Vous êtes sur la page 1sur 29

AINDA USAMOS ESTAS PALAVRAS?

Inquérito

https://tinyurl.com/ybg8ehvs
> Enquadramento
Contextualização do estudo

O Inquérito “Ainda Usamos Estas Palavras?”, realizado pelo Plano Nacional de Leitura 2027 para
comemorar o Dia Mundial da Língua Portuguesa, pretende promover uma reflexão sobre a temática da
mudança linguística.

A ideia de realizar esta experiência teve como objetivo saber se às baixas frequências de ocorrência de
27 palavras do Corpus de Referência do Português Contemporâneo, do Centro de Linguística da
Universidade de Lisboa, corresponde um baixo uso atual dessas palavras entre os falantes das várias
faixas etárias.

Esta apresentação mostra alguns resultados da sondagem realizada mediante o pedido de resposta à
população, entre os dias 23 e 30 de abril, a três questões relativas a cada uma das 27 palavras:

1. Conhece esta palavra?


2. Se Sim, costuma usá-la?
3. Se Sim, tente encontrar um sinónimo.
O que é a mudança linguística?

É comum observar-se a surpresa dos jovens ao ouvirem ou lerem palavras usadas pelos mais velhos,
palavras que esses jovens afirmam não conhecer, da mesma forma que os mais velhos se surpreendem
face a novas palavras que começam a usar-se ou a novos sentidos atribuídos a palavras que os não
tinham.

Isto deve-se ao facto de as línguas não serem entidades estáticas, mas, pelo contrário, entidades vivas
que, como tal, estão em constante mutação. Além disso, as línguas também não são homogéneas, isto é,
não são faladas do mesmo modo por todos os seus utilizadores, devido a diversidades geográficas, sociais,
etárias, profissionais e a muitos outros fatores que o diferenciam, entre os quais também as suas
intenções de comunicação, e que dão origem à chamada Variação linguística.

Com este inquérito, quisemos fazer uma pequena experiência sobre Mudança linguística, mais
concretamente sobre Mudança lexical.
O que é a mudança linguística?

Chama-se Mudança linguística à alteração de sons, palavras, construções sintáticas e valores semânticos
que se vão dando numa língua, ao longo do tempo, ou seja, num plano diacrónico. O seu estudo é feito no
âmbito da História da língua, disciplina que descreve essas alterações.

A inovação que se vai registando nas línguas deve-se, tal como a variação no seu uso, a múltiplos fatores
de natureza social, económica, psicológica, entre muitos outros. Assim, Variação e Mudança linguística
estão estreitamente relacionadas.

O aspeto mais rapidamente observável nas mudanças linguísticas é o lexical, pois as mudanças sintáticas e
semânticas levam mais tempo a "instalar-se" numa língua. Contudo, convém dizer que mesmo as novas
palavras que ouvimos ou lemos (quer sejam formadas dentro da própria língua quer sejam de origem
estrangeira) podem ter um carácter passageiro, devido a uma moda que rapidamente se perde. Assim, só
devem ser consideradas como verdadeiras inovações lexicais introduzidas na língua, e como tal registadas,
por exemplo nos dicionários, aquelas que são aceites por toda uma comunidade linguística que passa a
utilizá-las correntemente, e que perduram no uso de uma forma constante.
> Metodologia
Para a elaboração do Inquérito, foi tida como base a frequência de palavras, isto é, o número de vezes
que uma palavra (vocábulo ou forma vocabular) ocorre num corpus, no presente caso, o Corpus de
Referência do Português Contemporâneo (CRPC), e a observação de dicionários.

Corpus de Referência do Português Contemporâneo


O CRPC, um recurso criado e desenvolvido pelo Centro de Linguística da Universidade de Lisboa, é um
vasto corpus eletrónico da variedade europeia do Português e de outras variedades (Brasil, Angola, Cabo
Verde, Guiné-Bissau, Moçambique, São Tomé e Príncipe, Goa, Macau, Timor-Leste). Contendo 311,4
milhões de palavras, este corpus abrange diferentes tipos de textos escritos (literário, jornalístico, técnico,
etc.) e de registos orais (formal e informal).

O subcorpus escrito do CRPC (309 milhões de palavras) pode ser pesquisado online e subpartes do corpus
encontram-se disponíveis no catálogo ELRA.
Dicionários

Os dicionários usados foram dois, um dirigido à população escolar, Dicionário da Língua Portuguesa,
Editorial Verbo, e outro dirigido ao público em geral, Dicionário Infopédia da Língua Portuguesa (em linha),
Porto Editora.

