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UM HISTORIADOR
NAS FRONTEIRAS
O Brasil de Sérgio Buarque de Holanda
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Sérgio Buarque de Holanda é autor
consagrado, merecendo figurar como
um dos maiores, senão o maior, histo
riador do Brasil. Sobre ele, muito se tem
escrito, e talvez possa parecer mesmo
ousadia tentar ainda mais uma relei-
EDITORA UFMG
Diretor: Wander Melo Miranda
Vice-Diretora: Heloisa Maria Murgel Starling
CONSELHO EDITORIAL
Belo Horizonte
Editora UFMG
2005
2005, Os autores
2005, Editora UFMG
Este livro ou parte dele não pode ser reproduzido por qualquer meio
sem autorização escrita do Editor.
196p. - (Humanitas)
Inclui referências.
ISBN: 85-7041-480-3
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CDU: 981-051
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APOIO: CAPES/COFECUB
U M A R I o
PREFÁCIO
Eliana de Freitas Dutra
CARTOGRAFIAS DO TEMPO:
palimpsestos na escrita da história
Sandra Jatahy Pesavento 17
A TRAMA E O TEXTO:
história com figuras
Ettore Finazzi-Agrò 143
10
É justamente um mergulho profundo nessas ricas e contro
versas possibilidades analíticas presentes no conjunto da obra
histórica, crítica e ensaística de Sérgio Buarque de Holanda,
o que fazem os autores deste livro, nào por acaso, intitulado
Um historiador nasfronteiras: o Brasil de Sérgio Buarque de
Holanda. De fato, nosso autor não apenas se movimenta
com desenvoltura entre as fronteiras disciplinares da história,
da sociologia, da literatura, mas elege o tema da fronteira
como um dos pontos nucleares da sua obra, transformado-o,
conquanto um princípio hermenêutico, em espaço privilegiado,
seja do encontro ou do desencontro, de povos, de valores,
de concepções, de práticas, de tradições, de projetos e de
epistemologias.
A análise das repercussões do exercício da crítica literária
buarquiana nos seus escritos de história e ensaios, a mobi
lização da experiência modernista do autor na sua prática
cognitiva e estética, a identificação das cartografias do tempo,
do espaço e das interpretações presentes na obra desse histo
riador, a relação lógica e temática entre as suas várias obras,
as implicações dos impasses e das tensões detectados na evo
lução histórica brasileira e mantidos no trajeto analítico
seguido pelo autor, o vínculo das obras de Sérgio Buarque
com as conjunturas históricas de sua realização, o peso, na
sua formação, do período de estudos na Alemanha são
algumas questões, entre outras, analisadas com refinamento
e ousadia interpretativa pelos autores aqui reunidos, que
revisitam parte expressiva da obra de Sérgio Buarque a
partir da noção de fronteira.
Daí que passado e presente, urbano e rural, arcaico e
moderno, ordem e desordem, do norte e do sul, mar e
sertão, experiência e fantasia, são espaços em que a metá
fora geográfica da fronteira, com suas margens e limites,
cede lugar a um mapa da cultura nacional em seus vários
ângulos, tal como nos lembra Roberto Vecchi, no seu texto
"Atlas intersticial do tempo do fim: 'Nossa Revolução'", ao se
referir a uma possível cartografia da obra de Sérgio Buarque.
No que, aliás, é acompanhado por outros autores deste livro,
a exemplo de Chiara Vangelista e Sandra Jatahy Pesavento.
Têm razão os autores ao tomarem conceitualmente para si
as diretivas do empreendimento dos cartógrafos, as quais,
como sabemos, se destinam a traçar uma forma visível de
11
uma totalidade, dotando de coerência virtual um conjunto
imaginário. No interior dessa forma, nas franjas desse con
junto, é que Vecchi nos traz as tensões e os impasses nos
espaços da fronteira temporal — por ele visualizada como um
Atlas Instersticial — na obra Raízes do Brasil. A colisão tem
poral entre as sobrevivências do passado colonial e a moder
nidade que se anuncia é o que para Vecchi faz do tempo anun-
ciador desse ensaio, qual seja, os anos 1930, um "entre tempo",
em que o compromisso estético, a opção pelo ensaio-afo-
rismo, o recurso às metáforas cognitivas e aos pares de opo
sição mobilizados pelo historiador no texto seriam tributários
do Sérgio Buarque de Holanda crítico/militante/modernista,
que precede e prepara o Sérgio Buarque historiador. Como
sempre, situado na fronteira!
Por seu lado, a autora Chiara Vangelista vai pontuar a ins
crição da noção buarquiana de fronteira no interior de uma
elaboração cultural do território que, desde a era Vargas, se
vinculou aos projetos de redefinição cultural da identidade
nacional — tendo como pano de fundo a crença de que no
nosso passado colonial estaria posta a origem da nacionali
dade brasileira. A autora escolhe o binômio espaço/fronteira
como instrumento privilegiado para, — no texto "'Sua vocação
estaria no caminho': espaço, território e fronteira" — carto
grafar o traçado interpretativo da obra de Sérgio Buarque
de Holanda, num longo trajeto que vai de Raízes do Brasil,
de 1936, à Extremo Oeste, texto de 1986, passando por
Monções, de 1945, Caminhos e Fronteiras, de 1956, e Visão
do Paraíso, de 1959. A análise diacrônica dessas várias obras,
de forma a identificar os matizes, as mudanças, a evolução e
até mesmo as contradições das análises realizadas pelo autor,
não impede que a autora sugira um fio condutor entre as obras
escolhidas: qual seja, a transformação e individualização do
território brasileiro em espaço nacional. Sua sugestão ganha
maior densidade e fundamentação no inventário que faz dos
usos realizados pelo autor dos termos espaço e fronteira, bem
como na exploração que empreende da imagem da dimensão
territorial do Brasil colonial tal como a fez Sérgio Buarque,
onde sobressaem as contraposições entre o norte, estável,
e o sul, em movimento, o que apesar da presença do papel
da coroa ao lado dos paulistas como atores da construção
territorial do Brasil, realizada no registro da aventura, fazem
12
desses últimos seus verdadeiros artífices. A fronteira compre
endida como ligada mais ao território, marcado pela criativi
dade e capacidade de adaptação daqueles que o tomam uma
realidade, e menos como espaço histórico, da vida civil, é ponto
para o qual converge a problematizaçào do texto de Chiara
Vangelista, que conclui vendo na desordem dos caminhos e
itinerários que o gentio e as "gentes" de São Paulo desenham
no território do Brasil — produto do encontro da cartografia
indígena e da cartografia histórica da mobilidade paulista —
a raiz não européia da sua fundação.
De fato, em que pesem os múltiplos sentidos atribuídos à
noção de fronteira por Sérgio Buarque na obra Caminhos e
fronteiras a perspectiva do território parece mesmo ganhar
um relevo no seu contraste com o espaço histórico, pensado
como um espaço das instituições, da política, da vida social,
se acompanharmos com atenção certas afirmações do autor.
Ao assinalar a necessária incorporação de práticas e hábitos
dos gentios pelos colonizadores e por vezes sua vitória
sobre os costumes dos adventistas, ele o faz referindo-se
sempre à vida material e afirma que tal incorporação se
realizava "enquanto não fosse possível uma comunidade
civil e bem composta segundo os moldes europeus." Aqui
fica registrada a fragilidade, se não a impossibilidade de exis
tência de um verdadeiro espaço da política — no momento
da aventura colonial da expansão territorial — o qual pres
supõe uma experiência dialógica e contratual. Por isso o diá
logo, possível, se dá entre técnicas, hábitos, costumes e
crenças. A ausência das ditas "maneiras civis" teria favore
cido, assim, os intercursos no campo da cultura material, o
qual segundo a chave de leitura de Sérgio Buarque seria o
espaço onde se forjou a cultura ela mesma.
Por isso mesmo Ettore Finazzi-Agrò, no texto intitulado
"A trama e o texto: história com figuras", considera o livro
Caminhos efronteiras como obra-chave para a compreensão
da formação cultural do Brasil. E, nos processos de transcul-
turação nela revelados, visualiza a chave do dinamismo da
história cultural brasileira que, com sua multiplicidade de
movimentos, ativos nos hábitos, nas técnicas, nos objetos
da vida cotidiana, alcançam o presente e o atualizam.
Nessa obra considerada pelo autor como de fronteira,
porque situada entre Raízes do Brasil e Visão do paraíso, ele
13
vê no dinamismo cultural presente em Caminhos e fronteiras
a superação dos impasses de Raízes do Brasil — os quais
identifica como a presença insidiosa do passado bloqueando
a revolução e a história. É certo que, tal como leituras histo-
riográficas recentes da obra buarquiana têm demonstrado, a
tensão encontrada entre o passado ibérico e os valores do
mundo moderno e urbano, encontrada em Raízes do Brasil,
não existe mais em Caminhos e fronteiras, devido à dinami-
zação mencionada, na qual as trocas culturais jogam um papel
decisivo, implodindo diferenças e hierarquias entre os adven-
tistas e o gentio. Aqui, convém lembrar que no coração dessa
dinamização está não só a noção de fronteira, entre paisagens,
populações, instituições, técnicas, idiomas, tal como empre
gada por Sérgio Buarque, mas também a de plasticidade das
culturas. Esta plasticidade, que a nosso ver engendra a visão
buarquiana de cultura como um "entre lugar", é o que se
realiza no que Ettore Finazzi-Agrò chama de "lugares-comuns
culturais", marcada pela troca incessante, a coexistência e os
cruzamentos de práticas, discursos, percursos. Por isso mesmo
esse autor encontra em Caminhos e fronteiras o paradigma
hermenêutico que a seu ver orienta o núcleo mais importante
da obra de Sérgio Buarque, porquanto um paradigma estru
turado, segundo ele, na passagem, no trânsito, entre "conceito
e imagem", "história e literatura", "evento e representação" e
entre "fato e rastro".
Nesse ponto, sua análise é de certo modo convergente com
a de Sandra Jatahy Pesavento, autora do texto "Cartografias
do tempo: palimpsestos na escrita da história". Com a dispo
sição de explorar a relação entre a escrita e a obra de Sérgio
Buarque, a autora elege como rota analítica refazer o percurso
do autor, ou melhor, realizar uma arqueologia da concepção
de história que informou sua prática historiadora, partindo
de dois eixos fundamentais: as leituras feitas por Sérgio
durante sua estada em Berlim, as quais incluíram, entre
outros, Ranke, Droysen, Dilthey, Weber, Sombart, e as impli
cações das mesmas no conceito de tempo histórico mobili
zado pelo autor em Raízes do Brasil, e no texto menos conhe
cido que deu luz a esse ensaio, qual seja o artigo "Corpo e
alma do Brasil", publicado em 1935, na revista Espelho.
Se o período alemão foi decisivo para a formação de uma
sensibilidade frente às várias temporalidades sociais, também
o foi, nos propõe a autora, para o contato com as primeiras
14
formulações que introduziram a problemática da figuração
do tempo na escrita da história. É por essa via, qual seja, a
da utilização de procedimentos ficcionais, que a autora afirma a
dimensão de palimpsesto da escrita buarquiana. As raízes,
assim, seriam puro efeito retórico utilizado na tradução da
idéia de duração do tempo, da qual é expressão, por exemplo,
o homem cordial. Dessa forma, no trânsito, entre o passado,
com os valores da tradição ibérica; o presente da escrita de
Raízes do Brasil, repleto das tensões, disputas inovações
daqueles anos 1930, e o futuro, como promessa, encarnado
pelo dinamismo paulista/bandeirante, o tempo se investe da
condição de pedra de toque das "raízes" dessa obra de
Sérgio Buarque de Holanda. Mas, sua figuração, sem as
marcas da historicidade, e seu vínculo estreito com o artigo
"Corpo e alma do Brasil", sugere a autora, teriam deixado o
ensaio Raízes do Brasil mais próximo do terreno ficcional, e,
ou, do fato estetizado, e mais afastado do terreno da história,
e do rastro do fato, com a licença de Ettore Finazzi-Agrò.
Nesta linha, pode-se argumentar que a minúcia da pesquisa
documental, que vai marcar as obras posteriores de Sérgio
Buarque — em particular Caminhos e fronteiras e Visão do
paraíso— seria um elemento a mais a fazer do seu famoso
ensaio, e por isso mesmo ensaio, uma obra de trânsito entre
a história e literatura.
Não menos provocativo, mas igualmente preocupado em
resgatar a historicidade do ensaio Raízes do Brasil, é o texto
"Frente ao presente do passado: as raízes portuguesas do
Brasil", de Jacques Leenhardt. Entre os vários textos que
compõem este livro, este é mais um a trazer outra reflexão
instigante, a qual aponta, com sutileza, certas hesitações e
asperezas do pensamento de Sérgio Buarque de Holanda,
bem como sua participação numa gramática da época, a qual
não prescindiu nas suas explicações sobre o Brasil — em
sintonia com boa parte da intelectualidade do período —
do recurso a certas categorias determinantes, de fundo
sociopsicológico, a exemplo de apatia, aptidão natural, ins
tinto, caráter, vontade, energia, espontaneidade natural,
mentalidade as quais nos anos 1930 inundaram o pensa
mento social então em formação.
Determinado a buscar a especificidade do pensamento de
Sérgio Buarque no curso desses anos, e no interior de um
15
movimento que considerava imperiosa de definição do "homem
brasileiro", o autor, nesse texto, não reluta em recusar uma
perspectiva apologética para o texto Raízes do Brasil, o qual
ele afirma ser "um ensaio sobre a crise da sociedade brasileira
contemporânea analisada sob o ângulo da permanência da
herança mental portuguesa." Nesta linha, direciona um olhar
crítico sobre a forma e o resultado da análise com a qual
Sérgio Buarque sustentou a idéia de que essa herança se cons
tituiu em entrave ao futuro brasileiro.
Tomando estrategicamente como objeto da sua leitura a
primeira edição de Raízes do Brasil, e não as edições poste
riores revistas pelo autor, sua avaliação crítica nada tem de
complacente com o célebre ensaio, o qual, no seu entender,
não disponibilizaria ao leitor nenhum horizonte político de
alternativa; sofreria de uma crise de explicação, uma vez
enredado num impasse de múltiplas causalidades; conteria
uma análise do aventureirismo ibérico que acumularia argu
mentos teóricos e explicativos ao invés de articulá-los, do
que resultariam as contradições que o enfraquecem; abri
garia explicações de fundo teológico, tal como no caso da
sua fundamentação do personalismo ibérico; padeceria de
anacronismos conceituais, quando da utilização de conceitos,
como o de tipo ideal trabalhador/empreendedor, deslocados
para o período colonial — pela força da necessidade de
Sérgio Buarque em pensar e diagnosticar o presente, dos
anos 1930; reforçaria o papel organizador do Estado e desva
lorizaria a ação política, conquanto ecos das leituras do
teórico Karl Schmitt. Na sua linha de problematização de
Raízes do Brasil, o autor somente não seguiu a trilha da
análise dos possíveis vínculos de Sérgio Buarque com o
romantismo, com seu enlace entre razão/sentimento e a
força da religiosidade. Nada lhe escapa, ao tentar restituir a
contribuição desse ensaio ao debate travado em sua época
acerca do tema da identidade nacional, bem como aos limites
das leituras que aquele debate comportou.
É ler para conferir! Neste livro, fascinante, sobre um histo
riador na fronteira, analisado na fronteira da interdiscipli-
naridade, a última palavra fica com o leitor.
16
SANDRA JATAHY PESAVENTO
CARTOGWFIAS 00 TEMPO
PALIIIfSESIOS N* [SCIITA »* HISIÓII*
CARTOGRAFIAS DO SOCIAL,
RECONFIGURAÇÕES DO TEMPO
18
Sabemos que SBH, antes de escrever sua obra, estivera,
de 1929 a 1930, a viajar, pesquisar e estudar na Europa, parti
cularmente em Berlim , na Alemanha, onde, na República de
Weimar, vivia-se num clima de intensa vida cultural. Como
refere Iglesias, mesmo que SBH nào tenha deixado textos
memorialísticos, nos quais permita refazer seu caminho inte
lectual, é de supor que tenha lido e tomado conhecimento
com as obras de Wemer Sombart, Max Weber, Bertolt Brecht,
Franz Kafka e Rainer Maria Rilke,^ ou mesmo Georg Simmel,
como sugere Gabriel Cohn, em recente artigo.^
A partir do seu estágio em Berlim, vamos ao encontro de
algumas leituras alemãs de SBH — certas ou prováveis — como
Johann Martin Chladenius, Leopold von Ranke, Johannes
Gustav Droysen, Willelm Dilthey, Max Weber e Werner
Sombart —, sempre em busca de poder surpreender como
ele teria construído a sua concepção de tempo a partir de
tais leituras, aplicando-as em sua obra de 1936.
Para fins de entender as possíveis influências destas leituras
sobre a escrita de Raízes, de SBH, é preciso reter, no cruza
mento que se faça da obra do autor com as idéias destes
pensadores, o fato de que todos eles, com as suas diferenças
e especificidades, pertenciam todos a uma vertente do que
se poderia chamar de um culturalismo alemão, ou, como
será chamada pelos críticos marxistas, de um idealismo, com
inspiração em Hegel e Kant. Tais autores teriam trabalhado
a história como uma sucessão de sentidos, com variações
construídas no tempo, através do resgate de traços do espí
rito, do mental, do sensível.
Trata-se, contudo, de realizar uma leitura de SBH através
de um estabelecimento de possíveis, pois nosso autor não
primava por esclarecer ao leitor suas fontes de inspiração
teórica. Há autores que ele cita, explicitamente, e outros,
implícitos, mas que deixam as marcas de sua presença no
texto buarquiano. Por outro lado, não se pretende abordar
tais cruzamentos como um mero empréstimo de idéias, pois
SBH reelaborava as leituras feitas, dando feição própria à
sua narrativa histórica.
Falar de inspiração intelectual, no plano dos conceitos que
se traduzem em um fazer história é admitir a criação narrativa
19
em meio a uma tessitura constante de leituras, admitindo que
a escrita é sempre um palimpsesto onde se superpõem idéias,
noções, estratégias, conteúdos, que possibilitam novas abor
dagens. Um texto dá a ver um outro subjacente, ou remete a
um terceiro, composto em teia de relações pela atividade da
leitura, e pensar a escrita de SBH historiador é, de alguma
forma, tentar refazer estes caminhos, textuais e de idéias, que
se entrelaçam.
A discussão sobre o tempo estava na pauta do debate inte
lectual da época, o que implicava repensar o estatuto da
escrita da história, e que, forçosamente, deve ter levado SBH
a um questionamento de suas leituras de juventude, apoiadas
em Francisco Adolpho de Varnhagen, Capistrano de Abreu,
Paulo Prado, e mesmo sua vivência modernista no Rio de
Janeiro, junto a Prudente de Moraes Neto. As questões em
pauta — objetividade e subjetividade, ciência e arte, verdade
e ficção — tornam-se pressupostos para um debate que se
abre sobre a produção dos discursos que, sob diferentes
ângulos e com distintos graus de comprometimento sobre o
real, dizem e produzem representações sobre o mundo.
Nossa estratégia de abordagem será, então, a de tentar
situar as idéias sobre o tempo de nosso autor e expressas em
Raízes, hipoteticamente advindas de suas leituras do período
alemão e de sua participação no clima intelectual deste tempo
e lugar, para poder analisar sua escrita enquanto historiador.
Trata-se de realizar uma espécie de bordado, de um entretecer
de fios de pensamento, caprichoso, indireto, sinuoso, emara
nhado no cruzamento de idéias, no resgate daquela questão
colocada: como SBH estabeleceu a sua noção de tempo, na
construção de um espaço histórico. Nesta leitura que fazemos,
o tempo será tomado como a referência primordial de análise,
estando o espaço, enquanto território — espaço apropriado
pelo homem — subsumido a esta reflexão, sem que, contudo,
deixe de estar presente.
A partir da identificação e possível incorporação de tais
pressupostos conceituais — incontornáveis, no caso de um
historiador — nos voltaremos para a análise do seu texto,
para avaliar como, na tarefa de reconfiguração temporal, SBH
transita da ficcionalidade e da subjetividade do escritor para
as marcas de historicidade, ou seja, os dados invariantes e
20
objetivos que lhe chegam como fonte ou documento. Em
outras palavras, queremos discutir que história é esta que
faz SBH.
21
Complementando Chladenius, Schlozer e Gatterer avançam
nesta vertente da historiografia Iluminista alemã, adiantando
que a tarefa de obter a verdade na história seria a de estabe
lecer a inteligibilidade entre a singularidade do passado e o
sistema mais amplo no qual se insere em uma história uni
versal.
Cabe notar que, mesmo estabelecendo a crítica das fontes
como uma tarefa precípua na produção do conhecimento
histórico, se insinua uma nova postura, que admite a exis
tência de diferentes versões e que deposita no historiador
uma autoridade especial para este resgate da inteligibilidade
deste passado.
No decorrer do século XIX, a escola histórica alemã posi
cionou-se contra a corrente Iluminista. Apoiada em um empi-
rismo metódico voltado para as histórias nacionais, esta
escola histórica era animada, por vezes, por um idealismo,
ponto bastante ressaltado pelos seus críticos. Mesmo que
os historiadores alemães das Luzes pudessem ter ficado por
longo tempo no ostracismo, cabe referir que seus enunciados
não seriam estranhos à postura de SBH, como se verá depois.
O maior nome da historiografia alemã bistoricista/histo-
rista foi Leopold von Ranke (1795-1886), de quem SBH foi
leitor confesso, tendo sobre ele organizado o volume História,
dentro da coleção "Grandes Cientistas Sociais", publicado
pela Editora Ática em 1979- Nesta obra, SBH escreve a intro
dução, chamando-a "O atual e o inatual em L. von Ranke",^
artigo originalmente publicado na Revista de História, n. 100,
de 1974.
Atentemos, contudo, que estas são reflexões de SBH da
década de 1970, o que não nos garante que tenha sido sua
leitura no fim dos anos 1920, havendo pois um gap de 50
anos. Nada nos assegura que tenha sido esta a compreensão
do autor na época da escrita da obra Raízes, em 1936.
Será a leitura de Raízes que nos poderá sugerir indícios
de uma intertextualidade com Ranke, sempre tendo em vista
a questão que nos propomos resolver: a noção de tempo ou
de espaço histórico, construída e trabalhada por SBH.
Cabe dizer que a leitura de Ranke por SBH na década de
1970 é renovadora, pois a crítica do século XX foi extrema
mente dura para com Ranke, seja desde o ponto de vista dos
22
historiadores marxistas, seja desde a posição daqueles ali
nhados com a escola francesa dos Annales.
Historiadores marxistas, como Joseph Fontana,^ enten
deram a historiografia rankiana como condizente com uma
postura reacionária, herdeira dos traços mais conservadores
da Ilustração e interessada em criar um nacionalismo alemão
com forte poder de agregação. Fontana define esta postura
como historicista, a defender os localismos e as peculiari
dades históricas de cada povo para combater o universalismo
da postura de um Hegel, que poderia levar a um aprofunda
mento revolucionário das idéias herdadas da Ilustração. Para
seus críticos marxistas, Ranke seria o grande nome do histo-
ricismo e, mesmo afirmando-se apolítico e pretendendo
"mostrar as coisas tal como elas haviam sucedido", realizara
uma história politicamente engajada com o fortalecimento do
Estado prussiano, "abrindo caminho a uma política sã e
segura", distante das seduções enganosas de seu tempo. A
história rankiana afirmara-se como uma história política e,
no dizer de Fontana,^ a identificação entre os conceitos de
"estado" e "nação" era consciente e deliberada, pois ele
eliminava da história interesses sociais, lutas de classe e
modos de subsistência, que debilitariam a coesão social e
a subserviência ao poder.
Já no viés da historiografia francesa dos Annales, o histo
riador inglês Peter Burke comenta que a postura de Ranke
seria a de uma história narrativa nos velhos moldes, apresen
tando um relato de forma evolutiva e cronológica, mas sem
análise,® no qual pusera em destaque uma história política
em detrimento de uma história social. A história praticada
por Ranke acabara por ser entendida como não científica e
carente de um método preciso.
Segundo Burke, a verdadeira revolução propiciada por
Ranke nos domínios da história deveu-se ao destaque do seu
conteúdo documental e do estabelecimento de um método
científico, que realizava o controle das fontes, para avaliar
se eram fidedignas ou não. Tudo, portanto, dentro de um
viés caracterizado por um extremo rigorismo conservador, a
chocar-se com as novas tendências de uma história social e
cultural.
23
A partir deste princípio inaugurado por Ranke no domínio
da história — a valorização das fontes e a necessidade de um
método, tal como fazia Comte com relação à sociologia —,
os materiais dos quais se valiam os historiadores do social
passavam a não ser considerados científicos, ou seja, não
eram documentos oficiais e, portanto, não eram confiáveis.^
A Ranke se deveria, assim, a consolidação de um paradigma
científico para a história, relegando outros campos de tra
balho e pesquisa ao mero diletantismo.
Em termos gerais, Leopold von Ranke acabou por ser
visualizado como um modelo de rigor, de método, de respeito
a regras, de estabelecimento de uma continuidade no tempo,
de evolução cronológica dos fatos, assegurados, na sua auten
ticidade, pelos documentos de arquivo, engessando a história
na cientificidade que lhe é atribuída.
Em conseqüência, Ranke eliminava a representação do
processo de feitura da história, pois pretendera reconstituir
a própria vida, trazendo o passado para o presente. Mesmo
que, no prólogo à sua obra História dos povos românicos e
germânicos, publicada em 1824, Ranke tivesse dito que a
história tinha a missão dejulgar o passado, instruir o presente
em benefício do futuro, reiterava que não aspirava a tão ele
vado encargo. Entendia que sua tarefa era mostrar o passado
tal como teria sido. O crivo do historiador selecionaria fontes
ao que se seguiria a aplicação de um método para a apresen
tação estrita dos fatos, de forma a compor uma unidade e
estabelecer uma evolução dos acontecimentos, o que cons
tituía uma espécie de lei suprema da história.Tal procedi
mento, científico, possibilitaria trazer o passado ao presente,
na sua verdade do acontecido.
Não encontramos, entretanto, tal rigor e tal objetividade
na obra de SBH, seja sobre uma rigorosa crítica de fontes,
seja pelo entendimento de que nestas residiria uma espécie
de espelho do real. A leitura e a inspiração que o historiador
alemão lhe despertou parece ter sido de outra ordem.
Em primeiro lugar, há que ter em conta que, de uma certa
forma, Ranke reformulou a história da Europa, a partir da
suas histórias de nações. Talvez se possa atribuir a SBH esta
ambição, de alguma forma explícita em Raízes do Brasil.
reformular a escrita do Brasil, talvez mesmo da América Latina,
24
na sua proposta de integrá-la, de forma mais ampla, a uma
história européia e ibérica. Igualmente, se Ranke se caracte
riza pela escrita de uma história política, enquadrada nas
correntes universais de poder e de espírito predominantes em
cada época,^^ SBH também acaba por discutir, como questões
centrais, a forma pela qual o poder público é dominado pelo
privado e como se constitui a mentalidade, o espírito ou as
sensibilidades dominantes entre ibéricos, latino-americanos
e brasileiros.
Mas este SBH dos anos 1970 resgata em Ranke também
outras idéias. Segundo nosso autor, a importância de Leopold
von Ranke — ou a sua atualidade — residiria em ter chamado
a atenção dos historiadores para duas idéias: sentido e descon-
tinuidadeP
2S
transformava com o tempo, sem o que era impossível entender
a noçào de processo histórico.
Segundo a leitura de Ranke por SBH, o historiador alemão
entendia a história como a trajetória dos homens no tempo,
em movimento de contínua reatualização e renovação de signi
ficados, de acordo com o momento e o lugar. Escudier reforça
esta leitura de Ranke, ao afirmar que, para os historistas, todo
trabalho bistoriográfico toma-se antes de tudo um trabalho
sobre a diferença,^'' ou seja, a de expor, pela construção narra
tiva, uma diferença no tempo.
Neste sentido, o historiador alemão não se colocava como
partidário de um tempo homogêneo, contínuo e retilíneo, a
exemplo das ciências naturais, sem começo nem fim, qual
um tempo cósmico linear. Com isso, SBH desfazia a tradi
cional crítica que era imputada ao historiador alemão: a de
estabelecer uma linha evolutiva de um tempo igual e repetido.
Leopold von Ranke tinha como pressuposto uma outra noção
de tempo: ele concebia tempos históricos distintos no seu
acontecer e na sua apreensão.
A experiência humana no tempo era múltipla e única ao
mesmo tempo. Tudo o que acontecera um dia — fatos, perso
nagens, ações — seria historicizado e, portanto, único no
seu acontecer. Ranke só conceberia idéias históricas, ou seja,
idéias no tempo}^ Se cada tempo valia por si mesmo, SBH
identifica em Ranke o conceito da temporalidade múltipla,
não só da experiência ímpar do vivido, mas da descoberta de
significados pelo historiador.
Do plano do acontecer para o plano da interpretação, o
passado apresentava ao historiador a imprevisibilidade da
história: cada momento era passível de uma interpretação ou
da construção de um sentido diferente, mas estes signifi
cados não se davam a ver de maneira direta, precisando
ser descobertos pela atividade de pesquisa do historiador.'^
Caberia ao historiador mostrar tal como as coisas efetiva
mente se sucederam no tempo, mergulhando na busca de como
algo ocorrera, para chegar à significação construída no pas
sado. Para tanto, Ranke indicava o caminho: a pesquisa de
arquivo, o desenterrar dos documentos, a sua análise crite
riosa, para resgatar a experiência dos homens no passado,
26
fosse no plano de um fato isolado ou no das grandes uni
dades de sentido de uma época. Ao historiador, mostrava
Ranke, cabia organizar, numa ordem plausível, o emaranhado
dos acontecimentos, muitas vezes invisível a olho nu. Mais
ainda, a sua familiaridade com as fontes lhe tornaria uma
espécie de testemunha ocular}^ Como Tucídides, o histo
riador é aquele que leu, pesquisou e tem a capacidade de
interpretar, como fala autorizada sobre o passado.
Seu terreno de ação era esta temporalidade, múltipla e
descontínua, a permitir tanto a unicidade como o ineditismo
na história, e que obrigava o historiador a buscar, em cada
contexto, um sentido a revelar aos seus leitores.
Notemos a importância que é dada à interpretação do
historiador, no uso da fonte, de sua erudição, da leitura que
vai de um texto a outro, cruzando conteúdos e significados.
A subjetividade do historiador, no caso, se defronta com a
objetividade do traço, revelando uma escrita que insinua a
presença da ficção mas que se depara com a invariabilidade
do documento. Todos estes, a rigor, são impasses presentes
nos debates contemporâneos da história cultural.
Eis, pois, o ponto-chave da atualidade da concepção
rankiana da história e da compreensão da escrita da his
tória, segundo a leitura que dele viria a fazer SBH. Vários
tempos, vários ritmos, vários significados, o que confirmava
a tarefa do historiador como aquele incumbido de revelar os
sentidos construídos em cada tempo, jamais iguais, destacando
a importância da pesquisa e da reconstituição da experiência,
única e múltipla, no tempo.
Como pressuposto da narrativa de Ranke, é preciso referir
que este defendia, no século XIX, a cientificidade da história,
portadora de um método específico e analisando as fontes.
A história era a ciência do único, e não fazia generalizações.
