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Em meio a propostas

conservadoras, psicólogas e
psicólogos podem contribuir
para defender a pluralidade e a
nº 195 • Fevereiro | Março | Abril • 2019
democracia nas escolas

Educa ão
ç
sob
pressão
4
ORIENTAÇÃO
Posse de armas e o papel
das/dos psicólogas/os 14
PERSPECTIVA DA/DO USUÁRIA/O
Práticas Integrativas Complementares
crescem em variedade 20
MATÉRIA ESPECIAL
A importância de compreender
(e defender) a laicidade
SUMÁRIO

4
ORIENTAÇÃO | POSSE DE ARMAS Publicação do Conselho Regional de Psicologia de
Decreto facilita o acesso e amplia o intervalo entre as São Paulo, CRP SP, 6ª Região
avaliações psicológicas para 10 anos.
Diretoria
Presidenta | Luciana Stoppa dos Santos
Vice-presidenta | Larissa Gomes Ornelas Pedott
Secretária | Suely Castaldi Ortiz da Silva

7
CAPA | EDUCAÇÃO Tesoureiro | Guilherme Rodrigues Raggi Pereira
Medidas e projetos conservadores que rondam o setor no
Brasil e o papel da Psicologia nesse cenário. Conselheiras/os
Aristeu Bertelli da Silva (Afastado desde 1º/03/2019
- PL 2068ª de 16/03/2019), Beatriz Borges Brambilla,
Beatriz Marques de Mattos, Bruna Lavinas Jardim
Falleiros (Afastada desde 16/03/2019 - PL 2068ª,
de 16/03/2019), Clarice Pimentel Paulon (Afastada

13
desde 16/03/2019 - PL 2068ª de 16/03/2019), Ed
PENALIDADES Otsuka, Edgar Rodrigues, Evelyn Sayeg (Licenciada
desde 20/10/2018 - PL 2051ª de 20/10/18), Ivana
do Carmo Souza, Ivani Francisco de Oliveira, Magna
Barboza Damasceno, Maria das Graças Mazarin de
Araújo, Maria Mercedes Whitaker Kehl Vieira Bicudo
Guarnieri, Maria Rozineti Gonçalves, Maurício Marinho
Iwai (Licenciado desde 1º/03/2019 - PL 2068ª, de

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PERSPECTIVA DO USUÁRIO 16/03/2019), Mary Ueta, Monalisa Muniz Nascimento,
Práticas Integrativas Complementares focam a saúde dos Regiane Aparecida Piva, Reginaldo Branco da Silva,
pacientes e os ajudam a reencontrarem-se. Rodrigo Fernando Presotto, Rodrigo Toledo , Vinicius
Cesca de Lima (Licenciado desde 07/03/2019 - PL
2068ª de 16/03/2019)

Realização
Coordenação de Relações Externas CRP SP

18
COTIDIANO | COREP Cristina Fernandes de Souza e KMZ CONTEÚDO
A Psicologia brasileira se organiza, por meio de eventos Jornalista responsável Gustavo Dhein (MTB 39.546 SP)
preparatórios, pré-congressos, congressos regionais e Reportagens e Edição Gustavo Dhein e Erika Mazon
nacional, para definir suas diretrizes. Direção de arte Sergio Honório
Capa Sergio Honório | Foto Freepik
Fotos internas Arquivo CRP-SP, iStock e Pixabay
Revisão CRP SP

20
Impressão Rettec Artes Gráficas e Editora Ltda
MATÉRIA ESPECIAL | LAICIDADE Tiragem 107.000 exemplares
A separação entre Estado e Igreja é tema tão antigo,
latente e maltratado quanto relevante para assegurar a Sede CRP SP
pluralidade e os Direitos Humanos. Rua Arruda Alvim, 89, Jardim América
Cep 05410-020 São Paulo SP
Tel. (11) 3061-9494 | fax (11) 3061-0306

E-mails

24
ARTIGO | SUICÍDIO Atendimento | atendimento@crpsp.org.br
Marcia Matos trata do tema (e de sua relação com ele), que Diretoria | direcao@crpsp.org.br
ainda é um tabu na sociedade. Informações | info@crpsp.org.br
Centro de Orientação | orientacao@crpsp.org.br
Administração | admin@crpsp.org.br
Comunicação | comunicacao@crpsp.org.br

Site

26
SUBSEDE | ALTO TIETÊ www.crpsp.org.br
Depois de décadas de espera, profissionais de 11
municípios passam a ter o apoio de nova unidade. Subsedes CRP SP
Assis | tel. (18) 3322-6224, 3322-3932
Baixada Santista e Vale do Ribeira
tel. (13) 3235-2324, 3235-2441
Bauru | tel. (14) 3223-3147, 3223-6020
Campinas | tel. (19) 3243-7877, 3241-8516

27
UM DIA NA VIDA | COACHING Grande ABC | tel. (11) 4436-4000, 4427-6847
Eliana Totti detalha os fundamentos e objetivos da Ribeirão Preto | tel. (16) 3620-1377, 3623-5658
profissão e defende a melhor formação na área. São José do Rio Preto | tel. (17) 3235-2883, 3235-5047
Sorocaba | tel. (15) 3211-6368, 3211-6370
Vale do Paraíba e Litoral Norte | tel. (12) 3631-1315

Errata

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Na edição nº 194, pág. 6, foi publicado errado o crédito
ESTANTE | MURAL da entrevistada Cláudia Catão, que é doutora em
Uma seleção de livros lançados e eventos programados psicologia clínica e psicanalista; e na pág. 26, também
relacionados aos temas da edição. foi publicado errado o crédito da entrevistada Ana
Gebrim, que é psicanalista e socióloga.
2
E D I TO R I A L

A PSICOLOGIA EM DEFESA DA

EDUCAÇÃO
A educação sempre foi um campo em disputa e nos
últimos tempos tem estado ainda mais no centro
do debate público. E a Psicologia tem muito a contri-
O Código de Ética Profissional da/o Psicóloga/o no
artigo 2º das Responsabilidades da/o Psicóloga/o diz
que ao psicólogo é vedado “induzir a convicções po-
buir com este debate e não é somente nas situações líticas, filosóficas, morais, ideológicas, religiosas, de
emergenciais como a ocorrida em uma escola esta- orientação sexual ou a qualquer tipo de preconceito,
dual de Suzano (SP) em março, na qual dois jovens quando do exercício de suas funções profissionais.
atentaram contra a vida de estudantes e funcionários Foi a partir desse princípio que produzimos a matéria
da unidade educacional. Tampouco a atuação das especial sobre laicidade. Não se trata de posição con-
psicólogas e psicólogos é exclusiva para atender es- trária às religiões, mas sim de assegurar a pluralidade
tudantes considerados como “problemáticos”. Dedi- e a separação entre Estado e religião. A laicidade in-
camos a matéria de capa desta edição para jogar luz teressa a todas as religiões pois protege a diversida-
na complexa teia de relações que acontecem dentro de de crenças.
da escola e fora dela que afetam sobremaneira quem Na seção Cotidiano contamos um pouco como
está na ponta, principalmente os estudantes, profes- foi todo o processo que culminou no 10º Corep, que
sores e a comunidade escolar, e que necessitam, hoje aconteceu nos dias 5, 6 e 7 de abril. Foram 129 even-
mais que nunca, do olhar e da atuação dedicada e cui- tos preparatórios desde outubro de 2018 que reuniu
dadosa da Psicologia. 4.551 participantes, além dos 36 pré-congressos com
Atentos aos desafios a serem enfrentados pela 449 psicólogas/os que ocorreram nas sede e subse-
sociedade para o fortalecimento do Estado Democrá- des do Estado de São Paulo. Foram produzidas 1.380
tico que assegura o cumprimento dos direitos huma- propostas foram eleitas 209 delegadas e 32 estudan-
nos inalienáveis e a proteção da vida, trazemos tam- tes delegadas para estarem presentes no Congres-
bém nesta edição a orientação para a/o psicóloga/o so Regional. A cobertura completa estará na próxima
em como atuar frente às mudanças geradas pelo de- edição do Jornal Psi. E por que tratamos do Corep na
creto que flexibiliza a posse de arma. seção Cotidiano? Porque acreditamos que o Corep é o
Também baseados na premissa de políticas pú- momento em que exercemos nosso ideal de respeito
blicas que garantam o bem-estar de toda a popula- mútuo com as diferenças e os diferentes, no espaço
ção, destacamos a inclusão das Práticas Integrativas da categoria, para se pensar e repensar a Psicologia
Complementares no Sistema Único de Saúde (SUS). como profissão e sua fundamental contribuição para
Vale ressaltar que o Sistema Conselhos vem discutin- a sociedade.
do os limites e possibilidades da prática profissional E foi justamente no IX Congresso Regional da Psi-
da/o psicóloga/o neste campo. É justamente pensan- cologia que foi proposta e aprovada a instalação de
do no bem-estar dos indivíduos e na qualidade dos uma nova subsede para atender a região Alto Tietê.
serviços oferecidos a quem precisa deles que pro- É com muita alegria que apresentamos nesta edição
duzimos uma matéria sobre coaching, em que expli- a nova subsede localizada em Mogi das Cruzes que
citamos as diferenças e complementariedade entre atenderá cerca de 5 mil psicólogas/os de 11 municí-
coaching e Psicologia. Na matéria, é ressaltada, so- pios da região. É uma conquista que vem atender a
bretudo, a importância da formação adequada e uma uma reinvindicação de três décadas da categoria!
prática baseada em evidências científicas e orienta- XV Plenário do Conselho Regional
da pelo rigor ético. de Psicologia de São Paulo

Conselho Regional de Psicologia de São Paulo • 3


ORIENTAÇÃO

POSSE DE ARMAS
O QUE MUDA COM O NOVO DECRETO

Decreto facilita o acesso e amplia o intervalo entre as


avaliações psicológicas para 10 anos

N
o último dia 15 de janeiro, o Presidente da a correlação entre maior incidência de homicídios e
República, Jair Bolsonaro, assinou o Decreto aumento da circulação de equipamentos bélicos. Por-
9.685, alterando dispositivo anterior (5.123 de tanto, facilitar a posse configura um retrocesso grave
2004) que, até então, regulamentava o Estatuto do que desconsidera, além das conclusões dos estudos
Desarmamento (Lei no 10.826, de 22 de dezembro de científicos, as experiências de ONGs e movimentos
2003), sobre registro, posse e comercialização de ar- sociais que atuam nessa área em diversas comuni-
mas de fogo e munição, e sobre o Sistema Nacional dades do Brasil, bem como os acordos e tratados
de Armas (Sinarm). A mudança que facilitou a posse internacionais que têm ido justamente em direção
de armas de fogo no Brasil, ou seja, o acesso à au- contrária.
torização para mantê-las em casa (no meio rural ou Para a psicóloga Regiane Aparecida Piva, Conse-
urbano) ou no local de trabalho (desde que o dono da lheira do CRP-SP, o novo decreto está em linha com
arma seja o responsável legal pelo estabelecimento), uma tendência, verificada nas últimas décadas, de
já era esperada, dado o posicionamento externa- o Estado brasileiro repassar aos indivíduos respon-
do pelo atual chefe do Executivo ao longo de toda a sabilidades que, em verdade, são suas. Trata-se de
sua trajetória política e, especialmente, na campanha remeter questões públicas – como a da Segurança –
eleitoral que o conduziu ao cargo. Seu projeto de go- para o âmbito particular. Na sua avaliação, o Decreto
verno, registrado no Tribunal Superior Eleitoral (TSE), formaliza um movimento semelhante àquele visto em
defendia a necessidade de “reformular o Estatuto do relação a outros temas, como os da Previdência, Edu-
Desarmamento para garantir o direito do cidadão à cação, Saúde e Assistência Social. “A posse de armas,
legítima defesa sua, de seus familiares, de sua pro- divulgada como um ´direito do cidadão de proteger
priedade e a de terceiros”. Foi para atender, ainda que a si mesmo, seu patrimônio e sua família`, torna-o
parcialmente – porque o tema do porte de armas não responsável por qualquer uso incorreto dos artefa-
foi abrangido ainda – a essa promessa de campanha tos bélicos. São temerosas as consequências que se
que Bolsonaro patrocinou o novo decreto. pode vislumbrar para uma sociedade armada e em
No mesmo dia em que foi assinada a medida que que são latentes, por exemplo, a violência contra mi-
garante a flexibilização, o Conselho Regional de Psi- norias, no trânsito e em âmbito doméstico”, defende
cologia de São Paulo, em conjunto com organizações Regiane. O posicionamento é corroborado por Maria
da sociedade civil, movimentos sociais, entidades de Cristina Pellini, psicóloga, professora universitária e
classe, pesquisadoras/es, psicólogas/os, psicanalis- integrante da Comissão de Ética do CRP-SP. “A arma
tas, educadoras/es e ativistas que atuam para a pro- em si é um símbolo fálico, que dá a sensação de po-
moção dos Direitos Humanos no Brasil, publicaram der. Facilitar o acesso a ela é uma forma de mascarar
o Manifesto contra a ampliação da posse e do por- a ineficiência do Estado em dar conta de suas atri-
te de armas de fogo no Brasil. Nele, explicitam o fato buições. Resolver o problema da violência passa por
de pesquisas nacionais e internacionais revelarem educar pessoas, repensar valores morais e combater

