Vous êtes sur la page 1sur 14

Revista Contraponto: experimentação no curso de Jornalismo da

UFRRJ1

BARRETO, Ivana2
BASTOS, Jaqueline Suarez3
SILVA, Luis Henrick Teixeira4
Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro/Seropédica-RJ

Resumo

O presente texto apresenta o trabalho realizado para a disciplina Planejamento Editorial,


do curso de Jornalismo da UFRRJ, a revista Contraponto e uma de suas reportagens, “Para
sempre mães de anjos”, vencedoras do prêmio de melhor revista e melhor reportagem,
respectivamente, no XXIII Prêmio Expocom Sudeste 2016. Desenvolvido por quatro alunos,
durante um semestre letivo, o citado trabalho pretendeu, desde a elaboração do planejamento
editorial até a impressão do veículo, ser um contraponto ao conteúdo que vem sendo
desenvolvido pela mídia tradicional. A proposta foi apresentar ao leitor matérias que são
resultado de um olhar mais atento e humanizado sobre a cidade do Rio de Janeiro e seus
inúmeros personagens. Tendo a capital carioca como tema e sua sub-representação na grande
mídia, a revista objetivou realizar coberturas abrangentes e reflexivas, contribuindo, desse
modo, para questionar estereótipos e visibilizar conflitos sociais.

Palavras-chave: Jornalismo; revista; experimentação;

Considerações Preliminares

O impacto das Novas Tecnologias da Informação e da Comunicação (NTICs)


vem transformando, de forma crescente, não apenas o jornalismo como também o papel
do jornalista, revelando, cada vez mais, a necessidade de uma mudança na formação do
jornalista profissional, no sentido de uma atuação ética, competente e responsável no

1
Trabalho apresentado no GT de História da Mídia Impressa, integrante do IV Encontro Regional Sudeste
de História da Mídia – Alcar Sudeste, 2016.
2
Professora do Curso de Jornalismo da UFRRJ, email: ivanabarreto75@gmail.com.
3
Estudante do 6º semestre do curso de Jornalismo da UFRRJ, email: suarez.jaque@gmail.com.
4
Estudante do 6º semestre do curso de Jornalismo da UFRRJ, email: luishenrickts@gmail.com
âmbito de uma sociedade que se configura participativa. Da mesma forma, as
transformações trazidas pelas NTICs, além de terem acentuado sobremaneira a queda de
circulação dos jornais impressos - processo que vem ocorrendo em diferentes graus
desde meados do século 20 em várias partes do mundo – apontam a urgência de uma
reinvenção da mídia impressa. Em outros termos, se quiserem sobreviver com qualidade
nesse não tão novo cenário midiático, jornais e revistas devem caminhar no sentido da
descoberta de um modelo de negócio que inclua qualidade, credibilidade, sem esquecer
de receita compatível com os custos de produção de informação e apuração de notícias.
Contudo, cumpre aqui ressaltar que o citado modelo deve entender qualidade
como uma mudança de perspectiva em relação ao que vem sendo produzido em termos
de conteúdo noticioso pela mídia tradicional, uma vez que não existe mais espaço para
textos padronizados, sem aprofundamento e um olhar minimamente humanizado para as
questões da nossa sociedade. Se o jornalismo produzido nas mídias digitais tem como
princípio a agilidade na apuração e veiculação das informações, o jornalismo impresso
precisa perceber que a única maneira de competir com o “tempo real” da mídia digital é
oferecer um novo tipo de qualidade, que se distancia, por exemplo, de reformas
gráficas, já que todas as necessárias foram feitas e com competência. Uma qualidade
que vai da escolha da pauta à angulação que será dada na produção das matérias.
Todavia, não é apenas o mercado dos meios de comunicação que deve se
readequar. Os responsáveis pelo ensino do jornalismo, por sua vez, que vem sentindo os
efeitos do novo cenário descrito anteriormente, interativo e com participação dos
cidadãos, devem estar atentos e reconhecerem a urgência dos cursos repensarem a
forma como devem ser habilitados os discentes. Repensar a habilitação dos alunos dos
cursos de jornalismo significa incluir nas ementas de várias disciplinas – e aqui neste
texto nos restringiremos, devido à brevidade do tempo, às disciplinas práticas – tópicos
voltados para um novo estudo do tratamento da notícia, singularizado, que destaca a
necessidade, consequentemente, das coberturas locais, direcionadas para a comunidade
que os jornais (ou revistas) atingem. Aqui concordamos com Jawsnicker (2008), quando
afirma:
O redimensionamento do papel do impresso vai além de investimento em
análise e interpretação. Os jornais deveriam, ainda, refletir sobre a
importância em diferenciar e singularizar a produção e tratamento da notícia,
por meio de uma cobertura mais local, focada na comunidade ao qual o jornal
atende. (Jawnicker, 2008, <http://www.ucb.br/comsocial/comunicologia/0010
1001_data/0futurodosjornaid.htm.> Acesso em 01 jul. 2016)

