Brasil foi enviar duas
caravelas por ano a vomitar em seu litoral esses resíduos da socieda­
de...”6 Alberto Silva, com todo exagero, comentou: “O poviléu rafa­
do dos enxurdeiros lisboetas, a arraia-miúda anônima e miserável
de todos os tempos”.7Afonso Ruy, da mesma forma, observa: “... As
faltas dos degredados que, em assustador crescendo, eram enviados
para o Brasil, esvaziando as prisões e limpando as ruas do Reino”.8
Todas essas descrições levaram Pedro Calmon a dizer que “a
história do Brasil deveria refletir esse desequilíbrio de origem”.9
Hélio Viana teria razão quando, adotando uma posição crítica em
relação às interpretações rápidas sobre os degredados, comentava:
“Entre esses primeiros habitantes do Brasil, uma atenção especial é
merecida aos degredados e criminosos refugiados devido ao
número relativamente elevado daqueles que desembarcaram na
nova terra nos dois primeiros séculos, por causa das conclusões
exageradas que tiraram, em seus relatórios, alguns comentaristas
desse aspecto do sistema colonial português.”10
Eram, realmente, os condenados ao degredo “a escuma turva”
de Portugal? “Detritos humanos” ou “resíduos da sociedade”? Ou
todas essas considerações de nossas origens deterioradas seriam
tão-som ente instrum entos que justificariam, para muitos, os
defeitos de nossa formação?

6 Roy Nash, A Conquista do Brasil, São Paulo, Companhia Editora Nacional, 1950,
p. 126.
7 Alberto Silva, A Primeira Cidade do Brasil, Salvador, 1953, p. 211.
8 Afonso Ruy, História da Câmara Municipal da Cidade do Salvador, Salvador,
Editora da Câmara Municipal do Salvador, 1953, p. 69.
9 Pedro Calmon, História da Civilização Brasileira, Rio de Janeiro, 1932, pp. 38-39.
10 Hélio Viana, Estudos de História Colonial, p. 43, apud Vicente Tapajós, História
Administrativa do Brasil, Serviço de Documentação — DASP, 1968, pp. 62-63.

69
VADIOS E CIGANOS, HERÉTICOS E BRUXAS

As ordenações em vigor na época da colonização do Brasil pu­


niam com o degredo os mais diversos crimes, dos quais muitos
não são mais qualificados nos códigos penais modernos. Às vezes,
simples ofensas ou crimes contra a fé; por exemplo, duvidar dos
dogmas eclesiásticos ou simplesmente pretender adquirir visões
sobrenaturais condenavam os acusados ao degredo em além-mar.
As ordenações do Reino eram tão rígidas que o menor desvio do
terreno da ortodoxia religiosa e moral conduzia os acusados dian­
te dos tribunais seculares, eclesiásticos e inquisitoriais. Faltas hoje
mínimas eram consideradas crimes graves que podiam levar o
acusado à sentença morra por ello, quer dizer, “condenação à
morte”. Na época, por exemplo, jogar cartas ou dados falsificados
era um crime punível com o açoite e o degredo no Brasil.11
Ser banido, portanto, não significava necessariamente que o
réu fosse um criminoso no sentido das idéias modernas. Os delitos
não infamantes e até mesmo simples ofensas cometidas por pes­
soas consideradas de boa reputação eram punidos com a deporta­
ção. Varnhagen, comentando o Livro V das Ordenações Filipinas,
declarou que as penas eram tão rigorosas que eram condenados ao
degredo no Brasil aqueles que cometessem as faltas mais leves e até
mesmo simples pecados.1112 Os célebres poetas portugueses Camões
e Bocage sofreram, também, pena de degredo na ín d ia.13 Da
mesma forma que Dante Alighieri foi banido de Florença.

11 Ordenações Filipinas (1603), Livro V, Título LXXXI: Dos que dão música de
noite.
12 Francisco Adolfo Varnhagen, História do Brasil, São Paulo, Editora Itatiaia Ltda.-
USP, 1981, pp. 227-228.
13 Oliveira Lima, O M ovimento da Independência— O Império Brasileiro (1821-1889),
São Paulo, Editora Melhoramentos, s.d., p. 29.

70
DEGREDADOS: “ POVI LÉU RAFADO DOS ENXURDEI ROS” ?

O Livro V das Ordenações Filipinas enumera 256 delitos pu­


nidos com o degredo,14 cifra que provocou o comentário do barão
Homem de Melo: “O que nos deve a justo título admirar é que a
nação inteira não fosse degredada em massa”.15 Carlos Malheiro
Dias, em sua monum ental História da colonização portuguesa,
assim comenta: “Mas os degredados portugueses, aliás, na maio­
ria condenados por pequenos delitos, não foram mais cruéis do
que os capitães espanhóis e os arcabuzeiros britânicos.”16
Havia muitos entre os condenados que, em nossos dias,
seriam considerados inocentes no campo da liberdade de expres­
são, de escolher sua religião ou de viver sua sexualidade. Os legis­
ladores portugueses puniam com a prisão, degredo, açoite e, às
vezes, com a morte não somente os crimes como nós os definimos
hoje, mas também os pecados, os maus costumes, as imoralida­
des, certas opiniões e pensamentos.17
A legislação da época mostrava-se muito rígida; porém, na
verdade, seria grave estudar as estruturas jurídicas dos séculos
XVI e XVII com as categorias mentais de hoje. Não podemos esta­
belecer comparações e declarar, simplesmente, que “as leis crimi­
nais portuguesas eram tão draconianas e absurdas que quase nin­
guém lhes escapava” 18

14 Cassiano Ricardo, Marcha para o Oeste, São Paulo, Livraria José Olympio Edi­
tora, 1940, p. 305.
15 H élio Viana, Estudos de História Colonial, São Paulo, Companhia Editora Nacio­
nal, 1948, p. 46.
16 Carlos Malheiro Dias (org.), vol. III, op. cit., pp. XLVIII-XLIX.
17 Alfredo Ellis Júnior, Meio Século de Bandeirismo, São Paulo, Companhia Editora
Nacional, 1948, p. 14.
18 João Ribeiro, História do Brasil (curso superior), p. 69,8? edição, apud Carlos Ma­
lheiro Dias (org.), op. cit., vol. III, p. XVII.

71
VADIOS E CIGANOS, HERÉTICOS E BRUXAS

Não podemos, também, construir hipóteses do tipo determi­


nista, fundadas muito mais nas idéias que no estudo aprofunda­
do. O aspecto assustador das ordenações pode ser uma armadilha
para os leitores desatentos.
Certamente, a noção de crime era, na época, bem diferente da
que os códigos penais de hoje compilam. Todas as legislações do
Antigo Regime Português, quer as ordenações reais, quer os regi­
mentos inquisitoriais, códigos dos dois mais importantes tribu­
nais da época, consideravam os pecados como crimes muito gra­
ves porque se opunham à ordem estabelecida por Deus e pelo rei.
Numa época em que a religião estava profundamente consoli­
dada em Portugal e em toda a Península Ibérica, os delitos contra o
catolicismo não podiam ser impunes. A Igreja associou-se ao trono
na luta contra as ameaças sociais, políticas e religiosas do tempo.
Todos os reis e príncipes tinham, entre outras missões, de fazer jus­
tiça, sobretudo com relação aos pecados e às faltas contra Deus.

72
O Regimento dos De gredados

O degredo era uma prática tão comum no procedim ento


penal português do Antigo Regime que, além das dezenas ou, tal­
vez, das centenas de decretos, alvarás e provisões, existia também
0 Regimento dos Degredados. Neste documento os detalhes da
transferência da prisão para o porto de embarque são descritos
com precisão. Este minucioso regimento é datado dos primeiros
anos da dominação espanhola sobre Portugal, precisamente do
dia 27 de julho de 1582.1
Um outro documento muito importante que descreve a pos­
tura das autoridades jurídicas com relação ao preso condenado ao
degredo é o Livro V das Ordenações Filipinas de 1603, precisa­
mente o título CXLII: “per que maneira se trarão os degredados
das cadeias do Reino à cadeia de Lisboa”.12 Este título reúne as
ordens de um edito sobre os degredados datado de 3 de outubro
de 1575, ordenado pelo rei D. Sebastião.
Ambos os documentos pertencem à legislação secular; seu con­
teúdo é o mesmo, se bem que o Regimento dos Degredados

1 Regimento dos Degredados, publicado por José Anastásio de Figueiredo, Synopsis


Chronologica de Subsídios Ainda mais Raros das Sciencias, 1740, vol. II, p. 198.
2 Ordenações Filipinas, op. cit., Livro V.

73
VADIOS E CIGANOS, HERÉTICOS E BRUXAS

apresenta-se, em vários aspectos, muito mais detalhado. Os conde­


nados ao degredo eram distribuídos nas várias prisões do Reino. No
entanto, regra geral, eles eram transportados para Lisboa e, de lá,
enviados para seus lugares de degredo. Os corregedores, ouvidores,
mestrados e senhores de terras deviam, a cada três meses, levar aos
juizes das comarcas e às ouvidorias de suas jurisdições a lista de “to­
dos os degredados que hão de ir presos em ferros”. As autoridades
registravam seus “nomes e idades, e sinais que tem, e para que lugar,
e por quanto tempo são degredados, e quem deu as sentenças”.3
Uma vez conduzidos para a prisão de Lisboa, “os carcereiros
da Corte e da cidade de Lisboa entreguem logo os ferros em que os
ditos degredados vieram às pessoas que os trouxesse, para serem
levados às cadeias donde os trouxeram”.4 O escrivão dos degreda­
dos da cidade de Lisboa registrava todos os banidos num livro
numerado e assinado pelo magistrado que naquele período fosse
também o juiz dos degredados.5
Esse magistrado, nomeado juiz dos degredados, devia ir, todos
os meses, à prisão para ordenar o embarque dos condenados que
seriam levados aos navios pelo meirinho e pelo escrivão. O escrivão
dos degredados, antes da partida dos réus, registrava, um a um,
especificando o lugar do degredo num “Livro em que fará títulos
apartados, hum das Galés, outro do Brazil, outro de África”.6 O
escrivão anotava neste livro o nome do navio, do capitão, do mes­
tre ou do piloto, os quais assinavam a guia de transporte.

3 Alvará de 3 de outubro de 1575, in Ordenações Filipinas, op. cit., Livro V, título


CXLII.
4 Ibidem.
5 Ibidem.
6 Ibidem.

74
0 REGI MENTO DOS DEGREDADOS

Os condenados eram entregues aos “capitães, mestres e pilo­


tos” acompanhados por uma guia, espécie de passaporte escrito
pelo escrivão e assinado pelo magistrado. Este documento era
endereçado às autoridades dos lugares onde os réus seriam banidos.
Uma vez que desembarcados nos portos de destino, os capi­
tães eram obrigados a pedir às autoridades locais um recibo expli­
cando “como lhes entregaram a carta de guia e os degredados”.7
Depois da viagem, os mesmos capitães deveríam trazer esses reci­
bos ao magistrado que pedia ao notário que registrasse no “Livro
em que se fez o acto da entrega”. Os capitães que não obedecessem
todas estas regras eram presos e condenados. Em cada seis meses,
o juiz dos degredados controlava o livro dos embarques e da
entrega para verificar se os banidos tinham sido transportados
para seus destinos de degredo.8
As normas contidas no Regimento dos Degredados e no títu­
lo CXLII das Ordenações Filipinas eram aplicadas tanto aos
degredados provenientes da justiça secular quanto àqueles dos tri­
bunais inquisitoriais.

