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Clássicos Históricos 380

Elizabeth Thorton
RESISTA, SE PUDER...
The Bachelor Trap

Inglaterra, 1816

Armadilhas do amor
Brand Hamilton tem motivos que o obrigam a cortejar Marion Dane, embora ele
esteja disposto a tudo para fugir do caminho do altar! Com seu título de
nobreza e estirpe impecável, Marion não pode deixar de questionar os motivos
de Brand. No entanto tem seus próprios problemas para resolver: um inimigo
oculto fecha o cerco cada vez mais, e Brand é a única pessoa que pode ajudá-
la. Nenhum dos dois contava, porém, com a paixão incontrolável que os pega
desprevenidos. O romance pouco convencional vivido por Brand e Marion logo
se torna alvo da maledicência da sociedade, e eles embarcam numa viagem que
os leva do glamour e das intrigas de Londres a um segredo oculto por décadas
num distante vilarejo da Inglaterra...

Título Original: The Bachelor Trap


Digitalização e Revisão: Marina
Formatação: Morgana
CH 380 - Elizabeth Thorton – RESISTA, SE PUDER... - The Bachelor Trap

Prólogo

Longbury, Outubro de 1815

Tão logo entrou pela porta dos fundos de seu chalé, Edwina Gunn
correu a trancá-la com a chave e também com a barra de ferro que a
atravessava de batente a batente. Melhor não arriscar. Andara fazendo
muitas perguntas, metera seu nariz onde não era chamada. Podia ter
despertado alguma fera adormecida.
— Trate de se acalmar, Edwina — repreendeu-se, sentindo o
coração aos pulos.
— Você está com sessenta anos de idade, desse jeito vai acabar
tendo uma apoplexia! Ninguém iria considerá-la uma ameaça, você não
tem como provar nada. Após tanto tempo, ele deve se imaginar fora de
perigo.
Com o coração mais calmo, esgueirou-se até a janela para espiar lá
fora. O chalé fazia limite com uma enorme propriedade rural conhecida na
região como Mosteiro, e tudo o que ela viu para além da área externa da
casa e seus canteiros de flores foi a infinidade de teixos, carvalhos e
espinheiros com a folhagem poupada pelo inverno agora encharcada pelo
repentino pé-d'água.
Como também estivesse toda molhada, Edwina tirou o casaco e o
pendurou no cabide atrás da porta. A Sra. Ludlow, que a ajudava com as
tarefas do dia-a-dia, havia acendido a lareira antes de ir para casa, onde
ainda tinha o jantar da família por preparar. Com aquela trave de ferro na
porta dos fundos, a boa senhora teria que entrar no chalé na manhã
seguinte pela porta da frente, mas isso não seria problema: era só ela
usar a chave de reserva que ficava sob o capacho.

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Edwina teve um sobressalto. Oh, Deus!, estava sozinha ali, seu


vizinho mais próximo era o pessoal do Mosteiro... Pensar nisso a fez
lembrar de verificar se a porta da frente e as janelas estavam fechadas.
No campo as pessoas tinham por hábito manter portas e janelas de suas
moradias abertas o dia inteiro, mas esse era um costume do qual ela
precisava se livrar. De agora em diante, trancas e chaves de dia e de
noite.
Velhota tola, ralhou consigo mesma. Por certo tinha fugido de
algum cão vadio ou de um dos vigias do Mosteiro.
Um pouco mais segura ante essa hipótese, pôs-se a subir a escada
que levava ao segundo piso do chalé. Como os degraus fossem altos, e
ela precisasse do apoio do corrimão, cogitou mudar seu dormitório para o
quarto da criada adjacente à cozinha, que estava vazio. O aposento era
pequeno, mas seria uma boa maneira de evitar aquela escada que parecia
não ter fim. Ah, a idade...
Já no seu quarto, embrulhou-se num roupão quente; calçou os
chinelos de lã e foi atiçar o fogo na lareira. E enquanto observava as
chamas a lamberem as pequenas achas de lenha, perdeu-se em
divagações. Pensava em Hannah, que em suas recordações permaneceria
jovem para sempre, que amava a vida e a vivia sem temores, que
causara tanta tristeza... Vinte anos atrás Hannah havia deixado aquela
mesma casa jurando jamais regressar e nunca mais fora vista.
Onde andará você, Hannah? O que houve naquela noite?
Se fosse mais jovem e desfrutasse de melhores condições físicas,
Edwina teria se abalado até Londres para conversar com Brand.
Considerava-o como filho, e o que tinha a lhe contar precisava ser dito
pessoalmente. Mas como a saúde não lhe permitia extravagâncias, duas
semanas atrás ela havia enviado uma carta ao escritório de Brand na

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Frith Street relatando o que havia descoberto. Ainda não recebera


resposta, porém isso não a preocupava. Brand era um homem bastante
ocupado e costumava viajar muito; a qualquer momento a mensagem
acabaria chegando às mãos dele.
Havia também uma outra carta que ela começara inúmeras vezes e
nunca chegara a terminar. Uma carta para a pessoa que talvez pudesse
solucionar o mistério que envolvia o sumiço de Hannah definitivamente:
sua sobrinha Marion.
Animada pela idéia, Edwina foi se sentar à escrivaninha e sobre o
tampo reuniu os artigos de que precisava. Porém lhe bastou mergulhar a
pena no tinteiro para hesitar. Não era fácil escrever uma carta como
aquela.
Fazia quase vinte anos que não via Marion. A correspondência que
ambas trocavam era esporádica, sobretudo por causa da briga que ela e a
irmã, Diana, mãe de Marion, haviam tido. Infelizmente tinham sido a
morte de Diana, ocorrida três anos atrás em decorrência de um tumor, e
o falecimento do pai de Marion logo a seguir que fizeram com que ela e a
sobrinha se aproximassem novamente.
Edwina tentou engolir o nó que lhe subira à garganta.
Simplesmente não sabia como começar. Afinal as duas não conheciam
uma a outra tão bem assim, e se ela principiasse aquela carta com
acusações descabidas, sua sobrinha iria imaginá-la uma velha demente. E
se iniciasse convidando Marion para vir visitá-la em Longbury? Não.
Marion não só morava a três dias de viagem dali, como também tinha de
cuidar das duas irmãs mais novas. Além do quê, a idéia de trazer sua
sobrinha a um lugar repleto de perigos não lhe agradava. Ah, se ao
menos Brand estivesse ali!... Certamente ele saberia como aconselhá-la.
Pensando bem, que risco haveria em se corresponder com sua

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sobrinha para que trocassem reminiscências a respeito da única vez em


que Marion tinha ido visitá-la?
Marion por certo sabia o que havia ocorrido naquela noite, afinal de
contas estivera lá. Alguém a tinha visto. Talvez as lembranças daquela
ocasião estivessem bloqueadas em algum lugar da mente dela. Talvez
algumas sugestões tivessem como libertá-las...
Tal possibilidade a entusiasmou, e Edwina pôs-se a escrever.
Não demorou muito, ouviu uma tábua do assoalho estalar e, com a
boca subitamente seca, largou a pena e se levantou. Ao ouvir o piso
ranger outra vez, foi até a lareira e apanhou o atiçador de ferro do
pedestal. Já no corredor, deteve-se para olhar ao redor. Tudo o que ouvia
era seu coração apavorado pulsando de encontro às costelas. Nada
parecia fora do lugar. Nenhuma sombra se movia.
Pé ante pé, Edwina foi até o alto da escada e espiou lá embaixo.
Nada. Baixando o atiçador, virou-se em direção a seu quarto e viu o rosto
da pessoa prestes a atacá-la antes de receber o primeiro golpe.
Não pode ser!..., foi seu último e aterrorizado pensamento, então a
escuridão a engoliu.

Na manhã seguinte a sra. Ludlow chegou no horário de costume e,


ao encontrar a entrada dos fundos trancada por dentro, entrou no chalé
pela porta da frente com a chave que ficava sob o capacho. Trazia um
grande pedaço de carneiro que apanhara no açougue, carne suficiente
para uma boa sopa e um ensopado suculento e também para levar as
sobras para sua família. A srta. Gunn era muito generosa, na casa dela
sempre havia o que levar para os seus.
Após tirar o casaco e colocar o avental, a sra. Ludlow deu início aos
seus afazeres. Minutos depois, a chaleira com água para o chá matinal da

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srta. Gunn começou a apitar. Quando estava tudo pronto, a criada


arrumou a bandeja a fim de levá-la para a sala de estar, mas nem
conseguiu chegar até lá. No meio do caminho deparou com a patroa caída
ao pé da escada, os olhos esbugalhados a mirar o teto.
Isso tudo ocorreu uma hora antes de o chefe de polícia chegar ao
chalé. Examinando a cena do acidente, o policial não teve dúvidas de que
a pobre senhora tinha caído da escada. Um detalhe, porém, o intrigava:
embora houvesse manchas de tinta nos dedos da falecida, não foi
possível encontrar nenhuma carta ou algum objeto que justificasse tais
marcas. Apesar disso, o policial decidiu ignorar o por menor que, segundo
sua avaliação, nada acrescentava ao caso. Uma queda fatal era uma
queda fatal.

Capítulo I

Londres, Maio de 1816


Poderia ter sido um mero detalhe do acaso, ou pelo menos era
assim que parecera na ocasião, no entanto anos mais tarde Brand viria a
declarar que, daquele momento em diante, sua vida mudara da água para
o vinho. O evento em questão era a noite em que lady Marion Dane
machucara os dedos do pé.
Ela e as irmãs eram suas convidadas e faziam parte do grupo
reunido em seu camarote no teatro. Embora fizesse pouco tempo que se
conheciam, cerca de um mês, Brand já sabia a respeito de Marion bem
mais do que ela podia imaginar. Ele e a falecida tia dela, Edwina Gunn,
tinham sido muito amigos e, de tempos em tempos, a pobre senhora
mencionara a família da irmã que morava perto de Keswick, em Lake
District. Mas quase tudo o que viera a descobrir sobre lady Marion fora

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obtido a partir das informações que cuidara de recolher pessoalmente nas


últimas semanas.
Mesmo sendo filha de um conde, Marion nunca fora apresentada à
sociedade de Londres nem apreciava a sucessão de festas e passeios que
as jovens de sua posição social faziam questão de não perder. E se o
conde não tivesse morrido era provável que ela ainda se encontrasse em
Lake District, ou seja, fora da rota do perigo, de modo que não haveria a
necessidade de Brand mantê-la sob suas vistas. Mas ainda que ele tivesse
bons conhecimentos acerca da vida de Marion Dane, faltavam-lhe dados
para compreender a essência da jovem dama, uma pessoa extremamente
discreta e reservada, que quase nunca demonstrava seus sentimentos.

Entretanto ali no teatro as coisas eram diferentes. A iluminação


tíbia por certo a fazia imaginar-se a salvo de olhares curiosos, de forma
que Marion deixava transparecer no rosto todas as emoções que a peça
Muito Barulho por Nada lhe suscitava. De sua parte, Brand mostrava-se
bem mais interessado em observar as transformações no rosto dela do
que na representação encenada no palco.
Ao final do espetáculo, quando os aplausos já haviam cessado e a
audiência preparava-se para deixar seus lugares, lady Marion continuava
em sua poltrona como se odiando a idéia de ter de ir embora enquanto a
irmã dela, lady Emily, uma coquete de dezoito anos de idade, batia as
pestanas para o jovem Henry Cavendish, e Ash Denison, grande amigo de
Brand, cobria a mão com a boca no intuito de disfarçar um bocejo. E
como as convenções sociais preconizavam que um evento como aquele
não seria completo sem a presença de uma ou duas damas de
companhia, lá estavam também a condessa viúva avó de Ash e sua
amiga, lady Bethune. A noite não acabava ali: Brand havia combinado

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uma ceia tardia no Clarendon Hotel, onde a prima de Marion, Fariny, e


seu marido, Reggie Wright, ficaram de encontrá-los.
Todos teciam elogios efusivos à apresentação, mas era a opinião de
Marion que ele queria ouvir. Assim, assistiu-a a levantar-se e ficou
olhando para ela como forma de incentivá-la a dizer alguma coisa.
— Obrigada por nos convidar, Sr. Hamilton. — Marion atendia ao
apelo num tom que Brand julgou irritante de tão formal. Ela estava
extremamente elegante e graciosa num vestido de seda lilás, os cabelos
loiros presos na parte posterior da cabeça, nos lábios um sorriso contido
que combinava com o olhar um pouco arredio. — No futuro, quando
pensar neste espetáculo, irei lembrar da atriz que interpretou Beatrice.
Ela tem um talento notável para a representação.
Algum demônio o impeliu a dizer:
— No futuro, quando você pensar neste espetáculo, espero que se
lembre de mim.
Brand ficou imensamente satisfeito com o desconforto que viu
lampejar nos olhos cinzentos. Desde que tinham se conhecido, ela o
tratava com o respeito que alguém devia reservar a um octogenário. Não
que fosse vaidoso, mas era um homem, não um velhinho decrépito.
Recomposta, Marion esboçou um sorriso e, cruzando seu braço ao
de Emily, conduziu a irmã porta afora. Além de Emily, que possuía
enormes olhos castanhos e um sorriso largo demais para uma jovem de
sua idade, havia a irmã caçula de dez anos, Phoebe, de quem Brand
gostava imensamente. Apesar do pequeno defeito na perna, a menina
não se deixava abater... e nunca negava informações sobre as idas e
vindas de Marion.
— Ela é cuidadosa como poucas, não? — comentou à meia-voz Ash
Denison, amigo de Brand desde os tempos de colégio em Eton. — Só lhe

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falta uma daquelas toucas rendadas e, pronto!, todos os homens


saberiam que se trata de uma bruxa ranzinza de quem o melhor é manter
distância.
Imaginar Marion com uma touca de renda como as que as viúvas
usavam azedou o humor de Brand, embora não fosse absurdo supor que
pudesse chegar o dia em que ela viesse a se tornar uma nobre senhora...
solteira. Parecia que, aos vinte e sete anos de idade, lady Marion havia se
resignado a permanecer solteira. Melhor dizendo: parecia que abraçara a
solteirice como meta de vida. Era como se dos homens só lhe
interessasse uma amizade platônica.
— Cuidado, Brand — Ash alertou-o. — Você está sorrindo de novo.
Se não abrir os olhos, vai acabar fazendo disso um hábito.
Brand torceu o nariz ao modo como o amigo examinava-o através
da lente do pincenê. Quem visse Ash não diria que ele passara boa parte
da vida adulta lutando na Campanha Espanhola. Agora que a guerra tinha
acabado, Ash dedicava seu tempo a divertir-se em quaisquer cir-
cunstâncias e, além de um dândi, tornara-se também o queridinho da
sociedade.
Ao contrário dele, Brand não tinha nem propensão nem paciência
para fazer de si um inveterado freqüentador dos círculos sociais. A
sociedade era frívola, caprichosa, e ele, filho ilegítimo de um duque,
tivera de enfrentar sua cota de preconceitos quando mais jovem. Isso,
porém, fora antes de ter adquirido uma cadeia de jornais que se
espalhavam de Londres a todas as cidades mais importantes do sul da
Inglaterra. Agora que tinha o poder de esmagar ricos e poderosos com
um movimento de sua pena, era um homem respeitado, de quem todos
buscavam aproximar-se.
Fosse como fosse, o fato era que dera provas de ser um indivíduo

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digno, correto, capaz. Que nunca se esquecia de um amigo ou de quem


lhe estendera a mão quando ele não tinha nada a oferecer em troca.
Edwina Gunn fora uma dessas pessoas, e era por conta da dívida de
gratidão que tinha para com Edwina que Brand acolhera Marion e as
irmãs dela sob sua proteção.
Percebendo que Ash esperava uma resposta, ele afirmou:
— Uma bela mulher sempre me faz sorrir.
— Presumo que esteja se referindo a lady Marion, visto que não
tirou os olhos dela a noite inteira.
Brand tornou a sorrir, e os dois se puseram no encalço do restante
do grupo que os acompanhava, que já se encontrava sob as arandelas no
alto da escadaria.
— Sabe, meu bom amigo, é como diz o velho provérbio — observou
Ash.
— Que provérbio?
— "Aquele que diz que um homem..."
A frase ficou pairando no ar. Uma mulher gritou, e o grito foi
seguido por exclamações generalizadas. Brand disparou pelo corredor e,
empurrando as pessoas que via pela frente, lançou-se pelos degraus de
mármore até encontrar Marion ao pé da escadaria, sentada no chão, a
testa apoiada nos joelhos. Junto dela, Emily tinha o olhar atônito.
— Afastem-se! — ele ordenou aos curiosos, depois se ajoelhou
diante dela para lhe tocar o ombro com dedos trêmulos. — Marion? O que
foi que houve? O que aconteceu? Diga alguma coisa!
Ela ergueu a cabeça e o fitou com lágrimas de dor nos olhos.
— Machuquei os dedos do pé — afirmou num sussurro.
— Não foi nada.
E então desmaiou.

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Esforçando-se para afastar a sensação nebulosa que a envolvia,


Marion declarou num tom queixoso:
— Alguém me deu uma cotovelada nas costas.
— Mas quem iria querer lhe fazer mal? — indagou uma voz
masculina.
— David.
Foi só ela proferir aquele nome e sua mente clareou. Após piscar
repetidas vezes, Marion focalizou o rosto aflito de Emily bem à sua frente,
em seguida registrou a presença de Brand Hamilton ao lado de sua irmã,
por fim se deu conta de que tinha os dedos do pé latejando. Ajeitando-se
melhor sobre o assento, reparou que estavam os três na carruagem de
Hamilton e que o veículo dobrava a esquina rumo à Hanover Square,
onde ficava a residência da prima Fanny.
— Você está nos levando para casa? Hamilton fez que sim,
esclarecendo:
— Além da queda que sofreu, você bateu a cabeça na parede.
Assim que chegarmos, mandarei chamar o médico. Já pedi que fossem
avisar seus primos no Clarendon.
— Não precisava. Foi só um mau-jeito nos dedos do pé.
— Você disse que David a empurrou.
— Eu disse isso? — Surpresa com a rapidez de seu raciocínio, ela
indagou: — Quem é David?
Hamilton olhou para Emily, que se manteve calada ao ver Marion
mover a cabeça como a dizer que não. O assunto David foi posto de lado,
mas Hamilton não parecia satisfeito com as explicações.
— Você conseguiu ver a pessoa que a empurrou?
— Não, tudo aconteceu depressa demais. E não me empurraram,
eu levei uma cotovelada. — A dor no pé impediu-a de esboçar um sorriso.

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— O problema de Londres é exatamente esse: todos estão sempre com


pressa. E um perigo. Vivo desviando das pessoas que trombam com a
gente nas ruas ou das carruagens em disparada. Tudo parece ser uma
questão de vida ou morte. No teatro não é diferente.
E saiba que as pessoas idosas são as piores. A avó de lorde
Denison usa a bengala como se estivesse tangendo gado.
A tentativa de fazer graça não surtiu o efeito desejado. Embora sua
irmã desse uma risadinha, o sr. Hamilton permanecia com o rosto rígido
como uma estátua.
— Você está enganada — disse Emily. — Não que eu esteja
afirmando que tenha sido de propósito, mas parecia que alguém tivesse
se arremessado contra você. Nós estávamos de braços dados, Marion, foi
como se arrancassem seu braço do meu. Ainda bem que havia um
homem bastante forte na sua frente. De certo modo ele impediu que a
queda fosse ainda pior.
— Não me lembro. — Cansada demais para pensar no incidente,
tudo o que Marion queria era chegar à casa da prima para que a
governanta de Fanny lhe desse um de seus remedinhos.
— Nunca pensei que uma topada pudesse doer tanto.
— Dê graças aos céus por não ter quebrado o pescoço — ressaltou
o sr. Hamilton.
— Como a pobre tia Edwina... — Emily acrescentou.
— Oh, desculpem-me. Foi um comentário infeliz.
No silêncio que sucedeu aquelas palavras, Marion fez força para
não demonstrar o quanto o comentário da irmã a abalara. A culpa era
uma sombra constante a acompanhá-la. Fora tão pequeno o contato que
tivera com a tia que havia deixado tudo para ela... O chalé em Longbury,
os bens pessoais, o dinheiro poupado com sacrifício. E tudo o que ela

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fizera pela tia tinha sido escrever-lhe umas poucas cartas. Se não fosse
pela briga entre Edwina e a mãe de Marion, que eram irmãs, talvez as
coisas tivessem sido diferentes. O rompimento entre ambas havia se dado
quando Edwina e a irmã caçula das três, Hannah, tinham ido passar um
feriado com Diana em Lake District.
Sem o legado de tia Edwina, Marion e as irmãs estariam em maus
lençóis. Com a morte do pai delas, o título e os bens do espólio tinham
passado para o primo Morley, o que as obrigou a ir viver na moradia que
lhes restara como dote. No entanto não demorou muito a que o primo
Morley se apoderasse daquela casa também, alegando que precisava da
habitação para a sogra. Elas ainda tinham uma pequena anuidade
referente aos bens do pai, assinalara o primo. Aquilo lhes bastaria.
Marion deixou escapar um suspiro tristonho. Não era justo que o
trágico infortúnio de tia Edwina viesse a ser a salvação de sua pequena
família.
— Quer dizer então que vocês partirão para começar vida nova em
Longbury ao fim da temporada em Londres? — indagou o sr. Hamilton,
como se pressentisse o que ela pensava.
— E o que planejamos — Marion confirmou.
— O que há de errado com a vida velha? Antes que Emily abrisse a
boca, ela respondeu:
— Aquela vida terminou com a morte de nosso pai. O primo Morley
e a esposa dele nos tomaram nossa casa, então tudo ficou um tanto...
atrapalhado.
— Mas mudar para o campo irá afastá-las de suas amizades — ele
ressaltou. — Você poderia vender o chalé de Edwina e instàlar-se, junto
de suas irmãs, num daqueles belos vilarejos nas proximidades de
Keswick. Desse modo evitaria o primo Morley e estaria perto de seus

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amigos.
— Longbury também tem seus encantos — retrucou Marion. — Não
será difícil fazer novas amizades por lá.
— Ainda se lembra de Longbury? Dos bosques, das colinas?
— Claro que sim... Meio vagamente, é verdade. Como já lhe contei,
eu era criança quando fui a Longbury na companhia de minha mãe. —
Marion supunha que aquela visita tivesse sido uma tentativa de
reconciliação entre Edwina e a mãe dela, Diana. Uma tentativa que
resultará em retumbante fracasso.
— Mas pensaremos na sua sugestão se percebermos que não
estamos gostando de lá ou se começarmos a sentir saudade de Lake
District.
— Marion, não! — protestou Emily. — Keswick é longe demais,
Longbury fica mais perto de Londres. E quanto à prima Fanny?
Prometemos a ela que passaríamos o Natal aqui.
Marion dirigiu um sorriso afetuoso à irmã. Era natural que uma
jovem de dezoito anos se deixasse seduzir pelo glamour da vida numa
cidade em que sempre havia uma festa ou um baile aonde ir, sobretudo
quando houvera tão pouco que comemorar nos últimos anos. A impressão
que tinha era que ela e as irmãs mal acabavam de tirar os trajes de luto e
já estavam novamente a vesti-los. Por isso o convite da prima Fanny para
passarem a temporada em Londres antes de irem para Longbury tinha
sido irrecusável. Suas irmãs mereciam um pouco de alegria e distração.
Obrigando-se a ignorar a dor latejante nos dedos do pé, Marion
retomou a conversa:
— A prima Fanny é a única parenta que nos restou,
Sr. Hamilton, e família é algo que prezamos muito. Queremos estar
próximas dela. Lake District fica tão longe que só vimos Fanny uma única

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vez nos últimos dez anos.


Brand inclinou a cabeça para indicar ter compreendido o ponto de
vista dela, e esperou alguns instantes antes de comentar:
— Lembro de Edwina ter dito quase o mesmo. Que vocês eram as
únicas parentas dela, porém a viagem era árdua demais para uma
senhora de idade.
Com a sensação de ter ouvido uma nota de repreensão na voz
dele, Marion concluiu que às vezes não sabia o que fazer com aquele
homem. Brand Hamilton aparecera na casa da prima Fanny no dia
seguinte à chegada dela e suas irmãs a Londres. Bons amigos, ele e
Reggie, marido de Fanny, freqüentavam os mesmos clubes e tinham in-
teresse na política.
Reggie era membro do Parlamento, eleito pelo distrito norte de
Londres, e tentava persuadir o sr. Hamilton a lançar-se candidato na
próxima eleição suplementar. Segundo ele, tratava-se de um homem com
origens humildes que, aos trinta e três anos de idade, tornara-se dono de
uma cadeia de jornais que se espalhava por boa parte do sul inglês. Mais
explícita, Fanny dizia que o sr. Hamilton era filho de um duque porém fora
concebido do lado errado da cama. Tanto ela quanto Reggie concordavam
em que, com sua ambição e seu prestígio, Brand Hamilton faria uma
brilhante carreira na vida pública.
Ainda assim, parecia haver algo além da mera cortesia nas visitas
que o importante jornalista lhes fazia. Hamilton afirmara que vinha vê-las
porque havia morado em Longbury e lá conhecera a tia delas, e como
nunca se referisse à velha senhora como srta. Gunn, mas sim por Edwina,
Marion logo deduziu que ele devia tê-la conhecido bastante bem. Outro
detalhe que não lhe passava despercebido era o fato de que, por ser jor-
nalista, ele devia ser naturalmente curioso por conta da profissão. E isso a

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deixava de sobreaviso.
Assim que a carruagem deteve-se diante da casa, Hamilton saltou
para a calçada e estendeu os braços para ela, dizendo:
— Venha, vou levá-la para dentro.
Imaginar-se nos braços dele a fez encolher-se. Não porque fosse
uma puritana, pelo contrário: porque era independente até demais e
perfeitamente capaz de cuidar de si.
— Marion — ele insistiu. — Você está descalça. Tive de lhe tirar os
sapatos para ver o machucado nos seus dedos.
— Estão comigo. — Emily mostrou o par.
Dando-se por vencida, Marion esboçou um sorriso tímido antes que
ele a tomasse nos braços e sua irmã fosse tocar a sineta para avisar que
haviam chegado.
Aninhada de encontro ao peito largo, aproveitou que ele tinha os
olhos fixos na porta para lhe estudar o rosto. Ainda que belas, aquelas
feições não podiam ser consideradas de uma perfeição clássica. E os
grandes olhos azuis eram intensos demais para que uma mulher se
sentisse à vontade sob seu escrutínio. Os espessos cabelos castanhos
alcançavam o colarinho, e a leve cicatriz que cingia uma das sobrancelhas
conferia um quê de ousadia ao conjunto de traços bastante expressivos.
O discreto sinal deixou-a como que encantada. Ouvira dizer que
Hamilton conseguira aquela cicatriz ao bater-se em duelo com um célebre
espadachim francês, do mesmo modo como sabia ser ele um sagaz
homem de negócios, respeitado e admirado. Por que alguém da posição
dele arriscaria tudo e mais a própria vida num duelo?
— Espero que esteja gostando do que vê.
Ao som da voz dele Marion desviou o olhar da cicatriz, porém não
se esquivou de assinalar:

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— Foi sorte você não ter perdido o olho.


— E verdade. — Dentes muito brancos reluziram à luz do lampião.
— Só que não era nisso que você estava pensando.
O mordomo abriu a porta da rua, o que a salvou da vergonha de
mostrar-se sem fala.
Brand Hamilton tomava coisas demais a seu encargo, pensou
Marion ao calcular a distância entre a cama e a cômoda. Sobre o móvel
achava-se a pochette que usara para ir ao teatro e da qual não
conseguira tirar os olhos nem mesmo enquanto o médico lhe examinava o
pé. O acidente na escadaria do King's Theatre deixara de lhe parecer um
caso fortuito, e agora ela se perguntava por que não suspeitara disso
antes.
Se tivesse tomado um dos remedinhos da Sra. Dyce, teria como
cruzar o quarto até a bolsa. Mas o sr. Hamilton havia pronunciado a
terrível expressão "bateu a cabeça", e isso fora o suficiente para que o Dr.
Mendes declarasse que não se devia misturar pancadas na cabeça com
analgésicos à base de láudano.
Ao menos a prima Fanny lhe arrumara uma bengala, que agora se
encontrava ao lado da cama. E ela precisava ir até aquela cômoda
enquanto todos se encontravam lá embaixo, fazendo um lanche na sala
de estar, já que a confraternização que se daria no Clarendon havia se
transferido para a Hanover Square.
Tivera tempo de sobra para pensar na queda na escadaria do
teatro e para rever mentalmente a cena antes que despencasse pelos
degraus. Agora tinha certeza absoluta de que fora empurrada.
Deliberadamente empurrada. E esse não era o primeiro percalço de que
se via vítima. Menos de uma semana atrás, quando assistia à queima de
fogos em Vauxhall Gardens, alguém surgira do meio dos arbustos para

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derrubá-la ao chão e fugir com sua bolsa. A bolsa fora devolvida no dia
seguinte, intacta. O cavalheiro que viera trazê-la não havia deixado seu
nome.
Exatamente como acabava de acontecer.
Não imaginava que alguém estivesse tentando matá-la, pois nesse
caso os incidentes teriam sido muito mais graves e de efeitos
imprevisíveis. Mas alguém tentava apavorá-la, isso era evidente. Se
conseguisse chegar até aquela pochette, teria como saber se estava certa
por pensar assim ou se tudo não passava de mera imaginação...
Trincando os dentes, afastou as cobertas e lançou as pernas para fora da
cama. O movimento a fez pensar nas demais conseqüências do tombo:
joelhos esfolados, nós nos músculos do quadril, uma palpitação no fundo
dos olhos. Mal ela havia esticado o braço em direção à bengala, a porta
do quarto abriu-se devagarzinho. Da soleira, Phoebe declarou num tom
consternado:
— Eu soube que você caiu na escadaria do teatro.
— Machuquei um pouco os dedos do pé. Não foi nada grave.
Três anos antes, aos sete anos de idade, Phoebe quebrara a perna
numa queda de um cavalo. O osso não havia cicatrizado na posição
correta, e por conta disso a menina mancava bastante ao andar. E como
Phoebe odiasse ser tratada como uma inválida, Marion tomava o cuidado
de não fazer o problema maior do que já era e nunca comentava a falta
de cor e a magreza da irmãzinha.
Era tarde. Mas apesar de saber que devia mandar Phoebe de volta
ao quarto dela com uma leve reprimenda, Marion bateu a palma da mão
no colchão, convidando a irmã para sentar-se a seu lado.
Phoebe escolheu acomodar-se sob as cobertas e não perdeu tempo
em fazê-lo. Marion então admirou o rosto que era quase uma cópia do

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seu aos dez anos de idade: os olhos acinzentados, o queixo empinado, a


pele clarinha, mais clara ainda que os ondulados cabelos loiros. Ambas se
pareciam com a mãe, enquanto Emily herdara os cabelos e os olhos
castanhos do pai. A diferença entre Phoebe e ela era que a menina não
tinha um punhado de sardas sobre o nariz e as bochechas.
Talvez porque Phoebe quase nunca tomasse sol.
— Você devia estar mais quentinha — ela observou ao abraçar a
irmãzinha junto de si.
— Ah, já sei o que houve: você não saiu da cama para vir para cá,
não é? Estava no balaústre da escada, ouvindo a conversa do pessoal lá
embaixo.
Uma das distrações prediletas da menina era esconder-se atrás do
gradil do corredor para espreitar a movimentação das visitas de Fanny.
— Eu queria saber o que tinha lhe acontecido — explicou Phoebe.
— E quando escutei o sr. Hamilton dizer seu nome, parei para ouvir.
— O Sr. Hamilton estava falando de mim?
— Ele disse que era possível você ter quebrado um dedo do pé na
queda. Então o médico falou que, se isso tivesse realmente acontecido,
não haveria nada a fazer, pois o machucado iria sarar sozinho.
— Nada a fazer! Ora, eles podiam ter me dado um dos remédios da
Sra. Dyce!
— Você não disse que não estava doendo?
— Bem... Estava, quando cheguei em casa. Agora melhorou.
Alguém falou mais alguma coisa a meu respeito?
— Não que eu tivesse ouvido. Mas escutei a prima Fanny dizer que
seria bom se o sr. Hamilton arrumasse uma esposa.
— Fanny sugeriu isso ao sr. Hamilton?
— Não, Marion, claro que não. Ela disse isso ao primo Reggie

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depois que o sr. Hamilton tinha ido embora. Será que ela estava
pensando em você?
— Imagine! De onde você foi tirar essa idéia?
— Você não gosta dele, Marion? Eu sei que ele gosta de você. E
não seria fantástico se você se casasse com o homem que as pessoas
dizem que pode vir a ser o primeiro-ministro? Eu relataria esse evento na
história da nossa família e todos iriam querer ler.
Compilar a história da família delas era o mais recente passatempo
de Phoebe. Em razão do problema na perna, a menina cansava-se
facilmente e por esse motivo preferia ficar dentro de casa, onde lia muito,
costurava, fazia tricô, tocava piano, desenhava e escrevia um diário. Fora
Emily quem lhe sugerira escrever a história da família. A princípio
relutante, Marion acabara concordando com a idéia, pois sabia que proibi-
la iria dar ensejo a perguntas que não gostaria de ter de responder.
Aproveitando para mudar de assunto, ela indagou:
— Em que pé está a história da nossa família?
— Não há muitas informações nas cartas de tia Edwina.
— Phoebe deu um longo bocejo.
— Ela não escrevia muito, não é verdade?
— Vai ver a mamãe não guardou todas as cartas de nossa tia.
— Marion não contara da briga entre a mãe delas e tia Edwina.
— Talvez tenha conservado só as mais interessantes.
— Sim, mas isso não me ajuda muito. Tudo o que sei é que o vovô
e a vovó Gunn deixaram Brighton para ir morar em Longbury depois de
se casarem, e que foi lá que tiveram suas filhas.
— O vovô Gunn era sócio do escritório de um procurador. Era dele
o chalé que tia Edwina herdou e que agora é nosso.
— Isso eu já sabia. Como sei também várias coisas sobre mamãe e

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tia Edwina. É a respeito de Hannah que não sei quase nada.


— Faz muitos anos que tia Hannah morreu. Foi bem antes de você
nascer.
— Marion ficou pensativa. — Lembro que ela foi muito gentil
comigo quando fui visitar Longbury com a mamãe. Eu tinha sete anos e
Hannah devia ter... uns vinte. Ela era bem mais nova do que as irmãs.
Brincou comigo, leu histórias para mim e me levou passear pelos bosques
com seu cachorro. Scruff... Era esse o nome do cãozinho. Ele adorava
Hannah.
— Você nunca tinha me falado dessa visita, Marion.
— Faz tanto tempo... E é só disso que me lembro.
— E a mamãe? Ela nunca falava de Hannah. Não gostava dela?
— Mamãe não falava de Hannah porque isso a deixava triste. Não é
triste ficar falando de quem já se foi?
— Eu não penso assim! Se eu morrer, quero que vocês fiquem
falando de mim o tempo todo. Não quero que as pessoas me esqueçam.
— Mas isso é assunto com que uma menina do seu tamanho se
preocupe? Ah, eu devo ter um parafuso a menos na cabeça para deixá-la
acordada até uma hora destas! — Marion afastou as cobertas e apontou a
porta. — Já para sua cama!

Phoebe ainda lançou um olhar esperançoso à irmã mais velha,


porém terminou por saltar da cama. Marion lhe propôs:
— Não ganho um abraço de boa-noite?
— Sim, mas sem beijos. Estou velha demais para isso. Escolhendo
não menosprezar a "maturidade" da irmã caçula, Marion contentou-se
com um abraço bem apertado e, assim que a porta se fechou, largou-se
de encontro aos travesseiros. Na verdade não estava convencida de que

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Hannah estivesse realmente morta, pois o pouco que ouvira das


conversas entre seus pais levava-a a crer que sua tia tivesse fugido. Só
que esse não era um assunto dos mais indicados a uma garota de dez
anos de idade.
Marion tornou a olhar para a pochette em cima da cômoda. Com
um suspiro, ergueu-se da cama e experimentou plantar o pé machucado
no chão. Seus dedos não estavam inchados, mas a dor obrigou-a a tomar
da bengala e, usando-a como ponto de apoio, ela foi até a cômoda
saltitando sobre o pé são.
O que já esperava encontrar estava no interior da bolsinha, junto
do lenço rendado.
O silêncio vale ouro. Considere-se avisada.
Amassando o pedaço de papel na palma da mão, Marion teve
certeza de que ninguém jamais se enganara com um homem como ela
havia se enganado com David.
— Francamente, Brand, não entendo como você consegue viver
assim.
— Ao encontrar a garrafa que procurava sobre o aparador, Ash
Denison serviu-se de uma boa dose de conhaque. — Você não é nenhum
pobretão, pelo contrário, tem condições para viver como um rei. Por que
insiste em morar nestes cômodos melancólicos da St. James se pode se
instalar com todo o conforto na Albany ou na Bond Street?
— Essas ruas não passam de modismo do momento. — Brand deu
uma espiada pela parca mobília da sala. — Este lugar supre minhas
necessidades, e ninguém sabe que moro aqui.
Se alguém quiser me encontrar, que vá ao meu escritório na Frith
Street.
— E a beleza? E a elegância? — Acomodando-se na poltrona de

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couro do outro lado da lareira, Ash torceu o nariz ao cálice que tinha na
mão. — Onde estão os cristais? A prataria disposta sobre o aparador? O
cortinado de veludo?
As observações do amigo fizeram Brand se lembrar do Mosteiro, a
esplêndida residência de seu pai, exemplo perfeito de luxo e grandeza.
Apesar de ter morado lá por algum tempo, jamais chamaria o Mosteiro de
lar. Aliás, após a morte da avó, lar era um conceito no qual ele deixara de
pensar.
— Não preciso do que as pessoas chamam "as coisas boas da vida"
para ser feliz, Ash. Uma lareira aconchegante e poltronas confortáveis já
me bastam.
— Brand tomou outro gole de conhaque. — Não se preocupe, não
recebo mulheres aqui, se é isso o que está pensando.
— Mulheres? Que mulheres? — Ash riu. — Onde você encontraria
tempo para elas, se anda envolvido até o último fio de cabelo com sua
cadeia de jornais? E agora que está cogitando candidatar-se ao
Parlamento... Mas por falar nisso, o que é feito de Julia? Faz tempo que
não a vejo.
— Julia me mandou passear. — Brand não tinha um pingo de
emoção na voz.
Ash engasgou, e por pouco não deixou cair o conhaque sobre o
casaco e a calça de corte impecável. Recompondo-se, o primeiro gesto
que fez foi recuperar a pose aristocrática para declarar:
— Ah, creio que entendi. Seu interesse por Julia definhou e, sendo
o cavalheiro que é, você deu um jeito para que ela o mandasse passear.
Essa decisão não teria nada a ver com lady Marion, teria?
A resposta de Brand foi franzir a testa em sinal de surpresa.
— Vi como você ficou na noite em que lady Marion caiu daquela

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escadaria, Brand. Pensei que você fosse desmaiar, não ela.


— Sem exageros. Fiquei preocupado, só isso. Por outro lado, estou
contente com que você tenha tocado no assunto, pois o chamei até aqui
justamente para conversarmos a respeito de Marion.
Foi a vez de Ash franzir as sobrancelhas.
— Você sabe que eu era muito próximo da tia dela — continuou
Brand.
— Edwina Gunn? O que sei é que ela foi sua professora e que vocês
dois mantiveram contato por anos a fio.
Embora houvesse muito mais além do que Ash afirmara, Brand não
queria trazer aqueles anos turbulentos à baila e por isso foi diretamente
ao ponto:
— Edwina enviou uma carta para mim duas semanas antes de vir a
falecer. Infelizmente, escreveu para meu escritório na Frith Street, e a
carta dela acabou misturada, à pilha de cartas dos leitores. Para encurtar
a história: só vim a ler essa carta após a morte de Edwina, motivo pelo
qual não tive como conversar com ela para tentar elucidar as questões
abordadas na mensagem.
— Posso saber que questões eram essas?
— Edwina escreveu de maneira meio confusa sobre a irmã mais
nova dela, Hannah Gunn. Até onde se tem notícia, Hannah fugiu certa
noite, faz cerca de vinte anos, com sabe Deus quem. Ou melhor, isso é o
que as pessoas em Longbury pensam, embora Edwina nunca confirmasse
nem refutasse tal presunção. E como ela nunca tocasse nesse assunto
comigo, nunca tive por que lhe fazer perguntas a respeito da irmã. Eu era
jovem e respeitoso demais para me intrometer em assuntos de família.
— Você conhecia Hannah?
— Não. Ela trabalhava como governanta em Brighton o só nos

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feriados vinha para casa, onde passava uma semana ou duas, no


máximo. Nessa época eu estava no colégio e, se cheguei a conhecê-la,
não me lembro. Bem, na carta, Edwina afirma suspeitar que Hannah foi
morta e que sua sobrinha, Marion, possa identificar o assassino.
— Por que Marion?
— Porque Hannah visitou Edwina quando Marion e a mãe dela
estavam lá, e foi nessa ocasião que Hannah desapareceu.
— Sei.
— Edwina escreveu que certa noite Hannah brigou com ela e a mãe
de Marion e deixou o chalé jurando nunca mais voltar. E antes que você
me pergunte, Ash: não, ela não me contou o motivo de tal
desentendimento. Até onde sei, Edwina nunca deu queixa do
desaparecimento da irmã à polícia, o que me faz pensar que ela
acreditava que Hannah tivesse fugido, provavelmente na companhia de
algum homem. Seja como for, os anos foram passando e só pouco tempo
atrás alguém comentou com Edwina que Marion andava pelas cercanias
na noite em que Hannah desapareceu. Mas ela não me contou quem lhe
disse isso.
— Como podem ter certeza de que Marion tenha visto algo
suspeito?
— Edwina não mencionou detalhes, Ash. Mas essa pessoa, seja
quem for, enfiou na cabeça dela que Hannah pode ter sido morta e que
Marion talvez tenha testemunhado o assassinato. Agora, é preciso ter em
mente que o chalé de Edwina é circundado por bosques e fica próximo ao
Mosteiro e às demais edificações que o cercam. Se Hannah foi de fato
morta, havia lugares de sobra onde ocultar o corpo.
— Deve ter sido um choque e tanto, você não acha,
Brand? Acreditar por cerca de vinte anos que sua irmã fugiu com o

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namorado e depois vir a descobrir que a coitada pode ter sido


assassinada? A mim me parece que se alguém quisesse fazer uma
brincadeira de mau gosto dessas, teria feito quando Hannah desapareceu.
— Tudo o que você está dizendo eu já disse a mim mesmo dezenas
de vezes enquanto lia aquela carta. No entanto, há uma outra questão
que despertou minha atenção.
— Brand tomou mais um gole de conhaque antes de prosseguir: —
Quando estive em Longbury para o funeral de Edwina, ouvi certos
rumores... Parece que ela andava meio estranha ultimamente. Esquecia-
se de coisas banais, vivia relembrando o passado e às vezes tinha um
comportamento um tanto infantil.
— Está insinuando que Edwina pudesse estar senil? — Ash deu um
longo suspiro.
— O que ela queria que você fizesse?
— Que eu fosse até lá para que pudéssemos conversar
pessoalmente. Só que já era tarde demais. De um modo ou de outro,
quando encontrei aquela carta, eu já estava sabendo dos boatos, motivo
pelo qual nem a levei muito a sério, nem me ocorreu envolver-me num
mistério de vinte anos atrás. Pensei em escrever para Marion, que eu
supunha determinada a permanecer em Lake District, porém detestei a
idéia de dizer a ela que sua tia estava com a mente abalada e acabei não
fazendo nada.
— Até Marion e as irmãs dela apareceram por aqui. Brand fez que
sim e, esticando as pernas diante da lareira, afundou-se na poltrona antes
de dizer:
— Eu não queria aborrecer ou alarmar Marion por conta do
conteúdo da carta de Edwina, afinal tudo aquilo poderia ser fruto da
imaginação de uma senhora senil. O que fiz foi me aproximar dela como

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um bom amigo, de modo a ver se ela acabaria me contando alguma


coisa.
— E...?
— Marion não sabe de nada. Na verdade, mal se recorda de
Longbury. Lembra-se das tias Edwina e Hannah, não que Hannah
desapareceu quando ela estava lá. Quando lhe perguntei de Hannah, ela
falou que a tia tinha morrido muito nova.
— Não lhe parece que as irmãs de Hannah inventaram que ela
havia morrido quando jovem como forma de esconder uma desonra? Pois
se quiser saber minha opinião, Brand, eu aposto que ela fugiu com um
homem casado e a família nunca a perdoou por tamanho desatino. Um
caso típico.
— Não estou tão certo. Eu tinha imaginado que havia cumprido
meus deveres para com Edwina e podia deixar tudo como estava, porém
isso foi antes de Marion ter sido empurrada naquela escadaria esta noite.
E na semana passada ela foi agredida e roubada por um ladrão em
Vauxhall Gardens. Não que Marion tenha me falado sobre isso. Quem me
contou foi Phoebe.
— Coincidências que podem acontecer a qualquer um.
— Milhares de pessoas pensariam como você, Ash, mas eu sou
jornalista, tenho um sexto sentido em relação a determinadas coisas.
Sinto que Marion está envolvida em algum problema. O que ainda não sei
é se esse problema se originou em Longbury ou em Lake District.
A bem da verdade, Brand estava pensando na expressão
apavorada no rosto de Marion logo após a queda na escadaria e, mais
tarde, no nome que ela dissera sem querer já na carruagem: David. O
melhor seria torcer para que o perigo que a ameaçava tivesse seu foco
em Lake District e não em Longbury, caso contrário seria preciso levar a

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carta de Edwina a sério. Seria preciso reconhecer que ele não devia ter
aceitado prontamente que a morte de Edwina fora um mero acidente.
Seria preciso também levar em conta que Marion poderia estar arriscando
a própria vida ao mudar-se para o chalé da tia.
— De qualquer forma — ele retomou a conversa, — resolvi fazer o
que Edwina queria que eu fizesse: tentar solucionar o mistério do sumiço
de Hannah tanto tempo atrás.
Ash não titubeou:
— E acha que essa é uma atitude sensata? Não pensou que pode
meter a mão num vespeiro?
— Estou ciente de todas as implicações, sim, mas acontece que
preciso proteger Marion de um possível perigo que ela possa estar
correndo.
— Eu sabia! Você está encantado com lady Marion Dane.
Tomado de surpresa pela observação, Brand disse a primeira coisa
que lhe veio à mente:
— Sinto-me responsável por ela.
— Ah, é assim que tudo começa. E quando você se der conta, já
terá caído na armadilha para solteiros. — Ash pôs-se em pé. — Quer um
conselho? Tome cuidado com Julia Milford. A bela Julia pode ter o rosto de
uma deusa, mas tem o temperamento do demônio. Aposto que ela não
vai se conformar tão facilmente em ver uma outra dama invadindo seu
terreno.
— Já lhe disse que foi ela quem rompeu comigo, Ash.
— Você acha que isso faz alguma diferença para uma mulher como
Julia? Aliás, estou admirado por ela ainda não ter aparecido por aqui com
as garras à mostra.
— Julia Milford está em Paris.