Assim, quando Ranke afirmava que o historiador devia mostrar
as coisas tal qual se passaram, tanto expunha as mudanças
do tempo histórico quanto revelava a capacitação e autori
dade do historiador para desvendar os sentidos do passado,
a controlar sua subjetividade diante do material de arquivo.
Com isso, Ranke declarava o fim de princípios eternos e
universalmente válidos, indo contra uma história dotada de
27
um sentido ou de uma finalidade, permanente e imutável, a
determinar que tudo era previsível.
A busca de sentido, procurada pelo historiador, não seria,
pois, a de um sentido geral ou teleológico para a história.
Não se tratava de endossar uma filosofia da história, que cons
truísse terminalidades e fins, mas sim de buscar um sentido
no tempo do acontecido, este espaço histórico, este lugar no
tempo, onde algo teria ocorrido no passado.
Para Ranke, só havia margem para uma história científica,
objetiva em seus resultados e produzida com o controle da
subjetividade, e não para uma filosofia da história, tal como
a que fazia seu contemporâneo e grande rival, Johann Gustav
Droysen (1808-1884).'^
Sigamos um pouco as idéias de Droysen, não através da
referência explícita de SBH — que sem dúvida o leu, mas
não o citou —, mas sim através da exposição do próprio
autor, tido como filósofo da história e como um precursor da
hermenêutica.
28
qual o historiador procura coletar e selecionar os docu
mentos históricos a partir dos quais ele buscará responder
a uma questão proposta; a crítica das fontes, que permite
apreciar o grau de veracidade contido nos traços do passado;
a interpretação, fruto da reflexão do historiador, fase na qual
se estabelecem as relações de significado entre as diferentes
fontes, testando as hipóteses e a exposição histórica, mise
en intrigue ou construção da narrativa.^'
Droysen entendia que tanto a natureza quanto a história,
o espaço e o tempo eram concepções geradas pela mente
dos homens a partir da percepção empírica do mundo."
Ora, para Droysen, o que fazia com que se formasse,
desde o caos das percepções sensíveis do mundo empírico, a
construção de um saber acumulado sobre o passado, era
uma vontade do espírito. A história, percepção humana da
mutabilidade no tempo, surgia desta vontade, ou este querer
atribuir sentido às coisas, fazendo com que a realidade se
constituísse como um mundo moral, ou seja, qualificado,
dotado de valor e significados.
Até aqui, podemos ver a interação epistemológica cons
truída por Droysen para mostrar como a ciência da história
era um resultado de percepções sensoriais, de experiências e
de pesquisas empíricas sobre o real." Era esta capacidade
humana de atribuir sentido às coisas — formando, ao longo
do tempo, a humanitas, ou cultura — o real conteúdo da
história.
29
tempo a ser representado pelo historiador. Assim, Droysen
tratava também as fontes ou registros do passado, este material
imprescindível ao empirismo da história, como representações
construídas em um outro tempo, cabendo ao historiador, por
seu turno, representar o já representado.
Neste caso, a história seria, verdadeiramente, uma ciência?
Remontando à Poética, de Aristóteles, Droysen recolhia a
famosa afirmação de que o filósofo grego não considerava a
história como uma ciência e que pensava que a poesia era
mais filosófica do que a história, pois tratava do geral, en
quanto que a história se ocupava do particular.^^
A questão se renovava ao longo do tempo, tanto durante a
Ilustração, com a pretensão da filosofia em ser a única ciência,
quanto com o racionalismo do século XIX, que afirmava o
primado das ciências naturais, ficando sempre a história em
uma situação ambígua.
Considerava Droysen que uma acepção da história enquanto
ciência devia passar, forçosamente, pela especificidade do
seu material empírico, que já chegava ao historiador enquanto
representação.
30
ser atingido e tornar-se compreensível, pois fora expresso
pela linguagem e construído como representação.
Como meta final, o historiador buscava sempre atingir
motivações, sentimentos, razões, singulares ou coletivas,
deixados nos traços materiais em acontecimentos únicos e
singulares. Estes sentidos construídos no tempo do passado
poderiam tornar-se inteligíveis para o historiador, mas dentro
de certos limites, ponderava Droysen.
Não se tratava de conferir, objetivamente ou em amplitude
aquilo que teria ocorrido em outro tempo, mas de ter em
conta que havia uma diferença no tempo: os historiadores
buscavam, sempre, ampliar nossa compreensão — estreita,
parcial, obscura^^— das representações do passado.
Este seria, para o autor, algo a ser assinalado nos domínios
do fazer história. Para Droysen, "nada poderia atingir a reali
dade passada",e a necessidade de enfrentar o desafio do
tetos, reconstruindo uma experiência vivida a partir da multi
plicidade dos materiais de arquivo, obrigaria o historiador a
ter em conta que o saber histórico permaneceria sempre
incompleto ou parcial. Há, pois, na visão de Droysen, a
concepção da história como uma possibilidade de resgate
dos sentidos do passado, e não uma certeza.
Entretanto, assinalava Droysen, alguns historiadores
estavam a servir-se dos meios ficcionais para elaborar a sua
narrativa do tempo escoado. Neste ponto, o historiador
Droysen, a filosofar sobre sua disciplina, encontrava um flanco
vulnerável para criticar seu colega historiador Ranke.
Comentando a tarefa da exposição histórica, Droysen aler
tava, em comentário sarcástico a seu rival: "celebra-se hoje
como o maior dos historiadores de nossa era aquele do
qual a maneira de expor se encontra mais próxima da de
um romance de Walter Scott..."^'
Postulando a verdade nua como o ideal incondicional de
todo historiador,^^ Leopold von Ranke chegara a insurgir-se
contra as liberdades tomadas pelo romance histórico com
relação às fontes. Rejeitava toda e qualquer qualidade esté
tica do texto, mesmo que, na busca da precisão estrita dos
fatos acontecidos, a narrativa pudesse vir a ficar limitada e
desgraciosa}^
31
Mas a almejada objetividade de Ranke, pautada pelo mé
todo e pelas fontes, era mitigada por uma bela escrita e por
uma espécie de intuição,^^ que se traduzia em uma narrativa
viva e colorida, em relato quase plástico das situações e
personagens apresentados.
Neste sentido, a introdução do texto no qual Leopold von
Ranke traça o perfil da figura histórica de Temístocles nos dá
uma idéia da construção literária de sua narrativa:
32
próprios à narrativa ficcional, apoiados em uma postura esté
tica de escrever? Isto, no mínimo, reduziria suas pretensões à
objetividade, à tarefa de apresentar o passado tal havia sido
um dia...
33
Ciência & Objetividade x Arte & Subjetividade, e como esta
tensão se colocava diante da necessidade de contar o tempo
passado? Esta era uma questão que se colocava para aqueles
herdeiros do Iluminismo, na tradição de Kant e Hegel, que se
abrigavam no seio da postura conhecida como Culturalismo
Alemão e que se voltava para o debate sobre o mundo das
idéias, do mental, do espírito, do sensível, da cultura. Com
relação à história, esta era visualizada como uma sucessão
de sentidos no tempo.
Se SBH se posicionou diante deste debate epistemológico,
integrante do clima intelectual de sua época, a obra Raízes
deveria revelar tais tensões.
34
domínio da história estaria presente em Gustav Droysen, o
não citado por SBH, pelos pressupostos que construiu para
pensar a escrita da história no tempo, pelo delineamento das
operações mentais que presidiam a construção de sentidos
sobre o mundo e, sobretudo, pela análise da percepção
sensível que qualificava a realidade através do tempo. Não é
possível esquecer, ainda, que Droysen formulara, com muita
precisão, a presença da representação no início e no final da
tarefa do historiador, postura avançada para a introdução de
uma História Cultural contemporânea.
Tanto Ranke como Droysen, seu rival, haviam se dedicado,
em sua época, cada qual a seu modo, em definir a história
como um conhecimento científico, com método e rigor, orde
nando o pensamento interpretativo dos intelectuais.
O pensamento de SBH, contudo, tal como se vê em Raízes
do Brasil, voa, divaga, brinca com os conhecimentos de sua
bagagem cultural... É tudo, menos metódico ou seqüencial...
Antes sugere do que afirma, em termos de suas influências
e leituras, salvo o texto construído cerca de cinco décadas
depois do lançamento de Raízes, sobre Ranke.
Por outro lado, estas suas apreciações sobre Ranke, ex-post
às leituras berlinenses e à escrita de Raízes, apontam para
uma inspiração bistorista da construção buarquiana da noção
de tempo. Historista sem a conotação relativista, ou seja, posi
tivada? Historista, talvez, ou mais precisamente hermêutical
Para tanto, será preciso avançar nesta cadeia de leituras
certas, provavelmente datadas de sua estadia alemã. E, neste
sentido, há outros prováveis alemães na bagagem de leituras
de SBH como, por exemplo, Wilhelm Dilthey (1833-1911).
Historiador e filósofo, Dilthey, este outro alemão bistofista
e bermeneiita, daria maior relevo à cultura, afastando-se do
viés propriamente político da análise de Ranke, mas também
empenhado em estabelecer a história como um conhecimento
científico. Entretanto, enquanto Ranke e Droysen posicionam-se
do lado das ciências da natureza, Dilthey acrescenta uma outra
dimensão àquela do mundo físico: o sentido psicológico na
análise.^"
35
reflexão para responder a um problema crucial: como com
preender um texto do passado? Ao tratar a inteligibilidade
daquilo que teria se passado um dia, Dilthey teria, a seu ver,
não só enfrentado o desafio de pensar a temporalidade do
passado como teria sido o intérprete de um pacto entre a
hermenêutica e a história}^
Dilthey apontaria para este princípio instaurador da herme
nêutica, que é o de ultrapassar a distância temporal e cultural
do passado, compreendendo este outro no tempo, verdadeira
finalidade da história. Entretanto, se a hermenêutica na sua
relação com a história busca interpretar a experiência humana
em sua dimensão temporal, tal postura reservaria poucas
certezas e muitas dúvidas, neste século XIX tão impregnado
pelo cientificismo e o racionalismo.
Havendo uma descontinuidade entre o presente e o pas
sado, capturar as unidades de sentido de uma determinada
época seria o grande desafio, pois implicaria captar uma
expressão da vida, esta enargheia própria do ser humano,
através do resgate da psicologia de um outro tempo.
Retornamos, aqui, aquela idéia levantada por Droysen, da
busca do espírito ou do significado construído pelos homens
no tempo, ou da procura dos sentidos e das particularidades
de cada época de que fala Ranke, em concepção que passa a
ser mais bem formulada por Dilthey.
Trabalhar com as expressões — ou mesmo, as impressões
ou marcas deixadas pela vida, com o psicologismo de uma
época, com as sensibilidades — múltiplas, cambiantes, ins
táveis, variadas — dos homens de um outro tempo poderia
vir a se constituir em um obstáculo, mas também em uma
grande atração. A atitude da hermenêutica é justamente esta
na qual, partindo deste desafio que é o estranhamento propor
cionado pelo passado, o pesquisador se propõe a buscar os
sentidos ocultos no tempo.
Neste ponto, Dilthey se encontra com Droysen, quando
este diz que é só o olhar do historiador que pode reconhecer
nos traços deixados pelo passado os elementos para a sua
pesquisa,'^" vendo nos restos deixados à sua disposição "a
pegada do espírito e a mão do homem'"^^ de um outro tempo.
Complementava Droysen que, "quanto mais preparado é o
36
espírito que pergunta, tanto mais rico é o conteúdo da per
gunta". Ou seja, Droysen enfatiza o saber prévio e acumu
lado, a erudição de cada historiador, que iluminava seu olhar
e potencializava a descoberta dos sentidos do passado.
Como homem culto, grande leitor, erudito, quer parecer
que SBH deveria apresentar estas condições para o resgate
das impressões de vida dos homens de um outro tempo, enfren
tando esta alteridade do passado. Raízes demonstram o resul
tado reflexivo de muitas leituras, a maior parte implícitas no
texto, e que dariam margem às interpretações do autor sobre
o Brasil. Acompanharemos, mais adiante, a correlação entre
os insights do autor e a base de referência que autorizaria
sua interpretação histórica.
Um outro possível cruzamento a estabelecer entre SBH e
suas leituras alemãs seria aquele possibilitado pela noção
dos materiais com que se constitui o empírico da história,
apresentado por Droysen, e a multiplicidade de impressões
da vida, apontadas por Dilthey.
Droysen enumera diversos materiais, discursivos ou imagé-
ticos, postos à disposição do historiador, indo dos contos de
fadas à alta literatura, das moedas e das ruínas arquitetônicas
às pinturas. Em uma atualização das perguntas, poderíamos
indagar: tudo, então, seria matéria para a história? Sim, seria
a resposta para estes pensadores alemães e, aparentemente,
para SBH também, pois seria portador de um registro da vida
no tempo.
Leitor de Dilthey, SBH expõe a leitura que este fazia de
Ranke: um historiador objetivo, a trabalhar com os momentos
culminantes e a fazer as devidas conexões históricas, mas
que deslizava na superfície: não ia às causas últimas, às
raízes...Raízes, estas, que ele, SBH, buscaria atingir, na
sua obra inaugural, mergulhando no tempo descontínuo e
variado, no resgate destas marcas deixadas pela história. É
fora de dúvida que este direcionamento cultural, de uma
hermenêutica psicológica, aprofundaria o componente de
relativismo desta postura de interpretação do mundo que foi
o historismo.
A mudança contínua no tempo e a busca de interpretar
antes sentimentos e emoções do que razões ou fatos contri
buíram para que o historicismo degenerasse naquilo que.
37
pejorativamente, foi tratado de historismo, postura ancorada
em um relativismo absoluto.
Retomamos aqui uma distância entre a análise de Dilthey
sobre Ranke e aquela feita por SBH: enquanto SBH identifi
cara Ranke com o historismo — tendência apoiada no prin
cípio da mutabilidade da experiência histórica — Dilthey e
mesmo os pósteros, como os marxistas, o classificariam como
integrante do historicismo — corrente que enfatizava as parti
cularidades da experiência histórica no tempo. No seu desdo
bramento e no viés mais radical da crítica — do historicismo
ao historismo —, a mutabilidade e unicidade da história acarre
tariam a relativização de toda a análise.
A corrente que se estabelece — SBH, leitor de Dilthey,
que é leitor de Ranke — parece relevante para nossos fins.
Não seria demais reiterar a importância que tem, na visão
de Dilthey, a variedade das formas da experiência humana,
tal como a "pluralidade fundamental do mundo histórico,
também no plano temporal".
Dilthey acentuava não só a existência de diferentes con
juntos interativos (família, economia, direito, política, sindi
cato etc.), que possuíam os seus próprios movimentos e
ritmos, como alertava para a coexistência de várias tempo-
ralidades em um momento dado. Nesta medida, o trabalho
de contextualização a ser realizado pelo historiador perma
neceria inesgotável, uma vez que, cada espaço e cada tempo,
remeteriam a um outro espaço e um outro tempo.
Para Dilthey, a categoria da temporalidade era base para
todas as outras categorias mentais. O tempo era, sobretudo,
uma formulação conceituai da experiência e da sensibili
dade dos homens, que lhe atribuíam distintos significados:
simultaneidade, seqüência, intervalo, duração, mudança
eram concepções construídas, e mesmo o passado podia
tornar-se presente, e este se converter em futuro. O presente
era marcado pela experiência da vida e a formulação de idéias,
através das quais se pensava o futuro através de desejos e espe
ranças, e o passado pela memória. Neste sentido, o passado e
o futuro só existiam a partir dos pensamentos do presente.
Tal concepção implicava em múltiplas configurações tem
porais, produtos do pensamento e da experiência de vida.
Para Dilthey, o tempo seria, pois, enquanto percepção e
38
formulação conceituai, mutável, pensamento que ia ao
encontro das leituras de SBH sobre Ranke. E, na senda de
Droysen, Dilthey concebia que a sucessão de momentos no
tempo não podia ser recuperada. O passado não podia ser
experimentado, salvo pelo pensamento, onde a recuperação
evocativa do tempo escoado substituiria a experiência.
Tal compreensão, apropriada pela história, revela-se de
extrema atualidade, pois leva não só a pensar o passado de
outra forma, como a nele ver não um tempo fixo, que se
refere por sua vez a um só espaço. Há uma diversidade
espaço-temporal interativa em cada recorte que o historiador
possa realizar, com a sua escolha.
Além disso, tais considerações autorizam não só a pensar
na renovada estranheza do historiador diante da alteridade
do tempo passado — confirmando a frase de L. P. Hartley
de que "o passado é um país estrangeiro; lá, eles fazem as
coisas de um outro modo" — como no próprio inacahamento
da história.
Prossigamos, pois, nesta proposta de surpreender algumas
linhas de continuidade na vertente hermenêutica de recupe
ração da experiência humana no tempo, que influenciou
outros tantos pensadores alemães, prováveis leituras de SBH
quando de sua escrita de Raízes.
Estas formas psicológicas que traduzem a vida no tempo
são, por Dilthey, indicadas como produtoras de distintas
configurações, que se aproximam, em termos conceituais, aos
tipos ideais ÚQ Weber ou Sombart, ou às configurações de um
Norbert Elias,autores estes, lidos, por sua vez, pelo histo
riador de Raízes do Brasil.
O sociólogo Max Weber (1864-1920) foi apontado, com
freqüência, como o grande inspirador de SBH. Fora a partir da
utilização de tipos ideais, como o do homem cordial, ou do
semeador e do ladrilhador, ou ainda pelo emprego dos con
ceitos de patrimonialismo e burocracia na sua obra Raízes
do Brasil, que se encontram as tais evidências da influência
weberiana sobre SBH, como aponta Antonio Cândido no
conhecido prefácio escrito à 5® edição da obra.'®
Tratam-se, no caso, de referências explícitas de SBH às
categorias de Weber, através de citações feitas e comentários,
seja no corpo do texto, seja em notas de rodapé,'^ mas deve
39
ser notado que tais referências dizem respeito a análises de
cunho propriamente histórico, de situações específicas, datadas
e localizadas, ou do uso histórico de um conceito, como o do
patrimonialismo, que nosso autor refere.
Ou seja, quando se trata de falar no homem cordial, no
semeador ou no ladrilhador, SBH nào se refere a eles como
tipos ideais, nem lembra Weber como a inspiração de tais
perfis. A associação é feita pelos seus leitores e intérpretes, e
não por SBH em sua obra Raízes. Tais leitores explicitam, de
forma clara, as incorporações sociológicas weberianas, feitas
por um historiador que pretende atingir o âmago de um ethos
cultural no Brasil.
Outra coisa seria, contudo, surpreender na leitura buar-
quiana de Max Weber apropriações ou ressemantizações da
noção de tempo. Segundo Weber, a ciência era a ordenação
conceituai e racional da realidade empírica, e a sociologia se
incumbiria de construir leis gerais, enquanto que a história
se esforçava para estudar o individual, desde que conside
rado importante.
As construções conceituais da sociologia, contudo, encon
travam seu referente nas mesmas estruturas que eram consi
deradas relevantes para a história. O tipo ideal weberiano
define-se por ser uma configuração conceitual-sociológica,
pura e abstrata, que dá a ver unidades de sentido, que são
gerais para um momento dado. É, porém, construído a partir da
variabilidade de casos concretos, resgatados pela história.
Mas, se os tipos ideais são conceitos puros e invariantes
de um método cognitivo, todas as esferas da vida — política,
psíquica, econômica, religiosa — seguem uma evolução
própria, demarcadas por tempos diferentes de realização.
Assim, Weber concilia as multiplicidades e as descontinui-
dades do tempo com a fixidez de tais conceitos, entendidos
como construções abstratas, lógicas e precisas, que expressam
regularidades observáveis na variabilidade das situações
históricas. O tipo ideal é um instrumento conceituai para
poder submeter a uma espécie de regra geral a variedade da
experiência humana no tempo.
Como é sabido, Max Weber centrava nas idéias a construção
dos seus tipos ideais, tal como ele expôs em sua obra A ética
protestante e o espírito do capitalismo. Weber se interessaria
40
por realizar, com o apoio de conceitos, uma ciência empírica,
capaz de atingir as significações culturais dos fenômenos.
Tal procedimento implica construir relações objetivamente
posstveisj'^ distantes das noções de modelo, cópia ou reflexo
das idéias com relação à vida material. No mesmo artigo em
que, na década de 1970, rende tributo a Ranke, SBH afirma
que o tipo ideal weberiano construiu-se como um método de
compreensão entre a parte e o todo, servindo como uma ponte
entre os procedimentos das ciências naturais e os das ciências
do homem, embora padecesse de um viés generalizador.^^ A
crítica, no caso, seria típica de um historiador, a lidar neces
sariamente com o empírico, dirigida contra as generalizações
e abstrações do sociólogo, embora o autor aplique processo
similar em sua obra.
Seguidor de Weber e sob a influência de Dilthey, e igual
mente leitura de SBH, foi Werner Sombart (1863-1941).
Na sua obra O burguês, de 1913, o economista Werner
Sombart estuda o que chama a evolução e a estrutura do espí
rito de nosso tempo, baseando-se para isso na análise do agente
portador deste espírito. Realiza o que se pode chamar de
estudo de mentalidade-, algo referente ao modo de ser, ao
domínio do mental, dos sentimentos, da vida psíquica, que
envolve inteligência, traços de caráter, juízos de valor e prin
cípios.
Esta mentalidade, assim definida, poderia aproximar-se do
espírito das coisas, apontado por Droysen, ou da expressão da
vida, referida por Dilthey, estando ainda talvez presente no
tipo ideal, concebido por Weber. Categorias todas a expressar
fenômenos da ordem do cultural, caros ao debate intelectual
que se processava na Alemanha.
Werner Sombart se propõe a analisar o psíquico a partir de
dados reais, fundamentados historicamente. Sombart inverte a
relação marxista clássica, tal como Weber o fizera: é o espírito
capitalista que preside a organização do mundo econômico.
Estabelece que "a atividade econômica só se manifesta quando
o espírito humano entra em contato com o mundo exterior e
atua sobre ele".^"^ Para o autor, são estas manifestações do
espírito que guiam a conduta e as ações dos homens.
Por outro lado, Werner Sombart afirma, em sua obra, que
estudar história é "expor o diferente de cada caso".^^ Trabalha,
41
pois, com mudanças no tempo, que explicam as variações, as
diferenças. Mais adiante, Sombart aponta que, destas multi-
plicidades de modos de ser, acontecidos historicamente, veri
fica-se o predomínio de uma delas, que expressa os valores
vitais de uma época.
Ora, a postura de Sombart diante das diferenciações no
tempo, que se dão por efeito das condições históricas únicas
que se apresentam em cada momento, o leva a aproximar-se,
também, daquela noção antes apontada por SBH em Ranke:
o ineditismo da história e o acontecer no tempo, marcando a
pluralidade e a variabilidade das experiências, mesmo que
uma seja a dominante. Neste sentido, a proposta de Sombart
aproxima-se claramente daquela de SBH; a historicização do
conceito weberiano, com sua aplicação e demonstração no
caso brasileiro.
Parece-nos que a concepção de tempo de SBH, tal como
ele a expressa em Raízes do Brasil, pode, em certa medida,
aproximar-se daquela expressa por suas leituras alemãs,
uma vez que nosso autor busca resgatar a temporalidade
dos processos sociais acontecidos, ou seja, tenta captar os
significados construídos no tempo. Logo, SBH persegue signi
ficados historicizados.
Até agora, falamos de história e de leituras históricas de
um jovem historiador, em sua fase de formação. Há, contudo,
um elemento que se insinua naqueles autores do século XIX
e início do século XX, voltados para o universo das idéias e
da cultura e que é, neste momento, negado como elemento
ou princípio integrante da tarefa do historiador.
Referimo-nos à ficção, que faz a história comungar com a
literatura nesta tarefa de recriação do mundo. Muitas décadas
mais tarde, seria recuperada a discussão sobre a presença da
ficcionalidade na narrativa histórica, como um dos pilares
centrais de uma vertente historiográfica que, a rigor, SBH não
conheceu, mas que o redescobriu para o público leitor do fim
do século XX.
Vimos como Droysen, ao introduzir a representação na
tarefa do historiador, situa a ficção como uma barreira intrans
ponível ao caráter científico da disciplina. Sem dúvida, tais
autores se situam no cerne do debate de seu tempo, que trata
de conferir o status de ciência à história e que se apóia, por
42
um de seus lados, na formulação antitética históna-verdade-
ciência x literatura-arte-ficção.
Mesmo que tais autores não cheguem a definir a história
como uma modalidadeficcional de reconfiguração do tempo,
as premissas para esta compreensão estão todas já formu
ladas. E, neste sentido, a nova concepção de tempo ocupa
um lugar central.
Um tempo que muda e que passa, na irreversibilidade do
momento escoado, impossível de recuperar. Um tempo mutável
e, ao mesmo tempo, único e inédito, na irredutibilidade do
acontecido, aurático no seu aqui e agora. Um tempo múltiplo,
na sua valoração e significado, nas diversas e mesmo super
postas construções de sentido para além dos enquadramentos
do tempo físico mas, ao mesmo tempo, percebido em cada
momento da história. Um tempo descontínuo, com diferentes
velocidades, dando à noção de processo uma outra dimensão.
Finalmente, a noção de que a história seria, enfim, uma acumu
lação/sucessão de lugares no tempo, onde sentidos específicos
seriam construídos.
Se tais questões estavam postas pelos pensadores alemães,
a obtenção desta vida ou energia humana inscrita no tempo
que passou restaria como um problema a resolver, mesmo
com a utilização, pelo historiador, de todas as marcas de histo-
ricidade ou fontes de que ele pudesse dispor.
Quando Droysen apresenta o conceito da representação
como chave para a recuperação dos sentidos do passado, já
estabelece, a rigor, a resposta para o desafio de uma reconfi
guração temporal.
Diante da tarefa de trazer o passado para o presente, a
impraticabilidade de reprodução da experiência traz para o
campo do historiador a necessidade de lançar mão de recursos
ficcionais. Representar o passado no presente implica enfrentar
o desafio da hermenêutica, ou seja, o da tradução e da presen-
tificação de uma ausência através da narrativa. No bojo deste
processo se instaura um outro tempo, qualitativamente dife
rente, que é o tempo histórico, resultado de uma operação
ficcional.
Este tempo instaurado é fruto de uma capacidade ou poten
cialidade da ficção, que se propõe expor não só a experiência
realizada, só recuperável pela imaginação, mas também o
43
invisível, o implícito, o imperceptível, restaurando mesmo o
não dito, mas insinuado ou pressuposto. A esta tarefa, de
revelação de um oculto, de desvelamento de sentidos de uma
temporalidade passada, exposta pela narrativa do historiador,
não teríamos outro nome para referir senão o da ficção. É
pelo recurso à ficção que o historiador constrói o enredo como
teria acontecido. É pelo emprego de estratégias ficcionais que
ele conduz o leitor para fora de seu texto, a uma realidade
que só é dada a ver por operações mentais e pelo poder de
fazer crer, resultado de verossimilhança obtido pela combi
nação de uma estratégia retórica, em combinação com os traços
de historicidade resgatados.
Neste sentido, ao lado de uma tarefa de historiador tout
court, de pesquisa de fontes em arquivo, há uma outra que
envolve a mise en récit, que não é possível sem a ficção.
Ao mesmo tempo, esta reconfiguração temporal construída
é sempre um trabalho de tradução, face a uma diferença no
tempo e a uma necessidade de expressar a alteridade do pas
sado, sobretudo se ela se baseia no resgate das sensibilidades.
Outros valores, outros sentidos, outras razões mobilizavam
as ações humanas, frente as quais somente o imaginário da
narrativa historiográfica pode recompor, dando a ver o que
não é mais passível de ser experimentado e traduzindo sensi
bilidades no tempo que não são mais as nossas.
Neste ponto, a reconfiguração temporal ficcional construída
pelo historiador atinge o âmago do significado daquilo que
se convencionou chamar de representação: estar no lugar de,
presentificar uma ausência. No caso da escrita da história,
esta apresentação de uma temporalidade nova, como se fosse
o passado, dá a ver o invisível e mesmo preenche lacunas e
ausências.A ficcionalidade da história estaria presente na
recuperação do invisível, do implícito, do imperceptível, do
pressuposto, do não dito, todas elas dimensões de uma forma
de conhecimento sensível do mundo, tal como as estratégias
de composição de um enredo e de uma trama, com suas
explicações plausíveis e verossímeis, mas não definitivas
ou indiscutíveis, para as ações humanas. Afinal, as razões e
as sensibilidades que motivaram os homens de um outro
tempo não podem ser resgatadas senão como um leque de
possibilidades.
44
Esta história-quase-literatura pode ainda ser considerada
como uma forma metafórica de expressar o mundo. Isto se
dá não apenas pelo recurso deliberado a estas figuras de
linguagem, que dizem além do que é dito, acenando para
outros significados ocultos. Mas, sobretudo, processa-se de
uma forma que se revela quando se tem em conta a dimensão
do tempo: a invenção do passado, esforço ficcional do histo
riador para tentar dizer como teria sido, fala sobre e a partir
do presente. E, neste caso, falar do presente construindo o
passado é uma maneira alegórica de referir-se ao real de
outra forma.
45
passado como uma espécie de pegadas do espírito humano
para que um dia alguém as seguisse e decifrasse.
A rigor, a fonte se expressa em dois tempos: o do passado
do qual ela é vestígio e no qual teve um sentido e o do
presente, no qual ela é lida e posta em narrativa pelo histo
riador, que tem por meta atingir os tais significados inscritos
no passado.
Fontes são marcas no tempo, portadoras do indício do
passado irrecuperável, mas disponíveis e prestes a serem
inseridas em uma outra temporalidade a ser inaugurada que
é a da história. Neste novo contexto criado, elas cumprem a
função de fio-terra, a mostrar uma verdade do acontecido, só
possível de ser lida pela versão explicativa — ficcional — de
como teria acontecido.
46
PRE-ESTRÉIA DE RAÍZES
47
Por outro lado, SBH afirma seu acordo com o princípio
da dialética como móvel da mudança no tempo, ao referir
que a história jamais nos deu o exemplo do movimento social
que não contivesse os germes da sua negação^^ Dialética hege-
liana e nào marxista, por suposto, pois SBH não irá referir
em momento algum de sua obra esta influência, por mais
tênue que seja. Resta, pois, em suspenso, esta questão do
primado das idéias sobre as práticas, ou destas sobre o
mundo do espírito.
Ou poderíamos dizer que nosso autor digere e metaboliza
suas referências conceituais, traduzindo-as em idéias próprias,
em escrita de palimpsesto? Prossigamos na leitura deste
ensaio, cujo fio condutor será, pois, o delineamento de um
corpo vivo, uma prática social que encontra sua expressão no
homem cordial, expressão que o autor diz tomar de emprés
timo a Ribeiro Couto.
Lido por alguns como um tipo ideal weberiano, protótipo
da identidade brasileira, o homem cordial sintetiza ou corpo-
rifica alguns princípios orgânicos ou viscerais do que é o
Brasil e que se traduzem em distância: entre Eros e Ethos,
entre sentimento e razão, entre Nação e Estado, entre vida
social e vida política. Esta distância ou separação, no espaço
do corpo/ação e da alma/espírito do Brasil, se faz acom
panhar de uma continuidade no tempo: desde as origens,
este teria sido um traço da formação histórica nacional.