7 Ibidem.
8 Ibidem.

75
O d e â re d o n a s O r d e n a ç õ e s F ilip in a s d e 1 6 0 3

Nas Ordenações Afonsinas (1446), Manuelinas (1521) e


Filipinas (1603), o célebre Livro V é dedicado ao direito penal. É
lá que estão enumeradas as penas a serem aplicadas aos condena­
dos segundo o grau de seus delitos. Normalmente as penalidades
previstas são severas. A expressão que designa a pena de morte —
morra por ello — é freqüente. Mas a sentença morra por ello, bem
como a morra por isso, não significa unicamente a morte física
mas pode às vezes significar a morte civil, a qual excluía o conde­
nado de seu meio social por uma condenação ao degredo.1
Nas Filipinas, a mutilação, a marca a ferro ardente e as “penas
atrozes” são mais raras. No entanto, as torturas continuam a ser am­
plamente aplicadas: uma herança do direito romano. A aplicação da
pena do açoite aparece em quase todas as condenações, mas é reser­
vada às pessoas comuns. Os “homens de qualidade” de diferentes
níveis de nobreza beneficiam-se de alguns privilégios e, nos milha­

1 Ordenações Filipinas, op. cit., Livro V, T ítulo XIV: Do infiel que dorme com algu­
ma cristã e do cristão que dorme com infiel. “M orra p o r isso”: esta expressão não sig­
nifica m orte natural, e não tem diferença da expressão morra por ello, em vista do
que diz Silva Pereira no Rep. Das Ords., tom o 4, nota (a) à p. 38 e nota (b) à p. 41.
/Vmbas significam degredo: nota 2 da p. 1.164 das O rdenações Filipinas.

77
VADIOS E CIGANOS, HERÉTICOS E BRUXAS

res de processos inquisitoriais, constatamos claramente a desigual­


dade social. De fato, eles têm “uma posição extremamente invejável
que ajuda a explicar o desejo de enobrecimento do português dos
anos de 1600 e 1700, característica acentuada pela literatura e pelos
cronistas da época”. O célebre poeta Gil Vicente diz, na Farsa dos al­
mocreves: “Cedo não haverá vilão. Todos del-rei, todos del-rei.”2
É verdade que, nas ordenações, os nobres têm certos privilé­
gios, e o mais importante é a exclusão da pena do açoite que, por
causa do seu caráter público, desonra os condenados. O açoite era
considerado como uma pena vil e humilhante da qual todos que­
riam escapar e mesmo alguns condenados que até o momento da
condenação eram considerados comuns, os então chamados
peões, procuravam de todas as maneiras encontrar um vínculo
com a nobreza: única condição de evitar a pena infamante. Nas
Filipinas, há um título assim formulado: “Das pessoas que são
escusas de haver pena vil”. Lá se encontra a lista das profissões e
dos títulos nobres que “devem ser relevados de haver pena de
açoutes, ou degredo com baraço e pregão, por razão de privilégios
ou linhagem”.3 São estes os escudeiros dos prelados e dos fidalgos,
os escudeiros a cavalo, os moços da estribeira do rei ou da rainha,
os príncipes e os infantes, os duques, os marqueses, os prelados, os
condes ou qualquer pessoa do Conselho Real e os pajens dos fidal­
gos. Todos esses nobres deviam ser registrados nos livros reais. Os
“juizes, os procuradores, os pilotos de navios e outros” comple­
tam a lista daqueles que não mereciam o açoite.4

2 Emília Viotti da Costa, “Os primeiros povoadores do Brasil”, in Revista da Histó­


ria, ano VII, vol. XIII, 1956, São Paulo, p. 18.
3 Ordenações Filipinas, op. cit., Livro V, título CXXXVIII.
4 Ibidem.

78
0 DEGREDO NAS ORDENAÇÕES FILIPINAS DE 1603

Os fidalgos escapavam do açoite, màs, raramente, consegui­


ram evitar o degredo. Às vezes se esquivavam também da cerimô­
nia pública do auto-da-fé, onde os inquisidores faziam os peni­
tentes desfilarem em procissão solene nas principais ruas da cida­
de. Para alguns, a solenidade da leitura da sentença era secreta,
unicamente diante dos juizes, na sala do tribunal. A humilhação
pública sempre foi reservada às pessoas comuns, deixando nelas
os estigmas da vergonha.
Privilégios dos nobres à parte, as causas dos degredos eram
variadas. Os crimes que não são punidos com a pena de morte são
suscetíveis de castigos corporais determinados segundo “a condi­
ção social das pessoas, a qualidade do crime e as prescrições do
Direito”.5 Estes crimes são numerosos. Cito apenas alguns passí­
veis do degredo: “quebrar ou violar de qualquer modo a seguran­
ça real”; “matar, ferir ou ofender reféns em poder do rei, sabendo
que o eram, e sem justa razão, ou ajudá-los a fugir desse poder”;
“ajudar preso acusado de traição ou dar-lhe fuga”; “tirar do cárce­
re algum preso condenado ou confesso para evitar que se fizesse
justiça”; “matar ou ferir, por vingança, inimigo que já esteja preso
em prisão régia para se dele fazer cum prim ento de justiça”;
“matar ou ferir juiz ou oficial de justiça por fato relativo ao exer­
cício das suas funções”; “falsificar ou mandar falsificar o sinal de
algum desembargador, ouvidor, corregedor ou qualquer outro
julgador, ou algum selo autêntico que faça fé, com propósito e
intenção de causar dano ou de colher proveito”. Todos esses deli­

5 Ordenações Afonsinas, op. cit., Livro V, título II: Dos que fazem traição ou aleive
contra El Rei ou seu Estado Real.

79
VADIOS E CIGANOS, HERÉTICOS E BRUXAS

tos eram punidos com o degredo em Ceuta6 ou na ilha de São


Tomé7 ou no Brasil.8 O degredo destinado ao território brasileiro
é também o castigo daqueles que “resistem ou desobedecem aos
oficiais da justiça ou lhes dirigem palavras injuriosas”.9
Punia-se, ainda, com o degredo nas terras brasileiras “qual­
quer pessoa, homem ou m ulher” que facilitasse os encontros
galantes de uma mulher para “fazer mal de seu corpo”. O degredo
será perpétuo no caso em que a pessoa alcovitada seja “uma freira
professa, moça virgem, viúva honesta ou filha do alcoviteiro”.10
As Ordenações Filipinas, na realidade, apresentam cerca de 90
tipos de crimes punidos com o degredo no Brasil, punição esco­
lhida pela justiça portuguesa para os crimes mais graves.
Efetivamente, centenas de pessoas foram enviadas ao Brasil
durante os três séculos do período colonial, isto é, desde a chega­
da dos portugueses em 1500 até a independência em 1822. De
fato, todas essas pessoas, estando nas prisões, acarretariam enor­
mes despesas à administração real. Por que não aproveitar este
contingente, transformando-o em agente da colonização e do
povoamento das imensas terras de além-mar? Afinal, tudo era
válido para a manutenção do império.

6 Ordenações Afonsinas, op. cit., Livro V, título II: Dos que fazem traição ou aleive
contra El Rei ou seu Estado Real.
7 Ordenações Manuelinas, op. cit., Livro V, título VII: Da pena que haverá o que fa l­
sar sinal ou selo do Rey ou fazer escrituras falsas...
8 Ordenações Filipinas, op. cit, Livro V, título LIII: Dos que falsificarão sinal, ou sêllo
del-Rey, ou outros sinaes authenticos, ou sêllo.
9 Ordenações Filipinas, op. cit., Livro V, título XLIX: Dos que resistem ou desobedecem
aos Oficiais da Justiça ou lhes dizem palavras injuriosas.
>° Ordenações Filipinas, op. cit., Livro V, título XXXII: Dos Alcoviteiros e dos que em
suas cazas consentem a mulheres fazerem m al de seus corpos.

80
O Desembargo do Paço e a Casa de Suplicação

Como já constatamos, as Ordenações do Reino se ocupavam de


todos os crimes praticados no Reino. Com o estabelecimento dos
tribunais do Santo Ofício, paulatinamente, os crimes considerados
heréticos passam a pertencer aos juizes inquisitoriais. O que dizer a
respeito dos assassinos e ladrões? Muitos homicidas foram também
banidos para o Brasil, mas o Santo Ofício, mesmo tendo plena
consciência da existência de tais crimes, ignorava-os totalmente,
uma vez que eles se enquadravam nos delitos a ser julgados e puni­
dos pela justiça secular. Era o Desembargo do Paço, com as suas
repartições, que se ocupava das faltas relacionadas com a questão
civil. O termo desembargo significa despacho ou decisão escrita de
questão submetida a uma autoridade. O rei desembargava as peti­
ções que lhe eram formuladas pelos particulares, em questões de
graça ou de justiça, ou pelas cortes. Para auxiliá-lo nessa função era
assistido por desembargadores e ministros de despacho, que prepa­
ravam e executavam as decisões régias, e pouco a pouco foram rece­
bendo poderes para tomá-las em nome do rei.1 Pode-se dizer que

1 Enciclopédia Luso-Brasileira de Cultura. Lisboa, Editorial Verbo, vol. 6, 1987,


p. 1.095.

81
VADIOS E CIGANOS, HERÉTICOS E BRUXAS

este Tribunal foi estabelecido pelo rei D. João II (1481-1485). Com


efeito, este monarca, impossibilitado por problemas de saúde, de
exercer plenamente a atividade de despachar tudo por si, como era
o costume, nomeou dois ministros para auxiliá-lo. Por isso diz
Pereira e Sousa — “criou este Tribunal porque lhe deu forma”.2 Em
1833, por decreto de 3 de agosto, é extinto o Desembargo do Paço,
passando as suas atribuições de graça e mercê e de administração da
justiça para a jurisdição do Reino e dos Negócios Eclesiásticos da
Justiça.3
Os livros do Desembargo do Paço — sobretudo aqueles per­
tencentes à Repartição da Justiça e Despacho da Mesa — existentes
no Instituto dos Arquivos Nacionais/Torre do Tombo (IAN/TT),4
fornecem informações sobre os degredados provenientes da justi­
ça secular. Também no Arquivo Histórico Ultramarino, em Lisboa,
vários documentos avulsos encontrados nos Maços do Reino con­
têm informações a respeito de criminosos degredados para o
Brasil. São documentos referentes, sobretudo, aos séculos XVIII e
XIX, sem excluir, evidentemente, o século precedente.
Aos 24 de maio de 1622, por exemplo, o Desembargo do Paço
declarava que as prisões do Reino estavam repletas e nelas havia

2 Dicionário de História de Portugal, dirigido por Joel Serrão. Lisboa, Iniciativas


Editoriais, vol. 1, 1963, pp. 803-804.
3 Ana Maria Rodrigues. “Inventário Geral dos Livros do Desembargo do Paço”. M e­
mória — Torre do Tombo, n9 1, Editora Livros Horizontes, abril de 1989, p. 190.
4 O s documentos do Desembargo do Paço estão inventariados em volumes coordena­
dos por Maria do Carmo lasmins Dias Farinha. Para conhecer o conteúdo é impor­
tante consultar a bibliografia e índice que estão inseridos no volume l/3 a parte. Eles
estão na sala dos ficheiros com a seguinte referência: IAN/TT, Direcção de serviços de
arquivística, Arquivos do Tribunal do Desembargo do Paço, Inventário, Lisboa, 1999.

