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O método clínico e sua utilização na pesquisa*

Margareth Diniz**

Resumo: Há uma tensão entre conhecimento e saber, em sua dimensão


consciente e inconsciente e não é muito comum em pesquisas acadêmicas a
descrição dos percalços pelos quais passam os/as pesquisadores/as ao decidir
efetivar uma investigação científica. Geralmente, apresentam à comunidade
acadêmica um produto acabado, no qual não aparecem as dificuldades em
levar uma pesquisa até o seu curso final. Não ousam falar das angústias na
construção tanto do problema de pesquisa, quanto de uma possível solução
para o problema que se colocam, deixando a impressão de que realizar uma
pesquisa não é tão difícil assim, basta ter a capacidade para atender às
exigências objetivas que se interpõem, não considerando os aspectos
subjetivos que causam ao pesquisador/a inúmeros embaraços.
Palavras-chave: Pesquisador, Método clínico, Relação com o saber.
Abstract: A strive is located between knowledge and knowing, in its consious
and unconsious dimention it is not very common in academic research to
describe all troubles that researchers go throught when they decide to get a
scientific research implemented. Generally, the academic community presents
an in-box product witch all the difficulties leading its research course untill its
completion. They avoid in not to speak about the anguish and
"disapointments" regarded both construction and research trouble process as
well as a possible trouble shooting as they appear, giving the "how easy" a
scientific research can be, requiring only the capability need to suply all the
objective demands that show up, not considering the subjective aspects that
might cause to the researcher such many embarrassments.
Key words: Researcher, Clinical method, Relationship with knowledge

* Este artigo decorre da tese de doutorado intitulada: “O método clínico na investigação da relação com o
saber para quem ensina: a tensão entre conhecer e saber”, de DINIZ, Margareth. FAE-UFMG. 2005. BH.
** MARGARETH DINIZ é Professora Adjunta de Psicologia da UFOP.

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1. Método clínico, pesquisa, A teoria construtivista no campo
subjetividade, relação com o saber educativo também buscou considerar o
erro como parte da construção do
A Psicanálise é uma teoria que se conhecimento, quando detectou que a
construiu considerando os erros e acertos criança passa por etapas da construção
de Freud. Os casos estudados por ele são do pensamento em relação à aquisição da
considerados fracassados do ponto de leitura e da escrita. Esta teoria
vista da cura; no entanto, ele não os estabeleceu uma outra relação com o
escondeu ou os negligenciou, fazendo erro e a aprendizagem, e a relação entre
parte de sua construção teórica; é a partir ambos, o que era desconsiderado pelas
de suas reflexões sobre os casos clínicos teorias que antecederam o viés
que ele tece a teoria psicanalítica. Lacan, sociointeracionista.
ao realizar uma releitura freudiana, Quanto à produção do conhecimento
também se propõe a entender o cerne da considerado científico, este ocorre à
experiência freudiana, a qual, segundo margem dos sujeitos que o produzem,
ele, não se transmite somente em sua devido à complexidade que se coloca
teoria. Ele nomeia como letra de Freud quando consentimos nos
aquilo que, no texto dele, se inscreve da atravessamentos inconscientes que o
experiência freudiana. Para ele, não se perpassam. As pesquisas de mestrado e
trata de gravar as palavras, os conceitos doutorado, quando chegam ao termo de
de Freud, em “letras de ouro”. Lacan sua produção, nos parecem alheias aos
quer saber o que permite a uma sofrimentos, alegrias, percalços, idas e
psicanálise ser psicanálise, o que a vindas na construção do objeto de
condiciona, o que a determina. Isso pesquisa, nas saídas encontradas pelo
implica em enfrentar, no que é pesquisador/a em sua trajetória de
transmitido desde Freud, as arestas de pesquisa, como de resto, na produção de
seu pensamento e não somente o brilho conhecimento. Não se trata aqui da
teórico. Para ele: suposta neutralidade do pesquisador,
pois já consentimos há muito tempo que
transmitir um modo de investigação
os conhecimentos objetivos são
do emprego do poder da fala e da
linguagem não significa ensinar perpassados por pressupostos teóricos,
somente conceitos. Trata-se de filosóficos, ideológicos ou axiológicos,
transmitir também os problemas nem sempre explicitados. As ideologias
gerados por esta investigação subjacentes às opções teóricas e
(LACAN, 1998, p. 243). metodológicas são muitas e caso o/a
pesquisador/a seja experiente, conseguirá
Lacan comenta que a teoria freudiana distingui-las em sua investigação,
sobre a cura pela fala não amedronta os inclusive problematizando-as.
analistas posteriores a Freud: “É das Sabemos que as pesquisas hegemônicas
dificuldades de Freud que eles mostram ou reconhecidas pelos pares no interior
pavor”. As bordas da ação analítica do campo1 científico não têm destacado
deixam marcas na teoria freudiana que
apreendemos somente com o próprio
1 Os campos, de acordo com Bourdieu (1997, p.
movimento da investigação de Freud em 27) são os lugares de relações de força que
torno de seus impasses. Para esse autor, a implicam tendências imanentes e probabilidades
definição de letra de Freud é aquilo que, objetivas. O campo é definido por ele (1997, p.
como marcas dos impasses, se inscreve 20) como um espaço relativamente autônomo,
mas dotado de suas leis próprias. O campo
da experiência freudiana.
literário, artístico, jurídico ou científico, isto é, o