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a desigualdade, e isso demanda um processo longo, o intervalo anteriormente válido já era considerado
e não ‘emergencial’ como o que está sendo proposto por muitos psicólogos como demasiadamente amplo,
no contexto atual”, pondera. agora a situação se agrava. “Uma pessoa pode apre-
sentar mudanças de comportamento por uma série
Principais mudanças de motivos, não apenas sociais ou econômicos, mas
Entre as alterações promovidas pelo Decreto também em razão da idade, que pode interferir, entre
9.685, duas sobressaem. A primeira, a flexibilização outras coisas, na sua capacidade de controle e me-
sobre a “efetiva necessidade” de ter uma arma, pré- mória. Essa extensão é preocupante. Você concede a
-requisito para ter direito à posse. De acordo com o arma a uma pessoa e, em princípio, isso estará valida-
texto anterior, substituído, os interessados em tê-las do por um profissional da área de Psicologia. Ou seja,
precisavam apresentar seus motivos à Polícia Fede- nesse período em que a avaliação estará valendo, se
ral (PF), e a ela cabia avaliar as justificativas. Com a algo de ‘ruim’ acontecer, acontecerá por estar ‘permi-
alteração, o poder de veto da PF se esvai diante da tido’”, diz Cristina Pellini.
ampliação do escopo do que é considerado “efetiva Ainda quanto a validade, entende-se que avalia-
necessidade” e da presunção de que ela existe, au- ção psicológica realizada se refere às evidências
tomaticamente, para alguns grupos, incluindo os resi- investigadas no indivíduo demandante. Por isso os
dentes no meio rural, moradores de áreas urbanas de resultados não podem ser generalizados para outras
unidades federativas com taxas acima de dez homi- condições socioambientais, perfis de usuário ou cir-
cídios por cem mil habitantes – nesse caso, conside- cunstâncias. No caso de serem produzidas variações
ram-se os dados do Atlas da Violência 2018, produ- ou modificações significativas em tais aspectos as-
zido pelo Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada sociados ao caso investigado, deverá proceder-se
e pelo Fórum Brasileiro de Segurança Pública –, e os nova avaliação psicológica ou encaminhar o interes-
titulares ou responsáveis legais de estabelecimentos sado a outro profissional.
comerciais ou industriais (independentemente dos ín- Daí a necessidade, segundo Regiane, de as/os
dices de violência). Quem se enquadra em qualquer psicólogas/os credenciadas/os a assegurar aptidão
uma dessas condições passou a ter direito de adquirir para o manuseio de arma de fogo seguirem o rigor e
até quatro armas de fogo, presumindo-se que dizem cuidados recomendados pelo Sistema de Conselhos
a verdade quando requerem a autorização. de Psicologia e pela Polícia Federal. “Trata-se de en-
A segunda mudança substancial diz respeito ao tender a pessoa a ser avaliada, suas motivações e as
“prazo de validade” da avaliação psicológica exigida pressões impostas nesse contexto. A/O psicóloga/o
daqueles que desejam possuir armas, ampliado de deve ver-se criticamente como parte do processo
cinco para dez anos. “Esse alargamento é inconsis- que concederá a posse de arma”, sintetiza.
tente, considerando-se o caráter dinâmico e situa- A Instrução Normativa nº 78/2014, da Polícia Fe-
cional da avaliação psicológica”, afirma Regiane. Se deral, determina que a bateria de instrumentos utili-

Conselho Regional de Psicologia de São Paulo • 5


ORIENTAÇÃO

zados na aferição das características de personalida- cializado, que domina o tema, é altamente qualificado
de e habilidades específicas dos usuários de armas e tem vivência na área para ser capaz de dizer ´não`
de fogo e dos vigilantes seja composta, no mínimo, ao detectar qualquer desvio”, pondera.
por um teste projetivo, um expressivo, outro de me- Em suma, segundo ela, é preciso ter conhecimento
mória, um de atenção difusa e concentrada e, final- dos princípios e das técnicas reconhecidos na ciên-
mente, uma entrevista semiestruturada (para o bom cia psicológica, além de profundo saber sobre ética
uso desse instrumento, é importante que a psicóloga e legislação. “Aquele que se credencia tem de ter
ou o psicólogo acumule experiência na área clínica). domínio clínico, a experiência de olhar, sensibilidade,
A consolidação dessa diretriz ocorreu ao longo de mas jamais deve ser o ´terapeuta` do candidato: a/o
vários anos de debates, e, segundo Cristina Pellini, o perita/o responde a perguntas específicas, e precisa
laudo – que deve seguir as normas definidas na Re- assumir que não é possível dar conta de tudo, as-
solução 007/2003 do Conselho Federal de Psicologia sumir limites, e, se necessário, propor soluções aos
– permite qualificar bem aqueles que aspiram possuir candidatos que ela/ele julgar inaptos, no momento de
armas de fogo, mas ela reforça que isso passa por avaliação, a possuir uma arma”, conclui.
uma atuação responsável e ética das/dos psicóloga/
os. Apesar do decreto apontar os dez anos, é impor-
tante garantir autonomia da(o) profissional da Psico- Qualidade
logia para indicar o tempo de validade desta avalia- Numa tentativa de assegurar a qua-
ção. “A postura de uma psicóloga ou psicólogo deve lidade técnica das avaliações psicoló-
ser em defesa da vida. Assim, deve atuar para cola- gicas, as/os credenciadas/os a esse
borar com a diminuição do índice de violência”, define. trabalho só podem aplicar até dez indi-
Além disso, ela considera que, se de fato houver viduais e atender a, no máximo, dois tur-
uma maior procura por parte do público em razão das nos de 15 pessoas por dia. As/Os profis-
mudanças na legislação, será necessário debater e re- sionais também devem estar atentos à
ver as regras relacionadas ao tema. Por hora, observa necessidade de guardar por cinco anos
Cristina Pellini, o importante é que as/os psicólogas/ todo o material utilizado no processo,
os responsáveis por indicar se um cidadão é apto ou para ter condições de responder a qual-
inapto para possuir uma arma utilizem instrumentos e quer questionamento por parte de can-
testes com precisão. “O trabalho, nesse caso, é o de didatos insatisfeitos com os resultados.
uma/um perita/o, uma/um profissional técnico espe-

Atenção à legislação e à ética


Segundo Regiane Piva, as alterações legais promovidas reforçam ainda mais a necessidade de as/os
psicólogas/os seguirem o Código de Ética profissional – e os sete princípios fundamentais que ele esta-
belece (veja no site do CRP-SP: www.crpsp.org.br/portal/orientacao/codigo/fr_codigo_etica_new.aspx) – e a
legislação, especialmente os seguintes dispositivos, que podem ser acessados, na íntegra, no site https://
atosoficiais.com.br/cfp.
Resolução CFP Nº 007/2003 –Institui o Manual de Elaboração de Documentos Escritos produzidos pela/o
psicóloga/o, decorrentes de avaliação psicológica;
Resolução CFP Nº 018/2008 – Dispõe acerca do trabalho da/o psicóloga/o na avaliação psicológica para
concessão de registro e/ou porte de arma de fogo.
Resolução CFP Nº 002/2009 - Altera a Resolução CFP nº 018/2008 e dá outras providências.
Resolução CFP Nº 010/2009 - Altera a Resolução CFP nº 018/2008 e dá outras providências.
Resolução CFP Nº 009/2018 - Estabelece diretrizes para a realização de avaliação psicológica no exercício
profissional da psicóloga e do psicólogo
Instrução normativa nº 78, de 10 de fevereiro de 2014 – Estabelece procedimentos para o credenciamen-
to, fiscalização da aplicação e correção dos exames psicológicos realizados por psicólogas/os
credenciados, responsáveis pela expedição do laudo que ateste a aptidão psicológica para o
manuseio de arma de fogo e para exercer a profissão de vigilante.

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EDUCAÇÃO
COM TODAS E
PARA TODAS AS
PESSOAS

A Psicologia pode ajudar a frear a onda conservadora


que ameaça avançar sobre o ensino com
consequências desastrosas

“E
scola sem partido, reforma curricular do Para ela, as ações relacionadas a essa onda con-
ensino médio, ensino domiciliar, cortes servadora favorecem a perpetuação do status quo, a
orçamentários, militarização das escolas. não abertura ao diferente, e integram um bem articula-
Os temas e projetos são variados, mas a pauta de do projeto de doutrinação que inclui até mesmo o se-
todos está alinhada a um objetivo comum: interdição questro semântico de expressões e termos. Exemplo
à formação do pensamento crítico. Essa síntese é é a própria “Escola sem partido”, conceito que provoca
possível de ser construída a partir das declarações debates e é bastante ideológico: quer um partido único.
das professoras universitárias e psicólogas Marilene “A verdadeira escola sem partido é aquela que nós e os
Proença Rebello de Souza, Fabiola Freire Saraiva Melo professores, em sua maioria, defendemos há tempos,
e Beatriz Borges Brambilla a respeito da educação caracterizada pela defesa da pluralidade e do respei-
brasileira atual e dos desafios que ela enfrenta com to. Alguém se atreve a dizer que as escolas militares –
o fortalecimento de uma onda conservadora que que o governo pretende expandir – não têm partido?”,
tenta avançar sobre o setor. O que está em questão é, questiona Fabíola. Beatriz complementa: “autores
fundamentalmente, o tipo de formação a ser oferecida como Paulo Freire e Ignácio Martín-Baró, nos anos de
e que escola deve ser consolidada. “Ela pode ser um 1970 e 1980, já falavam sobre a necessidade de de-
espaço em que as relações sociais se reproduzem, sideologização na educação, mas, para eles, isso sig-
com violência, desigualdade, preconceito, ou seja, nifica desocultar aquilo que está escamoteado, como
tal como funciona a sociedade, ou um espaço para as opressões, as violências e as desigualdades. Ou
a produção do novo, de elaboração de sentimentos seja, desideologizar passa por explicitar como a rea-
e histórias, de retomadas de memórias pessoal e/ou lidade se constituiu, justamente o que as propostas
coletivas”, diz Beatriz. conservadoras pretendem eliminar”.

