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A economia da madeira

uma visão prospectiva


Alberto Vieira
INVESTIGADOR-COORDENADOR
CEHA-MADEIRA
avceha2@gmail.com

" E não criou Deus, nem levantou ou descobriu tudo terras chãs e
fértil, mas também fez montes e vales, outeiros e campos chãos,
terras mimosas e pedregosas, algumas secas e outras regadias,
sendo só um elemento com tantas variedades, como a espécie
dos homens com tão diversos rostos.

As criaturas todas com virtudes, feições, cores, propriedades e


qualidades tão estranhas e diferentes antre si, e tudo pera
fermosura do Universo, pera, como bom pintor, com diversidade
de cousas e cores, realçar com umas a fermosura das outras. assi
também, ou quando logo criou o Mundo, no principio fez terra
firme e muitas ilhas, ainda que adiante, ou antes do dilúvio ou
depois dele ou com ele, algumas mudanças fossem e se
fizessem."

(Gaspar Frutuoso, Livro Primeiro das Saudades da Terra, Ponta


Delgada, 1984, p.300)

O estudo e entendimento da História Económica da Madeira só podem ser


feitos no quadro do espaço Atlântico criado pelo europeu a partir de princípios
do século XV. A ilha foi um dos primeiros exemplos da afirmação económica
europeia além das fronteiras peninsulares e a primeira demonstração do que
viria a ser o mercado atlântico. Desta forma a ilha materializa de forma clara as
solicitações do velho continente e as esperanças e descobertas do Novo Mundo.

1- HISTORIOGRAFIA E BIBLIOGRAFIA. O Atlântico tornou-se uma


realidade de análise historiográfica a partir da década de quarenta do século
XX, sendo o exemplo dado pela historiografia norte-americana, preocupada em
rastrear as origens europeias. O conceito começou a ser definido em 1947 com
Louis Wright, mas terá sido o Mediterrâneo de F. Braudel (1949) que provocou
esta atenção desusada a partir da década de cinquenta. Em finais do século XX
tivemos o momento de afirmação da Historiografia Atlântica. De ambos os
lados do Atlântico surgiram trabalhos em o Atlântico é o palco principal. O
Atlântico define-se a partir do século XV como um espaço privilegiado dos
impérios europeus onde as ilhas assumem uma função privilegiada no
cruzamento de rotas, circulação de pessoas e produtos.

A História das ilhas atlânticas mereceu, no século XX, um tratamento


preferencial no âmbito da História do Atlântico. Primeiro foram os
investigadores europeus como F. Braudel (1949), Pierre Chaunu (1955-1960),
Frédéric Mauro (1960) e Charles Verlinden (1960) a destacar a importância do
espaço insular no contexto da expansão europeia. E só depois surgiu a
historiografia nacional a corroborar a ideia e a equacioná-la nas dinâmicas da
expansão insular. São pioneiros os trabalhos de Francisco Morales Padron
(1955) e Vitorino de Magalhães Godinho (1963). Esta ambiência condicionou os
rumos da historiografia insular nas últimas décadas e contribuiu para a
abertura às novas teorias e orientações do conhecimento histórico.

A produção historiográfica insular é desigual, dependendo o número da


existência de literatos e de instituições capazes de incentivarem a elaboração e
divulgação de estudos nos diversos domínios. Ainda, a similitude do processo
vivencial aliada à permeabilidade às perspectivas históricas peninsulares
estabeleceram uma unidade na forma e conteúdo da historiografia insular.
Gaspar Frutuoso, em finais do século XVI, com as Saudades da Terra, define e
sintetiza a unidade insular, aproximando os arquipélagos da Madeira, Açores e
Canárias. Esta ímpar situação na historiografia, só foi retomada na década de
quarenta do nosso século pela historiografia europeia e, no presente pela nova
geração de historiadores insulares. A consciência histórica, da unidade da
múltipla realidade arquipelágica, foi definida de modo preciso na expressão
braudeliana de Mediterrâneo Atlântico.

Por outro lado a historiografia vem defendendo única e exclusivamente a


vinculação das ilhas ao Velho Mundo, realçando apenas a importância desta
relação umbilical com a mãe-pátria. Os séculos XV e XVI seriam definidos como
os momentos áureos do relacionamento, enquanto a conjuntura setecentista
seria a expressão da viragem para o Novo Mundo, em que alguns produtos,
como o vinho, assumem o papel de protagonista e responsável das trocas
comerciais. Os estudos por nós realizados vieram a confirmar que a situação do
relacionamento exterior da ilha não se resumia apenas a estas situações. À
margem das importantes vias e mercados subsistem outras que activaram
também a economia madeirense, desde o séc. XV. As conexões com os
arquipélagos próximos (Açores e Canárias) ou afastados (Cabo Verde, S. Tomé
e Príncipe) foram já motivo de aprofundada explanação, que propiciou a
valorização da estrutura comercial. Aqui ficou demonstrada a importância
assumida pelos contactos humanos e comerciais, que no primeiro caso, resultou
da necessidade de abastecimento de cereais e, no segundo, das possibilidades
de intervenção no tráfico negreiro, mercê da vinculação às áreas africanas da
Costa da Guiné, Mina e Angola.

A praça comercial madeirense foi protagonista de outros destinos no litoral


africano ou americano e rosário de ilhas da América Central. No primeiro rumo
ressalta a costa marroquina, onde os portugueses assentaram algumas praças,
defendidas, a ferro e fogo, pelos ilhéus. No século XVI, com a paulatina
afirmação do novo mundo americano costeiro e insular, depara-se um novo
destino e mercado, que pautou as relações nas centúrias posteriores. O novo
mundo e mercado foram tanto a esperança de enriquecimento como a forma de
assegurar a posse de bens fundiários.

O Atlântico não é só uma imensa massa de água, polvilhada de ilhas, pois a ele
associa-se uma larga tradição histórica que remonta à Antiguidade, donde
resultou o nome de baptismo. Aqui deparamo-nos com um conjunto
polifacetado de ilhas e arquipélagos que se tornaram relevantes no processo
histórico do Oceano, quase sempre como intermediários entre o mar-alto e os
portos litorais dos continentes europeu, africano e americano. As ilhas anicham-
se, de um modo geral, junto da costa dos continentes africano e americano, pois
apenas os Açores, Santa Helena, Ascensão e o grupo de Tristão da Cunha se
distanciam. As ilhas foram também espaços criadores de riqueza, sendo a
agricultura a principal aposta. Esta exploração obedece às exigências da
subsistência das populações e às solicitações do mercado externo com os
produtos de exportação. A valorização sócio-económica dos espaços insulares
não foi unilinear, dependendo da confluência de dois factores. Primeiro, os
rumos definidos para a expansão atlântica e os níveis de expressão em cada um,
depois as condições propiciadoras de cada ilha ou arquipélago em termos
físicos, de habitabilidade ou da existência ou não de uma população autóctone.
Nos séculos XV e XVI as ilhas e arquipélagos firmaram um lugar de relevo na
economia atlântica, distinguindo-se pela função de escala económica ou mista:
no primeiro caso surgem as ilhas de Santa Helena, Ascensão, Tristão da Cunha,
para o segundo as Antilhas e a Madeira e no terceiro as Canárias, Os Açores,
Cabo Verde, São Tomé e Príncipe.

FORMAS DE VER E INTERPRETAR A EVOLUÇÃO ECONÓMICA DA


MADEIRA1. A Historiografia é quase sempre dada a modismos e a
1
Sobre o tema veja-se: Joel Serrão, Temas Históricos Madeirenses, pp.17-20 e 53-75. F. Braudel, Le Méditerranée et le Monde
Méditerranéen(...), ed. de 1949, 123. Orlando Ribeiro, L'Île de Madère (...), Lisboa, 1949, 67. Lúcio De Azevedo, Épocas De
Portugal Económico. Esboços De História, Lisboa, 1929. António Aragão, Para a História do Funchal, Pequenos Passos da Sua
Memória, Funchal, 1979. A tese de Victor MORALES LEZCANO baseada em F. Braudel surgiu pela primeira vez em
Sintesis de la historia economica, Tenerife,1966, sendo depois reforçada em Las relaciones Mercantiles entre inglaterra y los
archipiélagos atlantico ibericos (...), La Laguna, 1970 e em "Cultivos dominantes y ciclos agricolas en la historia Moderna
de las islas Canarias", in Historia General de las islas Canarias, IV, 11-22. Frédèric MAURO, Le Portugal et l'Atlantique au
XVIIe, siècle (...), Paris, 1960, 501; Idem, "Conjoncture Économique et structure sociale en Amérique latine depuis
d'Époque coloniale", in Conjoncture Économique, Sctruture Sociales, Hommage à Ernest Labrouse, Paris, 1974, 237-251;
Vitorino Magalhães GODINHO, "A Divisão da história de Portugal em períodos", in Ensaios II, 2ª ed., Lisboa, 1978, 12-
14. IDEM, A Construção de Modelos para as Economias Pré-Estatísticas, Revista de História Económica e Social, 16, 1985.
IDEM, “Entender la Praxis de los Negocios”. Esboço de Modelo para a Economia dos Séculos XV e XVI, História das
Ilhas Atlânticas, vol. I, Funchal, 1997, 13-39. Felix Goizueta-Mimo, Bitter Cuban Sugar. Monoculture and Economie
dependence from 1825-1899, N. York, 1987.
estereótipos. Neste sentido tivemos durante muito tempo uma corrente
historiográfica que definia a evolução económica a partir de ciclos produtivos
assentes na dominância de um produto na vida económica de um espaço. Foi
assim que para os novos espaços de ocupação europeia, a partir do século XV,
foram sendo definidos ciclos produtivos dos cereais, vinho, açúcar. No caso da
Madeira a História económica do arquipélago assentava no arquétipo
sucedâneo de ciclos. Assim tivemos primeiro o ciclo dos cereais que deu lugar
ao do açúcar, depois do vinho, da banana e finalmente o turismo.
Algumas das culturas plantadas no solo virgem insular, como foi o caso
da cana sacarina, ao contrário do que sucedeu com os demais produtos e
culturas (vinha, cereais), não se ficou apenas à intervenção no processo
económico. Ela foi marcada por evidentes especificidades capazes de moldarem
a sociedade, que dela se serviu para firmar a sua dimensão económica. A
importância a que o sector comercial lhe atribuía conduziu a que fosse uma
cultura dominadora de todo (ou quase todo) o espaço agrícola disponível,
capaz também de estabelecer os contornos de uma nova realidade social.

Foi precisamente esta tendência envolvente que levou a Historiografia a definir


o período da afirmação como o Ciclo do Açúcar. Aqui não estávamos perante
uma aplicação da teoria dos ciclos económicos, mas pretendia-se subordinar
esta tendência para a afirmação da cultura na vida económica e social ao
conceito em causa. A omnipresença da cultura, as múltiplas implicações que
gerou nos espaços em que foi cultivada levou alguns investigadores a
estabelecer um novo modelo de análise: os ciclos de produção assentes na
monocultura. Tudo começou em 1929 com Lúcio de Azevedo e foi reforçado em
1933 por Fernand Braudel2 que pretendeu definir para as ilhas dos arquipélagos
da Madeira, Açores e Canárias, a que chamou de Mediterrâneo Atlântico. Ainda,
em 1949 Orlando Ribeiro esclarecia, que no caso da Madeira não é possível
encontrar rastros de monocultura no regime de exploração agrícola madeirense,
mesmo assim Joel Serrão insistiu em 1950 em definir o “ciclo dos cereais”.
Todavia a mesma teve eco negativo na Península Ibérica, surgindo Orlando
Ribeiro3 e Elias Serra Rafols4 a refutar tal hipótese na análise do devir
económico, respectivamente, da Madeira e Canárias. Mais tarde os estudos de
F. Mauro5 e V. M. Godinho6 reafirmavam a oposição e conduziram a uma nova
e diversa visão da estrutura económica: ao regime de monocultura sobrepõe-se
ao de produtos dominantes. Deste modo o Ciclo do Açúcar resultava, não da
exclusiva afirmação da cultura, mas da sua dominância, capaz de atribuir a
hegemonia no sistema de trocas7.

Na Madeira a ideia vingou junto de historiadores e eruditos. Assim, ficou


assente o ciclo dos cereais, do açúcar ou ouro branco, do vinho, do turismo,
2
La Mediterranée et le Monde Mediterranéen (...), vol. I, Paris, 1949, p. 123.
3
. L'ile de Madère (...), Lisboa, 1949, p. 67.
4
. "El Gofio Nuestro de cada Dia", in Estudios Canarios, XIV-XV, 1969-70, pp. 97-99.
5
. Le Portugal et l'Atlantique au XVIéme siècle, Paris, 1960, p. 231.
6
. "A Divisão da História de Portugal em Períodos", in Ensaios II, 1978, pp. 12-14.
7
. F. Mauro, "Conjoncture Économique et Structure Sociale en Amérique Latine depuis l'Époque Coloniale",
in Hommage à Ernest Labrousse, Paris, 1974, pp. 238-240.
banana e, certamente o da autonomia. Finalmente em 1979 esta forma de ver
chegou à análise da História de Arte e urbanismo da cidade, surgindo pela pena
de António Aragão a ideia de que a cidade teve dois momentos distintos que
definiram diversas formas de concretização artística e urbanística: a cidade do
açúcar e a cidade do vinho8. O impacto que o texto teve no meio académico e
público interessado conduziu levou a que acabasse por se afirmar. Uma análise
aturada da economia insular diz-nos que a mesma não se regeu por princípios
exclusivistas, de acordo com a premência das solicitações externas. Antes pelo
contrário, o desenvolvimento socio-económico processou-se de forma variada,
sendo a exploração económica dominada por vectores dominadores, que
acrescem as condições e recursos do meio com as solicitações da economia de
subsistência. É difícil, senão impossível, conseguir definir um ciclo em que
impere a monocultura de exportação, num espaço amplo e multifacetado como
é o do mundo insular.