Primeiro, pesquisaram-se no CRPC palavras com diversas frequências, selecionando-se, em seguida, uma
Lista de vinte e sete palavras de muito baixa frequência, iniciadas pela letra A (Quadro 1).
Lista de palavras
Palavra Nº de ocorrências Distribuição por nº

no Corpus (Frequência) de textos do Corpus


Abeberar 21 14
Abelhudo 17 16
Acanhar 23 23
Acoli 5 5
Adejante 5 5
Afreguesado 12 12
Amarrotar 26 21
Amesendar 14 13
Amicíssimo 9 9
Amolador 23 19
Angra (nome com.) 8 8
Anichar 73 68
Animalejo 7 6
Apaparicar 40 35
Apessoado 19 18
Aplainar 46 45
Arrebicar 20 20
Arrebique (nome) 26 26
Arrepanhar 51 37
Arrulhar 47 23
Artilhado 46 46
Ascoroso 9 8
Aselha 16 14
Aselhice 12 8
Atilado 39 36
Auspiciar Quadro 1. Lista de palavras 19
do Inquérito 18
Azafamado 19 16
Quadro 1. Lista de palavras do Inquérito
Dicionários

Passou-se, depois, à procura, em ambos os dicionários, das palavras que compõem a Lista, com a
intenção de verificar se estas palavras neles estão registadas, ou não, e se neles são referidas marcas de
uso.
Palavra Aceção Marca de uso
Acoli Coloquial, jocoso
Amolador 2. Brasil – que molesta
Anichar 2 vb tr, vb. pr Coloquial
Animalejo 2 Figurado, pejorativo
Apaparicar 2 Figurado
Arrebique 2 Figurado, pejorativo
3 Figurado

Arrulhar 2 Figurado
Artilhado 2 Figurado
Aselha Adj. Coloquial
Aselhice Coloquial

Quadro 2. Palavras da Lista que constam do Dicionário infopédia da Língua Portuguesa [em
linha], Porto Editora, com marcas de uso

Concluiu-se que todas as palavras constam do Dicionário Infopédia da Língua Portuguesa [em linha],
Porto Editora, havendo, em dez, informação sobre marcas de uso para alguma das aceções.
Dicionários

O Dicionário da Língua Portuguesa, Editorial Verbo, não inclui onze das palavras listadas, contendo
apenas a marca de uso “Familiar” para a palavra “aselha”.

Abeberar

Acoli

Adejante (mas tem "adejar")

Amesendar

Animalejo

Apaparicar

Apessoar

Arrebique (mas tem "arrebicar" que consta do inquérito)

Artilhado (mas tem "artilhar")

Ascoroso

Auspiciar (mas tem auspício e auspicioso).

Quadro 3. Palavras da Lista que não constam do Dicionário da Língua Portuguesa, Editorial Verbo
Tratamento dos dados

No início do Inquérito, foi pedida a seguinte informação: idade, sexo, localidade de residência e tempo
de residência.
Obtiveram-se 2011 respostas válidas (v. Quadro 4), para cujos dados foi feito o seguinte tratamento:
- validação das respostas – eliminação de respostas duplicadas e respostas de teste;
- limpeza dos dados das idades e criação de variável de 'faixa etária’, criando 6 categorias:
7-10, 11-15, 16-21, 22-35, 36-55 e mais de 55 anos (*);
- limpeza dos dados do tempo de residência;
- limpeza dos dados sobre residência através da criação de variáveis ‘distrito’ e ‘região’-
região com base nas regiões NUTS II (Nomenclatura de Unidades Territoriais II);
- preparação de campos com síntese das respostas para as variáveis ‘faixa etária’ e ‘região’.