Conselho Regional de Psicologia de São Paulo • 7


CAPA
Ilustrações: Sergio Rossi

Os motivos para que o pensamento conservador “passivos”, mas que para compreender o espaço dado
avance no Brasil incluem, na opinião de Fabíola, a crise pela população ao conservadorismo é preciso levar
econômica e a descrença em relação à política tradi- em conta o fato de sermos frutos de uma história de
cional, fenômenos interligados. Eles ajudam a com- dominação, de colonialidade, que acaba traduzindo em
preender, por exemplo, a ascensão ao poder do novo silenciamentos: hoje, a colonialidade espelha o neoli-
governo federal, que se comprometeu com pautas re- beralismo, que vai muito além da economia e interfere
trógradas e baseadas na defesa da moral. Além disso, inclusive no conjunto de afetos que os sujeitos podem
segundo ela, esse tipo de posicionamento encontra ou não produzir a partir de sua lógica individualista.
eco em nossa sociedade porque ela remanesce estru- Marilene ressalta o período entre 2002 e 2014
turalmente racista, homofóbica e machista, reflexo de como altamente relevante para a educação em razão
nossa história. “Com isso, abre-se espaço para uma do desenvolvimento de valores progressistas e da
série de políticas educacionais intencionais, que aca- promoção de ações como a criação da Conferência
bam sendo chamadas de reformas, mas são extrema- Nacional da Educação, da qual a categoria de psicólo-
mente perigosas, porque trazem à tona coisas que in- gas e psicólogos participou ativamente. “Houve mais
genuamente imaginávamos ter ficado no passado. Se recursos para o ensino e a formação de professores,
olharmos para trás, confirmaremos que, em vários mo- aprovação 10% do PIB para o setor, redução na eva-
mentos, a educação foi empregada como instrumento são escolar, articulação do governo federal com Es-
de domesticação, para colonizar as pessoas, ou, como tados e municípios, criação do Ideb e a reorganização
diria Hannah Arendt, promover a coerção sem a neces- de áreas estratégicas no Ministério da Educação. Ou
sidade de empregar a violência”, explica. Para Fabíola, seja, a educação passou a ter lugar central nas políti-
existe uma tendência de muitos assumirem, a partir do cas governamentais, para além da retórica”, sintetiza
cenário atual, que os brasileiros são “conformados”, a docente da USP.

8 Conselho Regional de Psicologia de São Paulo


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No entanto, paralelamente a esses aspectos re- que é a escola”, afirma Marilene. Os educandários,
levantes, outros foram relegados a segundo plano, especialmente os públicos, a despeito de suas po-
o que parece interferir diretamente no atual cenário. tenciais falhas ou fragilidades, configuram um cená-
“Apesar de extremamente importante, o aporte maior rio que possibilita o contato com diferentes classes
na educação representou, para um grande número de sociais, ideias, raças, etc. Ela critica um dos principais
brasileiros, o acesso às novas políticas sociais, mas argumentos dos defensores da educação domiciliar,
não a uma nova política educacional efetivamente”, que veem nela a possibilidade de blindar seus filhos
diz Fabíola. da violência, do bullying e de comportamentos inde-
sejáveis. “Pode-se acabar formando novos guetos
Formação crítica x submissão e disciplina que impeçam a interação com o diferente, o divergen-
As três psicólogas fazem uma leitura convergente te, que é o que as escolas também possibilitam. As
sobre o que pode representar o avanço do conser- famílias podem optar por matricular seus filhos em
vadorismo sobre a educação em relação ao desen- colégios com uma inclinação religiosa específica, por
volvimento dos estudantes: a interdição do pensar exemplo, o que não podemos aceitar é que a escolha
sobre os processos históricos e sociais e a formação religiosa se torne uma política pública. Considerar que
de pessoas submissas, disciplinadas, subordinadas, a educação domiciliar se torne uma política de Estado
que não conhecem – e tornam-se, portanto, menos é desconsiderar a luta pela democratização da edu-
aptas a contestar – as contradições e de- cação que sempre defendemos e continuare-
sigualdades existentes. “Há vários in- mos defender”, diz.
teresses em jogo nisso, incluindo, é Beatriz considera que a pauta vai de
claro, o do mercado, ao qual pouco encontro à batalha travada há anos
interessa a existência de profis- por profissionais da educação, pis-
sionais críticos. Para o mercado, cólogas e psicólogos, no sentido
interessa que existam executo- de garantir a educação pública,
res. Quando você cria – ou pelo gratuita e de qualidade, com o
menos pretende criar – uma lei Estado se responsabilizando pelo
que proíbe temáticas específi- acesso de todos ao ensino. “Além
cas na escola, você está privan- disso, a educação domiciliar fere a
do as pessoas de aprenderem a Lei das Diretrizes e Bases (LDB), que
pensar. Como não falar sobre as- pressupõe relações de convivência e
suntos como o feminismo, em pleno diversidade do conteúdo ensinado”, ar-
século XXI, num país com alto índice de gumenta.
feminicídio e estupros, sendo muitos deles Para Fabíola, a educação domiciliar, além de
dentro das famílias?”, analisa Fabíola. ser uma forma de o governo transferir suas responsa-
Para Marilene, o conservadorismo no campo da bilidades para os indivíduos, tende a afetar especial-
educação se manifesta em aspectos básicos e afir- mente as classes menos favorecidas – além de legiti-
mações simplistas, como as de que “as famílias das mar a possibilidade de haver crianças fora da escola.
classes populares não cuidam de seus filhos”, “a “Estamos em um país em que persiste uma alta taxa
criança pobre não é capaz de aprender”, bem como de analfabetismo, em que crianças não conseguem
na manutenção de uma escola disciplinar com esva- fazer contas básicas. Como esperar, por exemplo, que
ziamento dos conteúdos e do conhecimento. “A dis- um pai sem o devido preparo seja capaz de repassar
puta que está em jogo é por valores e direitos sociais, conhecimentos aos filhos? Professores formados en-
e ainda estamos em choque, precisamos entender contram dificuldades para isso; imagine alguém sem
melhor o que está acontecendo para encontrar nos- experiência e técnicas didáticas”, considera Fabíola.
sos argumentos e fortalecê-los”, avalia. O conjunto de pautas conservadoras pode esbar-
A regulamentação do ensino domiciliar também rar em outra batalha travada por psicólogas e psicó-
preocupa por seguir a orientação ideológica reacio- logos no campo da educação, contra a medicalização.
nária. “É um movimento contrário à democratização “Definitivamente são propostas que não pretendem
da sociedade retirar crianças e jovens do convívio es- levar ao pensamento nem à criatividade, mas de con-
colar, de um espaço tão importante de socialização trole sobre mentalidades, corpos e comportamentos.

Conselho Regional de Psicologia de São Paulo • 9


CAPA

Nos anos de 1970 falava-se em disciplina. Hoje esta- docente da PUC-SP, que acredita que acabar com a
mos calando a vida por meio da medicalização exces- autoridade do professor mina a educação. “Isso não
siva”, pondera Beatriz. tem a ver com autoritarismo, que é inaceitável. Tem
Com uma série de ações e movimentos, nos últi- a ver com autoridade, e essa relação é fundamental
mos anos profissionais da Psicologia e da Educação para que a educação de fato aconteça”.
conseguiram barrar um pouco o avanço de iniciati- Além do mais, acarreta perda de autonomia por
vas que preconizavam o diagnóstico dos alunos para parte dos educadores, o que é uma das principais
a indicação de tratamentos medicamentosos, que causadoras de desânimo entre eles. Os reflexos po-
atendem a interesses comerciais específicos e não dem incluir o sentimento de “desresponsabilização”
se tratam de ações educativas preocupadas com o com a formação dos alunos. Se a ideia prevalecen-
que é melhor para o aluno.. A ampliação de políticas te for a de que a eles cabe simplesmente transmitir
e discursos que ressaltam comportamentos “indese- saberes “mecanicamente”, essa perspectiva esvazia

Um projeto como o Escola sem Partido,


mesmo sem ser aprovado, já ocasionou
prejuízos sensíveis à categoria, em razão da
desqualificação dos docentes que ele estimula
e, mais pontualmente, por meio da criação de
espaço para o “denuncismo”.

jados” poderia significar um incremento da “patolo- o seu papel em sala de aula. “Eu trabalho com pro-
gização” dos estudantes. “A questão é que a medi- fessoras/es, e a maioria delas/deles é extremamente
calização aparentemente funciona. Aí é que está a comprometida, chega a desembolsar recursos pró-
perversidade. Porque se eu te dou um remédio que te prios para prover materiais aos alunos”, conta Fa-
dopa, te domestica, é claro que ‘funciona’. O número bíola. A categoria já é uma das que apresenta mais
de pessoas medicalizadas só cresce, e isso traduz, incidência de problemas psíquicos, em razão do des-
mais uma vez, a ideia da busca individualizada, e não gaste emocional e das péssimas condições de tra-
coletiva, para a solução de problemas”, acrescenta balho.
Fabíola. Para Marilene, a questão do sofrimento docente é
altamente relevante, mas é necessário repensar as
O impacto nos docentes condições de trabalho dele e sua participação nos
Os impactos das pautas conservadoras já são processos de mudanças. “É preciso avançar muito
sentidos entre os docentes. Para Fabíola, um projeto no campo sindical, politizar mais o movimento e as/
como o “Escola sem Partido”, mesmo sem ser apro- os docentes para que sejam capazes de reivindicar
vado, já ocasionou prejuízos sensíveis à categoria, melhores condições, para não cairmos apenas no
em razão da desqualificação dos professores que ele discurso sobre o sofrimento, sem que isso se reverta
estimula e, mais pontualmente, por meio da criação em melhorias. Precisamos refletir sobre como mudar
de espaço para o denuncismo. “Já se estabeleceu essa condição para não colocá-los simplesmente
um clima de tensão e vigilância e de destruição da na condição de vítima, o que pode levá-los a serem
imagem do docente, que é desabonado em relação, ainda menos valorizados do ponto de vista social”,
inclusive, aos conhecimentos que detém”, explica a avalia.

10 Conselho Regional de Psicologia de São Paulo


n° 195 • Fevereiro - Março - Abril • 2019

A contribuição da Psicologia diz, a presença é altamente relevante para defender


para a Educação o respeito às diferenças e à pluralidade de ideias, es-
“Hoje temos uma produção acadêmica importan- timular o diálogo e ajudar na mediação de conflitos.
te na área da Psicologia da Educação e existe o re- “Posso falar do trabalho que realizo cotidianamente
conhecimento do papel da categoria nos debates e com alunos nas escolas. Não à toa, os colégios que-
propostas para o setor no Brasil”, avalia a professora rem muito receber estagiários de Psicologia e reco-
Marilene. O que ainda falta, no entanto, segundo ela, nhecem o trabalho desenvolvido, especialmente em
é uma regulamentação sobre a atuação de psicólo- instituições em que há crianças e jovens vistos como
gas e psicólogos na educação. Boa parte deles atua ‘desinteressados e agressivos’”. Segundo ela, por
nos estados e municípios em postos “alternativos”, meio de ações psicoeducacionais – incluindo rodas
já que não existem vagas específicas. Projeto para de conversa, assembleias de classe e oficinas lúdi-
que isso mude já tramita há quase duas décadas no cas psicoeducativas –, os estudantes encontram ca-
Senado, mas até agora não houve definição sobre o minhos para dialogar, debater diferentes pontos de
tema. O resultado é a falta de “uniformidade” no que vista. “Na Psicologia, temos ferramentas que permi-
diz respeito à presença dessas/desses profissionais tem ir além do simples ´não faça isso` ou da adoção
em educandários para dar apoio aos alunos e profes- de soluções punitivas e simplistas. Quando compre-
sores: há municípios grandes com poucos profissio- endem mais sobre as razões pelas quais carregamos
nais; e cidades pequenas com uma boa concentra- em nós o machismo e o racismo, alunos passam a
ção deles. ouvir o outro, a saber como ele se sente, e isso muda
“É claro que precisamos pensar também no perfil muita coisa”, garante.
de psicólogas e psicólogos que queremos atuando Beatriz, por sua vez, define que a Psicologia nas
na educação. Porque se forem profissionais interes- escolas é uma oportunidade para “construir a partir
sados somente em diagnosticar e medicalizar, não do diálogo, que é encontrar a diferença”. Ela concedeu
adianta”, observa Fabíola. Mas, se forem comprome- a entrevista ao Jornal PSI um dia após dois jovens te-
tidas/os com a defesa dos pilares da profissão, ela rem atirado contra colegas em uma escola em Suza-

Conselho Regional de Psicologia de São Paulo • 11


CAPA

no (SP). “Ainda estou abalada com isso. A experiência a história do Brasil, especialmente índios e negros.
educacional, quando olhamos para a nossa história, Também homenageou a vereadora Marielle Franco,
revela que não há sujeitos com boa experiência es- assassinada em março de 2018, e despertou a aten-
colar: o colégio se apresenta como espaço de dispu- ção e o interesse pelos temas. “Talvez seja preciso
ta, de sofrimento. Quando não temos psicólogas/os pensar em renovar as nossas formas de comunicar
nesses espaços, isso fica muito encoberto, como se e nos relacionarmos com os públicos para além da-
fosse natural. A Psicologia oferece instrumentos ca- quilo que já sabemos fazer, como seminários”, ava-
pazes de desvelar processos que foram escamotea- lia a docente. Na mesma linha, Fabíola refere-se à
dos e encobrem as violências. O papel dela na escola necessidade de buscar novas
é construir a partir de outro lugar, construir um novo linguagens e meios de atin-
espaço em que toda a comunidade escolar pode fa- gir o público e convidá-lo
lar. A Psicologia coletiviza os processos”. ao debate e à reflexão.
“Precisamos desco-
Repensar nossa forma de comunicar brir como chegar às
e relacionar pessoas de forma
Para Marilene, o atual cenário brasileiro leva a mais contundente.
refletir sobre a necessidade de repensar a manei- Utilizar uma lingua-
ra como acessar e mobilizar a população em torno gem menos formal,
de ideias progressistas e da luta pela manutenção rebuscada, e mais
de conquistas e direitos, e para a continuidade dos acessível, por exemplo,
avanços. “Dia desses conversava com uma pessoa para nos fazermos enten-
aqui na Universidade e ela me disse que a Mangueira, der e sermos combativos. Há
no carnaval deste ano, fez o que nós, como socieda- uma série de veículos midiáticos
de, não conseguimos fazer”, exemplificou. A escola muito interessantes, mas a sua linguagem rebusca-
de samba desenvolveu o enredo “História para ninar da, difícil de entender, acaba afastando muitas pes-
gente grande” e exaltou líderes que influenciaram soas do debate”, avalia.

