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CONSELHO EDITORIAL

• Alberto Pereira Lima Filho


Opus Psicologia e Educação - São Paulo, SP. (Brasil)
• Bernard Chouvier
Université Lumière Lyon 2 - Lyon (França)
• Doris Lieth Peçanha
Universidade Federal de São Carlos - São Carlos, SP. (Brasil)
Universidade de São Paulo - São Carlos, SP. (Brasil)
• Francisco Martins
Pontifícia Universidade Católica de Brasília - Brasília, DF. (Brasil)
• Geraldo José de Paiva
Universidade de São Paulo - São Paulo, SP. (Brasil)
• Gilles Brougère
Université Paris VIII (França)
• Helio Carpintero
Universidad Complutense - Madrid (Espanha)
• Iliana Recagno Puentes
Universidad Central de Venezuela - Caracas (Venezuela)
• José F. B. Lomônaco
Universidade de São Paulo - São Paulo, SP. (Brasil)
• José Paulo Geovanetti
Universidade Federal de Minas Gerais - Belo Horizonte, MG. (Brasil)
• Margarida H. Windholz
Instituições para crianças autistas - São Paulo, SP. (Brasil e Israel)
• Maria Helena Novais Mira
Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro - Rio de Janeiro, RJ. (Brasil)
• Maria Regina Maluf
Pontifícia Universidade Católica de São Paulo - São Paulo, SP. (Brasil)
• Marina P. R. Boccalandro
Pontifícia Universidade Católica de São Paulo - São Paulo, SP. (Brasil)
• Nadia Rocha
Universidade São Francisco - Salvador, BA. (Brasil)
• Norberto Abreu e Silva Neto
Universidade de São Paulo - São Paulo, SP. (Brasil)
• Pompeyo Pérez Diaz
Universidad La Laguna - Tenerife (Espanha)
• Rolando Diaz-Loving
Universidad Autónoma de México - Ciudad de México (México)
• Silvana Moura da Silva
Universidade Federal do Maranhão - São Luís, MA. (Brasil)
• Susan Pick
Universidad Autónoma de México - Ciudad de México (México)
• Vera Barros de Oliveira
Universidade de São Paulo - São Paulo, SP. (Brasil)

259
CONSULTORES - Ad Hoc

• Alain Giami
Inst. National de Santé et Recherche Medicale
Le Kremin - Becêtre Cedex (França)
• Ana Maria de B. Aguirre Camargo
Universidade de São Paulo - São Paulo, SP. (Brasil)
• Aurora Celli
Universidade de São Paulo - São Paulo, SP. (Brasil)
• Carl Lacharité
Université du Québec a Trois-Rivières - Quebec (Canadá)
• Carlos Rolim Affonso
Educação Teleinterativa - São Paulo, SP. (Brasil)
• Ceres Alves de Araújo
Pontifícia Universidade Católica de São Paulo - São Paulo, SP. (Brasil)
• Claisy Maria Marinho-Araujo
Universidade de Brasília - Brasília, DF. (Brasil)
• Cleusa Kazue Sakamoto
Faculdade Paulus de Tecnologia e Comunicação - São Paulo, SP. (Brasil)
• Denise Gimenes Ramos
Pontifícia Universidade Católica de São Paulo - São Paulo, SP. (Brasil)
• Edda Marconi Custódio
Universidade Metodista de São Paulo - São Bernardo do Campo, SP. (Brasil)
• Eliana Herzberg
Universidade de São Paulo - São Paulo, SP. (Brasil)
• Esdras G. Vasconcellos
Pontifícia Universidade Católica de São Paulo - São Paulo, SP. (Brasil)
• Francisco Baptista Assumpção Jr.
Universidade de São Paulo - São Paulo, SP. (Brasil)
• Hebe Boa Viagem A. Costa
Rede Estadual do Ensino - São Paulo, SP. (Brasil)
• Helena Cláudia Frota Holanda
Universidade Federal do Ceará - Fortaleza, CE. (Brasil)
• Irai Cristina B. Alves
Universidade de São Paulo - São Paulo, SP. (Brasil)
• João Carlos Alchieri
Universidade do Rio Grande do Norte - Natal, RN. (Brasil)
• Maria Abigail de Souza
Universidade de São Paulo - São Paulo, SP. (Brasil)
• Maria Margarida M. J. de Carvalho
Instituto Sedes Sapientiae - São Paulo, SP. (Brasil)
• Marilda E. Novaes Lipp
Pontifícia Universidade Católica de Campinas - Campinas, SP. (Brasil)
• Mathilde Neder
Pontifícia Universidade Católica de São Paulo - São Paulo, SP. (Brasil)
• Roberto Kanaane
Universidade de Mogi das Cruzes - Mogi das Cruzes, SP. (Brasil)
• Waldecy Alberto Miranda
Consultoria Recursos Humanos e Psicologia Organizacional - São Paulo, SP. (Brasil)
• Walter Trinca
Sociedade Brasileira de Psicanálise - São Paulo, SP. (Brasil)
260
Boletim Academia Paulista de Psicologia
V.32, nº 83 - julho/dezembro, 2012
SUMÁRIO pgs.

EDITORIAL .......................................................................................................................................... 263

I. HISTÓRIA DA PSICOLOGIA (History of Psychology / Historia de la Psicología)

• Sobre o reingresso da Psicologia no Brasil na International Union of Psychological Science


(IUPsyS) (The reinstatement of Psychology in Brazil in the International Union of Psychological
Science / Sobre el reingreso de la Psicología de Brasil en la International Union of
Psychological Science)
Maria Regina Maluf (C.28) & Ana Maria Jacó Vilela ............................................................. 265

• O Brincar e a Saúde: dez anos de Produção Científica (Playing and Health: ten years of
Scientific Production / El juego y la salud: Diez años de Producción Científica)
Vera Barros de Oliveira (C.35) ................................................................................................ 274

• Contribuições ao Módulo História da Psicologia do Sistema de Ensino da BVS-Psi sobre o


legado de Milton Camargo da Silva Rodrigues, Candido Mota Filho e Mário Yahn (Contributions to
the History of Psychology Module of BVS-Psi Teaching System regarding the Patrons /
Contribuciones al módulo Historia de la Psicología del Sistema de Enseño de la BVS-PSi sobre
el legado de los Patrones)
Aidyl M. de Queiroz Pérez-Ramos (C.30) ............................................................................. 290

• Internet e subjetividade – Um debate preliminar (Internet and subjectivity – A preliminary


discussion / Internet y Subjetividad: Un debate preliminar)
Cleusa Kazue Sakamoto & Caio Fernandes de Souza ....................................................... 294

• O Complexo Paterno Positivo na Psique Feminina (The Positive Paternal Complex in the Women
Psyche / El complejo paterno positivo en la Psique Femenina)
Kátia Ovídia José de Souza ..................................................................................................... 313

II. TEORIAS, PESQUISAS E ESTUDOS DE CASOS (Theories, Researches and Case Studies / Teorías,
Investigaciones y Estudio de Casos)

• Era uma vez: o universo do contar estórias e sua inserção no hospital (Once upon a time: the
universe of storytelling and its role at hospitals / Había una vez: El universo de la narración de
historias y su inclusión en los hospitales)
Caroline Oliveira Agudo & Ana Maria Trapé Trinca ............................................................. 331

• Síndrome de Burnout em profissionais de enfermagem (Burnout Syndrome in nursing


professionals / Síndrome de Burnout en profesionales del área de enfermería)
Nilse Chiapetti, Carlos A. Serbena, Leticia F. Bodanese, Andressa S. Campos &
Maria Danúzia C. Proença ....................................................................................................... 353

• A Psicoterapia Breve Operacionalizada no Tratamento de Pessoas com Deficiência Física


(Operational Brief Psychotherapy for Treatment of People with Physical Disabilities / La
Psicoterapia Breve Operacionalizada en el tratamiento de personas con discapacidad)
Cláudia Nabarro Munhoz & Ivonise Fernandes da Motta ................................................... 384

• O Desenho como forma de avaliação de crianças em situação pré-cirúrgica (Drawing as a


means of assessing children in pre-surgical situation / El dibujo como forma de evaluación en

261
Sao Paulo Academy of Psychology Bulletin
V.32, # 83 - July-December / Julio-Diciembre, 2012
pgs.
niños en situación pre-operatoria)
Camilla Volpato Broering & Maria Aparecida Crepaldi ....................................................... 395

• Revisão de aspectos técnico-metodológicos da avaliação psicológica de candidatos à cirurgia


bariátrica (Review of technical and methodological aspects of psychological assessment of
candidates for bariatric surgery / Revisión de algunos elementos técnicos-metodológicos en la
evaluación psicología de candidatos a Cirugía Bariátrica)
Marianna Carla M.D. de Lucena, Heloiza K. C. de Souza & João Carlos Alchieri ............. 408

• Funções projetivas e terapêuticas das práticas dissociativas em contexto religioso (Therapeutic


and projective functions of dissociative practices in religious context / Funciones proyectivas y
terapéuticas de las prácticas disociativas en contextos religiosos)
Everton de Oliveira Maraldi & Wellington Zangari ............................................................... 424

• Estimulação Lúdica ao Desenvolvimento de Crianças com Deficiência Visual na Primeira Infância


(Ludic Stimulation for the Development of Children with Visual Impairment in Early Childhood / La
estimulación lúdica en el desarrollo de niños con deficiencia visual en la primera infancia)
Silvana Maria Moura da Silva & Maria da Piedade Resende da Costa .............................. 453

• Leitura para universitários: Avaliação da Produção no PychINFO (2008/2011) (Reading for


University students: evaluation of production in PsychINFO (2008/ 2011) / Lectura para
universitarios: Evaluación de la producción en PsychINFO (2008/2011) )
Carmen Lúcia Hussein ............................................................................................................ 471

III. REALIZAÇÕES DA ACADEMIA PAULISTA DE PSICOLOGIA (Realizations of the São Paulo


Academy of Psychology / Realizaciones de la Academia Paulista de Psicología)
• Eleições de Nova Diretoria e de preenchimento das vagas das Cadeiras 19 e 24 ....................... 489
• Atividades profissionais dos Acadêmicos e Laureados (Academics and Laureates
professional activities / Actividades profesionales de los Académicos y Galardonados) ......... 489

IV. RESENHAS DE LIVROS (Book Reviews / Reseñas de Libros)


• De Botton, A. (2012). Religion for Atheists: a non-believer’s guide to the uses of religion.
New York: Pantheon Books, 320p.
Everton de Oliveira Maraldi .................................................................................................... 497
• Giora, R.C.F.A. (org.), 2012. Crisálida: o desvelar da criatividade. Taubaté-SP: Cabral Editora e
Livraria Universitária.
Claudia Mattos Kober .............................................................................................................. 502
• Mainardi, D. (2012). A queda – as memórias de um pai em 424 passos. Rio de Janeiro –
São Paulo, Editora Record. 2ª edição, 150 pgs.
Elsa Lima Gonçalves Antunha (C.29) ..................................................................................... 503
• Chouvier, B. (2009). Les Fanatiques: La folie de croire. Paris: Odile Jacob, 224 pgs.
Norberto Abreu e Silva Neto (C.06) ....................................................................................... 505
• Peçanha, D. L; Santos, L. S. (2009). Cuidando da vida – olhar integrativo sobre o ambiente e o
ser humano. São Carlos: EdUFSCar, 127p.
Cibele Coury & Vitor Folster de Paula .................................................................................. 512

V. EVENTOS CIENTÍFICOS (Scientific Events / Eventos Científicos)


• Nacionais (National / Nacionales) ..................................................................................................... 515
• Internacionais (International / Internacionales) ................................................................................. 516

VI. OBITUÁRIO (Obituary / Obituario)


• Samuel Pfromm Netto (é03/03/1932 - †17/11/2012) ...................................................................... 517

Instruções para os Autores (Instructions for Authors / Instrucciones para Autores) ................... 518

262
Bol. Acad. Paulista de Psicologia, São Paulo, Brasil - V. 32, no 83, p. 263-264

EDITORIAL
Aidyl M. Q. Pérez-Ramos
(Cad. nº 30 “Paula Souza”)1

Estamos no número 83 e, com este, completamos o volume 32,


pontualmente expedido com exclusiva manutenção da Academia Paulista
de Psicologia, entidade a que pertence. Vale reafirmar que este veículo é
aberto a todos aqueles que desejarem nele publicar, uma vez que atendam
o nível de excelência exigida e que sigam com precisão as instruções
dirigidas aos autores.
Sua abrangência, neste número, continua pelos Estados brasileiros,
bem sejam na região nordeste (Maranhão, Paraíba e Rio Grande do Norte)
bem sejam os da região sudeste (Santa Catarina, Rio de Janeiro e São
Paulo, como cidade e estado). Há trabalhos resenhados que provêm da
França e Estados Unidos, completando a extensão internacional que a
revista, através dos seus autores, assim o comprovam.
Continuam também sua extensibilidade via postal e on-line.
Neste número, os trabalhos de natureza histórica se estendem mais,
incluindo nesta unidade um maior número de artigos. Iniciam-se com um
histórico sucinto da reingressão tumultuosa da Psicologia no Brasil na
International Union of Psychological Science, passando finalmente a
pertencê-la. Artigo realizado por Maria Regina Maluf e Ana Maria Jacó-Vilela,
que mobilizaram os seus esforços para que esse ato se efetivasse. Nesse
percurso é importante assinalar a participação de Arrigo Leonardo Angelini
e também de Aniela Ginsberg, ex-Acadêmica, em vários dos eventos dessa
sociedade e representação tácita no Brasil, nas Assembléias.
Segue-se nessa unidade uma contribuição de caráter longitudinal sobre
compilação de trabalhos docentes (teses, dissertações e monografias) de
três universidades da cidade de São Paulo e região adjacente, mostrando
ascendência nessas produções. E para continuar a unidade histórica, Katia
Ovídia de Souza vai às fontes da antiguidade para analisar o filme Fantasma
da Ópera sob o ponto de vista junguiano. Em outro extremo historiográfico
é incluído o trabalho de Cleusa Sakamoto e Caio Fernandes de Souza,
sobre a Internet e a Subjetividade, onde os autores remontam o curto percurso

1
Editora desta revista e Secretária Geral da Academia Paulista de Psicologia (APP). Professora
Titular pela UNESP (Universidade Estadual Paulista). Contato: Rua Pelágio Lobo 107, Perdizes-
CEP 05009-020, São Paulo, SP. Brasil, tel. (11) 3657-8889, E-mail: juanaidyl@uol.com.br 263
Bol. Acad. Paulista de Psicologia, São Paulo, Brasil - V. 32, no 83, p. 263-264

desta descoberta e analisam as mudanças ocasionadas no modo de ser


humano.
Na outra unidade relativa a Teorias, pesquisas e Estudos de casos,
onde o foco é variado, sem seu aprofundamento histórico, os trabalhos, na
sua maioria, se dirigem à Psicologia da Saúde. Inicia-se com a utilização
de um lenitivo, isto é, da contação de estórias junto às crianças
hospitalizadas, baseado na prática clínica e elaborado por Caroline Oliveira
Agudo. Dirigindo-se à equipe de atendimento hospitalar, a contribuição de
Nilse Chiapetti e colaboradores, estudam o Burnout nos profissionais na
enfermagem, encontrando maior estado de tensão àqueles que são de nível
universitário, de maior responsabilidade. A este grupo são incluídos artigos
referente à preparação pré-cirúrgica de crianças à operações menores,
através de desenhos, os quais, servem também de lenitivo, a esta situação
traumática. Estendendo à atenção em tempos atuais, Marianna Carla M. D.
de Lucena e colaboradores, dirigem sua atenção a um problema atual, a
obesidade. Procuram analisar a avaliação psicológica, tão necessária a
candidatos à cirurgia bariátrica.
Em termos de reabilitação, Claudia Nabarro Munhoz e Ivonise
Fernandes da Motta, chamam a atenção sobre a psicoterapia breve
operacionalizada, como novidade, ao grupo de pessoas com deficiência
física, cujo trabalho evidencia sua importância. Ainda a este grupo de
reabilitação, é incluído o artigo de Silvana Moura da Silva e Maria da Piedade
Resende da Costa, que contribuem com descobertas de brinquedos
adaptados a crianças pequenas com baixa visão, baseado na pesquisa
que relatam.
Com respeito à Academia, foi programada a eleição da nova diretoria
a acontecer no mês de dezembro, para o período de 2013 a 2015, assim
como a eleição de novos Acadêmicos.
Desta vez contamos com cinco importantes resenhas de livros
recentes, sendo dois provenientes do estrangeiro (Estados Unidos e França)
e três deles do Brasil; sendo dois do Rio de Janeiro e São Paulo e um deles
do interior deste último estado citado.
Esperamos que a leitura deste número da revista, venha a trazer aos
leitores, contribuições que possibilitem novos conhecimentos e novas ideias
para o seu desenvolvimento pessoal.

264
Bol. Acad. Paulista de Psicologia, São Paulo, Brasil - V. 32, no 83, p. 265-273

I. HISTÓRIA DA PSICOLOGIA

• Sobre o reingresso da Psicologia no Brasil na International Union


of Psychological Science (IUPsyS)1
The reinstatement of Psychology in Brazil in the International Union of
Psychological Science (IUPsyS)
Sobre el reingreso de la Psicología de Brasil en la International Union of
Psychological Science (IUPsyS)
Maria Regina Maluf2
Cad. N. 28
Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP)
Ana Maria Jacó Vilela3
Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ)

Resumo: Este texto descreve a participação do Brasil na International Union of


Psychological Science (IUPsyS). O Brasil, representado por Helena Antipoff e
Emilio Mira y López, participou ativamente da reunião de fundação da nova
associação, que ocorreu durante o XII Congresso de Psicologia, realizado em
Estocolmo em 1951. São relatados alguns episódios ocorridos no período que
vai dos anos 50 até o ano de 2012, quando o Brasil volta a afiliar-se à IUPsyS.
São citados brasileiros que participaram desta história.

Palavras-chaves: IUPsyS, Associação Internacional de Psicologia, Brasil.

Abstract: This paper describes the participation of Brazil in the International Union
of Psychological Science (IUPsyS). Brazil, represented by Helena Antipoff and
Emilio Mira y Lopez, actively participated in the founding meeting of the new
association, which occurred during the XII Congress of Psychology held in
Stockholm in 1951. Some reported episodes occurred in the period from the 50'
until the year 2012, when Brazil was back as an IUPsyS member. The Brazilians
who participated in this story are cited.

Key words: IUPsyS, International Association of Psychology, Brazil.

Resumen: Este texto describe la participación de Brasil en la International Union


of Psychological Science (IUPsyS). Brasil, representado por Helena Antipoff y

1
Agradecemos as informações por escrito fornecidas por Arrigo Leonardo Angelini (Cad. N. 4)
e orais por Aidyl M. de Queiroz Pérez-Ramos (Cad. N. 30).
2
Professora Titular da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo. Contato: Rua Ministro
Godoi, 969. CEP: 05015-901 São Paulo (SP). Tel/fax: 11-3670.8527. Email:
marmaluf@gmail.com
3
Professora Associada do Programa de Pós-Graduação em Psicologia Social da Universidade
do Estado do Rio de Janeiro (UERJ). Contato: Rua Dona Mariana, 72/508; CEP22280-020 –
Rio de Janeiro (RJ)Tel/fax 21-23340830. amjaco@uol.com.br 265
Bol. Acad. Paulista de Psicologia, São Paulo, Brasil - V. 32, no 83, p. 265-273

Emilio Mira y López, participó activamente en la reunión de fundación de la nueva


asociación, que se llevó a cabo durante el XII Congreso de Psicología, realizado
en Estocolmo en 1951. Son relatados algunos episodios ocurridos en el período
de los años 50 hasta el año 2012, cuando Brasil es afiliado nuevamente a la
IUPsyS. Son reseñados brasileños que participan en esta historia.

Palabras claves: IUPsyS, Asociación Internacional de Psicología, Brasil

A ciência se constrói através do debate das ideias e dos achados de


seus pesquisadores, permitindo assim a circulação do conhecimento e sua
difusão para além do campo restrito de um grupo isolado de investigadores.
É assim que Ribot comemora a realização do Primeiro Congresso
Internacional de Psicologia, ocorrido em Paris, em 6 de agosto de 1889:

Dans ce siècle ou les congrés scientifiques sont devenus une institution,


ou chimistes, physiciens, naturalistes, biologistes, médicins, se
reunissent chaque année pour se communiquer les résultats de leurs
recherches, pour adresser le bilan de leur science et – ce qui vaut peut-
être encore mieux – pour nouer ou raffermir des relations personnelles,
la psychologie n’avait encore tenu rien pareil... Pour la première fois
nous faisons corps, nous affirmons notre solidarité pour um acte, nous
témoignons que la psychologie, comme toute autre science, n’est pas
comprise dans les limites étroites d’un pays (Ribot, 1889, 29, conforme
citado por Montoro, Tortosa & Carpintero, 1981, p. 75).

Ribot está não somente comemorando o fato de a psicologia mostrar-


se como uma ciência como as demais, mas também sua capacidade de
estender-se para além de um único país. Nuttin informa que o número de
participantes é variável, conforme a fonte consultada: Pierón fala em 203,
James cita entre 60 e 120, Claparède diz ser um pequeno congresso, com
algo em torno de 200 nomes. De qualquer forma, o que interessa é que há
pessoas não só da França, mas também da Inglaterra, dos Estados Unidos,
da Alemanha, da Rússia, da Finlândia, da Polônia, da Bélgica, da Áustria,
da Suíça, da Itália, da Romênia. Ou seja, é verdadeiramente um congresso
internacional (Nuttin, 1981, pp. 17-18).
Segundo Montoro, Tortosa & Carpintero (1981), neste Primeiro
Congresso, presidido por Charcot, bem como no Segundo, realizado em

266
Bol. Acad. Paulista de Psicologia, São Paulo, Brasil - V. 32, no 83, p. 265-273

Londres em 1892, os temas principais são vinculados à Psicologia


Fisiológica e à Psicologia Experimental. Os congressos seguintes
acontecem em países europeus, até que o 7º ocorre nos Estados Unidos
(1913), retornando em seguida à Europa. Para nossos fins, destaque deve
ser dado ao XI Congresso, que deveria ocorrer em Madrid, em 1936, e cujo
Presidente seria Emilio Mira y López1. Com a guerra civil espanhola, os
psicólogos mudam o Congresso para Paris, onde ocorre em 1937. Mira
responde de forma dura a esta transferência de local, ressaltando que a
situação de guerra seria um excelente campo de aprendizado para os
psicólogos.
Interrompidos durante a II Guerra Mundial, os Congressos Internacionais
recomeçam após seu término. Assim, o XII Congresso só ocorre em 1948.
Será todavia no XIII Congresso Internacional de Psicologia, realizado em
Estocolmo de 16 a 21 de julho de 1951, sob a Presidência de David Katz,
que haverá uma mudança fundamental: a criação da União Internacional da
Ciência Psicológica (International Union of Scientific Psychology - IUPsyS),
como uma associação que congrega diferentes sociedades nacionais de
psicologia.
Seguindo a lógica dos Congressos Internacionais, também neste havia
um Comitê Executivo comporto por 14 destacados psicólogos de diversos
países participantes. A Assembleia da IUPsyS, que aprovou seus Estatutos,
contou com 78 participantes, dentre os quais figuraram, pelo Brasil, Helena
Antipoff2 e Emílio Mira y Lopez3.
O psicólogo Otto Klineberg, que foi Professor Visitante na Universidade
de São Paulo de 1945 a 1947, grande figura internacional da psicologia e