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os aspectos subjetivos que atravessam a sobre resultados, mas sobre os
pesquisa, para além dos aspectos processos de criação dos conceitos e
ideológicos aqui citados. Pouquíssimas teorias científicos, nos quais ele
produções científicas se debruçam sobre descobre a marca forte do
inconsciente e da singularidade
a interferência de aspectos subjetivos que
aparentemente alheia ao território da
atravessam essas produções. Não há
razão.
muitos relatos acerca dos avanços,
recuos, ensaios que perpassam a Dessa forma, é possível afirmar que
investigação e, conseqüentemente, não alguns elementos que atravessam a
há uma consideração de que esse produção científica podem ser
processo pode ser causador de nomeados, e há outros que nos
sofrimento, como cita Bourdieu (1997, p. atravessam e que não conseguimos
73): nomear, embora saibamos que estejam
presentes. Podemos fazer opção por
A vida científica é extremamente
dura. Os pesquisadores estão ignorá-los, pois enfrentá-los nos coloca
expostos a sofrer muito e eles em uma posição desconfortável,
inventam uma porção de estratégias remetendo-nos a uma sensação de
individuais destinadas a atenuar o estarmos mal colocadas no campo
sofrimento. (...). Os coletivos de científico, pelo menos aquele
reflexão permitiriam abordar e tratar considerado legítimo pela maioria de
essas questões de frente. (...) Sob o nossos pares, o qual acredita no
risco de parecer ingênuo, diria que distanciamento absoluto do pesquisador
haveria um lugar para coletivos de e da pesquisadora de seu objeto de
testemunhos de sofrimento pesquisa.
científico. Eu lhes asseguro que há
material. Para além de uma disputa de posições
No presente artigo, busco elucidar que a teóricas, ou do estabelecimento de uma
construção do conhecimento não passa verdade, interessa-me elucidar que tanto
ao largo do que experimentamos ao o processo de pesquisa, quanto o produto
realizar uma pesquisa. Em função da final alcançado pelo/a pesquisador/a
minha formação em Psicanálise, não é sofrem percalços, exigindo, de saída, um
possível desconhecer, para além da envolvimento de ordem racional e
problemática subjetiva nomeável, a emocional com o objeto de pesquisa e
complexidade da realidade psíquica em seguida um necessário
inconsciente que interfere no campo distanciamento, evidenciando assim uma
científico como resistência à tensão entre conhecimento e saber ou
objetividade. Márcia Bacha (2002, p. 29) antes, entre objetividade e subjetividade.
afirma que em Bachelard encontramos Considerar o conhecimento como
elementos considerados revolucionários objetivo (se encontra disponível na
no campo epistemológico, quando o cultura, de forma sistematizada e
autor trabalha no que ele chamou de legitimada, para quem queira apreendê-
“obstáculo epistemológico”: lo e transformá-lo) e o saber, além de
A começar pelo seu objeto de uma dimensão objetiva (que se pode
investigação: sendo histórico, o perceber quando o sujeito toma para si o
racionalismo aplicado não reflete conhecimento e o transforma), contendo
também uma dimensão inconsciente (que
universo no qual estão inseridos os agentes e as
o move ou o paralisa na sua produção ou
instituições que produzem, reproduzem ou apreensão do conhecimento), é consentir
difundem a arte, a literatura ou a ciência. que, tanto a produção do conhecimento