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— Ah, mas virá de lá como um pé de vento quando souber que


uma outra dama tomou o lugar dela no seu coração.
— Quer fazer o favor de se sentar? E parar com as brincadeiras?
Não o convidei a vir aqui para fazer troça. Pedi que você viesse porque é
meu amigo e eu preciso do seu auxílio.
— Para que você precisa de mim? — Ash largou-se sobre a
poltrona.
— Se tivesse prestado atenção a tudo o que eu disse, agora você
saberia que estou preocupado com a eventualidade de um terceiro
incidente... ou mais uma coincidência daquelas que podem ocorrer a
qualquer pessoa, lembra? Pois bem, acontece que não tenho como estar
em Iodos os lugares ao mesmo tempo. Concordei em concorrer M

indicação de meu partido para a próxima eleição suplementar e também


tenho o jornal para tocar... Ou melhor, preciso preparar meu auxiliar para
que ele saiba o que lazer na minha ausência.
— Estou à sua disposição, Brand. Como sempre.
— Preciso que você fique de olho em Marion, pelo menos nlé que
ela se instale em Longbury. Pode fazer isso para mim?
— Com prazer, velho amigo. Com prazer.
Depois de acompanhar Ash até a porta Brand voltou para a sala de
estar, onde seu criado já se encarregava de recolher os cálices sujos de
conhaque. Grisalho e robusto, Manley tinha cerca de cinqüenta anos e
servira no regimento de cavalaria, experiência que fizera dele um grande
conhecedor de eqüinos. Brand tinha isso em mente ao lhe dizer:
— Manley, na semana que vem ou na outra iremos a Longbury,
onde tenho uma cocheira que está às moscas. Amanhã você e eu vamos
até Tattersall examinar alguns cavalos para comprá-los. Precisarei
também dos serviços de um cocheiro e de um cavalariço, e lhe serei

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muito grato se você providenciá-los para mim. Não se esqueça de que só


os melhores interessam, está bem?
— Creio que posso cuidar disso, Sr. Hamilton.
— A exceção de um ligeiro pulsar no músculo da mandíbula, o
criado mostrava-se impassível.
— Ótimo. Ah, vou precisar de criados para os assuntos domésticos
também.
— Irei me ocupar disso também, senhor.
Brand sorriu ao constatar que o obsequioso "senhor" deixava claro
o quanto Manley estava satisfeito por equipar o estábulo em Longbury.
Mas seu sorriso não se demorou: bastou ele virar-se e constatar que,
numa das poltronas de couro, o estofo escapava por um pequeno rasgo
junto à costura para seu humor azedar no mesmo instante. Aquelas
poltronas tinham pertencido a seu avô.
— E, Manley, eu gostaria que você nos arrumasse um tapeceiro ou
estofador ou decorador, seja lá quem for. Tudo aqui está gasto e
esfarrapado. Quero que todos os móveis sejam restaurados, mas não
substituídos por outros.
— Pois não, senhor.
— E tome cuidado com esses cálices.
— Sim, senhor.
Com um boa-noite extremamente cortês, Brand deixou o aposento.

Capítulo II

Três dias depois, enquanto a orquestra afinava seus instrumentos,


Marion achava-se no deslumbrante salão de baile da casa da prima Fanny
na companhia das damas mais idosas.

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E como se tivessem vontade própria, seus olhos insistiam em vagar


até o lugar onde se encontrava Brand Hamilton.
Ele trocava idéias com o primo Reggie, e Marion podia apostar que
discutiam algum ponto controverso no mais novo projeto de lei aos
cuidados do Parlamento. Pelas conversas que ela andara escutando nos
últimos dias, as convicções políticas do sr. Hamilton poderiam ser
resumidas como antimonárquicas, antiinstitucionais, anti autoridades
públicas e privadas... Ou melhor, "anti" tudo o que o pai dela advogara.
Mesmo assim, todos diziam que ele iria longe se decidisse abraçar a
carreira política. Estranho.
Inclinando-se para ela, a dama de companhia de lady Anne
Boscobel lhe cochichou:
— A orquestra vai tocar uma valsa. Não seria de bom-tom que uma
jovem tão novinha como lady Emily dançasse valsas.
— Obrigada pela lembrança, Srta. Barnes.
Marion respondera num tom cordial, mas por dentro se sentia
profundamente incomodada. Arvorando-se em juíza de boas maneiras, a
Srta. Barnes não parava de apontar deslizes no comportamento dessa ou
daquela mocinha... E o mais irritante era que sempre estava certa.
Ao levantar-se, Marion lembrou da bengala e, contrariada, obrigou-
se a pegá-la. Sentia-se ridícula por precisar de um apoio para caminhar
por causa de um simples mau-jeito nos dedos do pé, no entanto o
machucado ainda incomodava bastante. O primeiro passo a fez trincar os
dentes. Daquele jeito, iria levar uma semana para chegar até Emily.
Mais um passo curtinho, e foi então que ela viu Brand Hamilton
abrindo caminho por entre os casais em direção a Emily e seu par. Após
acenar discretamente para Marion a fim de lhe indicar que havia
entendido qual era a intenção dela, Hamilton conduziu Emily para fora do

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espaço reservado à dança. E em vez de se aborrecer, a jovem parecia


contente da vida com toda a atenção que recebia.
Marion tornou a se sentar e, no instante seguinte, Fanny
acomodou-se ao lado dela para lhe dizer:
— Vejo que nós duas tivemos a mesma idéia. Ainda bem que, ao
contrário de Emily, Brand estava atento ao fato de que jovens solteiras
não devem dançar valsa antes de terem sido apresentadas à sociedade.
São regras tolas, não é verdade?, mas não temos como ignorá-las.
Apesar da rigidez no cumprimento das normas sociais, Fanny era
afável e muito compreensiva e, aos olhos de Marion, tinha um poço sem
fundo de afeição pelas três primas órfãs que não via desde o nascimento
de Phoebe. Na verdade Fanny, quase uma senhora, era prima do pai de
Marion. Ela e Reggie tinham dois filhos com idades próximas à de Emily
que no momento achavam-se na universidade.
— Como ele é bonito, não? — observou Fanny, olhando para Brand
Hamilton.
— E sim. — Marion achou melhor não fingir que não escutara o
comentário.
— Ora, mas que falta de ânimo para elogiá-lo! Se eu fosse dez
anos mais nova, iria me juntar à fila de jovens que não tiram os olhos
dele! Olhe, Elliot Coyne acaba de chegar.
Ao olhar para a entrada do salão, Marion viu um cavalheiro com
trinta e poucos anos, nem bonito nem feio, que parecia muito seguro de
si.
— Quem é ele?
— O rival de Brand na indicação para a cadeira que ficou vaga no
Parlamento.
Ao lado de Coyne estava uma jovem dama alta e morena, com

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pouco mais de vinte anos, trajando um vistoso vestido de musselina.


Ambos formavam um belo par.
— Aquela é a noiva dele, lady Verônica, herdeira do marquês de
Hove — continuou Fanny.
— Elliot acertou na escolha. Lady Verônica dará uma excelente
esposa para um membro do Parlamento.
— E mesmo? Como você sabe?
— Porque ela tem estirpe, além de parentes e amigos altamente
recomendáveis. Verônica elevará o patrimônio moral de Elliot. — Fanny
deu uma risadinha. — E melhor Brand começar a procurar uma noiva à
altura dela.
— Então já está decidido? Ele irá mesmo concorrer à indicação do
partido?
— Reggie está contando com isso. Não que desgostemos de Elliot,
mas ele não tem o carisma de Brand. Bem, preciso ir cumprimentá-los.
Erguendo-se com um sorriso airoso, Fanny deslizou até a entrada
do salão, onde seu marido já esperava por ela junto aos recém-chegados.
Reggie Wright tinha olhos claros e cabelos tão loiros que era preciso
examiná-los de perto para notar as mechas grisalhas entremeadas aos
fios dourados. Marion gostava imensamente dele. Assim como Fanny,
Reggie possuía um coração generoso e fazia o que estivesse a seu alcance
pelo bem-estar das três primas de sua esposa. Os dois formavam um
casal amantíssimo.
Foi pensando no amor sólido e verdadeiro que unia seus primos
que Marion deixou escapar um suspiro.
Embora permanecesse junto das damas de companhia, a uma boa
distância do espaço reservado à dança, não havia por que sentir-se
ignorada. Sempre ali por perto, lorde Denison lhe apresentara inúmeras

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pessoas. Mas apesar de gostar bastante de Ash Denison, ela não se


deixava enganar: por certo fora o primo Reggie quem havia pedido ao
nobre dândi que lhe fizesse companhia. O sr. Hamilton era outro que não
descuidava dela. E como ele não perdesse uma dança, Marion concluiu
que um homem com aspirações ao Parlamento não podia deixar passar
nenhuma oportunidade para fazer amizades e angariar votos.
Era Ash Denison quem estava junto dela quando uma exuberante
ruiva num vestido vermelho com corpete muito justo precipitou-se sobre
ambos como um falcão esfaimado. Os diamantes ao redor do pescoço
dela eram magníficos, no entanto não amenizavam a impressão de
ornamentarem uma bela e fatal ave de rapina com olhos perfurantes.
— Julia! — Lorde Denison correu a se levantar. — Que surpresa!
Já prevendo uma briga entre amantes, Marion conteve um sorriso.
— Lady Marion... hum... — foi dizendo Denison. — Permita-me lhe
apresentar a sra. Milford. Julia Milford.
— Como vai, Sra. Milford? — cumprimentou Marion. — Como pode
ver, estou com o pé machucado, por isso lhe peço desculpas por não me
levantar.
— Oh, não precisa se desculpar. Ouvi falar do acidente que você
sofreu no teatro.
— Julia Milford exibiu um sorriso de dentes perfeitos. — Foi o pé
direito que você machucou, não foi?
— Não. Foi o esquerdo — explicou Marion, erguendo um pouco a
barra das saias para mostrar as sapatilhas de cetim que Emily lhe
emprestara, o único tipo de calçado que conseguia suportar no momento.
Foi então que a sra. Milford fez o inimaginável: num gesto
deliberado, pisou com toda a força nos dedos do pé esquerdo de sua
interlocutora. Se tivesse energia para tanto, Marion daria um grito, porém

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a dor era tão intensa que ela só conseguia arfar.


— Comporte-se, Julia — Ash ralhou com ela, antes de lhe agarrar o
cotovelo para arrastá-la em direção à porta. Furiosa, Marion teve vontade
de ir atrás dos dois e dar umas boas bengaladas na insolente ruiva. Deus
do céu, aquela maluca machucara-lhe ainda mais os dedos já feridos a
troco de nada. Afinal, o que havia entre Ash Denison e ela além de uma
boa amizade? E se houvesse algo mais, que mal haveria nisso? Só os
desequilibrados saíam por aí atacando os outros a torto e a direito.
Marion começava a se recobrar da dor e da indignação quando viu
Brand Hamilton caminhando na direção dela com dois pratos, mas a cena
que se desenrolou logo a seguir a fez esquecer da terrível sensação nos
dedos do pé. Desvencilhando-se de Ash, Julia Milford foi até Brand, que
por sorte teve a presença de espírito de entregar os pratos ao amigo
antes que a irada ruiva lhe desferisse um sonoro tabefe. O ruído do tapa
fez Marion encolher-se antes de, num gesto instintivo, olhar pelo salão.
Todos tinham os olhos grudados no trio junto à área destinada à dança.

Com o queixo erguido, a Sra. Milford deixou o salão de baile


pisando duro, e Hamilton tomou os pratos da mão de lorde Denison para
retomar o caminho em direção a Marion... que finalmente entendeu o que
se passava: o objeto do surto de ciúme de Julia Milford não era Ash
Denison, e sim Brand Hamilton. Que situação...!
Assim que a alcançou, ele foi logo dizendo:
— Você está outra vez com aquela expressão.
— Que expressão?— Marion empertigou-se na cadeira.
— Aquela que dissimula o que está realmente pensando. Tome, isto
é para você.
— Ele lhe entregou um dos pratos. — Para poupá-la de ter de

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caminhar até o salão de refeições.


Enquanto Brand se acomodava na cadeira ao lado, ela examinou a
comida. Tortinhas de lagosta, bolinhos de batata, legumes grelhados,
fatias de presunto e carne. Marion teve ímpetos de atirar tudo aquilo no
colo dele.
— Peço perdão pela cena com a Sra. Milford — Brand desculpou-se.
— O que foi que ela lhe disse?
— Nada. — Marion afetou indiferença. — Apenas pisoteou os dedos
do meu pé.
— Ai!
Ai? Isso era tudo o que ele tinha a dizer?
— Se eu soubesse que ela estava por aqui — continuou Brand, —
teria evitado que vocês duas se encontrassem. Pensei que Julia estivesse
em Paris.
— Sei como é. Com a Sra. Milford longe, seria mais fácil você
granjear apoio para a indicação do partido. — Depois de levar um pedaço
de torta de lagosta à boca, Marion ficou olhando para ele.
— O que quer dizer com isso?
— Ora, sr. Hamilton, não sou tão ingênua assim. Não vejo o quê
uma mulher com o temperamento explosivo da Sra. Milford possa
acrescentar à sua carreira.
— Instigada pela dor nos dedos do pé, ela concluiu: — Por outro
lado, ser visto na companhia de alguém como eu pode lhe trazer
benefícios.
— Lembre-se: foi Julia quem pisou nos seus dedos, não eu. — Ele
também se serviu do próprio prato. — E quanto a você me ser útil... Creio
que não entendi.
— Oh, basta pensar em lady Verônica e no sr. Coyne. Ouvi dizer

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que o prestígio do sr. Coyne só fez crescer desde que ele ficou noivo da
herdeira do marquês de Hove. E como poderia ser diferente? Ela tem
ótima estirpe e excelentes relações. Azar o seu que lady Verônica já
esteja comprometida, não é mesmo?
Esquecido da ceia, Brand ficou olhando para ela por um bom lapso
de tempo antes de indagar:
— Marion, está tentando me dizer que você se casaria comigo? Isso
é uma proposta?
Ela contou até dez, então declarou:
— Que bom que um de nós esteja bem-humorado.
— Não, não, sua proposta é digna de nota. Você acresceria muito
ao meu patrimônio moral se eu vier a concorrer à indicação. Além de
bem-nascida, é uma verdadeira dama e as pessoas a acolhem com
carinho e respeito. De minha parte, sou um homem muito rico que
desconhece n avareza. Você e suas irmãs teriam tudo o que quisessem.
— Não estou lhe propondo casamento, e você sabe mui-(,o bem
disso.
— Não se preocupe, irei pensar com muito cuidado no que você me
disse.
Marion deixou o ar escapar por entre os dentes cerrados. Bem-feito
para ela. Quem lhe mandara bater espada com um experiente duelista?
Agora num tom mais sério, Brand afirmou:
— Mas antes eu gostaria de saber quem é David.
— David Kerr — começou Marion, reunindo toda a calma de que era
capaz — foi o homem de quem estive noiva quando tinha a idade de
Emily. E que disse que eu era o amor da vida dele, porém rompeu comigo
praticamente a caminho do altar. Ao que tudo indica, encontrou um outro
amor sem o qual não sabe viver.

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— Sinto muito.
— Não é preciso. Meu coração não se esfacelou. Eu me recuperei
do golpe.
— Mesmo assim, foi o nome dele que você mencionou quando
voltou a si após a queda no teatro.
— Bem... — Marion rezou aos céus para que soasse convincente. —
Vai ver que, bem no fundo do coração, eu ainda goste um pouquinho
dele.
— Você é uma falsa, Marion Dane. Não está nem pensando em
prantear esse tal amor perdido.
— Como você sabe que não?
— Por causa disto aqui.
Sem mais nada dizer, Brand tirou o prato das mãos dela e colocou-
o sobre o aparador ao lado do seu, depois a enlaçou pela cintura e a
beijou. Ali, diante dos olhos de todos os demais, beijou-a como se isso
fosse absolutamente apropriado à ocasião.
Num primeiro instante Marion julgou-se digna demais para lutar
contra aquele gesto indigno, mas então se viu seduzida demais para fazer
outra coisa que não fosse agarrar as lapelas dele à busca de apoio. E,
encantada demais para resistir ao modo como os lábios ávidos pres-
sionavam os seus, simplesmente se deixou beijar.
Quando enfim se afastou, Brand fitou-a com olhos brincalhões.
— Nós dois queríamos saber como seria, não é mesmo, lady
Marion? Bem, agora já sabemos.
Após apanhar os pratos de volta, ele se pôs a falar de como estava
organizando sua cocheira e dos cavalos que havia comprado. Ao cabo de
alguns instantes, Marion conseguiu dominar a sensação de estranhamento
que a entorpecia e, num esforço sobre-humano para ignorar os olhares

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que vinham de todas as direções, tratou de agir com a mesma


naturalidade.
Quando Marion subiu para seu quarto, sussurros dando conta da
cena protagonizada por Julia Milford e do beijo secundado pelo tórrido
abraço ainda circulavam pelo salão. E nem bem ela se enfiara sob as
cobertas, Emily entrou no quarto para perguntar:
— E verdade, Marion? Você está noiva do sr. Hamilton?
— Eu?!
— E o que todos estão dizendo.
— Então eles precisam de um médico que lhes examine a cabeça!
— E quanto a Brand Hamilton, recusou-se a dizer uma palavra que fosse.
Ficou deitada no escuro, os olhos abertos, a cabeça como a girar.
Aquele beijo não podia ter acontecido. Brand Hamilton pensava que a
conhecia, no entanto não sabia absolutamente nada a respeito dela.
Não era mais uma menina, e sim uma mulher feita. Uma mulher
forte e capaz, com duas irmãs aos seus cuidados. Enfrentara a traição e a
decepção, deixara-as para trás. Não havia espaço para um homem em
sua vida, muito menos para um homem como Brand Hamilton. Ela faria o
que sempre havia feito: perseverar no seu caminho.
Afastando Hamilton dos pensamentos, tratou de concentrar-se no
desagradável, porém imperioso compromisso que teria no dia seguinte.
Pela manhã iria até a Livraria Hatchard's, em Piccadilly. E quando saísse
da Hatchard's, David estaria fora de sua vida de uma vez por todas.
O alívio trazido por tal constatação ajudou-a a pegar no sono.
O homem sob o pórtico da Igreja de St. George, na Hamover
Square, recuou para as sombras ao ver a última carruagem diante da
casa de Reggie Wright partir. O baile chegara ao fim. Todos os convidados
já haviam se retirado, os criados cuidavam de trancar portas e janelas

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antes de irem deitar-se. Recolhida a uma dependência qualquer da


mansão, lady Marion achava-se completamente fora do alcance das mãos
dele.
Mas haveria outras ocasiões para chegar até ela, o homem disse a
si, se não ali em Londres, então na estrada para Longbury ou lá mesmo.
Os costumes da cidade não eram os mesmos do campo, onde
seguramente ela não estaria rodeada de damas de companhia.
Não que ele odiasse Marion Dane. Mas a temia, ou melhor, receava
o mal que ela pudesse causar. Se a dama mantivesse a boca fechada,
tudo ficaria bem. O melhor, porém, seria mesmo que ela nunca mais
pusesse os pés em Longbury.
Ruminando aquelas idéias, o homem rumou para a Brook Street,
onde o coche de aluguel o aguardava.
Ao entrar na saleta destinada ao café da manhã, Marion estacou no
lugar. Vários dias após o infame beijo no salão de baile, aquela era a
primeira vez que se via diante do homem infame que tomara liberdades
com ela. Sentado à mesa, o sr. Hamilton tinha a cabeça inclinada sobre
um dos cadernos de anotações de Phoebe.
Por muito pouco ela não cedeu ao impulso de retroceder sobre os
próprios passos e sumir dali, porém logo se deu conta da infantilidade de
tal atitude. Ele era amigo de Reggie. Seria impossível evitá-lo pelo resto
da vida. Sem erguer os olhos do caderno, Brand comentou:
— Tarde demais para escapar, Marion. Sei que você está aí.
— Levantando-se, ele a fitou com um ar travesso.
Aquele olhar... Brand Hamilton tinha os olhos mais expressivos que
ela já vira. Bastava um daqueles olhares para fazê-la enrubescer, ou lhe
dar nó na língua, ou fazê-la ranger os dentes. Hamilton sabia como mexer
com ela. Só que ela não iria entrar naquele jogo.

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— Sr. Hamilton — cumprimentou-o, curvando-se de leve. — Onde


estão os demais?
O combinado era um piquenique no Richmond Park, uma boa
oportunidade de fazer com que Phoebe tomasse um pouco de sol.
Ninguém mencionara que Hamilton lhes faria companhia.
— Eles já foram — respondeu Brand. — Você e Phoebe irão comigo.
Ela virá nos avisar assim que a carruagem estiver pronta.
— E Fanny não me disse nada?
— Ela agiu com diplomacia, pois sabe que lhe devo um pedido de
desculpas. Será que você podia me ouvir? — Ao vê-la hesitar, Brand
colocou as mãos no espaldar da cadeira ao lado da sua. — Por que não se
senta?
Ao concluir que seria falta de cortesia não fazê-lo, Marion se
acomodou no lugar indicado e dali o viu caminhar até a janela. Ele saberia
o quanto estava atraente naquele conjunto de casaco escuro e calça
bege?
Junto à vidraça, Brand virou-se para ela.
— Como está seu pé?
— Bem melhor, obrigada.
— Foi o que pensei quando Fanny me contou que você foi à
Hatchard's no dia seguinte ao baile.
— Fui de carruagem.
— Encontrou algum exemplar interessante?
— Não fiquei lá o tempo suficiente para pesquisar. Meu pé começou
a doer. — Ela firmou a voz. — Sr. Hamilton, pensei ter entendido que
você queria desculpar-se.
— Foi para isso que vim. — Caminhando sem pressa de volta à
mesa, Brand sentou-se ao lado dela. — A última coisa que me passou

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pela cabeça foi lhe causar embaraços. Desculpe-me por tê-la beijado
diante de todas aquelas pessoas.
Não era bem o que Marion queria ouvir, porém ele dissera o
fundamental e isso a deixou satisfeita. Ela já se preparava para levantar
quando Brand indagou:
— Por que você não me deu um tapa? Largando-se sobre a cadeira,
Marion suspirou. Porque
o beijo dele a entorpecera. Um beijo que não lhe saía da cabeça dia
e noite, todos os dias e todas as noites. Era como se ainda tivesse o gosto
dele nos lábios e a firmeza dos braços musculosos na ponta dos dedos.
— Porque você me pegou de surpresa. Jamais me ocorreria que um
homem que almeja a uma cadeira no Parlamento pudesse agir de modo
tão... acintoso. O que seus colegas disseram de seu comportamento?
— Ah, eles o elogiaram. — Brand deu um sorriso largo. — Acharam
que eu estivesse afirmando meu interesse pela filha de um conde antes
que alguém o fizesse. Melhor dizendo: que eu estivesse aumentando
minhas chances de conseguir a indicação de meu partido à candidatura.
Outros, porém, acharam que tive muita sorte, visto que muitas mulheres,
no seu lugar, exigiriam que eu lhes propusesse casamento.
— Sei. Bem, vou procurar Phoebe para ver se ela está devidamente
agasalhada.
Brand agarrou-lhe os pulsos.
— Ninguém a culpa por aquele beijo, Marion. Todos sabem que não
seria difícil tirar vantagem de uma pessoa inocente como você. A culpa foi
minha.
Antes que ela pudesse responder, a porta se abriu para dar
passagem a Phoebe.
— A carruagem de lady Bethune já chegou — avisou a menina.

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— É uma carruagem aberta, Marion! Se vocês se apressarem,


talvez consigamos alcançar os demais.
— Lady Bethune? — Marion olhou para Brand, lembrando-se de que
a dama os acompanhara ao teatro.
— E também a avó de Ash — ele acrescentou, antes de lhe oferecer
o braço.
— Um homem tem de se preocupar com sua reputação.
Como seria de se esperar, Marion restringiu sua atenção às demais
damas na carruagem enquanto Brand conformava-se em observá-la
evitar seus olhares.
E a verdade era que ele não conseguia tirar os olhos de Marion
Dane.
Descobrira várias coisas sobre ela na última semana. Por imaginar
que uma proposta de casamento pudesse estar no ar, Fanny não poupara
informações a respeito da prima. Depois que o pai de Marion herdara o
título e a família se mudara para Keswick, ela fora criada sob os mais
rígidos padrões de comportamento. Não que Diana Gunn fosse uma mãe
má, pelo contrário, queria apenas que a filha mais velha não viesse a
sofrer com as agruras da vida. Nove anos mais tarde, quando Emily
nasceu, Diana já estava mais segura de si e experiente com a
maternidade e assim permitira às filhas mais novas liberdades que não
havia concedido a Marion.
De sua parte, Brand achava que o problema de Marion era que, aos
vinte e sete anos, ela se via como uma donzela madura com todas as
ambições e esperanças voltadas às irmãs. O que era uma grande
bobagem, evidentemente. Beijá-la talvez não tivesse sido a mais sábia
das atitudes, no entanto lhe mostrara que ela possuía certa fragilidade
que ao mesmo tempo o espantava e o atraía. O que a fazia tão diferente?

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O que o deixava tão estouvado quando se achava perto dela? Duelos com
floretes haviam perdido o encanto para ele. Marion era um desafio muito
maior do que qualquer competição.

Fora dele a idéia de irem a Richmond, depois que Fanny lhe contara
que a prima não saía de casa desde a noite do baile alegando ser
desagradável ter de caminhar com o auxílio de uma bengala. Mas isso
não a impedira de ir à Hatchard's... onde ela não tinha ficado mais do que
uns poucos instantes. Estranho.
Pensar naquela misteriosa visita de Marion à livraria o fez lembrar
de um outro assunto e, quando houve uma pausa na conversa, ele disse a
Phoebe:
— Enquanto esperávamos a carruagem chegar, tive a oportunidade
de passar os olhos por um de seus cadernos de anotações. Na capa
estava escrito "História da Família", mas não havia muito que ler, só
algumas notas e uma árvore genealógica.
— E que não há muito que contar sobre minha família — respondeu
a menina.
— Somos todos enfadonhos.
Lady Bethune e a avó de Ash Denison riram, e coube a Marion
observar:
— Estou certa de que Longbury tem uma história muito
interessante, Phoebe. Quem sabe você não acaba escrevendo sobre a
cidade.
Brand ficou pensativo. Não acreditava que Phoebe pudesse colocar-
se em perigo por escrever a história de sua família. Era Marion quem se
expunha a ameaças ao retornar a Longbury, se era que tais ameaças de
fato existiam.

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O sol aquecia o ar perfumado pelos aromas que vinham da grama e


se desprendiam das árvores. Visto que ninguém olhava de esguelha para
ela e Brand comportava-se como um verdadeiro cavalheiro ao distribuir
suas atenções entre todos os presentes, Marion estava gostando imensa-
mente da pequena excursão. Ash Denison tinha levado seu coche de duas
rodas puxado por dois cavalos e transportava as damas, sozinhas ou aos
pares, em rápidos passeios pelo parque. Apesar de que nada conseguisse
convencê-la a montar a garupa de um cavalo, Phoebe divertia-se a valer,
tanto nas voltas no veículo de lorde Denison como nas brincadeiras com
Emily.
Ao olhar para o céu límpido, Marion deixou escapar um suspiro. A
visita à prima Fanny estava chegando ao fim e, dentro de poucos dias, ela
e suas irmãs se achariam a caminho de Longbury. Baixando o rosto, e sob
a proteção dos longos cílios, olhou para Brand Hamilton e sentiu um nó
lhe subir à garganta. Brand nem fazia idéia de que ela seria a última
mulher no mundo com quem ele gostaria de se casar.
De repente o olhar dele interceptou o seu e, no instante seguinte,
Brand deixava a companhia de Fanny para ir ao encontro dela. Marion
maldisse sua falta de prudência. Estava sozinha, a devanear num banco
qualquer do parque, quando o certo seria manter-se ao lado das duas
aguerridas damas de companhias... que só Deus sabia por onde
andavam.
— Vim me despedir — disse Brand, sentando-se ao lado dela.
— Isso deve ajudar a frear os mexericos, sobretudo tendo em vista
que mal nos falamos no decorrer de toda a tarde.
— Vai retornar a Londres?
— Sim. — Ele fez um gesto na direção em que um cavalariço
segurava as rédeas de duas montarias. — E amanhã partirei para

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Brighton, então é provável que não volte a vê-la tão breve.


Embora soubesse que a ida a Brighton tivesse algo a ver com a
eleição, Marion não imaginava que tal viagem fosse se dar tão cedo.
Pondo-se em pé, Brand curvou-se sobre a mão dela.
— Se continuar a olhar para mim dessa maneira, serei tentado a
beijá-la outra vez.
Ela recolheu a mão.
— Tenha uma boa viagem, sr. Hamilton. Ele se afastou com um
sorriso.
O dia marcado para a partida rumo a Longbury chegou precedido
por uma noite de temporal e amanheceu com o céu carregado de nuvens.
A chuva não dava sinais de parar.
— Imagine o que não vai ser se os rios transbordarem — disse a
prima Fanny, após assinalar que um dia como aquele não era indicado
para uma viagem ao longo da King's Highway.
— Longbury pode ficar isolada, e vocês terão de buscar refúgio
numa hospedaria caindo aos pedaços em meio a um bando de pessoas
rústicas e indelicadas. Por que não ficam aqui até o tempo melhorar?
Estavam ambas no quarto de Marion, onde as velas espantavam a
escuridão provocada pelo mau tempo.
— Esqueceu que vim de Lake District? Se me impressionasse com
chuva, eu nunca sairia de casa. — Com os dedos do pé plenamente
recuperados, Marion cuidava de recolher livros e objetos pessoais à última
caixa que faltava preparar. — E assim que estivermos instaladas, você irá
nos fazer uma visita. Afinal, Longbury não é tão longe assim.

Enquanto Fanny pensava no que dizer para fazê-la mudar de idéia,


os criados vieram buscar os caixotes para levá-los ao piso térreo do

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imenso sobrado. Marion terminou o que fazia e então, cruzando seu braço
ao da prima, conduziu-a para o corredor.
Achavam-se na galeria de onde se via o hall de entrada quando
Fanny parou para dizer:
— Quero que saiba que tenho pensado em você e no sr. Hamilton...
Não, deixe-me terminar. Preciso saber... Você não está indo embora por
causa de Julia Milford, não é? Olhe, Marion, Reggie me disse que esse
caso acabou faz tempo.
— Fanny, agora é você quem tem de me ouvir. — Marion rira, mas
agora estava bastante séria. — Imagino o que esteja pensando, mas
saiba que está enganada. O sr. Hamilton não quer se casar comigo. Ele se
aproximou de mim e de minhas irmãs porque era muito amigo de minha
tia.
— Mas ele a beijou!
— Isso não faz a menor diferença. Se for indicado pelo partido,
Brand irá concorrer ao Parlamento e terá todos os olhos sobre si. Você me
conhece, sabe que eu seria como um peixe fora d'água nos círculos que
ele freqüenta.
— Não seja modesta! Você...
A conversa foi interrompida por Phoebe, que chamou lá de baixo:
— Depressa, Marion. A carruagem está esperando. Esperando por
elas ao pé da escada, Reggie advertiu:
— Há muitas pousadas boas no caminho. Se o tempo piorar, não
hesite em interromper a viagem por algumas horinhas. Longbury não vai
sair de onde está.
Após calorosa troca de abraços e agradecimentos, as irmãs Dane
enfim se foram.
— Por que essa expressão tristonha? — Reggie perguntou à esposa

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enquanto voltavam ao interior da mansão.


— Eu queria tanto que Marion e o sr. Hamilton se entendessem...
— Fanny suspirou.
— Mas que entendimento poderia haver entre ambos com ele em
Londres e ela em Longbury?
— Brand não vai retornar a Londres, pelo menos por enquanto.
— Reggie passou o braço pelos ombros da esposa. — Ele está
instalando seu quartel-general em Longbury, na casa que o avô lhe
deixou. O distrito pelo qual estamos concorrendo abrange aquela área
também.
— E mesmo? Acho que Marion ainda não sabe disso.
— Ah, em breve ela saberá.
Após limpar a condensação da janela da carruagem, Marion espiou
lá fora. A chuva não dava trégua. Estavam a uma boa distância de
Longbury e, embora ainda fosse dia, todas as pousadas a que tinham
batido encontravam-se atulhadas de viajantes à busca de um lugar onde
passarem a noite.
As circunstâncias a fizeram lembrar-se do que sua mãe certa vez
dissera: "Se não tiver lugar para nós na próxima estalagem, Penn, só nos
restará pedir à bondosa família de algum camponês que nos ceda uma
cama para passarmos a noite". Penn era como Diana chamava o marido,
apelido derivado do título dele, Penrith. O nome de batismo de seu pai era
George, mas ninguém o chamava assim.
— Marion?
Erguendo a cabeça, ela deparou com Emily a lhe examinar o rosto.
— Acabei de lembrar de que você foi noiva de um moço chamado
David.
— Fui, sim — confirmou Marion. — Até ele descobrir que meu dote

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era pequeno demais para lhe proporcionar a vida de luxos a que


almejava.
— E por causa dele que você nunca se casou? Você ainda o ama?
— De onde você foi tirar uma idéia tão absurda, Emily? Claro que
não. E claro que não amo David Kerr.
— E o sr. Hamilton? Ele a beijou, não foi?
— Não foi nada de mais, acredite. Não estou apaixonada por
ninguém.
— Eu acredito em você, mas os bisbilhoteiros parecem pensar de
outra maneira. Andam dizendo que o sr. Hamilton rompeu com a sra.
Milford porque você, que é filha de um conde, seria como uma medalha
de honra no peito dele.
— Não se pode culpar o sr. Hamilton pelo que as pessoas falam.
— Eu gosto dele, Marion.
Após trocarem um sorriso, as irmãs mudaram de assunto e
conversaram um pouco mais antes que Emily, a exemplo de Phoebe,
acabasse por adormecer.
Então Marion voltou a olhar pela janela.
A filha de um conde seria como uma medalha no peito dele. Só
quando a carruagem deixou para trás o entroncamento da estrada que
levava a Brighton foi que ela conseguiu respirar aliviada.
Marion viu-se arrancada do sono ao sentir a carruagem estremecer
violentamente antes de tombar para o lado.
Livros, periódicos e objetos pessoais se espalharam pelo piso do
veículo. Emily gritou. Marion agarrou Phoebe, que também despertara por
causa do susto, no momento em que ambas escorregavam pelo assento.
Lá fora os cavalos relinchavam e escoiceavam o ar enquanto o condutor e
seu ajudante faziam o que podiam na tentativa de desatrelá-los.

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— Desça! — Marion disse a Emily. — Vá primeiro, e ajude Phoebe a


saltar.
Ao ver a água borbulhando pelo piso da carruagem, Emily correu a
obedecer. Sair dali, porém, não era tarefa simples: a única porta em
condições de se abrir estava numa posição tal que a jovem precisou usar
o ombro para tirá-la do caminho antes de se arremessar do veículo.
Mesmo não demonstrando medo, Phoebe cerrou os dentes ao
apoiar o corpo na perna lesada para facilitar às irmãs o trabalho de tirá-la
dali. Com Marion a empurrá-la e Emily a puxá-la, a menina enfim se viu
fora do coche.
— Depressa! — gritou Emily. — A carruagem está com uma das
rodas quebradas, não deve demorar a virar!
Marion não precisava olhar para saber que a água continuava a
subir: o peso que sentia nas saias lhe dizia que a enxurrada já chegava
quase aos seus joelhos.
— Deixe que eu me arrume! — ela disse à irmã. — Cuide de
Phoebe! Leve-a para um lugar seguro.
Ao subir no assento, Marion suspirou de alívio por ouvir vozes
masculinas. Apesar do que havia afirmado, não via como sair dali sem a
ajuda do condutor e do rapaz que o acompanhava.
— Afastem-se! — um homem exclamou.
Embora tivesse reconhecido aquela voz, ela não teve tempo para
responder. No instante seguinte, o rosto de Ash Denison surgia diante de
seus olhos arregalados.
— Dê-me sua mão! — ele ordenou.
— Mas... O que você está fazendo aqui?
— Vamos deixar as explicações para depois, sim? Dê-me sua mão,
lady Marion.

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Apanhando a carteira que estava sobre o assento, ela reprimiu um


grito ao sentir a carruagem oscilar e apressou-se em agarrar a mão que
lorde Denison lhe estendia. Centímetro por centímetro, ele ajudou-a a
passar pela porta escancarada e depois a tomou nos braços. Estavam
empoleirados numa das laterais do veículo, que parecia afundar
lentamente.
Quando Ash saltou para a correnteza, Marion mordeu o lábio ao
dar-se conta de que estavam agora num ponto raso de algum rio que a
chuva havia transformado numa torrente. A roda da carruagem devia ter
se chocado com alguma pedra submersa, fazendo o veículo tombar sobre
si mesmo.
Antes mesmo de chegar à margem Ash pôs-se a distribuir ordens
para os homens parados ali, entre eles o condutor da carruagem e seu
ajudante, que acalmavam a parelha de cavalos. Junto ao curso d'água
havia um outro coche, que Marion presumiu pertencer a lorde Denison, e
ao lado do veículo estava um homem que ela reconheceu ser Manley,
criado de Brand Hamilton. Ele ajudou Phoebe a entrar no coche, em
seguida fez o mesmo com Emily.
Tão logo a colocou no chão, lorde Denison nem lhe deu tempo para
agradecimentos.
— Venha comigo, lady Marion — disse ele. — Você está tiritando de
frio. Vamos providenciar um bom caldo e uma lareira para aquecê-las.
então lhe darei todas as explicações que quiser.
Ela imaginara que tais explicações seriam fornecidas no interior da
carruagem dele, mas lorde Denison escolheu viajar ao lado de Manley na
boléia. Estranho. Por que Manley não se achava junto de Brand Hamilton?
E por que ela estava tão desconfiada, se o correto seria estar
agradecendo aos céus pelo socorro que lhe prestavam?

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Na primeira pousada em que parará, lorde Denison falou em nome


de Brand Hamilton e aquilo teve um efeito mágico. Segundo ele, Brand
era bastante conhecido naquela região porque havia angariado votos para
um candidato da área na última eleição.
O dono do estabelecimento não tinha acomodações melhores do
que um dormitório junto ao sótão para lhes oferecer. Marion ficou mais do
que satisfeita com o arranjo, visto que as pessoas que ali chegavam
pareciam prontas para passar a noite no bar ou em algum banco que por-
ventura estivesse disponível.
Antes que ela e suas irmãs fossem lá para cima, lorde Denison
tomou a iniciativa de declarar que não as encontrara por acaso.
— Eu sabia — disse ele — que vocês iriam partir para Longbury
hoje, e como também seguiria para lá, pensei que talvez pudéssemos ir
todos juntos. Mas acabei por chegar tarde demais a Hanover Square e,
quando a chuva apertou, fiquei preocupado... Bem, o que importa é que
tudo acabou bem e que vocês estão aqui, sãs e salvas.
— Você está indo para Longbury? — indagou Marion.
— Sim, para ajudar a preparar a casa de Brand. Ele escolheu
montar sua base de operações em Longbury, pelo menos até o término
da eleição, e me encontrará lá, dentro, de um dia ou dois.
Marion dissimulou como pôde o desalento que a acometia. Não
desgostava de Brand Hamilton, apenas queria que o distrito pelo qual ele
se candidatava ficasse do outro lado da Inglaterra.
— Preciso ir verificar como estão os demais, depois irei buscar seus
pertences — disse Denison, antes de deixá-las no saguão aos cuidados de
Manley.
E Manley realmente ocupou-se em cuidar delas. Como um cão
pastor grisalho e experiente, reuniu-as como a um trio de ovelhinhas

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desgarradas, conduziu-as escada acima e as confinou no aposento que


lhes fora designado, dizendo-lhes que ficassem ali enquanto ele ia
providenciar uma boa refeição.
Bem mais calmas, as três ainda admiravam o pequeno aposento de
teto baixo com uma simpática lareira onde o fogo já crepitava em
aconchegantes labaredas, quando uma criada chegou com o jantar:
carneiro assado com bolinhos de massa, batatas e cenouras. Fosse
porque a refeição estivesse uma delícia, fosse porque estivessem
aquecidas e com as roupas quase secas, o fato foi que Marion viu seu
estado de espírito melhorar consideravelmente enquanto as três se
regalavam com a ceia.
A criada não demorou a reaparecer, dessa vez para recolher as
bandejas e ajudá-las a arrumar o grande leito de casal e a cama de
campanha onde Phoebe iria dormir. Findo o trabalho, Marion, com a idéia
de gratificar os bons préstimos da moça, procurou pela sua carteira. E
não a encontrou. A carteira não estava em meio aos casacos e xales
sobre a cama. Não estava sobre o aparador. Não estava em lugar
nenhum.
Parada no meio do aposento, Marion lembrou que estava com ela
na carruagem de Denison a caminho da estalagem e que depois...
depois... depois não se lembrava o que tinha sido feito de sua carteira.
— Você sabe se lorde Denison encontra-se na pousada? — ela
indagou à criada.
— Não sei dizer, senhorita. — A moça franziu a testa.
— Mas creio que o sr. Poole, o dono do estabelecimento, poderá
informá-la.
Mesmo ciente de que o correto seria mandar chamar Manley,
Marion não conseguiu conter a desagradável sensação de premência que

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a assaltava e, apanhando o casaco em cima da cama, avisou:


— Deixei minha carteira na carruagem de lorde Denison. Vou
buscá-la.
Então disse às irmãs que não deixassem o quarto e saiu porta
afora.
Manley não se encontrava por ali. E como não conseguisse
identificar a carruagem que queria em meio ao mar de veículos parados
no pátio, ela se encaminhou ao balcão à entrada da hospedaria para
perguntar se lorde Denison havia chegado. O estalajadeiro sugeriu-lhe
que fosse verificar no alojamento de cavalariços e condutores de coches,
pois era lá que tivera de acomodar o amigo de Brand Hamilton.
Aflita com o sumiço da carteira, Marion não foi capaz de convencer-
se de que o tal alojamento não era um lugar para damas e seguiu para lá.
O pátio estava iluminado pelos lampiões presos às paredes e, pelos
trechos de conversa que entreouvia, ela depreendeu que a estrada para
Brighton fora varrida pela chuva, o que obrigara os viajantes a afastarem-
se quilômetros de seu caminho à busca de acomodação.
Um dos rapazes que trabalhava na cocheira apontou-lhe a porta do
aposento designado a lorde Denison. Marion fingiu ignorar a surpresa no
rosto do moço por vê-la numa área estritamente masculina, agradeceu e,
baixando a cabeça, encaminhou-se ao lance de degraus que levava ao
corredor com vista para o pátio. E já estava quase diante da porta
assinalada quando ouviu alguém lá dentro dizer o nome dela. Brand
Hamilton.
Sem pensar duas vezes, colou-se à parede. A janela estreita
achava-se aberta, e junto ao caixilho lorde Denison lançava para fora do
aposento as baforadas tragadas de sua cigarrilha.
— Muito me admira — ele dizia — você julgar necessário afastar-se

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de seus correligionários e se abalar até aqui se meu mensageiro lhe


garantiu que eu tinha a situação sob controle.
— Encontrei o rapaz quando cheguei ao entroncamento das
estradas, e se ele não tivesse me reconhecido, até agora eu estaria sem
notícias.
— Foi um acidente, Brand. Um mero acidente.
— Talvez. Mas tenho certeza de que ela está assustada com algo
ou com alguém.
— E como pode estar tão certo disso? Ah, já sei: foi seu sexto
sentido de jornalista quem lhe disse.
Apurando os ouvidos, Marion aproximou-se um pouco mais da
janela no instante em que mais uma golfada de fumaça escapava do
dormitório.
— A verdade é que eu preferia que ela viesse até mim para me
contar o que tanto a preocupa — afirmou Brand.
— Já parou para pensar que, aos olhos do mundo, você está
praticamente noivo dessa moça? Se continuar a dedicar tantas atenções a
lady Marion, todos começarão a especular acerca da data do casamento.
— Eles que pensem o que quiserem.
— E ela? Você não liga para o que ela pode pensar?
— Ash, por que não vai fumar essa cigarrilha lá fora? Esse cheiro
horroroso está me sufocando.
Marion prendeu a respiração. E como não escutasse a resposta de
Denison, ergueu as saias e, mantendo-se sob as sombras, deslizou para
longe dali com as têmporas a latejar. Por ser jornalista ele julgava que
tinha o direito de escarafunchar os segredos dos outros? Pois sim! De sua
boca ele não iria ouvir uma só palavra! E nem de David, de quem ela
comprara o silêncio de uma vez por todas!

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Ao encontrar Manley no saguão da hospedaria, Marion não se


espantou quando ele lhe arreganhou os dentes em sinal de censura.
— Eu a procurei por todos os lugares.
— E eu estava procurando minha carteira. Manley tirou-a do bolso,
afirmando:
— Você a deixou na carruagem.
Por pouco Marion não arrancou a carteira da mão dele. Após
examiná-la com olhos aflitos, constatou que em seu interior não havia
nenhum bilhete, nenhuma ameaça.
— Pronto, Manley. — Aliviada, ela sorriu. — Agora você pode ralhar
comigo o quanto quiser.
Cuidando de não fazer barulho para não incomodar o repouso de
Ash, Brand vestiu o casaco e foi ao corredor à busca de ar fresco. Apesar
de a luz dos lampiões ainda escapar por algumas janelas, a hospedaria se
encontrava mergulhada em serena quietude.
Mas ele não conseguia pegar no sono. Ansiava por fazer alguma
coisa, qualquer coisa, no entanto achava-se preso ali, no meio do nada.
Examinara a roda da carruagem de Marion e, por não conseguir detectar
se teria havido algum tipo de sabotagem no veículo, começara a suspeitar
de que sua teoria sobre alguém querer o mal dela pudesse ser mera
imaginação. Ou seria exatamente isso que queriam que ele pensasse?
David Kerr. Confirmara aquele nome junto a Fanny, mas ela nada
sabia informar a respeito do tal homem. Por que Marion não lhe contava o
que estava acontecendo?
Bem, ao menos sabia onde ela se encontrava e que estava ilesa.
Porém não podia largar seus compromissos e correr para junto de Marion
Dane em qualquer canto do interior inglês, como tinha feito hoje, só
porque ela se achava retida em algum lugar onde Judas perdera as botas.

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Diacho.
Quando percebeu, ele já estava sorrindo, um sorriso entre irônico e
divertido. Brand Hamilton, filho ilegítimo de um duque, e lady Marion
Dane, a bem-nascida filha de um conde? Pois se Marion imaginava que
ele quisesse desposá-la por seu sangue azul, na verdade o que ele sentia,
à parte algumas exceções, era desprezo pela aristocracia em si e pelos
nobres em geral, que se acreditavam merecedores de uma vida de
privilégios por direito divino. Marion era uma dessas exceções: sempre
que se portava como uma grande dama, tinha por objetivo manter-se
fora do alcance das investidas dele.
Brand suspirou profundamente. Fosse como fosse, tinha coisas a
fazer, lugares a visitar. Conhecia aquela região como a palma da mão e,
com chuva ou sem chuva, trataria de estar em Longbury antes do
amanhecer. Marion teria Ash e Manley para cuidar dela.
Com essa idéia em mente, retornou ao dormitório e acordou o
amigo.
Enquanto espreitava tudo ao redor, o homem praguejou baixinho.
Lady Marion tinha mais guarda-costas do que uma princesa da realeza.
Como faria para chegar até ela, se nem ao menos conseguira colocar o
bilhete naquela maldita carteira?
Avariar a roda da carruagem em que a dama viajava não fora tão
difícil assim. Com o que ele não contava era que lorde Denison fosse
aparecer do nada para resgatá-la das águas. Droga. Tudo levava a crer
que Brand Hamilton, interessado nela, providenciara para que seu amigo
a escoltasse.
E isso suscitava uma dúvida: Hamilton desconfiaria de alguma
coisa ou apenas se comportava como qualquer pretendente zeloso?
O homem enxugou o suor da testa. Tudo o que não queria era ter

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de enfrentar aquele cavalheiro. Já correra riscos demais no teatro, não


pretendia se aventurar com o perigo novamente. Cobrindo o rosto com a
aba do chapéu, ele tornou a praguejar e dirigiu-se à cocheira, onde um
cavalo selado já esperava para levá-lo embora dali antes que alguém o
visse.

Capítulo III

Cidadezinha comodamente assentada num terreno repleto de


colinas na região conhecida como South Downs, Longbury devia sua
prosperidade ao comércio da lã. Séculos antes abrigara um mosteiro
beneditino, porém tudo o que sobrara da presença dos monges por ali era
o corpo principal da edificação, agora transformado na majestosa
residência dos Fitz Alan, a família mais importante do lugar. A família de
Brand.
O Mosteiro situava-se no alto de uma colina, e embora estivesse
viajando havia horas sob uma garoa empedernida, Brand tinha os olhos
fixos nos contornos da mansão. A residência de seu avô, chamada de
Granja porque funcionara como uma espécie de celeiro para estocar
víveres e materiais, ficava do outro lado da estrada, espalhando-se em
direção ao rio. A Granja também servira como quinta e depois como
residência do vigário local antes que um próspero comerciante de lã a
recuperasse para uso de sua família. Quando viu sua fortuna declinar, o
comerciante vendera boa parte do terreno, sendo que a construção
principal e seus anexos foram passando de um proprietário a outro até
que os Hamilton acabassem adquirindo toda a propriedade.
A Granja era uma despretensiosa edificação de dois pavimentes em
tijolos aparentes disposta sobre um terreno imenso, um lugar mais do

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que adequado ao espartano modo de vida do avô de Brand. Próximo à


casa ficava uma boa cocheira que o velho Hamilton destinara a guardar
seu cavalo e algumas tranqueiras. Ainda que mal tivesse amanhecido, os
cavalariços contratados por Manley já trabalhavam com afinco, e foi com
satisfação que Brand entregou as rédeas de sua montaria a um dos
rapazes.
Ele então foi para a residência e, largando o casaco encharcado na
porta, subiu a escada que levava ao seu dormitório.
Quando Brand acordou, o sol se derramava pela janela. Sua
primeira constatação foi que a chuva havia parado. A segunda foi que
precisava trocar o recheio de crina de cavalo dos colchões por penas.
Dormir naquela cama era o mesmo que deitar sobre cimento.
Aliviado por saber que havia mudas de roupas de sobra nas
gavetas e no armário, Brand massageou sem pressa os músculos
doloridos, depois saltou da cama e, ainda bocejando, foi puxar a corda da
sineta no outro lado do quarto. Não demorou muito a que um menino de
uns doze anos de idade surgisse à porta.
— Como você se chama? — ele perguntou.
— Sam. Sam Ludlow.
Brand lembrava-se bastante bem da mãe do rapazote. Além de
cozinheira, ela fora também criada para todos os serviços de Edwina. Mais
importante que tudo, tinha sido a sra. Ludlow quem havia encontrado o
corpo de Edwina.
— Será que tenho como tomar um banho? — indagou ao menino.
— Minha mãe me disse que o senhor iria perguntar isso. — Sam
disfarçou um sorriso.
— A primeira coisa que ela fez ao chegar foi acender o fogo sob a
caldeira.