12 Conselho Regional de Psicologia de São Paulo


P E R S P E C T I VA DA /O U S U Á R I A /O

FOCO NA SAÚDE,
NÃO NA DOENÇA
Práticas Integrativas Complementares ajudam
as pessoas a reencontrarem o bem-estar

E
m 2015, Mara Assis, 32 anos, foi a uma Reiki, meditação, arteterapia e constelação fa-
consulta no Setor Neuromuscular da Uni- miliar são apenas algumas das atividades que as
versidade Federal de São Paulo (Unifesp) e pessoas atendidas – todas com problemas/doenças
soube da possibilidade de acessar o Am- neurológicas – encontram no ambulatório, gratuita-
bulatório de Cuidados Integrativos, dedi- mente, com o apoio de um time multidisciplinar inte-
cado às Práticas Integrativas Complementares em grado por profissionais – incluindo psicólogas/os – e
Saúde (PICS), que funciona no mesmo local. O convite voluntárias/os.
veio de uma integrante da Associação Brasileira de As PICS passaram a ser contempladas pelo Siste-
Miastenia, doença com a qual Mara convive pelo me- ma Único de Saúde (SUS) a partir de 2006, com a pu-
nos desde os 21 anos, quando foi diagnosticada. Ela blicação do Plano Nacional relacionado ao tema. De lá
regressou na semana seguinte, atrasada e nervosa. E para cá, o número de práticas incluídas no documen-
lembra de ter sido recebida por uma funcionária que to só fez crescer e, hoje, chega a quase 30. O grande
lhe acalmou: “fique tranquila, o importante é que você diferencial dos Cuidados Integrativos é a orientação
chegou”. Para ficar. salutogênica, conceito segundo o qual o foco deixa
Desde então, Mara frequenta o espaço regular- ser o tratamento das doenças, mas a atenção à saú-
mente. Primeiro, como participante das atividades. de. Essa priorização trata-se de orientação escassa
Hoje, também como monitora, depois de ter feito o inclusive nas universidades, de acordo com a doutora
curso de especialização em Cuidados Integrativos em Ciências/Neurologia pela Universidade Federal de
oferecido pela instituição, e voluntária para auxiliar São Paulo (UNIFESP), Sissy Veloso Fontes, coordena-
os grupos que se reúnem às quintas-feiras. O motivo dora e fundadora do Núcleo de Cuidados Integrativos
para o constante regresso foi o (re)encontro consigo do Departamento de Neurologia e Neurocirurgia da
mesma, que ela atribuí às PICS e à equipe que atua no Unifesp e, atual coordenadora do Núcleo de Medicina
ambulatório. “Eu me olhava no espelho e não me via e Práticas Integrativas e Complementares (Numepi).
mais. Não tinha ânimo para mais nada. E aqui reen- “Nas aulas, fala-se 99% do tempo sobre doenças e
contrei isso”, afirma. 1% sobre saúde” avalia ela, que observa haver ainda

14 Conselho Regional de Psicologia de São Paulo


nº 195 • Fevereiro - Março - Abril • 2019

xxxxxxxxxxxxx

preconceitos em relação à adoção das PICS. Sissy os culdades de fazer movimentos com os dedos em seu
atribui ao desconhecimento e as diferenças metodo- clarinete. Diz que a divisão que alguns profissionais
lógico-acadêmicas, em razão de muitas das pesqui- da saúde insistem em fazer entre as diferentes áreas
sas sobre as práticas fugirem do padrão quantitati- da medicina – descartando as “não-convencionais” –
vo comum àquelas conduzidas em relação a drogas é preconceituosa.
e tratamentos alopáticos. Além disso, boa parte da Maria, outra atendida no ambulatório, relatou que
produção científica relativa às PICS circula em revis- as idas ao médico se tornaram totalmente previsíveis,
tas menos renomadas e/ou em idiomas que não o in- enquanto as práticas lhe abrem novas possibilidades
glês, motivos para serem “desacreditadas”. “As Práti- e perspectivas.
cas Integrativas não estão aí para advogar contra os Paulo, de 47 anos, disse que chegou ao ambulató-
tratamentos convencionais, mas para permitir novos rio descrente dos tratamentos, mas que isso mudou
caminhos a quem precisa, para valorizar os sujeitos ao passo em que começou a perceber o bem que fa-
e suas subjetividades, incluindo as famílias de enfer- zem a ele não apenas os exercícios individuais, mas
mos, que não poucas vezes adoecem com eles”, es- também a aproximação com outros frequentadores
clarece a doutora. do ambulatório. “Quando fui para a meditação pela
Porém, a julgar pelos relatos sobre os benefícios primeira vez e disseram que o exercício seria de dez
das PICS feitos por participantes das atividades do minutos, achei uma grande bobagem, que não fun-
Ambulatório de Cuidados Integrativos da Universida- cionaria. Mas, em cinco minutos eu já estava pronto”,
de Federal de São Paulo (Unifesp), a desconfiança e/ narra.
ou desdém pela práticas são feitas por quem nunca Junko, 61, que enfrenta a Síndrome Pós-Pólio, diz
precisou recorrer a este tipo de procedimento ou não ter aprendido muito sobre autocuidado, relaciona-
está aberto a aprender sobre eles. mentos – especialmente com a Constelação Familiar
O músico Antônio, 88 anos, chegou ao ambulatório – e a se autorrespeitar. “O processo vivido por pes-
por indicação de sua filha depois de passar a ter difi- soas como eu inclui perceber a diminuição, ano a ano,

Conselho Regional de Psicologia de São Paulo • 15


P E R S P E C T I VA DA /O U S U Á R I A /O

da capacidade de fazer
as coisas. Se não nos
cuidamos, esse pro-
cesso se torna uma
angústia. Mas, se sa-
bemos nos respeitar,
ganhamos qualida-
de de vida”, assegu-
ra ela, que destaca
a relevância de tra-
balhar, simultanea-
mente, corpo, alma e
mente: “eu me sinto
inteira”, resume.
Isabel, 63, concorda.
“Aqui ganhamos indepen-
dência para nos cuidarmos
quando precisamos. Escuto
coisas feias por aí em razão de renda
minhas dificuldades, mas hoje me da casa
respeito e vivo cada dia como se fos- que divide
se o último”, afirma. “Aprendi que precisa- com a mãe, de
mos fazer as coisas para agradar aos outros, 63 anos, empregada
mas também o que nos faz bem. Entrei até em um doméstica.
coral e deixei para trás um conjunto de relações pes- Segundo Mara, uma das coisas que mais lhe en-
soais que nunca pensei que teria coragem de aban- cantaram ao chegar ao ambulatório de Cuidados
donar, mas que me fazia mal”, complementa Maria Integrativos da Unifesp dedicado às PICS foram os
Aparecida. olhares a ela. “Aqui as pessoas te olham no olho, nos
Mara, citada no início da matéria, conta que seu acolhem como uma delas, com respeito. Confesso
diagnóstico de miastenia gravis custou a sair. Depois que ficava até assustada, não estava acostumada
de um período de internação de vários dias, em que com isso”, descreve. O ambulatório representou a
médicos chegaram a desacreditar em sua recupera- oportunidade para Mara acessar recursos que nem
ção, preparando a família para o pior, ela despertou sabia que existiam, como o Reiki, a primeira prática
subitamente de um estado de inconsciência. Passou com o qual teve contato. “Experimentei sensações,
a ter a companhia constante da depressão e, gradual- vibrações, e tudo me fez muito bem. Tive a certe-
mente, começou a sentir a perda de forças nas mãos za de que era disso que eu precisava.” A partir daí,
e a ter quedas súbitas quando andava pela rua – sin- sua vida mudou: “antes de chegar aqui, eu estava
tomas da doença com a qual aprendeu a conviver ao vivendo para a doença, achei que tudo tinha acaba-
longo de um pouco mais de uma década. De origem do para mim. Aqui recuperei a vida, passei inclusive
humilde, relatou casos de discriminação racial e de a me valorizar como mulher e negra. E, a entender
classe ao longo de sua vida, e depois teve de experi- que ter saúde não é o mesmo que ausência de do-
mentar também o preconceito em relação à doença, ença: o remédio serve para remediar, quem cura so-
que afeta, entre outras coisas, sua capacidade para o mos nós mesmos. É preciso aceitar a doença. O que
trabalho, em razão da fadiga provocada. “Como não acontece comigo não é para eu fraquejar, mas para
se trata de algo aparente, muitas pessoas acham que seguir caminhando”, conclui ela que agora acalenta
não é sério, que se trata de preguiça, e isso afeta inclu- reviver o sonho – interrompido pela miastenia – de
sive as possibilidades de conseguir e manter um em- ingressar na universidade, para cursar Veterinária
prego”, diz ela, que hoje vende doces para assegurar ou Psicologia.

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nº 195 • Fevereiro - Março - Abril • 2019

As Práticas Integrativas Complementares oferecem novos caminhos para a prática do


cuidado e autocuidado, considerando o bem-estar físico, mental e social como fatores
determinantes e condicionantes da saúde.

PRATICAS INTEGRATIVAS
OFERECIDAS PELO SUS EM VÁRIAS
ESPECIALIDADES

• Apiterapia
• Aromaterapia
• Arteterapia
• Ayurveda
• Biodança
• Bioenergética
• Constelação familiar
• Cromoterapia
• Dança circular
• Geoterapia
• Hipnoterapia
• Homeopatia
• Imposição de mãos
• Medicina antroposófica/
antroposofia aplicada à saúde
• Medicina Tradicional Chinesa –
Acupuntura
• Meditação
• Musicoterapia
• Naturopatia
• Osteopatia
• Ozonioterapia
• Plantas medicinais – Fitoterapia
• Quiropraxia
• Reflexoterapia
• Reiki
• Shantala
• Terapia Comunitária Integrativa
• Terapia de florais
• Termalismo social/crenoterapia
• Yoga

Fonte: Sistema Único de Saúde (30 de abril de 2019).

Conselho Regional de Psicologia de São Paulo • 17


10º COREP

AS PAUTAS DA
PSICOLOGIA PARA O
BRASIL
Ao longo de sete meses, eventos preparatórios
e pré-congressos reuniram a categoria para
deliberar sobre os principais desafios, anseios e
compromisso social da profissão.

