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DALE – 2020

Sessão 19 de março de 2020

Autora:
Liz Philipose, Departamento de Estudos “das Mulheres” (Women's Studies), California State
University Long Beach. Professora de políticas internacionais, feminista, trabalha pelos direitos das
mulheres em níveis local, nacional e internacional. Foco inicial em estudos sobre guerras, crimes de
guerra, tribunais internacionais e usos da tortura. Compreender o que torna a violência possível para
saber o que torna a paz possível. Incorpora espiritualidade e misticismo em suas elaborações sobre
feminismo.

Texto:

“The Sacret, the Transnational and the Pedagogical Self: Reading Pedagogies of Crossing”

“O Sagrado, o Transnacional e o Eu Pedagógico: Lendo Pedagogias da Encruzilhada”


(tradução livre1)

O texto é fruto de apresentação realizada pela autora em junho de 2007 na Conferência Anual da
Associação Nacional de Estudos das Mulheres (Women's Studies). No texto ela vai refletir a
respeitodos estudos sobre as mulheres/feministas/de gênero a partir do livro de Jacqui Alexander,
“Pedagogies of Crossing” (cuja introdução é objeto de nosso grupo na sessão de hoje também).
Philipose opta por dialogar com Alexander por dentro do texto, utilizando não apenas as ideias
centrais abordadas pela autora na obra, mas trazendo suas palavras e frases para dentro de sua
escrita.

Fora do Armário (parte 1)

A autora destaca a importância da contribuição de feministas transnacionais, negras, anti-


imperialistas, migrantes e de mulheres “de cor” de diversas localidades (da América do Norte*2
1
O resumo foi elaborado a partir de tradução livre do texto original em inglês para o português.
2
Embora a autora use a expressão “América do Norte” ao longo do texto, seria bom no DALE usarmos “Estados
Unidos” (e tb “estadunidenses”).

1
ao leste e oeste da Europa, da América Central, do Caribe até Sul e Leste da Ásia e além) para a
compreensão de que enormes conquistas (como a liberdade) podem acontecer às custas da
escravização de outros(as) e a contradição entre ser “democrático” em casa e intervencionista
fora.

Ela chama a atenção para o fato de que, a despeito de tais contribuições, a área de “estudos das
mulheres” nos EUA ter se consolidado nas universidades à margem de tais reflexões, focando
sobretudo no limite da nação e em preocupações internas/ nacionais.

As práticas imperialistas ficariam, portanto, escondidas em um “armário analítico”.

Uma visão centrada na fragmentação identitária reproduz a ideia de que mulheres “de cor” (não-
brancas) realizam estudos sobre a sua realidade enquanto as “feministas globais” a partir da sua
realidade; e os centros de estudos queer realizam estudos sobre a sua realidade o que significa que
aquelas que não se encaixam ocupam o espaço do silêncio dentro do “universal”.

É nesse contexto que Pedagogies of Crossing dá diversas ideias para desfragmentar o fragmentado,
produzindo metodologias feministas que simultaneamente desvendam o imperialismo e constroem
comunidades positivamente políticas, particularmente cultivando a consciência de mulheres “de
cor”.

Levando em conta que os estudos feministas/de gênero estão em encruzilhadas cruciais, Philipose
se coloca (e nos coloca) algumas questões:

− O que significa ser feminista nesse momento do império?


− Como podemos atualizar as práticas feministas que desafiam, em sua raiz, as violências do
neoliberalismo e militarismo contemporâneos?
− Para onde vamos com as ideias de décadas de teorização feminista?
− Em que portas batemos pela compensação de conhecimento e de justiça?
− Onde é o centro do poder imperial e como revelamos seus efeitos perniciosos e
desumanizantes?

De acordo com Philipose, Alexander sugere que um centro crucial do poder imperial, e o lugar de
onde feministas podem começar a desvendar a desumanização do legado e das estruturas

2
contemporâneas de dominação é DENTRO DE NÓS. Essa ideia é central para ambas as autoras
(Philipose e Alexander) e é elaborada ao longo da apresentação da primeira a partir das
contribuições da segunda.