1
Emilio Mira y López- nascido em Santiago de Cuba em 1896, de pais espanhóis que retornam
à Espanha quando Cuba se torna independente. A família se fixa em Barcelona. Mira se forma
em Medicina e se especializa em Psiquiatria, tornando-se o primeiro catedrático da área na
Universidade de Barcelona. Também é o responsável pelo Instituto de Orientação Profissional
da Escola do Trabalho. Membro do Partido Socialista, assume a Chefia do Serviço Psiquiátrico
do Exército Republicano durante a Guerra Civil Espanhola. Exilado depois da vitória de Franco,
vive na França, Inglaterra, Estados Unidos, Cuba, Argentina, Uruguai, até fixar-se no Brasil em
1947, onde organiza e dirige o Instituto de Seleção e Orientação Profissional (ISOP) da Fundação
Getúlio Vargas. Falece em 1964.
2
Helena Antipoff – de origem russa, estudou em Paris com Piaget e em Genebra com
Claparède. Foi para Belo Horizonte em 1929, a convite do Governo de Minas Gerais, no bojo
do projeto de Reforma Educacional, para dirigir o Laboratório de Psicologia da Escola de
Aperfeiçoamento de Professores. Teve importante atuação no Brasil até seu falecimento em
1974.
3
Compreende-se a presença destes dois representantes do Brasil nesta Assembleia da
IUPsyS pela trajetória internacional de ambos. 267
Bol. Acad. Paulista de Psicologia, São Paulo, Brasil - V. 32, no 83, p. 265-273

extremamente atuante na IUPsyS, tendo chegado à presidência da entidade


(XVI Congresso), deixou muitos amigos no Brasil, entre os quais, Aniela
Ginsberg, da PUC de São Paulo e Arrigo Leonardo Angelini, da USP. Com
o incentivo de Klineberg, Aniela Ginsberg e Angelini passaram a participar
dos Congressos Internacionais a partir de Montreal, em 1954.
A representação da Psicologia no Brasil junto à IUPsyS encontrou
dificuldades desde seu início no ano de 1951, porque, como dito, o critério
de filiação era o de que a associação representante de cada país fosse
reconhecida como sendo de caráter nacional. O Brasil possuía algumas
associações de Psicologia (a Sociedade Paulista de Psicologia, fundada
em 1945 e a Associação Brasileira de Psicotécnica, fundada em 1949),
mas nenhuma delas era de fato representativa em nível nacional. Essa
condição era também a de outros países, o que levou a IUPsyS a ampliar
seus critérios (Artigo 6) e aceitar aqueles em que a representação era
constituída por uma Federação ou União de várias sociedades reconhecidas
como sendo de nível nacional (Rosenzweig, Holtzman, Sabourin & Bélanger,
2000, p. 76). Na discussão desse quesito, estes autores fazem referência
às contribuições de “Mr. Queiroz” que, como verificamos, vem a ser o
brasileiro Carlos Sanchez de Queiroz, Catedrático de Psicologia da
Faculdade Nacional de Educação Física da Universidade do Brasil e
posteriormente, Diretor do Instituto de Psicologia da Universidade do Brasil.
Uma nova discussão sobre a representatividade da Psicologia dos
distintos países junto à IUPsyS (incluindo o caso do Brasil) teve lugar durante
o XIV Congresso Internacional de Psicologia, realizado em Montreal, de 7 a
12 de junho de 1954, sob a dupla Presidência de Edward A. Bott e Edward
Tolman. Dessas discussões participaram três brasileiros: os já citados
Carlos Sanchez de Queiroz e Arrigo Leonardo Angelini e Nilton Campos,
Catedrático de Psicologia da Faculdade Nacional de Filosofia da
Universidade do Brasil.
Constam nos registros da IUPsyS que a Associação Brasileira de
Psicólogos se apresentava nas assembleias pleiteando a filiação da
psicologia no Brasil à União Internacional, nesses primeiros anos da década
de 50. Essa Associação, criada em 1954 a partir de sugestão de Annita
Marcondes Cabral, visava agrupar os psicólogos interessados na
regulamentação da profissão no país (Castro e Ghiringhello, 2011, p.41).
Em 1957 o Brasil se tornou formalmente membro da IUPsyS, representado

268
Bol. Acad. Paulista de Psicologia, São Paulo, Brasil - V. 32, no 83, p. 265-273

pela “Sociedade Brasileira de Psicologia” (Rosenzweig, Holtzman, Sabourin


& Bélanger, 2000), na verdade a Associação Brasileira de Psicólogos. A
denominação da associação mudou em 1978 para Associação Brasileira
de Psicologia. Na década de 1990 atravessou um período crítico, o que
levou seu então presidente, Franco Lo Presti Seminerio, a apresentar à
assembleia de sócios da então Sociedade de Psicologia de Ribeirão Preto
(SPRP), uma proposta de fusão. A proposta foi aceita e a SPRP aceitou a
condição de depositária dos arquivos da Associação Brasileira de
Psicologia. Em 1991 a SPRP mudou seu nome para Sociedade Brasileira
de Psicologia e, finalmente, em 2005, para Associação Brasileira de
Psicologia.
No que concerne às relações com a IUPsyS, alguns problemas ainda
afetavam a condição do Brasil como país membro, uma vez que existiam
dificuldades para o pagamento da anuidade e não havia suficiente clareza
sobre a questão da representatividade da “Brazilian Society” que assumia
a representação. Na Assembleia Geral que se realizou durante o 17º
Congresso Internacional de Psicologia, que teve lugar em Washington em
1963, foi discutida novamente a representatividade de vários países junto à
IUPsyS, entre eles o Brasil. Foi então apresentada a proposta da
“Associação Brasileira de Psicólogos”, que passou a ser entendida como
englobando a “Sociedade Brasileira de Psicologia”.
A nova integração de representantes da psicologia no Brasil à União,
nesse momento por meio da “Associação Brasileira de Psicólogos”, foi
aprovada (juntamente com a de outros países) por votação por correio, na
reunião do Comitê Executivo que teve lugar em Bellagio, Itália, 1964
(Rosenzweig et al, 2000, p. 111). No período de 1966 a 1972, Aniela
Ginsberg e Arrigo Angelini foram os representantes da Associação nas
Assembleias da IUPsyS.
Na Assembleia Geral da IUPsyS durante o 26º. Congresso Internacional
de Psicologia, realizado em Montreal, em 1996, a União já reunia 61
sociedades nacionais afiliadas. Nessa Assembleia, o Brasil deixou de ser
membro da União e a razão alegada para seu afastamento foi a extinção
da Associação membro e a ausência de nova proposta de Associação que
representasse o País.
Na história da IUPsyS resgatada por Rosenzweig e outros (2000),
consta, portanto, que o Brasil foi admitido entre seus primeiros membros

269
Bol. Acad. Paulista de Psicologia, São Paulo, Brasil - V. 32, no 83, p. 265-273

em 1951, o que confere com o relato de Montoro, Bañuls, Gonzalez-Solaz


(1981). E que sua filiação terminou em 1996, quando a organização que o
representava foi declarada extinta não tendo sido substituída por nenhuma
outra.
No período seguinte, 1996 até o presente, o tema da representação
do Brasil junto à União Internacional de Ciência Psicológica foi várias vezes
introduzido e debatido no âmbito de algumas Associações de Psicologia.
Assim, por exemplo, durante o Seminário Horizontes da Psicologia, que
teve lugar em Bento Gonçalves, em 2009, alguns dos participantes relataram
que Maria Ângela Feitosa encaminhou uma proposta de que a ANPEPP
encabeçasse a solicitação de filiação à IUPsyS. A diretoria da ANPEPP
assim o fez, mas o pedido de filiação não foi aceito pela IUPsyS, a qual
entendeu que a ANPEPP não parecia ser representativa da psicologia no
Brasil, pelo pequeno número de sócios (na época a solicitação
encaminhada pela ANPEPP referia que tinha 60 Programas de Pós-
Graduação afiliados). O tema foi algumas vezes levantado no Grupo de
Trabalho da ANPEPP sobre Internacionalização. Durante os preparativos
para a realização do III Congresso Brasileiro de Psicologia: Ciência &
Profissão, que se realizou em São Paulo de 3 a 7 de setembro de 2010, a
comissão organizadora decidiu, como parte de uma perspectiva de
internacionalização, enviar convites formais de participação a várias
entidades nacionais, regionais e internacionais de Psicologia. Entre as
entidades que atenderam ao convite, estiveram presentes no Congresso
ULAPSI, SIP, FIAP, IUPsyS, IAAP, APA.
Nessa ocasião ocorreram vários e produtivos diálogos entre
representantes de associações nacionais e internacionais.
Um deles reuniu Michel Sabourin (Tesoureiro da IUPsyS, que
representava o Presidente, Rainer Silbereisen), Neuza Guareschi, presidente
da ANPEPP, e membros da diretoria eleita: Ana Maria Jacó Vilela,
presidente, Maria Cristina Ferreira, vice-presidente, Gardênia Abbad,
tesoureira. Essa reunião ocorreu em São Paulo, no dia 7 de setembro de
2010, logo depois do encerramento do Congresso. Cabe registrar que
deram suporte às conversações as psicólogas brasileiras Silvia Koller, então
editora da Revista da Sociedade Interamericana de Psicologia, e Maria
Regina Maluf, então Presidente da Sociedade Interamericana de Psicologia

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Bol. Acad. Paulista de Psicologia, São Paulo, Brasil - V. 32, no 83, p. 265-273

(SIP). Colaboraram também nossos visitantes Merry Bullock, convidada


internacional que representava a APA (Officer of International Affairs e a
IUPsyS) e Janel Gauthier, convidado internacional da IAAP (Secretário Geral
da International Association of Applied Psychology), que representava seu
Presidente, Michael Knowles. Essa reunião desencadeou uma nova fase
de conversações esclarecedoras, tanto para o Brasil quanto para a IUPsyS,
e levaram ao encaminhamento de um novo pedido de afiliação, desta vez
mais pontual e objetivo de ambas as partes. Entre outros aspectos, Michel
Sabourin alertou para a conveniência de se realizar um consórcio que
congregasse também associações profissionais.
Um novo pedido de afiliação deveria ser submetido à IUPsyS, em
nome de um grupo de associações reconhecidas como sendo
representativas da psicologia no Brasil. Esse novo pedido foi encabeçado
pela ANPEPP, que se dispôs a assumir inicialmente a taxa financeira exigida
pela afiliação. Essa decisão foi tomada em dialogo com a nova Diretoria
da ANPEPP, uma vez que se tratava de um período de transição entre
Diretorias.
Esta nova Diretoria, que assumiu em seguida, tendo Ana Maria Jacó
Vilela como Presidente, considerou cuidadosamente o contexto e as
associações de âmbito nacional e decidiu convidar duas associações de
caráter profissional (ABRAPSO e SBPOT) e uma de caráter acadêmico
(SBP), para fazerem parte do “consórcio” que encaminharia a solicitação
de filiação da Psicologia no Brasil à União Internacional. As três entidades
aceitaram o convite e o consórcio foi finalizado sob a liderança da ANPEPP.
Novo encontro com Michel Sabourin foi realizado em Medellin,
Colômbia, já na nova gestão da ANPEPP, tendo Ana Maria Jacó Vilela como
Presidente, Isabel Fernandes como Secretária e Francisco Portugal como
Representante da ABRAPSO.
Durante a Assembleia da IUPsyS que se realizou no dia 23 de julho de
2012, em Cape Town, no primeira dia dos trabalhos do XXX Congresso
Internacional, foi votada e aprovada, por unanimidade, a reintegração do
Brasil como membro da União. Na condição de Delegadas titulares pelo
Brasil, participando como membros efetivos da Assembleia, estiveram Ana
Maria Jacó Vilela e Maria Cristina Ferreira. Também participaram da
Assembleia como observadores: Beatriz Linhares, Lucia Williams, Maria

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Bol. Acad. Paulista de Psicologia, São Paulo, Brasil - V. 32, no 83, p. 265-273

Regina Maluf e Silvia Koller. Algumas fotos que registram a sessão de


votação constam no link: http://goo.gl/niJV1 .
De acordo com o artigo 5 de seus Estatutos, a IUPsyS está dedicada
ao desenvolvimento, representação e avanço da Psicologia como ciência
básica e aplicada, nacional, regional e internacional. Pode-se dizer que ela
representa quase um milhão de psicólogos do mundo todo, incluindo todas
as áreas da ciência psicológica. A IUPsyS também representa a Psicologia
na ciência global, uma vez que é membro do International Science Council
(ICSU) e do International Social Science Council (ISSC).
Nesta assembleia foi eleito o próximo presidente da IUPsyS, Saths
Cooper, da África do Sul. Foi confirmada a cidade de Yokohama, Japão,
para sediar o XXXI CIP/IUPsyS, e aceita a proposta de Praga para sediar o
CIP/IUPsyS 2020.
Para finalizar, cabe lembrar que foi através de sucessivos congressos
internacionais que a Psicologia se fortaleceu e chegou ao século XXI com
várias associações e encontros de diversos níveis. A vida ativa da IUPsyS,
por sua vez, repousa nos grandes nomes da história da psicologia. Para
mencionar alguns deles, após 1951: H. Piéron, J. Piaget, O. Klineberg, H.
Wallon, J. Nuttin, P. Fraisse, A. Leontiev, A. Luria, J. Bruner, R. Díaz-Guerrero,
D. Bélanger, R. Ardila e muitos outros. São pesquisadores cujo legado ainda
hoje inspira nossos trabalhos. No período anterior a 1951, encontramos
alguns nomes de brasileiros por nascimento ou por adoção: Henrique Roxo,
Hélène Antipoff, Emilio Mira y Lopez.
Cabe também mencionar alguns outros psicólogos, presentes nesses
primeiros congressos internacionais que precederam a criação da IUPsyS:
F. Galton,W. James, W. Preyer, S. Hall, W. Wundt, A. Binet, E. Claparède, S.
Ramon y Cajal, O. Decroly, J. Cattell, F. Brentano, K. Koffka, P. Janet, W.
Kohler, C. Spearman, A. Adler, K. Lewin, A. Michotte, e muitos outros.
A próxima assembleia geral da IUPsyS deverá ocorrer em Paris, entre
8 e 13 de julho de 2014, durante a realização do 28º. Congresso Internacional
de Psicologia Aplicada, promovido pela International Association of Applied
Psychology (IAAP). Desta vez a psicologia no Brasil deverá estar
representada, cabendo-lhe dois delegados com voz e voto.
Acreditamos que nesta segunda década do século XXI a psicologia
no Brasil está florescente e tem muito a contribuir para a melhor qualidade
de vida de pessoas e de grupos.

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Bol. Acad. Paulista de Psicologia, São Paulo, Brasil - V. 32, no 83, p. 265-273

Copiando o título de artigo de Mario Neto Borges, presidente do


Conselho Nacional das Fundações Estaduais de Amparo à Pesquisa,
recentemente publicado no Jornal Estado de São Paulo, diríamos que
internacionalização é essencial para pesquisa de qualidade. Há muito a
fazer para garantir o presente e planejar o futuro. Temos que dar conta do
que temos em mãos e criar melhores condições para os que nos sucedem.

Referências
• Castro, A. C & Ghiringhello, Lucia. (2011). Associação Brasileira de
Psicologia (ABP). Em Jacó-Vilela, A. M. (org.) Dicionário Histórico de
Instituições de Psicologia no Brasil. Rio de Janeiro: Imago.
• International Union of Psychological Science. Disponível em
www.iupsys.net, acessado em 10 de outubro de 2012.
• Montoro, L.; Tortosa, F. & Carpintero, H. (1981) Brief History of
International Congresses of Psychology (1889-1960). In: Richelle, M. &
Carpintero. H. (eds.). Contributions to the history of the International
Congresses of Psychology. Revista de Historia de la Psicologia.
Monographs. Valencia and Studia Psychologica. Leuven University
Press.
• Montoro, L; Bañuls, R. & Gonzalez-Solaz, M. J. (1981) The International
Unification of Psychology: its background in international committees and
the initial development of the International Union of Scientific Psychology.
In: Richelle, M. & Carpintero. H. (eds.). Contributions to the history of the
International Congresses of Psychology. Revista de Historia de la
Psicología. Monographs. Valencia and Studia Psychologica. Leuven
University Press.
• Nuttin, J. (1981) Les premiers congrés internationaux de Psychologie.
In: Richelle, M. & Carpintero. H. (eds.). Contributions to the history of the
International Congresses of Psychology. Revista de Historia de la
Psicología. Monographs. Valencia and Studia Psychologica. Leuven
University Press.
• Rosenzweig, M. R.; Holtzman, W. H.; Sabourin, M. & Bélanger, D. (2000),
History of the International Union of Psychological Science (IUPsyS).
East Sussex: Psychology Press.
Recebido: 10/10/2012 / Complementado: 30/10/2012 / Aceito: 26/11/2012.

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Bol. Acad. Paulista de Psicologia, São Paulo, Brasil - V. 32, no 83, p. 274-289

• O Brincar e a Saúde: dez anos de Produção Científica


Playing and Health: ten years of Scientific Production
El juego y la salud: Diez años de Producción Científica
Vera Barros de Oliveira – Cad. Nº 351
Associação Brasileira de Brinquedotecas (ABBri)

Resumo: Esta pesquisa realiza o levantamento da produção cientifica relativa


ao Brincar e a Saúde de 1998 a 2007 em produção acadêmica da USP, PUC e
UMESP, do Estado de São Paulo, assim como os artigos publicados relativos ao
tema, nesse período. Os dados revelam um total de 180 estudos acadêmicos
sobre o Brincar em geral, sendo 68,8% da USP, 21,2% da PUC e 10% da UMESP.
Desse total, foram identificadas 49 produções sobre o Brincar e a Saúde, das
quais 46,9% da USP; 32,7% da PUC e 20,4% da UMESP. No período enfocado
foi verificada a publicação de 25 artigos sobre o Brincar em geral e apenas seis
com o foco em Brincar e Saúde. Os resultados evidenciam uma trajetória histórica
ascendente tanto na elaboração de estudos sobre o Brincar e a Saúde, como
em sua publicação, mas põem à mostra um grande descompasso entre a
produção acadêmica e sua publicação.

Palavras-chave: brincar e saúde, produção acadêmica, produção científica.

Abstract: This research conducts a survey of the scientific production related to


Playing and Health, from 1998 to 2007, in the academic production of USP, PUC
and Methodist Universities, in the state of São Paulo, as well as the articles
published related to the subject during this period of time. The data present a
total of 180 academic studies about Playing in general: 68.8% from USP, 21.2%
from PUC and 10% from Methodist. From this total, 49 productions were about
Playing and Health: 46.9% from USP, 32.7% from PUC and 20.4% from Methodist.
During the period of time in focus, 25 articles about Playing in general were
published, but only six with the subject of Playing and Health. The Results evidence
an upward historical trend in the development of studies on Playing and Health
as well as in their publication, but also reveal a large gap between the academic
production and its publication.

Keywords: Playing and health, Academic production, Scientific production.

Resumen: Esta investigación realiza un levantamiento de la producción científica


sobre el juego y la salud desde 1998 hasta el año 2007, referentes a las
producciones académicas provenientes de la USP, la PUC y la UMESP, en el
estado de São Paulo, así como los artículos publicados en revistas científicas,

1
Presidente da ABBri; pertencente ao grupo de estudo link-person da International Toy Librar-
ies Association; membro do GE da ANPEPP “Brinquedo, Aprendizagem e Saúde”, e do laboratório
de Epistemologia Genética dirigido por Zelia Ramozzi Chiarotino, do IPUSP. Contato: R. Prof.
274 Artur Ramos, 178, ap 42, Bl. Sírius. CEP 01423-010, São Paulo, Brasil.
Bol. Acad. Paulista de Psicologia, São Paulo, Brasil - V. 32, no 83, p. 274-289

como resultado de estos trabajos académicos, en este período. Los datos


muestran un total de 180 estudos académicos sobre el juego en general, 68,8%
de USP, 21,2% de PUC y 10% de la UMESP. De este total, fueron identificadas
49 producciones sobre el Juego y la Salud, siendo 46,9% de USP, 32,7% de
PUC y 20,4% de la UMESP. En este período fue verificada la publicación de 25
artículos sobre el Juego en general y solamente 6 con el enfoque en el Juego y
la Salud. Los resultados muestran una trayectoria histórica creciente tanto en la
elaboración de estudios sobre el Juego y la Salud, como en su publicación, pero
revelan una gran brecha entre la investigación académica y su publicación.

Palabras claves: el juego y la salud, producción académica, producción


científica.

Introdução
Observa-se um crescente interesse por estudos sobre o Brincar, em
suas múltiplas modalidades, conceituações e aplicações práticas, em
nossos dias, quando espaço e tempo parecem diminuir dia-a-dia, vindo a
causar um risco às atividades lúdicas. A percepção desse risco aumenta,
por sua vez, à medida que pesquisas vêm comprovando a insubstituível
contribuição das brincadeiras e jogos para o desenvolvimento saudável,
assim como para todo o ciclo vital. As Universidades, centro e pólo gerador
e propulsor de estudos vêm encontrando uma abertura progressiva junto a
organizações e instituições públicas e privadas, comprometidas com o bem-
estar das pessoas. Esta pesquisa, ao procurar fazer o levantamento de dez
anos de produção científica relacionada ao Brincar e à Saúde busca
contribuir para uma leitura longitudinal dessa temática, assim como de sua
divulgação.

A produção científica universitária

A produção científica gerada pelas Universidades, pelo fato de não


ser publicada em sua totalidade, tem seu fácil acesso comprometido, o que
dificulta a divulgação dos resultados de suas pesquisas, ricos em
informações atualizadas, muitas delas complexas e originais sobre
determinados temas, inclusive de referências selecionadas, muito úteis ao
desenvolvimento de novos estudos (Ohira, 1997). Teses e dissertações têm
sido classificadas como produção não convencional e compõem o que vem
sendo chamado de literatura cinzenta (Menezes, E., 1993). Sua inserção

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Bol. Acad. Paulista de Psicologia, São Paulo, Brasil - V. 32, no 83, p. 274-289

em bases de dados bibliográficos possibilita sua divulgação a um número


cada vez maior de pesquisadores (Juliano, 1994 apud Witter & Pécora,
1997). Por outro lado, o aumento de dados inseridos requer uma
sistematização temática, a qual possibilita um tremendo ganho de tempo
ao pesquisador, assim como, sua atualização, tendo em vista as alterações
ocorridas durante um espaço de tempo, situando o momento presente no
curso histórico da busca do conhecimento a respeito do tema enfocado.
A opção por um objeto de estudo para um trabalho científico está sob
a interferência de diversas variáveis, como as institucionais, da ciência, do
produto e do próprio pesquisador. Nesta escolha, o caminhar da ciência
conduz o foco da atenção do pesquisador, o qual, em seu percurso, deve
recuperar a trajetória histórica, social e humana em que pesquisas anteriores
foram realizadas sobre o mesmo tema, possibilitando a sistematização do
avanço do conhecimento na referida área (Witter, 1997).
Nesse sentido, o percurso acadêmico desta autora influiu certamente
na escolha deste estudo uma vez que, ao acompanhar a evolução, formação
e utilização do símbolo pelo ser humano, por meio da observação da
brincadeira da criança de 18 meses a 42 meses (Oliveira, 1998), pode
verificar como a ação lúdica manifesta a emergência gradual das
representações simbólicas, segundo graus de externalização progressiva:
da gestual à imagética e verbal, e, finalmente, aos primórdios da gráfica,
sempre em dois sentidos complementares, o pessoal e o coletivo, ou seja,
a construção da identidade pessoal e social. A mesma pode observar
também como, quando a criança brinca, interage com o meio através de
movimentos centrífugos e centrípetos, tendo o corpo como núcleo primeiro
organizador da percepção, da ação e da representação, a partir de um de
movimento ondulatório, num eixo sincrônico, rítmico, o qual, aos poucos,
gera um eixo diacrônico, quando a memória e a imaginação tornam o
passado e o futuro mais presentes, sendo que a ação lúdica funciona como
síntese dos dois eixos, com uma crescente estruturação sintático-semântica.
A brincadeira passa pouco a pouco, da forma sensório-motora, corporal e
rítmica a constituir uma narrativa, uma representação simbólica, por meio
da qual a criança expressa sua realidade, mesclada de fatos e desejos.
Por dominar melhor a expressão lúdica do que a verbal, ela encontra no
brincar um veículo indispensável ao seu desenvolvimento saudável, cognitivo
e afetivo-emocional. Por meio do faz-de-conta, inicialmente individual e,

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pouco a pouco, grupal, aprende a conviver, a escutar, a esperar sua vez, a


não ser o centro das atenções, a se sociabilizar, enfim, a se humanizar.
Em estudos posteriores, voltados para a saúde, esta autora enfocou
inclusive a importância do brincar no hospital para a aderência ao tratamento
(Oliveira, 2007). Aderência ou complacência vem a ser o termo que designa
a extensão da aceitação e adequação do comportamento do paciente à
orientação médica, o qual devido à sua abrangência e complexidade, uma
vez que envolve fatores sociais e demográficos, além dos relacionados ao
problema da saúde em si e da modalidade de tratamento, entre outros, vem
sendo pesquisado nas áreas relativas à Saúde. Neste estudo, foi possível
verificar a relevância do brincar para a aderência de crianças com câncer
ao tratamento, uma vez que o mesmo tem favorecido sua livre expressão e
espontaneidade, a manutenção de sua prática lúdica, por meio de
brincadeiras e jogos a que estão acostumadas, assim como a interatividade
entre crianças, familiares e equipe de saúde. Diversas modalidades lúdicas
foram verificadas, como a brinquedoteca hospitalar, que oferece um ambiente
seguro, acolhedor para crianças, adolescentes e seus familiares, o qual
favorece a interação e o brincar livre e espontâneo, assim como a prática
de atividades plásticas, como o desenho e a pintura, e o acompanhamento
pedagógico (quando a criança não pode freqüentar a escola, e que é
garantido por lei); em segundo lugar, a recreação hospitalar, realizada por
intermédio de apresentações que visam divertir, como a de palhaços; e,
finalmente, o chamado brinquedo terapêutico, situação lúdica semi-dirigida,
que, por meio de miniaturas que reproduzem material utilizado pela equipe
de saúde para intervenções avaliativas ou cirúrgicas, entre outras, possibilita
à criança tomar conhecimento dos procedimentos aos quais vai ser
submetida, brincando, invertendo a situação, sendo ela a cuidadora das
bonecas. A seu modo, verificou-se que, cada uma dessas modalidades têm
contribuído para a aderência ao tratamento.
Dissertações orientadas na área da Psicologia da Saúde alargaram
este escopo inicial, abrangendo diversas populações, contextos e faixas
etárias como as que investigaram a contribuição do brincar para o
diagnóstico e intervenção junto a crianças com paralisia cerebral
(Hadermann, 2002; Demanboro, 2003); a que verificou em faculdade aberta
para a terceira idade que estratégias lúdicas favorecem a manutenção dos
processos cognitivos e a queda da depressão (Fernandes, 2006); o estudo

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sobre a organização da imagem corporal via reabilitação psicomotora lúdica,


que também constatou que a super proteção materna diminui quando
observa a crescente independência e espontaneidade da criança, ao brincar
(Máximo, 2005); a pesquisa que acompanhou a difícil inclusão escolar de
uma criança com atraso no desenvolvimento neuropsicomotor, por meio de
um trabalho fisioterapêutico lúdico (Guirado, 2001), ou ainda, o estudo que
se propôs a verificar o padrão lúdico e gráfico predominante de crianças
com Síndrome de Down, contribuindo com dados evolutivos para pesquisas
posteriores (Oliveira & Milani, 2006). Em relação ao brincar em ambiente
hospitalar, a dissertação de Perroni (2007), que investigou o efeito de
atividades grupais lúdico-gráficas frente à ansiedade de mães de bebês
pré-termo e a de Nunes (2007) sobre avaliação e intervenção fisioterapêutica
lúdica de problemas respiratórios junto a crianças internadas. Também em
trabalhos de conclusão de curso, que versaram sobre brinquedotecas
hospitalares do Grande ABCD, na região metropolitana de São Paulo, que
investigaram a importância do lúdico para a qualidade de vida da criança
internada e para a humanização do hospital pediátrico (Correr, 2006; Dietz
& Menezes, R. E., 2006; Direste, 2006; Matias, 2006), estudos estes que
comprovaram que a grande maioria dos hospitais públicos e privados da
região, que atendem crianças em regime de internação, não possuem
brinquedotecas, o que infringe lei federal (Brasil, 2005); por outro lado,
verificaram que as brinquedotecas identificadas, preocupam-se em dar apoio
às famílias das crianças internadas e com a higienização do acervo lúdico,
aspectos estes muito positivos. Uma síntese do trabalho realizado pelas
brinquedotecas do Brasil foi apresentada internacionalmente (Oliveira et al,
2006), assim como a contribuição da brinquedoteca hospitalar para a
recuperação da criança com câncer (Oliveira & Mittempergher, 2006).
Estes trabalhos viabilizaram, por sua vez, o maior contato com
associações diretamente ligadas ao brincar, em âmbito nacional, como a
Associação Brasileira de Brinquedotecas (www.brinquedoteca.org.br) e
internacionais, como International Toy Libraries Association, ITLA, (www.itla-
toylibraries.org), a International Play Association, IPA do Brasil
(www.ipadireitodebrincar.org.br), a National Institute for Health, NIH, que
possui inclusive um link específico para Play, (www.nih.gov), atestando a
grande amplitude e diversidade que o brincar ocupa em âmbito internacional,
nas diversas áreas do conhecimento teórico e aplicado, com forte

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repercussão sócio-cultural, o que foi comprovado também pelo XII Congresso


Internacional de Brinquedotecas, realizado em São Paulo, em 2011, o qual
contou com representantes de vários estados nacionais e de 18 paises de
quatro continentes (América, Ásia, Europa e Ásia).