Alguns dados avulsos referentes à tributação interna e por exportação


evidenciam uma realidade distinta daquela que se pretende afirmar. Na
verdade, estamos perante produtos dominantes e não exclusivos. Uma breve
análise dos rendimentos dos direitos reais para o período de 1581-1586
evidencia, em termos do sector produtivo, apenas a dominância de produtos 9.

ANOS QUINTOS DÍZIMAS MIUNÇAS TOTAL


Reais % Reais %
Reais %
1581 12.683$657 46 9.576$953 35 5.179$191 19 27.439$801
1582 11.114$668 45 8.073$953 33 5.326$690 22 24.515$311
1583 10.560$681 44 8.141$428 34 5.262$100 22 23.964$200
1584 12.909$140 47 9.574$232 34 5.252$309 19 27.735$681
1585 9.702$517 49 4.923$644 25 5.227$059 26 19.853$220
1586 9.479$391 50 5.128$164 27 4.296$869 23 18.994$424

O quadro altera-se quando encaramos os valores referentes à dizima de


exportação, onde a posição hegemónica, mas não exclusiva, do açúcar se
consolida.

Anos Açúcar Vinho, remeis Total


e frutos
$ % $ % $
1581 5.928$131 62 48$504 0,5 9.576$953
1582 5.897$116 73 82$379 1 8.073$953
1583 5.863$345 86 102$000 1,5 6.931$405
1584 5.855$236 90 74$295 1,1 6.517$174
1585 3.459$344 86 41$149 1 4.021$980
1586 3.493$511 88 29$686 0,8 3.968$347

8
. Para a História do Funchal. Pequenos Passos da sua Memória, Funchal, 1979.
9
. Joel Serrão, Temas Históricos Madeirenses, Funchal, CEHA, 1992, pp.77-102; Susana Miranda, A Fazenda Real na Ilha da
Madeira. Segunda Metade do Século XVI, Funchal, CEHA, 1994, p.160.
A mesma situação poderá ser evidenciada quando somos confrontados com as
cartas de quitação dos Almoxarifes para a segunda metade do século XVII 10.

ALMOXARIFE DATA Total AÇÚCAR VINHO TRIGO

Arrobas Arrátei Pipas Almu Cana moio Alquei


s des das s res
Cristóvão 1620- 49.264$26 52.266 261/2 791 9 3 141
Faria 24 1
Cristóvão 1645 12.738$95 469 28 ½ 338 274 32
Valente 1
1652- 39.292$89 3.649 21 1035 21 11 819 45
54 4
1656- 40.532$29 2.390 19 1.035 21 11 814 15
58 8
Luís Soares 1660- 49.546$49 702 12 1.038 810 45
Pais 62 7 ½
Luís Soares 1670- 70.178$73 1256 24 ½ 1039 822 45
Pais 72 3 ½
Manuel Soares 1677- 62.389$24 351 9½ 1340 1 941 3
Pais 79 4 ½

Para os anos de 1670-167111 temos os dados diferenciados dos diversos produtos:

Produto 1670 1671 1672


REAIS REAIS REAIS

Vinho (PIPAS) 346 ½ 346 ½ 346 ½


Açúcar 3629 423 470
(ARROBAS)
Trigo (MOIOS) 274 274 274
Frangos 12 12 12
Cabritos 12 12 12
Cevada (MOIOS) 5 5
TOTAL 21.088$434 22.977$937 25.412$362

Os modelos, embora perfeitamente delineados, não se ajustam à realidade


socio-económica, que é variada e enriquecida de múltiplas matizes. Embora
alguns produtos, como o trigo, o açúcar, o vinho e o pastel, surjam em épocas e
ilhas diferenciadas, como os mais importantes e definidores das trocas externas,
não são os únicos na economia insular. Na verdade, a dominância sucede
apenas no sector da exportação e nunca na globalidade da ilha onde por vezes é
mais evidente a afirmação de outros, como fonte de riqueza familiar e de
subsistência.

Os ciclos de monocultura são apenas a parte visível das exportações e reduzir a


análise económica a isso é uma atitude reducionista uma vez que apenas se
limita a reconhecer a importância dos produtos com maior peso nas

10
. ANTT, PJRFF, nºs. 396, 965ª, 966,
11
. ANTT, PJRFF, nº.966, fl.5, 24 de Dezembro de 1675
exportações. A ilha é um microcosmo definido pela variedade de espaços
ecológicos que não se compadecem com uma unicidade agrícola. Esta condição
dominante levou a uma sistematização do devir socio-económico em ciclos, que
se demarca com uma ilusão óptica da complexa realidade que serve de base.
Assim, o produto passou a definir a estrutura socio-económica, num
determinado momento, esquecendo-se que essa mesma e muito complexa nos
sectores produtivo e comercial. A documentação é unânime na afirmação de
que o empenho do ilhéu não se resume apenas ao produto que mais gira nas
relações com o exterior. Há em todos uma certa preocupação de auto-suficiência
que milita a favor da manutenção das culturas tradicionais que medram, lado a
lado, com as dominantes no comércio externo. A polivalência produtiva
manteve-se sempre no devir socio-económico insular. A dominância de um ou
de outro produto nas relações com o exterior não destrói essa policemia
produtiva, nem retira o empenho das gentes laboriosas nesse processo. Atesta-o
as posturas municipais onde, nos diversos sectores económicos, se expressa
uma diversidade de interesses e movimento quotidiano de produtos.

Em todas as dinâmicas produtivas e comerciais que marcaram e continuaram a


definir o processo histórico madeirense e gritante a extrema dependência da
ilha em relação ao exterior, em que a Europa detêm uma posição dominante
firmando-se como centro emanador de orientações de política e economia. A
situação comum ao mundo insular define uma das principais peculiaridades: a
extrema fragilidade e dependência da economia em relação ao velho continente.
Para isso em muito contribuiu a posição hegemónica das cidades-capitais dos
impérios peninsulares pouca disponibilidade de recursos e meios das
sociedades insulares. As últimas décadas do século XX, poderá contribuir para
o desencravamento da situação e para a afirmação de uma nova realidade
insular ou arquipelágica. É evidente que a afirmação de um produto no sector
das exportações não é possível sem um sistema de policultura, principalmente
em universos restritos como as ilhas. Assim, os canaviais subsistem se for
possível assegurar um vasto hinterland de culturas de subsistência. Os ciclos
serão a visão mais deformada do processo económico da ilha, a caricatura de
uma realidade que é muito complexa. Entender a economia das ilhas, a sua
História é reconhecer um estatuto diferenciado a estes espaços económicos.
Para nós a História, a realidade económica não se compadece com as teorias e
tão pouco se lhes deve subjugar. Quem conhece as ilhas sabe que em todas
domina a diversidade geo-económica, fruto da configuração geográfica. Esta
situação provoca na Madeira um escalonamento de culturas, impedindo a sua
sobreposição.

A grande aposta das autoridades estava na definição de um regime de


policultura capaz de garantir uma estabilidade económica à principal riqueza
da ilha, que continuava a ser a exploração agrícola. Primeiro procurava-se
assegurar o necessário equilíbrio entre as culturas de subsistência e de mercado
de forma que as primeiras pudessem suprir o mais possível da sobrevivência
das populações. Depois no quadro das culturas de exportação promoveu-se
uma diversificação, de acordo com as solicitações do mercado. Desde o
Governador José Silvestre Ribeiro, com a grande exposição industrial no Palácio
de S. Lourenço em 1850, que se vinha apostando na criação ou incentivo de
industrias artesanais com potencialidades económicas nas exportações. Assim
tivemos a aposta nos bordados, obra de vimes, lacticínios e conservas de peixe.
O dealbar do século XX foi fértil no aparecimento de pequenas unidades
industriais para suprir as carências da ilha. Temos assim as fábricas de velas de
estearina, pregos, adubos químicos, tintas, telha de cimento, bolachas e
biscoitos, massas alimentícias, de bebidas. Perante este quadro O Padre
Fernando Augusto da Silva afirmava em 1921 que “embora a Madeira seja um pais
mais agrícola do que industrial, industrias há todavia que se podem considerar aqui
vigorosas e outras que prometem vantagens, sendo mesmo já hoje mais ou menos
remuneradoras.” Este fenómeno era também gerador de novos empregos,
recrutados de entre a mão-de-obra rural, o que pode ser considerado o princípio
de uma das vias, que conjuntamente coma a emigração, está na origem do
êxodo rural que se consolidará em pleno com a Segunda Guerra Mundial.

Os primeiros resultados da política de diversificação e culturas começaram a


surgir de imediato. Desde 1938 a ilha produzia excedentes que exportava para o
continente português e alguns países europeus como, Inglaterra, Irlanda,
Bélgica, Alemanha, Itália, África e Açores, por força do incentivo da delegação
no Funchal da Junta Nacional de Exportações de Fruta, criada em 1936, e do
Grémio dos Exportadores de Frutas e Produtos hortícolas da Madeira. Também
não poderá esquecer-se os diversos viveiros promovidos pela estação agrária da
Madeira em diversas freguesias, como Ribeira Brava, Santana, Caniçal, Santo da
Serra. De acordo com dados fornecidos por Ramon Honorato Rodrigues [1953]
a bananeira era a cultura de maior rentabilidade, quando comparada com a
vinha ou cana-de-açúcar, assim numa área de 1000m2 o lucro era o seguinte:

Cultura valor da
produção por
m2
Banana 5.500$00
Vinha 1.750$00
Cana-de-açúcar 1.635$00
Batata doce 1.800$00
Semilha 3.000$00
Cebola 3.300$00
Feijão 3.750$00
Trigo e cevada 525$00
Milho 500$00
Vimes 3.000$00
Outras 1.800$00

Os dados são esclarecedores sobre as mudanças ocorridas na agricultura


madeirense. Os produtos tradicionais quase perdem importância e o estatuto de
culturas ricas, surgindo outros com maior rentabilidade. É certo que a
bananeira era uma cultura promissora, mas outras de subsistência não lhe
ficavam atrás. Certamente que o principal resultado da situação foi um
nivelamento por baixo da riqueza, cavando cada vez mais o fosso do mundo
rural e propiciando a emigração em catadupa para a Venezuela, África do Sul e
Austrália.

2. O ESPAÇO

ARQUIPELAGO/ILHA. O arquipélago madeirense apresentou-se aos


portugueses com duas ilhas principais com características distintas. O Porto
Santo, a primeira ilha encontrada, parecia oferecer grandes possibilidades para
a agricultura devido à disponibilidade de planuras, mas a falta de água limitou
o processo, arrastando-a para um limitado aproveitamento de algumas culturas
de sequeiro. Ao invés a Madeira oferecia tudo o que faltava a primeira, com o
senão das limitações impostas pela orografia. Assim, tivemos abundância de
água e uma densa floresta.

GEOGRAFIA. A configuração geográfica da Madeira pode ser definida em


poucas palavras. Estamos perante um massiço central montanhoso que define
duas vertentes costeiras abruptas, poucas planícies, que alternam entre altas
(Paul da Serra, Santo da Serra) e baixas (fajãs do litoral). Está aqui um das
razões fundamentais da morosidade do trabalho humano na conquista do
espaço. A faina de desbravamento, retenção e arroteamento de terras foi dura.
A isto juntou-se a necessidade de canalização das águas para as culturas de
regadio. Por vezes, o trabalho não atingia os resultados esperados, pela pobreza
do solo, pelo que o Homem a socorrer-se do estrume e, depois, dos adubos.

O estudo de Orlando Ribeiro[RIBEIRO, Orlando, A Ilha da Madeira até Meados do


Século XX. Estudo Geográfico, Lisboa, 1985 (1ª edição em 1949 com o título: L'ile
de Madère. Étude Geographique)] continua ainda a ser fundamental para
conhecimento da Climatologia e Geologia do arquipélago. Foi ele quem chamou
a atenção para a diversidade de microclimas, destacando o contraste Norte/Sul,
o mais evidente ao nível do clima e da configuração geográfica. Assim, temos
uma faixa norte, marcada pelos maciços montanhosos de colinas abruptas
caindo ao mar (S. Vicente, Seixal) com algumas fajãs por meio (Ponta Delgada,
Arco de S. Jorge, Fajã da Areia, Porto Moniz), definida por uma vegetação
exuberante e variada e uma forte pluviosidade e humidade do ar. A vertente
Norte foi a fonte abastecedora das regiões do Sul. Em contraste no Sul é mais
suave na inclinação e elevação, sendo ainda de menor pluviosidade, podendo-
se definir com uma região seca chegando a ser árida (Caniçal). A diferenciação
natural contribuiu para a definição das áreas de implantação das culturas.
Os solos da ilha são resultado da desagregação das rochas vulcânicas sendo
compostos de basalto, traquite, tufo, escórias e conglomerados. A composição
muda conforme se sobe a encosta, estabelecendo diversos níveis minerais. Esta
situação e a diferença climática definem os diversos patamares ideais para
certas culturas. A falta de calcário, potássio e azoto obrigaram, muitas vezes, o
Homem a intervir no sentido de lhe atribuir os suplementos minerais para que
as culturas pudessem crescer. Em síntese o solo é pobre e para se tornar arável
necessita de um redobrado esforço humano e de recursos, caso se queira
produzir em condições satisfatórias.