“Nós seríamos, portanto, micro “encarnações”/”personificações” do pergaminho*3 do aqui e do


agora e do lá e do antes, com resíduos físicos do projeto imperial; subjetividades forjadas em
circunstâncias que implicaram que divisões e hierarquias e exploração são apenas como as coisas
são, e como as coisas sempre têm sido; e a encarnação de conhecimentos culturais que nos fizeram
separar emoções de política, Espírito de ativismo, e eu do Outro e da comunidade. Sendo assim, a
consciência da mulher “de cor” não é restrita a essas mulheres. Ao contrário, é a consciência a ser
cultivada através de nosso compromisso de viver em conjunto com os outros: ‘Nós não podemos
deixar de desejar a companhia um do outro’” (269).

Jacqui Alexander, “Way-Shower” (parte 2)

Alexander em Pedagogias da Encruzilhada será aquela que vai mostrar a trilha deixada por outras
mulheres (como Audre Lord, Lata Mani, Leela Fernandes, Gloria Anzaldua e Thich Nhât H'ahn,
entre outras) compartilhando suas ideias, análises e teorias para explicar as complicações das
relações sociais e políticas contemporâneas/ históricas dentro do poder estrutural do capitalismo,
colonialismo, heteropatriarcado, neoliberalismo e império.

A opção de Alexander em sua obra não foi descrever técnicas de sala de aula, mas “modelar uma
disposição pedagógica”, sugerindo que encaremos a sala de aula como um espaço Sagrado, onde
um certo número de almas é confiado aos nossos cuidados, para onde vêm o mais aberta e
transparentemente possível (8).

Alexander, em diálogo com outras autoras, sugere que a própria existência seja uma série de
momentos de oportunidades e espaços pedagógicos. Sua reflexão crítica a manutenção de fronteiras
entre sagrado e secular, encarnado e desencarnado (“embodied/disembodied”), sugerindo que o
pessoal não é apenas político, mas também espiritual. Sugere também que todo momento oferece
uma oportunidade de ensinar o que mais precisamos aprender e de desvendar, transgredir, romper
3
“Palimpsesto” designa um pergaminho ou papiro cujo texto foi eliminado para permitir a reutilização. Tal prática foi
adotada na Idade Média, sobretudo entre os séculos VII e XII, devido ao elevado custo do pergaminho. A eliminação do
texto era feita através de lavagem ou, mais tarde, de raspagem com pedra-pome.

3
conceitos e práticas herdadas para que possamos contribuir para o fazer possível, diferentes e novas
conversações, ambos na nossa própria psique e em relação com outros(as).

Para Philipose não se trata de uma adoração de tudo o que é espiritual, mas um cuidadoso
reconhecimento de que, nos últimos 500 anos, dividimos coisas que pertencem umas às outras, que
estão conectadas.

Ela destaca que há elementos do feminismo transnacional que revelam um certo espiritualismo ou
anseio espiritual que é central no seu (de Alexander) argumento sobre subjetividades neoliberais.

− desejo de se auto-definir
− ser liberada de restrições sociais que limitam nossos talentos e dons
− ser liberta de categorizações e difamação institucional
− ser vistas e compreendidas como personalidades individuais
− o desejo de criar comunidades que acolhem nosso crescimento.

(Esses seriam elementos que refletem o anseio espiritual)

A autora critica um iluminismo teórico que cria um ideal de humano como autônomo enquanto
evoca um anseio intrínseco de reconciliação do indivíduo com a comunidade, do humano com sua
humanidade, do indivíduo com seu coletivo oceânico.