D
esde setembro de 2018, psicólogas/os de Conselhos de Psicologia, de setembro de 2019 a se-
todo o Estado de São Paulo envolveram-se tembro de 2022 para os Conselhos Regionais de Psi-
no processo para, ativa e democraticamente, cologia, e de janeiro de 2020 a janeiro de 2023 para o
participarem das decisões sobre as diretrizes da pró- Conselho Federal de Psicologia.
xima gestão do Sistema Conselhos de Psicologia. Do Balizou as deliberações nos eventos preparató-
conjunto de 129 eventos preparatórios (discussões rios e nos pré-congressos o tema do CNP deste ano:
de base, encontros temáticos, mesas-redondas, de- O (im)pertinente compromisso social da Psicologia na
bates online, entre outros) e 36 pré-congressos rea- resistência ao estado de exceção e nas redes de rela-
lizados na sede e subsedes do Conselho de Regional ções políticas, econômicas, sociais e culturais. Vincula-
de Psicologia de São Paulo (CRP-SP) até março, re- dos a ele, foram estabelecidos três eixos temáticos
sultaram 246 propostas – 41 regionais, relacionadas – Organização democrática e representativa do Sis-
às políticas do CRP-SP, e 30 nacionais, ou seja, vin- tema Conselhos; O diálogo da Psicologia com a so-
culadas a ações que abrangem todo o Brasil – para ciedade brasileira e suas relações com a democracia
nortear os rumos da profissão no país no próximo e direitos humanos; e Do Exercício Profissional.
triênio (2019-2022). E há ainda outas 175 propostas Em torno deles foram constituídas as propostas
consideradas mistas, ou seja, de âmbito nacional e de âmbito regional e/ou nacional. No total, os even-
regional. tos preparatórios tiveram 4.551 participantes e nos
Elas foram apreciadas e debatidas entre 5 e 7 de pré-congressos participaram 449 profissionais, além
abril, durante a 10ª edição do Congresso Regional de de estudantes e interessados no tema. “O saldo das
Psicologia da 6ª região – COREP, na capital paulista, atividades é positivo. O número de 209 delegadas
e as que foram aprovadas pelos delegadas partici- eleitas para participarem do COREP evidencia o inte-
pantes seguem para o evento nacional da categoria, resse das/dos psicólogas/os em estarem presentes,
o CNP, que ocorrerá entre 30 de maio a 2 de junho motivadas a integrar esse processo democrático de
de 2019, em Brasília. Lá, serão decididas políticas a direcionamento da profissão”, afirma Maria Rozineti
serem implementadas e/ou reguladas pelo Sistema Gonçalves, vice-presidenta do CRP-SP.

18 Conselho Regional de Psicologia de São Paulo


nº 195 • Fevereiro - Março - Abril • 2019

Para a psicóloga Beatriz Marques de Mattos, con- para externar as possibilidades e potencialidades da
selheira do CRP-SP e integrante da Comissão Orga- nossa carreira, e a ampla participação reforça que a
nizadora (Comorg) do X COREP, todo o processo de categoria está cada vez mais preocupada em aproxi-
preparação para o evento e formulação de propostas mar-se da sociedade e que esta reconhece a profis-
constituiu um importante espaço para dar visibilidade são e suas/seus profissionais. O COREP é relevante
e evidenciar a pluralidade e os fazeres da Psicologia, para debater aquilo que deve ser mais trabalhado e a
que muitas vezes não conseguem ser abarcados, por forma como vamos mostrar a cara da Psicologia para
exemplo, nos cursos de graduação. “Eles contribuem o País”, observa.

ESTUDANTES ESTUDANTES
SUBSEDE QUÓRUM DELEGADOS SUPLENTES
DELEGADOS SUPLENTES
Campinas (Piracicaba, Mogi Mirim,
61 30 10 4 4
Jundiaí e Campinas)
Bauru (Araçatuba, Botucatu e
43 21 6 3 0
Bauru)
Metropolitana (Sede, Osasco e
92 38 8 3 1
Mogi das Cruzes)
Ribeirão Preto (Araraquara,
36 17 4 2 1
Ribeirão Preto e Franca)
Vale do Paraíba e Litoral
Norte (São José dos Campos, 48 23 7 4 3
Caraguatatuba, Lorena e Taubaté)
Sorocaba (Itapetininga,
19 8 5 3 0
São Roque, Sorocaba e Itu)
Assis (Ourinhos, Marília,
Presidente Prudente, 50 24 10 5 3
Adamantina e Assis)
São José do Rio Preto, Baixada
Santista e Vale do Riveira (SJRP, 53 26 6 4 0
Votuporanga, Santos e Registro)
Grande ABC (Diadema, Mauá,
São caetano, São Bernardo e 47 22 9 4 0
Santo André)
449 209 65 32 12

Conselho Regional de Psicologia de São Paulo • 19


M AT É R I A E S P E C I A L

POR QUE A
LAICIDADE
PRECISA
ESTAR EM
PAUTA
A SEPARAÇÃO ENTRE ESTADO
E IGREJA É TEMA TÃO ANTIGO,
LATENTE E MALTRATADO
QUANTO RELEVANTE PARA
ASSEGURAR A PLURALIDADE E
OS DIREITOS HUMANOS

20 Conselho Regional de Psicologia de São Paulo


nº 195 • Fevereiro - Março - Abril • 2019

O
Brasil é um país laico. Pelo menos oficial- mular a conformação de um cenário justamente con-
mente. A Constituição Federal não traz o trário àquele que a laicidade defende, ou seja, acar-
termo impresso em seus 114 artigos, mas, retar um que fomente a exclusão de grupos sociais
ainda que seu preâmbulo mencione que sob o argumento de que suas proposições, porque
ela foi promulgada sob a proteção de Deus, eviden- amparadas ou inspiradas em crenças religiosas, são
cia a laicidade, indiretamente, nos 5º e 19º. Eles ga- “descartáveis”, e com isso, alimentar, ainda, precon-
rantem ser “inviolável a liberdade de consciência e de ceitos de classe e de cor – que, no Brasil, muito se
crença, sendo assegurado o livre exercício dos cultos confundem. Por outro lado, criar, a partir de um tam-
religiosos e garantida, na forma da lei, a proteção aos bém proposital imbróglio conceitual, a ideia de que
locais de culto e a suas liturgias”; e que “ninguém será o cumprimento da laicidade é sinônimo da negação
privado de direitos por motivo de crença religiosa ou das religiões ou da afirmação do ateísmo. Assim, ser-
de convicção filosófica ou política, salvo se as invocar ve para justificar ou promover propostas e políticas
para eximir-se de obrigação legal a todos imposta e conservadoras, em linha com um fundamentalismo
recusar-se a cumprir prestação alternativa, fixada em religioso que ganha força, não apenas no País, e “pre-
lei”. Além disso, veda à União, aos Estados, ao Dis- tende refundar a ordem social por meio do saudosis-
trito Federal e aos municípios “estabelecer cultos re- mo em relação a um mundo que, supostamente, te-
ligiosos ou igrejas, subvencioná-los, embaraçar-lhes ria sido mais simples, menos infeliz, mais ético, etc.”,
o funcionamento ou manter com eles, ou seus repre- afirma a psicóloga e professora da Universidade de
sentantes, relações de depen- Brasília (UNB), Tatiana Lionço.
dência ou aliança, ressalvada, Ela esclarece que a laicida-
na forma da lei, a colaboração de interessa a todas as religi-
de interesse público”. ões, pois protege a diversida-
Os temas relacionados à
A laicidade de de crenças. À medida que
laicidade voltaram à tona em interessa a todas o Estado não adota posição
razão dos debates relativos religiosa, diz Tatiana, ele está
a propostas de mudanças em as religiões, aberto ao reconhecimento à
políticas públicas, incluindo os pois protege a diversidade de credos, bem
referentes à legalização do como ao de segmentos que
aborto, à “cura gay” e à deci- diversidade de acreditam no ateísmo ou da-
são do Supremo Tribunal Fe- queles que são agnósticos, ou
deral (STF) sobre a legalidade
crenças seja, não deixam de crer que
da oferta de ensino religioso exista algo da ordem do trans-
nas escolas públicas. cendente sem, no entanto,
Apesar de estar em evi- professar fé em uma doutrina
dência, o tema é mal interpretado e mal debatido na religiosa específica. Por isso, explica a psicóloga, em
opinião do doutor em Ciências Sociais e professor da relação aos direitos humanos o princípio da laicidade
Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC- é fundamental para o reconhecimento e a proteção
-SP), Edin Abumanssur. “Imagina-se que Estado laico das religiões, dos grupos sociais e indivíduos que não
é pura e simplesmente a separação entre estado e as professam e de práticas sociais alheias a dogmas
igreja; na verdade, a ideia é mais que isso. Refere-se e a moralidades hegemônicas, como o casamento
a um processo de acomodação entre duas instâncias entre pessoas do mesmo sexo. Quanto às políticas
de poder, mas varia de país para país. Por isso, está públicas, ela complementa, o respeito à laicidade do
sempre em construção. Há nações que não são lai- Estado pode garantir maior proteção da diversidade
cas e são democráticas, assim como há nações laicas social por meio do reconhecimento da diversidade
que nada tem a ver com democracia”, explica ele, que moral e da variedade das práticas sociais da popu-
destaca ainda o fato de que, a despeito da ideia de lação.
laicidade ter emergido junto com a Modernidade, em
nenhuma das formações do Estado ocidental essa Nem à terra...
separação se deu de forma absoluta. “Não há como eliminar a religião das discussões. O
O debate raso traz riscos. Por um lado, pode esti- que não sabemos é como conversar com as religiões

Conselho Regional de Psicologia de São Paulo • 21


M AT É R I A E S P E C I A L

ESTADO
RELIGIÃO
e os religiosos. Com o pensamento liberal democrá- cendo, transformando-se em religiões da classe
tico que forjamos no Ocidente, não aprendemos a média branca, o pentecostalismo está se tornando
discutir e debater com o pensamento religioso, o religião de periferia, de negros e de pobres. Ao as-
que acaba polarizando a discussão”, observa Abu- sumir como alvo os evangélicos, indiretamente se
manssur. Ele avalia que, no Brasil, um dos proble- está atingindo essa população. E querer marginali-
mas dos debates sobre laicidade é eles assumirem zar esse grupo do debate político é coisa de gente
um perfil ideológico, no sentido negativo da pala- branca que sempre esteve no poder e quer conti-
vra: o conceito passa a ser uma bandeira de luta na nuar assim.” O professor acrescenta haver parte
defesa de interesses de segmentos específicos da da classe média que defende o estado laico e não
sociedade e pode excluir parcelas dos cidadãos da percebe que acaba sobrando alguma “bala perdida”
discussão pública. para a população preta, pobre e periférica. “Por isso
Uma das distorções identificadas pelo professor é um debate mal feito. Não temos uma igreja oficial,
refere-se ao discurso da grande mídia em relação ao contrário de outros países com igrejas ‘estatais’,
ao tema. Ele lembra que as pautas conservadoras mas pode existir uma convivência pacifica e cons-
não são “propriedade” dos evangélicos, mas das trutiva entre as duas esferas. No entanto, com a
bancadas religiosas como um todo. Há aspectos – radicalização que existe aqui, criamos problema e
como o uso de contraceptivos – nos quais os ca- não solução”, afirma.
tólicos, por exemplo, são muito mais retrógrados,
mas, em sua opinião, “um segmento social com ...nem ao céu
acesso aos grandes meios de comunicação, assim Para a psicóloga Tatiana Lionço, o Brasil é um
como a classe média, elegeu os evangélicos como país que faz excessivas concessões às instituições
alvo”. “Quando se defende o estado laico tendo na religiosas: isenção tributária sem a devida fisca-
mira os evangélicos, não dá pra ignorar o fato de lização em relação ao lucro que elas têm acumu-
que 57% deles são negros (pretos ou pardos). En- lado; concessão pública a igrejas de horários na
quanto candomblé e umbanda estão embranque- televisão e radiodifusão, sem que o Estado possa

22 Conselho Regional de Psicologia de São Paulo


nº 195 • Fevereiro - Março - Abril • 2019

interferir no conteúdo do que é veiculado nos pro- facilidades econômicas e da propagação moral de
gramas religiosos, que muitas vezes acirram o li- suas ideologias”, explica.
mite entre o discurso de ódio e a expressão da fé; Segundo Tatiana, a concepção de mundo e de
permissão para que autoridades religiosas realizem humanidade proposta pelas religiões, que serve
campanhas políticas e ocupem cargos públicos, etc. para orientar o sentido sobre a organização da vida
“Esses são alguns exemplos que revelam como a social, é da ordem da transcendência, ou seja, re-
laicidade do Estado brasileiro é aberta às apropria- mete a uma verdade revelada pela divindade. Já no
ções que as instituições religiosas podem fazer das caso dos valores e concepções originados secu-
públicas. Evidentemente há colaborações que tam- larmente ou por meio de conhecimentos e práticas
bém seriam do interesse da sociedade. O risco é o não religiosas, assume-se que são produzidos de
fortalecimento desproporcional das instituições re- modo imanente, ou seja, os próprios sujeitos huma-
ligiosas, que passam a disputar os espaços demo- nos assumem a responsabilidade sobre as ideias
cráticos em condição privilegiada em razão de suas que orientam a organização da vida social.