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científico, quanto a sua transmissão parcialmente, os movimentos que
através dos processos educativos, estão perpassam a construção de um
permeadas por nossas fantasias, mitos, conhecimento, estando em parte, a
resistências, nem sempre passíveis de serviço de crenças e valores, e de
elucidação. Embora nos seja muito fantasias, nem sempre conscientes a
difícil operar com uma lógica que priori, e que a verdade científica é
considere a incidência do inconsciente na sempre parcial, incompleta, inacabada e
cultura, e conseqüentemente no campo não total como o pensamento humano
educativo, não me é possível anseia tão profundamente.
desconhecê-la, nem como professora,
nem como pesquisadora. Egberto Ribeiro Turato (2003, p. 235)
afirma que, a rigor, a medicina grega é a
É o método clínico que considera o fonte historicamente remota de métodos
processo e o produto que permitirá o clínicos de pesquisa, ressaltando que foi
exercício de nos colocarmos em duas nesta época, há cerca de 20 séculos, que
posições: uma em que há mistura com o detentores de conhecimentos
objeto de estudo e uma outra posição em sistematizados acerca do que afligia o
que observamos como ocorreu essa bem-estar do indivíduo tornaram-se
mistura, buscando descrevê-la observadores qualificados, tendo estes
objetivamente e não a escamoteando, fenômenos então passados a ser
como pretendem muitos teóricos. considerados no campo do natural.
2. O método clínico: como defini-lo? De maneira mais geral, a perspectiva
O método que permite o envolvimento clínica evoluiu tanto a partir das
do/a pesquisador/a com seu objeto de concepções diferenciadas de ajuda,
pesquisa e que não está inicialmente definida conforme se trate de trabalho
pronto, tem uma aproximação com o que social, de profissões paramédicas, de
faz o clínico, aquele que se “debruça religiosos e de psicólogos, quanto a
sobre o paciente”, sendo o paciente partir do momento em que outras
“qualquer ser humano que queremos disciplinas nas ciências humanas, a
conhecer” (CASSORLA, 2003)2. O Sociologia, a Antropologia, a
método clínico é definido por André Psicossociologia, nela se fundamentaram
Lévy (2001, p. 28) como um método que com preocupações e contextos
permite a abordagem do outro, nas diferentes, bem como com o trabalho
relações interindividuais e nas relações analítico, que coloca o sujeito em
sociais. É também uma démarche ativa posição de palavra, dirigindo-se a um/a
de pesquisa e de intervenção, que analista que não se permite qualquer
considera os valores e as posições ação a seu respeito e que recusa, para si
subjetivas no trabalho científico, além de mesmo, toda posição de dominação, se
permitir explicitar a relação do sujeito destacando completamente do típico:
com o saber. “diagnóstico, prognóstico, prescrição” da
medicina, destacando a análise das
Ao operar com o método clínico,
relações transferenciais e
devemos considerar que esta perspectiva
contratransferenciais no centro do
permite apreender, ainda que
processo, estabelecendo a clínica como
2 Ainda que a pesquisa se utilize do método “uma conduta e uma ética da verdade”.
clínico, é preciso não confundi-lo com a análise
propriamente dita. Embora ambas partam do
A Psicanálise, considerando sua
discurso do sujeito, a pesquisa não visa uma epistemologia e seu método, possibilita
intervenção terapêutica. operar com elementos inconscientes

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também no campo da pesquisa e no realidade, no caso, psíquica, não
campo do ensino e da aprendizagem, abordável de outra maneira3.
permitindo construir um conhecimento Levando em consideração as
que considere os elementos
contribuições do paradigma indiciário, os
inconscientes que o atravessam. Como
elementos que compõem a chamada
traduzir em um método os elementos que
pesquisa que utiliza o método clínico,
escapam à consciência? É a démarche
situam-se na relação do/a pesquisador/a
clínica que permite considerar que o
com o objeto de pesquisa e no
imaginário, a intuição, o trabalho
deslocamento dos eixos da pesquisa dos
inconsciente, a atividade de
produtos para os dispositivos de sua
posicionamento e elaboração de sentidos
produção reconhecendo que o produto da
estão presentes nas pesquisas acadêmicas
pesquisa contém em si uma parte de
e nos processos de ensino e
desconhecimento: todo e qualquer
aprendizagem. Para Françoise Hatchuel
dispositivo de pesquisa só poderá
(2005, p.13), a elucidação da relação do
funcionar com as “zonas cegas” (o/a
pesquisador/a com o seu objeto de pesquisador/a irá lidar com elementos
pesquisa é considerada como um
nem sempre nomeáveis, de ordem
instrumento essencial de conhecimento,
inconsciente considerando assim os
pois parte do princípio que a
obstáculos que se interpõem no decorrer
triangulação entre o inconsciente, o
da pesquisa).
material recolhido e a teoria é que
permite compreender os elementos a que A seguir tratarei do primeiro aspecto
se visa em uma situação dada. buscando apresentar a concepção de
sujeito, bem como os conceitos de
implicação e transferência/resistência
como elementos fundamentais para
elucidar a relação do/a pesquisador/a
De saída, podemos afirmar que um dos com o objeto de pesquisa, buscando
objetivos da pesquisa com o método conhecê-lo e avaliá-lo a partir de seus
clínico é o de construir um saber que próprios limites: perguntar é situar-se
permita aos pesquisadores/as trabalhar entre o que se sabe e o que não se sabe.
seu objeto de pesquisa e elucidar o que Nesse movimento de instaurar perguntas,
“se arrisca” na relação entre ao invés de tentar responder a todas elas,
pesquisadores/as e objeto de pesquisa, o o/a pesquisador/a nutre o seu desejo de
que só é possível a partir de indícios. saber.
Carlo Ginsburg (1989) escreveu sobre o
paradigma indiciário ou semiótico sob o
qual podem ser situados os trabalhos de
investigação de Sherlock Holmes, 3 Esse paradigma afirma que “quando as causas
Peirce, Dupin e Freud. O modelo não são reproduzíveis, só resta inferi-las a partir
epistemológico que emergiu dos efeitos” (GINZBURG, 1989, p. 147). O
paradigma indiciário apresenta como
“silenciosamente” no âmbito das características os seguintes pressupostos:
ciências humanas, no final do século Conjecturalidade do conhecimento: negação da
XIX, destaca que a Psicanálise seria transparência da realidade; Busca da
subsidiária deste paradigma, uma vez singularidade inimitável (e não de uma unidade
que se norteia na elaboração de suas generalizável); O reconhecimento da incerteza
(nó epistemológico) e de outras formas de saber
hipóteses, em detalhes triviais não legitimadas e a instauração de uma outra
considerados insignificantes, mas que dimensão para o rigor científico que passa a ser
resultam ser indícios reveladores de uma um “rigor flexível”.