“Todos os elementos com os quais os feminismos têm se preocupado – incluindo,


transnacionalismo, gênero e sexualidade, experiência, história, memória, subjetividade, e justiça –
estão contidos na metafísica que usa o conhecimento Espiritual como mecanismo de tornar o
mundo inteligível”. (15)

O sentido de espiritual de Alexander é construído a partir de cosmologias africanas, ensinamentos


budistas e sua criação católica – ela evoca a espiritualidade intrínseca à humanidade, as
qualidades essenciais do ser, não apenas materiais, físicos e intelectuais, mas também seres sociais,
emotivos, existenciais e Sagrados – para Philipose, Alexander não está propondo apenas uma
releitura do feminismo ou dos estudos das mulheres, mas está nos chamando a revisitar grandes
questões sobre o propósito da existência humana no imperialismo neoliberal, ou seja, prestar
atenção no “projeto epistémico e ontológico ligado ao estado de ser” nele mesmo. (7)

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O neoliberalismo esvazia o conteúdo de tudo que é reconhecido como humano – as feministas
também sentem esse esvaziamento, a dificuldade crescente de imaginar como o ativismo se
configura quando somos produzidas como sujeitos neoliberais; e pensando sobre quem é
considerada(o) humano enquanto preocupação do feminismo transnacional e feminismo das
mulheres “de cor” - que nos chama a considerar o espiritual e o poético.

Um feminismo transnacional precisa de pedagogias do Sagradopor várias razões, porque a maior


parte das pessoas do mundo – ou seja, “a maioria das mulheres no mundo – não podem fazer
sentido de si mesmas sem ele” (15) – críticas sobre as faces da hegemonia – não levam
automaticamente a ter mapas para uma vida interior, para redefinir a gramática da mente ou ajustar
o Espírito... Esses mapas precisam ser desenhados”(325) – Pedagogia do Sagrado oferece uma
imediata e transnacional forma para atravessar o neoliberalismo presente ao invés de se preocupar
com ele e sucumbir às suas seduções vazias (Osuri, 2007).

Racionalidade Neoliberal

A autora retoma características do neoliberalismo (ou como é usualmente caracterizado): fase


particular do capitalismo, a última fase, conduzida pelas agendas dominantes dos EUA e
instituições que foi globalizado através de agências como FMI e Banco Mundial e adotado por
muitos estados como forma de adquirir e manter competitividade na estrutura financeira global. -
“Racionalidade de mercado”.

Governamentalidade – Michael Foucault e Giorgio Agamben – autoras(es) que trabalham a partir


deles focam nas relações de governo e no ethos da governamentalidade, a forma de disciplina que é
a que distintamente ordena e é ligada à democracias liberais.

Governamentalidade– captura e ideia de uma forma de governo e poder modernos que regulam
corpos e indivíduos através de processos de disciplina, normalização e vigilância remota. As
operações de poder ficam “escondidas” daquelas e daqueles que são seu objeto.

Governamentalidade – contém em si um conceito de humano – uma vez que as subjetividades são


moldadas em modos neoliberais, não é mais necessário controlar ou intervir diretamente ou
manipular indivíduos – como sugere Foucault, nós nos tornamos sujeitos que se autopoliciam, o que

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inclui a interiorização da ilusão de sermos indivíduos que podem escolher livremente – o feminismo
tem consciência disso – mulheres agem, mas não nas condições que escolhem agir.

Racionalidade neoliberal não se restringe ao mercado (Wendy Brown); se tornou a principal


racionalidade política da política, a expressão central das comunidades políticas e éticas. A política,
assim como todas as esferas da vida humanas, está submetida à racionalidade de mercado (são
feitos cálculos sobre o que se lucra, competitividade em quadro de escassez, responsáveis solitários
de nossos sucessos, fracassos e mediocridades)

Nosso sentido de EU é também nosso sentido do que acreditamos ser verdade sobre ser humano. O
neoliberalismo não é apenas o capitalismo tardio e suas instituições, mas também as formas de
moldar nosso sentido de EU e dos outros e nosso sentido de o que significa ser humano.

A tarefa de forjar coletividades de resistência nessa configuração é enorme – nos levar de volta à
disposição pedagógica de ensinar o que eu mais preciso aprender e exigir que nós “religuemos os
sentidos” (308).

Neoliberalismo produz o déficit espiritual que constrói o anseio espiritual que Alexander evoca ao
longo de seu livro.

