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O SISTEMA

PREFÁCIO .................................................................................................................................................................. 1

PRIMEIRA PARTE – A VISÃO................................................................................................................................. 2

I. O MÉTODO ............................................................................................................................................................. 2

II. DEUS E CRIAÇÃO ............................................................................................................................................... 5

III. QUEDA E RECONSTRUÇÃO DO SISTEMA ................................................................................................. 7

IV. O CICLO INVOLUÇÃO – EVOLUÇÃO ........................................................................................................ 10

SEGUNDA PARTE – ANÁLISE E CRÍTICA ........................................................................................................ 13

V. ORIENTAÇÃO .................................................................................................................................................... 13

VI. DEUS CRIADOR ............................................................................................................................................... 17

VII. A REVOLTA ..................................................................................................................................................... 19

VIII. SISTEMA E ANTI-SISTEMA ....................................................................................................................... 23

IX. OBJEÇÕES E ESCLARECIMENTOS ............................................................................................................ 26

X. A VISÃO DIANTE DA FILOSOFIA ................................................................................................................. 28

XI. A VISÃO DIANTE DA BIOLOGIA ................................................................................................................. 31

XII. TEORIA CINÉTICA DA QUEDA .................................................................................................................. 36

XIII. O PROBLEMA DA PERFEIÇÃO, ONISCIÊNCIA E ONIPOTÊNCIA. ................................................. 41

XIV. A PSICOLOGIA DA REVOLTA, SATANÁS E O ANTI-SISTEMA. ...................................................... 46

XV. OUTRAS PROVAS E ESCLARECIMENTOS. O FUTURO DA PERSONALIDADE HUMANA .......... 50

XVI. RECONSTRUÇÃO ORGÂNICA DO SISTEMA E DESENVOLVIMENTO DA CONSCIÊNCIA ....... 55

XVII. SIGNIFICADO DA MORTE E DA REENCARNAÇÃO .......................................................................... 61

XVIII. OUTROS FATOS E EXPLICAÇÕES ........................................................................................................ 64

XIX. OUTROS FATOS E EXPLICAÇÕES (1a Parte) .......................................................................................... 69

XX. ASPECTOS MAIS PROFUNDOS DA VISÃO (2a Parte) ............................................................................. 72

CONCLUSÃO ........................................................................................................................................................... 76

ORAÇÃO A DEUS ................................................................................................................................................... 85

Vida e Obra de Pietro Ubaldi (Sinopse)....................................................................................página de fundo


