Vous êtes sur la page 1sur 237

JACQUES-ALAIN MILLER

Aposta no passe
seguido de 15 testemunhos de
Analistas da Escola, membros da
Escola Brasileira de Psicanálise

ORGANIZAÇÃO E TRADUÇÃO

Ana Lydia Santiago


COPYRIGHT © 2018, Jacques-Alain Miller e demais autores

CAPA, PROJETO GRÁFICO E PREPARAÇÃO


Contra Capa

ORGANIZAÇÃO
Ana Lydia Santiago

REVISÃO
Maria Lúcia Brandão Freire de Mello

Dados Internacionais de Catalogação na Publicação (CIP)


Angélica Ilacqua CRB-8/7057

Aposta no passe : seguido de 15 testemunhos de Analistas da Escola,


membros da Escola Brasileira de Psicanálise I Jacques-Alain Miller... [ et ai] ;
organização e tradução de Ana Lydia Santiago. - Rio de Janeiro: Contra
Capa,2018.
256 p. (Coleção Opção Lacaniana, v. 14)

Inclui bibliografia
ISBN 978-85-7740-270-o

1. Psicanálise 1. Miller, Jacques-Alain n. Santiago, Ana Lydia m. Série

18-2067 CDD 150.195

lndices para catálogo sistemático:


1. Psicanálise

2018
Todos os direitos desta edição reservados à
CONTRA CAPA LIVRARIA LTDA.
<atendimento@contracapa.com.br>
www.contracapa.com.br
I
Tel (55 21) 2507.9448 (55 21} 3435.5128
S.UMARIO

9 PREFÁCIO
Angelina Harari

APOSTA NO PASSE

13 A favor do passe ou dialética


do desejo e fixidez da fantasia

25 A favor do passe, Delenda

31 Sobre o desencadeamento da
saída de análise ( conjunturas freudianas)

CLASSICISMO DO PASSE

47 A pergunta de Madri

55 «Logo, Eu sou isso"

73 O avesso do passe '*


81 Como alguém se torna psicanalista
na orla do século xx1
PASSE E SINTHOMA

91 Uma psicanálise tem estrutura de ficção

103 O passe do falasser

117 É passe?

125 O ultrapasse

133 Referências bibliográficas

15 TESTEMUNHOS DE ANALISTAS DA ESCOLA,


MEMBROS DA ESCOLA BRASILEIRA DE PSICANÁLISE

13 7 A via da perplexidade
Bernardino Horne

141 A escritura do nome próprio:


um ponto de báscula
Celso Rennó Lima

149 O silêncio que se rompe


Lêda Guimarães

15 5 A fórmula que não existe


Elisa Alvarenga

163 Relato
Ana Lucia Lutterbach Holck

171 Túnicaíntitna
Sérgio Passos Ribeiro de Campos
181 Parceiros no singular
Angelina Harari

189 Coup defoudre


Ana Lydia Santiago

19 7 «Toma!"
Rómulo Ferreira da Silva

205 Como morder o mar


( ou na trilha sonora de uma análise)
Marcus André Vieira

213 Conjunto vazio


Ram Avraham Mandil

219 O engodo viril


Jésus Santiago

227 A sombra de uma sombra


Luiz Fernando Carrijo da Cunha ,-.

237 Deixar-se escrever


Maria Josefina Sota Fuentes

245 1, 2,3 e ...


( em _andamento vivace)
Sérgio Laia
PREFACIO

COMO PREFACIAR ESTE LIVRO sem contextualizar a proposição de Jacques


Lacan sobre o psicanalista da Escola, a sua proposta sobre o passe? Escola é
.o termo que escolhe para designar a associação de psicanálise fundada por
ele em 1964, a École freudienne de Paris (EFP), tão só como sempre esteve na
relação com a causa analítica.
E Delenda? O que foi esse órgão de informação ativo, que durou <;ie setem­
bro de 1980 a junho de 1981? O que ocorreu imediatamente após a dissolução
da EFP pelo seu fundador, em 198�? Delenda a favor do passe se constitui em
um empenho pertinaz de Jacques-Alain Miller, autor desta coletânea, pela
continuidade da "Proposição de 9 de outubro de 1967 sobre o psicanalista da
Escola': de Lacan. A favor do passe quer dizer que não se abre mão do passe,
apesar da reputação ruim que este acabou adquirindo em sua primeira expe­
riência, na EFP, porque o passe não pode ser extraído do ensino de Lacan · · ou
seja, reconhece-se que ele é parte integrante de seu ensino.
No tocante ao movimento psicanalítico brasileiro, que teve como auge
a criação, em 1995, da Escola Brasileira de Psicanálise (EBP) pela Associação
Mundial de Psicanálise (AMP), essa aposta psicanalítica de Jacques-Alain Miller
veio para durar.
A seleção de n textos do autor perfaz uma trajetória que confirma seu em­
penho em torno do tema do passe� e aqui se acompanham de 15 testemunhos
de Analistas da Escola (AE), todos eles membros da EBP.
A história do passe na BBP, por sua vez, se inicia em 2005, quando se auto­
rizou o estabelecimento de um Cartel do Passe Final, formado por quatro AEs
da EBP e tendo como mais-um a então presidente da AMP, Graciela Brodsky.
A experiência começou efetivamente em 2006, mas houve um fato prévio,
ocorrido na paradisíaca ilha de Comandatuba, ao término do IV Congresso
da AMP, do qual fui direto�a.

9
Entusiasmada com o sucesso do evento, e apoiada e acompanhada de Ana
Lydia Santiago, manifestei a Jacques-Alain Miller minha mais profunda con­
vicção de que havia chegado o momento de o Bra'sil contar com um disposi­
tivo de passe final, imprescindível para que a EBP chegasse ao Congresso que
seria realizado em Roma, igualmente em 2006, cujo tema era os Nomes-do-
-Pai, com a perspectiva de poder questionar o Nome-do-Pai, pluralizando-o.
Parecia-me que não havia nada mais impactante para isso do que a EBP con­
tar com sua própria experiência do passe no seio da comunidade, podendo
amealhar a confiança de todos nesse formato de trabalho institucional.
E, para selar o apoio à proposta, praticando nosso jeitinho brasileiro de
ser, nosso jeitinho brasileiro de brindar, nada melhor do que uma caipirinha,
tendo ao horizonte o mar aberto do sul da Bahia: "Bom-dia AMP, bom-dia
Bahia, bom-dia ilha de ltaparica': refrão com o qual tinha sido dada a largada
aos trabalhos naquele Congresso de julho de 2004.

São Paulo, 12 de novembro de 2018


Angelina Harari

10 APOSTA NO PASSE
APOSTA NO PASSE
A FAVOR DO PASSE OU
DIALÉTICA DO DESEJO
:E FIXIDEZ DA FANTASIA 1

CONSIDERANDO o TEMPO QUE _ME FOI CONCEDIDO, e apesar de estar


com fome, como vocês, aliás, tentarei lhes falar de um outro Lacan.
Vocês já perceberam que, pelo interesse dos jornalistas venezuelanos por
nós, a partir de agora, o axioma de Lacan de que o inconsciente é estruturado
como linguagem estará presente nas manchetes dos jornais diários.
Isso é bom, muito bom. Não podíamos esperar por isso - não é mesmo?-,
visto que tal postulado salta aos olhos, de todas as maneiras possíveis, na ex­
periência analítica e nos textos de Freud. O problema consiste, primeiramente,
em saber por que não se percebeu isso antes de Lacan tê-lo dito.
Então, já que "o inconsciente é estruturado como linguagem" se tornou
verdade popular, talvez seja hora de introduzir outro enfoque, de deslocar
um pouco a perspectiva.
Quem é, portanto, esse outro Lacan? Alguém que poderia dizer, por exem­
plo, que o inconsciente não é estruturado como linguagem? O que, então, se
tornaria verdadeiramente manchete no Nacional! Imaginem se, de algum

N. da o. Conferência proferida em Caracas em 27 de setembro de 1980, data em que a


École freudienne de Paris deixou de existir juridicamente, alguns meses após sua dissolu­
ção por Jacques Lacan, ocorrida em 5 de janeiro de 1980. O presente texto, publicado no
segundo número da segunda série de Delenda! Bulletin Temporaire. Organe d'Information
Active sur le Mouvement Psychanalytique (Paris, 20 de outubro de 1980), instruiu as reu-
niões organizadas por essa publicação, realizadas nos dias 13, 20 e 27 de novembro do
mesmo ano no Musée Social, em Paris, todas elas coordenadas por Jacques-Alain Miller
e consagradas ao tema «A favor do passe'� Texto originalmente publicado em Opção Laca­
niana: Revista Brasileira Internacionai de Psicanálise, n. 18, São Paulo, 1997, abr., p. n-6.

13
modo, se pudesse escrever: o Congresso Lacaniano de Caracas chega à con­
clusão de que o inconsciente não fala!
Mas não, esse outro Lacan é o mesmo que vocês seguem há muito tem­
po e que retirou de sua célebre hipótese certas consequências nem sempre
percebidas. E também, creio, muitos problemas que já encontramos e ainda
encontraremos tanto no avanço da teoria da psicanálise quanto na institui­
ção psicanalítica.
O que é ainda mais lamentável, já que muitas das dificuldades que vimos
enfrentando recentemente na instituição psicanalítica se devem a esse des­
conhecimento, o qual explica igualmente a est�gnação observada na teoria.
As referidas consequências concernem expressamente ao fim de análise e
ao momento dito de passe.
Vou lhes apresentar alguns pontos desse tema complexo sobre os quais
me questionei.
Passe, o termo usado por Lacan, assume o sentido de impasse, que, se­
gundo Freud, corresponde ao desfecho normal da experiência analítica para
todo sujeito.
A esse respeito, portanto, discordo do que disse há alguns minutos,, . de
que há um termo para a experiência analítica, mas que esse termo é um im­
passe - testemunho deixado por Freud de sua prática, em especial no texto
"Análise finita e infinita': Para ele, pode-se dizê-lo, toda psicanálise - toda psi­
canálise- tropeça numa resistência irredutível.
A existência desse tropeço não diz respeito, de maneira alguma, à parti­
cularidade clínica do paciente ou à falta de habilidade do analista praticante.
Não é porque o sujeito é muito neurótico ou o analista é incompetente que se
chega a esse obstáculo. De forma alguma. Freud define algo muito singular:
um impasse de estrutura, que vale para qualquer sujeito.
E, de fato, quanto mais a experiência é levada adiante, quanto mais ela é
conduzida com competência e conforme as indicações de Freud, mais esse
impasse, segundo ele, deve manifestar-se.
Vocês conhecem a designação freudiana desse impasse. É o complexo de
castração, e na mulher, em especial, a Penisneid, essa «inveja': como em geral
se traduz o termo, que lhe é, ousaria dizer, cravada no corpo. Para Freud, esse
obstáculo não é contingente; ele se produz necessariamente. É um impasse
que não existe de fato, mas de direito. A direção mais segura do tratamento
só pode ser navegar rumo a tal rochedo, que, por fim, se revela como um recife.
De acordo com Freud, portanto, a experiência analítica implica um en­
cerramento, mesmo que isso desagrade a todos que valorizam apenas a aber­
tura de uma experiência. É o que acontece tanto aqui quanto na França: uma

14 APOSTA NO PASSE
ênfase positiva é sempre dada a questões em aberto: "É preciso que as ques­
tões permaneçam abertas': No mais das vezes, diz-se isso porque, evidente­
mente, quer-se continuar a abrir a boca. Essa claustrofobia é uma herança da
fenomenologia, do bergsonismo, da qual não se pode dizer que seja consubs­
tancial à psicanálise.
Observa-se, nesse caso, uma ironia, um paradoxo: a experiência analítica
implica um fim ideal, distinto de toda interrupção acidental ou, digamos, por
conveniência pessoal, e esse fim ideal é o fracasso.
Nessa perspectiva, podemos dizer que, para Freud, há efetivamente uma
"cláusula de clausura': que é o complexo de castràção.
Então, para retomar o debate entre Lacan e Freud - já que Lacan quis
situar este Encontro sob tal signo -, é evidente que ele pretendeu estender
suas análises para além do ponto que parecia a Freud constituir o resíduo
irredutível, o "caput mortuum"2 da experiência. É por isso que Lacan fala de
passe, quando Freud evidencia o impasse.
Dito isso, ambos concordam quanto à finitude da experiência analítica.
A cláusula de encerramento de Lacan, todavia, é completamente distinta da­
quela de Freud, pois comporta a transformação do analisante em analista,
a passagem de uma posição a outra.
Trata-se, portanto, de uma questão que importa não apenas ao analista,
como também, e antes de a qualquer outro, ao analisante.

PASSE É UM VO CÁBULO EXT REMAME N TE P LUR ÍVOCO - consultem o di­


cionário para comprovar os sentidos que ele comporta, inclusive o marítimo -
por que não? -, haja vista Freud evocar o rochedo da castração ... O que é
ainda mais justificável , se considerado que um eminente responsável pelo
procedimento do passe na École freudienne velejava...
O passe introduz um mais além do compiexo de castração? Seria um belo
título, mas não nos precipitemos. Eu gostaria, ao contrário, de indicar como
se pode unir Lacan a Freud, pois quero também destacar o Lacan freudiano, e
não, simplesmente, o Lacan lacaniano.

2 N. da T. A expressão "caput mortuum" [cabeça morta] era usada pelos alquimistas para
designar os resíduos não líquidos de suas análises, que representavam como uma caveira,
uma cabeça de que se retirava, por destilação, o "espírito': o valor, a vida.

A FAV O R DO PASSE OU DIALÉT I CA DO DESEJO E F I X I D E Z DA FANTASIA 15


Em que, de acordo com Freud, a experiência analítica tropeça? O que nela
falha? O seu encerramento, que diria ao homem como ser um homem para
uma mulh�r e à mulher corno ser urna mulher para um homem. No fundo,
Freud constata que esse fim, esperado por ele, falha e, com base nisso, consi­
dera o complexo de castração irredutível à experiência.
Mas qual! O que Freud espera da experiência além da fórmula da relação
sexual? Eis a cláusula que ele espera e cuja falha no inconsciente justifica seu
���
O que aconteceu depois de Freud? Os analistas não pararam de elaborar
fórmulas da relação sexual, a fim de solucionar a questão do fim de·análise.
Situar esse fim no âmbito de uma relação sexual possível os levou necessa­
riamente a apagar o complexo de castração, pode-se dizê-lo, usando uma
borracha genital.
Lacan, ao contrário, permanece o mais próximo possível de Freud, ao
afirmar que não há relação sexual. Essa fórmula preserva o que há de irredu­
tível no que Freud nomeia de castração, assim como indica que a questão do
fim de análise não se situa no âmbito da relação sexual, que não existe.
A questão do fim de análise não é solúvel, se implica uma relação sexual�
Ela só pode ser resolvida com base na ausência dessa relação.
É indiscutível que a psicanálise não faz existir a relação sexual. Freud se
desesperava com isso. Os pós-freudianos se empenharam em remediá-lo,
elucubrando uma cláusula genital. Lacan, por sua vez, registra que o fim do
processo analítico não se sustenta na emergência da relação sexual. Ele de­
pende, sobretudo, da emergência da não relação.
Consequentemente, o fim de análise consegue resolver-se, de maneira
impensável até então, em um plano rejeitado como pré-genital pela deriva
pós-freudiana: no plano do objeto.
O objeto não é o que obstaculiza o advento da relação sexual, como um
erro de perspectiva pode levar a crer. Ele é, ao contrário, o que obtura a rela­
ção não existente e lhe confere a consistência da fantasia.
O fim de análise, desde então, no que respeita à pressuposição do advento
de uma ausência, resulta na travessia da fantasia e na separação do objeto.
Essa é a problemática do passe. Quaisquer que sejam as dificuldades de
sua implantação no grupo analítico - tanto mais manifestas quanto mais se
esforça na École freudienne para desacreditar tal procedimento de maneira
constante -, o passe constitui um dos maiores avanços do ensino de Lacan.
Dele resultam aquisições fundamentais.

16 APOSTA NO PASSE
NO INCONS C IENTE, HÁ UM PONTO DE NÃO S A B ER: do homem sobre a
mulher e da mulher sobre o homem. Pode-�e dizer isso, a princípio, da se­
guinte maneira: os dois sexos são estranhos um ao outro, exilados. Quando
estive aqui em Caracas em outubro, havia um congresso sobre o exílio. Pois
bem, talvez façamos um congresso sobre o exílio sexual.
Atualmente, essa formulação simétrica não é a mais razoável.
De fato, o não saber de que se trata incide, preferentemente, sobre a mu­
lher. Se não se sabe nada do outro sexo, isso ocorre, antes de tudo, porque no
inconsciente nada se sabe da mulher. Daí a expressão Outro sexo, para dizer
que ele é, de forma incontestável, Outro. O significante do homem, nós o
temos, mas apenas esse. Esta é a constatação de Freud: há um único símbolo
da libido e este é viril; o significante da mulher, por sua vez, é um significante
perdido, o que faz Lacan ser totalmente freudiano, ao afirmar que "a" mulher
não existe. É Freud que, sem dúvida, não é inteiramente lacaniano, pois não
formulou tal princípio da mesma maneira.
Isso explica por que o sujeito que entra no dispositivo analítico é subme­
tido a uma histeria estrutural. O que ocorre não apenas porque ele se experi­
menta dividido pelos efeitos do significante, mas também porque é lançado,
valens nolens ,3 à procura do significante da mulher, de que ele precisaria para
que a relação sexual existisse.
A psicanálise não precisa escrever em sua porta «Que ninguém entre aqui,
se não procura a mulher': pois quando alguém passa por ela, irá procurá-la,
mesmo que seja geômetra.
A ausência do significante da mulher dá conta muito bem da ilusão de
infinito a que essa experiência dá origem, ainda que marcada de finitude, mas
que se constitui em uma experiência de fala. Ora, a estrutura diacrítica da lin­
guagem, que faz com que um significante valha apenas para outro ( S1 � S),
abre, como tal, a palavra a uma recorrência sem fim.
Evidentemente, se o Outro significante, o da mulher, existisse, poder-se-ia
supor que esse fluxo estancaria. Porque o analisante é um Diógenes com
sua lanterna, mas que procura a mulher e não um homem. Nesse processo,
encontram-se sempre os homens, e pode-se mesmo tomar uns por outros�
como revelou o lapso histórico de Éric Laurent, ao confundir Chamorro com
Sawicke - mas ele confundiria a senhora Chamorro com a senhora Sawicke?

3 N. da T. Expressão latina que significa "querendo ou não [querendo]'; vale dizer, indepen­
dentemente da vontade do sujeito.

·1
A FAVOR DO PAS S E OU DIALÉTICA D O D ES E J O E F I X I D E Z DA FA N TA S T A '7
A paixão pelo simbólico não tem outra raiz. Se há a ciência, é p�rque
a mulher não existe. O saber, como tal, situa-se no lugar do saber do outro
sexo. Essa fórmula tem aplicação imediata. Por exemplo, pergunta-se hoje,
em todos os jornais de Caracas, por que todo mundo joga paciência. Então,
sabemos dar a resposta cientifica que se impõe: todo mundo joga paciência
porque a mulher não existe!

A RE L A Ç Ã O s 1-s 2 C O N S T I TUI o fundamento racional da ilusão da análise


infinita. Precisamente porque não há relação sexual, pode-se sempre esperar
que esta se manifeste um pouco mais tarde.
Que não há essa relação ganha consistência, portanto, à medida que se
avança a experiência, e coube a Lacan sustentar que o inconsciente grita isso
a plenos pulmões: não há tal relação. O dispositivo freudiano, em certo sen­
tido, representa essa ausência.
A propósito, ocorre-me uma bela expressão usada por Quevedo. Ele fala
de jovens virgens, vestidas de noli me tangere. 4 O analista, certamente, veste-se
de noli me tangere e é por isso que, mais frequentemente do que se imagina,
sua inclinação, especialmente se mulher, é a de identificar-se à Dama do amor
cortês.
Gostaria, agora, de chamar a atenção de vocês para o seguinte ponto: em
que consiste a interpretação, já que ela se funda no fato de um significante
só obter valor de outro significante? Conclui-se que ela é infinita. Não há
cláusula de encerramento da experiência analítica. É exatamente o que Freud
designou de "umbigo", de que Cosentino nos falou ontem com tanta precisão.
Desde então, se a interpretação opera a retroação de S2 sobre S1, não há fim de
análise no plano da interpretação. Há análise unendlich.
É justamente isso que faz com que a interpretação tenha campo bem am­
plo na religião. Não esqueçamos que é a religião que nos ensina a interpreta­
. ção. Nela, encontra-se o infinito em que Deus habita.
Contudo não é apenas a religião que nos ensina o que é a interpretação;
há o delírio de interpretação. Observa-se, hoje, entre os psicanalistas, ao menos

4 N. da T. "Noli me tangere" ["Não me toques"] é, segundo a Bíblia, a versão latina da


expressão usada por Jesus ao se dirigir a Madalena, quando ela o reconhece, após ele ter
ressuscitado (João 20, 17). Atualmente, em português, emprega-se essa expressão para,
ironicamente, referir-se a pessoas "cheias de melindres': "demasiado sensíveis': "muito
frágeis" ou "sistemáticas".

A P O STA N O PASSE
entre os latinos, uma valorização da interpretação como algo significativo.
Nessa perspectiva, a psicanálise tende ao delírio de interpretação.
É preciso dizer que há uma fé ingênua no inconsciente, que é, a ri­
gor, paranoica. Alguém evocou, no primeiro dia, a estrutura paranoica do
conhecimento. Não vejo nenhum mal em lembrar a estrutura paranoica
da psicanálise. Vocês conhecem a antiga definição de Lacan da psicanálise
como paranoia dirigida. Afinal, quem dirigiria melhor uma paranoia do
que um paranoico?
Há um filão na psicanálise que vai nesse sentido, razão pela qual Lacan
recomenda as entrevistas preliminares na entrada da análise. O dispositivo
analítico, dispositivo de interpretação, é muito favorável à eclosão da psicose.
O que se chama na clínica psiquiátrica - ao menos na francesa, mas creio
que se utiliza a mesma referência aqui - de automatismo mental não é jus­
tamente o sujeito suposto saber, o sujeito suposto saber tudo o que penso?
Há alguns anos, no Hospital Sainte-Anne, vimos um caso muito interessante
de psicose alucinatória crônica associado a um psicanalista considerado ma­
nipulador da máquina de influenciar. Isso não é raro.
Critica-se muita gente aqui, Melanie Klein, os analistas americanos e, tal­
vez, até um pouco Lacan ou, ao menos, certos efeitos de seu ensino, que favo­
recem a exaltação da função interpretativa. Essa exaltação não está presente,
de forma alguma, em Lacan e vocês poderão observar que, afinal, no que
concerne à interpretação, ele demonstra admirável discrição. Ele, frequente­
mente, evitou dizer que é preciso fazê-la como preciso, o que, vocês hão de
convir, não ajuda muito.
Já falei da interpretação, quando estive aqui em outubro, e como, se­
gundo me disseram, isso deve ser publicado na revista Analítica, não quero
me estender sobre o tema. A função da interpretação deve, evidentemente,
situar-se na estrutura que faz da linguagem a linguagem do Outro, já que é
o ouvinte que decide qual a significação do que é emitido. Ao destacar esse
ponto, Lacan não hesita em declarar que o analista é o mestre da verdade.
Trata-se de uma fórmula de 1953, a que ele não mais retorna, mas explica por
que a interpretação pode, efetivamente, reduzir-se a uma simples pontuação: ·
Ouvindo algumas exposições, dei-me conta de que essa era uma dimen­
são muito apreciada do ensino de Lacan e de que esse interesse se justifica
ainda mais pelo fato de a maioria de vocês se ter formado na falação inter­
pretativa kleiniana. Nos contatos que mantiveram neste evento, já devem ter
percebido o quanto se exagera, em torno de Lacan, a ideia de que a interpre­
tação pode estar em uma escànsão. Isso vai muito mais longe do que podem
imaginar pelo que foi exposto.

A FAVOR DO PAS S E OU D IALÉTICA DO D ES E JO E F IX I D E Z DA FANTA S IA 19


A existência de um mestre da verdade pode se fundamentar na retroação se­
mântica de S2 sobre S1 . Nesse sentido, observem, S2 é o significante mestre da ver-
dade. Porém o algoritmo do par significante funda igualmente o contrário: não
há mestre da verdade como significação, pois esta depende de um significante
posterior. A significação, por essência, desliza ao longo da cadeia significante.
A metonímia da significação explica o "meio-dizer" da verdade, que não
é bem uma ética, mas uma advertência de bom senso: quem quer dizer tudo,
quem quer dizer o justo, fala outra coisa, fala à margem.
Ora, vocês sabem que, ao dividir o Wunsch freudiano em demanda e
desejo, Lacan identifica o desejo como efeito de significante e a metonímia
significativa que decorre do "para um outro': Daí a representação vetorial da
função do desejo, que lhes é familiar no ensino de Lacan.
É o que, em Lacan, encantou os leitores de Freud, uma vez que reencontra­
ram nisso a marca da experiência freudiana, a dos primórdios. Desejo inapreen­
sível, lábil, fugidio, dado a metamorfoses, sempre função de outra coisa, sempre
alhures, tão indestrutível quanto a cadeia significante que segue seu curso, bem
como maleável ao significante, dócil e inalterável, submisso e indomável...
É aí que se deve procurar o fundamento da sublimação, de sua possibili-­
dade, se não de sua facilidade. É que o desejo se acomoda muito naturalmente
ao significante, dialoga com ele. Considerem apenas como são variáveis, ao
longo dos séculos, as imagens da mulher. Atualmente, elas variam até de mês
a mês; não haveria moda se o desejo não estivesse coordenado desse modo ao
significante, ou seja, articulado ao Outro.
O título "Subversão do sujeito e dialética do desejo no inconsciente freu­
diano': de Lacan, lhes é familiar. Imaginem apenas que não é evidente que o
desejo sexual tenha uma dialética.
Que o desejo, indestrutível, esteja sujeito a transformações não escapou a
Jung, que deu a isso muita ênfase na vertente imaginária. <<Metamorfoses da
libido" foi o modo como ele as chamou. Sabe-se em que isso resultou: em sua
dessexualização. O que se compreende, quando se considera que a plasticidade
do desejo é premissa da sublimação.
O que aconteceu, por outro lado, a Lacan? Por que os filósofos, os escri­
tores, que leram Lacan, que aprenderam com ele a decifrar Freud, exaltaram
tanto a metonímia? Sejamos claros: eles encontraram o meio de, a partir de
Lacan, dessexualizar o desejo.
Sim, Lacan tornou-se um novo Jung, um Jung do significante.
Por toda parte em que a chamada influência de Lacan se faz presente� seu
ensino se reduz à valorização do jogo de significantes. Pois bem, Lacan não é
isso de modo algum.

A P O STA NO PAS S E
As cintilações do desejo, suas urdiduras ardilosas, suas metamorfoses à
moda de Fregoli, suas arlequinadas, há tudo isso, com certeza, na exphiência.
É isso que torna uma psicanálise tão prazerosa. É seu estilo de nomadismo,
para retomar uma expressão utilizada ontem por Melman. A análise sem dú­
vida possibilita ao sujeito, ainda que nos trilhos do significante, um espaço
de errância. Assim como o faz a felicidade da interpretação, e não é isto, afi­
nal de contas, o que se paga: a mais-valia do gozo, o mais-de-gozar liberado
pela operação? Por conseguinte, o analista que se crê lacaniano é levado a
imaginar que a interpretação é uma espécie de "paixão do dizer':· Encontrei
essa fórmula nos Cuadernos.Sigmund Freud, na conclusão de um artigo sobre
os limites da interpretação. Nessa vertente em que se exalta a interpretação
como criação poética, confunde-se o psicanalista com o escritor, profetiza-se.
Esse fervor invoca o testemunho de Lacan. Não é difícil apreender o que,
em seu ensino, autoriza esse desvio.
Porém a tese de que o inconsciente se estrutura como uma linguágem
não implica, de modo algum, a valorização unilateral do significante poético
e de suas consequências, que relembro brevemente.
Pretendo, nesta oportunidade,. seguir no sentido oposto. Ser inspirado
não cabe nem ao analista, nem ao analisante. A experiência analítica é um
processo de extrema regularidade, rotineiro, "quase burocrático': assinala
Lacan. O desejo, indubitavelmente, fulgura e esquiva-se. Mas também, como
o anel do jogo, gira em círculos.
Chamamos esse giro de fantasia.

A H ! , A T E O R I A DA FANTA S IAé menos divertida do que a metonímia do


desejo! Esta, contudo, é impensável sem aquela, sob o risco de reduzir-se a
alguma enfadonha exaltação da deriva da escrita.
O sujeito do desejo certamente é nômade, ainda que ligado a um ponto
fixo, a uma estaca, em torno da qual ele deriva, girando. É a cabrita do senhor
Seguin,5 salvo pelo fato de esse sujeito considerar o seu cercado uma grandê
extensão - sim, ele é antes o senhor Seguin.

5 N. da T. Referência ao conto "La chevre de Monsieur Seguin': de Alphonse Daudet, sobre uma
cabritinha criada em um cercado, na fazenda de Seguin, onde tinha tudo de que precisava. Po­
rém, ao contemplar as montanhas, ela vivia a imaginar como seria bom estar lá no alto e, então,
começou a achar tudo sem gosto e sem graça. Apesar de advertida dos perigos que envolviam
seu sonho de viver nas montanhas, foge para alcançá-las. Chegando lá, é devorada por wn lobo.

A FAVOR DO PAS S E OU D I A L É T I CA DO D ES E J O E FIXIDEZ DA FANTA S I A 21


Trata-se de uma dimensão da experiência analítica cuja fenomenologia
é distinta daquela que é própria à metonímia, em que o sujeito se entrega a
uma deriva nômade; nesta, acentua-se a fixação da fantasia.
Lembrem-se de que S 1-S2 quer dizer que o sujeito não saberia encontrar
no significante designação própria, representação absoluta, identidade indu­
bitável. O sujeito do inconsciente não tem nome no Outro do significante.
O que segura o sujeito, o que o fixa, é o objeto. A certeza subjetiva está
sempre no plano do objeto. Contrariamente ao significante que encanta todo
mundo, o objeto não é substituível, não representa nada para um outro, não
desliza. Ele regula o desejo, sustenta-o e lhe dá consistência.
É por isso que se pode até dizer que o objeto é o fundamento da unidade
ilusória do sujeito. Se buscamos as bases do eu, nós as encontramos na fan­
tasia, em razão de esta ser a função que guia o sujeito nômade do desejo ao
objeto que o fixa.
Na fala, o sujeito experimenta a despossessão de si - da «falta a ser" ($),
em particular da falta a ser representada por um significante. É na fantasia,
em compensação, que adere ao que o significante lhe concede ser. Daí a
estrutura parad@xal da fantasia, que relaciona dois elementos heterogêneos,
e a referência tomada por Lacan da topologia do cross-cap · para dar conta
disso - referência que se compõe de uma parte de esfera e de uma banda
de Mrebius.
O sujeito do significante está sempre deslocalizado e falta-lhe ser. Está
presente apenas no objeto que reveste a fantasia. O pseudoDasein do sujeito
é o objeto dito a.
Espero tê-los levado a entender como, em Lacan, o fim de análise se re­
solve no âmbito da fantasia e se relaciona especialmente à função do objeto a.
Passe é o nome que ele dá à dísjunção do sujeito e do objeto que se opera
na experiência analítica - ou seja, afratura, ou travessia, da fantasia.
A estrutura fundamental da fantasia não é a estrutura das formações do
inconsciente. Ainda que se sustente desta, o discurso analítico põe em evi­
dência a primeira e resulta da articulação destes dois pares: S1 - S2 e g - a.
Quando se traduz na valorização unilateral dos chamados "jogos do sig­
nificante': a dita "influência de Lacan" tem como efeito uma completa de­
sorientação na experiência analítica. Foi o que vimos na França, mas não
apenas, na extinta École freudienne.
Idealiza-se a experiência, quando se silencia a função de repetição da fan­
tasia, a inércia que esta assegura ao desejo, a viscosidade que realiza sobre a
metonímia, o estilo de estagnação, o modo de repetição ociosa que confere à
maior parte de uma análise.

22 AP OSTA NO PASSE
Ora, por um efeito singular, o entusiasmo, e mesmo o acesso pseudo­
maníaco, induzido pelo procedimento do passe favoreceu, com frequência,
essa idealização naqueles que teriam sido os melhores, mesmo apostando no
contrário.
A "travessia da fantasia", sem dúvida, dá asas, mas ei-los uns e outros,
albatrozes e pombas de Platão!

A FAV O R D O PASSB OU DIAL É T I CA DO D ESE JO E F IX I D E Z DA FANTASIA 23


A FAVOR DO PASSE, DELENDA 1

GOS TAR I A D E L E M B RAR A VOC Ê S Q U E Lacan anunciou dois seminários


que não fez. O que não lhe era habitual. Vale a pena pensar sobre isso.
,,
O primeiro intitulava-se «Nomes-do-Pai . Lacan o iniciava, quando, certa­
mente por injunção da International Psychonalytical Association, foi riscado
por seus pares do que então se chamava "a listà: ou seja, dos didatas. Quem
eram esses didatas? Erain psicanalistas que se consideravam os únicos aptos a
levar a termo os tratamentos que redundavam no estabelecimento profissional
do psicanalista. Evidentemente, eles só podiam arrogar-se esse monopólio com
o consentimento dos colegas, que esperavam ser, um dia, cooptados. Isso ainda
se pratica da mesma maneira nos institutos que dependem da International.
Lacan encerrou esse seminário após sua lição de abertura e retomou seu ensino
dois meses mais tarde, na École Normale Supérieure, com O Seminário, livro 11:
os quatro conceitosfundamentais da psicanálise. Seguiu-se a fundação da École
freudienne de Paris (EFP), na qual o título de didata foi proscrito.
Isso aconteceu no final de 1963. Mais recentemente, Lacan anunciou um
seminário com o título "Objeto e representação". Eu suponho que, desta vez,
ele não o realizou por causa da dissolução dessa mesma École freudienne.

N. da o. Delenda pelo passe se constitui em um empenho pertinaz do autor pela continui­


dade da "Proposição de 9 de outubro de 1967 sobre o psicanalista da Escolà: de Jacques
Lacan. Esta continuação do texto anterior foi publicada no sexto número da segunda
série de Defenda! Bulletin Temporaire. Organe d'Information Active sur le Mouvement Psy­
chanalytique (Paris, 17 de março de 1981). Tradução originalmente publicada, sob o título
"Delenda': em Opção Lacaniana: Revista Brasileira Internacional de Psicanálise, n. 18, São
Paulo, 1997, mar., p. 9-11.

25
Há, portanto, dois buracos na sequência de seu ensino. Quem sonharia
em preencher os buracos deixados por Lacan? Pode-se, no entanto, almejar
explorar o entorno deles.
É o que me proponho ao longo destas reuniões, em que se discute, por
iniciativa de Delenda, o pas�e. Tema estagnado há muito tempo. Com efeito,
pouco se disse sobre ele depois que Lacan concebeu o termo e lançou a ex­
periência.

2
SENHA

Delenda não se contentou com um "sobre o passe», mas fala, sem dificuldade,
de "afavor do passe". É preciso acreditar que, na verdade, o passe acabou por
ter uma reputação muito ruim, para que muitos tenham dito, por ocasião
da dissolução da EFP, que se poderia abster do passe. A meu ver, não se pode
extrair o passe do ensino de Lacan como uma peça descartável, sem que haja
prejuízos. A descoberta do momento de passe e a invenção do dispositivo
que então se articula a ele são parte integrante desse ensino, respondem a um
problema que o atravessa de ponta a ponta.
Em nome de que posso me permitir falar do passe aqui, como falei, há
pouco, em Caracas?
Tomem o texto intitulado "Proposição de 9 de outubro de 1967': em sua
primeira versão, publicada na revista Analytica, n. 7, e vejam como Lacan qua­
lifica o passante, aquele que atravessa o passe: ele o nomeia (<psicanalisante".
O passante é, por definição, um psicanalisante. Ele pode já estar estabelecido
como psicanalista, mas não é como psicanalista que faz o passe, e sim como
--
psicanalisarite.
Reconheço que o passe satisfaz a funções de seleção no âmbito do grupo
analítico e, por isso, comporta uma dimensão, em certa medida, ((política".
Isso se evidencia, de maneira clara, após a dissolução da École: Lacan não
hesitou em alertá-la sobre o fracasso do passe. Mas o passe interessa, antes de
tudo, ao psicanalisante: como momento, define a saída do processo em que
ele se engajou; como dispositivo, lhe dá a palavra.
Eis, pois, o suficiente para me permitir abordar um assunto que, por muito
tempo, se quis considerar reservado. Reservado, contudo, para quem? Para
ninguém, sem dúvida, já que o passe, na EFP, foi reduzido ao estatuto de uma

2 N. da T. Em francês, "mot de passe': expressão que contém o termo passe.

26 APOSTA NO PAS S E
"senha': O que contrariava completamente sua finalidade, que era a trans­
missão - transmissão esotérica. Essa transmissão foi impedida, e até mesmo
corrompida, na EFP. Lacan chegou a dizer que esta corria o risco de funcionar
em sentido oposto àquele que motivara sua fundação - nada o demonstra
melhor que a deriva da experiência do passe.
A Éc�le de la Cause freudienne foi fundada sobre um engajamento explí­
cito de crítica assídua da École freudienne. Comecemos, pois, a aplicar esse
engajamento à questão do passe - de preferência a outras que o testemunho
de vocês me pode trazer aqui. Tentemos reencontrar o fio do que Lacan in­
troduziu em 1967, antes de o passe se tornar senha.

A M N É S I A D O AT O

O passe torna nulo o didata. Mais do que isso, pressupõe que a psicanálise
não depende de qualquer didatismo.
Onde se pratica a análise didática, finge-se acreditar em uma aprendiza­
,
gem da psicanálise. Esse ((learning, não se completa com o tratamento do pa­
ciente; estende-se muito além dele. Leva-se em conta a prática como analista -
analista jovem, analista menos jovem -, suas supervisões, e seus superiores, à
medida que ele trabalha a vida toda e se posiciona como deve, o promovem
na hierarquia, o que lhe vale, na oportunidade, a admissão final pelos didatas.
Há, então, um trajeto, que pode ser longo, uma ascensão em que o tempo,
como duração, tem função essencial. Na experiência analítica, o candidato
começa a ser ensinado por seu suposto didata, ele se instrui na própria práti­
ca, pois esta tem, crê-se, uma virtude didática e, enfim, é admitido, cooptado
como alguém capaz de ensinar.
Isso não é insensato. É assim em diversas práticas. A questão consiste em
saber se isso se conforma à estrutura da experiência freudiana.
O curso, que até Lacan era a tradição, valoriza a experiência. Mas de que
experiência se trata? Da experiência que agrega, como se acredita, os ensina­
mentos resultantes de uma experiência contínua da psicanálise, experiênci�.
que se tem, que se adquire ao longo de uma prática e se soma ao sujeito como
uma segunda natureza.
Esse valor inverte-se com o passe. Este não apenas desconsidera a prática
do solicitante, pois nem mesmo exige que ele tenha uma, como também, ao
contrário> atribui um valor negativo à duração da prática.
O praticante se acostuma, isso é um fato. Congratula-se a International,
gabam-se as virtudes do hábito, vê-se nele uma promessa de sabedoria. Com

A FAVOR DO PASSE, DELENDA 27


Lacan, ocorre o inverso: o hábito é rotina, fator· de esquecimento; a "profis­
,,
são implica desconhecimento da estrutura; se o praticante da experiência se
sente confortável quando o iniciante se perturba, isso não aéontece porque
aquele conhece melhor o que é a psicanálise, mas po�qlie lhe tamponou o
paradoxo, a ponto de Lacan imputar-lhe, regra geral, "a amnésia do ato':
Daí a ideia de apreender o ato no momento em que seu agente assume,
inicialmente, o semblante. O tempo do passe 'não é a duração didática, matu­
ração que se prolonga, mas o instante, a revelação heraclitiana - o seminário
c:le M_artin Heidegger e Eugen Fink sobre Heráclito é uma das referências de
Lacan no que concerne ao passe.
O paradoxo do passe repete o do ato, ao propor o engate, em ligação direta,
da posição de anali$ante com a de analista. Em ligação direta, ou seja, sem
a mediação prévia da experiência, sem a seleção, a verificação, operada pela
duração. Por isso, há uní título, o dç Analista Membro de Escola (AME), que
sanciona a rodagem. O passe, contudo, é outra coisa.

SER E SABER

Alguém me relatou esta reflexão de Lacan sobre u m Analista da Escola (AE)


recentemente nomeado mediante o passe, a . propósito de alguém . que ques­
tionava sua nomeação como AME: "Quem sabe", disse ele, "se, em seis meses,
ele ainda praticará a análise?"
A anedota é inquestionável: deixa entender, de maneira divertida, que o
passe não garante nada da prática do passante como eventual psicanalista;
põe na berlinda a prática do ana:lista com queín ele se anali�ou, mas, sobre­
tudo, certifica uma travessia que deve ter lugar na experiência do analisante.
Isso é muito singular: uma mutação do sujeito, que o leva a ocupar a
posição analítica e se limita ao testemunho que dá de sua análise, indepen­
dentemente da prática de que, por outro lado, essa mutação pode se investir.
Entende-se, desde então, o formato, às vezes dramático, que a experiência
do passe pôde assumir na École freudienne: se o passe não gar�nte nenhuma
prática, nenhum fazer de analista, é natural concluir disso que ele certifica um
ser do analista. Trata-se de um erro, ainda que, ousaria dizer, lógico, autorizado
pelo repúdio ao didatismo, e que é igualmente cometido pela maior parte
dos analistas envolvidos. Convinha, pois, retificar a opinião. Longe disso, en­
corajou-se esse erro. Tirou-se partido dele.
O passe, portanto, não se constitui absolutamente em uma questão sobre
o ser do sujeito. Ele é uma questão sobre o saber dele. Um convite ao analisante

28 A P O STA NO PASSE
para ele oferecer sua experiência à transmissão. Na EFP, quanto mais dramá­
tico, mais esotérico se tornou o passe: eliminou-se dele a finalidade de saber.
Tudo isso demonstra que, na EFP, passe e materna foram considerados
antinômicos. Ora, faz-se o passe para a transmissão. O que se destaca no pró­
prio procedimento que ele implica: o do testemunho indireto.
Vocês sabem que o passante não se apresenta pessoalmente diante de
seus juízes (digo "juízes': já que há um "júrf'). Lacan previu que outros psi­
canalisantes, chamados passadores , intervêm, recolhem o testemunho, para
entregá-lo em seu devido lugar. Trata-se de um paradoxo. Comumente, o
testemunho pessoal é considerado superior ao testemunho indireto. Neste,
há mediação, interseção forçada. A função da transmissão é de algum modo
demonstrável, evidenciada pelo próprio procedimento.
Transmissão de quê? Isso também se esclarece pelo procedimento: trans­
missão do que não se perde ao ser repetido por outros para outros , mas, ao
contrário, constitui-se dessa própria divulgação.
Estrutura de Witz, lembra Lacan, que se presta tão bem a confundir-se
com a do materna, que dele se distingue e de que se imaginou ser um passe
por escrito. Erro simétrico e inverso do precedente. Witz não é materna: ao
mesmo tempo que se repete e circula, admite variantes, amplificações e mal-
-entendidos, a fala - não a escrita - o faz existir e o sujeito emerge nele, ao
passo que, no caso do materna , ele se ausenta. O materna, sem dúvida, tem
seu lugar, que se segue ao Witz do passe, na elaboração requerida ou, antes,
esperada do Analista da Escola:
Admito, considerando o que foi dito, que a estrutura do passe é homólo­
ga à de uma formação do inconsciente. Lacan o disse, o que não deixa de ser
um paradoxo, visto que o passe está fundamentalmente no plano do objeto.
Para ser mais preciso: o dispositivo do passe recupera, no plano do signifi­
cante, o momento do passe, cujo essencial se desenrola no plano do objeto.
Dito isso, explica-se a dicotomia, sempre mantida opaca, entre passante e
passador - um transpõe o passe; o outro "é o passe". Com efeito, o primeiro
narra seu tratamento, extrai dele a história (menos epos do que boa história) ,
logo reportada ao júri, que não se limita a representar o Outro; o segundo,
mensageiro da boa palavra, não se encontra suficientemente em uma relação
de disjunção com o objeto, para não ser o passe.
O júri entra no dispositivo como o Outro - barrado ou não, eis a alterna­
tiva. Como Lacan o �oncebe, não é duvidoso, uma vez que obriga esse Outro
a se manifestar por seu trabalho, pelo qual se demonstrará não saber tudo.
Condição para que ele possa dar a resposta que se impõe a seu lugar, ou seja,
o significante que não existe.

A FAVOR DO PAS S E, DELENDA 29


S O B RE O DES E N CADEAMEN T O
-/ /
DA SAI DA D E ANALI S E
( CON J UN T U RAS F RE U D 1ANAS ) 1

INTROD UÇÃO

As conjunturas d e desencadeamento d a saída de análise. Dois conceitos estão


em jogo nessa expre_ssão original, jamais empregada até o momento. Primei­
ramente, o conceito de saída de análise.
Tem-se refletido, com muita frequência, sobre o fim de análise, enten­
dendo-o como o término do percurso analítico, de tal maneira que se tornou
necessário introduzir outro domínio a ser explorado ao lado deste, o de in­
terrupção da análise. Ora, toda análise não concluída não é necessariamente
interrompida. Há análises que terminam com um ((Acabou", sem que nem o
analista, nem o analisante pense que isso seja o nec plus ultra, e sem que esse
ato implique uma ruptura. É necessário, portanto, conformar um conceito
mais, amplo, indiferenciado, e que seja simétrico ao de entrada em análise:
o de, simplesmente, saída de análise.

No ano passado, propus ao Ateliê Milanês da Escola Europeia estudar as saídas de análise
nos cásos de Freud e, em setembro de 1992, voltei a Milão para ouvir e discutir os traba­
lhos apresentados. Minhas intervenções foram reunidas e redigidas por Rosa Elena M�­
zetti, a fim de serem publicadas, com os textos italianos, na revista Agalma; Anne Dunand
as traduziu para o francês; o que se apresenta aqui foi publicado em Lettre Mensuelle.
N. da o. As versões francesas a que o autor se refere foram publicadas em Lettre Mensuelle,
n. 118 (Paris, abril de 1993) e Lettre Mensuelle, n. 119 (Paris, maio de 1993), e traduzidas para
o português em Opção Lacaniana: Revista Brasileira Internadonal de Psicanálise, n. 7-8,
São Paulo, 1993. Esta tradução foi feita a partir das versões francesas.

31
É surpreendente que a perspectiva de se refletir sobre a saída propria­
mente dita ainda não tenha sido introduzida, como se a diversidade e a varie­
dade das saídas de análise obliterassem tal conceito. Trata-se de um verdadeiro
trabalho de pesquisa, de que ninguém conhece ainda os resultados.
O segundo conceito, o de conjunturas de desencadeamento, é utilizado
por Lacan a propósito da psicose, em especial no texto "De uma questão pre­
liminar a todo tratamento possível da psicose" (Lacan, 1957-8).
Nesse texto, ele propõe o seguinte esquema do desencadeamento da psi­
cose: o sujeito psicótico não desencadeado se encontra implicado em uma
situação dual, de simetria, em que se imiscui um terceiro que evidencia a
falha do Nome-do-Pai, ou antes, que ativa os efeitos de sua foraclusão. Lacan
vê, nessa conjuntura, o fator desencadeante da psicose. Trata-se de um apelo
feito em vão ao simbólico,· a partir de uma relação imaginária simétrica, em
que se intromete um terceiro elemento não simetrizável, que é objetivamente
simbólico e, no entanto, subjetivamente não simbolizável. O que chama a
atenção é a extrema simplicidade desse esquema e o esforço que testemunha
para que se determine uma fórmula única.
No que concerne à saída de análise, minha ideia, que ponho à prova, é
definir uma ou várias conjunturas de saída.
Cada um dos casos de Freud é absolutamente particular. Tentaremos en­
contrar uma fórmula interessante em cada um deles e compará-las, para ver
· se encontramos, ou não, uma fórmula única.
Se pensarmos, como propõe Maria Teresa Maiocchi, que a saída de
análise de Hans se fez por meio da construção de uma fantasia, poderemos
comparar as saídas pela fantasia e as saídas pela construção de um sintoma.
A propósito da psicose, diz-se, de born,grado, que a saída da relação é facili­
tada pela construção de um sintoma elaborado graças à análise. Muitos tra­
balhos foram escritos na Escola a respeito desse ponto. Vale a pena estudá-los.
Tomemos o caso do Homem dos lobos. A análise dele é marcada pela von­
tade de Freud de fazê-lo sair. O Homem dos lobos, por sua vez, não revela
vontade alguma de sair. Acontece com frequência de que seja o analista, e não
o paciente, quem quer sair da análise. Freud é frequentemente motivado por
um desejo muito preciso de saída. O Homem dos lobos, em compensação, é
bastante incentivado por um desejo de permanecer, a ponto de manter-se
em análise até o fim de seus dias. Os analistas costumam considerá-lo um
verdadeiro monumento.
Em cada um dos casos de Freud, observa-se o que se nomeia de "contra­
transferência': ou seja, a particularidade do desejo do analista. Qual é a par­
ticularidade do desejo do analista em Freud? Ele é marcado por um desejo

32 A P O STA NO PAS S E
de saber que se caracteriza por poder ser situado no discurso da ciência, o
que incide sobre certo número de coisas. Por meio de seus casos, assiste-se à
emergência progressiva do desejo do analista em Freud. No caso Dora, por
exemplo, o desejo do analista não está completamente esclarecido.
Quero evocar ainda um ponto. O esquema lacaniano do desencadeamento
da psicose pode ser lido sobre o esquema L inicial.

IZl
O sujeito se encontra preso em uma tensão entre dois termos imaginários
e, em determinado ponto, intervém o apelo ao significante que falta do pai sim­
bólico. Lacan apresenta alguns exemplos clínicos dessa conjuntura, em que a
relação simbólica, traçada a partir da relação imaginária, não chega a se concluir.

A S A Í DA D E D O R A

Façamos a supervisão de Freud no caso Dora, tal como muitos já a fizeram.


Freud considera que a saída de análise de Dora é, definitivamente, uma
saída apropriada. Nem tudo está resolvido do ponto de vista do saber, mas
ela enfim consegue se desligar do pai e "é reconquistada pela vida': Essa é
a última frase do texto. Freud considerava que a análise estava terminada e
não podia ser retomada. Dora se esforça em voltar a seu consultório 15 meses
depois, e ele considera que não havia nada que se pudesse fazer para que a
análise fosse retomada.
Podemos fazer a supervisão de Freud, porque sabemos, mais ou menos, o
que aconteceu a Dora. Sabemos quem é Dora: a irmã de Otto Bauer, o líder
socialista vienense, que é a criancinha cuja orelha ela puxava repetidamente.
Ela morreu em Nova York em estado deplorável e o analista americano que a
conhecia a definiu como "uma das mais repugnantes histéricas com quem ele
já se havia deparado". Podemos, pois, duvidar da saída apropriada imaginada
por Freud e também do fato de que a análise tenha sido concluída. Não nos
deixemos atrair pela extraordinária problemática de por que Dora se foi e nos
perguntemos, por exemplo, o que Freud teria podido fazer para que ela ficasse.

SOBRE O D E S E N CA D E A M E NTO DA S A Í DA DE ANÁLI S E 33


Freud dá uma indicação parcial a esse respeito, quando escreve: "Teria eu
conseguido segurar a jovem, se tivesse representado? Se tivesse exagerado o
valor que eu atribuía a seu retorno? Se tivesse demonstrado por ela um inte­
resse zeloso? [ ...] Não sef'. Freud percebe, nesse momento, que se não tivesse
se mantido um pesquisador objetivo, científico, se não tivesse permanecido
apenas como intérprete do pai, se tivesse se empenhado um pouco mais, se
tivesse dito: "Fique; temos coisas a descobrir juntos. Eu, Freud, peço-lhe para
ficar': isso talvez tivesse impedido Dora de partir. Ao contrário, Dora, toda
sorridente, vai ver Freud e lhe diz: "Decidi ir embora': ao que ele responde:
"Seja como você quiser; façamos a última sessão': Na verdade, ele lhe diz: "Isso
me é indiferente".
Em alguns momentos do tratamento, Freud é interpelado por Dora, que
lhe pede para se expressar, e não encontra ninguém para responder a esse
apelo. Freud desaparece.
"Ele pode me perder?" é a questão que Dora propõe ao Outro. Quando
ela formula essa pergunta? Precisamente, após a sessão de análise do segundo
sonho, pelo qual Freud se mostra muito contente. Ela lhe diz: "Não é grande
coisa': Saindo ou, antes, dizendo "Vou embora", Dora demonstra a Freud que
o que ele considerava importante não era, na verdade, "grande coisa': Freud
foi inteiramente surpreendido pela transferência e confundido pelo desejo
de Dora.
A análise de Lacan sobre os desencontros dialéticos do tratamento gravita
em torno do fato de que Freud não reconhecia o objeto do desejo de Dora.
Freud acredita que esse desejo visa ao sr. K., quando a questão de Dora tem a
ver com a sra. K., já que esta encarna a feminilidade. Lacan escreve que Freud
se perde na mesma cilada que o -sr. K., e essa é certamente a frase mais impor­
tante de todo o texto. Nela, o que diz ele exatamente?
A questão de Dora concerne à mulher como Outro do mistério e, para
propor essa questão, ela precisa da intermediação do sr. K. Ela se interessa
pelo sr. K. apenas para sustentar seu questionamento sobre a feminilidade.
O eu de Dora se apoia no sr. K. para alimentar a questão que é fundamental
para ela, e é por isso que, como Lacan diz em '� direção do tratamento e os
princípios de seus poder" (1958), é preciso distinguir o objeto da identificação,
que é o sr. K., da causa do desejo de Dora. Com efeito, o que sustenta o lugar
do Outro na análise de Dora é, embaixo do Outro, o objeto a.

A
a

34 APO STA NO PAS S E


A partir do momento em que Freud se identifica com o sr. K., basta que
este perca seu lugar para Dora, para que, no mesmo ardil, Freud também
perca o seu, razão pela qual Lacan afirma que Freud desaparece na mesma
armadilha que o sr. K. Reencontramos neste ponto, de maneira mais precisa,
0 rebatimento da posição simbólica sobre o imaginário.
É isso o que acontece na análise do segundo sonho. A sessão de análise
do segundo sonho dura duas horas. Não é uma sessão breve, e sim uma ses­
são muito longa, que dura porque Freud elabora um saber e deixa de lado a
questão da transferência. Há, portanto, a sessão de duas horas e, na sessão
seguinte, Dora declara: "Decidi parar". Freud lhe pergunta: "Quando você
tomou essa decisão?". Ela responde: "Há 15 dias". Freud se atém a esse prazo e
comenta que são 15 dias o que se dava a uma governanta, a uma empregada
que se dispensa. Isso não é o importante.
Na sessão precedente, Dora contou que o sr. K. lhe dissera: "Minha mu­
. lher não é nada para mim': Ela lhe deu uma bofetada e, depois, seu interesse
pelo sr. K. se extingue. Freud lhe diz então que o amor dela pelo sr. K. ainda
persiste. Esse é o erro que ele comete.
Retomemos o texto da sessão do sonho. Qual é o ponto crucial do segun­
do sonho? O momento em que o pai fica doente e a mãe escreve a Dora: "Ago­
ra que ele está morto, pode vir, se quiser". O que Dora associa ao "se quiser"
do sonho, a esse "se quiser, pode vir"? Esses são os mesmos termos da carta
da sra. K., quando a convida para ir à beira do lago. Em tal carta, após as pala­
vras "se quiser vir': bem no meio da frase, há um ponto de interrogação, algo
muito curioso. Verifica-se nesse sonho, portanto, uma decifração da frase
enigmática: o obstáculo que o pai representava desaparece, dando acesso as­
sim à mãe ou à sra. K. A interpretação de Freud vai em sentido contrário: "Ela
percebe que seu amor pelo sr. K. não acaba na cena do lago e que esse amor
ainda dura, mesmo que de maneira inconsciente". Nesse exato momento,
Freud fala do quanto está satisfeito com aquela sessão e Dora responde com
desprezo: "Não é grande coisa':
Partir desse ponto possibilita situar, de maneira mais precisa, a causa da saí­
da de análise de Dora. Seu sonho revela como a eliminação do pai lhe permite
reencontrar o objeto de desejo, ao passo que Freud toma a direção exatamente
oposta e quer reconduzi-la ao objeto da identificação. A resposta de Dora é
imediata: "Vou embora': "Se é assim, vou embora': O que então está em jogo
é, em certa medida, uma segunda entrada de Dora em análise e Freud a perde.
A posição do Outro se apoia não no significante mestre, e sim em um
ponto de interrogação que incide sobre a causa do desejo, enquanto a atitude
de Freud é "Compreendi tudo': Melhor seria fazer sessões breves e dar a en-

S O B R E O DE S E N C AD E A M E NTO DA S A Í DA DE ANÁLISE 35
tender: "Não compreendi nada!': Seria manter um ponto de interrogação so­
bre a causa do desejo. Eis o que não é preciso sufocar com cadeias associativas
ao infinito.

A
?

São visíveis os limites da técnica de Freud. Na verdade, a coisa mais pre­


ciosa, o agalma que segura o paciente no consultório do analista, é o ponto
de interrogação, a falta no Outro. Freud não soube dizer a Dora que ela podia
lhe fazer falta, que, ao partir, cavaria uma falta no Outro. Mas é claro que
ela lhe cavou essa falta; basta ver como Freud passou a pensar em Dora, a
escrever sobre ela, até torná-la imortal, fazê-la uma nova Gioconda. Dora,
afirma Lacan, vai embora com o sorriso da Gioconda, ou seja, vai embora
com seu ponto de interrogação.
Talvez seja possível, a esse respeito, atribuir a conjuntura de saída ao
eclipse da falta no Outro. Quando se apela à falta no Outro ( que não é um
apelo ao Nome-do-Pai) e essa falta vem a faltar, produz-se uma conjuntura
de saída de análise.

A S A Í DA D O P E Q UENO HANS

Em vez d e nos perguntarmos se a análise do pequeno Hans é ou não uma


análise, é mais interessante tomá-la como tal.
Freud considera que uma saída de análise é apropriada, se há cura.
No caso de Hans, há desaparecimento do sintoma, um sintoma fóbico bem
caracterizado e incapacitante, acompanhado da elaboração de uma resposta
à questão do sujeito. Trata-se do que Lacan concentra na fórmula "a resolu­
ção terapêutica do caso': A solução terapêutica, todavia, não é tudo.
A fobia tem a vantagem de apresentar um sintoma objetivo, comporta­
mental, que não apenas existe para o sujeito, como também se constitui no
mundo. A resolução é obtida mediante as últimas fantasias do sujeito: o me­
cânico, o casamento com a mãe, o sonho de ter filhos. Há, portanto, um tipo
de cura do sintoma pela fantasia.
Qual é a questão de Hans? Como formulá-la?
Trata-se de uma dificuldade que concerne ao gozo próprio do órgão fálico.
Como assinala Lacan, o que operou uma mudança nas relações libidinais que

A P O STA N O PAS SE
Hans mantinha com sua mãe foi a intrusão de um elemento "real" no jogo, o
gozo do órgão. O falo, que era, até então, um elemento imaginário que circu­
lava entre a mãe e a criança, como em um jogo de esconde-esconde, torna-se
real e não se presta mais a isso.
É a questão "O que fazer?': de Lênin: "O que fazer com o gozo fálico?"
A resposta de Lênin é o Partido Comunista. A do pequeno Hans, um apelo
ao pai para ceder seu lugar ao gozo fálico. Esse apelo atravessa toda a obser­
vação. Sem encontrar em seu pai um suporte adequado para simbolizar o
falo, Hans se esforça para pôr em cena uma extração de gozo na dimensão
do imaginário. Ele não deixa de provocar seu pai, para que ele represente o
papel que lhe cabe. "Por que você se irrita?': pergunta-lhe. "Mas isso não é
verdade': responde-lhe o pai, para se livrar da situação. "Sim, é verdade. Você
está muito zangado. Isso é necessário': insiste Hans. O que ele quer obter de
seu pai? Que ele alivie o excesso de gozo, que ele legalize o falo, situando-o
em seu lugar simbólico. É interessante destacar que o questionamento ao pai
se origina da dificuldade concernente ao gozo. É o que se chama de castração,
conjunção operada entre o gozo e o pai. No gozo, há sempre um fator excessi­
vo que requer uma subtração. É aí que se opera o laço entre o lugar do Outro
e o objeto como mais-de-gozar.
O impasse de Hans é o circuito em que se ligam o papel imaginário dele,
a figura da mãe que lhe responde e o falo que circula entre os dois. A introdu­
ção do elemento real de gozo, ou seja, o deslocamento do pênis que produz
algumas sensações novas, suscita um apelo à função paterna. A questão de
Hans se concentra nisso. A resposta vem sob a forma de variações do sintoma
fóbico, que desempenha o papel do pai. O sintoma fóbico é uma elaboração
subjetiva do pai. Aliás, é isso que permitirá a Lacan afirmar que o pai não é
nada mais do que um sintoma. Hans encena uma castração dramática. O sin­
toma assume o lugar do Outro, lá onde se espera a manifestação, no mundo,
de uma potência terrível. A fobia ordena o mundo, estabelece seus limites, diz
que daquele ponto não se irá muito longe.
Aproximemos, agora, Dora e Hans. Dora apresenta sua questão por inter­
médio do sr. K. Ela se pergunta: "O que é uma mulher?" "O que um homem
encontra em uma mulher?" Para explicitar tal questionamento, ela se volta' ·
para o sr. K. e se identifica com ele. É o princípio da identificação viril da his­
térica, que permitirá a Lacan dizer: '� histérica se faz de homem': ou seja, faz
semblante, age como o homem. Creio que é interessante perguntar se Hans
também não elaboraria a sua questão pelo viés de um determinado x.
Na verdade, Lacan não acredita na cura de Hans. Quando se entende
a cura como desaparecimento do sintoma, tudo bem. Nós, porém, distin-

S OB R E O D E S E N C A D E AMENTO DA S A Í DA D E ANÁLISE 37
guimos o sintoma da problemática que se exprime por meio dele e temos ·
razões para duvidar de que tal questão encontra, no caso de Hans, a melhor
resolução possível.
Em sua exposição, Riccardo Scognamiglio retomou uma citação impor­
tante e esclareceu o questionamento que proponho: "Por meio de quem Hans
apresenta sua questão sobre o pai?" É a passagem em que o pai pergunta a
Hans: "Você pensava, então, ser a mamãe?': e Hans responde: "Eu era a ma­
mãe de verdade': Hans informa, assim, quem é o objeto de sua identificação:
a mãe.
Suponhamos que é por intermédio da mãe que Hans expõe sua questão
sobre o pai. O que Freud diz? Ele conta que, no final, há uma fantasia formi­
dável e que tudo acaba da melhor forma. No dia 30 de abril, Hans declara:
"Antes, eu era a mamãe; agora, sou o papai': Para verificar se Hans de fato está
no caminho certo, o pai lhe pergunta: "Quem é a mãe das duas crianças?': e
Hans responde: "É a mamãe e você é meu avô': O pai e Freud consideram en­
tão que tudo está bem, que acaba bem. Cito: "Tudo acabou bem. O pequeno
Édipo encontrou uma solução mais feliz do que aquela que o destino havia
prescrito: em vez de matar o pai, ele o promove a avô': e assim por diante. Isso
indica para Freud a cura do pequeno Hans.
Ora, o que precede essa frase do pequeno Hans? Ele insiste em querer ser
a mamãe de seus filhos. Seu pai intervém, determinando: "Não, isso não é
possível". Todos os diálogos registrados de 22 a 30 de abril se dão entre Hans,
que diz: "Sou a mamãe", e o papai, que lhe explica que isso não é possível.
Hans tenta convencê-lo de todos os jeitos possíveis: "Mas os meninos podem
ser mamães"; "Eu sei que os meninos não podem ser mães, mas acredito nisso
mesmo assim". Em vez de decifrar esses enunciados, o pai inventa fantasias
para ele. Por exemplo: "Se papai morresse, seria sempre papai': e outras do
mesmo tipo. Em 26 de abril, Hans afirma: "Sou a mãe delas de verdade, eu
ponho as crianças, os meninos e as meninas, para dormir comigo': O pai lhe
diz: "Você sabe muito bem que um menino não pode ter filhos': e Hans lhe
responde: "Sim, sim. Mesmo assim, acredito nisso': Apenas em 30 de abril,
ele dirá: "Antes, eu era a mamãe; agora, sou o papai". Considerando-se essa
frase, todo mundo fica contente - tudo está bem, tudo acaba bem. Happy end.
O caso, porém, não termina tão bem assim.
O que quer dizer o fato de Hans continuar, por dias, a introduzir a ques­
tão do pai via identificação com a mãe? Isso quer dizer que, no que diz respei­
to à questão do pai, a resposta que ele dá para si mesmo é a reprodução. O pai
é aquele que faz crianças. Isso não é desonroso. Sabemos o que ele se tornará,
um diretor de teatro, que põe em cena as crianças de sua imaginação. Será

38 A P O STA NO P A S S E
um artista, «sublimará': povoando o mundo com suas crianças imaginárias.
Quando diz ao pai: «Antes, eu era mamãe; agora, sou o papai': ele responde
ao desejo do Outro.
O que Hans de fato encontra no Outro é tão somente o falo imaginário.
Hans se sustenta não apenas da identificação com a mãe, mas também
da função da irmã. É a identificação a um personagem feminino que lhe
permite superar a angústia de castração. De algum modo, ele resolve a castra­
ção como uma menina o faria. Aliás, a história do mecânico incide sobre o
traseiro e não sobre o órgão masculino. Hans encontra sua solução mediante
a procriação, como uma espécie de solução feminina imaginária para uma
espécie de inveja do pênis. E a ideia de Lacan é a de que toda a vida de Hans
se manterá determinada por sua identificação feminina.
Para Hans, o objeto a continua a ser o falo imaginário. Sua saída de aná­
lise o direciona para uma produção que, de alguma maneira, contorna o sim­
.bólico do falo.

A SA Í DA D E A N Á L I S E N O S CA S O S DA J O V E M H O M O S S E X UA L ,
D O H O M E M D O S RAT O S E D O H O M E M D O S L O B O S

No caso da Jovem homossexual, trata-se, na verdade, de uma interrupção, de


que seria necessário resgatar o ponto preciso em que ela se produz. Graças
a certos aspectos, encontramos, nesse caso, a mesma questão do caso Dora.
A corrente ginecofílica é manifesta e se depara com a dificuldade de Freud
diante da segunda entrada em análise ( expressão de Gérard Miller) . Como se
ele se sentisse um pouco derrotista, quando um paciente chega a empurrá-lo
para fora, como se pensasse que uma demanda "autônoma" não pode emer­
gir da própria relação. Considerando o Relatório Europeu de 1994, podería­
mos nos perguntar se, em certo sentido, não há sempre uma segunda entrada
em análise. O sujeito sempre entra em análise antes de saber o que é, na ver­
dade, a psicanálise ou, ao menos, qual será sua relação prática com a análise,
e é preciso que invariavelmente intervenha uma confirmação dessa escolha.
Um fator se torna evidente quando comparamos o Homem dos ratos ao
Homem dos lobos: certa impaciência de Freud. Ele tem pressa em terminar.
Ele só pode receber um número limitado de pacientes e, quando já extraiu
deles o essencial para o que lhe interessa do ponto de vista científico, seu in­
teresse diminui e ele tende a mandar o paciente embora, para dar lugar a um
novo caso. No caso do Homem dos lobos, isso é explícito; no do Homem'dos
ratos, pode-se pensar que também há algo desse gênero.

S O B R E O D E S,E N C A D EA M E N T O DA S A Í D A DE ANÁ L I S E 39
Nos dois casos, o que importa a Freud é explicitar o motivo dos fenôme­
nos psíquicos. No caso do Homem dos ratos, trata-se de uma obsessão, um
mal-estar bizarro, estranho, que não se sabe de onde vem. Freud se empenha
em provar de onde ele vem, como se constrói, de que modo se instala, e pensa
que basta uma explicação para que o fenômeno desapareça. Ele acredita na
cura pelo saber, na cura epistêmica. O elemento transferencial propriamente
dito, ou seja, distinto da repetição, lhe é pouco evidente e aparecerá, mais
tarde, sob a forma da reação terapêutica negativa, que é a recusa da cura en­
tendida como cura epistêmica.
O caso da Jovem homossexual já foi bastante estruturado por Lacan.
Com base nessa estruturação, podemos abordar outros casos de Freud. Tanto
no caso do Homem dos ratos quanto no do Homem dos lobos, há uma pas­
sagem essencial. Para o Homem dos lobos, trata-se de uma passagem que
se lê no primeiro capítulo, em que Freud expõe seu método para conduir o
tratamento: o método da antecipação do fim. A razão que fundamenta esse
método atípico é descrita da seguinte maneira: ((O paciente de que me ocupo
permaneceu muito tempo entrincheirado, inatacável, detrás de uma postura
de dócil indiferença. Ele escutava, entendia, e não permitia que nada se apro­
ximasse" (Freud, 1918: 18). Eis aqui uma descrição muito precisa da relação do
sujeito com a fala, com sua própria fala e com a de Freud. O método de Freud
consiste, pois, em jogar com o tempo e, por esse viés, realizar um forçamento.
É o que predomina no caso. Pode-se, aliás, perguntar se Freud não acelerava
sempre a saída de análise, bem como questionar se estamos confrontados
com uma exceção ou se não há em Freud certo autómaton, que consistiria em
forçar o momento de concluir.
A passagem essencial no caso do Homem dos ratos, para o que nos inte­
ressa nesta discussão, encontra-se na parte E. Trata-se da exposição que Freud
faz de seu método. As obsessões, no caso, parecem absurdas; é preciso, pois,
lhes dar um sentido, procurar traduzi-las, mesmo que elas se afigurem inso­
lúveis. Ele explica precisamente como procede:

Chegamos a este esclarecimento, porém, situando-as em relação temporal com


as vivências do paciente, ou seja, ao pesquisar quando surgiu primeiramente
uma ideia obsessiva particular e em que circunstâncias externas costuma se
repetir. [ ... ] Podemos facilmente convencer-nos de que, após desvendar o nexo
entre a ideia obsessiva e as vivências do paciente, não nos será difícil ganhar
compreensão de tudo o mais que houver de enigmático e digno de conheci­
mento na formação patológica, sua significação, o mecanismo de sua gênese,
sua derivação das forças [pulsionais] psíquicas decisivas (Freud, 1909: 47).