Neste momento, SBH introduz uma reconfiguração do
tempo: ao afirmar a permanência deste traço definidor na
gênese e na contemporaneidade do Brasil, mostra a presença
do passado no presente. Seu argumento é de que o Brasil
não se libertara deste pecado original, a revelar-se no pre
sente e a comprometer o futuro. O ensaio, contudo, apenas
anuncia que há uma herança e permanência do passado no
presente, lançando esta idéia de permanência no tempo. O
ensaio anunciador da obra não introduz descontinuidades no
tempo ou múltiplas temporalidades, deixando antes entrever a
cristalização de um ethos, de que é exemplo o homem cordial
Curiosamente, ao construir no tempo da história o ethos e
a práxis do homem cordial, SBH faz um recorte no espaço: ao
dizer que as guerras eram importunas, a violência detestada
e a brandura apreciada no comportamento,^® o autor exclui a
48
realidade do Rio Grande do Sul, como única zona de fronteira
viva, em enfrentamento direto com o castelhano, cuja formação
histórica deu-se segundo o padrão da população em armas.
O seu Brasil não contempla, pois, este espaço, excluído da
geografia, da história e do tempo de sua análise.
A partir deste delineamento, desdobram-se os paradoxos:
o homem cordial representa o primado da subjetividade, do
sentimento, da sensibilidade e da emoção sobre o racional,
com o que se compromete a esfera do social e da construção
de um espaço público e da vivência democrática. Todavia —
e eis o paradoxo — na riqueza emocional do brasileiro resi
diria sua única realidade criadora! Do corpo à alma do Brasil,
SBH atinge o reduto sensível da percepção do mundo possi
bilitado pela vertente culturalista alemã de sua formação.
O que, contudo, era potencial criador transforma-se em
obstáculo a um projeto de futuro, não permitindo a criação
de uma temporalidade alternativa a esta que se mantém. O
passado invade o presente e compromete o futuro, com o
que o texto de SBH revela a sua atualidade política: ele cria
uma trajetória no tempo para fornecer uma alternativa de ação
ou pensamento.
Como intelectual, SBH visa instaurar uma nova visão sobre
os tempos que se acumulam e interpenetram, entre passado,
presente e futuro, mas para ser coerente com seu enunciado
de pressupostos teóricos, seu texto deveria suscitar uma ação.
Uma outra idéia ou paradoxo se desdobra dos distancia
mentos corporificados no homem cordial: a noção de que no
Brasil ocorre um processo concomitante de dessacralizaçào e
sacralização da vida: por um lado, perde seu significado a
ritualística do social em proveito das práticas de cordialidade
e intimidade, criando ilusórias atitudes fraternas ou de igual
dade; por outro, constrói-se uma sacralização do político e
das formas de aparato e poder, desdobrando-se no secular
bacharelismo ou no endosso oportunístico e seletivo de ideo
logias externas, como o liberalismo. Este seria, segundo o
autor, um dos raros momentos em que o povo coincidiu com
a elite no endosso de um ideário, o que foi facilitado pelo
traço de doçura de nosso gênio.^^
Como ensaio, o artigo introduz idéias e argumentos, mas
se conserva distante das marcas de historicidade.
49
A rigor, tais processos de sacraiização/dessacralização das
maneiras de ser do brasileiro já estariam anunciados, de
forma irreverente ou debochada, no romance Memórias de
um sargento de milícias, de Manuel Antônio de Almeida,
escrito na metade do século XIX e com sua ação passada no
tempo da Família Real no Brasil.
Mas, nesse ensaio, o aspirante a historiador que é o jo
vem SBH não se vale de tais inspirações literárias para expor
seu pensamento. O autor constrói uma ficção historiográfica
e exerce seu potencial criador quando elabora um perfil do
país, legitimado pela agilidade da retórica, que provoca o
leitor e instiga a tentar conhecer mais seus argumentos na
obra que virá.
Seu ensaio é um trailler e uma estratégia de marketing
para a apresentação de sua tese ou de suas idéias interpre-
tativas sobre o Brasil, aguçando as expectativas do leitor.
Mesmo tributando algumas noções fundamentais a outros
— o homem cordial a Ribeiro Couto e o divórcio entre a
Nação e o Estado a Alberto Torres —, a proposta de inter
pretação se revela original, a revelar ainda a incorporação
de um substrato culturalista alemão na base.
Enfim, esse artigo ensaístico, que prepara e antecipa a
publicação da obra, revela aquela dimensão de palimpsesto
da escrita, no processo, sempre ficcional, de recriação discur
siva do mundo.
Nesta ocasião, SBH elogia a recente obra de Gilberto
Freyre, Casa grande & senzala — o ensaio mais sério e mais
completo que já se tentou sobre a formação social do Brasil
mas sua análise é mais dura, falando da democracia como
um lamentável mal-entendido no país ou do complexo de
inferioridade do povo, que se podia bem entender, ou ainda
de um bovarismo nacional intrínseco, o que autoriza a
lembrar as considerações de um Lima Barreto sobre o país
que sonhava ser outro... Mas tais insigths não são recolhidos
por SBH no seu aprendizado de historiador.
Na busca de encontrar raízes para Raízes, invocando as
leituras prévias e formativas de SBH, que teriam presidido
sua leitura do mundo, é possível, talvez, que também possamos
encontrar em sua obra outras inspirações, como o pessimismo
de um Paulo Prado, na contramão da visão ufanista de Afonso
50
Celso. SBH, homem letrado de seu tempo, reunia toda uma
gama de influências em sua obra, explicitadas ou nào em
sua narrativa, onde há textos implícitos que respondem ao
seu texto.
SI
Esta primeira edição de 1936 guarda algumas diferenças
com as que se seguiram, e que permitem apreciar certa ten
dência evolutiva na escrita de SBH.
No prefácio que faz à segunda edição da obra, em 1947,
11 anos depois, SBH afirma ter revisto a obra e tê-la aumen
tado nas partes que julgara necessário, mas se esquivara de
comentar a implantação no país da ditadura pessoal de inspi
ração totalitária, resguardando o contexto histórico que presi
dira a escrita de sua obra, cuja análise, arriscava dizer, ainda
considerava válida. Acusava algumas mudanças, como o título
dos capítulos III e IV, que tinham o mesmo nome e que agora
passavam a ser "Herança rural" e "O semeador e o ladri-
Ihador", mais em consonância com o seu conteúdo.
Também o autor suprimira as notas de rodapé — aliás,
muito poucas, ao longo de toda a obra —, mas acrescentara
notas complementares ao pé de página e outras mais extensas
no fim da obra, além de uma bibliografia final.
Na 3® edição, de 1955, SBH anunciava no prefácio que
restaurara as notas de rodapé, por sugestão do editor, man
tendo notas complementares e mais extensas ao fim dos capí
tulos, as quais poderiam ser lidas separadamente. A grande
alteração desta 3® edição fora o acréscimo do debate suscitado
sobre o homem cordial, com as objeções de Cassiano Ricardo.
Reparos estes, a nosso ver, feitos com vistas a apoiar-se
com mais precisão nas tais marcas de historicidade ou fontes,
bem como de enquadrar mais cientificamente a obra. Seria
de perguntar se o autor não assumiria, progressivamente,
seu perfil de historiador, pois desde a fundação da Univer
sidade do Distrito Federal passara a lecionar as disciplinas
de Cultura Luso-Brasileira e História da América, por um
curto período de tempo. Transferindo-se para São Paulo,
passou, a partir de 1948, a lecionar a cadeira de História
Econômica do Brasil na Escola de Sociologia e Política, para
depois vir a ocupar, em 1956, a cátedra de História da Civili
zação Brasileira na Faculdade de Filosofia da Universidade
de São Paulo.^'^
Ao mesmo tempo, SBH teve cuidados com certas afirmações
realizadas na 1- edição e que seriam depois retiradas. Sobre
tudo um primeiro parágrafo, a introduzir a obra, e que reme
teria, de forma incontornável, às reflexões de Gilberto Freyre,
52
que lhe havia precedido, desde a publicação de Casa grande
&. senzala, em 1933. Ao dizer que o Brasil era o único esforço
bem-sucedido, e em larga escala, da transplantação da cul
tura européia para uma zona de clima tropical e subtropical,
o tom de positividade à colonização lusitana nos trópicos,
característico do discurso freyriano, seria substituído pela
expressão tentativa de implantação da cultura européia em
território com condições naturais diferentes e mesmo adversas
à sua tradição milenar. É evidente, no caso, a relativização
da assertiva anterior, onde se ressalta a diferença e a tenta
tiva, mas não o resultado positivado, posto em julgamento.
Da mesma forma, SBH relativiza ou corrige outras afir
mações feitas sobre Portugal, nas edições posteriores: ao dizer
que a Europa era para Portugal um patrimônio, nosso autor
vai acrescentar: necessário-, ao referir que após o descobri
mento da América as nações ibéricas entram decididamente
no coro europeu, ele acrescentará: mais decididamente...
Por que esta preocupação especial com Portugal? Porque
a definição de um passado delineia, na visão de SBH, o perfil
nacional que, no presente, entrava o futuro. Há, pois, uma
opção de análise retrospectiva que lança a análise, sociológica
e antropológica, de nosso autor para o campo da história.
Igualmente, ao compararmos o texto original com as duas
edições que se seguiram, pode-se observar o acréscimo de
elementos de erudição, a incorporação de novas leituras e
apresentação de provas no texto para comprovação de suas
teses. O autor incluirá referências da literatura e da história
— universal, lusitana, brasileira — que possibilitam credi
bilidade às suas idéias sobre Portugal, onde a precocidade
e a modernidade se fazem acompanhar pela sobrevivência
de traços feudais, do passado. Tais acréscimos, realizados
após a primeira edição, tanto podem ser creditados a uma
necessidade de fundamentação histórica, com o recurso às
fontes e citações, quanto como reação às criticas ao seu
homem cordial.
Eles se dão, por exemplo, no reforço da idéia do pionei-
rismo de Portugal, invocando o texto de Gil Vicente ou os
estudos do historiador português Alberto Sampaio, cujas
informações se dariam com apoio de ampla documentação,
acrescenta SBH. Também acrescenta todo um longo parágrafo
*53
sobre a Revolução de Aviz e seu caráter de incompietude
burguesa, conduzindo à acomodação das elites e à persis
tência das virtudes da antiga aristocracia. Transformada em
valor permanente e universal, esta espécie de ética da fidal-
guia dificultaria a consolidação de uma moral fundada no
trabalho, reflexão buarquiana que será mais bem desenvol
vida nas edições subseqüentes.
Mesmo com tais acréscimos de autoridade da fala, ou de
evidências históricas de reforço às suas idéias, o texto de
SBH não se caracteriza pelo recurso metódico às citações ou
pela indicação das fontes que autorizam a análise. Ele passa
rapidamente sobre elas, menciona autores, mas pouco desen
volve ou expõe suas idéias. Pode-se dizer mesmo que, muitas
vezes, SBH dispensa o recurso, caro aos historiadores, do
uso de tais registros de historicidade ou marcas do tempo
para atestar a plausibilidade e a verossimilhança de suas
afirmações ou, se formos pensar em termos de Ranke, na
veracidade de suas idéias.
54
No caso de SBH, aquilo que serviria como crítica de Droysen
contra Ranke, passa a valer, contemporaneamente, como um
elogio, desde o ponto de vista da História Cultural. Escreve
de maneira solta? Sua obra tem o sabor de um romance, quase
literária na forma? Dispensa citações, ziguezagueia no tempo e
no espaço e seduz pelo estilo? Redescoberto pela História
Cultural, SBH torna-se figura de grande atenção e debate.
Bacharel em direito de formação, jornalista por atividade,
crítico literário e cronista por gosto, sociólogo por afinidade,
SBH estréia como historiador pelos caminhos do ensaio, a
reinterpretar o Brasil. Ensaio que, a rigor, não se restringe
ao trailler de Raízes do Brasil que foi o artigo "Corpo e alma
do Brasil", mas que é perseguido na obra inaugural de 1936
e que o consagraria pela crítica nos caminhos da historio
grafia brasileira.
Partamos, pois, desta opção ensaística, que percorre o
passado para explicar o presente, marcando o lugar da escrita
na história como um momento no tempo. Há uma escolha
de palavras-chaves que remetem para a dimensão temporal:
fronteiras, herança, raízes. É bem o passado, a gênese e a
mudança, no espaço e no tempo, que formam as questões em
jogo para pensar o presente, temporalidade da sua escrita.
Sigamos os capítulos da 1® edição da obra, de 1936.
No capítulo I, "Fronteiras da Europa", SBH fala sobre
os ibéricos e seu legado para os latino-americanos. Desta
herança ibérica viriam certas dificuldades para a América
Latina em termos de implantação do social ou para a elabo
ração de uma cultura própria. Logo, nosso autor começa pela
identificação de que somos desterrados na própria terra, ou
seja, vivenciamos formas de ser e agir de um outro tempo e
um outro espaço. Todos os traços culturais e de personali
dade, identificadores do ibérico, são colocados em pauta de
negatividade: culto à personalidade ^sobranceria, individua
lismo, sentimento de honra e dignidade), um comportamento
baseado nos sentimentos e nas paixões, débil coesão social,
anarquia, desordem e inexistência de hierarquias ou barreiras
sociais, tendo, como única alternativa a obediência a um poder
forte, no estilo da Companhia de Jesus ou das ditaduras. Neste
último caso, provavelmente, SBH pensava no caso da recente
ascensão de Salazar, em Portugal, embora não o mencione
n o texto.
SS
Também todo este delineamento da herança ibérica na
América que inaugura seu longo ensaio se dá sem maiores
referências, transmitindo ao leitor o peso a autoridade da
fala. O autor muito leu, refletiu, e expõe sua tese. No caso
em pauta, nào se discute sua interpretação, mas sim o fato de
que ele nào traz os elementos de verificação de suas asser
tivas, que hipoteticamente permitiriam ao leitor seguir seu
raciocínio. SBH é juiz severo do ser e agir ibérico, sem exibir
as provas.
S7
é visto como uma herança lusitana, fazendo, das cidades,
mero apêndice dos domínios agrários. Há que registrar que,
neste mesmo ano de 1936, quando da publicação de Raízes
do Brasil, Gilberto Freyre lançava seu segundo grande livro.
Sobrados e mucambos, no qual este autor também abordava
o peso do mundo rural sobre o meio urbano e, igualmente,
contrastava a experiência pioneira dos holandeses no nor
deste com a acanhada vida urbana do resto do Brasil.
Mas por aí param as correspondências, pois SBH prolonga
o ruralismo predominante até 1888, data da abolição da escra
vatura, com um viés de análise a acentuar a carga de negativi-
dade na vida social e política brasileira. Por seu lado, Gilberto
Freyre desenvolve a idéia de que o crescimento das cidades
provocara transformações que haviam atualizado e renovado
as elites, permitindo que se mantivessem no poder. E, como
é sabido, para Freyre, o mundo do rural é positivamente privi
legiado frente ao urbano.
Para dar a ver este tempo onde, até o fim do século XIX, o
meio urbano não tinha expressão, SBH convoca depoimentos
isolados na defesa de sua idéia, baseando a validade de sua
tese no peso da argumentação retórica, a juntar fragmentos
esparsos que dizem respeito a certas frações do espaço, em
especial Recife, Piratininga e Rio de Janeiro, tomados em
temporalidades diferentes.
Até aqui, temos uma sucessão de sentidos no tempo que
apontam para traços, invariantes e contínuos, na contramão
das descontinuidades temporais apontadas pelos pensa
dores alemães. Não ousamos dizer que ele constrói um tempo
homogêneo e retilíneo, mas esta permanência do passado
ao longo dos séculos, a reiterar significados precisos para a
história brasileira, é essencial para a confirmação de sua
tese.
58
semeador e o ladrilhador", SBH continua a desenvolver o
fio condutor desta herança no tempo. Esta linha de conti
nuidade distingue a colonização portuguesa como branda,
desleixada, instintiva, adaptando-se ao meio, cedendo à pai
sagem, desordenada, visando apenas a exploração comercial
de um Brasil litorâneo, de onde, desde suas propriedades
rurais, os senhores de terra exerciam um poder sem freios. A
essa primazia da vida rural, ou mesmo autarquia, corres
pondia uma reduzida expressão do mundo urbano, com a
presença de cidades acanhadas, irregulares, vencidas pela
topografia do local, a ela se acomodando, em um ajuste da
obra do homem à natureza.
Gilberto Freyre é, neste capítulo da 1^ edição, duas vezes
citado, em referências que serão depois retiradas nas edições
subseqüentes: ora Freyre é lembrado para comparar o desa
linho das cidades coloniais aos jardins de Portugal, com sua
mistura poética de flores^^ (!), ora para exemplificar a vida
autárquica do engenho, a suprir todas as necessidades da
vida.^° Em um e outro caso, a referência assegura confiabili
dade àquele que SBH chama de conhecedor fidedigno do
mundo rural do nordeste. Freyre parece ser uma fonte reco
nhecida e nomeada, mas não um interlocutor declarado, com
o qual SBH assumiria um debate.
Em comparação a esta modalidade colonizadora dos lusi
tanos, SBH passa a delinear o perfil da experiência espanhola.
Moldada em um ato de vontade criadora e de afirmação de
um domínio militar, o espanhol se interioriza no continente
e funda cidades, em planos regulares, que expressam o desejo
de ordenamento e de disciplina.
Na delimitação dos tipos que viriam a caracterizar as duas
colonizações ibéricas na América — o semeador e. o ladri
lhador —, SBH vê a continuidade de uma tradição ibérica
distinta desde os tempos da Reconquista. Assim, a passagem
do tempo reatualiza as experiências em um novo espaço,
confirmando os perfis herdados. Trata-se de um tempo que
não se renova em sentidos, mas que, pelo contrário, reafirma
os traços de significado ao longo dos séculos. Para a argu
mentação de tais afirmativas — as tradições herdadas no
tempo que fazem do presente uma continuidade do passado
e talham os perfis identitários do português e do espanhol —,
59
SBH segue seu método de remeter a expressões isoladas de
figuras de época, como velhos cronistas, relatos de autori
dades coloniais ou apreciações de moradores do Brasil da
época que confirmem sua tese.
Mas esta situação de permanência do e no tempo virá se
alterar com a introdução de alguns atores específicos: os
bandeirantes paulistas, figuras monumentais que, em obra
grandiosaf destacam-se dos rumos da colonização portu
guesa na América, introduzindo um novo tempo e garan
tindo também um novo espaço. Segundo SBH os paulistas
não têm raízes naquela herança lusa, e só podem ser enten
didos como um empreendimento que encontra em si mesmo
a sua explicação ?-
Ora, esta originalidade dentro do contexto colonial lusi
tano implica na criação de um novo sentido no tempo, como
um lugar no espaço. Trata-se da emergência de um desloca
mento no espaço — a interiorização — e no tempo, pois é
responsável por um primeiro gesto de autonomia no Brasil,
quando os novos atores expressam uma forma também nova
de exprimir-se, como foi o caso da aclamação de Amador
Bueno.
60
Só pela superação da ordem doméstica e familiar é que nasce
o Estado e é que o simples indivíduo se faz cidadão, contri
buinte, eleitor, elegível, recrutável e responsável ante as
leis da cidade
61
Barreto era amarga, mas se travestia de farsa, no melhor
estilo das Cartas persas, de Montesquieu. E, no tocante ao
bacharelismo visceral, não há como deixar de lembrar uma
outra forma de ironia, esta machadiana, com a sua Teoria
do medalhão.
62
deixa entrever SBH, e esta possibilidade se torna mais pre
mente quando o momento em que o autor escreve sua obra
e a publica dá-se na conjuntura em que a ameaça fascista
ronda o Brasil.
SBH faz mesmo uso, literariamente, do recurso à imagem
de um demônio pérfido e pretensioscP a ameaçar a naçào, tal
como a célebre frase de Marx sobre o comunismo de que um
fantasma rondava e assombrava a Europa... Pois este novo
fantasma ou demônio, em terras brasileiras, se ocupava em
obscurecer a verdade e impedir a ação. O texto de SBH se
encerra com uma promessa no ar de mudança do tempo, com
a inscrição de um futuro no presente, o que o torna, de um
ensaio histórico, quase que um libelo político e um convite à
ação imediata.
63
do passado no presente —, que joga com permanências
seculares e tímidas rupturas esporádicas. A rigor, é a demons
tração de uma idéia, de uma intuição interpretativa sobre o
país, que subordina os dados e os feitos e que reorganiza as
temporalidades que se atravessam, se acumulam e se atro
pelam na narrativa. Sobretudo, SBH não é sistemático nem
metódico na exposição dos seus tempos do passado, nem
com o resgate das marcas de historicidade que devem funda
mentar suas idéias, com o que se afasta de Ranke. A expo
sição destas evidências é lacunar e esporádica, o que seria
um paradoxo para alguém empenhado em definir lugares
no tempo.
Poder-se-ia, mesmo, dizer que SBH realiza uma espécie
de decomposição da construção temporal?"^ Para perseguir
uma idéia-guia, rompe a seqüência da história, viaja no
tempo, mistura épocas, mas o pressuposto é de que esta
ruptura do temporal-linear se faça para resgatar a construção
dos sentidos.
SBH vai e vem no seu texto, confundindo por vezes o
leitor... Fala da Colônia ou já do Império? Avança na Repú
blica para retornar ao tempo da conquista? Onde o português
acaba e começa o brasileiro? O problema da herança, penin-
sular e lusitana, introduz a uma proposta desafiante: até que
ponto nós somos originais, somos um povo diferente? Ou,
em outras palavras, até em que medida o passado persegue e
assombra o presente, impedindo a construção de uma nova
temporalidade, apontada para o futuro? O Brasil, no caso,
terá forças para romper com o passado, em desafio para o
historiador?
Ainda sob o influxo de Ranke, SBH trabalha com múl
tiplas temporalidades''^ em sua obra Raízes: a das perma
nências ou do tempo longo (da herança ibérica, do caráter
do povo e das mentalidades, dos tipos ideais) e a das mu
danças ou do tempo curto (as construções cambiantes no
espaço brasileiro, as lentas rupturas, o cotidiano, a cultura
material), além da tríade cósmica construída pelos homens
ao longo da história (um presente, um passado, um futuro).
Dentro desta modalidade de tratamento da multiplicidade
dos tempos, cabe reiterar, mais uma vez, a ênfase dada pelo
autor nas permanências, o que vem representar mais um
64
outro paradoxo: a naçào é serva do passado e o presente
confirma esta imobilidade. Será no futuro que o autor coloca
a mudança possível. Mas o futuro é um tempo onde nào há
registros de historicidade, só há desejos e esperanças. Mesmo
assim, este é o tempo de SBH, a sua opçào na histórica, apos
tando no vir-a-ser que só se realizará se romper os grilhões
do passado, rompendo o curso aparentemente inexorável da
história.
SBH chama a atenção para o descompasso dos tempos,
inclusive na relação entre a época do acontecer dos fatos e
a da leitura dos mesmos. Se fôssemos julgar o desempenho
da ação dos portugueses da época do descobrimento e da
conquista com valores atuais, diz SBH, a avaliação seria
prejudicadaAssim, é preciso enxergar, desde o presente,
o passado segundo a mentalidade e os princípios que regiam
a ação dos homens de então, em afirmação que enfatiza a
necessidade de levar em conta o ocorrido, na sua irredutível
construção de significados, datados e específicos.
Entretanto, mais um paradoxo se instala no texto de SBH,
pois toda sua obra se dá no sentido de julgar o passado a
partir de sua proposta de abertura democrática do país. Ao
mesmo tempo, nosso autor lida com noções que se encontram
em tensão: ora aponta para uma defasagem e um descompasso
de tempos, ora fala em aceleração dos mesmos, produzindo
um Brasil que se debate entre passado e futuro, entre o desejo
de possuir uma história, de construir tradições e um impulso
para a ventura, para a criação do novo.
Se SBH constrói seu texto como uma série de possibilidades
de interpretação no tempo, é porque parece contemplar a
escrita da história como uma sucessão de possíveis, ou seja,
de possibilidades ficcionais de construir o passado.
Sua obra se trata, antes, pois, de uma proposta para pensar,
historicamente, as diferenças e as diversidades no tempo,
entendendo o passado como um lugar onde se inscrevem as
ações dos homens, que se moviam e agiam segundo outros
ritmos. Esta noção de diferença no tempo é essencial, pois
remete à postura de uma hermenêutica que vai de Droysen a
Dilthey, talvez mesmo a Chladenius.
Ora, SBH monta uma reconstrução temporal de um modo
de ser específico frente ao contexto da época, buscando os
65
traços definidores do caráter nacional a partir da tradição
ibérica. Desta herança ibérica, que atrela ao tempo do passado,
adviriam os tipos ideais concebidos pelo autor através do
semeador e do homem cordial, que definiriam certa inva-
riabilidade do modo de ser, com alguns índices formativos
daquele caráter.
Os tipos ideais, sob a inspiração de Weber, definiriam
modalidades de pensar e agir pertinentes ao povo brasileiro,
a ponto de constituírem uma espécie de núcleo de pertenci-
mento íntimo, ou de reconhecimento externo, que forneceriam
a cara do Brasil. Estes traços atravessariam o tempo definindo
uma certa leveza de ser, tipicamente brasileira, que se repro
duzia nas gerações a se sucederem no tempo. Para delineá-los,
fora preciso uma atitude hermenêutica, em uma linha de
Droysen a Dilthey, para romper a alteridade do passado e
interpretar os sentidos de um outro tempo.
Quando, ao iniciar a obra, SBH afirma que somos ainda
boje uns desterrados em nossa terr<f^, remete a esta imagem
recorrente de um país em busca de si próprio, imagem asso
ciada ao caso do Brasil.
Anos mais tarde, seu filho Chico, em uma de suas compo
sições musicais, retomaria, de certa forma, a questão colo
cada pelo pai: a busca de um país para obter um lugar no
tempo, debatendo-se entre a herança ibérica e a adaptação a
um novo espaço, criando uma nova história:
66
sobre a herança lusitana se encontrava em alta no tempo
em que SBH escreveu Raízes do Brasil, pois toda construção
de um futuro passa, necessariamente, pela reinvençào do
passado.
É possível encontrar, neste mundo de resgate das sensibi
lidades e das manifestações do espírito, uma das vertentes
mais ricas das prováveis leituras alemãs de SBH. Tal postura
pode ser tributada a Dilthey, com as suas reflexões sobre o
sentido psicológico, os sentimentos, os valores. Com o nome
de mentalidades, sensibilidades, significados, traços de caráter
ou de espírito, tudo que é resgatado por este olhar sensível
do historiador pode bem se ancorar no culturalismo germâ
nico, de Droysen a Dilthey, a Weber ou Sombart.
Nosso autor infere traços muito finos, insigths e indícios
que captam sutilezas para analisar o Brasil e os brasileiros.
SBH marca, de saída, a sua posição, que é a de seguir por um
caminho específico para apreensão do mundo, através do
sensível.
Para tanto, desce até o tempo curto, do cotidiano, do detalhe,
do traço etnográfico, antropológico, folclórico — a religião,
as relações familiares, o falar das gentes, a escola, as crenças,
as amizades®^ — para retirar fragmentos com os quais tece a
alma nacional, alma esta que se desdobra e se perpetua no
tempo longo do processo histórico brasileiro.
Assim é que, no molde dos tipos ideais, ele compõe o perfil
do aventureiro para o lusitano que cria, para si, um tempo de
acontecer, muito próprio, sem método ou plano, ao sabor das
conveniências.^ O aventureiro lusitano é, contudo, um ele
mento de atraso e de imobilidade no tempo, pois é portador
da herança ibérica.
Mas, se o Brasil é um produto novo, se é o espaço e o
tempo deste amálgama, — cultural e psicológica, única e
histórica —, ele é fruto de um passado, há uma herança e
um atavismo, ibérico e lusitano, que porta, em si, ritmos
descompassados de tempo, que se reproduzem ou perma
necem na experiência histórica da formação brasileira. Tais
traços, que se mantêm, marcam a herança de um ontem na
explicação do hoje. Há linhas de continuidade, mas também
seqüências descontínuas, posturas ambivalentes que fazem
conviver as distintas temporalidades em um só momento.
67
Ora, no momento da descoberta, conquista e colonização
das terras americanas, Portugal e Espanha se apresentam como
que defasados no tempo, ou em descompasso com a sua
época. O caso ibérico seria típico de uma acumulação de
tempos: um feudalismo incompleto, uma sociedade menos
estratificada, com pouca influência dos privilégios heredi
tários e o ingresso tardio no capitalismo que levara, contra-
ditoriamente, a uma aceleração ou rapidez nas mudanças. A
existência de menores barreiras sociais e uma ação concen
trada de esforços na atividade da expansão ultramarina,
atraindo capitais ao contexto lusitano e possibilitando a
ascensão dos mercadores, foi secundada pela emergência
de um Estado moderno, centralizado politicamente e com
participação ativa na vida econômica.®^
Ou seja, por um lado, Portugal foi pioneiro de uma menta
lidade e de instituições políticas de um novo tipo, em expe
riência histórica de rara e extrema permeabilidade social, que
dava oportunidade à ascensão individual. Neste sentido, há
uma precocidade, uma aceleração do tempo. O presente lusi
tano da época dos descobrimentos apontava para um futuro,
mostrando que uma época era capaz de sonhar e realizar a
seguinte.
Mas, por outro lado, e em função mesmo desta rapidez de
transformação, dando margem a uma mudança incompleta,
não maturada no tempo, a nação experimentou um verdadeiro
descompasso cultural, expresso na persistência dos valores
antigos e das tradições do passado.
Desta forma, as nações ibéricas guardam em si, pelo menos,
dois tempos muito nítidos: com um pé na modernidade capi
talista, são modernas e arrojadas, na vanguarda de seu tempo,
nesta empresa ultramarina fáustica, mas mantêm o outro pé
na Idade Média, sem desapegar-se do passado. O peso da
herança ibérica é, assim, um elemento que prende ao passado
e que será transmitido ao Brasil.
E o Brasil, este imenso Portugal, como vivência esta multi
plicidade e este descompasso de tempos? Em que seríamos,
verdadeiramente diferentes, se pergunta SBH?®*^
Há uma questão crucial nesta dinâmica de herdar um pas
sado e construir o tempo do presente no novo espaço, e quer
parecer que ela se situa nesta encruzilhada de temporalidades.
6R
Nosso autor parece, por vezes, contraditório na sua expo
sição: ora afirma que, no contexto lusitano, de um feudalismo
incompleto, pouca influência se registrava dos privilégios
hereditários,®' ora mostra que, justamente, esta incomple-
tude de transformação burguesa era responsável pela busca
de prestígio pela linhagem.®®
O resultado teria sido uma mentalidade que circunscrevia
a solidariedade ao reduto do privado e da família, em detri
mento da coesão social, situação esta exemplarmente expressa
na frase já famosa de SBH: "em terra onde todos são barões
não é possível acordo coletivo durável".®^
A explicação parece residir, mais uma vez, no descompasso
temporal, entre o tempo da ação real dos homens, balizado
pelo culto à personalidade e pelo destaque das práticas indi
viduais e aquele tempo do desejo, que se concretiza na
obtenção dos foros de nobreza, do brasão, dos títulos,
transmudado com o tempo no bacharelismo, no anel de
grau, no gosto pela exibição.
Em suma, nesta vizinhança e coabitar de tempos, a perfor
mance individual preside e tutela a obtenção do prestígio
social. A autarquia do indivíduo, pelas suas ações no pre
sente, garante nobreza, chega a construir um passado, inventa
uma tradição, ou melhor, desenvolve esta espécie de desejo
nostálgico de um passado que confirme posições no presente.