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— Esplêndido.
Menos de uma hora depois, já banhado e vestido, Brand entrou na
cozinha um tanto mais bem-disposto. A Sra. Ludlow era como a maioria
das mulheres do campo: ao saber que o dono da casa havia chegado,
correra a deixar a mesa posta.
— O senhor terá de comer na cozinha, pois ainda não tive tempo
para acender a lareira nos outros aposentos.
— Não se preocupe com isso — Brand tranqüilizou-a. — O
importante é que meu quarto esteja sempre aquecido.
Nem bem ele se sentou e o prato lhe foi servido: carne assada fria,
porções de rim e ovos mexidos. A seguir vieram as torradas e um pote
com geléia de laranja. Brand esperou que a boa senhora lhe entregasse a
caneca com café, depois a convidou a sentar-se.
— Vamos conversar a respeito do seu trabalho aqui, Sra. Ludlow.
Ela recusou o convite, esclarecendo:
— Só vim ajudar até que seus próprios empregados cheguem,
senhor. E que já tenho outro serviço. Vou trabalhar para lady Marion no
Chalé do Teixo.
— Ah, sim. Seja como for, sente-se e me faça companhia. A Sra.
Ludlow olhou-o como se ele tivesse perdido o siso. Criados não faziam
companhia a seus patrões.
— Nunca tive a oportunidade de lhe dizer o quanto Edwina era
grata por tudo o que você lhe fez. Ela não se cansava de elogiá-la.
Incentivada pelas palavras gentis, a Sra. Ludlow acomodou-se na
cadeira que ele havia indicado, as mãos ásperas cruzadas sobre o colo.
Seus cabelos e olhos castanhos provavelmente se deviam à ascendência
celta, e ela por certo teria quarenta e poucos anos.
— Você trabalhou muito tempo para a srta. Gunn? — perguntou

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Brand.
— Cinco anos. Comecei logo após ficar viúva e minha mãe vir
morar conosco.
— Ela quase sorriu. — A srta. Gunn sempre se lembrava do
aniversário de meus meninos.
— Ouvi dizer que ela não andava muito bem de saúde... Que se
esquecia de tudo, que começou a desconfiar dos amigos...
— Por acaso o senhor nunca se esqueceu de onde deixou seus
óculos, sr. Hamilton? O senhor nunca esqueceu o nome de ninguém? A
Srta. Gunn costumava esquecer coisas que todos nós vivemos
esquecendo. 0 que houve foi que...
— Sim?
— Bem, ela andava preocupada com assuntos do passado, com a
irmã. Queria saber o que era feito da irmã dela.
— As pessoas dizem que Hannah fugiu.
— A srta. Gunn dizia que isso era mentira.
— Quem foi que disse isso a ela?
— Ela não me contou. Acho que não queria que ninguém soubesse.
Brand tomou um gole de café. A Sra. Ludlow não lhe contava
nenhuma novidade, no entanto deixara claro não acreditar que Edwina
pudesse estar senil antes de morrer. Interessante.
— Não pense que tenha traído a confiança dela ou de quem quer
que seja, sra. Ludlow. Eu já sabia disso tudo. Edwina falou-me desse
assunto numa de suas cartas.
— Ela escreveu para o senhor? Quando?
— Algumas semanas antes do acidente. Eu estava viajando, por
isso só vim a ler a tal carta depois do funeral. Por que pergunta?
— Quando a encontrei caída ao pé da escada, ela tinha manchas de

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tinta nos dedos. Mas nem o chefe de polícia nem eu encontramos uma
carta ou algo que ela pudesse estar escrevendo.
Aquilo era um dado novo, a primeira indicação de algo fora do
comum.
— Só mais uma pergunta, sra. Ludlow...
— Ao vê-la arfar, Brand hesitou. Não queria assustá-la, pelo
contrário: queria ganhar a confiança dela para que pudesse fazer novas
indagações.
— Como faz para deixar os ovos mexidos tão macios?
Enquanto subia o aclive que levava à mansão, Brand não teve
como não pensar na ironia da situação. Quando teve idade suficiente para
cuidar de si mesmo, deixara o Mosteiro jurando nunca mais retornar. A
vida, porém, se encarregara de desmenti-lo.
Mesmo na morte seu pai dera um jeito de ter a última palavra. Por
meio de seu testamento, o duque indicara Brand como único curador dos
bens do meio-irmão e da meia-irmã. Todos esperavam que o filho
ilegítimo recusasse a custódia ou a transferisse ao tio, lorde Robert, no
entanto ele rejeitara ambas as opções. Robert não tinha interesse ou
talento para administrar os negócios de Andrew, mas Brand tinha e
estava determinado a fazer seu meio-irmão digno do importante
patrimônio que herdara.
A porta se abriu e, enquanto deixava que o mordomo o conduzisse
ao grande salão, Brand teve a impressão que o tempo invertera sua
marcha. Quando menino, imaginara que Hartley tivesse oitenta anos de
idade, e o criado continuava igualzinho. Como o grande salão, com as
mesmas tapeçarias inestimáveis pelas paredes, o mesmo cavaleiro
protegido por armadura em seu cavalo a adornar o hall.
— As damas se encontram na sala de desjejum, senhor —

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observou Hartley.
— Somente elas? — quis saber Brand.
— Sim. Lorde Robert e lady Theodora foram visitar amigos em
Windsor, onde aproveitaram para ver uma égua de pouca idade em que a
dama está interessada.
Era típico de Theodora. Ela não tivera filhos, assim não havia a
quem destinar o amor que sempre nutrira por cavalos e caçadas.
Um amor que, Brand supunha, ela continuava a negar ao marido.
— E Sua Eminência? — indagou, referindo-se a Andrew.
— O jovem duque está com o administrador, na fazenda. Brand
não podia ter recebido notícia melhor. A fortuna
dos FitzAlan dependia da terra e seus imóveis, portanto era
imperativo que o jovem duque se familiarizasse com todos os aspectos da
administração da propriedade. Estavam na época da tosquia das ovelhas,
e o comércio de lã era importante para o futuro dos negócios. Com o au-
xílio do sr. Terrance, o administrador que Brand havia contratado, a
educação de Andrew acabara de começar.
— Não é preciso me anunciar — ele disse ao mordomo, antes de
deixar o grande salão em direção à ala oeste da mansão.
Ao entrar na sala de desjejum, deteve-se por um momento. A
condessa viúva, sua avó, achava-se à cabeceira da mesa, tão imponente
como ele a vira em tantas outras ocasiões do passado. A direita dela
estava a dama de companhia que a escoltava desde tempos imemoriais, a
Srta. Cutter, que tinha por hábito pular de um assunto a outro e, desse
modo, trazer confusão a qualquer conversa. A uma das laterais da mesa
encontrava-se Clarice, a meia-irmã dele, bela como sempre e com suas
sobrancelhas muito escuras, que ela sabia usar como ninguém quando
queria intimidar seu interlocutor. Clarice ainda não chegara aos trinta

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anos. Sua avó foi a primeira a vê-lo ali.


— Bem, não fique parado aí como um criado — ela o repreendeu.
— Entre. Entre.
Caminhando até a duquesa, Brand beijou o rosto ressequido que
ela lhe oferecia, depois a chamou "Vossa Eminência" com um respeito
maculado pela ironia. Ambos sabiam que ele era republicano até o último
fio de cabelo.
— Você está cada vez mais parecido com seu pai — ela observou.
Brand fitou-a nos olhos. Causava-lhe admiração o fato de ele
gostar de verdade daquela mulher briguenta que lhe dera tantas dores de
cabeça em seu tempo de rapazinho. A idade por certo lhe amolecera o
coração.
— O filho pródigo está de volta — disse Clarice, empertigando-se
na cadeira. — A quê devemos tal honra?
— Bom dia para você também, Clarice. — ele respondeu, antes de
cumprimentar a Srta. Cutter.
A dama de companhia de sua avó, alvoroçando-se toda por conta
do comentário descortês de Clarice, não se furtou a assinalar:
— De pródigo ele não tem nada, lady Clarice. Brand deixou o
Mosteiro e fez a própria fortuna, assim como aquele simpático sr. Lewis
que tomou posse da casa dos Sayer. Não que ele seja natural desta
região, mas dizem que...
— Lotty — a duquesa interrompeu-a, — por que não toca a sineta
para chamar Hartley e pedir-lhe que nos traga um bule de chá fresco?
— Ainda há chá neste aqui. — A srta. Cutter apontou o bule diante
dela.
— E então, que novidade foi essa que ouvimos sobre você se lançar
na carreira política?

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— A duquesa voltara sua atenção ao neto. — Sente-se e me


explique essa história.
Acomodando-se ao lado dela, Brand fez um rápido resumo de seus
planos. Foi só quando contou que reabrira a residência do avô materno e
que pretendia morar lá até a eleição que a velha senhora o interrompeu:
— O que há de errado com o Mosteiro?
— Não quero incomodar ninguém, minha avó. — Ele mexeu o chá
que lhe chegara às mãos.
— E provável que eu vá ter de receber correligionários a qualquer
hora do dia e da noite, e também será preciso providenciar refeições para
todos... Abri a casa pensando em acomodar meus colegas, visto que
temos uma eleição a ganhar.
— Oh, por favor, poupe-nos de suas desculpas — interveio Clarice.
— Você nunca viu o Mosteiro como seu lar nem nós como sua família.
Nunca irei entender por que nosso pai foi designá-lo para curador de
nossos bens.
— Já basta, Clarice — declarou a duquesa.
Ao olhar para a meia-irmã, Brand sentiu uma ponta de raiva. Não
dela, mas do pai de ambos. O duque confinara a herança dos filhos num
investimento sob a custodia dele. Clarice e seus dependentes podiam
utilizar-se dos rendimentos, mas o capital em si estava reservado à
próxima geração.

O marido dela era uma pessoa mais fácil de se lidar. Antropólogo


autodidata, Oswald adorava escarafunchar ruínas e lugares remotos à
procura de artefatos de um passado longínquo e pouco se importava com
dinheiro. Para ele era indiferente morar numa tenda ou na residência
suntuosa da esposa. Brand gostava muito de Oswald.

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— Não pedi para ser feito curador de seu patrimônio — ele disse à
meia-irmã, — mas já que sou, basta você me pedir e cuidarei de
providenciar os recursos de que estiver necessitando... desde que sejam
razoáveis.
— E quem é você para julgar o que é razoável? — devolveu Clarice,
levantando-se. — Isso é um insulto à pessoa de Oswald, pois eu sei muito
bem o que todos vocês pensam dele. Pois permita que eu lhe diga que
neste exato momento Oswald está em Londres, negociando a venda de
um de seus manuscritos, pelo qual espera receber uma excelente quantia.
Ele escreveu um trabalho de História, sobre a vida de Anibal!
— Dinheiro não é o que conta. — Sempre conciliadora, a srta.
Cutter tentou serenar os ânimos. — O que importa é o sentimento de
realização. Quantas pessoas são capazes de escrever um livro?
Brand deixou a xícara e o pires sobre a mesa. Clarice fez menção
de falar, mas então preferiu deixar a sala em silêncio.
— Ela está sentindo a falta de Oswald. Tomara que ele volte logo —
observou a duquesa.
— Seja como for, o fato é que Clarice tem motivos para estar assim
nervosa. Andrew assumirá o controle do patrimônio quando fizer vinte e
um anos. Ela, que já está com vinte e sete, passará o resto da vida a
suplicar.
— Clarice não é nenhuma indigente — assinalou Brand, que sentia
a paciência esgotar-se.
— Ela tem dinheiro de sobra, para fazer o que bem entender. E
Oswald não quer viver à custa da esposa.
— Eu admiro um homem de princípios — declarou a Srta. Cutter.
— E amor e...
A duquesa ergueu a mão para pedir silêncio, no que foi

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prontamente atendida, depois fixou os olhos de águia no neto para


afirmar:
— Ouvi dizer que você está noivo de lady Marion Dane. E verdade?
A pergunta não o surpreendeu. Sua avó tinha espiões por todos os
cantos.
— Não, não é verdade. Conheci lady Marion em Londres, quando
ela passava uma temporada na casa de amigos meus. E como ela e as
irmãs são sobrinhas de Edwina, achei que o mínimo que eu poderia fazer
seria lhes mostrar alguns pontos turísticos, sobretudo porque estão de
mudança para o Chalé do Teixo e serão nossas vizinhas.
— Edwina Gunn! — desdenhou a duquesa.
Brand não se admirou. Sua avó nunca entendera o forte vínculo
que o ligava à sua antiga professora. Edwina fora uma mãe para ele,
porém isso estava fora do alcance da compreensão da duquesa, que era
terminantemente contra a concessão de mimos a uma criança.
Antes que a conversa tomasse outro rumo, ele indagou:
— Edwina tinha uma outra irmã, não tinha? Hannah? Marion me
falou qualquer coisa a respeito dela... Você chegou a conhecer Hannah,
vovó?
— Não muito bem. Ela era governanta, não era?
— Eu me lembro de Hannah — intrometeu-se a Srta. Cutter.
— Ela costumava levar seu cãozinho para passear no nosso jardim.
Ouvi dizer que era uma moça muito teimosa e que deu grandes dores de
cabeça à Srta. Gunn.
— De que maneira?
Olhando para ele com uma expressão vazia, a Srta. Cutter
respondeu:
— Não consigo lembrar.

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— O que houve com Hannah? — ele indagou à avó. — Onde ela


está?
— Presumo que tenha conseguido emprego em outra parte
qualquer. Hoje em dia deve estar casada, criando os filhos.
— Não — refutou a Srta. Cutter, — ela fugiu. Estou certa de que
me contaram que ela fugiu... Ou será que essa era Mary Streatham? Deus
do céu, faz tanto tempo que é difícil lembrar com clareza... Será que me
confundi de novo?
— Não, está tudo bem — a duquesa tranqüilizou-a. — Bem, onde
estávamos quando Brand chegou? Ah, sim: você ia dizer à cozinheira que
seremos apenas três para o almoço. A menos que...
— Obrigado, mas tenho muito que fazer na Granja — Brand
respondeu ao olhar com que ela o interpelava. — Espero que o convite
valha para uma outra ocasião.

— Você não precisa de convite, mas lembre-se de trazer lady


Marion e as irmãs dela. Vá em frente, Lotty, e não esqueça: almoço para
três.
Assim que a srta. Cutter deixou-os a sós, o sorriso que a duquesa
tinha nos lábios se apagou. Suspirando, a velha senhora comentou:
— A idade é uma coisa muito triste, e não acredite se alguém lhe
disser o contrário. Tudo se vai: a aparência, o apetite, a saúde... Mas o
que mais devemos temer são os abalos em nossas faculdades mentais.
— Por falar nisso — Brand não quis perder a oportunidade, — é
verdade que Edwina também ficou com a mente deveras atrapalhada?
— Bobagem. Quando conversávamos após a missa, ela estava
alerta e esperta como sempre. Mas essa não é a primeira vez que você
me faz essa pergunta. O que está acontecendo, Brand?

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— Nada. Nada mesmo.


— Então não vá incomodar Lotty com perguntas que ela não tem
como responder. Isso só servirá para deixá-la com a mente ainda mais
confusa.
— Fique tranqüila. Essa idéia nem me passou pela cabeça.
Brand passou um começo de noite extremamente agradável na Fox
and Hounds. Ao final de mais um dia de trabalho, era lá que boa parte
dos habitantes locais se reunia para comentar a novidades junto aos
vizinhos antes de voltar para suas esposas e filhos. Tanto o magistrado
como o chefe de polícia achavam-se ali, mas nem um nem outro viam
nada de mais nas marcas de tinta nos dedos de Edwina. Provavelmente
ela escrevera alguma carta e depois a atirara ao fogo por um motivo
qualquer.
De Hannah ninguém sabia informar coisa alguma. E quanto ao fato
de Edwina estar senil por ocasião de sua morte... Bem, se alguém
pudesse ter alguma certeza quanto ao estado mental da srta. Gunn, esse
alguém era a sra. Ludlow, que a conhecia bastante bem e tinha um
convívio diário com ela. E a sra. Ludlow fora enfática ao afirmar que
Edwina morrera no pleno gozo de suas faculdades mentais.
Então, quem dera início a tais rumores? E com que objetivo?
Seriam tais boatos um plano deliberado de alguém com o propósito de
desacreditar o que Edwina pudesse dizer sobre a noite do
desaparecimento de Hannah? E a avó dele, teria algo mais a revelar a
respeito de Hannah Gunn além do que havia lhe dito?
A imagem de Hannah que começava a se formar na mente de
Brand era repleta de contradições: a mais nova de três irmãs,
governanta, obstinada, fonte de dores de cabeça para Edwina, admirada
por Marion. Todos em Longbury pareciam acreditar que ela tivesse fugido

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dali. Mas se Hannah tinha de fato fugido, onde estava agora?


Ao se recolher a seu quarto, Brand tinha em mente o quanto devia
a Edwina. Ao menino confuso que se via no meio de um cabo-de-guerra
entre dois homens poderosos, o pai e o avô, o chalé dela representara um
refúgio seguro. E tudo o que Edwina lhe pedira em troca fora que ele
tentasse solucionar o mistério sobre o desaparecimento de Hannah.
No silêncio de seu dormitório, Brand disse baixinho: — Vou
encontrar sua irmã para você, Edwina. Prometo.
Dois dias depois, quando as águas baixaram, Marion e as irmãs
retomaram a viagem para Longbury na companhia de lorde Denison. Ela
não teve como recusar: além de seguirem para a mesma localidade, ele
tinha uma carruagem toda equipada à disposição. A bem da verdade, o
veículo pertencia a Brand Hamilton. Denison mencionara a breve
passagem de Brand pela hospedaria como um assunto sem maior
importância, e como não pudesse confessar que estivera a espioná-los,
Marion não fizera perguntas.
Chegaram a Longbury no meio da manhã, porém pouco viram da
cidadezinha, uma vez que o chalé de Edwina situava-se nos arrabaldes,
não muito longe da estrada. O perfume da floração das macieiras tornava
ainda mais aprazível um dia já especialmente bonito.
— O Chalé do Teixo! — exclamou Phoebe quando a carruagem
contornou a curva que levava a um pequeno quintal. — Que lindo! E não
é tão pequeno como eu tinha imaginado.
Suas irmãs concordaram. Tratava-se de uma construção de dois
pavimentos em tijolos caiados, com janelas em arco e uma profusão de
trepadeiras agarradas às treliças que cobriam as paredes. Marion lembrou
que uma daquelas janelas salientes pertencia à sala de estar na ala dian-
teira do sobrado, a outra era a da sala de refeições. O dormitório de

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Hannah ficava no piso térreo, atrás da sala de estar. Era chamado "quarto
da criada", embora nenhuma criada dormisse ali desde os tempos de seus
avós. Marion lembrou também que havia uma aldrava na porta de en-
trada na forma de um leão rampante, supostamente de origem
normanda, que ela adorava quando criança.
Enquanto Emily e Phoebe admiravam o jardim, aproveitou para
trocar algumas palavrinhas com lorde Marion Denison. Precisava
agradecer-lhe não só pelo socorro prestado, mas também pelo
empréstimo da carruagem do sr. Hamilton.
— Oh, você terá oportunidade de conversar com ele pessoalmente
— disse Denison.
— Brand já está na Granja e, quando souber que você chegou, virá
procurá-la assim que possível.
Antes que Marion pudesse fazer algum comentário, ele retornou à
carruagem e partiu com um breve aceno.
A porta do chalé se abriu, e à soleira surgiu uma senhora de
cabelos castanhos que se apresentou como sra. Ludlow e as convidou a
entrar. Marion não levou mais do que uns poucos minutos para concluir
que simpatizara bastante com a educada criada que, além dos modos
gentis, mantinha o sobrado num asseio impecável. No entanto, foi o
aroma de pão recém-saído do forno que cristalizou a boa imagem da sra.
Ludlow no coração das três irmãs. O Chalé do Teixo já podia ser
considerado um lar.
Na visita às demais dependências do sobrado, Marion se
surpreendeu ao constatar que ainda se lembrava perfeitamente bem de
uma série de detalhes: a lareira de pedra na sala de estar, a compacta
mobília de carvalho, as cortinas de veludo. Sem perceber que sorria,
antecipou na mente a vista que teria, nas janelas do piso superior, do

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jardim e da horta e, para além deles, do Mosteiro onde os monges


haviam morado tanto tempo atrás.
A alegre sucessão de recordações teve um fim brusco quando elas
chegaram aos pés da escada lavrada em carvalho.
— Foi aqui que...? — Emily não sabia como terminar.
— Sim — confirmou a Sra. Ludlow com tristeza.
Ao perceber que todas tinham os olhos úmidos, Marion declarou
com firmeza:
— Falaremos de tia Edwina mais tarde, depois que tivermos nos
instalado. Ela quis que ficássemos com sua casa e que fôssemos felizes
aqui. Lembrem-se disso. — Não queria parecer insensível, mas tampouco
queria que suas irmãs se deprimissem por causa de uma realidade que
não tinham como mudar.
Felizmente suas palavras tiveram o efeito que ela desejava.
Obrigando-se a sorrir, Marion tomou a dianteira e pôs-se a subir os
degraus.
Mais tarde, enquanto suas irmãs desfaziam as malas e os caixotes,
ela deu uma escapadela ao quarto de Hannah, onde uma ampla janela de
correr contemplava o jardim de hortaliças e deixava entrar a claridade do
sol. Um dormitório agradável, próprio de moças, decorado em musselina
e algodão estampado.
Lá estavam também os objetos que tinham pertencido à sua tia:
um frasco vazio de colônia sobre a penteadeira, uma pequena almofada
que ainda recendia a alfazema, papéis e penas cuidadosamente
organizados em cima da escrivaninha. Tomada por certo desconforto ao
passar a ponta dos dedos sobre eles, Marion lembrou-se de ter ouvido
uma discussão naquele quarto. Hannah estava gritando, depois saíra do
chalé batendo a porta atrás de si, então tudo ficara em silêncio.

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Qual seria o motivo daquela briga?


Emily chamou por ela lá do alto da escada. Pondo as lembranças de
lado, Marion foi ver o que a irmãzinha queria.
No meio da tarde, fizeram uma pausa no trabalho de desencaixotar
seus pertences para tomar chá na sala de estar. Satisfeitas da vida com o
chalé, as três irmãs já conseguiam falar de tia Edwina sem abatimento
nem sentimentos mórbidos. Na verdade, conversavam animadamente no
instante em que a Sra. Ludlow foi avisá-las de que tinham visitas.
Levantando-se, as três trocaram olhares admirados.
— Lady Clarice Brigden e a Srta. Flora — anunciou a bondosa
criada, dando um passo para o lado a fim de dar passagem às recém-
chegadas.
Marion viu entrar uma jovem mulher de cabelos escuros e idade
próxima à dela, bastante alta, com feições duras que o sorriso e os
alegres olhos azuis suavizavam. Foi justamente esse olhar travesso que
lhe trouxe a certeza de que ela já conhecia lady Clarice. Ao lado da dama
estava uma menina de pernas compridas com cerca de dez anos de idade
e o rosto emoldurado por uma cascata de cachinhos avermelhados. Flora
tinha olhos verdes e um sorriso meio sério.
Após a rotineira troca de cumprimentos, Marion convidou as visitas
a se sentarem. Lady Clarice ignorou o convite e, rindo a valer, foi para
junto de sua anfitriã.
— Não está lembrada de mim, não é, Marion? Será que esqueceu
as aventuras que compartilhamos quando você veio visitar a Srta. Gunn?
— Posso ter me esquecido das aventuras, mas de você eu lembro
muito bem. — Marion também riu. — Seu nome não era Clarice FitzAlan?
— Ah, isso foi antes de eu me casar. Agora sou Clarice Brigden, e
esta é Flora, sobrinha de Theodora que veio passar uma temporada

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conosco. — Ao perceber que Marion tinha a testa franzida, ela perguntou:


— Não lembra de Theodora? Ela é casada com meu tio, Robert. De Robert
você lembra, não é mesmo?
Marion não lembrava, no entanto achou mais fácil menear a cabeça
para dizer que sim e correu a apresentar as irmãs. Depois que ela pediu
refrescos à Sra. Ludlow, Clarice retomou a conversa:
— Mais um pouco e estarão todos batendo à sua porta! Os FitzAlan,
quero dizer, especialmente minha avó. Desde que ouviu falar que você
está noiva de Brand, vovó está morta de curiosa para conhecê-la. Então é
verdade, Marion? Você e Brand estão noivos em segredo?
— Você está se referindo a Brand Hamilton?
— indagou Marion, mais surpresa do que contrariada.
— E de quem mais eu poderia estar falando se não meu meio-
irmão?
— Clarice parecia igualmente admirada.
— A propósito, o nome dele é Brand FitzAlan Hamilton, visto que
também é filho de meu pai, o duque de Shelbourne... ainda que não
goste de reconhecer esse parentesco. No fundo Brand tem vergonha de
nós, pois nos considera um bando de ociosos, enquanto ele só faz
trabalhar. Eu tenho pena é de Oswald... Oswald é meu marido... que se
sente desonrado por viver do meu dinheiro. Ele é escritor, sabe? E essa é
uma profissão que não enche os bolsos de ninguém. Mas de que me
adianta ter dinheiro se não posso gastá-lo? Oh, Deus!, estou parecendo a
srta. Cutter... — Clarice suspirou. — Bem, o que eu queria dizer era que
Brand tem o controle sobre todos os nossos recursos, pois meu pai o
nomeou curador da nossa herança.
Como não soubesse o que dizer de tudo aquilo, Marion ficou
olhando para ela. Estava chocada não só com a franqueza de sua

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interlocutora, mas também com o que ela acabara de revelar. Ninguém


havia lhe dito que a propriedade do pai de Brand ficava em Longbury.
Ninguém lhe contara que Brand tinha parentesco com os FitzAlan nem
que o pai dele era o falecido duque de Shelbourne.
— Marion, você não respondeu à minha pergunta — Clarice
chamou-a de volta à realidade.
— Ou será que vocês dois estão esperando até que Brand receba a
indicação do partido para concorrer ao Parlamento antes de anunciarem o
noivado? Ah, já sei por quê. Vovó sempre diz que ele teria muito mais
chance de conseguir a indicação se estivesse compromissado com a
mulher certa. Assim as pessoas não se importariam com o fato de Brand
ser filho ilegítimo.
— O que foi, exatamente, que seu irmão falou a meu respeito?
— Na verdade ele não nos disse nada, pois da boca de Brand não
escapa o que ele não quer. Essa não é a primeira vez que vemos o nome
de meu meio-irmão associado a uma dama, mas como das outras ele se
livrou de qualquer maneira e com péssimas palavras, minha avó acredita
que o interesse de Br and por você seja realmente sério e verdadeiro.
Marion viu-se momentaneamente sem palavras, porém Emily, que
prestava atenção a tudo que era dito, concluiu que aquele não era um
assunto adequado aos ouvidos ingênuos de sua irmã caçula.
— Phoebe, por que não mostra a Flora a árvore genealógica que
está desenvolvendo?
— E para Clarice ela esclareceu: — Phoebe está escrevendo a
história de nossos parentes por parte de mãe, os Gunn.
— E mesmo? — O interesse de Clarice soava verdadeiro. — Bem,
só espero que ninguém tenha a infeliz idéia de escrever a história dos
FitzAlan. As páginas iriam pegar fogo.

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— Phoebe! — Emily insistiu com a irmã.


— Venha comigo, Flora — chamou a menina num tom resignado.
Do outro lado da porta, Flora perguntou:
— Você é aleijada?
— Claro que não! — Phoebe olhou feio para a outra menina, uns
dez centímetros mais alta do que ela. — Manco com uma das pernas, mas
isso não faz de mim uma aleijada.
— Que bom. Sendo assim não precisamos ficar dentro de casa, não
é mesmo? Podemos sair para passear e buscar aventuras.
— Não tenho permissão para ir muito longe.
— Não iremos longe demais, só até a lagoa para pegar rãs — Flora
tranqüilizou-a. — Há uma porção delas por lá.
— Você não tem de pedir permissão a sua mãe?
— Não tenho mãe. Ela morreu quando eu era pequena. Vim visitar
minha tia, Theodora, que sempre me deixa fazer tudo o que quero.
— Bem que eu gostaria que Marion fosse como sua tia. Quando
querem, minhas irmãs são muito chatas... Eu nunca peguei rãs.
— Eu lhe ensino como se faz. — E enquanto se encaminhavam para
a porta da rua, Flora quis saber: — O que é árvore genealógica?
Uma coisa enfadonha, pensou Phoebe. Mas como quisesse
impressionar a outra menina, ela fez o tema soar grandioso.
Na sala de estar, Clarice recordava os velhos tempos.
— Você lembra do fantasma do Mosteiro, não é, Marion? Da noite
em que nos escondemos atrás do púlpito do refeitório e ficamos
esperando o fantasma aparecer?
— Não. Receio que não.
Antes que Clarice pudesse continuar com suas lembranças, a Sra.
Ludlow foi avisá-las de que mais duas visitas acabavam de chegar: lady

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Theodora e o sr. Hamilton.


— Não falei que viriam conhecê-la? — Clarice disse a Marion.
Após os cumprimentos costumeiros, todos se sentaram e Marion
pediu a Sra. Ludlow que trouxesse mais refrescos. Ciente de que tinha
vários pares de olhos sobre si, ela fez o que pôde para mostrar-se
indiferente à presença de Brand. Agradeceu-lhe a carruagem, ao que ele
respondeu com os comentários de praxe, então dirigiu sua atenção à
dama que ainda não conhecia.
Lady Theodora era o que seu pai chamaria uma bela mulher. Alta e
de formas atléticas, devia ter cerca de quarenta anos e trazia os cabelos
negros puxados num coque, o que lhe realçava o rosto queimado de sol.
O vestido que usava parecia um traje próprio para montaria.
— Não vou fingir que me lembro de você, Marion — disse
Theodora. — Quando esteve aqui, você era apenas uma menina e eu já
era uma mulher feita.
— Não se desculpe, Theo — interveio Clarice, — pois Marion
também não deve lembrar de você. Robert não veio?
— Não. Você conhece seu tio... Ele encontrou alguns amigos em
Windsor e resolveu demorar-se um pouco mais por lá. — A Marion, ela
acrescentou: — Estamos falando de lorde Robert FitzAlan, meu marido
errante.
Percebendo Marion buscava o que dizer, Brand foi ao socorro dela e
mudou de assunto.
— Você trouxe uma bela égua para casa, Theo. Árabe, não?
— Meio árabe — explicou Theodora, antes de pôr-se a descrever as
excelentes características do animal que acabara de comprar. — Mas nem
sonho em permitir que alguém monte aquela danadinha antes que John a
adestre.

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— A Marion, ela esclareceu: — John Forrest treina minhas


montarias e cuida de meus negócios. Aprendi com ele tudo o que sei
sobre cavalos.
A sra. Ludlow chegou com chá e limonada e, enquanto ela os
servia, Brand perguntou à meia-irmã:
— Foi impressão minha, Clarice, ou quando chegamos você falava
alguma coisa a respeito de um fantasma no Mosteiro?
— Era um segredo nosso, meu e de Marion — afirmou Clarice. —
Uma traquinagem infantil que nos assustou muito à época, mas que
agora me parece bem engraçada.
— E o que foi que aconteceu? — perguntou Brand.
— Não há muito que contar. — Pensativa, Clarice fez uma pausa. —
Nós duas imaginávamos que o fantasma de um monge ou do abade
vagasse pelo Mosteiro à noite. Eu o tinha visto da janela do meu quarto,
carregando um lampião, veja só. Bem, para encurtar a história: Marion e
eu decidimos ficar de vigília certa noite, quando todos dormiam, então
nos escondemos atrás do púlpito no refeitório...
— Refeitório? — perguntou Emily.
— O local onde os monges costumavam fazer as refeições. O
púlpito, que era tudo o que sobrara daquele salão, na época da
construção da nossa estufa foi levado a um lugar no meio do caminho
entre o Mosteiro e o Chalé do Teixo, onde está até hoje. Era um excelente
esconderijo para duas garotinhas. Calculem só, Marion e eu lá, rindo e
tremendo de medo ao mesmo tempo, quando então o monge surgiu por
entre as árvores... Ou pelo menos foi isso o que imaginamos. Pasmas e
aterrorizadas, ouvimos o uivo de algum animal desgarrado e disparamos
uma para cada lado, eu para o Mosteiro e Marion de volta ao chalé. Não
havia fantasma nenhum, evidentemente. — ela olhou para Marion. —

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Nosso fantasma carregava um lampião, lembra? Um fantasma que se


preza precisa de um lampião para ver onde pisa?
— Agora estou me lembrando... — disse Marion.
— Quantos anos você e Clarice tinham? — Emily perguntou à irmã.
— Sete, creio eu — respondeu Marion. — Talvez oito.
— E saíram de casa enquanto todos dormiam?
— Sua tia Edwina deitava-se cedo, e minha família não daria pela
minha falta nem que eu sumisse por uma semana — disse Clarice. —
Além do mais, fizemos isso uma única vez.
— Não consigo imaginar você escapando de casa à noite para ir
caçar fantasmas. — Emily continuava a olhar para Marion. — Não é do
seu feitio.
— Ah, ela tem seus momentos de ousadia — observou Brand.
— Alguém quer mais chá? — ofereceu Marion com um sorriso.
Assim que chegou ao Mosteiro, Theodora foi à cocheira verificar
Thunderbolt, a égua que comprara em Windsor. O cavalo castrado do
marido dela estava lá, um dos cava-lariços o escovava. Cumprimentando
o rapaz com um aceno, Theodora foi ao encontro do homem em quem
depositava plena confiança na condução de seus negócios.
Alto e esguio, John Forrest sorriu para ela, e de repente pareceu
mais jovem do que seus sessenta anos.
— Então Robert está de volta — disse Theodora.
— Chegou faz meia hora — confirmou John. — E foi direto para
casa.
Theodora não reprimiu um sorriso eivado de contrariedade. Por
certo Robert já se achava em sua poltrona preferida, um cálice de
conhaque na mão, lendo Ovidio, seu poeta favorito. E o resto do mundo
que se danasse.

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Suspirando, encaminhou-se para a baia que seria o novo lar de


Thunderbolt. Não queria pensar que John estava velho e não ficaria ao
lado dela para sempre.

Capítulo IV

O primeiro dia em Longbury as tinha exaurido, de modo que não foi


surpresa nenhuma quando Phoebe anunciou que iria para a cama... de
livre e espontânea vontade. O cansaço valera a pena, pensou Marion,
sentindo-se verdadeiramente em casa. Já conheciam os novos vizinhos, e
Phoebe encontrara uma amiga, uma companheirinha espevitada que a
tirava de cima dos livros. Flora também era órfã e, segundo Clarice,
passava metade do ano no Mosteiro com Theodora, a outra metade
morava com uma outra tia nos arredores de Londres.
Ao ver Emily pestanejar sobre o romance que lia, Marion sugeriu:
— Vamos nos deitar?
— Vamos, sim. — A jovem deu um longo bocejo. — Foi um dia
cheio.
Enquanto a irmã subia ao piso superior do sobrado, ela foi de
cômodo em cômodo com uma vela na mão para se certificar de que todas
as portas e janelas estivessem fechadas. E estava prestes a deixar o
castiçal sobre a mesa da cozinha quando ouviu bater de leve à porta dos
fundos do chalé. No mesmo instante, sentiu o coração na garganta.
— Sei que você está aí, Marion. — Era a voz de Brand. — Vi sua
silhueta passar pela janela.
Por conta do susto que levara, Marion abriu a porta já pronta para
repreendê-lo. Mas ao vê-lo parado à soleira, quase tão alto quanto o
batente de madeira, os cabelos castanhos umedecidos pela garoa e um

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sorriso acanhado nos lábios, sentiu o ímpeto de brigar esvair-se como


fumaça ao vento.
— Como sabe que era minha a silhueta que você viu? Podia ser
Emily.
— Reconheci seu perfil. Eu o identificaria em quaisquer
circunstâncias.
Com medo de deixar-se envolver pelas palavras gentis daquele
belo homem, ela decidiu ser firme:
— O que faz aqui tão tarde da noite?
— Ainda não são dez horas. Importa-se se eu for me sentar
naquela cadeira junto à mesa para conversarmos um pouco?
— Minha resposta faz alguma diferença?
— Não, já que você nem sempre diz o que lhe vai pela mente.
Resignada, Marion afastou-se para que ele entrasse e depois
fechou a porta. Acomodando-se na cadeira que havia apontado da soleira,
Brand comentou:
— Edwina sempre me oferecia um conhaque quando eu passava
para conversar e ver se ela estava precisando de alguma coisa.
— Sinto muito, não temos conhaque.
— Ah, mas você vai encontrar uma garrafa na despensa com um
rótulo onde se lê "Cevada". Contrabando, evidentemente, mas Edwina
não ligava para isso.
Ela gostava de pensar que, mesmo por meios tortos, contribuía
para que a família do contrabandista vivesse um pouco melhor.
Apertando um lábio contra o outro para não sorrir, Marion foi até a
despensa e voltou com a tal garrafa, que colocou sobre a mesa com um
estalo. O mesmo ruído que fez para depositar um copo no tampo de
madeira.

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— Gosto de mulheres com senso de humor — provocou Brand.


— Não acha que esta situação é um tanto imprópria?
— Apesar da observação, Marion sentou-se na cadeira ao lado da
dele.
— Não há ninguém para nos fazer companhia.
— Como não? E Emily? E Phoebe?
— Estão dormindo.
— E quem é que vai saber que eu estou aqui? Minha intenção não é
sair por aí contando que vim visitá-la.
— O que acha de me dizer o que veio fazer aqui a uma hora
destas?
Brand fitou-a nos olhos por alguns instantes, depois colocou um
pouco de conhaque no copo enquanto dizia:
— Vim por dois motivos. O primeiro é pedir desculpas pelo
comportamento de minhas parentas. Elas não medem o que dizem.
Sinceramente, estou surpreso com que você não lhes tenha torcido o
pescoço.
— Clarice é como uma criança crédula. E impossível não gostar
dela.
— O que foi que minha irmã lhe disse?
— Que seu pai respeitava seu bom senso.
— Ah, sim. Clarice lhe contou que ele me nomeou curador dos bens
da herança. — Brand sorveu um longo gole de conhaque. — Não dê muita
importância a esse fato, Marion. A verdade é que ele não tinha outra
escolha. Era eu ou meu tio, e Robert é tão mão-aberta que Clarice e
Andrew levariam a propriedade à bancarrota antes que ele pudesse dar
um suspiro.
— Sei...

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— Por que está me olhando desse jeito?


— Você devia ser bastante jovem para assumir tamanha
responsabilidade.
— Eu tinha vinte e um anos quando meu pai morreu. Clarice tinha
vinte e meu irmão, Andrew, apenas onze.
— Seu pai poderia ter indicado o advogado dele ou algum amigo
para curador.
— Poderia, mas isso seria o mesmo que me deixar livre dele de
uma vez por todas.
— Você certamente o conhecia bastante bem. Não seria que... que
ele tivesse em mente reparar os erros do passado?
— Certas coisas não têm conserto. Ele deu as costas à minha mãe
antes mesmo de eu nascer. Ela não era nem extravagante nem
ambiciosa, era uma jovem digna e honrada, cujo maior defeito foi não
possuir título ou patrimônio que o atraíssem. Não vou aborrecer você com
certos detalhes. Basta dizer que foi somente quando fiquei órfão e depois,
quando meu avô materno morreu, que meu pai lembrou que eu existia.
Isso por insistência de minha avó, mãe dele.
— Brand tomou mais um gole, então se forçou a sorrir. — O velho
canalha sabia que eu não me negaria a saldar minha dívida.
— Você lhe devia algo?
— Ele pagou minha educação. Providenciou para que a casa de
meu avô não fosse vendida quando eu era criança, de modo que eu
sempre contei com um lar onde me refugiar. Andrew tinha apenas onze
anos quando nosso pai morreu. Eu não queria que ele crescesse como um
típico aristocrata que não luta por suas riquezas e propriedades. Antes de
mais nada, ele é meu irmão.
— Clarice também mencionou o fato de você ser um FitzAlan.

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— Essa é uma longa história, mas creia em mim quando lhe digo
que nunca exigi ter o nome de meu pai.
Recostando-se à cadeira, Marion percebeu que estava enternecida.
Ouvira a história da vida de Brand pela boca de outras pessoas, no
entanto nunca se deixara comover. Agora era como se alguém lhe tirasse
uma venda dos olhos. Aquele homem legitimamente notável ainda trazia
fantasmas de seu passado dentro de si. E ela gostaria tanto de poder lhe
mitigar essa dor...
Deus, precisava resistir ao impulso de apertar as mãos dele entre
as suas. Além do mais, duvidava de que Brand fosse aceitar qualquer tipo
de consolo. Por tudo isso, julgou mais seguro mudar o rumo da conversa:
— Você disse que veio aqui por dois motivos. Qual é o outro?
— Minha avó vai promover uma festa ao ar livre no Mosteiro na
próxima quinta-feira.
Você e suas irmãs estão convidadas.
— Uma festa ao ar livre?
— Ela diz fête, "festejo" em francês. — Brand sorriu. — Não que
minha avó não aproveitará a ocasião para examinar você da cabeça aos
pés, mas garanto que não é esse o objetivo do evento. Essa festa é uma
das tradições de Longbury. Ocorre todos os anos e, como costuma reunir
uma grande aglomeração de gente, é bem possível que nós dois só nos
encontremos acidentalmente.
Um festejo ao ar livre parecia algo inofensivo e, no meio de uma
multidão, ela teria como misturar-se às pessoas sem provocar
comentários nem especulações. Talvez até conseguisse escapar da
duquesa viúva. E de Brand.
— Obrigada pelo convite. Nós estaremos lá.
Ele perscrutou-lhe o rosto por cima da borda do copo, então tomou

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o restante do conhaque e colocou o recipiente vazio sobre a mesa.


— Alegre-se, Marion. Talvez você venha a se divertir. Ao vê-lo
levantar-se e se encaminhar para a porta,
Marion foi atrás dele.
— Brand... O que deu em você?
Abrindo a porta, ele saiu para a varanda e, quando se virou para
encará-la, tinha o olhar gelado.
— É a mim ou a minha família que você quer evitar?
— Brand, o que não quero é que as pessoas tirem conclusões
errôneas a respeito de nós dois.
— E que conclusões seriam essas?
— Que existe algo entre nós.
— Pelo bom Deus, então você acha que qualquer homem que a
trate com um mínimo de delicadeza o faz com segundas intenções?
— Óbvio que não!
— Acha que porque a beijei uma única vez quero me casar com
você? É isso? Então saiba nunca me passou pela cabeça propor
casamento às dúzias de mulheres que já beijei.
Imaginar Brand beijando dezenas de mulheres tirou-a do sério.
— Pois eu não me casaria com você nem que fosse o último
homem no mundo!
— O clichê a fez encolher os ombros. — Todos viram você me
beijar, e eu não quero ser assunto de mexericos. Tenho uma reputação a
zelar.
— Você acha que não sou bom o suficiente para você, filha de um
conde.
— Tomando o queixo dela, Brand ergueu-lhe o rosto à luz da
lamparina.

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— É esse o problema, Marion? Apesar de tudo o que você diz, seu


orgulho não lhe permite descer ao nível do filho bastardo de um duque?
Não era verdade, claro que não. Marion não queria que Brand
pensasse o pior dela, no entanto ele acabava de lhe dar uma saída para a
situação aflitiva que tanto a angustiava. Não podia desperdiçá-la.
Com isso em mente, ela declarou numa voz que não reconhecia
como a sua:
— Sinto muito. Não sei o que dizer.
Ele deixou cair a mão que lhe segurava o queixo.
— Boa noite, lady Marion.
Lady Marion. Nos lábios de Brand, o tratamento formal soava como
um insulto. Céus, não era certo deixá-lo pensar que ela o considerava
indigno ou mesmo inferior. Sentia-se encurralada, sim, mas não tinha o
direito de feri-lo por isso. E o ferira.
Tocou a manga do casaco dele, mas Brand a repeliu e se afastou
em direção aos degraus da varanda. Paralisada, Marion o viu desaparecer
entre as sombras da noite.
Afete promovida pela duquesa viúva era aberta a todos que
quisessem comparecer. E ainda que somente os convidados especiais
fossem recebidos no Mosteiro para um jantar tardio, ninguém se sentia
deixado de lado por isso.
Aos moradores da localidade fora providenciado todo o tipo de
entretenimento: danças folclóricas e, ao redor de um mastro enfeitado
com flores e fitas, menestréis, ilusionistas, acrobatas, exibição de
equitação no pasto sul e concurso de pães numa grande tenda no pasto
leste. Do lado de fora do celeiro dos monges, que sobrevivera aos séculos
praticamente intacto, os criados assavam leitões e cordeiros inteiros em
grandes espetos, enquanto no interior do silo mais criados e voluntários

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preparavam outros pratos com que saciar o apetite dos foliões.