Pietro Ubaldi O SISTEMA 1
por questões difíceis de alta teologia, coisa que não é comum
O SISTEMA em outros lugares.
Esses fatos excitaram e tornaram a despertar aquele meu
GÊNESE E ESTRUTURA DO UNIVERSO pensamento adormecido e o impeliram a colocar-se novamente
diante da visão de Deus e Universo, mas, desta vez, com maior
amadurecimento do que havia dantes contemplado. O empenho
PREFÁCIO em fazer estes cursos e responder as objeções dos assistentes e
da imprensa obrigou-me a precisá-los, a focalizá-los com mais
Com este volume, inicia-se a II Trilogia da segunda obra, exatidão, a fim de esclarecer melhor, sobretudo a mim próprio,
chamada brasileira porque escrita no Brasil, em relação à pri- os problemas enfrentados. Isto porque o modo como as discus-
meira, chamada italiana, escrita na Itália. Terminou com a I Tri- sões eram feitas e desenvolvidas na imprensa e nas conversas
logia o período da grande batalha, da luta. Tiramos dela todo o demonstrava-me, acima de tudo, que não tinha sido bem com-
fruto benéfico. Voltamos, agora, ao caminho ascensional da preendida a orientação e a colocação geral dos problemas trata-
construção com o início desta Trilogia. dos, o que de resto bem se explica, porque eram diferentes os
Retomamos neste escrito os conceitos dos volumes A Gran- pontos de referência culturais para a novidade revolucionária de
de Síntese e Deus e Universo, nascidos em dois períodos diver- uma concepção que nem sequer a cultura europeia se revelou
sos da minha maturação, filhos de estados de alma diferentes, a capaz de logo compreender e aceitar. É evidente que uma tal vi-
fim de fundi-los num só, formado pela atual e mais profunda são, de dimensões cósmicas, não podia ser reduzida à medida e
maturação adquirida. Significa isto fundir as duas concepções ao julgamento da média comum, nem ser restringida ao enqua-
numa única visão de conjunto, ou seja, num único sistema (re- dramento nos limites desta ou daquela doutrina. Assim, mesmo
ligioso, ético, científico etc.) que abarque em síntese todos os partindo de religiões diferentes, o homem teve um comporta-
fenômenos do universo, orientando-os para um único centro e mento igual diante de A Grande Síntese e de Deus e Universo.
objetivo; um sistema que dê a chave e esgote o problema do Não discutimos os julgamentos, que respeitamos, porque cor-
conhecimento, pelo menos nas suas linhas gerais. respondem à necessidade de defender patrimônios espirituais já
Por isso este volume se chama O Sistema, pois representa adquiridos. Mas também é certo que Deus, ao criar, não podia
um conjunto de princípios em que cada fenômeno se coordena ficar na dependência deste ou daquele sistema religioso que lhe
para formar um todo orgânico. Nesta visão global, a concepção estabelecesse uma determinada norma.
científica de A Grande Síntese, vista em função do homem, fun- De tudo isso nasceu a necessidade de esclarecer ainda me-
dir-se-á, permanecendo nela inserida, junto com a concepção te- lhor como se desenvolveu o processo da criação, enfrentando-o
ológica do volume Deus e Universo, vista em função de Deus. novamente, com o método inspirativo – já que não existem ou-
A Grande Síntese é uma visão do Alto, isto é, vinda do espí- tros de observação direta – método cujo valor como método de
rito para baixo, ou seja, para o mundo físico da matéria, até ao pesquisa já demonstramos e que, aliás, é completado e contro-
homem. O volume Deus e Universo é uma visão de baixo, isto lado pela lógica e pela razão. Respeitamos todas as fontes tradi-
é, do plano humano para o Alto, ou seja, em direção ao pensa- cionais, mas Galileu, tal como a ciência moderna, para resolver
mento de Deus Criador. Neste volume, queremos fundir as duas os problemas astronômicos, lançou-se ao estudo dos céus utili-
visões numa só, o sistema de A Grande Síntese com o sistema zando o telescópio e o cálculo, e não a Bíblia. E, se esta dizia
de Deus e Universo, cada um em seu campo, ou seja, fundir os que Josué deteve o Sol, Galileu, não obstante ser julgado here-
dois campos num só, para obter assim não duas perspectivas di- ge porque contradizia a Bíblia, continuou, com toda a razão, a
ferentes, mas uma única perspectiva, num único sistema. Esta é dizer: “e, no entanto, a Terra se move”.
a finalidade do presente livro. Por isso, tal como Galileu, só podemos responder às obje-
O livro nasceu no primeiro semestre de 1956. Havia então ções da imprensa dizendo que, apesar de tudo o que afirmam as
terminado o período da grande batalha e o horizonte se havia diversas doutrinas, as coisas são exatamente como estão descri-
tornado mais claro. A luta, se bem que não terminada, ao menos tas desde o princípio do volume Deus e Universo. Para termos a
não exigia toda a minha atenção e energia, podendo se organizar certeza disso, neste volume, O Sistema, a questão foi toda ree-
na forma de um trabalho mais regular e ordenado. Com o meu xaminada, sendo a visão novamente vista em seu conjunto e em
espírito mais livre, pude então dirigir-me para novos caminhos. seus pormenores. Deste novo exame crítico e analítico resultou a
Foi isso que permitiu o nascimento deste novo volume: O confirmação de todas as afirmações precedentes, demonstradas
Sistema. Naturalmente, a produção literária se ressente das con- com maior evidência. Esta é uma análise ainda mais atenta. Se
dições do ambiente no qual se vive e do trabalho que isto impõe. houvesse erros, eles deveriam aparecer. E não apareceram.
Mudou meu estado de ânimo, e, não mais oprimido pela luta in- Eu teria gostado muito que a crítica alheia me houvesse
dispensável à sobrevivência num ambiente hostil, um sentido de apontado erros. Mas, tal como ocorreu na Itália, com a condena-
libertação e de alívio me permitiu, em vez de olhar para a Terra, ção de A Grande Síntese, a crítica não se limitou a ver se a teoria
a fim de defender-me, levantar os olhos para o Alto, contem- era verdadeira ou falsa à luz da lógica e dos fatos, mas apenas a
plando visões. Nasceu deste modo este meu novo livro, que re- verificar se ela correspondia a uma unidade anterior de medida,
presenta o maior amadurecimento espiritual até hoje atingido. dada pela medida da própria doutrina. Assim, a crítica não me
Mas para ele me arrastaram também as forças que dirigem ofereceu, como eu teria desejado, alguma coisa que pudesse
a minha vida, e isto através de acontecimentos exteriores, in- contribuir para melhorar meu trabalho, nenhum fato positivo que
dependentes da minha vontade. O volume Deus e Universo foi verdadeiramente enfrentasse a substância dos problemas. E é is-
honrado, na primeira metade de 1956, com discussões na im- to o que mais interessa ao pesquisador apaixonado. O que lhe in-
prensa brasileira. As observações feitas chamaram de novo a teressa de fato não é verificar se ele está de acordo com esta ou
minha atenção para aquele argumento, que eu esquecera duran- aquela doutrina particular, mas sim obter respostas às suas per-
te a luta. Ao mesmo tempo, essas forças me prepararam, sem guntas e saber como realmente ocorreu o fenômeno da criação.
que eu soubesse, um curso que, em 1956, dei em São Paulo e, Como aconteceu com A Grande Síntese, o fato se repetiu
depois, outro no Rio, e mais um terceiro em Santos, exatamen- agora. Qualquer verdade nova se acha diante de outras verdades
te sobre o tema: “Gênese e Estrutura do Universo”, tema do já admitidas. Se a nova verdade concorda com elas, é julgada
volume Deus e Universo. E esses cursos levantaram novas dis- verdadeira. Se não concorda, é julgada falsa. Assim, as verda-
cussões. O Brasil é um grande país, onde o público se interessa des novas que se estão desenvolvendo nestes volumes são dife-
2 O SISTEMA Pietro Ubaldi
rentemente julgadas. Há sempre luta entre o velho e o novo. O afastar-nos deles, superando-lhes os limites, com o microscópio
primeiro possui as posições já conquistadas, mas envelhece e se e o telescópio, mas só podemos fazê-lo até certo ponto. Conse-
cansa. O segundo deve conquistá-las, mas é jovem e tem direito guimos, então, chegar um pouco mais longe, mas, depois, temos
à vida. Ninguém pode deter o progresso, que, apesar dos confli- de parar diante de horizontes mais afastados, além dos quais, pa-
tos, continua a avançar sempre impassível. Trata-se de uma lei ra nós, o infinito permanece igualmente inatingível.
irresistível da vida. Basta esperar. Para compreender o novo, O pensamento humano, filho de capacidades perceptivas in-
precisa-se de tempo. Foram necessários vinte anos para que A crustadas pela natureza das coisas entre esses dois extremos,
Grande Síntese fosse compreendida. Para que Deus e Universo lançou-se, em seu impulso natural para o conhecimento, ora
seja também compreendido, mais ainda será necessário. numa direção ora noutra, criando assim, instintivamente, os
No momento, a resposta às discussões sobre o volume dois métodos de pesquisa que o homem conhece: o dedutivo e o
Deus e Universo só poderia ser a mesma já dada às objeções indutivo. Possuindo a inteligência e, assim, equipado com mei-
que se fizeram sobre o volume A Grande Síntese: não renegar, os para caminhar, o homem tinha de seguir as duas estradas que
mas sim reafirmar, encontrando novas confirmações por meio já o esperavam, traçadas na estrutura do mundo, e por elas ca-
de um estudo mais profundo do problema. Assim, tudo se re- minhou. Logo, com o seu método dedutivo, explorou o terreno,
duz a explicar ainda melhor, cada vez mais clara e evidente- como de cima de um monte ou de um avião, obtendo uma visão
mente, até que se compreenda. A única dificuldade que pode de síntese, mas não localmente controlada pelo contato com o
surgir como causa de dissensões é não se haver explicado bas- terreno onde ocorrem os fenômenos; uma visão de conjunto, de
tante. O remédio diante de qualquer condenação é apenas in- princípios gerais, onde faltam os pormenores. Isto ocorreu
sistir, explicando sempre mais claramente. O problema não é quando o homem se entregou nos braços da inspiração, da in-
modificar, mas sim ser compreendido. tuição ou da revelação. Daí tirou os princípios gerais, não de-
Assim nasceu este livro. Embora susceptível de contínuos monstrados, não focalizados com exatidão pelo trabalho racio-
desenvolvimentos, agora ele já esclarece tudo, pelo menos em nal, suficientes para saciar apenas a mente, enquanto o seu
suas grandes linhas, especialmente a mim próprio, que sou difí- amadurecimento não lhes despertasse a fome de saber mais.
cil de convencer. E ele me convenceu. Eliminou, em meu atual Eis então que, em certo momento, nasce a ciência, usando a
estado de amadurecimento, todo resíduo de dúvida, que sempre perspectiva oposta, ou seja, o método indutivo. De posse deste,
permanece no fundo da mente de qualquer pesquisador honesto. ela começou a explorar o terreno não mais do alto, e sim per-
Assim a teoria da queda não só não morreu como se refor- correndo-o passo a passo, entrando em contato direto com os
çou em mim, fundindo-se com a concepção de A Grande Sínte- fenômenos. Não mais visão de conjunto, de síntese, mas dos
se e absorvendo-a. Por isso essa teoria continuará a constituir a pormenores, analítica. Daí a observação e a experiência, exclu-
espinha dorsal das obras que estou escrevendo, de modo que os ídas no primeiro caso, e os resultados práticos e utilitários pro-
meus futuros livros não só a confirmarão, como continuarão a duzidos pela ciência.
elevar-se nestas bases, esclarecendo cada vez mais, desenvol- Este método, entretanto, diante do problema do conheci-
vendo, aplicando, convencendo. Quanto mais se estuda o que é mento, tem um ponto fraco: se é mais apto a agir na matéria,
verdadeiro, menos dúvidas se tem. dando-nos resultados práticos, é o mais inadequado, por ser mé-
Foi assim que a verdade sempre caminhou desta forma. As todo de análise, para nos dar a visão de síntese e resolver assim
resistências fazem parte do seu processo evolutivo. Trata-se de o problema do conhecimento. Sucede então que, em pleno sé-
uma lei igual para todos, que nós não podemos modificar, de- culo de ciência positiva, como o nosso, voltamos a confiar no
vendo apenas aceitá-la. É justo e devemos defender as velhas gênio dos grandes matemáticos, que, por abstração – não só
verdades já conquistadas. Mas, às vezes, repudiando e sufo- trabalho de lógica, mas também de intuição – conseguem ele-
cando o que é novo, para defender o patrimônio já possuído, var-se acima do mundo fenomênico, daí trazendo a visão de
tenta-se impedir a vida de conquistar outro patrimônio melhor. conjunto que a ciência positiva, com seu método experimental,
No entanto, como é explicado neste volume, o impulso do pro- não consegue alcançar. No entanto também a ciência necessita
gresso vem de Deus e, como tal, esse impulso é o mais forte e da intuição, pelo menos para formular algumas hipóteses de
não pode deixar de vencer. trabalho, sem o que não consegue orientar-se, ficando, em seu
progresso, sujeita a puras tentativas.
São Vicente, Natal de 1956. ◘ ◘ ◘
Após esta premissa, vamos ao nosso caso. Nos volumes an-
PRIMEIRA PARTE – A VISÃO teriores, usamos, alternadamente, ora um ora outro desses dois
métodos. Neste volume, utilizar-nos-emos de ambos, dirigindo-
I. O MÉTODO os em colaboração para o mesmo alvo. Quer dizer, usaremos os
dois métodos e as duas perspectivas: a revelação, intuição e
Em primeiro lugar, temos de explicar a técnica de pensamen- inspiração – ou seja, visão panorâmica por síntese – e a obser-
to que usamos para chegar às concepções que aqui exporemos. vação e experiência – ou seja, visão detalhada por análise. São
Podemos estudar a natureza de um terreno, de duas manei- estas as duas formas do pensamento humano: religioso e cientí-
ras: 1) construindo para nós um conceito geral, observando-o fico, isto é, a descida do pensamento de Deus à Terra por meio
do alto de um monte ou de um avião; 2) fazendo uma ideia dele dos profetas e inspirados, e a laboriosa ascensão do pensamento
percorrendo-o a pé, passo a passo, em todos os sentidos. No humano por meio dos pensadores e dos cientistas.
primeiro caso, teremos uma visão de conjunto, que chamare- Eis aí o método que seguiremos. Para atingir o máximo re-
mos de síntese. No segundo, teremos uma visão de pormenores, sultado possível na busca da verdade e alcançar o máximo pos-
que chamaremos de análise. No primeiro caso, veremos as li- sível de conhecimento, usei alternadamente os dois métodos:
nhas gerais, que nos escapam no segundo; no segundo, veremos inspiração e razão.
as linhas dos pormenores, que nos escapam no primeiro. Começo, assim, enfrentando o problema com a visão pano-
É lógico ser desse modo, porque o ser humano se encontra râmica, do alto, ou seja, com a inspiração. Dessa forma, obte-
exatamente entre o microcosmo e o macrocosmo, ou seja, entre nho uma visão de conjunto ou total, o último resultado de uma
o infinitamente pequeno e o infinitamente grande. Somos feitos operação da qual, no entanto, não conheço os termos compo-
para perceber com os nossos sentidos apenas a realidade que nos nentes, de onde esses totais derivaram. Faltam os pormenores,
é oferecida pelos fenômenos de nossa grandeza. Procuramos as provas, o controle racional, para esses resultados serem acei-
Pietro Ubaldi O SISTEMA 3
táveis no plano lógico, a fim de que resultem demonstrados, de Mesmo em relação ao nosso caso, temos de fazer estas refe-
acordo com a forma mental do homem moderno. A intuição rências contínuas ao estado atual do pensamento humano, pois
não nos dá nada disso. Ela produz, num lampejo, uma visão de o nosso deve também orientar-se em relação a ele e à sua atual
síntese, sem minúcias, na qual não é possível aplicar, naquele fase de desenvolvimento. Procuramos, assim, não permanecer
momento, a análise e o controle, nem a observação ou a experi- unilaterais, como as religiões de um lado e a ciência de outro,
ência. Pude conseguir desse modo a orientação geral, mas falta acreditando cada uma que a sua perspectiva particular seja sufi-
todo o resto. Assim, chego a descobrir a conclusão a ser alcan- ciente para abarcar toda a verdade. Em vez de se completarem,
çada, mas ainda não sei o caminho para chegar lá pelas vias ra- como é necessário entre coisas complementares, a fé e a ciência
cionais. Vi a verdade, mas não posso demonstrá-la agora. Tanto têm procurado excluir-se, condenando-se reciprocamente.
mais que o fenômeno da inspiração é, em grande parte, inde- Procuramos, por isso, evitar esse erro de unilateralidade,
pendente de nossa vontade. Mas, enfim, alguma coisa conse- fundindo os dois métodos, sem nos fecharmos em barreiras
guimos, exatamente a orientação geral que hoje falta à ciência. preconcebidas num polo ou no outro. Sempre há algo para se
Os profetas, os inspirados, as revelações das religiões pa- compreender cada vez melhor e alcançar o conhecimento,
raram aí. É natural, portanto, que a ciência, ao trabalhar no quando, em vez de uma, dispõe-se de duas perspectivas ao
polo oposto, não tome em consideração esses resultados, que, mesmo tempo: a sintética e a analítica.
no entanto, são de grande importância. Ela não os deveria ter ◘ ◘ ◘
rejeitado, mas sim tomado para examinar e dar-lhes uma ex- Aí está, portanto, o que será e é, de maneira geral, o nosso
plicação, pelo menos como uma hipótese de trabalho, que pu- trabalho no segundo momento. Quando já houvermos regis-
desse, ainda que provisoriamente, preencher a sua falta de ori- trado por escrito os resultados da inspiração e tiver cessado o
entação quanto aos problemas máximos do conhecimento. Por lampejo do qual derivam aqueles conceitos, então cessa de
enquanto, não nos deteremos neste ponto. Ao contrário, temos funcionar a intuição e voltamos ao estado normal. É como se
de procurar completar os resultados da inspiração recebida, descêssemos do monte ou do avião. Aí, então, começamos a
usando em seguida, num segundo tempo, também o método andar a pé, no chão, passo a passo. Tornamo-nos, dessa for-
oposto e complementar, que é o da ciência. Devemos, assim, ma, investigadores comuns, que observam e experimentam.
descer do monte ou do avião, ao nível do terreno e percorrê-lo Estamos, então, fora do mundo da revelação e da fé, pene-
todo a pé, observando-o de perto. Isto procuramos fazer em trando no campo da pesquisa e da ciência. Usamos agora não
vários volumes, onde retomamos os temas da inspiração para mais a forma mental de quem crê, mas a de quem duvida. As
desenvolvê-los racionalmente, controlando-os com a observa- atitudes e as perspectivas invertem-se. Não se abre a alma a
ção e a experiência. Guiados pela inspiração recebida, maior é Deus, mas busca-se provas, entrando na fase de controle raci-
nossa orientação; não vamos explorando ao acaso, mas, pelo onal da intuição. O nosso pensamento se põe a funcionar com
contrário, seguimos direções precisas, porque sabemos, mes- engrenagens diferentes, assumindo uma relação diferente com
mo antes de vê-los, que lá existe um rio, um bosque, uma ro- a realidade, não mais de espírito, interior, por visão, mas de
cha, um terreno diferente. Com o mapa geral do solo, obtido sentidos, exterior, por contato material.
com a perspectiva do alto, o nosso trabalho se reduz apenas à Entro pois nesta segunda fase retomando o pensamento já
análise dos pormenores, uma vez que a visão sintética está di- atingido pela inspiração e o analiso. Eu mesmo procuro as pro-
ante de nossos olhos, orientando-nos. Com esse mapa nas vas com os meios racionais e culturais, porque, só quando tiver
mãos, não temos o trabalho de fabricar outro para orientar-nos transformado o pensamento intuitivo nesta segunda forma, po-
e podemos, pois já estamos orientados, concentrar toda a nos- derei então apresentá-lo aos modernos homens da ciência, que
sa atenção no estudo das minúcias. só levam a sério o pensamento quando este se apresenta assim
Infelizmente, a ciência se acha em outras condições. Ela não revestido. Nesta segunda fase, não é mais a inspiração que tra-
tem nas mãos o mapa geral do terreno, para fazer as suas pes- balha, mas apenas as forças da minha pequena inteligência hu-
quisas. Acha-se diante de um número infinito de pormenores, e mana. Em vez de voar, caminho a pé e, a cada passo, toco a ter-
o fato de estar obrigada, através deles, a chegar à reconstrução ra e tudo em meu redor. Tenho de fazer então pesquisas e,
de uma visão de conjunto, constitui uma dificuldade por vezes quando me falta o conhecimento de alguma coisa, devo procu-
insuperável, pois em nosso universo, como veremos, a unidade rá-lo e encontrá-lo nos livros científicos.
do todo foi pulverizada na infinita multiplicidade fenomênica. Entretanto esta não é a investigação comum, da qual se dife-
Por isso ela é obrigada a limitar-se a sondagens parciais, deno- rencia. Não se realiza por tentativas, mas segue uma orientação
minadas hipóteses, que, controladas mais tarde pela observação conhecida, não se encontrando nos livros. Quem já está orienta-
dos fatos, são definitivamente aprovadas como teorias aceitas, do por sua conta sabe o que quer achar, sabe o que deve e o que
representando apenas sínteses parciais, limitadas a campos res- não deve aceitar do que é dito pela ciência. Nesta pesquisa, não
tritos ou aspectos da verdade global. Assim, tudo permanece me submeto à orientação dada pelos livros. Ela já me foi dada
fracionário, cobrindo-se apenas estreitas faixas do terreno. No pela inspiração, e só esta me pode dá-la. À ciência peço apenas
conjunto persiste a desorientação, justamente porque falta o o fato e o fenômeno, que não estão em minhas mãos, mas que a
meio para alcançar uma visão de síntese, coisa que a análise, ciência conhece bem, porque é a ciência dos fatos e dos fenô-
por sua natureza, é incompetente para nos dar. Dessa forma, a menos; peço-lhe apenas os pormenores, que pertencem à sua
ciência, se é o meio mais adequado para produzir resultados de análise e não são fornecidos pela visão sintética de conjunto.
caráter material, mostra-se, contudo, mais inepta para produzir Quis explicar tudo isto também para afastar o mal-
os de valor espiritual. Isto ocorre porque ela está situada na entendido que a meu respeito tem ocorrido no Brasil. Fui aqui
multiplicidade dos pormenores fenomênicos, no terreno das qualificado de médium, o que neste país tem o significado ge-
formas e dos efeitos – polo oposto ao centro unitário da Divin- ral de receber, neste caso, mensagens escritas e fragmentárias
dade, de onde desce a revelação – mostrando-se assim, por sua (quase nunca um tratado sistemático e completo), proveniente
natureza, a mais incompetente para alcançar resultados unitá- de determinadas entidades, que, quase sempre, foram humanas,
rios de síntese através de uma visão geral, único meio capaz de e tudo isso em estado de inconsciência, em estado de transe.
resolver os problemas máximos e nos dar o conhecimento. Fi- Enquanto, para esses médiuns, a maior prova da genuinidade
ca-lhe, dessa maneira, vedada a função de orientação, que com- da recepção reside em não se conhecer aquilo que se escreve,
pete, pelo contrário, à inspiração, assim como a esta é vedada a para mim a maior prova consiste no controle contínuo que eu
função do conhecimento analítico, que compete à ciência. posso fazer, em plena consciência, da própria recepção, no
4 O SISTEMA Pietro Ubaldi
exato momento em que ela ocorre. No meu caso, a passividade relativo. De modo que o conceito que, em nossa posição de An-
do transe não é uma virtude, mas um defeito que deve ser evi- ti-Sistema, conseguimos formar do Sistema é, para nós, negati-
tado. Se não percebesse em plena lucidez os conceitos que es- vo, apesar de tratar-se da coisa mais positiva que pode existir.
tou recebendo, eu seria apenas uma máquina cega, passiva e ir- O fato de nós só conseguirmos fazer do infinito e do absoluto
responsável, incapaz de distinguir os conceitos inspirados da- uma ideia que representa o inverso de nosso finito e relativo – e
queles que não o são. Tenho de tomar parte no trabalho com a não uma ideia direta e positiva – também nos dá uma prova de
minha contribuição pessoal, que a seguir deve controlar os re- que estamos situados no Anti-Sistema, por efeito da queda.
sultados obtidos pela inspiração, verificando se são genuínos, Vejamos um caso mais particular. Poder-se-ia dizer que o
submetendo-os ao exame da razão e da cultura, baseando-os ateísmo representa uma das provas da existência de Deus. O
em provas, traduzindo-os para a linguagem científica moderna. ateísmo é uma negação que presume a afirmação e que só em
Trabalho sério e árduo, exigindo disciplina intelectual e certo função dela pode existir. A negação não só presume e prova a
conhecimento da arte de saber pensar. Pode-se então imaginar afirmação como faz parte de dois conceitos que se condicio-
a dificuldade surgida aqui, quando tive de entrar nessas cate- nam reciprocamente, de modo que um não pode existir senão
gorias já estabelecidas, adequadas a outros casos e tipos de em relação ao outro. Há mais ainda, porém. A negação, ao ne-
fenômenos, tendo de vestir uma roupa que não tinha as mi- gar – porquanto é negação – apenas alimenta e reforça o poder
nhas medidas. A finalidade do meu trabalho não é apenas de- da afirmação com sua presença. Quando há dois conceitos jun-
monstrar a sobrevivência da alma ou o fenômeno mediúnico, tos, dizer não de um lado significa dizer sim do outro. De mo-
mas oferecer ao mundo cultural moderno o resultado de um do que, em última análise, o não só pode existir para anular-se
trabalho sério de investigações positivas, realizadas em cam- a si mesmo e para reforçar, com a própria negação, a afirma-
pos inexplorados, com o método da intuição, novo para a ci- ção oposta. Quem nega, nega em última análise a si mesmo, ou
ência. O meu trabalho não consiste em fazer ato de fé neste ou seja, destrói-se; e quem afirma, afirma a si mesmo, isto é, tor-
naquele grupo religioso, mas em explorar com métodos novos na-se mais poderoso e se constrói. Quem nega uma afirmação,
o inexplorado, em enfrentar e possivelmente resolver, perante nega a si mesmo em favor dessa afirmação, que se torna mais
a ciência e o pensamento moderno, o tremendo problema do poderosa, crescendo por meio dessa negação. Os negadores
conhecimento. Assim como, na Itália, fui julgado condenável caem nesse erro. Deduz-se daí que, quando um conceito possui
pela Igreja católica porque não era ortodoxo, o mesmo ocor- valor intrínseco como afirmação de verdade, ele nada terá a
reu comigo neste novo ambiente mediúnico. Parece, assim, temer das negações que, se aparecerem, trabalharão em seu fa-
que procurar a verdade, sem preconceitos, não pode ser aceito vor. O esforço para destruir a nova verdade é utilizado pelas
como ortodoxo em nenhum grupo humano. leis da vida para difundi-la, tal como os ventos tempestuosos,
De tudo isso, o leitor poderá compreender como os meus que trazem destruição, são utilizados para levar para longe as
livros nascem de uma profunda elaboração. A fonte primeira e sementes fecundas de uma vida mais ampla. É a própria posi-
maior é a inspiração. Representa a origem de onde tudo nasce. ção negativa assumida pelos negadores que serve para destruí-
Se, mais tarde, leio algo a respeito do argumento tratado, isto los em favor da afirmação, nutrindo-a com a própria carne.
só acontece depois, para conhecer o ponto de vista da cultura O modelo dos dois opostos, Sistema e Anti-Sistema, nós o
contemporânea a respeito dos temas desenvolvidos. Mas ja- vemos reproduzido também nos dois termos contrários: espíri-
mais a opinião alheia, tendo chegado sempre num segundo to e matéria. E, instintivamente, o homem vê Deus e o Paraíso,
momento, modificou ou pôde modificar o que resultara da ins- isto é, o Sistema, no céu, enquanto concebe o inferno nas vís-
piração. Jamais aconteceu alteração, por maiores que fossem ceras da terra, afundado na matéria. Por que isso? Porque a
as objeções dos opositores. Em caso de discussão e dúvida, queda foi do estado de espírito ao estado material, através da
sempre acrescentei esclarecimentos e exemplos para explicar energia. Aqui, a ideia da queda é reproduzida em sentido espa-
melhor, eliminando todas as dificuldades possíveis, e para cial, do céu para a terra. Na concepção de Dante, Lúcifer se
achar cada vez mais provas, a fim de eu mesmo – que, nesta precipita do Céu ao Inferno, aprofundando-se até ao centro da
segunda fase do trabalho, fiz-me tanto mais desconfiado, como Terra, onde, no ponto mais longe do céu, permanece a habita-
o quer a ciência positiva, quanto mais confiante fora na primei- ção do maior rebelde a Deus. E as subidas ao céu são concebi-
ra fase – ser constrangido a render-me diante da evidência e das em sentido contrário. O purgatório dantesco é o monte da
aceitar como prova as conclusões da inspiração. Trabalho útil, ascensão, pelo qual, subindo-se de plano em plano, chega-se
porque, havendo eu me colocado no estado psicológico de ho- ao paraíso. Esse inferno e purgatório exprimem exatamente,
mem mais desconfiado e refratário, tive de achar muitas pro- em sua posições invertidas – o primeiro, cavado nas vísceras
vas, até ficar por elas esmagado e convencido. Quis eu mesmo da matéria; o segundo, emergindo de seu seio – as duas meta-
colocar-me num estado de descrença tal que não houvesse des inversas e complementares do ciclo da queda, constituído
mais lugar para a descrença alheia. pelo período involutivo (queda no inferno) e pelo período evo-
Compreendida a gênese do pensamento a ser aqui seguido, lutivo (purgatório), da purificação que leva a Deus. Sob outra
vamos proceder à exposição dos princípios fundamentais do forma, achamos aí a substância da visão que expusemos. O in-
Sistema. ferno dantesco possui todas as qualidades do Anti-Sistema:
Tudo em nosso mundo se baseia numa contraposição de trevas, dor, ódio, mal etc. O paraíso dantesco possui todas as
conceitos opostos, que se completam como dois polos do ser; qualidades do Sistema: luz, felicidade, amor, bem etc. Tam-
que são contrários, mas só podem existir um em função do ou- bém no inferno há certa ordem e disciplina. Mas a ordem é co-
tro; que lutam, mas justamente na luta se escoram mutuamente, agida, a disciplina é a do escravo algemado, enquanto, no Pa-
e um não pode dispensar o outro. Ora tudo isso é dado pelo raíso, a ordem e a disciplina são livres e por convicção. Isso
primeiro modelo Sistema–Anti-Sistema, modelo que aparece corresponde aos conceitos de determinismo, a que está presa a
reproduzido em todas as formas do ser. Todo o nosso modo de matéria, e de liberdade, primeira qualidade do espírito.
conceber depende desse fato. Assim a afirmação nasce da con- Explicam-se, dessa maneira, muitos modos de conceber que
tradição, e só podemos afirmar enquanto existe o termo oposto: encontramos nas várias religiões, bem como as formas com que
a negação. Por isso é a negação que conduz à afirmação, e é a os estados de além túmulo são representadas por elas. Explica-
afirmação que implica a possibilidade da negação. se assim a contraposição entre espiritualismo e materialismo; o
Acontece então que não sabemos conceber o infinito e o ab- primeiro concebido como elevação, o segundo como negação.
soluto senão como o estado inverso ao nosso estado de finito e Explica-se a divisão do pensamento moderno nestas duas dire-
Pietro Ubaldi O SISTEMA 5
ções opostas, num contraste que representa, em nosso mundo, a as conclusões, para depois proceder à sua análise. Poderá isto
luta entre o Sistema e o Anti-Sistema. O materialismo moderno parecer estranho, mas a humanidade enfrentou o problema do
constitui um movimento de descida, mas descida na matéria, conhecimento com o mesmo método: primeiro a revelação, por
para depois chegar a compreender melhor, em relação a Deus e meio de profetas e inspirados, depois a ciência, com a observa-
ao espírito, a significação do universo e de nossa vida nele. O ção e a experiência. É este, portanto, o sistema usado pelas leis
materialismo nasceu como corretivo e reação ao espiritualismo da vida no desenvolvimento do pensamento humano. São dois
abusado das religiões; como libertação e renovação, a fim de momentos sucessivos e complementares: o primeiro é o movi-
passar das velhas estradas às novas; como salvação da cristali- mento instintivo e inconsciente do menino que abre os olhos,
zação dogmática, a fim de que o pensamento não permanecesse olha e assimila; o segundo é o movimento reflexo e consciente
aí, morto dentro delas, mas revivesse, continuando a avançar. do adulto, controlando com a razão o que vê, não mais esperan-
Só num primeiro momento é que a ciência apareceu como ini- do o conhecimento descer gratuitamente do Alto, mas moven-
miga da fé, quando se manifestou como reação de cura do pen- do-se ele mesmo à sua procura, com seu trabalho e esforço.
samento humano, que corria o perigo de permanecer fechado Uma vez que as duas operações se completam mutuamente,
em alguns caminhos sem saída. Mas, depois, a ciência materia- sendo uma necessária à outra, devemos executar ambas. Fi-
lista não podia evitar caminhar, iluminar-se mais e construir, quemos agora no âmbito da primeira. Neste trecho, no qual a
porque, observando honestamente os fatos e os fenômenos, ti- intuição impera, os céticos ainda nada podem dizer. Para a dú-
nha que se encontrar com o pensamento de Deus, que os dirige, vida, que virá mais tarde, ainda não há lugar aqui. Estamos
e chegar a ouvir a voz de Deus, que fala neles. Pôde assim apa- agora na fase em que se olha, se recebe e se registra. Os racio-
recer a verdadeira função positiva criadora desse regresso à ma- cinadores, os críticos e os céticos trabalham em outro terreno e
téria, ou seja, a de tomar um impulso mais forte, a fim de poder virão depois, sendo bem aceitos, porque também são utilíssi-
ascender mais para o alto, no caminho da evolução para o espí- mos para realizar o trabalho de controle. Mas, nesta primeira
rito. Fato que só agora começa a delinear-se, mas que represen- fase, só podem olhar e calar-se.
ta o verdadeiro sentido, valor e futuro da ciência. Na atual visão de síntese, encontramo-nos situados no abso-
luto, onde tudo é suprema abstração, onde tudo escapa a uma
II. DEUS E CRIAÇÃO possibilidade de controle com os meios de nossa concepção de
origem sensória e com os princípios da realidade fenomênica de
Para tornar a exposição compreensível à forma mental co- nosso mundo. Diante dessa visão, não temos qualquer meio de
mum, tive de exprimir, em A Grande Síntese e em Deus e Uni- controle direto ou ponto de referência; não funcionam aí a ob-
verso, a concepção sintética da primeira visão intuitiva, por servação e a experiência, que constituem a força da ciência.
graus e por concatenação de desenvolvimento lógico. Assim, Mas isto não significa que seja impossível algum controle. Ele
para torná-la mais compreensível, a visão sintética foi expressa existe, mas indireto. Movemo-nos, aqui, no âmbito das causas
analiticamente. Sigamos agora o processo inverso, expondo os primeiras, cuja essência escapa à nossa percepção. Destas cau-
conceitos na forma em que realmente me apareceram, isto é, sas, possuímos os efeitos repercutindo em nosso mundo, efeitos
num primeiro momento, como síntese ou visão de conjunto e, que vivemos e dos quais somos o resultado. Sem dúvida, não
só num segundo momento, como controle racional e exposição podemos ver o Absoluto, mas podemos fazer dele uma imagem,
de provas, pondo-nos em contato com a realidade dos fatos. indiretamente, através dos reflexos e efeitos que vemos em nos-
Dessa forma, podemos colocar como atual ponto de partida o so relativo, bem conhecido por nós. Esses efeitos nós os temos
que, daqueles livros, era ponto de chegada. Assim, teremos lo- sob os olhos, controláveis a cada momento, falando-nos sempre
go diante dos olhos o quadro geral do sistema completo, de da causa, de que são filhos diretos. Assim, neles podemos ver o
acordo com a perspectiva panorâmica obtida, observando-o do rosto da mãe, cuja fisionomia pode ser reconstruída até por
alto. Desceremos depois, num segundo momento, ao nível do meio da razão, que não chega a vê-la, como o faz a intuição.
terreno, para percorrê-lo a pé, trabalho que nos permitirá veri- Então, por um caminho mais longo, podemos levar os céticos a
ficar, tocando de perto a realidade, a correspondência entre a admitir a verdade daquelas visões, que, por sua natureza, são
visão de conjunto e os fatos. incontroláveis diretamente.
O nosso ponto de partida será, pois, o capítulo final, intitu- Quando chegamos a esta visão, não podemos saber nem nos
lado: “Visão Sintética”, do volume Deus e Universo. Naquela perguntar por que Deus quis existir e agir de determinada ma-
visão, a de máxima amplitude que até agora conseguimos por neira, e não de outra. Podemos somente receber a visão, regis-
intuição, enxertaremos a outra visão, menos vasta, porém mais trar o estado de fato que ela representa e, por fim, aceitá-lo.
próxima, obtida em A Grande Síntese. Os conteúdos dos dois Não podemos discuti-lo nem modificá-lo, assim como não o
volumes estarão, pois, fundidos aqui numa única concepção, podemos no caso da lei que regula qualquer fenômeno. Em am-
que nos dará, num só golpe de vista, a visão de todo o Sistema. bos os casos, verificaremos que o estado de fato é assim, acon-
O nosso trabalho é, agora, o mesmo da minha primeira fase de tece assim, sendo esta a inviolável estrutura do fenômeno.
recepção por inspiração, ou seja, abrir os olhos e ver. Depois, Ocorre, porém, uma coisa. Nesse plano imperscrutável e
num segundo momento, faremos o outro trabalho, de análise, nesse esquema geral indiscutível do ser, achamos as causas
para compreender racionalmente. Desta maneira, fazendo o lei- primeiras, as únicas que nos podem explicar não só os efeitos
tor seguir o mesmo caminho que segui, procuro dar-lhe a sen- que temos em mãos mas também a sua estrutura e sem as quais
sação viva do fenômeno como eu mesmo o vivi. não saberíamos explicar por que estes teriam tomado uma de-
Então, num primeiro momento, somos apenas seres sensibi- terminada conformação particular, e não outra. Por isso não po-
lizados, dotados de uma visão interior, observando nossas per- demos explicar porque Deus quis criar os seres transformando-
cepções, sem exercer nenhum controle racional para saber se se de um todo homogêneo, internamente indiferenciado, num
correspondem aos fatos e a razão pela qual devam ser como nos todo orgânico, formando uma unidade coletiva composta de in-
aparecem. Só mais tarde serão enfrentados esses quesitos, dan- finitos espíritos. Mas este fato, que não podemos pesquisar, é o
do-se-lhes resposta. Então, como ponto de partida, teremos os único capaz de explicar outro fato correspondente, pelo qual o
totais da operação, que nos chegaram de forma sintética, para homem resulta constituído por um organismo de células, ou se-
analisá-los, buscando os seus termos constitutivos, por meio ja, uma unidade coletiva dirigida por um eu central, assim co-
dos quais poderemos novamente alcançar aqueles totais, mes- mo todo o universo é dirigido por Deus. Ele é também o único
mo usando a forma mental moderna. Coloquemos então, agora, que nos explica o princípio pelo qual os seres tendem a reagru-
6 O SISTEMA Pietro Ubaldi
par-se em unidades coletivas cada vez mais amplas; daí vermos para poder atingir o positivo, negar todo o próprio negativo, ou
dominar em nosso universo o princípio orgânico, justamente seja, afirmar que Deus não é tudo o que nos aparece e existe
aquele ao qual se deve a criação dos seres, como foi revelado como real. Assim, este nosso mundo de matéria, percebido pe-
pela visão. Somente ascendendo a estas origens das coisas, po- los nossos sentidos, não é Deus; este ou aquele fenômeno ou
demos dar-nos conta da razão pela qual os fenômenos assumi- forma, em seu aspecto contingente, não é Deus. Mesmo Deus
ram em nosso universo sua atual conformação. estando em tudo o que somos e vemos, tudo isso, por si só, não
Assim, não podemos explicar agora o último porquê da es- é Deus. Ele está além de todo fenômeno e forma, de toda posi-
trutura trina da Divindade, nem podemos perguntar ou saber a ção do particular. Caso se pudesse definir o infinito, a definição
razão dos princípios gerais de ordem e harmonia. Mas verifi- de Deus, para nós, deveria estar, antes, no negativo, isto é, co-
camos que nós mesmos, em cada ato nosso, repetimos o mesmo mo a negação de tudo o que existe para nós, em nossa posição.
comportamento: primeiro, a concepção da ideia, depois a ação Todavia, há um fato. A sombra não é absolutamente com-
e, finalmente, a sua manifestação na realização concreta, ex- pleta. Ela contém, sem dúvida, reflexos de luz. Isto porque, no
primindo a ideia na forma. Por isso não podemos dizer a razão atual plano de sua vida, o ser humano já percorreu certo trecho
pela qual Deus tenha desejado existir como Trindade, mas po- do caminho da evolução, ou seja, já subiu uma certa parte do
demos compreender a razão pela qual funcionamos dessa ma- caminho percorrido na descida e, com isto, reconquistou um
neira. Em razão de o universo ser constituído segundo esque- pouco da perfeição originária. Ora, as definições comuns de
mas de tipo único, que se repetem em todas as alturas e dimen- Deus, em sentido positivo, foram obtidas elevando-se à potên-
sões, repetimos em cada ato nosso o princípio da Trindade, o cia infinita as mínimas quantidades de perfeição já reconquista-
único que pode esclarecer a estrutura de nossa maneira de agir e das pelo homem ou intuídas como futura realização a conquis-
nossa forma de existir. É justamente a consequência daquele tar, isto é, os pálidos reflexos contidos na sombra.
primeiro modelo da Trindade, que vem repetido em todos os ◘ ◘ ◘
atos criadores de cada ser inteligente. Chegamos, assim, não a uma definição, mas apenas a uma
◘ ◘ ◘ aproximação do conceito de Deus. Com efeito, não é possível
Eis como me apareceu a visão máxima do todo, já esboçada uma sua definição, porque, como acima dissemos, não se pode
como conclusão no capítulo final de volume Deus e Universo, definir o infinito. O infinito, uma vez definido, não seria mais
que agora, tendo chegado a um estado de mais profunda matu- infinito. Compreendido este ponto, continuemos a contemplar
ração, apresentamos de forma mais ampla e completa. a visão. Focalizando cada vez mais de perto, verificamos que a
Apareceu-me Deus como uma esfera que envolve o todo, esfera é constituída não de uma, mas de três esferas, idênticas
isto é, como conceito abstrato de uma esfera que existe além em tudo, e que cada uma se vai transformando na outra. Pas-
do espaço e tem sua superfície situada no infinito. Deus está no samos, assim, ao segundo momento ou aspecto da visão. O
centro e domina toda a esfera, existindo também em cada pon- primeiro nos deu o conceito de Deus. O segundo nos dará o
to seu. Deus não pode ser definido, porque, no infinito, Ele conceito de criação.
simplesmente “é”. Deus significa existir. Ele é a essência da Então esta esfera, que, por representar Deus como unidade
vida. Tudo o que existe é vida, isto é, Deus. E Deus é tudo o envolvendo o todo, chamamos de Tudo-Uno-Deus, inicia um
que existe, que é vida. Deus é o ser, sem atributos e sem limi- processo de íntima elaboração, sendo levada a uma profunda
tes. O nada significa o que não existe. O nada, portanto, não transformação. Neste segundo aspecto da visão, a Divindade se
existe. Ele não pode existir em si mesmo, por si só, mas só distingue em três momentos sucessivos, constituindo a Trinda-
como uma função do existir, como uma sua posição inversa, da de do Deus-Uno. Aí temos a representação do assim chamado
mesma forma que a sombra não pode existir por si mesma, mistério da Trindade, encontrado em muitas religiões, em to-
mas só em função da luz, e o negativo não é concebível senão dos os tempos. Eis a Divindade, una e trina ao mesmo tempo.
como contraposição do positivo. Observemos os três momentos. Para nos tornar compreensí-
Nós, como tudo o que existe, estamos em Deus, porque veis, teremos infelizmente de materializar os conceitos abstra-
nada pode existir fora de Deus, nada lhe pode ser acrescenta- tos em termos antropomórficos e com representações concre-
do nem tirado. Mas, como veremos, nós, humanos, bem como tas. Isto, contudo, apesar de ser útil para fixar as ideias medi-
os outros seres de nosso universo físico, nos encontramos ante representações mentais mais facilmente concebíveis, cer-
existindo numa posição particular, semelhante à da sombra tamente deforma o conteúdo abstrato da visão, impossível de
em relação à luz. Como sombra, fazemos parte do fenômeno ser imaginado diretamente.
luz, ou seja, fazemos parte do Tudo-Uno-Deus, mas, como No primeiro momento, acha-se Deus no estado de puro pen-
sombra, isto é, negativo, estamos no polo oposto ao positivo samento. Ele, então, existe como um eu pensante que concebe.
da mesma unidade. Mais tarde veremos como isto aconteceu. O movimento de elaboração interior está só na ideação abstrata.
Assim, diante do absoluto, encontramo-nos no relativo; diante É a fase de visão do plano, que depois se realizará nos momen-
do imutável, no contínuo transformar-se; diante da perfeição, tos sucessivos; de formulação da Lei, isto é, dos princípios que
numa condição de imperfeição sempre em movimento para irão reger tudo; de contemplação da obra futura, ainda no esta-
atingir a perfeição; diante da unidade orgânica do todo, en- do de imagem mental.
contramo-nos fragmentados e fechados em nosso individual Mas eis que tudo se transforma e passa a um segundo mo-
egocentrismo de egoístas; diante da liberdade do espírito, en- mento, quando a concepção se muda em ação. O movimento da
contramo-nos prisioneiros no cárcere da matéria e de seu de- elaboração interior, de puro pensamento, torna-se vontade, que
terminismo; diante da onisciência de Deus, estamos imersos executa a ideia abstrata, põe em ação os planos concebidos,
nas trevas da ignorância; diante do bem, da felicidade e da vi- aplica os princípios da Lei. A imagem mental torna-se ação e se
da, somos presas do mal, da dor e da morte. encaminha à sua realização.
Explicamos isto, para compreender como, existindo em um Chega-se assim ao terceiro momento, aquele em que a ideia,
mundo emborcado do lado negativo em relação a Deus, só sa- por meio da ação, atingiu sua realização. Então o movimento da
bemos conceber Deus como uma negação de tudo o que consti- elaboração interior se completou, chegando à obra terminada,
tui nosso mundo. Pelo fato de sermos sombra, só podemos con- em que, por meio da ação, a ideia originária do primeiro mo-
ceber Deus como a sombra concebe a luz, isto é, como o con- mento encontrou sua expressão final, de acordo com os planos
trário de si mesma. Portanto, assim como, para chegar à luz, concebidos e os princípios da Lei. É neste terceiro momento
mister seria afastar toda a sombra, também seria indispensável, que ocorre a gênese da criatura, ou seja, a criação.
Pietro Ubaldi O SISTEMA 7
Estes três momentos representam o que chamamos as três alegria sem dor, vida sem morte. Assim ocorreu a criação, e es-
pessoas da Trindade, ou seja: Espírito (a concepção), Pai (o tes foram os resultados.
Verbo, ou ação) e Filho (o ser criado). Cada um dos três mo- Evidentemente nos encontramos, em cada um dos três as-
mentos é sempre o mesmo Deus, que permanece assim o Todo- pectos, diante do mesmo Deus, que nada mudou em Sua subs-
Uno e trino ao mesmo tempo. tância. É portanto lógica e compreensível a equivalência dos
◘ ◘ ◘ três modos de ser da mesma entidade. Trata-se realmente de
Para facilitar a representação destes conceitos, poderemos três pessoas iguais, porquanto são a mesma pessoa, mas tam-
imaginar as três esferas lado a lado, uma depois da outra, isto bém distintas, pois a mesma pessoa se transforma em três
é, contíguas e sucessivas. Focalizemos nossa atenção na tercei- momentos diversos. Trata-se do mesmo Deus em três diferen-
ra ou última. tes aspectos Seus, assim como, no caso do menino, adulto e
Qual é o resultado final do citado movimento de elaboração velho, trata-se da mesma pessoa, constituída, no entanto, por
interior? Como se transformou, em seu íntimo, o Tudo-Uno- três pessoas distintas, enquanto esta se muda em três diversos
Deus, no fim do terceiro momento? Como fica a estrutura inte- momentos seus. Como este homem, também Deus, em seus
rior da esfera, no fim do processo a que se deve a criação? Em três aspectos, permanece o mesmo.
que constituiu ela? Concentremos agora nossa atenção, focalizando o nosso
Respondamos começando com as palavras do capítulo olhar na criação realizada, no fim do terceiro momento, ou seja,
“Visão sintética”, com que se encerra a visão do volume Deus no terceiro aspecto da Divindade, o Filho.
e Universo. Neste processo, Deus multiplicou-se, como que se
dividindo num número infinito de seres, mas continuando III. QUEDA E RECONSTRUÇÃO DO SISTEMA
uno. Nos três momentos, a unidade de Deus permanece intac-
ta e idêntica. Em vista de ao Todo nada se poder acrescentar, Estamos diante do terceiro aspecto da esfera do Tudo-Uno:
a criação ocorreu e permaneceu no seio do Tudo-Uno-Deus. o de Deus-Filho. No segundo momento, o Verbo quis e agiu,
Em outras palavras, poderemos imaginar este processo criador fazendo assim de si mesmo um sistema orgânico de seres. Isto é
como uma íntima autoelaboração, pela qual Deus se transfor- o que a visão agora nos oferece. Aqui, Deus nos aparece como
mou, de seu estado homogêneo e indistinto, em outro seu es- uma infinita multidão de seres, isto é, uma multiplicidade de
tado diferenciado e orgânico. Disto nasceu uma Sua diversa individuações do ser, o que não significa de forma alguma fra-
estrutura orgânica e hierárquica, um sistema de elementos (as cionamento ou dispersão da unidade, porquanto as criaturas
criaturas) coordenados em função Dele e regidos por Sua lei, surgiram todas organicamente coordenadas, funcionando de
concebida no primeiro momento. Assim, a Divindade, que era acordo com a Lei, ou seja, com o pensamento de Deus, e su-
unidade diferenciada, permaneceu igualmente una também bordinando-se todos a Ele, como centro do Sistema.
agora, em seu terceiro momento, como unidade orgânica. Isto Sendo as criaturas centelhas de Deus, deviam possuir as qua-
porque os elementos componentes resultaram tão profunda- lidades do fogo central, tendo em primeiro lugar a liberdade. Os
mente integrados na ordem da Lei, tão bem coordenados em filhos de Deus só podiam ser livres e conscientes, aceitando
hierarquias e distribuições de funções, que a unidade originá- permanecer na ordem por livre adesão. O organismo da Divin-
ria de Deus nada perdeu, ficando íntegra e perfeita em seu no- dade não podia ser constituído de autômatos, de escravos in-
vo aspecto de unidade orgânica. Criou-se, assim, o modelo conscientes. Mas, sendo os elementos constituintes hierarquica-
que, mais tarde, será repetido na formação de todos os orga- mente coordenados num organismo, não podiam ser idênticos ao
nismos, quer da matéria quer da vida, segundo um dos maio- Centro, ao qual, no que respeita o conhecimento e poderes, ti-
res princípios da Lei: o das unidades coletivas. nham de ficar subordinados, como num regime de ordem e har-
Assim, as criaturas nascidas desta criação podem, em uma monia é necessário para tudo o que é menor e derivado. A coor-
representação antropomórfica, ser imaginadas como as tantas denação dos elementos componentes do organismo do Sistema
centelhas em que quis dividir-se o incêndio divino. É evidente o implicava, como primeiro dever na ordem soberana, a obediên-
nosso esforço para dar uma representação mental ao fenômeno, cia. Num sistema de ordem, é necessidade imprescindível e ló-
de forma facilmente compreensível, mesmo sabendo que, quan- gica que a liberdade seja condicionada a ele, não sendo lícito ela
to mais nos avizinhamos da forma mental humana, mais nos ultrapassar os limites além dos quais lhe seria permitido subver-
afastamos da realidade toda abstrata e espiritual do fenômeno. ter aquela ordem, chegando assim, neste caso, a atentar até con-
Mas temos de fazer isso, porque a aceitação e a sorte de uma tra a unidade do Tudo-Uno-Deus, em cujo seio se move e de cu-
teoria dependem, muitas vezes, da forma mais ou menos facil- jo sistema faz parte. A primeira condição, pois, a que deve sub-
mente compreensível e representável com que seja exposta. meter-se a liberdade é o dever de manter-se em perfeita adesão à
Além disso, é mister ter presente que, quando falamos de Lei, que exprime o pensamento e a vontade de Deus.
criação, não se trata ainda da criação de nosso universo, como o Todavia, a liberdade é tal, que contém a possibilidade do
conhecemos, mas da criação originária, da qual derivou depois arbítrio e do abuso, significando a possibilidade de quebrar a
a atual. Referimo-nos, portanto, àquela formada de puros espíri- unidade orgânica do Sistema. Neste caso, portanto, o ser livre
tos, perfeitos, bem diferente, em toda sua qualidade, desta em podia não querer mais mover-se harmonicamente no Todo,
que nos achamos atualmente situados, que virá depois, e vere- produzindo assim um tumor canceroso no seio do próprio Sis-
mos como. Esses espíritos perfeitos que Deus tirou de Sua pró- tema, pronto a alterar a estrutura sadia. Era necessário então
pria substância, permaneceram nela fundidos num só organis- que a liberdade não exorbitasse, ultrapassando os limites da or-
mo unitário. A substância divina que os constituiu, achando-se dem e da obediência, mas permanecesse, ao invés, subordinada
agora em estado diferenciado de elementos fundidos num orga- em tudo à supremacia do Centro. Se essa infração ocorresse, a
nismo, continuou a existir una em Deus, como o era no primei- desordem nascida no seio da ordem produziria, pelo menos na
ro momento, quando estava em estado homogêneo indistinto. parte inquinada, uma fratura, um emborcamento e uma queda.
Com isto, completa-se o terceiro momento e está terminada Mas como seria possível que o Sistema, obra de Deus, fosse
a primeira criação. Esta é a criação perfeita, de puros espíritos, tão imperfeito, a ponto de poder desmoronar a cada momento?
existindo em absoluta harmonia na ordem da Lei, no seio de Não. Ao contrário, era tão perfeito, que, justamente por isso,
Deus. Da fase do Espírito, chegamos assim à do Pai e, por fim, continha, deixada à mercê da livre vontade do ser, a possibilida-
à do Filho, representada por este último estado. Na harmonia de de de uma queda, podendo até desmoronar, mas sem dano defi-
Deus, tudo funciona perfeitamente. Tudo é luz sem sombra, nitivo. Se isso podia ocorrer, é porque o Sistema era perfeito a
8 O SISTEMA Pietro Ubaldi
tal ponto, que seria capaz de ressurgir de sua queda. Esta implí- são unitária se subverteu no dissídio separatista. Iniciou-se, por
cita capacidade de automedicação, apta a resolver qualquer cri- isso, no seio do Sistema, todo de natureza afirmativa ou positi-
se, tornava inócuo, em última análise, esse perigo e erro. Não se va, o arremesso de um impulso oposto, todo negativo. Não se
tratava, pois, de imperfeição. Ao contrário, na perfeição do Sis- tratou simplesmente de uma desordem qualquer, que semeasse
tema, tudo estava previsto, até a possibilidade de uma desordem o caos no seio da ordem, pois, dada a natureza do impulso de
e de uma queda. Por isso foi deixada nas mãos do ser a escolha onde nascera, essa desordem assumiu uma direção precisa e
entre a obediência e a desobediência, com a possibilidade de significou exatamente o emborcamento do Sistema num estado
uma desordem e uma queda. Se isto acontecesse, tudo se curaria antagônico ao anterior: o Anti-Sistema.
por si mesmo, embora passando por outros caminhos, e voltaria Com efeito, o nosso atual universo é baseado no dualismo:
ao primitivo estado de perfeição, se bem que através de uma no- Sistema e Anti-Sistema, e só assim podem ser encontradas e
va experiência, sempre útil e justa, apesar de árdua. compreendidas as suas primeiras causas. Só assim podemos
Mas, pode-se objetar ainda, se os espíritos eram livres e fe- compreender por que, em nosso universo, tudo se baseia no
lizes na ordem, por que se teriam sentido atraídos para uma de- contraste de elementos, impulsos e conceitos opostos e com-
sordem tão desastrosa? O que os instigou foi o mesmo princípio plementares. Dessa forma nasceu este triste mundo, nossa triste
fundamental do ser, próprio também a eles: o egocentrismo, herança e consequência da queda, mundo em que, contrastando
princípio unitário que rege a existência de cada individuação. com o bem, reina o mal; com a alegria, a dor; com a luz, as tre-
Seu modelo máximo é Deus, centro em torno do qual tudo gira vas; com o conhecimento, a ignorância; com o espírito, a maté-
e para o qual tudo gravita. Egocentrismo não quer dizer egoís- ria. Assim apareceram todas as forças e conceitos ao negativo,
mo. Este é um egocentrismo exclusivista, para vantagem pró- o que não existia antes no Sistema, sendo agora qualidade ex-
pria e desvantagem dos outros, ao passo que o egocentrismo clusiva do Anti-Sistema. Por isso, se o caos aparece no fundo
pode fazer de si centro, como até no caso máximo de Deus, mas da queda, não se trata – como já dissemos acima – de um caos
sobretudo para o bem dos outros. desordenado, feito ao acaso, mas de uma antiordem, justamente
Então aconteceu justamente que, em sua liberdade, parte dos porque, com o Anti-Sistema, chega-se ao polo oposto da or-
espíritos, em vez de se deixar levar por este egocentrismo altruís- dem, no qual esta se apresenta emborcada, em seu estado con-
ta e orgânico – que a Lei quer em sua ordem – optou e se deixou trário. A lógica, implícita na perfeição originária do Sistema,
atrair pelo egocentrismo egoísta. O egocentrismo é, por natureza permanece íntegra em qualquer transformação sua.
sua, uma afirmação e, como tal, tende a afirmar-se cada vez mais, Continuemos a observar. Nem todos os espíritos se rebela-
se o seu impulso não for equilibrado por um contraimpulso, ram, de modo que a desordem não foi geral, ou seja, não abran-
exercitado pela disciplina que o ser se impõe, em respeito à or- geu toda a terceira esfera ou aspecto da Divindade, aqui cha-
dem e em obediência à Lei. Mas, se esse egocentrismo egoísta mada o Filho. Assim, nem todo o Sistema se transformou em
pode ter parecido como uma vantajosa expansão do eu, ele repre- Anti-Sistema. Uma parte do Sistema permaneceu íntegra em
sentava o princípio subversivo e antiorgânico que reaparece no sua perfeição, enquanto, na outra parte, rebelde, a ordem se des-
câncer, no organismo humano. Rompeu-se, dessa forma, a har- fez na desordem. Naquele momento tremendo, a unidade se
monia hierárquica do Sistema, na qual toda individuação existe, partiu em dois, ocorrendo a grande cisão de que nasceu o nosso
como acontece com as células no corpo humano, que vivem universo corrompido, no qual vivemos justamente nesse estado
umas em função de outras, sem o que, desmorona a unidade or- de cisão, ou seja, separados da alegria, na dor; da luz, nas tre-
gânica. Num sistema orgânico e hierárquico, as dimensões de ca- vas; do espírito, na matéria; numa palavra: em tudo invertidos
da eu são, para cada ser, medidas pelo valor e pela função ali re- ao negativo, como é lógico ocorrer no seio do Anti-Sistema.
presentada, e cada individuação deve, para não se alterar a har- Então, todos os que, em vez de obedecer, tinham querido man-
monia da ordem, manter-se sempre nos limites das dimensões re- dar, caíram de um estado de límpida visão em um universo de
lativas a esse valor e a essa função. Cada expansão do eu que ilusões; todos os que tinham querido dilatar demais as devidas
exagere as devidas proporções tende a emborcar o Sistema, pelo dimensões do próprio eu, permaneceram aprisionados nas res-
menos no ponto contaminado. Esta inversão ocorre porque, num tritas individuações da forma e, da ilimitada liberdade do espíri-
sistema equilibrado, o desenvolvimento exagerado, para além da to, ficaram constrangidos à escravidão das necessidades da ma-
ordem, leva a uma contração correspondente, o que corrige cada téria, no cárcere do próprio restrito egoísmo.
expansão indevida com uma diminuição proporcional. Dessa maneira, enquanto uma parte caiu, a outra parte dos
◘ ◘ ◘ espíritos permaneceu intacta em sua perfeição, no Sistema. Mas
Então, mais exatamente, o que aconteceu? Como se verifi- assim o Tudo-Uno-Deus resultou como que partido em dois:
cou esse novo fato, que teria deslocado, pelo menos em parte, a uma parte continuou na perfeição do Absoluto, e a outra passou
ordem do Sistema? Observemos. a formar a estrutura material e espiritual de nosso universo. De-
Encontramo-nos, agora, situados diante do terceiro aspecto vemos, no entanto, compreender bem que este não representa a
da esfera do Tudo-Uno-Deus: o de Deus-Filho. Tudo continua- verdadeira criação, como se crê, mas uma contrafação, uma in-
va existindo em perfeita ordem, segundo a Lei. Fora dada por versão sua, um seu verdadeiro estado patológico, embora tran-
Deus à multidão dos espíritos uma livre autonomia de vontade, sitório e curável. Em outros termos, o nosso universo não é a
com a condição de esta ser coordenada em harmonia com a Lei, criação, mas uma sua doença, que lentamente se vai curando.
em função Dele. Mas este poder estava nas mãos deles, que, ◘ ◘ ◘
sendo livres, podiam dirigi-lo, mesmo na direção errada, contra Continuemos pormenorizando a visão do fenômeno. O que
a ordem, contra a Lei, contra o próprio Deus. Bastava aquele ocorreu na esfera? Antes de tudo isso ocorrer, podíamos imaginá-
poder ser canalizado pela vontade livre deles para fora do ca- la toda branca, feita apenas de luz, de valores positivos. Agora,
minho justo, e ocorreria a queda. uma parte dela começou a se fazer sombra, tornando-se cada vez
Foi justamente este o fato novo que aconteceu. Pelo uso er- mais negra, de valor negativo. Iniciou-se um processo de desfa-
rado de sua liberdade e uma excessiva expansão do eu – por um zimento e de descida, de inversão de todas as qualidades do Sis-
egocentrismo exagerado e, sobretudo, invertido, ou seja, centrí- tema nas qualidades opostas. Este processo chama-se involução,
peto, em função do próprio eu, ao invés de centrífugo, que parte explicando-se assim como nasceu a matéria e porque o nosso
de si mesmo e trabalha a favor de todo o organismo, como deve universo assumiu uma forma material. Explica-se também como,
ocorrer com todas as células sãs e disciplinadas – foi implanta- chegando ao fundo do caminho da descida involutiva, tenha po-
do no Sistema o princípio anárquico do egoísmo em lugar do dido nascer e desenvolver-se o processo inverso, em que estamos
princípio orgânico da cooperação. Dessa forma, o estado de fu- situados, chamado evolução. Só dessa forma são coordenados to-
Pietro Ubaldi O SISTEMA 9
dos os fenômenos do Universo num único telefinalismo; só assim de, impedindo o Anti-Sistema da destruição completa. Trata-se
se compreende porque nascem os planetas e a vida sobre eles, de uma presença viva e operante. Eis onde se encontra o remé-
descobrindo-se o fio espiritual que liga todas as formas de vida dio para o autotratamento. É essa presença de Deus que repre-
num único caminho ascensional dirigido para Deus. Sem este senta e torna possível a salvação. Deus continua centro do Sis-
conceito da queda do Sistema, mostrando-nos que agora vivemos tema. O Anti-Sistema, por sua natureza negativa, pôs-se a girar
num Anti-Sistema, cuja existência não pode ser atribuída a Deus, em torno do polo oposto à Divindade, como um pseudocentro
tudo permanece desconexo e incompreensível. negativo, mas Deus continua sendo seu verdadeiro centro, que
Há o fato positivo de não se poder dar a Deus, de maneira só pode ser um: o positivo. E não podia haver outro caminho de
nenhuma, a paternidade de um universo que demonstra ser o salvação para o Anti-Sistema. Foi dessa possibilidade que se
contrário da perfeição. Não se pode admitir de modo algum ser derivou e só assim podemos explicar como tenha nascido, exis-
a obra de Deus apenas uma afanosa busca fatigante de uma ta e seja concebível na Terra a ideia de redenção.
remotíssima perfeição, através de infinitas tentativas. O nosso Isto, no entanto, não significa que todo o Sistema tenha
universo, dividido no dualismo, onde cada ponto se fracionou desmoronado. No dualismo derivado da queda, a Divindade,
em dois termos contrários que lutam para sobrepor-se, é, tal mesmo permanecendo una, também se transformou em novo
como existe hoje, tão sobrecarregado de males, dores e imper- aspecto. Temos o aspecto de Deus transcendente, ao qual se su-
feições, que só pode ser considerado como um estado patoló- bordinou a parte incorrupta do Sistema, onde permaneceram os
gico de decadência. A quem o atribuiremos pois? Não há dúvi- espíritos obedientes, na ordem da Lei; e temos o novo aspecto,
da de que a esses efeitos temos de atribuir uma causa. Como de Deus imanente, que acompanhou o Sistema em toda a sua
no todo não há outros termos e não podemos atribuir ao Cria- queda, permanecendo como poder saneador de todos os seus
dor a derrocada, só nos resta atribuí-la à criatura. Não podendo males e diretriz do caminho evolutivo.
admitir, de forma alguma, que a causa de tamanha ruína tenha A isto tudo devemos a capacidade de recuperação do Anti-
advindo diretamente de Deus – acreditar nisso seria tirar Dele Sistema, que, de outra forma, não teria explicação. É assim que
os atributos da Divindade – temos de admitir que a causa de se torna possível, após o período da destruição, ou período in-
tudo isso seja outra e tenha chegado depois. Não se pode sair volutivo, a reconstrução, ou período evolutivo. Só assim é pos-
do dilema: ou atribuir esta obra a Deus, e Deus não seria Deus, sível esta inversão de rota em sentido positivo, ignorada pelo
ou então atribuí-la a outra causa. Neste caso, porém, como no Anti-Sistema, mas que o impulsiona segundo uma direção e
todo existem apenas Deus e a Sua criatura, só nos restaria atri- sob um conjunto de forças que ele não possui e sem o que, lo-
buir essa obra à Sua criatura. Estes conceitos demonstrativos gicamente, ele deveria continuar até à plenitude de sua nega-
são de tal evidência, que aparecem diretamente na visão, antes ção, isto é, até atingir o completo e definitivo aniquilamento do
de submetê-los ao controle racional. todo no nada, sua meta final. É assim, pois, que ocorre o pro-
Assim, esta visão se nos abre diante dos olhos como aque- dígio pelo qual o Anti-Sistema, chegando ao extremo da desci-
le gigantesco drama da queda dos anjos. Não foi uma queda da, retoma o caminho, destruindo a sua própria obra de des-
em sentido espacial, mas demolição de valores, inversão de truição e, concomitantemente, a si mesmo, começando a re-
qualidades, descida de dimensões, ou seja, a contração de tu- construir na direção oposta, não mais no sentido do Anti-
do isto através de uma progressiva inversão de valores positi- Sistema, mas sim do Sistema. Eis a redenção, que consiste na
vos e originários, até estarem todos transformados em sentido evolução. E assim, no último momento, opera-se a grande ma-
negativo. Esta queda significa transformar gradativamente to- ravilha, isto é, a vitória divina, e o Sistema vence o Anti-
do o Sistema em Anti-Sistema. A descida foi gradual e se pro- Sistema, reconstruindo-se sobre as suas ruínas. Quer isto dizer
longou até atingir a profundidade do abismo, representada pe- que as trevas se purificam até se tornarem luz, a ignorância até
la completa inversão de valores, ponto em que o Sistema, com tornar-se conhecimento, a escravidão até achar a liberdade do
todas a suas qualidades, resultou completamente invertido no espírito, a dor até achar a felicidade, a morte até encontrar a
Anti-Sistema, com as qualidades opostas. Nesse trajeto, a luz vida, o mal até tornar-se bem, o caos do Anti-Sistema até in-
se foi ofuscando até se tornar treva completa, o conhecimento verter-se para tornar-se a ordem do Sistema. Então, aquela
se tornou ignorância, a liberdade do espírito se tornou escra- queda, que pode parecer uma imperfeição do Sistema, repre-
vidão na matéria, a felicidade se tornou dor, a vida se trans- senta, pelo contrário, a sua maior perfeição.
formou em morte, o bem em mal, a ordem orgânica do Siste- O homem percorre agora este caminho de subida, no qual
ma em sua completa inversão no polo oposto do ser, no fundo há luta entre o elemento negativo, que deseja a destruição, e o
da descida, no completo caos do Anti-Sistema. elemento positivo, que busca a reconstrução. Daí os contrastes
◘ ◘ ◘ entre os princípios dominantes da Lei em cada uma das diferen-
Mas, se tudo parasse nesse ponto, a queda seria definitiva e tes fases da reconstrução, correspondentes aos vários planos de
a obra de Deus, aquela obra perfeita da primeira e verdadeira evolução; daí a luta entre o nosso passado de animalidade e o
criação, estaria definitivamente falida, apenas em razão da von- anseio instintivo de um futuro melhor, entre a realidade feroz
tade de algumas criaturas rebeldes. Ora, é absurdo que, num de nossa vida e a sede de bondade e justiça; daí a necessidade
sistema perfeito, fosse dado pelo próprio Criador tanto poder. de ficarmos submetidos ao esforço de progredir, a insaciabili-
Ele, como onisciente, devia saber tudo de antemão. Só por erro dade que nos acicata para horizontes cada vez mais remotos, a
pode um artesão, não conhecendo bem o trabalho que está exe- sede de infinito na alma fechada num corpo acorrentado às suas
cutando, fazer uma obra que o destrua. Mas, ao contrário, já imprescindíveis necessidades materiais.
dissemos ser a obra de Deus tão perfeita, que contém em si, Embora aqui se trate de problemas altos e remotíssimos em
desde o início, todos os elementos de recuperação, o remédio relação aos de nossa vida cotidiana, não podemos deixar de cons-
para seu autotratamento. Isto se explica com o fato de que os tatar como os primeiros explicam os segundos e como, a cada
espíritos decaídos continuaram a ser centelhas de Deus, pois momento, encontramos nestes a confirmação da verdade das teo-
não destruíram a sua natureza divina, mas apenas a ofuscaram. rias que estamos desenvolvendo, as únicas que podemos aceitar
É neste sentido que os homens também, em sua íntima natureza como causas dos efeitos constitutivos de nosso mundo atual. Tu-
espiritual, derivada daquelas remotas origens, podem ser cha- do isso continua perfeitamente lógico, porque, como dissemos,
mados deuses. Em outros termos, no Sistema corrompido em tratando-se de problemas remotíssimos, temos em nosso relativo
Anti-Sistema, através desses seres que o constituem, sem terem não um pedaço isolado do todo, mas como que um espelho pe-
perdido as suas qualidades originárias de espíritos filhos de queno e opaco, onde, não obstante, reflete-se o Absoluto, cuja
Deus (3o momento da Trindade), continua presente a Divinda- imagem, apesar de tudo, ali podemos ver reproduzida.
10 O SISTEMA Pietro Ubaldi
IV. O CICLO INVOLUÇÃO – EVOLUÇÃO tendo o percurso desse afastamento chegado a seu termo, torna-
rá a agir o impulso originário centrípeto, reabsorvendo assim,
Observemos agora, de uma forma cada vez mais exata, a vi- lentamente, o movimento centrífugo de afastamento de Deus
são do fenômeno. Este, em seu conjunto, compreende um ciclo para o Anti-Sistema, por meio do movimento centrípeto de rea-
completo de ida e volta, que chamaremos de ciclo. proximação de Deus, voltando ao Sistema. É assim que se pas-
Divide-se esse ciclo em dois períodos. O de descida chama- sa ao “tornar-se” no sentido contrário, de saneamento, que tem
se involução. O de subida, ou ascensão, chama-se evolução. o seu centro no Sistema. Dessa forma, tudo o que havia decaído
Cada período divide-se em três fases, que são: espírito, no polo negativo se reconstrói e fica saneado no polo positivo.
energia e matéria. Apresentam-se nesta ordem sucessiva no pe- Iniciou-se, então, aquele longuíssimo processo que vivemos
ríodo de descida ou involução, e na ordem inversa no período hoje, o da subida, constituindo ele o segundo período, inverso e
oposto, o evolutivo, que é o nosso. complementar, chamado evolução. Enquanto o primeiro perío-
O período involutivo parte do espírito, que representa o es- do, o da queda ou involução, significara a destruição do univer-
tado originário, ponto de partida, donde se inicia a descida. En- so espiritual e a criação ou construção de nosso universo físico,
redado no processo involutivo, o espírito sofre uma transforma- este segundo período, o da subida ou evolução, significa a des-
ção por contração de dimensões, pela qual – sendo demolidas truição da matéria como tal e a reconstrução do universo origi-
as qualidades positivas do Sistema – também ele, espírito, fica nário espiritual. Tendo sido o próprio espírito que espontanea-
demolido, então, até à fase de energia. Continuando na mesma mente quis enclausurar-se no cárcere da matéria, transforman-
direção o mesmo processo, chega-se da energia à fase matéria, do-se deliberadamente nesta forma corrupta da substância, é ló-
transformação que é fenômeno já conhecido da ciência moder- gico que esse mesmo espírito deva, vivendo dentro daquela
na. Temos assim, diante dos olhos, as três fases do mesmo pe- forma, muito longamente, como princípio animador, fazer todo
ríodo, chamado involutivo: espírito, energia, matéria. o esforço para transformá-la de volta, restituindo-a ao seu esta-
Exprimindo com o símbolo  a primeira fase, o espírito; do originário e íntegro de espírito.
com o símbolo  a segunda fase, ou seja, a energia; e com o Em tudo isso está sempre presente, como dissemos, o auxílio
símbolo  a terceira fase, isto é, a matéria, este primeiro período de Deus. Mas o árduo esforço da evolução e do progresso, em-
pode ser assim representado em símbolos: bora aquela presença garanta a segurança da vitória, compete
todo à criatura e, no presente trecho da estrada, cabe a nós, hu-
involução =     
manos. O nosso caminho não é ao acaso. Esta visão nos explica
sendo que o sinal “” significa “vai para”. claramente qual é o ponto de partida e o de chegada. A desor-
No fim desse período, a substância que constitui a parte que dem da queda permaneceu sempre circunscrita dentro da ordem
se corrompeu da esfera Tudo-Uno-Deus em seu terceiro aspecto, maior do Sistema. Portanto tudo é sempre guiado, encaminhado,
o de Filho, inverteu todas as suas qualidades originárias positi- até mesmo a explosão das forças negativas está enquadrada nos
vas em qualidades negativas. A causa primária produziu assim grandes esquemas da Lei. Por um sábio jogo de forças, reações e
todo o seu efeito, e o impulso da revolta esgotou-se. Neste ponto recuperações, tudo – também o mal, o erro e a dor – é sempre
de máxima inversão dos valores positivos e de máxima satura- reconduzido ao telefinalismo supremo, fio condutor pelo qual
ção de valores negativos, no sistema invertido, o processo se de- tudo retorna a Deus. A meta não foi deixada ao acaso, mas já es-
tém. Isto em razão da lei de equilíbrio, de proporção entre causa tava pronta, estabelecida desde a partida, que é o ponto de che-
e efeito, porque cada desenvolvimento de forças, em relação ao gada, onde tudo permanece fechado no mesmo ciclo.
princípio de casualidade, é regido por normas precisas. O pro- Desse modo, a visão nos permite colocar em foco também a
cesso se detém por atrito (sem atrito não se deteria), que repre- nossa atual posição, como seres humanos, no seio do grande
senta, no seio da ordem, a desordem querendo ali nascer por for- organismo Tudo-Uno-Deus. Através de longuíssimo caminho
ça e, no seio da desordem, a ordem querendo manter-se íntegra de evolução, o homem subiu uma parte da montanha e está
para não ficar ali presa e ser demolida. Mais ainda, o conceito de saindo da animalidade. Seu atual esforço é destacar-se definiti-
atrito é uma criação do próprio Anti-Sistema, constituído justa- vamente da besta. Ele subiu uma parte da montanha, mas ainda
mente de uma luta, pois nasceu do conflito entre dois impulsos tem muito que subir. Trata-se de reabsorver todas as qualidades
opostos. Com efeito, no Sistema puro não existem atritos, nem do Anti-Sistema nas do Sistema, ou seja, voltar a trazer, como
mesmo pode conceber-se a existência do conceito de atrito. acima dissemos, a ignorância ao conhecimento, a materialidade
Em certo ponto, calculável por quem conhecesse o valor dos à espiritualidade, a dor à alegria, o mal ao bem, o caos à ordem.
impulsos de origem e de todas forças em jogo no processo, este Diz-nos esta visão quem somos, o que já foi feito e o que ainda
se detém. Isto quer dizer que a transformação em direção involu- há para fazer. Fornece-nos cartazes indicadores, ao longo do
tiva ou de descida para. Nesse momento, tendo se esgotado o im- caminho da evolução, para nos indicar a quilometragem, os
pulso da revolta, permanece em campo apenas o outro impulso percursos e a direção. Mais tarde, desceremos ao terreno dos
(pois não há mais nenhum além desse), o maior e fundamental, pormenores e das consequências.
do Sistema, que sempre dominou tudo, diante do qual o outro ◘ ◘ ◘
impulso, do Anti-Sistema, é apenas um episódio e uma exceção. Continuemos o exame da visão. Observamos o primeiro
Então, embora muito lentamente a princípio, vão retomando a período do ciclo da revolta, ou seja, a descida ou involução. E,
ação os impulsos da ordem. Sua ação é ainda fraca nesta fase, assim, entramos no segundo período do ciclo, representado pe-
porque o Anti-Sistema se acha na plenitude de sua realização, la subida ou evolução. Inicia-se aí o grande fluxo de retorno,
mas ela é um impulso tenaz e exerce uma pressão constante, que para reerguer os valores invertidos. Ao contrário de antes,
acabará vencendo e levando toda a desordem do Anti-Sistema de quando o caminho consistia no afastamento de Deus, ele con-
volta ao estado de ordem do Sistema, reconduzindo tudo a Deus. siste agora numa reaproximação progressiva. É a própria atra-
De fato, Ele, em Seu aspecto imanente, permaneceu sempre ção de Deus que estabelece a rota do “tornar-se”, imprimindo
também no Anti-Sistema, esperando que os impulsos da revolta o telefinalismo a todo o processo, para trazer de volta a Si tudo
se esgotassem e o processo da queda se detivesse. Chegando que dantes Dele se afastara. Isso tudo é facilmente imaginável,
esse momento, Deus retoma Sua lenta ação de atração para Si, porque agora a visão diz respeito ao nosso universo e se baseia
como centro, ação fundamental no Sistema, pois este é centrí- em conceitos dele, a começar do contraste entre opostos, sua
peto, e tão grande é a atração, que o mantém uno e compacto. qualidade mais importante.
Com a revolta, iniciara-se e agira exatamente o impulso contrá- Retornando aos mesmos símbolos acima usados, este se-
rio, isto é, centrífugo, ou de afastamento do centro. Mas agora, gundo período pode ser expresso assim:
Pietro Ubaldi O SISTEMA 11
riência, o ser aprenderá que sua vantagem maior não é rebelar-se
evolução =     
contra a Lei, como se faz na Terra, mas sim obedecê-la. E, dessa
Então o ciclo completo do “tornar-se” de nosso universo forma, ele passará de classe em classe nessa escola, aprendendo
pode ser resumido nesta expressão sintética: cada vez mais e melhorando. A mancha levada à originária pu-
reza do Sistema deve ser toda limpa com nosso suor. Enquanto
 não realizar isto, o espírito terá de viver a serviço das necessida-
Desta forma, numa só expressão, representamos o ciclo des materiais de sua forma física, devendo voltar a encarnar-se e
completo da queda, com ambos períodos, de ida e de volta, in- fundir-se com ela, para desmaterializar essa matéria, até que ela
volutivo e evolutivo, até se atingir novamente o ponto de parti- alcance a condição de espírito, e deixar de gerá-la em sua desor-
da. Nesse momento, o Sistema está reconstituído, a doença foi dem. Não há outra solução possível que consiga destruir essa
curada e o episódio termina com o ser rebelde tendo aprendido, forma da substância que se chama matéria. Isto porque a subs-
mediante lição salutar, quão mais vantajoso é para ele manter- tância é indestrutível, e uma forma dela, como é a matéria, não
se na ordem, do que suportar todos os males que derivam da pode ser eliminada senão quando for transformada em outra sua
desordem. Desse modo, a lei de Deus terá demonstrado plena- forma, que, neste caso, é o espírito. É assim que a matéria só
mente a Sua perfeição, porque soube abranger e resolver, em pode ser destruída quando for reabsorvida em outra forma da
seu seio, toda a desordem e tornar a trazê-la para a ordem, seu substância indestrutível, como é o espírito. E isso porque a subs-
ponto de partida. Assim, a subida anula a descida, um período tância tem apenas três formas, e delas não se pode sair. Assim, o
absorve o outro, equilibrando todo o ciclo, e a redenção cancela significado profundo da evolução de nosso universo é dado por
a revolta. Na perfeição da Lei, estavam calculados pelo pensa- esse conceito de espiritualização, consoante o que toda a matéria
mento de Deus até os movimentos errados e os desvios das ór- existente deverá desaparecer como tal, por desintegração atômi-
bitas do Sistema, que havia sido dotado de meios que, automa- ca, e, através das formas dinâmicas, voltar ao estado original da
ticamente, fizessem tudo reentrar no itinerário da ordem. As- substância, do qual proveio.
sim, o movimento que se destacou de Deus volta a Ele. O mo- A contemplação desta visão nos leva à estranha conclusão
vimento errado, provocado pela vontade da criatura, é corrigido de que o nosso universo, esse que a ciência estuda e que acei-
e saneado pela vontade do Criador. Explica-se assim, como já tamos como base da pesquisa para o conhecimento, não repre-
dissemos, o significado profundo do conceito de redenção. senta a criação nem o verdadeiro estado do ser, mas apenas
Então a soma dos dois períodos forma o ciclo completo, uma condição patológica e transitória de um estado perfeito e
feito de um movimento que se fecha, dobrando-se sobre si definitivo, cuja existência só indiretamente podemos inferir.
mesmo, sem nada ter deslocado na estrutura do Sistema. No Essa conclusão implica também que o método adotado pela ci-
conjunto, tudo volta a seu lugar. No fim, a correção neutraliza ência (observação e experiência) aplicado aos fenômenos desse
o erro, a expiação reabsorve a culpa. Mas o nascimento do ci- universo, jamais poderá conduzir-nos ao conhecimento das
clo fez aparecer um conceito novo: o movimento, o transfor- causas primeiras. Isto não só porque, para reconstruir o plano
mismo fenomênico, a impossibilidade de existir senão como geral, seria preciso percorrer toda a fenomenologia do universo
um “tornar-se”, conceito que só existe no ciclo da queda, que é no infinito do espaço e do tempo, mas, sobretudo, porque o
justamente feita desses seres imperfeitos, que correm atrás da mundo fenomênico é apenas um derivado corrompido de um
perfeição para alcançá-la. É evidente que, se a perfeição reina estado de perfeição originária bem diferente. A ciência ignora
no Sistema, não se pode conceber nele um aperfeiçoamento tudo isso e, em suas investigações, considera sólida a realidade
nem o movimento necessário para alcançá-lo, pois aí não exis- dos fatos, ao passo que eles representam uma imagem contorci-
te tal fenômeno, como nós o conhecemos, no sentido de um da e opaca da verdade. No futuro, o homem usará métodos to-
“tornar-se”. De maneira que podemos conceber o transformis- talmente diferentes de pesquisa. Seu conhecimento é ainda in-
mo de nosso mundo fenomênico como uma corrupção da imo- significante. Diante de tais problemas máximos, ele nada sabe
bilidade própria do Sistema. Dessa forma, podemos ver a es- de positivo. Sua evolução ainda se encontra imersa na fase
sência de nosso universo, a origem, a razão e o significado dos animal, e ele ignora a espiritual, que o aguarda. sua atual posi-
princípios que o regem. Podemos também ver as causas mais ção no caminho da subida, se já o distancia da pedra, deixa-o
remotas e profundas de sua estrutura atual. O ser se encontra, muito mais distante ainda dos planos espirituais que o esperam.
assim, encaixado numa posição em que é imprescindível viver Nosso atual mundo pode ser considerado um composto
em formas sem duração, num mundo em que nada resiste ao híbrido, formado em parte por uma ossatura material, sobre a
tempo, submetido à necessidade de transformar-se, preso a qual a vida se está elevando e, assim, realizando seu trabalho
uma instabilidade contínua, a que nada pode escapar. E não de reconstrução espiritual. Somos, por isso, constituídos de
haverá paz enquanto não se tiver percorrido todo o ciclo até ao uma dupla natureza, feita de dois termos em contraste, em
seu final. Explica-se com isso a inevitável e fatal necessidade que lutam o bem e o mal, a luz e as trevas. Nossa unidade é
de progredir, assim como a razão pela qual o ser está constran- uma conjunção de dois elementos antagônicos: o passado que
gido a esse esforço pela própria insaciável ânsia contida no não quer morrer e o futuro que quer nascer em seu lugar. As-
fundo de sua alma, que aspira sempre melhorar. O sinal da per- sim, somos feitos de infinito aprisionado no finito, de absolu-
feição perdida está impresso com caracteres indeléveis em to fragmentado no relativo, de felicidade que chora na dor, de
nosso espírito, que não a esqueceu e tem fome de reconquistá- sabedoria que se tornou ignorância, de vida eterna despeda-
la. A insatisfação o instiga e acicata, constrangendo-o à corri- çada no ciclo das vidas e das mortes; somos verdadeiramente
da, queira ele ou não. E o ser corre, impulsionado por essa ân- anjos decaídos. Então, para reencontrar o infinito, vamos
sia. Deus o espera no final da corrida e desde já o convida, o acumulando insaciavelmente fragmentos de finito. Tentando
ajuda, abrindo os braços para recolhê-lo em Seu seio. aproximar-nos da imortalidade, agarramo-nos a esta vida
A corrida para a perfeição é dura, mas deverá ter um fim. O breve e buscamos prolongar sua recordação com grandes
trabalho é penoso, e compete a nós executá-lo, mas foi mereci- obras. Desmoronou o gigantesco edifício, e estamos reco-
do; somos auxiliados e os resultados são nossos. A visão satisfaz lhendo no chão as pedras espalhadas. Experimentando reuni-
a todas leis de nosso mundo físico e dinâmico, como desenvol- las umas sobre as outras, já levantamos algumas paredes. E
vimento de forças, tanto da justiça como da ética. Deverá o ser prosseguimos, cimentando as pedras com lágrimas e sangue,
viver na febre da insatisfação, até que seja satisfeito; terá de vi- para tornar a fazer a nossa bela morada de conhecimento, de
ver no mal e na dor, até que tenha aprendido, à sua custa, a viver liberdade e de bondade, de onde saímos. Estamos cansados e
com disciplina na ordem da Lei. Assim, na escola da dura expe- desejaríamos parar, mas acicatá-nos o horror do vazio, das
12 O SISTEMA Pietro Ubaldi
trevas, da dor e da morte em que mergulhamos. Queremos Deste modo, o ciclo da queda, acima examinado,
viver! A centelha divina originária do espírito, embora sufo- , não esgota todo o seu caminho, que deveria
cada nas angústias da morte, não pode morrer. Ela sobrevive- ser, ao invés: +–+ ou, mais exatamente,
rá a todas as lutas e a todas as dores, até que o organismo im- +...+y+x–x–y– para o período da
perfeito, correndo em busca da perfeição, torne a encontrá-la, descida ou involução; e, em seguida, deveria ser ao contrário,
sanando tudo assim, para poder reentrar no seio do grande continuando a expressão em posição invertida: –...–y–
organismo perfeito de onde saiu: o Tudo-Uno-Deus. x+x+y...+ para o período da subida ou
◘ ◘ ◘ evolução.
Chegando a este ponto, verificamos que a visão nos levou ao Em outras palavras, o desmoronamento das dimensões te-
âmbito do tema desenvolvido em A Grande Síntese. Só agora, ria sido muito mais vasto do que o possamos perceber em
ao termos diante dos olhos toda a visão, podemos perceber que nosso universo, ou seja, um desmoronamento cujos dois ter-
aquele tratado abrange apenas uma parte dela, não esgotando o mos extremos estão situados, como é lógico, no infinito, que
problema como muitos pensaram. Na verdade, após haver feito é a dimensão do Tudo-Uno-Deus, de onde tudo derivou e pa-
no princípio uma breve referência ao primeiro período, o involu- ra onde tudo volta. A Grande Síntese desenvolve esta segun-
tivo, aquele volume aceita o fato consumado, sem indagar-lhe os da parte do ciclo para as fases , , , que são as que mais in-
precedentes e as causas, e dirige-se para a estrada que devia per- teressam ao homem e ao seu universo. Mas, agora, podemos
correr, que é o segundo período, o evolutivo. A Grande Síntese compreender como esses limites se dilatam ao infinito, e co-
nos mostra o percurso desse caminho ascensional partindo da mo o que é chamado ali de criação, no sentido comum, refe-
matéria, da sua origem e evolução, através das formas da ener- re-se apenas ao homem, pois exprime somente uma das fases
gia e, depois, da vida mineral, vegetal e animal, subindo sempre da queda, isto é, da série de criações sucessivas, como o ex-
até ao homem, ao seu espírito, ao seu mundo social e moral, até plicado em A Grande Síntese.
ao seu futuro nos mais altos planos da existência. Temos assim, no polo +, o Sistema em sua plenitude, ao
É isto o que está contido naquele volume. Ele vai da matéria passo que, no polo –, temos sua completa destruição no nega-
para o espírito. Mas as razões últimas do processo involutivo- tivo, que se verifica na plenitude do Anti-Sistema. Desta forma,
evolutivo e da estrutura atual de nosso universo, em uma visão temos na extremidade + a ordem perfeita, que, após o período
completa abarcando o quadro todo – e não apenas a segunda de involução, transmuda-se em caos no extremo oposto, –,
metade do ciclo da queda – está além dos limites que A Grande com a destruição completa da ordem do Sistema. E, ao contrá-
Síntese se impôs. Mas aquele livro tinha em mira, sobretudo, o rio, tornando a subir o caminho do período de evolução, che-
homem e seus problemas científicos, sociais e morais. Sua fina- gamos, do caos completo do extremo –, à ordem perfeita da
lidade foi resolver o problema do conhecimento, mas do conhe- extremidade oposta, +. Assim, no circuito de todo o ciclo da
cimento humano, o qual o homem julga ser tudo, porque é co- queda, o segundo período, de reconstrução, compensa e equili-
nhecimento de seu universo, que ele crê ser tudo. bra o primeiro, de destruição, anulando-o. Somente assim o
Mas, uma vez registrado o pensamento de A Grande Sínte- plano de A Grande Síntese fica perfeitamente compreensível
se, a visão se alargou com a contínua maturação do espírito e o em suas origens e em suas últimas consequências. E só agora,
olhar estendeu-se para horizontes mais vastos, levando-me depois que esgotamos o tema do volume Deus e Universo, po-
além dos limites de nosso universo, que vai da matéria ao espí- díamos chegar a uma visão global do Tudo-Uno-Deus.
rito. Então, uma força me arrastou e me colocou diante do pen- De acordo com as duas expressões expostas acima, que vão
samento de Deus. Não posso dizê-lo de outro modo, porque foi de + a – (período de involução) e ao contrário de – a +
isto que me aconteceu. Tive a sensação nítida de que a fonte da (período de evolução), podem os dois períodos ser sintetizados,
inspiração não era mais Cristo, o Filho – que, em A Grande sob o ponto de vista do estado que atingiram em seu ponto de
Síntese, falara aos homens sobre os problemas deles – mas sim chegada, nas duas seguintes expressões-limites:
o Pai, o Verbo Criador, que queria lançar luzes sobre os pro-
blemas máximos, cuja solução está além das capacidades raci- lim
onais e dos meios de investigação do homem. tmax i
Nasceu assim o volume Deus e Universo, que já não é mais
uma síntese científico-espiritual, mas uma síntese teológica.
Ora, se A Grande Síntese está mais próxima dos problemas lim
humanos, que mais interessam à ciência e à vida, e se pôde
t max e
mergulhar na análise, para dela deduzir a síntese, o seu campo
entretanto não supera os limites de nosso universo. Ao contrá-
rio, o volume Deus e Universo quis ultrapassar esses limites, A primeira fórmula pode ser lida assim: “No limite do uni-
resolvendo, numa visão suprema, também os problemas máxi- verso, ou sistema de universos (Δ), a substância (S), através do
mos. Considerando isso, A Grande Síntese fica enquadrada no „tornar-se‟ ou transformismo fenomênico, acabou, no instante
sistema deste segundo volume como um momento dele. Se ela máximo final do semiciclo ou período involutivo (t  max i),
representa a síntese do conhecimento humano, Deus e Universo ou também inicial do semiciclo ou período evolutivo, por en-
representa a síntese do conhecimento divino. Somente assim o contrar-se toda no estado de infinito negativo (–)”.
quadro está completo, tornando-se possível ver quanto conhe- A segunda fórmula pode ser lida assim: “No limite do uni-
cimento ainda havia além daquele primeiro tratado, pois esta verso, ou sistema de universos (Δ), a substância (S), através do
última visão nos levou para além de todas as nossas dimensões, „tornar-se‟ ou transformismo fenomênico, acabou, no instante
diante do Absoluto e do Infinito. máximo final do semiciclo ou período evolutivo (t  max e),
◘ ◘ ◘ ou também final de todo o ciclo, instante que tudo se apresenta
Estes confrontos nos permitem aprofundar alguns conceitos reconstituído no estado inicial, por encontrar-se completamente
de A Grande Síntese. Nos seus primeiros capítulos, leva-nos no estado de infinito positivo (+)”.
aquela obra ao infinito, donde tudo derivou, explicando que as A primeira fórmula nos exprime o estado alcançado pela
fases ,  e  não esgotam todas as dimensões do ser, mas que parte decaída do terceiro aspecto do Tudo-Uno-Deus, o Filho,
elas se estendem de + a –, de modo que a queda ou involu- no fim da primeira metade do ciclo, ou período de descida in-
ção não foi de  a , mas de + a –, e que, no sentido inverso, volutiva, estado este totalmente negativo, isto é, de completa
a subida ou evolução não foi de  a , mas de – a +. destruição do Sistema no caos do Anti-Sistema (–).
Pietro Ubaldi O SISTEMA 13
A segunda fórmula nos revela o estado alcançado pela refe- gundo aspecto da Trindade (o Pai ou Verbo – a ação); o terceiro
rida parte decaída no fim da segunda metade do ciclo, ou perío- momento é γ, a matéria, como era o terceiro aspecto da Trinda-
do de subida evolutiva, estado este totalmente positivo, isto é, de (Filho – a criação realizada).
de completa reconstrução do Sistema em sua ordem (+). Mas, se esta estrutura do fenômeno da queda nos mostra,
Unem-se assim as duas expressões, exprimindo as duas refletida em si, a Trindade do Tudo-Uno-Deus, ela no-la ofere-
metades do mesmo ciclo. A primeira, que se pode chamar a ce em posição invertida, concluindo com a destruição, ao invés
fórmula da queda ou destruição, completa-se com a segunda, de concluir com a criação. De modo que a trindade trifásica da
que se pode chamar a fórmula da reconstrução. Dão-nos assim queda é apenas uma imagem contrafeita, de valores corruptos,
as duas expressões a imagem sintética das duas metades inver- bem diferentes daqueles da primeira Trindade perfeita. En-
sas e complementares de todo o ciclo. A primeira, partindo de quanto o terceiro momento desta pode ser figurado como uma
+, mostra-nos seu ponto de chegada em –. A segunda, ao esfera de luz, em que triunfa a Lei e o Sistema e realizam-se o
contrário, tem seu ponto de partida em – e conclui seu cami- pensamento e a vontade de Deus, o terceiro momento da Trin-
nho em +, seu ponto de chegada. Fica assim expresso o ciclo dade da queda pode figurar-se como uma esfera de trevas, em
completo, que foi formulado mais acima +–+ (Sis- que triunfa a revolta e o Anti-Sistema e realizam-se o pensa-
temaAnti-SistemaSistema). Tudo termina em +, de onde mento e a vontade de Satã.
havia partido, e as duas fórmulas, a de ida e a de volta, fun- Com isto, as duas visões contempladas nos dois volumes A
dem-se numa só. A segunda, que se pode chamar a fórmula re- Grande Síntese e Deus e Universo, aparecem fundidas numa
solutiva do universo, completa e fecha o ciclo. Assim, o prin- visão única, dando-nos num só golpe de vista o quadro comple-
cípio e o fim acabam sobrepondo-se e o ciclo fecha-se sobre si to de uma síntese maior, que engloba todo o problema do co-
mesmo. Após este parênteses de imperfeição, a perfeição per- nhecimento. Fica com isto esgotado – pelo menos até que che-
manece imutável; Deus sempre “é”, no antes como no depois, guem novos fatos espirituais e mais profunda maturação – o
nunca muda nem pode mudar em Sua perfeição. atual trabalho inspirativo. A visão apareceu completa em suas
◘ ◘ ◘ linhas-mestras. Aqui, ela foi observada e registrada. Mudemos
Antes de deixar a contemplação desta visão, observemos agora a engrenagem mental, os métodos de investigação e os
outro aspecto seu. pontos de vista. Desçamos dos remotos planos da intuição. Re-
Já notamos como se reproduzem, nas três fases do proce- tomemos a psicologia dos seres racionais comuns, que obser-
dimento do nosso agir, os três momentos: espírito, energia e vam e duvidam, e com ela continuemos o nosso trabalho. Ana-
matéria, que constituem o ciclo da queda e reconstrução. Toda lisemos com a mente fria, à maneira de positivistas descrentes,
nossa atividade criadora no trabalho segue estas três fases: os resultados obtidos, procedendo pela lógica pura, desconfian-
primeiro, o pensamento que concebe e projeta a ação (fase es- do e controlando, em busca de provas.
pírito); depois, a vontade que executa aquele pensamento, que,
de outro modo, permaneceria sem atuação, ou seja, a ação que SEGUNDA PARTE – ANÁLISE E CRÍTICA
cria (fase energia); enfim, a forma concreta na qual se impri-
miu a ação e o pensamento se exprimiu (fase matéria). O pri- V. ORIENTAÇÃO
meiro modelo deste fato, que repetimos a cada momento, foi
criado pela queda. Podemos, deste modo, ter uma explicação A visão apareceu completa. Registramo-la na primeira par-
para tudo isso e conhecer a razão profunda do motivo pelo te e temos o manuscrito sob os olhos. Podemos agora relê-lo
qual a técnica de ação, no ser humano, tenha assumido preci- com outra forma mental. Examiná-lo-emos nesta segunda parte
samente essa forma, e não outra qualquer. à luz da razão, com a psicologia da análise e da crítica, que di-
Mas a visão nos mostra uma correlação ainda maior. Veja- verge fundamentalmente do estado de inspiração. Agora va-
mos a correspondência entre os três momentos ou aspectos da mos transformar-nos em incrédulos, a quem é lícito toda dis-
Trindade (Espírito, Pai, Filho) e as três fases do ciclo da queda cussão e toda dúvida, para enfrentar a teoria exposta, agora
e da subida. De fato, três são as etapas do processo involução submetida a uma ação de controle racional, necessário para
ou evolução: espírito, energia e matéria. Em ambos os casos, provar sua veracidade. Se ela corresponder aos fatos e for por
temos: na primeira fase, a concepção; na segunda, a ação; na eles confirmada, poderemos aceitá-la, declarando que a inspi-
terceira, a criação realizada. Em ambos os casos, em primeiro ração viu efetivamente a verdade. Se assim não for, temos
lugar, a obra é concebida, depois executada e, finalmente, rea- obrigação de não aceitar essa teoria. Por aí se vê até que ponto
lizada na forma desejada. trabalhamos sem preconceitos nem dogmatismos, sem nos
É evidente, pois, o fato de que, no ciclo da queda, ecoa o preocupar em chegar a esta ou àquela conclusão, sem antepor à
motivo da criação, mas em posição invertida, ou seja, ao invés pesquisa, totalmente desapaixonada, as teorias desta ou daque-
de se chegar à verdadeira criação dos espíritos, no terceiro as- la escola ou religião. Esta posição de absoluta imparcialidade,
pecto da Divindade, o Filho, chega-se a uma pseudocriação, pela qual nós mesmos procuramos demolir, com as dúvidas, os
invertida na matéria, aquela que o homem chama criação. resultados de nossa inspiração, é a única a nos dar a garantia
Constituído o primeiro modelo da Trindade, não se podia sair de ter visto uma verdade, garantia indispensável, se quisermos
dele, e ele de fato retorna, permanecendo sempre o mesmo, atingir resultados positivos, sem cair na fantasia.
ainda que invertido. Temos assim uma criação às avessas, que As probabilidades de erro são muitas no terreno da metapsí-
é uma corrupção da substância; uma criação que não é cons- quica, onde nosso espírito trabalha, e ainda conhecemos pouco a
trução, mas destruição; uma criação de que não nasce o espíri- sua estrutura e funcionamento para podermos julgar com segu-
to, mas a matéria. De fato, não podemos compreender a fundo rança os seus produtos. Para o homem, a alma humana é ainda
nosso universo senão como uma inversão ao negativo da ver- um abismo desconhecido, onde se movem forças de que não sa-
dadeira criação, pois esta, para poder ser logicamente atribuída bemos a origem nem as possibilidades. Enquanto não subme-
a Deus, deve ser perfeita e espiritual. termos os resultados das operações do espírito a severo controle
Podemos compreender assim a primeira origem da estrutura positivo, a ciência tem o direito de não os tomar a sério. De nos-
trifásica do fenômeno da queda e a razão pela qual assumiu es- sa parte, esta análise e crítica dos resultados de nossa inspiração
sa forma. Mostra-nos ele a marca recebida do primeiro modelo: nos leva a resultados jamais alcançados no terreno teológico, em
a Trindade da Divindade. Mesmo na queda, o primeiro momen- que agora se aventuraram as nossas indagações. Entendemos por
to é α, o espírito, como era o primeiro aspecto da Trindade (a teologia a ciência das coisas de Deus, enfrentando os problemas
concepção); o segundo momento é β, a energia, como era o se- máximos do conhecimento, situados no absoluto; teologia per-
14 O SISTEMA Pietro Ubaldi
tencente a todas as religiões, na medida em que se ocupam das É preciso compreender este princípio geral, de que a verda-
coisas de Deus. Pois bem, neste campo, inatingível para a ciên- de não se conquista – como as coisas humanas – pela força ou
cia, poderemos chegar a conclusões positivas, alcançadas medi- pela astúcia, mas sim pelo amor. A verdade está escrita, fecha-
ante um controle racional, até chegar às provas, em nosso mun- da no pensamento de Deus, e só se revela a quem mereça co-
do, das verdades descobertas por inspiração, as quais, de outra nhecê-la, porque esse dará garantia de saber usá-la bem. A ele a
maneira, escapariam no absoluto. Obteremos assim um plano de verdade abre suas portas e se deixa conquistar pela sinceridade
teologia demonstrada, que, fundamentada em provas encontra- e pureza de intenções, pela humildade do pesquisador e pelo
das em nosso mundo, tem o direito de ser levada em considera- desejo de conhecê-la para o bem. Quando, ao contrário, aparece
ção mesmo pelos racionalistas positivos. o orgulho de apoderar-se da verdade para explorá-la e impô-la
Estes resultados nós oferecemos a todos imparcialmente, se- ao próximo; quando transparece na busca a insinceridade, o
ja às várias religiões, à filosofia ou à ciência. A solução dos egoísmo, as segundas intenções; a verdade, que é constituída
problemas máximos interessa a todos. Subir o monte do conhe- por inteligentes correntes de pensamento, recusa-se e fecha as
cimento representa uma conquista para todos os homens. Le- portas ao seu conhecimento. A verdade se esconde dos involuí-
vantar o véu do mistério é a grande aspiração e o maior pro- dos, porque eles a usariam mal e, portanto, devem ser dela ex-
gresso. Oferecemos o produto genuíno de nossa pesquisa, que é cluídos, até que tenham atingido, vivendo e lutando, o necessá-
inspirativa e racional ao mesmo tempo. Cada um irá usá-lo da rio amadurecimento. Por conseguinte, quando nos deparamos
forma que lhe for mais útil. Nossa pesquisa é absolutamente de- com alguém que queira impor a própria verdade, vendo no pró-
sapaixonada. Nossa única finalidade é conhecer as causas pri- ximo um antagonista a ser derrotado, ao invés de encontrar nele
meiras de que derivou a gênese e a estrutura de nosso universo, um colaborador que possa apresentar novos e inéditos aspectos,
e não defender de modo algum, aprioristicamente, esta ou aque- então podemos dizer que ele não só descobrirá pouco da verda-
la religião. Iniciamos as pesquisas sem saber aonde chegaría- de, mas também demonstra nada ter compreendido a seu respei-
mos nem quais seriam as conclusões. Provavelmente, agindo to, pensando que pode pregá-la só porque a aprendeu com ou-
desta maneira, descontentamos a todos, pois cada um procura tros. E tudo isto pelo fato de procurar impô-la ao próximo. A
mais achar provas em favor do próprio grupo do que descobrir verdade se entrega a quem ama, e quem ama procura a unifica-
a verdade. Mas, em compensação, achamos a resposta a muitas ção com os seus semelhantes, e não o domínio sobre eles. Isto
perguntas que estavam em suspenso sobre nossas cabeças. Isto porque a verdade está em Deus, e só podemos nos aproximar de
é o que vamos explicar nesta segunda parte. Deus pelos caminhos do amor, ou seja, unindo-nos fraternal-
Enfrentemos, pois, a visão, para verificar se ela resiste às mente ao próximo. Quem assim não procede, mesmo quando
várias objeções e se as nossas dúvidas poderão destruí-la. De- prega a verdade em nome de Deus, só consegue afastar-se dela
vemos, por isso, ser sinceros e honestos, mesmo nas dúvidas. e de Deus. Portanto, com a agressividade polemista, não se di-
Devemos ser impelidos apenas pelo desejo de conhecer a ver- funde nem, muito menos, se descobre a verdade, que, pelo con-
dade, prontos a sacrificar a ela todos os nossos preconceitos, a trário, fica sufocada e se nega, pois tudo o que não é amor não
render-nos sempre à evidência, todas as vezes que ela surgir. pertence ao Sistema, mas ao Anti-Sistema.
Não podemos antecipar as conclusões da pesquisa, obrigando- A nossa finalidade, portanto, deve ser apenas uma: chegar a
nos a repelir esta ou aquela verdade, apenas pelo fato de ser ela conhecer a verdade. Com o máximo respeito para com tudo já
contrária a certos princípios que ainda não estão demonstrados. dito pelas religiões e filosofias, somos obrigados a enfrentar
Quem está na fase da pesquisa sabe que pode chegar a qualquer sozinhos, para resolvê-los, os problemas que elas não enfrenta-
conclusão e deve estar pronto para qualquer surpresa. ram nem resolveram. A lei de Deus rege todos os fenômenos, e
Por isso temos de ser pesquisadores sinceros, que amiga- não há religião nem filosofia que lhe possa alterar o funciona-
velmente se ajudam no mesmo trabalho de indagação, e não po- mento. Tanto no mundo espiritual como no material, há fatos
lemistas que procuram sobrepor-se, esforçando-se cada um por positivos que, como tais, a todos se impõem, independente-
impor ao outro a própria verdade. Para nós, situados no relati- mente de nossas crenças. Galileu não podia impedir que a Ter-
vo, as perspectivas são diferentes. Dessa forma, as verdades ra girasse em redor do Sol, fazendo o Sol girar em redor da
não são apenas relativas à posição particular de cada um, mas Terra, só porque a Bíblia podia fazer supor que assim aconte-
também progridem, caminham em evolução e são conquistáveis cesse. Da mesma forma, não se poderá impedir que a reencar-
por aproximações sucessivas. Por isso os verdadeiros pesquisa- nação seja verdadeira, só pelo fato do catolicismo sul-
dores, sabendo disso, não fazem polêmicas; pelo contrário, ao americano combatê-la (o catolicismo europeu nem sequer se
invés de procurarem eliminar-se mutuamente, como num com- interessa por isso e não a combate). Assim também não se po-
bate de esgrima, buscam o caminho da compreensão para cola- de impedir que a teoria da queda dos anjos se nos apresente
borar, combinando as próprias visões particulares, para alcançar com grande possibilidade de ser verdadeira, só pelo fato de vá-
uma visão de conjunto sempre mais vasta. Por estas afirmações rios espíritas brasileiros não a aceitarem, por ela parecer de
se compreende quanto esteja afastada de nós a ideia de proferir origem católica, sem saberem que os teólogos de Roma seriam
afirmações catedráticas, em tom de autoridade. Explicamos tu- os primeiros a condenar o nosso ponto de vista, pois a teologia
do isto porque também são objetivos destas pesquisas mostrar o clássica os orienta de modo completamente diferente.
método evoluído com que elas devem ser conduzidas e ensinar Infelizmente, sobre estes problemas e suas soluções apoia-
e arte de pensar de acordo com uma técnica mais produtiva. ram-se numerosos interesses materiais e morais de casta, que
O sistema de querer vencer polemizando, ou seja, usando as são defendidos por meio da criação de obstáculos a cada passo,
palavras e os argumentos como armas e projéteis, para esmagar o como trincheiras no caminho do pesquisador. A este não é pe-
inimigo, é o sistema do homem primitivo, que instintivamente dida, de modo algum, a verdade, que pouco interessa, porque já
ainda adota os métodos da guerra, para ter razão contra os outros. a julgam em suas mãos, mas pedem-lhe filiar-se ao próprio
Nos planos mais elevados, o vencedor não é o mais forte em dia- grupo, para fazê-lo crescer. Assim, o pesquisador sem precon-
lética, mas aquele que, usando da mais simples sinceridade, con- ceitos é constrangido a esbarrar, a cada passo do seu caminho,
vence porque demonstrou haver descoberto desapaixonadamente com as estradas transversais, onde está escrito: local ocupado,
maiores verdades e sabe dar as provas necessárias. Ora, a desco- aqui não se passa! Mas isto está perfeitamente justificado, por-
berta da verdade pertence a quem vive nesses planos mais altos e que o mundo está organizado segundo o tipo médio normal,
usa seus métodos. Os involuídos sabem fazer bem as guerras e precisando mais de chefes que o dominem e o domem do que
vencê-las, sendo muito fortes no terreno da luta pela vida, mas de compreensão e liberdade que lhe possibilitem realizar inves-
são impotentes diante do problema da busca da verdade. tigações para chegar ao conhecimento da verdade. Por isso, pa-
Pietro Ubaldi O SISTEMA 15
ra cada grupo, a resposta ao nosso esforço de investigação não lução assumiu esta, e não outra forma e direção? Mais ainda: o
foi discutir o problema em si, para saber como de fato se passa- que é a vida? E por que em nosso mundo existe o contrário, a
vam as coisas, mas foi, sobretudo, saber se as conclusões con- morte? E, se Deus é perfeito, donde nasceu e como se justifica
cordavam ou não com os seus princípios, declarando-as ótimas entre nós a imperfeição, o erro, o mal, a dor etc.? Como podem
no caso afirmativo e condenando-as no caso negativo. ter nascido da luz da nossa vida as trevas e as tantas negações do
As necessidades da mentalidade corrente parecem ser dife- ser, quando a suprema qualidade de Deus é afirmação?
rentes. O que se pretende, para qualquer coisa nova que surja, é Poder-se-ia responder que esse Deus é uma nossa projeção
enquadrá-la num dos muitos padrões já existentes de cataloga- antropomórfica no vazio, pois nela se idealizam as aspirações
ção de todas as coisas humanas. Com efeito, uma das caracte- humanas de perfeição, sabedoria, poder, liberdade, amor, vida,
rísticas do ser situado no Anti-Sistema é conceber tudo dividido alegria etc., em compensação da carência, em nós, dessas qua-
e querer fixar essas suas divisões em categorias separadas e lidades, que desejamos, porque nos fariam felizes. Mas, então,
contrastantes. A criatura situada no Anti-Sistema não concebe poder-se-ia replicar que a vida não tem finalidade. Por que lu-
uma ideia senão em posição de antagonismo com outra oposta à tar e sofrer tanto, senão em vista de um amanhã melhor? A na-
sua. Por isso a principal preocupação de muitos que acompa- tureza humana tem exigências psicológicas, ânsias instintivas,
nham estes estudos é, naturalmente, saber em primeiro lugar a que não se pode obrigar a calar. Não podemos aceitar as sutile-