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3. A concepção de sujeito requerida consciente que pode dizer “eu penso”,
pelo método clínico “eu sou”, porém figura aí apenas como
representação de si mesmo e de sua
A discussão sobre o sujeito aqui adquire
verdade e o sujeito da enunciação que é
uma nuance importante, pois, para o
o sujeito do inconsciente, o sujeito na
método clínico, o sujeito não se
vertente de seu desejo, que é oculto de si
confunde com o indivíduo. O ponto de
mesmo pela dimensão da linguagem. O
partida da teoria do sujeito em
sujeito é concebido como estando
psicanálise, que podemos nomear como
implicado nas estruturas da linguagem, o
o “sujeito do inconsciente”, é, sem
que comporta dois aspectos: “Tanto é
dúvida, freudiano: “Que o ser do sujeito
pelo fato que a linguagem preexiste à
seja partido ao meio, Freud não fez
entrada que o sujeito faz nela, quanto o
senão repeti-lo sob todas as formas”
sujeito, para falar, tem de ‘pedir
(ORNICAR?, 1984, p.29) . Freud, ao
emprestado à linguagem’ seu suporte
introduzir o conceito de inconsciente,
material, a letra” (LACAN, 1998, p.225).
descentra o sujeito e subverte a
concepção de subjetividade dominante Enfim, na relação analítica, o sujeito é o
nos séculos XVII e XVIII, que encontra que está em jogo enquanto relação de
na psicologia clássica, proposta pela palavra, onde a verdade fala à revelia
filosofia cartesiana, sua principal daquele que se pensa autor de seus
referência teórica. propósitos. Uma análise se apóia na
De acordo com Lacan (1985) a associação livre, isto é, no convite a um
Psicanálise inova ao apresentar um trabalho de suspensão das determinações
sujeito dividido: ao produzir o conceito significantes e das satisfações pulsionais,
de inconsciente, opera uma inversão no dirigindo seus esforços no sentido de o
saber existente, a de que a subjetividade sujeito verificar a possibilidade de poder
está posta apenas no plano da razão. ser diferente daquilo que se apresenta
Como conseqüência, ocorre a divisão da como sendo da ordem da necessidade,
subjetividade, que, a partir de então, não caminhando em torno de seu desejo.
pode ser mais entendida como una, mas Esse trabalho analítico, que só pode ser
bipartida em sistemas: o inconsciente e o empreendido a partir da implicação do
consciente. A razão é considerada apenas sujeito, envolve um movimento que
como um efeito de superfície em relação Freud nomeou como recordar, repetir e
à luta interna que domina esses sistemas. elaborar. Somente assim, como sujeito
E a consciência passa a ser vista não colocado em trabalho, e não como objeto
mais como lugar da verdade, porém do de um saber, é que ele poderá fazer
ocultamento, da ilusão, da distorção. emergir sua singularidade.

Essa divisão vai produzir uma ruptura A pesquisa acadêmica que se dispõe a
entre o dizer e o ser: advém dessa utilizar o método clínico não despreza a
concepção a inversão da máxima análise da relação entre o/a pesquisador/a
cartesiana proposta por Lacan: “Penso e seu objeto, entendendo que o desafio
onde não sou, sou onde não me penso”. científico da pesquisa clínica é o trabalho
Isso muda a perspectiva cartesiana no que consente com a exposição e a
que diz respeito à transparência do interrogação do/a pesquisador/a na
discurso e à unidade do ser que o produção de um conhecimento.
sustenta.
O método clínico busca construir uma
A Psicanálise divide o sujeito em sujeito ciência do singular, fazendo incidir o
do enunciado, como aquele do discurso sujeito da enunciação no campo

