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Gabriel Barros:

ST.JOHN
Sob a névoa da morte

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Morte no Farol
“Misterioso caso assusta moradores da região do farol Soethe, há poucos
kilômetros a oeste da pequena cidade de Loupe. Segundo os locais, por volta das 11
horas da noite, gritos vindos do antigo farol Soethe(agora desativado) despertaram
algumas famílias, que contataram as autoridades.

Chegando ao local, os policiais Davys e Lindmer encontraram uma trilha tortuosa de


sangue que os levou até o corpo de Olivia Seymour, adolescente de 15 anos. A causa da
morte permanece um mistério(apesar do sangue espalhado pelo local, a causa da morte
não foi devido a uma hemorragia). O primeiro laudo médico evidenciou a causa como
afogamento, mas esta foi descartada devido às circunstâncias. Novas perícias estão
agendadas ao local.

A jovem, sem nenhum parente vivo, vivia em uma casa de abrigo onde recebia todos
cuidados e moradia. Seu desaparecimento não foi notado, levadas em consideração as
diversas vezes que já havia escapado do lugar para se encontrar com amigos, tarde da
noite.

Até agora, não há suspeitos.”


Jornal local de Loupe. 21 de setembro

Na sala ampla e levemente iluminada por lâmpadas fluorescentes afixadas na


parede, logo acima de um sofá antigo, duas silhuetas esguias harmoniosamente
conversavam sobre a notícia do recente assassinato. Um deles, recostado
confortavelmente em uma poltrona, repousou finalmente a notícia sobre a perna
cruzada.
- É, fiquei sabendo dessa notícia pelo noticiário da TV. Mas, qual seu ávido interesse
nisso? – seu olhar comprovava a curiosidade.
- Ahá! – trinfou o outro, enquanto tirava do bolso outra tira de jornal, levemente
amassada. – Agora leia isso.
- Vamos, leia! – insistiu em resposta ao olhar desanimado.

Saindo de sua posição inerte, o sonolente rapaz pegou a tira das mãos do amigo
e passou a vista sob a notícia – falando sobre o mesmo caso – bem mais curta, desta
vez.

“FAROL ASSOMBRADO assusta moradores próximos a Loupe, na região do antigo


farol Soethe.
A população afirma ter ouvidos gritos e ruídos sobrenaturais vindos do farol, o que
aterrorizou a todos. Minutos depois, com as devidas autoridades no local, um corpo foi
encontrado, vítima de causas inexplicáveis.

O mistério permanece, apesar das autoridades afirmarem ser um caso comum de


demorada perícia. Outros relatos de moradores seguem:

“Eram gritos diabólicos, não eram deste mundo, mesmo com os ouvidos tapados eu
conseguia ouvir eles!”

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“A garota morreu e eles dizem que não há nada lá dentro. Onde está o assassino, então?
Estou com medo de dormir perto deste lugar assombrado...””

A taciturnidade e silêncio do quarto foram rompidos pela gargalhada causada


pelo cômico excerto de jornal. Recuperando o fôlego, o leitor continuou:
- Tudo bem, mas ainda não entendi qual seu interesse, e principalmente o meu,
nisso, Victor.
Victor Varell era seu amigo de longa data. Havia ligado pouco antes com
notíciais ‘promissoras’ para o amigo. Aparentemente, relacionadas com a morte da
jovem.
- A boa notícia – encarava o amigo enquanto falava – A boa notícia é que esse
escritor foi demitido logo após publicar a notícia.
- Não me surpreende – respondeu o jovem sentado.
- E continuamos na estaca zero: o que isso pode ter a ver comigo ou com seus
interesses... – foi interrompido antes que terminasse a pergunta.
- E daí, meu amigo, que agora a vaga está livre. A seção sobre crimes sem
solução, conspirações, sobrenatural e esse tipo de besteira. Eles pagam bem. E com
certeza contratariam alguém que escreva melhor que o antigo cara. Como você. E eu sei
que você está precisando, G.
“G” era um apelido que Vitor lhe havia dado desde a época em que não
precisavam se preocupar com coisas como emprego ou dinheiro e apesar do orgulho
ferido, era verdade. Ele realmente precisava daquilo. Ficara três meses sem trabalhar,
vivendo de freelances pela internet para jornais grandes mas que pagavam quantias bem
pequenas. Mal podia pagar as despesas da casa – grande e dispendiosa, herdada da
família.
Vitor caminhou um pouco pelo cômodo, grande para os parâmetros normais de um
quarto, e continuou:
- Bem, eu conheço o editor-chefe desse jornal. Vou deixar o número para você.
Não o vejo pessoalmente desde a faculdade, mas creio que ainda se lembrará de
algumas ajudas que prestei a ele.
Varell era um advogado bastante conhecido e requisitado principalmente por
grandes empresas ou empresários. Não era de se estranhar que tivesse relações com o
dono de um jornal sensacionalista.
- Diga que eu lhe passei o número e vocês podem discutir os detalhes, se você se
interessar, é claro. Agora eu tenho de ir.
- Reunião! – exclamou apontando pro relógio e saindo sorridente do quarto.
Antes de seguir pelo corredor de decoração vitoriana em tons rubros e dourados,
levemente iluminado, deixou o cartão mencionado numa mesa no quarto.
Até mais. Se despediu em pensamento, devido a pressa do visitante.