que religião ou corrente humana pertencem, para formar grupos zas filosóficas que tudo destroem, sem nada criar. Além disso,
e agredir os que se acham do outro lado. E é incrível sua desilu- como podemos dizer que esse conceito de Deus é uma criação
são quando não acham nada disso. Seu sentimento é quase de nossa, inconsciente, alcançada para personificar nossas aspira-
desgosto, diante desta estranha linguagem de imparcialidade e ções num Ser Supremo capaz de satisfazê-las todas, endirei-
universalidade, num mundo fundamentado em outros princí- tando assim a nossa posição de emborcados na tristeza da im-
pios. Linguagem que dá, a quem vive de lutas, com a psicologia perfeição, se, ao contrário, poderíamos também crer que essa
correspondente, um sentido de inutilidade, como de ecletismo criação seja justamente o efeito de um desejo de compensação
vazio e passatempo para diletantes. e de soerguimento devido à queda? Então, não seria mais o
Perguntamos, no entanto, como é possível excluir a priori homem que criaria um Deus de acordo com uma imagem tira-
esta ou aquela filosofia ou religião, garantir que não possa ha- da do emborcamento da própria imperfeição, mas seria o ho-
ver no campo alheio um pouco de verdade, só porque não está mem uma corrupção da perfeição de Deus, um ser decaído,
em nosso campo? Como negar que o outro aspecto da verdade que anseia por voltar à perfeição perdida.
possa ser talvez exatamente o que nos falta para completar a São muitas as objeções à teoria e algumas parecem insupe-
nossa? E como não admitir também que, mesmo no campo ráveis, mas iremos destruí-las uma a uma. Dúvidas foram pro-
alheio, possa faltar outro aspecto da verdade e seja este justa- postas por outros e criadas por mim mesmo. Observamos me-
mente o que nós possuímos? A voz de todas as coisas é tão lhor a visão, focalizando ainda mais os seus pormenores, e vi-
grande e rica, a presença do pensamento de Deus é tão univer- mos que bastava examinar com mais precisão, para responder
sal no todo, que cada um terá visto, por certo, algo da verdade. às nossas perguntas e solucionar as nossas dúvidas. Elas apare-
Num mundo onde tudo é relativo, como admitir estar a verdade ceram porque ainda não havia sido visto tudo, e tudo se resume
toda de um lado, e nada do outro? Como é possível acreditar em esclarecer melhor, iluminando os pontos obscuros, que
que a verdade esteja toda exclusivamente do próprio lado, e o permanecem imprecisos. Mas, em sua primeira visão de con-
erro sempre do lado oposto? Isto corresponde à psicologia de junto, apresenta-se-nos a teoria com as características de orga-
quem vive no plano da luta animal, mas não à de quem vive em nicidade e unidade, com grande poder de enquadramento de to-
plano mais evoluído, onde deveria estar situado o homem. da a espécie de fenômenos, desde os da matéria inorgânica aos
◘ ◘ ◘ da vida e do espírito; dos fenômenos atômicos aos sociais e mo-
Esclarecidos assim os critérios com que procederemos em rais, reduzindo a um só sistema a infinita multiplicidade de nos-
nosso exame, enfrentemos a visão. Eis-nos, pois, como incrédu- so relativo. E, sem dúvida, uma das maiores aspirações da alma
los, mas incrédulos honestos. Devemos, portanto, permanecer humana é a grande unificação. Fazer de tudo um só organismo,
equitativos, sinceros, fraternos com todos. Como incrédulos, que não só funciona mas também progride através deste seu
temos o direito de perguntar se esta teoria é verdadeira; temos funcionamento para um fim único, exato, satisfazendo a lógica,
de partir da dúvida, para aceitar somente o que ficar provado. o sentimento e os anseios mais instintivos e profundos da alma
Mas, embora honestamente imparciais, não podemos deixar de humana, tudo isso convence a mente e sacia a alma.
reconhecer verdadeiro o que sinceramente nos convence. Diante desses resultados, não posso deixar de experimentar
Ora, a razão pela qual estou desenvolvendo e aceitando a a sensação de saciar uma fome, a fome do conhecimento que
teoria da queda não é tanto por um ato de fé cega em suas ori- orienta a própria vida. É a saciedade do homem que, após haver
gens inspirativas, quanto pelo fato dela resolver muitas das atravessado as filosofias, as ciências, as religiões, pedindo a to-
minhas dúvidas, explicando muitos fatos e solucionando mui- dos a explicação de tantos mistérios, finalmente a encontrou
tos problemas, num quadro orgânico e harmônico, reconduzin- por outro caminho, persuadindo-se, e agora vê claramente. E a
do tudo à unidade e, ao mesmo tempo, satisfazendo as exigên- satisfação é tanto maior ainda, porquanto essa clareza é comu-
cias da minha mente e do meu coração. Esta teoria me dá de nicável e pode saciar muitos outros famintos e orientar tantas
Deus um conceito verdadeiramente grande e bom, que perma- outras vidas, ainda perdidas nas trevas, por falta de uma visão
nece tal apesar da maldade dos ruins dominar em nosso mundo clara e convincente do porquê das coisas da vida e de seus obje-
humano. Nesse conceito, que busca afastar-se cada vez mais tivos. A filosofia caminha por sua estrada, e o mesmo fazem a
dos conceitos comuns antropomórficos da Divindade, vejo ciência e também as religiões. Cada um segue seu caminho, ig-
triunfar a bondade, a liberdade, o amor, que um instinto irresis- norando ou até mesmo combatendo o dos outros. Cada religião
tível me diz serem Seus atributos. inimiga da outra, cada filosofia diferente da outra, cada cientis-
Além disso, a teoria me explica algumas coisas que nem a ta aplicado a um setor particular do saber. Todos divididos, res-
razão, nem as religiões, nem a filosofia, nem a ciência sabem tritos a visões parciais, fechados na terminologia e nos concei-
dar-me. Por exemplo: por que motivo nasceu a matéria? Com is- tos de sua propriedade, de que são vigilantes guardas. O conhe-
to pergunto não só de que nasceu a matéria, mas por que nosso cimento humano nos oferece apenas aspectos particulares, in-
mundo assumiu a forma de matéria. E mais: por que existe a completos, perspectivas limitadas diante daquela maravilhosa
evolução? Por que ela progride da matéria para o espírito? Por unidade a que tudo deve reduzir-se, como sente nossa alma, por
que esse telefinalismo na evolução, e não outro, e por que a evo- necessidade lógica e por instintivo desejo do espírito.
16 O SISTEMA Pietro Ubaldi
Confesso que, para mim, uma das maiores admirações, gundo princípios que não podemos admitir terem nascido agora
após nascer na Terra e me sentir vivo nesta veste corpórea, foi para nós e, muito menos, terem sido criados por nós, da mesma
verificar quão pouco de positivo o homem sabia em relação forma que a visão percebida pela intuição não representa em si
aos problemas fundamentais, de que tudo deriva e depende, nada de novo, mas apenas o eterno funcionamento do todo e o
portanto, em última análise, também sua própria vida e cada fato de que, neste momento, conseguimos vê-la e registrá-la.
ato seu. Não compreendia como se pode agir só com funda- Se pensamos, julgamos e aceitamos ou não, tudo é sempre
mento nos instintos, sem ter conhecimento, sem estar orientado em virtude dessas leis. Assim, a própria estrutura lógica de to-
de forma positiva, clara e segura em relação aos efeitos do da a teoria que estamos tratando aqui constitui uma necessida-
próprio comportamento. Então, para poder viver, tive de bus- de racional que nos constrange a chegar a certas conclusões,
car eu mesmo o alimento para mim indispensável. Isto porque impondo-nos aceitá-las ou não. O pensamento de todos não
não sei conceber como se possa viver sem compreender. As- pode deixar de estar enquadrado automaticamente no pensa-
sim, conquistar o conhecimento, coisa para mim indispensável, mento universal, do qual constitui justamente um momento.
foi o maior trabalho de toda a minha vida, e este é o melhor Nossa liberdade de pensamento é relativa, e só lhe são permi-
fruto que agora, no fim do meu caminho, posso oferecer para tidas oscilações no relativo, dentro de margens assinaladas ao
servir de alimento a todos quantos, como eu, tenham esta fo- longo da estrada que guia o incerto caminho de nossa ignorân-
me, que bem sei quão tremenda é para quem a sente. cia em direção à ordem da Lei.
Ofereçamos, pois, para que os outros se saciem, o fruto Estudando, portanto, essas leis e a teoria que as explica,
maduro de nossas investigações. A ideia é oferecida, não im- demonstramos, ao mesmo tempo em que a discutimos, a exis-
posta. Ofereço-a como a minha verdade, sem pretender que tência de um organismo e percebemos que fazemos parte dele,
possa ser a verdade de todos. As formas mentais são diferen- chegando a ver em que ponto estamos situados. Assim, a cons-
tes, e podem ocorrer para outras formas mentais outras formas trução teológica e filosófica aqui exposta não é somente uma
de verdade, não obstante existirem no mundo formas mentais construção teórica, não é um edifício de conceitos criado pela
semelhantes. Pode acontecer, então, que estes encontrem nesta mente de um pensador que projeta a sua personalidade, ele-
exposição a verdade adaptada a eles, que os convença e satis- vando a sistema uma forma mental particular sua, mas é sim o
faça. Para estes, tal como experimentei, será grande satisfação funcionamento vivo do todo, observado enquanto está funcio-
achar o que buscavam. Essa compreensão ocorre espontanea- nando e enquanto nós mesmos funcionamos dentro dele. Para
mente entre os espíritos do mesmo grau de evolução, sintoni- compreender o assunto, tivemos de nos colocar em dado ponto
zados por afinidade de tipo biológico, ao longo do mesmo ca- da escala evolutiva da subida, que reequilibra a descida involu-
nal de especialização de trabalho. tiva. A própria visão não nos pôde dizer nada além do que po-
Que o pensamento humano não se move por acaso é um fa- díamos compreender, de acordo com o amadurecimento de
to. Mesmo a compreensão entre homens e a difusão das ideias nosso espírito. A própria visão foi apenas um novo passo para
depende de leis precisas, contidas nas teorias que estamos ex- nos aproximarmos um pouco mais da compreensão do pensa-
pondo. Estas teorias penetram tão profundamente em nossas vi- mento de Deus, aproximação devida à conquista atual de um
das, que as estamos vivendo no próprio momento em que lhes novo grau de evolução por parte da humanidade, no início do
estudamos a estrutura. Estamos aplicando-as ao mesmo tempo Terceiro Milênio. A própria teoria contida na visão nos explica
que as observamos para ver como funcionam. Não se poderia o seu significado, a razão pela qual chegou a nós neste mo-
exigir maior prova da verdade de nossa visão. mento e o que estamos fazendo agora.
Nas próprias coisas, em seu funcionamento e desenvolvi- Em outras palavras, o pensamento torna-se cada vez mais
mento, há uma lógica que constitui um caminho já traçado, que caótico, desordenado e ilógico, quanto mais involui, aprofun-
não se pode deixar de seguir. Nenhum fenômeno ocorre ao aca- dando-se no Anti-Sistema, e torna-se cada vez mais ordenado e
so, mas sempre de acordo com uma sua lei, que o guia e indivi- lógico, quanto mais evolui, subindo para o Sistema, ou seja, pa-
dualiza. Assim, o desenvolvimento de cada processo lógico tem ra Deus, o seu centro. É lógico, pois, que a evolução traga uma
uma lei sua, como a tem o desenvolvimento de cada processo ordenação sempre maior do pensamento no ser que evolui. É
dinâmico, químico, orgânico etc. Em cada fenômeno, as causas natural que o pensamento, quanto mais se aproxima da fonte,
continuam em seus efeitos até às conclusões. Nenhum momen- Deus, tanto mais adquire suas qualidades de ordem e de lógica.
to do “tornar-se” universal se move por acaso, loucamente, mas Esse conhecimento, chegando neste momento de amadureci-
sempre dentro de margens que lhe disciplinam o transformis- mento evolutivo, representa a reorganização do pensamento
mo, coordenando-o ao de todos os demais fenômenos, no seio correspondente a esse grau de evolução. Esta nova visão do
do funcionamento do grande organismo do Todo. cosmos representa uma reconstrução pequena, em nosso espíri-
Então todo o nosso esforço de pesquisa, quer na fase inspi- to, daquele conhecimento que o ser possuía outrora, antes da
rativa, quer nesta de análise e crítica, e todo nosso pensamento, queda. Desse modo, com a evolução, aperfeiçoar-se-á cada vez
assim como a nossa própria vida, funcionam e se desenvolvem mais o nosso modo de conceber e de raciocinar, e a humanida-
dentro destas leis, que tudo guiam e dirigem. É por esta razão de, assim como já caminhou tantos passos no passado, cami-
que, ao mesmo tempo em que estamos julgando a teoria, nós a nhará tantos outros ainda no porvir.
estamos aplicando e vivendo, pois ela é justamente a demons- É verdade que estamos situados no Anti-Sistema, onde ruiu
tração dessas leis, levada até à forma mental humana. Neste a ordem do pensamento perfeito. No entanto o pensamento
momento em que estou escrevendo e, depois, no momento em permaneceu latente ali, desorganizado mas não destruído, à es-
que o leitor estiver considerando estes conceitos, estamos todos pera de ser reconstruído com o nosso esforço, à medida que o
aplicando estas leis e a teoria que as explica. Todos nós vive- nosso amadurecimento evolutivo possa permiti-lo. Devemos
mos e funcionamos, em cada ação ou pensamento nosso, en- reconhecer que não falta ao todo o conhecimento. Só a nós ele
volvidos no seio de um sistema de conceitos e de forças que falta, faltando menos aos mais evoluídos e mais aos menos
constitui um verdadeiro organismo, em razão do qual existimos evoluídos. A ignorância é fruto da queda, que se anula com a
em função de tudo o que existe. Para todos nós que estamos subida. Estamos justamente realizando esse trabalho de anula-
aqui, quer na posição de escritor, quer na de leitor, as normas ção da ignorância. Parecemos estar nos movendo ao acaso e
do nosso pensamento, mesmo nesta fase racional de análise e por tentativas, devido à nossa ignorância, o que, relativamente
crítica, própria do nosso atual plano de evolução e grau de a nós, é verdade. Mas, na ordem de Deus, já estão assinalados
amadurecimento atingido, já estavam contidas na Lei, que as os planos e a posição do ser, mesmo no que respeita ao conhe-
dirige. O que fazemos neste momento é apenas aplicá-las se- cimento, ao longo da subida. Em nossa agitação confusa, não
Pietro Ubaldi O SISTEMA 17
podemos seguir outro caminho senão o que já foi traçado. Des- VI. DEUS CRIADOR
sa forma, de fase em fase, a nossa mente se abre como uma
flor na primavera, ou uma criança que cresce. Estes nada sa- Na primeira parte deste volume, expusemos a visão em sín-
bem da lei de Deus, no entanto a estão vivendo e aplicando. tese, tal como nos apareceu por intuição, em seu conjunto. Re-
Todos, sábios e ignorantes, obedecem, embora mais ou menos tomemos agora a observação, adotando uma atitude psicológica
conscientemente, ao irresistível impulso determinado por diferente, que justamente chamamos de “Análise e Crítica”.
Deus, e, queiramos ou não, vivemos a Sua lei. Mas a maravi- Embora tenhamos de repetir, voltaremos ao início, olhando ago-
lha da evolução consiste em que, quanto mais o ser se eleva e, ra com os olhos da razão, mais do que com os da fé, mudando os
portanto, conhece e se orienta, tanto mais compreende a bon-
pontos de referência e nossa perspectiva, de modo que tudo se
dade da lei de Deus e a utilidade de obedecê-la. Então, a obe-
torne claro, dando resposta a todas as objeções e resolvendo to-
diência forçada a uma lei determinística, como deve ocorrer
para um inconsciente, transforma-se na livre obediência a uma das as dificuldades. Observamos o fenômeno da criação no vo-
lei que se cumpre não por constrangimento, mas por convic- lume Deus e Universo e no segundo capítulo do presente livro.
ção, como deve ser para quem sabe. É natural que, subindo pa- Muita coisa dissemos, mas, diante da vastidão do assunto, pare-
ra o Sistema, reapareçam todas as suas qualidades e desapare- ce-nos nada haver dito ainda. Os leitores, a quem apresentamos
çam as qualidades opostas, próprias do Anti-Sistema. estas teorias, devem considerar que estamos observando a obra
Concluindo. Se, no próprio momento em que estamos discu- de Deus quase como se Ele nos tivesse de prestar contas. Se al-
tindo a teoria, também a estamos aplicando, isto quer dizer que guns podem parecer ainda não satisfeitos, porque os frutos que
ela satisfaz a este primeiro controle, em contato com os fatos. têm em mãos nem sempre são bons, a estes vamos demonstrar,
Esta é sua primeira confirmação. Esta teoria nos indica o ponto agora, que Deus fez tudo otimamente e não podia fazer melhor,
de chegada e a direção de nosso caminho, o nosso estado futu- e que, se o ser navega na imperfeição e na dor, a culpa não pode
ro, cujas causas, que nós mesmos estamos vivendo, estão em de maneira nenhuma ser atribuída a Deus. Tudo, qualquer que
ação em nosso presente. As abstrações da visão permanecem, seja o estado atual, mesmo sendo difícil aceitá-lo, sempre se de-
assim, coligadas com nossa realidade cotidiana, onde a teoria, senvolveu em perfeita lógica, bondade e justiça.
desse modo, encontra nova confirmação. Mas a nossa análise e Mas procedamos com ordem. Aqui fala-se de Deus. É
crítica não pode esgotar-se com tão pouco. Outras dúvidas e ob- mister, pois, começar pesquisando o que entendemos pela pa-
jeções ainda teremos de resolver. E tudo servirá para esclarecer lavra Deus. Dissemos que tudo deriva Dele, centro do Siste-
melhor, com maior precisão de detalhes, o conteúdo da visão. ma, causa primeira de tudo, situado no vértice da pirâmide da
Entretanto ela não pretende esgotar até ao fundo o conheci- hierarquia dos seres. Dissemos também que Deus não pode
mento, mas apenas nos levar a um grau mais elevado dele, pro- ser definido. Definir significa limitar, delinear em relação a
porcionado ao nosso grau de desenvolvimento. Colocando di- certos pontos de referência. Ora, o infinito não pode estar li-
ante de nossos olhos o modelo do edifício a ser reconstruído, a mitado, e não existem pontos de referência para o absoluto,
visão nos indica a meta final: a reconstrução do Sistema, de on-
que abarca tudo. Mas dissemos também que as definições
de decaímos. O nosso trabalho, dessa forma, não permanece
tentadas a respeito de Deus foram obtidas elevando à potên-
mais abandonado às tentativas da incerteza, filha da ignorância,
nem constitui uma criação do novo, deixada ao acaso ou às cia infinita as mínimas quantidades de perfeição reconquista-
nossas pobres diretrizes. Ao contrário, seguimos um plano que das pelo homem com a evolução, ou percebidas intuitivamen-
vemos, pois se trata da fiel reconstrução do que já existia no te, como futura realização a ser conquistada. Podemos, assim,
Sistema antes da queda e com ela demoliu-se. O trabalho do atribuir a Deus algumas qualidades.
homem é traçado, por isso, com lógica e enquadrado no funcio- Elas foram surgindo à medida que fomos descobrindo o Seu
namento do todo, porque o ponto de partida indica qual é o modo de agir, sendo lógico e evidente Deus possuir os atributos
ponto de chegada e a coincidência de ambos. que cada um de nós, por instinto e, portanto, axiomaticamente,
Se estas são as vantagens práticas da visão, devemos tam- gosta de ver num chefe ou patrão. Satisfeita esta exigência, fi-
bém delinear os seus limites. Sem dúvida, ela abriu a nossa carão todos mais facilmente persuadidos. Parece que existem
mente a horizontes mais vastos. Mas tudo permanece em rela- alguns axiomas fundamentais do ser, não demonstrados nem
ção com o nosso atual grau de evolução, que, se permitiu uma discutidos, em relação aos quais se ergue um consenso univer-
superação dos limites do passado, por sua vez nos coloca ou- sal, axiomas que são aceitos porque neles a mente repousa sa-
tros, para além dos quais, em nosso estado atual, a visão não tisfeita, sem mesmo saber racionalmente o porquê.
dá resposta. Assim, não podemos saber o que poderá ter ocor- A nossa mente, para satisfazer-se, exige, pois, que Deus se-
rido ou o que poderá ocorrer além da criação dos puros espíri- ja perfeito, quer dizer, possua em grau de perfeição as melho-
tos. Sabemos apenas que não se pode negar a possibilidade de res qualidades conhecidas pelo homem na escala de seus valo-
Deus transformar-se mesmo segundo outros sistemas e tipos de res. Por isso o homem, procurando fazer um conceito de Deus,
criação. E ainda mais difícil seria responder a quesitos mais multiplica ao infinito tudo o que de melhor possui e pode fa-
afastados, como por exemplo: Por que Deus existe? Por que zer, de seu ponto de vista situado no relativo. E, neste caso, o
Deus é trino? Por que quis assumir três formas, e não duas ou instinto não vai contra a lógica. Sem saber como isso ocorre, o
quatro? Podemos apenas saber que é assim, porque é assim.
homem sente instintivamente que Deus está no cimo de todas
Chegando às causas, queremos saber as causas das causas, mas
as coisas e é a meta final para a qual tudo caminha. Assim,
temos de deter-nos num ponto em que devemos aceitar os fatos
axiomaticamente, como são, sem precedentes casuais. De tudo multiplicando ao infinito os pequenos graus de perfeição con-
isso, a visão não nos diz as razões. Achamo-nos assim, tam- quistados com a evolução, o homem procura imaginar o que
bém aqui, diante de limites que não podemos ultrapassar. A vi- possa ser a perfeição completa do Ser Supremo.
são explica como foi feita a obra de Deus, mas não quais os Então, tal como exige a nossa mente, Deus deve possuir to-
desígnios de Deus. Neste terreno não explorável, não podemos das as qualidades no grau de perfeição absoluta, sendo absolu-
aventurar-nos, pelo menos hoje, no atual grau de nossa evolu- tamente perfeito em tudo, onipotente, onisciente, absolutamente
ção. Na análise e crítica da teoria, não poderemos colocar estas livre, bom, justo, lógico, uno.
indagações porque, uma vez que dizem respeito a um terreno Estas qualidades atribuídas a Deus devem ser também atri-
situado além do limite de nossa compreensão, a visão não dá a butos da Sua criação, pois esta saiu de Seu seio, sendo consti-
elas, logicamente, nenhuma resposta. tuída, portanto, pela Sua própria substância. Isto porque não é
18 O SISTEMA Pietro Ubaldi
possível dar à criação outra causa fora de Deus, que só pode ser Tendo assim feito da Divindade o máximo conceito possível
o Todo, fora do que nada pode existir. para nós, seres situados no relativo, vejamos agora como Ela
Vemos, então, que a criação de Deus só pode ser uma operou na criação. Neste Sua ação devem reaparecer as Suas
obra perfeita. Das mãos de um Deus perfeito não pode sair qualidades, pois Deus agiu de acordo com elas, que constituíam
uma obra imperfeita, cheia de erros, males e dores, como é a a Sua própria natureza. Dessa forma, podemos imaginar como
nossa atual criação. A verdadeira criação operada por Deus foi executada a criação, ou seja, aplicando-lhe as características
deve, pois, ter sido outra, e não a que conhecemos. Esta em próprias de Deus.
que vivemos deve ter sido derivada de outra causa, sobrevin- Eis então como, mediante simples imagens, podemos fazer
da mais tarde. Não é possível sair desta lógica. Tanto mais uma representação mental de como ocorreu a criação.
porque Deus, sendo onipotente, não poderia encontrar obstá- Em ilimitada planície deserta, onde nada havia, nem
culos à consecução da perfeição e, sendo também onisciente, uma casa, nem um fio de erva, nem ser algum, uma planície
não podia cometer erros. tão igual, que seria impossível ali estabelecer qualquer pon-
De uma tal criação só podiam nascer seres absolutamente li- to de referência ou de distância, havia, nesse espaço inco-
vres. Ora, se a perfeição implica na existência de seres de forma mensurável, um bloco imenso, sendo ele a única coisa que
disciplinada, seguindo uma ordem e uma lei que estabeleça tal podia existir.
ordem, isto não podia de forma alguma acontecer num sistema Só ele existia ali. Nada mais havia além dele, que era tudo o
escravagista, mas apenas num regime de absoluta liberdade. que podia existir ali. Dizemos “só”, porque vivemos em relação
Mas Deus deve ser, também, sumamente bom. Então a cri- com outros seres, mas ele não estava só, pois compreendia den-
ação não pode ser fruto de seu egoísmo, mas apenas um ato de tro de si todos os seres. Uma parte pode permanecer isolada se
amor pela Sua criatura. E Deus não pode deixar de continuar a lhe falta qualquer outra parte, mas isto não é possível para o
amá-la sempre, procurando a sua felicidade. Ora, vemos quão que abarca tudo dentro de si, porque, dessa forma, faltam-lhe,
longe estamos disso em nosso mundo. Então, se isto ocorre do lado de fora, pontos de referência para poder estabelecer o
porque Ele não tem meios de no-la dar, Deus não é onipotente, próprio isolamento em relação a eles.
e se Ele os tem e não no-la quer dar, Ele não é bom. Mas, se Assim sendo, ele não podia olhar para fora de si, pois fora
Ele é onipotente e bom, porque não no-la dá? Por ser bom, de si nada mais havia. Olhava então para dentro de si. Sendo
Deus representa o bem. Por que permite Ele, então, a existên- este bloco uma unidade feita não de matéria, mas de pensa-
cia de tanto mal em nosso mundo? mento, esta sua autocontemplação representava a consciência
Aqui não estão de acordo causa e efeito. Ambas devem ser que possuía de sua existência, consistindo num pensamento
da mesma natureza e ter os mesmos caracteres. Se entre causa e único, sintético, homogêneo, indiferenciado, imóvel, concen-
efeito há essa discordância, isto demonstra ter sobrevindo outro trado em si mesmo.
fato, alterando a ação da causa pela introdução de novos impul- Mas eis que, em dado momento, nesse estado de autocons-
sos estranhos. De outra forma, não se pode explicar a injustiça ciência imóvel, inicia-se um movimento de descentralização,
num Deus que deve ser absolutamente justo, nem a ausência de pelo qual esse pensamento se torna multíplice, analítico, dife-
lógica num Deus que deve ser absolutamente lógico. renciado, móvel, resultado de muitos pensamentos diferentes.
Deus deve ser justo, isto é, imparcial, sem favoritismos Esses pensamentos diversos são as criaturas nascidas da primei-
nem dádivas não razoáveis ou injustas, porque não mereci- ra criação, feitas de puros espíritos.
das. Surge, assim, o conceito de uma ordem e de uma lei que Isto não significa, porém, que a unidade de pensamento
a dirija. Decorre daí a ideia de um chefe com o direito de original tenha sido perdida. Ao contrário, a necessidade dessa
comandar e ao qual se tenha o dever de obedecer, não poden- unidade permanecer íntegra – sem o que, teria desaparecido o
do ser ele um déspota caprichoso, que abuse do poder em su- supremo “eu” da Divindade – impôs também a necessidade
as mãos. Compete, em primeiro lugar, a quem personifica a dessa multiplicação ocorrer em sentido orgânico. Em outros
Lei, representar a sua perfeita atuação na ordem e na disci- termos, nesta primeira criação não podia nascer uma multidão
plina. Só quem jamais transgride pode ter o direito de exigir de elementos iguais, simplesmente somados no todo, mas so-
a obediência. E, se esta Lei representa apenas o próprio pen- mente um sistema, um verdadeiro organismo, onde todos fos-
samento e vontade de Deus, com isto Ele obedece apenas a Si sem parte integrante, com hierarquia de posições e distribuição
mesmo em perfeita liberdade. E, se a criatura tem de reco- de funções, como é necessário em todo organismo ou sistema.
nhecer em Deus o direito de comando, isto implica, de seu Satisfaz à nossa mente e nos convém pensar que o processo
lado, o dever de obediência, cujo não cumprimento por causa dessa criação tenha sido regido por uma concatenação lógica,
da revolta implica a merecida reação da justiça de Deus. As- sendo esta uma das qualidades da Divindade. Eis que, necessa-
sim, com apenas uma simples observação das qualidades que riamente, em virtude dessa lógica, aparece imediatamente a
devemos atribuir à Divindade, já vemos presentes todos os ideia de sistema, ou seja, de uma criação que não produziu
elementos que possibilitarão, mais tarde, desenvolver-se ló- apenas uma simples multiplicidade, mas sim um verdadeiro
gica e fatalmente o drama da queda. organismo. Daí nasce a necessidade de se admitir a presença
Mas Deus deve ser também uno. Assim, além de ser único, de uma ordem e, portanto, de uma lei que discipline os movi-
possuindo tudo dentro de si, deve também ser unitário, e não mentos de todos os elementos constitutivos do Sistema, lei que
cindido em formas contrastantes. Se, em Deus, não pode haver representa a continuação da autoconsciência da Divindade,
aquele contraste entre qualidades opostas, existente em nosso que, como pensamento central, situado no topo da hierarquia, a
mundo, então este contraste deve ter outra origem, sobrevinda dirige e, dessa forma, dirige todo o Sistema.
mais tarde. Deus só pode ser todo positivo, afirmação. O aspec- Só assim o Tudo-Uno-Deus podia, apesar de tão grande
to negativo do ser não pode ter sido originado diretamente de transformação, permanecer idêntico a si mesmo. Se Deus era
Deus. Ora, se uma das qualidades fundamentais de nosso mun- tudo, é lógico que a criação não podia ocorrer fora de Deus,
do é justamente o dualismo e se este não pode de maneira ne- mas só dentro Dele. Mas era necessário, também, que isso tudo
nhuma existir em Deus nem na criação, que saiu do Seu seio, não alterasse de modo algum a unidade de Deus. Podemos ima-
então este dualismo só pode ser o resultado de uma ruptura, ginar o estado antes da criação como um incêndio de luz e calor
ocorrida posteriormente, na obra de Deus. igual em todos os seus pontos, e o estado após a criação como o
◘ ◘ ◘ mesmo incêndio dividido organicamente em muitas centelhas.
Pietro Ubaldi O SISTEMA 19
Cada criatura é uma centelha da mesma substância do fogo de VII. A REVOLTA
origem, e todas juntas continuam a constituir elementos de um
todo que, após as transformações, permanece idêntico a si Inicialmente, procuramos entender quais eram os atributos
mesmo, tal como era antes. de Deus e, depois, como operou a criação e no que ela consis-
Eis então que, realizada a criação, Deus se nos apresenta tiu. Procuremos agora compreender como e porque ocorreu a
como uma unidade orgânica constituída por muitos elementos revolta. Começamos aqui com as dúvidas, as dificuldades, as
diferentes, mas mantidos ligados pelo estado orgânico em que críticas. Aqui principia a revolta contra a teoria da revolta.
se transformou o Todo, assim como todas as células de nosso Resumamos. Os conceitos desenvolvem-se presos numa
organismo físico também são mantidas ligadas por seu estado concatenação estritamente lógica. Deus deve ser tudo. Se algo
orgânico, sem o qual elas, consideradas como seres separados, existir além Dele, que não esteja em função Dele ou não de-
não podem viver. Daí a absoluta necessidade dessa concórdia e penda Dele, então Deus não é mais Deus. Esse algo poderia ser
dessa unidade que rege o Sistema, condições sem as quais tudo Seu inimigo, e isto destruiria a Sua onipotência. Nasceria daí
desmorona. Dessa forma, é fácil compreender o que pode ser um dualismo que destruiria a Sua unidade.
ocasionado pela mínima desordem. O fato de cada elemento Se, pois, nada pode existir fora de Deus, Ele teve de criar
possuir agora a sua individualidade separada, constituída por dentro de Si mesmo. Isto significa que a criação é derivada da
seu egocentrismo menor, à semelhança daquele egocentrismo própria substância de Deus. Nós podemos criar coisas novas
tomando uma substância fora de nós, porque somos uma parte
máximo de Deus, torna possível ocorrer uma desordem tão lo-
no todo. Mas se fôssemos tudo, teríamos de retirar a substância
go falhe a obediência à disciplina imposta pela Lei. Por isso há
de dentro de nós mesmos.
necessidade absoluta de todos os elementos permanecerem li-
Não podemos admitir que esta substância divina seja de na-
gados, conjuntamente, no mesmo estado orgânico do Sistema,
tureza material, mas somente espiritual. Ora, a não ser que admi-
sem o que desmorona a unidade do bloco em que o Tudo-Uno-
tíssemos ser Deus de natureza material, o que não poderíamos
Deus permanece tal como era antes.
compreender, não saberíamos como o nosso universo, constituí-
Podemos imaginar o estado de origem como uma estátua de do em grande parte de matéria, possa ter sido o resultado direto
mármore igual em todos os seus pontos. Um dia esse mármore desta primeira criação – a espiritual. Assim, uma parte de nosso
se transforma em uma porção de células vivas, hierarquicamen- universo, o espírito, pode representar uma derivação direta da
te disciplinadas, governadas por uma lei à qual é desastroso de- substância divina, mas não, de certo, a outra, que é matéria. En-
sobedecer. Elas se reagrupam em tecidos e órgãos que desem- tre Deus e a matéria há um abismo. Como preenchê-lo? Dá-se
penham funções determinadas, das quais depende a vida do or- aqui uma mudança de natureza, só explicável com a intervenção
ganismo bem como as suas. de um fato novo, ocorrido depois, e tão grave, que chegou a mu-
Assim ocorreu e nisso consistiu a criação. Só nesta segunda dar as características espirituais da criação original, a primeira,
parte, de análise e de crítica, podíamos observá-la mais deta- resultando numa segunda criação, que tem qualidades opostas.
lhadamente. E, para nos tornarmos mais compreensíveis, tive- Espírito e matéria, com efeito, sempre foram contrapostos um ao
mos de nos apoiar em representações concretas. Trata-se de outro, como dois extremos irreconciliáveis. E eis aqui despon-
imagens torcidas e opacas, porém são só estas que o nosso tando novamente, como acima notamos, a necessidade lógica de
mundo nos pode oferecer. um fato novo, sem o qual não poderemos jamais justificar, dian-
Temos de admitir essa criação, porque representa o terceiro te de Deus, a constituição de nosso universo, se o considerarmos
momento da Trindade, que, sem isto, permaneceria incomple- um produto da primeira criação espiritual. De fato, como pode-
ta. Trindade composta, como vimos, de três pessoas ou mo- ria um universo cindido em tal dualismo ser a emanação direta
mentos, ou seja: Espírito (a concepção), Pai (o Verbo ou ação) de Deus, cuja primeira qualidade é justamente – e não pode dei-
e Filho (o ser criado) 1. Isto quer dizer que a Divindade, uma xar de ser – a oposta, ou seja, a unidade?
vez esgotado o processo da criação, passou a constituir-se no Eis que a lógica impõe esse fato novo. Qual teria sido ele?
estado de Filho, ou unidade coletiva, ou sistema orgânico, em Não pode ter sido o acaso, excluído pela perfeição do Criador e
que permaneciam íntegros os dois estados precedentes. Perma- de Sua obra. Não pode ter sido o capricho de Deus, outro ab-
necia o Espírito ou concepção, porque subsistiu na obra o pla- surdo inaceitável. O fato novo devia representar a continuação
no geral e a lei que lhe disciplinava o funcionamento. Perma- da concatenação lógica, sempre respeitada até agora. A teoria
necia o Pai ou a ação, porque aquela lei não era apenas norma, da revolta e da queda representa a continuação desta lógica. O
mas também vontade de realização e poder de atuação. E, no problema é compreender todos os elementos que constituem o
estado orgânico do Sistema, a multiplicidade dos elementos fenômeno. É o que procuraremos fazer agora, nesta segunda
fundidos na ordem da Lei, constituía uma unidade coletiva em parte, da análise e crítica.
que Deus permanecia o Tudo-Uno-Deus. Comecemos estabelecendo o valor desses elementos. Essa
Era necessário esclarecer até o fundo, agora que podemos teoria da revolta e da queda, muitas vezes, torna-se inaceitável
analisar o fenômeno, estes conceitos, que representam o seu porque não se conhecem esses elementos, o que gera uma
ponto de partida, porque, se não os tivermos compreendido, confusão acerca do estado real das coisas. O problema, pois,
tampouco poderemos compreender depois o fenômeno da re- para responder a todas as objeções, consiste em explicar e es-
volta e da queda, nem os fatores já presentes que o possibilita- clarecer todos os pontos de vista, as causas e o desenvolvi-
mento do fenômeno. Mais tarde voltaremos à argumentação e,
ram, nem o modo como o processo, dadas as suas premissas, se
então, responderemos mais extensamente a cada uma das difi-
desenvolveu com lógica férrea.
culdades que nos foram lançadas por outros ou por nós mes-
1
mos procuradas. Os temas das objeções giram em torno da
O capítulo primeiro do Evangelho de São João confirma em cheio es- perfeição de Deus e de Sua obra, que seriam motivo bastante
sa teoria: “No princípio era o Verbo (O Pai, o Logos criador), e o Ver- para tornar impossível o desmoronamento do Sistema, e da
bo estava em Deus (o espírito, o pensamento), e o Verbo era Deus
(porque ambos eram um só). E o Verbo (Pai) se fez carne (exteriori-
onisciência de Deus, mediante o que Ele podia ter impedido a
zou-se, ou seja, tornou-se Filho) e habitou entre nós cheio de graça e ruína a qualquer momento. Surge, então, o problema da liber-
verdade, e vimos sua glória como no unigênito (Filho) gerado do Pai dade do ser, de sua desobediência e a questão de seu conhe-
(do Verbo que o produziu)”. João, 1:1 e 14; Mateus, 12:31-32; Mar- cimento, acrescentando-se que, sendo esta criatura perfeita,
cos, 3:28-29 e Lucas, 12:8-10. (N. do T.) porque constituída de substância divina, ela não podia errar,
20 O SISTEMA Pietro Ubaldi
mesmo porque, conhecendo o futuro, devia conhecer as con- todas as vezes que se aventurassem nesse espaço desconheci-
sequências do seu erro. Esta segunda parte é dedicada à solu- do, fora do campo que lhes fora preestabelecido; todas as ve-
ção destes problemas e de outros semelhantes. zes que procurassem ultrapassar os limites impostos pela obe-
Comecemos, pois, observando as características do Sistema, diência à ordem da Lei; todas as vezes que quisessem exagerar
a fim de descobrir os precedentes que podiam constituir o terre- o próprio egocentrismo, indo além dos limites de suas funções
no sobre o qual teria podido desenrolar-se a revolta. Da primeira e de seu conhecimento relativo.
criação espiritual nasceram muitos elementos distintos. Assim, Dada a estrutura orgânica do Sistema, não podia ser conce-
no seio do Sistema, eles adquiriram individuação própria, de ti- dido a cada elemento componente o conhecimento absoluto,
po egocêntrico, à semelhança do próprio modelo, Deus. A subs- que só podia caber a Deus. O mesmo ocorre em nosso organis-
tância espiritual que os constituía não foi criada, pois constituía mo, onde cada célula sabe e executa o seu trabalho e não pode
a substância incriada de Deus. O que foi criado, como coisa no- entrar no campo de trabalho e de conhecimento das outras célu-
va, que antes não existia, foi a disposição diferente dessa subs- las, de outra natureza, adaptadas a funções diferentes. Cada
tância, ou seja, as suas individuações particulares, as criaturas uma, em perfeita obediência, permanece no seu posto diante do
como seres distintos. A este fato devemos, assim como todos os “eu” central, que dirige todo o organismo. Em cada sistema or-
seres criados, a capacidade de dizer “eu” e, como tal, existir. gânico há necessidade absoluta de todos trabalharem de comum
Ora, vimos que, se essa tão grande pulverização do todo acordo. Todos os elementos sabiam disso, conheciam o dever e
podia ameaçar a sua unidade, o perigo do processo divisionista a utilidade imediata da obediência. Mas sabiam também que,
foi superado com o equilíbrio dado pelo processo oposto, onde acima de cada um, acima de si na hierarquia, havia alguém que
todos os elementos do sistema foram imediatamente enquadra- sabia mais, até chegar a Deus, que sabia tudo. E o egocentrismo
dos numa ordem e disciplinados por uma lei, em virtude do em que se baseava a sua individualidade é, por natureza sua,
que a primeira criação resultou num sistema orgânico. Deus expansionista e, depois, centralizador. Cada um teria podido
tornou-se centro do Sistema e permaneceu situado no topo da permanecer no posto a si designado, em sua perfeição e conhe-
hierarquia. Esse lugar lhe cabia de pleno direito. As criaturas, cimento relativos e limitados, mas completos em relação à po-
que lhe deviam a vida, não podiam existir senão em função sição ocupada e ao trabalho a executar. As posições mais altas
Dele, devendo-lhe perfeita obediência. Estas eram, logicamen- eram mais ricas de poder, mas também de deveres, e todas
te, as bases em que devia apoiar-se a vida de todo o Sistema, igualmente dignas e honrosas. Só assim, com todos coordena-
assim como a de cada elemento componente. Estas eram as dos, pode existir um belo edifício, onde os menores tiram pro-
condições indispensáveis para que a criação não se desfizesse veito do poder e sabedoria dos maiores.
em desordem, despedaçando-se no caos. A hierarquia não constituía uma injustiça. Representava ape-
Impunha-se então dois imperativos categóricos: primeiro, a nas uma distribuição de funções e de trabalho. Com relação à
presença de uma lei emanada de Deus, reguladora da ordem; e própria posição, todos eram igualmente perfeitos, sábios e pode-
segundo, a absoluta obediência a essa lei por parte da criatura. rosos. Obedecendo a essa ordem, todos aproveitavam essa dis-
Estas são as regras fundamentais indispensáveis para dirigir tribuição de trabalho, ajudando-se reciprocamente. Tudo podia
qualquer unidade coletiva constituída em forma orgânica, seja assim funcionar com perfeição, se fossem respeitadas as regras
molecular ou astronômica, seja fisiológica ou social. Encontra- estabelecidas. Podemos constatar quanto sejam verdadeiros estes
mo-nos, assim, diante do imperativo lógico de uma obediência princípios, porque ecoam em nosso mundo, onde tudo caminha-
absoluta. A necessidade da colaboração numa ordem perfeita ria na perfeição se fossem aplicados. Mas a verdade é que há ne-
era tanto maior, porquanto o Sistema era perfeito e devia funci- cessidade absoluta de respeitar a ordem estabelecida, pois ela é
onar na perfeição. Que desastre, pois, resultaria à mínima deso- indispensável ao funcionamento de qualquer coletividade orga-
bediência e desordem! nizada. Por isso havia uma lei no Sistema e, como primeira con-
Mas seria possível uma desobediência? Começam aqui as dição, o dever de obedecer-lhe com perfeita disciplina.
objeções. Num sistema perfeito, composto de elementos perfei- Mas, se existiam de um lado elementos que impeliam à
tos, não é concebível uma possibilidade de erro. O grau de per- manutenção da ordem, de outro lado havia elementos que im-
feição que a ordem possui, devia torná-lo invulnerável, pois es- pulsionavam em direção contrária. Se havia de um lado, para o
tava isento de qualquer defeito. Como tal, o Sistema devia per- ser, uma zona de conhecimento completo com relação à pró-
manecer inviolável, acima de qualquer risco. pria posição na hierarquia e à função a executar, além dessa
Mas observemos com maior atenção. Sobre as criaturas pe- zona havia também, para cada um, uma zona que, em relação a
sava o perigo de uma desobediência, pois elas, embora perfeitas, eles, era de ignorância, onde a criatura, por incompetência e
porque constituídas de substância divina, possuíam uma perfei- falta de conhecimento, não podia penetrar, sendo aí possível o
ção relativa. Eram perfeitas em relação à sua posição na hierar- erro. A obediência do ser fazia parte da disciplina compreendi-
quia e à função que deviam executar no organismo. Em si mes- da na ordem do Sistema, na qual estava construído todo o or-
mas, em relação às suas posições, eram totalmente perfeitas, ganismo do Tudo-Uno-Deus. O ser possuía a sua zona de do-
mas não o eram diante da perfeição de Deus, a única absoluta. mínio próprio. O limite além do qual não podia passar estava
Esta é a consequência lógica da estrutura hierárquica do Siste- assinalado. Além dele estava a zona tabu, proibida, que devia
ma, que dava lugar a uma subordinação de posições no todo, ser respeitada por obediência. Isso tudo não constituía uma
tanto na função a executar, como na perfeição e no conhecimen- imposição caprichosa ou irracional do Chefe, mas era uma
to. Com relação à sua posição e função a executar, as criaturas consequência lógica e necessária da estrutura do Sistema; não
possuíam em grau perfeito as qualidades necessárias e o comple- significava uma prisão ou escravidão do ser, que permaneceu
to conhecimento. Mas não possuíam as qualidades do Ser Su- livre a ponto de até lhe ser possível desobedecer, mas era ape-
premo e, diante de Deus, não sabiam tudo. Daí a necessidade da nas uma medida de defesa para vantagem do próprio ser.
aceitação de algumas partes da Lei apenas por obediência, nos Entretanto permanecia sempre diante dos olhos das criaturas
pontos que seu conhecimento não atingia, como acontece com essa zona inexplorada, onde elas não deveriam entrar, e esta re-
as células dos tecidos musculares, que obedecem às células ner- gião, cujo conteúdo ignoravam e cujo domínio lhes escapava,
vosas, embora todas juntas obedeçam ao “eu” central do ser. podia representar uma zona de domínio ainda maior e uma van-
Era nessa relatividade da perfeição como conhecimento – tagem a conquistar. Esse impulso de autocrescimento, que impe-
consequência direta da estrutura hierárquica do sistema – que lia a explorar o desconhecido, para ampliar o próprio domínio,
se aninhava a possibilidade de erro. As criaturas podiam errar derivava da própria natureza do ser, criado à imagem e seme-
Pietro Ubaldi O SISTEMA 21
lhança de Deus, como individuação egocêntrica e, portanto, ten- a Divindade quisera como que despedaçar-se em tantos infi-
dente ao expansionismo. Esse era o impulso fundamental do ser. nitos fragmentos, aos quais, por um ato de altruísmo, comu-
Entre esses impulsos contrários, a criatura estava perfeita- nicava a sua existência, seu próprio existir. Amor infinito.
mente livre, cabendo-lhe apenas a escolha. Tendo-a criado de Nascidos do Amor e do sacrifício, primeiros elementos da
sua própria substância, Deus lhe havia transmitido as mesmas criação e, por isso, também primeiros elementos da redenção
qualidades que lhe eram próprias, e em primeiro lugar a liber- (Cristo), que reconstrói o que estava destruído, esses infinitos
dade. Essa também foi uma condição lógica e necessária na seres em que a Divindade se havia pulverizado tinham o de-
construção do Sistema. Sua estrutura baseava-se na ordem e na ver sagrado de obedecer, como dívida de gratidão.
disciplina, mas numa disciplina espontânea de seres livres e Mas, se, num primeiro momento, o Tudo-Uno-Deus se ha-
convictos, e não forçada de autômatos escravos e inconscientes. via como que dividido em tantos elementos, num segundo
Sendo livre a criatura, a obediência devia ser o resultado de tempo, para não se dispersar, retomou-os em unidade, recons-
uma escolha livre, que concluísse numa adesão espontânea à tituindo-se em forma orgânica, na ordem de um sistema do
ordem da Lei, expressão da vontade de Deus. Sendo livre o ser, qual aqueles elementos constituíam o que, em nosso organis-
ele só devia obedecer espontaneamente, mas também podia não mo, são as células. Feito isto, era necessário que eles se man-
obedecer. Ninguém o podia impedir. Permanecia tudo em poder tivessem aderentes à ordem estabelecida, em perfeita obediên-
da livre aceitação da criatura. cia à Lei. Da criação nascera uma máquina perfeita. Mas tudo
Tratava-se de uma verdadeira prova de verificação, e só po- precisava ficar em seu lugar.
deriam vir a participar definitivamente do Sistema os seres que Tudo isso pode justificar e agravar a culpabilidade, mas
a tivessem superado. Os elementos que não tivessem sabido su- não suprime a possibilidade da desordem, não elimina os im-
perar o exame, deveriam aprender a lição de forma mais dura e pulsos que as tentações constituíam, instigando-os ao abuso.
forçada, para atingir o estado perfeito em que tinham sido cria- Sem dúvida, além do limite imposto pela Lei, havia um co-
dos e onde poderiam ter permanecido, se tivessem obedecido. nhecimento e um poder maior. A criatura não os possuía. Por
Tratava-se como de um segundo curso, mais lento e cansativo, que não conquistar também tudo isso? Não eram livres os se-
para os mais duros e rebeldes, a fim de os trazer ao porto de res? Por que não experimentar? O eu, de acordo com sua na-
salvação. Condições necessárias, dados os elementos em jogo, tureza, fazia pressão internamente, na direção expansionista.
como vimos. De outra forma, como poderia a bondade de Deus Eis a tentação, o impulso que podia traí-los: uma exageração
obrigar todos se salvarem, sem violar a liberdade individual? do eu. Isto foi chamado de orgulho. Era a natureza do seu
Este segundo curso, ou queda, não foi, portanto, um erro, por “eu” que os havia de trair.
defeito, mas uma possibilidade prevista, deixando à liberdade Mas os seres não sabiam o que havia além do limite. Aqui
da criatura o pleno direito de escolha. Esse respeito à liberdade residia o perigo. E era justamente esse desconhecido que mais
da criatura Deus o tem porque a vê em Sua própria natureza, e a os tentava. Ele estava além de seu conhecimento. Podia ser
tão alto grau foi elevada essa liberdade, que até mesmo no re- também uma grande conquista, e por que perdê-la? É verdade
belde que quisesse permanecer para sempre rebelde Deus a res- ter Deus, com Sua lei, traçado o caminho da obediência. Mas
peita, só por último destruindo-lhe a individualidade, com a Deus o poderia ter feito de forma a impedir-lhes esta conquis-
perda da substância que o constitui. Somente voltando a subs- ta, reservando-a só para Si. O homem continua hoje também a
tância a Deus, é possível a eliminação definitiva do eterno re- fazer raciocínios semelhantes, e ninguém se pergunta de qual
belde, sem violar o princípio de liberdade. modelo tenha nascido essa sua forma mental. Assim, sem sa-
◘ ◘ ◘ ber o que havia além daquele limite, os seres fizeram uma su-
Estamos no momento decisivo. Vimos os impulsos que es- posição que não foi verdadeira e foram punidos pela desilusão
tavam em ação. O ser estava no meio, a fim de realizar sua livre e pela ruína que se lhes seguiu. Dessa forma, colocaram-se fo-
escolha. Qual das duas forças contrárias teria vencido, tomando ra da ordem, fora do Sistema, de onde se acharam automati-
a supremacia? O conflito está no seu auge, e o ser envolve-se camente expulsos. Então não foi o Sistema que desmoronou,
num turbilhão. pois, como obra perfeita de Deus, não podia arruinar-se, mas
Os seres foram criados do tipo “eu sou”, menores mas do foram eles que se precipitaram no Anti-Sistema, no qual tudo
mesmo modelo de Deus. No centro de cada um domina o ego- se emborcou. Assim caíram os elementos rebeldes, mas não a
centrismo. No espírito de disciplina, na consciência da Lei, na obra de Deus, que permaneceu inviolável. Não será este o
obediência a Deus, o ser devia achar a força para resistir ao im- significado profundo, oculto na simbólica narração bíblica de
pulso expansionista do próprio eu. Na livre aceitação do limite, Adão e Eva, tentados pela serpente, que já era anjo rebelde e
o ser devia achar o freio que o mantivesse em seu lugar. Ele decaído, a comer o fruto proibido e, depois, expulsos do para-
devia reconhecer, espontaneamente, que era menor diante do íso terrestre por sua desobediência?
Chefe e colocar-se na sua devida posição na escala hierárquica, Os seres rebeldes enganaram-se quanto ao resultado de sua
subordinando-se como menor ao maior, pois isto é indispensá- revolta, mas sabiam que era uma revolta contra a ordem. Seu
vel em uma coletividade orgânica. Eles conheciam esse seu de- erro e culpa foi de querer substituir a ordem chefiada por
ver, viam que a disciplina era necessária para o bom funciona- Deus por outra ordem, chefiada, ao invés, pela criatura. O
mento do todo, conheciam a Lei, que ordenava obediência, e movimento assume exatamente a forma de inversão. Explica-
sabiam que a Lei exprimia o pensamento e a vontade de Deus. se dessa maneira a emborcação de todos os valores que ocor-
Mas havia mais. Os seres sabiam que esse mesmo “eu” reu no Anti-Sistema. Trata-se, portanto, de erro culposo, co-
que ansiava expandir-se como existência individual autôno- metido através do abuso da liberdade concedida por Deus. A
ma era um dom de Deus. Esse dom de existir como “eu” dis- reação que se seguiu não foi apenas o último elo de uma con-
tinto independente lhes fora dado gratuitamente por Deus, catenação lógica, de um exato desenvolvimento de forças,
por um ato de Amor. Antes da criação existiam como subs- como efeito proporcionado à causa, mas também um fato me-
tância, mas desta ainda não havia nascido a sua individuali- recido, segundo a justiça de Deus. A culpa dos seres desobe-
dade, que agora os constituía, tornando-as criaturas existentes dientes foi querer possuir uma utilidade ainda maior do que a
como tais. Para gerá-los, Deus os havia tirado de um estado derivada de se manter disciplinados na ordem. Por isso foram
em que eles, como indivíduos, não existiam, constituindo-os lançados fora. Como vemos, tratou-se de verdadeira expulsão
com a própria substância. Para poder fazer isto, fora necessá- do paraíso. O Anti-Sistema foi o produto de uma expulsão do
rio subdividir-se em tantos “eus” menores, por ato de Amor; Sistema e, por isso, continua desenvolvendo-se até agora a
22 O SISTEMA Pietro Ubaldi
concatenação lógica, acompanhando até ao fim o processo da pensamento, um Deus Lei, que dirige de dentro todos os fenô-
queda e do reerguimento, até que tudo seja recuperado e resti- menos. Então, para não contradizer a Si mesmo, o próprio
tuído ao estado de perfeição originária. Deus não podia sair da inevitável concatenação lógica repre-
Pela Divindade, onisciente e previdente, o Sistema era mu- sentada pelo desenvolvimento das forças depositadas no Sis-
nido de impulsos inibitórios ou freios contra o erro. Mas, para tema e romper os liames que fatalmente prendem e fazem o
não atentar contra a liberdade do ser, tudo isso foi deixado em efeito proporcional à causa.
seu poder, à sua livre escolha. Conforme o resultado alcançado Cada elemento ocupava no Sistema o seu devido lugar
em perfeita liberdade, ficaria decidido, após um exame, quem quanto a conhecimento e poder. A onisciência e a onipotência
poderia ou não continuar pertencendo ao Sistema. Também isso só podiam pertencer ao Chefe, elemento máximo e centro do
era lógico. Era necessário ter aceitado livremente uma ordem, à Sistema. Cada ser havia recebido todo o necessário, de acordo
qual ninguém poderia obedecer à força. Com a sua obediência, com a sua posição e função. Além do mais, se não quisermos
o ser devia dar provas de que aderira plenamente e queria em- cair no absurdo, temos de admitir Deus como justo. Ora, são fa-
penhar-se na manutenção da ordem. De outra forma, o Sistema tos concretos e inegáveis, conhecidos por todos, tanto a presen-
teria sido um amontoado de escravos, com a revolta ocultada ça do mal e da dor em nosso mundo como o imenso custo para
em seu íntimo. A aceitação, demonstrada com a obediência, era emergir deles com a evolução. Se Deus é justo, tudo isso deve
a resposta lógica e necessária por parte do ser, expressando ser merecido. Termos sido criados, sem permissão nossa, para
também o seu pensamento, resposta que Deus tinha o direito de sermos condenados a achar a felicidade através de um caminho
exigir de um ser livre para aceitar ou não a oferta. tão duro, sem haver merecido essa condenação, não é obra de
Ora, a resposta não foi igual para todos os seres. Uma parte justiça que possa ser atribuída a Deus.
ficou do lado da ordem, no Sistema, e outra parte lançou-se à Com a criação, estabeleceu-se um pacto entre Deus e a cri-
desordem e, com isto, para fora do Sistema, rompendo as filas atura, um contrato de consentimento bilateral. Antes da cria-
da disciplina. Esta parte, acreditando conquistar sabedoria e ção, aquela criatura não era criatura, mas apenas substância
poderes ao ultrapassar os limites da Lei, acabou achando-se não individuada como ser. Deus lhe deu uma existência indivi-
perdida fora da Lei. Os que permaneceram na ordem escolhe- dual própria. A lógica do organismo originado pela criação
ram o impulso centrípeto, unitário, dirigido para Deus; os que impunha que, no seio deste organismo, a criatura se coorde-
se lançaram à desordem escolheram o impulso contrário, cen- nasse com todos os elementos componentes, condição sem a
trífugo, tendo como centro o seu egocentrismo, para expansão qual o organismo não funcionaria e o Sistema não poderia
deste contra Deus. Então o Sistema se partiu em dois: Sistema existir. Era indispensável cada um permanecer em sua devida
e Anti-Sistema, dando origem ao dualismo. Mas, como vere- posição. Assim como, no Sistema, Deus executava a função
mos agora, ao invés de dizer que o Sistema se dividiu – impli- suprema de direção, todos os elementos componentes também
cando a ideia de um estrago – é mais exato dizer que o Siste- deveriam realizar suas funções nas posições subordinadas. Era
ma, inviolável como era em sua estrutura, permaneceu perfei- lógico e fatal, diante de tudo isso, que fosse expulsa do Siste-
tamente íntegro, sendo o Anti-Sistema apenas o produto da ex- ma a parte que rompera o pacto, porquanto, numa ordem per-
pulsão dos seus elementos rebeldes. feita, não poder subsistir a mínima desordem.
Uma vez iniciado este movimento de afastamento, a de- Isto ocorreu de parte da criatura, e o remédio possível foi
sintegração da parte corrompida, expulsa do Sistema, conti- isolar a parte doente da parte sã, para esta não adoecer e tudo
nuou rápida e automaticamente, à maneira de uma desinte- se arruinar. Permaneceu de pé a parte sã, intacta, e é devido a
gração atômica em cadeia. E tudo, como vimos, precipitou-se este fato que a parte enferma poderá curar-se, reentrando, após
do estado de puro pensamento no estado de energia e, final- a cura, no Sistema. Imagine-se, porém, o que ocorreria se a de-
mente, no de matéria. Nas galáxias, onde a matéria nasce da sordem tivesse, ao invés, partido de Deus. Dir-se-á que isto é
energia, está o mais profundo inferno do ser, que atingiu aí o impossível. No entanto é o que se pretende, quando se diz que
máximo da descida involutiva e começa daí o estafante cami- Deus não deveria ter permitido a queda. Ora, na ordem da Lei,
nho da subida para Deus. dados os princípios em que se baseava, isso teria sido uma re-
◘ ◘ ◘ volução e uma tirania. Então Deus mesmo teria forçado uma
Com estes esclarecimentos, não terminaram as dúvidas e revolução no Sistema, não do tipo periférica e centrífuga (re-
objeções. Oferecendo uma visão mais pormenorizada, respon- volta do povo), mas centrípeta (abuso do tirano), uma revolu-
demos a muitas delas. Para responder a outras, continuemos a ção ainda pior do que a realizada pelas criaturas. Isto porque,
observar. partindo de Deus, teria provocado o desmoronamento não ape-
Objetam que Deus, sendo onipotente, poderia ter impedido nas de uma parte do Sistema, a qual seria possível expelir dele,
a queda e, com isso, todas as dolorosas consequências resul- mas de todo o Sistema. Enquanto, no primeiro caso, tudo é re-
tantes. Em geral, fazemos da onipotência uma ideia de arbí- mediável através de Deus e pelo Sistema, que permanecem ín-
trio, de capricho que pode tudo, mesmo contra a lógica e a or- tegros, no segundo caso a queda teria sido irremediável, por-
dem da Lei. No entanto mesmo nós, quando invocamos a li- que, tendo a rebelião atingido o vértice, teria arrasado o pró-
berdade, procuramos “obedecer” à lei escrita em nossos ins- prio Deus, e tudo teria desmoronado irremediavelmente com
tintos. Em Sua onipotência, Deus não pode ir contra a lógica e Ele, sem outra possibilidade de recuperação.
a ordem da Sua Lei, porque, se assim fizesse, iria contra Si Aí está, pois, o que ocorreu na revolta e na queda. Dessa
mesmo. Então a nós, filhos da revolta, pode parecer que Deus forma, indiretamente respondemos a muitas dificuldades que
não seja onipotente. apareciam contra a teoria da queda. Então, as posições hierár-
Deus não podia impedir a queda sem violar o princípio da quicas se emborcaram, e quem estava mais no alto caiu mais
liberdade. Tinha construído um sistema de ordem, onde cada em baixo, ou seja, quem estava mais próximo de Deus foi pro-
impulso tinha uma função. A perfeição é e só pode ser deter- jetado mais longe, até ao maior de todos os rebeldes, que devia
minística. Sendo perfeito o sistema criado por Deus, ele se nos estar mais próximo de Deus e se tornou o chefe do Anti-
apresenta com as características de fatalidade. Num sistema Sistema. Este último, porquanto entre os maiores, era sempre
perfeito, não se admitem oscilações de incerteza, que derivam menor que Deus e, necessariamente, menor deve ter ficado
do livre arbítrio e da ignorância para escolher. Chegamos, as- também na queda. Isto significa existir entre os dois chefes,
sim, a um conceito de Deus que se avizinha da abstração atin- Deus (do Sistema), e Lúcifer (do Anti-Sistema), uma diferença
gida pela ciência moderna, ou seja, um Deus inteligência e de grau em tudo, significando que o bem é mais forte do que o
Pietro Ubaldi O SISTEMA 23
mal e que, na luta entre os dois, a vitória final só pode ser do Foi como a expulsão de um pus venenoso, mas isso salvou o
primeiro. Assim, o Sistema permaneceu de pé, representando a Sistema. Também isso fora previsto pela sabedoria de Deus. A
possibilidade de recuperação e o ponto de apoio da redenção, revolta foi imediatamente isolada e lançada fora, resultando daí
que, de outra forma, seria uma palavra sem explicação e um es- a impossibilidade de contaminar os elementos que permanece-
forço sem meta. E o Sistema ficou em pé, como o mais forte, ram sadios. Foi importantíssimo esse fato de salvaguardar a in-
como era indispensável para poder reabsorver em seu seio o tegridade do Sistema, pois da permanência desta parte sã de-
Anti-Sistema. Um desmoronamento absoluto, ao invés de par- pendia agora todo o trabalho de dirigir a salvação dos loucos
cial, não teria oferecido nenhuma possibilidade de recuperação. excluídos, que, sozinhos, só podiam perder-se. Por aí se vê com
Pudemos ver, desta maneira, neste capítulo – vencendo to- quanta sabedoria foi tudo previsto.
das as objeções que pudemos encontrar a respeito deste assunto Então que configuração assumiu o Todo depois desse pro-
– que Deus fez tudo otimamente e não teria podido fazer me- cesso de separação? O Sistema permaneceu intacto, um orga-
lhor. Quanto mais observamos, mais devemos convencer-nos nismo perfeito tal como era antes, ou seja, uma esfera em re-
de ser perfeita a obra de Deus. dor do seu centro, Deus. O Anti-Sistema, ao projetar-se fora
Nesta verificação, executada nesta segunda parte de análise do Sistema, permaneceu na periferia daquela esfera, como
e de crítica, ao invés de conseguirmos demolir a teoria da que- uma emanação da mesma, uma segunda esfera em redor da
da, fomos achando dela sempre novas confirmações. primeira. Assim, a esfera da desordem permaneceu por fora
da esfera da ordem. Podemos, desse modo, formar uma ima-
VIII. SISTEMA E ANTI-SISTEMA gem espacial do estado do Todo após sua queda, imagem que,
em outro plano, exprime bastante bem as suas condições de
Nos últimos capítulos, procuramos em primeiro lugar co- existência. Temos, então, duas esferas, tendo ambas o mesmo
nhecer os atributos de Deus, para depois compreender como se centro, Deus, em redor do qual tudo gravita, tanto o Sistema
operou e no que consistiu a criação. A seguir, examinamos as como o Anti-Sistema, não obstante este procure afastar-se. Is-
condições que tornaram possível a revolta e como ela de fato to significa que Deus continua como Chefe a dirigir tudo, não
ocorreu, para afinal ver como tudo isso se desenrolou de acordo só a ordem do Sistema, mas também a desordem do Anti-
com a lógica perfeita do Sistema. Assim, vimos que Deus agiu Sistema. Por isso há salvação para este, de outra forma seria
segundo os seus atributos, a criatura respondeu conforme a sua impossível. Assim, o período involutivo da descida pode in-
liberdade e o Sistema funcionou com as suas qualidades e for- verter-se no período evolutivo da ascensão; o impulso de re-
ças. Observamos como a ação se desenvolveu de forma lógica e construção e de progresso pode subsistir entre as ruínas do
coordenada até à revolta e a queda. desmoronamento; o caminho da evolução encontra a sua meta
Reexaminemos, agora, esta última parte do fenômeno, a fim em Deus, tornando possível estabelecer o seu telefinalismo. A
de compreender melhor como ele se verificou, aprofundando maravilha do atual estado da criação é a desordem ter sido
cada vez mais a análise e a crítica. Em que consistiu a queda? O imediatamente contida pela previdente sabedoria de Deus,
que ocorreu exatamente no Sistema, no momento da revolta? dentro dos limites devidos, e enquadrada em outra ordem
Antes de tudo, a palavra “queda” não exprime um conceito exa- maior, que circunscreve, dirige e saneia a desordem. Por aí se
to do fenômeno, e talvez tivesse sido melhor não a ter aceitado vê quanto são infundadas as objeções que acusam Deus de fal-
das religiões. Nós a usamos nas primeiras fases das nossas pes- ta de conhecimento, por não haver previsto e evitado o des-
quisas, quando nos aproximávamos do conceito, achando-nos moronamento. Ao contrário, vemos aqui como, após este,
em fase de amadurecimento, não tendo sido então possível, permitido pelas razões já vistas, tudo voltou a ser retomado e
ainda, precisar tudo com exatidão. E, para não criar palavras reorganizado sob a invencível direção de Deus.
novas, aceitamos aquelas já em uso. Mas, tendo amadurecido Temos então, ao centro, uma esfera de substância de sinal
até aqui, verificamos que não é mais suficiente a forma mental positivo e, na periferia desta, uma outra esfera de substância
revelada pelas religiões neste campo, pois a argumentação as- que, a partir da revolta, inverteu-se em sinal negativo. Já ex-
sumiu características de uma teologia científica, confrontada plicamos as características do Sistema e do Anti-Sistema,
com a psicologia racional positiva, própria da ciência. quando dissemos que positivo significa felicidade, ordem, in-
Comecemos, então, a precisar que não se trata de queda no teligência, bem, amor etc., e negativo exprime os valores
sentido espacial, mas, como já explicamos, de uma queda de opostos. Dessa forma, podemos imaginar a primeira esfera
dimensões, de um desmoronamento de valores. Entretanto isto feita de luz, paz e harmonia e a segunda feita de trevas, dissí-
ainda não é totalmente exato, porque torna a nos levar ao con- dios e ódios. A primeira representa o paraíso, a segunda o in-
ceito de queda, embora se trate de uma queda no sentido espiri- ferno. Enquanto, nesta, as qualidades paradisíacas crescem
tual e moral. Se houve um desmoronamento nesse sentido, foi o com a proximidade do centro, Deus, na outra esfera aumen-
efeito de um processo de afastamento do centro. Eis o que re- tam as qualidades infernais com a proximidade da periferia,
almente ocorreu. A revolta inverteu, pelo menos para os ele- ou seja, com o afastamento do centro: Deus.
mentos rebeldes, a direção dos impulsos que os moviam no Sis- Considerando assim a estrutura do Todo, verificamos que
tema. Começaram, então, a funcionar não mais na direção cen- se chama queda a representação do percurso que vai da super-
trípeta, voltados para Deus, centro do Sistema, mas se inverte- fície da primeira esfera à periferia da segunda. A inversão dos
ram, movimentando-se na direção centrífuga, para afastar-se do valores se torna cada vez mais profunda à proporção que se
centro, Deus. Assim, ao impulso centralizador que regia com- percorre esse trajeto no caminho de descida ou involução. É
pactamente o Sistema em torno do único egocentrismo de nesse percurso que todos os elementos saídos da esfera do sis-
Deus, substituiu-se um impulso descentralizador para a perife- tema de sinal positivo adquirem de forma plena o sinal nega-
ria, constituído por uma miríade de egocentrismos separados. tivo. É esse o processo do desmoronamento. Chegando à peri-
Em vista da direção tomada pelos elementos rebeldes, este mo- feria do Anti-Sistema, o desmoronamento está completo, a or-
vimento para a periferia acabou determinando automaticamen- dem do Sistema naufragou totalmente no caos do Anti-
te, como efeito da causa movida por sua livre vontade, a exclu- Sistema. Neste ponto, os efeitos da revolta estão terminados e
são deles da esfera do Sistema. Os elementos rebeldes, achan- esgotou-se o impulso centrífugo do emborcamento. Anulou-
do-se desta forma expulsos por si mesmos do Sistema, em posi- se, então, o impulso, que não funciona mais. Nesse momento,
ção de excluídos, constituíram em seu redor, mas do lado de fo- pode tornar a se fazer sentir o impulso de atração centrípeta,
ra, um agrupamento próprio, que é o Anti-Sistema. emanado de Deus, que continua sempre no centro de tudo.
24 O SISTEMA Pietro Ubaldi
Começa então, por meio da evolução, o processo de reabsor- Assim, à obediência livre de origem se substituiu esta outra
ção de todos os valores negativos, saneando-os até se torna- obediência forçada, na qual o ser é constrangido a enfrentar
rem positivos. É assim que se realiza a chamada redenção. a fadiga da evolução.
Dessa maneira, volta tudo ao estado de perfeição originária e O Anti-Sistema é apenas um sistema às avessas, onde as
desaparece o tumor do Anti-Sistema. criaturas decaídas procuram reconstruir, arremedando o Sis-
No Capítulo IV, dissemos que o fenômeno da queda com- tema. Mas, pela posição que assumiram, só podem construir
preende um circuito completo de ida e volta, denominado “ci- de forma inversa, isto é, destruir. Anti-Sistema quer dizer
clo”. Este ciclo se divide em dois períodos: involução e evolu- Não-Sistema, negação do Sistema; significa a potência desa-
ção. Cada período, por sua vez, divide-se em três fases: espíri- gregadora do caos, a lógica do absurdo; é uma esfera que tem
to, energia e matéria, obedecendo esta ordem no período da seu centro de atração na periferia e atinge aí o máximo da
descida e, a ordem inversa, no da subida. Ora, de acordo com plenitude, feita de cisão e destruição; quer dizer um organis-
esta nova concepção esférica do fenômeno, o ponto de partida mo desorganizado, que, para recuperar a sua existência, preci-
da queda – ou projeção fora do Sistema – é o espírito, e nem sa ser rebocado em sentido contrário para o organismo que
podia deixar de sê-lo. No primeiro momento de sua expulsão do permaneceu íntegro. Para salvar-se e reconquistar a vida, o
Sistema, a criatura ainda conserva as suas qualidades de espíri- Anti-Sistema precisa negar-se a si mesmo, corrigir à própria
to. Porém, quanto mais dele se afasta, tanto mais se acentua a custa o mal que fez e tornar a subir com o próprio esforço o
transformação em direção involutiva, até que a substância as- caminho por onde quis descer.
sume outra forma: a energia. Continuando ainda, nasce dela a Assim como Deus está situado no centro do Sistema, Sata-
matéria. Por isso o fenômeno astronômico da formação da ma- nás está situado na periferia do Anti-Sistema. Tal como Deus
téria surgindo da energia, na formação das galáxias, pertence à representa o vértice da espiritualidade, Satanás representa o
última fase do processo involutivo, concluído o qual se inicia o fundo do abismo da matéria. Deus é uno, Satanás está dividido
caminho inverso, não mais involutivo, mas evolutivo, e isto na infinita multiplicidade dos elementos atômicos da matéria. O
ocorre na periferia do Anti-Sistema. Na matéria, temos o ponto Anti-Sistema é um pseudo-Sistema, que só pode possuir pseu-
mais afastado de Deus, o ponto mais periférico do Todo, consti- dovalores. A força do mal é uma pseudoforça, que se baseia to-
tuído pelas duas esferas concêntricas. Assim se explica a instin- da em nossa fraqueza, resultante da posição de involuídos. As
tiva e nítida contraposição em nosso mundo, como dois opostos forças do mal não têm poder algum sobre o evoluído espiritua-
inconciliáveis: espírito e matéria. lizado. O poder é qualidade do espírito e se conquista subindo,
A concepção esférica nos dá a imagem também de outro fa- mediante a evolução, para o Sistema.
to. Em sua fuga da esfera central do Sistema, os elementos re- Satanás é a antítese da centralidade de Deus e representa a
beldes, que vão constituir a esfera maior externa, o Anti- máxima excentricidade; está no limite extremo da periferia, no
Sistema, vão encontrar-se disseminados num espaço cada vez estado de máxima dispersão da centralidade. No Anti-Sistema
maior. Há realmente um processo de afastamento entre os ele- triunfam os egocentrismos, egoisticamente separados em infini-
mentos, com o aumento da inimizade e da luta. Ao invés de se tas individualidades inimigas. No Sistema triunfa o egocentris-
estreitarem, compactos, em torno de Deus, como na unidade mo orgânico unitário, onde os egocentrismos menores se fun-
orgânica do Sistema, cada um deles pretende tornar-se o centro dem, ao invés de se eliminarem.
e, para se fazer obedecido, emprega a força, causando dano. A tentativa dos rebeldes de se substituírem a Deus faliu
Efetivamente, tudo tende a se afastar da unidade, a quebrar-se, completamente, a ponto de, se quiserem salvar-se, precisarem
pulverizando o egocentrismo central e a unidade do Sistema ser ajudados pelas forças do Sistema, contra o qual se haviam
numa infinita multiplicidade de egocentrismos, que se repelem rebelado. Querendo emborcar o Sistema, só conseguiram em-
para formar um caos, ao invés de atrair-se para formar um or- borcar-se a si mesmos. De sua obra nasceu apenas o mundo do
ganismo. Assim como no Sistema domina a subordinação, aqui mal e da matéria, mundo do engano e da ilusão. Tudo corres-
domina a insubordinação. ponde a uma lógica tremenda e fatal. Um Anti-Sistema consti-
Mas, em dado ponto, o movimento se inverte, a expansão tuído por excluídos do Sistema só podia ser um pseudo-
gangrenosa é pouco a pouco saneada, e, à proporção que é sa- organismo, onde tudo é contrafação, onde tudo é tão absoluta-
neada, o Sistema a vai absorvendo, de forma a abarcar de volta, mente negativo, que, ao invés de tender à construção, tende
em seu seio, todos os seus elementos componentes, tal como no sempre à destruição, até chegar à própria autodestruição.
estado de criação original. Tudo o que se achava no estado de Assim, as construções executadas pelas forças do mal são
matéria, cisão, inferno, volta ao estado de espírito, harmonia, pseudoconstruções; as obras em que tenta imitar os modelos
paraíso. No fim de todo o processo, desaparece o Anti-Sistema. do Sistema são abortos; suas unificações, que desejariam re-
Os egocentrismos que se repeliam tornam a fundir-se para co- produzir o modelo do Tudo-Uno-Deus, são pseudounifica-
laborar organicamente, e a unidade do Todo se recompõe. As- ções e não conseguem manter-se em pé senão pela prepotente
sim como involução havia significado expulsão, evolução sig- imposição da força de um chefe. Vimos que, no Sistema, os
nifica reabsorção: os dois movimentos compensados, inversos e seres estavam vinculados apenas por uma disciplina espontâ-
complementares, equilibram-se. Dessa forma, a energia é prisão nea, de indivíduos livres e convictos, e não por uma discipli-
do espírito, como a matéria é energia condensada. Se o primei- na forçada, pesando duramente sobre escravos. No Anti-
ro movimento vai na direção do aprisionamento, o segundo se- Sistema, a unidade que se procura atingir baseia-se no princí-
gue na direção da libertação. Por isso a matéria deve ser reab- pio oposto. Podemos ter uma ideia disso, observando o méto-
sorvida pela energia e esta pelo espírito. No fim, tudo termina do usado pelo homem para constituí-la. E é lógico que assim
em Deus, ponto de partida. Deus é sempre o centro de tudo. E ocorra, pois grande parte de nosso mundo, ainda não emersa
tudo se reduz a um movimento que, partindo de Deus, volta a pela evolução, pertence ao Anti-Sistema.
Deus. O ponto “alfa” coincide com o ponto “ômega”. Em nosso mundo, as unificações não são feitas por livre
◘ ◘ ◘ convicção, mas pela força material ou moral. Os impérios são
O Anti-Sistema é essencialmente centrífugo, periférico, forjados com a guerra. A disciplina interna das nações é im-
anticentral, negativo. Primeiramente é expelido e, depois, é posta pela polícia ou pelo exército. Não é o povo que escolhe,
atraído e novamente reabsorvido no Sistema. A iniciativa elegendo um chefe (os sistemas eletivos não o são em absolu-
compete apenas ao Sistema, partindo de seu centro, Deus. to), mas é o chefe que, por ser o mais poderoso, conseguiu
Ao Anti-Sistema compete apenas obedecer a essa iniciativa. vencer todos os outros pretendentes, fazendo-se livremente es-
Pietro Ubaldi O SISTEMA 25
colher pelo povo, em grande parte sugestionado e inconsciente. contínuos desastres que ocorrem nas coisas humanas. Sendo
O governo não serve o país e, em muitos casos, serve-se do pa- corrompido pelo separatismo, tudo o que provém do Anti-
ís para manter-se no poder. Eis aparecendo plenamente, no Sistema só pode produzir destruição. Isso tudo constitui o ver-
exercício do poder, o egocentrismo separatista do Anti- dadeiro perigo e o inimigo a ser vencido e dominado. Só quan-
Sistema. Na prática, o poder não é concebido como função so- do nos libertarmos dele, poderemos chegar a construir. Então
cial, em benefício da coletividade, como deveria ocorrer de replicam: mas se eu não usar tais métodos para me defender,
acordo com os princípios do Sistema, mas, ao contrário, ele é filiando-me a um desses grupos, serei subjugado pelo mais po-
concebido, antes de tudo, como utilidade própria, pessoal, no deroso. E, assim, arrastados pelo mesmo egoísmo, permane-
sentido separatista, e não colaboracionista. Assim, seguindo os cemos todos mergulhados no pântano. O triste fruto por nós
princípios do Anti-Sistema, o homem tende, em todas as fun- colhido sabemos agora de que planta nasce; os males por nós
ções sociais, a fazer prevalecer o próprio interesse egoísta so- suportados sabemos que são a consequência lógica de nossas
bre o do próximo. As religiões tendem ao sectarismo, forman- premissas, sendo justificados e bem merecidos. Só há um ca-
do o próprio grupo para condenar os que estiverem de fora. Na minho de saída: o homem conseguir superar, com o próprio es-
Terra, tudo toma a forma de “partido”; domina a psicologia do forço, o seu atual grau de evolução, isto é, sofrer as duras con-
Anti-Sistema, pela qual só lutando, excluindo e dominando se sequências de seu atual sistema de vida até aprender a lição e
atinge a unidade. Como no Anti-Sistema, existe na Terra o mo- se pôr em outro rumo, agindo com mais inteligência. A real
tivo da unificação, mas às avessas. Encontramos, então, uma utilidade não consiste em vencer um inimigo, pois logo surgem
unificação para agredir, para dividir, não para unir. Irmana-se, outros, num inferno permanente, mas sim em vencer o sistema
mas para fazer a guerra; abraça-se, mas para lutar contra os ou- da força, fugindo do Anti-Sistema.
tros. Com o proselitismo, procura-se construir uma unidade ca- A psicologia corrente do homem atual só pode ser compreen-
da vez mais forte, pois, quanto mais forte se tornar, tanto mais dida se considerarmos o Anti-Sistema. As próprias objeções que
inimigos podem ser destruídos e tanto mais indivíduos podem estamos resolvendo explicam-se como um seu produto. O ho-
ser dominados. Quanto mais bela e maior for esta unidade, tan- mem ainda se acha imerso nele, até o pescoço. O resto pertence
to mais prosélitos fez, mais gente conquistou, mais inimigos mais aos ideais, considerados utopia pelos homens práticos da
venceu e tanto mais consegue dominar sobre todos e tudo. Esse vida vivida; pertence às intuições antecipadas das realizações fu-
é o método de construção às avessas do Anti-Sistema. turas. Entre estas se encontra o Evangelho. Os dois extremos do
E o resultado é da mesma natureza. Uma unificação que se ser, Sistema e Anti-Sistema, continuam frente a frente mesmo em
baseia no constrangimento e no esmagamento permanece nosso mundo. Mas o segundo é forte, dono de seu terreno – a
sempre ameaçada pela revolta de outros egoísmos, que tentam matéria – ao passo que o primeiro é ainda uma luz fraca que des-
conquistar a primazia, usando o mesmo método e seguindo os ce do céu e que só os mártires e santos transformam em vida. Os
mesmos princípios. O fato de se permanecer ainda no terreno dois sistemas se opõem, cada um com suas características. Em
do Anti-Sistema, significa que, a todo momento, está pronto a baixo, no nível humano, perdeu-se o sentido orgânico do Siste-
voltar o motivo da revolta, o egoísmo separatista, próprio da ma. Neste, cada um existe em função do todo; no Anti-Sistema,
criatura decaída ainda não regenerada. Assim se explica co- todos existem em função do vencedor mais forte. O princípio da
mo, não obstante tantas tentativas de unificação e tanta força e revolta obrigou, como consequência lógica, a hierarquia do Sis-
astúcia para mantê-las de pé, elas se encontram sempre pron- tema a inverter-se na anarquia do Anti-Sistema. O homem, que
tas a cair, porque, nas organizações desse tipo, a revolta está está situado ao longo da estrada, acha-se no meio do choque en-
sempre latente e deve ser contida constantemente por uma tre os dois impulsos opostos: a matéria, que quer sufocar o espíri-
força maior. Logo que esta cesse, tudo desmorona. Por isso to, e o espírito, que quer libertar-se da matéria. Esses dois ele-
diz o Evangelho: “quem usa da espada perecerá pela espada” mentos são verdadeiramente opostos e inimigos, dois extremos
e afirma que a violência só pode ser vencida pela não- irreconciliáveis. Não podem em absoluto coexistir plenamente. A
resistência. A violência atrai violência. Tão logo surge na Ter- vida de um significa a morte do outro. E o homem deve realizar
ra uma unidade nascida desses princípios, contra ela nasce ou- em si mesmo, através da evolução, o esforço de transformar a
tra unidade inimiga. Este fato só se explica com estas conside- matéria, para levá-la novamente ao espírito. Dessa forma, o pró-
rações, que explicam também como todas as construções hu- prio trabalho que agora estamos realizando nestes livros, por-
manas se desmoronam, sendo superadas por outras. Assim quanto procura ajudar esse processo de espiritualização, enqua-
impérios caem e as revoluções substituem uma ordem social dra-se na concepção cósmica que vamos aos poucos neles expli-
por outra; ruindo um após outro, todos governos e partidos cando. Nos conforta, porém, ver que está acontecendo algo novo
são feitos e refeitos, e os próprios homens se colocam em um no mundo, pois se torna hoje cada vez maior o número dos que já
ou outro, numa contínua reorganização. Tudo se baseia na conseguem perceber que fazem parte de uma humanidade nada
força, seja das armas, do dinheiro ou do número, mas sempre civilizada, antes, substancialmente feroz e bem primitiva. Deste
força. Esta é a única defesa no Anti-Sistema, por isso todos se fato a humanidade dos séculos precedentes se apercebia muito
apegam a ela e sabem que, se falharem, estão perdidos. menos, assim como o animal e o selvagem não percebem sua
Quem está assim, imerso no Anti-Sistema, não compreende condição. Perceber significa começar a afastar-se, notando uma
que o verdadeiro inimigo não é o outro grupo ou partido e diferença antes não notada; significa chegar a compreender como
quem dele faça parte, mas é o método tão invertido com que se concebível o que antes escapava, irremediavelmente, no incon-
pretende construir; não percebe que assim só é possível fazer cebível. Isto significa que o homem está começando a pressentir
construções fictícias e temporárias, sempre prontas a desmoro- uma vida sua diferente, a sua mais evoluída vida de amanhã.
nar. A tendência lógica e sadia, inerente à evolução, é recons- Dessa forma, o conhecimento libertará o homem, pois
truir, qual existia na origem, a unidade do Sistema, agora des- quem sabe conhece a Lei e não é mais constrangido à obedi-
moronada. O erro consiste em querer atingi-la com a força e o ência pelo castigo das sanções de dor, efeito do erro. Quem
espírito de domínio, próprios do Anti-Sistema. Se o Evangelho sabe obedece por adesão espontânea, porque compreendeu to-
aconselha o método oposto, deve haver uma razão profunda, da a vantagem individual da obediência, a utilidade própria
que é exatamente o que estamos explicando. Não há dúvida em não violar a Lei. A verdadeira liberdade, que conduz à fe-
que, nos planos inferiores, só podem ser usados os métodos do licidade, consiste em conformar-se com a Lei, e não em colo-
Anti-Sistema, que aí domina. Mas é também certo que não se car-se como prisioneiro dos baixos instintos, que nos fazem
pode esperar desses métodos nenhum fruto melhor do que os recair no inferno do Anti-Sistema.
26 O SISTEMA Pietro Ubaldi
IX. OBJEÇÕES E ESCLARECIMENTOS então o homem, ainda hoje aplicando o princípio egocêntrico
da revolta e os métodos divisionistas do Anti-Sistema, onde ele
Nos três capítulos precedentes desta segunda parte de análi- caiu, busca imediatamente lançar a culpa em todos os outros,
se e crítica, repetimos a visão já descrita, num quadro cada vez mas nunca em si mesmo, ignorando que Deus deve ser também
mais completo e evidente, nos termos da lógica humana, com a justo. Embora sendo uma criatura situada no relativo, o homem
finalidade de controlar racionalmente o que a inspiração já pro- pretende julgar Deus e o absoluto.
duziu. Agora, depois da visão de conjunto já ter passado toda O primeiro ponto do dilema ataca a perfeição de Deus. É
diante de nossos olhos, dando-nos ideias mais claras a seu res- certo que o nosso mundo não tem as qualidades do Sistema,
peito, podemos passar a responder às várias objeções que nos mas sim as do Anti-Sistema. Isto é claro. Ora, este mesmo fato
fizeram e nós mesmos levantamos. Não só pedimos aos outros é uma prova da queda, porque é absolutamente inadmissível
que no-las fizessem, como também as procuramos intencional- que uma obra tão imperfeita como é o Anti-Sistema possa ter
mente, pois as dificuldades eram de grande utilidade para veri- saído diretamente do seio da perfeição de Deus. Ao invés, tudo
ficarmos se algo nos havia escapado ou não tinha sido bem fo- se explica logicamente se admitirmos que o Anti-Sistema não
calizado, buscando os pontos que não estavam bem esclareci- deriva diretamente de Deus, que criou apenas o Sistema perfei-
dos, a fim de explicá-los melhor, até à evidência, e confirmar to, continuando perfeito Ele mesmo. O Sistema se corrompeu
assim, mais uma vez, a convicção da verdade de tudo quanto só mais tarde, por obra da criatura livre, fato do qual nasceu,
foi exposto. Esse novo trabalho será útil também para comple- como só podia nascer, a obra imperfeita. É lógico que não
tar ainda mais o quadro geral da visão, realizando sobre ela um agrada ao homem essa teoria, pois implica na sua culpabilidade
controle cada vez mais exato e confrontando-a com as suas e na obrigação de aceitar-lhe as consequências. E aceitar com
consequências, que vemos reaparecer na estrutura de nosso obediência é justamente a qualidade mais deficiente do ser re-
mundo; servirá para encontrar novos pontos de vista, ver o nos- belde e continua ainda a fazer falta em nosso mundo, conse-
so tema sob novos aspectos, entrar em pormenores esquecidos, quência direta da revolta e da queda. Não há, portanto, contra-
iluminar ângulos que haviam passado desapercebidos; servirá, dição entre a perfeição de Deus e a imperfeição de nosso uni-
enfim, para continuar a levar a bom termo o trabalho de análise verso, nem se pode falar de injustiça em Deus. O estado atual é
e crítica que estamos realizando. precisamente o efeito de Sua justiça. Quem compreendeu o de-
As dificuldades nascem, em geral, do fato de não se conhe- senvolvimento de todo o fenômeno, como foi acima descrito,
cer bem o argumento ou de se querer, por força, fechá-lo dentro vê de imediato quão ingênuas e inaceitáveis são essas objeções.
de premissas dogmáticas de uma religião ou filosofia, ou dentro Então, a primeira parte do dilema está errada. Vejamos a
de conceitos limitados, frutos de um tempo passado, quando o acusação contra a onisciência de Deus. Afirmar que Deus não
homem não podia penetrar nos problemas, como hoje lhe per- havia previsto a ruína significa nada haver compreendido do
mitem os novos princípios em que se baseiam a ciência e todo o que ocorreu. Com efeito, uma criatura constituída pela própria
pensamento moderno. Para compreender profundamente este essência divina não podia deixar de ser livre. Ora, liberdade
quadro do universo, é mister possuir a cultura que o homem já implica na possibilidade também de uma desobediência, liber-
atingiu hoje e a maturidade espiritual das gerações do ano dade de qualquer coisa, ou então não é liberdade. Ora, o fato de
2.000. Só então estes livros serão compreendidos. Neste século, tudo ter sido previsto, até mesmo a possibilidade de uma revol-
estamos em fase de debate, e não de compreensão. Somente ta e do seu respectivo processo de saneamento por meio de con-
agora, vinte anos depois de ser escrita, é que se começa a com- sequências que vemos serem tomadas automaticamente, é uma
preender A Grande Síntese, e mais ainda será necessário para se prova a favor da onisciência de Deus, e não contra. Quem com-
compreender o volume Deus e Universo e o presente livro, O preendeu nossa exposição viu que o Sistema foi provido de to-
Sistema, que completa e confirma o segundo. A nós basta con- das as qualidades que lhe permitiriam depois a recuperação da
fiar estas obras à imprensa, a fim de poderem resistir à destrui- saúde perdida, como de fato está ocorrendo com a evolução,
ção humana e superar a barreira do tempo. O resto pertence a que leva todas as coisas ao estado íntegro de origem.
Deus. E Ele, de Quem aqui tanto se fala, sabe porque nasceram Portanto a outra parte do dilema também está errada. Veja-
estes livros e o uso que deles se fará. mos então a última parte, que ataca a onipotência de Deus. Não
Uma acusação que parece grave foi feita às teorias aqui podemos afirmar que Deus é incapaz de se libertar do mal, efei-
apresentadas, com o seguinte dilema, que parece sem saída. Eis to da queda. Ele está se libertando do mal, porque o Anti-
o dilema: Sistema está em processo de cura, que trará tudo, fatal e auto-
“É um fato inquestionável a existência do mal, da dor etc. maticamente, de volta ao estado de sistema perfeito. O erro do
Ou seja, existe no seio da obra de Deus uma força contrária, dilema consiste em acreditar que as forças do Anti-Sistema têm
Sua inimiga. Se tão grande mal derivou de Deus, isto é defeito poder igual ao das forças do Sistema. Não é assim. Ao contrá-
seu, portanto Ele é imperfeito, injusto e culpado de tantos ma- rio, Deus permaneceu senhor de tudo, do Sistema e do Anti-
les. E, se tal força não derivou de Deus, mas teve uma origem Sistema, da mesma forma que o nosso “eu” é senhor de todas as
própria, então um Deus que não previu o dano do próprio Sis- células, tecidos e órgãos de seu corpo, não só da parte sadia
tema não é onisciente e um Deus incapaz de livrar-se do mal mas também da parte doente. É à parte sadia que a natureza en-
não é onipotente”. carrega de trabalhar para levar a saúde à parte doente. Lembre-
A objeção é feita sob a forma de dilema, aprisionando o mo-nos que Deus é o centro único de tudo, tanto do Sistema
pensamento entre duas paredes, sem meio de escapar. Mas o como do Anti-Sistema. Segue-se daí que este último continua a
pensamento só ficará preso ali se e enquanto as paredes forem depender e a ser dirigido pelo mesmo centro único que, através
fortes e reais. No caso deste dilema, elas parecem fortes, mas do Sistema, penetra totalmente o Anti-Sistema, onde Deus
caem logo que se compreenda a realidade das coisas. E, derru- transcendente reaparece em Sua forma imanente. Acontece, en-
bados os pontos de apoio, o dilema perde todo o valor. tão, que não podemos atribuir às forças do mal um poder pró-
A objeção procura demolir a divindade em seus primeiros prio absoluto, uma existência autônoma independente, mas
atributos: a perfeição, a onisciência e a onipotência. Partindo do apenas um poder e uma existência em função das forças do
fato positivo de o mal e a dor existirem em nosso mundo, pro- bem, as mais poderosas, forças divinas, que regem o Sistema e
cura-se jogar a culpa de tudo isso sobre a Divindade, que pode- o Anti-Sistema, às quais, portanto, também o mal deve obede-
ria ter feito melhor as coisas. E o “melhor”, quando o homem cer. As potências rebeldes da desordem estão, pois, subordina-
julga, é apenas o seu egoístico bem-estar. Como este foi lesado, das às obedientes da ordem e não podem, como tais, deixar de
Pietro Ubaldi O SISTEMA 27
dar sua contribuição, embora em forma invertida, negativa, co- ainda agora, o homem tende a recair, a cada momento, nesse
mo resistência, como banca de exame e experiência, para a vi- mesmo erro, desobedecendo a lei de Deus e permanecendo mais
tória do bem. Satanás, é mister compreendê-lo, só é inimigo de fiel, neste caso, aos princípios do Anti-Sistema, onde caiu, do
Deus aparente e superficialmente. Em sua substância, em pro- que aos do Sistema, de onde proveio. E assim voltam sempre a
fundidade, é o escravo de Deus. O próprio Satanás dá assim, soberba e o egoísmo, como efeito e eco daquela primeira vonta-
embora numa forma especial, como também deu Judas, a sua de de querer tornar o seu próprio pequeno “eu” o centro de tudo.
contribuição para a realização da redenção. Todas as vezes que Esse erro foi previsto pela onisciência de Deus, como se prova
as forças do bem se encontram com as forças do mal, nos pelo fato de que o Sistema já estava anteriormente provido dos
achamos diante de um choque tremendo entre as potências meios automáticos necessários para sua recuperação e restabele-
cósmicas, na constante luta do Anti-Sistema para vencer o Sis- cimento. Todavia esse erro não fora previsto pelo conhecimento
tema, que rege, dirige e é a alma do progresso. menor, inerente aos elementos componentes, que, justamente
Como se vê, a solução das dificuldades nos conduz, por fim, por serem menores também no conhecimento, não possuíam a
a esclarecimentos relacionados ao estado real das coisas, des- onisciência própria do centro, Deus. Daí a possibilidade da que-
conhecidos de quem faz a objeção porque não possui uma ori- da. Mas é fácil imaginar o que acontece em qualquer organismo
entação adequada, que só pode ser obtida através de uma visão composto de elementos que tenham funcionamento coordenado,
completa de todo o fenômeno. E, infelizmente, a humanidade quando suas células, ao invés de aceitar a disciplina imposta pe-
de hoje ainda não possui essa visão completa, seja nas religiões, la lei de todo o organismo, pretendem, cada uma delas, como no
na filosofia ou na ciência. caso do câncer, assumir as funções de direção. Um elemento
◘ ◘ ◘ componente se perde ao sair do funcionamento orgânico do cor-
Outro dilema foi colocado em oposição à teoria da queda: po como um todo. Por isso, tanto no Anti-Sistema como no cân-
“Se Deus criou os espíritos já sábios, então eles não podiam cer, tudo desmorona na dor, no mal e na morte. Acontece isto
cair. Mas, se Deus os criou ignorantes, eles não podiam ser porque os seres menores – construídos para viver em função de
considerados culpados e, portanto, não podiam ser punidos”. outros, e todos em função do todo orgânico – ao se colocarem na
Este dilema também é derrubado, pois não possui bases pa- posição de primeiros em vez de últimos, assumindo funções de
ra sustentar-se. Seus pontos de referência são outros e resultam direção que não conhecem, emborcam o Sistema, que aparece
de um estado diferente. A resposta a esta objeção nos permitirá assim invertido ao negativo, com as qualidades opostas. A
focalizar melhor o problema do conhecimento. O fato é que as mesma coisa sucederia fatalmente se um soldado se fizesse ge-
coisas não se passaram como afirma o dilema. Deus não criou neral ou um simples cidadão, chefe de Estado.
os espíritos nem totalmente sábios nem completamente igno- ◘ ◘ ◘
rantes. A cada espírito, como acima explicamos, foi dado um Já que estas objeções perdem o sentido após os esclareci-
conhecimento proporcional à sua posição na hierarquia, de mentos prestados acima, continuemos a focalizar cada vez com
acordo com a necessidade para executar sua função. Fazendo maior exatidão outros pormenores da teoria da queda. Estuda-
uma comparação com o corpo humano, como unidade coletiva, mos o problema da perfeição, onisciência e onipotência de
podemos dizer que os espíritos do sistema se acham diante de Deus, depois o do conhecimento da criatura. Observemos agora
Deus, em conhecimento, tal como a inteligência e o conheci- qual a sua posição em relação à liberdade.
mento dos elementos que dirigem o funcionamento do corpo Para resolver estes problemas, é necessário lembrar que o
humano se acham diante da inteligência e do conhecimento do Sistema não era constituído por Deus de um lado e uma multi-
eu central, que dirige o funcionamento de todo o nosso orga- dão de seres do outro, todos iguais e dependentes de Seu co-
nismo. Cada elemento tem seu devido lugar na hierarquia, mando caprichoso. Num sistema perfeito não pode haver arbí-
constituída por natureza e funções diversas, mas todas coorde- trio. O Sistema era construído de forma totalmente diferente.
nadas e necessárias numa estrutura orgânica. Isto desde o áto- Os seres estavam hierarquicamente coordenados um em função
mo até à combinação de átomos e moléculas, destas às células do outro, constituindo assim, todos em conjunto, uma unidade
e aos tecidos, até aos órgãos, e destes até ao organismo todo. orgânica. Dela o próprio Deus fazia parte, pois era constituído
Não importa se o elemento é consciente ou não de seu traba- por esta unidade, da qual todos os seres faziam parte. Portanto
lho. O fato de executá-lo demonstra, de qualquer modo, que o tudo existia num estado de fusão, o Criador nas criaturas e as
conhece. Para cada elemento, tudo está proporcionado à sua criaturas no Criador. Podemos ter uma ideia disso ao observar o
posição. O conhecimento, nos elementos do Sistema, está su- corpo humano, pois temos motivos para presumir que ele seja
bordinado ao conhecimento do elemento superior, segundo a uma reprodução, embora mínima, daquele modelo. Os espíritos
escala hierárquica, até ao limite superior máximo, Deus, o úni- representavam, em relação a Deus, o que são as inteligências
co verdadeiramente onisciente. Então o conhecimento tem um das células, dos tecidos e dos órgãos de nosso organismo em re-
sentido muito diferente do que o dilema afirma. A posição dos lação ao eu central que o rege todo, na sua unidade. Existe, as-
espíritos a este respeito não era absoluta, como se imagina. sim, uma hierarquia de inteligências e de funções, subordinadas
Tratava-se de um conhecimento que precisava completar- ao centro, que domina e unifica tudo, e constituindo com ele
se com o conhecimento dos outros elementos, para integrar um só ser, uma unidade orgânica, num todo coletivo.
em conjunto a onisciência do eu central. Havia, portanto, uma Num sistema assim, um conceito de liberdade-capricho,
hierarquia no conhecimento, como havia uma hierarquia nas feita de arbítrio, que possa mover-se loucamente, não pode
funções regidas por esse conhecimento. Pode-se compreender, existir. Tal como as células em nosso corpo, também no Sis-
desta maneira, como deve ter ocorrido a queda e o desastre tema cada criatura era livre, mas dentro das margens de disci-
que ela produziu, quando as células do organismo, ao invés de plina que rege o todo. Livre, mas sempre em função do todo.
continuarem a viver disciplinadamente, em função da ordem Essa disciplina representa a primeira condição da vida de
geral, quiseram tornar-se independentes dela e se puseram a qualquer elemento que faça parte de um organismo. Só nesse
funcionar anarquicamente, como ocorre com as células do sentido pode entender-se a liberdade dentro do Sistema. Como
câncer ao se instalarem na sociedade de células disciplinadas no organismo humano, havia aí uma lei superior que regulava
de um organismo sadio. tudo, e ai de quem dela se afastasse.
O desastre da revolta foi devido a uma exagerada superesti- O Anti-Sistema representa precisamente uma posição afas-
mação do próprio eu por parte dos espíritos rebeldes, que quise- tada dessa lei. Se nosso ser físico-espiritual em estado de saúde
ram, dessa maneira, sair da ordem a eles designada pela Lei. E, pode dar-nos uma ideia do Sistema, nosso ser em estado de do-
28 O SISTEMA Pietro Ubaldi
ença nos dará uma ideia do Anti-Sistema. O Sistema decai no 2) Como ordenado – onde os fenômenos são concebidos
Anti-Sistema tal como um corpo sadio quando adoece. Mas o como ligados por leis naturais, que os regulam. Esta ideia vê,
doente não se torna por isso outro homem, nem seu corpo passa assim, princípios diretivos e, portanto, uma ordem no univer-
a depender de outro centro ou de outro eu. Ele continua sendo o so, que é, pois, concebido como uma rede de relações, onde
mesmo ser de antes, porém, ao invés de estar são, apenas se cada elemento está concatenado aos outros em seu funciona-
acha num estado diferente, chamado patológico. O seu “eu” mento. Os fenômenos são coligados por derivação causal,
central permanece o mesmo, com as mesmas funções, assim unidos em um transformismo lógico que completa a causa no
como Deus também permaneceu, em seu aspecto imanente, na efeito. Essa concepção corresponde a um estado mais evoluí-
direção suprema de nosso universo desmoronado ou Anti- do do indivíduo, que expressa o seu tipo biológico, alcançado
Sistema. Em ambos os casos, o eu central permanece dentro do pela observação e raciocínio.
organismo, continuando aí, quando este adoece, justamente pa- 3) Como unitário – concepção de um universo redutível a
ra curá-lo, como sucede com todo organismo que luta para cu- uma causa única central e absoluta, uma realidade fundamen-
rar-se de sua doença. O estado de perfeição (Sistema) represen- tal, origem de tudo. Aparece, assim, o conceito de uma reali-
ta um estado de saúde, enquanto o estado de imperfeição (Anti- dade espiritual interior dirigindo a forma exterior, que consti-
Sistema) representa um estado de doença. tui apenas a sua expressão ou manifestação. Não se trata so-
Dessa forma, a criatura só podia existir com funções bem mente de uma ordem, mas da centralidade dessa ordem. Reve-
definidas em relação ao funcionamento geral. Pode, para o ho- la-se, então, o conceito de organicidade do universo, em que
mem, não ser facilmente compreensível este conceito de liber- todos os elementos componentes estão coligados em uma
dade determinística, pois, estando ele situado no Anti-Sistema, mesma funcionalidade orgânica. O universo é concebido, nes-
é levado a conceber tudo às avessas e, portanto, a compreender te caso, como uma unidade coletiva, onde todas as individua-
a liberdade como um direito à revolta e ao abuso, como um ar- ções ocupam, cada uma, a devida posição, executando fun-
bítrio do “eu” que se sobrepõe à Lei. Para o ser perfeito, a li- ções adequadas, todas coordenadas por uma lei, constituída
berdade só pode ser uma: existir de acordo com a ordem dessa pelo pensamento e pela vontade de Deus, que a dirige com um
perfeição, porque, sem esta ordem, não pode existir perfeição. poder central, como senhor de tudo. O universo aparece, en-
A cisão entre livre-arbítrio e determinismo é um produto de tão, como um sistema. Essa concepção corresponde a um es-
nosso estado dualístico de decaídos da unidade. Só no Anti- tado ainda mais evoluído do indivíduo, exprimindo o seu tipo,
Sistema podem reinar a imperfeição, a ignorância, a incerteza. que chegou por intuição à visão de Deus e do Sistema. Aqui
E, por isso, só aqui pode existir o livre-arbítrio, pois a escolha não se compreende apenas o conceito de ordem, como no caso
só é possível onde ainda não se conhece o melhor caminho, que precedente, mas também o conceito da centralidade dessa or-
só pode ser um, o único perfeito. dem, pelo que tudo existe em função da causa primeira, sem-
Em última análise, no Sistema como no Anti-Sistema, sen- pre o centro de tudo: Deus. Esta é a concepção do evoluído,
do tudo regido por Deus, a Sua perfeição exige que tudo seja cujo olhar espiritualizado chegou a ver além das aparências da
determinístico. Ao desmoronar na matéria, o ser perde a cons- forma. É um estado de vidência cósmica, atingido pelo espíri-
ciência e todas as demais faculdades diretivas. A Lei o substi- to maduro, ao qual se revela a íntima e recôndita realidade das
tui completamente em tudo, e ele fica totalmente sujeito ao de- coisas em toda a sua magnificência.
terminismo escravo a que também está sujeita a matéria. Evol- Este terceiro aspecto nos mostra um universo que, embora
vendo, o ser desperta sua consciência, o que significa reencon- ainda seja em parte desorganizado atualmente, está reorgani-
trar a Lei, compreendê-la e perceber cada vez mais o prejuízo e zando-se; um universo que, embora em alguns pontos e mo-
o absurdo de revoltar-se contra ela. Isto também significa co- mentos ainda seja hoje caótico, vive um processo de reordena-
meçar a colaborar, reentrando assim, pouco a pouco, na ordem, ção (evolução). No campo humano, esse trabalho é executado
para assumir cada vez mais funções diretivas de operário da pelo homem, pelo espírito do homem, como centelha divina sa-
Lei e de instrumento de Deus. ída do primeiro e único motor, a única que pode ser encarrega-
Então, com a experiência da queda, acontece que a liberda- da de dar vida, movimento e desenvolvimento à matéria, por si
de, quanto mais se evolui, torna-se tanto mais liberdade de obe- mesma inerte e incapaz de tudo.
decer à Lei e sempre menos vontade de desobedecer-lhe. De Deste estado do universo, Platão, seguido mais tarde por
modo que a liberdade suprema das criaturas, no sistema perfei- Santo Agostinho, viu a centralidade e a unicidade, de que tudo
to, nós só a podemos entender como liberdade de obedecer a deriva. Assim, o universo foi concebido como um foco central
Deus espontaneamente, por livre adesão, vivendo perfeitamente único não criado, absoluto, de que tudo derivou e deriva, cons-
harmonizados em Sua ordem. tituindo o relativo, lançado no mundo dos efeitos pela causa
primeira absoluta.
X. A VISÃO DIANTE DA FILOSOFIA Aristóteles viu, ao invés, o movimento dessa irradiação, o
desenvolvimento dos percursos causa-efeito, como uma infini-
Suspendamos por um momento o nosso trabalho de análise dade de linhas paralelas, sem perceber a centralidade e a unici-
e crítica da teoria da queda, a fim de observar alguns pontos dade, a convergência e irradiação, comuns a todas as linhas da-
de vista diferentes, oferecidos por certas posições do pensa- quele desenvolvimento.
mento humano, colocando a nossa visão diante da filosofia. Assim, o mesmo fenômeno aparece sob diversos aspectos e
Estudaremos, depois, essa visão em relação ao pensamento de diferentes pontos de vista. O primeiro é dado pela visão do in-
Cristo e de alguns profetas, para ver se e como eles concor- tuitivo, sintético; o segundo, pela visão do racional, analítico.
dam com ela. Com olhos diferentes, formas mentais diversas, perceberam as-
O pensamento humano pode considerar o universo de três pectos diferentes da mesma realidade.
modos diferentes: O cristianismo assimilou o primeiro método com Santo
1) Como desordenado – constituído de elementos separa- Agostinho e o segundo com São Tomás de Aquino (escolásti-
dos, desconexos e incoerentes, que se ignoram mutuamente e ca). Dessa forma, o mesmo pensamento fundamental foi desen-
não se constituem nem funcionam organicamente como uma volvendo-se em forma de luzes parciais, por lampejos de intui-
unidade. Essa é a concepção do involuído e exprime o seu tipo, ção, iluminando de acordo com perspectivas diferentes o mes-
desconhecedor das profundas realidades da vida, instintivamen- mo fenômeno do universo. Os elementos que constituem a vi-
te separatista, isolado de tudo, na concha de seu egoísmo. são completa do Sistema já haviam aparecido nas filosofias e
Pietro Ubaldi O SISTEMA 29
religiões, mas isolados, em visões parciais, e não fundidos to- tância-Deus, causa de si e de tudo. A Sua liberdade é determi-
dos num só organismo. Platão já vira a necessidade de um pri- nística, ou seja, é obediência à própria lei, antes livremente de-
meiro motor imóvel, causa originária do vir-a-ser fenomênico sejada. O ser é um elemento desta substância única e eterna,
universal, causa sem precedentes causais, início determinante expressão transitória em sua forma. A finalidade de existir é
da concatenação que mantém o transformismo na linha de seu absorver-se nessa Substância, desindividualizando nela a pró-
telefinalismo. Já fora vista a contraposição entre o relativo e o pria individuação separada.
absoluto, entre o contingente e o eterno. Partindo de nosso No panteísmo de Hegel, Deus é a ideia que se tornou total-
mundo, já se chegara a conceber o outro, de qualidades opostas. mente consciente de Si, correspondendo ao nosso conceito de
Apareceu então o Maniqueísmo (de Manes, terceiro século ser a evolução a reconquista de consciência. Deste processo de
depois de Cristo), concebendo o universo como o teatro de reascensão, Hegel tirou o conceito de um Deus em evolução.
uma luta entre duas potências opostas. Também esse dualismo As citações poderiam continuar. Mas o nosso objetivo não é
é verdadeiro. Mas não é toda a verdade. Para compreendê-la, passar em revista os vários sistemas filosóficos, mas apenas
era mister explicar como esse dualismo nasceu da unidade e trazer alguns exemplos para esclarecer o nosso pensamento. O
como volta a ela. que se disse acima é verdadeiro, mas apenas representa alguns
Dessa forma, foram percebidos aspectos separados e parci- trechos da verdade e só pode ser compreendido como parte de
ais da verdade, insuficientes por si sós para esgotá-la; aspectos uma visão maior, que não encontramos nos filósofos. Para ser
que, ao invés de constituir escolas filosóficas separadas e em completa, a filosofia deveria ser também teologia e ciência.
luta, deveriam ser coordenados e fundidos num só sistema or- ◘ ◘ ◘
gânico. Descobriu-se, assim, em Deus a “causa em si”, o que Surge aqui, espontaneamente, uma pergunta: por que mo-
equivale a “primeiro motor”, ou seja, a causa primeira, início de tivo, ao invés de uma visão única, a filosofia nos oferece tan-
todo o nosso universo relativo, uma causa que não é, tal como tos sistemas diferentes? Ocorre na prática que, no estudo da
ocorre em nosso mundo, ao mesmo tempo, efeito de outra pre-
filosofia, em vez de ensinar-se um sistema que apresente ex-
cedente. A causa absoluta independe do conceito de início, que
plicação cabal dos fatos e dê uma orientação de como dirigir
é próprio da Terra e não pode existir no infinito. Em seguida,
nossas ações, é ensinado o desenvolvimento do pensamento
compreendeu-se o vir-a-ser das coisas, então apareceu o concei-
filosófico através de numerosos sistemas diferentes. Por isso,
to de um Deus em processo de realização, um Deus em elabo-
quando se chega ao fim, aprendeu-se apenas a história da filo-
ração. Mas, para explicar isso, é preciso primeiro compreender
sofia, a arte dialética, a mecânica da lógica, mas, entre tantos
como e porque Deus está elaborando-se, o que deve Ele realizar
sistemas, invade-nos o ceticismo diante de todos, porque ne-
nesse processo, qual é o ponto de partida e o ponto de chegada
nhum resolve tudo, nenhum deles esgota o problema do co-
do fenômeno da evolução.
nhecimento. O resultado final é um estado de ignorância dian-
Assim outros viram no universo uma tendência à emersão
te dos fins últimos da vida e uma condição de desorientação
dos valores superiores. Mas não se pode compreender isto se