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científico, que tenta excluí-lo. Ao mesmo Nesse ponto, um trabalho em torno da
tempo em que a ciência exclui o sujeito, linguagem, na linguagem e com a
para Jefferson Machado Pinto (1999), a linguagem é de suma importância. O
Psicanálise, como campo de saber, método clínico é capaz de permitir o
enfatiza sua dimensão científica, a partir acesso ainda que parcial ao sujeito do
de dois argumentos de Lacan. Em inconsciente. Para tal, destaco dois
primeiro lugar, o argumento que afirma conceitos fundamentais no método
que a Psicanálise está internamente clínico. O de implicação, que será
condicionada pelo discurso da ciência, e tratado a seguir, e o de
que, por isso mesmo (e aqui está o transferência/resistência que será tratado
segundo argumento), opera sobre um adiante.
sujeito instituído pela ciência moderna.
4. A relação do/a pesquisador/a com o
Tal sujeito estrutura a experiência
objeto de pesquisa: a implicação
analítica e confere a ela sua
cientificidade. A relação pesquisador/a-objeto é
nomeada como implicação. No dizer de
Luciano Elia (2000, p.32) ao comentar
Eloísa Santos (1991), a partir de um
os Escritos Técnicos de Freud, lembra
conjunto de estudos que investigam a
suas recomendações acerca da
pesquisa clínica, a noção de implicação é
psicanálise:
um termo “polissêmico por excelência”,
Em sua estrutura metodológica, a mas é possível identificar uma referência
clínica não é o lugar de aplicação de constante a Freud e Lacan nos diversos
saber, mas de sua produção, o que temas desenvolvidos por eles. Os estudos
significa que, havendo produção de de Devereux (1980) propõem uma
saber, há necessariamente condições
reflexão sobre a transferência e a
para a prática clínica, uma vez que o
saber produzido, não tendo caráter
contratransferência a partir de sua
especulativo, foi gerado a partir de experiência na Etnologia, assim como no
uma experiência na qual o sujeito movimento crítico que esta sofreu nos
está necessariamente implicado. anos 1950 ─ onde a posição de soberania
do observador foi severamente criticada
Com o intuito de explicitar as formas ─ lhe permitindo tomar os elementos que
pelas quais o objeto de pesquisa e o/a irão demonstrar a interação entre o
pesquisador/a interagem, as pesquisas observado e o observador. Devereux
que utilizam o método clínico buscam procura na Psicanálise sua epistemologia
conhecer os fenômenos subjetivos que e seu método de investigação do homem
perpassam o processo de pesquisa, cuja sobre ele mesmo como possibilidade de
identificação é tida como fundamental análise da implicação do/da
para o/a pesquisador/a aceder à pesquisador/a com seu objeto de estudo.
objetividade. Não que todos esses Como ponto de partida, ele toma
elementos precisem ser explicitados no emprestado a Freud o conceito de
momento de socialização para a transferência e o de contratransferência,
comunidade acadêmica, mas o fato de entendendo esta como “a soma total das
o/a pesquisador/a ter acesso aos deformações que afetam a percepção e as
elementos que lhe causam angústia em reações do analista a respeito de seu
relação ao seu tema de investigação, bem paciente”. A partir do conceito de
como o que causa interesse em pesquisar contratransferência, Devereux vai
determinado tema, faz diferença na demonstrar que “há uma reciprocidade
condução e na direção de uma possível entre o observador e o observado, o que
descoberta. faz com que o observado seja também

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observador do observador que não está Já um outro conjunto de estudos coloca
mais ao abrigo no seu posto de em primeiro lugar a pesquisa de si: o
observador”. sujeito, no processo de pesquisa, está
sempre em busca de si mesmo, e seu
Para Eloísa H. Santos (1991, p.18), a objeto é um espelho. O objeto de
análise da interação entre o observado e pesquisa é o sujeito investigando a si
o observador, onde cada um dos dois é, mesmo. A noção de contratransferência é
ao mesmo tempo, observador para aqui confirmada: “O inconsciente do
consigo mesmo e sujeito para o outro, é pesquisador, manifesto sob esta forma
fundamental para evitar erros estéreis no chamada contratransferência, vai
processo de conhecimento. A análise da produzir um ponto cego, ou catarata, na
contratransferência permitirá cercar e pesquisa, alimentando-a e conduzindo-a
trabalhar as deformações nascidas do em direção a uma descoberta possível”
fato de que o/a pesquisador/a está (ASSOULY-PIQUET, 1986).
emocionalmente implicado com seu O último conjunto de estudos é
objeto de estudo, com o qual ele/ela se constituído pelos trabalhos cuja opção
identifica. Segundo Devereux (apud pelo tema da pesquisa clínica ou não está
Santos, 1991, p. 18), para se proteger clara ou constitui uma tentativa de
contra a angústia que a identificação com demarcar ou de estabelecer as relações
seu objeto de estudo provoca, o/a com a implicação. Nesses estudos
pesquisador/a deforma as informações (AVRON, SAMALIN-AMBOISE,
provenientes dele por “omissão, KOHN, 1986), a implicação pode ser
colocação em surdina, não-exploração, entendida como equivalente aos
mal-entendidos, descrição ambígua, conceitos de contratransferência, ou ser
sobrexploração ou remanejamento de compreendida como um modo de
certas partes”. Para a pesquisadora a reflexão subjetiva, estando na origem de
subjetividade deve ser trabalhada e, de um processo de produção de
certa maneira, tratada não como um conhecimento ou, mesmo, ser entendida
obstáculo à compreensão, mas como um como equivalente à própria pesquisa
fenômeno presente no processo de clínica.
conhecimento.
Além da referência à obra de Devereux e
aos autores-pesquisadores do
Um outro conjunto de estudos se refere à Laboratório de Psicologia Clínica da
tomada em conta da singularidade do Universidade de Paris VII, ao trabalhar o
sujeito. Eloísa H. Santos (1991, p. 23) se conceito de implicação, tomamos como
refere a Bourguignon (1986), que afirma referência a obra de René Lourau (1988)
que o essencial da pesquisa clínica é destacando nele uma dupla
definido pelo fato de que ela se interessa característica: suporte para analisar a
“pela singularidade e pela totalidade de implicação do pesquisador e instrumento
um sujeito, tomando simultaneamente de pesquisa citando o diário como
em conta seu funcionamento psíquico, dispositivo que visa explicitar a relação
seu modo relacional, a história de vida, entre o texto, o extratexto (diário mais ou
os acontecimentos exteriores”. O valor menos íntimo) e o paratexto (prefácio,
científico da pesquisa clínica se expressa notas, censuras)4.
no rigor do/da pesquisador/a que não
exclui os obstáculos e as incertezas que
aparecem no seu processo de produção 4 Lourau, apud Eloísa H. Santos (1991, p. 30),
refere-se aos diários de Malinowski, Ferenczi,
de conhecimento.
Wittiguenstein, Gide, Leiris, Mead, Condominas,