82
0 DESEMBARGO DO PACO E A CASA DA SUPLICAÇÃO

mais de cem condenados às galés e sugeria que a solução para o


problema seria esvaziá-las, enviando tais criminosos para o degre­
do no M aranhão e Pará.5 Alexandre Ferreira, condenado pela
Repartição da Justiça e Despacho da Mesa do Desembargo do
Paço, em 1623, obteve a comutação de seu degredo nas galés por
um exílio no estado do Maranhão.6 Serafína de Jesus pediu perdão
para liberação dos cinco anos de banimento para o Brasil, ao qual
tinha sido condenada por ter assassinado seu marido.7 Manuel da
Cunha, em 1624, que tinha sido condenado a um degredo para
Angola, pediu, porém, que seu degredo fosse para o Brasil.8
A partir dessa época, muitos condenados portugueses vieram
para o Brasil, onde, devido à falta de contingente para o recruta­
mento militar, serviram como soldados e granadeiros. Uma lista de
casais da prisão da Trafaria de Lisboa faz constar o nome de mui­
tos criminosos que foram condenados ao degredo para o Brasil e
pediram autorização para levar suas mulheres e filhos. Entre eles se
encontram degredados para Santa Catarina, Constantino Gomes
de Carvalho, 22 anos, natural de Barcelos, soldado que levou sua
mulher Maria Josefa. Outro banido foi Joaquim Álvares, 42 anos,
casado com Genoveva Ignácia, 30 anos, a qual acom panhou o
marido, levando também a filha Joaquina Rosa, de cinco anos.9
Antes do estabelecimento do Desembargo do Paço, toda

5 Arquivo H istórico U ltram arino (AHU), M aranhão, caixa 5 A, docum ento 14.
6 IAN/TT, D esem bargo do Paço, Repartição d a Justiça e D espacho da M esa, Livro 8,
f. 287.
^ IAN/TT, Ibidem, Livro 18, f. 247.
8 IAN/TT, Ibidem, Livro 11, f. 518.
9 AHU, D ocum entos avulsos, M aço do Reino, n9 2.192.

83
VADIOS E CIGANOS, HERÉTICOS E BRUXAS

questão crim inal e de natureza cível pertencia à Casa da Su-


plicação, também designado por Tribunal da Corte ou Casa de
Justiça da Corte. Era este o tribunal supremo e fora criado pelo rei
D. João I (1357-1433). Com o Desembargo do Paço houve uma
distribuição de competência, cabendo a este tribunal os assuntos
de revistas e mercês dos crimes e suas punições. Também na Torre
do Tombo, em Lisboa, encontra-se preciosa documentação for­
mada por vários livros pertencentes, entre outros, à Casa da
Suplicação, intitulados Feitos Findos/Livros dos Juízos dos Degre­
dados. Nestes grandes volumes podem ser conhecidos os muitos
condenados ao degredo: galés, domínios ultramarinos ou para o
interior de Portugal.10

10 A referência para consultas destes livros é a seguinte: IAN/TT, Feitos Findos, Li­
vros dos Juízos dos Degredados.

84
Os degredados da justiça secular

Sebastião d’Elvas e Isabel: ladrões

Na Bahia, em 1555, foi preso um homem chamado Sebastião


d’Elvas por ter cometido um roubo num dispensário de Tomé de
Sousa. Sebastião havia sido banido de Portugal por ter cometido,
também lá, um outro roubo. No Brasil, o ouvidor-geral conde­
nou-o ao açoite e a ter as orelhas cortadas,1 mas o acusado fugiu
da prisão e refugiou-se no colégio dos padres jesuítas. De lá, fez
saber ao governador Duarte da Costa que queria casar-se com
uma “jovem órfã” que havia chegado na colônia. Duarte da Costa
autorizou o casamento e escreveu ao rei, pedindo-lhe o perdão do
degredo para seu protegido.12
Isabel, por praticar alguns furtos em Portugal, foi condenada
ao degredo no Brasil. Ela chegou em Pernambuco, onde o capitão
Manuel Pereira de Azevedo, escrivão de Olinda, certificou que no
Livro dos Degredados da Câmara constava que ela havia desem­
barcado no porto do Recife no dia 8 de setembro de 1661. Isabel
viajou no navio Nossa Senhora do Rosário e Santo Antônio, cujo

1 Vários concílios proibiram esse castigo devido a sua crueldade.


2 Paulicea Lusitana M onum enta Histórica, op. cit., p. 340.

85
VADIOS E CIGANOS, HERÉTICOS E BRUXAS

capitão era Manuel Gomes Ferraz, que pediu um certificado de


entrega ao deixá-la às mãos das autoridades municipais. Isabel
tinha 35 anos quando desembarcou em terras brasileiras para
cumprir seu degredo. A viagem tinha sido muito difícil. Além da
perda de quase toda a esperança de um dia rever seus parentes e
pátria, a vida a bordo tinha sido penosa principalmente pelas con­
dições próprias à navegação (que dependia do vento) e pelas ca­
racterísticas das embarcações da época, construídas principal­
mente para o transporte de mercadorias, o que obrigava os passa­
geiros a dormirem no convés. Isabel chegou gravemente doente.3

Jácome Pinheiro e Nuno Garcia: assassinos

Jácome morava em São Vicente e tinha sido condenado “ao


degredo perpétuo nos bergantins” por ter matado sua mulher,
uma jovem mameluca. Jácome fugiu da embarcação e procurou
proteção numa igreja. Os padres da Companhia casaram-no com
uma moça, filha de um índio da vila, e suplicaram ao governador
que pedisse a Sua Alteza que o perdoasse do degredo. Os padres,
que haviam alojado esse degredado, declararam que “em terra tão
nova como esta e desprovida de coisas necessárias”4 havia
necessidade de mão-de-obra dos condenados.
O outro degredado residia na Bahia; era o pedreiro Nuno
Garcia, que tinha matado um mulato.5 Foi condenado a 11 anos

3 As referências sobre o degredo de Isabel encontram-se no processo de número 4.372


de Maria da Cruz, banida pela Inquisição de Lisboa e acusada de falso misticismo.
4 Ibidem.
5 Almeida Prado, A Bahia e as Capitanias do Centro do Brasil, São Paulo, Editora
Companhia Editora Nacional, 1948, pp. 54-55.

86
OS DEGREDADOS DA JUSTIÇA SECULAR

de degredo e, tendo já cumprido o primeiro ano, os padres jesuí­


tas fizeram um acordo: este serviría, sem soldo, durante cinco
anos nas obras da Companhia de Jesus e, em troca, ele recebería a
remissão dos outros cinco anos.6 Nos dois casos que acabamos de
citar, os perdões foram concedidos graças aos serviços que os con­
denados prestaram aos padres jesuítas.

O livro dos degredados: assassinos, ladrões, vadios e adúlteros

Na Torre do Tombo, como já afirmamos, existe uma impor­


tante coleção de documentos registrados como Feitos Findos/Li-
vros dos Juízos dos Degredados. O degredo estava tão incorpora­
do à rotina jurídica portuguesa que um corregedor do crime era
nomeado juiz dos degredados. Tomaremos como exemplo o Livro
de número 9, que contém no seu prólogo a seguinte explicação:
“O corregedor do crime do bairro da Alfama, juiz dos degredados,
numere e rubrique este livro, que há de servir de lista geral, para
se registrarem as sentenças dos condenados a degredo para os
lugares do Ultramar. Lisboa, 15 de março de 1785.”7
Ali estão anotados os sumários dos processos dos criminosos
punidos com o degredo para os diversos lugares do império por­
tuguês no além-mar: índia, Moçambique, Benguela, Cachéu,

6 Paulicea Lusitana Monumenta Histórica, op. cit., p. 341


7 IAN/TT, Feitos Findos/Livros dos Juízos dos Degredados, Livro 9. É evidente que
este é apenas um dos muitos livros dos degredados existentes na Torre do Tombo.
Os livros seguintes desta referência continuam a listar muitos outros degredados
para o Pará, Maranhão, Mato Grosso e Santa Catarina.

87
VADIOS E CIGANOS, HERÉTICOS E BRUXAS

Angola, ilha do Príncipe e Cabo Verde. Muitos desses criminosos


foram, também, enviados ao Brasil, sobretudo para o Pará e
Maranhão. Entre eles:

— Maria Joaquina, solteira, filha de Diogo José, defunto,


natural do Porto, 25 anos. Condenada em cinco anos de
degredo para o Pará, por furto.

— Manuel José Vieira de Azevedo, natural da freguesia de São


João do Bico, 30 anos. Condenado com baraço e pregão,8
em cinco anos para o Pará, por roubo.

— Tomas Ferreira da Costa, solteiro, 15 anos. Condenado, em


cinco anos de degredo para o Maranhão, por furto.

— Pedro Luís, solteiro, natural de Azambuja, 33 anos. Conde­


nado, em cinco anos de degredo para o Pará, por furto e
vadiagem.

— Manuel José, casado com Maria Teresa, natural do Porto,


25 anos. Condenado, em seis anos de degredo para o Pará,
por ferimento e furto.

— Francisco Fernandes, viúvo de Ana Maria, 25 anos. Con­


denado ao degredo por toda a vida para o Pará, por furto e
por ter fugido da cadeia.

8 “Baraço e pregão” significa que a sentença era anunciada tendo o réu uma corda
no pescoço e sendo o anúncio público.

88
OS DEGREDADOS DA JUSTIÇA SECULAR

— Francisco José Teixeira, tendeiro, 20 anos. Condenado,


com açoites, baraço e pregão, em dez anos de degredo para
o M aranhão, por furto e por ter fugido do Pará, local
designado, anteriormente, para seu degredo.

— Miguel Dias, casado com Maria dos Reis, 25 anos. Con­


denado, em dez anos de degredo para o Pará, por culpa de
uma morte.

— Francisco de Macedo, mestre de meninos, casado com


Teresa Rosa, 40 anos. Condenado perpetuam ente, em
degredo para o Rio Negro no Pará, por assassinato.

— Antónia Maria Pereira, casada com José da Costa, natural


da comarca de Bragança, 32 anos. Condenada, em cinco
anos de degredo para o Pará, por adultério.

89
Inquisição e degredo

Até aqui referi quase exclusivamente aos degredados prove­


nientes da justiça secular, os quais foram condenados pelo
Desembargo do Paço ou Casa da Suplicação. No entanto, o degre­
do foi, também, um dos castigos preferidos pelo Santo Ofício.
Esta pena se inseria na prática jurídica portuguesa desde a baixa
Idade Média. A Inquisição apenas aproveitou o sistema de bani­
mento, beneficiando-se da ampla experiência penal praticada
pelos tribunais seculares.
A Inquisição, desde o seu estabelecimento em Portugal, em
1536, utilizou a pena de degredo para os seus heréticos e pecado­
res. Os juizes, seculares e inquisitoriais, embora representando
duas instituições distintas, organizaram um tipo semelhante de
ação punitiva cujo funcionamento caminhava paralelamente. É
evidente que as jurisdições, os cárceres e os magistrados eram
diferentes (leigos e eclesiásticos). No entanto, todos os condena­
dos, provenientes dos tribunais civis ou dos tribunais inquisito­
riais, convergiam em Lisboa, num lugar comum: a prisão do
Limoeiro, onde delinqüentes e pecadores esperavam o temível dia
do embarque.