Como oportunamente ressalta Judith Brito (2010), presidente da Associação


Nacional dos Jornais (ANJ):
Empresas jornalísticas sérias exigem de seus profissionais – jornalistas
altamente qualificados – o uso de técnicas de apuração e o compromisso com
princípios editoriais transparentes. Tudo isso, a cada dia do ano – o que torna
necessária a contratação de centenas de profissionais, no caso dos jornais de
maior porte. Conclusão óbvia: produzir informação inovadora e de qualidade
– aquela que contribui de forma relevante para que os cidadãos possam
refletir e ter opiniões próprias num país democrático – custa caro. Nossa
prática nos ensinou que os investimentos em qualidade editorial, em
investigações demoradas e custosas, não trazem resultados econômicos
imediatos para as companhias, mas transformam-se em credibilidade e
confiança dos leitores no médio e longo prazos. (Jawnicker, 2008, <
http://oglobo.globo.com/brasil/eleicoes-2010/confira-integra-do-discurso-da-
presidente-da-anj-4990618> Acesso em 05 jul. 2016)

Foi justamente a partir do pressuposto de que o leitor merece e deseja textos que
contenham mais do que simples declarações, indo, portanto, além do jornalismo oficial
e declaratório, que várias disciplinas práticas, elencadas no Projeto Pedagógico do
Curso de Jornalismo da UFRRJ, passaram a incluir em suas ementas
subsídios/conteúdos que possibilitem aos jornalistas, na nova realidade que se
configura, atender e atingir - da melhor maneira possível – as demandas e desejos dos
leitores.
Assim, o presente estudo ressaltará o trabalho desenvolvido com os alunos do
quarto período do curso na disciplina Planejamento Editorial. Com o objetivo final de
elaboração de uma revista (temática ou de variedades), os estudantes – sob a orientação
da docente responsável, autora deste texto – desenvolveram um projeto que incluiu
desde o planejamento editorial até a edição final, editoração e impressão do citado
veículo. O processo de produção promoveu, ainda, o encontro com as disciplinas
Fotojornalismo e Editoração Eletrônica.
Divididos em grupos de quatro a seis componentes, os discentes – mesmo com
as dificuldades de infraestrutura que o curso, criado há seis anos, enfrenta - atingiram de
forma criativa o objetivo definido pela docente no início do período letivo: produção de
veículos voltados às reais demandas de seus públicos leitores. O resultado final foi a
produção de seis revistas com propostas criativas em relação ao que vem sendo
realizado pela mídia tradicional. Saúde mental, Mulher, Cultura, Música e
entretenimento foram alguns dos temas dos produtos apresentados pelos alunos. Uma
delas, a revista Contraponto, conquistou os prêmios de melhor revista e melhor
reportagem – intitulada “Para sempre mães de anjos” – na XXIII Prêmio Expocom
Sudeste 2016 - Exposição da Pesquisa Experimental em Comunicação.
É justamente sobre a revista Contraponto e “Para sempre mães de anjos” que o
presente texto volta suas atenções.

