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Che Guevara | Organizador: Eder Sader Coordenador: Florestan Fernandes POLITICA — a Se tage ae I if ae qililidade © seguranga que o poyo 4) 6. PROJECOES SOCIAIS DO EXERCITO REBELDE * Nesta noite nfio posso deixar de evocar Marti, como o disse opor- tunamente quem me apresentou a vocés. Penso que, a0 falar da projegio social do exército rebelde, estamos nos referindo coneretamente ao sonho que Marti gostaria de ter realizado. BE como esta é uma noite de recor- dagSes, farcmos, antes de entrar no assunto, no seu significado hist6rico, um breve relate do que foi este movimento. Nio comegarci a narrativa pelo ataque 20 quaztel Moncada a 26 de julho de 1953. Quero tratar apenas da parte que corresponde 4 minha participacio na série de vitérias de que resultou o triunfo da revolugao no primeiro de janeiro passado, Comegaremos ent&o a histéria como cu a inici¢i no México. Para todos nés é muito importante conhecer o pensamento atual dos componentes do nosso exército rebelde: 0 pensamento daquele grupo que embarcou na aventura do Granma e a evolugio deste pensamento nascido nas entranhas do Movimento 26 de Julho, suas mudangas sucessivas ao longo do processo revolucionario para chegar 4 aprendi- zagem final deste Wltimo capitulo com que lerminou a parte insurre- cional, * Reproduzido de Gurvans, B. Proyecciones sociales del sjército rebelde. In: Obras. t 2, p. 11-22. 72 , ee dizendo que travei conheci © es a nie - aoe Mésica. A projecao social desses homens antes da » antes que sc produzisse a primeira cisa : io Julho, quando estavam Juntos todos os sobréviventes eres tel Moncada. Era muito diferente. Lembro- Rae no México, onde expunha a necessid: uba um programa revoluciondrio, quando cada, que felizmente se separou do 26 de Tull com uma frase que até hoje lembro: imento com os primeiros membros do ataque ao quar- ‘me de uma discussio numa lade de oferecer ao povo de um dos assaltanies de Mon- bo, contestou minha posigao Re simples. O que temos que fazer é dar um golpe. Batista den golpe @ tomou o poder num dia. © mesmo dave dar certo para tiré-lo de [4 Batista fez cem concessies 203 american: m1 . a. ses at : : americanos, Nés vamos O negéci ae oa tomar o poder. Eu argumentava que tinhamos que dar = # pe baseados em principios e que o importante era saber o ue tfamos fazer, uma vez no poder. Essa era a idéia de um membro oa. ring tape do 26 de Julho, que, como j4 disse, felizmente para aés, junto com os que tinham o teri ‘ : § mesmos critérios sairam nosso movimento revoluciondrio e tomaram outro caminho. ‘e toi (neh date momento, © grupo que viria mais tarde no Granma {el ipmanig seo Pe a Bie ‘ mil dificuldades, pois sofriamos a perse- perigo o éxito da enpedigio. Una serie do itores nomen, cone ce exemplo, indivduos que no comeco pereciam quater avertors e depoan por um motive ou outro, desistiam do projeto, limitou a quantids de de expedicionarios. Ao final, ficamos 82 e tomamos o Granma, a resin & bem conhecido do povo cubano. © que me interessa, o que ‘eke importante © 0 pensamento social que nés, os sobreviventes de Ale in * oe Unhamos. Este foi o primeito e tinico fracasso que as oe eae ae ao longo da insurreigac, Nds, uns quinze homens sete 0s Hisicamente © até moralmente, nos unimos, © se conseguimos “eeu om rente foi sragas & enorme confianga que Fidel Castro conser- ‘esses momentos dificeis, gragas & sua forte personalidad d caudilho revoluciondrio e a sua fé inquebrantével no povo. “ Bras 2 ori il i massa mos um grupo de origem civil implantados na Sierra Maestra, mas nfo inseridos nela, Andévamos de choupana em choupana; nie loca: ia, i : ioe ven om nada que ndo nos pertencia, inclusive néo comfamos nada Pucessemos pagar, ¢ por causa deste principio chegamos muitas 73 vezes a passar