91
VADIOS E CIGANOS, HERÉTICOS E BRUXAS

O sistema de degredo, como exclusão social e possibilidade de


purgação das faltas cometidas, integrou-se perfeitamente à luta da
Inquisição pelo controle, correção, manutenção e consolidação da
ortodoxia e unidade religiosa.
Os primeiros banidos inquisitoriais de que temos conheci­
mento foram aqueles do tribunal de Évora. Eles haviam sido con­
denados no auto-da-fé do dia 23 de setembro de 1543. Trata-se de
Diogo de Azevedo, 25 anos, mercador, acusado de perjúrio e here­
sia, degredado por três anos para fora da cidade de Évora;1
Genebra Gomes, degredada por dois anos para Setúbal por ter
subornado uma testemunha;12 Cristóvão Gonçales, 23 anos, mari­
nheiro, banido por três anos para a África por ter ajudado um cri­
minoso fugitivo;3 Gaspar Mendes, condenado a três anos de
degredo para Ceuta por ter levantado uma arma dentro da igreja
de Mértola,4 e, por fim, Maria Rodrigues, banida, por falsidade,
por dois anos para fora de Évora.5É evidente que Diogo, Genebra,
Cristóvão, Gaspar e Maria são alguns nomes retirados de uma
lista de vários autos-da-fé realizados em meados do século XVI. É
natural que os primeiros degredados do Santo Ofício fossem pro­
venientes de Évora. Esta cidade, de fato, foi a primeira que viu um
tribunal inquisitorial instalado nas terras portuguesas.

1 IAN/TT, Inquisição de Évora, Listas Alfabéticas, Sala dos Ficheiros, cód. 990 A,
Livro 6: Diogo Azevedo,
2 IAN/TT, Ibidem, Livro 38: Genebra Gomes.
3 IAN/TT, Ibidem, Livro 42: Cristóvão Gonçales.
4 IAN/TT, Ibidem, Livro 66: Gaspar Mendes.
5 IAN/TT, Ibidem, Livro 92: Maria Rodrigues.

92
INQUISIÇÃO E DEGREDO

Provenientes do tribunal de Évora são também os primeiros


banidos para o Brasil. Eles foram condenados no auto-da-fé do
dia 30 de junho de 1555: Antônio Rodrigues, polígamo banido
por cinco anos,6 e Margarida Pimenta, feiticeira condenada em
três anos; todavia, esta última teve a sua pena comutada em penas
espirituais.7
A Inquisição estava muito preocupada com a manutenção da
ordem religiosa e social, e para isso não abria mão da punição dos
delinqüentes. Os juizes do Santo Ofício justificavam a correção,
através do castigo, como única forma de salvação dessas almas
pecaminosas. O degredo foi um dos mecanismos utilizados pela
Inquisição para atingir este objetivo. Degredar significa, de fato,
degradação, que era associada à necessária penitência, purgação,
expiação. Os degredados deixavam pátria, parentes e vínculos
vários. Eles partiam para o desconhecido. Neste aspecto, a
Inquisição, mais que os tribunais seculares, soube enxergar a
semelhança do degredo com o purgatório, tão em moda na época.
Degredo e purgatório se apresentam como situação de tormento e
de pena. A mística da purificação se efetiva na materialidade do
degredo e se enquadra muito bem na luta colonizadora.

h IAN/TT, Ibidem, Livro 86: Antônio Rodrigues.


7 IAN/TT, Ibidem, Livro 80: M argarida Pim enta.

93
O degredo no R egim ento Inquisitorial de 1Ó 40

O Regimento de 1640 é aquele que melhor aprofundou, na


Inquisição, as penas para cada tipo de crime, as suas circunstân­
cias e o grau social dos réus.
O Livro III especifica as “penas que hão de haver os culpados
nos crimes de que se conhece no Santo Ofício”.1Todos os delitos de
interesse dos juizes inquisitoriais e suas respectivas punições são
muito bem explicados, até mesmo as violações punidas com o
degredo para o Brasil. Por ser este Regimento um utensílio da
manutenção da fé católica, é evidente que as faltas cometidas con­
tra a religião e contra a moral sobressaem. O Santo Oficio possuía
uma jurisdição minuciosa sobre os crimes relacionados à heresia.
De fato, a Inquisição foi introduzida em Portugal com a finalidade
de fiscalizar e de punir os judeus forçadamente convertidos ao cato­
licismo, ou seus descendentes, acusados de continuarem a praticar
as crenças judaicas. As perseguições aos cristãos-novos estenderam-
se também ao protestantismo e ao islamismo, no entanto de uma

1 Regimento do Santo Oficio da Inquisição dos Reinos de Portugal, ordenado por


mandado do lim o. e Rmo. Senhor Bispo D. Francisco de Castro, Inquisidor Geral
do Conselho de Estado de S. Majestade. Em Lisboa, nos Estaos, por Manuel da Sil­
va, 1640, Livro III.

95
VADIOS E CIGANOS, HERÉTICOS E BRUXAS

maneira menos feroz do que aquela empregada contra os judaizan-


tes. Sendo assim, é raro encontrar um condenado ao degredo para
o Brasil acusado de seguir a doutrina de Maomé. Mas eles também
existem nas listas dos autos-da-fé: durante a cerimônia realizada em
Lisboa no dia 5 de maio de 1695, Manuel Cardoso, um jovem ma­
rinheiro de 23 anos, foi condenado a seis anos de degredo para as
terras brasileiras “por ter negado a fé católica e ter passado para a
seita Mafona”.2 Segundo os inquisidores, Manuel rezava para
Mafamede cujos mouros o consideravam um “santo”.
Do judaísmo, passa-se rapidamente para as práticas conside­
radas menores: blasfêmias, feitiçaria, sodomia, bigamia e outros
pecados-crimes que apresentavam algum aspecto de heterodoxia
com relação aos princípios religiosos da Igreja católica. A vocação
específica do Santo Ofício era a conservação da ortodoxia da
Mater Ecclesia e para isso utilizava o degredo, entre muitos outros
castigos, como instrumento de correção e exclusão.
Os acusados de heresia que, depois de terem sido denuncia­
dos à Inquisição, confessassem seus crimes mostrando sinais de
verdadeiro arrependimento, eram recebidos no Grêmio e União
da Santa Madre Igreja. Como penitentes contritos, eles iam ao
auto-da-fé vestindo o hábito penitencial — sambenito — e leva­
vam uma vela acesa na mão. No lugar onde era realizada a cerimô­
nia, geralmente na praça central da cidade ou numa igreja conhe­
cida, eles escutavam suas sentenças e pronunciavam a abjuração
com a cabeça descoberta. Eram ainda punidos com penas espiri­
tuais: doutrinação nos mistérios da fé, missas, peregrinações.

2 IAN/TT, Conselho-Geral do Santo Ofício, Inquisição de Lisboa, Livro 435.

96
0 DEGREDO NO REGI MENTO INQUISITORIAL DE 1640

No Regimento de 1640 nota-se, quando comparado com os


regimentos anteriores, uma maior sistematização da experiência
dos tribunais inquisitoriais instalados em Portugal. Os inquisidores
tinham plena consciência da importância deste Regimento. No
entanto, também eles, como juizes da fé, deveríam ter nas suas salas
e consultá-las, se necessário, as Ordenações do Reino. Juntos, Trono
e Altar, com suas múltiplas regras e leis, ditavam comportamentos,
excluíam heterodoxos, degredavam indesejados.
O Regimento de 1640 permaneceu em vigor até a época do
Marquês de Pombal. Em 1774 foi elaborado o último Regimento
do Santo Ofício português.3

3 Em 1722, o padre Francisco Carneiro de Figueiroa, Reitor e “doutor em Direito


Civil pela Universidade de Coimbra”, escreveu um Regimento em três volum es que
não foram publicados, in Grande Enciclopédia Portuguesa e Brasileira, Lisboa —
Rio de Janeiro, Editorial Enciclopédia, verbete Francisco Carneiro de Figueiroa,
vol. XI, apud Rachel Mizrahi Bromberg. A Inquisição no Brasil: um capitão-mor
judaizante, FFLCH/USP, Centro de Estudos Judaicos, 1984, p. 56.

97
O s de greclaclos cia Inquisição

Francisco, Leonor, Maria e Ana: cristãos-novos

Francisco Álvares, solteiro, soldado da Infantaria, filho de


Pedro Afonso e Maria Lopes, foi condenado, no auto-da-fé do dia
12 de novembro de 1662. Ele foi acusado de judaísmo e apostasia.
Todos os seus bens foram confiscados e, além do sambenito,
Francisco foi também condenado a cinco anos de degredo para o
Brasil. O réu tinha sido relaxado, mas, por ter confessado suas cul­
pas, conseguiu escapar da fogueira.1
Leonor Dias, nascida em Lisboa e domiciliada em Loulé, casa­
da com o trabalhador agrícola Luís Gonçalves, foi presa em 1644.
O Santo Ofício acusou-a de judaísmo e heresia. Interrogada pelos
inquisidores, ela contradisse todas as acusações. Os ministros da
fé insistiram, mas a mulher continuou fiel nas suas negações e
consequentemente foi condenada à fogueira. Apavorada e aos
prantos pediu uma outra audiência e “confessou completamente”
suas culpas. No auto-da-fé do dia 18 de novembro de 1646, a ré
ouviu sua sentença: confisco dos bens, abjuração pública da fé,

1IAN/TT, Inquisição de Évora, processo 2.463: Francisco Álvares.

99
VADIOS E CIGANOS, HERÉTICOS E BRUXAS

prisão e sambenito “com insígnias de fogo” sem remissão. Como


se não bastasse, foi ainda degredada por sete anos para o Brasil.2
Maria Dias, 64 anos, viúva de Pedro M artins, acusada de
judaísmo, foi condenada pelo Tribunal de Évora, no auto-da-fé do
dia 9 de outubro de 1695, em três anos de banim ento para o
Brasil. Antes do veredicto, Maria foi considerada “impenitente”,
pois não havia confessado seus crimes. Aos 31 de maio de 1695 foi
condenada à pena capital. Severamente admoestada e coagida
pelos inquisidores, obteve a comutação de sua pena depois de
denunciar seu irmão Antônio Martins e sua tia Catarina Dias. Os
ministros do Santo Ofício extraíram suas culpas através dos pro­
cessos de suas irmãs Maria Nunes e Inês Nunes, de sua filha Maria
Rodrigues, de seu irmão Antônio Martins e de sua sobrinha Inês
Gonçalves.3 Sua família havia sido destroçada pelo Santo Ofício.
Ana de Ávila, cristã-nova, filha do mercador Antônio Gomes
e Maria Henriques, foi condenada pela Inquisição de Lisboa no
dia 31 de março de 1669. Nessa ocasião, ela recebeu unicamente
algumas penas espirituais. Mais tarde, aos 14 de junho 1682, foi
presa pela Inquisição de Évora, que a acusou de reincidência. Ana
de Ávila foi denunciada pelos irmãos que se encontravam encar­
cerados na Inquisição de Sevilha, onde a comunidade portuguesa
era muito representativa. Na realidade, “a quarta parte dos habi­
tantes do lugar era de origem portuguesa” e “em algumas ruas
falava-se mais o português que a língua local”.4 Acusada de “guar­

2 IAN/TT, Inquisição de Évora, processo 9.799: Leonor Dias.


3 IAN/TT, Inquisição de Évora, processo 5.624: Maria Dias.
4 Manuel Serafim de Faria, Notícias de Portugal, apud Lúcio de Azevedo, História
dos Cristãos-novosportugueses, Lisboa, 1921, p. 205.