nas ações. Chega-se, assim, ao polo oposto de que se devia
não forem explicadas as razões profundas. Esta emersão é o
fruto da evolução. Esses valores superiores são o Deus imanen- chegar, e a filosofia falha completamente no seu objetivo, que
te, que permanece no universo desmoronado e, com a evolução, deveria ser explicar para orientar.
cada vez mais se vai revelando. Observando o nosso mundo, Não devemos admirar-nos. Tudo isso é explicável. Os vá-
vemos que existe aí não só uma luta entre as suas baixezas e rios sistemas filosóficos foram dados pela forma mental dos di-
suas grandezas mas também uma tendência para a vitória destas versos filósofos, elevando a sistema uma premissa axiomática e
últimas; há um impulso ascensional, uma vontade de superação indiscutível para todos os homens, que é o próprio tipo ou tem-
contínua, uma potência “melhorística”. Esse é o “melhorismo” peramento. Qualquer destilação lógica, por mais requintada,
de W. James. Segundo ele, o universo, na luta entre os elemen- ressente-se dessas premissas, pelas quais é influenciada conti-
tos divinos e as forças adversas, é regido por uma tendência au- nuamente. Cada um exprime a única visão que pode ter, aquela
tomática para o melhor. Observações exatas, mas concepções que pode conseguir com os seus próprios olhos, de acordo com
parciais, insuficientes para nos dar uma visão completa e cabal a estrutura destes. Então, para compreender a realidade do fe-
do quadro do universo. Visões parciais apenas, de alguns mo- nômeno filosófico, devemos ver, nos diversos sistemas filosófi-
mentos de todo o fenômeno. É evidente o fato de a obra divina cos, não antagonismos que se excluem, destruindo-se uns aos
estar realizando-se com esforço no mundo. É indispensável outros, mas visões relativas que, ao apoiarem-se umas nas ou-
compreender-se, porém, a razão pela qual isso acontece assim, tras, completam-se e, com isso, confirmam-se.
as origens, as causas e as metas finais do processo. Não devemos, pois, escandalizar-nos com essa pluralidade
Kant, quando dirige o olhar para Deus e procura uma prova de sistemas. Quando compreendemos que a filosofia se move
de sua existência, escolhe uma prova moral, a noção do “de- no relativo, não podemos considerar tudo isso como defeito.
ver”. Sendo fundamental na ética, ela só pode provir de um Ser Um relativo em movimento não pode produzir coisa diferente.
superior, que dirige segundo uma lei e julga de acordo com ela, E é justamente esse fato que nos faz compreender a nossa
recompensando ou condenando. verdadeira posição de seres situados no relativo, capazes ape-
Bergson acha que não se pode chegar a compreender a exis- nas de visões parciais. Entretanto, se tudo isto nos surpreende,
tência de Deus senão através da experiência dos místicos, fe- é porque o nosso espírito tende à verdade do absoluto imóvel,
nômeno este que não se poderia explicar de outra forma, se efe- de que é filho, desejando uma verdade de natureza a satisfazê-
tivamente não existisse o objeto de seu amor. Embora autêntica, lo. Por não conseguir saciar-se com as verdades relativas em
trata-se, porém, de uma experiência pessoal, não-demonstrável evolução, é induzido a repeli-las como inferiores. Pelo menos,
racionalmente e, portanto, não logicamente necessária para to- assim, satisfaz a ânsia de ter atingido a verdade completa, úl-
dos os seres racionais; uma experiência não definitiva para to- tima e absoluta, que o homem manifesta o desejo de dogmati-
dos e que, para alguns, pode não ter nenhum valor. zar – qualidade sua, e não de uma religião. Em virtude desse
O panteísmo concebe o universo como uma manifestação desejo de todos, inclusive dos homens de ciência, cada reli-
da Divindade, que nele se exprime sob mil aspectos, permane- gião, cada escola e cada partido combate o outro, tudo pela
cendo sempre como princípio interno dirigente de todo o exis- ânsia de atingir o absoluto, tornando-se desse modo absolutis-
tir, que, por sua vez, não é senão efeito dessa causa primeira. tas. Sentimos, por instinto, que a verdade deve ser uma só e
Assim Spinoza admite uma única realidade incriada, a Subs- sempre a mesma, mas esta é a verdade última, que está além de
30 O SISTEMA Pietro Ubaldi
nosso mundo. É esta que desejaríamos possuir, assim nos re- a respeito de tudo, mas o único sistema filosófico em que con-
belamos e repelimos insatisfeitos, considerando como inacei- tinuará acreditando com convicção será o do ventre e o do sexo,
táveis, as verdades parciais, relativas e em evolução. É difícil visando sua vantagem imediata. A verdade só pode ser atingida
adaptar-se a esse conceito de mutabilidade da verdade, e ape- por amadurecimento biológico, único meio para nos levar à
nas as mentes evoluídas conseguem sentir-se à vontade neste compreensão, pois nos abre os olhos da alma.
terreno escorregadio de verdades em contínua transformação. ◘ ◘ ◘
No fundo de nossa alma permaneceu, como num sonho, a Observemos agora a teoria da queda colocando-a diante do
lembrança do absoluto, e desejaríamos que esta fosse a verda- Evangelho, das palavras de alguns profetas e, enfim, diante do
de em nosso poder, repugnando-nos de não ser a que possuí- pensamento espírita brasileiro.
mos. A verdade que desejaríamos só poderá ser o fruto da Quaisquer sejam as dúvidas levantadas contra esta teoria,
completa reconquista do mundo perdido, porque ela está situ- não pode ser ela repelida pelos seguidores da doutrina de Cris-
ada no ponto final da evolução, realizada através do progresso to. Este, no Evangelho de Lucas, (10:18), diz: “Vi Satanás,
das inúmeras verdades relativas. como um raio, cair do céu”. De fato, a queda foi fulminante,
A pluralidade da filosofia não é, portanto, um erro, uma rapidíssima, como ocorre quando rui um edifício. Tornar a su-
dispersão ou um fato desalentador, mas sim o sinal de um en- bir é cansativo e lento, como acontece na sua construção. E is-
riquecimento progressivo. Pode ser uma desilusão presente e to porque se deve aprender outra vez, reconstruindo o que foi
um esforço de subida, mas é possibilidade de progresso sem- destruído. O Apocalipse de São João (12:7-9) diz assim: “E
pre maior em direção da verdade absoluta, ansiada pela nossa houve no céu uma grande batalha: Miguel com seus anjos
alma. O filósofo pensador é, ele mesmo, um elemento do fe- combateram contra o dragão, e o dragão e seus anjos batalha-
nômeno universo por ele estudado, procurando orientar-se ram, mas não prevaleceram, nem houve mais para eles lugar
dentro do edifício do qual faz parte. Cada filósofo possui uma no céu. Foi precipitado o grande dragão, a antiga serpente
potência conceptual e capacidade de visão diferentes, constru- chamada Diabo e Satanás, que engana todo o mundo. Sim, foi
indo um edifício de conceitos com os materiais que possui. A precipitado na Terra, e com ele foram precipitados os seus an-
lógica arquitetônica escolhida o leva a preferir uns em vez de jos”. O Profeta Isaías (14:12) confirma: “Como caíste do céu,
outros. As qualidades do seu temperamento e das experiências ó Lúcifer, como foste cindido e abatido até a Terra? No entan-
assimiladas, assim como o conhecimento conquistado à sua to dizias em teu coração: tornar-me-ei semelhante ao Altíssi-
disposição e as suas simpatias, estabelecem as preferências mo”. É possível a qualquer religião ou seita de origem cristã
que o induzem a pôr em evidência certos aspectos da verdade não levar em conta tão graves afirmações?
em vez de outros. Nisso também influem seus gostos, a edu- Contudo alguns elementos do espiritismo brasileiro não
cação, o ambiente, os choques recebidos e as reações que cada aceitam a teoria da queda porque a teoria kardecista afirma que
um tem, de forma diferente, segundo sua natureza. Entra em os espíritos foram criados simples e ignorantes. Mas racioci-
jogo também a própria personalidade individual, que estabe- nemos um pouco. Deus era finito ou infinito? Deus não pode
lece o tipo biológico, a sua forma mental e, com isso, a nota ser senão infinito. Mas, para criar espíritos simples e ignoran-
fundamental de suas construções conceptuais. tes, Ele devia tirá-los não de Si, e sim de fora de Si. Isto por-
que, sendo Ele perfeito, só podiam sair de seu seio seres per-
Eis aí então, porque, apesar de serem apenas três, como
feitos, portanto nunca simples e, muito menos, ignorantes. Da
vimos acima, as possíveis escolhas “metafísicas”, ou seja, as
imensa sabedoria de Deus não podia derivar diretamente uma
perspectivas conceituais do Universo, existam tantas filosofias
tal ignorância. Se os espíritos são constituídos da mesma subs-
– parecendo todas irreconciliáveis – quantos são os filósofos.
tância divina, tinham de ter, ao menos no momento da criação,
Por isso, nos cursos de filosofia, estuda-se não um sistema fi-
as Suas qualidades. Ora, ser simples e ignorante não é qualida-
losófico único, último e definitivo, que contenha a verdade
de de Deus, então os espíritos nascidos Dele, feitos de sua pró-
completa e indiscutível, cientificamente provada, mas sim os
pria substância, não podiam ser simples e ignorantes. Só podi-
diversos sistemas filosóficos relativos, incompletos, discutí-
am ter sido assim em duas hipóteses, ambas inaceitáveis, por-
veis, teóricos, com visões parciais e progressivas, de cada di-
que contrárias ao conceito de Deus. Na primeira, Deus os tira-
ferente pensador, para fazer de tudo isso um quadro único,
ria de sua própria substância, sendo também Ele simples e ig-
com outras visões parciais, que são aproximações gradativas norante. Na segunda, Deus os teria tirado não de dentro de Si
de outra verdade ainda inatingível. Ao invés de se estudar mesmo, mas de fora, e, em tal caso, ele seria finito, e não infi-
como nasceu e como funciona o universo em si mesmo, estu- nito. Trata-se de dois absurdos. Para poder criar fora de Si se-
da-se as conclusões alcançadas por tantos filósofos diferentes res de natureza diferente da própria, Deus deveria ser um ente
a respeito do seu funcionamento, e cada um à sua maneira. limitado e, ao criar, devia transpor esses limites. Em outros
Dessa forma, o estudioso de filosofia, no meio de tanta multi- termos: ou Deus tirava os seres de sua própria substância, e Ele
plicidade de visões, torna-se um erudito que perdeu a visão do era simples e ignorante, ou os tirava de fora de Sua própria
funcionamento do universo, um sábio enumerador de filosofi- substância, e então Ele era finito e limitado.
as, mas que não possui nenhuma própria para dirigir verdadei- Ora, é evidente que o seio divino, como ocorre entre mãe e
ramente a sua vida. Viu que foram dadas respostas demais a filho, não pode ter produzido senão anjos da própria natureza,
muitos quesitos, para poder ainda acreditar que se chegue a ou seja, perfeitos, bem diferentes dos espíritos que vemos
dar uma resposta definitiva. animando os corpos humanos da Terra. O homem é um ser
A convicção da verdade é outra coisa e não pode ser obtida bem diferente. Aceita-se que ele seja o resultado da evolução,
através do estudo da filosofia. A convicção resulta do tempe- cujas raízes estariam bem distantes, nas profundezas da maté-
ramento, da experiência e das reações do filósofo; é um estado ria, de onde o espírito está vindo, reconstituindo-se lentamen-
pessoal ao qual se procura reduzir tudo, adaptando-lhe até as te, através de formas de vida cada vez mais complexas, permi-
verdades julgadas absolutas e os dogmas das religiões. Quando tindo-lhe a manifestação, até chegar ao plano biológico hu-
o próprio tipo biológico está situado no plano animal, a sua mano que ocupamos. Aceita-se que o ponto de partida da evo-
verdade continua sendo animal, e não há erudição filosófica lução seja a matéria, enquanto o ponto de chegada é o espírito,
que possa mudá-la. Nem mesmo as religiões conseguem trans- no estado de pureza e perfeição.
formá-la, senão em pequena dose. O involuído continuará as- Então, no princípio, não havia os espíritos simples e igno-
sim, mesmo que seja o mais erudito do mundo. Poderá dissertar rantes, mas a matéria. E matéria quer dizer o caos das nebulo-
Pietro Ubaldi O SISTEMA 31
sas, onde ocorre a sua primeira formação, quer dizer desor- XI. A VISÃO DIANTE DA BIOLOGIA
dem, trevas, um mundo desagregado, que começa a recons-
truir-se. Ora, aqui surge o ponto que nos obriga a admitir a “Estou convencido de que a interpretação fiel das últimas
teoria da queda. Como admitir que a suprema imperfeição re- conquistas da ciência e do pensamento conduz legitimamente
presentada pelo caos seja a primeira, a criação originária, que não a um evolucionismo materialista, mas a um evolucionismo
teria saído diretamente do seio de Deus? Então a substância espiritualista. O mundo que conhecemos não se desenvolve ao
Dele seria a matéria e a desordem do caos? Um anjo não po- acaso, mas é estruturalmente dominado por um Centro Pessoal
de gerar um demônio, nem um demônio pode gerar um anjo. de convergência universal”.
Se Deus, na criação, deu de Si mesmo, então Ele era caos, Pierre Teilhard de Chardin
constituído pela matéria que forma as nebulosas, com todos
os atributos e consequências relativas. E voltamos a recordar Coloquemos agora a visão diante da biologia. Veremos que
que a criação não podia ser exterior a Deus, porque esse con- também ela nos oferece provas da teoria da queda. Partamos da
ceito implica a ideia de um limite a ser superado, absurdo, verificação do fato positivo de que a vida, chegando a certo
porque Deus só pode ser infinito. grau de evolução, sentiu a necessidade da cerebralização do sis-
Eis, então, o ponto. Temos diante de nós dois fatos indiscu- tema nervoso. Em dado momento de sua ascensão, a vida achou
tíveis: primeiro, Deus só pode ser espírito, ordem, perfeição, útil e necessário construir para si um órgão específico do pen-
causa primeira; segundo, o nosso universo físico, no seu ponto samento, demonstrando dessa forma ter percebido a importân-
de partida ou criação, em que se inicia a evolução, acha-se no cia da presença de um centro específico inteligente, capaz de
estado de matéria, desordem, imperfeição. Estes dois termos dirigir o seu funcionamento. Com isto, a vida enveredou por
opostos precisam ser ligados com a mais estreita das ligações: um caminho novo, para o psiquismo, o primeiro grau da espiri-
a filiação, relação que implica a mesma natureza para ambos. tualização. Esta afirmação está demonstrada pelo fato positivo
É evidente que não podem unir-se da forma como estão, por- (cuja operação e as íntimas razões só assim podem ser compre-
que entre os dois corre um abismo, verdadeiramente uma com- endidas) de que, na evolução, o sistema nervoso sofreu um ver-
pleta inversão de termos. dadeiro processo de cefalização, e isto por etapas sucessivas,
Ora, como preencheremos esse abismo? A lógica nos impe- partindo dos primeiros rudimentos nervosos até ao desenvolvi-
le a uma única saída: admitir que haja ocorrido um fato novo, mento dos hemisférios cerebrais. Foi com esses meios que se
ao qual, justamente, temos de atribuir a causa principal de todo pôde manifestar e funcionar de forma concreta específica, no
esse emborcamento. O emborcamento existe. Seria absurdo plano biológico, a inteligência, para finalmente revelar-se como
procurar as causas dele em Deus. Então quem o terá produzi- primeira potência da vida, potência que permitiu ao homem
do? Certamente não foi Deus, que é ordem, e não caos. Deus, vencer todos os outros animais.
então, teria caído no caos? Absurdo ainda maior: um Deus que Não se trata de uma transformação em bloco, nem de uma
falha e desmorona. Deus perfeito não pode ter caído, porquan- progressão casual, mas sim de uma complexidade sistemática,
to, se existe evolução, isto prova a existência de um princípio ocorrida seletivamente, segundo algumas linhas determinadas,
dirigente que a guia e sustenta, não podendo de maneira ne- que revelam a presença de um princípio preexistente, dirigido
nhuma ter desmoronado. Mas, se Deus não caiu, o que caiu? para um telefinalismo preciso, representado justamente pelo
Eis-nos constrangidos, por uma concatenação lógica, da qual espírito. A cerebralização no seio da evolução representa, ver-
não se pode escapar, a admitir a teoria da queda. Essa teoria dadeiramente, o que se poderia chamar o traço biológico de
explica tudo e preenche o abismo entre os dois termos irrecon- todo o processo de espiritualização, constituindo a meta final
ciliáveis. O caos da matéria não é o produto da primeira cria- dessa evolução. Podemos considerar isso demonstrado pelo fa-
ção originária, saída do seio de Deus, mas o resultado de outro to da evolução, no plano humano, tender a desenvolver as fun-
processo, sobrevindo depois. A matéria não é o estado originá- ções psíquicas, o que significa espiritualizar a vida. Assim,
rio da criação, mas o estado de máxima curvatura do espírito, o pois, dentro do telefinalismo da vida, avançar para a espiritua-
ponto final do processo da involução e o ponto de partida onde lização é um fato fundamental, porque representa uma força
se inicia a evolução. Só assim se descobre a concatenação ló- maior, uma conquista adequada a assegurar maiores poderes
gica entre causa e efeito, que, de outra forma, inexistiria, e os defensivos. De modo que, já agora, a este nível, a inteligência
dois termos permaneceriam distantes, sem poderem conjugar- representa para a vida a qualidade e a função mais importante,
se. Só assim aparece o anel que os liga. Entre ambos existe a porque melhor garante o futuro.
revolta e a queda, as únicas causas que podem explicar o em- De fato, a cerebralização fez aparecer o tipo homem, permi-
borcamento. Assim, tudo fica claro, cada coisa vai para seu lu- tindo-lhe vencer todos os demais seres na Terra. Com ela, de
gar, e não nos vamos chocar de encontro aos escolhos de tan- agora em diante, o pensamento se tornará a função biológica
tos absurdos inaceitáveis, como vimos. mais importante, porque o saber pensar e compreender repre-
Foi útil responder a essa objeção de alguns elementos espí- sentará a atividade biológica mais útil.
ritas brasileiros, para esclarecer cada vez mais a visão que es- Este fato, que nos demonstra estar a evolução orientada para
tamos examinando. Como se vê, trata-se de coisa bem diferente a espiritualização, revela-nos ser este o terreno das futuras con-
da criação de espíritos simples e ignorantes. Kardec não entrou quistas do homem. Eis então a biologia a nos oferecer uma no-
no problema porque não seria aceito nem compreendido. Mas, va confirmação de nossa teoria, que sustenta o regresso de tudo
tendo de apresentar de qualquer forma um ponto de partida, es- a Deus, ou seja, ao estado de puro pensamento. Não se pode
colheu um, no percurso de todo o processo, mais próximo a negar que a evolução, com o homem, está caminhando nessa
nós, tal com fez a Bíblia, que parte da segunda criação, a mate- direção. Com efeito, o que é a civilização? Vista em seu signi-
rial, efeito da queda, uma vez que não podia fazer de outra ma- ficado biológico, ou seja, compreendida como certo grau de de-
neira, pois estava falando a criaturas que ignoravam muitos senvolvimento da vida, a civilização é, em última análise, ape-
conceitos, só admitidos hoje. Assim, também Kardec e os espí- nas uma especialização zoológica atingida pela evolução no
ritos não podiam falar uma linguagem que teria sido incompre- plano humano, sob a direção de uma atividade biológica nova e
ensível para aquela época, porque, para as mentes de então, era especial: o psiquismo. Esta qualidade aparece apenas nesta fase
absolutamente inconcebível uma equivalência entre matéria e de amadurecimento evolutivo, ao passo que, antes, era imper-
energia e uma evolução físico-dinâmico-espiritual. ceptível, quase invisível no processo ascensional da vida. Esta-
32 O SISTEMA Pietro Ubaldi
va apenas latente, embrionária e, de fato, não aparecia como va- artificialmente um organismo físico com o meio que mais lhe
lor importante. Eis que, com o homem, o psiquismo assume um convier, para poder realizar a sua vida de entidade espiritual no
poder preponderante na evolução, um poder tão decisivo, que plano material em formas diferentes das utilizadas pela vida até
tornou o homem consciente do fenômeno da evolução, ao ponto aqui, com essa finalidade. Não podemos imaginar que ilimita-
não só de compreendê-lo mas também de assumir a sua direção. das realizações poderá atingir a biologia do futuro, transportada
Aqui assistimos a uma emersão decisiva do psiquismo no cons- ao plano psíquico e espiritual. Outrora, no plano animal, os
ciente, psiquismo que, até aqui, dirigira a fisiologia e a morfo- aperfeiçoamentos eram obtidos mediante lentíssimas transfor-
logia, mas escondido no inconsciente, fora do domínio direto mações de adaptação dos velhos órgãos a novas condições de
do homem, só agora aparecendo em plena evidência. vida e exigências do ambiente. Agora, no homem, as mudanças
No animal, o psiquismo – nele ainda inconsciente – para en- para satisfazer às novas necessidades podem realizar-se rapi-
frentar o ambiente, plasma a matéria celular do organismo físi- damente, por meio dessa nova técnica do psiquismo, que dirige
co, produzindo alguns órgãos determinados, que funcionam a formação de novos órgãos ou instrumentos. Isto porque o ór-
como instrumentos. Eles permanecem ligados ao corpo, só dis- gão principal das construções biológicas não é mais um recôn-
pondo de determinada quantidade de espaço útil. Não é fácil dito e instintivo impulso celular, mas é a inteligência do homem
modificar e renovar esses instrumentos, que representam órgãos – um órgão mais ágil, mais sensível, senhor do fenômeno – que
especializados e, além disso, não podem ser multiplicados além se tornou consciente da construção biológica que deve realizar.
das possibilidades do organismo físico. Uma vez que um órgão Com a ciência e a técnica, o homem construiu e possui o ins-
tenha se desenvolvido para executar determinada função, ter- trumento que lhe permite construir outros instrumentos, traba-
minado o longuíssimo processo de formação pelos caminhos de lho que, embora em uma forma muito diferente, constitui a evo-
adaptação e da evolução biológica, ele permanece tal qual foi lução e representa, no âmago dela, uma criação biológica, em-
construído, e não é fácil mudá-lo, mesmo que não corresponda bora não mais seja uma biologia do mundo animal. Eis a nova
mais às necessidades e utilidades do indivíduo. Este permanece biologia do psiquismo, eis os primeiros passos da vida para a
preso aos meios por ele mesmo criado, não podendo libertar-se espiritualização. Este não é um fenômeno destacado da biolo-
deles, nem facilmente construir outros melhores. Com essa sua gia, mas é uma sua continuação. O espírito é a continuação da
técnica na formação dos órgãos, o animal permanece um ser matéria, e não um inimigo oposto a ela. Eis aí uma ordem de
especializado, sendo difícil sair de sua especialização. conceitos que se enquadra perfeitamente em nossa visão.
No homem, a coisa se passa diversamente, porque ocorreu Quando vemos o homem aprender a construir para si não só os
um fato novo: apareceu o psiquismo, que pode conscientemente órgãos de que necessita, mas também órgãos com os quais pode
dirigir a construção de novos instrumentos ou órgãos externos e construir outros novos – em razão de haver começado a cami-
independentes do corpo, para serviço próprio. Esse novo meio nhar pela estrada do psiquismo – então podemos dizer que a bi-
permitiu ao homem superar os limites evolutivos que dificultam ologia confirma o conceito fundamental da visão, de que a vida
a transformação do animal, fechado em sua especialização. está evoluindo para a espiritualização.
Chegando a certo ponto da evolução, a sabedoria que a guia para Assim, não é só através da evolução orgânica que o homem
o telefinalismo preestabelecido, ao invés de trabalhar escondida pode progredir, mas também por outros caminhos, sem ficar na
no subconsciente do animal, aparece visível em novo órgão ou dependência da lentíssima plasmabilidade da matéria celular.
instrumento: o sistema nervoso, que se cerebraliza em funções Com a inteligência, introduzida como novo elemento no campo
psíquicas. Assim, a vida entra em novo caminho, iniciando novo da vida, o homem conseguiu muitas vezes superar até mesmo os
método para realizar-se. Rompendo os diques, ela abandona o modelos que aquela vida atingira e lhe apresentava. Através da
sistema da construção de órgãos especializados através da elabo- colaboração, especialização e organização, o homem conseguiu
ração biológica, muito lento e limitado, e cria um organismo dar na estrutura social um rendimento ainda maior. Eis a que re-
que, embora não seja especializado, adquiriu o poder de constru- sultados maravilhosos pode levar a evolução, que começou com
ir fora de si, com a função de órgãos especializados, os instru- os esforços inconscientes das primeiras plantas trepadeiras para
mentos necessários e úteis para os objetivos de sua vida. buscar a luz, dos peixes para formar um organismo que respiras-
Então, esse trabalho de construção passa do subconsciente se e vivesse fora da água, da vida para criar órgãos de sentidos
ao consciente, ou do consciente cósmico, que dirige a evolu- que lhe permitissem perceber o mundo exterior.
ção para seus fins, ao consciente do ser humano, chamado Provam-nos estes fatos que a evolução se move em direção
dessa forma a colaborar, tornando-se ele mesmo operário e a objetivos exatos, voltados justamente para a espiritualização,
instrumento na realização dos planos da criação. Nasce assim, objetivos que, por sua natureza, demonstram corresponder a um
no homem, um órgão não mais limitado às funções determi- telefinalismo preestabelecido. Prova-o também o fato de que o
nadas para as quais foi construído, mas um órgão capaz de progresso da evolução não é um movimento que acontece ao
construir para si todos os órgãos ou instrumentos que lhe pos- acaso, mas sim um desenvolvimento lógico numa direção cons-
sam servir para a vida e, mais ainda, habilitado a construir pa- tante. Pode compreender-se ainda melhor de que modo esteja
ra si instrumentos capazes de construir esses novos órgãos. preestabelecido o objetivo, quando se admite tratar-se da re-
Entramos no mundo da técnica e das máquinas. O que distin- construção de um organismo preexistente, que foi destruído e
gue o homem do animal é essa capacidade de construir para si agora se procura apenas reconstruir da mesma forma como já
meios separados do próprio corpo. existiu. Eis aí, pois, a teoria da queda e do conceito de involu-
Não há quem não veja as extraordinárias possibilidades de ção e evolução. Temos, desse modo, de admitir, ao lado do tele-
desenvolvimento contidas no atual método. Com as mãos, ór- finalismo que estabelece a meta, a presença de um impulso in-
gão não-especializado, o homem construiu para si as primeiras terior que a conhece por antecedência e se esforça por atingi-la.
máquinas. Depois, construiu outras máquinas para construir De outra forma não se explicaria como se poderia realizar a
novas máquinas, e assim por diante, aperfeiçoando cada vez tendência para esse telefinalismo. Tudo isso se harmoniza per-
mais a sua técnica. Dessa forma, está até construindo órgãos ar- feitamente com a nossa visão.
tificiais para aperfeiçoar os que ele já possui em seu próprio ◘ ◘ ◘
corpo, ou para supri-los caso faltem ou apresentem defeito. Não Novas confirmações, porém, apresenta-nos um pormenor do
se exclui a possibilidade de que um dia o homem se apodere a fenômeno da evolução. Discute-se quem nasceu primeiro, o ór-
tal ponto dos segredos da técnica da vida, que consiga construir gão ou a função. No princípio, não existia nem um nem outro.
Pietro Ubaldi O SISTEMA 33
Na primeira origem, existia apenas um impulso interior para su- 2) Os olhos exprimem o sentimento do coração, emotividade
bir, em forma de desejo instintivo, no qual se revela a lei do re- passional, podendo tomar parte tanto da vida inferior quanto na
gresso às origens. Aquele telefinalismo de que falamos é uma superior, revelada pelo rosto. No primeiro caso, os olhos ex-
força ativa de atração. Surge assim o desejo, exprimindo esse primem astúcia, egoísmo, avidez, sensualidade. No segundo ca-
impulso interior e individualizando-o no caso particular, na for- so, a inteligência, generosidade, bondade, assim como sexuali-
ma a ser atingida naquele dado momento e posição da vida. A dade sublimada ao plano de amor espiritual. 3) A fronte mani-
matéria orgânica é forma regida por esse impulso interior, por festa o poder e o domínio atingidos no campo do pensamento,
isso lhe obedece, deixando-se plasmar por ele. Então o desejo da bondade e do espírito.
começa a plasmar uma primeira tentativa, ou esboço do órgão, Ora, com a evolução, a vida desloca o seu centro do plano
com os materiais que toma do ambiente, material passivo, que inferior ao superior, tanto no corpo como na expressão de seu
obedece, por lei da vida, àquele impulso animador. Com esses rosto. Há uma tendência da vida em subir também espacialmen-
materiais, aquele desejo se reveste de uma primeira forma rudi- te para o alto, da terra para o céu, tendência para ser cada vez
mentar, que constitui a sua primeira expressão. Nasce, desse menos réptil que rasteja ou quadrúpede, e cada vez mais ho-
modo, um primeiro esboço provisório, à espera de reforçar a mem que caminha, levantando a cabeça para o alto. Este fenô-
tentativa, consolidando o tipo, se ele corresponde às condições meno traduz, em sentido espacial, o fenômeno da subida espiri-
do ambiente e às exigências da vida. Ele é a expressão do íntimo tual. Com tais critérios, qualquer pessoa poderá, ao olhar a sua
pensamento que a dirige; é o resultado de uma luta do pensa- imagem, ler nela a própria história, destino e valor. A evolução
mento criador contra a matéria inerte, para plasmá-la a seu mo- consiste em deslocar o centro da própria vida do plano em que
do. A luta é feita por ensaios, resistências, adaptações, tentati- funciona o ventre para aquele em que trabalha a cabeça, do pla-
vas. Esta é a forma pela qual se realiza a criação no plano mate- no do maxilar para o do cérebro. Este deslocamento traduz, nos
rial, por obra do espírito. O pensamento, desde a primeira cria- órgãos materiais que o exprimem, o processo evolutivo da espi-
ção feita por Deus, demonstrou sempre possuir poder criador. ritualização. Foge-se da animalidade pelo telhado. Esta é a ma-
Depois de formado o esboço inicial, é feito um primeiro turação biológica que leva do Anti-Sistema ao Sistema. Quer se
funcionamento experimental. Com isto, prova o ambiente, queira, ou não, este é o verdadeiro drama da vida, o seu conteú-
adapta-se, fixa os resultados adequados, aperfeiçoa-se. Esse do e objetivo. Com a evolução, a vida se torna, também fisica-
aperfeiçoamento do esboço leva a um aperfeiçoamento maior mente, cada vez mais ereta. Este fato da vida erguer-se também
no funcionamento, permitindo também que o órgão se desen- em sua forma material representa a transformação (correção) da
volva e se aperfeiçoe cada vez mais. Dessa forma, o órgão e o existência, partindo de sua forma material no Anti-Sistema para
funcionamento, escorando-se mutuamente, guiados e sustenta- sua forma espiritual no Sistema. O primeiro impulso da vida,
dos pelo impulso interior da vida em direção ao telefinalismo, nascida no seio das águas, foi emergir para a terra. Verificamos
vão construindo-se e aperfeiçoando-se, até nascer o órgão novo um contínuo esforço da vida para emergir, erguer-se e libertar-
e completo. Desse modo, a manifestação do impulso interior da se, buscando voltar ao Sistema, única explicação lógica para tal
vida consegue achar aos poucos a sua expressão. Por isso o esforço. Essa tendência é tão profunda e fundamental, que
processo se desenvolve por tentativas, por experiências contí- transparece até nas formas concretas do plano físico. Aí mes-
nuas, por adaptações ao ambiente, agindo nele e reagindo às re- mo, vemos escrita a teoria da queda nas primeiras formas de
ações dele, que é, no entanto, todo constituído de vida e tenta vida, aprisionadas no interior da matéria, de onde apenas a evo-
de igual forma, paralelamente, adaptar-se, reagindo também, a lução, reerguendo essa vida para o Sistema, poderá libertá-la.
fim de realizar as suas formas e funções. A vida não se desen- Chegamos assim a ver a teoria da queda e da reascensão
volve em um único ser isolado, mas numa orquestração de seres também em sua expressão concreta no plano físico. Continuan-
que se estão experimentando reciprocamente, constituindo des- do o desenvolvimento dos conceitos ora expostos, podemos
sa forma uma marcha ascensional de toda a vida, cujo telefina- imaginar o homem do futuro tão adiantado, que o cérebro, ago-
lismo deve conter também a tendência de todos seres unirem-se ra constituindo a sua parte mais evoluída, venha a constituir a
para alcançar, finalmente, a reorganização num sistema único. parte mais atrasada para ele, pois o homem já terá transferido o
Esta tendência pode constituir outra prova da teoria aqui susten- centro de sua vida para planos ainda mais altos. No passado, a
tada, dizendo-nos que o ser evolui do caos para o Sistema, um arte locomotora foi a primeira conquista do ser, situada na van-
estado eminentemente orgânico. guarda da evolução, mas é agora o ponto mais atrasado de nos-
Observemos outro fato que também nos prova o poder cria- so nível humano. Da mesma forma, o nosso cérebro e o sistema
dor do pensamento e o movimento da evolução no sentido da nervoso, que representam hoje a conquista mais avançada no
espiritualidade. Por um fenômeno análogo ao acima examinado, processo evolutivo humano, representarão para o homem de
no qual vimos ser a matéria orgânica dirigida e plasmada pelo amanhã o ponto mais atrasado em relação ao nível que ele hou-
impulso interior, que anima as formas da vida, também acontece ver atingido. Para nós, é tão difícil imaginar qual será o novo
que as ideias dominantes na existência de um homem permane- tipo biológico em ascensão, situado à frente no caminho evolu-
cem impressas em seu rosto, dessa maneira os seus traços físicos tivo, quanto podia ter sido para os primeiros répteis, que raste-
exprimem em síntese a sua história vivida: dores, alegrias, lutas, jam na terra, imaginar os fenômenos psíquicos e espirituais que
vitórias, refletindo as notas fundamentais da personalidade, re- agora fazem parte normal da personalidade humana.
forçadas ou corrigidas pelas novas experiências. Assim um rosto ◘ ◘ ◘
pode representar uma biografia. Para aprender a lê-la, observe- O processo evolutivo, contudo, não é apenas conquista de
mos o significado das várias partes do corpo humano. psiquismo mas também de organicidade. Essas conquistas são
Podemos dividi-lo em três planos: 1) Parte inferior: dos pés coordenadas e valorizadas em novos estados orgânicos coleti-
ao ventre, que constitui a animalidade. 2) Parte média: peito e vos. Quando os elementos componentes do sistema perfeito sa-
coração, que representa o sentimento. 3) Parte superior: rosto e ído das mãos de Deus desmoronaram instantaneamente no caos,
cabeça, que representa a alma e a personalidade. o que mudou não foi o número infinito das individuações, mas
O rosto humano também pode ser dividido em três planos sim sua condição, pois elas, ao invés de permanecerem fundi-
correspondentes àqueles do corpo, começando de baixo: 1) O das no estado orgânico de sistema, confundiram-se na desor-
maxilar e a boca exprimem, quando muito desenvolvidos, a dem do caos. Então, estes elementos se amontoaram ao acaso,
animalidade voraz e egoísta, a avidez e a sensualidade bestial. como simples soma de individuações que, sem se conhecerem
34 O SISTEMA Pietro Ubaldi
reciprocamente, não cooperam por meio de fusões coordenadas adquire novas qualidades e potencialidades, inacessíveis ao in-
no seio do mesmo organismo. divíduo isolado ou mesmo a uma multiplicidade de indivíduos
Ora, o processo da evolução consiste na reunificação, e a confusamente amontoados. O estado orgânico representa, sem
vontade íntima que o dirige impõe como telefinalismo o estado dúvida, uma das tendências criativas da evolução. E isto pelo
orgânico próprio do Sistema, sendo esta justamente a condição fato de se formar uma nova individuação do ser com a reunião
que deve ser reconstituída. Em outros termos, o que desmoronou dos elementos individuais num grupo. Aparece então um prin-
no caos com a involução não foi o número das individuações ou cípio diretivo diverso, pois se trata de um organismo diferente,
criaturas – esse permaneceu inalterado – mas sim a sua ordem. regido por uma nova lei, não mais a mesma que dirigia cada
O que se desfez na queda foi seu estado orgânico, transformado um dos componentes. Passa-se, assim, a um plano mais alto de
em estado antiorgânico. Dessa forma, ao invés de permanecerem evolução, a um novo parágrafo da Lei, o que significa reapro-
coordenados, para funcionar irmanados no mesmo organismo, ximar-se mais do Sistema.
unidos pela única lei, todos em função de Deus, os elementos Encontramos uma aplicação desse princípio no fenômeno da
componentes do Sistema caíram na anarquia, passando a viver evolução do egoísmo, dilatando-se em altruísmo. Quando os e-
indisciplinados, sem se conhecerem, repelindo-se ao invés de se lementos separados por seu egoísmo fundem-se em unidades, a
fundirem, porque cada um seguia apenas o seu próprio princípio lei do haver e dever se transforma em outra, mais elevada, dirigi-
individual, rebelde à Lei, somente em função do próprio eu, que da por princípios diversos. Enquanto, no plano material, quem dá
se havia substituído ao centro único: Deus. empobrece e quem toma enriquece, no plano espiritual quem to-
O processo evolutivo consiste justamente numa gradual re- ma empobrece e que dá enriquece. Explica-se essa transforma-
construção do que foi destruído, na reordenação do caos na dis- ção, porque, no nível inferior, os seres se fecham em seu egoís-
ciplina da lei de Deus. Os elementos componentes permanecem mo, vivendo separados um do outro, sem se conhecerem, portan-
os mesmos, mas modifica-se a sua posição recíproca. O proces- to não existem entre eles trocas espontâneas nem compensações.
so consiste em coordená-los, induzindo-os a existir em unida- No entanto, quando se coordenam em unidades orgânicas, caem
des orgânicas cada vez mais vastas, complexas e perfeitas. essas barreiras isolantes e tudo se comunica espontaneamente.
Quando estes elementos chegarem a se reconstituir num siste- Tornam-se fáceis, dessa forma, as trocas, que permitem satisfazer
ma único, que os abarque a todos e no qual todos se fundam todas as necessidades sem a árdua luta necessária no mundo infe-
harmonicamente, tal como era o Sistema em sua origem, então rior da matéria e do egoísmo. O fato de, ao evoluir, subir-se para
o processo evolutivo estará terminado, porque tudo terá voltado formas de vida mais livres, onde cada vez menos se precisa de lu-
a Deus. Neste ponto, o Sistema originário, que fora destruído, ta para viver, constitui uma diminuição do atrito entre as criaturas
terá sido reconstruído em sua integridade. O que falta ao estado e da dor resultante, ou seja, uma conquista de felicidade. Então,
involuído é a ordem. O progresso deve reconstruir o estado or- quanto mais se sai das opressões da matéria, tanto mais comple-
gânico. Eis o futuro da evolução. tamente pode realizar-se a divina lei do amor; quanto mais se so-
Assim como já ocorreu para os elementos do átomo, reor- be, tanto mais se abrem as portas de cima, permitindo descer o
ganizados não só nesta primeira unidade mas também na sua bem e a alegria aos planos inferiores. Acontece então que, quanto
combinação em moléculas, evoluindo da mais simples crista- mais nos sacrificamos em dar, tanto mais sobre nós choverão do
lização mineral da química inorgânica à mais complexa estru- Alto ajuda e consolação. Tudo isso é natural e lógica lei de vida.
tura da química orgânica, é lógico que a evolução também de- E, quanto mais tentarmos acumular egoisticamente, fechando-
va continuar a operar assim para as construções da vida. A nos com isso cada vez mais em nós mesmos, tanto menos pode-
evolução representa um esforço contínuo para organizar em remos receber do Alto. Isto porque receber e, portanto, enrique-
unidades coletivas uma quantidade cada vez maior de elemen- cer depende da própria receptividade, que se relaciona ao grau
tos, em formas cada vez mais orgânicas e complexas, trans- de demolição do isolamento egoístico da nossa natureza inferior,
formando a simples agregação amorfa – simples soma de através da evolução. A irradiação lançada por Deus, de Seu cen-
elementos – num organismo hierarquicamente constituído. tro, sobre tudo o que existe, pode ser recebida pelo ser de acordo
Assim o processo evolutivo nos mostra de fato a passagem do com o grau de abertura e receptividade próprio a cada um, con-
estado de Anti-Sistema ao estado de Sistema, do estado anti- forme o nível de evolução atingido. O evoluído, por exemplo, dá
orgânico ao estado orgânico, dando-nos ainda mais uma prova aos seus semelhantes e não espera recompensa nem gratidão,
em favor da teoria. Isto não só confirma que o estado orgânico que, para os involuídos, representam nos planos inferiores um
do Sistema é verdadeiramente o ponto de chegada, a meta legítimo direito de pagamento. O evoluído conhece a Lei e sabe
conclusiva do telefinalismo, mas também demonstra que esta que esta lhe provê tudo. É, como se costuma dizer com razão,
é a direção imposta pela lei de Deus à evolução. Deus quem paga. Dessa forma se reorganiza o caos, eliminando-
A tarefa da evolução é justamente executar a reorganização se cada vez mais a dor e ganhando sempre mais felicidade, pelo
do caos. Dessa forma, o princípio da individuação muda no sen- fato da vida começar a funcionar segundo leis cada vez mais
tido em que mudam as dimensões da unidade elementar: o eu. próximas daquela perfeita lei do Sistema.
Isto significa que cada um dos momentos componentes tende a ◘ ◘ ◘
fundir-se no todo, organizando-se em grupos cada vez maiores, Na própria física, vemos transformar-se a lei dos fenômenos
mas não como uma simples e estéril soma de unidades. Neste à proporção que subimos na escala das unidades coletivas. Ve-
caso não temos: 2+2=4, mas sim: 24 = 16, e isto no sentido de mos que os fenômenos se nos apresentam com características
alcançar, mais do que somente uma quantidade maior, uma qua- diferentes, de acordo com as dimensões microscópicas que a
lidade superior, de valor maior. A própria física nos ensina que o nossa observação assume. É fato que, quando partimos da
valor dos fenômenos e do espaço muda em relação às suas di- abrangente visão de conjunto e penetramos, com a observação,
mensões. O que vale para uma não vale para outra; os princípios na estrutura analítica, verificamos achar-nos diante de unida-
aplicados ao infinitamente pequeno não valem para o infinita- des-síntese, ou unidades coletivas, compostas de elementos
mente grande nem para o meio termo, que está entre os dois. que, se observados isoladamente, vemos obedecerem a outros
Ao unificar-se em grupo, os elementos componentes adqui- princípios. Acontece isto em todos os campos: no plano físico
rem uma posição diferente, que representa, em relação a sua da matéria (sociedade de átomos); no plano biológico (orga-
soma, um valor muito superior, representado pelo estado orgâ- nismos de células); no plano social (coletividades humanas); no
nico. Isto significa um nível evolutivo mais alto, no qual a vida plano psicológico (psicologia coletiva). Vemos, então, aparecer
Pietro Ubaldi O SISTEMA 35
no conjunto uma nova lei, isto é, a lei do grupo. Não se trata Podemos imaginar o futuro da humanidade na forma de
mais da lei do indivíduo, mas de uma lei coletiva superior, dada uma mente cada vez mais iluminada. O próprio órgão cerebral
pela maioria dos casos concordantes, vencendo a minoria dos terá de aperfeiçoar-se anatomicamente. A estrutura química,
casos discordantes, que desaparecem reabsorvidos pelos pri- mecânica e biológica do encéfalo terá de atingir um grau de
meiros. Nesta nova lei, a lei do grupo, os indivíduos se fundem complexidade e requinte que permita o funcionamento de novas
por homogeneidade de características. Eles sobrevivem não zonas de consciência, hoje ainda adormecidas, ativando neurô-
como elementos separados, mas como uma síntese resultante de nios ainda não utilizados. Mas isto será apenas um efeito, um
sua fusão, o que transforma o tipo de sua individuação. Trata-se aperfeiçoamento do órgão, para exprimir uma função que será
de existências diferentes, situadas em dois planos diversos do pré-determinada, antes de qualquer transformação orgânica, na
edifício da evolução. O segundo é mais vasto, complexo e aper- causa primeira, localizada no espírito, que está se agitando, ir-
feiçoado, portanto mais poderoso e resistente. Uma coisa é o requieto e febril, para despertar no homem. Hoje existe apenas
átomo, outra coisa é a matéria; uma coisa é a célula, outra, um inquietude e febre, mas amanhã ocorrerá o despertar.
organismo; uma coisa é o homem, outra, um povo ou a huma- Chegando a este ponto, o homem, após haver formado o or-
nidade; uma coisa é a mentalidade de um indivíduo, outra, uma ganismo coletivo da humanidade e adquirido a consciência da
corrente de pensamento ou de psicologia coletiva. lei que o guia, poderá colocar conscientemente as suas mãos
Por isso está nascendo agora em nosso planeta o corpo hu- sobre as profundas alavancas biológicas que dirigem o seu de-
mano social. Nele sobreviverá o indivíduo de hoje, mas em senvolvimento. Poderá assim modificar-se e construir-se como
uma forma de vida diferente. Não será mais um elemento iso- ele mesmo desejar. Então dirigirá com inteligência – cuja falta
lado, que apenas estabelece relações com seus semelhantes, hoje não lhe dá esse direito – o nascimento físico, o desenvol-
mas constituirá com eles as células e os órgãos – a anatomia e vimento do corpo e a sua morte, fazendo evoluir sobretudo o
a fisiologia – deste novo organismo social e humano, como sua espírito, guiando todas as funções humanas e impulsionando
parte integrante, já não podendo mais viver senão em função tudo para as últimas metas da existência. De tudo isso nascerá
de todo o organismo. uma nova realidade, desconhecida hoje, uma consciência e uma
Com isso mudam os princípios que regem a vida do homem. forma de individuação humana coletiva na qual se realizará
Nasce assim uma nova ética para guiar as atividades humanas, uma nova lei, com princípios diferentes, tal como deve existir
porque os objetivos utilitários que a vida tem de alcançar são num plano evolutivo mais alto.
agora muito mais vastos. O homem atual debate-se na “jungle” O homem, então, não será mais um selvagem rebelde e ig-
darwiniana da “luta pela vida”, onde ainda está imerso até o norante, que, a muito custo, consegue arrancar a sua vida no as-
pescoço, e tão árduo é sair daí, que mesmo a maior tentativa já salto contínuo dos elementos ou, ainda pior, de seus semelhan-
feita para libertá-lo – o cristianismo – conseguiu modificá-lo tes, mas terá se tornado um operário de Deus, que trabalha em
muito pouco. Parece que, ao invés do Evangelho vencer a ani- harmonia com a Lei, apenas para realizá-la. Este será um passo
malidade humana, ela foi mais forte e o adaptou a si, terminando decisivo para a inversão do Anti-Sistema, isto é, para endireitá-
por engoli-lo em vez de ser por ele engolida. No entanto não há lo na forma do Sistema.
derrota que possa sufocar o impulso evolutivo da vida. A cada O novo princípio que se desenvolverá nesta forma orgânica
falência, aparece sempre uma nova tentativa, por mais ilógica e de humanidade será a consciência da ordem e da lei de Deus.
absurda que ela pareça. E é isto que a fé nos arrasta e nos faz re- Então se seguirá um estado de harmonização, e isto constituirá
alizar aqui, nestes livros, neste mesmo momento, ainda que pos- a descida do reino de Deus a Terra, já que, eliminados todos os
sa parecer trabalho desesperado. Mas é inevitável que o homem atritos da luta, desaparecerão as dores, que são a sua conse-
atinja o plano do Cristo. Então ele reconhecerá em seu seme- quência. Eliminando o espírito da revolta, segundo o qual vence
lhante a si próprio e o amará como a si mesmo, desistindo fi- e domina o mais prepotente, Deus poderá finalmente mostrar-se
nalmente de, mesmo em nome de Deus, agredi-lo, para, em vez ao homem não mais na forma de justiceiro tirânico – necessária
disso, fraternizar-se com ele. No pensamento que dirige a vida para que um selvagem obedeça – mas sim de pai amoroso, co-
para o telefinalismo de sua espiritualização, em fatal correspon- mo só é possível ser com filho inteligente, que compreendeu ser
dência com seus planos preestabelecidos, está determinado que a de sua vantagem viver em obediência à ordem, em vez de fazê-
seleção evolua, oferecendo o triunfo final ao mais inteligente e lo na revolta e na desordem.
ao melhor, e não ao mais forte ou ao mais astuto. Eis os princípios novos que surgirão quando aparecer a
O homem atual é feroz e ignorante, mas começa hoje a rea- nova unificação. O psiquismo humano, hoje rudimentar, de-
lizar os primeiros esforços para sair dessa barbárie. Na hora senvolver-se-á até ao plano espiritual, e Cristo nascerá no co-
atual, a temperatura psíquica está aumentando e já se pensa ração dos homens. A ciência, com a técnica, colocará as for-
mais do que outrora. Os problemas são equacionados, e o ho- ças naturais a serviço do homem, melhorará a raça com o co-
mem quer resolvê-los. O progresso técnico encurta o espaço e nhecimento das leis biológicas; assegurará com a economia o
diminui as distâncias em nosso mundo, tornando dessa forma a bem estar, garantindo a todos os meios de vida. Nestas bases,
humanidade mais compacta e mais unida, aproximação que é que estão sendo colocadas hoje, poderá realizar-se, livre das
necessária para se alcançar o estado orgânico. Paralelamente há fadigas da luta material, o trabalho de elevar o novo edifício
uma intensificação de funções cerebrais e conscientes, entrando espiritual, que será a grande construção biológica do futuro.
em funcionamento as qualidades psíquicas. Isto significa que a vida se espiritualizará. Verificamos então
Nos métodos evolutivos, isso tudo representa uma inovação que a evolução biológica terá de se desenvolver conforme
que pode levar a consequências imensas. Com o homem, a vida quanto foi dito na visão.
se lança no caminho novo da evolução psíquica e espiritual. O Nós mesmos, nestes livros, estamos trabalhando no sentido
grande trabalho criador que é confiado a ele hoje é o desenvol- de determinar a formação e o desenvolvimento de uma corrente
vimento da consciência, em todos os sentidos, quer racional na de pensamento coletivo nessa direção. Deus verá, do Alto, o
pesquisa científica, inspirativo na arte, espiritual na fé e nas reli- nosso esforço desesperado nesta hora apocalíptica para o mun-
giões, sentimental nas relações de amor ao próximo, ou moral no do e nos ajudará. Pode parecer desesperado o esforço, mas
desenvolvimento de uma nova ética, melhor e mais inteligente, Deus estará sempre presente e ajudando os homens de boa von-
não mais filha do terror e da luta pela vida, mas de uma compre- tade. Aliás, a não ser que queiramos viver como animais igno-
ensão iluminada das exigências materiais e espirituais da vida. rantes, não se pode dar à vida mais nobre e sério conteúdo.
36 O SISTEMA Pietro Ubaldi
XII. TEORIA CINÉTICA DA QUEDA tema para a periferia daquele movimento ordenado, onde esse
novo movimento tentou reorganizar-se em posição invertida, na
Para compreender melhor a visão, procuremos agora consi- forma de Anti-Sistema.
derar a queda em seu aspecto cinético, esboçando uma teoria Temos, então, dois movimentos. O primeiro, próprio do Sis-
cinética do fenômeno, embora não nos seja possível desenvol- tema, é unitário, orgânico, completo em si mesmo, imóvel em
vê-la toda aqui, porque isso nos levaria muito longe. relação ao segundo. Trata-se de um movimento concêntrico,
Surgem assim várias questões. Representa o sistema perfei- centrípeto, girando em torno do centro imóvel, Deus, fechado e
to um estado de imobilidade? Se esse estado constitui uma con- compacto em torno Dele, na perfeita unidade do Sistema.
dição de perfeição, então a mobilidade resultaria da transforma- O segundo movimento, próprio do Anti-Sistema, é separa-
ção necessária para sair de um estado de imperfeição e mover- tista, caótico, uma corrupção do primeiro, só podendo existir
se em busca de um estado de perfeição? Seria, portanto, o mo- em função deste, emborcado e móvel em relação a ele. Trata-se
vimento um estado cinético advindo depois, nascido com a de um movimento descentralizador, centrífugo, que, apesar de
queda e inexistente no sistema perfeito? Tal condição seria, en- girar na direção contrária, em posição invertida, de revolta, di-
tão, o resultado de um novo impulso, determinado pela revolta? vergindo da perfeita unidade do Sistema, ainda assim continua
Dissemos em A Grande Síntese que o nosso universo é girando em torno do mesmo centro imóvel, Deus, que tudo re-
constituído por várias formas do estado cinético da substância. ge, tanto o Sistema quanto o Anti-Sistema. Um movimento que
O movimento é, portanto, o denominador comum de todos os está fora da ordem, posição na qual a unidade se fragmentou na
fenômenos. Os próprios fenômenos são, como tais, movimentos infinita multiplicidade do relativo no Anti-Sistema.
constituídos por um transformismo. Este processo teve início O que ocorreu, então, com a queda? Antes dela, o movi-
com a revolta, já que, nesse momento, iniciou-se o movimento mento era representado por um funcionamento regular, sem
de involução, para depois continuar com a evolução. Explica- desvios da ordem; era uma mobilidade interior à Lei, compre-
se, dessa maneira, como tenha nascido o impulso que deu ori- endida em seu âmbito. A revolta representou um novo impulso,
gem ao transformismo fenomênico, que é o modo de existir em que lançou uma mobilidade diferente, exterior à Lei, fora de
nosso universo, modo instável, só possível enquanto é um “tor- seu âmbito. O ponto de partida não foi, desta vez, o centro
nar-se”, constituído da concatenação “…causa-efeito-causa- Deus, mas sim o egocentrismo individual da criatura, um pseu-
efeito…”. Foi neste novo estado que o Sistema veio a encon- docentro diante do Sistema. Foi um impulso diferente, oposto
trar-se após a revolta, estado em que não se encontrava antes. ao efetuado primeiro por Deus, um impulso de rebeldia contra o
A posição de perfeição, em absoluta obediência à disciplina dirigente do Sistema. O segundo impulso rebelou-se contra o
da lei de Deus, pode se representada por um estado de imobili- primeiro, procurando dominá-lo e vencê-lo, para se substituir a
dade na ordem, constituído pelo determinismo da perfeita obe- ele. Mas era impulso menor, pois constituía apenas uma exce-
diência. A revolta, neste caso, pode ser concebida como um ção, só um momento do todo, e, sendo invertido, na direção
deslocamento para fora dessa ordem, resultando num estado oposta à corrente universal, também era negativo e mais fraco,
que, em vez de estar fixo em sua perfeição, começou a agitar- portanto não pôde firmar-se definitivamente no Sistema, conse-
se, desviando-se para fora do binário preestabelecido pela Lei. guindo apenas produzir atrito, gerar a sua expulsão e emborcar
Dessa forma, o estado de perfeição imóvel começou a corrom- a Si próprio, formando assim o Anti-Sistema. Expulsar não
per-se, passando a um estado de imperfeição móvel. Disto re- quer dizer expulsar do todo abrangido pelo Sistema, o que seria
sultou o estado cinético da substância, que constituiu mais tarde absurdo, pois nada pode existir além do todo. Expulsar quer di-
o “vir a ser” involutivo-evolutivo, representando o modo de zer colocar para fora da ordem, fora da parte que, no todo do
existir de nosso universo. Esse novo dinamismo significou a Sistema, permaneceu ordenada na Lei.
desordem na ordem, a anarquia no seio da disciplina, o esface- Quando dizemos movimento, no sentido daquele estado de
lamento do estado orgânico, próprio do Sistema, em um novo “vir-a-ser”, de instabilidade, próprio do Anti-Sistema, deve-
modo de ser, próprio do Anti-Sistema. mos entender uma nova posição, efeito deste segundo impulso,
Procuremos focalizar com exatidão cada vez maior a nossa que levou uma parte do Todo, de seu estado de funcionamento
observação, para compreender melhor o fenômeno da revolta e regular, a um estado de funcionamento irregular ou disfunção,
da queda. Para isso, teremos de recorrer a representações men- dado por um movimento desviado para fora da ordem e, por-
tais. Devemos aceitá-las, porque elas facilitam a compreensão e tanto, automaticamente lançado fora do Sistema. Por conse-
nos fornecem um meio de expressão. Assim, nós as usaremos, guinte o resultado do impulso causado pela revolta foi, auto-
mas sempre recordando que não se dever dar-lhes um valor mai- maticamente, esse deslocamento lateral, que lançou o dina-
or que o de simples abstrações, diante de uma realidade que, em mismo, antes contido na ordem do Sistema, numa desordem
sua substância, reconhecemos escapar a todas as nossas concep- que não podia achar lugar no Sistema, mas apenas fora dele,
ções e medidas. Ela não depende de nossos pontos de referência ou seja, em sua periferia.
e existe em dimensões situadas, para nós, no inconcebível. Podemos imaginar o ocorrido como se algumas rodas de um
Que significado devemos dar ao conceito de imobilidade do relógio, antes funcionando regularmente com todo o seu ma-
Sistema? Explicamos que o Tudo-Uno-Deus, depois de realiza- quinismo, começassem a funcionar com diretrizes próprias, in-
da a criação, constituiu um organismo em funcionamento. Ora, dependentes das que regem toda a máquina, e isto com a finali-
um organismo em funcionamento não pode ser imóvel. Deve- dade de formarem sozinhas um novo relógio. Então a máquina,
mos então precisar, com maior exatidão, o significado do con- para salvar-se da desordem, que destruiria tudo, teria que ex-
ceito de imobilidade neste caso. A imobilidade pode significar, pulsar as rodas rebeldes para fora de seu maquinismo, da mes-
portanto, apenas uma mobilidade ordenada em perfeita obedi- ma forma como faz o organismo humano, que, para defender-se
ência à disciplina da Lei. O que chamamos movimento foi, en- melhor, circunda e isola o estado patológico, procurando sepa-
tão, um estado ou tipo diferente de mobilidade, isto é, não mais rar-se dele, a fim de poder melhor combatê-lo e vencê-lo. No
um movimento regular na ordem, mas um movimento irregular caso do relógio, as rodas expulsas, incapazes sozinhas de re-
de desordem, em revolta à ordem precedente, fora da disciplina constituir-se na forma de um novo relógio, seriam reagrupadas
da Lei e independente dela. Foi um movimento de rebelião, em redor da estrutura original, que permaneceu perfeita. Dada a
anárquico e desarmônico, nascido no seio do movimento regu- sua qualidade negativa de desordem e, portanto, a sua incapaci-
lar e harmônico do Sistema. Em consequência disso e devido à dade para dirigir-se de forma autônoma, os elementos rebeldes
própria natureza do movimento, ocorreu a sua expulsão do Sis- só conseguiram ficar agarrados à periferia do Sistema, na de-
Pietro Ubaldi O SISTEMA 37
pendência do mesmo centro, Deus, único sustentáculo positivo. em sua posição inviolável de centro universal, não continuasse
Ele é o único centro do todo, e, haja o que houver, ninguém po- a irradiar até mesmo no Anti-Sistema e, criando tudo continu-
derá ocupá-lo. Não existem outros centros positivos em redor amente, não o reconstruísse da constante destruição, para man-
dos quais seja possível gravitar. A revolta só pôde criar centros tê-lo em vida. Chama-se criação contínua justamente esse tra-
negativos, ou seja, pseudocentros, capazes apenas de criar um balho de reconstrução, indispensável para que a existência pos-
pseudo-Sistema, uma pseudo-organização, não só impotente de sa continuar no seio das forças negativas do Anti-Sistema. O
manter-se autônoma mas também ligada inexoravelmente à ne- fenômeno da criação contínua é precisamente uma prova de que
cessidade do “vir-a-ser” para regressar à perfeição perdida. Por estamos situados no Anti-Sistema2.
isso os elementos rebeldes, apesar de seu desejo de criar um ◘ ◘ ◘
sistema próprio – mesmo na posição invertida, seguindo seu Do quanto foi exposto, resulta esclarecido que a revolta foi
impulso de afastamento – tiveram de continuar a gravitar para determinada por um novo impulso, derivado do egocentrismo
Deus, pois só em função Dele é possível a existência tanto dos da criatura, que se colocou em movimento contrário ao egocen-
obedientes como dos rebeldes. trismo de Deus, dirigente do Sistema. Assim, quando falamos
Não se pode existir sem depender de Deus ou sem tê-Lo de movimento como uma propriedade do Anti-Sistema, deve-
como chefe, e nenhuma revolta pode impedir que seja Ele a mos compreendê-lo como um desvio no sentido da desordem,
fonte primeira de tudo. O Sistema estava construído de tal for- no meio do movimento de ordem, próprio do Sistema. Tudo is-
ma perfeito, que, independente de qualquer ocorrência, Deus so nos leva a uma compreensão mais exata do fenômeno da re-
permaneceria sempre o centro e senhor de tudo. Sobre este pon- volta. Ele foi, portanto, uma mudança no estado cinético da
to, a liberdade do ser não tinha nenhum poder. A liberdade con- substância. Procuremos, agora, focalizar este conceito.
cedida estava limitada ao terreno das responsabilidades diante No estudo do fenômeno da queda, achamo-nos diante de
da aceitação do pacto de amor que Deus oferecera à criatura. dois estados cinéticos: o do Sistema e o do Anti-Sistema. O
Disso resulta que se pode existir de dois modos, ou seja, a segundo representa um tipo fora da Lei, contrário ao primeiro
vida pode assumir duas formas. A primeira é a forma de vida e expulso dele. Foi o impulso irregular da revolta que determi-
do Sistema. Podemos representá-la como um organismo são, nou, no estado cinético do Sistema, a mudança que produziu a
com funcionamento sempre perfeito, sem mutações. A segunda expulsão. Em outras palavras, com a revolta, uma parte do
é a forma de vida do Anti-Sistema. Podemos imaginá-la como movimento do Sistema tomou nova direção e foi lançada fora
um organismo doente, que mergulhou no transformismo e só da estrutura orgânica.
pode existir à custa de um “vir-a-ser” contínuo, submetido a À semelhança da desintegração atômica em cadeia, ocorreu
uma modificação sem tréguas, na qual tudo deve sempre nas- uma degradação do estado cinético, isto é, do dinamismo do Sis-
cer, desenvolver-se, envelhecer e morrer. A desordem levou, tema. Mais precisamente, se o potencial cinético da substância,
como consequência lógica, a este penoso estado de instabilida- em seu conjunto, não podia mudar, ou seja, não podia deixar de
de, em que só é possível existir como numa corrida, anelando à permanecer tal qual havia derivado do único manancial possível,
perfeição perdida, ou seja, preso à roda das reencarnações, para que era o impulso de Deus, então a única coisa que podia mudar
subir todos os degraus da escada da evolução. Neste segundo com a revolta era a forma do movimento, tomando uma direção
caso, a revolta introduziu no existir uma fase negativa, desco- diferente, que a criatura livremente quis dar àquele impulso ori-
nhecida no Sistema, dada pelo fenômeno da fadiga da vida até à ginário, ao menos até onde lhe foi possível no âmbito de seu po-
morte. Por isso não se pode continuar a existir senão através de der. Eis então que o movimento ordenado geral do Sistema, que
uma contínua corrida para a renovação, isto é, na direção do antes da revolta só se dava na dimensão infinito, congelou-se na
princípio positivo, não-emborcado, do Sistema, onde a existên- parte doente da desordem, aprisionando-se em dimensões cada
cia é eterna e incorruptível por sua natureza. vez mais fechadas sobre si mesmas pela involução, contraindo-
Mas por que essa necessidade de renovação contínua para se cada vez mais, até às nossas dimensões espaciais.
as criaturas do Anti-Sistema poderem continuar a existir? Da Mas o fenômeno não ficou constituído apenas por essa con-
revolta, que foi a negação de Deus, portanto da vida, só podia tração de dimensões. Podemos imaginar o movimento do Sis-
nascer a morte. Ora, para a vida continuar possível no seio do tema como semelhante ao que, no sentido espacial, vemos re-
Anti-Sistema, feito apenas das forças negativas da destruição produzido em nosso universo, ou seja, do tipo espaço curvo.
e da morte, é necessário lutar a cada passo contra o impulso Esse movimento devia ser constituído por uma reta e uma curva
rebelde, negador da vida, e atingir o manancial positivo e cri- ao mesmo tempo, ou seja, devia ser retilíneo no particular e
ador existente no sistema de Deus, constituído pelas forças curvo em seu conjunto. Os elementos existentes no Sistema em
que dão a vida. Daí a necessidade de constante reabastecimen- tal estado cinético giravam em torno do centro Deus, que era
to na fonte, renascendo, mas permanecendo ao mesmo tempo imóvel. Seu movimento era função da imobilidade do centro.
sujeito à ação dos impulsos deletérios do Anti-Sistema. En- As individuações de cada elemento, antes da revolta, não apa-
quanto todos estes agridem tudo (velhice, morte, decadência reciam separadas, pois nenhum deles possuía um movimento
de todas as coisas), as forças de Deus estão sempre ajudando, próprio, em direção independente, para individualizá-lo, distin-
reconstruindo tudo com uma criação contínua (nascimento, guindo-o no meio da ordem desse movimento coletivo, que
vida, sobrevivência de todas as coisas). constituía a unidade do Sistema.
Desse modo, com a teoria da queda, compreende-se a razão Eis então, do ponto de vista cinético, o que ocorreu com a
profunda pela qual só é possível existir à custa de contínua re- revolta. Recordemos mais uma vez que, para melhor compre-
novação e como, embora tudo se afadigue e morra, tudo sempre endê-lo, revestimos o fenômeno com representações mentais, e
nasce e vive. Vida e morte, Sistema e Anti-Sistema, são os dois estas, se o tornam mais facilmente compreensível, afastam-nos,
impulsos em ação em nosso universo. Nós os vemos funcionar contudo, de sua verdadeira natureza, totalmente abstrata. Eis
sob nossos olhos e os vivemos a cada momento. Vemos os dois então que, com a revolta, ao longo da linha desse movimento
em luta contínua. Pela revolta, o nosso mundo deveria ser feito homogêneo e constante que arrastava igualmente todas as cria-
só de morte, se não tivesse permanecido nele a presença de turas, formaram-se núcleos de resistências, gerando atritos. Isto
Deus, para salvá-lo a cada momento. Da revolta resultou o im-
pulso da destruição, que ainda nos persegue sob a forma de ca- 2
No Evangelho de São João (5:17), Jesus diz: “Meu pai trabalha até
ducidade em todas as coisas. E cada coisa seria destruída pelos agora e eu trabalho também”. O verbo no original grego é ergádzetai,
impulsos negativos da rebelião, se Deus, que permaneceu todo que significa trabalhar, no sentido de produzir.(N. do T.)
38 O SISTEMA Pietro Ubaldi
em razão dos elementos desobedientes ao movimento geral tornado elemento rebelde. No polo oposto ao estado originário
aparecerem na qualidade de individuações separadas e tentarem da primeira criação, o princípio separatista vence o princípio
assumir um movimento próprio, individual, em outra direção, unitário. Isto porque, uma vez tendo percorrido o trajeto invo-
como “eu” independente, fora das trajetórias fixadas pela or- lução ou queda, a criatura realizou completamente o novo esta-
dem da Lei. Nasceu daí um estado cinético novo, diferente, do cinético, por ela produzido e desejado com a revolta. Atra-
oposto ao original, por conseguinte com resistências e atritos. vés da rebelião, o ser fez de si mesmo o centro Deus, mas em
Esse novo estado cinético irregular inseriu-se no estado torno do centro de um novo sistema: o Anti-Sistema. Isto levou
originário regular e retilíneo particular de cada elemento, in- a uma infinita multiplicação de centros. Esta teoria cinética da
troduzindo-se aí precisamente como um seu desvio lateral. queda nos explica o significado íntimo daquele fenômeno de
Disto nasceu o que chamamos “vibração”. Desse modo, ocor- divisionismo ou pulverização da unidade no caos, de que fala-
reu a primeira gênese do estado vibratório, constituindo o fun- mos. A desordem do caos substitui-se à ordem originária por-
damento íntimo do mundo fenomênico, o dinamismo que ge- que, ao invés de cada elemento existir em função do centro
rou e rege a forma, ilusão do mundo exterior, ou seja, tudo o Deus, estando todos os elementos de acordo na disciplina da
que nossos sentidos captam. Apareceram assim, no relativo, os Lei, cada elemento passou, com a revolta, a existir apenas em
vários modos de existir dos elementos de nosso universo. Des- função de si mesmo. Dessa forma, a Lei não está mais presente
sa maneira, a revolta estabeleceu um novo estado cinético, e neste ponto, sobrevivendo apenas no estado latente, como ínti-
este, ricocheteando ao infinito no Anti-Sistema, permitiu mo- mo impulso de evolução, isto é, como impulso oculto que im-
delar uma ilimitada série de formas aparentes, que constituem pele ao retorno à ordem de origem.
para nós, assim como para todos os que estão situados no Anti- Enquanto, no organismo perfeito original, temos em Deus o
Sistema, a realidade objetiva. único centro, que rege tudo em unidade, chegando ao fundo da
Estamos no momento da gênese desse estado vibratório. O queda, no Anti-Sistema, temos uma infinita multiplicidade de
movimento retilíneo do Sistema começou com uma oscilação centros, tantos elementos centrais quantos são os núcleos nos
sobre si mesmo. É a oscilação lateral, característica do estado átomos existentes. Eis a pulverização extrema no caos, a vitória
vibratório, o primeiro momento da gênese da ilusão, conse- do separatismo buscado com a revolta. Vejamos agora o desen-
quência lógica da desordem. Da revolta só podia nascer um es- volvimento total do fenômeno, até o fundo, não só em sua ínti-
tado doentio de irrealidade; do erro só podia derivar um estado ma estrutura, mas também como desenvolvimento fatal de um
ilusório e de aparências. Assim, o estado verdadeiro do Sistema processo lógico. Do Sistema permaneceu, apenas como um eco,
foi aprofundando-se cada vez mais na mentira. Iniciada a des- esta última reprodução invertida do modelo original. É uma
cida involutiva, o ser ficou cada vez mais aprisionado na forma, imitação às avessas, onde, apesar de um centro ter permaneci-
ou seja, a liberdade retilínea do movimento do Sistema perdeu- do, isto não mais significa unidade, e sim multiplicidade; não
se cada vez mais no determinismo da matéria, até ao ponto de mais centralidade e centralização em torno dela, mas descentra-
curvar completamente o movimento retilíneo nas trajetórias fe- lização e separação; não mais obediência a um governo central,
chadas do átomo. Neste ponto, a involução, efeito da revolta, mas anarquia. O conceito de centro permaneceu, como verifi-
levou o ser do estado espiritual ao material, e o impulso que ge- camos no átomo, porém não significa mais a unidade, e sim a
rou a queda alcançou os seus efeitos. fragmentação da unidade. Apesar de restar o modelo original,
Com a vibração, nasceu a onda, com suas características de ele não é mais uno, como deve ser o centro para permanecer
frequência e comprimento. No princípio, o tipo de vibração é como tal, mas sim uma infinidade de centros que não se conhe-
mais próximo da linha reta, isto é, frequência máxima, com- cem e, do fundo do caos, apenas começam a reorganizar-se.
primento de onda e amplitude de oscilação mínimas. Esta se Encontramo-nos aí distanciadíssimos daquele estado de fusão
poderá chamar de onda espiritual do pensamento. Mas, uma vez orgânica ao qual a evolução nos conduzirá. Neste ponto do pro-
iniciado o processo de degradação, a oscilação continua impe- cesso, eles estão apenas desordenadamente amontoados, muito
lindo o ser a existir em formas de vida cada vez mais involuí- longe de um estado de funcionamento coletivamente coordena-
das, menos psíquico-espirituais e mais materiais. Descemos, as- do. Os elementos não existem mais em relação direta com o
sim, até à vida animal e vegetal. A este ponto, a degradação do centro Deus, mas apenas cada um em relação com o seu peque-
espírito desce abaixo das mais elementares formas de vida e en- no centro. O centro não é mais Deus, que rege todo o Sistema,
tra, mudando ainda mais, no mundo dinâmico, como energia, mas um núcleo que dirige alguns elétrons. É o resultado final
na forma de eletricidade, de onde, depois, no processo evoluti- encontrado pelo “eu” da criatura por ter desejado substituir-se
vo inverso, sabemos que renasceu a vida. Neste ponto da desci- ao “eu” central Deus, dirigente de todo o Sistema. Traduzido
da, a onda, tornando-se mais longa e de frequência menor, co- em termos de dinâmica atômica e ondulatória, assim se explica
meça a contrair-se, diminuindo a sua amplitude de oscilação o processo da revolta e da queda.
progressivamente, num processo de enrodilhamento sobre si ◘ ◘ ◘
mesma, até fechar-se nas trajetórias obrigatórias do átomo, fe- No período evolutivo, verifica-se o processo inverso, dado
nômeno para o qual se passa, como por um congelamento ciné- pela reunificação e reorganização segundo o princípio das uni-
tico, da fase energia para a fase matéria. dades coletivas (Cap. XXVII de A Grande Síntese). No átomo,
O fenômeno da queda, estudado em seu aspecto dinâmico, chegou ao máximo a curvatura do estado cinético próprio da
apresenta-se-nos, agora, como uma curvatura cinética ou en- substância em sua posição original de Sistema não decaído. A
volvimento gradual do movimento sobre si mesmo, equivalen- essa curvatura do movimento, levando-o a contrair-se e fechar-
te a uma contração da liberdade do espírito (Sistema) no de- se sobre si mesmo, deve-se o fato da inversão dos valores do
terminismo da matéria (Anti-Sistema). Com a queda, o estado Sistema, emborcados no Anti-Sistema, onde a vida se corrompe
cinético da substância, livre e aberto na origem, sofre uma cur- na morte; o bem, no mal; a luz, nas trevas; a liberdade, no de-
vatura progressiva, até ser aprisionado no sistema cinético fe- terminismo; a felicidade, na dor e assim por diante. A teoria ci-
chado do átomo. Neste ponto, chegamos ao fundo da queda, no nética da queda nos mostra o equivalente dinâmico destas trans-
reino da matéria e do máximo divisionismo, onde as individu- formações. As trajetórias fechadas dos íntimos movimentos do
ações atômicas isoladas dominam no caos e o princípio separa- átomo representam o equivalente cinético da contração ou cur-
tista da revolta atinge o pleno triunfo. vatura da liberdade do espírito no determinismo da matéria.
Neste ponto do processo, no fundo da involução, nos antí- Corresponde também à lógica que a preponderância do impulso
podas do estado unitário do Sistema, triunfa o núcleo do “eu”, egocêntrico dos elementos menores, na tentativa de egoistica-
Pietro Ubaldi O SISTEMA 39
mente substituir-se ao egocentrismo de Deus na direção do Sis- lançada longe do centro com velocidades espantosas, repetindo
tema, tenha produzido uma contração cinética, uma vez que o no extremo oposto do fenômeno da queda – invertido na sua
campo dinâmico, em virtude da ilimitada multiplicação de cen- forma material – o mesmo processo que constituiu a revolta e o
tros, ficou subdividido em numerosos campos menores, em vez consequente afastamento do centro. Para alcançar esta expan-
de permanecer uno no comando de todo o Sistema. A subdivi- são, o nosso universo teve de romper os liames que o haviam
são separatista não podia deixar de causar uma diminuição do mantido unido nos primeiros estágios de sua evolução, forma-
campo de domínio do “eu”, o que significa perda de liberdade. dos pelas forças da gravidade. Parece que, atualmente, o impul-
Se a revolta levou a uma extraordinária multiplicação de indi- so cinético das galáxias na direção do afastamento seja várias
vidualidades dominantes e independentes, o resultado final foi vezes maior do que a sua energia potencial gravitacional recí-
que elas tiveram de dividir entre si o campo de domínio, sendo proca; isto implica, logicamente, que o nosso universo continu-
cada uma obrigada a limitar o próprio espaço para deixar lugar ará a expandir-se ao infinito, simplesmente obedecendo à lei da
ao das outras. Isto porque, com a revolta, as individuações no inércia, sem nenhuma probabilidade de seus elementos se rea-
Anti-Sistema tornaram-se elementos de tipo isolado, antagonis- proximarem entre si, levados pela força da gravidade.
tas, e não de tipo orgânico, com funções coordenadas, como no Perguntamo-nos, então: por que acontece tudo isso? E o que
Sistema; ficaram separadas em numerosos sistemas mínimos de significa? Por obra de quais forças foi determinada essa expan-
forças divididas, e não fundidas num sistema único, de estrutura são do universo? A ciência admite que ele esteja agora expan-
orgânica compacta. Dessa maneira, a teoria cinética da queda, dindo-se porque, em precedente período de sua história, con-
mostrando-nos a curvatura das trajetórias e a construção do sis- traiu-se do infinito para um estado de enorme densidade e, por-
tema de forças do organismo original, revela-nos a íntima razão tanto, ricocheteou, impulsionado pelas poderosas forças elásti-
causadora do desvio para fora da Lei e da inversão dos valores cas inerentes à matéria comprimida. O fundo da descida involu-
que estabeleceram o conteúdo do Anti-Sistema. tiva, então, segundo a ciência, seria representado por um estado
No átomo, pois, a substância se acha na posição de máxima de máxima compressão do universo, no qual toda a matéria se
descida involutiva. O átomo, com o seu sistema apertado em restringiu, reduzida ao estado de um fluido nuclear uniforme. A
torno do núcleo, reduzido a uma forma puntiforme de dimen- cinética de expansão prevalece sobre a cinética de contração,
sões tão submicroscópicas, que nele está quase destruída a di- invertendo a direção do movimento, que segue não mais em
mensão espacial, representa o triunfo máximo do egocentrismo descida involutiva, mas em subida evolutiva. Neste ponto, es-
separatista do “eu” rebelde, que chegou a colocar o seu “eu” gota-se o impulso da revolta e recomeça a agir o impulso opos-
como substituto de Deus, transformando-se em sistema próprio, to, de atração, que o centro Deus continua a exercer sobre tudo
fora do sistema Dele. O modelo original permaneceu, porque a o que existe, impelindo e guiando a evolução para a reconstru-
criatura não pode criar, mas apenas imitar. O modelo ficou, mas ção de tudo o que a involução destruíra.
repetido às avessas, como uma paródia, pois o centro Deus foi Como se vê, a teoria cinética da queda acha-se de acordo
substituído por um centro tão infinitesimal, que só sabe dirigir, com os últimos dados da ciência e nos explica seu significado
ao invés do sistema do todo, apenas alguns satélites que cega- profundo. O conceito de condensação e compressão da matéria
mente lhe giram em torno, sem liberdade e sem conhecimento. corresponde à contração ou curvatura cinética, que o explica. O
É este o estado da matéria na formação das nebulosas, num conceito de expansão do nosso universo corresponde à abertura
interminável número de elementos desordenadamente agrupa- cinética, isto é, à libertação do movimento das órbitas fechadas
dos nos aglomerados estelares. Encontramo-nos, aqui, no fun- do Anti-Sistema para as trajetórias abertas do Sistema. Aqui
do do período involutivo, na plenitude do Anti-Sistema. É des- também, o segundo conceito explica o primeiro. A fase de con-
te ponto, no átomo, que se inicia o período inverso evolutivo, tração cinética é dominada e determinada pelos impulsos gravi-
de subida para o Sistema. A potência coesiva representada pelo tacionais, que exprimem não o Amor divino salvador, mas o
Amor, que mantém livremente unidos os espíritos no Sistema, amor egoísta dos egocentrismos separatistas, ou seja, impulso
ainda sobrevive funcionando no átomo, mas em termos rigi- não mais centrípeto em direção a Deus, mas centralizador em
damente determinísticos, como força de atração ou gravitação. direção ao polo oposto da criatura rebelde. Já a fase de abertura
Nesta sua forma, o Amor começa a dirigir a constituição e o ou libertação cinética é dominada e determinada pelos impulsos
desenvolvimento das nebulosas, com a formação da primeira expansionistas, nascidos de ricochete, como reação ao movi-
manifestação da matéria nos corpos estelares. Assim, o poder mento precedente de concentração e compressão. E o ponto em
de Deus, chegando até ao Anti-Sistema, guia e impele, desde que o processo involutivo chega ao fundo do desmoronamento,
os primeiros passos, o gigantesco fenômeno da evolução, que no qual se inicia o processo oposto evolutivo, é dominado pelo
deverá trazer de novo tudo a Ele. Dessa maneira nascem e ex- contraste de duas forças opostas: compressão gravitacional e
pandem-se as galáxias, primeira manifestação, no plano físico, expansão potencial, ou seja, a contração e a abertura cinética. O
da tendência do Anti-Sistema para uma distensão cinética, no primeiro impulso, cumprindo-se, exprime o Anti-Sistema na
sentido de reabrir a curvatura do movimento que se verificou plenitude de sua realização; o segundo, ao entrar em ação, ex-
com a involução na queda. prime o esgotamento dos impulsos daquele e o início de um
A astronomia moderna viu esta tendência na expansão do novo período, em que começam a funcionar as forças do Siste-
universo. Calcula a ciência que esta expansão iniciou-se há cer- ma, salvadoras do Anti-Sistema.
ca de dois ou três bilhões de anos. Estima-se, outrossim, que, Entretanto, paralelamente a tudo isso, ocorre um fenômeno
no estado embrionário do universo, toda a matéria vista agora igualmente importante: o amadurecimento estequiogenético. Já
disseminada através do espaço, até os limites de visão do teles- o estudamos em A Grande Síntese. Não somente as galáxias
cópio do Monte Wilson, isto é, num raio de quinhentos milhões mas também o dinamismo representado pela estrutura cinética
de anos-luz3, estava comprimida numa esfera de raio igual a fechada no átomo, tende a abrir-se em certo ponto, permitindo a
somente oito vezes o raio solar. Atingido este estado de extre- evasão de elementos periféricos. Podemos agora compreender a
ma densidade, foi iniciado um movimento contrário de descen- razão profunda desse fenômeno. A tentativa de substituir Deus
tralização e de rápida expansão, que reduziu milhões de vezes a pelo “eu” separado da criatura, na direção central que domina o
densidade do universo. A matéria, qual tremendo explosivo, foi Sistema, não podia ser mais do que uma simples tentativa, pois
a criatura, uma vez que não é onipotente nem representa um
3
Anos-Luz – distancia percorrida pela luz durante um ano com a sua manancial inesgotável e infinito, só domina forças limitadas,
velocidade de trezentos mil quilômetros por segundo. (N. da E.) apenas fazendo parte de um todo, portanto sua ação está sujeita
40 O SISTEMA Pietro Ubaldi
a esgotar-se. Em seu impulso egocêntrico, o núcleo, centro do e a reconstrução do Sistema, porque, contra a atração do ego-
sistema atômico, tenta reagrupar em torno de si e dominar com centrismo do eu separado, vence e torna a funcionar a atração
o seu poder o maior número possível de elétrons. Tenta com is- do egocentrismo do Sistema – Deus.
so repetir o motivo centrípeto do sistema de Deus. Mas é ape- Continua assim a reconstrução do edifício. Focalizando o
nas um elemento, e não o centro do Sistema. Além disso, o seu aspecto cinético da destruição e reconstrução do Sistema, pro-
impulso é contrário ao do sistema onipotente de Deus. Por isso, curamos obter, de um novo ponto de vista, outra visão do fe-
por mais que o elemento lute para se impor, deve chegar o mo- nômeno. Esta perspectiva nos revela que o período de involu-
mento em que as suas forças limitadas devem esgotar-se e o ção representa um fenômeno de fechamento cinético, enquanto
poder de domínio de seu egocentrismo tem de declarar-se ven- o período de evolução representa um fenômeno de abertura ci-
cido. É inevitável chegar o momento em que seu impulso de nética. O trajeto de ida ou descida, gerando a queda, significa
Anti-Sistema, contra a corrente do Sistema, será por ela supe- um processo de curvatura do estado cinético que constitui o es-
rado. E é lógico que seja assim, uma vez que revolta significa pírito até o estado cinético que constitui a matéria. O trajeto de
resistência e, portanto, atrito, o que desgasta o elemento rebel- regresso ou subida, produzindo a reconstrução, significa um
de, esgotando-lhe o impulso individual. processo de distensão ou endireitamento do estado cinético que
Chega-se assim a um ponto no qual o núcleo, por ter-se tor- constitui a matéria até o estado cinético que constitui o espírito.
nado rico demais de satélites, não tem mais força para dominar o Tanto no trajeto de ida para a plenitude do Anti-Sistema (invo-
seu sistema planetário. A tendência de seu egocentrismo é de lução), como no trajeto de regresso para a plenitude do Sistema
atrair e dominar um número cada vez maior. Mas são limitados (evolução), com a destruição do Anti-Sistema, encontramo-nos
seus recursos de elemento separado, sendo o seu potencial di- no âmago de um processo em que, tanto no sentido da curvatu-
nâmico apenas o de um fragmento ou centelha. O limite de sus- ra como no do endireitamento cinético, o movimento se dá
tentação, no crescimento do sistema atômico, é atingido no 92o sempre em função do conceito de curva. Representando a for-
elemento satélite. Além desse limite, a atração centrípeta do mação do Anti-Sistema um processo de curvatura, tudo nele só
egocentrismo do elemento não funciona mais porque se esgota. pode ser curvo, e tanto mais curvo quanto mais nos aproxima-
Nesse momento, inicia-se um movimento oposto, centrífugo, pe- mos de seu estado de plenitude, que é representado pela maté-
lo qual é quebrada a unidade que o átomo conseguiu construir ria. Esta é mais uma razão, além daquelas já expostas no volu-
com o poder egocêntrico do núcleo. Chega-se assim aos fenô- me Problemas do Futuro, para comprovar que o espaço, di-
menos de radioatividade, onde o urânio, que representa o peso mensão da matéria, só pode ser curvo em seu conjunto.
atômico mais alto (238,2), constitui o último termo da evolução A revolta representa a vontade dos elementos rebeldes de
estequiogenética da matéria. Aí se inicia a desintegração atômi- se fecharem sobre si mesmos, separando-se do movimento dos
ca. O pequeno “eu” que se separou do sistema de Deus desejaria outros elementos do Sistema, que funcionam em relação ao
igualmente continuar a atrair a si todo o universo. Mas sua cons- centro – Deus. Esta vontade contrária constitui o primeiro im-
trução é feita ao negativo, obra de revolta, e, como tal, não pode pulso da separação e, portanto, da expulsão do Sistema, daí
crescer nem durar. Além disso, o elemento se acha, aí, no ponto ocorrendo o desmoronamento. O Anti-Sistema, forte pelo im-
de maior fragmentação da unidade, o que divide em frações in- pulso que tomou, procura constituir-se na posição invertida
finitesimais o poder centralizador de sua posição. Então, a lei de (emborcada), como sistema desmoronado, ou seja, de Anti-
Deus, fazendo-se inexoravelmente determinística nesse nível, Sistema. As forças do mal resistem. A matéria, seu reino, dese-
retoma sob seu domínio inviolável esses elementos, que chega- jaria ser eterna como o espírito. Mas, em determinado ponto,
ram ao fundo da descida. O próprio potencial das forças em po- aparece a fraqueza congênita do Anti-Sistema, então o impulso
der dos rebeldes já havia fixado implicitamente os limites da re- separatista se esgota e a nova construção dos rebeldes desmo-
volta, que, atingindo um determinado ponto, tem suas pseu- rona por sua vez. A ruína do destrucionismo, porém, só pode
doconstruções destruídas por um novo impulso reconstrutor. ser a reconstrução; a ruína do divisionismo só pode ser a unifi-
Então, o átomo se fragmenta e a evolução, caminho de re- cação; o contrário da contração só pode ser expansão e liberta-
gresso, torna a levar à distensão cinética o movimento que se ção. O caminho da descida só pode ser invertido tornando-se o
curvara sobre si mesmo. Assim, as trajetórias fechadas no áto- caminho da subida. Na sucessão desses momentos, há uma
mo abrem-se para a saída dos elétrons, que se lançam livres no consequência lógica da qual não se pode escapar.
espaço, gerando um novo modo de ser da substância: a energia. Dessa maneira, no próprio seio do Anti-Sistema, está im-
Podemos, dessa forma, compreender o significado profundo do plantado um princípio oposto a ele: o princípio construtivo do
fenômeno da radioatividade. Ela representa o primeiro passo no Sistema. Surge do âmago do princípio destrutivo do Anti-
caminho do regresso, através da passagem da fase matéria à fa- Sistema um novo impulso, proveniente de Deus, que retoma
se energia; representa o primeiro salto da distensão cinética pa- tudo, para regenerar, salvar e reconstruir o que estava destruí-
ra libertar o movimento das formas fechadas das trajetórias do do. Este é o significado profundo do período evolutivo, que se
átomo; representa o primeiro golpe de destruição das constru- inicia neste ponto. A matéria se desintegra, e nasce a energia,
ções do Anti-Sistema (átomo, matéria) para a reconstrução do que depois se torna vida, e esta, através do sistema nervoso e
Sistema, destruído com a revolta. Através dela entra-se na fase cerebral, transforma-se em psiquismo e espírito. É fato eviden-
energia, da qual se passará mais tarde à fase do espírito. te que assistimos a uma reconstrução de valores, de potencial
Da mesma forma como, na fase involução, o impulso da dinâmico; a uma abertura da contração do mal e da dor; a uma
revolta representava uma tendência a uma curvatura cinética libertação da prisão da forma; a uma distensão da curvatura do
cada vez maior, ou aprisionamento do movimento, assim, nesta eu rebelde sobre si mesmo, para, em vez de adorar o próprio
outra fase, que é evolutiva, a atração centrípeta do Sistema em egocentrismo no lugar de Deus, tornar a adorar a Deus e viver
direção a Deus prevalece sobre o impulso da revolta, represen- apenas em função Dele.
tando uma tendência a uma abertura cinética cada vez maior, Desse modo, a curvatura cinética é gradativamente corrigi-
ou libertação do movimento. Atingindo no urânio a quantia de da, a oscilação lateral da onda é gradualmente reabsorvida e,
92 elementos, os satélites se rebelam, quebram as trajetórias e com ela, a vibração genética da forma, que, por sua vez, tende
deixam de girar em redor do núcleo, libertando-se do seu do- cada vez mais a desaparecer, dissipando o nosso mundo de apa-
mínio; livram-se assim do estado cinético fechado e se lançam rências e ilusões. Assim, a fraqueza causada pela pulverização
no espaço com trajetórias independentes, num estado cinético no separatismo é reabsorvida pelo poder da unificação. Quando
livre. É neste ponto que começa a demolição do Anti-Sistema dissemos que a ordem é reconstituída, quisemos dizer com isso
Pietro Ubaldi O SISTEMA 41
que o desvio lateral no movimento do Sistema é reconduzido ao seus resultados, regressando ao seu estado anterior de perfeição.
seu binário, onde se encontra a Lei. Vimos que a revolta, em Dessa maneira, é endireitada e corrigida a tremenda curvatura
termos de cinética, significa, na ordem do movimento do Sis- cinética, pela qual se aprisionara a liberdade do espírito no de-
tema, a formação de núcleos de elementos rebeldes, centros de terminismo da matéria. Se, no ponto mais fundo da involução, a
turbilhões autônomos, que visam crescer sempre mais em dire- vida – qualidade de Deus, “Eu sou” – extingue-se, dando-se com
ção egocêntrica, contrária ao movimento egocêntrico divino, seu aniquilamento a vitória da rebelião, justamente nesse instan-
formador da autonomia do Sistema. Daí a luta entre as duas au- te se inicia o processo inverso, de evolução, a obra de salvação
tonomias, os dois egocentrismos. Esta é a razão da existência que trará de volta tudo sanado aos braços de Deus.
do dualismo, qualidade fundamental de nosso universo, que, Esse rápido olhar nos permitiu esclarecer e compreender
sendo filho do Anti-Sistema, é constituído ao mesmo tempo de ainda melhor o tão discutido fenômeno da queda. Permitiu-nos,
ruína e salvação. Vivemos do choque dessas duas forças opos- além disso, ver as razões profundas que regem os processos nu-
tas e, assim, amadurecemos, desgastando nossa materialidade cleares, demonstrando-nos como é possível uma filosofia da fí-
no atrito doloroso entre dois impulsos: a revolta e a lei de Deus. sica atômica, resultante de uma teologia que compreende e ex-
Ambos disputam entre si a criatura, para apossar-se dela. A plica as últimas descobertas da ciência moderna.
nossa fase atual é de transição de um plano a outro da evolução.
O fenômeno não pode permanecer existindo sempre nesta for- XIII. O PROBLEMA DA PERFEIÇÃO,
ma. O próprio fato de ser ele constituído por um “tornar-se” ONISCIÊNCIA E ONIPOTÊNCIA.
impele-o, fatalmente, para a sua solução. Um dos dois impulsos
tem de vencer, finalmente. Do estudo da estrutura cinética do No capítulo IX, respondemos a algumas objeções feitas por
processo, deduz-se, como lógica e necessária conclusão, que só outros e por nós mesmos. Logo depois, ao resolver as primei-
o impulso de Deus, por ser o mais potente, pode vencer. Da fa- ras dificuldades examinadas, a crítica à teoria se ampliou, le-
talidade desse resultado é impossível escapar. A positividade do
vando-nos, para melhor esclarecer e responder, a reexaminá-la,
Sistema não pode deixar de acabar demolindo e reabsorvendo
colocando-a diante da filosofia e de seus sistemas, diante das
toda a negatividade do Anti-Sistema.
modernas orientações da biologia e das últimas conclusões da
Vimos que a curvatura cinética no Anti-Sistema é devida à
ciência astronômica e nuclear. Isto nos permitiu focalizar e es-
tendência dos núcleos rebeldes de centralizar tudo, envolvendo
clarecer outros pontos, trabalho próprio desta segunda parte, de
tudo em redor do próprio egocentrismo e, desse modo, rivali-
análise e crítica.
zando com Deus, a fim de superá-lo. Empreendimento absurdo.
Agora poderemos continuar a responder, de forma mais
Por isso, ao invés de vencer o Sistema, a revolta só conseguiu
pormenorizada e específica, às várias perguntas e dificuldades
formar nele vórtices sinistrogiros, resistentes à oposta corrente
que nos foram apresentadas pelos próprios ouvintes dos dois
dextrogira, tendo como resultado o sofrimento, devido ao atrito
cursos realizados sobre o tema deste volume, nas capitais brasi-
de enfrentar uma potência superior, até ao ponto de serem de-
leiras de São Paulo e Rio de Janeiro, nos meses de inverno des-
molidos. É verdade que o Anti-Sistema consegue alcançar a sua
plenitude na matéria, mas essa plenitude é transitória, pois as te ano de 1956. Este estudo, tirado diretamente do contato com
construções atômicas não resistem e se desintegram. A revolta os ouvintes dos cursos, representado pela discussão dos vários
não tem o poder de criar um centro cinético estável, mas apenas temas tratados, será aqui reproduzido tal como ocorreu, na for-
uma cinética de transformismo. O novo tipo de existência, cria- ma de perguntas e respostas, para concluir o presente volume.
da pelo Anti-Sistema, é apenas um “tornar-se”, ou seja, uma Podemos, assim, observar o choque entre duas psicologias:
contínua modificação, uma instabilidade que dever correr, por- a humana comum, com os seus pontos de referência em nosso
que, dentro do processo involutivo e evolutivo, só é possível mundo, e a inspirada, que vê do alto os mesmos problemas.
existir como movimento. A revolta não produziu nada de fixo Temos de levar em conta também a primeira, pois nos possibi-
nem estável, mas apenas a necessidade de perseguir uma meta, litará fazer uma observação sob novo ângulo, vendo as coisas e
sem nenhuma possibilidade de poder escapar à fatalidade de equacionando os problemas diversamente. Isto nos poderá
atingi-la. Por sua própria natureza íntima, o fenômeno nascido conduzir a novos esclarecimentos, novas perspectivas, ainda
da revolta é um processo fadado a extinguir-se, qual fera voraz não vistas ou não focalizadas perfeitamente. Sem dúvida, nos
que se vê, em última instância, forçada a devorar a si mesma. expõe ao risco de incorrer em algumas repetições, pois são tra-
Assim, a tentativa dos rebeldes para se constituírem em sis- zidos a exame sempre os mesmos motivos. Outrossim, não se-
tema independente, tornando-se centros, foi esforço vão. Tudo rá possível, nestes capítulos, manter uma ordem lógica e orgâ-
se reduz, por fim, a uma exceção transitória no estado normal do nica, pois devemos seguir o pensamento nascido na exposição
Sistema e à consequente necessidade de realizar o esforço da dos vários temas, neles se inserindo com as discussões. Toda-
subida de volta. O seu esforço para criar pseudoconstruções se via, esforçamo-nos em reagrupar o material recolhido segundo
reduz, ao invés, à necessidade de ter que realizar, com a evolu- os assuntos, em torno de cada tema. Este estudo tem a vanta-
ção, construções verdadeiras, de acordo com a Lei violada. Com gem de nos mostrar a psicologia e as reações do ouvinte co-
a revolta, o ser se colocou diante de uma encruzilhada: caminhar mum, quais são e como podem ser resolvidas as dúvidas que,
para trás, reconstruindo com a evolução tudo o que destruiu, e surgindo geralmente do modo comum de conceber as coisas,
salvar-se, voltando a existir de acordo com a Lei no Sistema, tal costumam manifestar-se em todas as mentes. As reações se as-
como quer Deus, ou então insistir na descida. Mas o que pode semelham, demonstrando existir um fundo psicológico co-
haver no fundo de um processo negativo de destruição, senão a mum, originado pelos mesmos pontos de referência terrenos e
negação de tudo, até à destruição de si mesmo? Como pode so- humanos. Por isso estes capítulos são proveitosos, pois nos
breviver quem quer mergulhar num sistema que é de morte, pois permitem apresentar ao leitor respostas diretas às perguntas
é contra Deus, que é vida? A revolta só era possível ocorrer nes- que ele mesmo estará formulando ao ler os capítulos preceden-
ta forma, de modo que não poderia produzir outro resultado se- tes. Sem dúvida, seriam as mesmas que faria se tivesse assisti-
não resistência, luta, atrito e perda, estando condenada desde o do aos cursos, feitas pelos outros ouvintes no lugar dele. Dessa
princípio. O Sistema nada tinha a temer, nem mesmo, em última maneira, mesmo se tivermos que voltar a tratar temas já de-
análise, a própria criatura rebelde, pois, se ela não quisesse per- senvolvidos, poderemos melhor alcançar o objetivo principal
manecer aniquilada, teria de realizar o esforço da subida para, de toda a nossa obra, fazendo tudo ser bem compreendido.
depois de haver aprendido a dura e salutar lição, poder usufruir Além do mais, é difícil repetir um conceito de modo idêntico
42 O SISTEMA Pietro Ubaldi
duas vezes, pois, quando se pensa repeti-lo, de fato se está vel um ponto de partida, e a causa primeira só pode estar em
acrescentando sempre algum pormenor ou aspecto diferente. Deus. Os fatos existem e não podem ser destruídos. Temos ao
Diante destas vantagens, não importa se agora os problemas menos de explicá-los.
não são enquadrados numa visão geral, nem se são tratados Se Deus é perfeito, como podem ter saído de Suas mãos
sem ordem, pois o leitor aí se encontrará um pouco, vendo re- coisas tão monstruosamente imperfeitas? Admitir uma filiação
solvidas as próprias dúvidas, da maneira como costumam sur- direta significa negar Seu principal atributo: a perfeição. Como
gir na mente humana. Não devemos recusar nada que possa le- pode dela ter nascido tudo de horrível existente em nosso mun-
var a esclarecimento e compreensão cada vez maiores. do? Como pode, numa obra que deveria ser perfeita, haver tal
Dito isto, passemos ao exame das objeções e às respectivas mancha indelével? Temos, de um lado, um Deus perfeito, gera-
respostas. dor de tudo, e, de outro, criaturas muito imperfeitas, mas que
◘ ◘ ◘ não podem ter nascido senão Dele. Como é possível tão estreita
OBJEÇÃO: relação de filiação entre dois elementos tão diversos? Então, se
Deus criou os espíritos tirando-os de Sua própria substância. não quisermos cair no absurdo de dizer que as criaturas não fo-
Então tinham de ser de Sua própria natureza e possuir Suas ram geradas pelo Criador, devemos admitir entre os dois a
mesmas qualidades. Ora, dado que, entre os atributos de Deus, ocorrência de algum acontecimento, ao qual se deve a trans-
devemos admitir em primeiro lugar a liberdade, temos de admi- formação. Se Deus, sendo Ele o Todo, não pode ter criado se-
tir, necessariamente, que os espíritos eram livres, de uma liber- não tirando tudo de Sua substância e se esta só podia ser perfei-
dade completa, como era a de Deus. Segue-se daí a possibilida- ta, então nada de imperfeito podia ter saído de Suas mãos, mui-
de de erro, pois uma liberdade em que não seja permitido tudo, to menos criaturas imperfeitas. É, pois, absurda uma criação
até mesmo errar, onde alguma mínima coisa seja proibida, não imperfeita para se aperfeiçoar depois, onde tenham sido criados
é mais liberdade completa. Existia, pois, no Sistema a possibi- espíritos imperfeitos, aos quais fosse imposta depois, contra a
lidade de queda, como consequência do erro. Até aqui, de acor- possibilidade de qualquer livre escolha, a angustiante fadiga de
do. Mas aí começam as dificuldades. conquistar a perfeição com a evolução. Além disso, há inconci-
Entre as qualidades da Divindade, devemos admitir não liabilidade entre espírito e imperfeição, sendo uma contradição
somente a liberdade, mas também a perfeição, e, pelas razões falar de espíritos imperfeitos. As criaturas saídas da mão de
acima expostas, os espíritos também deviam possuir esta ou- Deus só podiam ser espíritos e perfeitos, porque saíram das
tra qualidade. E, se eram perfeitos, também deviam ser infa- mãos de Deus. A perfeição só pode existir no estado espiritual.
líveis, não sujeitos a erros, portanto não devia haver possibi- Mas, em nosso universo, não existem apenas o mal e a dor.
lidade de queda. Existe também a matéria. Se Deus não é senão puro espírito,
Todavia deviam possuir ainda outra qualidade da Divinda- donde e como se derivou a matéria? Se só podemos conceber
de. Como Deus, deviam ser oniscientes e conhecer os prejuí- Deus como um estado espiritual perfeito, como pode ter nasci-
zos decorrentes de uma desobediência. Logicamente, deveri- do Dele, em direta relação de filiação, este tão diferente estado
am ter escolhido o melhor caminho, ou seja, da ordem e disci- material imperfeito? Há um fato positivo, indiscutível: o nosso
plina. É inadmissível que um ser inteligente, como os espíritos universo é dualista. Há nele o lado material e o espiritual. Cada
deveriam ser, venha a executar um ato cujas terríveis conse- elemento se constrói da contradição entre dois princípios opos-
quências já conhecia. tos. Ora, o conceito de Deus só pode corresponder a um princí-
No entanto há mais. A revolta não era só um ato particular, pio único, estritamente monista. O dualismo, então, só pode ser
de interesse somente dos espíritos rebeldes, mas interessava a aceito como uma corrupção ocorrida depois. Não é admissível
todo o Sistema, pois atentava sobre a sua integridade; interes- em Deus o contraste ou a contradição, nem uma dissensão in-
sava sobretudo a Deus, que era a mente e o centro de tudo. Ora, terna entre dois princípios contrários. Não se pode aceitar o
Deus era consciente e sabia as consequências da revolta. Mas, conceito de um Deus dividido contra si mesmo, conceito de um
se sabia delas, não devia permiti-la. Um pai amoroso impede, centro que não seja unidade absoluta.
até com risco da própria vida, que seu filho caia no abismo. Diante de todos esses fatos positivos, ou seja, o mal, a dor, a
Além disso, Deus também era onipotente. Se assim era, co- imperfeição de nosso mundo, a matéria, o dualismo etc., deve-
mo pode ter construído um sistema que pudesse ruir, uma lei mos concluir que ou Deus não criou tudo isso, portanto há ou-
suscetível de ser violada, uma obra sujeita a falir? Tudo isso tro criador e Deus não é o centro nem abarca tudo, ou, se não
contradiz o próprio conceito de Deus. A obra de Deus devia ser existe um anti-Deus criador de todas essas coisas, então foi
perfeita como Ele, e um sistema perfeito não pode desmoronar. Deus que as criou, portanto Ele errou e agora procura salvar
Se um edifício desmorona, é porque está mal construído, e, nes- Sua obra, remediando o mal feito. Mas, se achamos esta segun-
te caso, a imperfeição está no engenheiro, ou seja, em Deus. Se da conclusão absurda, pois faz parte do próprio conceito de
o Sistema ruiu mais tarde, isto significa que a obra era imper- Deus que Ele não possa errar, então perguntamos: quem errou?
feita e que, portanto, também imperfeito era o seu autor. Sendo Se devemos excluir como absurda também a primeira hipótese,
isto absurdo, também é absurda a teoria da queda. de um segundo Deus criador diferente, não nos resta outra cau-
◘ ◘ ◘ sa possível senão Deus ou as Suas criaturas, pois, fora disso,
RESPOSTA: não existe outra coisa. Então, se esses efeitos, como vimos, não
Diante de uma afirmação pode-se tomar duas atitudes: não podem ser atribuídos ao Criador, só nos resta atribuí-los à cria-
discuti-la, demonstrando apenas os absurdos provenientes de tura. Neste caso, somente com a teoria da revolta e da queda
sua aceitação, ou então discuti-la, demonstrando seu absurdo podemos encontrar uma explicação lógica para tudo, porque,
diante dos fatos e da lógica. Seguiremos estes dois caminhos. dessa forma, Deus não é o motor imediato e a causa direta do
Comecemos pelo primeiro. atual estado de coisas, uma vez que, entre Seu trabalho perfeito
a) Poderemos excluir a teoria da queda, mas não poderemos e as consequências imperfeitas, haveria sido interposto o fato
eliminar os fatos existentes. Compete, então, a quem nega a te- novo da revolta, causadora dessa imperfeição, que não pode de
oria, dar uma explicação desses fatos, que, sem ela, permane- maneira nenhuma ser atribuída a Deus.
cem problema insolúvel. Partamos de um dado positivo indis- Não. O mal não pode ter sido criado por Deus, porque, se
cutível, conhecido por todos: a existência do mal e da dor. De assim tivesse acontecido, deveria ser como a Sua substância, is-
que causa são eles efeito e como se originaram? É indispensá- to é, eterno e indestrutível. O mal estaria definitivamente insta-
Pietro Ubaldi O SISTEMA 43
lado na obra de Deus, como mancha indelével, e seria dada, en- ordem e é alcançada com a reordenação. O erro foi de desobe-
tão, a essa força inimiga o poder de arruinar para sempre a obra diência e é corrigido pela obediência à lei de Deus. Nosso uni-
Divina. Não! Se não quisermos contradizer o único conceito verso é uma clínica onde se curam os enfermos da doença de
que devemos fazer Dele, só podemos conceber o mal, a dor etc. rebelião. O trajeto é lógico e completo: na ordem, um impulso
como uma exceção temporária, um incidente, uma doença cu- errado gera a desordem; impõe-se então a evolução como pro-
rável, um desvio na obra de Deus, e não como uma parte inte- cesso de reordenação de elementos caídos na desordem. A re-
grante do Sistema. Ele é positivo, afirmativo e construtivo em volta não tem poder para criar ou destruir. Tudo permaneceu
tudo, e algo negativo não pode de forma alguma fazer parte De- no Anti-Sistema, mas ficou fora de lugar. Trata-se apenas de
le, nem derivar de Sua criação direta. A luz não pode gerar a tornar a arrumar tudo como estava antes. Em nosso mundo há
escuridão, nem o bem produzir o mal, nem o amor engendrar o matéria prima para qualquer construção; em nosso espírito ja-
ódio, nem a felicidade criar a dor. Vemos aqui uma inversão de zem latentes as ideias para fazer qualquer descoberta e para ci-
valores. Trata-se exatamente de qualidades emborcadas, e só vilizar as relações sociais até à felicidade, segundo a lei de
uma revolta pode explicar-nos isso. Não se trata de uma criação Deus. No Anti-Sistema, desvio do Sistema, existem todos os
diferente, estranha, mas do emborcamento da criação perfeita elementos para a reconstrução do Sistema. Basta levá-los à sua
de Deus. O efeito que temos sob os olhos apresenta-se-nos exa- devida disciplina. Uma vez reconstituída a ordem antes destru-
tamente na posição que, invertida, alcançaria a causa que co- ída, desaparecerá o mal, a dor, a imperfeição, a matéria, o dua-
nhecemos em Deus. Então, dado não ser possível encontrar ou- lismo e todas as qualidades deste mundo decaído, filho da re-
tras causas – a única possível, nós a vemos aparecer invertida volta. Basta retornar à Lei, e reaparecerão todas as qualidades
neste efeito – só resta uma saída para resolver o problema: ligar destruídas do Sistema. A criatura foi criada feliz, com a condi-
aquela causa a este efeito por meio do fenômeno que chama- ção de obedecer à Lei. Saindo da Lei, ela saiu da felicidade pa-
mos revolta e queda. Assim, tudo fica perfeitamente explicado. ra entrar na infelicidade. Reentrando na Lei, a criatura sairá da
Contudo, se negarmos esta teoria, tudo permanece, ao contrá- infelicidade para reentrar na felicidade. Assim, a vida, reorga-
rio, mistério e contradição. Diante dos fatos reais, não basta ne- nizando inicialmente os elementos em formas simétricas (cris-
gar, é indispensável resolver, demonstrando. Podemos, portan- tais), depois em vegetais e animais (organismos), a seguir em
to, repudiar esta teoria só quando nos for oferecida outra expli- unidades coletivas, segundo planos construtivos cada vez mais
cação melhor para os fatos existentes, que não podem ser eli- complexos, realiza, ao evoluir, o grande trabalho de reorgani-
minados pela simples negação. zação da ordem, desfeita no caos pela revolta.
Verificamos que existe exatamente uma relação de inversão Com isto, terminamos a primeira parte da resposta à obje-
entre a causa em Deus e os efeitos que vemos em nosso mundo, ção, sem discuti-la para demonstrar-lhe o absurdo, mas apenas
e a teoria da revolta nos revela precisamente um impulso dessa demonstrando em quais absurdos cairíamos se a aceitássemos.
natureza. Temos, assim, sob os olhos as peças de uma máquina ◘ ◘ ◘
desmontada ou os fragmentos destacados de um único desenho. b) Prossigamos, agora, na segunda parte da resposta, discu-
Experimentamos juntá-los e achamos que, em determinada po- tindo as afirmativas da objeção, opostas à teoria da queda, para
sição, eles coincidem perfeitamente, dando-nos a reconstrução ver se correspondem à verdade.
da máquina ou desenho. Temos esses resultados sob os olhos, e Sustenta a objeção que, sendo os espíritos perfeitos e onis-
não são fruto de fantasia. Eles resolvem de fato o problema. Por cientes, não podiam pecar nem errar. Entretanto, quando tiver-
que não aceitá-los, se assim tudo se explica, enquanto, de outra mos compreendido o valor a ser dado ao conceito de perfeição
maneira, nada fica explicado? e onisciência, isto é, que essas duas qualidades não devem ser
Concluamos a primeira parte desta resposta. Se não quiser- compreendidas no sentido simplista e absoluto, como apareceu
mos contradizer o conceito que devemos fazer de Deus, deve- na objeção, então poderemos perceber que essa afirmativa não
mos dizer que, se Ele não é tudo, então não é Deus. Portanto não corresponde à verdade.
