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UM HISTORIADOR
NAS FRONTEIRAS
O Brasil de Sérgio Buarque de Holanda

Sandra Jatahy Pesavento


Organizadora

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Sérgio Buarque de Holanda é autor
consagrado, merecendo figurar como
um dos maiores, senão o maior, histo
riador do Brasil. Sobre ele, muito se tem
escrito, e talvez possa parecer mesmo
ousadia tentar ainda mais uma relei-

tura de sua obra. Esta foi, contudo, a


proposta de um grupo de pesquisa
dores, integrantes do Grupo Interna
cional Clíope, o qual trabalha, desde
uma década, com as relações entre a
história e a literatura. Para tanto, os
autores reuniram-se para discutir e ana
lisar, mais uma vez, o legado de Sérgio
Buarque de Holanda como historiador.
Os ensaios que compõem este livro
são, pois, fruto de um diálogo entre
eles estabelecido.

Há nesta obra uma rede de referências

internas, explícitas ou não, que põe


os textos em interlocução e confronto
entre si, em processo resultante desta
discussão, pesquisa e trabalho coletivo
que se desenvolve entre os pesquisa
dores.

Um dos eixos da leitura do grupo esteve


reorientado para a escrita de Sérgio
Buarque de Holanda, objeto de uma
discussão que recorreu tanto às leituras
de formação do autor, marcantes na
sua trajetória de intelectual, quanto à
construção por ele realizada de uma
matriz de explicação para a história
brasileira de forma alternativa às até
UM HISTOmDOII NAS FRONIEIRAS
o IIUIl D! sino BUlItU! D! KOIIIIDI
UF/V\g
UNIVERSIDADE FEDERAL DE MINAS GERAIS
Reitora: Ana Lúcia Almeida Gazzola
Vice-Reitor: Marcos Borato Viana

EDITORA UFMG
Diretor: Wander Melo Miranda
Vice-Diretora: Heloisa Maria Murgel Starling

CONSELHO EDITORIAL

Wander Melo Miranda (presidente)


Carlos Antônio Leite Brandão
Heloisa Maria Murgel Starling
José Francisco Soares
Juarez Rocha Guimarães
Maria das Graças Santa Bárbara
Maria Helena Damasceno e Silva Megale
Paulo Sérgio Lacerda Beirão
Sandra Jatahy Pesavento
(Organizadora)

UM HISTORIADOR NAS FRONTEIRAS


O BRASIL DE SÉRGIO BUARQUE DE HOLANDA

Belo Horizonte
Editora UFMG
2005
2005, Os autores
2005, Editora UFMG

Este livro ou parte dele não pode ser reproduzido por qualquer meio
sem autorização escrita do Editor.

H673 Um historiador nas fronteiras: o Brasil de Sérgio Buarque de


Holanda / Sandra Jatahy Pesavento (Organizadora). -
Belo Horizonte : Editora UFMG, 2005.

196p. - (Humanitas)

Inclui referências.
ISBN: 85-7041-480-3

1. Holanda, Sérgio Buarque de, 1902-1982 2. Brasil -


História 3. Historiadores I. Pesavento, Sandra Jatahy.

CDD:907.202
CDU: 981-051

Ficha catalográfica elaborada pela CCQC - Central de Controle de Qualidade


da Catalogação da Biblioteca Universitária - UFMG

EDITORAÇÃO DE TEXTO: Ana Maria de Moraes


REVISÃO DE TEXTO E NORMALIZAÇÃO: Maria Stela Souza Reis
REVISÃO DE PROVAS: Alexandre Vasconcelos de Melo
PROJETO GRÁFICO: Glória Campos - Mangá
FORMATAÇÃO: Cássio Ribeiro
CAPA: Montagem de Cássio Ribeiro
IMAGEM DA CAPA: Celso Renato de Lima, sem título, acrílica sobre madeira,
81x17 cm, s/d (detalhe), gentilmente cedida por Luís Augusto de Lima.
PRODUÇÃO GRÁFICA: Warren M. Santos

EDITORA UFMG
Av. Antônio Carlos, 6627 - Ala direita da Biblioteca Central - Térreo
Campus Pampulha - 31270-901 - Belo Horizonte/MG
Tel. (31) 3499-4650 Fax (31) 3499-4768
www.editora.ufmg.breditora@ufmg.br

APOIO: CAPES/COFECUB
U M A R I o

PREFÁCIO
Eliana de Freitas Dutra

CARTOGRAFIAS DO TEMPO:
palimpsestos na escrita da história
Sandra Jatahy Pesavento 17

FRENTE AO PRESENTE DO PASSADO:


as raízes portuguesas do Brasil
Jacques Leenhardt 81

"SUA VOCAÇÃO ESTARIA NO CAMINHO":


espaço, território e fronteira
Chiara Vangelista - 107

A TRAMA E O TEXTO:
história com figuras
Ettore Finazzi-Agrò 143

ATLAS INTERSTICIAL DO TEMPO DO FIM:


"Nossa Revolução"
Roberto Veccbi l6l

SOBRE OS AUTORES 195


NOÍA AESTA EDIÇÃO

Os ensaios que compõem este livro sào fruto de um diá


logo entre os seus autores, que fazem parte do Grupo Inter
nacional Clíope, o qual trabalha, desde uma década, com
as relações entre a história e a literatura. Logo, há uma rede
de referências internas, explícitas ou nào, que põe os tex
tos em interlocuçào e confronto entre si, em processo resul
tante desta discussão, pesquisa e trabalho coletivo que se
desenvolve entre os autores.
o

No documentário "Raízes", do cineasta Néison Pereira dos


Santos sobre o historiador Sérgio Buarque de Holanda, entre
os vários depoimentos recolhidos de seus filhos e netos, duas
afirmações recorrentes chamam a atenção dos historiadores
que se debruçam sobre seus escritos como objeto de estudo.
Uma, a de que entre suas obras o historiador declarava franca
predileção pelo livro Visões do paraíso, cuja leitura recomen
dava a seus familiares, dissuadindo-os de ler o seu célebre e,
segundo ele, "complicado" ensaio intitulado Raízes do
Brasil. Outra, o fato de que Raízes do Brasil, e não Visões do
paraíso, tenha sido o livro escolhido pelo historiador para
presentear a cada um dos seus netos, com uma edição auto
grafada. Essa escolha, de fato, parece compreensível à luz
da importância inaugural desse ensaio, seja para a compre
ensão da formação social brasileira, seja para a carreira do
seu autor elevado desde então à condição de intérprete do
Brasil.
Não obstante, é difícil evitar algumas especulações sobre
outros possíveis significados que ela possa conter. Como
desconhecer a história da recepção, por vezes controvertida,
de Raízes do Brasil, ensaio que, da época do seu lançamento,
em 1936, aos dias de hoje, não cessou de instigar inteli
gências, alimentar questionamentos, estimular o debate sobre
o destino da nossa modernidade e sobre as agruras herdadas
da nossa experiência histórica colonial? Como desconhecer
as vicissitudes do empreendimento nacional no Brasil, os
percalços, em terras brasílicas, da afirmação do espaço pú
blico como o verdadeiro espaço da política? Até que ponto a
atualidade dessas questões e os impasses delas resultantes.
ainda à espera, na contemporaneidade, de melhor resolução,
não fazem da oferta do ensaio de Raízes do Brasil por Sérgio
aos seus netos, uma reafirmação não só da pertinência da
problemática nele tratada, mas, sobretudo, da linha de abor
dagem nele proposta?
Em que pesem as várias revisões efetuadas pelo autor no
seu célebre ensaio, em anos posteriores, e lembrando que as
mesmas não modificaram seus principais argumentos, o gesto
de ofertá-la aos seus herdeiros biológicos parece-nos inves
tido de um forte significado simbólico, conquanto um legado
maior: fruto de uma profunda identidade do autor com esse
texto — considerado como uma síntese das mais completas
sobre nossa formação social — e ao mesmo tempo um legado
capaz de recobrar as "raízes", na perspectiva de uma dupla
ancestralidade. Assim temos, de um lado, a tradição, o legado
ibérico, o passado ainda vivo no presente da história brasi
leira; de outro, o legado familiar, mas nem por isso menos
cidadão, de um ensaio emblemático que assinala não só a
entrada triunfal de Sérgio Buarque no território do pensa
mento social brasileiro, mas também a proposição de idéias
destinadas ao debate público e cidadão dos rumos da civili
zação e da democracia no Brasil. Pode parecer ironia, mas a
cordialidade brasileira aqui comparece no sentido crítico
postulado pelo autor, qual seja, para ser superada: ela é o
que vem do coração, do sentimento, mas, no entanto, sub
mete-se, verga-se ao público na forma de um apelo silencioso
à mudança, à transformação, e ao não afastamento das
questões maiores do país, as quais portam inevitavelmente
as marcas do seu passado, sem, no entanto, condená-lo.
Nesse sentido, seu gesto, aparentemente banal e contradi
tório, pode ser lido como um testamento político do seu autor
e parece sugerir que nem tudo está definitivamente perdido
numa cultura onde o homem cordial ainda teima em persistir.
A não coincidência entre a preferência explicitada e o gesto
realizado é um aspecto a mais na biografia de um autor
desconcertante e parece vir reforçar os enigmas, as polêmicas
e a complexidade da obra daquele que foi um dos nomes
responsáveis pela nossa modernidade historiográfica, com
o seu manejo inovador de conceitos e categorias históricas
e sociológicas, a originalidade e ousadia interpretativas, o
refinamento teórico e a amplitude da pesquisa documental,
temperada pela larga erudição.

10
É justamente um mergulho profundo nessas ricas e contro
versas possibilidades analíticas presentes no conjunto da obra
histórica, crítica e ensaística de Sérgio Buarque de Holanda,
o que fazem os autores deste livro, nào por acaso, intitulado
Um historiador nasfronteiras: o Brasil de Sérgio Buarque de
Holanda. De fato, nosso autor não apenas se movimenta
com desenvoltura entre as fronteiras disciplinares da história,
da sociologia, da literatura, mas elege o tema da fronteira
como um dos pontos nucleares da sua obra, transformado-o,
conquanto um princípio hermenêutico, em espaço privilegiado,
seja do encontro ou do desencontro, de povos, de valores,
de concepções, de práticas, de tradições, de projetos e de
epistemologias.
A análise das repercussões do exercício da crítica literária
buarquiana nos seus escritos de história e ensaios, a mobi
lização da experiência modernista do autor na sua prática
cognitiva e estética, a identificação das cartografias do tempo,
do espaço e das interpretações presentes na obra desse histo
riador, a relação lógica e temática entre as suas várias obras,
as implicações dos impasses e das tensões detectados na evo
lução histórica brasileira e mantidos no trajeto analítico
seguido pelo autor, o vínculo das obras de Sérgio Buarque
com as conjunturas históricas de sua realização, o peso, na
sua formação, do período de estudos na Alemanha são
algumas questões, entre outras, analisadas com refinamento
e ousadia interpretativa pelos autores aqui reunidos, que
revisitam parte expressiva da obra de Sérgio Buarque a
partir da noção de fronteira.
Daí que passado e presente, urbano e rural, arcaico e
moderno, ordem e desordem, do norte e do sul, mar e
sertão, experiência e fantasia, são espaços em que a metá
fora geográfica da fronteira, com suas margens e limites,
cede lugar a um mapa da cultura nacional em seus vários
ângulos, tal como nos lembra Roberto Vecchi, no seu texto
"Atlas intersticial do tempo do fim: 'Nossa Revolução'", ao se
referir a uma possível cartografia da obra de Sérgio Buarque.
No que, aliás, é acompanhado por outros autores deste livro,
a exemplo de Chiara Vangelista e Sandra Jatahy Pesavento.
Têm razão os autores ao tomarem conceitualmente para si
as diretivas do empreendimento dos cartógrafos, as quais,
como sabemos, se destinam a traçar uma forma visível de

11
uma totalidade, dotando de coerência virtual um conjunto
imaginário. No interior dessa forma, nas franjas desse con
junto, é que Vecchi nos traz as tensões e os impasses nos
espaços da fronteira temporal — por ele visualizada como um
Atlas Instersticial — na obra Raízes do Brasil. A colisão tem
poral entre as sobrevivências do passado colonial e a moder
nidade que se anuncia é o que para Vecchi faz do tempo anun-
ciador desse ensaio, qual seja, os anos 1930, um "entre tempo",
em que o compromisso estético, a opção pelo ensaio-afo-
rismo, o recurso às metáforas cognitivas e aos pares de opo
sição mobilizados pelo historiador no texto seriam tributários
do Sérgio Buarque de Holanda crítico/militante/modernista,
que precede e prepara o Sérgio Buarque historiador. Como
sempre, situado na fronteira!
Por seu lado, a autora Chiara Vangelista vai pontuar a ins
crição da noção buarquiana de fronteira no interior de uma
elaboração cultural do território que, desde a era Vargas, se
vinculou aos projetos de redefinição cultural da identidade
nacional — tendo como pano de fundo a crença de que no
nosso passado colonial estaria posta a origem da nacionali
dade brasileira. A autora escolhe o binômio espaço/fronteira
como instrumento privilegiado para, — no texto "'Sua vocação
estaria no caminho': espaço, território e fronteira" — carto
grafar o traçado interpretativo da obra de Sérgio Buarque
de Holanda, num longo trajeto que vai de Raízes do Brasil,
de 1936, à Extremo Oeste, texto de 1986, passando por
Monções, de 1945, Caminhos e Fronteiras, de 1956, e Visão
do Paraíso, de 1959. A análise diacrônica dessas várias obras,
de forma a identificar os matizes, as mudanças, a evolução e
até mesmo as contradições das análises realizadas pelo autor,
não impede que a autora sugira um fio condutor entre as obras
escolhidas: qual seja, a transformação e individualização do
território brasileiro em espaço nacional. Sua sugestão ganha
maior densidade e fundamentação no inventário que faz dos
usos realizados pelo autor dos termos espaço e fronteira, bem
como na exploração que empreende da imagem da dimensão
territorial do Brasil colonial tal como a fez Sérgio Buarque,
onde sobressaem as contraposições entre o norte, estável,
e o sul, em movimento, o que apesar da presença do papel
da coroa ao lado dos paulistas como atores da construção
territorial do Brasil, realizada no registro da aventura, fazem

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desses últimos seus verdadeiros artífices. A fronteira compre
endida como ligada mais ao território, marcado pela criativi
dade e capacidade de adaptação daqueles que o tomam uma
realidade, e menos como espaço histórico, da vida civil, é ponto
para o qual converge a problematizaçào do texto de Chiara
Vangelista, que conclui vendo na desordem dos caminhos e
itinerários que o gentio e as "gentes" de São Paulo desenham
no território do Brasil — produto do encontro da cartografia
indígena e da cartografia histórica da mobilidade paulista —
a raiz não européia da sua fundação.
De fato, em que pesem os múltiplos sentidos atribuídos à
noção de fronteira por Sérgio Buarque na obra Caminhos e
fronteiras a perspectiva do território parece mesmo ganhar
um relevo no seu contraste com o espaço histórico, pensado
como um espaço das instituições, da política, da vida social,
se acompanharmos com atenção certas afirmações do autor.
Ao assinalar a necessária incorporação de práticas e hábitos
dos gentios pelos colonizadores e por vezes sua vitória
sobre os costumes dos adventistas, ele o faz referindo-se
sempre à vida material e afirma que tal incorporação se
realizava "enquanto não fosse possível uma comunidade
civil e bem composta segundo os moldes europeus." Aqui
fica registrada a fragilidade, se não a impossibilidade de exis
tência de um verdadeiro espaço da política — no momento
da aventura colonial da expansão territorial — o qual pres
supõe uma experiência dialógica e contratual. Por isso o diá
logo, possível, se dá entre técnicas, hábitos, costumes e
crenças. A ausência das ditas "maneiras civis" teria favore
cido, assim, os intercursos no campo da cultura material, o
qual segundo a chave de leitura de Sérgio Buarque seria o
espaço onde se forjou a cultura ela mesma.
Por isso mesmo Ettore Finazzi-Agrò, no texto intitulado
"A trama e o texto: história com figuras", considera o livro
Caminhos efronteiras como obra-chave para a compreensão
da formação cultural do Brasil. E, nos processos de transcul-
turação nela revelados, visualiza a chave do dinamismo da
história cultural brasileira que, com sua multiplicidade de
movimentos, ativos nos hábitos, nas técnicas, nos objetos
da vida cotidiana, alcançam o presente e o atualizam.
Nessa obra considerada pelo autor como de fronteira,
porque situada entre Raízes do Brasil e Visão do paraíso, ele

13
vê no dinamismo cultural presente em Caminhos e fronteiras
a superação dos impasses de Raízes do Brasil — os quais
identifica como a presença insidiosa do passado bloqueando
a revolução e a história. É certo que, tal como leituras histo-
riográficas recentes da obra buarquiana têm demonstrado, a
tensão encontrada entre o passado ibérico e os valores do
mundo moderno e urbano, encontrada em Raízes do Brasil,
não existe mais em Caminhos e fronteiras, devido à dinami-
zação mencionada, na qual as trocas culturais jogam um papel
decisivo, implodindo diferenças e hierarquias entre os adven-
tistas e o gentio. Aqui, convém lembrar que no coração dessa
dinamização está não só a noção de fronteira, entre paisagens,
populações, instituições, técnicas, idiomas, tal como empre
gada por Sérgio Buarque, mas também a de plasticidade das
culturas. Esta plasticidade, que a nosso ver engendra a visão
buarquiana de cultura como um "entre lugar", é o que se
realiza no que Ettore Finazzi-Agrò chama de "lugares-comuns
culturais", marcada pela troca incessante, a coexistência e os
cruzamentos de práticas, discursos, percursos. Por isso mesmo
esse autor encontra em Caminhos e fronteiras o paradigma
hermenêutico que a seu ver orienta o núcleo mais importante
da obra de Sérgio Buarque, porquanto um paradigma estru
turado, segundo ele, na passagem, no trânsito, entre "conceito
e imagem", "história e literatura", "evento e representação" e
entre "fato e rastro".
Nesse ponto, sua análise é de certo modo convergente com
a de Sandra Jatahy Pesavento, autora do texto "Cartografias
do tempo: palimpsestos na escrita da história". Com a dispo
sição de explorar a relação entre a escrita e a obra de Sérgio
Buarque, a autora elege como rota analítica refazer o percurso
do autor, ou melhor, realizar uma arqueologia da concepção
de história que informou sua prática historiadora, partindo
de dois eixos fundamentais: as leituras feitas por Sérgio
durante sua estada em Berlim, as quais incluíram, entre
outros, Ranke, Droysen, Dilthey, Weber, Sombart, e as impli
cações das mesmas no conceito de tempo histórico mobili
zado pelo autor em Raízes do Brasil, e no texto menos conhe
cido que deu luz a esse ensaio, qual seja o artigo "Corpo e
alma do Brasil", publicado em 1935, na revista Espelho.
Se o período alemão foi decisivo para a formação de uma
sensibilidade frente às várias temporalidades sociais, também
o foi, nos propõe a autora, para o contato com as primeiras

14
formulações que introduziram a problemática da figuração
do tempo na escrita da história. É por essa via, qual seja, a
da utilização de procedimentos ficcionais, que a autora afirma a
dimensão de palimpsesto da escrita buarquiana. As raízes,
assim, seriam puro efeito retórico utilizado na tradução da
idéia de duração do tempo, da qual é expressão, por exemplo,
o homem cordial. Dessa forma, no trânsito, entre o passado,
com os valores da tradição ibérica; o presente da escrita de
Raízes do Brasil, repleto das tensões, disputas inovações
daqueles anos 1930, e o futuro, como promessa, encarnado
pelo dinamismo paulista/bandeirante, o tempo se investe da
condição de pedra de toque das "raízes" dessa obra de
Sérgio Buarque de Holanda. Mas, sua figuração, sem as
marcas da historicidade, e seu vínculo estreito com o artigo
"Corpo e alma do Brasil", sugere a autora, teriam deixado o
ensaio Raízes do Brasil mais próximo do terreno ficcional, e,
ou, do fato estetizado, e mais afastado do terreno da história,
e do rastro do fato, com a licença de Ettore Finazzi-Agrò.
Nesta linha, pode-se argumentar que a minúcia da pesquisa
documental, que vai marcar as obras posteriores de Sérgio
Buarque — em particular Caminhos e fronteiras e Visão do
paraíso— seria um elemento a mais a fazer do seu famoso
ensaio, e por isso mesmo ensaio, uma obra de trânsito entre
a história e literatura.
Não menos provocativo, mas igualmente preocupado em
resgatar a historicidade do ensaio Raízes do Brasil, é o texto
"Frente ao presente do passado: as raízes portuguesas do
Brasil", de Jacques Leenhardt. Entre os vários textos que
compõem este livro, este é mais um a trazer outra reflexão
instigante, a qual aponta, com sutileza, certas hesitações e
asperezas do pensamento de Sérgio Buarque de Holanda,
bem como sua participação numa gramática da época, a qual
não prescindiu nas suas explicações sobre o Brasil — em
sintonia com boa parte da intelectualidade do período —
do recurso a certas categorias determinantes, de fundo
sociopsicológico, a exemplo de apatia, aptidão natural, ins
tinto, caráter, vontade, energia, espontaneidade natural,
mentalidade as quais nos anos 1930 inundaram o pensa
mento social então em formação.
Determinado a buscar a especificidade do pensamento de
Sérgio Buarque no curso desses anos, e no interior de um

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movimento que considerava imperiosa de definição do "homem
brasileiro", o autor, nesse texto, não reluta em recusar uma
perspectiva apologética para o texto Raízes do Brasil, o qual
ele afirma ser "um ensaio sobre a crise da sociedade brasileira
contemporânea analisada sob o ângulo da permanência da
herança mental portuguesa." Nesta linha, direciona um olhar
crítico sobre a forma e o resultado da análise com a qual
Sérgio Buarque sustentou a idéia de que essa herança se cons
tituiu em entrave ao futuro brasileiro.
Tomando estrategicamente como objeto da sua leitura a
primeira edição de Raízes do Brasil, e não as edições poste
riores revistas pelo autor, sua avaliação crítica nada tem de
complacente com o célebre ensaio, o qual, no seu entender,
não disponibilizaria ao leitor nenhum horizonte político de
alternativa; sofreria de uma crise de explicação, uma vez
enredado num impasse de múltiplas causalidades; conteria
uma análise do aventureirismo ibérico que acumularia argu
mentos teóricos e explicativos ao invés de articulá-los, do
que resultariam as contradições que o enfraquecem; abri
garia explicações de fundo teológico, tal como no caso da
sua fundamentação do personalismo ibérico; padeceria de
anacronismos conceituais, quando da utilização de conceitos,
como o de tipo ideal trabalhador/empreendedor, deslocados
para o período colonial — pela força da necessidade de
Sérgio Buarque em pensar e diagnosticar o presente, dos
anos 1930; reforçaria o papel organizador do Estado e desva
lorizaria a ação política, conquanto ecos das leituras do
teórico Karl Schmitt. Na sua linha de problematização de
Raízes do Brasil, o autor somente não seguiu a trilha da
análise dos possíveis vínculos de Sérgio Buarque com o
romantismo, com seu enlace entre razão/sentimento e a
força da religiosidade. Nada lhe escapa, ao tentar restituir a
contribuição desse ensaio ao debate travado em sua época
acerca do tema da identidade nacional, bem como aos limites
das leituras que aquele debate comportou.
É ler para conferir! Neste livro, fascinante, sobre um histo
riador na fronteira, analisado na fronteira da interdiscipli-
naridade, a última palavra fica com o leitor.

Eliana de Freitas Dutra

16
SANDRA JATAHY PESAVENTO

CARTOGWFIAS 00 TEMPO
PALIIIfSESIOS N* [SCIITA »* HISIÓII*

CARTOGRAFIAS DO SOCIAL,
RECONFIGURAÇÕES DO TEMPO

Cartografar é, antes de tudo, mapear um território e


explorar a natureza, percorrendo espaços e nele identifi
cando lugares — recortes do território dotados de sentido,
aos quais se nomeia, precisando os significados — ou desco
brindo paisagens — estas frações do espaço, organizados pela
estética do olhar. Cartografar é, pois, uma atividade simbó
lica de representação do mundo.
Pensar uma cartografia do social é já avançar da natureza
para a cultura, categorias que, de uma certa forma, já se
encontravam presentes no enunciado anterior, quando loca
lizávamos atribuições de significado ao território. Mas uma
cartografia do social remete a pensar as ações dos homens,
ações estas que se inscrevem, necessariamente, em um lugar
e um momento.

Temos assim, na cartografia do social, o enquadramento


dos dois vetores pelos quais os homens têm construído,
através da história, a sua apreensão e organização do mundo:
o espaço e o tempo.
Tempo e espaço s^o construções imaginárias, indissociáveis,
de referência para a ordenação do mundo, como marcos de
correspondência para dar sentido ao real. Queremos, nesta
reflexão sobre a escrita e a obra de Sérgio Buarque de Holanda,
pensar uma cartografia dos territórios daquele saber que se
arvora em deter a fala autorizada sobre o tempo: a história.
Aliás, se tentássemos definir o discurso historiográfico com
relação a outros tantos que discorrem sobre a realidade,
teríamos de, forçosamente, recorrer a este marco referencial
de pertencimento temporal: historiadores constróem discursos
sobre o passado, reconstruindo o tempo escoado de forma
a tentar explicar como tudo teria acontecido.
O historiador cria um tempo — o tempo histórico — só
acessível pela imaginação. Mas, para isto, seu trabalho precisa
apoiar-se no empírico, que lhe dá suporte, através das marcas
de historicidade, situadas e datadas, como registros espaço-
temporais que compõem o referencial de contingência a partir
do qual ele construirá sua narrativa.
Para o historiador, trabalhar com o tempo implica referir-se
ao quando e onde, premissas a partir das quais ele vai retra-
çar o como de algo acontecido. O historiador constrói lugares
no tempo, ou seja, momentos de sentido em um espaço dado.
Para percorrermos este caminho de construção de um
espaço no tempo, propomos enfocar aquele que é conside
rado uma das expressões mais celebradas do fazer história
no país: Sérgio Buarque de Holanda, o historiador que, escre
vendo de São Paulo, às vésperas do Estado Novo, pretendeu
falar do Brasil para o Brasil.
Buscaremos, na escrita de SBH, particularmente em sua
primeira e grande obra, de 1936, Raízes do Brasil, a noção do
que poderíamos chamar de espaço histórico, ou seja, como ele
constrói sua noção de tempo e como nela delimita o lugar da
história. Ou, ainda, em outras palavras, como SBH entendeu a
história como um espaço no tempo.
A escolha da obra reside no seu caráter inovador e mesmo
antecipatório com relação à Escola dos Annales e mesmo de
correntes contemporâneas de entendimento da história, que
constituem a chamada História Cultural. Julgamos que esta
posição de vanguarda de SBH poderia ser discutida a partir
de algumas concepções que se colocam como que centrais
para o trabalho de todo historiador.
Decidimos explorar algumas leituras prévias de SBH, parti
cularmente algumas ainda pouco estudadas, que são aquelas
advindas do seu curto estágio na Alemanha, no final dos anos
1920.

18
Sabemos que SBH, antes de escrever sua obra, estivera,
de 1929 a 1930, a viajar, pesquisar e estudar na Europa, parti
cularmente em Berlim , na Alemanha, onde, na República de
Weimar, vivia-se num clima de intensa vida cultural. Como
refere Iglesias, mesmo que SBH nào tenha deixado textos
memorialísticos, nos quais permita refazer seu caminho inte
lectual, é de supor que tenha lido e tomado conhecimento
com as obras de Wemer Sombart, Max Weber, Bertolt Brecht,
Franz Kafka e Rainer Maria Rilke,^ ou mesmo Georg Simmel,
como sugere Gabriel Cohn, em recente artigo.^
A partir do seu estágio em Berlim, vamos ao encontro de
algumas leituras alemãs de SBH — certas ou prováveis — como
Johann Martin Chladenius, Leopold von Ranke, Johannes
Gustav Droysen, Willelm Dilthey, Max Weber e Werner
Sombart —, sempre em busca de poder surpreender como
ele teria construído a sua concepção de tempo a partir de
tais leituras, aplicando-as em sua obra de 1936.
Para fins de entender as possíveis influências destas leituras
sobre a escrita de Raízes, de SBH, é preciso reter, no cruza
mento que se faça da obra do autor com as idéias destes
pensadores, o fato de que todos eles, com as suas diferenças
e especificidades, pertenciam todos a uma vertente do que
se poderia chamar de um culturalismo alemão, ou, como
será chamada pelos críticos marxistas, de um idealismo, com
inspiração em Hegel e Kant. Tais autores teriam trabalhado
a história como uma sucessão de sentidos, com variações
construídas no tempo, através do resgate de traços do espí
rito, do mental, do sensível.
Trata-se, contudo, de realizar uma leitura de SBH através
de um estabelecimento de possíveis, pois nosso autor não
primava por esclarecer ao leitor suas fontes de inspiração
teórica. Há autores que ele cita, explicitamente, e outros,
implícitos, mas que deixam as marcas de sua presença no
texto buarquiano. Por outro lado, não se pretende abordar
tais cruzamentos como um mero empréstimo de idéias, pois
SBH reelaborava as leituras feitas, dando feição própria à
sua narrativa histórica.
Falar de inspiração intelectual, no plano dos conceitos que
se traduzem em um fazer história é admitir a criação narrativa

19
em meio a uma tessitura constante de leituras, admitindo que
a escrita é sempre um palimpsesto onde se superpõem idéias,
noções, estratégias, conteúdos, que possibilitam novas abor
dagens. Um texto dá a ver um outro subjacente, ou remete a
um terceiro, composto em teia de relações pela atividade da
leitura, e pensar a escrita de SBH historiador é, de alguma
forma, tentar refazer estes caminhos, textuais e de idéias, que
se entrelaçam.
A discussão sobre o tempo estava na pauta do debate inte
lectual da época, o que implicava repensar o estatuto da
escrita da história, e que, forçosamente, deve ter levado SBH
a um questionamento de suas leituras de juventude, apoiadas
em Francisco Adolpho de Varnhagen, Capistrano de Abreu,
Paulo Prado, e mesmo sua vivência modernista no Rio de
Janeiro, junto a Prudente de Moraes Neto. As questões em
pauta — objetividade e subjetividade, ciência e arte, verdade
e ficção — tornam-se pressupostos para um debate que se
abre sobre a produção dos discursos que, sob diferentes
ângulos e com distintos graus de comprometimento sobre o
real, dizem e produzem representações sobre o mundo.
Nossa estratégia de abordagem será, então, a de tentar
situar as idéias sobre o tempo de nosso autor e expressas em
Raízes, hipoteticamente advindas de suas leituras do período
alemão e de sua participação no clima intelectual deste tempo
e lugar, para poder analisar sua escrita enquanto historiador.
Trata-se de realizar uma espécie de bordado, de um entretecer
de fios de pensamento, caprichoso, indireto, sinuoso, emara
nhado no cruzamento de idéias, no resgate daquela questão
colocada: como SBH estabeleceu a sua noção de tempo, na
construção de um espaço histórico. Nesta leitura que fazemos,
o tempo será tomado como a referência primordial de análise,
estando o espaço, enquanto território — espaço apropriado
pelo homem — subsumido a esta reflexão, sem que, contudo,
deixe de estar presente.
A partir da identificação e possível incorporação de tais
pressupostos conceituais — incontornáveis, no caso de um
historiador — nos voltaremos para a análise do seu texto,
para avaliar como, na tarefa de reconfiguração temporal, SBH
transita da ficcionalidade e da subjetividade do escritor para
as marcas de historicidade, ou seja, os dados invariantes e

20
objetivos que lhe chegam como fonte ou documento. Em
outras palavras, queremos discutir que história é esta que
faz SBH.

AS PROVÁVEIS LEITURAS BERLINENSES DE SBH:


EM BUSCA DE RAÍZES PARA RAÍZES

Principiemos, nesta rota a seguir pela cartografia buar-


quiana, por Johann Martin Chladenius (1710-1759), este autor
da historiografia alemà das Luzes. Esquecido ou mesmo ne
gado pelos historiadores do século XIX, não é certo que
SBH possa ter entrado em contato com este autor do Ilumi-
nismo alemão do século XVIII, uma vez que tais idéias foram
eclipsadas pelas novas concepções oitocentistas que preten
deram assentar as bases de uma historiografia moderna.
Ora, o Iluminismo alemão teve também sua ambição de
reformar os estudos históricos, notadamente pela introdução
de uma crítica de fontes, a qual Chladenius problematizou
a partir da noção de canal histórico, ou seja, o conjunto dos
filtros de percepção e das condições de transmissão^ que pre
side a apreensão de cada acontecimento histórico, conjunto
este estabelecido antes da análise do historiador.
Chladenius apresenta uma noção de alteridade de tempo
para a construção do passado. Esta diferença se manifesta na
análise dos materiais ou fontes que estão à disposição do
historiador e sobre as quais ele deve atestar a confiabilidade.
No processo que vai da crítica das fontes à construção da
narrativa, Chladenius introduz a noção dos pontos de vista
ou das percepções diferenciadas de cada historiador. Um
horizonte de expectativas, dizendo respeito aos interesses da
época, preside a exposição do discurso, com o que a história
poderá vir a ser contada de vários modos, segundo esta con
dição exterior ao texto e ao próprio documento. Estas dife
rentes percepções, para Chladenius, não comprometiam a
idéia de uma unidade da verdade a ser atingida.^
Com postura avant Ia lettre, Chladenius apresenta a histo
riografia nas suas dimensões de produção e recepção, mar
cando temporalidades distintas, entre a passeidade irredutível
do acontecido e o momento presente.

21
Complementando Chladenius, Schlozer e Gatterer avançam
nesta vertente da historiografia Iluminista alemã, adiantando
que a tarefa de obter a verdade na história seria a de estabe
lecer a inteligibilidade entre a singularidade do passado e o
sistema mais amplo no qual se insere em uma história uni
versal.
Cabe notar que, mesmo estabelecendo a crítica das fontes
como uma tarefa precípua na produção do conhecimento
histórico, se insinua uma nova postura, que admite a exis
tência de diferentes versões e que deposita no historiador
uma autoridade especial para este resgate da inteligibilidade
deste passado.
No decorrer do século XIX, a escola histórica alemã posi
cionou-se contra a corrente Iluminista. Apoiada em um empi-
rismo metódico voltado para as histórias nacionais, esta
escola histórica era animada, por vezes, por um idealismo,
ponto bastante ressaltado pelos seus críticos. Mesmo que
os historiadores alemães das Luzes pudessem ter ficado por
longo tempo no ostracismo, cabe referir que seus enunciados
não seriam estranhos à postura de SBH, como se verá depois.
O maior nome da historiografia alemã bistoricista/histo-
rista foi Leopold von Ranke (1795-1886), de quem SBH foi
leitor confesso, tendo sobre ele organizado o volume História,
dentro da coleção "Grandes Cientistas Sociais", publicado
pela Editora Ática em 1979- Nesta obra, SBH escreve a intro
dução, chamando-a "O atual e o inatual em L. von Ranke",^
artigo originalmente publicado na Revista de História, n. 100,
de 1974.
Atentemos, contudo, que estas são reflexões de SBH da
década de 1970, o que não nos garante que tenha sido sua
leitura no fim dos anos 1920, havendo pois um gap de 50
anos. Nada nos assegura que tenha sido esta a compreensão
do autor na época da escrita da obra Raízes, em 1936.
Será a leitura de Raízes que nos poderá sugerir indícios
de uma intertextualidade com Ranke, sempre tendo em vista
a questão que nos propomos resolver: a noção de tempo ou
de espaço histórico, construída e trabalhada por SBH.
Cabe dizer que a leitura de Ranke por SBH na década de
1970 é renovadora, pois a crítica do século XX foi extrema
mente dura para com Ranke, seja desde o ponto de vista dos

22
historiadores marxistas, seja desde a posição daqueles ali
nhados com a escola francesa dos Annales.
Historiadores marxistas, como Joseph Fontana,^ enten
deram a historiografia rankiana como condizente com uma
postura reacionária, herdeira dos traços mais conservadores
da Ilustração e interessada em criar um nacionalismo alemão
com forte poder de agregação. Fontana define esta postura
como historicista, a defender os localismos e as peculiari
dades históricas de cada povo para combater o universalismo
da postura de um Hegel, que poderia levar a um aprofunda
mento revolucionário das idéias herdadas da Ilustração. Para
seus críticos marxistas, Ranke seria o grande nome do histo-
ricismo e, mesmo afirmando-se apolítico e pretendendo
"mostrar as coisas tal como elas haviam sucedido", realizara
uma história politicamente engajada com o fortalecimento do
Estado prussiano, "abrindo caminho a uma política sã e
segura", distante das seduções enganosas de seu tempo. A
história rankiana afirmara-se como uma história política e,
no dizer de Fontana,^ a identificação entre os conceitos de
"estado" e "nação" era consciente e deliberada, pois ele
eliminava da história interesses sociais, lutas de classe e
modos de subsistência, que debilitariam a coesão social e
a subserviência ao poder.
Já no viés da historiografia francesa dos Annales, o histo
riador inglês Peter Burke comenta que a postura de Ranke
seria a de uma história narrativa nos velhos moldes, apresen
tando um relato de forma evolutiva e cronológica, mas sem
análise,® no qual pusera em destaque uma história política
em detrimento de uma história social. A história praticada
por Ranke acabara por ser entendida como não científica e
carente de um método preciso.
Segundo Burke, a verdadeira revolução propiciada por
Ranke nos domínios da história deveu-se ao destaque do seu
conteúdo documental e do estabelecimento de um método
científico, que realizava o controle das fontes, para avaliar
se eram fidedignas ou não. Tudo, portanto, dentro de um
viés caracterizado por um extremo rigorismo conservador, a
chocar-se com as novas tendências de uma história social e
cultural.

23
A partir deste princípio inaugurado por Ranke no domínio
da história — a valorização das fontes e a necessidade de um
método, tal como fazia Comte com relação à sociologia —,
os materiais dos quais se valiam os historiadores do social
passavam a não ser considerados científicos, ou seja, não
eram documentos oficiais e, portanto, não eram confiáveis.^
A Ranke se deveria, assim, a consolidação de um paradigma
científico para a história, relegando outros campos de tra
balho e pesquisa ao mero diletantismo.
Em termos gerais, Leopold von Ranke acabou por ser
visualizado como um modelo de rigor, de método, de respeito
a regras, de estabelecimento de uma continuidade no tempo,
de evolução cronológica dos fatos, assegurados, na sua auten
ticidade, pelos documentos de arquivo, engessando a história
na cientificidade que lhe é atribuída.
Em conseqüência, Ranke eliminava a representação do
processo de feitura da história, pois pretendera reconstituir
a própria vida, trazendo o passado para o presente. Mesmo
que, no prólogo à sua obra História dos povos românicos e
germânicos, publicada em 1824, Ranke tivesse dito que a
história tinha a missão dejulgar o passado, instruir o presente
em benefício do futuro, reiterava que não aspirava a tão ele
vado encargo. Entendia que sua tarefa era mostrar o passado
tal como teria sido. O crivo do historiador selecionaria fontes
ao que se seguiria a aplicação de um método para a apresen
tação estrita dos fatos, de forma a compor uma unidade e
estabelecer uma evolução dos acontecimentos, o que cons
tituía uma espécie de lei suprema da história.Tal procedi
mento, científico, possibilitaria trazer o passado ao presente,
na sua verdade do acontecido.
Não encontramos, entretanto, tal rigor e tal objetividade
na obra de SBH, seja sobre uma rigorosa crítica de fontes,
seja pelo entendimento de que nestas residiria uma espécie
de espelho do real. A leitura e a inspiração que o historiador
alemão lhe despertou parece ter sido de outra ordem.
Em primeiro lugar, há que ter em conta que, de uma certa
forma, Ranke reformulou a história da Europa, a partir da
suas histórias de nações. Talvez se possa atribuir a SBH esta
ambição, de alguma forma explícita em Raízes do Brasil.
reformular a escrita do Brasil, talvez mesmo da América Latina,

24
na sua proposta de integrá-la, de forma mais ampla, a uma
história européia e ibérica. Igualmente, se Ranke se caracte
riza pela escrita de uma história política, enquadrada nas
correntes universais de poder e de espírito predominantes em
cada época,^^ SBH também acaba por discutir, como questões
centrais, a forma pela qual o poder público é dominado pelo
privado e como se constitui a mentalidade, o espírito ou as
sensibilidades dominantes entre ibéricos, latino-americanos
e brasileiros.
Mas este SBH dos anos 1970 resgata em Ranke também
outras idéias. Segundo nosso autor, a importância de Leopold
von Ranke — ou a sua atualidade — residiria em ter chamado
a atenção dos historiadores para duas idéias: sentido e descon-
tinuidadeP

SBH se refere à série de críticas que o historiador alemão


teria merecido, como acusações de amoralismo, ceticismo,
omissão diante da política, apesar de privilegiar o Estado
em seus numerosos estudos e obras. A postura rankiana,
que se anuncia como de neutralidade, distante de uma
tomada de partido ou de pronunciamento diante das situações
que afetam os ditos valores humanos fundamentais, bem
poderia, segundo seus críticos, vir a legitimar o racismo ou o
nacionalismo exacerbado.

Ora, para SBH, aquelas idéias acima enunciadas, de busca


de sentido Q afirmação da descontinuidade v\2l história, apare
ceriam na obra de Ranke como integrantes de uma postura
intelectual chamada de historismo, postura esta que se baseava
na idéia da mutabilidade da natureza humana.
Note-se que, neste ponto, SBH se afasta da classificação
atribuída a Ranke de historicista, pois, como se verá, ele dis
tingue historicismo de historismo. Se o historicismo represen
tava a tendência de afirmação do particular e do local, e o
historismo enfatizava a presença da mutabilidade no tempo,
a tal ponto que veio a receber a crítica de induzir o relati-
vismo, ambas as posturas, na verdade, apontavam para uma
noção bastante importante, no que diz respeito ao tempo: a
noção da mudança temporal e da unicidade do fato histórico
em cada temporalidade.
O historismo, surgido na Alemanha no final do século
XIX, era um viés de pensamento que postulava que tudo se

2S
transformava com o tempo, sem o que era impossível entender
a noçào de processo histórico.
Segundo a leitura de Ranke por SBH, o historiador alemão
entendia a história como a trajetória dos homens no tempo,
em movimento de contínua reatualização e renovação de signi
ficados, de acordo com o momento e o lugar. Escudier reforça
esta leitura de Ranke, ao afirmar que, para os historistas, todo
trabalho bistoriográfico toma-se antes de tudo um trabalho
sobre a diferença,^'' ou seja, a de expor, pela construção narra
tiva, uma diferença no tempo.
Neste sentido, o historiador alemão não se colocava como
partidário de um tempo homogêneo, contínuo e retilíneo, a
exemplo das ciências naturais, sem começo nem fim, qual
um tempo cósmico linear. Com isso, SBH desfazia a tradi
cional crítica que era imputada ao historiador alemão: a de
estabelecer uma linha evolutiva de um tempo igual e repetido.
Leopold von Ranke tinha como pressuposto uma outra noção
de tempo: ele concebia tempos históricos distintos no seu
acontecer e na sua apreensão.
A experiência humana no tempo era múltipla e única ao
mesmo tempo. Tudo o que acontecera um dia — fatos, perso
nagens, ações — seria historicizado e, portanto, único no
seu acontecer. Ranke só conceberia idéias históricas, ou seja,
idéias no tempo}^ Se cada tempo valia por si mesmo, SBH
identifica em Ranke o conceito da temporalidade múltipla,
não só da experiência ímpar do vivido, mas da descoberta de
significados pelo historiador.
Do plano do acontecer para o plano da interpretação, o
passado apresentava ao historiador a imprevisibilidade da
história: cada momento era passível de uma interpretação ou
da construção de um sentido diferente, mas estes signifi
cados não se davam a ver de maneira direta, precisando
ser descobertos pela atividade de pesquisa do historiador.'^
Caberia ao historiador mostrar tal como as coisas efetiva
mente se sucederam no tempo, mergulhando na busca de como
algo ocorrera, para chegar à significação construída no pas
sado. Para tanto, Ranke indicava o caminho: a pesquisa de
arquivo, o desenterrar dos documentos, a sua análise crite
riosa, para resgatar a experiência dos homens no passado,

26
fosse no plano de um fato isolado ou no das grandes uni
dades de sentido de uma época. Ao historiador, mostrava
Ranke, cabia organizar, numa ordem plausível, o emaranhado
dos acontecimentos, muitas vezes invisível a olho nu. Mais
ainda, a sua familiaridade com as fontes lhe tornaria uma
espécie de testemunha ocular}^ Como Tucídides, o histo
riador é aquele que leu, pesquisou e tem a capacidade de
interpretar, como fala autorizada sobre o passado.
Seu terreno de ação era esta temporalidade, múltipla e
descontínua, a permitir tanto a unicidade como o ineditismo
na história, e que obrigava o historiador a buscar, em cada
contexto, um sentido a revelar aos seus leitores.
Notemos a importância que é dada à interpretação do
historiador, no uso da fonte, de sua erudição, da leitura que
vai de um texto a outro, cruzando conteúdos e significados.
A subjetividade do historiador, no caso, se defronta com a
objetividade do traço, revelando uma escrita que insinua a
presença da ficção mas que se depara com a invariabilidade
do documento. Todos estes, a rigor, são impasses presentes
nos debates contemporâneos da história cultural.
Eis, pois, o ponto-chave da atualidade da concepção
rankiana da história e da compreensão da escrita da his
tória, segundo a leitura que dele viria a fazer SBH. Vários
tempos, vários ritmos, vários significados, o que confirmava
a tarefa do historiador como aquele incumbido de revelar os
sentidos construídos em cada tempo, jamais iguais, destacando
a importância da pesquisa e da reconstituição da experiência,
única e múltipla, no tempo.
Como pressuposto da narrativa de Ranke, é preciso referir
que este defendia, no século XIX, a cientificidade da história,
portadora de um método específico e analisando as fontes.
A história era a ciência do único, e não fazia generalizações.
Assim, quando Ranke afirmava que o historiador devia mostrar
as coisas tal qual se passaram, tanto expunha as mudanças
do tempo histórico quanto revelava a capacitação e autori
dade do historiador para desvendar os sentidos do passado,
a controlar sua subjetividade diante do material de arquivo.
Com isso, Ranke declarava o fim de princípios eternos e
universalmente válidos, indo contra uma história dotada de

27
um sentido ou de uma finalidade, permanente e imutável, a
determinar que tudo era previsível.
A busca de sentido, procurada pelo historiador, não seria,
pois, a de um sentido geral ou teleológico para a história.
Não se tratava de endossar uma filosofia da história, que cons
truísse terminalidades e fins, mas sim de buscar um sentido
no tempo do acontecido, este espaço histórico, este lugar no
tempo, onde algo teria ocorrido no passado.
Para Ranke, só havia margem para uma história científica,
objetiva em seus resultados e produzida com o controle da
subjetividade, e não para uma filosofia da história, tal como
a que fazia seu contemporâneo e grande rival, Johann Gustav
Droysen (1808-1884).'^
Sigamos um pouco as idéias de Droysen, não através da
referência explícita de SBH — que sem dúvida o leu, mas
não o citou —, mas sim através da exposição do próprio
autor, tido como filósofo da história e como um precursor da
hermenêutica.

Na verdade, este é um ponto de estranhamento, a remarcar


nestas possíveis interfaces de SBH com os pensadores da
época berlinense. Ranke permanece preso à busca da verdade
pela crítica das fontes e os rigores do método, postura que
pouco endosso teve da parte de SBH, mas que nele resgata
insigths que seriam aprofundados pela epistemologia de
Droysen.
Gustav Droysen era também historiador, mas dedicou
atenção especial aos problemas teóricos e metodológicos da
disciplina. Tal como Ranke, esteve empenhado na definição
do caráter científico da história face à influência crescente
das ciências naturais no século XIX. Mas, contrariamente a
Ranke, que no seu entender reduzia a história a uma ope
ração de crítica de fontes, Droysen fez da interpretação o
momento crucial do método histórico.^"
Neste caminho, sua reflexão — filosófica e epistemo-
lógica — orientou-se para a especificidade da disciplina his
tória, o que o levou a delimitar e discutir seus princípios
teóricos e metodológicos. Como refere Escudier, sua obra foi
o primeiro tratado de envergadura que precisou as diferentes
fases da operação historiográfica: a heurística, mediante a

28
qual o historiador procura coletar e selecionar os docu
mentos históricos a partir dos quais ele buscará responder
a uma questão proposta; a crítica das fontes, que permite
apreciar o grau de veracidade contido nos traços do passado;
a interpretação, fruto da reflexão do historiador, fase na qual
se estabelecem as relações de significado entre as diferentes
fontes, testando as hipóteses e a exposição histórica, mise
en intrigue ou construção da narrativa.^'
Droysen entendia que tanto a natureza quanto a história,
o espaço e o tempo eram concepções geradas pela mente
dos homens a partir da percepção empírica do mundo."
Ora, para Droysen, o que fazia com que se formasse,
desde o caos das percepções sensíveis do mundo empírico, a
construção de um saber acumulado sobre o passado, era
uma vontade do espírito. A história, percepção humana da
mutabilidade no tempo, surgia desta vontade, ou este querer
atribuir sentido às coisas, fazendo com que a realidade se
constituísse como um mundo moral, ou seja, qualificado,
dotado de valor e significados.
Até aqui, podemos ver a interação epistemológica cons
truída por Droysen para mostrar como a ciência da história
era um resultado de percepções sensoriais, de experiências e
de pesquisas empíricas sobre o real." Era esta capacidade
humana de atribuir sentido às coisas — formando, ao longo
do tempo, a humanitas, ou cultura — o real conteúdo da
história.

Desta forma, as categorias do espaço e do tempo, assim'


como todas as demais modalidades de atribuição de sentido,
que qualificam o real — como a própria natureza, a qual se
refere o espaço, e a história, que remete ao tempo — não
estão presentes no mundo empírico como um dado, mas como
produto mental, sob a forma de representações."
Nesta medida, Droysen falava, explicitamente, em repre
sentações construídas pelo historiador e no emprego de sua
subjetividade para compor o quadro do passado. O homem
construía representações sensíveis sobre o mundo, a partir das
quais ele tomava conhecimento e possessão da realidade.
Desde o presente, o historiador se deparava com as repre
sentações daquilo que teria acontecido um dia e que faziam
com que este passado lhe fosse um nàopassado, ou seja, um

29
tempo a ser representado pelo historiador. Assim, Droysen
tratava também as fontes ou registros do passado, este material
imprescindível ao empirismo da história, como representações
construídas em um outro tempo, cabendo ao historiador, por
seu turno, representar o já representado.
Neste caso, a história seria, verdadeiramente, uma ciência?
Remontando à Poética, de Aristóteles, Droysen recolhia a
famosa afirmação de que o filósofo grego não considerava a
história como uma ciência e que pensava que a poesia era
mais filosófica do que a história, pois tratava do geral, en
quanto que a história se ocupava do particular.^^
A questão se renovava ao longo do tempo, tanto durante a
Ilustração, com a pretensão da filosofia em ser a única ciência,
quanto com o racionalismo do século XIX, que afirmava o
primado das ciências naturais, ficando sempre a história em
uma situação ambígua.
Considerava Droysen que uma acepção da história enquanto
ciência devia passar, forçosamente, pela especificidade do
seu material empírico, que já chegava ao historiador enquanto
representação.

Este é o primeiro grande princípio fundamental de nossa


ciência; o que ela quer conhecer sobre os passados não se
há de buscar neles, pois os passados já não existem mais
em nenhuma parte, senão somente naquilo que resta deles,
qualquer que seja sua forma, e só assim é acessível à per
cepção empírica.

Toda nossa ciência se baseia no fato de que nós não cons


truímos os passados a partir dos materiais existentes, senão
que fundamentamos nossas representações deles, as corri
gimos e as ampliamos mediante um procedimento metó
dico que se desenvolve a partir deste primeiro princípio.