(*) A escolha tão pormenorizada para as idades mais baixas deveu-se ao facto de o Inquérito, aplicado no âmbito do PNL2027, ter sido direcionado
privilegiadamente ao ensino básico e secundário. Estas faixas correspondem, assim, ao primeiro ciclo, ao segundo e terceiro ciclos do ensino básico,
ao ensino secundário e primeiro ciclo do ensino superior (licenciatura), à primeira fase da vida ativa, à idade de consolidação desta fase e, por
último, à idade de pré-reforma e reforma.
Tratamento dos dados

Quadro 4. Distribuição de número de respostas por faixa etária

Faixa etária Total %

10 ou menos 38 1,9%

11-15 405 20,1%

16-21 263 13,1%

22-35 40 2,0%

36-55 813 40,4%

Mais de 55 450 22,4%

Não respondeu 2 0,1%

Total Geral 2011 100,0%


Tratamento dos dados

As respostas às duas primeiras perguntas foram organizadas em dois grupos, materializados em gráficos, um que
relaciona as palavras com as faixas etárias e outro que relaciona as palavras com as regiões de residência. Cada
um destes grupos apresenta resultados sobre:
- distribuição das respostas por faixas etárias / regiões;
- diferença entre “conhecer” e “usar” as palavras por faixas etárias / regiões;
- conhecimento das palavras por faixas etárias / regiões;
- uso das palavras por faixas etárias / regiões;
- conhecimento vs uso das palavras por faixas etárias / regiões;
- comparação do conhecimento vs uso das palavras entre a faixa etária 11-15 e a de mais de 55 anos.

A terceira resposta, indicação do significado, dada a diversidade de tipos de resposta, será tratada
posteriormente.
> Análise de dados
Gráfico 1. Distribuição por faixas etárias

120%

100%

80%

60%

40%

20%

0%

10 ou menos 11-15 16-21 22-35 36-55 Mais de 55


Gráfico 1. Distribuição por faixas etárias

No primeiro gráfico, nota-se, como seria de esperar, o maior domínio das palavras por parte
da faixa “Mais de 55 anos”, reparando-se, no entanto, que esse domínio se alarga a todas as
faixas quando se trata de “amarrotar”, “abelhudo”, ”apaparicar”, “amicíssimo”, “aselha” e
“acanhar”.

Esta leitura é reforçada pelos gráficos seguintes “Conhecer 11-15 vs mais de 55” e “Usar 11-15 vs mais
de 55”, havendo neste mais proximidade entre as duas faixas etárias apenas na palavra “amarrotar”.

Por outro lado, verifica-se, também no presente gráfico, a baixa expressão das palavras
“amesendar”, “abeberar” e “adejante” em ambas as faixas etárias. É, ainda, muito baixa
a contribuição da faixa 11-15 quando em confronto com a faixa “Mais de 55”, no que se refere quer ao
conhecimento quer ao uso, relativamente a “acoli”, “afreguesado”, “angra”, “anichar”, “animalejo”,
“arrebicar”, “arrulhar”, “atilado” e “auspiciar”.
Gráficos 2 e 3

Conhece a palavra - 11-15 anos vs Mais de 55 120%


Usa a palavra - 11-15 anos vs Mais de 55 anos
120%
anos
100% 100%

80% 80%

60% 60%

40% 40%

20% 20%

0% 0%

11-15 11-15
Gráficos 2 e 3

A leitura do Gráfico 1 relativamente ao maior domínio das palavras por parte da faixa “Mais de 55
anos” é reforçada nos Gráficos 2 e 3, verificando-se nestes, no entanto, como acima se referiu,
apenas proximidade entre as duas faixas etárias na palavra “amarrotar” – que é, aliás, mais
conhecida do que usada.

Curiosa é a constatação de a palavra “apaparicar”, no Gráfico 2, com altas frequências e bastante


próximas nas duas faixas etárias, estar incluída entre as que não constam do Dicionário da Língua
Portuguesa, Editorial Verbo, o que leva a considerar o valioso contributo que estudos deste género
podem ter no apoio à elaboração de dicionários.
Gráfico 4. Uso das palavras por faixa etária

120%

100%

80%

60%

40%

20%

0%
10 ou menos 11-15 16-21 22-35 36-55 Mais de 55

AbeberarU abelhudoU acanharU acoliU adejanteU afreguesadoU amarrotarU

amesendarU amicíssimoU amoladorU angraU anicharU animalejoU apaparicarU

apessoadoU aplainarU arrebicarU arrebiqueU arrepanharU arrulharU artilhadoU

ascorosoU aselhaU aselhiceU atiladoU auspiciarU azafamadoU


Gráfico 4. Uso das palavras por faixa etária

O gráfico “Uso das palavras por faixa etária” dá uma imagem inesperada, em leque, já
que todas as palavras, à exceção de “amarrotar”, se encontram com níveis de uso
semelhantes nas três primeiras faixas etárias, ou seja, 7-10, 11-15, 16-21 anos, só
passando o leque a abrir e a haver um uso mais elevado, e mais a par do
conhecimento das palavras inquiridas, entre todas as outras faixas a partir dos 22
anos.
Gráfico 5. Distribuição por regiões