pode haver nenhuma causa além Dele. Mas, se Nele não pode- Já dissemos, no Capítulo VI, sobre Deus criador, que a pri-
mos achar as causas direta do mal, da dor, da imperfeição, da meira criação dos espíritos puros produziu não uma simples
matéria etc., porque estas contradizem Sua natureza, devemos multiplicidade, mas um verdadeiro organismo, um sistema,
encontrar Nele as causas indiretas. Isto significa ter a causa pri- com hierarquia de posições e distribuição de funções, como é
meira, que deve permanecer sempre em Deus, sofrido um pro- indispensável em qualquer organismo ou sistema. A estrutura
cesso de inversão antes de atingir o seu efeito. Permanece ínte- orgânica não foi apenas uma necessidade para contrabalançar o
gra a relação causa-efeito e a sua derivação, explicando-se, des- processo divisionista, de onde derivara a criação e que podia
sa forma, a mudança. A chave da solução do problema está jus- ameaçar a coesão da unidade do todo. O Sistema assumiu a es-
tamente na teoria da revolta. Só assim se explica porque vemos trutura orgânica sobretudo porque a criação de tantos seres dife-
reaparecer em nosso mundo, sob a forma de qualidades inverti- rentes se baseava no princípio do Amor. Esta é a força que con-
das, as qualidades que devem ser de Deus. Esses efeitos só po- tinuou a cimentá-los, o impulso que devia mantê-los unidos em
dem derivar de uma causa que, embora provindo de Deus, pôde sistema, única forma de existência possível num regime de ab-
em seguida erigir-se em vontade diversa, porque era, por sua na- soluta liberdade. Por isso não podia ser eliminada a priori, no
tureza, livre, portanto capaz de desviar-se do caminho traçado e, Sistema, uma possibilidade de revolta, justamente porque a vi-
por um impulso próprio, imprimir uma direção diferente ao im- da do organismo não podia basear-se senão sobre uma livre
pulso da causa original. Dessa forma, vemos chegar a seus luga- aceitação. A revolta não podia ser impedida pela violação da li-
res todas as peças do desenho, que fica assim totalmente refeito. berdade dos espíritos, reduzindo-os à escravidão, mas somente
Esta opinião nos é confirmada, quando observamos que a pela força do princípio do Amor, que devia funcionar neles, em
evolução, muito mais do que um processo de criação, repre- direção a Deus, com a mesma plenitude que aquele princípio
senta um processo de reconstrução. Mais do que uma formação havia funcionado de Deus para eles. Ao princípio de Amor era
do nada, a evolução representa um trabalho de reconstituição, confiada, de modo livre, a tarefa de frear e disciplinar o impul-
de reconstrução do destruído. Não é criação, mas um despertar. so oposto separatista do egocentrismo individual, cujo predo-
Só assim se explica o telefinalismo da evolução e a razão pela mínio foi a origem da revolta. Por ter sido uma rebelião contra
qual o ponto de chegada já possa ter sido dado, antes de ter si- o princípio fundamental da criação, grande foi essa culpa, que
do realizado o caminho para alcançá-lo. A felicidade estava na conduziu a tão duras consequências.
44 O SISTEMA Pietro Ubaldi
Da revolta já falamos no Capítulo VII. Quisemos aqui ape- feito, enquanto permanece no âmbito das funções para as quais
nas lembrar como o Amor representa o princípio de coesão e foi construído. Mas, se ele quisesse tornar-se cérebro e suas cé-
fusão, ao qual estava confiada a manutenção da organicidade lulas quisessem transformar-se em células nervosas, imediata-
do Sistema, princípio cuja função foi organizar os egocentris- mente se tornaria imperfeito e inadequado. Ora, essa imperfei-
mos individuais numa ordem hierárquica. Dessa maneira, con- ção não seria obra do construtor desse órgão, mas dele mesmo,
trabalançando o Amor, que une, e o egocentrismo, que divide, pelo fato de ter querido sair da tarefa a ele designada. Não basta
chegou-se à estrutura hierárquica do Sistema. É necessário apenas ouvir o instinto expansionista do egocentrismo para po-
compreender bem esse conceito, a que, em geral, não se dá im- der ocupar outras posições. É necessário, também, levar em
portância, mas que produz mal-entendidos e incompreensões. conta os correspondentes deveres e capacidades, diferentes da-
Deste conceito derivam importantes consequências. quelas possuídas. Neste caso, a imperfeição seria criada pelo
O princípio hierárquico vigente no Sistema satisfaz tam- coração, em razão dele querer funcionar como cérebro. Da
bém uma outra exigência e cumpre outra função. Se a criação mesma forma ocorreu com as criaturas, perfeitas apenas relati-
dos espíritos tivesse produzido uma simples multiplicidade de vamente ao Sistema. Algumas quiseram sair dos limites de sua
seres, todos iguais, não só seria impossível a distribuição e or- competência e conhecimento. Eis o significado da revolta: rebe-
ganização de atividades, como ainda, dentro da igualdade uni- lião à ordem, desobediência à Lei.
versal, Deus não seria mais centro nem seria possível distin- Nesse momento aparece a imperfeição na criatura, mas a
gui-lo da criatura. A organicidade do Sistema é também uma imperfeição não foi criada por Deus, é sim obra apenas da cri-
consequência da necessidade de manter em Deus a centralida- atura, por querer ultrapassar os limites preestabelecidos. As-
de dirigente do todo. sim, no seio do Sistema, formaram-se posições desviadas, er-
Eis que o princípio hierárquico nos leva à ideia de distribui- radas, fora das funções. Ao lado da perfeição formaram-se,
ção, de distinção, de diferença entre os vários elementos. Ocu- então, zonas de imperfeição, que foram expulsas e formaram
par na organização do Sistema posições diferentes significa o Anti-Sistema. Explica-se, desse modo, como, através desse
possuir qualidades diferentes, para executar tarefas diferentes. desvio do plano original, tenha sido possível, daquela perfei-
Chegamos, agora, ao âmago da questão, em condições de poder ção, chegar a um estado de imperfeição, onde se encontra atu-
avaliar mais exatamente o valor do conceito de perfeição e almente o nosso universo.
onisciência nos espíritos. Podemos dizer que estas qualidades Está assim resolvido o primeiro ponto da objeção, na sua
não podem se entendidas no sentido absoluto, mas somente no afirmação de que os espíritos, por serem perfeitos, eram infalí-
relativo; não como um fato em si, como se supõe na objeção, veis, não susceptíveis de erro, portanto a teoria da queda seria
mas apenas como uma posição proporcional, em relação à fun- inaceitável. O segundo ponto da objeção, referente à onisciên-
ção que devia ser realizada na hierarquia do organismo. Fica cia, fica igualmente resolvido com os mesmos conceitos. Como
incólume, assim, o conceito da centralidade de Deus no Siste- já explicamos no Capítulo VII, sobre a revolta, o conhecimento
ma, princípio do qual derivam os princípios de ordem, de lei e da criatura não ultrapassa os limites de suas funções e não po-
de obediência. Na homogeneidade geral, também o princípio da de, portanto, dominar a zona maior inexplorada, conhecida na
individualidade tenderia a naufragar, pois é difícil distinguir o sua totalidade só por Deus. Quando quis tentar o desconhecido,
indivíduo numa série de elementos iguais. ultrapassando os limites de seu conhecimento, a criatura, que
Trata-se, portanto, de um organismo com posições subordi- era onisciente apenas em relação à sua posição e função, tor-
nadas uma à outra, tendo Deus no vértice da pirâmide, com dis- nou-se ignorante. Essa ignorância, aliada ao desejo de entrar na
tribuição de partes, funções e qualidades diferentes. Isto signifi- zona proibida, que só Deus conhecia e que estava reservada à
ca perfeições e conhecimentos relativos. Então Deus não havia obediência, ocasionou a revolta, o erro e a queda.
criado espíritos perfeitos em sentido absoluto, pois, nesse senti- ◘ ◘ ◘
do, só Ele era perfeito. Ele os havia criado perfeitos em relação c) Na parte precedente, respondemos à primeira metade da
às suas funções. Isto não quer dizer que a obra de Deus não fos- objeção, referente aos espíritos ou criaturas. Vejamos agora a
se perfeita. O organismo do Sistema, resultante da criação em segunda metade, referente à Divindade, ao Criador. A acusação
seu conjunto, era perfeito na perfeição orgânica de todo o orga- feita é de que Deus, sendo onisciente, saberia as consequências
nismo. Isto, porém, não implica nem se pode admitir que, como da revolta e, sendo onipotente, poderia impedi-la, porém a obra
ocorre em todo o organismo, a extensão e a potência da perfei- de sua perfeição desmoronou, logo Ele teria falhado. Sua onis-
ção e do conhecimento de cada elemento individual componente ciência, onipotência e perfeição não podem, então, ser concilia-
possam ser iguais à do todo. Uma máquina pode ser perfeita em das com a teoria da queda. Não sendo possível negar esses atri-
seu conjunto, formada de partes perfeitas, mas com estas só per- butos a Deus, é preciso negar a queda.
feitas como partes, e não como o todo, isto é, não além dos limi- O homem age como uma criança que, depois de quebrar
tes de suas próprias funções. Assim, um empregado de uma or- um belo vaso, fica cheia de raiva e triste, com os cacos na
ganização comercial pode ser perfeito conhecedor de seu ramo, mão, olhando-os e dizendo: “não fui eu”. Mas os cacos estão
ignorando os outros e também todo o conjunto da organização. lá e falam claro. Não existe outro remédio senão confessar, no
No entanto, dentro dos limites das próprias funções, as partes de entanto procura não aceitar o fato consumado. Busca fugir as-
uma máquina ou de uma organização podem ser consideradas sim da própria culpa, pensando poder libertar-se das conse-
perfeitas e oniscientes. A imperfeição, para elas, começa logo quências, se provar que o culpado foi outro. No caso em estu-
que se sai dos limites da própria competência. do, o fato consumado existe e não pode ser explicado nem
Então um elemento que faz parte de um sistema perfeito eliminado se jogarmos a culpa em Deus. Não seria bastante
pode ser perfeito como elemento componente, ou seja, no âmbi- apenas este fato para provar que o homem ainda está se mo-
to a ele designado no plano geral. Porém esse elemento, quando vendo em plena psicologia da revolta, tão vivo está ainda nele
quer ultrapassar esse âmbito, usurpando posições e invadindo o princípio determinante da queda?
funções além do limite preestabelecido – funções que não lhe As três acusações são conexas, e uma implica a outra. Res-
competem e que, portanto, ele não sabe de maneira alguma pondemos à primeira no Capítulo IX, dizendo que o erro fora
executar – ele sai do terreno da sua perfeição e competência e previsto pela onisciência de Deus, o que é provado pelo fato de
entra no campo da sua imperfeição e ignorância. Por exemplo, o Sistema já ter sido provido, com antecedência, dos meios au-
o coração no organismo humano é um órgão relativamente per- tomáticos necessários para sua recuperação e cura. Contraria-
Pietro Ubaldi O SISTEMA 45
mente ao que afirma a objeção, a onipotência de Deus e a per- Assim, a punição se reduz ao esforço de reconquistar a felici-
feição do Sistema ficam provadas pelo fato de, no final, tudo fi- dade, e a imperfeição serve para achar a perfeição.
car sanado e voltar ao estado original de perfeição. Desta forma, quanto mais sobe, quanto mais se esforça e
Poder-se-ia responder também com uma pergunta: Que ne- merece, tanto mais o ser se aproxima daquela felicidade. Em
cessidade tinha a perfeição de Deus de criar um mundo de seres sua posição invertida, em última análise, o Anti-Sistema ape-
imperfeitos? Dois fatos indiscutíveis se enfrentam: de um lado nas nos indica a posição correta do Sistema. Dessa maneira, a
a perfeição de Deus, do outro a imperfeição das criaturas. Não perfeição de Deus transparece no fundo, através das tantas im-
se pode permitir que, de tanta perfeição tenha podido nascer perfeições de nosso mundo. Da profundidade onde se encontra
tanta imperfeição. Então esta só poderá ter nascido da queda. o Sistema, tudo volta à superfície e tanto mais quanto mais se
Portanto o motivo da perfeição de Deus não nega a queda, ao evolui. Deus permaneceu no centro de tudo, e a sua obra foi
contrário, é mais uma prova. feita de tal modo, que o Anti-Sistema só pode trabalhar pela
Respondemos à acusação contra a perfeição de Deus e de sua própria destruição.
Sua obra com outra pergunta. Qual das duas é a mais perfei- Por isso nós, seres decaídos, continuamos, apesar de tudo, a
ta: uma obra que não pode errar, porque seus elementos com- viver no Sistema. Com a revolta, procuramos afastar-nos de
ponentes são prisioneiros de uma disciplina corretiva que Deus, mas só conseguimos arrancar nossos olhos para não O ver,
elimina toda a liberdade e torna impossível qualquer erro, ou pois, mesmo sem sabê-lo, Nele permanecemos. Quanto mais su-
uma obra onde os elementos componentes são mantidos jun- bimos, mais nos apercebemos disso. Em Sua sabedoria e bonda-
tos apenas por livre e convicta aceitação da Lei, coordenan- de, Deus previu tudo, de modo que a revolta não pudesse produ-
do-se espontaneamente na ordem e possuindo tão grande li- zir uma ruína definitiva do Sistema. A certo ponto, a queda para
berdade, que admite até a possibilidade de uma transgressão e inverte-se na direção oposta, subindo. Que maior previdência e
à ordem? Qual das duas obras é mais perfeita, a primeira ou a providência que esta intrínseca capacidade de salvação, inserida
segunda, se esta, podendo desmoronar, foi construída de tal no próprio fenômeno? E não só a ferida é curável, como há uma
maneira que poderia reconstruir-se por si mesma, pois Deus, vontade precisa de cura, que impõe à evolução o seu telefinalis-
sendo sábio, colocou nela até os meios para sua autocura, ca- mo, pelo que o ser tem de evoluir na direção desejada por Deus,
so, como Ele previra, a obra viesse a desmoronar? E como sendo assim, ora acossado pela dor ora atraído pela ânsia de feli-
poderia Deus ter feito diferentemente, sem violar o princípio cidade, constrangido a subir de volta para Deus.
fundamental da liberdade, que Ele não poderia renegar em Concluindo este assunto, a nossa resposta à objeção confir-
sua obra sem renegar a Si mesmo? ma cada vez mais a teoria da queda. Vista mais de perto, ela se
E podemos continuar a nos perguntar: O que é mais perfei- reduz a apenas um parêntese de imperfeição na perfeição, de
to, um organismo que só conhece as leis da saúde e não pode dor na felicidade; parêntese que, no fim, desaparece sem deixar
sair desse estado fixo, ou um organismo que também conhece resíduos de prejuízo. Assim, foi deixada aos espíritos a liberda-
as leis da doença e é livre de ceder a ela, mas tão sabiamente de para escolher entre dois modos de possuir a perfeição e feli-
construído, que, através da experiência do mal e da dor, enri- cidade: 1) obedecendo a Deus; funcionando harmonicamente
quecendo com novas experiências, consegue reconstruir-se em segundo a Lei em seu organismo; 2) desobedecendo a Deus; er-
perfeita saúde? Qual sistema é mais perfeito: o que só conhece rando, mas para depois se corrigir; caindo, mas para levantar-
a perfeição, ou o que abraça também a imperfeição e sabe re- se; destruindo a perfeição, mas para depois ter de reconstruí-la
conduzi-la até à perfeição? Quem é mais forte: quem permane- fatalmente em sua integridade.
ce soberano porque não encontra batalhas, ou quem se embre- O maravilhoso é que, em ambos os casos, seja qual for a es-
nha nelas e as sabe vencer? Qual dos dois construtores é mais colha da criatura, o resultado é sempre o mesmo: a perfeição do
sábio: o que fez um edifício de perfeição cristalizada, que não Sistema é inatacável e permanece íntegra. Pode imaginar-se
tem necessidade do estudo da possibilidade de um desmorona- obra mais perfeita? Que resta da acusação de imperfeição, feita
mento, ou aquele que fez um edifício onde essa possibilidade é à obra de Deus?
tão bem prevista e estudada, que, se ocorrer um desmorona- Qual o resultado final de todo o processo? A queda terá
mento, tudo se reconstrói automaticamente, até ao estado per- conseguido vários resultados importantes:
feito do edifício não desmoronado? Então, como se pode con- 1) A parte caída terá tido tão dura experiência, que não mais
denar Deus por não ter impedido o desmoronamento, se Ele, repetirá tal aventura. Voltou à felicidade e aí permanece. O mal
respeitando a liberdade do ser e a sua necessidade de, por si foi curado sem resíduos, sem traço de prejuízo. Não significa
mesmo, convencer-se do erro, previu e providenciou tudo tão que nenhuma recordação ficou, pois isto é necessário para
bem, que anulou todo o prejuízo? Ainda que o homem tenda a guardar o fruto da lição, tão rudemente aprendida. O que desa-
fazer de Deus uma ideia antropomórfica, degradando-O ao ní- parece totalmente é a lembrança da dor. Mas a lembrança de
vel de um ser egoísta, que cria para se fazer adorado, a fim de haver sofrido não é dolorosa para nós, ao contrário, tanto mais
mostrar seu poderio e punir os rebeldes, como poderemos cul- se sente a alegria da libertação quanto maior foi a dor e quanto
pá-Lo dos males do Anti-Sistema, se estes são um meio para maior é a felicidade atual. A recordação evidencia e aumenta a
reconstruir o Sistema, onde ficarão anulados? felicidade novamente encontrada.
Quanto mais de perto observamos o fenômeno, procurando 2) A parte não derrocada terá assistido à queda, vendo-lhe
a imperfeição, tanto mais acharemos a perfeição. O maravilho- as consequências. Aprendeu, pois, o seu significado. Conhece
so é que o Sistema permaneceu com as suas divinas perfeições agora o perigo e, com todas as forças, evitará cair. Assim, cada
no mais profundo do Anti-Sistema, que, em última análise, re- elemento sabe o que acontece quando se sai dos limites da pró-
presenta apenas uma corrupção exterior do sistema de Deus. A pria posição e conhecimento, invadindo zonas desconhecidas,
queda se reduz à convalescença de uma doença, a um estado além da própria competência.
transitório e excepcional de uma parte do Sistema. A desordem 3) Nos dois casos, a posição final é igualmente de perfeição
não é geral, não mata a ordem, mas permanece nela circunscrita e felicidade, tanto para quem ficou como para quem saiu e vol-
e enquadrada. O Anti-Sistema continua a ser dirigido pelo Sis- tou. Não somente tudo volta a seu lugar, mas a queda é como
tema, isto é, por Deus. A ordem permanece sempre a mais forte um sangue que, ao coagular-se, impede por si mesmo a saída de
e domina a desordem, a dor, o mal, deixando-os subsistir só en- novo sangue da ferida. Então, como último resultado, a queda
quanto e até quando estiverem realizando o trabalho da cura. encerra para sempre a possibilidade de novas quedas.
46 O SISTEMA Pietro Ubaldi
XIV. A PSICOLOGIA DA REVOLTA, tam, apenas persuadem; não impõem com prepotência a escra-
SATANÁS E O ANTI-SISTEMA. vidão, mas oferecem, com bondade, a amizade.
A própria estrutura do todo e os princípios segundo os quais
Passamos agora a outro ponto discutido no curso. Entretan- fora realizada a criação impediam uma intervenção de força da
to, mais do que uma objeção, trata-se de um pedido de esclare- Divindade contra a criatura com o fito de constrangê-la a obe-
cimento. Aceita mais ou menos como conclusão da discussão decer à Lei. O princípio de Amor, segundo o qual tudo foi cria-
precedente sobre a teoria da queda, foram pedidos dados mais do, constituiu a única força utilizada na tarefa de manter unido
precisos a respeito do que parece ser o ponto nevrálgico do fe- o organismo do Sistema. Este só podia existir mantendo-se uni-
nômeno da queda, ou seja, a psicologia da revolta. O problema do em virtude desse impulso de Amor. Se houvesse penetrado o
gira, essencialmente, em torno deste ponto central: saber como menor traço de forças opostas no Sistema, ele deixaria de ser
e por que os espíritos quiseram rebelar-se. Esse problema en- um Sistema e se tornaria um Anti-Sistema, pois essa infiltração
volve o egocentrismo, que foi a causa da revolta. Sendo este um seria suficiente para operar a queda ocorrida com a revolta. O
princípio basilar e sadio do Sistema – tanto que sobre ele se ba- Sistema era um organismo, e, para manter-se em seu estado or-
seia a possibilidade de individuação nas criaturas e da unidade gânico, era indispensável essa força íntima, profunda, fruto de
de Deus, Sua qualidade fundamental – como pôde ser ele a cau- plena convicção e aceitação, potência de coesão que jamais po-
sa de tanto mal? E, se esse egocentrismo implica na individua- deria ser dada por uma imposição coagida, mas somente pelo
lização de tudo que existe, à semelhança do modelo máximo Amor. Em relação a este, o método realizado no Anti-Sistema é
central em Deus, então também as forças do mal se terão indi- apenas uma sua falsificação, que vemos não apresentar nenhum
vidualizado? Teremos de admitir, assim, a existência pessoal de poder de coesão real e duradouro, como acontece em nosso
Satanás? Os problemas são conexos e concatenados um com o mundo, onde a força produz apenas luta em cadeia, ação e rea-
outro. Vamos responder a tudo. ção, num estado de guerra contínua. Esse estado de incerteza e
Não é verdade que Deus possa tudo caprichosamente. Há instabilidade é admissível apenas como forma transitória do
coisas que ele não pode fazer. Assim, por exemplo, Ele deve processo de cura do nosso universo através da evolução, pois
manter-se coerente com as suas qualidades e com a Sua posi- não seria possível haver tão grande imperfeição no seio de um
ção; não pode violar Sua Lei nem se contradizer, porque rene- sistema perfeito em sua forma estável e definitiva.
garia a Si mesmo. Deus criou a criatura de Sua substância, à ◘ ◘ ◘
sua imagem e semelhança, isto é, segundo Seu próprio modelo Com estas observações, vimos que não é possível condenar a
de “Eu Sou”, baseado no egocentrismo. A própria organização conduta de Deus, pois Ele não podia forçar o Sistema a evitar o
do sistema fundamentava-se, com sua hierarquia e distribuição desmoronamento. Isto torna a queda completamente compreen-
de funções, sobre a individuação dos seres, consequência do sível e logicamente justificada, mesmo diante da razão humana.
princípio egocêntrico. Ora, se Deus não houvesse respeitado na Procuraremos agora compreender a conduta da criatura. Pode-
criatura esse princípio, fundamental primeiramente em Si, não remos explicar dessa forma, como nos foi pedido, o ponto ne-
teria respeitado a Si mesmo. Portanto Deus não podia violar vrálgico do fenômeno da queda, ou seja, a psicologia da revolta.
este princípio na criatura. Veremos assim por que e como os espíritos quiseram rebelar-se.
Tendo Deus criado os seres da sua própria substância, de- Os dois princípios, egocentrismo e Amor, estavam perfeita-
via respeitar neles as Suas mesmas qualidades. Se Deus hou- mente harmonizados em Deus, porque o egocentrismo de Deus,
vesse limitado a liberdade da criatura, teria caído em contradi- abarcando todos os seres, não era egoísmo separatista, mas sim
ção consigo mesmo. altruísmo unificador. Não podia, portanto, nascer em Deus con-
Mas havia outro fato ainda mais importante. Deus era Amor, traste entre o princípio centralizador do “eu sou” e o oposto
havia criado por Amor, estando todo o Sistema permeado de princípio do Amor. Na criatura, encontramos estes mesmos dois
Amor. Sobre Amor se baseava sua estrutura hierárquica e, sem princípios, pois ela é feita da mesma substância de Deus e à Sua
Amor, não podia funcionar aquele organismo. Num sistema des- imagem e semelhança. Mas, na criatura, os dois princípios ti-
se tipo, o conceito de coação forçada fica totalmente excluído, nham de harmonizar-se por um ato livre dela. Sem esse ato, a
não havendo lugar para ele, pois constituiria aí uma violação, criatura não podia fazer parte do Sistema, dada a sua constitui-
que representaria a maior das contradições em Deus. Num orga- ção, como vimos. A criatura estava livre entre dois impulsos
nismo construído com os princípios da liberdade e do Amor, a contrários, senhora da situação. De um lado o impulso egocên-
obediência só podia ser obtida por adesão espontânea, e jamais trico do “eu sou”, base de sua individuação, impelindo à expan-
pelo caminho das limitações e das coações. Se Deus houvesse são pela afirmação de si mesmo. De outro lado, o impulso altru-
introduzido em Seu sistema esses princípios opostos, teria traído ísta do Amor, base do funcionamento e da estrutura orgânica do
a Si mesmo e destruído Sua obra. O princípio da disciplina man- Sistema, impulso direcionado ao sacrifício em obediência à or-
tida com a força – método vigente no Anti-Sistema – representa dem, para o bem coletivo. O ato de obediência da criatura era o
justamente a inversão do método do Amor. Se Deus tivesse usa- único passaporte que lhe dava direito de entrar como participan-
do esse método invertido, teria sido Ele mesmo o primeiro a te do Sistema. Para ser digno, era mister ter sabido e, em regime
promover a revolta, então a queda teria sido provocada não pela de liberdade absoluta, dar prova de saber viver na ordem, acei-
criatura, mas pelo próprio Criador, levando não a uma ruína tando-a desde o princípio, sem ser constrangido por nenhuma
temporária e curável, mas a um desmoronamento definitivo de coação. Um constrangimento não teria constituído a confirma-
tudo. A disciplina reinante no Sistema só pode ser uma discipli- ção indispensável. Foi deixado à liberdade do ser a superação ou
na absolutamente espontânea e livre. A obediência conseguida não do exame, devendo ele dar prova de aceitar as condições in-
com a violência e com o terror é apenas uma repetição contrafei- dispensáveis à sua existência como membro do Sistema. Trata-
ta e às avessas do método de disciplina vigente no Sistema; não va-se da livre aceitação de um pacto, como também o exigia a
é a disciplina livre dos espíritos puros, mas a disciplina forçada dignidade da criatura livre, formada da substância divina.
dos rebeldes. No Sistema, tudo é liberdade e Amor. No Anti- Competia agora à criatura equilibrar o impulso egocêntrico
Sistema, tudo é escravidão e terror. Como poderia Deus, para do “eu sou” com o impulso altruísta do Amor. Havia o fato in-
evitar a queda, recorrer aos métodos próprios do Anti-Sistema, discutível de que, sem a aceitação do princípio de coesão do
ou seja, impor a Lei por constrangimento forçado? Por sua pró- Amor, o princípio oposto do egocentrismo, separatista por natu-
pria natureza, as diretrizes de Deus estão situadas nos antípodas reza própria, jamais poderia entrar, com as individuações que o
das de Satanás; jamais obrigam, apenas convidam; não violen- representavam, na organização disciplinada do Sistema. Para
Pietro Ubaldi O SISTEMA 47
respeitar o princípio da liberdade, esse ingresso da criatura só ender esse exagero do egocentrismo, porém nós mesmos, ainda
podia ocorrer na forma de livre aceitação de um pacto, que ser- agora, fazemo-nos centro de tudo e pretendemos julgar Deus,
via não só para provar que ela saberia ocupar a posição e execu- condenando Sua maneira de agir. Mas a verdadeira razão pela
tar a própria função no Sistema, mas também para constituir um qual é tão difícil compreender esta psicologia da revolta é por-
penhor, fruto de sua livre vontade. O ser devia retribuir a Deus que não queremos reconhecer os nossos defeitos e as nossas
o Amor pelo qual havia sido criado, reconhecendo-O esponta- culpas. Estamos mergulhados até ao pescoço no Anti-Sistema e
neamente como Chefe, declarando-Lhe obediência e empe- na sua psicologia da revolta; não nos apoiamos na justiça de
nhando-se, com a aceitação do pacto, a viver na Lei. Com a cri- Deus, mas apenas em nossas forças, e nelas procuramos a defe-
ação, Deus já situara a criatura no Sistema. Mas, em respeito ao sa; para nos salvarmos, tentamos jogar a culpa até em Deus. O
Seu próprio princípio de liberdade, esperou a confirmação da próprio fato de ainda estarmos nos revoltando, até mesmo contra
criatura, que deveria corroborar com um ato próprio, de livre a teoria da queda, está repetindo a primeira revolta e a compro-
vontade, a sua posição, a fim de torná-la definitiva. Deus deu à va. Como negá-la, se ainda estamos saturados dela?
criatura, de imediato, o exemplo do respeito que exigia para Talvez uma das maiores provas da verdade da teoria da
com Ele. Nem mesmo quis impor o supremo dom de entrar em queda seja dada justamente pelas objeções feitas à teoria e pela
Sua ordem e a felicidade que daí derivava. Ofereceu um pacto atitude da psicologia humana ao discuti-la. A maior parte das
de consentimento bilateral, livre, porque somente assim podia dificuldades consiste em procurar os defeitos da obra de Deus,
agir um Deus de Amor, que havia criado por Amor. para acusá-lo como culpado dos danos atuais, atitude que con-
No Capítulo VII, sobre a revolta, vimos como, numa parte siste em fazer de si o centro do universo, para julgar tudo em
dos seres, venceu o impulso do Amor, enquanto na outra parte, função de si mesmo, relativamente à própria vantagem ou pre-
rebelde, venceu o oposto impulso do egocentrismo. Consequen- juízo. Para quem não sabe compreender a psicologia da revolta,
temente a parte fiel ao princípio orgânico permaneceu na ordem só podemos indicar esse modo de pensar evidente sob os olhos.
e a parte que aderiu ao princípio oposto precipitou-se na desor- A tendência instintiva é justamente a revolta, ou seja, fazer de
dem. Nesses seres, o egocentrismo cresceu até superar o limite si mesmo o centro de tudo e, derrubando a Lei, tornar-se lei e
preestabelecido, precipitando-os, assim, na imperfeição e na ig- verdade, para adquirir com isto o direito de julgar e condenar.
norância, condição em que foi possível o erro e a queda. A cau- As objeções, recusando admitir a culpa no homem, tendem, em
sa de tão grande mal não foi o egocentrismo, porque este, geral, a querer provar o erro em Deus e em Sua obra. Esta tena-
quando resulta equilibrado com o Amor, como é em Deus e nos cidade em não querer considerar-se culpado prova não somente
espíritos que permaneceram na Lei, não gera prejuízo. A causa a revolta, mas também o gosto e a insistência no hábito da re-
de tanto mal foi o desequilíbrio e o exagero do egocentrismo, volta. A memória do instinto reproduz o passado, assim expli-
que prevaleceu sobre o Amor, destruindo-o e, com isto, privan- ca-se por que o homem procura a culpabilidade em Deus e a
do o Sistema de toda a sua força coesiva e unificadora. O ego- inocência em si próprio. De onde provêm os instintos, senão de
centrismo egoísta leva à separação e à destruição de qualquer um arraigado automatismo? De onde nasceram eles, neste caso?
organização, portanto só poderia provocar a automática desa- Isso tudo não é fruto do Sistema, mas sim do Anti-Sistema. Es-
gregação do Sistema, que era, antes de tudo, um organismo to- tamos desta maneira colocando em dúvida e procurando de-
do sustentado em função do princípio do Amor, seu impulso monstrar que não é verdadeira uma teoria vivida por nós mes-
fundamental diretor. É lógico que se tenha desfeito, com a re- mos. Como o fariseu do Evangelho, fazemos diante de Deus a
volta, todo o estado orgânico do Sistema e que dele tenha per- enumeração de nossas virtudes, depois de termos feito o rol dos
manecido apenas um estado pseudo-orgânico, tal como existe defeitos do próximo. Explica-se assim como, em seu conceito
no Anti-Sistema. Pseudo-orgânico porque, em nosso mundo, a mais comum, a liberdade seja compreendida não como enqua-
ordem é apenas temporária, sustentada somente pela imposição dramento na ordem (Sistema), mas como revolta individual à
da força, sem o emprego da qual é sempre contrastada pela de- disciplina coletiva, para substituir o próprio eu à ordem existen-
sordem. Por isso todas as construções de nosso mundo cadu- te, tornando-se, quando possível, chefe de outra ordem. É sem-
cam, não resistindo ao tempo, coisa inadmissível no Sistema. O pre o motivo da revolta renascendo de todos os lados.
Anti-Sistema está condenado automaticamente a esboroar-se, ◘ ◘ ◘
justamente porque lhe falta o poder coesivo do Amor. Negá-lo Procuraremos agora responder à última parte da pergunta,
significa negar Deus, a vida, a coesão, a própria unidade. O An- com relação às individuações das forças do mal e ao problema
ti-Sistema, como negação do Amor, não tem capacidade de da existência pessoal de Satanás.
construir coisa alguma. Se algo nele se reconstrói, não é por Indubitavelmente, se o Sistema tem um centro em Deus, o
obra do Anti-Sistema, mas sim do Sistema, que nele ainda so- Anti-Sistema deve ter seu próprio anticentro. E, se o primeiro
brevive para salvá-lo; não é por obra da força, mas sim do corresponde ao princípio do “eu sou”, o segundo deve corres-
Amor; não é por obra do mal, mas sim do bem. ponder ao princípio do “eu não sou”. Enquanto o primeiro re-
Dissemos, no Capítulo IX, que a revolta foi uma exagerada presenta a plenitude do espírito e da unificação, o segundo re-
superestimação do próprio eu por parte dos espíritos rebeldes, presenta a destruição do espírito na matéria e a vitória do sepa-
erro onde o homem ainda tende a recair, aplicando precisa- ratismo. Tudo quanto até agora dissemos, e também a lógica,
mente os princípios do Anti-Sistema. O pecado da revolta foi, não só nos impõem que admitamos, diante do centro do Siste-
com efeito, um pecado de orgulho, de exagero e superestima- ma, o anticentro do Anti-Sistema, mas nos indicam também que
ção do eu, um pecado de egoísmo. Nisto consiste a revolta. Es- as qualidades destes dois centros opostos devem ser as mesmas
tamos no polo feito pelo egocentrismo egoísta do homem, di- do Sistema e do Anti-Sistema levadas ao máximo de concentra-
vidido contra seu próximo, exatamente no polo oposto ao ego- ção. Cada um dos dois centros trabalha em sentido inverso ao
centrismo de Deus, feito de Amor. Então, ao invés do impulso outro, em posição de completo antagonismo e rivalidade, dispu-
centrípeto de Deus, há o desejo expansionista e imperialista de tando o domínio dos seres. Os espíritos não-decaídos estão fora
domínio individual, onde triunfa o oposto impulso secessionis- dessa luta. Mas os que se revoltaram, deixando levar-se pelos
ta centrífugo, prevalecendo a vontade de ser tudo, não freada impulsos do Anti-Sistema, vivem submetidos a estas forças,
pela disciplina do Sistema. que procuram mantê-los sob seu domínio. Este fato, todavia,
Parece que este é o ponto mais difícil de compreender no fe- não pode impedir que as forças do Sistema permaneçam vivas e
nômeno da queda, no entanto esta psicologia da revolta é a coisa ativas também no Anti-Sistema e exerçam pressão sobre as cri-
mais comum em cada dia de nossa vida. Parece difícil compre- aturas. É a luta entre a luz e as trevas, entre os impulsos ascen-
48 O SISTEMA Pietro Ubaldi
sionais da evolução e os descendentes da involução. Cada um tivo do Sistema. Quanto mais alto se encontra na evolução, me-
dos dois centros quereria tudo para si: o Anti-Sistema para ven- nos fatigante é subir, porque se está mais próximo do centro
cer o Sistema, fixando definitivamente a sua revolta; e o Siste- positivo do Sistema. Entre as massas e centros de atração veri-
ma para vencer o Anti-Sistema e salvá-lo, levando-o definiti- fica-se uma lei parecida à de Newton, da gravitação universal.
vamente ao estado de Sistema. Com a mesma unidade de esforço se sobe um trecho tanto mai-
Como se desenrola esta luta? Essas forças são constituídas or quanto mais alto na escala evolutiva o esforço é realizado. O
por impulsos estritamente individuados, e isto pelo princípio do conhecimento, liberdade e organicidade conquistados com o
egocentrismo, segundo o qual tudo o que existe só pode seguir evolver constituem, para vantagem própria, meios sempre mais
o primeiro modelo do “eu sou” máximo, constituído pela Di- poderosos para subir. Porém, se tanto mais cresce a dificuldade
vindade. São forças decorrentes de impulsos indeterminados, para sair do Anti-Sistema quanto mais nele se desce, também
mas de núcleos dinâmicos bem definidos através de individua- aumentam, em proporção à dureza e insensibilidade do ser, os
ções precisas. Não se pode negar isto, pois trata-se de uma con- golpes destinados a sacudir e impelir para a subida. Se, em bai-
sequência lógica do princípio do egocentrismo. Então devemos xo, estes golpes devem ser tremendos, à medida que o ser sobe,
admitir que tanto as forças do bem como as do mal são personi- tornando-se cada vez mais inteligente e sensibilizado, bastam
ficadas. Individuação significa personalidade distinta. Com choques sempre menos violentos e dolorosos para atingir os
efeito, na realidade do nosso mundo, não encontramos forças mesmos resultados. Vemos de fato o progresso tornar menos
indefinidas ou não-individuadas, mas seres bons e seres maus, dura a luta, facilitar a vida, suavizar os costumes.
ou seja, seres que emanam e produzem o bem e a vida e seres Em Satanás começa-se a endireitar tudo que foi emborcado,
que só espalham o mal e a morte em torno de si. Isto não só pa- ou seja, inicia a evolução. Ele é o último a mover-se e o último
ra os homens, mas também para os animais, as plantas e até a chegar à salvação, a não ser que sua vontade, inviolavelmente
mesmo as forças da natureza. Toda essa falange de impulsos livre, escolha a permanência definitiva na revolta. Neste caso, a
individuados na forma de seres gravita em redor do centro do substância divina que o constitui seria reabsorvida no Sistema,
próprio Sistema, que sintetiza no grau máximo as qualidades da sendo ele anulado como personalidade própria na forma assu-
individualização e está colocado no vértice da pirâmide da hie- mida ao constituir uma individuação separada. Mas já vimos
rarquia do seres, onde todos esses impulsos são personificados. que esta é uma possibilidade apenas teórica, dada pelo total
Por isso a lógica continua a nos indicar a presença de um respeito ao princípio da liberdade, pois, na realidade, são tais e
centro em Deus e de um anticentro em Satanás. Assim como o tantas as forças em ação impelindo à subida, que, no final, co-
primeiro é estritamente individuado em forma pessoal, com mo requer também a lógica de todo o processo, a salvação deve
suas qualidades próprias, o segundo também deve ser estrita- ser geral e nenhuma mancha deve permanecer.
mente individuado com suas qualidades próprias, em forma Para o homem que já percorreu uma parte do caminho evolu-
pessoal. Esta é a estrutura da construção lógica, perfeitamente
tivo, tudo isso pertence ao passado. Entretanto esses conceitos
equilibrada, do Sistema e do Anti-Sistema, portanto é inevitá-
nos dão a justificação lógica das nossas representações mentais
vel chegar às conclusões impostas pelas premissas situadas na
do mundo infernal. Imagina-se que ele seja feito de matéria in-
visão e em toda a teoria. Se houve a queda, da mesma forma
candescente, vulcânica, entre chamas e tempestades, onde a
que houve um ponto de partida em Deus, no Sistema, deve ha-
compressão e a densidade da matéria é máxima, dentro da Terra.
ver um ponto de chegada em Satanás, no Anti-Sistema. Se
Isto em oposição ao paraíso, aberto no espaço livre dos céus. As
existe um vértice no positivo, deve haver também um vértice
criaturas habitantes desse inferno tenebroso são seres malvados,
oposto no negativo. O Anti-Sistema é apenas uma reprodução
horríveis e ferozes, enquanto as do paraíso são boas, belas e do-
invertida do Sistema porque não pode ser outra coisa, pois não
ces. Essas imaginações têm um fundo de verdade, não só porque
havia outros modelos no todo e a criatura, como ente livre, po-
a vida humana nos apresenta continuamente exemplares desses
dia derivar, mas não criar. Se o Sistema é construído como um
seres demoníacos ou angélicos, mas também porque a evolução
edifício em pirâmide, com seu ápice em Deus, é necessidade
lógica admitir-se que o Anti-Sistema seja construído como nos diz que o passado do homem, nas formas inferiores da vida,
uma pirâmide invertida, com seu vértice em Satanás. foi exatamente o da besta. Esse passado ficou escrito em nosso
Estudemos agora as características que individuam estas subconsciente e ressurge, representando algo de terrificante em
personificações das forças do mal, até ao seu expoente máximo relação ao estado atual mais evoluído (os demônios, em quase
em Satanás, contrapondo-as às qualidades opostas das personi- todas as religiões, são representados por criaturas peludas, com
ficações das forças do bem, até ao seu expoente máximo em grandes dentes, cauda e chifres). Os seres que chamamos demô-
Deus. Satanás está situado no vértice negativo, onde se abismou nios são os involuídos, com instintos bestiais, não é preciso ir
com a revolta. Era a criatura mais alta entre os rebeldes, e se buscá-los muito longe, porque o nosso mundo está cheio deles.
tornou a criatura mais baixa. Seu poderio está invertido ao ne- Aos que negam a existência do inferno, basta olhar em redor pa-
gativo. Abismou-se com a queda ao ponto mais profundo do ra tocá-lo com as mãos. Os demônios – não importa o lugar on-
Anti-Sistema, ou seja, mais descentralizado em seu movimento de se encontrem – são os seres inferiores, e os anjos são os supe-
centrífugo de afastamento de Deus. O reino de Satanás é o uni- riores. A evolução nos leva do inferno ao paraíso. Posições rela-
verso no estado de caos, que foi verdadeiramente obra sua; é o tivas. Para um involuído, a Terra pode ser um paraíso, mas, para
estado de triunfo máximo do separatismo, levado até ao estado o evoluído, é um inferno, um mundo povoado de demônios, on-
de pulverização atômica nuclear. Seu reino é o universo físico de só se pode encontra luta e dor.
no estado de formação da matéria nas condensações estelares; é O homem comum está no meio, oscilando entre o impulso
o estado de máxima involução, de mais profunda descida, onde divino e o satânico. O primeiro o impulsiona para o alto, o se-
começa, com a gênese das galáxias, o caminho inverso do re- gundo o atrai e retém em baixo. O homem está suspenso entre
gresso. Seu reino é o estado de máxima contração do Sistema, dois centros de atração, Sistema e Anti-Sistema, um ajudando-o
de máxima densidade da matéria, do qual estourou, por reação, a subir em direção evolutiva, o outro tentando-o a descer em di-
o impulso ascensional evolutivo; é estado de imensa compres- reção involutiva. Dividido no meio desse dualismo, o homem
são do qual ricocheteou o impulso cinético expansionista que escolhe o seu caminho, obedecendo a este ou aquele impulso,
anima nosso universo físico. segundo as suas preferências.
Quanto mais baixa é a posição do ser na evolução, mais fa- Esse contraste entre os dois impulsos contrários nos dá as
tigante é subir, porque tanto mais próximo está do centro nega- razões profundas daquele fenômeno que havíamos verificado ao
Pietro Ubaldi O SISTEMA 49
estudar, em A Grande Síntese, o desenvolvimento da trajetória Perguntam-nos alguns porque existem guerras na Terra. Ora,
típica dos motos fenomênicos na evolução do cosmos. Obser- com a revolta, todo o universo entrou em estado de guerra e vi-
vamos lá, na espiral que os exprime, um retorno dos impulsos verá de luta até que, pela destruição do Anti-Sistema, o Sistema
ascensionais, que continuamente se invertem, abrindo-se para seja reconstruído. A salvação está no evoluir. Entretanto os dois
fechar-se sobre si mesmos, desenvolvendo-se para reconcentrar- grupos, chefiados por seus centros, estão frente a frente, dispu-
se, como se fossem freados por um impulso contrário. Pode-se tando o terreno e as criaturas. Há, portanto, um fundo de verda-
notar nisso o contraste entre o ímpeto da subida evolutiva e o de na imagem que representa Satanás roubando almas a Deus.
impulso de uma força contrária que o detém. Por isso o caminho Não é verdade que o ódio divida. Ele liga tanto quanto o
da evolução não é representado por um desenvolvimento cons- amor, porém em posição invertida. O abraço é igualmente
tante da espiral, mas por uma trajetória que, para avançar, sem- apertado, mas não para se fazer o bem, e sim para se fazer o
pre recua em direção retrógrada, recomeçando mais atrás. Pare- mal. Por isso também Satanás une as criaturas no Anti-
ce ver-se um homem a subir uma montanha. Dirige-se para o al- Sistema. Mas a sua união é de criaturas que se odeiam, com-
to, onde está Deus esperando-o, atraindo-o ao Sistema. Mas, a primidas, ligadas para se atormentarem, ao passo que a união
cada três passos para frente, esse homem escorrega dois passos operada por Deus no Sistema é a união das criaturas que se
para trás, para depois retomar o ímpeto com três passos avante e amam, abraçadas juntas, para se tornarem felizes. Também não
assim por diante. Quais as causas desse escorregar? Agora po- é verdade que não exista no Anti-Sistema uma ordem e disci-
demos explicar o que não podíamos fazer naquele livro, quando plina. Mas já vimos qual é a sua natureza. Também Satanás
a atual visão ainda não havia surgido e muitos problemas ainda organiza o mal, como Deus organiza o bem. Sobe-se de Sata-
não tinham sido resolvidos. O escorregamento é devido à atra- nás para Deus, transformando a disciplina escravagista, feita
ção exercida em direção oposta pelo anticentro, que busca trazer de ódio, em disciplina livre, feita de Amor.
para a sua zona de influência e nela manter tudo. Assim existe também no Anti-Sistema algo que quer repro-
Observe-se um fato importante, que pode agora ser explica- duzir a ordem do Sistema, mas que a reproduz às avessas, ge-
do. Apesar do freio imposto pela atração satânica à evolução, rando apenas uma pseudo-ordem. Não se trata de uma fusão
esta, mesmo retrocedendo periodicamente, avança em seu con- permanente e espontânea, formada por convicção, mas de uma
junto. Se a cada três passos à frente se dão dois para trás, isto união forçada, sustentada apenas enquanto a força a mantiver
significa que o centro do Anti-Sistema, Satanás, por ser inverti- unida. Pertencem a esse tipo as unificações políticas terrenas,
do no negativo, é menos poderoso que o centro do Sistema, baseadas na força dos exércitos, sem o que tudo desmorona.
Deus, todo positivo. Esta é a razão profunda do fenômeno, pro- Tão logo se afaste o mais forte, dominador de todos, explodem
va de que o bem é mais forte que o mal, assegurando-nos que, imediatamente as rivalidades dos egoísmos separatistas, e o
no fim, a vitória em tudo será do primeiro e que, verdadeira- princípio da desorganização prevalece. Este se encontra sempre
mente, as forças do mal não prevalecerão. Também se explica pronto a aparecer, como não podia deixar de ser num regime
assim por que a vida não progride em movimento uniforme, e o substancialmente negativo. Construir seriamente, de forma es-
seu ímpeto na subida se cansa e termina logo, esgotando-se na tável, representa para o Anti-Sistema uma contradição consigo
velhice e na morte. Explica-nos como, para poder continuar a mesmo. Seria como querer confiar a defesa da ordem pública a
uma sociedade de criminosos.
evoluir, a vida deve sempre ser recomeçada no início, com os
Querer construir uma unidade com seres feitos de egocen-
renascimentos. Isto acontece também no desenvolvimento das
trismo separatista, levados apenas a combaterem-se, é querer
aristocracias, das classes dominantes e das civilizações.
construir uma lógica à força de contradições. O rei da revolta e
Podemos agora compreender por que não é possível aconte-
da anarquia não poderá jamais construir nenhuma ordem. A re-
cer diferentemente. A evolução não é um fenômeno simples e
beldia só podia produzir esse estranho, macabro e ridículo mun-
pacífico. Existimos em regime de dualismo, e a coexistência de
do negativo. Como se pode criar num regime de destruição? Só
duas forças contrárias conduz forçosamente a contrastes e atri-
podem ser feitas tentativas separadas, isoladas, prontas a ruir. E,
tos. O progresso ascensional do ser é o resultado de uma luta
quando se consegue construir algo, então podemos estar certos
entre o impulso do Sistema, que quer reconstruir-se, e o impul-
de que isto se deve apenas à intervenção das forças do Sistema.
so do Anti-Sistema, que não quer morrer. Os dois disputam o
Com o material dado pelos elementos do Anti-Sistema, antior-
campo, e a vida de um significa a morte de outro. Enquanto o gânicos e desorganizadores por sua natureza, nada se pode cons-
impulso de Deus consiste em fazer tudo subir para salvar, o de truir de estável. Assim, em substância, as organizações do mal
Satanás consiste em deter a evolução e fazer tudo retroceder, são desorganizações. Por isso todas as guerras desejariam esta-
involuindo. Deus quer reconstruir, e Satanás quer destruir. Este belecer uma ordem definitiva e, porque nunca a constroem, nun-
se defende, porque sabe que a evolução o destrói e, na recons- ca acabam. Por isso jamais se alcança a solução. A razão pro-
trução do Sistema, ficará desfeito o Anti-Sistema, seu reino. Is- funda é que tudo isso é obra do Anti-Sistema, cujo verdadeiro
to explica porque é tão penosa a subida e tão pertinaz a resis- fim não é organizar nem criar, mas desorganizar e destruir.
tência encontrada por toda tentativa de progresso em nosso Com a evolução, porém, está renascendo, no próprio seio do
mundo. Cada passo para o alto deve ser conquistado, como re- Anti-Sistema, o Sistema, assim como as células sadias se vão
sultado de uma luta. Temos exemplo disto nestes livros. Eles reconstruindo no seio dos tecidos doentes. Saúde e doença estão
deslocam antigas posições, lançando luz sobre muitos mistérios lutando, e, nesta luta, a humanidade vai se curando de seus ma-
e resolvendo problemas ainda não resolvidos, cujas soluções les. Está convalescente dos males superados, mas continua do-
perturbam. Por isso foram condenados tanto pelo catolicismo ente dos outros ainda não curados. Com a evolução, é mister re-
de Roma como por algumas correntes espiritistas brasileiras. E construir todo o Sistema. A cada passo adiante, os métodos do
isto pela mesma razão acima citada, com a qual todas as religi- Sistema substituem os do Anti-Sistema. Avança-se, lutando e
ões estão de acordo. Nas reações a estas teorias, achamos uma sofrendo, por um caminho áspero e cheio de pedras e espinhos.
prova das próprias teorias, pois explicam justamente como fun- Mergulhados até ao pescoço no pântano do Anti-Sistema, tenta-
cionou o fenômeno de sua condenação. A prova maior dessa se esboços sucessivos cada vez mais vastos. Construir, construir,
verdade é dada pela reação que provocam. O passado, que não cada vez mais alto. Construir, lutando contra todas as forças do
quer morrer, rebela-se contra as verdades mais evoluídas, con- mal coligadas, ciumentas da subida, e escapando de seu aperto
denando-as, porque sabe que elas o matam. feroz. Construir a qualquer custo, lutando contra todas as conde-
◘ ◘ ◘ nações, que desejariam ver congelado e destruído o ímpeto su-
50 O SISTEMA Pietro Ubaldi
blime da subida. Lutar, incompreendido, sangrando, para salvar mite estabelecer o estado de saúde, porque existe em função
os irmãos que condenam, porque não compreenderam. dela. O negativo nos indica o positivo, o mal nos revela o bem,
Escrevo estas palavras com o coração amargurado, cônscio a dor nos mostra a alegria, o erro prova a verdade. Luz e som-
do tremendo drama. Drama do mundo, vivido profundamente, bra são conexas, e a sombra serve para compreender e procurar
que faço meu e que vou sofrendo a cada dia, nestes livros, fruto a luz. Onde tudo é luz, num todo homogêneo, sem sombra, não
de uma tensão de conceitos que, em certos momentos, me leva é possível nenhuma distinção.
à beira da morte. Mas não basta dizer que se tem uma missão. Então, para conseguir ver a posição correta do Sistema, bas-
Quem o afirma sem realizá-la engana a Deus e a si mesmo. E ta endireitar a posição invertida do Anti-Sistema, existente sob
realizar uma missão é coisa tremenda, sobretudo quando é pre- nossos olhos, contrapondo ao processo de decomposição ocor-
ciso lutar contra os que queremos salvar, contra os irmãos ce- rido na queda o processo de recomposição que agora ocorre na
gos, que não querem ver, para que esta voz não seja destruída evolução, unindo o ponto de partida da descida com o ponto de
pelas forças do mal, que saturam hoje o mundo, e possa sobre- chegada da subida. Um polo nos fala do polo oposto, inverso e
viver para alcançar as gerações futuras, que poderão compreen- complementar. Assim, o Anti-Sistema nos mostra o Sistema.
der e agir. Neste trabalho tremendo, certas horas fica-se sozi- Podemos ver o segundo espelhado no primeiro, que é o nosso
nho, e a alma, abandonada pelos homens, volta-se desespera- mundo, às avessas, da mesma forma como se vê um edifício
damente para Deus, o único que vê e sabe, rogando ajuda para espelhado num lago. Na imagem refletida, os primeiros planos
o esforço extremo de ser despedaçado pela tensão sobre- aparecem como últimos e vice-versa. Em nosso mundo, os va-
humana de um abraço grande demais, pois desejaria num ímpe- lores mais apreciados são os menos valiosos, os fictícios da ma-
to supremo envolver toda a humanidade. téria, e não os reais e eternos do espírito; o premiado na luta pe-
la vida é o mais forte, que vence submetendo o próximo, e não
XV. OUTRAS PROVAS E ESCLARECIMENTOS. o mais honesto, que trabalha a favor do próximo. Assim, os va-
O FUTURO DA PERSONALIDADE HUMANA lores do Sistema aparecem na Terra, mas frequentemente inver-
tidos, em forma dissimulada, para enganar melhor. Exalta-se a
Chegando a este ponto do curso, os assistentes pediram ou- bondade, mas, de fato, os bons são considerados como simpló-
tras provas e explicações da teoria da queda. Embora repetindo rios a serem explorados; faz-se muita questão de todas as virtu-
os mesmos conceitos já desenvolvidos, faremos isto com pala- des, mas somente para os outros; defende-se o amor ao bem,
vras e aspectos diferentes, para elucidar os problemas sob ou- observando-se os defeitos e o mal, mas apenas no próximo,
tros prismas e deixar bem esclarecidos os pormenores, permi- porque custa muito menos corrigir os outros do que a si mesmo.
tindo reconhecer o fenômeno cada vez mais exatamente. De- Louva-se a honestidade, mas, na verdade, a sociedade castiga
monstraram, com esse pedido, que haviam compreendido o severamente os honestos. O móvel de toda essa humanidade é o
quadro geral, manifestando a vontade de se aproximarem dele egoísmo separatista, principal qualidade do Anti-Sistema, que
um pouco mais, a fim de observá-lo e compreendê-lo melhor nos indica a oposta, o altruísmo unificador, qualidade principal
em seus vários aspectos. Supondo que o leitor se ache, prova- do Sistema. A primeira coisa que fazem os involuídos, como
velmente, neste mesmo estado de espírito e que novos esclare- todos os seres inferiores do Anti-Sistema, é agredir, para impe-
cimentos poderão interessar-lhe, continuaremos a expor as per- dir no outro a expansão vital e até mesmo a vida. Para eles, co-
guntas feitas no curso e as nossas respostas. mo para todos, a vida é o máximo dom, que eles, por sua posi-
PERGUNTA: ção de egoísmo separatista, procuram agredir, para infligir o
Para nós, situados em nosso mundo, ou seja, na posição máximo prejuízo. Para os que vivem somente no plano físico,
de Anti-Sistema, é possível fazer uma ideia do Sistema só esse é o maior prejuízo, mas para o evoluído, que vive no plano
com os meios comuns das vias racionais, sem ter de recorrer espiritual, a perda da vida física pode ser, ao invés, uma liberta-
à inspiração? ção, para entrar numa forma de vida muito maior.
RESPOSTA: Assim, este nosso mundo revela a natureza de outro mundo
O observador normal pode, sem ter que recorrer à visão, en- perfeito, oposto a ele, sendo que este mesmo mundo humano não
contrar em nosso universo os elementos para reconstruir, por é compreensível senão em função daquele outro mundo mais per-
via racional, a estrutura do Sistema, obtendo por si mesmo pro- feito. Então Sistema e Anti-Sistema, pelo fato de se condiciona-
vas e confirmações da visão. Neste caso, o estudioso poderá rem, justificam-se e se explicam reciprocamente. Se bem obser-
tomá-la, de início, apenas como hipótese de trabalho, para de- varmos, veremos que, apesar da queda, eles permanecem indisso-
pois, num segundo tempo, verificar que ela, conseguindo expli- luvelmente ligados. Coloquemos no positivo tudo o que há de
car a razão pela qual o nosso universo está construído assim, negativo em nosso mundo, e teremos o Sistema. Como poderia,
pode ser aceita como teoria. Essa teoria é justamente a visão. além do mal, ter o homem consciência do bem e compreender o
Isto é possível porque não estamos fora do Sistema, mas conceito de perfeição, se não existissem essas qualidades no es-
apenas numa sua posição invertida. O nosso universo decaído tado puro e completo em outro lugar? O nosso Anti-Sistema,
continua a existir em função do Sistema não-decaído, do mes- demonstrando o Sistema, constitui uma prova de sua existência,
mo centro de tudo, Deus. O nosso Anti-Sistema não representa mostrando as qualidades que deve ter. Os dois permaneceram tão
um modo independente, separado. No todo, só é possível a ligados, que a maior estrada da vida, representada pela evolução,
existência de um modelo único: o sistema de Deus. Não pode os liga, desembocando no Sistema, sua meta final, que a orienta e
haver outros modelos e sistemas, porque não há outros criado- a justifica, pois ela se destina a transportar todo o Anti-Sistema,
res. Se existem outras formas, estas só podem ser derivadas do depois de verticalizá-lo na posição de Sistema, para o seio deste,
primeiro modelo, Deus. Isto significa que o Sistema é o único ou seja, para Deus. Aí se torna realidade aquilo que em nosso
ponto de referência e ponto final da evolução, cujo caminho mundo aparece apenas sob a forma de ideal e os homens “práti-
está preestabelecido, não podendo ser outro. Se, então, o Anti- cos” julgam ser sonho. Aí tem existência real o que em nosso
Sistema é uma reprodução invertida do Sistema, não será difí- mundo é apenas aspiração, por pertencer ao futuro da evolução.
cil reconstruir a sua imagem, endireitando essa reprodução in- Aí se acham realizados os valores do Sistema, opostos ao do An-
vertida. A relação de filiação permite ver, através dos traços do ti-Sistema. Aí se realiza a inversão do invertido, ou seja, o seu
filho, os do pai. Se a derivação foi em descida, no sentido des- endireitamento. Aí são revalorizados os verdadeiros valores, ago-
trutivo, pode-se regressar à fonte, subindo no sentido constru- ra desvalorizados. Finalmente, aí, o altruísmo, motor de tudo,
tivo. Representamos um estado patológico. A doença nos per- funde todos num estado orgânico unitário.
Pietro Ubaldi O SISTEMA 51
Continuemos a desenvolver este assunto, embora ele exorbi- no processo da queda e da subida, quanto ao estado orgânico e
te dos limites da pergunta. Em nosso Anti-Sistema, não foi ab- à unidade do todo. Qual foi a posição e o valor de cada indivi-
solutamente destruído o Sistema, que existe aí em estado de duação dentro desse estado orgânico e sua relação com ele? Di-
germe. Outrossim, em vista de, com a evolução, um pouco do ante de tudo isso, o que é a personalidade humana e quais serão
caminho da subida já ter sido realizado, alguns elementos do seus futuros destinos?
Sistema já apareceram por aqui. Com isto, portanto, o Sistema RESPOSTA:
dá provas de sua existência, estando os dois, assim como pai e O primeiro dos dez mandamentos que Moisés recebeu de
filho, conexos e interpenetrados. Há, por conseguinte, o fato Deus no Monte Sinai, o mandamento fundamental que estabe-
positivo de que o Sistema existe em nosso mundo, embora em lece a posição de Deus, diz: “EU SOU o Senhor teu Deus. Não
estado de ideal. Algumas características do Sistema já se vis- terás outros deuses diante de mim”.
lumbram aqui em baixo, embora como exceção. Se é difícil A primeira palavra é “EU”. A primeira coisa a afirmar-se é
conseguir concretizarem-se na realidade, não há dúvida de que o egocentrismo.
existem como anseio instintivo de nossa alma, porque a todos A segunda palavra é “SOU”. Com ela, afirma-se a vida, por-
agradaria ser bons e perfeitos, se a evolução não requeresse tan- que “ser” é a qualidade de Deus e de tudo o que Dele derivou.
to esforço. Donde vem esse anseio? Como é possível desejar Portanto a existência, antes de tudo para Deus e, depois, pa-
algo que não se conhece? E como é possível conhecê-lo sem ra todos os seres, fica estabelecida pelo primeiro modelo do
havê-lo possuído? Nada disso pode explicar-se senão como “EU SOU”. A primeira criação dos puros espíritos gerou, en-
lembrança de um paraíso perdido, para o qual torna a impelir- tão, as criaturas estritamente individualizadas por suas caracte-
nos uma infinita nostalgia, que vive a cada momento, em nosso rísticas pessoais, como Deus. Só assim torna-se possível admi-
insaciável anseio de felicidade. tir terem elas tais qualidades, havendo também, por exigência
Em última análise, o que impulsiona para frente no caminho lógica, a necessidade de admitir sua individuação. Essas quali-
da evolução é justamente esse anseio. Subir é árduo, e o ser gos- dades eram: liberdade, conhecimento, posição hierárquica bem
taria de se furtar a esse esforço. Este é seu primeiro instinto, que definida, função individual no estado orgânico do Sistema, etc.
lhe vem do Anti-Sistema. Mas o ser é dominado também por ou- Desse modo, todos os elementos, tanto os íntegros no Sis-
tro instinto, que é subir, custe o que custar. O nosso mundo vive tema quanto os já decaídos no Anti-Sistema, permaneceram
da luta entre esses dois instintos. São muitas as resistências con- sempre individuados. Que diferença se verificou, então, entre
tra o progresso, embora não consigam detê-lo. Não resta dúvida seu estado de origem e o estado após a queda? Esta não repre-
que a evolução é realizada por obra deste impulso interior, sendo sentou uma destruição de cada uma das individuações, mas a
ele tão forte, que chega à realização progressiva do Sistema até destruição de seu estado orgânico de Sistema, que passou ao es-
mesmo no seio do Anti-Sistema rebelde. tado desorganizado de Anti-Sistema. Já explicamos que o resul-
Podemos encontrar nisso uma nova prova em favor da teo- tado da primeira criação foi o estado orgânico do Sistema. Fo-
ria da queda. A evolução surge de dentro, e não de fora. Trata- ram esse estado orgânico e a ordem por ele representada que se
se de um impulso espiritual, ignorado pelo ambiente externo, desfizeram com a queda (veja Capítulo XI, “A Visão Diante da
material. Funcionando como uma semente depositada no ser Biologia”). Portanto as individuações permaneceram, mas mu-
ainda involuído, esse impulso permanece latente nele, como um daram as relações entre elas. Ao invés de colaborarem com
íntimo impulso contido, querendo nascer e desenvolver-se, ten- funções coordenadas no mesmo organismo, elas isolaram seus
dendo a explodir para se expandir. Essa causa é interna e pro- egocentrismos, antes fundidos numa só ordem, em inúmeros
duz efeitos externos. A existência consiste num caminhar do in- egoísmos separados e rivais, que, ao invés de se ajudarem, bus-
terior para o exterior, da substância para a forma. De onde pro- caram destruir-se mutuamente, desfazendo assim em caos toda
vém então esta causa imponderável, de cuja latência derivam a organicidade do Sistema. A queda produziu essa posição das
tantos efeitos atuais? Como se acha no ela seio do Anti- individuações em estado de antagonismos contrastantes, que é o
Sistema? A esta pergunta só pode dar-se uma resposta: essa estado da animalidade e da humanidade atual, explicando-nos,
causa é dada pela presença do Sistema, que, com a queda, não dessa forma, porque em nosso mundo ainda está em vigor a lei
foi destruído, mas sobreviveu no estado latente dentro do Anti- da luta pela vida e da seleção do mais forte. A biologia com-
Sistema. Há necessidade, então, de antepor-se a toda fenomeno- prova a presença dessa lei, mas só a teoria da queda nos explica
logia de nosso universo a existência causal de outro universo a sua causa primeira e as razões profundas.
espiritual, sem o qual não é possível de maneira nenhuma ex- O resultado da revolta foi desagregar e pulverizar a compac-
plicar a imensa floração – que não pode ter provindo do nada – ta estrutura orgânica do Sistema, ao menos na parte que dele se
realizada pela evolução. A evolução não é criação a partir do quis destacar, permanecendo íntegra a outra parte, não rebelde.
nada, mas sim progresso; é o desenvolvimento de um germe, e Então, o novo estado caótico destacou-se do estado orgânico; o
este germe é o Sistema, que conduz tudo – como é lógico – a estado de separatismo afastou-se do estado de fusão. A partir
Deus, a causa primeira de tudo, Sistema e Anti-Sistema. Se ho- desse instante, a atividade de cada elemento não mais se somou
je, com a evolução, vemos o espírito desenvolver-se da matéria, à do outro visando ao mesmo fim, mas procurou anular a ativi-
isto é, a consciência provir da vida, isto significa que este prin- dade do outro, subtraindo ao invés de somar. Podemos compre-
cípio, agora se desenvolvendo com a evolução, havia caído nas ender, dessa forma, porque o conceito da individuação assumiu
profundidades da matéria e permanecido aí envolto. As raízes e no Anti-Sistema um valor completamente diferente. Ao invés de
a explicação da evolução só podem ser achadas na involução e se dizer: todos unidos e cada um por todos, passou-se a dizer:
na queda, isto não apenas para satisfazer à exigência lógica de todos divididos e cada um por si. Eis o nosso mundo. Então Sis-
dois períodos opostos que se equilibram, mas sobretudo para tema e Anti-Sistema, colocados diante do problema da individu-
encontrar a causa de efeitos inexplicáveis de outro modo. ação, significam, o primeiro, a fusão dos egocentrismos numa
Neste ponto foi pedido um outro esclarecimento. mesma unidade orgânica e, o segundo, a fragmentação, através
PERGUNTA: da queda, dessa união, até um estado de inimizade dos egocen-
Na passagem, por involução, do Sistema ao Anti-Sistema e, trismos na mesma desordem caótica. Conclui-se daí que, em sua
por evolução, do Anti-Sistema ao Sistema, quais, mais exata- essência, o verdadeiro significado da queda consistiu no desmo-
mente, as transformações que ocorrem com respeito a cada in- ronamento das qualidades orgânicas e unitárias do Sistema.
dividuação do ser e às relações existentes entre elas? Deseja-se O nosso eu, como egoísta e dividido contra o próximo, sua
colocar mais exatamente em foco as mudanças que acontecem forma atual, é apenas um fragmento isolado daquela unidade
52 O SISTEMA Pietro Ubaldi
orgânica, pulverizada com a queda, mas, como altruísta e cola- Dos elementos ainda não descobertos que compõem o nú-
borador de seu próximo, faz parte das primeiras reunificações cleo do átomo, o ser já reconstruiu esta primeira unidade.
coletivas que, por meio da evolução, conduzem à reconstrução Unindo o núcleo com outros elementos, construiu o átomo, que
do Sistema. Por isso, se a involução foi um processo de destrui- já é um pequeno sistema. A evolução chegou assim ao estado
ção da organicidade, a evolução se nos apresenta com um novo da matéria como a conhecemos. Depois, com os átomos, cons-
e mais profundo significado, que é o de constituir um processo truiu as moléculas; com as moléculas, as células; com estas, os
de reconstrução da organicidade. O primeiro movimento, na tecidos e órgãos e, aperfeiçoando-os, chegou a produzir as célu-
descida, representa uma demolição da unidade no separatismo, las nervosas e cerebrais, já próximas ao espírito, aptas a dirigir
da organicidade no caos; o segundo movimento, na subida, re- os mais complexos organismos da vida. Com isto, foi passando
presenta o contrário. A queda, portanto, não criou os egocen- do estado inorgânico à vida, do monocelular a organismos cada
trismos, mas apenas o egoísmo, que os afastou uns dos outros, vez mais complexos, do vegetal ao animal, subindo sempre, até
como inimigos. O egocentrismo unitário de Deus, em torno do ao homem, enriquecendo-se sempre com funções mais compli-
qual se haviam coordenado todos os outros egocentrismos em cadas, até chegar às espirituais. E o caminho não terminou. Os
sistema, foi substituído, com a queda, por uma pulverização de vários indivíduos humanos, constituídos de organismos tão
egocentrismos separados, cada um tornando-se centro de si complexos, não vivem sós. Unem-se em grupos cada vez mais
mesmo. Assim, a direção passa do único centro, Deus, a uma vastos: primeiro a família, depois as castas, as cidades, os parti-
multidão amorfa e desorganizada. Somente o primeiro método dos políticos, as religiões, depois as nações ou povos, a socie-
pode ser apto a dirigir um organismo. O segundo só pode gerar dade, a humanidade e, enfim, a humanidade de humanidades.
a própria desordem. Mostra-nos isto que o método perfeito de Dessa forma, a reconstrução se opera por graus, através da
governo seria aquele realizado por Deus no Sistema. Mas, na unificação. E tanto mais adiantada será a evolução quanto mais
Terra, não existem chefes políticos que possam ter as qualida- tiver conseguido unificar princípios elementares, coordenando-
des de Deus, nem súditos com as qualidades dos espíritos per- os organicamente. O homem chegou hoje, socialmente, apenas
feitos. O valor de um governo depende, antes que da forma e do até certo grau de reunificação, mas, prosseguindo nessa estrada,
sistema de escolha, do valor pessoal dos chefes e dos súditos. podemos antever os futuros aspectos da personalidade humana.
Dessa maneira, podemos agora conceber a queda como um Eles estão todos contidos neste processo de contínua reunifica-
processo de desorganização, e a evolução como um processo ção. Os povos se reunirão política e economicamente, as religi-
de organização. Trata-se verdadeiramente do desmoronamento ões se unirão espiritualmente, desaparecendo pouco a pouco tu-
do o que divide, para ceder lugar a tudo o que unifica. Quando
de um edifício, do qual só resta um amontoado de destroços:
todo o universo estiver reunificado num só organismo e todos
os elementos componentes. Trata-se, mais exatamente, do
os seres colaborarem, por livre adesão, em função de um centro
desmoronamento de apenas uma parte do edifício, tendo per-
único, Deus, então o Sistema estará todo reconstruído, ficando
manecido intacto o restante. A parte que permaneceu intacta
definitivamente concluída a grande aventura da queda.
representa o modelo de acordo com o qual deve ser reconstruí-
Que transformações sofrerá então, no futuro, com a evolu-
da a parte desmoronada; representa o projeto feito por Deus na
ção, a personalidade humana? Como já dissemos no Capítulo
Sua primeira construção, ao qual devem agora obedecer os
XI, “A Visão Diante da Biologia”, esse processo de reunifica-
operários da reconstrução. Esse projeto vai sendo aos poucos,
ção não é estéril. A cada unificação se acrescenta um valor
lentamente, realizado com a evolução, do qual representa o
maior do que a soma de todos os componentes. Mas ainda há
quadro final. Ela é um tornar-se, porque deve caminhar para
mais. O estado orgânico, como tal, não só valoriza, por sua or-
atingir esse ponto. Os dois edifícios estão lado a lado, e o novo ganicidade, a unificação além do seu peso somado, como tam-
deve reunir-se ao velho, para no fim ser um edifício apenas. bém valoriza cada um dos elementos componentes além de seu
Dos dois, um está de pé e o outro está desmoronado, mas, uni- peso natural. Cada um deles se acha potencializado pelo fato de
dos pelo mesmo plano construtivo, ambos repousam sobre os fazer parte de um grupo muito mais poderoso do que quando
mesmos alicerces e são regidos pela mesma lei. Na parte re- estava só. Um homem é mais forte e seguro quando está em seu
manescente, íntegra, existe a mesma febre de trabalho de re- grupo, ou exército, ou nação. Explica-se dessa maneira o espíri-
construção que há na parte dos escombros e dos operários afa- to gregário, comum também nos animais.
digados. Estes, pobres ignorantes decaídos, são guiados e aju- Agora podemos compreender que o tipo de personalidade
dados no duro caminho da evolução. Os irmãos que permane- humana existente em nosso plano atual de evolução deve ser
ceram puros e sábios ajudam os irmãos maculados e cegos. considerado não só em relação ao grau de desenvolvimento al-
São todos irmãos porque filhos do mesmo Pai, nascidos juntos cançado, mas também em relação ao grau de organicidade da
no terceiro momento da Trindade, na primeira criação. unidade coletiva da qual faz parte. Conclui-se daí que as perso-
O que mais interessa a nós, humanos, habitantes do Anti- nalidades humanas não chegarão em sua forma atual aos estados
Sistema, empenhados no trabalho de reconstrução do Sistema, é de unificações maiores em que se fundirão no futuro, mas serão
examinar esse processo evolutivo dentro do qual estamos. Ob- completamente diferentes do que são hoje; serão algo inimagi-
servamos o desmoronamento em relação ao estado orgânico ori- nável, sobretudo quando nossa personalidade finalmente chegar
ginal, para ver o que ocorreu a cada uma das individuações. Ain- ao término de sua longa viagem de volta a Deus. Outrossim, po-
da em relação a tudo isso, observamos agora o processo inverso demos bem compreender porque o tipo atual, tão imerso ainda
da reconstrução. Poderemos responder assim à última parte da no Anti-Sistema por seu egoísmo, não poderá em absoluto reen-
pergunta, que diz respeito ao futuro da personalidade humana. trar e voltar a fazer parte do Sistema, enquanto ficar como está.
Como o universo vai sendo reconstruído? A queda produziu Mas, à medida que todas as criaturas do universo forem ir-
uma separação entre os elementos componentes. Os tijolos que manando-se novamente num todo orgânico, como eram no Sis-
compunham o edifício estão todos espalhados pelo chão. A re- tema, cada vez mais irá emergindo das profundidades da maté-
construção é feita recolocando-os juntos e em seus lugares. É ria o “eu” espiritual, que representa a criatura da primeira cria-
este precisamente o fato que está ocorrendo. Pela lei das unida- ção. Ao subir, a personalidade se transforma, porque a evolução
des coletivas, o nosso universo se está recompondo em agrega- vai da matéria ao espírito. Este é constituído de forças individu-
ções cada vez mais vastas e complexas, cada vez mais próximas alizadas por vibração, comprimento de onda e frequência, for-
ao modelo do Sistema. A evolução manifesta uma tendência à mando um organismo que é atualmente revestido de matéria,
unificação. Da sua posição na evolução, o homem pode ver, ao mais tarde o será apenas de energia, até abandonar também esta
olhar para trás, um trecho do caminho já percorrido. sua forma e permanecer em sua nudez de pensamento puro.
Pietro Ubaldi O SISTEMA 53
Trata-se de transformações profundas, que mudarão total- do o planeta, e nos explica racionalmente as profundas razões
mente o nosso atual modo de conceber. No estado atual, por daquela sua linguagem de amor, que não exprime apenas senti-
exemplo, a proximidade de dois seres, quando revestidos de um mentalismo, mas se justifica com lógica férrea, imposta por um
corpo na matéria, é dada pela dimensão desta, ou seja, pela di- plano exato, segundo o qual a reconstrução deve ser realizada.
mensão espacial. Mas, para os espíritos, revestidos apenas de As consequências de tudo isso são importantes. Renunciar ao
energia, não é a proximidade espacial que os aproxima, mas a próprio egoísmo, para colaborar com o seu semelhante, é uma
afinidade de vibrações, tipo de forças, comprimento de onda e regra não apenas evangélica, mas também de progresso social, é
frequência. Então, pode acontecer que, no plano da matéria, se uma lei de evolução da vida para todos, seja qual for a religião
achem aproximadíssimos, no sentido espacial, seres que, por ou a filosofia. Da mesma forma, todo homem que não colabora
sua natureza espiritual, estão afastadíssimos uns dos outros, e fraternalmente, mas agride para explorar, é um involuído, atra-
vice-versa. Além disso, pode acontecer que dois ou mais espíri- sado na evolução, estando mais próximo do animal. Tanto em
tos, situados fora da matéria, também consigam, ao atingirem nosso mundo social como no mundo animal, as leis biológicas
uma identidade de vibração e de tipos, a fusão numa única per- dão a vitória ao mais forte. Esses métodos de seleção, ainda em
sonalidade. Diga-se o mesmo, e mais ainda, quando se trata de vigor também em nosso ambiente humano, demonstram o esta-
personalidades individualizadas apenas pelo pensamento. do ainda involuído, animalesco, do homem. Quem esmaga e ex-
Ora, a evolução leva à harmonização entre os vários ele- plora o próximo, acreditando com isso vencer e ter valor, é um
mentos, em vista de sua tendência à fusão em unidades coleti- selvagem que deve ser expulso de uma sociedade civilizada e o
vas cada vez mais vastas e orgânicas. Por isso, quanto mais se será no futuro, porque representará o que representa o criminoso
sobe, tanto mais os espíritos tendem a fundir-se numa vibração na sociedade atual. E serão consideradas assim todas as organi-
em uníssono, na qual passam a existir como se fossem uma só zações baseadas na força, pois este é o método do Anti-Sistema,
coisa. E isto até ao ponto máximo, no qual todos os espíritos e não do Sistema, para onde devemos caminhar.
criados por Deus se hajam reunificado num só modo de existir, O futuro da evolução reside na compreensão recíproca, na
feito de pensamento puro, que é o pensamento de Deus. Pode- reconstrução da unidade quebrada, na reabsorção e anulação do
mos imaginar o Sistema assim. Nele, todos os seres sentem, separatismo, principais qualidades do Anti-Sistema, substituin-
pensam e existem perfeitamente, em uníssono, formando uma do-as pela compreensão e a colaboração, principais qualidades
união como um só ser. É assim o Sistema. Essa unidade consti- do Sistema. É preciso substituir o caos pela ordem, a revolta pe-
tui o terceiro aspecto ou momento do Tudo-Uno-Deus, que la disciplina, a prepotência pela bondade e justiça, a guerra pela
chamamos de Filho e que, após a Sua multiplicação interior colaboração. O progresso consiste em suprimir tudo o que divi-
num ilimitado número de seres, continuou, dessa forma, perfei- de, em harmonizar-se até à unificação. A maior parte das dores
tamente uno. Podemos, por isso, compreender o que significa a que afligem a humanidade depende desse estado de inimizade
expressão: “Deus reabsorverá em Si todas as criaturas” e como de todos contra todos, e as dores não poderão cessar enquanto
isso será possível, quando todas as criaturas tiverem regressado não terminar essa inimizade. Não se pode reconstruir o edifício
ao Sistema, sintonizando-se com Ele. desmoronado senão reunificando o separatismo no qual ruiu. É
No plano espiritual, a unificação é alcançada por esse estado indispensável que todas as qualidades do Anti-Sistema adquiri-
de sintonia ou harmonização completa. Ela exprime a identifi- das com a queda sejam corrigidas através do desenvolvimento
cação da própria vontade com a lei e a vontade de Deus, signi- das qualidades do Sistema, estado perdido, que precisa ser re-
ficando viver a vida de Deus, pensar com o pensamento de conquistado. É necessário subir do inferno, onde a discórdia cria
Deus. Este é o estado de perfeição original do Sistema e será o a infelicidade, ao paraíso, onde a concórdia cria a felicidade.
estado final de regresso a ele. Nesse estado, o separatismo é to- Essa concordância dos princípios expostos neste volume
talmente destruído e a unificação se finaliza, pois o ser atingiu a com a realidade dos fatos de nossa vida nos oferece mais uma
perfeita identidade com o pensamento e a vontade de Deus. prova, confirmando a teoria da queda. A cada momento, o ho-
Nisso consistem a última reunificação do todo e a sua primeira mem está repetindo os motivos da revolta. Por causa da sua
unidade, o estado orgânico do Sistema, de suprema sintonia, no vontade de persistir no erro, continua semeando dores, tanto
qual todos os seres viviam abraçados, harmonizados na mesma mais duras quanto mais ele quiser viver embaixo, próximo do
vibração e orientados para Deus pelo mesmo amor. Esta é a su- Anti-Sistema. A evolução é substancialmente um problema de
prema orquestração musical do Sistema. felicidade. Só poderemos alcançá-la na medida em que nos
Eis os futuros destinos da personalidade humana. Grande aproximarmos cada vez mais da ordem do Sistema. Harmoni-
destino, que se realizará através de profundas transformações, zar-se, como aconselha o Evangelho, é problema não apenas de
devidas a um processo duplo: de reunificação (lei das unidades bondade ou renúncia, mas também de inteligência e utilidade.
coletivas) e de espiritualização (evolução da matéria ao espírito). O homem não quer viver o Evangelho porque ainda é um sel-
Mas também podemos observar os destinos da personalidade vagem tremendamente ignorante das leis da vida, desconhecen-
em relação a um futuro mais próximo e imediato, deduzindo do do o modo para atingir a felicidade. Nossa sociedade humana é
estudo destas páginas a respeito dos problemas máximos, con- um corpo onde cada célula é inimiga da outra, com prejuízo pa-
sequências práticas, morais e sociais aplicáveis ao nosso mundo. ra todas. Essa sociedade não se mantém com o princípio da co-
Para tanto, voltamos a nos referir à lei das unidades coletivas. laboração celular, que vigora no corpo humano em estado de
Neste caso mais próximo e particular, aplica-se também o prin- saúde, mas com o princípio anárquico, que vigora no câncer.
cípio da realização da evolução através da fusão orgânica. Por Por isso os nossos males são até poucos em relação ao que me-
isso o Evangelho, ao nos querer irmanar com sua máxima fun- recemos, e ainda teremos de sofrer muito até aprendermos. Para
damental: “ama a teu próximo como a ti mesmo”, demonstra ter que serviria a dor, se não fosse útil para ensinar?
um significado muito mais profundo e vital, e não apenas religi- Trata-se de leis férreas, das quais não podemos escapar. Re-
oso, filosófico ou sentimental. O Evangelho tem um sentido bio- belar-se ainda mais piora a situação. Prova-nos isto a lógica de
lógico e representa o caminho que a evolução deve seguir na todo o processo. A estupidez humana é grande, mas é produzi-
humanidade, tendo um valor universal, porque dá uma direção da pela ignorância, resultado merecido da rebelião e da queda.
ao desenvolvimento da vida. O Evangelho é uma norma prática, E nada melhor para despertar a inteligência do que o sofrimento
guiando o homem em sua ascensão para a reconstrução do Sis- merecido, como efeito daquela ignorância também merecida.
tema. Este é o fato que torna o Evangelho atual para nós, huma- Como se pode obrigar um ser, que deve ficar livre, a compre-
nos, como uma norma de evolução em todos os campos, em to- ender em seu próprio benefício; como se pode obrigá-lo a, li-
54 O SISTEMA Pietro Ubaldi
vremente, recompor-se no caminho certo, senão fazendo-o re- RESPOSTA:
encontrar-se no caminho errado, atravancado de dores, para O conceito de número, ligado ao de medida e, portanto, de
compreender seu erro e as suas tristes consequências? Para o limite, não pode existir senão no relativo e no finito, ou seja, no
homem atual, portanto, só existe um remédio que pode curá-lo: Anti-Sistema. No Sistema, situado no polo oposto, tudo deve
o sofrimento. Ele é livre para sofrer o quanto quiser. Mas esse ser exatamente ao contrário. Tudo aí deve ser inumerável, além
mal é um remédio salutar. Tanto sofrerá, que acabará apren- de toda e qualquer medida, de todo limite. Já explicamos que
dendo. Não se pode subir descendo, não se pode melhorar pio- podemos imaginar o Sistema invertendo as nossas qualidades
rando, nem se pode escapar à Lei forçando-lhe a porta. de Anti-Sistema. Portanto não podemos procurar compreender
O homem tem de compreender que é errado o sentido de o Sistema com os nossos conceitos, numeração e medida quan-
crescimento como “eu” isolado. Este seria um crescimento in- titativas, com as quais julgamos o nosso mundo. Vivemos fe-
vertido, na direção da revolta e do Anti-Sistema, que só pode chados dentro dos limites de nosso concebível. Podemos procu-
trazer separação e destruição. Este crescimento não sobe, mas rar construir para nós uma imagem do absoluto, mas ele perma-
desce. Agindo assim, o ser, pensando ganhar, perde. Tudo está necerá sempre, para quem está situado no relativo, substanci-
construído de tal modo, que o crescimento não se pode realizar almente um inconcebível. Como superar de um golpe a nossa
isoladamente. O egoísmo pode conseguir, como débito, resulta- psicologia do finito, filha de nosso ambiente material, e entrar
dos imediatos à mão, por isso os míopes creem neles. Mas, de- na psicologia oposta do infinito, onde desaparece completa-
pois, tudo se paga, e a vantagem do momento é muito cara, pois mente tudo o que para nós constitui o mais real e adequado
não permite enxergar os resultados longínquos e maiores, que ponto de referência? No Sistema não se pode introduzir o con-
chegam fatalmente, porque calculados pela sabedoria da Lei. O ceito de número, medida ou limite. Qualquer conceito dessa na-
problema consiste em ter consciência do funcionamento invio- tureza seria uma tentativa de redução do infinito ao finito, ou
lável da Lei e, portanto, saber confiar nela, ao invés de nas pró- seja, do Sistema ao Anti-Sistema. Não há número para enume-
prias forças, fracas e enganosas. O egoísmo é um impulso iso- rar, não há medida para medir o infinito. No Sistema, a concep-
lado do Anti-Sistema, com raio de ação limitado, além do qual ção deve ser toda exclusivamente em termos de infinito. Pode-
se torna antivital. O homem existe e só pode existir dentro da remos imaginá-lo como algo além de todas as nossas possibili-
Lei. Se quiser existir, mesmo rebelando-se, só tem o caminho dades de pensar e compreender. Mas podemos compreender o
da evolução para regressar ao Sistema. O ser pode permanecer absurdo de querer dar uma medida ao infinito, que consiste jus-
rebelde o quanto quiser, no entanto só conseguirá o próprio pre- tamente na ausência de qualquer medida.
juízo com isso. A revolta contra Deus jamais poderá ser vitorio- PERGUNTA:
sa, mas só produzirá erros, que depois é preciso pagar. O Sistema sofreu prejuízo com a fuga de seus elementos?
◘ ◘ ◘ Quem desempenhou a função dos que, com a queda, vieram a
Antes de concluir este capítulo, respondamos a outras per- faltar no Sistema? Se, na hierarquia das funções, a ausência de
guntas, decorrentes da precedente. alguns elementos devia trazer desequilíbrio, perturbando a or-
PERGUNTA: dem geral e também as funções de outros elementos, então a
A queda foi rápida ou lenta? ordem e a perfeição de todo o Sistema ficaram alteradas?
RESPOSTA: RESPOSTA:
O fenômeno da queda não pode ser medido com o nosso Se a criatura tivesse o poder de alterar não apenas a sua
tempo. Trata-se também de um desmoronamento de dimen- própria posição, mas também o próprio Sistema, teria em mãos
sões, e a dimensão tempo, sendo apenas uma das dimensões o poder de um anti-Deus, capaz de prejudicar a obra divina. É
atravessadas na queda, desaparece no oposto processo de evo- absurdo admitir que Deus houvesse introduzido no sistema per-
lução, após a superação da fase energia, da qual é a própria feito, saído de Suas mãos, uma possibilidade tão desastrosa.
dimensão. Mas, entendendo o tempo em sentido mais vasto, ou Admitindo, logicamente, a impossibilidade do Sistema ressentir
seja, como ritmo do tornar-se ou velocidade do transformismo, qualquer prejuízo com a queda, focalizemos então a observa-
poderemos dizer que, mesmo atravessando em sentido inverso ção, para ver o que ocorreu no Sistema depois da fuga dos ele-
os estágios a serem mais tarde percorridos na evolução, a que- mentos rebeldes. Sempre nos preocupamos em ver o que ocor-
da foi rápida, de forma semelhante ao desmoronamento de reu a eles, sem olhar o que deixaram atrás de si.
uma casa sem alicerces. A lógica nos mostra isso. Os estágios Utilizemos as argumentações da resposta precedente. Sendo
da subida foram certamente atravessados na descida, porque, infinito o número de componentes do Sistema, nele sempre
se eles ligam o Sistema ao Anti-Sistema na direção da queda, permaneceria, por maior que fosse o número dos rebeldes, um
devem também ligar o Anti-Sistema ao Sistema na direção do número infinito de elementos. Nossas medidas, definidas quan-
regresso. Eles não foram atravessados na forma lenta em que titativamente, não podem esgotar uma entidade de natureza di-
os vivemos, mas certamente em sua substância, porque a ponte ferente, como é o infinito, que permanece inesgotável, seja qual
de passagem entre os dois polos, de ida ou de volta, só pode for a quantidade finita que se lhe tire. Por isso o Sistema per-
ser uma. Tratava-se de uma fulminante desintegração atômica maneceu íntegro, tal como era antes. O conceito de numerabili-
em cadeia, onde não há como despertar, aprender e reconstruir, dade e de medida nasceu, ao invés, no lado dos rebeldes, que,
como o ser viveria mais tarde, de forma gradativa. O lento em razão de sua divisão, tornaram-se apenas uma parte, não
processo atual de experimentação e assimilação não tinha ra- podendo, portanto, existir no todo infinito. Tão logo aconteceu
zão de existir. A queda foi como uma explosão em que a uni- o afastamento, surgiram imediatamente, na zona separada, os
dade se pulverizou. Também em nosso mundo, tudo o que é conceitos próprios do Anti-Sistema, neste caso os de medida e
recomposição e conquista é lento e árduo, trabalhoso como to- numerabilidade. Neste sentido, é concebível uma quantificação
da reconstrução confiada às forças do operário. das criaturas rebeldes, ao menos enquanto permanecem no An-
Concluindo, o fenômeno da involução nos apareceu na ti-Sistema, porque somente aí, fora do Sistema, é possível o
visão como um acontecimento rápido. Mas, nesta resposta, conceito de uma quantidade mensurável.
quisemos justificar essa afirmação com argumentos lógicos e Mas aqui surge outra dificuldade. Que unidades queremos
racionais. contar? Pela lei das unidades coletivas, as individuações do ser
PERGUNTA: são diferentes em relação ao plano de evolução por elas atraves-
Qual foi o número de elementos rebeldes expulsos, e quan- sado. Vimos, pouco acima, como se realiza a subida por meio de
tos permaneceram obedientes no Sistema? agrupamentos progressivos, cada vez maiores, dos fragmentos
Pietro Ubaldi O SISTEMA 55
da unidade, pulverizados com a queda, até seus últimos elemen- XVI. RECONSTRUÇÃO ORGÂNICA DO SISTEMA E
tos. Para poder se chegar a uma contagem, seria preciso fazê-la DESENVOLVIMENTO DA CONSCIÊNCIA
sempre em relação ao grau de evolução atingido pelos elementos
enumeráveis. Só podemos dizer que seu número, por causa do Neste ponto da composição do presente volume, em no-
processo de reunificação a que estão sujeitos com a subida, vai vembro de 1956, após o término dos cursos em São Paulo e no
sempre diminuindo, uma vez que a evolução leva da multiplici- Rio de Janeiro, foi iniciado um terceiro curso em Santos, sobre
dade à unidade do Sistema. Mas quem quiser ter uma ideia do o mesmo tema. Isto nos ofereceu a oportunidade de fazer mais
número poderia contar a quantidade de elementos componentes uma recapitulação de vários dos conceitos relativos à visão e
do Anti-Sistema, por exemplo, no plano representado pela maté- exercer sobre ela um novo controle. Foram aqui acrescentados,
ria, experimentando contar o número dos elementos componen- por isso, novos capítulos, onde se responde a novas perguntas,
tes dos átomos existentes em todo o universo. Vemos então que, voltando a defrontar os mesmos problemas e outros afins, sob
se não encontramos o infinito, por nos acharmos no Anti- outros pontos de vista. Será possível duvidar da verdade da vi-
Sistema, encontramos, no entanto, sempre quantidades inco- são depois de tão prolongado controle?
mensuráveis, praticamente equivalentes ao infinito. PERGUNTA:
Com isto, melhoramos a resposta à pergunta precedente. Para o nosso mundo atual, o maior interesse se relaciona
Voltemos a observar o Sistema. Sua estrutura é hierárquica, com o nosso progresso. Pedimos, pois, explicações acerca do
formando um organismo feito de funções diferentes e especiali- fenômeno da evolução: a) A razão de sua existência; b) Quais
zadas, e não um todo homogêneo, constituído de elementos as suas formas; c) Como ocorre a reconstrução orgânica do Sis-
equivalentes. Nesse caso, a falta de alguns elementos não pode tema desmoronado.
perturbar o funcionamento de todo o organismo. Tudo isso é RESPOSTA:
verdade. Mas é também verdade que, qualquer nível, plano ou a) O pensamento humano parece estar de acordo neste pon-
divisão da hierarquia é organizado, e cada função é desempe- to, isto é, com o fato de que vivemos num processo de evolução.
nhada por elementos sintonizados, portanto, equivalentes (unifi- Ora, evolução significa desenvolvimento, aperfeiçoamento, as-
cados pelo fato de possuírem o mesmo tipo de vibrações). Des- censão. Para compreender, temos então de nos perguntar primei-
tes permaneceu, pois, no Sistema, o quanto era suficiente para ramente de onde surgiu tudo isso, como nasceu esse processo,
seu funcionamento, que continuou regular como antes. Não se qual o impulso que o determinou e por que justamente nessa di-
corromperam classes inteiras, mas apenas alguns dos seus ele- reção. Se coisa nenhuma pode nascer do nada, o processo evolu-
mentos, permanecendo íntegras as classes, o grupo e o plano em tivo não pode haver nascido do nada. Trata-se de um fato positi-
seu conjunto. Sendo infinito o número de elementos do Sistema, vo, inegável, portanto é preciso achar o precedente que o deter-
a perda de alguns não pode alterar nada. A perda de uma parte minou. Para compreender esse efeito, é mister retornar à causa.
pode subtrair um número finito, mas não um número infinito. É Surge então a necessidade lógica de admitir que houve um
inútil querer subtrair do infinito. Não se podem fazer operações período involutivo precedente, ou seja, que, para haver evolu-
aritméticas entre entidades de natureza diferente. O conceito de ção, deve ter havido uma involução. Um movimento numa só
infinito é completamente diferente daqueles de indefinido, inu- direção, sem outro inverso e complementar que o justifique e
compense, seria um desequilíbrio inadmissível na ordem uni-
merável e incomensurável, com os quais se confunde muitas ve-
versal. Há também um outro fato. O conceito de evolução im-
zes. Independentemente do seu tamanho, uma quantidade finita
plica em expansão e crescimento, o que, por sua vez, impõe a
jamais poderá exaurir o infinito, que só poderá sentir qualquer
ideia de um ponto de partida que sai do “menos”, isto é, do ne-
subtração quando dele se subtrair outro infinito. Indicando com
gativo, e se desloca até atingir um ponto de chegada no “mais”,
n um número finito, poderemos dizer, em termos matemáticos:
ou seja, no positivo. Assim, temos de admitir que o processo
± n = evolutivo só pode ter iniciado no polo negativo (o caos no Anti-
Sistema), e não no polo positivo (ordem do Sistema). Surge en-
Esta fórmula nos indica que o infinito, seja qual for o número tão a seguinte pergunta: se a causa de tudo só pode ser Deus,
finito a ele acrescentado ou dele subtraído, permanece infinito. como podemos atribuir a Ele a gênese direta de um processo
Assim, qualquer que tenha sido o número de elementos ex- cujo ponto de partida tem, ao invés, características negativas,
pulsos do Sistema, lá permaneceu um número infinito. O Siste- opostas às qualidades de Deus, que só podem ser afirmativas e
ma é de natureza diferente do Anti-Sistema. O absoluto inco- positivas? Então, se não podemos atribuir a Deus tudo isso e se
mensurável permanece invulnerável, porque está além das quan- não existe no todo outra causa primeira, falta ao processo evo-
tidades mensuráveis que constituem o relativo. O Sistema, ape- lutivo a respectiva causa, não sendo possível explicar como te-
sar da subtração dos rebeldes, continuou completo, funcionando nha ele nascido. A impossibilidade de ter este processo nascido
perfeitamente. Só houve prejuízo para os elementos que se afas- diretamente de Deus é lógica e absoluta. Deus situa-se no +, e
taram e, assim, acharam-se abandonados a si mesmos, à mercê este processo tem o ponto de partida no –. A conclusão inevi-
da própria lei, então inventada para substituir à lei de Deus. A tável é que não há outro meio para explicar o fenômeno da evo-
vulnerabilidade não é uma qualidade do Sistema, do absoluto, de lução, a não ser intercalando entre ele e a causa primeira – que
Deus. Ela só apareceu quando os seres se afastaram de tudo isto, é Deus – o fenômeno da revolta e o consequente período da
para entrar na posição oposta do Anti-Sistema; surgiu tão logo queda, em que os valores positivos originais puderam, durante a
as criaturas saíram da ordem, da hierarquia, do estado orgânico, fase involutiva, ser invertidos até alcançar o estado negativo,
que constituía sua saúde e sua força. único ponto de partida que podemos aceitar para a evolução.
O prejuízo não foi para o Sistema, mas todo para o Anti- Em outros termos, sendo a evolução um processo de recons-
Sistema. Quem se achou defeituoso e fora do lugar foi este, que trução, ela presume, necessariamente, um período precedente de
se inverteu em negativo e, portanto, para sobreviver, foi forçado destruição. A reconstrução não pode partir de um estado de per-
a existir apenas na forma de transformismo evolutivo. Ora, se feição, ou seja, não pode partir diretamente de Deus. Só se pode
ele quiser continuar a viver, só lhe resta subir ao estado de Sis- subir depois de ter descido; só se pode reconstruir após haver
tema, tornando positivo o negativo, ou seja, autodestruindo-se destruído. Se admitirmos a evolução, temos de admitir também
como Anti-Sistema. Poder existir somente na forma de trans- o Anti-Sistema, pois não se poder dar a ela outro ponto de parti-
formismo evolutivo significa só poder existir destruindo tudo o da. E, se admitirmos o Anti-Sistema, é preciso admitir também a
que constituiu a revolta, para reconstruir-se em tudo o que cons- teoria da queda. Involução e evolução estão reciprocamente
titui a obediência a Deus, centro permanente e chefe de tudo. condicionadas pela própria trajetória do ciclo que, partindo do
56 O SISTEMA Pietro Ubaldi
Sistema, volta ao Sistema. A perfeição do ponto de partida em apenas como teoria. Estamos ainda próximos do Anti-Sistema.
Deus coincide, dessa forma, com a perfeição do ponto de chega- No entanto, no plano humano, esta luta é mais viva do que nos
da em Deus. Neste ciclo, o fenômeno da queda se intercala co- planos inferiores, porque, quanto mais se sobe, tanto mais o Sis-
mo um fato tão necessário quanto o fato da evolução. Eis então, tema, à medida que nos aproximamos dele, mostra-se mais po-
em favor da teoria da queda, mais uma prova, que apresenta deroso, enquanto, nos níveis mais baixos, o Anti-Sistema domi-
também uma qualidade a mais: a grande harmonia e equilíbrio na sem contrastes sensíveis. A ele pertence o domínio das zonas
das partes, com uma correspondência quase musical dos concei- mais involuídas, enquanto as evoluídas, quanto mais elevadas,
tos que a dominam em seus vários momentos, visto serem diri- tanto mais se tornam domínio exclusivo do Sistema.
gidos e coordenados por uma arquitetura onde, na ordem do Só assim podemos ter uma unidade de medida para poder
quadro geral, cada elemento encontra, com perfeita lógica, o seu julgar positivamente o valor dos indivíduos e das civilizações.
devido lugar, em concordância com todos os outros elementos. Quanto mais um homem ou um povo se harmoniza com os
b) Explicado assim o fenômeno da evolução e a razão de princípios do Sistema, tanto mais é evoluído, e quanto mais
sua existência, observemos agora, para responder à segunda pratica os princípios do Anti-Sistema, tanto mais é involuído.
parte da pergunta, as suas formas, problema que interessa mais Em outros termos, o grau de civilização é dado pelo grau de
ao nosso mundo humano. Veremos, depois, como ocorre a re- evangelização atingido. Este é o verdadeiro critério para julgar,
construção orgânica do Sistema. e aqui mostramos as razões disso. Os critérios baseados sobre o
No plano evolutivo humano acontece um fato estranho. Não domínio político ou econômico são produtos do Anti-Sistema e
impera aí uma só lei, bem determinada, seguida cegamente pe- pertencem ao estado de involução.
los seres, como se dá no plano vegetal e animal, onde a vida c) Procuremos agora responder à última parte da pergunta,
domina deterministicamente o funcionamento dos seres e estes relativa à reconstrução orgânica do sistema desmoronado. Já
apenas obedecem, seguindo seus instintos, não havendo luta de dissemos que a queda representa uma dissolução da organici-
princípios nem escolha. A regra aí é única, sendo fácil segui-la. dade. Ora, é lógico então que a evolução consista na reconstru-
No plano biológico humano, porém, ocorre um fato novo: a éti- ção da mesma organicidade. Para poder regressar ao Sistema, é
ca, que luta contra a animalidade para superá-la. O homem vive preciso, pois, reintegrar a unidade orgânica que se desagregou.
no meio do contraste nascido do encontro e do choque entre os Esse processo de reconstrução nós o vimos (Capítulo XI e XV)
princípios de dois planos biológicos diferentes, que o disputam realizando-se através da lei das unidades coletivas. A evolução
continuamente: o inferior, para mantê-lo preso na animalidade, opera na direção da reunificação, movimento oposto ao da in-
e o superior, para arrastá-lo ao seio da espiritualidade. volução, direcionada à pulverização.
Por que isso? No mundo vegetal e animal, vemos a vida A atuação da evolução se manifesta como realização cada
em uma posição estática, que representa uma perfeição rela- vez maior e aumento contínuo de organicidade. O caminho do
tiva, atingida em relação a um dado plano de evolução. Aí, regresso é representado por um processo de reabsorção do sepa-
não a vemos em seu período de transformação, ao contrário ratismo e da desordem, através da fusão e da disciplina. Eis co-
do que acontece na fase homem-animal–super-homem, que a mo acontece a reconstrução do Sistema desmoronado.
vida está agora realizando em nosso planeta. Para passar da Isto implica em consequências importantes com relação às
planta ao animal, a vida teve de conquistar o movimento. Pa- transformações que terá de suportar a personalidade humana
ra passar do homem-animal ao super-homem, o ser humano atual. De tudo quanto se explicou até agora, compreende-se
deve conquistar a inteligência. quão absurdo seria o nosso “eu” poder voltar a fazer parte do
Qual o significado desse contraste entre planos diferentes? Sistema tal como é constituído hoje, tendo em cima de si uma
Por que essa luta? Como pode a lei que rege a vida ter princípios bagagem de qualidades próprias do Anti-Sistema. Interessa-nos,
tão diferentes disputando o domínio do ser, a ponto de haver então, saber em que forma chegará a nossa personalidade huma-
conflito entre eles? Observando em sentido mais vasto, vemos na ao estado de existência própria do Sistema. Hoje nós, huma-
que, em cada fenômeno, há um princípio de ordem, que o prote- nos, não somos um organismo. Diante das novas grandes unida-
ge, o mantém e quer melhorá-lo, e um princípio de desordem, des coletivas do futuro, representamos aquilo que os elementos
que o agride, estraga-o e quer fazê-lo retroceder à destruição. monocelulares são diante dos mais complexos organismos cria-
Verificamos a presença de uma lei de bem, que, para atuar, luta dos pela vida. Ora, é lógico que elementos componentes de se-
contra uma lei de mal. Por isso o progresso em todas as coisas é melhantes formas de amontoados celulares desordenados não
dado pelo impulso de subida, contra o impulso contrário, que podem entrar como partes componentes de superiores e comple-
quer a descida ou pelo menos a paralisação. É emergindo dessa xas unidades biológicas. Não podem ser admitidas a fazer parte
contínua luta que a evolução, por fim, consegue vencer. Assim, de um organismo essas individuações celulares separadas e ri-
apesar de tudo, o progresso avança e, mesmo sendo sempre mi- vais, estragadas pelo atrito de uma luta intestina entre si, unida-
nado pelo impulso contrário, consegue, finalmente, realizar-se. des que consomem todas as próprias energias apenas de maneira
Onde estão situadas as origens desses impulsos contrários? contraproducente para a coletividade, não sabendo viver organi-
Só a teoria da queda pode dar-nos a explicação desse fato. Os camente nem conhecendo o poder daí derivado.
dois impulsos provêm um do Sistema e outro do Anti-Sistema. Da mesma forma como os elementos monocelulares devem
A evolução representa a subida do segundo, que não quer mor- sofrer profundas transformações para chegar a fazer parte dos
rer, para o primeiro, que deve nascer. E o Sistema só pode nas- organismos superiores, também as individuações humanas, para
cer destruindo o Anti-Sistema, que só pode sobreviver não se poderem tornar-se elementos constitutivos das grandes unidades,
deixando destruir pelo Sistema. O terreno de luta entre eles é o necessitam voltar ao estado de Sistema. O homem deve superar
domínio do ser. A evolução representa o regresso ao Sistema e sempre mais o seu separatismo e, com isso, aprender a viver co-
o extermínio definitivo do Anti-Sistema. No plano humano, o letivamente. É preciso compreender que a tarefa da evolução é
Sistema é representado pelas leis da ética, e o Anti-Sistema pe- destruir todas as qualidades do Anti-Sistema, substituindo-as pe-
los instintos da animalidade. Assim se explica esse contraste. las do Sistema. Esta é a condição para se poder reentrar nele. É
Grande parte da humanidade ainda está dominada pelos indispensável, portanto, que seja destruída a maior parte das
princípios do egoísmo separatista do Anti-Sistema. Por esta ra- qualidades que constituem hoje a personalidade humana. E é ne-
zão, ainda vigora no plano humano a lei da luta pela vida e da cessário não só eliminá-las, mas também substituí-las por quali-
seleção do mais forte. Lei tipicamente animal, que, na prática, dades opostas, que tenham sido definitivamente conquistadas.
continua a resistir aos diferentes princípios da moral e dos ide- Nós, humanos, portanto, voltaremos a Deus com uma forma
ais. Estes, mesmo pregados aos quatro ventos, permanecem de personalidade completamente diferente, ou seja, não como
Pietro Ubaldi O SISTEMA 57
somos hoje, um amontoado desorganizado de elementos separa- pava das mãos da criatura, que havia caído nas profundas trevas
dos e rivais, mas na forma de tipo biológico orgânico, represen- da ignorância. O conhecimento permaneceu intacto, mas só no
tando um modo de existir completamente diferente. Num futuro Sistema, e não no Anti-Sistema, que o perdeu. Cabe agora a es-
mais próximo, ainda como parte da humanidade, o homem não te, em consequência da revolta, uma dura obediência, porque
será apenas um elemento de um exército de micro-organismos, deve ser executada forçadamente por um ser cego, amarrado a
mas poderá erguer-se a funções mais nobres de célula especiali- uma lei determinística, e não mais aquela obediência livremente
zada em atividades superiores, como ocorre com os tecidos ner- executada no Sistema por um ser consciente, que aceita porque
vosos e cerebrais no corpo humano. Unificação, fusão e reorga- compreendeu e se convenceu.
nização significam também especialização, aperfeiçoamento e Com a queda, portanto, o conhecimento passou das mãos da
potencialização, impossíveis de outra forma. Neste sentido, a re- criatura às mãos da Lei. Já não podendo mais possuir funções
construção aparece como uma verdadeira criação. livres diretivas porque se revoltou e decaiu na ignorância, a cri-
Não nos iludamos pensando que podemos atingir Deus as- atura, que era antes colaboradora consciente da Lei, deve agora
sim como somos hoje feitos, sozinhos. Isto somente será possí- obedecê-la cegamente. É lógico que, quanto mais a criatura se
vel quando estivermos fundidos em conjunto, abraçados ao aprofunda no Anti-Sistema, mais ela fica submergida na igno-
inimigo que tivermos perdoado, ao ignorante que tivermos en- rância e mais vem a perder sua liberdade, que não é uma quali-
sinado, ao inferior que tivermos levantado até ao nosso nível, dade que se possa conceder aos inconscientes, incapazes de sa-
ao malvado que tivermos transformado em bom. Da mesma ber fazer bom uso dela.
forma como, em nossa fase atual, átomos, moléculas, tecidos e Dessa forma, a revolta produziu, como consequência, não a
órgãos, fundindo-se juntos em unidades sempre maiores, chega- subversão da Lei, mas apenas a subversão dos rebeldes. A lei
ram a constituir o indivíduo humano, também assim, no futuro, de Deus permaneceu íntegra, mesmo no Anti-Sistema, com a
homens, famílias, grupos sociais, povos, nações, humanidades e função de reerguê-lo, impelindo o ser, que se tornou ignorante
humanidades de humanidades, fundindo-se juntos em unidades da Lei e agora é coagido a aprendê-la novamente, através do er-
cada vez maiores, chegarão a construir unidades coletivas sem- ro e da dor. Assim como, com a queda, o conhecimento se em-
pre maiores, complexas e perfeitas, constituindo, no seu último borcou em ignorância, com a evolução a ignorância se endireita
estado evolutivo, o Sistema. Se o ser, no fundo da queda, atin- em direção ao conhecimento. Temos, então, antepostas como
giu o estado de máximo separatismo, ele, no cimo da ascensão, guias do ser, a inteligência da Lei, substituindo tanto mais à do
só poderá atingir o estado de máxima reunificação. indivíduo quanto mais este perde consciência por descer ao An-
Resumindo a resposta à pergunta formulada, explicamos ti-Sistema, e a inteligência do indivíduo, que vai sendo recon-
porque, como necessidade lógica, existe o fenômeno da evolu- quistada com a evolução. A primeira inteligência pertence à
ção (como consequência do período precedente inverso de in- consciência cósmica ou pensamento de Deus. A segunda é pa-
volução) e, depois, o porquê da forma pela qual age a evolução, trimônio individual de cada ser, que a possuía plenamente no
especialmente no plano humano (luta entre os impulsos prove- estado perfeito do Sistema, mas a perdeu com a queda no Anti-
nientes dos dois polos opostos), mostrando, enfim, como ocorre Sistema e deverá, evoluindo até ao estado perfeito do Sistema,
a reconstrução do sistema desmoronado (por fusão orgânica em reconquistá-la. Mas, até que retome a posse de sua posição de
unidades coletivas cada vez mais amplas). elemento consciente da Lei e de seus planos, ele caminhará
◘ ◘ ◘ como um cego. A Lei o conduz pela mão e o dirige sem que o
Como consequência das explicações precedentes, surge, en- saiba, guia-o e o impele indiretamente, a fim de não lhe violar a
tretanto, uma outra pergunta. liberdade, manobrando-o por meio dos instintos, barrando-lhe o
PERGUNTA: caminho errado com reações dolorosas, premiando-o com me-
Foi dito na última resposta que, para passar do animal ao lhora de vida cada esforço de progresso. Mas, com a evolução,
super-homem, o homem tem de conquistar a inteligência. Que o ser se liberta cada vez mais desse determinismo, volta a com-
ocorrerá, pois, à nossa personalidade humana ao adquirir co- preender a utilidade de seguir a Lei, preparando-se para obede-
nhecimento e consciência? Quais serão as repercussões? cer-lhe espontaneamente. A Lei, então, deixa que ele se apodere
RESPOSTA: das alavancas de comando, permitindo que ele assuma pouco a
Vimos que a evolução realiza uma série de transformações pouco as funções diretivas, até personificar os próprios princí-
na natureza do ser, substituindo-lhe as qualidades do Anti- pios da Lei, como ocorre no Sistema. Dessa forma, com o seu