Logo, para Droysen, os historiadores construíam represen


tações sobre o passado, mas a partir de fontes e seguindo um
método. Este método consistia em compreender, investigando,^"^
o que implicava ter em conta uma rede de correlações: "o
singular se compreende na totalidade em que emerge, e a
totalidade se compreende nesta singularidade, na qual se
expressa",o que era longínquo no espaço e no tempo podia

30
ser atingido e tornar-se compreensível, pois fora expresso
pela linguagem e construído como representação.
Como meta final, o historiador buscava sempre atingir
motivações, sentimentos, razões, singulares ou coletivas,
deixados nos traços materiais em acontecimentos únicos e
singulares. Estes sentidos construídos no tempo do passado
poderiam tornar-se inteligíveis para o historiador, mas dentro
de certos limites, ponderava Droysen.
Não se tratava de conferir, objetivamente ou em amplitude
aquilo que teria ocorrido em outro tempo, mas de ter em
conta que havia uma diferença no tempo: os historiadores
buscavam, sempre, ampliar nossa compreensão — estreita,
parcial, obscura^^— das representações do passado.
Este seria, para o autor, algo a ser assinalado nos domínios
do fazer história. Para Droysen, "nada poderia atingir a reali
dade passada",e a necessidade de enfrentar o desafio do
tetos, reconstruindo uma experiência vivida a partir da multi
plicidade dos materiais de arquivo, obrigaria o historiador a
ter em conta que o saber histórico permaneceria sempre
incompleto ou parcial. Há, pois, na visão de Droysen, a
concepção da história como uma possibilidade de resgate
dos sentidos do passado, e não uma certeza.
Entretanto, assinalava Droysen, alguns historiadores
estavam a servir-se dos meios ficcionais para elaborar a sua
narrativa do tempo escoado. Neste ponto, o historiador
Droysen, a filosofar sobre sua disciplina, encontrava um flanco
vulnerável para criticar seu colega historiador Ranke.
Comentando a tarefa da exposição histórica, Droysen aler
tava, em comentário sarcástico a seu rival: "celebra-se hoje
como o maior dos historiadores de nossa era aquele do
qual a maneira de expor se encontra mais próxima da de
um romance de Walter Scott..."^'
Postulando a verdade nua como o ideal incondicional de
todo historiador,^^ Leopold von Ranke chegara a insurgir-se
contra as liberdades tomadas pelo romance histórico com
relação às fontes. Rejeitava toda e qualquer qualidade esté
tica do texto, mesmo que, na busca da precisão estrita dos
fatos acontecidos, a narrativa pudesse vir a ficar limitada e
desgraciosa}^

31
Mas a almejada objetividade de Ranke, pautada pelo mé
todo e pelas fontes, era mitigada por uma bela escrita e por
uma espécie de intuição,^^ que se traduzia em uma narrativa
viva e colorida, em relato quase plástico das situações e
personagens apresentados.
Neste sentido, a introdução do texto no qual Leopold von
Ranke traça o perfil da figura histórica de Temístocles nos dá
uma idéia da construção literária de sua narrativa:

O oráculo de Delfos anunciou com palavras sombrias que


tudo estava perdido. Entretanto, deu como resposta, a uma
última pergunta, desesperada, o conselho de que Atenas
se resguardasse detrás de muralhas de madeira. Esta vez,
os atenienses tiveram sorte de que se achar entre eles um
navegante inato chamado Temístocles, homem animado por
idéias de grandes vôos."

O trecho demonstra as qualidades da escrita rankiana,


dando à sua narrativa um sabor literário, mesmo ficcional.
Enquanto historiador que postulava a objetividade da fonte
e a supremacia do método face a um recuo da subjetividade
do historiador, Ranke chegara a afirmar: "quisera suprimir a
mim próprio para deixar que falassem somente as coisas e
as forças".Mas Ranke, todavia, deixava em sua narrativa
as marcas do seu Eu... Este se revelava tanto na escrita como
na afirmação de sua autoridade de historiador e de erudito,
detentor da cientificidade do método, que o autorizava a
construir a narrativa sobre o passado.
Ao comentar Ranke, Droysen opunha a narrativa, como forma
de exposição ligada à ficção e à estética, às outras formas de
exposição — de pesquisa, didática e de discussão —, próprias
à história como ciência. A ficção criava uma ilusão do espírito,
como se o acontecimento, em sua integralidade, ali estivesse
presente, como se o passado tivesse um início e um fim e,
finalmente, como se fosse possível articular uma imagem obje
tiva sobre o passado.
Neste caso, o comentário que aproximava a história de
Ranke da literatura de Scott era totalmente negativo, pois
Droysen concebia a ficção como um engodo, uma fantasia.
Logo, que história era esta de Ranke, que utilizava os recursos

32
próprios à narrativa ficcional, apoiados em uma postura esté
tica de escrever? Isto, no mínimo, reduziria suas pretensões à
objetividade, à tarefa de apresentar o passado tal havia sido
um dia...

Mas Droysen, o historiador filósofo que põe sob suspeita


a narrativa e evita a ficcionalidade, acaba por não esclarecer
os termos da equação que arma: se fosse a ficção que dava
a ilusão da objetividade ou da verdade do acontecido, que
tipo de resultado podia almejar este historiador na busca
da decifração dos sentidos do passado, uma vez que este
era inatingível?
Não seria uma verdade científica, pois o historiador não
poderia restaurar ou reproduzir a imagem do passado. Este
passado só poderia chegar até nós como representação, como
fruto de um trabalho do imaginário. Comenta Jauss^^ que a
solução deste impasse poderia ser dada se ele admitisse o ca
ráter de narrativa e a presença da ficção na escrita da história,
principio este que, contudo, dificilmente poderia ser afirmado
por um historiador do século XIX, mesmo para alguém com
uma postura avant Ia lettre como Droysen.
Estas reflexões, que discutiam a objetividade no campo
da história, remetem, por sua vez, a esta questão central, que
é a do tempo. A distância temporal entre o realmente aconte
cido e a escrita sobre o que se passou colocavam o historia
dor diante de um impasse.
Portanto, justo Ranke, que cobrava do historiador o apa-
gamento da sua subjetividade para deixar os documentos
falarem, possibilitando que a história se contassepor si mesma,
teria traído, na prática, esta proposição, na opinião de
Droysen... Sua bela escrita seria quase literatura e, portanto,
não científica.
E Droysen, este historiador filósofo, que tão longe levara a
sua reflexão sobre a escrita da história e suas estratégias
metodológicas para perceber o tempo escoado, este historiador
que admitia a subjetividade na construção das representações
sobre o passado, voltava-se contra a ficção.
Tais comentários de Droysen sobre Ranke são importantes
para que se possa aproximar SBH do debate intelectual de
sua época. Qual o estatuto da história, ou, melhor dizendo,
da escrita da história, diante de uma possível oposição entre

33
Ciência & Objetividade x Arte & Subjetividade, e como esta
tensão se colocava diante da necessidade de contar o tempo
passado? Esta era uma questão que se colocava para aqueles
herdeiros do Iluminismo, na tradição de Kant e Hegel, que se
abrigavam no seio da postura conhecida como Culturalismo
Alemão e que se voltava para o debate sobre o mundo das
idéias, do mental, do espírito, do sensível, da cultura. Com
relação à história, esta era visualizada como uma sucessão
de sentidos no tempo.
Se SBH se posicionou diante deste debate epistemológico,
integrante do clima intelectual de sua época, a obra Raízes
deveria revelar tais tensões.

Entretanto, em sua escrita, SBH não prima pelo rigor do


método, como Ranke, nem pela discussão teórica, tal como
Droysen, nem se declara tributário desta ou aquela tendência.
Ler SBH a partir de sua leitura explícita de Ranke e implícita
de Droysen é uma tarefa difícil e que, sem dúvida, pode ser
mesmo paradoxal: como alguém, tão pouco sistemático ou
rigoroso, pode ter encontrado uma possível inspiração na obra
de Ranke, este historiador alemão que foi mestre do rigor e
do método? Ou de um Droysen, autor de fina e ampla reflexão
epistemológica?
Por outro lado, parece que SBH creditava a Ranke, mas de
forma positivada, as críticas expressas por Droysen, críticas
estas que estariam, a rigor, mais próximas daquele conteúdo
de atualidade que divisou no historiador alemão e que se
expressariam nos princípios da mutabilidade e descontinui-
dade dos tempos históricos e na construção de sentidos,
historicizados e únicos no tempo. Ranke, em síntese, não
só pensava como escrevia bem, apresentando ao leitor um
passado verossímil, com efeito de verdade.
Um ponto talvez seja extremamente importante destacar
nestas prováveis leituras buarquianas de autores alemães:
se conhecedor das críticas de Droysen a Ranke, SBH parece
ter optado pela visão que, por um lado, incluía a ficção na
narrativa histórica e que, por outro, legitimava a sua inscrição
como fala autorizada e erudita sobre o passado.
Mas continuemos nesta tentativa de retraçar leituras e idéias
da época que teriam sido incorporadas pelo nosso autor. Em
particular, um acentuado vanguardismo de pensamento no

34
domínio da história estaria presente em Gustav Droysen, o
não citado por SBH, pelos pressupostos que construiu para
pensar a escrita da história no tempo, pelo delineamento das
operações mentais que presidiam a construção de sentidos
sobre o mundo e, sobretudo, pela análise da percepção
sensível que qualificava a realidade através do tempo. Não é
possível esquecer, ainda, que Droysen formulara, com muita
precisão, a presença da representação no início e no final da
tarefa do historiador, postura avançada para a introdução de
uma História Cultural contemporânea.
Tanto Ranke como Droysen, seu rival, haviam se dedicado,
em sua época, cada qual a seu modo, em definir a história
como um conhecimento científico, com método e rigor, orde
nando o pensamento interpretativo dos intelectuais.
O pensamento de SBH, contudo, tal como se vê em Raízes
do Brasil, voa, divaga, brinca com os conhecimentos de sua
bagagem cultural... É tudo, menos metódico ou seqüencial...
Antes sugere do que afirma, em termos de suas influências
e leituras, salvo o texto construído cerca de cinco décadas
depois do lançamento de Raízes, sobre Ranke.
Por outro lado, estas suas apreciações sobre Ranke, ex-post
às leituras berlinenses e à escrita de Raízes, apontam para
uma inspiração bistorista da construção buarquiana da noção
de tempo. Historista sem a conotação relativista, ou seja, posi
tivada? Historista, talvez, ou mais precisamente hermêutical
Para tanto, será preciso avançar nesta cadeia de leituras
certas, provavelmente datadas de sua estadia alemã. E, neste
sentido, há outros prováveis alemães na bagagem de leituras
de SBH como, por exemplo, Wilhelm Dilthey (1833-1911).
Historiador e filósofo, Dilthey, este outro alemão bistofista
e bermeneiita, daria maior relevo à cultura, afastando-se do
viés propriamente político da análise de Ranke, mas também
empenhado em estabelecer a história como um conhecimento
científico. Entretanto, enquanto Ranke e Droysen posicionam-se
do lado das ciências da natureza, Dilthey acrescenta uma outra
dimensão àquela do mundo físico: o sentido psicológico na
análise.^"

Para Paul Ricoeur, que no século XX se posicionaria como


o maior pensador da hermenêutica, Dilthey teria dirigido sua

35
reflexão para responder a um problema crucial: como com
preender um texto do passado? Ao tratar a inteligibilidade
daquilo que teria se passado um dia, Dilthey teria, a seu ver,
não só enfrentado o desafio de pensar a temporalidade do
passado como teria sido o intérprete de um pacto entre a
hermenêutica e a história}^
Dilthey apontaria para este princípio instaurador da herme
nêutica, que é o de ultrapassar a distância temporal e cultural
do passado, compreendendo este outro no tempo, verdadeira
finalidade da história. Entretanto, se a hermenêutica na sua
relação com a história busca interpretar a experiência humana
em sua dimensão temporal, tal postura reservaria poucas
certezas e muitas dúvidas, neste século XIX tão impregnado
pelo cientificismo e o racionalismo.
Havendo uma descontinuidade entre o presente e o pas
sado, capturar as unidades de sentido de uma determinada
época seria o grande desafio, pois implicaria captar uma
expressão da vida, esta enargheia própria do ser humano,
através do resgate da psicologia de um outro tempo.
Retornamos, aqui, aquela idéia levantada por Droysen, da
busca do espírito ou do significado construído pelos homens
no tempo, ou da procura dos sentidos e das particularidades
de cada época de que fala Ranke, em concepção que passa a
ser mais bem formulada por Dilthey.
Trabalhar com as expressões — ou mesmo, as impressões
ou marcas deixadas pela vida, com o psicologismo de uma
época, com as sensibilidades — múltiplas, cambiantes, ins
táveis, variadas — dos homens de um outro tempo poderia
vir a se constituir em um obstáculo, mas também em uma
grande atração. A atitude da hermenêutica é justamente esta
na qual, partindo deste desafio que é o estranhamento propor
cionado pelo passado, o pesquisador se propõe a buscar os
sentidos ocultos no tempo.
Neste ponto, Dilthey se encontra com Droysen, quando
este diz que é só o olhar do historiador que pode reconhecer
nos traços deixados pelo passado os elementos para a sua
pesquisa,'^" vendo nos restos deixados à sua disposição "a
pegada do espírito e a mão do homem'"^^ de um outro tempo.
Complementava Droysen que, "quanto mais preparado é o

36
espírito que pergunta, tanto mais rico é o conteúdo da per
gunta". Ou seja, Droysen enfatiza o saber prévio e acumu
lado, a erudição de cada historiador, que iluminava seu olhar
e potencializava a descoberta dos sentidos do passado.
Como homem culto, grande leitor, erudito, quer parecer
que SBH deveria apresentar estas condições para o resgate
das impressões de vida dos homens de um outro tempo, enfren
tando esta alteridade do passado. Raízes demonstram o resul
tado reflexivo de muitas leituras, a maior parte implícitas no
texto, e que dariam margem às interpretações do autor sobre
o Brasil. Acompanharemos, mais adiante, a correlação entre
os insights do autor e a base de referência que autorizaria
sua interpretação histórica.
Um outro possível cruzamento a estabelecer entre SBH e
suas leituras alemãs seria aquele possibilitado pela noção
dos materiais com que se constitui o empírico da história,
apresentado por Droysen, e a multiplicidade de impressões
da vida, apontadas por Dilthey.
Droysen enumera diversos materiais, discursivos ou imagé-
ticos, postos à disposição do historiador, indo dos contos de
fadas à alta literatura, das moedas e das ruínas arquitetônicas
às pinturas. Em uma atualização das perguntas, poderíamos
indagar: tudo, então, seria matéria para a história? Sim, seria
a resposta para estes pensadores alemães e, aparentemente,
para SBH também, pois seria portador de um registro da vida
no tempo.
Leitor de Dilthey, SBH expõe a leitura que este fazia de
Ranke: um historiador objetivo, a trabalhar com os momentos
culminantes e a fazer as devidas conexões históricas, mas
que deslizava na superfície: não ia às causas últimas, às
raízes...Raízes, estas, que ele, SBH, buscaria atingir, na
sua obra inaugural, mergulhando no tempo descontínuo e
variado, no resgate destas marcas deixadas pela história. É
fora de dúvida que este direcionamento cultural, de uma
hermenêutica psicológica, aprofundaria o componente de
relativismo desta postura de interpretação do mundo que foi
o historismo.
A mudança contínua no tempo e a busca de interpretar
antes sentimentos e emoções do que razões ou fatos contri
buíram para que o historicismo degenerasse naquilo que.

37
pejorativamente, foi tratado de historismo, postura ancorada
em um relativismo absoluto.
Retomamos aqui uma distância entre a análise de Dilthey
sobre Ranke e aquela feita por SBH: enquanto SBH identifi
cara Ranke com o historismo — tendência apoiada no prin
cípio da mutabilidade da experiência histórica — Dilthey e
mesmo os pósteros, como os marxistas, o classificariam como
integrante do historicismo — corrente que enfatizava as parti
cularidades da experiência histórica no tempo. No seu desdo
bramento e no viés mais radical da crítica — do historicismo
ao historismo —, a mutabilidade e unicidade da história acarre
tariam a relativização de toda a análise.
A corrente que se estabelece — SBH, leitor de Dilthey,
que é leitor de Ranke — parece relevante para nossos fins.
Não seria demais reiterar a importância que tem, na visão
de Dilthey, a variedade das formas da experiência humana,
tal como a "pluralidade fundamental do mundo histórico,
também no plano temporal".
Dilthey acentuava não só a existência de diferentes con
juntos interativos (família, economia, direito, política, sindi
cato etc.), que possuíam os seus próprios movimentos e
ritmos, como alertava para a coexistência de várias tempo-
ralidades em um momento dado. Nesta medida, o trabalho
de contextualização a ser realizado pelo historiador perma
neceria inesgotável, uma vez que, cada espaço e cada tempo,
remeteriam a um outro espaço e um outro tempo.
Para Dilthey, a categoria da temporalidade era base para
todas as outras categorias mentais. O tempo era, sobretudo,
uma formulação conceituai da experiência e da sensibili
dade dos homens, que lhe atribuíam distintos significados:
simultaneidade, seqüência, intervalo, duração, mudança
eram concepções construídas, e mesmo o passado podia
tornar-se presente, e este se converter em futuro. O presente
era marcado pela experiência da vida e a formulação de idéias,
através das quais se pensava o futuro através de desejos e espe
ranças, e o passado pela memória. Neste sentido, o passado e
o futuro só existiam a partir dos pensamentos do presente.
Tal concepção implicava em múltiplas configurações tem
porais, produtos do pensamento e da experiência de vida.
Para Dilthey, o tempo seria, pois, enquanto percepção e

38
formulação conceituai, mutável, pensamento que ia ao
encontro das leituras de SBH sobre Ranke. E, na senda de
Droysen, Dilthey concebia que a sucessão de momentos no
tempo não podia ser recuperada. O passado não podia ser
experimentado, salvo pelo pensamento, onde a recuperação
evocativa do tempo escoado substituiria a experiência.
Tal compreensão, apropriada pela história, revela-se de
extrema atualidade, pois leva não só a pensar o passado de
outra forma, como a nele ver não um tempo fixo, que se
refere por sua vez a um só espaço. Há uma diversidade
espaço-temporal interativa em cada recorte que o historiador
possa realizar, com a sua escolha.
Além disso, tais considerações autorizam não só a pensar
na renovada estranheza do historiador diante da alteridade
do tempo passado — confirmando a frase de L. P. Hartley
de que "o passado é um país estrangeiro; lá, eles fazem as
coisas de um outro modo" — como no próprio inacahamento
da história.
Prossigamos, pois, nesta proposta de surpreender algumas
linhas de continuidade na vertente hermenêutica de recupe
ração da experiência humana no tempo, que influenciou
outros tantos pensadores alemães, prováveis leituras de SBH
quando de sua escrita de Raízes.
Estas formas psicológicas que traduzem a vida no tempo
são, por Dilthey, indicadas como produtoras de distintas
configurações, que se aproximam, em termos conceituais, aos
tipos ideais ÚQ Weber ou Sombart, ou às configurações de um
Norbert Elias,autores estes, lidos, por sua vez, pelo histo
riador de Raízes do Brasil.
O sociólogo Max Weber (1864-1920) foi apontado, com
freqüência, como o grande inspirador de SBH. Fora a partir da
utilização de tipos ideais, como o do homem cordial, ou do
semeador e do ladrilhador, ou ainda pelo emprego dos con
ceitos de patrimonialismo e burocracia na sua obra Raízes
do Brasil, que se encontram as tais evidências da influência
weberiana sobre SBH, como aponta Antonio Cândido no
conhecido prefácio escrito à 5® edição da obra.'®
Tratam-se, no caso, de referências explícitas de SBH às
categorias de Weber, através de citações feitas e comentários,
seja no corpo do texto, seja em notas de rodapé,'^ mas deve

39
ser notado que tais referências dizem respeito a análises de
cunho propriamente histórico, de situações específicas, datadas
e localizadas, ou do uso histórico de um conceito, como o do
patrimonialismo, que nosso autor refere.
Ou seja, quando se trata de falar no homem cordial, no
semeador ou no ladrilhador, SBH nào se refere a eles como
tipos ideais, nem lembra Weber como a inspiração de tais
perfis. A associação é feita pelos seus leitores e intérpretes, e
não por SBH em sua obra Raízes. Tais leitores explicitam, de
forma clara, as incorporações sociológicas weberianas, feitas
por um historiador que pretende atingir o âmago de um ethos
cultural no Brasil.
Outra coisa seria, contudo, surpreender na leitura buar-
quiana de Max Weber apropriações ou ressemantizações da
noção de tempo. Segundo Weber, a ciência era a ordenação
conceituai e racional da realidade empírica, e a sociologia se
incumbiria de construir leis gerais, enquanto que a história
se esforçava para estudar o individual, desde que conside
rado importante.
As construções conceituais da sociologia, contudo, encon
travam seu referente nas mesmas estruturas que eram consi
deradas relevantes para a história. O tipo ideal weberiano
define-se por ser uma configuração conceitual-sociológica,
pura e abstrata, que dá a ver unidades de sentido, que são
gerais para um momento dado. É, porém, construído a partir da
variabilidade de casos concretos, resgatados pela história.
Mas, se os tipos ideais são conceitos puros e invariantes
de um método cognitivo, todas as esferas da vida — política,
psíquica, econômica, religiosa — seguem uma evolução
própria, demarcadas por tempos diferentes de realização.
Assim, Weber concilia as multiplicidades e as descontinui-
dades do tempo com a fixidez de tais conceitos, entendidos
como construções abstratas, lógicas e precisas, que expressam
regularidades observáveis na variabilidade das situações
históricas. O tipo ideal é um instrumento conceituai para
poder submeter a uma espécie de regra geral a variedade da
experiência humana no tempo.
Como é sabido, Max Weber centrava nas idéias a construção
dos seus tipos ideais, tal como ele expôs em sua obra A ética
protestante e o espírito do capitalismo. Weber se interessaria

40
por realizar, com o apoio de conceitos, uma ciência empírica,
capaz de atingir as significações culturais dos fenômenos.
Tal procedimento implica construir relações objetivamente
posstveisj'^ distantes das noções de modelo, cópia ou reflexo
das idéias com relação à vida material. No mesmo artigo em
que, na década de 1970, rende tributo a Ranke, SBH afirma
que o tipo ideal weberiano construiu-se como um método de
compreensão entre a parte e o todo, servindo como uma ponte
entre os procedimentos das ciências naturais e os das ciências
do homem, embora padecesse de um viés generalizador.^^ A
crítica, no caso, seria típica de um historiador, a lidar neces
sariamente com o empírico, dirigida contra as generalizações
e abstrações do sociólogo, embora o autor aplique processo
similar em sua obra.
Seguidor de Weber e sob a influência de Dilthey, e igual
mente leitura de SBH, foi Werner Sombart (1863-1941).
Na sua obra O burguês, de 1913, o economista Werner
Sombart estuda o que chama a evolução e a estrutura do espí
rito de nosso tempo, baseando-se para isso na análise do agente
portador deste espírito. Realiza o que se pode chamar de
estudo de mentalidade-, algo referente ao modo de ser, ao
domínio do mental, dos sentimentos, da vida psíquica, que
envolve inteligência, traços de caráter, juízos de valor e prin
cípios.
Esta mentalidade, assim definida, poderia aproximar-se do
espírito das coisas, apontado por Droysen, ou da expressão da
vida, referida por Dilthey, estando ainda talvez presente no
tipo ideal, concebido por Weber. Categorias todas a expressar
fenômenos da ordem do cultural, caros ao debate intelectual
que se processava na Alemanha.
Werner Sombart se propõe a analisar o psíquico a partir de
dados reais, fundamentados historicamente. Sombart inverte a
relação marxista clássica, tal como Weber o fizera: é o espírito
capitalista que preside a organização do mundo econômico.
Estabelece que "a atividade econômica só se manifesta quando
o espírito humano entra em contato com o mundo exterior e
atua sobre ele".^"^ Para o autor, são estas manifestações do
espírito que guiam a conduta e as ações dos homens.
Por outro lado, Werner Sombart afirma, em sua obra, que
estudar história é "expor o diferente de cada caso".^^ Trabalha,

41
pois, com mudanças no tempo, que explicam as variações, as
diferenças. Mais adiante, Sombart aponta que, destas multi-
plicidades de modos de ser, acontecidos historicamente, veri
fica-se o predomínio de uma delas, que expressa os valores
vitais de uma época.
Ora, a postura de Sombart diante das diferenciações no
tempo, que se dão por efeito das condições históricas únicas
que se apresentam em cada momento, o leva a aproximar-se,
também, daquela noção antes apontada por SBH em Ranke:
o ineditismo da história e o acontecer no tempo, marcando a
pluralidade e a variabilidade das experiências, mesmo que
uma seja a dominante. Neste sentido, a proposta de Sombart
aproxima-se claramente daquela de SBH; a historicização do
conceito weberiano, com sua aplicação e demonstração no
caso brasileiro.
Parece-nos que a concepção de tempo de SBH, tal como
ele a expressa em Raízes do Brasil, pode, em certa medida,
aproximar-se daquela expressa por suas leituras alemãs,
uma vez que nosso autor busca resgatar a temporalidade
dos processos sociais acontecidos, ou seja, tenta captar os
significados construídos no tempo. Logo, SBH persegue signi
ficados historicizados.
Até agora, falamos de história e de leituras históricas de
um jovem historiador, em sua fase de formação. Há, contudo,
um elemento que se insinua naqueles autores do século XIX
e início do século XX, voltados para o universo das idéias e
da cultura e que é, neste momento, negado como elemento
ou princípio integrante da tarefa do historiador.
Referimo-nos à ficção, que faz a história comungar com a
literatura nesta tarefa de recriação do mundo. Muitas décadas
mais tarde, seria recuperada a discussão sobre a presença da
ficcionalidade na narrativa histórica, como um dos pilares
centrais de uma vertente historiográfica que, a rigor, SBH não
conheceu, mas que o redescobriu para o público leitor do fim
do século XX.
Vimos como Droysen, ao introduzir a representação na
tarefa do historiador, situa a ficção como uma barreira intrans
ponível ao caráter científico da disciplina. Sem dúvida, tais
autores se situam no cerne do debate de seu tempo, que trata
de conferir o status de ciência à história e que se apóia, por

42
um de seus lados, na formulação antitética históna-verdade-
ciência x literatura-arte-ficção.
Mesmo que tais autores não cheguem a definir a história
como uma modalidadeficcional de reconfiguração do tempo,
as premissas para esta compreensão estão todas já formu
ladas. E, neste sentido, a nova concepção de tempo ocupa
um lugar central.
Um tempo que muda e que passa, na irreversibilidade do
momento escoado, impossível de recuperar. Um tempo mutável
e, ao mesmo tempo, único e inédito, na irredutibilidade do
acontecido, aurático no seu aqui e agora. Um tempo múltiplo,
na sua valoração e significado, nas diversas e mesmo super
postas construções de sentido para além dos enquadramentos
do tempo físico mas, ao mesmo tempo, percebido em cada
momento da história. Um tempo descontínuo, com diferentes
velocidades, dando à noção de processo uma outra dimensão.
Finalmente, a noção de que a história seria, enfim, uma acumu
lação/sucessão de lugares no tempo, onde sentidos específicos
seriam construídos.
Se tais questões estavam postas pelos pensadores alemães,
a obtenção desta vida ou energia humana inscrita no tempo
que passou restaria como um problema a resolver, mesmo
com a utilização, pelo historiador, de todas as marcas de histo-
ricidade ou fontes de que ele pudesse dispor.
Quando Droysen apresenta o conceito da representação
como chave para a recuperação dos sentidos do passado, já
estabelece, a rigor, a resposta para o desafio de uma reconfi
guração temporal.
Diante da tarefa de trazer o passado para o presente, a
impraticabilidade de reprodução da experiência traz para o
campo do historiador a necessidade de lançar mão de recursos
ficcionais. Representar o passado no presente implica enfrentar
o desafio da hermenêutica, ou seja, o da tradução e da presen-
tificação de uma ausência através da narrativa. No bojo deste
processo se instaura um outro tempo, qualitativamente dife
rente, que é o tempo histórico, resultado de uma operação
ficcional.
Este tempo instaurado é fruto de uma capacidade ou poten
cialidade da ficção, que se propõe expor não só a experiência
realizada, só recuperável pela imaginação, mas também o

43
invisível, o implícito, o imperceptível, restaurando mesmo o
não dito, mas insinuado ou pressuposto. A esta tarefa, de
revelação de um oculto, de desvelamento de sentidos de uma
temporalidade passada, exposta pela narrativa do historiador,
não teríamos outro nome para referir senão o da ficção. É
pelo recurso à ficção que o historiador constrói o enredo como
teria acontecido. É pelo emprego de estratégias ficcionais que
ele conduz o leitor para fora de seu texto, a uma realidade
que só é dada a ver por operações mentais e pelo poder de
fazer crer, resultado de verossimilhança obtido pela combi
nação de uma estratégia retórica, em combinação com os traços
de historicidade resgatados.
Neste sentido, ao lado de uma tarefa de historiador tout
court, de pesquisa de fontes em arquivo, há uma outra que
envolve a mise en récit, que não é possível sem a ficção.
Ao mesmo tempo, esta reconfiguração temporal construída
é sempre um trabalho de tradução, face a uma diferença no
tempo e a uma necessidade de expressar a alteridade do pas
sado, sobretudo se ela se baseia no resgate das sensibilidades.
Outros valores, outros sentidos, outras razões mobilizavam
as ações humanas, frente as quais somente o imaginário da
narrativa historiográfica pode recompor, dando a ver o que
não é mais passível de ser experimentado e traduzindo sensi
bilidades no tempo que não são mais as nossas.
Neste ponto, a reconfiguração temporal ficcional construída
pelo historiador atinge o âmago do significado daquilo que
se convencionou chamar de representação: estar no lugar de,
presentificar uma ausência. No caso da escrita da história,
esta apresentação de uma temporalidade nova, como se fosse
o passado, dá a ver o invisível e mesmo preenche lacunas e
ausências.A ficcionalidade da história estaria presente na
recuperação do invisível, do implícito, do imperceptível, do
pressuposto, do não dito, todas elas dimensões de uma forma
de conhecimento sensível do mundo, tal como as estratégias
de composição de um enredo e de uma trama, com suas
explicações plausíveis e verossímeis, mas não definitivas
ou indiscutíveis, para as ações humanas. Afinal, as razões e
as sensibilidades que motivaram os homens de um outro
tempo não podem ser resgatadas senão como um leque de
possibilidades.

44
Esta história-quase-literatura pode ainda ser considerada
como uma forma metafórica de expressar o mundo. Isto se
dá não apenas pelo recurso deliberado a estas figuras de
linguagem, que dizem além do que é dito, acenando para
outros significados ocultos. Mas, sobretudo, processa-se de
uma forma que se revela quando se tem em conta a dimensão
do tempo: a invenção do passado, esforço ficcional do histo
riador para tentar dizer como teria sido, fala sobre e a partir
do presente. E, neste caso, falar do presente construindo o
passado é uma maneira alegórica de referir-se ao real de
outra forma.

A pré-história ou arqueologia desta forma de entender a


escrita e o estatuto da história estaria assentada, de forma
seminal, neste viés de reflexão das leituras berlinenses do
jovem SBH. Sugerida, entrevista, formulada enquanto pressu
postos, embrionários e, talvez, mesmo inconscientes, a en
trada em cena da ficção na história se encontrava autorizada,
como um desdobramento possível deste debate intelectual.
Inventar o passado, explicar o presente, construir o futuro
implicava, para o historiador, dar presença a temporalidades
já acontecidas ou ainda não realizadas, que só poderiam ter
existência no plano do mental e a partir de operações de
representação, mobilizadoras, por sua vez, de sensibilidades,
expectativas e desejos, capacidades de memória e evocação,
estabelecimento de analogias e correspondências.
Nesta medida, as décadas seguintes aprofundariam a
questão enunciada por Droysen: que tipo de conhecimento
sobre o inatingível passado era possível obter? Talvez versões,
plausíveis, possíveis, verossímeis, para além do verdadeiro
e do falso, a partir desta capacidade humana e imaginária de
construção social da realidade, para a qual as convenções do
tempo tradicional parecem não opor limites.
Mas limites existem, por certo, pois mesmo se valendo da
ficção, a história não é literatura... Os limites da ficção na
história estavam bem explícitos nas reflexões da época, assina
lados nos autores alemães de SBH: eram aqueles autorizados
pelas fontes.
Fontes, cacos, registros, indícios, todas elas marcas de
historicidade, diversas, múltiplas, deixadas pelos homens do

45
passado como uma espécie de pegadas do espírito humano
para que um dia alguém as seguisse e decifrasse.
A rigor, a fonte se expressa em dois tempos: o do passado
do qual ela é vestígio e no qual teve um sentido e o do
presente, no qual ela é lida e posta em narrativa pelo histo
riador, que tem por meta atingir os tais significados inscritos
no passado.
Fontes são marcas no tempo, portadoras do indício do
passado irrecuperável, mas disponíveis e prestes a serem
inseridas em uma outra temporalidade a ser inaugurada que
é a da história. Neste novo contexto criado, elas cumprem a
função de fio-terra, a mostrar uma verdade do acontecido, só
possível de ser lida pela versão explicativa — ficcional — de
como teria acontecido.

As fontes, contudo, impõem limites à narrativa e à expli


cação do tal passado. Elas autorizam múltiplas redes de
correlações, mas restringem a ficção aos domínios de um ter
sido, que deixou marcas objetivas de sua presença. Assim, o
método do historiador policia seu potencial de ficção para
que não haja extrapolações explicativas para além do que as
fontes autorizam, para que não ocorra superinterpretação,
com analogias não cabíveis.
A presença da fonte, este traço do passado a ser lido e
explicado pelo historiador, estava presente naquela época e
ainda hoje, a demarcar campos e territórios, definindo que a
história, mesmo tão próxima da literatura, não é a mesma
coisa. Clio não é Calíope, embora ambas cantem e digam sobre
o mundo, como musas que são...
Mas, voltemos ao nosso autor, SBH, com suas leituras e
o leque de opções teórico-interpretativas que a ele se apresen
tavam, retornando a nossa questão inicial: como teria SBH
trabalhado com o tempo histórico na sua primeira obra.
Raízes do Brasil?

Agora, contudo, podemos acrescentar mais um elemento


a esta indagação: como teria SBH, nesta sua obra, usado
a ficção para a construção da história como um lugar no
tempo?

46
PRE-ESTRÉIA DE RAÍZES

Em março de 1935, SBH escrevia na revista Espelho, diri


gida por Américo Facó, o artigo "Corpo e alma do Brasil", no
qual resumia o livro que seria lançado no ano seguinte, sob
o nome de Raízes do Brasil.''^ É interessante acompanhar a
evolução do nome da obra: de um binômio que induz a
pensar, simbolicamente, na força da ação e no brilho do
espírito que demarcam uma identidade específica, o autor
iria depois optar por uma denominação com forte conteúdo
histórico, que aponta para uma gênese: raízes.
A rigor, o artigo é um pequeno ensaio, ou seja, é a apre
sentação de uma idéia, que, de forma incisiva, afirma os
contornos de uma prática e de uma sensibilidade — o corpo
e a alma do Brasil — cujo delineamento se encontra enrai
zado nas origens da nação. Enquanto ensaio, a apresentação
e a argumentação desta idéia dispensa citações e não se faz
acompanhar de traços de historicidade, salvo algumas ava
liações sobre o divórcio entre a vida política e a vida social,
fenômeno enunciado por Alberto Torres e que encontraria
correspondência com observações do viajante francês Auguste
de Saint-Hilaire, na primeira metade do século XIX, e de
Aristides Lobo, por ocasião da proclamação da República,
em conhecida referência a um povo que, bestializado, assistia
ao espetáculo da mudança do regime.
Como referencial teórico de sua análise, SBH posiciona-se
na contramão do que considera um paradoxo do pensamento
do século XIX, mediante o qual os conceitos precediam o
mundo das formas vivas, superestimando as idéias, que
usurpariam o lugar das forças vitais.''^ Ora, se SBH criticava
a postura segundo a qual a alma precedia o corpo, é porque
sua linha de análise parte das práticas, ou das ações e
comportamentos dos homens para depois chegar às idéias.
Dito desta forma, poderia parecer que nosso autor se distan
ciaria da vertente culturalista de Droysen, Dilthey e Weber,
para aproximar-se do estudo ou talvez inventário das práticas
sociais e políticas de Ranke e Sombart: são os modos de
ser que expressam os valores de uma época. Ou estaríamos
diante de um fundo latente de marxismo?

47
Por outro lado, SBH afirma seu acordo com o princípio
da dialética como móvel da mudança no tempo, ao referir
que a história jamais nos deu o exemplo do movimento social
que não contivesse os germes da sua negação^^ Dialética hege-
liana e nào marxista, por suposto, pois SBH não irá referir
em momento algum de sua obra esta influência, por mais
tênue que seja. Resta, pois, em suspenso, esta questão do
primado das idéias sobre as práticas, ou destas sobre o
mundo do espírito.
Ou poderíamos dizer que nosso autor digere e metaboliza
suas referências conceituais, traduzindo-as em idéias próprias,
em escrita de palimpsesto? Prossigamos na leitura deste
ensaio, cujo fio condutor será, pois, o delineamento de um
corpo vivo, uma prática social que encontra sua expressão no
homem cordial, expressão que o autor diz tomar de emprés
timo a Ribeiro Couto.
Lido por alguns como um tipo ideal weberiano, protótipo
da identidade brasileira, o homem cordial sintetiza ou corpo-
rifica alguns princípios orgânicos ou viscerais do que é o
Brasil e que se traduzem em distância: entre Eros e Ethos,
entre sentimento e razão, entre Nação e Estado, entre vida
social e vida política. Esta distância ou separação, no espaço
do corpo/ação e da alma/espírito do Brasil, se faz acom
panhar de uma continuidade no tempo: desde as origens,
este teria sido um traço da formação histórica nacional.
Neste momento, SBH introduz uma reconfiguração do
tempo: ao afirmar a permanência deste traço definidor na
gênese e na contemporaneidade do Brasil, mostra a presença
do passado no presente. Seu argumento é de que o Brasil
não se libertara deste pecado original, a revelar-se no pre
sente e a comprometer o futuro. O ensaio, contudo, apenas
anuncia que há uma herança e permanência do passado no
presente, lançando esta idéia de permanência no tempo. O
ensaio anunciador da obra não introduz descontinuidades no
tempo ou múltiplas temporalidades, deixando antes entrever a
cristalização de um ethos, de que é exemplo o homem cordial
Curiosamente, ao construir no tempo da história o ethos e
a práxis do homem cordial, SBH faz um recorte no espaço: ao
dizer que as guerras eram importunas, a violência detestada
e a brandura apreciada no comportamento,^® o autor exclui a

48
realidade do Rio Grande do Sul, como única zona de fronteira
viva, em enfrentamento direto com o castelhano, cuja formação
histórica deu-se segundo o padrão da população em armas.
O seu Brasil não contempla, pois, este espaço, excluído da
geografia, da história e do tempo de sua análise.
A partir deste delineamento, desdobram-se os paradoxos:
o homem cordial representa o primado da subjetividade, do
sentimento, da sensibilidade e da emoção sobre o racional,
com o que se compromete a esfera do social e da construção
de um espaço público e da vivência democrática. Todavia —
e eis o paradoxo — na riqueza emocional do brasileiro resi
diria sua única realidade criadora! Do corpo à alma do Brasil,
SBH atinge o reduto sensível da percepção do mundo possi
bilitado pela vertente culturalista alemã de sua formação.
O que, contudo, era potencial criador transforma-se em
obstáculo a um projeto de futuro, não permitindo a criação
de uma temporalidade alternativa a esta que se mantém. O
passado invade o presente e compromete o futuro, com o
que o texto de SBH revela a sua atualidade política: ele cria
uma trajetória no tempo para fornecer uma alternativa de ação
ou pensamento.
Como intelectual, SBH visa instaurar uma nova visão sobre
os tempos que se acumulam e interpenetram, entre passado,
presente e futuro, mas para ser coerente com seu enunciado
de pressupostos teóricos, seu texto deveria suscitar uma ação.
Uma outra idéia ou paradoxo se desdobra dos distancia
mentos corporificados no homem cordial: a noção de que no
Brasil ocorre um processo concomitante de dessacralizaçào e
sacralização da vida: por um lado, perde seu significado a
ritualística do social em proveito das práticas de cordialidade
e intimidade, criando ilusórias atitudes fraternas ou de igual
dade; por outro, constrói-se uma sacralização do político e
das formas de aparato e poder, desdobrando-se no secular
bacharelismo ou no endosso oportunístico e seletivo de ideo
logias externas, como o liberalismo. Este seria, segundo o
autor, um dos raros momentos em que o povo coincidiu com
a elite no endosso de um ideário, o que foi facilitado pelo
traço de doçura de nosso gênio.^^
Como ensaio, o artigo introduz idéias e argumentos, mas
se conserva distante das marcas de historicidade.

49
A rigor, tais processos de sacraiização/dessacralização das
maneiras de ser do brasileiro já estariam anunciados, de
forma irreverente ou debochada, no romance Memórias de
um sargento de milícias, de Manuel Antônio de Almeida,
escrito na metade do século XIX e com sua ação passada no
tempo da Família Real no Brasil.
Mas, nesse ensaio, o aspirante a historiador que é o jo
vem SBH não se vale de tais inspirações literárias para expor
seu pensamento. O autor constrói uma ficção historiográfica
e exerce seu potencial criador quando elabora um perfil do
país, legitimado pela agilidade da retórica, que provoca o
leitor e instiga a tentar conhecer mais seus argumentos na
obra que virá.
Seu ensaio é um trailler e uma estratégia de marketing
para a apresentação de sua tese ou de suas idéias interpre-
tativas sobre o Brasil, aguçando as expectativas do leitor.
Mesmo tributando algumas noções fundamentais a outros
— o homem cordial a Ribeiro Couto e o divórcio entre a
Nação e o Estado a Alberto Torres —, a proposta de inter
pretação se revela original, a revelar ainda a incorporação
de um substrato culturalista alemão na base.
Enfim, esse artigo ensaístico, que prepara e antecipa a
publicação da obra, revela aquela dimensão de palimpsesto
da escrita, no processo, sempre ficcional, de recriação discur
siva do mundo.
Nesta ocasião, SBH elogia a recente obra de Gilberto
Freyre, Casa grande & senzala — o ensaio mais sério e mais
completo que já se tentou sobre a formação social do Brasil
mas sua análise é mais dura, falando da democracia como
um lamentável mal-entendido no país ou do complexo de
inferioridade do povo, que se podia bem entender, ou ainda
de um bovarismo nacional intrínseco, o que autoriza a
lembrar as considerações de um Lima Barreto sobre o país
que sonhava ser outro... Mas tais insigths não são recolhidos
por SBH no seu aprendizado de historiador.
Na busca de encontrar raízes para Raízes, invocando as
leituras prévias e formativas de SBH, que teriam presidido
sua leitura do mundo, é possível, talvez, que também possamos
encontrar em sua obra outras inspirações, como o pessimismo
de um Paulo Prado, na contramão da visão ufanista de Afonso

50
Celso. SBH, homem letrado de seu tempo, reunia toda uma
gama de influências em sua obra, explicitadas ou nào em
sua narrativa, onde há textos implícitos que respondem ao
seu texto.

Nesse ensaio, SBH anuncia uma visào do passado brasi


leiro, em ficção autorizada por suas variadas leituras e, supos
tamente, pela recuperação dos traços de historicidade que dá
a entrever no artigo e que induz os leitores a buscar na obra.

RAÍZES, ENFIM: MARCAS DE HISTORICIDADE X


ARTIFÍCIOS DE UMA RETÓRICA FICCIONAL

A obra Raízes do Brasil, publicada pela Editora José


Olympio do Rio de Janeiro no ano de 1936^^ e com apresen
tação de Gilberto Freyre, deveria aprofundar estas questões
enunciadas no artigo de 1935, da revista Espelho.
Nesta 1® publicação de Raízes, Gilberto Freyre apresenta a
série que se inaugura através da José Olympio — a "Coleção
Documentos Brasileiros" — como fruto de uma nova inteli
gência brasileira, que responde a uma ânsia de introspecção
social, a produzir uma seqüência de sérios estudos, objetivos
e variados, sobre a realidade nacional, desde o passado até
o presente, da biografia ao estudo sociológico, utilizando-se
de uma vasta base de fontes, algumas delas inéditas.
Para inaugurar a nova coleção, a escolha recaíra sobre o
escritorpaulista SBH, intelectual da nova geração que já desde
uns dez anos vinha demonstrando, ao lado de Prudente de
Moraes Neto, sua vocação de crítico, com gosto interpretativo,
capacidade e qualidade de análise, além de ser também ani
mado por uma alegria intelectual de esclarecer.
Às palavras elogiosas de SBH no seu ensaio de 1935,
retornam as referências positivas do diretor da coleção. SBH
é referido por Gilberto Freyre como um intelectual brilhante,
mas não como historiador.
Sua obra, contudo, tem uma clara proposta de reconfigu-
ração temporal: através de uma análise da gênese, explicar o
presente, reconstruindo o passado para o leitor.

SI
Esta primeira edição de 1936 guarda algumas diferenças
com as que se seguiram, e que permitem apreciar certa ten
dência evolutiva na escrita de SBH.
No prefácio que faz à segunda edição da obra, em 1947,
11 anos depois, SBH afirma ter revisto a obra e tê-la aumen
tado nas partes que julgara necessário, mas se esquivara de
comentar a implantação no país da ditadura pessoal de inspi
ração totalitária, resguardando o contexto histórico que presi
dira a escrita de sua obra, cuja análise, arriscava dizer, ainda
considerava válida. Acusava algumas mudanças, como o título
dos capítulos III e IV, que tinham o mesmo nome e que agora
passavam a ser "Herança rural" e "O semeador e o ladri-
Ihador", mais em consonância com o seu conteúdo.
Também o autor suprimira as notas de rodapé — aliás,
muito poucas, ao longo de toda a obra —, mas acrescentara
notas complementares ao pé de página e outras mais extensas
no fim da obra, além de uma bibliografia final.
Na 3® edição, de 1955, SBH anunciava no prefácio que
restaurara as notas de rodapé, por sugestão do editor, man
tendo notas complementares e mais extensas ao fim dos capí
tulos, as quais poderiam ser lidas separadamente. A grande
alteração desta 3® edição fora o acréscimo do debate suscitado
sobre o homem cordial, com as objeções de Cassiano Ricardo.
Reparos estes, a nosso ver, feitos com vistas a apoiar-se
com mais precisão nas tais marcas de historicidade ou fontes,
bem como de enquadrar mais cientificamente a obra. Seria
de perguntar se o autor não assumiria, progressivamente,
seu perfil de historiador, pois desde a fundação da Univer
sidade do Distrito Federal passara a lecionar as disciplinas
de Cultura Luso-Brasileira e História da América, por um
curto período de tempo. Transferindo-se para São Paulo,
passou, a partir de 1948, a lecionar a cadeira de História
Econômica do Brasil na Escola de Sociologia e Política, para
depois vir a ocupar, em 1956, a cátedra de História da Civili
zação Brasileira na Faculdade de Filosofia da Universidade
de São Paulo.^'^
Ao mesmo tempo, SBH teve cuidados com certas afirmações
realizadas na 1- edição e que seriam depois retiradas. Sobre
tudo um primeiro parágrafo, a introduzir a obra, e que reme
teria, de forma incontornável, às reflexões de Gilberto Freyre,

52
que lhe havia precedido, desde a publicação de Casa grande
&. senzala, em 1933. Ao dizer que o Brasil era o único esforço
bem-sucedido, e em larga escala, da transplantação da cul
tura européia para uma zona de clima tropical e subtropical,
o tom de positividade à colonização lusitana nos trópicos,
característico do discurso freyriano, seria substituído pela
expressão tentativa de implantação da cultura européia em
território com condições naturais diferentes e mesmo adversas
à sua tradição milenar. É evidente, no caso, a relativização
da assertiva anterior, onde se ressalta a diferença e a tenta
tiva, mas não o resultado positivado, posto em julgamento.
Da mesma forma, SBH relativiza ou corrige outras afir
mações feitas sobre Portugal, nas edições posteriores: ao dizer
que a Europa era para Portugal um patrimônio, nosso autor
vai acrescentar: necessário-, ao referir que após o descobri
mento da América as nações ibéricas entram decididamente
no coro europeu, ele acrescentará: mais decididamente...
Por que esta preocupação especial com Portugal? Porque
a definição de um passado delineia, na visão de SBH, o perfil
nacional que, no presente, entrava o futuro. Há, pois, uma
opção de análise retrospectiva que lança a análise, sociológica
e antropológica, de nosso autor para o campo da história.
Igualmente, ao compararmos o texto original com as duas
edições que se seguiram, pode-se observar o acréscimo de
elementos de erudição, a incorporação de novas leituras e
apresentação de provas no texto para comprovação de suas
teses. O autor incluirá referências da literatura e da história
— universal, lusitana, brasileira — que possibilitam credi
bilidade às suas idéias sobre Portugal, onde a precocidade
e a modernidade se fazem acompanhar pela sobrevivência
de traços feudais, do passado. Tais acréscimos, realizados
após a primeira edição, tanto podem ser creditados a uma
necessidade de fundamentação histórica, com o recurso às
fontes e citações, quanto como reação às criticas ao seu
homem cordial.
Eles se dão, por exemplo, no reforço da idéia do pionei-
rismo de Portugal, invocando o texto de Gil Vicente ou os
estudos do historiador português Alberto Sampaio, cujas
informações se dariam com apoio de ampla documentação,
acrescenta SBH. Também acrescenta todo um longo parágrafo

*53
sobre a Revolução de Aviz e seu caráter de incompietude
burguesa, conduzindo à acomodação das elites e à persis
tência das virtudes da antiga aristocracia. Transformada em
valor permanente e universal, esta espécie de ética da fidal-
guia dificultaria a consolidação de uma moral fundada no
trabalho, reflexão buarquiana que será mais bem desenvol
vida nas edições subseqüentes.
Mesmo com tais acréscimos de autoridade da fala, ou de
evidências históricas de reforço às suas idéias, o texto de
SBH não se caracteriza pelo recurso metódico às citações ou
pela indicação das fontes que autorizam a análise. Ele passa
rapidamente sobre elas, menciona autores, mas pouco desen
volve ou expõe suas idéias. Pode-se dizer mesmo que, muitas
vezes, SBH dispensa o recurso, caro aos historiadores, do
uso de tais registros de historicidade ou marcas do tempo
para atestar a plausibilidade e a verossimilhança de suas
afirmações ou, se formos pensar em termos de Ranke, na
veracidade de suas idéias.

Sua estratégia narrativa sobre o passado se vale de alguns


exemplos e citações, de autores de época e de alguns poucos
fatos, colhidos em diferentes espaços e temporalidades da
formação histórica ibérica e latino-americana, para dar su
porte à sua linha de interpretação. Quase se poderia dizer
de SBH que ele colhe ao acaso seus exemplos, retirados do
seu amplo lastro de informações, de sua erudita bagagem
de leituras, que lhe permite encontrar sempre um exemplo
de significância para entrar em correspondência de sentido
com suas idéias. Nesta medida, se poderia arriscar que o
manejo das fontes está subordinado à demonstração de uma
idéia.

Por outro lado, poderíamos ainda fazer caber a SBH a


crítica feita por Droysen a Ranke, de que sua escrita se apro
ximava a de um romancista. Sim, pois a narrativa de SBH
admite inclusive certas liberdades de estilo e de expressão
literária. Quando aborda a predominância de certas caracte
rísticas constantes entre os povos ibéricos, SBH se arrisca a
dizer, irônica e poeticamente, que elas não teriam provindo
de nenhuma fatalidade biológica ou que, "como as estrelas
do céu, pudessem subsistir à margem e à distância das con
dições da vida terrena..."

54
No caso de SBH, aquilo que serviria como crítica de Droysen
contra Ranke, passa a valer, contemporaneamente, como um
elogio, desde o ponto de vista da História Cultural. Escreve
de maneira solta? Sua obra tem o sabor de um romance, quase
literária na forma? Dispensa citações, ziguezagueia no tempo e
no espaço e seduz pelo estilo? Redescoberto pela História
Cultural, SBH torna-se figura de grande atenção e debate.
Bacharel em direito de formação, jornalista por atividade,
crítico literário e cronista por gosto, sociólogo por afinidade,
SBH estréia como historiador pelos caminhos do ensaio, a
reinterpretar o Brasil. Ensaio que, a rigor, não se restringe
ao trailler de Raízes do Brasil que foi o artigo "Corpo e alma
do Brasil", mas que é perseguido na obra inaugural de 1936
e que o consagraria pela crítica nos caminhos da historio
grafia brasileira.
Partamos, pois, desta opção ensaística, que percorre o
passado para explicar o presente, marcando o lugar da escrita
na história como um momento no tempo. Há uma escolha
de palavras-chaves que remetem para a dimensão temporal:
fronteiras, herança, raízes. É bem o passado, a gênese e a
mudança, no espaço e no tempo, que formam as questões em
jogo para pensar o presente, temporalidade da sua escrita.
Sigamos os capítulos da 1® edição da obra, de 1936.
No capítulo I, "Fronteiras da Europa", SBH fala sobre
os ibéricos e seu legado para os latino-americanos. Desta
herança ibérica viriam certas dificuldades para a América
Latina em termos de implantação do social ou para a elabo
ração de uma cultura própria. Logo, nosso autor começa pela
identificação de que somos desterrados na própria terra, ou
seja, vivenciamos formas de ser e agir de um outro tempo e
um outro espaço. Todos os traços culturais e de personali
dade, identificadores do ibérico, são colocados em pauta de
negatividade: culto à personalidade ^sobranceria, individua
lismo, sentimento de honra e dignidade), um comportamento
baseado nos sentimentos e nas paixões, débil coesão social,
anarquia, desordem e inexistência de hierarquias ou barreiras
sociais, tendo, como única alternativa a obediência a um poder
forte, no estilo da Companhia de Jesus ou das ditaduras. Neste
último caso, provavelmente, SBH pensava no caso da recente
ascensão de Salazar, em Portugal, embora não o mencione
n o texto.