40 A P O S TA NO PAS S E
Eis a ideia de uma cura pelo saber. Assim, quando considera ter traduzido
metodicamente todas as obsessões do paciente� Freud lhe diz adeus. É como
pegar um livro, traduzi-lo e, ao final, tudo se fez. O efeito terapêutico é indu­
bitável: o Homem dos ratos chega em estado de pânico; o pânico cede; alguns
aspectos de sua vida encontram uma solução.
Barbui estava certo ao introduzir a expressão "momento de concluir" e ao
falar de "precipitação do tempo para compreender': Com efeito, o método de
Freud no caso do Homem dos lobos põe em evidência o tempo lógico. É uma
aposta no tempo lógico. Toda a observação do Homem dos lobos valoriza o fa­
tor temporal e é assim que Freud desenvolve a função do só-depois, de que La­
can se servirá. Ao constatar os remanejamentos da significação por escansões
sucessivas, Freud aplica esse método ao tratamento propriamente dito e espera
que, fixando o fim por antecipação, fará surgir uma nova significação. O que
Freud tentou suprir, ao determinar, antecipadamente, o ponto de conclusão?
A falta de um ponto de estofo. Efetivamente, há no tratamento uma espécie
de movimento ao infinito - Freud emprega, a propósito do presidente Schre­
ber, o termo assintótico, que inspirará o esquema hiperbólico de Lacan. Diante
do autómaton infinito do caso, que vai, sem dúvida, além da neurose, Freud
procura produzir artificialmente um ponto de estofo, o que fará com que, em
seguida a isso, o Homem dos lobos seja tomado pelo delírio de se submeter a
uma cirurgia no nariz, ou seja, de realizar uma castração no real. Cada caso
de Freud demonstra a importância, o peso e a densidade do fator temporal na
psicanálise. Lacan enfatiza que a sessão psicanalítica se realiza essencialmente
no manejo desse fator. Ao lado do fator epistêmico, há o fator temporal.
O sintoma do Homem dos ratos, ao menos sob o impacto intenso do iní­
cio, adquire alguma solução, mas devemos disting1:1ir, também nesse caso, o
sintoma e a questão expressa por ele. Lacan pensava que, no caso do Homem
dos ratos, a questão não tinha sido resolvida de forma eficaz e, assim, levou
a sério a nota final sobre a morte do paciente durante a guerra. No fundo,
no curso de sua análise, formalizou-se o casamento do sujeito com a morte.
Lacan considera o encontro dele, na escada, com Anna Freud, que tinha es­
trume na área dos olhos, o emblema do caso. Dora e o Homem dos ratos: de
um lado, o sorriso da Gioconda; do outro, a moça com olhos de betume.
Por que Lacan valoriza esse encontro na escada? Porque, para ele, o pro­
blema fundamental do obsessivo é: "Estou morto ou vivo?" Lacan, assim, dá a
entender que o Homem dos ratos não escapou da ascendência da morte; em
vez disso, na análise, fez um pacto com ela.
Chegamos a formular, nessa perspectiva, que interrupções se produzem
inesperadamente, quando o analista passa da posição simbólica à posição

S OB RE O D E SEN CAD EAM ENTO DA S A ÍDA DE ANÁLI S E 41


imaginária. Observamos isso no caso do Homem dos ratos? Não. Não houve,
propriamente, interrupção. Freud considera que se trata de uma conclusão.
Ele, aliás, acredita que ocorre o mesmo com o Homem dos lobos. O caso do
presidente Schreber é um caso limite, pois não implica tratamento.
No caso Dora, observamos que Freud só sustenta a análise enquanto está
em trabalho de decifração; quando se trata de ele se envolver um pouco no
caso, de sustentar a causa do desejo, não há mais ninguém. Pode-se perguntar
inclusive se o próprio Freud não era um pouco casado com a morte. Com
certeza, lembra Lacan, ele era igualmente um homem de desejo, de um desejo
que, até agora, sustenta a todos nós, e isso torna ainda mais assombroso o de­
saparecimento de tal desejo em determinados momentos. É que seu desejo é
um desejo de saber marcado pela ciência, que se eclipsa quando se desprende
o mais-de-saber.

" H Á S E M P RE M AN I F E S TA Ç Õ E S RE S I D UA I S "

Tínhamos combinado que Marco Focchi comentaria a frase de Freud "há sem­
pre manifestações residuais': que se encontra no terceiro capítulo de ''Análise
finita e infinita" (Freud, 1937). Preferindo decifrá-la na particularidade do
texto, ele não cedeu à vontade de generalizá-la. Eu me permito traduzi-la em
nosso jargão: "Há sempre o objeto a''.
Jamais há sistema significante sem o objeto a. Isso é uma espécie de axio­
ma freudiano. Isso quer dizer que, na psicanálise ou na ordem do sujeito,
nada não é tudo. Trata-se de uma maneira de se aproximar do significante do
Outro barrado, S(,A'.) .
De outro ponto de vista, isso se inscreve no antiprogressismo característico
do final do século XIX, que contrasta com o progressismo do século xvm e a
confiança na capacidade da humanidade de eliminar o Antigo Regime. Con�ta­
ta-se, no século XIX, uma derrocada da ideologia progressista, de que Nietzsche
é uma das expressões. A frase de Freud também expressa isso. Ela afirma que o
homem novo é impossível. A Revolução de Outubro dirá o contrário.
Estamos no final do século XX e a ponto de confirmar a exatidão da frase
de Freud sobre as manifestações residuais. É surpreendente constatar certo
"retorno a 1914': bem como à bomba atômica. Seria preciso completar a frase
de Freud da seguinte maneira: há sempre manifestações residuais e ainda
bem que elas não passam disso.
Generalizando a frase de Freud, chega-se a dizer: "O sujeito é sempre
dividido".

42 A P O STA NO PAS S E
,
Todo o terceiro capítulo de ''Análise finita e infinita, é consagrado ao
enigmático fator quantitativo e ao que Freud chama de potência irresistível
desse fator. Quando declara ter negligenciado o fator econômico, Freud se re­
fere ao que nós constatamos nos relatos de caso: uma elucidação significante
não é suficiente para operar; resta alguma resistência, não a do paciente, mas
a da própria coisa, uma resistência do isso, da libido, de sua viscosidade, da fi­
xação. O encantamento provocado pela leitura dos casos de Freud está ligado
ao mito de uma libido fluida, que estaria inteiramente na decifração, como se
pudéssemos escrever no quadro a operação e seu resultado, e seguida mostrá-
-lo ao paciente, que, nesse momento, se levantaria, como Lázaro, e iria em­
bora, liberto do sintoma. Quando Freud diz: "Esqueci o fator econômico': ele
extrai essa conclusão de suas dificuldades com seus pacientes. Ele revela isso
,
com base no modo pessimista de que ''Análise finita e infinita , é testemunha.
O que faz Lacan? Ele afirma: "Já que há sempre manifestações residuais,
já que há sempre um resto, estudemos então o que podemos fazer com esse
· resto. Chamo esse resto de objeto a". Em termos freudianos, trata-se de um
resto de libido presente, paradoxalmente, em um conjunto significante de
que é desarmônico.
A grande ideia de Lacan é a de que, para o analista, vale mais se identificar
com o objeto a causa do desejo do que com o a da relação imaginária. A ma­
nifestação residual da análise é o analista. Sair de análise implica tentar deixar
para trás essa manifestação residual. O analista, no entanto, é uma manifes­
tação residual muito resistente. Talvez não se leve a pátria na sola dos sapatos
(Danton), mas corre-se grande risco de levar o analista Muitas vezes, alguém
se torna professor para não deixar a escola, do mesmo modo que tornar-se
analista significa permanecer na análise. Pode-se presumir que os melhores são
aqueles que saem completamente da psicanálise. Lacan dizia isso.
Tudo o que Freud analisou do lapso e do ato falho como a revelação de
uma verdade se traduz, do ponto de vista econômico, na presença de um
mais-de-gozar.
A frase de Freud "Quem é habitualmente muito amável se deixa levar a
um ato de hostilidade..." me evoca um episódio, já contado em meu curso, e
que, para mim, permaneceu inesquecível. Tem a ver com meu filho, quando
tinha três anos de idade e era apaixonado pelas galinhas do galinheiro de' ·
Guitrancourt. Ele se levantava muito cedo para levar comida para elas. Vesti­
do dos pés à cabeça como devia, com botas, um balde muito pesado para um
menino tão pequeno carregar, mexendo e remexendo os grãos, ele entrava ar­
rojadamente no galinheiro e os distribuía a todas as galinhas que se dirigiam
até ele. Era um modelo de generosidade, de ablatividade, de caridade. Eu o

S O B R E O D E S E N CA D E A M E NT O DA S A Í DA DE ANÁLI S E
43
observo. E eis que, em determinado momento, inesperadamente, ele dá um
chute nas galinhas, que se dispersam. Foi como um raio em um céu sereno.
A frase de Freud sobre as manifestações residuais implica uma libido
inerte e não mais móvel. Muitas passagens de Freud inspiraram a Lacan o seu
objeto a, mas o terceiro capítulo de ''Análise finita e infinita" é, certamente,
uma das fontes fundamentais. Ao passo que o significante é metáfora e meto­
nímia, mobilidade, a manifestação residual é fixação. H� sujeitos que, mesmo
tendo acesso ao outro sexo pelo coito, jamais serão persuadidos a obter tanto
gozo disso quanto da masturbação. Eis um exemplo de manifestação residual.

44 A P O STA NO PAS S E
C L A S S I C I S MO D O PAS S E
A PERG U N TA DE MADR I 1

A ÉCOLE EURO P ÉENNE DE PSYC HANALYSE tira sua energia da rapidez das
trocas favorecidas pelo fax. É um "fato específico': um fato novo que introduz
a presença da ciência na vida cotidiana, com efeitos devastadores.

O D E U S FAX E O MATHEM UND O

O fax marca, de fato, a fundação da École Européenne de Psychanalyse (EEP) .


Sem ele, a elaboração dos estatutos d a Seção da Catalunha teria durado seis
meses, ou mesmo um ano, e não um mês e meio. Antes da criação da EEP,
eu, pessoalmente, nunca o havia utilizado; sabia que existia um aparelho
desse tipo, em um local onde não costumava ir. Tinha certa desconfiança
dessa nova invenção, que me parecia menos atrativa do que o correio. Ain­
da que a técnica não seja meu forte, enviei um fax pela primeira vez no dia
24 de setembro, por ocasião . da chegada de um desses aparelhos em meu
apartamento.

N. da o. Convidado a participar do colóquio Uno por Uno, organizado pelo Campo freu­
diano em Madri, no dia 17 de novembro de 1990, Jacques-Alain Miller deu à sua alocução
a forma de uma pergunta. O texto dessa alocução, após ser publicado, em espanhol, em ' ·
Uno por Uno, n. 17 (Barcelona, 1991, p. 15�), foi traduzido para o francês e publicado em
Recuei!, n. 9 (Angers, 1991, p. 109-18) . Posteriormente, foi publicado, entre outros textos
resultantes desse evento, que refletem um debate sobre a Escola e o passe, desenvolvido de
1990 a 1992, na rubrica "A entrada pelo passe" em Orientação Lacaniana: Revista Brasileira
Internacional de Psicanálise, n. 13 (São Paulo, 1995, ago., p. 9-13). Esta tradução foi feita a
partir da versão reeditada por Jeanne Joucla, Nathalie Georges-Lambrichs e Pascale Fari,
. e publicada em La Cause freudienne, n. 74 (Paris, 2010, p. 125-31).

47
Esse fato novo introduz o domínio da tecnologia no dia a dia, impli­
cando repercussões irrefutáveis: certamente, Heidegger jamais teria tido um
fax. Poderíamos, talvez, falar do deus Fax, um deus desconhecido da mito­
logia grega e inventar uma genealogia para ele. Por exemplo, filho de Íris,
a mensageira, e de Hermes, visto que, para Lacan, os deuses são da ordem
do real. Com efeito, como produto do discurso da ciência, o fax é algo real.
Vemos isso na facilidade com que ele se faz obedecer - pode-se mesmo dizer
que toma seu usuário um escravo -, assim como pela velocidade com que
modifica a realidade do mundo, a estética kantiana e a doutrina clássica do
"espaço-tempo". O fax modifica também a noção de proximidade e a relação
de vizinhança, aproximando-nos, apesar das distâncias geográficas. Enfim,
ele altera as relações temporais pela aceleração que imprime a nossos atos -
ele nos faz correr. Assim, marca a vida e a realidade de cada um.
Em O Seminário, livro 17: o avesso da psicanálise, Lacan introduziu as pe­
quenas letras dos discursos: em vez de estratosfera, ele sugere aletosfera, ou
seja, a esfera do mundo transformada pela aletheia, os efeitos de verdade.
Vivemos menos no cosmos, diz ele, do que em um mundo estruturado por
esses efeitos. A exemplo de Santo Agostinho, para quem "em Deus vivemos,
bebemos e comemos': podemos dizer que é na linguagem e nos efeitos de
verdade que fazemos tudo isso. Ora, por se constituir um efeito do discurso
da ciência, o fax cristaliza ainda a transformação e o deslocamento do nosso
mundo: poder-se-ia falar, a propósito, do mathemundo - mathema e mundo -
engendrado por ele. O efeito fax difere do efeito telefone: não transmite a fala,
mas o escrito. Poderia ter-se chamado telegrama ou telégrafo, mas não havia
outro nome a não ser "telecópia': que lhe foi atribuído. Aliás, não pensei mais
a respeito, porque o deus Fax não nos dá tempo para pensar nele: ele ordena
e deve-se segui-lo.
O telefone favorece uma ilusão da presença do outro, uma falsa presença,
não uma presença verdadeira, embora, em análise - isto é um aspecto técnico-,
creio que não seja preciso dizer a um analisante coisas especiais por telefone;
pode-se dizer "sim': "não': "venha': quase nada mais. Além disso, dado que se
trata de fala, não resta qualquer objeto concreto da operação, enquanto o fax
é como uma carta - lembremos, a esse respeito, o estatuto específico atribuído
por Lacan à carta de amor. A carta tem, em relação à chamada telefônica, a
superioridade de reconhecer a distância. Na literatura, as correspondências
amorosas sempre incorporam a distância existente entre dois que têm neces­
sidade da linguagem e da carta como vínculo. É a assunção da distância que
torna a carta mais autêntica do que o telefone. Com o fax, um objeto material
fica entre as mãos, algo mesmo que se pode mostrar, que tem objetividade;

A P O S TA NO PAS S E
é como um combinado que, por telefone, se mantém incerto. O fax nos co­
munica o significante e produz um objeto, semelhante, nesse ponto, à carta,
que tem duas vertentes: a do significante e a do objeto.
A EEP, portanto, desenvolveu-se rapidamente no novo mundo do fax, em
que as pessoas se comunicam sem a fala viva. O fax produz um estranho sen­
timento de falar pela escrita, como se ele, mutatis mutandis, «realizasse um
discurso sem palavras" - o ideal de Lacan -, mas trata-se de algo desprovido
de fala viva. No mundo fax, nada resta esquecido, da mesma maneira que se
fala de uma "memória" do computador.

O U N I VE R S A L E O E X I S T E N C I A L

"Que se diga fica esquecido por trás do que se diz. . .': assim começa o escrito de
Lacan intitulado "O aturdido" (1972). É preciso refletir sobre o fato de que a
aparência do universal se revela, na realidade, em um modal existencial, cuja
prova repousa no subjuntivo. Isso se esclarece se pensamos no que seria essa
proposição sem subjuntivo. Poder-se-ia dizer, então, que, como enunciado,
ela esconde ou faz esquecer sua declaração ou, ainda, que todos os enuncia­
dos fazem esquecer sua declaração, o que seria, obviamente, uma proposição
universal sem subjuntivo. Dizer "que se diga" faz ver em que sentido o exis­
tencial se esconde sob todo universal. Trata-se de uma tese geral de Lacan,
que se lê em seu próprio exemplo: "Que se diga fica esquecido...". O que se re­
fere àquilo que se diz. O emprego do subjuntivo significa que se pode, ou não,
dizê-lo, que não há obrigação alguma, que não é necessário, mas contingente.
Por exemplo, na EEP, para nos comunicarmos, preferimos amplamente o fax,
que nos parece mais claro, pois não precisa de escuta, a escuta que caracteriza
a prática da psicanálise, ou seja, a Escola "em si': Para evitar os "Eu não disse
isso" ou "Não foi isso que eu quis dizer': é melhor se comunicar por fax.
Consequentemente, poder-se-ia decidir que a EEP somente se comuni­
cará por fax, de forma que ninguém decidirá nada por outra pessoa. Consi­
derando-se o "que se diga fica esquecido ...': poderíamos , portanto, graças ao
fax, nada esquecer... Todavia a operação estaria sempre sujeita à contingência,
dimensão em que se coloca o problema específico relativo a toda proposição
universal: saber se há ou, então, se não há. Dito de outro modo, ainda é pre­
ciso que haja o fax. Se é possível, com efeito, declarar que "o unicórnio está
de mau humor" ou mesmo que ''todos os unicórnios têm pelagem ruim': é
muito difícil prová-lo, considerando-se a natureza evanescente do unicórnio.
Desde a Idade Média, é um problema saber o que acontece com uma propo-

A PERGUNTA DE M A D R I 49
sição universal , quando ela não existe. Tratava-se da questão da articulação
de um universal com o existencial.
Por que é modal, e não assertivo? A asserção se produz porque o subjun­
tivo é modal. Na asserção, trata-se de saber se há ou se não há: é um problema
de exatidão e de verificação, para dizer-se sim ou não. Por exemplo, quando é
o momento de dizer sim ou não - a célebre frase da primeira página de Uno
por Uno -, isso quer dizer que todas as outras modalidades diferentes do sim
e do não desaparecem. É complicado, porque, no subjuntivo, experimenta-se
o desejo ou a inveja. Nesse caso, não é mais o tempo do desejo, mas o de
sua realização, o momento horrível do cumprimento dos desejos: após o
«o que você gostaria?" ou "Você não gostaria?': com sua carga de desejo no
subjuntivo, vem o momento do "o que você quer" ou do "o que você não
quer': o momento de dizer sim ou não.
Compreende-se, então, a fragilidade de todo universal, sempre ameaçado
por um contraexemplo: "há um que diz não': É sobre isso que Karl Popper ba­
seou toda a sua epistemologia; o discurso da ciência formula proposições uni­
versais invariavelmente intimidadas pela ocorrência potencial de um contrae­
xemplo, de sorte que vivemos geralmente na expectativa desse contraexemplo.
A única coisa que permite verificar uma proposição universal é, após
se ter examinado um a um, poder dizer: "não há um que diz não': O "para
todo x" [Vx] pressupõe o estabelecimento de que não há um x que não res­
ponde à propriedade. Além do fato de que o universal depende do existencial,
quando se trata de um conjunto vazio - vazio de unicórnio, por exemplo -, é
impossível apresentar um contraexemplo à proposição "todos os unicórnios
estão de mau humor". Se vocês quiserem demonstrar o contrário, deverão
apresentar ao menos um unicórnio de bom humor.

AS D UA S L Ó G I C A S D O " T O D O S "

Ademais, em Lacan, uma proposição universal só é possível, se há um exis­


tencial negativo, isto é, um contraexemplo. Só se pode dizer todos a partir de
um ponto que está fora do todo, de um ponto que aponta para uma negação.
É a lógica do líder, que torna plausível o conjunto de todos, sob a ressalva da
exceção de um ou de alguns. Tomemos o exemplo do cartel: ele responde à
lógica do todo, de fazer conjunto com um mais-um; mas também se opõe a
essa lógica, pois há nele a intenção de antinomia entre o um por um e o todo.
Com efeito, quando dizemos "Todos': não é necessário tomar as pessoas uma
a uma. "Todos fora!": não se vai tomar cada pessoa pela mão, chamá-la pelo

50 A P O S TA NO P A S S E
nome e dizer-lhe: "Por favor, saia, ,; diz-se "todos", de modo que se simplifica
- bastante a vida, quandonos dirigimos a todos. O um por um se impõe, quan­
do o todo não funciona, e o todo parece não funcionar, quando há o infinito,
quando não chegamos a terminar algo, quando há sempre mais e mais. Vocês
sabem, por exemplo, que Cantor conse&uiu falar de todos os números intei­
ros e inventar um significante para designar todos eles, a saber, o· todos do
todo dos números inteiros; porém, uma vez completada essa façanha, foi-lhe
forçoso inventar sempre mais significantes, porque a operação se reproduzia
de uma maneira infernal.
A primeira lógica é, portanto, a do todo e do mais-um ou do menos-um.
Há, porém, outra: em vez de fechàr o todo, deixa-se um ponto negativo fora
dele, um ponto diferente; então, o todo não se constitui e se formula o "não
todos': "não todos" que respondem ao predicado segundo o qual não pode­
mos dizer «todos': Há, pois, duas maneiras de não poder dizer "todos': Por
exemplo: ''Todas as ovelhas são brancas': Se, em dado momento, vemos uma
ovelha negra, dizemos: "Não todas as ovelhas são brancas". Pegamos a ove­
lha negra e a colocamos .de fora, porque não queremos mais vê-la. Podemos,
então, dizer: "Antes, não todas as ovelhas eram brancas, mas agora todas as
ovelhas sã0 brancas': Há, no entanto, outra maneira de entender "não todas
são brancas". É um fenômeno curioso: elas são todas brancas, exceto a que é
negra. Pegamos a ovelha negra e a retiramos. Ora, eis que, de volta, entre as
ovelhas brancas, há outra negra; fazemo-la sair; e assim sucessivamente.

A E S C O L A PA R A D OXAL O U N Ã O HÁ S E R D O A NA L I S TA

Não é isso o que se produz em um conjunto não segregativo ou que, ao me­


nos, resiste à segregação. Toda a dificuldade da Escola paradoxal - para reto­
mar um tema desta tarde - reside no fato de que uma Escola de Psicanálise
funciona com um não todo de que, em vez de introduzir no "todos" um trans­
gressor negro, suscetível de ser eliminado, não se possa jamais dizer "todos':
nem para os analistas, nem para um analista em particular, já que não há um
"ser" do analista. É que cada analista esconde algo de negro e os mais honestos· ·
talvez sejam aqueles que se mostram negros. Em consequência, a ideia de
segregação não 'é um princípio da Escola, embora esta seja seletiva. A seleção
que ela pratica obedece a uma lógica que sempre possibilita à ovelha negra
se reintroduzir. Ninguém sabe se é a mesma ovelha negra ou outra que saiu
pela porta e tornou a entrar pela janela. Dizer um por um significa que não
funcionamos sob a égide de uma essência do analista.

A PER G U N TA DE M A D R I 51
Trata-se de verificar se há a essência não do analista, e sim do predicado.
Não temos uma máquina precisa de critérios para verificar se alguém respon­
de a algum deles. E, ao mesmo tempo, há um tipo de marca - eventualmente,
a do passe - que parece poder indicar que há um analista. De modo que o um
por um funciona no modo do não todo segregativo ou, em outras palavras, no
do não todo que não permite reconstituir um todo pela exclusão de um ou de
alguns elementos.
Afirmamos, pois, que o passe e o cartel são dois pilares da Escola: o cartel
responde à lógica do todo, uma vez que constitui um pequeno grupo sob a
condição de haver um mais-um; o passe responde à lógica do não todo. Aliás,
isso também se articula com o que, em outra perspectiva, eu disse do cartel,
ao caracterizá-lo como destotalizador.
O um por um é necessário, quando o todo não funciona. E o todo parece
não funcionar quando há o infinito.

A E N T R A DA NA E S C O L A

Volto ao que m e parece necessário discutir como pergunta e não como deci­
são: a entrada na Escola.
Lacan não determina, propriamente falando, um critério para a entra­
da na Escola. Vamos constituí-la fechada e estabelecer o Grupo de Estudos
de Madri ( GEM) como seu limiar. O GEM tem uma porta, guardada por um
Conselho, que trabalha, atualmente, para que ela seja transposta. Qual é, en­
tão, a pergunta que decidirá a entrada na Escola? Lacan, certa vez, propôs
uma fórmula: a do ''trabalhador decidido': Essa expressão, que ele utilizou
apenas uma vez, nós a repetimos tanto, que o dito trabalhador decidido aca­
bou se tornando um personagem burlesco: "O que faz você na vida?" "Sou
um trabalhador decidido!': Não sei se o trabalhador decidido se apresenta
dando acesso a seu foro íntimo ou se ele promete maravilhas para o futuro...
Em todo caso, a pessoa entra, a máquina funciona e sai dela sim ou não. Pode-
-se dizê-lo assim, já que é preciso ser reconhecido como trabalhador decidido
para entrar no GEM. Alguém me perguntou se seria necessário demonstrar
duas vezes que se é um trabalhador decidido: na entrada e, depois, compro­
vá-lo por via de consequência... É um problema sério, não? Sempre se pode,
portanto, invocar esse critério previsto por Lacan em 1964.
Contudo, em 1974, ele apresentou aos italianos outro critério. Propôs­
-lhes que, para entrar na Escola, se demonstrasse ter sido analisado. Tal é a
questão que Lacan lhes fez. A proposição foi, ao que parece, tão impositiva,

52 A P O STA NO PAS S E
tão amedrontadora, que ninguém se apresentou e todos fugiram das reuniões,
cada um correndo para sua catástrofe pessoal ...
É um fato.
Em Granada, evidenciei esses critérios para entrada propostos por Lacan:
0 de 1964 e o de 1974. O que fazemos com isso? Pois as pessoas dizem: "Miller
passa muito tempo às voltas com questões institucionais e rapidamente nos
voltamos para as questões analíticas': Estamos nesse ponto.
Em dois momentos diferentes, Lacan indica duas maneiras de entrar na
Escola: a primeira consiste em demonstrar que se é um trabalhador decidido;
a segunda, em demonstrar que se é analisado. Agora que entramos nos anos
1990, qual desses critérios adotar? Tive um lampejo a respeito disso em Gra -
nada, há 15 dias.
Não creio que tenha sido um acaso Lacan ter proposto dois tipos de en­
trada. Isso traduz plenamente os dois tipos de seleção do analista que ele
previra: a seleção como Analista Membro de Escola (AME) - ou seja, a do
analista que trabalha bem como analista -, que é uma seleção pelo trabalho,
e a seleção pela análise, que resulta no Analista de Escola (AE ) . A entrada na
Escola advém, igualmente, dessa problemática. A homologia entre os dois
modos de entrada na Escola e as duas formas de seleção do analista no seio
da sua École freudienne de Paris me parece extraordinária:

19 64 AME - Analista Membro da Escola


segundo seu trabalho por seu trabalho

1974 AE - Analista da Escola


segundo sua análise pelo passe

Eis, pois, minha pergunta: não seria um alívio prever, hoje, dois modos
de entrada na Escola, em vez de apenas um? Não estou falando dos grupos
de estudos. Prever dois modos de entrada na Escola, ou seja, dar a cada um
a liberdade de saber se demanda sua entrada com base em seu trabalho para
a causa analítica ou se quer entrar como analisado, pelo passe, argumentando, ·
que fez ou está fazendo análise.
Não me parece possível manter apenas a seleção de 1974 e dizer a todos:
"Ninguém entra aqui, se não se submeteu ao passe': "Todos" é também uma
proposição universal: "Todo membro da Escola foi analisado!" É tão surpre­
endente que não haja alguém no conjunto! Trata-se de um conjunto vazio,
como o dos unicórnios.

A PERGUNTA DE M A D R I 53
Como delegado geral, importa-me não impor procedimentos impossí­
veis nessa área, mas deixar a cada um decidir se quer entrar na Escola, argu­
mentando com o que faz, ou quer fazer, para a difusão da psicanálise, bem
como com seu trabalho como analista, ou alegando seu trabalho, passado ou
atual, como analisante. De maneira análoga à seleção do analista prevista por
Lacan, trata-se de distinguir um passe na entrada, em que estará em questão
menos o fim de análise do que o seu início, e, para os não analistas, a via
do trabalho feito ou por fazer. Essa é minha pergunta. O que vocês pensam
a esse respeito? Jamais falei disso a alguém. O que vocês pensam sobre dar a
cada um a liberdade de entrar na Escola segundo uma ou outra dessas moda­
lidades? É uma verdadeira questão. As contribuições de vocês serão muito
importantes para o futuro da Escola.
Obrigado.

54 A P OSTA NO PAS S E
"LO GO, E U sou 1 s s o "1

Qual é o logo que nos interessa aqui? Parece-me necessário precisá-lo. Qual é
o logo que nos diz respeito agora, o que, para nós, está em questão neste ano?
É o logo da conclusão do tratamento analítico.
Essa palavra, conclusão, não encontrou, até agora, uso corrente nessa
função. Se a levamos a sério, para designar o autêntico fim de análise, seu
verdadeiro termo, para distingui-lo da interrupção, da saída prematura, da
saída, digamos, não necessária, seja ela contingente ou simplesmente pos­
sível, então é preciso tomar como seu pivô um logo, já que uma conclusão
comporta, implícito ou explícito, um logo. E queremos, neste ano, fazer essa
palavra existir na psicanálise, no intuito de possibilitar um conteúdo preciso
ao verdadeiro termo da análise.
De que ordem é esse logo da hipotética conclusão do tratamento? Qual é
seu estatuto? Será que vem coroar uma dedução? Ou se trata de uma indução
a que ele põe o ponto final? Eis uma alternativa que se propõe. O que supõe
questionar, igualmente, em que sentido ou em que medida o tratamento ana­
lítico é assimilável a um processo lógico e a qual deles. Nada esclarece que
os conceitos de dedução ou de indução bastam para capturar esse eventual
processo lógico, se é que ele existe.

Não pude, neste curso, fazer alusão a Scepticism, Rules and Language (Baker & Hacker,
1984), panfleto antikripke. Consultei com interesse Boghossian (1989). Em francês, destaco
La force de la regle: Wittgenstein et l'invention de la nécéssité (1987). N. da o. Quarta lição, de
12 de janeiro de 1994, do curso "Donc" (1993-4), ministrado no âmbito do Departamento
de Psicanálise de Paris vm. O texto, redigido por Catherine Bonningue, foi publicado na
revista La Causefreudienne, n. 27: La passe, fait ou fiction?, Paris, 1994, p. 9-20.

55
Isso não é nada, ainda que Lacan tenha aberto - e tornado assustador -
o caminho que vai do terapêutico ao lógico. Nada garante que o lógico tenha
prevalência sobre o terapêutico. Há uma tensão entre o terapêutico e o lógico.
Na expressão conclusão do tratamento, as duas dimensões estão justa­
postas, mas não se pode afirmar que nela esteja prevista a articulação entre
o terapêutico e o lógico. A palavra "conclusão" pertence à dimensão lógica.
Um tratamento designa um processo terapêutico. Seguimos claudicando na
tentativa de nos virar com isso. E, considerando que a ênfase, ao menos neste
ano, recai sobre o termo conclusão, o termo tratamento se encontra conde­
nado, tem vocação para ser dissolvido.

A partir de Freud e do senão posto por ele na noção de cura e no desejo de


curar, somos levados a pôr em dúvida o fim do tratamento. Sem dúvida, ele
pôde descrever certos aspectos do que está em jogo, mas parece insuficiente
para denominar o processo e é, por isso, que recorremos de bom grado à
palavra experiência. A própria palavra merece ser precisada. Não se trata, evi­
dentemente, de experiência no sentido de experimentação. É a experiência -
avancemos com cuidado - entendida como subjetiva.
O que isso quer dizer? A experiência subjetiva pode significar que o sujeito se
presta, se dispõe a passar por uma, talvez várias transformações, ou, ao menos -
sejamos ainda mais prudentes -, por certos estados inéditos para ele, sendo esse
o sentido em que não é ilegítimo falar de experiência mística. Ou, ainda, que o
consumo de drogas, os efeitos dele decorrentes, a narrativa que se faz disso sejam
qualificados de experiência, experiência alucinógena, segundo Lacan. Platão, do
mesmo modo, descreve, em Pedro, os procedimentos pelos quais se chega a certo
número de estados de entusiasmo. Há também uma gradação no tocante a essas
experiências de diferentes estados de consciência em diversas iniciações asiáticas.
É pouco verossímil que seja nesse sentido que entendamos o termo experi­
ência. Como observa Lacan, Freud se afastou cuidadosamente dessa dimensão
(Lacan, 1960b: 810). No que respeita à histeria, ele preferiu - verbo usado por
Lacan - fiar-se no discurso da histérica, em detrimento dos estados hipnoides.
Aliás, ter confiado nesse discurso teve como efeito amenizar e até mesmo fazer
desaparecer a eventual propensão do sujeito a se pôr em tais estados.
Sem dúvida, é preciso acentuar, no termo experiência, o sentido hege­
liano - o próprio Lacan sublinha o descarte freudiano das modificações dos
estados de consciência em um desenvolvimento a propósito de Hegel.

A P O S TA NO PAS S E
O conceito hegeliano de experiência é imediatamente valorizado no iní­
cio de Fenomenologia do espírito, essa fenomenologia que inspirou Lacan, de
que ele se serviu e que só descartou, ou relativizou, no final de seus Escritos,
ao passo que está muito presente, para ele, quando se trata de pensar sobre o
curso da análise. Não existe na obra de Lacan, propriamente falando, um ma­
terna do curso da análise. Há uma fórmula de seu início, uma fórmula de seu
fim, uma fórmula da estrutura do discurso analítico. Não há - poder-se-ia
pensar que isso faz falta - uma fórmula do próprio curso da análise. Talvez,
por muito tempo, ele tenha encontrado um substituto para ela precisamente
no conceito hegeliano de experiência.
Essa palavra está em evidência bem no início de Fenomenologia do espí­
rito. Hegel empregou provisoriamente o título "Ciência da consciência da
experiêncià: em lugar de Fenomenologia do espírito, logo depois do prefácio e
antes da introdução: Wissenschaft der Erfahrung des Bewusstseins. Erfahrung,
e não Erlebnis.
Há um texto importante de Heidegger sobre Hegel, intitulado «Hegel e seu
c onceito de experiência" (Heidegger, 1937) . Experiência quer dizer, de maneira
resumida, que não se deve começar a expor a ciência filosófica pela crítica do
conhecimento. Não é preciso fazer o que foi feito por Kant, que não é referido
na introdução - começar por examinar, criticar nosso poder de discernir - , mas
também não se deve começar de imediato pelo que seria o saber verdadeiro, o
que significaria, escapando ao criticismo, cair no dogmatismo. No sentido de
Hegel, estabelecido por ele desde a introdução da sua obra, a ciência, o conhe­
cimento efetivo do que, na verdade, é o saber verdadeiro, encontra-se intrinse­
camente ligada a uma experiência. Esse saber verdadeiro, como ele entraria em
cena - entrar em cena é uma expressão de Hegel -, são e salvo, para formular o
conhecimento absoluto, para dizer o que é verdadeiro e o que é o falso? Se o saber
verdadeiro entrasse em cena desse modo, rejeitando os saberes, as crenças que
não são autênticas, assegurando-se de constituir-se em um saber de ordem com­
pletamente diferente e remetendo todo o resto ao nada, seria apenas um saber
parcial, ou seja, um saber que manteria sempre como seu Outro o saber não ver­
dadeiro, e a que se teria ainda de pedir explicações sobre tal saber não verdadeiro.
É uma objeção que se apresenta facilmente, quando se leem os filóso -: .
fos da lógica modernos, aqueles que desencaminham nossas falsas crenças.
Ainda assim, é- lhes necessário, vez por outra, dedicar alguma consideração
ao problema de saber por que se fala assim, para não dizer nada, isto é, para
dizer coisas que não são tão pertinentes quanto a neve é branca porque a neve
é branca. E, na maior parte do tempo, eles não têm a mínima ideia de por que
não se passa o tempo a dizer coisas verdadeiras desse tipo.

"LOGO, EU S O U I S S O " 57
De acordo com Hegel, portanto, o saber verdadeiro não se dá de uma só vez,
e sim passo a passo, precisamente ao longo de uma experiência em que o sa­
ber não verdadeiro se modifica. É por isso que ele define Fenomenologia do es­
pírito como um processo - em francês, curiosamente, como a apresentação do
saber se apresentando - die Darstellung des erscheinenden Wissens. Erscheinung
é a aparência, ou seja, ele demonstra, ordena, no decorrer de um tempo, de
que modo o saber, no próprio movimento de se revelar, penetra a não verda­
de. O que ele expõe e chama de ciência apresenta o saber se constituindo no
movimento de seu aparição; e ela mesma aparece, nessa apresentação, desfa­
zendo-se das aparências não verdadeiras.
A própria palavra fenomenologia indica que se seguem, precisamente, es­
sas aparições do saber, que há um itinerário que vai da consciência natural,
da consciência cotidiana, aquela que reside no mundo, no meio do ente, até a
conclusão, que é o conhecimento filosófico, científico, a que Hegel dá o nome
de saber absoluto. O caminho da experiência corresponde a seguir o que está
dado, a apoiar-se nos fenômenos para acompanhar o vestígio da consciência
natural que se põe em movimento.
Pergunta: por que essa consciência não permanece bem tranquila se pro­
cessando no mundo? Ela é impulsionada a avançar. Já há, de saída, algo que a
aflige, que age sobre ela, e ela se sente arrancada de si mesma por uma inquie­
tação, levada para além de si mesma. A palavra angústia vem da pena de Hegel
na referida introdução. A consciência como refletida, como consciência de si,
comporta o sentimento de uma violência que a extirpa. Ele afirma: "A angústia
pode bem recuar diante da verdade, mas não,,pode se apaziguar. Em vão, ela
quer se fixar em uma inércia sem pensamento, mas este perturba a ausência de
pensamento e sua inquietação incomoda a indolência': Essa palavra angústia, já
no início de Fenomenologia do espírito, é destacada por Heidegger, bem como o
reino da inquietude que impulsiona a consciência em seu itinerário.
Esse itinerário assume certo número de formas, que são, para Hegel, es­
truturas da consciência, cada uma delas situando uma relação precisa do su­
jeito e da verdade. Em cada uma dessas formas, que são, na maioria das vezes,
historicamente identificáveis, pode-se dizer que, a cada oportunidade, o su­
jeito formula um isso é verdade. E depois, dialeticamente - ou seja, por sua
própria experiência dessa verdade -, ele descobre nisso a não verdade, desfaz-
-se da verdade anterior, apenas transitória, para passar a um novo regime da
verdade. Veem-se, assim, mais ou menos - isso é habilmente entabulado -
as formas da consciência se sucederem umas às outras sem solução de con­
tinuidade. Portanto, na continuidade das passagens, para-se em uma delas;
em seguida, a Aufhebung opera, e a consciência se torna uma nova forma.

58 A P O S TA N O PA S S E
A tradução, hoje abandonada, de Aufhebung como ultrapassamento
[dépassement] tinha, para nós, muitas ressonâncias. De certo modo, a cons­
ciência não cessa de passar, não cessa defazer o passe de uma forma a outra,
até o passe final, o saber absoluto, que é a conjuntura última. E eu disse que,
ao longo dos Escritos, Lacan se liga a essa experiência dialética das formas da
consciência para pensar sobre o curso da análise.
É notável que, tal como Hegel imagina, essa experiência da consciência
que se desdobra na história convirja - não é uma história aberta - para de­
terminada conjuntura, "a conjuntura do saber absoluto': E, quando se chega
a esse ponto, é o fim da história. Audacioso.
Audacioso, mas, de tempos em tempos, há frutos do processo e alguém
se levanta para dizer: "Não, não, vejam bem, olhem à sua volta, isso continua
apesar de tudo".
Pois bem, Lacan introduziu a ideia de que a psicanálise era um<1; expe­
riência dialética. Isso quer dizer que o sujeito se desdobra, se desloca, como
Hegel o diz, no elemento da verdade. É com isso que, primeiro, ele tem de
se haver: uma verdade que é transitória, uma verdade que se pluraliza, uma
verdade que pode entrar em decadência, da qual o sujeito pode se extrair,
quando encontra algumas de suas consequências, uma verdade continua­
mente insustentável. E o sujeito, enfim o que circula no interior, encontra-se
incessantemente desalojado. É com base nesses abandonos da verdade e nessa
trajetória que ela própria se constrói, que se amplia o reino do saber, o que
Lacan resumia, ao apontar, em Hegel, a verdade em constante absorção no
saber. Seria possível dizer também um arranjo simbólico permanentemente
confrontado com um real que desconcerta sua organização.
Há, como preâmbulo ao ensino de Lacan, o mais preciso emprego dessa
concepção aplicada à análise. É a conceituação do caso Dora, que vocês en­
contram nos Escritos e na qual veem uma ordenação do contexto, em que,
segundo Lacan, se alternam desenvolvimentos da verdade que são verdadeiras
figuras da consciência e transbordamentos dialéticos, revelando a instabilidade
da posição do sujeito (Lacan, 1951: 217-ss) .
É inegável - já destaquei isso várias vezes no passado - que o fim de aná­
lise começou a ser pensado por Lacan em função do saber absoluto. Vocês
encontram isso no final do Relatório de Ronia: " [ ... ] a questão do término
da análise é a do momento em que a satisfação do sujeito encontra meios de
se realizar na satisfação de cada um, isto é, de todos aqueles com quem ela se
associa numa obra humana" (Lacan, 1953: 322).
Pode-se dizer que essa redução da questão do término da análise a uma
reabsorção do particular no universal é, de um lado a outro, de inspiração

"LO G O , EU S O U I S S O " 59
hegeliana, curiosamente corrigida por Heidegger, já que o saber absoluto é ·
suposto equivaler à assunção pelo sujeito de seu ser para a morte [être-pour-
-la-mort] . O próprio Heidegger teve, mais tarde, a oportunidade dé esclarecer
que preferia a tradução "ser em direção à morte" [être-vers-la-mort] . Tem-se
o testemunho disso nessa mesma passagem dos Escritos, quando Lacan afir­
ma que a obra do psicanalista opera como mediadora entre º homem da
·
preocupação [l'homme du souci] - é uma expressão de Heidegger, em francês -
e o sujeito do saber absoluto, nomeado como tal nesse esboço de uma teoria
do fim de análise.
São tant�s sinais, tantos testemunhos presentes no curso da análise, cuja
fórmula, o materna, parece fazer falta, que o primeiro recurso que ele encon­
trou para abordá-lo foi o esquematismo da experiência dialética das formas
da consciência. Imediatamente depois do Relatório de Roma (Lacan, 1953),
no escrito "Variantes do tratamento-padrão" (Lacan, 1955), dá-se uma es­
pécie de preferência à ênfase heideggeriana para qualificar o fim de análise.
Lacan abandona suas referências à subjetividade da época, que o sujeito anali­
sante deveria tornar a juntar em seu horizonte, conservàndo a noção de que o
processo analítico é animado por uma dialética que permanece convergente,
o que é propriamente hegeliano, mas converge para a experiência da morte,
e isso é heideggeriano. A�redita-se de bom grado que, para pensar sobre a
conclusão do tratamento, Lacan, a princípio, fez de Hegel e Heidegger seus
companheiros, em um sincretismo muito curioso. Mesmo quando abandona
a noção de saber absoluto para qualificar o fim de análise, ele o faz como um
itinerário apresentado pela experiência - em "Variantes do tratamento-pa­
drão", por exemplo, é o itinerário do narcisismo -, de modo que a experiência
analítica consistiria em uma análise do eu, ao longo da qual cairiam, suces­
sivamente, as fascinações do narcisismo, bem como figuras da consciência,
que são tomadas, igualmente, como máscaras da morte, cuja figura - aí está
o termo hegeliano - se desvelaria, no final, como sustentáculo da imagem
narcísica. Portanto, um itinerário em que o eu se livraria, progressivamente,
de seus falsos brilhos, de suas identificações, para, no fim dos fins, encontrar
o 'que, sob a imagem, a mantém, a saber, o que Lacan qualifica, de modo sur­
preendente, no lugar de mestre absoluto: a morte.
O mestre absoluto, a morte - não o saber absoluto -, é uma referência
hegeliana. Evidentemente, como há o termo absoluto, isso dá a vocês peque­
nas ressonâncias de saber absoluto. De fato, a morte de que se trata aqui é a
morte no sentido de Heidegger, e não no de Hegel. Enfim, é uma controvérsia
que tem toda a sua consistência graças ao estilo e à nova noção que Lacan en­
tão introduz, mas que, retrospectivamente e, principalmente, na comparação

60 A P O S TA N O PASSE
de concepções, se é possível dizê-lo, autóctones à psicanálise por ele desen­
volvida posteriormente, não podem deixar de aparecer como uma recompo­
sição de Hegel e Heidegger. De modo que o termo ideal da análise implicaria,
para o sujeito, retornar às origens do eu, e isso seria então, em um sentido
de que nada é precisado - é sobretudo a Ser e tempo que se é remetido -,
0 momento em que a morte seria subjetivada.
Há muito poucas coisas para dar um conteúdo de pensamento a essa ex­
pressão, a não ser uma remissão à última grande filosofia. Sem dúvida, a sub­
jetivação da morte é uma experiência limite, visto que a realidade da morte
não é imaginável, e portanto um obstáculo ao imaginário. Lacan já teria po­
dido introduzir, nesse ponto, o quadro de Holbein, com sua caveira em ana­
morfose no chão da sala, em que se multiplicam todas as moiras e todos os
sortilégios da imagem, mas em O Seminário, livro 17: os quatro conceitosfun­
damentais da psicanálise (1969-70 ), dez anos mais tarde, ele enfatiza menos a
morte do que a própria anamorfose como índice fálico. No final, não a morte,
mas um desvelamento da verdadeira função do falo.

II

É preciso esperar o fim dos Escritos, para que, de certo modo, Lacan repudie
Hegel, mas ele não o faz sem sublinhar que o utilizou.
Ele o utilizou, diz Lacan, contra as evidências da identificação e, com efei­
to, esse movimento sucessivo das figuras da consciência caindo umas após
as outras é uma boa lição para curar do narcisismo. De certo modo, Lacan
recorre a Hegel para curar do narcisismo ou, em todo caso, dessa posição
,,
do sujeito que adere ao seu "Eu digo a verdade ((Você diz a verdade, m�s
por quanto tempo? Por quanto tempo, sua verdade, você pode habitá-la?':
O que Lacan opôs ao ((Eu digo a verdade" foi ((Eu, a verdade, falo», que é com­
pletamente diferente, já que fala justamente no não verdadeiro, no que se
toma, mais essencialmente, como não verdadeiro. A ideia de um uso de He­
gel, vocês a encontram em ''Posição do inconsciente" (Lacan, 1964: 851), bem
como desenvolvida no texto imediatamente anterior, "Subversão do sujeito
e dialética do desejo no inconsciente freudiano" (1960b ) , que se originou de
um colóquio sobre dialética organizado pelo filósofo Jean Wahl, autor de um
livro clássico, A infelicidade da consciência na filosofia de Hegel.
Nessa oportunidade, Lacan explica por que Hegel faz falta, quando se
trata de conceituar a experiência analítica. No saber absoluto, em que o real
está tão estreitamente associado ao simbólico, que não há mais nada a es-

" LO G O , EU S O U I S S O " 61
perar dele, encontra-se, pois, um sujeito que se extingue na sua identidade
a si mesmo, e é essa a hipótese fundamental de todo o processo. A hipóte­
se do processo é um sujeito idêntico a si mesmo, mesmo se inquieto, mes­
mo se angustiado, razão pela qual se pode deduzir . disso o saber absoluto.
Em contrapartida, o sujeito de que se trata na experiência analítica - e é aí
que ele corta o- vínculo com a conceituação dialética da experiência analítica -
não é um sujeito idêntico a si mesmo, não é um sujeito que, do princípio
ao fim, sabe o que quer, como o suJeito fundamental da dialética hegeliana.
Portanto, quando introduz o sujeito do inconsciente, Lacan, explicitamente,
coloca-o na balariça com o sujeito do saber absoluto, para diferenciá-lo dele.
A figura que ele então evoca é uma figura que não pertence ao batalhão
das figuras hegelianas. É a figura - a palavra hegeliana esta aí - do pai morto
que vem em sonho, e o sonhador o acompanha com este enunciado que vo­
cês conhecem: «Ele não sabia que estava morto". Lacan faz dele o paradigma
do sujeito freudiano, ou seja, um sujeito que só subsiste por não saber a ver­
dade. E é por isso que se pode dizer: "Contanto que ele saiba que eu morro,
sim, é assim que Eu [Je] vem lá onde isso era".
É o valor que Lacan dá ao «lá onde isso era, Eu deve advir" - esse advento
é uma desaparição. A história do pai que não sabia que estava morto está aL
para ilustrar a posição do sujeito do inconsciente, haja vista este não querer
saber, isto é, como sujeito do recalcamento - para ele, vir a saber é desa­
parecer. Nesse caso, é preciso pôr aspas no termo advento. Esse «advento" é
uma desaparição. É o que Lacan, mais tarde, ao falar do passe, concepção que
igualmente nada tem de hegeliana ou heideggeriana, qualificará de destitui­
ção subjetiva. Dito de outro modo, termo a termo, no lugar do sujeito idên­
tico a si mesmo, que condiciona a experiência dialética, o sujeito barrado, S;
no lugar do saber absoluto, S(,K); no lugar da satisfação capaz de entrar na
conjunção universal das satisfações, o gozo.
Temos aí os três termos, o triângulo -em que se dá a conclusão do trata­
mento: o sujeito, o saber e a satisfação. E, no entanto, o que permanece he­
geliano em Lacan, na sua noção de curso de uma análise e de sua conclusão,
é a ideia de uma experiência subjetiva. Certamente, ela não é mais animada
pela Aufhebung logicizante de Hegel, como diz Lacan. Porém a, experiência
subjetiva continua, para Lacan, animada por uma instância logicizante. Ela se
encerra, como em Hegel, em uma conjuntura deduzida. A noção de passe é
hegeliana ao menos no aspecto de que é uma co.µjuntura deduzida das condi­
ções da experiência - não o é em seu funcionamento, nem em sua estrutura.
É preciso dizer que Lacan, a esse respeito, e mais hegeliano do que freu­
diano, uma vez que Freud não nos apresenta, de modo algum, a análise como

62 APOSTA NO PASSE
uma experiência que teria um princípio de encerramento. É justamente esse
sem fim que justifica, para ele, o convite feito ao analista para retornar, perio­
dicamente, ao divã. Para falar a verdade, Freud pensava que a própria posição
do analista era contraditória às exigências da análise, especialmente às suas
exigências éticas, e por isso julgava necessário que este voltasse a ser analisante,
para, se posso dizê-lo, ser moral.
A noção de Lacan é, ao contrário, a de um sem retorno, do fim verdadeiro
da análise, à condição de que o analista, o tornado analista, entre no ensino
da psicanálise, encontre uma relação de deciframento com o sujeito suposto
sab er no ensino da psicanálise, o que distingue esse ensino de toda pedagogia.
Sigamos um pouco mais longe nesse sentido, para explicar, tornar sensí­
vel, o contexto em que a pesquisa sobre o logo persevera. O que é ainda mais
hegeliano em Lacan é essa articulação que, de certo modo, faz com que a
hipótese fundamental do processo volte a se encontrar sob outra forma no
fim, e que, se há um fim dessa experiência, é porque ela é prescrita no próprio
início do processo, já que a própria conclusão era dedutível da estrutura da
experiência.
É isso que se observa, quando Lacan introduz o que nos serve de referên­
cia: seu conceito de passe. Ele estabelece, precisamente, uma articulação em
curto-circuito do início e do fim da análise. E, quando tem de apresentar a
estrutura do fim da análise em termos que são estudados durante anos, ele
infere a estrutura do fim da estrutura do início. No começo, é a transferência.
Pois bem, o fim da análise requer que se registre o término da relação de
transferência. Desde então, trata-se menos do fim do eu do que de uma forma·
de morte do sujeito, que não é dramatizada por essa expressão que tem seu lugar
na teoria da psicose, mas antes apresentada, de maneira mais moderada, com
o termo destituição, o qual também equivale à queda do sujeito suposto saber.
O sujeito suposto saber é uma espécie de sombra carregada pelo sujeito,
é o sujeito suposto saber que fala, uma vez que, correlativamente, o sujeito
analisante está na posição de não saber o que diz. É a respeito do que o sujeito
suposto saber diz que o sujeito analisante pode estar em situação contrária.
Nesse sentido, a queda do sujeito suposto saber se traduz pelo fato de que, daí
para a frente, o sujeito sabe o que fala. Enfim, é o termo2 ideal.
É o termo ideal, e isso corresponderia à definição do analista. Ele é tido como
alguém que sabe o que diz, razão pela qual não pode ser considerado irrespon-

2 N. da T. Tanto em português quanto em francês, a palavra "termo" comporta, entre outros,


dois sentidos que se alternam neste texto: o de "vocábulo" e o de "término': "fim"

" L O G O , EU S O U I S S O " 63
sável pelos efeitos de sua fala. E também é o sujeito suposto saber o que quer. Ele
não se encontra no início. Portanto, a queda do sujeito suposto saber implicaria
a emergência do sujeito que sabe o que quer. E, para falar a verdade, saber o
que se quer é o que se chama de pulsão, a vontade que quer o gozo, custe o que
custar. Por isso, Lacan pode dizer que o fim da análise supõe a resolução do
desejo. Na psicanálise, o desejo é essencialmente problemático e a definição
do desejo mais segura de Lacan é a de que se trata de uma proteção para não de
ultrapassar um limite no gozo. Enquanto o desejo, na perspectiva da psicanálise, é
essencialmente problemático, a pulsão é resolutória. Nesses termos, a resolução
do desejo é, de certo modo, equivalente à reconciliação com o gozo.
A reconciliação com o gozo pulsional, com a pulsão, que só faz o que lhe
vem à cabeça, ainda mais porque não tem uma cabeça, é o que Lacan resume
na expressão destituição do sujeito. Seria possível falar de destituição pulsio­
nal do sujeito. Por isso, não se encontra, na obra de Lacan, parece-me, a ideia
de subjetivar a pulsão, como no início se subjetivava a morte. Ainda que não
seja um objeto imaginável, a morte é pensável a partir da filosofia de assumi-
-la e particularizá-la, enquanto o termo sujeito enfraquece quando se trata
de pulsão. A expressão sujeito da pulsão, empregada uma vez sob a pena de
Lacan - um hápax, portanto - não é encontrada com muita frequência, ao
passo que, no que concerne ao desejo, pode-se dizer que resta uma intersub­
jetividade inerente ao desejo, como se vê em toda forma de identificação -
desejar como o outro, desejar o que o outro deseja -, mesmo que Lacan, para
articular o desejo à pulsão, tenha feito do objeto a sua causa. A pulsão ques­
tiona o Outro, ao menos como sujeito. Portanto, quando inventa um mito
da pulsão, Lacan faz dele um órgão que precede o subjetivo e o condiciona.
No que respeita à conclusão do tratamento, a questão que de fato supera
o par infernal Hegel e Heidegger é a de saber como a relação do sujeito com
o saber, instaurada pela análise, opera no vínculo do sujeito com sua satisfa­
ção. Em que o fato de instaurar uma ligação inédita do sujeito com o saber,
convidando-o à associação livre, a dizer não importa o quê, a falar mais do
que sabe, a não se preocupar com controlar seus ditos, altera o vínculo do su­
jeito com sua satisfação? Em que isso modifica a relação do sujeito com essa
satisfação que chamamos de gozo? E como disso pode surgir o logo sou da
conclusão, o logo sou analisado, o logo sou analista e, digamos, o logo sou isso?
Quando se reflete não sobre a subjetivação da morte, e sim sobre a pulsão, a
fórmula mais lógica é: logo, Eu sou isso.
É por isso que não é necessário tomar pelo avesso o lá onde isso era, Eu
deve advir. Vocês têm esse isso todo empoeirado, e em seguida o Eu advém,
tudo se areja, tudo se ilumina, o Eu adveio. De modo algum. A crença na

APO S TA NO PAS S E
subjetivação comporta a ideia de que isso segue nesse sentido - subjetiva-se,
passa-se tudo isso para o Eu, lustra-se tudo isso de novo. Essa é a ideia
"hegeliano-heideggeriana" de que Lacan partiu para pensar o fim de análise,
ao passo que Freud não lhe atribuía o princípio de suspensão. Esta é a verten­
te da subjetivação: pensar o fim de análise como subjetivação, o todo sujeito,
o quase todo sujeito. Parece-me que a conclusão a que Lacan chegou e sobre
a qual continuamos a trabalhar é, em vez disso, a de que o sujeito se apaga.
O sujeito se apaga em um tornar-se isso. Assim, onde havia, na teoria, subje­
tivação, passa a haver, daí em diante, destituição subjetiva. Eis onde está em
jogo o enunciado particular da existência de um analista, quando há alguém
cujo Eu não está mais por vir - não está mais por vir não por iluminar o todo,
e sim, ao contrário, porque veio para apagar-se.

III

Pode parecer que isso nos provém dos mitos da lógica. Todavia, no mesmo
momento em que, de maneira suficientemente velada para que a oposição
acirrada que eu aponto entre subjetivação e destituição não se torne imedia­
tamente aparente, Lacan deixa entrever o devir issa. do Eu, e não o devir Eu
do isso, ou seja, ele confirma que a estrutura lógica nunca perde seus direitos,
que é a lógica que comanda, que ela está presente nas questões do gozo, que
o objeto a é uma realidade sustentada pela lógica pura. Há um uso da lógica
matemática, como havia antes um uso de Fenomenologia do espírito, no que
respeita, afirma ele, ao que atesta um Outro cuja estrutura não vai, ela mesma,
recobrir-se. A lógica, portanto, certifica, testemunha o não recobrimento do
Outro, de S(A) . A lógica é a Fenomenologia pelo avesso.
É por esse motivo que comecei pelos paradoxos da indução, por Carl
Gustav Hempel, por Nelson Goodman. Eu poderia ter começado por outros
paradoxos, mas estes são menos explorados e mais próximos da indução ca­
racterística do pen�amento analítico. São os paradoxos que se revelam quan­
do se pergunta o que se pode concluir dos fatos, da observação dos fatos - e
nos damos conta de que tentar tirar conclusões de fatos faz surgir um furo.
Eu trouxe Courteline e seu Boubouroche - que nome!, que nome! -, per­
feito para ilustrar o provérbio "Não se deve jamais crer . em seus próprios
olhos': Isso supera o princípio de São Tomé, que só crê no que toca. Enfim,
sempre se pode dizer: "Isso não prova nada". "Isso não prova nadà' é uma
réplica que tem a força do "Caralho! ': de Zazie. "Isso não prova nada" e, em
particular, nenhum fato prova nada.

"LO G O , B� S O U I S S O "
Talvez vocês tenham lido Boubouroche e conhecido esse personagem sim­
plório que nos é incialmente apresentado em um jogo, no qual se deixa enga­
nar pelos parceiros e é advertido por um vizinho, caridosamente, de que, mal
ele se afasta, sua patroa faz sair, não se sabe de onde, um homem afável. Todos
os dias, quando ele se vai, ela faz isso. Ele então se entrega, quer falar com a
mulher, timidamente pedir satisfações, não pede e, bom, depois, tudo se re­
solve por uma pane elétrica. Então, percebe-se André - que nos foi mostrado
um pouco antes ....:... em um armário, um grande armário, no interior do qual,
com uma vela, ele tranquilamente... talvez leia Fenomenologia do espírito! E
ele se vai muito dignamente. Boubouroche então quer mat.ar sua mulher. Em
seguida, desanima. Nesse momento, ela fala e ele se vê perdido, pois ela faz
significar o fato. "Você me enganou': ele diz. Poderíamos dizer: "Isso salta aos
olhos': Ela responde: "Nunca!': Ele: ''E esse homem?". Ela: "Não posso lhe
responder, é um segredo de família. Não posso revelá-lo". Ele: «Só me faltava
essa!" E ela o demonstra: «Se eu não fosse uma mulher honesta, não sacrifi­
caria minha vida por causa de uma palavra empenhada". E acrescenta - o
trecho, na verdade, foi reduzido ao mínimo, é um esboço que revela com9 o
fato se volatiliza: ''Inútil discutir por mais tempo, jamais nos entenderemos':
Sente-se bem que, de - fato, é preciso um acordo de base; basta um acordo so­
bre princípios, para já se estar em desacordo. Ela continua: "São sentimentos
femininos que os homens não são capazes de entender':
O que regula a questão da verdade nesse apólogo? O fato de que o homem
chora e diz: ''Não posso deixar você, é mais· forte que eu': E, no fundo, tudo é
dito, ela só tem que se mostrar e dizer: «Pal".eço ou não uma mulher que diz a
verdadet: Ah, o idiota! E, então, ele sai para quebrar a cara do vizinho.
Retenhamos esse pequeno apólogo e consideremos que ele valoriza o
princípio de Adele: "Crê-se em quem se ama" (Courteline, 1893) . Isso introduz
o amor na teoria da verdade. Uma teoria da verdade, como se busca na filo­
sofia da lógica, sempre malsucedida por falta. de uma erótica. Não há teoria
da verdade sem doutrina do amor.
Isso volatiliza o fato ou ao menos indica que nenhuma ocorrência tem
sentido em si mesma, mas apenas pelo que é dito: o dito segredo de família
está lá onipotente. Talvez, em outra oportunidade, eu lhes traga uma história
em . que as piores suspeitas também recaem em uma mulher - sempre dif a­
mada, como observava Lacan - e em que também há, verdadeiramente, um
segredo de família. Há, ainda, um lobo escondido em algum lugar, mas se
trata de um verdadeiro segredo de família.
Portanto, até onde vai a dúvida? Não há dúvida de que não se pode pôr
em dúvida, pelo significante, tudo o que é. O logo sou cartesiano é eminente-

66 AP OSTA NO PASSE
mente obtido após um duvidar generalizado, hiperbólico, que chega a atingir
as verdades matemáticas. O portanto de Descartes é filho da dúvida. A dúvida
é igualmente evocada por Hegel na introdução de sua obra: "A consciência
natural se envolve em seu árduo caminho em direção ao saber absoluto como
caminho da dúvida e até mesmo do desespero'� Esse desespero, chamado por
Hegel de ceticismo, não é o ceticismo revigorante de Descartes, a que alude,
ao falar da resolução de não se render à autoridade dos pensamentos de ou­
trem, e sim de examinar tudo por si mesmo. Não, o ceticismo evocado por
Hegel é o ceticismo radical que acaba no vazio, que espera o novo que vem e
que o lança imediatamente no mesmo velho abismo. Encontramos em deter­
minada passagem de Fenomenologia do espírito a figura do cético. E quando
caímos no abismo cético, é muito difícil sair dele. Há um pequeno remendo
possível, mas é necessário_ dar um pequeno salto para ser bem-sucedido.
Pois bem, gostaria de abordar uma recente revivescência do ceticismo,
surgida no âmbito de uma reflexão sobre a lógica. Trata-se do paradoxo de
·Kripke, que ele forjou a partir de Wittgenstein (Kripke, 1982) .
É inacreditável que isso tenha empolgado os filósofos da lógica! Durante os
anos 1980, fizeram-se objeções e objeções das objeções ao ceticismo inventado
por Kripke. Há, portanto, uma literatura que, no final da década, foi ampla­
mente revisada. Talvez seja preciso eu lhes dizer isso, para que vocês levem a
sério tal paradoxo. Vocês não lhe dedicarão o mesmo cuidado e atenção que
os filósofos, que têm interesses diferentes dos nossos, mas, enfim, saibam que,
para eles, isso foi um encantamento: "Isso nos reconduziu aos primeiros tem­
pos, quando se estudava Wittgenstein, o que poupou nosso Wittgenstein de
todos os comentários tediosos, e realmente nos pusemos a pensar a partir daí':
Esse paradoxo ocorreu a Kripke pela leitura do parágrafo 201 de Investi­
gações filosóficas, de Wittgenstein. Penso que vocês não teriam tido a ideia de
Krip_ke - nem eu - ao ler esse trecho. Wittgenstein, referindo-se ao que dissera
um pouco antes, escreve: "Esse era nosso paradoxo". Nenhum modo de agir
[Handlungsweise] - pode-se dizer nenhuma sequência de comportamentos,
de maneiras de fazer - pode ser determinado por uma regra, porque cada
modo de ação pode ser concebido como estando em conformidade com uma
regra. Eis a formulação com que Kripke fez maravilhas. Aliás, a continuação
do parágrafo de Wittegenstein é: "Se todo modo de agir pode se conformar à
regra, pode igualmente contradizê-la''. Rigorosamente, não pode haver nisso
nem conformidade, nem contradição. Foi isso, nessa obra considerável que
mobilizou grandes espíritos, que levou Kripke a dizer: "Eis o problema cen­
tral de Wittgenstein", bem como, na página 20 de seu opúsculo: "Isso não dei­
xa de se assemelhar ao que desenvolveu Goodman': que mencionei há pouco.

�LO G O , EU S O U I S S O "
Com base nisso, ele traz um personagem, um cético, que não é o cético
hegeliano, nem o cartesiano, que é cético apenas por um momento, mas que é
um cético bizarro. "Suponhamos': diz ele - o modo como encena o paradoxo é
um pouco obscuro - "que vocês nunca tenham somado 68 e 57. De todo modo,
sempre há uma operação de soma que vocês não fizeram': Vocês só fizeram
um número finito de operações de soma. Sempre é possível, portanto, apre­
sentar-lhes uma soma com números que vocês não haviam adicionado. Para
cada um de vocês, não é difícil encontrá-la, sobretudo com grandes números.
Vocês fazem, então, a operação: 68 + 57 == 125. Surge o cético bizarro · de
Kripke. Vocês já formam uma pequena multidão e, evidentemente, ele é mi­
noritário, e no final isso conta bastante para sair do problema da maioria e da
minoria. Vocês, portanto, fazem a operação e um cético bizarro chega e põe
em questão a certeza de cada um de vocês. Aliás, não deixa de ser divertido
estar em um lugar em que se fazem objeções a 2 + 2 = 4 ou a algo parecido

Mas talvez, considerando o modo como vocês utilizaram no passado termo


mais, a resposta deva ser 5".
º·
com isso. Mas, enfim, sua objeção é esta: "Vocês me dizem que 58 + 67 = 125.

O cético de Kripke acrescenta: "Vocês responderão: 'Aplicamos a mes­


ma regra que sempre aplicamos para fazer somas. Mas qual era essa regra?
No passado, vocês testaram apenas um número finito de exemplos dessa re­
gra. Suponhamos, por exemplo, que vocês tenham somado apenas números
menores do que 57, e talvez tenham chamado de mais uma função que, na ver­
dade, era quus" - a função quus prevê que x quus y é, com efeito, igual a x + y,
desde que x ou y sejam inferiores a 57, e que, de outro modo, isso é igual a 5.
O que prova que não se trata aqui da função até então significada por mais?
Assim, ao falar mais, vocês aplicam quus, acreditando aplicar apenas mais.
Por essa razão, trata-se, de fato, de outra visão do paradoxo de Good­
man, ª? menos pela circunstância de introduzir uma função temporal. Assim
como as esmeraldas eram verdazuis até algum tempo atrás e, q.epois, azuis,
nesse caso também há o que se calculou, até determinado momento, abaixo
de 57. O cético então conclui: "Você não sabe o que fazia, você se enganou
quanto à significação do que fazia':
O que se questiona aqui não é uma opacidade subjetiva? Trata-se do dis­
tanciamento entre o uso presente . e o uso passado, como se não houvesse
razão para dizer 125, em vez de 5. Como Kripke gentilmente esclarece: dizer
125 "é um salto injustificável no escuro': Nesses termos, torna-se realmente
surpreendente, para nós, o furo que evocamos no processo de indução.
Seguramente, a resposta desconcerta: "O que faço, na verdade, quando
somo? Não se pode dizer que eu tenha feito certo número de somas antes

68 A P O STA N O PAS S E
e que extrapolo a regra depois. Não faço uma indução da regra de somar a
partir de exemplos de somas". Não faço indução, quando somo. Na realidade,
0 que aprendi é a regra de somar, ou seja, aprendi certo número de instruções,
um conjunto de instruções que aplico e que dizem como se soma. Conto,
portanto, de certa maneira, em conformidade com o algoritmo da soma, com
0 procedimento regulado pela soma.
Não pensem que isso desmonta o cético. Ele diz: "Sim, vocês aprenderam
a contar com base em um número finito de exemplos. O que prova que isso
que vocês chamam de contar não era quontar" - e que, de fato, enquanto
vocês quontam até 57, abaixo desse número a coisa vai bem, mas depois isso
quer dizer 5. Então, vocês explicam que, precisamente, a validade do proce­
dimento do algoritmo da soma não depende da composição da soma, pois,
caso contrário, não se trataria de uma soma. Ele diz: "Ah!, portanto, é inde­
pendente. É independente, mas é quindependente?"
Em outras palavras, quanto mais vocês multiplicani as objeções, mais se
pode estender à significação de todas as palavras a objeção que se faz ao sen­
tido de mais, até se chegar a uma total subversão semântica.
Isso se encontra no próprio Wittgenstein. Vocês fazem testes para saber
se pensam bem, rapidamente, se são astuciosos; Então, é apresentada a vocês
a sequência 2, 4, 6, 8. O que vem depois? Vocês pensam que é 10. De fato, um
número de regras absolutamente indefinido é compatível com esse segmento
e vocês podem, muito bem, ter 2, 4, 6, 8, 11, 23 etc., se a regra que se aplica é
suficientemente complexa. Dito de outro modo, a partir de um número fini­
to de exemplos, pode-se sempre supor um número indefinido de regras. Uma
regra muito mais complexa que a adição +2 pode igualmente ter 2, 4, 6, 8
como o seu segmento inicial.
Kripke ressalta bem que esse raciocínio pode se estender para toda a lin­
guagem. Vocês· dizem mesa e pensam saber o que é uma mesa, mas ele diz:
"Será que isso se aplica também a uma mesa sob aTorre Eiffel?" A Torre Eiffel
faz sua aparição! O que não está longe desta tão perturbadora questão pro­
posta por Wittgenstein: "Como é que eu sei que isso é vermelho?" E também
do que se encontra neste paradoxo de Goodman: "Talvez, ao dizer verde, qui­
sesse dizer azul':
O que se destaca nessa consideração é o fato de ela revelar certa fraqueza
do sentido na função a que, precisamente, os filósofos da lógica o reduzem,
a saber, a de fornecer a referência. É aí que há uma espécie de breakdown.
Como se alguém descobrisse que o sentido não consegue fornecer, prescrever
a referência, e como se o pequeno engate intensão/extensão de Rudolf Car­
nap - intensão é o nome que se dá ao sentido, quando não há outra função a

"LOGO, E U SOU ISSO"


não ser a de permitir agrupar o que corresponde à significação do conceito -
fraquejasse. A que o paradoxo se liga?
É certo que não se pode, de modo algum, recompor a regra que alguém
segue. Alguém faz determinado número de operações que parecem ser somas
e, então, upa! Chega-se a 57 e descobre-se que se tratava não de soma; era
quus que estava em ação. Em outras pal�vras, ao se observar de fora o que o
outro faz, jamais se pode estar seguro de qual regra ele segue., Isso é um para­
doxo, se quisermos, mas não é o paradoxo da indução. O paradoxo de Kripke
consiste em fazer apenas um do sujeito que soma e daquele que observa a
mesma pessoa, confundindo-os em uma única coisa, e em fazer com que -o
. parceiro bizarro lhe diga: "Você não sabe o que faz". Kripke acrescenta, pois,
uma opacidade subjetiva ao paradoxo simples da indução, de David Hume.
Há, ainda, o desafio da regra que é o de fechar, encerrar o futuro em sua
rede, como se alguém pudesse saber previamente o que acontecerá. Como
espíritos finitos podem formular regras que, supõe-se, aplicam-se em um
tempo infinito? Por isso, Kripke afirma: "Tod� nova aplicação de uma regra é
um verdadeiro salto no escuro': No abismo desse ceticismo, o único recurso
encontrado por Kripke é um apelo à comunidade: "Fazer como os outros -
'sigam o chefe' - se somarmos de outra maneira, seremos excluídos". Dito de
outro modo, somar é fazer o que faria, nas mesmas circunstâncias, a comuni­
dade em que se vive. Nessa perspectiva, a soma é uma forma de vida.
Pode-se discutir se foi exatamente isso o que Wittgenstein quis dizer. Não
há razão para que tenhamos certeza disso. Não me parece que o próprio
Wittgenstein tenha tido muita simpatia pelo ceticisn)o. Ele considerava o ce­
ticismo um verdadeiro contrassenso, toda vez que se tentava pôr em dúvida
um ponto em que nenhuma questão podia ser feita. E talvez ele considerasse
que é isso- o que Kripke faz.
A ideia de Wittgenstein é a de que a significação não faz milagres, não im­
pede uma i_pfinidade de casos a cada momento, bem como a de que o sentido
não é um fato mental que eu teria observado na minha cabeça. É o que ele diz
em 202: obedecer à regra constitui uma prática. Uma regra, com e:fei�o, pres­
creve aplicações. E como saber que eu as uso bem? Seria necessária uma regra
para a aplicação da regra, para interpretar a regra, porqu� toda regra pode ser
entendida de maneiras diferentes. Daí a regressão ao infinito. Ver alguma coi­
sa e dizer é vermelho - não se pode formular uma regra para passar do ver ao
dizer. Por isso, Wittgenstein afirma que compreender é apenas dominar uma
técnica. E que, portanto, a linguagem é, em vez de um reflexo, um espelho do
pensamento, uma forma de comportamento. Eis por que, como Lacan, ele
gostava tanto de citar Goethe: "No começo, era a ação':

70 AP OSTA NO PA S S E
Tal dificuldade em relação à regra tem toda razão de nos reter, pois uma
regrá, para nós, determina toda a experiência, e uma regra cuja aplic�ação, é
preciso dizê-lo, está sujeita à dúvida. ((Será que faço bem o que devo fazer?"
pode, legitimamente , perguntar-se o analisante. É claro que, com ele, há o
analista, que não é um cético bizarro. O analista está lá para confirmar: «Sini,
vo cê se adapta à regra': E é aí que a interpretação confirma que o discurso é
inconsciente, como diz Lacan.
O que podemos conservar de Kripke é a cisão que ele introduz no sujeito.
Este acreditava aplicar mais, enquanto poderia, de fato, estar aplicando qual­
quer outra coisa. Surge aí uma opacidade subjetiva, que resulta unicamente
do fato de que o sentido torna a cruzar o material significante. Na análise,
dois algoritmos - sigo rapidamente - tornam qualquer discurso interpretá­
vel: o primeiro, o algoritmo de Saussure, cliva o significante e o significado;
o segundo remete o oral ao escrito. Por isso, não se faz análise por escrito.
E, justamente, a diferença entre o oral e o escrito, princípio da interpretação,
· é constitutiva do sujeito suposto saber.
Compreender é dominar uma técnica? É preciso uma regra para compre­
ender. Wittgenstein, assim como Kripke, busca a regra para compreender, e é
isso que sempre escapa.
Ora, o que se deduz pela análise é que a regra para compreender é parti­
cular a cada um. Trata-se do que chamamos de fantasia. Nós substituímos o
meaning is use pelo meaning isf antasy - a significação é a fantasia. Compre­
ende-se pela fantasia. Propriamente falando, só se compreende a fantasia. E a
inconsistência semântica .no que concerne à referência, que Kripke faz valer
com grande arte, indica-nos o estatuto de consistência lógica que atribuímos
ao objeto a, princípio de intelecção.
A fantasia fixa o sentido, esse sentido inconsistente, sempre duvidoso.
Por isso, a conclusão do tratamento modifica a fantasia. Modifica justamente
o modo como cada um compreende. Por isso, nosso «saber absoluto,, é o
objeto a - esse a absoluto em face do que cai.