Contraponto

A publicação, segmentada em sociedade e cultura, tem como tema a capital


carioca e sua sub-representação na grande mídia. A proposta foi realizar coberturas mais
abrangentes e reflexivas, contribuindo, desse modo, para questionar estereótipos e dar
visibilidade aos conflitos sociais.
Para entender a proposta das coberturas da Contraponto, acima citada, é mister
compreender que os meios de comunicação constituem um importante e disputado
espaço de representação na sociedade, através dos quais as pessoas se apropriam da
realidade, principalmente, daquela que não vivenciam diretamente. Segundo Vaz
(2013), a narrativa jornalística atribui valores, que transformam ou reforçam
determinadas crenças sociais, construindo socialmente a realidade. O conjunto de ideias
criadas a respeito de um determinado grupo ou espaço se constitui, em sua maioria,
pelos elementos simbólicos fornecidos pela mídia. A partir disso, a Contraponto propôs
uma reflexão sobre a representação do Rio de Janeiro e dos cariocas no jornalismo e
como esta influencia o imaginário acerca da cidade. É uma revista que objetiva uma
releitura dos assuntos veiculados na mídia tradicional.
Destacam-se atualmente, no cenário local, cinco jornais: O Globo, Extra, Meia
Hora, O Dia e Expresso. Apesar de pertencerem a duas empresas diferentes, nota-se que
todos são bem parecidos, tanto em suas pautas como em suas ideias e opiniões,
remetendo novamente às ideias de Vaz (2013). Existe certo consenso sobre o quê e
como noticiar. Logo, evidencia-se a carência de visibilidade e diversidade na cobertura
de determinados temas. As notícias são simplistas e apresentadas a partir de um mesmo
enfoque, com fontes e opiniões que pouco divergem e/ou aprofundam a discussão, como
oportunamente lembra Rocha (2010).
Aqui comungando com o pensamento de Karam (1997), o jornalismo precisa
mostrar visões políticas e ideológicas contraditórias, ceder espaço para o plural e o
particular, “deve mostrar tanto aquilo que humaniza quanto aquilo que desumaniza o
homem” (Karam, 1997, p.94). Assim, a Revista fundamenta-se em três princípios que
nortearam todo o seu processo de produção: dar visibilidade a questões sociais
características do Rio; exercer um jornalismo humanizado; estar na contramão da lógica
mercadológica.
Quanto às pautas, trataram de temas que são, frequentemente, relacionados à
Cidade na mídia, de modo negativo, como as favelas, a prostituição, os trabalhadores
ambulantes e os moradores de rua. Nas páginas da Revista, essas histórias ganharam
espaço, rosto e voz. Por conseguinte, em nenhum momento a preocupação foi com uma
narrativa objetiva e imparcial; pelo contrário, buscou-se um jornalismo descritivo, capaz
de mergulhar no contexto de cada personagem. Matérias como foco em pessoas
protagonistas de diferentes tipos de lutas sociais, em diversos pontos do Rio de Janeiro.
Na cidade, existem grupos e espaços que ficam marginalizados em relação ao
protagonismo jornalístico. São comunidades, sem nenhum exagero, violentadas pela
carga simbólica produzida ou reforçada pela mídia hegemônica, a partir de
representações estereotipadas e reducionistas. Na maioria das vezes, são narrativas que
destacam os fatos e esquecem os nomes, enfatizando determinados temas em certos
lugares e os condenando a serem vistos a partir de um mesmo enfoque, novamente aqui
dialogando com Rocha (2010).
Desse modo, o objetivo da Contraponto é tentar oferecer ao leitor uma visão
ampla das realidades que coexistem na Cidade, valorizando a diversidade social e
cultural presentes no Rio de Janeiro. Além disso, contribuir modestamente para o debate
acerca da identidade desse espaço e de seus moradores. Com isso, apresentar ao leitor o
Rio em suas particularidades, ultrapassando os estereótipos que o restringem à um ponto
turístico ou de violência.
A equipe que produziu a revista Contraponto procurou o espaço da reflexão, do
jornalismo crítico e humanizado. O processo de produção das matérias buscou uma
representação mais humana, sensível e próxima da realidade dos personagens.
Trabalhou temas de relevância social para, através destes, questionar valores e
comportamentos. Por fim, tentou produzir uma representação mais complexa e real,
com narrativas mais sensíveis, amplificando a luta e a voz de grupos sub-representados
pela mídia tradicional.