100
OS DEGREDADOS DA INQUISIÇÃO

dar os sábados”, de comer pão ázimo, de fazer “jejuns do mês de


setembro e da Rainha Esther e de abster-se de certos alimentos”,
Ana, que nesta época era solteira e tinha 35 anos, foi condenada a
quatro anos de degredo para o Brasil. Além do mais, pagou 40.000
réis para as despesas do Santo Ofício.5
Se quisermos estabelecer uma tipologia dos cristãos-novos de­
gredados para o Brasil analisando os processos inquisitoriais, pode­
mos, na primeira leitura, afirmar que eles eram predominantemen-
te católicos tanto na prática como na fé. No entanto, devemos estar
atentos e não generalizar esta afirmação, pois é muito difícil saber
até que ponto todas estas confissões foram sinceras. É evidente que
ninguém denunciava parentes e amigos assim de mão beijada. Nes­
ses interrogatórios massacrantes, o entendimento dos prisioneiros
era completamente perturbado pela pedagogia inquisitorial. Após
as inúmeras sessões de inquéritos e torturas, eles não compreen­
diam mais nada. A consciência de ter traído sua religião, o desejo de
salvar sua vida e a de seus familiares, o remorso de ter denunciado
parentes e amigos, o desconforto das prisões, a fadiga... Tudo,
enfim, confundia suas mentes. Eram eles católicos ou criptojudai-
zantes? “As várias gerações passadas no catolicismo — afirma Anita
Novinsky— se não tornaram os cristãos-novos bons católicos, tam­
bém não conseguiram fazer deles, na maior parte das vezes, bons ju­
deus (...) é considerado judeu pelos cristãos e cristão pelos judeus
(...) o cristão-novo cria suas próprias defesas contra um mundo
onde ele não se encontra. É antes de tudo um cristão-novo.”6

5 IAN/TT, Inquisição de Évora, processo 11.077: Ana de Ávila.


6 Anita Novinsky, Cristãos-novos na Bahia, Editora Perspectiva, São Paulo, 1972,
pp. 160-161.

101
VADIOS E CIGANOS, HERÉTICOS E BRUXAS

A grande maioria dos réus condenados com o degredo para o


Brasil é composta pelos cristãos-novos, o que representa mais de
52% do contingente de prisioneiros que aguardavam o dia do em­
barque. Os tribunais da Inquisição foram, antes de tudo, criados
para perseguir os seguidores da Lei de Moisés: uma “monocultura”,
como salientou o historiador português Francisco Bethencourt.7

Maria Ferreira: bígama

O processo de Maria Ferreira, mulher de 50 anos, condenada


em 1673 a sete anos de degredo no Brasil, é uma ótima referência
do olhar jurídico do tribunal do Santo Ofício sobre a bigamia:
“Acordam os Inquisidores, O rdinário e Deputados da Santa
Inquisição que vistos estes Autos, culpar Maria Ferreira, mulher de
João André que foi siseiro, natural e m orador desta cidade de
Lisboa, ré presa presente está porque se mostra que sendo cristã
batizada e obrigada a ter e crer tudo o que tem, crê e ensina a Santa
Madre Igreja de Roma, guardar seus preceitos e tratar com grande
respeito e veneração os sacramentos da mesma Igreja: ella o fez
pelo contrário e de certo tempo esta parte esquecida de sua obriga­
ção, com grande atrevimento, pouco temor de Deus Nosso Senhor,
em grave dano de sua Alma e escândalo dos fiéis, sendo casada e
recebida em face da Igreja por palavras de presente, na forma do
Sagrado Concilio tridentino, na igreja matriz da vila de Sertã com

7 Francisco Bethencourt, “A Inquisição”, in Ivette Kace Centeno (org.), Portugal:


mitos revisitados, Lisboa, Salamandra, 1993, p. 110.

102
OS DEGREDADOS DA INQUISIÇÃO

o dito João André e fazendo, com ele, vida marital de huas portas
adentro, por espaço de algum tempo, se ausentou para esta cidade
e se casou segunda vez na sobredita forma com Domingos Ribeiro
na igreja de São Cristóvão, fazendo-se apregoar e justificando que
era solteira. E falecendo o dito Domingos Ribeiro, se casou tercei­
ra vez na mesma forma, e na mesma igreja de São Cristóvão, com
Antônio Rodrigues, com o qual fez também vida marital de huas
portas adentro por espaço de hum anno, sendo ainda vivo o dito
João André, seu primeiro e legítimo marido. O que tudo visto e a
presunção que contra a ré resulta de não sentir bem das coisas de
nossa Santa Fé Católica e em particular do Santo Sacramento do
Matrimônio e ter o erro dos que afirmam que pode um homem ou
mulher licitamente casar segunda vez, sendo seu primeiro marido
ou mulher vivos. Com o mais que os Autos resulta, mandam que a
ré Maria Ferreira em pena e penitência das ditas culpas vá ao auto-
da-fé público em corpo, com vela acesa na mão e nele ouça sua
sentença e faça abjuração de leve suspeita na Fé e por tal a decla­
ram; e será açoitada pelas ruas públicas desta cidade citra sanguinis
effusionem (sem derram am ento de sangue) e a degredam por
tempo de sete anos para o Estado do Brasil; e terá cárcere a arbítrio
dos Inquisidores, onde será instruída nos mistérios da Fé necessá­
rios para a salvação de sua alma, e cumprirá as mais penas e peni­
tências espirituais que lhe forem impostas. E pague as custas.”8
Suas penitências espirituais foram: “Neste primeiro ano confessará
nas quatro festas principais: Páscoa da Ressurreição, Espírito

8 IAN/TT, Inquisição de Lisboa, processo 73: Maria Ferreira, Auto-da-fé do dia 10


de dezembro de 1673.

103
VADIOS E CIGANOS, HERÉTICOS E BRUXAS

Santo, Assunção de Nossa Senhora e Natal, com licença do confes­


sor, comungará. Neste mesmo ano rezará, a cada semana, um terço
do rosário à Virgem Nossa Senhora e, cada sexta-feira, cinco pai-
nossos e cinco ave-marias em honra das chagas de Cristo Nosso
Senhor e irá cumprir, para o Estado do Brasil, os sete anos de
degredo.” A bígama, depois de prometer cumprir todas as penas,
foi conduzida para a prisão dos degredados.9

Beata Maria Dias: falsa visionária

A beata Maria Dias era considerada pela população do Burgo


das Celas como uma santinha. Toda a redondeza de Coimbra
conhecia suas visões e revelações divinas. Normalmente, depois
de ter recebido o sacramento da Eucaristia, ela entrava em êxtase.
Seus arrebatamentos públicos indicavam que era uma privilegia­
da de Deus, o qual lhe concedia graças extraordinárias. Afirmava,
entre muitas outras coisas, que os santos da corte celestial lhe apa­
reciam e que podia ter respostas, reveladas diretamente por Deus,
para conhecer o futuro.
Nos anos 80 do século XVI, os rumores das visões de Maria
Dias chegaram ao palácio inquisitorial de Coimbra e os inquisi­
dores imediatamente ordenaram o encarceramento da “santa de
Celas”. Diante do Conselho-Geral do Santo Ofício ela recebeu
ordens de declarar a verdade sobre tudo aquilo que lhe havia sido
revelado por Deus e confessou, nos mínimos detalhes, os favores

9 Ibidem.

104
OS DEGREDADOS DA INQUISIÇÃO

que o Senhor lhe concedera. Maria disse que durante 25 anos


tinha sempre feito muitas penitências e que algumas vezes, com
uma grande força do espírito, a qual não podia resistir, ela caía em
profundo arrebatam ento e podia comunicar-se com o outro
mundo. Uma certa vez, Deus lhe revelara o Além abrindo as por­
tas muito estritas do Céu onde ela entrou e viu muitas belas cida­
des com suas ricas capelas de deslumbrante beleza. Depois desta
visão gloriosa da cidade celeste, estando em profunda oração,
Cristo lhe apareceu para mostrar suas chagas, revelando-lhe que
aquelas feridas tinham sido provocadas pela ingratidão dos
homens. Uma outra vez foi arrebatada para um lugar terrível e
assustador, onde havia muitas línguas de fogo, o qual lhe parecia
ser o lugar onde as almas purgavam seus pecados. Por causa deste
aspecto terrificante, ela pensou imediatamente que ali era o infer­
no ou o purgatório. A devota Maria Dias continuou a revelar aos
juizes da Inquisição todas as outras visões místicas que havia ex­
perimentado. Afirmou ainda que numa quinta-feira da Quares­
ma, após ter recebido a hóstia consagrada, entrou em êxtase e
escutou um suavíssimo canto e perguntou o que significava aque­
la tão doce melodia. Foi-lhe respondido, em espírito, que um reli­
gioso do convento onde ela tinha participado da missa saía,
naquele m om ento, do purgatório para ser levado ao paraíso.
Mesmo sendo uma mulher inofensiva, os inquisidores julgaram
que as suas visões e milagres eram todos fingidos. Maria Dias foi
açoitada e condenada a dez anos de degredo no Brasil.10

10IAN/TT, Inquisição de Coimbra, processo 321: Maria Dias.

105
VADIOS E CIGANOS, HERÉTICOS E BRUXAS

Antônio Luís: blasfemador

Por causa de suas blasfêmias, Antônio Luís de Meneses, “judeu


da nação e convertido à fé católica”, 38 anos, casado, sem trabalho,
nativo de Alger e residente em Lisboa, foi preso pela Inquisição. Ele
afirmou publicamente, em alto e bom tom, que as pessoas que
viviam segundo a lei de Cristo eram tão infames quanto “a lama da
rua”. Continuou suas afirmações dizendo que negava a fé de Cristo,
que queria morrer pela fé de Moisés e que lamentava muito ser
batizado. Essas palavras, “heréticas, temerárias e escandalosas”,
continham os ingredientes perfeitos para uma condenação inqui-
sitorial: a negação da fé católica e a afirmação da lei judaica. Depois
da abjuração, Antônio Luís foi condenado a três anos de degredo
no Brasil, “de onde não sairá sem a autorização deste tribunal”. Ele
foi conduzido à prisão dos degredados para esperar o dia de seu
embarque. Em 19 de janeiro de 1647, Andréa das Neves, sua
mulher, pediu aos inquisidores a anulação de seu casamento, pois,
segundo ela, Antônio Luís “é homem tribulento e sugador”.11 Ela
queixava-se de que seu marido a ameaçava constantemente, dizen­
do que pediria autorização ao Santo Ofício para poder voltar à sua
casa, a fim de matá-la e tomar-lhe todos os bens. A mulher, ame­
drontada, suplicava aos inquisidores que pelo amor de Deus con­
cedesse autorização “para a dita separação”. Como normalmente o
Santo Ofício confiscava os bens do condenado, Andréa pediu,
ainda, que lhe deixassem o patrimônio “para sua sustentação e a de
seu filho, pois não tem outro recurso senão Deus”.*12

o IAN/TT, Inquisição de Lisboa, processo 5.703; Antônio Luís de Meneses.


12 Ibidem.

106
OS DEGREDADOS DA INQUISIÇÃO

Isabel Gonçalves: falsária

Isabel Gonçalves e seu marido, o pastor de ovelhas João Mar­


tins, para se vingarem do padre Domingos Francisco Valente,
vigário de Carniçais, um lugarejo do arcebispado de Braga, conce­
beram um plano para denunciá-lo ao Santo Ofício. Isabel, 30
anos, foi até a sala da Inquisição de Coimbra para declarar que o
padre Domingos a tinha solicitado para certas obscenidades
durante o ato sacramental da confissão. Os inquisidores descobri­
ram que as denúncias de Isabel eram falsas e enganosas. Por esse
crime, a culpada foi admoestada e confessou o ódio que ela e seu
marido tinham contra o padre Domingos. Para levar a cabo sua
vingança, ela declarou que foi incentivada pelo marido que lhe
sugeriu indicar “o tempo e o lugar onde o dito padre a tinha soli­
citado várias vezes”. Isabel confessou que tudo era falso e que ela
fez isso para se vingar de algumas dívidas que o clérigo tinha para
com o seu marido. O padre confessor saiu ileso dessa acusação e o
casal foi castigado. Marido e mulher, no auto-da-fé do dia 1? de
junho de 1691, foram condenados a 5 anos de degredo para o
Brasil.13 Nesse mesmo auto-da-fé, João Luís, 35 anos, agricultor,
foi condenado a três anos de degredo nas galés, por ter feito um
falso testemunho.14

13 IAN/TT, Inquisição de Coimbra, processo 7.142: Isabel Gonçalves, e processo


7.897: João Martins.
14 IAN/TT, Conselho-Geral do Santo Ofício, Inquisição de Coimbra, Livro 433.