"LOGO, EU S O U I S SO" 71
1
O AVES S O D O PAS S E

o S I G N I F I C A N T E Q U E I N S I S T I A no que lhes disse no princípio deste ano, o


.significante solidão, certamente explica minha satisfação durante esse perío­
do chamado de férias, em que pude gozar da solidão fora de cena, pois esta­
mos aqui, neste teatro, no qual apresento meu monólogo há décadas. Não é
porque falo sozinho e para mim mesmo que isso deixa de ser um espetáculo,
e talvez por isso, para d�ixar a solidão, .
tenha
·· ·. . .
precisado de um tempo que cha-
. · .. . . . -.· . . • ·. .
-, .. . ·· ·- .. · · . . .·
ma,.rei de mais solid�Q .,......= •.];>recisei de um suplemento de solidão, para responder

-'·"·
> • • •• ,,- •• • · '

- '"
prêserifê â êssac;ntínua demanda de você;.
Eu teria certamente de me alegrar com isso, haja vista ter recebido retor­
nos muito bons, inclusive de longe. A voz que faço ouvir aqui tem alcance
muito maior que o deste anfiteatro, por meio de gravadores e de outros apa­
relhos, dos que os utilizam e se esforçam para transcrever meus ditos para o
papel e, em seguida, mandá-los por toda parte.

S O L I D Ã O D O S UJ E I T O

Neste ano, introduzi a diferença entre inc�nsciente transferencial �- . ÍP:ÇQµs­


aj_�n.te..real, e não há dú�ida de que devo me responsabilizar por · i�so. É pre­
ciso discutir essa ideia de inconsciente real com precaução: alguém só se po-, ·
sicio°:a a esse respeito por conta própria. A ideia de inconsciente real nos

N. da o; Este texto se refere à sexta aula do curso de Orientação lacaniana "Le tout demier
Lacan" (2006-7), proferida em 10 de janeiro de 2007. Traduzido com base em sua transcri­
ção em francês e na versão que se encontra em Jacques-Alain MILLER. El ultimísimo Lacan.
Los cursos psicoanaliticos de Jacques-Alain Miller. Buenos Aires: Paidós, 2013, p. 95-102.

73
transforma o ·semblante, já que é necessário inscrevê-la em oposição à de
inconsciente transferencial:

inconsciente transferencial I inconsciente real

· A fim de levar adiante a noção de um inconsciente real, que se deve situar


em um par de opostos, tive de me apropriar do que Lacan dissimulou, cuida­
dosamente, em um trecho de seu último pequeno texto de Outros escritos, se­
guramente o último d� sua autoria a ser publicado: "Prefácio à edição inglesa
do Seminário 11": o esp de um laps (Lacan, 1977) .
Nesse trecho, Lacan nos convida a corroborar sua definição de incons­
ciente, isto é, a de que o inconsciente é real. Trata-se de uma definição que faz
um furo no seu ensino, um furo, aliás, pelo qual todo o seu ensino pode se
escoar. Percebe-se que ele não deixou que esse furo se aprofundasse, mesmo
que se possa dizer que ele o dissimulou.
Tal definição do inconsciente como real ocorre no contexto de uma so­
lidão do sujeito. Lacan a formulou rapidamente no referido esp de üm laps,
mas ela tem, ainda assim, implicações profundas. O sujeito da solidão q�e
Lacan tenta revelar, como ele esclarece, é Freud, que ele afirma ter sido um
solitário e o "incontestável teórico do inconsciente': Incontestável, todavia,
não quer dizer que nunca tenha sido contestado. Longe disso! Ainda se fala
muito dele, nem sempre bem, neste início de século xx1.
Incontestável quer dizer, ao menos, que não se está nem aí para quem o
contesta. Os outros não contam. Quando se trata de determinar um ponto,
um lugar, um posto, os outros não têm importância.· É como · se eu o des­
cobrisse agora, após ter suportado me fazer de ator durante longos anós.
Na realidade, se Freud é um exemplo ilustre de solidão, é preciso constatar,
igualmente, que legiões o seguem.
Há outro exemplo notável de solitário na história da psicanálise, o pró­
prio Lacan, que se apresentou desse modo na hora de criar o que chamou,
tão simpâlicamente, uma Escola, isto é, algo que recobria com uma espécie
de "cola': 2 para que, apare�mente, lhe fizessem companhia. Ele se encon­
trava assim naquele momento. Eu o cito: "t�?. sozinllo quanto s.empre estive
e�.-11?-l�ha r�lação cqm a causa psicanalítica" (Lacan, 1971: 235) . Isso põe os

2 N. da T. Em francês, em école (escola) também �e ouve colle (cola). Ocorre o mesmo em


português.

74 APOSTA N O PASSE
analistas freudianos e lacanianos em uma posição que se verificará cada vez
roais na história, a posição de parasita, parasitas da solidão.
Há um terceiro termo que se agrega a inconsciente transferencial e in­
co n sciente real, e me par.e. _e que juntá-lo a eles produz um efeito de sentido.
Ess e terceiro termo é pass à condição de que ele se oriente do inconsciente
tra nsferencial ao inconsciente real: -·---�._....---- - - · · - · --
_
..,,,.,�
·· .
·· --
�.,,-
. . · -"''"
,� . .
.. . . - ., . .

:

.,.�

O passe ---+ do inconsciente transferencial ao inconsciente real

A saída do inconsciente transferenciali corresponde ao momento que La­


can chamou· de pass·e, a o_casião em que i é transforma, de maneira radical, a
refação com. · Õ -psicanalista, com o companheiro analista, com esse ·suposto
bÕ� sama�it�no. Trata-se de uma liquidação, como se diz, e o próprio Lac�n
repete, ainda que entre aspas , que essa palavra, por mais in<!dequada que seja,
diz algo; ela diz que a liquidação da transferência é uma4!gi.!��çaô para, que
se deve entender p ara o analista, com todo o cortejo de afetos que traz, nos
quais, como logo se descobre, inscrevem-se tanto o amor quanto o ódio. Ben­
dito o afeto, todavia, q{iando ele é a indiferença!
Pois bem, é nesse contexto que se define, de maneira mais clara, a função
do esp de um laps, função em que o lapso, fomiação do inconsciente, já não
tem . qualquer possibilidade de sentido ou interpretação. Pode-se fâ.Iar então
de saída do inconsciente transferencial. Pensou-se; com e depois de Freud,
que, uma vez fechado o parêntese da análise, o sujeito teria de continuar se
analisando, se analisando sem analista, na solidão. Portanto, ocasionalmente
ou, como queria Freud, de maneira regular, seríamos levados a repetir, a rea­
lizar um novo período de análise, vale dizer, a sentir um pouco, mais uma vez,
o gosto do inconsciente transferencial.
Quanto a isso, Lacan, o outro solitário, propôs outra via, que consiste
em estabelecer uma relação entre o inconsciente real e a causa analítica. Ele a
esboça, de forma sempre orientada, como o passe bis, que segue em sentido
contrário, já que vai do inconsciente real ao inconsciente transferencial:

O passe bis ----+- do inconsciente real ao inconsciente transferencial

Trata-se de uma nova transferência, uma transferência com a análise, se


isso, é claro, quer dizer alguma coisa. De todo modo, foi esse o valor que
Lacan deu um pouco mais tarde ao que chamava, em 1964, de relação com a
causa analítica. Em 1967, ele quis definir, para cada um, o caminho que era o
dele, o caminho de solidão, que, segundo dizia, havia sido o seu. Concebeu

O AV E S S O DO PAS S E 75
então sobrepor ao passe o passe bis, certamente para aliviar o peso que o
inconsciente real comporta. O passe bis é uma t!ans(�_r.�nci.i com a análise e,
portanto, o avesso do passe. _Isso supõe; em termos topológicos, transpor um
.� ·- "li:, .... - -- ·-. ___.............:.:..,, . .,,,- ....... .� -: .. .. ,�--"'<, -,-._....... � - -· ·; _ _ _ . '

o
pôiif de revêrsãó. :A ideia que Lacan propõe não é, em absoluto, um retorno
ao status quo ante.
�,��,,e . �. . h.i�!.�I�3: Y�t;!!i_çá.�J�,-R9j§_�e -��Q��<;Í..��tt��;; . WJP. . S�. g�:
guiu Lacan. É, portanto, muito pouco provável que permita evitar uma trans-
ferê;dá'p��a um analista, posto que Lacan foi analista. Afinal, aqueles cuja
vida e prática foram afetadas pelo discurso de Lacan não o seguiram nessa
re�avolta, o que evidencia a questão de saber até que ponto evocamos uma
experiência limitada e sempre precária.
Em resumo, em "Prefácio à edição inglesa do Seminário 11': há uma pala­
vra que destaquei nas lições anteriores e qualifica a operação que identifico
como a q.o p'1;sse bis: histoerização,3. uma história histerizada. A história que é,
por assim dizer,
uni prõces�Õ de líist:Ôrii;ção· fntersubjetiva. E o passe bis é a
histoerização da própria análise. Não consistiria somente em estabelecer uma
lógica, que seria, de algum modo, a metalinguagem da análise em si. Se Lacan
escreve histoerização com y, ele o faz porque se trata não de objetivação, e sim
de um teatro. Trata-se de elaborar como, em minha análise, pude dar sentid_o
ao real, às vezes tapando furos que separam os extremos, para que, no fim das
contas, apesar de tudo, me aplaudissem.
O passe bis, .µoda que se situe :p€S$e --.ponto de · reversão, o passe bis se
elabora, portanto, na solidão. Uml solidãd que transparece na fórmula de
Lacan, segundo a qual "0..11-n�s�a-�ó)e ;;i�t<Jriza de simesmo': Cada um então
é convidado a se reunir ::o� -Fi-é{id e ��m 1.;caó.' -�ni-��à solidão.
A histoerização do passe se sustenta nessa solidão, embora se realize por
meio de parasitas, os passadores. Estes, que, afinal, são dois, atuam junto ao
candidato e prestam contas a um júri estabelecido na famosa Escola. Trata-se,
na realidade, de um teatro, em que os passadores são os mensageiros que
prestam contas a um júri. É fundamental que essa transmissão seja indireta,
denot3:_114o qu� e�s�� p�,ss&:1go re� ç�p_rem t����- é:1J\mç��, �� - !:la. No que
�,,.,.,.. • · ··-"ou, ' · ·· � ·• .• .•• • ·- ··"· '·- ·,·- ·
. ,,:; � , , <""· · "" .,._.,,r,. ·--... ..�--�
.

concerne aó júri, não se supõe que veja, nem que - escute o que o - passante de- 0

clara. Não se supõe que escute o que este diz a seus passadores, que são tanto
espectadores quanto críticos de teatro, vale dizer, um tipo de placa sensível,

3 N. da T. Optou-se por traduzir hysto risation, usado pelo autor, pelo termo histoerização.
Ao grafar hystorisation com o y de hystérie, Lacan reúne, em um único vocábulo, história
e histeria. Cf. a nota do editor em Lacan (1977: 567).

AP OSTA NO PA � SE
que O júri interroga a respeito do que experimentaram ao escutar alguém que
teria atingido o inconsciente real.

D E R IVA D O REAL

o passe bis é, por assim dizer, uma prova de verdade, cum grano salis. A prova
de verdade é a análise, em que alguém tenta, se esforça para dizer a verdade.
o companheiro analista age para lhe inspirar certo entusiasmo pelo dizer ver­
dadeiro. O passe bis, no entanto, embora também seja uma prova de verdade,
comporta o fato de que se ,imagina que alguém, após ter alguém alcançado o
in consciente real, sabe gue a verdade -� uma ilusão, e que, .depois da verdade,
.........-----..�· ..,.. _,. ,��-.........,..-r,. �-- ,.,...,..,........ ..
ira. Kmentira;·tõdavia, não é uma objeção à verdade, pois
O
,..... , , ,,. K

��--�.�E���=ª-1!:l��!
- • · •' •• • ' · ._ :. ' • _,... -�.• •
,.•'' , , ,,,. . ,, . ,:. • h . , , ...-'' "':_. �• .� ..-. , •. ,. • ,, - �-
, •

só há sentido na dimensão da verdade. Afinal de c_ontas, é preciso dizer que,


quando se chega ao chamado "inconsciente real': extingue-se o sentido da
· verdade e da mentira.
No passe bis, não se espera então um testemunho sobre o verdadeiro do
verdadeiro. Isso seria uma miragem, o que não quer dizer que isso nunca
tenha ocorrido na história do passe. Porém o testemunho que se espera do
passe bis é o modo como alguém soube lidar, em sua análise, com a miragem
da verdade, como se entregou a ela, se deixou enganar por ela e como, em
seguida, se safou dela, como - assim o esperamos - se redimiu dela. Em todo
caso, a miragem da verdade, diz Lacan, . tem um final, um termo, o termo
''inconsciente real': que se observa e se aprecia no fim da análise. Cito: "A mi­
ragem da verdade, da qual só se pode esperar a mentira ( é a isso que se chama
resistência, em termos polidos), não tem outro limite senão a satisfação que
marca o fim da an�se:' (L�can,._ .1,977:. -56M . .:N_�o�� .m�!(ª mais simples e
delicada de dizê-ld: há fim da análise, quando há satisfaçãoi
·
- !'
':- -� . .._.,;' · �. .. '" · ··-·- ··· .... ·, ··- -·--� · ... -•. . -..,._,. ___.... . ......_. ;._-::-- ,;..:'"·'t:::_ ·. ;-· .· "' ...... .....-: .f'-

fim de análise -+ satisfação

Isso pressupõe, sem dúvida, uma tr�nsformação d.? sintoma: depois 1o


!P.:ç{rg1o�tQ..Q!Ld.!1.J:iOJ..qYge.r_ªya 1!9,.S.µjeitÔ� brinda ·corii:�tismçãÔ. que . ele()
<2_ .habitaY.c1 _t! annnava _.i vida t�-4�- o úTtéri�-dô·p�se-bi; �onsiste e�ts�ber ,
lidar com seu sintomá, para dele obter satisfação.
Daí provém a tese formulada por Lacan em seu esp de um laps, o espaço
de um lapso, segundo a qual �- ª�áli��- pr�s_�d� .�IJ:!�...Y!"gência. Cito-o nova­
mente: "dar essa satisfação é a urgência q�e a análise preside" (: 569). Isso
supera o simples fato de fazer a análise corresponder a_ uma demanda. O que,

O AVE S S O DO PAS S E 77
do ponto de vista do simbólico, chamávamos demanda é, na verdade, um
pedido de urgência. E esse pedi_�o { -� - q������ia �!.!!f���-�� �?trevista_�,
preliminares: há OU não�iirgência de satisfação? Ü S\J.jeito chegou â°-jJ<n?,t:O de
já riãô sabérlidar bem com S�ll sintomct? . ..
Sabe-se qüe James Joyce rejeitou a análise, análise que lhe propunham
fazer com Jung, e que Laca.p.,..�rante um ano, dedicou a ele O Seminário,
livro 23: o sinthoma. Jamesf,Joyce';recusou a análise, mas não impediu que
Lacan visse nele o melhor ei:�mplo do qlle se · pod� esperar de uma análise
e de seu fim, isto é, ter sabi9:�_ liqar_ colTl seu sintoma, ter sabido obter dele
e,
a satisfação de seus dias· inclusive, a expêétâtiva· revelada de imortalizar o
próprio nome; Mas se poderia dizer, atentando para a precaução de Lacan
que se lê no último capíiulo.q� O Seminário, livro ,23, que chamei de "A escrita
do ego': que não há;�ternidad�� Seria possível dizer com ele: "é pre,çiso tentar
se desprender da ideiâ d;e êiériiidade", �ssa ideia que "niO:gu éJ,n sabe o que é ,,?
(Lacan, 1975-6: 145). Nesse ponto, som�s le�bradÔs 'da esi;utura temporal
que governa o i p.consciente e não permite que alguém se perca em algu_õ;:_tipo
de contemplação de c�mbinatória que interrompa o tempo.
É assim que, nesse último capítulo, Lacan evoca o que seria a falta de
estrutura presente no caso de James Joyce, falta que necessitaria de uma cor­
reção, ou melhor, de uma sutura: o próprio sintoma de Joyce, que passaria
pela escrita. A respeito do conceito de falta, que nesse caso nada tem a ver
com a culpa, Lacan esclarece que a lei de ioda interpretação consiste em que
há, "por trás de todo lapso [ ... ] uma finalidade ;ignificante". E ele acrescenta:
"Se há um inconsciente, a falha tende a querer exprimir algu ma coisa, que não
é somente o que o sujeito sabe, uma vez que o sujeito reside nessa divisão
mesma que representei em outros tempos pela relação de um significante
coin outro significante" (: 144). Há algo que o sujeito não sabe e que impele
para se revelar.
Creio enfim que, precisamente a partir desse ponto, · Lacan ressalta, em
seu último escrito, o esp de um laps ,. ou seja, o fato de que é preciso quel'.,tionar
a finalidade significante. A finalidade significante convida à abrangência de
sentido ou de interpretação das formações do inconsciente; presume que, sob
elas, há uma verdade, que busca se fazer escutar, se dar a conhecer. Porém
Lacan, ao q1._1estionar a própria noção de finalidade significante das formações
do inconsciente, ise>la o in�on�ciente real, qu� � um.iQ.�opsciente_�,r�_çalqµç.
Por isso, dur�t�· Ô an� que �e s·;g�-; -0
S��indri�, li;,� 23: o sintho,;;a,
não sem tropeços, Lacan, em "Le Séminaire, Livre xxrv: L'insu que sait de
�__........,_,,""·· ·.-·· .:.,·. .,�
l'une-bévue s'aile à mo urre" ( 1976-7) , ten!a elaborar algo que vá ma!s
. long� .do
que o i11co:risdente. Isso o ocupa até o óÍtÚno suspiro, e eu diria que tem�s de;

A P O S TA N O PA S S E
em vez de nos familiarizar com isso, elaborar o que, para ele, era o hiato, a
falha, entre o verdadeiro e o real
O verdadeiro, o que se crê como tal, é a ideia do real desprendido de toda
cr a. Como definir essa crença? Eu diria que são mentiras em atos, que têm
enç
seus efeitos.
A fé, inclusive a fé religiosa, diz Lacan, é o verdadeiro, que nada tem a ver
com o real. E ele chega a formular que a psicanálise é a forma moderna da fé
religiosa, devendo isso ser outra vez situado no plano do inconsciente trans­
ferencial, que em Freud se liga justamente ao Nome-do-Pai. O inconsciente
.
transfet:enciaj._ � o. Nomç do Pai cam.inham de mãos dadas. ,. ..
_.. L�a� -��s diz que o verdadeiro, o �erdadeiro d� crença, está à deriva, quan­
a· -

do se trata do real. Retornaremos a esse à deriva, que tem implicações sobre


a pulsão e pressupõe não apenas distinguir o verdadeiro e o real, bem como
elaborar a deriva do verdadeiro, isto é, avaliar o que, em uma análise, fun­
cionou como verdade em relação ao real que se procurava, incessantemente,
pagar ou velar. Trata-se, pois, de avaliar o verdadeiro em função do real.
Em minha última lição antes das férias do fim do ano, detive-me nas ques­
tões que Lacan busca responder no nono capítulo de O Seminário, livro 23:
o sinthoma. Voltarei a isso na próxima vez e tentarei mostrar como podemos
reordenar, a partir do ponto em que estamos, os conceitos fundamentais da
psicanálise.

O AVESSO DO PASSE 79
C O M O A L G UEM S E T O RNA P S ICA NALIS TA
/

N A O RLA D O S ÉC U L O X X l 1

JÁ L H E S FA L E I D E S T E T Í T U L O O N T E M , em minha intervenção sobre po­


lítica lacaniana , e das razões que me levaram a escolhê-lo. Essas razões me
2

fizeram pensar ser importante reconduzir a atenção para a psicanálise pura,


atenção que se viu mobilizada, depois distraída e até mesmo monopolizada
pela psicanálise aplicada. Por certo, emprego as expressões psicanálise pura
e psicanálise aplicada para me fazer compreender, mas não o faço sem aspas.
Em uma intervenção feita por ocasião do encerramento de Pipol m, eu in­
sisti sobre isto: a psicanálise aplicada é psicanálise. Fui compreendido. É bem
isso o que me inquieta. Fui compreendido como se tivesse dito: a psicanálise
aplicada é a psicanálise. Ah!, dizer é psicanálise não quer dizer é a psicanálise.
Isso é o que chamamos de um mal-entendido. É fatal. E o levaram a ponto
de se acreditar que, doravante, a psicanálise aplicada seria o que melhor pre­
pararia para a psicanálise; acreditou-se que exercer a psicanálise aplicada à

N. da o. Apresentação do tema das 38e Journées de l'École de la Cause freudienne: Com­


ment on devient analyste, posteriormente realizadas em 7 e 8 de novembro de 2009.
Paris, 11 de outubro de 2008. Texto publicado originalmente em português em Opção
Lacaniana: Revista Brasileira Internacional de Psicanálise, n. 55, São Paulo, 2009, nov.,
p. 15-21, com tradução de Vera Avellar Ribeiro, a quem agradecemos a concordância para
que a utilizássemos como base da presente versão.
2 Intervenção proferida em 12 de outubro de 2008. Retranscrição de Catherine Bonningue.
Originalmente publicada sob o título "Perspectives de politique lacanienne, premiere in­
tervention" (Lettre Mensuelle, n. 273, Paris, 2008, décembre) e traduzida para o português
sob o título "Qual política lacaniana para 2009?" ( Opção Lacaniana: Revista Brasileira
Internacional de Psicanálise, n. 53, São Paulo, 2009, jan., p. 3-8).

81
terapêutica equivaleria a formar-se como psicanalista, que isso seria a via
régia da psicanálise.

A NÁ L I S E F I N I TA E I N F I N I TA

Antes de qualquer coisa, acho importante contradizer isso, caso contrário


nossa política da psicanálise cessaria, muito simplesmente, de ser lacaniana.
Não, com certeza não é analisando pacientes e, além do mais, com uma pre­
ocupação prevalente com o efeito terapêutico, fixando por antecipação o
termo do tratamento, que nos tornamos psicanalistas no sentido de Lacan.
Dizer isso é pura e simplesmente negar o passe, negar o que Lacan quis ins­
taurar sob o nome de passe. Não cabe surpreender-se com certo eclipse do
passe, tal como pudemos observar nos trabalhos da E'scola. É o resultado
natural, o resultado lógico da concepção da psicanálise aplicada como via
régia da psicanálise.
· Se Lacan quis que o passe levasse à obtenção não do título de analisante,
mas do título de Analista da Escola, e isso independentemente de qualquer
exercício profissional, de toda prática efetiva, foi justamente para marcar que
não é analisando os outros que alguém se torna analista, e sim se analisando,
analisando a si mesmo, se assim posso dizer, pois é justamente o si (soi) que
assim se abala. O sentido do passe, sem dúvida alguma, é um sentido que pre­
cisa ser renovado, revigorado, refundado entre nós. O sentido é o escândalo
do passe. É que, no fundo, a qualidade de psicanalista nada tem a ver com a
profissão de psicanalista. Essa qualidade só se adquire, só tem chance de ser
adquirida, se a experiência do sujeito como psicanalisante for levada a termo.
Não há outra via régia senão a própria análise, a elaboração de sua relação
com o inconsciente e com o desejo do qual você é o sujeito.Inclusive, o termo
que lhe pode valer receber o título de psicanalista de uma Escola - desta, por
exemplo - não é um fim. Você só durará como psicanalista se,,para além do
seu encontro com seu psicanalista, permanecer psicanalisante em sua relação
com o sujeito suposto saber, uma vez que seu inconsciente não se anula por
você ter recebido um título. Ele continua sempre ali, e impõe-se a você o de­
ver de continuar a decifrá-lo, a lê-lo, a viver e a pensar com ele. Afinal, essa: é
a necessidade que se manifesta na prá�ica da análise da contratransferência,
salvo pelo fato de que ela não está em seu lugar - mas há uma verdade que
passa por ali também.
((Análise finita e infinità: diz Freud. E Lacan não diz outra coisa. Não é
finita ou infinita, e sim finita e infinita. Lacan não diz outra coisa, mesmo se o

82 APOSTA NO PASSE
faz com outro sentido. A análise é suscetível de terminar. Sim, uma escansão
em seu trabalho de psicanalisante lhe permite separar-se daquele que o enga­
jou e sustentou nesse trabalho. Mas não, não é. por isso que você deixará de
ser analisante, a fim de dedicar-se a ser apenas analista, a fazer girar a mani­
vela do dispositivo e ser um profissional. É o que nos. exigem, evidentemente,
por todos os lados. É o que nos exige o Estado, em particular: que sejamos
uma associação de profissionais.
Quando_ o nomeiam AE, Analista da Escola, é porque se considera que,
doravante, você está em condições d� prosseguir sozinho seu trabalho de
analisante. E apenas isso! Prosseguir sozinho não quer dizer na solidão. É pros­
seguir sem que lhe seja necessário que 6 sujeito suposto saber seja suportado,
encarnado por alguém a quem você paga. É prosseguir numa relação direta, se
assim posso dizer, com o sujeito suposto saber. Esse adjetivo, «direto': não me
agrada muito porque isso não se dá sem mediação. A mediação que se propõe
é a Escola. Ao menos, é isso o que lhe propõem, quando o nomeiam Analista
da Escola. Não se poderia ser analista sem ser analisante. E não se poderia ser
analisante sem transferência. Nomeá-lo Analista da Escola é propor-lhe a Es­
cola como suporte da transferência, a Escola, uma vez que ela quer ser sujeito,
sujeito suposto saber. Disso decorre o título com que Lacan adornou a revista
de sua Escola, Scilicet, ''Tu podes saber': em latim, completado por: "Tu podes
saber o que pensa sobre isso a École freudienne de Paris':
O fato de a transferência com a Escola ser positiva sem dúvida facilita
as coisas, todavia o fato de ser negativa não é uma objeção. Estar insatisfeito
com seu funcionamento, reivindicar coisas à sua direção, ser hostil às suas
instâncias ou estar descontente com seus colegas, nada disso é grave. E tal­
vez seja até o mais comum. Negativa, ela é igualmente transferência. Mas a
transferência tem também outros destinos. Seja como for, ela nunca se anula.
Quando se desvia da Escola, volta-se, por exemplo, para o que chamamos de
sociedade.

O A C O N T E C I M E N T O D E S U J E I T O Q U E FA Z U M A N A LI S TA

Ah!, a sociedade. Noção amorfa e abissal, que autoriza todas as traições do


desejo do analista. É a sociedade que se quer agradar, é a sociedade que se
quer seduzir, conquistar, beijar, enfim! E querem pautar a Escola pela so­
ciedade. É bem estreito o caminho entre seduzir a sociedade para proteger
o desejo do analista e seduzir a sociedade porque se está seduzido por ela, a
ponto de querer vender-lhe a casa, seus membros e seus móveis. E como d de-

C O M O A L G UÉM SE T O R NA P S ICANALI S TA NA O RLA DO S É C U LO X X I


sejo do analista não quer nada disso, sonha-se com aturdi-lo e fazê-lo vergar.
E fazemos o grande público vislumbrá-lo como algo possível. Mas atenção:
não confundir endereçar-se ao grande público, à opinião esclarecida a fim de
ilustrar e proteger o discurso analítico - o que, sem dúvida, precisamos fazer -
com endereçar-se à Escola para abri-la ao grande público, o que equivaleria a
entregar as chaves da cidade e depor as armas.
Prefiro o pequeno ao grande público, o pequeno público constituído por
vocês. Ocorreú a Lacan, em um momento de pessimismo agudo, em que sua
Escola usava de chicanas com ele, criava polêmicas, recusava-lhe a instaura­
ção do passe, profetizar que chegaria o dia em que a psicanálise deporia as
armas diante dos impasses da civilização. É possível! Mas, de todo modo, i�so
não acontecerá aqui e agora. Trata-se do que, na política lacaniana, está em
jogo no título: Como alguém se torna psicanalistà na orla do século XXI.
Pesei os termos desse título. Poderia ter falado de "ser psicanalista': mas
prefiro o "devir" ao "ser". A oposição entre "ser" e "devir" foi destacada por
Heidegger em seu memorável Introdução à metafísica, apresentando-se no
próprio começo do questionamento dirigido ao ser. Ela se mantém, diz ele,
como o limite mais comum da noção de ser, por alguma coisa diferente, so­
,
bre o fundamento da evidência banal. O que "devém , ainda não "é". O ser
não tem nenhuma necessidade de vir a ser. Isso implica que se deve deixar
todo devir atrás de si, se é verdade que ele veio a ser. Propriamente falando,
tudo o que é também resiste a todo empuxo do vir a ser. Trata-se de uma
oposição que não é absolutamente definitiva e que, aos olhos de Heidegger,
deve ser superada, como ele o indica, decididamente. Parmênides e Heráclito
dizem a mesma coisa. Isso não deixa de ter ressonâncias para nós, uma vez
que ser analista é tão somente trabalhar para o devir. A análise finita, como
eu dizia, também é infinita. Infinito contável, digamos.
Uma análise associa um saber ao sintoma e, desse modo, ela em geral
obtém a suspensão desse sintoma. Só que essa suspensão nunca é completa.
Lacan nota, assim como Freud o enfatizava, ·a persistência dos restos sinto­
máticos. Disso resulta a noção de sinthoma, como escreve Lacan, que amplia
o conceito de sintoma para nele incluir, de modo essençial, os restos sinto­
máticos. O sinthoma, à diferença do sintoma, jamais é eliminado. A questão
é saber - e esta é uma questão em aberto, uma questão que eu mesmo me
� formulo - em que medida o sinthoma autoriza ou não um sujeito a posicio­
nar-se como analista.
O que chamamos de sintoma é uma formação do inconsciente, de ponta
a ponta significante. O mesmo não ocorre com o sinthoma, que não é uma
formação do inconsciente, uma vez que ele inclui o real, o real disso de que

AP O STA NO PAS S E
se trata. O ser é limitado pelo devir, mas não o real. No âmbito do real, a
oposição entre o ser e o devir cessa de ser pertinente. Nesse campo radical,.ser
analista, devir analista, poderia decorrer apenas do imaginário, dos efeitos de
prestígio social, como Lacan o indicava em seu derradeiro ensino. Temos
de levá-lo a sério. Disso resulta uma questão que considero não respondida:
no âmbito do real, podemos dar à.o analista um status que não seja apenas
semblante? Meu título, que também se dirige ao grande público, situa-se
aquém dessa questão e a deixa em seu horizonte.
Portanto, tendo de escolher entre ser e devir, optei por este. Isso implica
apontar o acontecimento de sujeito que pode f azer um analisante merecer o
título de Analista da Escola. O acontecimento de sujeito que faz o analista,
ao menos o Analista da Escola - e aqui temos uma restrição - é, em primeiro
lugar, uma realização de significantes, vale dizer, uma articulação, uma orde­
nação dos significantes-mestres, do amontoado, do enxame, da constelação
de significantes mestres que determinaram o destino de um sujeito. É a realida­
de psíquica, Realitiit, tornada Wirklichkeit, realidade significante.·Essa realiza­
ção significante apresenta-se, pode apresentar-se, como um sistema dedutivo
apenso a axiomas. Posso trazer um exemplo que me ocorreu nesta semana, o
axioma: "Toda mulher é mulher do pai': ou seja, um axioma do tipo "Totem
,,
e tabu . Desde então, na relação sexual, eu sou um ladrão, um larápio, um
transgressor, um perverso. Durmo toda noite com a mãe, ou a filha. Por­
tanto, exponho-me sempre à cólera do pai e vivo aterrorizado usando de ar­
dis, engano o pai e sou tanto ma1s ameaçador quanto mais incessantemente
ameaçado.
A perversão não se enraíza, como se crê, na relação com a mãe. Ela se enraíza
na relação com o pai, em conformidade com o célebre neologismo de La­
can que permaneceu não compreendido, a saber: a pai-versão [pere-version] .
O Édipo é o princípio da pai-versão, razão pela qual Lacan pôde dizer que o
desejo como tal é perverso. A pai-versão é o substituto mais comum da rela­
ção sexual que não existe. O que chamamos de perversão é o que faz existir
a relação sexual.
Mas, para o acontecimento de sujeito que faz o analista, não basta uma
realização significante. Ele se completa, diz Lacan, por meio de uma revelação, ·
da fantasia, à qual está ligada. Aliás, é por meio dessa revelação que o passe é
mais comumente designado sob o nome de "travessia da fantasia", expressão
que figura apenas uma vez em Lacan. Nós é que fizemos dela um xibolete.
Eritre realização significante e revelação da · fantasia há ligação, isto é, re­
lação íntima. A palavra ligação [accointance] merece ser retida. Entre as duas,
não há continuidade, não há consecução; não há articulação. Existe, ao con-

COMO A L G U É M S E TORNA PSICANALISTA NA ORLA DO S É C U LO XXI


trário, distância, existe um feito de zigu ezague, que Lacan chama de chicana.
Há acontecimento de passe quando a realização significante, lógica, ecoa so­
bre a fantasia. Podemos dizer que esse acontecimento de passe modifica o
modo de gozar? Formulo a questão. Ele deve, ao menos, liberar para o ana­
lista por vir um espaço limpo de gozo, a partir do qual balizar a concreção de
gozo que, para outro, causa o desejo.
Atesta-se a sexuação feminina pelo fato de o sujeito ser plástico quanto a
fazer-se causa de desejo do Outro. Um dia desses, alguém a quem se poderia
chamar de uma verdadeira mulher, dizia-me em um momento de autossa­
tisfação: ((Com cada um dos meus amantes, faço um casal diferente". Por isso,
Lacan dizia que as mulheres são psicanalistas natas. Isso que dizer que a po­
sição do analista é, por excelência, uma posição feminina.
Essa também é a razão, nós o sabemos, de não haver O psicanalista assim
como não há A mulher. Há apenas psicanalistas a serem considerado� um
por um no procedimento do passe, a fim de verificar por qual via singular
sua realização significante se mantinha ligada a uma revelação da fantasia.
E acrescento o seguinte: qual a incidência desse acontecimento sobre o sin­
thõma? Qual nova trajetória de gozo pode ser traçada a partir daí?

S I N G U L A R E PA R A D I G M A

Preferi, portanto, o devir ao ser. O ser convida à identificação. E identificação


é o que a psicanálise repudia. É o que o psicanalista se proíbe. Operar por
meio da identificação, seja no tratamento ou na instituição, é decair. Se fosse
preciso designar um critério de ser analista - Deus me livre disso! -, diria que
é a intolerância à identificação, tanto no pânico quanto no entusiasmo, na
rotina como na surpresa. Um psicanalista não quer semelhantes; quer apenas
diferentes. Esse é o sentido da fala de Lacan: «Façam como eu, não me imitem!"
Sigamos um pouco adiante. Um psicanalista não quer ser acarinhado -
a não ser em sua vida pessoal -, engrandecido, posto como denominador
comum. Ele quer ser abandonado. Indo um tanto mais longe: ele organiza
sua operação de modo a ser dela incauto e a fazer-se dela o dejeto. Lacan
diz isso cruamente: «o psicanalista quer ser merda': A merda é o destino do
amor. E ele vela um pouco as coisas, ao dizer: "O pássaro de Vênus é cagador"
(Lacan, 1967-70: 281). O momento masoquista se liga ao desejo do analista.
E será conveniente lembrar-se disso a cada vez que se quiser entoar o peã da
posição do analista, que se quiser exaltar a posição do analista. Resta ao ana­
lista preservar-se desse masoquismo estrutural, de gozar dele. Ele também se

86 A P O S TA NO PA S S E
preservará de confundir seu trabalho tenaz de analisante com seu exercício,
de analista. Os dois devem ser mantidos disjuntos, caso contrário, como eu
disse, será a análise da contratransferência.
No título que proponho, eu disse também como. Como alguém se torna.
Disse isso à maneira de uma paródia de tudo o que se propõe nos manuais
de savoir-faire. Em inglês: how to. Quando se trata de tornar-se analista, todo
savoir-faire desfalece. E essa é a razão pela qual ocasionalmente nos lançamos
de novo ao savoir-faire clínico. No entanto, deveria nos deixar de orelha em pé
o fato de que, a fim de aclimatar a psicanálise à universidade, um senhor cha­
mado J)aniel Lagache, cuja subsistência se deve ao "Relatório" que escreveu e
suscitou de Lacan algumas observações (Lacan, 1960a), teve de inventar a psico­
logia clínica. Isso continua a ser o que era: apenas a promessa de um savoir-faire
que desconhece o inconsciente e o desejo - em particular, o desejo do analista.
Há uína clínica. Ela não é e nunca foi psicológica. Ela é, em primeiro lu­
gar, psiquiátrica. Foi transformada pela experiência freudiana, foi levada ao
materna por Lacan e a originalidade da École de la Cause freudie?-ne foi pro­
mover o slogan do retorno à clínica. Ao menos, foi assim que um historiador
da psicanálise contemporânea resumiu a orientação dada aos trabalhos dessa
Escola em 1981, momento em que ela nascia miraculosamente dos escombros
de uma dissolução que, um quarto de século depois, ainda determina o pa­
norama da psicanálise francesa.
Não renego o retorno à clínica. De fato, há vinte anos o esforço das Se­
ções Clínicas tem sido condensar, resumir, tornar pragmático o saber clínico
que se deposita do ensino de Lacan. Mas o que qualifica o clínico é sua expe­
riência, seu savoir-faire, o talento de apertar os botões necessários para que
o outro se ponha em marcha. Coisas que devem ser desaprendidas para tor­
nar-se analista. É o esquecimento da clínica que funda a operação analítica.
Somos clínicos quando acumulamos a experiência de um grande número
de pacientes. É preciso que isso vire nada para, no discurso analítico, acolher
como único o sujeito que se oferece a ele.
Esse é então o âmago do título que proponho: Como alguém se torna
psicanalista na orla do século xx1. Acrescento que, por _trás desse título, há ou- .
tro, de um artigo de Baudelaire, de sua juventude. Ele tinha 24 anos quando ·
escreveu "Como alguém paga suas dívidas quando tem talento': a respeito de
uma gatunice de Balzac. O que me agradou nesse título foi o "alguém" [ on] .
"Caro alguém': diz Lacan. Esse on é qualquer um, é o HCE, de Joyce, o here
comes everybody. Cada um se inscreve aí. Como alguém se torna psicanalista
na orla do século xx1 quer dizer, então, abaixo os analistas que seriam clínicos.
Deixemos o ser clínico para os psicólogos.

COMO A L G U É M SE T O RNA PSI CANALISTA NA ORLA DO S ÉC ULO XXI


Queremos analistas que sejam analisantes, analisantes perpétuos a ar­
rancar incessantemente farrapos de saber do sujeito suposto saber que não
existe - farrapos tanto mais preciosos quanto mais raros e singulares, pois a
via analítica não é a de um grande número, nem a da estatística, mas a do sin­
gular e do paradigma, do singular' elevado a paradigma. Portanto, se é preciso
slogans, substituamos doravante o retorno à clínica pelo retorno ao singular.
Há muitos anos expomos casos de pacientes em nossas Jornadas. Não te­
ria chegado o momento de cada um expor o próprio caso? É o privilegio dos
AEs, claro. Já ocorreu, no entanto, que eu, para um volume intitulado Quem
são seus psicanalistas? (Miller, 2002), pedisse a alguns colegas que evocassem
suas análises. Isso também foi feito, em 1991, para o Colóquio que lembrou os
dez anos do desaparecimento de Lacan. Depois, eu mesmo o fiz em Buenos
Aires e também, no ano passado, em Paris. Pois bem, proponho à École de la
Cause freudienne, por ocasião das próximas Jornadas, autorizar o seguinte:
que cada um fale de seu próprio caso, fale de si como de um caso, elabore sua
, relação com o sujeito suposto saber, e que os analistas deem a conhecer como
o desejo de ser analista é elaborado por seus pacientes.
Claro, o desejo do analista não é o desejo de ser analista. Em certos as­
pectos, os dois são inclusive antinômicos. De um a outro há ruptura, chicana,
ziguezague, razão pela qual proponho acrescentar um subtítulo ao título que
indiquei: "Do desejo de ser analista ao desejo do analista':
PASSE E SI NTHOM A
U M A PSI C A N ALISE TE M
1
ESTRUTUR A DE F I C Ç Ã 0

Tenho o mérito de continuar porque tenho o sentimento de avançar em uma


zona que ainda não está perfeitamente balizada, e isso !11-e atrai. O fato de dar
conta diante de vocês não me dissuade de lhes confiar uma reflexão que não
está concluída. Talvez eu sempre tenha procedido assim, mas hoje eu experi­
mento isso de maneira mais viva.
Eu me dizia que uma análise que se inicia e uma análise que dura não são
absolutamente semelhantes. Uma análise que se inicia, uma análise que dura
e também uma análise que termina - digamos simplesmente que se detém e
não entremos de imediato na questão de se ela se detém bem ou mal, assim
como nos critérios pelos quais se julgaria o que é correto ou incorreto a esse
respeito - são três modalidades de análise que não se apresentam da mesma
forma e que não exigem do analista a mesma posição e tampouco a mesma
maneira de agir.
Admitamos, como hipótese, que a estrutura permanece a mesma. O pró­
prio emprego da palavra estrutura implica sua permanência e a evidência
empírica segue no mesmo sentido - as mesmas duas pessoas, o mesmo lugar
e o mesmo horário. Isso não é como na educação, em que o progresso se
manifesta graças a uma tópica - o maternal, o colégio, o liceu, a universi­
dade - cujos lugares se alteram. Na análise, a gente não diz: "Agora, vamos ·

N. da o. Texto estabelecido por Christiane Alberti e Philippe Hellebois, com base na séti­
ma aula do ·curso de Orientação lacaniana "Choses de finesse em psychanalyse': proferida
em 14 de janeiro de 2009. Originalmente publicado sob o título "Une psychanalyse a
structure de fiction': La Cause du Désir. Revue de Psychanalyse, n. 87: Fictions, Paris, 2014,
p. 69-77.

91
deixar O meu consultório vermelho e ir até o quarto an�ar, onde receberei
. você no consul�ório azul". Tudo permanece semelhante. O exemplo que g.ei,
no entanto, pode indicar o progresso do saber pela troca de um lugar ou de
um professor.
De todo modo, pode ocorrer uma troca de analista para que uma análise
se conclua. Isso pode ser inclusive uma tradição em uma comunidade analíti­
ca em que há analistas habilitados a iniciar as análises, mas não a terminá-las.
E, vez por outra, tais analistas se questionam s.e estão mesmo à altura de fazer
com que seus pacientes terminem as suas análises.
Mas deixemos isso de lado e admitamos que a estrutura permanece a
mesma. Constatamos que essa permanência não é um obstáculo para que os
acontecimentos se apresentem de maneira bastante diferente, de acordo com
o que se passou no início ou foi instalado ao longo da duração. O que se passa,
como nomeá-lo? Trata-se de um fenômeno ou de fenômenos? Para que haja
fenômeno, é necessário que exista nômeno, e não a estrutura. Ora, a estrutura-
-nômeno, por hipótese, não é o nômeno no sentido em que Kant emprega essa
palavra - não desenvolverei esse ponto. Como digo estrutura, prefiro dizer
acontecimento, em vez defenômeno.

UMA ANÁLIS E QUE S E I N I C IA

Uma análise que se inicia é rica em acontecimentos. Isso muda, o que cha­
mamos de transferência, palavra gloriosa para qualificar tal mudança. Trans­
porta-se para outra pessoa o que se tem na cabeça, o que se dizia a si mesmo.
É um fato de transmissão, ·de comunicação. Partilha-se o que se crê ter de
mais íntimo. Evidentemente, há uma parte disso que já se havia dito a fulano
ou beltrano, mas normalmente também existe o que jamais se disse a alguém.
Trata-se, portanto, de uma transposição, o que não é algo anódino.
Não empreguei a expressão o que se diz a si mesmo sem alguma reticên­
cia, pois é bastante complicado o que dizemos a nós mesmos. Percebe-se
só-depois que a si mesmo se dizia apenas a metade, de modo vago. Essa im­
precisão é o que adornamos com o nome de consciência. É abusivo imaginar
que a consciência definiria um lugar transparente. O que se diz consciente­
mente aparece, na maioria das vezes, de maneira esboçada, permanecendo no
conjunto, em termos estritos, amorfo, sem ter sido posto em forma.
Notamos isso nos romancistas que, no fim do século xrx e no início do
século xx, se puseram a escrever sobre o "fluxo da consciência': the stream of
consciouness, algo que teria sido inventado pelo francês Édouard Dujardin.

92 AP OSTA NO PASSE
James Joyce se notabilizou com Ulisses pela escrita desse fluxo de consciência.
Virgínia Woolf também se entregou a esse fluir em seu delicado romance
Miss Dalloway - sua esquizofrenia ainda não estava completamente desenvol­
vida para que isso se tornasse mais interessante. Eu classificaria tudo isso nos
efeitos de invenção freudiana sobre a literatura. Por que não uma enformação
literária do amorfo mental?
Uma análise começa sob o modo da formalização, em que o amorfo se vê
dotado de uma morfologia. Não se trata apenas de que o implícito se torne
explicito; há uma transformação, que é radical, porque se passa da ausência de
forma a uma determinada forma. O amorfo se desenha a cada sessão, ele adqui­
re seus ângulos e se apresenta sob wna luz diferente. O que mais se aproxima
do que então está em jog� é a configuração de nós que têm a mesma estrutura,
mas que assumem formas diferentes, de acordo com a maneira com que se
puxam as cordas que os representam. Isso é muito realista, mas é de fato o que
acontece. Ao longo das primeiras sessões, a massa mental do amorfo se distri­
bui em elementos de discurso.Apenas o fato de convidar a falar aquele que está
diante de você faz com que o amorfo mental adote a estrutura de linguagem.
E quando isso não se produz, é muito inquietante. Às vezes, isso se produz de
modo apressado, premente, como se essa massa apenas esperasse uma ocasião
de dividir-se, repartir-se e comunicar-se. O desenho que então surge está con­
dicionado, ao menos em parte, pelo endereçamento, pelo destinatário.
Eu me referi há pouco aos escritores que, na época de Freud, buscavam
transcrever seu fluxo de consciência. Eles o formalizavam no tom, no estilo
do que eles acreditavam ser - merecidamente, no caso dos autores citados - a
literatura, com preocupações de cadência, harmonia, beleza e emoção. Outro
exemplo a esse respeito é o verdadeiro católico, que, de acordo com Lacan, é
inanalisável. Por quê? Porque seu amorfo mental está submetido à prática da
confissão e, portanto, se formaliza espontaneamente segundo as categorias
de seu destinatário. Pode-se observar que essas categorias concernem essen­
cialmente ao gozo errôneo - trata-se de confessar que o gozo não é aquele
que deveria ser. Evidentemente isso se abrandou sob a influência de Freud,
mas é a orientação dessa prática que visa assediar o pecado. Felizmente, não
existe o pecado, mas os pecados, avaliados segundo uma escala que vai dos
mais graves àqueles que na verdade não contam, os veniais. Isso permite to­
das as astúcias - por exemplo, confessar o venial para adiar o capital -, num
jogo que se destina a obter, por um bom preço, a absolvição. Lacan pensava,
imagino, que aqueles que estão muito agarrados a essa prática, os ases da con­
fissão, são impermeáveis à analise porque se tornaram demasiados astutos
para dizer de seu gozo.

U M A PSI CANÁLI S E TEM E ST R U T U R A D E F I C Ç Ã O 93


Não me incomoda o fato de Michel F.oucault ter considerado que a psi­
canálise derivava de uma confissão. Historicamente, é uma bobagem, mas,
logicamente, por que não? Digamos, pois, que o endereçamento na psica­
nálise difere da confissão precisamente porque não é prescritivo. A regra
não é aferir a culpa, e sim, em lugar disso, convidar o outro a dizer tudo
o que lhe passa na cabeça, a liberar o Einfall� como dizia Freud, o que lhe
cai n.a cabeça, o casus mental, o acontecime�to do pensamento. Esse acon­
teciµiento do pensamento é tudo o que temos como material para mane­
jar e, aliás, para saber como se relaciona com o acontecimento de corpo.
O que se obtém do analisante se dá sob a forma de dizer o acontecimento
do pensamento, e a regra analítica comporta uma garantia , que lhe é dita:
"Você não será julgado". Não há juízo final e tampouco inicial. Não há juízo
em absoluto. Isso é mais ou menos verdadeiro, mas está previsto na lógica ·
dessa garantia.
Há o que as leis da cidade nos impõem. Isso pode ser ignorado. Por exem­
plo, na história de alguém que um recebe um paciente que, lá pela terceira
sessão, lhe confessa que assassinou uma ou duas pessoas - digo uma ou duas
porque não está muito seguro de uma delas. O analista escuta o relato com
filosofia, sem julgá-lo. Aliás, por que não? Eu não saberia o que fazer se tivesse•
tido o sentimento de que o cara estava prestes a recomeçar - evidentemente,
é difícil escapar dos alertas em um caso como esse.
Não será julgado, isso é ml:lis ou menos certo, porque não se acredita to­
talmente nisso; a nuvem negra continua planando sobre a análise e, por vezes,
adia, retarda o que o sujeito sente como a confissão de suas faltas. Há pouco
mencionei os três anos que forani necessários para que um analisante aban­
donasse o seu discurso caótico e revelasse que era homossexual - na verdade,
me fizesse compreendê-lo -, permitindo que as nuvens imediatamente se dis­
sipassem e pudéssemos seguir adiante com seriedade.
Há todo um campo a ser explorado: o que essa fantasia de julgamento
subtrai à análise, à fala analisante, como ela o embaraça e qual técnica está em
condições de fazer com que o «Tu não serás julgado" seja levad� a . sério. Dei­
xo de lado, ao menos por hora, essa problemática e lembro que, logicamente,
há uma suspensão absoluta do juízo moral, o que, aliás, não é o mais difícil.
O mais difícil é a suspensão absoluta do juízo pragmático ou que o analista
se abstenha de dizer: "Não é assim que se deve fazer para obter tal efeito, faça
de outra maneira"� Às vezes isso acontece, é preciso reconhecê-lo, mas se trata
de uma infração à lógica que exponho.
Em outras palavras, o que chamamos de regra analítica é uma operação
que consiste na ablação do que comumente chamamos de supereu - cujo

94 A P OS TA NO P A S S E
exemplo supostamente cabe ao analista, devendo o analisante imitá-lo - e
na implantação de outro supereu, próprio à experiência analítica, entendido
como a imposição de dizer a verdade, toda a verdade, sem fingimento. Tal
injunção é bastante valiosa numa análise que se inicia, porém se torna para­
doxal e mesmo impossível de ser satisfeita na análise que dura.
A entrada em análise produz efeitos imediatos, lógicos. Regularmente,
mas nem sempre, na maioria das vezes, são efeitos de alívio, terapêuticos.
Uma análise que se inicia produz efeitos terapêuticos rápidos. Uma análi�e
que dura tem efeitos não terapêuticos le:ritos e pode, inclusive, ter efeitos de
deterioração. Corrijo de imediato o excessivo otimismo em falar em efeitos
terapêuticos rápidos da análise que se inicia, já que é bem conhecido o fato
de que a formalização, em particular a do sintoma, pode se traduzir por um
agravamento. O sujeito se dá conta que está mais doente do que pensava. Tra­
ta-se do efeito Knock da psicanálise. Agrava-se a doença quando se vai ver seu
médico, como ensina a lição de Moliere em O doente imaginário. No fundo,
trata-se de um efeito de alívio por objetivação; pela transmutação do amorfo,
o paciente se torna um objeto, uma referência, de que se fala. E o milagre
da operação é que assim se obtém o efeito brechtiano de distanciamento.
O íntimo passa para o exterior, sempre acompanhado de um sentimento de
"Eu já sabia disso, mas eu não sabia disso>: podendo o acento recair de um
lado ou do outro.
A transmutação do amorfo traz em si a ideia de inconsciente. Se quiser­
mos pôr em questão o termo de inconsciente, como o fez Lacan - a própria
noção de inconsciente era demasiadamente vaga para dar consistência à sua
negação, e também porque estruturar o inconsciente em termos de lingua­
gem tornava ineficiente a referência ao consciente - enfim, se quisermos se­
guir nessa direção, diremos que tal noção do inconsciente responde ao efei­
to de extimidade engendrado pela formalização do amorfo. ((Isso estava em
mim e, no entanto, isso me era desconhecido, isso não era sabido por mim.':
É nesse sentido que é êxtimo o que chamamos de inconsciente.
Uma análise que se inicia ocorre em uma atmosfera de revelação. Ela não
necessariamente se inicia quando se estabelece um processo de encontros
regulares, mas ela se desenvolve como fogos de artifício de. revelações, a partir
do momento em que o sujeito se esforça em fazer passar o acontecimento de
pensamento para a fala. O amorfo dá lugar à articulação de elementos indivi­
dualizados, que desse modo se mostram rastreáveis, para empregar um termo
de nossos dias, demarcando-se que eles provêm de um antes - em geral, da
infância - e que retornam.

UMA P S I CANÁLISE TEM ESTRUTURA DE F I CÇÃO 95


U M A A NÁ L I S E Q U E D U RA

Em uma análise que dura, logo se percebe que a revelação é mais rarefeita, es­
fuma-se e chega mesmo a desaparecer. Trata-se, pois, de um regime comple­
tamente distinto, em que a revelação é substituída, em sua prevalência, pela
repetição.Trata-se não da repetição de elementos rastreáveis produzindo um
efeito de revelação, e sim de uma repetição que conflui para a estagnação.
Uma análise que dura requer atravessar a estagnação, suportá-la, explorar
os seus limites,- que são a jaula do sinthoma. Chamei isso, tempos atrás, de a
experiência do real à maneira da inércia - espera-se que isso ceda. Na análise
que dura, há por certo revelações, mas o que na verdade mais se espera - tan­
to o analisante quanto o analista - é algo próximo da renúncia da libido, da
retirada da libido de alguns elementos rastreáveis que foram desembaraçados
na época da revelação. A questão que consome não é tanto aquela de um
tempo para compreender quanto a de um tempo para desinvestir, para que -
tomo isto emprestado de Lacan - o interesse da libido venha se condensar
no que ele chamava de objeto a. Mesmo que o modelo desse objeto seja um
objeto pré-genital, ou ainda o objeto winnicottiano, trata-se aqui da hipótese
de que o gozo se retira para se condensar em um p9nto e de que se faz desse
ponto um objeto condensador que possa absorvê-lo.
Isso estabelece uma diferença na vida de um analista. Um analista ini­
ciante tem a experiência da análise enquanto ela se inicia - estando a sua
supostamente à parte -, e uma análise enquanto se inicia é o tira-gosto do
analista, o prazer do analista e o prazer do analisante - os americanos cha­
mam esse período de "lua de mel': Ah, que maravilha, que triunfo apenas
fazer as análises se iniciarem!
Estar implicado com a análise enquanto ela dura é outra coisa. Em mi­
nhas reflexões, eu dizia a mim mesmo: "Eu me viro, mas a questão é saber
como". Refleti sobre isso tendo Lacan como companheiro, tal como Dante
segura na mão de Virgílio e o próprio Lacan segura na de Joyce para que este
o guie no sinthoma, a mesma mão de que me sirvo para orientar-me nessa
selva obscura que é a análise que dura. E sem duvidar do peso das reprova­
ções que isso pode acarretar: "Você não faz nada para me tirar daír'. O que
me dá essa mão é esta proposição que sublinhei e já comentei tantas vezes, e
que tomo como uma indicação: a verdade tem estrutura de ficção.
A verdade é a substância da experiência analítica, o que é engendrado
por ela. Isso só se mantém porque há revelações, iluminações·, instantes de
ver, o que os ingleses chamam de insight. À diferença das verdades com que
Descartes sonhava à luz das matemáticas - no âmbito do materna, pode-se

A P O S TA NO PASSE
ter certeza de que há verdades eternas -, as verdades engendradas pela experi­
ência analítica são mortais, elas se encontram no plano do paterna, do que se
sente. Elas são verdades patéticas - paterna tem a mesma raiz que patológico,
patético etc. Ora, é nesse plano que elas são variáveis, o que fez Lacan criar o
neologismo varité, verdade variável. A propósito, é por isso que se pode que­
rer mudar de analista; cansados da verdade alcançada, dirigimo-nos a outra
pessoa, dizendo para nós mesmos que iremos mudar de verdade.
Ficção, o que isso quer dizer? Que se trata de uma fabricação, que isso não
pertence à ordem da natureza, à physis dos gregos, e sim à ordem da poeisis,
da produção, do fazer. Uma ficção é uma produção que contém a marca do
semblante, o que de modo algum a desvaloriza. Modifica-se a configuração
dos nós, multiplicando-se assim os modos em que aparecem, os seus sem­
blantes. Na análise, a ficção é um fazer que repousa em um dizer. Mas o fictí­
cio se opõe ao real, e já que há tempos tomei como slogan a orientação para
o real, isso obriga a extrair todas as consequências da estrutura de ficção da
verdade.
Lacan sé lançou em desavenças, ao se opor a uma orientação da prática
da psicanálise para o imaginário, substituindo-a por uma orientação para o
simbólico, que consiste em reconhecer o inconsciente como uma estrutura
de linguagem, em formular que o inconsciente tem estrutura de linguagem.
Isso quer dizer que o significante é distinto do significado, que ele prevalece
sobre o significado, que as combinações e as substituições significantes deter­
minam o significado.
Tudo oscila - como assinalei, é de fato um corte - com o que Lacan for­
mulou na última lição de O Seminário, livro 20: mais, ainda, que escutei ser
pronunciado: a estrutura de linguagem, no fim das contas, não é mais do que
uma elucubração de saber sobre a língua, ou seja, a estrutura de linguagem é
tão somente ficção, ela tem estrutura de ficção - em termos radicais, uma elu­
cubração -, uma ficção coletivizada, sedimentada, consolidada ao longo dos
séculos. Isso, todavia, não se transmitiu para uma parte não negligenciável de
seus leitores que se tornaram seus alunos. Não há jeito de eles conseguirem
considerar o simbólico algo próprio à ordem da ficção. Pensam que é da or­
dem do real. No entanto a ideia de que ele é da ordem da ficção é necessária ,
para se dizer, por exemplo, que não há relação sexual e que a ordem simbólica
é uma espécie de penso [pansementJ , uma elucubração de saber que tenta
mitigar essa ferida.
Não estamos a ponto de proferir algo mais agudo, mais arriscado, de dizer
que o inconsciente, em análise, tem estrutura de ficção? Ou que o inconsciente
freudiano tem estrutura de ficção? O ultinússimo ensino de Lacan me parece

UMA P SICANÁLI S E TEM ESTRUTURA DB F ICÇÃO 97


ilegível quando se descarta essa orientação. De que real seria então a ficção?
Digamos, para ir direto ao ponto: do gozo, que não tem estrutura de ficção.
A palavra inconsciente, da qual nos ocupamos, faz crer que a oposição
central sobre a qual devemos nos orientar se dá entre consciente e incons­
ciente. O consciente é uma noção bastante equívoca, pois não sabemos o
que ele é. Buscou-se defini-lo como um saber imediato e preciso, por uma
transparência. Mas o que sabemos sobre isso? O que se crê saber. O sujeito
consciente não é mais do que um sujeito suposto saber o que ele pensa, o que
ele quer, o que· ele ama, do que goza, do que sofre. A experiência da análise
nos mostra que isso é falso: o sujeito é um sujeito que não sabe de fato, que
se contradiz, muda de opinião, muda de saber. De fato, o que chamamos de
inconsciente é um fato de lógica, diz respeito ao que se deduz do que se diz.
Seja como for, não operamos com essa oposição em uma análise que
dura. Na análise qu� se inicia, há um efeito de revelação comportando que
antes não se sabia oµ não se sabia do mesmo modo. Por causa da revelação,
pode-se admitir que a oposição entre consciente e inconsciente está em pri­
meiro plano. Mas não é esse o caso na análise que dura, em que a oposição
central é antes a que se dá entre o inconsciente como saber e o gozo.

O Q U E P O D E S E R U M A ANÁLI S E Q U E T E R M I NA

O ensino de Lacan está marcado por seus começos, que são marcados pelos
começos de Freud, eles próprios marcados pela análise que se inicia. É a raiz
do entusiasmo que caracteriza c'Função e campo da fala e da linguagem em
psicanálise" ( 1953), e Lacan, ao reler em 1966 o texto de 1953, já se distancia
desse entusiasmo. Ele afirmou logo em seguida: a destituição subjetiva gravada
no bilhete de ingres�o não afasta ninguém. E verdade, mas isso está escrito em
2

letras miúdas. O que está escrito em letras garrafais é: 'Venha, venha, a verdade
o espera, e não apenas uma, mas várias!" Bilhete de ingresso? Isso parece mais
um galhardete - pensem num circo que chama seu público tocando bumbo.
Quando a análise dura, isso se conclui sabendo-se se seu eixo se desloca
para a oposição entre saber e gozo, explicitada por Lacan em suas fórmulas
dos quatro discursos. Ele tentou agrupar tudo isso, a partir do momento em
que a dinâmica disso de que se trata começou a pôr em questão a noção
de objeto a, noção que visava encerrar o gozo em um objeto, situado, em

2 N. da T. Cf. "Proposição de 9 de outubro de 1967 sobre o psicanalista da Escola (I.acan, 1967a: 257).

A P OSTA NO PASSE
geral, como a produção de uma articulação significante. Foi assim que ele
situou no inconsciente, sob o nome c:J.e discurso do mestre, uma articula­
ção significante, S1-Sl , um efeito de verdade, S, e uma produção de gozo, a.
Em O Seminário, livro 16, ele inventou esse objeto como o objeto mais-de-
-gozar; em O Seminário, livro 17, ele o inseriu na estrutura de linguagem; e em
O Seminário, livro 20, foi preciso fazer aparecer um espaço amorfo, no qual
pôs um J maiúsculo [ de jouissance, gozo] , para desmentir justamente que se
pode encerrá-lo daquela maneira. A seguir, Lacan se dedica à estrutura do nó,
que não tem m�s nada a ver com a estrutura de linguagem.

O Seminário, livro 17 O Seminário, livro 20

s -s
I 2

S a

Em contrapartida - é aqui que se vê a orientação -, se não buscamos


dominar o gozo sob as modalidades do objeto a, se o liberamos disso, se
tentamos articulá-lo com as modalidades inéditas do sinthoma, se lhe con­
ferimos a primazia, inclusive sobre o significante, obtemos então - isso não
está explícito na obra de Lacan, mas fui levado a formalizá-lo - uma cisão do
sentido do inconsciente entre inconsciente real e inconsciente transferencial.
Trata-se de uma orientação que eu deduzi do último escrito de Lacan,
o prefácio à edição inglesa do Seminário 11': no qual figura, entre parênteses,
"o inconsciente, seja, o real - caso se acredite em mim" (Lacan, 1977: 567). Mas
não negligenciemos outro parêntese de Lacan, que se encontra um pouco
antes no texto e no qual ele escreve "psic': o que nos leva a perguntar o que
estaria no final da palavra, e continua "psic' = 'ficção de" (: 567).
Como ler isso? Primeira leitura: o psíquico, para Lacan, é uma ficção e o
real, a lógica. Mas tudo indica - em particular, a indicação de que ele se refere , ·
a um inconsciente real - que a segunda leitura a s�r feita é uma psicanálise
tem estrutura de ficção. Se o real é o gozo, o inconsciente é uma defesa contra
o gozo, como eu cheguei a formulá-lo em minha última conferência.
Como desconhecer a estrutura de ficção de uma psicanálise, se, logo de
saída, Lacan afirmou que o analista era, em seu ato, o senhor da verdade, e
sublinhou, em "Função e campo da fala e da linguagem em psicanálise': que

UMA P S I CANÁLISE TEM E S T RU TURA DE F ICÇÃO 99


sua pontuação e, sobretudo, o corte final da sessão, repousando exclusiva­
mente em sua decisão, faziam a verdade variar. Tudo indica que, na linha de
a verdade tem estrutura de ficção, o ato analítico implica não recuar em face
da estrutura de ficção de uma análise.
Nesses termos, o gozo é o último ratio. A questão preponderante em uma
análise que se inicia, "O que isso quer dizerr: tende a se apagar quando a
análise dura. Qual questão a substitui? Se há uma questão que a substitui, se
o analisa não espera simplesmente que isso passe, ela é: ('A que isso satisfaz?':
Em uma análise que dura, o status conceituai do gozo se modifica. Há um
status do gozo que é aquele próprio ao excesso, o gozo-excesso. É nesse plano
que, classicamente, aprende-se a distinguir prazer e gozo. O prazer traduz
um estado de homeostase, que indicarei por uma flecha que se fecha em um
círculo. Esse estado é rompido por um elemento, o objeto a, que ultrapassa
os limites do bem-estar e produz a confluência entre o gozo e o sofrimento, o
sublime e o horrível. Lacan o destacou em O Seminário, livro 11 e o nomeou,
em O Seminário, livro 16, de mais-de-gozar.
Há também um segundo status do gozo, que surge em O Seminário, livro 20
e está presente ao longo do último e do ultimíssímo ensinos de Lacan: o gozo-
-satisfação, que nada tem a ver com o primeiro. O goro-satisfação é o restabe.:.
lecimento de uma homeostase superior sob as modalidades de um funciona­
mento que inclui o excesso, que o toma rotineiro, e que é o que Lacan chama de
sinthoma. Nessa perspectiva, trata..:se do que, no conceito de sinthoma, invalida,
se não o objeto a, ao menos a orientação de que este se originou.

1. gozo-excesso

2. gozo-satisfação

Uma psicanálise tem . estrutura de ficção. O que se pode dizer do que eu, há
não muito tempo, estabeleci como inconsciente transferencial, além de que se
trata de um inconsciente construído na análise? Como não abrimos mão de
falar de construção da fantasia, sigamos em frente, rumo à construção do in-

100 A P O S TA NO PASSE
consciente em que o analista tem algo a fazer. É porque o analista está presente
e dirige a construção que o inconsciente adquire sentido e se interpreta. Isso é
0 que se encontra escondido sob o termo associação livre, que é um convite a
prestar atenção no que se diz, no que nos ocorre. Não há ocasião mais propícia
para que a associação livre se manifeste do que uma parada forçada, operada
por uma interpretação, que pode, com efeito, resumir-se a sublinhar a inter­
rupção da fala em uma determinada palavra. Uma vez que se presta atenção a
isso, pode-se começar a fazer o que, em inglês, chama-se de to connect dots, ligar
os pontos, como nos passatempos que se encontram em determinadas revistas.
Fazemos então nascer formas, de acordo com o ponto em que se para, ou seja,
fazemos o imaginário florir a partir do simbólico.