Variedade cultural

A revista Contraponto foi produzida por duas alunas do Rio de Janeiro, uma da
Bahia e outro aluno, de São Paulo. A variedade cultural foi determinante para a escolha
do seu tema e da sua linha editorial.
Cumpre ressaltar que havia uma diferença de percepção com relação à Cidade
entre as alunas cariocas e os integrantes de fora do Estado. Morando há quase dois anos
no Rio, eles já percebiam contradições entre a realidade mediada que conheciam e a que
vivenciavam diretamente. Foi a partir daí surgindo no grupo o desejo de produzir um
veículo mais próximo da realidade carioca, diversificado e pautado nos conflitos sociais.
Além disso, o aniversário da Cidade, que em 2015 comemorou 450 anos,
inspirou coberturas que exaltavam suas belezas, a partir dos pontos mais nobres da Zona
Sul. Do outro lado, em vista dos megaeventos, os problemas públicos se multiplicavam
na imprensa. Reportagens polarizadas que reduziam a cidade ao paraíso ou a um
problema. Nesse contexto, a construção de um veículo que tivesse o Rio de Janeiro e
sua diversidade como tema era imprescindível.
Métodos e Técnicas

A relação com o leitor (conhece o perfil do público e, principalmente, o trata


com mais intimidade e proximidade); o formato (fácil de carregar, folhear); e a
periodicidade são alguns aspectos que caracterizam a produção das revistas e as
diferenciam dos outros veículos. Estes aspectos permitem que as mesmas apresentem
um conteúdo mais abrangente e diversificado, sendo capazes de confirmar, explicar ou
aprofundar histórias já publicadas por mídias tradicionais, além de possuírem mais
tempo para elaborarem a pauta, realizarem a apuração e explorarem diferentes ângulos,
como oportunamente ressalta Scalzo (2013).
Os citados aspectos específicos do veículo revista foram definidos já nas
primeiras aulas de Planejamento Editorial, com o objetivo de ambientar e preparar os
alunos para o exercício do jornalismo de revista. Vale destacar que as atividades de
planejamento e execução de Contraponto foram sempre precedidas por teoria e debates
em sala de aula, não apenas entre os grupos, mas igualmente envolvendo a docente.
No tocante ao processo de produção, pode ser dividido em duas etapas:
planejamento e execução do veículo. Na primeira, foi definido pelo grupo o segmento,
elaborada a linha editorial, projetado um escopo gráfico e sugeridas as pautas. Outros
aspectos também foram estabelecidos nessa fase, como nome, proposta de capa, número
de páginas, editorias, linguagem, gêneros textuais e recursos visuais. No segundo
momento, tiveram início efetivamente a apuração e a produção das reportagens,
concomitantemente à produção das fotos, ilustrações e outros elementos gráficos. As
matérias já prontas eram enviadas para revisão da professora da disciplina, que atuou no
processo como editora-chefe, revisando, analisando os textos e sugerindo as
alterações/acréscimos. Por fim, ocorreu a diagramação do produto e a revisão geral.
Durante todo o processo de realização de Contraponto, o trabalho de apuração,
sua importância e especificidade, merece ser ressaltado. O conteúdo da Revista exigiu
um amplo trabalho de pesquisa. Os alunos buscaram leitura específica sobre os temas
abordados (livros, artigos acadêmicos, estatísticas e histórico na mídia), além das
bibliografias apresentadas em sala de aula, que nortearam o processo geral de produção.
Outro ponto que merece ser destacado foi o contato com as fontes, especialmente
aquelas das pautas mais sensíveis, que precisou ser estabelecido aos poucos, no sentido
de desenvolver uma relação de confiança entre repórter e entrevistado. Essa
aproximação foi fundamental para a reportagem de capa, “Uma guerra sem vencedor”,
já que as duas fontes ouvidas não poderiam ser identificadas, devido à ameaça à
segurança que seus relatos poderiam representar. Além do risco, de acordo com Kotscho
(2000), o assunto também é delicado e difícil para os entrevistados, nesse momento, a
confiança e credibilidade no repórter são fundamentais.
Por sua vez, foi imposta pela narrativa da matéria “Olhe nos meus olhos, sou ser
humano” uma aproximação com a realidade diária das pessoas que vivem nas ruas. A
história de Silvio, fonte entrevistada, ganhou contornos e profundidade a partir do
diálogo com outros moradores de rua. A experiência levou à elaboração de um subtítulo,
descrevendo, em primeira pessoa, o aprendizado das estudantes no processo dessa
cobertura. O objetivo, como orienta Kotscho (2000), “é fazer com que o leitor viaje
junto, o repórter cumprindo sua função primeira: colocar-se no lugar das pessoas que
não podem estar lá, e contar o que viu como se estivesse escrevendo uma carta a um
amigo” (Kotscho, 2000, p.16). Para atender à proposta da Revista, foi determinado um
estilo discursivo, isto é, características que orientavam a linguagem utilizada nas
matérias. São elas: a simplicidade, a sensibilidade e a atenção ao vocabulário. Por
simplicidade, entende-se a preferência por períodos mais curtos, palavras e expressões
usuais: “Textos simples são mais fáceis de entender, além de mais elegantes” (Scalzo,
2013, p.58). Já uma linguagem sensível é aquela que valoriza a figura humana, sem
explorar suas emoções. Por fim, o cuidado com a escolha das palavras se refere à carga
simbólica que estas adquirem em determinados contextos, ao julgamento de valor
incluso em alguns termos.
A linguagem visual, no tocante ao veículo revista, adquire grande importância,
lançando significado sobre o conteúdo, mais uma vez aqui remetendo a Scalzo (2013).
Diferente dos jornais, as revistas têm personalidade e apresentam design mais complexo
e ousado, que deve dialogar com o objetivo e a linha editorial. O projeto gráfico da
Contraponto voltou-se para a diagramação das matérias individualmente, com o intuito
de relacionar forma e texto. Entretanto, como o layout das páginas deve apresentar uma
unidade comum em todo o produto, ele deve seguir padrões de estilo, fonte e cores.
Outros elementos também contribuíram para a identidade, como, por exemplo, a
utilização do contorno do Cristo Redentor na contracapa e no fio tipográfico, remetendo
ao tema da Revista.
Importa salientar que, além disso, a equipe optou por tentar desempenhar um
jornalismo humanizado, que busque destacar o indivíduo e se aproximar da sua visão de
mundo. Nesse sentido, o repórter deve buscar experimentar, estar disposto a ouvir sem
conceitos pré-estabelecidos e ser honesto sobre os seus propósitos. Isto não significa
textos sustentados por opiniões próprias, mas, sim, narrativas mais aprofundadas,
sensíveis e interessantes.

