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O sintoma: um hospede indesejável?

VI-ME AFASTADA DO CENTRO de alguma coisa que não


sei dar nome (...) estou encostada à parede no vão da
escada, escuto-me a mim mesma, há uns vivos lá dentro
além da palavra, expressam-se mas não compreendo,
pulsam, respiram, há um código no centro, um grande
umbigo, dilata-se, tenta falar comigo (...). A obscena
Senhora D. Hilda Hilst.

Durante o processo de escolha do tema que viria a ser desenvolvido neste trabalho
de conclusão do Ciclo 1, lia justamente o livro “A Obscena Senhora D”, da escritora Hilda
Hilst. Entre a angústia diante da infinidade de assuntos estudados ao longo do ano, todos
passíveis de eleição, e a aprazível leitura do romance em busca de algum lampejo que
facilitaria minha escolha, num átimo e, de forma associativa, lembrei-me de um dos artigos
de Freud trabalhados em sala de aula, chamado, “O Estranho”.

Neste, Freud (2006d, p.238-242) nos diz que, por um lado, “o estranho é aquela
categoria do assustador que remete ao que é conhecido, de velho, e há muito familiar (...),
pelo outro, o que está oculto e se mantém fora da vista”. Em seguida, intercedido por outra
associação, encontrei meu tema de trabalho, o sintoma.

Para o desenvolvimento deste, o sintoma será tratado na perspectiva de sua


duplicidade, ou seja, a partir daquilo que é habitual ao sujeito (a tal ponto que lhes permite
viver (Lacan, 1975, p.7 apud Ocariz, 2003, p.12)) e, ao mesmo tempo, algo que se constitui
como insólito, lhe causando moléstia e desprazer.
Com isso, este trabalho tem como objetivo, munido da leitura de alguns dos textos
bases que abordam o conceito em apreço, tanto em Freud quanto em Lacan, além de alguns
de seus comentadores, refletir sobre o sintoma e seus “caminhos tortuosos, custosos e
inadequados” que levam uma verdade que o sujeito desconhece (Ocariz, 2003, p.13), ou
seja, a contradição de algo que é de mim, contudo, não é de mim.

O sintoma1 em formação

1
Neste trabalho, o conceito de sintoma é tratado apenas na ordem da estrutura da neurose.

1
Resumo do trabalho apresentado na Jornada de Aluno do Clin-A, 2015.
De acordo com Freud (2006b, p.196), a formação do sintoma está diretamente
relacionada com as experiências sexuais que ocorreram na infância de todo e qualquer
indivíduo. Desse encontro, para o sujeito, os elementos representativos ou traços mnêmicos
de natureza sexual, intoleráveis à consciência, se transformam em imperativos à defesa.

No Rascunho K, das “Publicações Pré-psicanalíticas e Esboços Inéditos (1886-


1889)”, por exemplo, Freud nos diz que as neuroses de defesa, “diferem desses afetos pelo
fato de não conduzirem à resolução de coisa alguma, e sim a um permanente prejuízo para
o ego” (Freud, 2006a, p.273), causando desprazer. Esse desgosto, é despertado pela
rememoração da lembrança de uma experiência sexual traumática e prematura, retornada
durante a luta entre ela e o ego, ocasionando a formação de novos sintomas.

Na Conferência XXIII, “Os caminhos da Formação dos Sintomas”, Freud (2006e,


p.362) explora esse conflito, mas, potencializando a libido e sua necessidade de satisfação.
Para o autor, a libido repelida pela realidade “deve procurar outras vias para satisfazer-se
(...) seja em uma das organizações que já havia deixado para trás, seja em um dos objetos
que havia anteriormente abandonado”.
O problema nesse processo, segundo Freud, está na emersão do sintoma como um
derivado múltiplas-vezes-distorcido da realização de desejo libinal inconsciente, uma peça
de ambigüidade engenhosamente escolhida, “com dois significados em completa
contradição mútua” (Ibid., p.363).
Sendo assim, para Freud, os sintomas são “prejudiciais, ou, pelo menos, inúteis à
vida da pessoa, que por vez, deles se queixa como sendo indesejados e causadores de
desprazer ou sofrimento” (Ibid., p.361). Nesse sentido, talvez o problema maior esteja no
fato de que os sintomas “expressam algo que o próprio agente não suspeita neles e que, em
regra geral, não pretende comunicar, e sim guardar para si” (Freud, 2006c, p.193).