O inconsciente real, de sua parte, é aquele que não se deixa interpretar, ra­
zão pela qual, nesse último ou penúltimo texto - ainda há "Todo mundo é lou­
co" -, o inconsciente é definido como um lugar onde a interpretação não tem
mais nenhum alcance. O inconsciente real é o lugar do goro opaco ao sentido,
e em que se pode, pela ficção, começar a tomá-lo falador. Por isso, Lacan, nesse
mesmo texto, evocou a histoerização da análise para qualificar o passe. Mas é
a própria análise que é uma hístoeria. Pode-se então dizer que uma psicaná­
lise tem estrutura de ficção é uma histoeria, seja isso um relato ou mesmo um
romance, com sua continuidade, ordenada de acordo com o desejo do Outro.
Onde repousa a questão do passe? Como se pode localizar um analista?
De qual articulação entre ficção e gozo resulta? O que esse gozo deve ou não
deve ao desejo do Outro? Lacan supõe que o passante, o Analista da Escola
por vir, sabe bastante sobre isso porque ele liquidou a transferência, como
se diz. Por que retomar essa velha expressão dos supostos ortodoxos, se não
para designar, nas entrelinhas, o inconsciente transferencial?
Surge assim como indicação do que pode ser uma análise que termina os
modos em que se podem reunir o testemunho da hístoería e o da satisfação
no fim da análise. O inconsciente transferencial tem um nome, um nome
lacaniano, que é verdade mentirosa. É assim que nos é indicado o que abre a
porta do fim de análise, o que pode fraturar a reserva mental que se chama
de falta da relação sexual

UMA P S I CANÁLI S E TEM ESTRUTURA DE F I CÇÃO 101


1
O PAS S E D O FA LA S SER

Na semana passada, eu me referi ao último escrito de Lacan que inseri no


volume que intitulei_ Qutr_o_s escrito!, Esse texto fo( esqito para servir, daí seu
título, d�j,refáci� àedição ingle�a fle O Seminário, livro 11: _ôs quatro conceitos
fundamentais da psicanáiise ·e cf.Lacan, 1977: 567).: Já:·á-cõfüentei mais de uma
vez, mas eu o retomo agora, a fim de interrogá-lo sobre o que é um analista
na perspectiva. d.o_ sinthoma. Para dizer a verdade, trata-se -d.é uni
texto que,
émbora ·se ap�esente c�-�� um prefácio, tem muito pouco a ver com O Semi­
nário, livro 11. Não fala dele de maneira explicita, e eu o interroguei para saber
se o fazia ao menos de modo implícito, mas me parece que não.

D O UT R I NA C L Á S S I C A

Em linhas gerais, trata-se sobretudo de um retorno à questão do fim de aná­


lise e, precisamente, ao que Lacan chamava de passe. Q, último escrito de
4ca.l). - deixo de lado alguns parágrafos escritos para um volume dedicado
à defesa do Centro Universitário de Vincennes, em que figura a proposição
"�ado mundo é louco" -, se constitui em um retor110 aopasse. Por mais breve
que seja - apenas três páginas -, me�ece crédito.
A invenção do passe por Lacan, anunciada em "Proposição de 9 de outu­
bro de 1967 sobre o psicanalista da Escola" (Lacan, 1967a: 248), serve de vetor

N. da o. Texto estabelecido com base na oitava aula do curso de Orientação lacaniana


"Choses de finesse em psychanalyse': proferida em 21 de janeiro de 2009. Originalmente
publicado sob o título "La passe du parlêtre", Revue de la Cause freudíenne, n. 74: La psy­
chanalyse, vite, Paris, 2010, p. 113-23.

103
para grande parte de seu ensino. Quando se acompanha o seu Seminário
cronologicamente, percebe-se a insistência crescente, a urgência que ele ex­
perimenta em propor uma doutrina . . . .do fim de análise. Essa doutrina lhe é
. . -,. -� . . . . .
reclamada e ele a promete. - �--
o,, .•, ·

Em O �nário, livro 10: a angústia (1962-3), ele enuncia explicitamente


que º�f- como o nomeou -, �!Y�!!�� aj�tµ das Ç()�e
Fr�u.,cf_çm.)\nálise fln:ita e int_inita" (Freud, 1937). Em O Seminário 11, de 1964,
éle an.ilisa ou, ao men�s,. esboç�- que o desejo de Freud entravou a potência
da operação analítica, que o desejo de Freud de salvar o pai teria impedido a
psicanálj§,�-d� Jl$Sµtni:r ��u justo lugar. Três anos mais tarde, com "Proposição
-
de!rJ� outubro de 19.67 �obre o psicanalista da Escolà: ele dá mais um passo
e �rmitlá o fim. de ;in@i.se em termos que supostament� _permitem uma ve-

ª
rificação, se nã�-ae�@�;;�õ �����:·;ufici��t�m�iiii1�iif�_:ii�; p�der obt�r
�i>i<>;ªç_ãg_de llPlª co�uajdadé:A·doutrina que então estabe1eceeuídi;;o­
ciáve1 do procedimento que el�- -inventa para tornar essa formulação efetiva.
O primeiro resultado obtido por Lacan foi, em vez disso, uma cisão entre seus
discípulos, dos quais alguns recusaram o procedimento assim definido. Esse
resultado inicial foi, então, dar um brado especial a essa novidade, fazê-la
aparecer como uma escansão essencial, P!e��edig?.;. 4�. ,W11--Semm�iQ_�_?.!?t�, a
lógic.a.. q;;1 :fa,ntasia e seguida,, de um Seminári9;obr� o a�o an��iço.
Todo esse �parelho - dois . �eminário·s� a própria pr�posição sobre o psi­
canalista da Escola e os escritos produzidos logo depois, por ocasião de uma
viagem para conferências na Itália (Lacan, 1967b) -, conforma um conjunto
considerável, em relação ao qual as três pequenas páginas do último texto
de Outros escritos parecem bem franzinas. Não obstante, pretendo levá-las a
sério e mensurá-las em face do enorme maciço da doutrina clássica do passe.

D E S L O C A M E NTO

Não pretendo rearticular a doutrina do passe que chamei "dássicà: Eu ape­


nas destacarei alguns traços dela, que porão à luz o deslocamento operado
pelo último escrito.
.,:---o.J�--- ..,...____��-,
O primeiro deles: naZ,�oq!,r�� clássica do p�; Q.il.1:l�-�11�ge c<?.1J10..�_!Ô
d_�J!lll'1 aQálise e de seu � oêiêse)ô aó· àiiª'1ist�:-,c·om eféito:· ciürinte vários
'-� --......�-"' JI ., ..,...,�.,,

seminários, a função do desejo do analista era tida por Lacan como uma en-
,.. ,..
. - - ,��� ...�...�........,�:'1..........,.., ..........,.....,..,,.·· '"�-... ,.._,,.-::,,.__a..:·.::.-· · '·'l..i ...&.,_,,..,,,..

cruzilhada essencial, à qual era preciso retomar. O desejo do analista era - já


tive oportunidade de demonstrá-lo - sua resposta ao que começava a estar
em voga nos meios da International Psychonalytical Association, a saber, a

104 A P O S TA NO PASSE
contratransferência. Essa era a maneira de os membros dessa associação di­
zerem que o analista era solicitado pela experiência que governava, e que isso
ocorria no âmbito de seu inconsciente, outra maneira de dizer que ele não
p odia se subtrair da operação. É nesse lugar que Lacan inscreve o desejo do ·,
analista, atribuindo-lhe, porém, um valor completamente diferente do valor
da contratransferência, já que ele entendia o desejo do analista nos termos
de uma função simbólica que devia encarnar-se no analista, sem que por isso
mobilizasse o seu inconsciente.
De maneira breve, digamos que o desejo do analista se resume à questão:
"O que tudo isso quer dizer? Tudo que eu, o analisante, digo, o que tudo isso
quer realmente dizer?" É essa a questão, transposta em termos de vontade.
Trata-se da questão da significação, mas em que o quer - o que isso quer di­
zer? - se destaca do dizer, em que o querer se destaca do dizer e se torna um
"O que quer o analista?"
Como o apresento aqui, esse deslocamento indica bem a que ponto o senti­
do é dependente do destinatário do discurso. No que se subtentende, o que ele
quer é o que isso quer dizer. -A interpret�çã<?. �e � _n,o lugar e� que o �alista
indica o que ele quer queJss� qlleira _d!zer. �implesm�nt;, iiêm-�ím i�s�se
esclarece, porque· repercurte nos termos da questão: O que ele quer?': e isso se
- .
,-...........__,.,.•.....,...,.__---..___,.. . .. • ·-- · .
. . •� - -� .. . '• .. . . • ,.. • . • . •. . , .. . ,..e . • . • ..-· �- ... ''

inverte e retorna para o sujeito, o analisante, como "O que você quer?"
Tais efeitos só são obtidos, se o desejo do analista permanece velado, co­
dificado. Nessa perspectiva, o desejo do analista corresponde ao "O que isso
quer dizer?" tornado incandescente. Trata-se do enigma intrínseco a toda ar­
ticulação significante, ou seja, ao fato de que um significante remete a outro
significante. Por isso, o desejo do analista, apreendido como tal, é um x, situado
no lugar da significação última.
O fim da análise seria a solução desse x. Em "Proposição de 9 de outubro
de 1967'', Lacan propõe duas versões equivalentes: um certo há e um certo não
há - uma solução positiva e outra negativa.
A solução negativa é um n ad a, um nada há nesse lugar. No lugar da sig­
nificação última, só há ·o vazio, a P.��-�unç�� do desejo. Lacan escreve essa
solução negativa, nos termos freudianos com que fez maternas, como --<p.
Trata-se de uma alusão à castração, de que o próprio Freud, em seu texto
sobre o fim de análise, tinha como o nec plus ultra da análise: o que deve se
revelar no fim da análise é a significação da castração:

-<p

castração

O PASSE DO FALASSER 105


Mas o que temos aí com o nome de castração é apenas um episódio da
litania de termos negativos elaborados por Lacan como a resposta última que
consagra o fim de análise. Antes, em sua elaboração, ele inscreveu nesse lugar,
negativo, a morte,- situando o fim de análise como subjetivação da morte.
Em "Proposição de 9 de outubro de 19 67'', !r��a-.��' pode-se dizê-:-lo, 4:,��J>­
jetivaçã,o da castração, que se tornatia, ma�s tarde, subjetivaçijo da r�l�ção
' sexual, CQll§iderada em sua não �xistência. . . . . . . . _,
Já aSoluçfu--p�;�) � isolame�to cl�-lúi�Q_-ih�r1uda de a,\ Em "Propo­
sição de 9 de 'ôutuoro· ãe 1967':t�can<lá -u;- jeito d� · fucli��r -ci�;
essa função
se aproxima pelo que se designou, em psicanálise, de objeto pré-genital, que
não foi falicizado, que não entrou na significação fálica, ou seja, na da castra­
ção, e que obtura o lugar negativo de -<p, o que se pode escrever nesta forma
metafórica:

A esse objeto a Lacan dará, mais tarde, o nome de \f!!ais-de-gozar.


A luz da última elaboração de Lacan, ��--'ª����c� -�9-�i _ é o lugar su­
bo_r4�:n�4() qu.e _i* atrib4i ct<:> gO'.?Ç>__nes,s_ª-_gQµ_y;JBª- 4Q pª_ssé.d� que depende da
.
solução prÓposta pã�a a questão do d�s-�jo do analist?,.
· A despeito disso, já se encontra em "Pr�posição de, 9 de outubro de 1967'' a
menção da "dimensão de miragem em que se assenta a posição do psicanalistà'
(Lacan, 1967a: 258), e Lacan evoca um futuro em que tal dimensão de miragem
teria de ser reduzida por uma crítica científica. O termo miragem figura igual­
mente em seu último escrito, e inclusive de maneira mais destacàda. 2

A perspectiva do sujeito suposto saber

Para o Lacan de 1967,-ehfgat.ª' .e,�.s�- .m�r_pento de solução passa por uma


mudança da função do �uj_<:,i1? ��p�sto ·sab c;r:t:ssa expressão obteve sucesso
porque é compreensível por si mesma. Ela então designa uma função subor­
dinada à cadeia significante. O que Lacan chama de sujeito suposto saber é

2 ''A miragem da verdade, da qual só se pode esperar a mentira [ ... ] não tem outro limite
senão a satisfação que marca o fim da análise" (Lacan, 1977: 568).

106 A P O STA N O P A S S E
certo efeito de significação que obtura a solução do desejo do analista. É, para
simplificar, ª�,�µposiçã9 do insc9nsciente; a �oção segundo
. a qual o que se diz
em at1.álise _qµ�r _dizer o_utra c�is�. -
Tal suposição do i�conscie�te se mostra necessária para recolher o que
aparece como as palavras, a�ressões e os significantes que determinam o
sujeito, de tal modo que (i S<!�r _: que, no início, é apenas suposto, apenas
uma significação ..,. se efet�e· p:r9gress�v3.1!1enJ� ao longo da_. a_)?_álise, e se acu­
mulem os significantes articulados que constituem'-iim s'aber:-saber que se
torna o sujeito. O sujeito, que no começo é um saber apenas suposto, torna-se,
pela experiência analítica, um saber efetivo.
É assim que o analisante se situa, no termo da análise, como sabedor. Tra­
ta-se de um versado [savantJ , em sentido literal. A análise produz um versado.
O analisante é, essencialmente, o versado de seu desejo. Ele sabe o que causa
seu desejo. Ele conhece a falta em que se enraíza seu desejo e o mais-de-gozar
que vem obturar essa falta.
No fim da análise, temos então u111 sujeito que sabe. É p.esse c:ontexto
que ,ç. pãsse "àciquire �al.or; _() sujeito tem a dizer � quê ele sabe,
. isto é, de que
modo se_ preencheu o lugar vazio do sujeito suposto saber, de. que modo esse
saber se efett1ou para ele, de que modo ele passou da suposição ao apanhado
d� que s�_ :r�vela como um significante. chave e,, _g_ep9.is..,.Jk.JJ:IJ1i;� outro, que
não são forço�aÍnente compatíveis/Mud.�n.ças ocorrem,. .pod�_!l-toJNão são
elementos independentes uns dos o'i:1tros.' A. chegada de um elemento novo
modifica o valor dos elementos acumulados. Trata-se precisamente de uma
articulação que continuamente se faz só-depois. O fim da análise demarcaria
o encerramento da experiência, isto é, o acesso a um só-depois definitivo.
Após inúmeros vaivéns, hesitações e oscilações, haveria um sujeito novo.
A medida que desaparece o sujeito que ignorava a causa de seu desejo, emerge
o sujeito versado. É esse saber que o passe tenta extrair do sujeito. Ele tenta
obrigar o sujeito - com o consentimento dele - a partilhar esse saber com
uma comunidade reunida em uma Escola e também com o público, já que
Lacan indica que o sujeito deseja publicá-lo.

Uma perspectiva completamente diferente do passe

É com uma perspectjva c.om.pkt'1ment�_·<;iiferente que nos depª,rªmos no


último escrito de Lacan/'Prefácio à edição inglesa do 11'� }
s·emtnd;io
Primeiro, porque o p�prio-ro:llçei!�.
ge -s,i:�ir .(póst_q em :q��$�.<?� a ponto
de a palavra não mais figurar no texto. Enquanto construía seu conceito de

O PASSE DO FA LASSER 107


sujeito suposto saber, Lacan explicava que se tratava de uma formação que se
inscrevia no lugar da verdade e se entendia que, em seguida, o saber adquiria
consistência Ora, percebe-se que, no final de seu ensino - como dizê-lo? -, ele
não acredita mais nisso. Ele lli<? mais designa o sa.,J?er C0!}10 uma{ Q!':l.Jl�ão ÇQD­
s� �le f�c1ap��-��:J�;niê-qÕ�, n�- ffui&;�;tension, ektrata
<i �ber}:;mo wi{a�lucubrãção/ palavra que já figura em O Seminário, livro 20,
a propósito da linguàgem;.. _ _uníâ elucubração de saber sobre lalíngua. Nesse últi­
mo texto, é preciso então entender que, para Lacan, o saber é uma elucubração.
A expressão que surge, ver:dade. p�ntirosa - que, aliás, não é especialmente ele­
_
gante e só foi posta em evidência quando me pus às voltas com ela -, designa,
tão exatamente quanto possível, o status do saber como elucubração. Não se
tr�ta do s1:1jei,t9.su�qsto_ �.aber_se insqevenqQ no lugar <,ia-Ver4a��J??!.��� éfetuar;
trata-se da verdade com as cores da me11tira. É a tal ponto que o saber decai.
\ . 'o passa�te "da dóutrina clássica do passe é suposto testemunhar um sa­
:1 ber, ao passo que aquele introduzido por Lacan no fim de seu ensino - no
\ momento em que ele prepara, elucubra o conceito de sinthoma, ou seja, se
\ defronta sem _mediação com o status do gozo -, só po de testemunhar uma
'' verdade mentirosa.
Espero que, ao simplificar os termos do problema, tenha tornado per­
ceptível para vocês a enorme distância que há entre esses dois momentos de
elaboração. Podemos ver também o que liga um ao outro.

A desaparição do acontecimento-passe

Disse que esse último escrito é UJ.11 retornq ao passe. Trata-se de um retor­
no d1s?rito:· que n.ão se mostra com� tal, nerri " anuncia a retificação que opera.
Êss� t�xto se apresenta, aliás, sob a forma de wna sequência de proposi­
ções que podem parecer desconexas ou, ao menos, testemunhar uma organi.,.
zação bastante imprecisa. Caracterizar esse texto como um retorno ao passe
já é uma pontuação, já é uma proposição de leitura que faço, haja vista o texto
conter - isto é notável - apenas metade da questão do passe.
gg_���Y:�� ,�����?���:"�!31: ��,?�����-�to��1;!,�J?E�:dim��,�ra-
ta-se de um acontecrmento que suposta - mente mtervem no curso da análise
e, na sequência, de um procedimento oferecido àquele que "p ensa ter sido o
sujeito desse acontecimento, a fim de que ele possa comunicar alguma coisa
disso a uma comunidade analítica.
Ora, nesse último texto de Lacan, não há nada sobre o acontecimento -
nem uma palavra Nele, o passe é essencialmente um procedimento inventado -

108 A P O S TA NO PASSE
para verificar o fim de análise? � termo verificar nem mesmo está lá - para
submeter ao dizer o fim de análise.

U R G ÊNCIA E S AT I S FA Ç Ã O EM ANÁLI SE

Enquanto, no momento em que inventa o passe, Lacan dedica o essencial


ao acontecimento-passe, nesse último texto, nada há além desta indicação,
bem tênue: no fim da análise, há s�tisfação. O único terni<? da an���_ é, dto,
"a sati�façã9-que marê�(Õ °
-fim dà a11álise'' (iàcân, 1977�,568). Ei;t�d� o"'ciúe
d�;�o� observar nâ -cÔniplêx:ã"êonstrução do passe que Lacan fez nos anos
1966, 1967, 1968, e que passava notadamente pela teoria dos grupos. Em faq�
de toda essa prodigiosa elucubração, temos apenas a indicação de que o{p�sç)
o fim de análise, �Q!l§��!� e111 experiment,ar a satisfação e, digamos, em dizê:'.-Í;.
O que correspon�ma extraordinária deflàção.
A palavra�Ús/aç�} é, aí, visivehnente a palavra-chave para Lacan, pois
parece que, p��é a análise como tal que é uma questão de satisfação.
Não foi ele quem escreveu: "Posto que dar essa satisfação é a urgência que a
análise preside�'?.3 É preciso entender que o que ele, nessa passagem, chama
de sati�fação é oyetori,,o qlle orienta !çdo Q_cur�9 de uma ?Jl:álise, uma análise "'
qmt;� descfobr� e�s�n�Í��ntê . �o mal��stâr-� t�rmÕ tr�ud1âno -, no desas­
sossego, no desconforto, e na qual se pode isolar e dar crédito ao que surge -'
como testemunho_9e s "sfação.
Lacan fala de'("" urgência,_,, da "urgência que a análise preside': Nos dido.-
nários, vê-se que essa'p1ttávra provém do baixo-latim urgens, que quer dizer
qtle r@� �gfr� -�a...tr.qjp, ela própria originada do latim clássico urgere, que sig­
nifica impelir, apressar. Em francês, começou-se a falar de urgência em 1789.
É curioso o fato de o termo ter sido oficializado em tal data, em que se estava
de fato bastante apressado ... bastante apressado para revolucionar as coisas.
Em seguida, data-se em 1972 - admiro a precisão - o uso da palavra urgência
em sua significação especializada em medicina. Lacan retoma o termo, no
final de seu texto, ao falar de casos de urgência: "como sempre, os casos de
urgência me atrapalhavam" (: 569).

3 Esta é a frase completa: "Posto que dar essa satisfação é a urgência que a análise preside,
interroguemos como alguém pode se dedicar a satisfazer esses casos de urgência" (Lacan,
1977: 569).

O PASSE D O FALASSBR 109


A palavra urgência contém de maneira bem evidente a noção de que é
preciso fazer depressa. Sem dúvida, há casos urgentes que se apresentam à
análise em que não se deve tardar; em seu texto, porém, Lacan retira o termo
urgência do contexto inicial da análíse, para estendê-lo a todo o seu per­
curso, afirmando que a urgência preside a at1álise como tal. Pois bem, tomo
isso como uma cham�da, útil, séria, de que, na análise, ,s_empre há. urstl!�ta!
Na análise, vale o que se expressa, em francês: ao dizer: isso urge. Trata-se de
uma expressão muito precisamente atestada desde 1903. Só foi usada a partir
de então. Há, na análise, algy..ma coisa que impele.
Vocês devem
- --�·-�· � ·
.. . , ·. . . -,·····�......- . . ...- · · ··· .' ·
tér percebido que, para me orientar nessa questão, eu me
valho de cada palavra de Lacan.
Pode-se dizer que a urgência concerne ao início, à origem da análise, mas
que, em seguida, entra-se em algo diferente. Leva-se tempo, o sujeito adia,
pmtela. Prefiro explorar a palavra urgência, sua referência a alguma coisa que
impele; porque isso nos afasta da ideia cje que se retorna à sessão 3:11alítica. por
.
causa da ·t�ansférência. Parece-me qÚe a ênfase que Lacari dá à Ürgêiida tem o
valor de dissipar a miragem da transferência. Ele indica uma causalidade que
opera em um plano, se posso dizê-lo, mais profundo que o da transferência,
no plano do que chama de satisfação, na condição de urgência, e também que
a an.álise é,o n1eio, dessa sati�fação urgente.
-
-.1, · "--Há ameia Ôutr� ace�to que eu daria a essa urgência que faz andar rápido.
Em "Prefácio à edição inglesa do Seminário 11': Lacan evoca que "se corre
,,
atrás da verdade (: 571). Isso me parece estar relacionado com a urgência.

Q UAND O O S S E M B L A N T E S DA P S I C A N Á L I S E VAC I L A M

Corre-se atrás da verdade, porquanto a atenção instaura uma defasagem.


A partir do momento em que se atenta para a_.verdade, sai-se dei�, cai-se na
mentira. É o que Lacan formula nestes termos: t�ão há verdade. Q���- à9ia:5'"
.
sar. pel� atenção, não mintá'l (: 567) . Isso põe em:q�estão o sentido da p;ópri�
operâção psicanalítica, umi vez que esta consiste precisamente em prestar
atenção às emergências de verdade, aquelas que despontam no que chama­
mos de formações do inconsciente. A operação analítica consiste em engastar
essas emergências em uma articulação e a fazer delas um discurso pot meio
da associação livre.
Pensa-se, evidentemente, que a associação livre consiste em falar sem
prestar atenção: "Não preste atenção no que você diz, fale!': Na prática, to­
davia, a a�_socia�ão livre depende de.
um significante
-:-
inicial ao qual se presta
�� =-·.._..:-- -........._... - . - ""··- , ', ,, -·· - · · . -·:>1
-� ...__..... -·-�----""· · ...- .... _ _ _ _

110 A P O STA NO PAS S E


atenção. E, se não se presta a devida atenção nele, há a interpretação para
ió-mar esse lugar. Desdobra-se a associação livre a partir de um sonho, um ato
falho, um lapso, um dito ou um pensamento que chama a atenção. Dá-se-lhe
valor de verdade, e é porque se lhe dá valor de verdade, de emergência de ver­
dade, que se engata a associação livre, a qual, como por milagre - quando se é
bastante astucioso, recebem-se também alguns empurrõezinhos do analista -,
mostra-se totalmente capaz de coordenar um discurso. Em outras palavras,
por intermédio do que se chama de associação livre, transformam-se emer­
gências de verdade em discurso articulado. Eis a maravilha com que Freud
soube nos encantar: a partir de uma palavra que sobrevive ao naufrágio de
um sonho, tem-se toda uma fábula que se desdobra e deslumbra.
No começo de seu ensino, Lacan seguia o fio condutor da descoberta freu­
diana, ao dizer: "Esse discurso é o próprio inconsciente': Trata-se do que cha­
mava de discurso do Outro. Ele concebia o inconsciente como um discurso.
Mesmo após tê-lo depreciado, continuou a definir o inconsciente como um
saber, como uma articulação.
A última irrupção do ensino de Lacan se fez para negar isso ou, ao menos,
para abalá-lo e nos ajudar a situar de outro modo o que acontece na experi­
ência analítica, já que o sabemos.
Como reconhecemos as, formações do insconsciente? Precisamente, por­
que elas frustram a atenção! Elas irrompem de surpresa. É por isso que fala­
mos de eme;gência. E, quando emergem, não fazem sentido. São tidas como
absurdas, insensatas ou inverossímeis. Se formos fiéis a esses instantes fuga­
zes, a operação analítica nos parecerá jogar contra o inconsciente, como se ela
se empenhasse em restituir o sentido ao que, num primeiro momento, não
o tem. É por isso que se inscreve, em "Prefácio à edição inglesa do Seminá­
rio 11", o que Lacan insinua em apenas um parêntese - mas que, como disse,
merece crédito -, vale dizer, que o inconsciente é real. O inconsciente, quando
se despoja o que a atenção tece à sua volta, é real. Trata-se do inconsciente
considerado ao pé das formações do inconsciente.
Quando diz que o inconsciente é real, Lacan acrescenta: "caso se acredite
em mim': A crer-se no Lacan de 1953, dir-se-ía que o inconsciente é simbó­
lico, mas a própria definição de inconscientese revira no fim de seu ensin().
O inconsciente/ re al- quer dizer que o inconsciente não.é.simbólico!. Ou ainda
que, qÜando ele se toma simbólico, torna-se outro. É por isso que se pode
dizer ciúe' �p�ração analítico f�z passar o inco11s�iente do real ao simbólico,
da verdade à mentira.
Lacan dizia que a psicanálise fazia vacilar todos os semblantes e recorria
ao exemplo de Sócrates passeando pela cidade para inquietar os poderosos,

O PASSE DO FALASSER 111


os profissionais e aqueles que acreditavam saber como fazer as coisas. Pois
bem, no caso em questão, trata-se da psicanálise fazendo vacilar os semblan­
tes da própria psicanálise! Foi isso que Lacan esboçou, ao menos na maneira
em que o leio. Trata-se do socratismo aplicado aos próprios psicanalistas .
Dito de outro modo, é <J despertar dg psicanalista, vale dizer, es.lilJ adver­
tido de qtie a op�raçã� :��!!Sl �� tece de seitíblantes·. Trata-se;ãliás, <loque
se põe sob -õ nome'Mb.1nstrução� ;Referít-sé à construção da fantasia não nos
faz vibrar, porém afirriiâr-que·a0operação analítica se tece de semblantes e que
depende da pontuação, que pode ser esta ou aquela, não nos é indiferente.
Assim, a problemática da operação analítica, tal como se desenvolve sob a
égide do ato analítico, encontra-se em questão, ou seja, a cada momento essa
mesma operação não deixa de ser posta em questão.
O que é a primeira mentira, o protonpseu<f:�s.4.� p�kanálise? Lacan :1:1os diz
que é a atenção. A partir do momentó em-que se presti-atênção a isso, s·a1�se
do inconsciente real. O proton pseudos é o próprio analista, isto_é, a inserção
de outro sujeito na relação que cada um de nós mantém com o inconsciente
real. É assim que explico para mim Lacan ter enfatizado, nesse mesmo tex­
to, que a psicanálise foi criada por um solitário, pelo Um-sozinho. Ele cons­
trói, é claro, a perspectiva de que Freud percebeu sozinho a ex-sistência nele
do inconsciente real, ou seja, emergências de verdade frustrando a atenção. 4
É muito significativo o que Lacan então indica, pois ele mesmo havia en­
fatizado que Freud criou a psicanálise prestando atenção às histéricas. Ele
foi bastante proífico sobre esse tema, bem como o retomou muitas e muitas
vezes, mas o que ele tenta indicar nessa ocasião é que a autoanálise de Freud
antecede essa criação. Parece excessivo falar de autoanálíse; digamos antes
que Lacan indica que, em Freud, g in,consciente real vem em primeiro lugar
e que� nesse.sentido,(� associação livre ocorre depois dele, ou seja, de que ela
. . -
já é o romance <fo Y�!?ade·. .. .
Foi por isso tambéin.-que Lacan disse que Freud não sabia o que fazia. Ele
não sabia que, ao inventar. o instrumento da associaçi<> livre, recorria .a o� �en­
tido para solucic>µar a opacidad.e çlq_ qµe emerge nas formações do .Í)l<:on�­
ciente. Retomei a e:q,�es�ão de Lacan -formações do inconsciente, mas se trata
de uma expressão que, na dimensão em que nos encontramos, não é adequa­
da. Com efeito, falamos de formações do inconsciente após as emergências

4 N. da T. No texto original, lembram-se a esse respeito as seis primeiras lições do curso do


autor do qual este texto foi extraído, "Choses de finesse en psychanalyse" (2008-9) e o
comentário, uma verdadeira crítica, ao texto de Freud "A sutileza de um ato falho" ["Die
Feinheit einer Fehlhandlung"], de 1935.

112 APO STA NO PASSE


de verdade terem sido formalizadas. Aformação já é um estado secundário.
Utilizei a palavra emergência para qualificar o que ocorre a princípio.
Freud fez disso um livro - não se pode dizê-lo de maneira mais apro­
priada! Ele pôs tudo isso em forma e dirigiu-se ao público. A partir de então,
pôde dizer às pessoas: "Façam a mesma coisa! Estejam atentos às emergências
de verdade em vocês, contem a vocês mesmos, associem sem prestar atenção -
0 máximo possível - e, depois, a partir daí, contarão histórias, contarão como
isso se aplica à história de vocês': Ter-se-ia, então, uma forma de literatura
que se disseminaria, ainda que não tenha sido essa a via que se seguiu histo­
ricamente. Como disse Lacan, "a psicanálise se pratica aos pares': Isso quer
dizer que, em vez de fazermos isso por nós mesmos, dirigimo-nos ao público
encarnado em uma pessoa, da qual esperamos que edite o nosso texto.
Tais brincadeiras, de gosto duvidoso, estão aí para marcar que, no ponto
em que estamos com Lacan - entendo por isso que nos aproximamos da
dimensão do sinthoma e do fim de análise na perspectiva do sinthoma -,
a psicanálise não se define pelo analista. ��tç apc:1rece ap�nas como o meio
d�lai� -i��<?.º�Ei,�!!t$ R��sar do real àô s_imbóHco. Num salto, -é assim que
apreendo a transferência, de que se faz a mola do tratamento, haja vista a
própria palavra transferência não constar desse último texto. A_ transferência
de�� d� estar !e� pritp.e!ro plano e é incluída no conceito d� histeria,_ qÜe é
"iima palavr� retoin.'âda nes-sa última abordagem de Lacan: o sujeito histérico,
entendido como aquele que responde ao desejo do Outro, que está conectado
ao desejo do Outro. Nesse caso, na análise, trata-se do desejo de que o sujeito
preste atenção, de que o sujei�o diga a verdade e que, assim, minta, conte uma
história. Eis o valor do neologismo escriturário bem conhecido que Lacan
cunhou ao escrever hystoire (histoeria), com o y de hystérie (histeria) . Trata-se
de uma história que responde ao desejo do Outro.
A transferência, portanto, é incluída no que se chama aqui de histeria.
Apresentei isso como uma ruptura, mas, ri.a verdade, é a consequência do que
Lacan formulou nos anos anteriores - e que se repete! -, a saber, que a eJ.(Pe­
!!�!?-.�}�.��tica. _ç9.meça pela histerização do Sllj��to. Pois bem, a propósito,
ele diz que a análise continua também pela histerização do sujeito e que isso
se dá na transferência. O suj�ito conta ao analista, tece-lhe uma histoeria. Por ' 1
\SSOm�sm(), trc:i�a-se 4� u�a ehicübràçãó. Ele' constrói uin saber que é ll�a ·-.
elúcubn1ção: q�e pertenêe ao registro dá verdade,. . entendid� ·como dotáda de·
�a - estrµ!µra-4f�çção.
Vocês veem que reunir essas proposições é apropriado para fazer vacilar
os semblantes da psicanálise, tal como Lacan se dedicou a isso em seu último
ensino.

O PAS S E DO FALASSER 113


Disse, ao começar, que essas três últimas pequenas páginas contraba­
laçam o enorme conjunto de material acerca da doutrina clássica do passe.
Diria ainda que elas respondem ao texto fundador do ensino de Lacan, "Fun­
ção e campo da fala e da linguagem em psicanálise': de 1953. Se consultarem
os Escritos, vocês verão que Lacan define os meios da psicanálise como serido
os da fala, visto que esta dá um sentido, bem como define a operação analí­
tica como sendo a da história, no que ela se constitui como a emergência da
verdade no real (Lacan, 1953: 258) .
Pois bem, o último texto de Outros escritos é a resposta última a esse texto
de 1953, a resposta da pastora ao pastor. Cantando a mesma canção, ela diz o
contrário do que ele disse. Sim, a operação analítica dá um sentido, e assim se
torna mentirosa em relação à emergência primeira. Sem dúvida, ela procede
pela constituição de uma história, porém a verdade só pode entrar no real, só
pode, digamos, comparar-se com ele, fazendo-se de mentirosa.
Nas considerações que faz sobre a história em 1953, Lacan acentua o
fato de que o discurso permite dar sentido às contingências, ordená-las · em
função do futuro, e de que isso também permite restabelecer uma continui­
dade do discurso, rompida pelo inconsciente (: 257) . Pois bem, tudo o que .
Lacan celebra no começo de seu ensino como a potência própria à psicanálise '
se presta, igualmente, a ser descrito como os procedimentos de mentira da
psicanálise, a falsidade de que ela se nutre e de que é a aplicação metódica.
Tudo isso, que Lacan louvava e celebrava no começo de seu ensino, oscila no
registro da verdade mentirosa. Esta é o saber entendido como elucubração, a
ficção cuja estrutura é aquela da verdade.
Aqui, portanto, são as aspas ou um parêntese que se apõem às constru­
ções psicanalíticas. Tais construções são encerradas no parêntese da verdade
mentirosa e a questão consiste em saber se essa verdade se equilibra. Elas só se
julgam, então, à luz da satisfação a que esse equilíbrio da verdade e da menti­
ra pode levar. Por isso, a palavra satisfação se encontra aí. Trata-se de que não
apenas isso seja bem contado, mas tambem de que, na perspectiva do real, o
critério desse bem dizer seja saber, definitivamente, o que se satisfaz com isso.
Então, é isso - e é também algo mais complicado do que isso.
Uma psicanálise sem dúvida é uma experiência que consi�t�. .em. construir
uma ficção. A introdução do sujeito suposto saber já encontra aqui o seu sen­
tido, no entanto, ao mesmo tempo, ou logo depois , ela é também umà e��­
riê11cia que consiste em d�sfa;z;er essa ficção. Isso quer dizer qu,e ª psicanálise
·
não é 9 triunfo da ficção. A fi�ç�o éalltes po$1:a à prova de sua impotê�·�iaetj}_
solucionar a opacidáde do �eal.
Então, "Quem seria o analista?': diria eu, em curto-circuito e para concluir.

114 A P O STA N O PAS S E


_ Seria alguém cuja análise teria permitido demonstrar a impossibilidade
da histoerização, ou seja, alguém que teria podido, validamente, concluir
uma impossibilidade de historização, e que, portanto, poderia testemunhar a
G:er�ade ��ntiro�a de uma forma apta a _estreitar a defasagem entre a verdade
e'ô real. -
· - - _. sê fosse preciso buscar um ·critério do passe assim entendido, eu daria o
que se segue, que não permite a ninguém simulá-lo: frustrar toda verossimi­
lhança. Há, no passe, algo de inverossímil, isto é, que transpõe a aparência [sem­
blance] do verdadeiro. E tambémfrustar toda semelhança. Como Lacan adverte,
só se devem "nomear analista': "designar como analista" sujeitos que não têm
predicado comum, ou seja, sujeitos que nenhuma aparência pode reunir.
Um analista seria alguém que pode mensurar a distância entre verdade e
real, e que, por isso, pode instituir a experiência analítica, vale dizer, a histeri­
zação do discurso. Simplesmente - e para anunciar o tema com que pretento
seguir_ adiante -, t.[�ª-=_se �gora 'não mais do passe do sujeito do saber, e sim
do p��Je 9 ,ojalasser. Este não é o testemunho de um sucesso, mas antes o
iéstemu""iiho de.certo tipo de malogro.

O PA S S E D O PALASSBR 115
É PA S S E ? 1

PRE F I RO FALAR S E N TA D O PARA M A N T ER o caráter de conversação de mi­


nha proposição e sublinhar que não profiro uma teoria, tal qual a «Teoria de
Turim sobre o sujeito da Escola" (Miller, 2010), à qual Bernard Seynhaeve se
referia, pois isso não me parece apropriado a este momento, que é o começo
de uma nova experiência.

PROPULSÃO O U RETENÇÃO

É um passe? Trata-se da questão com que me deparei, 15 ou vinte anos após


ter sido convidado, no mesmo lugar, e no seio de uma coletividade, para
deliberar sobre ela - "É um passe, ou nãor - antes de tomar uma decisão.
A resposta afirmativa a essa questão leva imediatamente a um julgamento
propulsivo. Nas atuais circunstâncias, o passante adquire uma notoriedade
instantânea. Se o secretariado demora um ou dois dias para transmitir a de­
cisão, porque, por exemplo, não consegue imediatamente encontrar um Ana­
lista da Escola (AE) nomeado, logo nos inquietamos: «o que se passa?". Há um
efeito propulsivo instantâneo da resposta ((Sim': O discurso, até então confi­
dencial, torna-se público, e pode-se dizer que o ((Sim" se revela para o mun­
do, para o nosso m�ndinho, ao menos. Delibera-se '(às avessas'' (Prost, 2010),

N. da o. Intervenção pronunciada por ocasião da Journée de l'École de la Cause freu­


dienne "La Chose Jugée?: realizada em 11 de abril de 2010 na Maison de La Mutualité, em
Paris. Transcrição de Michel Héraud. Edição, não revista pelo autor, de Nathalie Georges-
-Lambrichs e Pascale Fari. Originalmente publicado sob o título "Est-ce passe?': Revue de
La Cause freudienne, n. 75: La psychanalyse, en forme, Paris, 2010, p. 83-9.

117
nos subterrâneos da École de La Cause freudienne, no subsolo da rua Huys­
mans - na sala da biblioteca; conclui-se por um "Sim" e isso se espalha pelos
quatro cantos do mundo. É muito singular.
Tanto quanto o "Sim" é propulsivo, o "Não" é retentivo: retém-se o discurso.
O foguete é desmontado e não saímos do lugar.
Eu testemunho desse modo a minha impressão, a minha emoção de re­
tomar este lugar nesta comissão, que é verdadeiramente um júri2 é assim -

que Lacan a. chamava -, que delibera entre o propulsivo e o retentivo. Pode­


mos fazer soar os instrumentos [ dêchainer les grandes orgues] ou despedir a
orquestra.
Tenho o sentimento - talvez compartilhado por outros colegas - de que
isso é novo e de que se deve à existência de uma Escola Una, que é realmente
uma câmara de eco, de écho-le3; também se deve, sem dúvida, à existência da
Internet, que abole a distância entre o momento em que se vai dizer "Sim"
aos propósitos muito íntimos que nos são relatados e a propagação quase
universal desse ccSim':

À C E RT E ZA A N T E C I PA DA , P E R F O R M A N C E I N C E RTA

Voltar ao júri do passe é, portanto, reencontrar-se, como evocava Serge Cottet,


na posição de juiz, posição que exige uma decisão que responda a questão:
"É passer:
Trata-se de uma decisão que um analista não tem de tomar em sua prá­
tica. O analisante que cogita fazer o passe 'marca, em relação ao seu analista,
certa independência, que se inicia antes mesmo de sua decisão de se apresen­
tar para o passe. Na ocasião, ele consulta seu analista, que pode tentar retê-lo,
ou deixá-lo fazer, mas que não tem a última palavra. De todo modo, em
face da questão cc É passe?': o analista do passante, cuja análise ainda está em
andamento, encontra-se bastante desprovido, e ele pode responder apenas:
"Talvez". Ora, "Talvez" não é uma decisão. Percebo a que ponto eu fiquei
tranquilo, durante 15 ou vinte anos, por não ter de ir mais longe do que um

2 N. da T. Em francês, o termo jury é usado também com o sentido de banca e não apenas
no sentido jurídico, como fazemos em português. Convém ter em mente essa dualidade,
Neste artigo, penso que o mais apropriado é aproximar o júri do dispositivo do passe do
júri de um programa de auditório.
3 N. da T. Em francês, écho-le e École (Escola) têm a mesma pronúncia.

118 AP O STA NO PA S S E
"Talvez': Ser posto na posição de ter de dizer ''Sim" ou "Não" muda alguma
coisa. Com o "Talvez': o analista deixa o analisante tentar sua sorte - não levo
em conta os casos em que ele se precipita para o passe, sem lhe perguntar sua
opinião, ou mesmo segue adiante contra a sua opinião.
Parece-me que, na prática, o analista não julga o passe, sobretudo porque
este é uma performance, e não uma competência. Digo com segurança, no
tom da conversação, mas isso é uma referência a Lacan. Enunciar "o passe é
uma performance, não uma competência" tem muitas consequências. Quer
dizer, primeiramente, que, no dia previsto, é necessário estar bem disposto.
O passe não é um recorde! Assemelha-se muito mais aos Jogos Olímpicos.
Do lado do passante, seja qual for o grau de sua certeza ao apresentar-se,
trata-se sempre de uma certeza antecipada e, se ela é razoável - o que nem
sempre é o caso -, há necessariamente para ele uma incerteza quanto à sua
performance no dia previsto, posto que muitos fatores entram em jogo: a
qualidade dos passadores, sua adequação ao passante, a composição do júri
etc. Estamos, portanto, necessariamente em uma incerteza, visto que o passe
não verifica a competência. Trata-se de uma performance. Na "certeza ante­
cipada", é preciso acrescentar um aspecto não eliminável para o passante, a
saber, a aposta do passe, aposta que nunca se está certo de ganhar.
Há, portanto, uma aposta do passe que consiste em pôr sua análise em jogo,
quer dizer, reuni-la como uma unidade, fechá-la como uma, e fazer dela uma
coisa no sentido da aposta de Pascal - na qual o sujeito faz de sua vida uma
aposta, que já está, como sublinha Lacan, sempre perdida: esforça-se para fazer
de sua própria análise um objeto a, sob a forma do agalma, a fim de que todo
mundo reconheça o seu brilho e exclame: "Está lindo, é novo': e mesmo "É um
golpe no saber': como Esthela Solano-Suárez acaba de formular. Tenta-se fazer
de sua análise um agalma. Eis, finalmente, o que comanda o passe.
Seria possível sustentar que o passe tem a mesma estrutura que o discur­
so do analista: o que domina a coisa é a análise tomada como um agalma; os
passadores estão do lado do sujeito barrado, que deve ser comovido pelo dito
agalma; ele é a "placa sensíve1''4 - a fórmula foi relembrada . - dessa análise
agalmática, cujo produto suposto, esperado, é o S1 do título AE. Reencontra­
mos então as funções do discurso do analista e, se seguimos às cegas essas
formas, é notável que o saber que - ao menos no esquema - suporta esse
agalma seja um saber suposto, e não um saber exposto.

4 Encontra-se a expressão "placa sensível': a propósito do escravo do Mênon, de Platão, em


Lacan (1967-8: aula de 29 de novembro de 1967).

É PAS S E ? 119
Se há fracasso no passe, é porque o que se apresentou como agalma se
tornou palea; resta que esse objeto a do passe é um produto do fechamento
da análise como uma, que não se encontra no curso da análise.

D O " S A B E R " D E PA S S E A U M A S AT I S FA Ç Ã O

No passe, o saber talvez seja sempre suposto. Relembrar que se trata de unia
performance, e não uma competência, me leva a pensar que nele há dois re­
gimes distintos, um regido pelo saber e outro pela verdade.
Há aí uma ambiguidade, pois o projeto inicial de Lacan, em 1967, referia-se
à elaboração de um saber de passe, ao qual ele dava um aspecto quase en­
ciclopédico: marcavam-se os efeitos, seriavam-se as modalidades - um pa­
rágrafo é consagrado a esse ponto em ((Proposição de 9 de outubro de 1967
,
sobre o psicanalista da Escola , e, de fato, atribuímos grande importância a
isso nos primórdios da École de la Cause freudienne (ECF) .
Entre 1967 e 1980, no entanto, a aplicação do passe na École freudienne de
Paris ( EFP ) não provocou nenhuma elaboração de saber. O balanço foi quase
nulo e Lacan o ratificou, dizendo que o passe era um "fracasso" (Lacan, 1978;
1979) , o que foi tomado em sentido literal; considerando-se a acumulação de
um saber de passe, podia-se apenas segui-lo.
Então, sobre essa base, na ECF, procedeu-se de outra maneira. Fizemos
um forçamento no sentido do saber de passe, dizendo: "Já que se esperava
um saber do passe e que todo mundo fez greve durante 13 anos - era esse o
caso dos caciques da EFP -, nós, nós iremos passar à produção': Instituímos,
por isso, nessa Escola, a obrigação de produzir e de ensinar apoiando-se
no AE e no júri. Periodicamente, essa Escola era, ou ainda é, movida pelo
desejo de estender igualmente essa obrigação aos passadores, e mesmo aos
analistas que os nomeiam e, eventualmente, aos passantes não nomeados.
Todo mundo na produção! Considerado o ponto de partida de "tomar o
avesso", essa Escola era animada por uma verdadeira paixão da produção.
Era produzir, produzir, produzir - Maurice Thorez após a Segunda Guerra
Mundial.
Em seguida, no curso dos debates do início deste ano, notou-se com sur­
presa, com estupefação;que o júri do passe, os cartéis do passe tinham parado
de ensinar, a despeito de essa obrigação figurar nos estatutos da ECF.
Admiramo-nos com o fato de que a constituição da Escola fosse violada
desse modo e que os cartéis caíssem em uma espécie de afasia, porém, pas­
sado o tempo do opróbio, diz-se que isso talvez seja um sinal dos tempos,

120 A P O STA NO PASSE


um sinal de que houve um deslizamento do saber de passe para a verdade
de passe - falo do meu estado de espírito; não professo, não profiro, eu me
interrogo.
Meu estado de espírito, retornando ao júri do passe, é de que o passe se
verifica não no âmbito dos enunciados - aliás, meus colegas notaram, eu
parei de tomar notas -, e sim no âmbito da enunciação. Trata-se, sobretudo,
de alcançar um dizer de passe indicativo de que o desejo do analista adveio.
Afinal, o último texto dos Outros escritos, de Lacan, enfatiza mais a verdade
do que o saber, e mesmo a verdade mentirosa, ou seja, a ficção de passe, ao
passo que, a princípio, quando Lacan propôs o procedimento do passe para
nomear os Analistas da Escola, este aparecia mais como um fato. Há, pois,
um deslocamento do fato de passe à ficção de passe. Por isso, nesse último
escrito, ele evoca, em vez de uma demonstração de saber, uma satisfação,
uma experiência de satisfação. "Ficção de passe" não quer dizer que o passe
não existe, mas sim que ele se encontra mais na ordem da verdade do que
na ordem ·do saber.
Se não tomo notas - por ora, de todo modo, eu me dei conta de que não
era levado a fazê-lo -, é porque me pergunto se isso que se chama corrente­
mente de «a clínica do passe" é algo que está, de fato, ao alcance de um analista,
ou seja, se ela não é a clínica tal como esta se elabora quando se é analista e
que se trabalha a partir de um tratamento que se dirige, e não, em especial,
uma clínica do passe.
Nesses termos, uma clínica do passe não estaria ao alcance da escuta
do analista e, portanto, só poderia ser ouvida no passe. O que não está ao
alcance da escuta do analista quando ele dirige um tratamento? O que não
está ao alcance é, precisamente, a báscula da enunciação, surgida quando o
analisante se põe a falar para alguém que não é ele, o analista, e para uma
coletividade. A isso o analista não tem acesso. Trata-se, aliás, de algo frus­
trante; eu posso dizê-lo, pois, no funcionamento adotado por nós, o analis­
ta do passante não se mantém no júri, quando é um de seus membros. Isso
aconteceu comigo e eu estava evidentemente muito frustrado de não poder,
de maneira indireta, ouvir o que não tinha podido ouvir na análise. Assim,
pedi a Catherine Lazarus-Matet que me desse, muito brevemente, um pe,.;
queno eco, um tiquinho assim... Lacan não se constrangia: ele estava no
cartel e podia ter acesso a isso a que não se tem acesso na análise. Parece-me
ser essa a razão de, mais de quarenta anos depois, o passe continuar a ser
um x, um desconhecido, e de que, seja como for, só pode haver passe, se ele
continua a ser um x.

B PASSE? 121
O PAS S E É S UA I N T E R P RE TAÇÃO

O passe, portanto, é sua interpretação, e acima de tudo a intepretação do


passante. É esse o conceito; não é um conteúdo, não são os enunciados. Se
houvesse o saber, haveria o saber conforme. Isso que você não pode esconder
no passe, quando. você o faz, é a maneira pela qual você o interpreta. Como
Serge Cottet evocou, é o modo pelo qual, falando de maneira responsável,
você dá consistência ao testemunho.
Alguns interpretam o passe no sentido do condensado que devem forne­
cer de seus percursos. Para outros, pode ser um relato expansivo com uma
cronologia ordenada, ou ainda pontilhada, ao contrário. Alguns optam pela
brevidade, pelo laconismo. Outros, pela abundância. Certos passantes trazem
sua construção e outros, não; às vezes, é um passador quem faz a construção
no lugar do passante, e se o passador não a faz, é o júri que a faz.
Há tantos passes quantas interpretações de passe pelo passante e este, ao
mesmo tempo que interpreta o passe, interpreta muitas outras coisas tam­
bém: o conceito do inconsciente para ele, o conceito de desejo, o conceito
de fantasia... É isso que, precisamente, dá uma indicação sobre o desejo do
analista.
Nas novas condições em que estamos, tal como as vejo evidenciadas em
minha experiência, eu havia distinguido (Miller, 2007) - como lembrou, creio,
Patrícia Bosquin-Caroz - o passe 1, o passe 2, o passe 3. O passe 1 é o passe
na análise, quando se ultrapassou alguma coisa em sua análise. · O passe 2
é o procedimento, e o passe 3, este que se faz diante do público. Eu ordenava
isso de maneira sucessiva.
Isso, nie parece, continuaria exato, não fosse por ver uma complicação
no fato de que o passe 2, o procedimento, comporta, evidentemente, uma
retroação sobre o passe 1. A perspectiva de fazer o passe, a perspectiva do pas­
se 2, tem uma incidência sobre a análise do analisante que se pode verificar,
produzindo-se, no momento em que surge essa ideia, em que o espírito do
passe lhe ocorre, certa alteração, certo desvio na própria análise.
Enfim, há também uma retroação do passe 3 sobre o passe 2, desta vez,
para o júri, que sabe que sua resposta será propulsiva e que não pode apreciar
apenas o passe 1, a análise do passante. Ele é obrigado a pensar também no
passe 3. Lacan, ao fornecer a definição do AE, dizendo que ele podia testemu­
nhar sobre os problemas cruciais da psicanálise etc., não inscreveu nenhum
tipo de obrigação. A ECF procedeu por um forçamento, que deu_ lugar à ob­
servação memorável de Catherine Lazarus-Matet, segundo a qual essa obri­
gação constituía, apesar de tudo, uma espécie de standard.

122 A P O STA NO PA S S E
PA RA A L É M D E A L C A N Ç A R O E S T R E LAT O

Qual é esse standard? Vou nomeá-lo com um substantivo muito comum:


0 estrelato [ starification] do passante. No tempo de Lacan, havia uma nome­
ação definitiva do AE, sem nenhuma outra exigência. Na ECF, como era uma
nominação transitória, acrescentou-se o trabalho, de modo que a questão:
"É passe?" se tornou: "Vamos selecionar esse passante para ser uma estrela
[ star] da psicanálise?"
Há, no fundo, uma pequena tendência de que o júri do passe seja como
o de uma audição ou de um casting, uma vez que não leva em conta somente
o passe 1 , mas também o passe 3, no interesse da Escola, da Escola Una, do
Campo freudiano, no interesse superior da psicanálise... Esse fator, é preci­
so dizê-lo, é um pouco embaraçoso, pois, como resultado, há também uma
retroação do passe 3 sobre o passe 1. Há uma espécie de obrigação de ter o
desejo de falar, o desejo de trabalhar. Eu diria até que seria preciso que uma
análise levas$e ao desejo de se exibir, quer dizer, que o passe tem alguma coisa
do desejo do ator.
Tivemos testemunhos em que certos desejos que emergem e encontram
sua verdade na análise são de um tipo completamente diferente. Por exemplo,
o desejo de permanecer oculto, de se manter discreto etc. O que se faz nesses
casos? Esse desejo pode eventualmente se articular de tal maneira, que não
nos sentimos seguros em assumir a responsabilidade de levar ao estrelato
aquele que é animado por tal desejo. Portanto, o passe 3 tem uma incidência
maior sobre o passe 2 e eventualmente sobre o passe 1.
Apesar de seus impasses, de suas dificuldades e paradoxos, o passe perma­
nece indispensável. De início, ele assegura uma presença da instituição nas
análises. Nas sociedades da International Psychoanalytical Association (IPA),
essa presença é assegurada por uma ordem hierárquica complexa, pela no­
meação de titulares, pela padronização da duração das sessões, pelas supervi­
sões e as autorizações etc.; uma ordem muito potente enquadra os analistas.
Esse não é absolutamente o caso para os lacanianos, em que a análise é dei­
xada ao sabor de uma grande arbitrariedade, sem esse aparelho de controle.
O que funciona como o único aparelho de controle potencial é o passe, não
como um direito à vigilância, e sim como a garantia de que, em todo caso,
há um além da análise de cada um; pode-se verificá-lo, e será a ocasião de o
candidato converter a série de sessões, a sucessão de sessões que constitui a
sua análise, em um conjunto.
Sempre há o perigo de esse além da análise se tornar um Outro do Outro.
É assim, em todo caso, para a IPA, que é construída como um Outro completo,

B PASSE? 123
ao passo que, na ECF, é absolutamente essencial que o júri do passe se mostre
animado por uma certa paixão pela ignorância. É preciso que ele se apresente
como surpresa, com seu próprio furo no saber, como um furo em seu pró­
prio saber, já que o passe é também o júri ao qual se endereça. Se o Outro do
passe se põe do lado do saber do passe, se ele se apresenta como um clínico
geral, armado de referências já adquiridas, isso torna o passe muito difícil.
É preciso que o júri do passe aceda ao seu próprio desnudamento, que ele .o
aceite e mesmo o manifeste. É preciso que ele se mostre desprovido e, eu diria,
inclusive um pouco confuso. É isso, aliás, o que nós conseguimos fazer muito
bem: se re1,1nimos todos os nossos discursos juntos, realmente, não afinamos
nossos violinos , mesmo se citamos uns aos outros! O passe é, portanto, tam­
bém sua interpretação pelo júri.
Ora, por meio de suas fendas, seus momentos, seus ciclos, o passe re­
siste há mais de quarenta anos. Basta considerar o que o desaparecimento
do passe produziria para querer preservá-lo. Se não houvesse mais o passe,
poder-se-ia dizer que isso seria um atentado contra a imagem de uma análise.
Haveria a imagem de uma análise fragmentada, sem alma, se posso dizê-lo,
no sentido aristotélico, uma análise da qual não se poderia fazer a súmula e
que estaria à deriva. Assim, por meio de suas dificuldades, por meio de nossa
própria desorientação, é preciso que ele continue, e sem que desejemos que
ele se aperfeiçoe além de nossos meios.

124 A.P OS TA NO PASSE


1
O U LT RAPAS SE

O R E A L RE L U TA N T E À V E R D A D E

Neste ano, mostro, a partir do último ensino de Lacan, que o ser e a existência
são duas coisas diferentes. Essa distinção, ou desnível, se torna necessária para
podermos pensar o que nos impõe a prática e constitui o espaço mais além
do passe, que chamarei de ultrapasse. Somos chamados a responder a isso
como psicanalistas na atualidade. Somos chamados porque são muitos aque­
les que, mais além da prova do passe, tendo-a superado ou não, continuam
a sua análise. É preciso, portanto, constatar que existe o ultrapasse.
O ultrapasse condiciona a experiência analítica desde o momento em
que esta se instaura. Tal experiência se inaugura efetivamente com uma busca
da verdade, uma busca que toma a forma de uma demanda do psicanalista,
a saber: "Diga-me a verdade". Essa demanda, explícita ou não, desencadeia,
favorece, nutre-se de tudo o que vem à mente do paciente, ou seja, a demanda
de verdade, implícita ou explicitamente, anuncia-se assim: "Diga-me sem flo­
rear, sem rodeios, de modo bruto e mesmo um pouco selvagem, o que você
pensa. O que você me disser dessa maneira será a sua verdade".
Trata-se de uma verdade momentânea, provisória. O analista sabe de an­
temão que essa verdade não é definitiva, que ela é eminentemente variável;
sabe que, mais tarde, o paciente dirá algo que não é a mesma coisa. Da parte
do analista, sabe-se que, quando se diz a verdade, mente-se e que não se pode
fazer mais do que mentir. Isso é o que chamamos de real. Damos o nome

N. da o. Texto estabelecido com base na transcrição da décima primeira aula do curso de


Orientação lacaniana "L'être et l'un': proferida em 4 de maio 2011, e em sua versão publi­
cada na revista Freudiana, n. 69, Barcelona, 2014, p. 7-15, intitulada "Más allá del pase':

125
de real ao fato de que só se pode dizer a verdade mentindo. O real é a razão
da verdade mentirosa. Mentirosa porque variável. A que chamamos de real?
Ao que só podemos dizer mentindo, ao que se �evela relutante à verdade, ao
dizer verdadeiro.

O PAI E M S UA S I N G U L A R I D A D E

Ensino aqui, mas não apenas, porque também faço Apresentações de Pacien­
tes. Trata-se de uma prática que se encontra em continuidade com a de Lacan,
surgida em uma tradição dos psiquiatras de seu tempo. Consiste em interrogar
publicamente pacientes hospitalizados, com a intenção de demonstrar sua es­
trutura subjetiva ao longo da entrevista, em beneficio dos aprendizes que com­
põem a audiência. Essa prática tem sido criticada porque se inscreve no discur­
so psiquiátrico, mas Lacan recusou as objeções que se formularam a título de
certa rebelião contra as instituições e a prática se manteve no Campo freudiano.
Tenho, então, regularmente a oportunidade de entrevistar sujeitos hospi­
talizados e que são selecionados por se acharem preparados para esse exercí­
cio. A maioria deles o quer e, muitas vezes, ou quase sempre, são tidos como
psicóticos. Devo, no entanto, constatar, depois de vários anos de exercício,
q:ue esse diagnóstico na verdade me irrita, porque ele se refere ao complexo
de Édipo, ou seja, à função do pai considerada em sua universalidade. A ques­
tão em jogo, portanto, é a função do pai.
A universalidade como tal se apoia no plano do ser, contudo a universa­
lidade de uma definição não assegura de modo algum que haja uma única
existência que responda a tal definição. A existência corresponde a um regis�
tro diferente do registro da universalidade. É preciso pensar o pai com base
no universal, ou seja, como aquele que diz não, como a função que erige a
castração em lei geral e constitui a exceção? Foi isso o que Lacan se pergun­
tou, ao fazer confluir o complexo de Édipo para a construção freudiana qe
«Totem e tabu". Retornou a esse ponto em diversas ocasiões, mas apenas em
seu último ensino extraiu o pai do universal, o pai cuja menção no singular
se erige em totem da universalidade.
Lacan fez muito em seu ensino anterior para universalizar a função do
pai. A exaltação universal do pai como aquele que diz "não" se converteu
em um traço distintivo do lacanismo. Trata-se do pai que diz não, liberando
a criança de sua sujeição à niãe e do gozo implicado nessa relação. É assim
que se ensina habitualmente Lacan, isto é, como aquele que soube extrair de
Freud a universalidade da função do pai.

126 A P O STA NO PASSB


Pois bem, em vez disso, o último ensino de Lacan arranca o pai do univer­
sal, situando-o não na universalidade, e sim em sua singularidade. Deve-se
inclusive recusar, em nome dessa singularidade, o singular universalizante do
pai. De fato, o que constitui um pai, o pai de cada um, é o que singulariza seu
desejo em relação a uma mulher entre as demais. Ele só será normalizador,
se o seu desejo for singular, o que Lacan chamou de pai-versão [pere-version] .
Esse termo circulou sem que sua lógica fosse compreendida. Ao se valer dele,
Lacan se referiu à singularidade de cada pai em relação à universalidade do
pai, indicando dessa forma que um pai, quando se identifica com a função
universal do pai, só pode produzir efeitos psicóticos.
No âmbito do universal, aquele do "para todo x': para empregar os termos
da lógica quantificacional, sem dúvida se obtém uma verdade universal, porém
não operante. Ela não o é porque não garante nenhuma existência. No âmbito
do universal, podemos certamente estabelecer o ser do pai, mas a existência de
um pai que funcione como tal é outra coisa. Nós o encontramos no âmbito
da singularidade e é essa singularidade que merece ser qualificada de perversa.
É perversa por desmentir e recusar toda norma, todo standard, todo "para todo x".
Nesse ponto, convém esclarecer a diferença entre o ser e a existência.
O ser está no âmbito do universal, que é, como tal, indiferente à existência.
Uma definição é válida inclusive quando não há nenhum ser que se inscreve
nela. Foi isso o que a lógica moderna evidenciou em relação à lógica de Aris­
tóteles. Lacan se agarrou a tal lógica porque ela respondia ao que a experiên­
cia indicava. O ser se dá no âmbito da universalidade; a existência, no entanto,
transcorre no âmbito da singularidade.
Devo dizer que, em minhas Apresentações de Pacientes, esforço-me para
não me guiar pelo diagnóstico de psicose. Não que eu o recuse; posso aceitá-lo
se me guio pelas coordenadas_ prescritas na clínica universalizante, que com­
porta uma demarcação intransponível entre neurose e psicose. Digamos que
me esforço, mais do que tudo, para frustrar a inscrição do caso na universali­
dade. Busco suprimir o universal para focar a singularidade do caso e mesmo
a invenção original de que o sujeito em questão dá provas, sujeito que, em
determinado momento, mostrou-se confuso, perdido, suicida, extraviado, a
ponto de pedir a hospitalização e ser acolhido pela instituição. Trata-se, con-, .
tudo, de um sujeito que antes disso inventara algo singular para sustentar a
função paterna e que lhe permitia ordenar sua experiência. Por outro lado,
no plano dos fatos, não há dois que sejam iguais, ainda que, para dar-se conta
disso, seja necessário confrontar-se com o saber que tomamos do universal.
O que, em última instância, Lacan chama de pai é o' que se constitui em
exceção e existênciã em relação à universalidade. O pai não é o universal,

O U LTRAPA S S E 127
mas sim o que, na condição de singular, mantém-se à margem do universal.
O universal está no plano da função, mas só se encarna e opera no plano da
singularidade. Isso quer dizer que convém não diluir a existência em nossa
crença no todo, em nossa perspectiva do que vale para todos, substituindo o
ponto de vista do Um pelo do todo. Essa é a indicação que nos dá a expressão
de Lacan existe o Um [ Yad'lunJ. Tomo-a aqui no âmbito clínico e como um
convite para sacrificar o totalitarismo do universal em nome da singularidade
do Um. Considerar o pai com o artigo definido que o translada à essência
corresponde a situá-lo outra vez no plano do sintoma, e não no do Um.

A B Ú S S O L A D O S I N T O M A C O M O RE S P O S TA DA E X I S T Ê N C IA

O ensino de Lacan que se inicia com "Função e campo da palavra e da lingua­


gem em psicanálise" (1953) culmina na questão da fantasia. O fim de análise
prescrito se traduz na noção de uma travessia da fantasia. Para o sujeito, a
questão do ser, ou seja, seu "Quem sou?" ,e inclusive seu «Que sou?, suposta-
• mente se desnuda no âmbito da fantasia. O ser se apresenta essencialmente
sobre a rubrica de uma pergunta que demanda respostas eminentemente,
variáveis e convergem para um certo nada ou até mesmo para o que Lacan
chamou de objeto a, algo que corresponde a uma determinada modalidade
do ser ou ainda a um semblante.
O último ensino de Lacan se orienta com outra bússola, a do sintoma que
se inaugura com o enunciado existe o Um. O sintoma então, em vez de uma
pergunta, é a resposta da existência do Um que é o sujeito. Pois bem, afirmo
que isso condiciona a forma de atuar do psicanalista desde o início da análise.
Orientar-se pela fantasia e a questão do ser, de um lado, e orientar-se pelo
sintoma tomado como uma resposta da existência, de outro, são duas coisas
diferentes.
Produz-se um curto-circuito. No plano da fantasia, deve-se lidar com a
questão das significações do ser sustentadas pelo desejo, suscetíveis de uma
resolução que tende ao nada, ao que Lacan nomeou de desser. Trata-se de
uma resolução ontológica. Essa atividade de redução foi tão amplamente per­
cebida além do circuito lacaniano que se cheg�u a qualificá-la de shrinkage.
Quando se trata de um neurótico a quem se oferece a possibilidade de falar
tudo o que passa em sua cabeça, pode-se dizer que, de forma geral, basta es­
perar para que ele chegue ao desser.
No âmbito do sintoma, não há resolução pelo desser. Este não alcança a
existência. A via indicada por Lacan nos últimos anos de seu ensino se centra

128 A P O STA NO PASSE


justamente no sintoma, quer dizer, na existência, e não �o ser. O sintoma não
é uma formação da fala, e sim algo correlato a uma inscrição que é perma­
nente e se distingue do sonho, do chiste, do lapso e do ato falho, razão pela
qual ele nos obriga a ir além da função da fala no campo da linguagem e a
introduzir neste a instância da escrita.
Esse é o motivo pelo qual Lacan não se satisfez com a definição do incons­
ciente como discurso do Outro. Assim, propôs que ele também é um saber, o
que o desviou da concepção do inconsciente definida apenas em termos de
uma verdade, que é momentânea e que, por exemplo, se renega ou recalca.
Podemos falar várias horas sobre o inconsciente, relacionando-o à verdade,
mas o sintoma resulta de uma objeção em face da possibilidade de dizer que
tudo no in_consciente corresponde a isso. Freud tentou fazê-lo, mas esbarrou
na permanência do sintoma mesmo depois de este ter sido interpretado. Foi
levado a inventar a reação terapêutica negativa para dar conta disso, isto é,
para dar conta da resistência do sintoma em evaporar-se após sua verdade
ter sido esclarecida. Em direção contrária, o último ensino de Lacan parte da
resistência e nos convida a repensar a psicanálise sem fazer do inconsciente
apenas o discurso do Outro, convertendo-o também em um saber.

O Q U E I T E RA N O S I N T O M A . U M S EMEL FAC T Í VE L

Como entender esse saber? Pode-se entendê-lo, e foi esta a forma pela qual
Lacan o introduziu, como o saber que dá sentido, que completa um signifi­
cante, S1, com outro significante, S2, o significante do saber que dá sentido aQ
primeiro. Existe, contudo, outra definição do saber que não passa por essa
atribuição de um sentido incapaz de reabsorver o que o próprio Freud cha­
mou de restos sintomáticos. Essa outra · definição corresponde a uma pura
iteração de S ou seja, a uma identidade de si mesmo que se mantém e cons­
1
,

titui o próprio fundamento da existência.


Lacan, enfim, nos convidou a pensar o inconsciente a partir não do que
dá sentido, da verdade, e sim do que consiste em um significante que pode
inscrever-se a partir de uma letra. Chegou a isso, evidentemente; ele não . .
o estabeleceu de saída, procurando ajustá-lo ao que experiência indicava.
Passaram-se anos para que, contra o que havia sido o seu ensino mais co­
nhecido, chegasse a afirmar que o inconsciente deveria ser pensado a partir
da iteração bruta e - não da atribuição de sentido. Se ele chegou a dizer, no
último texto da antologia que intitulei Outros escritos, que o inconsciente
é real, foi porque elegeu situar o inconsciente no plano do sintoma, do

O ULTRAPASSE 129
sintoma que persiste depois da interpretação, do sintoma que resta atrás da
verdade (Lacan, 1977) .
Freud, no início de sua prática, não se confrontou com isso. Todavia,
quando as análises começaram a se prolongar, ele foi forçado a inventar uma
segunda tópica, com o objetivo de dar conta da existência do sintoma além
da interpretação, ou seja, como iteração. Lacan escutou de um de seus pa­
cientes uma fórmula que ele adaptou para fazer do sintoma o equivalente
dos pontos suspensivos, de um et cetera. Trata-se de uma forma de expressar,
a partir dos signos de pontuação da escrita, que a fala solicitada pelo analista
e que lhe é dada na experiência depende de uma escrita, ou seja, articula-se à
permanência de um sintoma que itera.
Uma iteração é uma ação que repete um processo. Uma vez desvanecidas
as miragens; quando elas já se dissiparam no desser, resta, além desse desser, a
iteração. A iteração do si�toma implica, ao menos se deve referi-la a isso, um
semel factível. Semel, em latim, quer dizer "de uma vez': Um semel factível é
um acontecimento singular, único, do qual se pode dizer que tem valor de
trauma. O último ensino de Lacan nos convida a cernir, justamente além da
fantasia, esse semel factível que, na clínica, é chamado de trauma e se dá no
encontro com o gozo. É nisso que consiste a diferença entre o gozo no sentid�
de Lacan e a libido freudiana. O gozo sempre se refere a um encontro, a um
semel factível que permanece inalterado por trás de toda dialética.
Dito de outro modo, o que resta do sintoma uma vez interpretado, uma vez
atravessada a fantasia e alcançado o desser, é o que não é dialético e representa e
reitera o uma só vez. Após ter sido cernido, isto é, ter sido apreendido, na expe­
riência e certamente na fala, em sua forma mais pura, o sintoma se assemelha a
algo autossimilar, como se diz nas matemáticas. Damo-nos conta de que a tota­
lidade é parecida com wna de suas partes e que o sintoma, nesse sentido, é frac­
tal. Quando nos ocupamos do que resta mais além do passe, deparamos com o
sintoma em sua acepção autossimilar, permitindo-nos perceber que tudo o que
se percorreu até então apenas reitera essa mesma estrutura.