fome. Bramos vistos com tolerancia, mas nfo éramos jntegrados. Assim passou muito tempo. Durante varios meses, andamos pelos picos mais altos da Sierra Muestra, dando golpes esporddicos ¢ yoltando a subir novamente. lamos de um pico a outro, onde nao havia gua e onde viver era extremamente dificil. Pouco a pouco, a atitude dos camponeses para conosco foi mudando devido as forcas repressivas de Batista, que se empenhavam em assassinar, em destruir as casas; eram hostis de todas as formas possiveis a quem tinha tido, mesmo de modo ocasional, 0 minimo contato com nosso exército rebelde. Esta mudanga se produziu com a incorporagio dos sombreros camponeses & nossa guertilha. Assim, 0 nosso exéscito civil foi se convertendo em exército camponés. Paralelamente & incorporacdo dos camponeses a luta armada por suas reivindicagdes de liberdade e justiga social, surgiu a grande palavra magica que mobilizou as massas oprimidas de Cuba, na Iuta pela posse da terra: Reforma Agraria. Assim estava definida a primeira grande reivindicagio social, que se tornaria a bandeira ¢ o lema central do nosso movimento, apesar de termos atra- vessado uma etapa de grande intranqitilidade devido a preocupacses naturais relacionadas com a conduta e a politica do nosso grande vizinho do Norte. Nesses momentos era mais importante para nés a presenga de um jornelista estrangeiro, de preferéncia norte-americano, do que uma vitéria militar. O fato de haver combatentes norte-americanos que exportavam nossa propaganda revolucionaria era mais importante que a incorporacio & luta dos camponeses que vinham trazer & revolugdo seus ideais e sua fé. Nessa época, em Santiago de Cuba ocorreu um acontecimento muito trdgico: © assassinio do nosso compenheiro Frank Pais, que causou uma reviravolta em toda a estrutura do movimento revoluciondrio. Respon- dendo 20 impacio emocional causado pela morte de Frank Pais, 0 povo de Santiago de Cuba desceu as ruas esponlaneamente e€ realizou a pri- meira tentativa de greve geral politica que, mesmo sem diregao, paralisou totalmente o oriente e repercutiu de forma parecida em Camagiiey e Las Villas. A ditadura liquidou este movimento, que surgi sem preparo & sem controle revolucionfrio, Este fenémeno popular serviu para que nos déssemos conta de que era necess4rio incorporar a luta pela libertacio de Cuba o fator social dos trabalhadores. Em conseqiiéncia, iniciaram- se imediatamente os trabalhos clandestinos nos centros operarios para preparar uma greve geral, que ajudaria o exército rebelde a tomar o poder. 74 Esse foi o inicio de uma campanha de organizacdes clandest com finalidades insurrecionais. Mas quem animava exes movimentas nfo conhccia suficientemente o significado ¢ a tética da lute de masses Levaram-na por caminhos completamente equivocados, nio oink e espitito revoluciondrio nem a unidade dos combatentes dirieindo a greve de cima, sem ligacdo efetiva na base dos grevistas. eee @ _ visio do exér ito rebelde os esforeados trabalhos clandes- am © pais, provocando um estado de efervescéncia téo grande que levou 2 deflagragiio da greve geral no dia 9 de abril. A grove fra, cassou justamente por erros de organizacao, os principais sendo a fi ita de contato entre as massas operirias e a direcdo, e as atitudes five. cadas desta tiltima, , “we 4 ues a experiéncia nao foi perdida e, no seio do Movimento 26 de ues surgiu uma luta ideoldgiea que provocou mudangas radicais © enfoque da realidade do pais © em sous sctores de acho O 26 d Julho saiu fortaiecido da greve fracassada ¢ a experiéncia ensino 4 seus dirigentes uma verdade Preciosa, que era — 6 6 — que a evalugan nao pertencia a este ou aquele grupo, mas que deveria ser obra do a cubano Jnteiro; @ para esta finalidade canalizaram-se todas as vies dos militantes do nosso movimento, ta : Sie 