Embora morassem em Longbury por pouco mais de uma semana,
Marion e suas irmãs admiravam-se com a quantidade de pessoas que já
conheciam, sendo que a maior parte delas lhes tinha sido apresentada no
final das cerimônias religiosas. Entre esses novos amigos figurava até
mesmo a duquesa viúva, uma formidável senhora que, segundo Clarice,
tudo via e tudo sabia.
Marion arrumara-se para a ocasião com extremado cuidado. Usava
um vestido de musselina preto com bordados na barra e no corpete, um
grande chapéu de palha com fitas verdes e, por precaução contra o
imprevisível clima inglês, sapatos robustos e uma sombrinha presa ao
braço. O encerramento do evento, a encenação de um confronto militar
dos tempos das escaramuças entre Cavaleiros e Cabeças-Redondas, iria
se dar no fim da tarde. Até lá o tempo poderia mudar, e ela queria estar
preparada para qualquer eventualidade.
De quando em quando avistava Brand Hamilton. Após
cumprimentá-la de longe com uma leve mesura, ele não tornara a lhe
dirigir o olhar, embora fizesse vários dias que não se viam. Segundo a
sra. Ludlow, Brand estivera dedicando-se com afinco à tarefa de angariar
votos para o partido entre os eleitores dos pequenos povoados nas cer-
canias de Longbury. Enquanto isso lorde Denison, que havia declarado
mais de uma vez considerar a política a arte da tapeação, partira para
Brighton com o intuito de apresentar suas homenagens ao príncipe
regente. Naquela época do ano, Brighton era como um ímã a atrair os que
andavam à busca de passatempos e prazeres.
Brand havia lhe sugerido que se alegrasse e tentasse se distrair, e
era exatamente isso o que ela pretendia fazer. A suas irmãs não fora
preciso sugestão alguma: Emily já havia se soltado por ali na companhia

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de alguns jovens da idade dela, enquanto Phoebe e Flora, agora amigas


inseparáveis, rodeavam os ciganos na expectativa de aprenderem a
prever o futuro.
Mas Marion não estava sozinha. Dama de companhia da duquesa, a
Srta. Cutter, que ou simpatizara com ela ou se afastara de seu grupo no
propósito de divertir-se um pouco por si mesma, não lhe dava um
momento de sossego. A velha senhora, que falava pelos cotovelos sobre
assuntos que não tinham o menor nexo entre si, pareceu recuperar a
coerência de raciocínio ao avistar Brand não muito distante de onde
ambas se encontravam. Indicando com um aceno de cabeça a mulher que
tinha a mão sobre o braço dele, a confusa senhora aproximou-se um
pouco mais de Marion para cochichar:
— Aquela é a Sra. Chandos. Já faz tempo que anda de olho nele.
Estavam no pasto sul, onde transcorria a apresentação de
cavaleiros e suas montarias. Dirigindo o olhar ao local onde Brand
conversava com uma graciosa loira, Marion comentou:
— Ela é viúva, suponho.
— Viúva e muito rica. — A srta. Cutter riu. — Herdou duas
fortunas, a do pai e a do finado marido. Se eu fosse você, minha querida,
anunciaria o noivado o mais rápido possível; isso daria um fim às ilusões
de mulheres como ela.
Marion respondeu à observação com um arremedo de sorriso.
A sra. Chandos não manteve o posto por muito tempo: um
cavalheiro alto e falador levou-a dali, e seu lugar foi tomado pela Srta.
Lacey, uma ruiva com curvas voluptuosa e sorriso cândido. Depois dela
vieram a Srta. Byrd, uma loira de aparência frágil, e a Srta. Stead, bela
como uma estátua grega.
O último cavaleiro a se apresentar na exibição de equitação

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esperava pelo sinal para dar início ao percurso: era Andrew, o duque de
Shelbourne. Apesar de muito jovem, mantinha-se à garupa de sua
montaria com a confiança de um cavaleiro experiente. Homem e animal
formavam uma bela imagem, ambos trigueiros, ambos puros-sangues.
A bandeira baixou, e Andrew partiu em sua montaria rumo à
primeira barreira. Passou pelo obstáculo com facilidade, então guiou o
cavalo em direção à prova da água. Uma após a outra, o animal e seu
dono ultrapassaram todas as barreiras com determinação e elegância. Ao
final do percurso, os espectadores os aplaudiam de pé.
Serenada a aclamação, Sua Eminência, a duquesa viúva,
aproximou-se apoiada numa bengala para a entrega das fitas. Junto dela
estavam lady Theodora e um cavalheiro de cabelos castanhos e gestos
apurados. Não foi surpresa que a fita azul fosse entregue a Andrew.
— Quem é aquele senhor moreno ao lado de lady Theodora? —
perguntou Marion.
— O marido dela, lorde Robert. Ele nunca deixa de vir afete. Quase
não o vemos, ele não passa muito tempo em Longbury. Acho que não há
nada que o prenda aqui.
— Há a esposa dele.
A Srta. Cutter não respondeu.
Theodora ergueu a mão para pedir que alguém se aproximasse, e
Marion viu que a pessoa que a dama chamava era John Forrest, o
encarregado das cocheiras do Mosteiro. Ainda bastante forte para um
homem de meia-idade e um tanto circunspeto, John deixou de lado a
sisudez quando Theodora disse-lhe algo e, com um sorriso largo,
agradeceu os aplausos que recebia com uma leve mesura.
— John está com Theodora desde que ela era criança — observou a
Srta. Cutter. — Tudo o que sabe a respeito de cavalos ela aprendeu com

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ele.
Marion olhou para Brand e pareceu-lhe que ele estava
imensamente contente com o êxito do meio-irmão. Aquilo a deixou
satisfeita.
— Uh-oh — fez a Srta. Cutter. — Vejo que Sua Eminência está
deixando o pasto, tenho de ir com ela... Mas o que era mesmo que eu
queria dizer a você?
— Ela revirou os olhos.
— Ah, sim. Você e Brand discutiram, mas não faça disso um cavalo
de batalha. Phoebe me contou que...
— Phoebe?!
— Oh, céus!, falei demais.
— Pelo visto, quem falou demais foi minha irmã! — Ao notar que a
pobre mulher ficara bastante aflita, Marion entendeu que não fazia
sentido ralhar com uma senhora evidentemente senil. — Acredite, Srta.
Cutter: não há nada entre mim e o sr. Hamilton.
— Sei. Bem, até mais. Nós nos encontraremos no Mosteiro para o
jantar de Sua Eminência.
Marion esperou que a Srta. Cutter se unisse ao séquito da duquesa
viúva antes de sair a passos largos à procura da irmã.
Phoebe estava na grande tenda aberta, aboletada num dos bancos
dispostos ali para os convidados com pés cansados. Flora não conseguia
parar quieta nem um instante sequer, porém ela precisava descansar a
perna fraca de quando em quando.
Depois de espionarem os ciganos, Flora havia lhe dito que fosse
esperá-la lá naquele banco, garantindo que não demoraria. Agora, ao ver
a amiga aproximar-se com seu chapelão que tinha por finalidade evitar
que ela se enchesse de sardas, Phoebe perguntava-se que mal Flora via

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nas pequeninas manchas que lhe enfeitavam o nariz. Eram tão


graciosas...
— Veja o que achei, Phoebe.
Sentando-se ao lado dela, Flora olhou furtivamente ao redor antes
de abrir um bornal de couro bastante gasto e dele tirar um estojo de
madeira, que colocou sobre o banco entre as duas e cobriu com a mão.
— O que é isso? — quis saber Phoebe.
— Primeiro você tem de jurar que nunca dirá nada a ninguém a
respeito desta caixa e do que vou lhe mostrar.
— Juro pela minha honra.
Flora retirou a mão que mantinha sobre o estojo e Phoebe então
pôde abri-lo. Ali dentro estavam um lenço masculino bordado com as
iniciais R.L.F., o recibo de um chapéu para homem em nome de lorde
Robert FitzAlan, um botão e outras ninharias, além de algumas anotações
e umas poucas cartas. Assim como a própria caixa, tudo dentro dela
parecia e cheirava a coisa antiga.
Torcendo o nariz ao odor, Phoebe pegou uma das folhas de papel e
a desdobrou.
— O que está escrito aí? — perguntou Flora num sussurro.
— Você ainda não leu?
Ao ver o rosto da outra menina tingir-se de rubor, Phoebe
entendeu por que ela não lhe respondia: Flora não sabia ler.
— Muita gente não sabe ler — tentou consolar a amiga.
— Sobretudo as meninas. Não é vergonha nenhuma. Se você
quiser, posso lhe ensinar.
— Sei as letras que formam meu nome.
— Já é um bom começo. Agora vamos ver se eu consigo ler tudo o
que está escrito aqui. As palavras me parecem muito longas...

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Unindo as sobrancelhas, Phoebe leu pausadamente:


Prezada srta. Gunn, Grato pelas palavras gentis. Sempre ao seu
dispor, Robert FitzAlan
— Flora.
... — Phoebe olhou para a amiga.
— Esta mensagem foi endereçada à minha tia Edwina. Onde foi que
você conseguiu isso?
— Pensei que fosse uma carta de amor.
— Carta de amor? De lorde Robert para tia Edwina? Não seja tonta!
— Que letras são estas? — Flora passava a ponta do dedo sobre
uma inscrição gravada na tampa do estojo de madeira.
Mesmo apagadas, as letras estavam legíveis: H.G.
— Hannah — murmurou Phoebe. — Esse estojo pertence à minha
família. Hannah também era minha tia.
Em resposta Flora recolheu todos os objetos de volta à caixa e
guardou-a novamente na bolsa de couro, declarando:
— Achado não é roubado.
— E roubado, sim, se você tirou isso de nosso chalé.
— Não sou nenhuma ladra! O que fiz foi tomar emprestado!
— Então me diga onde achou isso.
— Não digo.
— As cartas de lorde Robert agora pertencem à minha irmã. E
Marion quem tem de decidir o que será feito delas.
— Você as quer para si, para colocar na história da sua família!
As duas ficaram se provocando com o olhar até que Phoebe
acusasse:
— Você é a pior amiga que já tive.
— E você nem minha amiga é!

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Com isso, Flora pegou a bolsa de couro e saiu dali pavoneando-se


toda.
Phoebe pôs-se a conversar com seus botões. Não podia contar a
Marion sobre o estojo porque dera sua palavra de honra que não o faria.
Aliás, nem sequer entendia por que tinha de fazer segredo daquilo... A
menos que Flora tivesse furtado o estojo. A parte as cartas, não havia
nada de valor lá dentro. E, pensando bem, nem a mensagem que havia
lido parecia ser de alguma valia.
Por que Flora fizera tanto rebuliço por causa de uma bobagem?
Que amiga!
Emily nunca se divertira tanto. Não esperava encontrar muitas
pessoas da sua idade em Longbury e, no entanto, já fizera vários amigos.
Esse era o lado bom de ir à igreja: mesmo que o sermão fosse tedioso, as
pessoas continuavam ali após a celebração para conversarem umas com
as outras sem esperar pela formalidade das apresentações.
Agora ela se achava na companhia dos filhos do vigário, Ginny e
Peter Mathews, que conheciam toda a cidade. Tinham acabado de assistir
a lorde Andrew, a quem Emily também conhecera na igreja, receber a fita
por sua apresentação impecável e esperavam para cumprimentá-lo.
Quando Victor Malvern, filho de um proprietário de terras local,
uniu-se ao grupo, ela sentiu o coração disparar. Muito bonito, Victor era
quase um dândi, motivo pelo qual fazia lembrar Ash Denison.
— Você viu lorde Andrew? — Emily perguntou ao rapaz.
— Parece que ele nasceu em cima de uma sela de cavalo, não?
— E só disso que ele entende: cavalos e ovelhas. — Victor fez um
muxoxo em sinal de desdém. — Tire-o do Mosteiro e o que é que sobra?
Um ninguém.
— Céus... — Emily quase ofegou. — O que foi que Andrew lhe fez?

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Coube a Peter Mathews explicar:


— O que Andrew fez foi apresentar-se na mesma exibição de
equitação que Victor... e vencer.
— Não foi justo — Victor defendeu-se. — Ele tomou um atalho.
Além de joão-ninguém, Andrew é também trapaceiro. Com licença.
— Victor é abominável, mas o pior amigo de Andrew é ele mesmo
— comentou Ginny, alisando as dobras do vestido. — Não faz amigos,
raramente comparece a reuniões e, quando vai, nunca tira ninguém para
dançar.
— Andrew me parece um tímido — Emily ponderou. — E talvez não
saiba dançar. Sei que o pai dele morreu quando ele tinha onze anos, mas
e a mãe, onde está?
— Oh, ela também morreu — respondeu Ginny. — Quando ele era
ainda um bebê.
— Isso explica muita coisa... — Emily suspirou profundamente. —
Venha, vamos cumprimentá-lo. O tempo virou tão repentinamente que
em poucos minutos as pessoas estavam ensopadas. Enquanto todos cor-
riam a buscar abrigo da chuva que caía a cântaros, Marion mal pôde
desfrutar da proteção da sombrinha que levara: uma lufada de vento
arrancou-a de sua mão.
— Vão andando — ela disse às irmãs. — Já, já eu as alcançarei.
Então se pôs atrás da sombrinha, mas sempre que se via prestes a
agarrá-la, a ventania a tirava de seu alcance. Quando afinal desistiu da
perseguição, ela buscou consolo em blasfemar. Estava furiosa. Da aba do
chapéu os pingos de chuva precipitavam-se diretamente em seus olhos, o
vestido agarrara-se a seu corpo como uma pegajosa teia de aranha, o
vento a fazia bater os dentes... Que coisa!
Um raio cortou o céu, e o estrondo do trovão que o sucedeu deu-

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lhe um susto tremendo. Virando-se num sobressalto, ela foi cair entre os
braços de Brand. Pronto! Agora não lhe faltava mais nada.
— Procurando por alguém, lady Marion?
— Minha sombrinha.
— Ah.
Sem lhe dar tempo para protestar, ele conduziu-a até uma
carruagem e a fez subir no veículo. E como ali dentro estivesse quente e
seco, Marion julgou que aquele não seria o momento mais indicado para
reclamações.
Assim que o coche se pôs em movimento, ele tirou-lhe o chapéu
encharcado e perguntou:
— Sente-se melhor?
Ela fez que sim. Pelo menos tinha parado de tiritar. Lembrando da
conversa que haviam tido na varanda do chalé, perguntou-se se deveria
desculpar-se ou deixar tudo como estava. A frieza que via nos olhos azuis
lhe dizia que Brand ainda não a perdoara.
— O que houve? Está amuada porque a chuva estragou seu flerte?
Marion concluiu que Brand só podia estar se referindo ao sr. Lewis,
a quem ela havia feito algumas perguntas a respeito da encenação do
confronto entre Cavaleiros e Cabeças-Redondas. Indignada com a
insinuação descabida, retrucou:
— Olhe só quem está falando. Justamente aquele que desfilou pela
festa com uma sucessão de mulheres penduradas em seu braço: loiras,
ruivas, morenas... Você não é nada exigente, não é mesmo?
— Pensei que não tivesse reparado... — Ele pôs a mão sobre o
coração.
— Mas antes que tire conclusões precipitadas, deixe-me dizer que
aquelas mulheres têm maridos ou pais extremamente influentes. O voto

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deles faz diferença. O que pensa que fiz nesta última semana senão
visitar eleitores na tentativa de persuadi-los a votar em quem quer que
seja o indicado pelo meu partido?
— Somente os homens têm o direito de votar. E a sra. Chandos
não tem nem marido nem pai.
— Ah, aquela obstinada. Você deve ter visto meu bom amigo,
Tommy Ruddle, correr em meu socorro e tirá-la de perto de mim. Aquela
mulher é uma devoradora de homens.
Marion lembrou que de fato vira um cavalheiro surgir do nada e
levar a sra. Chandos para longe de Brand. E antes que se reprimisse, já ia
dizendo:
— Eu lhe devo um pedido de desculpas. Deixei você pensar que eu
o julgava inferior a mim, que não estava à minha altura. Isso tudo é
bobagem. Perdoe-me. Não acredito em nada daquilo que insinuei.
— Eu sei.
— Como?
— Porque conheço você. — Tomando a mão delicada, Brand
acariciou-a com o polegar. — O que não significa que você não me
confunda. As vezes suas palavras dizem uma coisa e seus olhos dizem
outra. Mas eu sempre escolho acreditar em seus olhos.
Marion engoliu o nó que subitamente sentia lhe apertar a garganta.
Aproximando seus lábios dos dela, Brand murmurou:
— E o que seus olhos estão me dizendo é isto.
O beijo foi suave e nada ameaçador, no entanto Marion viu-se
reagir de maneira completamente inesperada. Passando os braços ao
redor do torso dele, abraçou-o com força. Tinha o coração sufocado por
todos os sentimentos que se obrigava a reprimir. Não que estivesse
tomada por um amor idealizado por Brand Hamilton, porém o conhecia

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bastante bem e gostava demais dele. Brand não era um príncipe


encantado, ela não era uma debutante com o olhar cintilante. Mas
gostava imensamente dele. E queria que ele soubesse disso.
De sua parte, Brand custava a crer nas emoções que ela lhe
despertava. Não era nenhum menino ingênuo e inexperiente, ainda
assim... Aquela mulher não era como as outras que ele conhecera. Era
Marion, e isso fazia toda a diferença. Ao sentir a língua dela enroscando-
se na sua numa carícia sensual, sentiu o autocontrole vacilar. Fazia muito,
muito tempo que a desejava. Desejara-a antes mesmo que Fanny os
apresentasse em Londres, antes até de saber que ela existia. Era como se
esperasse a vida inteira por Marion Dane.
Sem pensar em mais nada, enlaçou-a pela cintura e a trouxe para
seu colo. Beijou-a ainda mais intensamente, beijou-a até que estivessem
ambos quase sem fôlego. Beijou-a até senti-la sedenta e trêmula de
paixão como ele. Mais, o beijo dela lhe dizia. Mais, dizia o corpo bem-feito
que premia os seios de encontro ao seu peito.
Arfando, Marion se pôs a beijar as pálpebras dele, o rosto
barbeado, a garganta rígida. Foi então que, ao sentir a carruagem deter-
se, Brand lembrou de olhar pela janela. Deus, acabavam de chegar ao
Mosteiro...
De um instante para outro, ela se viu novamente no assento do
coche. Seus lábios tremiam.
— Brand...?
Ele tirou o casaco para agasalhá-la.
— Chegamos, Marion. Não se preocupe, tenho certeza de que
Clarice não se incomodará em lhe emprestar um vestido. — Brand
afagou-lhe o rosto — Não fique assim. Foi só um beijo.
Com isso, abriu a porta da carruagem e saltou para o chão. Marion

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espiou lá fora.
O pórtico do Mosteiro estava todo iluminado por archotes. Pelos
degraus havia várias pessoas, algumas em pequenos grupos,
cumprimentando-se umas as outras antes de entrarem no casarão. Bai-
xando o olhar, ela reparou que seu vestido, agora praticamente
transparente, colava-se a seu corpo de um modo quase ofensivo ao
pudor. Não podia ir ao encontro daquelas pessoas naquelas condições.
Mesmo assim aceitou a mão que Brand lhe oferecia e deixou a
carruagem. Os olhos dele se arregalaram, depois perderam a expressão.
Santo Deus, o que ela deveria fazer? O que poderia fazer?
Alguns homens se aproximaram de Brand, tocando-lhe o ombro.
Enquanto ele dava atenção a seus amigos, Marion cobriu-se com às mãos
como lhe foi capaz, mas, ao perceber que não havia como remediar a
situação, foi até Manley, na boléia do coche, e disse-lhe baixinho:
— Avise ao sr. Hamilton que fui até minha casa trocar de roupa.
— Eu a levarei na carruagem, minha dama.
— Não, não. Caminhar me fará bem.
Antes que alguém notasse, afastou-se em direção aos arbustos que
cercavam o gramado e, assim que se viu longe dos olhares de curiosos,
disparou a correr como se algum demônio a perseguisse. Brand ainda
chegou a chamá-la, porém logo se deu conta da inutilidade do gesto.
Pedindo licença aos amigos, ele caminhou de volta à carruagem.
— O que houve, Manley?
— Lady Marion foi para casa trocar de roupa.
— Mas será possível...! Leve a carruagem até o Chalé do Teixo,
sim? Nós nos encontraremos lá. Foi atrás dela reclamando baixinho. Por
que Marion dispensara a carruagem? Por que ela cismava de fazer tudo
da maneira mais difícil?

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Enquanto corria pelo bosque, Marion teve certeza de que aquela


não era a primeira vez em que se via naquele lugar. Sabia por onde ia.
Era por ali que ela e Clarice haviam brincado quando crianças. O chalé de
tia Edwina ficava ao pé daquela colina.
Ao chegar a uma clareira, parou e olhou ao redor. Sim. Era ali que
ela e Clarice tinham se escondido à espera de que o fantasma aparecesse.
Não havia nada além de paredes desmoronadas e, acima das ruínas, o
púlpito de pedra. Aqueles restos de paredes eram tudo o que sobrara da
casa do abade.
Calculando que isso pouco importava, voltou a correr em direção ao
Chalé do Teixo. Havia questões mais importantes com que se preocupar.
O que iria dizer a Brand? Como iria encará-lo depois do modo como se
comportara na carruagem?
Quando deixou o bosque para trás e deparou com o chalé aninhado
em meio à proteção dos teixos, suspirou de alívio: de fato, não se
enganara. Apanhando a chave que estava sob o capacho diante da porta,
entrou em casa e pôs-se a pensar em que atitude tomar. Ao lembrar que
sua mãe dizia que a filha de um conde devia comportar-se como tal,
decidiu trocar de roupa, colocar um sorriso no rosto e comparecer ao
jantar da duquesa viúva como se nada tivesse acontecido. E se Brand
ousasse falar no que havia se passado na carruagem, ela iria negar,
negar e negar.
Nem bem colocou o pé no primeiro degrau da escada e teve a
impressão de ouvir alguém caminhando pelo que era agora a sala de
desjejum, onde Phoebe também fazia suas lições.
— Phoebe? — chamou.
— Emily? Ninguém respondeu.
— Quem está aí? Silêncio.

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Mesmo assustada, julgou mais sensato ir verificar o que ocorria.


Mordendo o lábio, caminhou até a porta da sala e a escancarou. As
cortinas estavam abertas, o aposento achava-se tomado pela penumbra,
uma corrente de ar se espalhava a partir da janela... que ela havia
deixado fechada.
Marion sentiu os pêlos da nuca se arrepiarem. Tinha fechado todas
as janelas antes de ir para a festa ao ar livre, disso tinha certeza. Se uma
delas encontrava-se aberta era porque alguém a tinha arrombado,
alguém que sabia que o chalé estaria deserto durante a tarde. Mas que
coisa! Quantas outras residências da região não teriam sido roubadas no
decorrer da fête da duquesa?
Agora indignada, entrou na sala pisando duro para fechar a janela.
Mal dera três passos, um braço circundou-lhe a garganta e alguém levou
a boca de uma pistola contra sua têmpora. O assaltante a agarrara pelas
costas.
— Onde estão as cartas de Hannah? — indagou uma voz masculina.
Marion sentiu a garganta se mover, mas nenhum um som escapou
de seus lábios. O homem lhe cingia o pescoço com tanta força que ela,
com a sensação de sufocar, começou a se debater.
— Responda! — rosnou o agressor, afrouxando a pressão que fazia
em seu pescoço para sacudi-la.

Mesmo tragando grandes quantidades de ar para os pulmões e


quase ela conseguiu dizer:
— Não sei de cartas... Não há cartas...
Ao perceber que o homem erguia a mão para lhe dar um tapa ou
um soco, Marion deixou que o instinto falasse mais alto: arremessou o
próprio corpo de encontro ao dele e, no instante seguinte, tentou apanhar

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a pistola que ele tinha na mão. Muito mais forte do que ela, o homem não
teve a menor dificuldade para derrubá-la no chão.
Foi então que Brand entrou na sala com o ímpeto de um vendaval.
— Ele está armado! — Marion gritou.
No momento em que Brand mergulhou de encontro ao soalho, o
estrépito de um disparo ecoou pelo ar.
— Tente se pôr atrás de mim, Marion! — Ele também tinha uma
pistola na mão.
— Não me deixe correr o risco de acertá-la!
Aquilo foi o bastante para que o homem, lançando-se pela janela,
desaparecesse.
Deslizando pelo piso, Marion foi se ajoelhar ao lado de Brand.
— Meu Deus! Você está ferido!
— O miserável acertou minha coxa.
Ela preferiu não perder tempo com palavras. Apanhou o lenço que
ele tinha ao redor do colarinho e dobrou-o várias vezes, dizendo:
— Tome, tente estancar o sangramento com isto. Está escuro
demais aqui. Vou apanhar uma vela.
Com o coração aos saltos, foi até a cornija da lareira e ali, mesmo
tremendo da cabeça aos pés, conseguiu acender a vela que estava num
castiçal. Quando se virou para Brand, viu que ele estava sentado com as
costas apoiadas no bufê, a pistola numa das mãos, a outra a comprimir o
lenço dobrado de encontro à coxa. Apesar de muito pálido, não parecia
gravemente ferido.
Sentindo diminuir um pouco da agonia que lhe premia o coração,
Marion deixou o ar escapar dos pulmões, depositou o castiçal sobre o bufê
e foi se ajoelhar ao lado dele.
— Vou buscar um pouco de conhaque. — A voz lhe tremia tanto

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quanto as mãos.
— Acho que ambos precisamos de algo que nos reanime.
— Não, Marion, você não vai sair de perto de mim. Por certo
Manley ouviu aquele tiro e deverá estar aqui a qualquer instante. Até ele
chegar, ficaremos juntos.
— O ladrão fugiu.
— Como pode ter certeza? E se ele estiver recarregando a pistola?
Você conseguiu vê-lo? Seria capaz de reconhecê-lo?
— Não. Estava muito escuro e, de tão apavorada, não reparei em
mais nada a não ser na arma na mão dele. A voz daquele homem era
estranha, meio roufenha, mas creio que ele falava assim de propósito,
para que eu não viesse a reconhecer sua voz se tornasse a ouvi-la.
— O que foi que ele disse?
— Perguntou pelas cartas de Hannah. Só que não há carta alguma.
Por que alguém se arriscaria tanto pelas cartas de uma jovem?
— Porque imagina que nessas cartas há algo que o incrimine.
Marion sentou-se sobre os calcanhares.
— O que está acontecendo, Brand?
— A história é longa... — Com um gemido, ele tentou se ajeitar
melhor.
— Explicarei tudo depois que este ferimento estiver devidamente
tratado. Até lá, você e suas irmãs não continuarão aqui. Manley irá nos
levar ao Mosteiro, e é lá que você vai ficar até que eu esclareça tudo isso.
Passando o corpo por cima do dele, Marion apanhou um pequeno
objeto redondo do chão.
— O que é isso? — quis saber Brand.
— Um botão. — Ela lhe entregou o artefato. — Você perdeu algum
botão?

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— Deve ter caído da roupa do homem que atacou você.


Brand colocou o objeto na palma da mão para que pudessem
examiná-lo. Não havia nada de extraordinário na peça, era apenas um
simples botão recoberto por tecido no tom de cinza que a maioria dos
homens usava nos paletós ou casacos.
— Bem, começaremos procurando por uma peça de roupa
masculina em que falte um botão — observou Brand, segundos antes que
Manley chamasse pelos dois lá fora. Guardando o botão no bolso, ele
acrescentou: — Tomara que tenhamos sorte.
Pouco depois o criado surgia à porta, dizendo:
— Ouvi um tiro.
— Viu alguém pelas redondezas? — perguntou Brand.
— Não. O que aconteceu?
— O sr. Hamilton foi ferido, Manley — afirmou Marion. — Vamos
levá-lo para o Mosteiro, no caminho eu explico o que houve.
Enquanto o levavam para a carruagem, Brand pediu a Marion que
dissesse ao magistrado que o incidente fora uma tentativa de roubo
malsucedida, e que ela e suas irmãs ficassem no Mosteiro até que tudo
estivesse solucionado.

Capítulo V

Brand deixou escapar um suspiro de alívio quando o Dr. Hardcastle


chegou. A primeira providência do médico foi mandar que todos saíssem
do quarto, exceto Manley e um criado de compleição robusta. Em seguida
ele se pôs a fazer algumas perguntas meio despropositadas sobre o
incidente enquanto organizava seus instrumentos e se preparava para
extrair a bala, o que fez Brand desconfiar de que aquilo não passava de

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um truque para distrair sua atenção do que estava por vir.


Como não pudesse esquivar-se, pois se achava deitado numa
prancha colocada sobre a cama, Brand conformou-se em gemer quando
Hardcastle tenteou ao redor do ferimento. Aquela tábua fora idéia do
médico, que também fornecera um pouco de láudano ao paciente, antes
de desatar a contar histórias a respeito dos membros que tivera de
amputar dos soldados sob uma chuva de bombas. Com mais de sessenta
anos de idade e morando em Longbury desde os tempos em que Brand
era menino, ele falava do período passado junto ao Exército como se tudo
aquilo tivesse ocorrido no dia anterior.
Enquanto Hardcastle prosseguia com suas histórias, ocorreu a
Brand que se alguém conheceria as irmãs Gunn, esse alguém teria de ser
o médico, um dos mais antigos moradores da região. Na primeira pausa
que o homem fez, ele lhe perguntou:
— Dr. Hardcastle, o senhor se lembra de Edwina Gunn e das irmãs
dela?
— Claro que me lembro. Conheci todas as Gunn, e fiquei muito
contente em saber que o chalé de Edwina passou para as sobrinhas dela.
— Apanhando uma pinça com extremidades meio pontudas, ele
examinou-a atentamente.
— Agüente firme, rapaz.
A um sinal do médico, Manley colocou as mãos sobre os ombros de
Brand e o criado robusto segurou-lhe os calcanhares.
— Espere! — Brand protestou. — Onde está Hannah? O senhor
sabe onde ela se encontra?
— Hannah fugiu, não foi? Até onde sei, ela havia fugido.
— Hardcastle esboçou um sorriso bondoso. — Agora seja corajoso
como aqueles bravos soldados. Isto vai doer.

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Dor não era a palavra adequada, o certo seria dizer um martírio


intolerável. Um sofrimento tão intenso que Brand, mais rígido do que a
prancha sob seu corpo, não conseguiu fazer nada mais que inspirar
grandes golfadas de ar enquanto o médico retirava o projétil das
entranhas de sua carne.
— Bom garoto — elogiou Hardcastle, radiante.
— Não foi tão ruim assim, foi?
Com o suor que lhe escorria da testa a penetrar seus ouvidos,
Brand murmurou:
— Não foi, não...
— Aqui está a danadinha que provocou todo esse estrago.
— O médico ergueu a bala presa entre as garras da pinça e, após
estudá-la por um momento, franziu as sobrancelhas. — Está faltando um
pedacinho do projétil... Manley, dê mais láudano a ele. Vou ter de
procurar o fragmento de bala até encontrá-lo.
Agarrando o copo, Brand tomou o entorpecente até a última gota.
O pequeno grupo que aguardava por notícias na sala de estar
mantinha-se calado. Assim como lorde Robert e Andrew, Marion também
não trocara de roupas, porém agora usava um par de chinelos e um xale
emprestados. Emily, que os deixara cerca de uma hora atrás para ir
colocar Phoebe na cama, ainda não tinha reaparecido.
Num dado instante, Andrew levantou-se e, caminhando até a
janela, dali comentou:
— Hardcastle sabe o que faz, foi médico do Exército. Isso era tudo
no que Marion queria acreditar, ainda assim uma aflição incontornável
insistia em lhe oprimir o peito.
— Nunca ouvi falar de um ferimento na coxa que tivesse sido fatal
— lorde Robert respondeu ao comentário do sobrinho. — E quando os

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criados o levaram lá para cima, Brand parecia mais saudável do que eu,
distribuindo ordens a torto e a direito feito um general.
— Isso é bem típico dele — observou a duquesa. — Que ordens
foram essas?
— Deixe-me ver... — Robert olhou para o cálice que tinha na mão.
— Brand quer que Marion e suas irmãs fiquem morando aqui até
ele ter certeza de que o chalé seja de fato um local seguro, que o
magistrado se incumba de descobrir quem foi o responsável por...
— Sir Basil não se acha em condições de fazer coisa alguma —
interpôs Andrew, referindo-se ao magistrado. — Ele bebeu demais, está
dormindo em algum dos celeiros. Com o chefe de polícia por companhia,
diga-se de passagem.
— Foi o que me disseram, por isso mandei jardineiros vigiarem o
chalé de Marion até que as autoridades tenham condições de inspecioná-
lo.
— Robert pensou um instante.
— Esqueci o que mais Brand nos disse para fazer, mas torno a
dizer que ele não me parecia nem um pouco disposto a entregar a alma a
Deus.
Andrew deu uma risadinha, Clarice assoou o nariz e o rosto de
Theodora se suavizou. No outro lado da sala a Srta. Cutter despertou
sobressaltada de um prolongado cochilo e a duquesa viúva olhava um por
um com uma expressão que mesclava curiosidade e compaixão. A família
de Brand. Não eram amáveis nem amorosos, mas ainda que não
soubessem demonstrar seus sentimentos, era evidente que gostavam uns
dos outros. De um modo meio excêntrico, obviamente. O mesmo modo
como Brand preocupava-se com eles. E mesmo sentindo-se uma intrusa,
Marion estava decidida a não arredar pé dali enquanto não ouvisse da

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boca do próprio médico que Brand se achava fora de perigo.


Quando a porta se abriu, todos se aprumaram. Cavalheiro alto e
forte, o médico entrou na sala com um sorriso, e foi esse sorriso que deu
ensejo a um generalizado suspiro de alívio. Caminhando até a duquesa
viúva, Hardcastle curvou-se sobre a mão dela.
— Um ferimento quase insignificante, Vossa Eminência. Apesar da
dose de láudano que lhe dei, ele ainda está consciente. A senhora pode ir
vê-lo. Não há com que se preocupar, em poucos dias ele estará em pé.
— Obrigada, Dr. Hardcastle. — Dissimulando um leve ofegar, a
duquesa se ergueu.
— Será que me emprestaria seu braço?
— Eu também gostaria de vê-lo. — Andrew aproximou-se dos dois.
A avó sorriu para o rapaz, e eles se encaminharam para a porta.
— Esperem! — Marion se levantou. — E quanto a mim?
Estava escrito no rosto deles: iriam deixá-la ali, morrendo de
preocupação, até que Brand acordasse na manhã seguinte. Não era parte
da família. Naquela casa não a viam senão como mera hóspede. Todos ali
tinham mais direito de ir ver Brand do que ela.
— O que tem você? — indagou a Srta. Cutter, rompendo o
prolongado silêncio.
As palavras saltaram aos lábios de Marion como se tivessem vida
própria, e ela as proferiu sem pestanejar: — Eu sou a noiva de Brand.
Foi a sensação mais estranha do mundo. Ao se ajoelhar ao lado da
cama e constatar com seus próprios olhos que Brand, agora bem mais
corado, dormia placidamente, por pouco ela não desatou a chorar. Logo
ela, que nunca chorava.
E como o médico não permitisse visitas demoradas, não houve
como esperar que Brand despertasse, de modo que Marion não teve a

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oportunidade de contar a ele que agora estavam noivos. Santo Deus,


como iria lhe explicar aquela mentira?
Com essa dúvida a pairar sobre sua cabeça, ela tomou o caminho
para o corredor e dali para o quarto que haviam destinado a suas irmãs.
Encontrou-as debaixo das cobertas e, com um suspiro pesaroso, foi se
largar sobre a primeira poltrona que viu pela frente, onde permaneceu
por um bom lapso de tempo perdida em reflexões. Ainda bem que Emily e
Phoebe dormiam. Tudo o que queria era proporcionar segurança e
tranqüilidade para elas três, e agora...
Algumas semanas atrás, David Kerr era o problema mais
premente. Agora, já não sabia mais o que pensar. Não parecia provável
que fosse ele a pessoa que a tinha atacado. Pagara regiamente pelo
silêncio de David: entregara-lhe as esmeraldas de sua mãe no propósito
de encerrar aquela história de uma vez por todas. Além do mais, David
não sabia absolutamente nada a respeito de Hannah, nem sequer da
existência dela.
Onde estão as cartas de Hannah? Marion estremeceu ao lembrar
aquela voz. Que não era a voz de David, disso ela tinha certeza. Havia um
dado novo naquele enigma, algo de que Brand sabia e ela, não. O quê,
Deus do céu? O que seria?
Ainda suspirando, levantou-se e rumou para seu quarto, que ficava
no mesmo corredor. Ali, acendeu uma vela nas brasas da lareira e
colocou-a sobre a cornija. Um criado trouxera a arca com suas roupas.
Ela vasculhava o baú à procura de uma camisola quando bateram de leve
à porta.
— Marion? — Era a voz da duquesa. Ela correu a abrir.
— Posso entrar?
— Tenha a bondade, por favor.

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Apesar da bengala, não foi sem certa imponência que a duquesa foi
se acomodar à poltrona ao lado da lareira para depois, com um gesto
igualmente elegante, indicar a Marion que sentasse na poltrona diante da
sua. Ao vê-la acomodada, a velha senhora declarou:
— Eu não poderia ir me deitar sem antes lhe dizer o quanto estou
contente com o noivado. Estou certa de que você sabe que Brand é um
homem extremamente bom. Talvez não muito fácil de se conviver nem
muito fácil de se amar, mesmo assim se trata de um homem digno e
honrado.
Sem a menor idéia de onde aquela conversa iria parar, Marion
sorriu, anuindo.
— Creio que há certas coisas sobre meu neto que você deveria
saber para que possa compreendê-lo melhor. — A duquesa respirou
fundo. — Apesar do que deve ter ouvido por aí, o pai de Brand, meu filho,
não era um homem mau. O duque não abandonou o filho nem a mãe
dele. Na verdade, foi o velho Hamilton, avô materno de Brand, quem
instigou o neto contra o pai. Meu filho apaixonou-se perdidamente pela
mãe de Brand, Faith Hamilton, quando tinha mais ou menos a idade de
Andrew, e pretendia casar-se com ela quando atingisse a maioridade. Foi
o pai dela, o velho Hamilton, que se opôs a essa união. Faith era menor,
vivia sob a tutela do pai... Mas o velho Hamilton não cedeu nem mesmo
quando soube que ela esperava um filho. E Faith não encontrou em si
forças para ir contra o pai.
Marion não sabia o que dizer.
— Ela morreu quando Brand tinha poucos meses de vida, dizem
que seu coração não suportou tamanho pesar. De qualquer forma, o fato
foi que meu filho também não se recuperou. Sentindo-se traído pelo
destino, ele se tornou um homem meio... descontrolado.

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— Eu já imaginava tudo isso, Vossa Eminência.


— O que a fez chegar a essa conclusão?
— Seu filho nomeou Brand o único curador da herança. Deu-lhe um
lar, pagou seus estudos. Creio que ele devia amar Brand imensamente e
que talvez se sentisse culpado por tudo o que aconteceu.
— Ele se sentia culpado, sim. Brand era seu primogênito, era filho
de Faith, deveria herdar o título e as propriedades dele. E isso teria de
fato acontecido, não fosse o rancor de um velho amargurado que
desprezava nossa fortuna e nossa posição social. — A duquesa viúva deu
um sorriso triste. — Brand ficou entre dois mundos: o Mosteiro e a
Granja. Puritano que era, o velho Hamilton via os FitzAlan como um
bando de ímpios e não queria que corrompêssemos a filha ou o neto dele.
— Por que a senhora está me dizendo tudo isso?
— Talvez porque eu esteja querendo demais... No fundo não
acredito que meu neto conseguirá ficar em paz consigo mesmo enquanto
não souber como fazer uma ponte entre esses dois mundos. Mais do que
isso: eu queria que ele soubesse a verdade a respeito do pai.
— Mas...
— Não, ele não me ouviria. Talvez não vá ouvir você também,
mesmo assim julguei ser minha obrigação tentar... Pela memória de meu
filho e pelo bem de Brand. Não é bom que ele carregue tanta amargura
no peito.
Com a impressão de que aquela era a primeira vez que se achava
diante da duquesa viúva, Marion agora a via como uma mulher como ela
própria, com os mesmos medos e as mesmas aspirações. E sentiu-se mal
por tê-la enganado.
— Vossa Eminência... Nós não estamos noivos. Inventei aquilo para
que pudesse ir ver Brand.

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A verdade não pareceu aborrecer a velha senhora. Pelo contrário:


era como se ela achasse graça na confissão de Marion.
— Entendo sua atitude, minha menina. No seu lugar, eu teria feito
o mesmo.
— Não, a senhora não entendeu. Brand não me pediu em
casamento.
— Oh, mas pedirá. Tenho certeza absoluta de que ele pedirá.
Ao ver a duquesa erguer-se e rumar para a porta, Marion
apressou-se em abri-la. A velha dama então lhe afagou o rosto, depois
deixou o aposento com a mesma elegância com que havia entrado.
De volta à sua poltrona, Marion entregou-se à melancolia. Havia
tanto sobre o que pensar, tanto com que se preocupar... Ainda bem que
sua mente se encontrava entorpecida, assim ela não tinha como refletir a
respeito de nada.
Lady Theodora deixou que a criada a ajudasse a despir-se e a se
deitar sob as cobertas, depois lhe disse:
— Deixe as velas acesas. A moça se retirou com uma mesura e um
sorriso velado, por certo imaginando que lorde Robert fosse fazer uma
visita conjugai à esposa naquela noite. Coisa de que Theodora muito
duvidava. Os olhos dele quase não tinham se desviado do rosto de
Marion. Não por causa da própria Marion, evidentemente, mas sim por
conta de quem ela fazia lembrar: Hannah.
Revirando-se na cama, Theodora praguejou baixinho. Tinha de ter
mais orgulho. Deveria ter deixado aquela casa muito tempo atrás. Ainda
era jovem. Ainda era tempo de reconstruir sua vida. Não... Nada era
assim tão simples. Todos sofriam as conseqüências das escolhas que
faziam, não era isso que seu pai lhe dissera no dia de seu casamento? E
Robert havia se revelado exatamente aquilo que o pai dela previra.

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Theodora estremeceu ao ouvir a porta se abrir. Era seu marido,


usando um roupão em marrom escuro atado à cintura e, ironia das
ironias, mais bonito ainda do que no dia em que haviam se casado. Ele se
aproximou com um sorriso, sentou-se na beirada da cama e, erguendo-
lhe a mão, beijou de leve sua palma.
— Você ainda é a mais bela mulher que conheço.
— Não esperava vê-lo aqui esta noite.
— Mentirosa. Posso sentir na pele quando você está suscetível a
mim.
— E verdade. Você está sempre em sintonia com meu mau humor.
— Como ele não respondesse Theodora o interpelou:
— O que foi? Não me diga que não reparou na semelhança entre
lady Marion e Hannah.
— Eu mal conhecia Hannah.
— Não minta para mim, Robert. Vi que você não desgrudou os
olhos de Marion a noite inteira.
— Deve ter sido uma reação natural. Marion foi atacada dentro da
própria casa, eu quis me certificar de que ela estava bem.
— Fique longe dela! — Theodora sussurrou entre os dentes.
— Você pode ter todas as outras mulheres que bem entender. Nós
não queremos que Marion...
— Que Marion o quê? Do que você está falando?
— Todos sabemos que ela vai se casar com Brand. Tenha isso em
mente.
— Não era isso o que você ia dizer. — Levantando-se, Robert
curvou-se sobre a mão dela num gesto que era quase um insulto. —
Parece que eu não soube interpretar seus sinais. Desculpe-me. Isso não
tornará a acontecer.

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Theodora não fez nada para evitar que ele deixasse o aposento.
Quando foi visitar Brand na manhã seguinte, Marion encontrou-o
completamente zonzo. Apesar do torpor, e mesmo de olhos fechados, ele
a provocou:
— E a voz da minha noiva que estou ouvindo? Brand falara num
tom brincalhão e não de censura, motivo pelo qual ela se sentiu à
vontade para sentar-se ao lado da cama por alguns instantes. Mas como
não os deixassem a sós e ele se achasse atordoado demais, o diálogo
franco com que Marion contava não se realizou.
A oportunidade para essa conversa surgiu um dia depois, quando
uma criada foi lhe dizer que o sr. Hamilton estava na estufa e pedia a ela
que fosse encontrá-lo lá.
Brand a esperava junto à porta.
— Tem certeza de que já está em condições de ficar em pé? — ela
indagou, ao vê-lo caminhar com o auxílio de uma bengala.
— Certeza absoluta — garantiu ele, ainda um pouco abatido. — São
ordens médicas. Por ter servido no Exército, Hardcastle não acredita que
mimar os pacientes ajude-os a se recuperarem. Além do quê, com o
entra-e-sai de visitas que havia em meu quarto você e eu não tínhamos
como conversar.
No entanto a estufa não parecia a mais calma das dependências do
casarão: sob as ordens de lorde Robert, jardineiros iam de um lado para
outro levando mudas para os diversos canteiros na parte externa da
edificação.
— Eu não sabia que seu tio se interessava por jardinagem —
comentou Marion.
— Digamos que Robert se interessa por todas as flores belas, por
isso é melhor você tomar cuidado. Eu detestaria ter de chamar a atenção

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de meu tio, e Theodora não hesitaria em colocar as garras para fora se


soubesse que ele andou flertando com você.
— Pobre de mim!... O casamento deles foi uma união arranjada?
— Não. De acordo com a Srta. Cutter, a mexeriqueira da casa, a
família de Theodora era contra a união deles, porém o amor se impôs às
resistências.
Para além da estufa ficava o jardim de hortaliças, por onde a Srta.
Cutter flanava feito uma borboleta. Brand guiou Marion até um banco de
pedra junto a uma cerca viva. Dali avistavam o rio serpeando pelo campo
lá embaixo e o pasto. Ao calor do dia, as abelhas pilhavam as flores
recém-abertas que despontavam entre o verde dos arbustos.

Lembrando que numa região serena e paradisíaca como aquela


alguém arrombara seu chalé e a atacara, Marion estremeceu.
— Brand, estou assustada. Apesar de ter tido tempo de sobra para
pensar enquanto você convalescia, não consegui chegar a nenhuma
conclusão. Ontem fui ao chalé na companhia do chefe de polícia. A sala de
desjejum, onde Phoebe guarda seus livros e suas anotações, estava toda
revirada, no entanto não faltava nada. A caixa com a correspondência de
nossa família achava-se aberta no chão, mas, até onde pude constatar, as
cartas estavam todas lá. Nada disso faz sentido.
— Como foi que o ladrão entrou?
— Arrombando uma janela do piso térreo.
— O que você fez com as cartas?
— Estão aqui, no Mosteiro. Li todas, não há nada importante nelas.
Tampouco encontrei cartas para Hannah ou dela para alguém.
— Sei.
— Como, sei? Você disse que iria me explicar o que está se

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passando! O que é que você sabe que eu não estou sabendo?


— Sua tia escreveu para mim pouco antes de morrer. Ajeitando-se
melhor, Brand apoiou o braço no encosto do banco e contou-lhe sobre a
carta de Edwina e todas as suas implicações. Ao final do relato, Marion
estava completamente aturdida. E, quando reencontrou as palavras, a
primeira coisa que disse foi:
— Mas... Mas por que eu teria como saber o que aconteceu naquela
noite?
— Porque Hannah sumiu quando você estava aqui com sua mãe.
Alguém a viu em algum lugar da área ao redor do Mosteiro.
— Quem me viu?
— Não sei. Edwina iria me explicar tudo quando eu viesse vê-la,
mas... Bem, não houve tempo. — Brand tomou a mão dela na sua. —
Perdoe-me por tê-la assustado ainda mais. Talvez eu devesse ter buscado
outro modo de dizer tudo o que precisava ser dito.
— Não é isso... — Marion fez uma longa pausa. — Estou tentando
lembrar da última vez em que vi Hannah. Ela gostava de caminhar com
seu cãozinho pelos bosques ao redor do Mosteiro. Quase sempre eu a
acompanhava, no entanto ela não saiu para passear naquele dia. Mas não
me aborreci com isso, pois tinha combinado com Clarice de esperar pelo
fantasma à noite... Brand, se eu tivesse visto algo estranho, teria corrido
de volta ao chalé em busca de ajuda. Clarice também estava lá; já lhe
perguntou se ela viu alguma coisa?
— Não. Edwina não mencionou Clarice, só você. O que se passou,
Marion? Na carta, Edwina afirmou ter brigado com Hannah. Você se
lembra dessa discussão?
— Sim. Elas estavam no quarto de Hannah: minha mãe, tia Edwina
e a própria Hannah. Eu estava no segundo piso do chalé, esperando que

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as três fossem se deitar para poder ir ao encontro de Clarice. Hannah


começou a gritar. Odeio brigas, lembro-me de que desejei ardentemente
que tia Edwina e minha mãe deixassem Hannah em paz. Então ela saiu
correndo pela porta da rua, batendo-a com toda a força atrás de si.
— Foi nessa a noite que você e Clarice se encontraram nas
imediações do Mosteiro?
— Creio que sim. Não tenho certeza.
— Clarice mencionou o uivo de um animal. Você o ouviu?
— Acho que sim... Sim, ouvi. Lembro que parecia o ganido de um
cachorro, mas não estou muito certa.
— Não force as recordações, elas acabarão voltando.
Esqueça o tal ganido e se concentre nos instantes em que esteve
no púlpito. O que houve por lá? Você lembra?
— Foi como Clarice contou: vimos o que julgamos ser o fantasma
do abade e corremos para casa. — Marion sacudiu a cabeça. — Minhas
recordações são meio vagas. Faz tanto tempo que tudo aconteceu. Mas
se... se Hannah foi mesmo morta, o que houve com o corpo dela?
— Não faço idéia. Pode ter sido atirado no rio. Ou enterrado num
canto qualquer.
— Que coisa terrível... Eu gostaria de ser capaz de pensar que a
pobre tia Edwina estivesse com a mente atrapalhada ao lhe escrever
aquela carta, mas não tenho como ignorar o fato de que você foi ferido
por alguém que arrombou minha casa à busca de cartas que não existem.
— Após um longo suspiro, Marion o encarou com olhos ainda mais
anuviados.
— Seja sincero comigo, Brand: você acha que a morte de minha tia
Edwina foi realmente um acidente doméstico?
— Eu gostaria de poder dizer que sim, mas agora... — Ele levou a

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mão à coxa ferida.