D UA S E S C U TA S D O P S I CANA L I S TA

Tudo isso tem consequências para a escuta do psicanalista. Um dos níveis des­
sa escuta é o da dialética e consiste em adaptar-se e seguir as variações da onto­
logia do discurso do paciente, ou seja, do que faz sentido para ele. Em seguida,
no, curso · da análise, isso pouco a pouco perde o brilho, murcha e se desva- .
nece. De forma geral, essa ontologia se dirige para o desser e seus efeitos para

130 AP O S TA NO PASSE
o sujeito são tanto depressivos, por ter desejado apenas coisas evanescentes,
quanto de entusiasmo, por ter-se liberado de um peso em sua vida libidinal.
O psicanalista certamente pode precipitar essa interpretação do anali­
sa nte, por meio de intervenções que a favoreçam, e que são sempre interpre­
tações de desser. Mas há um segundo tipo de escuta, que é a da iteração e se
volta para a existência. O analista circula entre essas duas escutas, uma vez
que se trata de duas dimensões que se mantêm unidas apenas por um hiato.
Como Lacan disse em seu penúltimo escrito, «Joyce, o Sintoma" (1975), há
uma dimensão em que o sujeito vive da letra [ vit de lettre] . Ele constrói um
equívoco com vida do ser [vie de l'être] e com vazio do ser [vide de l'être J .
O sujeito vive do ser e, ao mesmo tempo, esvazia-o. Está destinado a isso e
nós o acompanhamos nesse esvaziamento.
Certamente há a outra dimensão, aquela em que o sujeito tem um corpo.
É preciso passar pela diferença entre o ser e a existência para dar seu valor ao
que há entre o ser e o ter. O ter, ter um corpo, é da ordem da existência e se
trata de um saber que não se obtém a partir do vazio do sujeito, razão pela
qual Lacan foi levado a abandonar o termo sujeito, sujeito da fala essencial­
mente, e a forjar o defalasser [parlêtre] . No fundo, ela extrai disso a raiz do
que até então chamava de o sujeito como falta a ser. Com o termofalasser,
portanto, ele indicou que esse sujeito só tem ser a partir do que se refere à fala,
mas só pode se pôr como tal a partir do corpo, do fato de que tem um corpo.
O que o sujeito faz com esse corpo que ele tem? Esse corpo está essen­
cialmente marcado pelo sintoma e é por isso que pode ser definido como um
acontecimento de corpo. Isso supõe que o corpo está marcado pelo signifi­
cante, ou seja, pela fala, visto esta inscrever-se e poder, como tal, ser repre­
sentada por uma letra. É j�stamente essa inscrição que merece ser qualificada
com o nome de inconsciente freudiano. Ademais, deve-se dizer que tudo isso
procede do enunciado existe o Um, o qual quer dizer que existe o sintoma e
que, mais além do desser, resta o acontecimento de corpo. O existe o Um é
uma formulação que constitui o primeiro passo de a relação sexual não existe,
ela mesma consequência da primazia do Um, entendida como o que marca o
corpo com um acontecimento de gozo.
Esse Um não é, como se sabe, o da fusão, do qual surgiria o dois, o Eros a
que Freud se referiu. Ele se referiu a ele, mas fez surgir T ânatos, para contra­
riar a fusão. Lacan se dá conta da emergência de Tânatos ao lado de Eros, ao
dizer que existe o Um, ou seja, que não existe o dois, que não há relação sexual.
O último ensino de Lacan parte precisamente da solidão do Um, do Um
solitário que fala sozinho. Na análise, restitui-se o dois em face do Um sim­
plesmente porque a ele se acrescenta a interpretação. Há esse Um solitário ao

O ULTRAPASSE 131
qual se acrescenta o dois que lhe permite dar sentido, mas justamente para
que o sujeito experimente que isso não resolve seu sintoma. Inscreve-o em
um saber, atribui-lhe sentido, mas para chegar ao dessaber. [desavoir] e ao
dessentido [ desens] . No sintoma, há um Um opaco, um gozo que, como tal,
não corresponde à ordem de sentido. Para isolá-lo, no entanto, deve-se passar
pelos caminhos oferecidos pela dialética e a semântica.
Pode ocorrer que a análise se satisfaça com o sentido que ela libera, mas
nesse caso ela se constitui em uma forma de engano. Nela, trata-se, com efeito,
de que o ultrapasse e a prova sancionada por ele retracem os meandros das ver­
dades mentirosas em sua assunção do que faz o real ser rebelde ao verdadeiro.
Pode-se chamar isso de destino, mas seria, de todo modo, outra forma
de comprovar o que Lacan deixou a seus seguidores sob o nome de passe, de
habitá-lo como ultrapasse, mais além da fantasia: assunção do não sentido
desse Um que, no sintoma, se assim posso dizê-lo, itera sem rima, nem razão.

132 A POSTA NO PASSE


R E FERENCIA S B I B LIO G RA F ICA S
/\ /

BAKER, Gordon Park & HACKER, Peter Michael Stephan


(1984) Scepticism, Rules and Language. London: Basic Blackwell, 1984.

»0Gaoss1AN, Paul A.
(1989) "The Rule-Following Considerations': Mind, vol. xcvm, n. 392, Oxford, p. 507-49.

BOUVERESSE, Jacques
(1987) La force de la regle: Wittgenstein et l'invention de la nécéssité. Paris: Les Éditions de Minuit.

couRTELINE, Georges
(1893) Boubouroche. Comédie en deux acts. Paris: Librairie Thêatrale, 1958.

FREUD, Sigmund
(1909) "Observações sobre um caso de neurose obsessiva ("O homem dos ratos': 1909). ln:
Obras completas, vol. 9: Observações sobre um caso de neurose obsessiva ["O homem
dos ratos"J, Uma recordação de infância de Leonardo da Vinci e outros textos (190�
1910). São Paulo: Companhia das Letras, 2013.
(1918) "História de uma neurose infantil ("O homem dos lobos", 1918(1914] ). ln: Obras comple­
tas, vol. 14: "História de urna neurose infantil ["O homem dos lobos"] , Além do princí­
pio do prazer e outros textos (1917-1920). São Paulo: Companhia das Letras, 2010.
(1937) "L'analyse finie et l'analyse infinie': ln: Eanalyse finie et l'analyse infinie suivi de Cons­
tructions dans l'analyse. Paris: Presses Universitaires de France, 2012.

HEIDEGGER, Martin
(1937) "Hegel et son concept de l'experience': ln: Chemins qui ne menent nulle pari. Paris:
Gallimard, 1962.

KRIPKE, Saul A
(1982) "The Wittgenstein Paradox': ln: Wittgenstein on Rules and Private Language. Cambridge:
Harvard University Press, p. 7-54.

LACAN, Jacques
(1951) "Intervenção sobre a transferência': ln: Escritos. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 1988.
(1953) "Função e campo da fala e da linguagem em psicanálise': ln: Escritos. Op. cit.

133
(1955) "Variantes do tratamento-padrão': ln: Escritos. Op. cit.
(1957-8) "De urna questão preliminar a todo tratamento possível da psicose': ln: Escritos. Op. cit
(1958) "A direção do tratamento e os princípios de seus poder': ln: Escritos. Op. cit.
(1960a) "Observação sobre o relatório de Daniel Lagache: 'Psicanálise e estrutura da personali­
dade". ln: Escritos. Op. cit.
(1960b) "Subversão do sujeito e dialética do desejo no inconsciente freudiano': ln: Escritos. Op. cit.
(19 62-3) O Seminário, livro 10: a angústia. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 2005.
(1964) "Posição do inconsciente': ln: Escritos. Op. cit.
(1967a) "Proposição de 9 de outubro de 1967 sobre o psicanalista da Escola:': ln: Outros escritos.
Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 2003.
(1967b) "De Roma 53 a Roma 67. A psicanálise. Razão de um fracasso': In: Outros escritos. Op. cit.
(1967-8) "Le Sérninaire, Livre xv: L'acte psychanalytique". Inédito.
(1967-70) "Discurso na Escola Freudiana de Paris". In: Outros escritos. Op. cit.
(1969-70) O Seminário, livro 17: o avesso da psicanálise. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 1992.
(1971) "Ato de fundação': ln: Outros escritos. Op. cit.
(1972) "O aturdito': In: Outros escritos. Op. cit.
(1975) "Joyce, o Sintoma". ln: Outros escritos. Op. cit.
(1975-6) O Seminário, livro 23: o sinthoma. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 2007.
(1976-7) "Le Sérninaire, Livre xx1v: L'insu que sait de l'une-bévue s'aile à mourre': Inédito.
(1977) "Prefácio à edição inglesa do Seminário 11". ln: Outros escritos. Op. cit.
(1978) "Condusion des Assises de l'EFP sur l'expérience de la passe", Lettres de l'EFP, n. 23, Paris.
(1979) "Conclusions, interventíon dans le IX Congres de l'EFP sur la transmission': Lettres de
l'EFP, n. 25, Paris.

MILLER, Jacques-Alain
(2007) "La passe bis", La Cause freudienne, n. 66: Citoyen symptôme, Paris, p. 209-13.
(2010) "Théorie de Turin sur le sujet de l'Ecole", La Cause freudienne, n. 74: La psychanalyse, vite,
Paris, 2010, p. 132-42.

MILLER, Jacques-Alain (dir.)


(2002) Qui sont vos psychanalystes? Paris: Seuil.

PROST, Pauline
(2010) "A rebours", La Cause freudienne, n. 74: La psychanalyse, vite, Paris, 2010, p. 90-1.

134 APOSTA NO PASSS


15 TE STEMUNH O S
D E A NA L I S TA S DA E S C O L A ,

M E M B R O S DA E S C O L A
.,
B RAS ILEI RA D E P S I CANALI S E
Bernardino Horne1

A VIA DA PER PLEXIDADE 2

I N T RO D U Ç Ã O

A perplexidade é efeito da clínica do real. A surpresa, o despertar, o clarão são


formas de saber que a causam.

AS E N T RE V I S TA S P R E L I M I NA RE S

As entrevistas preliminares foram marcadas pelo silêncio interpretativo. Sem


pressão do tempo, o sujeito relatou sua história e percorreu as formas de seu
sintoma.
Devido a um sonho, deu-se a primeira interpretação: o sujeito se via brin­
cando com um amigo, lançando um disco branco. As associações tomaram
caminhos diversos e, ao terminar a sessão, o analista apontou o disco branco,
dizendo que se tratava de uma condensação. Seu efei�o foi a produção de
dois lapsos: o erro de um nome e o equívoco, ao tomar um caminho que o
levou a um velho cemitério. Mostravam o início do trabalho da transferência
e abriram um período de análise sobre a posição masculina do sujeito, sua
relação com o filho e o pai.

Nomeado Analista de Escola (AE) pelo Cartel do Passe da École Européenne de Psycha­
nalyse (EEP) em 1996.
2 Texto apresentado na Plenária dos AES, durante o 1x Encontro Internacional do Campo
Freudiano, realizado em Buenos Aires, em julho de 1996, e publicado originalmente em
Opção Lacaniana: Revista Brasileira Internacional de Psicanálise, n. 17, São Paulo, 1996,
nov., p. 16-7.

137
O sujeito recordou o enigma do sonho que Freud relata em A interpreta­
ção dos sonhos: "Pai, não vês que estou ardendo?':

A ANÁLISE

Marcar uma condensação não deixa de ser surpreendente. Implica aportar


um amálgama de gozo e uma convergência de sentidos. Significa, também,
abrir uma divergência que contém, como nó, algo do sem sentido. Trata-se de
um elemento de fixação de gozo que obstrui o desejo, ao deter a metonímia.
Denuncia, também, o gozo como prazer na inércia.
O trabalho analítico sobre o masculino afeta o narcisismo fálico e, en­
quanto necessariamente aponta para a castração, leva à transferência nega­
tiva - estrutural nos homens -, que Freud destaca, em várias passagens de
sua obra, como a maior dificuldade em análises. O desejo do analista, como
autêntica renúncia ao poder, permite o consentimento ao sujeito masculino -
transferência ao real. Essencialmente, trata-se de um momento mais além
do Édipo.
A segunda interpretação atacou a denegação. "Você sabe!" foram as pala­
vras ditas ao sujeito, que alegava não saber, colocando-se em uma posição d.e
bela ahna, ingênua em face das coisas da vida. Reconhecer seu saber permitiu
outro passo mais além do Édipo.
A terceira interpretação coroou essa etapa. O analista disse: "O despertar!"
Pouco tempo depois, o sujeito leu, pela primeira vez, em O Seminário, livro 11,
o comentário sobre o encontro com o real, em que Lacan retoma o sonho no
qual censura a cegueira do pai.
O sujeito pensou em dar por. terminada a análise.

O PA S S E

A decisão de aventurar-se pelo caminho do silêncio em direção ao passe sus­


tentou-se do desejo do analista. Esse desejo consiste na leitura que o anali­
sante faz das manifestações do analista, que, em minha experiência, foram:
o silêncio, o entusiasmo e o corte da sessão.
O sujeito propôs uma série de recordações dos seus cinco anos de idade.
Uma delas, "B", ressaltava pelo horror que produzia: o sujeito havia tido uma
conduta sádica com um pequeno animal. Outra, na mesma época, "A"� estava
marcada por duas cenas. A primeira tomava forma em uma imagem feminina

13 8 A P OSTA NO PASSB
revelada e oculta por uma luminosidade especial. Ao vê-la, o sujeito soube
a verdade sobre a sexualidade. Um fenômeno da ordem do despertar - abrir
os olhos. A segunda, a imagem do homem ideal: uma figura proibidora mas­
c ulina que impunha um "Não!" à curiosidade, a esse olhar e querer saber do
suj eito infantil.
Foi o estabelecimento de uma articulação em sequência - "B" imedia­
tamente antes de "A" - que desencadeou o clarão de saber durante a s,essão.
A defesa primordial implica o isolamento, que permite a recordação, mas a
mantém separada de outra que lhe dá sentido. O efeito, para Freud, é igual
ao da repressão por amnésia. A articulação do isolado abre uma nova forma
de saber.

M A S C U L I N O E F E M I N I NO

A fantasia fundamental é, segundo a teoria, mais difícil de atravessar no ho­


mem, pois nele se agarra mais firmemente ao Outro (A). A disciplina de su­
portar o silêncio favorece o desenraizamento. O silêncio tem uma dupla fun­
ção: separa do Outro (A) e aponta a pulsão no coração da fantasia.
Consentir ao gozo não todo, assumir a castração, é em si a castração para
o homem, um ato de aceitação de seu ser sujeito feminino. A cena "B" é o
resultado da identificação ao ideal masculino, substitui ,e mantém, por trans­
formação no contrário, a fixação do gozo pulsional da cena "A". Ambas de­
terminam a estruturação da fantasia, a posição sexual masculina do sujeito e
as condições da eleição do objeto feminino.
A travessia da fantasia foi sentida pelo sujeito como um momento mais
de ganância de saber do que de perda de objeto. O saber mais difícil de man­
ter articulado foi sempre o de sujeito igual a objeto. Na sessão, a queda do
objeto foi acompanhada de alegria, entusiasmo e admiração pela psicanálise.
Ao levantar-se do divã, o sujeito deu um nome divertido e cruel ao objeto.
l!m significante novo. Houve risos. O significante do passe é o nome do objeto.
Dá nome ao novo analista, pois menciona sua condição de resto.

O C LARÃ O

A cena "A" era recordada por sua luminosidade e detalhes hiperclaros.


No momento da travessia, o lugar da sessão foi tomado por uma luz intensa -
algo da ordem do fenômeno elementar.

A V I A DA P ERP L EXIDAD E 139


No darão, articularam-se dois momentos precisos, dois clarões, pode-se
dizê-lo: o infantil, quando o sujeito soube a verdade, ao ver a imagem lumi­
nosa, e o sucedido na sessão em que se produziu um novo saber, cujos deta­
lhes e grandes linhas são iluminados ao mesmo tempo.
A tendência é esquecer, contudo a função do passe e da Escola consiste
em contradizer essa tendência; sustenta-se no desejo de saber e no compro­
misso ético de cada um de seus membros.

F I NA L

A via da perplexidade é teoricamente definida por Jacques-Alain Miller como


"a via que reconduz o sujeito aos significantes elementares sobre os quais, em
sua análise, delirou'� "É como um fenômeno elementar do sujeito na lalíngua':
afirma ainda.
A queda do objeto a implicou, para o sujeito, não apenas um saber, mas
também um saber em ato, em ser assim.

140 A P O S TA NO PASSE
Celso Rennó Lima1

A E S CR I TURA DO NOM E P RO P R IO :
U M PONTO D E B Á S CU L A 2

A BUSCA DE UMA ANÁLISE, se num primeiro momento utilizou-se de arti­


fícios sociais - inibições, dificuldades nos relacionamentos, angústia e até
mesmo o desejo de ser analista -, deixou formular uma demanda imiscuída
entre as muitas queixas formuladas: «Queria aprender a escrever!': Demanda
que se apresentou, sempre, como algo sem importância.
Essa demanda "inocente': no entanto, foi determinante na escolha dos
analistas: todos eles sabiam escrever! Uma suposição de saber, um Sq, que
marcava o início de um trajeto e que só pôde ser esclarecido no momento em
que não foi mais preciso sustentá-lo.
Assim tiveram início três percursos com finais bem distintos. Se no pri­
meiro os resultados terapêuticos não se sustentaram por muito tempo, no
segundo eles foram mais duradouros em função de mudanças subjetivas que
aconteceram, mas sem chegar a um ponto de conclusão. Por isso, mais uma
análise!
Cumpre ressaltar que, nas duas primeiras, o «final de análise" foi atestado
pelos analistas.

1 Nomeado Analista de Escola (AE) pelo Cartel do Passe da École Européenne de Psycha­
nalyse (EEP) em 6 de março de 1997.
2 Testemunho publicado originalmente em Opção Lacaniana: RevistaBrasileiralnternacional
de Psicanálise, n. 19, São Paulo, 1997, abr., p. 2<>-5.

141
DA E N T RADA EM AN Á L I S E

Tendo, desde muito cedo, escolhido o trabalho como uma forma de «dar conta»
da impossibilidade da relação com o Outro, empregou uma boa parte da vida
no cumprimento desse imperativo, o que acabou intervindo até mesmo no
lazer. Havia sempre um «peso a mais", uma certa cobrança, em tudo o que
fazia. Por causa disso, os prazeres das conquistas eram imediatamente substi­
tuídos por "mais trabalho': Esse movimento, que podemos situá-lo no andar
inferior do grafo do desejo, girava sob a determinação de «resgatar o nome
do pai': Tal bandeira, escolhida muito precocemente, se sustentava nas falas
em que o pai era apresentado ora a partir de suas qualidades intelectuais e
títulos universitários - "doutorado com louvor': por exemplo -, ora como o
responsável por "bancarrotas" causadas por insucessos profissionais e cons­
tantes envolvimentos com mulheres e outros "prazeres" da vida.
Outros elementos são necessários para explicitar o circuito nesse andar do
grafo. Muito precocemente surgiram indicações, vindas da mãe, que aponta­
vam um irmão do pai como ideal: médico, psicanalista e, além disso, ou prin­
cipalmente, muito trabalhador e honesto. Uma "swnidade': enquanto o pai
era reduzido à condição de "paciente" em virtude de constantes depressões'.
Esse ideal, no entanto, só pode ser eleito como base- de uma identificação por
existirem traços da imagem paterna a sustentá-los, deixando ao significante
''trabalho" a função de representar o que faltou e, por isso mesmo, o que trou­
xe consistência ao sintoma. A instalação de um "psicanalista" no lugar de
i(a) serviu para estabelecer certo padrão de comportamento em m - "traba­
lhador, honesto, estudioso" -, que, por sua vez, alimentava o sintoma - s(A) -
"mais trabalho» ! Em (A), instalou-se uma frase dita por sua mãe, num momento
em que a irritação, por não çonseguir fazer o filho escrever como ela queria, con­
cluiu-se com um acesso de raiva e uma exclamação: "Não aguento mais, agora
é por sua conta!" Frase que foi imediatamente interpretada como a "senha" da
liberdade. Doce equívoco do desejo, que aprisionou o sujeito em um circuito
no qual as balizas - indicações de identificações - não deixavam muitas opções.
Durante um bom tempo, frequentou as sessões de análise, alimentando
os sintomas de sentido a partir mesmo de seu saber e perspicácia. Todo o
movimento nesse circuito vinha sendo acompanhado pela sensação de "de­
ver cumprido': -até que uma intervenção do analista, recusando o lugar que
lhe era oferecido na transferência, não aceitando uma "negociação", produziu
um primeiro ponto de virada na história dessa análise.
Jacques-Alain Miller, em seu curso "Silet': lembra que uma intervenção pre­
ciosa do analista é seu eventual "sem acordo" (pas d'accord), pois no inconsciente

142 AP O STA NO PASSE ]


não há a menor possibilidade de uma harmonia, muito me�os de uma ((ne­
gociação': pois falta o significante que poderia estabelecer a proporção sexual.
Com essa intervenção, um vazio se apresentou no lugar em que era es­
perada a perpetuação de uma sequência plena de sentido e trouxe o "novo
despertar de um desprazer" [der Erweckung neuerlich Unlust] que estava ve­
lado pelo "autómaton" dos significantes regido pela crença em ser "tão tra­
balhador e honesto': promovendo uma retificação da satisfação, exatamente
onde ela deve ser feita: no nível da pulsão. Em outras palavras, pode-se dizer
que, a partir da separação promovida pela interpretação, evidenciou-se o
vazio em torno do qual circula a pulsão e onde, durante toda a sua vida,
insistiu em colocar uma mulher, mais exatamente, � olhar de uma mulher.
Não um olhar qualquer, mas um olhar que portava uma marca. A marca de
uma falta que se prestou a ser interpretada como a presença da "bancarrota".
Esse vazio, que poderemos chamar de lugar da verdade, delimita, no discur­
so do analista, um espaço onde um saber pode ser reinventado: "por mais
que trabalhe, não é possível dar à mãe o pedaço que faltou ao pai". A cons­
trução desse saber, naquele momento, abriu um caminho e uma possibilida­
de de fazer entrar um pai que havia sido afastado em função de "negociações"
com a mãe.
Do ponto de vista topológico, essa intervenção, ao lançar o vetor para o
outro patamar do grafo do desejo, promoveu a transformação de uma banda
circular - circuito do andar inferior - em uma banda de Mrebius - circuito
do andar superior, devolvendo ao sujeito sua própria mensagem invertida e
evitando, assim , que as intervenções do analista fossem tomadas na vertente
da "negociação", ou seja, como nutrientes do sentido do sintoma.
Essa "subversão topológica" é que nos diz que ocorreu uma passagem de
um saber sobre o inconsciente para um consentimento com a experiência do
inconsciente.

D O D E S E J O D O PA S S E

À medida que um caminho ia sendo construído, várias posições ancoradas


em identificações perdiam seu valor, deixando o grande Outro reduzido à
sua condição de ser apenas um lugar onde o conjunto dos significantes deixa
claro o buraco do real. Ao mesmo tempo, o espaço do prazer ia sendo con­
quistado, à medida que "um certo peso" não se fazia mais presente. Diante
desses resultados, retornou, mais decididamente, um desejo que havia muito
já se fizera presente: candidatar-se à experiência do passe. No entanto todas

A ESC R I T U R A DO N O M E P RÓPRIO 1 43
as questões dirigidas ao analista, à espera de uma "autorizaçãd: encontra­
vam sempre a mesma resposta: silêncio! Não conseguia retirar dele um "atestado»
com o qual se garantir. Somente a decisão do sujeito, já às vésperas do encontro
onde iria ser formulada a demanda à Escola, foi capaz de produzir uma inter­
venção: "Sim. Claro!':

D O F I NAL: A REVERSÃO DA INTERP RETAÇÃO D O I N C O N S C I E N TE

Na sessão que antecedeu à demanda do passe, três cenas retornaram com certa
intensidade. São cenas que sempre estiveram presentes, coloridas por um tom
de brincadeira e que podem ser resumidas em três frases: a primeira, já mencio­
nada acima, ''Agora é por sua conta!': A segunda se refere a um momento que se
repetia em restaurantes, quando, diante de um prato de comida, escutava do pai:
"Coma tudo! Já está pago. Não deixe resto!" A terceira cena dizia de um momento
em que, vendo passar algumas mulheres, o pai exclamou: "É mulher demais para
um homem só!".
Sem saber por que essas três frases retornavam naquele momento, nem por
que elas se apresentavam sempre juntas, deu ênfase à primeira, ''Agora é por sua
conta!': repetindo sua interpretação de "senha" da liberdade, ao relacioná-la '
com a decisão do passe. Daquela vez, no entanto, o analista disse que era pre­
ciso retificá-la. A resposta foi automática: "Claro, agora eu tenho que desejar':
"Mas desejar não é o bastante': disse o analista, instalando uma interrogação onde,
até então, era só certeza.
Foi em meio aos efeitos desse enigma sobre o desejo que presenciou, no dia
que antecedeu o pedido ao Secretariado do Passe, uma discussão entre duas pes­
soas que ocupavam lugares muito idealizados. O tema dessa discussão, para sua
surpresa, era absolutamente irrelevante e sem o menor propósito!
Naquela noite um sonho foi produzido: "Estava no clube, levando alguma
coisa, uma limonada, uma batida de limão, para sua mulher, quando surgiu um
menino que, com muita raiva, grita para um jovem senhor que chegava: 'Idiota!:
A surpresa é tão grande que faz cair o que estava na sua mão':
Ao acordar, comenta o sonho buscando uma saída na associação limão-alemão,
dizendo da admiração da avó materna por tudo que concerne ao povo ger­
mânico. No entanto é lembrado que limão poderia ser um Lima grande. Lima,
o nome de família do pai, estava mais uma vez sendo excluído! (Não havia mais
possibilidade de continuar fazendo "limonada': não podia mais dissimular, em
meio a um.a solução de compromisso, a marca que permanece como a presença
mesmo dá diferença).
Após esse episódio e a entrada no procedimento do passe, aconteceram três
sessões. Na primeira, quando relatou o sonho do limão e a elaboração em torno

144 AP OSTA NO PASSE


do Lima, escutou a seguinte intervenção do analista: "Quer dizer que 'Lima' é
o Nome-do-Pai-e 'Agora é por sua conta!', o desejo da mãe"?
, Foi o bastante! Produziu-se o que pode ser descrito, utilizando-se as pa­
lavras de Jorge Luis Borges sobre o encontro com o Aleph:

Chego, agora, ao inefável centro de meu relato; começa aqui meu desespero
de escritor. Toda linguagem é um alfabeto de símbolos cujo exercício pres­
supõe um passado que os interlocutores compartem; como transmitir aos
outros o infinito Aleph que minha tímida memória mal e mal abraça? [ ... ]
Neste instante gigantesco, vi milhões de atos agradáveis e atrozes; nenhum
me assombrou mais que o fato de todos ocuparem o mesmo ponto, sem su­
perposição e sem transparência. O que os meus olhos viram foi simultâneo;
o que transcreverei será sucessivo, pois a linguagem o é.3

Após uma fração de segundo, que pareceu uma eternidade, pôde ser dito:
"Quer dizer que é isso!" Quer dizer que, durante todo esse tempo, a interpre­
tação que apontava essa frase como a "senha" da liberdade era um equívo­
co!? Quer dizer que, ao mesmo tempo que excluía o pai da cena, colocava o
sujeito submetido a um desejo que se apresentava como um vácuo pronto
a levar-lhe seu bem mais precioso!? Esclareceu-se, então, por que o sujeito
havia escolhido, como estratégia principal no seu relacionamento com o
Outro, transformar toda e qualquer manifestação do desejo do Outro em
demanda, por meio da simples operação de "merdific:ar das Ding': Em outras
palavras, ali onde surgia um objeto a, marcado pelo -<p da castração, a ameaça
da "bancarrota" levava o sujeito a oferecer um objeto qualquer para que fosse
estabelecida uma série infinita, sem ponto de conclusão.
O saber que, então, pôde ser construído permitiu uma retificação, con­
cluindo a frase e desfazendo a interpretação do inconsciente que dizia o de­
sejo que aprisionou o sujeito: "Agora, meu desejo, é por sua conta , já que seu
pai não foi capaz!"
Essa retificação estabeleceu um novo sentido, explicitando que as frases
"Não deixe resto!" e "É mulher demais para um homem só!" sempre estiveram
juntas porque alimentavam o sentido da frase ''Agora é por sua conta!': ap
reforçar a ideia da impotência de um pai cuja imagem oscilava entre o ideali­
zado e o impotente, e que, fundamentalmente, "não dava contà' do desejo de
uma mulher. Assim se constituiu o enlaçamento do desejo e da realidade em

3 BORGES, Jorge Luis, O Aleph. São Paulo: Editora Globo, 1986, p. 132.

A ESCRI T U RA DO N O M E P R Ó P R I O 145
torno de uma assertiva que se precipitou na conjunção dos significantes que
construíram essa cena, determinando os rumos de uma vida: "Deixa comigo!':
Esse foi o momento do passe.
A operação da interpretação, separando S1 do S2, ou seja, estabelecendo o
avesso da proposta do inconsciente, criou um intervalo onde reinava a opacida­
de própria do gozo do sintoma, "bancarrotà: significante do gozo, significante
que indexa a falta. "Gozo opaco por excluir o sentido'� Uma passagem pôde, en­
tão, acontecer a partir da incidência da interpretação que, à maneira de um es­
tilo que sulca a tábua de cera, reinscreveu o Nome-do-Pai, revitalizando as ftm­
ções do traço unário, matriz simbólica, matéria-prima do nome próprio. Ora,
é o nome próprio que faz nó enquanto quantificador lógico, "como origem
riscada, cancelada da fala no lugar onde está como repetição do Nome-do-Pai e
como ato de nascimento"4 do sujeito. Esse é o efeito de um dizer verdadeiro qu�
deixa como rastro uma ranhura por onde se explicita que é impossível escrever
a relação sexual.5 Por mais que se tentasse, não era possível escrevê-la, e a letra
ruim, que se traduzia por impotência em atender à demanda materna, nada
mais era do que um véu que deixava certo saber na obscuridade.
A revitalização do nome próprio6 promoveu sua instalação como um
ponto de báscula no quadro de uma cena construída ao longo de um árduo
trabalho, reabrindo os caminhos ao fazer surgir um desejo inédito.
"Por isso a psicanálise, ao ser bem-sucedida, prova que podemos pres­
cindir do Nome-do-Pai. Podemos sobretudo prescindir com a condição de
,
nos servirmos dele :1 nos afirma Lacan. No entanto, esclarecemos, com Miller,
que dispensamos o Pai enquanto real, "à condição de dele se servir como
semblante': pois é «a título ou em lugar de semblante que o psicanalista entra

4 Cf. "Pour une logique du fantasme': ln: Scilicet 2/3. Paris: Seuil, 1970, p. 225. Na continua­
ção, lê-se: "É justamente por que se trata de instituir um discurso sobre a fantasia estru­
turado pelo discurso do inconsciente, e por que o nome próprio é o nó da fantasia, que é
importante fazer incidir sobre ele a negação. O escrito não tem pai".
5 LACAN, Jacques "Le Séminaire, Livre XXI: Les non-dupes errent" (1973-4) . Inédito, aula de
12 de fevereiro de 1974-
6 "Nome próprio: segundo tipo de identificação regressiva ao traço unário do Outro':
Cf. LACAN, Jacques. "Le Séminaire, Livre 1x: L'identification" (1961-2). Inédito, aula de 10
de janeiro de 1962.
7 No original: "C'est en cela que la psycahanalyse, de réussir, prouve que le Nom-du-Pere,
on peut aussi bien s'en passer. On peut aussi bien s'en passer à condition de s' en servir':
Cf. LACAN, Jacques. O Seminário, livrQ 23: o sinthoma (1975-6). Rio de Janeiro: Jorge Zahar
Editor, 2007, p. 132.

A P O S TA NO PASSE
na operação que se cumpre sob sua direção, desde que ele se ofereça como a
causa do desejo do analisante para lhe permitir produzir os significantes que
pre_sidiram suas identificações': 8
Assim, a "função da pressa'' fez precipitar o sujeito pelo umbral que ele
mesmo construiu.
A sessão que se seguiu girou em torno das elaborações·que o momento do
passe promoveu, para, na terceira, ficar claro que o endereçamento, a partir
de então, já não era mais feito àquele que se assentava na poltrona, e sim à
Escola. O trabalho, ali, estava concluído.
A fim de melhor transmitir o que lhes digo, retomo o grafo do desejo
para escrever, em S O D, "Agora é por sua conta!': em S(,A'.), "bancarrota" e, em
($ O a), "Deixa comigo!': resposta sempre presente em um sujeito que só
interessava nada saber do desejo. Finalmente, pode-se escrever "psicanálise"
em (d), pois se conquistou o que foi herdado.

8 MILLER, Jacques-Alain. ''I:Autre qui n'existe pas et ses comités d'éthique" (1996-7).
L'Orientation lacanienne. Inédito, aula de 20 de novembro de 1996.

A E S C R ITURA DO N O ME P RÓ P R I O 147
Lêda Guimarães1

A
O SI LEN C IO QUE SE ROM PE 2

UM S UJE I T O ATRAV E S SAD O P E LA D I V I SÃ O S U B J E T IVA, produzida pelo


gozo do padecimento histérico, buscava umá saída, ainda que sem "espe­
rançà: para o impasse subjetivo relativo à sua existência no mundo como
ü'm.a-
mulher - não desistia do investimento no amor, mas o estado gozoso de
�namoramento-era experimentado, de partida, como dev�stação. Impasse no
qual gozava do inconsciente, sustentando-se na defesa fundamental, muito
depois construída em análise sob a frase "entre a vida e a morte".
Em sua busca para uma saída desse impasse se efetivou seu encontro com
Freud, nos primeiros anos da sua graduação em psicologia, e de imediato
exclamou: "É isso que eu estava procurando!': Tínhamos, assim, um sujeito
à procura da psicanálise, antes mesmo de saber da sua existência. A trans­
ferência de saber à psicanálise de imediato se fez p'onto de captura, e desde
então se dedicou ferozmente ao estudo da psicanálise e à tentativa de iniciar
seu percurso analítico como analisante. A procura por um psicanalista que
desse partida à decifração do inconsciente chegou ao seu fim, quando, depois
da passagem por uma experiência clínica com dois analistas, encontrou na
terceira uma que verdadeiramente sustentava a função do desejo do analista,
produzindo logo na primeira entrevista a emergência do objeto a, fisgado
no traço do semblante do qual revestiu a analista - um olhar. Tal olhar, que
era a resposta da sua procura, engendra-se naquele momento como causa do
sintoma analítico, formulando-se como uma questão - "Por que me faço 'de

Nomeada Analista de Escola (AE) pelo Cartel do Passe bilingue da École de la Cause freu­
dienne (ECF) em fevereiro de 2000.
2 Testemunho publicado originalmente em Opção Lacaniana: Revista Brasileira Internacional
de Psicanálise, n. 28, São Paulo, 2000, jul., p. 20-3.

149
J;boba' para um homem?" -, questão que em si já trazia presente a resposta,
mas que, por ser inominável, residiu até o fim como silêncio, quando o passe
clínico produziu sua enunciação.
Dadas essas condições de entrada, percorreu um . processo analítico ao
longo de 15 anos, dedicando-se ao trabalho como analisante, implicada desde
o início na responsabilidade relativa ao seu gozo, ainda que ele estivesse oculto
na dimensão de uma insondável escolha do ser. No meio desse percurso, a
fluidez produtiva da associação livre fez passagem para a aridez dos limites
do saber do inconsciente. P<>nto de passagem que equivale à transposição do
Édipo com o pai para o Édipo primitivo com a mãe e a consequente cons­
trução da fantasia fundamental. Esse ponto de passagem se produziu com
a formulação da frase axiomática "entre a vida e a morte': a qual localiza­
va a posição de objeto mais-de-gozar que o sujeito sustentava para o Outro.
A formulação dessa frase abriu um terreno de análise que foi construído, pas­
so a passo, pelo esforço de formular em palavras o que nunca antes tinha sido
dito, nem ouvido, até que essa frase foi transposta para uma cena fantasmá­
tica central. Redução da selva fantasmática, que se precipitou no momento
mesmo em que se desvelou a identificação central ao pai.
A identificação central ao pai desvelou-se como um ideal fálico de se fazer
uma exceção à lei da castração, uma exceção à condição humana. Ao mesmo
tempo que se operou esse desvelamento, denunciou-se também que tal iden­
tificação recobria e sustentava-se num gozo masoquista de se fazer objeto de
gozo para o Outro, objeto dejeto, que se encarnava também do lugar da ex­
ceção. Da queda da identificação central, restou esse objeto dejeto, ali mesmo
onde localizou sua posição de gozo na cena fantasmática central.
Adveio de um período de análise em que a queda da crença no inconsciente
e o congelamento dessa cena fantasmática lhe fizeram dar voltas e voltas sem
saber o que mais poderia esperar da psicanálise. Ao longo desse período, o gozo
abjeto, subjetivado como humano, se espalhou também por todos os cantos
por onde andava, como uma inundação de bosta fétida que recobria a face
do mundo. Até que decidiu enfrentar-se, na transferência, com a ausência de
qualquer garantia no_ saber do Outro que pudesse operar uma mudança na sua
condição de gozo. Momento delicado, pois sabia que corria o risco de ema­
ranhar-se nos descaminhos da vertente imaginária da transferência, mas não
encontrava outra via a não ser confrontar-se com a inconsistência do Outro,
que colocava em iminência a falência da função sujeito suposto saber. Naquele
momento, um ato analítico preciso lhe reconectou com o entusiasmo pela psi­
canálise, pois tal ato lhe permitiu tomar a sério a evidência da presença do de­
sejo do analista, que havia emergido, numa clareza inequívoca, em um sonho.

150 A P O STA NO PAS S E


Operou-se, naquele momento, uma mutação na transferência. A posiçãb',
subjetiva de "nada mais esperar da psicanálise': sustentada num predomínio
da demanda ao Outro, ainda que sob a forma de um afeto depressivo marca­
do pela decepção, cedeu passagem para a emergência de uma nova posição
subjetiva, sustentada na prevalência do desejo, do "desejo de saber que fim
uma análise produz':
Desde então, o sujeito entregou-se ao puro funcionamento do dispositivo
analítico, numa posição de se deixar levar, abrindo, assim, a via direta para o
desfecho final.
Este «se deixar levar" pelo dispositivo analítico conduziu o sujeito aos
bastidores da cena fantasmática. Ao refazer os últimos passos da montagem
da cena, o sujeito pôde, por fim, retornar ao ponto que promovia a disjunção
entre o amor e o erotismo, disjunção que incidia sobre a posição feminina
em face do desejo masculino, numa alternância de valores entre a "santa" e a
"puta". Desvelou-se aí a função dessa disjunção: recobrir o gozo feminino da
mãe que, tomada de ódioenamoramento pelo seu marido, � fazia de devas­
tada, até o extremo de se deixar ficar "entre a vida e a morte': Da hiância do
desejo da mãe, que supunha responder como filha, indexando-se como. ob­
jeto, emerge o gozo feminino da mãe, com o qual esta se ocupava na parceria
sexual. Naquele momento de enccmtro com o gozo feminino da mãe, a cena
fant�sm_átic:a desmontou-se e, em seu lug�r, desvelou-se o que esta ocultava:
, o engano, o engano fundamental do sujeito, pois alojava o seu ser no vazio,
no ponto onde enunciou este juízo: não há.
Desvelou-se também aí a interpretação que fisgou do discurso do Outro
para construir uma herança sintomática que perpassava três gerações: avó,
mãe e filha. Herança construída pela linha materna, e que, pela incidência do
Nome-do-Pai, fazia recair sobre o gozo feminino um efeito de significação fá­
lica, fixando nessa posição de gozo a frase axiomática "entre a vida e a morte':
A queda da defesa fundamental operou, simultaneamente, a quebra do
mecanismo fóbico que mantinha em relação à posição feminina. Desvelou­
-se que o objeto fóbico, um animalzinho nomeado em sua cidade na.tal pelo
significante "esperança': mantinha a fobia da "esperança no amor", pois arti­
culava o gozo feminino à castração imaginária.
· Para surpresà do sujeito, mais além desse momento de encontro com o
vazio; mais além da travessia da fantasia, sua análise seguiu adiante. A posição
subjetiva de "se deixar levar" lhe conduziu então para o confronto último
com o gozo pulsional, que restava silencioso por trás da defesa.
Zona final de passagem� de se deixar ser tomada pelo puro horror. Entra
numa zona de experimentação de morte, inundada pelo gozo do masoquismo

O SILÊNCIO QUE SE ROMPE 151


erógeno, no ponto de inexistência da posição de sujeito, em que a experi­
mentação do gozo mortífero equivale à própria experimentação do não ser.
Traumatismo extremo, relativo ao que poderia ser denominado efetivamente
como o insuportável. Mas, para surpresa do sujeito, suportava o insuportável;
todo o seu percurso de análise foi nada mais do que uma longa preparação
de rompimentQ das defesas, para que, por fim, o sujeito decidisse se deixar
mergulhar no horror do inominável. _ Os únicos elementos que possibilita­
vam alguma tradução desse· horror pertenciam ao semblante de um Outro
terrífico sem lei, perante o qual entregava-se à pura inércia de se deixar ser
devastada, como um momento eternizado de morte.
Um ato analítico produziu o efeito de fazer emergir, pela primeira vez,
no ponto mesmo de puro gozo, a posição de sujeito desejante. Tal posição de
sujeito se efetivou ao enunciar um juízo que se afirma pela negação: "Estou
morta. Não, estou viva, pois estou aqui falando': O que residia na dimensão
da insondável escolha do ser se transmudou, naquele momento, num ato de
decisão do sujeito desejante: "Lutarei pela minha vida com todas as forças".
Imediatamente, a câmara de horror começou a ruir, e o sujeito experi­
mentou-se renascendo para a vida.
Por ocasião do último Encontro Nacional da Escola Brasileira de Psica­
nálise, na Bahia, o sujeito em análise encontrava-se num estado de convales­
cença subjetiva, experimentando um gradativo emanar de fruição de vida, à
medida que as lembranças do horror iam se esvaindo como névoas e a ferida
aberta pelo traumatismo 4�º gozo · se fechava pouco a pouco. Acompanhando
atentamente o seminário q osso de uma análise/quando Miller começou a fa­
lar da operação de reduç�o ao n;al, o sujeito enunciou em seus pensamentos:
"É este elemento que aipda falta,um nome!" Perguntou-se que nome_inventa�
e, de imediato, este nome lhe veio. Sem .pressa, guardou esse nome no bolso
dos achados essenciais, para enunciá-lo depois no dispositivo analítico.

O PA S S E C L Í N I C O

Em sessão de análise, na presença do analista, enunciou o se.u nome. de gozo:


((Mundana': Naquele exato instante, o semblante do olhar, relativo ao encontro
contingencial de gozo, emergiu como uma presença tão vívida que quase alu­
cinatória - um "olhar ardente': Naquele exato instante de enunciação do nome
"Mundana" e de presentificação do "olhar ardente': o sujeito experimentou uma
transformação subjetiva como uma explosão, provocada por um grampo que
se destravou. O que se passou aí se compõe de várias coisas num só instante:

152 APO STA NO PASSE


Perplexidade +-� Certeza +-� Saber +--� Mutação

Perplexidade: Era grande a alegria e a perplexidade de haver certeza,


perplexidade diante da emergência de saber e perplexidade pela mu­
tação que experimentou naquele instante;

Certeza: "É isto: Mundana': "Não há mais perguntas, só resposta': "É o


fim, é o fim de minha análise". Assim afirmou o sujeito numa certeza
inequívoca.

Saber: A presença quase alucinatória do "olhar ardente" conectou na­


quele exato instante a sequência de três cenas infantis, reduzindo a
história do sujeito ao encontro com esse olhar. A conexão entre as ce­
nas adveio como uma flechada retroativa, presentificando o encontro
com o objeto olhar� desde a última cena até a primeira.

Cena A Cena B Cena e


1° encontro com o gozo 2° encontro com o gozo 3° encontro com o gozo
(4-5 anos) (9 anos) (10-11 anos)

Naquele instante de passe, emergiu também o saber relativo à função que


o ''olhar ardente" adquiriu, articulado em seu grampo ao Nome-do-Pai, ins­
tituindo-se nessa sequência de cenas como modo singular de gozo e núcleo
do supereu. O objeto olhar mais-de-gozar, grampeado ao silêncio mortífero
do masoquismo erógeno, funcionava como uma voz silenciosa que devastava
o sujeito no ponto de experimentação do gozo feminino.
Emergiu também, naquele mesmo instante, o saber relativo a outro traço
do olhar, que funcionava como um véu de defesa, tentando recobrir a frui­
ção de libido que emanava do "olhar ardente" � "olhar de boba': "Olhar de
boba, de se fazer crente da existência do Outro".
O saber relativo ao ponto de gancho na transferência aí se evidenciou:
o "olhar de boba': fisgado no semblante-do qual a analista foi revestida, que
deixava reluzir sutilmente o brilho do "ardor" libidinal, instituindo-se na­
quele encontro primeiro como um saber enigmático. Essa explosão de saber
emergiu em apenas um instante, no momento do passe clínico, o qual se
efetuou também como um instante de mutação.

O S I LftNCIO QUE SE R O M P E 153


M UTA Ç Ã O

A enunciação do nome de gozo "Mundana" rompeu, naquele instante, o si­


lêncio da pulsão de morte, que, articulado à função do Nome--do-Pai, fixava
no gozo feminino a experimentação da devastação. O que funcionava como
voz do Outro, como veredito inominável devastador, destravou-se do silên­
cio, inundando de libido o objeto "olhar ardente': o qual, naquele momento,
presentificou-se como traço do semblante de gozo do falasser.
O Nome-do-Pai grampeado ao masoquismo erógeno, que projetava uma
câmara paranoica acompanhando secretamente o sujeito, mantendo-o per­
manentemente em risco de experimentar-se devastado sob o olhar-voz do
Outro, destravou ..:.se, fazendo emergir do silêncio que se rompe uma satisfa­
ção libidinal íntima, privada, e quebrando a ferocidade do supereu.
O passe clínico produziu, assim, uma mudança radical no regime de gozo,
ainda que dessa operação sobrasse um resto de grampo sintomático. O passe
clínico produziu também uma mudança radical no estatuto da castração.
A castração perde o seu valor imaginário de dano, estabelecendo-se aí em sua
função estrutural de vazio. O que era dor de existir se transmuda em satisfa­
ção por aceitar, enfim, a condição humana. Pois a firme instalação da posição
de sujeito, diante do desejo e do gozo, lhe permite sustentar o desejo desde o
vazio qu� é o seu próprio lastro, como também acionar a chave do nome de
gozo, desde uma posição ética, no saber haver-se aí com o resto sintomático
do silêncio que não se rompeu, mas que sobre ele o nome de gozo, em sua
função de letra, se fez inscrição.
Sobre a base dessa nova posição subjetiva, o sujeito reafirma sua esco­
lha pela psicanálise, sustentando com firmeza a função do desejo do analista
na clínica. E, dedicando-se ao trabalho pela causa analítica, movida por um
afeto profundo de gratidão pela psicanálise, esta que lhe produziu cidadã do
mundo humano, cidadã do mundo da psicanálise.

154 A P O S TA NO PASSE
Elisa Alvarenga1

A F Ó RM U LA Q UE NÃO EXI S TE 2

A P S I CANÁLI SE DE ORIENTA Ç ÃO LACANIANA, a dos alunos de Lacan


que mantiveram o passe no centro de sua Escola, permite, definitivamente,
ir além dos impasses da transferência encontrados por Freud, impasses dos
quais, ao final de sua vida, ele testemunhou no seu texto "Análise terminável
e interminável", de 1937. No final de uma análise, se não dispuséssemos da
invenção do passe como possibilidade de uma demonstração lógica, pode­
ríamos pensar em manter a indicação freudiana das fatias de análise para
acalmar a pulsão, sempre disposta a vir perturbar a homeostase, certamente
impossível, do sujeito.
O passe, para mim, foi uma aposta para lidar com aquilo que da trans­
ferência parecia impossível de tratar dentro do próprio dispositivo analítico.
A Escola, portanto, parece-me ser o lugar onde o que resta da transferência,
impossível de liquidar, pode dar seus frutos.

D O S U P E RE U AO É D I P O

Uma análise começada 12 anos antes seguiu-se a uma longa psicoterapia e a


duas tentativas de análise anteriores, nas quais o sujeito se viu perdido nos
labirintos do amor de transferência. A é�nça no amor, paixão do sujeito, era
sem saída. Tendo partido do país com o ihtuito de fazer uma tese universi-

Nomeada Analista de Escola (AE) pelo Cartel do Passe da École de la Cause freudienne
(ECF) eni novembro de 2000.

2 Testemunho apresentado na EDP-Minas Gerais e publicado originalmente em Opção La­


caniana: Revista Brasileira Internacional de Psicanálise, n. 30, São Paulo, 2001, abr., p. 10-3.

155
tária, logo descobriu que buscava uma bússola para sua clínica: instalara-se
como psiquiatra e começara a estudar psicanálise, mas não sabia rtmito bem
o que fazia. Retroativamente, se dá conta de que não tinha como se autorizar.
Buscava, sobretudo, uma orientação para sua vida: havendo passado muitos
anos em franca rebeldia e desafio aos significantes mestres, encontrava-se
bastante perdida e não sabia muito bem no que acreditar. Era assim que bus-
cava, paradoxalmente, fazer existir o Outro.
Um encontro decisivo com a Orientação lacaniana, transmitida por seus
primeiros supervisores em psicanálise, se deu pelo texto "Clínica do supereu,':
conferência proferida por Jacques-Alain Miller, em Buenos Aires, em 1981.
O encontro com o significante da transferência ocorreu na mesma direção,
quando assistiu a uma conferência daquele que seria seu analista na École de la
Cause freudienne, conferência cujo título evocava o sofrimento do sujeito então
em busca de referências. A suposição de saber instalada desde aquele momento,
dirigida a esse significante do analista, levou-a a iniciar aí uma análise, alguns
meses depois, análise que estancou sua errância e a pôs finalmente a trabalho.
No momento de fazer o passe, dá-se conta de que o significante da transferência
reunira dois traços: a severidade suposta ao pai e o saber suposto à mãe.
O início, difícil, foi marcado pelo desgosto em relação ao saber, manifesto
em um sonho, no qual esgotos escorrfam das estantes, cheias de livros, da
sala de espera do analista. Sua questão, então desconhecida para ela, que se
encontrava toda identi�cada do lado masculino das fórmula$ da sexuação -
sujeito dividido pelo gozo fálico -, já se manifestava, no entanto, em outro
sonho do início da análise, no qual o analista aparecia travestido, sob uma
longa cabeleira de mulher.
A entrada em análise se deu após um sonho em que a analisante contava a
uma analista muito severa as histórias de Mil e uma noites, tal como Schehe­
razade, que evitava assim sua morte. De fato, falar ao analista lhe parecia a
única saída possível do gozo mortífero no qual se encontrava embaraçada.
Percebeu então que a estratégia de substituição; até esse momento prepon­
dera:nte em sua vida, estancava ali, isolando uma frase que acreditava ser a
fórmula de sua fantasia fundamental. Por trás dessa primeira frase, só muitos
anos depois, no momento da demanda de passe final, veio a descobrir uma
segunda frase, a qual enunciava sua maneira de experimentar a castração,
velada pela estratégia da fantasia formulada na primeira frase.
A fantasia fundamental tem sua matriz no início de sua vida, por ocasião
de uma primeira perda real, a perda do pai aos dois anos de idade. Não se
lembrava do fato, mas do que a mãe lhe havia contado, de sua própria von­
tade de ir junto com ele. Esse abandono pelo desejo da mãe permaneceu ve-

A P O S TA NO PASSE
lado pelo seu esforço de cuidar da castração materna, ao qual se entrega, das
mais variadas formas, oferecendo-se falicamente para sustentar a imagem
dessa primeira mulher idealizada, uma mulher que, jovem viúva, criou as fi­
lhas pequenas e seguiu uma carreira no estudo das letras. A idealização dessa
mulher, estudiosa e trabalhadora, custou-lhe uma longa inibição no traba­
lho intelectual criativo. Uma depressão infantil, por volta dos sete anos, já
se manifestava j usti:ficada, na época, pela carga de deveres escolares exigidos
durante as férias: no lugar do gozo esperado, ela devia estudar. �ssa depressão
teste:'llunhava o luto por realiz�, encoberto pela ideia, transmitida pela mãe,
de que teria de se haver com um pai muito severo, não o houvesse perdido.
O sentimento de culpa edipiano vem dessa forma se manifestar.
Aos 11 anos, no entanto, a perda se atualiza de outra maneira, quando a
mãe volta a se casar. Uma cena, por volta dessa época, fixa sua posição como
objeto, olhar, excluído do par formado pela mãe e seu novo companheiro,
um homem que havia vivido e estudado no exterior. Ela está prestes a entrar
na sala, quando os vê refletidos na vidraça, dançando enamorados. Para ator­
doada. Sentindo-se traída, vai entregar-se à repetição, desde a adolescência,
de uma busca que a decepcionará. O gosto pelas línguas estrangeiras talvez
venha de tal época, quando o casal conversava às vezes em outra língua, para
preservar sua intimidade, da qual se . via excluída. A decisão pela medicina
também se faz por identificação com o padrasto, o qual ela decepcionará,
em breve, no momento em que escolhe a psiquiatria e, logo, a psicanálise.
O gosto pelo estrangeiro também determinará, alguns anos depois, a escolha
de um companheiro, ao qual, após algumas idas e vindas, e vários anos de
análise, permanecerá ligada por um novo laço.
O sintoma central se instalará após o casamento, no momento em que
repete a estrutura fantasmática fundamental. Uma importante anorexia, de
longa duração, instaura-se quando, identificada com aquela que a <<traiu': re­
pete a sua primeira frase. Esse sintoma, tentativa de sustentar o desejo a duras
penas, não deixa de fazer apelo ao Outro, a quem angustia e faz consistir com
a estratégia de recusar o que ele quer lhe dar. Trata-se de um retorno ao pri­
meiro Outro: do risco de fazer-se devorar por seu amor, passa à posição de
comer ou não comer, situando o objeto oral, oferecido pela mãe, no primeiro
plano. A anorexia, real, torna-se uma forma de recusa da feminilidade, do
corpo, da castração, manifestando-se, enquanto mental, no não querer nada
saber sobre tudo isso. Muitos anos se passaram, com tentativas, infrutíferas,
de separar-se de um Outro a quem tudo demandava, sem nada poder receber.
A castração, que . não qµeria aceitar, era encontrada a cada fracasso na sua
procura, sintomática, de encontrar o objeto que a faria mulher.

A F Ó RMULA QUE N Ã O EXISTE 157


É assim que chega à análise, devastada, se podemos dizê-lo, pelo imperati­
vo de gozo do supereu. O primeiro ato do analista, que permitiu que essa aná­
lise pudesse acontecer, foi dizer-lhe não. O pai severo, de quem tanto fugira,
foi reencontrado no semblante que o analista inicialmente encarnou. Pôs-se
a trabalho, descobrindo a lógica implacável do inconsciente, cujos efeitos, so­
bre o corpo e nos afetos, a surpreendeu. Um efeito depressivo advém, a libido
é mortificada pelo trabalho significante. O excesso de gozo dá lugar a uma
extensa falta de gozo: a culpabilidade ligada ao excesso torna-se culpa devida
à falta.
Devendo retornar ao país de origem, ao final do trabalho universitário,
continua sua análise em fatias, como dizemos, com a regularidade que · 1he é
possível. Engaja-se na construção da Escola Brasileira de Psicanálise, da qual
se torna membro, e recomeça a clinicar, desta vez orientada por seu trabalho
de análise, além de suas supervisões. Alguns ganhos terapêuticos são inegá­
veis: da posição de ser o falo, desprovida de bens e mesmo dos atributos da
feminilidade, ela pode vir a ter algumas coisas: ganhar sua vida, ter um com­
panheiro, ter um filho. Continua a análise, sempre buscando no analista uma
referência, um sustento para o seu desejo de analista, até um momento cru­
cial, dois anos e meio antes, quando um final possível pode ser vislumbrado.

A LÉM D O É D I P O : O O B JETO

Uma primeira queda do sujeito suposto saber - e uma passagem, eu diria,


além do pai - se manifesta por ocasião de uma crise na Associação Mundial
de Psicanálise, na qual se anuncia uma série de rupturas no Campo freudiano.
O analista, que até então servira como referência fundamental - um repêre,
como se diz em francês, e, traduzindo literalmente, um re-pai, ou seja, aquele
que tornou possível a construção da história edipiana, fazendo semblante de
uma função aí buscada, em sofrimento -, cai do lugar de sujeito suposto saber
fazer o pai, primeira queda de uma série, revelando a falta de garantia que ela
tentava acobertar com a transferência. Isso foi possível não somente pela con­
juntura então presente no Campo freudiano, mas sobretudo pela constatação,
pela analisante, que o analista não podia lhe dar o saber que ela esperava obter,
naquele momento, sobre ser mãe. A questão da feminilidade escondia-se por
trás daquela sobre a maternidade, da mesma maneira que o sujeito suposto
saber se encontrava até aqui ligado, na sua vertente imaginária, ao lugar do pai.
A cada fatia descobrira, até então, uin elemento do . seu quebra-cabeça:
a outra mulher, confundida com uma figura idealizada do saber, ou do poder;

APOSTA NO PASSE
o pai, tentativa de garantia contra o gozo fálico; o objeto, tampão, sob as
espécies do nada, do objeto oral, do filho. Com o olhar, objeto privilegiado,
manifestava-se, sobretudo, a inibição quanto ao saber. Embora muito curiosa,
e mesmo bulímica quanto ao saber, este era do Outro, que ela tornava assim
consistente, colocando-se na posição de espectadora, excluída da cena onde
o saber se produzia. Essa fantasia, além de lhe valer incômodos sintomas no
nível dos olhos, mantinha-a na anorexia mental, tal como Lacan a apresenta:
as ideias eram sempre do Outro.
Esse momento, que eu chamaria de passagem além do pai, tem como
consequência, na sua vida, uma emergência pulsional, um retorno da libido
até então profundamente mortificada ao longo do trabalho de análise, que
agora exige satisfação, para além da satisfação masoquista ligada à lógica do
significante. É surpreendida por um novo desejo, que não deixa de tornar-lhe
a vida mais alegre, mas também mais difícil, pois sua contrapartida a assusta:
nada para garanti-la no seu caminho, que não sabe onde vai dar.
Na próxima fatia de análise, alguns meses depois, revela-se uma transfe­
rência negativa: o analista está sob suspeita, será que vai saber conduzi-la até
o final? Sabe que não há retorno possível, mas não vê ainda a saída. Essa fatia
se conclui com um pensamento, ridículo, que lhe vem à cabeça e a descon­
certa: o analista é desta vez dessuposto na figura do- velho pai da psicanálise,
enquanto a analisante se apresenta na pele de uma analista conhecida, na
opinião de Freud, como mulher incurável.
À medida que caem as garantias, trabalha melhor na Escola, desembara­
çada que se encontra dos ideàis que tanto sustentava em alguns personagens.
Na próxima fatia, é surpreendida por um sonho: ela rouba uma fórmula, es­
crita em um pedaço de papel, das mãos de um membro da Escola, portador de
atributos fálicos. Essa fórmula, suposta ensinar-lhe como fazer existir a relação
sexual, não lhe ensina, no entanto, exatamente o que ela quer. Avisada que está
das artimanhas, dos equívocos, das peças que lhe prega o inconsciente, não fica
por isso menos perplexa diante deste sonho-interpretação, no sentido em que,
como o indica Jacques-Alain Miller, o inconsciente interpreta.
Ainda está às voltas com este sonho, quando um outro a surpreende, cla­
ramente alusivo a uma separação do analista: ele mesmo lhe entrega, deixan­
do-a só, um personagem, condensação do analista com alguém de quem deve
se separar como objeto. Retornando ao primeiro sonho, pensa, inicialmente,
que não é o saber da psicanálise · que daria a fórmula, e sim que ela mesma
é quem deveria construí-la, encontrando sua própria solução. Conclui, em
seguida: · esta fórmula não existe. Mais uma vez, dessuposição de saber ao
Outro: Õ Outro da fórmula não · existe. O modelo anoréxico de roubar as

A F Ó R MULA QUE NÃO E X I S TE 159


ideias de outros, segundo o exemplo dado por Lacan em «A direção do tra­
tamento e os princípios de seu poder"3 - aqui, roubar a fórmula do Outro -
perde a sua razão de ser.
No próximo encontro com o analista, diz-lhe do desejo de fazer o passe,
antigo desejo que ainda não havia encontrado o momento clínico, na análise,
para ser atualizado. O analista a encoraja. Há aí uma aposta, uma vez que a
conclusão e a separação definitivas da análise serão possíveis graças à entra­
da no dispositivo. Entre a demanda de passe e a entrada no procedimento,
vem um terceiro sonho: ela nada, no mar, agarrada a um submarino. Tem
medo de se soltar e ficar perdida. De repente, o submarino está em terra
firme, aberto, rodeado de pessoas. Desta vez, o sonho lhe parece límpido: a
água do mar, como em tantas de suas formações do inconsciente, representa
o gozo, fazendo equívoco, na língua francesa, com o vocábulo mãe, primeiro
Outro do sujeito. O submarino representa o saber inconsciente, suposto, do
qual ela teme se soltar. Gozo do saber, portanto. O submarino aberto, sobre
a terra, rodeado de gente, representa seu desejo de exposição de saber, de
transmissão, no dispositivo do passe.
Entra no procedimento, mas tem, efetivamente, dificuldades de soltar-se
desse saber, produzido, e de separar-se do analista, objeto, semblante, mas ao
mesmo tempo pessoa admirada,· com quem gostaria de continuar falando.
Um afeto depressivo se faz presente.
Alguns encontros, difíceis, contingentes, com a figura d'A mulher, ou
ainda, d'A analista, lhe causam profundo horror, levando-a a concluir que,
dessas figuras d'A mulher ou d'A analista que tanto procurava ser, é melhor
manter-se à distância. Cessa a demanda, insaciável, nesse encontro com a
mulher não-toda, que tem seus limites, marcada pela castração, mas não..:
-toda fálica, que encontramos do lado feminino das fórmulas da sexuação
elaboradas por Lacan, no materna do A barrado. Da posição de objeto, tantas
vezes abandonado pelo falo, passa à posição de objeto causa de desejo, aban­
, clonando o gozo fálico no encontro com o S(A). Há um efeito de leveza, de
pacificação em seu cotidiano e em sua prática, e o desejo de ser nomeada.
O cartel do passe lhe pede outro testemunho, chance para um novo relato,
desta vez descolado do saber produzido, sem tristeza, com uma melhor for­
malização dos elementos de sua história e de sua análise.

3 LACAN, Jacques. "A direção o tratamento e os princípios de seu poder" (195 8). ln: Escritos,
Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 1998.

160 APOS TA N O PASSE


Se durante a análise a preferência dada ao inconsciente tendia a recobrir,
com o simbólico, todo o imaginário e o real, à medida que o sujeito, dividido,
avançava em seu trabalho, outro corte foi necessário ao final, para restaurar
o nó borromeano em sua forma original, como o diz Lacan. Isso a impedia
de continuar, infinitamente, a contar mais uma história. Houve então, na reta
final, aquilo que Lacan chamou de contrapsicanálise, em seu ainda não pu­
blicado "O Seminário, livro 24: L'insu que sait de l'une bévue s'aile à mourre'�
O jogo de palavras aí contido nos diz que "o insucesso do inconsciente é o
amor': e daí a necessidade da contrapsicanálise.
Resta um traço sintomático, resquício do Outro, que, com seu desejo, dei­
xou uma marca, resto de gozo pulsional que não pode ser negativado pelo
significante. A divisão do sujeito, incurável, manifesta-se hoje no desejo de, a
partir desse pedaço de real, continuar transmitindo os pedaços de saber que
não cessa de elaborar.

A FÓRMULA Q U E N Ã O EXISTE 161


Ana Lucia Lutterbach Holck1

2
R E LAT 0

como escolha forçada, isto é,


A E XP ERI Ê N C I A D E A N Á L I S E REA L I ZOU- S E
não havia o que fazer a não ser fazer análise. Fazer o testemunho também é wna
escolha, mas de outra ordem; fui instigada pelo desejo de fazer do que restara
uma outra escrita, menos íntima, voltada para o trabalho comum da Escola.
Para relatar uma análise que durou muitos anos, e dado que um de seus
efeitos foi o esquecimento, só pude contar com as sobras, vestígios que resta­
ram de um desaparecimento. Escrever com o material restante é uma outra
história.
Não existe uma fórmula a priori para tornar-se analista, mas cada um, ao
tentar dizer de que se serviu para fazer a própria análise, pode formular uma
maneira singular de se apropriar dos conceitos em sua prática clínica.
Dado que os fios são tênues, para dar textura, foi preciso certo forçamento;
para tanto, estabeleci diferentes tempos da análise e um nome para cada um
deles. Esse artificio, no entanto, pode imprimir certa linearidade ao relato,
que não corresponde à experiência pautada por idas e vindas, momentos de
desarvoramento quando as posições alcançadas já pareciam irreversíveis.
O primeiro tempo, biografia ou vida descrita, foi orientado pelo imediato,
em relação aos acontecimentos tanto presentes quanto passados. A fala era so­
bre o que, supostamente, já estava lá, saber pré-escrito. O esforço empenhado
nessa narrativa me colocou na vfa da crença no inconsciente como algo

Nomeada Analista de Escola (AE) pelo Cartel do Passe da Escola Brasileira de Psicanálise
(EBP) em 11 de setembro de 2007.
2 Testemunho apresentado na EBP-Rio em 3 novembro de 2007 e publicado originalmente
em Opção Lacaniana: Revista Brasileira Internacional de Psicanálise, n. 50, São Paulo, 2007,
dez., p. 32-9.

163
guardado, a ser reconquistado. A partir desse engodo, aos poucos o passado
foi se constituindo como verdade.
Depois de certo esgotamento dessa primeira etapa, abriu-se uma bre­
cha no sentido, deixando prevalecer traços, marcas esparsas de gozo, que me
permitiram construir a fantasia, ou seja, me dar conta dos meios que havia
utilizado para me haver com o real. A essa invenção da história como ficção,
tentativa de escrever o que não está lá, chamei biografagem: vida de escrita.
A travessia da fantasia levou à localização de minha posição em relação
às diferentes formas do objeto, precipitando um terceiro momento em des­
continuidade com o anterior, algo destacado do saber articulado, um certo
apagamento do significante e a emergência da palavra em sua materialidade
de letra. A essa última etapa chamei biografema:3 escrita vida, uma escrita
contando com o real, mais próxima da escrita poética, último véu que deixa
entrever um fragmento do objeto real.

B I O G RAF IA : V I DA D E S C R I TA

Algum tempo depois do término de uma análise realizada muito jovem e que
não deixou poucos efeitos terapêuticos, estava mais uma vez devastada pelo
amor, quando achou seu segundo analista. Encontrou-o em outra cidade, em
outro lugar; não era familiar nem mestre, onde ela sempre acabava caindo,
mas um "estranho': significante qualquer que marca a entrada na transferên­
cia, indispensável condição para começar a análise.
No início era a angústia, não havia verbo, nem sujeito, nem predicado.
Só a angústia e o corpo que a habitava, angústia que lentamente foi cedendo
lugar à fala na associação livre.
Nessa primeira etapa da análise, tratava-se de uma narrativa verossímil,
prosaica, em que acontecimentos patéticos eram relatados repetidas vezes
com uma conotação épica, grandiosa e heroica. Tudo tomava sentido e muitos.

3 "Pois se, pelo artifício de uma dialética, é necessário que haja no Texto, destrutor de qual­
quer sujeito, um sujeito que se deva amar, esse sujeito está disperso, um pouco como as
cinzas que se lançam ao vento depois da morte [ ... ] : se fosse escritor, e morto, como gos­
taria que a minha vida se reduzisse, pelos cuidados de um amigável e desenvolto biógrafo,
a alguns pormenores, a alguns gostos, a algumas inflexões, digamos: 'biografemas� em
que a distinção e a mobilidade poderiam deambular fora de qualquer destino e virem
contagiar, como átomos voluptuosos, algum corpo futuro, destinado à mesma dispersão!':
BARTHEs, Roland. Sade, Fourier, Loyola. Lisboa: Edições 70, 1979, p. 14.

A P O STA NO PASSE
Nesse roteiro, o pai era o herói. De uma família de pequenos proprietá­
rios rurais no interior de Minas, mas sem saúde para cultivar a terra, migrou
jovem para a capital a fim de estudar. Depois de muitos percalços para se
formar, voltou para o interior para exercer a medicina. De um mundo onde
só os homens sentavam-se à mesa, o pai passou à cabeceira de uma mesa só
de meninas, onde era servido, entre encantado e constrangido, pelo universo
feminino. Não tinha um filho, seu desejo e temor era mantê-las para sempre.
A mãe, de uma família da aristocracia rural decadente e até perder o
único filho que não teve, fazia existir a relação, inspirando-se nos filmes de
Hollywood; assim, dia a dia produzia com papai-sabe-tudo a família feliz,
vestindo e desinvestindo as meninas.
Uma lembrança infantil: aos dez anos, sentada horas a fio, sem uma pa­
lavra, deixava-se cair sem rede num abismo infinito e sem sentido ao lado da
cama da mãe dilacerada pela perda, no parto, de seu quinto filho, o que seria
seu único menino.
Em torno de um pai ideal, portanto, não talhado para a função de inter­
dição do gozo materno, havia um movimento de intermitência entre o agir e
o abismar. Entre a bela e o bebê morto, ela caía des-emendada num desejo de
desaparecer. A fobia e as brincadeiras infantis não bastavam para emendá-la.
O primeiro amor portava o sobrenome do pai, amor cortês em que ela
ocupava a posição de objeto supervalorizado. Identificada ao objeto ideal,
mas não sem prescindir da carne e do osso, sustentava a bela imagem falici­
zada que encobria um corpo todo erotizado, por onde a pulsão escorria sem
limite e sem destino produzindo um excesso de sexualização. Num corpo as­
sim, onde as zonas erógenas eram desenhadas em linhas frágeis e indefinidas,
lugares surpreendentes tornavam-se excitáveis e nada acontecia onde deve­
ria. Os prazeres preliminares funcionavam como uma espécie de sublimação,
como uma forma precária de proteção ou mediação ao gozo genital, vivido
como ameaça à integridade do corpo.
O segundo casamento foi com alguém que, apesar de desconhecido, era
"coincidentemente" da mesma distante cidade de seu pai e portava, mais uma
vez, o mesmo sobrenome. Não eram apenas os significantes que se repetiam;
depois de escapar da devastação, ao encontrar um novo parceiro, transmitia-
-lhe, tal como Justine, as coordenadas de seu gozo masoquista, concedendo,
assim, a cada vez, o modo de reproduzi-las. Agora não mais identificada ao
ideal, mas ao objeto da fantasia perversa, a sexualidade encontra no órgão
seu destino fálico.
Mas a identificação petrificante ao objeto dejeto da fantasia masculina e
o gozo fálico deixavam um resto que produzia dor e humilhação, gozo maso-

RELATO
quista mortífero. Uma identificação que não bastava para recobrir o gozo
feminino, que mais uma vez transformava-se em angústia. O supereu mos­
trava então sua face de imperativo de gozo e apresentava-se como um Outro'
tirânico, uma injunção ao gozo, "como se fosse" uma voz do real.
Nessa primeira volta, ressalta um significante, um S1, "bela': significante
de uma identificação fálica que irá dar contorno ao sem fronteiras do femi­
nino. Bela diante do olhar materno que a vestia, essa identificação tornou-se
o eixo da vida amorosa, tomando sentidos diferentes segundo a prevalência
do gozo em questão. Se o significante "bela" tomou força e importância, foi
justamente porque vinha recobrir o que feio lhe parecia. Se, por um lado,
recobria o real da carne e, sob o significante, fazia erigir A mulher que se
alojava toda no furo do Outro para garantir sua existência, resultando em
erotomania histérica e sedução, por outro lado, ao cair, produzia masoquis­
mo e devastação, deixando descoberto o puro nada, ao qual se identificava.
Em tal etapa, o significante esforço surgia como indício da posição maso­
quista de sacrificada e a interpretação do analista pontuou certo deslocamento
de esforçada para ex-forçada, marcando a entrada em um segundo tempo.