2 mto na planicie quanto na Sierra. eats Heeeienis nesta Spoca que surgiram as primeiras tentativas no le se dar uma teoria e uma doutrina a tevolugio. O movimento insurrecional dava mostras do seu crescimento e havia chegado, por- tanto, 4 sua maturidade politica. = iva Haviamos pessado da etapa experimental & construtiva, das tenta- tivas aos fatos definitivos. Imediatamente comegaram as obras das “pequenas inddstrias” na Sierra Maestra Ocorreu uma mudanga que nossos antepassados viveram muitos anos atras: passamos da vida sont a vida sedentéria, criamos centros de produgao de acordo com nossas necessidades mais vitais. Assim, fundamos nossa fabrica de sapatos, nossa fabrica de armas, nossa oficina mecdnica, na qual reconstrufamos ae Geiban que a titania nos atirava, para devolvé-las 20s préprios soldados le Batista sob a forma de minas terrestres, Os homens ¢ as mulheres do exército rebelde nunca esqueceram sua fungdo fundamental na Sierra Maestra nem em outros lugares, que era ade ganhar 0 campesinato pura incorporé-lo a uta pela terra eatelhorae sua formagio através de escolas situadas nos lugares mais inacessiveis dessa regidio do Oriente. Ali se fez a primeira tentativa de reparticfio de 75 terras com um regulamento agrério redigido principalmente pelo doutor Humberto Sori Marin, por Fidel Castro, ¢ do qual tive a honra de partici- par. Repartiram-se revolucionariamsente as terras entre os camponeses ¢ ocuparam-se grandes propriedades de servidores da ditadura, pareelando- -as, ¢ todas as terras pertencentes ao Estado foram transferidas para as maos dos camponeses da regio. Tinha chegado o momento em que nos identificévamos plenamente como um movimento camponés ligado estrci- tamente a terra c tendo como bandeira a Reforma Agrdria. Foi mais tarde que sofremos as conseqiiéncias da fracassuda greve do 9 de abril, pois a repressiio barbara de Batista se fez sentir em fins de maio, provocando em nossos quadros baixas cujas conseqiiéncias poderiam ter sido catas- tr6ficag para nossa causa, A ditadura preparou sua mais ferrenha ofen- siva. Pot volta de 25 de maio do ano passado, dez mil soldados bem equipados atacaram nossas ‘posigdes, centralizando ofensiva sobre a Coluna nimero 1, dirigida pessoalmente por nosso comandante-em- ~chefe Fidel Castro. O exército rebelde ocupava uma drea muito pequena, e & quase inacreditdvel que a essa forga de dez mil soldados se opuse- yam apenas 300 fuzis da liberdade, que eram os Unicos existentes na Sierra Maestra nesse momento. A direcdo tatica adequada desta cam- panha fez com que, no dia 30 de julho, terminasse a ofensiva de Batista. Os rebeldes passaram da defensiva para a ofensiva e capturamos mais de 600 armas novas, mais do dobro dos fuzis que tinhamos no inicio desta acd, e provocamos mais de mil baixas nos soldados inimigos, entre mortos, feridos, desertores ¢ prisionciros. ‘Ao sair desta campanha, 0 exército rebelde preparou-se para iniciar uma ofensiva na planicie, de carfiter tatico ¢ psicolégico, porque nosso armamento nao podia competir em qualidade e muito menos cm quan- tidade com o da ditadura. Nesta guerra, contamos sempre com esse aliado imponderdvel de tdo extraordindrio valor que é o povo. Nossas colunas podiam enganar sempre o inimigo e ocupar sempre as melhores posigdes, nao apenas por yantagem tética ou gracgas ao moral dos nossos milicianos, mas sobre- tudo gragas a grande ajuda dos camponeses. O camponés era 0 cola- borador invisivel, que fazia tudo o que 0 rebelde no podia fazer: trans- mitiam-nos informacées, vigilavam o inimigo, descobriam seus pontos fracos, traziam rapidamente as mensagens urgentes, espionavam nas pré- prias filas do exército de Batista. Isso nfo se devia a nenhum milagre, mas ao fato de termos iniciado energicamente nossa politica de reivin- dicagdes