Sistema pelas do Sistema. Focalizemos a nossa atenção sobre esforço de tornar a subir o caminho da descida, reconquistando
essa qualidade especificamente humana, que é a inteligência. a consciência, o ser readquire a liberdade perdida. Esta só lhe
Qual a razão para a evolução desenvolver a inteligência? De on- pode ser dada pelo conhecimento. O pensamento de Deus, que
de nasce esse desenvolvimento? Trata-se de uma criação ou de dirige tudo, é lógico e previdente. Não se pode deixar a quem
uma restituição? Ou seja, é o aparecimento de um estado novo, caminha nas trevas a livre escolha de dirigir-se, mas apenas a
não contido nos precedentes, ou constitui um regresso, uma re- quem dá garantia suficiente de possuir conhecimento para não
conquista, decorrente de um estado precedentemente existente? cair e arruinar-se. Por isso a liberdade chega na proporção em
Respondamos com outra pergunta: o que ocorreu, com a que se desenvolvem paralelamente o conhecimento e a inteli-
queda, à inteligência que dirigia o Sistema? Continua a dirigir o gência. Explica-se, assim, porque o livre arbítrio, ou seja, a pos-
Anti-Sistema, para salvá-lo, como dissemos. Mas também dis- sibilidade de certa amplitude de escolha, só aparece no homem
semos que, para a criatura, a queda significa destruição da luz em determinado ponto da evolução, e não antes. No entanto,
da compreensão, nas trevas da ignorância. Então, quanto às muitas vezes, o homem ainda não concebe a liberdade em fun-
qualidades cognoscitivas e diretivas, dominantes no Sistema, ção do conhecimento, única qualidade que lhe pode garantir o
deve ter ocorrido o mesmo que aconteceu, com a queda, às ou- bom uso dela, e deseja usar a liberdade sobretudo para libertar-
tras qualidades. Assim, por exemplo, tal como a queda não re- se do freio da Lei, e não para segui-la. Esse modo de compreen-
presentou, como vimos no capítulo precedente, uma destruição der a liberdade como forma para se rebelar ainda mais, retroce-
das distintas individuações, mas sim a destruição do seu estado dendo à animalidade, provém do Anti-Sistema. É natural que, no
orgânico de Sistema, reduzindo-o ao estado desorganizado de homem, ainda imerso em grande parte no Anti-Sistema, a atra-
Anti-Sistema, a inteligência, no caso em estudo, representada ção deste ainda domine de forma preponderante, trazendo de
pelas qualidades cognoscitivas e diretivas, também não foi des- volta o impulso da revolta e o instinto de retrocesso.
truída, mas permaneceu apenas na mente que regia o Sistema e Assim, o crescimento da inteligência assume função muito
o Anti-Sistema, ou seja, em Deus e em Sua lei, enquanto esca- importante no desenvolvimento da evolução, pois representa a
58 O SISTEMA Pietro Ubaldi
qualidade que torna o indivíduo sempre mais independente do descoberta, cada progresso é uma conquista de maior conheci-
determinismo dos planos inferiores, atribuindo-lhe cada vez mento da Lei, é uma libertação da escravidão dos instintos, uma
mais funções diretivas, até permitir que ele próprio, como reconstrução de um pedacinho do Sistema.
acontecerá ao homem futuro, tome as rédeas do fenômeno da Por isso o homem é um tipo biológico em contínua evolu-
evolução e dirija, assim, o desenvolvimento da vida em seu ção, e não um modelo definitivamente estabelecido. E, de acor-
planeta. O maior prejuízo para a nossa humanidade atual é o do com o caminho já percorrido, os homens diferem totalmente
seu grau de involução. O ser evoluído funciona com princípios entre si. A vida pode ter, para cada indivíduo, de acordo com a
e instintos totalmente diferentes. sua posição evolutiva, um sentido completamente diferente. Pa-
Nos planos mais baixos, imersos no Anti-Sistema, tudo é ra os inferiores que saem de baixo, o plano humano pode ser
determinismo, tanto mais quanto mais descemos. Se a maté- um ponto de chegada bastante alto. Para os mais evoluídos, in-
ria não estivesse fechada no âmbito de leis determinísticas, a tencionados a subir para planos mais elevados, a Terra pode ser
ciência não poderia construir as suas teorias. Se cada fenô- um ponto de partida bem baixo. Assim, viver em nosso mundo
meno não obedecesse cegamente à sua lei, esta não poderia pode representar para os primitivos a maior e mais alegre reali-
ser descoberta pela observação e experiência. Na matéria, tu- zação da existência, enquanto, para os mais adiantados, pode
do é automático, calculável, previsível, porque nesse plano, constituir doloroso estado de sufocação da vida. Acontece então
em seu conjunto, não há liberdade. Mas tudo se passa diver- que, para os involuídos, a juventude, quando se firma a vida do
samente se subimos aos fenômenos da vida e, mais ainda, se corpo (que para eles é a vida toda), é alegre, enquanto é triste a
chegamos aos fenômenos da psique e do espírito, onde o ser velhice, quando esse corpo cai. O contrário ocorre para os evo-
se liberta cada vez mais do determinismo, tornando-se senhor luídos, para os quais a juventude, quando se firma a vida física,
autônomo de suas ações, que assumem uma independência de é penosa, porque representa a obrigação de identificar-se num
escolha ignorada no mundo físico, sendo por isso sempre estado biológico inferior à sua natureza, enquanto a velhice é
mais difícil, nesta altura da evolução, prevê-las e estudá-las. alegre, pois a decadência física liberta o espírito.
Tendo-se tornado mais livres com a evolução, é mais difícil Para os primeiros, mais próximos da matéria, a velhice re-
estabelecer a regra geral diretiva do fenômeno, pois este ten- presenta um desfazimento real de todo o seu ser. As suas pró-
de a resultados sempre diferentes em cada caso pessoal, em prias funções psíquicas constituem uma atividade mais cerebral
vista da liberdade conquistada, tanto mais quanto mais alto é que espiritual, enfraquecendo-se com o enfraquecimento do ór-
o grau de evolução atingido pela pessoa. gão físico do pensamento, o cérebro. Para eles, a velhice signi-
Nos planos mais baixos, não apenas tudo é determinismo, fica fim e morte, tanto material como espiritual, de todo o seu
mas também, para o elemento, tudo permanece em estado de ser. Para os evoluídos, mais fortes no espírito, a velhice signifi-
inconsciência. A sabedoria não está nele, que permanece imer- ca fim e morte apenas da própria forma exterior, material, fato
so na mais profunda ignorância, e sim na Lei que o guia. Não é que não mata, mas liberta a parte espiritual do seu ser, cuja vida
possível negar que há muita inteligência no átomo, tão grande assim se intensifica com a velhice, ao invés de decair. Sendo
que só hoje a mente humana conseguiu compreender o funcio- para eles as funções espirituais muito mais desenvolvidas e po-
namento íntimo desse primeiro elemento da matéria. Ora, de derosas, portanto mais independentes do órgão físico do pen-
tudo isso, o átomo nada sabe. Da própria inteligência que o faz samento, o enfraquecimento deste quase não consegue lesá-las.
funcionar, o átomo não tem consciência alguma. E não pode- Como o órgão cerebral, para os evoluídos, é apenas um meio
mos admitir que ele seja um matemático capaz de calcular as secundário de existência, um instrumento transitório de expres-
trajetórias de seus movimentos e o impulso de suas forças ínti- são, o seu envelhecimento não consegue arrastar, em sua ruína,
mas. O átomo, então, representa o estado de queda no Anti- a inteligência e o pensamento deles.
Sistema, onde o elemento só pode funcionar deterministica- Por isso, quanto mais o ser conquistou, com a evolução, um
mente, pois sua consciência desapareceu. Nada sabe e não pos- grau mais forte de consciência, tanto menos morrerá ao atraves-
sui liberdade de escolha, não podendo funcionar de outro modo. sar a morte. Isso porque quem evolui sobe para o Sistema, onde
Quem manda e pensa por ele é a Lei, que ele não conhece. não existe morte. A substância da vida é expressa pela consciên-
A evolução representa uma libertação desse determinismo e cia de existir. A substância da morte é dada pela perda dessa
inconsciência. À proporção que o ser sobe para o Sistema, o in- consciência. E evolução significa conquista de vida, porque
divíduo adquire uma autonomia cada vez maior de comporta- constitui conquista dessa consciência. Ao descer, tudo tende a
mento individual, uma capacidade cada vez maior de dirigir-se morrer na inconsciência, propriedade do Anti-Sistema. Subindo,
de maneira independente. No homem, o instinto representa a par- tudo tende a reviver na consciência, propriedade do Sistema. Por
te ainda atrasada, sob o domínio do determinismo e da inconsci- isso a evolução representa não apenas conquista de liberdade e
ência dos planos inferiores; zona ainda animal, onde só cabe ao de consciência, mas também de vida; significa não só libertação
homem obedecer à natureza, como os animais. Mas, no seu lado de todas as qualidades negativas do Anti-Sistema, ou seja, es-
mais alto, o espiritual, começa a dar os primeiros passos no ca- cravidão no determinismo, ignorância e morte, mas também
minho da liberdade e do conhecimento. A luz do Sistema já co- conquista de todas as qualidades positivas do Sistema, isto é, li-
meça a raiar entre as trevas profundas do Anti-Sistema. berdade, conhecimento e vida, até ao ponto em que, tendo o ser
Fechado ainda, em grande parte, no círculo de suas necessi- atingido o Sistema, a morte desaparece definitivamente.
dades materiais, o homem pouco pode comandar a própria vida, ◘ ◘ ◘
vivendo deterministicamente sob o poder da Lei, da qual quase Mas procuremos responder cada vez mais exatamente à
nada conhece. A sua ignorância o mantém escravo. O seu livre- pergunta feita, para saber o que acontecerá à nossa personalida-
arbítrio é apenas uma pequena oscilação de escolha, a fim de de humana como conhecimento, ou seja, quais serão os novos
lhe permitir o aprendizado à sua custa, experimentando. O co- estados de consciência que a evolução vai desenvolver na per-
nhecimento permaneceu com ele no Anti-Sistema, porém inver- sonalidade humana.
tido no negativo, como ciência de aparências, isto é, ciência da Se, como dissemos há pouco, o conhecimento passou, com a
ilusão proporcionada pela percepção sensória do mundo exteri- queda, das mãos da criatura, antes consciente colaboradora da
or, percepção que, como a ciência começa a descobrir, apresen- Lei, às mãos da Lei, a quem teve de obedecer cegamente, verifi-
ta pouca correspondência com a realidade. Assim, entre a es- ca-se com a evolução o processo oposto, ou seja, uma restituição
cravidão aos instintos e a miragem de um mundo relativo, o do conhecimento das mãos da Lei às mãos da criatura que, vol-
homem se debate para reconquistar, por meio de erros e dores, tando a ser colaboradora consciente, não é mais constrangida a
a liberdade e o conhecimento. Para ele, cada ato criador, cada obedecer cegamente, mas sim por adesão livre e convicta. Com
Pietro Ubaldi O SISTEMA 59
a evolução ocorre, pois, na criatura, um processo de dilatação de para tornar-se borboleta. Para fazer isso, a lagarta se fecha num
consciência e conhecimento, implícito no desenvolvimento de casulo, ao passo que o ser humano deve transformar-se sem in-
todas as individuações da vida e implícito também, por sua vez, terromper a vida comum a todos, com seus pesos e preocupa-
de forma ampla, na reunificação, pela lei das unidades coletivas, ções, não sendo de forma alguma ajudado ou compreendido.
dos elementos que se separaram no Anti-Sistema e agora voltam Não deve admirar, portanto, que a excessiva tensão nervosa de-
ao Sistema. Com a evolução acontece, para a consciência da cri- vida ao esforço da transformação provoque distúrbios nervosos
atura, o que ocorre naquele processo de reunificação. Aparece, e psíquicos, quadros de depressão, esgotamento, irritabilidade e
com a unificação em grupo, um princípio diretivo diferente para insônia, constituindo aqueles estados físicos e sobretudo men-
o novo estado orgânico do ser, dirigido por uma nova lei. Assim tais classificados pelos médicos como patológicos. Essa medi-
como, a cada maior unificação, atinge-se um valor acima daque- cina moderna, de orientação prevalentemente materialista, igno-
les alcançados pelas unificações menores precedentes, com a rando ou negando a possibilidade desses fenômenos de desen-
evolução também aparece para a consciência da criatura uma volvimento espiritual, é totalmente incompetente para julgá-los
nova lei, um princípio diretivo diferente, pelo novo modo orgâ- e dirigi-los. A própria psicanálise é apenas ciência da psique, e
nico de conceber (não mais analítico, mas sintético), atingindo- não ainda ciência do espírito. Os problemas da personalidade
se um poder maior de compreensão e de concepção. humana não podem ser resolvidos, se antes não se tiver uma
Dessa maneira, o homem passará, por meio da evolução, orientação geral, dentro da qual se coloque este fenômeno e se
da forma mental atual, lógico-racional, à forma mental repre- resolvam antes tantos outros problemas.
sentada pela intuição. Trata-se verdadeiramente, como disse- Oferecemos, assim, ao médico especialista de doenças ner-
mos, de uma nova lei do pensamento, de uma diferente forma vosas e de psicoterapia, ao estudioso desses fenômenos de des-
mental, de uma organicidade de concepção anteriormente ig- pertar espiritual e às próprias vítimas dessas crises de evolução
norada; trata-se de novas orientações e métodos de pesquisa, um indício seguro para reconhecer a causa e o significado des-
para alcançar um conhecimento antes impossível. Essa trans- ses distúrbios nervosos e mentais, tão semelhantes, senão
formação da consciência humana, por evolução, é o problema iguais, aos sofridos pelos verdadeiros doentes nervosos e men-
agora focalizado para responder à pergunta formulada. E é tais, induzindo o médico e o estudioso tantas vezes ao erro.
grave e importante, do ponto de vista filosófico, afirmar que o Mas, se a síndrome é tão semelhante, as suas origens são muito
problema do conhecimento não pode ser resolvido pelos atu- diferentes, senão totalmente opostas. No caso de doentes nervo-
ais caminhos lógico-racionais possuídos pelo homem, mas sos, trata-se de verdadeiras deficiências, de alterações degene-
apenas pelas vias inspirativo-intuitivas, que ele, evoluindo, rativas, com caráter regressivo, que estacionam na inferioridade
possuirá no futuro. Segue-se uma colocação do problema de do subconsciente. No processo de transmutação pelo despertar
modo diferente do comum. Afirmamos que a obtenção do co- e desenvolvimento da consciência, esses estados pseudopatoló-
nhecimento é problema sobretudo de amadurecimento bioló- gicos são compensados pelas reações criadoras, por avanços na
gico. Em outros termos, o grau de conhecimento possuído de linha evolutiva, por uma potenciação manifesta da personalida-
uma verdade, para nós relativa e em contínuo processo de de, conjunto de sintomas que indicam o crescimento ocorrido
conquista, depende do grau de evolução alcançado. sob as aparências de uma doença. Enquanto esta, nos verdadei-
Da mesma forma como vimos a evolução levar do separa- ros doentes, é estacionária, sem reações naturais e sem indeni-
tismo à reunificação, fundindo os indivíduos separados em or- zações compensadoras, no caso do despertar espiritual trata-se
ganismos cada vez mais amplos, também vemos, para a consci- apenas do esforço implícito num processo normal de cresci-
ência, a evolução levar do estado de distinção entre o “eu” e o mento. Os sintomas patológicos frequentes desaparecem espon-
“não-eu”, a um estado orgânico diferente, em que aparece um taneamente, quando a crise de que derivam se resolve e cessa
“eu” superior diferente. Cai então o separatismo, desaparece o de existir a causa que os produzia. A verdadeira natureza desses
divisionismo próprio de nosso Anti-Sistema, e aparece a fusão distúrbios nos é revelada pelo fato de os vermos, cedo ou tarde,
própria da unidade do Sistema. No desenvolvimento de cada compensados e naturalmente corrigidos na direção evolutiva.
fenômeno, passamos sempre das qualidades do Anti-Sistema às Em última análise, eles tendem a subir, ao passo que a doença
do Sistema. O atual tipo biológico de personalidade, constituída tende a descer, demonstrando assim a verdadeira natureza de-
por um “eu” isolado, fechado no próprio individualismo, ex- les, que não é, de maneira nenhuma, patológica.
pressão viva do separatismo do Anti-Sistema, rompe, ao evolu- Trata-se de fenômenos importantíssimos, que interessam
ir, as paredes de sua prisão de decaído, expandindo-se na forma particularmente à humanidade futura, no seio da qual, por sua
de um novo “eu” universal e, dessa maneira, funde-se e torna a evolução, esses fenômenos, pouco comuns em nosso mundo
se encontrar em todos os outros “eus” do universo. Passamos, selvagem, ocorrerão com muito maior frequência do que hoje.
assim, de um tipo de individuação própria dos planos inferiores O atual esforço do homem, resumido todo na luta pela vida, ou
da vida, a um tipo de personalidade própria dos superiores. seja, na estupidez de se esmagarem mutuamente, transformar-
Compreendidos os princípios gerais que dirigem o fenôme- se-á nesse mais nobre e inteligente esforço de luta para libertar-
no, será interessante conhecer agora quais reações produzirá na se da própria animalidade, a fim de subir. Então a medicina
consciência do indivíduo uma tal transformação biológica, compreenderá esses casos pseudopatológicos, que não são, co-
bem como as sensações e diferentes modos de conceber. As- mo se poderia pensar, retorno de um subconsciente enfermo,
sim como algumas leis da matéria se transformam em função mas trabalhosas explorações no superconsciente, realizadas pe-
do fator velocidade, também as leis do pensamento mudam los pioneiros da evolução.
com essa dilatação do “eu”. A transformação da personalidade, Observada a síndrome negativa do fenômeno, por suas reper-
subindo de um plano de vida a outro mais alto, é completa e cussões nervosas e psíquicas no plano biológico humano, veja-
laboriosa. Essa ressurreição do “eu”, das profundezas do Anti- mos agora a sua síndrome positiva. Observemos não a parte des-
Sistema, onde havia decaído, esse seu despertar do letargo da trutiva das qualidades inferiores pertencentes ao Anti-Sistema,
inconsciência em que adormeceu, é um processo de transmuta- mas sim a parte construtiva das qualidades superiores do Siste-
ção com o valor de verdadeira revolução biológica. Aparece, ma. Sem dúvida alguma, os sintomas patológicos que aparecem
pois, com todas as características de uma crise da vida, mas nessa transmutação biológica são produto da resistência contra-
não crise de desfazimento, como a morte, e sim de desenvol- posta pelo Anti-Sistema, para não morrer. Com efeito, esses sin-
vimento, própria do ser em ascensão. tomas têm as características da decadência, que lhe são próprias.
O ser humano, atrasado nesse processo de transformação, Mas, ao mesmo tempo, os sintomas de crescimento que apare-
acha-se como a lagarta, que deve atravessar as fases de crisálida cem nesse fenômeno só podem ser produto da aproximação do
60 O SISTEMA Pietro Ubaldi
Sistema, que revive na criatura. De fato, esses sintomas têm as anulação. Para não morrer, torna a agarrar-se ao velho mundo
características de amplidão e potência próprias do Sistema. relativo de antes. Esta é uma fase de luta e de contrastes, de on-
Eis então as transformações ocorridas na consciência, por de derivam os distúrbios dos quais já falamos.
ocasião da passagem de um plano de vida a outro. O fato de a O que acontece então? O “eu” não morre, de maneira ne-
filosofia atual insistir muito na distinção entre o “eu” e o “não- nhuma. Mesmo se o momento da passagem lhe pode dar a sen-
eu” demonstra que é esta a forma mental humana dominante. sação de seu fim (os místicos chamam a noite escura da alma),
No fenômeno do despertar espiritual manifesta-se uma tendên- uma vez superado o momento crítico do fenômeno, o “eu” torna
cia no sentido precisamente contrário. Para confirmar plena- a se achar mais vivo do que antes, mas numa forma diversa. Esta
mente o quanto acima foi exposto de forma geral, em relação passagem recorda a superação da barreira ultrassônica para as
ao processo de reunificação do separatismo do Anti-Sistema, grandes velocidades. Momento perigoso, porque, muitas vezes,
neste caso particular desaparece aquela tão fundamental sensa- o inconsciente continua a agredir, embora também protegido pe-
ção de separatismo do homem atual, que tem como primeira la sabedoria das leis da vida. Momento em que se passa do mo-
impressão a sua distinção do ambiente. Então, acontece o con- do de conceber racional ao intuitivo. Então, a personalidade ex-
trário: o “eu” e o “não-eu” tendem a fundir-se. Pode-se daí de- plode e, de sua forma de ser isolado no todo, começa a viver
duzir de imediato uma consequência estranha para o nosso num estado de liberdade ilimitada, como cidadão do todo, numa
mundo: a sensação de personalidade como individuação sepa- sua nova e imensa casa, que é o universo. O ser se acha pertur-
rada, tal como costuma ser compreendida, pertence apenas aos bado porque a forma de existir que lhe era própria, a qual ele
planos inferiores, desaparecendo nos níveis superiores, com a acreditava fosse a única possível, agora lhe vem a faltar. Tudo
evolução. Desse modo, conceber o nosso “eu” egoisticamente isso o enche de uma angústia de morte. Mas, depois, desperta,
separado do todo, seria apenas uma qualidade de nosso plano achando-se mais amplo e poderoso, não mais identificado com o
evolutivo, e não dos planos mais altos. Isto confirma a teoria da seu “eu” pequeno, mas com o todo, capaz de saber viver não
queda, segundo a qual, quanto mais se desce ao Anti-Sistema, apenas em si mesmo, mas em todas as coisas, que podem tam-
tanto mais se dá a divisão e, quanto mais se sobe para o Siste- bém viver nele. Desperta diante do inimaginável, do inconcebí-
ma, tanto mais ocorre a fusão em unidade. vel, diante de uma perspectiva nova, que lhe dá vertigens.
Então o atual modo de conceber o nosso “eu” representa Mas, nem por isso, mudou o nosso universo, que é sempre o
apenas a corrupção ou cisão do estado unitário original, cisão mesmo. Mudaram sim a percepção e a concepção do ser, porque
ocorrida no período de descida, pois agora, no período da subi- mudou a sua posição relativa. Tudo depende da perspectiva al-
da, vemos a transformação evolutiva levar de um ponto a outro cançada pelos nossos meios sensórios. Ninguém pode afirmar
superior, executando o processo oposto, de reunificação. Com que a técnica lógico-racional de pensamento seja a única apta a
efeito, quantos estudaram ou experimentaram esse amadureci- compreender tudo e que não precisamos de outras para aprender
mento evolutivo sabem que ele é constituído por uma dilatação diferentes valores da realidade, inatingíveis à nossa atual posi-
do “eu”, transbordando de seus limites comuns, para expandir- ção psicológica. Ao contrário, uma vez que a forma mental vi-
se em tudo o que, no plano comum humano, constitui o “não- gente não sabe resolver o problema do conhecimento, é provável
eu”. Daí, começa a surgir no ser uma consciência diferente, que, para resolvê-lo, sejam necessárias outras técnicas de pen-
com novas sensações e concepções, uma psicologia sem limi- samento, hoje ainda relegadas ao irracional ou ao inconcebível.
tes, como uma consciência cósmica. Então a vida, de uma luta Sem dúvida, o homem faz do seu universo um conceito de-
contra tudo e todos, transforma-se num amplexo universal, em rivado do ponto de vista alcançado do seu plano evolutivo. Tan-
que se abraçam todas as criaturas irmãs. E tudo isso unificado to é verdade que, com o progresso humano, mudam sempre os
em redor do centro supremo: Deus. Nesse estado de ânimo, en- aspectos da verdade. O fato de estarmos inexoravelmente imer-
contrado nos místicos que realizaram a grande catarse espiritu- sos no relativo nos permite pensar que é possível conceber tudo
al, não há todas as qualidades próprias do Sistema? Chega-se a em numerosas outras maneiras diferentes e admitir a possibili-
conceber então o próprio “eu” em unidade com o todo, e o todo dade de haver, além da forma mental lógica, também a intuitiva
em unidade com o próprio “eu”. A realização completa desse ou outras. A evolução pode transformar tudo, inclusive as nos-
estado de consciência não vem justamente representar o estado sas capacidades de conhecimento, e não podemos imaginar a
final da evolução, com a integração do ser na unidade do Sis- que conceitos e modos de conceber, em novos planos, possa le-
tema? Naqueles que, subindo, começam a aproximar-se dele, o var-nos o amadurecimento evolutivo. Caminhamos numa estra-
universo não aparece mais exterior e intensivo, separado do da em ascensão e não sabemos que novas perspectivas ela nos
“eu”, mas sim como consciência de si mesmo, como um todo poderá dar amanhã. E conosco caminha também todo o univer-
permeado da presença vital de Deus, do pensamento e da inteli- so, num transformismo contínuo.
gência de Sua lei, como um ser vivo, dirigido por um “Eu” uni- É certo que o universo é todo vibrante. Mas de quais vibra-
versal, dentro do qual o nosso “eu” existe como um momento ções? O que nos poderão revelar amanhã aquelas ainda não co-
Seu e de cuja consciência faz parte a nossa consciência. nhecidas? O que poderá revelar-nos o nosso contínuo aumento
A esse estado de iluminação espiritual se chega por graus, à de sensibilidade? O que veremos quando pudermos ter uma
proporção que se evolui. Mas é lógico que, junto com o lado percepção diferente? Como pensaremos quando soubermos
positivo do fenômeno, exista também o lado negativo. O que o pensar diferentemente? E o que veem os seres que percebem de
ser ganha do lado espiritual deve perdê-lo do lado material. Es- outra maneira? Podemos imaginar o universo perceptível e
sa expansão do “eu”, esse reviver numa forma tão desusada, concebível de infinitas formas, com meios diversíssimos, todo
confere-lhe uma sensação de perturbação. A personalidade, ha- ele sensível de infinitos modos em cada ponto seu, podendo ser
bituada a sentir-se definida, sustentada e quase constituída pelas olhado em seus infinitos pontos, com infinitos olhos diferentes.
paredes de sua prisão, sente-se perdida num infinito sem pontos Quem sabe quantos apelos nos chegam, para os quais somos
de referência demarcando limites. Mudando a própria forma de surdos; quem sabe quantos colóquios poderiam ser estabeleci-
consciência, perdendo o próprio tipo de “eu” como individua- dos, mas, não ouvindo, não sabemos responder! Não sabemos
ção separada, o ser tem a sensação de se desintegrar nessa des- que mundo nos poderá ser revelado, se o homem puder superar
centralização, que se opõe à sua precedente psicologia, na qual os limites atuais de suas capacidades perceptivas. O certo é que
era o centro e baseava toda a sua potência vital. Ao se expandir, somos nós mesmos, com a nossa natureza e nosso grau de evo-
o ser sente como se evaporasse. Acha-se tão expandido, que lução, que estabelecemos os limites de nosso conhecimento.
não se reconhece mais, parecendo-lhe não ser mais o mesmo. Muitos outros continentes, além dos existentes na Terra, ainda
Isto produz nele uma desorientação, um sentido de dispersão e aguardam ser descobertos no mundo do espírito!
Pietro Ubaldi O SISTEMA 61
XVII. SIGNIFICADO DA MORTE E DA Nos planos intermediários, onde o homem se encontra, te-
REENCARNAÇÃO mos de um lado a parte física, o corpo feito de matéria perten-
cente ao Anti-Sistema, e de outro, representando a parte mais
Respondamos a outras perguntas, antes de concluir o livro. próxima do Sistema, o espírito, que, ao repetir o motivo da
PERGUNTA: queda, encarna-se, recaindo assim no Anti-Sistema. Essas duas
No decurso da resposta anterior, falou-se, incidentalmente, partes representam no homem os dois polos já citados, Anti-
em morte. Pedem-se explicações mais exatas quanto às causas Sistema e Sistema, entre os quais oscila o espírito a cada nova
determinantes desse fenômeno, solicitando esclarecimentos não encarnação, para que, evoluindo, afaste-se cada vez mais do
só a respeito das razões justificadas de sua existência e do seu primeiro e se aproxime do segundo. Que acontece então com a
verdadeiro significado, mas também a respeito das causas e morte? Nessa ocasião, a parte física, pertencente ao Anti-
significado do fenômeno conexo da reencarnação, em relação Sistema, morre, mas não morre a parte espiritual, mais próxima
às teorias apresentadas neste livro. do Sistema. Isto acontece como efeito do princípio de que tudo
RESPOSTA: o que pertence ao Anti-Sistema morre, e tudo o que pertence ao
O fenômeno da morte faz parte de uma série de conceitos Sistema, por ser feito da vida, jamais pode morrer.
negativos, que, por esta sua natureza negativa, só podem fazer Ora, se para o corpo, que em todos os seres humanos apre-
parte do Anti-Sistema. Este fato implica na presença de uma sé- senta mais ou menos o mesmo grau de evolução biológica, veri-
rie oposta de conceitos positivos, que, por sua natureza positi- fica-se na morte mais ou menos o mesmo desfazimento físico,
va, só podem fazer parte do Sistema. Os dois polos contrários, quase igual para todos, próprio de toda matéria orgânica que
afirmação e negação, constituem um equilíbrio de opostos que morre, a mesma coisa não ocorre para o espírito. Se, na parte
se presumem e se condicionam mutuamente, só podendo existir humana, os espíritos caem mais ou menos no mesmo cadinho
um em função do outro. A base e a origem do conceito está no de experiências oferecido pelo ambiente terreno, eles podem,
polo positivo, em forma de afirmação. A parte oposta só é con- no entanto, ainda que excepcionalmente, pertencer a planos de
cebível como sua derivação, por inversão. Assim, em todas as evolução mais elevados que os da média. Eis então que, se a
coisas, encontramos, ligados aos pares, os dois conceitos cons- morte, para o corpo, pode ser quase igual para todos, ela pode,
tituindo o mesmo princípio, antes em seu aspecto positivo, de- no entanto, ser bem diferente para a parte espiritual. Essa dife-
pois em seu aspecto negativo. rença será tanto mais acentuada quanto mais o indivíduo for
Deste modo, no caso agora em observação, a base e a ori- evoluído, espiritualmente distanciado dos planos comuns e
gem do conceito estão no polo positivo, em forma de afirma- mais baixos da vida. Em outros termos, a morte será tanto me-
ção, significando vida; sua parte oposta, ou seja, a morte, só é nos morte, quanto mais o ser for evoluído, ou seja, quanto mais
concebível em função da vida, como uma corrupção desta por próximo o ser estiver do Sistema, reconquistando-lhe as quali-
inversão. Por isso, como em todas as coisas, encontramos es- dades, tanto mais viva e consciente permanecerá sua parte espi-
ses dois conceitos unidos num par, como os dois polos opos- ritual na morte. Por isso o evoluído sentirá a morte muito me-
tos do mesmo princípio, antes em seu aspecto positivo e, de- nos que os outros, permanecendo, na morte e depois da morte,
pois, em seu aspecto negativo. O primeiro representa a posi- muito mais vivo e consciente que os outros, em proporção ao
ção íntegra, situada no Sistema, o segundo a posição decaída, grau de evolução que tenha atingido. Só o evoluído readquire
corrompida no Anti-Sistema. plena consciência depois da morte, tanto mais plena quanto
Ora, no estado de perfeição do Sistema, tudo é vida e cons- mais for evoluído. Consciência quer dizer conhecimento do
ciência e não há lugar para o conceito de morte e inconsciência. pensamento diretivo da Lei, do plano geral do universo e de sua
No estado de Sistema, o espírito permanece sempre presente posição nele, para realizar, como operário de Deus, a própria
em si mesmo, em plena luz da consciência. Aproximamos estes função e a do próprio destino de ascensão.
dois conceitos de vida e consciência porque, como dissemos na Os animais vivem apenas no plano físico do corpo, não po-
resposta precedente, a substância da vida é constituída pela dendo, por isto, depois da morte, gozar de uma vida conscien-
consciência do existir, e a substância da morte, pela perda dessa te, que não possuem, pois ainda não a conquistaram. Saem da
consciência. Foi dito também que, ao descer, tudo tende a mor- vida física e a ela voltam por um fenômeno automático, deter-
rer na inconsciência, propriedade do Anti-Sistema, e, ao subir, minístico, assim como caem as gotas da chuva, sem sabê-lo. A
tudo tende a reviver na consciência, propriedade do Sistema. massa involuída da maioria dos seres humanos está apenas um
Explica-se, dessa forma, o estado atual do homem, que, tendo pouco acima desse nível e, ao morrer, permanece semiconsci-
percorrido um trecho da subida evolutiva, acha-se a meio cami- ente, ou seja, com uma consciência limitada à sua forma men-
nho entre o Anti-Sistema e o Sistema, por isso divide sua exis- tal sensória no ambiente terrestre. Como este era o centro de
tência entre a forma vida e consciência, própria do Sistema, e a sua vida, ela aí permanece. A morte não pode mudar o tipo de
forma morte e inconsciência, própria do Anti-Sistema. personalidade. As ideias dominantes são conquistadas por lon-
Que é a morte, então? A morte é um estado de obscureci- ga repetição, até se transformarem em hábito; as novas quali-
mento da consciência, atingido com a queda no Anti-Sistema, dades, constituindo os novos instintos, formam-se com a técni-
por inversão da luz da consciência que o ser possuía no esta- ca dos automatismos e não se improvisam nem sequer com a
do de Sistema. Daí resulta ser a morte cada vez mais morte morte. Resulta daí que a comunicação mediúnica com os de-
(isto é, perda de consciência) quanto mais o ser se encontra sencarnados não representa, na maioria dos casos, senão o
imerso no Anti-Sistema, ou seja, é involuído; por outro lado, transbordamento do próprio baixo material humano, do qual a
a morte é cada vez menos morte (isto é, perda de consciên- Terra está saturada e já temos o bastante, com pouco a nos en-
cia) quanto mais o ser se aproxima do Sistema, ou seja, é sinar. Não é comum os grandes espíritos descerem para se co-
evoluído. Então, entre os dois polos extremos de vida e cons- municar com os homens. Isso somente se verifica por motivos
ciência completas no Sistema, e de morte e inconsciência especiais, que não acontecem todos os dias.
completas no Anti-Sistema, a fase de involução representa a Com a evolução, o centro da vida se afasta do plano materi-
passagem do primeiro estado ao segundo, e a fase de evolu- al cada vez mais no sentido do plano espiritual. Quanto mais é
ção representa a passagem do segundo estado ao primeiro. involuído o ser, tanto mais a vida terrena lhe é não só a verda-
Desse modo, como já dissemos, quanto mais se evolui, tanto deira vida mas também toda a vida, tanto mais ela lhe é precio-
menos se morre e tanto menos o morrer é morte. Assim como sa e tanto mais perdê-la significa verdadeiramente morrer.
a involução criou a morte, a evolução a destrói. Quem não possui uma vida intelectual e espiritual em que viva
62 O SISTEMA Pietro Ubaldi
liberto do corpo teme a morte, porque nela sente que realmente está escrito e arde no fundo de todos os corações, ainda que pa-
morre. Ao contrário, quanto mais evoluído for o ser, tanto me- reça irrealizável, realizar-se-á um dia, e não pode deixar de rea-
nos para ele a vida corpórea é a verdadeira vida ou toda a vida. lizar-se. Esse é o significado dos instintos humanos de imorta-
Ele conhece uma vida maior, onde sabe que é eterno e indestru- lidade e crescimento, e os instintos não erram. O grande sonho
tível; ninguém pode matá-lo, a não ser a sua própria vontade de de jamais morrer há de realizar-se, faltando para isso o ser atin-
involuir, praticando o mal. O seu inimigo não é mais o seu se- gir o cimo da escada evolutiva, onde reencontrará o Sistema e,
melhante, que não lhe interessa mais vencer, porque não lhe com ele, a vida eterna. O elixir da longa vida, procurado pelos
disputa o espaço vital. Sua luta é contra a própria animalidade, alquimistas medievais para conseguir a eterna juventude, existe,
única coisa que o impede de dominar, subindo. O evoluído, ao porém não sob forma de bebida, mas sim de esforço para evolu-
descobrir essa vida maior, não teme a morte, porque sabe que ir, porque, com a evolução, será reconstruída a vida plena e
não morrerá de maneira nenhuma. contínua, não mais interrompida pela morte.
De onde deriva, então, o medo natural que o ser tem da Já dissemos, no capítulo precedente, que a evolução, permi-
morte? Ela é o símbolo, a lembrança e a prova da queda no An- tindo nosso afastamento do Anti-Sistema, liberta-nos da morte,
ti-Sistema. Representa a negação da primeira qualidade do ser, porque nos leva ao Sistema, onde esta não existe. Os fatos con-
isto é, existir. A morte exprime um contínuo e repetido assalto firmam estas asserções, pois, quanto mais a vida é involuída,
do Anti-Sistema contra o Sistema, para destruí-lo. Reproduz o tanto mais rápida é a mudança vida-morte a que está sujeita.
suicídio tentado pelo espírito ao se lançar no abismo da matéria. Que significa isso? No estado monocelular ou microbiano, a vi-
É o chamamento terrível do Anti-Sistema para a destruição, a da do indivíduo pode reduzir-se a poucos minutos. Ora, é lógico
volta de seu impulso demolidor de tudo. Quando ela se aproxi- que a presença da morte é tanto mais frequente e a incerteza da
ma, o ser sente tornar a cair no abismo do aniquilamento, em vida é tanto maior, quanto mais retrocedemos ao Anti-Sistema.
que já desmoronara com a queda. Sente-se aterrorizado ao ver- Mas a evolução nos conduz para a vida, que reforça com isto as
se novamente preso no ciclo da queda, que torna a pegá-lo, a suas posições e, subindo, torna-se mais longa e resistente.
fim de arrastá-lo para baixo. Vemos o mesmo fenômeno no progresso das civilizações.
Isto prova que o ser conhece o Sistema, com o seu estado A máxima sabedoria do selvagem involuído consiste toda em
de plenitude de vida, pelo qual sempre anseia, e conhece o An- saber fazer guerra, produzindo em seu plano um regime onde a
ti-Sistema, com o seu estado de negação da vida, no qual se maior habilidade e o valor mais alto consistem em saber matar
precipitara com a queda. O seu maior instinto é agora afastar- as feras e o próximo. Ao contrário, a sabedoria do civilizado
se daí, para voltar ao Sistema. Só com a teoria da queda se po- evoluído não consiste em saber agredir o próximo, mas em sa-
de explicar esse instinto de fugir à morte – onde se revela o ber organizar-se com ele para a maior vantagem de todos, sig-
Anti-Sistema – para reentrar naquele estado de vida perene, nificando uma nova afirmação da vida sobre a morte. Dessa
onde o Sistema predomina. O ser anseia pela vida completa forma, com a evolução, a ferocidade desaparece para dar lugar
que possuía no Sistema e tem horror do Anti-Sistema, que, à inteligência. E para que serve tanta luta entre si, nas plantas ,
com a morte, tenta demolir a cada instante a sua vida. A queda nos animais e nos homens, senão para desenvolver a inteligên-
da integridade originária é uma cegueira dolorosa, e o ser se cia, qualidade do Sistema? A morte, qualidade do Anti-
agarra desesperadamente à vida, para não se precipitar no Sistema, está sempre pronta a ameaçar o instinto fundamental
abismo que a queda escancarou a seus pés. da vida. Esta, porém, que não quer morrer, é obrigada a defen-
Que significa a ânsia de imortalidade, esse desejo irrefreável der-se e, para defender-se, é levada a desenvolver todas as qua-
de sobreviver de qualquer modo à própria morte, com qualquer lidades necessárias a esse fim. É por isso que surgem e se aper-
obra imperecível. Esse anseio exprime a vontade de escapar à feiçoam os sentidos, para desempenhar a tarefa mais urgente,
prisão das areias movediças do Anti-Sistema, que procuram en- que é de ataque e defesa, exatamente como ocorre com as no-
golir a vida. De outro lado, existe um anseio de crescimento pa- vas invenções científicas, empregadas em primeiro lugar para
ralelo ao de não querer morrer. Não apenas sobreviver, mas de- fins bélicos de ataque e defesa.
senvolver-se cada vez mais. Querem crescer as plantas, os ani- Dessa forma, o ser é impelido a evoluir pelo terror da morte
mais, as crianças; querem crescer os povos com o progresso da e pelo anseio de viver, ou seja, por sua instintiva repulsa ao An-
sua civilização. Se o primeiro anseio exprime a vontade de esca- ti-Sistema e por sua atração ao Sistema. A sua primeira con-
par ao Anti-Sistema, este segundo exprime a vontade de apro- quista dos poderes dos sentidos tende a completar-se, mais tar-
ximar-se do Sistema. É inegável o fato, por todos verificável, do de, com a conquista dos poderes intelectuais. Para o animal,
contínuo esforço do ser, que, para não morrer, defende desespe- perceber é tudo, e, com efeito, ele tem muito mais acuidade
radamente a sua vida, a fim de vencer o princípio de destruição, sensorial do que o homem. Este, ao invés, já conquistou, em
representado em todas as coisas pela presença do Anti-Sistema; compensação, outros poderes intelectuais, sendo possível para
e também é fato inegável o seu esforço contínuo para ampliar e ele, com isso, controlar o valor dos resultados obtidos através
reconstruir a vida, para vencer com o princípio da reconstrução, das sensações, que o animal aceita cegamente, sem discutir, in-
que representa a presença do Sistema. capaz de avaliar o seu valor exato. Por isso tanto o animal como
Mostra-nos tudo isso que somos feitos de vida perene, tal o homem primitivo são, em relação ao mundo exterior, muito
como existe no Sistema, mas que se despedaçou com o desmo- mais escravos da ilusão sensória do que o homem habituado ao
ronamento no Anti-Sistema. Demonstra-nos, também, a nossa controle de si mesmo e dos próprios meios de percepção. Sem
substancial indestrutibilidade, confirmando que somos feitos de dúvida, um macaco, com seus olhos mobilíssimos, é muito
vida imortal, que não pode morrer. O ser sabe, instintivamente, mais hábil que o homem normal, sendo capaz de ver, concomi-
que, apesar da queda, é filho do Sistema, e não quer submeter- tantemente, tudo o que lhe acontece em torno, no entanto sabe
se ao Anti-Sistema, pois este, sendo apenas efeito transitório de avaliar muito menos o significado das percepções recebidas.
um erro, não pode representar um estado definitivo. Embora A evolução opera, então, um desenvolvimento diferente, não
submerso no Anti-Sistema, tenta conseguir o que representa ali mais na forma extrovertida, produzida pelos meios sensórios,
um absurdo: a plenitude da vida. No entanto esse instinto não mas na forma de introspecção, que, através do controle racional,
erra, porque o ser decaído só pode existir em função da recons- antes desconhecido nos seres inferiores, incrementa o valor crí-
trução do Sistema. O ser tenta a loucura de querer vencer a tico das observações alcançadas sensorialmente. Transforma-se,
morte, porque o seu instinto lhe diz que é feito de vida, de uma dessa maneira, completamente, a própria apreciação da realidade
vida mais forte que todas as mortes. O sonho de libertação que exterior, que acaba revelando aspectos totalmente inacessíveis
Pietro Ubaldi O SISTEMA 63
aos meios sensórios. Então, o ser não só desenvolve uma nova O mais estranho, todavia, é que justamente alguns dos que
consciência do mundo exterior, que lhe permite maior proteção mais admitem a teoria da reencarnação, porque faz parte de sua
da vida, mas também é arrastado pela evolução, no seu próprio doutrina religiosa, negam a teoria da queda, somente porque faz
caminhar, cada vez mais para o mundo interior, que é o mundo parte de outra religião. Quando Galileu afirmou que não era o
do espírito, o caminho de regresso ao reino do Sistema. Sol que girava em torno da Terra, mas sim a Terra em torno do
◘ ◘ ◘ Sol, queria afirmar uma verdade científica, e não religiosa, e a
Procuremos responder agora à segunda parte da pergunta, Bíblia nada tinha a ver com esse problema. Da mesma forma,
relativa à reencarnação. Na teoria exposta, o ponto fundamen- queremos aqui afirmar uma verdade científica, e não religiosa,
tal que explica tudo, sem o qual nada se compreende, é a reen- e a ciência não costuma levar em conta o modo como as religi-
carnação. Sempre colocamos morte e nascimento como dois ões resolvem os seus problemas.
polos opostos do mesmo fenômeno vida, como dois momentos Além disso, os que admitem a reencarnação, mas negam a
paralelos indissolúveis, um como condição indispensável do teoria da queda, não percebem como estão ligadas estreitamente
outro. Sem esta concepção de uma vida mais ampla, ligando as duas coisas e que, negando a queda, negam o Anti-Sistema e
todas as pequenas vidas no tempo, não se pode conceber nem tudo o mais que possa explicar a presença da morte e dessa al-
mesmo o fenômeno da evolução espiritual, em que se baseiam ternância vida-morte, chamada reencarnação. Sem a queda não
as religiões. O conceito de uma criação espiritual que ocorra se justifica a reencarnação, e quem nega uma deve negar tam-
toda vez, individualmente, a cada nascimento, quebra todo o bém a outra, pois não possui elementos para justificá-la. Se a
conceito de equilíbrio e continuidade, fazendo do universo ma- maior explicação e razão primeira da reencarnação está na teo-
terial-espiritual uma desordem absurda e caótica, em que nada ria da queda, não é possível admitir, logicamente, que se possa
mais se compreende. Essa ideia de uma criação da alma a cada crer na reencarnação sem aceitar a teoria da queda, que a condi-
novo nascimento pode ser colocada ao lado da ideia de que a ciona. Só com esta teoria se pode compreender a necessidade
Terra é o centro do universo, em torno do qual o Sol gira, ou desse contínuo voltar atrás, que se chama morte, sempre no
de que o homem é o único habitante e objetivo da criação, ou meio daquele impulso para frente, que representa o maior im-
ainda da concepção antropomórfica de um Deus que pensa e pulso da vida. Só com a teoria da queda se explicam essas con-
age à semelhança do homem. tínuas contrações das conquistas da evolução em relação a um
De fato, o ser progride através dessa contínua oscilação en- passado incompreensível, se não estiver situado no Anti-
tre as duas posições inversas e complementares, que são vida e Sistema, derivado da queda. Só assim se compreende essa ten-
morte. Com a revolta, o espírito não morreu. Apenas a sua vida dência ao reenvolvimento das trajetórias desenvolvidas pela
se inverteu no seu contrário: a morte, de onde vai ressuscitando evolução, essa tendência a voltar atrás para a morte, enquanto
à proporção que percorre o caminho da evolução. E, através das tudo está subindo para a vida. Esses escorregões contínuos em
inúmeras mortes, vai ressuscitando cada vez mais com a evolu- direção retrógrada seriam inexplicáveis e defeitos imperdoáveis
ção. Pensando negar a Deus para afirmar a si mesmo, o ser, numa obra que, por ter saído diretamente das mãos de Deus,
com a revolta, não tocou em Deus e negou apenas a si mesmo, não admitiria jamais defeito algum.
precipitando-se, da vida, na morte. Com a evolução, ele deve
Esta é a explicação da intermitência da vida possuída pelo
agora tornar a subir da morte para a vida, com oscilações cada
ser. Sem a queda, a vida, embora imperfeita, deveria ser contí-
vez mais lentas, nas quais a fase morte vai sendo reabsorvida,
nua, evoluindo por continuidade, e não através do contraste en-
afastando-se do Anti-Sistema, até atingir a plenitude da vida
tre os dois polos opostos, vida e morte. Por isso o cansaço e a
sem mais morte, no Sistema.
necessidade periódica do descanso na morte acontecem no fe-
Muitos afirmam esta verdade da reencarnação, mas poucos
nômeno do desenvolvimento da vida, que, no entanto, jamais
se perguntam por que a evolução tomou essa forma de vidas
se esgota, retomando depois o seu desenvolvimento normal.
alternadas com mortes. Poderia ela perfeitamente realizar-se
Este fenômeno não pode ser atribuído a um cansaço da vida,
numa continuação progressiva, sem estas interrupções e inver-
sões. Se fosse verdade, como alguns sustentam, que Deus hou- pois ela representa um princípio divino, qualidade fundamental
vesse criado os espíritos simples e ignorantes, para depois se do ser, não podendo jamais cansar-se. Tanto é verdade que, de
tornarem completos e sábios com a própria evolução, de onde forma contínua e inexaurível, tudo se reconstrói, e a vida re-
teria surgido e que significado teria esse jogo de voltar atrás, nasce invencível das cinzas e da morte. Apesar de seus contí-
da vida para a morte, a cada novo passo? Isso não teria razão nuos assaltos, a morte nunca vence definitivamente, sendo
de existir, e a evolução deveria ser percorrida em linha reta, a sempre vencida pela vida!
trajetória que, sendo o caminho mais curto entre o ponto de A cada existência, o espírito constrói para si, de acordo
partida e o de chegada, desenvolve um impulso dirigido logi- com o grau de evolução alcançado, um edifício adequado, e a
camente numa direção certa e precisa. Se o desenvolvimento cada vida procura levá-lo a um grau mais alto de desenvolvi-
não corresponde à natureza do impulso, isso quer dizer que ou- mento. A cada morte, o edifício é demolido e a construção or-
tros impulsos entraram em jogo. É preciso, então, descobri-los gânica é desfeita até ao estado de matéria inorgânica. Mas, a
e estudar-lhes o desenvolvimento, como fizemos neste tratado. cada nova vida, o edifício é reconstruído, sempre num estado
Não é possível resolver os problemas deixando-os num canto, de unidade orgânica um pouco mais complexa e perfeita do
ignorando-os, pois a pior das soluções é deixar as mentes insa- que a precedente. Assim se realiza a evolução, numa reconsti-
tisfeitas, sem resposta. É necessário tornar bem claro que a tuição contínua, em que a parte espiritual do ser, dirigente do
evolução não tende apenas a subir, como deveria ocorrer numa seu andamento, volta atrás para arrastar consigo, nessa cami-
criação que nasceu imperfeita e destinada a aperfeiçoar-se, nhada, a parte material no polo oposto. A vida representa o
mas também tende intermitentemente a retroceder. Urge expli- impulso do Sistema dobrando-se sobre o Anti-Sistema, para
car essa técnica estranha de construção, mediante a qual a evo- fazê-lo ressuscitar. A morte representa o Anti-Sistema, que re-
lução constrói, para depois demolir, reconstruindo mais alto e, siste em seu estado de destruição. O ser, preso nesse contraste,
em seguida, tornando a demolir para, mais tarde, reconstruir só pode existir arrastado ora por um ora pelo outro impulso, ou
mais acima e assim por diante. Que maneira estranha de avan- seja, sempre morrendo e sempre nascendo. Isto continua até
çar, retrocedendo a cada passo! O fato de uma primeira criação que, após tanto ter aprendido e subido, sempre vivendo e mor-
simples não o justifica de maneira nenhuma. Só com as teorias rendo, o ser consiga viver sem morrer jamais. Quanto mais
aqui expostas encontramos a sua plena explicação. progride para frente, menos o ser escorrega para trás, na dire-
64 O SISTEMA Pietro Ubaldi
ção do Anti-Sistema, onde reina a morte, e cada vez mais se pelo menos, a hipótese hoje mais aceitável, porque resolve o
adianta para o Sistema, onde reina a vida. maior número de problemas, deixando o menor número possí-
Dessa forma, o fenômeno da reencarnação não é estático, vel de pontos em branco. Estes resultados não foram alcança-
mas em contínua transformação, no sentido de se tornar cada dos pelas filosofias nem teologias até hoje surgidas sobre a Ter-
vez mais vida e sempre menos morte. A evolução tem a fun- ra e em poder dos homens. Isto não quer dizer, contudo, que
ção de destruir o Anti-Sistema e de reconstruir o Sistema. Por pretendemos ter atingido a última e definitiva verdade, ou que
isso a reencarnação é um fenômeno transitório, que tende, por não possam ser conquistadas maiores aproximações no futuro,
meio da evolução, a aniquilar-se. Quanto mais se sobe, mais a com a evolução. Ao contrário, nós as esperamos, sempre pron-
morte deve ser reabsorvida pela vida, assim como o Anti- tos a acatá-las, e até mesmo procuramos subir para prepará-las.
Sistema no Sistema. Quando, à força de subir, tiver desapare- Sempre fiéis ao princípio de que a verdade, em nosso mundo, é
cido completamente a morte, com a entrada do ser no Sistema, relativa e progressiva, estamos a caminho com esta verdade,
onde tudo é vida, então cessará também o fenômeno da reen- ajudando a quem também está com ela. Aceitamos, pois, de
carnação. Terminada a construção do edifício destruído, fe- qualquer parte que nos venham, luzes maiores, desde que sejam
cha-se o ciclo das reencarnações, porque já não mais terá ne- luzes verdadeiras, sustentadas pela realidade dos fatos, e não
nhuma função a preencher nem razão de existir. A grande apenas afirmações doutrinárias teóricas, não provadas por essa
aventura da queda estará terminada, e tudo reentrará no estado realidade. Continuamos sempre a procurar novas provas e con-
originário de perfeição do Sistema. firmações, para desenvolver, aprofundar e aperfeiçoar. As ve-
lhas teologias e doutrinas, baseadas no princípio da autoridade,
XVIII. OUTROS FATOS E EXPLICAÇÕES não convencem mais e são desinteressantes às mentes moder-
nas, que voltam o olhar para a ciência, a única fonte de conhe-
Reunimos neste capítulo várias observações rápidas, feitas cimento ainda hoje a desfrutar crédito. Hoje, chegamos ao pon-
to em que a direção do pensamento humano é feita pela ciência,
durante as conversações e discussões. Serão expostas na mesma
e não mais pelas religiões. Por isso, se as teologias e doutrinas
sequência da vivacidade como nasceram, durante os cursos. A
quiserem sobreviver, ao menos entre as pessoas cultas, que sa-
finalidade, ao concebê-las e a reportá-las, foi realizar maior
bem pensar, deverão tornar-se racionais e científicas e demons-
contato entre os conceitos da visão e a realidade de nosso mun-
trar a sua verdade diante dos fatos.
do, concluindo, dessa forma, esta segunda parte de análise e crí-
Completado, nesta segunda parte do volume, o controle crí-
tica com a demonstração, cada vez mais evidente, de que aos
tico da visão, exposta na primeira parte, temos diante dos olhos
princípios da teoria correspondem os fatos que vivemos, con-
o quadro completo, em que tudo aparece logicamente situado e
firmando-a. Com isso, não só provaremos sempre mais a sua
funcionando harmonicamente, desde as causas primeiras até
veracidade, como poderemos chegar a encontrar e estabelecer
seus últimos efeitos neste mundo. Causas remotíssimas, situa-
uma ponte de ligação entre as remotíssimas primeiras causas,
das no absoluto, foram ligadas a seus remotíssimos efeitos, si-
situadas no absoluto, e os seus últimos efeitos, situados no rela-
tuados no relativo. No quadro geral, cada fenômeno achou li-
tivo de nossa realidade cotidiana. vremente o seu lugar, com a explicação lógica da sua existên-
Guiou-nos neste trabalho de análise e crítica, da segunda cia, posição e função. Foi realizado um trabalho de reorganiza-
parte deste volume, a realidade dos fenômenos de todos os gê- ção ideal do caos, e, de uma confusão de pormenores, surgiu
neros, materiais e espirituais, que estão acontecendo em nosso um sistema que tudo concatena, não só por sua vastidão e po-
mundo e que oferecem o único meio em nosso poder para es- tência, reunificando num só organismo a infinita multiplicidade
tabelecer um controle positivo da verdade da visão. Este traba- do Todo, mas também pela beleza musical, fundindo o funcio-
lho de análise e crítica procurou ser exclusivamente objetivo, namento de todas as partes para um único fim e orientando to-
racional e científico. Quisemos deixar a palavra aos fatos, mais dos os seres para o centro único, Deus.
do que às construções filosóficas do pensamento humano ou às Numa visão cósmica, vimos o Sistema desmoronar-se no
afirmações dogmáticas e tradicionais das religiões. A todas as Anti-Sistema e, depois, o Anti-Sistema reconstruir-se no Siste-
doutrinas, substituímos a voz dos fatos, que não é possível ne- ma. Acompanhamos, dessa forma, toda a aventura cósmica do
gar, jamais polemizando para agredir ou destruir, mas sempre ser, desde o polo positivo até ao negativo e seu retorno, até ao
respeitando todos e afirmando para construir. O objetivo deste polo positivo. Pudemos ver, então, o que existe de real por trás
escrito não é, de maneira alguma, defender este ou aquele gru- da grande ilusão representada pelo nosso mundo decaído. Isso
po humano, nem ser por eles absorvidos, para aumentar suas nos ofereceu, em meio à triste realidade da dor, a mais otimista
fileiras, como todos o desejariam; mas sim oferecer a todos das filosofias. Rasgando a cortina das trevas que nos circunda,
uma nova contribuição, inédita, na procura da verdade. Se- conseguimos compreender quanta luz existe por detrás dela.
guindo este caminho, não nos pode interessar a defesa dos vá- Por isso nos foi possível ver a vida além da morte, ver a felici-
rios grupos humanos e seus interesses. dade além da dor e, por trás do ódio, ver que existe amor. A vi-
Eis que, portanto, aproximamo-nos do fim deste nosso novo são nos mostrou que somos eternos e temos direito de ser feli-
trabalho. Se, em sua primeira parte, mostramos a visão percebi- zes; ensinou-nos como realizar a felicidade, o nosso maior an-
da por inspiração, nesta segunda parte, de análise e crítica, exe- seio. Indicando-nos o caminho do endireitamento do Anti-
cutamos o controle racional da mesma, com uma forma mental Sistema, para transformá-lo em Sistema, a visão enche de espe-
completamente diferente. Desse modo, o que podia parecer na rança a nossa miséria e nos ensina a superá-la. Guiando-nos pa-
primeira parte um sonho só aceitável por fé tomou agora uma ra o bem, representa alto valor ético, cujos efeitos benéficos
forma racional e positiva e se nos apresenta como a conclusão podem imediatamente ser experimentados neste mesmo mundo.
de um processo lógico, cujo desenvolvimento leva a uma con- Apresenta-se-nos a visão como algo de completo e cabal,
vicção, alcançada por meio da dúvida, da livre discussão e do porque nos oferece um sistema que é, ao mesmo tempo, filosó-
controle em contato com os fatos. Podemos, então, dizer que, fico, religioso, científico, ético e social. Em outras palavras, é
agora, temos uma certeza antes não possuída. Enquanto na pri- um sistema universal. Reunifica e reorganiza o infinito numero-
meira parte acreditávamos, agora sabemos. so, disperso na desordem. Demonstra, com provas acessíveis a
Isto não significa que queiramos impor estas conclusões. todos, e torna assim acessível, apenas com a razão, o que dantes
Mas, para os irremediavelmente céticos, não podemos deixar de era vagamente atingível só pela fé.
declarar que os conceitos expostos neste volume representam, ◘ ◘ ◘
Pietro Ubaldi O SISTEMA 65
Observemos, então, outros fatos explicados pela visão. Po- À frente de toda essa transformação, pois, está o espírito,
deremos compreender, assim, a razão profunda de fenômenos que excita a matéria que a sustém, embora dela se nutra para
dos quais, de outro modo, não saberíamos compreender suas reconstruir-se. Por isso deve o espírito descer a um corpo físi-
causas primeiras. Poderemos responder, também de forma co, não só porque este representa o banco de operações da sua
mais completa, a certas perguntas que nos foram colocadas elaboração evolutiva, mas também porque, reconstituindo-se
desde o princípio, no Capítulo V – “Orientação”. nos planos inferiores, consegue sanear a substância decaída
Por que, por exemplo, a parte espiritual de nossa personali- que ficou atrás, tornando a subida universal e compacta, para
dade deve viver num corpo material, que representa o polo que não apareçam, na unidade do todo, separações demasia-
oposto? Que significado tem isso? damente grandes e ameaçadoras. Não se trata, com efeito, de
Em nossa personalidade humana, físico-espiritual, situada substâncias diferentes, mas apenas de formas diferentes da
ao longo do trajeto evolutivo, ou seja, no caminho de regresso, mesma substância. Matéria e espírito são contíguas e conjun-
reencontramos as três fases: matéria, energia e espírito, que são tas, portanto não se pode reconstruir o espírito senão tornando
as mesmas percorridas pelo ser decaído, primeiramente, na des- a transformar a própria substância, de seu estado de matéria no
cida involutiva e, depois, na ascensão evolutiva, nos dois perío- estado de espírito. Este é a locomotiva que arrasta todo o com-
boio dos planos mais atrasados da evolução, ao longo do ca-
dos de ida e volta do ciclo completo, exposto na visão. O espíri-
minho da subida. Foi o espírito que chefiou a revolta, pondo-se
to representa a parte mais evoluída, antecipando o futuro, cujo
no caminho da descida. Compete-lhe agora o esforço do re-
ponto final é o Sistema. O corpo representa a parte mais involu-
gresso, sendo esta a razão pela qual precisa reencarnar na Ter-
ída, recordando o passado (animalidade, subconsciente), cujo
ra. O trabalho da evolução só pode ser feito pelo espírito, que
ponto final é o Anti-Sistema. Na composição do ser humano, necessita, por isso, dobrar-se e voltar lá embaixo, tornando a
encontramos os elementos que vão do mineral ao espírito, por- descer na matéria, para transformar a substância que a constitui
que ele está percorrendo em subida a estrada da evolução, nessa outra sua forma, que é o espírito.
transformando um no outro. Explica-se assim, paralelamente, porque o ser humano en-
Aqui, a visão nos responde a outra pergunta. Donde se ori- contra na Terra tudo que é necessário para construir civilização
ginou a matéria constituinte do nosso universo? As teorias ex- e bem-estar, mas com a condição de querer e saber fazer esse
postas acima explicam não apenas a gênese da matéria, mas trabalho. No passado involuído, teve de viver nu em um mundo
também resolvem o problema de sua extinção final, dando um hostil, sobre o qual, se quisesse viver, deveria fazer o esforço
sentido à sua existência, explicando a finalidade a que está su- necessário para transformá-lo num ambiente favorável a si,
jeita e justificando-lhe a presença. Sem essas teorias, não se sa- porque a reconstrução tem de ser realizada pelo homem através
be de onde proveio a matéria, como pode ter nascido e, final- de seus esforços e dores. Em seu passado, o homem tinha em
mente, como poderá desaparecer. Isso porque é indispensável redor de si apenas a desordem, obtida por si mesmo com a que-
uma sua eliminação final, se não quisermos que o estado de da, apenas as formas decaídas da substância, a matéria, a ener-
imperfeição inerente a ela jamais se resolva, o que tornaria fra- gia e as mais elementares formas orgânicas, como plantas e
cassada a obra de Deus. Só com a visão se resolve a necessida- animais. Devia, portanto, impor-se a essa desordem, para esta-
de lógica de tudo retornar ao estado de perfeição em Deus. belecer aí a sua ordem, até conseguir colocar-se à frente do fe-
Ora, se presenciamos a passagem da matéria à energia na de- nômeno da evolução terrestre, para dirigi-la, transformando o
sintegração atômica, e da energia ao espírito em nosso organis- planeta em sua habitação cada vez mais confortável. Seu dever
mo, então a energia elétrica, de onde se originou a vida, atingiu era atravessar e superar toda a fase representada pela lei da luta
no homem o seu mais alto grau de evolução, na forma de ener- pela vida, o que significa reabsorver o separatismo do Anti-
gia nervosa, transformando-se, através do cérebro, em pensa- Sistema, para conseguir a unificação do Sistema. Para progredir
mento imaterial, que constitui o espírito. A estrutura celular ce- nesse caminho, o homem tem de aprender a destruir todo o seu
rebral representa o mais alto grau de complexidade e perfeição a egoísmo individualista, próprio do Anti-Sistema, e começar a
que a evolução levou a matéria. Temos, assim, diante dos olhos, viver em colaboração com os seus semelhantes, irmanando-se
o trajeto completo evolutivo do mundo físico ao espiritual. numa só unidade orgânica: a humanidade.
Podemos, agora, dar uma resposta melhor a quem pergunta ◘ ◘ ◘
por que, na Terra, nosso espírito deve viver num corpo. De fato, Com estas teorias acima expostas, podemos entender a razão
verificamos que a vida só chega às funções psíquicas quando de ser dos instintos atualmente em vigor no homem, compreen-
conduziu a matéria a um tal grau de elaboração e perfeição, que der a sua posição evolutiva e a razão de aí se encontrar. Mais
transformou a substância mineral em cerebral. A que estado de exatamente, podemos compreender porque, na atual fase, o ser
complexidade deve alçar-se a simples estrutura atômica da ma- vive o separatismo egoísta, e não a organicidade unitária. A bio-
téria inorgânica, para poder tornar-se instrumento de tão altas logia descobriu a lei da luta pela vida, mas não o seu significado
funções! E podemos reconstruir toda a estrada que foi percorri- nem o porquê de sua existência. Sabemos que a meta do ser den-
da evolutivamente para chegar a esse estado, bem como a es- tro do Sistema é a concórdia na unidade, ao passo que sua meta
dentro do Anti-Sistema é a discórdia na luta, e sabemos que o
trada que ainda é necessário percorrer. Quantas elaborações,
homem, ainda imerso na lei divisionista do Anti-Sistema, está
desde a matéria inorgânica do solo às plantas, que a assimilam;
situado na estrada que vai do segundo ao primeiro. Percebe-se,
aos animais, que assimilam as plantas ao comê-las; ao homem,
então, a necessidade fatal das guerras, inerente ao estado de in-
que, igualmente, assimila uns e outros, até que os átomos da
volução em que ainda se acha a humanidade. Desse estado, po-
primeira substância inorgânica, assumindo posições cada vez rém, deverá fatalmente se libertar e emergir com a evolução. A
mais complexas, cheguem por fim a dispor-se de modos parti- lei feroz da luta pela vida deve cessar um dia, então o homem
cularíssimos nas evoluídas células cerebrais! Mas a subida con- olhará o seu passado como o de uma fera, em cuja prepotência
tinua. Chegando a este ponto, o espírito de tal forma se potenci- cega se desencadeiam as forças elementares da vida nas trevas
alizou e se desvencilhou de sua forma material, que a evolução da mais profunda inconsciência. A visão não só nos mostra que
ocorre além dela, não sendo esta mais necessária como suporte tudo isso vai terminar fatalmente, mas também nos dá o porquê,
à manifestação dele. Então, o funcionamento do espírito se o como e quais serão as novas condições de vida. Ela nos faz ver
apoia na energia: primeiro na circulante no sistema nervoso, o contraste entre o involuído, que acredita ser tanto maior o seu
depois na radiante e também além desta, para enfim, superando valor quanto mais gente esmagar, e o evoluído, que acredita ter
tais meios, manifestar-se apenas como puro pensamento. tanto maior valor quanto mais abraçar o próximo para colaborar.
66 O SISTEMA Pietro Ubaldi
Explica-se, assim, porque os instintos de agressão e destrui- tanto mais quanto mais sobe do físico ao espiritual. O amor é
ção são tão mais fortes quanto mais involuído é o ser. Quanto tanto mais alegre e criador quanto mais nos aproximamos de sua
mais se aproxima do Anti-Sistema, tanto mais o indivíduo é le- plenitude, só realizável no Sistema, cuja primeira qualidade é a
vado a ver em seu próximo um rival inimigo e, portanto, a ver unificação. Desde os seus mais baixos degraus, é confiada ao
na destruição deste uma conquista de espaço vital, que significa amor essa grande função de harmonização, que quebra os ego-
para ele alegria de viver. Para o primitivo, matar é uma vitória e ísmos e refunde juntos os elementos separados da queda. A ale-
uma festa, e não um ato de ferocidade. Só concebe a si mesmo gria experimentada pelo ser no amor é dada pela alegria do re-
separado em seu egoísmo, e tudo o que estiver de fora, como gresso ao Sistema, que representa o reino da felicidade. Nos
qualquer dor alheia, não tem importância alguma. A nossa soci- amores humanos comuns, os princípios opostos do Sistema e do
edade está cheia desses primitivos, que, não podendo matar, por Anti-Sistema estão em luta: a atração é egoísta e exclusivista, a
medo da sanção penal, manifestam o instinto e o gosto da des- alegria é facilmente envenenada pelas rivalidades e pelo ciúme.
truição, conservando nas cidades, entres as obras construídas Quanto mais o amor é material, ou seja, involuído, tanto mais é
com o esforço de seu semelhante, a mesma psicologia de inimi- fácil corromper-se pela náusea, pelo vício e pelo sofrimento.
zade contra o ambiente, posição lógica numa floresta, no meio A luta entre Sistema e Anti-Sistema pode ser vista dentro do
de um mundo hostil. Não é possível deixar de compreender próprio desenvolvimento da família humana. Na formação des-
como cada dia se torna mais perigosa e inaceitável essa psico- ta, domina no primeiro momento a atração unificadora do amor,
logia, quando o homem precisa adaptar-se a viver em socieda- a alegria da união, a potência vital criadora, qualidades próprias
de, nas formas de vida civilizada. do Sistema. Logo após sua formação, acontece na família um
Quanto mais próximo do polo negativo no Anti-Sistema se período diferente, com as características do Anti-Sistema. Os
acha situado o indivíduo, tanto mais negativas são as suas qua- filhos crescidos tendem a se destacar do tronco, para realizar a
lidades; quanto mais próximo do polo positivo no Sistema, tan- sua própria vida. A unidade tende a se quebrar. O egoísmo sobe
to mais positivas são as suas qualidades. Podemos, dessa for- ao primeiro plano. Surgem entre os filhos rivalidades que os
ma, considerar como índice seguro de involução o instinto de afastam, e cada um tende a formar um novo centro familiar.
destruição, o espírito de agressividade e de polêmica, o egoís- Desagrega-se então a família-mãe. Período destrutivo e negati-
mo e a indiferença às dores do próximo. Contrariamente, po- vo, em que triunfa o Anti-Sistema. É como uma queda no sepa-
demos ter como seguro índice de evolução o instinto de con- ratismo, uma contração no egoísmo, até cada filho ou filha en-
servação, o espírito de compaixão e de conciliação, o altruísmo contrar seu termo complementar, pelo qual retorna ao Sistema,
e a sensibilidade às dores do próximo. Temos, desse modo, com os princípios de unificação, amor, alegria e criação. Isto
uma unidade de medida tomada fora de nosso mundo, com a acontece na família, onde, a cada passo para o Sistema, com
qual é possível avaliar o indivíduo. qualidades positivas unificadoras, segue-se um passo atrás, para
Ainda aqui se tentam unificações, contudo estas não são ba- o Anti-Sistema, com qualidades negativas separadoras. Mas,
seadas nos princípios de fusão, próprios do Sistema, mas nos entre os dois impulsos, vence sempre o amor, a vida, o Sistema.
princípios desagregantes do Anti-Sistema. Trata-se apenas de O amor é criador, porque representa o princípio positivo,
coligações de interesses individuais egoísticos, onde não interes- construtivo e vital, próprio do Sistema, ou seja, de Deus. O ódio
sa o “eu” coletivo senão em função da vantagem própria. Trata- representa o princípio negativo, destruidor e mortal, próprio do
se de acordos temporários entre “eus” separados, sempre prontos Anti-Sistema, ou seja, de Satanás. Quanto mais o amor se liber-
a se separar de novo, logo que não lhes convenha, a seus egoís- ta de sua materialidade, tanto mais perde as qualidades do Anti-
mos individuais, permanecer unidos. Sendo uma construção do Sistema; quanto mais conquista espiritualidade, tanto mais ad-
Anti-Sistema, é lógico que seja feita às avessas. Onde o egoísmo quire as qualidades do Sistema. Isso até que o amor, limitado a
é ponto fundamental, não pode haver coesão. Com efeito, não se princípio apenas às funções animais da reprodução sexual,
trata de uma verdadeira construção, mas de uma reprodução transforme-se no amor evangélico, elevando-se a uma potência
contrafeita. O que domina aí não é o sentido de unificação, mas capaz não apenas de cimentar duas criaturas para formar uma
o sentido de separação, que leva a anular a unificação. Por mais família, mas também de fundir todo o gênero humano, fazendo
que esta possa aparecer como meta, a tendência real é destrucio- dele uma unidade orgânica. Está confiada ao poder do amor,
nista, porque o método requer demasiado esforço, uma vez que princípio do Sistema, a função de retirar a criatura, pouco a
não é dirigido para o benefício do grupo, mas sim para a própria pouco, do plano biológico onde impera a dura lei da luta pela
vantagem de cada um, de modo que todo o esforço é absorvido vida, para fazê-la subir ao plano da colaboração fraterna. E co-
pelo atrito entre os egoísmos dos componentes e nenhuma con- mo o Sistema, onde está Deus, é o mais forte, destinado a ven-
tribuição é levada ao grupo, enfraquecendo-o com isso, até de- cer o Anti-Sistema, também o amor é o mais forte, destinado a
sagregá-lo. Num mundo assim, que só sabe funcionar por coli- vencer o egoísmo e o separatismo dos planos inferiores.
gações de grupos, falar de universalidade e imparcialidade é fa- Essa unificação é uma necessidade implícita no desenvol-
lar uma linguagem incompreensível, porque formada de concei- vimento das leis da vida. O involuído é um individualista gené-
tos pertencentes a planos muito altos, ainda não atingidos. Uma rico, no sentido de só saber pensar em si mesmo e saber fazer
tal ideia de universalidade somente pode ser reduzida aos limites um pouco de tudo. O evoluído é um ser coletivista, orgânico e
do concebível comum quando compreendida como um novo especializado, no sentido de viver em colaboração com os seus
partido: o dos universalistas. Mas é inevitável que as ideias do semelhantes, e cada vez mais se adapta a executar, na sociedade
Sistema não encontrem lugar nos planos próximos do Anti- humana, a sua função específica. A evolução, desse modo, ao
Sistema. E isso ocorre, frequentemente, diante das palavras que produzir esse tipo biológico, leva necessariamente à unificação,
exprimem altos ideais, pois estes, quando transportados à Terra, que será a forma de vida do homem evoluído do futuro, ou seja,
assumem outro sentido, justamente porque descem dos planos uma organização de especialistas fundidos em cooperação.
do Sistema aos planos invertidos no Anti-Sistema. Quanto mais o ser evoluir, tanto mais se tornará um indivíduo
Um dos pontos em que se pode descobrir a presença do Sis- social, menos adaptado a viver sozinho, porque aprendeu as
tema na Terra é o amor. Este, nos seus primeiros e ínfimos de- qualidades que o tornam apto a viver em sociedade e compre-
graus do plano físico, representa sempre o princípio da unifica- endeu a grande vantagem de fazê-lo. Assim, vemos os princí-
ção e é sempre alegria, quando leva o ser para a sua harmoniza- pios gerais da visão acharem plena confirmação até mesmo nos
ção, que será completa no Sistema. Por isso o amor não é apenas seus remotos efeitos em nosso mundo.
alegre, mas é também genético e criador em todos os planos, e ◘ ◘ ◘
Pietro Ubaldi O SISTEMA 67
Com a orientação oferecida pela visão, podemos explicar vimento da alma, de onde deriva tudo – traz consigo a tendên-
também algumas posições psicológicas que, em geral, são acei- cia à expansão ilimitada, constituída pelo egocentrismo que le-
tas sem discussão, axiomaticamente, porque todos concordam vou os espíritos a exagerar o poder do “eu” até à revolta e à
com elas, aceitando-as como verdadeiras sem precisar de ne- queda. Os nossos desejos são ilimitados por sua própria natu-
nhuma demonstração. reza. Sua realização é limitada pelas reações do ambiente, dos
A psicologia do milagre nos oferece uma das provas de- seres rivais e das forças neles encontradas. Daí o contínuo atri-
monstrativas de que o homem ainda vive, em grande parte, no to da luta. Eliminar essa dispersão de forças seria o interesse
Anti-Sistema. Parece estranho a quem não vive na ordem de máximo de todos, mas, para gozar dessa vantagem, é necessá-
ideias do Anti-Sistema, feito de revolta, mas na psicologia do rio uma inteligência que o homem ainda não possui e está lu-
Sistema, feito de ordem, que muitos, para crer, exijam o mila- tando e sofrendo para conquistar. Não possuindo cada um em
gre e que somente o milagre possa constituir uma grande prova si a medida de seus anseios insaciáveis, o equilíbrio é alcança-
em favor de quem o opera. Para quem vive nas ideias do Siste- do de acordo com a oposta avidez do vizinho, que os limita
ma, dá-se o contrário. O fato de exigir o milagre como prova de com a força, infligindo-lhe dano. Atinge-se, desse modo, o
valor e verdade, mesmo sendo ele parte de um conjunto de leis único equilíbrio possível no Anti-Sistema, um equilíbrio for-
de um plano superior ao do nosso mundo, é comumente enten- çado, coagido, não inteligente nem espontâneo, um equilíbrio
dido como uma imposição a este, provocada por uma vontade que custa desperdícios e sofrimentos.
para dominá-lo, violando suas leis, e isto exprime exatamente a O fato de o homem procurar a vitória por meio da violência,
psicologia da revolta do ser rebelde, caído no Anti-Sistema. Ge- na desordem, demonstra que ele ainda está imerso no Anti-
ralmente, então, o milagre é interpretado desse modo, e não no Sistema. A cada desejo se repete o motivo da revolta, de expan-
sentido de aplicação de leis naturais pertencentes a planos mais são ilimitada, sem freio nem disciplina, qualidade apenas do An-
altos, que parecem prodigiosos ao involuído ignorante. Este, ti-Sistema. Como na primeira revolta, agora também, o instinto
para crer e respeitar, precisa de uma prova de força, de algo ex- recorda e reproduz a tendência ao excesso, ao abuso, como um
cepcional que o maravilhe, do prodígio fora do comum, en- eco do primeiro impulso, que levou o ser além dos limites a ele
quanto lhe passa desapercebido, no plano das coisas naturais, o assinalados pela Lei. Ao subir para o Sistema e quanto mais dele
grande milagre do normal, que acontece todos os dias. se aproximar, mais aparece o impulso oposto, conduzindo à or-
Desse modo, mesmo diante de um ato de fé em Deus, rea- dem e à disciplina. Surge então o verdadeiro princípio reequili-
parece o espírito da revolta original, pois a base de respeito e brador, resolvendo o conflito, ou seja, ao lado de cada defeito,
fé constitui em saber impor-se à ordem preestabelecida com abuso ou vício, aparece o conceito da virtude correspondente,
uma lei diferente, opondo-se à que está em vigor, para vencê- com a função específica de frear o abuso e corrigir o defeito. Is-
la. Assim, um homem que respeita a Deus, aceitando-O como to representa, ao lado do impulso destruidor, próprio do Anti-
seu chefe, mas somente enquanto esse Deus, de acordo com a Sistema, o impulso salvador, próprio do Sistema, reconstituindo
mente dele, demonstre ser prepotente a ponto de poder impor- os valores espirituais desfeitos com a queda. A ideia de virtude
Se à Sua própria lei para violá-la, dando provas de força com representa o impulso reequilibrador, que tende a repor nos devi-
o milagre, contradizendo-Se a Si mesmo, esse homem de- dos limites e tornar a disciplinar na ordem o exagero rebelde do
monstra pertencer ao Anti-Sistema. Para ele, o valor do ser egocentrismo, que constitui a revolta. Por isso a evolução se
consiste justamente no poder de revolta e de desordem, e não constitui em uma subida espiritual e moral para formas de vida
no poder de harmonia e de ordem. Esses são os princípios do nas quais o estado de virtude, próprio do Sistema, acentua-se
Anti-Sistema, que ainda sobrevivem na forma mental da mai- cada vez mais, enquanto se enfraquece o estado oposto, defeitu-
oria dos homens. O evoluído, que se aproximou do Sistema, oso e viciado, próprio do Anti-Sistema. A evolução, quanto mais
não pode aceitar o milagre compreendido como uma prova de sobe, mais se torna uma reconstrução de valores morais. Para a
imposição, em que Deus dá provas de violar a própria Lei. reconstrução do Sistema, o santo representa, em si, um modelo
Quem vive na psicologia do Sistema acha o contrário. Deus, muito mais adiantado que o homem comum. Eis porque, quanto
ao invés de se rebelar contra Sua própria Lei, obedece-lhe, mais se evolui, tanto mais aparecem ordem e obediência à Lei,
respeitando a Si mesmo, sem contradizer-se. Eis a prova que virtudes notáveis, em lugar da desordem e da revolta à Lei, ví-
mais induz a crer Nele e a respeitá-Lo. cios comuns, que, ao contrário, crescem tanto mais quanto mais
A ideia dualista da existência de um oponente a ser vencido, o homem involui para o Anti-Sistema.
onde o valor consiste em saber impor-se a ele, é um princípio Pode ocorrer ainda um outro fato que também confirma a
de cisão e contraste, particular ao Anti-Sistema. Quem possui teoria da queda. Esse impulso de reconquista da saúde, mesmo
essa psicologia decaiu da unidade no estado em que se inverteu nascendo no seio do Sistema, deve descer para operar no Anti-
o Sistema. Neste, qualquer separação é inconcebível, porque Sistema. Quando o impulso penetra no ambiente do Anti-
existe apenas uma unidade orgânica, na qual tudo está fundido. Sistema, começam a agir as forças desse ambiente, que lhe são
Esse conceito de divisão e antagonismo constitui, para o ho- contrárias e atuam imediatamente nesse sentido. Isto represen-
mem, uma verdade tão arraigada em seu instinto, que ele a acei- ta uma tendência a corromper, torcer e inverter, para as formas
ta como axioma, sem discuti-la. Tal conceito ressurge em toda mais assumidas do Anti-Sistema, a correção salutar que desceu
a parte, inclusive no terreno religioso. Isto prova que o homem do Sistema. Em outras palavras, a ideia de virtude, quando
está ainda tão imerso no Anti-Sistema, que nem mesmo sabe vem à Terra, assume em geral as características de luta e
conceber a Divindade fora da luta, criando para si um Deus an- agressividade, próprias dos involuídos. Usa-se, então, o con-
tropomórfico, feito à sua própria imagem e semelhança, ou se- ceito de virtude não tanto para melhorar a si mesmos, mas para
ja, um Deus partido no dualismo e em luta consigo mesmo, o impô-la ao próximo, porquanto, representando um sacrifício, é
que constitui o absurdo máximo. A própria psicologia humana melhor que, em vez de a nós mesmos, seja imposta aos outros.
corrente nos oferece uma prova do Anti-Sistema e, portanto, da Mas estes reagem sem demora ao assalto, agredindo o prega-
verdade da teoria da queda. dor de virtudes, a fim de controlar se ele age segundo prega e
Essa teoria nos explica como a nossa vida se baseia no con- procurar, dessa forma, restituir-lhe o golpe, exigindo primeiro
traste, embora seja também equilíbrio de contrários. Tão logo dele o sacrifício que não lhes é agradável. Assim, tudo se re-
surge uma força, aparece também o impulso antagônico para duz a termos de agressão e luta. Mas como não ser arrastado
reequilibrá-la. Por isso, ao nascer, um desejo – primeiro mo- sem impedir a descida ao Anti-Sistema, se a tendência geral
68 O SISTEMA Pietro Ubaldi
deste é de inverter tudo? Por isso a virtude, princípio do Siste- mais longe do céu, permanece a habitação do maior rebelde a
ma, é utilizada de forma invertida, não para se melhorar, mas Deus. E as subidas ao céu são concebidas em sentido contrário.
para condenar os outros. Assim, um princípio do Sistema é O purgatório dantesco é o monte da ascensão, pelo qual, su-
usado na forma invertida do Anti-Sistema. A verificação do fa- bindo-se de plano em plano, chega-se ao Paraíso. Esse inferno
to de uma função do Sistema ser aplicada em posição inverti- e purgatório, com suas posições inversas, exprimem exatamen-
da, na forma de Anti-Sistema, ou seja, não para elevar, mas pa- te – o primeiro, escavado nas profundezas da matéria, e o se-
ra lutar, condenar e dividir, constitui uma das provas mais evi- gundo, emergindo de seu seio – as duas metades inversas e
dentes da existência dos dois termos opostos, Sistema e Anti- complementares do ciclo da queda, constituído pelo período
Sistema, e, portanto, da teoria da queda. involutivo (queda no Inferno) e pelo período evolutivo (purga-
◘ ◘ ◘ tório), da purificação que leva a Deus. Sob outra forma, acha-
O nosso mundo se baseia numa contraposição de conceitos mos aí a substância da visão que expusemos. O inferno dantes-
opostos, que se completam como dois polos do ser; são contrá- co possui todas as qualidades do Anti-Sistema: trevas, dor,
rios, mas só podem existir um em função do outro; lutam, mas, ódio, mal etc. O paraíso dantesco possui todas as qualidades do
justamente na luta, escoram-se mutuamente, e um não pode Sistema: luz, felicidade, amor, bem etc. Também no inferno há
dispensar o outro. Ora, tudo isso é dado pelo primeiro modelo certa ordem e disciplina, mas a ordem é coagida e a disciplina
Sistema–Anti-Sistema, que aparece reproduzido em todas as é a do escravo algemado; enquanto, no paraíso, a ordem e a
formas do ser, dependendo desse fato todo o nosso modo de disciplina são livres e por convicção. Isso corresponde aos
conceber. Assim, a afirmação nasce da contradição, e só po- conceitos de determinismo, a que está presa a matéria, e de li-
demos afirmar enquanto existe o termo oposto da negação. Por berdade, primeira qualidade do espírito.
isso a negação conduz à afirmação e a afirmação implica na Explicam-se, dessa maneira, muitos dos modos de conceber
possibilidade da negação. encontrados nas várias religiões, assim como as formas nas
De fato, não sabemos conceber o infinito e o absoluto, se- quais os estados de além túmulo são representados por elas. Pas-
não como o estado inverso ao nosso estado de finito e relativo. sa-se a compreender também a contraposição entre espiritualis-
O conceito que, em nossa posição de Anti-Sistema, consegui- mo e materialismo, sendo o primeiro concebido como elevação
mos formar do Sistema é, para nós, negativo, apesar de se tratar e o segundo como negação. Explica-se a divisão do pensamento
da coisa mais positiva que pode existir. O fato de só conse- moderno nestas duas direções opostas, num contraste que repre-
guirmos fazer do infinito e do absoluto uma ideia que represen- senta em nosso mundo a luta entre Sistema e Anti-Sistema. O
ta o inverso de nosso finito relativo, e não uma ideia correta e materialismo moderno constitui um movimento de descida, mas
positiva, também nos dá uma prova de que estamos situados no descida na matéria, para depois chegar a compreender melhor,
Anti-Sistema, por efeito da queda. em relação a Deus e ao espírito, a significação do universo e de
Vejamos um caso mais particular. Poder-se-ia dizer que o nossa vida. Nasceu como corretivo e reação ao espiritualismo
ateísmo representa uma das provas da existência de Deus. O ate- abusado das religiões; como libertação e renovação, a fim de
ísmo é uma negação presumindo afirmação e só em função desta passar das velhas estradas às novas; como salvação da cristaliza-
pode existir. A negação não só presume e prova a afirmação, ção dogmática, a fim de que o pensamento não permanecesse
como faz parte de dois conceitos condicionados reciprocamente, morto no seu interior, mas revivesse, continuando a avançar. A
de modo que um não pode existir senão em relação ao outro. ciência só apareceu como inimiga da fé num primeiro momento,
Há mais ainda, porém. A negação, ao negar, enquanto é quando se manifestou como reação de cura do pensamento hu-
negação, alimenta e reforça o poder da afirmação apenas com a mano, que corria o perigo de permanecer fechado em alguns
sua presença. Quando há dois conceitos juntos, dizer não de caminhos sem saída. Posteriormente, no entanto, a ciência mate-
um lado, significa dizer sim do outro, e quanto mais se diz não rialista não pôde evitar caminhar, iluminar-se mais e construir,
de um lado, tanto mais se diz sim do outro. De modo que, em porque, observando honestamente os fatos e os fenômenos, de-
última análise, o não só pode existir para anular a si mesmo e via encontrar-se com o pensamento de Deus, que os dirige, e
para reforçar, com a própria negação, a afirmação oposta. ouvir neles a voz que lhe fala Dele. Pôde aparecer assim, exata-
Quem nega, nega em última análise a si mesmo, ou seja, des- mente desse regresso à matéria, a verdadeira função positiva cri-
trói a si próprio, e quem afirma, afirma a si mesmo, isto é, for- adora da ciência, que possibilitou a tomada de um impulso mais
talece e constrói a si próprio. Quem nega uma afirmação, nega forte para ascender mais alto no caminho da evolução até ao es-
a si mesmo em favor dessa afirmação, que se fortalece, cres- pírito. Só agora começa a delinear-se este fato, que representa o
cendo por meio dessa negação. Os negadores caem nesse erro. verdadeiro sentido, valor e futuro da ciência.
Deduz-se daí que, quando um conceito possui um valor intrín- Vimos que a evolução avança com regressos contínuos,
seco como afirmação de verdade, nada terá a temer das nega- compensados depois por progressos maiores, tal como ficou
ções que, se aparecerem, trabalharão em seu favor. O esforço explicado em A Grande Síntese, pelo gráfico que traça o de-
para destruir a nova verdade é utilizado pelas leis da vida para senvolvimento da trajetória dos motos fenomênicos na evolu-
difundi-la, tal como os ventos tempestuosos que trazem des- ção do cosmos. Ora, a atual fase materialista representa, no de-
truição são utilizados para levar para longe as sementes fecun- senvolvimento do pensamento humano, o movimento expresso
das de uma vida mais ampla. A própria posição negativa assu- naquele gráfico por um período de retorno, apresentando uma
mida pelos negadores servirá para destruí-los em favor da amplitude menor diante do maior desenvolvimento de toda a
afirmação, nutrindo-a com a própria carne. trajetória, que assim, não obstante os seus contínuos regressos,
Vemos o modelo dos dois opostos, Sistema e Anti-Sistema, continua sempre avançando. Por isso a ciência materialista
reproduzido também nos dois termos contrários: espírito e ma- continuará a avançar, assumindo agora a tarefa, já não mais
téria. Instintivamente, o homem vê Deus e o Paraíso, isto é, o desempenhada pelas religiões, de fazer progredir o pensamento
Sistema, no céu, e, nas profundezas da terra, afundado na ma- humano. Ela é progresso, e não destruição. A função da ciên-
téria, o Inferno. Por que isso? Porque a queda se deu do estado cia não é matar a fé, mas sim fecundá-la com a razão e a ob-
de espírito ao estado material, através da energia. Aqui, a ideia servação, para demonstrá-la, dando as provas de seus enuncia-
da queda é reproduzida em sentido espacial, do céu para a ter- dos, que, em sua forma primitiva, já se tornaram agora dema-
ra. Na concepção de Dante, Lúcifer se precipita do Céu ao In- siadamente imprecisos e elementares para poderem ser aceitos
ferno, aprofundando-se até ao centro da Terra, onde, no ponto pela forma mental moderna, mais evoluída.
Pietro Ubaldi O SISTEMA 69
a
XIX. OUTROS FATOS E EXPLICAÇÕES (1 Parte) cretas, que tendem a induzir a erro, pois são confundidas com a
realidade ou com uma representação que esgota toda a realidade,
Chegando ao fim de nosso trabalho, vamos fechá-lo ofere- e isso não é possível. Isto não significa que o leitor não possa fa-
cendo uma última representação ainda mais pormenorizada do zer para si esquemas gráficos, para os quais lhe são dados todos
fenômeno da queda, procurando alcançar dessa maneira uma os elementos. Se sentir necessidade, poderá recorrer a esse auxí-
apreciação ainda mais precisa. lio representativo, utilizando-o como meio para fixar as ideias,
No volume Deus e Universo, como na primeira parte desta mas atribuindo-lhe apenas o mesmo valor relativo que têm os
obra, ao expor a visão, apenas pudemos traçar as linhas gerais e símbolos em matemática. Temos de contentar-nos com os meios
as características fundamentais do fenômeno da inversão do verbais, que, por serem menos concretos, não fixam e aprisio-
Sistema no Anti-Sistema, explicando as respectivas caracterís- nam acentuadamente a ideia em formas definidas, como nos
ticas. Procuraremos reforçar a nossa observação da visão, pene- contornos exatos de um desenho. O desenvolvimento da palavra
trando em novas minúcias, caminhando em profundidade, além pode melhor dar-nos a expressão de uma imagem em movimen-
dos conceitos já obtidos nas aproximações precedentes. to, pois, ao mesmo tempo em que aparece, já se está desenvol-
Com efeito, no princípio da segunda parte deste volume, vendo numa imagem sucessiva. O movimento é o único modo
atingimos uma apreciação mais exata do fenômeno da queda, pelo qual o relativo pode aproximar-se do absoluto, perseguin-
especialmente no Capítulo VIII – “Sistema e Anti-Sistema”. As- do-lhe a imobilidade. A verdade em nosso universo, para os de-
sim, chegamos a entender o fenômeno não mais como uma des- caídos, só pode ser relativa e progressiva. Por isso só podemos
cida, que podia ser do alto para baixo, como se podia ter imagi- oferecer uma imagem relativa e progressiva da visão. Não é pos-
nado a princípio, mas como uma explosão, da qual resultou, por sível uma representação estática, mas apenas o desenvolvimento
expulsão do Sistema, uma segunda esfera na periferia deste. de uma representação que se vai gradualmente desenvolvendo e
Aperfeiçoemos esse conceito. Após havê-lo aprofundado, aperfeiçoando. Era necessário que o leitor e também nós mes-
poderemos alcançar uma terceira representação do fenômeno da mos conhecêssemos o método de pensamento seguido aqui, a
queda, dessa forma, melhor formulado e analisado. Temos de técnica usada ao exprimir os resultados da intuição, que, como
proceder por aproximações sucessivas, sendo impossível en- se pode ver, permanece controlada em todos os seus momentos.
frentá-lo direta e imediatamente em sua essência, pois está além Pudemos estabelecer assim o valor a ser dado a estas representa-
do concebível e não pode ser alcançado pelas capacidades co- ções do fenômeno da queda, acrescentando, por fim, que, mes-
muns da mente humana. Situado fora de nosso relativo, que re- mo na forma verbal progressiva usada aqui, elas ainda são ape-
sultou apenas como consequência dele, trata-se de um fenôme- nas uma projeção plana da realidade contida na visão, portanto
no, em sua substância, irredutível ao nosso plano mental nor- esta só pode resultar diminuída ao projetar-se em nossa dimen-
mal. Esta a razão pela qual à primeira representação se tenha são conceitual. A nossa mente é filha do próprio ambiente e não
acrescentado uma segunda mais aproximada, e se seguirá ainda sabe funcionar além dos limites deste.
uma terceira, à proporção que formos subindo e amadurecendo. ◘ ◘ ◘
Não podemos deixar jamais de esclarecer e advertir que não Antes de passar a expor a terceira representação do fenôme-
é possível apresentar a realidade do fenômeno em sua substân- no da queda, procuremos completar, em alguns aspectos novos,
cia, mas apenas imagens mentais humanas dessa realidade, que a segunda forma, já exposta no Capítulo VIII – “Sistema e An-
nos escapa em sua essência. É mister, pois, aceitá-las tal como ti-Sistema”. Voltemos ao princípio, retomando, para desenvol-
são, mas não entendê-las como uma expressão definitiva, que vê-lo, o conceito de criação, necessário para que se possa com-
esgote a realidade. É compreensível e lógico que seja assim, preender a forma como saíram do Sistema os elementos rebel-
porque um observador situado no relativo, com todos os pontos des, ou seja, como eles foram expulsos ou projetados para fora
de referência colocados apenas em si, não possui os outros pon- da periferia deste e constituíram o Anti-Sistema. Para não fe-
tos, totalmente diversos, necessários para orientar-se no absolu- char a representação numa afirmação absoluta, que depois ve-
to, nem os conceitos para compreendê-lo. Logicamente, para nha impedir-lhe qualquer movimento de desenvolvimento, e
poder exprimir no relativo toda a realidade infinita contida no para torná-la mais aceitável às mentes positivas, expô-la-emos
absoluto, seria necessário ter uma série correspondente e infini- em forma de hipótese, aceitável por explicar muitos fatos, mas
ta de imagens e representações mentais. Só assim seria possível suscetível de aperfeiçoamentos posteriores.
reproduzir todos os aspectos infinitos do fenômeno em nosso Já dissemos que a primeira criação consistiu numa trans-
plano de existência. Nestas pesquisas, é preciso ter sempre pre- formação da esfera Tudo-Uno-Deus no Seu terceiro momento
sente o conceito de limite, próprio de nosso universo, e conten- da Trindade, no qual a substância divina que a constituía passou
tar-se em ir superando as barreiras impostas por esse limite, que do estado homogêneo a um estado diferenciado, orgânico e hie-
nos fecha no relativo. Por isso vamos oferecendo aqui três ima- rárquico. Ora, observando o fenômeno com maior exatidão, po-
gens diferentes e sucessivas do fenômeno da queda, procurando demos pensar que essa criação tenha ocorrido não toda conco-
uma aproximação gradual, cada vez maior, para compreendê-lo mitantemente, no mesmo instante, mas sim em fases progressi-
sempre melhor. Todas são aceitas, porque cada uma delas é re- vas e, portanto, por graus e em planos sucessivos, segundo os
lativamente verdadeira e nos mostra um lado, pondo em evi- quais se teria propagado na esfera do Sistema o impulso prove-
dência alguns aspectos verdadeiros da realidade. Trata-se de vá- niente do centro, Deus.
rias reduções, que são isoladamente incompletas e, justamente Observemos, no entanto, que a ideia de esfera é de natureza
por isso, precisam completar-se reciprocamente. espacial e dá apenas uma ideia aproximada, não podendo forne-
Estamos nos esforçando para traduzir nos termos da forma cer toda a realidade. Mas isto é o que de melhor podemos con-
mental corrente e relativa, fechada num limite que estabelece as seguir no momento para obter uma representação imaginável do
dimensões do concebível, conceitos próprios de dimensões su- fenômeno, por isto a aceitamos. Para simplificar essa represen-
periores. Não temos outro meio senão imagens construídas em tação, exprimamos a esfera em sua representação plana, ou seja,
relação aos pontos de referência existentes em nossas dimensões como um círculo. Eis então, como mais exatamente teria ocorri-
espaciais, temporais e mentais. Não possuímos outro material do a criação. Do centro, Deus, teria partido o primeiro impulso
conceptual, nem outras palavras senão a linguagem humana para criativo, atingindo o primeiro nível ou círculo de seres, ou seja,
nos fazer compreender. Com esses meios, devemos exprimir o o primeiro plano da vida. Depois, Deus teria feito chegar esse
inexprimível e tornar concebível o inconcebível. Por isso não Seu impulso, através dos seres do primeiro círculo, a um segun-
quisemos, neste volume, exprimir-nos desenhando imagens con- do. Em seguida, através dos seres do primeiro e do segundo, a
70 O SISTEMA Pietro Ubaldi
um terceiro e assim sucessivamente. Dessa forma, o impulso tentativas de reconstrução orgânica unitária do Sistema, que
criador de Deus teria sido transmitido através de toda a esfera do são a família, a nação e a humanidade.
Tudo-Uno-Deus, até transformá-la toda, de seu estado homogê- Essa filiação funcionou, no momento da criação, como um
neo, num estado diferenciado, constituindo nisto o fato da cria- fio unindo para sempre todas as criaturas ao Pai comum, Deus,
ção. Mais exatamente, teria sido a propagação desse divino im- a Quem, por isso, coube o direito de mando, enquanto a estas
pulso criador que teria produzido a transformação da substância coube o dever da obediência, todos unidos pelo amor na mesma
do todo, de seu estado então homogêneo, num novo estado dife- família, representada pelo Sistema. Nessa organicidade, cada
renciado, constituído por individuações separadas, isto é, criatu- elemento permaneceu ligado um ao outro. Uma observação
ras hierarquicamente organizadas por círculos em um sistema. mais atenta nos mostra que a criação se formou assim, devendo
Teria sido esta a técnica da criação, que agora nos aparece após ter sido o resultado de uma emanação progressiva do centro,
um exame mais atento do fenômeno. O que teria nascido do na- Deus, para a periferia, numa realização gradual, transformando
da, de um estado antes não existente, não podia ser a eterna e in- toda a substância, de seu primitivo estado homogêneo, naquele
criada substância de Deus, mas apenas a sua forma nova e atual, estado orgânico constitutivo da criação.
que se individualizou assim nas criaturas hierarquicamente or- ◘ ◘ ◘
ganizadas em centros concêntricos em torno de Deus. Podemos compreender agora, com maior exatidão, como
Esta representação do fenômeno nos permite ver imediata- ocorreu, com a queda, a emigração dos elementos rebeldes do
mente, com maior relevo, uma característica importante. No Sistema, sua expulsão ou projeção para fora da periferia deste,
próprio ato da criação, as criaturas, logo após o nascimento, te- para constituir o Anti-Sistema. Temos também uma imagem
riam sido chamadas a colaborar com Deus, para funcionar ati- mais exata da estrutura do Anti-Sistema, sendo possível enten-
vamente como Seus instrumentos no Sistema, como veículos de der melhor algumas das qualidades que o caracterizam.
atuação de Sua lei. Tudo isso confirma que o amor é o princípio O fenômeno da queda pode ser representado pelo mesmo
dominante em Deus e no Sistema, representando ele, desde o modelo segundo o qual ocorreu a criação, ou seja, pela mesma
primeiro momento, o vínculo genético da filiação, pelo qual ca- propagação gradual de impulsos, mas em posição invertida,
da elemento derivou do outro por descida do impulso divino porque, ao invés de ser gerado e partir do centro, Deus, o mo-
criador, de círculo em círculo. Amor não apenas entre as indi- vimento foi gerado e partiu da criatura periférica. Assim, tam-
viduações do Sistema, mas entre Deus e todas elas, que são não bém a queda teria sido progressiva, por sucessão de filiações,
só parentes entre si, mas todas filhas do mesmo Pai, unidas pela resultantes não de Deus e depois dos elementos puros do Sis-
consanguinidade estampada no fato de serem constituídas da tema, mas dos espíritos rebeldes. A propagação desse impulso
própria substância de Deus. O amor constitui a potência fun- invertido, ao invés de gerar, como na criação, círculos de ordem
damental de coesão que cimenta todo o edifício do Sistema e no seio do Sistema, gerou, por filiação invertida, círculos de de-
mantém compacta sua unidade orgânica hierárquica. Mantêm- sordem no seio do Anti-Sistema. A estrutura do Anti-Sistema
na porque o impulso criador do amor, emanado de Deus, não só teria nascido, assim, construída em círculos e níveis ou planos
penetrou e transformou toda a esfera, mas continua a irradiá-la de existência concêntricos invertidos em relação ao Sistema,
sempre de vida, como o sangue que circula em nossas veias. segundo os quais se teriam escalonado os seres.
Esses conceitos são confirmados pelo fato de vermos o Percebe-se, agora, que a emigração dos elementos rebeldes
mesmo método ser usado por Deus no trabalho de salvamento do Sistema, ou projeção para fora da sua periferia, não ocorreu
do Anti-Sistema, para levá-lo ao Sistema, através das Suas cri- ao acaso, mas foi regulada por uma lei segundo a qual tudo es-
aturas ou espíritos que permaneceram no estado puro, chama- tava previsto. Essa estrutura do Anti-Sistema, construída em
dos desta vez a colaborar como veículos de salvação. Com círculos situados em posição inversa à que ocupavam no Siste-
efeito, em nosso mundo, jamais vemos Deus agir aparecendo ma, derivou do fato de que, na emigração dos elementos rebel-
diretamente, mas sempre indiretamente, através de Seus ins- des, a sua projeção para fora ocorreu em proporção ao impulso
trumentos, encarregados de cumprir missões, como no caso recebido, determinado na revolta pelo poder que cada elemento,
máximo de Cristo, espírito não decaído, a quem foi confiada de acordo com sua posição em seu círculo e deste no Sistema,
por Deus a tarefa de redenção de nossa humanidade. Em casos possuía. De modo que o Anti-Sistema ficou constituído de cír-
menores, Deus pode utilizar-se de espíritos decaídos, porém culos invertidos em relação aos do Sistema, correspondendo
mais evoluídos que os outros e, portanto, capazes, por sua po- cada um, no Anti-Sistema, ao círculo perfeito original do Sis-
sição mais adiantada, de realizar um trabalho de auxílio e sal- tema. Da posição ocupada nos círculos do Sistema, cada ele-
vação em favor de seus irmãos menos capazes, porque mais mento foi projetado na posição oposta, representada pelo círcu-
atrasados. Em tudo o que provém do centro do Sistema, preva- lo correspondente invertido no Anti-Sistema. Aconteceu então,
lece sempre o método do amor, da colaboração fraterna, da hi- que os primeiros se tornaram os últimos; os mais próximos de
erarquia e da unidade orgânica. Deus foram precipitados mais longe; o anjo mais belo, Lúcifer,
A transformação criadora à qual se deveu a gênese do Sis- tornou-se o mais horroroso, Satanás, projetado no abismo mais
tema foi obtida, pois, com esse método da filiação, o que esta- profundo do Anti-Sistema. Atrás dele se deixaram arrastar num
beleceu entre todos os seres um vínculo de parentesco ainda cortejo os elementos situados mais em baixo na pirâmide, ou
mais estreito do que o representado pelo fato de terem sido seja, nos círculos mais afastados e periféricos.
constituídos da mesma substância. Eis a estrutura orgânica do Permaneceu desse modo, no Anti-Sistema, o modelo do Sis-
Sistema. Pode-se compreender, então, quanto essa qualidade é tema, mas em posição invertida; permaneceu o princípio da or-
fundamental e profundamente enraizada, devido ao fato de a ganicidade, mas emborcado, isto é, a organicidade do mal, de
criação ter ocorrido através de um processo de filiação, no qual tipo destrutivo, em lugar da organicidade do bem, de tipo cria-
os seres tomaram parte. Esse método de filiação recíproca dor. Com efeito, o nosso universo é constituído, verdadeira-
constituiu o primeiro modelo, mais tarde transmitido ao nosso mente, de planos de existência nos quais os seres decaídos estão
mundo, no desenvolvimento de reconstrução operado pela evo- escalonados por graus de evolução, mais ou menos próximos da
lução, ou seja, na continuação da vida de pai para filho, na perfeição do Sistema. Explica-se, assim, essa estrutura de nosso
multiplicação genética das sementes, no crescimento mediante universo físico-espiritual, construído em planos superpostos,
ramificações de um único tronco. Assim, o processo de filia- cuja natureza tende a se afastar do Sistema, em direção centrí-
ção continua também no Anti-Sistema e constitui aí o modelo fuga, no período involutivo e a reaproximar-se do Sistema, em
de unidade e organicidade, expresso entre nós pelas primeiras direção centrípeta e para Deus, no período evolutivo.
Pietro Ubaldi O SISTEMA 71
Achamo-nos, assim, diante de um conceito mais exato sobre das para cada ser no momento da criação. A liberdade deixada
a queda, mostrando não mais uma queda única, igual para todos ao indivíduo era apenas de desobedecer ou não, e não de cair
os rebeldes, mas uma queda de amplitude proporcional à posi- ao acaso ou onde quisesse, por isso já estava estabelecida pre-
ção do elemento no Sistema e, portanto, à sua potência e ao im- cedentemente a amplitude da queda, no caso do ser escolher o
pulso da sua projeção. A intensidade desse impulso, dada pelo caminho da desobediência. Podemos admitir que o ser tenha
círculo em que estava situado o elemento, determinou a força começado o caminho evolutivo do ponto em que a inversão o
do arremesso de expulsão do Sistema, de modo que o ponto de havia projetado, correspondente ao ocupado no Sistema e esta-
chegada correspondente no círculo do Anti-Sistema resultou belecido por Deus para cada um, na Sua criação.
proporcional ao ponto de partida no círculo do Sistema. Com Então, de acordo com esta teoria, a posição na qual o ser
esse método, foi construído o Anti-Sistema, que, por isso, resul- decaído se encontra pode ser consequência de dois fatos: 1 o) ou
tou num organismo onde tudo ficou situado na posição inversa o ser caiu até ao fundo do Anti-Sistema (matéria) e subiu evolu-
à que se achava no Sistema. Então os elementos situados nos indo até ao ponto em que agora se encontra, 2 o) ou o ser não
círculos mais afastados do centro inverteram-se, no Anti- caiu até ao fundo do Anti-Sistema, mas apenas até determinado
Sistema, nos mais centrais e, vice-versa, os situados nos círcu- plano, de onde evoluiu até à sua presente posição.
los do Sistema mais próximos de Deus, justamente por sua Uma vez que, em ambos os casos, o resultado exterior é o
maior potência, foram lançados nos círculos mais periféricos do mesmo, o fato, por si só, de encontrar o ser situado num dado
Anti-Sistema e afastados de Deus. plano de evolução não nos permite descobrir as causas determi-
O conceito com o qual estamos procurando dar maior exati- nantes desta condição, por isso sua posição não é suficiente pa-
dão ao fenômeno da queda nos mostra ter sido ela proporcional, ra nos fornecer as provas da verdade desta teoria. Esta, porém,
isto é, constituída por um afastamento exato em função do co- permanece a única capaz de conciliar as duas maiores afirma-
nhecimento, potência e valor ou peso específico de cada ele- ções existentes a este respeito, contidas na ciência e na revela-
mento, qualidades que estabeleceram a natureza e a potência do ção, hoje inconciliáveis, ou seja, o evolucionismo de Darwin e
impulso de projeção para fora do Sistema. Portanto a queda foi o criacionismo da Bíblia. Conforme a teoria deste capítulo,
proporcional à responsabilidade da revolta, à culpabilidade de permaneceriam admissíveis, ao mesmo tempo, as duas afirma-
cada um, pela qual foi projetado mais longe no Anti-Sistema e ções contrárias, isto é, tanto o homem poderia ter derivado por
mais profundamente na involução quem estava mais altamente evolução dos planos inferiores de existência, mineral, vegetal e
situado no Sistema e mais perto de Deus. Os elementos meno- animal (Darwin), como também poderia ter iniciado a sua evo-
res, caindo de alturas menores, ao serem projetados para fora lução do plano humano, ou seja, tendo como ponto de partida o
por seu impulso de seres menos potentes, aprofundaram-se me- próprio homem (Bíblia).
nos na involução, permanecendo nos círculos mais altos do An- Poder-se-ia, então, lógica e cientificamente, aceitar como
ti-Sistema. Chega-se, assim, a um efeito proporcional à causa, a verdadeira a narrativa da Bíblia, admitindo, depois da queda dos
uma reação proporcionada à ação, a uma queda proporcional à anjos e da desobediência de Adão, presumida e repetida nesta
revolta. Então, para os maiores, sendo maior a queda, maior é o queda, o aparecimento (criação) do homem como tal, e não co-
esforço da subida, porque mais longo é o caminho de regresso. mo produto de uma precedente evolução. A evolução teria ini-
Deduz-se daí um fato importante: nem todos os seres teri- ciado no plano de vida humano, tendo o homem caído só até es-
am decaído até ao estado de matéria, mas podem tê-lo feito até te nível, razão pela qual iniciou a sua evolução de regresso, en-
círculos ou planos de existência mais altos, menos involuídos. trando na forma material humana (criação descrita pela Bíblia).
Uma vez que esses seres não conhecem os planos inferiores, Trata-se de duas importantes afirmações com grandes bases:
então o plano em que naturalmente se acharam na queda deve o evolucionismo darwiniano da ciência positiva e o criacionis-
ser atingido pelos elementos caídos mais embaixo, através do mo da revelação bíblica. É difícil condenar qualquer das duas,
esforço da própria evolução. Desse modo, o trajeto evolutivo declarando-a errada. Assim, ambas estariam certas. Já existem
que cada ser tem de percorrer para reentrar no Sistema não é teorias evolucionistas admitindo que as várias formas de vida