— Agora parece ser bastante provável que não tenha sido mero
acidente. De acordo com a sra. Ludlow, Edwina andava angustiada com
assuntos do passado e com Hannah e estava decidida a descobrir o que
se passara com a irmã mais nova. Talvez ela tenha começado a fazer
perguntas que alguém não estivesse disposto a responder.
— Vinte anos depois do sumiço de Hannah? O que teria tornado a
despertar o interesse de tia Edwina nesse assunto?
— A julgar pelo que ela escreveu na carta, a pessoa que afirmou
ter visto você naquela noite. De tanto pensar em quem poderia ser essa
pessoa, por pouco não deixei meu cérebro em comichão. Ele ou ela deve
ter um bom motivo para manter-se calado por todos esses anos.
— E verdade.
— Embora esse mistério tenha mais de vinte anos, eu não devia ter
deixado o assunto de lado. E que julguei não haver pressa para mexer
nessa história. Você tinha fixado residência em Lake District, ou pelo
menos eu imaginava que sim. Cheguei a pensar em ir procurá-la para
conversarmos sobre o assunto, mas aí você foi passar a temporada em
Londres, então cuidei de conhecê-la melhor na esperança de que, se
soubesse de alguma coisa, você me contaria.
— Por que não me falou a respeito da carta de tia Edwina assim
que me conheceu em Londres? Por que esconder seus verdadeiros
propósitos tornando-se meu amigo e de minhas irmãs?
O que Marion não disse foi o quanto a magoava o fato de saber
que, se não fosse sobrinha de Edwina, ele não a olharia mais de uma vez.
As idas ao teatro, os passeios na carruagem dele, a atenção que ele lhe
dedicava, os beijos... Tudo isso tinha por único objetivo tentar descobrir o
que ela se lembrava sobre Hannah. Ele não a cortejava na esperança de

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conquistar a filha de um conde. Na verdade, Brand não tinha a menor


intenção de casar-se com ela. Como fora tola!...
Envergonhada até a medula, Marion apressou-se a afirmar:
— Sinto muito por ter dito à sua família que estávamos noivos. Fiz
isso sem pensar, pois não vi outra maneira de ficarmos a sós e estava
desesperada por saber o motivo pelo qual alguém arrombaria minha casa
à procura de cartas da minha tia.
— Não faz mal. A idéia foi excelente.
— Foi?
— Agora os mexeriqueiros não terão mais sobre o que bisbilhotar.
Tiramos o foco da atenção de nós dois.
— Como?
— As pessoas esperam que um casal de noivos passe boa parte do
tempo um ao lado do outro, de modo que ninguém estranhará nos ver
juntos, já que não sabem que na verdade estamos tentando solucionar
um mistério.
— Ah. — Ela quis dizer algo mais, mas como nada lhe ocorresse,
comentou:
— O almoço já deve estar pronto. Vamos?
Subitamente sério, Brand declarou:
— Marion, não quero que você volte à sua casa antes que
tenhamos certeza absoluta de que não correrá nenhum perigo por lá.
— Obrigada pelo cuidado. Já pedi a Emily e a Phoebe que não se
aproximem do chalé. Não quero nem pensar no que poderia ter
acontecido se fosse uma delas a surpreender o intruso e não houvesse
ninguém para ajudá-la.
— Se ambas são como a irmã mais velha, aposto que o bandido se
veria em maus lençóis.

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— Ele estava armado.


— Mas queria as tais cartas, nada mais. E só atirou em mim porque
viu que eu também tinha uma arma e estava disposto a usá-la. — Ele
ficou pensativo. — Então as tais cartas de Hannah não existem?
— Se existem, jamais cheguei a vê-las. Tudo o que temos conosco
são umas poucas cartas que tia Edwina escreveu à minha mãe e que eu
trouxe comigo de Keswick.
— Se não se importa, eu gostaria de lê-las.
— Claro. Acho que deveríamos começar nossa investigação por
Hannah. Quem eram os amigos dela, quais eram seus planos, coisas
assim. Sei que Hannah era governanta em Brighton, talvez a dama para
quem ela trabalhou antes de sumir possa nos ajudar... Se conseguirmos
localizá-la.
— Parece que nós dois escolhemos a mesma linha de raciocínio.
— Ele sorriu.
— A última patroa de Hannah foi a sra. Love, que ainda mora na
Ship Street.
— Como sabe? — Marion não dissimulou o quanto estava admirada.
— Consegui essa informação com o bom médico que me atendeu.
Hardcastle lembra bastante bem das três irmãs. Gunn e, enquanto
tratava de mim, falou-me a respeito da sra. Love. Veja o acaso: Hannah
pediu a ele que lhe fornecesse uma carta de recomendação.
— Uma coincidência e tanto!
— Hardcastle também me disse que Edwina era muito severa e
quase não permitia a Hannah levar uma vida própria. Por conta disso, ele
afirmou acreditar que Hannah tenha de fato fugido, pois certamente devia
estar desesperada por se ver livre da influência da irmã.
— Parece que tia Edwina e minha mãe tinham muito em comum...

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— Marion suspirou.
— Ambas eram bastante firmes e determinadas.
— Como você?
— E assim que você me vê?
— Era um elogio. Só uma dama muito firme e determinada
enfrentaria um agressor para tentar tirar a arma dele. Você é uma mulher
especial, Marion Dane.
Sentindo-se ruborizar, ela tratou de mudar de assunto:
— Estou intrigada com o fato de que Hannah tivesse: um cãozinho,
Brand. Governantas geralmente não possuem bichos de estimação.
— Que eu saiba, não.
— Então de quem era aquele cachorro? E o que foi feito dele?
— Talvez Hardcastle saiba.
— Ou então a Sra. Love. Você vai me levar até Brighton para que
eu possa conversar com ela, não vai?
— Vou, sim, só que não podemos deixar que o responsável pelo
assalto ao chalé descubra nossas intenções. Nossas atitudes têm de
parecer naturais, inocentes.
— Acha que eu não sei? Não sou nenhuma tonta!
— Quanto a isso não há a menor sombra de dúvida, Marion.
Brand fez o anúncio formal do noivado durante o almoço. Emily e
Phoebe ficaram extasiadas com a notícia. A família dele, como seria de se
esperar, recebeu a declaração com o sangue-frio que lhe era peculiar. Até
mesmo a duquesa, que, Marion tinha certeza, devia estar bastante
contente com a novidade.
Marion disse a si mesma que tal reação vinha bem a calhar. Um
motivo a menos para se sentir culpada quando chegasse o momento de
anunciar que ela e Brand tinham decidido cancelar o casamento e cuidar

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cada um da própria vida. Não haveria lágrimas nem lamentações. E cer-


tamente poderia se considerar uma pessoa de sorte se, uma semana após
o rompimento, os FitzAlan ainda se lembrassem do nome dela.
Passaram-se quase dez dias até que Brand estivesse em condições
de viajar, tempo que ele e Marion empregaram em discretas
especulações. Várias pessoas recordavam-se de um cãozinho branco,
porém o bichinho pertencera a Theodora e ela lhe dera o nome de
Snowball. Uns poucos moradores da região lembravam de Hannah, mas
nenhum deles a conhecera muito bem. Todos pareciam partilhar do
mesmo ponto de vista do Dr. Hardcastle: Edwina Gunn mantinha a irmã
caçula sob rédeas curtas, e a pobre Hannah ficara feliz da vida com a
oportunidade de ir trabalhar em Brighton e assim escapar à severa
vigilância da irmã mais velha. Clarice também não acrescentara nada de
novo ao que já havia declarado: quando o fantasma aparecera, seguido
pelo uivo de um animal, ela correra para o Mosteiro enquanto Marion
disparara de volta ao chalé da tia.
— Estou começando a acreditar que existia um único cachorro —
comentou Brand.
— O cãozinho de Theo.
— E bem provável — Marion concordou. — Quando me ponho a
pensar, não me lembro de ter visto Scruff na casa de tia Edwina. Ele
estava sempre pelas imediações do chalé. E as cartas de tia Edwina que
você leu? Não há nenhuma pista nelas?
— Nada. A não ser por omissão: o nome de Hannah não é sequer
mencionado, e eu me pergunto o porquê disso.
Marion deu um suspiro desanimado. Giravam, giravam e giravam,
mas não saíam do lugar.
Naquele dia ele a informou de que a viagem a Brighton incluía

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outras atividades além da visita à sra. Love. Brand precisava comparecer


a alguns eventos relacionados à eleição e, por se tratar da noiva dele,
seria de se esperar que Manon o acompanhasse.
Ela não reclamou. Como o anúncio do noivado já tivesse sido
publicado num jornal local, todos imaginariam que aquela viagem se
devesse somente a obrigações de campanha; ninguém iria relacioná-la
com alguma investigação acerca do desaparecimento de Hannah. Se
preocupação havia, era com a segurança e o bem-estar de suas irmãs.

Ao saber disso, Brand garantiu-lhe que nem Emily nem Phoebe


representariam qualquer ameaça ao arrombador, visto que nem uma nem
outra eram nascidas por época do sumiço de Hannah. Mas, por via das
dúvidas, Andrew concordou em zelar pelas duas. E os homens que
guardavam o Mosteiro ficaram encarregados de vigiar o chalé para o caso
de o ladrão voltar a atacar.

Capítulo VI

Meio escondido junto ao cortinado da janela do salão de refeições


do Hotel Castle, David Kerr ficou observando o sr. Hamilton ajudar lady
Marion a subir na carruagem, depois esperou o veículo se afastar. Só
quando o coche dobrou a esquina para tomar a Marine Parade foi que ele
retornou à sua mesa, e ali estalou os dedos para chamar o garçom.
— Um clarete — pediu ao rapaz. — O melhor que houver na adega.
Enquanto o garçom ia providenciar o vinho, David não conteve um
sorriso. Não viera a Brighton no intuito de encontrar Marion, afinal partira
de Londres com a convicção de que a infeliz arruinara as próprias finanças
ao pagar pelo silêncio dele... e dinheiro não brotava de pedras. Verdade

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que a tinha visto pela capital na companhia de Hamilton, porém jamais


lhe ocorrera que aquilo pudesse ser um caso sério. Hamilton era um dos
homens mais ricos da Inglaterra, poderia ter todas as mulheres que
quisesse... e Marion Dane não era nenhuma sumidade em termos de
beleza.
E pensar que ela fora sua noiva!... Bem, o fato era que nunca
tivera intenções de se casar com Marion. Além de ter um dote mixo, ela
não fazia seu tipo: era bem-criada demais, extremamente zelosa de seus
deveres, sempre calada, sempre respeitosa. Marion fora apenas um
joguete que ele tinha usado para atingir o pai dela.
Mas a vida era mesmo cheia de surpresas. Quando fora atrás dela
em Londres, mal a tinha reconhecido. A danada aprendera a se vestir e a
se pentear. A aparência, porém, não mudava a essência de ninguém.
Marion continuava a ser um joguete que ele poderia usar a seu bel-
prazer. Quando lera o anúncio do noivado dela na Gazette da última
semana, seu queixo caíra, contudo não demorara a perceber que aquele
noivado poderia lhe trazer grandes benefícios.
O dinheiro herdado com a morte da tia não era nada se comparado
à fortuna que poderia vir pelas mãozinhas de Marion a partir dos bolsos
do magnata com que ela ia se casar.
O garçom chegou com a garrafa de clarete e despejou um pouco do
vinho na taça sobre a mesa. David tomou um gole e, connoisseur que
era, deixou que a bebida lhe envolvesse a língua antes de estender a taça
para que o rapaz a completasse, comentando:
— Excelente.
Adorava clarete, adorava o Hotel Castle com suas janelas altas e
seus quartos elegantes. Tudo ali era da mais primorosa qualidade.
Infelizmente o estabelecimento se encontrava muito além do que suas

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posses alcançavam, ainda assim ele gostava de ficar pelo saguão ou no


bar e, vez ou outra, conceder-se uma bela refeição no restaurante. Pena
que o dinheiro lhe escapasse por entre os dedos como as águas de um
rio... Seu maior patrimônio era mesmo a esperteza.
Após pedir um filé de peixe com acompanhamentos, recostou-se na
cadeira e ficou a pensar como poderia tirar vantagem daquele incrível
golpe de sorte com que fora agraciado. Na primeira vez, fora o pai de
Marion quem pagara, e bastante bem, para que ele fosse fazer vida nova
no Novo Mundo. Pena que dera tudo errado. No Canadá ninguém gostava
do ócio, todos trabalhavam em suas fazendas como verdadeiros
camponeses, ombro a ombro com seus empregados. Mas seu talento não
era cultivar a terra, de modo que não demorou nada a ele perder tudo o
que havia investido.
Nos anos seguintes vivera com pouquíssimos recursos, porém
jamais tirara da cabeça que se o ruim viesse a se transformar no pior,
ainda lhe restava regressar à Inglaterra e solicitar mais um "presentinho"
ao conde, pai de Marion. No entanto nem tudo correra como o planejado:
depois de juntar o dinheiro necessário à viagem, chegara de volta à
Europa para descobrir que o conde tinha morrido e que ela se achava em
péssima situação financeira. Tudo o que conseguira arrancar daquela
tonta não valera o trabalho a que se tinha dado, essa era a verdade.
O triste panorama melhorara um pouco com a descoberta de que
Marion havia herdado o legado de uma tia. Isso lhe granjeara as
esmeraldas da mãe dela, e o dinheiro da Venda das jóias fora suficiente
para instalá-lo em Brighton no ápice da temporada, época em que as
pessoas inteligentes de Londres vinham às pencas desfrutar dos ares
marinhos.

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A sociedade daquela cidade era mais informal do que a londrina. Se


lançasse mão das medidas corretas, talvez tivesse a sorte de agarrar
alguma herdeira ou mesmo uma viúva abastada. Eram esses os seus
planos... até que ficasse sabendo do noivado de Marion com o magnata
da imprensa.
Lera na Gazette que Hamilton iria a Brighton para a abertura da
convenção do partido político Whig, favorável às reformas. Todos os
figurões da agremiação estariam lá, e não lhe fora difícil descobrir que
aquele era o hotel da preferência deles. O plano agora era fazer amizade
com Hamilton e ser convidado a visitá-lo em Longbury, onde teria como
se aproximar de Marion abertamente com a desculpa de ser amigo do
noivo dela. A tonta sabia que bastava uma só palavra sua para fazer com
que as esperanças dela virassem poeira.
Apesar de perfeitas, mais uma vez suas perspectivas pareciam
ameaçadas. Isso ficara patente na noite anterior, quando Hamilton fora
ao bar e pedira uma caneca de cerveja. Tentara puxar conversa com o
respeitável jornalista, e tudo o que recebera em troca de seus elogios fora
um olhar impávido e frio. O homem não se deixava adular. Porém nem
tudo estava perdido: Hamilton levara Marion para Brighton consigo. E
quanto à dama de companhia dela... Bem, ele era perito em lidar com
damas de companhia.
O garçom veio lhe trazer o suculento filé servido com molho
cremoso, batatas à francesa e suflê de legumes. Após desfrutar de cada
garfada com um prazer que lhe umedecia os olhos, ele nem sequer piscou
à exorbitante conta que o rapaz apresentou-lhe ao final da refeição.
Aquela despesa era Marion quem iria pagar.
Ash Denison pediu ao garçom que lhe trouxesse a conta tão logo
viu o cavalheiro loiro deixar o salão de refeições. O comportamento

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daquele sujeito o intrigava.


Estavam ele e Brand no bar na noite anterior quando o estranho
tentara imiscuir-se na conversa cometendo um erro crasso: bajular Brand
Hamilton, um homem avesso a qualquer espécie de adulação. E agora,
não fazia muito tempo, o sujeito se ocultara junto à janela para espiar
Brand e Marion deixarem o hotel rumo a um comício.
O que estaria tramando?
Quando o garçom lhe apresentou a conta, Ash o interpelou:
— Por acaso sabe quem é aquele cavalheiro de cabelos claros que
acabou de deixar o salão? Tenho a impressão de conhecê-lo, mas não me
lembro de onde.
Depois de olhar pelas portas duplas que levavam ao saguão de
entrada, o garçom respondeu:
— O senhor estava se referindo ao sr. Kerr, não é mesmo? Ele é,
ou foi, fazendeiro no Canadá.
— Sei... Bem, não se trata da pessoa que eu imaginava. Então
pagou a conta e chegou ao saguão do hotel no instante em que Kerr
deixava o estabelecimento. Com o cuidado de manter certa distância, Ash
foi atrás dele.
Brand tinha enviado um criado à residência da sra. Love solicitando
uma entrevista, e na manhã seguinte recebera uma resposta favorável ao
seu pedido. No início da tarde, depois de uma visita à redação do Gazette,
um dos jornais dele, e de um piquenique no parque com vista para o cais,
ele e Marion seguiram para a casa da generosa dama.
— Lembro bastante bem de Hannah — afirmou a sra. Love, seus
olhos azuis repentinamente turvos por certa tristeza. — O que gostariam
de saber a respeito dela?
— Imaginamos que a senhora pudesse nos ajudar a encontrá-la —

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disse Brand.
— Isto é, se ela estiver viva.
— Parece que ninguém sabe o que se passou com minha tia desde
que ela deixou o emprego aqui, na sua casa — Marion esclareceu.
Uma criada entrou na sala com a bandeja de chá e, enquanto a
anfitriã e suas visitas se serviam, Marion aproveitou para estudar a dama
que os recebia tão gentilmente. Simpática e rechonchuda, a sra. Love
aparentava cinqüenta e poucos anos e trajava um vestido claro de
musselina com um xale rendado sobre os ombros. Parecia o tipo de
patroa bastante paciente e respeitadora, exatamente como o dr.
Hardcastle a descrevera.
Agradecendo a xícara que a sra. Love lhe entregava, ela dirigiu sua
atenção à sala elegante e confortável em que se encontravam. A
decoração era toda em azul e dourado, com alguns detalhes em branco.
Se fosse julgar somente por aquele ambiente, Marion diria que morar na-
quela casa devia ser extremamente agradável.
Após tomar um gole de chá, Brand devolveu a xícara ao pires antes
de declarar:
— Estamos torcendo para que a senhora possa nos informar
alguma coisa sobre os amigos de Hannah. Alguém tem de saber o que é
feito dela.
— Bem que eu gostaria de ajudá-los, mas não faço idéia de onde
Hannah possa estar. Ela nunca mais entrou em contato comigo depois
que saiu daqui. Nem eu esperava que fosse de outra maneira. — A sra.
Love mexeu o chá com a colherinha.
— Hannah não era o que se poderia chamar de uma empregada
exemplar.
Marion ficou perplexa. Sabia que a tia havia partido de Longbury

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em meio a problemas, porém jamais imaginara que tivesse acontecido o


mesmo em Brighton.
— Prometi à irmã dela, Edwina Gunn, que faria o possível para
descobrir o que houve com Hannah tantos anos atrás e pretendo cumprir
minha promessa — prosseguiu Brand, agora num tom mais suave. — E,
devo confessar, Edwina temia pelo pior.
— Pior? — A sra. Love franziu as sobrancelhas numa expressão
preocupada.
— Que Hannah, num gesto de desespero, pudesse dar cabo da
própria vida.
Antes que Marion pudesse protestar, a sra. Love tomou a palavra:
— Impossível acreditar numa coisa dessas! Hannah era uma moça
meio perturbada, sim... Quero dizer, ingênua e romântica além dos
limites do bom senso, mas não tão alterada a ponto de fazer tamanha
loucura.
— A senhora acha ser possível que ela tenha fugido com alguém?
— indagou Brand.
— Bem, levando-se em conta o modo sonhador como Hannah via a
vida, essa hipótese é mais razoável.
— Entende o nosso dilema, sra. Love? Lady Marion e eu não
sabemos o que pensar.
— Brand recostou-se à poltrona. — Por que não nos fala de
Hannah, do trabalho dela como governanta aqui na sua casa, do motivo
pelo qual ela foi embora?
— Deixem-me pensar... — A sra. Love tomou um demorado gole de
chá.
— Minhas filhas se afeiçoaram a Hannah tão logo a conheceram, o
que não foi de se estranhar, visto que ela tinha a imaginação de uma

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criança. Hannah inventava histórias a partir de tudo e qualquer coisa: um


brinquedo, uma peça de mobília, uma peça de roupa. O filho do
açougueiro não era o filho do açougueiro, era um príncipe sobre quem
uma bruxa lançara um encanto. Enquanto a dona da casa falava, Marion
viu-se transportada de volta às longínquas férias em Longbury. Era
exatamente assim que se lembrava da tia mais nova: um passeio pelos
bosques não era um simples passeio, era uma expedição pela floresta do
Amazonas.
— Mas então nos demos conta de que a imaginação de Hannah não
se restringia às brincadeiras com as meninas. Penso que... E difícil dizer o
que sei sem criar a idéia de que a pobre Hannah fosse uma moça de
maus princípios... Bem, meu marido e eu passamos a incluí-la em todas
as nossas festas de modo a encorajá-la a fazer amizade com jovens da
mesma idade dela. Mas Hannah não simpatizava com nenhuma das
mocinhas... Ou melhor, o interesse dela recaiu sobre os rapazes... um
após o outro e após o outro... Não era um comportamento natural,
sabem? Se um rapaz lhe endereçava um sorriso, era porque estava
desesperado de amor por ela; se a tirava para dançar, era porque queria
se aproveitar. Hannah fez de si mesma a heroína das histórias que
inventava. E eu acreditei nela.
— Como assim? — quis saber Brand.
— Deixei de convidar aqueles rapazes às minhas reuniões e
também ralhei com meus amigos por conta do comportamento que
tinham. Não preciso dizer que fui injusta com eles, não é mesmo? Não,
não que fossem todos absolutamente inocentes, mas... mas o fato era
que Hannah os instigava.
— Parece que a senhora fala de outra pessoa, não de minha tia —
Marion observou.

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— Compreendo sua surpresa. Vinte anos atrás você era uma


menina, não é verdade? Por certo via sua tia com outros olhos. — A sra.
Love tentou sorrir. — Minhas filhas adoravam Hannah, que entrava em
todas as brincadeiras que elas criavam. Ambas agora estão casadas e têm
suas próprias famílias, mas ainda se lembram bastante bem de Hannah.
Elas não sabem como tudo terminou.
— E como foi que tudo terminou? — Brand perguntou.
— Um dos tais rapazes fez uma cena deplorável bem aqui, nesta
sala. — Como que desconsolada, a dama sacudiu a cabeça. — O sr.
Robson estava de fato perdido de amor por Hannah e queria casar-se com
ela, mas Hannah não quis saber do moço. Não era a primeira nem a
segunda vez que isso acontecia, eu não conseguia entender muito bem...
Naquele dia o sr. Robson me mostrou uma das cartas que Hannah lhe
escrevera, então tudo começou a se esclarecer. Ela não só tinha
provocado aquele pobre rapaz além dos limites, como também pintava a
mim e a meu marido como verdadeiros monstros desalmados! Na cabeça
do moço, ele estava resgatando Hannah de uma vida de maus-tratos,
vejam só.
— E ela? — Marion estava abismada.
— Hannah negou tudo, afirmando que a carta era forjada e que o
sr. Robson a interpretara mal. Meu finado marido, coitado... Pensei que
ele fosse ter um ataque apoplético de tão rubro que ficou ao ler aquela
carta. E Hannah... Ela era a única pessoa serena nesta sala.
Parecia que não estava acontecendo nada.
— Depois disso a senhora a despediu? — Brand arriscou perguntar.
— Nem cheguei a fazê-lo. A própria Hannah pediu demissão,
dizendo que o amor de sua vida, seu único e verdadeiro amor, esperava
por ela em Longbury. Disse também que só aceitara o emprego aqui para

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testá-lo. — A sra. Love fixou os olhos em Marion.


— Escrevi para sua tia, a srta. Edwina Gunn, para colocá-la a par
da situação, afinal ela já era quase uma senhora e Hannah, bem mais
jovem, precisava de algum tipo de supervisão. Minha intenção não era
criar problemas entre as duas, mas sim que Hannah tivesse os cuidados
de que necessitava. O comportamento dela não era... normal.
Marion não sabia o que dizer. Nem o que pensar. A imagem da tia
que trazia na memória em nada se assemelhava à moça que a sra. Love
acabara de descrever. Coube a Brand romper o silêncio constrangedor:
— Hannah lhe disse o nome do homem que deixara esperando por
ela em Longbury?
— Não, de modo algum. Para ser sincera, naquelas circunstâncias
eu não acreditaria em absolutamente nada do que ela dissesse. Na
verdade, o que penso até hoje é que esse homem não passava de mera
invenção da imaginação dela.
— Hannah tinha um cãozinho — comentou Marion, ainda presa às
recordações de criança que tinha da tia.
— O nome dele era Scruff. A senhora sabe o que houve com o
bichinho?
— Não, ela deve ter deixado o cachorro em Longbury.
— A sra. Love voltou a olhar Marion nos olhos.
— Além de sua tia Edwina, ninguém mais ficou sabendo do que se
passou aqui. Não pretendíamos prejudicar Hannah, mas tampouco
queríamos nos envolver em escândalos ou mexericos. Julgamos que o
melhor seria a Srta. Edwina cuidar da própria irmã.
— Obrigada — Marion agradeceu.
Quase ao mesmo tempo, ela e Brand puseram-se em pé.
— A propósito — disse ele, — o que houve com o sr. Robson?

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— Ah, casou e está vivendo com a família no norte da Inglaterra. O


pobre tinha lágrimas nos olhos quando esteve aqui. Dizia não acreditar na
mudança que acometera Hannah e que nem mais a reconhecia. No fundo,
era assim que meu marido e eu nos sentíamos.
— E quanto às cartas que Hannah escreveu ao sr. Robson?
— Espero que ele tenha mantido a promessa de atirá-las ao fogo.
Seria o mais certo, não é verdade? Que homem guardaria recordações de
uma mulher que o fez de tolo?
Assim que a carruagem se pôs em movimento, Brand olhou no
relógio.
— Ainda temos algumas horinhas antes da recepção. — Abrindo a
janela do veículo, ele gritou para Manley, na boléia. — Leve-nos aos
pontos turísticos, Manley. Esta é a primeira vez que lady Marion vem a
Brighton. Comece pelo Pavilion, o palácio de verão do príncipe regente.
Como as atrações da cidade fossem a última coisa que lhe
interessava no momento, ela indagou num tom impaciente:
— Você acreditou em tudo o que a sra. Love nos contou?
Segurando-lhe a mão, Brand tentou ser razoável:
— A sra. Love me pareceu uma mulher honesta e decente. Ficou
claro que ela acredita em tudo o que nos disse.
— Mas... e quanto ao caráter de Hannah? Não é possível que ela
fosse dada a intrigas ou que contasse tantas mentiras.
— Talvez Hannah não se desse conta de que agia assim. — Ele
apertou-lhe um pouco mais a mão. — Marion, nem sempre podemos
afirmar com certeza o que vai pela mente de uma pessoa. Às vezes
imaginamos conhecer alguém e, na verdade, não o conhecemos de fato.
No colégio eu conheci um menino, Nigel, que contava aventuras impres-
sionantes sobre os passeios que fazia com o pai; todos os verões os dois

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iam caçar na África e coisas assim. No final das contas, meus colegas e eu
ficamos sabendo que a mãe do menino era viúva, que eles levavam uma
vida modesta num vilarejo na costa leste da escócia e que era lá que
Nigel passava as férias de verão.
— E isso o que você pensa a respeito de Hannah? Que ela tinha
dificuldades em discernir entre a realidade e a imaginação?
— Acho que ela gostava de tornar a vida que levava mais
comovente, mais interessante. Você ouviu a sra. Love dizer que Hannah
era muito ingênua, muito romântica. As vezes ela perdia o controle da
situação, como aconteceu com o sr. Robson.
— Não é fácil, mas concordo com tudo o que você disse, Brand. E
acho que tia Edwina também sabia desse problema, tanto que tentava
manter Hannah à rédea curta.
Mesmo antes da carta da sra. Love.
— Hannah devia raciocinar como uma criança.
— Acha mesmo que ela pode ter dado cabo da própria vida?
— De jeito nenhum! Em primeiro lugar, os suicidas deixam cartas,
bilhetes, indícios; em segundo, há o mistério que envolve o fato de
alguém encostar uma arma na sua cabeça e colocar uma bala na minha
coxa. Eu disse aquilo à sra. Love porque minha experiência como jorna-
lista me mostrou que as pessoas tendem a manter-se caladas quando
ouvem a palavra "assassinato", geralmente com medo de acabar por
incriminar um inocente.
— Um truquezinho bastante inteligente.
— Foi, não foi?
— Ainda assim... Não avançamos muito, não é mesmo, Brand?
— Ah, eu não diria isso. Pelo menos ficamos sabendo que há
alguém em Longbury a quem Hannah se referia como o grande amor da

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vida dela.
— E se esse homem não passar de mais uma fantasia?
— Hannah não inventou nenhum dos outros rapazes, Marion. Todos
eram absolutamente reais e ela os provocava. Quem sabe Hannah não
escreveu ao homem que dizia amar de verdade e ele guardou as
mensagens? Talvez fossem essas as cartas que o ladrão estivesse procu-
rando no chalé.
— Ou talvez ela tenha fugido com seu grande amor.
— Não creio. Hannah gostava da possibilidade de se exibir, por
certo teria deixado um bilhete relatando o grande feito.
— Vou ter de concordar com você novamente. Mas como faremos
para encontrar esse homem?
— Usaremos o método que os bons jornalistas usam. Faremos
perguntas e averiguações, porém seremos extremamente discretos. — Ele
sorriu. — E agora o que acha de esquecermos esse assunto por alguns
instantes para que possamos desfrutar das atrações de Brighton?
Apesar da sugestão, não era nos pontos turísticos da cidade que
Brand pensava e sim na expressão, mescla improvável de fragilidade e
firmeza, nos olhos acinzentados que o encaravam. Seria possível que
Marion soubesse o quanto o encantava quando o fitava daquela maneira?
A mão pequena e bem-feita parecia pulsar entre seus dedos. As mechas
loiras que haviam escapado dos grampos do penteado no alto da cabeça
dela derramavam-se sobre seu rosto delicado em adorável abandono.
Como era bela!...
— Está brincando com fogo quando me olha assim, Marion Dane.
Como se tomada de surpresa, ela não respondeu.
— Esta é a segunda vez que você desperta meus instintos
masculinos numa carruagem em movimento. Na próxima vez...

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— Na próxima vez não me esquecerei de trazer minha dama de


companhia comigo!
— Ela fará com que você se comporte direitinho? Foi a vez de
Brand ser pego desprevenido: apoiando
a ponta dos dedos na perna em que ele levara o tiro, Marion
apertou-lhe o joelho de modo intimidador enquanto afirmava:
— Espero que sim, pois se eu tornar a colocar minha mão em você,
o dr. Hardcastle terá muito trabalho para fazê-lo andar novamente. —
Após tirar a mão do joelho dele, Marion ajeitou o laço do chapéu sob o
queixo e deu um sorriso travesso.
— E então, onde estão os tais pontos turísticos que você ia me
mostrar?

Capítulo VII

Marion trajou-se para a recepção com muito esmero. Meias brancas


da mais delicada seda e espartilho muito apertado na cintura para lhe
conferir a silhueta da moda sob o vestido reservado a ocasiões especiais,
confeccionado num tecido finíssimo azul-claro que combinava à perfeição
com o acinzentado de seus olhos e o loiro de seus cabelos. Como adorno,
apenas luvas brancas e singelos brincos de ametista.
Mas eram os sapatos novos que a enchiam de alegria: recobertos
de seda azulada, eram amarrados por fitas e tinham saltos que
acrescentavam preciosos centímetros à sua altura. O achado viera pelas
mãos de Ash Denison, que se oferecera para pesquisar as lojas da Ship
Street quando ela lhe dissera que não tinha o que calçar para a ocasião. E
o fato de que lhe machucassem o tornozelo e lhe dificultassem o
caminhar em nada diminuía o prazer de usar sapatos tão bonitos e

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elegantes.

Marion terminava de calçar as luvas quando bateram à porta, e foi


Doris, sua dama de companhia, quem a abriu. Brand entrou no aposento
reclamando que estavam atrasados, mas, quando se deteve diante de
Marion, pareceu esquecer o que dizia. Ela esboçou um sorriso tímido,
ciente de que aquele era o melhor elogio que poderia receber.
— Doris — disse Marion, — se ficar entediada, desça até a suíte da
sra. Barton, a esposa do gerente. Ela comentou que se sentia sozinha à
noite, uma vez que não tem quem lhe faça companhia.
— Obrigada, minha dama. Irei para lá assim que terminar de
arrumar tudo por aqui.
— E não precisa esperar por mim acordada. Posso cuidar de tudo
sozinha.
Depois de ajeitar um xale de gaza sobre os ombros e pegar a
bolsinha no mesmo tom do vestido, Marion deixou o quarto com Brand
nos seus calcanhares.
Ao lhe abrir a porta da carruagem, ele comentou: — Você está
deslumbrante, e eu estou certo de que serei invejado por todos os
homens que estarão lá, mas... Não pude deixar de notar que está com
dificuldades para caminhar com esses sapatos. Não quer trocá-los? Temos
tempo.
Com uma sobrancelha arqueada, ela declarou com convicção:
— Vou lhe contar um segredo, Brand: todas as damas que
estiverem na recepção não perderão um instante sequer em cogitar se
meus sapatos são confortáveis ou não. Elas estarão mortas de curiosidade
para saber onde foi que os comprei.
— E onde os comprou?

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— Foi Ash quem os comprou para mim. Ele parece entender um


bocado da moda feminina.
— Ash... Eu deveria ter imaginado.
Hove Hall ficava na zona leste de Brighton, no caminho para o
vilarejo de Hove, ao término de uma avenida semi coberta pela copa de
uma longa fileira de olmos. Em estilo neoclássico, a mansão era uma
versão mais ampla e mais opulenta da casa em que Marion morava em
Lake District, da qual o primo Morley havia se apoderado.
O burburinho de vozes misturado aos acordes da orquestra foi
encontrá-los enquanto subiam os degraus do pórtico. Havia convidados
por todos os lados: na escadaria, no saguão, no grande salão. Entre eles,
inúmeros criados com libre e peruca serviam champanhe em taças de
haste longa.
— Se metade dessas pessoas forem whigs — Marion cochichou a
Brand, — será uma surpresa você não arrancar a vaga no Parlamento das
mãos do partido rival.
— Bem que eu queria! Não, a maioria delas é freqüentadora
assídua de festas como esta ou então oportunistas, ou seja, mantêm-se
fiéis à causa enquanto o vinho é farto; quando as garrafas se esvaziam,
elas mudam de idéia.
— Isso não o aborrece?
— Não sou eu quem está pagando o vinho.
— Cínico — sussurrou ela, sorrindo.
— Venha, vou apresentá-la a algumas pessoas interessantes. — Ele
colocou a mão de Marion em seu braço. — Lembre-se: nem todos aqui
querem que eu receba a indicação. Se alguém fizer algum comentário
desagradável, ignore-o. Faz parte do jogo político.
Brand ficou junto dela por cerca de meia hora, porém Marion já

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sabia que teria de dividi-lo com eleitores e correligionários que queriam


trocar algumas palavras em particular com ele. Assim, tão logo o viu
afastar-se em direção a um grupo de cavalheiros, ela aproveitou para
subir ao aposento destinado a guardar casacos e chapéus das damas.
Tudo o que queria era um cantinho sossegado onde pudesse tirar os
sapatos e esticar os dedos a ponto de ter cãibras.
No corredor do primeiro piso, viu-se frente a frente com lady
Verônica. Debruçada sobre o balaústre, a moça tomava champanhe e
tinha um ar de enfado. Marion ainda buscava o que dizer quando lady
Verônica levou a mão ao braço dela para comentar:
— Devo confessar que estou verde de inveja!... Onde foi que você
comprou esses sapatos maravilhosos?
Incapaz de se controlar, Marion ergueu a barra do vestido para
admirar seus sapatos. Eram mesmo maravilhosos. Com um sorriso meio
acanhado, ela admitiu:
— Também tenho algo a confessar... Amanhã os dedos dos meus
pés estarão cobertos de bolhas.
— A perfeição tem seu preço, não é mesmo?
— Oh, é verdade. Foi lorde Denison quem os comprou para mim,
numa loja da Ship Street. Não é exagero dizer que ele entende o gosto
feminino.
— Concordo plenamente. Eu estava observando você daqui de
cima, sabe?, e vi que as pessoas realmente apreciam sua companhia. Eu,
por outro lado, sinto-me uma intrusa neste ambiente. Meu pai diz que,
em vez de ajudar Elliot, sou mais um fardo para ele carregar.
Papai diz que Elliot acabará perdendo a indicação por minha causa.
Mas quanto mais meu pai ralha comigo, mais eu sinto que...
Marion suspirou. Se lady Verônica estava disposta a desabafar suas

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aflições, por que não escolhera como ouvinte alguém que calçava sapatos
confortáveis?
Só durante a ceia ela foi conseguir descansar os pés doloridos. E
embora quase não tivesse desfrutado da companhia de Brand, tinha de
admitir que a noite transcorria melhor do que a antecipara.
— Você está sorrindo com certa malícia. — Ele colocou um prato
repleto de canapés sobre a mesa, depois se acomodou na cadeira. — Ou
isso ou andou tomando champanhe demais.
— Estou sorrindo, e sem a menor malícia, porque, como havia lhe
dito, meus sapatos novos são a grande sensação entre as mulheres que
vieram à festa. Não faz muito tempo que lady Verônica e Ettie Monteith
saíram à procura de lorde Denison para lhe perguntar o nome da loja
onde ele os comprou.
— Duvido que o encontrem. A última vez em que o vi, uma dama o
arrastava em direção ao jardim de inverno.
— Mas o jardim de inverno está às escuras... Ah, agora entendi o
que Ash faz aqui! Se ele, que não demonstra o menor interesse pela
política, correu a aceitar o convite para a recepção de lorde Hove só pode
ser porque há uma mulher que justifique tamanho sacrifício. Diga-me:
quem é ela?
— Minha boca é um túmulo. — Brand colocou sua mão sobre a dela
e pôs-se a afagá-la.
— Esqueça Ash.
— Você prefere falar a respeito de seus namoricos?
— Não, prefiro dizer que nenhuma mulher foi importante na minha
vida até agora, que passei uma esponja no passado e que quero
recomeçar. E você, acredita que possa dizer o mesmo?
— Eu... — Marion percebeu que não conseguiria mentir. — Não,

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creio que não há como eu passar uma esponja no passado.


— Por causa do tal David?
— Sim. David Kerr.
— O que aconteceu, Marion?
— Não estamos realmente noivos, Brand, de modo que você não
tem o direito de me cobrar uma explicação. — Ela forçou-se a sorrir. —
Além do mais, estes não são nem o lugar nem o momento adequados
para conversarmos a esse respeito.
— E quais seriam as circunstâncias adequadas?
— Não sei. Talvez... Não, não sei.
— Dê-me licença, por favor. — Largando a mão dela, ele se
levantou.
— Creio que preciso de uma bebida mais forte do que champanhe.
Antes que ela pudesse dizer qualquer coisa, Brand se afastou. Mais
do que abandonada, Marion sentiu-se oca. Aquilo não fazia sentido. Por
que ter tomado a atitude correta a deixava tão mal? Afinal, mentir não
seria...
— Marion?
Por pouco ela não gritou. A sua frente estava o homem que mais
odiava e temia no mundo, o miserável que vira pela última vez na Livraria
Hatcharcts, em Piccadilly, quando lhe entregara as esmeraldas de sua
mãe em troca do silêncio dele.
— Ora, imagine... — disse-lhe a voz que ela tanto abominava.
— Você parece surpresa por me ver aqui.
Respirando fundo à busca de se controlar, Marion deixou que seus
olhos transmitissem todo o ódio que sentia por ele.
— Eu só queria uma palavrinha em particular com você —
prosseguiu David.

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— Por que não vamos dar uma volta pelo jardim?


Um tom amável, um sorriso simpático, uma expressão agradável:
assim era David Kerr. Contendo o ímpeto de estapeá-lo, Marion obrigou-
se a se levantar e, muito ereta, passou por ele a caminho da escada.
Farto de saber que era lá que seu anfitrião guardava o melhor
conhaque da casa, Brand rumou para a biblioteca. Ali encontrou outros
cavalheiros que também conheciam esse segredo, reunidos num pequeno
grupo, fumando seus charutos e falando de política... evidentemente.
Enquanto rebatia com firmeza as tentativas de seus conhecidos de trazê-
lo para a conversa, Brand serviu-se de uma dose generosa, então pediu
licença e foi para o terraço descortinado pelas portas-balcão.
Foi lá que Ash encontrou-o minutos depois, ele também com um
cálice de conhaque entre os dedos.
— Por que essa cara amarrada? — quis saber o amigo.
— Marion, quem mais?
— Ah, briguinhas de namorados...
Brand se arrependeu por ter mencionado o nome dela. Mas que
coisa, o fantasma do antigo noivo de Marion vivia se interpondo entre eles
dois!... O que precisava fazer para livrar-se do maldito espectro de David
Kerr de uma vez por todas?
— É melhor eu voltar para lá — ele disse a Ash, mais irritado
consigo mesmo do que com o amigo.
— Tarde demais. — Ash pôs a mão no ombro dele. — Lady Marion
está no jardim com outro cavai... Ei, não me olhe assim! A culpa não é
minha nem eles estão fazendo nada de mais. Passei por ambos faz alguns
minutos e, se não me engano, trata-se do sujeito que conhece Marion
desde os tempos de Keswick... Aquele que passou alguns anos cuidando
de terras no Canadá.

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— Quem é o infeliz?
— David Kerr. Cuidei de averiguar de quem se tratava quando o vi
lá no hotel onde vocês estão hospedados.
Brand não teve tempo para dizer o que quer que fosse. Saindo ao
terraço, o anfitrião foi lhe dar um bom tapa às costas para anunciar:
— A reunião vai começar. Venha, Brand, todos estão à sua espera
na biblioteca.
— Ao vê-lo franzir a testa em sinal de surpresa, lorde Hove
indagou:
— Está lembrado da reunião, não está?
— Naturalmente — respondeu Brand, olhando para Ash como a lhe
pedir ajuda.
— Irei levar seu pedido de desculpa a lady Marion — disse Ash. —
Deixe que eu cuide de tudo.
O susto começava a passar, a corja lhe voltava às faces. Agora, o
que a dominava era a ferrenha determinação de tirar aquele chantagista
de sua vida para sempre. David teria a conversinha em particular que
pedira, sim, mas essa seria a última vez que ela lhe dava uma
oportunidade. A última.
O jardim achava-se todo iluminado por candeeiros pendurados em
mastros dispostos em intervalos regulares ao longo das veredas e ao
redor do lago artificial. Marion escolhera caminhar até a beira d'água
como forma de se preservar dos olhares de curiosos... e manter-se longe
das vistas de Brand.
À margem do lago havia um píer, em cujas estacas estava preso
um bote. Foi no ancoradouro que ela se deteve para encarar o homem
que chegara a pensar que amava. Hoje, via-o única e tão-somente como
uma encarnação do demônio.

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— Diga o que tem a dizer e suma-se da minha frente de uma vez


por todas.
— Marion, Marion... Isso é modo de cumprimentar um velho
amigo?
— Você está sem sorte, velho amigo. Minha paciência se esgotou.
— Calma, não estou lhe pedindo dinheiro. Apenas gostaria que
você me apresentasse ao seu futuro marido. Quem sabe ele não tem um
lugarzinho bom para mim numa de suas empresas tão lucrativas?
Ela cerrou os punhos. Aquela era a maneira de David rodear um
assunto sem tocar na questão que de fato lhe interessava. Ele jamais
falava abertamente em chantagem.
— Sabe, Marion, todos estão dizendo que o casamento com a filha
de um conde... com você, na verdade, aumentará consideravelmente as
chances que o sr. Hamilton tem de chegar ao Parlamento e que, uma vez
lá, ele talvez pudesse vir a ser nosso primeiro-ministro. Um grande feito,
não? Mas o que seria de um futuro tão promissor se viesse a público o
fato de que a dama de quem o sr. Hamilton está noivo não tem direito ao
título que alega possuir? Nem ela nem suas irmãs, já que os pais das três
nunca se casaram?
— Casaram-se, sim!
— Então prove.
Marion ficou olhando para ele sem saber o que dizer.
— Não tem como provar, não é mesmo, minha cara? E se seus pais
de fato se casaram, então cometeram bigamia. Seu pai e sua mãe
começaram a viver juntos quando a primeira esposa dele ainda estava
viva. Você tinha sete anos quando lady Penrith veio a falecer, Marion. A
verdadeira lady Penrith. E isso faz de você uma... Bem, não direi tal
palavra, seria muito pouco cavalheiresco de minha parte. Mas, anime-se.

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Pense na sorte que você tem. Quando estiver casada com o sr. Hamilton,
terá todo o dinheiro que quiser e mais um pouco... para você e para suas
irmãs. E então, meu silêncio não vale algum sacrifício?
— Seu silêncio já foi pago. Mais de uma vez. As esmeraldas de
minha mãe não foram o bastante?
— Oh, consegui uma ninharia por elas.
Se por um lado ainda buscava uma saída, por outro Marion sabia
que não havia mais o que fazer. Suas esperanças de construir um futuro
junto de Brand terminariam por se dissipar num mar de lágrimas não
derramadas. O lugar dele era no Parlamento, lutando pelos menos
favorecidos. O dela era...
Ao sentir a mão de David em seu ombro, ergueu os olhos para ele
e o viu sorrir seu sorriso cínico.
— Assim está melhor, minha querida. Vejo que você começa a
enxergar a realidade como ela é. Confie em mim, Marion, e dê-se por
muito satisfeita. Mais um pouco e Hamilton estará comendo na palma da
sua mão. Qualquer um pode ver que aquele homem está completamente
enrabichado por você.
Cada palavra rasgava o coração dela como um caco de vidro. Quem
David pensava que era para referir-se em termos tão abjetos ao
relacionamento honesto e decente entre Brand e ela?
Sem pensar no que fazia, Marion fechou a mão e desferiu-lhe um
murro. O sopapo atingiu-o junto à boca e, cobrindo os lábios com a mão,
David deu alguns passos para trás como a se recuperar do golpe. Ao
perceber que o atracadouro acabara, já era tarde demais: sem ter onde
se segurar, ele foi parar no lago.
Com a mão ardendo, Marion ainda a esfregava no vestido quando
viu a cabeça de seu algoz aflorar à superfície da água.

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— Você me quebrou um dente! Por que tinha de recorrer à


violência?
— Como ousa me acusar de violenta depois de ter me atacado em
Londres?
— Do que está falando? — David levou outro susto. — Eu não
ataquei você.
— Não minta! Quem mais mandaria que me derrubassem no chão
em Vauxhall Gardens? Quem mais me empurraria da escada no King's
Theatre? Eu podia ter quebrado o pescoço!
— Isso é absurdo! De que você me serviria com o pescoço
quebrado? — Ele tentava se aproximar do embarcadouro, no entanto o
peso da água em suas roupas dificultava-lhe os movimentos. — Vamos,
dê-me sua mão e me ajude a sair daqui antes que eu me afogue.
— Eu quero mais é que você morra! — Marion afastou-se da beira
do píer para que ele não tivesse como lhe alcançar os calcanhares. — E as
mensagens que você colocou na minha bolsa, pensa que esqueci?
— Que mensagens?
— Não se faça de bobo! Os bilhetes que usou para me ameaçar!
— Eu não fiz nada disso do que você está me acusando. E se quiser
minha opinião, parece que alguém está querendo apavorá-la. Só que esse
alguém não sou eu. Agora, quer fazer o favor de me dar sua mão?
— Afogue-se!
— Ei, volte aqui!
Enquanto se afastava dali, Marion o ouvia xingar e espumar às
suas costas. Paciência. O que estava feito estava feito. A verdade agora
viria à tona, porém ela não tinha mais por que temer David Kerr.
Não, nada seria assim tão fácil... Essa constatação a fez diminuir a
marcha dos passos ao se aproximar da mansão. Não estava em condições

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de encarar ninguém. Olhando ao redor, escolheu ir sentar-se num banco


de pedras à proteção de um grande salgueiro, e ali cruzou os braços com
força como se isso a ajudasse a parar de tremer. Parecia que o nó que lhe
travava a garganta a impedia de pensar com clareza.
Pouco depois sentiu uma sombra diante de si e, erguendo o olhar,
deparou com Ash Denison.
— O que aconteceu, Marion? Até parece que você viu um fantasma.
— Quero ir embora — foi tudo que ela conseguiu dizer.
— Vou avisar Brand. Ele está numa reunião, mas gostará de saber
que está tudo bem com você.
— Não, não é preciso. Eu... Estou com um pouco de dor de cabeça,
só isso. Nada que uma boa noite de sono não resolva.
Ash voltou a estudar o rosto dela com atenção antes de declarar:
— Venha, vou levá-la até minha carruagem, depois irei avisar
Brand de sua indisposição e então a acompanharei até o hotel.
— Obrigada, Ash. — Ela se levantou. — Agradeço a gentileza, mas,
se não se incomodar, eu gostaria de ir sozinha.
— Marion...
— Por favor.