B I O GR A FAG E M : V I DA D E E S C R I TA

A biografagem ou vida de escrita é a escrita ficcional, fantasia criada para


velar o real, no sentido tanto de esconder como de cuidar, de propiciar sua
função sem causar horror.
A separação entre S1 e a, alcançada na etapa anterior, além dos efeitos
terapêuticos, criou meios para a construção da fantasia e uma nova experiên­
cia libidinal, um novo amor. O trabalho na clínica, depois de passar por um
período de questionamento que abalou certezas e convicções e uma desiden­
tificação com o objeto da fantasia, encontrou no desejo do analista seu lugar
diante do analisante. O terceiro casamento escreveu um outro nome e um
outro lugar, o de causa.
Depois de uma proliferação de sonhos de angústia cheios de detalhes e de
sentidos, surge um sonho simples. É uma cena: um cachorro defecando um
patê é olhado por um jovem. Estão no sonho as diversas versões do objeto
soletrado no corpo: objeto oral, objeto anal, objeto olhar, o falo e o objeto da
fobia infantil.
A interpretação sem sentido do analista, "Esse patê é você': e o corte da
sessão tiveram como efeito um deslizamento de sentido: fazer-se cão, posi­
ção masoquista como observa Lacan em O Seminário, livro 10, fazer-se "patê"

166 A P O STA NO PASSE


(para ser tida), fazer-se "pavê" (para ser vista), fazer-se "pá cumê" (para ser co­
mida), fazer-se <<pra tudo" e, finalmente, «pastout': Da série de sentidos surge
um sem sentido, "pastout': um significante da falta no Outro, S(,A) .
A identificação ao objeto anal indica, na vertente de gozo, a posição em
relação ao Outro, tanto de retida, objeto fálico precioso, quanto de caída, ob­
jeto dejeto; na vertente significante, dá um sentido cômico ao <'bela", ou seja,
<<bela como uma bela merda': Do "patê" ao "pastout" revela-se o real da estru­
tura feminina; de lalangue à língua da psicanálise conclui-se que só há relação
contingente.
Em Freud, o Édipo feminino exige duas tarefas, a transferência de objeto,
da mãe para o pai, e de zona erógena, do clitóris para a vagina. Em Lacan, tra­
ta-se de dois gozos, o fálico e o feminino. O gozo fálico, ao encontrar apoio no
Nome-do-Pai, vem também limitar o gozo ao órgão, propiciando um circuito
pulsional restrito às zonas erógenas eleitas. Uma mulher, tal qual o homem,
pode encontrar aí o seu destino, como o próprio Freud observou, e isso pode
ser uma saída digna, mas como a mulher encontra no corpo um precário
apoio imaginário para essa função e nenhuma especificidade d'A mulher no
simbólico, sobra um resto não simbolizado que retorna na forma de angústia.
Identificada ao objeto idealizado ou ao objeto perverso, a mulher se satis­
faz no gozo fálico. A vagina não é uma zona erotizada na relação primordial
com o Outro, como ocorre nas zonas oral, anal e fálica; ela permanece desco­
nhecida e sua descoberta exige outra tarefa. É concedendo ocupar o lugar do
objeto causa de desejo para um homem que a mulher encontra destino para
a feminilidade. Trata-se, portanto, de uma dedução lógica decorrente da dis­
solução do Édipo, ou seja, é preciso a extração do objeto e o confronto com
o furo no Outro para que a sexualidade se solte das zonas erógenas previstas
na organização infantil perversa polimorfa e encontre no furo seu destino.
Talvez seja por isso que o amor tome tanta importância para uma mulher,
principalmente se for uma histérica, pois é por meio dele que ela procura
realizar algo do sexual. Uma mulher, quando devastada em sua relação com
a mãe, elege para amar um homem que cumpre a função na fantasia, de tal
forma que ela possa ocupar o lugar do objeto masoquista. O amor pode, as­
sim, tomar as formas mais loucas e variadas nessa busca para dar lugar ao real , .
que resta no exercício do gozo fálico.
A mulher não existe e nem é possível tornar-se mulher de uma vez por
todas. O impossível não é eliminável, todavia, uma vez que, certo cálculo foi
realizado, ela pode encontrar a cada vez um saber-''.'fazer com isso (savoir y
faire). Um homem também deve encontrar lugar para a experiência com o
feminino, mas suas estratégias seguirão uma outra trajetória.

RELATO
Depois da construção da fantasia, submeti-me ao passe de entrada e tor­
nei-me membro da Escola. Se, anteriormente, já havia se delineado o desejo
de analista na clínica, essa passagem foi um momento importante para de�
<luzir a função da Escola, que não está dada de antemão. É preciso que cada
um encontre uma maneira própria de depositar sua experiência e de recolher
desse lugar comum algo que possa fazer continuar a existir a psicanálise.

B I O G RA F E M A : E S C R I TA V I DA

Biografema ou escrita vida é a escrita que se aproxima da poética, em que


há uma primazia da letra sobre o significante. Se o privilégio foi concedido
na biografia à proliferação de sentido e na biografagem à ficção, no terceiro
momento ele é dado à letra. A vida toma o lugar de um adjetivo e deixa de
ser substantiva, como nos dois primeiros momentos. Substância da escrita,
mas no que a escrita tem de corpo, dando-se a ver na sua dimensão mate­
rialmente sexual, "sexo de ler': como ensina a escritora portuguesa Maria
Gabriela Llansol.4
Na passagem da impotência para o impossível, ocorreram mudanças ;
marcantes que resultaram em des-inibição, uma participação mais efetiva
na Escola e uma surpreendente alegria com as coisas simples do cotidiano.
A angústia cedera lugar ao desejo.
Dezessete anos de análise e mais três, depois de concluir minhas sessões,
sofri uma dura perda e voltei a procurar o analista. Nessa volta, foi constata­
do que o trabalho em análise havia se concluído. Foi com os recursos resul­
tantes dessa experiência que o luto se teceu.
Recolhido o material escrito na solidão daquele período - anotações
esparsas, breves memoriais, pedaços de poemas escolhidos , passagens rabis­
cadas nos livros, sonhos, papéis avulsos, repletos de impressões rasuradas -,
dirigi-me ao cartel do passe.
Depois que fiz o pedido de entrada no dispositivo, tive este sonho: estou
dentro de meu corpo, me mexendo entre as entranhas, carne, sangue, bílis,
excremento. Esse corpo em pedaços é servido cru em uma bandeja. Sou o

4 "Mesmo que eu quisesse descrever anatomicamente um sexo de ler, não seria capaz. É sem
ossos e sem forma. Rímbaud não estava a imaginar. Nem um de nós estava a imaginar.
Estávamos a conjecturar fisicamente no escuro. As imagens sabem que têm de caminhar
para nós como o seu sexo de ler. Sem ele, são propriamente sem texto". LLANSOL, Maria
Gabriela. Onde vais, drama-poesia? Lisboa: Relógio d'Água, 2000, p. 33.

168 A P O STA N O PASSE


corpo e estou dentro do corpo, sou despertada por um gozo indescritível,
pura pulsão sem sentido.
Apesar de apontar para uma ruptura do semblante e um encontro com
o real da Coisa, trata-se de um sonho e, como tal, é um artifício. Como disse
no início, não é possível o encontro com o objeto real, sem sucumbir a isso.
A crueza do sonho, no entanto, deixa entrever uma ponta de real e a impos­
sibilidade de uma simbolização integral. Isso que resta de uma análise exige
um trabalho sem fim até o fim, mas contando com o já realizado.
O passe seria uma tentativa de escrever não o que se leu durante uma
análise, mas o que não cessa de não se escrever. O passe é um escrito que
porta em seu coração um "intestemunhável':

R E LATO
Sérgio Passos Ribeiro de Campos1

T Ú NICA Í N T I MA2

P R Ó L O G O : I N I B I ÇÃO, S I N T O MA E ANGÚSTIA

O sujeito, quando criança e adolescente, sofria de uma inibição - sexual,


intelectual e social; o sintoma que predominava é que era ectópico por ter
"a sensação de que estava sempre fora do lugar"; e, por último, a angústia
constituída pela presença sempre marcante pelo lado mulher da mãe. "Ser
mãe é padecer no paraíso': dizia ela ao pequeno infante. A enunciação ma­
terna "Faça alguma coisa" fazia com que o sujeito interpretasse como «um
pedido de socorro" o apelo da mãe e a enunciação paterna "Fique quieto"
como ''não me desafie': Essas duas enunciações se fundiram na voz do supe­
reu: ''Faça alguma coisa, fique quieto': Ademais, o inconsciente se alojava no
discurso do Outro, ao se prender às enunciações maternas como ''Você é o
homem da casa': "Você é o meu muro de arrimo" e "Você é o esteio da família".
Essas enunciações maternas conferiam-lhe a missão de "salvar o Outro", ao
mesmo tempo que o colocavam em choque com os devaneios de submissão
ao Outro, numa espécie de masoquismo moral.

Nomeado Analista de Escola (AE) pelo Cartel do Passe da Escola Brasileira de Psicanálise
(EBP) em dezembro de 2009.

2 Testemunho apresentado no vne Congres de l' AMP: Semblants et sinthome, realizado em


Paris em abril de 2010 e publicado originalmente em Opção Lacaniana: Revista Brasileira
Internacional de Psicanálise, n. 58, São Paulo, 2010, out., p. 57-65.

171
C A P Í T U L O I : C E NA S T R AU M Á T I C A S

Cena I -Aos quatro anos, escuta gritos de sua mãe durante uma relação sexual
com seu pai. Perplexo, encosta o ouvido atrás da porta do quarto dos pais
para ouvir os gritos da mãe. Pensa que seu pai está agredindo-a e que ela, ao
sofrer, demanda ser salva. No entanto, é tomado pela angústia e fica paralisa­
do. Sente-se impotente para salvar a mãe, pois teria que enfrentar o pai. Aco­
varda-se, vai dormir com devaneios de salvar a mãe. O efeito dessa cena é que,
a partir de então, o sujeito se impõe a missão de ter que salvar a mulher. As es­
tratégias usadas para o salvamento são pela compreensão, pelo ensino e pelo
dinheiro. Salvar as mulheres é salvá-las da castração. A voz, investida de sen­
tido pela demanda do Outro, permanece fixada no inconsciente pela cena r,
elevando o sujeito à condição de "salvador do Outro" e, ao mesmo tempo,
"impotente de salvá-lo da castração".
Cena II - Os pais rompem o casamento numa separação litigiosa. A mãe
perde a guarda dos filhos, que vão morar com os avós paternos. O juiz de­
termina que as visitas dos filhos sejam feitas à mãe apenas aos domingos.
No primeiro domingo que os filhos vão passar com a mãe, o sujeito, sob,
o incentivo materno, telefona para o pai, demandando-lhe que os deixasse _
dormir em companhia dela. Diante da negativa paterna, ele se rebela e afirma
que não retornaria com seu pai, liderando um motim junto aos irmãos mais
novos. A família numerosa da mãe e os vizinhos ficam sabendo do telefone­
ma e se mobilizam para assistir ao previsível acontecimento. Apenas o sujeito
não se dá conta de que o pior está para acontecer.
Dezenove horas em ponto, como o juiz determinara, o pai chega para
buscar os filhos. O pai adentra a casa da avó materna sem pedir licença.
As crianças correm e se trancam no banheiro. O trinco é frágil, porém o sufi­
ciente para barrar o ímpeto do pai. O pai tenta uma dissimulada negociação.
Fala que, se abrirem a porta, nada de mal irá acontecer. Um dos irmãos ad­
verte: '<Não confie':
O sujeito quer acabar com aquela angústia e, num ato de confiança,
solta o trinco. O pai, mais que depressa, empurra a porta, fazendo com que
as crianças a empurrem de volta. A força para abrir e para fechar a porta é
intensa, dos dois lados. Surge uma fresta na porta, por onde o pai faz pene­
trar com dificuldade o antebraço. Os irmãos mais novos se esquivam das
tentativas frustradas do pai de alcançar alguém, abaixando a cabeça, contu­
do o sujeito resiste e não s� esquiva das investidas do pai. Nem, tampouco,
abaixa a cabeça. O pai agarra o filho e o puxa a força pelos cabelos, para
fora do banheiro. O sujeito é arrastado e, depois, levantado pelos cabelos.

172 AP OSTA NO PAS S B


Assim é exibido como um troféu para o público, ao longo da casa. Depen­
durado pelos cabelos, o sujeito se debate, diante do olhar perplexo dos es­
pectadores. A duração dessa cena não vai além de 15 segundos. O pequeno
corredor, no entanto, parece-lhe interminável. Assim, o sujeito permanece
congelado nesse espetáculo, no qual é fotografado pelo olhar atônito da
plateia paralisada. Quase já na porta de saída, um tio materno interpõe seu
corpo entre o pai e o filho, desfazendo aquele ato insano. Parece que o pai
pede que alguém intervenha para barrá-lo. O tio negocia com o pai e dá
sua palavra de honra que levará as crianças no dia seguinte. O resultado co­
lhido desse acontecimento é um menino traumatizado. O sujeito consegue
seu objetivo, à custa de um trauma de confiança. No dia seguinte, o tio leva
as crianças ao encontro do pai. Nada é conversado e a cena é recalcada pelos
presentes que o pai lhes compra.
Vinte e cinco anos mais tarde, ao procurar a análise, vieram à tona as duas
cenas. Primeiro, a segunda, que encobria a primeira. Com efeito, o sujeito
relatou-as inúmeras vezes. Esmiuçou cada detalhe, trabalhou cada perspec­
tiva e elaborou diversas versões dessas duas cenas ao longo de anos, sem que
o analista desse o menor sinal de cansaço ou emitisse qualquer interpretação.
A cada sessão que as cenas se revezavam no discurso, o analista as escutava
com atenção e interesse, contribuindo para que o afeto ligado a elas gradual­
mente se dissipasse.

CAPÍ T ULO I I : O O B J E T O VOZ E O O B J E TO O L H AR

Caído todo o sentido, da segunda cena sobra o olhar e da primeira, a voz.


A partir de então, o esvaziamento de gozo pela suspensão do sentido da "im­
potência de salvar o Outro da castração"; o objeto voz, resto da primeira cena,
passa a ser utilizado como isca do desejo em relação ao Outro sexo. Quanto
ao segundo objeto em jogo, o olhar do Outro que o fotografara num instan­
tâneo da segunda cena, a solução encontrada pelo sujeito para lidar com esse
resto é a arte da pintura. Com efeito, ao pintar, o sujeito oferece ao olhar do
Outro um fragmento da imagem de seu corpo. Todo artista, mesmo aqueles '
que pintam o abstrato, pintam apenas pedaços de olhar. Então, a pintura,
como resto que se mostra, recupera a cena n, na qual o sujeito olha, sendo
olhado pelo espectador. Ademais, quando o olhar se torna objeto causa, me­
diante uma torção da pulsão escópica, instauram-se também a leitura e a
escrita, ambas como pulsão de saber.

T Ú N I CA Í N T I M A 173
C A P Í T U L O I I I : S O N H O S E D E VA N E I O S EM T R Ê S ETA PA S

Ele precisava de um marcador neutro que indicasse a trajetória percorrida,


mapeasse o percurso e oferecesse algum horizonte a seu devir. Temia se per­
der e ficar dando voltas em círculos sem fim. Lembrei-me da história de João
e Maria, que demarca a caminhada com migalhas de pão. Cogitei, a partir de
Freud, que os sonhos, como via régia do inconsciente, pudessem ter essa ser­
ventia. Percebi que a gramática da fantasia surgia por intermédio dos sonhos.
Aliás, pude constatar que o pano de fundo, sempre presente nos sonhos, é a
infância. Posso dizer que os sonhos se delimitaram em três etapas.
A primeira posição corresponde à entrada em análise e a um instante de ver:
o sujeito está sempre numa fase entre o final da infância e o início da adoles­
cência. Ele, porém, não se vê como um menino na cena, embora seja um, pois
a temática do sonho é sempre infantil. Não se vê como a criança que odeia e
que é espancada pelo pai. A segunda posição coincide com um tempo de com­
preender, que durou anos, no qual o sujeito está fora da cena e, numa alteridade,
vê-se em cena desenhado como um adolescente. Nos sonhos, o sujeito se vê na
pele de uma personagem adolescente, como se estivesse assistindo a um filme. , .
Por exemplo: assiste a um jovem aprendendo a voar na fazenda do analista, sob
a supervisão de um tutor. Essa posição faz alusão à posição fantasmática de ser
espancado por meu pai, pois meu pai bate na criança que sou e que odeio.
Entretanto há um acontecimento que faz girar o sujeito, inaugurando
uma terceira fase nos sonhos: o padrasto, um estrangeiro que tinha sido alvo
de identificação ideológica e intelectual, morrera subitamente de infarto.
Nutria por ele admiração e respeito paternos, pois antes dele sua mãe tivera
muitos romances fracassados. Ao final da sessão, o analista diz: "Lamento".
Foi o suficiente para o sujeito se desmontar e correr em direção ao analista,
suplicando-lhe um abraço. O analista - adotando a posição de morto - en­
colhe os ombros, baixa a cabeça e cruza os braços sobre o abdome. Diante
da falta de reciprocidade, o sujeito freia sua corrida em direção ao analista e,
após um instante de contato não correspondido, recua atordoado. A morte
do padrasto e o ato analítico definem a melhora da inibição sexual, social e
intelectual, inaugurando uma terceira fase nos sonhos.
A terceira posição, considerada o momento de concluir, coincide com a úl­
tima etapa da gramática freudiana do "b�te-se em uma criançà: A posição no
sonho agora é Outra. O sujeito está dentro da cena novamente, porém agora
como adulto, " embora a temática onírica de fundo ainda seja infantil. O sujeito,
num sonho, presencia a morte da mãe, assistida por um médico que não é ele.
Seus filhos pequenos surgem no sonho pela primeira vez e o sujeito não os

174 A P O S TA NO PASSE
deixa olhar a cena da avó agonizando. Com efeito, o sujeito não tinha partici­
pado do sepultamento da mãe. Noutro sonho, o sujeito sobe numa escada sem
fim, como se fosse uma longa ereção, que ultrapassa os edifícios e as nuvens.
Já na estratosfera, a escada termina subitamente e ele verifica que não há nada
lá em cima. O sonho alude ao conto "João e o pé de feijão': à diferença de que,
então, o sujeito constata que não há terra de gigantes. O sonho revela a condi­
ção de que "o Outro não existe" com a enunciação: "Não há terra de gigantes".

C A P ÍTULO IV: T R Ê S PAIS PAR A FAZ E R U M

No início da análise, o sujeito interpela o analista, indagando se também não


irá perdê-lo, assim como seu pai o perdeu. O analista interpreta se o sujei­
to não estaria dizendo sobre "um pai que não soube estar': A interpretação
inaugura o buraco no Outro. A resposta do analisando é o grito de horror e
as mãos cobrem os olhos, por não assentir com a falta do Outro. Com efeito,
a modalidade adotada pelo sujeito foi a construção de três pais para fazer
um, ainda que faltoso. Durante mais de cinco anos os pais estiveram ausentes.
Cada um dos dois por um motivo. O pai, por ter fugido com uma mulher
casada, e sua mãe com o padrasto, por terem fugido dos órgãos de repressão
na ditadura militar, em virtude de sua ideologia marxista.
A tríade paterna se deu assim: o avô paterno rigoroso, que foi responsável
pela formação do caráter e pelo incentivo à leitura; o padrasto intelectual,
que soube separar uma mulher para si e uma mãe para o sujeito; e o pai, mu­
lherengo e distante, que demonstrava certo saber sobre as mulheres: "Toda
mulher quer casar, incluindo as casadas': ou ainda, ao responder ao cumpri­
mento "Como vai?': dizendo ao filho: "Como elas querem':
O sujeito considerava o pai um mulherengo e dono de um saber sobre as
mulheres, até perceber que era ele quem sustentava esse mito paterno e que, na
realidade, o pai contava mais suas vantagens e fantasias do que suas experiên­
cias. O sujeito de�tilava ódio e imputava ao seu pai a culpa de seus infortúnios,
porém, ao trabalhar por muitos anos a cena traumática n, ele faz cair a figura
do pai idealizado com a frase: "Perdoo, pois o pai não sabe o que faz': Por fim;
conclui: "Só existe análise do filho para entender que o pai é furado': No final de
uma análise, o sinthoma põe a prova o impossível como real no campo paterno.
A enunciação: "Perdoo, pois o pai não sabe o que faz" faculta a resolução de
gow ao sujeito. Portanto, é preciso compreender o pai, mesmo que ele não saiba
o que faz. Compreendê-lo, sem amódio, contudo. Compreender, sem amar ou
odiar ao pai, é estar dentro da lei, com o beneficio de não estar submetido a ele.

TÚNI C A Í N T IM A 175
C A P Í T U L O V: O AT O A N A L Í T I C O

Envolvia-se em colisões de trânsito na média de uma por mês. Certa vez, seu
carro, todo batido e caindo aos pedaços, enguiçou na porta da casa do analista
e lá foi abandonado por duas semanas. Ao saber disso, o analista interrompe
a sessão: "Então, você veio estacionar aqui?" Esse dizer o colocou para andar
e assim deixou de trombar seu carro. Entretanto devaneios de que tinha seu
carro colidido com um caminhão ocuparam sua mente. Experimentou deva­
neios cuja tônica era de submissão ao Outro, como, por exemplo, ter sua cabeça
esmagada por uma roda de ônibus. Percebeu, em seus devaneios, que era ele
quem se jogava de encontro ao caminhão ou que era ele quem enfiava sua
cabeça por debaixo da roda do ônibus. Como, até então, considerava-se uma
vítima do Outro, retificou-se, já que percebeu, pelos devaneios, que era ele pró­
prio quem buscava colidir com o grande Outro, encarnado na imago paterna.
Havia outro devaneio incômodo que o deixava em silêncio. Era uma cena
na qual o analista ficava em ereção, toda vez que escutava sua voz. Esse de­
vaneio, na entrada da análise, denotou a fantasia de ser objeto de gozo do
pai. Mais tarde, ao declinar dessa posição - no final de análise -, conseguiu
localizar o objeto voz como objeto que engancha seu desejo em relação ao '
Outro sexo, objeto esse extraído da primeira cena, na qual escutava os gritos
da mãe durante o ato sexual.
Manejo do analista: sempre em silêncio; corria em câmera lenta até a
porta; ora esboçava um pequeno passo de dança, ora manipulava a maçaneta
de uma suposta porta emperrada do consultório, ao final da sessão. Toda­
via foi a partir do objeto olhar e do objeto voz que o analista, sem qualquer
contato visual direto e em profundo silêncio, operou, ao longo de 19 anos, o
desejo do analista, expresso como enigma.

C A P Í T U L O V I : PA S S E C L Í N I C O

Num Congresso da Escola Brasileira de Psicanálise, durante uma palestra,


indagava-se qual era seu nome de gozo. O significante "impotência': que lhe
vinha à mente, era refutado. "Esse significante não!" Tentava, em vão, escolher
outros. "Tem que ser outro'� resmungava, já irritado, diante da insistência
do significante em sua mente. Enfim, consentiu com ele e, para sua surpre­
sa, ocorreu um evento. Surgiu, como num flash, o significante "impotência':
seguido das imagens da cena 11, em grande velocidade. E, por último, o sig­
nificante "desamparo': Pode-se escrever esse evento da seguinte maneira:

A P O STA NO PASSE
impotência ( cena n) desamparo. Era uma novidade: a "impotência" revelada
como semblante do "desamparo':
Ao chegar à análise, narrei esse evento ao analista. O analista, numa ses­
são curta, interveio num corte: "O que você pensou ser a causa, então é a con­
sequência?" Fiquei confuso e não entendi bem o que ele dissera. O analista
interrompeu a sessão e olhou-me bem fixo nos olhos, pela primeira vez em
15 anos, com o semblante mais maroto do mundo. Sua cabeça arredondada
estava incandescente, como um pôr do sol, desses que acontecem no inverno
de Belo Horizonte, quando o sol beija a montanha no final do dia. Saí com­
pletamente aturdido da sessão. Considerei que tinha tido uma alucinação,
uma espécie de um ex-sight. Um brilho interior projetado no objeto. Naquela
noite, sonhei com o significante angustura.
Angustura nomeia a rua em que morei na infância na casa de meu avô
paterno. O sonho: sou chamado como médico para fazer um atendimento
de urgência a uma pessoa que está morrendo. Não há luz. Está tudo escuro e
opaco. Consigo, com dificuldade, ler a placa da rua: Angustura. Era ali. Entro
na casa escura, vazia e abandonada. Dirijo-me ao barracão no fundo da casa.
A porta emperrada. Empurro-a e encontro resistência. Coloco força e a porta
range. Consigo abrir uma fresta por onde penetro minha cabeça. Giro a ca­
beça para examinar o pequeno recinto e vejo a razão da resistência. Há uma
sombra caída, no ângulo interno da porta. Ao deparar com a sombra escura
e morta, em estado adiantado de putrefação, vomito e acordo. Angustura é o
significante que sintetiza esse sonho.
Angustura é uma palavra originária do século x1v que significa angústia,
desfiladeiro, passagem estreita ou brecha. O significante é apanágio da sepa­
ração do sujeito e o Outro, quando encontra a sombra do pai morto, já em
estado avançado de decomposição. Sua neurose foi tentar, em vão, salvar o
pai. Foi preciso que ele passasse pelo desfiladeiro, pela brecha estreita, para
que se deparasse com o cadáver do pai morto. Foi necessário que o sujeito vo­
mitasse o excesso do banquete totêmico para que encontrasse certa regulação
de gozo pela via da separação.

CA P Í T U L O V I I : D O T RAU M A D O S E N T I D O
A O B U R A C O D A L I N G UA G E M

Com efeito, o sujeito usou o pai para dar sentido ao troumatisme. Dois efei­
tos sobre o tempo. Primeiro: o sujeito, congelado num tempo eterno, era
espectador de sua vida e, fotografado num instante de ver, sentia que nunca

TÚN ICA ÍNTIMA 177


envelhecia. Sua idade subjetiva era uma eterna infância. Segundo: agora, o
tempo não está mais suspenso, nem tampouco está cativo a uma fonte da
juventude, pois o sujeito percebe que envelhece rapidamente. Agora, como
falasser, carrega consigo a substância gozante do vivo, mas percebe que a vida
é fugaz e escoa rapidamente, de modo que surge um desejo de viver inten­
samente. Destarte, não mais se coloca na posição de discípulo, malgrado seu
desejo de saber permanecer intacto. Ele sabe que não há uma resposta que
cubra a inexistência da relação sexual, de tal sorte que não se ampara mais no
Outro, restando-lhe inventar um saber dia a dia.
Do nome de gozo à letra de gozo. último sonho: menino rema num bote
sobre um lago feito de sopa de letrinhas. Ele está com um capuz que o sufoca,
semelhante ao do quadro Les amants (1928), de René Magritte. Se, por um
lado, como criança, asfixia-se e morre, por outro, como médico, é chamado
para constatar o óbito. Quando criança, tentava compor palavras ao tomar
sopa de letrinhas, mas, como na sopa havia mais consoantes, faltava sempre
alguma vogal para compor as palavras. Hoje, ele encontrou sua letra de gozo.
O sujeito não salva a mãe, não salva a fantasia do pai e tampouco o menino.

C APÍ T U L O V I I I : A M U L H ER N Ã O E X IST E

Amor e desejo estavam disjuntos, entre minha mulher (amor) e Outra mu­
lher (desejo) . O sujeito nomeia a Outra mulher de fulana. Ele cogitava que
encontraria fulana, mas ela não se deixa apreender em sua metonímia. A par­
tir de uma interpretação do analista, como se estivesse dizendo para outra
pessoa «o, cara, A mulher não existe!", sonha com a frase: "Casa-se com uma
vagina e de quebra vem A mulher': "A mulher é um efeito da castração no ho­
mem': medita. Assim, quanto mais se tenta salvar a mulher da castração, mais
retorna A mulher. A tradução da enunciação sonhada é "A mulher - como
grande Outro - não existe':
Assim, o sujeito desvenda que o novo amor não é um novo objeto de
amor, mas sim uma nova maneira de amar. Essa descoberta articula o amor
e o desejo, que, a partir de então, serão denominados de amoresejo. Antes, o
sujeito tinha a "minha mulher" e a "Outra mulher" (fulana) nos devaneios.
Assentir com o não todo de minha mulher fulana é deixar cair A mulher. Ago­
ra, se A mulher não existe, minha mulher é fulana. Fulana é o Outro nome
do feminino. A partir de então, o sujeito passa a não dar mais sentido à mu­
lher, pela via da compreensão, pois ele consente com algo que é da ordem da
não representação. Não compreender a mulher é amar o real, amar o não

A P O STA N O PA S S E
todo que nela habita. O real, no campo da mulher, situa-se no impossível de
compreendê-la. Esperar compreendê-la para amá-la é um desastre e só leva
ao pior.
O sujeito experimenta um luto por fulana, pois não acredita mais que
ela esteja no devir. Em contrapartida, tem o entusiasmo por tê-la ao seu lado,
sua mulher fulana. O que há de novo é o surgimento de um amoresejo, sem
compreender a mulher, na medida em que ela se encontra como objeto a.
E ainda um efeito sinthomático, que eleva o· sexo à condição de experimentar
a sensação como se fosse sempre '<a primeira vez': Contudo há um resto imu­
tável, que é o gozo sexual pela via da depreciação do objeto amoroso. O en­
contro sexual é apenas contingente, já que ele é uma substância que não deixa
rastro, nem acúmulo de experiência. Se, por um lado, é preciso compreender
o pai sem amódio filial (pois amá-lo ou odiá-lo é permanecer no campo da
submissão, da veneração e do culto ao pai), por outro, o real no campo da
mulher situa-se na impossibilidade de compreendê-la. Deve-se amá-la sem
compreendê-la, amar o não todo, amar o real que não tem representação e
que nela vive.
Sessão ultracurta: o analista não aparece na sessão. O sujeito pensa, em
forma de chiste, "O analista morreu" e "Apertem os cintos, o analista sumiu,
mas como eu uso suspensórios ... [risos] ': Passados alguns minutos, o sujeito
bate palmas para chamar o analista. O analista, em silêncio, surge da soleira
da porta e cobra-lhe o valor da sessão. O sujeito paga e se vai. Então, fica-lhe
a pergu nta: "Estaria o sujeito aplaudindo o próprio final de análise?"

E P Í L O G O : S IN TH O MA

A passagem acontece quando se encontra a capilaridade entre a falta do sujeito


e o buraco do Outro. Quanto mais se consente com a falta, mais o Outro se
esburaca e perde consistência. Esburacar o Outro é esburacar a si mesmo. Ao
nos esburacarmos, chegamos a uma última camada, uma película adelgaçada
que reveste o buraco - sua túnica íntima -, que chamo de "infantil': Ao depa­
rar com o furo através dessa membrana celular, vejo o Nada. O sujeito ainda
recorre a um chiste, como um último recurso sobre um suposto retrato que
tenta recobrir o Nada. O analista intervém, referindo-se ao Nada: "Isso é seu
retrato". O sujeito finaliza: "É o retrato do Isso". O ocaso da análise: o analista
o olha bem fixo nos olhos - pela segunda e última vez em 19 anos - e consente
com a conclusão de sua análise, dizendo-lhe "Sim" e "Boas entrevistas no
passe': O sujeito, nesse instante, percebe que o analista envelhecera 19 anos

TÚNICA Í N T IMA 179


num só golpe. O analista o conduz pelo braço até a porta da rua. Ao partir, o
sujeito olha para trás e vê o analista acenar-lhe com um adeus.
O passe é um mico que o sujeito está disposto a pagar de bom grado, já
que o sinthoma proporciona uma "autor-risada" de si mesmo. O sinthoma
não é construído, mas descoberto, pois ele, como permanente, está lá des­
de sempre. Quanto à sua utilização, ela deve ser inventada. O falasser usa o
impossível de ser reabsorvido como o judô de Lacan. A máxima do judô é
usar a força do adversário a seu favor. Queria aniquilar o menino, derrubá-lo,
jogá-lo fora, matá-lo e esquecê-lo. Se, antes, me defendia do menino, hoje
esse "moleque sem pai, nem mãe" me defende, como uma espécie de "anjo
da guarda': Agora, o infantil é uma ferramenta que pode ser utilizada e que
coloca o gozo sob nova perspectiva, com um novo valor de uso. A destituição
subjetiva fez o sujeito migrar do infante à infantaria, do Serginho ao Sérgio
Passos Ribeiro de Campos, e do Soldadinho de Chumbo ao Guerreiro Aplicado.
Na frente de combate, a infantaria é pura pulsão, já que não há lugar para o
medo, tampouco para a coragem. Aliás, como apetrecho lúdico, o sinthoma
vem reorientar um gozo que satis-FAZ, no qual o fazer é mais importante
-
que o saber. A partir de uma ingenuidade metódica, o sujeito faz travessuras
com o sinthoma moleque, que não se ampara mais no Outro. Se antes havia
um menino que carregava um homem, hoje um homem carrega um menino.
Enfim, como enuncia a musica de Lô Borges e Milton Nascimento, Bola de
meia, bola de gude: "Há um menino, há um moleque/ Morando sempre no
meu coração/ Toda vez que o adulto fraqueja/ Ele vem para me dar a mão':

180 A P OS TA NO PAS S E
Angelina Harari1

PARCEIRO S NO S 1 N G U LAR 2

LA L Í N G UA ( L A L A NG UE ) E E N U N C I A Ç Ã O

Meu percurso analítico é sinuoso, um tanto nômade, e estendeu-se ao longo


de 32 anos, envolvendo três analistas e duas interrupções - uma de três anos
e outra de dois anos.
Minha lí ngua própria - a lalíngua - dificultou-me escolher o idioma em
que eu faria meu primeiro depoimento. Tive dois analistas da École de la
Cause freudienne (ECF), com análises e o dispositivo do passe realizados em
francês. Também foi no ensino de Lacan, pela leitura da Orientação laca­
niana, que reencontrei a língua francesa, de que surgiu a lalangue e, com ela,
minha singularidade. Não à toa, dedico-me às edições brasileiras dos Escritos
e do Seminário, de Jacques Lacan.
Minha singularidade passa, pois, pelo francês, mas pesou na decisão de
me dirigir a vocês em português o fato de a transmissão da psicanálise em
que estou inserida se dar nesta língua, tendo como contexto a Escola Brasi­
leira de Psicanálise (EBP ) . A última função que ocupei na EBP suscita o sonho
com que termina minha análise, um sonho de castração e de desnudamento

Nomeada Analista de Escola (AE) pelo Cartel do Passe da École de la Cause freudienne
(ECF) em 13 de dezembro de 2009.

2 Testemunho apresentado no vne Congres de l' AMP: Semblants et sinthome, realizado em


Paris em abril de 2010 e publicado originalmente em Opção Lacaniana: Revista Brasileira
Internacional de Psicanálise, n. 58, São Paulo, 2010, out., p. 45-51.

181
do semblante fálico. Enfim, é a língua portuguesa que drena a produção que
se faz necessária para sustentar minha enunciação.
Centrarei este depoimento na minha terceira análise, de 2000 a 2009,
período em que se vê claramente - vocês terão a oportunidade de constatar -
a particularidade da solução sinthomática, encontrada a partir de uma nova
aliança com o gozo. Esse processo teve início em setembro de 2000, após
voltar de uma viagem familiar "histórica" ao Egito, país onde nasci. Procurei
meu supervisor decidida a retomar a análise. Transformar a supervisão em
análise, transpor a fronteira supervisão-análise, teve incidência fundamental
na sinuosidade do percurso analítico. Meu próprio supervisor me havia assi­
nalado tratar-se de uma fronteira tênue. Hoje, no passe 3, ou seja, no depoi­
mento que retroage ao passe 2, o do dispositivo, entendo por que registrei na
memória, e fortemente, as falas desse supervisor que me servem de referên­
cia até hoje. Desde o princípio, ainda em 1987, quando iniciei tal supervisão,
já havia transferência analítica em jogo. Devo, portanto, acrescentar a esses
nove anos de análise os 13 anos de supervisão, período que quase coincide, no
tempo, com o de minha segunda análise.
Entre os fortes registros dessa prática de supervisão, desenvolvidos en­
tre o trágico e o cômico, situam-se as falas da primeira supervisão. Apre­
sento-me apoiada em uma posição enfatuada de analista kleiniana, porém
contestadora da International Psychoanalytical Association (IPA), tendo
tido alta analítica, discípula direta de Karl Abraham, linhagem promul­
gada por meu primeiro analista, um franco-argentino. Apresento como
material a narrativa da análise de uma jovem histérica entristecida e sou
interpelada com esta pergunta: "Onde está o sujeito do inconsciente?" Sur­
presa! Na época, para mim, o inconsciente estava por todo lado - basta­
va falar de alguém. Diante da insistência do supervisor, começo a ficar
inquieta e a introduzir mais detalhes, até que, impaciente, ele questiona
que diferenças haveria entre meu modo de falar do sujeito - tratava-se de
uma jovem mulher - e o de sua melhor amiga. Estaria ele insinuando não
haver divergências entre a formação kleiniana, em que eu me assentava, e
a forma de a amiga dela abordar o mesmo conteúdo? O xeque-mate viria
ainda, pois ele deixou para o fim a tacada mortal: ao encerrar, diz preferir
ouvir a melhor amiga falar dela, já que a uma amiga se fazem confidências
mais secretas.
A decisão do passe amadureceu na passagem de 2008 a 2009, embalada
pelas apresentações de 'Jacques-Alain Miller sobre «Qual política lacaniana
para 2009?"

182 A P O STA NO PAS S E


A Q U E DA D O S E M B LA N T E E D E
UMA IDENTIFI CAÇÃO PRIMORDIAL

Na segunda sessão, e m setembro de 2000, vejo-me falando de u m perso­


nagem da novela familiar: minha avó paterna como figura identificatória e
como S embora eu nunca tivesse associado nada a ela até então. Não que ela
1,

não fosse personagem central na minha história familiar, mas parecia tão dis­
tante de minha trajetória... Desvela-se, então, para mim, o lado mulher fálica
identificada com essa mulher forte, de origem europeia, que viveu em países
árabes. Temos o mesmo nome: Angelina Harari.
O supervisor havia mantido a mesma posição de dureza da primeira su­
pervisão que comentei durante vários anos - é a mesma posição dessa avó
paterna, mulher dura, que preferia os homens. No entanto foi a transferência
doce e afetiva com que esse supervisor me acolheu como analista, transposta
a fronteira supervisão-análise, que desvendou tal identificação com a mulher
dura e, consequentemente, com o semblante de dureza que ela encarnava.
Meus analistas anteriores foram escolhidos a partir desse traço de dureza,
algo a que eu aspirava como mulher sefardita, tímida, afeita a se deixar levar
pelo Outro, sempre pronta a responder à sua expectativa.
Responder à expectativa do Outro foi uma fórmula plantada pelo ana­
lista: "Você é o joker da expectativa do analista': ou seja, uma carta versátil -
o curinga, em português -, se entra em cena um olhar atento ao Outro, para
atender-lhe os desejos.
Na transferência, a firmeza dos analistas me levava a estados de prontidão
diante de tudo, até a pregar a independência da mulher ou a liberação sexual
nos anos 1970, mesmo com sacrifício de filhos e marido. Mergulhada estava
em actings out, procurando vias alternativas à psicanálise, mas também, na
segunda análise, buscando a normalização da vida amorosa, pois, liberada do
conjugo - expressão em latim usada para quem aspira a uma relação conjugal -,
rompo com um casamento de sete anos e um marido, com quem tive dois
filhos, que escolhera principalmente por ser distante e duro.
A liberação do conjugo coloca-me à mercê da faceta identificatória com a
avó paterna, o que só percebo apres-coup, visto que esta, historicamente, recu­
sou o costume do levirato - lei judaica que determina a obrigação de a viúva se
casar com um cunhado -, em cumplicidade com a irmã caçula, que se negava
a submeter-se a tal determinação. As duas, apoiadas pela família, abandonam a
Síria para serem professoras na cidade do Cairo, no Egito. Eu admirava muito
essa mulher intratável, que, viúva, levou, por sua vez, os filhos na rédea curta,
fazendo-se obedecer a toda prova. De sua prole de oito, seis eram homens.

PARCEIROS NO SINGULAR 183


Liberada do conjugo, mas não do semblante de mulher que aspira ao po­
der, a entrada em análise apresenta-se como uma falsa saída: a de encarnar a
Outra mulher, sobre a qual o homem não tem direitos de possessão absoluta.
Um sonho permite a localização subjetiva: <'Era noite, estava em meu quarto
1:1ª casa de praia, quando vejo um morcego pendurado no teto. Esse animal,
de hábitos noturnos, condensa o gozo clandestino de que eu retirava prazer
e, ao mesmo tempo, me queixava"; o gozo clandestino da Outra mulher que
eu me tornava na relação com os homens, uma forma de não constituir casal,
de não me submeter às condições masculinas. Nesse sentido, a submissão
que existe no gozo clandestino trazia sofrimento, já que ia ao encontro dessa
identificação de mulher dura.
Como mencionado anteriormente, a transferência doce e afetiva do ana­
lista, em contraste com sua dureza nas supervisões e com a dureza dos outros
dois analistas anteriores, __p�rmitiu a q�eda 4? � quando descobri essa identi­
1
,

ficação com a mulher forte e entendi por que não havia falado de tal iden­
tificação nas análises precedentes.
A versão fantasmática do "se deixar levar pelo Outro" foi abalada pela
fórmula "joker da expectativa do analista': colocando em cena a vigilância e o
olhar sobre o Outro. Essa fórmula encadeia-se com outra, uma interpretação
que não visa à fantasia, mas sim ao funcionamento na vida amorosa: "Você
entra de bom grado nos jogos de amor: você escolhe; não é a escolhida".

D E C L I NA Ç Õ E S D A N Ã O R E L A Ç Ã O NA V I DA A M O R O SA

Esse acento sobre minha posição histérica desestrutura a defesa do "se deixar
levar': move o contexto da relação com o parceiro do amor. Antes, eu acredi­
tava ser escolhida. Se sou eu a escolher, como faço então? A interpretação visa
ao funcionamento da relação com o parceiro-sintoma.
Muda o contexto dessa relação - ou seja, o binário clandestino/oficial, em
que me encontrava presa como em um impasse - e, por isso, tento encontrar
uma saída, que se configurava sempre como a normalização de minha vida
amorosa. Uma solução para o gozo clandestino, como se solução houvesse.
Ao mudar esse contexto, cai por terra a pretensão de casar-me ou de abraçar
a causa celibatária - o "tudo ou nada" não é mais necessário. Não mais me
sentindo empurrada a aspirar ao conjugal, ao conjugo, o binário clandestino/
oficial desfaz-se, permitindo-me afrouxar a relação com o gozo.
Com a renúncia a formar casal, no sentido de "formar Um': introduz-se
outra maneira de formar casal, de fazer Um. Isso quer dizer o quê? Um modo

APOSTA NO PAS S E
de introduzir a singularidade na singularidade de formar casal. O impasse
havia estabelecido uma condição de amor de não formar casal: casamento ou
nada. Então nada! Na direção do tratamento, tornar permitido o gozo clan­
destino por sua oficialização é um viés normativo da vida amorosa que dá
solução ao gozo.
Entendo esse impasse como o manter esperança na expectativa de erradi­
car o gozo opaco do sintoma; este, de clandestino a oficial, confunde-se com
o gozo permitido, esperado no final de uma análise. O gozo oficializado havia
deslizado para o gozo do matrimônio. E, nesse sentido, havia um progresso
quanto ao sentido a esperar de uma análise.
Lembro-me bem de um momento das entrevistas preliminares, já com o
terceiro analista. Quando propus �ssa questão do matrimônio como um bem
a ser alc�nçado, a resposta foi: "So�os . casados com o objeto a': A ·questão
sinaliza bem minha expectativa de tornar transparente o gozo opaco do sin­
thoma, de liquidar os restos sintomáticos. Confundia sintoma com sinthoma,
pois este jamais é removido.3

S O N H O D E C A S T RA Ç Ã O E Q U E D A D O S E M B L A N T E F Á L I C O

Como evoquei no início, foi um sonho que revelou uma demanda de passe,
um sonho que nomeio como de castração. Na noite da passagem de ano, na
madrugada de 2009, uma vez que só vamos dormir após as batidas da meia-
-noite, sonho que estou em uma reunião do Conselho da EBP: "Em voz baixa,
quase sussurrando, falo de minha gestão na presidência do órgão como ten­
do sido um fracasso. Interpreto a presença de um colega, que não faz parte do
Conselho, como a presença da morte, pois ele acabara de perder o pai".
Esse sonho acontece após uma interpretação do analista, três meses antes,
que, em análises transoceânicas, como foi meu caso, é como se tivesse ocorri­
do na véspera do sonho. O analista sinaliza um ponto de satisfação, de autos­
satisfação, segundo a forma freudiana de falar. E eu, de que falava nessa ses­
são? Da renúncia em formar casal, no sentido de "fazer Um': dividindo-me
entre dois amantes, com encontros esporádicos em lugares muito distintos'.
E acrescento uma fala que o analista reteve: ((Com cada um deles formo casal
de forma diferente". Isso pôde sugerir - nesse momento, a análise torna-se

3 MILLER, Jacques-Alain. "O inconsciente e o sinthoma': Opção Lacai:i,iana: Revista Brasileira


Internacional de Psicanálise, n. 55, São Paulo, 2009, nov., p'. 35-44.

PARCEIROS NO S I N GULAR 185


Una -, como comentou Miller, no Fórum de 11 de abril último, que o desloca­
mento sinthomático de minha posição histérica consistia em "fazer casal" de
outra forma, atribuindo leveza e contingência à imagem do "casal" analítico
que se constitui e se desfaz. Nesse ponto do depoimento, a língua francesa
joga melhor com a homofonia: "faire couple, qui peut se faire et se défaire".
Liberdade cujos benefícios senti em minha prática analítica.
No entanto não foi suficiente para eu ser nomeada. Meu passe foi re­
lançado pelo Cartel - e os dois passadores pediram mais precisão, o que me
permitiu agendar as entrevistas no dia seguinte às jornadas "históricas" da
ECF - gostaria, a esse propósito, de agradecer aos passadores Pauline Prost
e Fabián Fajnwaks, pela delicadeza, firmeza e rigor que demonstraram nas
quatro entrevistas que fiz com cada um deles. Adiei o relançamento do passe
por dois meses; fiz-me esperar, para, assim, poder assistir às 38e Journées de
l'École de la Cause freudienne.
E o Cartel estava coberto de razão. Faz parte dos meus restos sintomáticos
costumar me deter e não entregar tudo, como efeito da forte inibição e da imer­
são no gozo clandestino de que padeci durante muitos anos. E, como cabe ao
passante a decisão de parar, "me quedé cortâ: como se diz em castelhano.
Circulou, na época, como publicado no Journal des Journées, que o Cartel
do passe havia interpretado a função do passador, evocando uma inibição da
curiosidade, atolada sob anotações e, muitas vezes, na transmissão de textos
escritos pelos passantes.
No meu passe, o relançamento foi essencial, pois sei que, de minha parte,
há forte tendência a soltar o que tenho a dizer somente quando sou colocada
contra a parede, "pressée comme un citron': expressão em francês de que
gosto. O «se deixar levar pelo Outro" deixa restos e rastros.
O Cartel quis saber mais sobre a particularidade da solução sinthomática
encontrada em análise, sobre o novo arranjo de minha vida afetiva, detalhes
com que não avancei no que concerne ao estilo das relações. Enfim, pergunta
o Cartel: «Qual a nova aliança ou a reconciliação com o gozar "Que tipo de
parceiro?" "Por que jamais Um homem?" "Quelle est sa mise?" "Ela aposta em
quê?" "Não será Um homem, mas uma série, sob o comando da gulodice do
supereu da avó paterna?" "Outro, outro, outro.. :'
É preciso levar em conta que, nos bastidores das reticências ao amor pas­
sional, possessivo e exclusivo, corria a via fantasmática: "deixar-se levar pelo
Outro': com episódios bem precoces em minha infância, seduzida por pri­
mos mais velhos, a ponto de ter engolido pílulas perigosas - remédios da
minha avó -, cedidas a mim com muita gentileza por um deles. Segue-se
um exílio familiar "voluntário': mas do tipo "escolha forçada': quando toda a

186 A P O STA NO PAS S E


comunidade judaica é banida no início do conflito político e religioso entre
árabes e judeus. Duplos e até mesmo triplos traumatismos: jogos sexuais, exí­
lio, doença do pai ... Como se entrelaçou essa trança?
Formar casal de forma diferente a cada vez é a minha singularidade.
Recuso a ideia de série, inclusive porque essa solução sinthomática de compor
casal também se exerce no par analítico e na parceria com mulheres. Não
acontece, portanto, somente no jogo da comédia dos sexos.
A lalíngua entra em cena na formação do casal não só por se tratar de
línguas distintas a cada vez - não quaisquer línguas, apenas aquelas em que
tenho destreza -, mas também por haver, em cada casal, razões singulares.
Em função da interpretação de que "você é quem escolhe': busco relações
cada vez mais enriquecedoras , em que admiro e sou admirada, liberando-me
do jogo passional, do "deixar-se enganar': Nesse "formar casal de forma dife­
rente': a relação sexual pode ser colocada a distância, minimizada, postergada.
,
O ''você escolhe , leva-me a relações que contemplam meu passado, minha
,,
cultura: "falar de amor em minhas línguas - o árabe remete a meus arquivos;
o francês e o espanhol abrem a via que remete à minha família do exílio, for­
çosamente cosmopolita, expandida por Genebra, São Francisco, Nova York,
Buenos Aires, Johannesburg, Melbourne.
Na escolha amorosa, trata-se de encarnar o objeto para o outro, formando
casal diferente com cada um que me toca por razões singulares da lalíngua.
Como solução particular, o gozo é manejável. Posso fazer uso dele sem trans­
bordamento, mas não sem anulação ou sem inibição. Enfim, não tentando
dominá-lo.
O desejo de singularidade ocupa a cena analítica. Ser plástico quanto a
faz�r-se causa do desejo do outro atesta a posição feminina e a do analista na
.
buscà da singularidade de outrem.
O "casal analítico,, é algo que se define e se faz paulatinamente: inci­
dências sobre uma prática marcada pela psicoterapia desde o início da
minha formação em Paris. Razão que leva o supervisor a me dizer que não
lhe parecia que eu praticava a psicanálise kleiniana, mas sim que eu me
mantinha em reserva, distante. Em francês, ele afirmou: "Vous n'êtes pas
sortie de votre quant-à-soi': Como não entendi bem, entregou-me um , pa­
pel com essa frase escrita, incitando-me a buscar a correta acepção dos ter­
mos no dicionário. Guardo esse papel àté hoje, esperando - quem sabe? -
que Judith Miller proponha uma exposição de interpretações concretas
em algum evento.
Uma forma de sair dessa minha reserva se constitui pela alteridade:
"O homem serve aqui de conector para que a mulher se. torne esse Outro para

PA RCEI ROS NO S I N G U LAR


ela mesma, como o é para ele"4 é a fórmula de Lacan. A orientação para o
singular está inscrha· ria primeira supervisão, em 1987, e é retomada 13 anos
depois, mediant_e um pedido de análise.
A orientação para o singular, segundo Miller, não quer dizer que não se
decifra o inconsciente. Apenas «que, ao lado do inconsciente onde isso fala,
há o singular do sinthoma, onde isso não fala a ninguém. Razão pela qual
Lacan o qualifica de acontecimento de corpo': 5
O sinthoma, que é condicionado por lalíngua , e para o qual não há saída,
é o que se trata de alcançar: um sem saída que considera os restos sintomáti­
cos e aceita que "o passe não seja da ordem elo tod_o, 1:11as do n_ã? t? do': 6

4 ''L'homme sert ici de relais pour que la femme devienne cet Autre pour elle-même,
comme elle l'est pour lui'� Cf. LACAN, Jacques. "Diretrizes para um Congresso sobre a
sexualidade feminina" (1960 ). ln: Escritos. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 1998, p. 741:
5 MILLER, Jacques-Alain. "L'inconscient et le sinthome': La Cause freudienne,n. 71: Au-delà
de la clinique, Paris, 2009, p. 78.
6 MILLER, Jacques-Alain. "Semblantes e sinthomas': Opção Lacaníana: Revista Brasileira In­
ternacional de Psicanálise, n. 52, São Paulo, 2008, set., p. 15.

188 A P O S TA NO PAS SB
Ana Lydia Santiago1

C O UP D E F O UD R E 2

PARA M I M , o P O RTU G U Ê S É A L Í N GUA MAT E RNA e o francês, a língua


do Outro. E por que não considerá-lo como esse Outro estrangeiro que é o
inconsciente? Durante os vinte anos em que transcorreu minha experiência
analítica antes do passe - oito anos , com um primeiro analista, dois anos de
interrupção e outros dez anos com um segundo analista -, produziram-se
lapsos, trocadilhos e expressões por meio de sonhos, que exploravam rique­
zas semânticas e equívocos tornados possíveis pelo trânsito do materno ao
estrangeiro da língua. Pergunto-me, inclusive, se, no meu caso, levar adiante
a experiência da análise na língua do Outro não foi o que levou o sujeito do
inconsciente a se mostrar mais suscetível ao encontro com os equívocos da
língua.

AP REND E R A FAL A R

É no contexto dessa passagem de uma í l ngua a outra que o sintoma analíti­


co se inscreve, traduzido por um "não saber falar". A dificuldade com a fala,
que caracteriza o ponto de partida da análise, destaca, de preferência, a ver­
tente da inibição presente no sintoma. Evidentemente, esse emerge banhado

Nomeada Analista de Escola (AE) pelo Cartel do Passe da École de la Cause freudienne
(ECF) em 19 de junho de 2011.

2 Testemunho apresentado nas 41e Journées de l'École de la Cause freudíenne: Praxis laca­
nienne de la psychanalyse, realizadas em Paris nos dias 8 e 9 de outubro de 2011, e publi­
cado originalmente em Opção Lacaniana: Revista Brasileira Internacional de Psicanálise,
n. 62, São Paulo, 2011, dez., p. 97-103.
por meu contato, pouco familiar, com estilos e modos de vida dos franceses.
Ao chegar a Paris, para morar por um período de quatro anos, experimento,
num primeiro momento, o apagamento radical do domínio fluente da língua
inglesa, a que se segue forte impressão de não saber falar francês. Esse emba­
raço não se desvincula dos usos e dos costumes de uma cultura do nome pró­
prio. Em contraste com o que é corrente no Brasil, não há como negligenciar
o privilégio conferido pelos franceses ao patronímico.
Assim, vivendo maritalmente, em regime de concubinagem, era identifi­
cada como "madame': porém designada pelo sobrenome paterno. E, indepen­
dentemente das ocasiões em que me foi assinalado que eu me comunicava bem
no idioma francês, a dificuldade para falar, que apontava para o incompreen­
sível do amor do pai, instalou-se no meu corpo e manteve-se presente na ex­
periência analítica, sessão após sessão, durante toda a trajetória desse processo.
A primeira demanda de análise é endereçada a um analista do Campo
freudiano, uma mulher, que, em intervenções e cursos promovidos na École
de la Cause freudienne, atrai minha atenção pelo uso frequente de uma joia
brilhante. Esse objeto precioso associa-se, no meu íntimo, ao que se transmi­
te de mãe para filha. Do mesmo modo, o que está em jogo, na última análise,
é algo da ordem do saber e do bem dizer. Contudo o entrelaçamento entre a
joia e a palavra estabeleceu-se bem precocemente, a partir da imagem ilustra­
tiva de uma fábula, As três cabeças de ouro, que eu escutava, quando criança,
pela boca de minha avó paterna, antes de ter adquirido a prática da leitura.
Dessa fábula, pode-se inferir que o grande Outro está encarnado na voz
de três cabeças de ouro, as quais surgem no caminho de duas meninas e, mui­
to exigentes, decidem o destino delas. Elas surgem de dentro do buraco de
uma cisterna, na borda da qual cada uma das meninas, em tempos diferentes,
se assenta para descansar e fazer uma refeição, após uma longa caminhada
em busca da própria sorte. As cabeças pedem para ser alimentadas, pentea­
das e ninadas com música. A primeira menina, considerada uma boa filha,
bastante afetuosa com o pai, atende prontamente às solicitações de cada uma
das três cabeças e, por via de consequência, é beneficiada com o dom da
bondade e com um hálito suave , que lhe possibilita, ao falar, lançar pedras
preciosas pela boca. A segunda menina, filha caprichosa, mais ligada à mãe,
recusa-se a prestar favores às três cabeças, que, então, lhe reservam uma vida
difícil - literalmente, um caminho de espinhos, que lhe ferem a pele e tornam
sua aparência pouco atraente - e, ainda, um hálito horrível, que a faz lançar
cobras e lagartos pela boca quando fala.
Como a primeira menina, desde muito cedo, eu estava marcada pelo amor
ao pai, em função do desejo deste de ter uma filha a quem daria o mesmo

190 A P O S TA NO PASSE
nome de sua esposa. O uso do nome da mãe na filha é incomum e não se
encaixa na perspectiva de garantia de uma transmissão, como no caso de
quando se batiza o filho primogênito com o nome do pai ou do avô. Esse ato
de nomeação não se fez, porém, sem implicar consequências no que concer­
ne ao lugar que passei a ocupar junto à minha mãe, bem como junto à mi­
nha avó paterna, que morava com a família e era responsável pela educação
das crianças. Por ter como miragem o destino da primeira menina da fábula,
tornei-me uma observadora atenta dos indícios do que melhor convinha ao
outro, para nele me encaixar e ser reconhecida como uma filha modelo e de
comportamento exemplar. O destino da segunda menina, contudo, perma­
neceu dúbio e em aberto, causando-me preocupação e medo.
Um equívoco da língua, que insiste em se apossar do nome da primeira
analista, acaba por destacar o significante "cólerà: designador, ou nome, do
gozo sem sentido das mulheres de minha família - notadamente minha mãe
e minha avó paterna. Manifestada na relação com a fala, a cólera é apreendida
em minha mãe no falar denegridor e depreciativo de seu marido como pai,
e em minha avó, expressa em dizeres hostis formulados contra minha mãe,
sua única nora, pois esposa de seu filho único. Com efeito, minha mãe é a
própria encarnação do Outro mau, componente inerente à subjetividade de
minha avó. Desde muito cedo, por conseguinte , não me passou despercebido
o ódio que minha avó alimentava contra a nora, minha mãe, e projetava so­
bre a neta de mesmo nome. A posição que se configura para o sujeito, nessas
circunstâncias, é a de ser uma tela em que o outro lança um elemento de
insuportável dele próprio, estranhamento perturbador, que interfere na ma­
neira como ele é visto.
O primeiro modo do saber do sujeito, que é o do objeto a, começa por
mostrar-se como imputado ao Outro. No laço transferencial, há o objeto
agalmático - a joia com tudo que ela representa - e o equívoco quanto ao
nome, situados do lado do Outro. O que pode ser formulado a propósito do
mal-estar advindo da palavra e circunscrito à cólera diz respeito tanto aos
impropérios e atos, julgados injustos, da mãe e da avó, quanto à exaltação das
duas ao filho e ao neto primogênito, do sexo masculino. Ao mesmo tempo,
percebe-se a manifestação de algo da ordem do impossível de dizer: a cólera
frequenta a cena dos sonhos do sujeito. Em seguida, à medida que a análise
prossegue, a cólera corporifica-se e, à revelia do sujeito, encena episódios bre­
ves de crises de raiva - especialmente diante da desorganização dos objetos
em casa - e de ataques episódicos de ciúme do parceiro. A cólera e o ciúme,
que emergem do processo de análise, são considerados efeitos de desinibição
em relação ao sintoma inicial. São afetos contestados por quem quer ser uma

CO UP DE PO UDRE 191
menina modelo e almeja o bem dizer. Por isso mesmo, podem ser situados,
preferencialmente, na vertente do sintoma.
Conclui-se, então, que as soluções do amor e da doação, bem como as
identificações que destacavam habilidades das mulheres da família e, con­
sequentemente, implicavam certo reconhecimento por parte do sujeito, são
impotentes para apaziguar o humor explosivo e desmedido das mulheres
em geral. Tendo como suporte o amor de transferência, o sujeito acredita
em uma reconciliação com o Outro pela instalação do novo par mãe/filha,
constituído com a analista. Essa via, no entanto, em vez de mobilizar o sinto­
,,
ma - ou seja, "ensinar a falar -, acentua a exclusão característica da fantasia,
cujos elementos já começavam a se esboçar. O termo dessa primeira etapa de
análise é determinado pela ruptura da analista com a comunidade analítica
em que eu desejava me inserir. Nesse momento, o sentimento que predomina
e, também, inquieta é certa tendência ao isolamento, que reaparece, portanto,
como uma das manifestações da inibição, uma medida para evitar o turbi­
lhão do gozo próprio ao universo do feminino.

APRE N D E R A LER

Retomar a análise s ó fo i possível a partir de um comentário fortuito de outro


analista, que me fez reassumir o saber relativo ao objeto olhar imputado ao
Outro. Ao se mostrar do lado do analista, esse objeto, já assinalado como
matéria da falta na relação com o Outro materno, reinaugura o inconsciente
transferencial.
O que se destaca, desde então, é o olhar fascinado do pai pela filha, olhar
,
que se faz acompanhar, geralmente, de um sorriso silencioso. O "ser amada ,,
do lado do pai, desenha-se em função desse traço, que me convoca a ser par­
ceira dele em diversas ocasiões, sobretudo quando ele se encontra só e se
sente descontente, ou quando está ocupado pela satisfação oral. O sorriso é
acolhedor, porém obscuro, e faz enigma, o que me leva a decifrar o sentido
do valor particular da menina para ele, valor que assume proporções da equi­
valência girl = falo, tendo-se em vista as circunstâncias particulares da morte
do pai dele. Após o falecimento precoce de sua filha, meu avô paterno decide
dar um fim à sua vida. A passagem ao ato suicida, justificada pelo amor pa­
terno, uma paixão mortal desse pai pela filha de dois anos, acontece antes de
ele saber da concepção de uma segunda criança: meu pai, que nasce, portanto,
órfão de pai. O suicídio é o choque que ecoa no romance familiar do sujeito.
O destino desse luto impossível de suportar do avô faz com que a filha desse

192 A P O S TA NO PA S S E
pai, concebido entre a morte da irmã e a morte do próprio pai, seja herdeira
do drama. A filha se torna para o pai um objeto fascinante, um objeto fálico.
E a identificação g irl = falo serve de identificação e de defesa contra certa
mortificação, de um lado, e contra a ausência do olhar do Outro matemo,
de outro.
Traçada a trama da história do sujeito, as primeiras fraturas da fantasia
não se constituem tarefa fácil e implicam uma separação no que concerne
ao olhar fascinado do pai, que recobre a ausência do olhar da mãe, e uma
perda do lugar de exceção, que fornece segurança para enfrentar o campo
obscuro do que me era oferecido, de um lado, por minha mãe e, de outro, por
minha avó paterna. Esse lugar de exceção, por sua vez, é o que desencadeia a
hostilidade de outras mulheres em geral. E constitui, assim, o ponto no qual
,
((o que eu sou se afoga, ou ainda, valendo-me da poesia de Caetano Veloso na
mesma composição, "meu zen, meu bem, meu mal':
Experimento, na transferência, o medo de existir. No processo da análise,
após delimitar o nível da inibição e o do sintoma, emerge, com efeito, o ter­
ceiro do: o da angústia. Cada sessão marcada prenuncia um encontro com o
objeto fóbico - o medo é meu companheiro no trajeto para a sessão, na entrada
no consultório, no divã. Tenho medo de falar, medo de não saber o que dizer.
Medo de tudo, como se eu tivesse cometido uma falta muito grave de que não
tinha mais lembrança. Trata-se, mais precisamente, de um fundo fóbico con­
cernente a todas as minhas ações, o que, contudo, não me paralisa. E prossigo.
Uma angústia apreendida no plano da imagem e outra, no plano da voz,
ambas concernentes ao Outro materno1 modificam o corpo do sujeito, cau­
sando horror. A experiência do sujeito com o inconsciente e a sua repetição
estimulam a atividade onírica, sobretudo no tocante a sonhos de angústia,
que se põem a serviço da localização e da consequente recolocação de seu
modo de gozo. É o momento em que o analisante pode fazer a leitura de seus
sonhos. A via do sonho, no meu caso, desempenha um papel importante no
processo de extração da libido do objeto, que se faz sob transferência.
Esse trabalho sobre sonhos acentua o medo, que se materializa como te­
mor de ser engolida por' um buraco negro, de restar só no mundo, de não so­
breviver. O afeto que sobressai do inconsciente é o desânimo - uma vontade
de nada fazer, de nada clizer. Trata-se de um período difícil da análise, que, no
entanto, contrabalança com mudanças subjetivas e realizações profissionais
positivas e importantes. A cólera situa-se como uma resposta à impotência
do pai, uma resposta do sujeito ao pai; é um grito em face da renúncia deste a
constituir-se numa voz capaz de conter os excessos das duas mulheres - mãe
e avó - no que diz respeito à menina.

C O UP DH PO UDRB 193
Um sonho: encontro-me à beira do buraco negro de um elevador; con­
tudo olho para esse buraco e não sinto medo. O analista observa: "II ne faut
pas rester au bord" ["Não se deve ficar na beirada"] . Escuto essa observação
como um convite para que eu me introduzisse, porém com o cuidado de me
manter a urna boa distância em relação ao furo, ou seja, à opacidade com que
o semblante fálico oculta o vazio. O que faz o objeto parecer resplandecente,
seu brilho, é o que escamoteia o vazio, o negro, o buraco negr<>s
Dois acontecimentos de corpo assinalam a perda do brilho do objeto.
No primeiro, ao atravessar a Pont Royal, mirando a Pont de la Concorde, no
horizonte, não vejo mais Paris como antes. De repente, esse lugar, considerado
uma das mais belas paisagens urbanas do mundo, perde todo seu deslumbra­
mento e, aos meus olhos, sua beleza deixa de ter o esplendor exuberante de an­
tes. O desinvestimento escópico é correlato à inscrição do vazio no objeto olhar.
No segundo, já do outro lado da ponte, olho para a vitrine de uma padaria e,
nela, uma pequena tarte auxfraises não mais me convida ao deleite, pois perdeu
seu caráter irresistível. Isso parece incompreensível para alguém que, por anos
a fio, ao deixar a sessão de análise, se rendia a uma tortinha de morangos, a
fim de recuperar o afeto perdido. Depois desses dois acontecimentos, só posso
guardar os doces de uma festa no bolso: olhar o objeto desperta a lembrança,
resgata o paladar, mas não implica mais a mesma vontade de comer - "C'est le
petit a dans la poche" ["É o péqueno a no bolso"], sinaliza o analista. O objeto,
antes aprisionado em sua face imaginária, perde o brilho; opera-se, então, a re­
dução do real do gozo do objeto escópico. Lacan considera que "o imaginário é
o corpo"3 e afirma que este é impensável sem o gozo. Freud, em "O mal-estar na
civilização': observa que a beleza é inerente ao corpo humano. O que o sujeito
vê na paisagem é a própria beleza. A interpretação do analista sinaliza a retirada
do objeto de seu esconderijo e a instauração, para o sujeito, da separação entre
o valor de gozo do objeto e seu valor de semblante.

A I N E XI S T Ê N C I A D O D E S E J O D E S A B E R

Uma frase destaca-se d o texto d e uma conferência proferida pelo analista:


"La voix va au-delà de l'objet': Essa afirmativa afeta o corpo do sujeito e de­
sencadeia uma crise de choro, uni choro interno, como um grito engolido.