As pesquisas sobre o Brincar


As pesquisas sobre o lúdico revelam uma gama variada de
abordagens teóricas, assim como de aplicações práticas, as quais
abrangem diversas áreas de atuação, como a comunitária, a empresarial,
a escolar e a da saúde, relacionada à hospitalar. Bomtempo (1997) enfoca
justamente a trajetória do brincar na produção científica do Instituto de
Psicologia da Universidade de São Paulo.
A diversidade das populações investigadas pode ser bem ilustrada
com o estudo de Gosso (2004), que investigou o lugar da brincadeira nas
atividades das crianças indígenas Parakanã e as descreveu no contexto de
vida desses índios, e verificou que, a partir dos dois ou três anos, as crianças
começam a brincar em grupo sem supervisão de adultos, sendo que elas
não só representam a vida adulta, mas parecem recriá-la, o que a autora
comenta como se fosse uma cultura específica da brincadeira, e, também,
a pesquisa sobre população indígena, que aborda as brincadeiras e a
socialização secundária nos Kaigang (Pereira, 1994).
Observa-se portanto que, ao lado da vertente de estudos sobre a
importância dos jogos e brincadeiras como instrumentos motivadores e
dinâmicos da aprendizagem, como os de Macedo, L. (2009) e Macedo, L.
S. (2004), mantêm-se o interesse na abordagem sócio-cultural, bem
exemplificado acima, assim como pelo estudo de Morais (2004), que enfoca
diversidade cultural manifesta nos conflitos infantis que ocorrem nas
brincadeiras, ou a pesquisa de Almeida (1991), em psicologia ambiental
sobre a criança e espaço. Observa-se também, há algum tempo, um
direcionamento à análise do brincar na infância contemporânea (Pinho,
2001).
O campo de investigação voltado ao brincar e à saúde apresenta vários
estudos (Vieira & Carneiro, 2006; Pérez-Ramos, 2006; Silva, 2006; Oliveira,
2010). Artigos divulgam, entre outros, resultados sobre o papel clínico
investigativo do brincar junto a casos com diagnóstico médico já definido,
como o de Melo (2003), que se utilizou de sessões de brinquedo com

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crianças com câncer, em tratamento ambulatorial, para pesquisar como a


doença e a possibilidade de morte eram vistas e assumidas pelas crianças.
Em estudo junto a crianças com comprometimento visual, a brincadeira de
faz-de-conta foi utilizada para identificar suas habilidades práxicas e
capacidade simbólica (Hueara, Souza, Batista, Melgaço & Tavares, 2006).
O brincar como instrumento diagnóstico e prognóstico fundamental na
infância foi salientado por Tamanaha, Chiari, Perissinoto e Pedromônico
(2006) em estudo junto a crianças autistas, investigando seu nível de
comunicação. Pesquisa sobre o brincar na relação entre mães ouvintes e
filhos surdos (Goldfeld & Chiari, 2005) concluiu que a brincadeira pode e
deve ser um parâmetro de avaliação, assim como se tornar um recurso
terapêutico para diversas áreas da saúde, como a fisioterapia (Rangel,
2003).
A Psicologia da Saúde, ao tirar seu enfoque da doença e voltá-lo para
a saúde, abre um enorme campo a possibilidades de aplicação do lúdico
atuando de maneira decisiva na prevenção de problemas mentais e entraves
ao desenvolvimento cognitivo e afetivo relacional das crianças. Por outro
lado, segundo Ultramari (2007), a aplicação do lúdico a todo ciclo vital cria
também condições de revitalização e organização de processos mentais
do idoso. O modelo bio-psico-social no qual se baseia atualmente a
Psicologia da Saúde (Custódio, 2003), ao se preocupar com a Qualidade
de Vida das pessoas, ressalta a necessidade de se manter viva e atuante a
capacidade de adaptação criativa e flexível ao meio. Seu caráter
epidemiológico é sublinhado por Almeida Filho (2000), por ser justamente
uma ciência da saúde, e não da doença.

Objetivo
Com base no exposto, este estudo se propôs a levantar a trajetória da
produção científica relativa ao brincar e sua relação com a saúde, de três
universidades: Universidade de São Paulo - USP, Pontifícia Universidade
Católica de São Paulo – PUC-SP, e Universidade Metodista de São Paulo
- UMESP, em seus campi situados no Estado de São Paulo, no período de
dez anos, de 1998 a 2007. De forma complementar, verifica a publicação
relativa ao tema brincar e saúde em periódicos científicos de âmbito nacional,
neste período.

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Método
Trata-se de estudo longitudinal bibliográfico.

Material
- Acervo documental relativo ao tema Brincar e Saúde, no conjunto de
teses, dissertações e monografias de três Universidades, com enfoque no
Estado de São Paulo: USP, PUC-SP e UMESP.

USP: http://dedalus.usp.br/
PUC-SP: http://biblio.pucsp.br/
UMESP: http://biblioteca.metodista.br/

- Artigos de periódicos científicos relativos ao tema Brincar e Saúde


pesquisados nos seguintes portais:

SCIELO - integra o portal da CAPES, possui entre outros, artigos


nacionais e cobre todas as áreas do conhecimento, o que interessa a esta
pesquisa devido ao caráter interdisciplinar do tema brincar – http://
www.scielo.br/ ;
PEPSIC - integra o portal da CAPES, possui artigos nacionais na área
da psicologia - http://www.biblioteca.redepsi.com.br/ ;
LILACS- possui artigos relativos à Saúde - http://www.bireme.br/ .

Procedimento
Inicialmente, foi realizado o levantamento da produção acadêmica das
três universidades mencionadas, relativo ao tema Brincar, e, a seguir, com
recorte deste universo relativo ao foco: Brincar e Saúde, por meio dos sites
das referidas universidades.
A inclusão dos documentos nas diversas categorias e sub-categorias
realizou-se com base no título e resumo dos mesmos, com identificação
das variáveis relativas à instituição geradora do documento (universidade,
faculdade/curso) e ao documento ou produto em si (área do conhecimento,
metodologia empregada e faixa etária da amostra). A seguir, traçou-se a
trajetória histórica dos documentos identificados, nos dez anos enfocados,
quanto às variáveis mencionadas.

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A seguir, levantou-se a relação das publicações científicas relativas


ao tema enfocado dos dez anos já mencionados, nas bases citadas,
também traçando seu percurso nesse período. Após o que, foi realizada
uma breve meta-análise comparativa dos resultados obtidos nas frentes de
investigação do estudo, considerando-se algumas de suas diversas
categorias, mas buscando já criar uma abertura para futuras pesquisas
complementares.

Resultados e Discussão
O levantamento da trajetória da produção científica relativa ao Brincar
em geral, produzida no período de 1998 a 2007 pelas universidades: USP,
PUC e UMESP, nos campi situados no Estado de São Paulo, revelou um
total de 180 trabalhos, dos quais, um subtotal de 49 sobre o enfoque Brincar
e Saúde. A análise da produção sobre o Brincar em geral identificou 124
estudos provenientes da USP (68,8%), 38 da PUC (21,1%) e 18 da UMESP
(10%), com diferentes trajetórias ao longo dos dez anos enfocados, mas
todas revelando um número crescente de trabalhos no período, o que aponta
para o interesse pelo tema por orientadores e alunos. O volume de trabalhos
da USP confirma a relevância do estudo de Bomtempo (1997) que, ao fazer
o levantamento do período anterior desta universidade, fornece dados para
o melhor acompanhamento desta progressão.
A produção conjunta das três universidades sobre o Brincar em geral
revelou um predomínio de dissertações, seguido por teses, e um menor
número de monografias na USP e na PUC. Quanto à UMESP, não foi
registrada nenhuma tese, mas dissertações e um número maior de
monografias, o que evidencia um destaque dessa modalidade em relação
às outras universidades, e aponta interesse de alunos da graduação em
trabalhos de conclusão de curso e de especialização em lato sensu, dado
que sugere uma valorização desse objeto de pesquisa mais precoce, na
graduação, assim como uma visão de sua aplicabilidade à prática, no campo
das especializações. Ressalta-se também o fato de a UMESP não possuir
doutorado na época, nas áreas do conhecimento mais geradoras de
trabalhos sobre o Brincar pelas outras duas universidades, como Psicologia
e Educação, o que possa ter contribuído para a inexistência de teses sobre
o Brincar.
Quanto ao idioma, ainda em relação à produção acadêmica sobre o
Brincar em geral, a grande a maioria da mesma, 142 trabalhos (79%) têm

282
Bol. Acad. Paulista de Psicologia, São Paulo, Brasil - V. 32, no 83, p. 274-289

seu registro disponibilizado nos sites das universidades através de seus


resumos, em Português, omitindo, contudo, em sua grande parte, seus
abstracts, sendo que apenas 38 dos mesmos (21%) o fazem. Constatação
importante, uma vez esta falha dificulta a divulgação dos trabalhos em nível
internacional.
O levantamento das áreas de conhecimento geradoras dos trabalhos
identificados evidenciou uma diversidade, o que atesta o interesse teórico
e técnico que o Brincar em geral vem obtendo junto a pesquisadores, com
diferentes enfoques. Estas áreas foram agrupadas, por conveniência, em:
1- Psicologia, Psicopedagogia e Psiquiatria - 90 trabalhos (50%); 2-
Educação, Letras, Educação Física - 38 (21,1%); 3- Comunicação - 21
(11,7%); 4- Enfermagem, Fonoaudiologia, Fisioterapia - 17 (9,4%); 5- Outros
(Administração, Serviço Social, Direito, Publicidade) - 14 (7,7%).
Já a produção acadêmica das três universidades em relação ao tema
Brincar e Saúde, subcategoria do Brincar em geral e foco deste estudo,
revelou um total de 49 trabalhos, ou seja, 27% do montante dos 180 trabalhos
identificados sobre o Brincar. Desses 49, 23 (46,9%) gerados pela USP, 16
(32,7%) pela PUC e 10 (20,4%) pela UMESP.
Na comparação da produção acadêmica de cada universidade, nos
dez anos sobre o tema Brincar em geral e a que teve por foco o sub-tema
Brincar e Saúde, tem-se que, em relação à USP, enquanto sua produção
atinge 68,8% dos 180 trabalhos sobre o Brincar em geral, essa porcentagem
cai para 46,9% dos 49, quando o foco é o Brincar e a Saúde. Já a PUC,
com 21,2% da produção sobre o Brincar em geral, revelou um interesse
maior pelo recorte Brincar e Saúde, com 32,7% do total observado dos 49
registrados, o mesmo ocorrendo com a UMESP, que produziu apenas 10%
dos trabalhos sobre o Brincar em geral, mas dobrou sua produção, para
20,4% dos 49, quando o tema selecionado foi o Brincar e a Saúde.
O acompanhamento longitudinal dessa produção acadêmica nos dez
anos enfocados, ao mesmo tempo que revela um crescimento do número
de trabalhos sobre o Brincar em geral, assim como sobre o tema específico
Brincar e Saúde, demonstra como a produção específica sobre o Brincar e
a Saúde, após o primeiro ano (1998), sem trabalhos sobre o tema, manteve
uma porcentagem regular de produções a respeito, oscilando entre 18,7%
e 45,4% dos trabalhos acadêmicos sobre o Brincar em geral, nos dez anos
investigados.

283
Bol. Acad. Paulista de Psicologia, São Paulo, Brasil - V. 32, no 83, p. 274-289

Quanto à modalidade de trabalho acadêmico, do total de 49 produções


voltadas para o Brincar e a Saúde, observou-se um predomínio acentuado
de dissertações de mestrado, com 34 trabalhos (69,38%), seguido por 12
teses de doutorado (24,48%) e apenas três monografias (6,12%). Quanto
ao método utilizado, verificou-se um equilíbrio entre trabalhos qualitativos e
quantitativos, ambos com 17 produções (34,69%), cada um, seguidos por
13 quali-quantitativos (26,53%) e dois (4,08%) não especificados. Em
relação à faixa etária enfocada, também foi registrada uma equiparação
entre as faixas de 0 a 6 e de 7 a 11, cada uma com sete trabalhos (14,28%),
sendo que apenas um trabalho pesquisou a faixa da adolescência, de 12 a
17 anos (2,04%), quatro produções enfocaram de 18 a 60 anos (8,16%),
mas, mais da metade dos trabalhos, 30 ao todo (61,22%), não especificaram
este dado.
Quanto às publicações em periódicos científicos no âmbito nacional,
no período de 1998 a 2007, referentes ao Brincar em geral, registrou-se um
total de apenas 25 artigos, dos quais, apenas seis enfocando a relação
Brincar e Saúde. Esse achado evidencia a grande desproporção entre a
produção acadêmica e a publicação da mesma, constatação esta alarmante,
uma vez que demonstra que a maioria dos resultados das pesquisas
acadêmicas não é posta à disposição da comunidade científica. Esse dado
reforça Ohira (1997), que alerta para o fato de que a produção científica
gerada pelas Universidades, por não ser publicada em sua totalidade, tem
seu acesso comprometido.
Apesar de esta pesquisa não haver realizado a correspondência
biunívoca entre a produção acadêmica verificada nesses dez anos e as
publicações identificadas, constatou que 96% dos artigos científicos
coletados nas bases indicadas provieram da produção das três
universidades enfocadas. A pesquisa alerta para o fato de que outros artigos
poderiam haver sido identificados com a utilização de mais bases de
investigação.
Dos 25 artigos identificados sobre o Brincar em geral, verificou-se
que 12 deles (48%) originaram-se da área da Psicologia, oito (32%) de
áreas relativas à Saúde (saúde coletiva, enfermagem e fonoaudiologia) e
cinco (20%) do âmbito da Educação (educação física e educação especial).
A verificação da metodologia empregada nos 25 trabalhos publicados

284
Bol. Acad. Paulista de Psicologia, São Paulo, Brasil - V. 32, no 83, p. 274-289

indicou uma prevalência de estudos quali-quantitativos, com 15 nessa linha


(60%), seguida por nove qualitativos (36%) e apenas um quantitativo (4%).
A trajetória de dez anos dos artigos publicados sobre o Brincar em
geral, mostrou uma tendência fortemente crescente, com apenas duas
publicações de 1998 a 2003, primeiros cinco anos do período avaliado, e
23 artigos de 2003 a 2007. O mesmo foi verificado, de forma ainda mais
acentuada, quanto às publicações deste total que enfocaram o Brincar e a
Saúde, com nenhuma publicação nos primeiros cinco anos analisados e
seis artigos de 2002 a 2007.

Considerações finais
Os resultados desta pesquisa evidenciam uma trajetória ascendente
em relação ao número dos estudos relativos ao Brincar e à sua relação
com a Saúde, assim como uma grande diversidade de áreas de
conhecimento envolvidas com o assunto e abertura às diversas faixas etárias
e áreas de aplicação prática.
Por outro lado, demonstram um descompasso entre o número
verificado de trabalhos acadêmicos e o de publicados, o que se torna
preocupante, e sugere, entre outros cuidados, políticas mais hábeis e ágeis
de publicação. Os dados apontam também para falhas encontradas nos
trabalhos universitários, relativas aos resumos disponíveis nos sites
universitários, no que concerne à não apresentação adequada de dados
fundamentais sobre o método aplicado, inclusive amostra e instrumentos
utilizados, assim como na descrição dos resultados obtidos e não
apresentação de abstracts, em grande parte deles. Observa-se, contudo,
que esta pesquisa incluiu monografias de trabalhos de conclusão de curso
e de cursos de especialização, o que talvez justifique parcialmente esta
falha, assim como incentive a que venha a ser sanada, uma vez que estes
trabalhos introduzem à pesquisa e podem contribuir com dados valiosos.
Levanta-se inclusive a hipótese de que, muitos desses trabalhos por não
serem devidamente apresentados, venham sendo rejeitados pelos
periódicos, e, desta forma, impedidos de ter sua divulgação, em nível
nacional e internacional.
A contribuição expressiva da Psicologia quanto a trabalhos acadêmicos
e a publicações relativas ao Brincar e à sua relação com a Saúde, verificada,
atesta o quanto esse objeto de estudo vem sendo devidamente valorizado

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Bol. Acad. Paulista de Psicologia, São Paulo, Brasil - V. 32, no 83, p. 274-289

por esta área do conhecimento, a qual possui vasta gama de aplicações


na prática.

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Recebido: 03/03/2012 / Revisado: 02/10/2012 / Aceito: 09/11/2012.

289
Bol. Acad. Paulista de Psicologia, São Paulo, Brasil - V. 32, no 83, p. 290-293

• Contribuições ao Módulo História da Psicologia do Sistema de


Ensino da BVS-Psi sobre o legado de Milton Camargo da Silva
Rodrigues, Candido Mota Filho e Mário Yahn
Contributions to the History of Psychology Module of BVS-Psi Teaching
System regarding the Patrons: Milton Camargo da Silva Rodrigues,
Candido Mota Filho and Mário Yahn
Contribuciones al módulo Historia de la Psicología del Sistema de Enseño de
la BVS-PSi sobre el legado de Milton Camargo da Silva Rodrigues, Candido
Mota Filho y Mario Yahn
Aidyl M. de Queiroz Pérez-Ramos1
(Cad. 30)
Universidade Estadual Paulista - UNESP

Resumo: Sintetizam-se neste pequeno artigo os legados dos seguintes pioneiros,


Patronos desta Academia, Milton Camargo da Silva Rodrigues – Cadeira nº 6;
Candido Mota Filho, Cadeira nº24; e Mario Yahn, Cadeira nº 9. Foram enviados
ao BVS-Psi para compor o Módulo História da Psicologia, fazendo parte do rol
da matéria já enviada, por este sodalício, a esta divulgação virtual em Psicologia.

Palavras-chaves: pioneiros, Patronos, BVS-Psi.

Abstract: The legacies of the following pioneers, Patrons of this Academy, are
summarized in this brief article: Milton Camargo da Silva Rodrigues – Chair
no. 6; Candido Mota Filho, Chair no. 24; and Mario Yahn, Chair no. 9. They were
sent to the BVS-Psi in order to comprise the History of Psychology Module, as
part of the list, already sent by this sodality, to this virtual publishing in Psychology.

Key words: pioneers, Patrons, BVS-Psi.

Resumen: Son sintetizados en este breve artículo los legados de los siguientes
pioneros: Patronos de esta Academia, Milton Camargo da Silva Rodrigues- Silla
nº 6, Candido Mota Filho, Silla nº 24 y Mario Yahn, Silla nº9. Fueron enviados al
BVS-PSi para conformar el Módulo Historia de la Psicología, haciendo parte del
material que ya fue enviando, por esta sociedad, en esta difusión virtual en
Psicología.

Palabras Claves: Pioneros, Patronos, BVS-Psi

1. Identificação dos legados


Na tabela 1, encontram-se dados referentes aos nomes dos Patronos,
a Cadeira que representa na Academia, as áreas da Psicologia que mais
Secretária Geral da Academia Paulista de Psicologia. Professor Titular em Psicologia Clínica
1

pela UNESP. Contato: Rua Pelágio Lobo, 107, Perdizes, São Paulo, SP, Brasil. CEP 05009-020
290 E-mail: juanaidyl@uol.com.br
Bol. Acad. Paulista de Psicologia, São Paulo, Brasil - V. 32, no 83, p. 290-293

influenciaram o seu desenvolvimento e o local onde os artigos se encontram


no Boletim. Com respeito à autoria, todas estas contribuições foram escritas
por Hebe Boa-Viagem A. Costa, especialista em História do Brasil,
advogada, socióloga e pedagoga. Quanto ao legado do Prof. Milton, como
era assim chamado, Norberto Abreu da Silva Neto contribuiu com um estudo
sobre sua vida e obra, ao tomar posse da Cadeira, da qual aquele é Patrono
(Boletim V. 31, n. 81, p. 338-350).

Patronos Cadeiras Áreas de Referências no Boletim


influência

Milton Camargo da 06 Pesquisa em v.31, n. 80, p. 8-11 e


Silva Rodrigues Psicologia v. 31, n. 81, p. 338 -350

Candido Mota Filho 24 Psicologia Social v. 30, n. 82, p. 21-26


e Jurídica

Mário Yahn 09 Psicopatologia v. 32, n. 82, p. 47-55

2. Principais contribuições de cada Patrono referenciado

Milton Camargo da Silva Rodrigues (é20/11/1904 - †30/08/1974)


De formação básica em Engenharia Civil (diplomado em 1928), depois
se especializou em Estatística Aplicada à Educação e à Psicologia. Razão
porque, posteriormente, recebeu bolsa de estudos para frequentar cursos
na Columbia University (USA) sobre temas de pesquisa quantitativa, como
Inferência Estatística, Análise de Variância e Teoria das Amostras. Iniciou
suas atividades profissionais na então conhecida, Escola Normal Caetano
de Campos, incorporada em 1934, à Universidade de São Paulo, compondo
a Seção de Pedagogia da memorável Faculdade de Filosofia, Ciências e
Letras, ora unidade básica dessa Universidade. Lecionava Educação
Comparada na citada Seção, época em que publicou o célebre livro na
matéria, dando divulgação a um campo pouco conhecido na época (1934).
Anos mais tarde, retornou à Estatística, área de sua preferência. Ao alvorecer
dos anos 30, eram poucos aqueles que se interessavam pela matéria e
tampouco utilizavam-na em pesquisas. Publicou, na época, Elementos de

291
Bol. Acad. Paulista de Psicologia, São Paulo, Brasil - V. 32, no 83, p. 290-293

Estatística Geral, com referência à Psicologia, Biologia e Economia. Esta


obra teve várias edições. Em 1935, o Professor Milton tornou-se, por
concurso, Catedrático de Estatística, e Chefe do Departamento de Estatística
na memorável Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras da USP. Colaborou
com diversas seções, sendo a principal, a de Pedagogia. Nela foi professor
de vários Titulares desta Academia, que a cursavam com intenção de obter
formação em Psicologia, uma vez que, no seu programa, continham várias
matérias desta área do conhecimento. Como se recorda, nos anos 40 e 50,
não havia carreira e nem curso de formação em Psicologia.
Professor Milton notabilizou-se no campo da Estatística como
instrumento de pesquisa nas áreas de Educação e de Psicologia, citando-
se como exemplo suas teses, objeto de concurso de Cátedra (1935) Da
propriedade e alcance do Método Estatístico em Educação e especialmente,
na Psicologia e sua tese de doutorado Estatística aplicada à Psicologia.
Foi promotor do Curso de Psicologia, em anos mais recentes, e suas
publicações o tornaram expoentes na matéria em que se aprofundava, cujos
livros ainda com vigência na atualidade. Deles se destacam Elementos de
Estatística Geral (1934) e Vocabulário Brasileiro de Estatística (1944).
Participou de várias pesquisas de grandes números no Brasil e também
em diversos eventos na sua especialidade. Seus importantes avanços na
Estatística Aplicada, em especial na Psicologia, foram motivos de
congratulações tanto no Brasil, quanto na Argentina e França. As razões
expostas, entre outras, motivaram a sua escolha como Patrono da Cadeira
número 6, desta Academia.