igual para todos, mas proporcional, para cada um, à profundi- derivam de pontos de partida diferentes, de estípites separados.
dade alcançada com a própria queda. Portanto existe uma cor- A própria teoria das unidades coletivas não é derrogada pela
respondência perfeita de justiça nas gradações de posição de admissão de que a queda tenha sido relativa, pois o ser, caindo
origem, culpabilidade, involução alcançada e trabalho evoluti- até ao fundo, não chegou à sua completa pulverização no sepa-
vo a realizar para voltar à salvação. O mais onerado e o último ratismo do Anti-Sistema, portanto o seu estado orgânico não foi
a chegar no regresso, por causa do caminho mais longo a per- destruído completamente. O ponto onde caiu passou a ser o seu
correr, será, portanto, Satanás, como é justo. Na inversão, os ponto de partida, assim ele, já possuindo um certo grau de or-
primeiros se tornaram os últimos. Mas estes também deverão ganicidade, não precisou reconstruí-la (teoria das unidades co-
chegar e serão salvos. letivas) pelo processo da evolução.
Isto nos faz pensar em um novo modo de conceber a evolu- Esta teoria, como se vê, abre as mais interessantes perspec-
ção. Se, em seus princípios gerais, ela pode ser concebida, con- tivas e com uma tal amplitude, que seriam necessários outros
forme já foi explicado (veja-se também o Capítulo XI – “A vi- volumes mais para estudá-las e desenvolver novos pormenores.
são diante da biologia”), como se constituísse um caminho as- De tudo isso se deduz que a evolução pode não ter partido,
censional único, progredindo para seu telefinalismo, podemos para todos, do plano da matéria, mas também de planos mais
agora pensar que essa evolução tenha começado, para cada ser, altos, como o do vegetal, do animal, do homem e de planos
de pontos diferentes ao longo desse caminho. Esses pontos te- ainda superiores, a que todos deverão chegar um dia. A meta
riam sido determinados pelo ponto de queda de cada ser no final é a mesma para todos: o Sistema. Na fase de regresso ve-
Anti-Sistema, situado no círculo correspondente ao do Siste- rifica-se o processo inverso daquele realizado na fase de des-
ma, em que o ser fora criado e do qual, pela revolta, partiu o cida ou queda. Voltar ao Sistema significa reentrar num orga-
impulso para o Anti-Sistema. Justamente por se tratar de uma nismo de partes diferenciadas e, portanto, retomar o lugar
exata inversão de posições, a criatura veio a se achar, com a ocupado por cada ser no próprio círculo do Sistema, segundo
queda, no círculo do Anti-Sistema oposto em relação ao do o exato tipo precedente criado por Deus. Atende às exigências
Sistema. Temos, então, uma série de posições distintas, preci- da lógica, do equilíbrio e da justiça ser dessa forma, porque a
samente das quais podia começar o caminho evolutivo do re- inversão da queda e o endireitamento no sentido da subida
gresso: posições não causais ou arbitrárias, mas preestabeleci- devem corresponder aos dois fenômenos. Em todo esse pro-
72 O SISTEMA Pietro Ubaldi
cesso de desmoronamento aqui estudado, devemos sempre de constituir uma propriedade do infinito estar fechado dentro
admitir, necessariamente, que o alfa e o ômega coincidem, de fronteiras que lhe permitam ter uma parte interna e outra ex-
sobrepondo-se. O ponto de chegada da evolução só pode ser o terna. Então não é possível imaginar a queda como uma proje-
mesmo ocupado pelo ser quando da partida para a involução, ção dos elementos rebeldes fora do Sistema, para formar outra
e não um ponto estratégico qualquer. E o ponto de chegada da zona externa a ele, o Anti-Sistema. Temos então de encontrar
involução, em que a criatura foi arremessada com a queda, outra forma para representar, com maior exatidão e verdade, es-
também só pode ser, como posição, proporção e qualidade, o se fenômeno. Como não é possível a existência dos elementos
inverso do ponto de partida ocupado no Sistema. rebeldes além e fora do infinito, não se pode pensar numa saída
Dessa forma, pudemos chegar a esta mais exata apreciação deles, portanto devemos imaginar a queda realizada de uma
do fenômeno involutivo–evolutivo da queda, e ver que, mesmo forma em que todos permanecem dentro do Sistema.
sendo a evolução, como princípio geral, um regresso universal De acordo com esta representação do fenômeno da queda,
de todos ao Sistema, a amplitude e o tipo de estrada é diferente os espíritos rebeldes não foram lançados fora, mas permanece-
para cada ser, ou seja, cada um se desenvolve ao longo de um ram no Sistema. Então em que consistiu e como ocorreu a que-
canal próprio. A criatura deve voltar ao grau de perfeição e co- da? Procuremos compreender imaginando o fenômeno da que-
nhecimento que possuía antes da revolta, como foi criada, por- da da seguinte forma: com a criação dos espíritos, formaram-se
que só assim podem ser anulados os efeitos da revolta. O re- na substância homogênea muitos núcleos de pensamentos,
gresso a Deus, portanto, é entendido não como um regresso a constituídos por vibrações, cada uma de seu tipo. Disso nasceu
Ele como centro, ou seja, à perfeição e onisciência absolutas, o novo estado diferenciado, formado pelas individuações dos
mas como uma volta a Deus como Sistema, isto é, ao ponto vários “eus”. Ora, muitos pensaram conforme a Lei, assim
correspondente de cada ser no organismo desse Sistema. Por- permanecendo em seu seio, porque constituídos de pura vibra-
tanto, no processo involutivo–evolutivo, o ser não só conserva ção de pensamento. A Lei representava o pensamento de Deus,
o seu tipo de individuação – ainda que esta se corrompa pri- que tudo dirigia e regia, e permaneceram na ordem do Sistema
meiro para curar-se depois, sempre segundo o próprio tipo – os espíritos que continuaram a existir em uníssono com esse
mas também percorre apenas a respectiva distância de ida e pensamento. Mas outros espíritos, ao contrário, pensaram con-
volta que lhe compete, segundo o seu ponto de partida no Sis- tra a Lei. E, porque constituídos de pensamento, acharam-se fo-
tema e chegada no Anti-Sistema, determinados pela sua natu- ra dela. Desse modo, caíram fora da ordem, na desordem, os
reza e posição de origem. Disso se pode depreender com quan- espíritos que não quiseram viver sintonizados harmonicamente
ta perfeição foi concebida e executada a obra criadora de Deus, com o pensamento de Deus, representado pela Lei. Isolaram-se,
pois tudo, inclusive a técnica, as medidas e as proporções no por isso, num funcionamento próprio antagônico ao do Todo.
processo de endireitamento em caso de queda, estavam previs- Esta é uma nova forma de representação do fenômeno da
tas. Embora respeitando totalmente a liberdade da criatura, ca- queda, que agora, em termos de imaginação espacial, dir-se-ia
que os espíritos foram expulsos. Mas esta é relativa à nossa
da movimento dela já estava implicitamente contido numa
forma mental e vale apenas para o seu uso. Na realidade, não
possibilidade potencial bem definida, em que a Lei o havia en-
havia espaço e, portanto, não podia existir afastamento espacial,
quadrado, tendo sido previsto e disciplinado precedentemente,
nem uma saída do Todo. Por isto os espíritos rebeldes perma-
mesmo antes que a criatura tivesse pretendido se revoltar.
neceram no Todo, como estavam antes. Não obstante surge
aqui uma diferença, que, até agora, foi expressa pela ideia de
XX. ASPECTOS MAIS PROFUNDOS DA VISÃO
afastamento espacial: os espíritos que permaneceram obedien-
(2a Parte)
tes continuaram a existir na Lei, porque estavam de acordo com
Ela, enquanto os desobedientes, colocando-se contra a Lei, de
Completada a segunda representação mental do fenômeno
acordo com a sua própria vontade, acharam-se fora dela.
da queda, observemo-la, agora, por meio de uma imagem mais É esse o sentido de afastamento. Os espíritos rebeldes não
apta a fazer ressaltar seus outros aspectos, que não puderam ser foram expulsos e isolados por um afastamento espacial, mas
explicados pelas duas primeiras. pelo seu comportamento. Se quisermos dar uma representação
Se analisada com maior atenção, a segunda representação concreta do fenômeno, podemos imaginar o Sistema como sen-
que acabamos de expor não corresponde perfeitamente à reali- do constituído por um conjunto de muitas bolas brancas, no
dade, visto que tivemos de imaginar o Sistema fechado nos li- qual algumas, no momento da revolta, transformaram-se em
mites de uma superfície esférica, ou mesmo na projeção plana bolas pretas e, mesmo continuando ao lado das bolas brancas,
desta, na circunferência do círculo. Ora, trata-se na realidade de passaram a constituir o Anti-Sistema. As posições permanece-
um infinito, ao qual não é aplicável o conceito de limite nem a ram sem nenhuma mudança. Mudou apenas a qualidade dos
representação de uma figura geométrica limitada. No entanto elementos constituintes, porque a revolta produziu uma trans-
tivemos de recorrer a essa imagem fechada porque, embora o formação íntima em sua natureza. O Anti-Sistema permaneceu
conceito de esfera ou círculo ilimitados não seja representável no Sistema, diferenciando-se por ser constituído de elementos
por uma figura geométrica, tínhamos necessidade dela para fi- com natureza diferente, substancialmente muito distantes, im-
xar as ideias do melhor modo possível. Se a superfície esférica possibilitados de se misturarem. Então, mesmo permanecendo
dentro da qual se imaginou o Sistema não fosse fechada, mas tudo no Sistema, as bolas brancas passaram a constituir a parte
sim ilimitada, estendendo-se ao infinito, não se teria compreen- sã do organismo, enquanto as bolas pretas se tornaram a parte
dido o conceito de uma saída dessa esfera. Também não teria doente, chamada Anti-Sistema. Ao invés de bolas brancas e
sido possível imaginar o Anti-Sistema como a formação de uma pretas, elas poderiam ser chamadas esferas rolantes no sentido
segunda esfera em redor da esfera do Sistema. Assim tivemos positivo e esferas rolantes no sentido inverso, isto é, em sentido
de nos contentar com representações relativas, já que não é pos- negativo. Também se poderia chamá-las esferas com carga ele-
sível encontrar em nosso relativo uma representação que possa tropositiva, que se fundiram num circuito, constituindo o Sis-
conter e mostrar-nos a realidade do fenômeno. tema, e esferas com carga eletronegativa, que se fundiram num
Outros aspectos do fenômeno poderão ser observados por circuito oposto, passando a ser o Anti-Sistema. Pode-se ainda
meio de uma terceira imagem, que nos permita focalizar melhor dizer que as células sãs do organismo do Todo, permaneceram
a nossa visão. Quanto mais olhamos em profundidade, mais ve- funcionando coordenadamente para a saúde deste, enquanto as
rificamos não ser exata a ideia de esfera. Se o Sistema é o To- outras células adoeceram, permanecendo no organismo do To-
do, não se pode imaginar uma superfície que o delimite. Não po- do, mas funcionando desordenadamente.
Pietro Ubaldi O SISTEMA 73
Enquanto expomos estas novas formas de representação do sibilidades. Tudo está em Deus, porque nada pode existir além
fenômeno, observamos de quantas maneiras diferentes ele pode e fora Dele. Portanto a própria revolta não podia estar senão em
ser expresso, mesmo tendo em conta que nenhuma é suficiente Deus, contida em Seu pensamento, fazendo parte de Seus pla-
para exprimi-lo por completo. Paralelamente, podemos repre- nos, que não podiam deixar de ter organizado tudo com anteci-
sentar de muitos modos diferentes o fenômeno da evolução. Por pação. Por isso devemos reconhecer que até a queda devia de-
exemplo, como um regresso, uma subida ou um fenômeno de senrolar-se segundo uma lei, como de fato vemos que ocorre,
reabsorção no Sistema; como um retorno a pensar, funcionar e representando dessa forma uma desordem ordenada, onde a im-
existir segundo a Lei, após haver feito o contrário; como uma perfeição é tão perfeitamente regulada, que nos dá uma das
cura da natureza corrompida dos elementos; como um endirei- maiores provas de perfeição de Deus.
tamento da própria posição invertida; como um redireciona- Após estes argumentos, procuremos alcançar e expor a ter-
mento do próprio movimento rotativo, invertendo a carga ele- ceira representação mental do fenômeno da queda, acrescentan-
tronegativa do Anti-Sistema na carga eletropositiva do Sistema do maior esclarecimento à pergunta formulada sobre como ocor-
etc. A exemplificação poderia continuar. Mas o conceito con- reu e se constituiu a queda. Segundo esta nova imagem do fe-
clusivo e focalizado agora é que os modos pelos quais podemos nômeno, a queda consistiu na contração individual de cada ele-
representar em nosso relativo o fenômeno da criação, da revolta mento para dimensões evolutivamente inferiores. Cada um teve
e da queda, ocorridos nas dimensões do absoluto, que se situam a sua queda particular conforme a sua culpa. O período involuti-
fora de nosso concebível, são infinitos. Escolhemos apenas al- vo teve início com a revolta de cada um dos elementos rebeldes,
guns modos, pouquíssimos, deixando a fantasia do leitor ima- que sofreram uma transformação interior, permanecendo todos
ginar todos os que ainda achar úteis. no Sistema, no mesmo ambiente do Tudo-Uno-Deus. Com a re-
Todavia, se tantas podem ser as nossas observações no rela- volta individual, o ser ficou à mercê do processo involutivo, que
tivo, com as quais procuramos ver representado o fenômeno, o teria transformado, passando ele a constituir, com todos os re-
este, na realidade, teve e tem caracteres e comportamento bem beldes, no fim desse processo de transformação, o Anti-Sistema.
definidos, que uma observação mais atenta vai sempre repre- Com esta terceira imagem do fenômeno, o conceito da segunda
sentando melhor. A queda não se verificou ao acaso, por si imagem – expulsão do Sistema ou projeção para fora dele – as-
mesma. A Lei, ou seja, o pensamento de Deus, previra-lhe a sume uma outra concepção, não mais de deslocamentos espaci-
possibilidade, o que é provado pelo fato de haver determinado o ais, mas de mudança da natureza do elemento.
seu decurso e suas consequências, mesmo antes da sua ocorrên- Então a expressão da imagem precedente, dizendo que os
cia. Sem dúvida, devia haver na Lei princípios que, mais tarde, mais altos teriam caído proporcionalmente mais embaixo, ou
ao se verificar a queda, teriam regulado a descida involutiva e seja, que os mais centrais no Sistema teriam sido arremessa-
também a posterior subida evolutiva, como no-lo demonstra o dos mais longe no Anti-Sistema, pode agora ser traduzida de
seu evidente telefinalismo. outra maneira, na qual os maiores se tornaram prisioneiros de
Em todo o fenômeno, verificamos uma maravilhosa corres- um processo íntimo de transformação, que os levou a um es-
pondência entre as partes, um desenrolar de equilíbrios, um tado de mais profunda contração de dimensões. O processo de
contrapor de opostos que se compensam. Existe aí uma previ- expulsão do Sistema teria sido constituído, então, não de afas-
dência, uma sabedoria e uma harmonia jamais desmentidas, que tamentos espaciais, mas sim qualitativos, ou seja, teria consis-
tanto mais se revelam quanto mais aprofundamos a nossa ob- tido num regresso involutivo, mais tarde corrigido por um
servação, descendo aos pormenores. Por isso o fenômeno da progresso evolutivo, de endireitamento daquele processo.
queda assume cada vez mais as características de um incidente, Além disso, essa transformação teria ocorrido ao longo da li-
necessariamente deixado à liberdade da criatura, porque essa li- nha dada pelo tipo segundo o qual cada ser foi criado, ou seja,
berdade, necessariamente, também devia existir, a fim de satis- teria sucedido para cada indivíduo nos seus próprios termos
fazer outras necessidades do plano. Tudo, portanto, estava pre- específicos, segundo a natureza dele, seguindo um canal invo-
visto, sujeito a normas precisas e correspondendo às exigências lutivo-evolutivo próprio de cada um, descendo involutivamen-
impostas pela lógica desse plano. te até ao ponto do Anti-Sistema situado nos antípodas da po-
Pode, então, dizer-se que a desordem da queda ocorreu or- sição antes ocupada no Sistema, para, em seguida, subir pelo
denadamente, ou seja, sempre contida dentro dos limites esta- canal no sentido oposto, até ao ponto de partida. Assim, o ci-
belecidos pela Lei, que permaneceu sempre senhora do fenô- clo involutivo-evolutivo da queda é constituído por um mo-
meno. Este jamais lhe escapou das mãos, tendo sempre perma- vimento destrutivo-reconstrutivo, dado por um íntimo trans-
necido submisso sob o seu controle. Os que veem na queda formismo, que muda a constituição do ser, primeiro ao longo
uma imperfeição inadmissível na perfeição do Sistema, não de uma fase de aprofundamento involutivo e, depois, numa
compreenderam que se trata de uma imperfeição contida no segunda fase de emersão evolutiva.
âmbito da perfeição, regulada e dominada por esta. E isto é ló- Desse modo, tudo permanece no Sistema, sendo que a parte
gico. Não é admissível que, após o plano perfeito, pensado por rebelde teria caído no próprio desfazimento interior, sem per-
Deus, algo lhe pudesse escapar ao domínio e controle. Portanto turbar, com a própria alteração patológica, a parte sã do Siste-
também a revolta e a queda não podiam sair do âmbito da Lei, ma, pois esta continuou a viver inalterada na ordem, em perfei-
que representa a presença de Deus no Sistema e o princípio re- ta saúde. Isto nos faz pensar que a Lei tivesse ao seu dispor
gulador de toda existência, em qualquer momento e sob qual- freios automáticos para a dilatação epidêmica da desordem. O
quer forma. Era necessidade fundamental e lógica que a Lei tu- freio automático estava na impossibilidade do ser cair na escala
do abarcasse, tornando impossível escapar-lhe algo, pois isto involutiva além do ponto determinado pelo impulso, que era
constituiria uma perda de poder e de controle do Criador sobre proporcionado à altura ocupada por ele no Sistema. Aconteceu
a obra criada, representando Sua derrota e falência. Essa mesma exatamente segundo o modelo repetido em nosso organismo,
necessidade lógica nos obriga a admitir a possibilidade de uma quando aparece um estado patológico, o qual a natureza procu-
queda prevista com antecedência, caso a criatura quisesse ou ra imediatamente isolar, circunscrevendo o mal, a fim de impe-
não praticá-la, pois isto era de sua competência, sendo-lhe per- dir a sua difusão e melhor combatê-lo.
mitido voltar à perfeição após o erro e suas consequências, ao ◘ ◘ ◘
invés de atingi-la com a aceitação. Mas não estava em seu po- Procuremos precisar com maior exatidão os conceitos da
der alterar os planos divinos, que tudo haviam previsto e regu- visão. Dissemos que se trata de uma contração, regresso invo-
lado com antecedência. Deus estava no todo e em todas as pos- lutivo, transformismo íntimo, desfazimento interior, tentando
74 O SISTEMA Pietro Ubaldi
com estas diversas expressões dar uma representação ao fenô- Mas voltemos a observar a visão. Seria o modelo estrutural
meno. Mas serão elas exatas e dirão tudo? Não haverá, talvez, do espírito aquilo que permitiria, no caso de revolta, a involu-
um conceito mais profundo, além destas primeiras aproxima- ção antes e, depois, a evolução assumirem sua forma única,
ções? A cada passo à frente e maior ajustamento, percebemos como de fato assumiram? Já dissemos que os espíritos não pos-
que está por aparecer uma realidade mais consentânea, pronta suíam uma perfeição absoluta, como a de Deus, mas apenas su-
a revelar-se, tão logo se queira observar a visão com maior bordinada e relativa à sua posição nos vários círculos e às suas
profundidade. Então, que outros conceitos podem se esconder funções no organismo do Sistema. Caíram, então, na imperfei-
por trás das primeiras representações do fenômeno? Observe- ção e, portanto, na possibilidade de errar e desmoronar logo que
mos mais atentamente. saíram do âmbito daquela posição e função, nas quais se consti-
Dissemos há pouco que a realização da queda não foi aban- tuía a sua perfeição. Ora, a queda, conforme esta terceira ima-
donada ao acaso, tendo, pelo contrário, ocorrido segundo uma gem adotada, foi constituída por um processo de introversão,
lei pela qual cada movimento, mesmo deixado à liberdade do que chamamos contração, significando que o centro vital dos
ser como possibilidade de ocorrer ou não, tinha sido previsto e espíritos rebeldes se deslocou para o interior de si mesmos. Em
enquadrado numa disciplina, unicamente segundo a qual podia outras palavras, passaram a existir como vibração vital em ou-
desenvolver-se. Então, como se realizou exatamente o fenôme- tros planos de existência, cujo despertar interior era para eles
no, que simplesmente exprimimos com as palavras: contração, uma possibilidade prevista pela Lei, em caso de rebelião. De-
transformação e desfazimento? Qual a realidade escondida atrás flagrada a centelha, realizou-se a possibilidade da existência
dos seus significados? dos rebeldes se deslocar para planos inferiores. Esse foi o resul-
A evolução nos dá um sentido de expansão, de superação tado e o significado do deslocamento do “eu” para o interior,
de limites, de emersão do baixo para o alto, de libertação da causa e efeito do fenômeno de contração. Justamente como rea-
prisão, enquanto o fenômeno da involução apresenta-se-nos ção lógica de ricochete, que corrigiria o exagerado impulso ex-
com características opostas, aparecendo-nos como um proces- pansionista da criatura em querer ultrapassar os limites assina-
so de contração. Isto nos leva a pensar que, na estrutura do es- lados. Contração proporcional ao impulso da revolta de cada
pírito, no estado puro em que foi criado, quando tudo tinha si- criatura, de acordo com sua posição e potência, para planos in-
do previsto, deviam existir as posições através das quais se po- feriores de vida, interiores a eles, para os quais, por lei de equi-
deriam operar as transformações que constituem o processo líbrio, foram arremessados os seres que quiseram expandir-se
involutivo e evolutivo. Em outros termos, na estrutura dos es- demais para planos superiores de vida, exteriores a eles, situa-
píritos criados, devia existir em condição latente ou embrioná- dos além dos limites estabelecidos pela Lei.
ria, como sementes, os estados de energia e matéria, que apa- Mas perguntamos ainda: porque esse deslocamento para o
receram depois, no período involutivo. Não se saberia de onde interior produziu a involução? A imagem mental agora formula-
poderia ter derivado esse modelo, seguido mais tarde na queda da, representando o fenômeno, consiste em pensar que o desmo-
e na subida, sem esta preexistência, que seria, no entanto, pu- ronamento – em vez de ter ocorrido como no primeiro caso, on-
ramente potencial, apenas uma possibilidade pronta a realizar- de a queda foi imaginada como uma descida espacial, do alto
se, logo que uma revolta tivesse acontecido, através de um para baixo, ou como no segundo caso, em que a queda foi con-
cebida como uma emigração para uma segunda esfera, projetada
primeiro impulso, tal como ocorre com a centelha que acende
na periferia da primeira esfera do Sistema – consistiu numa con-
uma dinamite já pronta, mas pode permanecer indefinidamente
tração individual de cada elemento, nas medidas estudadas por
inerte, se a centelha não ocorrer.
meio da segunda imagem, ou seja, proporcionalmente ao impul-
Deduzimos, então, que a Lei, ao prever a possibilidade de
so determinado pela posição ocupada pelo ser no Sistema, con-
uma revolta, tinha também, caso esta viesse a se verificar, pre-
forme o seu círculo e poder. Enquanto, na segunda imagem, isto
visto com antecedência o seu caminho, estabelecendo os ger-
era visto como inversão de posição, passando do Sistema ao An-
mes do seu desenvolvimento. Havia-lhe traçado todo o percur-
ti-Sistema, nesta terceira imagem o emborcamento não se dá
so. Nada podia escapar à Lei, cuja ordem, sempre soberana,
mediante uma projeção para fora do Sistema, mas sim pelo re-
devia controlar essa desordem, produzindo os seus devidos
trocesso de cada um para o interior de si mesmo, por contração.
efeitos, não para destruir, mas para ensinar e salvar, com equi-
Como já verificamos, essas posições do ser e os modos de
líbrio e justiça, reconduzindo tudo a Deus após seu desmoro- existir da substância não poderiam nascer por acaso. Nada podia
namento no caos. Sem essa previsão, não se explica como os aparecer que não tivesse sido antes pensado por Deus na formu-
fenômenos da involução e da evolução tenham resultado tão lação do seu primeiro plano, em seu primeiro aspecto da Trinda-
proporcionados, equilibrados e orientados em seu desenvolvi- de. Em que lugar do Sistema, então, podiam estar situadas essas
mento, regulados conforme uma exata e recíproca compensa- posições do ser, senão nos elementos que constituíam todo o
ção de opostos. O desmoronamento ocorreu, e a recuperação se Sistema? É lógico, portanto, imaginar que essas qualidades resi-
dá precisamente de acordo com uma lei, da mesma forma co- diam no interior do ser, prontas para se desenvolver apenas no
mo ocorre segundo uma lei, num organismo vivo, a doença e a caso em que alguma desordem viesse perturbar o equilíbrio,
cura. A lei de Deus não podia ausentar-se, desaparecer, perma- movimentando os impulsos da desordem. Assim, nos espíritos
necer estranha num fenômeno de tal importância, sem tomar que permaneceram disciplinados na Lei, mantendo-se na ordem,
conta dele. Também não poderia ter sido deixado pela vontade não foi determinado nenhum impulso que excitasse esse deslo-
de Deus, à vontade de alguns elementos rebeldes, um poder camento. O micróbio da doença, não achando ambiente propí-
capaz de conseguir modificar a Lei. Esta não podia abdicar de cio, não podia desenvolver-se. O impulso de inversão, dado pela
suas funções diretoras, nem deixar de permanecer viva, presen- revolta, no desejo de erigir-se na posição de Anti-Sistema dentro
te e ativa, mesmo na queda, por isso a faz chegar até ao ponto do Sistema, rompeu os diques de ordem que mantinham presa a
devido, e não além, com equilíbrio e justiça, e também a faz desordem, provocando dessa forma a queda. Tudo estava pron-
voltar atrás, enfeixada em normas, através de vários planos de to. Foi como se Deus houvesse dado, nas mãos do ser, um re-
existência, orientada segundo um telefinalismo preciso, como vólver carregado, dizendo-lhe: não apertes o gatilho, porque ex-
de fato vemos existir. Só assim podemos explicar a razão de plode. Certamente, nem Deus falava nem os espíritos ouviam,
nosso universo ter tomado a forma atual, o seu significado e a como acabamos de imaginar, porque isto ocorre apenas em nos-
origem do seu modelo. Só assim podemos compreender como so mundo. Mas o conceito estava contido no pensamento de
tenha sido possível tanta e tal perfeição na imperfeição. Deus, vibrando sempre presente na Lei, e era percebido pelos
Pietro Ubaldi O SISTEMA 75
espíritos, imersos nessa atmosfera de pensamento. Continuando de expressões e pontos de vista diversos da mesma visão, que,
com a imagem do revólver, não houve detonação para os espíri- em suas linhas fundamentais, permanece invariável. Em alguns
tos obedientes, que não tocaram no gatilho, e a arma carregada casos, o mesmo conceito aparece em outra representação, tra-
não produziu dano algum. No entanto ela explodiu para os espí- duzido em outras imagens. No relativo, a mesma coisa pode
ritos que quiseram manejá-la, procurando com isso aumentar o exprimir-se em muitas maneiras diferentes.
seu poder e ultrapassar o limite da obediência. Assim se produ- Por exemplo, esta última imagem, do aprisionamento numa
ziu aquela contração que chamamos involução. casca pelo emborcamento do exterior no interior e vice-versa,
De acordo com a terceira representação do fenômeno, essas também pode ser expressa com outros conceitos, que, supri-
posições, que revelam outras possibilidades de existência, situa- mindo a ideia espacial de “dentro” e “fora”, ou seja, materiali-
das potencialmente no interior dos seres, eram os estados de zando-a menos, afastam-se menos da realidade do fenômeno.
energia e matéria. Nesta imagem, a revolta teria projetado o cen- Então, a ideia de deslocamento é substituída pela de mudanças
tro vital do ser, de sua posição de espírito, para a posição de no estado da substância constituinte do espírito. Em outras pa-
energia e, por fim, de matéria. Quanto mais poderoso o espírito e lavras, com a queda, o ser deslocou o centro de sua existência,
elevada sua posição no Sistema, mais potente o impulso da revol- mudando o seu modo de existir da forma pura de substância,
ta gerado por ele e tanto maior o efeito dela como contração, por- como é o espírito, numa forma menos pura, como é a energia,
tanto mais profunda a projeção do espírito no estado de matéria, e daí até à mais corrompida e inquinada, a matéria. Podemos
isto é, mais densa a casca de matéria em que teria ficado preso. pensar, então, que esses estados interiores do espírito eram
Acreditamos ter conseguido traduzir, nos termos desta terceira apenas as fases previstas do processo de corrupção progressiva
representação mental do fenômeno da queda, o conceito utilizado do espírito, que se teriam tornado atuais no caso de uma saída
na segunda imagem desse fenômeno, na qual o ser foi projetado dele do estado de ordem, que lhe defendia a integridade e a sa-
em posição invertida, fora do Sistema, no Anti-Sistema. úde. Em outros termos, nas normas da Lei, também haveria
Dissemos “aprisionado em uma casca”, porque o emborca- existido um princípio pelo qual, se o espírito quisesse sair da
mento colocou o ser numa posição invertida, como é de fato disciplina de um regime sadio de vida, ele adoeceria com a do-
sua atual condição no Anti-Sistema. Devido a esta inversão, ença da involução, que, no seu curso, levá-lo-ia do espírito à
não só tudo o que era positivo no Sistema devia transmutar-se energia e à matéria. De modo que energia e matéria poderiam
em negativo no Anti-Sistema, como também o que era interior ser consideradas como estados de progressiva corrupção ou
devia tornar-se exterior, e vice-versa. Desse modo se explicaria decadência do estado perfeito de espírito, sendo este o sentido
por que e como, no homem, o espírito é íntimo no corpo, assim que deveríamos dar, então, à palavra queda.
como o princípio espiritual é íntimo na forma de todas as coi- Dessa forma, poderíamos dizer que a substância pode assu-
sas que rege. Isto faz pensar que, no espírito, existiria a possi- mir vários estados, indo de sua condição perfeita como espírito
bilidade de um estado feito de matéria, como forma íntima em a outros estados, tanto mais corrompidos e imperfeitos quanto
estado potencial, e que a existência na forma de espírito se te- mais sua forma se afastar do espírito para a matéria. Com a
nha emborcado na inversa posição material, em sua condição queda, a substância, que estava no estado puro, teria adoecido,
não mais potencial, e sim realizada, posição que constitui a para depois tornar a curar-se, percorrendo o caminho inverso da
forma de existência de nosso atual universo. Em outras pala- evolução. O processo de libertação da forma material seria um
vras, ter-se-ia passado (e nisto consistiu a inversão) do estado processo de purificação. A desmaterialização da vida em for-
no qual o espírito aprisionava e dominava, como dono, a maté- mas cada vez mais espirituais representaria a cura que, em ter-
ria, que nele jazia fechada e adormecida em estado latente, mos religiosos, foi chamada redenção. Este é o sentido desta
como de não-existência, ao estado em que a matéria aprisionou palavra. A queda se reduz assim a uma grande transformação
e dominou, como dona, o espírito, que nela permaneceu fecha- da primeira substância, o Tudo-Uno-Deus, além do que nada
do e adormecido em estado latente, mais ou menos reduzido à pode existir. Essa substância permaneceu inalterada nos espíri-
inconsciência. Explica-se assim o estado atual, em que a maté- tos obedientes, mas se corrompeu nos espíritos rebeldes.
ria, outrora aprisionada e dominada, veio a aprisionar e domi- Esta ideia de corrupção evita a ideia espacial das várias
nar o espírito. Exprimindo-nos em termos espaciais, se a ima- imagens examinadas e as substitui, completando o conceito de
gem não fosse por demais concreta, poder-se-ia dizer que o in- contração e fazendo compreender melhor como seja possível,
terior passou para o exterior, vindo a constituir (involução) a para o espírito, assumir a forma de existência representada pela
casa dada pela forma física, e que o exterior passou para o in- matéria. Dessa forma, ao conceito de contração do ser por des-
terior, levando o espírito a permanecer aprisionado naquela locamento de seu centro de vida, do exterior para o interior, e
forma de matéria. Pode-se compreender, então, porque a evo- ao conceito de que, por esse caminho, se possa atingir o estado
lução consiste no processo contrário, pelo qual o espírito da matéria, substituiu-se pela ideia mais profunda de uma
adormecido deve despertar, o espírito aprisionado na matéria transformação da substância do ser como efeito de um proces-
deve libertar-se dela, o espírito dominado pela forma deve vol- so de corrupção progressiva, que vai do estado de espírito ao
tar a dominá-la. Se, com a queda, o espírito passou a ficar fe- estado de matéria. Assim, ao conceito de um espírito que con-
chado dentro da matéria, ele deve agora, no regresso, sair de tenha potencialmente, dentro de si, os estados de energia e ma-
dentro para fora, para a plenitude de sua vida. téria, nos quais o espírito se contrai e que, portanto, afloram
◘ ◘ ◘ com a revolta, substitui-se pelo conceito no qual a energia e a
Aceitamos a terceira representação mental do fenômeno por matéria constituem uma corrupção da substância, acarretando
nos parecer a mais apta a nos revelar, com maiores relevos, al- doença e decadência para o espírito, por efeito da revolta. Com
guns de seus aspectos, mesmo reconhecendo que não possa di- este último aspecto de nossa terceira representação mental do
zer-nos tudo. Pela mesma razão, aceitamos as outras duas re- fenômeno da queda, evita-se totalmente a ideia inexata de des-
presentações, porque aptas a fazer ressaltar outros aspectos do locamento espacial, que tivemos de aceitar nas primeiras apro-
processo. Cada uma nos revela um ponto. O absoluto, para nós ximações, ao interpretar o fenômeno.
situados no relativo, é inesgotável, e jamais terminaremos de Para não arrastar ao infinito a argumentação e concluir o li-
percorrê-lo. Observamos várias representações e poderíamos vro, devemos terminar por agora a nossa exposição das várias
continuar ao infinito, focalizando sucessivamente pormenores representações mentais capazes de reduzir ao nosso concebível
diferentes. As imagens examinadas se completam na visão mais a substância da visão, em pormenores cada vez mais exatos. O
global possível, contudo compreende-se que se tratam apenas nosso caminho poderia continuar, e continuará em outros li-
76 O SISTEMA Pietro Ubaldi
vros. A pesquisa não tem limites, e, ao se descobrir novos hori- que vivemos, demonstrando-se verdadeiro sob novos pontos de
zontes, aparece imediatamente outro mais remoto. Grande é a vista. Esses três volumes: A Grande Síntese, Deus e Universo e
nossa viagem pelos mares inexplorados do conhecimento. O Sistema, são os três degraus de uma mesma verdade, que está
Atravessamos um oceano, e aparecem novos continentes, nos sendo progressivamente revelada, por meio de fases de amadu-
quais viverá amanhã uma humanidade mais feliz, porque mais recimento do instrumento, que se torna assim capaz de compre-
inteligente. Orientamos a primeira rota, pela qual poderão ori- ender e explicar cada vez mais profundamente, como ocorreu
entar-se melhor, mais tarde, os outros navegantes. Possuímos nos últimos dois capítulos deste livro.
agora, de forma racional e compreensível, os princípios gerais Dessa forma, é possível compreender como funciona o fe-
que, até hoje, foram apenas vagamente afirmados pelas religi- nômeno inspirativo, que parte dos princípios gerais, para depois
ões e teologias, mas não provados. Eles nos dão as chaves para descer aos particulares. Prova-nos isto a genuinidade do fenô-
abrir outras portas do conhecimento, permitindo penetrar em meno. Caso se tratasse de uma criação mental do instrumento,
pormenores cada vez mais profundos, em contato com os fe- deveria, como faz a ciência, partir da análise do estudo dos fa-
nômenos, e explicá-los no terreno próprio da ciência. tos particulares, único meio que a razão possui para chegar ao
Basta-nos, por ora, termos desincumbido a tarefa deste vo- conhecimento, e não tomar como ponto de partida a teoria ge-
lume, fruto do novo amadurecimento hoje atingido, ou seja, ex- ral, que representa normalmente o ponto de chegada, conclusão
por a visão de forma mais profunda, ultrapassando aquela con- das pesquisas efetuadas. Aqui, ao invés, começamos pelo abso-
seguida no volume Deus e Universo. Subimos, assim, mais um luto, para, apenas no fim, chegar às suas consequências em nos-
pouco e passamos a compreender o fenômeno da gênese, queda so mundo. Parece que este é o método direto do Sistema, en-
e subida, de que somos filhos, e a conhecer um pouco mais do quanto o outro, usado comumente, constitui o método inverso,
que conhecíamos no fim do volume precedente. do Anti-Sistema. Se a razão sozinha quisesse arriscar-se a usar
Assim, vamos avançando laboriosamente, construindo o o primeiro método, que desce do Alto, ao invés do humano, que
grande edifício. O nosso pensamento vai aperfeiçoando-se cada sobe de nosso mundo aos princípios que o dirigem, correria o
vez mais, por graus, esclarecendo sempre mais, analisando, pro- risco de ter que rever as posições tomadas e corrigir as próprias
vando o que foi dito desde o princípio, com conceitos que ja- afirmações gerais, quando os fatos não as confirmassem. Seria
mais se modificaram, mas foram cada vez mais se confirmando. fácil errar por não haver previsto tudo. Como se explica, então,
Em nenhum momento retratamos uma só palavra por ter sobre- não ter sido necessária correção alguma?
vindo um fato que a demonstrasse errada. O trabalho consiste, A mente humana procura a verdade por tentativas e hipóte-
sobretudo, em demonstrar, com a análise, que são verdadeiras as ses, mas só consegue encontrá-la no fim, como conclusão das
conclusões ou os totais das operações, colocadas antes da argu- suas pesquisas. Mesmo neste caso, trata-se de verdades parci-
mentação, quando ainda ignorávamos completamente, em prin- ais, de teorias circunscritas a determinadas ordens de fenôme-
cípio, o desenvolvimento futuro. Mas a finalidade principal já nos, tanto que, diante de uma síntese universal, a ciência, com o
foi alcançada: mostrar as linhas gerais da Lei, que dirige tudo e seu método de observação e experiência, pode imediatamente
todos e contém o pensamento de Deus. Outros, encontrando ou- declarar-se incompetente e impotente para alcançá-la. Como
tras aproximações, poderão, subindo ao longo do relativo, conti- explicar o nosso caso, em que não procedemos por tentativas e
nuar o tremendo trabalho de aproximar-se mais do absoluto, hipóteses, como se faz na busca do desconhecido, mas sim ao
descobrindo-lhe sempre novos aspectos. Nós, segundo os planos contrário, com um sentido seguro da verdade, como se já fosse
preestabelecidos e ainda não todos conhecidos, continuaremos a conhecida, afirmando-a decisivamente desde o princípio e, de-
realizar nossa tarefa, até que tudo esteja completo. pois, esclarecendo sempre mais, sem nunca ter de corrigi-la?
Como explicar, sem o fenômeno inspirativo, que os totais das
CONCLUSÃO operações tenham sido colocados como uma premissa anteposta
às mesmas, antes de realizá-las e sem o escritor conhecê-las? E
Chegamos ao fim do livro. O nosso trabalho de análise e de essas só pouco a pouco chegam ao conhecimento, à proporção
crítica está terminado. Os conceitos da visão foram levados ao que se vai escrevendo. Como é possível, mais tarde, ao analisá-
contato da realidade existente entre nós, em nosso mundo, co- las, verificar-se que elas levam exatamente àqueles totais? É
mo sua consequência. O fato de tais conceitos serem confirma- evidente que a mente humana, sozinha, não pode funcionar des-
dos por esta realidade nos prova que eles correspondem à ver- se modo, produzindo esses resultados. E então? Estes livros são
dade. Descemos aos pormenores e vimos que eles confirmam o um fato positivo, e não se resolve o problema pelo fato de que-
universal de onde partimos, verificando que os efeitos no rela- rer ignorá-lo. Quando nos achamos diante de um efeito inegá-
tivo são explicados por sua concordância com as causas situa- vel, que não se pode destruir, cumpre-nos descobrir a sua causa,
das no absoluto. O controle lógico e positivo que fizemos da vi- se não quisermos renunciar a compreendê-lo.
são, obtida por intuição, mostrou-nos, na realidade, a concor- Dessa forma, o leitor que tiver chegado a possuir conceitu-
dância entre os fatos circundantes e os princípios da visão. Esta almente toda a visão aqui exposta e desenvolvida, poderá ver
correspondência de um polo ao outro do todo – do Sistema, si- em sua mente um quadro completo, que lhe aparecerá como um
tuado além dos nossos meios de conhecimento, ao Anti- todo harmônico, compacto em suas partes, logicamente ligado
Sistema, em que vivemos – constitui uma afirmação que nos em todos os seus pontos, sem resíduos insolúveis nem vazios de
diz ser a visão verdadeira. Observando e raciocinando, esclare- mistérios; um quadro que resolve os problemas, esgota o assun-
cemos os pontos obscuros e respondemos às perguntas e obje- to, sacia a mente e satisfaz o espírito. O todo nos aparece então
ções, resolvendo as dúvidas e as dificuldades. como um verdadeiro edifício, tal qual foi pensado por Deus no
O quadro está agora completo diante dos olhos. Foi apresen- primeiro momento, executado no segundo e traduzido em reali-
tado, primeiramente, limitado ao ambiente terrestre, tratando dade no terceiro momento da Trindade. Esse edifício, cuja
apenas do trecho matéria-homem, no volume A Grande Síntese. construção aqui se mostrou, representa a vitória da unidade. O
Depois, o quadro foi ampliado em suas linhas gerais, abarcando monismo afirmado desde o início, no volume A Grande Sínte-
o ciclo completo do ser, que, após ser criado, afasta-se de Deus se, recebeu aqui nova e plena afirmação. O alfa e o ômega do
e a Deus regressa. Isso foi feito no volume Deus e Universo. universo foram unidos no mesmo ponto: Deus.
Finalmente, no presente livro, O Sistema, o quadro foi comple- Até hoje, a humanidade não conhecia tudo isto senão vaga-
tado em muitos pormenores, sendo, através de uma melhor ob- mente, através das religiões e lendas, sem análises e sem con-
servação, confirmado pelas provas oferecidas na realidade em trole, sem demonstrações racionais nem prova de fato. Mas
Pietro Ubaldi O SISTEMA 77
chegou a hora em que deve saber. Por isso, na plenitude dos quer nova indagação, porque esta pode levar a conclusões no-
tempos, foi permitido a um pobre instrumento ler, um pouco vas, diferentes das que já possuem, e minar dessa forma o ve-
mais claramente, no pensamento de Deus. Quem compreende lho edifício. A verdade já foi conquistada, e, uma vez possuí-
que estamos todos imersos nesse pensamento, constituindo ele da, fazê-la progredir significa atentar contra um patrimônio sa-
a atmosfera que todos respiramos, da qual todos tiramos a vida, grado. É o misoneísmo da vida que resiste ao impulso renova-
não se surpreende com essas palavras. Não há maravilha algu- dor do progresso. Por isso qualquer tentativa nesse sentido per-
ma em alguém descobri-lo e percebê-lo, fato que pode ocorrer a turba e é olhada com suspeitas, sendo-lhe postos obstáculos.
todos quantos tenham olhos para ver e ouvidos para ouvir. Tudo permaneceria anquilosado nas velhas fórmulas, caso se
Esta nova forma de compreender não deseja destruir as reve- pudesse paralisar a evolução. Mas como detê-la, se ela é uma
lações precedentes, mas quer confirmá-las, desenvolvendo-as e lei fundamental da vida?
explicando-as com esclarecimentos e demonstrações, necessá- Além disso, há também outra lei, contra a qual é difícil re-
rias porque hoje, para crer, é necessário convencer, pois não bas- belar-se: a lei de solidariedade. Segundo esta, quem caminhou
ta impor por princípio de autoridade. A inteligência desenvol- um pouco mais à frente é levado, instintivamente, a olhar para
veu-se, e mais ninguém, a não ser um primitivo, está disposto a trás, a fim de ajudar os outros a subir. Lei sábia e necessária pa-
aceitar cegamente o que não estiver claro e provado. A humani- ra impedir que o progresso, distanciando os seres uns dos ou-
dade necessita conhecer o edifício dentro do qual está morando, tros, quebre a unidade, justamente o princípio do Sistema, para
tanto mais que, bem depressa, terá de assumir a direção e a ad- o qual todos caminhamos. Para reconstruí-lo, é mister todos
ministração dessa parte chamada Terra. Para começar a aprender chegarem à salvação, e, por isso, logo que alguns elementos es-
e se comportar melhor, a humanidade precisa desta nova e in- tejam mais adiantados, tornam-se instrumentos de evolução,
dispensável evidência, sem a qual não se pode mais viver como auxiliando os outros que ficaram atrás.
seres civilizados. Este alimento espiritual chegou, a fim de pro- De tudo isso podemos imaginar quanto esforço deve enfren-
ver a nutrição necessária para a vida continuar progredindo. tar e quantas dificuldades deve superar quem quer construir.
◘ ◘ ◘ Nenhum grupo ou religião o defende, porque cada um desejaria
Assim nasceu este volume da segunda obra, coluna central apenas filiá-lo, a fim de aumentar o número de prosélitos, não
da mesma, situada no início da segunda de suas três trilogias. lhe importando evoluir para um conhecimento maior. Quem
Continuamos, tenaz e fielmente, a trazer a nossa contribuição constrói o novo está sempre só. De um lado, vê as doutrinas e os
para a construção do edifício do conhecimento, orientando nos textos das religiões, com a solução própria dos problemas, mas
pontos vitais e respondendo às perguntas que, sem muitas vezes incompleta e obrigatória. De outro lado, vê os fatos, que indicam
encontrar respostas, o homem faz. soluções mais completas e a urgência destas. Assim se achou
Infelizmente, parece inevitável que as novas construções, Galileu entre a Bíblia, segundo a qual Josué parou o Sol, e as
mesmo as mais pacíficas e necessárias, perturbem as velhas. observações, dizendo-lhe que, em tal caso, teria sido a Terra que
Embora o novo pareça irregular, porque revolucionário, incons- deveria ter parado, porque não era o Sol que girava em redor da
titucional e irreligioso, nem por isso se pode parar o progresso. Terra, mas sim a Terra em redor do Sol. Para satisfazer à tradi-
Disseram que estes livros sacodem os alicerces de todas as reli- ção, Galileu retratou o que foi classificado como seu erro e here-
giões. Não seria o contrário, isto é, não viriam eles reforçar es- sia, sem poder deixar de reconhecer os fatos, acrescentando o
ses alicerces, sobretudo nos princípios gerais que elas têm em seu famoso: “eppur si muove” (no entanto ela se move).
comum, e demonstrar, com a força da lógica e dos fatos, que Como conseguir modificar os fatos, dobrar e torcer a evidên-
seus princípios são verdadeiros e reais, sobrepujando a forma, cia, para fazê-los coincidir com esta ou aquela doutrina que en-
ainda vaga, baseada na fé ou na lenda, sem controle, até agora sina diferente? E, se não concordam, como fazer calar a realida-
assumidas? Além disso, sempre proclamamos o máximo respei- de? Não está no poder de nenhum homem mudá-la para pô-la de
to por todas as doutrinas e, se as teorias foram expostas como acordo com os textos do passado, como não estava no poder de
verdade, nem por isso pretendemos impô-las a quem não as Galileu parar a Terra para fazer o Sol girar em redor dela, só
queira admitir, pois foram apresentadas como hipóteses. Tudo porque assim dizia a Bíblia. Nesses casos, a única coisa que res-
foi simplesmente oferecido para cada um buscar aí, conforme o ta fazer é deixar, com todo o respeito, porque elas têm uma fun-
seu desejo, o que lhe fosse útil. Entretanto estes livros foram ção a cumprir, as doutrinas de lado e permanecer com os fatos.
condenados pelas religiões, que se lhe opuseram pelas razões Quem não quiser aceitar as conclusões resultantes deveria
acima e se excluem reciprocamente. O novo, para qualquer lu- contrapor outros fatos positivos. Estamos no século da ciência,
gar que se dirija, sempre se encontra diante de uma parede de em que o homem quer compreender e, se não for assim, não
dogmatismo, porque se depara com posições já conquistadas, aceita mais crer. É o direito das crianças que se tornam homens.
que procuram aumentar o poder já possuído e não desejam ca- Se não houver explicação para tudo, depressa a humanidade
minhar pelas estradas do progresso. Prevalece sempre o instinto não acreditará mais em nada. E isto já está começando a acon-
humano de armazenar tudo na própria casa, excluindo e conde- tecer. O consenso das massas ignorantes não pesa no progresso
nando o novo, porque este, mesmo de acordo com o velho, do mundo, pois elas, em qualquer religião, seguem sempre os
apresenta-se sempre como uma revolução. Prevalece o instinto seus instintos e se enfileiram atrás dos vencedores, que gritam
de se apegar à forma, trocando-a pela substância, aderindo as- mais alto. O que interessa é o consenso dos pensadores e diri-
sim à letra, que mata, ao invés de ao espírito, que vivifica. gentes, pois a multidão segue atrás deles. Hoje só se pode acei-
Mas, agora, a construção chegou a cerca de 4.000 pági- tar uma doutrina que resolva tudo, controlada racionalmente e
nas. Para destruí-la, precisaria ser construído um outro edifí- colocada em contato com os fatos, para explicá-los. Se deixar-
cio do mesmo tamanho. Criticar e condenar é fácil. Só quem mos a humanidade sepultada entre os mistérios, ela retrocederá
construiu com a tensão de todos os dias, durante dezenas de e, animalizando-se no materialismo, será dominada apenas por
anos, sabe o que significa construir. Por isso muitos criticam seus baixos instintos. Se a condição para o homem se salvar
e poucos constroem. consistir em cortar a própria cabeça para não compreender, ele
Pelo modo de agir, parece mais interessante conservar ínte- preferirá perder-se com a cabeça, a salvar-se sem ela. Hoje, a
gro o próprio grupo do que progredir no conhecimento da ver- ciência nos ofereceu muitos conceitos novos, que outrora não
dade. Pensam que já a possuem totalmente, sentindo-se autori- se conheciam, e o homem já amadureceu mais, por isso a ilu-
zados a não se incomodarem em trabalhosas e perigosas pes- minação da mente é um dever e uma necessidade.
quisas. Assim, as religiões demonstram ser contrárias a qual- ◘ ◘ ◘
78 O SISTEMA Pietro Ubaldi
O nosso trabalho foi de pura pesquisa, com a maior impar- também as doutrinas e as religiões, porque este é o fatal e irre-
cialidade, a fim de conhecer como tudo acontece verdadeira- freável caminho do progresso do pensamento humano. No en-
mente, e não para defender esta ou aquela doutrina ou grupo tanto aos céticos, ainda não convencidos, não pretendemos ofe-
humano. Da mesma forma que não foi possível, como às vezes recer os resultados atingidos como verdade completa, definitiva
se faz, antepor à pesquisa os ditames da própria escola, pelo fa- e absoluta, mas sim apenas como hipótese de trabalho, a fim de
to de se pertencer a ela, também não foi possível recusar, a pri- que possam controlá-la por meio de suas observações e experi-
ori, a verdade sustentada por esta ou aquela doutrina, só pelo ências, aceitando-a, se demonstrada pelos fatos, ou recusando-
fato de não ser a nossa. Quem procura a verdade não pode ter a, se estes disserem o contrário, e, neste caso, construir uma
outra finalidade; deve caminhar sem saber como poderá conclu- verdade melhor, para colocar no lugar desta. Às várias doutri-
ir e estar pronto a aceitar sem preconceitos tudo o que venha a nas filosóficas e religiosas, pelas quais nutrimos o máximo res-
ser demonstrado verdadeiro. peito, afirmamos que não queremos substituir qualquer de suas
É preciso compreender a função do pesquisador. O seu esta- verdades, nem mesmo pelo sistema aqui exposto, mas apenas
do de alma e as suas finalidades são completamente diferentes oferecer-lhes o fruto do nosso trabalho, a fim de o tornarem
daqueles do crente ou ministro, que têm de defender a sua fé. seu, pois o mais importante é fazer progredir o pensamento
Estes procuram prosélitos, e não o conhecimento. Têm a medida humano. Este é o único objetivo que nos prefixamos.
já estabelecida, com a qual tudo medem, julgando verdadeiro Uma das primeiras razões da condenação de A Grande Sín-
somente o que corresponde a essa medida, e falso o contrário. tese, por parte do catolicismo ortodoxo, foi a concepção monis-
Possuem uma verdade já confeccionada para o uso, à qual nada ta e panteísta do universo. Mas como conceber um universo
se deve acrescentar, não admitindo transformações. Pesquisar onde Deus não esteja presente em todas as suas partes, manten-
para iluminar e progredir traz desordem às fileiras, sendo por- do-o, como um princípio animador, em perfeita unidade? No
tanto ato reprovável, com sabor de insubordinação. No entanto o entanto este foi o pensamento dos maiores místicos cristãos!
estado da alma do pesquisador honesto não é absolutamente de Era o pensamento de São Francisco de Assis, quando sentia
agressividade. Interessa-lhe descobrir e conhecer a verdade, e Deus em todas as coisas e criaturas. O panteísmo é condenado
não defender ou demolir as instituições humanas. Naturalmente, com razão porque consiste, frequentemente, em crer que todas
é contrário ao interesse de muitos, que constituem a maioria. as coisas e criaturas sejam Deus por si mesmas. Mas esta é ape-
Dada esta atitude de pesquisa objetiva, não nos foi possível nas uma interpretação materialista do panteísmo.
tomar em consideração as teorias não susceptíveis de controle, Para combater esse panteísmo errado, não só se condena o
sobre as quais, por isso, não era possível exercer alguma crítica panteísmo sadio dos místicos, mas também se cai no erro opos-
que nos desse a prova da sua veracidade. Por exemplo, o pen- to, ao admitir um Deus somente pessoal e transcendente, sepa-
samento religioso da antiga Índia, trazido para o Ocidente atra- rado de Sua criação. Com esta separação, Deus e o mundo re-
vés de várias escolas, diz muitas coisas, mas, apesar de tão pro- sultam contrapostos, num dualismo inconciliável. Isto levou à
fundo, continua, mesmo quando traduzido, a nos falar com pa- ideia de que Deus não está onipresente em nosso mundo, mas
lavras ignoradas por nós, com sentidos intraduzíveis em nossa longe e separado de nós, habitando apenas os céus, de onde Ele
forma mental e na linguagem racional e científica, palavras não desce senão em Seus templos, por intermédio de seus mi-
sempre ditas de uma forma simbólica, própria mais a velar do nistros, só podendo ser achado nesse terreno reservado, pois fo-
que a revelar o pensamento, do qual a nossa mentalidade oci- ra só existe erro e pecado. Desaparece assim a ideia da onipre-
dental, para aceitar, exige uma expressão com imagens nossas, sença de Deus, transformado em prisioneiro de monopólios,
mais próximas da realidade, como a concebemos. A mentalida- encerrado em formas materiais de certas religiões. Verifica-se,
de oriental é muito diferente da ocidental. Diferentes são os desse modo, um afastamento, uma separação, entre a alma e
seus pontos de referência e também o que constitui prova con- Deus, entre a nossa vida e o seu centro gerador, de cujo alimen-
vincente e meio para esclarecer. Falta-lhe aquela psicologia de to ela continuamente tem necessidade. Perde-se, dessa maneira,
crítica e controle, para nós tão importante, porque nela se ba- o conceito de Sua maravilhosa potência saneadora, presença
seia o nosso progresso científico. Por isso o esplêndido edifício contínua, mesmo no segredo de nossa culpa; presença não ape-
constituído pela antiga Índia permanece como uma afirmação nas de dura justiça, mas, sobretudo, de amigo benéfico e médi-
não-demonstrada nem demonstrável, que pode ter valor mais co salvador. Confirma-se, assim, a separação do dualismo:
como mitologia do que como solução de problemas. Deus nas igrejas e Satanás no mundo. Mas, se Satanás está no
Tudo isso nos chegou através da teosofia. O mesmo pode- mundo, do qual é o dono, também Deus está no mundo e deve
mos repetir para a antroposofia de Rodolfo Steiner. O espiri- aí obedecer ao mal. Com esta cisão, rendemos a Satanás a ho-
tismo kardecista não nos oferece material suficiente em relação menagem de um poder que ele não tem, ou seja, de possuir um
aos temas tratados aqui, porque não enfrentou decisivamente reino todo seu, onde é dono absoluto e no qual Deus não pode
esses problemas, que constituem para ele, portanto, um terreno nem mesmo habitar. O homem iria de um a outro dos dois rei-
inexplorado. O catolicismo permaneceu gloriosamente no sécu- nos e, ao viver no mundo, permaneceria a maior parte de sua
lo de São Tomás: pensamento profundo, mas velho, que ignora vida pertencendo exclusivamente ao mal.
os problemas modernos e, além disso, está corroído pelos abu- ◘ ◘ ◘
sos da escolástica. Preferida por outros, a Bíblia foi escrita em Talvez possa agora interessar ao leitor saber como foi es-
outros tempos, para outras mentes, e não para resolver os nos- crito o presente volume e quais foram as minhas sensações na
sos problemas, então completamente desconhecidos. execução desse trabalho.
Ora, tudo isso está muito longe de estar errado. Há nessas As horas de minha maior atividade começam mais ou me-
doutrinas centelhas de luz, mas não há um quadro universal que nos às oito da noite, quando os outros vão repousar. Só então é
esgote o assunto e resolva tudo; um sistema teológico, científi- possível começar o trabalho, porque se pode ter a certeza de si-
co, racional e positivo, que coordene tudo, até mesmo as últi- lêncio e tranquilidade, sem perigo de interrupções. Não é pos-
mas conquistas do conhecimento humano, em estreita unidade. sível fazê-lo durante o dia, quando este período é utilizado pa-
Com isto, não queremos afirmar que tenhamos chegado a ver ra outras atividades comuns a todos. Fechado no quarto, certo
toda a verdade. Mas esperamos ter atingido o nosso objetivo, de que a minha atenção não será distraída por coisas exterio-
que é chegar a ver um aspecto mais completo, profundo e con- res, atinjo rapidamente o estado de alma apropriado, de pro-
vincente da verdade. Continuaremos amanhã. Outros depois funda percepção e visão. O ambiente já está saturado dessas
prosseguirão neste mesmo caminho, e sobre ele continuarão vibrações, no meio das quais continuamente trabalho, e posso
Pietro Ubaldi O SISTEMA 79
envolver-me nelas imediatamente, pois constituem a minha mentos bons, de bem e de amor, como divino poder ativo e cri-
verdadeira atmosfera, da qual vivo. Esta deve ser, sobretudo, ador, que rege a existência de todos os seres e coisas. Sei que
harmônica, constituída de paz, de sentimentos de bondade, de existem aí também os pensamentos negativos, os sentimentos
absoluto abandono em Deus, em estado de completa harmoni- maus, de mal e de ódio, carregados de poder destruidor. Estão
zação com sua Lei. O ambiente é também sintonizado acusti- no mesmo ambiente que os outros, mas, enquanto os impulsos
camente, com este estado harmônico, por meio da música clás- dos primeiros, estando harmonicamente unidos, somam-se, os
sica dos melhores autores, que, dessa forma, podem funcionar dos segundos se destroem, porque estão em luta entre si. Além
como parede protetora, trazendo àquela atmosfera as altas vi- disso, estando sintonizado com os pensamentos bons, feitos de
brações de espíritos elevados. Assim, atingido em poucos mi- bem, encontro-me existindo apenas neste plano e ambiente.
nutos o estado de alma apropriado, são novamente encontrados Percebo, então, somente os bons, e não os outros, pelo fato de
os conceitos desenvolvidos na noite precedente, torna-se a pe- não estar sintonizado com eles; como vibração não respondo,
netrar neles com os sentidos profundos da intuição, o espírito não percebo, não existo no seu espaço, pois, como vibração,
volta a mergulhar nesse mar de pensamento, e tudo é nova- apenas respondo, percebo e existo situado em outro espaço di-
mente visto com os olhos interiores da visão. Então, tudo é re- ferente, dado pelos pensamentos positivos.
gistrado, capítulo após capítulo, cada noite, muitas vezes até de Trata-se agora de subir. Chegando a este ponto, o esforço é
manhã, quando já é necessário atirar o corpo em uma cama, em concentrado na subida. Comunicar-se com os desencarnados,
busca de um sono que então não vem mais. Isto durante meses que às vezes sabem apenas tanto quanto nós, quando não sa-
e meses, até o livro estar terminado, para depois começar com bem ainda menos e são piores do que nós, não pode interessar
outro, até se perder a capacidade de dormir. num trabalho deste tipo. Subir, porque isso justamente me
Trata-se de subir a planos superiores de vida, próximos do afasta das forças do mal e me abre as portas do conhecimento,
Sistema. Não se trata do fenômeno comum da mediunidade, em constitui agora objetivo. Como é possível isto e como ocorre?
que o “eu” renuncia à consciência de si mesmo, para abandonar- O pensamento de Deus, que constitui a Sua lei, dirigindo tudo
se em poder de não se sabe quem. Ao contrário, trata-se de um e sendo coexistente com o universo físico e dinâmico, constitui
despertar da consciência além do normal, para atingir um estado a sua atmosfera psíquica, na qual tudo está imerso, inspirando-
que, à pessoa comum, pode parecer de extrema tensão nervosa, lhe a norma diretora e o poder que sustenta a sua existência.
mas representa um estado de grande velocidade, em que, como Dessa divina atmosfera de vida cada tipo individual participa,
no avião, parecemos estar parados. Trata-se de um fenômeno do recebe e compreende em proporção ao seu despertar espiritual,
qual as teorias aqui desenvolvidas nos podem dar a explicação. dado pelo plano de evolução alcançado. Nessa atmosfera está
Nesse estado de despertamento interior, a potência do cen- escrita a Lei, que representa o pensamento de Deus; nela está o
tro vital se transfere toda para o plano do pensamento, confe- conhecimento, estão feitas todas as descobertas e resolvidos
rindo uma lucidez mental agudíssima, enquanto ao corpo é todos os problemas. Ora, quem consegue, mesmo por um mo-
deixado apenas o mínimo de funcionamento mecânico que lhe mento, subir, aproximando-se um pouco do Sistema, no retor-
é necessário para não interromper a sua vida e poder, depois, no evolutivo a Deus, pode ler nesse pensamento um pouco
tornar a tomá-la em seu plano. Não se trata, pois, de recepção mais do que lhe permitem os recursos próprios do plano nor-
mediúnica passiva, mas justamente o oposto, isto é, uma cap- mal de evolução humana. Não pode ler tudo, mas um pouco
tação espiritual ativa, em que a personalidade não é, de manei- mais do que é possível pelos meios comuns.
ra nenhuma, abandonada em estados letárgicos, mas sim colo- Ora, é lógico que tudo depende do grau de sintonização
cada em condições de extremo dinamismo. O estado de aban- atingido. Quem, pelo tipo próprio de personalidade, está sinto-
dono em Deus é tudo, menos inércia; é o resultado de uma nizado com ambientes involuídos, espiritualmente baixos, per-
adesão alcançada por haver compreendido e por ter fortemente ceberá, ao invés, na mesma atmosfera, as vibrações e os pen-
buscado; é o produto de um esforço para subirmos acima do samentos baixos, que não atingem quem está sintonizado mais
plano de vida normal e nos aproximarmos mais Dele. Isto é no alto, pois este não os percebe. Quando o nosso espírito é fei-
possível quando a personalidade se transporta momentanea- to de pensamentos involuídos, só somos capazes de registrar as
mente para níveis superiores de evolução, transformando-se ondas do mal, do ódio e da dor. Esse estado é chamado inferno.
num tipo de individualidade biologicamente mais adiantado, o Quando, ao invés, vivemos de pensamentos evoluídos, então
que lhe confere uma sensibilidade e capacidade perceptivas estamos aptos a registrar as ondas do bem, do amor e da ale-
supranormais, muito mais agudas, no sentido de permitir uma gria. Dizemos, pois, que este é o paraíso. Tudo depende do es-
penetração conceitual muito mais profunda do que a proporci- tado espiritual, consequência da elevação de nossa natureza.
onada pela forma comum mental em seu estado normal. Então Nos breves minutos necessários para entrar nesse estado de
a percepção e a concepção abstratas, que em geral são as mais alma, tão diferente daquele que a luta diária nos obriga, a per-
difíceis de atingir, assumem uma evidência e concretização sonalidade deve percorrer várias adaptações e deslocamentos,
quase sólidas, e com elas passamos a ver e a tocar o nosso ajudando, com a vontade e o hábito, a transformação necessá-
mundo, que nos aparece tão claro e real. ria. Neste momento, percebo uma elevação de temperatura
Esse estado é o que chamamos intuição ou inspiração. De- psíquica do meu ser, quando o sistema nervoso se esquenta
vido ao longo hábito, rapidamente é obtido o deslocamento de pouco a pouco até quase abrasar. Esse fenômeno pode expri-
nosso centro vital e atingido o novo estado mental. Aí perma- mir-se de muitos modos diversos. Atingido o estado incandes-
neço imerso, traduzindo na linguagem das ideias e sensações cente, de alta frequência vibratória, ou de forte tensão nervosa,
normais conhecidas, aquelas da minha vida diurna, os conceitos o ser assume uma forma de existência diferente daquela nor-
que aparecem no estado de visão. Durante o fenômeno, perma- mal durante o dia, chegando com isto a um estado vibratório e
neço perfeitamente consciente e controlado em cada momento, perceptivo que lhe permite entrar, com os outros sentidos bem
o que me permite, assim, ter conhecimento do seu funciona- despertos, no ambiente espiritual e comunicar-se com ele. Po-
mento e assenhorear-me de sua técnica. de entrar não porque tenha perdido a consciência – fato que o
Tão logo entro neste novo estado de visão conceitual, per- afastaria, ao invés de aproximá-lo – mas porque desperta numa
cebo o ambiente que me circunda não mais no plano físico, e consciência acima do normal, em confronto com a qual a nor-
sim no plano espiritual, ou seja, como uma atmosfera de pen- mal parece até inconsciência. Sem esse despertar, que aguça a
samento que me envolve completamente. Percebo-a como vi- sensibilidade, o ambiente permaneceria inacessível e fechado.
brações de todos os pensamentos positivos, de todos os senti- Assim é atingido esse outro mundo.
80 O SISTEMA Pietro Ubaldi
Quando penetro nele, não ouço nem leio tanto quanto ab- rente e convergente para certas conclusões, inicialmente igno-
sorvo, tal como uma esponja na água, tanto o pensamento como radas? Além disso, mesmo que talvez existam, não conheço na
o sentimento e a potência que constituem aquele ambiente. A Terra livros de onde pudesse ter extraído o conteúdo desse vo-
absorção completa a transformação, dando-me, no cérebro, uma lume. No entanto jamais faltaram as ideias, sentindo até neces-
sensação de potência conceitual incontida, que transborda de sidade de estender em outro livro as ideias que neste não cou-
todas as partes, sendo descarregada nas páginas, que rapida- beram. Pergunto-me então: se esse pensamento cósmico não
mente se vão acumulando durante a noite. Os conceitos alcan- estivesse sempre, a cada instante, pronto na atmosfera psíquica
çados pelo espírito são transmitidos ao cérebro, que os trans- circundante, como poderia ser recebido todas as vezes que o
forma em palavras, e a mão escreve. Toda a personalidade é indivíduo quisesse? Isto confirma o ponto de vista exposto
atravessada por uma potência vibratória, percebendo os concei- acima, ou seja, que não se trata do fenômeno comum da me-
tos com luminosidade e clareza, de forma tão deslumbrante, diunidade, mas da captação de um pensamento universal, sem-
que os vive como se estes viessem a formar a sua própria vida. pre presente e em funcionamento.
E tanto mais à proporção que vão chegando, segundo o tema Como isto seja possível e acontece, pode ser esclarecido
tratado, também como ondas de sentimento e poder. Forma-se pelo novo ponto de vista oferecido pela terceira forma de re-
assim, em todo o ser, um sentido de euforia, de leveza, de oni- presentação mental, exposta no fim do capítulo precedente.
presença e dilatação, pelos quais os pontos de referência do Explicamos que, com a queda, os espíritos permaneceram no
pensamento vão achar-se em outras dimensões. mesmo ambiente do Sistema, pois a queda não consistiu em
Torna-se necessário, então, com a consciência bem desper- um deslocamento espacial, mas na mudança da sua natureza,
ta, exercer um controle ainda mais severo sobre si mesmo, pro- ou seja, na sua transformação involutiva. Deduz-se que nós,
vendo-se com algumas normas, como por exemplo: seres decaídos em forma material, coexistimos espacialmente
1) Não se transviar, perdendo o controle de si mesmo, per- no ambiente espiritual não-decaído do Sistema, ou seja, esta-
manecendo senhor do fenômeno, crítico, positivo, sem perder o mos imersos no pensamento de Deus como os peixes no mar,
senso se realidade. pois o pensamento de Deus é onipresente, penetra tudo e cons-
2) Perceber toda a visão, com exatidão e clareza, mantendo- titui o Sistema. Então esse pensamento está sempre presente,
se, ao mesmo tempo, bem acordado também como mente racio- mesmo em nosso mundo material, em todos os momentos e em
nal, para poder traduzir os conceitos percebidos em dimensões todos os lugares, não apenas como pensamento – captável,
superiores, incompreensíveis nessa forma para a psique comum, portanto, para quem possua a necessária sensibilização, função
nos termos próprios desta. O trabalho a realizar é justamente do grau de amadurecimento atingido – mas também como Lei,
transportar o pensamento percebido por intuição para a forma de constituindo o poder atuante para realizar esse pensamento e a
palavras escritas, nas quais permaneça registrado definitivamen- direção reguladora de tudo o que existe e só pode existir en-
te. Ao mesmo tempo, com a parte racional, observar o fenômeno quanto é sustentado e dirigido por esse poder divino.
que se está vivendo, recordando os seus particulares, para depois Eis porque esse pensamento se acha sempre pronto para ser
estudar o seu funcionamento. Trabalho necessário também para captado, desde que, a cada momento, a mente se volte em sua
se assenhorear da técnica do fenômeno, transformando-se de direção e se ache em condições de percebê-lo. Esse pensamento
instrumento cego em meio inteligente e ativo. constitui a atmosfera psíquica do universo, coexistente espaci-
3) Não afastar demais do corpo físico o próprio centro vi- almente com a atmosfera dinâmica que o permeia, envolvendo
tal. A palavra afastamento não tem sentido espacial, mas de ti- os núcleos de condensação da matéria que nela se formaram.
po de vibração. Portanto não concentrar toda a própria vida Por isso, podemos dizer que as três fases evolutivas: matéria,
apenas no plano espiritual, abandonando totalmente o corpo. energia e espírito, constituem três universos que se interpene-
Não tirar deste todas as energias vitais, mas deixar-lhe o mí- tram reciprocamente, de modo que tudo, inclusive nós, estamos
nimo suficiente para continuar funcionando, a fim de não se sempre imersos na substância de Deus. Trata-se de uma inter-
apagar, permanecendo sempre ligado a ele, ou seja, continuan- penetração íntima, pela qual respiramos a cada instante a at-
do a vibrar também um pouco em seu nível, para depois ser mosfera de Deus, fazendo dela a nossa vida. Existimos Dele e
também possível resolver o problema de tornar a descer e reen- com Ele, porque não é possível existir sem Ele.
trar nele cada noite, no fim do trabalho. Mas, então, como normalmente não O percebemos? Em que
Com essas previdências, começa-se. O ambiente físico qua- consiste essa distância, se não é espacial e, no entanto, nos dei-
se desaparece, os sentidos corpóreos funcionam em surdina, xa longe de Deus? De que é constituída essa barreira a nos di-
enquanto outros sentidos se destacam e funcionam com outros vidir Dele, tornando-o tão inacessível à nossa percepção? Como
poderes e percepções. Na mente, tem início um lampejar contí- não nos apercebemos de maneira nenhuma, em geral, dessa Sua
nuo, que ela absorve e com o qual se vai carregando cada vez presença tão viva?
mais. Daí a imperiosa necessidade de descarregar no polo nega- Efetivamente há uma distância, mas não se trata de distância
tivo, em baixo, pela palavra escrita, essa carga acumulada na espacial, porém evolutiva, ou seja, de natureza e qualidade; uma
mente, no polo positivo, no alto. Esta se embebe e se satura to- distância evolutiva, produto do estado de contração ou desfazi-
talmente com essa atmosfera e derrama em baixo tudo o que mento que resultou da queda. Nem por isso Deus desapareceu
absorveu. Assim foi sendo escrito este livro, e estamos agora dos planos inferiores de existência. Desapareceu apenas a per-
completando suas últimas páginas. cepção que o ser tinha Dele antes da queda; desapareceu o esta-
◘ ◘ ◘ do de consciência e sensibilidade capaz de alcançar essa percep-
Procuremos agora analisar o que significa tudo isso, num ção. Permanecemos, dessa forma, imersos em sua sabedoria e
sentido mais profundo, e compreender com mais exatidão o que em Seu poder, mas distante Dele, sem conhecer-lhe.
acontece no fenômeno inspirativo. Como pode ser superada essa distância, para nos reaproxi-
Como pode estar esse pensamento sempre à disposição do marmos de Deus? Subindo o caminho da evolução, que signi-
indivíduo, cada vez que o queira perceber? O fato é que, ao fica regresso ao Sistema. Basta saber subir para a espirituali-
penetrar nele, a mente se enche de uma corrente de ideias inin- dade, que constitui os planos mais altos da vida, para neutrali-
terruptas. No meu caso, não estudo antes o assunto. Tudo nas- zar os efeitos da queda, percorrendo a estrada oposta da volta e
ce ao escrever. Começa-se o livro e as pesquisas no vazio, sem encontrando dessa maneira, de acordo com a estrada percorri-
saber onde se vai acabar. Como pode nascer sem um plano da, a sensação da presença de Deus e a percepção de Seu pen-
guia, estudado com antecedência, um trabalho orgânico coe- samento presente. Pode-se, assim, respirar essa atmosfera divi-
Pietro Ubaldi O SISTEMA 81
na, sentindo-a e com ela se comunicando conscientemente, en- mundo – e transportá-la também para o terreno experimental,
quanto os involuídos estão nela mergulhados sem sequer ima- aplicando e controlando seus princípios como um curso de de-
ginar Sua presença. senvolvimento psíquico e espiritual. O primeiro produto do uso
Eis então como ocorre o fenômeno inspirativo. O pensa- experimental da teoria aqui desenvolvida é este volume.
mento cósmico está presente em toda a parte, qual atmosfera ◘ ◘ ◘
psíquica e universal, sempre pronto a ser atingido todas as ve- Neste livro, oferecemos o fruto do processo analisado, como
zes que um indivíduo tenha alcançado o amadurecimento ne- resultado positivo. O leitor poderá formar um conceito da sua
cessário para isso. Basta conseguir esta condição, pois o livro gênese, da técnica usada e do significado de tudo isso, enqua-
de Deus está sempre pronto para ser lido, e a sua leitura depen- drado na teoria da visão. O trabalho está terminado e, como fato
de apenas das qualidades do leitor. A condição para esse pen- concreto, fala por si mesmo, representando a teoria sustentada,
samento cósmico ser alcançado pelo indivíduo, tornando-o apto trazida até ao campo experimental. A experiência a confirma
à sua percepção, depende apenas da natureza e das condições através do êxito alcançado.
do próprio indivíduo. Este pensamento está sempre presente, Observamos o fenômeno inspirativo no momento de sua
mas só pode comunicar-se com quem possua as qualidades ne- formação e, depois, no seu pleno funcionamento. Observemo-
cessárias, da mesma forma como a luz do dia está presente para lo, agora, em seu momento final, resolutivo, em que se apaga,
todos, mesmo para os cegos, embora estes não a possam perce- para deixar o indivíduo voltar ao seu estado normal, reassumin-
ber, por estarem imensamente longe na sua impotência sensó- do a sua psicologia comum diurna. Vejamos, agora, por meio
ria. O que separa o homem de Deus e Seu pensamento cósmico, do meu caso, as suas sensações.
onde está a solução de todos os problemas, é apenas a insensi- Terminado praticamente o livro, estou a observar o que
bilidade, a impotência perceptiva do cego. Quando o homem aconteceu. Olho para trás. O quadro está completo. Passou di-
evoluir, poderá, apenas pelo fato de ter aguçado com isto a sua ante de minha vista interior como uma visão alucinante, atiran-
mente e despertado o seu espírito, ler no pensamento de Deus a do-me para fora das dimensões de nosso mundo. Foram alguns
solução de todos os problemas. meses de intenso contato com outras formas de vida, em planos
Procuremos esclarecer e explicar mais um pouco, sob outros mais altos. Grande festa do espírito, na qual o corpo se consu-
aspectos, esse fenômeno inspirativo. Quando o ser, com a evo- miu um pouco mais, ardendo!
lução, atinge o plano espiritual no caminho ascensional, ele é Desço agora ao mundo normal, ao mundo de todos, com es-
possuído de uma sensação de expansão. A involução, efeito da forço e sofrimento. O trabalho de registrar toda a visão e, redu-
queda, foi, ao contrário, um processo de contração, do positivo zindo-a, traduzi-la nas palavras humanas, de forma acessível à
ao negativo, de felicidade à dor, da sabedoria à ignorância, da psicologia corrente, está terminando. Olho para trás admirado e
liberdade à escravidão, da vida à morte, do espírito à matéria releio, a fim de compreender, também com o meu cérebro nor-
etc. A evolução representa o processo oposto, de libertação, de mal, o que escrevi com outra mente e assimilá-lo. Releio com a
dilatação desse estado de contração. minha psicologia comum, parando de vez em quando, para me-
De tudo isso se deduz que: ditar, compreender e aprender.
1) O involuído está imerso no Sistema, ou seja, em Deus, na Com isto, um novo degrau foi galgado. Escrever um livro,
atmosfera de Seu pensamento e Sua Lei, tanto quanto estão neste caso, não é obra cerebral literária, mas, para o indivíduo,
imersos os espíritos não caídos. significa realizar mais uma etapa da sua transformação evoluti-
2) O involuído, devido o seu estado de involução, percebe va. O leitor poderá observar nestes livros, além do desenvolvi-
apenas as vibrações de seu plano, muito pouco além destas e mento dos conceitos, também o fenômeno de um progressivo
quase nada do pensamento de Deus, que o circunda de todos amadurecimento, pelo qual o tipo biológico do escritor está mu-
os lados. dando gradualmente. É um trabalho profundo da vida, em que as
3) Quanto mais o ser evolui, tanto mais se torna apto a per- teorias expostas são, ao mesmo tempo, experimentalmente vivi-
ceber tudo isso. As capacidades perceptivas são relativas ao das, o que oferece a maior prova de sua verdade.
grau de evolução e se aguçam e aperfeiçoam com a subida. Trata-se de uma verdadeira metamorfose, semelhante à da
4) Tudo se passa entre os dois casos limites, representados lagarta que se torna borboleta. Mas a lagarta pode proteger-se
pelos dois polos do ser. No negativo, limite extremo da involu- no casulo, onde pode executar em paz o seu completo trabalho
ção, o ser, nada sabendo de Deus, que é feito de qualidades po- de transformação, enquanto, neste caso, o indivíduo deve fa-
sitivas, as combate como negativas, contrárias à vida, quando zer o seu trabalho no meio da tempestade da vida. Imerso nes-
são na verdade a sua própria vida. No polo positivo, limite ex- te seu esforço, necessário para subir a planos mais altos, única
tremo da evolução, tanto o ser que voltou ao Sistema como o forma de encontrar a inspiração, não pode lutar para defender-
ser não-decaído vivem em plena consciência da atmosfera de se. E os lobos estão sempre aí, prontos a empregar a sua gran-
Deus, conhecedores e participantes da plenitude de Sua vida. de sabedoria, que consiste em agredir. É forçoso trabalhar de-
De tudo isso resulta uma importante consequência. Se, com baixo de assaltos, mesmo quando todas as energias nervosas e
a evolução, consegue-se o rompimento da casca que, na contra- as potências intelectuais estão presas no trabalho de inspira-
ção involutiva, aprisionou a primeira centelha de Deus, então ção. É preciso saber executar uma obra de espiritualidade e
essa centelha pode achar as qualidades perdidas, entre as quais pensamento profundo, totalmente absorvido, alma e corpo, en-
a sensibilidade que lhe permitirá perceber o pensamento cósmi- tre feras que nada tem para fazer, habilíssimas e sempre pron-
co, no qual encontrará o conhecimento perdido. tas, o tempo todo, para devorar. Imerso na visão, é mister pos-
Eis como se explica o fenômeno inspirativo, enquadrado no suir a força e, mantendo-se pronto, defender-se de todas as
próprio seio das teorias expostas neste volume. O ser, quando traições e explorações de que é feita a vida. Enquanto a alma,
consegue evoluir, corrige o processo de contração que o muti- presa em suas contemplações, afasta-se da dura realidade, esta
lou, rompe a casca e torna a encontrar o conhecimento, tanto se encontra sempre pronta a feri-la a todo o instante, a fim de
mais quanto mais tiver conseguido subir. Consegue, desse mo- recordar-lhe as suas necessidades improrrogáveis, deixando
do, perceber o pensamento cósmico no qual ele também, como claro que, haja o que houver, a luta pela vida não pode deter-
tudo o mais, está imerso. Atingindo este ponto, é possível se nem um instante sequer.
transportar a teoria da visão ainda além do campo em que a Dizemos isto para fazer compreender que a necessidade de
usamos até agora – da observação inspirativa, ou intuição, alia- se defender de todos os salteadores que povoam o mundo não
da ao controle racional em contato com seus efeitos em nosso cessa de maneira alguma pelo fato de estarmos imersos num
82 O SISTEMA Pietro Ubaldi
trabalho que absorve todas as energias da vida. Ele tem de ser indescritível. O terror pode vir depois, quando o espírito deve
realizado, assim, nas mais duras condições, sem tranquilidade, voltar ao corpo e o encontra esgotado pelo sono perdido em
sempre sob a ameaça do assalto de lobos vorazes. O indivíduo tantas noites, pelo esforço da concentração mental que atraves-
que trabalha por inspiração, portanto, não deve suportar, neste sou e da tensão nervosa necessária para permanecer durante
caso, apenas o desgaste imposto ao sistema nervoso pela ten- meses nesse estado de percepção inspirativa. Acrescente-se a
são em que precisa manter-se, mas deve realizar também o es- isso a necessidade de ter de retomar, subitamente, à luta para
forço de se defender de um mundo feroz, que possui acentua- viver na Terra, defender-se dos assaltos que qualquer pessoa,
das habilidades de gênero bem diferente. Enquanto o espírito nesse ínterim, possa ter preparado, e descongestionar o trabalho
está todo preso no esforço de produzir para o bem dos outros – terreno atrasado e acumulado, a fim de libertar-se da rede das
porque a Lei impõe que, para manter a unidade, não se pode mil coisas inúteis que o mundo sempre inventa, julgando-as
subir senão fazendo outros subirem – mil mãos rapaces e mil importantes, porque não sabe fazer coisa melhor.
bocas vorazes estão sempre prontas para aferrar e devorar tudo Aí, mil inimigos estão sempre à espera. Quando se está em
para si. Esta é a sua febre e por ela destroem tudo, até o fruto estado inspirativo, não se pode pensar em lutar, porque as for-
que lhes é oferecido e o próprio instrumento, necessário para ças e a atenção estão todas presas ao trabalho. Subindo a pla-
produzi-lo. É terrível, enquanto estamos perdidos na contem- nos mais altos de vida, somos obrigados a nos tornar melhores
plação das coisas de Deus, ser sitiado e sufocado pelos adora- e amar o próximo que nos deseja devorar. Não se pode pensar
dores do deus-dinheiro. Então sentimos quão grande é a dis- em luta, porque a luta é toda voltada para a subida a outros
tância de um plano de vida a outro, e que esforço heroico deve planos de existência, contra a animalidade que nos assedia, pa-
ser dependido pelos mais evoluídos para preenchê-la. Pode-se ra transferir o centro vital do seu plano a outros superiores.
compreender, dessa forma, como é horroroso, para um ser es- Não se pode pensar em luta contra os outros, para defender-se,
piritualizado, ter que viver num mundo assim. quando todas as energias estão empenhadas mais no alto e sub-
O trabalho de inspiração deve realizar-se nessas condições, traídas ao corpo físico.
quando o menor abalo nervoso pode trazer consequências fa- A hora mais árdua é a do regresso, no fim da grande embri-
tais. Para conseguir uma tranquilidade relativa, este livro foi es- aguez da captação inspirativa. Enquanto esta dura, viaja-se em
crito à noite, deixando para o dia o trabalho normal de cursos, velocidades supersônicas, projetados para o Sistema, e só per-
conferências, viagens, visitas, correspondência, conversas etc. cebemos a imensa felicidade da expansão e da libertação. Mas,
Esse sistema de trabalhar à noite esgotaria um jovem de 20 terminado o trabalho, quando a última palavra do volume foi
anos, mas é o único que pode ser adotado. O milagre é o orga- escrita, o espírito deve descer novamente ao plano onde deixou
nismo físico, ao menos até agora, ter conseguido resistir. o corpo. Isto significa ter que sofrer as dores da contração invo-
Muitos, em pleno Século XX, ainda acreditam que a santi- lutiva, num desmoronamento de dimensões igual ao da queda,
dade possa ser alcançada apenas pelas formas tradicionais de desmoronamento involutivo, descida na vida para baixo, muito
renúncia e autoperseguição. Esta pode ter sido a forma necessá- baixo, até ao infernal pântano terrestre, povoado de feras. É um
ria e útil em tempos cruéis, ou ainda hoje para algumas pessoas aprisionamento regressivo, involutivo, em todas as pavorosas
que, para subir espiritualmente, precisam começar sufocando o qualidades infernais do Anti-Sistema. Ao recairmos na Terra, o
corpo. Para estes, esta maceração pode parecer uma virtude único prêmio que achamos é a prostração de um organismo al-
maior. Para seres mais evoluídos, o corpo não é mais um inimi- quebrado; é uma luta nova a realizar, para não sermos sobrepu-
go a ser domado, mas um instrumento a ser utilizado pelo espí- jados; é a incompreensão, a rivalidade e a voracidade.
rito. Macerar o corpo significa, então, procurar tirar ao espírito Uma humanidade civilizada deveria ajudar e proteger esses
os meios para trabalhar e realizar-se na Terra. O próprio orga- seres que, sofrendo, executam tão árduo trabalho. Deveria pelo
nismo físico transforma-se então, de inimigo a domar, em ami- menos deixá-los em paz, ao invés de ocupar-se deles apenas
go aliado que colabora com o espírito, e este toma todos os cui- quando há um fruto a ser espremido em favor do próprio ego-
dados necessários para conservar o seu útil instrumento. A vir- ísmo pessoal ou de grupo. Assim, estes seres devem realizar a
tude não consiste em renúncias inúteis para o próximo, que ou- descoberto, no meio da estrada, seu trabalho pacífico para o
trora eram praticadas enquanto se apodrecia no ócio, mas con- bem de todos. Se para eles não existe a ajuda dos homens, exis-
siste no esforço de realizar um trabalho útil para o bem alheio. te, porém, o auxílio de Deus. Se, com tanto esforço, subiram a
Este trabalho nos absorve a todos, de modo a não nos deixar planos superiores, algo se movimentou em cima, outras forças e
tempo para nos dedicarmos aos defeitos que as renúncias com- defesas se puseram em movimento, descendo em forma de di-
batem, caindo eles, dessa maneira, por si só, sem serem refor- vina providência, parecendo um prodígio. Apesar de tudo, tam-
çados pela reação provocada em todo o esmagamento. Hoje são bém são ajudados, pois representam um valor biológico impor-
mais necessárias e apreciadas as virtudes positivas, úteis para o tante o bastante para que, a fim de salvá-los, intervenham as
bem do próximo, em vez das negativas, dirigidas para mutilar a leis da vida. Estas fazem parte da lei de Deus e movem-se para
própria expansão vital. O trabalho de inspiração representa, jus- defender e salvar os inermes que o mundo não compreendeu.
tamente, essa mais alta expansão. Mesmo que ninguém lhes compreenda o valor, não são apenas
O caso do martírio do corpo está implícito e não deve ser artífices de palavras, mas constituem para a vida a germinação
procurado. O esforço a ser suportado é o máximo que se lhe po- do futuro, os tentáculos estendidos em direção aos planos supe-
de pedir. Sofrimentos físicos cilícios, jejuns e privações do ne- riores de evolução, antecipando-a, para depois conquistá-la; re-
cessário, como se usava antigamente, não apresentam mais utili- presentam o dinamismo criador do novo, o motor que dirige o
dade. Deve-se, isto sim, dar ao corpo o que é do corpo e ao espí- comboio na ascensão, enquanto este segue, constituído pelas
rito o que é do espírito, contudo dar ao corpo o indispensável pa- massas inertes e imitadoras.
ra que possa suportar melhor o esforço de um trabalho executa- Nesses trágicos momentos, permanecemos apenas nas mãos
do pelo espírito por seu intermédio. A tensão desse trabalho já é de Deus, que restauram lentamente o sistema nervoso, quase
suplício e renúncia suficiente para o corpo. Não lhe peçamos destruído pela alta tensão. Do mundo nada chega; tudo vem de
mais, a fim de não mortificá-lo no trabalho a ser executado. Deus. Descem do Alto forças boas e poderosas, estreitando o
Esse trabalho emprega toda a personalidade, física, mental e cérebro cansado para reintegrá-lo na plenitude de suas forças, a
espiritualmente, como um ciclone. A vida dos planos inferiores fim de que amanhã possa retomar o seu trabalho de instrumen-
treme aterrorizada. No entanto pode-se dizer que essa hora cri- to, de forma mais amadurecida e mais alta.
adora é uma festa imensa, porque constitui uma expansão vital ◘ ◘ ◘
Pietro Ubaldi O SISTEMA 83
Assim se vai lentamente subindo o caminho do regresso. cias entre estes e as sucessivas posições em que os elementos
Trata-se de um fenômeno de amadurecimento biológico, de em ascensão se vão encontrando, esta onda será constituída por
antecipação evolutiva, de exploração do supranormal, a fim uma oscilação, mudando continuamente de forma ao longo da
de poder definitivamente apoderar-se dele, transformando-o subida. Na luta entre os dois impulsos contrários, o vencedor,
em normal. para quem a vitória está garantida desde o princípio, é o mais
Antes de terminar o estudo que estamos fazendo, observe- poderoso, que provém do centro maior. O triunfo final, portan-
mo-lo sob outros pontos de vista, ligando-o a todo o processo to, cabe ao Sistema. Se não fosse assim, a evolução seria uma
da queda e da subida. Com a desobediência dos elementos re- tentativa inútil e não a estaríamos estudando, porque já teria
beldes, veio a faltar-lhes a força de coesão que, no Sistema, os abortado de há muito. A cada um desses movimentos oscilató-
mantinha unidos. Faltando a coesão, o edifício desmoronou rios, revela-se sempre mais clara a verdadeira natureza e o po-
prontamente, a união pulverizou-se no separatismo e, como se der dos dois centros e seus impulsos.
tivesse adoecido, mudou a natureza dos elementos decaídos. Observemos as formas que a onda irá assumindo, por onde
Chegando ao fundo do caminho da descida, no Anti-Sistema, se vai desenrolando o caminho do ser em sua viagem de re-
tiveram então de aprender, à força, a lei que não quiseram acei- gresso. Devido à estrutura do sistema de forças, mesmo que
tar livremente, por amor, na obediência; tiveram que aprendê-la fossem mínimos os primeiros movimentos ascensionais, é evi-
à própria custa, por meio do longo caminho da evolução, erran- dente que, a cada deslocamento, atingir-se-ia um ponto mais
do e corrigindo o erro com a dor, aprendendo assim, penosa- próximo do Sistema e mais longe do Anti-Sistema. Desse mo-
mente, a não errar mais. do alcança-se um fortalecimento contínuo do impulso de atra-
Atingido o fundo relativo a cada um, como já dissemos, o ção para o Sistema e um enfraquecimento contínuo do oposto.
ser decaído recomeçou a subida. Observemos os seus movi- Há mais, todavia. Se a atração age em razão direta das massas
mentos, que interessam ao caso ora estudado. Para compreen- e em razão inversa do quadrado das distâncias, a sua potência
der melhor os pormenores que nos interessam, imaginemos es- aumentará também pelo fato de, a cada movimento ascensio-
ta viagem de regresso como uma viagem da Lua à Terra. Esta nal, chegar-se mais próximo do Sistema. Esse aumento na po-
representa o Sistema, que, com maior poder de atração, dirige tência de atração se verificará tanto mais rapidamente quanto
e domina a Lua, e esta representa o Anti-Sistema, movendo-se maior for a massa do Sistema relativa à do Anti-Sistema. Te-
no campo gravitacional da Terra ou Sistema. Mas também a remos, dessa maneira, uma aceleração ascensional constante,
Lua tem o seu poder de atração, dirigindo e dominando tudo o devido não apenas à maior massa do Sistema, mas também à
que lhe está próximo e penetra em seu campo. Os campos gra- progressiva aproximação do elemento.
vitacionais da Lua e da Terra podem representar para nós os No momento em que se esgotou o ímpeto da queda, ao atin-
domínios do Anti-Sistema e do Sistema. Assim, o primeiro gir a plenitude de sua realização no fundo do Anti-Sistema, bas-
domina, como centro de atração, os planos inferiores de evolu- tava apenas o poder de atração do Sistema começar a funcionar
ção, que lhe são próximos e gravitam em sua direção, enquanto (e podia fazê-lo, pois representava uma força maior, embora
o Sistema domina, como centro de atração e gravitação, os mais afastada), para que se verificasse o primeiro aceno de um
planos superiores da evolução. movimento ascensional em sua direção e fosse iniciado o mo-
Que acontece, então, nessa viagem de regresso da Lua à vimento ondulatório com as características estudadas, que ten-
Terra ou do Anti-Sistema ao Sistema? O poder da Terra ou Sis- deriam sempre mais a acentuar-se. De fato, a onda ascensional
tema chega até mesmo à superfície da Lua, que representa o tomou assim a forma de oscilação e, cada vez mais, ao longo da
fundo do Anti-Sistema ou plano ínfimo de evolução, o ponto de estrada, desenvolveu sua parte superior e diminuiu sua parte in-
chegada da queda. Nesse ponto, a atração do Sistema para o re- ferior. Essa diminuição inferior exprime o progressivo enfra-
torno a Deus é mínima, enquanto é máximo o poder de atração quecimento do poder de atração do Anti-Sistema (mundo físi-
para o Anti-Sistema, ou seja, é mínimo o impulso evolutivo e co), enquanto o aumento superior representa o progressivo for-
máximo o involutivo. Mas, por menor que seja, o primeiro con- talecimento do poder de atração do Sistema (mundo espiritual).
segue determinar um primeiro movimento ascensional evoluti- Esta é a razão pela qual a evolução significa espiritualização.
vo, que é, todavia, vencido por uma queda involutiva, em vista Devido às forças em jogo, forma-se automaticamente um ti-
da proximidade do Anti-Sistema, pois tudo ocorre no campo de po de onda cuja oscilação constitui uma contínua aceleração as-
seu domínio. Mas a atração do Sistema não se apagou e conti- censional. Na verdade, esgotado todo o ímpeto da queda no fun-
nua a agir tenazmente, de modo que, logo após o impulso nega- do da involução, começou a funcionar então a atração do Siste-
tivo do Anti-Sistema haver vencido, esgotando-se após seu fun- ma, produzindo o primeiro movimento mínimo ascensional.
cionamento, o impulso positivo do Sistema retoma o predomí- Desse modo, a atração do Sistema retomou a supremacia, pro-
nio. No entanto este impulso positivo do Sistema, apesar de ser duzindo um regresso, e assim por diante. Mas cada oscilação de
mais forte, devido à maior massa de onde deriva, torna-se mais subida correspondia a uma potencialização da atração positiva,
fraco na superfície da Lua ou fundo do Anti-Sistema, por causa por causa da aproximação do Sistema, e a um enfraquecimento
da distância, ao passo que, nesse ponto, o impulso negativo do da atração negativa, por causa do afastamento do Anti-Sistema.
Anti-Sistema, por ser mais próximo, é mais forte, apesar da O resultado de cada oscilação é a curva inferior da onda se afas-
massa menor de onde deriva. Por isso os primeiros movimentos tar cada vez mais do Anti-Sistema, e o vértice superior se apro-
evolutivos são fraquíssimos. De início, são possíveis apenas ximar cada vez mais do Sistema. Segue-se que, a cada oscilação,
movimentos ascensionais mínimos no fundo do Anti-Sistema. a subida da evolução ganha em dois sentidos: primeiro porque a
Mas a atração por parte do Sistema jamais cessa de agir; embo- extremidade inferior da onda se apresenta cada vez mais alta e
ra longínqua e fraca, é constante. afastada do Anti-Sistema, e segundo porque a extremidade supe-
Eis os dois diferentes impulsos, opostos, frente a frente, em rior está cada vez mais alta e próxima do Sistema.
luta: um é força de tipo Anti-Sistema (física), outro é força de Ora, a transformação da onda, nesse sentido, tende a acen-
tipo Sistema (espiritual). A evolução transforma uma na outra, tuar-se sempre mais, quanto mais progride em direção ao alto.
entrando cada um em ação logo que o outro se esgote. O cami- Tornando-se cada vez mais poderosa a atração positiva (porque
nho ascensional da evolução assume, desse modo, a forma de a massa do Sistema é maior e a onda se aproxima sempre mais),
uma onda. Podemos assim observar os movimentos que o ser e sempre mais fraca a atração negativa (porque a massa do An-
executa em seu caminho evolutivo de regresso. Devido ao dife- ti-Sistema é menor e a onda se afasta cada vez mais), a onda
rente poder dos dois centros de atração e às diferentes distân- tende a alongar-se sempre mais para cima e a encurtar para bai-
84 O SISTEMA Pietro Ubaldi
xo. Chegará dessa maneira ao ponto em que o seu trajeto ascen- manece segura e cômoda, mas sem sentido nem objetivo. Aos
sional prevalecerá totalmente, reabsorvendo o caminho da des- que ascendem cabe o tormento do esforço e o terror do inexplo-
cida, que será assim completamente eliminado. Então, nos pla- rado, mas também a alegria da criação e a vitória da descoberta.
nos supremos da evolução, a onda desaparecerá numa reta, lan- Aos outros restam as satisfações inferiores e ilusórias, que só
çada como uma flecha em direção ao Sistema. deixam à alma um sentido desolador de vazio.
De tudo isso se compreende que a evolução é tanto mais Preferimos estar doentes com esta atormentadíssima en-
lenta e penosa quanto mais se está em baixo, e tanto mais rápi- fermidade da evolução e seus colapsos dolorosos. Preferimos
da e feliz quanto mais alto se encontra. O homem se acha no pertencer à classe dos que, lutando e sofrendo, melhoram a si
meio do caminho. Se, para ele, a onda pode ser constituída hoje mesmos e constroem um mundo melhor, do que à classe dos
de três medidas para frente e duas para trás, ela poderá, para os que passam por felizes e afortunados, mas, carregados de pe-
seres mais evoluídos ou para o homem de amanhã, ser constitu- sos, poderes e riquezas, perdem tempo e fazem que os outros
ída de quatro medidas para cima e uma para baixo, até que a também percam. Bendigamos, pois, estas crises, porque são
descida esteja relativamente anulada em relação à subida. Hoje, de evolução e crescimento. Se o organismo não atravessasse
poder-se-ia dizer, o homem ainda retrocede dois passos para o esses desmoronamentos de potencial nervoso, como poderia
Anti-Sistema a cada três que ganha em direção ao Sistema. depois retomar o impulso para novas e sempre mais altas as-
Quanto mais se evolui, tanto mais se espiritualiza o ser, tornan- censões? De onde nasceriam e como poderiam nascer, de ou-
do-se mais poderosa a atração para Deus, enquanto tende a de- tro modo, esses períodos tão intensamente construtivos? Essas
saparecer a atração oposta da animalidade inferior. horas de abatimento são o preço com que se paga o próprio
Ao expor tudo isto, buscamos não apenas explicar cada vez progresso. Elas exprimem e provam verdadeiramente, nos fa-
melhor o fenômeno da evolução, mas especialmente fazer tos, a existência do período de descida da onda evolutiva que
compreender o nosso caso, que só pode ser entendido em fun- ilustramos acima. Confirmando o que dissemos no capítulo ci-
ção dela e do que dissemos até aqui. Escrever um destes volu- tado, verificamos que não se trata de casos patológicos, mas
mes representa o período ascensional de uma onda da evolu- de um fenômeno natural, uma oscilação necessária para rea-
ção. Colocados sob o poder da atração do Sistema, sobe-se até ções criadoras sempre mais altas. Só quem oscila poderá tam-
ao vértice máximo suportável, estabelecido por todos os de- bém subir, e não quem permanece estacionário no pântano de
senvolvimentos atingidos nas oscilações precedentes, às quais uma inteligência média, incapaz de ir além das pequenas coi-
se acrescenta um pequeno trecho à frente. Terminado o traba- sas desse mundo. Só quem oscila, precipitando-se na dor para
lho, cessado o esforço, a onda torna a descer involutivamente, reerguer-se na alegria, vai cada vez mais encurtando o período
então o espírito, nesse momento, perde o poder intuitivo e vai de regresso da onda, a favor do período oposto de progresso.
jazer cansado, abatido no vale da onda, em sua veste corpórea. Assim, para este, sempre mais se encurta o retrocesso, en-
Mais exatamente, não é o poder de atração do Sistema que se quanto sempre mais se alonga o avanço, cada vez mais se
exauriu, mas sim o indivíduo que se cansou, porque esgotou a aproximando do ponto em que a onda, à força de subir, terá
energia necessária para manter-se em alta tensão, a fim de po- demolido o período de descida que a levava em direção ao
der corresponder àquela atração. Anti-Sistema e se terá transformado numa reta apontada como
Ocorre então o colapso nervoso, que representa, todavia, um uma flecha, em direção ao Sistema, para precipitar-se nele,
repouso natural e necessário, porque, após isto, o espírito se voltando finalmente para os braços de Deus.
acha pronto para reerguer-se em novo salto ascensional, percor- ◘ ◘ ◘
rendo o trajeto de outra oscilação, para atingir então um vértice Ao tomar este livro entre as mãos, o leitor pode compreen-
mais alto. Enquanto antes, na descida, era o Anti-Sistema que der não só o quanto significa e que festa foi mas também que
procurava reviver, agora é o Sistema que retoma a supremacia, esforço representa ter escrito este volume, sendo o sofrimento
de forma cada vez mais decidida e elevada, para escrever um o único prêmio imediato deste trabalho. O céu não se conquis-
livro ainda mais avançado, com mais profundo amadurecimen- ta gratuitamente, adormecendo na inconsciência. Ele não desce
to do espírito. Assim desenrolam-se sucessivamente os perío- até nós, se antes não tivermos lutado, nós mesmos, com a
dos ascensionais, que atingem uma produção cada vez mais consciência integralmente despertada, para subir até ele; se não
elevada, proporcional ao progresso espiritual, subindo um passo tivermos enfrentado a subida com a coragem que só uma gran-
após o outro os degraus do conhecimento e da evolução. Expe- de paixão pode dar-nos. Por ela somos inteiramente inflama-
rimentalmente, os impulsos do Anti-Sistema são pouco a pouco dos, sem parada nem repouso, para que todo o nosso tempo e
demolidos e reabsorvidos pelos do Sistema. energia sejam consagrados ao trabalho, que não se pode execu-
O produto útil deste esforço ascensional aparece, externa- tar com preguiçosa comodidade, mas apenas quando se arde
mente, nos volumes escritos e permanece depositado, interna- numa chama que queima a vida física, para dar à luz a vida es-
mente, no tesouro dos valores pessoais, onde o indivíduo os piritual. É esta chama que oferecemos neste volume, a fim de
achará sempre, como seu patrimônio inalienável. Mas os colap- que, aonde quer que chegue, ela possa queimar a animalidade
sos da descida, embora sempre menores, não são revelados, e o humana e fazer surgir a espiritualidade.
indivíduo os suporta sozinho. Serão uma doença? A medicina Sinto estar escrevendo as últimas palavras deste livro. As
oficial, desconhecendo esses complexos fenômenos que expli- correntes de pensamento que, durante meses, estrondearam em
camos, considera-o como um estado patológico. Já tocamos nes- minha mente – alimentando este ano os três cursos realizados
te ponto no Cap. XVI, “Reconstrução orgânica do Sistema e de- em São Paulo, Rio de Janeiro e Santos assim como este livro
senvolvimento da consciência”. Trata-se de crises naturais de que aqui se desenvolve – estão apagando o seu ímpeto e acal-
desenvolvimento, a que estão sujeitos os que possuem a chama- mando sua pressão. As ideias que dantes se amontoavam, aca-
da doença da evolução. Distúrbios raros, porque poucos sofrem valando-se como para sair todas juntas da ponta da pena, come-
dessa doença. A maior parte vegeta estacionária em seu nível, çam a rarear, como as nuvens após o furacão. Mas permaneço
onde se acha proporcionada a tudo, não possuindo esses ímpetos ainda atordoado pela visão apocalíptica que atravessei e que me
para o alto, nem se propondo a suportar os respectivos sofrimen- atravessou, fazendo o meu ser vibrar até às mais profundas fi-
tos e perigos. Está constantemente bem plantada em seu plano bras. Não sei, agora, quando entrarei novamente em outra tem-
biológico, sem oscilar, considerando como louco utopista quem pestade de conceitos, para o volume seguinte. Estou tornando a
se arrisca a sair daí. No entanto é por esse meio, custe o que cus- descer e olho para trás. Parece-me que ouço acalmar a tempes-
tar, que se dá a ascensão, enquanto, do outro modo, a vida per- tade, como na Pastoral de Beethoven.
Pietro Ubaldi O SISTEMA 85
Volto-me para trás, a fim de olhar o caminho percorrido. Tu és a aspiração e o anseio supremo do ser que, caído lon-
Este volume, que a massa dos leitores levará, como ocorreu ge de Ti, chora com a nostalgia e, na alegria e na dor, no triunfo
com A Grande Síntese, dezenas de anos para compreender, teve e na derrota, Te invoca, porque Tu és a essência da vida e ne-
de ser escrito em poucos meses, sem nenhum traçado preceden- nhum ser pode existir sem Ti.
te, nem ajuda de pensamento conhecido, resolvendo para a hu- Viver, viver, cada vez mais intensamente e cada vez mais
manidade problemas ainda não resolvidos, e tudo isto se reali- alto, sempre viver. Este é o anseio de todos, e Tu és esse viver.
zou mesmo me encontrando sobrecarregado com o trabalho Tu és a chama de que se alimenta todo o Universo. É chama
normal. Apesar de continuar trabalhando de dia, com cursos, que arde de Amor, do Teu Amor, de que é feito a vida.
conferências etc., vivi durante vários meses em estado de su- Tem piedade desta humanidade que sofre, porque quis fugir
prema sensibilidade, indispensável para a recepção inspirativa. de Ti, e agora carece do Teu Amor. Ajuda-nos, porque sem ele
Estado nervoso delicadíssimo, em que o mínimo choque pode falta-nos a vida. O ódio nos envenena e agora nos ameaça ma-
ser fatal. Durante meses trabalhei de noite, adquirindo uma in- tar. Salva-nos do báratro da destruição em que o egoísmo de
sônia que agora me impede de recuperar as forças. cada um e a luta de todos contra todos estão nos precipitando.
No estado inspirativo, o meu espírito se afastava do corpo, Não merecemos auxílio; mereceríamos dores ainda maiores. A
permanecendo ligado por um sutil e frágil estado vibratório hora é trágica, e Tu empunhas os destinos do mundo. Aceita a
que qualquer choque poderia abalar. O meu centro vital se des- dolorosa oração dos humildes, que se oferecem para que sejam
locava para planos mais altos da vida, sendo que, caso se que- salvos também os rebeldes à Tua lei.
brasse o fio que o mantinha ligado ao plano normal humano, o Faze que esta visão nos ajude a dissipar a nossa arrogância
meu espírito teria permanecido lá em cima e os meus familia- e, iluminando-nos, impulsione-nos pelas vias do bem, para nos-
res, pela manhã, teriam encontrado o meu corpo abandonado, sa salvação. Faze que o nosso mundo se reconstrua cada vez
morto na mesa de trabalho. Perigo tanto maior, porquanto o mais, do caos à ordem, da separação à união, da guerra à paz,
meu espírito não desejava de maneira nenhuma voltar à Terra, do ódio ao Amor.
ao corpo, senão como penoso dever a cumprir. O que mais po- Ajuda e sustém o esforço dos bons, que lutam nesse sentido,
deria proteger e salvar tudo, senão a presença de Deus? O que dos solitários que, neste inferno de perdição, trabalham pela
poderia ajudar a realizar o milagre, senão a sabedoria da lei de salvação.
evolução, que previra esses esforços e preparara os auxílios Faze que para eles seja de conforto esta visão da Tua ordem.
correspondentes, para chegar a bom termo? De fato, jamais se Ela é suprema orquestração de forças, que surpreende a mente;
sente tanto a proximidade e a proteção da divina presença co- é música de dulcíssimas harmonias, que arrebata o coração.
mo nas horas de abandono humano. Conhecer-Te cada vez melhor é o anseio dos bons; conhecer-Te
Ao concluir esta obra, as minhas últimas palavras são para para cada vez mais amar-Te é o seu sonho; amar-Te para sem-
oferecer, antes de tudo ao Brasil, minha nova pátria, e depois ao pre mais intensamente viver, tornando a achar-Te e voltando a
mundo, este fruto do meu esforço para subir e fazer subir, por- Ti, é o irresistível impulso da sua vida.
que devemos subir, e ninguém pode deter a ascensão da vida. Estamos a Teus pés, filhos rebeldes e ingratos, invocando-
Mas, acima de tudo, as minhas palavras são de agradecimen- Te. Tu nos abres os braços e nos chamas, e quantas vezes nos
to a Deus, que me deu a vida para fazer o bem e, neste atual es- voltamos para outros lugares, repelindo-Te!
forço, protegeu-me e ajudou-me, dando-me luz para compreen- Com a Tua sabedoria, ilumina as mentes. Com o Teu poder,
der, paixão para inflamar-me e força para seguir obedecendo. sustém a nossa fraqueza. Com a Tua bondade, amansa a fera
humana. Com o Teu Amor, apaga todos os nossos ódios. Leva-
ORAÇÃO A DEUS nos de novo a Ti, ao Alto de onde caímos, de modo que todas
as criaturas voltem ao seio do seu Criador, unicamente onde é
Adoro-Te, Deus de todas as religiões e de todos os cora- possível encontrar felicidade; voltem ao seio de Deus, centro e
ções, vértice em que se fundem todas as divisões humanas, uni- alma do Todo, alfa e ômega do ser, ponto de partida e de che-
dade absoluta em que se recompõe na ordem a infinita multipli- gada de nosso longo e doloroso caminho, estendido para Ti,
cidade do relativo. Deus, nossa última meta.
Adoro-Te, Deus da sabedoria, poder e bondade, suprema
inspiração da vida, que evolui aspirando a Ti de todos os pontos São Vicente (S. Paulo), Natal de 1956.
do Universo, convergindo para Ti, centro do sistema do todo.
Tu és o Amor e sustentas com o Teu Amor todas as criatu- FIM
ras, guiando-as para Ti no extenuante caminho de regresso.
O MISSIONÁRIO
Vida e Obra de Na primeira semana de setembro de 1931, depois da grande decisão fran-
ciscana, Cristo novamente lhe apareceu e, desta vez, acompanhado de São