Orlando Ribeiro apresenta o escalonamento das culturas em três zonas. Na


vertente Sul atingem faixas contínuas até 700 m, enquanto no Norte se
apresentam descontínuas. A primeira zona, que atinge 400 m no sul e 200 m no
Norte, estava dedicada à cana-de-açúcar e mais culturas tropicais. Na segunda
até 600 m cultiva-se os frutos mediterrâneos. Já na terceira, que engloba os
terrenos os terrenos baldios e florestas.

A floresta, que à chegada parecia ser uma dificuldade à fixação, acabou por
assumir um papel fundamental na criação de riqueza, com a exploração de
madeiras para exportação ao reino e mesmo o Norte da Europa. Daqui
resultando o desenvolvimento de pequenas unidades de serração movidas pela
força motriz da água, as serras de água, que existiram um pouco por todo o
lado nas áreas mais densamente povoadas. A floresta foi durante muito tempo
a principal riqueza das populações das zonas altas e do Norte da Ilha.

Já as dificuldades resultantes da orografia limitaram no início a ocupação do


solo às bacias das ribeiras, avançando-se depois encosta acima com a construção
de poios. No primeiro caso eram terras de aluvião propícias, adequadas a uma
agricultura tradicional europeia, que se revelaram no início muito férteis para
os cereais.

O povoamento do arquipélago foi um processo rápido por força da inexistência


de populações e da necessidade de ocupação do solo de forma a assegurar o
controlo do espaço atlântico. A tradição refere que os primeiros colonos eram
oriundos do Algarve, mas a força dos povoadores foi do Norte de Portugal,
gente com larga tradição na actividade agrícola, que transplantou para o novo
espaço as tradições, os utensílios e os produtos. O povoamento aconteceu por
fases. Na década de vinte chegaram os aventureiros e companheiros de Zargo e
Tristão. Passados 30 anos tivemos nova leva de gentes atraídas pela fama das
riquezas. Alguns eram filhos-segundos de famílias do norte que buscavam aqui
o que lhes foi negado no reino. Finalmente, a partir da década de sessenta
abriram-se as portas à presença de estrangeiros interessados no comércio do
açúcar.

A criação de núcleos de povoamento adequa-se às condições que a ilha oferecia.


Primeiro a vertente sul nas clareiras abertas pelas ribeiras, e só num segundo
momento, certamente na década de quarenta do século XV, se avançou para o
norte, criando-se núcleos de povoadores isolados junto à costa e
preferencialmente nas enseadas das ribeiras ou nas fajãs. A riqueza gerada pela
produção agrícola em torno dos cereais e de pois da cana sacarina favoreceu o
povoamento da vertente sul, onde surgiram as primeiras paróquias em Santa
Cruz, Câmara de Lobos, Ribeira Brava, Ponta do Sol e Calheta. A norte só
tivemos a de S. Vicente na década de 40 e depois outras novas apenas no século
XVI. Muitos núcleos de povoadores adquiriram rapidamente o estatuto de
curatos autónomos, como foi o caso no Funchal de S. Martinho, Santo António,
S. Roque e Monte. O fulgor económico da primeira metade do século XVI
repercutiu-se na estrutura religiosa. Surgiram novas paróquias em toda a ilha.
Na capitania de Machico temos a criação de várias na vertente norte [ Ponta
Delgada (1520), S. Jorge (1517), Seixal (1553) ] o que demonstra o rápido avanço
na fixação de colonos na vertente norte apenas no século XVI.

ASSIMETRIAS DO PROCESSO ECONÓMICO. A divisão do arquipélago não


implicou o desenvolvimento de três pólos de desenvolvimento, tendo por
centro a sede das capitanias. As contingências do processo histórico levaram a
que se estabelecesse apenas um único centro donde divergia tudo. O Funchal, à
partida, tinha condições limitadas de desenvolvimento não fosse o empenho de
João Gonçalves Zarco. A Baia era desprotegia e o serviço à navegação mau.
Mesmo assim acabou por assumir um protagonismo evidente.

A partir da segunda metade do século XV é evidente a dominância do Funchal,


no quadro político social e económico do arquipélago, criando-se as condições
para ser a sede administrativa do arquipélago, como a categoria de cidade
(1508) e bispado (1514). O próprio D. Manuel apostou-se nisso ao doar em 1485
parte dos seus terrenos para a construção da igreja (hoje Sé), paços do concelho
e alfândega (hoje Assembleia Legislativa Regional). A afirmação do Funchal fez
com que se transformasse rapidamente num pólo de atracção de gentes de
todas as freguesias, como se poderá verificar já no século XVI quando se analisa
a origem geográfica dos nubentes.

Tudo se conjugou para esta afirmação do Funchal. Assim a maior concentração


populacional era no litoral, sendo dominada por alguns pólos, de que o Funchal
foi sempre o principal. A par disso o Funchal assumiu, desde o início, o papel
de principal porta de entrada e saída do arquipélago. Daí resultou a forte
presença de barqueiros (82%) e mareantes(98%), o quer dizer que quase todo o
serviço de cabotagem se situava no Funchal. O Funchal recebia o açúcar trazido
dos lugares de baixo, como Câmara de Lobos, Calheta e ribeira Brava, e
devolvia cereais e manufacturas de importação.

O processo de transformação dos produtos acontecia no meio rural, chegando


ao Funchal apenas o produto acabado. Deste modo em torno das diversas áreas
de produção criaram-se diversas infra-estruturas transformadoras e aumentou
a população de oficiais mecânicos. O Funchal estava reservado para espaço de
troca e venda do produto. De acordo com Gaspar Frutuoso, que escreve em
finais do século XVI, toda a actividade comercial estava concentrada em apenas
três ruas: a rua direita dos mercadores, a rua do Poço novo e a rua do Sabão. A
cada uma estavam atribuídas funções distintas. Na primeira concentravam-se
os mercadores do grande trato internacional. Na segunda os outros de menor
trato e ocupados com a venda dos importados. E, finalmente na última
tínhamos as lojas e os granéis do cereal.

A macrocefalia da cidade do Funchal foi uma conquista pessoal de João


Gonçalves Zarco, acarinhada por D. Manuel e consolidada pelo rápido
crescimento do burgo.
3. PRODUTOS

A ocupação de um novo espaço obedece a determinados requisitos. Primeiro


deve propiciar condições para que sejam garantidas as condições de
sobrevivência das populações. Assim para além da disponibilidade de água
deveriam apresentar um solo adequado ao cultivo dos produtos básicos da
subsistência, que no caso dos europeus do século XV assentava nos cereais e na
vinha. Estas exigências são mais importantes quando se fala de ilhas isoladas no
solo, onde as condições de acesso a outros espaços estão muito condicionadas
por força do nível de desenvolvimento da navegação à vela. Nos primórdios da
ocupação da ilha dizia-se que a ilha permanecia isolada cerca de seis meses.

A precariedade da economia madeirense não deriva apenas da posição de


dependente em relação ao velho continente, que consumia os seus produtos e a
abastecia do que necessitava, mas também das diminutas possibilidades de
usufruto dos 741 Km2 de superfície da ilha.

os cereais. No princípio da ocupação as necessidades da alimentação e ritual


cristão comandaram a selecção das sementes que acompanharam os primeiros
povoadores. Assim, o cereal acompanhou os primeiros cavalos de cepas
peninsulares no processo de transmigração dos europeus. A fertilidade do solo,
pelo estado virgem das terras e das cinzas fertilizadoras resultantes das
queimadas, fizeram elevar a produção a níveis inatingíveis, criando excedentes
que supriram as necessidades de mercados carentes, como foi o caso de Lisboa
e praças do norte de África. Segundo alguns autores eles foram a base do
processo de povoamento da Madeira, uma vez goradas as iniciativas de
penetração no comércio do produto no norte de África.

Até a década de setenta do século XV a Madeira firmou a posição de celeiro


atlântico, perdendo-a, depois em favor dos Açores, que emergem desde então,
com uma posição dominante na política e economia cerealífera do Atlântico. Na
Madeira inverteu-se a situação, passando a ilha de área de produção
excedentária a uma posição de dependência em relação ao celeiro açoriano,
canário e europeu. O estabelecimento de uma rota obrigatória, a partir do
fornecimento de cereal açoriano à Madeira, criou condições para a afirmação da
cultura da cana sacarina, produto tão insistentemente solicitado no mercado
europeu. O empenho do senhorio da ilha (até 1495) e da coroa no novo produto
conduziu a afirmação preferencial de uma nova vertente da economia atlântico-
insular. A partir de então os interesses mercantis passaram a dominar a
agricultura madeirense. As searas deram lugar aos canaviais, mantendo-se as
vinhas numa posição de destaque.

As primeiras dificuldades com a cultura dos cereais começaram a surgir na


década de 60 e agravaram-se na seguinte por força do avanço da cultura
açucareira e da grande demanda que o produto tinha no mercado europeu. Por
isso, desde 1466 a ilha passou a ter necessidade de importar cereais para poder
assegurar a subsistência das populações residentes. Para além da afirmação da
cultura sacarina devemos considerar também o desgaste dos solos, agravado
por uma exploração intensiva do cultivo dos cereais. Segundo Cadamosto, a
ilha que no início a relação da produção era de 1:60 passou em meados da
centúria quatrocentista para 1:30.

a cana-de-açúcar.O cultivo da cana sacarina aconteceu a partir de 1425. As


primeiras mudas de cana foram plantadas no campo do Duque, actual espaço
do adro da Sé e Avenida Arriaga, sendo o primeiro açúcar fabricado na vila de
Machico. A cana sacarina, usufruindo do apoio e protecção do senhorio e coroa,
conquistou o espaço ocupado pelas searas, atingindo todo o solo arável da ilha,
que pode ser definido em duas áreas: a vertente meridional (de Machico à
Calheta), com um clima quente e abrigada dos alísios, onde os canaviais
atingem 400 m de altitude, dominado pelas plantações da capitania de Machico
(Porto da Cruz e Faial até Santana), solo em que as condições mesológicas não
permitem a sua cultura além dos 200 metros numa produção idêntica à
primeira área.
A capitania do Funchal agregava no seu perímetro as melhores terras para a
cultura da cana-de-açúcar, ocupando a quase totalidade do espaço da vertente
meridional. À de Machico restava apenas uma ínfima parcela área e todo um
vasto espaço acidentado impróprio para a cultura. O quadro da produção
confirma esta disparidade. Em 1494, do açúcar produzido na ilha apenas 20% é
proveniente da capitania de Machico e o sobrante da capitania do Funchal. Em
1520 a primeira atinge 25% e a segunda os 75%.

Na capitania do Funchal os canaviais distribuíam-se de modo irregular, de


acordo com as condições mesológicas da área. Assim, em 1494 a maior safra
situava-se nas partes de fundo, englobando as comarcas da Ribeira Brava, Ponta
de Sol e Calheta com 64%, enquanto o Funchal e Câmara de Lobos tinham
apenas 16%. Em 1520, não obstante uma ligeira alteração, a diferença mantém-
se, pois a primeira surge com 50%, e a segunda apresenta 25%, valor idêntico ao
total da capitania de Machico, com 25%. Uma análise em separado das diversas
comarcas da capitania do Funchal, na mesma data, evidencia a importância do
Funchal em 33%, seguindo-se a Calheta com 27%. As da Ribeira Brava e Ponta
de Sol surgem numa posição secundária com 20% cada.

A fase ascendente da produção açucareira situa-se entre 1450 e 1506, sendo


marcada por um crescimento acelerado que, entre 1454-1472, se situava na
ordem dos 240% e no período subsequente até 1493 em 1430%, isto é uma
média anual de 13% no primeiro caso e de 68% no segundo. No período
seguinte após o colapso de 1497-1499 a recuperação é rápida de tal modo que
em 1500-1501 o aumento é de 110% e entre 1502-1503 de 205%.
A forte aceleração do ritmo de crescimento nos primeiros anos do século XVI irá
marcar o máximo, atingindo em 1506, bem como o rápido declínio nos anos
imediatos. Note-se que apenas em quatro anos atinge-se valor inferior ao do
início do século. A situação agrava-se nas duas centúrias seguintes, baixando a
produção na capitania de Funchal, entre 1516-1537, em 60%. Na capitania de
Machico a quebra é lenta, sendo sinónimo do depauperamento do solo e da
crescente desafeição do mesmo à cultura. A partir de 1521 a tendência
descendente é global e marcante, de modo que a produção do fim do primeiro
quartel do século situava-se a um nível pouco superior ao registado em 1470.
Na década de trinta consumava-se em pleno a crise da economia açucareira e o
ilhéu viu-se aos poucos na necessidade de abandonar os canaviais e de os
substituir pelos vinhedos.

