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Análise do Poema

"Vem sentar-te comigo, Lídia, à beira do rio"


.
Vem sentar-te comigo Lídia, à beira do rio.

Sossegadamente fitemos o seu curso e aprendamos

Que a vida passa, e não estamos de mãos enlaçadas.

(Enlacemos as mãos.)

Depois pensemos, crianças adultas, que a vida

Passa e não fica, nada deixa e nunca regressa,

Vai para um mar muito longe, para ao pé do Fado,

Mais longe que os deuses.

Desenlacemos as mãos, porque não vale a pena cansarmo-

nos.

Quer gozemos, quer nao gozemos, passamos como o rio.

Mais vale saber passar silenciosamente

E sem desassossegos grandes.

Sem amores, nem ódios, nem paixões que levantam a voz,

Nem invejas que dão movimento demais aos olhos,

Nem cuidados, porque se os tivesse o rio sempre correria,

E sempre iria ter ao mar.

Amemo-nos tranquilamente, pensando que podíamos,

Se quiséssemos, trocar beijos e abraços e carícias,


Mas que mais vale estarmos sentados ao pé um do outro

Ouvindo correr o rio e vendo-o.

Colhamos flores, pega tu nelas e deixa-as

No colo, e que o seu perfume suavize o momento -

Este momento em que sossegadamente não cremos em nada,

Pagãos inocentes da decadência.

Ao menos, se for sombra antes, lembrar-te-as de mim depois

Sem que a minha lembrança te arda ou te fira ou te mova,

Porque nunca enlaçamos as mãos, nem nos beijamos

Nem fomos mais do que crianças.

E se antes do que eu levares o o'bolo ao barqueiro sombrio,

Eu nada terei que sofrer ao lembrar-me de ti.

Ser-me-ás suave à memória lembrando-te assim - à beira-rio,

Pagã triste e com flores no regaço.

.
Reflexão:

1ª Estrofe
 Convite à fruição amorosa serena, uma vez que a
vida é breve.
2ª Estrofe
 Consciência da efemeridade da vida, da
impossibilidade de voltar a vive-la, uma vez que
o “fado” tudo controla.
3ª Estrofe
 Desenlace amoroso, pois é preciso evitar os
grandes desassossegos para evitar a dor.
4ª Estrofe
 È necessário evitar todos os desassossegos que
podem trazer a dor.
5ª Estrofe
 Convite á fruição amorosa tranquila, espiritual,
evitando os excessos de amor físico.
6ª Estrofe
 Valorização do “carpe diem”, colhendo o
“perfume” do momento evitando o conhecimento
das coisas.
7 e 8 Estrofes
 Conclusão do poema e justificação para o
modelo de vivência amorosa defendido pelo
poeta: se um deles morrer antes o outro não terá
que sofrer por isso, uma vez que viveram um
amor inocente, sem excessos.
.
O sujeito neste poema propõe a Lídia uma relação
tranquila, contida, sem envolvimento nem paixão,
como única forma de evitar o sofrimento provocado
pela separação que a morte de um deles poderia
trazer.
No poema, são notórios os conceitos de epicurismo e
estoicismo, aqui fundidos: se a vida passa e não se
pode evitar a morte, é preciso, por um lado,
aproveitar totalmente o presente (epicurismo) e, por
outro lado vivê-lo com serena e disciplinada
aceitação do destino (estoicismo).

Pode-se perceber que na 1ª e 2ª estrofes, há um desejo epicurista de fruir o momento


presente. Nota-se, também, a aceitação das leis do destino. Observe:

1ª estrofe: 

Vem sentar-te comigo, Lídia, à beira do rio.

Sossegadamente fitemos o seu curso e aprendamos

Que a vida passa, e não estamos de mãos enlaçadas.

(Enlacemos as mãos.)

Com relação a essa primeira estrofe, pode-se dizer que o sujeito poético está em busca
de uma felicidade, e ela é relativa, uma vez que só é encontrada nanatureza e nas
coisas simples – remetendo-nos, portanto, ao epicurismo. 
As expressões “beira do rio” e “sossegadamente fitemos o seu curso” remetem-nos
ao aurea mediocritas e aocarpe diem horacianos, respectivamente, uma vez que
refere-se à vontade de querer aproveitar o momento, e isso só é possível se feito
diante da natureza, aoobservar o rio correr.
Por meio da expressão “que a vida passa”, o sujeito poético propõe à pastora Lídia
sentar-se com ele para observar o decorrer da vida, colocando o curso do rio
como metáfora do passar da vida.
Com relação ao último verso dessa primeira estrofe, o eu lírico propõe à pastora que
eles se amem.

2ª estrofe:
Depois pensemos, crianças adultas, que a vida

Passa e não fica, nada deixa e nunca regressa,

Vai para um mar muito longe, para ao pé do Fado,

Mais longe que os deuses.