A mentalidade é algo que perdura, se inscrevendo em um
tempo longo, a coabitar com a experiência do cotidiano das
ações de cada dia, a confirmar a presença do passado no
presente.
O Brasil se estrutura, assim, por acumulação de tempos,
entre formas e iniciativas que antecipam (os holandeses e a
realização urbana do Recife, o surto econõmico-financeiro
ocasionado pela liberação dos capitais antes aplicados no
tráfico negreiro) e outras que entravam todo e qualquer
processo de transformação, não só das estruturas como das
mentalidades (a persistência do rural, a predominância do
privado sobre o público).
Conjunto caótico, dispare ou disforme, talvez, entre muitos
tempos que se sucedem ou convivem em um mesmo espaço,
conjunto que se debate entre a precocidade e o retardamento,
a incompletude e a produção do novo, a aceleração e o go
69
back, entre o predomínio do sentimento ou da razão, identi
ficada como de um realismo tosco...
Por vezes, cabe perguntar se neste seu percurso na compo
sição dos traços psicológicos do ser brasileiro, o homem
cordial não matou o aventureiro, se o realismo tosco foi
sobreposto pelo sentimentalismo e se, afinal, nesta sua obra
de 1936, a natureza não predomina ainda sobre a cultura, tal
a pouca influência que ele vê das cidades sobre a vida dos
homens, apesar da revolução lenta anunciada...
Talvez as perguntas possam parecer descabidas, mas se a
opção do autor se deu na linha do resgate das mentalidades,
das razões e dos sentimentos, sua indagação maior se dá na
descoberta dos sentidos que presidem a formação brasileira.
A revolução projetada pressupõe um recuo da sensibilidade
visceral e endosso de critérios racionais para a organização
da vida? O brasileiro, para salvar seu país das garras do
passado, precisaria ser um outrol No mínimo, precisaria
matar seu passado, aniquilar seu perfil identitário.
Finalizando, retomamos a idéia basilar da história de que
tudo se transforma no tempo. Mas na visão de SBH sobre o
Brasil, ele privilegia as permanências, os tais traços que
moldam a identidade nacional, tolhem as mudanças e são
transmitidos através do tempo.
Todos os momentos analisados remetem à regularidade
de um perfil ou de um traço que acompanha a formação brasi
leira. Tudo se encaixa, em todas as temporalidades citam-se
alguns exemplos de conduta e modos de ser que se respondem,
em termos de significado, através da História: temos sido assim,
parece dizer SBH, e se formos às raízes, vamos encontrar a
presença do passado no presente.
Tais traços — os do tempo longo — expressam regulari-
dades, a servir de linha guia diante das descontinuidades
que seriam possibilitadas pelas ações dos homens em cada
momento da história e que possibilitariam a mudança, acele
rando o processo da formação nacional.
Tal leitura do Brasil conduz, fatalmente, a uma conclusão
precisa: a nação é escrava de seu passado, o que tolhe toda
transformação que possa levar à construção de um outro
tempo: o projeto futuro é ainda um sonho a realizar-se na
terra dos barões. Gerações de intelectuais se sucedem, mas, o
70
que são eles senão a atualização, no tempo, do viciado perfil
nacional, a reproduzir o passado com todo o seu séqüito
de estereótipos comportamentais, em renovada vitória de
Antígona sobre Creonte?
Na permanência e na sucessão das elites cultas, na inte-
lligentzia brasileira que se renova sempre no tempo, SBH
enfatiza a difundida "crença mágica no poder das idéias",^®
confirmando a tradição bacharelesca e aristocrática, e mos
trando quão forte é o peso do passado.
Mas SBH, na sua diversidade de tempos, inscreve uma
última temporalidade, que já anunciamos: aquela que pre
para o futuro, em uma "dissolução lenta, posto que irrevo
gável, das sobrevivências arcaicas",^' naquilo que chama
nossa revolução. Esta seria resultante de um processo moroso,
intercalado, representado, aqui e ali, por temporalidades
descontínuas, através de sintomas progressivos: a ascensão
das cidades, a abolição da escravatura, o domínio agrário dei
xando de ser baronia. Todos estes indícios teriam, como
sentido último, aniquilar as raízes ibéricas da cultura nacional.
Poder-se-ia ainda dizer que o ensaio de SBH cumpre a
tarefa hermenêutica de revelar o Brasil, dando a ver processos
profundos explicativos de modos de ser, agir — ou não agir
— dos brasileiros. Nosso autor articula as temporalidades,
mergulhando no passado para traduzi-lo aos leitores do pre
sente e, de uma certa forma, induzindo a pensar o futuro.
SBH mostra-se atento à presença de um público leitor, pois,
se sua escrita pretende desvelar sentidos, é para que estes
despertem ações, uma vez que há em sua obra um indicativo
de que o tempo da leitura deve ser um tempo de mudança.
Como escreve em um tempo brasileiro de efervescência, mesmo
de radicalização de posições e de hipertrofia do Estado, que
conduzirão ao autoritarismo do Estado Novo, sua escrita é
politizada e visa leitores inquietos e atentos, naquele tempo
de espera, na iminência de uma catástrofe.
Nas vésperas da decretação de um tempo sombrio, a ser
inaugurado pela ditadura, SBH sonha com a inscrição de um
tempo desejado: o da libertação dos fantasmas do passado e
de construção de um futuro para o Brasil, onde a democracia
seja não só um mal-entendido, como fora até então...
71
Nesta proposta de engajamento no seu presente para
construção do futuro, SBH se distancia de Ranke, a que tanto
admirava.
Apesar de destacar méritos ou possibilidades de uma lei
tura atualizada de seu texto, SBH viria mais tarde a nele
distinguir algumas limitações, que redundariam no seu lado
de inatualidade: em termos de tempo, sua história compor
tava um ontem e um hoje, mas não um amanhã,conteúdo
este presente, de forma clara, em sua própria obra. Raízes
do Brasil.
72
PARA CONCLUIR
73
desde dentro. E a revolução, que o autor anuncia e deseja,
implica na construção de um tempo novo, ao encontro das
forças vivas da nação, rompendo o tão comentado divórcio
entre Estado e sociedade, ou o primado da vazia cordiali
dade brasileira, cedendo espaço à ação, na tarefa de realizar
a construção da esfera pública e da democracia.
É como se o Brasil, no tempo imutável que consolida as
velhas estruturas, permanecesse até então apático, gover
nado somente pelas idéias. Das idéias à ação, e urgente, eis
a mensagem de SBH para imprimir movimento e mudança à
história do país.
Rompendo a permanência e a continuidade dos tempos,
este novo tempo do agora, desde o presente onde inscreve
sua obra, SBH insinua que se poderia instaurar, finalmente,
um novo sentido para o Brasil.
A incorporação da temporalidade na reflexão de SBH se
traduz, pois, neste princípio, de libertar o presente do passado,
hiperidéia que tudo subordina, fontes, testemunhos, citações,
ziguezagues no tempo, exclusões no espaço. Já referimos que
tais procedimentos e recursos podem por vezes confundir o
leitor. Mas este risco é assumido pelo autor na medida em
que cada elemento trazido em defesa da idéia a demonstrar
— e, seguidamente, isolado de seu contexto — solidifica uma
versão a demonstrar.
SBH convoca o passado, revivendo palavras, feitos e nomes
que se encaixam na sua proposta. Tarefa erudita, sem dúvida,
mas necessária, pois para demonstrar as raízes e a herança
que impedem a mudança, ele desce às sensibilidades. Ora, ir ao
encontro dos sentimentos implica atingir este núcleo íntimo,
de tradução externa de uma experiência sensível interna.
As sensibilidades se constituem em uma forma de percepção
do mundo que passa pelas emoções, sentimentos, emoções,
valores. As sensibilidades constróem um conhecimento sobre
a realidade na contramão do saber científico, apoiado em
conceitos e na racionalidade. Mas, mesmo na esfera da sensi
bilidade, tais percepções devem se traduzir em traços obje
tivos, para que possam ser recuperados e analisados por
alguém que, como o historiador SBH, estiver interessado
em decifrar o passado. E, neste sentido, é preciso filigranas
no olhar para recuperar estas pistas, bagagem de leitura.
74
erudição que permita percorrer vários campos, recolhendo
tais indícios.
75
colocar em ficção a experiência da história para recuperar uma
trajetória sensível no tempo. Nesta medida, teria se afastado
de suas fontes do culturalismo alemão, em leituras certas ou
prováveis.
NOTAS
76
ESCUDIER, Alexandre. Présentaiion. Apud. Droysen, Gustav Johann. Précis
de Théorie de I histoire. Paris: CERF, 2002. p. 18-19.
DROYSEN, Gustav Johann. Précis de théorie de V histoire. Paris: CERF, 2002.
p. 39-40.
DROYSEN, Johann Gustav. History and the histórica! method. In: Herme-
neiitics reader. MUELLER-VOLLMER, Kurt (Org.). New York: Continuum,
1988. p. 119-120.
DROYSEN, Johann Gustav. Histórica. Lecciones sobre Ia enciclopédia y
metodologia de Ia historia. Barcelona: Editorial Alfa, 1983- p. 7-21.
" DROYSEN, op. cit., p. 23.
Ibidem, p. 27.
Ibidem, p. 30.
Ibidem, p. 34.
Ibidem, p. 36.
ylpMí/Jauss. La fiction en histoire. LeDébat, Paris, Gallimard, n. 54, p. 96,
mars-avril 1989.
77
CÂNDIDO, Antonio. O significado de Raízes do Brasil. In: HOLANDA,
Sérgio Buarque de. Raízes do Brasil. 5. ed. Rio de Janeiro: Editora José
Olympio, 1969- p XVIII.
^'HOLANDA, op. cit., p.58, 106 e 114.
'"WEBER, Max. Economia y sociedad. Tomo I. México: Fondo de Cultura
Econômica, 1969. p. 16.
GERTH, H. H.; WRIGTH MILLS, C. (Org.). Introdução. WEBER, Max.
Ensaios de sociologia. Rio de Janeiro: Zahar, 1974. p. 81.
WEBER, Max. Sobre a teoria das ciências sociais. Lisboa: Presença, 1974.
p. 78.
" HOLANDA, op.cit., p. 21.
SOMBART, Werner. El burguês. Madrid: Alianza Editorial, 1982. p. 13.
Ibidem, p. 15.
Como assinala muito bem Pomian, Krzystof, Histoire et fiction. Le Débat,
Paris, (54), mars/avril 1989-
" HOLANDA, Sérgio Buarque de. Corpo e alma do Brasil. Ensaio de psicolo
gia social. Revista do Brasil, Rio de Janeiro, p. 32-42.
58 Ibidem, p. 37-38.
5' Ibidem, p. 38.
8° Ibidem, p. 35.
Ibidem, p. 39-
82 Ibidem, p. 34.
85 HOLANDA, Sérgio Buarque de. Raízes do Brasil. Rio de Janeiro: Editora
José Olympio, 1936.
8'' Cf. Nota da Editora. Dados bibliográficos do autor. In: HOLANDA, Sérgio
Buarque de. Raízes do Brasil. 5. ed. Rio de Janeiro: José Olympio,
1969. p. v-vi.
85 HOLANDA, Raízes do Brasil, 1936. p 28.
88 Ibidem, p. 25.
8' Ibidem, p. 25/6.
88 Ibidem, p. 55.
8' Ibidem, p. 62.
'8 Ibidem, p. 86.
Ibidem, p. 72.
Idem.
78
'5 HOLANDA. Raízes do Brasil, 1936. p. 105.
Ibidem, p.l37.
Ibidem, p. I6l.
'8 Peter Burke, em A escrita da História (São Paulo: Ed. UNESP, 1991), fala
de uma "decomposição da continuidade temporal" realizada por SBH.
" Como já aponta Maria Odila Leite Silva Dias em Política e sociedade na
obra de Sérgio Biiarqtie de Holanda, em: CÂNDIDO, Antonio (Org.).
Sérgio Buarque de Holanda e o Brasil. São Paulo: Ed. Fundação Perseu
Abramo, 1998. p. 21.
Ibidem, p. 12.
HOLANDA. Raízes do Brasil, op. cit., p.3.
HOLANDA, Chico Buarque de. Fado tropical.
HOLANDA. Raízes do Brasil, op. cit., p. 109-111.
Ibidem, p. 11.
HOLANDA. Raízes do Brasil, op. cit., p. 4-11.
Ibidem, p. 11.
HOLANDA. Raízes do Brasil, op. cit., p.5.
®® Ibidem, p. 8-9 e 79-
®' Ibidem, p. 4.
Ibidem, p. 119.
" Ibidem, p. 135.
Ibidem, p. 31.
79
JACQUES LEENHARDT
82
Ela nào visará, enfim, transformar Raízes do Brasil em um
breviário de política positiva, apesar do sentimento de frus
tração que sua leitura possa deixar frente um espírito inquieto
quanto às questões nacionais. Mas será justamente na articu
lação de todos estas questões, das teses defendidas, da meto
dologia empregada, da escrita realizada e da expectativa,
talvez desapontada do leitor que esta leitura buscará surpre
ender aquilo que há de específico no posicionamento de SBH
no curso dos anos 1930.
Há, na verdade, uma coisa que me chamou a atenção
quando das numerosas releituras que eu efetuei dessa obra:
a permanência, no autor, de um sentimento de irritação e de
impotência. Dir-se-á, mesmo, que uma tal apreciação está bem
longe dos argumentos adiantados pelo autor. Sem dúvida,
pois SBH analisa e comenta. Ele busca as razões para explicar
aquilo que tem sob seus olhos e que não o deixa tranqüilo.
E, quanto mais ele procura as razões, mais ele parece encon
trá-las. Tudo se passa como se, tendo em conta os pressu
postos culturalistas adotados, a causalidade se pusesse a
proliferar.
Dito de outra forma, as multiplicidades das causas do mal
que ele identificou remete a dois planos de análise distintos:
de uma parte parece reclamar que se acabe com as explicações
simplistas que reduzem o fato a ser conseqüência de uma só
causa. O uso sistemático das oposições polares tal como ele
funciona nas diferentes obras de SBH traz consigo esta neces
sidade de colocar em ação um campo de tensão, em lugar de
uma causalidade linear.
83
Quando esta complexidade de questões assume, em deses
pero de causa, o nome de destino, o projeto intelectual de
análise se encontra, de uma certa forma, acuado em uma
espécie de impasse, e o cidadão, por seu lado, fica desar
mado diante desta complexidade inextrincável. Ele não dispõe
senão de duas atitudes possíveis: desesperar se se entregar
cegamente ao destino ou experimentar um surto de energia.
Admitamos a hipótese de que SBH se tenha encontrado, entre
1926 e 1924, em uma situação comparável.
Esta alternativa tem um nome; Friedrich Nietzsche. A única
vez que SBH se refere ao autor alemão em Raízes do Brasil é
precisamente para opô-lo a este "homem cordial" que ele critica
como sendo um caráter tipicamente brasileiro desprovido
radicalmente de autonomia e de energia. SBH cita Nietzsche:
"Vosso mau amor de vós mesmos vos faz do isolamento um
cativeiro.'"* Vós sois um povo curvado, "acocorado" como já
dizia Lobato Monteiro à propósito de seu personagem Urupês,
ou seja, justamente o contrário de um povo com orgulho
de si próprio, "droit dans ses bottes" como diz uma expressão
francesa, "vertical" como diz também SBH, desta vez com refe
rência à Oswald Spengler: "A tendência fáustica, inteiramente
vertical, visando o aperfeiçoamento pessoal é, para o verda
deiro russo, vã e ininteligível. Mesmo as idéias russas do
Estado e da propriedade excluem toda tendência vertical."^
Reencontramos aqui, construída a partir de uma rede semân
tica que mergulha suas raízes na literatura filosófica alemã, a
acusação principal que lança SBH a seus compatriotas: falta
aos brasileiros o espírito fáustico, a verticalidade, a rituali-
dade e a hierarquia, valores necessários à construção do
Estado e de uma cultura.
Mas as causas desta falta são múltiplas, como indica a
metáfora do rizoma, da raiz, as Raízes do Brasil, em retomada
dos pitagóricos por Schopenhauer que SBH utiliza^ para com
bater a explicação simplista da causalidade única e que ele
empregará no título de seu ensaio.
Há, portanto, um conteúdo epistemológico essencial, uma
postura filosófica que, se poderia dizer, é enunciada neste
título a partir da arqueologia do conceito de "raízes", e que
nos orienta de Nietzsche para Schopenhauer. O autor de Über
die vierfache Wurzel des Satzes vom zureichenden Grunde,
84
constatando a impossibilidade de estabelecer causas, não
desenvolve diante disso nenhum desespero. Sua crítica é de
ordem puramente epistemológica. Permanece o fato de que
os atos existem, sem que se possa deles estabelecer as causas
e os motivos. Eles são o resultado da vontade dos atores.
Como diz Clement Rosset, é lógico que Schopenhauer, face
o mistério dado pela impenetrabilidade profunda de toda
relação causai, "venha conceder tanta importância ao conceito
de vontade".^
Depois da constatação de ser inviável o estabelecimento
de uma causalidade, prevalecerá o culto da energia, nesta
história que se escreve a partir de Nietzsche. Em carta datada
de 2/12/1925 à Mario de Andrade, Sérgio precisa sua postura
sobre estas questões: "Não sou cético nem pessimista. Mas
não é impossível que do seu ponto de vista seja um boca-
dinho dessas duas coisas. A verdade é que não creio na
"vaidade de todas as coisas senão como uma das atitudes
possíveis neste mundo."® A "vaidade de todas as coisas" é
bem esta tentação à qual Schopenhauer esta subordinado.
Mas para SBH, esta não é senão uma das respostas possíveis
à crise da causalidade, e ele não era daqueles que se deixasse
levar por elas. Tal poderia ser bem uma de suas caracterís
ticas ideológicas profundas, senão escondidas, da posição
intelectual de SBH, sobre a qual eu gostaria de tentar discernir
os delineamentos.
85
o clima mundial no qual tem lugar esta discussão interna
está, ele também, perturbado, e de uma maneira que não se
faz sem lembrar o que se passa no Brasil: a República de
Weimar sucumbe pela incapacidade intrínseca do regime
republicano saído da Primeira Guerra Mundial de gerenciar
democraticamente as tensões advindas dos tratados que
haviam posto fim à guerra. A crise econômica grassa na
Europa e nos Estados Unidos depois do crack de 1929 e, da
Itália de Mussolini à Alemanha, que acaba de se reconhecer
no chanceler Hitler, um sopro belicista atravessa a Europa.
Ao mesmo tempo, as antigas receitas das burguesias nacionais
não se apresentam mais aptas para responder às urgências
do momento presente, caracterizadas pela ascensão do movi
mento dos operários, cada vez mais organizados.
Parecia que o movimento profundo de renovação das socie
dades que tivera lugar antes da Primeira Guerra Mundial com
o florescimento das primeiras vanguardas artísticas, fauves,
cubistas e futuristas essencialmente, estava de novo em cons
trução. Mas neste novo contexto resultante do fim do primeiro
conflito mundial, cada atitude e cada palavra toma um sentido
diferente. Com suas ênfases vitalistas, as novas palavras de
ordem não se referem mais ao esgotamento da cultura antiga,
mas visa sobretudo os modelos políticos antigos. Eles entram
mais propriamente em um paradigma novo onde dominam
as figuras complementares do nacionalismo fascista exacer
bado e do internacionalismo proletário soviético. Um pouco
por tudo, mas a partir de pressupostos diferentes, tem-se a
impressão de que é chegado o momento de romper definiti
vamente com o Velho Mundo e de dar nascimento ao novo.
Neste concerto, Mussolini parece ter dado o tom: "Só a guerra
leva ao máximo de tensão todas as energias humanas e
marca com um selo de nobreza os povos que têm a coragem
de afrontá-la."
86
naquela da "construção criadora" que lhe segue e que lhe
aplica uma disciplina.
87
suprima Spengler, mas deixe Carl Schmitt, notável ideólogo
da época deve, em todo o caso, nos impede de tirar con
clusões muito rápidas.
88
pela economia política, ora pela lingüística e pela sociologia
das mentalidades. Trata-se, para ele, de mostrar como, na
história de Portugal e de suas colônias, se constituiu uma
mentalidade que hoje entrava o futuro brasileiro.
O primeiro tema desenvolvido por Raízes do Brasil é de
que Portugal foi o grande país colonizador dos trópicos. "Os
portugueses eram os mais bem preparados para efetuar a
conquista dos trópicos em benefício da civilização, do que
eles tinham consciência. Nisto residia sua missão histórica
essencial, da qual eles eram os portadores naturais.Nada
de novo nesta tese, salvo na maneira de desenvolver o argu
mento. SBH insiste sobre aquilo que se poderia chamar o
habitus português, uma estrutura mental profunda que fez
com que este povo de navegadores, pouco favorecido sobre
a terra seca e difícil de irrigar, se encontrasse totalmente
preparado para a aventura colonial que se lhe abriria nesta
época sob os trópicos. Ele foi, de todos os povos europeus,
aquele do qual a mentalidade profunda apresentava esta
perfeita adequação entre seu próprio gênio e uma tarefa
histórica.
89
portugueses: antes disso, sob o cajado de Dom Henrique, o
Navegador, eles tinham conquistado as Ilhas do Atlântico
onde a cultura da cana-de-açúcar tinha começado, desde o
século XV, tal como as costas da África, regiões onde desde
muito cedo se revelou o savoir-faire português.
A noção de ibericidade não é simples senão em apa
rência, porque ela remete a diversos planos explicativos.
O primeiro se refere, como se viu, à posição geográfica
marginal da península no continente europeu. Em compen
sação, no plano político, Portugal e Espanha puseram em
ação estratégias continentais opostas, francamente extra-
européias no que concerne a Portugal, mais profundamente
ancorada no continente, no caso da coroa espanhola. O con
ceito ibérico de ibericidade permanece, pois, ambíguo.
Mas SBH acrescenta igualmente uma outra característica à
ibericidade que, desta vez, nada tem a ver com a geografia,
mas, pelo contrário, delineia os contornos de uma mentali
dade propriamente ibérica: a relação com a aventura.
O AVENTUREIRO IBÉRICO E O
TRABALHADOR NÓRDICO
90
sociedades modernas e industriais. Mas, no contexto social
do fim do século XIX, em Sombart ou em Schumpeter, aquilo
que marca a figura do empresário é a presença nele da menta
lidade do aventureiro:
91
o modelo para Max Weber. A mentalidade ibérica que ele
tenta fixar mergulha suas raízes na Idade Média dos cavaleiros
e da nobreza predadora (Raubrittertum) ao mesmo tempo
em que herda a experiência das cidades mercantis italianas
que, no Mediterrâneo oriental e no Mar Negro, controlavam
um sistema de produção baseado na grande propriedade e
fundada sobre a mão-de-obra escrava, tal como analisou
Charles Verlinden.^°
A EXPLICAÇÃO TEOLÓGICA:
CIDADE DE DEUS, CIDADE DOS HOMENS
92
com o mundo aqui de baixo. Portanto, somente aqueles,
afastados da verdadeira fé, poderiam aspirar a uma paz a
ser realizada sobre a terra. Da mesma forma, só estes incré
dulos poderiam chegar à idéia de organizar o conjunto das
vontades humanas, com vistas a obter na terra um certo esta
do de felicidade e de harmonia. SBH reitera que a construção
de uma sociedade humana, mais ou menos harmoniosa, não
pode ser senão uma pálida imitação daquilo que se promete
no além da bondade divina, a Cidade de Deus. Portanto, só
para aquele que não vive pela verdadeira fé é que se organi
za uma paz terrestre neste mundo mortal e se dá lugar a uma
autoridade, o que permite dispor as coisas e as forças aqui
embaixo.
Os ibéricos, segundo SBH, jamais deram fé a este mundo
afastado de Deus, e permaneceram como que estranhos à
organização do mundo terrestre. O princípio ordenador da
hierarquia nas relações de poder lhes era portanto estrangeiro.
Segue-se daí que, para a lógica de Sérgio, na Península Ibé
rica, contrariamente ao que se passava no resto da Europa, o
individualismo jamais foi, significativamente, submetido à
idéia de uma organização hierárquica dos homens, em termos
sociais e políticos. Cada indivíduo é filho de si mesmo, não
tem necessidade dos demais. Ele conta somente com as suas
virtudes, com o seu próprio esforço. Os ibéricos são, em geral,
os dignos herdeiros do estóico Sêneca,^^ e esta é a razão pela
qual eles permaneceram, até hoje, tanto insensíveis ao trabalho
quanto à organização social.
SBH construiu esta visão agostiniana do mundo por acre
ditar na idéia de uma rejeição, de uma incapacidade, própria
aos povos ibéricos, para qualquer tipo de organização social,
hierárquica e política. Esta visão se encontra, portanto, profun
damente ancorada no teológico. É esta visão do mundo que
explica, em síntese, a dominação do modelo aventureiro, fun
dado sobre o mérito pessoal e pelo "cada um por si". O autor
explica, assim, de passagem, a ausência ou, pelo menos, o
fraco desenvolvimento do feudalismo no mundo ibérico.
Jamais, diz Sérgio, o princípio da ordem e da organização
hierárquica teve alguma importância no passado do mundo
ibérico. É preciso, contudo, inscrever esta longa e forte aná
lise daquilo que SBH chama de "personalismo" ibérico, desta
93
confiança em si mesmo, ligada a uma incapacidade de se
submeter a uma organização coletiva, na perspectiva dos
debates atuais dos anos 30.
SBH é bem claro: o Brasil não pode, de nenhuma maneira,
aspirar filiação a uma antiga forma de organização social que
teria sido perdida. Esta tradição jamais existiu.
Mas voltemos a esta ética do aventureiro. Quando SBH fala
da existência de uma ética de aventureiro, tal como se fala,
habitualmente, de uma ética do trabalho, quando designa o
aventureiro e o trabalhador como tipos sociopsicológicos,
imagina-se, imediatamente, que ele se inspira na obra de
Max Weber e nos conceitos metodológicos da sociologia
compreensiva alemã.
Constata-se, entretanto, que estas referências não são sufi
cientes e que ele articula ainda a estes modelos aquele do
sociólogo italiano Vilfredo Pareto. A propósito da oposição
entre o aventureiro e o trabalhador, Sérgio acrescenta aquele
entre o rentista e o especulador?^ Ele acrescenta ainda uma
outra referência, tomada desta vez de W. I. Thomas, sob o
nome de teoria dos "quatro desejos fundamentais".^^ Com
relação a esta teoria, o aventureiro seria caracterizado por
um desejo de novas sensações e de consideração pública,
enquanto que o trabalhador seria animado pelo desejo de
segurança e pelo de correspondência. Entretanto, o leitor
não fica bem esclarecido sobre o sentido que teria este
último desejo.
A acumulação destas referências teóricas é sintomática,
pelo fato de que Sérgio tenta construir um instrumento meto
dológico que concede uma grande importância à dimensão
psicológica das ações sociais. As sociedades são consti
tuídas, por vezes, de atores que constróem riquezas e que
as açambarcam graças à astúcia ou a violência, e por outros
que, em busca de segurança, privilegiam os investimentos
confiáveis. Estes últimos acabam por se fazer despojar pelos
mais espertos e os mais violentos.
Vê-se, portanto, que, para demonstrar as insuficiências
constitutivas da mentalidade brasileira, Sérgio remete aos
diferentes conceitos psicoculturais e às estratégias demons
trativas, tais como a construção de perfis opostos, por
exemplo, aqueles do aventureiro — "esse tipo humano ignora
94
as fronteiras"^^ — e do trabalhador — "aquele que enxerga
primeiro a dificuldade a vencer". Em Raízes do Brasil, ele
desenvolverá outros perfis, como aqueles do semeador e do
ladrilhador, onde retorna, sob uma outra forma, a oposição
entre o espanhol, colonizador, do território, construtor de
cidades de plano ortogonal estrito onde estão marcadas as
estruturas do poder e o português, pouco inclinado a ocupar
o território do interior e, conseqüentemente, a construir
cidades.
95
manteve afastados de todo pensamento concreto, acaba por
finalmente explicar seu reduzido espírito empresarial na
soleira do século XX. Isto se dá, mais facilmente, quando
se colocam em paralelo os valores racionais, próprios a
este período contemporâneo e aqueles derivados do pensa
mento medieval agostiniano!
Permanece o fato de que os dois tipos assinalados se
opõem, para SBH, tal como se opõem as respectivas categorias
do espaço e do tempo. O aventureiro é o homem do espaço
e seus valores, como a audácia, a imprevisào, a irresponsa
bilidade, a instabilidade e a vagabundagem correspondem
a uma concepção espacial do mundo. Pelo contrário, tudo
aquilo que nutre os valores do trabalhador, como a estabi
lidade, a paz, a segurança pessoal, o esforço sem perspectiva
de proveito material imediato, permanece como que incom
preensível ao aventureiro, pois advém de uma concepção
temporal do mundo. Em outros termos, o aventureiro ibérico
não saberia compreender, e ainda menos partilhar, o compor
tamento social e o comportamento econômico do trabalhador,
figura característica do mundo sóciopolítico do norte europeu.
Reencontra-se, aqui, a idéia de uma adequação mais na
tural do que histórica ou teológica do aventureiro ibérico, não
somente ao espaço dos trópicos — o português estava prepa
rado pela conquista das Ilhas do Atlântico —, mas também
ao tempo: a época predispunha aos gestos e façanhas auda
ciosos, galardoando bem os homens de grandes vôos.^^ A
explicação pelas mentalidades encontra, desta forma, um
descanso nas duras leis da geografia e dos climas.
Estas mudanças de registros e estes anacronismos que
aparecem de maneira constante na demonstração vem, em
particular, de que, mesmo quando fala do período da colônia,
SBH pensa essencialmente no presente histórico do Brasil. O
recurso a Pareto e Schumpeter indica claramente que aquilo
que era coerente nos séculos XVI e XVII, deixou de ser.
Advém daí o fato de que o holandês, do tipo ideal de empre
endedor weberiano, que não tinha sentido na época e no
contexto da colônia, faça falta no presente. Porque aquilo
que SBH subentende sem o dizer, é que se este tipo empre
endedor não assumiu o topo na época em que não era indis
pensável, ele desaparece, sem esperança de retorno no tempo
de hoje, quando agora seria útil e a ele se poderia recorrer.
96
Duas outras singularidades da argumentação de SBH en
contram sua razão de ser nestes descompassos temporais.
Espanta constatar o papel que aí desempenham a Inglaterra e
a França. Em se tratando, para SBH, de distinguir na Europa
duas mentalidades opostas, o aventureiro e o trabalhador, o
autor coloca nos Pireneus a fronteira entre os territórios onde
dominam estes tipos opostos. Assim, ter-se-ia, de um lado, a
Europa verdadeiramente continental e de outro a Península
Ibérica, fronteira entre os mundos do ultramar.
Ora, a França, que deveria aparecer na primeira linha destes
países do continente europeu, está totalmente ausente da
contraposição entre ibéricos aventureiros e trabalhadores
europeus. Isto se dá, evidentemente, porque na época ela
conduz uma política de entrepostos idênticos aos de Portugal.