Candido Mota Filho (é16/09/1897 - †04/02/1977)


Destacou-se com igual brilho, em seus múltiplos campos de interesse:
Direito, Jornalismo, Política e Educação. Seus conhecimentos psicológicos
despontam nessas várias áreas, em especial no exercício das atividades
jurídicas, sem falar na sua atuação nos altos cargos que ocupou, como
Ministro do Supremo Tribunal e de Professor Titular da Faculdade de Direito
da USP. Grande intelectual e humano em suas ações, como a de sempre
imprimir uma abordagem sociopsicológica no entendimento do crime e da
pena, assim como na atenção preventiva na assistência ao menor carente,
fato este que se comprovou ao implantar, com pioneirismo, o Instituto de
Psicologia no então Serviço Social de Menores, sua finalidade era, segundo

292
Bol. Acad. Paulista de Psicologia, São Paulo, Brasil - V. 32, no 83, p. 290-293

suas palavras, implantar normas de processamento científico no


entendimento do menor carente.
Dedicou-se à Psicanálise quando já seguro em suas produções
científicas. Nas biografias e memórias que escreveu, percebe-se o quanto
esses conhecimentos estiveram presentes na interpretação das histórias
de vidas, especialmente, das expressivas personalidades da época.
O seu saber e expressivo legado foram objetos de várias láureas
acadêmicas, em vida, como a de Professor Emérito da Faculdade de Direito
da USP e ter sido escolhido como Titular de renomadas Academias de
Letras, do Pen Clube do Brasil e do afamado Instituto Histórico-Geográfico.
Post-mortem continua sendo objeto de reconhecimentos, como em uma
cidade do Estado de São Paulo que leva o seu nome e de Patrono da
Cadeira número 24, da Academia Paulista de Psicologia.

Mario Yahn (é04/07/1908 - †15/03/1977)


Mário Yahn foi um psiquiatra de renome internacional, com interesses
amplos que se estenderam à Psicologia e à Psicanálise. Esta é a razão
porque foi um dos fundadores de várias entidades e associações nestas
áreas. Não as deixava ao léu, sendo nelas os primeiros Presidentes ou
Diretores, até que as mesmas se firmassem. Como exemplo, é o Instituto
de Psicanálise, por ele fundado, sendo dele o primeiro Diretor. Dedicou-
se a uma diversidade de temas psiquiátricos e neuropsicológicos até
chegar à Psicanálise e à Psicologia. Sua obra se caracterizou por estudos
científicos e publicações aliados à prática clínica. A tese de doutorado foi
exemplo de dedicação à ciência, sendo referente a um tema marcante na
época, a Sulfoterapia na Paralisia Cerebral Progressiva. O seu legado se
transcreve pela autoria de expressivas publicações, entre livros e artigos
em revistas científicas, em especial de natureza psiquiátrica,
neuropsiquiátrica e psicológica, esta última no Boletim de Psicologia,
pertencente à Associação de Psicologia de São Paulo, sendo dela um
dos fundadores. No entanto, a sua maior contribuição prática foi o empenho
que depositou para regulamentar a profissão do Psicólogo. Por esta
importante contribuição se pode deduzir o seu caráter aberto, de um
eminente cientista, diferente de alguns de seus colegas que viam no
psicólogo um competidor. Estas e outras razões o conduziram a receber o
Título de Patrono da Cadeira n. 09 da Academia Paulista de Psicologia
(resumo do artigo indicado na Tabela).

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Bol. Acad. Paulista de Psicologia, São Paulo, Brasil - V. 32, no 83, p. 294-312

• Internet e subjetividade – Um debate preliminar


Internet and subjectivity – A preliminary discussion
Internet y Subjetividad: Un debate preliminar
Cleusa Kazue Sakamoto1
Caio Fernandes de Souza2
Faculdade Paulus de Tecnologia e Comunicação – FAPCOM

Resumo: Criada na metade do século passado com o intuito de garantir a


comunicação entre as várias bases militares americanas, a internet é o meio de
comunicação que mais cresce no mundo contemporâneo e que vem modificando
inúmeros aspectos da vida do homem – na relação consigo, com seu semelhante
e com o ambiente em que vive. A internet passou a ocupar cada vez mais espaço
na sociedade e a integrar sua construção, de modo positivo, por exemplo,
possibilitando a geração coletiva de conhecimento advinda de inúmeras mentes
interconectadas pela rede, e de modo negativo pelo distanciamento físico entre
as pessoas no relacionamento social dado pelo contato e comunicação indiretos
realizados por intermédio da tecnologia. Nos últimos anos, a internet assumiu
um grau de influência incomparável para o ser humano e passou a interferir no
modo de percepção do mundo, nas relações sociais e consequentemente, na
construção da identidade pessoal. O artigo propõe um debate preliminar sobre
as relações entre a internet e a subjetividade na atualidade, buscando identificar
fatores de análise para um aprofundamento do assunto. Esboça o interesse em
discutir o desenvolvimento de capacidades humanas e do potencial criativo.

Palavras-Chave: internet, subjetividade, identidade, ciberespaço,


desenvolvimento humano.

Abstract: Created in the middle of the last century to ensure the communication
between different American military bases, the internet is the fastest growing
means of communication nowadays, and it has been modifying various aspects
of mankind – the relation to oneself, its cohorts and the surrounding environment.
The internet started to take more and more room among society and began to
integrate its construction, positively, for example, allowing the collective generation
of knowledge from countless minds connected by the web, and, in a negative
fashion, by physically distancing people from social interaction and direct
communication, provided by technology. In the past few years, the internet took
an incomparable degree of influence over the human being, interfering with its

1
Psicóloga, Professora da FAPCOM, Pesquisadora com Doutorado em Desenvolvimento
Humano pela USP. Contato: Av. Brigadeiro Faria Lima, 1616 / 804 – Jd. Paulistano / SP-SP,
Brasil. E-mail: cleusa.sakamoto@geniocriador.com.br
2
Relações Públicas da Faculdade Paulus de Tecnologia e Comunicação – FAPCOM. Contato:
Rua José Carlos Simões de Falco, 112. Vila Sirene – São Paulo, SP, Brasil. CEP 03268-130. E-
294 mail: caiosouza.rp@gmail.com
Bol. Acad. Paulista de Psicologia, São Paulo, Brasil - V. 32, no 83, p. 294-312

perception of the world, social interactions and, thus, the construction of a personal
identity. This article proposes a preliminary debate over the relations between
internet and subjectivity nowadays, seeking to identify factors to be analyzed in
order to delve into the subject. It portraits the interest to discuss the development
of human capabilities and the creative potential.

Keywords: internet, subjectivity, identity, cyberspace, human development.

Resumen: Creado en la mitad del siglo pasado como un intento para garantizar
la comunicación entre las diferentes bases militares americanas, el internet es
el medio de comunicación que más crece en el mundo contemporáneo y que
viene modificando innumerables aspectos de la vida del hombre- consigo mismo,
con sus semejantes y con el ambiente en el que vive. El internet pasó a ocupar
cada vez más espacio en la sociedad y a formar parte en su construcción, de
manera positiva, facilitando la generación colectiva de conocimiento proveniente
de innumerables mentes interconectadas por la red, por ejemplo; y de modo
negativo por el distanciamiento físico entre las personas en cuanto a la interacción
social, dado por el contacto y la comunicación indirecta realizada a través de la
tecnología. En los últimos años, el internet asumió un grado de influencia
incomparable para el ser humano, pasando a interferir en la forma en que percibe
su mundo, las relaciones sociales y consecuentemente, en la construcción de
la identidad personal. El artículo propone un debate preliminar sobre las relaciones
entre el internet y la subjetividad en la actualidad, buscando identificar factores
de análisis para profundizar en el tema. Esboza el interés en discutir el desarrollo
de las capacidades humanas y del potencial creativo

Palabras claves: internet, subjetividad, identidad, ciber espacio, desarrollo


humano

Introdução
A internet – rede internacional de comunicação – é o ambiente que
desde o final do século passado traz consigo mudanças radicais no modo
como o homem conhece o mundo, como o percebe e interage com ele. Ela
modificou a forma das pessoas se relacionarem com as demais, o
ambiente, o conhecimento, com as próprias motivações, com a vida
produtiva, com o consumo.
Este artigo aborda de modo preliminar, a influência da internet na vida
contemporânea, discutindo as consequências prejudiciais para a
humanidade, relativa à forma indireta de relacionamento interpessoal que é

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Bol. Acad. Paulista de Psicologia, São Paulo, Brasil - V. 32, no 83, p. 294-312

mediada pela tecnologia, ao lado da valorização do intenso intercâmbio


mundial por ela possibilitado. Pretendemos estimular uma reflexão sobre a
internet como ferramenta de comunicação que serve de base na análise da
construção da subjetividade na atualidade. Nesta direção, questionamos
sua importância na participação dos processos socioculturais e sua
influência na construção de novos modos de ser e viver do ser humano na
atualidade.
O nosso ponto de partida na reflexão do assunto é a característica
central da internet que é o relacionamento virtual do ser humano com fatos,
objetos e pessoas, de tal modo que uma nova realidade exterior foi criada –
expandida em comparação à realidade de contornos concretos, cuja
percepção depende da somatória das dimensões direta e indireta, concreta
e virtual.
A percepção do real assim constituída, integrando dimensões
concretas e digitais, passa a transformar os modos de ser e viver do ser
humano e instaura uma nova ótica no entendimento das relações sócio
afetivas e intelectuais. A realidade social é “reinventada” acrescida das
múltiplas redes digitais de busca de informação e das redes sociais virtuais,
que trazem para a construção da subjetividade, uma nova discussão sobre
os fatores de influência na formação do sujeito como indivíduo autônomo,
como produto das predisposições herdadas em associação à experiência
e seu relacionamento com o ambiente. A construção da identidade neste
sentido ganhou novas bases.
A internet com sua comunicação ampla, enquanto intercâmbio global
sem os limites das fronteiras geográficas, é livre, devido à ausência de
mecanismos usuais de censura ou outras barreiras de acesso; introduz
modalidades novas de compreensão do mundo humano, pois são possíveis
relacionamentos humanos e trocas significativas em seus inúmeros
ambientes, sem contato presencial de pessoas, que fisicamente podem
estar a muitos quilômetros de distância.
Vista de outro ângulo, a internet inaugurou uma acessibilidade ao
conhecimento jamais imaginada, a partir da possibilidade de em poucos
minutos disponibilizar a seus usuários uma quantidade relevante de
informações para estudo e análise. Assim, a informação deu lugar ao
desenvolvimento do conhecimento e com estas mudanças, o ser humano

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Bol. Acad. Paulista de Psicologia, São Paulo, Brasil - V. 32, no 83, p. 294-312

também redimensionou sua trajetória de construção da individualidade e


dos relacionamentos sociais.
As mudanças cotidianas presentes na contemporaneidade, como a
existência do correio eletrônico, as inúmeras bases de armazenamento de
dados, o sistema de telefonia com imagens, para citar alguns exemplos,
transformaram a realidade virtual em uma dimensão complementar à
realidade concreta da vida diária. Esta nova dimensão da realidade exterior
acessada com sofisticado auxílio tecnológico e ao mesmo tempo disponível
em inúmeros ambientes, inclusive o doméstico, adquiriu um status legítimo
na realidade objetiva e propõe uma discussão importante acerca das
repercussões subjetivas na construção da pessoa.
A identidade, como conjunto de fatores que representa um indivíduo
como ser biopsicossocial, que está no centro deste panorama histórico da
evolução da história humana, é o protagonista das mudanças efetivadas no
cotidiano e também é aquele que recebe os impactos dos processos
derivados das revoluções científicas, tecnológicas e socioculturais. Temos
que nos perguntar diante deste horizonte de fatores e processos evolutivos,
como caminha a construção da identidade, na medida em que ela é um
resultado das interações de processos complexos da herança genética, da
dimensão psíquica e da realidade social.
Características peculiares presentes nas identidades hoje, como a
espontânea miscigenação de aspectos culturais que é estimulada pela
globalização, o alto consumo de substâncias químicas psicoativas, o alto
índice mundial de doenças afetivas como a depressão, o aumento geral da
longevidade na espécie humana, são alguns exemplos de constatações
científicas amplamente noticiadas e disponíveis à população pelos meios
de comunicação, que traduzem em fatos e/ou sintomas as transformações
na maneira de viver do ser humano.
O conjunto dos campos econômico, social, político, cultural e espiritual
(referente aos princípios e valores humanos) em interação na realidade da
vida humana revela uma complexidade de conexões e implicações que se
multiplicaram com a nova dimensão digital. A grande quantidade de
informações enriqueceu o olhar dos fatos, mas tornou mais difícil a
constatação de evidências. Neste sentido, é importante esclarecermos que
o artigo propõe uma abordagem preliminar à relação entre internet e
construção da subjetividade, já que o tema envolve questões de grande

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Bol. Acad. Paulista de Psicologia, São Paulo, Brasil - V. 32, no 83, p. 294-312

magnitude quando leva em conta a reconfiguração da realidade social.


Esperamos que as ideias iniciais aqui apresentadas possam despertar
novas reflexões e estudos na direção de um aprofundamento ao debate
sugerido.

Internet, o mundo humano e a subjetividade


Não há como falar de sociedade da informação ou cultura digital sem
falar do avanço que a internet possibilitou para a humanidade.
Sem a preocupação de discorrer sobre seu histórico desde o
surgimento, mencionaremos uma breve referência sobre seu início. A origem
da internet segundo o sociólogo espanhol Castells (2000), está associada
à “Arpanet”, uma rede de computadores criada em 1969 pela ARPA, uma
agência formada pelo departamento de defesa dos Estados Unidos com o
objetivo de obter através de pesquisas, uma tecnologia militar mais avançada
que da União Soviética. Esta comunicação em rede foi criada como um
meio para permitir que os vários centros de pesquisa que trabalhavam para
a ARPA pudessem compartilhar suas produções, de modo imediato, em
tempo real ou on-line. Em seu segundo ano de existência a rede tinha 15
participantes, que na maioria eram centros universitários de pesquisa.
Menciona o mesmo autor, que em 1972, após a primeira demonstração
bem sucedida da “Arpanet” em uma conferência internacional que aconteceu
em Washington, a ARPA conectou a rede criada com outras duas redes que
a agência também administrava, o que introduziu o conceito de “rede de
redes”. Em 1990 a “Arpanet” foi retirada de operação por estar obsoleta,
porém a definição de “rede de comunicação” foi liberada de seu ambiente
militar e o governo americano cedeu sua administração à National Science
Foundation (NFS), que em pouco tempo encaminhou sua privatização,
instituindo a internet tal como é hoje.
Castells (2000) menciona ainda, que o departamento de defesa militar
americano já tinha começado a comercializar a tecnologia da internet e
que, na mesma época em que passou a ser privatizada, a maioria dos
computadores americanos já tinha capacidade para entrar na rede, o que
deu base para a difusão da interconexão de redes. Com a expansão da
comunicação em bases comerciais, a internet iniciou o processo que a
transformou em rede global de computadores, especialmente depois do
desenvolvimento da plataforma de compartilhamento de informação – World

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Wide Web (w.w.w,), desenvolvida por Tim Bernes-Lee em 1990, conclui o


mesmo autor.
A internet emergiu em um privilegiado cenário do século XX, único na
história da humanidade, no qual confluíram o desenvolvimento científico e
da economia gerados pela guerra, o avanço da industrialização e a
consolidação da sociedade de consumo.
Dentre as transformações relevantes no horizonte do século passado,
vale ressaltar a globalização e o estabelecimento do mundo real estabelecido
geograficamente sem fronteiras, graças à possibilidade de comunicação a
grandes distâncias que as novas tecnologias possibilitaram e que gerou
mudanças nas relações culturais, sociais e econômicas entre as nações e
seus habitantes.
Esta situação de genuína universalidade do mundo humano também
trouxe mudanças para a definição da identidade, enquanto representação
da individualidade humana. O ser humano tornou-se enriquecido por
conteúdos intelectuais e estímulos culturais originários de múltiplas
realidades que passaram a fazer parte de suas relações interpessoais por
intermédio da internet.
O mundo globalizado e sem fronteiras geográficas que está perdendo
as fronteiras sociais, culturais, políticas e econômicas, está influenciando
transformações nos processos de construção de novos modos de ser e
conviver do ser humano. O tema da identidade – produto direto das
transformações sociais – emerge como um importante tema que requer
melhor entendimento na atualidade.
A identidade da perspectiva da psicologia explica que ela é um produto
da interação de tendências inatas ao indivíduo somadas a experiências
decorrentes da relação com o ambiente, que o modificam constantemente.
Segundo Brandão (1986 apud Bock, Furtado & Teixeira, 2006), o sujeito
constitui e reconhece sua identidade através do encontro / confronto com o
outro, percebendo o que há de similar e identificando aspectos que o
diferenciam, possibilidade que permite que a individualidade perceba as
próprias características que o tornam um ser único.
Considerando que a definição da identidade está associada à relação
com o outro na condição de convivência social, debater o tema da identidade
a partir da sociedade da informação na contemporaneidade, é empreender
uma análise necessária já que ela aponta sinais inegáveis de uma relevante

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mudança no cotidiano das relações humanas transformadas pelo avanço


tecnológico na área da comunicação.
O ser humano como agente de mudanças e produto das interações
sociais em uma sociedade global cuja realidade é miscigenada, constrói
uma identidade multideterminada que necessariamente será ‘multiaplicada’,
isto é, poderá transitar em diversas áreas - política, econômica, social,
pessoal, profissional, etc., nos respectivos contextos de relacionamento com
o ambiente.
A análise da influência da internet remete ao conceito de ciberespaço
(universo da realidade cibernética ou virtual), segundo Kellog (1991 apud
Santaella, 2004) que se traduz como uma dimensão criada de uma “realidade
aumentada” (p.229). O ciberespaço é um território importante para o
relacionamento de muitas pessoas hoje, na medida em que seus
frequentadores nele obtêm grande oportunidade de comunicação que
permite inúmeras trocas e ganhos, como as experiências de
compartilhamento que as redes sociais virtuais promovem.
O comportamento humano na realidade contemporânea ganhou nova
roupagem, influenciado por fatores vinculados à cibercultura (conjunto de
crenças, hábitos, valores e concepções estabelecido no ciberespaço e que
regulam as relações neste espaço), que modificou maneiras de se
estabelecer e manter as relações interpessoais. Esta realidade de interação
inclusive pode levar em conta caraterísticas ficcionais e/ou ideais de seus
usuários, que não encontram qualquer barreira ou censura para serem
expressos. Neste horizonte, a internet passou a ter um caráter gerador da
cibercultura e vem sendo o líder no mundo entre os veículos de comunicação.
A cibercultura transformou radicalmente o modo como o ser humano
se apropria do mundo objetivo, como também o levou a participar
constantemente da propagação dos conteúdos incorporados do/no mundo.
Neste sentido, modificou uma realidade estabelecida pela influência da mídia
nos últimos cinquenta anos, na qual a televisão, o rádio, as revistas e os
jornais mantinham o papel soberano de transmissão de informações.
Nas palavras de Lemos (2004 apud Levy & Lemos, 2010) cibercultura
é:

(...) o conjunto tecnocultural emergente no final do século XX


impulsionado pela sociabilidade pós-moderna em sinergia com a

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microinformática e o surgimento das redes telemáticas mundiais; uma


forma sociocultural que modifica hábitos sociais, práticas de consumo
cultural, ritmos de produção e distribuição da informação, criando novas
relações no trabalho e no lazer, nas formas de sociabilidade e de
comunicação social (p.21)

A cibercultura introduziu uma mudança sobre as relações de poder


dos jornalistas e dos veículos de comunicação em relação à função de veicular
a informação para a população, na medida em que as pessoas se informam
cada vez mais sobre os fatos através das próprias pessoas no ciberespaço,
sem a mediação do jornalista e da mídia, que antes eram fundamentais no
processo.
Duarte (2010) discorrendo sobre a comunicação digital e sua relação
com o jornalismo e com a assessoria de imprensa, afirma que a comunicação
digital

(...) reduziu a importância de intermediários e fez surgir novas arenas e


formas de diálogo, caracterizadas por interatividade, instantaneidade,
fortalecimento e multiplicação dos públicos, todos críticos, informados
e em permanente conexão. Qualquer um pode ser disseminador de
notícia e influenciador de opinião em larga escala. As nascentes de
informação tornaram-se incalculáveis e há facilidade de participar de
comunidades, criar mídias próprias, gerar, disseminar e obter conteúdo
em múltiplas formas e interagir diretamente com os diferentes públicos,
sem intermediação da imprensa. (p.361).

Esta nova realidade destaca a importância do papel da consciência


ética das pessoas frente a informação e sua influência na construção da
subjetividade, já que o papel da mídia de conscientizar a população atenuou-
se e a responsabilidade pessoal na transmissão de informações pelo
cidadão aumentou. Sendo assim, a produção e a transmissão de
informações tornaram-se descentralizadas, e podem em consequência, se
mostrarem desintegradas.
A este respeito, Lévy (1999) relaciona a definição de “universalidade
desprovida de significado central”, caracterizando a cibercultura como um
sistema desordenado que tem o “universal sem totalidade” como sua
essência. Neste sentido, o autor afirma:

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Bol. Acad. Paulista de Psicologia, São Paulo, Brasil - V. 32, no 83, p. 294-312

O ciberespaço se constrói em sistemas de sistemas, mas, por esse


mesmo fato, é também o sistema do caos. Encarnação máxima da
transparência técnica, acolhe, por seu crescimento incontido, todas as
opacidades do sentido. Desenha e redesenha várias vezes a figura de
um labirinto móvel, em expansão, sem plano possível, universal, um
labirinto com qual o próprio Dédalo não teria sonhado. Essa
universalidade desprovida de significado central, esse sistema de
desordem, essa transparência labiríntica, chamo-a de “universal sem
totalidade”. Constitui a essência paradoxal da cibercultura. (p.111).

Neste sistema, o principal gerador de conteúdo não é a mídia, mas é


o usuário comum. Essa mudança da fonte na geração de conteúdo traz
consequências positivas e negativas para a construção do ser humano,
especialmente em relação ao papel da autoconsciência na constituição do
indivíduo, que é fundamental para definir seu modo de viver e se relacionar
com a realidade.
A mídia como a detentora do poder na veiculação da informação,
exerce a responsabilidade sobre a qualidade das informações e veracidade
dos fatos por ela transmitidos. Por outro lado, no “universo sem totalidade”
do ciberespaço, apesar da informação ser mais neutra, no sentido de menos
contaminada por interesses de grupos minoritários, e ser transmitida por
usuários leigos, não oferece parâmetros para distinguir com clareza uma
informação verdadeira de uma informação falsa. Wurman (2005) ao abordar
a realidade da informação geradora de ansiedade, nos tempos atuais,
aponta que “informação correta é exatamente igual informação
incorreta”(p.13).
Esta singular condição que permeia a sociedade da comunicação pela
internet, na qual muitas vezes há uma dificuldade intransponível em distinguir
informações verdadeiras das informações falsas, destaca uma grave
consequência a respeito da construção da realidade social e seus
desdobramentos antropológicos e psicológicos.
Deste ponto de vista, o indivíduo pode se ocupar com assuntos que
não correspondem à realidade e integrar elementos de análise em suas
elaborações intelectuais que são irreais, sem assim o considerar. Em
consequência, fantasia e realidade perdem as fronteiras na dimensão da
realidade virtual.