SS
Também todo este delineamento da herança ibérica na
América que inaugura seu longo ensaio se dá sem maiores
referências, transmitindo ao leitor o peso a autoridade da
fala. O autor muito leu, refletiu, e expõe sua tese. No caso
em pauta, nào se discute sua interpretação, mas sim o fato de
que ele nào traz os elementos de verificação de suas asser
tivas, que hipoteticamente permitiriam ao leitor seguir seu
raciocínio. SBH é juiz severo do ser e agir ibérico, sem exibir
as provas.

Diante desta herança que compromete o futuro, fica um


pouco solta, na abertura do capítulo, o trecho calcado em
Gilberto Freyre, já referido antes, que concede a Portugal o
mérito de ser o único esforço bem-sucedido de implantar a
cultura européia na América. A idéia do pioneirismo lusitano
nos trópicos será retomada no capítulo II, "Trabalho & aven
tura", onde se opõem estes dois tipos ideais, que o autor
indica ter recolhido em Vilfredo Pareto.
Neste capítulo II reaparecerá a forte inspiração freyriana,
a começar pelo emprego do & para reunir os dois opostos,
tal como se apresenta em Casa grande & senzala. A partir de
então, a análise buarquiana sobre o português endossa, im
plicitamente, a de Gilberto Freyre, seja no que diz respeito à
adaptação a nova terra, seja no que tange à plasticidade social,
à propensão à mestiçagem, ao caráter mais brando da coloni
zação e mesmo a uma certa moral da senzala, dotada de uma
suavidade dengosa, mesmo narcotizante da energia produ
tiva. Mas SBH não assume estas aproximações com Freyre.
Pelo contrário, nosso autor introduz um distanciamento, que
se revela mais explícito quando corrige Freyre na sua afir
mação de que o português seria mais africano e semita e
menos gótico e europeu do que o espanhol.^^
O ponto de distanciamento efetivo seria dado quando da
inversão valorativa que introduz para o caso português: o
que, para Freyre, é positividade, será entendido por SBH como
determinantes psicológicas negativas a serem transmitidas
como herança. Sob o signo da aventura e do caráter preda
tório da colonização, fica comprometida a vida nacional. É
de notar que esta marca de negatividade se acentua do pri
meiro para o segundo capítulo, pois aos traços problemá
ticos dos ibéricos como um todo, os portugueses acentuam a
sua má contribuição para o desenvolvimento de uma moder
nidade capitalista.
Neste momento, poder-se-ia questionar como o autor
encara este capitalismo, parecendo basear-se no paradigma
de um espírito burguês à Ia Sombart, identificado no centro
europeu e desconsiderando toda a atividade de expansão
ultramarina lusitana neste processo. Eliminada a hipótese de
que se basearia em uma interpretação marxista da época, que
daria contornos feudais à atividade econômica portuguesa e
brasileira, resta uma ambigüidade de apreciação na análise
buarquiana, mesmo porque até a Inglaterra passa a ser enten
dida por ele como pouco industriosa e afeita ao trabalho.
Tratam-se, no caso, de avaliações de SBH baseadas no depoi
mento de um autor da época sobre o caso inglês, desconside
rando todo o processo de formação do capitalismo na Europa
e, sobretudo, da industrialização inglesa. SBH parece varrer
do seu campo de análise todas as marcas de historicidade
que não venham ao encontro de sua teoria.
Por outro lado, sendo pedra de toque deste capítulo a atri
buição do caráter aventureiro aos portugueses e a sua adap
tação ãs novas condições da terra, SBH afirma que, nesta
recriação do mundo nos trópicos, a grande propriedade rural
já viera pronta e acabada do Reino,^^ pois o cultivo da cana
em grande escala e o recurso ao trabalho escravo do negro
da Guiné já lá fora instaurado.Tal engano de referência
histórica seria depois corrigido pelo autor nas seguintes
edições da obra, quando substituiu o Reino pela Madeira e
outras ilhas do Atlântico.
Enfim, estes primeiros capítulos dão a ver certas impre
cisões, exclusões e ambigüidades do autor na sua interpre
tação. Também são selecionadas algumas referências espe
cíficas — Capistrano de Abreu, Gabriel Soares de Sousa,
João Lúcio de Azevedo, Herman Watjen, Gaspar Barléu, Paulo
Prado — na tarefa de reunir elementos esparsos e invocar
vozes autorizadas para a comprovação de sua idéia.
O capítulo III, "O passado agrário", que será depois cha
mado de "Herança rural", implica no aprofundamento do legado
de negatividade vindo desde os ibéricos e já acentuado no
caso português. Ao chegar ao Brasil, espaço de análise deste
capítulo, o tempo se torna um contínuo de repetição de uma
fatalidade histórica: o predomínio esmagador do niralismo

S7
é visto como uma herança lusitana, fazendo, das cidades,
mero apêndice dos domínios agrários. Há que registrar que,
neste mesmo ano de 1936, quando da publicação de Raízes
do Brasil, Gilberto Freyre lançava seu segundo grande livro.
Sobrados e mucambos, no qual este autor também abordava
o peso do mundo rural sobre o meio urbano e, igualmente,
contrastava a experiência pioneira dos holandeses no nor
deste com a acanhada vida urbana do resto do Brasil.
Mas por aí param as correspondências, pois SBH prolonga
o ruralismo predominante até 1888, data da abolição da escra
vatura, com um viés de análise a acentuar a carga de negativi-
dade na vida social e política brasileira. Por seu lado, Gilberto
Freyre desenvolve a idéia de que o crescimento das cidades
provocara transformações que haviam atualizado e renovado
as elites, permitindo que se mantivessem no poder. E, como
é sabido, para Freyre, o mundo do rural é positivamente privi
legiado frente ao urbano.
Para dar a ver este tempo onde, até o fim do século XIX, o
meio urbano não tinha expressão, SBH convoca depoimentos
isolados na defesa de sua idéia, baseando a validade de sua
tese no peso da argumentação retórica, a juntar fragmentos
esparsos que dizem respeito a certas frações do espaço, em
especial Recife, Piratininga e Rio de Janeiro, tomados em
temporalidades diferentes.
Até aqui, temos uma sucessão de sentidos no tempo que
apontam para traços, invariantes e contínuos, na contramão
das descontinuidades temporais apontadas pelos pensa
dores alemães. Não ousamos dizer que ele constrói um tempo
homogêneo e retilíneo, mas esta permanência do passado
ao longo dos séculos, a reiterar significados precisos para a
história brasileira, é essencial para a confirmação de sua
tese.

Por outro lado, é claro que SBH busca interpretar o Brasil


a partir de um viés culturalista, para o que reúne argumentos
para recuperar os sentidos das ações e valores do passado,
reconstituindo modos sensíveis de ser ou pensar, a que
poderíamos chamar de mentalidades.
No capítulo IV, também nomeado na 1® edição da obra de
"O passado agrário" e que depois viria ser chamado de "O

58
semeador e o ladrilhador", SBH continua a desenvolver o
fio condutor desta herança no tempo. Esta linha de conti
nuidade distingue a colonização portuguesa como branda,
desleixada, instintiva, adaptando-se ao meio, cedendo à pai
sagem, desordenada, visando apenas a exploração comercial
de um Brasil litorâneo, de onde, desde suas propriedades
rurais, os senhores de terra exerciam um poder sem freios. A
essa primazia da vida rural, ou mesmo autarquia, corres
pondia uma reduzida expressão do mundo urbano, com a
presença de cidades acanhadas, irregulares, vencidas pela
topografia do local, a ela se acomodando, em um ajuste da
obra do homem à natureza.
Gilberto Freyre é, neste capítulo da 1^ edição, duas vezes
citado, em referências que serão depois retiradas nas edições
subseqüentes: ora Freyre é lembrado para comparar o desa
linho das cidades coloniais aos jardins de Portugal, com sua
mistura poética de flores^^ (!), ora para exemplificar a vida
autárquica do engenho, a suprir todas as necessidades da
vida.^° Em um e outro caso, a referência assegura confiabili
dade àquele que SBH chama de conhecedor fidedigno do
mundo rural do nordeste. Freyre parece ser uma fonte reco
nhecida e nomeada, mas não um interlocutor declarado, com
o qual SBH assumiria um debate.
Em comparação a esta modalidade colonizadora dos lusi
tanos, SBH passa a delinear o perfil da experiência espanhola.
Moldada em um ato de vontade criadora e de afirmação de
um domínio militar, o espanhol se interioriza no continente
e funda cidades, em planos regulares, que expressam o desejo
de ordenamento e de disciplina.
Na delimitação dos tipos que viriam a caracterizar as duas
colonizações ibéricas na América — o semeador e. o ladri
lhador —, SBH vê a continuidade de uma tradição ibérica
distinta desde os tempos da Reconquista. Assim, a passagem
do tempo reatualiza as experiências em um novo espaço,
confirmando os perfis herdados. Trata-se de um tempo que
não se renova em sentidos, mas que, pelo contrário, reafirma
os traços de significado ao longo dos séculos. Para a argu
mentação de tais afirmativas — as tradições herdadas no
tempo que fazem do presente uma continuidade do passado
e talham os perfis identitários do português e do espanhol —,

59
SBH segue seu método de remeter a expressões isoladas de
figuras de época, como velhos cronistas, relatos de autori
dades coloniais ou apreciações de moradores do Brasil da
época que confirmem sua tese.
Mas esta situação de permanência do e no tempo virá se
alterar com a introdução de alguns atores específicos: os
bandeirantes paulistas, figuras monumentais que, em obra
grandiosaf destacam-se dos rumos da colonização portu
guesa na América, introduzindo um novo tempo e garan
tindo também um novo espaço. Segundo SBH os paulistas
não têm raízes naquela herança lusa, e só podem ser enten
didos como um empreendimento que encontra em si mesmo
a sua explicação ?-
Ora, esta originalidade dentro do contexto colonial lusi
tano implica na criação de um novo sentido no tempo, como
um lugar no espaço. Trata-se da emergência de um desloca
mento no espaço — a interiorização — e no tempo, pois é
responsável por um primeiro gesto de autonomia no Brasil,
quando os novos atores expressam uma forma também nova
de exprimir-se, como foi o caso da aclamação de Amador
Bueno.

Seriam estes os primeiros brasileiros, na opinião de SBH?


O autor não chega a afirmar isto e nem, todavia, historiciza
esta mudança que encontraria em si mesma sua explicação.
Deixa ver, apenas, que os tais paulistas são desprovidos de
maiores recursos e que são aventureiros, mas dotados de
positividade, distante daquele conteúdo de proceder, antes
apontado para os ibéricos. Logo, são 'Aventureiros áií^v^n-
ciados, objetos de um outro enquadramento valorativo.
Entretanto, esta ruptura espaço-temporal dada pela en
trada em cena dos bandeirantes é deixada em suspenso pelo
autor, que reitera o primado do mundo rural e da autoridade
da família, onde se exerce de forma discricionária o poder
privado.
Com esta assertiva, tem início o capítulo V, "O homem
cordial", no qual SBH vai aprofundando, em termos de aná
lise, aquilo que constrói como tempo histórico, a mostrar a
permanência do passado no presente e a necessidade de
superar este impasse.

60
Só pela superação da ordem doméstica e familiar é que nasce
o Estado e é que o simples indivíduo se faz cidadão, contri
buinte, eleitor, elegível, recrutável e responsável ante as
leis da cidade

SBH mostra as dificuldades para a instauração da esfera


pública no Brasil a partir dos fantasmas do passado. A urba
nização potencializa este desequilíbrio, com o que seria mais
fácil encontrar, no Estado brasileiro, um funcionário do tipo
patrimonial weberiano, que visualizaria o público como pri
vado do que um puro burocrata.^' Deve ser assinalado que a
recorrência a Weber se dá, mais uma vez, pelo uso de cate
gorias a serem aplicadas na história, como uma espécie de
perfis de comportamento definidores de um ethos nacional.
É justo neste capítulo que a análise de SBH chega até o
tempo do presente: o homem cordial, figura que tomara de
empréstimo ao escritor Ribeiro Couto, tal como anunciara
no artigo que precedera a publicação de Raízes, torna-se a
síntese das heranças ibero-lusitanas no Brasil.
O homem cordial é a imagem do país, mais sentimento que
razão, terra onde interesses privados e a ritualística da intimi
dade, da qual nem os santos eram poupados, impediam o
Brasil a acertar o passo com o tempo contemporâneo. O
homem cordial é aquele que personifica esta forma de vivenciar
o social como impedimento da construção do coletivo, ele é
o ponto alto do divórcio entre o Poder e a Sociedade, tal
como anunciara Alberto Torres.

Gilberto Freyre é mais uma vez invocado — o estudo mais


sério e mais completo sobre a formação social do Brasil —
em referência elogiosa que será depois retirada nas seguintes
edições.
No capítulo VI o autor se encontra imerso na análise desta
temporalidade contemporânea, onde os traços ou marcas
do passado se revelam em trágica configuração: um país com
secreto horror úg si próprio, da sua realidade. Esta consta
tação nos remete, mais uma vez, a Lima Barreto em Os
bruzundangas, a falar do bovarismo nacional, onde o país
Brasil queria ser outro, por detestar ser ele mesmo... Como
exercício de intertextualidade e reflexão proporcionadas
pela literatura à narrativa do historiador, a ironia de Lima

61
Barreto era amarga, mas se travestia de farsa, no melhor
estilo das Cartas persas, de Montesquieu. E, no tocante ao
bacharelismo visceral, não há como deixar de lembrar uma
outra forma de ironia, esta machadiana, com a sua Teoria
do medalhão.

Mas a análise de SBH é dura e séria, sem lugar para o riso,


a mostrar quase como que uma imobilidade temporal ou uma
sucessão de formas de ser que conduzem à paralisia: dificul
dade de dedicar-se a um fim exterior a si próprio; apego às
aparências e por tudo aquilo que represente ascensão social;
ausência de ideal e apreço ao bacharelismo, mas por aquilo
que ele pode proporcionar e não pela formação acadêmica e
profissional em si mesma; adesão epidérmica a idéias estran
geiras, mais pela forma que pelo conteúdo... Tudo conduz a
um também trágico impasse de construção da esfera pública
e da cidadania, pois para SBH, a democracia fora sempre um
lamentável mal-entendido no país...
Ausência absoluta de alternativas, condenação irremediável
à perpetuação do passado no futuro? O VII e último capítulo
da obra, "Nossa revolução", aponta para uma possibilidade.
SBH desvela a existência de um elo secreto entre dois aconte
cimentos da vida nacional, que foram a Abolição e a República,
e que, de forma decisiva, assinalavam a revolução lenta que se
vinha processando no país e que viria substituir o primado do
agrário pelo do urbano na vida do país.
É só neste momento que SBH faz menção a dois processos
que se dão em paralelo: um, de um tempo parado, como que
imóvel, a perpetuar o passado, conspurcar o presente e
comprometer o futuro, e outro que, desde o início do século
XIX, com a transmigração da Família Real e a Independência,
dava início a um movimento gradual, lento, ascendente e de
mudança. O sentido deste novo tempo histórico em formação
é o do aniquilamento das raízes ibéricas de nossa cultura para
a inauguração de um estilo novo^^ diz SBH.
Enfim, passa a ocorrer uma inversão do processo até então
vigente no país, desfazendo-se o primado do ruralismo para
ceder espaço à ascensão das cidades, que assumem na análise
buarquiana não só um papel regenerador do nacional e
modernizador das estruturas, mas também de possibilidade
de uma ruptura no tempo. É possível pensar outro Brasil,

62
deixa entrever SBH, e esta possibilidade se torna mais pre
mente quando o momento em que o autor escreve sua obra
e a publica dá-se na conjuntura em que a ameaça fascista
ronda o Brasil.
SBH faz mesmo uso, literariamente, do recurso à imagem
de um demônio pérfido e pretensioscP a ameaçar a naçào, tal
como a célebre frase de Marx sobre o comunismo de que um
fantasma rondava e assombrava a Europa... Pois este novo
fantasma ou demônio, em terras brasileiras, se ocupava em
obscurecer a verdade e impedir a ação. O texto de SBH se
encerra com uma promessa no ar de mudança do tempo, com
a inscrição de um futuro no presente, o que o torna, de um
ensaio histórico, quase que um libelo político e um convite à
ação imediata.

EM TORNO DAS RECONFIGURAÇÕES


TEMPORAIS DE RAÍZES

O ponto central desta tentativa de analisar as reconfigu-


rações temporais de Raízes é que esta obra é, antes de tudo,
como foi apontado, um ensaio histórico. Ou seja, é uma
reflexão, um tateio intelectual, que joga idéias, que afirma
sem conclusões definitivas, como a esperar um desdobra
mento da construção de sentidos pelo leitor.
Nesta modalidade escolhida por SBH para a representação
do passado que é o ensaio histórico, é preciso referir que
nosso autor rompe, com sua escrita, a linearidade da narra
tiva. Seu discurso não obedece a uma linha cronológica
formal, pois ele vai e volta no tempo, com suas reflexões, a
guiar — ou, mesmo, a confundir o leitor —, a saltar de um
século para outro, a avançar no tempo do acontecido para
depois retroceder, retomando o fio de sua argumentação.
Nesta medida, se poderia dizer que se inspira ou absorve de
Ranke as descontinuidades do tempo histórico, tal como a
busca dos sentidos contidos em cada momento.
Ao longo de sua obra, SBH não obedece a uma seqüência
linear na narrativa, mas persegue idéias, construindo no texto
um tempo especial para a sua narrativa — esta recomposição

63
do passado no presente —, que joga com permanências
seculares e tímidas rupturas esporádicas. A rigor, é a demons
tração de uma idéia, de uma intuição interpretativa sobre o
país, que subordina os dados e os feitos e que reorganiza as
temporalidades que se atravessam, se acumulam e se atro
pelam na narrativa. Sobretudo, SBH não é sistemático nem
metódico na exposição dos seus tempos do passado, nem
com o resgate das marcas de historicidade que devem funda
mentar suas idéias, com o que se afasta de Ranke. A expo
sição destas evidências é lacunar e esporádica, o que seria
um paradoxo para alguém empenhado em definir lugares
no tempo.
Poder-se-ia, mesmo, dizer que SBH realiza uma espécie
de decomposição da construção temporal?"^ Para perseguir
uma idéia-guia, rompe a seqüência da história, viaja no
tempo, mistura épocas, mas o pressuposto é de que esta
ruptura do temporal-linear se faça para resgatar a construção
dos sentidos.
SBH vai e vem no seu texto, confundindo por vezes o
leitor... Fala da Colônia ou já do Império? Avança na Repú
blica para retornar ao tempo da conquista? Onde o português
acaba e começa o brasileiro? O problema da herança, penin-
sular e lusitana, introduz a uma proposta desafiante: até que
ponto nós somos originais, somos um povo diferente? Ou,
em outras palavras, até em que medida o passado persegue e
assombra o presente, impedindo a construção de uma nova
temporalidade, apontada para o futuro? O Brasil, no caso,
terá forças para romper com o passado, em desafio para o
historiador?
Ainda sob o influxo de Ranke, SBH trabalha com múl
tiplas temporalidades''^ em sua obra Raízes: a das perma
nências ou do tempo longo (da herança ibérica, do caráter
do povo e das mentalidades, dos tipos ideais) e a das mu
danças ou do tempo curto (as construções cambiantes no
espaço brasileiro, as lentas rupturas, o cotidiano, a cultura
material), além da tríade cósmica construída pelos homens
ao longo da história (um presente, um passado, um futuro).
Dentro desta modalidade de tratamento da multiplicidade
dos tempos, cabe reiterar, mais uma vez, a ênfase dada pelo
autor nas permanências, o que vem representar mais um

64
outro paradoxo: a naçào é serva do passado e o presente
confirma esta imobilidade. Será no futuro que o autor coloca
a mudança possível. Mas o futuro é um tempo onde nào há
registros de historicidade, só há desejos e esperanças. Mesmo
assim, este é o tempo de SBH, a sua opçào na histórica, apos
tando no vir-a-ser que só se realizará se romper os grilhões
do passado, rompendo o curso aparentemente inexorável da
história.
SBH chama a atenção para o descompasso dos tempos,
inclusive na relação entre a época do acontecer dos fatos e
a da leitura dos mesmos. Se fôssemos julgar o desempenho
da ação dos portugueses da época do descobrimento e da
conquista com valores atuais, diz SBH, a avaliação seria
prejudicadaAssim, é preciso enxergar, desde o presente,
o passado segundo a mentalidade e os princípios que regiam
a ação dos homens de então, em afirmação que enfatiza a
necessidade de levar em conta o ocorrido, na sua irredutível
construção de significados, datados e específicos.
Entretanto, mais um paradoxo se instala no texto de SBH,
pois toda sua obra se dá no sentido de julgar o passado a
partir de sua proposta de abertura democrática do país. Ao
mesmo tempo, nosso autor lida com noções que se encontram
em tensão: ora aponta para uma defasagem e um descompasso
de tempos, ora fala em aceleração dos mesmos, produzindo
um Brasil que se debate entre passado e futuro, entre o desejo
de possuir uma história, de construir tradições e um impulso
para a ventura, para a criação do novo.
Se SBH constrói seu texto como uma série de possibilidades
de interpretação no tempo, é porque parece contemplar a
escrita da história como uma sucessão de possíveis, ou seja,
de possibilidades ficcionais de construir o passado.
Sua obra se trata, antes, pois, de uma proposta para pensar,
historicamente, as diferenças e as diversidades no tempo,
entendendo o passado como um lugar onde se inscrevem as
ações dos homens, que se moviam e agiam segundo outros
ritmos. Esta noção de diferença no tempo é essencial, pois
remete à postura de uma hermenêutica que vai de Droysen a
Dilthey, talvez mesmo a Chladenius.
Ora, SBH monta uma reconstrução temporal de um modo
de ser específico frente ao contexto da época, buscando os

65
traços definidores do caráter nacional a partir da tradição
ibérica. Desta herança ibérica, que atrela ao tempo do passado,
adviriam os tipos ideais concebidos pelo autor através do
semeador e do homem cordial, que definiriam certa inva-
riabilidade do modo de ser, com alguns índices formativos
daquele caráter.
Os tipos ideais, sob a inspiração de Weber, definiriam
modalidades de pensar e agir pertinentes ao povo brasileiro,
a ponto de constituírem uma espécie de núcleo de pertenci-
mento íntimo, ou de reconhecimento externo, que forneceriam
a cara do Brasil. Estes traços atravessariam o tempo definindo
uma certa leveza de ser, tipicamente brasileira, que se repro
duzia nas gerações a se sucederem no tempo. Para delineá-los,
fora preciso uma atitude hermenêutica, em uma linha de
Droysen a Dilthey, para romper a alteridade do passado e
interpretar os sentidos de um outro tempo.
Quando, ao iniciar a obra, SBH afirma que somos ainda
boje uns desterrados em nossa terr<f^, remete a esta imagem
recorrente de um país em busca de si próprio, imagem asso
ciada ao caso do Brasil.
Anos mais tarde, seu filho Chico, em uma de suas compo
sições musicais, retomaria, de certa forma, a questão colo
cada pelo pai: a busca de um país para obter um lugar no
tempo, debatendo-se entre a herança ibérica e a adaptação a
um novo espaço, criando uma nova história:

...mas esta terra ainda há de cumprir seu ideal;


ainda vai tornar-se um imenso Portugal...®^

Mas a proposta politizada que comparece em Raízes é


justamente a de fazer frente a esta lusitanidade que impede
o futuro. Eles afirmam permanências no tempo, com o pri
mado do rural sobre o urbano, do privado sobre o público,
da família frente o Estado.
Tal discussão da herança lusa era própria da época em
que o autor escreve Raízes, pois implicava rediscutir o passado
do país e encontrar novas formas de coesão social que rede
finissem a identidade do país. Competiria, pois, enfrentar a
herança lusa e, com ela, a própria história, para que um novo
tempo da história se instalasse? Não esqueçamos que o debate

66
sobre a herança lusitana se encontrava em alta no tempo
em que SBH escreveu Raízes do Brasil, pois toda construção
de um futuro passa, necessariamente, pela reinvençào do
passado.
É possível encontrar, neste mundo de resgate das sensibi
lidades e das manifestações do espírito, uma das vertentes
mais ricas das prováveis leituras alemãs de SBH. Tal postura
pode ser tributada a Dilthey, com as suas reflexões sobre o
sentido psicológico, os sentimentos, os valores. Com o nome
de mentalidades, sensibilidades, significados, traços de caráter
ou de espírito, tudo que é resgatado por este olhar sensível
do historiador pode bem se ancorar no culturalismo germâ
nico, de Droysen a Dilthey, a Weber ou Sombart.
Nosso autor infere traços muito finos, insigths e indícios
que captam sutilezas para analisar o Brasil e os brasileiros.
SBH marca, de saída, a sua posição, que é a de seguir por um
caminho específico para apreensão do mundo, através do
sensível.
Para tanto, desce até o tempo curto, do cotidiano, do detalhe,
do traço etnográfico, antropológico, folclórico — a religião,
as relações familiares, o falar das gentes, a escola, as crenças,
as amizades®^ — para retirar fragmentos com os quais tece a
alma nacional, alma esta que se desdobra e se perpetua no
tempo longo do processo histórico brasileiro.
Assim é que, no molde dos tipos ideais, ele compõe o perfil
do aventureiro para o lusitano que cria, para si, um tempo de
acontecer, muito próprio, sem método ou plano, ao sabor das
conveniências.^ O aventureiro lusitano é, contudo, um ele
mento de atraso e de imobilidade no tempo, pois é portador
da herança ibérica.
Mas, se o Brasil é um produto novo, se é o espaço e o
tempo deste amálgama, — cultural e psicológica, única e
histórica —, ele é fruto de um passado, há uma herança e
um atavismo, ibérico e lusitano, que porta, em si, ritmos
descompassados de tempo, que se reproduzem ou perma
necem na experiência histórica da formação brasileira. Tais
traços, que se mantêm, marcam a herança de um ontem na
explicação do hoje. Há linhas de continuidade, mas também
seqüências descontínuas, posturas ambivalentes que fazem
conviver as distintas temporalidades em um só momento.

67
Ora, no momento da descoberta, conquista e colonização
das terras americanas, Portugal e Espanha se apresentam como
que defasados no tempo, ou em descompasso com a sua
época. O caso ibérico seria típico de uma acumulação de
tempos: um feudalismo incompleto, uma sociedade menos
estratificada, com pouca influência dos privilégios heredi
tários e o ingresso tardio no capitalismo que levara, contra-
ditoriamente, a uma aceleração ou rapidez nas mudanças. A
existência de menores barreiras sociais e uma ação concen
trada de esforços na atividade da expansão ultramarina,
atraindo capitais ao contexto lusitano e possibilitando a
ascensão dos mercadores, foi secundada pela emergência
de um Estado moderno, centralizado politicamente e com
participação ativa na vida econômica.®^
Ou seja, por um lado, Portugal foi pioneiro de uma menta
lidade e de instituições políticas de um novo tipo, em expe
riência histórica de rara e extrema permeabilidade social, que
dava oportunidade à ascensão individual. Neste sentido, há
uma precocidade, uma aceleração do tempo. O presente lusi
tano da época dos descobrimentos apontava para um futuro,
mostrando que uma época era capaz de sonhar e realizar a
seguinte.
Mas, por outro lado, e em função mesmo desta rapidez de
transformação, dando margem a uma mudança incompleta,
não maturada no tempo, a nação experimentou um verdadeiro
descompasso cultural, expresso na persistência dos valores
antigos e das tradições do passado.
Desta forma, as nações ibéricas guardam em si, pelo menos,
dois tempos muito nítidos: com um pé na modernidade capi
talista, são modernas e arrojadas, na vanguarda de seu tempo,
nesta empresa ultramarina fáustica, mas mantêm o outro pé
na Idade Média, sem desapegar-se do passado. O peso da
herança ibérica é, assim, um elemento que prende ao passado
e que será transmitido ao Brasil.
E o Brasil, este imenso Portugal, como vivência esta multi
plicidade e este descompasso de tempos? Em que seríamos,
verdadeiramente diferentes, se pergunta SBH?®*^
Há uma questão crucial nesta dinâmica de herdar um pas
sado e construir o tempo do presente no novo espaço, e quer
parecer que ela se situa nesta encruzilhada de temporalidades.

6R
Nosso autor parece, por vezes, contraditório na sua expo
sição: ora afirma que, no contexto lusitano, de um feudalismo
incompleto, pouca influência se registrava dos privilégios
hereditários,®' ora mostra que, justamente, esta incomple-
tude de transformação burguesa era responsável pela busca
de prestígio pela linhagem.®®
O resultado teria sido uma mentalidade que circunscrevia
a solidariedade ao reduto do privado e da família, em detri
mento da coesão social, situação esta exemplarmente expressa
na frase já famosa de SBH: "em terra onde todos são barões
não é possível acordo coletivo durável".®^
A explicação parece residir, mais uma vez, no descompasso
temporal, entre o tempo da ação real dos homens, balizado
pelo culto à personalidade e pelo destaque das práticas indi
viduais e aquele tempo do desejo, que se concretiza na
obtenção dos foros de nobreza, do brasão, dos títulos,
transmudado com o tempo no bacharelismo, no anel de
grau, no gosto pela exibição.
Em suma, nesta vizinhança e coabitar de tempos, a perfor
mance individual preside e tutela a obtenção do prestígio
social. A autarquia do indivíduo, pelas suas ações no pre
sente, garante nobreza, chega a construir um passado, inventa
uma tradição, ou melhor, desenvolve esta espécie de desejo
nostálgico de um passado que confirme posições no presente.
A mentalidade é algo que perdura, se inscrevendo em um
tempo longo, a coabitar com a experiência do cotidiano das
ações de cada dia, a confirmar a presença do passado no
presente.
O Brasil se estrutura, assim, por acumulação de tempos,
entre formas e iniciativas que antecipam (os holandeses e a
realização urbana do Recife, o surto econõmico-financeiro
ocasionado pela liberação dos capitais antes aplicados no
tráfico negreiro) e outras que entravam todo e qualquer
processo de transformação, não só das estruturas como das
mentalidades (a persistência do rural, a predominância do
privado sobre o público).
Conjunto caótico, dispare ou disforme, talvez, entre muitos
tempos que se sucedem ou convivem em um mesmo espaço,
conjunto que se debate entre a precocidade e o retardamento,
a incompletude e a produção do novo, a aceleração e o go

69
back, entre o predomínio do sentimento ou da razão, identi
ficada como de um realismo tosco...
Por vezes, cabe perguntar se neste seu percurso na compo
sição dos traços psicológicos do ser brasileiro, o homem
cordial não matou o aventureiro, se o realismo tosco foi
sobreposto pelo sentimentalismo e se, afinal, nesta sua obra
de 1936, a natureza não predomina ainda sobre a cultura, tal
a pouca influência que ele vê das cidades sobre a vida dos
homens, apesar da revolução lenta anunciada...
Talvez as perguntas possam parecer descabidas, mas se a
opção do autor se deu na linha do resgate das mentalidades,
das razões e dos sentimentos, sua indagação maior se dá na
descoberta dos sentidos que presidem a formação brasileira.
A revolução projetada pressupõe um recuo da sensibilidade
visceral e endosso de critérios racionais para a organização
da vida? O brasileiro, para salvar seu país das garras do
passado, precisaria ser um outrol No mínimo, precisaria
matar seu passado, aniquilar seu perfil identitário.
Finalizando, retomamos a idéia basilar da história de que
tudo se transforma no tempo. Mas na visão de SBH sobre o
Brasil, ele privilegia as permanências, os tais traços que
moldam a identidade nacional, tolhem as mudanças e são
transmitidos através do tempo.
Todos os momentos analisados remetem à regularidade
de um perfil ou de um traço que acompanha a formação brasi
leira. Tudo se encaixa, em todas as temporalidades citam-se
alguns exemplos de conduta e modos de ser que se respondem,
em termos de significado, através da História: temos sido assim,
parece dizer SBH, e se formos às raízes, vamos encontrar a
presença do passado no presente.
Tais traços — os do tempo longo — expressam regulari-
dades, a servir de linha guia diante das descontinuidades
que seriam possibilitadas pelas ações dos homens em cada
momento da história e que possibilitariam a mudança, acele
rando o processo da formação nacional.
Tal leitura do Brasil conduz, fatalmente, a uma conclusão
precisa: a nação é escrava de seu passado, o que tolhe toda
transformação que possa levar à construção de um outro
tempo: o projeto futuro é ainda um sonho a realizar-se na
terra dos barões. Gerações de intelectuais se sucedem, mas, o

70
que são eles senão a atualização, no tempo, do viciado perfil
nacional, a reproduzir o passado com todo o seu séqüito
de estereótipos comportamentais, em renovada vitória de
Antígona sobre Creonte?
Na permanência e na sucessão das elites cultas, na inte-
lligentzia brasileira que se renova sempre no tempo, SBH
enfatiza a difundida "crença mágica no poder das idéias",^®
confirmando a tradição bacharelesca e aristocrática, e mos
trando quão forte é o peso do passado.
Mas SBH, na sua diversidade de tempos, inscreve uma
última temporalidade, que já anunciamos: aquela que pre
para o futuro, em uma "dissolução lenta, posto que irrevo
gável, das sobrevivências arcaicas",^' naquilo que chama
nossa revolução. Esta seria resultante de um processo moroso,
intercalado, representado, aqui e ali, por temporalidades
descontínuas, através de sintomas progressivos: a ascensão
das cidades, a abolição da escravatura, o domínio agrário dei
xando de ser baronia. Todos estes indícios teriam, como
sentido último, aniquilar as raízes ibéricas da cultura nacional.
Poder-se-ia ainda dizer que o ensaio de SBH cumpre a
tarefa hermenêutica de revelar o Brasil, dando a ver processos
profundos explicativos de modos de ser, agir — ou não agir
— dos brasileiros. Nosso autor articula as temporalidades,
mergulhando no passado para traduzi-lo aos leitores do pre
sente e, de uma certa forma, induzindo a pensar o futuro.
SBH mostra-se atento à presença de um público leitor, pois,
se sua escrita pretende desvelar sentidos, é para que estes
despertem ações, uma vez que há em sua obra um indicativo
de que o tempo da leitura deve ser um tempo de mudança.
Como escreve em um tempo brasileiro de efervescência, mesmo
de radicalização de posições e de hipertrofia do Estado, que
conduzirão ao autoritarismo do Estado Novo, sua escrita é
politizada e visa leitores inquietos e atentos, naquele tempo
de espera, na iminência de uma catástrofe.
Nas vésperas da decretação de um tempo sombrio, a ser
inaugurado pela ditadura, SBH sonha com a inscrição de um
tempo desejado: o da libertação dos fantasmas do passado e
de construção de um futuro para o Brasil, onde a democracia
seja não só um mal-entendido, como fora até então...

71
Nesta proposta de engajamento no seu presente para
construção do futuro, SBH se distancia de Ranke, a que tanto
admirava.
Apesar de destacar méritos ou possibilidades de uma lei
tura atualizada de seu texto, SBH viria mais tarde a nele
distinguir algumas limitações, que redundariam no seu lado
de inatualidade: em termos de tempo, sua história compor
tava um ontem e um hoje, mas não um amanhã,conteúdo
este presente, de forma clara, em sua própria obra. Raízes
do Brasil.

À diferença de Ranke, sua escrita comportava um futuro:


há um projeto, e com uma conotação política muito clara.
Ranke, no caso, segundo a opinião de SBH, era como que
asséptico em termos de posicionamento político, ele se esqui
vava de uma tomada de posição, atitude que ele enfrentava.
Quer parecer que, para SBH, o desafio que se colocara
para os homens, no passado, fora o do controle e aclimatação
ao espaço, face o meio hostil e a natureza estranha e adversa.
A grande tarefa, para o presente, seria a do controle ou supe
ração do tempo do passado, rompendo com os traços imobi-
lizadores que tolhiam a ação para o futuro.
E quem faria isso, salvo melhor juízo, seria, para nosso
autor, o paulista/bandeirante, este rompedor de fronteiras,
que acabaria, na sua visão, por ser responsável pela iniciativa
de pensar um outro Brasil, inaugurando um outro tempo...
Neste momento é possível pensar na possibilidade, não
formulada de maneira clara por SBH, mas entrevista em sua
obra: só dois elementos representam, no tempo, uma acele
ração e uma promessa de futuro: o bandeirante, novo tipo
de aventureiro, mas positivado, resgatado no passado mais
distante e o surgimento lento, mas gradual, das cidades
unidas a um processo de industrialização, rapidamente refe
rido por SBH, sem associação direta com o caso paulista...
E, neste sentido, SBH, depois de viajar no passado, em
um vai-e-vem contínuo de épocas na história, reassume seu
presente, momento da escrita, confirmando seu espaço no
tempo: ele pensa, desde São Paulo, o Brasil do futuro.

72
PARA CONCLUIR

Retornemos às questões iniciais, onde buscávamos as


raízes buarquianas da construção de um tempo histórico
em Raízes, a partir de suas leituras berlinenses.
Parece-nos evidente a presença da reflexão culturalista dos
pensadores alemães sobre a obra de SBH, cuja escrita, em
palimpsesto, guarda os traços. A partir desta inspiração que,
sem dúvida, não exclui outras tantas, há uma reconstrução
interpretativa e a formulação original de uma proposta de aná
lise para o Brasil, que o leva, por vezes, a reelaborar concei
tos.

Assim, a descontinuidade e multiplicidade dos tempos e a


construção de sentidos historicizados e únicos que ele divisa
em Ranke, e que poderíamos estender aos outros pensadores,
lá está, incorporada em sua análise.
Mas, em SBH esta acumulação de tempos se hipertrofia e,
se atentarmos para a mudança no tempo, que reconstrói
permanentemente os significados durante as épocas, vamos
concluir que a opção do autor é pela permanência, ou pela
continuidade de um modo de ser, quase arquetípico de ação
e pensamento, herdado desde as raízes ibéricas. Se Ranke
postulara a diferença dos tempos, SBH destaca uma certa
imutabilidade temporal de um modo de ser e agir através
dos séculos.
Desta forma, o componente de imprevisibilidade da his
tória se anula e o caráter de unicidade entre um ethos e uma
práxis brasileira confirmam, pela sua quase invariabilidade,
o que se pode esperar da história nacional, em termos de
ação social e valores que pautam a vida. A história nacional
é previsível e os momentos e sentidos se repetem no tempo e
no espaço. Logo, SBH realiza uma incorporação de concepções
quanto ao tempo e as traduz de acordo com esta idéia-chave
central: temos sido, historicamente, assim. Trata-se de menta-
lidades e sensibilidades que se perpetuam e reproduzem.
O conteúdo, quase invariante, do passado, só poderá ser
rompido mediante uma ruptura real destas bases, a partir de
forças sociais sufocadas e projetos não realizados, com o que
se inclui na análise a perspectiva dialética de uma superação

73
desde dentro. E a revolução, que o autor anuncia e deseja,
implica na construção de um tempo novo, ao encontro das
forças vivas da nação, rompendo o tão comentado divórcio
entre Estado e sociedade, ou o primado da vazia cordiali
dade brasileira, cedendo espaço à ação, na tarefa de realizar
a construção da esfera pública e da democracia.
É como se o Brasil, no tempo imutável que consolida as
velhas estruturas, permanecesse até então apático, gover
nado somente pelas idéias. Das idéias à ação, e urgente, eis
a mensagem de SBH para imprimir movimento e mudança à
história do país.
Rompendo a permanência e a continuidade dos tempos,
este novo tempo do agora, desde o presente onde inscreve
sua obra, SBH insinua que se poderia instaurar, finalmente,
um novo sentido para o Brasil.
A incorporação da temporalidade na reflexão de SBH se
traduz, pois, neste princípio, de libertar o presente do passado,
hiperidéia que tudo subordina, fontes, testemunhos, citações,
ziguezagues no tempo, exclusões no espaço. Já referimos que
tais procedimentos e recursos podem por vezes confundir o
leitor. Mas este risco é assumido pelo autor na medida em
que cada elemento trazido em defesa da idéia a demonstrar
— e, seguidamente, isolado de seu contexto — solidifica uma
versão a demonstrar.
SBH convoca o passado, revivendo palavras, feitos e nomes
que se encaixam na sua proposta. Tarefa erudita, sem dúvida,
mas necessária, pois para demonstrar as raízes e a herança
que impedem a mudança, ele desce às sensibilidades. Ora, ir ao
encontro dos sentimentos implica atingir este núcleo íntimo,
de tradução externa de uma experiência sensível interna.
As sensibilidades se constituem em uma forma de percepção
do mundo que passa pelas emoções, sentimentos, emoções,
valores. As sensibilidades constróem um conhecimento sobre
a realidade na contramão do saber científico, apoiado em
conceitos e na racionalidade. Mas, mesmo na esfera da sensi
bilidade, tais percepções devem se traduzir em traços obje
tivos, para que possam ser recuperados e analisados por
alguém que, como o historiador SBH, estiver interessado
em decifrar o passado. E, neste sentido, é preciso filigranas
no olhar para recuperar estas pistas, bagagem de leitura.

74
erudição que permita percorrer vários campos, recolhendo
tais indícios.

Tal bagagem ou perfil SBH possuía muito bem e, na trilha


de Droysen a Dilthey e Sombart, empenhou-se na coleta destas
marcas sensíveis da experiência da vida. Mas, repetimos, estes
traços do passado são escolhidos ao longo de três séculos de
modo esparso, ajustando-se ao serviço de uma idéia, desta
idéia que preside a versão construída pelo autor. Chladenius já
anunciara que os historiadores constróem versões, a partir das
expectativas de sua época de sua subjetividade. SBH parece
ter levado muito adiante tal idéia que recém era insinuada.
Sim, SBH leva bem longe a idéia da ficção na história, ao
construir uma representação do passado que, pela recepção
obtida, assumiu caráter verossímil, plausível, mesmo um efeito
de verdade sobre os leitores. Somente pelos caminhos da
ficção o passado poderia se tornar presente no mundo do
leitor e convencê-lo de uma história.
Teria, contudo, SBH extrapolado esta sua reconfiguração
temporal? Teria reinterpretado o passado para além do que
as fontes podiam, efetivamente, autorizar? Suas correlações
se estabeleceram em escala exagerada para que pudessem
encontrar correspondência? Se isto foi possível, sobretudo
pela já aludida subordinação do referencial empírico à demons
tração de uma idéia, há um problema de reconfiguração tem
poral para além do pacto afirmado por Clio com os limites da
ficção.
Este é um ponto que pode ser discutido amplamente, mas
que aqui fica como proposta de reflexão sobre a obra de SBH
no terreno da história: a idéia de que um autor possa pres
cindir de uma tarefa tout court de trabalho com as fontes, que
é a de tornar visível o invisível do passado pelos dados
fragmentários que lhe chegam de um outro tempo.
Quer parecer que nosso autor, SBH, no seu ensaio, leva
bem longe a dimensão ficcional da narrativa que põe a his
tória — e as ações dos homens, por suposto — a serviço de
uma idéia. A dimensão subjetiva da escrita, diante do hori
zonte de expectativas da época, parece ter extrapolado a obje
tividade das marcas de historicidade. SBH teria criado um lugar
no tempo para o passado histórico muito próximo dos domínios
de Calíope. Teria levado ao limite a estetização dos fatos, ao

75
colocar em ficção a experiência da história para recuperar uma
trajetória sensível no tempo. Nesta medida, teria se afastado
de suas fontes do culturalismo alemão, em leituras certas ou
prováveis.

NOTAS

' IGLESIAS, Francisco. Sérgio Buarque de Holanda, historiador. In: 3°


Colóquio UERJ. Rio de Janeiro: Imago Ed., 1992, p. 18.
^ COHN, Gabriel. O pensador do desterro. Caderno "Mais", Folha de S.
Paulo, p. 10-11, 23/06/02.
^ ESCUDIER, Alexandre. De Chladenius à Droysen.Théorie et métodologie
de r histoire de Ia langue allemande (1750-1860). Annales, HSS, n. 4,
p.754, juillet-aôut, 2003.
" ESCUDIER, op. cit, p. 761.
^ HOLANDA, Sérgio Buarque de. O atual e o inatual em L. von Ranke. In:
BUARQUE, Holanda Sérgio de (Org.). Ranke. História. São Paulo: Ática,
1979. (Coleção Grandes Cientistas Sociais).
^ FONTANA, Joseph. Historia. Anàlisis deipasadoyproyecto social. Barce
lona: Editorial Crítica, 1982. p. 126-132.
^ Ibidem, p. 130.
® BURKE, Peter. Sociologia e Historia. Madrid: Alianza Editorial, 1987. p.l3.
9 Ihidem, p. 16-17.
BURKE, Peter. A escola dos Annales. 1929-1989. A Revolução Francesa na
historiografia. São Paulo: UNESP, 1991. p. 18.
'' Cf. PREFÁCIO. História das nações latinas egermânicas. Leopold von Ranke.
Enciclopédia Britânica, 1980.
GRANDES figuras da história. Leopold von Ranke. 2. ed. México: Exporta
dora de Publicaciones Mexicanas, 1954. Prólogo, p. 9.
'^HOLANDA, op.cit., p .45.
Ihidem, p. 10-11.
ESCUDIER, op. cit., p. 768.
Ihidem, p. 36.
Ihidem, p. 14-15.
'«Cf. ESCUDIER, op.cit., p. 767.
" Ihidem, p. 18.
ESCUDIER, op. cit., p. 772.

76
ESCUDIER, Alexandre. Présentaiion. Apud. Droysen, Gustav Johann. Précis
de Théorie de I histoire. Paris: CERF, 2002. p. 18-19.
DROYSEN, Gustav Johann. Précis de théorie de V histoire. Paris: CERF, 2002.
p. 39-40.
DROYSEN, Johann Gustav. History and the histórica! method. In: Herme-
neiitics reader. MUELLER-VOLLMER, Kurt (Org.). New York: Continuum,
1988. p. 119-120.
DROYSEN, Johann Gustav. Histórica. Lecciones sobre Ia enciclopédia y
metodologia de Ia historia. Barcelona: Editorial Alfa, 1983- p. 7-21.
" DROYSEN, op. cit., p. 23.
Ibidem, p. 27.
Ibidem, p. 30.
Ibidem, p. 34.
Ibidem, p. 36.
ylpMí/Jauss. La fiction en histoire. LeDébat, Paris, Gallimard, n. 54, p. 96,
mars-avril 1989.

DOYSEN, op.cit., p. 30.

Cf. ESCUDIER, op. cit., p. 766.


Ibidem, p. 765.
GRANDES figuras da história, op. cit., p. 10/11.
RANKE, Leopold von. Temístocles. In: Grandesfiguras, op.cit., p. 21.
RANKE, Leopold. Apud Grandesfiguras... op.cit. Prólogo, p. 15.
^^JAUSS, op. cit., p. 95-96.
DOSSE, François. Paul Ricoeur révolutionne 1' histoire. Espace Temps,
Paris, n. 59-60-61, p.l2, 1995.
RICOEUR, Paul. Du texte à /' action. Essais d' herméneutique, II. Paris:
Seuil, 1986. p. 82.
"«DROYSEN, op. cit., p. 52.
Ibidem, p. 54.
Ibidem, p. 47.
"^HOLANDA, op. cit., p. 15-16.
LORIGA, Sabina. Ser historiador boje. Paris: EHESSS, 2002. (Texto de con
ferência proferida no PPG-História UFRGS, julho/20002). p.l6.
Ibidem, p. 17.
DILTHEY, Wilhelm. Tbe bermeneutics oftbe buman Sciences. In: Mueller-
Vollmer, op. cit., p. 149.
DOSSE, op. cit., p. 12.

77
CÂNDIDO, Antonio. O significado de Raízes do Brasil. In: HOLANDA,
Sérgio Buarque de. Raízes do Brasil. 5. ed. Rio de Janeiro: Editora José
Olympio, 1969- p XVIII.
^'HOLANDA, op. cit., p.58, 106 e 114.
'"WEBER, Max. Economia y sociedad. Tomo I. México: Fondo de Cultura
Econômica, 1969. p. 16.
GERTH, H. H.; WRIGTH MILLS, C. (Org.). Introdução. WEBER, Max.
Ensaios de sociologia. Rio de Janeiro: Zahar, 1974. p. 81.
WEBER, Max. Sobre a teoria das ciências sociais. Lisboa: Presença, 1974.
p. 78.
" HOLANDA, op.cit., p. 21.
SOMBART, Werner. El burguês. Madrid: Alianza Editorial, 1982. p. 13.
Ibidem, p. 15.
Como assinala muito bem Pomian, Krzystof, Histoire et fiction. Le Débat,
Paris, (54), mars/avril 1989-

" HOLANDA, Sérgio Buarque de. Corpo e alma do Brasil. Ensaio de psicolo
gia social. Revista do Brasil, Rio de Janeiro, p. 32-42.
58 Ibidem, p. 37-38.
5' Ibidem, p. 38.
8° Ibidem, p. 35.
Ibidem, p. 39-
82 Ibidem, p. 34.
85 HOLANDA, Sérgio Buarque de. Raízes do Brasil. Rio de Janeiro: Editora
José Olympio, 1936.
8'' Cf. Nota da Editora. Dados bibliográficos do autor. In: HOLANDA, Sérgio
Buarque de. Raízes do Brasil. 5. ed. Rio de Janeiro: José Olympio,
1969. p. v-vi.
85 HOLANDA, Raízes do Brasil, 1936. p 28.
88 Ibidem, p. 25.
8' Ibidem, p. 25/6.
88 Ibidem, p. 55.
8' Ibidem, p. 62.
'8 Ibidem, p. 86.
Ibidem, p. 72.
Idem.

'5 Ibidem, p. 94.


Ibidem, p. 100.

78
'5 HOLANDA. Raízes do Brasil, 1936. p. 105.
Ibidem, p.l37.
Ibidem, p. I6l.
'8 Peter Burke, em A escrita da História (São Paulo: Ed. UNESP, 1991), fala
de uma "decomposição da continuidade temporal" realizada por SBH.
" Como já aponta Maria Odila Leite Silva Dias em Política e sociedade na
obra de Sérgio Biiarqtie de Holanda, em: CÂNDIDO, Antonio (Org.).
Sérgio Buarque de Holanda e o Brasil. São Paulo: Ed. Fundação Perseu
Abramo, 1998. p. 21.
Ibidem, p. 12.
HOLANDA. Raízes do Brasil, op. cit., p.3.
HOLANDA, Chico Buarque de. Fado tropical.
HOLANDA. Raízes do Brasil, op. cit., p. 109-111.
Ibidem, p. 11.
HOLANDA. Raízes do Brasil, op. cit., p. 4-11.
Ibidem, p. 11.
HOLANDA. Raízes do Brasil, op. cit., p.5.
®® Ibidem, p. 8-9 e 79-
®' Ibidem, p. 4.
Ibidem, p. 119.
" Ibidem, p. 135.
Ibidem, p. 31.