Na leitura de uma carta de Mem de Sá — que se apodera,
finalmente, do forte estabelecido por Villegagnon no Pé do
Pão de Açúcar, na Baía da Guanabara —, pode-se mesmo
perguntar se a política que os portugueses conduzem não
se inspiram das relações de boa vizinhança que os merca
dores franceses tinham estabelecido com os autóctones das
diferentes tribos da costa. Em sua carta de 18 de junho de
1560 à regente do trono de Portugal, Mem de Sá escreve:
97
se dê, o autor compara a colonização e o modo de exploração
escravocrata da América do Norte, cujas similitudes com a
colonização portuguesa deveria nos convencer de que o povo
inglês, antes da época vitoriana, era tão pouco inclinado ao
trabalho quanto o português. Afinal, quer parecer, então, que
aquilo que SBH chama de norte designa somente os Países
Baixos, exemplo fundador da teoria weberiana do comporta
mento capitalista, como se o Buarque português devesse se
opor ao Holanda nórdico!
Para bem compreender as particularidades desta geografia
do continente europeu, é preciso lembrar dois fatos: todos
os países europeus, na época, conduzem uma semelhante
política de entrepostos. Na metade do século XVI é então
quase impossível estabelecer as diferenças, sobretudo opo-
sições fortemente marcadas, como é o caso do binômio
aventureiro/tra balhador.
As coisas mudarão mais tarde, e a França e a Inglaterra, ao
longo de seu desenvolvimento colonialista, adotarão posturas
e manifestarão mentalidades coloniais parcialmente dife
rentes. Isto permitirá que, no século XIX, a França, apesar de
toda a relutância e da existência real de uma política colonial
por vezes bem violenta, assuma um forte papel ideológico
em nome dos ideais da Revolução de 1789 no processo de
libertação nacional da América Latina, enquanto que a Ingla
terra será estritamente identificada por seu papel comercial,
industrial e militar.
98
empenha em desarmar todas as expressões genuínas e
menos harmônicas da nossa sociedade, em negar toda espon
taneidade nacional".Lembrando claramente dos perigos que
há em tirar conclusões precipitadas sobre questões muito com
plexas, é preciso estar atento às palavras que desaparecem
de uma edição à outra de Raízes do Brasil. Aqui é a palavra
"genuínas" que é apagada enquanto a expressão "esponta
neidade" permanece. É com referência àquilo que há de
profundamente natural na espontaneidade, é o fundo vital
da sociedade que foi ligeiramente colado de uma edição à
outra, como se, de uma para outra época, esta afirmação
vitalista tenha parecido muito exclusiva para o autor.
Uma vez ainda nós nos surpreendemos com o fato de que,
em seu exame histórico e sociológico, SBH reage com relação
à situação presente. É, pois, à luz desta constatação que é
preciso ler suas análises. Sobre o ponto muito particular da
influência debilitante que exerceria o pensamento francês
sobre o Brasil dos anos 1930, é preciso distinguir dois níveis.
Um concerne aos valores, outro à sua atualização. No plano
dos valores, já se viu, aqueles da democracia ou dos direitos
do homem levados adiante pela Revolução Francesa não
têm, para SBH, nenhuma relação com a situação presente
do Brasil, e aí se encontra uma tara absoluta.
Durante todo o século XIX, estes valores sem dúvida influ
enciaram a política de muitos estados e movimentos de libe
ração, mas era como se tais idéias se tivessem justaposto a
uma sociedade na qual as leis eram totalmente outras, fora
do seu lugar, para retomar a fórmula proposta por Roberto
Schwarz a respeito de Machado de Assis.
Mas o que caracteriza, aos olhos de SBH, de forma mais
acabada, a transferência das idéias da Europa para o Brasil,
é menos o seu descompasso temporal ou espacial e as causas
que dão conta disso,^° do que seu "enfraquecimento", seu
"amolecimento".
99
apocalíptica, que tanto colorido emprestou aos seus mo
delos da Itália e da Alemanha. A energia sobranceira destes
transformou-se, aqui, em pobres lamentações de intelectuais
neurastênicos."^'
Poder-se-ia acreditar, pela leitura destas frases, que SBH
endossa, simplemente, os valores de energia que compõem,
na época, o essencial do credo filosófico de tendência fascis-
tizante. Mas, de fato, se ele sublinha os méritos do fascismo
europeu, é para logo destacar que o seu culto da energia não
os conduz, finalmente, senão a promover, pela violência,
interesses basicamente ordinários. Em lugar de uma verda
deira reforma, eles não promovem senão uma pobre contra-
reforma.^^ Sérgio se põe então a detalhar, com um olho crítico,
aquilo no que se tornou o fascismo mussoliniano no Brasil.
Ao falso revolucionarismo do modelo italiano ou alemão vem
se acrescentar — e lá está o centro de sua crítica — a degene-
rescência brasileira desta ideologia. E para bem sublinhar
que é sempre esta herança deletéria lusitana que está em
causa, SBH afirma que a mesma degenerescência já imprime
sua marca, em outros setores da sociedade, mas do mesmo
modo, a transplantação dos ideais revolucionários comu
nistas para o solo brasileiro.
100
pairava no ar angustiante da época, do que daquele do
comunismo.
101
Mas como a política está nas mãos de espíritos abstratos, de
bacharéis positivistas, procurando fazer prevalecer princípios
também abstratos, cabe à sociedade tomar o poder e exprimir
seus valores vitais, cuja força transformadora é contida pelo
aparelho do Estado.
SBH vai bem longe neste sentido de uma oposição entre a
sociedade e o Estado: "A politica é, de alto a baixo, um meca
nismo alheio à sociedade, perturbador da sua ordem, contrário
a seu progresso.
102
sua herança, de se disciplinar e de se governar no interesse
de sua própria sociedade.
SBH afirma entào, logicamente, o primado da sociedade
sobre o sistema político, proclama o primado daquilo que é
vivo sobre as estruturas políticas abstratas e cerceadoras.
Se transcrevermos agora, de maneira mais circunstanciada
e localizada, esta tomada de posição na geografia das regiões
políticas e sociais brasileiras, poder-se-á dizer que o dina
mismo da sociedade paulista, herdeira da tradição "bandei
rante" e novamente animada de uma energia industrial feroz,
se faz ouvir com uma voz específica no debate nacional, a
reinvindicar direitos quanto ao futuro político do país. Ele se
mostra tanto mais inclinado a fazê-lo nesta década de 20,
quando seu dinamismo econômico se encontra reforçado pela
eclosão de um forte movimento cultural que contribui para
redefinir o mapa político do Brasil. A sociedade paulista tem
o sentimento de que a energia que a anima está constrangido
por aqueles que reclamam da herança estatal e jacobina da
República Velha.
Entretanto, o leitor nunca saberá, exatamente, se a maldição
da herança portuguesa, ainda visível nas práticas políticas
contemporâneas, teria sido levantada neste caso particular
da epopéia paulista. Resposta à necessidade, diria SBH, mais
do que uma mentalidade verdadeiramente conquistadora. Se
é este o caso, então porque não se produziriam novas neces
sidades em uma situação comparável?
103
luso-brasileiro as causas das dificuldades atuais. A natureza
destas causas será, entretanto, radicalmente diferente daquela
invocada na obra de 1936.
NOTAS
' HOLANDA, Sérgio Buarque de. Raízes do Brasil. 4. ed. Brasília: Editora da
Universidade de Brasília, 1963.
2 BOSI, Alfredo. Dialética da colonização. São Paulo: Companhia das Letras,
1992. p. 37.
^ CÂNDIDO, Antonio (Org.). Sérgio Buarque de Holanda e o Brasil. São
Paulo: Editora Fundação Perseu Abramo, 1998. p. 13.
" FRIEDRICH NIETZSCHE, Werke, Leipzig, Alfred Krõner Verlag, IV, [s.d.].
p. 65. In: HOLANDA, Sérgio Buarque de. Raízes do Brasil. 4. ed. Editora
da Universidade de Brasília, 1963. p.l38.
^ OSWALDO (sic) Spengler. Der Untergang des Abendlandes. Munich
MCMXXXI. p. 258. Nota em HOLANDA, Sérgio Buarque de. Raízes do
Brasil. 1. ed. Rio de Janeiro: Livraria José Olympio Editora, 1936. p. 106.
^ SCHOPENHAUER, Arthur. Über die vierfache Wurzel des Satzes vom
zureichenden Grunde. (1813). Sur Ia quadruple racine du principe de
raison suffisante trad. franc. deJ.-A. Cantacuzène, Paris; Libr. Germer
Baillière 1882.
'' Ibidem, p. 9.
' ^ANDRADE, Oswald de. In: Os dentes do dragão. Apud SCHWARTZ, Jorge.
Vanguardas latino-americanas, polêmicas, manifestos e textos críticos.
São Paulo: Edusp, 1995. p.68.
' ^ Por exemplo, João Lúcio de Azevedo "Algumas notas relativas a pontos de
historia social" em Miscelanea de estudos en homenagem de D. Carolina
Michaelis de Vasconcelos. Coimbra, 1930.
104
'^cf. SIMONSEN, Roberto C. História econômica do Brasil (1500-1820).
São Paulo: Companhia Editora Nacional, 1937.
''' Ibidem, p. 21.
'®SOMBART, Werner, citado por Michael Nerlich. Kritik der Abenteuer
Ideologie. Berlin: Aufbau Verlag, 1977. p. 118."Dem Seeraub ais sozialer
Einrichtung begegnen wir schon in den italienischen Seestãdten wâhrend
des Mittelalters. Amalfi, Genua, Pisa, Venedig sind alies Herde des
organisierten Seeraubs (...) und die ersten Formen der kapitalistischen
Unternehmungen sind diese Raubzüge" (notre traduction).
" Cabe notar que Sombart define o sucesso da mentalidade capitalista como
o resultado de um certo equilíbrio entre os dois componentes que no tipo
ideal se encontram em oposição.
VERLINDEN, Charles. L'esclavagedans 1'Europe médiévale. Bruges/Gand,
1955/1977. t. I. p. 719.
HOLANDA, Sérgio Buarque de. Raízes do Brasil. 4. ed. Brasília: Editora da
Universidade de Brasília, 1963. p. 21.
Ibidem, p. 7.
Ibidem, p. 19.
" Idem.
Ibidem, p. 18.
105
CHIARA VANGELISTA
TERRITÓRIO E NAÇÃO
Em 1948, a Comissão de Estudos para a Localização da
Nova Capital do Brasil publicava um mapa que sustentava
visivelmente a necessidade de concretizar o renovado projeto
de transferir para o centro do país a capital da Federação.
Com uma fácil revisitação dos mapas renascentistas e colo
niais, o autor do relatório, Jerônimo Coimbra Bueno, afirmava
que quase dois terços do Brasil era "Terra de Ninguém".' Uma
linha do norte rumo sul-oeste dividia o Brasil em duas áreas:
uma larga faixa a oriente, povoada e organizada política e
economicamente, e o restante do país, primitivo, incontro-
lável, desconhecido. O deslocamento da capital para o centro
geográfico do país, dentro da "Terra de Ninguém", haveria
de trazer uma série de benefícios, entre os quais, o contraste
ao fluxo migratório interno em direção ao centro-leste e o
conseqüente adensamento urbano, aspectos sociais que
começavam a preocupar a classe política e os analistas.^
O deslocamento da capital federal — realizado mais de
uma década depois — era só uma das etapas de um projeto
mais abrangente, que caracterizou a política territorial de
Getúlio Vargas e que comprendia a "Campanha da Marcha
rumo Oeste", lançada em primeiro de maio de 1941, por meio
da qual os projetos de implementação das comunicações entre
o litoral e o interior, de aproveitamento econômico do terri
tório e de expansão até incorporar a Bolívia^ procuravam uma
base de consenso popular. Esta base era dada pela "Campanha
da valorização do homem brasileiro", isto é, pela difusão de
um modelo de homem novo, peculiarmente brasileiro, cuja
identidade original se concretizava em específicas relações
— de marca tradicional e antieuropéia — com o território.'^
A "Terra de Ninguém", incontrolável e arraigada ao passado,
fora da história, porém dentro da geografia, tornava-se, justa
mente por estas características, o espaço do futuro.
O projeto da nova capital federal, a "Marcha rumo Oeste"
e a "Campanha de valorização do homem brasileiro" eram as
específicas formas político-ideológicas da época de Vargas
de elaboração da relação cultural (sem aqui entrar no assunto
das relações econômicas) com o território nacional. Com
efeito, na década de 40 assistimos a uma intensificação, no
nível ideológico e simbólico — e para fins de propaganda de
regime — de temáticas e conceitos já debatidos, em contextos
diferentes, por vários intelectuais brasileiros no período
entre as duas guerras mundiais.
Esta forma de expansionismo interno não pode, então, ser
reduzida a uma estreita e contingente funcionalidade política.
O projeto político populista é antes um aspecto relativamente
efêmero de um contexto cultural mais complexo e diversifi
cado, que se pode evidenciar no debate artístico, literário e
historiográfico, além de político, em tomo das peculiaridades
brasileiras, e desenvolvido em um meio nacional e interna
cional marcado, naqueles anos, por uma forte agressividade,
ligada por sua vez também às temáticas do expansionismo
territorial.
Em outras palavras, deu-se no Brasil daquelas décadas uma
fase importante e de notável impacto coletivo — porque am
pliado pelos novos meios de comunicação — de um fenômeno
latino-americano de longa duração, iniciado com a Indepen
dência: a relação político-cultural com aquelas porções de
território nacional — as "terras vazias"— que mais podiam
ser assimiladas ao conceito de natureza. Como ressalta Vanni
Blengino em um ensaio recente, para os latino-americanos
— e suas reflexões bem se encaixam ao especial contexto
brasileiro de que estou tratando —
108
implicações étnicas, porque é justamente a partir da definição
da natureza e do homem natural que nasce uma proposta
"programática" sobre a identidade futura do país."^
109
colonial põe-se como questão central em toda sua obra, no
meio século ideal que vai desde a primeira edição de Raízes
do Brasilil9ò^^ até a publicação póstuma de O extremo Oeste
(1986). Uma questão historiográfica e ao mesmo tempo
política é posta de maneira explícita por nosso autor em
Caminhos e fronteiras e em Visão do paraíso.
Em Caminhos e fronteiras, coletânea de artigos e ensaios
publicada em 1957, no capítulo IX ("Frotas de comércio") da
primeira parte, "índios e mamelucos", SBH refletia sobre o
povoamento de Cuiabá, no começo do século XVIII:
110
Esta atenção pela longa duração está associada, em SBH,
à questão da expansão lusitana, e mais em geral da civilização
ocidental, até a América. O primeiro capítulo do seu primeiro
livro. Raízes do Brasil, titula-se "Fronteiras da Europa", e o
conhecido incipit não só esclarece o conteúdo do ensaio,
mas parece também indicar uma orientação de pesquisa que
permaneceu constante nas décadas seguintes:
111
regional e o nacional, entre o local e o universal que pode
sugerir uma perspectiva de análise em parte distinta da ante-
cendente:
112
tempo explique a nova, efetiva ou esperada conquista feita
pelos novos, contemporâneos, atores sociais.
Neste contexto, o território da federação não só se identi
fica com o espaço da nação, mas adquire as qualidades de
construtor, ou plasmador, do povo brasileiro. É então no con
tato dinâmico com a terra (a natureza, para retomar o discur
so evidenciado por Blengino) e com seus "antigos habitan
tes" (os índios, que entram assim na categoria do homem
natural) que o colonizador deu e dá forma às peculiaridades
brasileiras.
Trata-se verdadeiramente de uma cartografia do tempo e
do espaço, construída para evidenciar "recortes do território
dotados de sentido", como nota Sandra Jatahy Pesavento. Uma
cartografia pouco desenhada pelos seus próprios autores,
mas que tem uma reprodução enorme, ainda que vulgari
zada, nos atlas escolares, fundamento do sentir comum e
da construção de uma específica consciência coletiva de
pertencimento territorial da nação.
Diferentemente dos outros autores citados, que nem
publicam um mapa para explicar o processo de expansão
territorial que foi objeto ou teatro das respectivas narrações,
SBH, mais cuidadoso que outros no manejo das fontes histó
ricas, ainda que com os limites sobre os quais já abordei,'^
põe em seus volumes alguns mapas, para ilustrar a síntese
que ele faz das fontes lidas. De minha parte, nas páginas que
seguem, vou construir mapas baseados em uma perspectiva
diferente, aquela de cartografar a interpretação buarquiana
do Brasil, indicando "os recortes" que, ao ver de nosso autor,
são "dotados de sentido" e que transformam o território num
peculiar espaço nacional.
As chaves de leitura com que vou trabalhar são o espaço,
entendido como produto da interação dos elementos materiais
e imateriais de contrução e organização do território, e a fron
teira, na sua acepção de movimento expansivo sobre o terri
tório, finalizando, no caso específico, de forma consciente
ou pela construção do espaço nacional.
Esta cartografia da interpretação buarquiana do Brasil funda
— se na leitura de Raízes do Brasil (edição de 1936, analisada
junto àquela de 1955, na impressão de 1984), Monções
Caminhos e fronteiras Visão do paraíso , 2. ed.).
113
e O extremo Oeste Um período de 50 anos que abrange
boa parte da vida intelectual de SBH e meio século de história
do Brasil. Os trabalhos agora citados serão analisados de
forma diacrônica, para sublinhar as mudanças de interpre
tação que SBH manifestou ao longo dos anos, e de forma
sincrônica, para evidenciar os aspectos que considero subs
tanciais no pensamento do Autor.
ESPAÇO E FRONTEIRA
114
explícita, por exemplo, na carta a Cassiano Ricardo, publi
cada na terceira edição de Raízes do Brasil, que tem como
assunto a conhecida polêmica de Cassiano em relação à
definição buarquiana do brasileiro como homem cordial,
explicada no quinto capítulo de Raízes-.
115
fronteiriça, de transição, menos carregada, em alguns casos,
desse europeismo que, não obstante, mantém como patri
mônio necessário."^
116
(...) o fato é que essa própria mobilidade (...) irá (...) condi
cionar a situação implicada na idéia de "fronteira". Fronteira,
bem entendido, entre paisagens, populações, hábitos, insti
tuições, técnicas, até idiomas heterogêneos que aqui se
defrontavam, ora a esbater-se para deixar lugar à formação
de produtos mistos ou simbióticos, ora a afirmar-se, ao
menos enquanto não superasse a vitória final dos elementos
que se tivessem revelado mais ativos, mais robustos ou
melhor equipados. Nessa acepção a palavra "fronteira" já
surge nos textos contemporâneos da primeira fase da colo
nização do Brasil e bem poderia ser utilizada aqui inde
pendentemente de quaisquer relações com o significado
que adquiriu na moderna historiografia, em particular na
historiografia norte-americana desde os trabalhos já clássicos
de Frederick Jackson Turner (...).-"
117
Como se pode ver pelas citações, a freqüência das duas
palavras é surprendentemente modesta, seja em termos abso
lutos, seja em relação às temáticas próprias dos textos exami
nados. Pelo que se refere à palavra "fronteira", temos uma
maior freqüência do que a palavra "espaço", e a presença
forte em dois títulos: no primeiro capítulo de Raízes do Brasil
e no título do volume de ensaios Caminhos e fronteiras.
A citação pontual dos trechos em que se encontram as
duas palavras procuradas fornece um primeiro conjunto de
indícios em relação à cartografia buarquiana. Trata-se de
uma freqüência tão modesta, em relação às temáticas enfren
tadas pelo Autor, que não pode ser considerada casual. A
palavra "fronteira" é usada mais vezes do que a palavra
"espaço" e, junto com a palavra "pioneiro", ela se encontra
com maior freqüência em Raízes do Brasil que nos outros
livros. É ausente em Monções e em Visão do paraíso, enquanto
que em Caminhos efronteiras encontra-se no título e na intro
dução, para desaparecer ao longo de todo o texto. Em Extremo
Oeste não há a palavra "fronteira" e só uma vez são citados
os "pioneiros".
Não se pode afirmar que o uso tão limitado da palavra
"fronteira" dependa do fato de que o Autor atribua-lhe uma
forte carga de significado. "Fronteira" é utilizada sobretudo
em Raízes do Brasil, onde assume todos os sentidos do escrever
historiográfico comum: território-ponte, zona de transição,
limites, limites e transição. Na introdução a Caminhos e fron
teiras há pelo contrário uma definição, ainda que por negação.
No Brasil, com efeito, afirma o Autor, não há a fronteira no
sentido de Turner:" SBH não explica por que, mas parece
preferir o significado da antiga fronteira colonial, como espaço
marginal aos centros de poder, econômico, político e social,
mas dentro dos limites do reino e formando parte do patri
mônio da Coroa. Porém, isto não é bem assim, pois o Autor
menciona a "idéia de fronteira", relacionada a uma qualidade
sociopsicológica dos paulistas e da sociedade que eles
produziram. Também refere-se a uma mobilidade estritamente
conjunta ao conceito de limite: "...entre paisagens, populações,
hábitos, instituições, técnicas, até idiomas eterogêneos que
se desfrontavam..."^'* Então, tem-se uma fronteira não enqua
drada num significado específico, histórico (a fronteira colo
nial), ou historiográfico (a fronteira de Turner e da assim
definida "moderna historiografia").
118
Esta particular atitude põe em evidência uma caracterís
tica que me parece própria de Buarque de Holanda, que é a
de procurar com a maior atenção as palavras que mais se
adaptem à complexidade das sociedades que ele está apre
sentando. Fugir da definição, para entregar ao leitor a multi-
formidade dinâmica de uma sociedade em formação. Quanto
mais o trabalho de indagação deixa a síntese geral (^Raízes
do Brasil), para entrar no particular e na vida cotidiana da
colônia, tanto maior é a atenção para evitar as definições e
a conceitualização.
Só em Caminhos e fronteiras SBH parece apresentar seu
trabalho como parte de um debate sobre a fronteira. Isto se
passa, porém, no âmbito restrito de uma parte da introdução.
Apesar da única referência a Turner, se tratam de afirmações
que talvez foram ocasionadas pela publicação, poucos anos
antes, de dois livros, muito conhecidos, sobre a fronteira
brasileira: o de Vianna Moog, Bandeirantes epioneiros. Para
lelo entre duas culturas, e o de Pierre Monbeig, Pionniers et
planteurs de São Paulo, ambos impressos no ano de 1954.^^
Talvez fosse o caso de uma introdução que explicasse a
reunião em volume de ensaios escritos no curso dos anos,
onde o Autor reputara importante encaixar aqueles trabalhos,
esparsos, porém coerentes com seu próprio projeto inte
lectual. Tal recurso implicaria chamar a atenção do leitor
para um debate mais amplo, ainda que não citando os autores
e afirmando o seu estranhamento.
Concluindo, à medida que o trabalho sobre a expansão
paulista se aprofunda, a palavra "fronteira" desaparece. Em
bora todo o trabalho de SBH seja colocado no âmbito dos
estudos da fronteira colonial, justamente no sentido que foi
dado para a palavra na mesma época e nos documentos por
ele utilizados, nosso Autor prefere evitar esta caracterização.
No caso de "espaço", o uso da palavra é ainda mais raro.
Este me parece um indício, que irei desenvolver nas páginas
seguintes, do fato de que para o Autor a capitania de São
Paulo, junto àquelas de Mato Grosso e de Goiás, não consti
tuem, até o fim da época colonial, um verdadeiro espaço
político-social. De fato, as palavras mais freqüentes, e esco
lhidas com o cuidado costumeiro, são aquelas concentradas
no incipit das duas principais edições de Raízes do Brasil:
território, ambiente, terra, clima, paisagem.
119
o BRASIL-TERRITORIO
120
A sociedade, constituída no planalto da capitania de Martim
Afonso, mantém-se, por longo tempo ainda, numa situação
de instabilidade ou de imaduridade, que deixa margem ao
maior intercurso dos adventícios com a população nativa.
Sua vocação estaria no caminho, que convida ao movi
mento; não na grande propriedade rural, que cria indivíduos
sedentários.^®
121
coeso e em equilíbrio, baseado na grande propriedade agrí
cola; outro, o "Sul", imaduro, instável, em movimento. Em
São Paulo, o movimento é a característica predominante —
como SBH salienta em Monções, para repeti-lo com as idênticas
palavras décadas depois, em O extremo Oeste: "Sua vocação
está no caminho, que convida ao movimento.^^ Esta "vocação
ao caminho" não produz um sistema fortemente hierarqui-
zado, mas bem novos núcleos de povoamento, dois dos quais
formam subsistemas: Sorocaba e Cuiabá.
Este Brasil, que se define territorialmente nos confins
móveis marcados pelos bandeirantes, está a miúdo colocado
no quadro mais abrangente da América do Sul, na tensão
não só cultural — como no caso de Raízes do Brasil — entre
Espanha e Portugal. A contextualização continental está pre
sente, em planos analíticos distintos, em Visão do paraíso e
em O extremo Oeste.
122
Castela, de repente, a converter-se em potência universal
mente respeitata ou invejada, colocava-a numa posição
central, que lhe daria a chave de todo o continente, bloque
ando todas as possibilidades de acesso dos de Portugal às
minas de metal rico. Enquanto o francês, por exemplo,
adversário mais de longe, vai cuidando de insinuar-se sobre
as partes mais visíveis ou ostensivas da colônia, de donde
não seria difícil, talvez, desalojá-lo, vinha agora esse outro
inimigo mais íntimo e mais perigoso, por isto que, vivendo
ali ao lado e como paredes-meias com ele, bem sabia os
fracos do português, e punha-se em situação de poder feri-lo
de flanco, se assim o quisesse. É significativo que se aperceba
Portugal da importância e da gravidade do acontecimento
na ocasião exata em que decide melhor firmar seu senhorio
sobre o Brasil (etc.)."
123
eventos brasileiros e continentais em um projeto imperial de
longa duração. Se confrontarmos dois trechos sobre o fenô
meno das bandeiras, publicados respectivamente na primeira
e na última obra historiográfica de nosso Autor, sobressai
com maior evidência a reflexão sobre esta questão.
Retomamos por inteiro um trecho de Raízes do Brasil, que
já citei parcialmente, no qual está evidente o que chamei de
protonação:
124
É que uma série de resultados felizes obtidos pela diplomacia
portuguesa na América do Sul favoreceu freqüentemente,
entre esses povos, a crença numa singular habilidade e astúcia
da política lusitana, que chegaria mesmo a ser seu traço
distintivo em confronto com a castelhana.^'
12S
forma é mais de uma ação por assim dizer horizontal, de adap
tação e paulatina transformação da natureza em território.
Se, no caso do Nordeste, as características geomórficas pro
duzem uma ocupação relativamente intensiva e estável e um
correspondente tipo humano, em São Paulo, "os caminhos
convidam ao movimento", formando um território distinto,
caracterizado por uma sociedade mais instável, mas, sobre
tudo, mais dinâmica.
OS ATORES HISTÓRICOS
126
(continuação), o Autor põe em oposição as políticas ocupa-
cionais castelhana e portuguesa, afirmando que
127
São Paulo, onde as circunstâncias favoreciam menos a ação
adversa da metrópole
128
será menor, todavia, os méritos dos que no Brasil se tornaram
agentes, talvez involuntários, de tão insigne programa. Isto
é: não sai diminuída a glória dos sertanistas se eventual
mente trilharam, sem o perceber, caminhos do além-mar.'^
129
A acentuação maior dos aspectos da vida material não se
funda, aqui, em preferências particulares do autor por estes
aspectos, mas em sua convicção de que neles o colono e
seu descendente imediato se mostraram muito mais aces
síveis a manifestações divergentes da tradição européia
do que, por exemplo, no que se refere às instituições e
sobretudo à vida social e familiar em que procuravam reter,
tanto quanto possível, seu legado ancestral."
130
Brasil —, porém sempre resultado de projetos e de valores
importados, ou, para melhor dizer, transplantados na América.
A escolha feita em Caminhos e fronteiras, em Monções e
em boa parte de O extremo Oeste de acompanhar de maneira
pormenorizada os roteiros rumo oeste, os meios para enfrentar
estas viagens e sua evolução, que é técnica e também social,
prejudica as outras dimensões, como a político-institucional
(a fundação dos municípios, ao longo da marcha coloniza-
dora), a político-religiosa (as paróquias, as missões) e, em
parte, a étnico-política (as relações interétnicas da fronteira).
Desta maneira, sobressaem em toda sua importância os
protagonistas buarquianos da conquista do território: os
paulistas, rústicos senhores duma terra conquistada aos
poucos, com os meios simples, porém eficazes, da adaptação
criativa e dinâmica à natureza.
CARTOGRAFIAS SOBREPOSTAS
131
Essa própria mobilidade tendia a repelir o vigor lento e labo
rioso, a prudente e minuciosa aplicação com que outros povos
mais assentados buscam seus elementos de subsistência. Os
frutos da lavoura não encontravam um mercado amplo ou
acessível para seduzir as ambições dos moradores da terra. E
assim, as mesmas razões que condenavam esses homens à
instabilidade, reduziam-nos freqüentemente à dependência
imediata da natureza.'®
132
fiel em cima de outra cartografia, a indígena. Citando as
observações de Gari von den Steinen (1886), de Theodor
Koch-Grünberg (1909) e de Fritz Krause (1911), Buarque de
Holanda chama a atenção sobre a "extraordinária habilidade
cartográfica" dos povos indígenas:
133
involuntária e indireta (...) Das existências destas vias já com
caráter mais ou menos permanente, antes de iniciar-se a
colonização, nada autoriza a duvidar. E ainda hoje, o traçado
de muitas estradas de ferro parece concordar com o dos
velhos caminhos de índios e bandeirantes, sinal de que sua
localização não seria caprichosa.''^
134
Ao longo dos caminhos criam-se pousos, ou núcleos de
povoamento. Entretanto, a mobilidade é a variável mais forte
do povoamento. Os núcleos sào frágeis, efêmeros. Os projetos
coloniais chocam-se com a fragilidade efetiva dos núcleos,
núcleos formados por criminosos e vadios de toda sorte,
pobre material humano. Em 1776
135
por terra ou por água, que unem pontos de frágil povoamento
ao interior de um nào-espaço.
Este nâo-espaço é constituído por terra farta, desfrutável,
na qual os portugueses instauram uma "civilização de raízes
rurais", mas não uma civilização agrícola, como é escrito no
capítulo III de Raízes do Brasil.^^ Em Monções acrescenta-se:
CONCLUSÕES
136
por exemplo, a Cassiano Ricardo, mas também a Oliveira
Vianna e a d'Escragnolles Taunay —, SBH proporciona uma
outra interpretação, evidenciando o caráter tosco e rotineiro,
em intimidade com os povos indígenas e com a natureza, da
lenta conquista do Brasil centro-ocidental.
Com efeito, os elementos de originalidade que distinguem
os luso-paulistas buarquianos, a par, mas em planos distintos,
dos portugueses e da aristocracia do nordeste de Gilberto
Freyre, são a adaptação criativa ao meio natural e a capacidade
de desfrutar de maneira inovadora, ocidental (não estamos
nas fronteiras da Europa?) da habilidade e da sabedoria dos
índios, forjando, através dos mecanismos de uma socie
dade culturalmente mestiça, um expansionismo territorial
de tamanho desconhecido no restante da América do Sul.
O expansionismo luso-paulista é explicado como conse
qüência quase natural de circunstâncias geopolíticas, onde a
marginalidade e, simultaneamente, a colocação estratégica
para a penetração terra adentro tem lugar em uma situação
parecida à dos portugueses na Europa, em relação ao Oceano.