agropecudrias. Diante da amargura do ataque ¢ do cerco de 76 fome com que cercaram a Sierra Maestra, dez mil cabegas de gado pexfencenies aos criadores das zonas limfirofes subiram a Sierra, Nao apenas pera abastecer o exércita rebelde, mas também para serem distri bufdas entre os camponeses. Pela primeira vez os camponeses da Sierra nesta regio paupérrima, tiveram seu bem-cstar; pela primeira yez 28 cnancas camponesas tomaram leife e comeram carne de vaca. E pela primeira vez, também, receberam os beneficios da educa¢io, porque a revoluedo traz em suas mfos a escola, Assim todos os om on beneficiaram do nosso regime, al Por outro lado, a ditadura continuava sistematicamente a incendiar suas casas, 2 desaloj4-los de suas terras e a maté-ios; 2 morte néo vinha somente por terra, mas também por via aérea, com as bombas de napalm que os vizinhos democréticos do Norte ofereceram graciosamente a Batista para que cle pudesse aterrorizar as populagées civis, Ao cairem, essas bombas que pesam 500 quilos destroem uma drea We ima ue cem metros. Uma bomba de napalm atirada sobre um cafezal significa a destruigéo desta riqueza — © dos anos de trabalho acumulados nele ~— numa area de cem metros, @ séo necessdrios cinco a seis anos para reconstruir o que foi destruido em um minuto. , Nessa época se iniciou a marcha sobre Las Villas. & importante destacar este fato, nao por eu ter sido ator dele, mas porque ao chegar a Villas encontramos um nove panorama politico-social da revo- dio. Chegamos @ Las Villas com a bandeira do 26 de Jutho. J4 Iutavam contra a ditadura o Diretério Revoluciondrio, os grupos da Segunda Frente do Escambray, os grupos do Partido Socialista Popular ¢ peque- nos agrupamentos da Organizagdo Auténtica. Tinha que se realizar uma tarefa politica importante e vimos entio, mais do que munca, que a unidade era um fator preponderante da luta revoluciondria. O 26 de WG, CoM O exército rebelde A frente, teve que conseguir a unidade dos diversos elementos descontentes, que tinham como tinico ponto de aglu- tinagio a obra da Sierra Maestra. Em primeira lugar, tivemos ae planejar esta unidade que deveria se dar ndo apenas entre os grupos combatentes, mas também entre as organizaces da planicic. Peas 9 trabalho importante de levantamento de todas as § Coes operdtias exis- tentes na provincia. Isso nao se conseguiu sem muitos opositores, que, mesmo no seio do nosso préprio movi ii i 5 ovimenito sofriam ain ¢: do sectarismo, en dongs 7 Logo gue chegamos a Las Villas, nosso primeiro ato enquanto governo — antes de estabelecer a primeira escola — foi editar uma proclamagio revolucionéria, onde se estabelecia, entre outras coisas, que os donos de pequenas parcelas de terra deixariam de pagar o arrenda- mento até que a revolugio decidisse caso por caso. De fato, avancamos com a Reforma Agraria enquanto ponta ce langa do exército rebelde. E nfo se tratava de uma manobra demagégica, mas simplesmente do fato de que, em um ano e¢ oito meses de revolugao, a interligagio entre os dirigentes ¢ as massas camponesas havia sido tio grande, que muitas vezes as préprias massas incitavam a Revolugéo a dar passos que no se imaginavam num determinado momento. Nao foi invenc&o nossa, mas a pressio dos camponeses. Nés ensinamos a eles que, com armas na mio, com wna organizagio ¢ perdendo o medo do inimigo, a vitétia era certa, Ho campesinato, que tinha em suas entranhas razoes pode- yosas para fazé-lo, impés a Reforma Agraria & Revolugdo, impés 0 confisco do gado bovino © todas as medidas de carater social que se tomaram na Sierra Maestra. Na Sierra Maestra decretou-se a Lei n.