79
JACQUES LEENHARDT

FRENTE AO PRESENTE DO PASSADO


AS tAÍZB rOtTUGUESAS DO IIASIL

A leitura de Raízes do BrasiR que aqui se faz está marcada


pela tentativa de apreciar o lugar deste ensaio no debate que se
desenvolve desde os primeiros anos da República a respeito
da identidade cultural, política e social do Brasil. Numerosos
e marcantes trabalhos balizam este percurso. Particularmente,
a História da literatura brasileira (1888), de Sílvio Romero,
um dos primeiros sintomas de uma vontade de construir um
corpus próprio para a literatura nacional. Neste intento, Sílvio
Romero estabeleceu um corte entre um Brasil sob a influência
portuguesa e uma naçào brasileira que se afirmava com a sua
literatura. Logo esta primeira tentativa se desenvolverá de
forma mais radical, na medida em que, ao horizonte de cons
trução da naçào for integrada a idéia de uma autonomia da
literatura brasileira, quando esta atingisse a sua "maturidade".
Ou seja, esta condição se realiza quando o ato de escrever se
emancipa de seu horizonte social e, portanto, se capacita a
pensar aquilo que há de especificamente brasileiro no manejo
da língua portuguesa em territórios americanos.
O importante, neste caso, é compreender o papel que ocupa
nos anos 1920-1930 a idéia de um "homem brasileiro", com
um caráter profundo, com uma mentalidade especificamente
brasileira para a análise tanto política quanto social da situação
do Brasil, aquilo que Alfredo Bosi, falando de Gilberto Freyre
e de SBH, chama de "uma interpretação psicocultural do
passado brasileiro".^ Tudo se passa como se os autores
pensassem que o país tinha se engajado em um vasto pro
cesso de construção sem que tivessem sido estabelecidas
as bases sobre as quais esta nova democracia pudesse vitorio
samente se construir. Os intelectuais das diversas ciências
humanas se reuniam então à cabeceira do doente para deli
berar seu diagnóstico. E se verá que estes são diversos, senão
contraditórios, pois mesmo na escrita de um só, é possível
encontrar explicações diferentes. Se Gilberto Freyre via com
ternura e nostalgia o modo patriarcal de existência e as inte
rações, supostamente positivas, que este patriarcalismo auto
rizava, Sérgio Buarque de Holanda condenava a fraqueza de
caráter do colono português, não sem finalmente ver no ban-
deirismo uma forma original de adaptação do colonizador às
condições locais.
De Sílvio Romero à SBH, o meio-século foi, então, ritmado
por obras que, no plano político, racial e social, tentaram
encontrar as verdadeiras bases sobre as quais fundar o Brasil
contemporâneo.
A obra de SBH tornou-se objeto de uma grande atenção,
seguidamente crítica, durante os últimos decênios, tal como
aquela convocada pela Fundação Perseu Abramo. A propósito
de Raízes do Brasil, Maria Odila Leite da Silva Dias lembrava
algumas tomadas de posição de SBH à respeito dos intelec
tuais; "lamentou o seu modo abstrato e esquemático de pensar
segundo modelos importados, assim como sua indiferença
ou alheamento para com o conjunto social do país".^ Na maior
parte das vezes, entretanto, a dimensão crítica de Raízes do
Brasil com relação à realidade brasileira deixa a desejar ao
leitor, não só porque os críticos adotam pontos de vista
parciais ou apologéticos, mas sobretudo porque, enquanto
ensaio, esta obra se contenta em analisar o passado sem
propor um horizonte de alternativa. Ora, sendo Raízes do
Brasil basicamente um ensaio, o autor espera mais do que
uma constatação, e sim um projeto. A leitura que eu gostaria
de realizar aqui não tentará criticar as posições adotadas pelo
autor sobre as grandes questões da colonização, da escra
vidão ou da conquista dos bandeirantes paulistas. Ela não
se debruçará também, mais frontalmente, sobre as questões
epistemológicas ligadas às abordagens ditas "culturalistas".

82
Ela nào visará, enfim, transformar Raízes do Brasil em um
breviário de política positiva, apesar do sentimento de frus
tração que sua leitura possa deixar frente um espírito inquieto
quanto às questões nacionais. Mas será justamente na articu
lação de todos estas questões, das teses defendidas, da meto
dologia empregada, da escrita realizada e da expectativa,
talvez desapontada do leitor que esta leitura buscará surpre
ender aquilo que há de específico no posicionamento de SBH
no curso dos anos 1930.
Há, na verdade, uma coisa que me chamou a atenção
quando das numerosas releituras que eu efetuei dessa obra:
a permanência, no autor, de um sentimento de irritação e de
impotência. Dir-se-á, mesmo, que uma tal apreciação está bem
longe dos argumentos adiantados pelo autor. Sem dúvida,
pois SBH analisa e comenta. Ele busca as razões para explicar
aquilo que tem sob seus olhos e que não o deixa tranqüilo.
E, quanto mais ele procura as razões, mais ele parece encon
trá-las. Tudo se passa como se, tendo em conta os pressu
postos culturalistas adotados, a causalidade se pusesse a
proliferar.
Dito de outra forma, as multiplicidades das causas do mal
que ele identificou remete a dois planos de análise distintos:
de uma parte parece reclamar que se acabe com as explicações
simplistas que reduzem o fato a ser conseqüência de uma só
causa. O uso sistemático das oposições polares tal como ele
funciona nas diferentes obras de SBH traz consigo esta neces
sidade de colocar em ação um campo de tensão, em lugar de
uma causalidade linear.

Mas, por outro lado, a crise da explicação pode ser mais


grave ainda. Talvez a idéia de "causa" é, ela mesma, exagera-
damente otimista, na medida em que ela dá margem à possi
bilidade de remediar aquilo que teria sido identificado como
uma causa infeliz. Talvez não haja, no domínio dos fatos
históricos, políticos ou sociais, tais como eles podem ser
apreendidos neste momento preciso da história, nada que
constitua verdadeiramente uma dessas fontes factuais identi
ficáveis e, portanto, criticáveis. No lugar de uma fonte ou
de uma origem, não haverá diante de seus olhos senão um
novelo de fios, múltiplos e misturados, dando conta de modo
muito imperfeito dos gestos da marionnette humana subme
tida ao seu destino.

83
Quando esta complexidade de questões assume, em deses
pero de causa, o nome de destino, o projeto intelectual de
análise se encontra, de uma certa forma, acuado em uma
espécie de impasse, e o cidadão, por seu lado, fica desar
mado diante desta complexidade inextrincável. Ele não dispõe
senão de duas atitudes possíveis: desesperar se se entregar
cegamente ao destino ou experimentar um surto de energia.
Admitamos a hipótese de que SBH se tenha encontrado, entre
1926 e 1924, em uma situação comparável.
Esta alternativa tem um nome; Friedrich Nietzsche. A única
vez que SBH se refere ao autor alemão em Raízes do Brasil é
precisamente para opô-lo a este "homem cordial" que ele critica
como sendo um caráter tipicamente brasileiro desprovido
radicalmente de autonomia e de energia. SBH cita Nietzsche:
"Vosso mau amor de vós mesmos vos faz do isolamento um
cativeiro.'"* Vós sois um povo curvado, "acocorado" como já
dizia Lobato Monteiro à propósito de seu personagem Urupês,
ou seja, justamente o contrário de um povo com orgulho
de si próprio, "droit dans ses bottes" como diz uma expressão
francesa, "vertical" como diz também SBH, desta vez com refe
rência à Oswald Spengler: "A tendência fáustica, inteiramente
vertical, visando o aperfeiçoamento pessoal é, para o verda
deiro russo, vã e ininteligível. Mesmo as idéias russas do
Estado e da propriedade excluem toda tendência vertical."^
Reencontramos aqui, construída a partir de uma rede semân
tica que mergulha suas raízes na literatura filosófica alemã, a
acusação principal que lança SBH a seus compatriotas: falta
aos brasileiros o espírito fáustico, a verticalidade, a rituali-
dade e a hierarquia, valores necessários à construção do
Estado e de uma cultura.
Mas as causas desta falta são múltiplas, como indica a
metáfora do rizoma, da raiz, as Raízes do Brasil, em retomada
dos pitagóricos por Schopenhauer que SBH utiliza^ para com
bater a explicação simplista da causalidade única e que ele
empregará no título de seu ensaio.
Há, portanto, um conteúdo epistemológico essencial, uma
postura filosófica que, se poderia dizer, é enunciada neste
título a partir da arqueologia do conceito de "raízes", e que
nos orienta de Nietzsche para Schopenhauer. O autor de Über
die vierfache Wurzel des Satzes vom zureichenden Grunde,

84
constatando a impossibilidade de estabelecer causas, não
desenvolve diante disso nenhum desespero. Sua crítica é de
ordem puramente epistemológica. Permanece o fato de que
os atos existem, sem que se possa deles estabelecer as causas
e os motivos. Eles são o resultado da vontade dos atores.
Como diz Clement Rosset, é lógico que Schopenhauer, face
o mistério dado pela impenetrabilidade profunda de toda
relação causai, "venha conceder tanta importância ao conceito
de vontade".^
Depois da constatação de ser inviável o estabelecimento
de uma causalidade, prevalecerá o culto da energia, nesta
história que se escreve a partir de Nietzsche. Em carta datada
de 2/12/1925 à Mario de Andrade, Sérgio precisa sua postura
sobre estas questões: "Não sou cético nem pessimista. Mas
não é impossível que do seu ponto de vista seja um boca-
dinho dessas duas coisas. A verdade é que não creio na
"vaidade de todas as coisas senão como uma das atitudes
possíveis neste mundo."® A "vaidade de todas as coisas" é
bem esta tentação à qual Schopenhauer esta subordinado.
Mas para SBH, esta não é senão uma das respostas possíveis
à crise da causalidade, e ele não era daqueles que se deixasse
levar por elas. Tal poderia ser bem uma de suas caracterís
ticas ideológicas profundas, senão escondidas, da posição
intelectual de SBH, sobre a qual eu gostaria de tentar discernir
os delineamentos.

Quando começa a escrever Raízes do Brasil, SBH tem uma


preocupação maior: o Estado republicano recém-nascido no
final do século precedente que não chega a se consolidar.
Muitas razões são alegadas aqui ou lá para explicar o estado
da crise latente ou aberta da qual sofre o país. Uma acusa
a antiga corte imperial do Rio de Janeiro de nunca acabar
de entender suas estratégias nas querelas do novo Estado
republicano. Outras pensam que o Brasil, como entidade
nacional, não apresenta uma boa situação devido à mistura de
raças que o compõe. Acusa-se o Nordeste de ser retrógrado e
patriarcal, desconfia-se das tendências separatistas do Sul,
causa espanto a impossibilidade brasileira de obter o desen
volvimento. Estas diferentes críticas se situam — ou não —
no quadro das transformações que sacodem o país: industriali
zação e urbanização.

85
o clima mundial no qual tem lugar esta discussão interna
está, ele também, perturbado, e de uma maneira que não se
faz sem lembrar o que se passa no Brasil: a República de
Weimar sucumbe pela incapacidade intrínseca do regime
republicano saído da Primeira Guerra Mundial de gerenciar
democraticamente as tensões advindas dos tratados que
haviam posto fim à guerra. A crise econômica grassa na
Europa e nos Estados Unidos depois do crack de 1929 e, da
Itália de Mussolini à Alemanha, que acaba de se reconhecer
no chanceler Hitler, um sopro belicista atravessa a Europa.
Ao mesmo tempo, as antigas receitas das burguesias nacionais
não se apresentam mais aptas para responder às urgências
do momento presente, caracterizadas pela ascensão do movi
mento dos operários, cada vez mais organizados.
Parecia que o movimento profundo de renovação das socie
dades que tivera lugar antes da Primeira Guerra Mundial com
o florescimento das primeiras vanguardas artísticas, fauves,
cubistas e futuristas essencialmente, estava de novo em cons
trução. Mas neste novo contexto resultante do fim do primeiro
conflito mundial, cada atitude e cada palavra toma um sentido
diferente. Com suas ênfases vitalistas, as novas palavras de
ordem não se referem mais ao esgotamento da cultura antiga,
mas visa sobretudo os modelos políticos antigos. Eles entram
mais propriamente em um paradigma novo onde dominam
as figuras complementares do nacionalismo fascista exacer
bado e do internacionalismo proletário soviético. Um pouco
por tudo, mas a partir de pressupostos diferentes, tem-se a
impressão de que é chegado o momento de romper definiti
vamente com o Velho Mundo e de dar nascimento ao novo.
Neste concerto, Mussolini parece ter dado o tom: "Só a guerra
leva ao máximo de tensão todas as energias humanas e
marca com um selo de nobreza os povos que têm a coragem
de afrontá-la."

"Outros tempos, outros poetas, outros versos. Como


Nietsche (s/c) todos exigimos que nos cantem um canto novo",
proclama Paulo Prado no Prefácio de Pau- Brasil? Este opús-
culo é sintomático: "Um período de construção criadora
sucede agora às lutas da época de destruição revolucionária,
das "palavras em liberdade".'" Não se está mais diante da
vanguarda revolucionária afirmando as liberdades, mas

86
naquela da "construção criadora" que lhe segue e que lhe
aplica uma disciplina.

A mais bella inspiração e a mais fecunda reencontra a poesia


"pau-brasil" na afirmação desse nacionalismo que deve romper
os laços que nos amarram desde o nascimento à velha Europa,
decadente e esgotada. Em nossa história já uma vez surgiu
esse sentimento agressivo, nos tempos conturbados da Revo
lução de 1893 quando "pau-brasil" era o jacobinismo dos
Tiradentes de Floriano."

Oswald de Andrade assinala com seu modo "modernista"


a necessidade de uma varrida dos velhos hábitos literários
tanto quanto políticos, herdados do império e da sufocante
presença dos modelos culturais europeus. Em 1928, o Mani
festo Antropófago retomará o tema, com ironia e força, mesmo
se for preciso lembrar que pouco tempo depois, Oswald de
Andrade, tal como os surrealistas na França, se orientará para
o engajamento político à esquerda e tomará distância com
relação a suas formulações dos anos 1920.

(...) precisamos desvespuciar e descolombizar a América e


descabralizar o Brasil (a grande data dos antropófagos: 11 de
outubro, isto é, o último dia de América sem Colombo.)

É neste clima político e moral, mesmo filosófico, se po


deria dizer, que SBH se encontra na Alemanha, no momento
mesmo em que a crise da República de Weimar vai deixar
campo livre ao fascismo hitleriano. É ainda neste contexto
que o livro de Spengler O declínio do Ocidente, publicado na
Alemanha em 1918 é traduzido para o francês e tem enorme
sucesso.

SBH leu muitos autores que estavam então em voga nesta


Alemanha em plena transformação. Não há a menor dúvida,
haja vista a primeira edição de Raízes do Brasil, que ele
retorna ao Brasil marcado por estas leituras e quando ele
prepara a publicação de sua obra já iniciada nos últimos
anos da década de 1920. É difícil saber por quais razões
SBH eliminará certas referências no seguimento da obra.
Seria perigoso ver aí uma maneira de tornar seu texto mais
estrangeiro ao contexto dos anos 1930. O fato de que ele

87
suprima Spengler, mas deixe Carl Schmitt, notável ideólogo
da época deve, em todo o caso, nos impede de tirar con
clusões muito rápidas.

Quando retorna da Alemanha, SBH se encontra confron


tado a uma grande agitação intelectual e política em torno da
evolução de seu país. Cada qual tem a sua tese para explicar
o marasmo no qual estava submergido o Brasil. Até 1930, a
República era governada por presidentes egressos das grandes
oligarquias e que tinham na sua retaguarda o poder local
dos coronéis. A estrutura política revelava-se incapaz de acom
panhar o desenvolvimento econômico trazido pela cultura do
café e pelo início da industrialização, ela mesma estando
submetida aos ciclos de superprodução que, regularmente,
faziam cair o preço do produto e o valor da moeda nacional.
Procuravam-se soluções, buscavam-se os culpados. Gilberto
Freyre analisou o fim do sistema patriarcal ligado ao ciclo
da cana-de-açúcar. Oliveira Vianna destaca as explicações
racistas: a miscigenação ameaçava o Brasil. SBH, se reco
nhecia a correção da análise de Gilberto Freyre, não via nos
valores patriarcais nada que permitisse responder aos novos
desafios ligados à industrialização e à urbanização. As teses
racistas, das quais ele encontrara na Alemanha os desenvol
vimentos mais recentes e cujos ecos chegavam rapidamente
ao Brasil,não o satisfaziam: o Brasil estava doente, mas
não era em razão de ter perdido os seus costumes patriarcais
nem do fato de apresentar uma sociedade racialmente mistu
rada. O Brasil estava doente por causa de Portugal.
É preciso que se leia Raízes do Brasil menos como uma
contribuição à historiografia brasileira propriamente dita, tra
balho para a qual contribui, por exemplo, outra obra sua.
Caminhos e fronteiras,^^ e mais como um ensaio sobre a
crise da sociedade brasileira contemporânea, analisada sob
o ângulo da permanência da herança mental portuguesa. Esta
vem a ser, no caso, a hipótese deste artigo. SBH constata: o
Brasil é arrastado hoje por grandes mudanças, mas ele é
incapaz de reagir com firmeza diante de tais transformações.
As causas desta apatia são numerosas e SBH as esclarece ora

88
pela economia política, ora pela lingüística e pela sociologia
das mentalidades. Trata-se, para ele, de mostrar como, na
história de Portugal e de suas colônias, se constituiu uma
mentalidade que hoje entrava o futuro brasileiro.
O primeiro tema desenvolvido por Raízes do Brasil é de
que Portugal foi o grande país colonizador dos trópicos. "Os
portugueses eram os mais bem preparados para efetuar a
conquista dos trópicos em benefício da civilização, do que
eles tinham consciência. Nisto residia sua missão histórica
essencial, da qual eles eram os portadores naturais.Nada
de novo nesta tese, salvo na maneira de desenvolver o argu
mento. SBH insiste sobre aquilo que se poderia chamar o
habitus português, uma estrutura mental profunda que fez
com que este povo de navegadores, pouco favorecido sobre
a terra seca e difícil de irrigar, se encontrasse totalmente
preparado para a aventura colonial que se lhe abriria nesta
época sob os trópicos. Ele foi, de todos os povos europeus,
aquele do qual a mentalidade profunda apresentava esta
perfeita adequação entre seu próprio gênio e uma tarefa
histórica.

Mas esta maravilha que foi a perfeita adequação da menta


lidade portuguesa com a época e as latitudes sob as quais ela
iria desenvolver o seu destino teve um revés: se lá estava a sua
genialidade, e se este gênio se limitava a este desempenho
nestes tempos e neste lugares, se compreende que a tradição
lusitana seja incapaz de enfrentar uma outra realidade. Como,
por exemplo, aquela que a ele se oferece depois do fim da
era colonial. O raciocínio de SBH conclui daí pelo sucesso
português na época colonial e pelo fracasso contemporâneo
da República brasileira, ficando subentendido que a menta
lidade que favoreceu o primeiro é sempre aquela que, into
cada através dos tempos, acarreta o segundo.
Para estabelecer a verossimilhança de uma tal continuidade
e permanência na estrutura profunda da mentalidade portu
guesa, da qual se poderia esperar alterações face às transfor
mações históricas, SBH invoca a ancoragem geográfica de
Portugal no subcontinente europeu, seu pertencimento de
sempre ao mundo ibérico, situado em alguma parte entre os
Pirineus e a África. É preciso, contudo, lembrar que a colo
nização do brasil não constitui o primeiro ato colonial dos

89
portugueses: antes disso, sob o cajado de Dom Henrique, o
Navegador, eles tinham conquistado as Ilhas do Atlântico
onde a cultura da cana-de-açúcar tinha começado, desde o
século XV, tal como as costas da África, regiões onde desde
muito cedo se revelou o savoir-faire português.
A noção de ibericidade não é simples senão em apa
rência, porque ela remete a diversos planos explicativos.
O primeiro se refere, como se viu, à posição geográfica
marginal da península no continente europeu. Em compen
sação, no plano político, Portugal e Espanha puseram em
ação estratégias continentais opostas, francamente extra-
européias no que concerne a Portugal, mais profundamente
ancorada no continente, no caso da coroa espanhola. O con
ceito ibérico de ibericidade permanece, pois, ambíguo.
Mas SBH acrescenta igualmente uma outra característica à
ibericidade que, desta vez, nada tem a ver com a geografia,
mas, pelo contrário, delineia os contornos de uma mentali
dade propriamente ibérica: a relação com a aventura.

O AVENTUREIRO IBÉRICO E O
TRABALHADOR NÓRDICO

A questão pode ser colocada desta forma: "como explicar


que os povos ibéricos mostrassem tanta aptidão para a caça
aos bens materiais em outros continentes?"'^
Para caracterizar a idiossincrasia ibérica no plano político
e social, SBH recorre a uma das leituras que, sem dúvida,
teria feito em Berlim: a de Werner Sombart. Este último esta
beleceu uma oposição paradigmática entre dois tipos de
povos, os "heróis" (Helden) e os "comerciantes" (Hãndler).
A assonãncia entre as duas palavras, na língua alemã, torna
este binômio convincente, opondo um povo heróico e domi
nador, com o qual nenhum leitor da época teria dificuldade
de ver delineado o perfil do povo alemão, a um povo de
comerciantes com perfil menos heróico que burguês.
Na verdade, Sombart não se interessa pelo período pré-
colonial do qual se ocupa SBH. Trata-se antes, para ele, de
construir a genealogia do empresário tal como o conhecem as

90
sociedades modernas e industriais. Mas, no contexto social
do fim do século XIX, em Sombart ou em Schumpeter, aquilo
que marca a figura do empresário é a presença nele da menta
lidade do aventureiro:

Nós encontramos já a pirataria como uma instituição social


nas cidades marítimas italianas da Idade Média. Amalfi,
Gênova, Pisa, Veneza são formadas por uma tropa de piratas
(...) e mesmo as primeiras formas de empresas capitalistas
se constituem em pirataria."^

Na análise desta forma aventureira e violenta, W. Sombart


utiliza muitos termos de comparação que, sem dúvida, fizeram
SBH refletir, como, por exemplo, a analogia com o comporta
mento do senhor feudal e o fato de que esta mentalidade
advém, no caso do aventureiro, do instinto, ou seja, de uma
mentalidade profundamente ancorada no indivíduo. É deste
caráter instintivo que decorre esta aptidão "natural", como
dirá o próprio SBH, a propósito dos Portugueses.
Face ao tipo do aventureiro, Sombart apresenta aquele do
comerciante.'^ Eles se opõem tal como as mentalidades do
jogador que assume um risco e a do trabalhador, que organiza
racionalmente seus esforços. Reencontra-se aqui uma parte da
análise desenvolvida por Max Weber a propósito do espírito
do capitalismo. Entretanto, em Weber, a descrição repousa
sobre os supostos comportamentos de um personagem artifi
cialmente construído, o tipo ideal, que reúne todos os traços
distintivos correspondentes ao comportamento que se espera
de cada ator social em um sistema dado. Estes traços foram
retomados por Sombart com menos prudência metodológica,
como se tratassem de traços característicos de uma mentali
dade histórica e geograficamente existente. Aí está, sem dú
vida, um dos perigos ligados à utilização do tipo ideal: de
construção conceituai, ele se torna muito facilmente um tipo
social e logo racial, por um processo de naturalização ou de
redução à essência de certos caracteres psicológicos contin
gentes. Como se, por exemplo, houvesse povos habilitados
para serem capitalistas e outros para permanecerem escravos.
Entretanto, SBH aplica estes elementos para a análise das
mentalidades em um período que não é ainda aquele do
capitalismo, no qual a Holanda calvinista do século XVII será

91
o modelo para Max Weber. A mentalidade ibérica que ele
tenta fixar mergulha suas raízes na Idade Média dos cavaleiros
e da nobreza predadora (Raubrittertum) ao mesmo tempo
em que herda a experiência das cidades mercantis italianas
que, no Mediterrâneo oriental e no Mar Negro, controlavam
um sistema de produção baseado na grande propriedade e
fundada sobre a mão-de-obra escrava, tal como analisou
Charles Verlinden.^°

O que importa reter, verdadeiramente, nesta leitura do texto


de SBH, é a constatação de que os argumentos explicativos
mais se acumulam do que se articulam. Tudo se passa como
se o autor estivesse à procura de razões, das quais a simples
enumeração poderia produzir o sentimento de que uma causa
lidade profunda está se revelando. Resta, entretanto, o fato
de que estas análises apresentam, seguidamente, contradições
entre elas, que acabam por enfraquecer a demonstração.

A EXPLICAÇÃO TEOLÓGICA:
CIDADE DE DEUS, CIDADE DOS HOMENS

É necessário remontar ao capítulo introdutório de Raízes


do Brasil, que precede a análise em contraponto do aventu
reiro e do trabalhador, para encontrar os fundamentos desta
suposta aptidão ibérica para a colonização, depois tornada
uma particularidade lusitana. Examinemos, pois, a maneira
pela qual SBH constrói os antecedentes e os fundamentos
desta aptidão.
Dois campos fornecem os argumentos propostos : o teoló
gico e o político. Estes dois aspectos estão, na verdade,
constantemente misturados. O argumento político, que con
cerne à teoria do poder e da ação, se apóia, basicamente,
sobre o desenvolvimento pressuposto, no espaço ibérico, da
teologia agostiniana do mundo: "A comunidade dos justos é
estrangeira na terra, ela viaja e vive da fé no exílio e na
mortalidade."^^ Resulta desta concepção que nenhuma ação
mundana poderia ser perfeitamente santificada. SBH explica
que, na teologia agostiniana, a Cidade de Deus, o Reino de
Deus, único fim honorável do crente, nada poderia partilhar

92
com o mundo aqui de baixo. Portanto, somente aqueles,
afastados da verdadeira fé, poderiam aspirar a uma paz a
ser realizada sobre a terra. Da mesma forma, só estes incré
dulos poderiam chegar à idéia de organizar o conjunto das
vontades humanas, com vistas a obter na terra um certo esta
do de felicidade e de harmonia. SBH reitera que a construção
de uma sociedade humana, mais ou menos harmoniosa, não
pode ser senão uma pálida imitação daquilo que se promete
no além da bondade divina, a Cidade de Deus. Portanto, só
para aquele que não vive pela verdadeira fé é que se organi
za uma paz terrestre neste mundo mortal e se dá lugar a uma
autoridade, o que permite dispor as coisas e as forças aqui
embaixo.
Os ibéricos, segundo SBH, jamais deram fé a este mundo
afastado de Deus, e permaneceram como que estranhos à
organização do mundo terrestre. O princípio ordenador da
hierarquia nas relações de poder lhes era portanto estrangeiro.
Segue-se daí que, para a lógica de Sérgio, na Península Ibé
rica, contrariamente ao que se passava no resto da Europa, o
individualismo jamais foi, significativamente, submetido à
idéia de uma organização hierárquica dos homens, em termos
sociais e políticos. Cada indivíduo é filho de si mesmo, não
tem necessidade dos demais. Ele conta somente com as suas
virtudes, com o seu próprio esforço. Os ibéricos são, em geral,
os dignos herdeiros do estóico Sêneca,^^ e esta é a razão pela
qual eles permaneceram, até hoje, tanto insensíveis ao trabalho
quanto à organização social.
SBH construiu esta visão agostiniana do mundo por acre
ditar na idéia de uma rejeição, de uma incapacidade, própria
aos povos ibéricos, para qualquer tipo de organização social,
hierárquica e política. Esta visão se encontra, portanto, profun
damente ancorada no teológico. É esta visão do mundo que
explica, em síntese, a dominação do modelo aventureiro, fun
dado sobre o mérito pessoal e pelo "cada um por si". O autor
explica, assim, de passagem, a ausência ou, pelo menos, o
fraco desenvolvimento do feudalismo no mundo ibérico.
Jamais, diz Sérgio, o princípio da ordem e da organização
hierárquica teve alguma importância no passado do mundo
ibérico. É preciso, contudo, inscrever esta longa e forte aná
lise daquilo que SBH chama de "personalismo" ibérico, desta

93
confiança em si mesmo, ligada a uma incapacidade de se
submeter a uma organização coletiva, na perspectiva dos
debates atuais dos anos 30.
SBH é bem claro: o Brasil não pode, de nenhuma maneira,
aspirar filiação a uma antiga forma de organização social que
teria sido perdida. Esta tradição jamais existiu.
Mas voltemos a esta ética do aventureiro. Quando SBH fala
da existência de uma ética de aventureiro, tal como se fala,
habitualmente, de uma ética do trabalho, quando designa o
aventureiro e o trabalhador como tipos sociopsicológicos,
imagina-se, imediatamente, que ele se inspira na obra de
Max Weber e nos conceitos metodológicos da sociologia
compreensiva alemã.
Constata-se, entretanto, que estas referências não são sufi
cientes e que ele articula ainda a estes modelos aquele do
sociólogo italiano Vilfredo Pareto. A propósito da oposição
entre o aventureiro e o trabalhador, Sérgio acrescenta aquele
entre o rentista e o especulador?^ Ele acrescenta ainda uma
outra referência, tomada desta vez de W. I. Thomas, sob o
nome de teoria dos "quatro desejos fundamentais".^^ Com
relação a esta teoria, o aventureiro seria caracterizado por
um desejo de novas sensações e de consideração pública,
enquanto que o trabalhador seria animado pelo desejo de
segurança e pelo de correspondência. Entretanto, o leitor
não fica bem esclarecido sobre o sentido que teria este
último desejo.
A acumulação destas referências teóricas é sintomática,
pelo fato de que Sérgio tenta construir um instrumento meto
dológico que concede uma grande importância à dimensão
psicológica das ações sociais. As sociedades são consti
tuídas, por vezes, de atores que constróem riquezas e que
as açambarcam graças à astúcia ou a violência, e por outros
que, em busca de segurança, privilegiam os investimentos
confiáveis. Estes últimos acabam por se fazer despojar pelos
mais espertos e os mais violentos.
Vê-se, portanto, que, para demonstrar as insuficiências
constitutivas da mentalidade brasileira, Sérgio remete aos
diferentes conceitos psicoculturais e às estratégias demons
trativas, tais como a construção de perfis opostos, por
exemplo, aqueles do aventureiro — "esse tipo humano ignora

94
as fronteiras"^^ — e do trabalhador — "aquele que enxerga
primeiro a dificuldade a vencer". Em Raízes do Brasil, ele
desenvolverá outros perfis, como aqueles do semeador e do
ladrilhador, onde retorna, sob uma outra forma, a oposição
entre o espanhol, colonizador, do território, construtor de
cidades de plano ortogonal estrito onde estão marcadas as
estruturas do poder e o português, pouco inclinado a ocupar
o território do interior e, conseqüentemente, a construir
cidades.

Suas cidades do litoral crescem sem ordem, deixadas à


arbitrariedade das decisões desprovidas de coordenação. A
palavra que revém então sob a pena de SBH para caracte
rizar está atitude portuguesa é "desleixo", falta de vontade
ou energia, que parece constituir o verdadeiro núcleo da
crítica buarquiana.^^
Entre estes dois instrumentos metodológicos utilizados
por SBH nesta demonstração, o tipo ideal e a noção de
mentalidade ou seus equivalentes, existe, entretanto, uma
nuance que será importante sublinhar. O tipo ideal reúne
alguns elementos constitutivos do que se poderia chamar o
modiis operandi de um certo tipo de atores, como, por
exemplo, o empresário capitalista. A mentalidade é uma
noção que reúne muito mais aquilo que, à luz de W. I.
Thomas, SBH chama de "desejos fundamentais", de estruturas
de desejo, talvez se possa dizer, ou de orientações para os
objetos. A primeira designa os modos de intervenção no real,
enquanto a segunda focaliza as atitudes e as orientações
psicológicas que circunscrevem a noção de desejo. Se esta
distinção é pertinente, pode-se então assinalar que a dupla
aventureiro/trabalhador resulta, nestes dois termos, das
modalidades de intervenção no concreto do valor de uso,
enquanto que aquela proposta por Pareto, rentista/especu-
lador, diz respeito ao mundo abstato do dinheiro e do valor
de troca. Vê-se aqui claramente como se passa de uma opo
sição (legitimamente aplicável aos séculos XVI e XVII) à outra
(própria ao século XIX) e por quê. Este deslizamento permite
projetar retrospectivamente o caráter abstrato dos valores
dos especuladores capitalistas sobe os aventureiros brutais
do período colonial.
A submissão dos ibéricos, particularmente dos portugueses,
a uma atitude mental herdada de Santo Agostinho que os

95
manteve afastados de todo pensamento concreto, acaba por
finalmente explicar seu reduzido espírito empresarial na
soleira do século XX. Isto se dá, mais facilmente, quando
se colocam em paralelo os valores racionais, próprios a
este período contemporâneo e aqueles derivados do pensa
mento medieval agostiniano!
Permanece o fato de que os dois tipos assinalados se
opõem, para SBH, tal como se opõem as respectivas categorias
do espaço e do tempo. O aventureiro é o homem do espaço
e seus valores, como a audácia, a imprevisào, a irresponsa
bilidade, a instabilidade e a vagabundagem correspondem
a uma concepção espacial do mundo. Pelo contrário, tudo
aquilo que nutre os valores do trabalhador, como a estabi
lidade, a paz, a segurança pessoal, o esforço sem perspectiva
de proveito material imediato, permanece como que incom
preensível ao aventureiro, pois advém de uma concepção
temporal do mundo. Em outros termos, o aventureiro ibérico
não saberia compreender, e ainda menos partilhar, o compor
tamento social e o comportamento econômico do trabalhador,
figura característica do mundo sóciopolítico do norte europeu.
Reencontra-se, aqui, a idéia de uma adequação mais na
tural do que histórica ou teológica do aventureiro ibérico, não
somente ao espaço dos trópicos — o português estava prepa
rado pela conquista das Ilhas do Atlântico —, mas também
ao tempo: a época predispunha aos gestos e façanhas auda
ciosos, galardoando bem os homens de grandes vôos.^^ A
explicação pelas mentalidades encontra, desta forma, um
descanso nas duras leis da geografia e dos climas.
Estas mudanças de registros e estes anacronismos que
aparecem de maneira constante na demonstração vem, em
particular, de que, mesmo quando fala do período da colônia,
SBH pensa essencialmente no presente histórico do Brasil. O
recurso a Pareto e Schumpeter indica claramente que aquilo
que era coerente nos séculos XVI e XVII, deixou de ser.
Advém daí o fato de que o holandês, do tipo ideal de empre
endedor weberiano, que não tinha sentido na época e no
contexto da colônia, faça falta no presente. Porque aquilo
que SBH subentende sem o dizer, é que se este tipo empre
endedor não assumiu o topo na época em que não era indis
pensável, ele desaparece, sem esperança de retorno no tempo
de hoje, quando agora seria útil e a ele se poderia recorrer.

96
Duas outras singularidades da argumentação de SBH en
contram sua razão de ser nestes descompassos temporais.
Espanta constatar o papel que aí desempenham a Inglaterra e
a França. Em se tratando, para SBH, de distinguir na Europa
duas mentalidades opostas, o aventureiro e o trabalhador, o
autor coloca nos Pireneus a fronteira entre os territórios onde
dominam estes tipos opostos. Assim, ter-se-ia, de um lado, a
Europa verdadeiramente continental e de outro a Península
Ibérica, fronteira entre os mundos do ultramar.
Ora, a França, que deveria aparecer na primeira linha destes
países do continente europeu, está totalmente ausente da
contraposição entre ibéricos aventureiros e trabalhadores
europeus. Isto se dá, evidentemente, porque na época ela
conduz uma política de entrepostos idênticos aos de Portugal.
Na leitura de uma carta de Mem de Sá — que se apodera,
finalmente, do forte estabelecido por Villegagnon no Pé do
Pão de Açúcar, na Baía da Guanabara —, pode-se mesmo
perguntar se a política que os portugueses conduzem não
se inspiram das relações de boa vizinhança que os merca
dores franceses tinham estabelecido com os autóctones das
diferentes tribos da costa. Em sua carta de 18 de junho de
1560 à regente do trono de Portugal, Mem de Sá escreve:

Ele (Villegagnon) se conduz com os selvagens de uma ma


neira diferente da nossa. Ele se mostra liberal ao extremo
com relação a estes selvagens, e lhes confere toda justiça;
ele manda enforcar, sem outra forma de processo, os franceses
que cometeram faltas, o que faz com que ele seja muito
temido dos seus e muito amado os selvagens. Ele faz ensinar
a estes as profissões e o manejo de toda sorte de armas e os
ajuda em todas as suas guerras.^®

O tipo de desenvolvimento colonial dos dois países não


é, entretanto, muito diferente nesta época e mesmo os modos
de relação com os autóctones deveria se aproximar. Como
então fazer funcionar uma tipologia das oposições que toma
a linha dos Pireneus como fronteira?
Uma questão paralela se põe quanto ao lugar que é outor
gado à Inglaterra.
É de estranhar que esta grande nação esteja colocada do
lado dos aventureiros e não dos trabalhadores. Para que isto

97
se dê, o autor compara a colonização e o modo de exploração
escravocrata da América do Norte, cujas similitudes com a
colonização portuguesa deveria nos convencer de que o povo
inglês, antes da época vitoriana, era tão pouco inclinado ao
trabalho quanto o português. Afinal, quer parecer, então, que
aquilo que SBH chama de norte designa somente os Países
Baixos, exemplo fundador da teoria weberiana do comporta
mento capitalista, como se o Buarque português devesse se
opor ao Holanda nórdico!
Para bem compreender as particularidades desta geografia
do continente europeu, é preciso lembrar dois fatos: todos
os países europeus, na época, conduzem uma semelhante
política de entrepostos. Na metade do século XVI é então
quase impossível estabelecer as diferenças, sobretudo opo-
sições fortemente marcadas, como é o caso do binômio
aventureiro/tra balhador.
As coisas mudarão mais tarde, e a França e a Inglaterra, ao
longo de seu desenvolvimento colonialista, adotarão posturas
e manifestarão mentalidades coloniais parcialmente dife
rentes. Isto permitirá que, no século XIX, a França, apesar de
toda a relutância e da existência real de uma política colonial
por vezes bem violenta, assuma um forte papel ideológico
em nome dos ideais da Revolução de 1789 no processo de
libertação nacional da América Latina, enquanto que a Ingla
terra será estritamente identificada por seu papel comercial,
industrial e militar.

A França, à qual faz referência SBH, e mesmo assim, só no


último capítulo de Raízes do Brasil, é uma nação jacobina,
que ama os belos discursos sobre a liberdade, autora de
leis, que ele oporá à Inglaterra pragmática. Para ele, esta
França desempenha um papel negativo na História do Brasil,
ela inspira aqueles que têm a alma quimérica dos legisla
dores e não o braço prático dos transformadores concretos
da realidade.

Com um espírito que se pode classificar como liberal, SBH


acentua a função castradora do Estado tal como o entende e
ama o brasileiro, sob a influência antiga de Portugal e
contemporânea da França e do Positivismo: o Estado é um
ser abstrato que se quer racional e que não ama a guerra ou
a violência, mas de fato sua ação é negativa, porque ele "se

98
empenha em desarmar todas as expressões genuínas e
menos harmônicas da nossa sociedade, em negar toda espon
taneidade nacional".Lembrando claramente dos perigos que
há em tirar conclusões precipitadas sobre questões muito com
plexas, é preciso estar atento às palavras que desaparecem
de uma edição à outra de Raízes do Brasil. Aqui é a palavra
"genuínas" que é apagada enquanto a expressão "esponta
neidade" permanece. É com referência àquilo que há de
profundamente natural na espontaneidade, é o fundo vital
da sociedade que foi ligeiramente colado de uma edição à
outra, como se, de uma para outra época, esta afirmação
vitalista tenha parecido muito exclusiva para o autor.
Uma vez ainda nós nos surpreendemos com o fato de que,
em seu exame histórico e sociológico, SBH reage com relação
à situação presente. É, pois, à luz desta constatação que é
preciso ler suas análises. Sobre o ponto muito particular da
influência debilitante que exerceria o pensamento francês
sobre o Brasil dos anos 1930, é preciso distinguir dois níveis.
Um concerne aos valores, outro à sua atualização. No plano
dos valores, já se viu, aqueles da democracia ou dos direitos
do homem levados adiante pela Revolução Francesa não
têm, para SBH, nenhuma relação com a situação presente
do Brasil, e aí se encontra uma tara absoluta.
Durante todo o século XIX, estes valores sem dúvida influ
enciaram a política de muitos estados e movimentos de libe
ração, mas era como se tais idéias se tivessem justaposto a
uma sociedade na qual as leis eram totalmente outras, fora
do seu lugar, para retomar a fórmula proposta por Roberto
Schwarz a respeito de Machado de Assis.
Mas o que caracteriza, aos olhos de SBH, de forma mais
acabada, a transferência das idéias da Europa para o Brasil,
é menos o seu descompasso temporal ou espacial e as causas
que dão conta disso,^° do que seu "enfraquecimento", seu
"amolecimento".

"Não seria difícil prever o que poderia ser o quadro de


um Brasil fascista. Desde já podemos sentir que não existe
quase mais nada de agressivo no incipiente mussolinismo
indígena. Na doutrinação dos nossos "integralistas" com
pouca corrupção, a mesma que aparece nos manuais italianos,
faz falta aquela truculência desabrida e exasperada, quase

99
apocalíptica, que tanto colorido emprestou aos seus mo
delos da Itália e da Alemanha. A energia sobranceira destes
transformou-se, aqui, em pobres lamentações de intelectuais
neurastênicos."^'
Poder-se-ia acreditar, pela leitura destas frases, que SBH
endossa, simplemente, os valores de energia que compõem,
na época, o essencial do credo filosófico de tendência fascis-
tizante. Mas, de fato, se ele sublinha os méritos do fascismo
europeu, é para logo destacar que o seu culto da energia não
os conduz, finalmente, senão a promover, pela violência,
interesses basicamente ordinários. Em lugar de uma verda
deira reforma, eles não promovem senão uma pobre contra-
reforma.^^ Sérgio se põe então a detalhar, com um olho crítico,
aquilo no que se tornou o fascismo mussoliniano no Brasil.
Ao falso revolucionarismo do modelo italiano ou alemão vem
se acrescentar — e lá está o centro de sua crítica — a degene-
rescência brasileira desta ideologia. E para bem sublinhar
que é sempre esta herança deletéria lusitana que está em
causa, SBH afirma que a mesma degenerescência já imprime
sua marca, em outros setores da sociedade, mas do mesmo
modo, a transplantação dos ideais revolucionários comu
nistas para o solo brasileiro.

Deu-se com eles coisa semelhante ao que resultou do comu


nismo, que atrai entre nós precisamente aqueles que parecem
menos aptos a realizar os princípios da Terceira Internacional.
Tudo quanto o marxismo lhes oferece de atraente, essa
tensão incoercível para um futuro ideal e necessário, a rebe
lião contra a moral burguesa, a exploração capitalista e o
imperialismo, combina-se antes com a 'mentalidade anar
quista' do nosso comunismo, do que com a disciplina rígida
que Moscou reclama de seus partidários.^^

Com este "anarquismo" espontâneo, no sentido de uma


recusa congênita a todo poder e a toda capacidade de orga
nização, SBH reafirma, uma vez mais, sua tese sobre a herança
"aventureira" portuguesa. Os valores não são, eles próprios,
postos em causa, só a energia e a disciplina com as quais um
povo é capaz de levar adiante os valores que contam. É fora
de dúvida que o texto oferece muito mais oportunidades para
aproximar a atitude de SBH do voluntarismo fascista, que

100
pairava no ar angustiante da época, do que daquele do
comunismo.

Em uma passagem da primeira edição de Raízes do Brasil,


logo suprimida, o autor estabelece um paralelo entre o que
aconteceu às nações da América Latina, arcadas pelos ideais
de 1789 e o que se dava no momento com os povos coloni
zados embalados pela Terceira Internacional:

Foi essa crença que presidiu a toda história das nações


ibero-americanas desde que se fizeram independentes. As
rebeliões que desligaram esses povos das metrópoles ado
taram com base das suas cartas políticas os princípios da
Revolução Francesa então na ordem do dia, pelos mesmos
motivos que ainda hoje levam certos povos coloniais e
semicoloniais a contemplarem com unçâo os ideais apre
goados pela Terceira Internacional.^"*

Sente-se a ironia devastadora que se oculta atrás destas


expressões "então na ordem do dia" ou "contemplarem com
unção os ideais apreogoados", e deve ser remarcado o fato
de que SBH querer, mais tarde, retirar esta frase da edição de
seu livro.
Na verdade, esta mentalidade de aventureiro repousa
sobre uma noção essencial sobre a qual SBH retorna muitas
vezes, aquela da "sobranceria", feita de virtudes que são
cardeais no universo da aventura. Diz Sérgio que as "virtudes
soberanas para essa mentalidade são tão imperativas, que
chegam por vezes a marcar o porte pessoal e até a fisionomia
dos homens".
O homem soberano age por si mesmo, não leva em conta
suas ações senão em relação a si próprio e nada partilha nos
quadros de uma organização coletiva, social ou política, e
menos ainda com o Estado. Vê-se que com uma tal concepção
de Estado, é toda a política da representação democrática
que é posta em causa, na medida em que, assegurada por um
corpo profissional, ela se coloca a distância e como que afas
tada da realidade social. SBH deixa aqui transparecer uma
visão do social como uma força espontânea que a política
vem refrear. Uma tal restrição seria aceitável se fosse para
acompanhar e ainda dinamizar aquilo que se desprende espon-
tanamente da sociedade ou dos combates que aí se travam.

101
Mas como a política está nas mãos de espíritos abstratos, de
bacharéis positivistas, procurando fazer prevalecer princípios
também abstratos, cabe à sociedade tomar o poder e exprimir
seus valores vitais, cuja força transformadora é contida pelo
aparelho do Estado.
SBH vai bem longe neste sentido de uma oposição entre a
sociedade e o Estado: "A politica é, de alto a baixo, um meca
nismo alheio à sociedade, perturbador da sua ordem, contrário
a seu progresso.

Não é, sem dúvida, por acaso que os dois motivos da divisa


nacional. Ordem e Progresso, aparecem como que "citados
nesta frase: "a política, por oposição à sociedade, perturba a
ordem natural da sociedade, sua organização espontânea tal
como o liberalismo o imagina, e impede o progresso".
Em todo este capítulo, SBH fustiga a crença nas boas leis:
os ingleses não dominaram o mundo sem que sua monarquia
tivesse tido necessidade de fixar uma constituição e tendo
somente, no plano jurídico, uma jurisprudência pragmática?
SBH denuncia, uma vez, mais em outro parágrafo que também
desaparecerá mais tarde, de forma talvez um pouco rude na
sua formulação vitalista à Ia Carl Schmitt:

O grande peccado do século passado foi justamente o ter


feito preceder o mundo das formas vivas do mundo das
fórmulas e dos conceitos. Nesse pecado é que se apoiam
todas as revoluções modernas, quando pretendem fundar
os seus motivos em concepções abstratas como os famosos
Direitos Humanos.

É claro que SBH não se deixa atrapalhar por isso que se


chamaria hoje de um discurso "politicamente correto". Digamos
que, na sua insistência sobre os valores do darwinismo social,
isto se faz como um eco dos discursos dominantes em certos
círculos das ciências sociais da época.
É preciso, para bem avaliar a extensão das afirmações,
substituir estas tomadas de posição no contexto da discussão
política da época sobre as vantagens da força na gestão dos
assuntos sociais.

A experiência política recente parece indicar que o povo,


no caso, o brasileiro, é intrinsecamente incapaz, por força de

102
sua herança, de se disciplinar e de se governar no interesse
de sua própria sociedade.
SBH afirma entào, logicamente, o primado da sociedade
sobre o sistema político, proclama o primado daquilo que é
vivo sobre as estruturas políticas abstratas e cerceadoras.
Se transcrevermos agora, de maneira mais circunstanciada
e localizada, esta tomada de posição na geografia das regiões
políticas e sociais brasileiras, poder-se-á dizer que o dina
mismo da sociedade paulista, herdeira da tradição "bandei
rante" e novamente animada de uma energia industrial feroz,
se faz ouvir com uma voz específica no debate nacional, a
reinvindicar direitos quanto ao futuro político do país. Ele se
mostra tanto mais inclinado a fazê-lo nesta década de 20,
quando seu dinamismo econômico se encontra reforçado pela
eclosão de um forte movimento cultural que contribui para
redefinir o mapa político do Brasil. A sociedade paulista tem
o sentimento de que a energia que a anima está constrangido
por aqueles que reclamam da herança estatal e jacobina da
República Velha.
Entretanto, o leitor nunca saberá, exatamente, se a maldição
da herança portuguesa, ainda visível nas práticas políticas
contemporâneas, teria sido levantada neste caso particular
da epopéia paulista. Resposta à necessidade, diria SBH, mais
do que uma mentalidade verdadeiramente conquistadora. Se
é este o caso, então porque não se produziriam novas neces
sidades em uma situação comparável?

A confiança no futuro, a possibilidade de ler no horizonte


político os sinais de um recolhimento exigem do observador
que ele venha a ordenar a rede múltipla de causalidades
parciais. A evolução do trabalho científico de SBH fornece,
com relação a isto, muitas pistas. Depois de Raízes do Brasil,
SBH fará com Caminhos e fronteiras um aprofundamento no
detalhe das tradições técnicas de onde surgirão as zonas de
atrito entre a cultura portuguesa e a cultura autóctone nos
quadros da expansão paulista, mas retornará com Visão do
paraíso à questão obsedante de Raízes do Brasil: por que a
herança portuguesa marca negativamente o desenvolvimento
do Brasil? Uma vez mais, tratar-se-á de buscar no passado

103
luso-brasileiro as causas das dificuldades atuais. A natureza
destas causas será, entretanto, radicalmente diferente daquela
invocada na obra de 1936.

NOTAS

' HOLANDA, Sérgio Buarque de. Raízes do Brasil. 4. ed. Brasília: Editora da
Universidade de Brasília, 1963.
2 BOSI, Alfredo. Dialética da colonização. São Paulo: Companhia das Letras,
1992. p. 37.
^ CÂNDIDO, Antonio (Org.). Sérgio Buarque de Holanda e o Brasil. São
Paulo: Editora Fundação Perseu Abramo, 1998. p. 13.
" FRIEDRICH NIETZSCHE, Werke, Leipzig, Alfred Krõner Verlag, IV, [s.d.].
p. 65. In: HOLANDA, Sérgio Buarque de. Raízes do Brasil. 4. ed. Editora
da Universidade de Brasília, 1963. p.l38.
^ OSWALDO (sic) Spengler. Der Untergang des Abendlandes. Munich
MCMXXXI. p. 258. Nota em HOLANDA, Sérgio Buarque de. Raízes do
Brasil. 1. ed. Rio de Janeiro: Livraria José Olympio Editora, 1936. p. 106.
^ SCHOPENHAUER, Arthur. Über die vierfache Wurzel des Satzes vom
zureichenden Grunde. (1813). Sur Ia quadruple racine du principe de
raison suffisante trad. franc. deJ.-A. Cantacuzène, Paris; Libr. Germer
Baillière 1882.

' ROSSET, Clément. Schopenhauer, philosophe de l'absurde. Paris: PUF,


1967. p. 25.
® CÂNDIDO, Antonio (Org.). Sérgio Buarque de Holanda e o Brasil. São
Paulo: Editora Fundação Perseu Abramo, 1998. p. 111.
9 ANDRADE, Oswald de. Pau-Brasil. Prefácio de Paulo Prado. Paris: Au sans
Pareil, 1924. p. 8.
Idem.

'' Ibidem, p. 9.
' ^ANDRADE, Oswald de. In: Os dentes do dragão. Apud SCHWARTZ, Jorge.
Vanguardas latino-americanas, polêmicas, manifestos e textos críticos.
São Paulo: Edusp, 1995. p.68.
' ^ Por exemplo, João Lúcio de Azevedo "Algumas notas relativas a pontos de
historia social" em Miscelanea de estudos en homenagem de D. Carolina
Michaelis de Vasconcelos. Coimbra, 1930.

'''HOLANDA, Sérgio Buarque de. Caminhos efronteiras. Rio de Janeiro:


Editora José Olympio, 1957.
" HOLANDA, Sérgio Buarque de. Raízes do Brasil. 4. ed. Brasília: Editora da
Universidade de Brasília, 1963. p.l7.

104
'^cf. SIMONSEN, Roberto C. História econômica do Brasil (1500-1820).
São Paulo: Companhia Editora Nacional, 1937.
''' Ibidem, p. 21.
'®SOMBART, Werner, citado por Michael Nerlich. Kritik der Abenteuer
Ideologie. Berlin: Aufbau Verlag, 1977. p. 118."Dem Seeraub ais sozialer
Einrichtung begegnen wir schon in den italienischen Seestãdten wâhrend
des Mittelalters. Amalfi, Genua, Pisa, Venedig sind alies Herde des
organisierten Seeraubs (...) und die ersten Formen der kapitalistischen
Unternehmungen sind diese Raubzüge" (notre traduction).
" Cabe notar que Sombart define o sucesso da mentalidade capitalista como
o resultado de um certo equilíbrio entre os dois componentes que no tipo
ideal se encontram em oposição.
VERLINDEN, Charles. L'esclavagedans 1'Europe médiévale. Bruges/Gand,
1955/1977. t. I. p. 719.
HOLANDA, Sérgio Buarque de. Raízes do Brasil. 4. ed. Brasília: Editora da
Universidade de Brasília, 1963. p. 21.
Ibidem, p. 7.
Ibidem, p. 19.
" Idem.

Ibidem, p. 18.

" Ibidem, p. 105.


" Idem.