Tais circunstâncias geopolíticas modelam um tipo social espe
cífico. Este tem fortes raízes no mundo luso, como é explicado
em Raízes do Brasil e em Caminhos e fronteiras, mas, ao
mesmo tempo, liberta-se da metrópole no contato com um
mundo novo, por meio do movimento, do caminho, que
produzem por sua vez uma cultura própria, mestiça. Neste
contexto, o papel fundamental dos portugueses está evi
dente —, porém sem as características raciais de Oliveira
Vianna — enquanto que a Coroa é de fato ausente, a não
ser por raras alusões em Visão do paraíso e na última parte
de O extremo Oeste.
137
um Paulo Setúbal. Um contra-herói que é, ao ver do Autor,
o verdadeiro fundador do Brasil. Porque, neste quadro, o
espaço regional, "paulista", adquire um valor simbólico que
se estende a todo o Brasil.
Nesta chave de leitura, são numerosos os indícios de uma
polêmica oculta contra uma historiografia que não se revela
suficiente para explicar a complexidade dos processo histó
ricos, e da tentativa de SBH de descobrir um passado ori
ginal, mais duradouro que a experiência colonial européia,
e "fecundo para a civilização brasileira do presente"( C«mm/[7os
efronteiras^. Na perspectiva do Autor, os traços permanentes
não estão no espaço imperial, transplantado e organizado
desde Lisboa, mas bem no território, resultado da ação desde
abaixo dos colonizados/colonizadores.
Um território entregue ao estado nacional, resultado mais
da aventura, no sentido usado em Raízes do Brasil, do que
da política das potências de além do Oceano; um território
conquistado nas dinâmicas das cotidianas fronteiras "entre
paisagens, populações, hábitos, instituições, técnicas, até
idiomas heterogêneos" iCaminhos e fronteiras^.
Fronteiras que não produzem um espaço organizado, mas
itinerários de penetração, rasgos permanentes nos mapas,
devidos à sobreposição geológica dos caminhos modernos
sobre os ancestrais.
Um território em que os caminhos predominam sobre os
povoados, frágeis e precários, e o movimento sobre a estabili
dade. Um movimento que não produz "grata intimidade"
ÍMonções) com a terra percorrida. Na duplicidade do território
colonial, extenso, porém frágil — porque dele o Autor exclue
a ação imperial —, está talvez um dos sentidos da interpre
tação historiográfica buarquiana do passado como explicador
do presente: uma potencialidade prometida e não cumprida;
confins políticos, herdados do passado, que desenham, como
o mapa de Coimbra Bueno, uma larga porção de "Terra de
Ninguém".
138
NOTAS
139
Publicada na revista Colégio, n. 3, São Paulo, setembro de 1948, e reto
mada como apêndice em Sérgio Buarque de Holanda. Raízes do Brasil,
1984, op. cit., p. 143-146.
" Ibidem, p. 143.
'^HOLANDA, Sérgio Buarque de. Raízes do Brasil. Rio de Janeiro: Livraria
José Olympio Editora, 1936. p. 3-
Ibidem, p. 21.
Ibidem, p. 60.
" Ibidem, p. 72.
HOLANDA, Sérgio Buarque de. Caminhos e fronteiras. Rio de Janeiro:
Livraria José Olympio Editora, 1975 [1957]. p. 8.
HOLANDA, Sérgio Buarque de. O extremo Oeste. São Paulo: Brasiliense,
1986, p. 40.
Ibidem, p. 45.
TURNER, Frederick J. The significance ofthefrontier in American history,
conferência pronunciada em Chicago, em 1893.
^''HOLANDA, Sérgio Buarque de. Caminhos efronteiras. Rio de Janeiro:
Livraria José Olympio Editora, 1975 11957], p. 8.
[C.] MOOG, Vianna. Bandeirantes epioneiros. Paralelo entre duas cultüras.
Rio de Janeiro/Porto Alegre/São Paulo: Editora Globo, 1954; MONBEIG,
Pierre. Pioneiros efazendeiros de São Paulo. São Paulo, [Paris 1954]. Ed.
HUCITEC/Ed. Polis, 1984
HOLANDA, Sérgio Buarque de. Monções. São Paulo: Editora Alfa-Omega,
1976 (Rio de Janeiro, 1945). p. 19-20 (cap. I, "Os caminhos do sertão").
Ibidem, p. 25.
Monções, op. cit., p. 20.
HOLANDA, Sérgio Buarque de. O extremo Oeste. São Paulo: Brasiliense,
1986. p.26.
HOLANDA, Sérgio Buarque de. Caminhos e fronteiras. Rio de Janeiro:
Livraria José Olympio Editora, 1975 [1957]. p. 15 (parte I, cap. I, "Veredas
de pé posto").
HOLANDA, Sérgio Buarque de. O extremo Oeste. São Paulo: Brasiliense,
1986. p. 40.
HOLANDA, Sérgio Buarque de. Caminhos e fronteiras. Rio de Janeiro:
Livraria José Olympio Editora, 1975 [1957]. p. 176.
Ibidem, p. 20 e 26.
''' HOLANDA, Sérgio Buarque de. Visão do paraíso. Os motivos edênicos
no descobrimento e colonização do Brasil. Rio de Janeiro: Livraria José
Olympio Editora, 1977 [1958]. p. 97.
140
HOLANDA, Sérgio Buarque de. O extremo Oeste. São Paulo: Brasiiiense,
1986. p. 119.
Ibidem, p. 129.
Ibidem, p. 26.
Ibidem, p. 152.
HOLANDA, Sérgio Buarque de. Raízes do Brasil. Rio de Janeiro: Livraria
José Olympio Editora, 1936. p. 72 (grifos meus).
HOLANDA, Sérgio Buarque de. O extremo Oeste. São Paulo: Brasiiiense,
1986. p. 90-91 (grifos meus).
Ibidem, p. 91.
HOLANDA, Sérgio Buarque de (Coord.). História geral da civilização
brasileira. São Paulo: DIFEL, 1968-1975.
Ver por exemplo, CLAVAL, Paul. La nouvellegéografie. Paris: PUF, 1982.
HOLANDA, Sérgio Buarque de. Raízes do Brasil. Rio de Janeiro: Livraria
José Olympio Editora, 1936. p. 69; ed. de 1984, op. cit., p. 66, sem
variações significativas.
A nota de rodapé se refere a TAWNEY, R. H. Tawney, religion and the rise
ofcapitalism. Londres, 1936, p. 72. iRaízes do Brasil, 1984, op. cit., p. 95).
HOLANDA, Sérgio Buarque de. Raízes do Brasil. Rio de Janeiro: Livraria
José Olympio Editora, 1936. p.72.
Idem.
Ibidem, p. 52.
Ibidem, p. 54.
Ibidem, p. 90-91.
Sobre a fronteira em SBH trabalhei em outro ensaio. Chiara Vangelista,
"Terra e fronteiras, história e memória: uma leitura de Sérgio Buarque de
Holanda", op. cit.
"Só muito aos poucos, embora com extraordinária consistência, consegue
o europeu implantar, num país estranho, algumas formas de vida, que já
lhe eram familiares no Velho Mundo. Com a consistência do couro, não a
do ferro ou do bronze, dobrando-se, ajustando-se, amoldando-se a todas as
asperezas do meio". Sérgio Buarque de Holanda. Monções, op. cit., p. 29.
HOLANDA, Sérgio Buarque de. Caminhos e fronteiras. Rio de Janeiro:
Livraria José Olympio Editora, 1975 [19571. p. 7.
Dentro da ampla bibliografia sobre o conceito de espaço nas ciências
humanas, cf. ANDREUCCI, F. A Pescarolo (a cura di). Glispazi delpotere.
141
Firenze, 1989; BAILLY, A.; BEGUIN, H. Introduzione alia geografia
umana. Milano, 1984; BETTANINI, T.. Spazio e scienze sociali. Firenze,
1976; CONDÔMINAS, G. Spazio sociale. Torino, 1981; DEMATTEIS, G..
La metafora delia terra. Milano, 1986; DOCKÉS, P. L'espace dans Iapensée
économique du XVI au XVIII siècle. Paris, 1969; ELIADE, M. II sacro e il
profano. Torino, 1979; LECCARDI, C. Lo spazio, tempo e spazializzazione
dei tempo. Milano, 1989; MANDICH, G. Spazio e costruzione sociale.
Cagliari, 1989; MORAES, A. C. R. Historicidade, consciência e construção
do espaço. São Paulo, 1988; NICOLET, C. LHnventario dei mondo. Bari,
1989; REMOTTI, F.; SCARDUELLI, P.; FABIETTI, U. Centri, ritualità, pote-
re. Bologna, 1989; SACK, R. D. Conception of space in social tought.
London, 1980; SANTOS, Milton. Espaço e método. São Paulo, 1985; SANTOS,
Milton. Espaço e sociedade. Petrópolis, 1979; SOUZA, M. A. de; SANTOS,
M. (Org.). A construção do espaço. São Paulo: Nobel, 1986; TURNER, V.
Laforesta dei simboli. Torino, 1981; WALLERSTEIN, I. IIsistema mondiale
deWeconomia moderna. Bologna, 1978.
HOLANDA, Sérgio Buarque de. Monções. São Paulo: Editora Alfa-Omega,
1976 (Rio de Janeiro, 1945).
HOLANDA, Sérgio Buarque de. Caminhos e fronteiras. Rio de Janeiro:
Livraria José Olympio Editora, 1975 [1957]. p. 68.
Ibidem, p. l60.
Ibidem, p. 15.
Ibidem, p. 20 e 22, passim.
Ibidem, p. 22.
Ibidem, p. 23-24.
Ibidem, p. 35.
Ver, por exemplo, Sérgio Buarque de Holanda, Monções, op. cit., p. 77-93.
Ibidem, p. 41 e 43, passim.
HOLANDA, Sérgio Buarque de. Caminhos e fronteiras. Rio de Janeiro:
Livraria José Olympio Editora, 1975 [1957], p. 177.
HOLANDA, Sérgio Buarque de. Raízes do Brasil. Ed. 1955, op. cit., p. 41:
"Se conforme opinião sustentada em capítulo anterior, não foi a rigor uma
civilização agrícola o que os portugueses instauraram no Brasil, foi, sem
dúvida, uma civilização de raízes rurais" (segundo capoverso do cap. III,
"Herança rural". Esta frase foi acrecentada na edição definitiva, pois na
primeira edição, no capítulo correspondente, "O passado agrário", esta
parte introdutória é mais breve e não compreende estas reflexões).
Monções, op. cit., p. 73-
142
ETTORE FINAZZI-AGRO
ATRAMA EO TEXTO
HISTÓRIA COM FIGURAS
144
é fácil concordar com as afirmações de Antônio Arnoni Prado
que, numa entrevista publicada quatro anos atrás, sublinhava,
justamente, as ligações entre Sérgio e o meio intelectual moder
nista — e com Mário de Andrade em particular;
145
de Raízes do Brasil, se confirmando, depois, em Cobra de
vidro (não por acaso, o primeiro capítulo deste livro intitu
la-se simplesmente "Negros e brancos"), para chegar enfim
a Caminhos e fronteiras.
Nesta conexão, em particular, não é difícil enxergar um
contraste superficial entre uma noção "convidando ao movi
mento" (como o próprio autor sublinha na introdução) e outra
representando a delimitação estática, a parada diante de
confins supostamente intransponíveis. Já aqui, neste uso de
palavras remetendo para uma lógica aparentemente dual,
parece surgir uma relação implícita com outros títulos impor
tantes no rol infindável das obras tentando aviar uma herme
nêutica da formação brasileira: ou seja, por um lado, com
Casa grande & senzala e Sobrados e mocambos (que ficam,
obviamente, os modelos mais imediatos, com que Sérgio
dialogou, de modo explícito, ao longo da sua obra) e, por
outro lado, com o mais longínquo Contrastes e confrontos, de
Euclides da Cunha. Em relação, em particular, a este título
— e em oposição, por exemplo, a outro texto de fundação
como Bandeirantes e pioneiros, tratando de um assunto bas
tante afim ao de Caminhos e fronteiras e publicado em 1954,
apenas três anos antes da obra de Sérgio — reaparece, na
escolha do historiador paulista, o nexo entre a alternativa e
a conjunção entre "coisas" diferentes.^
Euclides, na verdade, tinha lançado o seu olhar indagador
para o sertão, tentando encontrar nesse espaço sem rumo,
nessa "terra ignota", o núcleo daquele drama sobre o qual
assenta a impossibilidade de pensar a "Nação brasileira" como
entidade autônoma e verdadeiramente una, reconhecendo-se
numa história con-seqüencial e harmônica. O contraste entre
a "civilização" e a "barbárie" chega apenas a atenuar-se no
confronto, sem que isso desemboque numa convivência ou
numa troca efetivas entre instâncias culturais tão díspares.®
A tragédia, enfim, é aquela que se instala no coração de uma
história repropondo sem parar a contradição, a divisão entre
cronologias e topologias diferentes que, de fato, apenas numa
terra sem história, ou "às margens da história", pode encontrar
uma solução eventual. Sérgio, pelo contrário, aceita o desafio
do tempo e se entranha no sertão à procura daqueles "lugares-
comuns" culturais em que se concretiza uma certa forma de
146
coexistência ou de cruzamento entre histórias peculiares, entre
discursos e percursos heterogêneos.
Com efeito, sob a máscara da contradição, da oposição
entre o andar do caminho e o demorar diante de uma fronteira,
aquilo que se descobre é a dinâmica de uma relação inces
sante e emaranhada entre universos histórico-culturais aparen
temente incongruentes. Sérgio, em suma, no intuito de superar
a simples constatação de uma impossibilidade, sai em busca
dos sinais de uma possível harmonização entre aquilo que
"vem de fora" e aquilo que é "próprio da terra", encontrando
espaços de diálogo ou até de simbiose naquela cultura material
que foge aos condicionamentos de um Poder que, ele sim, se
mostra apenas como imposição ou adaptação do sistema sócio-
político dos colonizadores. Nesse sentido. Caminhos e fron
teiras representa um passo para frente — ou talvez pelos lados,
num território marginal e pouco explorado — em relação a
Raízes do Brasil, que ainda se inclui no rol das obras de inter
pretação disfórica da realidade institucional e da formação
sociocultural brasileiras.
147
a estagnação, da história brasileira. Aqui, com efeito, a fron
teira ("Fronteiras da Europa" é, não por acaso, o título desse
capítulo inicial) é um limite intransponível porque colo
cado na origem de tudo, marcando não tanto uma dialética
entre espaços e tempos diferentes, quanto uma espécie de
cronótopo denso, coalhado, compacto, em que noções como
passado e futuro, como perto e distante, parecem perder
qualquer sentido. A história brasileira, nessa perspectiva,
aparece como uma história sem rumo, gravada por um peso
ou roída por um vício orgânico e segredo de que não consegue
se livrar.
148
à formação de produtos mistos ou simbióticos, ora a afir
mar-se, ao menos enquanto não a superasse a vitória final
dos elementos que se tivessem revelado mais ativos, mais
robustos ou melhor equipados.'"
149
que desdizem as fronteiras rígidas, predeterminadas pela
cultura européia, visto que elas nào fecham o espaço mas,
como ele escreve, "deixam lugar".
São esses os caminhos (e aqui o plural é obrigatório) que
Sérgio tenta percorrer, e nào a estrada marcada pela marcha
triunfal de uma civilização se contrapondo à barbárie: nào,
enfim, as ruas retas, mas as sendas tortuosas que aparecem
logo no capitulo inicial do livro:
150
o mapa viário, então, surge logo como "panorama simbó
lico", como metáfora espacial de um processo histórico lento
e cheio de obstáculos pelo qual a posse (também cultural) do
território obrigatoriamente transita: a colonização caminha
pelos caminhos tortuosos abertos pelos colonizados, e pe
netrar no sertão adentro significa ser guiados pelos seus
habitantes e senhores, depender deles, confiar neles e ser
seus obedientes (per)seguidores. A lentidão e o sofrimento
dos europeus é aqui sublinhado pela necessidade de se des
locar não a cavalo e, menos ainda, de carroça, e sim a pé —
com os pés nus e sangrentos, com a pele lacerada pelos
espinhos disseminados ao longo das estreitas veredas. E
não só isso, visto que o "aperto" dos caminhos obriga a
uma marcha em fila indiana (no seu sentido próprio): tributo
ao colonizado, afinal, que exclui o caráter coletivo e maciço
típico dos movimentos de ocupação de um território.
Esse andar teimoso, invertendo, pelo menos no início, as
hierarquias, é o sinal concreto, desenhado no chão, de uma
dependência que leva fatalmente a formas de conluio ou de
coexistência entre os bárbaros e os civilizados. Como no labi
rinto, justamente, as ruas e os destinos, os discursos e os
percursos culturais de povos diferentes se cruzam, se afastam
para voltarem a se encontrar, sem nunca chegar até o centro
medonho de uma alienação cultural completa (senão em casos
raros e altamente significativos, como talvez na figura de João
Ramalho e dos seus descendentes: uma humanidade "fron
teira",^^ evocada, não por acaso, logo na introdução ao livro,
quase como emblema vivente e, por assim dizer, pré-liminar
da lógica na qual vai, depois, se acomodando o discurso
histórico), mas deixando, isso sim, atrás de si, lugares virtuais
de encontro, espaços de compromisso, clareiras precárias em
que se amontoam "produtos mistos ou simbióticos" — restos
humildes de uma harmonia possível e negada entre raças,
culturas, práticas heterogêneas. Na relação, aparentemente
contraditória e de fato conciliatória, entre os caminhos e as
fronteiras, são essas encruzilhadas, são esses trívios os pontos
em que SBH escolhe colocar-se, à espreita daqueles eventos
"menores", daqueles fatos "triviais", justamente, em que não
só se dá uma coincidência material dos opostos, mas em que
se deposita e se esclarece o sentido peculiar da formação
cultural brasileira.
151
Que Caminhos efronteiras— sendo, aliás, a suma de uma
série de textos publicados autonomamente — nào seja apenas
um estudo conseqüencial e determinístico do processo histó
rico de expansão da cultura européia no solo americano, o
demonstra o paralelismo, que eu acho evidente, entre o
primeiro e o último capítulo do livro, remetendo para uma
circularidade que se furta a qualquer lógica rigidamente
historicista. Na parte final da obra, de fato, a autor retoma a
imagem do mapa viário, isto é, a metáfora do enredo ou do
retículo desta vez mais claramente associada ao fio (ao fio
de Ariadne?) e à teia. A análise das técnicas utilizadas na
produção de tecidos se torna, nessa ótica, uma viagem com
plexa, cheia de nós históricos e de (con)junturas geográficas,
mas também de rápidas travessias de tempos e espaços dife
rentes: ou seja, falando dos modos de fiar e de tecer do
Brasil-colônia, Sérgio parece lentamente urdir a trama das
relações entre cultura portuguesa e cultura indígena, mos
trando como as diferenças, que apesar de tudo permanecem,
não podem, porém, ocultar os pontos de sutura, as combi
nações e as trocas. E o produto final se apresenta como uma
espécie de pano — de pano de fundo — variegado e brilhante
diante do qual se desenrola o drama de uma cultura enre
dada e multíplice, em que instâncias ou fios diferentes se
sobrepõem, se combinam ou se desenleiam, até transpor os
limiares da modernidade.
Sem me adiantar muito numa análise pormenorizada desta
parte final de Caminhos e fronteiras, gostaria pelo menos de
sublinhar a importância dos resultados do estudo de Sérgio
pelo que se refere tanto ao confronto entre o "tear de pano"
português e a "grade de tear" indígena, quanto à relação entre
os modos de dormir dos dois grupos étnicos. No primeiro caso,
não é difícil enxergar logo, numa espécie de estruturalismo
ante litteram, as diferenças entre as técnicas — a importada,
de fato, ligando-se à horizontalidade, a nativa associando-se
à verticalidade; a primeira produzindo tecidos compactos, a
segunda teias de malhas largas. Aqui, todavia, a história ma
terial, o decurso temporal se preocupará em misturar os dois
modos de tecer, criando lugares de encontro, encruzilhadas
ou nós culturais que demoram a ser desfeitos pela moderni
dade. Com a teimosia do antropólogo, Sérgio vai à procura
destes restos duma cultura geminada e, ao mesmo tempo,
anfíbia:
1S2
Em Cuiabá, a tecelagem de redes nào é hoje, mais do que
em Sorocaba, mister citadino. Para encontrá-la em pleno flores
cimento, precisei ir, em 1946, ao Coxipó-Mirim e também à
Várzea Grande, principalmente à casa de siá Lola (Antônia
Paula da Silva). É principalmente na Várzea e em alguns
outros lugarejos mais ou menos remotos (...) que ainda pros
pera essa velha indústria caseira, desterrada da cidade pelo
progresso, juntamente com tantas outras sobrevivências de
um passado já longínquo: as folias do Divino ou de sào
Benedito, que d. Aquino Correia proibiu, as lavagens de
sào Joào no rio Cuiabá, os famosos cururus de siá Blandina
e os de siá Emiliana, que Deus haja em glória, as corridas
de touro (...), os próprios chapéus de carandá, que há mais
de dez anos já nào se fabricam mais...'"^
1S3
Na oposição entre cama e rede e na preferência acordada
à segunda, SBH lê com clareza um sintoma do nomadismo
próprio da população,^® mas eu gostaria de apontar para
um lugar literário que o estudioso paulista devia conhecer
muito bem e em que mais uma vez se repropõe o dualismo
relativo aos modos de dormir, superado graças a um recurso
inesperado e altamente significativo. Estou me referindo à
"entrada" de Macunaíma em São Paulo, episódio em que ele
não se mostra maravilhado tanto pela paisagem urbana,
quanto pela brancura das mulheres da cidade. Perdido na
sua nostalgia por Ci, "Mãe do Mato", e pela "rede feiticeira
(...) tecida com os próprios cabelos dela", o herói, para matar
a saudade, escolhe "três filhinhas da mandioca" para brincar
"com elas na rede estranha plantada no chão, numa maloca
mais alta que a Paranaguara". Depois do amor, "por causa
daquela rede ser dura", Macunaíma adormece "de atraves
sado sobre os corpos das cunhãs".^^
Peço previamente perdão pela referência pessoal, mas eu
cheguei a construir sobre este trecho do romance de Mário
de Andrade um longo artigo, cujo subtítulo era, justamente,
"Macunaíma e o enredo dos signos". Limito-me, aqui, a
remeter para esse texto, em que eu interpretava a capacidade
do "herói sem nenhum caráter" em ultrapassar as diferenças,
em fazer as ligações, justamente a partir desse seu dormir "de
atravessado" sobre os corpos brancos das "filhinhas da man
dioca"." Aquilo, porém, que vale a pena ainda anotar é a
coincidência entre a visão poética de Mário e a interpretação
histórico-antropológica de Sérgio, baseadas, ambas, nessa
capacidade de tornar evidente o enredo ou o contexto, a
trama, enfim, na qual fica presa uma certa imagem da cultura
brasileira enquanto cultura baseada no contraste e, ao mesmo
tempo, na conjunção e conjugação de saberes diferentes —
no caso do romancista por meio de uma corporeidade "pene
trando" e "atravessando" as contradições; no caso do histo
riador graças à materialidade de técnicas misturando e
sintetizando (embora de modo reversível e, por assim dizer,
pré-liminar) culturas heterogêneas.
Poder-se-ia, aliás, alegar como prova contrária a obsessão
de Sinhá Vitória pela cama, vista como símbolo daquela
sedentariedade que o nomadismo da sua condição de reti
rante lhe proíbe, mas é evidente que a ótica de Graciliano
154
Ramos é, neste caso, bem diferente daquela dos dois autores
paulistas, ligando-se muito mais a uma visão dualista de uma
sociedade injusta e não se preocupando muito em identificar
os possíveis lugares de encontro ou de mediação que a cul
tura material brasileira abriga dentro de si. Lugares marginais
e assimétricos, tempos "assistemáticos" e "fora do eixo" que
apesar de tudo guardam fragmentos, migalhas daquela "demo
cracia racial" (e social) que tanto o sistema político-social
implantado na Colônia, quanto, depois, as suas articulações
novecentistas — recusadas por Mário e por Sérgio —, com
seu progresso compulsivo, com a sua modernização falsa e
falha, se preocupam em varrer do chão da História.
Quero com isso dizer que, apesar da erudição (do histo
riador) ou da ironia (do romancista), ambos continuam
denunciando o silenciamento das culturas alternativas, mos
trando como num passado "heróico" o Brasil pudesse contar
com uma situação de equilíbrio — seja mesmo relativo, seja
mesmo produto de uma inércia do meio, mais do que de
uma opção consciente — entre instâncias heterogêneas. Em
Caminhos e fronteiras, em particular, todos os estudos que
compõem a obra apontam para esse tempo já musealizado
(não por acaso, são muitas as referências ao Museu Paulista,
lugar em que a história se dis-põe de modo concreto, crista-
lizando-se precariamente nos objetos ali guardados), para
esse espaço já mítico e quase completamente apagado em
que tinha sido possível uma relação de algum modo iguali
tária entre as culturas, a partir de fatos aparentemente "tri
viais" — a partir dos modos de andar, do aproveitamento
dos recursos, das técnicas de produção e de cultivo.
E é bom sublinhar como, por essa via, se delineia, no autor
paulista, também uma volta ao historicismo, mas não no sen
tido clássico de justaposição de fatos "para preencher o tempo
homogêneo e vácuo", e sim, na forma de uma "parada", de
um aproveitamento do objeto dentro de um pensamento que
sem fim o atualiza, colocando-o numa "constelação cheia de
tensões"^^ — naquilo que, no início deste ensaio, eu chamei
de "figura". Quero dizer que, sem ser coincidente com as teorias
de Walter Benjamin, também a história escrita por Sérgio
acaba todavia por se apresentar nos moldes de um "materia-
lismo histórico" (ou, no caso, de uma história material) mobi
lizando aquele potencial de sentido que o passado esconde
155
dentro de O seu Tempo, o tempo que se reflete no museu
ou na reunião — aparentemente caótica, mas, na verdade,
"orientada" — de objetos e fatos diferentes, é marcado por
uma experiência "única", em que a volta ao passado não é
um gesto irreversível, mas um caminho de re-descoberta
contínua do presente no passado, ou melhor, de recupe
ração teimosa daquilo que pôde ser (e que não foi, mas que
poderia talvez voltar a ser) naquilo que, de fato, foi.^^
Nesta ótica. Caminhos e fronteiras poderia ser visto
também como uma espécie de coleção — num sentido ainda
benjaminiano^^ — de eventos pretéritos, ou melhor, como
um conjunto de "restos", de "cacos" de uma história integral
e inatingível na sua plenitude, da qual eles guardam todavia
uma parcela, um reflexo embaçado: apenas no seu com-
binar-se, dentro do espaço precário e nostálgico do livro,
essas "ruínas" de um passado per-feito conseguem reen
contrar a sua profunda razão de ser, a sua necessidade e a
sua evidência, embora longe de qualquer ilusão de continui
dade ou de coerência, fora de qualquer organicismo conse-
qüencial e causalista. Como o homem "perdido" do epílogo de
Macunaíma que "bota a boca no mundo", cantando na sua
"fala impura" as façanhas improváveis de um "herói" esque
cido, de que só um papagaio auriverde guardava a memória,
assim Sérgio nos relata a seu modo aquela "outra história"
que ele lê (ou "escuta") no desenho quase apagado das ruas,
nas técnicas rurais, nos monjolos ou nas grades de tear
amontoadas num museu, nos acompanhando pelos caminhos
daquela compreensão histórica que só se pode dar no "reviver
aquilo que deve ser compreendido e cujas pulsações podem
ser ainda percebidas no presente".
Sabe-se, aliás, que no mesmo ano de publicação desse livro,
Sérgio já estava escrevendo Visão do paraíso, cujo primeiro
capítulo traz mais um título marcado pelos antônimos: "Expe
riência e fantasia". Nesta nova volta ao passado, nesta análise
dos mitos edênicos relativos ao Brasil, o estudioso nunca vai
esconder o caráter sempre ambíguo da colonização ameri
cana pelos portugueses: movimento, de fato, que com certeza
procede com os olhos fincados no antes, nas fronteiras que
estão atrás, no domínio da fantasia medieval européia, mas
sem nunca perder a sua capacidade de ir para a frente, de
acolher o novo e o inesperado se manifestando às fronteiras
156
da experiência — movimento ondeante deixando, mais uma
vez, lugar e tempo à produção de "figuras", ao surgimento
de formações simbióticas ou mistas de que o historiador
cuidadoso deve fazer memória, colecionando-as com atenção
e carinho (como no caso exemplar do mito, que ele denomina
de "luso-brasileiro", de Sumé: mais uma citação implícita de
Macunatma...^.
Colocado entre Raízes do Brasil e Visão do paraíso, enfim.
Caminhos e fronteiras é aquilo que o seu título pré-escreve:
um andar labiríntico pelos caminhos espinhosos, enredados
de um território cultural colocado entre confins que se multi
plicam; uma procura incansável daquilo que surge de impro
viso entre experiência e fantasia, entre as raízes do presente
e as visões do passado, e que só uma memória nostálgica e
teimosa pode guardar do esquecimento. Porque é ali, justa
mente, nessas encruzilhadas simbólicas, nessas "figuras" que
o Tempo apagou e o Poder contorna, que pode ser surpreen
dido e nos surpreender um sentido terceiro e eventual, um
saber banido e abandonado, uma verdade "trivial", enfim,
pondo em xeque as nossas certezas e mostrando, finalmente,
o inter-dito que continuamente é "dito entre" qualquer opo
sição ideológica ou social, qualquer fronteira racial, qualquer
possível delimitação cultural.
NOTAS
157
^ PRADO, Antônio Arnoni. Entrevista. Teresa. Revista de Literatura Brasileira,
n. 1, p. 132, (1° semestre de 2000).
^ Ibidem, p. 133-
^ Entre os muitos estudos aludindo ao cuidado na escolha lexical do histo
riador paulista, veja-se, em particular, o ensaio de MONTEIRO, Pedro
Meira. Sérgio Buarque de Holanda e as palavras: uma polêmica. Lua
Nova, n. 48, p. 145-59, 1999.
Pode ser ainda lembrado, a respeito, o que escreveu Antonio Cândido no
seu Prefácio a RdBiop. cit., p. XXI): "O seu método repousa sobre um jogo
de oposições e contrastes, que impede o dogmatismo e abre campo para a
meditação de tipo dialético."
® Cf. sobretudo COSTA LIMA, Luiz. Terra ignota. A construção de Os sertões.
Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1997, p. 41-42 e passim.
' RdB, p. 3.
HOLANDA, Sérgio Buarque de. Caminhos efronteiras. 3- ed. São Paulo:
Companhia das Letras, 1994, p. 12-13- De agora em diante vou me referir
a esta edição com a sigla C&F.
" C&F, p. 13.
"Là oü Tâme prétend s'unifier, lã ou le Moi s'invente une identité ou une
cohérence, le généalogiste part à Ia recherche du commencement, —
des commencements innombrables qui laissent ce supçon de couleur,
cette marque presque effacée qui ne sauraient tromper un oeil un peu
historique" (FOUCAULT, Michel. Nietzsche, Ia généalogie, Thistoire. In:
HommageàJean Hyppolite. Paris: P.U.F., 1971, p. 151 (texto agora repu
blicado em: FOUCAULT, Michel. Dits et écrits. v. II (Texto n. 84). Paris:
Gallimard, 1994. p. 136-56]).
'5 C&F, p. 19.
C&F, p. 20-33.
C&F, p. 13.