A historiografia tem apresentado múltiplas explicações para esta crise assentes


fundamentalmente na actuação de factores externos. A concorrência do açúcar
das restantes áreas produtoras do Atlântico, bem como a peste (em 1526) e a
falta de mão-de-obra apenas vieram agravar a situação de queda. A tudo isto
acresce em finais do século os efeitos do bicho sobre os canaviais, como é
testemunhado para os anos de 1593 e 1602. Deste modo o último quartel do
século foi o momento de viragem para culturas de maior rendibilidade, como a
vinha. Assim, em 1571 Jorge Vaz, de Câmara de Lobos, declara em testamento
um chão que “sempre andou de canas e agora mando que se ponha de mallvazia para
dar mais proveito...”.

ACTIVIDADES AGRO-INDUSTRIAIS

As actividades agrícolas obrigaram à definição de um conjunto de infra-


estruturas transformadoras dos produtos. O cereal define-se pela eira, moinho e
forno, o açúcar pelo engenho e o vinho pelo lagar e loja.
Na Madeira, um dos aspectos mais evidente, da revolução tecnológica iniciada
no século XV prende-se com a capacidade do europeu em adaptar as técnicas
de transformação conhecidas a circunstâncias e às exigências de culturas e
produtos tão exigentes como a cana e o açúcar. O tributo foi evidente. Ao vinho
foi-se buscar a prensa, ao azeite e aos cereais a mó de pedra. Por outro lado
estamos perante uma permuta constante de processos tecnológicos e formas de
aproveitamento das diversas fontes de energia. A tracção animal, a força motriz
do vento e da água foram usadas em simultâneo com os cereais e cana sacarina.
Por vezes a mesma estrutura assume uma dupla função. Sucedeu assim na
Madeira, com o engenho da Ribeira Brava, hoje Museu Etnográfico, onde a
estrutura de aproveitamento da força motriz da água servia um engenho de
cana e um moinho de cereais.

OS CEREAIS
A produção de cereais obrigava à existência de um conjunto de infra-estruturas
de transformação do grão para uso na alimentação. Para se separar o grão da
palha utilizava-se o sistema comum do reino, nomeadamente dos Trás-os-
Montes e beira Transmontana, isto é o malho ou mangual, o trilho, ou até
mesmo os pés. O primeiro generalizou-se na Madeira, enquanto o segundo
ficou para o Porto santo, as dimensões das áreas disponíveis definiram esta
diferente forma de separação do trigo da palha. Para isso foi necessário
construir eiras, de terra batida ou com laje de pedra, de que ainda temos
vestígios de algumas no Porto Santo. A partir do momento que se dispõe do
grão entra-se na segunda fase do processo com a sua transformação em farinha,
socorrendo-se para isso de mecanismos movidos pela força braçal do homem,
dos animais, da água e vento. Os últimos só existiram no Porto Santo, enquanto
na Madeira generalizou-se, por força da abundância de água, os moinhos ou
azenhas movidos a água. Mesmo assim registam-se atafonas, como aquela que
existiu no recinto interno do Palácio de S. Lourenço, referida em finais do
século XVI por Gaspar Frutuoso.

No começo estas estruturas eram propriedade dos capitães, estando vedado a


todos os madeirenses a construção. Todos deveriam utilizar os moinhos ou
azenhas do senhor, pagando uma maquia por cada alqueire de cereal moído.
Ao nível caseiro estava permitido o uso do moinho de mão em pedra para
triturar(estraçoar) o cereal ou a pia de pilar trigo. Também o fabrico de pão
estava condicionado aos direitos e regalias do capitão que tinha o privilégio de
possuir fornos, onde todos deveriam cozer o seu pão, pagando uma poia (isto é
um pão alto ou bolo grande) por fornada. A partir de 1461 foi permitido ter em
casa a fornalha com capacidade apenas para um alqueire de pão.

A partir do século XV, com as viagens de descobrimento, surgiu uma nova


necessidade de abastecimento das tripulações em biscoito. Para isso criou-se a
primeira indústria de fabrico de biscoito em Lisboa e no Algarve. Igualmente
nos novos espaços de ocupação, que exerceram o papel de escala de navegação
houve necessidade de desenvolver esta indústria. O Funchal, que foi no século
XV um espaço privilegiado de apoio à navegação na costa africana, sentiu a
necessidade de desenvolver esta indústria.

O ENGENHO E O AÇúCAR

A moenda da cana no engenho inicia o processo de fabrico do açúcar. As mós e


os cilindros esmagam a cana e depois a prensa espreme o bagaço de modo a
retirar-se a garapa que depois será cozida. O fabrico do mel resume-se a
uma simples cozedura, mas o fabrico de açúcar implica um processo
moroso de purga e clarificação. A principal questão que se coloca é a de
saber donde conseguiram os madeirenses a tecnologia necessária para
fabrico do açúcar.
A casa das caldeiras assinala também uma importante evolução. Assim de
apenas uma caldeira evoluiu-se para quatro caldeiras ou taxas, o que fazia
acelerar o processo de cozimento da calda até ser depositada nas formas. O
melaço endurecido e frio depositado nas formas era transportado para a casa de
purgar onde repousava em andaimes. Aí acontece o moroso processo de
evaporação, depuração do melaço que termina com os pães de açúcar branco.
No inventário do engenho de António Teixeira em 1535 dá-se conta de 2
caldeiras de cobre, uma tacha grande e uma de receber. A tudo isto juntava-se
um conjunto variado de apetrechos como coadura, escumadeira, repartideira,
batedeira, raminhões.

A moenda e o consequente processo de transformação da garapa em açúcar,


mel, álcool ou aguardente projectaram as áreas produtoras de canaviais para a
linha da frente das inovações técnicas, no sentido de corresponderem às cada
vez maiores exigências. A madeira e o metal foram a matéria-prima que deram
forma a capacidade inventiva dos senhores de canaviais e engenhos. Na
moenda da cana utilizaram-se vários meios técnicos comuns ao mundo
mediterrânico. A disponibilidade de recursos hídricos conduziu à generalização
do engenho de água. Na Madeira, o primeiro particular que temos
conhecimento foi o de Diogo de Teive em 1452. E este terá sido o primeiro
engenho que se veio juntar ao lagar do infante. O infante, donatário da ilha,
detinha a o exclusivo destas infra-estruturas e quem quisessem segui-lo deveria
ter autorização sua. Este documento espelha apenas a situação. A estrutura
resultou apenas nas áreas onde era possível dispor da força motriz da água fez-
se uso da força animal ou humana. Os últimos eram conhecidos como trapiches
ou almanjaras.

Segundo alguns autores a inovação do engenho de cilindros teria começado na


Madeira com o invento de Diogo de Teive, patenteado em 1452. Outros
apontam para a origem chinesa. A primeira referência aos eixos para o engenho
datam já do último quartel do século XV. Entretanto em 1477 Álvaro Lopes tem
autorização do capitão do Funchal para que "faça hum enjenho de fazer açúcar que
seja de moo ou d'alçapremas, ou doutra arte...o qual enjenho será d'augoa com sua casa
e casa de caldeiras...". Depois, em 1485, D. Manuel isentava da dizima "quaesquer
teyxos que forem necesarios para eyxos esteos cassas latadas dos enjenhos e tapumes...".
Em 1505 Valentim Fernandes refere que o pau branco era usado no fabrico de
"eixos e prafusos pera os enjenhos de açúcar".

O LAGAR E O VINHO

A presença do lagar não foi sempre sinónimo de vinhas, pois nem todos os
viticultores tinham meios para o dispor, sujeitando-se a maior parte, como era o
caso dos caseiros ao lagar do senhor ou de outrem. Em 1728 o lagar de pedra de
Manuel de Abreu na Tabua é avaliado em 4$000 réis e servia um vinhedo de
3.444 parreiras. Já em 1742 João Lopes do Monte do Estreito de Câmara de
Lobos apresenta uma casa e lagar no valor de 10.000 réis para uma extensão de
20.140 parreiras. Os custos de construção da infra-estrutura eram elevados,
sendo em muitos casos mais um encargo a que estava sujeito o colono. O preço
do lagar variava consoante fosse construído em madeira ou escavado na rocha,
acrescentando-se, ainda, a cobertura. Quanto às diversas partes do lagar
sabemos em 1767 do valor das do lagar de Paula de Aguiar na Tábua. Dos
28.9000 réis de despesa o senhorio contribuiu com 10.000 réis para o fuso, pedra
e paredes:

O lagar é hoje uma peça de museu, tendo sido substituído pela moderna
tecnologia, mas noutros tempos foi um instrumento imprescindível ao fabrico
do vinho. Na Madeira está documentada a presença de dois tipos: lagariças de
pedra, com o cocho escavado na rocha dispondo de vara e fuso em madeira para
exercer pressão sobre o bagaço; lagares de madeira, que podiam ser escavados
num tronco formando um cocho ou de traves de madeira calafetada.

A tradição de uso da pedra e madeira na construção dos lagares foi trazida do


continente português onde ainda existem testemunhos de épocas anteriores ao
século XV. Na Madeira persistiram até a actualidade alguns lagares de madeira
ou pedra. Dos construídos em pedra temos notícia de vestígios no Curral das
Freiras, Arco da Calheta, Ponta do Pargo e S. Vicente, na chamada lapa do
Chiapa. Para os de madeira persistem vários exemplares na Madeira e Porto
Santo, propriedade de particulares, museus e empresas do sector. O de cocho
poderá ser encontrado no Campo de Baixo no Porto Santo e no Museu da Ribeira
Brava, quanto ao de caixa temos exemplares nos Museus do IVM e da Madeira
Wine Company.

ESTRUTURA DO SECTOR PRODUTIVO

A ocupação de um novo espaço obedece a determinados requisitos. Primeiro


deve propiciar condições para que sejam garantidas as condições de
sobrevivência das populações. Assim para além da disponibilidade de água
deveriam apresentar um solo adequado ao cultivo dos produtos básicos da
subsistência, que no caso dos europeus do século XV assentava nos cereais e na
vinha. Estas exigências são mais importantes quando se fala de ilhas isoladas no
solo, onde as condições de acesso a outros espaços estão muito condicionadas
por força do nível de desenvolvimento da navegação à vela. Nos primórdios da
ocupação da ilha dizia-se que a ilha permanecia isolada cerca de seis meses.

A precariedade da economia madeirense não deriva apenas da posição de


dependente em relação ao velho continente, que consumia os seus produtos e a
abastecia do que necessitava, mas também das diminutas possibilidades de
usufruto dos 741 Km2 de superfície da ilha.

O SECTOR PRODUTIVO: os cereais

No princípio da ocupação as necessidades da alimentação e ritual cristão


comandaram a selecção das sementes que acompanharam os primeiros
povoadores. Assim, o cereal acompanhou os primeiros cavalos de cepas
peninsulares no processo de transmigração dos europeus. A fertilidade do solo,
pelo estado virgem das terras e das cinzas fertilizadoras resultantes das
queimadas, fizeram elevar a produção a níveis inatingíveis, criando excedentes
que supriram as necessidades de mercados carentes, como foi o caso de Lisboa
e praças do norte de África. Segundo alguns autores eles foram a base do
processo de povoamento da Madeira, uma vez goradas as iniciativas de
penetração no comércio do produto no norte de África.

Até a década de setenta do século XV a Madeira firmou a posição de celeiro


atlântico, perdendo-a, depois em favor dos Açores, que emergem desde então,
com uma posição dominante na política e economia cerealífera do Atlântico. Na
Madeira inverteu-se a situação, passando a ilha de área de produção
excedentária a uma posição de dependência em relação ao celeiro açoriano,
canário e europeu. O estabelecimento de uma rota obrigatória, a partir do
fornecimento de cereal açoriano à Madeira, criou condições para a afirmação da
cultura da cana sacarina, produto tão insistentemente solicitado no mercado
europeu. O empenho do senhorio da ilha (até 1495) e da coroa no novo produto
conduziu a afirmação preferencial de uma nova vertente da economia atlântico-
insular. A partir de então os interesses mercantis passaram a dominar a
agricultura madeirense. As searas deram lugar aos canaviais, mantendo-se as
vinhas numa posição de destaque.

As primeiras dificuldades com a cultura dos cereais começaram a surgir na


década de 60 e agravaram-se na seguinte por força do avanço da cultura
açucareira e da grande demanda que o produto tinha no mercado europeu. Por
isso, desde 1466 a ilha passou a ter necessidade de importar cereais para poder
assegurar a subsistência das populações residentes. Para além da afirmação da
cultura sacarina devemos considerar também o desgaste dos solos, agravado
por uma exploração intensiva do cultivo dos cereais. Segundo Cadamosto, a
ilha que no início a relação da produção era de 1:60 passou em meados da
centúria quatrocentista para 1:30.