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Sendo singular, todo diário é também “a os fenômenos inconscientes – desejos,
singularidade da relação e da análise da sintomas, identificações inconscientes –
relação do pesquisador com seu objeto em relação a si próprio enquanto
de pesquisa”. Santos (1991, p. 31) afirma pesquisador/a, e, posteriormente, em
que, para Lourau, o diário permite relação aos sujeitos investigados, dando
colocar em dia o trabalho de criação com lugar aos fenômenos projetivos,
suas angústias, suas contradições, suas identificatórios, transferenciais que se
ambivalências, suas incertezas, seus interpõem ao longo da pesquisa.
prazeres e desprazeres, suas idas e
vindas, suas inquietudes, seu desalento, Trabalhar com uma metodologia de
pesquisa clínica, portanto, pressupõe a
seu tédio, seu entusiasmo, suas
interrogações. O diário deixa aparecer as implicação do/a pesquisador/a, bem
como do/a orientador/a na investigação
condições reais da coleta de dados e por
do referido objeto. De acordo com
esse intermédio ele assegura um espaço
Mosconi (1994, p. 5):
ao leitor, a outros pesquisadores
potenciais. A passagem do extratexto ao se eu me interrogo sobre o que me
texto, a elaboração teórica, opera leva a aprofundar-me em minhas
escolhas que podem não ser as de seus pesquisas desde que eu (...) as
leitores. Ele permite ao leitor passar atrás iniciei, eu diria que é, antes de tudo,
do cenário, passar para os bastidores e, o desejo de compreender o que
assim, julgar com ou apesar do autor. aconteceu comigo.

Diniz, (2005) estabelece uma relação O trabalho empírico e teórico


entre as formas pelas quais essa noção é apresentado, nomeado como produto
apropriada, de um lado, por Devereux, (dissertação ou tese), é concebido como
que faz dialogar diferentes áreas do uma das dimensões de elaboração do
conhecimento com a psicanálise, e, de saber do inconsciente, embora de saída
outro, por Lourau, no campo da análise consintamos que este saber é da ordem
institucional e assim define de um enigma e de um semi-dizer,
“implicação”: portanto nunca poderá ser totalmente
explicitado. Eis um primeiro paradoxo
ato ou efeito de implicar(-se); do conhecimento científico que pretende
implicância; o que fica implicado ou
dominar o real, tornar-se total e
subentendido; (...) relação entre duas
ou mais coisas ou idéias, pela qual universal.
uma não poderá ser dada ou A pesquisa que se utiliza do método
afirmada sem que estejam dadas ou clínico tem como eixos, até agora
afirmadas as outras; relação de
explicitados, uma concepção de sujeito
antecedência e conseqüência entre
fatos ou proposições (FERREIRA, dividido, além da noção de implicação;
1995, p.746). faz-se necessário que entre em cena o
conceito de transferência/resistência.
Para a pesquisadora, a explicitação de
alguns elementos subjetivos e como eles 5. A transferência/resistência
atravessaram o processo de investigação A transferência é necessariamente
devem ser analisados procurando cercar ocasionada no tratamento psicanalítico,
mas podemos assinalar que esse
Morin, Favret-Saada, Bernoux, Motte, Goux e fenômeno também está presente em
muitos outros autores, analisando-os do ponto de
vista da relação entre o texto, o extratexto (hors-
outras situações que envolvem a relação
texte) - diário mais ou menos íntimo) - e o entre sujeitos, pois a transferência não se
paratexto (prefácio, notas, censuras). dirige à pessoa, mas ao “lugar” que ela