302
Bol. Acad. Paulista de Psicologia, São Paulo, Brasil - V. 32, no 83, p. 294-312

Esta ocorrência pode ter sérias consequências na construção da


chamada “inteligência coletiva” que ganha cada vez mais forma e presença
no cotidiano. Para definir “inteligência coletiva”, Levy (1999), refere que:

[...] Um grupo humano qualquer só se interessa em constituir-se como


comunidade virtual para aproximar-se do ideal do coletivo inteligente,
mais imaginativo, mais rápido, mais capaz de aprender e de inventar
do que um coletivo inteligentemente gerenciado. O ciberespaço talvez
não seja mais do que o indispensável desvio técnico para atingir a
inteligência coletiva. (...) O terceiro princípio da cibercultura, o da
inteligência coletiva, seria sua perspectiva espiritual, sua finalidade
última. (p.131)

A “inteligência coletiva” alimenta uma relação de dependência do ser


humano ao ciberespaço, que cada vez mais se mostra condicionado a
manter um relacionamento compulsivo com o meio digital e, nesta prática,
vemos revelado um comportamento cada vez mais mecânico ou menos
afetivo, cuja comunicação se pauta em numerosas mensagens e
informações sem conta, que transformam o contato humano em produto
intelectual que não é capaz de emocionar e conferir sentido ao vivido.
Se há menos afeto nas mensagens que o ser humano troca no
ciberespaço, é evidente que uma consequência direta há de ocorrer em
relação à construção da personalidade. O jornalista e sociólogo Marcondes
Filho (2004) ressalta que as mensagens adquiridas no contexto da realidade
objetiva exercem poder e podem modificar o indivíduo e que quando as
informações utilizam o canal de acesso virtual elas enfrentam limites na sua
possibilidade de influência.
Castells (2000) chama a atenção do fato ao afirmar que a revolução
tecnológica atual

(...) não é a centralidade de conhecimentos e informação, mas a


aplicação desses conhecimentos e dessa informação para a geração
de conhecimentos e de dispositivos de processamento / comunicação
da informação, em um ciclo de realimentação cumulativo entre inovação
e seu uso (...). Pela primeira vez na história, a mente humana é uma
força direta de produção, não apenas um elemento decisivo no seu
sistema produtivo (p.61)

303
Bol. Acad. Paulista de Psicologia, São Paulo, Brasil - V. 32, no 83, p. 294-312

O tema é controvertido, pois devemos considerar que a internet


potencializa discussões entre as pessoas, como mencionam Lévy & Lemos
(2010), que defendem a ideia que as pessoas encontram no ciberespaço
outros indivíduos com anseios parecidos que podem promover ainda mais
a discussão sobre os temas de seus interesses, como ocorre no
estabelecimento de fóruns que buscam melhores soluções para
determinados problemas.
Lévy (1999) refere ainda, que as comunidades virtuais nomeadas
atualmente como redes sociais digitais, são construídas

(...) sobre as afinidades de interesses, de conhecimentos, sobre projetos


mútuos, em um processo de liberação ou de troca, tudo isso
independentemente das proximidades geográficas e das filiações
institucionais. (p.127).

Por outro lado, a comunicação na cibercultura expõe o anseio de seus


usuários por se comunicarem desejando apenas a visibilidade social.
Marcondes Filho (2004) ao discutir o limite da comunicação para o ser
humano, afirma que no panorama atual da sociedade as pessoas inventam,
vendem e

(...) usam todas as máquinas possíveis para se comunicar


exatamente porque não conseguem transmitir ao outro qualquer
coisa, mal conseguem entender ou sentir junto a este outro as
coisas que ela ou ele sentem. Os equipamentos para facilitar a
comunicação se multiplicam cada vez mais (...) porque precisam
preencher alguma coisa que dificilmente será preenchida: o
distanciamento, a separação entre as pessoas, as muralhas que
erguemos e que nos barram de todos os demais (p.8).

Segundo o mesmo autor, esse distanciamento é fruto em parte da


convivência em massa característica herdada da sociedade industrial
moderna, que tornou a vida em sociedade extremamente monótona e sem
emoções.
É interessante mencionar ainda, que o prejuízo na qualidade das
relações interpessoais é um resultado da importância dada atualmente ao
aumento do número dos vínculos sociais embora frágeis, que as pessoas
enumeram, em detrimento dos vínculos afetivos duradouros que não

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encontram lugar para se constituírem no convívio social, especialmente nas


redes sociais digitais.
Analisando as redes de relacionamento produtivo ou networks no
panorama de hoje, Barabási (2009) analisa a importância desses vínculos
frágeis, dizendo que eles desempenham

(...) papel crucial em nossa capacidade de nos comunicar com o mundo


exterior. Frequentemente, nossos amigos íntimos podem nos oferecer
pouca ajuda quando se trata de arranjar emprego. Eles transitam pelas
mesmas rodas que nós e inevitavelmente estão expostos às mesmas
informações. Para obter novas informações, temos de ativar nossos
vínculos fracos. (p.38).

Com essa visão sobre os vínculos sociais “fracos” e sua importância


na interferência dos acontecimentos que ocorrem no mundo objetivo, vale
ressaltar que nas redes sociais virtuais como Facebook e Twitter, por
exemplo, esses vínculos sociais “fracos” ganham ainda mais relevância para
as pessoas, graças a duas características destas redes: a velocidade na
transmissão de informações entre os indivíduos integrantes (caraterística
fundamental da cibercultura); e a seleção de conteúdos mais relevantes
publicada nas redes, por meio das recomendações indicadas pelas
pessoas. Barabási (2009) conclui sua análise sobre networks dizendo que
para entendermos a complexidade da conectividade em nosso mundo

“(...) precisamos ir além da estrutura e da topologia e começar a focar


a dinâmica que se processa ao longo dos links. As redes são apenas a
estrutura da complexidade, as vias dos diversos processos que fazem
nosso mundo vibrar. Para descrever a sociedade precisamos revestir
os links da rede social com as interações dinâmicas reais
intersubjetivas.” (p.197).

Neste horizonte de reflexões, em que o ser humano se mostra


dependente da tecnologia para se relacionar com o mundo no ciberespaço,
é relevante perguntarmos quanto existe de consciência e noção de realidade
de parte do usuário sobre estes novos imperativos da integração social na
atualidade.
Uma visão positiva da internet pode considerá-la uma oportunidade
concreta de obter informações e expressão, bem como uma possibilidade

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Bol. Acad. Paulista de Psicologia, São Paulo, Brasil - V. 32, no 83, p. 294-312

de transformação social que se mostra cada vez mais real. Uma visão
negativa da internet leva em consideração que o grande volume de
informações gerado por um número cada vez maior de usuários, pode
alienar ainda mais o ser humano.
A respeito do exacerbado volume de informações, Wurman (2005)
afirma que muita informação, provoca pouco entendimento e que o ser
humano, em meio ao grande volume de informações do ciberespaço, sofre
com ansiedade proveniente do crescimento da distância entre aquilo que
ele compreende e aquilo que ele acha que deveria compreender.
Costa (2003) menciona o “acesso ao excesso” (p.32) apresentado
pela internet como geradora de “angústia” e “desconfiança” que requer o
uso de “meios sofisticados de orientação” praticados na escolha por
conteúdos.
Ao discutir o tema da ansiedade no relacionamento do ser humano
com o ciberespaço, Wurman (2005) introduz uma importante reflexão sobre
a importância dos referenciais externos apresentados pelo conjunto social
para estruturar o universo pessoal subjetivo. Esta observação nos remete a
ponderar sobre a repercussão de possíveis perdas dos parâmetros que
estabelecem as bases do mundo real, uma vez que podem acarretar
imensuráveis danos ao processo da construção da identidade que é histórica
e contextualizada socialmente.
Nas palavras de Vygotsky (1930/2000) quando escreve sobre a
formação social da mente, encontramos que:

“A internalização das atividades socialmente enraizadas e historicamente


desenvolvidas constitui o aspecto característico da psicologia humana;
é a base do salto quantitativo da psicologia animal para a psicologia
humana” (p.76).

O mesmo autor explica que a “internalização” é “a reconstrução interna


de uma operação externa”, processo que nos permite compreender o
desenvolvimento das funções mentais superiores, como a atenção
voluntária, a memória lógica e a formação de conceitos (p.74 e 75). Menciona
Vygotsky (1930/2000) que no desenvolvimento do pensamento, “Um
processo interpessoal é transformado num processo intrapessoal. Todas
as funções no desenvolvimento da criança aparecem (...) primeiro, no nível

306
Bol. Acad. Paulista de Psicologia, São Paulo, Brasil - V. 32, no 83, p. 294-312

social, e, depois, no nível individual” (p.75). Conclui o autor acerca da


subjetividade: “Todas as funções superiores originam-se das relações reais
entre indivíduos humanos.” (p.75).
Nesta perspectiva de análise, se o contato com a cibercultura gera
ansiedade decorrente da elevada quantidade de informação e ainda, põe
em dúvida o parâmetro da veracidade ou não da informação, é importante
considerar que as consequências negativas para o relacionamento humano
e as construções subjetivas tornam-se preocupantes.
No caso de jovens e mesmo crianças que ‘navegam’ no ciberespaço,
é imprescindível o monitoramento dos adultos, já que desprovidos da análise
crítica da realidade virtual, poderão facilmente sucumbir à ansiedade
decorrente do volume incontável do conteúdo publicado na rede e acionar
como resposta, uma postura de onipotência intelectual e de compulsão
reativa com o comportamento de acesso 24 horas.
O advento da internet introduziu questionamentos necessários a
tradicionais redefinições acerca das relações Eu–Outro, interno–externo,
real–imaginário, individual–social. A perspectiva de visão frente a estes
conceitos não pode mais ser a da lógica linear que considera a mera
interdependência, mas deve ser a de um pensamento complexo que articule
uma dependência entre as partes e permita incluir microelementos que
interagem em seu próprio sistema e simultaneamente com os sistemas a
ele interligados. Talvez tenhamos que pensar o ser humano e sua
subjetividade também como uma realidade em rede na qual múltiplos fatores
se comunicam e cujo resultado não pode ser identificado em suas partes,
mas no conjunto e a partir da interação que dinamicamente conecta sua
unidade e estabelece suas relações de comunicação com o ambiente
humano.
Buscar o entendimento de múltiplos micro fatores em ação simultânea
dentro de sistemas complexos como o ambiente humano e a subjetividade,
e considerá-los interconectados por outro complexo sistema que é a
comunicação, parece indicar a necessidade de criarmos novos modelos
de pensamento para o avanço deste conhecimento.

Considerações Finais
Marcondes Filho (2004), afirma que a linguagem escrita não é capaz
de conter a totalidade da comunicação humana, pensamento que traduz a

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amplitude do debate realizado acerca da internet que descortina o horizonte


sem fronteiras da comunicação e sua influência na construção da
subjetividade.
A internet pode ser considerada um território de fronteiras sem
fronteiras, no qual realidades impensadas puderam ser pensadas. Neste
prisma de possibilidades de entendimento encontramos conceitos como o
de Stuart Hall (2006) sobre o “sujeito pós-moderno” ou expressões como
“pós-humano”, proferidas por Lucia Santaella (2004), que estimulam ideias
na direção de um aprofundamento na compreensão do ser humano na
contemporaneidade, suas relações humanas e comunicação.
Explica Hall (2006) que a definição de uma identidade essencial e
estável na modernidade deu lugar a uma “celebração móvel” na pós-
modernidade devido uma multiplicação dos “sistemas de significação e
representação cultural” que oferecem “uma multiplicidade desconcertante e
cambiante de identidades possíveis” (p.13).
Menciona o autor que a identidade na pós-modernidade sofreu um
“descentramento” (p.34) do “sujeito cartesiano” seja pelo pensamento
marxista de Althusser, pela teoria do inconsciente de Freud e as definições
acerca da fase do espelho de Lacan, seja pela concepção linguística de
Saussure, pela análise filosófica de Foucault e pelo movimento feminista
que encaminhou a formação das identidades sexuais e de gênero. Afirma
Hall (2006) que o “”sujeito” do Iluminismo, visto como tendo uma identidade
fixa e estável, foi descentrado, resultando nas identidades abertas,
contraditórias, inacabadas, fragmentadas do sujeito pós-moderno” (p.46).
Refere o autor, em conclusão, que a identidade cultural apoiada na cultura
nacional está em mudança, devido os processos da globalização e, afirma
que, quanto maior for a interligação dos sistemas de comunicação global,
“mais as identidades se tornam desvinculadas – desalojadas – de tempos,
lugares, histórias e tradições específicas” e, sendo assim, poderão “flutuar
livremente” (p.75).
Stuart Hall (2006) mostra uma perspectiva de análise coerente que
define uma caracterização viva da identidade, produto de um processo
histórico que libertou o ser humano de barreiras conceituais acerca de sua
humanidade.
Na busca de entendimento sobre a evolução de tecnologias da
comunicação, Santaella (2004) discute interessantes ideias. Menciona a

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Bol. Acad. Paulista de Psicologia, São Paulo, Brasil - V. 32, no 83, p. 294-312

autora que na realidade virtual – RV, “a dimensão cognitiva está fundada na


sensomotricidade e polissensorialidade, no envolvimento extensivo do corpo
na sua globalidade psicossensorial, sinestésica” (p. 229), e acrescenta que

todas as tecnologias complexificam nossa visão de mundo. A escrita,


a imprensa, o carro, os satélites, o telefone, o rádio, a televisão são
tecnologias... que mudaram para sempre o nosso modo de vida. O
ciberespaço e a RV enquadram-se bem nesta perspectiva. (p.229).

A autora apresenta uma linha do tempo destacando que:

A partir da revolução industrial e eletroeletrônica com suas máquinas


visuais e sonoras, fotográfica, cinematográfica, gravador, rádio, televisão,
as quais (...) chamei de máquinas sensórias, foram os sentidos
humanos, a inteligência sensória da espécie (...) que se estendeu,
amplificando-se. (...) A seguir, surgiram as máquinas inteligentes da
revolução teleinformática (...) telefonia, satélites de comunicação,
sistemas de radar, videodiscos de laser programáveis, robôs, células
biogeneticamente tratadas pela engenharia... todos exibem uma
capacidade para processar informação e executar ações.(Santaella,
2004, p.222).

As criações tecnológicas criadas pelo ser humano desde o século


passado são consideradas por Santaella (2004) como máquinas que “imitam
suas próprias funções (...) a um ponto em que é o cérebro que está sendo
reproduzido parte por parte em computadores” (p.223). A autora justifica
esta afirmação mencionando que “o crescimento do cérebro da espécie
humana, nos signos que este crescimento extrojetou, necessita hoje de
hipercérebros processadores, esses mesmos que são encontrados nos
bancos de dados e seus infindáveis fluxos à disposição das redes.” (p.223).
Neste sentido, a autora acrescenta a ideia de um “crescimento
do cérebro, fora da caixa craniana” (Santaella, 2004, p.221). Interpretamos
seu pensamento como uma elaboração extraordinária para referir o
desenvolvimento intelectual que testemunhamos na história da evolução
humana e que se materializa em inúmeros inventos tecnológicos existentes
na atualidade, a ponto de gerenciar processos que a inteligência opera e
criar novos sistemas que servem de suportes extensores aos processos. A
autora refere que “habilidades da mente” (Santaella, 2004, p.222) são

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Bol. Acad. Paulista de Psicologia, São Paulo, Brasil - V. 32, no 83, p. 294-312

transferidas para as criações tecnológicas e encaminha a partir daí, uma


longa discussão no sentido de definir posteriormente, o que denominou com
o termo “pós-humano”, que expõe uma ótica inovadora que permite
elaborações teóricas criativas.
O pensamento da autora para definir o termo “pós-humano” é
intrincado e parte do paralelo entre a concepção de que o ser humano possui
“algo de inumano” (ou “uma tendência para o inorgânico” ditado pela pulsão
de morte descrita por Freud), e “a tendência para a ordem a partir do caos”
(demonstrada por avanços nas ciências naturais no século XX) que propõe
“que há um certo funcionamento similar ao funcionamento orgânico vital, no
seio do inorgânico” (Santaella, 2004, p.248).
Afirma Santaella (2004):

modificou-se tanto o entendimento da natureza humana quanto... do


próprio ser humano. A natureza orgânica e a inorgânica são híbridas.
Portanto, o pós-humano tem que ser pensado como uma realidade
híbrida não apenas do humano com as máquinas, mas também com o
inorgânico da natureza (p.250).

Em sua explicação, a autora continua:

a desordem estimula a auto-organização e a torna possível. Com isso,


a imagem de um mundo que caminha para a morte térmica (...) no
século XIX, foi substituída pela imagem de um mundo que pode se
renovar continuamente. (...) A entropia é assim um dispositivo que
conduz o mundo para uma complexidade crescente e não para a morte.
(Santaella, 2004, p.249).

Neste sentido, conclui a autora questionando: “Se na natureza física,


(...) a morte não vence, por que a reversibilidade da pulsão de morte haveria
de vencer no psiquismo humano?” (p.250). O termo pós-humano convida
assim, a uma discussão sobre as possibilidades de evolução criativa da
espécie humana na qual contemplamos uma expansão sem fronteiras e de
qualidade não previsível, mas inegavelmente inovadora que revela
continuamente o desenvolvimento das capacidades humanas.
O horizonte de análise enunciado é bastante extenso e complexo.
Introduz muitas indagações sobre a inteligência humana e sua potencialidade
criadora.

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Bol. Acad. Paulista de Psicologia, São Paulo, Brasil - V. 32, no 83, p. 294-312

Como ferramenta de comunicação, espaço de interação e meio para


propiciar inúmeras modalidades de expressão, a internet revolucionou o
viver humano. Está criando uma nova cultura, uma nova linguagem, uma
nova concepção do que é viver. Produto da genialidade humana pode
também ser concebida como palco de ações criativas de toda ordem, da
busca expressão desta potencialidade humana.
Lipovetsky (2007), em sua análise sobre felicidade paradoxal na
sociedade de hiperconsumo, menciona que os indivíduos vivem atualmente
em uma sociedade na qual a prioridade é cada vez mais a facilidade, a
praticidade e o conforto e cada vez menos a dedicação, o foco e o dispêndio
de nosso valioso tempo para aquilo que de fato é importante: nossa formação
como indivíduos e a compreensão do nosso papel na sociedade. Neste
sentido, é interessante perguntarmos se a internet está promovendo
paradoxalmente humanização e desumanização do viver, pondo em conflito
suas tendências criativas e destrutivas.
O ciberespaço que oferece aos seres humanos múltiplas
possibilidades de escolha entre os dois lados de uma mesma moeda (o
favorável ou desfavorável) é o mundo que cada pessoa quer que ele seja.
No prisma da história da evolução humana é uma realidade incomparável
em termos das expansões da comunicação que agora pode, e de fato dá,
mais autonomia para cada indivíduo usá-la da melhor maneira possível na
construção de sua individualidade, cabendo a cada um fazer dela aquilo
que contribuirá para encontrar sua própria felicidade.
Podemos conceber finalmente, a internet como uma oportunidade
inédita da humanidade, a de delegar o “controle” da cultura às mãos certas:
do cidadão. O crescimento e a popularidade deste veículo que pode ser
visto como o principal meio de comunicação da atualidade, é de tal
relevância que todos os demais meios desta natureza se encontram
obrigados a seguir suas tendências. Um veículo que, se usado de forma
construtiva, com a devida consciência de suas possibilidades e limites, dá
voz às pessoas e propicia oportunidade para o desenvolvimento humano
livre da forte influência que a mídia deteve até hoje na construção do indivíduo.
Na análise das relações entre a internet e a construção da subjetividade
na contemporaneidade, psicologia e comunicação encontram-se, sem
dúvida, interligadas em um processo de compartilhamento, no qual o
imperativo da comunicação com suas múltiplas características, tem função

311
Bol. Acad. Paulista de Psicologia, São Paulo, Brasil - V. 32, no 83, p. 294-312

catalizadora e estruturante na construção do indivíduo e dos grupos


humanos. Como nunca visto, o poder individual e coletivo estão de mãos
dadas.

Referências
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Santos, J. P.. São Paulo: Leopardo.
• Bock, A.M.B.; Furtado, O.; Teixeira, M. de L.T.(2006). Psicologias: uma
introdução ao estudo de Psicologia. São Paulo: Saraiva.
• Castells, M.(2000) A sociedade em rede. Trad. Majer, R.de V. São Paulo:
Paz e Terra.
• Costa, R. da. (2003) A cultura digital. São Paulo: Publifolha.
• Duarte, J. (2010). Assessoria de imprensa no Brasil. In: J. Duarte (org.).
Assessoria de imprensa e relacionamento com a mídia: teoria e técnica.
São Paulo: Atlas.
• Hall, S. (2006). Identidade Cultural na Pós Modernidade. Trad. De Silva,
T.T.da; Louro, G.L. Rio de Janeiro: DP&A.
• Lévy, P. (1999). Cibercultura. Trad. Costa, C.I. da . São Paulo: Editora
43.
• Lévy, P. & Lemos, A. (2010). O futuro da internet: em direção a uma
ciberdemocracia. São Paulo: Paulus.
• Lipovetsky, G.(2007). A felicidade paradoxal: ensaio sobre a sociedade
de hiperconsumo. Trad. Machado, M.L. São Paulo: Companhia das
Letras.
• Marcondes Filho, C. (2004). Até que ponto, de fato, nos comunicamos?
São Paulo: Paulus.
• Santaella, L. (2004). Culturas e artes do pós-humano – da cultura das
mídias à cibercultura. São Paulo: Paulus.
• Vygotsky, L.S. (2000) A formação social da mente. Trad. Cipolla Neto,
C.; Barreto, L.S.M.; Afeche, S.C. São Paulo: Martins Fontes. Publicação
original em 1930.
• Wurman, R.S. (2005). Ansiedade de Informação 2: Um guia para quem
comunica e dá instruções. São Paulo: Cultura.
Recebido: 10/08/2012 / Revisto: 15/09/2012 / Aceito: 10/10/2012.

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Bol. Acad. Paulista de Psicologia, São Paulo, Brasil - V. 32, no 83, p. 313-330

• O Complexo Paterno Positivo na Psique Feminina


The Positive Paternal Complex in the Women Psyche
El complejo paterno positivo en la Psique Femenina
Kátia Ovídia José de Souza1
FIOCRUZ - RJ.

Resumo: Este estudo tem como objetivo através da narrativa do filme “O


Fantasma da Ópera”, compreendido como um Conto de Fada no modelo
proposto por Von Franz e analisado no referencial teórico da Psicologia Analítica,
descrever o processo do desenvolvimento da personalidade feminina. E a partir
da sua relação com o Complexo Paterno originalmente positivo e sua implicação
na clínica junguiana. O Complexo Paterno Positivo caracteriza-se por relações
durante a infância com muita dedicação, atenção, interesse, a filha venera o Pai.
O filme descreve a passagem da personagem principal como Puela, refém de
um Complexo Paterno positivo, que a impede de estabelecer um relacionamento
amoroso com o gênero masculino desvinculada da imagem do Fantasma, isto
é, a imagem do Pai. A história do Fantasma da Ópera vem a repetir uma situação
arquetípica. Alguns contos que apresentam o mesmo tema exposto no filme “O
Fantasma da Ópera” são: o conto “A Bela e a Fera” dos irmãos Grimm, o filme
“Pele de Asno” de Charles Perrault, o conto “Barba Azul”, “Donzela sem mãos”,
“Mulher Esqueleto” e a ópera a “Flauta Mágica”, de autoria de Wolfgang Amadeus
Mozart apresentada na versão cinematográfica por Ingmar Bergman. A história
do Fantasma da Ópera retrata o Complexo Paterno Positivo, demonstra o
desenvolvimento do relacionamento Anima e Animus, e a trajetória do processo
de individuação.

Palavras- chave: psicologia analítica; arquétipo; anima e animus; complexo


paterno.

Abstract: This study aims, through the narrative of the "The Phantom of the
Opera" movie, understood as a Fairy Tale in the model proposed by Von Franz
and analyzed in the theoretical framework of Analytical Psychology, to describe
the development process of the female personality. And from its relationship with
the Paternal Complex originally positive and its implication in the Jungian clinic.
The Positive Paternal Complex is characterized by relationships during childhood
with great dedication, attention, interest, the daughter worships the Father. The
film describes the passage of the main character as Puela, hostage of a positive
Paternal Complex, which prevents her from establishing a loving relationship

1
Psicóloga. Mestre em Saúde Pública pela ENSP/Fiocruz/RJ. Pós-Graduada em Teoria e
Prática Junguiana pela Universidade Veiga de Almeida/RJ. Contato: Rua Imbuí 240, casa 17,
Tanque-Jacarepaguá, Rio de Janeiro-RJ, Brasil. CEP 22730-100. Cel. (21) 88655495. E-mail.:
katiaovidia@oi.com.br 313
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with males unlinked to the image of the Ghost, that is, the image of the Father.
The story of the Phantom of the Opera repeats an archetypal situation. Other
stories that presented the same subject in the “Phantom of the Opera" movie
are: the Brothers Grimm tale "Beauty and the Beast", the "Donkeyskin" movie
by Charles Perrault, the tale "Bluebeard", "The Girl Without Hands","Skeleton
Woman" and the "Magic Flute" opera by Wolfgang Amadeus Mozart, in the film
version presented by Ingmar Bergman. The story of the Phantom of the Opera
portrays the Positive Paternal Complex, demonstrates the development of the
Anima and Animus relationship, and the trajectory of the individuation process.

Keywords: Analytical Psychology, archetype, anima and animus, paternal


complex.

Resumen: A través de la narración de la película “El Fantasma de la Ópera”


entendida como un cuento de hadas según el modelo propuesto por Von Franz y
analizada desde la perspectiva teórica de la Psicología Analítica, este estudio
tiene como objetivo describir el proceso de desarrollo de la personalidad femenina
a partir de la relación con el Complejo Paterno originalmente positivo y su
implicación en la clínica junguiana. El Complejo Paterno Positivo se caracteriza
por relaciones durante la infancia de mucha dedicación, atención e interés, la
hija venera al padre. La película describe la travesía del personaje principal Puela,
rehén de un complejo paterno positivo, que la imposibilita de establecer una
relación amorosa con el género masculino desvinculada de la imagen del
Fantasma, es decir, la imagen del padre. Esta historia, repite una situación
arquetípica. Algunos cuentos presentan el mismo tema que expone “El Fantasma
de la Ópera”, tales como: “La Bella y la Bestia” de los Hermanos Grimm, la
película “Piel de Asno” de Charles Perrault, el cuento de “Barba Azul”, “La doncella
sin manos”, “la mujer esqueleto” así como la ópera “La Flauta Mágica” compuesta
por Wolfgang Amadeus Mozart, la cual fue adaptada al cine por Ingmar Bergman.
La historia del Fantasma de la Ópera relata el complejo paterno positivo,
mostrando el desarrollo de la relación Anima y Animus, así como el recorrido del
proceso de individuación.

