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Prestando contas à vida

As populações brasileira e mundial têm envelhecido muito rapidamente. É uma séria questão para
os sistemas de previdência e saúde pública e para os próprios velhos, mais solitários e dependentes. No
entanto, é possível transformar velhice em liberdade. Nesse momento especial, entre a vida e a morte, o
homem comum pode filosofar; e, assim, flertar com a imortalidade.

A filosofia tem saído da moda enfrentando rivais cada vez mais arrogantes. Informática, marketing e
design tentam substituir o personagem conceitual - o filósofo ou o artista - por telas planas, telefones
celulares e internet. É o reinado dos simulacros. Segundo Deleuze e Guattari, filosofar é a arte de criar
conceitos potentes para tentar dar significado a questões para sempre mal resolvidas, como velhice e
morte. Mas conceito não é dado ou comprado, é criado. E filosofar é criar ou mudar conceitos.

Para eles, filósofos e artistas têm uma saúde frágil. Não por causa de suas doenças ou neuroses,
mas porque viram na vida algo grande demais para suportar, o que pôs neles a marca discreta da morte.
Esse algo é também a fonte que nos faz viver através das "doenças do vivido", justamente o que Nietzsche
chama de saúde. O que define filosofia e arte, duas das grandes formas de pensamento, é enfrentar o caos
esboçando um plano. Para tanto, a filosofia formula conceitos, e a arte, percepções. Essas disciplinas não
são como religiões, que invocam deuses para pintar sob nossos guarda-sóis um firmamento artificial. Ao
contrário, elas propõem que só venceremos se rasgarmos o pano pintado e enfrentarmos o caos.

O sistema econômico e cultural entrega aos homens comuns grandes guarda-sóis com forros
pintados que lhes dão uma falsa segurança enquanto servem à lógica própria do capital. São do tipo
"comprando um novo iPod ou estendendo a vida a qualquer preço você pode ser feliz". Por baixo do pano,
essa lógica desenha suas palavras de ordem como um firmamento único. Cabe ao filósofo e ao artista
contidos em nós abrir uma fenda no guarda-sol e fazer passar um pouco do caos livre e tempestuoso que
dá sentido à vida. A cada rasgo que fizermos, os gênios da comunicação a serviço do pensamento único
correrão a preencher a fenda e lotá-la de novas certezas. Será preciso, então, cortar novas fendas, operar
novas destruições, restituindo a novidade que já não podia mais ser vista.

O pensamento único se esconde atrás de um tipo religioso de fé cega num futuro que outros nos
impõem. Nunca as tecnologias progrediram tanto na exploração do corpo e da mente. E, no entanto,
Roudinesco nos lembra de que em nenhuma época o sofrimento psíquico foi tão vivo: solidão,
psicotrópicos, tédio, depressão, desamparo, obesidade, uma pílula a cada minuto de vida: "Quanto mais se
promete a felicidade e a segurança, mais persiste a infelicidade, mais aumenta o risco".

Ela cita Canguilhem, Sartre, Foucault, Althusser, Deleuze e Derrida como alguns dos que se
recusaram a aceitar uma ideologia da submissão e a virar soldados de uma "normalização" do homem. Eles
gostariam de transformar todos nós em rebeldes, seres capazes de abordar a existência como consciência
do mundo.

Podemos compreender, então, como a morte pode prestar contas à vida; ou seja, como se pode
aceitar a morte para que haja vida. Na "Ilíada", Aquiles encarna o ideal absoluto "da bela morte e da vida
breve", origem da concepção grega de heroísmo. Roudinesco lembra Vernant, para quem um dos grandes
enigmas da condição humana é encontrar na morte o meio de superá-la, vencê-la dando-lhe um sentido do
qual ela é completamente desprovida. É quando o agir significante se transforma em obra eterna. Doença e
morte, paradoxalmente, são parte da vida.

Dentro dessa perspectiva, o doente, com seu sofrimento e sua dor, é o único capaz de julgar sobre
sua normalidade. Quem quiser transformar a vida num conjunto de funções que resistem à morte fará com
que a morte não lhe pertença mais.
No entanto, a morte está inscrita na história da vida, assim como a doença na existência de cada
sujeito. Fenômeno progressivo de degradação lenta dos corpos, ela se apodera do homem desde o seu
nascimento, habitando-o ao longo de sua vida até a última passagem. Mas nosso espírito, enquanto
construindo os significados que atribuímos à vida, pode ter o gostinho da imortalidade. Depende de nós.
Basta sermos capazes de abrir pequenos furos no falso firmamento que querem nos impor e deixar passar
um pouco de caos.

Gilberto Dupas

Pensamento alargado

Por oposição ao espírito “limitado”, o pensamento alargado poderia ser definido, num primeiro momento,
como aquele que consegue arrancar-se de si para se “colocar no lugar de outrem”, não somente para
melhor compreendê-lo, mas também para tentar, num momento em que se volta para si, olhar seus próprios
juízos do ponto de vista que poderia ser o dos outros. É o que exige a auto-reflexão de que falávamos há
pouco: para que se tome consciência de si, é preciso situar-se a distância de si mesmo.

FERRY, Luc. Aprender a viver. Rio de Janeiro. Ed. Objetiva. 2010.

Immanuel Kant fez a filosofia dar um salto evolutivo ao abandonar a velha questão “Por que o mundo é
como é?” para fazer a pergunta “Por que vemos o mundo do modo como vemos?”
BUCKINGHAM, Will. O livro da filosofia. São Paulo: editora Globo, 2011.

A arte de criar de conceitos

Em uma palestra para estudantes de cinema intitulada O Ato de Criação (1987), o filósofo francês Gilles
Deleuze sugere uma perspectiva inusitada da filosofia, enquanto “arte de criar conceitos”. A definição
deleuziana traz duas importantes conseqüências: primeira, que a atividade criativa não é uma propriedade
exclusiva dos artistas ou dos profissionais de propaganda e marketing; segunda, que os conceitos não
estão prontos e acabados em um “céu de conceitos”, esperando para serem observados, contemplados ou
elucidados. Os conceitos podem ser invisíveis, mas não são transcendentes, como se estivessem para além
de toda experiência humana. Os conceitos têm história, se encarnam e se efetivam nos corpos. Os
conceitos não são verdades absolutas e eternas, mas estratégias do pensamento para lidar com problemas
e questões.
FEITOSA, Charles. Explicando a filosofia com arte. São Paulo. Ediouro. 2009.