PSICOLOGIA E LAICIDADE

Em relação à produção acadêmica no campo da Psicologia relacionada à laicidade,


Tatiana diz que um levantamento bibliográfico permite observar que a maior parte
do conhecimento publicado nos periódicos é na área da saúde, e quase a totalidade
dos estudos se refere à religiosidade como um fator que contribui para o enfrenta-
mento dos processos de adoecimento. “Sabemos também que a religiosidade pode
desencadear processos de adoecimento, assim como que a produção de conheci-
mento científico não é neutra. Então, vale perguntar sobre as razões de existir essa
tendência na produção discursiva da Psicologia”. Ela revela preocupação com o uso
que fundamentalistas religiosos têm feito da Psicologia para legitimar seus discursos
com ares de cientificidade, fazendo reemergirem conceitos como “família desestrutu-
rada”, trauma e abuso. “O público leigo é seduzido por esse jargão cientificista sobre
questões importantes como terapias de reversão da orientação sexual, educação
sobre gênero e sexualidade. O que me preocupa também é o número limitado de aca-
dêmicas/os e profissionais de Psicologia que têm se engajado nos debates públicos
em defesa de nossa profissão segundo preceitos democráticos e do alinhamento a
agendas de direitos humanos. Ainda mais preocupante é o volume de acadêmica/os
de Psicologia que insistem em fazer uma cisão entre o que é ciência e o que é política,
como se dispusessem de uma garantia de que o tipo de conhecimento que produzem
não fosse impulsionado por uma decisão sobre como contribuir para um projeto de
sociedade”, alerta.
Finalmente, sobre a atuação da psicóloga e do psicólogo e a sua relação com a
laicidade, a professora é enfática ao lembrar que “quando reduzimos as pessoas ao
que nós somos, não podemos mais dizer que somos profissionais da área”. Segundo
ela, a laicidade é um princípio a ser permanentemente observado – o próprio Código
de Ética Profissional proíbe “induzir a convicções políticas, filosóficas, morais, ideoló-
gicas, religiosas, de orientação sexual ou a qualquer tipo de preconceito”. “Devemos
ter condições de reconhecer as fronteiras entre nossos valores morais e o universo
simbólico daqueles com quem se estabelece relação de cuidado. A incidência do viés
religioso na escuta acarreta o não reconhecimento do outro, o seu silenciamento, a
destituição de sua autonomia e a desvalorização de suas representações, história e
práticas. E a beleza de profissão é a nossa abertura para a alteridade”, define.

Conselho Regional de Psicologia de São Paulo • 23


ARTIGO

O VENTO QUE VARRE A CASA


INTERVENÇÕES SOBRE O SUICÍDIO
POR MARCIA MATOS

P
erder alguém para o suicídio é uma experiência a cara com a morte.
de espanto, porque todo suicida nos recorda Contava eu com a idade dos 33 anos e com uma
que viver é uma decisão. Eles se foram por te- filha recém-nascida, quando, em investigação trivial
rem decidido partir. E nós, supostamente, decidimos de exames na coluna, me chega a notícia de que me
ficar. Decidimos? Se estamos aqui olhando para o nú- restavam poucos anos de vida. Ficaria numa cadeira
mero epidêmico de suicídios em todo o mundo, so- de rodas ou acamada, sem articular sequer palavra
frendo o luto por essas perdas ao mesmo tempo em por conta de uma doença degenerativa óssea que me
que tentamos continuar nossas vidas, só o fazemos acometeria gradualmente até a morte e me manteria
por compor o grupo dos que optaram por seguir vi- cognitivamente preservada.
vendo. Portanto, somos de algum modo, os portado- Foram três os anos de convívio com esse diagnós-
res da resposta sobre o que é que mantém um sujeito tico que não era meu, mas esse erro me concedeu o
atado à vida. Certo? Não tão rápido assim. senso de urgência necessário para me debruçar ape-
Qual sujeito vivo sabe por que vive? Caso a maio- nas sobre o que me pareceu imprescindível: organizar
ria das pessoas estivesse convicta de sua resposta, esses escritos da gaveta sem mais prorrogações, pe-
a discussão sobre o tema do suicídio não seria um dir exoneração do cargo público, fazer outra filha no
tabu. Penso que exatamente o que o sustenta seja ano seguinte e me dedicar a dar voz ao que tinha sido
o fato de não haver nenhum espaço público que nos tanto tempo silenciado.
ensine ou nos estimule a desenvolver o senso de res- Foi então que, nesse período, tive um sonho. Via-
ponsabilidade ética para com nós mesmos, além dis- -me caminhando em uma cena de vento entre árvo-
so, poucos estão certos de o terem desenvolvido. A res, numa imagem construída perto dos cinco anos,
vulnerabilidade é pungente: se não sei por que quero quando a mãe contava a estória da bisavó que come-
estar aqui, não estou certo do sentido da minha vida, teu suicídio quando meu avô tinha oito anos. Ouvia
logo, poderia ter sido eu, o suicida. Isso mobiliza o su- ao fundo minha voz declamar um de meus poemas.
ficiente o fantasma do que é ser um humano. Acordo em choque por nunca haver percebido em
Por outro lado, manter-se vivo, ainda que não se meu poema qualquer referência a essa estória. Busco
saiba por que, é um modo de decidir viver. Mas qual meus escritos e percebo vestígios de outras estórias.
é o fio que sustenta essa decisão? Dilema que me Armei um varal no meio da sala e passei a noite iden-
acompanha há décadas e que fez criar respostas tificando as cenas contidas em cada poema. Da bisa,
a perguntas que não puderam ser feitas. Em minha da tia avó e a mais recente do tio. Pude organizar, lado
família aconteceram suicídios nas últimas três gera- a lado, as peças desse quebra-cabeça que construí
ções. Sobre essas estórias passei a encapsular silên- sem me dar conta. Assim nascia o livro que norteia
cios por meio da escrita, da música e, mais tarde, da o projeto itinerante de intervenção urbana sobre o
instalação de arte, sem saber que o fazia. Mas essas tema do suicídio: O vento que varre a casa.
cápsulas, depois de geradas, eram engavetadas. A O silêncio, a memória e a vulnerabilidade do espa-
tentativa de tocar esse material a ponto de dar senti- ço doméstico na construção social das mulheres são
do e conexão foi algo que me escapou à possibilidade pontos nodais de minha construção. Conviver com
por muito tempo. O fato de não falar sobre essas es- o silêncio de minha mãe, de minhas tias, e de minha
tórias não faz com elas cessem de produzir questões avó por uma década, sem querer abrir mão do lugar
em nós. São estilhaços de longo alcance. O gatilho de filha, sobrinha e neta, foram meus cadernos de es-
para a concatenação dos meus escritos viria do ab- tudos, num espaço em que não cabia a fala sobre o
soluto acaso e me conduziria a uma experiência cara suicídio, em que a lágrima se impunha como aparente

24 Conselho Regional de Psicologia de São Paulo


nº 195 • Fevereiro - Março - Abril • 2019

limite e pedido de reclusão, mas que a plasticidade do vazio, que confere ao sujeito que fala, o seu lugar de
amor pôde permear e conviver na atenção e no cuida- voz e resgate da singularidade, com todas as idios-
do das cicatrizes que falam. sincrasias que isso possa comportar. Apostar nas fal-
O fato de ter cursado Psicologia em 2000 e de tas do sujeito para que ele possa voltar aos caminhos
manter-me em formação permanente de Psicanálise desejosos para si e apropriar-se de tudo que abriu
desde 2004, não me impediram de desenvolver ativi- mão para pertencer a um lugar que não era o seu.
dades artísticas, ainda que de forma marginal, e delas Hoje acredito que o suicídio seja a ausência de
me servi como quem viaja ao estrangeiro e usa o idio- manutenção dessa voz singular existente em cada
ma local. Incontáveis vezes ouvi “mas pra que cantar, sujeito. E cabe lembrar que ela não coincide com o eu.
atuar, escrever, esculpir, modelar, pintar, se isso não Mas que não cessa de se inscrever no sujeito e que
tem nada a ver com a sua “profissão?”. Ou “você está aparece como nonsense de si. O sujeito não é a voz
perdendo tempo, isso não faz sentido”, “você está que plaina na consciência. Mas a que grita na angús-
perdida?”. E eu variava entre o “porque sim”, o “porque tia do corpo quando esta não pode ser escutada por
quero” ou “porque gosto”, ainda que não fizesse sen- outras vias.
tido. E, nisso, minha análise pessoal desempenhou
papel fundamental, por ter me permitido sustentar, “Este trabalho é dedicado a todos que já sobrevi-
frente ao Outro, o meu desejo e a falta de sentido que veram ao suicídio de alguém e aos que se mantive-
ele comporta. Não preciso saber por que algo me faz ram na dúvida.
bem, basta-me que faça para me dedicar a isso. Quando o vento varre a casa, ele leva o que vê na
Lancei o livro de poemas O vento que varre a casa frente.
em formato bilingue (português/espanhol) em 2008.
E é bem diferente de limpeza o que ele deixa ali. É
Aquilo que levo através da poesia está fundamenta- devastação.
do em recursos que tanto a arte como o desejo do
É tudo que não queríamos que tivesse se movido
analista podem sustentar, que é entregar à questão
de nós.
do sujeito, um espaço vazio para a resposta ainda
não inventada. São portas, caminhos, ampliação da Há livros que constroem enquanto pensamos que
dúvida e das possibilidades de olhar sujeitos e seu construímos. Por longos anos tirava de manhã a pá
nonsense, para além de um controle ou bom prognós- para me dirigir a uma estranha construção para a
tico, mas baseado na escuta sensível de como seria qual eu estive vendada. Certa noite me foi tirada
a venda. Algumas vezes ao procurar o castelo que
um mundo possível de se viver e na invenção desse
eu imaginava erguer, encontrava apenas um fosso
lugar. No dia a dia do meu consultório, a tarefa que es-
que costumava cavar. E só depois de largo tempo
panta pela simplicidade e surpreende pela eficácia é
foi que senti que a água estava por emergir. Puxei
a de uma escuta cuidadosa calcada em um não saber, o balde e pude vislumbrar com inteireza as flores
que garanta a quem é escutado, um lugar de pertença desse jardim tão familiar. Eu enterrava os meus
no mundo. Que sobre o sujeito, apenas o sujeito pos- mortos.”
sa dizer. Nenhum profissional carrega esse saber. E é
profissional exatamente por assegurar esse lugar de
Fragmento do livro O vento que varre a
casa, de Marcia Matos, Editora Patuá/SP.
Mais informações em:
www.oventoquevarreacasa.com

A primeira vez que Marcia Matos experimentou a voltagem


do poema foi aos cinco anos, ao ouvir da voz de sua mãe, Ou
isto ou Aquilo, de Cecília Meireles. O êxtase apreendido ali ficaria
guardado como amuleto do qual nunca se afastaria, nem mesmo
quando, meses depois, o vento viria varrer-lhe a casa. Como
psicóloga clínica atende em consultório particular.