O que se pede ao jornalista, em nome da objetividade, é que separe a razão da


emoção. Mais precisamente, que deixe a emoção em casa e faça seu trabalho
usando apenas a razão. Mas os vínculos humanos dependem da emoção, e
para escrever um texto que outro ser humano leia e compreenda dependemos
exatamente desses vínculos afetivos... A visão de mundo que fundamenta
essa técnica de objetividade jornalística reforça a distância entre os seres
humanos e o isolamento do indivíduo. Mas é preciso refazer esses vínculos
que permitam uma relação afetiva do leitor com o texto. (Vaz, 2013, p.32)

Contraponto é, como já dito, uma revista inserida no segmento cultura e


sociedade. A primeira edição possui 72 páginas que apresentam diferentes formatos
jornalísticos, como reportagem, opinião, entrevista, crônica, perfil e galeria de imagens.
O objetivo foi diversificar não só os assuntos, como também a forma como estes são
apresentados ao leitor.
O nome da Revista foi escolhido a partir de uma coerência que o grupo buscou
em relação ao propósito do veículo de buscar ser um contraponto à mídia tradicional. A
fotografia de capa dialoga com a matéria principal e ilustra uma cena cotidiana nas
favelas cariocas: uma criança brincando de pipa. Esses espaços são uma imagem
referência do Rio de Janeiro na mídia, com enfoque comum para a violência.
Consequentemente, esta foto foi escolhida com o objetivo de construir outros
significados sobre os citados espaços. A opção foi por uma capa com poucos elementos,
visando destacar a imagem.
O sumário é um resumo do conteúdo apresentado na publicação,
desempenhando, na Contraponto, a função um elemento gráfico constitutivo da sua
identidade. Foi desenvolvido sobre o mapa do Rio de Janeiro, a partir de uma ideia de
check-in nos bairros onde foram realizadas as matérias. Trata-se de uma escolha não só
estética como indicativa da abrangência espacial das pautas produzidas. Foi uma
preocupação desde o início representar a diversidade social e cultural presentes em uma
cidade extensa como o Rio. A escolha das pautas considerou três aspectos: relação com
a cidade; relevância social; e sub-representação na grande mídia.