° 3 nos dias da farsa eleitoral do dia 3 de novembro, lei essa que estabelecia uma verdadeira Reforma ‘Agréria e que, mesmo incompleta, tomava medidas muito positivas: repartig#o das terras do Estado, dos servidores da ditadura ¢ de todos os que possuiam titulos de propriedade adquiridos por manobras ilegais, como os gedfagos que engoliram milhares de hectares nas demarcagoes; concedia a propriedade a todos os pequenos colonos que nao tinkham. mais de dois hectares e que pagavam arrendamento. ‘Tudo gratuitamente. Era um principio muito revoluciondrio. A Reforma Agrétia beneficiara mais de 200 mil familias. Mas apenas com a J.ci n.° 3, a revolugao agra- ria no esté completa. E necessArio ditar leis contra o latifiindio como 0 estabelece a constituigdo. Temos que definir cxatamente o conceito de latiftindio, que caracteriza nossa estrutura agraria, fonte indiscutivel do atraso do nosso pais ¢ de todos os males para a maioria dos camponeses @ que ainda ndo foi tocado. Seré a obra das massas camponesas, organizadas, impor a lei que proscreve o latiftindio, como foi a do exército rebelde editar 0 principio da Reforma Agraria contida na Lei n.° 3. Devemos levar em conside- yagao outro aspecto. A constituigéo estabelece que toda expropriagao de terra deve ser precedida do pagamento em dinheiro. Se a Reforma Agraria age conforme este preceito, provavelmente 9 processo sera lento ¢ one- roso, Aqui também é necessdria a agio coletiva dos camponeses, que 78 ganharam o direito & liberdade desde o triunfo da Revolugio, democraticamente a anulagado deste principio para poder ir diretamente a uma verdadeita e ampla Reforma Agréria, Estamos j4 nas Projecdes Sociais do exército rebelde. Temos J4 uma democracia armada. exigindo Quando planificamos a Reforma Agriria e atendemos a demanda de novas leis revoluciondrias que a complementam, tornando-a vidvel e ime- diata, estamos ponsando na justica social que significa a redistribuicgo da terra e também na criagdo de um mereado interno extenso e na diversi- ficagdo dos cultivos, dos objetivos fundamentai is insepardveis do governa tevolucionério que nao podem ser adiados Porque neles est implicito 9 interesse popular. Todas as atividades econémicas do conexas, Temos que incentivar a industrializagao do pais sem ignorar os miiltiplos problemas que seu Processo pode acarretar. Mas uma politica de fomento indusizial exige certas medidas pata proteger a industria aascente € um mercado interno capaz de absorver as novas mercadorias. $6 podemos aumentar e ter mercado se as grandes massas camponesas e os trabalhadores rurais — que nfo tém poder aquisitivo, mas sim necessidades a suptir e que néo podem comprar hoje — tiverem acesso a ele. Nao nos passa despercebido que estamos empcnhados na consecugao de objetivos que exigem enorme responsabilidade de nossa parte e que n&o sdo os tinicos. Devemos esperar, contra esses objetivos, a reacio daqueles que detém mais de 75% do nosso intercambio comercial e do nosso mercado. Face a esse Perigo, devemos nos Preparar com a apli- cacéo de contramedidas, entre as quais se destacam as medidas elfande- gatias e a ampliacao do mercado externo. Necessitamos criar uma frota fhercante cubana para transportar o agtcar, o tabaco e¢ cutras merca- dorias. Isso influiré favoravelmente no tipo de irete, cuja cooperagio depende om grande parte do progresso dos pafses subdesenvolvidos como Cuba. Se optamos pelo desenvolvimento de Um programa de industriali- zagéo, o que é mais importante para consegui-lo? As matérias-primas que a constituicdo sabiamente defendia estdo entregues a consércios estrangeiros pela acdo da ditadura do Batista. Temos que Tesgatar o nosso subsolo, nossos minerais. Outro elemento de industrializacdo é a eletricidade. Temos que coniar com ela. Vamos assegurar que a energia elétrica esteja nas mios dog cubanos. Devemos também nacionalizar a Companhia Telefonica porque os sexvigos so muito ruins e caros, 79 Com que recursos contamos para que um programa came ° spoil possa