Sobre a atitude "trivial", veja-se o que afirmou Roland Barthes: "Un
écrivain (...) doit avoir Tentêtement du guetteur qui est à Ia croisée de
tous les autres discours, en position trivialepzt rapport à Ia pureté des
doctrines itrivialis, c'est Tattribut étymologique de Ia prostituée qui
attend à 1'intersection de trois voies)" ileçon. Paris: Seuil, 1978, p. 26).
Por uma significativa coincidência, é ainda essa, a meu ver, a tarefa
que Michel Foucault atribui ao "genealogista", ou seja, ao "verdadeiro
historiador": "De là, pour Ia généalogie, une indispensable retenue:
repérer Ia singularité des événements, hors de toute finalité monotone;
les guetter là oü on les attend le moins et dans ce qui passe pour n 'avoir
point d'histoire - les sentiments, 1'amour, Ia conscience, les instincts;
saisir leur retour, non pas pour tracer Ia courbe lente d'une évolution,
mais pour retrouver les différentes scènes oü ils ont joué des rôles
différents; définir même le point de leur lacune, le moment oü ils n'ont
pas lieu" (NIETZSCHE. La généalogie, 1'histoire, op. cit., p. 145; grifo
meu).
158
" C&F, p. 252-53.
C&F, p. 248-49.
" C&F, p. 247.
" C&F, p. 247.
ANDRADE, Mário de. Macunaxma, o herói sem nenhum caráter. Ed. crítica.
LOPEZ, Telê Porto Ancona (coord.). 2. ed. Madrid/Paris/México/Buenos
Aires/São Paulo/Rio de Janeiro/Lima: ALLCA XX, 1996. p. 39-40.
" FINAZZI-AGRÒ, Ettore. As palavras em jogo. Macunaíma e o enredo dos
signos. In: ANDRADE, Mário de. Macunaíma, o herói sem nenhum caráter.
Ed. crítica citada, p. 319-328.
BENJAMIN, Walter. Tesi di filosofia delia storia. In: Angelus novus. Saggi
e frammenti. Torino: Einaudi, 1962. p. 85.
Cf. Ibidem, p. 84 ("O historícismo postula uma imagem "eterna" do passado,
o materialista histórico uma experiência única com ele").
" Cf. CÂNDIDO, Antonio. Significado de Raízes do Brasil, op. cit., p. XXI
("[Sérgio Buarque de Holanda], num tempo ainda banhado de indisfarçável
saudosismo patriarcalista, sugeria que, do ponto de vista metodológico,
o conhecimento do passado deve estar vinculado aos problemas do
presente.")
Cf. BENJAMIN, Walter. Eduard Fuchs, il collezionista e Io storíco. In: L'opera
d'arte nelVepoca delia sua riproducibilità técnica. Torino: Einaudi, 1966.
p. 79-123.
" Ibidem, p. 83.
159
ROBERTO VECCHI
162
a cartografia de uma cartografia, uma cartografia segunda,
talvez ofereça um território suficientemente polimórfico e aberto
a amplos trânsitos e deslizes que possa dar conta de um
campo de interesse e de atividades críticas tão variados e ao
mesmo tempo tão correlacionados entre si. Mas quais as
coordenadas dessa cartografia buarquiana, quais os critérios
da sua organização? É claro que se poderia ceder a uma espécie
de ilusão biográfica — pensar a vida como uma unidade de
sentido — enquanto as obras de uma vida são sempre
frutos de caminhos e de descaminhos, encontros e perdas,
que inviabiliazam sua imagem de conjunto, a não ser como
representação (ou auto-representação). No entanto, há uma
idéia moderna de projeto na cartografia de Sérgio, se nós
a encararmos como Schlegel já em finais do século XVIII
oximoricamente definia o projeto, ou seja, como um "sistema
de fragmentos",^ frisando que o sistema não passa de certo
modo de um fragmento que deixa recosturar um sentido
geral pela metáfora cartográfica.
Desde Raízes do Brasil, estréia em volume por uns lados
"incôngrua",^ que da síntese levará para a análise histórica,
onde se dá um mapeamento denso e só aparentemente divul-
gativo da formação do Brasil a partir de uma metáfora geo
gráfica decisiva, a da origem como fronteira da Europa, e das
formas contraditórias com que o Brasil irrompia na contem-
poraneidade da virada de 30, e Monções, Caminhos e fron
teiras, Visão do paraíso, só para ficarmos com a obra maior
e mais conhecida, temos um rico repertório de representa
ções culturais e configurações históricas que podem origi
nar um mapa, desta vez nem só metafórico do Brasil.
De fato, tudo parece convergir na recomposição de um
mapa multifacetado do país, da cultura nacional. Um mapa
que não só conjuga o espaço com o tempo, mas que nessa
conjugação tenta a tarefa titânica para o historiador que é a
salvação de uma passado que escoa e se perde. Para esse
exercício, é indispensável, além do ecletismo crítico que possa
dar conta de totalidades dispersas, também o recurso ao lite
rário, à "pintura" — pelo texto — a uma escrita que possa
reavivar os despojos, os escombros de mundos extintos
(assim como faz, por exemplo, na tradição literária. Machado
de Assis). Desse mapa mais nosso, de leitores, do que do
163
próprio Sérgio, se procurarão aqui alguns traços, em particular
a partir daquele, por assim dizer, "ensaio-aforismo" que é
Raízes do Brasil? Texto aforismo, justamente porque o afo
rismo é pelo menos em uma das suas acepções dominantes,
como o definia icasticamente Musil, "o menor inteiro pos
sível",® no sentido que RdB também é mapa de muitos
rumos a vir da obra de Sérgio, mas também amostra de
modalidades críticas (pense-se, por exemplo, na dimensão
comparativa da abordagem) que registram a experiência do
franco-atirador modernista dos anos 20 marcando outros
textos buarquianos. Como bem assinalou Flora Süssekind, é
na fusão por parte de Sérgio dos dois lados do "historiador
que pressupõe o crítico"^ que se pode entender a obra histo-
riográfica de Sérgio e suas relações com a literatura, e RdB
representa o ponto focai dessa perspectiva. O que provoca
questões não pequenas quando há problemas que surgem e
que convocam ao mesmo tempo os dois lados, o crítico e o
historiador, que poderiam até entrar em conflito de juízos e
visões. Um desses problemas é com certeza o da periodização
histórica contrastadas com outras (culturais, literárias etc.).
Nessa problematização, RdB se revela um lugar tenso, mas
decisivo, para captar alguns traços menos visíveis do seu
autor, como se tentará fazer neste ensaio.
164
Antonio Cândido, na revocação da passagem de Sérgio
por Berlim, capta muito bem a essência de uma mistura textual
específica, identificando no contato com a cultura alemã — e
mais especificamente com referência a disciplinas como a
Filologia "que fundem as particularidades e transfiguram as
contradições do real por meio da 'visão'"— a causa eficiente
de uma obra de entendimento global e exemplar, marcada,
como se dizia, por uma dualidade que o tornava "o único
'retrato do Brasil' que terminava de maneira radical em face
do presente" sendo "ao mesmo tempo uma análise do passado
(que pegou mais) e uma proposta revolucionária de transfor
mação do presente (que pegou menos)".'®
Agora, como ferramenta interpretativa, RdB funciona na
conjugação das duas partes — na tensão permanente entre
formação e forma — que não gozam, ao contrário do que
pareceu a uma certa interpretação crítica, de autonomia, mas
encontram justamente na sua combinação complexa e incin-
dível de presente e passado, na dobra do passado no presente,
uma potencialidade de penetração crítica francamente inova
dora." É sobre essa conjugação que é necessário refletir, não
tanto ou não só para desvendar o dispositivo crítico íntimo
que preside à obra, mas porque recorta, dentro do clima
modernista que o gera, um ponto de vista crítico fundador de
uma outra periodização da história cultural decorrendo de
uma osmose assídua entre visão do crítico literário e a do
historiador. Periodizar a história aponta sobretudo para os
modos de como a história é pensada, ou seja, refletindo com
Croce, os fenômenos históricos se reconstroem a partir de
uma experiência historiográfica.'^ As considerações sobre uma
periodização, portanto, não dizem somente respeito aos
modos em que o fenômeno histórico é compreendido a
partir da sua configuração em relação aos outros, mas sobre
tudo ao espectro de valores da experiência historiográfica
de que decorre, iluminando o funcionamento íntimo da cons
ciência histórica que os elabora.
Nessa perspectiva, é interessante delinear a cronosofia que
subjaz a RdB, pelo menos a que sobressai com um vigor
pujante, em particular no último capítulo da obra, "Nossa
revolução", que pertence à assim chamada "seção política"
do ensaio, isto é, virada para a circunstância histórica do
165
presente, mas com um rizoma gerador que afunda na própria
dinâmica da formação. De imediato, a periodização proposta
por Sérgio poderia aparecer surpreendente. No cap. VII, de
fato reitera o que já tinha sido anteriormente explicitado (cap.
III "Herança rural"): apesar de escapar a uma estrita pontuali-
zação de um fato que represente uma ruptura ("A grande
revolução brasileira não é um fato que se registrasse em um
instante preciso; é antes um processo demorado e que vem
durando pelo menos há três quartos de séculos"), RdB: 127,
com uma concessão à metaforologia euclidiana. "Seus pontos
culminantes associam-se como acidentes diversos de um
mesmo sistema orográfico" (ibidetn), ficando assente que a
Abolição, 1888, representa um verdadeiro divisor de águas,
reposicionando o fenômeno histórico em função de outras
séries de eventos periodizando o processo, a modernização
da nação ("o momento talvez mais decisivo de todo o nosso
desenvolvimento nacional" "a Abolição representa, em reali
dade, o marco mais visível entre duas épocas" iibidetri). Agora
o que se evidencia é que 1888 funciona como um termo
formal sem a qualidade temporal de uma ruptura histórica.
De fato, ele institui um tempo dentro do tempo (do tempo
outro do passado), o que o elege como marco periodológico,
mas não retém o passado que pelo contrário — é o tema
central da seção final do ensaio — permanece no presente,
como dobra viva e ativa. Por conseguinte, tal postura acaba
afetando também a idéia historiográfica essencial que deveria
conceitualizar a reflexão que é a de revolução. A essa idéia
Sérgio dedica inclusive de viés uma nota de rodapé logo na
entrada do capítulo, esclarecendo a citação de segunda mão
de Roger W. Babson redimensionando as revoluções e as agi
tações das histórias pós-coloniais latino-americanas. O que é
interessante salientar, desse ponto de vista, é que a área
semântica do termo, pelo pretexto da citação, acaba por se
delimitar de algum modo como o "processo geral — e em
verdade revolucionário — da transformação dos territórios
coloniais em sociedades cultas modernas" iRdB-. 127) e não
como a série fragmentária de movimentos só pretextuosamente
revolucionários. Ou seja, a "grande revolução brasileira"
configura-se logo como um processo, um movimento histó
rico ainda em curso e não como corte ou ruptura. Seria então
errado interpretar a idéia de revolução aqui encenada como
166
ruptura literalmente traumática da continuidade da ordem
histórica ou até, em termos marxianos, de "salto dialético" da
história. A "nossa revolução" (o dêitico do possessivo, como
já notado, desempenha uma função essencial) é flagrada na
continuidade do seu "elo secreto" como "lenta, mas segura e
concertada" iRdB: 126). De algum modo, a recuperação do
pensamento de Herbert Smith que nessa circunstância Sérgio
promove (que — não esqueçamos — reúne o núcleo temá
tico fundamental do capítulo e também da obra, o da socie
dade mal formada "desde as suas raízes") geometriza melhor
essa idéia de revolução, o auspício de uma revolução que
seja — quase oximoricamente — "vertical" e não "horizontal"
iRdB\ 135), onde a profundeza tem a ver mais do que com o
perfil fatual (de fatos événementiels) da ruptura com o enrai
zamento das suas conseqüências sociais.
Sobre essa figura da revolução —, sobre a qual será opor
tuno voltar em seguida para definir melhor a sua função perio-
dizadora — Sérgio mostra sua sensibilidade filológica já
muitas vezes assinalada pelos críticos articulando um sentido
do termo a partir não da sua consumpção trivial, mas da
valorização da sua raiz etimológica (do latim, revolvere, que
significa justamente "rolar para trás ou enrolar") que aponta,
como se percebe, para um movimento mais complexo do que
a imagem corriqueira da ruptura. O desfecho de RdB exibe
um aspecto decisivo da obra, ainda que talvez menos visível,
que de alguma maneira explica a duração do seu arsenal
interpretativo: seu dispositivo crítico interpreta a hibridez do
tempo moderno, ou, ainda melhor, o eixo fulcral que RdB
constrói conjuga entre si os dois tempos antagônicos (e
dominantes) no emaranhado das temporalidades modernas,
o do passado que permanece e o da "revolução" que se
encontra em articulação. Isso cria uma morfologia moderna
própria e ontológica do tempo brasileiro que delineia figu-
ralmente tanto o modo de ser da "nossa revolução" quanto o
modo de estar, de inscrever o Brasil na contemporaneidade,
que é a temporalidade residuária do presente.
Coadunam-se de fato nessa figura duas temporalidades
que problematizam a viabilidade própria de continuidade da
periodização, uma linearidade temporal regressiva que é a
da permanência do passado, dos valores da ordem arcaica e
167
pré-moderna, imbricada em outra temporalidade, aberta e
conflitante, que é a do moderno. A mistura das temporali-
dades é, porém, mais uma vez, apreensívei só em termos
formais, por meio da figuração: o presente é forjado por
essa dobra que é simultaneamente inscrita nas duas tempo-
ralidades formando a temporalidade nacional. Essa confi
guração não só possibilita fissurar pelas temporalidades
representadas o perfil complexo da formação, no trânsito
ainda aberto de colônia para nação, mas se apóia em uma
intuição profunda, histórica, da vida nacional, onde um
tempo regressivo e um outro progressivo forjam a contem-
poraneidade, contrastando precocemente os dualismos e as
fáceis dialéticas do contexto periférico. Nele, o que emerge
com força é um tempo opaco onde os conflitos ficam em aberto,
sem uma conciliação viável, tempo trágico por excelência, em
que as continuidades declamadas e necessárias, pedagógicas
e performativas, das narrações nacionais, até das remitologi-
zações modernistas, subsistem somente pelo escamoteamento
das dilacerantes descontinuidades que impedem qualquer
visão eufórica ou ufanista das representações nacionais.
Não se trata aqui simplesmente de uma intermitência
temporal como a que se poderia dar com o tempo ruinoso
contando com um retorno do tempo cíclico, circular, na
linearidade da história. Se assim fosse, ficaríamos com o rasgo
genial e precursor de Machado de Assis — um autor com que
RdB dialoga intensamente nas entrelinhas — nos reparos
sobre o "bovarismo nacional"— perante o desmoronamento
do Império flagrado já pelo ângulo da transição republicana
onde Machado é de fato espectador, como se notou, de "ruins
of a dead time".^^ E dessemelhante é inclusive a postura de
Sérgio na contemplação do passado onde os tempos últimos
do que já foi (aquele "mundo definitivamente morto" mas ain
da condicionador) perante o tempo precoce do que ainda não
é criam as fendas por onde a decadência é distilada como
forma excelente da experiência da modernidade brasileira,
assim como pode ocorrer por exemplo com Gilberto Freyre
com a bondosa memória da linhagem agrária.
Aqui é forçoso perceber como a colisão temporal condi
ciona ou, melhor, articula o tempo referencial da enunciação
que, como sabemos, afunda na circunstância convulsa da
168
década de 30, com o pendor da proposta de certo modo
radical de transformação política. O presente, de fato, é o
tempo residuário, intersticial, um resto que resta do choque
entre o tempo regressivo do coriáceo passado cordial em sua
ruínas resistentes (como explicita a bela imagem do homem
cordial fadado a desaparecer, mas que ainda age no presente,
dirigida para Cassiano Ricardo) e a outra diretriz temporal
antagonista e progressiva da modernidade. É um entre-tempo
denso e imbricado o do presente, um resto do tempo, que,
não coincidindo nem com uma parte nem com o todo, conjuga
com o passado uma antevisão que se deve explicar pela
história. É oportuno não deixar de sublinhar os traços desse
tempo restante que, se não fosse pelos equívocos imediatos
que o termo pode engendrar, me atreveria a definir "messiâ
nico". Evidentemente não na acepção corrente de tempo mes
siânico como tempo apocalíptico. O tempo messiânico não
deve ser entendido enquanto fim dos tempos, como conven
cionalmente se faz, mas é, e não só por simetria quiásmica,
mas pela bela leitura que Giorgio Agamben faz, o tempo do
fim, a partir da constelação São Paulo-Walter Benjamin.^'^
A qualidade do tempo referencial de RdB torna a circuns
tância da enunciação um lugar proeminente para apreender
uma dinâmica íntima muito complexa da modernidade peri
férica. Sua vertente messiânica se pode melhor entender se
contrastada com a função que as figuras messiânicas desem
penham na obra de Walter Benjamin, em particular nas teses
sobre o conceito de história. O tempo messiânico se encontra
efetivamente na história: cada geração possui uma débil força
messiânica (tese II); ela se explica em uma ação que é política
(tese XVII), ou seja, que pode modificar o futuro e resgatar o
passado.*^ Além disso, existe uma dimensão de luta própria
do tempo messiânico (o Messias na tese VI é quem no com
bate escatológico derrota o Anticristo) que o aproxima da
circunstância da enunciação de RdB. Não deve surpreender
o tratamento histórico, imanente, que o tempo messiânico,
com uma intuição fulgurante, tem em RdB-. pense-se por
exemplo na forte conotação política que Carl Schmitt, filó
sofo que faz parte da ferramenta crítica do Sérgio de RdB,
imprime a sua leitura de São Paulo {Epístola aos Tessaloni-
censes) quando identifica o katékhon, isto é, a força que atrasa
a vinda do Anticristo, com o Império e o Estado,o que se
169
alinha com a idealização de RdB da construção de um espaço
público que definitivamente acabe com o homem cordial.
O que contribui a fundar, portanto, a temporalidade própria
do presente em RdB é a insistência também de um tempo
messiânico que, para ficar na metaforologia ótica benjami-
niana, representa uma radiação ultravioleta'^ no espectro da
modernidade, latente na esteira de qualquer ultravioleta, mas
vivo e ativo nas variações temporais da modernidade que se
adensam na periferia em trânsito para um projeto de nação.
Isso reforça a condição entre-temporal do tempo referencial
que é o tempo residual surgindo intersticialmente como afirma
o próprio Sérgio em uma passagem-chave do epílogo: "Esta
ríamos vivendo assim entre dois mundos: um definitivamente
morto e outro que luta por vir à luz" iRdB-. 135).
Em absoluto, essas considerações críticas sobre o tempo
que resta, o tempo messiânico de RdB, poderiam parecer como
uma sobreinterpretação de uma obra complexa, mas talvez
não na vertente aqui articulada. No entanto, entrando na
história do texto, no processo das reescritas a que foi subme
tido e que está fornecendo novas pistas aos pesquisadores
da obra buarquiana de hoje'®, se depreendem algumas inte
ressantes ratificações dos dados interpretativos antes mencio
nados. De fato, na edição princeps de RdB, de 1936, depara-se
com uma epígrafe do capítulo "Nossa revolução" ("Ein Volk
geht zugrunde, wenn es seine Pflicht mit dem Pflichtbegriff
überhaupt verwechselt", isto é, "Uma nação se reduz a ruínas
quando confunde seu dever com o conceito universal de
dever") que não só resulta extrapolada de Nietzsche, mas
em particular da proposição 11 do Anticristo, texto póstumo
de Nietzsche que, além da invectiva do cristianismo como
inimigo do conhecimento, possui também um forte traço
messiânico (reconduzível também à Epístola de S. Paulo aos
Tessalonicenses). Temos, portanto, uma explícita evidência
textual da consciência do autor a propósito do tempo mes
siânico assim como estamos tentando entendê-lo.
A consideração sobre a circunstância enunciativa de RdB,
suspensa num entre que é conexão — mas também hiato —
entre dois mundos repõe o problema da periodização e do
termo periodizador da modernidade. Porque se a periodi
zação contribui para tornar pensáveis os fatos e se constitui
170
a partir de dois elementos, um fatual e outro conceptual,^'
no caso de RdB torna-se bastante patente que a série fatual é
depreendida a partir da observação formativa do ocaso, na
ordem material, do predomínio agrário e da moral da senzala
pelos agentes modernizadores (que legitima a opção pela
Abolição enquanto epifenômeno periodizador). Permanece
pelo contrário mais complexa a questão conceptual de onde
se abstrai uma espectrografia tão lúcida e articulada da moder
nidade sobretudo na circunstância simultânea da sua obser
vação, ainda mais no clima profundamente perturbado das
polarizações radicais dos meados da década de 30. Aqui
ocorre frisar um aspecto que poderia soar secundário perante
os valores de conhecimento em jogo, mas que, pelo contrário,
se tornaria crucial na apreensão do dispositivo crítico da
obra: o caráter modernista que o ensaio tem, fora de um
formato meramente acadêmico (aspecto, esse, redimensio-
nado ao longo das fases de revisão até à edição definitiva),
e seu vínculo sólido com o Modernismo e com a sua ideologia
fundadora, embora reihterpretada à luz de algumas categorias
críticas tributárias da experiência germânica de Sérgio. A
intuição renovadora, a estrutura dual (que de outro modo
ficaria incompreensível), o compromisso estético, a arquite
tura metafórica do texto: tudo remete para o rastro modernista
que o origina e sustenta. Inclusive a ação de uma temporali-
dade messiânica que vai desentranhando a temporalidade
residuária da obra e acaba condicionando em profundidade
a reformulação crítica do passado pode ser assumida como
uma temporalidade relativamente próxima da do tempo histó
rico — de antecipação no presente do futuro —, próprio das
cronosofias das vanguardas.
Não será casual então que, em termos conceptuais, a
cronosofia da obra, sua filosofia da história, muito deva à
espectrografia da modernidade, que no âmbito cultural, em
particular literário, Sérgio vem realizando desde a década
anterior: a crítica literária, a crítica circunstancial, militante,
a dos rodapés do jornal proporciona o campo de tensões em
que se articula a visão íntima dos desajustes entre moderni
dade e modernização no país periférico, confirmando assim
a osmose inexausta que crítica literária e história entretêm
em Sérgio e como a problemática periodológica em campo
171
historiográfico transcende a ordem material e arraiga também
no terreno da literatura e da crítica. Alguns núcleos con-
ceptuais dominantes RdB se encontram disseminados, em
formas embrionárias ou amadurecidas, pelas páginas críticas
já na década anterior, o que torna de algum modo RdB, pela
sua radicalidade revisora que tenciona articular, um gênero
misto como se dizia, um novo retrato multidimensional, da
forma e formação da realidade brasileira, o simulacro moder
nista de Sérgio.^®
Em termos genealógicos, tentando resgatar suas origens
dispersas, o legado modernista de RdB precisa ainda ser mais
esmiuçado, sobretudo a seminalidade da produção fragmen
tária crítico-literária de Sérgio para o futuro historiador. Nesse
sentido, há, inegavelmente, núcleos conceptuais do ensaio
de 36 que decorrem, mais precisamente, da operação precoce
e lúcida de desmontagem do espectro ideológico e estético
do Modernismo literário que lhe fornecem materiais de reflexão
sobre o perfil peculiar do processo modernizador que investe
o Brasil e suas conseqüências históricas em particular na
vertente cultural.
A esse procedimento não é alheio a forma fragmentária da
resenha, do texto circunstancial do publicista erudito (que é,
literalmente, ensaio) com algumas preocupações críticas cons
tantes como, por exemplo, a de pautar as relações entre lite
ratura e história. É por isso que esses núcleos se adensam
sobretudo a partir das notas de 24, quando a consciência
modernista de Sérgio se vira para a denúncia do outro lado
sombrio do movimento que o rótulo unificante de algum modo
encobria, enxergando assim sua hibridez e pluralidade e
discriminando suas nuanças íntimas — às vezes até cromati-
camente bem fortes — que distinguem as partes heteróclitas
de uma modernidade, ao contrário das aparências ou das
declamações, bem conflitantes. Não é por acaso que Antônio
Arnoni Prado marca nessa fase o terceiro tempo da sua perio
dização, caracterizada pela postura crítica "radical" de Sérgio
perante o Modernismo de que é ainda assim corifeu e defensor,
abrindo um racha autocrítico sintomático no movimento.^^
Encontram-se aqui figuras críticas funcionando "como uma
ponte para o argumento de RB"^^ que se podem sinoticamente
repertoriar para exemplificar como se instaure um elo genea-
lógico entre crítica literária de jornal ou revista e o ensaísmo
172
buarquianos, quase como se se tratassem das raízes (enter
radas) das RdB. Mais do que remessas intertextuais diretas, o
que surge sào conexões trópicas, delimitações semânticas de
palavras-chaves do ensaio a vir, embriões conceptuais, que
fazem emergir um conjunto indiciário significativo prefigu-
rando as agregações críticas em torno da modernização brasi
leira que amadurecerá como forma e conteúdo em RdB.
O texto que de algum modo marca uma virada na postura
finamente autocrítica de Sérgio para com o Modernismo, o
célebre "Um homem essencial" que tem por objeto Graça
Aranha e inaugura a revista Estética, pode ser assumido
também, ainda que virtualmente, como ponto de partida de
um percurso recompositivo das ramificações figurais de RdB.
Não por referências explícitas, mas pelo tom geral da crítica,
e pelo ângulo dos interesses que descortina. Antes de tudo o
contraste articulado entre Nabuco e Graça Aranha compõe
um eixo temporal coincidindo com a "nossa revolução", A
"imaginação estética" que lhe reconhece e que leva o autor
de Canaã a apreciar as paisagens nacionais desprovidas de
história (ao contrário de Nabuco) possui também uma "imagi
nação política", embora de outro signo; esta pode ser encon
trada na procura de sínteses sociais que compensa, de acordo
com Sérgio, suas carências de ordem analítica. Se isso remete
para considerações sobre a formação do homem americano,
é no campo literário com Machado de Assis e Alencar que
Graça Aranha oferece as sínteses de ordem geral que interes
sam a Sérgio. Assim, no caso de Machado, quando o tema se
torna a cultura individual, a distância entre o crítico e o criti
cado se constrói elegantemente por observações como "Essa
cultura individual que bastaria para interessar aos espíritos
puramente analíticos, ele incorpora à herança racial e à his
tória de família, que Machado não tem" iEL I: 183). A revisão
do Modernismo está encaminhada quando na crítica do seu
mais controverso participante, Sérgio se mostra consciente
(estamos em 24) do peso específico real das suas funções
modernizantes, assim como da dinâmica própria da moderni
dade, ao observar: "O espírito moderno nos proporciona neste
momento uma afirmação inesquecível. Se essa afirmação não
se revelou ainda por obras de mérito excepcional — como
querem alguns —, ela valerá pelo menos como uma negação
das negações, que são os obstáculos a uma afirmação maior"
173
(£Z I: 185). No mesmo número de Estética, em outro artigo,
"Romantismo e tradição", Sérgio resenha o volume de Pierre
Lasserre sobre o romantismo e mostra uma sensibilidade
aguda, relacionando romantismo e renascimento a partir do
elo literatura e religião como a visão contextual do historiador
— do historiador da cultura — é essencial para a compre
ensão do texto. Mas o que vale assinalar aqui é uma figura
crítica do romantismo, representado como uma dobra, a
permanência de um tempo dentro do outro, que iconizará
incisivamente a idéia da modernidade complexa de RdB,
estabelecendo também uma conexão sugestiva do romantismo
com o moderno: "Toda a época que domina a chamada cons
ciência moderna é, pode-se dizer, uma época romântica. O
curto período a que geralmente damos esse nome não é mais
que um pequeno segmento de uma grande curva: roman
tismo dentro do romantismo" {.EL I: 200). Uma posição que
se reafirma já em época posterior à saída de RdB quando, em
46, publica os artigos "Perene romantismo" e "A França bizan
tina". No primeiro, SBH analisa as analogias entre romantismo
e revolução teorizadas nos anos 20 por Charles Maurras,
mostrando em termos periodológicos como o primeiro, mais
do que uma escola literária ou artística, à guisa de revolução,
reforma e renascimento, coincide com "as épocas de dissi-
pação, ou de insatisfação, ou de crise" {EL I: 375-375) quando
afloram posições anti-racionais, de negação persistente. Assim,
como no segundo artigo, resenhando um texto de Julien
Benda que endossa as posições crociane sobre o barroco
que apontam para as ressonâncias salientes entre roman
tismo e barroco {EL I: 382). Conceitualizações sobre a perio
dização que ecoam a idéia de revolução configurada em
RdB que encena exemplarmente a passagem, a crise histó-
rico-cultural proporcionada pelo processo formativo da
ex-colônia. Voltando para as posições seminais do "franco
atirador" dos anos 20, mas sobretudo autor de excelentes
resenhas e rodapés — na sua linha argumentativa impe
cável — encontram-se contribuições densas como "Perspec
tivas" de 25 onde de certo modo se prefigura in limine, em
uma reflexão epistemológica sobre a formação dos conceitos,
a problemática da Antígona, que será crucial na definição da
ideologia do cordialismo de RdB referindo-se aos "homens
174
que obedecem às leis divinas e esquecem as outras, as das
cidades" iEL I: 216); texto esse importante porque supõe uma
espécie de ato beligerante teórico no tocante vida e represen
tação de acordo com a qual a arte poética "depois de tantos
séculos em que os homens mais honestos se compraziam em
escamotear o melhor da realidade, em nome da realidade temos
de procurar o paraíso nas regiões inexploradas. Resta-nos,
portanto, o recurso de dizer das nossas expedições armadas
por domínios" iEL I: 215), o que redefine de modo frontal a
relação com uma realidade pela qual a elite letrada costuma
ter horror.
Fica assente que pertence a essa fase já francamente radical,
quando está tomando corpo o impulso para um gesto de depu
ração do Movimento Modernista que repautasse suas relações
internas em termos de ideologias estéticas conflitantes, o texto
crucial, o "artigo-libelo"" de 26 "O lado oposto e outros
lados".
175
remetaforização — curiosa, mas significativamente em termos
musicais ("ritmo espontâneo" e "harmonia falsa") como em
seguida estudaremos — dessa postura nas linhas conclu
sivas do ensaio. No entanto, é oportuno também observar a
deslocação que ocorre no arco dos dez anos que separam o
artigo militante do ensaio distilado de 36: o conceito de 26
referido ao campo da arte (nacional) se ramifica pela meta-
forização no plano da realidade da naçào (ainda que nesse
remate se trate de uma realidade, digamos assim, optativa),
enxertando-se plenamente no tempo messiânico do ensaio,
como resto que resta na investida do passado no presente.
Na desmontagem ideológico-estética do Modernismo, é lícito
perguntar-se, não ecoará já o espectro que subjaz à peri
odização que repauta as relações entre histórico e cultural
no ensaio? Essa observação permite aliás refletir sobre a
cronosofia periodológica do ensaio onde a periodização se
recoloca em uma perspectiva nova; portanto, confirmado o
marco inovativo de cariz modernista de RdB, fora também
de um cânone historiográfico com que inclusive o Sérgio
recém-chegado da Alemanha se confronta. De fato apreciamos
como um redimensionamento da periodização em prol de
estrutura (o conceito de revolução). Sérgio parece se posi
cionar para uma aproximação entre história e ciências sociais,
onde o passado não funciona bem como período, de que é
oportuno operar uma segmentação, mas se configura como
estrutura com uma mudança mais complexa dentro da rede
de relações de um sistema. O que modifica inclusive a idéia
de revolução esboçada justamente no capítulo final que
como vimos enquanto "processo demorado": revolução que
se configura como interseção entre diferentes conjunturas
(ou "revoluções") no plano diacrônico, com a permanência,
nesse caso declinante, da estrutura do passado entrando
em contato sincronicamente com outras estruturas.Uma
problematização do período cujas conseqüências epistemo-
lógicas ficarão mais claras quando a historiografia assumirá
outras conceptualizações como a de "ciclo" e de "evento" de
algum modo já presentes, pelo menos no plano de esboço
de idéias, em RdB.