Para sempre mães de anjos

A tragédia na Escola Municipal Tasso da Silveira ocorreu no dia 7 de abril de


2011 e provocou comoção nacional, sendo a primeira chacina em uma instituição de
ensino no Brasil: 12 crianças mortas e outras feridas, deixando expostos dois grandes
problemas: o bulliyng e a falta de segurança nas escolas. Foi a partir deste fato
impactante que a reportagem “Para sempre mães de anjos” surgiu, do desejo da equipe
de retomar uma grande e triste história do Rio de Janeiro como uma das matérias
centrais da Contraponto.
A Tasso da Silveira ganhou destaque em jornais do Brasil e do mundo, na manhã
do dia 8, além de diversas suítes durante as semanas que se seguiram. A pauta da
editoria Memória objetivou não deixar que tragédias, como a que aconteceu em
Realengo, sejam esquecidas. Lembrar esta chacina é lembrar da história do primeiro
caso deste tipo em nosso país, da insegurança nas escolas e das práticas de bulliyng que
levaram à violência. Todavia, com o passar dos anos, histórias como essa são esquecidas
pela grande mídia. Quando ganham destaque pelo marco do dia da tragédia, geralmente
quem recebe todo o foco nos noticiários é o mesmo personagem: o atirador.
Entretanto, não se pode esquecer que as verdadeiras protagonistas dessa história
são as mães, que transformaram a dor, o luto pela perda dos seus filhos em luta. A
equipe da Revista foi até o local, conheceu o memorial construído em homenagem às
vítimas e conversou com as famílias, tentando entender a adaptação à nova rotina e o
trabalho da ONG Anjos de Realengo. As mães continuam lutando, quase cinco anos
depois, para que o legado deixado por seus filhos não seja esquecido.
Mesmo com a passar dos anos, os sentimentos gerados pela perda ainda
prevalecem. Porém, com estes, vieram a esperança e o amor de ajudar o próximo.
Adriana Silveira, Joseane dos Santos, Sônia Moreira, Inês Moraes e todas as outras
mães lutam para que outras crianças não tenham o mesmo destino de seus filhos. Por
isso, a ONG Anjos de Realengo tem como meta principal a segurança, o combate ao
bullying e a assistência social e psicológica dentro das instituições de ensino.
A partir do perfil do atirador Wellington Menezes, a mídia tradicional buscou
criar um imaginário social mais violento, tornando o caso um drama policial. Através de
pesquisas nos noticiários, observou-se que a busca do imediatismo e a necessidade de se
dar um furo de reportagem acabam levando à produção de matérias não aprofundadas,
superficiais, que servem tão somente para saciar a curiosidade mórbida do leitor,
aumentando a venda dos jornais e revistas, sem esquecer das mídias audiovisual e
digital: “Na lógica do mercado, tempo é dinheiro, logo, a pressão pela velocidade é
levada a extremos. Quanto mais o princípio de mercado se impõe, menos tempo temos
para produzir mais” (Vaz, 2013, p. 124).
Os grandes veículos criaram um verdadeiro espetáculo na porta da Escola,
localizaram as vítimas, seus familiares, moradores da redondeza e os heróis,
esmiuçando a tragédia com sensacionalismo. Remetendo a Bucci "quando o jornalismo
emociona mais do que informa, tem-se aí um problema ético, que é a negação de
promover o debate das ideias no espaço público" (Bucci, 2000, p. 145).
O grupo responsável pela idealização e realização da revista Contraponto
pretendeu ir além destas representações, partindo do princípio de que cabe à sociedade
repensar o papel da educação, sobretudo no ensino público: o papel da escola na
formação humana, inclusive, na formação de pessoas que podem cometer este tipo de
crime. Nesse sentido, mais do que trazer novamente um assunto deixado de lado pela
grande mídia, a Revista quis dar voz às famílias, quando a imprensa tradicional passou a
procurá-las apenas por um interesse mercadológico de vender suas histórias.
Para o aluno /repórter de “Para sempre mães de anjos”, que conhecia a tragédia
somente a partir das versões dos veículos de comunicação, foi um desafio, porém, uma
das maiores e melhores experimentações de prática de apuração, reportagem e de ética
que pôde realizar até o presente momento no âmbito universitário. Muitos dos
conhecimentos teóricos do grupo foram colocados à prova.
Já há bastante tempo, o jornalismo regido pela lógica mercadológica não dispõe
de tempo e espaço editorial para grandes apurações que objetivam levar a uma reflexão
social, cidadã. É cada vez mais a hora do factual e, constantemente, ele deixa a desejar:
"A vontade de chegar a todo custo em primeiro lugar ao mercado da informação, o
receio de que um concorrente na mesma pista lhes passe a frente, fazem com que
incitem os seus jornalistas a contentarem-se muitas vezes com confirmações
apressadas." (Cornu, 1994, p. 78).
Vale aqui destacar que, em alguns momentos, a entrevista precisou ser
interrompida para que as entrevistadas pudessem se recompor, assoladas pela dor da
perda. Em outros, a conversa foi descontinuada por um carro que parou na esquina da
Praça Anjos de Realengo, com uma mulher proliferando palavras de ódio, que
machucaram as mães, conforme relatado no texto. Não foi sem motivos que, ao ler pela
primeira vez a versão final, a equipe se emocionou com o texto e compreendeu a
importância de espaços de resistência como o pretendido pela Contraponto.