PEILLARD, Leonce. Villegagnon, Vice-Amiral de Bretagne, Vice-Roi dit


Brésil. Paris: Perrin, 1991. p. 185-186.
^'HOLANDA, Sérgio Buarque de. Raízes do Brasil. 1. ed. (1936). Brasília:
Editora da Universidade de Brasília. p.l45 e 2. ed. p.l71.
SCHWARZ, Roberto. Ao vencedor as batatas. São Paulo: Duas Cidades,
1993.

HOLANDA, Sérgio Buarque de. Raízes do Brasil. 4. ed. Brasília: Editora da


Universidade de Brasília, 1963. p. 183.
Idem.

HOLANDA, Sérgio Buarque de. Raízes do Brasil. 4. ed. Brasília: Editora da


Universidade de Brasília, 1963. p. 183-184.
Ibidem, p. 144.
Ibidem, p. 5.
'^HOLANDA, Sérgio Buarque de. Raízes do Brasil. 1. ed. Rio de Janeiro:
Livraria José Olympio, 1936. p. 146.
Ibidem, p. 144.

105
CHIARA VANGELISTA

•SUA VOCAÇÃO ESTARIA NO CAMINHO'


[SP*ÇO, lEIllIÓIIO í flONIflIA

TERRITÓRIO E NAÇÃO
Em 1948, a Comissão de Estudos para a Localização da
Nova Capital do Brasil publicava um mapa que sustentava
visivelmente a necessidade de concretizar o renovado projeto
de transferir para o centro do país a capital da Federação.
Com uma fácil revisitação dos mapas renascentistas e colo
niais, o autor do relatório, Jerônimo Coimbra Bueno, afirmava
que quase dois terços do Brasil era "Terra de Ninguém".' Uma
linha do norte rumo sul-oeste dividia o Brasil em duas áreas:
uma larga faixa a oriente, povoada e organizada política e
economicamente, e o restante do país, primitivo, incontro-
lável, desconhecido. O deslocamento da capital para o centro
geográfico do país, dentro da "Terra de Ninguém", haveria
de trazer uma série de benefícios, entre os quais, o contraste
ao fluxo migratório interno em direção ao centro-leste e o
conseqüente adensamento urbano, aspectos sociais que
começavam a preocupar a classe política e os analistas.^
O deslocamento da capital federal — realizado mais de
uma década depois — era só uma das etapas de um projeto
mais abrangente, que caracterizou a política territorial de
Getúlio Vargas e que comprendia a "Campanha da Marcha
rumo Oeste", lançada em primeiro de maio de 1941, por meio
da qual os projetos de implementação das comunicações entre
o litoral e o interior, de aproveitamento econômico do terri
tório e de expansão até incorporar a Bolívia^ procuravam uma
base de consenso popular. Esta base era dada pela "Campanha
da valorização do homem brasileiro", isto é, pela difusão de
um modelo de homem novo, peculiarmente brasileiro, cuja
identidade original se concretizava em específicas relações
— de marca tradicional e antieuropéia — com o território.'^
A "Terra de Ninguém", incontrolável e arraigada ao passado,
fora da história, porém dentro da geografia, tornava-se, justa
mente por estas características, o espaço do futuro.
O projeto da nova capital federal, a "Marcha rumo Oeste"
e a "Campanha de valorização do homem brasileiro" eram as
específicas formas político-ideológicas da época de Vargas
de elaboração da relação cultural (sem aqui entrar no assunto
das relações econômicas) com o território nacional. Com
efeito, na década de 40 assistimos a uma intensificação, no
nível ideológico e simbólico — e para fins de propaganda de
regime — de temáticas e conceitos já debatidos, em contextos
diferentes, por vários intelectuais brasileiros no período
entre as duas guerras mundiais.
Esta forma de expansionismo interno não pode, então, ser
reduzida a uma estreita e contingente funcionalidade política.
O projeto político populista é antes um aspecto relativamente
efêmero de um contexto cultural mais complexo e diversifi
cado, que se pode evidenciar no debate artístico, literário e
historiográfico, além de político, em tomo das peculiaridades
brasileiras, e desenvolvido em um meio nacional e interna
cional marcado, naqueles anos, por uma forte agressividade,
ligada por sua vez também às temáticas do expansionismo
territorial.
Em outras palavras, deu-se no Brasil daquelas décadas uma
fase importante e de notável impacto coletivo — porque am
pliado pelos novos meios de comunicação — de um fenômeno
latino-americano de longa duração, iniciado com a Indepen
dência: a relação político-cultural com aquelas porções de
território nacional — as "terras vazias"— que mais podiam
ser assimiladas ao conceito de natureza. Como ressalta Vanni
Blengino em um ensaio recente, para os latino-americanos
— e suas reflexões bem se encaixam ao especial contexto
brasileiro de que estou tratando —

A natureza não é só a fonte de inspiração de poetas e escri


tores, mas o núcleo de uma reflexão social e política, com

108
implicações étnicas, porque é justamente a partir da definição
da natureza e do homem natural que nasce uma proposta
"programática" sobre a identidade futura do país."^

Nos anos entre as duas guerras se havia reforçado no Brasil


a visão patrimonial da natureza, de fato identificada com a
terra. Em frente dos "grandes espaços" para serem, todavia,
dominados, fortalecia-se a dimensão territorial da identidade,
que tomava forma e substância na relação dinâmica com a
terra e com os homens que a povoavam.
É possível ler, com esta chave interpretativa, boa parte
da produção intelectual e artística que, a partir da Semana da
Arte Moderna, consolidou-se nos anos 20, produção esta,
caracterizada pela abertura a novas experimentações, em
diálogo constante com outras áreas do mundo ocidental.
Tratava-se de uma intensa e polifacética atividade inte
lectual que podemos definir como militante, ainda que nem
sempre partidária. Nos trabalhos de autores muito diferentes
entre si e de gerações também distintas, como Paulo Prado,
Gilberto Freyre, SBH, Caio Prado Jr., nota-se a consciente
ligação com um objetivo que vai além da escrita: contribuir
para a formação de uma memória coletiva, funcional à cons
trução da nova identidade nacional. O debate entre os diversos
Brasis que se vão assim configurando se dá, porém, fora da
produção científica, na qual, pelo contrário, só se pode adi
vinhar o diálogo oculto entre os autores e as distintas inter
pretações. Cada autor, de fato, confronta-se, por um lado,
com as fontes históricas e, por outro, com autores estrangeiros,
ignorando ou subentendendo, a menudo de maneira polêmica,
o meio intelectual nacional.^
Na procura de elementos constitutivos e originais da cul
tura e da sociedade brasileiras, a interpretação do passado
colonial e a comparação com outras formas de colonização
(espanhola, britânica, holandesa), configura-se como o nó
central do discurso. A colônia é a chave interpretativa do
presente: os aspectos originais e as áreas de ação autônoma
dos luso-brasileiros conferem à época colonial um perfil de
protonação.
É nesse contexto cultural que SBH formou-se e atingiu
a maturidade intelectual. A força explicativa do passado

109
colonial põe-se como questão central em toda sua obra, no
meio século ideal que vai desde a primeira edição de Raízes
do Brasilil9ò^^ até a publicação póstuma de O extremo Oeste
(1986). Uma questão historiográfica e ao mesmo tempo
política é posta de maneira explícita por nosso autor em
Caminhos e fronteiras e em Visão do paraíso.
Em Caminhos e fronteiras, coletânea de artigos e ensaios
publicada em 1957, no capítulo IX ("Frotas de comércio") da
primeira parte, "índios e mamelucos", SBH refletia sobre o
povoamento de Cuiabá, no começo do século XVIII:

Em que sentido caberia dizer que foi fecundo para a civilização


brasileira do presente, e mesmo do futuro, esse surpreen
dente movimento colonizador de nosso extremo Ocidente?"

No ano seguinte, em Visão do paraíso, a preocupação com


as raízes históricas refere-se à época dos descobrimentos:

É possível, desta excursão já demorada à volta dos mitos


geográficos difundidos na era dos grandes descobrimentos
marítimos, tirarem-se conclusões válidas para um relance sobre
a formação brasileira, especialmente durante o período
colonial?"

Um elo entre o passado e o presente é formulado com


maior clareza no prefácio da segunda edição de Visão do
paraíso-.

O que nele se tencionou mostrar é até onde, em torno


da imagem do Éden, tal como se achou difundida na era
dos descobrimentos marítimos, se podem organizar num
esquema altamente fecundo muitos dos fatores que presi
diram a ocupação pelo europeu do Novo Mundo, mas em
particular da América hispânica, e ainda assim em quanto
abrangessem e de certa forma explicassem o nosso passado
brasileiro. Em tais condições bem poderia servir estudo seme
lhante como introdução à abordagem de alguns fundamentos
remotos da própria história do Brasil, e de outro — em que
não se tocou nestas páginas — como contribuição para a
boa inteligência de aspectos de nossa formação nacional
ainda atuantes nos dias de hoje.'^

110
Esta atenção pela longa duração está associada, em SBH,
à questão da expansão lusitana, e mais em geral da civilização
ocidental, até a América. O primeiro capítulo do seu primeiro
livro. Raízes do Brasil, titula-se "Fronteiras da Europa", e o
conhecido incipit não só esclarece o conteúdo do ensaio,
mas parece também indicar uma orientação de pesquisa que
permaneceu constante nas décadas seguintes:

Todo estudo comprehensivo da sociedade brasileira ha de


destacar o facto verdadeiramente fundamental de consti
tuirmos o único esforço bem sucedido, e em larga escala,
de transplantação da cultura européa para uma zona de
clima tropical e subtropical.'"

Estamos longe — era o ano de 1936 — das temáticas socio-


econômicas mais difundidas nas últimas décadas do século
XX, como a invasão, o etnocídio, a afirmação de uma socie
dade desigual e produtora de pobreza, em interpretações que
a miúdo evidenciam os elementos globalizantes, ignorando
ou subestimando as formas históricas dos específicos pro
cessos políticos e sociais. Pelo contrário, podemos dizer que
nesta época, na qual floreceu a literatura regional, desen-
volveu-se também o regionalismo da análise histórico-social.
As interpretações desta época, de fato, não se referem ao Brasil
no seu conjunto, mas se baseiam, preferencialmente, na
análise das específicas realidades regionais: o Nordeste de
Gilberto Freyre, o Centro-este de Francisco de Oliveira Vianna
e de SBH, o Sul de Vianna Moog. Uma atitude que recebe
ainda hoje as críticas dos historiadores. Em substância, os
autores citados, e não só eles, proporcionariam interpre
tações gerais do Brasil, apesar de ter como objeto de análise
regiões específicas, ainda que extensas e historicamente
estratégicas. Não só isto: as instâncias, os valores, os direitos
do Centro — seja no sentido de metrópole, seja no de capital
econômico-administrativa colonial — seriam postos como
externos, coercitivos, alheios. Apesar da ambição de estudar
o Brasil no seu conjunto, a dimensão regional vira-se totali-
zante, e ao mesmo tempo desagregadora, porque excludente
das outras realidades.
Ettore Finazzi-Agrò, em um ensaio sobre o projeto de nação
em Guimarães Rosa, dá uma interpretação da relação entre o

111
regional e o nacional, entre o local e o universal que pode
sugerir uma perspectiva de análise em parte distinta da ante-
cendente:

Com efeito, a escolha de espelhar, por um lado, o Brasil no


sertão e de apresentar, pelo outro, o sertão como metonímia
do Mundo — isto é, de incluir o País nos confins da Região e
de dilatar a dimensão regional até a confundir num espaço-
tempo universal — acaba por delinear uma ideologia peculiar
em que se combinam, se misturam sem nunca se resolver
ou se dissolver uma na outra, duas diversas (e até opostas)
imagens da Nação: uma ligada, mais uma vez, à visão histó
rica de um Brasil-arquipélago, composto por junção de dife
rentes tradições ou de realidades distintas (raciais, étnicas,
geográficas...); a outra, considerando o País na sua totali
dade ideal e, ao mesmo tempo, característica, que o coloca,
como (id)entidade única e incontrovertível, como espaço-
tempo continental, no contexto histórico e sócio-político
internacional."

Há aqui uma leitura que pode ir além da obra de Guimarães


Rosa para interpretar, fora dos confins da literatura, o senti
mento duma época, as décadas conotativas do século XX.
De fato, o acentuado compromisso com o presente e a sensi
bilidade pelas instâncias explicativas da contemporaneidade
tiram das análises do passado — vejam — se os casos de
Gilberto Freyre e de SBH — o caráter especificamente histo-
riográfico, no sentido de que, ainda que a narração seja
do passado, a interpretação se refere aos tempos presentes.
A passo que os artistas da Semana de Arte Moderna, os quais,
por meio de viagens ao interior do país e, notamente, ao
interior de São Paulo, descobriam ou redescobriam o Brasil,
no projeto de incorporar na modernidade o passado que
permanecia no campo e nas tradições da população rural,
assim, os autores citados narram a sociedade dos antigos
colonizadores para redescobrir a contemporaneidade. No
caso paulista — me refiro a Sérgio Burque de Holanda, mas
também ao menos conhecido e menos estimado Cassiano
Ricardo — os autores seguem o roteiro dos antigos — aqueles
lusos que, na narração, deixam rapidamente os traços euro
peus para se tornar em brasileiros — para desenhar o mapa
do Brasil contemporâneo, um mapa que indique e ao mesmo

112
tempo explique a nova, efetiva ou esperada conquista feita
pelos novos, contemporâneos, atores sociais.
Neste contexto, o território da federação não só se identi
fica com o espaço da nação, mas adquire as qualidades de
construtor, ou plasmador, do povo brasileiro. É então no con
tato dinâmico com a terra (a natureza, para retomar o discur
so evidenciado por Blengino) e com seus "antigos habitan
tes" (os índios, que entram assim na categoria do homem
natural) que o colonizador deu e dá forma às peculiaridades
brasileiras.
Trata-se verdadeiramente de uma cartografia do tempo e
do espaço, construída para evidenciar "recortes do território
dotados de sentido", como nota Sandra Jatahy Pesavento. Uma
cartografia pouco desenhada pelos seus próprios autores,
mas que tem uma reprodução enorme, ainda que vulgari
zada, nos atlas escolares, fundamento do sentir comum e
da construção de uma específica consciência coletiva de
pertencimento territorial da nação.
Diferentemente dos outros autores citados, que nem
publicam um mapa para explicar o processo de expansão
territorial que foi objeto ou teatro das respectivas narrações,
SBH, mais cuidadoso que outros no manejo das fontes histó
ricas, ainda que com os limites sobre os quais já abordei,'^
põe em seus volumes alguns mapas, para ilustrar a síntese
que ele faz das fontes lidas. De minha parte, nas páginas que
seguem, vou construir mapas baseados em uma perspectiva
diferente, aquela de cartografar a interpretação buarquiana
do Brasil, indicando "os recortes" que, ao ver de nosso autor,
são "dotados de sentido" e que transformam o território num
peculiar espaço nacional.
As chaves de leitura com que vou trabalhar são o espaço,
entendido como produto da interação dos elementos materiais
e imateriais de contrução e organização do território, e a fron
teira, na sua acepção de movimento expansivo sobre o terri
tório, finalizando, no caso específico, de forma consciente
ou pela construção do espaço nacional.
Esta cartografia da interpretação buarquiana do Brasil funda
— se na leitura de Raízes do Brasil (edição de 1936, analisada
junto àquela de 1955, na impressão de 1984), Monções
Caminhos e fronteiras Visão do paraíso , 2. ed.).

113
e O extremo Oeste Um período de 50 anos que abrange
boa parte da vida intelectual de SBH e meio século de história
do Brasil. Os trabalhos agora citados serão analisados de
forma diacrônica, para sublinhar as mudanças de interpre
tação que SBH manifestou ao longo dos anos, e de forma
sincrônica, para evidenciar os aspectos que considero subs
tanciais no pensamento do Autor.

ESPAÇO E FRONTEIRA

Considerando a obra historiográfica de SBH no seu con


junto, o binômio espaço-fronteira parece constituir uma chave
de leitura, por assim dizer, natural para o estudo do inte
lectual paulista. Apesar da variedade de perspectivas dos
diferentes trabalhos, podemos com efeito perceber um fio
unificador, a partir de Raízes do Brasil, para chegar a O
extremo Oeste, constituído pelo objetivo de individualizar, des
crever e explicar as etapas da construção do espaço nacional
brasileiro, com atenção especial, como notei previamente,
pelo período colonial. É então interessante assinalar, além
dos conceitos explicados ou subentendidos, o uso das respec
tivas palavras ao longo das obras citadas.
Como foi apontado por quem o conheceu e estudou sua
trajetória, SBH teve uma atenção constante pela clareza da
comunicação escrita e pela precisão da terminologia. José
Sebastião Witter, ao qual deve — se a edição póstuma do
manuscrito de O extremo Oeste, nota que

se por um lado existe em Sérgio a perspicácia, a sutileza e


a agudeza de percepção sempre reveladora, por outro está
o rigor do estilista, que busca e rebusca até encontrar a
melhor forma de apresentar, com propriedade, aquilo que
encontrou nos documentos. (...) Assim era ele, revisava a
revisão, procurava a melhor palavra, não a mais bonita, mas
a mais incisiva.*^

Eu acrescentaria que a escolha das palavras obedece em


SBH não só ao imperativo da clareza no apresentar, mas
também à vontade de adaptar as palavras aos processos histó
ricos. Esta refinada atenção ao uso das palavras torna-se

114
explícita, por exemplo, na carta a Cassiano Ricardo, publi
cada na terceira edição de Raízes do Brasil, que tem como
assunto a conhecida polêmica de Cassiano em relação à
definição buarquiana do brasileiro como homem cordial,
explicada no quinto capítulo de Raízes-.

Devo dizer que não me agarro com unhas e dentes à


expressão cordial, que mereceu suas objeções. Se dela
me apropriei foi falta de melhor. É certo, entretanto, que
não me convenceram seus argumentos em contrário, quando
opõe bondade a cordialidade. Não vejo como fugir, com
efeito, ao sentido ético associado à palavra bondade. Você
mesmo não o conseguirá, a pesar de toda a sua admirável
destreza. Ou conseguirá, se assim se pode dizer, redefi
nindo e imprecisando o conceito, de um modo que ouso
julgar ilegítimo, (etc.)'"^

Considerando esta especial atenção do Autor, não só pelo


estilo e pela fidelidade aos documentos, senão pela maior
aproximação possível das palavras aos conceitos e aos pro
cessos históricos, me parece importante analisar brevemente
o uso que ele fez, nos textos citados, das palavras "espaço" e
"fronteira".
Não fiz uma computação eletrônica das palavras; porém
acho que minha leitura pormenorizada dos textos citados
permitem-me enumerar com razoável certeza o uso das duas
que são objeto desta análise. Vou fazer neste caso uma leitura
diacrônica e por cada obra, começando por Raízes do Brasil,
sublinhando inclusive as palavras ou as expressões que
evocam de maneira evidente o conceito de fronteira, como,
por exemplo, a palavra "pioneiro", que, sobretudo na sua
tradução inglesa, refere-se na historiografia a uma situação
de fronteira.
O primeiro capítulo do primeiro livro de SBH entitula-se
"Fronteiras da Europa", cuja explicação se encontra seja no
incipit já citado ("esforço bem-sucedido, em larga escala, de
transplantação da cultura européia para uma zona de clima
tropical"), seja no terceiro parágrafo, no qual é afirmado:

A Espanha e Portugal são, com a Rússia e os países balkánicos


(...) uns dos territórios-ponte pelos quais a Europa se comu
nica com os outros mundos. Assim, eles constituem uma zona

115
fronteiriça, de transição, menos carregada, em alguns casos,
desse europeismo que, não obstante, mantém como patri
mônio necessário."^

Esta acepção da fronteira como território de transição e ao


mesmo tempo de ligação cede o lugar a outro significado, no
capítulo segundo, titulado "Trabalho e aventura", em que se
acrescenta pela primeira vez a palavra "espaço" e uma sua
particular variável, sob forma de adjetivo, sublinhada pelo
mesmo Autor. Referindo-se ao aventureiro, tipo humano e
social que caracteriza a seu ver a colonização lusitana, SBH
afirma:

Esse typo humano ignora as fronteiras. (...) Vive dos espaços


ilimitados, dos projetos vastos, dos horizontes distantes. (...)
o indivíduo do typo trabalhador (...) terá por immoraes e
detestáveis as qualidades próprias do aventureiro (...) tudo
quanto se relacione com a concepção espaçosa do mundo,
característica desse typo.'^

No quarto capítulo, "O passado agrário" (continuação) que


recebeu novo título na edição definitiva, "O semeador e o
ladrilhador", a palavra fronteira aparece outra vez com outro
significado:

As fronteiras econômicas estabelecidas com as fundações de


cidades no Império Romano (...)."*

Poucás páginas depois, volta a referência à fronteira-


expansão:

A expansão dos pioneers paulistas (...) não tinha as suas


raízes do outro lado do oceano (...).''

Se no posterior Monções não encontro nem as palavras


procuradas, nem outras que podem evocar o conceito de fron
teira, em Caminhos e fronteiras, que, como Monções, é uma
coletânea de ensaios já publicados, a "fronteira" situa-se expli
citamente no título e na introdução, para ser de fato abando
nada ao longo de todo o volume, de mais de trezentas páginas,
e a palavra "espaço" não aparece:

116
(...) o fato é que essa própria mobilidade (...) irá (...) condi
cionar a situação implicada na idéia de "fronteira". Fronteira,
bem entendido, entre paisagens, populações, hábitos, insti
tuições, técnicas, até idiomas heterogêneos que aqui se
defrontavam, ora a esbater-se para deixar lugar à formação
de produtos mistos ou simbióticos, ora a afirmar-se, ao
menos enquanto não superasse a vitória final dos elementos
que se tivessem revelado mais ativos, mais robustos ou
melhor equipados. Nessa acepção a palavra "fronteira" já
surge nos textos contemporâneos da primeira fase da colo
nização do Brasil e bem poderia ser utilizada aqui inde
pendentemente de quaisquer relações com o significado
que adquiriu na moderna historiografia, em particular na
historiografia norte-americana desde os trabalhos já clássicos
de Frederick Jackson Turner (...).-"

Em O extremo Oeste também as referências são poucas,


porém localizadas em posições estratégicas. Os títulos das
duas partes que compõem este manuscrito inconcluído,
"Caminhos do extremo Oeste" e "A conquista do extremo
Oeste", relacionam-se à fronteira de expansão. Aliás, a
escolha da expressão "extremo oeste" evoca, inevitavelmente,
o movimento de expansão da fronteira dos Estados Unidos,
incluindo o caso brasileiro no processo continental da con
quista euroamericana do território.
Ao longo do texto, encontramos dois trechos nos quais é
evocada a fronteira: como fenômeno americano, no primeiro,
e como limite extremo da civilização ocidental, no segundo.
Neste último trecho, o espaço tem um significado bem defi
nido. Nele podemos ler uma menção aos Sorocabanos, tendo
como referência o dado de que a cidade de Sorocaba foi a
primeira fronteira do São Paulo colonial:

Nessas regiões tiveram mesmo, os seus naturais, papel de


pioneiros, como mostram de sobejo nomes como o de
Pascoal Moreira (...)^'

No lugarejo de Araritaguaba, uma capela modesta, com a


invocação de Nossa Senhora da Penha, marcava na Capi
tania, no ano de 1721, e ainda algum tempo depois, o
limite extremo do espaço de ocupacão permanente além
da vila de Itú, a jusante do rio."

117
Como se pode ver pelas citações, a freqüência das duas
palavras é surprendentemente modesta, seja em termos abso
lutos, seja em relação às temáticas próprias dos textos exami
nados. Pelo que se refere à palavra "fronteira", temos uma
maior freqüência do que a palavra "espaço", e a presença
forte em dois títulos: no primeiro capítulo de Raízes do Brasil
e no título do volume de ensaios Caminhos e fronteiras.
A citação pontual dos trechos em que se encontram as
duas palavras procuradas fornece um primeiro conjunto de
indícios em relação à cartografia buarquiana. Trata-se de
uma freqüência tão modesta, em relação às temáticas enfren
tadas pelo Autor, que não pode ser considerada casual. A
palavra "fronteira" é usada mais vezes do que a palavra
"espaço" e, junto com a palavra "pioneiro", ela se encontra
com maior freqüência em Raízes do Brasil que nos outros
livros. É ausente em Monções e em Visão do paraíso, enquanto
que em Caminhos efronteiras encontra-se no título e na intro
dução, para desaparecer ao longo de todo o texto. Em Extremo
Oeste não há a palavra "fronteira" e só uma vez são citados
os "pioneiros".
Não se pode afirmar que o uso tão limitado da palavra
"fronteira" dependa do fato de que o Autor atribua-lhe uma
forte carga de significado. "Fronteira" é utilizada sobretudo
em Raízes do Brasil, onde assume todos os sentidos do escrever
historiográfico comum: território-ponte, zona de transição,
limites, limites e transição. Na introdução a Caminhos e fron
teiras há pelo contrário uma definição, ainda que por negação.
No Brasil, com efeito, afirma o Autor, não há a fronteira no
sentido de Turner:" SBH não explica por que, mas parece
preferir o significado da antiga fronteira colonial, como espaço
marginal aos centros de poder, econômico, político e social,
mas dentro dos limites do reino e formando parte do patri
mônio da Coroa. Porém, isto não é bem assim, pois o Autor
menciona a "idéia de fronteira", relacionada a uma qualidade
sociopsicológica dos paulistas e da sociedade que eles
produziram. Também refere-se a uma mobilidade estritamente
conjunta ao conceito de limite: "...entre paisagens, populações,
hábitos, instituições, técnicas, até idiomas eterogêneos que
se desfrontavam..."^'* Então, tem-se uma fronteira não enqua
drada num significado específico, histórico (a fronteira colo
nial), ou historiográfico (a fronteira de Turner e da assim
definida "moderna historiografia").

118
Esta particular atitude põe em evidência uma caracterís
tica que me parece própria de Buarque de Holanda, que é a
de procurar com a maior atenção as palavras que mais se
adaptem à complexidade das sociedades que ele está apre
sentando. Fugir da definição, para entregar ao leitor a multi-
formidade dinâmica de uma sociedade em formação. Quanto
mais o trabalho de indagação deixa a síntese geral (^Raízes
do Brasil), para entrar no particular e na vida cotidiana da
colônia, tanto maior é a atenção para evitar as definições e
a conceitualização.
Só em Caminhos e fronteiras SBH parece apresentar seu
trabalho como parte de um debate sobre a fronteira. Isto se
passa, porém, no âmbito restrito de uma parte da introdução.
Apesar da única referência a Turner, se tratam de afirmações
que talvez foram ocasionadas pela publicação, poucos anos
antes, de dois livros, muito conhecidos, sobre a fronteira
brasileira: o de Vianna Moog, Bandeirantes epioneiros. Para
lelo entre duas culturas, e o de Pierre Monbeig, Pionniers et
planteurs de São Paulo, ambos impressos no ano de 1954.^^
Talvez fosse o caso de uma introdução que explicasse a
reunião em volume de ensaios escritos no curso dos anos,
onde o Autor reputara importante encaixar aqueles trabalhos,
esparsos, porém coerentes com seu próprio projeto inte
lectual. Tal recurso implicaria chamar a atenção do leitor
para um debate mais amplo, ainda que não citando os autores
e afirmando o seu estranhamento.
Concluindo, à medida que o trabalho sobre a expansão
paulista se aprofunda, a palavra "fronteira" desaparece. Em
bora todo o trabalho de SBH seja colocado no âmbito dos
estudos da fronteira colonial, justamente no sentido que foi
dado para a palavra na mesma época e nos documentos por
ele utilizados, nosso Autor prefere evitar esta caracterização.
No caso de "espaço", o uso da palavra é ainda mais raro.
Este me parece um indício, que irei desenvolver nas páginas
seguintes, do fato de que para o Autor a capitania de São
Paulo, junto àquelas de Mato Grosso e de Goiás, não consti
tuem, até o fim da época colonial, um verdadeiro espaço
político-social. De fato, as palavras mais freqüentes, e esco
lhidas com o cuidado costumeiro, são aquelas concentradas
no incipit das duas principais edições de Raízes do Brasil:
território, ambiente, terra, clima, paisagem.

119
o BRASIL-TERRITORIO

Vou agora aprofundar a leitura da obra historiográfica de


SBH, sintetizando, através da evidência de alguns trechos
fundamentais, qual é a imagem buarquiana da dimensão terri
torial, na dupla vertente da fronteira e do espaço, do Brasil
colonial e daquela parte da América espanhola que, ao ver
do Autor, tem uma relação material ou ideal com o Brasil.
Ao mesmo tempo, evidenciarei os atores históricos e sociais
da construção do Brasil como território. No caso do Brasil
colonial, a dimensão territorial evidencia-se de maneira espe
cial em três obras: trata-se, na ordem cronológica, de Monções,
Caminhos e fronteiras e O extremo Oeste, Na leitura complexa
dos três volumes — os primeiros, duas coletas de ensaios, o
terceiro, uma monografia inacabada — emerge um Brasil orga
nizado em uma dupla dualidade: a primeira, mais geral, mas
não menos definida desde o aspecto político-social, é aquela
que contrapõe o litoral ao sertão, retomando a divisão clássica
dos autores coloniais; a segunda, é a contraposição entre o
Nordeste e o "Sul", uma conceitualização que parece ser de
marca contemporânea, isto é ligada a uma polêmica não expli
citada com os conhecidos trabalhos de Gilberto Freyre sobre
a sociedade nordestina. Deve-se esclarecer que, nesta última
contraposição, o "Sul" de Buarque de Holanda é de fato São
Paulo e, a oeste, às áreas que teriam sido organizadas, na
metade do século XVIII, nas capitanias de Goiás e de Mato
Grosso.

Ainda que não sempre explicitada, a contraposição Nor-


deste/"Sul" é evidente em vários trechos das obras citadas.
Em Monções, por exemplo, o Nordeste é caracterizado pela

(...) coesão externa, o equilíbrio aparente, embora muitas


vezes fictício, dos núcleos formados no litoral nordestino (...)
onde a riqueza agrária pode exprimir-se na sólida habitação
do senhor do engenho^'',

e a mesma frase é repetida, com alguns sinônimos, em O


extremo Oeste}''
À "sólida habitação do senhor do engenho" (como não
lembrar Casa grande & senzala, de Gilberto Freyre?) contra
põe-se o contexto instável de São Paulo:

120
A sociedade, constituída no planalto da capitania de Martim
Afonso, mantém-se, por longo tempo ainda, numa situação
de instabilidade ou de imaduridade, que deixa margem ao
maior intercurso dos adventícios com a população nativa.
Sua vocação estaria no caminho, que convida ao movi
mento; não na grande propriedade rural, que cria indivíduos
sedentários.^®

Desta vez também o trecho é repetido, com poucas va


riações, em O extremo Oeste}^ A atenção está, todavia, concen
trada no "Sul", em São Paulo, centro de um amplo sistema de
comunicações;

Alguns mapas e textos so século XVII apresentam-nos a vida


de São Paulo como centro de amplo sistema de estradas
expandindo-se rumo ao sertão e à costa.

Trata-se de um sistema que engendra subsistemas, como é


o caso de Sorocaba, que é assim apresentado em O extremo
Oeste:

Se (...) os sorocabanos tinham ficado sujeitos aos seus rivais


no tocante à administração da justiça, no mais pode dizer-se
que gozavam de plena isenção, porque além de ter fácil
acesso aos campos sulinos, podiam ganhar o Tietê direta
mente pelo seu rio, o rio que dá nome à vila, sem precisar
passar por Itu (...) para suas tradicionais correrias no sertão
ocidental.

Outro subsistema vai se criando na mesma época, o de


Cuiabá, mencionado em Caminhos e fronteiras:

Com tão escassos elementos e tão distanciados do resto do


mundo puderam, entretanto, os moradores de Cuiabá, criar
um centro de povoamento estável e duradouro. E até mesmo
transformar esse centro em fulcro de um novo sistema de
colonização, que já em 1734 alcanzava a bacia amazônica nas
margens do Guaporé (...)^^

Podemos desenhar um primeiro esboço da cartografia


buarquiana do Brasil colonial. Dois sistemas contrapostos,
um, no Nordeste, estável e, pelo menos aparentemente.

121
coeso e em equilíbrio, baseado na grande propriedade agrí
cola; outro, o "Sul", imaduro, instável, em movimento. Em
São Paulo, o movimento é a característica predominante —
como SBH salienta em Monções, para repeti-lo com as idênticas
palavras décadas depois, em O extremo Oeste: "Sua vocação
está no caminho, que convida ao movimento.^^ Esta "vocação
ao caminho" não produz um sistema fortemente hierarqui-
zado, mas bem novos núcleos de povoamento, dois dos quais
formam subsistemas: Sorocaba e Cuiabá.
Este Brasil, que se define territorialmente nos confins
móveis marcados pelos bandeirantes, está a miúdo colocado
no quadro mais abrangente da América do Sul, na tensão
não só cultural — como no caso de Raízes do Brasil — entre
Espanha e Portugal. A contextualização continental está pre
sente, em planos analíticos distintos, em Visão do paraíso e
em O extremo Oeste.

Em Visão do paraíso há referências às distintas políticas


ocupacionais, e aos interesses suscitados pelas costas atlân
ticas nas potências européias, como a importância para
ambas Coroas ibéricas das terras vicentinas, e o interesse
holandês para o sul do Brasil:

(...) cabe notar que a Ilha de São Vicente, com os seus


contornos, parecere figurar apenas como escala de abaste
cimento das frotas que se dirigissem ao estreito e ao Peru.
Entretanto a idéia de que também se poderia entrar terra
adentro por aquele porto até às cobiçadas cordilheras oci
dentais, não seria de todo estranha à proposta de ocupação
de sítio tão estrategicamente colocado.^'

Sempre em relação ao primeiro período colonial, a atenção


do Autor se concentra, em O extremo Oeste, na relação anta
gônica entre as cidades de Assunção, de São Paulo e de
Cuiabá, assunto desenvolvido na segunda parte do livro,
em que ele mostra as distintas forças propulsivas da expansão
das fronteiras da Europa, pondo em luz a importância estra
tégica de áreas economicamente marginais e sugerindo a
complexidade, inclusive política, do processo de ocupação:

A posse de Assunção, mesmo que não significasse posse de


riquezas novas, somadas a tantas outras que tinham ajudado

122
Castela, de repente, a converter-se em potência universal
mente respeitata ou invejada, colocava-a numa posição
central, que lhe daria a chave de todo o continente, bloque
ando todas as possibilidades de acesso dos de Portugal às
minas de metal rico. Enquanto o francês, por exemplo,
adversário mais de longe, vai cuidando de insinuar-se sobre
as partes mais visíveis ou ostensivas da colônia, de donde
não seria difícil, talvez, desalojá-lo, vinha agora esse outro
inimigo mais íntimo e mais perigoso, por isto que, vivendo
ali ao lado e como paredes-meias com ele, bem sabia os
fracos do português, e punha-se em situação de poder feri-lo
de flanco, se assim o quisesse. É significativo que se aperceba
Portugal da importância e da gravidade do acontecimento
na ocasião exata em que decide melhor firmar seu senhorio
sobre o Brasil (etc.)."

De fato, quando Tomé de Souza voltou para Portugal,


Assunção

já se tinha convertido num núcleo dinâmico de conquista e


povoamento que parecia justificar plenamente a inquietação
do governo de Lisboa e que, não fosse a ulterior expansão
bandeirante, dificilmente teria similar no continente.^''

As correrias dos bandeirantes, apresentadas em outros


livros como um movimento espontâneo de expansão, estão
em O extremo Oeste insertadas em um quadro geopolítico mais
complexo, no qual os argumentos protonacionais são deixados
ao lado e são até ligeiramente criticados.^' A contraposição
entre São Paulo e Assunção não tem aqui uma função mera
mente exemplificadora de qualidades psicossociais, como em
outras passagens, presentes ao longo da obra de SBH. A tensão
entre as duas cidades se concentra na questão da posse do
Mato Grosso, pois, para ambas, a futura capitania, fundada
em 1751, teria podido ser um "prolongamento natural".^®
Neste quadro, Cuiabá é algo mais do que um dos possíveis
e realizados subsistemas de penetração territorial gerados
pela força expansiva de São Paulo; é um posto avançado do
projeto imperial de conquista do território.
Com efeito, neste último trabalho de Sérgio, que ele deixou
inconcluso por vários anos, há cenas, contraditórios e ainda
não completamente desenvolvidos, sobre a inserção dos

123
eventos brasileiros e continentais em um projeto imperial de
longa duração. Se confrontarmos dois trechos sobre o fenô
meno das bandeiras, publicados respectivamente na primeira
e na última obra historiográfica de nosso Autor, sobressai
com maior evidência a reflexão sobre esta questão.
Retomamos por inteiro um trecho de Raízes do Brasil, que
já citei parcialmente, no qual está evidente o que chamei de
protonação:

No planalto de Piratininga nasce em verdade um momento


novo de nossa história nacional. Ali, pela primeira vez, a
inércia diffusa da população colonial adquire forma própria
e encontra uma voz articulada. A expansão dos pioneers
paulistas, entre os quaes se destacam figuras monumentaes,
como a desse extraordinário Antono Raposo Tavares, não
tinha as suas raízes do outro lado do oceano, podia dis
pensar o estimulo da metrópole, e fazia-se freqüentemente
contra a vontade e contra os interesses immediatos desta.^^

Em O extremo Oeste esta perspectiva está posta em diálogo


com os trabalhos (ainda que não citados) dos que evidenciam
a variável da política imperial:

Se deveu o Brasil sua extensão atual e sua unidade a uma


política de comprovada sabedoria, capaz de pesar o impon
derável, calcular o incalculável, fabricando o futuro sob medida
de seus próprios interesses, todo o mérito pelos resultados
obtidos é atribuível à política de Lisboa, que, segundo
essas especulações, já o tinha previsto e sempre pelejou
por-los. Não será menor, todavia, o mérito dos que no
Brasil se tornaram agentes, talvez involuntários, de tão
insigne programa. Isto é: não sai diminuída a glória dos
sertanistas se eventualmente trilharam, sem o perceber,
caminhos já traçados do além-mar.""^^

Ainda que, nas palavras irônicas do Autor, a questão


pareça não ser tão importante e de alguma maneira fora dos
fatos da história ("Baste-nos notar de passagem como, assim
identificado o autor do portento, a demonstração de sua pres-
ciência miúda toma quase o aspecto das antigas provas da
extistência de Deus..."), o problema de alguma forma está
posto, e leva a uma conclusão mais matizada e menos ideoló
gica com respeito às afirmações contidas em Raízes do Brasil:

124
É que uma série de resultados felizes obtidos pela diplomacia
portuguesa na América do Sul favoreceu freqüentemente,
entre esses povos, a crença numa singular habilidade e astúcia
da política lusitana, que chegaria mesmo a ser seu traço
distintivo em confronto com a castelhana.^'

De fato, algumas afirmações contidas nos ensaios dos


volumes da História geral da civilização brasileira coorde
nados por Buarque de Holanda,mais de trinta anos depois
de Raízes do Brasil, não podiam se chocar contra uma nova
sensibilidade historiográfica que, por exemplo, não chegava
mais a considerar extraordinário e momumental o bandei
rante Antonio Raposo Tavares, frase aliás cortada na edição
de Raízes ÚQ 1955. De toda forma, cabe assinalar que a interpre
tação do Brasil colonial como um espaço político, ao mesmo
tempo produto e elemento de transformação do espaço im
perial, está lembrada, e de uma forma em que a ironia faz
redutiva, apenas nas últimas páginas escrita por Sérgio. Se,
por um lado, estas páginas matizam a idéia do Brasil colonial
como protonação, por outro, mostram com mais clareza, se
possível, a convicção de Buarque de Holanda do fato de que
o Brasil-colônia nada é mais do que um território, no sentido
clássico que a esta palavra atribuem os geógrafos, como pro
duto da ação de grupos humanos sobre o ambiente, em
função dos recursos disponíveis e das características dos
lugares, e em função da organização da produção.''^
Nüm mapeamento conceituai da obra de nosso Autor,
podemos esboçar um Brasil caracterizado por uma área de
ocupação estável, o Nordeste, e outra instável e mais dinâ
mica, o "Sul", isto é, como já dito, São Paulo, "centro de
um amplo sistema de estradas", que produz por sua vez,
num processo independente da metrópole, outros núcleos
dinâmicos de povoamento, Sorocaba e, principalmente,
Cuiabá. A este sistema luso-brasileiro de penetração da
terra americana contrapõe-se outro sistema subcontinental,
o espanhol, com centro na cidade de Assunção, esta também
"núcleo dinâmico de conquista e de povoamento", e anta-
gonista de São Paulo.
Ainda que, em suas últimas páginas, Buarque de Holanda
tome em consideração, com cautela, a idéia da existência de
um projeto mais amplo, de marca imperial, a imagem que se

12S
forma é mais de uma ação por assim dizer horizontal, de adap
tação e paulatina transformação da natureza em território.
Se, no caso do Nordeste, as características geomórficas pro
duzem uma ocupação relativamente intensiva e estável e um
correspondente tipo humano, em São Paulo, "os caminhos
convidam ao movimento", formando um território distinto,
caracterizado por uma sociedade mais instável, mas, sobre
tudo, mais dinâmica.

OS ATORES HISTÓRICOS

As dinâmicas internacionais lembradas por SBH pelo que se


refere ao início da época colonial proporcionam a percepção
da existência de algo diferente, de alguma forma em contra
dição com as afirmações do próprio autor, quando acrescenta
às interpretações mais conhecidas e repetidas ao longo da
sua produção, da relação entre sociedade e território — a
predominância dos elementos culturais brasileiros com res
peito aos lusos —, os argumentos agora evidenciados. Na
leitura de Visão do paraíso, com efeito, vemos as estratégias,
não só portuguesas, mas européias, de posse do Brasil em
função da prata de Potosí, enquanto que na segunda parte
de O extremo Oeste — um ensaio que, à primeira vista, parece
ser uma repetição de Monções — há as reflexões mais com
plexas em torno do papel da Coroa.
Na base destas leituras, e de maneira especial de O Extermo
Oeste, podemos dizer que, na interpretação de Buarque de
Holanda, a ação de construção do Brasil — território seja
animada fundamentalmente por dois conjuntos qualitativa
mente distintos de atores históricos: os paulistas e a Coroa,
os quais são apresentados em tensão e até em conflito, nas
primeiras obras, e formando parte de um único plano impe
rial, notamente em Visão do paraíso e no último trabalho.
A análise diacrônica dos textos explica melhor esta evolução
na interpretação. Em Raízes do Brasil há uma contraposição
evidente entre o desenho imperial português, voltado à conso
lidação da ocupação do litoral, e a quase natural propensão
dos paulistas para o movimento rumo ao interior. No quarto
capítulo, intitulado na primeira edição de "O passado agrário"

126
(continuação), o Autor põe em oposição as políticas ocupa-
cionais castelhana e portuguesa, afirmando que

os portugueses, ao oposto, creavam dificuldades às entradas


terra adentro, receosos de que assim se despovoasse a
marinha. No regimento do Primeiro Governador Gerai do
Brasil, Thomé de Souza, estipula-se, expressamente, que,
pela terra firme a dentro, não deve ir tratar pessoa alguma
sem licença especial do governador

e o conceito é ainda reforçado nas notas ao mesmo capítulo


quarto de edição de 1955 (titulado desta vez "O semeador e o
ladrilhador"), quando é citado Tawney, segundo o qual o im
pério português no século XVI era "pouco mais que uma linha
de fortalezas e feitorias de dez mil milhas de comprido".
Sempre em Raízes há outra referência a esta contraposição
clássica: a expansão dos paulistas "fazia-se freqüentemente
contra a vontade e contra os interesses imediatos" da metró
pole:"^^

A obra grandiosa das bandeiras paulistas não pode ser bem


comprehendida em toda sua extensão, se não a destacarmos
um pouco do esforço português, como um emprehendimento
que encontra em si mesmo a sua explicação, embora ainda
não ouse desfazer-se de seus vinculos com a metrópole
européa, e que, desafiando todas as leis e todos os perigos,
vai dar ao Brasil a sua actual silhueta geographica.'^

Em Visão do paraíso, publicado vinte anos depois, a


perspectiva é um pouco diferente. Nas páginas finais do livro,
no cap. XII, "América portuguesa e índias de Castelha", uma
síntese comparativa entre as políticas de Castela e de Portugal,
as forças contrapostas Lisboa/São Paulo são evidenciadas
como em Raízes do Brasil.

"No Brasil (...) a presença ativa da Coroa faz-se sentir desde


que principie a colonização regular. É ela sobretudo que busca
manter aquele mesmo sistema de povoamento litorâneo
(...)" enquanto que, "pela terra firme dentro, não vá tratar
pessoa alguma sem licença especial dos governados (...)"

Não é sem motivo que a penetração terra adentro só se fez


posteriormente, de modo vigoroso, a partir de lugares como

127
São Paulo, onde as circunstâncias favoreciam menos a ação
adversa da metrópole

Trata-se, aliás, de uma tensão entre forças dinâmicas dis


tintas (uma centrípeta, outra centrífuga) que não se traduz
em um verdadeiro enfrentamento: "a preferência atribuída ao
povoamento litorâneo (...) se impôs naturalmente (...)".''^
O Autor tinha evidenciado, páginas antes, a conjunção da
"natureza" aventureira dos mamelucos e os interesses econô-
micos-políticos deles com os desenhos mais gerais da Coroa.
De fato, povoadores chegavam em São Paulo desde outras
capitanias (no caso, tratava-se de espírito-santenses), para
a maior facilidade na caça ao índio; por outro lado, esta
concentração de pessoas móveis, aventureiras e conhece-
doras dos índios favorecia a transferência para São Paulo
do núcleo principal da procura dos minerais.
E aqui volta a contraposição paulistas/Coroa de Raízes
do Brasil, porém com uma interpretação historiográfica mais
profunda — a mineração levara a maior controle social. No
fim do século XVII,

(...) um governador do Rio de Janeiro assinala o escasso


interesse qup demonstravam os paulistas por aquelas minas.
Julgavam, e abertamente o diziam, observa ele, que desco
bertos os tesouros, lhe haveriam de enviar governador e vice-
rei, meter presídios na capitania para sua maior segurança,
multiplicar ali os tributos, com o que ficariam expostos ao
descrédito, perderiam o governo quase livre que tinham da
sua república, seriam mandados onde antes mandavam, e
nem lhes deixariam ir ao sertão, ou, se lá fossem, lhes tirariam
as peças apressadas para as empregar no serviço das minas.*^'

Estas temáticas, obviamente, não são retomadas em


Caminhos e fronteiras, que reúne ensaios dedicados à cul
tura material, mas têm um ulterior desdobramento em uma
explicação política nos poucos, mas importantes trechos já
citados na segunda parte de O extremo Oeste ("A conquista
do extremo Oeste"):

Se deveu o Brasil sua extensão atual e sua unidade a uma


política de comprovada sabedoria (...) todo o mérito pelos
resultados obtidos é atribuível à política de Lisboa (...). Não

128
será menor, todavia, os méritos dos que no Brasil se tornaram
agentes, talvez involuntários, de tão insigne programa. Isto
é: não sai diminuída a glória dos sertanistas se eventual
mente trilharam, sem o perceber, caminhos do além-mar.'^

No arco de 50 anos, vemos, então, transformações signifi


cativas na interpretação de SBH e, através da chave de leitura
constituída pelos atores históricos, podemos perceber que
o território se enriquece de outros elementos, próprios do
espaço histórico, como as dinâmicas políticas finalizadas à
constituição interna e internacional do próprio território.
Não se tratava então, preferencialmente, de um aconteci
mento "natural" (palavra usada com freqüência pelo Autor),
abandonado à rotina sertaneja, mas de um processo incluído
num projeto geral de construção do espaço do império, no
qual algumas áreas marginais, como as áreas centrais, têm uma
colocação específica e integrada.
Esta perspectiva, porém, se encontra somente em O extremo
Oeste, um trabalho deixado a lado por vários anos e não revi
sado pelo Autor.
Há elementos suficientes, no conjunto da obra de SBH,
para dar substância à idéia do Brasil colonial como espaço
histórico?

De fato, a questão central não é a da consistência do


conceito de fronteira em SBH.^^ O uso dútil e parcimonioso
da palavra "fronteira" de que falei antes (poderia dizer, para
parafrasear nosso Autor, um conceito que se amolda às circuns
tâncias, "com a consistência do couro"^ ) não prejudica a centra-
lidade da fronteira na sua interpretação do Brasil, ou pelo
menos do São Paulo colonial.
O problema que vou expor agora é o de verificar se a inter
pretação buarquiana desenha o Brasil — ou São Paulo e suas
fronteiras ocidentais — como um espaço histórico, já na época
colonial. E, de maneira mais específica, se, neste contexto, a
fronteira buarquiana é produto e produtora de um específico
espaço histórico.
Retomamos a introdução a Caminhos e fronteiras, na qual
SBH apresenta ao leitor, mas ao mesmo tempo esclarece a si
próprio o sentido e a coerência interna daqueles numerosos
ensaios, editados em volume:

129
A acentuação maior dos aspectos da vida material não se
funda, aqui, em preferências particulares do autor por estes
aspectos, mas em sua convicção de que neles o colono e
seu descendente imediato se mostraram muito mais aces
síveis a manifestações divergentes da tradição européia
do que, por exemplo, no que se refere às instituições e
sobretudo à vida social e familiar em que procuravam reter,
tanto quanto possível, seu legado ancestral."

A vida material como aporte mais original dos luso-brasi-


leiros — ou, melhor dito, dos luso — paulistas — é então o
resultado de uma específica escolha historiográfica. O meio
natural e o contato com as culturas indígenas — pois nunca
se mencionam as sociedades indígenas — proporcionam aos
paulistas suas próprias peculiaridades, distintas dos elementos
lusitanos que eles mesmos procuravam conservar: as insti
tuições do reino, os hábitos familiares.
Trata-se aqui do tema forte da obra de SBH: a adaptação
criativa ao meio natural em sentido amplo, compreensivo dos
autóctones. Um tema que leva à atenção mais pelo território
do que pelo espaço histórico.
Com efeito, os aspectos da cultura material, produzida
pelo demorado processo de adaptação ao meio natural, até
a formação de um território, são os que o Autor considera
pertencentes à dimensão especificamente americana da colo
nização.
O espaço, assim como se delineia no debate entre as
ciências humanas, é gerado pela interação entre o meio
natural, os projetos políticos, as instituições, as relações
sociais, o imaginário, as utopias, as religiões, num diálogo
constante entre o "natural" e o "social". Dito em outras palavras,
o espaço é o conjunto de ações, de projetos e de sonhos (indi
viduais, coletivos, sociais) que se desenvolvem em cima e a
propósito de uma área, mais ou menos ampla e mais ou
menos habitada, porém organizada em função de objetivos
étnicos, sociais, culturais, políticos, econômicos, religiosos.
Este espaço é, nos livros que estou aqui relendo, já dado,
procedente da metrópole: é o espaço português-imperial, um
espaço de fronteira, de transição, menos marcadamente
europeu — como vimos no primeiro capítulo de Raízes do

130
Brasil —, porém sempre resultado de projetos e de valores
importados, ou, para melhor dizer, transplantados na América.
A escolha feita em Caminhos e fronteiras, em Monções e
em boa parte de O extremo Oeste de acompanhar de maneira
pormenorizada os roteiros rumo oeste, os meios para enfrentar
estas viagens e sua evolução, que é técnica e também social,
prejudica as outras dimensões, como a político-institucional
(a fundação dos municípios, ao longo da marcha coloniza-
dora), a político-religiosa (as paróquias, as missões) e, em
parte, a étnico-política (as relações interétnicas da fronteira).
Desta maneira, sobressaem em toda sua importância os
protagonistas buarquianos da conquista do território: os
paulistas, rústicos senhores duma terra conquistada aos
poucos, com os meios simples, porém eficazes, da adaptação
criativa e dinâmica à natureza.