O SECTOR PRODUTIVO: a cana-de-açúcar

O cultivo da cana sacarina aconteceu a partir de 1425. As primeiras mudas de


cana foram plantadas no campo do Duque, actual espaço do adro da Sé e
Avenida Arriaga, sendo o primeiro açúcar fabricado na vila de Machico. A cana
sacarina, usufruindo do apoio e protecção do senhorio e coroa, conquistou o
espaço ocupado pelas searas, atingindo todo o solo arável da ilha, que pode ser
definido em duas áreas: a vertente meridional (de Machico à Calheta), com um
clima quente e abrigada dos alísios, onde os canaviais atingem 400 m de
altitude, dominado pelas plantações da capitania de Machico (Porto da Cruz e
Faial até Santana), solo em que as condições mesológicas não permitem a sua
cultura além dos 200 metros numa produção idêntica à primeira área.
A capitania do Funchal agregava no seu perímetro as melhores terras para a
cultura da cana-de-açúcar, ocupando a quase totalidade do espaço da vertente
meridional. À de Machico restava apenas uma ínfima parcela área e todo um
vasto espaço acidentado impróprio para a cultura. O quadro da produção
confirma esta disparidade. Em 1494, do açúcar produzido na ilha apenas 20% é
proveniente da capitania de Machico e o sobrante da capitania do Funchal. Em
1520 a primeira atinge 25% e a segunda os 75%.

Na capitania do Funchal os canaviais distribuíam-se de modo irregular, de


acordo com as condições mesológicas da área. Assim, em 1494 a maior safra
situava-se nas partes de fundo, englobando as comarcas da Ribeira Brava, Ponta
de Sol e Calheta com 64%, enquanto o Funchal e Câmara de Lobos tinham
apenas 16%. Em 1520, não obstante uma ligeira alteração, a diferença mantém-
se, pois a primeira surge com 50%, e a segunda apresenta 25%, valor idêntico ao
total da capitania de Machico, com 25%. Uma análise em separado das diversas
comarcas da capitania do Funchal, na mesma data, evidencia a importância do
Funchal em 33%, seguindo-se a Calheta com 27%. As da Ribeira Brava e Ponta
de Sol surgem numa posição secundária com 20% cada.

A fase ascendente da produção açucareira situa-se entre 1450 e 1506, sendo


marcada por um crescimento acelerado que, entre 1454-1472, se situava na
ordem dos 240% e no período subsequente até 1493 em 1430%, isto é uma
média anual de 13% no primeiro caso e de 68% no segundo. No período
seguinte após o colapso de 1497-1499 a recuperação é rápida de tal modo que
em 1500-1501 o aumento é de 110% e entre 1502-1503 de 205%.
A forte aceleração do ritmo de crescimento nos primeiros anos do século XVI irá
marcar o máximo, atingindo em 1506, bem como o rápido declínio nos anos
imediatos. Note-se que apenas em quatro anos atinge-se valor inferior ao do
início do século. A situação agrava-se nas duas centúrias seguintes, baixando a
produção na capitania de Funchal, entre 1516-1537, em 60%. Na capitania de
Machico a quebra é lenta, sendo sinónimo do depauperamento do solo e da
crescente desafeição do mesmo à cultura. A partir de 1521 a tendência
descendente é global e marcante, de modo que a produção do fim do primeiro
quartel do século situava-se a um nível pouco superior ao registado em 1470.
Na década de trinta consumava-se em pleno a crise da economia açucareira e o
ilhéu viu-se aos poucos na necessidade de abandonar os canaviais e de os
substituir pelos vinhedos.
A historiografia tem apresentado múltiplas explicações para esta crise assentes
fundamentalmente na actuação de factores externos. A concorrência do açúcar
das restantes áreas produtoras do Atlântico, bem como a peste (em 1526) e a
falta de mão-de-obra apenas vieram agravar a situação de queda. A tudo isto
acresce em finais do século os efeitos do bicho sobre os canaviais, como é
testemunhado para os anos de 1593 e 1602. Deste modo o último quartel do
século foi o momento de viragem para culturas de maior rendibilidade, como a
vinha. Assim, em 1571 Jorge Vaz, de Câmara de Lobos, declara em testamento
um chão que “sempre andou de canas e agora mando que se ponha de mallvazia para
dar mais proveito...”.

Infra-estruturas produtivas: os poios

No século XV a ilha da Madeira oferecia aos povoadores poucas superfícies


naturais que oferecessem condições para o cultivo da terra. A formação quase
piramidal da ilha fazia com que as poucas áreas apropriadas ao cultivo da terra
estivessem nas bacias das ribeiras. Eram terras de aluvião e, por isso mesmo,
férteis para o plantio de qualquer cultura e foi a partir daí que se iniciou o
povoamento e ocupação do solo para as tarefas agrícolas. O maior espanto dos
portugueses foi esta fertilidade da terra quanto à produção de cereais, que em
Portugal se cifrava em valores de 1 semente para 13, em algumas regiões, aqui
atingia as sessenta.

Sucede que as áreas de aluvião eram limitadas tornando-se necessário


conquistar mais terra à encosta, servindo-se os colonos para isso do sistema que
havia aprendido nas regiões do Norte de Portugal, através da construção de
paredes de pedra que funcionavam em simultâneo como forma de retenção das
terras para o cultivo e de controlo dos deslizamentos da terra, tendo em conta a
instabilidade dos solos gerada pelo desmatamento.

Nos séculos XV e XVI a tarefa de construção dos poios foi da responsabilidade


do dono da terra, que para isso se socorreram da mão-de-obra assalariada e da
força dos escravos africanos. Foram eles os primeiros cabouqueiros da ilha que
construíram os poios onde se lançaram as primeiras sementes de cereal. Já, a
partir da segunda metade do século XVI, a mudança da estrutura fundiária,
com o aparecimento do contracto de colónia, conduziu a que fosse uma
obrigação do colono que recebia a terra.

Infra-estruturas produtivas: as levadas

A construção dos poios para retenção da terra foi a primeira obra de engenharia
dos portugueses na ilha. Mas, a partir de 1425, altura em que surgiu a cultura
da cana sacarina, houve necessidade de criar um conjunto de infra-estruturas
que propiciassem o regadio, de forma a cultura poder expandir-se por toda a
vertente sul. Na Europa conheciam-se diversas técnicas de regadio, sendo a
mais famosa a dos árabes, que assentava num complicado mecanismo de
elevação da água até aos locais de plantio. Mas no Norte de Portugal o sistema
usado era distinto e consistia no aproveitamento da força da gravidade para a
condução e desvio da água do curso natural para poder irrigar as terras fora do
seu alcance e de forma a poder usar-se a força motriz para mover algumas
infra-estruturas transformadoras, como os moinhos de água.

Uma das tarefas dos primeiros colonos foi a construção de levadas. As levadas
assumiram um papel fundamental na vida das populações. Foi em torno do
percurso por entre as montanhas e áreas de cultura, assentou o seu quotidiano.
As levadas são vias de condução da água, mas também caminhos de acesso as
espaços agrícolas e habitação e, por consequência, vias privilegiadas de
circulação dos produtos da terra.

O sistema de regadio na Madeira foi delineado desde o século XV por


imposição e financiamento dos intervenientes e lucros da cultura do açúcar. Os
canaviais assim o exigiam e a moenda da cana ficaria facilitada com o uso da
sua força motriz. A orografia da ilha permitiu tirar partido deste conjunto de
condições. O investimento do Estado no sistema de regadio, através da
construção de levadas, é apenas uma realidade do século XIX. Não obstante
existir uma opinião de que a água deveria ser estatizada, a sua presença
continuou a ser muito precária. Deste modo em finais do século XIX a presença
do Estado significava apenas 15% da água de regadio, dispondo apenas de
cinco levadas num total de quatrocentas.

Águas e nascentes foram consideradas como domínio público. Assim, o


entendia D. João I no capítulo de um regimento dado a João Gonçalves Zarco
onde considerava nesta situação as "fontes, tornos e olhos daugua... prayas e costas
do mar, rios e ribeyras". Em 1461 coloca-se a primeira dificuldade nesta repartição
das águas, no que o Duque responde que, o almoxarife mais dois homens
ajuramentados, repartam "as auguas a cada hum pera seus açuquares e logares
segumdo cada hum mereçeer". Mesmo assim, continuaram as demandas sobre as
águas pelo que em 1466 o duque decidiu mandar à ilha, Dinis Anes de Sá, seu
ouvidor, com intuito de resolver esta e outras questões.

Com D. João II ficaram definidos os direitos sobre a água que perduraram até
ao século XIX. Por cartas de 7 e 8 de Maio ficou estabelecido, de uma vez por
todas que as águas eram património comum, sendo distribuídas pelo capitão e
oficiais da câmara, entre todos os proprietários, pois que "sem as aguas as terras
se não podiam aproveitar". A partir daqui ficou estabelecido que a água era
propriedade pública, sendo o usufruto daqueles que possuíssem terras e delas
necessitassem. Todavia, desde finais do século quinze, a água passou a ser
negociada, a exemplo do que sucedia com a terra. É com o regimento de D.
Sebastião, em 1562, que se procede a uma alteração no sistema primitivo. As
águas podem ser vendidas ou arrendadas, o que permitiu que aumentasse o
fosso entre a propriedade da terra e da água.

Em 1496 parece que estava delineado o sistema de regadio pelo que na Ribeira
de Santa Luzia não se permitia mais a abertura de novas levadas ou a tiragem
da água, acima das já existentes. Esta situação resulta da pretensão de alguns
heréus de um destas quererem tirá-la mais acima das já existentes no sentido de
aproveitar terras acabadas de arrotear. A coroa insiste na proibição de construir
nova levada em cota superior, punindo os infractores com pesadas penas. Na
verdade, segundo Gaspar Frutuoso, a Ribeira de Santa Luzia servia várias
levadas, sendo uma delas para os cinco moinhos do capitão e um engenho de
açúcar. Mas, o Funchal ficou servido, ainda, por outras como a dos Piornais, do
Pico do Cardo e Castelejo. É de salientar que esta água das levadas tinha um
elevado aproveitamento, pois, para além do uso industrial e do regadio, era
canalizada para o consumo das casas e limpeza das ruas da cidade. Os poços
existiam um pouco por toda a cidade, mas não eram suficientes para as suas
necessidades.

A tradição de traçar levadas fez com que os madeirenses se tivessem


transformado em exímios construtores, levando a tecnologia para todo o lado
onde se fixaram. A perícia e engenho dos madeirenses na construção de levadas
estão evidenciadas na reclamação de Afonso de Albuquerque para que o rei lhe
mandasse madeirenses "que cortavam as serras para fazerem levadas, com que se
regam as canas de açúcar", de forma a poder desviar o curso do rio Nilo e acordo
com as orientações económicas do plano imperial.

ACTIVIDADES AGRO-INDUSTRIAIS

As actividades agrícolas obrigaram à definição de um conjunto de infra-


estruturas transformadoras dos produtos. O cereal define-se pela eira, moinho e
forno, o açúcar pelo engenho e o vinho pelo lagar e loja.
Na Madeira, um dos aspectos mais evidente, da revolução tecnológica iniciada
no século XV prende-se com a capacidade do europeu em adaptar as técnicas
de transformação conhecidas a circunstâncias e às exigências de culturas e
produtos tão exigentes como a cana e o açúcar. O tributo foi evidente. Ao vinho
foi-se buscar a prensa, ao azeite e aos cereais a mó de pedra. Por outro lado
estamos perante uma permuta constante de processos tecnológicos e formas de
aproveitamento das diversas fontes de energia. A tracção animal, a força motriz
do vento e da água foram usadas em simultâneo com os cereais e cana sacarina.
Por vezes a mesma estrutura assume uma dupla função. Sucedeu assim na
Madeira, com o engenho da Ribeira Brava, hoje Museu Etnográfico, onde a
estrutura de aproveitamento da força motriz da água servia um engenho de
cana e um moinho de cereais.

OS CEREAIS
A produção de cereais obrigava à existência de um conjunto de infra-estruturas
de transformação do grão para uso na alimentação. Para se separar o grão da
palha utilizava-se o sistema comum do reino, nomeadamente dos Trás-os-
Montes e beira Transmontana, isto é o malho ou mangual, o trilho, ou até
mesmo os pés. O primeiro generalizou-se na Madeira, enquanto o segundo
ficou para o Porto santo, as dimensões das áreas disponíveis definiram esta
diferente forma de separação do trigo da palha. Para isso foi necessário
construir eiras, de terra batida ou com laje de pedra, de que ainda temos
vestígios de algumas no Porto Santo. A partir do momento que se dispõe do
grão entra-se na segunda fase do processo com a sua transformação em farinha,
socorrendo-se para isso de mecanismos movidos pela força braçal do homem,
dos animais, da água e vento. Os últimos só existiram no Porto Santo, enquanto
na Madeira generalizou-se, por força da abundância de água, os moinhos ou
azenhas movidos a água. Mesmo assim registam-se atafonas, como aquela que
existiu no recinto interno do Palácio de S. Lourenço, referida em finais do
século XVI por Gaspar Frutuoso.

No começo estas estruturas eram propriedade dos capitães, estando vedado a


todos os madeirenses a construção. Todos deveriam utilizar os moinhos ou
azenhas do senhor, pagando uma maquia por cada alqueire de cereal moído.
Ao nível caseiro estava permitido o uso do moinho de mão em pedra para
triturar(estraçoar) o cereal ou a pia de pilar trigo. Também o fabrico de pão
estava condicionado aos direitos e regalias do capitão que tinha o privilégio de
possuir fornos, onde todos deveriam cozer o seu pão, pagando uma poia (isto é
um pão alto ou bolo grande) por fornada. A partir de 1461 foi permitido ter em
casa a fornalha com capacidade apenas para um alqueire de pão.