107
VADIOS E CIGANOS, HERÉTICOS E BRUXAS

Antônio da Vila dos Arcos de Valdevez: sodomita

Antônio Nogueira, morador da Vila dos Arcos de Valdevez,


solteiro, 20 anos, “induzido pelo demônio, cometeu e.consumou o
abominável pecado de sodomia contra natura” e, “tendo visto
com o mais que dos autos consta, a qualidade das culpas do réu em
cometer tal horrendo e abominável crime, por cujo respeito a ira
de Deus abrasou as cidades infames de Sodoma e Gomorra”, que
ele sofra como penitência de suas culpas a vergonha pública do
“auto-da-fé na forma costumada”, que seja “açoitado pelas ruas
públicas desta cidade e degredado por tempo de cinco anos no
estado do Brasil”. No auto-da-fé do dia 18 de julho de 1656,
Antônio recebeu sua sentença e, no dia seguinte, acompanhado
por João Mendes, meirinho da Inquisição de Coimbra, foi condu­
zido à prisão de Lisboa. Antônio tinha 18 anos quando cometeu o
nefando com o frei Thomas Barreto, um religioso que estava de
passagem na Vila dos Arcos de Valdevez para pregar a Quaresma.15

Padre Domingos: confessor sedutor

Se o confessor não estivesse muito atento e decidido, ele pode-


ria não ser o mensageiro da clemência divina, mas um instrumento
de solicitação ao pecado. O padre Domingos Gonçalves dos Santos,
domiciliado em Travessos, Termo da Vila do Monte Alegre, no arce-

15 IAN/TT, Inquisição de Coimbra, processo 4.058: Antônio Nogueira.

108
OS DEGREDADOS DA INQUISIÇÃO

bispado de Braga, foi denunciado à Inquisição de Coimbra por


Custódia Carneira, 30 anos, mulher de João Francisco. Maria reve­
lou aos inquisidores que, em 1716, no mês de maio, ela tinha ido se
confessar com o padre Domingos e que, durante o sacramento, o
clérigo lhe perguntou se tinha filhos. Maria Custódia respondeu
que não os tinha. Então, o confessor lhe propôs de se encontrar com
ele, pois, talvez, ela pudesse tê-los. Continuando seu discurso
“torpe e desonesto”, a penitente lhe falou que tais palavras não eram
apropriadas e que seu marido podia vir a saber desta sua proposta.
O padre, para tranqüilizá-la, respondeu que seu esposo nunca sabe­
ría daquele diálogo secreto, pois eles estavam no confessionário.
Ledo engano deste nosso insensato clérigo. Maria Custódia o
denunciou e o padre Domingos foi encarcerado, sendo, posterior­
mente, condenado a seis anos de degredo no Brasil. Sua sentença
foi lida pelos juizes da fé aos 17 de fevereiro de 1717. No dia do
embarque ele foi entregue a Manuel Saldanha Marinho, capitão
do navio Nossa Senhora da Conceição. Na Bahia de Todos os
Santos, local do seu degredo, ele apresentou-se diante de João
Calmon, chantre da Sé da Bahia e comissário no Brasil do Santo
Ofício da Inquisição de Lisboa.

Maria Silva: feiticeira

Maria Silva, mulher de João Esteves, um marinheiro que partiu


para a índia e jamais retornou a sua casa, foi encarcerada pela
Inquisição de Lisboa em 1664. Ao longo do primeiro interrogató­

109
VADIOS E CIGANOS, HERÉTICOS E BRUXAS

rio, os inquisidores perguntaram-lhe se sabia o porquê de estar


presa. Maria não hesitou em dizer que “certamente era devido aos
falsos testemunhos de seus inimigos que queriam prejudicá-la”.
Mas o Santo Ofício sabia bem os motivos, pois a acusada, uma
mulher analfabeta de 40 anos, já havia sido denunciada por três
outras mulheres: Maria Lourenço, 43 anos; Madalena Cosme, 50
anos, e Máxima Moreira, 19 anos; todas com ciúmes de seus sorti­
légios, provocadores “de amizades ilícitas”.
Maria era uma feiticeira muito requisitada para ajudar certas
pessoas a realizar casamentos e encontros “desonestos”. Com uma
pequena pedra d’ara16 ‘batizada” em três pias de água benta, Maria
da Silva dava de beber à pessoa a qual ela pretendia obrigar a von­
tade. Mas seus sortilégios não paravam aí. Ela invocava e adorava o
Demônio, acendendo várias velas verdes diante de um quadro
onde estava pintado o rosto do Diabo e, nua, ela o invocava,
chamando-o Diabo manco. Ao longo de todo o processo ela negou
as acusações e, como era costume do Santo Ofício para aqueles que
não queriam confessar, ela foi conduzida à câmara de torturas.
Mesmo com as dores do suplício, continuava a dizer que as acusa­
ções eram falsas e que ela não tinha faltas a confessar. Sentaram-na
no tam borete e am arraram -na. Desesperada, ela gritava pela
“Virgem dos Necessitados” pedindo misericórdia. No auto-da-fé
de 17 de agosto de 1664, ela foi condenada a cinco anos de degre­
do no Brasil e, em seguida, ainda na prisão, foi instruída nos mis­
térios da fé. Antes de deixar o cárcere, confessou e comungou.17

16 Pedra d’ara é uma pedra sagrada sobre a qual se estende o corporal no altar das
igrejas.
17IAN/TT, Inquisição de Lisboa, processo 7.020: Maria da Silva.

110
O s ciganos degredacLos

Somente no final do século XVII é que podemos ver generali­


zado o degredo de ciganos para o Brasil. Bandos deles, provenien­
tes de Castela, entravam em Portugal. Sua Majestade D. Pedro, rei
de Portugal e Algarves, preocupadíssimo com a “inundação de
gente tão ociosa e prejudicial por sua vida e costumes, andando
armados para melhor cometerem seus assaltos”, decidiu determi­
nar, por decreto, que, além do degredo para a África já estabeleci­
do nas Ordenações Filipinas de 1603, eles seriam também degre­
dados para o Brasil: “Tendo resoluto que os ciganos e ciganas se
pratique a lei, assim nesta corte, como nas mais terras do Reino;
com declaração que os anos que a mesma lei lhes impõem para
África, sejam para o Maranhão, e que os Ministros que assim o
não executarem, lhes seja dado em culpa para serem castigados,
conforme o dolo e omissão que sobre este particular tiverem.”1
Esta resolução real foi estabelecida em 1686; porém, um século
antes, em 1574, durante o reinado de D. Sebastião, o cigano João

1 Decreto em que se m andou comutar o degredo de África para o Maranhão, in


F. A. Coelho, Os ciganos de Portugal, Lisboa, Imprensa Nacional, 1892, p. 253,
documento 23.

111
VADIOS E CIGANOS, HERÉTICOS E BRUXAS

Torres, preso na cadeia do Limoeiro de Lisboa, foi condenado a


cinco anos de degredo nas galés. Estando ele na prisão, padecendo
à míngua, “fraco e quebrado” e não podendo “servir em cousa de
mar” devido sua debilidade física, e sendo muito pobre “que não
tinha nada de seu”, pediu a comutação de sua pena nas galés para
o degredo no Brasil e “para sempre”. Seus cinco anos de galés
foram comutados “em outros cinco anos de degredo no Brasil”,
onde ele levou sua mulher Angelina e seus filhos.2
Degredadas de Portugal, algumas ciganas que viviam no Brasil
na época da primeira visitação do Santo Ofício na Bahia— Violan-
te Fernandes, viúva de um cigano degredado por furtos de burros;
Maria Fernandes e Apolônia Bustamente — pareciam irritadíssi­
mas com as abundantes chuvas que caíam incessantemente naque­
le período. Usando de palavras indecorosas contra Deus e a fé cató­
lica, resolveram grotescamente atribuir a Deus todos os incômodos
das chuvas. Blasfemaram dizendo que Deus urinava sobre elas.3
Uma outra cigana, Inez Mendes de Andrade, natural da Bahia
de Todos os Santos e moradora no Porto dos Calvos, bispado de
Pernambuco, era filha dos ciganos Francisco de Andrade e de Isabel
da Mota. Casada na capela de Santa Catarina da freguesia de
Cotegipe na Bahia, após 10 meses de vida marital, ausentou-se para
Pernambuco e casou-se novamente com Simão de Araújo na igreja
da Moribeca, fazendo-se apregoar por solteira. Para realizar seu

2 F. A. Coelho, op. cit., p. 232, docum ento 5.


3 Primeira Visitação do Santo Oficio às partes do Brasil pelo licenciado Heitor Furtado
de Mendonça, Confissões da Bahia: 1591-1592, prefácio de Capistrano de Abreu, Rio
de Janeiro, F. Briguet, 1935, pp. 58 e 128.

112
OS CIGANOS DEGREDADOS

segundo m atrim ônio ela forjou testemunhas e declarações ao


pároco, porém “sendo tudo falso”. Presa e levada para os cárceres de
Lisboa, confessou que, quando se casou pela primeira vez, tinha
apenas 12 anos completos e que “nunca o dito marido pôde consu­
mar com ela o matrimônio” e que ela havia pedido anulação do
casamento, mas não esperara a sentença definitiva do juiz eclesiás­
tico. Do segundo casamento teve três filhos e trouxera a Lisboa um
deles “por ser ainda de leite”. Inez Mendes Andrade saiu no auto-
da-fé do dia 10 de abril de 1691 e foi condenada ao degredo para a
Bahia aonde nunca chegou. Ficou no cárcere do Limoeiro ainda
sete meses. Não sabemos exatamente o que se passou lá, mas a
nossa baiana de 22 anos, acompanhada do filho recém-nascido, a
qual “confessou logo, tanto que a primeira vez veio à Mesa”, não
suportou a longa espera. No dia 7 de novembro de 1691, o carcerei­
ro da prisão informou que “os senhores inquisidores me mandam
fizesse aqui declaração de como Inez Andrade falecera no Limoeiro
desta cidade onde estava presa para ir cumprir seu degredo”.4
A Metrópole despejou seus “criminosos” nas terras coloniais
ultramarinas, particularmente no Brasil e África. A colônia, por
sua vez, degredou seus elementos indesejáveis e “gentes inúteis”
para outras capitanias e continentes. Exclusão social? Certo. Mas
não somente. Representava também o degredo um remédio, um
elixir milagroso, capaz de provocar a expiação e regeneração dos
crimes e pecados cometidos? O degredo possibilitou à Metrópole
livrar-se de seu contingente populacional, considerado inútil e

4 IAN/TT, Inquisição de Lisboa, processo 10291.

113
VADIOS E CIGANOS, HERÉTICOS E BRUXAS

perigoso e, ao mesmo tempo, ofereceu a possibilidade de purificar


a alma dos culpados: Miserere mei Deus, secunâum misericordiam
tuam... Amplius lava me ab iniquitate mea, et a pecato meo munda
me.5 Neste prisma o degredo funcionou como um nítido rito de
purificação.