3 LACAN, Jacques, O Seminário, livro 23: o sinthoma (1975-6). Rio de Janeiro: Jorge Zahar
Editor, 2007, p. 64.

194 A P O S TA NO PASSE
No mesmo dia, o corpo é invadido _ por uma dor que se manifesta em todas
as articulações e deforma até seu jeito de andar. Na sequência, um sonho me
permite lembrar de um clube que frequentei durante muitos dias de minha
infância, sobretudo em períodos de férias, quando meus irmãos e eu éramos
deixados lá pela manhã e buscados no final da tarde, depois da jornada de
trabalho de minha mãe. Esse clube situava-se na frente de um quarteirão de
casas construídas por meu bisavô, numa das quais ele morava, assim como a
maior parte de seus filhos. Um quarteirão de casas que se comunicavam pelos
fundos, já que _ todas desembocavam em uma grande área central.
Nessa área, havia uma horta e árvores frutíferas de todo tipo. Meus pri­
mos, irmãos e eu brincávamos nesse espaço durante o intervalo de três horas
em que o clube fechava para o almoço. Eu passava por essa área sempre um
pouco assombrada, porque sabia que fora naquele local que meu avô paterno
tinha interrompido sua vida com um tiro de fuzil. É da morte no centro desse
,,
"jardim do Éden que advém o desejo do analista. Na procura de um saber, o
sujeito coloca-se, desde muito cedo, na função de um pesquisador incansável
do que se encontra, mais além do pai e da mãe, no limite do dizer, no desejo
que enlaça o trauma da morte por amor.
Do outro lado da rua, no clube, a piscina representa o buraco negro, em
função de uma advertência .constante da avó paterna que sinalizava o pe­
rigo de morte por afogamento, repetindo uma frase que soava enigmática:
<'A água exige os que sabem nadar, porque os que não sabem já são dela': O es­
paço enorme do clube é decifrado e as zonas de perigo, delimitadas. Realiza-
-se, assim, um trabalho de organização em prol da vida. Integro-me na equi­
pe de natação. Aluna aplicada, alcanço certa harmonia na reprodução dos
movimentos, que não passa despercebida ao treinador; frequentemente, ele
me solicita reproduzir algum tipo de nado para a observação dos demais alu­
nos, o que me leva a me imaginar sendo vista - o corpo toma a forma do falo.
Os sonhos vão pôr em cena um corpo esvaziado e coberto por véus - o
semblante do falo -, e o sujeito bem posicionado em relação ao olhar, de for­
ma a poder ver. Um desses sonhos causa surpresa: crianças são atingidas por
tiros de fuzil - "coups de fusil" -, vindos de toda parte; os corpos gingam para
se defender e acabam caindo no chão, um após outro. Pergunto-me: "O que, ·
é isso? Corpos de crianças caídos, atingidos por tiros de fuzil?" E a resposta
recebida é: "Coup de foudre!" Essa resposta também causa surpresa pelo
inesperado da substituição - <'coup de fusil" por "coup de foudre': Trata-se
de algo inteiramente novo, sobre o qual não há saber. � preciso lidar com isso.
Se não há desejo de saber, isso se explica porque, na experiência analítica,
não se pretende achar alguma coisa. Minha trajetória de análise revela o lado

CO UP DE POUDRE 195
idílico do desejo de saber - ou seja, uma obstinação que gera, de modo es­
pecial, inibição quanto ao saber. Assim, não se trata de descobrir um saber,
mas de curar-se dele. E, para tanto, é ·preciso inventá-lo sob a égide do fazer.
No meu caso, a obstinação em extrair um saber do. real promove o encontro
contingencial com o coup de foudre - acontecimento de amor súbito, arre­
batamento, trovão, semblante da fúria dos deuses ou tudo issó' no modo de
gozo do meu olhar, único capaz de circunscrever a causa e o horror de saber.

APOSTA NO PASSB
Rômulo Ferreira da Silva1

'( T O M A ! " 2

F I Z T R Ê S A N Á L I S E S AO L O N G O DE 23 ANO S .
Comecei a primeira aos 2 4 anos, já em São Paulo, logo após a formatura
no curso de Medicina e a mudança de cidade com o propósito de me especia­
lizar em psiquiatria. Após alguns meses, fui convocado para o serviço militar
obrigatório em outra cidade, o que me afastou da análise por um ano. Esse
processo durou mais dois anos e interrompeu-se após meu casamento. Seis
meses mais tarde, fiz outro pedido a minha supervisora e um novo procedi­
mento durou cerca de oito anos. Nesse período, ingressei no dispositivo do
passe de entrada na Escola Brasileira de Psicanálise (EBP ) e tornei-me mem­
bro dessa entidade. A frase do Cartel do Passe de entrada foi memorável:
"O Cartel reconhece que houve a travessia da fantasia, porém o Outro perma­
nece consistente': O final dessa análise chegou a um significante de gozo: "Sim!"
Fui conversar com aquele que viria a ser meu terceiro analista. Falei-lhe
do significante do final da análise anterior e perguntei-lhe se eu deveria ir ao
dispositivo do passe conclusivo naquele momento ou se deveria esperar mais
algum tempo. Ele, por fim, disse-me: "Você quer que eu diga 'Sim! '; então,
eu digo 'Sim!" Não consegui saber ao certo se ele havia dito: "Sim, vá para
,
o passe!, ou "Sim, espere um pouco!" Ele cobrou a sessão e minha terceira
análise começou.

1 Nomeado Analista de Escola (AB) pelo Cartel do Passe da Escola Brasileira de Psicanálise
(BBP) em 30 de abril de 2012.

2 Testemunho apresentado no XIX Encontro Brasileiro do Campo Freudiano, realizado em


Salvador, Bahia, no dia 24 de novembro de 2012 e publicado originalmente com o título
"Testemunho Salvador" em Opção Lacaniana: Revista Brasileira Internacional de Psicanálise,
n. 64, São Paulo, 2012, dez., p. 109-16.

197
Meu pai era filho de um casal muito pobre e viveu na roça até os 17 anos,
quando se mudou para Uberlândia, em Minas Gerais. Completou os estudos
em contabilidade e, após dez anos, casou-se e tornou-se esteio de ambas as
famílias - a dele e a de sua esposa.
Meu avô materno sumiu algumas vezes em sua vida, a primeira aos oito
anos de idade. Retornou aos 18 anos, ficou noivo da filha mais velha de uma
família de seis filhas e, novamente, se foi. Voltou, algum tempo depois, de­
cidido a se a casar, porém, desta vez, com a caçÚla das mesmas irmãs, de 14
anos. Casou-se e levou a esposa para Uberlândia. Após ficar viúvo, declarou
que iria embora, quando sua filha mais nova, então com dois anos de idade,
se casasse. Criou as filhas em clima de austeridade. Era espírita e tido como
alguém capaz de promover curas espirituais. Contudo fez o prometido: foi
�mbora, sem deixar qualquer sinal de para onde iria.
Somos sete irmãos - três homens e quatro mulheres. Sou o quarto filho
e o segundo neto. Meu irmão mais velho nu.ç. ca se submeteu aos caprichos
do avô e muito menos aos cuidados que as tias tentavam dispensar-lhe. Mais
tarde, a carência da metáfora paterna revelou-se nele.
Minha mãe teve uma história obstétrica complicada. Em sua quarta gravi­
dez, gerou uma mola hidatiforme, produto de fecundação que não gera um bebê,'
e foi-lhe indicada uma histerectomia. Meu avô, a partir de orientações espiritu­
ais, prescreveu-lhe chás e rituais. Uma nova gravidez ocorreu. O médico disse
que, se o bebê vingasse, ela seria curada e seu organismo seria limpo de células
pré-cancerosas. Quando nasci, fui exibido pelo hospital nos braços do gineco­
logista, que afirmava: "Nasceu um capitão!" Além disso, por ser o terceiro filho
Rh+ de mãe Rh-, fui considerado uma criança de muita sorte e um salvador.
Enredado nos cuidados das tias, eu passava dias na casa delas. Era o neto
predileto, todos diziam que eu me parecia muito com meu avô e era esperado
que eu ocupasse o lugar dele na família, pois muito cedo me interessei por
religião, revelando-me um menino sério, estudioso e caseiro.
Minha irmã caçula ia nascer e eu queria ficar no corredor do hospital,
onde havia um alçapão no teto, porque havia concluído que a cegonha dei­
xaria o bebê por aquela abertura. Fui, porém, orientado por meu pai sobre
como os bebês vinham ao mundo e, desde então, minha futura profissão já
estava decidida. Acompanhei o puerpério de minha mãe, que se emendou
com uma segunda mola hidatiforme. Em seguida, ela sofreu um aborto por
eritroblastose fetal e, por fim, apresentou cistos de ovários bilaterais. Meus
três irmãos mais velhos iam para o · colégio logo cedo. Eu cuidava de meus es­
tudos e de minha mãe. Ela sentia muito frio, ficava ao sol e sempre me pedia
para lhe buscar uma coberta ou algo para comer - ela doente e eu de plantão.

A P OSTA NO PASSE
Tive sarampo. Durante uma visita de minhas tias e primas, minha irmã
pediu para que todos saíssem do quarto, já que eu não podia ficar em local
abafado. Eu disse: "É bom ficar com gente': Ela me repreendeu, porque escu­
tou: "É bom ficar doente".
Iniciou-se para mim, então, um período de fragilidade e sofrimentos.
Conheci uma vizinha e decidi pedi-la em namoro, presenteando-a com
um "anel de bala': Em retribuição, ela me deu seu anel de ouro, com uma
pedra vermelha. Estávamos namorando. Ao me ver com esse anel, minha
irmã- mais velha ficou furiosa, alegando que eu não deveria estar usando
um "anel de menina", e fui obrigado a devolvê-lo, o que implicou o fim
desse relacionamento.
Aos sete anos, brincava com uma vizinha e um vizinho, este um pouco
mais velho que nós dois. Certo dia, a menina queixou-se de que uma formi­
guinha havia entrado em sua calcinha e o vizinho levou-nos a um canto, para
nos ensinar como curar aquela picada. Deparei-me pela primeira vez com
uma vagina aberta, um buraco. Fomos surpreendidos e o que restou desse
episódio foi: "Não pode! Ela é menina e não se faz isso com uma menina".
Minha curiosidade tomou-se mais aguçada e eu adorava ficar fingindo
brincar ao lado de minha mãe e de minhas tias, enquanto falavam de rela­
cionamentos conjugais. Ouvi muitas coisas sobre os maridos, todas negativas.
Meu avô, porém, era sempre elogiado.
No início da minha experiência escolar, sentei-me ao lado da minha vizi­
nha, aquela da formiguinha, na primeira carteira dupla da fileira das meninas.
Em casa, ouvi: <<Você acha que é uma menina?"
Os quatro primeiros anos de escola foram marcados por intensa angústia.
Lia tudo sobre sexo que estivesse ao meu alcance. Tinha crises de falta de ar e,
por isso, fui várias vezes para a enfermaria do colégio, onde eu me sentia no
paraíso. Lá havia material médico, livros, uma cama hospitalar. Rapidamente,
inscrevi-me no Pelotão de Saúde da instituição. Tínhamos de averiguar · a hi­
giene das outras crianças e aprendíamos a verificar sinais básicos de saúde.
Nessa época, eu era, ao mesmo tempo, doente e cuidador.
Era ávido por crescer, chegar à vida adulta, tomar-me médico e ter uma
esposa e filhos. Seria um pai atencioso com meus filhos e um marido exem-;­
plar. Não me imporia à minha esposa e tudo faria para torná-la feliz. Não a
deixaria em falta e cuidaria dela em todos os momentos.
Muito cedo, comecei a fumar, a gostar das músicas que meus irmãos mais
velhos ouviam, a usar roupas de adulto e, logo, num momento importante
da ditadura no Brasil, interessei-me por política. Comecei a trabalhar em um
escritório de contabilidade.

"TOMA!" 199
Na escola, meus colegas eram sempre mais velhos e, quando eu tinha 13 anos
de idade, todos eles já tinham tido experiências sexuais. Meus ami,Pos fizeram, na
época, uma reunião para comprovar se eu já estava «pronto» para ser iniciado
nessa área. Escolhi, com a ajuda dos amigos, uma jovem e bela prostituta, e tudo
ocorreu como esperado. Fomos comemorar e eles me perguntaram: «Ela gozou?''
Respondi, com firmeza, que sim. Contei como havia ocorrido e eles não tiveram
dúvida: ela tinha gozado. Concluí: «se ela gozou, então sou homem·�
Esse, porém, foi um momento muito conturbado na família. Então, a par­
tida do meu avô deixou um grande vazio. Minha mãe, assim como minhas
tias e mesmo meus tios, sofreram muito. O efeito em mim foi, a princípio,
inverso, pois imaginei que ele, como um homem dito .tão íntegro e dedicado,
tivera a coragem de ir embora, sem deixar sequer um endereço. Contudo pas­
sei a me perguntar: «Ele não teria curiosidade pelo que adviria à sua família?"
"Não quereria ver seus netos crescerem?" «Não sentiria saudade?" O lugar que
ele ocupava para mim foi, aos poucos, destruído.
Meu pai e meus tios não se mostraram capazes de suprir a falta em que as
seis mulheres da família viviam afundadas. Minha decepção aumentou mais
ainda: "Meu pai não se dava conta da insatisfação de minha mãe?" Deduzi
que ele não conseguia satisfazê-la, mesmo sabendo que era sempre ele quem '
a procurava sexualmente. Cheguei, portanto, à conclusão de que havia outra
satisfação em jogo: "O que ela queria?"
Por pretensão advinda da experiência de que meu avô era uma fraude e
de que meu pai era um fraco, alimentei o desejo de ser o homem que faltava
às mulheres - uma exceção. Tentei ser aquele que as compreendia, que as
salvava da condição humilhante e degradante de serem mulheres numa so­
ciedade machista e autoritária, a qual lhes impunha suas regras.
,
Ao me "apaixonar» por uma prostituta, combinei um "programa , com
ela. Tudo correu muito bem até que chegamos a seu quarto e me deparei
com um quarto parecido com o da minha irmã. No entanto, principalmente
a forma como ela se despia, de costas, fez-me vivenciar desejos incestuosos
impeditivos ao ato sexual. Seguiu-se um período de busca desenfreada de
um saber teórico sobre a sexualidade. Quanto mais adquiria insígnias fálicas,
mais meus adings out se voltavam em direção ao gozo sem limite e à morte.
Isso me fez aproximar do que se chama de sintomas contemporâneos.
De volta à análise, uma contingência: o reencontro com a fantasia de
salvar a mulher - de sua fragilidade, de sua castração, de sua doença sempre
ameaçadora.
Deu-se, então, o encontro com uma mulher, que me surpreendeu olhan­
do para seus seios deixados à mostra, displicentemente, enquanto cantava.

200 AP O S TA NO PAS S B
Ela era de uma tristeza de fazer samba, lembrando versos de Vinicius de
Moraes - " [ ... ] para fazer um samba com beleza,/ é preciso um bocado
de tristeza [ ... ] '� Foi ela quem me fez resgatar, em decorrência de minha
análise, aquilo que um homem busca em uma mulher: a causá de seu desejo
e não um saber sobre ela. Salvar a mulher amada era dar-lhe a possibili­
dade de estar diante de um homem que pudesse dançar com ela, escutá-la
em seus sofrimentos, valorizá-la em suas performances, ser um amante
exemplar, provedor, sensível e educado, firme e forte, fazer comidinhas para
depois do amor, fiel, alegre e divertido. Talvez não fosse esse entusiasmo
todo que a mulher amada procurasse. Até o fim do relacionamento, em seus
últimos suspiros, a tentativa era a de dar aquilo que não se tem a quem não
pede. O casamento desfez-se após muitos anos de análise de ambas as partes.
As fantasias foram atravessadas.
A posição de querer salvar a mulher pela medicina, pelo sexo e, inclusive,
pela psicanálise revelou-se a pretensão de querer me salvar de minha própria
castração diante da relação sexual que não existe. Afirmei, então, em análise:
"Eu não preciso mais disso... Nem ela".
Assim, deparei-me com uma conclusão. O objeto oral colocava-se como
objeto privilegiado - comer, beber, fumar -, mas o falar pôs em evidência
o objeto voz. A evocação para tomar a palavra, principalmente em situações
formais, causava-me mutismo. Fazer análise em outra língua teve, contudo,
uma função importante. O esforço de dizer em francês o que havia se passa­
do na minha vida fez-me distanciar do drama que, muitas vezes, gostava de
contar em rodas de amigos. Minha história tornou-se chata, ridícula e vazia.
Ocorreu, via de consequência, um fenômeno importante. Ao mesmo
tempo que falava menos da vida, minha voz mostrou-se mais ativa - de tími­
da, feminina até, tornou-se uma voz mais natural, mais conforme às minhas
cordas vocais e, sem esforço de minha parte, passou a ser reconhecida como
uma voz masculina.Tratava-se antes de um compromisso com minha mãe e
todas as mulheres que pretendi seduzir, transformando-me em um homem
mais adorável que os outros. A voz masculina parecia muito autoritária para
elas. Uma simples raspada de garganta de meu pai fazia com que as mulheres
de minha família se calassem. Eu, ao contrário, queria fazê-las falar.
A posição do analista, desde o início, foi a de causar uma transferência
negativa. Num primeiro momento, disse "Sim!': mas não sem colocar outra
posição. Meses depois de começado o tratamento, entendi que estava em fim
de análise, já que tudo que eu dizia já havia sido trabalhado anteriormente
e o que me restava era ocupar uma posição que me proporcionava um lugar
muito confortável junto às mulheres, junto ao mundo em geral: dizer sim.

201
A resposta do analista foi uma crise de "nãos" jamais vista( sapateava, ba­
tia na mesa, gritava "Não, não.. !' várias vezes, como uma criança birrenta,
como um louco, um ditador, que não abre mão daquilo que pensa e quer.
Depois, conduziu-me até a porta e pediu, com voz carinhosa, que voltasse
uma hora depois. Era o último dia daquela temporada de análise, às 20h.
Não havia mais ninguém no consultório, nem na rua. Foi a hora mais difícil
de passar. Eu pensava: "Que é isso? Ele é louco? Precisa fazer esse escândalo?
O que ele pensa que é? Toma! " Eu queria e, ao mesmo tempo, não queria
voltar lá. Apenas queria, mais uma vez, curto-circuitar a satisfação de parecer
o homem bonzinho e confiável, para poder dar o golpe final: "Toma!"
Foi necessária a retomada do percurso da constituição do sujeito, re­
passar o Édipo, recolocando o pai no lugar dele, em vez de no do avô, para
poder abrir mão do compromisso com a mãe e deixar a identificação ao pai
aparecer sem constrangimento. Era como se tivesse feito todo o percurso
da análise, para, enfim, me tornar um obsessivo clássico. Queria, ainda, me
livrar da culpa de desejar a mulher como desejava e colocá-la no lugar de
objeto. Queria não mais precisar acompanhá-la nas compras e em tantas
outras ações, fingindo gostar disso, para, depois, ter acesso a seu corpo. Em
suma, queria me livrar do compromisso de dizer "Sim! ': a fim de poder
abordá-la pela vertente oposta. Na análise, o que se revelou foi que o con­
trário do "Sim!" não era o "Não!", mas o "Toma!': . Dizer "Sim!" fazia parte
de uma estratégia para poder colocar em atividade o que era desejo em
relação à mulher: "Toma! "
O que s e apresentou em decorrência da cena da prostituta tirando a rou­
pa foram cenas vividas com minha irmã: ela me olhava para verificar se eu a
observava; eu disfarçava e me colocava na posição de objeto olhado passiva­
mente, fazendo de conta que não me interessava pelo que via.
Ser visto olhando fez uma marca de gozo. O olhar foi ostensivamente
recusado pelo analista, que escondia o rosto atrás da porta ao me receber nas
sessões: "Como ele tinha a coragem de fazer aquilo? Não me conceder um
olhar?" E eu pensava: "O que ele pensa que é? Acha que sou um bandido? Que
não sou confiável? Que vou utilizar de minha posição estratégica de dizer
'Sim!' para poder me impor?" "Sim"/"Toma!"
Sim, essa foi a grande revelação da minha análise. Sim, o gozo estava cir­
cunscrito a dizer "Sim!" para poder me impor, dizer a que vim, dizer o que
queria: "Sim! Toma!" Era isso! A descoberta dessa articulação alimentou-me
um sentimento de astúcia e orgulho.
Certa feita, falando de uma situação de "crise" na EBP, em que solucionei
o impasse, dizendo "Sim!" e, depois, "Toma!': ouvi do analista: "Hipocrisier

202 AP OSTA NO PASSE


Não entendi. "Hipocrisis? Como se diz isso nà sua língua?" Irritado, respondi
em bom português: "Hipocrisia! Sessão encerrada!"
A partir dessa interpretação, a questão que se colocou foi a da necessidade
dessa estratégia. Ocorreu, então, um esvaziamento da satisfação. A perda da
mulher que eu acreditava ser a mulher da minha vida foi sofrida juntamente
com a perda da consistência do gozo, que insistia em fazer com que a relação
sexual existisse. Eu não sabia discernir se sofria por essa perda ou pela perda
de gozo que, antes, se impunha. Não foi um período fácil. No entanto a rela­
ção com meu filho adolescente ainda me dava esperança de ser alguma coisa.
Um sonho: estou dirigindo uma bicicleta que tem uma garupa na frente,
na qual conduzo meu filho, que se diverte com isso. De repente, noto que
ele faz com a bicicleta um percurso próprio, que não posso controlar, mas
finjo que domino, acompanhando seus movimentos. Ele segue seu caminho.
Agora, são duas bicicletas. Não consigo mais acompanhá-lo, pois ele é mais
rápido, ágil, e está muito feliz por isso. Diminuo a velocidade, ele se distancia
e admito que devo deixá-lo seguir em frente. Ele pode - e deve - seguir sem
,,
mim! "C'est comme ça! , escuto do analista. Nada de astúcia ou orgulho, ape­
nas o vazio. Mesmo para meu filho, que depende diretamente de mim, posso
faltar. Cheguei ao nada. Do bebê «capitão" e "salvador" da mãe e de todas as
mulheres possíveis ao nada.
Não entendia mais a que ponto a análise podia me levar. Havia certa
liberdade, mas também tristeza. A alegria constante se revelou uma defesa
contra a solidão radical.
Retomando um tema qualquer na análise, ouvi o analista perguntar com
voz entediada: «Você não tem nada mais interessante para falar na sua análise?"
Não, não havia nada mais a falar. Era a última sessão daquela - temporada.
A temporada seguinte representou, mais uma vez, um vazio total. Sentia-
-me um perfeito idiota, que atravessara o Atlântico e nada tinha a dizer, nada
a escutar. Como de praxe, falei com ênfase sobre a data de minha partida.
No final da temporada, o analista pediu-me para voltar algum tempo de­
pois. Respondi-lhe de forma muito decidida: "Não, estou indo embora!" Ele
voltou-se para mim e disse: "Você já tinha ido embora': Em seguida, irritado:
,,
"É preciso me prevenir quando for embora .
,,
"O que era aquilo? Desci as escadas pensando, xingando e dizendo em
voz alta, como um louco: "O que é isso? O cara não me escuta, não presta a
menor atenção em mim, só quer saber de articular as questõe� da psicanálise,
os textos de Lacan, como meu pai': Retomei, assim, com clareza, minha quei­
xa sobre meu pai e o sentido da transferência. Tentar manter a transferência
em sua vertente positiva, apesar de todos os esforços do analista, era uma

�TOMA!" 203
forma de manter vivos meu pai, a mulher, o Outro consistente. Êra o petit
garçon, o menininho, reclamando do pai que não soube lhe ensinar nada
sobre a castração, que não soube cuidar dele. "Não!" Recapitulei: "Não foi
,
essa a interpretação. Ele disse que eu já fui embora. Minha análise terminou �
De volta ao Brasil, tive novo sonho: eu estava em um grupo enorme com
pessoas de todas as minhas rel_ações, amigos, colegas, parentes. De repente,
um casal chamou-me a um canto. Eu sabia o que eles queriam: que eu fizesse
uma espécie de eutanásia no filho deles, que estava numa maca. Fiz o que era
esperado. Matei aquele sujeito que estava ali e que era eu mesmo. Não havia
outra alternativa para ele. Após isso, o corpo estava cortado em grandes fatias,
,
em mantas de carne, como "carne seca : branca, sem sangue, que distribuí
naturalmente.
Na única sessão da temporada seguinte, contei esse sonho. Terminei o
relato, dizendo o que havia concluído: ''Agora, acho que minha análise pode,
um dia, ter fim': Imediatamente, associei tal sonho à temporada anterior e
relatei minha trajetória ao analista: de menininho queixoso do pai à con­
clusão de que a análise havia terminado. Ele me acompanhou até a porta de
saída e a fechou. Vi-me no corredor do prédio, no escuro: ''Acabou!" A porta
foi reaberta, depois de um tempo infinito - dois segundos talvez - e o ouvi
,,
dizer: ''Au revoir!
,,
Eu estava lá, sozinho com meu "Sim! /"Toma!". Dei-me conta, enfim, de
que o "Toma!" pode ter formas incrivelmente diferentes. Não se trata de sa­
ber fazer. É uma maneira sempre contingente de saber fazer com o sinthoma.
Se bem que exista a palavra "sintoma" na língua, sendo, inclusive, um termo
muito caro à psicanálise, trata-se de um neologismo. É a minha maneira de
escrever o sinthoma com h.

204 A P O STA NO PASSE


Marcus André Vieira1

C O M O M O RD E R O MAR
(ou N A T R I LH A S O N O RA D E U M A ANÁL I S E )
2

T RAUMA E T RA ÇA D 0 3

O corpo__que temos resulta de- um encontro, entre . o excesso que nos habita e
�J;�idênci� · do· Outro em nossas vidas. Os contornos desse encontro entre
gozoe significante define riossa cartografia corporal, o que será e o que não
será possível em termos de pru.er e dor. Muitas vezes vivido como trauma,
ele pode ser apreendido como .troumatisme:·simpies traçado dos pontos por
onde um tanto de vida nos é extraído para que possamos, fora do absolu�o
do
- g9zo, viver.
N� ·meu caso, o encontro entre o Outro e o corpo teve toda a aparência de
trauma, que sintetizei numa agressão sofrida aos sete anos. Minha garganta
foi apertada, fui levantado do chão, meu corpo sacudido até que eu qua­
se perdesse os sentidos. Era um paciente da clínica psiquiátrica em que vivi
boa parte de minha infância. Nessa empresa familiar, dirigida por minha avó

1 Nomeado Analista de Escola (AE) pelo Cartel do Passe da Escola Brasileira de Psicanálise
(EDP) em 14 de novembro de 2ou.
2 Testemunho apresentado nas xxu Jornadas Clínicas da EDP-Rio e do ICP-RJ em outubro
de 2013 e publicado originalmente em Opção Lacaniana: Revista Brasileira Internacional
de Psicanálise, n. 67, São Paulo, 2013, dez., p. 97-104.

3 Agradeço aos amigos e colegas pelos comentários precisos aos meus primeiros testemu­
nhos, que foram sendo incorporados neste texto, impossível sem eles.

205
materna, minha tia e minha mãe, tudo era mantido aparentemente sob con­
trole por uma denegação radical do desregrado do gozo.4
Em plena loucura, era como se ela não existisse. A manobra era radical,
envolvendo todos, e os efeitos eram drásticos, como no exemplo mais em­
blemático para mim: os gemidos dos pacientes mais comprometidos à noite,
no pavilhão de madeira a dez passos de nossa casa. Ignorados mesmo sendo
ouvidos. ·
Não havia lugar para a desrazão no discurso ambiente, não havia, por­
tanto, lugar para a mão do agressor na garganta: Teria sido sempre "não é ele':
,,
"é puro impulso etc. Por isso, nada contei a ninguém. As mães me fizeram
crer na incidência de um Outro sem desejo, violência sem agente, real sem
simbólico. Enganava-me. Na verdade, inscrevia-se ali o silêncio sobre o ex­
cesso do gozo, relegado ao anonimato pela manobra materna.
Do mesmo modo, tudo aconteceu como se o corpo atacado não fosse
meu. A partir dali, era como se carregasse comigo uma espécie de primo in­
visível. Foi essa minha constituição obsessiva, por um lado livre da violênc�a,
por outro condenado à falta a ser, como a criança, conta Guimarães Rosa, que,
numa feira, uma festa junina, procura o guarda e diz: "Seu guarda, o senhor
viu por aí um casal sem um meninozinho assim como eu?"5
O menip.o esganado ficou como um retrato em preto e branco, na gaveta,
ainda mais oculto por um corpo vistoso bem �olorido que roubava a cena.
Era o corpo do narcisismo, de todo dia, definido pelo olhar da mãe, de filho
preferido, estruturado como llll1 mosquito elétrico (apelido dado pela tia):
agitado, brilhante e brincalhão, mas que, na hora "H': de se entregar, nunca

4 Entre outras coisas, era ·um modo de recusa da realidade que criava uma espécie de rea­
lidade paralela, por meio de uma série de nomeações ad hoc que lembravam as do po­
liticamente correto de hoje. Os pacientes eram os ";.iunos': o sítio era a "fazenda': um
prédio tinha o nome do palácio da República, a loucura nunca era patologia, mas apenas
"fragilidade" e assim por diante.
5 Além de haver esse menino faltante, parecia também não haver guarda nenhum, pois se
o real é aleatório, de nada serve o Nome-do-Pai como mediador. No meu caso, em vez
da mão ( ou da voz, mais comwn) de um representante qualquer da ordem paterna, ou
mesmo de falas maternas remetendo ao pai (que existiram, claro, pois até segunda ordem
não sou psicótico), em vez disso, primou a presença constante de uma violenta desordem
abafada pelo caprichoso discurso matriarcal. Como se o Nome-do-Pai fosse dispensável.
É que, classicamente, o encontro com o real é mediado pela mão paterna. É ela que, pesada,
castiga e educa, protege de outras agressões ou, ao contrário, agride, ou ainda, ausente, faz
falta (como na piada), fazendo crer que o real segue alguma lei.

206 APOSTA NO PASSE


estava lá. Falicizado pelo olhar da mãe, recoberto por ele, se subtraía para
descompletá-lo. Saía voando na busca de um "si mesmo" de gozo sempre
ausente, além, e só sossegava ao encontrar-se com a violência de um desejo.6

O L O U C O , O A N A L I S TA E O R E S T O

Minha análise veio dar nome à marca anônima do Outro, dando lugar ao
tanto de gozo não recoberto pelo olhar e que não era entregue ao namoro
com a violência. Como esse resto parecia feito de silêncio, por muito tempo
soube que existia, mas não havia como trazê-lo à cena. Era como nesta outra
piada: um doido estava com o ouvido colado em uma parede, aproxima-se
o médico e o doido faz sinal para ele ouvir. O médico cola o ouvido e nada.
O doido diz: "Está ouvindo?" "Não': "Pois é, está assim há quatro horas!"
Para fazer a parede falar, precisei de alguém como esse doido. O analista
entrou em cena em um lugar desse tipo, imprevisto. Nem mãe, nem trovão,
nem guarda, ele veio em um lugar inesperado. De fato, desde o início a trans­
ferência se engajou com relação a algu ém, como o doido da piada, que me
parecia senhor da arte de se submeter sem sucumbir, disso parecendo extrair
alguma imprecisa coisa a mais. De qualquer outro (como em uma análise
anterior), a análise teria sido muito difícil, se não impossível.
Não poderei entrar no detalhe da transferência, por isso a piada. Vou ape­
nas resumir todo um percurso, extenso, de uma série de interpretações, em
uma só: «seu coração é um tambor". A novidade era que o "coração-tambor"
localizava, condensava numa parte do corpo e não no corpo inteiro, um gozo,
nesse caso o de uma selvagem chamada à luta. Por ser uma parte do corpo, o
efeito foi o da possibilidade de que eu, em vez de entrar de cabeça na batalha
para sair dela voando em caso de perigo, agora podia me demorar, mudar de
estratégias, entregar-me ao momento, e não vivê-lo no tudo ou nada.
Não é apenas o enunciado de uma interpretação que determina seus efei­
tos. Se a condensação do gozo no corpo pelas interpretações foi possível, é
porque em paralelo a elas havia uma contínua presença de intervenções so­
noras de estrutura análoga em minha análise. Explico.

6 Este, porém, era vivido sem agressor como força da natureza (silenciosa mesmo quando
catástrofe estrondosa, voz do trovão, por só tomar o real como aleatório, nunca a presença
de um desejo particular).

CO MO MORDER O M AR 207
A voz do Outro, quando quebrava o muro de sons e pensamentos que
eu erigia como barreira, tinha o impacto do trovão, de demanda absoluta,
que levava a uma resposta imediata: dedicar-me, de corpo e alma, a ações
intempestivas e, no caso da análise, a amplas elaborações sobre tudo e nada.
Ora, quando me embalava nesses grandes voos sobre mim mesmo, volta e
meia o analista fazia sons, os mais variados, rasgar jornal, roncar, teclar no
computador.
É bem possível que, de início, essas intervenções sonoras tenham sido
acidentais, mas ele soube a seguir utilizá-las à vontade. Por virem de onde
vinham, jamais eram vividas como a mão na garganta. Perturbavam a defesa
por apresentarem-se como coisas estranhas, de intenção indecidível.
A análise seria, então, um traumatismo controlado? O essencial é ter sido
possível encontrar-me com restos de mim mesmo, aqueles instantes em que
havia experimentado algo fora do campo da fantasia. Apresentaram-se fi­
guras de um gozo não submetido ao imperativo materno de ser o brilhante
menino que um dia se imporia ao real da loucura ( e que haviam ficado até
então ocultas).
Foi-se revelando, igualmente, outro tipo de sons do pavilhão ao lado,
não apenas os lancinantes gemidos noturnos, mas balbucios de prazer quan­
do os internos fora do discurso banhavam-se, tomavam sol, brincando de
cavalinho e exclamando: "ô': "êh': A voz entrara em cena não mais exclusiva­
mente como música ou trovão, mas também como objeto parcial, de desejo
e causa.
Esses pequenos momentos em que pude apenas entregar-me ao vivido
sem trabalho e sem temor compuseram uma colagem que mantive &agil­
mente coesa com um apelido de minha infância, Miquito. Essa coesão pre­
cária foi essencial e o analista, decisivo por fazer obstáculo a torná-la apenas
uina forma identitária suplementar. Não a assumi como nova persona, o que
talvez só invertesse a polaridade da fantasia, sem introduzir algo novo. Man­
tendo Miquito como colagem e não personagem, pude ir explorando, para
cada uma de suas vivências fragmentares, a presença do Outro como marca
de desejos singulares, a que pude dar lugar e reconhecer.

L E T RA

Foi possível assim ir declinando o modo como eles deixaram um traçado que
não era exigência, apenas conjunto instável de marcas contingentes e que não
exigiam, portanto, resposta. Miquito era um apelido, como o do mosquito

208 A P OSTA NO PASSE


elétrico. Só que nele o que contava era, em vez de buscar e fugir, um estar no
prazer. Ele veio acompanhado de um afeto novo, ternura, quase intolerável
para mim até então.7
Nesse ponto tive a certeza de que chegara ao limite. De fato, havia podido
dar lugar a outro gozo em meu corpo e em minha vida. Minha vida mudara,
t�to no casamento quanto no trabalho, pois já podia viver de um modo
novo experiências e relações até então impossíveis. o que mais buscar?
- - A saída para mim apresentou-se quando a voz do Outro não mais res­
soou como o trovão ou o silêncio sobre um corpo-sujeito, nem em vivências
de um prazer objeto, parte do corpo do Outro, mas em um corpo-litoral.
Hoje não me parece nada acidental que Lacan, em seu ensino, tenha pas­
sado da ênfase no real do, objeto a, como voz, entre outros, para a ênfase no
nome e na letra. Um nome é um som, uma voz, que só designa, nada ensin�,
nada diz sobre o nomeado, apenas que ele é ele. Esse seu aspecto de letra, fora
do sentido, apenas marca do encontro com o Outro, pura assinatura, passa a
interessar a Lacan mais do que seu aspecto vocal, pois ele é sempre de algum
modo delimitado pela forma corporal, uma voz sempre remete a um corpo,
mesmo que como seu ponto de silêncio ou dejeto. 8
for isso, o final definiu-se quando cheguei a um nome que orie11tou o
gozo, sem que isso passasse necessariamente pelo sentido. A m:vençãÓ� desse
nome partiu do tema da mordida. Êss�- significante era uma encruzilhada de
muitos gozos, mas havia nele também meu pai. Aparentemente conciliador,
um intelectual, ele tinha sua violência própria, sobretudo em seu jeito de
gritar. Ele, no entanto, só gritava quando eu estava gritando, para me fazer
silenciar, sempre dando a impressão de que era eu e não ele o agente. Foi o
que veio a se concentrar na imagem de sua mão mordida (naquela época da
análise, eu a via volta e meia mordida, por ele ter que separar as lutas entre
seus muitos cães, que acabavam mordendo-o) .
Esse jeito de disfarçar sua violência em uma pedagogia repressora ha­
via duplicado, ao longo de toda vida, o apagamento da mão do trauma na

7 A fantasia, que poderia ser formulada como "uma criança é esganada': declinava-se como
"silencia-se um corpo", mas também "agita-se um menino" e, finalmente, havia encontra­
do seu lado "B": «agarra-se um prazer': ao deixar ver que a mão que silencia é a mesma
que, na ternura do toque, pode acariciar.
8 De fato, tanto mosquito quando miquito condensavam um gozo no campo do sentido,
mesmo se um deles era o lado "A" e o outro o lado "B".

COMO MORDER O MAR 209


garganta pela ordem matriarca!. Demorei muito a perceber que nunca tinha
estado às voltas com a voz do trovão ou uma violência sem agressor, mas que
há sempre um desejo por trás de cada marca que nos constitui.
Mas descobrir que sempre há um agente, mesmo se seu desejo é indeci­
frável, e ver meu pai nesse lugar já tinha sido extensamente trabalhado, era o
que sustentava o nome Miquito e trouxera a ternura para minha vida. Na mão
mordida havia mais.
No contexto da pacificação dos cães, certo, a mão era um pouco a velha
mão na garganta, pois vinha calar. Ela incidia sobre um desejo feroz, canino,
no limite do ser, mas que se tornava um pouco "gente': ao se inscrever no
campo da existência por deixar na mão sua marca, assinatura, não gozo puro,
mas letra de gozo.
A mão como superfície mínima e a mordida como marca primeira es­
vaziavam muito a polaridade agente e agressor, ativo e passivo, poii, a mão
pacificadora também agredia. · Porém ainda havia nessa imagem um tanto de
trauma, de paixão do significante. Um sonho e sua interpretação vieram es­
vaziar de vez esse cenário e dar um novo destino à relação corpo, letra e gozo.
Como já narrei no primeiro testemunho, ele se passa em frente à casa
materna, onde um mendigo-pai é repetidamente atropelado e geme. Essa é a
sequência da fantasia, que inclui seu avesso, pois o mendigo no início dorme
e ronca no bem-bom da calçada. Mas é do outro lado da rua que uma gritaria,
um alarido me dá a certeza que ali está o mais importante e que o sofrimento
do mendigo é fake, ele é realmente só um boneco. Só que do outro lado nada
consigo ver, apenas ouvir.
O que liga os dois lados da rua e do sonho é o som. Do lado da fantasia,
há o motor dos carros passando pelo mendigo, uma reedição do trovão e a
voz do atropelado. O sonho, ao passar progressivamente para o outro lado
e mergulhar no alarido poderia ter se interrompido ali em seu ponto cego,
angústia. Porém, em vez de me despertar, ele traduz uma solução para o im­
passe fantasmático, pois mantém o som sem corpo e retorna ao boneco, que
agora, dada a gritaria, é risível, mesmo por seus gemidos.
A gangorra da fantasia (ser um sujeito, mas atropelado ou gozar do bem­
-bom da calçada, mas como mendigo) já não era um problema em minha
vida, sua saída já era uma realidade e era isso o que o sonho vinha apresentar,
mas isso poderia se ter perdido, se eu não. houvesse acrescentado ao sonho
o termo mordido e afirmado, retomando o sonho em análise: «Ali, do outro
lado, na gritaria, há um mordido". o termo nomeia não alguém maltratado
ou querendo desforra, mas uma excitação sem corpo definido, sem imagem
estável, alguém "danado" ou "causado': como dizemos em nosso jargão.

210 A P OSTA N O PAS S E


S INTHOMA

Essa interpretação, que reuniu a mão com a fantasia, foi a última. Mas apenas
por ter sido absolutamente solitária. Naquele momento _da vida, eu já vivia
no corpo a experiência do tanto de vida que não cabe em corpo nenhum, um
gozo suplementar. De alguma forma sabia que ele, como não tinha amparo
no sentido, dificilmente teria localização estável. Só teria lugar na duração se
eu dele me responsabilizasse, sozinho, por ele, dele fizesse escrita.
Disse-me, então, aquele som é de um "mordido da vida': da "amor <lida
da vida': que é também mort sure (morte certa, em francês) . Essa série se con­
clui com um quase neologismo: mordidavida. Ele condensa tudo isso e mais.
Mordidavida é · um nome fabricado, talvez sinthoma, é um ato de uma
escrita para dàr lugar ao gozo que não foi capturado na operação da fantasia.
Que lugar? Ele não está em nenhum dos dois lados dà rua, não é o outro lado,
pois é o movimento que a atravessa de um lado para o outro. Se a rua fosse
um rio, ele seria, como escreve Guimarães Rosa, sua terceira margem.
A voz como objeto· perde consistência. Ela não é a fronteira final de uma
análise, também vira resto. A voz, tornada mordidavida , é só esse som que
escreve uma reiteração fora do sentido, se torna apenas essa margem que não
é, mas está lá, litoral.
Poder me servir dessa mão mordida na análi$e foi meu modo de reali�ar
o. que propõe Lacan com relação ao pai: seguir servindo-::-se dele, para poder
dispensá-lo. A mão mordida lhe deu lugar. E exatamente a partir do único
possível, o do louco. De fato, essa era a sua loucura, seus 53 cachorros. Qual­
quer outro lugar teria sido o de sempre, ou do trovão ou do zero à esquerda. 9
Mas, para além dessa história de mãos e bocas, o que sustentou a passa­
gem da mão na garganta como inscrição do irrepresentável, como silêncio e
morte, para a mordida na mão, como assinatura de um desejo irrepresentável,
mas vivo na mordidavida, foi a voz.
Por isso insisto na trilha sonora de minha análise. E se eu tivesse, hoje,
de dar um lugar nessa trilha sonora ao mordidavida, mesmo sem roupagem
sonora definida, seria a do seguinte sonho, que tive na mesma época:

Nosso avião havia caído no mar, estávamos na água eu e alguns imprecisos


outros. Outro avião vem em nosso socorro; dentro dele, como num telão,
vejo um equivalente paterno, um rei inca que virá nos salvar, mas o avião co-

9 Precisei de uma "mãozinha" de meu pai (sem esquecer a do analista).

C O M O M O R D E R O MAR 211
meça a cair, e o grande guerreiro vai se transformando em pigmeu, um pig­
meu havaiano de sarongue, é como ele termina quando cai na água. Quando
a catástrofe se abate e o avião cai, descobrimos que estamos todos com a
água pela cintura apenas. Durante todo o sonho, o clima de festa é grande e
o mais importante é que, antes,: batíamos a mão para nos fazer não afundar,
mas agora batemos a mão na água com bastante barulho, na primeira parte,
para não afundarmos, na segunda, apenas pelo prazer: splash, splash, splash!

A mão, agora, agita-se do desespero à alegria, mas não é nem um nem


outro, e sim sua própria agitação incessante e o som que ela produz o que, na
minha nova microcosmologia, sustenta a mordidavida. E o corpo? No pro­
longamento dessa nova mão, segue entre a leveza do sujeito e a gravitacão
do objeto, na trilha desse sonho que ressoa meu litoral, fio de vida e linha do
horizonte.

212 A P O STA NO PAS S E


Ram Avraham Mandil1

CO N J U N TO VAZ lO

a terceira, com a impressão de que fazer o


T E R M I N E I M I N H A A NÁ L I S E ,
passe era praticamente uma demanda · do analista. A lógica inerente a essa
impressão surgiu em seguida: a necessidade estrutural de localizar minha de­
cisão pelo passe como sendo, antes de tudo, uma demanda do Outro.2

O NO M E AVRAHAM

Foi ao longo de minha segunda análise que uma lembrança concernente ao


meu nome ressurgiu. Por volta dos 12 anos, fui informado que havia um ter­
ceiro nome - Avraham - entre meu primeiro nome e o meu nome de família.
A menção/omissão se inscrevia num contencioso entre meus pais. Minha
mãe não queria esse nome, que ela considerava horrível; meu pai, por sua vez,
dizia que ele havia cedido à tradição sefarad, que é a de dar o nome do avô
paterno ao primeiro neto.
Esse n_ome era tão problemático para mim, que eu procurava fazê-lo
desaparecer de minha assinatura. Mas a questão não se resolveria por um

Nomeado Analista de Escola (AE) pelo- Cartel do Passe da École de la Cause freudienne
(ECF) em 25 de novembro de 2012.

2 A presente versão é a tradução do texto apresentado nas 43emes Journées de l'École de


la Cause freudienné em 17 de novembro de 2013. O texto original em francês, traduzido
por Vera Avellar Ribeiro, com a gentil colaboração de Yolanda Villela, foi publicado em
La Cause du Désir - Revue de Psychanalyse, n. 86, Paris, 2014, p. 78-81. A versão estendida
foi apresentada no x Congresso da EBP, realizado em Porto de Galinhas, Pernambuco, no
dia 27 de abril de 2013 e publicado em Opção Lacaniana: Revista Brasileira Internacional
de Psicanálise, n. 66, São Paulo, 2013, ago., p. 67-76.

213
simples jogo de escrita. Era necessário me separar do gozo sacrificial fixado
por esse nome. Inspirado no mito do sacrifício de Abraão e conforme a in­
terpretação que Lacan faz desse mito na lição única do Seminário sobre os
"Nomes-do-Pai': a matriz do gozo em jogo derivava de minha identificação às
figuras do filho e do pai entrelaçadas nessa cena do Gênese.
O nome próprio parecia, desse modo, inscrever um destino, seja pelo
drama de Abraão, seja pelo drama do filho ou ainda pelo do carneiro, que
eu supunha ter sido sacrificado em seu lugar ( ram, em inglês, um carneiro
macho) .

E N G O L I R A P Í LU L A

Eu sabia que alguma coisa havia permanecido e m suspenso nessa segu nda
análise, em particular uma angústia em face do excesso de demandas, de um
"a mais" de demandas, vindas da família, da universidade e mesmo da Escola.
Eu tinha a esperança que minha extrema devoção para atendê-las acabaria
por calar essas demandas.
A terceira análise rapidamente destacou uma cena traumática. Quando
criança, nos momentos em que eu adoecia, meu pai, pediatra, me trazia um
medicamento na forma de comprimido, de cápsula ou pílula, que eu devia
engolir. Ora, eu simplesmente não conseguia engolir esse medicamento, que
permanecia retido em algum lugar de minha boca. Colocava o remédio sobre
a língua, tomava um gole d' água e, em seguida, eu mergulhava numa espécie
de fading, para logo em seguida procurar verificar se eu o havia engolido.
Em caso negativo, a cólera do meu pai aumentava, junto com seus gritos de
"Engula!" - e com isso também redobrava minha angústia e meu desespero.
O problema não estava no fato de estar tomando um medicamento, mas na
forma desse medicamento, ou seja, um sólido, uma cápsula, um recipiente
dentro do qual estava a substância ativa.
A componente libidinal na escolha do analista me saltou aos olhos. À época,
responsável pela edição de uma revista do Campo freudiano, eu havia publi­
cado uma tradução de um artigo desse analista, que tem por título: "Como
engolir a pílula?'� A suposição de saber não era, portanto, algo difuso; ela
incidia 'precisamente sobre um modo de gozo com o qual eu me via embara­
çado na infância.
A recusa em engolir a pílula - difícil não escutar as conotações femini­

nas dessa expressão - fazia eco à recusa do nome Avraham. Mas desta vez a
dimensão corporal tornou-se patente: ficara evidente que se tratava também

214 A P O STA N O PAS S E


de uma recusa em abrir um orifício, um furo no corpo diante da demanda
do Outro e de consentir com a passagem de um objeto através desse furo.
A recusa em engolir aquilo que se articulava à demanda do Outro se conjugava
com o medo de ser engolido pelo Outro.

O SACO E O VAZ I O

A análise prosseguia e, com ela, minhas queixas a respeito do excesso de de­


mandas. Minha posição subjetiva se desdobrava em três versões: a primeira,
a do escravo; a segunda, uma versão masoquista; a terceira, de tonalidade
melancólica: diante da identificação ao objeto perdido, a única saída possível
parecia ser sair da cena.
Essas diferentes versões e o gozo a elas associado puderam ser reduzi­
das e nomeadas, em análise, como a posição do clandestino. A condição de
clandestino - aquele que habita ·o campo do Outro, com a preocupação de
não ser descoberto - abriga uma topologia que lhe é própria: habitando seu
esconderijo, o clandestino está ao mesmo tempo no interior e no exterior do
território do Outro; é de lá que ele extrai sua satisfação, notadamente a de
ver sem ser visto. É no ponto cego do olhar do Outro que o clandestino cava
a sua trincheira.
A conclusão do tratamento se desencadeia .a partir de uma intervenção
do analista. Como de hábito, eu entro em seu consultório com minha mo­
chila sempre carregada. Imediatamente, ele aponta para a minha mochila e
diz: "Eis a mochila do clandestino, sempre pesada!" A surpresa foi tanta, que
me esqueci de tudo que eu havia pensado dizer. Essa intervenção, no entanto,
abriu a via para uma articulação possível entre o sintoma, a fantasia e o gozo
aí implicado. Sim, o clandestino carrega consigo uma mochila pesada. É ele
mesmo quem carrega a jaula, a bolha, o esconderijo do qual ele se queixa por
não encontrar a saída.
Por outro lado, se a mochila é pesada, é porque eu carrego nela os objetos
que poderiam responder à demanda do Outro. Isso remete a um sintoma
que pude nomear, ao longo da análise, como o do "ensacador': fundame�tal­
mente o "ensacador de demandas" - por exemplo, procurando neutralizar as
demandas, colocando-as dentro de sacos plásticos.
A referência ao saco toca, na verdade, a um trauma essencial para mim.
Aos oito anos, fui submetido a uma cirurgia para corrigir uma criptorquidia:
havia um vazio em meu escroto e era necessário reposicionar um dos testí­
culos deslocados. Os médicos me examinam, me tocam e constatam que ali

CONJUNTO VAZIO 215


falta algo. Há um vazio no saco e é necessário preenchê-lo por meio de uma
intervenção no corpo. Há uma desproporção radical entre a simplicidade
do procedimento e seus efeitos traumáticos. A análise me permitiu perceber
como, a partir de uma contingência, eu havia tecido um destino trágico: há
um vazio no saco, essa imagem é insuportável, a cirurgia não resolverá o
problema, a operação deverá ser repetida indefinidamente, e isso me levará
finalmente à morte.
A partir daí, me dou conta de que o clandestino é aquele que habita um
saco, é alguém que olha o mundo através do furo no saco. Dou-me conta
também que o saco e seus objetos são uma fantasia, por meio da qual eu pro­
curava dar uma forma ao que me parecia excessivo, a enquadrar esse excesso.
Ver o mundo através do furo no saco era um modo de tamponar um vazio,
instalando aí o meu olhar.
O episódio da pílula vai receber uma nova leitura. Recusar que a pílula
entre em meu corpo é repetir o horror diante de um vazio a ser preenchido.
O acontecimento traumático reiterava-se a partir da fórmula: "Há um vazio
em seu corpo e ele deve ser preenchido': A partir daí, posso me destacar desse
horror e fazer a experiência de uma nova satisfação: dizendo de maneira pro­
saica, esvazio a minha mochila e passo a sentir prazer com isso.
Nessa nova relação com o vazio, percebo o que pode ser da ordem do sin­
thoma e sua relação com o desejo do analista. É justamente o vazio no saco
que permite que ele adquira formas variadas, é o vazio que dá plasticidade ao
saco - um ponto fundamental para pôr em marcha o discurso analítico. Essa
plasticidade, que é fonte de satisfação, não tem nada a ver com a posição do
clandestino. Eis o que minha análise permitiu que eu concluísse: o vazio no
saco sou eu, ou melhor, o vazio no saco é a marca de minha existência defini­
da a partir de um modo singular de gozo.
Um último episódio precede o aperto de mão final com o analista. Pas­
seando com uma de minhas filhas pelo Marais, eu me deparo com uma es­
colha: visitar novamente o Museu da Shoá ou ir almoçar no As do Falafel?
Parado na frente do restaurante, o garçom nos convida a entrar. Eu respondo:
"Eu só estou olhando': Ao que ele responde: "Comer é melhor do que olhar':
Ele tem razão: posso renunciar a um certo gozo e engolir o que já não me pa­
rece mortífero. Retorno ao analista com a frase: "Parece que agora posso me
sentir mais à vontade entre os judeus vivqs': O analista responde: "É preciso
que o túmulo esteja vazio':
De fato: para aléni do impacto direto sobre a minha história, minha fas­
cinação pela Shoá comportava um certo culto à figura do pai morto. Uma
lembrança me vem à memória: trata-se de um diálogo com minha mãe sobre

216 AP O STA N O PAS S E


o silêncio de meu pai em relação à ocupação nazista da Bulgária. Ela atribuía
esse silêncio ao recalque, a uma dificuldade de falar sobre o tema. Essa res­
posta contrastava com as três fotos de meu pai numa campo de trabalhos for­
çados. Nessas fotos, ele aparece sem camisa, com um corpo esquelético, mas
sempre sorridente. Uma nova interpretação se impõe: à sombra da morte, o
sorriso da vida. Um deslizamento metonímico se desenha: do vazio (vide)
à vida (vie) . A simples extração de uma letra parece traduzir todo o trajeto de
uma análise: a emergência da vida lá onde havia o vazio. Fazer parceria com
a vida, eis para mim um novo sinthoma.

S E RÁ C O M UM S O N H O Q UE retorno ao analista para dizer sobre minha in­


tenção de fazer o passe: "Minha mulher me diz que ela irá me deixar por um
outro; eu sinto uma contração na mandíbula, mas não estou angustiado; essa
contração não me impede de falar". O sorriso do analista me faz perceber que
"mandil-bulle" articula meu nome de família e a bolha (bulle) que eu havia
construído em minha estratégia neurótica para me defender do real.
O sonho prossegue: "Estou diante de dois membros do Cartel do Passe,
uma mulher e um homem. A mulher me pergunta se eu estou preparado
para responder a todas as demandas caso eu seja nomeado. Penso: 'Ela tocou
no meu ponto fraco'. Quanto ao homem do sonho, um AE que tem o mesmo
prenome que o meu, ele me explica que o passe deve ser transmitido 'como
se transmite uma parte da Torá'. Nesse lugar aparecem três letras: A. . . v... o".
Desperto e uma palavra em hebraico me vem à mente: avdalah. Sei que existe,
mas não sei o que significa. O Google me informa que essa palavra significa
"separação': No entanto concluo que avdalah não deve ser tomada a partir do
seu significado, mas que é o nome que dei às letras que emergiram do real
do sonho.
Do analista, escuto apenas a frase: "Fazer as letras/cartas chegarem a seu
destino':
E é o que me faz estar aqui, hoje, diante de vocês.

CONJUNTO VA Z I O 217
J ésus Santiago1

O ENGODO V IR I L 2

AO LON GO DE M I N H A ANÁL I S E , me dou conta de que o nome próprio


agia como condensador de um go?o sacrifical correlacionado à estrutura de
velamento da fantasia, que se te�r� �Õ� -�s fiC>s do sacrifício. Enredado numa
posição de sedução passiva, eu respondia, com ablatividade, aos avanços viris
do Outro, quando este se revestia de máscaras do feminino. Consequente­
mente, a angústia sobrevinha nos momentos em que a fantasia titubeava em
função do confronto com o fracasso da missão salvadora encarnada no nome
próprio. Esse desfalecimento da fantasia, todavia, resultou mais das circuns­
tâncias em que tinha ocorrido a morte do pai. Tal morte, que pôs em xeque
a tarefa de salvação do sujeito, por sua vez, levou-me, em estado de extrema
angústia, a essa experiência de análise.
Diante da missão salvadora do nome, a fantasia me fazia desconhecer que,
ao me tornar objeto de sacrifício do pai, buscava seduzir o Outro. Ser tomado
como objeto da promessa do pai já indicava que o objeto sacrificado existia
apenas porque havia um Outro a ser seduzido. O mais-de-gozar que assim se
depreendia do tecido da fantasia confeccionava-se tanto de sacrifício quanto
de sedução. Averiguou-se, mais tarde, que essa cgnJigtiração bífid<t da fan��­
�-'""'. d� um lado, sacrifício e, de outro, sedução - era o que fomentava· o uso
�ístico 4<>. falo. próprio da condição viril do·Iiome�. Retornarei, adiante, a
essa forma de autismo, pois entendo que sua redução se constituiu em um
dos referentes essenciais de meu final de análise.

Nomeado Analista de Escola (AE) pelo Cartel do Passe da Escola Brasileira de Psicanálise
(BBP) em 6 de maio de 2013.

2 Testemunho apresentado no 1x Congresso da Associação Mundial de Psicanálise (AMP),


realizado em Paris em abril de 2014 e. publicado originalmente em Opção Lacaniana: Re­
vista Brasileira Internacional de Psicanálise, n. 68-69, São Paulo, 2014, dez., p. 39-46.

219
O T RAU M A J E S U S

A rebelião indignada contra o uso do nome próprio pelo pai fez ressurgir
a angústia com a mesma intensidade que precedeu o início da análise. Tal
intensidade atenuou-se, contudo, à medida que passei a captar o que, hoje,
identifico como fator cristocêntrico do Outro materno. Qualifico como cris­
tocêntrico o apego de minha mãe pelo culto ao Grande Homem, sentimento
que, como se sabe, decorre do modo como o assassinato do Cristo repete o
assassinato primitivo do pai. 3 O descomedimento do amor ao pai fez-se pre­
sente, portanto, na mãe beata. A apreensão desse componente cristocêntrico
vem à tona ao mesmo tempo que percebo que o nome Jesus não assumia,
para mim, o valor de um significante mestre (S1) que orienta existências -
o que, na verdade , acontece com meus irmãos mais velhos. No meu caso, ao
contrário, prevalece o corpo de Jesus como um dos nomes do trauma.
Relembro, a propósito, uma cena de minha infância que traduz essa preg­
nância traumática do corpo de Jesus. Com frequência, eu passava o feriado
da Semana Santa numa cidade do interior de Minas Gerais, onde se localiza o
Seminário em que meus irmãos receberam formação religiosa. Nessas opor­
tunidades, eu sempre vivenciava uma reação de pavor associada à Procissão
do Encontro, cerimônia na qual se representa o episódio bíblico em que Jesus,
após ser condenado à morte, se encaminha ao Gólgota, para ser crucifica­
do. O clímax dessa representaçãq reside no encontro entre a mãe e o filho
condenado, que, alvo de insultos e fl�gelos, exibe seu corpo, em sofrimento.
Além de horror, tal cerimônia confirmava efeitos do cristianismo sobre
mim, considerando-se que, nesse cenário, tudo implicava excessiva exibição
do corpo, o que evocava o gozo sacrificial. O lado apavorante da celebra-:­
ção e, em especial, da abnegação da mãe, exposta nesse ritual, retornava-me,
a cada vez, na forma de uma indagação: para ostentar uma missão salvadora,
é necessário passar por toda essa sorte de sacrifícios?

3 Ao referir-se ao cristocentrismo singular delineado na obra de Freud, L�can busca mos�


trar que a mensagem monoteísta encontra acabamento apenas na tra�a judaico-cristã.
Afirma, ainda; que as outras religiões se encontram a meio caminho dessa trajetória, pois
se restringem ao culto ao "Grande Homem': E que; notadamente, o cristianismo funda a
experiência religiosa aquém desse culto, ou seja, no âmbito do assassinato primitivo do
pai. Cf. LACAN, Jacques O Seminário, livro 7: a ética da psicanálise (1959-60). Rio de Janeiro:
Jorge Zahar Editor, 1988, p. 215.

220 A P O STA NO PA S S E
A A B J E Ç Ã O D O G O ZO

Sob a égide de fixações escópicas, o fator traumático de Jesus se reiterava,


então, no si1!!9m.�. i�fa.!}til dc1..��1:1�tip.;:15�_0 intt!s�inal, terreno preferido de ex­
pressão daexigência .fáli�à"éia mãe, qué a instala numa posição viril. As duas
faces da fantasia - sacrifício e sedução - reafirmavam-se no par mãefálica/
criança objeto, sob a égide da conexão entre o olhar e o orifício corporal.
Como pude abordar em meu primeiro testemunho, a fantasia teve fonte pro­
lífera na relação da criança com o lado superegoico e viril da mãe. Na adoles­
cência, delineia-se uma solução para o uso da fantasia, porém por meio de
uma inversão, ou seja, de objeto orifício passo a identificar-me como objeto
olhar da mãe. Nessa identificação com a mãe, eu me virilizava, contudo, por
via de consequência, sacrificava-me e, ao mesmo tempo, feminizava-me. Foi
preciso algu m tempo para desintrincar esse nó, em que a busca da virilidade
gerava, pelo mais-de-gozar da fantasia, um efeito feminizante. 4
A força da fantasia confere de,J!,SiQ�de ao que se constitui em embaraço
sintomático do sujeito, ou seja, c{amor···confundido com a renúncia do vazio
inerente à satisfação da pulsão, en:(gtÍe impera uma forma de satisfaçãe> re­
gida e dg.Qiinacla p�l� faptasia. o��odo como o·curto�circuito da fantasia �e
faz.pr'es�nte· na pclsão é o que me permite afirmar, agora, que tal renúncia
se endereçava à potência da mãe religiosa nos termos de uma divisão: "Mãe,
apesar de viril, não amo ninguém como te amo':
A configuração sintomática, que exacerbava a divisão do objeto, insta­
lou-se, no meu caso, em decorrência dessa identificação com o viril da mãe.
Como se expressava essa divisão? Por um lado, mediante a satisfação da de­
manda pelo objeto de amor, por se tratar de quem, supunha-se, detinha o
saber-fazer com a falta e por estimular o homem, no nível do real pulsional,
para além da fantasia� Por outro lado, mediante a ênfase no componente fe­
tichista e escópico da fantasia, ao expressar, com mais clareza, a obstinação
pelo ideal viril que, ao mesmo tempo, reforçava urna saída pelo regime fálico
do gozo. Mais eu avançava na constru�ão da fantasia, mais me via em um
beco sem saída, em que se fusionavam os diversos véus do objeto, consubs-
tanciados na imagem fálica.

4 Ao tomar como exemplo a incidência do discurso, do mais-de-gozar no macho, Lacan


afirma que o último recebe um "efeito feminizante que é o a - que ele reconhece o que o
constitui, ou seja, a causa do seu desejo". LACAN, Jacques. O Seminário, livro 17: o avesso da
psicanálise (1969-70). Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 1992, p. 152, grifo adicionado.

O ENG O D O VIRIL 221


Éric Laurent, em comentário sobre meu testemunho, em Buenos Aires,
destaca o esforço de poesia, essencial para desembaraçar-me do ideal viril,
visto que, nesse ponto{? amo� - se trarisfigura�a ·eiri:siiit°.n;i,a._: As repetições
ocasionadas pela satisfação escópicà" se mostravam refratárias a interpreta­
ções visando à causalidade significante do ideal viril, que emanava da· iden­
tificação da criança-orifício com a virilidade da mãe. Essa busca do viril, ine­
rente à lógica da fantasia, colidia com a parte real da pulsão, pois consistia na
via em que prevalecia o objeto olhar como fator obturante do vazio da pulsão.
No auge do apego à fantasia, impuseram-se duas intervenções do analista,
na forma de nomeação do gozo, que criaram condições para se perturbar a
defesa contra o furo - em outras palavras, o vazio da pulsão. O ato de nomear
mostrou-se, no entanto, distinto do de interpretar, já que este se baseia na
articulação significante, enquanto aquele se aliment� do furo, em que se con-
centra a eficácia da linguagem.
A primeira dessas nomeações irrompeu no momento em que o sujeito
tratava do gozo que se exprimia pelo traço de degradação peculiar ao objeto
da fantasia: "É você urna mulher do amor menosprezado". Tal intervenção
vislumbra o quanto a posição sacrificial que cunhava a junção entre o falo e
a fantasia feminizava o sujeito� Ou seja, ao pôr-se a serviço do ideal viril, o
uso do falo se revelava, pois, refém do circuito autístico do gozo sacrificiaÜ
inscrevendo-se nele um fator de feminização que, mais tarde, se averiguou·$et
também fonte de mortificação. Confrontava-me, assim, com um falso para­
doxo, em que a ferninização, embªsada pela fantasia, não favorecia quebrar a
, i-ç_cusa da feminilidade, característic:a do macho. ·
Por meio de tal nomeação, agriu-se a chance de desfazer o µnpasse_ da
: minha vida amorosa, cuja fonte última concernia à identificação viril com a
. mãe, que, por sua vez, conferia um valor fálico ao objeto anal. Interrompeu-se,
dessa forma, a conexão entre o olhar e o orifício, fazendo cair o Outro pela
desfalicização da abjeção. O efeitofeminizante resultante do gozo sacrificial
sofreu, por via de consequência, significativa mutação. Se havia uma fratura
na conexão entre o sujeito e o objeto menospre�ado, depreciado, isso de­
corria - de a abjeção transformar-se em nome do impossível. O traumático
tornou-se, pois, menos a incidência do Outro materno - sob a forma . do
culto ao Grande Homem e da obstinação no objeto anal - do que o próprio
gozo. No lugar da oferenda em sacrifício ao Outro, instala-se o gozo trau­
mático, considerando-se que a consistência deste reside no furo, que se apre­
senta como a natureza real da montagem da pulsão. A- verdadceira .n.?:_c!-téria.d�
pulsão.consis�e, �ssencialrriente, n9 _ oc<;>,. no.fu:roi �_quant<?. s_ceu_ objeto é, antes
de tudo, sembl a nte.Por isso mesmo, cÍeve:.. se admitir, ·c:Õmo Lacan propõe, de

222 AP OSTA NO PASSE


modo inédito, em -O Seminário, livro 20: mais, ainda, que a verdadeira natu­
reza do objeto a é o semblante.5

E S Q UA R T E JA M E N T O

Impunha-se, ainda, um suplemento de nomeação que pudesse atingir o im­


possível de se nomear, o que adveio de um forçamento, pelo qual o analista
fez ressoar outra coisa que não apenas o sentido: ''A divisão é comum nos
,,
homens, mas, no seu caso, é um esquartejamento . A intromissão do signifi­
cante esquartejado suscitou a defrontação com o sacrifício consubstanciado
no retalhamento mortal. Fazer ressoar mais do que o sentido implicou pro­
pagar um efeito de ressonância, que agregou o furo. Este, no contexto em
foco, veiculava-se pelo equívoco de que, no ápice do sacrifício, residia sua
negação. O esquartejado converteu-se, desse modo, no equívoco que selou o
sacrifício como impossível: "Não posso salvar o pai, então me despedaço!".
O sacrifício deixou de ser uma missão, uma oferta dirigida ao Outro. Quan­
do o impossível do sacrifício se materializou no esquartejamento, o ende­
reçamento ao pai diluiu-se na abjeção intratável do gozo. Interrompeu-se,
portanto, a estratégia do sintoma, que então consistia em fazer do sacrifício
uma vontade de sedução. Ao se di,ssolver como um correlato do amor ao pai,
esvaiu-se do sacrifício o horror que lhe era próprio.
Como nome do irremediável da divisão e porque aponta para o lado ip.­
e. o. �D,19�. - confundido com a renúncia pulsional - e a
� � a.__ç�!!!J�PJ!:
fant�sia, o esquartejado passou a conotar o sinthoma. Sem a abertura do su­
jeito ao não todo, não haveria solução, visto que o viril correspondia à defesa
obstinada contra o feminino. O viril, no entanto, não se configuraya,. PQ!'." essa
via, no -�vesso do feminino. Em outros termos, a '. '1bertura ao não tádo, pro­
duzida na análise, apresentou-se separada do efeito féminizante, ocasionado
pelo sacrifício.

5 Basta levar em consideração o esquema triangular configurado nesse Seminário para coris'..."
tatar que o objeto a se aloja no lado do semblante/aparência, e não no lado do real. Rever
a natureza do a como objeto que confere consistência ao real, para situá-lo do lado do ser,
implica destacar suas a.finidades com o semblante: «Não é senão da vemmenta d(:,. imagem
de si, que vem envolver o objeto causa do desejo, que se sustenta mais frequentemente [ ... ]
a relação objetal. A afinidade do a com seu envolvimento é uma dessas articulações maiores
que foram adiantadas pela psicanálise,,. Cf. LAC:AN, Jacques. O Seminário, livro 20: mais, ainda
(1972-3). Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 1982, p; 125, grifos adicionados.

O ENG O D O VIRIL 223


A salvação que se fez pelo intratável da repetição pressupõe o esquarteja­
mento como o nome que gerou eco de um dizer no corpo que remonta ao trau­
ma Jesus. Não se tratava, porém, de uma questão concernente à memória, mas
da comemoração de um gozo inesquecível com que se defrontou a conclusão
da análise. Efetivou-se, assim, o "há-Um" do gozo, que se extrai do impossí­
vel do sacrifício e se decanta como resto das formas interpretáveis do sintoma.
Ao se confundir com o Um próprio do gozo intratável, esse gozo se reduz no
sinthoma; portanto, no consentimento de que não se pôde liberar da repetição,
tampouco eliminá-la. Em decorrência do esquartejamento, configurado no fi­
nal da experiência, ao se visar à causa de o sujeito estar atrapalhado em face da
repetição, extrai-se a fonte de um saber-fazer com o intratável do amor.

NEGUE OS TEUS HERÓIS

/No que concerne ao final de análise, não se costuma falar de homens o u mu­
. lheres no plural, pois o que importa é a relação singular de cada um com a
,, solução para o seu problema do gozo, ou seja, cada um tece , como pode, a
; sua própria solução. Ainda assim, arrisco-me a manifestar minha impressão
· de que o testemunho do final de análise, no caso das mulheres, traduz, com
maior desembaraço e vivacidade, a resolução de impasses da vida amorosa.
Acredito que esse desembaraço se explica pelo fato de que é mais «elevado" fa­
lar de suplantação da devastação do que do insolúvel da impotência no amor.
Í)... m�u yer, _ é .i questão do falo que se vê implicada na vertente sintomáti_ca
do impasse amoro�o mais propriamente masculino. Pude apontar, ao longo
deste testemunho, que o uso autístico do falo se constituiu no entrave maior
que dificultava o surgimento do horizonte de solução no final de análise. ·
Ao pôr-se a serviço do ideal viril, o uso autístiço. dofal� refémdo__çir€.µito
fantª�ísti�9 do gozo, alojava no seu ãrnâg�· ta�bém wn efeito feminiza.;;te,
q�e, no fund�, erà �ortificador. E era mortificador porque, embaraçado pelo
ter, eu não podia ceder ao amor, já que, além do compromisso rígido com a
fantasia, tal doação era sentida como perda - uma perda fálica. :para amar,
faz-se necessária no homem uma aproximação com o feminino. Por isso,
considero o autismo do falo uma defesa que causa impedimentos na vida
amorosa, tendo-se em vista, sobretudo, que amar é viver o vazio da pulsão
sem os imperativos obturantes da(fantasfa. As chances de poder viver o amor
, para além de sua impotência exigi'?àm��e, na verdade, dissolver a miragem
1 de que o falo consiste em meio de defesa, a fim de possibilitar, ao contrário,
: que se constituísse num objeto removível a serviço . do furo próprio da pulsão.
- :. ry'
··:: .J .,-·;,·• r./ ,.__!�
·i..
� · .� r':.!•f
224 ....;, A P OSTA NO PAS S E
Na experiência do final de análise, esse furo da pulsão foi-se estreitando,
pouco a pouco, até atingir seu ponto culminante no sonho em que aflora
a sentença "Negue teus heróis,,, que exprimia o desapego por uma posição
sacrificial. ��Q _ po.def yjyer ._ él _ pulsão. _mais _aj�m d<l_ l�do irl,flarnáy�l 4ª
{a.D­
tasia é o que a�ega a mortjficaçã9 nessa saí4á que encarna a impot�ncja,
p�itestá circunscrit:a funcionam�nto fálico. Com efeito," esse uso autí�ti�
ª�-
ctofalÕ-�r�se�tav�-se peÍo gozo da mórtifiéâção. Mais do que um ·pretenso
dom-juanismo, caracteristico do ideal viril no homem, a verdadeira expressão do
sintoma residia na mortificação inerente a tal regime fálico da economia de goro.
O funcionamento do falo, traduzido no gozo associado à mortificação,
confundia-se, no fundo, com o ardil da repetição da fantasia. A par de outro
que, contrariando tal regime, se tornava resíduo, que se subtraía da dissolu­
ção do herói incitado pela mãe no filho. Desgastava-se, assim, o crédito con­
ferido aÓ engodo da posse fálica, que poderia servir de amparo à virilidade do
macho-:J�:nqrianto engod<l, o viril _diante do amor se mostrá fútil.:]
Ao mesmo tempo que esse "engodo a serviço da necessária presunção mas­
culina se reduz, pass�:::se
.- a conviver com um resíduo fálico, preferencialmente
\ ' ·· - ·- .
condicionado pelo -�o�, isto é, pelo real da pulsão_. ' O fal<;> como objeto p�ssí-
. . . -· .,

vel _ de cç_rt� mobilidaêté"'.çoexistia co�- �o da pulsãÕ. e:


o ê���' via� iriôst�a­
por'
yá-s;-pernieávd à incidênda n� ho,.nem d� não
todo feminino� Como propÜ:s
na
antes, �bertÜ.ra ao não todo feminin�, o viril deixa de ser uma defesa contra
as repercussões do feminino e, sobretudo, de se tornar o lado avesso__ do femi­
nino. Em outras palavras, tal abertura revela-se distinta do efeito feminizante
gerado pelo gozo sacrificial da fantasia. A virilidade calcada na "mulher do
amor menosprezado" torna-se, desde então, inoperante e supérflua.
Não é o mesmo saber e não saber, e, mais ainda, ambos encerram um
fazer distinto com o sintoma. No momento em que o· sujeito capta a arma­
dilha que encerra a virilidade, o falo torna-se resíduo,6 ou seja, explicita-se

6 Da formulação do falo como resíduo, na passagem referida do Seminário, extraio um


ponto de indeterminação: de um lado, define-se como o instrumento capaz de «verificar
que o falso-furo é real" e, de outro, é o "único real que verifica o que quer que seja': Devi­
do à minha experiência de análise, opto pelo enfoque do poder de verificação que o falo
ostenta em face do real da pulsão, ou seja, do amor. Essa verificação apenas é possível por­
que, para mim, o que se designa como resíduo fálico é o fato de tornar-se wn semblante,
mais precisamente, um engodo. O falo não equivale, no final de análise, ao real, mas é um
semblante especial, pois, ao tomar-se resíduo removível, mostra-se contíguo ao real e o
único em condições de verificar a experiência do amor. Cf. LACAN, Jacques. O Seminário,
livro 23: o sinthoma (1975-6). Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 2007, p. 114.