Palabras claves: Psicología analítica, arquetipo, anima y animus, complejo


paterno.

Introdução
O filme “O Fantasma da Ópera”, publicado em 1911, musical dirigido
por Joel Schumacher com roteiro de Andrew Lloyd Webber e o citado
dirigente (2004), é uma adaptação da história de amor de Gaston Louis

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Alfred Leroux (1868-1927). A história ocorre na Ópera Popular de Paris no


Século XIX, e seu enredo gira em torno do triângulo amoroso: Christine, o
Fantasma e Raoul. Como personagens secundárias do elenco, porém não
menos importantes, estão Madames Giry e Meg Giry, respectivamente, mãe
e filha, a primeira, que ajuda o Fantasma na infância a refugiar-se no
subterrâneo do teatro, por evitar o maltrato que sofreria em uma Feira de
Horrores de um circo, e Meg Giry que guia Raoul na sua busca na citada
caverna, a procura de Christine.
Christine, uma jovem cantora da ópera e personagem central do
enredo, é uma órfã educada na ópera de Paris por Madame Giry. O pai de
Christine era um famoso violinista, que ao morrer deixou sua única filha
órfã, aos sete anos, morando no alojamento do balé. Antes de morrer, ele
lhe prometera enviar o anjo da música para protegê-la e aperfeiçoar seu
talento. Ela acredita que o Fantasma da Ópera, seja esse anjo que a noite
lhe visita durante seu sonho.
Através da narrativa do filme, este artigo visa descrever o processo
do desenvolvimento da personalidade feminina, a partir da sua relação com
o Complexo Paterno. A importância do tema proposto tem como objetivo
demonstrar, através da literatura e do cinema, o processo de
desenvolvimento da psique feminina ao desvincular-se da primeira projeção
do Animus, ou seja, do Pai. A história do “O Fantasma da Ópera” retrata
esse importante percurso para a personalidade feminina, sendo um exemplo
para a prática terapêutica junguiana, mostrando como é relevante
desconectar-se da primeira projeção do Animus, o Pai, e como é possível
a mulher ficar aprisionada em uma imagem sombria do masculino,
dificultando o relacionamento amoroso e motivando a busca por terapia.
A metodologia do estudo compreendeu uma análise do filme como
um Conto de Fada, com foco no relacionamento de Christine com o
masculino, personificado nas imagens do: a) Fantasma da Ópera, isto é, o
fantasma do Pai; b) Raoul, amigo de infância e futuro marido. Como um
musical, as músicas foram norteadoras para o desenvolvimento do estudo,
sendo transcritas, literalmente, em português, de acordo com a legenda do
filme e analisadas segundo a Psicologia Analítica de C. G. Jung. A escolha,
do filme interpretado como Conto de Fadas, partiu do entendimento do seu
valor para a psique, como expressa Von Franz (1981/2005):

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Contos de Fada são a expressão mais pura e mais simples dos


processos psíquicos do inconsciente coletivo. Consequentemente, o
valor deles para a investigação científica do inconsciente é sobejamente
superior a qualquer outro material. Eles representam os arquétipos na
sua forma mais simples, plena e concisa. Nesta forma, pura, as imagens
arquetípicas fornecem-nos as melhores pistas para compreensão dos
processos que se passam na psique coletiva.(p. 9)

Deste modo, a interpretação do Conto de Fada, segundo o modelo


sugerido por Von Franz (1981/2005), foi o fio de Ariadne que nos conduziu
nos meandros do teatro do Fantasma da Ópera. Como base para
interpretação, o modelo proposto por Von Franz (1981/2005) compreende
o Conto de fada, considerando os seguintes aspectos: localização no tempo
e espaço, drama dos personagens, problema central, peripécia, clímax, final
e comparação da mesma temática em outros contos, sempre considerando
como muito importante o caráter simbólico presente neste tipo de conto.
Portanto, que seja aberta a cortina do teatro para que os personagens
ganhem vida, animados pela magia do espetáculo que pulsa energia em
suas veias, cada vez que ouve um aplauso.

Animus, Sombra e o Complexo Paterno na Psicologia Analítica


Hill (2005) em seu artigo “Reflections on The Phantom of the Opera”
relata que Jung escreveu muito pouco sobre música. Ele via a música como
expressão de altos aspectos da psique, uma forma de alquimia. A música,
no filme, é poderosa e intensa, infusão do fogo alquímico dentro de um
cadinho da escuridão de relacionamentos inconscientes. Através das
músicas da ópera podemos verificar a importância que Jung concede à
formação da personalidade, principalmente no que se refere à contribuição
da imagem paterna, como primeiro receptáculo do Animus.
Segundo Silveira (1968/2001), o Inconsciente Coletivo são as camadas
mais profundas do inconsciente, fundamento estrutural da psique comum a
todos os homens, uma herança que transcende o tempo e espaço. A
Psicologia Junguiana considera que emerge do inconsciente coletivo, os
arquétipos, como: [...] possibilidades herdadas para representar imagens
similares, são formas instintivas de imaginar. São matrizes arcaicas onde
configurações análogas ou semelhantes tomam forma (p.68). Portanto,

316
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como os arquétipos possuem uma base psíquica comum a todos os Seres


Humanos, tanto em lugares como em épocas distantes demonstram temas
idênticos nos contos de fada, mitos, ritos de religiões, temas nas artes e na
filosofia como também nas produções do inconsciente (sonhos e delírios
dos sofredores de transtorno mental). Na Teoria Junguiana os principais
arquétipos são: Persona, Anima e Animus e Sombra.
O arquétipo Animus e Anima são de importância central no filme. De
acordo com Silveira (1968/2001), a feminilidade inconsciente no homem é
a Anima, o arquétipo do feminino. Anima é composta pelas experiências
ancestrais do masculino com o feminino através dos tempos, resíduo de
impressões fornecidas pelo feminino. O primeiro receptáculo da Anima é a
mãe, só depois será transferida para a estrela de cinema, a cantora e para
a mulher com quem se relaciona amorosamente.
Animus seria o representante masculino existente no psiquismo da
mulher, ou seja, a personificação masculina do inconsciente na mulher- o
Animus- apresenta, tal como a Anima no homem, aspectos positivos e
negativos (Von Franz, 1964/1977, p.189). O Animus condensaria todas as
experiências que o feminino vivenciou nos seus encontros com o masculino
através dos tempos. A partir do material inconsciente que é modelada a
imagem do masculino que o feminino procura. O primeiro receptáculo do
Animus será o Pai, depois imigra para o professor, o ator/ cantor ou atleta,
até ao parceiro amoroso (Silveira, 1968/2001).
Deste modo, as relações entre o homem e a mulher ocorrem dentro
do tecido fantasmagórico produzido pela anima e pelo animus (Silveira,
1968/2001, p.86). Quando o princípio feminino no homem, a Anima, é
confrontada e integrada pelo ego, desfazem-se as personificações, a Anima
assume uma função psicológica importante de relacionamento com o mundo
interno (como intermediária entre o consciente e o inconsciente), junto com
a função de relacionamento com o exterior (na qualidade de sentimento
consciente assimilado). Em relação ao Animus, se integrado pelo
consciente, é o mediador entre o inconsciente e o consciente, proporciona
à mulher a capacidade de reflexão e autoconhecimento (Silveira, 1968/2001).
O filme do Fantasma da Ópera retrata esse percurso, sendo importante
também destacar a importância da Sombra e do Complexo.

317
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A Sombra, de acordo com o Modelo Junguiano do funcionamento


psíquico, significa uma espessa massa de componentes variados, como:
fraquezas, aspectos imaturos e complexos reprimidos. Mas também,
poderão ser identificadas potencialidades de traços e qualidades favoráveis,
que não se desenvolveram por causa de falta de condições ambientais
externas ou porque o indivíduo não possuía energia vital suficiente. Portanto,
olhar em um espelho que reflita sua sombra é um ato de coragem, pois será
observado o lado obscuro e desconhecido de nossa personalidade pelo
ego e a consciência (Silveira, 1968/2001). Quanto mais uma pessoa tenta
ver a sua sombra mais ela fica consciente; ocorre o que Silveira (1968/
2001, p.81) chamou de realização da sombra: [...] Lançar luz sobre os
recantos tem como resultado o alargamento da consciência.
Segundo Kast (1997), o conceito de Complexo é central na Psicologia
Analítica de C. G. Jung. São muitos e descritos como constelação de
experiências passadas e fantasias condensadas, em torno de um tema
central e carregado de forte emoção. Especificamente,

Complexos são núcleos afetivos da personalidade, provocados por um


embate doloroso ou significativo do indivíduo com uma demanda ou
um acontecimento no meio ambiente, acontecimento para qual ele não
está preparado (p.31).

Destacamos o Complexo Paterno da filha em relação ao pai, nas


articulações com a história do O Fantasma da Ópera. Este Complexo
quando Positivo caracteriza-se por relações, durante a infância, com muita
dedicação, atenção, interesse, a filha venera o Pai. Em geral, são filhas
atenciosas, sendo a filha do Pai. A presença da mãe está em segundo
plano. Para uma diferenciação, o Complexo Paterno Negativo caracteriza-
se por conflitos com o Pai, a filha nutre sentimos negativos em relação a
este, como rancor e ódio, não apresenta um bom relacionamento. Essas
duas formas de Complexo marca as expectativas em relação às outras
pessoas, ao mundo e às escolhas na vida (Kast, 1997).
Particularmente, centraremos nossa atenção ao Complexo Paterno
originalmente Positivo nas mulheres, fato posteriormente que será
relacionado ao desenvolvimento da personalidade da personagem principal
do espetáculo do “O Fantasma da Ópera”, pois Christine venerava seu Pai

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e essa imagem reteve toda sua energia vital e possibilidade de estabelecer


novas formas de vínculos com o masculino.
O Animus pode tornar-se sombrio a ponto de ser projetado em uma
imagem fantasmagórica, aprisionando a energia vital em um Complexo.
Esta energia, no caso de Christine, que poderia estar disponível para poder
olhar para outra imagem masculina, fica fixada na imagem paterna. Christine,
ao ficar fixada na figura do Pai, impede de transferir a imagem do Animus
vinculada ao paterno para outras projeções do masculino, como o professor,
o ator de cinema ou cantor, até a escolha do parceiro amoroso.
O indivíduo consciente de suas tendências opostas, incluindo aspectos
claros e escuros, composto de consciente e inconsciente, de aspectos
femininos e masculinos, com o reconhecimento da própria sombra, a
dissolução dos complexos, a liquidação de projeções, resulta em um
alargamento do mundo interior do qual resulta o novo centro da
personalidade, ou seja, o Self, a totalidade da psique. Não mais restrita ao
ego, a personalidade completa-se quando consciente e inconsciente
ordenam-se em torno do Self, o sujeito não apresenta fragmentação interior,
realizando seu processo de individuação, a meta da Psicologia Analítica. O
processo de individuação compreende três etapas: a) desvestimento das
falsas roupagens da Persona (a máscara que usamos socialmente); b)
confronto com a Sombra; c) confrontação e integração da Anima e o Animus
(Silveira, 1968/2001). Christine, a personagem principal do filme, atravessa
esse percalço, de dissolução do complexo, enfrentamento da sombra e
integração da Anima e Animus, na trajetória de seu processo de
individuação.

Reflexões sobre o filme “O Fantasma da Ópera”: Entre o Complexo


Paterno positivo e a nova projeção do Animus
A história do “O Fantasma da ópera” explora tanto o masculino como
o feminino, o relacionamento Animus e Anima. Cabe lembrarmos, que tanto
Christine está vinculada a um relacionamento simbiótico com a memória
do Pai, prestando-lhe lealdade, como também o Fantasma da Ópera sofreu
rejeição de sua mãe por sua deformidade facial.
Hill (2005) expõe o passado violento da rejeição materna do Fantasma,
que se torna um paradoxo. A máscara, que o protegeu, torna-se também

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sua maldição. Christine emerge na sua vida como um palco de fantasias,


que ambos sustentam, mas que os esmaga. Essa forma de aparição do
Animus tenta dominar a personalidade de Christine através do poder da
magia da música, assim, o Fantasma forma o seu cerco demoníaco. Ela
está envolvida com o seu anjo da música, isto é, o Fantasma da Ópera,
primeiramente como um Animus criativo, que lhe ensina durante seus sonhos
a tornar-se uma grande estrela da ópera de Paris, uma artista de sucesso
tal como o seu pai era e havia desejado como futuro para a sua filha. O
grande problema é quando Christine decide não acatar todas as imposições
de seu tutor, o Fantasma. A presença de Raoul, um amigo de infância,
apresenta a possibilidade de um envolvimento amoroso com um homem,
Christine precisa assumir a postura de mulher e deixar de ser apenas a
aluna de seu professor mascarado.
O relacionamento de Christine com o Fantasma muda ciclicamente
durante toda a história, primeiro aparece como professor e aluna, depois
como Pai e filha e por fim como amantes. Durante o relacionamento entre o
Fantasma e Christine surgem alguns símbolos relevantes, que demonstram
como está estruturada a forma que o casal compõe seu estranho dueto.
Compreendemos por símbolo, segundo Jung (1964/1977), o termo,
um nome ou mesmo uma imagem que pode ser familiar na vida diária,
embora possua conotações especiais além do seu significado evidente e
convencional. Uma palavra ou imagem é simbólica quando implica alguma
coisa além do seu significado manifesto e imediato. Um aspecto
inconsciente mais amplo, como por exemplo, o homem produz símbolos,
inconsciente e espontaneamente, na forma de sonhos.
Jung (1964/1977) apresenta outro exemplo no caso de um indiano,
após uma visita à Inglaterra, contou na volta aos seus amigos que os
britânicos adoravam animais, isto porque observou inúmeros leões, águias
e bois nas velhas igrejas. O indiano não estava informado que estes animais
são também símbolos dos três dos evangelistas, isto é, São Lucas, o boi,
São Marcos, o leão e São João, a águia. São símbolos provenientes de
uma visão de Ezequiel que, por sua vez, tem analogia com Horus, um deus
egípcio do sol e seus quatro filhos, aproximadamente no ano 1250 a. C.
Assim como, presente nos Antigos Babilônios que projetavam seus
deuses nos céus, sob a forma dos signos do Zodíaco (leão, escorpião, touro

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e peixe); os egípcios representavam a deusa Hator com cabeça de vaca, o


deus Amon com cabeça de íbis ou sob a forma de um cinocéfalo; Ganesha,
o deus hindu da sorte, tem corpo humano e cabeça de elefante, e Vishnu é
um javali; na Mitologia Grega, Zeus, o pai dos deuses, se aproxima das
jovens a quem desejava sob a forma de um cisne, um touro ou uma águia;
na Mitologia Germânica, o gato é consagrado à deusa Freya, enquanto o
javali, o corvo e o cavalo são associados à Wotan; o próprio Cristo aparece
simbolicamente como o cordeiro de Deus ou como peixe (Jaffé, 1964/1977).
O espelho vem a ser um dos principais símbolos presentes no início
do filme. A primeira forma de comunicação entre o Fantasma e Christine é
através do espelho, permitindo a comunicação entre os dois mundos, no
espelho surge a imagem do Fantasma da Ópera, que repreende Christine
por nutrir sentimentos amorosos por Raoul. O Fantasma seduz Christine
atravessando ela pelo espelho e levando-a para sua alcova, sua postura é
ao mesmo tempo de um Pai ciumento como também de um amante sedutor.
A imagem que revela o espelho é a do Fantasma, a personificação do
espectro paterno, que revela a força da escuridão que há atrás da máscara
do Fantasma. Christine inicia sua peregrinação ao percorrer a cavalo um
labirinto, depois entra em uma barca para atravessar um lago até chegar à
caverna do Fantasma, subterrâneo da ópera. Christine desce fascinada ao
mundo subterrâneo ao lado do Fantasma. Analisando os símbolos presentes,
o cavalo representa:

Uma crença, que parece estar fixada na memória de todos os povos,


associa originalmente o cavalo às trevas do mundo ctoniano, quer ele
surja, galopante com o sangue nas veias, das entranhas da terra ou
das abissais profundezas do mar. Filho da noite e do mistério, esse
cavalo arquetípico é portador de morte e de vida a um só tempo, ligado
ao fogo, destruidor e triunfador, como também à água, nutriente e
asfixiante (Chevalier & Gheerbrant, 1982/2006, p.202-203).

O cavalo guiado pelo Fantasma conduz Christine por um labirinto, o


simbolismo implícito no labirinto serve de bússola sobre qual caminho
Christine terá que trilhar:

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A ida e a volta no labirinto seria o símbolo da morte e da ressurreição


espiritual. O labirinto também conduz o homem ao interior de si mesmo,
a uma espécie de santuário interior e escondido, no qual reside o mais
misterioso da pessoa humana (Chevalier & Gheerbrant, 1982/2006,
p.531).

É este o caminho que Christine precisará percorrer, deve atravessar o


lago subterrâneo na barca do Fantasma. De igual importância ao simbolismo
do cavalo e do labirinto encontramos o simbolismo da barca e do lago.
Assim, “A barca é o símbolo da viagem, de uma travessia realizada seja
pelos vivos, seja pelos mortos” (Chevalier & Gheerbrant, 1982/2006, p.121).
Os lagos são considerados como:

[...] palácios subterrâneos de diamante, de joias, de cristal, de onde


surgem fadas, feiticeiras, ninfas e sereias, mas que atraem os humanos
igualmente para a morte. Tomam então a significação perigosa de
paraísos ilusórios (Chevalier & Gheerbrant, 1982/2006, p.533).

A chegada à caverna tem a representação simbólica que coroa o


percurso de Christine. A caverna, em números povos, figura nos mitos de
origem o renascimento e a iniciação (Chevalier & Gheerbrant, 1982/2006).
A entrada na caverna pode ser comparada a entrada no mundo do
inconsciente, só que agora Christine enfrenta seu Complexo Paterno e sua
Sombra durante a vigília, pois até então só nos sonhos emergia o Fantasma
da Ópera, ou seja, o Fantasma de seu Pai.
É na caverna que o Fantasma propõe casamento a Christine
mostrando-lhe um vestido de noiva, ela desmaia e ele a coloca dormindo
em sua cama como se fosse uma criança. Ao fundo, a caixa de música do
Fantasma no formato de macaquinho de pelúcia toca a música chamada:
“Mascarados”, representa algo lúdico, até infantil. O começo e o final do
filme são marcados pela presença da caixinha de música, ou seja, pela
postura de Christine frente à possessão do Fantasma, como uma Puela.
Puela é o feminino de Puer Aeternus, segundo Von Franz (1992), é o
nome de um deus da antiguidade, descrito nas Metarmophoses de Ovídio
como deus-criança nos mistérios eleusianos. O arquétipo invoca a fixação
anacrônica na infância, acarretando tendências regressivas dos afetos.
Paradoxalmente, é também um Deus da vida, da morte e da ressurreição.

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Christine ao comportar-se como uma Puela cumpre uma função


importante, a conexão com o seu Pai através da projeção no Fantasma. Ela
será sempre a eterna filha de seu Pai, uma Anima infantil que não pode
crescer, e tornar-se mulher. Assim, a interação entre Christine e o Fantasma
envolve a história arquetípica da Core, na Mitologia Grega Perséfone, filha
da deusa Deméter (Brandão, 2005). O tema psicológico e espiritual do “O
Fantasma da Ópera” oferece uma jornada dentro da psique e expõe para
nós a alma de uma Core (Hill, 2005).
No mito de Perséfone encontramos a mesma repetição da história
arquetípica da dificuldade do feminino lidar com o masculino, refugiando-se
em uma forma infantil de relacionar-se com o mundo. No Mito, Perséfone
precisa ser raptada pelo masculino, o deus grego Hades, para desvincular-
se de sua mãe e tornar-se mulher. Podemos observar que a saga das figuras
correspondentes a Deméter e Perséfone assemelham-se a de Christine e
seu Pai. Tanto Perséfone como Christine é duas Cores e o masculino (Hades
e o Fantasma) assume o papel de raptor (Jung, 1928/2003). Assim, o
problema central constitui-se na dificuldade de Christine desvincular-se da
memória de seu Pai, tal como Perséfone de sua mãe. A imagem paterna
personificada pelo Fantasma da Ópera só exerce sua possessão porque
Christine permite comportando-se como uma Puela. A interdição da
possessão da projeção do masculino sombrio implica também em uma
consciência do feminino na sua forma adulta.
Esse percurso constitui a peripécia de Christine, ou seja, a sua primeira
descida na caverna do Fantasma da Ópera onde seu anjo da música mostra
sua verdadeira face sombria, retirando sua falsa Persona (máscara) de
tutor aparecendo a projeção de um Animus sombrio. A primeira etapa que
Christine precisa enfrentar é a retirada da projeção, desligada de seu objeto.
Isso não é fácil, representa um encargo pesado e uma renúncia dolorosa
(Jung, 1955/1995). O Pai é uma projeção do Animus, logo, o Pai não é o
Animus, devendo perder sua força e se tornar uma relação eu- tu, diminuindo
as projeções, como as figuras posteriores do Animus também devem
diminuir sua energia.
Podemos pensar que o Complexo Paterno vem a ser mais forte do
que o ego de Christine. Precisamos lembrar que a imagem sombria do

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Fantasma da Ópera é a de um assassino, que foi capaz de estrangular o


seu domador na feira de horrores do circo quando era apenas um menino,
da mesma forma estrangula o contrarregra Joseph Buquet e o Tenor Piangi
no palco da ópera.
A Ópera foi a única morada do Fantasma, sua reclusão no subterrâneo
fez do palco o local onde foi exposto sua genialidade de compor, criar e
reger. Ao mesmo tempo, o assoalho do teatro foi manchado pelo sangue de
seus crimes na tentativa de possuir Christine. Deste modo, “[...] é imperativo
para a mulher escapar à dominação funesta do animus” (Von Franz, 1981/
2005, p.219). A presença de uma nova projeção do Animus vem interceder,
Raoul vivencia o mito do herói. Raoul tem uma importante função, ele traz a
possibilidade de Christine conectar-se com uma projeção do Animus mais
positiva, transformando a escuridão em brilho no olhar.
Christine precisa decidir-se entre o Fantasma e Raoul, a possessão e
a possibilidade de uma nova imagem do Animus. Sem saber Christine é
guiada até o mausoléu de seu pai pelo fantasma, que assume o lugar do
cocheiro da carruagem. Vestindo uma capa vermelha, que poderia ser
considerada como um manto iniciático, ela despede-se de seu Pai. Porém,
a imagem vampiresca do Fantasma da Ópera aparece de dentro do
mausoléu do Pai de Christine, ele cobra de sua escrava a sua servidão.
Christine enfrenta a segunda etapa de sua batalha, o confronto com a
sombra, cujo conteúdo é a sua dificuldade de lidar com o masculino. A
imagem do Fantasma da Ópera suga sua energia vital ao possuir a sua
mente, ou melhor, a consciência de um relacionamento Anima e Animus
equilibrado. Christine entrega a sua mente ao Fantasma sem questionar.
Raoul alerta Christine que o Fantasma não é o seu Pai, mas a força de um
Animus sombrio que pretende possui-la, tornando-a sua refém no mundo
subterrâneo. Christine vacilante assiste o duelo do Fantasma e Raoul, ele
tem a chance de matar o Fantasma, no entanto, Christine não permite, ela
ainda está vinculada ao Fantasma.
Christine fica dividida entre a projeção do Animus da escuridão, o
Fantasma, e a radiante projeção do Animus, Raoul. Contudo, em termos
psicológicos, a tensão de Christine no seu mundo interno foi necessária
para romper com a fixação no seu Pai e na força espiritual do Fantasma

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(Hill, 2005). Christine e Raoul ficam noivos, o que mobiliza a fúria do