ser levado a cabo? Temos 0 exéreito rebelde © esse Seyeises s primeiro instrumento de luta, a arma mais positiva ¢ mais sip Se devemos destruir tudo o que sobra do exército de Batista. oe e claro que esta liquidagio nao se faz por vinganga, nem soment a espitito de justiga, mas pela necessidade de assegurar que oa ests conauistas do poyo possam coneretizar-se num prazo ae 2 ee tamos um exército numericamente muito superior com a aju a i pores com uma tatica adequada e com uma moral Se aaa ee ae enfrentar a realidade de que nosso capaiede para as novas responsabilidades adquiridas, como, pot xe plo, defender integralmente o territério cubano. Temos que : a as rapidamente o exército rebelde, porque temos um corpo Sot camponeses e operarios, muitos deles saialiabeto, jncultos ¢ ssp ane téenico. Temos que capacitar este exército para as oa ae seus membros terao que enfrentar e preparé-los técnica ¢ cultur . O exército rebelde 6 a vanguarda do povo cubano e, ao ‘nos ae rirmos a seu progresso técnico e cultural, temos que saber o signifi i i ATO disso no sentido modemo. Jé comegamos simbolicamente este eee = com uma palestre presidida quase exclusivamente pelo espitito © ensinamentos de José Marti. O processo de ecu nacional im ae teuir mui ivilégi temos que estar prevenidos para def dest muitos privilégios ¢ a oe ee i inimi; declarados ou disfarcados. Ne: , a nag&o dos seus inimigos te ton 7 oe aie © érci : ge A nova mobilidade surgida noyo exército deve adaptar-se i pene de libertagao, pois sabemos que, se formos ane Ber ae ae i io de uma poténcia do ilha, 0 séremos com © apoio ne im i a osso solo uma agressio pl continente; teremos que suportar om n : fi enidos ¢ preparar JO gis Por esta razéo, devemos estar prevenide poredo gigantesca. : i CT ee frito ¢ uma estratégia guet b nosso avango com um espiri é : i (Bema, ae a if no primeiro combate ¢ nossas defesas néo se desintegrem n i cubano deveré converter-se em sua unidade central. Todo 0 povo a exército guerrilheiro, pois o exército viens é um carpe. on eres 4 i iil simero ja capacidade est4 limitada somente pelo ni s cea da reptblica, Cada cubano deve aprender a manejar as armas ea usi-las para sua defesa no tempo devido. ; ‘ Expus nas suas grandes linhas a projegao social do exército rebel = depois da vitéria e seu papel de impulsionador do governo para con tizar as aspiragdes revolucionérias. 80 Ha algo mais interessante a dizer Para terminar esta palestra. O excmplo da nossa revolugdo, seu significado para a América Latina e seus ensinamentos destrufram todas as teorias de salao: demonstramos que um grupo pequeno de homens decididos, apoiados pelo povo e sem medo de morrer, se for necessdrio, pode chegar a sc impor a um exército regular discipiinado ¢ derroté-lo definitivamente. Esse é 0 ensinamento principal. Outro cnsinamento devem assimilar nossos irmaos da América que se situam economicamente na mesma categoria agréria que nds: € preciso que facam revolugdes agrarias, utem nos campos, nas mon- tanhas ¢ a partir dai levem a revolugio as cidades e que nao pretendam fazé-las nas cidades sem contetido social integral. A partir de nossas experiéncias, coloca-se a questéo de saber qual Ser§ nosso futuro, intimamente ligado a todos os paises subdesenvolvidos da América Latina. A revolucéo nao sc limita 3 nagio cubana, ela j4 aleangou a consciéncia da América e alertou gravemente os inimigos dos nossos povos. Por isso advertimos claramente que qualquer tentz- tiva de agressdo ser repelida com as atmas na mio, O exemplo de Cuba aumentou mais ainda a efervescéncia em toda a América Latina © em todos os paises oprimidos. A revolugio colocou em Keque os tiranos latino-americanos, porque stio inimigos dos regimes populares, assim como as empresas monopolistas estrangeiras. Somos um pais Pequeno ¢ precisamos do apoio de todos os povos democraticos, mais particularmente dos da Amética Latina. Devemos divulgar amplamente as nobres finalidades da revolugio cubana para o mundo inteiro e conclamar os povos amigos deste conti- nente, os norte-americanos @ 0s latino-americanos, para criar uma unisio espiritual de todos, uma unido que v4 mais além que 0 palavreado ou que a convivéncia buroerdtica e que se traduza em ajuda efetiva aos nossos irméos, oferecendo-Ihes nossa experigncia. Finatmente devemos abrir novos caminhos, que convirjam para a identificacdo dos interesses comuns a nossos Paises subdescnvolvidos. Devemos estar atentos contra todas as tentativas de nos dividir; devemos lutar contra os que pretendam jogar as sementes da discérdia entre nés, ou os que, motivados por designios conhecidos, queiram tirar proveito ce nossas disc6rdias politicas, causar danos a este pais. Hoje, todo o povo de Cuba esti de prontidéo e deve continuar unido deste modo para que a vitéria contra a ditadura nao sdja transi- téria, para que seja o primciro passo para a vitéria da América, ¢ TAS PARA O ESTUDO DA IDEOLOGIA DA 7 NO REVOLUCAO CUBANA * Esta é uma revoluc&o singular, ¢ alguns pensam que nao se aisle a uma das premissas do mais ortodoxo dos movimentos revolucion a expressa por Lenin: “Sem teoria revolucionatia, nao haé inovimnignto revolucionario”, Seria conveniente dizer que a teoria revolucionaria, enguanto expresso de uma verdade social, esti acima de qualquer enunciado; quer dizer que podemos fazer a revolug&o, se interpretamos corretamente a realidade historica ¢ se utilizamos corretamente as forgas que nela intervém, mesmo sem conhecer a teoria, E claro que 0 conhe- cimento da teoria simplifica a tarefa e impede que se caia th. erros perigosos, mas isso s6 na medida em que essa teoria enunciada corres ponda a verdade. Falando coneretamente desta revoluciio, devemo destacar que, se seus atores principais nao eram precisamente ieéricos, tampouco cram ignorantes dos grandes fenémenos sociais ¢ dos ane ciados das leis que os regem. Isso permitiu que, partindo de elguns conhecimentos tedticos e do profundo conhecimento da realidade, foi-se criando uma teoria revolucionaria. x O que foi dito anteriormente deve ser considerado como iro diygao & explicagiio deste fenémcno curioso que intriga o mundo oer ‘ a revoluggo cubana. Como e por que um grupo de homens, derrotados por um exército enormemente superior em técnica ¢ equipamento, conse- * Reproduzido de Guevars, E. Notas para el estudio de Ia ideologia de Ia revo- lucién cubana, In: Obras. t. 2, p. 92-101. guiu sobreviver num primeiro momento, fortalecer-se cm seguida, tor- nando-se inclusive mais forte que o inimigo nas zonas de batalha mais tarde, emigrando para novas zonas de combate num momento posterior, para, finalmente, derroté-lo no confronto direto mesmo com tropas muito inferiores numericamente, eis um fato digno de estudo na histéria do mundo contemporaneo. Nos, que tantas vezes nao demonstramos o devido interesse pela teoria, nfo vamos hoje expor a verdade da revolugéo cubana, como se féssemos donos dela. Queremos apenas fornecer as bases para que sc possa interpretar esta verdade, Temos gue separar a revoluciio cubana em duas ctapas absolutamente distintas: a etapa da ago armada até 0 primeiro de janciro de 1959 e a transformacdo politica, econdmica e social que ocorreu a partir desta data. Hssas etapas, por sua vez, deyem ser subdivididas; ndo faremos essas divisées do ponto de vista da exposicfo histériea, mas do ponto de vista da evolucdo de pensamento revoluciondrio, dos seus dirigentes @ em conteio com o povo. Incidentalmente, temos que introduzir aqui nossa postura geral frente a um dos termos mais controvertidos do mundo atual: o marxismo. Nossa posigio, quando nos perguniam