Duas horas depois, o cartão, que havia permanecido intocável, passou pelas
mãos e pelos olhos castanhos do escritor.

“Marco Brëmem. Jornal Notícia.


16-353 983”

Fitou o número, pensativo, durante alguns minutos e depois discou.

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- ...não interessa, não vamos pagar mais do que combinamos. – o fim de uma
conversa não muito amigável podia ser ouvido antes que o editor atendesse
efetivamente a ligação.
- Editor chefe Brêmem, quem quer falar? – uma voz firme desafiou.
- Ahn.. Victor Varell me deu este número. Disse que tem uma vaga pra quem
souber escrever.
- Varell, é? Tudo bem. Tenho uma folga daqui meia hora, me encontre na
Cafeteria Lafaiete. A propósito, qual seu nome? – indagou antes de encerrar a chamada.
- Gabriel. Gabriel Saint John.

A velha cidade de Loupe


Erguida por viajantes há cerca de seis séculos, a cidade de Loupe era uma
mancha na pequena região montanhosa de Folsom. Região essa de relevo acidentado,
com suas estradas, interligando rotas de acesso à cidades, passando entre declives e
montanhas antigas, esculpidas muito antes de qualquer cidade sonhar em ali ser
fundada.
A primeira construção a ser avistada, ainda na rodovia, era a capela desocupada,
próxima a um cruzamento que levava a uma entrada de terra. Este, por sua vez, ligava a
rodovia a uma das entradas da zona rural da cidade. A capela já havia outrora sido o
centro religioso de Loupe, porém, com o crescimento do centro comercial da cidade, a
necessidade de um lugar de oração e fé mais próximo dos moradores veio à tona, e a
velha capela perdeu seu lugar para a catedral construída no centro da cidade, cercada
pelas ruas Lafaiete e Independência, e pelas ruas Liberdade e Arcádia.
Avançando pela entrada principal da cidade – logo após avistar a grande placa de “Bem
vindo a Loupe – Seu oásis da civilização” – começavam a surgir as primeiras moradias
e logo a cidade se desenhava em um complexo emaranhado de ruas, avenidas e
travessas.
Apelidada de Oásis pelos marketeiros da cidade, visando incentivar o turismo,
por ficar em uma região montanhosa onde o clima é bem seco se comparado com outras
regiões mais próximas dali, o que não faltava em Loupe eram albergues, pousadas e
hotéis. Dos mais luxuosos aos com os preços mais acessíveis possíveis. Continuando,
duas avenidas se destacavam em meio ao tabuleiro quadriculado tortuoso no qual as
ruas da cidade se desencadeavam. Eram Independência e Liberdade. Seguindo pela
primeira, toda sorte de estabelecimentos comerciais podia ser encontrado, desde lojas de
um e noventa e nove até grifes famosas.
Próximo dali, seguindo pela Rua Lafaiete até o número 123, letreiros em
tipografia moderna indicavam o nome Cafeteria Lafaiete. Ali, sentado num dos bancos
ao lado da janela, Gabriel esperava o editor-chefe com quem falara anteriormente. O
encontro estava atrasado vinte minutos.
Há alguns quilômetros, porém, em uma das inúmeras montanhas ao norte da cidade, um
outro encontro, muito mais importante, acontecia.