Fantasma da Ópera, que depois de um período de afastamento, no baile
de máscaras da ópera em uma entrada triunfal fantasiado de a morte
vermelha, ele impõe que seja realizada uma ópera de sua autoria, com o
nome de Dom Juan Triunfante. Ele jura vingança ao casal e cobra seu salário,
seu camarote e Christine no papel principal de sua ópera.
Só que no dia da apresentação da ópera Dom Juan Triunfante, escrita
pelo Fantasma, será apresentado muito mais do que o roteiro do Fantasma,
será apresentado ao público a verdadeira face do Fantasma da Ópera que
assombra os pensamentos de Christine. Uma emboscada para esse dia
foi tecida sob o comando de Raoul, precavido por Madame Giry. Tudo se
tratava de uma emboscada para capturar o Fantasma e entregá-lo a polícia,
entretanto, Christine fica indecisa de completar tal plano.
A Ópera é iniciada com o assassinato do Tenor Piangi, o Fantasma
mata o Tenor para assumir o seu papel com o disfarce. É o clímax do filme,
o ponto decisivo, agora Christine não tem como retornar. A ópera vem a ser
um dueto sensual entre o Fantasma e Christine. Mesmo assim, Christine
pela primeira vez toma uma decisão e ao retirar a máscara do Fantasma
revela a verdadeira imagem terrificante oculta sob a máscara do Fantasma
ao público. Porém, a força da projeção do Animus no Fantasma ainda é
preponderante, e o Fantasma rapta Christine levando-a para o subterrâneo.
É a sua segunda descida a caverna, que assemelha à descida ao mundo
de Hades. Na primeira descida ela é guiada em transe pelo Fantasma, na
segunda é levada contra a sua vontade.
Christine ao tirar a máscara do Fantasma o confronta de forma adulta.
A Anima mostra-se fortificada a ponto de desafiar o seu anjo da música, a
imagem do feminino está mais forte, o ego não permite ser dominado pelo
Complexo Paterno Positivo. Raoul, a nova projeção do Animus, é guiado
pelo feminino, tanto por Madame Giry como por Meg Giry, na sua descida a
caverna. A descida na caverna corresponde a um risco mortal, Raoul quase
morre afogado em uma armadilha preparada pelo Fantasma. Enquanto isso,
o Fantasma recepciona Christine no seu próximo lar, a macabra caverna do
Fantasma da Ópera.
Raoul consegue chegar a caverna, e o Fantasma usa mais uma vez o
seu laço para tentar estrangular Raoul. Christine implora pela vida de Raoul,

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e o Fantasma pede que ela decida entre eles. Christine teria que casar com
o Fantasma e ficar com ele por toda a eternidade para o Fantasma libertar
Raoul, disposta a salvar o seu grande amor beija o Fantasma de corpo e
alma, prefere ficar com ele para evitar a morte de Raoul. Ela está disposta
a sacrificar-se, recolher as projeções e integrar a sua sombra, ou seja, o
Complexo Paterno Positivo. O Fantasma a liberta e oferece para o casal a
barca, a mesma que levou Christine em sua primeira descida a caverna.
Eles fogem Christine e Raoul, a fuga com Raoul na barca simboliza a união
Anima e Animus.
Logo em seguida, o Fantasma foge da Caverna, ele quebra os
espelhos e passa por uma passagem secreta. O elenco da ópera encontra
a caverna vazia, seu assombroso morador deixa para traz a caixinha de
música com o macaquinho tocando a música: “Mascarados”, que é achada
por Meg Giry. A ópera é consumida pelas chamas, assim, O fogo,
geralmente, representa emoção e paixão que tanto pode nos queimar
como nos iluminar (Von Franz, 1981/2005, p.221). Christine deixa de ser
Puela e passa a ser a Condessa de Changy, mãe e adorada esposa, casada
com Raoul.
Como diz Von Franz (1981/2005, p. 162), A natureza do herói, também,
revela a natureza da sombra. Ou seja, tanto a Sombra como o Herói de
Christine é fruto da sua fixação na imagem paterna, isto é, a dificuldade de
relacionar-se com o masculino. O complexo possui tanto um lado sombrio e
outro luminoso em um sistema polarizado, o modelo do arquétipo compõe-
se de duas esferas, uma luminosa e outra sombria (Von Franz, 1985/2002).
O Fantasma pode ser encarado como um instrumento de crescimento,
porque a sombra força Christine a mudar de atitude, voluntária ou
involuntariamente (Von Franz, 1985/2002). A presença do Fantasma sinaliza
a Christine a preponderância de romper com a fixação no Pai e deixar surgir
um novo par amoroso para Anima. De forma violenta, o Fantasma mostra
para Christine a prisão em que estava condenada, a possessão do Animus,
ou seja:

[...] desta forma que a sombra maligna tem um valor positivo e uma
qualidade portadora de uma luz luciferina. Ela é a força que o dirige para

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o inconsciente, e que será maligna somente se a sua função não for


compreendida, e que se apaga tão logo o príncipe ganha a princesa e o
reino. O fato de a sombra perder seu poder assim que o herói triunfa é
um dénouement (desfecho) típico (Von Franz, 1981/2005, p.146).

O Rito de Sortie, ou o desfecho da ópera, Raoul está velho visitando o


túmulo de sua esposa, com a qual construiu uma vida repleta de alegria,
deixando como legado ao mundo uma história de amor com filhos e um
casamento feliz. Christine, sua amada esposa, conecta-se com a projeção
positiva do Animus, encarnada por Raoul. Todavia, ao lado de seu túmulo
há uma rosa vermelha com o seu anel de noivado presenteado pelo
Fantasma, preso a um laço negro. Sobre o anel de noivado no túmulo de
Christine, podemos acreditar que a presença da misteriosa figura do
Fantasma da Ópera esteve presente ao seu lado até a sua morte.
Hill (2005) diz que nós não sabemos ao certo o que aconteceu com o
Fantasma, mas a presença da rosa e o anel no túmulo de Christine sugerem
que seu amor por ela persistiu completamente uma vida inteira. Isto provoca
uma reflexão sobre os círculos de experiência que envolve a criança dentro
do envolvimento com o Pai. Talvez, explique a nossa conexão com ele em
nossa longa jornada por amor e totalidade. Há uma permanência do Animus
além da vida e da morte, pois são instâncias não pessoais que não são
esgotadas, porque não são criadas pela consciência.
A rosa mesmo sendo o símbolo da presença do Fantasma, também
pode ser considerada como o símbolo do Self. A rosa está no túmulo da
condessa de Changy, mas ainda o vento traz a lembrança da sombria
passagem da Puela na caverna do Fantasma. Chevalier e Gheerbrant (1982/
2006), através da explicação do simbolismo da rosa falam justamente sobre
isso. A rosa é famosa por sua beleza, forma e perfume, é a flor mais simbólica
no Ocidente, simboliza a taça de vida, a alma, o coração e o amor.
Considerando A função do símbolo do Self é unir os aspectos sombrios e
luminosos da psique [...] (Von Franz, 1981/2005, p.189), a rosa
corresponderia a essa expectativa ao unir a luminosidade da esposa e mãe
Christine com o lado Puela, pupila do mestre das sombras, no processo de
individuação.

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Considerações Finais
A história do Fantasma da Ópera vem a repetir uma situação
arquetípica, reforçando esse fato em alguns contos de fada que demonstram
não ser só Christine que precisou descer na Caverna do Fantasma da Ópera
para poder começar a relacionar-se com o masculino de forma desvinculada
do Complexo Paterno. Alguns contos que apresentam o mesmo tema
exposto no filme “O Fantasma da Ópera” são: o conto “A Bela e a Fera” dos
irmãos Grimm (Henderson, 1964/1977), o filme “Pele de Asno” de Charles
Perrault (1970), o conto “Barba Azul” (Estés, 1994a), o conto “Donzela sem
mãos” (Estés, 1994b), o conto “Mulher Esqueleto” (Estés, 1994c) e a ópera
“Flauta Mágica” (Direção: Ingmar Bergman, 1975), de autoria de Wolfgang
Amadeus Mozart apresentada na versão cinematográfica por Ingmar
Bergman.
Apesar, de outras interpretações possíveis sobre o filme “O Fantasma
da Ópera”, o estranho, fascinante, e misterioso Fantasma da Ópera recebe
matizes do Complexo Paterno Positivo, demonstra o processo do
relacionamento Anima e Animus não mais constelada no complexo, na
trajetória do processo de individuação.

Referências
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de Maria Lúcia Pinho. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, p. 158-229. (1964
Aldus Books Limited, Londres).
Recebido: 06/09/2012 / Corrigido: 24/10/2012 / Aceito: 10/11/2012.

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Bol. Acad. Paulista de Psicologia, São Paulo, Brasil - V. 32, no 83, p. 331-352

II - TEORIAS, PESQUISAS E ESTUDOS DE CASOS

• Era uma vez: o universo do contar estórias e sua


inserção no hospital
Once upon a time: the universe of storytelling and its role at hospitals
Había una vez: El universo de la narración de historias y su
inclusión en los hospitales
Caroline Oliveira Agudo1
Ana Maria Trapé Trinca2
Faculdade de Ciências Humanas e Saúde Pública
Pontifícia Universidade Católica de São Paulo – FACHS-PUC/SP

Resumo: A pesquisa, que ora se apresenta, tem o intuito de verificar a


aproximação da vivência sobre o adoecimento na criança hospitalizada. A
pertinência deste trabalho está contida na importância da construção de novas
experiências de humanização na rede hospitalar, no sentido de se procurar
amenizar as angústias sentidas pela criança durante a internação. Para se estudar
o tema é feito um trabalho sobre estudos de casos, fundamentados na Psicologia
Analítica, idealizada por C.G. Jung. Os participantes são três crianças
hospitalizadas (Ana Clara, Sophia e Lucas, nomes fictícios) por doenças
respiratórias. Os instrumentos utilizados são: a) entrevista semi-dirigida com os
pais ou cuidadores e com a própria criança; b) o contar a estória “A Margarida
Friorenta” e c) aplicação do procedimento Desenho-Estória de Walter Trinca. A
coleta do material é feita no período de internação das crianças indicadas, em
um Hospital Municipal de uma cidade de médio porte. A pesquisa consegue reunir
elementos para se compreender o processo de adoecimento de cada criança,
com efeitos vivenciados na família, mediante dimensões simbólicas e
manifestações arquetípicas extraídas da estória contada.

Palavras-Chave: contar estórias; criança; humanização hospitalar; psicologia


analítica.

Abstract: The present research aims to verify an approach in the experience of


illness in hospitalized children. The relevance of this work is contained in the
importance of building new humanization experiences at the hospital network, so
as to alleviate the anguish experienced by the child during hospitalization. In
order to study the subject, a work is done on case studies, based on the Analytic
Psychology developed by C.G. Jung. The participants are three hospitalized

1
Psicóloga pela FACHS da PUC/SP. Contato: Av. Guilherme Rohn, 400, casa 20. Nova Aldeinha.
Barueri, SP, Brasil. CEP 06440-030. E-mail: carolineoagudo@hotmail.com
2
Professora doutora no curso de Psicologia da Faculdade de Ciências Humanas e da Saúde
da PUC/SP. Contato: Rua João Moura, 627 cj. 61, Pinheiros, São Paulo, SP, Brasil. E-mail:
amtrinca@pucsp.br 331
Bol. Acad. Paulista de Psicologia, São Paulo, Brasil - V. 32, no 83, p. 331-352

children (Ana Clara, Lucas and Sophia, fictitious names) with respiratory diseases.
The instruments utilized are: a) semi-directed interviews with parents or caregivers
and with the child himself, b) telling the story "The Chilly Daisy", and c) application
of the Drawing-Story procedure of Walter Trinca. The collection of material is
made in the time period of hospitalization of the indicated children, in a city hospital
of a medium-sized city. The survey was able to gather elements for understanding
the disease process of each child, with effects experienced by the family, by
means of symbolic dimensions and archetypal manifestations extracted from
the story told.

Keywords: Storytelling, child, hospital humanization, Analytic Psychology.

Resumen: Esta investigación tiene como propósito una aproximación a la


vivencia de la enfermedad en el ambiente hospitalario y la construcción de la
individualidad del niño internado a través de la narración de historias. La pertinencia
de este trabajo está asociada a la importancia en la construcción de nuevas
experiencias de sensibilización en el sistema hospitalario así como a los niños
internados. En tal sentido, se realiza una investigación de tipo cualitativa,
fundamentada en la psicología Analítica desarrollada por C.G. Jung. Participan
en esta investigación tres niños hospitalizados a los que llamaremos Ana Clara,
Sophia y Lucas (nombres ficticios). Se emplean en esta investigación: a.-
Entrevistas semi- estructuradas con los padres y/o cuidadores así como con
los niños (con la finalidad de obtener informaciones sobre el proceso de
enfermedad de estos), b.- narración de la historia infantil “A Margarida Friorenta”
y c.- Técnica de dibujo-historia de Walter Trinca. Con esta investigación se
encuentran diversos elementos para la comprensión del proceso de enfermedad
en cada niño, sus efectos en la familia y la dimensión simbólica de las
enfermedades respiratorias.

Palabras claves: Narración de historias, niños, sensibilización hospitalaria,


psicología analítica.

1 – Introdução
Experiências como paciente da área hospitalar e posteriormente,
quando universitária, como estagiária contando estórias para as crianças
hospitalizadas, despertou o interesse da segunda autora por colaborar com
uma pesquisa sobre o tema.
A partir da motivação sobre a experiência da primeira autora, a escolha
por pesquisar o contar estórias no ambiente hospitalar, constituiu-se temática

332
Bol. Acad. Paulista de Psicologia, São Paulo, Brasil - V. 32, no 83, p. 331-352

desta pesquisa, como estratégia à humanização hospitalar e sendo, também,


uma contribuição ao papel do psicólogo hospitalar.
Com os excessos de objetividade e tecnicidade se percebe um campo
de desumanização do ambiente hospitalar em que não se privilegia
particularmente o usuário, e por não dar-lhe voz. O movimento contrário a
essas ações e saberes constitui a humanização hospitalar (ambiente
acolhedor e confortável) em que se valorizam atitudes ético-estéticas,
corresponsabilidade e constituição de vínculos entre profissionais do serviço
– e entre estes e os usuários – na produção de saúde e na promoção de um
olhar de cuidado, com a liberdade do paciente ser ouvido e atendido (Mota,
Martins & Vera, 2006).
A Política Nacional de Humanização, a Humaniza SUS, entende por
este conceito como um pacto, uma construção coletiva no fortalecimento de
trocas na produção de conhecimento, favorecendo um trabalho em rede
com equipes interdisciplinares, sobre o reconhecimento, e protagonismo
de gestores, trabalhadores e usuários (sujeitos ativos). A criação de redes
solidárias e interativas, com a utilização do trabalho voluntário para
humanização do atendimento, dá suporte emocional à família e ao usuário,
considerando-os, mais que pacientes, uma pessoa.
Para as crianças hospitalizadas surgem espaços lúdicos, como da
obrigatoriedade da existência de brinquedotecas e o fornecido por grupos,
como “Doutores da Alegria”, “Canto Cidadão” e “Contadores de Estórias”
que fazem da experiência da internação, uma forma mais acolhedora. Nesse
contexto, o papel destinado ao psicólogo é o do encontro, com o paciente,
principalmente na superação de momentos de crise, num confronto com a
angústia e sofrimento, buscando amenizá-lo, ouvindo calmamente suas
palavras e compreendendo seus silêncios. A humanização busca a
tranquilidade do paciente, num projeto terapêutico individualizado.
A hospitalização para a infância pode se configurar como uma
experiência potencialmente traumática (Santa Roza, 1997). A criança é
afastada de suas vivências rotineiras, bem como do seu lar, ao mesmo
tempo em que enfrenta o desconforto, a limitação física e a passividade,
muitas vezes associados a sentimentos de culpa e punição. O lúdico, através
de estórias, é um dos instrumentos de que ela dispõe, devido ao seu domínio
e conhecimento, para entender e passar pelo processo de adoecimento,

333
Bol. Acad. Paulista de Psicologia, São Paulo, Brasil - V. 32, no 83, p. 331-352

podendo expressar seus sentimentos, receios e medos. O lúdico, desta


forma, favorece a aproximação de uma vivência conhecida e ouvida, para
amenizar situações novas, ameaçadoras que podem ser muito
desagradáveis (Mitre, 2000).
O “Viva e Deixe Viver”, com o projeto “Contadores de estórias” que
inspirou esta pesquisa, é uma Organização da Sociedade Civil de Interesse
Público (OSCIP) que treina e capacita voluntários para se tornarem
contadores de estórias, em hospitais, para crianças e adolescentes
internados. O projeto tem como proposta formar mediadores de leitura e
instalar espaços com livros de literatura infantil e juvenil, permitindo a
vitalidade da saúde psíquica das crianças e jovens hospitalizados. Propicia
assim, o alívio de tensões e mudanças favoráveis no quadro psicológico
das crianças, além de facilitar a integração entre elas, seus familiares e a
equipe multidisciplinar de profissionais do hospital, através da contação de
estórias. A missão é de:

Fomentar a educação e cultura na Saúde através da leitura e do brincar,


visando transformar a internação hospitalar de crianças e adolescentes
em um momento mais alegre, agradável e terapêutico, contribuindo
também para o bem estar de seus familiares (...). (Retirado do site
www.vivaedeixeviver.org.br. Acessado em 13/04/2011)

Sob a perspectiva da psicologia analítica, os contos de fadas e os


mitos são entendidos como repletos de imagens cheias de significado
coletivo. Os contos de fadas contêm bases humanas universais e
representam arquétipos na sua forma mais simples, plena e concisa. Para
Franz (1990, p. 9) “são a expressão mais pura e mais simples dos processos
psíquicos do inconsciente coletivo”, enquanto que o mito é uma produção
cultural que apresenta um conjunto maior de expressões conscientes
facilitando sua interpretação. Supõe-se, assim, que ambos sejam benéficos
para períodos de crise, como o de uma internação.
É nesse sentido que a presente pesquisa teve como intuito analisar a
vivência do adoecimento em crianças hospitalizadas com problemas
respiratórios, e da construção da sua individualidade por intermédio do
lúdico, da fantasia, neste trabalho representado pelo mundo das estórias
infantis.

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Os participantes foram as três crianças mencionadas, com processos


de adoecimento relacionados a doenças respiratórias. Tinham idade entre
oito e onze anos, de ambos os sexos, e frequentavam escola. Também foram
chamados os pais e/ou cuidadores da criança com a finalidade de
contribuírem com seu relato. A parte prática do trabalho foi desenvolvida no
hospital referido. Com a pesquisa se reuniram elementos para se
compreender o processo de adoecimento em cada criança, com efeitos
vivenciados na família. Também foi possível se aproximar da estória infantil
“A Margarida Friorenta” e como esta ressoar, nas crianças, através das
manifestações arquetípicas.

2 – Método da Pesquisa
Para se estudar o tema do contar estórias para crianças no ambiente
hospitalar, fundamentado na Psicologia Analítica, pretendeu-se compreender
e interpretar processos dinâmicos de personalidade. Este tipo de trabalho
é analisado dentro do enfoque qualitativo, por ser guiado pelo ponto de
vista individual de crenças e sentimentos sobre a realidade (concepções
de mundo, ser e psique) que orienta a maneira como os fenômenos são
contemplados, buscando seus significados e finalidades (Penna, 2007).

A palavra qualitativa implica uma ênfase em processos e significados


que não são rigorosamente examinados ou medidos, em termos de
quantidade, intensidade ou frequência. Pesquisadores qualitativos
enfatizam a relação íntima entre o pesquisador e o que é estudado, e os
limites situacionais da investigação. Eles buscam respostas para
questões que enfatizam como a experiência é criada e significada. Em
contraste, estudos quantitativos enfatizam a medida e análise de
relações causais entre variáveis e não os processos. (Denzin & Lincoln,
1998, p. 8)

Deduzindo, este método baseia-se na compreensão ontológica e


interpretativa do mundo e do homem como uma totalidade que abarca
aspectos inconscientes (subjacentes) e conscientes (manifestos), baseando-
se em Jung (1991).

335
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A psicologia como ciência relaciona-se, em primeiro lugar, com a


consciência; a seguir, ela trata dos produtos do que chamamos psique
inconsciente, que não pode ser diretamente explorada, por estar a um
nível desconhecido, ao qual não temos acesso. (...) Tudo que
conhecemos a respeito do inconsciente foi-nos transmitido pelo próprio
consciente. A psique inconsciente, cuja natureza é completamente
desconhecida, sempre se exprime através de elementos conscientes.
Não se pode ir além desse ponto. (p. 3)

O inconsciente e os arquétipos não podem ser diretamente


compreendidos, e o são através das manifestações simbólicas, já que
comportam o âmbito pessoal e o coletivo. Estas são compreendidas como
uma experiência espontânea da psique, sendo muito tocante, já que são
vivos e carregados de emoção. São consideradas vivas porque são
portadoras de energia psíquica e carregadas de emoção, além de que
orientam e motivam o indivíduo no processo de individuação tendo um
caráter curativo e restaurador. O que chamamos de símbolo é um termo,
um nome ou mesmo uma imagem que nos pode ser familiar na vida diária,
embora possua conotações especiais além do significado evidente e
convencional. (Jung, 1964/1995, p.20)
O método da psicologia analítica compartilha dos princípios da
relatividade, da complementaridade e da incerteza, adotando, portanto, uma
concepção de verdade relativa e temporária. Nele, tanto a objetividade
quanto a subjetividade são consideradas, e a intersubjetividade se configura
como a melhor posição possível do pesquisador diante do conhecimento e
de seu objeto de investigação. Essa proposta exige do pesquisador
coerência e consistência epistemológica, envolvimento pessoal com a
compreensão e interpretação da realidade pesquisada.
A relação pesquisador-pesquisado envolve a articulação dinâmica de
elementos conhecidos e desconhecidos, tanto no plano interno como no
plano externo ao pesquisador (dois sistemas em interação: o sistema
pesquisador com seus aspectos conscientes e inconscientes e o sistema
pesquisado – fenômeno psíquico a ser conhecido, com seus aspectos
conhecidos e desconhecidos – manifestos e subjacentes). Exige-se assim
observação e auto-observação (subjetividade e objetividade do
pesquisador são complementares).

336
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Na Psicologia Analítica, conhecimento equivale a consciência, sendo


que o conhecimento e o autoconhecimento são inseparáveis. O processo
de aquisição e construção de conhecimento envolve o percurso de ampliação
da consciência que depende dos movimentos inconscientes, a que Jung
denomina de individuação.

2.1 – Participantes
Os participantes da pesquisa foram as três crianças, já referidas, com
doenças respiratórias, como: bronquite, asma ou pneumonia. Segundo
Souza (2000), por exemplo, a asma é uma patologia multifatorial, sendo
determinada como uma interação de fatores constitucionais e ambientais
que levam a uma inflamação crônica das vias aéreas em pessoas suscetíveis.
Com esta inflamação, os brônquios sofrem um estreitamento, dificultando a
passagem de ar.
As crianças em estudo, estão numa faixa etária em que são capazes
de se expressar adequadamente, mas ainda não chegaram à adolescência,
quando questões mais complexas de formação da identidade são
acrescidas ao processo. Assim, são elas, Sophia (sexo feminino, quinto
ano escolar), Lucas (sexo masculino, primeiro ano escolar) e Ana Clara
(sexo feminino, primeiro ano escolar) respectivamente 10 anos, 8 anos e 8
anos. Os pais, como já foi referido, foram chamados com a finalidade de
contribuírem com seu relato sobre o adoecimento da criança, sobre a
personalidade da mesma e acerca da relação com eles. Foram
entrevistadas somente as mães por serem elas que acompanhavam o filho
no hospital.

2.2 - Instrumentos
Na Psicologia Analítica são utilizados instrumentos de coleta de dados
que fornecem a melhor forma possível de detectar e recolher o material
simbólico – via de acesso ao inconsciente – como recursos projetivos.
Assim, seguiu-se.
Os instrumentos para a realização desta pesquisa são especificados
a seguir:
a) Entrevista semi-dirigida com os pais e/ ou cuidadores e a criança
para se apreender a dinâmica da família, além de entender o processo de

337
Bol. Acad. Paulista de Psicologia, São Paulo, Brasil - V. 32, no 83, p. 331-352

adoecimento. Desta forma, forneceu-se conteúdos para uma aproximação


mais efetiva da criança.
b) Desenhos-Estórias de Walter Trinca - Pediu-se que o
examinando realizasse um desenho com um tema determinado. Escolhido
em função das suas necessidades atuais, neste caso “E agora fiquei doente”,
buscando-se entender o caminho percorrido pela criança durante o período
de internação, além dos efeitos produzidos pelo contar da estória. Em
seguida, solicitou-se a ele contar uma estória, no molde proposto para o
procedimento de Desenho-Estória referido. Realizou-se o “inquérito” e o
título da produção. Essa modificação foi introduzida para focalizar, de forma
direta, algum aspecto do “conflito psíquico” ou “representação social”.
Recomenda-se a sua utilização quando não haja um setting que promova,
naturalmente, a expressão dos conflitos e perturbações. Tem sido sublinhado
que uma dificuldade com o emprego desta forma do procedimento de
desenho-estória consiste em facilitar ao examinando confrontar-se
diretamente, com suas dificuldades.
c) O contar a estória infantil “A Margarida Friorenta” de Fernanda
Lopes de Almeida, da Editora Ática, com algumas adaptações para melhor
utilização do instrumento.
d) Entrevista semi-dirigida sobre a estória – questões pensadas
para entender o processo da criança ao ouvir a estória e qual a sua
elaboração a partir da mesma.

2.3 - Procedimento
Inicialmente, foi realizada a entrevista semi-dirigida com a mãe, e,
posteriormente com a criança. Sendo que eram realizadas separadamente,
isto é, na presença da criança se fez ausente a mãe, bem como o filho não
esteve junto à mãe.
Foi realizada, posteriormente, uma sessão do contar a narrativa “A
Margarida Friorenta” com duração aproximada de 20 minutos. Foram
pedidos desenhos-estória com tema antes e após a contação e realizado
uma nova pequena entrevista com a criança acerca de suas impressões
sobre a estória.

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2.4 - Questões Éticas


Foram levadas em consideração as normas previstas pelo Conselho
Nacional de Saúde (Resolução 196/96) referentes ao sigilo profissional. No
caso de menores, como nesta pesquisa, o Termo de Consentimento foi
assinado por um dos responsáveis pela criança. O projeto da presente
pesquisa foi aprovado pelo Comitê de Ética da PUC/SP, em Junho/2011.