se somos marxistas ou nao, é a mesma que teria um fisico a quem sc perguntasse se ele € “newtoniano” ou a um hidlogo sc é “pastcuriano”, Existem verdades téo evidentes, tio incorporadas ao conhecimento des povos, que j4 nfo 6 mais necessdrio discuti-las. Devemos ser “marxistas” com a mesma naturalidade que se 6 “newtoniano” em fisica ou “pasteuriano” em biologia, considerando que, 3c novos dados deter- muinam novos coaceitos, niio_sc_deve jogar fora_a_parte de. 05_conceitos a passados J possuem. o caso por exemplo da relatividade “cinsteiniana” ou da teoria dos quanta de Planck em relagio 4s descobertas de Newton; essas novas descobertas nao diminuem em nada a grandeza do sdbio inglés. & gracas a Newton que a fisica péde avangar até chegar a novos conceitos de espago. Por isso o sébio inglés foi o degrau necessario. Podemos relevar algumas incorregdes de Marx como pensador, como pesquisador das doutrinas sociais e do sistema capitalista no qual viveu, Nés, latino-americanos, podemos por exemplo discordar de sua interpretagao de Bolivar ou da anélise que fez com Engels sobre os mexicanos, onde admitia certas teorlas sobre ragas ou nacionalidades inadmissfveis hoje. Mas os grandes homens, autores de descobertas 83 luminosas, continuam a viver apesar de suas pequenas falhas. Estas sé servem para demonstrar que séio humanos, quer dizer, seres que podem cometer erros; mesmo assim continuamos conscientes das alturas alcan- gadas por estes gigantes do pensamento. Por isso, reconhecemos as verdades essenciais do marxismo como parte integrante do acervo cultural e cientifico dos povos e o fazemos com uma naturalidade prépria daquilo que nao precisa mais ser discutido. Os avangos das ciéncias sociais ¢ politicas, como dos outros campos do conhecimento, pertencom a um longo processo histérico cujos elos se encadeiam, se somam, se aglutinam e se aperfeigoam constantemente. No comeco dos povos, existia uma matematica chinesa, arabe ¢ hindu; hoje a matematica nado tem fronteiras. Na sua histéria cabe um Pitagoras grego, um Galileu italiano, um Newton inglés, um Gauss alemao, um Lobat- chevski russo, um Hinstein, etc, No campo das ciéncias sociais e poli- ficas, o mesmo acontece desde Demécrito até Marx, uma longa fila de pensadores foram agregando suas investigagdes originais e acumulando um corpo de experiéncias e de doutrinas. (© mérito de Marx é que, de repente, produziu uma mudanga quali- taliva na histéria do pensamento social; interpreta a histéria, compre- endc sua dinfmica, prevé o futuro c ai acabaria sua obrigagiio cientifica, mas val mais além, expressa um novo conceito revolucionario: nao basta interpretar a natureza, é preciso transformd-la. O homem deixa de ser escravo ¢ instrumento do meio para converter-se em arquiteto de seu préprio destino] Neste momento Marx comeca a colocar-se numa tal situagdo, que Se torna o alvo de todos que tém interesse espe- cial em manter o velho, como aconteceu antes com Demécrito, cuja obra foi queimada pelo proprio Platéo e seus discipulos, idedlogos da aristo- cracia eseravista ateniense, A partir de Marx revolucionario, constitui-se um arupo politico com idéias coneretas, que, apoiando-se nos gigantes Mzrx e Engels e desenvolvendo-se através de etapas sucessivas, com personalidades como Lenin, Mao Tsé-tung e os novos dirigentes sovié- ticos e chineses, estabelecem um corpo de doutrinas ¢ de exemplos a seguir. A revolucéo cubana retoma Marx onde ele deixou a ciéncia para empunhar seu fuzil revoluciondrio ¢ © toma af, no por espirito reve sionista de querer lutar contra o que se segue a Marx, de reviver Marx mas simplesmente porque até ali, Marx, o cientista, de fora da histéria, estudava e predizia, Depois, Marx revoluciondrio, dentro da historia, lutaria. Nés, revoluciondrios praticos, so iniciar nossa Juta,