Considerações finais

Depois de cinco meses de trabalho árduo, enfrentando as dificuldades resultantes


da ainda precária infraestrutura do curso de Jornalismo da UFRRJ, o grupo percebeu
como o projeto permitiu a experimentação do jornalismo aprofundado, crítico e
humanizado, além de ter estimulado o exercício de gêneros textuais variados, da
fotografia e da diagramação. Todos os integrantes puderam vivenciar a rotina de
produção, o compromisso com os prazos, a coleta de informações e o relacionamento
com as fontes.
Em síntese, dialogando com Scalzo, os alunos puderam entender que “não existe
revista sem trabalho em equipe. A figura do jornalista solitário não tem lugar em uma
redação de revista […]” (Scalzo, 2013, p.59). A composição da equipe, o trabalho
coletivo, o encontro de ideias e opiniões divergentes foi produtivo, dando origem a
novos conceitos, trazendo pluralidade às decisões e elevando a qualidade do material.
Para o grupo, foi uma oportunidade singular trabalhar o Rio de Janeiro como
tema, o que tornou possível conhecer a Cidade mais de perto e ter contato com
realidades distintas. A cada pauta realizada, ficou evidente para todos o sentimento de
crescimento profissional e pessoal.
Depois de toda a trajetória percorrida, uma certeza: tristeza e alegria são
sentimentos que se alternam nos trabalhos de cobertura, e não há como o repórter ficar
insensível. Nem deve. Afinal, ele é antes de mais nada um ser humano igual aos seus
leitores, e precisa transmitir não só as informações, mas também as emoções dos
acontecimentos que está cobrindo.
Referências Bibliográficas

BRITO, Judith. Discurso da presidente da ANJ pronunciado na aberturado 8º Congresso


Brasileiro de Jornais. O Globo, Rio de Janeiro, 19 mar. 2010. Disponível em:
http://oglobo.globo.com/brasil/eleicoes-2010/confira-integra-do-discurso-da-presidente-da-anj-
4990618. Acesso em 05/07/2016.

BUCCI, Eugênio. Sobre ética e Imprensa. São Paulo: Companhia das Letras, 2000.

CORNU, Daniel. Jornalismo e verdade. Lisboa: Instituto Piaget, 1999.

JAWSNICKER, Claudia. O futuro dos jornais: reflexões a partir da reconfiguração da esfera


pública na contemporaneidade. Revista Comunicologia, Ano 02, nº 03, 2008. Disponível em:
http://www.ucb.br/comsocial/comunicologia/00101001_data/0futuro dosjornaid.htm. Acesso em
01/07/2016.

KARAM, Francisco. Jornalismo, Ética e Liberdade. São Paulo: USP, 1997.

KOTSCHO, Ricardo. A Prática da Reportagem. São Paulo: Ática, 2000.

ROCHA, Daniela. Da Batalha à Guerra do Rio: uma abordagem espaço-temporal da


representação das favelas na imprensa carioca. In: XVII Encontro Nacional de Estudos
Populacionais, ABEP, Caxambú-MG, de 20 a 24 de set. 2010.

SCALZO, Marília. Jornalismo de Revista. 4.ed. São Paulo: Contexto, 2013.

VAZ, Ana Lucia. Jornalismo na Correnteza. Rio de Janeiro: Ed. Senac Nacional, 2013.