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Encontros
- Você veio, obviamente. Desculpe tirá-lo de seus afazeres, Pedro, julgava não
ter de chamá-lo tão cedo.
- Não se sinta culpado, Paulo. Não é como se você tivesse me obrigado a vir. Eu
sei tão bem quanto você a urgência da situação. Ozaias já me contou que que está perto.
Pedro e Paulo eram duas figuras bem peculiares, ainda mais levando em
consideração onde se encontravam.
Sobrevoando a região montanhosa de Folsom, passando pelo relevo acidentado
que precedia a chegada às rodovias principais, se erguia uma cordilheira monumental,
apelidada pelos nativos de Grande Escudo, provavelmente graças a seu formato, e assim
ela era chamada até hoje. Passando pelo Grande Escudo, indo rumo à Loupe, se erguia
um conjunto de montanhas menores, com poucos metros de altitude, mas que ainda
assim, incomumente recebiam a visita de pessoas. Quanto mais dois senhores de meia-
idade trajados rigorosamente com seus ternos alinhados, numa reluzente cor branca.
Pois lá estavam Pedro e Paulo.
A conversa desenrolava-se na mais hamoniosa velocidade, evidenciando o
companheirismo ali existente. Os olhares, afiados como de águias, dificilmente perdiam
seu foco: ou seu interlocutor, ou a distante região de Loupe e Hudson, onde também se
localizava o fatídico Farol Soethe.
- Paulo... – iniciou, desta vez em um tom mais sombrio, Pedro. – você sabe que
isto está além de nossos esforços. Devemos apenas observar.
- Não se preocupe, meu velho amigo, não se preocupe... – pela primeira vez o
olhar desviara de seu alvo e perdera-se em memórias de um passado distante, reavivadas
pelas palavras proferidas.
O silêncio inundou as já silenciosas por natureza montanhas, e se não fosse o
barulho causado pelo atrito dos finos sapatos de Pedro, que agora andava até o amigo,
qualquer um juraria que ali não havia ninguém.
Chegando próximo a beira do precipício adiante, Pedro chegou a companhia do
amigo, tocou-lhe o ombro em sinal de algo que talvez somente ambos poderiam saber, e
lançou um olhar certeiro sobre o “Oásis civilizado”.
- É muito especial, não é mesmo? Sem dúvida um achado e tanto.
- De fato, Pedro. Infelizmente, como você mesmo lembrou, o que podemos fazer
é observar. E rezar, com certeza, para que nos lembremos positivamente destas datas.
E então, como se a instabilidade e receios em suas palavras emanescem de suas
cordas vocais direto para a atmosfera, e com isso causasse o pranto celeste, as nuvens
incomuns àquela época eclodiram em uma chuva repentina. A água escorria por entre as
fendas do colossal Grande Escudo, assim como percorria o árido e montanhoso solo das
montanhas e montes adjacentes, incluindo àquela onde há poucos instantes se
encontravam os visitantes ilustres que por hora já haviam se retirado.
Em instantes, o mesmo estrondo pôde ser ouvido e a chuva notada graças aos
primeiros pingos e a queda de temperatura, ali na levemente movimentada Rua Lafaiete,
para onde os olhos fixos de Gabriel St. John apontavam.
A rua era larga, não muito diferente do resto da cidade, e em sua extensão era
possível admirar construções modernas, com estabelecimentos coroados com letreiros
luminosos, vitrines por onde se podiam observar roupas e outros produtos. As calçadas
abrigavam os trabalhadores que iam e voltavam de seus trabalhos, e os consumidores
que passavam pela avenida comercial. Agora, poderia ser comparada a uma pista de
corrida onde o prêmio era tomar menos chuva possível.