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ocupa ou ao que ela representa no explicado se levarmos em consideração
discurso. O conceito de transferência foi suas relações com a resistência.
utilizado por Freud em seu artigo A
interpretação dos Sonhos, escrito em Em Além do Princípio do Prazer, texto
1900, para explicar como os desejos de 1920, Freud afirma que a resistência
inconscientes se apoderam de provém do eu porque a liberação do
lembranças do dia anterior (restos recalcado provoca desprazer. Aqui
diurnos), para revesti-las de novo começa a figurar a repetição, que em
sentido. Assim, os desejos inconscientes uma de suas vertentes pode ocorrer como
podem se exprimir mantendo-se defesa, provocando o fechamento das
mascarados. manifestações inconscientes; na outra
vertente, a repetição pode promover a
Para Miller (1978, p. 51), a transferência abertura, quando possibilita a elaboração
é a atualização da realidade do de antigas vivências a partir da relação
inconsciente. Na análise, a transferência com o outro.
tem seu valor porque permite ver o
funcionamento de um mecanismo Para Lacan (1985), existe abertura à
inconsciente na própria atualidade da transferência pelo fato de “que o
sessão. Mas o que deve ser destacado paciente se coloca em posição de se
aqui é que a transferência na análise, ao entregar à livre associação. Coloca-se na
mesmo tempo em que promove uma posição de buscar a verdade sobre si
abertura do inconsciente, promove mesmo, sobre sua identidade, sobre seu
também seu fechamento. A transferência verdadeiro desejo”. Onde busca a
surge como a resistência mais poderosa verdade? Busca-a diz Lacan, no limite de
ao tratamento. O conceito de resistência sua palavra, e o limite de sua palavra está
está presente desde o início da obra de no analista enquanto grande Outro,
Freud (1895) e diz respeito às forças que ouvinte fundamental que decide a
impedem o acesso ao inconsciente, efeito significação. É por isso que o silêncio do
do recalcamento. Na clínica é possível analista é fundamental, não devendo ele
verificar facilmente a resistência. O satisfazer a demanda do/da paciente:
sujeito quer se analisar, mas não quer: “Quem sou eu? Qual é o meu desejo?”
ele sofre, mas não quer sair disto; ele
Essas características da transferência não
sabe que deve falar tudo, mas não fala;
devem ser atribuídas à psicanálise, mas
ele sabe de seus horários de sessão, mas
sim à própria neurose. O tratamento
não vai; ele acha que se falar de algumas
psicanalítico procura rastrear a libido que
coisas, o analista não vai mais gostar
se encontra longe da realidade e é
dele, aí o sujeito mente, engana...
inconsciente, tornando-a sensível à
Assim, a transferência no tratamento consciência, enfim, útil à realidade.
analítico, invariavelmente nos aparece, Quando as investigações em análise
desde o início, como a arma mais forte tocam esse ponto da libido, está fadado a
da resistência, e podemos concluir que a irromper um combate: todas as forças
intensidade e persistência da que fizeram a libido regredir erguer-se-
transferência constituem efeito e ão como resistências ao trabalho de
expressão da resistência. Ocupamo-nos análise, a fim de conservar o novo estado
do mecanismo da transferência quando o de coisas. A repressão que se estabeleceu
remontamos ao estado de prontidão da no sujeito, das pulsões inconscientes e de
libido, que conservou imagos infantis, suas produções, deve ser removida
mas o papel que a transferência liberando a libido. A resistência
desempenha no tratamento só pode ser acompanha o tratamento passo a passo.

18
Cada associação isolada, cada ato da Na pesquisa que considera os obstáculos
pessoa em tratamento tem de levar em que se interpõem à construção do
conta a resistência e representa uma conhecimento para além dos objetivos
conciliação entre as forças que estão (sociais, econômicos, outros), muitos
lutando no sentido do restabelecimento e fantasmas inconscientes assolam essa
as que se lhe opõem. Se acompanharmos condução. O desafio é fazer do obstáculo
agora a trajetória de um sintoma até sua um aliado, que “naturalmente” se impõe
raiz no inconsciente, logo perceberemos na concretização de uma pesquisa.
que a resistência se faz sentir tão
claramente que a associação seguinte O conhecimento que se constrói levando
tem de levá-la em conta e aparecer como em conta o inconsciente não é só um
uma conciliação entre suas exigências e conhecimento do eu sobre o
as do trabalho de investigação. inconsciente; ele é também um
conhecimento que se adquire por meio
Sabemos que é no momento em que o do inconsciente, a partir da incidência de
sujeito se surpreende barrado, no fantasias, identificações, resistências.
momento em que se vê atrelado a um Um conhecimento que se adquire por
sintoma que, embora habitando nele, é- meio do inconsciente é também um
lhe estranho, no momento que seu conhecimento que tem que enfrentar as
sofrimento lhe causa angústia, é nesse resistências que necessariamente vão
momento que ele se vê na contingência aparecer ao longo do caminho, como
de saber disso. Mas o que a Psicanálise dizia Guimarães Rosa (1976): “o real
irá afirmar é que não há saber anterior não está na saída nem na chegada: ele se
que fale àquele sujeito sobre sua dispõe para a gente é no meio da
verdade. Também o/a analista entra travessia”.
nesse jogo com seu desejo e o que ele
tem a oferecer são suas palavras. O/a
analista também tem em seu discurso 6. Considerações finais: tecendo a
essa dimensão de saber e de não-saber. É relação com o saber
esse mecanismo que constitui a ética da
psicanálise: o sujeito entra no dispositivo Ao pesquisador/a cabe buscar articular o
analítico desejando regras para sua ação conceito de sujeito dividido, a noção de
e obtém a ética de seu desejo. Começa a implicação e o conceito de
análise ignorando seu saber, supondo transferência/resistência, entendendo que
que o/a analista tenha o saber sobre ele, e esses conceitos interagem quando se
obtém um saber de sua ignorância. pretende configurar a posição do sujeito-
pesquisador/a na relação com o seu
E como operar com a
objeto. Além disso, deve considerar que
transferência/resistência em relação à
suas motivações são complexas e
construção de um conhecimento
conflituosas, conscientes e inconscientes,
científico? Marcia Neder Bacha (2002, p.
e interferem no seu interesse e no seu
63) afirma, a partir dos pressupostos de
dinamismo em torno da pesquisa, nos
Bachelard, que:
levando à noção de relação com o saber.
(...) isso que resiste ao trabalho do
pensamento é também o seu motor. Ao tomar o saber em sua dupla dimensão
O obstáculo que bloqueia seu consciente-inconsciente e considerar o
conhecimento pode ser também a sujeito dividido por essa dupla dimensão,
sua condição, caso seja submetido a podemos entender essa noção como um
uma análise ou, em termos operador que facilita analisar a tensão
bachelardianos, a uma retificação. existente entre conhecer e saber, tanto no