Nessa segunda estrofe, percebe-se nitidamente a importância que opensamento tem


para o sujeito poético já no primeiro verso. É possível perceber, também, um certo
fatalismo, em que ele diz que “[a vida] Passa e não fica, nada deixa e nunca regressa”,
ficando implícito que o fluxo da vida é sem volta, e assim como o rio segue seu fluxo
a caminho do mar, a vida caminha rumo à morte.
A palavra “Fado”, no fim do terceiro verso, remete-nos ao destino, do qual nem os
deuses escapam. Além disso, há referência aos deuses, o que nos remete
ao paganismo greco-romano de que se dispõe o autor.

É possível perceber que da 3ª à 6ª estrofe, há uma renúncia por parte do poeta ao


próprio gozo desse fugaz momento que é a vida. Observe:

3ª estrofe: 

Desenlacemos as mãos, porque não vale a pena cansarmo-nos.

Quer gozemos, quer não gozemos,  passamos  como  o rio.

Mais  vale saber passar silenciosamente

E sem desassossegos grandes.

No primeiro verso, o eu lírico propõe à pastora que desenlacem as mãos, ou seja, que
não se amem, pois acredita não valer à pena se casarem, uma vez que o fim será
sempre a morte – remete-nos, assim, ao estoicismo, em que nada vale à pena a não ser
a aceitação das leis dodestino.
Pode-se perceber, no final do segundo verso, a figura de linguagemcomparação,
conforme destacado, no fragmento acima, em negrito. 
Com relação aos dois últimos versos, percebe-se, como figura de linguagem,
aaliteração (sublinhada no fragmento acima), em que há a repetição do som
consonantal “s”. Observa-se, ainda, nesses versos, que o sujeito lírico pretende
afastar-se de tudo que possa lhe causar dor e sofrimento, demonstrando, assim,
o epicurismo.

4ª estrofe:
Sem amores, nem ódios, nem paixões que levantam a voz,

Nem invejas que dão movimento demais aos olhos,

Nem cuidados, porque se os tivesse o rio sempre correria,

E sempre iria ter ao mar.

Nessa estrofe, observa-se, novamente, oepicurismo, em que o sujeito poético busca


afastar-se do que poderá lhe causar sofrimento, dizendo que mesmo que haja amor,
ódio, paixão, inveja, cuidado, o fim de tudo será sempre amorte.

5ª estrofe:

Amemo-nos tranquilamente, pensando que podíamos,

Se quiséssemos, trocar beijos e abraços e carícias,

Mas que mais vale estarmos sentados ao pé um do outro

Ouvindo correr o rio e vendo-o.

A quinta estrofe apresenta a ideia de que o sujeito poético poderia passar a vida
beijando, trocando carícias, mas de qualquer forma a morte chegaria. Por essa razão,
para ele, vale mais à pena moderar os prazeres para que chegue à morte “vazio” de
sentimentos.
Nota-se, ainda, a aurea mediocritas no final dessa estrofe, em que o sujeito lírico faz
referência, novamente, à observação do passar do rio (que metaforiza a vida, como já
dito anteriormente).

6ª estrofe: 

Colhamos flores, pega tu nelas e deixa-as

No colo, e que o seu perfume suavize o momento -

Este momento em que sossegadamente não cremos em nada,

Pagãos inocentes da decadência.

Com relação ao primeiro verso da estrofe em questão, é importante observar que


quem pega as flores é a pastora Lídia e não o sujeito poético – como já dito, para
ele nada vale à pena.
Percebe-se, novamente, a  aurea mediocritas e o carpe diem horacianos, em que ele
contempla a natureza ao sentir o perfume das flores que estão no colo da pastora, o
que suaviza o momento e faz com que o eu lírico o aproveite.
No último verso, há a referência aopaganismo, novamente.

Nas duas últimas estrofes, há a explicação dessa renúncia ser a única forma de anular
o sofrimento causado por essa antevisão da morte. Observe: 

7ª estrofe:

Ao menos,  se for sombra antes, lembrar-te-ás de mim depois

Sem que a minha lembrança te arda ou te fira ou te mova,

Porque nunca enlaçamos as mãos, nem nos beijamos

Nem fomos mais do que crianças.

Nessa sétima estrofe, o sujeito lírico diz que se ele morrer primeiro, a lembrança que
Lídia terá dele será sem sofrimento ou dor, uma vez que viveram comtranquilidade e
calma, sem grandes sentimentos. 

8ª estrofe:

E se antes do que eu levares o óbolo ao barqueiro sombrio*,

Eu nada terei que sofrer ao lembrar-me de ti.

Ser-me-ás suave à memória lembrando-te assim - à beira-rio,

Pagã triste e com flores no regaço.

A última estrofe refere-se ao mesmo que a anterior, mas levando em conta amorte de
Lídia ser antes da do sujeito lírico, o que não o deixaria emsofrimento, uma vez que
viveuindiferente às paixões e amores.
É possível identificar, nestas duas últimas estrofes, o eufemismo (marcado no
texto),  em que o uso de “se for sombra antes” e “se antes do que eu levares o óbolo ao
barqueiro sombrio” atenuam ocaráter trágico da palavra “morte”.