5 Miserere, Salmo 50.

114
Ta:rnLem os escravos eram LanicLos

Até mesmo os escravos, embora sendo propriedades de seus


senhores, foram incluídos no sistema de degredo. Nas enormes lis­
tas inquisitoriais dos réus condenados ao banimento são encontra­
dos, aqui e ali, nomes de alguns escravos considerados heréticos.
Entre os quase quatro mil nomes dos degredados que com­
põem as listas das Inquisições de Lisboa, Coimbra e Évora, identifi­
camos 28 escravos e mais 12 negros alforriados, além da mulher de
um escravo que, deduzimos, era também uma escrava.1
Eis alguns deles à guisa de exemplos:
Marcos Rebello, escravo negro pertencente ao Conde de
Vinhão, acusado de sodomia e condenado, no dia 27 de maio de
1645, a dez anos de degredo para a ilha do Príncipe.
Manuel, 40 anos, negro forro, acusado de feitiçaria e pacto
com o demônio, condenado, no dia 9 de julho de 1713, a três anos
de degredo para o Brasil.
Luiza Pinta, 51 anos, negra alforriada, solteira, natural de An­
gola e domiciliada em Sabará, Minas Gerais, acusada de feitiçaria e
condenada, no dia 21 de junho de 1744, a quatro anos de degredo
para Castro Marim, cidade situada no Algarve, sul de Portugal.

1Até o m om ento atual de minha pesquisa os escravos banidos são 41.

115
VADIOS E CIGANOS, HERÉTICOS E BRUXAS

Lourença Corrêa Lopes, 30 anos, escrava do sargento Antônio


Figueiredo de Almeida, casada com Pedro Banguer, tam bém
escravo, natural de Olinda, arcebispado de Pernambuco e domici­
liada em São João de Meriti, Rio de Janeiro, acusada de bigamia e
condenada, no dia 16 de outubro de 1746, a cinco anos de degre­
do para Castro Marim.2
Estevão Luiz, 82 anos, “escravo que agora está alforriado”,
acusado de feitiçaria, condenado, no dia 10 de dezembro de 1690,
a seis anos de degredo para o Brasil.3
Mais da metade dos escravos banidos (cerca de 56%) foram
condenados pelo crime de feitiçaria, pacto com o demônio e curas
supersticiosas e, a maioria, morava no Brasil (36%): Rio de Janei­
ro, Bahia e Minas Gerais. Quase todos são homens (88%). Suas
idades variam de 19 a 82 anos; no entanto, 70% deles possuem
mais de 40 anos. Eles são originários da Costa da Mina, Angola ou
nascidos no Brasil. Dos que moravam no Brasil quase todos foram
banidos para Castro Marim, um porto marítimo designado pela
Coroa portuguesa, desde 1421, a ser local de couto e homizio para
os perseguidos da justiça.
Normalmente quando um condenado ao degredo era entre­
gue no lugar onde devia purgar seus crimes, ele estava livre e
podia inserir-se no m undo do trabalho, sem, evidentemente,
poder sair do seu degredo. E o escravo, uma vez banido, continua­
va a pertencer ao seu senhor? Havia um estatuto, uma regra, dife­
rente para ele? Como explicar que alguns escravos brasileiros

2 IAN/TT, Conselho-Geral do Santo Ofício, Inquisição de Lisboa, Livro 435.


3 IAN/TT, Conselho-Geral do Santo Ofício, Inquisição de Évora, Livro 434 e Listas
alfabéticas dos réus da Inquisição de Évora 990A, Livros 1 a!09.

116
TA MB ÉM OS ESCRAVOS ERAM BANIDOS

foram banidos para Portugal? Representa esta atitude uma con­


tradição do sistema de degredo? Eis aqui uma outra questão a ser
resolvida que abre ao historiador muitos elementos para novas
pesquisas. Como viveram os escravos degredados? Continuaram
escravos? Qual foi a atitude de seus antigos senhores ao perdê-los?
Tantas hipóteses, no entanto as pistas estão anunciadas.
O processo de Domingos Álvares aponta-nos alguns indícios
importantes. Ele tinha 45 anos e era escravo de José Cardoso de
Almeida. Nascido em Nagô, na Costa da Mina, filho de Alfuage e
de Ocanon, domiciliado no Rio de Janeiro, Domingos foi acusado
de feitiçaria, condenado, no dia 21 de junho de 1744, a quatro
anos de degredo para Castro Marim. Além do degredo lhe foi
proibido de nunca mais voltar ao Rio de Janeiro.
Domingos Álvares partiu para Portugal onde deveria cumprir
seu banimento. Uma vez em Castro Marim, foi novamente preso,
no dia 9 de agosto de 1747, porque durante seu degredo ele conti­
nuava a fazer suas curas supersticiosas. Utilizava várias ervas cozi­
das e ossos do peito de cágado misturados com açúcar e outros
ingredientes. No auto-da-fé do dia 20 de outubro de 1749 ele foi
condenado a um outro degredo de quatro anos. Desta vez seu des­
tino foi a cidade de Bragança. Antes de cumprir a pena foi açoita­
do pelas ruas públicas de Évora e doutrinado na fé para melhor
aprender sobre as verdades da religião católica.4

4 IAN/TT, C onselho-G eral do Santo O fício, Inquisição de Évora, Livro 434


Processo 7.759: D om ingos Alvares (disponível em microfilme).

117
As Constituições Primeiras Ja Bahia de 1707

Não houve jamais um regimento inquisitorial especificamen­


te consagrado ao Brasil. O tribunal do Santo Ofício nunca foi ins­
talado sobre o território brasileiro. Pelo menos em três ocasiões
diferentes, o monarca português pediu o estabelecimento de um
tribunal no Brasil: em 1621, em 1639 e em 1671. Sempre por
motivos de ordem “política” o tribunal inquisitorial brasileiro não
foi estabelecido. Uma série de problemas se apresentava: enormes
despesas para a manutenção do corpo de funcionários necessários
à Inquisição. Basta dizer que durante a prim eira visitação do
Santo Ofício no Brasil, em 1591, o licenciado Furtado de
Mendonça não concluiu a sua missão por motivos financeiros. No
dia 17 de dezembro de 1594, o Conselho da Inquisição de Lisboa
pediu-lhe que voltasse a Portugal “sem ir a outra parte por ter gas­
to muito tempo e feito muita despesa (...) pelo que tornamos a
encomendar e encarregar muito que com brevidade acabe a visi­
tação e se venha na embarcação que trouxer a fazenda da nau da
Índia”.1 Era de fato menos dispendioso deixar os pecadores hete­

1 A pud José Gonçalves Salvador, Cristãos-novos, Jesuítas e Inquisição, São Paulo,


Pioneira-USP, 1969, pp. 120-124.

119
VADIOS E CIGANOS, HERÉTICOS E BRUXAS

rodoxos sob a responsabilidade dos bispos locais. Mas o confisco


dos bens dos cristãos-novos não seria suficiente para cobrir as
“ditas despesas”? Os motivos “políticos” eram claros: vários seto­
res da economia brasileira dependiam dos “judeus” (alguns enge­
nhos de açúcar e sobretudo o comércio) e um tribunal podia pro­
vocar a fuga de muitos cristãos-novos que levariam consigo seus
capitais, tal como aconteceu em Portugal em 1496 com o batismo
forçado, e portanto haveria uma desestabilização da economia.
Estas fugas poderiam ainda ser facilitadas pela imensidão da
costa. O Brasil precisaria de vários tribunais, o que, entre outros
motivos, tornou difícil a instalação permanente do Santo Ofício
nas terras brasileiras.2 Em compensação um im portante corpo
legislativo eclesiástico foi redigido em 1707. Trata-se das Cons­
tituições Primeiras do Arcebispado da Bahia, ordenado por
D. Sebastião Monteiro da Vide, arcebispo da Bahia e membro do
Conselho de Sua Majestade. Pela primeira vez um sínodo foi reu­
nido no Brasil para discutir e elaborar uma Constituição capaz de
regulamentar o comportamento dos eclesiásticos e também dos
leigos que viviam nas terras brasileiras. As Constituições Primei­
ras estão perfeitamente em conformidade com as ordenações e
regimentos portugueses, principalm ente com as Ordenações
Filipinas e o Regimento de 1640. O Livro 5 é consagrado aos “cri­
mes” e seus respectivos castigos, o que corresponde ao Livro V das
Ordenações Filipinas e o Livro III do Regimento do Santo Ofício
de 1640. Este Livro das Constituições contém 74 títulos: Heresia e
judaísmo, blasfêmia, feitiçaria, pacto com o demônio, simonia,

2 Ibidem.

120
AS CONSTITUIÇÕES PRIMEIRAS DA BAHIA DE 1707

sacrilégio, perjúrio, falso testemunho, sodomia, adultério, con-


cubinagem e muitos outros.
Nesta obra a pena de degredo está presente em toda parte. Do
Brasil, os condenados eram enviados para a África (principalmen­
te em São Tomé e Angola) ou para uma das regiões do Brasil
quando os réus conseguiam evitar as galés. A intenção das
Constituições Primeiras da Bahia manifesta-se muito claramente
na sua introdução: “Fazemos saber, que reconhecendo nós o
quanto im portam as leis Diocesanas para o bom governo do
Arcebispado, direção dos costumes, extirpação dos vícios, e abu­
sos, moderação dos crimes e recta administração da justiça.”3
Além do teor jurídico, as Constituições são também um verdadei­
ro tratado de confissão capaz de orientar e controlar a vida espiri­
tual e social dos habitantes do Brasil: “Para constar que todos os
fiéis cumprem com a obrigação da confissão e com unhão na
Quaresma, mandamos a todos os vigários e párocos de nosso
Arcebispado que em cada hum ano (...) façam rol pelas ruas e
casas, e fazendas de seus fregueses (...) nela escreverão todos os
fregueses por seus nomes e sobrenomes, e os lugares e ruas onde
vivem.”4 Os bispos presentes, de fato, estavam bem conscientes de

3 Constituiçoens Primeyras do Arcebispado da Bahia feytas e ordenadas pelo illus-


tríssimo e reverendíssimo senhor D. Sebastião Monteiro da Vide, arcebispo do dito
arcebispado, e do C onselho de Sua Majestade propostas e aceytas em Sínodo
Diocesano que o dito senhor celebrou em 12 de junho de 1707, Lisboa Occidental,
na Officina de Pascoal da Sylva, Impressor de sua majestade, MDCCXIX, com
todas as licenças necessárias, Introdução.
* Ibidem, Livro I, título XXXVII: Como se fará o rol dos confessados, e quando será
entregue ao nosso provedor, e da forma que se guardará com os ausentes, e se proce­
derá contra os declarados, parágrafo 144.

121
VADIOS E CIGANOS, HERÉTICOS E BRUXAS

que as leis da Metrópole não estavam completamente adaptadas


para serem aplicadas nos vários campos da vida social e religiosa
do Brasil. Enfim, mais de 200 anos haviam decorrido desde a che­
gada dos primeiros portugueses: “E considerando nós que as ditas
Constituições de Lisboa se não podiam em muitas cousas acomo­
dar a esta tão diversa região, resultando dahí abusos no culto divi­
no, administração da justiça, vida e costumes de nos súbditos (...)
ordenamos novas Constituições.”5 Nesta época, os bispos reuni­
dos na Bahia para este importante sínodo representavam o inte­
resse colonizador da Coroa portuguesa, todavia fica muito evi­
dente que as leis elaboradas na Corte não se adaptavam totalmen­
te nesta colônia “tão diversa”. O Brasil mostrava os sinais de que
não podia permanecer um eterno Portugal.