176
CARTOGRAFIAS MUSICAIS:
DIALÉTICA E CONTRAPONTOS
177
E é por isso que erram profundamente aqueles que ima
ginam na volta à tradição, a certa tradição, a única defesa
possível contra nossa desordem", RdB: 5). Mas ficando logo
explícito e inequivocável o tema de fundo, por que traduzi-lo
também no desfecho em metáforas desta natureza, por que
optar pela solução figurada — ritmo e harmonia, espontâneo
e falso — no lugar de uma codificação própria, do nome pela
coisa, do tema? Talvez isso nos permita adquirir alguns ele
mentos a mais para compreender melhor a estratégia do jogo
metafórico do autor.
De fato, a metáfora leva a uma recategorização do conceito
justamente por ser tratado em termos metafóricos e por metá
foras musicais. As metáforas musicais aqui aproveitadas
remetem todas para o questionamento da nação, cultural
antes de política e ideológica, na sua posição periférica,
pós-colonial e na investida da modernização. Desse ponto
de vista, a musicalização do tema da cultura nacional induz a
pensar de imediato no famoso ensaio de Mário de Andrade
conjugando justamente uma forma cultural como a música com
o desenvolvimento da nação, "Evolução da música brasileira"
da sua tendência emancipatória, na fase cultural, quando a
música deixa de ser nacionalista para ser nacional, "no sen
tido em que são nacionais um gigante como Monteverdi e
um molusco como Leoncavallo"." Não é por acaso que essa
pode ser considerada uma das últimas contribuições teóricas
de Mário sobre identidade nacional. Mas a particularidade
da metáfora leva também a outras considerações. Poucos anos
antes, em um contexto totalmente outro, biográfico e histó
rico, Antonio Gramsci encontrava justamente em metáforas
poético-musicais a forma própria para expressar um pensa
mento crítico que escorre fluente no arquipélago do fragmen
tário: por isso leitmotiv, "ritmo", "elemento orquestral" se
tornam a raiz analógica que traduz o pensamento em con
ceito justamente porque a música, como anota nas Cartas do
cárcere, é "a linguagem mais universal hoje existente, a que
mais rapidamente comunica imagens e impressões totais".^®
O pensamento que a metaforização por uma outra lin
guagem como a musical de algum modo reveste em RdB vai
além da oposição entre ordem e desordem: é bem mais a
impossibilidade de resolução, a problematicidade oximórica
178
dessa oposição, assim como oximórica é a condição de uma
nação, de uma cultura "desterradas em sua própria terra". O
fil rouge da questão remete, de novo, para a revisão do moder
nismo^^ que Sérgio dez anos antes, em 1926, tinha promovido,
em particular, mais uma vez induz a reler o artigo "O lado
oposto e outros lados" antes mencionado. Não se trata de
mera tautologia discursiva e ideológica entre o intelectual inter-
ventista de 26 e o mais maduro ensaísta, ainda que estreante,
de 36, mas não é difícil depreender também as consonâncias
que surgem dentro de uma intertextualidade dominada pela
oposição semântica ordem vs. desordem que conjuga as
posições críticas expressas no arco de uma década. Se qui
sermos definir melhor o símile, a posição de RdB politiza a
denúncia de artigo de dez anos antes dentro do agon esté
tico modernista. O que Sérgio quer é estigmatizar as atitudes
de um certo Modernismo quanto à sua distância da realidade
("homens, inteligentes e sábios, embora sem grande contato
com a terra e com o povo", EL I: 226), a procura de uma
ordem externa, "fictícia e estranha" que regularize a desordem
enquanto "ordem perturbada" local (^ideni), que oportuna
mente concentra a interrogação radical sobre a natureza da
desordem. No desfecho de RdB, a crítica se transmuda em
proposta, perspectivada no horizonte histórico, que marca
como meta indefinida o tempo do encontro com nossa reali
dade {RdB-. 142). O terreno de discussão aqui é porém o do
embate ideológico no campo político e social, não no esté
tico. E se alude explicitamente à possibilidade de "ensaiar a
organização da nossa desordem" (Jdem) que não é só uma
formulação oximórica, mas possui a espessura de uma proje-
tualidade política orientada para salvação do mundo íntimo
que ocorre, como se especificará, por uma dialética não
simples, mas contrapontística. Além das considerações já
formuladas, é oportuno sublinhar o valor intrínseco que mais
uma vez o possessivo, também dêitico, "nossa" adquire em
definir a "nossa ordem" (ou desordem) que deve ser enten
dido em combinação com o tema dominante e epônimo do
capítulo, "Nossa revolução", justamente, explicitando o porte
essencialmente político — mas com uma forte conotação e
percepção cultural — do processo de transformação que
torne coerentes as incontáveis disparidades do quadro social.
Mas a problemática pode ser recuperada por uma análise
formal do texto. Os conceitos essenciais do polêmico artigo
179
da década de 20 são transferidos aparentemente quase de
peso em Raízes do Brasil e remetaforizadas em termos, se
note bem, musicais ("ritmo espontâneo" e "harmonia falsa").
A diferença saliente está justamente na opção pela metáfora,
o que marca até inconicamente o diferencial que existe entre
a crítica militante de 26 e o ensaio distilado de 36. O que na
verdade proporciona o recurso às metáforas desse pendor é,
dentro da conceitualização do ensaio, a intuição profunda
de uma temporalidade moderna da nação irredutível em uma
chave rigidamente opositiva ou dialética. A metáfora musical
nesse sentido fornece um suplemento fundamental na confi
guração conceituai que, sem detrimento da categorização,
define uma peculiaridade específica, que é a modernidade
reinterpretada dentro do fluxo frenético da modernização não
pelo lado oposto do Velho Mundo, mas pelo outro lado, isto
é, pelo lado do periférico, do pós-colonial.
Legado modernista, esse, aliás, da consciência de uma
temporalidade própria imperfeita da modernidade cultural
da nação, mas cujo potencial de inovação se descortina na
adoção da terceira e decisiva metáfora musical do trecho
conclusivo citado: a metáfora do contraponto. Não me atrevo
aqui a definir essa figura como antecipação da célebre leitura
contrapontística da história que Edward Said define em
Culture and imperialism, embora elas compartilhem a preocu
pação comum de ontologizar a periferia. De fato, se por um
lado Sérgio sugere que a figura possa representar a combi
nação complexa entre ordens distintas (a ordem espiritual
do estado e a natural) de modo que no contraponto justa
mente o quadro se recomponha "de modo coerente", pelo
outro, Said propõe reanalisar o arquivo da cultura relendo-o
de modo contrapontístico, combinando também simultanea
mente a história do centro com a da periferia,ou seja, além
de musical a metáfora em Said adquire um valor espaço-
temporal que traduz os confins da nação pós-colonial.
O contraponto que se afina na visão final de RdB redefine
a relação complexa que se instaura entre ordem e desordem
no espaço periférico e que de algum modo tem o poder de
fornecer a cifra crítica do inteiro ensaio: ordem e desordem
coexistem conflitantes — como ocorre em outro conceito —
metáfora viável, o de entropia, onde a desordem não significa
a falta de ordem, mas pelo contrário, subentende o choque.
180
o conflito entre ordens nào correlacionadas,^' tomando, por
tanto, um absurdo tentar discriminar entre ordem externa e
desordem interna, ordem tradicional e desordem moderna,
porque ambos sào a forma com que o Brasil se inscreve na
modernidade. O contraponto expressa conceitualmente e sem
dualismos, dentro da experiência da modernidade brasileira,
modernista na sua matriz estética e pós-modernista na sua
contundência crítica, aquele sentimento dos contrários, aquela
dualidade própria de uma dialética peculiar onde nenhuma
síntese conciliatória parece viável e os contrastes continuam
a exibir seus ângulos cortantes.
É por isso também, nas armadilhas desse tempo trágico-
moderno por formação, que Paulo Arantes detecta na leitura
clássica que Cândido faz de RdB a genealogia desse senti
mento.^^ O contraponto em nível figurai consegue dar plena
mente conta da problematicidade da "metodologia dos
contrários", do "jogo dialético" entre os pólos opositivos das
dicotomias críticas latino-americanas iRdB\ XLII) nào resol
vendo, mas mantendo vivo o estado de tensão permanente
que Luiz Dantas capta muito bem por meio de uma outra metá
fora musical, a da "dissonância não resolvida, de incomodi-
dade perpetuamente fecunda".A remetaforizaçào musical do
desfecho de RdB contribui de modo mais geral para evidenciar
o funcionamento e a função do jogo metafórico do ensaio como
um todo. A metáfora conceptual aqui não encobre a realidade,
mas pelo contrário, pelo seu suplemento figurai em relação ao
nome próprio, desmetaforiza desmistificando a tradição de
pensamento sobre o Brasil e remetaforiza o conceito não em
chave dualista ou intelectualista, como aliás se conviria a
outras remetaforizações modernistas, mas pelo contrário,
através do uso crítico da metáfora se pode "encontrar a nossa
realidade", redefinir o perímetro de uma nação moderna onde
a interpretação e a compreensão do passado fica capital para
a compreensão do presente e a reconfiguração do futuro.
Um encontro com a realidade a que muitas experiências
surgidas no bojo modernista escapavam em nome de uma
ordem externa artificial, de uma harmonia falsa.
Modernista resulta assim a revisão crítica a que Sérgio
submete o Modernismo. A dobra do passado no presente não
cancela a inflexão que também o futuro cria no aqui e agora.
A idéia de um Brasil cultural e político de timbre espontâneo
181
formado por seqüências rítmicas próprias, valorizando assim
a sua lógica paradoxal e contraditória, precisava encontrar
ainda uma melodia que harmonizasse dissonâncias e conso
nâncias, que combinasse em uma forma particular ritmo e
harmonia: uma nação polifônica, que talvez a Bossa Nova
ou a MPB justamente chegassem a realizar antes como "pro
messa de felicidade" musical, contrapontos e acordos de um
projeto político ainda por serem compostos, mas cuja parti
tura — como mostra com eloqüência RdB — estava já pelo
menos sendo pensada.
182
"o fecho quase trágico do livro" pela ausência de um epílogo
programático, pelo desencontro que RdB encena da impossi
bilidade de cruzamento do eixo do iberismo com o eixo do
americanismo, como paralelas que não se encontram, uma
condição oscilante ("entre o desmoronamento dos traços ibé
ricos e a permanência deles"^^), de desfiguração do moderno,
que encontra dentro do próprio texto um emblema como no
caso do "funcionário patrimonial" incorporando figuralmente
a tensão trágica do epílogo. Agora nessa condição, a crise
histórica, a suspensão de um presente neutralizado entre dois
mundos em choque, que poderia gerar um impasse do exer
cício histórico, pelo contrário, se transforma não em limite,
mas em antevisão fulgurante. Mais uma vez é Cândido que
observa "a relativa indecisão teórica que nos parece haver
no capítulo final de Raízes do Brasil, vista agora com a dis
tância de mais de meio século e tanta história pelo meio,
revela-se uma espécie de registro sensível do movimento
profundo da sociedade brasileira, tal como estudada no res
tante do livro,"^^ um potencial crítico que prefigura o hori
zonte, ainda que seja a única explicação do Brasil da época
composta "em função do presente".^' O objeto, o conteúdo
da obra, deixa espaço assim à questão crítica crucial de
como tal característica possa se tornar possível, transfor
mando limites em qualidades excelentes, conseguindo estar
discretamente pendurado entre temporalidades conflitantes,
sem ser nostálgico nem utópico, uma posição, essa, que
poderia inclusive ser lida como hesitação ou como irresoluçào
do que no fundo se poderia até assumir como uma aporia.
A pergunta que nós nos podemos fazer é se não se dá algo
de decisivo, aqui, e mesmo dentro do texto, que não se de
fina um mecanismo capital, para o futuro historiador e o
futuro crítico. O ensaio funciona porque à periodização
(relativizada, como vimos) histórica (que tem como marco a
Abolição) se sobrepõe uma outra operação, dessa vez crítica,
que interrompe a continuidade da "nossa revolução" e cria,
no intervalo, o ponto de observação fulcral bem no meio da
década de 30 que sustenta toda a arquitetura temporal da
obra. Por isso também, às revisões do texto, inclusive pro
fundas, nunca seguiu uma verdadeira reescrita ou refundição
integral, simplesmente porque não teria sido possível rees-
crevê-la fora daquela suspensão temporal proporcionada.
183
por um lado, pela circunstância histórica, mas também, por
outro, articulada formalmente, enquanto operação crítica,
dentro do texto.
O gesto de Sérgio, a suspensão ou pausa que promove
seria assimilável, justamente enquanto princípio operacional,
à equivocada epoché da fenomenologia husserliana cujo
valor deve ser procurando como operação metódica. A feno
menologia, seus procedimentos por reduções, no caso de RdB
e da sua articulação periodológica, podem de fato propor
cionar outras vertentes críticas de leitura, definindo-se desde
logo em Husserl como ciências de essências, o que tem conso
nância certamente com a explicação do Sérgio que vai — como
vimos — rumo a um mundo de "essências mais íntimas"
142). De fato, na epoché que Husserl deriva do ceticismo
grego se põe entre parênteses os elementos do dado, as conti-
nuidades e as tradições categoriais, os juízos compatíveis com
a convicção da verdade, acabando por suspender assim o
próprio juízo de modo que o fenômeno pode surgir para a
consciência como resto dessa operação, onde tanto a tese
como o juízo são recortados.^® Isso permite fundar um ponto
privilegiado de observação no momento em que os fatos
julgados passam pela consciência radical despida de outros
filtros de valor e assim seu objeto próprio, o eidos, (a figura,
a forma) pode ser enfrentado da maneira mais desinteressada
possível, não pelo retorno à dúvida cartesiana, mas pelo
princípio metodológico da epoché. Assim, explica Husserl,
distinguindo a epoché fenomenológica daquela positivista
184
scienze, per buone che siano, fondate positivisticamene
o altrimenti, che si riferiscono a quesio mondo, soggiacciono
al medesimo desiino.^^
185
questionamento do "O entre-lugar do discurso latino-ameri
cano" de Silviano Santiago, em 1971,'^° mais em geral da
celebrada categorização do in-hetweeness dos estudos cul
turais com que Homi Bhabha representa a hibridez como a
irredutível in-betweeness da cultura diaspórica que não possi
bilita nenhuma experiência plena do passado e do presente,
da visibilidade e da invisibilidade, do dentro e do fora, da
pertença e do exílio, mas é no espaço indeterminado entre
duas culturas que se podem negociar as diferenças.'^' Também,
uma referência importante a ser feita é a do Atlas, de Serres,
com a bela leitura da Le horta, de Maupassant, onde o filósofo
francês aponta para os espaços do "entre" como áreas de inter
ferência largamente por explorar onde os saberes hegemô
nicos se transformam e é então possível criar uma cartografia
outra, um mapa alternativo, justamente projetável no espaço
branco da preposição "entre",''^ entre local e global, mudança
e permanência, o que define inclusive uma intuição profunda
sobre a forma do Brasil moderno e os desajustes da sua
formação analisados no ensaio.
Vale a pena convocar aqui a recente sociologia dos inters
tícios assim como a recorta Giovanni Gasparini que pode
contribuir a iluminar o funcionamento da pausa momentânea
de Sérgio. O interstício tem uma dimensão dual, além da apa
rência que o limita ao espaço como distância normalmente
mínima que separa dois corpos ou duas partes do mesmo
corpo ientre-deux, in-between etc.). Mas é a outra vertente, a
temporal, enquanto intervalo, pausa, suspensão, que permite
o resgate de momentos em geral compreendidos entre tempos
socialmente marginais"'^ que estende suas possibilidades
interpretativas. Em uma rearticulação mais recente, Gasparini
distingue entre dois grupos principais de interstícios: um
primeiro que inclui os que remetem para a descontinuidade
entre experiência, fenômeno e realidade aproximando-se da
idéia de limes, de limite, portanto, com um valor distintivo
claro; um segundo grupo, pelo contrário, implica a idéia de
continuidade e de transição, definindo-se assim como limen,
como limiar secundando o continuum ou o intercâmbio entre
tempos, espaços.''''
O que se pode depreender de RdB, a partir dessas consi
derações críticas, é que se com certeza é intersticial a posição
186
crítica do ensaio, como vimos, fica menos imediato pensar na
tipologia do interstício. Por um lado, a suspensão funciona
como uma paragem, isto é, como um interstício temporaP'
que problematiza a periodização dentro da modernidade.
Também intersticial é a configuração espacial, entre campo
e cidade só para citar uma topologia saliente. Mas o que é
estimulante apreender, examinando RdB pelo horizonte inters
ticial, é que o próprio texto funciona intersticialmente, sendo
limite espaço-temporal de uma cultura, mas também, em
contemporâneo, limiar de uma crise, de uma passagem
("Nossa Revolução").
A característica de RdB nesse sentido é de se inscrever
entre limen e Umes, de limite e de limiar, delineando desse
modo uma orla que ao mesmo tempo se dilacera e não retém
ou delimita. Essa figura latente, literalmente diria — com um
trocadilho paronomástico — liminal, com sua dualidade
semântica de interstício, talvez possa explicar porque a obra
apresenta, quase 70 anos depois da sua saída, uma compaci-
dade tão grande, conjugando formação e forma da nação num
eixo espaço-temporal onde a formação pode ter se comple
tado (podendo-nos apreciar o limite), mas as formas da
formação perfuram essa borda histórica transitando para além.
Figuras complexas e modernas, que mostram como o
ensaio, depreendido de algum modo da experiência crítico-
cultural, se rearticule enquanto base crítica. É por isso
também que a impressão que surge nesse percurso é que o
potencial interpretativo definido por RdB não fica avulso do
resto da atividade intelectual, mas, pelo contrário, acaba
voltando para a crítica literária, definindo assim uma osmose
constante entre o histórico e o crítico (mais um interstício que
então aqui se define!). De fato, na época do regresso para a
crítica de jornal, em finais da década de 40, nos tempos em
que Sérgio se autodefine um "bissexto da crítica" iEL II: 35)
o legado de RdB reemerge fragmentário, porém de modo
bem reconhecível (já a partir do primeiro artigo de 48, "Missão
e profissão" ou em ecos como em "O sentido universal da
literatura francesa I" onde se pergunta: "Não seríamos nós
mesmos, de algum modo, uns desterrados na nossa terra?"
iEL II: 113). Como se torna evidente, a questão crítica da
periodização de que RdB faz experiência, no sentido que a
187
própria obra assim como a esboçamos no estudo funciona
como problematização cronosófica em termos de cânone
periodológico historiográfico, encontra sustento no momento
em que as relações entre os dois campos sào repautadas
(emblematicamente no artigo "Crítica e história", se afirma
em chave simmeliana que "as expressões da cultura são
essencialmente mutáveis", EL II: 306). Não é por acaso que
esse texto é assumido por Arnoni Prado como termo periodi-
zador da época em que o "historiador encontra o crítico",
ou seja, quando a preocupação para as questões metodoló
gicas se agudiza sensivelmente. É nessa conjuntura que a
transdisciplinaridade se torna essencial para a crítica: assim
se compreende como pode surgir de um outro famoso artigo,
"Domínio rococó", de 53, uma importante reflexão sobre o
intersticialismo praticado também em RdB, um artifício her
menêutico que, como nota Arnoni Prado, lhe possibilitara,
na crítica ao modernismo,
188
histórica é forçoso introduzir uma pausa momentânea ou
um adágio no curso dos acontecimentos, sem o que mal se
poderá perceber como nelas se entrelaçam os pensamentos
e as obras dos homens. O artifício assemelha-se, no fundo,
ao do observador ou julgador de uma contenda esportiva
que recorre, para maior segurança do juízo, à câmara
lenta. A ilusão de numerosos historiadores, diferentes
daquele julgador ou observador, está em que se deixam
ao cabo enlear pela limpidez da imagem assim obtida, pela
nitidez dos seus contorno, e se esquecem, não raro, do arti
fício que os tornou possíveis. (584-585).
189
Nesse quadro, RdBs& coloca como "núcleo íntimo", crítico,
de uma visão da modernidade, cuja irresoluçào, temporali-
dades em aberto, restos que não se diluem, reatualizam uma
chave interpretativa decisiva no pensamento de Sérgio. Ela é
a glosa essencial daquela idéia dilacerada que contempo-
raneamente divide e se reconjuga, sendo ao mesmo tempo
limes e limen, fronteira e trânsito do embate do moderno na
história periférica da pós colônia, isto é, de um Brasil que
não é mais colônia, mas que contemporaneamente ainda não
é nação.
E talvez aqui se possa finalmente enxergar o traço recom-
positivo da dispersão de idéias e signos de Sérgio, a centrali-
dade de uma idéia plural e compósita de cultura (de Kultur,
se poderia especificar, recuperando a distinção que o alemão
codifica em relação à Zivilisation) e da reflexão que insinua
na história da formação nacional, uma história necessária e
obrigatoriamente "póstuma", com poucos documentos e
muitos restos e cacos por examinar e interpretar, recons
truindo assim aquele discurso de muitos silêncios que
representa os mapas de um Brasil redescoberto, trágico e
moderno, na poeira depositada de mil palavras abusadas.
Um Brasil que se deixa compreender somente partindo dos
lutos e das perdas, desenterrando-lhe justamente as raízes
remanescentes que uma história grávida de tensões e traumas
deixa ainda localizar.
NOTAS
' A cartografia aqui se deve entender como uma das multíplices "narrativas
de nação" cuja formulação — na verdade uma tradução — é bem frisada
pela homologia proposta por Guerreiro Ramos: "A transformação de um
espaço geográfico em uma nação é comparável ao nascimento da cultura".
Oproblema nacional do Brasil. Rio de Janeiro: ISEB, 1960. p. 27.
^ Cf. COSTA LIMA, Luiz. Terra ignota. A construção de Os sertões. Rio de
Janeiro: Civilização Brasileira, 1997. p.l6l-l62.
' Não é por acaso que o termo sema não só remete para o signo, mas
originariamente expressa a pedra tumulária.
^ Veja-se ZUMTHOR, Paul. La misura dei mondo. La rappresentazione
dello spazio nel Médio Evo. Tr. it. de S. Vavaro. Bologna: II Mulino,
1995. p. 328-330 (Ed. org. 1993).
190
^ SCHLEGEL, Friedrick. Kritische Ausgabe seiner Werke. BEHLER, E. (Ed.).
München-Wien: Schõningh-Padeborn, 1958. 1930.
^ IGLESIAS, Francisco. Sérgio Buarque de Holanda historiador. In: SALOMÃO,
J. (Dir.). Sérgio Buarque de Holanda. 3° Colóquio da UERJ. Rio de Janeiro:
Imago. 1992. p. 25.
' A partir de agora, as citações das duas obras de Sérgio mais utilizadas no
presente ensaio, ou seja. Raízes do Brasil, 18. ed. Rio de Janeiro: José
Olympio, 1984 e O espírito e a letra (1920-1947). PRADO, Antônio Amoni.
(Org.). São Paulo: Companhia das Letras, 1996. I e II, serão indicadas
com as siglas RdB e EL \ e II, seguidas pela indicação da página direta
mente no corpo do texto.
® MUSIL, 'Rohexi.Romanzi brevi, novelle e aforismi. Torino: Einaudi, 1986,
p. 754.
' SÜSSEKIND, Flora. Outra nota. Comentário ao texto "Nota breve sobre
Sérgio crítico" de Antônio Arnoni Prado. In: AA.W., Sérgio Buarque de
Holanda. 3° Colóquio UERJ. op. cit., p. 136.
CÂNDIDO, Antonio. Sérgio em Berlim e depois. In: . Vários escritos.
3. ed. São Paulo: Livraria Duas Cidades, 1995. p. 328 e 330-331.
'' cf. IGLESIAS, F. Op.cit., p. 22-23 e VECCHI, Roberto (2000a). Ratos cordiais
e raízes daninhas: formas da formação. In. PESAVENTO, Sandra (Org.).
Leituras cruzadas. Diálogos da história com a literatura. Porto Alegre:
Editora da UFRGS, 2000. p. 93.
CROCE, Benedetto. Teoria e storia e delia storiografia. Milano: Adelphi,
1989. p. 119.
'^HANSEN, João Adolfo. Dom Casmurro. Simulacrum and allegory. In:
Graham Richard (Ed.). Machado de Assis. Reflections on a brazilian master
writer. Austin: University of Texas Press, 1999. p. 28.
AGAMBEN, Giorgio. II tempo che resta. Torino: Boliati Boringhieri, 2000.
BENJAMIN, Walter. Sul concetto di storia. BONOLA, Gianfranco; RANCHETTI,
Michele (Org.). Torino: Einaudi, 1997. 183-184. (Ed. org. 1966-1974)
'^SCHMITT, Carl (1991). II nomos delia terra. VOLPI, Franco (Ed.). 2. ed.
Milano: Adelphi, 1991. p. 43 (Ed. org. Berlim, 1974).
" A metáfora se refere à análise espectrográfica que o materialista histórico
executa na estrutura da história. Cf. Ms 1099, Benjamin 1997. p. 101.
Cf., por exemplo, ROCHA, João Cezar de Castro. Literatura e cordialidade.
O público e o privado na cultura brasileira. Rio de Janeiro: EdUERJ, 1998.
'^POMIAN, Krzysztof. Periodizzazione. Enciclopédia Einaudi. Torino:
Einaudi, 1980. p. 647 e 639.
" Cf. PRADO, Antônio Arnoni (1998). Raízes do Brasil e o modernismo. In:
CÂNDIDO, Antonio (Org.). Sérgio Buarque de Holanda e o Brasil. São
Paulo: Fundação Perseu Abramo, 1998. p. 79-80; MONTEIRO, Pedro
Meira. A queda do aventureiro. Campinas: Ed. da UNICAMP, 1999. p.
255; VECCHI, Roberto. Remetaforizaçôes modernistas. Sistema metafó
rico e imagem histórica em Raízes do Brasil. Rivista di Studi Portoghesi e
Brasiliani, Pisa, n. II, p. 63, 2000 .
191
Veja-se a introdução a EL, II. p. 15.
PRADO, Antônio Arnoni. Raízes do Brasil e o modernismo, op. cit., p. 77.
Idem. Nota breve sobre Sérgio crítico. In: AA.VV. Sérgio Buarqiie de
Holanda. 3° Coióquio UERJ. Rio de Janeiro: Imago, 1992. p. 122.
VECCHI, Roberto. A insustentável leveza do passado que não pa.ssa: senti
mento e ressentimento do tempo dentro e fora do cânone modernista. In:
BRESCIANI, Stella; NAXARA, Márcia (Org.). Memória e (res)sentimentos
indagações sobre uma quesião sensível. Campinas: Editora da UNICAMP,
2001. p. 469.
-'Cf. POMIAN, K. Op.cit., p. 637.
DECCA, Edgar Salvadori de. Decifra-me ou te devoro. As metáforas
em Raízes do Brasil. Rivista di Sladi Portoghesi e Brasiliani, Pisa, n. II,
p. 48, 2000.
ANDRADE, Mário de. Evolução social da música brasileira. In: Aspectos da
música brasileira. São Paulo: Livraria Martins, 1965. p. 34.
Retiro as referências e a citação gramsciana do livro de BAR/VTTA, Giorgio.
Le roseeiquademi. Saggiosul pensiero di Antonio Gramsci. Roma: Gambe-
retti, 2000. p. 116-121 que agradeço pela discussão sobre o tema.
Cf. PRADO. Antônio Arnoni. Raízes do Brasil e o modernismo, op. cit., p.
71-80 e MONTEIRO. P. Meira. Op. cit., p. 254-258.
É interessante, no confronto com a de Sérgio, a explicação da metáfora
formulada por Said: "Se reexaminarmos o arquivo da cultura, começamos a
relê-lo de modo não unívoco mas contraponiístico, com a percepção
simultânea tanto da história metropolitana que é narrada quanto das outras
histórias contra as quais Ce com as quais) o discurso dominante age. No
contraponto da música clássica ocidental vários temas se opõem um ao
outro, e só temporariamente se dá a procminência a este ou ao outro; no
entanto, na polifonia que resulta há concerto e ordem, uma interação
recíproca organizada que decorre dos próprios temas e não de um prin
cípio externo da obra, rigorosamente melódico e formal. (Tradução minha
da edição italiana SAID, Edward. Cultura e imperialismo. Letteratura e
consenso nel progetto coloniale dcirOccidente. Trad. it. de CHIARINI,
s.; TAGLIAVINI, A. Roma; Gambereiti, 1998. p. 76.
ARNHEIM, R. (1969). Ordine e complessità nelia progettazione dei pae.saggio.
In: Verso una psicologia deirarte. Trad. it. Torino: Einaudi, 1969. p. 165;
Idem. Entropia e arte. Saggio sul di.sordine e Tordine. Trad. it. Torino:
Einaudi, 1989. p. 19.
ARANTES, Paulo. Sentimento da dialética na experiência intelectual brasi
leira. Dialética e dualidade segundo Antonio Cândido e Roberto Schwarz.
Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1992. p. 21.
192
WEGNER, Robert. A conquista cio oeste. A fronteira na obra de Sérgio
Buarquc de Holanda. Belo Horizonte: Editora UFMG, 2000. p. 50.
^'"CÂNDIDO, Antonio. A visão política de Sérgio Buarque de Holanda,
op. cit., p. 87.
Ibidem, 88.
HUSSERL, Edmund (2002). Idee per iin fenomenologia pura e per una
filosofia fenomenologica. Libro primo: Introduzione generale alia feno
menologia pura. COSTA, Vincenzo (Ed.). Torino: Einaudi, 2002. p. 70
(Ed. org. 1950).
•''' Ibidem, p. 72-73.
'""Entre o sacrifício e o jogo, entre a prisão e a transgressão, entre a
submissão a ou código e a agressão, entre a obediência e a rebelião,
entre a assimilação e a expressão, — ali, nesse lugar aparentemente
vazio, seu templo e seu lugar de clandestinidade, ali, se realiza o ritual
antropófago da literatura latino-americana". SANTIAGO, Silviano. O entre-
lugar do discurso latino-americano. In: . Uma literatura nos trópicos.
São Paulo: Perspectiva, 1978. p. 28.
" BHABHA, Homi K. (1996). Culture's In-Between. In; HALL, Stuart;
DUGAY, Paul. (Ed.). Questionsofcidtural identity. London: Sage. Bhabha,
1996. p. 56.
•'^SERRES, Michel (1994). Atlas. Paris. Julliard, 1994. p. 24-25.
GASPARINI, Giovanni. Sociologia degli interstizi. Viaggio, attesa, silenzio,
sorpresa, dono. Milano: Bruno Mondatori, 1998. p. 2.
•" Idem. Interstizi. Una sociologia delia uita quotidiana. Roma: Carocci, 2002.
p. 8-9.
Ibidem, 14.
193
SOBRE OS AUTORES
196
H U M A N
DIRETORA DA COLEÇÃO
Heloísa Starling
9. O TRABALHO DA CITAÇÃO
Antoine Compagnon
788570 4 1 4809
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