Percebendo que não haveria como demovê-la da idéia, Ash


conduziu-a até a carruagem e disse a Hawkins, seu condutor, que a
levasse de volta ao hotel. Assim que o veículo se afastou, ele retornou ao
local onde a encontrara. Por onde andaria David Kerr?
Caminhando pelos arredores, Ash não demorou a reparar que havia
algum tipo de alvoroço perto do lago. Só quando se aproximou foi que viu
um grupo de cavalheiros, entre muxoxos e queixumes, a erguer um outro
homem do interior de um bote. Era ele, o tal David Kerr. Ensopado até os

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ossos.
Tão logo os alcançou, Ash foi dizendo:
— Mas que lástima, meu caro sr. Kerr... Você podia ter se afogado.
— O lago não tem mais de dois metros de profundidade — alguém
comentou às costas dele.
— Lorde Denison? — Kerr piscava sem parar. — Por favor, explique
a esses cavalheiros que fui convidado à recepção. Diga-lhes que não sou
nenhum intruso.
— O sr. Kerr é meu amigo — Ash informou aos demais. Enquanto
os outros se afastavam aos resmungos, Ash apoiou-se num joelho para
observar o homem que, sentado na beirada do atracadouro, tremia de
frio. Algo lhe dizia que fora ele o responsável pela súbita indisposição de
lady Marion.
— Lorde Denison...
— Depois. Vamos providenciar roupas secas para você, depois
conversaremos.
— O que tenho a dizer destina-se somente aos ouvidos do Sr.
Hamilton.
— Fico contente em sabê-lo, pois o sr. Hamilton, estou certo,
também quer falar com você.
Brand tinha imensa dificuldade em se concentrar nas palavras dos
vários oradores que, um após o outro, punham-se em pé para justificar o
apoio ao candidato de sua preferência. No início da reunião havia seis
candidatos à indicação do partido. Agora, decorridos cerca de trinta
minutos, quatro tinham se retirado da disputa, restando apenas ele
próprio e Elliot Coyne.
Lorde Hove acabara de tomar a palavra, mas Brand não conseguia
fixar-se na voz monótona do orador. Por que cargas d'água ela fora dar

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um passeio pelo jardim na companhia do homem que a tinha desprezado?


Sem perceber, ele deixou escapar um suspiro irritado. Estava enciumado,
sim. Enciumado e aflito. Marion o cativara e talvez até soubesse disso, no
entanto fazia questão de mantê-lo a distância. Seria por causa do tal
David Kerr? E o que aquele pilantra estaria fazendo ali?
Brand ainda ruminava essas questões quando uma salva de palmas
o arrastou de volta à realidade. Todos olhavam para ele, vinham em sua
direção para cumprimentá-lo. Então se deu conta de que, enquanto
estivera a divagar, os demais o tinham escolhido para disputar a eleição
suplementar ao Parlamento.
Ganhar a indicação não lhe trouxe o conforto que esperava. Após
agradecer os cumprimentos da melhor maneira de que foi capaz, Brand
deixou a biblioteca quase que sorrateiramente e foi encontrar Ash à sua
espera, ao pé da escadaria.
— Eu a encontrei — Ash apressou-se em anunciar. — E Kerr
também. Não, eles não estavam juntos, mesmo assim tenho certeza de
que andaram discutindo. Mandei Marion de volta ao hotel na minha
carruagem, a sua está esperando por você. Enquanto seguimos até lá,
vou lhe contar o que houve.
— Vamos andando.
Assim que deixaram o interior da mansão, Ash fez um rápido
apanhado do pouco de que pudera se inteirar, concluindo:
— Há algo estranho. Marion parecia aborrecida, abatida, e Kerr...
Bem, ele tentou manter a pose de sempre, como se tivesse alguma carta
na manga. Ficou contente ao saber que ela tinha regressado ao hotel e,
se eu não estiver enganado, pretende lhe dar a versão dele dos fatos
antes que Marion dê a dela. Kerr está esperando você junto à sua
carruagem. Por que não se oferece para levá-lo até onde ele está

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hospedado para que possam conversar no caminho?


— Aquele miserável. Se ele magoou Marion de alguma...
— Seja sensato, Brand. Controle o impulso de esganá-lo e trate de
ouvir o que ele tem a dizer. Talvez seja algo importante.

Capítulo VIII

Satisfeito com que a penumbra no interior da carruagem


dissimulasse o ímpeto homicida que o acometia, Brand se esforçava para
manter a calma. Após pensar por um breve momento, declarou:
— Vamos ver se entendi bem... Você disse que Marion o agrediu?
— Nem sei por que me admirei. — Vestido com as roupas de um
criado, Kerr segurava um lenço perto da boca. — Estávamos noivos, de
casamento marcado, no entanto tive de cancelar o compromisso por
conta do mau gênio dela. A verdade é que não se pode confiar no
temperamento daquela mulher. Ela me quebrou um dente, veja se é
possível.
— Deve ter havido um motivo para essa agressão. — Brand fazia
das tripas coração para mostrar-se sereno. — E esse motivo não foi o fato
de você ter rompido o noivado, pois sei que Marion não é de guardar
rancor. O que houve esta noite?
— O que houve? Ela me acusou de mandar alguém derrubá-la em
Vauxhall Gardens e de empurrá-la na escadaria de um teatro! E quando
eu disse que isso era absurdo, ela me agrediu e me fez cair do
ancoradouro.
Recostando-se no assento, Brand encheu os pulmões de ar.
Independentemente do que aquele vigarista dissesse, estava convencido
de que os ataques que Marion sofrera tinham relação com o

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desaparecimento de Hannah. Além do mais, um janota dado a


choramingar como David Kerr não parecia possuir coragem suficiente
para ações ousadas.
— Seria mais provável que Marion mandasse alguém me atacar,
isso sim — Kerr rematou.
— Por que ela faria tal coisa?
— Porque eu sei de algo que pode arruinar a vida dela se vier a
público.
— Kerr suspirou profundamente. — E, tendo em vista que você é
um homem com um futuro promissor na carreira política, pode arruinar a
sua vida também.
— E mesmo? David fez que sim.
— Bem, então me fale o que é que você sabe e que pode arruinar a
vida de Marion. O que diz respeito a ela diz respeito a mim também.
— Ah, sr. Hamilton, dói-me ter de informá-lo que você foi
enganado, porém é preciso que saiba... Bem, é meu dever fazê-lo saber
que os pais de Marion não eram legalmente casados, de modo que ela e
as irmãs são... hum... filhas ilegítimas.
Como não fosse aquilo que esperava ouvir, Brand não teve como
dissimular a surpresa. Satisfeito com o resultado de suas declarações,
Kerr sorriu antes de prosseguir:
— E verdade. Posso provar o que afirmo. Marion e as irmãs dela
não têm o direito de usar o título de lady. As três são meras senhoritas.
— E, segundo você, Marion sabe disso? — Brand cruzou os braços
na tentativa de conter a vontade de fazer Kerr engolir as maledicências
com uma bofetada.
— Não que tenha sido eu o primeiro a revelar a verdade a ela.
Tenho a impressão de que já faz algum tempo que Marion sabe de tudo.

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Acho até que foram os pais dela quem tocaram no assunto na época em
que eu rompi o noivado.
— Sei. Você também disse que tinha como provar sua alegação.
— Registros paroquiais. Sabia que meu pai cuidou do enterro da
verdadeira esposa de lorde Penrith? Em vida, papai era o vigário da
região onde ela morava. A verdadeira lady Penrith morreu quando Marion
tinha sete anos de idade, e nos registros o nome dela aparece como sra.
Rose Dane, Sellars por sobrenome de solteira.
— Onde estão esses registros? E por que ela não vivia junto do
marido?
— Por não se achar no pleno gozo das faculdades mentais, ela se
encontrava internada numa enfermaria. Meu pai costumava visitá-la,
como parte de seus deveres vicários.
— Onde foi isso?
— Na paróquia de Lonsdale, perto de Berwick. Ah, antes que pense
em tomar alguma atitude, saiba que a enfermaria foi demolida anos atrás
e que todos os registros ficaram sob os cuidados de meu pai. — O sorriso
de Kerr era quase um pedido de desculpas.
— Quando meu pai morreu, os registros ficaram comigo.
— Registros paroquiais podem ser falsificados.
— Também tenho comigo uma carta que o pai de Marion endereçou
ao meu em agradecimento pelos ritos religiosos no sepultamento da
querida prima dele, a sra. Rose Dane... O detalhe é que não consta que
lorde Penrith tivesse prima alguma com aquele nome.
— Como você sabe que não?
— Cuidei de averiguar.
— Quando era noivo de Marion?
— Naturalmente. Um homem tem o direito de tentar saber tudo o

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que for possível sobre os parentes da futura esposa, não tem?


Com um esforço sobre-humano para não partir a cara daquele
patife ao meio, Brand assinalou:
— Sr. Kerr, as provas de suas alegações são no mínimo um tanto
frágeis. Duvido de que possam provocar algum tipo de conseqüência.
— A carta do pai de Marion tem a assinatura e o timbre dele.
— Um advogado experiente teria como provar que se trata de uma
fraude com o objetivo de desmerecer o conde.
— Sendo assim, mostre-me o documento que prova que lorde
Penrith casou-se com a mãe de Marion. Oh, eu sei que ela afirma que os
pais eram casados, mas se isso realmente for verdade, então se trata de
um caso de bigamia. E eu não creio que o conde fosse tolo a ponto de
cometer um crime. Não. A mãe de Marion era amante de lorde Penrith,
pura e simplesmente.
— Imagino que saiba, sr. Kerr, que tenho grande afeição por
Marion. A mim pouco me importa se os pais dela eram casados ou não.
Além do mais, é do conhecimento de todos que minhas origens não são
algo de que posso me vangloriar. Mas, seja como for, estou disposto a
fazer o que for possível para que Marion e suas irmãs não sofram
quaisquer tipos de constrangimento. — Brand engoliu a ira represada na
garganta. — Diga-me como posso convencê-lo a esquecer a sra. Rose
Dane da paróquia de Lonsdale.
— Tem diante de si um homem que enfrentou grandes percalços na
vida. — Kerr empertigou-se. — Se não honrar meus compromissos, posso
acabar na prisão para devedores. Meus amigos fazem o que podem para
me ajudar, porém minhas dívidas são vultosas. Detesto ter de pedir, mas
se houver como você me dar o dinheiro necessário à quitação de meus
débitos, eu lhe seria imensamente grato.

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— A que ponto?
— Ao ponto de não dividir o segredo de Marion com mais ninguém.
— Ora, sr. Kerr, não cheguei à posição em que me encontro
comprando gato por lebre. Primeiro quero examinar as provas que alega
possuir, depois espero que você as entregue para mim em troca do
dinheiro que irei lhe dar.
— Sinto muito, não posso fazer o que me pede. As provas são a
garantia que tenho de que nada de mal me ocorrerá. Agora, se algo
trágico vier a me acontecer, as provas irão para as mãos de meu
representante legal, e ele já sabe como deverá agir.
— Então só me resta lhe dizer que vá para o diabo que o carregue.
De minha parte, e se ela aceitar meu pedido irei me casar com Marion.
— E sua carreira política?
— Já tive de enfrentar coisas bem piores. — Brand pensou melhor.
— De um modo ou de outro, eu ainda gostaria de poupar Marion de
qualquer desgosto. Nas minhas condições, evidentemente.
Depois disso a negociação tornou-se mais séria e direta, porém de
um ponto Brand não abriu mão: estava comprando tanto as provas como
o silêncio de David Kerr. Havia lacunas na história que o salafrário
contara, mas isso ficaria para depois. Assim como a punição exemplar
que caberia a um pilantra do quilate daquele bem à sua frente.

Deitada sobre as cobertas da cama, completamente vestida, Marion


prestava atenção ao ruído da chuva a tamborilar pelo telhado antes de se
lançar sobre o toldo da entrada do hotel sob a janela do quarto. Apesar
do friozinho a que os ingleses estavam acostumados mesmo no início do
verão, a lareira estava apagada.
Era estranho, mas a idéia de revelar a Brand a verdade sobre seus

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pais não a afligia, o que de fato lhe lacerava o coração era ter de contar
tudo a suas irmãs. Ele entenderia, afinal sofrerá a vida inteira por ser filho
ilegítimo. Emily e Phoebe, ao contrário, iriam penar. E por mais que ela
pensasse, e pensasse, e pensasse, não havia meio de encontrar as
palavras adequadas para expor a situação.
Percebendo que começava a tremer, Marion levantou-se da cama
com a idéia de vestir seu roupão quentinho, e estava a meio caminho do
guarda-roupa quando bateram de leve à porta. Doris, provavelmente.
Não, não era sua dama de companhia. Era Brand, que foi entrando
e fechando a porta sem cerimônias. Ele tinha OH cabelos desalinhados
umedecidos de chuva, o paletó aberto, o cachecol de seda retorcido... e
nos olhos azuis o luzir de uma emoção que ela não conseguia captar.
— Você... — Marion limpou a garganta. — Você não devia estar
aqui. As pessoas sempre pensam o pior.
— Conheci um velho amigo seu esta noite, David Kerr, de modo
que já estou sabendo do pior. — Ele fez uma pausa, depois prosseguiu no
mesmo tom afável.
— Encontrei sua dama de companhia na escada e disse-lhe que
fosse dormir.
— Eu...
— Tem idéia do quanto me fez sofrer, não somente nas últimas
horas, mas também nas últimas semanas?
— Você sofreu? Espere um pouco, o que...
— David Kerr! — Brand se pôs a caminhar de um lado para outro.
— Quando você disse o nome dele no teatro, imaginei que
estivesse com medo.
— Eu estava.
— Mas como não confiou em mim o bastante para me contar o que

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estava acontecendo, depois comecei a pensar que ainda estivesse


apaixonada por ele. Aliás, você chegou a insinuar que ainda gostava dele,
lembra-se? Como eu poderia desconfiar de que isso fosse mentira se você
sempre fez questão de me manter a distância?
— Foi para o seu bem!
— E eu, o tolo, permiti-lhe impedir que eu me aproximasse de você
porque imaginei que Kerr a tivesse seduzido. Reprimi meus impulsos com
medo de assustá-la. Não queria que você me julgasse um insensível, um
estúpido, um bruto sem coração.
Surpresa, ela ofegou. A seus olhos, tinha correspondido aos beijos
de Brand com uma paixão que desconhecia em si mesma.
— Cheguei a pensar... Ah, só Deus sabe o que pensei, Marion!
Imaginei até que você tivesse tido um bebê que agora estaria aos
cuidados de alguém em Lake District.
— Um bebê que eu escondesse do mundo? Que bela idéia você faz
a meu respeito!
— Não se preocupe, descartei essa hipótese no mesmo instante.
Você era lady Marion Dane, com todas as presunções e as vaidades a que
tinha direito por ser filha de um conde. E eu tinha certeza de que seu pai
meteria uma bala na testa de Kerr se ele a desonrasse.
— Nunca fui dada a presunções ou vaidades, Brand. Nunca me
imaginei melhor do que ninguém. Sempre fui uma pessoa reservada. E se
você falou com David, deve saber o motivo desse meu comportamento.
— Eu não precisava ter tido de falar com David para saber disso
tudo, santo Deus! Você e eu éramos amigos, Marion, mais do que amigos
até. Quem melhor do que eu para aconselhá-la? Acha que só você teve
pais que não se casaram? Por que não confiou em mim?
— Do mesmo modo como você confiou em mim?

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— O que está insinuando?


— Eu sou reservada, mas você é um bloco de granito. — Marion
largou-se sobre a cama. — Tirar informações de você é o mesmo que tirar
leite de pedras. Se alguém fosse escrever um livro a seu respeito, poderia
fazê-lo em quatro ou cinco frases: "O sr. Hamilton, filho ilegítimo de um
duque, foi criado pelo avô materno numa casa com vista para a mansão
ducal. Seu pai, o duque, pagou a educação do filho, garantindo que o sr.
Hamilton tivesse um futuro brilhante em qualquer atividade a que se
dedicasse. E não nos esqueçamos do fato de ele fazer questão de que o
filho recebesse seu nome: FitzAlan. Apesar de tudo, pai e filho nunca se
reconciliaram, e ninguém sabe o porquê". Entende o que quero dizer,
Brand? Isso é tudo o que sei a seu respeito. Eu e o restante do mundo.
— Não é de meu feitio comentar minha própria vida.
— Eu o compreendo, por isso queria que você entendesse que
também sou assim.
— Mas você tinha de ter confiado em mim, Marion. Devia ter me
contado acerca de Kerr.
— Não vi necessidade disso. Achei que tivesse solucionado o
problema e que nunca mais tornaria a ouvir falar daquele imprestável.
Além do quê, eu estava assustada demais para confiar em quem quer que
fosse, afinal nunca se sabe que reação esperar das pessoas. Mas... E se
houvesse de fato um bebê escondido em Lake District?
Caminhando até a cama, Brand sentou-se ao lado dela e segurou-
lhe ambos os ombros.
— Pelo tempo em que somos amigos, você deveria me conhecer
melhor. Se houvesse um bebê, eu o registraria como meu e nós nos
casaríamos para dar um lar a ele.
Marion sentiu um nó no peito. Não devia ter se referido ao passado

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dele, não devia ter lhe cobrado explicações.


Brand não deixara que as dores da infância o tragassem para um
mundo de amargura, em vez disso as esculpira de modo a forjar o
cavalheiro que era hoje. Um cavalheiro que ela respeitava e admirava
imensamente.
— Jamais esquecerei o que você acabou de me dizer, Brand. Você
está certo: eu devia ter lhe confiado meu segredo.
O sorriso dele a fez desabar. Com os olhos umedecidos, Marion
teve a certeza de que não havia nada que aquele homem não fizesse no
propósito de protegê-la. Sem pensar nas conseqüências, ela o beijou.
O beijo dela o fez desabar. Embora Marion acariciasse sua boca
com lábios suaves como um sussurro, uma onda de desejo percorreu-o
dos pés à cabeça. Brand não sabia onde colocar as mãos, não sabia como
conter o ardor que lhe inflamava a virilidade, no entanto sabia o que
desejava fazer naquele instante, e isso o apavorava. Nunca se
considerara um amante impetuoso, pelo contrário, julgava-se um modelo
de comedimento. Mas onde haveria se metido tal comedimento no
momento em que mais precisava dele?
Afastando-se um instante, Marion fitou-o nos olhos para sugerir:
— Creio que seria bom um de nós ir trancar aquela porta.
Seria possível que ela soubesse o que dizia, o que dava a
entender? Sem que o notasse, Brand prendeu a respiração.
A hesitação que via nos olhos azuis fez Marion entender que não
podia deixar que seus escrúpulos a impedissem de concretizar o que
desejava de todo o coração. Pouco lhe importava o que o amanhã
pudesse lhe trazer: vergonha, arrependimento, a humilhação de olhares
acusadores ou piedosos. Amanhã ela pensaria no efeito de seu ato. Essa
noite pertencia a Brand.

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Com esse pensamento em mente, foi até a porta e a trancou. Ao se


virar, viu que Brand havia se erguido e olhava-a com certa ansiedade.
— Marion, sinto-me lisonjeado. Não sei o que...
— Não acha que já conversamos demais?
A determinação no rosto de feições delicadas o incitou a calar-se.
Única mulher que de fato o encantara em toda a vida, ela era doce,
feminina, sedutora... fascinante. Sentiu-se perdido.
Voltando para junto dele, Marion tomou-lhe o rosto entre as mãos
e usou da ponta da língua para lhe entreabrir os lábios. O leve gemido
que ouviu escapar da garganta de Brand disparou seu pulso, criando a
sensação de que ela tinha fogo sobre a pele.
Os beijos que trocavam cresciam em intensidade e volúpia. Ao
senti-lo enlaçá-la pela cintura, Marion passou os braços pelo pescoço
dele. Pela primeira vez experimentava a percepção de ter a prova do
desejo de um homem pressionada intimamente contra seu corpo.
Apavorou-se. Embora tivesse tomado a iniciativa daquele encontro
amoroso, simplesmente não sabia o que fazer.
Sentindo-a vacilar, Brand estreitou-a ainda mais forte junto de si.
Fazia semanas que sonhava com aquele momento, desde que se dera
conta de que Marion Dane insinuara-se na vida dele de tal maneira que
agora não mais conseguia imaginar-se sem tê-la por perto para rir ou dis-
cutir com ela, para receber suas reprimendas, para preocupar-se com seu
bem-estar. Eram parecidos, ambos geniosos porém audazes, resolutos e
aguerridos. A vida sem Marion deveria ser um tormento do qual ele não
queria provar, e foi pensando nisso que Brand concluiu que, se
conseguisse uma autorização especial do cartório, os dois estariam
casados até o final daquela semana. Então a afastou o suficiente para
olhá-la nos olhos.

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— Irei entender se você mudou de idéia, Marion. Ela baixou o olhar


à lapela do paletó negro.
— Eu... Não mudei de idéia, é que... não sei como continuar. Beijar
é tudo o que sei fazer.
— Hum... — Ele não pôde conter um sorriso. — Por que não
começamos nos livrando de nossas roupas?
Transformando palavras em ações, Brand tirou o paletó e o lançou
sobre uma poltrona, depois fez o mesmo com o cachecol de seda.
Ruborizada até os dedos do pé, Marion virou-se e lhe indicou a fileira de
botões na parte traseira de seu vestido.
O rubor nas faces dela era adorável, pensou Brand, e o impelia a
ser gentil com seus gestos. Mas ao abrir o vestido da nuca à cintura para
depois revelar a curva suave de um par de ombros acetinados, ele não
resistiu à tentação de afagar a epiderme macia que acabava de
desnudar... antes de lhe experimentar o gosto. O perfume floral que se
desprendia da pele tão clara invadiu-lhe a boca, as narinas, a garganta,
os pulmões, as virilhas. Sem que percebesse, ele cerrou os dentes.
Marion reparou que tinha dificuldade em respirar. Os carinhos de
Brand provocavam-lhe um efeito estranho. Parecia que seus músculos
perdiam a força, seus ossos amoleciam, sua cabeça adquiria um peso
impossível de se suportar... Quando viu seu vestido de noite cair a seus
pés, teve a impressão de estar prestes a derreter por cima da peça de
roupa.
Depois de lhe despir o espartilho, Brand a viu sentar-se na beirada
da cama. Bela como nunca em suas roupas de baixo em tecido fino e
longas meias brancas. Bela como uma deusa, como...
— Marion, você está arfando?
O impossível aconteceu: ela ficou ainda mais ruborizada. Incapaz

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de reprimir um sorriso largo, Brand sentou-se ao lado dela e beijou-lhe a


palma de ambas as mãos antes de usar o peso do próprio corpo para
deitá-la sobre o colchão. Deus, como a desejava... Já perdera a conta das
vezes que sonhara com aquele instante. Apoiando-se num cotovelo,
prendeu os olhos acinzentados em seu olhar para lhe pedir:
— Dispa-me.
Marion começou pela camisa, tirando botão por botão de suas
casas com gestos quase afoitos. Quando terminou, escorregou a peça
pelos ombros largos, depois esperou que Brand se livrasse dela para lhe
afagar a peleja arrepiada. Estava tão arrebatada quanto curiosa. Os
músculos que ele ocultava sob trajes elegantes contraíam-se e ondulavam
sob seus dedos. O peito largo se expandia ainda mais a cada movimento
da respiração alterada. Ele era tão perfeito, tão másculo e tão
encantador... Marion o abraçou com força.
— Faça amor comigo, Brand. Faça-me sua.
— Ah, eu farei...
Despindo-a da proteção diáfana das peças íntimas, ele beijou-lhe
os seios, o ventre, o espaço entre as coxas trêmulas de ansiedade e
deleite. A medida que suas carícias foram se tornando mais ousadas e
ardentes, Marion começou a retribuí-las com a mesma intensidade, beijo
por beijo, toque por toque, enquanto o desnudava das últimas peças de
roupa.
Entre suspiros e gemidos, tornaram-se um só, carne penetrando
carne, pele de encontro a pele. Brand sussurrou-lhe que ela fora feita
para ele. Devolvendo o comentário, Marion esqueceu-se de que fora
virgem até então e pediu a ele que a amasse até lhe roubar o fôlego.
Olhos nos olhos, sorrisos mesclados a murmúrios apaixonados, moveram
seus corpos no ritmo dos amantes à busca do paraíso de todos os

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prazeres.
O corpo de Marion começou a tremer. Brand afundou o rosto entre
os cabelos dela. Ao cabo de alguns instantes, quando ela atingiu o clímax
e se desfez em milhões de pedacinhos, ele não demorou mais do que um
instante a acompanhá-la.
Alguns minutos depois, ao deitar-se ao lado dela e agasalhá-la com
as cobertas, Brand a viu esboçar um sorriso pleno de satisfação antes de
adormecer.

Ainda estava escuro lá fora. Alguém acendera a lareira. A chuva


tinha parado. Com a claridade das velas filtrando-se através de seus
cílios, Marion despertou aos pouquinhos, langorosamente... até dar-se
conta de que estava nua. Enrolando-se nas cobertas, sentou-se com as
costas apoiadas na cabeceira da cama e olhou ao redor. Em mangas de
camisa e ceroula, Brand achava-se à pequena mesa de refeições.
— Acordou, dorminhoca? Fui buscar uma garrafa de vinho e duas
taças no bar.
— Ele se aproximou do leito, sorrindo ao vê-la erguer as cobertas
até o queixo.
— Vista seu roupão. Precisamos conversar, mas é melhor que o
façamos bem longe da cama... Como forma de escapar à tentação.
Marion agradeceu o roupão que ele lhe estendia e tratou de vesti-lo
expondo o mínimo de sua nudez. Sentia-se... estranha. Era difícil
assimilar que a mulher ousada que seduzira Brand uma ou duas horas
atrás era a mesma mulher reservada que se habituara a ser.
Após lhe beijar os lábios, ele pediu:
— Diga que não está arrependida.
A insegurança de Brand espantou o constrangimento que a

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fustigava.
— Foi a experiência mais extraordinária de toda a minha vida, seu
bobo, por isso nunca mais me fale em arrependimento.
Ele a beijou outra vez, agora mais intensa e demoradamente. Ao
senti-la responder com igual arrebatamento, afastou-se e ergueu uma
sobrancelha.
— Se não sair dessa cama agora mesmo, vai acabar me
convidando para fazer amor com você outra vez antes mesmo que eu
perceba o que está se passando. Vamos, coragem! Vou atiçar o fogo na
lareira.
Pondo-se em pé, ela ajeitou o roupão sobre o corpo e amarrou-o à
cintura sem tirar os olhos de Brand. Ela o amava, pensou. Não estava
nem surpresa nem assustada. Já fazia algum tempo que sabia daquele
amor, apenas se negava a admiti-lo. Brand Hamilton não era um
cavaleiro em reluzente armadura, mas era o homem perfeito para ela. E o
fato de que não fosse a mulher ideal para ele não iria acabrunhá-Ia.
Naquela noite, nada iria macular sua felicidade.
Sentou-se à mesa e serviu-se de um pouco de vinho. Assim que se
uniu a ela, Brand anunciou:
— Esqueci de lhe contar que fui indicado pelo partido para
concorrer a uma vaga no Parlamento.
— Excelente notícia. — Ela fez força para sorrir.
— Acha que tem chances de se eleger?
— Moderadas.
— Então vamos brindar à indicação!
Tocaram suas taças, e Marion sorveu um longo gole enquanto
tentava avaliar as implicações daquela novidade. Se ele fosse eleito, seria
de se esperar que ambos seguissem suas vidas... um longe do outro.

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Afundando-se entre as dobras do roupão, pôs-se a pensar no quão breve


fora seu arroubo de felicidade e acabou por perder o que Brand ia
dizendo. Então a mão grande e quente dele cobriu a sua.
— Não precisa ficar assim preocupada. Já tomei as medidas
necessárias para que ele nunca mais volte a chantageá-la.
— Como?
— Kerr imagina que vou comprar os documentos que provam que a
primeira esposa de seu pai ainda estava viva quando ele e sua mãe foram
morar juntos, só que eu tenho outros planos para aquele vigarista... Mas
não quero que pense mais isso, Marion. Você está livre dele. Kerr não tem
mais como ameaçar você e suas irmãs.
Recostando-se à cadeira, ela o encarou.
— Como pode estar tão certo disso, Brand? Você não conhece
David, ele é diabólico, é mais traiçoeiro do que uma serpente. Quando
menos você esperar, ele tentará lhe dar o bote.
— Minha intenção é deixá-lo sem condições de dar o bote em quem
quer que seja, só falta decidir quando e como. Até lá, a barganha estará
valendo.
— Vai dar dinheiro àquele cafajeste? Isso fará com que ele volte a
procurá-lo para pedir mais.
— Kerr não terá como me chantagear se eu estiver de posse das
provas que ele ameaça usar contra você. Não sou tão generoso quanto
você imagina. Quando tenho de lidar com canalhas do quilate de Kerr,
posso ser a mais perversa das criaturas. Fique tranqüila, ele terá o que
merece.
— Seja como for, o mais provável é que toda a verdade acabe
vindo à tona. E isso pode prejudicar você, agora que irá concorrer à
eleição.

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— Creio que ajudaria bastante se eu me inteirasse de tudo o que


há para se saber acerca de seus pais e de como Kerr descobriu que podia
chantageá-los. Não quer me contar o que você sabe?
Marion ficou calada por alguns instantes, olhando fixamente para a
taça de vinho. Então começou:
— Foi minha mãe quem falou... Mas não creio que ela soubesse
que era eu quem estava ali, pois se achava sedada com morfina. Mamãe
se despedia da vida... Bem, ela disse que havia feito um grande mal a
lady Penrith e um mal ainda maior às próprias filhas.
Disse que gostaria que nós a perdoássemos. Não me lembro bem
das palavras que ela usou.
— Entendo.
— Após a morte de minha mãe, não tive coragem de falar sobre o
assunto com meu pai. Ele havia sofrido demais, e eu cheguei a pensar
que o que mamãe dissera talvez fosse fruto do delírio provocado pela
sedação. E então... então papai sofreu o derrame. — Marion respirou
fundo. — Depois que ele se foi, verifiquei todos os papéis que encontrei
em casa à procura de algum registro, algum pacto nupcial, qualquer
documento que provasse que meus pais tivessem se casado. Não
encontrei nada. Restou-me o consolo de saber que ambos não haviam
tido um filho do sexo masculino para herdar o título. Você já imaginou os
apuros em que eu ou minhas irmãs estaríamos agora se uma de nós
pudesse ter direito ao título de conde?
A brincadeira não foi suficiente para levar um sorriso ao rosto
muito sério de Brand.
— Foi nessa época que abri uma carta de David a meu pai. Sem
saber que papai havia morrido, na carta David dizia que seus recursos
tinham acabado e que precisava de mais dinheiro. O que me fez pensar

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que ele só se aproximou de mim depois de ter calculado o quanto poderia


obter de meu pai lançando mão de sua chantagem. Não sei como fui me
afeiçoar a um canalha...
— Você o amava?
— Eu era muito nova, fiquei com o coração aos pedaços quando
David partiu de Keswick. E eis que então ele reaparece para pedir
dinheiro em troca de seu silêncio... Fiquei como louca, não sabia o que
fazer ou a quem recorrer. Minha mãe, meu pai... Nós ainda estávamos de
luto, eu tinha minhas irmãs para cuidar. Não vi outra saída a não ser
continuar a fazer o que papai havia feito e, embora os recursos que
tivéssemos mal dessem para nos sustentar, dei dinheiro a David para que
ele se mantivesse calado.
Brand teve ímpetos de vestir-se e sair à procura daquele canalha
em plena madrugada, no entanto tratou de se controlar. Não queria criar
mais dissabores a Marion. Ela já os tinha de sobra.
— Pouco depois que David veio me procurar, tia Edwina morreu e
minhas irmãs e eu fomos passar a temporada em Londres. Pode imaginar
o susto que levei quando ele tornou a aparecer para me pedir mais
dinheiro? Eu estava a ponto de denunciá-lo à polícia, mas então houve
aqueles incidentes em Vauxhall e no teatro... Fiquei com medo de que ele
se voltasse contra minhas irmãs, por isso concordei em encontrá-lo na
livraria, onde lhe entreguei o único bem valioso que havia restado: o
conjunto de brincos e anel de esmeraldas de minha mãe. Sei que as jóias
valiam uma pequena fortuna, no entanto esta noite David me falou que
conseguiu uma ninharia por elas.
— Sabia que Kerr nega ser o responsável pelas agressões que você
sofreu?
— Ah, isso é típico dele. Mas então como explicar as mensagens

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que encontrei na minha bolsa após os incidentes? Só pode ter sido David.
— Depois pensarei nisso com calma, ponto por ponto. Agora
gostaria que você me falasse a respeito da primeira esposa de seu pai.
— Melhor dizendo, a verdadeira esposa de meu pai. Ninguém a
conhecia em Keswick, visto que papai só foi herdar o título após o suposto
casamento com minha mãe. Antes disso, morávamos em Leeds. Lá todos
sabiam que ele havia sido casado, porém o julgavam viúvo.
— Você sabia que ele fora casado anteriormente? Também
presumia que ele fosse viúvo?
— Sim. Mas nunca falávamos sobre esse assunto... ou sobre a
primeira esposa dele. O pouco que sei me inteirei por intermédio da prima
Fanny, que sempre acreditou que ele fosse de fato viúvo quando se casou
com minha mãe.
— Kerr me disse que você tinha sete anos quando a primeira
esposa de seu pai morreu.
— Sete anos? Suponho que ele tenha feito esse cálculo a partir da
data do registro da morte nos documentos paroquiais. O que sei é que
nasci bem antes que ela viesse a falecer. O que está pensando?
— Estou tentando me colocar no lugar de seu pai. E, se fosse ele,
teria me casado com sua mãe assim que possível e legitimado os frutos
dessa união.
— Entendo o que você quer dizer, só que não há provas desse
casamento. Como eu já disse, verifiquei todos os documentos que meu
pai deixou. Procurei o representante legal dele para indagar se papai
havia lhe dado alguma carta para ser entregue a mim. Não havia nada.
— Apesar de tudo, Kerr insinuou que seus pais haviam se casado e
cometido bigamia.
— Mais uma das bravatas de David, provavelmente baseada no

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fato de ele saber que minha mãe guardava um vestido de noiva numa
caixa, um vestido que ela dizia esperar que as filhas usassem quando se
casassem.
— Acho que você está enganada, Marion. Algo me diz que seus pais
realmente se casaram.
— Brand tomou um gole de vinho. — Não imagino o que possa ter
acontecido a essa certidão de casamento nem acredito que essa união se
deu em Longbury. Sua mãe era bastante conhecida por lá.
— Não vejo como...
— Não, deixe-me concluir. Você tinha sete anos quando seu pai
ficou livre para casar com sua mãe. Você tinha sete anos quando foi
visitar sua tia Edwina. Lake District fica muito, muito distante de
Longbury. Eles poderiam ter se casado no caminho sem que ninguém
soubesse. Estou convencido de que seus pais corrigiram o erro que
cometeram na primeira oportunidade que tiveram.
— Então onde está essa certidão de casamento?
— Não sei, mas vou procurar. Você já ouviu falar das Transcrições
do Bispo?
— Não.
— São registros paroquiais que os clérigos enviam a seus bispos
todos os anos. Não é preciso visitar todas as igrejas, basta saber o ano
em que o casamento foi celebrado e em qual paróquia. Um escrevente
pode procurar a informação.
— Assim tão facilmente?
— Eu não diria que é fácil, e pode levar um bom tempo. Seja como
for, começarei a cuidar desse assunto logo cedo pela manhã.
A Marion tudo aquilo parecia um trabalho inútil, então ela escolheu
mudar de assunto para não soar como uma estraga-prazeres.

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— Brand, o que pretende fazer com relação a David Kerr?


— Kerr será atingido pelo petardo que ele mesmo disparou, mas
isso é algo que só irei lhe contar quando tudo estiver encaminhado. Uma
coisa de cada vez. Para começar, vou comprar a tal prova que ele diz ter.
E quanto aos incidentes em Vauxhall e no teatro... Mais uma vez meu
sexto sentido me diz que não foi ele. Kerr não mentiu dessa vez.
— Como não? E as...
— Marion, estou começando a desconfiar que o responsável por
essas agressões foi o mesmo homem que arrombou a janela do Chalé do
Teixo.
— Deus...! — Ela ficou pensativa. — Nesse caso ele teria me
seguido de Londres a Longbury...
— Não sei, é só uma idéia. De uma coisa, porém, tenho certeza:
não foi David Kerr. Esse homem é um chantagista, e chantagistas não
colocam suas vítimas em perigo, o que querem é obter vantagens. E
quanto aos bilhetes na sua bolsa... Bem, essas mensagens podem ser a
forma que alguém encontrou para apavorá-la por conta do que você sabe
acerca do desaparecimento de Hannah.
— Mas por que essa pessoa ainda não tentou me matar? Por que
somente os sustos e as ameaças?
— Não faço idéia. Mas vamos descobrir isso também. Cansada de
tantos problemas com que lidar, Marion
suspirou profundamente e, pondo-se em pé, caminhou
devagarzinho até a lareira. Ao vê-la olhar as chamas com uma expressão
tristonha, Brand foi até ela e beijou-lhe de leve os lábios.
— Não desanime agora. — Ele lhe afagou o rosto.
— Já lidei com cafajestes bem piores do que David Kerr. Leia meus
jornais. Já investiguei e fiz cair ministros corruptos da Coroa. Levei

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senhores de terra mercenários à bancarrota e fechei as minas daqueles


que construíam fortunas à custa do trabalho de crianças. E se tiver de
fazer tudo isso de novo, eu o farei. David Kerr é um parasita, e minha
obrigação é detê-lo.
— Queira Deus! — Ela tentou sorrir.
— Só não fui atrás dele com uma arma na mão porque não sei usá-
la.
Estreitando-a junto ao peito, Brand disse baixinho:
— Não quero vê-la triste por causa daquele miserável.
— Às vezes penso que... Não sei, talvez fosse melhor começar uma
vida nova num outro lugar. Você mesmo havia sugerido que eu vendesse
o Chalé do Teixo e, depois do que houve lá, ninguém ficaria surpreso se
eu me desfizesse da propriedade. Talvez seja chegado o momento de eu
buscar outro lar para minhas irmãs, um lugar onde elas...
Afastando-a de si, Brand olhou fundo em seus olhos.
— E nós, Marion? Você levou em conta que se eu for eleito para o
Parlamento, passarei metade do ano em Londres e a outra metade por
aqui?
— Eu não lhe prometi nada. Nem você me fez promessa alguma.
— Por Deus! E o que houve naquela cama não significou nada? Não
foi uma promessa de sua parte? Uma promessa que lhe fiz? Despejei
minhas sementes dentro de você, Marion! Ou será que acha que faço isso
com todas as mulheres que levo para a cama? Não sou como meu pai, se
é isso o que está pensando. Pelo amor de Cristo, enfrente David Kerr e
tente vencê-lo! E se a verdade vier à tona, ignore-a.
— Que tipo de vida eu teria se casasse com um homem da vida
pública? Não que você tenha me pedido em casamento, mas...
— Pois considere o que houve entre nós um pedido. Ela escolheu

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fingir que não ouvira, preferindo argumentar:


— Eu também teria uma vida pública, e seus inimigos não
perderiam a oportunidade de transformar qualquer notícia em escândalo
com o objetivo de destruir você politicamente. Eu não teria um minuto de
paz. Como acha que eu me sentiria se fosse a responsável pelo fracasso
de sua carreira no Parlamento?
— Está me pedindo que abandone a política?
— Claro que não! Só estou dizendo que gostaria de tomar a atitude
mais conveniente a todos nós.
— Então não se precipite, está bem? Vamos nos ater a nosso plano
até passar a eleição, sim?
— Eu jamais faria algo que pudesse prejudicá-lo. Após roçar o nariz
no dela, Brand vestiu-se em silêncio.
Diante da porta, já com a mão na maçaneta, virou-se para indagar:
— Você não irá tomar nenhuma medida estouvada antes de falar
comigo, não é mesmo?
— Fique tranqüilo.
No alto da escada Brand encontrou Ash.
— Que bom que você ainda está acordado — disse-lhe o amigo. —
Parabéns pela indicação.
— Obrigado. Importa-se de me acompanhar até minha suíte?
Preciso de um favor seu.
— Você sabe que é só pedir.
— Trata-se de David Kerr. Venha, vou lhe explicar o que fazer.

Capítulo IX

Três dias depois, chegaram ao Mosteiro sob um sol quente de

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verão. Reunida no terraço em cadeiras de vime ao redor da mesa de chá


e petiscos, a família desfrutava do ar impregnado pelo aroma de flores na
companhia de um cavalheiro que Marion não conhecia.
Clarice, que fora ao encontro deles para cumprimentar Marion com
um abraço, levou-a até o desconhecido, que já esperava por elas em pé.
— Marion, este é meu marido, Oswald — disse a moça com imensa
satisfação. — Ele chegou ontem.
Ao contrário da imagem que ela formara a partir dos comentários
que Clarice fazia a respeito do marido, Oswald tinha uma aparência quase
cômica: era extremamente baixo, seus cabelos escuros tinham aspecto de
arame, os olhos castanhos faziam lembrar o olhar de um cãozinho. O
sorriso dele, porém, era de fato cativante.
Enquanto eles trocavam os cumprimentos costumeiros, a duquesa
viúva disse a Brand:
— Vocês chegaram cedo. Não os esperava antes do horário do
jantar.
— Culpa de Marion, que não via a hora de reencontrar as irmãs —
ele respondeu num tom casual. — Onde estão os demais?
— Phoebe e Flora estão lá dentro, Andrew levou Emily para um
passeio a cavalo.
— Tem certeza? — indagou a srta. Cutter. — Eu vi os dois no
jardim.
— E de Robert provavelmente ninguém sabe — interpôs Theodora.
— Como sempre.
— Eu o vi andando a cavalo uma hora atrás — declarou Oswald
com naturalidade.
O clima desagradável provocado por Theodora se desfez, e todos
começaram a conversar uns com os outros. Sentando-se ao lado da

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duquesa, Marion respondia prontamente a um ou outro comentário da


velha senhora, no entanto era em Brand que tinha os pensamentos. Raras
vezes ficara a sós com ele nos últimos dias. Após ser nomeado pelo
partido para concorrer à eleição, Brand tornara-se o centro das atenções
e tivera de comparecer a uma série de eventos. Decidida a não lhe criar
qualquer tipo de embaraço, Marion embarcara no clima de euforia e não
se esquivara de acompanhá-lo.
A srta. Cutter se pôs a falar coisas sem muita lógica a respeito do
jardim de hortaliças, mas ninguém lhe deu atenção. Clarice e Oswald
trocavam cochichos como dois jovens enamorados, e a duquesa de um
instante para outro escolheu Theodora para conversar. Marion deu um
suspiro desanimado. Todos ali sabiam que Brand fora a Brighton tentar
conseguir a nomeação, mesmo assim ninguém lhe perguntava o resultado
de seus esforços. Que gente mais esquisita...
Brand a alertara quanto a atitudes intempestivas, mas qual seria o
castigo para as conclusões precipitadas? Morta de remorso e com o
queixo caído, Marion ficou parada à entrada do grande salão sem saber o
que dizer. O balaústre do corredor no segundo piso estava todo enfeitado
com fitas de cores variadas. A mobília e alguns objetos de decoração não
se achavam em seus lugares. O piso e a escada reluziam de tão bem
polidos. Nos fundos do salão, uma faixa estendida de parede a parede
continha palavras de levar lágrimas aos olhos:
Nossos votos são para Brand e Marion.
A duquesa viúva então explicou:
— Tínhamos planejado um jantar em família para comemorar, mas
Emily e Andrew assumiram o comando dos preparativos e o resultado é
que teremos uma bela recepção com inúmeros convidados.
— Vocês nos pegaram de surpresa chegando cedo! — Clarice caiu

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na risada. — Ninguém sabia o que dizer nem o que fazer!


Nesse instante Phoebe e Flora entraram no salão com os braços
repletos de perfumadas rosas vermelhas. Ao ver Marion em meio aos
demais, Phoebe não se conteve:
— Ah, não! O que estão fazendo aqui? Era para ser uma festa-
surpresa!
Enquanto acariciava o rosto da menina, Marion olhou de soslaio
para Brand e reparou que ele também estava emocionado. Bastante
emocionado. Em Brighton fora aplaudido pelos correligionários, o que não
era o mesmo que ser admirado e festejado pela própria família.
— Você está triste, lady Marion? — perguntou Flora, ao reparar que
ela tinha os olhos umedecidos.
— Não, não. — Marion engoliu o nó na garganta. — Claro que não.
— Ninguém pode ficar triste nesta casa hoje — disse a duquesa,
que depois olhou ao redor e acrescentou: — Aliás, esta casa está
precisando de mais festas, mais alegria e mais crianças. Uma porção de
crianças. Parece que estivemos vivendo numa catacumba nos últimos
anos sem nos darmos conta disso.
Todos riram, exceto Theodora. Ela tinha o queixo erguido e os
ombros aprumados, porém nenhum sinal de contentamento no semblante
rígido.
A festa já devia ter terminado, mas nenhum dos convidados
parecia disposto a deixar a mansão. Sentada numa poltrona junto ao alto
da escadaria, Marion buscava recuperar o fôlego enquanto esperava pelo
homenageado da noite. Brand havia dito que precisava falar com ela.
David Kerr ou Hannah, certamente um dos dois seria o assunto dessa
conversa, só que ela não estava muito animada a discutir nem um nem
outro. Depois da primeira dança com Brand, decidira-se por descansar a

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mente dos problemas, pelo menos naquela noite.