5 Ibidem, Introdução.

122
Conclusões

O degredo para as terras brasileiras contribuiu para o povoa­


mento da colônia? Ou foi somente utilizado para satisfazer o dese­
jo de harmonização social da Metrópole? De fato, Ordenações e
Regimentos manifestam nitidamente que, utilizando o degredo, a
Corte e as cidades mais importantes de Portugal queriam se ver
livres dos elementos que abalavam a harmonia social e religiosa,
como também a ordem moral e espiritual estabelecida no Reino.
No início da exploração das terras brasileiras, os degredados
representavam um contingente importante na população branca
do Brasil. No entanto, não se pode generalizar esta afirmação
para todo o período colonial. Na verdade, isto aconteceu somen­
te durante o século XVI, na época das prim eiras expedições
(1500-1530), capitanias hereditárias (1534-1549) e durante os
primeiros decênios dos governos-gerais. Mas, já no final do sécu­
lo XVI e, sobretudo, a partir do século XVII, toda uma população
de portugueses, negros escravos, indígenas cristianizados e mes­
tiços de todos os encadeamentos de tons aumentaram a popula­
ção do Brasil. Desde então, os degredados tornam-se um contin­
gente pouco importante.

123
VADIOS E CIGANOS, HERÉTICOS E BRUXAS

Do ponto de vista administrativo, é certo que esses degreda­


dos, não importa quem fossem, são considerados trabalhadores
temporários. Eles eram relativamente vigiados, controlados, mas
também se dissimularam na massa, fazendo-se passar por simples
colonos. Numa terra imensa como o Brasil, até que ponto podia
chegar o controle das autoridades sobre eles? São numerosos
aqueles cujas pistas se perderam? Muitos certamente se refugia­
ram no interior das terras e desapareceram por muito tempo a
ponto de serem considerados como mortos e depois se tornaram
bons brasileiros. Alguns forjaram suas gloriosas descendências e
disseram-se provenientes de corajosos ancestrais, dedicados mari­
nheiros ou comerciantes ambiciosos. Outros foram perdoados e
já na segunda ou terceira geração a memória registraria somente
as afabulações avantajadas de seus parentes.
O degredo para o Brasil, aplicado aos condenados da Inqui­
sição, não apresenta nenhuma grande diferença em relação aos
réus provenientes da justiça secular. Na prisão do Limoeiro, bani­
dos da Inquisição e banidos dos tribunais civis estavam colocados
juntos, depois eram embarcados nos mesmos navios. No entanto,
regra geral, uma vez no porto de destino, eles eram entregues a
autoridades diferentes. Se não houvesse um comissário do Santo
Ofício, o degredado inquisitorial era entregue às autoridades civis,
normalmente nas câmaras municipais, nos mesmos lugares onde
eram deixados os banidos dos tribunais seculares.
Ao matizar a legislação e a lógica da atuação do Estado e da
Igreja portuguesa nos séculos XVI e XVII, foi possível, juntamente
com a leitura de muitos processos, desfazer algumas idéias edifica-
das pela historiografia sobre os degredados vistos quase sempre

124
CONCLUSÕES

como sinônimo de elementos marginais, violentos e irrecuperáveis.


A afirmação de uso corrente de que o Brasil foi povoado por crimi­
nosos, malfeitores e desclassificados passa a ser vista, no mínimo,
com desconfiança, no sentido de que muitos desses condenados
desembarcaram nos portos brasileiros — como observou Gilberto
Freyre — “pelas ridicularias por que então se exilavam súditos, dos
melhores, do Reino para os ermos”.1 Os degredados contribuíram
sim para a construção do Brasil e muitos deles foram indivíduos
culpados por crimes de peso secundário. Os delitos dessa natureza
abundam os muitos títulos e parágrafos das Ordenações do Reino e
dos Regimentos do Santo Ofício. Se lançarmos nossos olhares sobre
os réus inquisitoriais, constataremos, de maneira evidente, que
todos foram banidos por causa do rigor religioso vivido na época.
Enfim, leis, normas e regulamentos, assim como punições, castigos
e penitências, são procedentes de seu tempo.
Com relação à justiça inquisitorial, faço ainda um pequeno
comentário: “Justiça e Misericórdia” tal era o lema do Santo Ofício.
“Aquilo que deve ser efetuado com justiça não deve ser aplicado
com rancor”, lembrava o Dicionário dos Inquisidores.1
2 Para os juizes
da Inquisição, a “justiça” era um princípio fundamental para a sal­
vação das almas, sobretudo quando se tratava de pecadores não
contritos. Mas, a “misericórdia” estava sempre cotejada pela justiça,
pelo menos no célebre lema inquisitorial que nos estandartes desfi­
lava durante as profissões dos autos-da-fé. “O juiz deve sempre ser

1 Gilberto Freyre, Casa Grande e Senzala, Rio de Janeiro, José O lym pio, 1987,
pp. 19-20.
2 Dictionnaire des Inquisiteurs (Valence, 1494), direction de Louis Sala-Molins, Paris,
Galilée, 1981, p. 277.

125
VADIOS E CIGANOS, HERÉTICOS E BRUXAS

misericordioso?”, pergunta o Dicionário dos Inquisidores. A respos­


ta é profundamente ambígua: “É bem melhor que ele prefira sem­
pre a misericórdia tal é o princípio; na verdade o juiz é sempre
misericordioso, mesmo quando ele mata, pois ele não diminui a
pena, mas sofre com o condenado. Ele é misericordioso quando ele
condena alguém aos açoites e impede ao mesmo tempo em que o
réu sofra penas mais graves...”3 Os inquisidores acreditavam na cle­
mência de seus veredictos, pois “aquele que perdoa é misericordio­
so; aquele que castiga o é igualmente”.4 Este ponto de vista só pode
ser entendido dentro do contexto jurídico-histórico de sua época e,
mesmo assim, não justifica a violência da “misericórdia” dos tribu­
nais, de modo especial, dos tribunais da fé.
Sobre o tema degredo há, sem nenhuma sombra de dúvida,
muito a ser feito. Neste livro anunciei vários aspectos deste insti-
gante sistema e, ao mesmo tempo, foram abertas pistas e possibili­
dades de novas investigações. Resta ainda, entre outros, um apro­
fundamento muito mais contextualizado dos diferentes momen­
tos e circunstâncias da aplicação das penas e a importância do
degredo como colaborador na manutenção do império português.
Enfim, as pistas estão aí para serem desvendadas. No degredo exis­
tem múltiplos matizes e pode-se escrever a sua história de diferen­
tes pontos de vista, o que torna este tema ainda mais atraente.
Para m elhor ilustrar as informações contidas neste livro,
seguem-se alguns breves quadros sobre as porcentagens dos deli­
tos e épocas de maior intensidade do envio de degredados para o

3 Ibidem, p. 297.
4 Ibidem.

126
CONCLUSÕES

Brasil. São dados relacionados com o sistema de banimento con­


cernente aos tribunais inquisitoriais.

Distribuição do degredo por séculos


Fontes: Conselho-Geral do Santo Ofício. Livros 433,434,435.

Século XVI......................... 8%
Século XVII.....................79%
Século XVIII.................... 13%

Tipos de “crimes” dos degredados para o Brasil


Fontes: Conselho-Geral do Santo Ofício. Livros 433,434,435.

Judaísmo.............................. 52%
Bigamia................................ 15%
Falsidade................................9%
Feitiçaria................................ 8%
Sodomia................................4%
Revelação de segredo............3%
Visões..................................... 2%
Blasfêmia............................... 2%
Padres solicitantes.................1%
O utros................................... 4%

127
VADIOS E CIGANOS, HERÉTICOS E BRUXAS

Lugares de degredo
Fontes: Conselho-Geral do Santo Ofício. Livros 433,434,435.

Brasil....................................49%
Angola................................. 26%
Lugares da África...................6%
Ilha do Príncipe....................3%
Ilha de São Tomé...................3%
Mazagão................................ 3%
Cabo Verde............................2%
O utros................................... 8%

128
BiLlio drafia

1 — F o n t e s P rim árias M a n uscritas


1.1 — Instituto dos Arquivos Nacionais/Torre do Tombo (IAN/TT)
L is ta s d o s A u to s -d a -fé :
— Conselho-Geral do Santo Ofício, Livro 433 (Inquisição de Coimbra).
— Conselho-Geral do Santo Ofício, Livro 434 (Inquisição de Évora).
— Conselho-Geral do Santo Ofício, Livro 435 (Inquisição de Lisboa).
P ro cesso s d a In q u isiç ã o d e É vo ra :
2.237, 2.463, 5.624, 5.649, 5.681, 5.681-A, 5.687, 7.759, 9.799, 10.716,
11.077.
P ro c e sso s d a I n q u isiç ã o d e L isb o a :
73, 74, 4.372, 5.158, 5.703, 7.020, 7.844, 10.291,11.860.
P ro cesso s d a I n q u is iç ã o d e C o im b ra :
321,333, 4.058, 7.142, 8.931.
L ista s d e c o n d e n a d o s:
Listas alfabéticas dos réus da Inquisição de Évora, Cód. 990A, Livros 1 a
109 (Sala dos Ficheiros).
L egislações:
Chancelaria de D. João III, Livros 22 e 30.
D e s e m b a r g o d o P aço:
Repartição da Justiça e Despacho da Mesa: Livros 8,1 1 e 18.
F e ito s F in d o s
Livros dos Juízos dos Degredados: Livro 9.

129
VADIOS E CIGANOS, HERÉTICOS E BRUXAS

1.2 — Arquivo H istórico Ultramarino (AH U)


Códice 43, £ 15.

2 — F o n te s P rim árias I m pressas


2.1 — Legislações:
— Ordenações Afonsinas de 1446
N ota de apresentação de Mário Júlio de Almeida Costa e nota texto-
lógica de Eduardo Borges Nunes, Edição “fac-sím ile” da edição feita
na Real Im prensa da U niversidade de Coim bra, no ano de 1792,
Lisboa, Fundação Calouste Gulbenkian.
— Ordenações Manuelinas de 1521
N ota de apresentação de M ário de A lm eida C osta, Edição “fac-
sím ile ” da ed ição feita na Real Im prensa da U niversidad e de
Coimbra, no ano de 1792, Lisboa, Fundação Calouste Gulbenkian.
— Ordenações Filipinas de 1603
N ota de apresentação de M ário de A lm eida Costa, Edição “fac-
sím ile” da edição feita por C ândido M endes de Alm eida, Rio de
Janeiro, 1870, Lisboa, Fundação Calouste Gulbenkian.
— Leis extravagantes collegidas e relatadas p elo licen cia d o D uarte
N unes do Lião per m andado do rei D. Sebastião (primeira edição,
Lisboa, 1569), Imprensa da Universidade, 1796.
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pelo illustríssimo e reverendíssimo senhor D. Sebastião Monteiro da
Vide, Arcebispo do dito Arcebispado, do Conselho de Sua Majestade,
propostas e aceytas em Sínodo Diocesano que o dito senhor celebrou
em 12 de junho de 1707, Lisboa Ocidental, na Officina de Pascoal da
Sylva, Impressor de Sua Majestade, MDCCXIX.

2.2 — R egim ento do Santo Ofício:


Regim ento do Santo Ofício da Inquisição dos Reynos de Portugal orde­
nado por mandado do lim o e Rm o Senhor Bispo D. Francisco de Castro,
Inquisidor Geral do Conselho d ’Estado de S. Majestade. Em Lisboa, nos
Estaos, por M anoel da Sylva, MDCXL (Biblioteca Nacional de Lisboa,
Sala Geral).

2.3 — Visitação do Santo Ofício de Portugal ao Brasil:


Primeira Visitação do Santo Ofício às partes do Brasil pelo Licenciado
Heitor Furtado de M endonça, C onfissões d a B a h ia : 1591-1592, prefácio
de Capistrano de Abreu, Rio de janeiro, F. Briguet, 1935.

2.4 — Crônicas e Correspondências:


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131
VADIOS E CIGANOS, HERÉTICOS E BRUXAS

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