O Palimpsesto* do Imperialismo

Por que conceito de palimpsesto em Alexander? CAMADAS SOBREPOSTAS

- significa “raspado novamente”, refere-se à prática de raspar textos do pergaminho para escrever
novo texto; texto anterior ainda pode ser visível através do novo texto e antigos pergaminhos são
legíveis com o uso da luz ultravioleta.

- capturar o sentido do imperialismo que tem simultaneamente uma história presente e longa para
revelar, sugerindo que agora que os EUA não podem mais negar as pretensões imperialistas do
Estado, surge a oportunidade de revisitar as histórias mais longas do imperialismo nas quais
muitas feministas encontram-se engajadas há muito tempo.

- imperialismo é um palimpsesto no sentido de que práticas hegemônicas do estado hiper-

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militarizado dos EUA de hoje vincula-se àquelas práticas cujas histórias são da euro-colonização e
racialização.

- reprodução de relações coloniais dentro das fronteiras dos EUA (com populações nativas,
imigrantes, pessoas “de cor” e classe trabalhadora) + conjunto de relações externas com Porto Rico,
Havaí, Ilhas Virgens e Guam – ambos conjuntos de relações que se sobrepõem e convergem para
criar uma configuração peculiar do imperialismo que é paralela e entrelaçada com o
neoliberalismo, ou seja, “Capital hiper-concentrado que é difundido em economias
locais/globalizadas com consequências desiguais em termos de gênero e classe” (citando Alexander,
234, que dá diversos exemplos de como se expressam nos diferentes territórios/ populações).

- com o conceito de palimpsesto Alexander propõe que se comece a armarcamadas de disposição


pedagógica não apenas camadas de histórias simultâneas, mas também camadas de geografias
simultâneas; já que tanto espaço quanto tempo são centrais para conceitualizar “coletividades que
podem prosperar fora do domínio da morte hegemônica” (309).

A Prática da Justiça Social

Construímos essas palavras (mundos) de dominação na nossa existência cotidiana, nenhum


espaço, até os radicais, está imune à interiorização de sistemas de dominação.O neoliberalismo, o
império e as estruturas de dominação são encarnados e vividos; portanto, o local em que os
desfazemos está dentro de nós como seres sociais e corporificados.

A prática da justiça é central na ideia de uma vida espiritual. Por isso Alexander propõe criar
coletividades baseadas na justiça: “questão muito mais difícil” é das “posições políticas [...] que
passamos a praticar, e não apenas defendemos” (272). A criação da subjetividade feminista
sagrada e a conjuração de coletividades futuras livresda hegemonia são atualizadas através da
vivência de valores e ideais sagrados no momento presente, onde quer que estejamos. Devemos
trazer a para o presente, praticando-a no aqui e agora. Alexander reitera anecessidade de
conscientizar o desejo de estar bem, de ser curado e de imaginar uma “revolução capaz de curar
nossas feridas” (277).

“É através da prática que chegamos a imaginar novos modos de vida e novos modos de ser que
sustentam essas visões” (93); e como ação engajada, a prática nos permite engajar “no nível mais

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profundo e espiritual de significado em nossas vidas. É assim que constituímos nossa humanidade
”(279). Ainda para Alexander: “o espiritual é vivido no mesmo local em que as hierarquias são
inventadas e mantidas socialmente" (310).

Respondendo ao argumento de que a experiência é puramente secular e de que o Sagrado nos


remove do social, Alexander argumenta que o espiritual é vivido em um domínio social, no sentido
em que fornece conhecimento cuja destilação é indispensável à vida cotidiana”(295-96); o
espiritual é tão social quanto o político e o pessoal.

Ao fazer a subjetividade sagrada, por meio da prática material e incorporada, em conjunto


com uma visão de justiça, os indivíduos são atraídos para a “matéria viva que nos liga, fazendo
com que o indivíduo seja simultaneamente coletivo” (326).

“Somos todos habitantes deste mundo” (107): todos temos uma participação no projeto de tornar o
mundo inteligível para nós e para os outros. Alexander: “não há outro trabalho senão o trabalho
de criar e recriar a nós mesmos no contexto da comunidade” (283).