Conselho Regional de Psicologia de São Paulo • 25


SUBSEDE

MAIS FORÇA,
MAIS FOCO
Inauguração da subsede Alto Tietê atende
reivindicação de três décadas da categoria e beneficia
psicólogas e psicólogos de 11 municípios desta região.

E
sta espera está prestes a terminar. A inaugura- locais e contribuir na formulação de políticas públicas.
ção da nova subsede Alto Tietê, em Mogi das Com ela, o CRP-SP fica mais próximo da categoria na
Cruzes, está prevista para o primeiro semestre região”, fala uníssona da Comissão Gestora Metropo-
de 2019. Em razão da alta concentração de psi- litana, envolvidas diretamente no projeto de estrutura-
cólogas/os na região – hoje são quase 5 mil profissio- ção da nova unidade, situada na Avenida Narciso Yague
nais ativos, a inauguração dessa nova subsede possi- Guimarães, 1.145, Vila Armênia.
bilitará maior auxílio aos profissionais da região, dando O condomínio em que a Subsede Alto Tietê passará
suporte para a sua atuação e, desta forma, aproximan- a funcionar oferece salas de reunião e auditório locá-
do o CRP/SP dos 11 municípios que a compõe: Arujá, veis, além do espaço fixo onde ficará instalada. A Co-
Biritiba Mirim, Ferraz de Vasconcelos, Guararema, Gua- missão Gestora Metropolitana relata que antes mes-
rulhos, Itaquaquecetuba, Mogi das Cruzes, Poá, Salesó- mo da inauguração oficial, atividades já estão sendo
polis, Santa Isabel e Suzano. desenvolvidas no território ao longo destes três anos e
A instalação da subsede foi aprovada no pré-con- que já estão utilizando espaços na cidade para desen-
gresso do 9º Congresso Regional de Psicologia, em volver ações, que inclui agendas como o pré-congres-
2016, e desde então, iniciou-se um processo de pesqui- so do 10º COREP, encontros com movimentos sociais,
sa para escolha da melhor cidade para receber a subse- trabalho de apoio aos Direitos Humanos e à população
de, a partir de alguns critérios, como a mobilidade urba- LGBTS, eventos contra a medicalização da educação
na e acessibilidade. e relacionados a emergências e desastres, bem como
No passado a subsede, já havia sido implantada em oficinas de documentos escritos para a categoria em
outra cidade da região, mas pela falta de mobilidade ur- diversos municípios do Alto Tietê.
bana na época, teve seus trabalhos encerrados surgin- Os municípios atendidos pela nova subsede
do a cidade de Mogi das Cruzes como uma referência
por conta do acesso, o que facilitou a decisão política e Arujá
de algumas falas da categoria durante esta construção. Biritiba Mirim
Ferraz de Vasconcelos
Um dos diferenciais para a escolha do município relacio- Guararema
na-se à infraestrutura de transporte, já que é atendido Guarulhos
Itaquaquecetuba
pela Linha 11 da Companhia de Trens Metropolitanos Mogi das Cruzes
de São Paulo e próximo da Estação Estudantes, o Poá
Salesópolis
que facilitará o acesso e beneficiará 50% da de- Santa Isabel
manda de profissionais do Alto Tietê. Suzano (Alto Tietê)
“A Subsede Alto Tietê é uma conquista para as psi-
cólogas e os psicólogos, para melhor atender às neces-
sidades territoriais, ampliar a participação nos debates

26 Conselho Regional de Psicologia de São Paulo


n° 195 • Fevereiro - Março - Abril • 2019

COACHING:
FORMAÇÃO
ADEQUADA É
NECESSÁRIA
O estímulo para regressar ao tema – e aos estu-
dos sobre ele – partiu de uma conclusão fácil de (com)
provar: apesar de manterem a mesma nomenclatura
profissional, existe algumas diferenças na pratica de
coaching nos Estados Unidos comparado ao Brasil.
Primeiramente, nos Estados Unidos o coaching tem
sido desenvolvido e praticado desde os anos 90, e
muito tem sido investido em pesquisas na busca
por uma prática baseada em evidências científicas.
No Brasil, segundo ela, a prática de coaching ainda
é relativamente nova e muito pouco se fala sobre
pesquisas e fundamentação teórica nesta área. Nos
Estados Unidos, assim como no Brasil, existem mui-
tas modalidades de cursos, a diferença está no fato
de que se pode encontrar cursos de graduação ofe-
recidos em universidades com aulas ministradas por
Mestres e PhDs em diversas áreas do conhecimento,
incluindo Psicologia. No caso de Eliana, a graduação

Q
uando se mudou para os Estados Unidos de Mestrado em Coaching demandou dois anos. Ou-
com a família, há três anos, Eliana Totti, tra diferença que podemos citar refere-se a carreira
49, psicóloga formada em 1993 na antiga de coaching. Nos Estados Unidos é muito mais co-
Universidade São Marcos, em São Paulo, mum os coaches se associarem a entidades de clas-
decidiu que ainda não era tempo de se aposentar. Im- se na busca de manterem-se atualizados bem como
pedida por questões legais de exercer seu ofício no se certificarem na profissão. Nos EUA, há pelo menos
país norte-americano, passou a buscar possibilidades 20 associações que credenciam os coaches, sendo a
que, de alguma forma, lhe permitissem não se afastar mais famosa delas a ICF (International Coaching Fe-
por completo da profissão que – nas suas palavras – deration), onde a entrevistada é associada e certifi-
a escolheu ainda adolescente, antes mesmo do fim cada. Segundo Eliana, a certificação é um processo
do Ensino Médio. Também não pretendia afastar-se que poucos coaches, sobretudo no Brasil optam por
da área pela qual optou na Psicologia, a de Recursos fazer. Isso porque as etapas de certificação exigem,
Humanos. Foi assim que decidiu atuar como coach. entre outras coisas, uma formação feita em escolas

Conselho Regional de Psicologia de São Paulo • 27


COACHING

credenciadas pela ICF, uma extensa carga horária guramente irá beneficiar-se do resultado desta in-
de atendimentos, supervisão e uma prova de co- teração”, esclarece. O coachee, o cliente, tem uma
nhecimentos. Eliana também destaca uma grande demanda que quer resolver. E o papel do coach é
diferença entre o curso que fez no Brasil e a forma- ajudá-lo, utilizando-se de recursos específicos que
ção nos Estados Unidos. “Foi um choque de reali- façam com que ele encontre os caminhos para solu-
dade. No curso de fim de semana que frequentei, e cionar a questão. “Todos nós temos aptidões, bas-
acredito que seja assim na maior parte deles, rece- ta buscarmos as respostas dentro de nós. E a ideia
bemos uma espécie de kit de ferramentas a ser uti- é, no coaching, ajudar o coachee a chegar ao insight,
lizado nos mais diferentes casos e situações, o que o momento máximo. Para isso, a sessão tem uma
seria uma solução mágica. Aqui nos Estados Unidos estrutura específica, exploramos com o cliente os
toda minha formação utiliza fundamentação cientí- objetivos, entendemos como ele quer lidar, facilita-
fica para embasar a prática de coaching”, narra. mos o processo de modo que ao final ele saia da
Houve um momento de sua trajetória profissio- interação com um plano de ação.”
nal em que Eliana sentiu-se incomodada em dizer- Eliana define o coaching como um primo distan-
-se coach. “Aconteceu uma te da Psicologia. Há diferenças
vulgarização do termo, que significativas entre os propósi-
passou a ser utilizado por tos e métodos das duas práti-
pessoas que, sem forma- “Todos nós cas. “Uma das maiores talvez
ção alguma, prometem mi- seja o fato de o coach traba-
temos vocações, sempre
lagres”, pondera. Acontece lhar de maneira – e isso exige
que o discurso, bem alinha- sabemos as respostas. habilidade suficiente – a focar
do às condições pós-mo- E a ideia é, no coaching, nos tempos presente e futuro
dernas, em que se espera da vida de seu coachee, en-
resultados cada vez mais ajudar o coachee a chegar ao quanto que a psicologia atua
rápidos para qualquer tipo insight, o momento também sobre o contexto do
de ação/tratamento, de passado.”
fato, atrai. Isso se traduz,
máximo.” Mas existem ligações/apro-
por exemplo, na constata- ximações, que garantem esse
ção de que clientes estão “grau de parentesco”. Uma de-
dispostos a desembolsar pequenas fortunas por las consiste na capacidade que esses dois tipos de
encontro. “Isso não quer dizer que o coaching seja atuação têm de auxiliar as pessoas na descoberta
o único recurso a proporcionar resultados de forma do que querem e podem fazer. Não é o coach ou a
mais acelerada, mesmo porque, para que isso acon- psicóloga/o quem diz o que fazer, é o coachee ou o
teça, ele precisa ser bem-feito, por profissionais re- cliente, respectivamente. Além disso, a Psicologia
almente certificados”, defende Eliana. Ela considera Positiva, mindfullness, Psicologia Cognitiva Compor-
ainda que, de alguma forma, a Psicologia não deu a tamental, entre outros, inserem-se bem tanto no
devida atenção a importantes transformações que contexto da Psicologia como no coaching. “Ser uma
aconteceram globalmente e acabou abrindo espa- psicóloga me ajuda muito, sem dúvidas. O mal está
ço para os coaches. “Focamos muito nas ideias e na existência de coaches que dizem fazer uso des-
pouco no resultado, e as pessoas querem resulta- ses recursos da Psicologia sem conhecer absoluta-
dos rápidos”, diz. mente nada sobre eles e sem nenhuma habilitação
Há, segundo ela, outro ponto que chama a aten- formal”, reforça.
ção para a prática de alguns especialistas em co-
aching: a de prestarem seu serviços com o intuito Ética
de “modelar” pessoas. “Entendo que isso se aplique Eliana ressalta outro aspecto relevante para o
mais ao segmento corporativo. Empresas podem exercício da atividade de coaching: a ética. “O as-
eventualmente contratar um coach para adequar sunto passou praticamente em branco na minha
um colaborador àquilo que ela quer. Mas, na meto- formação inicial. Lembro-me de falarem brevemen-
dologia que eu aprendi, essa não é a nossa função: te sobre a necessidade de os coaches saberem
o cliente é o foco do atendimento e a empresa se- identificar casos que exigem uma/um psicóloga/o.

28 Conselho Regional de Psicologia de São Paulo


n° 195 • Fevereiro - Março - Abril • 2019

Mas, honestamente, não sei se esse tipo de enca- só aqui – ainda existir um gap em relação ao coa-
minhamento acontece na prática”, lamenta. ching e às aptidões necessárias para exercê-lo com
Eliana cita que para ser um coach certificado é qualidade, a mudança de realidade é uma questão
mandatório seguir o Código de Ética do ICF e que o de tempo. “Há aqui e fora dos EUA instituições sé-
processo de certificação segue padrões rigorosos rias investindo muito em pesquisa sobre o tema. A
de acreditação. “Eu sou psicóloga e coach. Então, Psicologia também demorou para ser reconhecida.
trato de seguir as diretrizes éticas das duas profis- Ainda falta muito para o coaching ver a ciência pro-
sões”, diz. var que ele e suas ferramentas funcionam, mas já
Ela acredita que, apesar de no Brasil – mas não estamos nesse caminho.”

Eliana Totti, CRP 06/44557, M.Sc, ACC, SHRM-CP


Com a contribuição de Hely Zavattaro,
do Núcleo de Psicologia Organizacional do CRP-SP.

O Conselho Federal de Psicologia publicou em 14 de março de 2019 uma Nota


Orientativa sobre COACHING na qual elucida que a(o) psicóloga(o), ao utilizar o
coaching na sua prática profissional, deverá seguir rigorosamente os Princípios
Fundamentais e artigos do Código de Ética Profissional do Psicólogo (Res. CFP
nº 010/2005). A(o) psicóloga(o) baseará seu trabalho no conhecimento técnico,
científico e ético da profissão, e zelará pela garantia dos serviços prestados,
visando à proteção da população atendida.