A partir do século XV, com as viagens de descobrimento, surgiu uma nova


necessidade de abastecimento das tripulações em biscoito. Para isso criou-se a
primeira indústria de fabrico de biscoito em Lisboa e no Algarve. Igualmente
nos novos espaços de ocupação, que exerceram o papel de escala de navegação
houve necessidade de desenvolver esta indústria. O Funchal, que foi no século
XV um espaço privilegiado de apoio à navegação na costa africana, sentiu a
necessidade de desenvolver esta indústria.

O ENGENHO E O AÇúCAR
A moenda da cana no engenho inicia o processo de fabrico do açúcar. As mós e
os cilindros esmagam a cana e depois a prensa espreme o bagaço de modo a
retirar-se a garapa que depois será cozida. O fabrico do mel resume-se a
uma simples cozedura, mas o fabrico de açúcar implica um processo
moroso de purga e clarificação. A principal questão que se coloca é a de
saber donde conseguiram os madeirenses a tecnologia necessária para
fabrico do açúcar.

A casa das caldeiras assinala também uma importante evolução. Assim de


apenas uma caldeira evoluiu-se para quatro caldeiras ou taxas, o que fazia
acelerar o processo de cozimento da calda até ser depositada nas formas. O
melaço endurecido e frio depositado nas formas era transportado para a casa de
purgar onde repousava em andaimes. Aí acontece o moroso processo de
evaporação, depuração do melaço que termina com os pães de açúcar branco.
No inventário do engenho de António Teixeira em 1535 dá-se conta de 2
caldeiras de cobre, uma tacha grande e uma de receber. A tudo isto juntava-se
um conjunto variado de apetrechos como coadura, escumadeira, repartideira,
batedeira, raminhões.

A moenda e o consequente processo de transformação da garapa em açúcar,


mel, álcool ou aguardente projectaram as áreas produtoras de canaviais para a
linha da frente das inovações técnicas, no sentido de corresponderem às cada
vez maiores exigências. A madeira e o metal foram a matéria-prima que deram
forma a capacidade inventiva dos senhores de canaviais e engenhos. Na
moenda da cana utilizaram-se vários meios técnicos comuns ao mundo
mediterrânico. A disponibilidade de recursos hídricos conduziu à generalização
do engenho de água. Na Madeira, o primeiro particular que temos
conhecimento foi o de Diogo de Teive em 1452. E este terá sido o primeiro
engenho que se veio juntar ao lagar do infante. O infante, donatário da ilha,
detinha a o exclusivo destas infra-estruturas e quem quisessem segui-lo deveria
ter autorização sua. Este documento espelha apenas a situação. A estrutura
resultou apenas nas áreas onde era possível dispor da força motriz da água fez-
se uso da força animal ou humana. Os últimos eram conhecidos como trapiches
ou almanjaras.

Segundo alguns autores a inovação do engenho de cilindros teria começado na


Madeira com o invento de Diogo de Teive, patenteado em 1452. Outros
apontam para a origem chinesa. A primeira referência aos eixos para o engenho
datam já do último quartel do século XV. Entretanto em 1477 Álvaro Lopes tem
autorização do capitão do Funchal para que "faça hum enjenho de fazer açúcar que
seja de moo ou d'alçapremas, ou doutra arte...o qual enjenho será d'augoa com sua casa
e casa de caldeiras...". Depois, em 1485, D. Manuel isentava da dizima "quaesquer
teyxos que forem necesarios para eyxos esteos cassas latadas dos enjenhos e tapumes...".
Em 1505 Valentim Fernandes refere que o pau branco era usado no fabrico de
"eixos e prafusos pera os enjenhos de açúcar".
O LAGAR E O VINHO

A presença do lagar não foi sempre sinónimo de vinhas, pois nem todos os
viticultores tinham meios para o dispor, sujeitando-se a maior parte, como era o
caso dos caseiros ao lagar do senhor ou de outrem. Em 1728 o lagar de pedra de
Manuel de Abreu na Tabua é avaliado em 4$000 réis e servia um vinhedo de
3.444 parreiras. Já em 1742 João Lopes do Monte do Estreito de Câmara de
Lobos apresenta uma casa e lagar no valor de 10.000 réis para uma extensão de
20.140 parreiras. Os custos de construção da infra-estrutura eram elevados,
sendo em muitos casos mais um encargo a que estava sujeito o colono. O preço
do lagar variava consoante fosse construído em madeira ou escavado na rocha,
acrescentando-se, ainda, a cobertura. Quanto às diversas partes do lagar
sabemos em 1767 do valor das do lagar de Paula de Aguiar na Tábua. Dos
28.9000 réis de despesa o senhorio contribuiu com 10.000 réis para o fuso, pedra
e paredes:

O lagar é hoje uma peça de museu, tendo sido substituído pela moderna
tecnologia, mas noutros tempos foi um instrumento imprescindível ao fabrico
do vinho. Na Madeira está documentada a presença de dois tipos: lagariças de
pedra, com o cocho escavado na rocha dispondo de vara e fuso em madeira para
exercer pressão sobre o bagaço; lagares de madeira, que podiam ser escavados
num tronco formando um cocho ou de traves de madeira calafetada.

A tradição de uso da pedra e madeira na construção dos lagares foi trazida do


continente português onde ainda existem testemunhos de épocas anteriores ao
século XV. Na Madeira persistiram até a actualidade alguns lagares de madeira
ou pedra. Dos construídos em pedra temos notícia de vestígios no Curral das
Freiras, Arco da Calheta, Ponta do Pargo e S. Vicente, na chamada lapa do
Chiapa. Para os de madeira persistem vários exemplares na Madeira e Porto
Santo, propriedade de particulares, museus e empresas do sector. O de cocho
poderá ser encontrado no Campo de Baixo no Porto Santo e no Museu da Ribeira
Brava, quanto ao de caixa temos exemplares nos Museus do IVM e da Madeira
Wine Company.

ASSIMETRIAS DO PROCESSO ECONÓMICO

A divisão do arquipélago não implicou o desenvolvimento de três pólos de


desenvolvimento, tendo por centro a sede das capitanias. As contingências do
processo histórico levaram a que se estabelecesse apenas um único centro
donde divergia tudo. O Funchal, à partida, tinha condições limitadas de
desenvolvimento não fosse o empenho de João Gonçalves Zarco. A Baia era
desprotegia e o serviço à navegação mau. Mesmo assim acabou por assumir um
protagonismo evidente.
A partir da segunda metade do século XV é evidente a dominância do Funchal,
no quadro político social e económico do arquipélago, criando-se as condições
para ser a sede administrativa do arquipélago, como a categoria de cidade
(1508) e bispado (1514). O próprio D. Manuel apostou-se nisso ao doar em 1485
parte dos seus terrenos para a construção da igreja (hoje Sé), paços do concelho
e alfândega (hoje Assembleia Legislativa Regional). A afirmação do Funchal fez
com que se transformasse rapidamente num pólo de atracção de gentes de
todas as freguesias, como se poderá verificar já no século XVI quando se analisa
a origem geográfica dos nubentes.

Tudo se conjugou para esta afirmação do Funchal. Assim a maior concentração


populacional era no litoral, sendo dominada por alguns pólos, de que o Funchal
foi sempre o principal. A par disso o Funchal assumiu, desde o início, o papel
de principal porta de entrada e saída do arquipélago. Daí resultou a forte
presença de barqueiros (82%) e mareantes(98%), o quer dizer que quase todo o
serviço de cabotagem se situava no Funchal. O Funchal recebia o açúcar trazido
dos lugares de baixo, como Câmara de Lobos, Calheta e ribeira Brava, e
devolvia cereais e manufacturas de importação.

O processo de transformação dos produtos acontecia no meio rural, chegando


ao Funchal apenas o produto acabado. Deste modo em torno das diversas áreas
de produção criaram-se diversas infra-estruturas transformadoras e aumentou
a população de oficiais mecânicos. O Funchal estava reservado para espaço de
troca e venda do produto. De acordo com Gaspar Frutuoso, que escreve em
finais do século XVI, toda a actividade comercial estava concentrada em apenas
três ruas: a rua direita dos mercadores, a rua do Poço novo e a rua do Sabão. A
cada uma estavam atribuídas funções distintas. Na primeira concentravam-se
os mercadores do grande trato internacional. Na segunda os outros de menor
trato e ocupados com a venda dos importados. E, finalmente na última
tínhamos as lojas e os granéis do cereal.

A macrocefalia da cidade do Funchal foi uma conquista pessoal de João


Gonçalves Zarco, acarinhada por D. Manuel e consolidada pelo rápido
crescimento do burgo.

CULTURA

As condições de acesso ao conhecimento estiveram muito condicionadas


durante as duas primeiras centúrias. Apenas um grupo restrito de famílias
tinha possibilidade de possibilitar o ensino aos filhos, através das escolas que
funcionavam junto de algumas paróquias. A primeira metade do século XVI,
por força da riqueza gerada pela exploração do açúcar, aprece que foi uma
época muito propícia à aposta no conhecimento. Assim, no período de 1538 a
1558 tivemos mais de um milhar de madeirenses a receber ordens sacras. Esta
situação é tanto mais significativa se tivermos em conta que foi apenas na
segunda metade do século XVI que foram estabelecidas as primeiras estruturas
de ensino: a criação do Seminário Diocesano a 20 de Setembro de 1566 e a
abertura do Colégio S. João Evangelista a 6 de Maio de 1570.

Neste período tivemos alguns madeirenses letrados que ficaram ilustres pela
sua acção. Leão Henriques cursou em Paris e foi reitor da Universidade de
Évora, inaugurada a 1 de Novembro de 1559. Luís Gonçalves da Câmara foi
reitor do Colégio dos Jesuítas em Coimbra e Roma. Martim Gonçalves da
Câmara, doutor em Teologia, provido em 21 de Junho de 1563 no cargo de
reitor da Universidade de Coimbra. O Padre Manuel Álvares com a Gramática
Latina ficou conhecido em todo o mundo por todos aqueles que fizeram os
estudos de latim.

Em pleno apogeu da indústria vinhateira tivemos a afirmação de um novo


sector de serviços. Na segunda metade do século XVIII a ilha assumiu outro
papel, com espaço de acolhimento de doentes. Alguém terá dito que os iniciais
promotores do turismo insular foram os gregos, mas que os primeiros turistas
foram, sem dúvida, ingleses. Os gregos celebraram, na prolixa criação literária, as
delícias das ilhas situadas além das colunas de Hércules. Os arquipélagos da
Madeira e Canárias são mitologicamente considerados a mansão dos deuses, o
seu jardim das delícias, onde eles convivem com os heróis da mitologia. Todavia
foram os ingleses, ainda que muito mais tarde, a desfrutar da ambiência
paradisíaca, reservada aos deuses e heróis, escolhendo-as como rincão de
permanência, breve ou prolongada. Diz-se até que a primeira viagem de núpcias,
embora ocasional, terá sido protagonizada por um casal inglês. Mais uma vez a
lenda que ficou conhecida como de Machim. Na verdade, esta visão mítica,
perpetuada nos relatos antigos ou reavivada nos testemunhos coevos, motivou o
desusado interesse do inglês pelas belezas aprazíveis da Madeira. A Europa
oferecia ao aristocrata britânico demasiados motivos para o "grand tour" cultural,
mas as ilhas ofereciam a amenidade do seu clima e ambientes paradisíacos, num
retorno implícito ao paraíso perdido.

Infra-estruturas produtivas: os poios

Infra-estruturas produtivas: as levadas

Os conventos, como os dos jesuítas, de Santa Clara e S. Francisco eram


servidos por água destas levadas. As freiras de Santa Clara tinham um
aqueduto próprio que em 1663 foi danificado o que resultou grande prejuízo
“por não terem água alguma de que pudessem beber e cozinhar e se servirem
para o fabrico de seus doces”. Fora do Funchal, Gaspar Frutuoso, refere a
levada mandada construir por Rafael Catanho que servia Machico e Caniçal, em
que gastou cem mil cruzados. Também na Ribeira dos Socorridos temos outras
levadas de iniciativa particular: a do engenho de Luís de Noronha que lhe
custou 20.000 cruzados; a de António Correia para as terras da Torrinha. Outro
problema, não menos importante, foi o da partição da água. Desde o início que
a coroa recomendara todo o cuidado nisso, ficando com tal encargo o
almoxarife, auxiliado por dois homens escolhidos”. Sabemos que estas eram
distribuídas por toda a semana, excepto o domingo que ficava comum a todos,
pois tal como refere a coroa em 1491 era “contra comçiencia Na Ponta de Sol, a
vereação convocava todos os anos os heréus para a limpeza das duas levadas
existentes e eleição dos levadeiros. Estes, depois de eleitos, deveriam jurar
perante os vereadores que procederiam bem à distribuição da água e limpeza
das levadas.
A água adquire de novo uma dimensão económica importante, levando as
autoridades a nova intervenção no sentido da sua regulamentação e do traçar
de novas levadas para alargar a área de regadio e, por consequência, dos
canaviais. Desde 1799 tivemos os estudos para a abertura de uma nova
levada e o aproveitamento da água do Rabaçal para o regadio na Calheta. Os
trabalhos iniciaram-se só em 1834 ficando concluídos em 1858. A conjuntura
política condicionou o andamento lento.