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Para chegar até ali, Saint John percorrera uma dúzia de quarteirões, passando por
um dos bairros residenciais de Loupe, para em seguida chegar as grandes avenidas e
prosseguir para o centro comercial, onde se concentrava aquele movimento.
A visão foi atrapalhada por uma dor aguda que atrevessou a cabeça de Gabriel,
que levou instintivamente as mãos à cabeça, e massageou logo acima do nariz, entre os
olhos.
De novo, essa maldita dor de cabeça...
Diagnosticadas na infância como algo crônico, aquelas dores de cabeça nunca
abandonaram a vida de St.John, embora nunca tivessem sido tão freqüentes como
estavam se tornando ultimamente. Provavelmente resultado da alimentação porca e de
noites mal dormidas.
Quando a começou a desaparecer, o escritor abriu os olhos, voltando a encarar a
claridade.
Observara o pomposo carro modelo Azera estacionar do outro lado da rua, e
esperou até que seu dono – aquele com quem marcara o encontro – atravesse correndo,
escapando do aguaceiro, a rua.
Finalmente chegou.
O tilintar do acessório esotérico da entrada da cafeteria denunciou sua entrada.
Não que fosse necessário, o homem já fazia saberem de sua presença sem a necessidade
de qualquer som. Cerca de um metro e oitenta, e com certeza acima do peso, o editor
vestia um casaco preto sobre uma camisa pólo amarela. Os cabelos ralos convergiam
para sua testa, acompanhando o movimento da chuva que acabara de tomar.
- Droga de chuva! Só cai quando você está na rua. – resmungou, num tom
familiar aquele empregado no telefone.
Olhou ao redor, buscando o jovem escritor que para ele havia ligado, e
encontrou-o a alguns metros de distância, sentado, esperando o encontro.
- Saint John? É esse o nome, certo? – aproximou-se e antes de qualquer
comprimento foi-se sentando, ficando cara-a-cara com o jovem.
- Sr.Brêmem, obrigado pelo encontro tão imediato. Victor me avisou sobre a
vaga. – disse, tentando parecer educado.
- Não pense que me deve muito, jovem, eu apenas não tinha nenhum
compromisso mais importante. – falou, com humor, deixando escapar um sorriso
irônico.
Gabriel apenas concordou com a afirmação, aceitando a brincadeira e
continuando o assunto:
- Bom, eu não tenho problemas quanto a horários ou locais, então acho que
cumpro todos requisitos da vaga. Só preciso saber se a vaga ainda está, realmente, de
pé. – falava seguro de si.
- Claro, rapaz, claro! – exclamou o editor, ainda incomodado com as roupas
molhadas, que agora retirara o casaco e o deixara secando ao lado. – Quanto ao
pagamento, bem...esta é uma seção secundário do jornal, então não espere ganhar muito.
Gabriel, na verdade, já esperava por isso. Era óbvio que, mesmo em um jornal
de fama sensacionalista, uma seção no mínimo paranóica como aquela deveria ser
deixada em segundo plano. Questionou o valor certo, e recebeu a resposta sem rodeios.
É o bastante para eu me sustentar.
Era mesmo o bastante, embora não fosse muito.
- Olá, vão querer algo? – era a garçonete, oferecendo seus serviços,
educadamente.
- Dois cafés, por favor. – o editor chefe pediu pelos dois, e iniciou um discurso
rápido e direto, sobre o novo caso em que colocaria St.John.

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O discurso que discorreu, no entanto, era praticamente de total conhecimento do
agora jornalista. Tratava-se do caso do farol Soethe. O mesmo caso que levou a
demissão do antigo funcionário. Mais tarde, no meio da conversa, Brêmem revelou que
a demissão ocorreu porque o rapaz exigia um aumento devido aos possíveis riscos
daquele tipo de investigação. Absurdo para o editor, logicamente.
Após alguns minutos de conversa, o editor havia recapitulado tudo que tinha
adquirido dos fatos com as reportagens lidas: A jovem, Olivia, fugiu da casa de abrigo
onde residia sem ninguém dar-se conta, rumou para o farol abandonado, provável local
de encontro dos jovens fujões, e ali encontrou seu triste destino. Sem testemunhas, sem
pistas efetivas. Assim como havia lido anteriormente.
-Certo, então continuarei de onde o antigo jornalista parou? – meio que afirmou
St.John, mas esperou uma confirmação.
- Exato. Antes de tudo pegue isto. É um cartão de identificação do jornal. Não
tem sua foto ainda, mas é provisório.
E aí está minha coleira.
Gabriel recebeu o cartão, e fazendo uso do cordão ao qual estava afixado, o
colocou em seu pescoço, escondendo-o sobre a camiseta, onde agora dividiria espaço
com os três pingentes que o jovem sempre usara desde que os recebera: um em formato
de triângulo, outro em um formato que ligeiramente lembrava uma corrente de
formações militares, e por último, uma cruz cristã com uma oração delicadamente
inscrita em auto-relevo. Todos parte de sua herança.

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