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campo da pesquisa como no campo do uma resposta que ofereceria ao sujeito o
ensino e da aprendizagem. Se o acesso ao saber sobre sua origem.
conhecimento é o que se mostra Portanto, as teorias que tentam responder
disponível na cultura, a partir de ao enigma da origem esbarram num
sistematizações de pesquisas e estudos limite, na impossibilidade de se produzir
legitimados pela academia, o saber um saber total, pois não é possível
comporta uma dimensão consciente que responder de maneira satisfatória a todas
se nomeia a partir da apropriação de um as perguntas que surgem. As respostas
sujeito desse conhecimento disponível, para as dúvidas existenciais são sempre
mas também uma dimensão inconsciente parciais, “não-todas”; há sempre um
que pulsa e sustenta a apropriação, mas ponto onde o sujeito não encontra
que nem sempre é passível de nomeação. respostas, o que o impulsiona à pesquisa.
Essa dimensão de não-saber move o O sujeito é marcado pela finitude e pela
sujeito, a causa, sem que incompletude, marcado por uma falta
necessariamente o sujeito possa se constitutiva, que é também constitutiva
apropriar dela. do desejo.
Assim, é possível afirmar que o saber É a falta que impulsiona o sujeito a
sobre as origens está sempre mais ou buscar, no social e no cultural, respostas
menos na origem do saber. E é à medida para o que não tem como ser respondido.
que o par parental possibilita à criança A Psicanálise afirma que não é possível
fazer hipóteses sobre o que ele próprio preencher a falta com o saber. Sempre
não sabe, que coloca para as crianças a haverá um resto como impossível de ser
tentativa de construir um saber que faça alcançado. Esse resto move o sujeito,
borda a esse furo que é de estrutura, numa busca interminável. Nessa
tentando significar essa falta estrutural, perspectiva, o saber tem uma relação
essa questão leva a criança a com o desejo, com o “não-todo”, com a
problematizar sua própria existência. falta, não sendo possível identificá-lo
Como sujeito, ela é diretamente com a verdade. O saber nunca recobre a
confrontada com o enigma, num verdade.
momento em que, começando a falar na Assim, a partir da Psicanálise, só
primeira pessoa, a criança ainda não tem podemos ter acesso ao real por meio de
recurso. Portanto, é nesse momento da ficções, já que a linguagem tenta dizer o
entrada na linguagem, em que a criança é real, mas não o apreende de forma
confrontada com a questão crucial sobre absoluta. Não temos como saber da
sua origem, ou “de onde vêm os bebês?”, verdade absoluta, como uma verdade
que surge também uma insaciável sede pura, por trás da ficção. Ou seja, a
de saber. Essa sede de saber é ressaltada verdade se inscreve a partir do que
pelo adulto quando este produz uma dizemos. Não há um saber verdadeiro,
resposta de tipo científico, na qual ele que dê conta da verdade toda. Saber e
próprio não está implicado. Se, ao verdade se tecem continuamente, e são
contrário, ele tenta se implicar, surge seu sempre parciais. Então, para Lacan, o
próprio embaraço diante da que se denomina saber é uma posição em
impossibilidade de dar conta de seu ser relação à ignorância. Ele afirma que é a
sexuado. paixão pela ignorância que deve guiar
Nenhuma explicação responderá à nossa relação com o saber. Paixão pela
criança sobre o desejo particular que ignorância não quer dizer paixão por
precedeu sua vinda ao mundo, nada saber, mas estar mobilizado pelo
produzindo-se aí uma falta em lugar de que não se sabe.

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Entendo que utilizar a noção de relação FERREIRA, A.B.H. Novo Dicionário da
com o saber como operador que permite Língua Portuguesa. Rio de Janeiro: Nova
Fronteira, 1995.
transitar nessa tensão conhecer-saber é
muito importante para o campo FREUD, S (1976). Interpretação dos sonhos. Ed.
Standard Brasileira, Obras Completas. Rio de
científico, pois teremos que considerar a
Janeiro: Imago, v.IV.
parcialidade das respostas encontradas,
bem como o saber de que algo sempre GINZBURG, Carlo. Mitos, emblemas, sinais:
morfologia e história. São Paulo: Companhia das
escapa à nossa compreensão, letras, 1989.
consentindo assim que a dimensão
simbólica não recobre o Real, mas é a HATCHUEL, Françoise. Savoir, Apprendre,
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