Nesse acúmulo, o sobrepeso do sintoma desloca-se para o lado desprazeroso,


fazendo “um nó”. À vista disso, Freud (2006f, p.103) coloca que, quando o analista tenta
ajudar o “ego em sua luta contra o sintoma, verifica que esses laços conciliatórios entre o
ego e o sintoma atuam do lado das resistências e que não são fáceis de afrouxar”.

Dialogando com os textos Freudianos, Lacan (2009, p.27), em seu Seminário 1,


“Os escritos técnicos de Freud”, afirma que o ego “está estruturado exatamente como um
sintoma. No interior do sujeito, não é senão um sintoma privilegiado. É o sintoma humano
por excelência, é a doença mental do homem”.

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Resumo do trabalho apresentado na Jornada de Aluno do Clin-A, 2015.
Em O Seminário 3, “As psicoses”, Lacan aponta que o recalque é uma língua, “uma
outra língua que ele [sujeito] fabrica com seus sintomas, isto é, se é um histérico ou um
obsessivo, com a dialética imaginária dele e do outro. O sintoma neurótico desempenha o
papel da língua que permite exprimir o recalque” (2010, p.77).

Neste dialeto, o sujeito é inculto, interditado de assimilar o recalque da libido ou do


gozo (como forma desviada de satisfação sexual). O sintoma então, surge na repetição, na
cadeia que se refaz em busca de “exprimir suas exigências, de fazer valer sua dívida, e
isso, por intermédio do sistema neurótico” (Ibid., p.103).

Enfim, o sintoma

A posição conditio sine qua non, no direito, é a condição sem a qual não existe um
ato qualquer passível de julgamento. Da mesma forma, na psicanalise, o sintoma é a
circunstância indispensável à existência do sujeito, pois, como nos lembra Miller (2013),
“não há ser humano sem sintoma”.
Entretanto, o sujeito, conscientemente, na condição ditame imposta pelo sintoma,
por vezes, depara-se apenas com dor e sofrimento. Sem conhecimento da satisfação (do
gozo2) alcançada pelo próprio circuito pulsional (que é inconsciente), queixa-se e almeja
erradicar seu sintoma a qualquer preço, ainda que não esteja disposto a “pagar o preço de
seu saber, saber vinculado à castração” (Monteiro, 1997, p.89).
Aliado a isso, na sociedade contemporânea, há uma demanda desenfreada por essa
tal felicidade, e quaisquer sentimentos contrários, “estão onde não deveriam estar,
precisam ser combatidos e eliminados” (Brum, 2013). Para tanto, a medicina, no afã do
projeto cientificista, é convocada a diagnosticar de forma rápida e eficaz, oferecendo a
tecnologia e/ou a pílula supostamente precisas para curar os males de seus pacientes a todo
custo.
Diante disso, o que se faz com o sintoma? Como lidar com aquilo que “volta
sempre ao mesmo lugar, o que entorpece a marcha, o que não anda, o que não cessa de se
repetir”? (Ocariz, 2003, p.123).

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Lacan, a partir do Seminário 16, traça alguns aspectos da relação do sintoma com o gozo,
seja aquele perdido (mais de gozar), pleno (gozo do Outro) possível (gozo fálico), uma vez que
estes, desencadeariam no sujeito, a procura incessante de se reproduzir as formar de gozar, o que
promove a repetição de seus sintomas e a satisfação da pulsão.