No decurso do século XVII os canaviais das ilhas perderam paulatinamente


importância. Apenas na Madeira é notada uma curta época de reafirmação
quando se apaga a concorrência do brasileiro. A conjuntura do século foi
favorável ao retorno da cultura. Mas esta pouco ultrapassou, num primeiro
momento, a área agrícola circunvizinha do Funchal. Assim o comprova o livro
do quinto do ano de 1600, que nos 108 proprietários de canaviais apresenta um
grupo maioritariamente desta área. Este é quase o único elemento
comprovativo da produção de açúcar na ilha no século dezassete, pois só
voltamos a ter novas informações a partir de 1689, com a arrecadação do oitavo.
No ano de 1600 é bastante evidente a retracção da área ocupada pelos canaviais.
A média propriedade cede lugar à pequena e, mesmo, de muito pequenas
dimensões. A maioria (isto é 89%) produz entre 5 e 50 arrobas, o que demonstra
estarmos perante uma cultura vocacionada para suprir as carências caseiras, no
fabrico de conservas, doçaria e compotas. Até 1640 o movimento descendente
agravou-se com a presença, cada vez mais assídua de açúcar brasileiro no porto
do Funchal. Em 1616 para garantir o escoamento da produção local e que à
saída se fizesse uma distribuição equitativa de ambos os açúcares. A ocupação
holandesa das terras a cultura fez renascer na ilha os canaviais para responder à
solicitação na Europa e necessidade das indústrias de conserva e casquinha. Em
1643 o número de engenhos existentes era insuficiente para dar vazão à
produção dos canaviais.
A coroa, de acordo com a provisão régia de 1 de Julho de 1642, pretendia
promover de novo o cultivo da cana-de-açúcar por meio de incentivos à
reparação dos engenhos, com a isenção do quinto por cinco anos ou a metade
por dez anos. Usufruíram deste apoio o capitão Diogo Guerreiro, Inácio de
Vasconcelos, António Correa Betencourt e Pedro Betancor Henriques. A
situação favoreceu a cultura, afirmando Diogo Fernandes Branco em 10 de
Fevereiro de 1649 que as canas estavam “fermozas”, prevendo-se uma grande
colheita. Em Outubro goraram-se as expectativas, pois o açúcar lavrado era de
má qualidade.
O progresso continuou no ano imediato, sendo testemunhado ela construção de
dois novos engenhos. Esta foi no entanto uma recuperação passageira uma vez
que na década seguinte o reaparecimento do açúcar brasileiro no porto do
Funchal trouxe de volta a anterior situação. O açúcar madeirense estava, mais
uma vez, irremediavelmente perdido, mercê da concorrência. Ainda, em 1658
procurou-se apoiar os canaviais ao reduzir-se os direitos sobre a produção para
um oitavo, mas a crise era inevitável. A estes incentivos acresce-se o facto de os
direitos do quinto do açúcar entre 1643 e 1675 não serem devidamente
cobrados, pelo que neste último ano se recomendou maior atenção nisso.
Depois, por alvará de 15 de Outubro de 1688, a coroa determinou que os
direitos que oneravam a produção passassem para um oitavo da colheita sendo
a medida mais uma vez definida como uma forma de promover a cultura.
No ano de 1600 é bastante evidente a retracção da área ocupada pelos canaviais.
A média propriedade cede lugar à pequena e, mesmo, de muito pequenas
dimensões. A maioria (isto é 89%) produz entre 5 e 50 arrobas, o que demonstra
estarmos perante uma cultura vocacionada para suprir as carências caseiras, no
fabrico de conservas, doçaria e compotas. Em 1610 o bicho da cana obrigou ao
fecho de muitos engenhos. Até 1640 o movimento descendente agravou-se com
a presença, cada vez mais assídua de açúcar brasileiro no porto do Funchal. Em
1616 para garantir o escoamento da produção local e que à saída se fizesse uma
distribuição equitativa de ambos os açúcares. As dificuldades eram evidentes e
conduziram ao abandono de canaviais. Assim sucedeu com um serrado no
caminho para a Rochinha de Manuel Figueira Dutra, “que andou de canas he oje
estaa em terra balldya”. A ocupação holandesa das terras a cultura fez renascer na
ilha os canaviais para responder à solicitação na Europa e necessidade das
indústrias de conserva e casquinha. Assim o serrado de Brás Pacheco Tavares
nos Piornais estava de pranta nova e despertava o interesse de Amaro Couto,
mercador, que o comprou por 350.000rs. Em 1643 o número de engenhos
existentes era insuficiente para dar vazão à produção dos canaviais.

A conjuntura da década de quarenta da centúria seguinte foi marcada por novo


incremento da cultura, sem necessidade de recurso às medidas proteccionistas,
uma vez que o mercado do Nordeste brasileiro se encontrava sob controlo
holandês. Fechou-se a rota do açúcar brasileiro. A correspondência de Diogo
Fernandes Branco refere a ausência destes navios nos anos de 1649 a 1650. No
último ano dizia-se que há dezoito anos que o pau-brasil e o açúcar não vinham
de Pernambuco, mas em 1657 já os lavradores se queixavam que o contrato
estabelecido com os mercadores não se cumpria. Perante tudo isto os canaviais
voltaram a estar verdejantes. Segundo Diogo Fernandes Branco o ano de 1649
foi de grande produção, mesmo assim não foi suficiente para cobrir as
necessidades da indústria de conservas, tendo-se importado em Outubro de
Cabo Verde. Mas, sucede que as levadas estavam abandonadas e faltavam
engenhos para moer a cana. A intervenção das autoridades vai no sentido de
promover a cultura através de uma política de incentivos, materializada nos
apoios à reconstrução dos engenhos. O conjunto de medidas culmina em 1688
com a redução dos direitos que oneravam a produção, passando de um quinto
para um oitavo.

Nos séculos XVII e XVIII os poucos canaviais pertencem à área da capitania. Em


Machico os poucos canaviais que persistiram, principalmente em Santa Cruz,
haviam desaparecido por completo em 1674. Em auto lavrado em câmara
refere-se que a lavoura cessara na vila de Machico, sendo as terras semeadas de
trigo, cevada e vinhas. A partir dos livros do oitavo disponíveis não é fácil
definir as principais áreas de produção, uma vez que poucos são aqueles em
que está identificada a localidade. Mesmo assim é possível definir-se áreas
produtoras de maior evidência, como sejam, Câmara de Lobos, Calheta, Estreito
da Calheta, Canhas.

Por todo o século XVIII a aposta preferencial foi apenas na vinha, que retirou
espaço aos canaviais. Mesmo assim tiveram continuidade, uma vez que existem
dados que documentam a existência de canaviais e sabe-se que o engenho dos
Socorridos se manteve em funcionamento por todo o século XVIII. A coroa, de
acordo com a provisão régia de 1 de Julho de 1642, pretendia promover de novo
o cultivo da cana-de-açúcar por meio de incentivos à reparação dos engenhos,
com a isenção do quinto por cinco anos ou a metade por dez anos.
Poderá ter a mesma origem a inexistência de livros do oitavo a partir de 1766.
Por todo o século XVIII a aposta preferencial foi apenas na vinha, que retirou
espaço aos canaviais. Mesmo assim tiveram continuidade, uma vez que existem
dados que documentam a existência de canaviais e sabe-se que o engenho dos
Socorridos se manteve em funcionamento por todo o século XVIII.

A ilha apresentava outros óbices à afirmação da economia agrícola, resultantes


do facto de dispor uma área agrícola limitada. Em 1865 o solo cultivável, abaixo
dos 900m, cifrava-se em 18.381 ha, sendo 29.448 de baldios e terras situadas
acima dos 900 m. Da área agricultada, cerca de 2.500 ha (19%) estava ocupada
com vinha, 4.649 de cereais de pragana, 357 de cana-de-açúcar, 488 de milho,
10.389 de batatas, semilhas, inhame, legumes, ervagem. Em 1949, O. Ribeiro
dava conta de 2.525 Km2 (30%) da área cultivada, sendo 247 Km 2 de terreno
inculto. A área, uma conquista do madeirense, distribuía-se pelas culturas do
trigo, bananas, açúcar, notando que: ...a ilha da Madeira é um canto de terra
profundamente ordenado pelo homem. (…) a superfície cultivada é pois uma obra
humana, uma vitória sobre o declive, a seca estival e a pobreza do solo. Para Eduardo
Pereira (1956) o terreno arável cifra-se em 30.000 ha., de que apenas 20.000ha,
ou seja 1/3, eram aproveitados.
Outro problema prende-se com a extensão do solo aproveitavel, apenas abaixo
dos 900 metros e ocupava uma ínfima parcela do total da ilha. A área ocupada
pelo vinhedo evoluiu ao longo dos tempos conforme o vinho foi ganhando ou
perdendo importância. O efeito das doenças sentiu-se rapidamente de modo
que em 1880, segundo Henry Vizetelly, era de 2.500ha, e passados três anos
Almeida e Brito refere que passou de 2.500ha para apenas 500ha. A informação
estatística para os anos de 1881, 1882, 1885 diz que era, respectivamente, de
594ha, 353,10ha e 769,42ha.

A mesma reivindicação dos madeirenses em 1776 não teve efeito e o sistema foi-
se arrastando num lento processo de agonia no século XIX com o movimento
liberal. Esta foi a primeira e mais forte manifestação de repúdio sem nunca se
chegar a uma decisiva extinção. A iniciativa do governo miguelista de extinguir
o referido sistema em 1828 foi uma opção efémera e não passou de uma
aventura demagógica.

As soluções não foram consensuais e o regime manteve por mais alguns anos o
processo lento de agonia. Apenas em 1916 surgiu a iniciativa parlamentar da
autoria de um grupo de deputados chefiados pelo Visconde da Ribeira Brava
que não alcançou qualquer resultado nem satisfez as exigências dos colonos,
pelo que em 1927 gerou-se um motim na Lombada da Ponta do Sol que forçou o
governo a acabar com o referido regime pelo decreto de 26 de Dezembro no
qual se expropriou as referidas terras que depois foram vendidas aos colonos
por escritura feita em 26 de Janeiro de 1928. O mesmo sucedeu nas Lombadas
no norte da ilha, em Ponta Delgada. Mesmo assim o contrato de colonia
continuou a ser uma realidade em muitas zonas da ilha e só em 1976, passados
mais de duzentos e cinquenta anos sobre o inicio desta eterna agonia‚ ao
moribundo foi passado o estado de óbito pelo decreto legislativo regional
nº.13/77/M de 18 de Outubro. Deste modo o fim do contrato de colonia ficou a
assinalar um dos mais lídimos resultados e conquista da AUTONOMIA
A conjuntura económica de finais do século dezanove trouxe a cultura de
regresso à Madeira, como solução para reabilitar a economia que se encontrava
profundamente debilitada com a crise do comércio e produção do vinho. A
situação, que se manteve até à actualidade, não atribuiu ao produto a mesma
pujança económica de outrora nas exportações. Era algo distinto: “Quando em
1853 quizeram na Madeira voltar à épocha O REGRESSO DOS CANAVIAIS. A área
de cultura de cana sacarina foi-se reduzindo inexoravelmente a pequenos
nichos de socalcos na vertente sul. Todavia, a partir de meados do século XIX a
mesma foi paulatinamente conquistando terreno a Norte e a Sul. O testemunho
de alguns autores permite acompanhar o evoluir da cultura. Em 1817 Paulo
Dias de Almeida só dá conta de vinhas, trigais e bananais. O mesmo sucede
com alguns textos de autores estrangeiros.

Os canaviais não desapareceram da ilha, mantendo-se a produção de açúcar em


um único engenho até 1826. E o açúcar era considerado de excelente qualidade.
No ano imediato Severiano Alberto de Freitas Ferraz insiste junto do
Governador no sentido de se promover a cultura da cana uma vez que a vinha
estava condenada por falta de escoamento do vinho. Dever-se-ia apostar nos
canaviais através da isenção, por um período de dez anos de direitos.

A partir da década de quarenta o panorama da agricultura começa a mudar.


José Silvestre Ribeiro, Governador Civil entre 1846 e 1848, afirma que: “A
cultura da canna de assucar que n’outro tempo se fez em tão larga escala, está hoje
redusida a mesquinhas proporções,…”. Os quatro engenhos que laboravam em S.
Martinho Ribeira dos Socorridos, Praia e Câmara de Lobos apenas produziam
60 pipas de melaço e 10 de aguardente. A. C. Herédia testemunha em 1849 o
interesse desusado dos agricultores na plantação de cana. Só que não podia
progredir mais por falta de engenhos: “ todos quererão plantar a cana d’assucar, e
no curto espaço de quatro annos a Madeira tem uma producção rica…”. A cana
parecia ser pouca, mas, no ano imediato, J. Mason refere que a cultura se fazia
de modo extensivo, ocupando metade da terra arável, produzindo-se melaço e
rum. Opinião distinta tem R. White que diz ser ainda pouca a área cultivada e
apenas usada para o fabrico de mel. Todavia em 1851 são referidos quatro
engenhos de moer e fábricas de refinação de açúcar. Aliás o próprio Robert
White testemunha em 1857 que era já muito mais rentável que o vinho. Mas, à
industria depara-se um grande handicap que pautará todo o segundo momento
de afirmação, a dificuldade de concorrer em pé de igualdade com as demais
regiões.