Pietro Ubaldi Francisco de Assis. Um à direita e outro à esquerda, fizeram companhia a Pie-
tro Ubaldi durante vinte minutos, em sua caminhada matinal, na estrada de
Colle Umberto. Estava, portanto, confirmada sua posição.
Em 25 de dezembro de 1931, chegou-lhe de improviso a primeira mensa-
(Sinopse) gem, a Mensagem de Natal. Por intuição ele sentiu: estava aí o início de sua
missão. Outras Mensagens surgiram em novas oportunidades. Todas com a
mesma linguagem e conteúdo divino.
O HOMEM No verão de 1932, começou a escrever A Grande Síntese, a qual só termi-
nou em 23 de agosto de 1935, às 23h00min horas (local). Esse livro, com cem
Pietro Ubaldi, filho de Sante Ubaldi e Lavínia Alleori Ubaldi, nasceu em capítulos, escrito em quatro verões sucessivos, foi traduzido para vários idio-
18 de agosto de 1886, às 20:30 horas (local). Ele escolheu os pais e a cidade mas. Somente no Brasil, já alcançou quinze edições. Grandes escritores do
onde iria nascer, Foligno, Província de Perúgia (capital da Úmbria). Foligno fi- mundo inteiro opinaram favoravelmente sobre A Grande Síntese. Ainda outros
ca situada a 18 km de Assis, cidade natal de São Francisco de Assis. Até hoje, compêndios, verdadeiros mananciais de sabedoria cristã, surgiram nos anos se-
as cidades franciscanas guardam o mesmo misticismo legado à Terra pelo guintes, completando os dez volumes escritos na Itália:
grande poverelo de Assis, que viveu para Cristo, renunciando os bens materiais 01) Grandes Mensagens
e os prazeres deste mundo. 02) A Grande Síntese - Síntese e Solução dos Problemas da Ciência e do Espírito
Pietro Ubaldi sentiu desde a sua infância uma poderosa inclinação pelo
03) As Noúres - Técnica e Recepção das Correntes de Pensamento
franciscanismo e pela Boa Nova de Cristo. Não foi compreendido, nem poderia
sê-lo, porque seus pais viviam felizes com a riqueza e com o conforto proporci- 04) Ascese Mística
onado por ela. A Sra. Lavínia era descendente da nobreza italiana, única herdei- 05) História de Um Homem
ra do título e de uma enorme fortuna, inclusive do Palácio Alleori Ubaldi. As- 06) Fragmentos de Pensamento e de Paixão
sim, Pietro Alleori Ubaldi foi educado com os rigores de uma vida palaciana. 07) A Nova Civilização do Terceiro Milênio
Não pode ser fácil a um legítimo franciscano viver num palácio. Naturalmen- 08) Problemas do Futuro
te, ele sentiu-se deslocado naquele ambiente, expatriado de seu mundo espiritual. 09) Ascensões Humanas
A disciplina no palácio, ele aceitou-a facilmente. Todos deveriam seguir a orien- 10) Deus e Universo
tação dos pais e obedecer-lhes em tudo, até na religião. Tinham de ser católicos
Com este último livro, Pietro Ubaldi completou sua visão teológica, além
praticantes dos atos religiosos, realizados na capela da Imaculada Conceição, no
de profundos ensinamentos no campo da ciência e da filosofia. A Grande Sínte-
interior do palácio. Pietro Ubaldi foi sempre obediente aos pais, aos professores, à
se e Deus e Universo formam um tratado teológico completo, que se encontra
família e, em sua vida missionária, a Cristo. Nem todas as obrigações palacianas
ampliado, esclarecido mais pormenorizadamente, em outros volumes escritos
lhe agradavam, mas ele as cumpriu até à sua total libertação. A primeira liberdade
na Itália e no Brasil, a segunda pátria de Ubaldi.
se deu aos cinco anos, quando solicitou de sua mãe que o mandasse à escola, e
O Brasil é a terra escolhida para ser o berço espiritual da nova civiliza-
aquela bondosa senhora atendeu o pedido do filho. A segunda liberdade, verdadei-
ção do Terceiro Milênio. Aqui vivem diferentes povos, irmanados, indepen-
ro desabrochamento espiritual, aconteceu no ginásio, ao ouvir do professor de ci-
dentes de raças ou religiões que professem. Ora, Pietro Ubaldi exerceu um
ência a palavra “evolução”. Outra grande liberdade para o seu espírito foi com a
ministério imparcial e universal, e nenhum país seria tão adaptado à sua mis-
leitura de livros sobre a imortalidade da alma e reencarnação, tornando-se reen-
são quanto a nossa pátria. Por isso o destino quis trazê-lo para cá e aqui com-
carnacionista aos vinte e seis anos. Daí por diante, os dois mundos, material e es-
pletar sua tarefa missionária.
piritual, começaram a fundir-se num só. A vida na Terra não poderia ter outra fi-
Nesta terra do Cruzeiro do Sul, ele esteve em 1951 e realizou dezenas de
nalidade, além daquelas de servir a Cristo e ser útil aos homens.
conferências de Norte a Sul, de Leste a Oeste. Em oito de dezembro do ano se-
Pietro Ubaldi formou-se em Direito (profissão escolhida pelos pais, mas ja-
guinte, desembarcaram, no porto de Santos, Pietro Ubaldi acompanhado da es-
mais exercida por ele) e Música (oferecimento, também, de seus genitores), fez-se
posa, filha e duas netas (Maria Antonieta e Maria Adelaide), atendendo a um
poliglota, autodidata, falando fluentemente inglês, francês, alemão, espanhol, por-
convite de amigos de São Paulo para vir morar neste imenso país. É oportuno
tuguês e conhecendo bem o latim; mergulhou nas diferentes correntes filosóficas e
lembrar que Ubaldi renunciou aos bens materiais, mas não aos deveres para
religiosas, destacando-se como um grande pensador cristão em pleno Século XX.
com a família, que se tornou pobre porque o administrador, primo de sua espo-
Ele era um homem de uma cultura invejável, o que muito lhe facilitou o cumpri-
sa, dilapidou toda a riqueza entregue a ele para gerencia-la.
mento da missão. A sua tese de formatura na Universidade de Roma foi sobre A
Em 1953, Pietro Ubaldi retornou à sua missão apostolar, continuou a re-
Emigração Transatlântica, Especialmente para o Brasil, muito elogiada pela ban-
cepção dos livros e recebeu a última Mensagem, Mensagem da Nova Era, em
ca examinadora e publicada num volume de 266 páginas pela Editora Ermano
São Vicente, no edifício “Iguaçu”, na Av. Manoel de Nóbrega, 686 – apto. 92.
Loescher Cia. Logo após a defesa dessa tese, o Sr. Sante Ubaldi lhe deu como
Dois anos depois, transferiu-se com a família para o Edifício “Nova Era” (coin-
prêmio uma viagem aos Estados Unidos, durante seis meses.
cidência, nada tem haver com a Mensagem escrita no edifício anterior), Praça
Pietro Ubaldi casou-se com vinte e cinco anos, a conselho dos pais, que es-
22 de janeiro, 531 – apto. 90. Em seu quarto, naquele apartamento, ele comple-
colheram para ele uma jovem rica e bonita, possuidora de muitas virtudes e fina
tou a sua missão. Escreveu em São Vicente a segunda parte da Obra, chamada
educação. Como recompensa pela aceitação da escolha, seu pai transferiu para
brasileira, porque escrita no Brasil, composta por:
o casal um patrimônio igual àquele trazido pela Senhora Maria Antonieta Sol-
11) Profecias
fanelli Ubaldi. Este era, agora, o nome da jovem esposa. O casamento não esta-
va nos planos de Ubaldi, somente justificável porque fazia parte de seu destino. 12) Comentários
Ele girava em torno de outros objetivos: o Evangelho e os ideais franciscanos. 13) Problemas Atuais
Mesmo assim, do casal Maria Antonieta e Pietro Ubaldi nasceram três filhos: 14) O Sistema - Gênese e Estrutura do Universo
Vicenzina (desencarnada aos dois anos de idade, em 1919), Franco (morto em 15) A Grande Batalha
1942, na Segunda Guerra Mundial) e Agnese (falecida em S. Paulo - 1975). 16) Evolução e Evangelho
Aos poucos, Pietro Ubaldi foi abandonando a riqueza, deixando-a por con- 17) A Lei de Deus
ta do administrador de confiança da família. Após dezesseis anos de enlace ma- 18) A Técnica Funcional da Lei de Deus
trimonial, em 1927, por ocasião da desencarnação de seu pai, ele fez o voto de
19) Queda e Salvação
pobreza, transferindo à família a parte dos bens que lhe pertencia. Aprovando
aquele gesto de amor ao Evangelho, Cristo lhe apareceu. Isso para ele foi a 20) Princípios de Uma Nova Ética
maior confirmação à atitude tão acertada. Em 1931, com 45 anos, Pietro Ubaldi 21) A Descida dos Ideais
assumiu uma nova postura, estarrecedora para seus familiares: a renúncia fran- 22) Um Destino Seguindo Cristo
ciscana. Daquele ano em diante, iria viver com o suor do seu rosto e renunciava 23) Pensamentos
todo o conforto proporcionado pela família e pela riqueza material existente. 24) Cristo
Fez concurso para professor de inglês, foi aprovado e nomeado para o Liceu São Vicente (SP), célula mater. do Brasil, foi a terceira cidade natal de Pie-
Tomaso Campailla, em Módica, Sicilia – região situada no extremo sul da Itália tro Ubaldi. Aquela cidade praiana tem um longo passado na história de nossa
– onde trabalhou somente um ano letivo. Em 1932 fez outro concurso e foi pátria, desde José de Anchieta e Manoel da Nóbrega até o autor de A Grande
transferido para a Escola Média Estadual Otaviano Nelli, em Gúbio, ao norte da Síntese, que viveu ali o seu último período de vinte anos. Pietro Ubaldi, o Men-
Itália, mais próximo da família. Nessa urbe, também franciscana, ele trabalhou sageiro de Cristo, previu o dia e o ano do término de sua Obra, Natal de 1971,
durante vinte anos e fez dela a sua segunda cidade natal, vivendo num quarto com dezesseis anos de antecedência. Ainda profetizou que sua morte acontece-
humilde de uma casa pequena e pobre (pensão do casal Norina-Alfredo Pagani ria logo depois dessa data. Tudo confirmado. Ele desencarnou no hospital São
– Rua del Flurne, 4), situada na encosta da montanha. José, quarto No 5, às 00h30min horas, em 29 de fevereiro de 1972. Saber quan-
A vida de Pietro teve quatro períodos distintos (v. livro Profecias – “Gêne- do vai morrer e esperar com alegria a chegada da irmã morte, é privilégio de
se da II Obra”): dos 5 aos 25 anos  formação; 25 aos 45 anos  maturação in- poucos... O arauto da nova civilização do espírito foi um homem privilegiado.
terior, espiritual, na dor; dos 45 aos 65 anos  Obra Italiana (produção concep- A leitura das obras de Pietro Ubaldi descortina outros horizontes para uma
tual); dos 65 aos 85 anos  Obra Brasileira (realização concreta da missão). nova concepção de vida.