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Resumo do trabalho apresentado na Jornada de Aluno do Clin-A, 2015.
A princípio, não há uma resposta pronta, talvez no mínimo, diferentes vias de
reflexão sobre esse ponto. De qualquer forma, é pertinente, enquanto questionamento
preliminar, o cuidado às práticas que insinuam fórmulas previamente estabelecidas para
lidar com os males do mundo, pois, sabemos que o sujeito é idiossincrático, partido,
subordinado ao seu inconsciente, está no lugar da ruptura e não na posição de síntese ou
unidade (Vallejo & Magalhães, 2008, p.74).
Dito isso, ainda, quanto à questão supracitada, talvez, a resposta mais viável, não
como um fim em si mesma, mas como a proposta de uma via de elaboração, esteja no
próprio tratamento analítico, onde o sintoma pode ser tomado como “um significante
dentro de uma rede de sentido estritamente individual, [que] forma um código em função
de uma articulação muito pessoal” (idem, p.148).
Sendo assim, é sob análise que o sintoma exprimi, revela aquilo que encobre. É
onde o tropeço do sujeito, ao dizer algo que não queria dizer, denuncia o quanto e o que
este realmente sabe sobre seu sintoma. É no divã que o sujeito reavaliará e modificará sua
relação com o sintoma e, consequentemente, com aquilo que se repete, uma vez que “pode-
se dizer que algo se repete a partir de um presente, retroativamente, em direção ao
passado” (ibidem, p.122).
Contudo, cabe lembrar que essa repetição não é a mesma daquela do campo do real,
pois esta é irredutível a significação, está na ordem do sem sentido, dos restos reduzidos do
sintoma que, segundo Lacan (apud Ocariz, 2003), só poderão ser suportados no final da
análise.
Portanto, de qualquer forma, caberá ao sujeito em processo de análise, de maneira
particular e criativa, estabelecer novas formas de laço social (Santiago, 2011) com seu
próprio sintoma, tornando-o, não mais um “velho” hospede indesejável, mas quem sabe,
seu mais “novo” e perpétuo inquilino.

Referência Bibliográfica

BRUM, Eliane. Permissão para serINfeliz. Disponível em:


http://revistaepoca.globo.com/Sociedade/eliane-brum/noticia/2013/01/permissao-para-ser-
infeliz.html. Acesso em 18 de janeiro de 2015.

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Inéditos (1886-1889). Volume I. Rio de Janeiro: Imago, 2006a.

FREUD, Sigmund. A Etiologia da Histeria (1896). In: Primeiras Publicações


Psicanalíticas (1893-1899). Volume III. Rio de Janeiro: Imago, 2006b.

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Resumo do trabalho apresentado na Jornada de Aluno do Clin-A, 2015.
FREUD, Sigmund. Sobre a Psicologia da Vida Cotidiana (1901). Volume VI. Rio de
Janeiro: Imago, 2006c.

FREUD, Sigmund. O Estranho (1919). In: Uma Neurose Infantil e outros trabalhos (1917-
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[1916-17]). In: Conferências Introdutórias sobre Psicanálise (Parte III) (1915-1916).
Volume XVI. Rio de Janeiro: Imago, 2006e.

FREUD, Sigmund. Inibições, Sintomas e Ansiedade (1926 [1925]) In: Um Estudo


Autobiográficos, Inibições, Sintomas e Ansiedade, Análise Leiga e outros trabalhos (1925-
1926). Volume XX. Rio de Janeiro: Imago, 2006f.
LACAN, Jacques. O Seminário 1: os escritos técnicos de Freud. Livro 1. Rio de Janeiro:
Zahar, 2009.

LACAN, Jacques. O Seminário 3: as psicoses. Livro 3. Rio de Janeiro: Zahar, 2010.

MONTEIRO, Elisa. Sintoma, Fantasia e Pulsão. Trabalho apresentado nas VII Jornadas
Clínicas da EBP-Rio (14/15/16 de novembro de 1997), “Os destinos da pulsão: sintoma e
sublimação”. Publicado em Kalimero-EBP-RJ, Os destinos da pulsão. Rio de Janeiro,
Contra Capa Livraria, 1997, pp.89-100. Disponível em: http://ebp.org.br/wp-
content/uploads/2012/08/Elisa_Monteiro_Sintoma_fantasia_e_pulsao1.pdf

MILLER, Jacques-Alain. Percurso de Lacan: uma introdução. Rio de Janeiro: Zahar,


2013.

SANTIAGO, J. Psicanálise e laço social: interferências do paradigma clínico do sonho no


tratamento do sintoma. Revista aSEPHallus, Rio de Janeiro, vol. VI, n. 11, nov. 2010 / abr.
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Resumo do trabalho apresentado na Jornada de Aluno do Clin-A, 2015.