CARTOGRAFIAS SOBREPOSTAS

A interpretação da dimensão territorial do Brasil colonial


proposta por SBH é estreitamente relacionada ao movimento,
às entradas: em suma, à fronteira, na sua acepção mais multi-
forme e moldável.
Excluindo o Nordeste (região na qual não há, em SBH,
alusão significativa à uma situação de fronteira), temos, no
"Sul", dois pólos dinâmicos, São Paulo e Assunção, dos quais
o primeiro engendra pelo menos dois outros subpólos dinâ
micos, Sorocaba e Cuiabá.
Trata-se de um desenvolvimento territorial no qual há
múltiplas fronteiras internas de penetração, desencadeadas
a partir do núcleo dinâmico de São Paulo, e uma fronteira
externa de contraposição, desenvolvida na tensão entre
São Paulo e Assunção, sendo o Paraguai e o Mato Grosso
"prolongamento natural" um do outro.
É um território que se constrói não tanto por meio de
assentamentos, mas pelo movimento: na época das bandeiras,
domina a marcha a pé, interrompida e às vezes integrada
pela navegação dos rios, os "caminhos que andam".Uma
mobilidade que é, ela mesma, produtora de um tipo social e
até de uma sociedade:

131
Essa própria mobilidade tendia a repelir o vigor lento e labo
rioso, a prudente e minuciosa aplicação com que outros povos
mais assentados buscam seus elementos de subsistência. Os
frutos da lavoura não encontravam um mercado amplo ou
acessível para seduzir as ambições dos moradores da terra. E
assim, as mesmas razões que condenavam esses homens à
instabilidade, reduziam-nos freqüentemente à dependência
imediata da natureza.'®

Eis aqui o "aventureiro" de Raízes do Brasil, analisado na


sua cotidianidade.

Após as bandeiras, na segunda metade do século XVIII, a


mobilidade permanece invariável, ainda que mudando de
forma. Uma característica que se prolonga no tempo, até o
século XX:

As monções representam, em realidade, uma das expressões


mais nítidas daquela força expansiva que parece ter sido
uma constante histórica da gente paulista e que se revelara,
mais remotamente, nas bandeiras. Força que depois impeliria
pelos caminhos do sul os tropeiros de gado e que, já em
nossos dias, iria determinar o avanço progressivo da civili
zação do café. Tomadas no seu conjunto, o historiador de
hoje poderia talvez reconhecer, nessas formas, uma só
constelação."

Estes caminhos gerados pela "força expansiva" paulista


desenham a cartografia colonial:

Alguns mapas e textos do século XVII apresentam-nos a


vila de São Paulo, centro de amplo sistema de estradas
expandido-se rumo ao sertão e à costa. Os toscos desenhos
e os nomes estropiados desorientam, não raro, quem pre
tenda servir-se desses documentos para a elucidação de
algum ponto obscuro da nossa geografia histórica. Recor
dam-nos, entretanto, a singular importância dessas estradas
para a região de Piratininga, cujos destinos aparecem assim
representados como em um panorama simbólico.^®

A cartografia histórica que prefigura simbolicamente o


destino último da mobilidade paulista, isto é, entregar um
território imenso ao estado nacional, nasce da sobreposição

132
fiel em cima de outra cartografia, a indígena. Citando as
observações de Gari von den Steinen (1886), de Theodor
Koch-Grünberg (1909) e de Fritz Krause (1911), Buarque de
Holanda chama a atenção sobre a "extraordinária habilidade
cartográfica" dos povos indígenas:

Aos sentidos exercitados pelo gênero de vida que levam,


acrecenta-se neles (...) um senso de orientação quase mira
culoso. Disso há exemplos na extraordinária habilidade carto
gráfica de que freqüentemente são dotados. Von den Steinen
descreve-nos como um capitão Suiá desenhou na areia, para
sua informação, parte do curso do Alto Xingu, com os nume
rosos afluentes e com indicação, além disso, de treze tribos
ribeirinhas. (...) Tão nítidas e curiosas foram as informações
assim prestadas, que bastaram para animar o sábio viajante a
uma segunda expedição (...) Dessa capacidade de represen
tação gráfica entre os índios, também faz menção Theodor
Koch-Grünberg, que viu um Taulipangue desenhar o curso
completo do Cuquenau com seus setenta afluentes, bem como
o perfil das serras de Roraima e Cuquenau. Outro etnólogo,
Fritz Krause, conseguiu informar-se minuciosamente da loca
lização de tribos da zona do Tapirapé, graças a simples
croquis geográficos de um Carajá.
(...) Em lugar de ser simples escravo das suas aptidões
naturais, dos cinco sentidos, que tinha excepcionalmente
apurados, o índio tornava-se o senhor de um admirável
instrumento para triunfar sobre as condições mais penosas
e hostis.^'

A cartografia índia, não desenhada, feita de riscos no chão,


porém baseada numa "verdadeira elaboração mental" ,^2 numa
abstração gráfica que quase — diremos nós — chega a uma
forma do grifo, é percorrida muitas vezes e confirmada pela
ação dos paulistas, através do caminho, do movimento. A
cartografia indígena, pelos paulistas, torna-se um meio de
expansão continental e fica confirmada no tempo, quando a
marcha a pés dos índios e dos bandeirantes é substituída
pela estrada de ferro:

O fato de as bandeiras saídas de São Paulo (...) terem já nas


primeiras investidas atinado com o caminho mais apropriado,
mostra até onde se valeriam seus cabos da colaboração indí
gena. Não importa que fosse uma colaboração absolutamente

133
involuntária e indireta (...) Das existências destas vias já com
caráter mais ou menos permanente, antes de iniciar-se a
colonização, nada autoriza a duvidar. E ainda hoje, o traçado
de muitas estradas de ferro parece concordar com o dos
velhos caminhos de índios e bandeirantes, sinal de que sua
localização não seria caprichosa.''^

Podemos acrescentar que o roteiro das modernas estradas


de ferro tem uma origem remota, fora da história, porque a
cartografia indígena também é o resultado de uma sobrepo
sição:

E assim como o branco e o mamaluco se aproveitaram não


raro das veredas dos índios, há motivo para pensar que estes,
por sua vez, foram, em muitos casos, simples successores dos
animais selvagens, do tapir especialmente, cujos carreiros
ao longo de rios e riachos ou em direção a nascentes de
águas, se adaptavam perfeitamente à necessidades e hábitos
daquelas populações. Hábitos a que o europeu e seu descen-
tente tiveram de acomodar-se com freqüência nas viagens
terrestres e que muitos sertanejos ainda conservam.^^

Há então, na visão de SBH, uma estratificação de caminhos


sobrepostos, coincidentes desde o ponto de vista dos lugares,
porém diferentes no conteúdo cultural e estratégico. Dife
rentes, em outras palavras, pelo que se refere ao uso do
caminho, pois os carreiros do tapir, passando pelas veredas
dos índios, tornam-se, por meio das rotas bandeirantes, as
vias da expansão européia e, por fim, da modernização do
Brasil.
O caminho dos lusos e dos brasileiros, a sua descrição
e narração proporcionam a medida do tempo da fronteira.
SBH segue os roteiros antigos, elenca as etapas, lembra os
pousos, as horas, os dias, os meses necessários para terminar
a viagem.^^
Aparecem, assim, os dois tempos no caminho: um, que
podemos definir geológico, porque se desenrola na sobre
posição de caminhos distintos feitos em épocas e em mo
mentos diferentes; outro, o tempo linear, que, através das
etapas e do tempo necessário para alcançá-las, acompanha
a travessia.

134
Ao longo dos caminhos criam-se pousos, ou núcleos de
povoamento. Entretanto, a mobilidade é a variável mais forte
do povoamento. Os núcleos sào frágeis, efêmeros. Os projetos
coloniais chocam-se com a fragilidade efetiva dos núcleos,
núcleos formados por criminosos e vadios de toda sorte,
pobre material humano. Em 1776

o sistema de povoamento, concebido aqui segundo velha


tradição portuguesa, consistia em agremiarem-se numa apa
rência de vida civil os criminosos e vadios de toda sorte, que
então infestavam a capitania. Com a assistência desse pobre
material humano, contava a administração colonial lançar as
sementes de um plano soberbo e que teria por objetivo
converter o Tietê em uma verdadeira linha estratégica para
a ocupação mais efetiva do Oeste e do Sudeste, ainda mal
seguros nas mãos dos portugueses, porém, "À ambição
de povoar ermos em todos os maus passos do Tietê (...)
faltavam fundamentos sólidos e perduráveis".''^

Por toda a época colonial, então, os caminhos não cedem o


passo à força antagônica do povoamento, não sào funcionais
a este. Na fronteira colonial, a presença humana organiza-se
no movimento, nos caminhos e nos pousos de abastecimento
(ver o caso de Camapuà, mencionado seja em Monções, seja em
O extremo Oeste) e continuam sendo dependentes da estrada,
sem dar lugar a uma expansão autônoma. Os caminhos conti
nuam sendo rotas no meio do oceano do sertão ou do mato,
e a situação não muda quando os caminhos terrestres, her
deiros das pistas dos índios e do tapir, cedem o passo aos
rios, os «caminhos que andam». Estes são igualmente rotas
no oceano:

Os agentes e protagonistas desse movimento partiam de


um porto habitado — Arariguaba — para atingirem, cinco
meses depois, outro porto — Cuiabá — tendo atravessado
uma área vasta e erma como o oceano. A fazenda de
Camapuã, situada ao meio do caminho, é uma ilha onde
o navegante vai buscar refresco e repouso.

O grande impulso dinâmico da mobilidade territorial dos


paulistas não se traduz então, na época colonial, na construção
de um espaço peculiar, mas no fortalecimento de caminhos.

135
por terra ou por água, que unem pontos de frágil povoamento
ao interior de um nào-espaço.
Este nâo-espaço é constituído por terra farta, desfrutável,
na qual os portugueses instauram uma "civilização de raízes
rurais", mas não uma civilização agrícola, como é escrito no
capítulo III de Raízes do Brasil.^^ Em Monções acrescenta-se:

A verdade é que as monções nunca chegaram a deixar, nos


hábitos e na vida social paulista, nenhuma dessas marcas de
vivo colorido, que nascem de uma intimidade grata e quase
lírica entre o homem e sua ocupação mais constante. Faltou-lhes
a vida fluida, rica de formas, que brota do esforço livremente
consentido e que florece nas lendas, nos usos e nas tradições
do povo.^

CONCLUSÕES

Ao longo da leitura dos maiores trabalhos historiográficos


de SBH, pode-se notar a escolha de uma recusa em adotar
uma linha pré-constituída de análise ou de formar parte de
uma definida escola historiográfica. Com efeito, a análise/
narração é construída de maneira a propor um contexto social
e cultural multifacético, até contraditório, uma interpretação
que, por isso mesmo, continua sendo fecunda de sugestões
interpretativas multidisciplinares nas gerações mais recentes
de estudiosos.
Por outro lado, é evidente um projeto de longo prazo
— particularmente visível se for utilizada a chave de leitura
do espaço e da fronteira — finalizado à interpretação do
que, no passado colonial, possa ser útil para entender o
Brasil contemporâneo e para descobrir, ou redescobrir, a
originalidade brasileira.
Trata-se de uma história que, disfarçada com as vestes
humildes dos primeiros povoadores do interior, quer ocupar
o papel de magistra vitae para as gerações do presente. Em
contraposição com as raízes heróicas (os bandeirantes) e
aristocráticas (os senhores da terra), enfatizadas na elabo
ração da identidade das classes emergentes do São Paulo
das décadas entre as duas guerras mundiais — refiro-me.

136
por exemplo, a Cassiano Ricardo, mas também a Oliveira
Vianna e a d'Escragnolles Taunay —, SBH proporciona uma
outra interpretação, evidenciando o caráter tosco e rotineiro,
em intimidade com os povos indígenas e com a natureza, da
lenta conquista do Brasil centro-ocidental.
Com efeito, os elementos de originalidade que distinguem
os luso-paulistas buarquianos, a par, mas em planos distintos,
dos portugueses e da aristocracia do nordeste de Gilberto
Freyre, são a adaptação criativa ao meio natural e a capacidade
de desfrutar de maneira inovadora, ocidental (não estamos
nas fronteiras da Europa?) da habilidade e da sabedoria dos
índios, forjando, através dos mecanismos de uma socie
dade culturalmente mestiça, um expansionismo territorial
de tamanho desconhecido no restante da América do Sul.
O expansionismo luso-paulista é explicado como conse
qüência quase natural de circunstâncias geopolíticas, onde a
marginalidade e, simultaneamente, a colocação estratégica
para a penetração terra adentro tem lugar em uma situação
parecida à dos portugueses na Europa, em relação ao Oceano.
Tais circunstâncias geopolíticas modelam um tipo social espe
cífico. Este tem fortes raízes no mundo luso, como é explicado
em Raízes do Brasil e em Caminhos e fronteiras, mas, ao
mesmo tempo, liberta-se da metrópole no contato com um
mundo novo, por meio do movimento, do caminho, que
produzem por sua vez uma cultura própria, mestiça. Neste
contexto, o papel fundamental dos portugueses está evi
dente —, porém sem as características raciais de Oliveira
Vianna — enquanto que a Coroa é de fato ausente, a não
ser por raras alusões em Visão do paraíso e na última parte
de O extremo Oeste.

Neste projeto de redescobrimento do Brasil, parece que


SBH queira contrapor-se a uma falta da historiografia na
cional, omitindo os grandes personagens da história, citados,
porém submergidos pela multitude dos anônimos coloniza
dores, e adotando uma perspectiva "desde abaixo", ainda que
não de classe. À família patriarcal do Nordeste de Gilberto
Freyre, mas também ao senhor da terra do Sul de Francisco
de Oliveira Vianna, SBH contrapõe um luso-paulista que con
quista a terra sem as conotações heróicas dos bandeirantes
de d'Escragnolles Taunay e também da versão popular de

137
um Paulo Setúbal. Um contra-herói que é, ao ver do Autor,
o verdadeiro fundador do Brasil. Porque, neste quadro, o
espaço regional, "paulista", adquire um valor simbólico que
se estende a todo o Brasil.
Nesta chave de leitura, são numerosos os indícios de uma
polêmica oculta contra uma historiografia que não se revela
suficiente para explicar a complexidade dos processo histó
ricos, e da tentativa de SBH de descobrir um passado ori
ginal, mais duradouro que a experiência colonial européia,
e "fecundo para a civilização brasileira do presente"( C«mm/[7os
efronteiras^. Na perspectiva do Autor, os traços permanentes
não estão no espaço imperial, transplantado e organizado
desde Lisboa, mas bem no território, resultado da ação desde
abaixo dos colonizados/colonizadores.
Um território entregue ao estado nacional, resultado mais
da aventura, no sentido usado em Raízes do Brasil, do que
da política das potências de além do Oceano; um território
conquistado nas dinâmicas das cotidianas fronteiras "entre
paisagens, populações, hábitos, instituições, técnicas, até
idiomas heterogêneos" iCaminhos e fronteiras^.
Fronteiras que não produzem um espaço organizado, mas
itinerários de penetração, rasgos permanentes nos mapas,
devidos à sobreposição geológica dos caminhos modernos
sobre os ancestrais.
Um território em que os caminhos predominam sobre os
povoados, frágeis e precários, e o movimento sobre a estabili
dade. Um movimento que não produz "grata intimidade"
ÍMonções) com a terra percorrida. Na duplicidade do território
colonial, extenso, porém frágil — porque dele o Autor exclue
a ação imperial —, está talvez um dos sentidos da interpre
tação historiográfica buarquiana do passado como explicador
do presente: uma potencialidade prometida e não cumprida;
confins políticos, herdados do passado, que desenham, como
o mapa de Coimbra Bueno, uma larga porção de "Terra de
Ninguém".

138
NOTAS

' Jerônimo Coimbra Bueno. A localização do novo Distrito Federal. Comissão


de Estudos para a Localização da Nova Capitai do Brasil. Rio de Janeiro,
1948.

^ Ver CARVALHO, Hernani de. Sociologia da vida rural brasileira. Rio de


Janeiro: Editora da Civilização Brasileira, 1951; RAMOS, Arthur. Las
poblaciones dei Brasil. México: Fundo de Cultura Econômica, 1944;
WOOD, Charles; CARVALHO, José Alberto Magno de. The demography
of inequality in Brazil. Cambridge: Univesity Press, 1988.
^ VANGELISTA, Chiara. Dalle bandeiras alFEstado Novo: note per una
storia delle frontiere brasiliane. Letterature d'América. Brasiliana, X,
n. 45-46, p. 5-44, 1992.
^ LENHARO Alcir. Colonização e trabalho no Brasil: Amazônia, Nordeste e
Centro-Oeste. Campinas: Editora UNICAMP, 1986. . Sacralização da
política. Campinas: Papirus/Editora UNICAMP, 1986.
BLENGINO, Vanni. Lo spazio dello scrittore europeo. Prefácio a Roger
Caillois. Spazio americano. Città Aperta Editrice, Troina, 2004. p. 32.
^ Lembrar, por exemplo, os livros de Paulo Prado, Gilberto Freyre, Sérgio
Buarque de Holanda.
' HOLANDA, Sérgio Buarque de. Caminhos e fronteiras. Rio de Janeiro:
Livraria José Olympio Editora, 1975 Í1957]. p. 176.
8
HOLANDA, Sérgio Buarque de. Visão do paraíso. Os motivos edênicos no
descobrimento e colonização do Brasil. Rio de Janeiro: Livraria José Olympio
Editora, 1977 (19581. p. 304 (cap. XII. "América portuguesa e índias de
Castelha").

^ Visão do paraíso, op. cit., p. XI.


'"HOLANDA, Sérgio Buarque de. Raízes do Brasil. Rio de Janeiro: Livraria
José Olympio Editora, 1936, p. 3- Agradeço a Sandra Jatahy Pesavento por
tê-la procurado para mim. Esta primeira edição omite a maior parte dos
acentos. O incipit mais conhecido é aquele da edição de 1955 (aqui citada
na edição de 1984, Rio de Janeiro: Livraria José Olympio Editora), que
foi completamente modificado: "A tentativa de implantação da cultura
européia em extenso território, dotado de condições naturais, senão
adversas, largamente estranhas à sua tradição milenar, é, nas origens da
sociedade brasileira, o fato dominante e mais rico de conseqüências" (p. 3).
" FINAZZI-AGRÒ, Ettore. Sertão/Nação. A inter-dição da pátria na obra
de João Guimarães Rosa. Letterature d America. Brasiliana, XIX-XX, n.
81-82, p. 93-103. p. 95, 1999-2000.

'^VANGELISTA, Chiara. Terra e fronteiras, história e memória: uma leitura


de Sérgio Buarque de Holanda. Rivista di Studi Portoghesi e Brasiliani,
Pisa-Roma, II, p. 71-90, 2000.
' ^ WITTER, José Sebastião. Introdução. In: HOLANDA, Sérgio Buarque de.
O extremo Oeste. São Paulo: Brasiliense, 1986, p. 17, 11-21.

139
Publicada na revista Colégio, n. 3, São Paulo, setembro de 1948, e reto
mada como apêndice em Sérgio Buarque de Holanda. Raízes do Brasil,
1984, op. cit., p. 143-146.
" Ibidem, p. 143.
'^HOLANDA, Sérgio Buarque de. Raízes do Brasil. Rio de Janeiro: Livraria
José Olympio Editora, 1936. p. 3-
Ibidem, p. 21.
Ibidem, p. 60.
" Ibidem, p. 72.
HOLANDA, Sérgio Buarque de. Caminhos e fronteiras. Rio de Janeiro:
Livraria José Olympio Editora, 1975 [1957]. p. 8.
HOLANDA, Sérgio Buarque de. O extremo Oeste. São Paulo: Brasiliense,
1986, p. 40.
Ibidem, p. 45.
TURNER, Frederick J. The significance ofthefrontier in American history,
conferência pronunciada em Chicago, em 1893.
^''HOLANDA, Sérgio Buarque de. Caminhos efronteiras. Rio de Janeiro:
Livraria José Olympio Editora, 1975 11957], p. 8.
[C.] MOOG, Vianna. Bandeirantes epioneiros. Paralelo entre duas cultüras.
Rio de Janeiro/Porto Alegre/São Paulo: Editora Globo, 1954; MONBEIG,
Pierre. Pioneiros efazendeiros de São Paulo. São Paulo, [Paris 1954]. Ed.
HUCITEC/Ed. Polis, 1984
HOLANDA, Sérgio Buarque de. Monções. São Paulo: Editora Alfa-Omega,
1976 (Rio de Janeiro, 1945). p. 19-20 (cap. I, "Os caminhos do sertão").
Ibidem, p. 25.
Monções, op. cit., p. 20.
HOLANDA, Sérgio Buarque de. O extremo Oeste. São Paulo: Brasiliense,
1986. p.26.
HOLANDA, Sérgio Buarque de. Caminhos e fronteiras. Rio de Janeiro:
Livraria José Olympio Editora, 1975 [1957]. p. 15 (parte I, cap. I, "Veredas
de pé posto").
HOLANDA, Sérgio Buarque de. O extremo Oeste. São Paulo: Brasiliense,
1986. p. 40.
HOLANDA, Sérgio Buarque de. Caminhos e fronteiras. Rio de Janeiro:
Livraria José Olympio Editora, 1975 [1957]. p. 176.
Ibidem, p. 20 e 26.
''' HOLANDA, Sérgio Buarque de. Visão do paraíso. Os motivos edênicos
no descobrimento e colonização do Brasil. Rio de Janeiro: Livraria José
Olympio Editora, 1977 [1958]. p. 97.

140
HOLANDA, Sérgio Buarque de. O extremo Oeste. São Paulo: Brasiiiense,
1986. p. 119.
Ibidem, p. 129.
Ibidem, p. 26.
Ibidem, p. 152.
HOLANDA, Sérgio Buarque de. Raízes do Brasil. Rio de Janeiro: Livraria
José Olympio Editora, 1936. p. 72 (grifos meus).
HOLANDA, Sérgio Buarque de. O extremo Oeste. São Paulo: Brasiiiense,
1986. p. 90-91 (grifos meus).
Ibidem, p. 91.
HOLANDA, Sérgio Buarque de (Coord.). História geral da civilização
brasileira. São Paulo: DIFEL, 1968-1975.
Ver por exemplo, CLAVAL, Paul. La nouvellegéografie. Paris: PUF, 1982.
HOLANDA, Sérgio Buarque de. Raízes do Brasil. Rio de Janeiro: Livraria
José Olympio Editora, 1936. p. 69; ed. de 1984, op. cit., p. 66, sem
variações significativas.
A nota de rodapé se refere a TAWNEY, R. H. Tawney, religion and the rise
ofcapitalism. Londres, 1936, p. 72. iRaízes do Brasil, 1984, op. cit., p. 95).
HOLANDA, Sérgio Buarque de. Raízes do Brasil. Rio de Janeiro: Livraria
José Olympio Editora, 1936. p.72.
Idem.

HOLANDA, Sérgio Buarque de. Visão do paraíso. Os motivos edênicos


no descobrimento e colonização do Brasil. Rio de Janeiro: Livraria José
Olympio Editora, 1977 [1958]. p. 317.
Idem.

Ibidem, p. 52.
Ibidem, p. 54.
Ibidem, p. 90-91.
Sobre a fronteira em SBH trabalhei em outro ensaio. Chiara Vangelista,
"Terra e fronteiras, história e memória: uma leitura de Sérgio Buarque de
Holanda", op. cit.
"Só muito aos poucos, embora com extraordinária consistência, consegue
o europeu implantar, num país estranho, algumas formas de vida, que já
lhe eram familiares no Velho Mundo. Com a consistência do couro, não a
do ferro ou do bronze, dobrando-se, ajustando-se, amoldando-se a todas as
asperezas do meio". Sérgio Buarque de Holanda. Monções, op. cit., p. 29.
HOLANDA, Sérgio Buarque de. Caminhos e fronteiras. Rio de Janeiro:
Livraria José Olympio Editora, 1975 [19571. p. 7.
Dentro da ampla bibliografia sobre o conceito de espaço nas ciências
humanas, cf. ANDREUCCI, F. A Pescarolo (a cura di). Glispazi delpotere.

141
Firenze, 1989; BAILLY, A.; BEGUIN, H. Introduzione alia geografia
umana. Milano, 1984; BETTANINI, T.. Spazio e scienze sociali. Firenze,
1976; CONDÔMINAS, G. Spazio sociale. Torino, 1981; DEMATTEIS, G..
La metafora delia terra. Milano, 1986; DOCKÉS, P. L'espace dans Iapensée
économique du XVI au XVIII siècle. Paris, 1969; ELIADE, M. II sacro e il
profano. Torino, 1979; LECCARDI, C. Lo spazio, tempo e spazializzazione
dei tempo. Milano, 1989; MANDICH, G. Spazio e costruzione sociale.
Cagliari, 1989; MORAES, A. C. R. Historicidade, consciência e construção
do espaço. São Paulo, 1988; NICOLET, C. LHnventario dei mondo. Bari,
1989; REMOTTI, F.; SCARDUELLI, P.; FABIETTI, U. Centri, ritualità, pote-
re. Bologna, 1989; SACK, R. D. Conception of space in social tought.
London, 1980; SANTOS, Milton. Espaço e método. São Paulo, 1985; SANTOS,
Milton. Espaço e sociedade. Petrópolis, 1979; SOUZA, M. A. de; SANTOS,
M. (Org.). A construção do espaço. São Paulo: Nobel, 1986; TURNER, V.
Laforesta dei simboli. Torino, 1981; WALLERSTEIN, I. IIsistema mondiale
deWeconomia moderna. Bologna, 1978.
HOLANDA, Sérgio Buarque de. Monções. São Paulo: Editora Alfa-Omega,
1976 (Rio de Janeiro, 1945).
HOLANDA, Sérgio Buarque de. Caminhos e fronteiras. Rio de Janeiro:
Livraria José Olympio Editora, 1975 [1957]. p. 68.
Ibidem, p. l60.
Ibidem, p. 15.
Ibidem, p. 20 e 22, passim.
Ibidem, p. 22.
Ibidem, p. 23-24.
Ibidem, p. 35.
Ver, por exemplo, Sérgio Buarque de Holanda, Monções, op. cit., p. 77-93.
Ibidem, p. 41 e 43, passim.
HOLANDA, Sérgio Buarque de. Caminhos e fronteiras. Rio de Janeiro:
Livraria José Olympio Editora, 1975 [1957], p. 177.
HOLANDA, Sérgio Buarque de. Raízes do Brasil. Ed. 1955, op. cit., p. 41:
"Se conforme opinião sustentada em capítulo anterior, não foi a rigor uma
civilização agrícola o que os portugueses instauraram no Brasil, foi, sem
dúvida, uma civilização de raízes rurais" (segundo capoverso do cap. III,
"Herança rural". Esta frase foi acrecentada na edição definitiva, pois na
primeira edição, no capítulo correspondente, "O passado agrário", esta
parte introdutória é mais breve e não compreende estas reflexões).
Monções, op. cit., p. 73-

142
ETTORE FINAZZI-AGRO

ATRAMA EO TEXTO
HISTÓRIA COM FIGURAS

Que a obra toda de Sérgio Buarque de Holanda seja atra


vessada por uma preocupação ideológica constante, tentando
chegar, através do estudo erudito dos dados históricos, a
uma hermenêutica orientada e "comprometida" do processo
de formação do Brasil, isso se tornou quase um lugar-comum
da crítica. Na verdade, aquilo que é fácil detectar nos seus
textos — também nos textos tidos por mais longínquos de
uma leitura, por assim dizer, "culturalista" e, ao mesmo tempo,
"psicológica"' da realidade brasileira — é o uso de imagens
ou de metáforas ligadas muito mais a uma re-presentação
categórica e funcional do passado, muito mais próximas a
uma interpretação instrumental, constantemente virada para o
presente, de que a uma avaliação propriamente histórica e/ou
rigorosamente científica da nação e do seu processo evolutivo.
Nesse sentido, acho que o "método" de Sérgio — embora
seja inegável a influência que sobre ele exerceu Max Weber^ —
possa ser melhor compreendido dentro de uma ótica "figurai",
isto é, referindo-se a ele como a um "outro modo" de pensar
o passado nacional: um modo (um "método") ambíguo, balan
çando entre o conceito e a imagem, a meio caminho entre a
história e a literatura, e se valendo, justamente, de figuras,
ou seja, de combinações (de contaminações) precárias entre
o dado e a sua representação, entre aquilo que foi e a sua
projeção simbólica — entre aquilo que de fato aconteceu.
enfim, e a sua repercussão ou o seu reajuste no Imaginário.^
O que são, por exemplo, o Semeador e o Ladrilhador senão
isso, justamente? Tempos intersticiais em que uma análise
histórica e uma atitude objetiva encontram a sua síntese subje
tiva e reversível; lugares intervalares e interpostos em que
precariamente se dá uma sobreposição entre pensamento
racional e analógico, entre lógica e mito — no intuito de
condensar numa imagem emblemática (graças a um análogon,
justamente) um processo hermenêutico complexo e multifa-
cetado.
Nesse "entremeio", suspenso entre experiência e fantasia,
entre história e ficção, podemos localizar, a meu ver, não só
obras como Raízes do Brasil ou Visão do paraíso, em que a
tentativa de chegar a uma leitura simbólica e, ao mesmo
tempo, ideológica da realidade brasileira é mais claramente
presente, mas ainda textos mais "escusos", mais aparente
mente vinculados a uma erudição banindo qualquer sugestão
meta- ou para-histórica. Refiro-me, aqui, a uma obra como
Caminhos efronteiras que, sendo uma coletânea de ensaios
produzidos em tempos e circunstâncias diferentes, não apa
renta ter aquela orientação ideológica, aquela homogenei
dade hermenêutica que encontramos alhures. Minha leitura
desse texto — considerado, em geral, como "menor" ou, pelo
menos, como "transitório" entre outros de mais envergadura e
repercussão — visa mostrar, pelo contrário, o seu caráter
fulcral, além do seu parentesco metodológico com as obras
mais conhecidas de Sérgio, no sentido, mais uma vez, de uma
interpretação no fundo subjetiva, metafórica e, por isso mesmo,
Ruminante do processo de formação cultural brasileira. Ou
seja, aquilo que vou arriscar é demonstrar como, num texto
tido por "científico", tratando de modo aparentemente obje
tivo e serializado os dados documentais, volte a aparecer
aquela que eu chamaria a episteme, o paradigma hermenêu
tico típico de Sérgio, colocando a obra naquele lugar mediano
entre evento e representação, entre fato e rastro que eu chamei
de "leitura figurai" da história brasileira.
Acho, de resto, que esse traço da escrita de Sérgio possa
ser considerado como um elemento conotativo típico da época,
incluindo os seus textos num contexto cultural e ideológico
específico que os justifica e os torna necessários dentro de
uma certa maneira de ler e interpretar o Brasil. Nesse sentido,

144
é fácil concordar com as afirmações de Antônio Arnoni Prado
que, numa entrevista publicada quatro anos atrás, sublinhava,
justamente, as ligações entre Sérgio e o meio intelectual moder
nista — e com Mário de Andrade em particular;

Pode-se falar (entre Sérgio e Mário) numa relação de inventi


vidade de pesquisa na interpretação dessa matéria bruta. E,
sobretudo, uma vocação inédita nos dois para o olhar extenso
que intui a multiplicidade de linguagens que conviviam no
substrato da nossa cultura.'*

A isso ele acrescentava pouco depois:

Sérgio ampliou a noção de contexto sem perder a especifi


cidade da linguagem literária. É uma coisa raríssima no Brasil
alguém falar do contexto tendo consciência de que a forma
que o engendra, significa por si mesma. (...) Há impressão
de que Mário e Sérgio se desvestem para encontrar um termo
mais ou menos comum; o abismo na escuridão das origens
ou a colonização sem raízes no coração da colônia.'

Vou voltar mais adiante sobre a relação entre Mário e Sérgio,


mas quero chamar, no entanto, a atenção sobre o fato de o
meu discurso se instituir, não por acaso, a partir de uma aná
lise paratextual e retórica, confrontando as escolhas lexicais
de SBH (são conhecidos, aliás, o seu agudo interesse e a sua
intransigente atenção às palavras)^ com as de outros autores,
um pouco em consonância com as considerações de Arnoni e
com a sua localização da obra do autor paulista na zona frontei
riça entre história e literatura.
Sempre achei, de fato, curiosa e digna, a meu ver, de ser
continuamente questionada a escolha dos títulos por parte
do historiador paulista. Já foi, de resto, várias vezes notada a
sua preferência pelos antônimos ("Trabalho & Aventura"...)
ou até pelos oximoros ("Uma revolução vertical"...), o uso
quase obsessivo de termos remetendo para uma situação
contraditória que só no encontro ou no choque, na cópula
ou na disjunção entre significantes diversos parece encontrar
o seu significado — sentido terceiro, dobrado na relação entre
coisas diferentes. Uma tendência, esta, que se torna sensível
(como acabei de sublinhar com dois exemplos) já na partição

145
de Raízes do Brasil, se confirmando, depois, em Cobra de
vidro (não por acaso, o primeiro capítulo deste livro intitu
la-se simplesmente "Negros e brancos"), para chegar enfim
a Caminhos e fronteiras.
Nesta conexão, em particular, não é difícil enxergar um
contraste superficial entre uma noção "convidando ao movi
mento" (como o próprio autor sublinha na introdução) e outra
representando a delimitação estática, a parada diante de
confins supostamente intransponíveis. Já aqui, neste uso de
palavras remetendo para uma lógica aparentemente dual,
parece surgir uma relação implícita com outros títulos impor
tantes no rol infindável das obras tentando aviar uma herme
nêutica da formação brasileira: ou seja, por um lado, com
Casa grande & senzala e Sobrados e mocambos (que ficam,
obviamente, os modelos mais imediatos, com que Sérgio
dialogou, de modo explícito, ao longo da sua obra) e, por
outro lado, com o mais longínquo Contrastes e confrontos, de
Euclides da Cunha. Em relação, em particular, a este título
— e em oposição, por exemplo, a outro texto de fundação
como Bandeirantes e pioneiros, tratando de um assunto bas
tante afim ao de Caminhos e fronteiras e publicado em 1954,
apenas três anos antes da obra de Sérgio — reaparece, na
escolha do historiador paulista, o nexo entre a alternativa e
a conjunção entre "coisas" diferentes.^
Euclides, na verdade, tinha lançado o seu olhar indagador
para o sertão, tentando encontrar nesse espaço sem rumo,
nessa "terra ignota", o núcleo daquele drama sobre o qual
assenta a impossibilidade de pensar a "Nação brasileira" como
entidade autônoma e verdadeiramente una, reconhecendo-se
numa história con-seqüencial e harmônica. O contraste entre
a "civilização" e a "barbárie" chega apenas a atenuar-se no
confronto, sem que isso desemboque numa convivência ou
numa troca efetivas entre instâncias culturais tão díspares.®
A tragédia, enfim, é aquela que se instala no coração de uma
história repropondo sem parar a contradição, a divisão entre
cronologias e topologias diferentes que, de fato, apenas numa
terra sem história, ou "às margens da história", pode encontrar
uma solução eventual. Sérgio, pelo contrário, aceita o desafio
do tempo e se entranha no sertão à procura daqueles "lugares-
comuns" culturais em que se concretiza uma certa forma de

146
coexistência ou de cruzamento entre histórias peculiares, entre
discursos e percursos heterogêneos.
Com efeito, sob a máscara da contradição, da oposição
entre o andar do caminho e o demorar diante de uma fronteira,
aquilo que se descobre é a dinâmica de uma relação inces
sante e emaranhada entre universos histórico-culturais aparen
temente incongruentes. Sérgio, em suma, no intuito de superar
a simples constatação de uma impossibilidade, sai em busca
dos sinais de uma possível harmonização entre aquilo que
"vem de fora" e aquilo que é "próprio da terra", encontrando
espaços de diálogo ou até de simbiose naquela cultura material
que foge aos condicionamentos de um Poder que, ele sim, se
mostra apenas como imposição ou adaptação do sistema sócio-
político dos colonizadores. Nesse sentido. Caminhos e fron
teiras representa um passo para frente — ou talvez pelos lados,
num território marginal e pouco explorado — em relação a
Raízes do Brasil, que ainda se inclui no rol das obras de inter
pretação disfórica da realidade institucional e da formação
sociocultural brasileiras.

Basta, com efeito, reler o famoso incipit de Raízes para


verificar como a situação descrita por Sérgio se coloca sob o
signo do pessimismo e da impossibilidade (provindo, aliás,
do modelo incontornável esboçado em Retrato do Brasil)-.

A tentativa de implantação da cultura européia em extenso


território, dotado de condições naturais, se não adversas,
largamente estranhas à sua tradição milenar, é, nas origens
da sociedade brasileira, o fato dominante e mais rico em
conseqüências. Trazendo de países distantes nossas formas
de convívio, nossas instituições, nossas idéias, e timbrando
em manter tudo isso em ambiente muitas vezes desfavo
rável e hostil, somos ainda hoje uns desterrados em nossa
terra. Podemos construir obras excelentes, enriquecer nossa
humanidade de aspectos novos e imprevistos, elevar à
perfeição o tipo de civilização que representamos: o certo
é que todo o fruto de nosso trabalho ou da nossa preguiça
parece participar de um sistema de evolução próprio de
outro clima e de outra paisagem.^

Para além do tom quase fatalista, aquilo que neste exórdio


é fácil de enxergar é a visão profundamente estática, beirando

147
a estagnação, da história brasileira. Aqui, com efeito, a fron
teira ("Fronteiras da Europa" é, não por acaso, o título desse
capítulo inicial) é um limite intransponível porque colo
cado na origem de tudo, marcando não tanto uma dialética
entre espaços e tempos diferentes, quanto uma espécie de
cronótopo denso, coalhado, compacto, em que noções como
passado e futuro, como perto e distante, parecem perder
qualquer sentido. A história brasileira, nessa perspectiva,
aparece como uma história sem rumo, gravada por um peso
ou roída por um vício orgânico e segredo de que não consegue
se livrar.

Nessa espécie de epokhé secular, de suspensão temporal


interminável, que se acomoda por sua vez num espaço sem
cadências, não transparece nenhuma hipótese de caminho,
nenhuma possibilidade de direção ou fim, visto que o resul
tado está inscrito desde sempre no começo, a fronteira última
corre na verdade às raízes da história, determinando-a ou
circunscrevendo-a de modo prévio. Raízes do Brasil é sobre
tudo isso: é a constatação de um impasse, de um tempo que
se renova apenas na recuperação teimosa do antigo, de uma
revolução que só se dá como involução e como volta ao
passado —, escondendo-se, porém, atrás do artifício retórico
de que o re-uso irônico por parte de Sérgio mostra a incon
sistência fatual. Não existem, nesse sentido, "novos tempos"
e tampouco existe uma "revolução" que possa ser dita "nossa",
fazendo dos brasileiros um sujeito coletivo e um agente coeso
da história, visto que ela (a História com maiúscula), nessa
Terra fronteiriça e eternamente "à margem", pode ser pensada
e vivida apenas como uma deriva ou como uma espera inter
minável de significado, messiânico ou antimessiânico.
Pelo contrário, a análise de alguns processos de transcul-
turação ou de adaptação ao meio, considerados ao longo de
Caminhos e fronteiras, qualifica esta obra como interpre
tação dinâmica da história cultural brasileira. Basta, para isso,
considerar o papel diferente desempenhado pela palavra
"fronteira" neste estudo e que o próprio autor se preocupa
em definir desde a introdução:

Fronteira, bem entendido, entre paisagens, populações,


hábitos, instituições, técnicas, até idiomas heterogêneos
que aqui se defrontam, ora a esbater-se para deixar lugar

148
à formação de produtos mistos ou simbióticos, ora a afir
mar-se, ao menos enquanto não a superasse a vitória final
dos elementos que se tivessem revelado mais ativos, mais
robustos ou melhor equipados.'"

Como se vê, aqui nada parece determinado a priori, nada


se inscreve dentro de confins pré-escritos pela cultura ou pela
ideologia européias: a fronteira torna-se finalmente (fazendo
jus à sua etimologia) aquilo que está "em frente" e não aquilo
que fica "atrás" ou antes de tudo.
A expansão da cultura do colonizador, em suma, esbarra
com os limites impostos pela cultura do colonizado — limites
porosos, permeáveis, prestes a desabar, mas que, exatamente
por isso, não definem uma situação de desajuste ou de dua
lismo irremediável, desembocando pelo contrário em formas
compromissórias, em produtos culturais esponjosos e rever
síveis. Também "a vitória final dos elementos (...) mais ativos,
mais robustos ou melhor equipados" não define, nesse sen
tido, uma hierarquia de mão única, mas, como mostra o autor
em vários lugares do livro, remete para um balanço quase
igualitário entre "dar" e "receber", para uma guerra em que
é impossível determinar com certeza quem ganha e quem
perde e, sobretudo, quanto e como perde, quem ganha e
vice-versa.

É óbvio — e Sérgio sabe disso — que o risco é o de "sugerir


noções bastante unilaterais (...) da formação brasileira"," ou
seja, de sobrestimar o papel ou as "vitórias" da cultura indí
gena que, como todos sabem, foi historicamente desfeita e
silenciada pela cultura européia, mas isso não pode levar a
ignorar os "lugares" que o tempo da expansão deixa atrás de
si: lugares precários que se abrem dentro de um processo
histórico esmagador, pequenas frestas temporais em que se
dá uma combinação ou justaposição cultural deixando uma
"marca", uma mancha, uma "suspeita de cor" (como diria
Michel Foucault)" no curso aparentemente orgânico, aparen
temente conseqüencial, aparentemente em branco e preto,
da história da conquista do Brasil pelos portugueses. De fato,
o autor sai à procura dessas clareiras que se abrem na mata
de uma civilização supostamente cerrada e progressiva; ele
se entranha no sertão em busca daqueles limites que não são
limites, mas derivas histórico-culturais, daquelas fronteiras

149
que desdizem as fronteiras rígidas, predeterminadas pela
cultura européia, visto que elas nào fecham o espaço mas,
como ele escreve, "deixam lugar".
São esses os caminhos (e aqui o plural é obrigatório) que
Sérgio tenta percorrer, e nào a estrada marcada pela marcha
triunfal de uma civilização se contrapondo à barbárie: nào,
enfim, as ruas retas, mas as sendas tortuosas que aparecem
logo no capitulo inicial do livro:

Alguns mapas e textos do século XVII apresentam-nos a vila


de Sào Paulo como centro de amplo sistema de estradas
expandindo-se rumo ao sertão e à costa. Os toscos desenhos
e os nomes estropiados desorientam, não raro, quem pre
tenda servir-se desses documentos para a elucidação de algum
ponto obscuro da nossa geografia histórica. Recordam-nos,
entretanto, a singular importância dessas estradas para a
região de Piratininga, cujos destinos aparecem assim repre
sentados como em um panorama simbólico.
Neste caso, como em quase tudo, os adventícios deveram
habituar-se às soluções e muitas vezes aos recursos materiais
dos primitivos moradores da terra. Às estreitas veredas e
atalhos que estes tinham aberto para uso próprio, nada
acrescentariam aqueles de considerável, ao menos durante
os primeiros tempos. Para o sertanista branco ou mameluco,
o incipiente sistema de viação que aqui encontrou foi um
auxiliar tão prestimoso e necessário quanto o fora para o
indígena.

Como se vê, o processo civilizatório levado adiante pelos


paulistas (mas o autor esclarece logo depois que o exemplo
de Piratininga pode valer para muitas outras regiões da Terra
de Santa Cruz)^*^ nào se apresenta como uma entrada em linha
reta, como uma rua larga de acesso ao interior, como uma
invasão, enfim, mas sim como um movimento plural, como
uma penetração casual e erradia, como um entranhar-se
demorado e penoso que segue — segue literalmente — as
pegadas dos nativos, os atalhos estreitos e difíceis abertos
por eles. Nào é, mais uma vez, uma estrada única e direta
aquela percorrida pela cultura européia no seu projeto de
poderio da terra e das gentes encontradas na nova colônia,
mas um sistema complexo e emaranhado de caminhos, um
labirinto de que só os índios possuem, pelo menos no início,
o fio de Ariadne.

150
o mapa viário, então, surge logo como "panorama simbó
lico", como metáfora espacial de um processo histórico lento
e cheio de obstáculos pelo qual a posse (também cultural) do
território obrigatoriamente transita: a colonização caminha
pelos caminhos tortuosos abertos pelos colonizados, e pe
netrar no sertão adentro significa ser guiados pelos seus
habitantes e senhores, depender deles, confiar neles e ser
seus obedientes (per)seguidores. A lentidão e o sofrimento
dos europeus é aqui sublinhado pela necessidade de se des
locar não a cavalo e, menos ainda, de carroça, e sim a pé —
com os pés nus e sangrentos, com a pele lacerada pelos
espinhos disseminados ao longo das estreitas veredas. E
não só isso, visto que o "aperto" dos caminhos obriga a
uma marcha em fila indiana (no seu sentido próprio): tributo
ao colonizado, afinal, que exclui o caráter coletivo e maciço
típico dos movimentos de ocupação de um território.
Esse andar teimoso, invertendo, pelo menos no início, as
hierarquias, é o sinal concreto, desenhado no chão, de uma
dependência que leva fatalmente a formas de conluio ou de
coexistência entre os bárbaros e os civilizados. Como no labi
rinto, justamente, as ruas e os destinos, os discursos e os
percursos culturais de povos diferentes se cruzam, se afastam
para voltarem a se encontrar, sem nunca chegar até o centro
medonho de uma alienação cultural completa (senão em casos
raros e altamente significativos, como talvez na figura de João
Ramalho e dos seus descendentes: uma humanidade "fron
teira",^^ evocada, não por acaso, logo na introdução ao livro,
quase como emblema vivente e, por assim dizer, pré-liminar
da lógica na qual vai, depois, se acomodando o discurso
histórico), mas deixando, isso sim, atrás de si, lugares virtuais
de encontro, espaços de compromisso, clareiras precárias em
que se amontoam "produtos mistos ou simbióticos" — restos
humildes de uma harmonia possível e negada entre raças,
culturas, práticas heterogêneas. Na relação, aparentemente
contraditória e de fato conciliatória, entre os caminhos e as
fronteiras, são essas encruzilhadas, são esses trívios os pontos
em que SBH escolhe colocar-se, à espreita daqueles eventos
"menores", daqueles fatos "triviais", justamente, em que não
só se dá uma coincidência material dos opostos, mas em que
se deposita e se esclarece o sentido peculiar da formação
cultural brasileira.

151
Que Caminhos efronteiras— sendo, aliás, a suma de uma
série de textos publicados autonomamente — nào seja apenas
um estudo conseqüencial e determinístico do processo histó
rico de expansão da cultura européia no solo americano, o
demonstra o paralelismo, que eu acho evidente, entre o
primeiro e o último capítulo do livro, remetendo para uma
circularidade que se furta a qualquer lógica rigidamente
historicista. Na parte final da obra, de fato, a autor retoma a
imagem do mapa viário, isto é, a metáfora do enredo ou do
retículo desta vez mais claramente associada ao fio (ao fio
de Ariadne?) e à teia. A análise das técnicas utilizadas na
produção de tecidos se torna, nessa ótica, uma viagem com
plexa, cheia de nós históricos e de (con)junturas geográficas,
mas também de rápidas travessias de tempos e espaços dife
rentes: ou seja, falando dos modos de fiar e de tecer do
Brasil-colônia, Sérgio parece lentamente urdir a trama das
relações entre cultura portuguesa e cultura indígena, mos
trando como as diferenças, que apesar de tudo permanecem,
não podem, porém, ocultar os pontos de sutura, as combi
nações e as trocas. E o produto final se apresenta como uma
espécie de pano — de pano de fundo — variegado e brilhante
diante do qual se desenrola o drama de uma cultura enre
dada e multíplice, em que instâncias ou fios diferentes se
sobrepõem, se combinam ou se desenleiam, até transpor os
limiares da modernidade.
Sem me adiantar muito numa análise pormenorizada desta
parte final de Caminhos e fronteiras, gostaria pelo menos de
sublinhar a importância dos resultados do estudo de Sérgio
pelo que se refere tanto ao confronto entre o "tear de pano"
português e a "grade de tear" indígena, quanto à relação entre
os modos de dormir dos dois grupos étnicos. No primeiro caso,
não é difícil enxergar logo, numa espécie de estruturalismo
ante litteram, as diferenças entre as técnicas — a importada,
de fato, ligando-se à horizontalidade, a nativa associando-se
à verticalidade; a primeira produzindo tecidos compactos, a
segunda teias de malhas largas. Aqui, todavia, a história ma
terial, o decurso temporal se preocupará em misturar os dois
modos de tecer, criando lugares de encontro, encruzilhadas
ou nós culturais que demoram a ser desfeitos pela moderni
dade. Com a teimosia do antropólogo, Sérgio vai à procura
destes restos duma cultura geminada e, ao mesmo tempo,
anfíbia:

1S2
Em Cuiabá, a tecelagem de redes nào é hoje, mais do que
em Sorocaba, mister citadino. Para encontrá-la em pleno flores
cimento, precisei ir, em 1946, ao Coxipó-Mirim e também à
Várzea Grande, principalmente à casa de siá Lola (Antônia
Paula da Silva). É principalmente na Várzea e em alguns
outros lugarejos mais ou menos remotos (...) que ainda pros
pera essa velha indústria caseira, desterrada da cidade pelo
progresso, juntamente com tantas outras sobrevivências de
um passado já longínquo: as folias do Divino ou de sào
Benedito, que d. Aquino Correia proibiu, as lavagens de
sào Joào no rio Cuiabá, os famosos cururus de siá Blandina
e os de siá Emiliana, que Deus haja em glória, as corridas
de touro (...), os próprios chapéus de carandá, que há mais
de dez anos já nào se fabricam mais...'"^

A nostalgia transparece claramente nessa rememoração


pessoal de mulheres brancas tecendo redes segundo técnicas
índias — e mais em geral, de saberes em que se escondiam
sabores extintos, práticas ou cerimônias hoje esquecidas. A
trama, então, deixa entrever a saudade do estudioso pelos
tempos antigos em que era possível ainda divisar, atrás ou
através do presente, um passado feito de relações, complexas
mas sólidas, entre culturas diferentes, um contexto ainda
marcado pela convivência e pela acolhida do discurso do
outro. Hoje, aquilo que fica sào apenas elementos esparsos e
esfarrapados, resíduos esgarçados de um tecido que apenas
a sabedoria e o amor do estudioso conseguem retecer num
desenho orgânico.
A história contada por Sérgio é, de fato, esse enredo de
fios diferentes, é um contexto em que se percebe ainda a natu
reza textual ou melhor de "com-texto", justamente, em que
cada uma das culturas em contato ou em choque conseguem
"tecer-com" a outra uma ordem discursiva complexa e ambi
valente, marcada pela troca e/ou pelo dom simbólico. Não
por acaso, falando nas técnicas de tecer, o autor chama a
atenção para o uso quase geral da rede, contra a presença
rara da cama na região paulistana (e mais em geral na Colônia),
pelo menos até meados do século XVIII.Este modo de dormir
pobre, tão típico da gente da terra, é assumido por completo
pelos colonizadores que tentam até transformar a rede em
statiis symbol, utilizando-a como "veículo de transporte",
carregada por escravos.