120%

100%

80%

60%

40%

20%

0%

Algarve Alentejo Lisboa Centro Norte


Gráfico 5. Distribuição por regiões

Apenas se fazem pequenas referências aos dados agrupados por Regiões. Uma delas diz respeito à
palavra “amesendar” que, por ter atingido muito baixos níveis de resposta em todas as faixas etárias e
em todas as regiões, motivou a curiosidade de verificar em que localidades ocorreu. Verificou-se que a
distribuição por residência, antes do agrupamento por Regiões, é muito diversificada, do Norte ao Sul, do
Litoral ao Interior.

Assim, a palavra “amesendar” é conhecida, mas muito pouco, e ainda menos usada, em localidades
como, por exemplo, Viana do Castelo, Póvoa de Lanhoso, Porto, Vila Real, Paços de Ferreira, Sever do
Vouga, Covilhã, Coimbra, Porto de Mós, Abrantes, Entroncamento, Alcochete, Póvoa de Santa Iria, Lisboa,
Seixal, Avis, Évora e Faro. Com a dispersão de respostas apresentada, não se considera que haja qualquer
especificidade regional para esta palavra.
Gráficos 6 e 7
100% Uso das Palavras por Região

90%

80%
Uso das palavras Lisboa - Norte

70%
100%

60% 90%

50% 80%

70%
40%
60%
30%
50%

20% 40%

30%
10%

20%
0%
Algarve Alentejo Lisboa Centro Norte 10%
AbeberarU abelhudoU acanharU acoliU
adejanteU afreguesadoU amarrotarU amesendarU
0%
amicíssimoU amoladorU angraU anicharU

acoliC

animalejoC
afreguesadoC

angraC
amesendarC
abelhudoC

amoladorC

anicharC

apaparicarC
apessoadoC

arrebicarC

arrepanharC
amarrotarC

aplainarC

artilhadoC

aselhaC
AbeberarC

adejanteC

amicíssimoC

arrulharC

ascorosoC

auspiciarC
acanharC

atiladoC

azafamadoC
arrebiqueC

aselhiceC
animalejoU apaparicarU apessoadoU aplainarU
arrebicarU arrebiqueU arrepanharU arrulharU
artilhadoU ascorosoU aselhaU aselhiceU
atiladoU auspiciarU azafamadoU
Lisboa Norte
Gráficos 6 e 7

Uma segunda nota surgiu com a comparação dos gráficos acima - “Uso das palavras por região” e “Uso
das palavras Lisboa - Norte”.

No primeiro destes gráficos, pode ver-se que a maior parte das palavras é descrita por linhas quase
horizontais ou quebradas com ondulação não muito forte entre as cinco regiões, havendo três palavras
que sofrem forte queda de uso na Região Norte: “arrepanhar”, “atilado” e “abelhudo”.

No gráfico de barras “Uso das palavras Lisboa - Norte”, a palavra “arrepanhar” também apresenta uma
quebra muito forte no Norte, havendo diferença de uso, mas menor, em “atilado” e “abelhudo”.
> Conclusão
Conclusão

Perante estes resultados, e tendo em atenção o âmbito reduzido e experimental do


presente Inquérito, pode dizer-se que, excetuando “amarrotar”, e tendo especialmente
presente a faixa etária 16-21 anos, as palavras apresentadas se encontram, de facto,
em diminuição de uso, mas ainda não em extinção.

Esta experiência revelou resultados muito interessantes, de que aqui só se dá um


breve apontamento, e sugere que um estudo mais alargado e aprofundado poderia ser,
por um lado, um contributo de peso para a avaliação do papel da leitura no
conhecimento lexical e da língua em geral e, por outro, um ótimo indicador da
“Mudança linguística” no Português Europeu.
Agradecimentos

A Fernanda Bacelar do Nascimento, Luísa Alice Santos Pereira e Tiago Santos Pereira,
sem os quais este trabalho não teria sido possível.
AINDA USAMOS ESTAS PALAVRAS?
maio 2020

https://tinyurl.com/ybg8ehvs