A cultura era ainda uma auspiciosa esperança para os madeirenses. Nicolau


Ornelas e Vasconcellos, que fora trabalhador de cana em Demerara, diz-nos: "...
olha-se para a cultura da cana de assucar como um grande produto agrícola que offerece
grandes vantagens, que podem em certo modo adoçar o mal geral, o aspecto aterrador de
nossas finanças..." Passados dez anos a cana continua a ser uma aposta forte, mas
tardava o momento da plena pujança, de acordo com Eduardo Grande,
ocupava apenas 357 ha (2%), é uma magra fatia do solo arável, que dava
14.688.043 Kg que era laborada em quatro engenhos, mas apenas dois ofereciam
condições, pelo que “o preço de fabricação é tão excessivo que mal permitte fazer esta
operação em condições lucrativas.”

A aposta estava agora na afirmação da nova cultura, capaz de reabilitar a


economia da ilha. Segundo D. João da Câmara Leme “a cultura da canna é a mais
vantajosa para a Madeira nas circunstâncias actuaes”. Daqui resultava a
necessidade de incentivar a construção de novos engenhos. Em 1879 Henrique
de Lima e Cunha não duvida em afirmar que “a cultura da canna doce é a mais
rica e productiva da Madeira…”. Passados seis anos as dificuldades de
desenvolvimento da indústria açucareira eram evidentes, não tornando possível
a expansão da área de cultivo. Para isso contribuíram a falta de engenhos e os
direitos que oneravam os produtos daí resultantes.

No segundo momento de afirmação dos canaviais podemos estabelecer duas


fases distintas. A primeira decorre de 1852 a 1895, culminando com o ataque do
fungo conyothurium melasporum em 1882, que levou à quase total destruição dos
canaviais da cana bourbon introduzida de Caiena (1847) e Cabo Verde. Para
atalhar as dificuldades importaram-se novos tipos de cana, que se foram
implantando desde 1884. Acontece que a rentabilidade era menor.

Bourbon Novas variedades


desde 1884
açúcar 20,5 14,5
Suco 11,5º 9º beaumé
beaumé
Impurezas 92,5 80
produçã AÇÚCAR 10,7kg 8kg
o por MELAÇO 1,5 5,58
100kg AGUARDENTE 1 galão a 1,05 litros a 40º
cana 30º

A década de oitenta foi o momento de plena afirmação dos canaviais. A


produção fazia-se em grandes quantidades que dava para o consumo local e o
excedente exportava-se para o reino.

Ensaiaram-se as diversas variedades, disponíveis ao nível mundial, no sentido


de se conseguir a recomposição dos canaviais: otaheite da Mauricia (1886),
cristalina do Haiti, Elefante e Bambu, Porto Mackay, rajada e yuba do Natal (1897).
A maioria não resistiu ao fungo, pelo que se procurou alternativas como a
Cheribon, e a partir de 1935 a POJ-2725, 2727, 2878 de Java, considerada uma das
melhores variedades, a White Tanna da Austrália e a CP-807 da Luisiânia.
Actualmente as variedades mais importantes nos canaviais madeirenses são a
POJ-2725 e NCO-310.

Para isso foi criada em 1888 uma estação experimental coordenada pelo
Agrónomo Alfredo de Fraga Gomes e estabeleceu-se um conjunto de medidas
proteccionistas em 1895. Daqui resultou a rápida promoção da cultura, que
assumiu uma posição destacada na economia da ilha, tal como testemunha
António homem de Gouveia: Appareceu de novo e florescentissima a cultura da
canna, a ponto de não haver fabricas sufficientes para a moerem; mas, a breve trecho
esta cultura florescente tem de ceder o logar ao vinho, que, obtendo um preço
remunerador, repovoa a ilha.”

A partir de 1956 a Estação Agrária da Madeira criou viveiros em toda a ilha de


forma a alargar a cultura da cana a todo o espaço arável. Isto surgiu por
imposição das câmaras de S. Vicente e Santana que haviam solicitado em 1953
ao Ministro do Interior o restabelecimento da cultura na vertente Norte.
Todavia o decreto de 1955, que alargou a área de cana, não o contemplou.
Contudo, a Junta Geral estabeleceu campos experimentais em ambos os
concelhos no sentido de conhecer as possibilidades da cultura.
Alteração significativa só sucedeu na viragem do século, quando a cana atingiu
cerca de 1000 ha, valor que continua a subir para as 6500ha em 1939. A partir
daqui foi a quebra resultante das medidas restritivas ao fabrico e consumo de
aguardente. Na década de quarenta do nosso século a cana ocupava ainda 34%
da área cultivada, mas era já um momento de quebra acentuada da área de
cultivo, que na vertente Sul foi paulatinamente substituída pela bananeira. Em
1952 fala-se apenas 1420ha, enquanto mais próximo de nós, em 1986, só existem
119,9ha.

Evolução da Superfície de cana


Ano Hectares
1865 357
1895 800
1905 1.000
1906 1.200
1907 1.200
1911 1.100
1915 1.800
1918 1.500
1927 1.400
1928 1.400

1939 1.500
1951 1.500
1952 1.420
1972-1980 1290
1981 800
1982 600
1983 400
1986 119,9
1988 90,3
1989 49
1994 109,9
1995 118,8
1996 113,3
1997 113,8
1998 114,6
1999 114,6
2000 115,0
2001 117,0
2002 119,0
2003 123,0
2004 125,0
A evolução dados canaviais, com maior incidência na vertente meridional, área
tradicional de cultivo, significa um maior volume de produção que empurra a
evolução do número de engenhos. Foi no período de 1910 a 1930 que se atingiu
os valores mais elevados, que aproximaram a ilha dos tempos aureos do século
XV, apenas em termos de produção e nunca de riqueza. A partir daqui
sucederam-se medidas limitativas da expansão da área dos canaviais, que
conduziram inevitavelmente à desvalorização na economia rural e que em certa
medida favoreceram a expansão da banana, cultura, predominantemente da
vertente sul, deixando a agricultura do norte num estado de total abandono, o
que abriu as portas a uma desenfreada emigração. Tenha-se em atenção que “a
agricultura, toda a economia da Madeira, a própria administração pública, ficariam
mais do que nunca na dependência das fábricas de açúcar e alcool”.

Facto inédito foi a tentativa de implantação da cultura no Porto Santo. Primeiro


foi a frustrada introdução do sorgo, depois a cana, documentada a partir de
1883. A produção era diminuta, sendo as canas exportadas para o Funchal ou
espremidas num engenho movido por bois, ou moinho de vento. Também na
Madeira se cultivou o sorgo com a mesma finalidade desde 1856. Temos apenas
indicação sobre a produção de sorgo em 1862, para fabrico de aguardente:

PRODUÇÃO
litros de
LOCALIDADE Litros de
KG aguardente
sumo
Porto Moniz 7.000 700
S. Jorge 9700
S. Vicente 21 2,1
Ponta Delgada 29.400

Deverá ainda atender-se ao facto de se ter experimentado outras formas de


produção de açúcar na Madeira, nomeadamente a beterraba, por iniciativa do
Conde de Canavial, que não teve êxito.
A partir de 1956 a Estação Agrária da Madeira criou viveiros em toda a ilha de
forma a alargar a cultura da cana a todo o espaço arável. Isto surgiu por
imposição das câmaras de S. Vicente e Santana que haviam solicitado em 1953
ao Ministro do Interior o restabelecimento da cultura na vertente Norte.
Todavia o decreto de 1955, que alargou a área de cana, não o contemplou.
Contudo, a Junta Geral estabeleceu campos experimentais em ambos os
concelhos no sentido de conhecer as possibilidades da cultura.

Alteração significativa só sucedeu na viragem do século, quando a cana atingiu


cerca de 1000 ha, valor que continua a subir para as 6500ha em 1939 12. A partir
daqui foi a quebra resultante das medidas restritivas ao fabrico e consumo de
12
Em 1907 Antonio Homem de GOUVEIA (A situação da Madeira. Discurso proferido na camara dos
senhores deputados no dia 19 de Fevereiro de 1907, Lisboa, 1907, p. 14) dá conta desse avanço:
appareceu de novo e florescentissima a cultura da canna, a ponto de não haver fabricas sufficientes para a
moerem;..”.
aguardente. Na década de quarenta do nosso século a cana ocupava ainda 34%
da área cultivada, mas era já um momento de quebra acentuada da área de
cultivo, que na vertente Sul foi paulatinamente substituída pela bananeira. Em
1952 fala-se apenas 1420ha, enquanto mais próximo de nós, em 1986, só existem
119,9ha.

Evolução da Superfície de cana


Ano Hectares
1865 357
1895 800
1905 1.000
1906 1.200
1907 1.200
1911 1.100
1915 1.800
1918 1.500
1927 1.400
1928 1.400

1939 1.500
1951 1.500
1952 1.420
1972-1980 1290
1981 800
1982 600
1983 400
1986 119,9
1988 90,3
1989 49
1994 109,9
1995 118,8
1996 113,3
1997 113,8
1998 114,6
1999 114,6
2000 115,0
2001 117,0
2002 119,0
2003 123,0
2004 125,0

A evolução dados canaviais, com maior incidência na vertente meridional, área


tradicional de cultivo, significa um maior volume de produção que empurra a
evolução do número de engenhos. Foi no período de 1910 a 1930 que se atingiu
os valores mais elevados, que aproximaram a ilha dos tempos aureos do século
XV, apenas em termos de produção e nunca de riqueza. A partir daqui
sucederam-se medidas limitativas da expansão da área dos canaviais, que
conduziram inevitavelmente à desvalorização na economia rural e que em certa
medida favoreceram a expansão da banana, cultura, predominantemente da
vertente sul, deixando a agricultura do norte num estado de total abandono, o
que abriu as portas a uma desenfreada emigração. Tenha-se em atenção que “a
agricultura, toda a economia da Madeira, a própria administração pública, ficariam
mais do que nunca na dependência das fábricas de açúcar e alcool”.

Facto inédito foi a tentativa de implantação da cultura no Porto Santo. Primeiro


foi a frustrada introdução do sorgo, depois a cana, documentada a partir de
1883. A produção era diminuta, sendo as canas exportadas para o Funchal ou
espremidas num engenho movido por bois, ou moinho de vento. Também na
Madeira se cultivou o sorgo com a mesma finalidade desde 1856. Temos apenas
indicação sobre a produção de sorgo em 1862, para fabrico de aguardente:

PRODUÇÃO
litros de
LOCALIDADE Litros de
KG aguardente
sumo
Porto Moniz 7.000 700
S. Jorge 9700
S. Vicente 21 2,1
Ponta Delgada 29.400

Deverá ainda atender-se ao facto de se ter experimentado outras formas de


produção de açúcar na Madeira, nomeadamente a beterraba, por iniciativa do
Conde de Canavial, que não teve êxito.

O século XX não foi favorável à plena afirmação da cultura. Horácio Bento de


Gouveia retrata de forma perspicaz a situação porque passaram os engenhos de
Ponta Delgada nestes momentos. Assim, em 1919 o governo declara a intenção
de apostar na cultura da vinha, que deverá ocupar o terreno dos canaviais. Já as
leis de 1927, 1928, 1934, 1937 actuam no sentido do controlo da produção e
comércio de aguardente, conduzindo inexoravelmente a um paulatino
abandono da cultura. Em 1928 a super-produção obrigou à limitação da área de
cultivo, ficando novas plantações dependentes de licença. Ao mesmo tempo em
1935 um decreto determinava que as terras impróprias para o cultivo da cana
deveriam ser abandonadas. Dos 1800 ha de 1915, que produziam 55.000
toneladas, passou-se aos 1420 do ano de 1952. O decréscimo começou nos
inícios da Segunda Guerra Mundial, por força da concorrência de outras
culturas, como a bananeira e o vime, que se havia tornado mais rentáveis.

A par disso é de realçar também a insistência das gentes do norte,


representadas através dos municípios de S. Vicente e Santana, em pretenderem
furar as limitações impostas pelas autoridades para a área de produção de cana,
que não acautelavam a vertente devido o baixo teor de sacarose, levando a
Junta Geral em 1955 a contrariar as ordens do Ministério do Interior, ao
implantar dois campos experimentais em S. Vicente e Santana. A situação é
resultado do facto de a cana ser um complemento importante da pecuária e um
dos poucos meios de assegurar a subsistência dos lavradores, tendo em conta a
total desvalorização da vinha.

Nas décadas de sessenta e setenta a Junta Geral do Funchal procedeu a estudos


de diversas variedades de cana nos postos agrários do Caniçal e Lugar de
Baixo, com o intuito de encontrar a que mais se adequava aos solos do
arquipélago. As variedades CP.44-101, CP.36-105, POJ.-2725 se apresentavam
com maiores possibilidades de adaptação.

Os dados referentes à produção continuam a evidenciar a incidência dos canaviais continua a ocorrer na
vertente Sul, tal como o demonstram os valores de produção conhecidos para os anos de 1865 e 1970. No
século dezanove as áreas de produção mais significativa estavam nos concelhos do Funchal e Machico. A
mudança do século XX ocorre apenas quanto aos municípios de Ponta de Sol, Calheta e Ribeira Brava.
Certamente que a concentração inicial dos engenhos na cidade levou à hegemonia, enquanto na década de
sessenta o efeito dissuasor não se faz sentir, por força da abertura da rede viária, que facilitou o transporte
ao engenho do Hinton que deteve o quase monopólio.