OGIA
DE PSICOL
FEDERAL fornecendo
CONSELHO a quem de
direito result
sempre que ados decorre
solicitado, os ntes da presta
ACHING acordos de pre documentos
iva sobre CO stação de ser pertinentes ção de serviç
No ta Orientat situações na viços que res ao bom termo os e, fornecen
do
s quais seus peitem o dir do trabalho,
pela Lei vínculos pesso eito da(o) usu estabelecendo
conferidas qualidade do ária(o), estan
ições legais a um trabalho a ser ais e profissio do
), no us o de suas atribu ca teg ori a em relação co
proposta pro
fissional estab
realizado e encam
inh
na is atuais ou an
ter ior
atenta(o) para
icologia (C
FP demandas da m a públi elecida. ando demand es possam afe
ns elh o Fe deral de Ps 71 , e co ns iderando as tic a pro fissional, ve as que sejam
conflitantes
tar a
O Co ze mb ro de 19 co ac hin g na prá com a
de de ação do
5766, de 20 nte à utiliz Ademais, qu
ento refere alquer profis
posicionam técnicas pri sional que nã
o esteja inscri
ente vativas da(o)
orientar: uir rigorosam alguma forma psicóloga(o) to no CRP,
e qu
l deverá seg nº , atribuições durante ses
sões de coach e se utilizar de métodos
a profissiona o (Res. CFP profissão, de restritas à
co ac hin g na sua prátic ofi ssi on al do Psicólog acordo com
o art. 30 da Le
Psicologia, est
ará incorren
ing, ou que
desenvolva,
e
), ao uti lizar o dig o de Ét ica Pr sob pena de
prisão simple i nº 5.766/71 do em exerc de
a(o Có
A(o) psicólog damentais e artigos do s ou multa (D
ecreto-lei Nº
, e art. 47 da
Lei das Contr
ício ilegal
da
fun
os princípios são e
3.688, de 3 de
outubro de 19
avenções Pe
nais,
co da profis
010/2005). ntífico e éti Apesar do de 41).
técnico, cie ão atendida
. staque de alg
lho no co nhecimento da po pu laç com a prátic uns pontos da
seu traba à proteção a do coaching legislação pro
a(o) baseará dos, visando Conselho de , ressaltamos fissional nessa
A(o) psicólog tia dos serviços presta Psicologia e
demais legisl
que o Códig
o de Ética,
nota por ter
maior relaçã
garan ção legal profissional.
zelará pela regulamenta
ações pertin
entes deverão
demais Resol
uções do Sis
o
não exista breve ser considerad tema
ca ain da que, embora po r ser um processo as no exercíci
logia desta
prática é ca
racterizada s a partir de o
o Fe de ral de Psico g, tal via me nte definido s e Nota de Roda
O Cons elh ão do co achin
ançar objet
ivos pre ia, int sse
ere pé:
ra a utilizaç ivíduo a alc a, da histór ento e o
específica pa xiliar o ind ntos da vid autoconhecim
põ e a au cie nti za çã o de eleme rm eia m o liz ação
O terceiro e
quarto parág
que se pro lvam a cons atuação qu
e pe uti
icóloga(o) na teção e além dos Ar rafos desta No
s que envo campos de lho da(do) ps tigos 1º, “b”, ta Orientativa
metodologia e qu e transita em ten de que o traba lho qu e vise à pro 20, “e” do CE “e”, “f” e “g” abarca os pri
ncípios fundam
ad es, do , en traba PP. e “h”, Art.
potencialid . Assim sen ação de um 2º, “g”, “h” entais I e II,
nto humano para a realiz e “k”, Art.
desenvolvime importância 9º, Art. 10 e
é de extrema ciedade. Art.
do coaching a so
cuidado com sional está
garantia do ), a(o) profis
psicóloga(o itar seus
co ac hin g, enquanto 00 5), de vendo respe
e, ao exerc
er o
P n. 010/2 tindo que seu
cessá rio ressaltar qu o de Ét ica (Res. CF responsabilidades, garan aldade e da
É ne Có dig com suas da igu
totalidade do e cumprir dignidade, mpre
sujeita(o) à is, conhecer liberdade, da pessoas. Se
fundamenta promoção da de vida das ão,
princípios do no respeito, na r a saú de e a qualidade pre co nc eito, exploraç
sea ve
trabalho sej
a ba ando promo negligência, cas, morais,
ad e do ser humano, vis aç ão nã o caracterize
õe s po líti cas, filosófi
integrid que sua atu o a convicç
romisso de o induzind gênero.
com o comp opressão, nã identidade de
crueldade ou ão sexual e
violência, as, rac iai s, de orientaç
religios l
ideológicas, e profissiona
ponsabilidad
umirá a res taxativa de
e a(o ) ps icóloga(o) ass o realizando previsão isl açõe s
destacar qu amente, nã leg
, é importante ssoal, teórica e tecnic visão em
Além disso caso de pre 001/2009,
capa cit ad a(o) pe fis sio na l, exceto, em Re so luç ão CFP n.
desde que pro da
o o sigilo e orientação
assegurand ntal conform
resultados, istro docume
lizando reg
vigentes, rea
E S TA N T E / M U R A L

ESTANTE

Embates em torno do Crônicas da Resistência


CRÔNI
CAS DA
Estado Laico – fechamos o Vera Cruz

Lançado em meados do Em março de 2018, a im-


RESIS
TÊNCIA
ano passado, durante a 70ª prensa nacional noticiou o
Reunião Anual da Socieda- fechamento do Hospital Psi-
de Brasileira pelo Progres- quiátrico Vera Cruz, em So-
so da Ciência (SBPC), o livro rocaba (SP), onde os quatro FECHAMOS O VERA CRUZ
EDIÇÃO ESPECIAL

organizado por Claudia Ma- últimos pacientes interna- ORGANIZAÇÃO: Luciana Togni de Lima e Silva Surjus
Soraya Diniz Rosa

sini d´Avila-Levy, secretária dos foram transferidos para REALIZAÇÃO:


ABRASME
APOIO:
UNISOL Brasil

da entidade, e Luiz Antô- residências terapêuticas. A


nio Cunha, professor emérito da UFRJ e coordenador vitória da desinstitucionalização daquele que chegou
do GT “Estado Laico”, reúne textos de cientistas que a ser o maior manicômio do Brasil é o tema de Crôni-
apresentam o conceito de Estado Laico e debatem o cas da Resistência – fechamos o Vera Cruz, organizado
impacto da não-laicidade sobre a ciência, a política, o por Luciana Togni de Lima e Silva Surjus Soraya Diniz
ensino, a saúde, as pesquisas biomédicas, a sexuali- Rosa, disponível gratuitamente via internet (http://www.
dade e os direitos das mulheres. A publicação traz ain- unifesp.br/campus/san7/images/ppgbb/ebook_croni-
da anexos como a Declaração Universal sobre o tema cas_das_resistencias.pdf). Autores variados contam,
no século XXI e textos indicados sobre a laicidade do por meio de crônicas e uma coletânea de notícias, uma
Estado no Brasil, disponíveis na internet. O livro está parte da história contemporânea que levou ao cerra-
acessível para download gratuito na página de publi- mento das portas do maior hospício recente do Brasil,
cações do portal da SBPC: http://portal.sbpcnet.org. cuja história é marcada por uma série de violações de
br/publicacoes/tipo/outras-publicacoes/ direitos humanos.

Livro Mais Epilepsia na História do suicídio: a


Psicologia sociedade ocidental
diante da morte
Lançado em setembro de voluntária
2018, durante a realiza-
ção de um workshop sobre Em 11 capítulos, o historia-
Qualidade de Vida: Redução dor francês Georges Minois
do sofrimento psíquico em propõe o debate sobre a
doenças crônicas, na FCM complexidade da temática
- Unicamp, o livro Mais Epi- do suicídio ao longo dos
lepsia na Psicologia” propõe séculos, passando pela
leituras com pressupostos Antiguidade, Idade Média,
teóricos, práticas em psicoterapia no atendimento Renascimento, Revolução
ao paciente com a síndrome e pesquisas na área da Francesa e século XX. Ele
Psicologia que fazem referência a ela. A obra (dispo- busca raízes filosóficas
nível para download no endereço: https://issuu.com/ para compreender as mortes voluntárias, definidas
adciencia/docs/livro-maisepilepsia_final) reúne 15 pelo autor como “um tipo de óbito cujo significado não
artigos redigidos por convidados-autores, todos eles é de ordem demográfica, mas filosófica, religiosa, mo-
psicólogas/psicólogos (e especialistas multiprofis- ral, cultural”. Minois trata, portanto, de um tema que
sionais) pretende contribuir para que doenças neu- nunca deixou de sofrer reprovação social e religiosa
rológicas crônicas como a epilepsia sejam estudadas e, ainda hoje, é tabu, o que denota o emaranhado de
dentro da formação acadêmica dos cursos de Psico- elementos antropológicos, psicológicos e éticos que
logia e em suas respectivas pós-graduações. se associam a ele.

30 Conselho Regional de Psicologia de São Paulo


nº 195 • Fevereiro - Março - Abril • 2019

MURAL

XIV Conpe 4º Fórum


Brasileiro de
Direitos Humanos
O XIV Congresso Na-
e Saúde Mental
cional de Psicologia
Escolar e Educacional Na capital baiana,
(Conpe), organizado Salvador, acontecerá,
pela Associação Bra- de 20 a 22 de junho,
sileira de Psicologia o 4º Fórum Brasilei-
Escolar e Educacional ro de Direitos Huma-
(Abrapee), e pela Uni- nos e Saúde Mental,
versidade Federal de organizado pela As-
Mato Grosso do Sul sociação Brasileira de Saúde Mental (Abasme). No
(UFMG) já tem data e campus Ondina da Universidade Federal da Bahia
(UFBA), trabalhadores, pesquisadores, familiares e
local confirmados: 28
usuários de serviços de saúde mental, estudantes
a 31 de agosto, em Campo Grande. O tema da edição
e autoridades debaterão relações de racismo, vio-
será Educação, Inclusão e Direitos Humanos: Inter-
lência de gênero e conflitos de classe, que estão na
locuções com a Psicologia Escolar e Educacional. O gênese do sofrimento social e psíquico de pessoas
evento se propõe a ser um espaço para discussões, e coletivos.
reflexões e proposições coletivas que subsidiem os O propósito é discutir também ações concretas para
profissionais para encarar os desafios do cotidiano, a garantia de direitos humanos e cidadania, desta-
especialmente nas áreas de Psicologia e Educação cando as estratégias de inclusão pelo trabalho e
Inclusiva. A programação completa será divulgada em pela economia solidária, e os processos de valori-
breve, assim como as diretrizes para participação nas zação das pessoas com experiências de sofrimen-
mesas, simpósios (nacionais e internacionais), apre- to mental que lhes assegurem novos lugares de re-
sentações de pôsteres, fórum de debates, lançamen- conhecimento social. A expectativa é proporcionar
tos de livros e exposições, entre outras atividades. o contato com trabalhos científicos e relatos que
apresentem experiências, no Brasil e no mundo, de
Mais informações sobre o Conpe, que acontece de
grupos e populações em situações de vulnerabilida-
dois em dois anos e reúne mais de 2 mil participan-
de e acometidos por esses problemas, e produzir um
tes – entre pesquisadores, professores, profissionais
diagnóstico crítico sobre esses cenários. Detalhes
e estudantes de Psicologia e área afins, brasileiros sobre inscrições e datas-chave para o evento po-
e estrangeiros – estarão disponíveis no site https:// dem ser consultados no https://www.direitoshuma-
abrapee.wordpress.com/ nos2019.abrasme.org.br

Congresso Internacional de
Educação Especial
e Inclusão Escolar

A Universidade Federal de Santa Ca-


tarina (UFSC) sediará, entre 25 a 27 de
junho, o Congresso Internacional de
Educação Especial e Inclusão Escolar,
cujo tema será Re-imaginando a escola
inclusiva: políticas, práticas e inovações. A programação do evento prevê conferências de convidados nacionais
e internacionais, minicursos, sessões de apresentação de trabalhos e relatos de experiências, lançamento de
livros e atividades culturais. O propósito é abrir espaço para a discussão sobre Educação Inclusiva nos contex-
tos nacional e internacional. Mais detalhes podem ser conferidos no http://cintedes2019.galoa.com.br/

Conselho Regional de Psicologia de São Paulo • 31