1S3
Na oposição entre cama e rede e na preferência acordada
à segunda, SBH lê com clareza um sintoma do nomadismo
próprio da população,^® mas eu gostaria de apontar para
um lugar literário que o estudioso paulista devia conhecer
muito bem e em que mais uma vez se repropõe o dualismo
relativo aos modos de dormir, superado graças a um recurso
inesperado e altamente significativo. Estou me referindo à
"entrada" de Macunaíma em São Paulo, episódio em que ele
não se mostra maravilhado tanto pela paisagem urbana,
quanto pela brancura das mulheres da cidade. Perdido na
sua nostalgia por Ci, "Mãe do Mato", e pela "rede feiticeira
(...) tecida com os próprios cabelos dela", o herói, para matar
a saudade, escolhe "três filhinhas da mandioca" para brincar
"com elas na rede estranha plantada no chão, numa maloca
mais alta que a Paranaguara". Depois do amor, "por causa
daquela rede ser dura", Macunaíma adormece "de atraves
sado sobre os corpos das cunhãs".^^
Peço previamente perdão pela referência pessoal, mas eu
cheguei a construir sobre este trecho do romance de Mário
de Andrade um longo artigo, cujo subtítulo era, justamente,
"Macunaíma e o enredo dos signos". Limito-me, aqui, a
remeter para esse texto, em que eu interpretava a capacidade
do "herói sem nenhum caráter" em ultrapassar as diferenças,
em fazer as ligações, justamente a partir desse seu dormir "de
atravessado" sobre os corpos brancos das "filhinhas da man
dioca"." Aquilo, porém, que vale a pena ainda anotar é a
coincidência entre a visão poética de Mário e a interpretação
histórico-antropológica de Sérgio, baseadas, ambas, nessa
capacidade de tornar evidente o enredo ou o contexto, a
trama, enfim, na qual fica presa uma certa imagem da cultura
brasileira enquanto cultura baseada no contraste e, ao mesmo
tempo, na conjunção e conjugação de saberes diferentes —
no caso do romancista por meio de uma corporeidade "pene
trando" e "atravessando" as contradições; no caso do histo
riador graças à materialidade de técnicas misturando e
sintetizando (embora de modo reversível e, por assim dizer,
pré-liminar) culturas heterogêneas.
Poder-se-ia, aliás, alegar como prova contrária a obsessão
de Sinhá Vitória pela cama, vista como símbolo daquela
sedentariedade que o nomadismo da sua condição de reti
rante lhe proíbe, mas é evidente que a ótica de Graciliano

154
Ramos é, neste caso, bem diferente daquela dos dois autores
paulistas, ligando-se muito mais a uma visão dualista de uma
sociedade injusta e não se preocupando muito em identificar
os possíveis lugares de encontro ou de mediação que a cul
tura material brasileira abriga dentro de si. Lugares marginais
e assimétricos, tempos "assistemáticos" e "fora do eixo" que
apesar de tudo guardam fragmentos, migalhas daquela "demo
cracia racial" (e social) que tanto o sistema político-social
implantado na Colônia, quanto, depois, as suas articulações
novecentistas — recusadas por Mário e por Sérgio —, com
seu progresso compulsivo, com a sua modernização falsa e
falha, se preocupam em varrer do chão da História.
Quero com isso dizer que, apesar da erudição (do histo
riador) ou da ironia (do romancista), ambos continuam
denunciando o silenciamento das culturas alternativas, mos
trando como num passado "heróico" o Brasil pudesse contar
com uma situação de equilíbrio — seja mesmo relativo, seja
mesmo produto de uma inércia do meio, mais do que de
uma opção consciente — entre instâncias heterogêneas. Em
Caminhos e fronteiras, em particular, todos os estudos que
compõem a obra apontam para esse tempo já musealizado
(não por acaso, são muitas as referências ao Museu Paulista,
lugar em que a história se dis-põe de modo concreto, crista-
lizando-se precariamente nos objetos ali guardados), para
esse espaço já mítico e quase completamente apagado em
que tinha sido possível uma relação de algum modo iguali
tária entre as culturas, a partir de fatos aparentemente "tri
viais" — a partir dos modos de andar, do aproveitamento
dos recursos, das técnicas de produção e de cultivo.
E é bom sublinhar como, por essa via, se delineia, no autor
paulista, também uma volta ao historicismo, mas não no sen
tido clássico de justaposição de fatos "para preencher o tempo
homogêneo e vácuo", e sim, na forma de uma "parada", de
um aproveitamento do objeto dentro de um pensamento que
sem fim o atualiza, colocando-o numa "constelação cheia de
tensões"^^ — naquilo que, no início deste ensaio, eu chamei
de "figura". Quero dizer que, sem ser coincidente com as teorias
de Walter Benjamin, também a história escrita por Sérgio
acaba todavia por se apresentar nos moldes de um "materia-
lismo histórico" (ou, no caso, de uma história material) mobi
lizando aquele potencial de sentido que o passado esconde

155
dentro de O seu Tempo, o tempo que se reflete no museu
ou na reunião — aparentemente caótica, mas, na verdade,
"orientada" — de objetos e fatos diferentes, é marcado por
uma experiência "única", em que a volta ao passado não é
um gesto irreversível, mas um caminho de re-descoberta
contínua do presente no passado, ou melhor, de recupe
ração teimosa daquilo que pôde ser (e que não foi, mas que
poderia talvez voltar a ser) naquilo que, de fato, foi.^^
Nesta ótica. Caminhos e fronteiras poderia ser visto
também como uma espécie de coleção — num sentido ainda
benjaminiano^^ — de eventos pretéritos, ou melhor, como
um conjunto de "restos", de "cacos" de uma história integral
e inatingível na sua plenitude, da qual eles guardam todavia
uma parcela, um reflexo embaçado: apenas no seu com-
binar-se, dentro do espaço precário e nostálgico do livro,
essas "ruínas" de um passado per-feito conseguem reen
contrar a sua profunda razão de ser, a sua necessidade e a
sua evidência, embora longe de qualquer ilusão de continui
dade ou de coerência, fora de qualquer organicismo conse-
qüencial e causalista. Como o homem "perdido" do epílogo de
Macunaíma que "bota a boca no mundo", cantando na sua
"fala impura" as façanhas improváveis de um "herói" esque
cido, de que só um papagaio auriverde guardava a memória,
assim Sérgio nos relata a seu modo aquela "outra história"
que ele lê (ou "escuta") no desenho quase apagado das ruas,
nas técnicas rurais, nos monjolos ou nas grades de tear
amontoadas num museu, nos acompanhando pelos caminhos
daquela compreensão histórica que só se pode dar no "reviver
aquilo que deve ser compreendido e cujas pulsações podem
ser ainda percebidas no presente".
Sabe-se, aliás, que no mesmo ano de publicação desse livro,
Sérgio já estava escrevendo Visão do paraíso, cujo primeiro
capítulo traz mais um título marcado pelos antônimos: "Expe
riência e fantasia". Nesta nova volta ao passado, nesta análise
dos mitos edênicos relativos ao Brasil, o estudioso nunca vai
esconder o caráter sempre ambíguo da colonização ameri
cana pelos portugueses: movimento, de fato, que com certeza
procede com os olhos fincados no antes, nas fronteiras que
estão atrás, no domínio da fantasia medieval européia, mas
sem nunca perder a sua capacidade de ir para a frente, de
acolher o novo e o inesperado se manifestando às fronteiras

156
da experiência — movimento ondeante deixando, mais uma
vez, lugar e tempo à produção de "figuras", ao surgimento
de formações simbióticas ou mistas de que o historiador
cuidadoso deve fazer memória, colecionando-as com atenção
e carinho (como no caso exemplar do mito, que ele denomina
de "luso-brasileiro", de Sumé: mais uma citação implícita de
Macunatma...^.
Colocado entre Raízes do Brasil e Visão do paraíso, enfim.
Caminhos e fronteiras é aquilo que o seu título pré-escreve:
um andar labiríntico pelos caminhos espinhosos, enredados
de um território cultural colocado entre confins que se multi
plicam; uma procura incansável daquilo que surge de impro
viso entre experiência e fantasia, entre as raízes do presente
e as visões do passado, e que só uma memória nostálgica e
teimosa pode guardar do esquecimento. Porque é ali, justa
mente, nessas encruzilhadas simbólicas, nessas "figuras" que
o Tempo apagou e o Poder contorna, que pode ser surpreen
dido e nos surpreender um sentido terceiro e eventual, um
saber banido e abandonado, uma verdade "trivial", enfim,
pondo em xeque as nossas certezas e mostrando, finalmente,
o inter-dito que continuamente é "dito entre" qualquer opo
sição ideológica ou social, qualquer fronteira racial, qualquer
possível delimitação cultural.

NOTAS

Cf. CÂNDIDO, Antonio. O significado de Raízes do Brasil. Prefácio (1967)


a HOLANDA, S. B. de. Raízes do Brasil. 12. ed. Rio de Janeiro: José
Olympio, 1978. p. XXI. De agora em diante vou me referir a esta edição
usando a sigla RdB. Sabe-se, aliás, que o artigo "Corpo e alma do Brasil",
que Sérgio publicou em 1935 - antecipação ou resumo prévio de Raízes
do Brasil -, tinha significativamente o subtítulo de "Ensaio de psicologia
social" (este texto foi reeditado na Revista do Brasil. Rio de Janeiro, p. 32-
42, junho de 1987).
Cf. Ibidem, p. XIV e o importante livro de MONTEIRO, Pedro Meira. A
queda do aventureiro. Campinas: Editora da Unicamp, 1999 (em particular
p. 47-79).
Sobre a noção de "figura" e sobre a possibilidade de uma "leitura figurai",
ver sobretudo RELLA, Franco. Miti e figure dei moderno. 2. ed. Milano:
Feltrinelli, 1993 (em particular p. 9-11).

157
^ PRADO, Antônio Arnoni. Entrevista. Teresa. Revista de Literatura Brasileira,
n. 1, p. 132, (1° semestre de 2000).
^ Ibidem, p. 133-
^ Entre os muitos estudos aludindo ao cuidado na escolha lexical do histo
riador paulista, veja-se, em particular, o ensaio de MONTEIRO, Pedro
Meira. Sérgio Buarque de Holanda e as palavras: uma polêmica. Lua
Nova, n. 48, p. 145-59, 1999.
Pode ser ainda lembrado, a respeito, o que escreveu Antonio Cândido no
seu Prefácio a RdBiop. cit., p. XXI): "O seu método repousa sobre um jogo
de oposições e contrastes, que impede o dogmatismo e abre campo para a
meditação de tipo dialético."
® Cf. sobretudo COSTA LIMA, Luiz. Terra ignota. A construção de Os sertões.
Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1997, p. 41-42 e passim.
' RdB, p. 3.
HOLANDA, Sérgio Buarque de. Caminhos efronteiras. 3- ed. São Paulo:
Companhia das Letras, 1994, p. 12-13- De agora em diante vou me referir
a esta edição com a sigla C&F.
" C&F, p. 13.
"Là oü Tâme prétend s'unifier, lã ou le Moi s'invente une identité ou une
cohérence, le généalogiste part à Ia recherche du commencement, —
des commencements innombrables qui laissent ce supçon de couleur,
cette marque presque effacée qui ne sauraient tromper un oeil un peu
historique" (FOUCAULT, Michel. Nietzsche, Ia généalogie, Thistoire. In:
HommageàJean Hyppolite. Paris: P.U.F., 1971, p. 151 (texto agora repu
blicado em: FOUCAULT, Michel. Dits et écrits. v. II (Texto n. 84). Paris:
Gallimard, 1994. p. 136-56]).
'5 C&F, p. 19.
C&F, p. 20-33.

C&F, p. 13.
Sobre a atitude "trivial", veja-se o que afirmou Roland Barthes: "Un
écrivain (...) doit avoir Tentêtement du guetteur qui est à Ia croisée de
tous les autres discours, en position trivialepzt rapport à Ia pureté des
doctrines itrivialis, c'est Tattribut étymologique de Ia prostituée qui
attend à 1'intersection de trois voies)" ileçon. Paris: Seuil, 1978, p. 26).
Por uma significativa coincidência, é ainda essa, a meu ver, a tarefa
que Michel Foucault atribui ao "genealogista", ou seja, ao "verdadeiro
historiador": "De là, pour Ia généalogie, une indispensable retenue:
repérer Ia singularité des événements, hors de toute finalité monotone;
les guetter là oü on les attend le moins et dans ce qui passe pour n 'avoir
point d'histoire - les sentiments, 1'amour, Ia conscience, les instincts;
saisir leur retour, non pas pour tracer Ia courbe lente d'une évolution,
mais pour retrouver les différentes scènes oü ils ont joué des rôles
différents; définir même le point de leur lacune, le moment oü ils n'ont
pas lieu" (NIETZSCHE. La généalogie, 1'histoire, op. cit., p. 145; grifo
meu).

158
" C&F, p. 252-53.
C&F, p. 248-49.
" C&F, p. 247.
" C&F, p. 247.
ANDRADE, Mário de. Macunaxma, o herói sem nenhum caráter. Ed. crítica.
LOPEZ, Telê Porto Ancona (coord.). 2. ed. Madrid/Paris/México/Buenos
Aires/São Paulo/Rio de Janeiro/Lima: ALLCA XX, 1996. p. 39-40.
" FINAZZI-AGRÒ, Ettore. As palavras em jogo. Macunaíma e o enredo dos
signos. In: ANDRADE, Mário de. Macunaíma, o herói sem nenhum caráter.
Ed. crítica citada, p. 319-328.
BENJAMIN, Walter. Tesi di filosofia delia storia. In: Angelus novus. Saggi
e frammenti. Torino: Einaudi, 1962. p. 85.
Cf. Ibidem, p. 84 ("O historícismo postula uma imagem "eterna" do passado,
o materialista histórico uma experiência única com ele").
" Cf. CÂNDIDO, Antonio. Significado de Raízes do Brasil, op. cit., p. XXI
("[Sérgio Buarque de Holanda], num tempo ainda banhado de indisfarçável
saudosismo patriarcalista, sugeria que, do ponto de vista metodológico,
o conhecimento do passado deve estar vinculado aos problemas do
presente.")
Cf. BENJAMIN, Walter. Eduard Fuchs, il collezionista e Io storíco. In: L'opera
d'arte nelVepoca delia sua riproducibilità técnica. Torino: Einaudi, 1966.
p. 79-123.
" Ibidem, p. 83.

159
ROBERTO VECCHI

ATLAS INTERSTICIAl DO TEMPO DO


•NOSSA lETOlUÇÁO

MAPAS PERDIDOS ENTRE PALAVRAS

A idéia de uma cartografia da obra de SBH surge da consi


deração que no momento em que uma cultura modernamente
se cartografa, isto é, quando se configura a sua imagem mo
derna depois de ter completado sua formação, as metáforas
geográficas ou os recursos da geografia podem auxiliar a
compreensão do que não sempre é redutível à história. Talvez
não seja, portanto, um exercício abusado retomar os mapas
de um estudioso como Sérgio, que como poucos dedicou o
seu exercício crítico para de-limitar as fronteiras dessa cultura
e os caminhos críticos com que recompor a sua identidade,
mapas e fronteiras, não só no sentido próprio, mas sobretudo
cartas e mapas no sentido figurado.^
A modernidade cultural do Brasil poderia ser representada
em termos gerais e figurados com um gigantesco exercício
cartográfico: por um lado o país encontra a forma de uma
terra largamente ignota que em seu reconhecimento moderno
descobre, e essa terra insiste em agir na subcena^ como um
princípio cartográfico estruturador de novos mapas; por outro
lado é o próprio ato crítico que se confunde com os gestos do
cartógrafo que traça as linhas da nação cultural, ou, para melhor
dizer, risca os signos residuários dos universos culturais em
extinção — quase como um guardador de túmulos^ — para
poder apreender os hipogeus sobre os quais se forja a moder
nidade cultural (portanto também cultural) da nação. Brasis
que se desintegram e se reintegram, se deslocam e se desfocam
em suas narrativas geográficas. Os mapas em questão con
jugam, portanto, espaço (confins, fronteiras, margens, limites
etc.) de um país que transcende as suas próprias represen
tações, mas também tempo (histórico, cultural, formativo,
performativo), introduzindo nos mapeamentos bidimensionais
do território a dimensão fundamental da profundidade, do
passado.
Sempre ficando nas generalidades introdutórias, se pode
dizer que há uma oscilação praticamente constitutiva mar
cando a história da cartografia que torna o mapa, desde a
sua origem, um objeto polimorfo, de natureza híbrida, de que
talvez decorra a cifra do seu fascínio passado e atual. Ainda
que seja ao mesmo tempo signo, índice e objeto (o que remete
para estatutos semióticos distintos, para expressões radical
mente diferentes), entre representação simulada e enunciação
discursiva, conserva-se uma relação íntima muito próxima da
que une a narração com o seu comentário. Ou seja, institui-se
uma relação fundamental, por exemplo, nos mapas medievais,
entre representação e interpretação na percepção do espaço e
do tempo, e não é por acaso que o termo (para nós ambíguo)
que as define, pictura, aponta contemporaneamente para o
traçado topográfico e as figuras representativas, as imagens
que o compõem, indicando simultaneamente pintura e carto
grafia.^ Assim, descrição, representação e interpretação se
tornam práticas incindivelmente entrelaçadas. O cartógrafo
originariamente é o pictor e, como é óbvio, a arte é parte
integrante do modo de sentir e representar o espaço. O que
interessa sublinhar é que essa origem obviamente pré-
moderna mantém um efeito de ambigüidade no seu estatuto
inclusive dentro da modernidade, com a modernização das
convenções geográficas, entre literalidade e literariedade das
leituras possíveis das cartas. Aqui também o historiador é
artista e a própria configuração do espaço é ambigüamente
suspensa entre espaço e escrita, geografia e retórica, entre
loci retóricos e loca geográficas.
Também a obra de SBH como um todo pode ser vista como
um enorme exercício de cartografia cultural, com toda a carga
de riqueza semântica que deriva da ambigüidade das práticas
cartográficas, combinando o historiador e o artista. Nesse
sentido, a idéia de uma cartografia que mapeie a sua obra.

162
a cartografia de uma cartografia, uma cartografia segunda,
talvez ofereça um território suficientemente polimórfico e aberto
a amplos trânsitos e deslizes que possa dar conta de um
campo de interesse e de atividades críticas tão variados e ao
mesmo tempo tão correlacionados entre si. Mas quais as
coordenadas dessa cartografia buarquiana, quais os critérios
da sua organização? É claro que se poderia ceder a uma espécie
de ilusão biográfica — pensar a vida como uma unidade de
sentido — enquanto as obras de uma vida são sempre
frutos de caminhos e de descaminhos, encontros e perdas,
que inviabiliazam sua imagem de conjunto, a não ser como
representação (ou auto-representação). No entanto, há uma
idéia moderna de projeto na cartografia de Sérgio, se nós
a encararmos como Schlegel já em finais do século XVIII
oximoricamente definia o projeto, ou seja, como um "sistema
de fragmentos",^ frisando que o sistema não passa de certo
modo de um fragmento que deixa recosturar um sentido
geral pela metáfora cartográfica.
Desde Raízes do Brasil, estréia em volume por uns lados
"incôngrua",^ que da síntese levará para a análise histórica,
onde se dá um mapeamento denso e só aparentemente divul-
gativo da formação do Brasil a partir de uma metáfora geo
gráfica decisiva, a da origem como fronteira da Europa, e das
formas contraditórias com que o Brasil irrompia na contem-
poraneidade da virada de 30, e Monções, Caminhos e fron
teiras, Visão do paraíso, só para ficarmos com a obra maior
e mais conhecida, temos um rico repertório de representa
ções culturais e configurações históricas que podem origi
nar um mapa, desta vez nem só metafórico do Brasil.
De fato, tudo parece convergir na recomposição de um
mapa multifacetado do país, da cultura nacional. Um mapa
que não só conjuga o espaço com o tempo, mas que nessa
conjugação tenta a tarefa titânica para o historiador que é a
salvação de uma passado que escoa e se perde. Para esse
exercício, é indispensável, além do ecletismo crítico que possa
dar conta de totalidades dispersas, também o recurso ao lite
rário, à "pintura" — pelo texto — a uma escrita que possa
reavivar os despojos, os escombros de mundos extintos
(assim como faz, por exemplo, na tradição literária. Machado
de Assis). Desse mapa mais nosso, de leitores, do que do

163
próprio Sérgio, se procurarão aqui alguns traços, em particular
a partir daquele, por assim dizer, "ensaio-aforismo" que é
Raízes do Brasil? Texto aforismo, justamente porque o afo
rismo é pelo menos em uma das suas acepções dominantes,
como o definia icasticamente Musil, "o menor inteiro pos
sível",® no sentido que RdB também é mapa de muitos
rumos a vir da obra de Sérgio, mas também amostra de
modalidades críticas (pense-se, por exemplo, na dimensão
comparativa da abordagem) que registram a experiência do
franco-atirador modernista dos anos 20 marcando outros
textos buarquianos. Como bem assinalou Flora Süssekind, é
na fusão por parte de Sérgio dos dois lados do "historiador
que pressupõe o crítico"^ que se pode entender a obra histo-
riográfica de Sérgio e suas relações com a literatura, e RdB
representa o ponto focai dessa perspectiva. O que provoca
questões não pequenas quando há problemas que surgem e
que convocam ao mesmo tempo os dois lados, o crítico e o
historiador, que poderiam até entrar em conflito de juízos e
visões. Um desses problemas é com certeza o da periodização
histórica contrastadas com outras (culturais, literárias etc.).
Nessa problematização, RdB se revela um lugar tenso, mas
decisivo, para captar alguns traços menos visíveis do seu
autor, como se tentará fazer neste ensaio.

PERIODIZAR O TEMPO QUE RESTA

Apesar dos muitos rótulos que mereceu no plano genea-


lógico (síntese histórica, pamphlet interventista, tratado da
formação, catálogo de metáforas fundacionais etc.), o dua
lismo, aliás, como é melhor dizer, a dualidade constitutiva de
RdB confere à obra um potencial crítico inusitado. Sem lhe
querer atribuir forçosamente um valor prescritivo absoluto, é
pelo menos possível constatar que RdB possui um conteúdo
seminal muito rico e não só tendo em vista o aprofundamento
crítico da obra do próprio Sérgio, mas de modo mais geral
para a compreensão e a exegese meticulosa daquele emara
nhado complexo que é a cultura brasileira, sobretudo na
investida do moderno.

164
Antonio Cândido, na revocação da passagem de Sérgio
por Berlim, capta muito bem a essência de uma mistura textual
específica, identificando no contato com a cultura alemã — e
mais especificamente com referência a disciplinas como a
Filologia "que fundem as particularidades e transfiguram as
contradições do real por meio da 'visão'"— a causa eficiente
de uma obra de entendimento global e exemplar, marcada,
como se dizia, por uma dualidade que o tornava "o único
'retrato do Brasil' que terminava de maneira radical em face
do presente" sendo "ao mesmo tempo uma análise do passado
(que pegou mais) e uma proposta revolucionária de transfor
mação do presente (que pegou menos)".'®
Agora, como ferramenta interpretativa, RdB funciona na
conjugação das duas partes — na tensão permanente entre
formação e forma — que não gozam, ao contrário do que
pareceu a uma certa interpretação crítica, de autonomia, mas
encontram justamente na sua combinação complexa e incin-
dível de presente e passado, na dobra do passado no presente,
uma potencialidade de penetração crítica francamente inova
dora." É sobre essa conjugação que é necessário refletir, não
tanto ou não só para desvendar o dispositivo crítico íntimo
que preside à obra, mas porque recorta, dentro do clima
modernista que o gera, um ponto de vista crítico fundador de
uma outra periodização da história cultural decorrendo de
uma osmose assídua entre visão do crítico literário e a do
historiador. Periodizar a história aponta sobretudo para os
modos de como a história é pensada, ou seja, refletindo com
Croce, os fenômenos históricos se reconstroem a partir de
uma experiência historiográfica.'^ As considerações sobre uma
periodização, portanto, não dizem somente respeito aos
modos em que o fenômeno histórico é compreendido a
partir da sua configuração em relação aos outros, mas sobre
tudo ao espectro de valores da experiência historiográfica
de que decorre, iluminando o funcionamento íntimo da cons
ciência histórica que os elabora.
Nessa perspectiva, é interessante delinear a cronosofia que
subjaz a RdB, pelo menos a que sobressai com um vigor
pujante, em particular no último capítulo da obra, "Nossa
revolução", que pertence à assim chamada "seção política"
do ensaio, isto é, virada para a circunstância histórica do

165
presente, mas com um rizoma gerador que afunda na própria
dinâmica da formação. De imediato, a periodização proposta
por Sérgio poderia aparecer surpreendente. No cap. VII, de
fato reitera o que já tinha sido anteriormente explicitado (cap.
III "Herança rural"): apesar de escapar a uma estrita pontuali-
zação de um fato que represente uma ruptura ("A grande
revolução brasileira não é um fato que se registrasse em um
instante preciso; é antes um processo demorado e que vem
durando pelo menos há três quartos de séculos"), RdB: 127,
com uma concessão à metaforologia euclidiana. "Seus pontos
culminantes associam-se como acidentes diversos de um
mesmo sistema orográfico" (ibidetn), ficando assente que a
Abolição, 1888, representa um verdadeiro divisor de águas,
reposicionando o fenômeno histórico em função de outras
séries de eventos periodizando o processo, a modernização
da nação ("o momento talvez mais decisivo de todo o nosso
desenvolvimento nacional" "a Abolição representa, em reali
dade, o marco mais visível entre duas épocas" iibidetri). Agora
o que se evidencia é que 1888 funciona como um termo
formal sem a qualidade temporal de uma ruptura histórica.
De fato, ele institui um tempo dentro do tempo (do tempo
outro do passado), o que o elege como marco periodológico,
mas não retém o passado que pelo contrário — é o tema
central da seção final do ensaio — permanece no presente,
como dobra viva e ativa. Por conseguinte, tal postura acaba
afetando também a idéia historiográfica essencial que deveria
conceitualizar a reflexão que é a de revolução. A essa idéia
Sérgio dedica inclusive de viés uma nota de rodapé logo na
entrada do capítulo, esclarecendo a citação de segunda mão
de Roger W. Babson redimensionando as revoluções e as agi
tações das histórias pós-coloniais latino-americanas. O que é
interessante salientar, desse ponto de vista, é que a área
semântica do termo, pelo pretexto da citação, acaba por se
delimitar de algum modo como o "processo geral — e em
verdade revolucionário — da transformação dos territórios
coloniais em sociedades cultas modernas" iRdB-. 127) e não
como a série fragmentária de movimentos só pretextuosamente
revolucionários. Ou seja, a "grande revolução brasileira"
configura-se logo como um processo, um movimento histó
rico ainda em curso e não como corte ou ruptura. Seria então
errado interpretar a idéia de revolução aqui encenada como

166
ruptura literalmente traumática da continuidade da ordem
histórica ou até, em termos marxianos, de "salto dialético" da
história. A "nossa revolução" (o dêitico do possessivo, como
já notado, desempenha uma função essencial) é flagrada na
continuidade do seu "elo secreto" como "lenta, mas segura e
concertada" iRdB: 126). De algum modo, a recuperação do
pensamento de Herbert Smith que nessa circunstância Sérgio
promove (que — não esqueçamos — reúne o núcleo temá
tico fundamental do capítulo e também da obra, o da socie
dade mal formada "desde as suas raízes") geometriza melhor
essa idéia de revolução, o auspício de uma revolução que
seja — quase oximoricamente — "vertical" e não "horizontal"
iRdB\ 135), onde a profundeza tem a ver mais do que com o
perfil fatual (de fatos événementiels) da ruptura com o enrai
zamento das suas conseqüências sociais.
Sobre essa figura da revolução —, sobre a qual será opor
tuno voltar em seguida para definir melhor a sua função perio-
dizadora — Sérgio mostra sua sensibilidade filológica já
muitas vezes assinalada pelos críticos articulando um sentido
do termo a partir não da sua consumpção trivial, mas da
valorização da sua raiz etimológica (do latim, revolvere, que
significa justamente "rolar para trás ou enrolar") que aponta,
como se percebe, para um movimento mais complexo do que
a imagem corriqueira da ruptura. O desfecho de RdB exibe
um aspecto decisivo da obra, ainda que talvez menos visível,
que de alguma maneira explica a duração do seu arsenal
interpretativo: seu dispositivo crítico interpreta a hibridez do
tempo moderno, ou, ainda melhor, o eixo fulcral que RdB
constrói conjuga entre si os dois tempos antagônicos (e
dominantes) no emaranhado das temporalidades modernas,
o do passado que permanece e o da "revolução" que se
encontra em articulação. Isso cria uma morfologia moderna
própria e ontológica do tempo brasileiro que delineia figu-
ralmente tanto o modo de ser da "nossa revolução" quanto o
modo de estar, de inscrever o Brasil na contemporaneidade,
que é a temporalidade residuária do presente.
Coadunam-se de fato nessa figura duas temporalidades
que problematizam a viabilidade própria de continuidade da
periodização, uma linearidade temporal regressiva que é a
da permanência do passado, dos valores da ordem arcaica e

167
pré-moderna, imbricada em outra temporalidade, aberta e
conflitante, que é a do moderno. A mistura das temporali-
dades é, porém, mais uma vez, apreensívei só em termos
formais, por meio da figuração: o presente é forjado por
essa dobra que é simultaneamente inscrita nas duas tempo-
ralidades formando a temporalidade nacional. Essa confi
guração não só possibilita fissurar pelas temporalidades
representadas o perfil complexo da formação, no trânsito
ainda aberto de colônia para nação, mas se apóia em uma
intuição profunda, histórica, da vida nacional, onde um
tempo regressivo e um outro progressivo forjam a contem-
poraneidade, contrastando precocemente os dualismos e as
fáceis dialéticas do contexto periférico. Nele, o que emerge
com força é um tempo opaco onde os conflitos ficam em aberto,
sem uma conciliação viável, tempo trágico por excelência, em
que as continuidades declamadas e necessárias, pedagógicas
e performativas, das narrações nacionais, até das remitologi-
zações modernistas, subsistem somente pelo escamoteamento
das dilacerantes descontinuidades que impedem qualquer
visão eufórica ou ufanista das representações nacionais.
Não se trata aqui simplesmente de uma intermitência
temporal como a que se poderia dar com o tempo ruinoso
contando com um retorno do tempo cíclico, circular, na
linearidade da história. Se assim fosse, ficaríamos com o rasgo
genial e precursor de Machado de Assis — um autor com que
RdB dialoga intensamente nas entrelinhas — nos reparos
sobre o "bovarismo nacional"— perante o desmoronamento
do Império flagrado já pelo ângulo da transição republicana
onde Machado é de fato espectador, como se notou, de "ruins
of a dead time".^^ E dessemelhante é inclusive a postura de
Sérgio na contemplação do passado onde os tempos últimos
do que já foi (aquele "mundo definitivamente morto" mas ain
da condicionador) perante o tempo precoce do que ainda não
é criam as fendas por onde a decadência é distilada como
forma excelente da experiência da modernidade brasileira,
assim como pode ocorrer por exemplo com Gilberto Freyre
com a bondosa memória da linhagem agrária.
Aqui é forçoso perceber como a colisão temporal condi
ciona ou, melhor, articula o tempo referencial da enunciação
que, como sabemos, afunda na circunstância convulsa da

168
década de 30, com o pendor da proposta de certo modo
radical de transformação política. O presente, de fato, é o
tempo residuário, intersticial, um resto que resta do choque
entre o tempo regressivo do coriáceo passado cordial em sua
ruínas resistentes (como explicita a bela imagem do homem
cordial fadado a desaparecer, mas que ainda age no presente,
dirigida para Cassiano Ricardo) e a outra diretriz temporal
antagonista e progressiva da modernidade. É um entre-tempo
denso e imbricado o do presente, um resto do tempo, que,
não coincidindo nem com uma parte nem com o todo, conjuga
com o passado uma antevisão que se deve explicar pela
história. É oportuno não deixar de sublinhar os traços desse
tempo restante que, se não fosse pelos equívocos imediatos
que o termo pode engendrar, me atreveria a definir "messiâ
nico". Evidentemente não na acepção corrente de tempo mes
siânico como tempo apocalíptico. O tempo messiânico não
deve ser entendido enquanto fim dos tempos, como conven
cionalmente se faz, mas é, e não só por simetria quiásmica,
mas pela bela leitura que Giorgio Agamben faz, o tempo do
fim, a partir da constelação São Paulo-Walter Benjamin.^'^
A qualidade do tempo referencial de RdB torna a circuns
tância da enunciação um lugar proeminente para apreender
uma dinâmica íntima muito complexa da modernidade peri
férica. Sua vertente messiânica se pode melhor entender se
contrastada com a função que as figuras messiânicas desem
penham na obra de Walter Benjamin, em particular nas teses
sobre o conceito de história. O tempo messiânico se encontra
efetivamente na história: cada geração possui uma débil força
messiânica (tese II); ela se explica em uma ação que é política
(tese XVII), ou seja, que pode modificar o futuro e resgatar o
passado.*^ Além disso, existe uma dimensão de luta própria
do tempo messiânico (o Messias na tese VI é quem no com
bate escatológico derrota o Anticristo) que o aproxima da
circunstância da enunciação de RdB. Não deve surpreender
o tratamento histórico, imanente, que o tempo messiânico,
com uma intuição fulgurante, tem em RdB-. pense-se por
exemplo na forte conotação política que Carl Schmitt, filó
sofo que faz parte da ferramenta crítica do Sérgio de RdB,
imprime a sua leitura de São Paulo {Epístola aos Tessaloni-
censes) quando identifica o katékhon, isto é, a força que atrasa
a vinda do Anticristo, com o Império e o Estado,o que se

169
alinha com a idealização de RdB da construção de um espaço
público que definitivamente acabe com o homem cordial.
O que contribui a fundar, portanto, a temporalidade própria
do presente em RdB é a insistência também de um tempo
messiânico que, para ficar na metaforologia ótica benjami-
niana, representa uma radiação ultravioleta'^ no espectro da
modernidade, latente na esteira de qualquer ultravioleta, mas
vivo e ativo nas variações temporais da modernidade que se
adensam na periferia em trânsito para um projeto de nação.
Isso reforça a condição entre-temporal do tempo referencial
que é o tempo residual surgindo intersticialmente como afirma
o próprio Sérgio em uma passagem-chave do epílogo: "Esta
ríamos vivendo assim entre dois mundos: um definitivamente
morto e outro que luta por vir à luz" iRdB-. 135).
Em absoluto, essas considerações críticas sobre o tempo
que resta, o tempo messiânico de RdB, poderiam parecer como
uma sobreinterpretação de uma obra complexa, mas talvez
não na vertente aqui articulada. No entanto, entrando na
história do texto, no processo das reescritas a que foi subme
tido e que está fornecendo novas pistas aos pesquisadores
da obra buarquiana de hoje'®, se depreendem algumas inte
ressantes ratificações dos dados interpretativos antes mencio
nados. De fato, na edição princeps de RdB, de 1936, depara-se
com uma epígrafe do capítulo "Nossa revolução" ("Ein Volk
geht zugrunde, wenn es seine Pflicht mit dem Pflichtbegriff
überhaupt verwechselt", isto é, "Uma nação se reduz a ruínas
quando confunde seu dever com o conceito universal de
dever") que não só resulta extrapolada de Nietzsche, mas
em particular da proposição 11 do Anticristo, texto póstumo
de Nietzsche que, além da invectiva do cristianismo como
inimigo do conhecimento, possui também um forte traço
messiânico (reconduzível também à Epístola de S. Paulo aos
Tessalonicenses). Temos, portanto, uma explícita evidência
textual da consciência do autor a propósito do tempo mes
siânico assim como estamos tentando entendê-lo.
A consideração sobre a circunstância enunciativa de RdB,
suspensa num entre que é conexão — mas também hiato —
entre dois mundos repõe o problema da periodização e do
termo periodizador da modernidade. Porque se a periodi
zação contribui para tornar pensáveis os fatos e se constitui

170
a partir de dois elementos, um fatual e outro conceptual,^'
no caso de RdB torna-se bastante patente que a série fatual é
depreendida a partir da observação formativa do ocaso, na
ordem material, do predomínio agrário e da moral da senzala
pelos agentes modernizadores (que legitima a opção pela
Abolição enquanto epifenômeno periodizador). Permanece
pelo contrário mais complexa a questão conceptual de onde
se abstrai uma espectrografia tão lúcida e articulada da moder
nidade sobretudo na circunstância simultânea da sua obser
vação, ainda mais no clima profundamente perturbado das
polarizações radicais dos meados da década de 30. Aqui
ocorre frisar um aspecto que poderia soar secundário perante
os valores de conhecimento em jogo, mas que, pelo contrário,
se tornaria crucial na apreensão do dispositivo crítico da
obra: o caráter modernista que o ensaio tem, fora de um
formato meramente acadêmico (aspecto, esse, redimensio-
nado ao longo das fases de revisão até à edição definitiva),
e seu vínculo sólido com o Modernismo e com a sua ideologia
fundadora, embora reihterpretada à luz de algumas categorias
críticas tributárias da experiência germânica de Sérgio. A
intuição renovadora, a estrutura dual (que de outro modo
ficaria incompreensível), o compromisso estético, a arquite
tura metafórica do texto: tudo remete para o rastro modernista
que o origina e sustenta. Inclusive a ação de uma temporali-
dade messiânica que vai desentranhando a temporalidade
residuária da obra e acaba condicionando em profundidade
a reformulação crítica do passado pode ser assumida como
uma temporalidade relativamente próxima da do tempo histó
rico — de antecipação no presente do futuro —, próprio das
cronosofias das vanguardas.
Não será casual então que, em termos conceptuais, a
cronosofia da obra, sua filosofia da história, muito deva à
espectrografia da modernidade, que no âmbito cultural, em
particular literário, Sérgio vem realizando desde a década
anterior: a crítica literária, a crítica circunstancial, militante,
a dos rodapés do jornal proporciona o campo de tensões em
que se articula a visão íntima dos desajustes entre moderni
dade e modernização no país periférico, confirmando assim
a osmose inexausta que crítica literária e história entretêm
em Sérgio e como a problemática periodológica em campo

171
historiográfico transcende a ordem material e arraiga também
no terreno da literatura e da crítica. Alguns núcleos con-
ceptuais dominantes RdB se encontram disseminados, em
formas embrionárias ou amadurecidas, pelas páginas críticas
já na década anterior, o que torna de algum modo RdB, pela
sua radicalidade revisora que tenciona articular, um gênero
misto como se dizia, um novo retrato multidimensional, da
forma e formação da realidade brasileira, o simulacro moder
nista de Sérgio.^®
Em termos genealógicos, tentando resgatar suas origens
dispersas, o legado modernista de RdB precisa ainda ser mais
esmiuçado, sobretudo a seminalidade da produção fragmen
tária crítico-literária de Sérgio para o futuro historiador. Nesse
sentido, há, inegavelmente, núcleos conceptuais do ensaio
de 36 que decorrem, mais precisamente, da operação precoce
e lúcida de desmontagem do espectro ideológico e estético
do Modernismo literário que lhe fornecem materiais de reflexão
sobre o perfil peculiar do processo modernizador que investe
o Brasil e suas conseqüências históricas em particular na
vertente cultural.
A esse procedimento não é alheio a forma fragmentária da
resenha, do texto circunstancial do publicista erudito (que é,
literalmente, ensaio) com algumas preocupações críticas cons
tantes como, por exemplo, a de pautar as relações entre lite
ratura e história. É por isso que esses núcleos se adensam
sobretudo a partir das notas de 24, quando a consciência
modernista de Sérgio se vira para a denúncia do outro lado
sombrio do movimento que o rótulo unificante de algum modo
encobria, enxergando assim sua hibridez e pluralidade e
discriminando suas nuanças íntimas — às vezes até cromati-
camente bem fortes — que distinguem as partes heteróclitas
de uma modernidade, ao contrário das aparências ou das
declamações, bem conflitantes. Não é por acaso que Antônio
Arnoni Prado marca nessa fase o terceiro tempo da sua perio
dização, caracterizada pela postura crítica "radical" de Sérgio
perante o Modernismo de que é ainda assim corifeu e defensor,
abrindo um racha autocrítico sintomático no movimento.^^
Encontram-se aqui figuras críticas funcionando "como uma
ponte para o argumento de RB"^^ que se podem sinoticamente
repertoriar para exemplificar como se instaure um elo genea-
lógico entre crítica literária de jornal ou revista e o ensaísmo

172
buarquianos, quase como se se tratassem das raízes (enter
radas) das RdB. Mais do que remessas intertextuais diretas, o
que surge sào conexões trópicas, delimitações semânticas de
palavras-chaves do ensaio a vir, embriões conceptuais, que
fazem emergir um conjunto indiciário significativo prefigu-
rando as agregações críticas em torno da modernização brasi
leira que amadurecerá como forma e conteúdo em RdB.
O texto que de algum modo marca uma virada na postura
finamente autocrítica de Sérgio para com o Modernismo, o
célebre "Um homem essencial" que tem por objeto Graça
Aranha e inaugura a revista Estética, pode ser assumido
também, ainda que virtualmente, como ponto de partida de
um percurso recompositivo das ramificações figurais de RdB.
Não por referências explícitas, mas pelo tom geral da crítica,
e pelo ângulo dos interesses que descortina. Antes de tudo o
contraste articulado entre Nabuco e Graça Aranha compõe
um eixo temporal coincidindo com a "nossa revolução", A
"imaginação estética" que lhe reconhece e que leva o autor
de Canaã a apreciar as paisagens nacionais desprovidas de
história (ao contrário de Nabuco) possui também uma "imagi
nação política", embora de outro signo; esta pode ser encon
trada na procura de sínteses sociais que compensa, de acordo
com Sérgio, suas carências de ordem analítica. Se isso remete
para considerações sobre a formação do homem americano,
é no campo literário com Machado de Assis e Alencar que
Graça Aranha oferece as sínteses de ordem geral que interes
sam a Sérgio. Assim, no caso de Machado, quando o tema se
torna a cultura individual, a distância entre o crítico e o criti
cado se constrói elegantemente por observações como "Essa
cultura individual que bastaria para interessar aos espíritos
puramente analíticos, ele incorpora à herança racial e à his
tória de família, que Machado não tem" iEL I: 183). A revisão
do Modernismo está encaminhada quando na crítica do seu
mais controverso participante, Sérgio se mostra consciente
(estamos em 24) do peso específico real das suas funções
modernizantes, assim como da dinâmica própria da moderni
dade, ao observar: "O espírito moderno nos proporciona neste
momento uma afirmação inesquecível. Se essa afirmação não
se revelou ainda por obras de mérito excepcional — como
querem alguns —, ela valerá pelo menos como uma negação
das negações, que são os obstáculos a uma afirmação maior"

173
(£Z I: 185). No mesmo número de Estética, em outro artigo,
"Romantismo e tradição", Sérgio resenha o volume de Pierre
Lasserre sobre o romantismo e mostra uma sensibilidade
aguda, relacionando romantismo e renascimento a partir do
elo literatura e religião como a visão contextual do historiador
— do historiador da cultura — é essencial para a compre
ensão do texto. Mas o que vale assinalar aqui é uma figura
crítica do romantismo, representado como uma dobra, a
permanência de um tempo dentro do outro, que iconizará
incisivamente a idéia da modernidade complexa de RdB,
estabelecendo também uma conexão sugestiva do romantismo
com o moderno: "Toda a época que domina a chamada cons
ciência moderna é, pode-se dizer, uma época romântica. O
curto período a que geralmente damos esse nome não é mais
que um pequeno segmento de uma grande curva: roman
tismo dentro do romantismo" {.EL I: 200). Uma posição que
se reafirma já em época posterior à saída de RdB quando, em
46, publica os artigos "Perene romantismo" e "A França bizan
tina". No primeiro, SBH analisa as analogias entre romantismo
e revolução teorizadas nos anos 20 por Charles Maurras,
mostrando em termos periodológicos como o primeiro, mais
do que uma escola literária ou artística, à guisa de revolução,
reforma e renascimento, coincide com "as épocas de dissi-
pação, ou de insatisfação, ou de crise" {EL I: 375-375) quando
afloram posições anti-racionais, de negação persistente. Assim,
como no segundo artigo, resenhando um texto de Julien
Benda que endossa as posições crociane sobre o barroco
que apontam para as ressonâncias salientes entre roman
tismo e barroco {EL I: 382). Conceitualizações sobre a perio
dização que ecoam a idéia de revolução configurada em
RdB que encena exemplarmente a passagem, a crise histó-
rico-cultural proporcionada pelo processo formativo da
ex-colônia. Voltando para as posições seminais do "franco
atirador" dos anos 20, mas sobretudo autor de excelentes
resenhas e rodapés — na sua linha argumentativa impe
cável — encontram-se contribuições densas como "Perspec
tivas" de 25 onde de certo modo se prefigura in limine, em
uma reflexão epistemológica sobre a formação dos conceitos,
a problemática da Antígona, que será crucial na definição da
ideologia do cordialismo de RdB referindo-se aos "homens

174
que obedecem às leis divinas e esquecem as outras, as das
cidades" iEL I: 216); texto esse importante porque supõe uma
espécie de ato beligerante teórico no tocante vida e represen
tação de acordo com a qual a arte poética "depois de tantos
séculos em que os homens mais honestos se compraziam em
escamotear o melhor da realidade, em nome da realidade temos
de procurar o paraíso nas regiões inexploradas. Resta-nos,
portanto, o recurso de dizer das nossas expedições armadas
por domínios" iEL I: 215), o que redefine de modo frontal a
relação com uma realidade pela qual a elite letrada costuma
ter horror.
Fica assente que pertence a essa fase já francamente radical,
quando está tomando corpo o impulso para um gesto de depu
ração do Movimento Modernista que repautasse suas relações
internas em termos de ideologias estéticas conflitantes, o texto
crucial, o "artigo-libelo"" de 26 "O lado oposto e outros
lados".

A redde rationem com o intelectualismo de uma certa linha


modernista (na linhagem Graça Aranha-Ronald de Carvalho-
Renato Almeida e Guilherme de Almeida) é atitude que pode
ser reinterpretada hoje, pelo menos conceitualmente, como
forma de ressentimento^*^ contra o caos e a desordem da
cultura nacional, que decorreriam tanto da carência de uma
arte e de um pensamento construtivistas quanto de se posi
cionar positivamente "do lado oposto". Sérgio, declarando
a inutilidade e a inatualidade dessa postura, adianta o tema
crucial de Raízes do Brasil (presente desde as primeiras
páginas do ensaio) no momento em que problematiza a
questão do caos, da desordem colocada pela tendência moder
nista do lado oposto: uma ordem perturbada que não é a
"nossa ordem", mas "há de ser uma coisa fictícia e estranha
a nós, uma lei morta que importamos, senão do outro mundo,
pelo menos do Velho Mundo" (£ZI: 226). E nas considerações
que seguem essa observação, estigmatiza inclusive o erro
dos modernistas de quererem "escamotear a nossa liber
dade que é, por enquanto pelo menos, o que temos de mais
considerável, em proveito de uma detestável abstração intei
ramente inoportuna e vazia de sentido" iEL I: 226). O que
interessa salientar do conceito de ordem e desordem na
passagem para RdB (e que em seguida se aprofundará) é a

175
remetaforização — curiosa, mas significativamente em termos
musicais ("ritmo espontâneo" e "harmonia falsa") como em
seguida estudaremos — dessa postura nas linhas conclu
sivas do ensaio. No entanto, é oportuno também observar a
deslocação que ocorre no arco dos dez anos que separam o
artigo militante do ensaio distilado de 36: o conceito de 26
referido ao campo da arte (nacional) se ramifica pela meta-
forização no plano da realidade da naçào (ainda que nesse
remate se trate de uma realidade, digamos assim, optativa),
enxertando-se plenamente no tempo messiânico do ensaio,
como resto que resta na investida do passado no presente.
Na desmontagem ideológico-estética do Modernismo, é lícito
perguntar-se, não ecoará já o espectro que subjaz à peri
odização que repauta as relações entre histórico e cultural
no ensaio? Essa observação permite aliás refletir sobre a
cronosofia periodológica do ensaio onde a periodização se
recoloca em uma perspectiva nova; portanto, confirmado o
marco inovativo de cariz modernista de RdB, fora também
de um cânone historiográfico com que inclusive o Sérgio
recém-chegado da Alemanha se confronta. De fato apreciamos
como um redimensionamento da periodização em prol de
estrutura (o conceito de revolução). Sérgio parece se posi
cionar para uma aproximação entre história e ciências sociais,
onde o passado não funciona bem como período, de que é
oportuno operar uma segmentação, mas se configura como
estrutura com uma mudança mais complexa dentro da rede
de relações de um sistema. O que modifica inclusive a idéia
de revolução esboçada justamente no capítulo final que
como vimos enquanto "processo demorado": revolução que
se configura como interseção entre diferentes conjunturas
(ou "revoluções") no plano diacrônico, com a permanência,
nesse caso declinante, da estrutura do passado entrando
em contato sincronicamente com outras estruturas.Uma
problematização do período cujas conseqüências epistemo-
lógicas ficarão mais claras quando a historiografia assumirá
outras conceptualizações como a de "ciclo" e de "evento" de
algum modo já presentes, pelo menos no plano de esboço
de idéias, em RdB.

176
CARTOGRAFIAS MUSICAIS:
DIALÉTICA E CONTRAPONTOS

Uma amostra bem significativa do potencial crítico de


Raízes do Brasil enquanto livro essencialmente de metáforas
cognitivas, ponte de passagem entre "história e vida",^^ está
condensada na celebérrima vintena de linhas que encerram
o capítulo final, "Nossa revolução", funcionando como um
desfecho sentencioso de todo o livro, em uma chave aliás
bem vibrante e, provavelmente por isso, de certo modo
memorável. Aqui o núcleo crítico essencial do ensaio é rearti-
culado em uma teia engenhosa de metáforas musicais cuja
densidade resulta pelo menos surpreendente:

Querer ignorar esse mundo será renunciar ao nosso próprio


ritmo espontâneo, à lei do fluxo e do refluxo, por um com
passo mecânico e uma harmonia falsa. Já temos visto que
o Estado, criatura espiritual, opõe-se à ordem natural e a
transcende. Mas também é verdade que essa oposição deve
resolver-se em um contraponto para que o quadro social
seja coerente consigo (.RdB: 142, grifos meus).

O investimento figurativo, nessa posição estratégica do


texto, pela consciência metafórica que o permeia como um
todo, coloca questões interessantes sobre o sentido e a
função das metáforas adotadas, tanto pela sua tipologia
como pela sua posição. Sobretudo, exibe um elo crucial
nas relações complexas de Sérgio — e em particular de
RdB — tanto com a visão da modernidade quanto com a
experiência modernista de que a obra, como se disse, é
também tributária. O questionamento do eixo entre ordem
e desordem representa certamente, enfeixando no incipit
e no explicit todo o texto, a oposição semântica dominante
da obra de que decorrem as demais antinomias ostentadas
paratextualmente, arcaico vs moderno, ordem familiar vs
construção do espaço público, cordialidade vs impessoa-
lismo, cultura da casa grande vs. cultura da cidade etc.
No começo da obra, realmente o autor tinha-se detido com
tom tratadístico sobre esse tema central ("A falta de coesão
em nossa vida social não representa um fenômeno moderno.

177
E é por isso que erram profundamente aqueles que ima
ginam na volta à tradição, a certa tradição, a única defesa
possível contra nossa desordem", RdB: 5). Mas ficando logo
explícito e inequivocável o tema de fundo, por que traduzi-lo
também no desfecho em metáforas desta natureza, por que
optar pela solução figurada — ritmo e harmonia, espontâneo
e falso — no lugar de uma codificação própria, do nome pela
coisa, do tema? Talvez isso nos permita adquirir alguns ele
mentos a mais para compreender melhor a estratégia do jogo
metafórico do autor.
De fato, a metáfora leva a uma recategorização do conceito
justamente por ser tratado em termos metafóricos e por metá
foras musicais. As metáforas musicais aqui aproveitadas
remetem todas para o questionamento da nação, cultural
antes de política e ideológica, na sua posição periférica,
pós-colonial e na investida da modernização. Desse ponto
de vista, a musicalização do tema da cultura nacional induz a
pensar de imediato no famoso ensaio de Mário de Andrade
conjugando justamente uma forma cultural como a música com
o desenvolvimento da nação, "Evolução da música brasileira"
da sua tendência emancipatória, na fase cultural, quando a
música deixa de ser nacionalista para ser nacional, "no sen
tido em que são nacionais um gigante como Monteverdi e
um molusco como Leoncavallo"." Não é por acaso que essa
pode ser considerada uma das últimas contribuições teóricas
de Mário sobre identidade nacional. Mas a particularidade
da metáfora leva também a outras considerações. Poucos anos
antes, em um contexto totalmente outro, biográfico e histó
rico, Antonio Gramsci encontrava justamente em metáforas
poético-musicais a forma própria para expressar um pensa
mento crítico que escorre fluente no arquipélago do fragmen
tário: por isso leitmotiv, "ritmo", "elemento orquestral" se
tornam a raiz analógica que traduz o pensamento em con
ceito justamente porque a música, como anota nas Cartas do
cárcere, é "a linguagem mais universal hoje existente, a que
mais rapidamente comunica imagens e impressões totais".^®
O pensamento que a metaforização por uma outra lin
guagem como a musical de algum modo reveste em RdB vai
além da oposição entre ordem e desordem: é bem mais a
impossibilidade de resolução, a problematicidade oximórica

178
dessa oposição, assim como oximórica é a condição de uma
nação, de uma cultura "desterradas em sua própria terra". O
fil rouge da questão remete, de novo, para a revisão do moder
nismo^^ que Sérgio dez anos antes, em 1926, tinha promovido,
em particular, mais uma vez induz a reler o artigo "O lado
oposto e outros lados" antes mencionado. Não se trata de
mera tautologia discursiva e ideológica entre o intelectual inter-
ventista de 26 e o mais maduro ensaísta, ainda que estreante,
de 36, mas não é difícil depreender também as consonâncias
que surgem dentro de uma intertextualidade dominada pela
oposição semântica ordem vs. desordem que conjuga as
posições críticas expressas no arco de uma década. Se qui
sermos definir melhor o símile, a posição de RdB politiza a
denúncia de artigo de dez anos antes dentro do agon esté
tico modernista. O que Sérgio quer é estigmatizar as atitudes
de um certo Modernismo quanto à sua distância da realidade
("homens, inteligentes e sábios, embora sem grande contato
com a terra e com o povo", EL I: 226), a procura de uma
ordem externa, "fictícia e estranha" que regularize a desordem
enquanto "ordem perturbada" local (^ideni), que oportuna
mente concentra a interrogação radical sobre a natureza da
desordem. No desfecho de RdB, a crítica se transmuda em
proposta, perspectivada no horizonte histórico, que marca
como meta indefinida o tempo do encontro com nossa reali
dade {RdB-. 142). O terreno de discussão aqui é porém o do
embate ideológico no campo político e social, não no esté
tico. E se alude explicitamente à possibilidade de "ensaiar a
organização da nossa desordem" (Jdem) que não é só uma
formulação oximórica, mas possui a espessura de uma proje-
tualidade política orientada para salvação do mundo íntimo
que ocorre, como se especificará, por uma dialética não
simples, mas contrapontística. Além das considerações já
formuladas, é oportuno sublinhar o valor intrínseco que mais
uma vez o possessivo, também dêitico, "nossa" adquire em
definir a "nossa ordem" (ou desordem) que deve ser enten
dido em combinação com o tema dominante e epônimo do
capítulo, "Nossa revolução", justamente, explicitando o porte
essencialmente político — mas com uma forte conotação e
percepção cultural — do processo de transformação que
torne coerentes as incontáveis disparidades do quadro social.
Mas a problemática pode ser recuperada por uma análise
formal do texto. Os conceitos essenciais do polêmico artigo
179
da década de 20 são transferidos aparentemente quase de
peso em Raízes do Brasil e remetaforizadas em termos, se
note bem, musicais ("ritmo espontâneo" e "harmonia falsa").
A diferença saliente está justamente na opção pela metáfora,
o que marca até inconicamente o diferencial que existe entre
a crítica militante de 26 e o ensaio distilado de 36. O que na
verdade proporciona o recurso às metáforas desse pendor é,
dentro da conceitualização do ensaio, a intuição profunda
de uma temporalidade moderna da nação irredutível em uma
chave rigidamente opositiva ou dialética. A metáfora musical
nesse sentido fornece um suplemento fundamental na confi
guração conceituai que, sem detrimento da categorização,
define uma peculiaridade específica, que é a modernidade
reinterpretada dentro do fluxo frenético da modernização não
pelo lado oposto do Velho Mundo, mas pelo outro lado, isto
é, pelo lado do periférico, do pós-colonial.
Legado modernista, esse, aliás, da consciência de uma
temporalidade própria imperfeita da modernidade cultural
da nação, mas cujo potencial de inovação se descortina na
adoção da terceira e decisiva metáfora musical do trecho
conclusivo citado: a metáfora do contraponto. Não me atrevo
aqui a definir essa figura como antecipação da célebre leitura
contrapontística da história que Edward Said define em
Culture and imperialism, embora elas compartilhem a preocu
pação comum de ontologizar a periferia. De fato, se por um
lado Sérgio sugere que a figura possa representar a combi
nação complexa entre ordens distintas (a ordem espiritual
do estado e a natural) de modo que no contraponto justa
mente o quadro se recomponha "de modo coerente", pelo
outro, Said propõe reanalisar o arquivo da cultura relendo-o
de modo contrapontístico, combinando também simultanea
mente a história do centro com a da periferia,ou seja, além
de musical a metáfora em Said adquire um valor espaço-
temporal que traduz os confins da nação pós-colonial.
O contraponto que se afina na visão final de RdB redefine
a relação complexa que se instaura entre ordem e desordem
no espaço periférico e que de algum modo tem o poder de
fornecer a cifra crítica do inteiro ensaio: ordem e desordem
coexistem conflitantes — como ocorre em outro conceito —
metáfora viável, o de entropia, onde a desordem não significa
a falta de ordem, mas pelo contrário, subentende o choque.