Da posição privilegiada em que se achava, deu uma espiada pelo
salão lá embaixo. Brand conversava com o bispo junto a uma das janelas.
Lorde Robert e Theodora também se encontravam ali, no entanto mal
tinham olhado um para o outro desde o início da festa. Quem não os
conhecesse podia jurar que o acompanhante de Theodora era John
Forrest, o encarregado dos negócios dela. A srta. Cutter conversava com
ele, que tinha uma expressão aflita. E quem haveria de culpá-lo? A pobre
senhora ficava mais e mais confusa a cada dia que passava.
Erguendo-se, Marion pôs-se a descer os degraus com a intenção de
resgatar o sr. Forrest de um possível constrangimento, mas o marido de
Clarice, que parecia ter tido a mesma idéia, chegou antes dela. Oswald
Brigden possuía um talento especial para contornar situações
embaraçosas, e o olhar de alívio que John Forrest dirigiu a ele por pouco
não foi engraçado.
Ao ver que a Srta. Cutter parecia meio perdida, Marion foi até ela
para dizer-lhe com um sorriso amável:
— Ainda não tive oportunidade de conversar com você esta noite.
— Virgem santa, menina! Nem eu esperava por isso. Você é jovem,
deve ficar na companhia das pessoas jovens. — A aia da duquesa pôs-se
a mexer no pingente que tinha ao pescoço.
— Você se parece com sua tia, sabe? Ah, ela era uma moça tão
boa!
Como já tivessem tido aquela conversa uma dezena de vezes,
Marion sabia que a velha senhora se referia a Hannah. Quando passava
férias no Chalé do Teixo, Hannah costumava visitar a Srta. Cutter no
Mosteiro.
A princípio Marion imaginava que tais visitas fossem mera cortesia,

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mas depois de tudo o que a sra. Love havia revelado, começava a


indagar-se se por acaso sua tia não teria feito confidencias à dama de
companhia da duquesa a respeito do tal amor que tinha deixado em
Longbury. Seria possível que a Srta. Cutter soubesse de algum dado
relevante acerca daquele assunto? Mas como obter informações confiáveis
de alguém que tinha a mente tão atrapalhada?
Envolta em suas conjecturas, ela levou um susto ao sentir um
braço enlaçá-la pela cintura. Era Emily.
— Andrew e eu... Ou melhor, vou observar as estrelas com um
grupo de amigos — disse a jovem, que tinha um xale ao redor dos
ombros. — Andrew entende um bocado de astronomia.
— Quem irá com vocês?
— Que bobagem, Marion! Que graça teria ir ver estrelas com a
supervisão de damas de companhia? Não se preocupe à toa, maninha
querida.
— Vamos, Emily? — Era Ginny Mathews, que se aproximara
acompanhada de perto pelo irmão, Peter.
— Se minha irmã me der permissão... — disse Emily. Incapaz de
resistir ao olhar suplicante da irmã, e também por gostar muito, tanto de
Ginny como de Peter, Marion concordou. E assim que o trio se afastou, a
srta. Cutter cutucou-a para sussurrar:
— Primeiro você e Brand, agora Emily e Andrew... Quem diria, não?
Marion ficou olhando para ela sem saber o que responder. Emily e
Andrew? Absurdo. Andrew era um rapazinho, Emily era quase uma
mulher na flor da idade. Além do mais, era Ash Denison quem fazia o
coração de sua irmã disparar.
— Srta. Cutter, Andrew e Emily são apenas bons amigos.
— Amigos. Então vai ver que é por isso que passam tanto tempo

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juntos, não é?
Os convidados pareciam ter decidido ir embora todos ao mesmo
tempo e, quando Manley entrou e pediu licença para falar com Brand, o
grande salão já estava praticamente deserto. Dois ou três minutos
depois, Brand chamou Marion de lado para lhe segredar ao ouvido:
— Manley acaba de me dizer que um grupo de jovens que deixou o
Mosteiro, entre eles meu irmão e sua irmã, armou uma confusão na Rose
and Crown meia hora atrás.
— Mas Emily me falou que iriam observar as estrelas. — Marion
estava tão surpresa quanto ele. — O que foram fazer no Rose and Crown?
O que foi que aconteceu?
— Uma briga. Os rapazes estão trancafiados no xadrez até que
alguém pague os estragos que fizeram e a multa pelo mau
comportamento.
— Deus do céu!... Não me diga que Emily está presa!
— Não, ela obteve permissão para ir embora, mas se recusa a
voltar para casa sem Andrew. Vou até lá ver o que está acontecendo.
— Vou com você.
— Não, por favor. O que tenho a dizer a Andrew não é digno dos
ouvidos de uma dama. Manley trará Emily de volta, faça a sua parte
dando-lhe uma boa reprimenda. Explique a minha avó por que precisei
me ausentar, sim?
E enquanto Brand deixava o salão seguido de perto por Manley,
Marion teve a estranha impressão de que ele estava bastante satisfeito.
Em Longbury havia uma só cadeia, que ficava na parte de trás de
um pátio pavimentado com pedras redondas no final da High Street. Os
criminosos perigosos eram mandados para Brighton, onde havia uma
prisão propriamente dita para acomodá-los e guardas aptos para vigiá-

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los. Apesar de que na cadeia de Longbury raramente os detidos ficassem


mais de uma noite detrás das grades, essa era uma experiência pela qual
ninguém gostaria de passar.
O guarda que recebeu Brand era velho conhecido dele.
Embora estivesse agora envelhecido e calvo, Jennings ainda
conservava o físico avantajado e o porte altivo.
— Os tempo mudaram, sr. Hamilton, mesmo assim eis o senhor
novamente para pagar a fiança do duque.
— E verdade, Jennings, só que o duque agora é meu irmão, não
meu pai. Onde está lady Emily?
— Oh, o chefe de polícia Hinchley queria que lhe déssemos uma
boa lição, mas não seria correto acomodarmos uma moça de fino trato
numa das celas, não é mesmo, senhor? Ela se encontra com minha
senhora no nosso alojamento.
— Obrigado pelo cuidado. Agora me conte o que aconteceu, sim?
— A confusão começou com uma corrida de coches, bem ali no
meio da High Street. Temendo pela própria vida, os cidadãos de bem
vieram pedir ao chefe Hinchley que fosse atrás dos rapazes que haviam
provocado a baderna. Ele os encontrou em frente ao Rose and Crown, o
sr. Andrew e o filho de sir Giles Malvern e mais o grupo de amigos que
acompanhava os dois. O que tinha começado como uma disputa acabou
em briga. O sr. Andrew bateu no filho de Malvern, e quando o chefe
Hinchley tentou prendê-lo, lady Emily se interpôs entre ambos.
— Ela pode voltar para casa?
— Claro que sim! Aquela moça é um doce, minha senhora está
encantada com ela. O que não está certo é lady Emily supor que pode
desacatar uma autoridade pública, não é verdade?
— Obrigado mais uma vez, Jennings. E quanto a Andrew?

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— O caso dele é diferente, senhor. Sir Giles se encontra lá no


gabinete e parece disposto a fazer uma queixa. Ele está à sua espera.
— O filho dele está muito machucado?
— O rapaz fez mais barulho do que um gato escaldado, mas não vi
nenhum ferimento grave. Tenho a impressão de que ele está tentando
piorar a situação do jovem Andrew.
— Se o pai dele está pensando em dar queixa, então faço questão
de que o rapaz seja examinado por um médico. Mande chamar o dr.
Hardcastle. Diga que sou eu quem requisita a presença dele aqui. Ah, e
faça com que sir Giles saiba que o médico está vindo para cá a meu
pedido.
— Pois não, senhor. E lady Emily?
— Manley a levará para casa. Nossa carruagem está lá fora. Acha
que pode tirá-la daqui sem muito alarde?
— Cuidarei disso.
— Grato por tudo, Jennings. Agora eu gostaria de ver Andrew.
Os criados apagavam as velas do grande salão quando Marion
subiu a escadaria rumo a seu dormitório. O sobressalto havia passado.
Um dos serviçais lhe confidenciara que a confusão em que Andrew se
metera resumia-se a uma corrida de coches que terminara em arruaça e
que Emily em breve estaria em casa. O chefe de polícia quisera dar um
bom susto nos jovens, nada mais que isso.
A caminho de seu quarto, Marion deu uma passadinha no
dormitório de Flora para ver se ela e Phoebe já haviam pegado no sono.
Geralmente Phoebe dormia na companhia de Emily, mas naquela noite de
festa, as duas meninas tinham resolvido dormir juntas.

Como o aposento estivesse às escuras, Marion ergueu um pouco o

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castiçal que trazia na mão ao se aproximar da grande cama com dossel e,


constatando que ambas as meninas ressonavam tranqüilamente, deixou
escapar um suspiro. Phoebe havia florescido no Mosteiro: no intento de
acompanhar as traquinagens de Flora, não raro se esquecia do problema
na perna e, como as duas vivessem pelos arredores da mansão, a
garotinha agora tinha o rosto sempre corado e muito alegre.
O golpe de vento que penetrou pela janela aberta derrubou no chão
alguns papéis que estavam sobre uma mesinha. Ao recolhê-los, Marion
reparou no estojo de madeira em cima da mesa. Aquele devia ser um dos
tais tesouros que Phoebe lhe dissera tempos atrás que ela e Flora
compartilhavam. Tesouros de meninas... Marion ainda sorria quando
sentiu o coração dar um salto: alguns daqueles papéis eram mensagens
para Hannah e estavam assinados por lorde Robert. Examinando um por
um, verificou que não se tratava de bilhetes românticos ou qualquer coisa
assim. Uma nota de venda, uma mensagem de agradecimento, uma
receita de como tratar um cavalo teimoso e inofensivos bilhetes para
outras pessoas escritos em tom coloquial.
Marion olhou para o estojo. Era um trabalho típico de marchetaria,
daquelas caixas que todos tinham em casa para guardar os mais diversos
objetos, com a tampa toda entalhada. Ela própria possuía uma daquelas,
reservada às suas agulhas e meadas de linha. Mesmo à parca iluminação
da vela era possível distinguir as letras gravadas na tampa: H.G., o que
fazia crer que o estojo pertencera a Hannah.
Dentro da caixa, à exceção de um lenço com as iniciais de lorde
Robert, não havia nada digno de atenção, nada capaz de comprovar que
Hannah planejasse fugir com o grande amor de sua vida. Seria possível
que alguém tivesse removido mensagens mais ardentes que porventura
estivessem guardadas ali?

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Virando-se para a cama, Marion balançou a cabeça dizendo a si


mesma que amanhã Phoebe e Flora teriam muito que explicar, depois
levou o estojo de encontro ao peito e, pé ante pé, deixou o aposento. Na
manhã seguinte haveria grande consternação por conta do sumiço da
caixa. Ótimo. As meninas andavam independentes demais para o gosto
dela. Um pouco de disciplina não lhes faria mal.
Uma vez em seu quarto, deixou a vela e o estojo de Hannah sobre
a cômoda e pôs-se a andar de um lado para outro. Nem cinco minutos
haviam se passado quando ouviu o ruído de rodas de carruagem sobre o
caminho de cascalhos diante da mansão. Então entreabriu a porta e ficou
esperando. Emily não demorou a surgir no corredor, mas em vez de ir
procurá-la, entrou no dormitório que vinha ocupando. Marion não se fez
de rogada: apanhando a vela de cima da cômoda, foi ao encontro da
irmã.
Ao vê-la entrar em seu quarto, Emily foi logo esclarecendo:
— Pensei que você estivesse dormindo e não queria acordá-la, pois
você tem me parecido um tanto nervosa. Deixe a vela sobre a moldura da
lareira; vou lhe contar o que houve.
Surpresa por encontrar a irmã assim feliz e confiante, Marion não
sabia se sentia alívio ou irritação. Pelo visto Phoebe e Flora não eram as
únicas que precisavam de um pouco de disciplina. Deixando a vela sobre
a mesinha-de-cabeceira, ela se sentou na cama ao lado de Emily.
— Nervosa, eu? Não me venha com desculpas. Muito bem, estou
ouvindo.
— Marion, esta noite Andrew portou-se como o cavalheiro que de
fato é. Um herói, um verdadeiro herói de carne e osso. Ah, se ele fosse
um pouquinho mais velho!... Mas antes de mais nada é bom deixar claro
que a culpa foi daquele insuportável do Victor Malvern... Não, pensando

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bem, talvez até devêssemos agradecer a Victor. Se não fosse ele ter...
— Emily! Quer fazer o favor de me contar o que foi que aconteceu?
Acenando em sinal de anuência, a jovem começou pela história da
corrida de coches.
Quando Brand entrou na cela, Andrew levantou-se do catre e
encarou-o com um olhar metade cauteloso, metade rebelde.
— O que fizeram com Emily? Reprimindo um sorriso, Brand
respondeu:
— Ela estava na companhia da esposa de Jennings, depois Manley
a levou para casa.
As feições do rapaz suavizaram-se, porém logo em seguida
tornaram a se enrijecer.
— Desculpe-me por decepcioná-lo, Brand.
— Você me decepcionou?
— Estou aqui, não estou? E sir Giles disse que vai dar queixa do
meu comportamento.
— Isso depende do que aconteceu esta noite. Por que não me
conta sua versão dos fatos antes que eu vá falar com ele?
Andrew não fez rodeios:
— Victor Malvern me desafiou para uma corrida de coches, e
mesmo sabendo que ele não passa de um trapaceiro dado a encrencas,
eu aceitei porque não queria fazer feio na frente dos amigos de Emily.
Ganhei a corrida, então fomos à Rose and Crown para comemorar. As
garotas, é óbvio, permaneceram na carruagem e tomaram licor. Nós,
homens, estávamos diante da taverna esperando que os atendentes
fossem buscar nossas canecas de cerveja quando Malvern e seus amigos
chegaram. Ele me desafiou novamente, alegando que a corrida não fora
limpa. Como me recusei a correr outra vez, Malvern fez uma afirmação

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que um cavalheiro não pode tolerar, então avancei contra ele para fazê-lo
engolir o que havia dito.
— Ele insultou Emily?
— Não.
— Ah. O insulto foi contra mim.
Em vez de responder ao comentário, Andrew concluiu:
— Quando me dei conta, todos ali, inclusive Malvern e eu, estavam
trocando socos e pontapés.
— Foi quando o chefe de polícia chegou?
— Sim. O chefe Hinchley mandou todos para suas casas, exceto
Malvern e eu. Malvern jurou que eu o agredira sem ter sido provocado. Eu
não quis repetir o que ele havia dito, então não tive como me defender.
Brand estava comovido, pois não sabia o que havia feito para
merecer tamanha lealdade.
— Emily saltou da carruagem e começou a discutir com o chefe de
polícia, por isso ele mandou prendê-la também — continuou Andrew. —
Eu não sabia que ela era tão geniosa... Nada foi capaz de fazê-la calar-se,
nem mesmo a ameaça de prisão.
Brand ia dizer que a jovem se parecia com a irmã mais velha
quando ouviram um alvoroço do outro lado da porta. Pensando ter
reconhecido a voz de Hardcastle em meio às demais e sabendo que a
porta da cela não estava trancada, ele a abriu e foi ver do que se tratava.
Após um instante de hesitação, Andrew foi atrás.
A confusão vinha do gabinete, onde sir Giles Malvern e o dr.
Hardcastle trocavam palavras ásperas um diante do outro. Sentado num
banco, o jovem Malvern tinha um sorriso malicioso. Ao lado dele, em pé,
Jennings assistia ao entrevero de braços cruzados e com uma expressão
curiosa.

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— Se meu filho levou uma surra violenta e o senhor não apontou


isso em seu relatório, então tenho o direito de buscar uma segunda
opinião — dizia sir Giles, rubro de indignação.
— Pois eu digo que seu filho está fingindo — revidou o médico.
— Ele não tem mais do que alguns arranhões e devia se
envergonhar de criar caso a troco de nada.
Ao ver Brand, sir Giles apontou-lhe o dedo, acusando:
— Foi você quem meteu Hardcastle nesta história, não foi? Não faz
mal, você terá o que merece nas urnas. E não pense que, casar-se com a
filha de um conde, mudará sua situação. Você sempre será um bastardo.
Antes que Brand tivesse tempo para retrucar, Jennings meteu-se
na discussão com uma ameaça ao nobre:
— Mais uma ofensa desse tipo e serei obrigado a prendê-lo por
perturbar a ordem pública.
Embora fuzilasse o guarda com um olhar, foi ao jovem Malvern que
sir Giles se dirigiu:
— Venha, Victor. Nós seremos vingados no dia da eleição.
Pai e filho saíram pela porta pisando duro. Então o Dr. Hardcastle
piscou para Andrew.
— Bom menino, bom menino... — Erguendo o tom de voz, o
médico acrescentou: — Agora venha cá, deixe-me dar uma olhada nesse
corte que você tem no rosto.
Da prisão eles foram a pé até a Rose and Crown, que ficava perto
dali. Os estragos não tinham sido tão grandes: uma janela quebrada,
duas ou três cadeiras desconjuntadas. E o dono da taverna ainda tomara
o cuidado de recolher o coche e os cavalos de Andrew à estrebaria nos
fundos do estabelecimento. Sem discutir, Brand pagou todas as despesas,
inclusive a guarda do veículo e dos animais.

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Como fosse Andrew quem conduzisse o coche no caminho de volta


à mansão, Brand se recostou ao assento e, deixando-se imergir em
pensamentos, logo concluiu que, em vez de se comportar como mentor
do rapaz, deveria ter sido mais amigo do meio-irmão. Ou melhor, como
um irmão de verdade, mesmo que os dois só se vissem de quando em
quando. Com medo de que Andrew viesse a ser como o pai, mantivera-o
sempre ocupado, primeiro com os estudos, depois com os assuntos da
propriedade. Não que isso estivesse errado, porém faltara colocar ami-
zade e companheirismo naquela relação.

Apesar das adversidades, Andrew transformara-se num adulto


responsável... e generoso. Não era preciso perguntar-lhe qual tinha sido a
ofensa do jovem Malvern. Brand estava cansado de saber que o fedelho
certamente havia dito algo parecido ao que o pai dele afirmara no
gabinete do chefe de polícia. Mas isso deixara de afetá-lo fazia muito
tempo, estava acostumado àquele tipo de preconceito. Agora, precisava
acostumar-se com o fato de que tinha um irmão.
— Andrew... — Ele limpou a garganta.
— Gostaria que você fosse meu padrinho de casamento.
Após um momento de hesitação, o jovem indagou:
— E Ash Denison? Não prefere que ele ocupe esse lugar?
— Não. Ash parece uma mãe emotiva quando está no altar: não
consegue deixar de chorar. Ele estragaria a cerimônia.
Andrew riu.
— Além do mais — prosseguiu Brand, — você é meu irmão Seria
muito importante para mim se aceitasse meu convite.
— Será uma honra. — Foi a vez de Andrew pigarrear
— Então está combinado.

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— Já pensou no que vai fazer para que Marion não tenha uma crise
de nervos pré-nupcial? Morto de cansaço, Brand quase se engasgou com
um bocejo.
— Uma o quê? — indagou muito surpreso.
— Emily me disse que Marion parecia bastante nervosa esta noite.
Segundo ela, pode ser resultado do nervosismo que antecede o
casamento.
— Interessante. O que mais Emily falou?

Capítulo X

As batidas à porta do quarto sobressaltaram Marion.


— Quem é? Uma voz embuçada respondeu:
— Quem mais poderia ser a esta hora da noite?
Ela correu a abrir, e não se admirou ao vê-lo com uma expressão
bastante consternada.
— E Andrew, não é? O que houve com ele, Brand?
— Não é Andrew, não. — Fechando a porta, ele deu um passo,
depois outro.
— Meu irmão está em casa, são e salvo, mas não quero falar a
respeito dele. Nem de Emily. E sobre nós dois que quero conversar.
Aquela não era uma das ocasiões em que Brand Hamilton
demonstrava seu lado despreocupado e jovial. No rosto dele, as linhas de
expressão estavam muito rígidas. Seus olhos azuis tinham um brilho frio.
Marion, porém, não se deixou intimidar.
— O que há com nós dois? — ela indagou, o queixo erguido.
— Desde quando uma mulher de sangue quente como você sofre
de nervosismo pré-nupcial?

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Porém não a deixou responder: tomando-lhe os lábios num beijo,


usou o próprio corpo para prendê-la de encontro à coluna da cama
enquanto lhe segurava o rosto com ambas as mãos. Pega de surpresa, e
extasiada com o beijo,
Marion permitiu-lhe subjugá-la. Nervosismo? Por que todos a
imaginavam nervosa ultimamente?
Quando afastou o rosto do dela, Brand quis se certificar:
— Está tudo decidido entre nós, não está? Quero dizer, quanto ao
noivado e o casamento.
— Brand, já conversamos a esse respeito. Você será eleito e eu...
Eu quero o melhor para todos.
— Quer o melhor para mim?
— Você sabe que sim.
— Então vou lhe mostrar o que é melhor para mim.
Olhos fixos nos dela, Brand deitou-a na cama e acomodou-se a seu
lado. Segurando-lhe ambos os pulsos numa das mãos, usou a outra para
acariciá-la desde o pescoço até o meio das coxas enquanto dizia num
sussurro:
— Eu queria entender como sua mente funciona. Como não sou
capaz, vou lhe dizer como funciona a minha. Só consigo pensar nisto:
você me desejando tanto quanto eu a desejo. Acha que gosto de me
sentir assim? Você não é mera distração para mim, é quase uma
obsessão. Não, não me olhe assim. Não se trata de desejo puro e
simples. Quero um futuro junto de você. Quero filhos seus. E comparado
a isso, tudo o mais são bobagens. — Ele respirou fundo.
— Agora me diga que você não quer nada disso.
— Não é justo! Só estou tentando não ser egoísta, não pensar só
em mim.

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— E eu estou tentando não perder a cabeça.


Ela não conteve uma risadinha. Então ele beijou-a profundamente
e, sem pressa, peça por peça, despiu-a do traje de dormir. Não houve
parte do corpo onde Marion não sentisse os carinhos das mãos e dos
lábios dele. Pasmo com a beleza feminina diante de seus olhos e nas
pontas de seus dedos, Brand demorou-se em lhe afagar os bicos rosados
dos seios, a curva suave do quadril, a pele macia do ventre, o convidativo
triângulo onde repousava o coração da feminilidade dela.
— Brand...
— Posso parar por aqui se você não quiser que eu prossiga. Marion
arregalou os olhos em sinal de surpresa, mas então, deixando que o
desejo falasse mais alto, beijou-o com todo o amor e toda a paixão que
ardiam em seu íntimo. Quando se deu conta, sentia o peso do corpo de
Brand sobre seu corpo e o coração dele pulsando de encontro ao seu.
Prendeu a respiração. Ele era tudo o que mais desejava na vida. O
homem a quem amava. Ninguém jamais fora nem jamais seria tudo o que
Brand Hamilton significava para ela.
— Marion. Minha Marion.
Erguendo-se da cama com um sorriso, ele despiu todas as roupas
que usava. Quando voltou para junto dela, tomou-lhe os lábios em beijos
ávidos, devoradores, e, ao senti-la corresponder com o mesmo ardor,
teve a impressão de que seu coração estava prestes a estourar.
— Marion, olhe para mim — dizendo isso, acomodou-se sobre o
corpo e entre as pernas dela. — Sem dúvidas nem hesitações, está bem?
Penetrou-a devagarzinho, dando-lhe tempo para recebê-lo
plenamente, depois começou a mover-se no compasso dos amantes.
Enquanto os movimentos dele avançavam rumo ao encontro do prazer
que os esperava, Marion cobria-lhe de beijos os braços, o pescoço, os

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ombros. A torrente de paixão que os engolfava cresceu em ritmo e in-


tensidade e, em questão de minutos, lançou-os no abismo da plenitude.
Brand sentiu o corpo dela estremecer, ouviu-a chamar seu nome, e só
então se permitiu o alívio, mergulhando o rosto de encontro às mechas
loiras.
— Amo você, Brand — ela murmurou antes de abandonar o corpo à
lassidão.
De olhos fechados, com a cabeça apoiada no braço dele, Marion
aninhava-se de encontro a seu peito. Amo você. Ele não conseguia pensar
em outra coisa. Jamais se sentira assim pleno, satisfeito, em paz com o
mundo.
Quando ela se virou com um suspiro para deitar a cabeça no
travesseiro, Brand apoiou-se num cotovelo para melhor observá-la. E
sorriu, quase para si mesmo.
— Você é uma mulher passional, lady Marion Dane. E eu sou um
homem de sorte.
Ela abriu os olhos, fitando-o intensamente.
— Você parece pensativo. O que vai por essa mente incansável?
— Você disse que me amava. É verdade?
Com a sensação de que seu coração parará de bater, Marion
pensou que poderia atenuar o real significado de sua afirmação. Afinal,
nem tudo o que era dito no calor da paixão tinha de ser absolutamente
verdadeiro. No entanto, voltar atrás seria mentir, seria o mesmo que
renegar seu amor, e isso ela não podia fazer.
— E verdade, sim.
Entrelaçando seus dedos aos dela, Brand levou a mão delicada de
encontro aos lábios antes de confessar:
— Essa é primeira vez que alguém me diz isso.

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— Se o incomoda, não tornarei a dizer.


— Incomoda? — Ele parecia um pouco embaraçado.
— Não, é exatamente o contrário. Nunca ninguém tinha me dito
que me amava.
— Ninguém? E você, já disse isso a alguém?
— Não. Nunca.
— Vai dizer para mim?
— Nunca fui muito hábil em expressar meus sentimentos.
— Tente. — Rindo, Marion deitou-se em cima dele.
— Observe meus lábios e repita: eu... amo... você.
Tomando-a entre os braços, Brand rolou pelo colchão para fazê-la
ficar sob ele novamente. Seus olhos nos dela, disse baixinho:
— Leia... meus... pensamentos.
Antes de beijá-lo, Marion calculou que aquilo já era um começo.
Muito tempo se passou até que o estojo de Hannah fosse trazido à
baila.
Brand já estava vestido para retomar a seu quarto, e os dois
conversavam à mesinha junto ao cortinado da janela.
— Não sei onde as meninas o acharam, e a verdade é que nada do
que está guardado aí tem alguma utilidade. — Marion ajeitou os cabelos.
— Se ao menos houvesse uma só das tais cartas de amor, talvez as
coisas começassem a fazer algum sentido.
Brand já havia examinado os bilhetes e notas, agora tinha a
atenção nos objetos: um botão de latão, um lenço amarelado, um
canivete, uma pena de escrever... Após alguns instantes de reflexão, ele
tentou avaliar o que tinham em mãos.
— Parece que Hannah não guardava coisas à toa, e sim tudo aquilo
que tivesse alguma relação com meu tio, Robert. E a partir da data de

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algumas dessas mensagens e recibos, podemos ter uma idéia de quando


a obsessão dela teve início.
— Obsessão?
— O nome que se dê a isso não importa, o fato é que ela deixou-se
levar por um sentimento sem medir as conseqüências. Veja. — Brand
mostrou a data do recibo de um chapéu masculino. — Hannah trabalhava
para a sra. Love quando comprou esse chapéu. O que nos faz concluir que
ela começou a colecionar essas coisas dois anos antes de desaparecer.
— Sim, mas onde estão as cartas de amor de Robert para ela?
— O que temos é só um bilhete em agradecimento à simpatia que
Hannah dedicava a ele. Até mesmo os recados que envio a meu alfaiate
são mais calorosos do que isso. As outras mensagens de Robert são para
a srta. Cutter e para o aio dele.
— Tem de haver algo mais além disso, ou então por que um
arrombador invadiria minha casa para roubar as tais cartas? Não é
possível que aquele homem estivesse desesperado por causa dessas
ninharias. Por que alguém... O que houve, Brand?
— Estou pensando...
— No quê?
— Marion, a sra. Love nos disse que Hannah havia escrito cartas
para um moço que, por tomá-las ao pé da letra, tudo o que conseguiu foi
amealhar problemas.
— O sr. Robson.
— Exato. Não sei, algo me diz que se alguém escrevia cartas de
amor, esse alguém era Hannah, que, ao que tudo indica, gostava muito
de melodramas.
— Eu não havia pensado nessa possibilidade.
— Seja como for, pergunte às meninas onde foi que elas

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encontraram o estojo. Talvez possa ajudar.


— Vou perguntar também se era só isso o que havia nele, ou se
por acaso elas tiraram alguma coisa daí. Você pretende falar com Robert
sobre o assunto?
— Vou pensar. Talvez ainda seja cedo para fazê-lo, visto que a
frieza na mensagem dele não deixa margem a dúvidas. Talvez Robert não
tenha demonstrado muito entusiasmo pelas simpatias de Hannah em
deferência a algum outro cavalheiro.
— Seu pai?
— Meu pai? De jeito nenhum. À parte ter quase o dobro da idade
de Hannah, ele jamais pensaria em abandonar este lugar, visto ser aqui
que está a propriedade ducal. Além do mais meu pai está morto, e o
mistério continua se desdobrando. Alguém atacou você em Vauxhall
Gardens e na escadaria do teatro, isso sem falar do homem que invadiu o
chalé.
— Às vezes sinto que fui lançada ao alto-mar sem uma bússola.
Pondo-se em pé, Brand curvou-se para lhe beijar os lábios.
— Eu sou sua bússola. — Ele pegou o estojo de madeira que estava
sobre a mesa.
— Agarre-se a mim, pois vou levá-la de volta à terra firme.
Quando argüidas acerca do estojo de Hannah, as meninas só
faltaram chorar. Entre suspiros e "ais", Flora explicou que o encontrara
sob uma tábua solta do piso do closet para roupas de cama e mesa no
chalé de Edwina numa ocasião em que ela e Phoebe brincavam de escon-
de-esconde. Ambas juraram que não tinham retirado absolutamente nada
dali de dentro, que pretendiam entregá-lo a Marion e que esperavam pela
ocasião adequada para fazê-lo.
Após colocar as duas para escrever uma longa carta de desculpas

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pelo mau comportamento, Marion foi procurar Brand para lhe contar o
pouco que havia descoberto.
Em meio ao ritual de tomar chá no terraço, Brand flagrou-se
pensando que Marion não respondera nem sim nem não ao seu pedido de
casamento. Tendo em vista que ela afirmara amá-lo, o mais natural seria
que aceitasse sua proposta sem se ater aos problemas que tinham por
resolver. Não seria ele, porém, quem iria apontar um raciocínio tão
simples e claro à teimosia em pessoa que era Marion Dane. A iniciativa
teria de partir dela.

Theodora acabava de chegar, e, após cumprimentá-la com um


aceno, Brand retomou seus pensamentos. Suas últimas investigações não
haviam resultado em nada, e a única suspeita que ele tinha recaía sobre o
tio. Robert se apaixonara por Hannah? Matara-a num surto colérico ao
descobrir que ela o ludibriara com o mesmo joguinho que havia feito com
o sr. Robson? Escrevera-lhe cartas de amor que depois tentara resgatar
quando todos se encontravam na fête da duquesa?
Erguendo-se da cadeira, Oswald ficou olhando por um momento
além da murada do terraço, então indagou:
— Aqueles não são Andrew e Emily?
Brand virou-se. De mãos dadas, seu irmão e a irmã de Marion
aproximavam-se em desabalada carreira pelo gramado. Parecia que
vinham da estufa, e suas expressões não deixavam dúvidas: algo não ia
bem. Em vez de esperar que os dois jovens os alcançassem, Brand largou
a xícara sobre a mesa e foi ao encontro deles. Oswald seguiu logo atrás.
Olhos fixos na movimentação pelo gramado, todos se puseram em
pé: Sua Eminência, Marion, a Srta. Cutter, Clarice e Theodora. Detendo-
se diante de Brand, Andrew apontou a estufa. Emily continuou correndo,

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subiu os degraus para o terraço de dois em dois e ali chegou ofegante e


muito pálida.
— Houve... houve um acidente terrível — disse a jovem, arfando à
busca de recuperar o fôlego. — Na estufa, junto ao jardim de inverno.
John Forrest. Acho que ele está morto.
Em meio ao assombro dos demais irrompeu o grito agoniado de
Theodora. No mesmo instante, a duquesa segurou-a pelo braço.
— Deixe que Brand e Oswald cuidem de John. Se for para lá, eles
terão de cuidar de você. É isso o que quer?
Olhando para a duquesa como se a detestasse, Theodora afastou o
braço da velha senhora com um safanão e dirigiu-se às dependências
internas da casa.
Um jardineiro levou Brand e Oswald até o corpo, que não estava
propriamente na estufa, mas sim no pequeno galpão destinado a
ferramentas e demais materiais para jardinagem logo atrás de uma sebe
espessa. Pela porta aberta podia-se ver Forrest caído com o rosto voltado
para o chão de terra batida. Ao encontrá-lo ali, o jardineiro correra de
volta à estufa para avisar Andrew e Emily, que mostravam algumas
mudas de flores a um grupo de amigos.
— Ele já não tinha pulsação, e a parte posterior de sua cabeça está
afundada — explicou Andrew. — Não há mais nada a fazer.
Brand esperou que o jardineiro providenciasse uma lamparina,
depois se abaixou junto ao corpo para tocar uma das mãos de Forrest.
— Está quente demais aqui dentro, por isso fica difícil calcular há
quanto tempo ele está morto. Eu arriscaria dizer... umas dez horas,
talvez.
Erguendo a lamparina, Brand examinou o ferimento mortal e, ao
constatar que alguém abrira a cabeça do pobre homem com algum

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instrumento contundente, olhou ao redor à procura da arma. Foi meio


escondida atrás da porta que ele viu a barra de ferro... suja de sangue
numa das extremidades.
— Usamos essa ferramenta para levantar as pedras do piso —
esclareceu o jardineiro, seguindo os olhos de Brand com o próprio olhar.
— Deus do céu! — Andrew ofegou.
— Quem foi fazer uma coisa dessas?
— Isso cabe às autoridades descobrirem — respondeu Brand.
Depois de dizer a Andrew que fosse buscar o médico e o
magistrado e a Oswald que cuidasse para que ninguém tocasse em nada,
Brand ocupou-se em vistoriar as imediações. A volta do galpãozinho não
havia vestígios de luta nem marcas de passos ou sinais que indicassem
que o cadáver de Forrest fora arrastado pára lá dentro. O que fazia
pensar que o coitado entrara espontaneamente no abrigo, provavelmente
à noite, certamente sem imaginar o que o aguardava ali. Mais do que isso
era impossível presumir.
Mas por que raios alguém haveria de matar John Forrest?
Irritado, Brand passou a mão pelos cabelos. Hannah, Edwina,
Marion e agora Forrest. Seu sexto sentido lhe dizia que todos os
incidentes estavam inter-relacionados.
E que havia um assassino à solta.
Quem seria a próxima vítima?
Do galpão ele dirigiu o olhar à cocheira e dali ao chalé onde Forrest
morava. Talvez encontrasse alguma resposta por lá.

Ao chegar ao chalé, não se surpreendeu ao encontrar a porta


trancada: mais do que tratador de cavalos de Theodora, Forrest cuidava
dos negócios dela, portanto haveria livros contábeis e outros documentos

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que proteger. Mas mesmo levando isso em conta, Brand não hesitou em
usar do ombro para forçar a porta e entrar.
Não foi preciso mais do que um rápido olhar pela moradia para
registrar os aposentos: uma sala de estar, um escritório, um dormitório
diminuto. Ou a cozinheira mandava as refeições já prontas para o homem
de confiança de Theodora, ou ele as fazia na mansão.
Sem deixar de notar que o ar parecia impregnado pelo odor de
montaria, Brand lembrou que Theodora trouxera o assistente consigo
para o Mosteiro ao se casar com o tio dele, mais de vinte anos atrás. O
tratador de cavalos devia ter quase sessenta anos, o que se fazia difícil
supor que houvesse algum envolvimento entre ele e Theo, ainda assim
ambos eram ligados por laços muito mais fortes do que aqueles que
uniam um empregado e sua patroa. Seriam pai e filha, talvez?
Após inspecionar por alto os papéis sobre a escrivaninha, decidiu-
se por não forçar as fechaduras. Era nos trajes de Forrest que estava
interessado, de forma que foi cuidar de vasculhar o acanhado guarda-
roupa no dormitório.
Na pressa, por pouco não deixou escapar o botão costurado no
lugar do outro que Forrest havia perdido por ocasião do arrombamento do
Chalé do Teixo. Um botão que, embora muito semelhante aos demais
num dos casacos dependurados ali, tinha um tom pouca coisa mais claro
que o tecido dos outros na mesma fileira. Tirando do bolso o botão que
Marion havia encontrado no chão logo após a fuga do arrombador, Brand
comparou-o com a seqüência de botões no casaco surrado. Idêntico.
Sem que o percebesse, apertou o artefato com toda a força na
palma da mão. John Forrest atacara Marion e atirara nele. Também a
agredira em Londres, visto que se achava por lá com Theodora para
examinar novas aquisições à estrebaria dela. E Robert estava com eles.

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Seria possível que Forrest tivesse sido o grande amor da vida de Hannah?
Vinte anos atrás ele estaria com cerca de quarenta anos, e o mais faria
sentido... A exceção do fato de que Hannah guardasse lembranças de
Robert, não de Forrest.
Desanimado, Brand tornou a guardar o botão no bolso.
— Brand, você está aí? — Era a voz de Theodora. Fechando a porta
do guarda-roupa, ele foi ao encontro da esposa de seu tio na sala de
estar.
— Oswald me disse que você devia ter vindo para cá. Encontrei-o
na estufa, mas ele não me deixou ver John. — Theodora tinha os olhos
úmidos, e era evidente que lutava consigo mesma para se controlar.
— Sente-se, vamos conversar. — Evitando falar do botão e de suas
suspeitas, Brand contou-lhe o que vira na cena do crime. Por fim,
esclareceu: — Vim até aqui supondo que a pessoa que matou Forrest
pudesse ter pensado em roubá-lo também.
— Acha que o homem que atacou Marion e você possa ser o
responsável por... pelo que aconteceu?
— Até agora, não sei o que pensar. — Quando a viu olhar para as
mãos sem saber o que dizer, Brand perguntou: — Theo, onde está
Robert?
— Robert? Você não acredita que ele possa ter feito isso, acredita?
— Theodora encolheu os ombros. — Robert deve estar na toca de
sempre, com alguma mulher que despertou o interesse dele por uma
noite ou duas. O lugar que seu tio mais freqüenta é a Three Crows, na
Broad Street. Ou talvez isso se aplique a qualquer espelunca que venda
bebida em Longbury. Mas não perca seu tempo supondo que Robert
pudesse estar com ciúme de John, Brand. Além de não se importar com o
que eu faça ou deixe de fazer, ele sabe que John sempre foi um pai para

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mim
— Não creio que seja conveniente você ficar sozinha — observou
Brand, ao vê-la tremer violentamente. — Venha, vou levá-la para junto
dos demais na mansão.
Theodora deu um sorriso triste.
É quando mais me sinto sozinha: na companhia dos outros.
Como ninguém tivesse permissão para deixar o salão, o magistrado
e o chefe de polícia não pareciam ter pressa de interrogar ninguém. Os
primeiros a serem ouvidos seriam os criados, jardineiros e cavalariços,
todos já reunidos no grande salão. Só depois seria a vez dos membros da
família, que esperavam na biblioteca. Marion mandara chamar a sra.
Ludlow, para que Phoebe e Flora tivessem quem lhes fizesse companhia.
O ambiente entre os FitzAlan não podia estar mais carregado, e um
bom lapso de tempo se passou até que um criado de libré fosse avisá-los
de que o chefe de polícia estava pronto para vê-los. Um a um, todos
foram ao encontro do policial no grande salão e, ao cabo de meia hora,
restavam na biblioteca somente Clarice, Emily e Marion.
E enquanto Clarice e Emily comentavam seus álibis, Marion
pensava no que Brand havia lhe segredado: John Forrest fora o
responsável pelas agressões que ela sofrera, tanto em Londres como em
Longbury. Como era possível?
O encarregado dos negócios de Theodora sempre lhe parecera um
homem educado, respeitoso, reservado... E quem o teria o matado? Por
quê?
Emily foi a próxima a ser chamada e, tão logo ela deixou a
biblioteca, Marion foi sentar-se ao lado de Clarice. Após um instante de
silêncio, a irmã de Brand comentou num tom rancoroso:
— Eu daria tudo para ir embora deste lugar detestável com Oswald,

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mas quem iria olhar pela minha avó, se com a Srta. Cutter é impossível
contar? Além do quê, as duas estão idosas demais para começarem uma
vida nova num outro lugar. Pobre vovó... Ela me pareceu tão frágil esta
noite.
Marion remoeu aquelas palavras por um minuto ou dois, até que
lhe ocorresse sugerir:
— E lorde Robert e Theodora? Eles moram aqui, poderiam cuidar da
sua avó.
— Theodora é tão preocupada consigo própria que não tem olhos
para mais ninguém, nem mesmo para Flora, a quem trata como se não
existisse. E tio Robert também nem... Ah, o que estou dizendo? Oswald
sempre diz que todos têm seus fardos para carregar.
— A expressão de Clarice se desanuviou.
— Ele é um amor, não é mesmo?
— E, sim.
— Não posso me queixar, já não me sinto mais tão sozinha desde
que você e suas irmãs vieram morar aqui. E tudo será ainda melhor
depois que você e Brand se casarem. Seus filhos serão primos dos meus.
Marion não sabia como responder. O que poderia dizer? Que tinha
medo de casar-se com Brand se ele fosse eleito ao Parlamento? Que
tentaria adiar aquela união até ter certeza de que seu segredo de família
não seria uma ameaça à carreira dele?
Para alívio dela, a porta se abriu para dar passagem ao criado de
libré.
— Lady Clarice — disse ele, — sir Basil deseja vê-la. Enquanto
Clarice desaparecia pelo corredor seguida de perto pelo criado, Marion
levantou-se e caminhou até a janela, onde se deixou mergulhar em
pensamentos. De tão distraída, chegou a levar um susto quando, dez mi-

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nutos mais tarde, a porta voltou a se abrir. E mais surpresa ficou ao ver
que não era o criado, mas sim Clarice, quem estava de volta.
— O magistrado irá vê-la agora — disse a irmã de Brand.
— Não precisa se preocupar, a entrevista é mera formalidade, os
depoimentos serão tomados em outra ocasião. Só vim para avisá-la de
que dispensei a sra. Ludlow e vou fazer companhia às meninas. Os
criados irão servir sanduíches e refresco na sala do café da manhã.
— E lá que todos estão reunidos?
— Brand e Andrew saíram à procura de Robert. — Clarice franziu as
sobrancelhas.
— E com meu tio que estamos todos preocupados agora. Faz duas
noites que ele não dorme em casa. E sir Basil deu a entender que
considera Robert o principal suspeito pela morte de John Forrest.
Ao vasculhar uma taverna atrás da outra à procura do tio, Brand
não perdia a oportunidade de maldizer todas elas, reclamando da
proliferação de estabelecimentos daquele tipo numa cidade tão pequena
como Longbury.
— O que acontece com as pessoas deste lugar? Por que precisam
de um local onde beber a cada esquina? Será que só pensam em se
embriagarem?
Suas queixas tinham um motivo muito claro: numa noite como
aquela, muitos anos atrás, saíra à cata do pai sumido do Mosteiro fazia
dias. Robert fora buscá-lo na casa de seu avô, e os dois acabaram por
encontrar o duque já à beira da morte de tanto beber.
Ele e Andrew acharam Robert na White House, uma hospedaria na
extremidade oeste da cidade que evidentemente conhecera dias
melhores. O proprietário lhes indicou um quarto no primeiro piso do
estabelecimento. Brand foi o primeiro a entrar, seguido de perto pelo

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irmão.
Largado sobre a cama, Robert era a imagem do atordoamento e do
desmazelo em meio a um ambiente cheirando a podridão. Brand acercou-
se do tio com duas passadas ligeiras.
— Ah, Robert! O que está fazendo consigo, pelo amor de Deus?
— Não me olhe assim... — Apesar dos lábios meio azulados e de
mal conseguir manter os olhos abertos, Robert tentou tranqüilizá-lo: —
Não estou tão bêbado quanto aparento, nem vou morrer do mesmo modo
como seu pai morreu.
— Vá buscar café, bastante café — Brand pediu ao irmão. —
Depressa!

Uma hora mais tarde estavam os três nos aposentos de Brand na


Granja, local mais adequado a que Robert se recuperasse daquele estado
constrangedor longe dos olhos dos parentes. E também mais propício à
conversa que precisavam ter. Brand cuidara de mandar Manley de volta
ao Mosteiro para informar a todos, fora do alcance dos ouvidos das
autoridades, onde se encontravam e que a situação estava sob controle.
— O que está acontecendo? — perguntou Robert, um pouco mais
recomposto após banhar-se e vestir roupas limpas, emprestadas pelo
sobrinho. — Por que me trouxe para cá, Brand?
Brand olhou para Andrew, que se recusara a retornar ao Mosteiro
na companhia de Manley e agora se sentava junto à mesa num canto do
quarto com ordens expressas de não interferir na conversa, depois se
acomodou na poltrona diante daquela que Robert ocupava para anunciar:
— John Forrest foi brutalmente assassinado na noite passada.
Sinceramente chocado, embora não muito pesaroso, Robert
disparou uma enxurrada de perguntas, às quais Brand respondeu

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contando o pouco que sabia sobre o caso.


— Bem, antes que me pergunte se tenho um álibi vou logo dizendo
que andei por quase todos os lugares que vendem bebidas em
Longbury... meio bambo das pernas, é verdade. — Robert suspirou
profundamente. — Além do mais, que motivo eu teria para matar aquele
homem?
— Encobrir um outro crime, ocorrido quase vinte anos atrás: a
morte de Hannah Gunn.
Brand queria chocar o tio e percebeu que fora bem sucedido em
seu intento. Apertando as mãos, Robert baixou o rosto de repente
destituído de toda cor ao indagar:
— Então os restos mortais de Hannah foram encontrados?
— Você matou Hannah Gunn? — Brand resolveu usar uma
abordagem ainda mais incisiva.
— Matou-a num surto de cólera porque ela se recusou a fugir com
você?
— Você não poderia estar mais enganado. — Robert esboçou um
sorriso que era pura melancolia. — Hannah Gunn era uma moça
perturbada que me perseguia como um predador atrás de uma vítima
qualquer. Foi por causa dela que meu casamento fracassou. Hannah foi
dizer à minha mulher que nós dois iríamos embora juntos e que tinha
cartas que provavam que eu a amava. Na verdade, era exatamente o
contrário: ela me escrevia sem parar, cartas que eu queimava ao
terminar de ler, repletas das palavras desvairadas de uma demente.
Brand não estava surpreso. Já imaginava que Hannah não fosse
normal, e as cartas dela explicavam o envolvimento de Forrest naquela
história mirabolante. Se tais cartas fossem descobertas, Robert
certamente seria incriminado pela morte de Hannah, e era isso o que

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Forrest queria impedir, não porque fosse leal a Robert, mas pelo afeto
incomensurável que dedicava a Theodora. John Forrest faria o que fosse
preciso para evitar que sua patroa sofresse qualquer tipo de desgosto ou
humilhação.
— Robert, tenho provas de que foi Forrest quem invadiu o chalé de
Marion. Todos estão sabendo desse incidente, mas o que ninguém sabe é
que ele encostou uma arma na cabeça de Marion para exigir que ela lhe
entregasse as cartas de Hannah. As cartas que ele acreditava que você
tivesse escrito para ela.
— Mas acabei de lhe dizer que nunca escrevi para Hannah!
— Acredito em você, mas quanto tempo acha que demorará até
que as autoridades liguem você a Forrest e às cartas que ele queria
recuperar a qualquer custo? E quanto tempo mais até que cheguem ao
mistério que envolve Hannah Gunn? Todos vão querer saber o que houve
com ela, Robert. Eu quero saber o que houve com Hannah, pois já passou
da hora de exorcizarmos a sombra que o sumiço dela lançou sobre nós.
O silêncio que tomou conta do ar fez assomar o crepitar das achas
na lareira e, em algum lugar da moradia, um relógio soou as horas. Brand
tentou instar o tio:
— Por que não me conta o que aconteceu?
— Já disse, Hannah vivia atrás de mim, espreitando, espionando,
insinuando-se. No início era engraçado, depois se tornou irritante. Mas só
vim a perceber que se tratava de uma pessoa perigosa quando ela roubou
o cachorro de Theo e jurou que eu tinha lhe dado o bichinho de presente.
Havia um só cão: o cãozinho de Theo. Brand já suspeitava disso
também.
— Hannah devolveu o cachorro?
— Não, ela nunca admitiu que o tivesse roubado. Mas para Theo a

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história do cãozinho foi a gota d'água. Ela acreditou em Hannah, não em


mim. E você deve imaginar por quê.
— Robert passou a mão pelos cabelos agora penteados. — Sim, seu
pai e eu fomos rapazes de péssimos hábitos, no entanto nossa vida
mudou depois que encontramos as mulheres dos nossos sonhos.

Para seu pai, foi sua mãe; para mim, Theo. Acho que tive mais
sorte do que seu pai, ou pelo menos era isso o que eu pensava quando
consegui convencer a família de Theo a me conceder a mão dela. Mas
apesar de termos sido felizes no início do casamento, ela nunca confiou
plenamente em mim. — Ele sacudiu a cabeça como a afastar lembranças
ruins.
— Creio que você pode imaginar o estrago que Hannah fez em
nossas vidas. Theo nunca me perdoou... por algo que jamais cheguei a
fazer.
— Não houve como ultrapassar aquela crise?
— Cheguei a pensar que Theo e eu nos reconciliaríamos, mas... O
problema acabou me jogando de volta à velha vida que eu conhecia,
assim como fez com seu pai. Bebida, mulheres. Por sorte algo de bom
resultou dessa vadiagem: uma filha.
— Flora — murmurou Brand, ignorando o arfar de espanto de
Andrew no outro lado do quarto. — Mas por que escolheu destruir a si
mesmo dessa maneira? Por que seguir o caminho de meu pai, que se
matou de tanto beber?
— Tristeza. Ou tédio, não sei.
— Você tem uma filha! — Andrew não conseguiu se conter.
— Será que isso não é motivo para se alegrar?

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— Flora nem sabe que sou o pai dela. E antes que você me
pergunte: Theo sabe que Flora é minha filha, sim. Foi ela quem sugeriu
que a menina passasse metade do ano conosco depois que ficou órfã de
mãe. Eu esperava que isso... Bem, não importa o que eu esperava. Flora
está melhor com a tia dela... quero dizer, a irmã da mãe dela. Theo
praticamente a ignora, e eu... Basta olhar para mim para ver que não sou
capaz de cuidar nem de mim mesmo.
— Andrew, não faria o favor de ir pedir aos criados que nos
preparem alguns sanduíches?
— Mas fizemos um lanche assim que chegamos aqui — o rapaz
protestou.
— Continuo com fome. — Brand esperou que o irmão deixasse o
aposento para dizer ao tio:
— Estávamos falando de Hannah, e eu gostaria de saber o que
você fez para que ela parasse de importuná-lo.
Após um instante de silêncio, Robert começou:
— Combinei de me encontrar com ela na estufa uma noite
daquelas, depois que todos estivessem recolhidos a seus quartos. Não
queria que Theo nos visse, menos ainda que soubesse por intermédio de
alguém que eu tinha ido ao encontro daquela... perturbada. Quando
Hannah chegou, eu lhe disse coisas terríveis e ameacei denunciá-la às
autoridades caso ela voltasse a se aproximar do Mosteiro sem minha
autorização. Depois de chorar e implorar para que eu não rompesse com
ela... Hannah não conseguia enxergar que não havia nada a ser
rompido... Bem, ela lançou mão de chantagem: disse que tinha brigado
com as irmãs e que saíra de casa afirmando que iria fugir com um homem
casado, motivo pelo qual não podia mais voltar para o chalé. Eu não
acreditei, e estava tão fulo que a deixei ali e fui para o Mosteiro. Aquela

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foi a última vez que a vi.