O ENG O D O VIRIL 225


sua face de seniblant� que permite verificar o saber-fazer com o amor que se
nutre do furo pulsional.yolto, assim, ao ponto Crucial dó desfecho de minha'
experiência de análise: � próprio gozo - e não o Outro encarnado na mãe
beata - é traumático. No lugar da oferenda, em sacrifício ao Outro, situa-se
o gozo traumático, considerando-se que sua consistência reside no amor que
se extrai da coexistência com o real da pulsão. Diante do gozo traumátic9,
pouco adianta o imperativo da impostura do masculino, pois o que conta é
. que a resposta amorosa, contingencialmente, se à.presenta como separada do
· engodo viril.

226 A P O STA NO PASSE


Luiz Fernando Carrijo da Cunha1

À SO M B RA D E U MA SO M B RA 2

S E M ACRE D I TA R A I N DA NO Q U E D I S S E RA alguns minutos antes, percorri


os arredores do local em que minha última sessão de análise se dera. Um
"nada a dizer" já habitava em mim há algum tempo, mas então parecia estar
alojado de tal modo, que seria impossível recusá-lo. Eu andava pela rua Saint-
-Honoré, mas, nessa oportunidade, em vez de encher os olhos com ofertas de
consumo, mergulhei nas derivações do nome: "honor': "honra': "honrado" -
menos o "santo" e mais o "honrado': A interpretação veio em seguida: é o
nome de meu avô paterno, Honorato, um nome que eu mesmo deveria ter
recebido, se o desejo de meu pai tivesse prevalecido! Nada a dizer também so­
bre esse reencontro. O desejo anônimo de meu pai me deixou consequências ­
uma delas, o encontro com a psicanálise. Foi assim que um circuito pulsio­
nal agarrou-se a meu modo de existir e a psicanálise me fez percorrê-lo sem
descanso. Agora, ali, o vazio apresentado causava-me a perplexidade de ter
chegado a um fim.
Havia alguns minutos, eu dissera ao analista que tinha terminado e, pela
terceira sessão consecutiva, ele respondera "Sim!", no entanto tinha marcado
a próxima. Havia, pois, uma sessão marcada para dali a algumas horas e, para
mim, era certo que seria a última. Nada demais, senão dizer que Paris havia
se iluminado de uma maneira diferente. Aquela sempre se mostrará a mim
como uma cidade sombria e triste. Eu não conseguia ver a beleza que, com

Nomeado Analista de·Escola (AE) pelo Cartel do Passe da Escqla Brasileira de Psicanálise
(E.BP) em 27 de novembro de 2014.

2 Testemunho apresentado no Congresso de Membros da E.BP, realizado em Salvador, Balúa,


em abril de 2015 e publicado originaJmente em Opçiio Lacaniana: Revista Brasileira Inter­
nacional de Psicanálise, n. 70, São Paulo, 2015, jun., p. 117-25.

227
certeza, nela existia. Essa transmutação obedecia a um novo modo de fazer
uso de um corpo; o olho servia ao que ele é: «um olho':
Ao final da penúltima sessão, um lapso atravessou-me de modo fulgurante:
sempre levava o dinheiro da sessão separado no bolso, porém, daquela vez, eu
esquecera de fazê-lo. Precisei buscá-lo dentro da bolsa e, enquanto a abria, dis­
se ao analista: "Esqueci de separar o dinheiro.. :: No entanto, em vez de dizer
"l' argent" - que, em francês, significa "dinheiro" -, eu disse "monnaie" - que
quer dizer "moeda': Poderia ter interpretado isso como um "mau uso da lín­
gua': como o supere__y. exigiria, mas logo percebi o equívoco homofônico entre
monnaie [moeda] �-m�� �1)"meu olho"] . �§.e, .�qaj,yqço,_y�io �ingir�<? "p�çlaço
�� real'' que fora apré�ndi�o; até e.ntão não tinh� sido compre�ndido �um s�­
�m
iilio"�óntacÍo sessões anteriores. Ainda haveria uma última sessão, mas, na
ocasião, para dizer ''um nada mais a dizer" a partir do esvaziamento do olhar
e do "nada" que se depreendeu do sonho. Foi a última oportunidade e, tam­
bém, o momento em que eu disse que me dirigiria ao passe. Ouvi um "Sim!':
acompanhado de um balançar de cabeça afirmativo e de um aperto de mão
mais prolongado do que os anteriores. Um "Sim!" que continuou ressoando e
encontrou eco em minha nomeação. Voltarei a esse sonho adiante. Antes, ten­
tarei localizar os pontos cruciais de minha vida, em que meu corpo se mostrou
fisgado pelo gozo, assim como a defesa que, consequentemente, se processou.

M O R D I DA D E MACACO

Fui violentamente atacado por um macaco aos cinco anos de idade. Qualquer
tentativa de remontar à cena - e foram muitas as versões encontradas - re­
dundou em algo que, para mim, não fazia sentido. Explorei-as à exaustão.
Enfim, escolhi uma delas a partir das imagens congeladas que ficaram como
resto do acontecimento.
Minha casa estava em reformas e, por isso, sem água. Certo dia, quando
eu brincava com duas meninas da vizinhança, minha mãe me solicitou que
buscasse um pouco de água potável do outro lado da rua, na casa de uma
vizinha. Adverti-a de que lá havia um macaco, contudo ela alegou que ele
estava preso e que a dona da casa cuidaria para que tudo corresse bem. Fui
com minhas amigas, mas, ao nos aproximarmos da casa, elas recuaram e eu
segui em frente. Apelei para a dona da casa manter o bicho preso e �la me
garantiu que nada aconteceria. Avancei... De repente, tudo escuro... Eu não
via mais nada... Por uma fração de segundo, perdi meu corpo. Já caído, pude
ver o chão de terra batida e o animal que voltava para o topo da árvore de

228 A P OSTA NO PAS S E


on,de tinha descido. Porém tudo, sem movimento, como fotografias isola­
das. O corpo reagiu e levantei-me. Quando atravessava a rua, cambaleando, e
quase fui atropelado por um carro, vi, no horizonte, os olhos de minha mãe,
que, junto ao muro do quintal de minha casa, tentava ver o que tinha acon­
tecido. Até o momento do encontro com esse olhar, o mundo estava parado,
-silencioso. Fui levado ao hospital pelo mesmo carro que quase me atropelou,
acompanhado de minha mãe. Lá, na sala de emergência, fui atendido ime­
diatamente. O médico que me examinou proferiu as seguintes palavras: «Por
um triz, o nervo da perna seria atingidd: O ferimento era profundo e ti:riha
õcorifd�- p�rda de s�bstânci�. - "ii�ram--necessários 13 pontos de agrafe, para
juntar as bordas do buraco aberto na minha perna esquerda.
A frase dita pelo médico fixou um sentido, já que se tinha transformado
no retorno de outra fyase de outro médico: «Por mais cinco minutos, mãe e
filho estariam mortos':

O O B S T E T R A H E RÓI E O PA I F R ACA S SA D O

Nasci numa sexta-feira, 13, depois de uma tentativa de parto domiciliar, seguindo
uma regra da família. Porém, diante da gravidade do caso, minha mãe foi levada
com urgência ao hospital, onde foi submetida a uma cesariana, com diagnóstico
de "placenta prévià: Perdera muito sangue e fez-se necessária uma transfusão.
O obstetra que a atendera era um jovem de uma família muito tradicional da­
quela pequena cidade e que acabara de chegar dos Estados Unidos, onde havia
completado seus estudos. Foi ele o autor da frase "Por mais cinco minutos, mãe
e filho estariam mortos': Conhecido por todos, simpático e de competência in­
questionável, ele realmente «estava com a bola todà: pelo menos o suficiente para
que minha mãe o tomasse como seu anjo protetor e responsável por ter mantido
a vida dela e me trazido ao mundo são e salvo. Tudo certo, não fosse o pacto
mortífero que daí se desprendera e que foi realizado, de certa forma, cinco anos
mais tarde, diante dos olhos da mãe - a mordida do macaco. O sacrifício esta­
ria inscrito na minha carne, inexoravelmente. Enquanto, por um lado, o pacto
com o salvador se cumpria, por outr�, meu pai iniciava sua derrocada definitiva.
Até meu nascimento, tudo transcorria como esperado: ele conseguira
construir um patrimônio e sustentar sua família, composta pela mulher e
três filhos. Desde então, porém, meu pai mergulhou num silêncio mortífero,
sem reagir à sua perda financeira, demitindo-se de seu desejo e encontrando
o silêncio da morte alguns anos mais tarde, enquanto minha mãe lamentava
a plenos pulmões a perda de suas posses.

À S OM B R A DE U M A S O M B RA 229
" S Ã O S E BA S T I Ã O C R IVA D O , N U B L A I M I N H A V I S Ã O . . ."

Ao mesmo tempo 9ue a matriz da fantasia que fixa <>.._ goz9 no o)harjá.está
formada, assim como se constitui um Outro que dará. matiz ao sint<>n:i3: p_elos
dois acontecimentos relatados, um terceiro e um quarto fatos sé juntaram a
esses. Fora do alcance da minha memória, eles me foram relatados com a cer­
teza de que meu destino tinha sido trançado com fios da urgência, do medo
e da mortificação.
Fui vestido de São Sebastião sacrificado, para acompanhar uma procissão
em louvor desse santo e, assim, cumprir uma promessa de minha mãe. Era o
pacto mortífero sendo cumprido, um pacto que não tardou a se transformar
numa· exigência superegoica a que fui submetido durante minha vida. Logo
que soube da encenação dirigida por minha mãe, quis conhecer um pouco da
história do santo: fora um soldado romano que, a caminho da guerra, escu­
tara a voz de Deus, ordenando-lhe que desertasse; contudo, ao cumprir essa
ordem, foi capturado pelo exército e, como castigo, amarrado a uma árvore
e cravejado de, flechas.
Visitei a catacumba de São Sebastião na primeira vez que fui a Roma
e, olhando detidamente para sua imagem colocada no centro da capela, fui
tomado pela repulsa de imaginar a dor ali exposta. Eu tivera a mesma reação
anos antes, quando, em Romaria, uma pequena cidade religiosa do interior
de Minas Gerais, fui visitar uma imagem da Pietá esculpida grosseiramente
numa pedra gigantesca, ao relento, e pintada com cores extenuantes à visão,
com olhos saltados, de um azul quase inexistente, fixando o nada. Enquanto
meu pai fazi� sua oração silenciosamente, eu tentava capturar a dor ali expos­
ta e, aos pés da escultura, li estes dizeres: "Vede, atendei, não existe dor maior
que minha dor". Encontrei ali, na figuração de uma mulher com o corpo de
seu filho morto no colo, a expressão escrita da dor superlativa e insuspeitada
que dera o tom de consistência ao que seria buscado na minha vida.
Eu fora, pois, tomado como testemunho dessa dot cotidianarnente vivida
pelo meu pai, por sua submissão à depressão e ao silêncio, e do sofrimento
de minha mãe, que lamentava constantemente aquilo que deveria ter sido
sua vida e no que, de fato, esta se transformara. O estranho casamento entre
o silêncio paterno e o barulho materno necessitava de uma resposta subjetiva
à altura. lJ.m,a_ fobia vei�,_ e11tãQ, ��- a_cucµr.
As nuvens cinzas e carregadas no céu passaram a representar o que havia
de mais ameaçador e as tempestades que se seguiram me levaram a um quase
desfalecimento corporal. Ademais, a "chuva" também era usada como metá­
fora, em conversas entre minha mãe e minha tia, para designar a chegada de

230 A P O STA NO PASSE


suas respectivas ''regras': o que articulava, de modo explícito, o lamento de
minha mãe com sua feminilidade.
Essa fobia, assim como o destino que lhe fora dado, constituiu um ca­
pítulo na composição do sintoma que me levaria, anos mais tarde, à análise.

A S O M B RA .

O que descrevi até este ponto constituiu o pano de fundo que deu consis­
tência a uma "sombrà' que passou a me acompanhar sempre, uma sombra
multifacetada - ·ora de tristeza, ora de ameaça, ora, inclusive, de tédio. Sua
presença exaustiva fez com que, algumas vezes, os actings out produzidos for­
necessem a certeza de que ela me havia engolfado. Por longos anos, acreditei
que sua existência se devia às agruras da vida e que, pelo recurso ao saber, eu
poderia me livrar dela, ignorando por completo a incidência do inconsciente.
No entanto quanto . mais o ideal do saber avançava, mais eu me via preso
nas malhas do gozo. A análise me mostrou, muito cedo, que o tédio que eu
experímentava no exercício da profissão estava intimamente ligado à teia do
sacrifício. A exigência de eu me tomar um "homem com H maiúsculo" não
se desvinculava de uma perda corporal oferecida em holocausto a um deus
obscuro, que, certamente, respondia ao "desejo caprichoso" de minha mãe.
A ideia de que ela teria sido o agente que livrou meu pai de ir à guerra fez
dela ''a mulher salvadora': mas com seu quinhão de carne. Acreditei nisso
até "descobrir" o equívoco que, na análise, produziu risos: a convocação não
teria sido para a guerra, já que a data era compatível com o fim desta, mas
para integrar a "força de paz"; por outro lado, meu pai não teria nem desa­
parecido, nem voltado mutilado, o que lhe justificaria o título de "verdadeiro
herói" que habitou minha fantasia de menino. O triste é que ele mesmo tinha
acreditado nisso - uma crença demonstrada no seu silêncio e, mais tarde, na
doença que o levou à amputação da perna esquerda.
Envolvido com tais contingências e vivendo o impasse deflagrado pelo
tédio, busquei a análise na expectativa de recobrar o valor da via do saber.
Em vão! Minhas duas primeiras análises tiveram um valor inestimável, por, ·
fazerem advir um consentimento ao inconsciente, em que minhas ações fo­
ram colocadas em questão, considerando-se a lógica sacrificial em que eu me
havia enredado. A retomada do pai foi inexorável para que eu pudesse me
reconhecer em minhas próprias escolhas. Um pai que, até então envolto na
mesma roupagem sacrificial, despontava de uma fresta que se abrira median­
te a retomada de uma lembrança considerada banal: um homem silencioso e

À SOMBRA DE UMA SOMBRA 231


triste que, alvo da desconfiança de exercício de um gozo clandestino e que vie­
ra à luz pela fala de minha mãe, teria tido um affaire com uma companheira
de trabalho, além de ter sido visto saindo de uma casa noturna. À época, so­
lidarizei-me com minha mãe, requerendo dele uma retidão de conduta que,
mais tarde, eu mesmo exigiria de mim. Na análise, a interpretação que recaiu
sobre meus encantos por um posicionamento de interdição me despertou
uma lembrança que fez série com a fixação do gozo pelo olhar. A referida casa
noturna ficava a meio caminho enfre a ·escolã que freque1itei quando criança
e minha casa. Eu e alguns amiguinhos, na volta da escola, costumávamos pa­
rar em frente a essa casa, para, juntos, inventarmos histórias que se passariam
além do muro alto que a cercava. Numa das vezes, atrevi-me a olhar pela
fresta que se entreabria no portão: nada! Tudo escuro, embora ainda fosse
dia claro. A escuridão ficou gravada em mim sob a eternização da pergunta
que eu me fazia: "O que poderia meu pai fazer ali?" O inconsciente se abre,
então, num sonho que conto imediatamente ao analista: «Meu pai está mor­
to e estendido, sob um lençol branco, na sala de minha casa; atrás do corpo,
pode-se ver um enorme ponto de interrogação, todo cravejado de pedras
brilhantes, no lugar onde, habitualmente, o ritual c3:tólico coloca um osten­
sório dourado'� Não há palavras nesse sonho, apenas essa imagem fixa. Para
além do culto ao "pai morto" a que eu me dedicava, o ponto de interrogação
veio fazer ruir, aos poucos, a crença no tecido que o "sentido gozado" fazia
entrever. A religião, assim como o que eu havia escolhido para o exercício
profissional, não respondia mais por uma continuidade. A ruptura veio em
seguida. Entretanto tal ruptura, que me levou a ancorar na psicanálise _ meu
ofício, haveria de se reiterar inúmeras vezes mais. Até então, eu não conhecia
q �9.der:eaçiti��dor de um s�pl�s._:N��!" Foram muitos ao longo de minha
empreitada como aspirante a psicanalista, quer no interior da análise, quer
no percurso de minha formação. Cada um deles funcionou como um «tam­
pão" ao gozo a que eu me dava direito, por ter sido submetido a um desejo
anônimo advindo de meu pai. No entanto não havia mais retorno e a questão
tinha sido relançada na análise numa outra perspectiva.

O RG U L H O O U V E R G O N HA ?

Minha coleção de "nãos!" foi meticulosamente explorada a cada uma de


suas ocorrências. A presença do analista era convocada para que a catástrofe
subjetiva, sempre fantasiada, não ocorresse. E assim foi. Longe de serem in­
terpretados como a insensatez de uma mera exclusão, esses «nãos!" estavam

232 A P OSTA NO PASSE


latentes no meu próprio discurso! Os modos, assim como as contingências
que os puseram a descoberto, foram propícios para a compreensão de que
eles não respondiam ao "orgulho,, de ser o menino "inteligente': nem, menos
ainda, à vergonha de não honrar as insígnias de um "Homem com H maiús­
culo". Paradoxalmente, não foi um vácuo que se abriu, mas a perspectiva de
ressignificar o que, até então, fora posto na conta do anonimato do desejo do
pai, assim como a submissão aos caprichos da mãe. Outro sonho veio abrir
definitivamente essa perspectiva:

Isolados, minha mãe e eu estamos num avião em direção a Paris. Todos os


demais passageiros iriam fazer suas análises na França. Logo após a decolagem,
um aviso: o avião teria que retomar, pois uma peça, que viabilizaria a comuni­
cação entre a cabine de comando e os passageiros, havia sido danificada.

Esse sonho termina com o desaparecimento do nome dessa peça e eu


jamais consegui recuperá-lo. Entretanto o silêncio do Outro se fez presente,
denunciando sua estrutura, e a exibição fálica encontrou seu limite no furo
do simbólico.
,,
Nesse mesmo período da análise, muitos outros sonhos com "avião caindo
aconteceram e eu me via, em todos eles, como espectador da tragédia. A inter­
venção do analista, dando ênfase ao <<cair': possibilitou-me dois novos pontos
de vista: o primeiro redundava na ideia do «me fazer cair': articulada ao aconte­
cimento traumático do acidente com o macaco e à fobia relacionada à "chuva,,;
o segundo dizia respeito à queda do Outro insensato, com sua voz ensurdece­
dora. Essas duas vertentes abriram-se para a possibilidade de um caminho em
,,
que "calar a voz do Outro poderia advir como solução, pois a perspectiva sa­
crificial assentara suas bases aí. "Certo?" "Errado!» Eu ainda haveria de percor­
rer o circuito do olhar, no entanto terminei minha terceira análise sob a égide
da voz. Dirigi-me ao passe e a resposta do Cartel não tardou: a não nomeação
foi acompanhada pela afirmativa de que «calar a voz do Outro é fundamental,
mas não é suficiente para uma nomeação, já que, nessa medida, algo da pul­
,,
são permanece anestesiado! Mais um "Não!" para minha coleção. Porém o
enunciado "algo da pulsão permanece anestesiado» tocava diretamente a raiz ' ·
do sintoma. Eu havia escolhido uma especialidade médica cujas primeiras in­
cursões foram dominadas pelo tédio. Mudar, simplesmente, a perspectiva para
o ofício de psicanalista deixaria intacta a questão da própria escolha. Ademais,
a resposta do Cartel encontraria eco em mais um circuito de análise. E assim foi.
Escolhi meu quarto analista, considerando o fato de que ele havia prota­
gonizado, anos antes, um "Não!" que me forçou a esperar por mais um tempo,

À S OMBRA DE UMA S O M B R A 233


até nie tomar, enfim, membro da Escola Brasileira de Psicanálise (EBP) e da
Associação Mundial de Psicanálise (AMP). Apostei! Três entrevistas no mes·­
mo dia em que fui ao encontro dele puderam situar o "olhar como agente
anestésico': Embora a voz do Outro tivesse encontrado seu osso, o circuito
do olhar lá estava, à espreita, presentificado numa "sombrà: Eis-me, de novo,
narrando a história de minha vida? Não durou muito! O forçamento fez com
que momentos cruciais do trauma fossem abordados, de modo que cada ses­
são era coroada por um vazio quase insuportável e um corte sentido como
alívio. Ainda tentei a velha artimanha: produzir uma urgência subjetiva para
ter a indulgência do analista! Que nada! Quanto mais me detinha nisso, mais
o barulho do teclado do computador ressoava alto, marcado por uma notável
impaciência no tom de voz! Sim, ele falava e, dessa vez, para confirmar tudo
aquilo que eu dizia, colocando-me em posição de impotência!
Era a última sessão daquela fase de análise. Chovia lá fora e a cidade estava es­
cura... Ou era eu que estava diante do meu próprio enceguecimento? Caminhava
pela rua sem sentir onde pisava e abriguei-me sob as luzes de um magazine ainda
aberto! Não tinha volta, mas, se eu mesmo escolhera retomar a demanda de amor,
haveria de não ser em vão! Chegara ao limite a que a demanda poderia me levar e
encontrei ali, no saguão do magazine, a lógica de minha fantasia!
Tomado pelo horror e, ao mesmo tempo, pelo sentÍlllento de não ter mais
como recuar, voltei ao Brasil com os ecos dos dois médicos que circunscreve­
ram, para mim, o corpo vivo e a morte. "Cinco minutos .. :' ou "Por um triz ...':
assim a, _demanda ao Outro sempre fora modulada: "Estou por um triz. Por
fa�or, salve-me, dê-:- me sua palavra de amor': No entanto já estava de posse de
um saber em que reside um gozo que chega ao horror de entregar a própria
vida. Foi assim com os amigos, com a mulher e em outras circunstâncias.
A marca indelével do olhar materno retomava como um véu ao que, em mÍlll,
poderia ressoar no real.

E LÁ VAM O S N Ó S • • • UM P O UCO D- E
T RANSFERÊNCIA NEGATIVA

O sentimento de vergonha não tardou a ocupar o lugar da angústia em face


do resultado daquela sessão. Um acting out veio impedir que o próximo en­
contro com o analista, que se daria em Miami, se concretizasse. Deixei para
a última hora - a urgência sempre presente - a solicitação do visto para os
Estados Unidos e, por isso> não lhe enviei um e-mail, solicitando horário para
me atender. Ademais, não podia garantir se embarcaria ou não, pois recebi

APOSTA NO PASSE
o passaporte apenas na véspera da viagem. Embarquei e, chegando a Miami,
solicitei-lhe, protocolarmente, a possibilidade de um horário. Gentilmente,
ele me disse que não seria possível. Despedimo-nos e adiei o encontro. Dessa
vez, o "triz" não me salvou! Nada de sessão! Convivi com esse gosto amargo
até o encontro seguinte, alguns meses depois, em Buenos Aires, onde só tive
direito a wna sessão. Nada mais!
Nessa oportunidade, disse-lhe do empuxo à urgência, retomando uma das
situações mais violentas a que eu considerava ter sido submetido na vida: a
mordida do macaco. Durante a sessão, ocorreu-me algo novo! Estranhamente,
uma cena recontada ad infinitum me revelou alguma coisa inédita! Digo ao
analista que, apesar da violência do ocorrido, não havia um registro sequer da
dor que, certamente, eu teria sentido então. A forma verbal que utilizei chamou-
-me a atenção: "Eu teria sentido': Não senti? Não, a dor tinha sido foraduída
j_ustamente pela ação anestésica do encontro com o olhar matemo. Encerran­
do a sessão, recebi como interpretação: "Isso é muito precisd: Nós nos vería­
mos em alguns meses, sem que eu soubesse que seria a óltima fase de análise.
Saí dali com a ideia de me ter dedicado a anestesiar uma dor que nunca existiu!

C O N C LUI N D O

Voltamos a nos encontrar durante o Congresso da AMP, em Paris. De novo, uma


escassez de sessões - apenas uma por dia. Eu ficaria na cidade mais alguns dias
depois do Congresso, mas isso não me apaziguou. Havia me tomado AME e me
fora confiada a tarefa de presidir o Conselho da Escola. Teria de falar sobre isso.
Seja como for, não tive muita chance de dar voltas em cima da questão. Minha
única sessão daquele dia fora marcada para a noite, depois das atividades do
Congresso. Na saída, desci as escadas sem atentar para a escuridão. Um toque
no interruptor era tudo o que eu precisava fazer. Porém, ao mergulhar na es­
curidão, tive a sensação de que o analista permanecera ali, com a porta do hall
aberta, provavelmente me achando "um louco"! Nessa noite, tive um sonho:

Estava no quintal de minha casa; o céu era de um azul "quase inexistente".


Olho para o horizonte, e vejo um ponto negro, que, aos poucos, se aproxima
e vai ganhando dimensões de uma mancha. Na medida de sua aproximação,
ela vai ganhando contornos de um imenso cavalo, montado por um peque­
nino cavaleiro. As patas do animal vão tomando, anamorficamente, uma di­
mensão gigantesca. Agora, não tenho dúvidas: ele vai bater as patas contra o
telhado de minha casa e destruí-la. Mas não! Quando ele já está em posição

À. SOMBRA DB UMA S O M B RA 235


de derrubar tudo, vejo que se trata de uma sombra, que vai passando silen­
ciosamente sobre tudo. E nada acontece! É urna sombra sem qualquer mate­
rialidade. Na sequência, no mesmo cenário, vejo uma nuvem pesada, branca
e gigantesca, que mais parece um enorme bloco de gelo e se move como algo
que está perdendo o equilíbrio. Penso: "Ela vai cair!" E realmente cai. Cai
sobre minha casa e sua queda produz uma instantânea perda da consciência
em mim e nas pessoas de minha família. Ao recobrar a consciência, apenas
vejo wn "vapor" que se exala. Nada fora destruído! Acordo os que estavam
comigo, dizendo-lhes que nada tinha acontecido.

Desperto desse sonho, mas o esqueço imediatamente. Estou um tanto


angustiado, pois deveria tomar a palavra na assembleia da AMP. Passo toda
a manhã ocupado com o pensamento de que algo poderia dar errado nessa
empreitada. Já quase na hora de me apresentar em público, lembro-me do
sonho com todos os seus detalhes. Nesse momento, toda a angústia que eu
sentia dissipou-se! Fui convocado a falar e, enquanto caminhava até me po­
sicionar na frente do microfone, transcorreu um lapso de tempo sobre qual
não tenho o que falar. Meu corpo percorreu aquele espaço sozinho! Li o que
havia preparado e tudo correu bem. Ao me virar em direção ao meu lugar,
apenas escutei do coordenador da me�a: "Foi muito preciso!"
Saí dali e fui ao encontro de meu analista para a única sessão daquele dia.
Contei-lhe o sonho e o detalhe de só ter me lembrado dele no instante em
que já ia tomar a palavra. Ouvi dele o mesmo "Foi muito precis9!':·Quando,
depois de narrar o sonho, lhe disse que havia acordado com a sensação de
que algo se processara ali, ele esclareceu: "Eis él.Í _ Q real como _ naga. É_ o nada
que o desperta, levantando-o da cadeira e c�nduzindo-o até a porta do ha.Ü':
De novo, começo a descer a escada no escuro. Dessa vez, porém, o analista
mesmo acende a luz e me diz: "E preciso acender a luz': "Sim" - penso - ((não
é preciso mergulhar na sombra, mas contorná-la, fazendo dela a inscrição do
sintoma': Saio dali com a certeza de que havia terminado minha análise.
Voltei às séssões seguintes com o mesmo anúncio do fim, mas se fez ne­
cessário o equívoco homofônico entre "monnaie" e <(mon oeil': para que eu
pudesse cruzar o umbral da porta e me lembrar de acender a luz.
��a c::.owpreç:µcl�r qUt! o .objetQ é ..estrµ_tu:ra,Imente vazioe q_ue o_ fµJ;o
por ele de�qQ ªporté:l-a circ�scrição _gQ, sig.t���.. -=--;..�meu·��so, 'â �ombra
colocada em anamorfose -, foi pr�dsô nav�gar nos mares de minha história,
imprecisa> mas marcada pela precisão do real que a perfura. Por enquanto,
gozo da '(honra" de tê-los como leitores. Afinal, neto de Honorato, faço da
sombra o semblante operativo dessa nova empreitada.

236 A P O S TA NO PA S S E
Maria Josefina Sota Fuentes1

D E I XAR- S E E SCREVER 2

T R A G A N D O A S PALAV RA S

Aos 1 7 anos, após ter sido deixada por um namorado, decidi iniciar minha
análise com a analista que havia atendido meu irmão, pensando que por isso
eu seria compreendida sem ter de dizer grande coisa. E assim foram cinco
anos de sessões de silêncio e lágrimas, em que minha melancolia se tornou
tanto mais intensa quanto menos eu podia nomeá-la como um modo de
gozo sintomático de desabitar o meu pequeno mundo, esparramando-se ali
onde o significante não o alcançava. O que só potencializava a posição de
covardia moral de furtar-me ao bem dizer.
Com a descoberta do ensino de Lacan, na faculdade, nasceu o desejo
de encerrar aquela análise e encontrar uma analista lacaniana, que, por fim,
instalou-me no discurso analítico. Tomei a palavra como jamais o fizera. Eu
nascia naquele divã.
Na verdade, como todo mundo, eu nasci do mal-entendido. Foi nos con­
fins do mundo onde adotei o meu destino, no Chile, em Vi.fia dei Mar, local
de meu nascimento. Aos quatro anos, um pouco antes da partida da minha
família, após o golpe militar, ,rumo ao Brasil, consenti com as palavras de
meu avô materno, que, ao saborear uma melancia, me pergunta: "Você sabe
para que servem as pepast' - que em espanhol é o caroço da fruta e me'!
apelido. "Para jogá-las no lixo".

Nomeada Analista de Escola (AE) pelo Cartel do Passe da Escola Brasileira de Psicanálise
(EBP) em 26 de abril de 2017.

2 Testemunho apresentado no xr Congresso da AMP, realizado em Barcelona, no dia 3 de


abril de 2018.

237
Em seguida, bastou ver meu primo vomitando a pepa de uma fruta, para
que o horror ao vômito, o primeiro sintoma da neurose infantil, se instalasse
em minha vida. Ter de vomitar passou a ser um fato aterrorizante, sobretudo
depois de ver os vômitos de minha avó materna, morrendo de câncer.
Conforme a escolha do nieu pai, eu recebi · o mesmo nome da minha
mãe, Maria Josefina, a quem apelidamos Pepa, sendo a mim destinado Pepita.
Claro que inúmeras vezes me disseram "Ah, uma pepita de ouro!': elogio que
não me causava graça alguma, pois eu já tinha bem engolido a pepita na ver­
são do lixo intragável que se come e se cospe. Maria Josefina não foi de gran­
de ajuda, uma vez que meus colegas de classe não perdiam a oportunidade de
me zoar por esse nome, que no Brasil é um tanto bizarro.
O medo de ser abandonada me dominava, a tal ponto que eu permanecia
grudada ao meu irmão na escola. Na partilha sexual, ele era o brilhante que
não precisava estudar, mas igualmente pouco desejado por existir em dema­
sia. Como menina, eu deveria permanecer calada e quieta, sem um desejo
que perturbasse aos demais. Aprendi cedo a tragar e estragar meus desejos.

D E S APA R E C E N D O

Ainda pequena, eu tentava quebrar a muralha que o Outro era para mim,
escondendo-me por horas a fio debaixo da cama numa estratégia pouco exi­
tosa, pois minha ausência mal era notada. Desaparecia em face do Outro, que
me abandonava ali onde uma feminilidade insuportável se · delineava para a
menina invisível que era um nada.
Ao partir, o que resta de mim no Outro? Na vida, e depois sob o amor de
transferência, procurava encontrar algo que não fosse meu puro desapare­
cimento. No berço do mal-entendido, além do lixo e do silêncio mortal do
Outro que não respondia, outras palavras se inscreveram como matéria depo­
sitada no sintoma. Quando algo é_ muito bom, dizemos que ''é de morrer':
Mas o enunciado "Você pode morrer': vindo do Outro materno, abria o enig­
ma sobre o seu desejo, cuja resposta foi selada pela fantasia.
Com efeito, como diz Lacan, · o primeiro objeto que surge como resposta
ao enigma do desejo do Outro é a própria perda que anima a fantasia de
morte, da própria desaparição. Foi ali onde, em parte, eu fiquei instalada.
Com a abertura do inconsciente trànsferencial, a extração do gozo de
fazer-se abandonar foi de grande alívio. Falar em análise tomou-se uma pai­
xão. Por fim, pude dar vida à minha e não abandonar aquele que me desejava
e que se tornaria meu marido e pai do meufilho. Momento fértil e de grandes

238 A P O S TA N O PAS S E
alegrias, no qual eu me inscrevia em ato no campo da vida. Passei a exercer o
que tanto desejara, fazendo uso do lugar de objeto esvaziado de gozo como
analista e ingressando pelo Passe de Entrada na Escola Brasileira de Psica­
nálise (EBP)�
A consolidação da passagem da obrigação ao desejo de viver me levou a
pedir, após sete anos de análise, o passe conclusivo. A resposta do Cartel no
dispositivo bilíngue chegou após um ano, em 2002, no mesmo dia em que
recebi a notícia do falecimento do meu pai. Meu mundo caiu e, com ele, fui
parar no fundo do mar.

INTRATÁVEL

Seguiram-se tentativas de reestabelecer a transferência, mas sem pai, nem


ideia de como dele me servir, a descrença tomou conta de mim. Por fim,
iniciei minha penúltima análise no exterior, que durou cinco anos.
Imersa no desaparecimento traumático do meu pai, foi preciso produzir
um novo saber que me arrancasse dali. A paixão de analisar-se ganhou corpo
sob transferência, mas dessa vez mobilizando Outro corpo, cujos limites foram
perigosamente se perdendo. Tal como as mulheres de paixões elementares a
que Freud se refere, foi tomando-me indomável, força bruta da natureza, sem
negociação. Eis que a intragável se revela intratável, um caso perdido para a
psicanálise nessa espécie de exceção louca que não costuma terminar bem.
Os excessos da pulsão concentrados na demanda de amor desaguaram
sobre a analista, que se tornou um parceiro-devastador: quanto mais eu de­
mandava ser de ouro, mais eu desaparecia como um lixo abandonado. Por
ironia do destino, virei um lixo de ouro, mobilizando, contudo, um gozo no
real do corpo impossível de suportar, sem inscrição no desejo do Outro, nem
apaziguamento. Partia dilacerada, reeditando a dor das inúmeras separações
de parentes queridos, que se esparramaram como nós, exilados do país de
origem desaparecido. Sob transferência, tudo vacilava, os semblantes desa­
guavam e a areia se tornou movediça, de tal modo que não encontrei outro
limite senão a ruptura do laço transferencial.

NO M AR D E E Q UÍVO C O S

Despenquei sem aviso p_révio n o consultório da minha supervisora em Paris,


que só me aceitou em análise após algumas tranches. Em espanhol, o equívoco

DEIXAR-SE B S CRBVBR 239


entre pa rir e P a ris passou a ressoar, significante da transferência do qual a
analista já era suporte e cujo desfecho se daria após seis anos de análise.
Desde o início, fui acolhida pela interpretação que me separava daquele real,
implicando-me no horror no qual eu estava submersa. Afinal, por que insistir na
demanda de amor à mãe-analista, se desde esse lugar é a voz do supereu quem
responde, transformando o enunciado "Você pode morrer" em imperativo de
gozo: "Morra"? Um sonho o interpreta. Recebo um presente de uma analista:
uma fronha, que em espanhol se diz una funda e equivoca em português com
afunda! Então, em vez de afundar-me insistindo na demanda de proteção, por
que não aceitar a orfandade contra a qual sempre me protegi? Ao meu lamento
"Fiquei só neste mundo...': a analista corta: "E você, não se conta?':
Foi preciso arrancar da angústia sua certeza e orientar-se na estrutura
para desarticular a ficção da relação mãe/filha que repousava nas mais obs­
curas engrenagens, a começar pelo falicismo de quem queria completá-la,
quando na minha neurose ela já era completa o suficiente, como as analistas
que eu escolhia. Uma cena aos meus quatro anos, em que minha mãe me
dá literalmente as costas no momento de despir-se, dá corpo à fantasia do
Outro como muralha que me abandona. Por que ela teria se virado de costas,
funcionando como o avesso do espelho, sem ver-me como menina? Ou teria
sido eu considerada um menino, cujo desejo de vê-la deveria ser proibido?
A pergunta histérica mantinha a mãe fora da castração, que de costas ela ve­
lava. Na paixão da ignorância, eu lhe atribuía a causa do estrago da dor de
inexistir, quando por estrutura falta a identificação para o corpo de mulher.
Um d.ia, triste e lamentando-me na sessão pelo fato de que na infância
ninguém me tirava debaixo da cama, a analista responde em ato com o corte:
"Mas é justamente o que estou tentando fazer!" E, uma vez em cima da cama,
brotaram sonhos e recordações nos quais, em momentos de ternura, eu era
apanhada pela brutalidade das palavras. Como aos oito anos, quando, para
o cúmulo do sentido, escutei que eu havia sido encontrada na lata do lixo!
Tal como meu irmão, que apanhava e cujos passos eu seguia segurando-me
em "paus de areia': como num sonho, eu também tinha um corpo golpeado
pelo significante até o horror do mata-se, dando ao Outro a consistência da
voz cruel que cobrava meu sacrifício, arruinando um pau que já era de areia.
E eu, que era fechada como uma pepa, notei com surpresa que, em mim,
havia também uma muralha, un amour h all a, encontrado na muralha da lin­
guagem que foi sendo esburacada graças aos equívocos e aos cortes e à pre­
sença da analista. Um vazio fértil se foi aninhando, desestabilizando as iden­
tidades do sentido fixo conferido pela fantasia, incluindo, em sonhos, vazios
no corpo e no saber da analista.

240 APOSTA NO PASSE


Mas a face real do amor não tardou a pesar sob transferência. Um dia,
angustiada com· a iminente separação da analista, desaguei em prantos na
sessão, ao término da qual a analista diz: "Uau, essa foi forte!" O meu cons­
trangimento diante daquela situação patética foi imediato, ali onde emergia
o gozo da despedida, de estar sempre à beira do desaparecimento, por fim
nomeado e reconhecido como tal.
Ademais, a analista destacava o tom da minha voz de choro, debochando
com humor da minha vozinha, o que me deixava enraivecida. Afinal, para
quem já estudara canto lírico, tocar na voz não era um assunto qualquer! Se­
ria hora de ceder mais este objeto: a voz melancólica que se lamenta na sessão.
O cúmulo foi, um dia, chegar afônica na sessão e dizer: "Estoy sin voz!" Sem
voz e, por isso, sem vos. Foi preciso perdê-la para poder escutá-la, a voz que se
separa de vos e você de mim.

NA C L AV E D E S O L

Mas com a voz pode-se ter o Outro. Foi o que descobri aos cinco anos, quan­
do acreditava poder ensinar ó português ao meu pai, músico de ouvido ab­
soluto, que me reconhecia como a filha capaz de ouvir a sutileza da língua
estrangeira: a manha é diferente da manhã e do amanhã.
Além disso, a música fez acontecimento de corpo. Nas noites de insônia
e medo, era o piano do meu pai que me fazia dormir, enquanto eu mantinha
entreaberta a porta do meu quarto. Era a minha canção de ninar que me
protegia do desaparecimento mortal, mobilizando com júbilo uma realidade
invisível do corpo. Iniciar-me nas aulas de edi-piano foram os passos seguin­
tes para a filha que desejava ter voz e que, logo, listaria músicas proibidas
para si mesma, como o "Prelúdio", de Tristão e Isolda, e a "Marcha fúnebre",
de Chopin, limitando os excessos do arrebatamento, do gozo de dissolver-me
no Outro do amor absoluto que responderia divinamente, sem ter de passar
pelo significante.
Desconcertante é notar que eu estudava canto, mas da voz como objeto
perdido eu nada queria saber!
A analista se interessava, mas também modulava os excessos dessa satisfa­
ção que levo em meu repertório. Na sala de espera, Bach ia compondo meus
caminhos descompostos, e o samba dava ritmo às passagens subterrâneas no
metrô e ao árduo ir, vir e partir de Paris. Partir era um parto e, fatalmente,
todos os caminhos da análise pareciam conduzir a um gozo mortal que se
infiltrava por toda parte.

D EI XA R - S E E S CREVER 241
Com efeito, restava ainda perder o mais difícil dos objetos, aquele · que eu
nunca tive e que a analista encarnava: perder o objeto perdido.

THE S O UND OF S ILENCE

Uma contingência desarticula radicalmente a parceria com a analista. No úl­


timo dia de uma tranche, sem aviso prévio, ela parte para uma conferência
em outro país. Eis o Outro que desaparece, mas de um modo que era impos­
sível imputar-lhe a carga do goro que me concernia, da fantasia do Outro que me
abandona cobrando meu sacrifício mortal. Inconsistente, o Outro desvanecia
em sua real inexistência. .
Uma solidão imensa tomou conta de mim. Ninguém poderia proteger-
-me de mim mesma. Restaram-me dois sonhos: em alto-mar, uma onda gi­
gante me afogaria. Acordo estranhando a ausência da angústia e meu con­
sentimento a esse real. No segundo, sonho que vou a Paris, mas é impossível
marcar uma · sessão. Avisto o mar e exclamo: não sabia que havia um litoral
em Paris! Vejo meu pai desaparecendo na areia e grito, dizendo que é um
sonho. Acordo assustada, quando eu já estava mais do que desperta diante da
presença desse real.
De volta a Paris, seria necessário ler a letra do sintoma do corpo arre­
batado na parceria com a analista, encoberto pela relação devastadora de
antes. Inusitadamente, há mar em Paris e os perigos do alto amar invadem
a análise. Diante do desfalecimento da função paterna, da qual a analista
era suporte, restava ouvir a voz do meu apelo, da enunciação da fantasia
jamais pronunciada e por fim lida: "Morrendo... Não vês que estou mor­
rendo?" Ressoava no gozo do corpo em desaparecimento, a vozinha da avó
que vomitava e morria, atraindo o olhar do Outro, eternizando o instante
em que, na janela e em perigo, eu mesma teria sido, mais do que vista,
apanhada.
Diante desse horror ao qual eu reduzira a análise - ao gozo de viver mor­
rendo e de morrer no a-mar a mere, mãe que me protegeria com seu desejo
da dor da inexistência, com um desejo que por fim me parisse -, digo basta!
Minha análise acabou! Analisante e analista são pegas de surpresa, quando já
não estavam mais onde antes estiveram. Nada mais a esperar do inconsciente
transferencial que desmancha como um castelo de areia. A imensidão do real
ex-siste então como um sinthoma, ao qual somente o ato analítico servirá de
limite. Afinal, o desejo é filho desse ato e a passagem à vida, é preciso pari-la,
a cada vez que for preciso, quando se navega.

242 A P O S TA NO PAS SE
NO VAZ I O F É RT I L : V I DA Q U E S OA

Na separação, significantes novos se deram quando eu recorria à escrita


. como quem se deixa naquilo que se escreve entre os achados da vida. Parti
servindo-me do novo laço que ali pari, com o significante e com a vida, com
a suavidade da sua-vida, da vida que sou e segue. Assim, a satisfação pela vi­
bração dos equívocos da língua toma conta de mim a cada vez que se produz,
ressoando no vazio fértil do inconsciente poeta que me alegra e me aloja,
trazendo-me com satisfação ao meu corpo, que assim vai se tecendo no dizer.
Saio pelas ruas de Paris à procura um cartão para deixar para a analista.
Sem perceber, escolho aquele que tem uma pena. E então escrevo: ''A pena
,,
que voa/ como o pássaro ao vento/ e com sua-vidade/ torna-se escritura .
No momento .de assinar, eu pergunto: "E quem assina?" A Pepita? A Maria
Josefina? Vejo para minha surpresa que a pena desenhada no cartão é de ouro.
Sim, quem assina é a pena de ouro! Marca de uma passagem que ficou escrita
em mim, no vazio fértil, ressoando no litoral.
Entre tantos nomes do impossível, a analista foi aquela que, em algum
entre terra, céu e mar, fez a pena voar. E o gozo da pena que brilhava no amor
mortal voou. Hoje, não toda de posse da pena de ouro, com ela eu me deixo
e escrevo. E como o mar não se esvazia, e o amar não se liquida, resta um
a-mar como destino, um modo de dizer de um sinthoma que enfim se decanta
e com o qual vou aprendendo a conviver. Meu porto de chegada, sois voz/s!

D EI XAR- S E E S C R EV E R 243
Sérgio Laia1

1, 2, 3 E. . .
(EM ANDA MENTO VI VA CE ) 2

M I N H A P R I M E I RA ANÁ L I S E T RANS C O R R E U em Belo Horizonte, entre


1983 e 1987, permitindo-me asseverar o saber como uma paixão na vida e
destacar a identificação com o pai, ocultada por muito tempo sob o domínio
materno. Ela se concluiu quando uma ausência do que dizer e um esgota­
mento das elaborações coincidiram com uma vivacidade maior quanto ao
desejo e ao que me satisfazia. A partir desses ganhos, pude ainda escolher
uma mulher que me tem sido na vida uma parceira cuja dimensão ímpar se
destacou ainda mais com uma segunda análise, realizada em Paris por 17 anos,
entre 1998 e 2015.
Nos n anos entre as duas análises, vali-me de recursos sublimatórios e até
me vangloriei de enfrentar, solitário, a ausência de legado paterno que passou
a parecer..: me verdadeira e incontornável. A morte súbita e precoce do pai, cer­
ca de três anos antes de eu começar minha primeira análise, não chegou pro­
priamente a me impor tal ausência. Esta se realizou como verdade aterradora,
alguns anos após a conclusão dessa primeira experiência analítica, a partir do

1 Nomeado Analista de Escola (AE) pelo Cartel do Passe da Escola Brasileira de Psicanálise
(EBP) em 10 de junho de 2017.
2 Este texto retoma, de modo um pouco mais concentrado, o primeiro testemunho que
apresentei na sede da EBP-Minas Gerais, em Belo Horizonte, no dia 11 de agosto de 2017. Ver­
são mais longa foi publicada com o título "1, 2, 3 e .. :· em Opção Lacaniana: Revista Brasileira
Internacional de Psicanálise, n. 78, São Paulo, 2018, fev., p. 53-67. Na versão aqui publicada,
mantive o titulo do texto mais longo, mas, para ressaltar sua redução, recorrendo a uma
terminologia do andamento em música, precisei que se trata de uma "versão vivace".

245
engodo perpetrado, com alguma cumplicidade materna, por dois de meus ir­
mãos e de sua apropriação indébita do único bem que o desvario da mãe após a
morte do marido havia deixado intocado e no nome dos cinco filhos. Um afeto
depressivo, que jamais afetou minha determinada ( e paterna) capacidade para
o trabalho, passou a me perturbar de modo ocasional e intenso, muitas vezes
acompanhado de um verso de Mallarmé: La chair est triste, hélas! et j'ai lu tous
les livres [''A carne é triste, sim, e eu li todos os livros"] .3 Nos encontros iniciais
com meu segundo analista, pude ter a coragem de admitir que esse verso rei­
terava o esgotamento da quota sublimável das pulsões, assim como o engodo
perpetrado por dois irmãos em parceria com a mãe me fazia constatar que as
insígnias do pai se fragilizaram ainda mais com a morte dele.
Apenas com minha segunda experiência analítica irei constatar que não
era exatamente contra a ausência de legado paterno que eu me fazia tropeçar,
precipitar e cair: eu me defendia do real que me pulsa, não sem alguma opa­
cidade, ao modo de um furo, o corpo.

O B J E TO S - TA M P ÃO

O olhar se destaca bem cedo em minha vida por meio de uma cena da qual
não guardo qualquer lembrança de presença corporal, embora tenha me im­
pactado o corpo pela fala de minha mãe. Em decorrência da doença celíaca
ainda não diagnosticada e tampouco tratada em suas incidências mortíferas
no corpo de uma criança, eu, com menos de três anos e meio, estava mais
uma vez internado em um hospital, mas então considerado prestes a morrer.
Meu pai se aproximava da cama em que me encontrava prostrado e, acenden­
do seu isqueiro, começava a cantar Parabéns a você. Batendo palmas, dei-lhe
sinal de vida e comovi o casal parental.
Seja por essa chama que, na narrativa materna, terá me resgatado da morte,
seja por essa comoção pela qual meus pais eram-me apresentados unidos,
como jamais me pareceram ser, o olhar me vinha e chamava como o que se
inflama, brilha, no campo do Outro e, acendendo-me, salvava-me. Também
em minhas intrusões infanta-juvenis nas brigas de meus pais e, em · espaços
diversos no romance familiar, na minha petulância (ou mesmo destemor)

3 MALLARMÉ, Stephane. "Brise marine" (1866). ln. CEuvres comp�es. Bibliotheque de la


Pléiade. Paris: Gallimard, 1945, p. 38. Esta tradução é de Augusto de Campos, publicada
em CAMPOS, Augusto de; PIGNATARI, Déáo & CAMPOS, Haroldo de. Mallarmé. São Paulo:
Perspectiva., 1974, p. 45.

APOSTA NO PASSE -
em face do Outro, julgado, por sua inconsistência, como aviltante, enganador,
ameaçador, irascível ou tirânico, o que eu buscava extrair e, ao mesmo tempo,
me tornar era esse olhar... esse olhar do pai que, ao contrário da cena relatada
por minha mãe, jamais me chegava ou salvava, por mais que eu acreditasse
firmemente poder ser apenas por ele vivificado.
Valendo-me da doença celíaca como um "sintoma somático': fixei-me,
ainda, como um objeto realizador da fantasia materna de fazer do filho o
"objeto de sua existência'� Porém, no meu caso, houve alguma cumplicidade
paterna: de modo mais sutil que nas neuroses não marcadas por um sintoma
somático infantil, minha neurose - amalgamada à doença celíaca - também
se fez valer como "representante da verdade do par familiar"4 porque a cena
em que o pai me salvava com seu olhar-fogo era a única referência com que a
mãe vislumbrava para núm meu pai como um ideal a ser visado.
. Eu tanto buscava no Outro o olhar quanto me fazia estampar no regis­
tro escópico. Na segunda análise, diferenciei a satisfação real que, não sem
opacidade, me pulsa o corpo e a pregnância. escópica na qual se velava a voz
imperiosa do supereu. Destaco, nesse contexto, um sonho no qual o filme
Os pássaros e um quadro de Cabanel, intitulado O nascimento de Vênus, aju­
davam a tramar uma encenação que precisou ser desmontada fonicamente
pelo analista, para que o olhar se transmutasse em voz. Desse sonho, desper­
tei com angústia, quando me deparei com um gesto fálico e agressivo com
que o análista concomitantemente me parecia afastar e provocar uma gai­
vota (mouette) que, lançando-se do teto (toit), nos ameaçava. Por um erro
de pronúncia, eu associava tal pássaro à posição muda (muette) com que
minha mãe, nas brigas conjugais, procurava provocar ainda mais a raiva de
meu pai. A interpretação do analista extrai, do gesto fálico-agressivo que me
angustiava em seu aspecto cênico, a voz, valorizando, ao revés da angústia,
a incidência do falo no enfrentamento do domínio materno: "Tais-toi, sur­
moi matemelle! » ["Cala-te, supereu matemo"] - o que era "teto" ("toit") res­
soa em "cala-te" ( "tais-toi"), fazendo-me escutar a voz do supereu, da qual
meu equívoco de forçar wna homofonia entre mouette ("gaivota") e muette
("muda"), bem como a encenação pictural e cinematográfica do sonho pro­
curavam me ocultar e fazer refém.

4 Para as elaborações sobre a condição de "objeto da existência da mãe" deduzida de meu


sintoma somático como realizador da "fantasia matemà' e "representante da verdade do
par familiar': sirvo-me aqui, como muitas vezes aconteceu em análise, da citação que,
numa das pámeiras sessões, meu segundo analista fez a "Nota sobre a criança': Cf. LACAN,
Jacques. "Note sur l'enfant" (1969). ln: Autres écrits. Paris: Seuil, 2001, p. 373-4.

1, 2, 3 E • • • 247
Essa desmontagem fónica, por um lado, promoveu um atravessamento
importante quanto ao afeto depressivo e reduziu minha fascinação pela
ausência do legado paterno. Por outro lado, revertendo esses ganhos em
. pura perda, também passei a tomar como perturbações do supereu e, por
conseguinte, provocações a responder a mínima inflexão de uma voz e al­
guns ditos apofânticos com que o analista me nomeara algumas fixações
libidinais. Tudo, então, até mesmo as palavras às quais sempre me agar­
rei, parecia condenar:-me a um destino funesto, o que, por sua vez, obli­
terava o furo por onde essa trama aterradora pôde esvair-se no final de
minha análise.

VAZ I O

E m duas circunstâncias diferentes, acabei me lançando agressivamente em


cena contra um Outro julgado aviltante e, desfeita a cena, v�ltei a ser assola­
do, embora por uma duração bem menor do que antes, pelo afeto depressivo.
Entretanto, de modo inédito e abrupto, tonteiras, vômitos e desarranjos in­
testinais passaram a acontecer em meu corpo, alheios a qualquer causalidade
orgânica e estranhos quer ao retorno do recalcado, quer ao olhar que luzia
nas coordenadas aniquilantes da fantasia. Após falar do quanto esse aconte­
cimento de corpo me surpreendera, escutei de meu analista: "Vous avez du
vider ça" ["Você teve que esvaziar isso"] .
De início, essa constatação pareceu-me reiterar exclusivamente minha
fantasia, indicando-me a anulação como sujeito (S) sob a forma de objeto-
-dejeto (a) declinado tantas outras vezes na tendência obsessiva de, com
minha propensão ao ato na via do acting out, tudo "merdificar" ou, então,
também no vômito a que tendi a equivaler-me como sendo um rebotalho
da voz ou aquele cuja voz só era respeitada quando retumbava como a do
pai irascível. Mas a c�nstatação do analista ainda me permitiu cingir que,
no ápice dessa "objetalização" de meu . corpo no enquadre da fantasia, o
afeto depressivo viria então velar, inclusive com o nada ao qual procurava
reduzir-me, o vazio agora recortado pelo acontecimento de corpo e que a
constatação perfurante do analista vinha ressaltar por um viés diverso do
que a fantasia procurava enquadrar e, ao mesmo tempo, tampar. Pela pri­
meira vez, conseguia efetivamente deslindar os funcionamentos do afeto
depressivo e, também, da agressividade que aparecia na propensão ao ato na
via do acting out. Passei, então, a experimentar tal afeto e tal agressividade
como não contidos em meu corpo.

APOSTA NO PASSE
F URO

À diferença de alguns anos, iniciei minha última temporada de análise sem


nenhuma expectativa de que iria, ou deveria, concluí-la. Um sonho e suas
ressonâncias me surpreenderam e me levaram a finalizá-la.
No primeiro tempo onírico, em um posto de gasolina, desmonto, por
um recurso à sublimação bastante frequente antes de minha segunda aná­
lise, a tentativa de provocação de um frentista, fazendo-o interessar-se pelas
relações atuais entre os g adgets e o autoerotismo. De repente, em um carro
esplêndido, surge uma mulher cinematográfica que atrai meu olhar e, sem se
interessar pelo que eu estava falando, me faz encontrar o furo que desarticula
a estratégia sublimatória cujo esgotamento experimentei sob a forma do afe­
to depressivo em sua reiterada associação ao já citado verso de Mallarmé.
O trabalho onírico se desloca para um segundo tempo, em uma mise en
abime, uma espécie de espiral em tomo de um furo: encontro-me no divã con­
tando a meu analista, no próprio sonho, a ,cena do posto de gasolina. "O que
você estava fazendo ali?': ele me pergunta. Na minha resposta onírica, privile­
gio o "ali" como a própria análise: eu precisava ainda saber por que não havia
conseguido deixar meu analista, inclusive porque sua pergunta me indicava
também que eu não devia estar mais ali. Tal resposta, no sonho e ao despertar,
me traz uma grande satisfação. Diferencio, no sonho, o que estava se passando
e o fracasso vivido, havia alguns anos, em uma primeira tentativa de passe.
O analista, ainda no espaço onírico, corta a sessão e me fala para eu retor­
nar às 15h. Como acontecia algumas vezes, pareço não entender o horário que
me foi dado, embora, de fato, eu o houvesse escutado muito bem. Mais uma
vez, a cena do sonho se modifica: em um pátio, vejo uma enorme torre com
um relógio e o corpo do analista, movimentando os braços, me evoca uma
biruta, corporificada como um boneco que, por sua forma vazia, pode acolher
o ar para, mesmo parecendo desorientado, indicar, por exemplo, algum lugar
ou, no caso da biruta tradicional, a orientação dos ventos. No sonho, a biruta-
-analista ressaltava-me que 15h era mesmo o horário de minha próxima sessão.
Associo, na sessão analítica propriamente dita, a movimentação oníri­
ca da biruta-analista a um adulto ensinando, desajeitadamente, as horas 'a
uma criança, bem como ao meu desnorteamento em face do que, por muito
tempo, sofri como ausência de legado paterno. Após escutar essas e outras
,associações, o analista me diz o que a princípio me ressoou como se ainda
estivéssemos no sonho: "Regardez l'heure ... le temps passe" ["Olhe a hora...
o tempo passa"] . Após algum tempo de silêncio, o que era pouco frequente
em minhas sessões, falo: "Parece que nasci diante dessas palavras': A sessão

1, 2, 3 E . • . 2 49
é cortada e, na porta, quando estou prestes a sair, ainda escuto do analista:
"Le temps, c'est le traumatique" ["O tempo, é isso o traumático"] .
A passagem inexorável do · tempo e sua dimensão traumática me ecoaram
o destino condenatório, prévio a meu próprio nascimento, do qual eu me
fazia arauto e contra o qual, sobretudo pela propulsão ao ato na via do acting
out, eu também procurava agressivamente me rebelar. Segundo uma tradição
familiar paterna sempre evocada por minha mãe, e da qual meu pai jamais
me falou, as chances de eles terem filhos gêmeos eram tão grandes quanto
aquelas de a gravidez gemelar não chegar a seu termo ou de apenas um dos
recém-nascidos conseguir sobreviver.
A doença celíaca que, por contingência, se abateu sobre mim (e não sobre
meu irmão gêmeo bivitelino), ameaçando-me, com a morte, amalgamou-se à
minha neurose para, em co�sonância com minha recorrente suposição de ter
sido destituído de um legado paterno, dar literalmente corpo a um destino fu­
nesto. A principio, era essa condenação oracular que escutei reiterar no destaque
dado pelo analista à passagem inexorável do tempo e sua dimensão traumática
em minha vida. De um lado, mortificando-me, eu me tomava como "o fraco':
"o impotente': "o esquisito·: por aquele que sucumbiria necessariamente na vida
devido à ausência de legado paterno. Por outro lado, nessa inversão pela qual a
neurose obsessiva se destaca em positivar a dimensão mortífera dos sintomas,
eu me apresentava como quem - por ter sobrevivido a uma enorme e precoce
proximidade com a morte - podia até se vangloriar de ter escapado do tempo,
tomando-se mais rápido do que o tempo que passa, capaz de resolver uma série
de coisas ao m�mo tempo e de se precipitar em cena para fazer-se olhar como
aquele que enfrenta tudo e todos, inclusive esse Outro aviltante que é a morte.
Ao desdobrar tais estratégias de afrontar o tempo traumático, o analista
me diz: "C'est votre tentation par le trou" ["É sua tentação pelo furo"]. Cor­
tando a sessão, ele ainda cita a referência lacaniana ao "trou du souffleur': ao
"furo que soprà, ou seja, esse lugar vazado onde, na arquitetura mais tradi­
cional dos palcos teatrais, alguém se coloca para dar encadeamento à trama
discursiva da encenação, "soprando'' as falas dos atores, se eles porventura
as esquecerem. A citação lacaniana evocada pelo analista diz: "na análise, só
há cena quando há passagem ao ato. Só há passagem ao ato çamo mergulho
no furo que sopra, sendo o furo que sopra, certamente, o inconsciente do
sujeito':5 Nessa citação, reiteram-se termos daquela temporada analítica e, de

5 LACAN, Jacques "'Entretien avec des étudiants, réponses à leurs questions -Yale University,
24 de novembre de 1975': ln: Sdlicet 6/7. Paris: Seuil, 1976, p. 35.

APOSTA NO PAS S E
modo mais extenso, da minha vida: "ato': "cena': "passagem" e também "furo':
até então escamotead0 como ausência, queda e vazio.
Minha "tentação para o furo,, me levava a manter o encadeamento sig­
nificante do discurso do Outro, fazendo dele um ventríloquo do qual eu era
apenas um boneco-porta-voz - trata-se, aqui, da versão teatral mais tradicio­
nal de quem, invisível, sopra de um furo as palavras para que a encenação não
se interrompa e tudo fique em seu lugar. Logo me dou conta de que minha
''tentação pelo furo" comportava também uma versão teatral mais contem­
porânea e pulsional: diante do furo pelo qual o Outro é desmontado em sua
potência de encadear um discurso ou manter uma postura conforme a seu
lugar, eu me precipitava nesse furo para, como em um happening ou uma
performance, escancarar como tudo não passava de uma encenação, reiteran­
do o trauma de não haver mais, para mim, qualquer tempo ou lugar.
Retornando à onírica torre do relógio erigida como um falo, passo a
tomá-la, por uma perspectiva anamórfica, também como a biruta que, por
comportar um furo, se infla e desinfla ao sabor dos ventos, ou seja, do que é
sopro e - por que não? - fala, indicando sentidos capazes de fornecer algu m
norteamento, sobretudo ao não se aterem apenas a uma semântica. A biruta
onírica é, portanto, ainda o falo, mas agora como "falácia" que "testemunha
o real': 6 Ela também me aponta para a "furadà' que é o próprio inconsciente
como discurso do Outro e, nesse viés, é tanto uma anamorfose do boneco do
Outro-ventríloquo, no qual minha neurose condenava meu corpo a um des­
tino funesto, quanto, ao se valer também do corpo do analista, a localização
de sua queda do lugar de sujeito suposto saber. Por conseguinte, a biruta�
-analista também me permite localizar o inconsciente não mais como trama
discursiva, e sim como furo, lapso, "pedaço de real': sem qualquer alcance
interpretativo porque cingido, não sem satisfação, em uma insensatez diversa
daquela do supereu, uma vez que se refere ao "real sem lei"7 e não se impõe,
portanto, como porta-voz de ordenamentos destinados, em vão, a se sobre­
porem à inconsistência do Outro.
No contexto dessas formulações, lembro-me da última cena do sonho: um
amigo cuja vida me parecia, diferente da minha, marcada pela eleição paterna,
mostrava para mim e para minha mulher os presentes tipicamente masculi­
nos, mas bizarros, que ele recebia de seu pai - sapatos disformes ou sem par,

6 LACAN, Jacques. O Seminário, livro 23: o sinthoma (1975-6). Rio de Janeiro: Jorge Zahar
Editor, 2007, p. 107.
7 Ibid., p. 133.

I, 2, 3 E . • . 251
gravatas anamórficas ou incompletas. Relatar essa terceira cena onírica ao ana­
lista, depois de tudo que já lhe havia falado e sabendo que ele conhecia meu
amigo, me faz rir e a satisfação transmitida nesse riso, tal como ocorre em um
Witz, o afeta também, porque, em tom risonho, ele me diz: "Même votre ami,
l'homme du pere par excellence, reçoit des cadeaux bizarres du pere" ["Até seu
amigo, o homem do pai por excelência, recebe presentes bizarros do pai"] .
Após constatar que o legado do pai, como ausência ou presença, não dei­
xa de fazer dele um sintoma e nos colocar em "furadas': das quais eu então
conseguia rir e fazer rir, consigo escutar meu destino condenatório como
"verdade mentirosa': 8 Afinal, na dimensão real da vida, tenho conquistas, uma
alegria e uma satisfação das quais eu insistia em defender-me, separando-as
de meu corpo e de minha vida. Ocorre-me, assim, ressaltar a diferença entre
a passagem ao ato de mergulhar no "furo que sopra" e a propensão ao ato que,
na forma de acting out, impelia-me a precipitar-me nesse mesmo furo para,
sempre em vão, suturá-lo discursiva e sacrificialmente.
Na última sessão daquela temporada, encontro-me mais tomado pela
certeza do mergulho pelo qual acontece minha passagem ao ato de anali­
sante a analista, mas sem saber muito bem como dar-lhe literalmente corpo.
,,
Após um silêncio, falo do equívoco que me permitia tomar a "última sessão
designada pelo analista, a princípio, com referência à sequência das sessões
daquela temporada também, por um ato que me cabia realizar, como a "úl­
tima sessão" de minha análise. Evoco, então, a brincadeira infantil da qual a
trama discursiva do Outro me apartava, mas que sempre concernia a uma
satisfação que eu não deixava de experimentar como uma real pulsação em
meu corpo: por meio de uma sequência numérica, antecipa-se o imprevisto
e a satisfação dos corpos: "1, 2, 3 e. . :: Surpreendo-me de que eu, sempre tão
agarrado às palavras, ao sentido, à trama, ao saber, aos nomes e à decifração,
finalize minha análise com uma sequência de cifras na qual a certeza de u,m
ato é antecipada e uma satisfação toma o corpo. Chego mesmo a dizer para
o analista que, se daquela vez eu me decidisse de novo a demandar o passe e,
à diferença do que aconteceu antes, conseguisse ser nomeado Analista da Es­
cola (AE), eu até poderia intitular meu primeiro testemunho como "1, 2, 3 e ...».
Rimos, então, o analista e eu, afetados por mais esse Witz com que a terceira e
última sessão do último dia daquela temporada acabou mesmo se efetivando
como a última sessão de minha análise.

8 LACAN, Jacques. "Préface à l'édition anglaise du Séminaire x1" (1976). ln: Autres écrits.
Op. cit., p. 571-3

252 AP O STA NO PAS S E


Jacques-Alain Miller destaca que, além do passe clínico, próprio ao final
de análise, há o passe confirmado pela nomeação de AE e ainda mais outro,
multiplicado pelos ecos dos testemunhos de um AE na Escola. 9 Finalizada a
análise, nomeado AE pelo Cartel do Passe da Escola Brasileira de Psicanálise
(EBP) e da Associação Mundial de Psicanálise (AMP), encontro-me, agora, fa­
zendo ressoar este testemunho na "Escola Una,: Mais uma vez, tenho o corpo
tomado pela certeza antecipada do ato e pela satisfação de que já está tudo aí
e ainda há tudo por vir. Agora, então, outra vez, é 1, 2, 3 e...

9 MILLBR, Jacques-Alain. "Est-ce passe?': La Cause freudienne, n. 75, Paris, 2010, p. 83-9.

1, 2, 3 E • . . 253
r;1tn,úNÊ M - S � 'AQUI DUAS
\1 / :v. : ·. . -� :::- , ·... - � . . : ' . '. .
séries :�e �fxtOs,. .Na•• priineira. delas,
:l

. ,,
.• càusa e v;for dessâ reunião,
n pontuaJá�sd�°r�fl�xãó :d� Jacques�
-Alain Miller. sobre P passe, ocorridas
de-wso a ;2011. Suh<livididas em três
seções, deixam·Ver COlllQ ele.-exftai do
acontecimento e d o prncedi111ento
implicados nessa proposição de
Lacan diversas consequê�çias não
só para o fün de análise, mas também
para os analistas e a existência
da psicanálise. Na segunda;
15 testemunhos de Analistas
da Escola, todos des-membros da
Escola :Brasileira de. Psicanálise, cujos
desdobram�ntos· se ligam, a partir de
2006, ao estabelecimento do Cartel
. do Passe nessa Escola, uma das que
compõem a .Associação Mundial de
Psicanálise, fundada pelo autor em 1992.
Elabora-se, assim, nesta Coleção
Opção Lacaniana, até então ·.
constituída exclusivamente de
livros autorais, um movimento que
se aproximà·de uma das inflexões
mais frutíferas çlaexperiência do
passe: uma transmissão· indil'eta
que necessariament� sê efetuà em
dois momentos distintos e cuja
ocorrência não apenas se constitui da
própria: experiência, como também
se evídenda pelo que nã.o se perde a9
set.· repetido por, sujeit9s ciifere11tes
par� :ouvi6i��· iguaUnente oriu;o$. .
' ' '