180
o conflito entre ordens nào correlacionadas,^' tomando, por
tanto, um absurdo tentar discriminar entre ordem externa e
desordem interna, ordem tradicional e desordem moderna,
porque ambos sào a forma com que o Brasil se inscreve na
modernidade. O contraponto expressa conceitualmente e sem
dualismos, dentro da experiência da modernidade brasileira,
modernista na sua matriz estética e pós-modernista na sua
contundência crítica, aquele sentimento dos contrários, aquela
dualidade própria de uma dialética peculiar onde nenhuma
síntese conciliatória parece viável e os contrastes continuam
a exibir seus ângulos cortantes.
É por isso também, nas armadilhas desse tempo trágico-
moderno por formação, que Paulo Arantes detecta na leitura
clássica que Cândido faz de RdB a genealogia desse senti
mento.^^ O contraponto em nível figurai consegue dar plena
mente conta da problematicidade da "metodologia dos
contrários", do "jogo dialético" entre os pólos opositivos das
dicotomias críticas latino-americanas iRdB\ XLII) nào resol
vendo, mas mantendo vivo o estado de tensão permanente
que Luiz Dantas capta muito bem por meio de uma outra metá
fora musical, a da "dissonância não resolvida, de incomodi-
dade perpetuamente fecunda".A remetaforizaçào musical do
desfecho de RdB contribui de modo mais geral para evidenciar
o funcionamento e a função do jogo metafórico do ensaio como
um todo. A metáfora conceptual aqui não encobre a realidade,
mas pelo contrário, pelo seu suplemento figurai em relação ao
nome próprio, desmetaforiza desmistificando a tradição de
pensamento sobre o Brasil e remetaforiza o conceito não em
chave dualista ou intelectualista, como aliás se conviria a
outras remetaforizações modernistas, mas pelo contrário,
através do uso crítico da metáfora se pode "encontrar a nossa
realidade", redefinir o perímetro de uma nação moderna onde
a interpretação e a compreensão do passado fica capital para
a compreensão do presente e a reconfiguração do futuro.
Um encontro com a realidade a que muitas experiências
surgidas no bojo modernista escapavam em nome de uma
ordem externa artificial, de uma harmonia falsa.
Modernista resulta assim a revisão crítica a que Sérgio
submete o Modernismo. A dobra do passado no presente não
cancela a inflexão que também o futuro cria no aqui e agora.
A idéia de um Brasil cultural e político de timbre espontâneo

181
formado por seqüências rítmicas próprias, valorizando assim
a sua lógica paradoxal e contraditória, precisava encontrar
ainda uma melodia que harmonizasse dissonâncias e conso
nâncias, que combinasse em uma forma particular ritmo e
harmonia: uma nação polifônica, que talvez a Bossa Nova
ou a MPB justamente chegassem a realizar antes como "pro
messa de felicidade" musical, contrapontos e acordos de um
projeto político ainda por serem compostos, mas cuja parti
tura — como mostra com eloqüência RdB — estava já pelo
menos sendo pensada.

FIGURAÇÕES DE RECORTES INTERSTICIAIS

A partir da conjugação complexa das temporalidades acio


nadas pelo ensaio, emerge um outro aspecto seminal da obra
de Sérgio que remete para o posicionamento do crítico-histo-
riador dentro do texto, colocando-se de certo modo em uma
posição curiosamente simétrica em relação às temporali
dades representadas (mostrando que o dispositivo profundo
de RdBfunciona com um ritmo harmônico). De fato, o tempo
da enunciação — também o tempo referencial, do presente
histórico — do ensaio se configura a partir de uma suspensão,
uma pausa figurai que muito nitidamente se delineia no texto.
Isso é discursivamente explicitado em frases como as que já
examinamos para tratar do problema periodológico em RdB:
"Estaríamos vivendo assim entre dois mundos: um definitiva
mente morto e outro que luta por vir à luz" iRdB: 135, grifo
meu). A definição desse ponto articula até uma ressonância
profunda com alguns dos macrotemas do livro. Antonio
Cândido demarca muito bem, pontuando-o, esse lugar do
presente que se inscreve em um entremeio, isto é, numa
suspensão entre "o fim da tradição colonial luso-brasileira"
e "o advento das massas populares", apreciando assim a agu-
deza da imagem do Sérgio que representa por intermédio dela
a dialética muito dinâmica do Brasil contemporâneo, ao
observar: "No capítulo final de Raízes do Brasil podemos
dizer que há uma espécie de oposição entre duas trincas:
luso-brasileiro-domínio rural-agricultura versus imigrante-
cidade-indústria".^'^ É nessa esteira que Robert Wegner detecta

182
"o fecho quase trágico do livro" pela ausência de um epílogo
programático, pelo desencontro que RdB encena da impossi
bilidade de cruzamento do eixo do iberismo com o eixo do
americanismo, como paralelas que não se encontram, uma
condição oscilante ("entre o desmoronamento dos traços ibé
ricos e a permanência deles"^^), de desfiguração do moderno,
que encontra dentro do próprio texto um emblema como no
caso do "funcionário patrimonial" incorporando figuralmente
a tensão trágica do epílogo. Agora nessa condição, a crise
histórica, a suspensão de um presente neutralizado entre dois
mundos em choque, que poderia gerar um impasse do exer
cício histórico, pelo contrário, se transforma não em limite,
mas em antevisão fulgurante. Mais uma vez é Cândido que
observa "a relativa indecisão teórica que nos parece haver
no capítulo final de Raízes do Brasil, vista agora com a dis
tância de mais de meio século e tanta história pelo meio,
revela-se uma espécie de registro sensível do movimento
profundo da sociedade brasileira, tal como estudada no res
tante do livro,"^^ um potencial crítico que prefigura o hori
zonte, ainda que seja a única explicação do Brasil da época
composta "em função do presente".^' O objeto, o conteúdo
da obra, deixa espaço assim à questão crítica crucial de
como tal característica possa se tornar possível, transfor
mando limites em qualidades excelentes, conseguindo estar
discretamente pendurado entre temporalidades conflitantes,
sem ser nostálgico nem utópico, uma posição, essa, que
poderia inclusive ser lida como hesitação ou como irresoluçào
do que no fundo se poderia até assumir como uma aporia.
A pergunta que nós nos podemos fazer é se não se dá algo
de decisivo, aqui, e mesmo dentro do texto, que não se de
fina um mecanismo capital, para o futuro historiador e o
futuro crítico. O ensaio funciona porque à periodização
(relativizada, como vimos) histórica (que tem como marco a
Abolição) se sobrepõe uma outra operação, dessa vez crítica,
que interrompe a continuidade da "nossa revolução" e cria,
no intervalo, o ponto de observação fulcral bem no meio da
década de 30 que sustenta toda a arquitetura temporal da
obra. Por isso também, às revisões do texto, inclusive pro
fundas, nunca seguiu uma verdadeira reescrita ou refundição
integral, simplesmente porque não teria sido possível rees-
crevê-la fora daquela suspensão temporal proporcionada.

183
por um lado, pela circunstância histórica, mas também, por
outro, articulada formalmente, enquanto operação crítica,
dentro do texto.
O gesto de Sérgio, a suspensão ou pausa que promove
seria assimilável, justamente enquanto princípio operacional,
à equivocada epoché da fenomenologia husserliana cujo
valor deve ser procurando como operação metódica. A feno
menologia, seus procedimentos por reduções, no caso de RdB
e da sua articulação periodológica, podem de fato propor
cionar outras vertentes críticas de leitura, definindo-se desde
logo em Husserl como ciências de essências, o que tem conso
nância certamente com a explicação do Sérgio que vai — como
vimos — rumo a um mundo de "essências mais íntimas"
142). De fato, na epoché que Husserl deriva do ceticismo
grego se põe entre parênteses os elementos do dado, as conti-
nuidades e as tradições categoriais, os juízos compatíveis com
a convicção da verdade, acabando por suspender assim o
próprio juízo de modo que o fenômeno pode surgir para a
consciência como resto dessa operação, onde tanto a tese
como o juízo são recortados.^® Isso permite fundar um ponto
privilegiado de observação no momento em que os fatos
julgados passam pela consciência radical despida de outros
filtros de valor e assim seu objeto próprio, o eidos, (a figura,
a forma) pode ser enfrentado da maneira mais desinteressada
possível, não pelo retorno à dúvida cartesiana, mas pelo
princípio metodológico da epoché. Assim, explica Husserl,
distinguindo a epoché fenomenológica daquela positivista

per noi si tratta delia messa fuori circuito di tutti i pregiudizi


che tiRdBano Ia pura oggettività deirindagine, né delia
costituzione di una scienza 'libera da teorie', 'libera dalla
metafisica', facendo retrocedere ogni fondazione a ciò che è
immediatamente reperibile e nemmeno dei mezzo per
raggiungere tali fini, dei cui valore non si fa questione.
Quello che noi cerchiamo sta in tutt'altra direzione. Per noi
il mondo intero, quale viene posto nelPatteggiamento natu-
rale, quale viene in effetti reperito nelPesperienza, dei tutto
'libero da teorie, come è in effetti esperito' e chiaramente si
annuncia nella connessione delle esperienze, è ora per noi
privo di validità: non provato, ma anche non contestato, esso
va messo tra parentesi. Egualmente tutte le teorie e le

184
scienze, per buone che siano, fondate positivisticamene
o altrimenti, che si riferiscono a quesio mondo, soggiacciono
al medesimo desiino.^^

Nesse recorte virado para essências, descortina-se um


movimento próprio de RdB, implícito no gesto modernista de
cortar com uma tradição obsoleta de representações nacionais,
de qualquer modo fundando uma operação metodológica
eficaz para repensar no que essa tradição não conseguiu
nem entender nem pensar. É que Sérgio se coloca num terri
tório novo que essa operação entreabre, mas que logo
exibe um vastíssimo arsenal crítico com que repensar em
questões teóricas profundas no desajuste entre moderni
zação e modernidade.
Não cabe aqui, pelo menos a este ensaio, refletir se também
o trânsito modernista, a experiência da crítica cultural no meio
da imprensa são as condições que possibilitam a definição
dessa postura. O que é importante salientar é que ela permite
ao crítico neutralizar as oposições demasiado rígidas e quase
penetrar no âmago de uma dialética peculiar — na verdade,
pelo menos uma "trialética"— que marca as temporalidades
da periferia e ex-colônia. E, sobretudo, trata-se de uma posição
seminal que se alinha com outras chaves mestras da própria
refiguração da modernidade.
De fato, na suspensão, nessa "pausa momentânea", o
crítico se posiciona naquele intervalo literalmente trivial,
terceiro, onde amadurecem as figuras autointerpretativas
fundamentais da modernidade cultural (Macunaíma, a antro
pofagia) e onde mais tarde no seu enraizamento encontrará
a figura crítica iluminante da estória rosiana da terceira
margem do rio. Sérgio, na epoché da falsa dicotomia entre
ordem e desordem, com que tinha dividido as águas agitadas
do Modernismo, opta pelas metáforas musicais do "ritmo
espontâneo" e do "contraponto" e físicas, da lei "do fluxo e
do refluxo", demarcando, portanto, sua lateralidade, compre
ensiva, neutralizadora, engenhosa, de um entrelugar que
mantém a complexidade e a hibridez do tempo moderno
periférico, mas sem anular a possibilidade interpretativa
pelo recurso figurai.
É escusado aludir ao amplo repertório teórico — não
só brasileiro — que essa idéia de terceiridade evoca, do

185
questionamento do "O entre-lugar do discurso latino-ameri
cano" de Silviano Santiago, em 1971,'^° mais em geral da
celebrada categorização do in-hetweeness dos estudos cul
turais com que Homi Bhabha representa a hibridez como a
irredutível in-betweeness da cultura diaspórica que não possi
bilita nenhuma experiência plena do passado e do presente,
da visibilidade e da invisibilidade, do dentro e do fora, da
pertença e do exílio, mas é no espaço indeterminado entre
duas culturas que se podem negociar as diferenças.'^' Também,
uma referência importante a ser feita é a do Atlas, de Serres,
com a bela leitura da Le horta, de Maupassant, onde o filósofo
francês aponta para os espaços do "entre" como áreas de inter
ferência largamente por explorar onde os saberes hegemô
nicos se transformam e é então possível criar uma cartografia
outra, um mapa alternativo, justamente projetável no espaço
branco da preposição "entre",''^ entre local e global, mudança
e permanência, o que define inclusive uma intuição profunda
sobre a forma do Brasil moderno e os desajustes da sua
formação analisados no ensaio.
Vale a pena convocar aqui a recente sociologia dos inters
tícios assim como a recorta Giovanni Gasparini que pode
contribuir a iluminar o funcionamento da pausa momentânea
de Sérgio. O interstício tem uma dimensão dual, além da apa
rência que o limita ao espaço como distância normalmente
mínima que separa dois corpos ou duas partes do mesmo
corpo ientre-deux, in-between etc.). Mas é a outra vertente, a
temporal, enquanto intervalo, pausa, suspensão, que permite
o resgate de momentos em geral compreendidos entre tempos
socialmente marginais"'^ que estende suas possibilidades
interpretativas. Em uma rearticulação mais recente, Gasparini
distingue entre dois grupos principais de interstícios: um
primeiro que inclui os que remetem para a descontinuidade
entre experiência, fenômeno e realidade aproximando-se da
idéia de limes, de limite, portanto, com um valor distintivo
claro; um segundo grupo, pelo contrário, implica a idéia de
continuidade e de transição, definindo-se assim como limen,
como limiar secundando o continuum ou o intercâmbio entre
tempos, espaços.''''
O que se pode depreender de RdB, a partir dessas consi
derações críticas, é que se com certeza é intersticial a posição

186
crítica do ensaio, como vimos, fica menos imediato pensar na
tipologia do interstício. Por um lado, a suspensão funciona
como uma paragem, isto é, como um interstício temporaP'
que problematiza a periodização dentro da modernidade.
Também intersticial é a configuração espacial, entre campo
e cidade só para citar uma topologia saliente. Mas o que é
estimulante apreender, examinando RdB pelo horizonte inters
ticial, é que o próprio texto funciona intersticialmente, sendo
limite espaço-temporal de uma cultura, mas também, em
contemporâneo, limiar de uma crise, de uma passagem
("Nossa Revolução").
A característica de RdB nesse sentido é de se inscrever
entre limen e Umes, de limite e de limiar, delineando desse
modo uma orla que ao mesmo tempo se dilacera e não retém
ou delimita. Essa figura latente, literalmente diria — com um
trocadilho paronomástico — liminal, com sua dualidade
semântica de interstício, talvez possa explicar porque a obra
apresenta, quase 70 anos depois da sua saída, uma compaci-
dade tão grande, conjugando formação e forma da nação num
eixo espaço-temporal onde a formação pode ter se comple
tado (podendo-nos apreciar o limite), mas as formas da
formação perfuram essa borda histórica transitando para além.
Figuras complexas e modernas, que mostram como o
ensaio, depreendido de algum modo da experiência crítico-
cultural, se rearticule enquanto base crítica. É por isso
também que a impressão que surge nesse percurso é que o
potencial interpretativo definido por RdB não fica avulso do
resto da atividade intelectual, mas, pelo contrário, acaba
voltando para a crítica literária, definindo assim uma osmose
constante entre o histórico e o crítico (mais um interstício que
então aqui se define!). De fato, na época do regresso para a
crítica de jornal, em finais da década de 40, nos tempos em
que Sérgio se autodefine um "bissexto da crítica" iEL II: 35)
o legado de RdB reemerge fragmentário, porém de modo
bem reconhecível (já a partir do primeiro artigo de 48, "Missão
e profissão" ou em ecos como em "O sentido universal da
literatura francesa I" onde se pergunta: "Não seríamos nós
mesmos, de algum modo, uns desterrados na nossa terra?"
iEL II: 113). Como se torna evidente, a questão crítica da
periodização de que RdB faz experiência, no sentido que a

187
própria obra assim como a esboçamos no estudo funciona
como problematização cronosófica em termos de cânone
periodológico historiográfico, encontra sustento no momento
em que as relações entre os dois campos sào repautadas
(emblematicamente no artigo "Crítica e história", se afirma
em chave simmeliana que "as expressões da cultura são
essencialmente mutáveis", EL II: 306). Não é por acaso que
esse texto é assumido por Arnoni Prado como termo periodi-
zador da época em que o "historiador encontra o crítico",
ou seja, quando a preocupação para as questões metodoló
gicas se agudiza sensivelmente. É nessa conjuntura que a
transdisciplinaridade se torna essencial para a crítica: assim
se compreende como pode surgir de um outro famoso artigo,
"Domínio rococó", de 53, uma importante reflexão sobre o
intersticialismo praticado também em RdB, um artifício her
menêutico que, como nota Arnoni Prado, lhe possibilitara,
na crítica ao modernismo,

ampliar a notação do recorte como traço integrador de


contextos inconciliáveis, um desvio que, no âmbito de nossa
tradição literária, permitiu revelar como formas distintas e muitas
vezes opostas escondem "certas zonas de contato e mesmo
laços secretos' que justificam e parecem reclamar um trata
mento comum, quando não se explicam 'pela própria contra-
riedade".'^

Mas é preciso citar diretamente a fonte para apreender o


elo crítico direto que o remete para a década de 30:

O esforço dos que procuram isolar do curso da história


alguma fase particular — a do Renascimento, por exemplo,
ou a do Barroco —, a fim de melhor apreciá-la em seus
motivos e suas características e suas características indivi
duais, têm encontrado objeções muitas vezes ponderáveis.
(...) É inevitável, no entanto, quando se trate de abraçar
uma daquelas fases, destacá-la provisoriamente do pro
cesso histórico onde se inserem, moderar-lhe o ritmo, se
não imobilizá-la, tentar discernir, onde possível, seus verda
deiros limites, em favor dessa espécie de visão unitária
requerida pelo mister de historiador. Há em tudo isso, sem
dúvida, um artifício, mas artifício prestimoso e que apre
senta suas vantagens reais, desde que seja tido simples
mente como tal. Para melhor apreender a continuidade

188
histórica é forçoso introduzir uma pausa momentânea ou
um adágio no curso dos acontecimentos, sem o que mal se
poderá perceber como nelas se entrelaçam os pensamentos
e as obras dos homens. O artifício assemelha-se, no fundo,
ao do observador ou julgador de uma contenda esportiva
que recorre, para maior segurança do juízo, à câmara
lenta. A ilusão de numerosos historiadores, diferentes
daquele julgador ou observador, está em que se deixam
ao cabo enlear pela limpidez da imagem assim obtida, pela
nitidez dos seus contorno, e se esquecem, não raro, do arti
fício que os tornou possíveis. (584-585).

Além da tonalidade afim a RdB, o artigo mostra a cons


ciência da operação metodológica já praticada, da suspensão,
da pausa, exibindo, no entanto, também seus limites, sobre
tudo quando se caracteriza pela fixidez aplicativa. A preocu
pação metodológica não parece remeter para um "método
fluido para problemas movediço" como também foi definida
a ductilidade crítica de SBH (Süssekind: 141-142) mas para
uma atitude muito lúcida e autodescanonizadora. O que
evidencia de certo modo como aqui talvez se encontre uma
raiz fundamental da crítica literária buarquiana que explique
o valor da sua contribuição teórica, uma contribuição dispersa
e fragmentária, que se origina em particular no artigo do
jornal. A própria forma do texto, sua concisão exemplar, o
ato crítico como aforismo, já em si exige uma suspensão da
continuidade histórica, como se viu, enquanto artifício inter-
pretativo, o que acaba por tornar a crítica, além do seu valor
implícito, um instrumento essencial, um repertório de glosas,
de notas de rodapé, da obra maior de Sérgio.
Trata-se de uma crítica cujo contraponto se fixa entre a
circunstância que a origina (o livro por resenhar) e uma idéia
mais profunda do "território cultural" que talvez fique neces
sariamente encoberta na exigüidade do recorte do artigo,
contraponto pelo qual há, porém, sempre um resto, um tempo,
algo que não se recompõe e permanece precário, realinhando
assim os diferentes fragmentos num "ornato" que, sem pre
tensões totalizadoras, pode dar conta, quase com uma função
vicária testemunhai, de uma modernidade cultural e de seus
processos de articulação não desprovidos de contradições e
tensões.

189
Nesse quadro, RdBs& coloca como "núcleo íntimo", crítico,
de uma visão da modernidade, cuja irresoluçào, temporali-
dades em aberto, restos que não se diluem, reatualizam uma
chave interpretativa decisiva no pensamento de Sérgio. Ela é
a glosa essencial daquela idéia dilacerada que contempo-
raneamente divide e se reconjuga, sendo ao mesmo tempo
limes e limen, fronteira e trânsito do embate do moderno na
história periférica da pós colônia, isto é, de um Brasil que
não é mais colônia, mas que contemporaneamente ainda não
é nação.
E talvez aqui se possa finalmente enxergar o traço recom-
positivo da dispersão de idéias e signos de Sérgio, a centrali-
dade de uma idéia plural e compósita de cultura (de Kultur,
se poderia especificar, recuperando a distinção que o alemão
codifica em relação à Zivilisation) e da reflexão que insinua
na história da formação nacional, uma história necessária e
obrigatoriamente "póstuma", com poucos documentos e
muitos restos e cacos por examinar e interpretar, recons
truindo assim aquele discurso de muitos silêncios que
representa os mapas de um Brasil redescoberto, trágico e
moderno, na poeira depositada de mil palavras abusadas.
Um Brasil que se deixa compreender somente partindo dos
lutos e das perdas, desenterrando-lhe justamente as raízes
remanescentes que uma história grávida de tensões e traumas
deixa ainda localizar.

NOTAS

' A cartografia aqui se deve entender como uma das multíplices "narrativas
de nação" cuja formulação — na verdade uma tradução — é bem frisada
pela homologia proposta por Guerreiro Ramos: "A transformação de um
espaço geográfico em uma nação é comparável ao nascimento da cultura".
Oproblema nacional do Brasil. Rio de Janeiro: ISEB, 1960. p. 27.
^ Cf. COSTA LIMA, Luiz. Terra ignota. A construção de Os sertões. Rio de
Janeiro: Civilização Brasileira, 1997. p.l6l-l62.
' Não é por acaso que o termo sema não só remete para o signo, mas
originariamente expressa a pedra tumulária.
^ Veja-se ZUMTHOR, Paul. La misura dei mondo. La rappresentazione
dello spazio nel Médio Evo. Tr. it. de S. Vavaro. Bologna: II Mulino,
1995. p. 328-330 (Ed. org. 1993).

190
^ SCHLEGEL, Friedrick. Kritische Ausgabe seiner Werke. BEHLER, E. (Ed.).
München-Wien: Schõningh-Padeborn, 1958. 1930.
^ IGLESIAS, Francisco. Sérgio Buarque de Holanda historiador. In: SALOMÃO,
J. (Dir.). Sérgio Buarque de Holanda. 3° Colóquio da UERJ. Rio de Janeiro:
Imago. 1992. p. 25.
' A partir de agora, as citações das duas obras de Sérgio mais utilizadas no
presente ensaio, ou seja. Raízes do Brasil, 18. ed. Rio de Janeiro: José
Olympio, 1984 e O espírito e a letra (1920-1947). PRADO, Antônio Amoni.
(Org.). São Paulo: Companhia das Letras, 1996. I e II, serão indicadas
com as siglas RdB e EL \ e II, seguidas pela indicação da página direta
mente no corpo do texto.
® MUSIL, 'Rohexi.Romanzi brevi, novelle e aforismi. Torino: Einaudi, 1986,
p. 754.
' SÜSSEKIND, Flora. Outra nota. Comentário ao texto "Nota breve sobre
Sérgio crítico" de Antônio Arnoni Prado. In: AA.W., Sérgio Buarque de
Holanda. 3° Colóquio UERJ. op. cit., p. 136.
CÂNDIDO, Antonio. Sérgio em Berlim e depois. In: . Vários escritos.
3. ed. São Paulo: Livraria Duas Cidades, 1995. p. 328 e 330-331.
'' cf. IGLESIAS, F. Op.cit., p. 22-23 e VECCHI, Roberto (2000a). Ratos cordiais
e raízes daninhas: formas da formação. In. PESAVENTO, Sandra (Org.).
Leituras cruzadas. Diálogos da história com a literatura. Porto Alegre:
Editora da UFRGS, 2000. p. 93.
CROCE, Benedetto. Teoria e storia e delia storiografia. Milano: Adelphi,
1989. p. 119.
'^HANSEN, João Adolfo. Dom Casmurro. Simulacrum and allegory. In:
Graham Richard (Ed.). Machado de Assis. Reflections on a brazilian master
writer. Austin: University of Texas Press, 1999. p. 28.
AGAMBEN, Giorgio. II tempo che resta. Torino: Boliati Boringhieri, 2000.
BENJAMIN, Walter. Sul concetto di storia. BONOLA, Gianfranco; RANCHETTI,
Michele (Org.). Torino: Einaudi, 1997. 183-184. (Ed. org. 1966-1974)
'^SCHMITT, Carl (1991). II nomos delia terra. VOLPI, Franco (Ed.). 2. ed.
Milano: Adelphi, 1991. p. 43 (Ed. org. Berlim, 1974).
" A metáfora se refere à análise espectrográfica que o materialista histórico
executa na estrutura da história. Cf. Ms 1099, Benjamin 1997. p. 101.
Cf., por exemplo, ROCHA, João Cezar de Castro. Literatura e cordialidade.
O público e o privado na cultura brasileira. Rio de Janeiro: EdUERJ, 1998.
'^POMIAN, Krzysztof. Periodizzazione. Enciclopédia Einaudi. Torino:
Einaudi, 1980. p. 647 e 639.
" Cf. PRADO, Antônio Arnoni (1998). Raízes do Brasil e o modernismo. In:
CÂNDIDO, Antonio (Org.). Sérgio Buarque de Holanda e o Brasil. São
Paulo: Fundação Perseu Abramo, 1998. p. 79-80; MONTEIRO, Pedro
Meira. A queda do aventureiro. Campinas: Ed. da UNICAMP, 1999. p.
255; VECCHI, Roberto. Remetaforizaçôes modernistas. Sistema metafó
rico e imagem histórica em Raízes do Brasil. Rivista di Studi Portoghesi e
Brasiliani, Pisa, n. II, p. 63, 2000 .

191
Veja-se a introdução a EL, II. p. 15.
PRADO, Antônio Arnoni. Raízes do Brasil e o modernismo, op. cit., p. 77.
Idem. Nota breve sobre Sérgio crítico. In: AA.VV. Sérgio Buarqiie de
Holanda. 3° Coióquio UERJ. Rio de Janeiro: Imago, 1992. p. 122.
VECCHI, Roberto. A insustentável leveza do passado que não pa.ssa: senti
mento e ressentimento do tempo dentro e fora do cânone modernista. In:
BRESCIANI, Stella; NAXARA, Márcia (Org.). Memória e (res)sentimentos
indagações sobre uma quesião sensível. Campinas: Editora da UNICAMP,
2001. p. 469.
-'Cf. POMIAN, K. Op.cit., p. 637.
DECCA, Edgar Salvadori de. Decifra-me ou te devoro. As metáforas
em Raízes do Brasil. Rivista di Sladi Portoghesi e Brasiliani, Pisa, n. II,
p. 48, 2000.
ANDRADE, Mário de. Evolução social da música brasileira. In: Aspectos da
música brasileira. São Paulo: Livraria Martins, 1965. p. 34.
Retiro as referências e a citação gramsciana do livro de BAR/VTTA, Giorgio.
Le roseeiquademi. Saggiosul pensiero di Antonio Gramsci. Roma: Gambe-
retti, 2000. p. 116-121 que agradeço pela discussão sobre o tema.
Cf. PRADO. Antônio Arnoni. Raízes do Brasil e o modernismo, op. cit., p.
71-80 e MONTEIRO. P. Meira. Op. cit., p. 254-258.
É interessante, no confronto com a de Sérgio, a explicação da metáfora
formulada por Said: "Se reexaminarmos o arquivo da cultura, começamos a
relê-lo de modo não unívoco mas contraponiístico, com a percepção
simultânea tanto da história metropolitana que é narrada quanto das outras
histórias contra as quais Ce com as quais) o discurso dominante age. No
contraponto da música clássica ocidental vários temas se opõem um ao
outro, e só temporariamente se dá a procminência a este ou ao outro; no
entanto, na polifonia que resulta há concerto e ordem, uma interação
recíproca organizada que decorre dos próprios temas e não de um prin
cípio externo da obra, rigorosamente melódico e formal. (Tradução minha
da edição italiana SAID, Edward. Cultura e imperialismo. Letteratura e
consenso nel progetto coloniale dcirOccidente. Trad. it. de CHIARINI,
s.; TAGLIAVINI, A. Roma; Gambereiti, 1998. p. 76.
ARNHEIM, R. (1969). Ordine e complessità nelia progettazione dei pae.saggio.
In: Verso una psicologia deirarte. Trad. it. Torino: Einaudi, 1969. p. 165;
Idem. Entropia e arte. Saggio sul di.sordine e Tordine. Trad. it. Torino:
Einaudi, 1989. p. 19.
ARANTES, Paulo. Sentimento da dialética na experiência intelectual brasi
leira. Dialética e dualidade segundo Antonio Cândido e Roberto Schwarz.
Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1992. p. 21.

MONTEIRO, P. Meira. Op. cit., p. 19-

CÂNDIDO, Antonio. A visão política de Sérgio Buarque de Holanda. In:


. (Org.). Sérgio Buarque de Holanda e o Brasil. São Paulo: Fundação
Perseu Abramo, 1998. p. 84.

192
WEGNER, Robert. A conquista cio oeste. A fronteira na obra de Sérgio
Buarquc de Holanda. Belo Horizonte: Editora UFMG, 2000. p. 50.
^'"CÂNDIDO, Antonio. A visão política de Sérgio Buarque de Holanda,
op. cit., p. 87.

Ibidem, 88.

HUSSERL, Edmund (2002). Idee per iin fenomenologia pura e per una
filosofia fenomenologica. Libro primo: Introduzione generale alia feno
menologia pura. COSTA, Vincenzo (Ed.). Torino: Einaudi, 2002. p. 70
(Ed. org. 1950).
•''' Ibidem, p. 72-73.
'""Entre o sacrifício e o jogo, entre a prisão e a transgressão, entre a
submissão a ou código e a agressão, entre a obediência e a rebelião,
entre a assimilação e a expressão, — ali, nesse lugar aparentemente
vazio, seu templo e seu lugar de clandestinidade, ali, se realiza o ritual
antropófago da literatura latino-americana". SANTIAGO, Silviano. O entre-
lugar do discurso latino-americano. In: . Uma literatura nos trópicos.
São Paulo: Perspectiva, 1978. p. 28.
" BHABHA, Homi K. (1996). Culture's In-Between. In; HALL, Stuart;
DUGAY, Paul. (Ed.). Questionsofcidtural identity. London: Sage. Bhabha,
1996. p. 56.
•'^SERRES, Michel (1994). Atlas. Paris. Julliard, 1994. p. 24-25.
GASPARINI, Giovanni. Sociologia degli interstizi. Viaggio, attesa, silenzio,
sorpresa, dono. Milano: Bruno Mondatori, 1998. p. 2.
•" Idem. Interstizi. Una sociologia delia uita quotidiana. Roma: Carocci, 2002.
p. 8-9.

Ibidem, 14.

PRADO, Antônio Arnoni. Adagio ma non troppo. Suplemento Mais!, Folha


de S. Paulo, p. 26, 23 jun. 2002.

193
SOBRE OS AUTORES

Sandra Jatahy Pesavento, historiadora. Doutora em História


pela Universidade de São Paulo, pesquisadora do CNPq e
professora titular de História do Brasil da Universidade
Federal do Rio Grande do Sul, onde atua nos cursos de
graduação e pós-graduação em História e pós-graduação
em Urbanismo. Publicou, entre outras obras, O imaginário
da cidade: representações literárias do urbano (1999).

Jacques Leenbardt, sociólogo e filósofo, é doutor em Socio


logia pela Université de Paris X, habilitado a dirigir trabalhos
de pesquisa na Université de Paris VII. É diretor de estudos
na École des Hautes Études en Sciences Sociales (Paris), onde
dirige uma equipe de pesquisa sobre as funções imaginárias
e sociais das artes e das literaturas. Publicou, entre outras
obras, Lire Ia lecture(\9S2').

Chiara Vangelista, historiadora e brasilianista. Doutora em


Ciência Política pela Universitá di Torino. Pesquisadora as
sociada da Facoltá di Scienze Politiche e Dipartimento di
Studi Politici da Universitá degli Studi di Torino. É autora,
entre outras obras, de Os braços da lavoura (1991).

Ettore Finazzi-Agrò, crítico literário, brasilianista e lusita-


nista. Doutor em Filologia Moderna pela Universitá di Roma,
onde é professor titular de Literatura Portuguesa e Brasi
leira; leciona nos cursos de graduação e pós-graduação em
Línguas e Literaturas Modernas. Publicou, entre outras obras,
Um lugar do tamanho do mundo. Tempos e espaços da ficção
em Guimarães Rosa. Editora UFMG, 2001.

Roberto Vecchi, crítico literário, brasilianista e lusitanista.


Doutor em Literaturas Estrangeiras pela Universitá di Bologna.
Professor associado de Literaturas Portuguesa e Brasileira na
Faculdade de Línguas e Literaturas Estrangeiras e no Programa
de Doutorado em Iberística da Universitá di Bologna (Itália).
Organizou e publicou, com Ettore Finazzi-Agrò, Formas e
mediações do trágico moderno. Uma leitura do Brasil (2004).

196
H U M A N

DIRETORA DA COLEÇÃO
Heloísa Starling

1. DO SÓTÃO À VITRINE, memórias de mulheres


Maria José Motta Viana

2. A IDÉIA DEJUSTIÇA EM KANT, seu fundamento na liberdade


e na igualdade
Joaquim Carlos Salgado

3. ELEMENTOS DE TEORIA GERAL DO DIREITO


Edgar da Mata Machado

4. O ARTESÃO DA MEMÓRIA NO VALE DO JEQUmNHONHA


Vera Lúcia Felício Pereira

5. OS CINCO PARADOXOS DA MODERNIDADE - 2^ reimpressão


Antoine Compagnon

6. LIÇÕES DE ALMANAQUE, um estudo semiótico


Vera Casa Nova

7. MÚLTIPLOS OLHARES SOBREEDUCAÇÃO E CULTURA -


reimpressão
Juarez Dayrell (Org.)

8. ANTROPOLOGIA DA VIAGEM, escravos e libertos em Minas


Gerais no século XIX
Ilka Boaventura Leite

9. O TRABALHO DA CITAÇÃO
Antoine Compagnon

10. IMAGENS DA MEMÓRIA, entre o legível e o visível


César Guimarães

U. AO LADO ESQUERDO DO PAI


Sabrina Sedlmayer

12. .«4 ASTÚCIA DAS PALAVRAS, ensaios sobre Guimarães Rosa


Lauro Belchior Mendes e Luiz Cláudio Vieira de Oliveira (Org.)
13. NAVEGAR É PRECISO, VIVER, escritospara Silviano Santiago
Eneida Maria de Souza e Wander Melo Miranda (Org.)

14. ADORNOS, nove ensaios sobre ofilósofofrankfurtiano


Rodrigo Duarte

15. A ONTOLOGIA DA REALIDADE - 2® reimpressão


Humberto Maturana

16. VÍSCERAS DA MEMÓRIA, uma leitura da obra de Pedro Nava


Antônio Sérgio Bueno

17. NA TESSITURA DA CENA, A VIDA, comunicação,


sociabilidade e política
Maria Céres Pimenta Spínola Castro

18. NAVEGANTES DA INTEGRAÇÃO, os remeiros do rio São Francisco


Zanoni Neves

19. PÉ PRETO NO BARRO BRANCO, a língua dos negros


da Tabatinga
Sônia Queiroz

20. JORNALISMO E VIDA SOCIAL, a história amena de um


jornal mineiro
Vera Veiga França

21. EMOÇÕES E UNGUAGEM NA EDUCAÇÃO E NA POLÍTICA -


2® reimpressão
Humberto Maturana

22. HANNAH ARENDT E A BANAUDADE DO MAL


Nádia Souki

23. PONTOSE BORDADOS, escritos de história epolítica - 1® reimpressão


José Murilo de Carvalho

24. A DEMOCRACIA CONTRA O ESTADO, Marx e o momento


maquiaveliano
Miguel Abensour

25. O LOCAL DA CULTURA - 2® reimpressão


Homi K. Bhabha

26. LUZES E TREVAS, Minas Gerais no século XVIII


Fábio Lucas

27. LÚCIO CARDOSO, a travessia da escrita


Ruth Silviano Brandão (Org.)
28. FILOSOFIA ANALÍTICA, PRAGMATISMO E CIÊNCIA
Paulo Roberto Margutti Pinto, Cristina Magro, Ernesto Perini
Frizzera Santos e Lívia Mara Guimarães (Org.)

29. BELO, SUBLIME E KANT


Rodrigo Duarte (Org.)

30. A FORMAÇÃO DO HOMEM MODERNO VISTA ATRAVÉS DA


ARQUITETURA - P reimpressão
Carlos Antônio Leite Brandão

31- A PEDRA MAGICA DO DISCURSO (2® edição revista e ampliada)


Eneida Maria de Souza

32. O FILME DENTRO DO FILME


Ana Lúcia Andrade

33- O ESPELHO DE HERÓDOTO, ensaio sobre a representação


do outro
François Hartog

34. NORMA E CONFUTO, aspectos da história de Minas no século XVW


Laura de Mello e Souza

35. .<40 LEITOR SEMMEDO, Hobbes escrevendo contra o seu tempo


(2^ edição)
Renato Janine Ribeiro

36. UBERAUSMO E SINDICATO NO BRASIL (4" edição revista)


Luiz Wemeck Vianna

37. ESCREVER A CASA PORTUGUESA


Jorge Fernandes da Silveira (Org.)

38. POLÍTICA E RECUPERAÇÃO ECONÔMICA EM MINAS GERAIS


Otávio Soares Dulci

39. A INVENÇÃO DA VERDADE


Olímpio Pimenta

40. A REVOLUÇÃO URBANA - P reimpressão


Henri Lefebvre

41. ODEMÔNIO DA TEORIA, literatura e sensocomum- 2® reimpressão


Antoine Compagnon

42. HERMENÊUTICA E POESIA, o pensamento poético


Benedito Nunes

43. O CONDOR VOA, literatura e cultura latino-americanas


Antonio Comejo Polar
44. INTERFACES, literatura mito inconsciente cognição
Maria Luiza Ramos

45. QUID TUM? o combate da arte em Leon Battista Alberti


Carlos Antônio Leite Brandão

46. NIETZSCHE, dasforças cósmicas aos valores humanos


Scarlett Marton

47. A FORÇADA LETRA, estilo escrita representação


Lúcia Castello Branco e Ruth Silviano Brandão (Org.)

48. TEORIA E POUTICA DA IRONIA


Linda Hutcheon

49. POLÍTICA E RACIONALIDADE, problemas de teoria e método de


uma sociologia crítica da política
Fábio Wanderley Reis

50. ASMISSÕES JESUtnCAS E O PENSAMENTO POIIHCO MODERNO,


encontros culturais, aventuras teóricas
José Eisenberg

51. PENSARA REPÚBLICA - P reimpressão


Newton Bignotto (Org.)

52. TEORIA SOCIAL E MODERNIDADE NO BRASIL


Leonardo Avritzer e José Maurício Domingues (Org.)

53. CULTURA E POLÍTICA NOS MOVIMENTOS SOCIAIS


LATINO-AMERICANOS, novas leituras
Sônia E. Alvarez, Evelina Dagnino e Arturo Escobar (Org.)
54. AMERICANOS, representações da identidade nacional no
Brasil e nos EUA
Lúcia Lippi Oliveira

55. A CONQUISTA DO OESTE, a fronteira na obra de Sérgio


Buarque de Holanda
Robert Wegner

56. A POÉTICA DO HIPOCENTAURO, literatura, sociedade


e discursoficcional em Luciano de Samósata
Jacyntho Lins Brandão

57. UM VISIONÁRIO NA CORTEDE D.JOÃO V, revolta e milenarisno


nas Minas Gerais
Adriana Romeiro

58. COGNIÇÃO, CIÊNCIA E VIDA COTIDIANA


Humberto Maturana
59. O FILÓSOFO E O COMEDIANTE, ensaiossobreliteratura efilosofia
na Ilustração
Frankiin de Matos

60. MÍMESIS E EXPRESSÃO


Rodrigo Duarte e Virgínia Figueiredo (Org.)

61. A EXAUSTÃO DA DIFERENÇA, a política dos estudos culturais


latino-americanos
Alberto Moreiras

62. HANNAH ARENDT, diálogos, reflexões, memórias -reimpressão


Eduardo Jardim de Moraes e Newton Bignotto (Org.)

63. BEHEMOTH OU O LONGO PARLAMENTO


Thomas Hobbes

64. A HISTÓRIA DE HOMERO A SANTO AGOSTINHO


François Hartog (Org.)

65. ORIGENS DO REPUBUCANISMO MODERNO


Newton Bignotto

66. DARCYRIBEIRO, sociologia de um indisciplinado


Helena Bomeny

67. DIÁLOGOS OCEÂNICOS, Minas Gerais e as novasabordagenspara


uma história do Império Ultramarino Português
Júnia Ferreira Furtado (Org.)

68. CHARLES FREDERICK HARTT, UM NATURALISTA


NO IMPÉRIO DE PEDRO II
Marcus Vinícius de Freitas

69. A TRADIÇÃO ESQUECIDA, Os parceiros do Rio Bonito e a sociologia


deAntonio Cândido
Luiz Carlos Jackson

70. A MOBILIDADE DAS FRONTEIRAS, inserções da geografia na crise


da modernidade
Cássio Eduardo Viana Hissa

71. REISNEGROS NO BRASIL ESCRAVISTA, história da festa de


coroação de Rei Congo
Marina de Mello e Souza

72. A ESCOLA DE MINASDE OURO PRETO, o peso da glória


(2® edição revista)
José Murilo de Carvalho
73. HOMO SACER, o poder soberano e a vida nua I
Giorgio Agamben

74. ESTAÇÃO IMAGEM, desafios


Paulo Bernardo e Vera Casa Nova (Org.)

75. FRANCIS BACON E A FUNDAMENTAÇÃO


DA CIÊNCIA COMO TECNOLOGIA
Bernardo Jefferson de Oliveira

76. A CRISE NÃO MODERNA DA UNIVERSIDADE MODERNA (.epílogo


de O conflito das faculdades)
Willy Thayer

77. DIALÉTICA DO OLHAR, WalterBenjamin e o Projeto das Passagens


Susan Buck-Morss

78. O CORPO DO DEUTO, um manual


Josefina Ludmer

79. CRÍTICA CULT


Eneida Maria de Souza

80. VALORES, arte mercado política


Reinaldo Marques e Lúcia Helena Vilela (Org.)
81. INTERVENÇÕES CRÍTICAS, arte, cultura, gênero epolítica
Nelly Richard

82. TEMPO PRESENTE, do MDB a FHC


Fábio Wanderley Reis

83. AS CORESDE ERCÍLLA, esfera pública, democracia,


configurações pós-nacionais
Sérgio Costa

84. A DEMOCRACIA E OS TRÊS PODERES NO BRASIL


Luiz Wemeck Vianna (Org.)

85. INTERNET E POLÍTICA, teoria e prática da democracia eletrônica


José Eisenberg e Marco Cepik (Org.)
86. OSSONS DO ROSÃRIO, o congado mineiro dos Arturos eJatobá
Glaura Lucas

87. ÉTICA, POLÍTICA E CULTURA


Ivan Domingues, Paulo Roberto Margutti Pinto e
Rodrigo Duarte (Org.)

88. ANTROPÓLOGAS & ANTROPOLOGIA


Marisa Corrêa
89. O CÁLCULO DO CONFLITO, estabilidade e crise na política brasileira
Wanderley Guilherme dos Santos

90. OS CRIMES DO TEXTO, Rubem Fonseca e a ficção contemporânea


Vera Lúcia Follain de Figueiredo

91. O DILEMA DO CENTAURO, ensaios de teoria da história


epensamento latino-americano
Antonio Mitre

92. ALEGORIAS DA DERROTA, a ficção pós-ditatorial e o trabalho de


luto na América Latina
Ideiber Avelar

93. DA DIÁSPORA, identidades e mediações culturais


Stuart Hall

94. MEMÓRIAS VIDENTES DO BRASIL, a obra de Pedro Nava


José Maria Cançado

95. AS FUNÇÕES DA RETÓRICA PARLAMENTAR NA


REVOLUÇÃO FRANCESA, estudos preliminares para
uma pragmática histórica do texto
Hans Ulrich Gumbrecht

96. A DOENÇA DO ISLÃ


Abdelwahab Meddeb

97. HISTÓRIAS LOCAIS / PROJETOS GLOBAIS, colonialidade,


saberes subalternos epensamento liminar
Walter D. Mignolo

98. TEORIA CRÍTICA DA INDÚSTRIA CULTURAL


Rodrigo Duarte

99. MEMÓRIA DE ULISSES, narrativas sobre a fronteira na


Grécia antiga
François Hartog

100. A GEOGRAFIA DO CRIME, áreas de violência nas minas


setecentistas
Carla Maria Junho Anastasia

101. O CUIDADO COM O MUNDO, diálogo entre Hannah Arendt e


alguns de seus contemporâneos
Sylvie Courtine-Denamy

102. RETORNO AO REPUBLICANISMO


Sérgio Cardoso (Org.)
103. AS PEDRAS E O ARCO, fontes primárias, teoria e história
da literatura
Regina Zilberman, Maria Eunice Moreira, Maria da Glória Bordini e
Maria Luíza Ritzel Remédios

104. FICÇÔES DE FUNDAÇÃO, os romances nacionais da


América Latina
Doris Sommer

105. IDENTIDADES VIRTUAIS, uma leitura do retrato fotográfico


Annateresa Fabris

106. DIONISISMO, PODER E SOCIEDADE na Grécia até o fim da


época clássica
José Antonio Dabdab Trabulsi

107. IMAGENS DA DESIGUALDADE


Celi Scalon (Org.)

108. ENSAIOS DE SOCIOLOGIA, teoria e pesquisa


José Maurício Domingues

109. A PROPÓSITO DE ÁGUAS VIRTUOSAS, formação e ocorrências


de uma estação balneária no Brasil
Stelio Marras

110. EMPRESÁRIOS, INTERESSES E MERCADO, dilemas do


desenvolvimento no Brasil
Eli Diniz e Renato Boschi

111. UNIVERSIDADE E DEMOCRACIA, experiências e alternativas para a


ampliação do acesso à universidade pública brasileira
Maria do Carmo de Lacerda Pebcoto (Org.)

112. ANTROPOLOGIAS, HISTÓRIAS, EXPERIÊNCIAS


Fernanda Arêas Peixoto, Heioisa Pontes e Lilia Moritz Schwarcz (Org.)

113. O PAPEL DO INTELECTUAL HOJE


Izabel Margato e Renato Cordeiro Gomes (Org.)
114. A CONVENIÊNCIA DA CULTURA: usosda cultura na era global
George Yúdice

115. O COSMOPOUnSMO DO POBRE, crítica literária e crítica cultural


Silviano Santiago

116. COMPETÊNCIA EM TRADUÇÃO, cognição e discurso


Adriana Pagano, Célia Magalhães e Fábio Alves (Org.)

117. CONHECIMENTO E TRANSDISCIPUNARIDADE II, aspectos


metodológicos
Ivan Domingues (Org.)
118. DAS VANGUARDAS A BRASÍLIA, cultura urbana e arquitetura na
América Latina
Adrián Gorelik

119. AS HLOSOFIAS DE SCHELUNG


Fernando Rey Puente e Leonardo Alves Vieira (Org.)
120. A MÜSICA ENTRA EMCENA, o rap e ofunk na socialização da
juventude
Juarez Dayrell

121. INFÂNCIA E HISTÓRIA, destruição da experiência e origem da


história
Giorgio Agamben

122. UM HISTORIADOR NAS FRONTEIRAS, o Brasil de Sérgio Buarque


de Holanda
Sandra Jatahy Pesavento (Org.)
A presente edição foi composta pela Editora
UFMG, em caracteres Gatineau e impressa
pela Rona Editora, em sistema offset, papel
offset 90g (miolo) e cartão supremo 250g
(capa), em julho de 2005.
então vigentes. Nesta medida, a questão
da retórica, da Intertextualidade, das
interlocuções, explícitas e implícitas,
mesmo as contradições da escrita e da
argumentação do autor, mobilizaram as
preocupações dos pesquisadores. Um
outro eixo, que marcou as preocupações
dos autores deste livro, foi dado pela
incorporação das noções de tempo e
de espaço que percorreram a obra de
Sérgio Buarque de Holanda e que se
configuram como vetores de seu enten
dimento sobre a realidade brasileira,
onde comparece com força a noção de
fronteira. Mesmo que Raízes do Brasil
seja a obra buarquiana mais analisada
pelos autores, outros livros de Sérgio
encontram-se contemplados no con
junto de textos que integram Um histo
riador nas fronteiras: o Brasil de Sérgio
Buarque de Holanda.
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í'
ISKS 85-7041-480-3

788570 4 1 4809

Este livro reúne

textos de autoria de

Sandra Jatahy Pesavento,


Jacques Leenhardt,
Chiara Vangelista,
Ettore Finazzi-Agrò
e Roberto Vecchí.