Num gesto automático, Brand meneou a cabeça. Então fora esse o
motivo da briga entre as irmãs Gunn naquela noite no Chalé do Teixo. A
briga que Marion tinha ouvido sem conseguir entender muito bem.
— Não é possível que você não saiba o que se passou com Hannah
depois disso, Robert. Tem certeza de que ela não fugiu?
— A princípio, cheguei a pensar que Hannah pudesse ter se lançado
ao rio. Ela era tão estranha, estava tão desconsolada quando retornei ao
Mosteiro... À medida que o tempo foi passando, as pessoas começaram a
falar que Hannah era uma moça cheia de vontades e dada a namoricos,
então presumi, ou quis acreditar, que ela tivesse se engraçado com algum
outro homem e que terminara realmente por fugir. Para mim teria sido
bem menos complicado se tudo tivesse acabado dessa maneira, você não
acha?
— Não se subestime. Apesar de seus erros, você é um homem
bom.
— Não pense que o que vou dizer tem algo a ver com suas palavras
generosas, Brand, pois a verdade é que sempre desejei que você tivesse
herdado o ducado. Seu pai sofreu demais pelo fato de você não poder
receber o título. Ele dizia que você é o melhor dos FitzAlan, e certamente
foi por isso que o nomeou para único curador dos bens de seus irmãos.
Ele o amava, embora naquela época você fosse uma pessoa difícil de se
amar.
Aquelas eram declarações para as quais Brand não tinha uma
resposta pronta e, profundamente tocado, ele apenas sorriu.
Quando Andrew regressou com o lanche, Robert já começava a
dormitar. Então os dois o acomodaram na cama, depois se sentaram à
mesinha diante dos sanduíches. Foi o rapazinho quem rompeu o silêncio

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que pairava pelo aposento:


— Você não se surpreendeu com o fato de Flora ser filha dele.
— Eu já sabia. — Brand sorriu, quase para si mesmo. — Basta vê-
la cavalgar para se ter certeza de que se trata de uma autêntica FitzAlan.
E o modo como Robert olha para ela... E diferente, é especial.
— Pensei que ela morasse a outra metade do ano com a irmã de
Theo.
— Suponho que essa idéia fique no ar como forma de preservar o
orgulho de Theodora.
— E provável. O que vai acontecer agora, Brand?
— Vamos deixar com que o magistrado saiba que Robert está aqui.
O álibi de nosso tio é convincente, creio que sir Basil o aceitará. Quanto a
Hannah, não pretendo fazer o trabalho do magistrado para ele. Por
enquanto, não tenho nada a dizer a sir Basil a respeito desse assunto.
Andrew baixou a voz a um mero sussurro:
— Acha que Theo possa ter matado Hannah? Ela imaginava que
Robert a traísse com a moça.
— Essa idéia já me ocorreu, sim. Só que não consigo imaginar Theo
tirando a vida de John Forrest.
— Nem eu. A menos que ele tenha traído a confiança dela de
algum modo do qual não sabemos.
— Mas acredito que logo saberemos se for esse o caso.
Brand deixou Andrew tomando conta de Robert e fez a pé a curta
distância que separava a Granja do Mosteiro. Embora não houvesse
policiais pelas imediações, tomou a precaução de não se deixar ver,
incluindo entrar na mansão pela porta dos fundos e subir ao segundo piso
pela escada destinada aos criados. Apesar de o casarão encontrar-se
mergulhado na escuridão, não levou mais do que instantes para chegar

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ao dormitório de Marion.
O pavio da vela que ela deixara acesa sobre a moldura da lareira
começava a se afogar na cera derretida. Aproximando-se da cama sem
fazer ruído, Brand encontrou-a adormecida, ressonando suavemente
debaixo das cobertas, uma das mãos sob o rosto, a outra sobre o
travesseiro. Mãos femininas e frágeis que não denunciavam a ferocidade
com que Marion defendia a si mesma ou aqueles a quem amava. Mãos
que haviam tentado conter John Forrest no dia em que ele a atacara.
Sem intenções de acordá-la, Brand contentou-se em sentar na
poltrona próxima à cama para admirá-la alguns minutos mais. Seis meses
atrás julgara que sua vida estivesse completa, agora via o vazio do qual
estivera prisioneiro. Se à época alguém lhe dissesse que teria somente
uma hora a mais para viver, iria gastá-la com sua carreira política ou seus
jornais. Hoje, escolheria dedicar esses sessenta minutos às pessoas que
tanto significavam para ele, pessoas que sabiam amar.
Não ficou muito tempo nem a beijou antes de sair. Apenas
encostou os dedos aos lábios dela, depois os levou de encontro aos
próprios lábios. O calor de Marion era o que bastava para sentir-se vivo.
Pela manhã Marion acordou sentindo-se descansada. O sonho que
tivera com Brand injetara-lhe novos ânimos, no entanto a realidade não
tardou a cobrar sua parte: a morte trágica de John Forrest deixara um
rastro de tristeza, desconfianças e mais problemas. Lutando contra a
súbita melancolia, ela afastou as cobertas com um suspiro. Precisava
reagir. Brand, suas irmãs, Flora e os demais precisavam dela.
Vinte minutos mais tarde entrava na sala de desjejum, onde
apenas Emily e a Srta. Cutter ocupavam a grande mesa. Ambas lhe
pareceram tão desoladas quanto ela própria.
— Ficamos para trás — disse Emily. — Todos já tomaram o café da

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manhã e foram cuidar de seus afazeres.


— E as meninas? — indagou Marion, acomodando-se à mesa.
— Clarice e Oswald as levaram para ver o mar. São só dez
quilômetros de viagem, por isso lhes dei permissão para levar Phoebe.
Além do mais, é melhor para elas do que ficar por aqui.
Após acenar com a cabeça para indicar que aprovara a idéia,
Marion olhou para a srta. Cutter e condoeu-se ao ver a pobrezinha
mergulhada num silêncio que era tão pouco típico dela. A aia da duquesa
nunca dissimulara que Robert era seu preferido naquela casa.
— Brand não vai deixar que nada de mal aconteça a lorde Robert —
disse-lhe Marion, apertando a mão dela.
— Sei que sim, minha querida, e não é com Robert que estou
preocupada.
— Um lampejo iluminou os olhos cansados da Srta. Cutter, mas
logo em seguida se apagou.
— Quem me preocupa é Sua Eminência. Ela está tão abatida. Não
sei como tudo foi dar tão errado assim... Passe-me o bule, querida, vou
buscar chá fresquinho para você.
Após lhe entregar a peça de porcelana, Marion se entreteve em
espalhar um pouco de manteiga numa torrada.
— Andrew esteve aqui conosco não faz muito tempo, depois subiu
para fazer companhia à avó — disse Emily ao cabo de alguns minutos.
— Veio avisar que está tudo bem e que o magistrado irá conversar
com lorde Robert o mais breve possível.
— Que bom. — Tomando entre as mãos a xícara e o pires que a aia
da duquesa lhe oferecia, Marion agradeceu a gentileza: — Obrigada, Srta.
Cutter.
— Ele deixou um recado de Brand para você — prosseguiu Emily.

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— Uma mensagem tão esquisita, Marion... "Leia meus pensamentos".


Você entendeu?
Na tentativa de ocultar o sorriso inoportuno, Marion levou a xícara
aos lábios e sorveu um longo gole de chá antes de dar-se conta de que a
infusão estava quente demais.
— Oh! Queimei a língua...
A Srta. Cutter se apressou em derramar leite frio na xícara
fumegante.
— Prove agora, querida.
O chá tinha ficado mais morno do que quente, porém ela não quis
tirar o meio sorriso que a pobre mulher tinha nos lábios.
— Está ótimo, srta. Cutter. Obrigada. — Sem muita fome, Marion
colocou uma colherada de geléia sobre a manteiga na torrada e gastou
um tempo razoável distribuindo o doce pela superfície do pão.
— Você deveria ter ido à praia com Clarice e Oswald, Emily. Por
que não vai visitar sua amiga Ginny? Convide-a para fazer compras. Ou
visitar outros amigos.
— Você vem comigo?
— Fica para outra oportunidade. — Marion tinha outros planos em
mente.
— Acho que vou ler um livro e fazer um pouco de companhia à
Srta. Cutter.
— Por que não damos um passeio por aqui mesmo? — sugeriu a
senhora.
— Eu queria lhe mostrar meu canteiro de hortaliças.
— Por que não? — Marion obrigou-se a sorrir.
— Espere aqui enquanto vou avisar Sua Eminência que vamos dar
uma volta.

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A Srta. Cutter estava toda agitada. Se à mesa mantivera-se


estranhamente calada, agora falava sem parar, engatando um assunto ao
outro ou misturando-os numa coisa só. Mesmo se esforçando para
encontrar respostas e comentários adequados, Marion tinha a atenção
voltada ao caminho que trilhavam. Era por ali que Clarice devia ter
passado na noite em que se assustara ao imaginar ter visto um fantasma,
inclusive pela estufa à direita, que em épocas remotas tinha sido o
refeitório. O pequeno galpão onde o corpo de Forrest fora encontrado
também ficava ali, só que atrás de uma cerca-viva. Era difícil crer que
aquele pedacinho do paraíso, onde as abelhas e as borboletas disputavam
seus lugares entre as plantas, pudesse ocultar tanta perversidade.
Alguns passos adiante, tudo se transformava. As arvores altas que
tomavam o lugar dos arbustos lançavam sombras sobre a vegetação
rasteira. Em vez de abelhas e borboletas, aranhas teciam teias para
capturar vítimas imprevidentes. Raposas vagavam pelos bosques. Gatos
selvagens tinham os músculos prontos para saltar sobre suas presas.
Diante de uma bifurcação no caminho, a srta. Cutter anunciou:
— E por aqui que vamos ao jardim das hortaliças.
A passagem que ela apontava estava pavimentada por pedras.
Cardos e urtigas tomavam conta da outra trilha, que levava ao Chalé do
Teixo.
— Por que não vamos até o púlpito do refeitório, que é bem
pertinho daqui? — sugeriu Marion. — Era lá que Clarice e eu
costumávamos brincar quando crianças.
— A subida é íngreme demais para mim. Façamos assim: eu
seguirei para meu jardim e depois você me encontra lá.
— Prometo que não demorarei.
O púlpito do refeitório ficava ao lado do que antes haviam sido a

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casa do abade e os dormitórios dos visitantes, edificações das quais


restavam apenas vestígios. O púlpito, porém, permanecia praticamente
intacto e, da clareira onde de achava, Marion avaliou que era ainda maior
do que em suas recordações. Do alto da estrutura em pedra, o clérigo
incumbido das leituras sagradas devia ter uma visão privilegiada dos
monges que faziam suas refeições. Fechando os olhos, ela tratou de pôr
em prática a idéia que a levara até ali: reviver na memória a noite em
que sua tia havia desaparecido. O ponto de partida era o momento em
que Hannah deixara o Chalé do Teixo. Certo. Depois disso, Marion
lembrava-se de estar subindo o aclive que levava ao púlpito. No caminho,
passara pela estátua do primeiro abade que residira ali e fizera o sinal-da-
cruz. Um ponto de luz no púlpito indicava que Clarice já estava lá. Os
degraus. Ambas trocaram saudações. Clarice apagara a lamparina. As
duas haviam se agachado à espera dos acontecimentos.

Impossível determinar quanto tempo se passara, mas então um


cão ganira e depois se pusera a latir. Colocando-se em pé, ambas tinham
espiado pela lateral do púlpito. Dois pontos de luz moviam-se no ar em
direção a elas, o que fizera Clarice disparar de volta ao Mosteiro. Marion
lembrou-se de que, aterrorizada, caíra de joelhos ao imaginar que o
fantasma do abade avançava sobre ela. Fechara os olhos e... e...
Um cãozinho lambera-lhe o rosto. Scruff, o cachorro de Hannah.
Ela quase gritara de alívio ao constatar que não havia fantasma algum por
ali, somente sua tia, que devia estar à procura do animalzinho de
estimação. Então se apressara em descer do púlpito e correr em direção à
claridade chamando por Hannah. Scruff começara a latir, e Hannah não
respondia. O medo a fizera retroceder um passo, depois outro... Ela fugira
dali em disparada porque... porque... Por quê?

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Dois pontos de luz, certamente dois lampiões. Duas pessoas.


Porém Hannah não se achava por ali, caso contrário teria respondido a
seus chamados.
Ela abriu os olhos. Olhou atentamente ao redor, depois fixou o
olhar onde ficava o jardim de hortaliças. De repente, sentiu como se o ar
lhe faltasse. Agora entendia o que havia se passado com Hannah todos
aqueles anos atrás. E estava certa quanto ao lugar nada sagrado onde
sua tia encontrara o descanso eterno.
Descer o aclive que levava ao púlpito pareceu-lhe muito mais
cansativo do que subi-lo. Subitamente atordoada, Marion segurava-se nas
plantas à busca de equilibrar-se quando, ao erguer a cabeça, deparou
com a srta. Cutter bem à sua frente.
— Você estava demorando — disse a dama de companhia da
duquesa, — então vim ver por quê.
— Não me sinto bem — ela confessou. — Acho... acho que foi
emoção demais para mim.
— Apóie-se em meu braço, querida. — A srta. Cutter deu uma
risadinha tão estranha que Marion se arrepiou. — Sim, deixe-me cuidar
de você. Não sou tão frágil quanto aparento.
Brand foi acompanhar o magistrado até a porta, depois retornou à
biblioteca, onde Robert e Andrew tomavam café. Mais cedo havia confiado
ao tio e ao irmão o teor da carta de Edwina e também o que sabia sobre
Hannah, e agora, sentia-se bastante bem por tê-lo feito.
Após ele se acomodar novamente na poltrona onde estivera
sentado, Andrew observou:
— Parece que correu tudo bem com sir Basil, não?
— Também acho — concordou Brand, antes de dizer ao tio: — Não
se preocupe, ele não sabe e não tem por que saber dos seus problemas

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com Hannah.
— Não é em sir Basil que estou pensando — respondeu Robert.
— E na minha mãe.
— Vovó? — Andrew admirou-se.
— E bem provável que mamãe acreditasse que eu tinha um caso
com Hannah, o que me faz pensar se ela imagina que tenho algo a ver
com o sumiço dessa moça.
Andrew foi taxativo:
— Duvido. Vovó, assim como todos nós, preocupa-se com você e
quer vê-lo bem. Nada além disso. — Ele deu um tapinha no braço do tio
e, ao ver Brand cruzar e descruzar as pernas pela terceira vez, indagou:
— Por que está tão inquieto assim?
— Fico cogitando uma série de detalhes, no entanto não sei se são
importantes ou não.
— Brand pensou por um momento, depois comentou com o tio: —
Quando me falou de seu encontro com Hannah naquela noite, você não
mencionou o cachorro.
— O cãozinho de Theo? — Robert ficou surpreso. — Não o
mencionei porque ele não estava por lá.
— Clarice disse que ouviu o uivo de um animal, e Marion acredita
ter ouvido o ganido de um cão.
— Ah, deve ter sido porque, quando entrei em casa, o cachorro
saiu e não me dei o trabalho de chamá-lo de volta nem de ir atrás dele.
— Sei. — Brand tornou a ficar pensativo. — E o que foi feito do
bichinho?
— O pobrezinho comeu do veneno que os jardineiros colocavam
para os roedores. Eles negaram, evidentemente, visto que são proibidos
de deixar substâncias perigosas ao alcance de crianças, mesmo assim...

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— Isso aconteceu muito tempo depois do sumiço de Hannah?


— A morte do cachorro? Foi antes do Natal, cerca de seis meses
depois que ela sumiu. Cheguei a pensar em dar outro cãozinho para Theo,
mas a Srta. Cutter nem quis ouvir falar disso, alegando não querer mais
saber de animaizinhos cavoucando pelo seu jardim de hortaliças
Erguendo-se de supetão, Brand anunciou antes de deixar o
aposento:
— Vou dar uma volta.
Ao ver o tio lhe lançar um olhar admirado, Andrew explicou:
— Acho que Brand já sabe quem é o assassino.

Capítulo XI

Por que estamos indo para o chalé?— perguntou Marion, ao se dar


conta de que seguiam pelo caminho entrecortado pelo mato que levava
ao Chalé do Teixo.
— Porque é descida. — A Srta. Cutter deu uma de suas risadinhas.
— Não sei se eu seria capaz de empurrá-la colina acima até o Mosteiro.
Deixando-se levar pela inclinação do terreno, Marion percebeu que
não conseguia pensar com clareza. O sono que sentia parecia impedi-la
de raciocinar. Teria pegado alguma infecção? Tinha algo a dizer à Srta.
Cutter... O que era mesmo? Ah, sim.
— Lembrei. Sei onde Hannah está enterrada, Srta. Cutter. No seu
jardim de hortaliças. Foi lá que John Forrest a sepultou. Ele mudou a
estátua do abade de lugar porque... porque pensou...
— Olhe onde pisa, senão vai acabar caindo.
— Você ouviu o que eu disse?
— Sim, querida. Você falou do abade.

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A Srta. Cutter não a levava a sério, e isso a deixou contrariada. Se


ao menos Emily estivesse por ali... Com as idéias atrapalhadas pela idade,
a aia da duquesa não tinha como ajudá-la.
— Precisamos mandar chamar o chefe de polícia! — Marion
protestou.
— Não entende? Lorde Robert e Forrest estão juntos nisso. Se
deixarmos lorde Robert escapar, só Deus sabe o que ele poderá fazer.
— Não diga uma bobagem dessas! — A Srta. Cutter estava
transformada.
— O sr. Forrest, sim, mas não lorde Robert. Ele é filho de Sua
Eminência. Onde está sua lealdade para com a família, menina?
Marion sentia-se incapaz de reagir. Suas pálpebras estavam
pesadas, seus membros ficavam cada vez mais lassos, parecia que seu
cérebro queria deixar de funcionar. Fique alerta!, tentou resistir. O que
está acontecendo? Você estava perfeitamente bem quando desceu para o
café da manhã. Tudo o que ingeriu foi uma torrada com manteiga e geléia
e o chá da srta. Cutter, isso não pode ter lhe feito mal.
Seus pensamentos foram interrompidos pela voz da velha senhora:
— Pronto, chegamos. O chalé de Edwina. Fique aqui enquanto vou
pegar a chave que fica sob o capacho da porta.
Ao se ver sem o apoio do braço da Srta. Cutter, Marion cambaleou.
Aquele mal-estar não podia ser gripe ou uma infecção qualquer. Não tinha
dores pelo corpo, nem espirros, nem calafrios. Sentia-se como... sedada.
— Venha comigo, querida. Ficaremos mais à vontade lá dentro.
Mesmo se perguntando por que aquela mulher queria ficar a sós
com ela, Marion deixou-se conduzir ao interior do chalé. A verdade era
que não tinha forças para opor qualquer resistência às iniciativas da srta.
Cutter e, quando se esforçou para esboçar alguma reação, percebeu que

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já estavam ao pé da escada para o segundo piso.


— Você parece exausta, querida. — A Srta. Cutter deu-lhe um
sorriso malicioso.
— Tenho uma perguntinha para você, depois a deixarei ir dormir.
Onde estão as cartas que lorde Robert escreveu para Hannah?
Aquela era a última coisa que Marion esperava ouvir.
Pasma, ficou olhando para a velha senhora sem saber o que dizer.
— Eu lhe fiz uma pergunta, Marion. — A Srta. Cutter estava agora
muito séria.
— Responda.
— Não existem tais cartas.
— Não minta para mim! Hannah me disse que Robert enviara
cartas de amor para ela. Na época eu não quis acreditar, mas na fête ouvi
Phoebe dizer a Flora que as cartas de lorde Robert lhe pertenciam e que
você decidiria o que fazer com elas. Acha que eu iria lhe permitir expô-lo
dessa maneira?
— Expor lorde Robert? A quem?
— Ao mundo! Imagine o que não seria se viesse a público que ele
manteve um romance com Hannah. As pessoas começariam a fazer
perguntas, poderiam cismar de procurar pelos restos dela. John e eu não
podíamos permitir que isso acontecesse. Agora me diga onde estão as
cartas, e eu a deixarei em paz.
Sentindo que seu corpo oscilava, Marion apoiou a mão no pilar do
corrimão. Apesar da surpresa e do mal-estar, conseguiu afirmar:
— Forrest atirou em Brand...
— Um golpe de azar, pois ele não queria ferir ninguém. E você
devia estar no Mosteiro, não no chalé. Seja como for, saiba que já
procurei em todo lugar, mas só encontrei o estojo onde Hannah guardava

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as lembranças de lorde Robert. Você tirou as cartas de lá, não tirou?


Onde foi que as escondeu?
— Eu já disse que não há nenhuma carta!
A bofetada quase a fez cair. Ao se segurar na pilastra, Marion
pensou estar vivendo um pesadelo. Deus, como fora permitir que aquela
velha enlouquecida a levasse até o chalé? Agora, se não fosse cautelosa,
poderia ter o mesmo fim que Hannah tivera. Estava com medo, sim, mas
a raiva que sentia de tudo aquilo lhe dava forças para não se deixar
abater.
— Está bem, Srta. Cutter. Vou lhe dizer onde estão as cartas se me
contar o que aconteceu na noite em que Hannah desapareceu.
— Está tentando lutar contra o sedativo que pus no chá, não está?
Vejo nos seus olhos que sim.
— Talvez você tenha exagerado na dose, visto que me sinto
prestes a desfalecer. Se demorar muito a me contar o que houve com
Hannah...
— Então ainda não sabe o que houve com ela? Eu a matei, e John
me ajudou a enterrá-la no meu jardim de hortaliças. Eu não podia deixar
o corpo à vista de todos, podia? O chefe de polícia ia começar com as
perguntas e acabaria descobrindo que Hannah e Robert tinham um caso.
Robert seria o principal suspeito. Sua Eminência iria morrer de desgosto.
— Tia Edwina sabia disso tudo?
— A princípio, não. Edwina acreditou na história que criei acerca de
Hannah ter fugido com algum rapaz. — A Srta. Cutter esboçou um sorriso
demente, depois tornou a ficar circunspeta. — Quando vi Robert sair
naquela noite, fui atrás e o vi ir ao encontro de Hannah perto da estufa.
Não tive como me aproximar dos dois a ponto de ouvir o que diziam, mas
percebi que estavam tendo uma briga de namorados. Quando ele voltou

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para casa, o cachorro de Theodora escapou e correu para junto de


Hannah. Fingi que fui buscá-lo e aproveitei para pedir à sua tia que
deixasse Robert em paz. Hannah riu, disse que os dois iam fugir juntos e
que se ele não tivesse coragem de revelar a verdade à esposa, ela iria
mostrar a Theodora as cartas de amor que tinha em seu poder. Aquela
mocinha má... Se eu a tirasse de uma vez por todas de nossas vidas, ela
não teria como fazer Sua Eminência sofrer. Então fui ao galpãozinho atrás
da estufa, peguei um martelo, esgueirei-me até ela e... Foi assim. Depois
fui ao chalé de John pedir a ele que me ajudasse.
Ao torpor que Marion sentia veio se juntar uma onda de náusea
provocada por tudo aquilo que a Srta. Cutter acabava de narrar com
tamanha naturalidade. Apesar de tudo, ela forçou-se a perguntar:
— John não ficou... Preocupado?
— Oh, ele faria qualquer coisa no mundo por Theodora. Gostava
dela como uma filha, o pobrezinho... John sabia que se o corpo de
Hannah fosse descoberto, Robert seria acusado de tê-la matado e isso iria
acabar com Theodora. Fiz o que fiz por Robert também, mas
especialmente pela duquesa. E só me arrependo de ter envenenado
Snowball. Ele era um amor de cãozinho, sabe? Porém vivia escavando no
lugar onde estava o corpo de Hannah. Acho que ele queria desenterrá-la.
— Meu Deus!
— Onde estão as cartas, Marion?
Concluindo que de nada adiantava continuar argumentando que
não havia carta alguma, ela disse a primeira coisa que lhe ocorreu:
— Lá em cima. Num dos closets.
— Já procurei em todos eles e não encontrei nada.
— Procure uma tábua solta no assoalho do closet do meu
dormitório.

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— Vamos juntas.
— Não sei se consigo subir os...
— Eu ajudo você.
Não havia mais o que dizer. O sorriso da Srta. Cutter era tão
traiçoeiro como seus olhos miúdos. Enquanto galgavam os degraus
devagarzinho, Marion quis saber:
— O que colocou no meu chá?

— Oh, dois dos remedinhos que o Dr. Hardcastle receitou para


acalmar meus nervos. Não gosto dessas coisas porque me tiram a
energia, mas quando deixo de tomá-los fico eufórica demais. Esqueço do
que estou falando, falo sem parar ou então misturo tudo o que estou
dizendo, e aí as pessoas olham para mim de um modo estranho. Ah, se
ao menos eu tivesse tomado meu remédio naquele dia...
— Hannah estaria viva?
— De jeito nenhum, menina! Hannah teve o que merecia. Eu
estava me referindo a Edwina.
— Você matou tia Edwina!
— Ela não me deixou outra opção.
— Então foi você... Foi você quem disse a tia Edwina que eu estava
nas imediações do Mosteiro na noite em que Hannah sumiu.
— Foi sem querer. Deixei escapar algum comentário sobre Robert e
Hannah, então ela começou a me encher de perguntas, e eu fiquei tão
confusa que a mandei perguntar a você, que esteve por lá naquela noite.
Por que Edwina não esqueceu o assunto e pronto? Não, ela precisou sair
por aí investigando, investigando... Espalhei boatos de que ela estaria
senil, não sei se adiantou muito. O mais seguro seria eu tomar uma
atitude definitiva, não é verdade? Então um dia, quando ela tinha saído

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para um passeio, entrei aqui e me escondi. Edwina largava portas e


janelas abertas. E a chave da casa debaixo do capacho... como você, veja
só. Eu gostava dela, gostava sim, mas que outra escolha me restava?
Embora aquele contato lhe causasse asco, Marion precisava
continuar apoiando-se no braço daquela mulher. Sentia-se tão mal...
Estava tão chocada e tão triste...
— Deus do céu, Srta. Cutter, será que não tem remorso pelo que
fez? Hannah, Edwina, Forrest... Aliás, ele sempre foi seu cúmplice, não
foi? Primeiro com relação a Hannah, depois comigo. Foi ele quem me
atacou em Vauxhall Gardens. Foi ele quem me empurrou na escadaria do
teatro.
— E também quem deu um jeito de fazer sua carruagem tombar no
riacho. Nossa intenção não era matá-la, Marion. Nós queríamos lhe dar
um susto, só isso. Como forma de intimidá-la, para o caso de você vir a
nos reconhecer. Você nos viu enterrando Hannah, não viu?
— Na época eu era uma menina e imaginei ter visto dois
fantasmas.
— Mas nós não sabíamos disso. E eu achei a carta que Edwina
estava lhe escrevendo. Ela queria que você tentasse se lembrar dos
eventos daquela noite. Já imaginou o que teria acontecido se eu não
tomasse uma providência? Marion balançou a cabeça. Ou aquela mulher
era completamente louca ou era a personificação da maldade.
— E antes que você me pergunte, querida: John começou a dizer
que estava preocupado comigo, mas eu sabia que ele estava pensando
em me internar. Fiquei com medo de que ele me visse como uma
ameaça, pois eu sabia demais e às vezes deixava escapar comentários
perigosos. Achei melhor me livrar de John, antes que ele me trancasse
num sanatório. Disse-lhe que fosse ao meu encontro no galpão de

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jardinagem porque eu tinha algo muito importante para lhe contar, e o


resto você já sabe.
Marion deixou escapar um gemido.
— Os remedinhos do Dr. Hardcastle estão fazendo efeito, não
estão? Venha, querida, vamos arrumar um lugarzinho para você
descansar.
Entraram no primeiro quarto no corredor. Era o dormitório de
Emily, e ali a srta. Cutter empurrou-a em direção à cama. Marion não
queria deitar, não queria fechar os olhos, mas seu corpo parecia não mais
lhe obedecer. Quando sua cabeça tocou o travesseiro, ela teve a sensação
de que jamais conseguiria erguer-se dali. Assustada, abriu os olhos e
deparou com o olhar alucinado da srta. Cutter. O coração começou a lhe
pulsar na garganta.
— Estou com frio — disse num fio de voz. — Será que poderia
acender a lareira?
— Não lute contra o inevitável, querida. Deixe-se adormecer, você
não vai sentir dor nenhuma. Mas posso acender a lareira para você, sim.
Não me custa nada, não é mesmo?
A ameaça velada fez Marion engolir em seco. Aquela louca
pretendia lhe arrebentar a cabeça como fizera com Hannah e John
Forrest? Virando o rosto para ela, viu-a entretida com a pederneira e o
graveto para atear fogo às achas. A Srta. Cutter não se dera conta de que
o pedido por calor tinha por objetivo fazer com que alguém visse fumaça
saindo da chaminé de uma residência que todos sabiam estar
desocupada. Marion suspirou. Que Deus a ajudasse.
Satisfeita com as labaredas que se espalhavam pela lenha, a Srta.
Cutter deixou o aposento. Lutando contra o entorpecimento, Marion
ergueu-se da cama e cambaleou até a lareira. Ao ver que o cesto com

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aparas de madeira e gravetos utilizados para acender a fornalha estava


quase cheio, atirou uma boa quantidade deles ao fogo.
Era preciso fazer fumaça, muita fumaça para que... O ruído de
passos no corredor provocou-lhe um sobressalto e, num gesto de reflexo,
ela deixou-se cair sobre a poltrona mais próxima. No instante seguinte, a
Srta. Cutter entrava no dormitório de Emily para acusar:
— Não há nenhuma tábua solta no closet do seu quarto.
— As chamas altas na lareira derem-lhe mais uma idéia macabra:
— Ou você me diz onde estão as cartas de Robert ou vou colocar
fogo nesta casa com você aqui dentro!
— Tente... tente o closet onde guardo as roupas de cama e banho.
— Desesperançada, Marion já não sabia mais o que dizer. — Minha
cabeça está doendo demais, não consigo raciocinar direito.
Ela acabava de se pôr em pé quando uma porta no piso térreo do
chalé abriu-se com um estrondo.
— Marion! — Era a voz de Brand. — Onde está você?
— Não pense que vai ficar viva para contar o que aconteceu —
ameaçou a srta. Cutter por entre os dentes. — Vou fazê-la arrepender-se
do dia em que enfiou na cabeça voltar para Longbury!
Marion ainda conseguiu apanhar o atiçador que estava junto à
lareira, mas, entorpecida pelo sedativo, não foi capaz de impedir que a
Srta. Cutter o tomasse de sua mão. Ainda assim, bastou-lhe ver a
enlouquecida mulher erguê-lo no ar para lhe golpear a cabeça, e seu
instinto de sobrevivência falou mais alto do que tudo: no desespero de
defender-se, reuniu as poucas forças que lhe restavam e empurrou a aia
da duquesa de encontro à lareira. Desequilibrada, a srta. Cutter caiu
sobre as labaredas e, num piscar de olhos, o fogo já se espalhava pelas
rendas e babados de seus trajes.

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Aos gritos, ela se levantou como pôde e correu para o corredor.


Apoiando-se nas paredes, Marion foi atrás.
— Marion! Marion!
O alvoroço no piso superior do sobrado fizera Brand correr para a
escada, mas a cena dantesca paralisou-o no primeiro degrau. Lá em cima,
engolfada pelo fogo, uma forma pequena debatia-se contra as chamas
berrando a plenos pulmões. Mais do que depressa, ele tirou o casaco para
envolvê-la, no entanto não teve tempo para mais nada: diante de seus
olhos horrorizados, a mulher se desequilibrou e rolou pela escada até
seus pés.
Enquanto usava do casaco para aplacar as chamas, Brand viu a
Srta. Cutter, com o rosto transfigurado, lançar-lhe um olhar indecifrável,
exalar um suspiro engasgado e ficar complemente inerte.
— Brand?
No alto da escada, Marion parecia fazer força para manter-se em
pé. Galgando os degraus de dois em dois, Brand correu ao encontro dela
e tomou-a entre os braços. Após um momento, ouvia murmurar num fio
de voz:
— Não me peça para ter pena da Srta. Cutter. Nem hoje nem
amanhã. Talvez nunca.
— Fique sossegada, jamais lhe pedirei isso.
Vinte minutos mais tarde, apesar de Marion se achar em seu
dormitório no Mosteiro, Brand não lhe permitia deitar-se. Obrigava-a a
tomar xícara após xícara de café amargo e, no intervalo entre uma e
outra, segurava-a pela cintura para mantê-la caminhando pelo aposento.
Só foi deixá-la descansar depois que o dr. Hardcastle garantiu que isso
não lhe faria mal.
Mesmo com o sedativo que tomara ela não teve um repouso

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tranqüilo. Acordava de quando em quando e, entre o sono e a vigília,


conseguia perceber com clareza que Brand estava a seu lado, banhando-
lhe a testa com compressas frias, soprando-lhe ao ouvido que tudo ficaria
bem. Horas mais tarde, quando enfim se viu livre do entorpecimento,
Marion encontrou-o deitado junto dela na cama.
— Que bom que você parece refeita. — Ele lhe acariciou o rosto.
— Oh, Brand, ninguém vai acreditar nas perversidades que ela
fez...
— Não será assim tão difícil. O Dr. Hardcastle me disse que a Srta.
Cutter sofria de um sério distúrbio mental que ele julgava manter sob
controle com os medicamentos que lhe administrava.
— Os... restos de Hannah foram encontrados?
— Sim. Mas agora eu gostaria que você não pensasse mais nisso
tudo.
— Antes me diga como foi que você resolveu ir até o chalé.
— Vi a fumaça saindo pela chaminé e, acredite ou não, senti na
pele que era você me mostrando onde se encontrava.
— Oh, eu...
Batidas à porta obrigaram Brand a se levantar. Eram Emily, Phoebe
e Flora, que queriam ver Marion, e também Andrew, que viera avisá-lo de
que a duquesa desejava falar com ele. Mesmo preferindo continuar ao
lado de Marion, Brand não se furtou a ir ao encontro da avó. A pobre
senhora também precisava de conforto. E de alguém com a calma
necessária para lhe explicar tudo o que se passara.

Capítulo XII

Embora odiasse ter de deixar Marion e os demais na melancolia

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que se abateu sobre o Mosteiro, uma semana depois Brand não teve
como não seguir para Brighton, onde a maioria de seus eleitores
depositaria seus votos no dia da eleição.
Na segunda noite de sua estadia na cidade, Ash Denison foi ao
encontro dele no hotel com uma garrafa de clarete e interessantes
novidades a respeito de David Kerr.
Quando se recuperou da surpresa provocada pela notícia da morte
da srta. Cutter e pelo esclarecimento do mistério que envolvia o
desaparecimento de Hannah e os assassinatos de John Forrest e Edwina
Gunn, Ash entregou um pequeno embrulho a Brand enquanto anunciava:
— David Kerr encontra-se a caminho do Canadá.
Ao abrir a delicada embalagem, Brand deparou com o conjunto de
brincos e anel que pertencera à mãe de Marion e uma nota promissária.
— Por sorte o joalheiro ainda não os tinha vendido — prosseguiu
Ash.
— Kerr não mentiu. Ele realmente havia recebido uma ninharia
pelas jóias, de modo que não tive problema em recuperá-las.
— Marion ficará contente em tê-las de volta. Mas como foi que
conseguiu embarcar Kerr ao Canadá?
— Conhece o ditado que diz que "quem com ferro fere com ferro
será ferido", não conhece?
— Ash deu uma risadinha marota. — Pena que você não viu a cara
do pilantra quando a polícia entrou no quarto de hotel dele e encontrou as
jóias que eu havia escondido numa das gavetas da cômoda... E depois
quando, diante do magistrado da Bow Street, ele foi acusado de furtar as
inestimáveis esmeraldas que minha mãe me deixou de herança! Nada
como uma boa ameaça de prisão para fazer um homem recobrar o bom
senso!... Eu disse ao magistrado que retiraria a queixa se o sr. Kerr

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pagasse como multa o valor das jóias. E como o infeliz não tivesse um
tostão, aceitei uma nota promissória.
— Fez bem. — Brand passou os olhos pelo documento no valor de
dez mil libras, com a assinatura de Kerr e testemunhas.
— Ele está sabendo que, se retornar à Inglaterra e importunar
Marion novamente, vai acabar na prisão dos devedores. E não é só. —
Tirando duas folhas de papel do bolso interno do casaco, Ash entregou-as
a Brand. — Os registros paroquiais que você pediu. Como pode ver, ele os
arrancou de dois livros distintos. Sujeitinho bem inescrupuloso, não?
— Kerr não merece nem desprezo. A propósito, quanto lhe devo
por livrar-se do miserável?
— Bem, tive de saldar alguns débitos dele aqui na Inglaterra e
depois despachá-lo com um pouco de dinheiro rumo à vida nova no
Canadá.
— Quanto?
— Três mil?
— Três mil libras?
— Não, três mil guinéus. — Ash riu. — Além de inescrupuloso, ele
não sabe fazer uma boa barganha.
— Grande Ash. — Brand deu um tapa no joelho do amigo. — O que
estamos esperando para abrir essa garrafa de vinho?

No Mosteiro, Marion continuava a sentir-se uma hipócrita por


trajar-se de luto, e seguramente não agiria dessa forma se a condessa
não tomasse a iniciativa de vestir-se de preto dos pés à cabeça. Hannah
recebera um sepultamento cristão, mas o mal a que dera ensejo ainda
produzia seus frutos: Theodora estava disposta a ir viver com o pai e
Robert dava a entender que ficaria morando na casa de Brand.

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Numa noite, após um jantar durante o qual ninguém pronunciara


mais do que monossílabos, Marion subiu para seu quarto com a intenção
de tomar uma iniciativa que, estava certa, Brand arriscaria se estivesse
no seu lugar. Com esse pensamento em mente, apanhou o estojo de
Hannah que deixara sobre a cômoda e foi bater à porta do dormitório de
Theodora.

A esposa de Robert recebeu-a com certa surpresa. Como ela não


tivesse descido para o jantar, Marion cumprimentou-a e, sem esperar por
um convite, sentou-se numa poltrona. Após um instante de hesitação,
Theodora acomodou-se num pequeno diva.
— Eu gostava do sr. Forrest. — Limpando a garganta, Marion
continuou:
— Sei que a morte dele foi uma perda irreparável para você.
— Creio que ninguém tem como saber a dor que isso me causou.
John era a única pessoa com quem eu podia contar. Incondicionalmente.
Agora, se você não tiver mais nada a...
— Tenho algo para você.
Theodora tomou o estojo que Marion lhe estendia.
— O que é isto?
— Coisas que Hannah guardava. Minha tia era obcecada pelo seu
marido e colecionava objetos relacionados a ele. O maior problema de
Hannah eram as mentiras que ela inventava, ou para conseguir o que
queria ou para se convencer de que os homens por quem se interessava
não resistiam a seus encantos. Creio nunca saberemos o que se passava
pela cabeça dela, mas o que importa mesmo é a certeza de que Robert
não teve culpa de nada.
— Onde estão as cartas que ele escreveu para Hannah? — indagou

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Theodora, remexendo no conteúdo da caixa da madeira.


— Essas cartas nunca existiram, Theodora. Minha tia era
perturbada. A última patroa que ela teve, que está viva e mora em
Brighton, poderá lhe contar os problemas que Hannah provocou por lá por
conta dos delírios românticos de que sofria. Robert jamais teve caso
algum com ela, jamais lhe escreveu uma única carta de amor. Essa
história não passou de uma mentira que Hannah criou ou de uma
invenção da imaginação dela.
— Leve isto de volta a Robert e diga-lhe que não sou tão
impressionável como ele imagina.
— Antes que Marion pudesse dizer alguma coisa, Theodora meteu o
estojo entre as mãos dela e caminhou com determinação até a porta,
escancarando-a: — Ele teve outras oportunidades para pedir o meu
perdão, mas preferiu deixá-las passar. Agora é tarde demais.
Marion foi até ela para indagar: — Se sabe que tudo o que acabei
de lhe dizer é verdade, por que não aceita a realidade?
Como Theodora não respondesse, ela aprumou os ombros e deixou
o quarto com toda a dignidade de que foi capaz.
No corredor, viu que Emily estava à porta de seu dormitório. Por
certo sua irmã viera procurá-la para lhe dizer boa-noite. Antes disso,
porém, havia uma outra conversa que também não podia ser adiada.
Decidida a fazer o que tinha de ser feito, Marion foi ao encontro
dela e tomou-lhe a mão, dizendo:
— Venha, vamos entrar. Há algo que preciso lhe contar sobre a
mamãe e o papai.

Na tarde do dia seguinte, Brand encontrava-se junto ao palanque


armado para os discursos de última hora, entretido em fazer o que se

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esperava de um candidato: distribuir sorrisos e tapinhas às costas em


meio aos eleitores locais. Embora os resultados da votação nos distritos
mais distantes ainda demorassem a chegar, ele já sabia que a batalha
estava perdida. Os terríveis acontecimentos no Mosteiro haviam chocado
não apenas os eleitores, mas também seus correligionários que, de um
instante para outro, mostraram-se reticentes em explicitar apoio público à
candidatura dele.
No entanto, isso não o abatia. Acima de tudo era um empresário,
um homem do mundo da imprensa. A política viera em sua vida somente
como... A mão que pousou em seu ombro interrompeu-lhe os
pensamentos e o empurrou para um canto isolado. Virando-se, Brand não
disfarçou a surpresa em ver Ash ali. Afinal, seu amigo odiava a política e
tudo o que lhe dissesse respeito.
— O que está fazendo aqui?
— Não tive escolha — respondeu Ash.
Ao olhar na direção que o amigo apontava, Brand viu Marion,
Clarice, Emily e a duquesa na calçada oposta. Elas tinham acabado de
descer de uma das carruagens do Mosteiro e agora lhe acenavam. Mas o
que mais o admirou foi o fato de que somente sua avó vestia luto. As
outras damas estavam em trajes coloridos até demais.
— Ash, acomode-as no Castle e diga-lhes que irei encontrá-las
assim que resolver tudo por aqui. Os primeiros resultados devem começar
a chegar a qualquer momento.
— Lorde Robert, Andrew e Oswald também fizeram questão de vir.
— Eu devia ter imaginado...
— Apesar da ameaça do fracasso nas urnas, Brand deu um sorriso
largo.

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Foi o aroma de vinho no hálito dele que a fez sair da letargia. Meio
adormecida na cadeira de balanço diante da lareira na suíte de Brand,
Marion abriu os olhos e viu-se fitando o azul dos olhos dele.
— Você venceu a eleição!
— Não. Perdi.
— Oh, Brand... Sinto muito.
Segurando-lhe as mãos, ele assistiu-a a ficar em pé.
— Não faça essa carinha triste, pois ganhei algo muito mais
importante do que uma eleição. Algo que sempre foi meu e que eu não
conseguia enxergar. Foi você quem os persuadiu a vir para cá, não foi?
— Está se referindo à sua família? Não, a iniciativa partiu deles. Eu
e minhas irmãs viríamos de qualquer maneira, porém eles se anteciparam
e disseram que queriam homenageá-lo, então combinamos de vir todos
juntos. E antes que você pergunte: sua avó escolheu guardar luto em
consideração à pessoa que dedicou a vida inteira a ela, e eu acho que a
duquesa está certa.
— E você, Marion? Por que está aqui?
— Você não sabe?
Sem deixar de fitá-la intensamente, Brand apoiou as mãos nos
ombros dela, dizendo:
— Seus pensamentos estão tão emaranhados que não consigo lê-
los.
— Então vou expressá-los da maneira mais clara e objetiva de que
sou capaz: porque amo você e não sei viver sem a sua companhia.
Ele fechou os olhos, depois tornou a abri-los lentamente.
— Vou entender isso como uma resposta afirmativa ao pedido que
fiz para que você se case comigo. Aliás, é bom que se diga que eu jamais
iria aceitar um "não". Afinal, amo você, Marion. Creio que percebi que a

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amava na noite em que você caiu da escada no teatro e machucou os


dedos do pé. Nunca senti tanto medo na vida!...
— Eu sei.
— Sabe? Como?
— Aprendi a ler seus pensamentos, esqueceu? Agora olhe bem nos
meus olhos e veja se consegue ler os meus.
Brand riu e, erguendo-a nos braços, levou-a para a cama.

Três semanas depois, assim que os proclamas foram publicados,


Marion e Brand casaram-se na igreja da paróquia de Longbury. Emily
estava uma madrinha encantadora, e Phoebe e Flora por certo eram as
mais alegres damas de honra que a localidade já vira. Mas foi a noiva
quem deixou Brand estupefato, não apenas porque estivesse
simplesmente linda, mas porque além de bela estava incrivelmente feliz.
E a felicidade de Marion fazia a felicidade dele.
Padrinho de Brand, Andrew ficou no altar e só tinha olhos para
Emily, com quem vinha trocando juras de amor longe dos ouvidos dos
demais. À exceção da jovem, os olhares de todas as outras damas
estavam voltados para Ash Denison, que, dissimuladamente, enxugara
uma lágrima ou duas no transcorrer da cerimônia. Coisas de dândi,
pensava o melhor amigo dele.
A recepção que se seguiu à celebração religiosa, e a que toda a
cidadezinha fora convidada, deu-se nos gramados do Mosteiro. Ali, sob
um clima ameno, os recém-casados confraternizaram com parentes e
amigos indo de grupo em grupo para trocar algumas palavras. Num
desses momentos, Marion comentou com a esposa de sir Basil:
— Vamos morar no Mosteiro, junto à família de Brand. Há lugar de
sobra para todos, não é mesmo?

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Ela acabava de explicar que a Granja seria arrendada a um general


encantado com a mobília antiga da casa e que o Chalé do Teixo
permaneceria fechado até que resolvessem o que fazer com a
propriedade, quando Emily foi buscá-la para ajudá-la a preparar-se para a
viagem de lua-de-mel em Stratford.
As suspeitas de Brand quanto à situação conjugal dos pais de
Marion estavam corretas. As transcrições enviadas pelo bispo, que haviam
chegado um par de dias atrás, confirmavam que o sr. e a sra. Dane
tinham se casado em Stratford, provavelmente a caminho de Longbury,
três anos antes do nascimento de Emily. Para Marion, isso foi muito mais
importante do que saber que Kerr estava pagando pelo que fizera e
jamais voltaria a importuná-la com chantagens, embora ter de volta as
esmeraldas de sua mãe lhe proporcionasse uma alegria imensa.
Na ausência de Theodora, Robert conseguira erguer-se moralmente
e agora fazia planos com Andrew de transformar as cocheiras num grande
criadouro de animais de raça; Manley trabalhava para eles.

A duquesa fizera questão de tomar para si a responsabilidade pela


educação de Flora e de Phoebe até que encontrassem uma professora
particular para as meninas. E para completar a onda de boas novidades,
Clarice confiara a Marion que esperava um bebê.
Constatando que uma nova era e uma outra geração estavam a
caminho, Brand não pôde deixar de sorrir para si mesmo. Seu pai ficaria
orgulhoso da família e da propriedade que havia legado.
Achavam-se na sacristia da Igreja da Sagrada Trindade em
Stratford-upon-Avon, examinando os registros paroquiais do ano de
1796. Muito emocionada, Marion passou o dedo pelo apontamento que
tinha a tinta meio apagada, porém absolutamente legível: George Dane,

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viúvo, e Diana Gunn, solteira, casados por licença especial.


— Pronto, agora chega de olhar para trás. — Ela suspirou.
— Estou tão feliz que mal posso crer em tanta felicidade!
Depois de devolver o livro ao pároco auxiliar, os dois deixaram a
igreja, mas se detiveram por alguns instantes no alto da escadaria para
dar uma última olhada na bela edificação. Foi quando Marion observou:
— Cheguei à conclusão de que às vezes as circunstâncias menos
recomendáveis podem gerar as melhores pessoas deste mundo. Esse é o
seu caso, Brand FitzAlan Hamilton. Não há outro igual a você. Nem
melhor. — Ao perceber que Brand tossia para dissimular a emoção, ela
brincou: — Não me diga que apanhou um resfriado.
— Na minha lua-de-mel? Não, isso está fora de questão. Marion riu,
então vagueou o olhar pelo horizonte.
— Stratford! A cidade onde Shakespeare nasceu. Há tanto que ver
por aqui que nem sei por onde começarmos.
— E verdade — concordou Brand. — Mas acabamos de chegar, e
amanhã as atrações que Stratford tem a oferecer ainda estarão todas
aqui.
— Você leu meus pensamentos... O que estamos esperando para
correr de volta ao hotel e fechar a porta de nossa suíte ao mundo?
Rindo, de mãos dadas, os dois se puseram a descer os degraus em
direção ao coche que os aguardava ao pé da escadaria.

FIM

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