2.5 - Interpretação dos conteúdos


A análise qualitativa da experiência da criança em seu processo de
adoecimento, procurou-se explicitar significados e sentidos da subjetividade,
por meio dos dados da entrevista e dos símbolos observados nas produções
gráficas. Dado o caráter exploratório desta pesquisa, não houve categorias
ou conteúdos predefinidos. Pretendeu-se compreender os dados e os
processos que se apresentam em sua singularidade e, caso adequado,
chegar a generalizações por meio do raciocínio indutivo. A compreensão
dos fenômenos, ou seja, a análise do material coletado foi realizada por
meio do processamento simbólico, que constituiu a ferramenta indispensável
para a melhor compreensão dos fenômenos investigados. A integração das
funções da consciência nesse processo promoveu uma produção de
conhecimento de ordem intelectiva, perceptiva, valorativa e intuitiva e assim
os aspectos desconhecidos do símbolo puderam tornar-se conhecidos.

3 – Discussão – A contação, o hospital e a criança: um vínculo


produzido
Este trecho tem o intuito de discutir o comportamento da criança com
maior profundidade, além de promover uma discussão acerca das temáticas
que atravessaram a pesquisa, sendo elas principalmente a aproximação à
vivência do adoecimento nas crianças hospitalizadas com problemas
respiratórios, e da construção da individualidade da mesma por intermédio
da fantasia, neste trabalho representado pelo mundo das estórias infantis.

Pensando na estória infantil “A Margarida Friorenta”


Para pensarmos como as crianças puderam aproveitar e entrar em
contato com a estória contada “A Margarida Friorenta”, através dos símbolos
coletivos nela contidos, é importante analisar a que grandes temáticas se

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refere a estória, seus personagens, simbolismos e situações que demandam


transformação.
Os personagens que compõem o enredo são:
A Margarida Friorenta – é a personagem principal, a qual é chamada
a vivenciar a aventura e a sair de uma situação já conhecida através de um
grande desconforto que começa a sentir numa noite, um intenso frio. Mesmo
sendo a heroína, vemos que ela é bastante passiva já que necessita de
outros que a auxiliem nesta jornada.

Margarida então espiou a noite escura em toda a sua imensidão e se


encolheu se escondendo nas suas folhas.

Muitas vezes as crianças tendem a se identificar com essa


personagem que está sob o olhar do leitor. Ela apresenta um desconforto
físico que seria o frio, mas ao longo da história somos capazes de identificar
que este frio sentido por ela transcende o corpo e também se relaciona
com uma falta, com as questões ligadas ao afeto.
A Borboleta – fica mobilizada com o frio sentido por Margarida e é a
primeira a se senbilizar para ajudar a flor.

Então a Borboleta teve uma grande ideia e pediu que a Margarida


esperasse por ela. A Borboleta voou o mais rápido que pode chegando
a janela do quarto da Menina dona do jardim.

A borboleta é a segunda personagem que é apresentada ao leitor na


estória, ela que se sensibiliza a ajudar Margarida, mas para isso precisa do
auxílio dos outros, como o Cachorro e a Menina.
A Menina – é a garota responsável pelo quintal em que Margarida
está e que tenta, de todos os modos, sanar o frio sentido pela flor.

A Menina ficou perplexa com a continuidade do frio de Margarida.

Uma menina solícita e atenciosa, dona do jardim, que ajuda de formas


criativas ajudar a restabelecer a saúde (cura) de Margarida. Cura esta que
é alcançada ao final através do afeto. Também é uma personagem de fácil
identificação, podendo representar aspectos de cura da psique.
O Cachorro – é um personagem que auxilia a personagem principal
a chegar ao quarto da Menina, levando-a até lá.

340
Bol. Acad. Paulista de Psicologia, São Paulo, Brasil - V. 32, no 83, p. 331-352

O cachorro era muito prestativo e inteligente. E levou o vaso muito bem


com toda a atenção. A Menina então abriu a porta para eles e a Margarida
ficou na mesa de cabeceira.

O lugar em que acontece a estória é:


Lugar – a casa e quintal da Menina.

A Borboleta voou o mais rápido que pode chegando a janela do quarto


da Menina dona do jardim.

O tempo em que se passa a história é:


Tempo – Certa noite bastante escura.

Certa noite, Margarida começou a tremer de suas pétalas até suas


folhas.

A noite refere-se a uma condição inconsciente, de indiscriminação


em que se encontram as potencialidades arquetípicas e as possibilidades
de transformação se forem inseridas e vivenciadas pela consciência e ego.
No livro “Jung e o Tarô” ao se falar da carta “A Lua” temos:

(...) A Lua representa a própria natureza , dentro de cujo caos aparente


existe ordem de um tipo muito diverso das categorias inconscientes
impostas por um regente masculino. Sua iluminação difusa nos revela
muitos aspectos da realidade não visíveis sob a consciência solar. (...)
A diferença do Sol que é brilhante, merecedor de confiança e quente, a
Lua é pálida, inconsciente e fria. No entanto, pela sua iluminação
podemos ver sombras até então desconhecidas. Ao passo que a luz
do sol os objetos se destacam, nítidos como entidades separadas de
formas agudamente definidas, sob o brilho pálido da Lua essas
categorias feitas pelo homem se dissolvem, oferecendo-nos uma nova
experiência de nós mesmos e do nosso mundo (Nichols, 1997 p.314)

Enredo – O frio que não passa, de Margarida.

– Porque você está tremendo?


– É Fr..i..o. – Margarida quase nem conseguia falar.
– Oh! É horrível ficar com frio. E logo numa noite tão escura.

341
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Este frio, podemos perceber não se refere apenas a um mal estar


físico, há um descontentamento que Margarida não consegue identificar
conscientemente, mas que influência em si e que não a deixa descansar,
sempre a chamando a atentar a este fato. É um símbolo mandado pela
psique que busca ser visado e desvelado. Ela tem um adoecimento que
não se limita ao físico, esbarrando em aspectos emocionais. O livro é uma
jornada rumo ao restabelecimento de um equilíbrio antes alcançado, de
ausência de frio, para assim alcance da cura/ saúde. A patologia em
psicologia analítica é vista como um símbolo enviado pela psique, na
perspectiva de alcance de transformação. Portanto, ela é repleta de
significados e sentidos a serem contemplados pelo ego para uma ligação
mais efetiva entre o consciente e o inconsciente do indivíduo.
É importante sempre por parte do paciente uma busca pessoal no
sentido de identificar o que a doença nos aponta, nos orienta, nos chama e
nos motiva. O adoecimento tem o poder de nos chamar a pensar e rever
como se tem levado a vida. A doença é uma manifestação do self, trazendo
elementos novos e criativos.

Formas de fazer o frio passar


1. Trazer a margarida para a casa da Menina.

A Menina foi se deitar, mas ouviu um barulhinho, tá tá tá. A Margarida


recomeçou a tremer.

2. Conseguir um casaquinho de boneca para a Margarida.

A Menina tirou o casaquinho porque a boneca não estava com frio e


vestiu na Margarida.

3. Conseguir uma casa aconchegante

Vou arranjar uma casa aconchegante e quente para você.

Desfecho – beijo em Margarida e um “boa noite”, assim Margarida


foi capaz, enfim, de descansar com seu frio extinto.

Foi lá e deu um beijo na Margarida e um “Boa Noite”. E dormira muito


bem o restante da noite.

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Aspecto central - temos a questão do que se trata esse frio que


Margarida tanto sente.

O frio da Margarida não era frio de casaco, não! Que frio era esse então
que Margarida sentiu?

Tabela 1 – Respostas às questões pelas crianças em estudo no hospital

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Bol. Acad. Paulista de Psicologia, São Paulo, Brasil - V. 32, no 83, p. 331-352

O papel do psicológo, o impacto da estória na criança e o arquétipo


do curador-ferido
A partir da história da “A Margarida Friorenta” e de se pensar o encontro
analítico entre psicólogo e criança hospitalizada, em ambos podemos
encontrar manifestações do arquétipo do curador-ferido. Primeiramente,
na história temos a identificação da criança dos aspectos sadios (de cura)
em si, que se encontram inconscientes (tentativas de fazer o frio passar
pelos personagens), sendo que em sua consciência encontram-se a dor e
a ferida (a patologia não somente do corpo, mas da alma).
A queixa-símbolo na história representada pelo frio sentido por
Margarida revela a dor de uma ferida com dimensões inconscientes. Nessa
dor se expressa o impasse que compromete a continuidade do processo
de individuação e reclama por transformação. Cada criança apreendeu a
história através de sua própria individualidade como referencial e se
identificou de forma projetiva com os personagens que representam polos
do arquétipo do curador-ferido. Segue a tabela em comparação dos
comentários das crianças.
Já referente ao encontro analítico o mesmo ocorre, o psicólogo no
hospital tem como persona, a ideia de um profissional sadio e curado, e
permanece no inconsciente a dimensão de ferida presente no mesmo (quem
cura, ja sofreu a dor e somente por isso é capaz de se sensibilizar com a
dor do outro). Enquanto que no paciente ocorre o inverso em sua persona
vemos a dor e o sofrimento pelo adoecimento enquanto que subjaz em si os
aspectos para a cura desse tormento emocional. O encontro analítico deve
propiciar que esses papéis possam se inverter e que seja trazido à
consciência esses aspectos de cura, ativando o polo curador que está
obstruído no paciente. Para ocorrer toda essa transformação o inconsciente
do analista e do paciente devem estar também em contato através da
participação mística, o momento de indiferenciação e identificação total
entre ambos.

O encontro analítico constela uma energia arquetípica poderosa, pois


tanto analista como paciente se encontram numa relação de grande
valor para ambos. De um lado o paciente é movido por sua dor e
necessidade de ajuda. Po outro lado, o analista recebe o paciente movido
por sua vocação pessoal e profissional que o coloca na posição de

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Bol. Acad. Paulista de Psicologia, São Paulo, Brasil - V. 32, no 83, p. 331-352

atender ao pedido de ajuda do paciente. (...) No encontro analítico é


ativado o tema arquetípico do curador-ferido, sendo que o analista
expressa e representa no âmbito da persona o pólo curador desse
arquétipo e o paciente apresenta-se pelo pólo ferido do mesmo arquétipo.
(...) Ambos devem estar abertos tanto para as feridas como as
possibilidades de cura. (Jacobi, 1995, p. 154)

A história nos mostra que temos que ser criativos na busca de


restabelecermos nosso equilíbrio psíquico buscado em toda a nossa vida e
alcançado e perdido a todo instante. Sobre isso Adams (2002) nos fala:

Infindável, ilimitada, colossal. Não é possível confinar a imaginação só


em adjetivos, porque sempre em nossa escolha de descrição, a
imaginação está no controle. Ela define a si mesma. A espontaneidade
cerebral pulsa na existência como um nascimento. O pensamento, pai
adotivo, toma a criança e age – ou não – enquanto parece conveniente.
De onde vem a imaginação? O pensamento pode fornecer apenas o
mecanismo guia mais tosco. O resto é um oceano eclético de memória
coletiva e individual.” (p. 138)

O lúdico e a fantasia são responsáveis por organizar e auxiliar no


desenvolvimento e estruturação do ego da criança, é através desse mundo
que a criança absorve toda a realidade que se faz presente a ela de modo
tão imperativo e que aos poucos ela absorve. O brincar simbólico tem uma
função cognitiva de organizar a experiência de vida da criança. O que
realmente delimita a aptidão da criança para se beneficiar desse encontro
analítico é sua capacidade de interagir com o outro e expressar-se por
símbolos em suas brincadeiras, desenhos, sonhos, fantasias e jogos.
Inicialmente, a criança tem uma labilidade egóica, isto é, um ego não
tão forte e presente aparecendo somente em flashes, mas com seu
desenvolvimento ela vai se tornando ela mesma com sua personalidade
definida. Também é objetivo da primeira metade da vida a estruturação da
persona, que é uma máscara, um recorte da psique coletiva que irá ser
importante como mediador da criança e adolescente com o mundo podendo
expandir suas relações com as pessoas e se tornar parte da sociedade. A
criança passa de uma total indiferenciação dos polos consciente-
inconsciente para uma polarização no polo consciente.

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“(...) Na infância precoce, frequentemente equivale a condição de


identidade do inconsciente da criança com o inconsciente dos pais.
Através desta identificação as forças pertubadoras que repousam
abaixo do nível de consciência do adulto são intuídas pelo inconsciente
da criança, dando origem a formas de medos vagos, fantasias
apreensivas e sonhos pertubadores.” (Wickes, 1927 p.15)

“Grande parte do nosso mundo significa muito pouco para uma criança;
nossa consciência moral, nossas leis de certo e errado não tem valor
especial para ela. Até as palavras que nós falamos carregam diferentes
significados. E a nossa própria realidade que é sempre e definitivamente
o teste de valor de nossos contatos com a criança; e é isto que é
reconhecido pelo inconsciente dela”. (Wickes, 1927 p.17)

Hospital: espaço de cuidado ou aflição


O espaço do hospital é marcado por encontros intensos entre psicólogo
e paciente, mas ao mesmo tempo rápidos e muitas vezes únicos devido a
especificidade do espaço e do encontro analítico. Mesmo com essas
características o papel do psicólogo não se faz menos importante ou menos
marcante na trajetória de quem é hospitalizado e tem seu cotidiano
interrompido.
Este tipo de trabalho no hospital retoma um colorido especial da criança
que tem em si o uso do lúdico como forma de simbolização, num lugar que
prioriza a higienização, a limpeza, o científico e desloca a segundo plano a
questão do que é sadio nessa criança. Ser preservado este espaço para
ela, é uma importante ferramenta na busca ao seu auxílio, através das
atividades ligadas à humanização. Nos atendimentos às crianças
hospitalizadas temos comentários diversos acerca da visão acerca do
hospital, desde comentários positivos até negativos. Revelando que o
sentimento relativo à hospitalização é mesmo contraditório porque ao mesmo
tempo que é uma busca de atendimento e cura, é uma invasão constante
ao nosso corpo e restrições quanto a nossa liberdade. Mas quando as
crianças e acompanhantes retratam sobre o trabalho de humanização seja
através do papel da brinquedoteca ou quanto do trabalho voluntário de

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palhaços e contadores de história a resposta é unânime quanto como este


tipo de trabalho é positivo e benéfico para a criança.
Ana Clara comenta que estar no hospital é chato, pois tem que levar
injeção e mostra as picadas nos braços “já levei quatro uma aqui, outra
aqui.” (sic). O aspecto que considera benéfico da internação é que sua mãe
falta ao trabalho, constituindo-se um ganho secundário. Diz que sentiu medo
no hospital quando piorou e teve que ir para a UTI “foi ruim” (sic). Sobre os
profissionais da saúde gosta de todos sempre fazendo amizades no hospital.
Sobre a humanização comenta a seu modo “um palhaço passou aqui e me
deu até esse anel (mostra um anel que brilha em seu dedo)” (sic).
Enquanto que Lucas comenta que estar no hospital para ele é ruim,
mas entende que tem que ficar. Ele diz odiar a sensação anterior de ir ao
hospital quando sabe que não irá dar conta e terá que ficar hospitalizado
“eu odeio injeção também” (sic). Refere que os profissionais do hospital
são legais e que gosta das enfermeiras por serem simpáticas. Sobre a
humanização comenta “em outro hospital que fiquei tem brinquedoteca e
brinquei com um amigo que conheci lá” (sic).
Por fim, para Sophia o hospital é um lugar de ajuda e de cuidado, ela
diz que nem chora mais com a picada, tudo para ficar bem. Uma vez ficou
muito tempo no hospital, todos os médicos diziam que ia sair no outro dia e
a sensação que tinha era que nunca iria embora “amanhã... amanhã.... Meu
Deus não chegava nunca. Eu fiquei mal dessa vez, também ficava sempre
no oxigênio só saia dele para ir ao banheiro ou comer.” (sic). Ela comenta
“eu não quis nascer assim, mas Deus quis.... não sei se foi algum pecado
meu... Mas acredito que é uma prova que tenho que passar. Gosto de
todos os profissionais do hospital” (sic). Também quanto a humanização
refere-se positivamente “a brinquedoteca, quando há distrai, eu posso jogar,
pintar, fazer lição e brincar.” (sic).

Considerações Finais
Este artigo buscou refletir acerca da importância do lúdico para a
criança, como de expressão e interação com o mundo interno e externo que
está inserida, bem como instrumento de resignificação e também de
expressão de angústias e dificuldades, sendo este o foco da pesquisa devido
a temática do adoecimento. O lúdico engloba o brincar, o desenhar, o contar

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e ouvir histórias dentre outros, garantindo o contato com a fantasia, a


imaginação e a criatividade. A criança para se tornar uma individualidade,
necessita deste tipo de objeto intermediário entre ela e o mundo, tanto para
absorver as experiências que obtém do contato com as pessoas quanto
para olhar para si. O mais importante é garantir um espaço em que a criança
possa se expressar o mais livremente possível e entender que é ouvida, na
hospitalização também é preciso este cuidado já que a criança deve sentir-
se apoiada nesse momento de fragilidade, diante de tantas situações
desconhecidas e que despertam medos e ansiedades. Patch Adams fala
sobre esse assunto:

A arte, a natureza e a imaginação são fundamentais para o cuidado


com a saúde. Elas não são embelezamentos custosos para a prática
médica, Considero-as essências para a manutenção do bem-estar e
para o cuidado com a doença. (Adams, 2002 p. 132)

A criança é muito mais que a doença que a acomete e os profissionais


no hospital muitas vezes estão mais atentos ao patológico do que ao aspecto
saudável da criança. Percebemos este movimento mesmo na área da
Psicologia, através da psicologia hospitalar, em que se enfoca o sintoma
como um símbolo de uma dificuldade no âmbito emocional (psicossomático),
desvalorizando-se os aspectos sádios e desenvolvidos na criança o que
pode ser uma forma de enfrentamento (coping) da situação de internação.
Essa valorização do sadio e não do doente, pode servir como instrumento
de recuperação e tratamento da criança.
A Psicologia Analítica é uma abordagem que não busca a
patologização do sujeito e que o vê como uma totalidade e um ser integral.
Esta é uma das características da humanização: resgatar as relações que
muitas vezes estão burocratizadas no hospital e permitir um espaço de
cuidado já que é este o sentido impresso na palavra hospital que se remete
a “hospitaleiro” palavra que nos dá a sensação de sentir-se acolhido como
no lar.
O universo da contação de estórias é mais um instrumento importante
do qual o psicólogo pode se utilizar para acessar e adentrar o mundo da
criança, já que o mesmo resgata conteúdos de ordem coletiva que podem
auxiliar a criança, bem como o adulto, em sua jornada de emancipação

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como sujeito único e nas suas travessias em momentos críticos. Mais


interessante é se a escolha pela estória for realizada de modo individualizado
levando em consideração aspectos da criança (seus sentimentos,
pensamentos, experiências, enfim sua percepção de mundo), família
(relação que é estabelecida com a criança e conflitos) e situação vivida no
hospital (condição de adoecimento, que pode envolver: agravamentos e
melhoras, além de expectativas da criança e família e relação com o hospital
e seu corpo de trabalho).
A psicologia analítica auxiliou no processo de iluminação das vivências
tidas no hospital. Neste trabalho nos aproximamos da história de Lucas,
Ana Clara e Sophia e, assim, foi possível refletir acerca do modo como eles
vivenciam o mundo e de forma mais específica a condição de adoecimento,
a influência da família, bem como entender o papel da fantasia, do lúdico e
da criatividade no cotidiano deles. De forma resumida, a seguir, são
apresentados os três casos atendidos entre o mês de julho e agosto no
hospital.
Sophia demonstrou ser uma garota bastante próxima com a mãe
principalmente quando doente, o adoecimento parece ser utilizado como
forma de aproximação entre elas, este tipo de relacionamento também é
percebido no relacionamento entre Lucas e sua mãe. Ela mostrou-se mais
independente e autêntica em momentos que sua mãe estava ausente ou
dormindo, seu tom de voz era marcadamente mais forte e suas opiniões
mais expostas. De forma geral, Sophia demonstrou uma dificuldade em
nutrir mais seu ego e suas escolhas e acaba através da patologia adentrando
uma condição de maior dependência, retomando uma relação primal entre
mãe-bebê, numa maneira de resignificar essas primeiras relações.
Enquanto que também Lucas mostra-se uma criança que parece mais
expansiva sem a presença da mãe e mais recolida e frágil diante da presença
da mesma. Lucas se mostra como um menino bastante tímido que evita
muitas vezes contato visual, mas aos poucos mostrando-se enérgico. Em
seu segundo desenho-estória com tema ele apresenta seu sonho pessoal
de ser jogador de futebol do São Paulo, mas ao mesmo tempo há a presença
de um soro característico da hospitalização. Esse soro pode simbolizar uma
falta de liberdade pra concretização desses sonhos, que pode se dar devido
a patologia, ou ainda, a uma sensação de estar preso a algo que o impede

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de perseguir seus sonhos, podemos pensar este empecilho também como


a mãe superprotetora.
Por fim, Ana Clara mostrou-se uma garota bastante comunicativa e
afetiva, buscando sempre cativar as pessoas ao seu redor entre elas:
enfermeiras, médicos e psicólogos que a atendessem. Demonstra se
apegar facilmente as pessoas, investindo demasiadamente nos outros. O
que pode indicar um profundo desamparo. Expõem uma realidade social
difícil, mas se sobressai de maneira a transcender as dificuldades que se
impõem. Tendo que muitas vezes deixar sua condição de criança para cuidar
do irmão e também da casa da vizinha. Quando adoece consegue uma
maior atenção da mãe que necessita faltar ao trabalho.
A estória infantil “A Margarida Friorenta” foi um portal para adentrar e
se aproximar mais da criança hospitalizada e de informá-la de como a
doença é carregada de aspectos emocionais, além de que como neste
processo de adoecimento somos chamados a buscarmos superações de
diversas formas criativas. No livro o auxilio aparece através da figura dos
amigos que podem ser entendidos com símbolos de pessoas próximas a
nós que nos ajudam nesse cuidado, bem como de aspectos internos que
atuam para equilibrar a psique que está muito polarizada numa dimensão
só. A produção gráfica, através do procedimento de desenho-estória com
tema, foi mais um instrumento para adentrar a realidade psíquica da criança.
A falta de ar é característica marcante visada nas crianças da pesquisa
e nos fala, principalmente, de uma trajetória rumo a uma maior
independência que é vivenciada com algumas dificuldades. O respirar é
um esforço que o bebê tem que empreender no mundo constituindo uma
das primeiras buscas como individualidade. O respirar implica em liberdade,
caminhar, trilhar e vivenciar. Em contrapartida, o adoecimento pela asma e
bronquite é marcado pelo caminho oposto de limitações, restrições e
necessidade de supervisão de um outro a todo instante. As mães da
pesquisa mostram-se muitas vezes continentes aos filhos, mas ao mesmo
tempo sendo um pouco sufocantes em determinados momentos, exatamente
não deixando-os respirar.

Até o nascimento o corpo da criança é parte da mãe. Só depois que o


cordão umbilical é cortado a criança se torna uma entidade física
separada. O cordão psíquico ainda permanece. A criança adquire uma

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personalidade separada dos pais muito mais lentamente. Isto não


significa que a criança seja, psicologicamente, uma mera repetição dos
pais; cada um carrega dentro de si o germe de sua própria
individualidade. (Wickes, 1927 p.20)

Para Jung, a imagem da criança traz em si a ideia de futuro, de


potencialidade, de enteléquia, ou seja, termo aristotélico que significa ato
final ou perfeito, e, portanto, realização completa da potência. A criança é,
ao mesmo tempo, aquilo que acabou de nascer, aquilo que precisa de
cuidados e proteção e aquele que traz todo o futuro em cada olhar, em cada
descoberta, em cada reconhecimento. Criança significa algo que se
desenvolve rumo à autonomia. Ela nasce do útero do inconsciente de todas
as experiências do coletivo em potencial. É uma personificação de forças
vitais, que vão além do alcance limitado da nossa consciência, dos nossos
caminhos e possibilidades, desconhecidos pela consciência e sua
unilateralidade. Assim podemos elencar a característica de transformação
imanente ao adoecimento, já que quando adoecemos temos a oportunidade
de rever as experiências e escolhas tidas na vida e até mesmo ressignificá-
las, trazendo o novo para nossa vivência.
Com o desenvolvimento da psicologia hospitalar bem como o
lançamento do Humaniza SUS, os hospitais tem aberto um maior espaço
de discussão e de propostas concretas sobre essas temáticas, concebendo
assim o homem como uma integralidade que carrega para o hospital seus
sentimentos, pensamentos e valores. O Hospital Municipal de Barueri,
escolhido para a realização desta pesquisa, conta com o serviço da
psicologia hospitalar desde o seu início, sendo que as áreas de atendimento
tem sido ampliadas. O trabalho referente a humanização é mais recente e
está cada vez mais propiciando um espaço mais acolhedor a criança
internada e seus familiares, como também em outras áreas do hospital
(berçário, UTIs, Clínica Médica e Ambulatório). Iniciou o serviço da
brinquedoteca bem como aumentou o trabalho de voluntários na pediatria
de vários projetos que englobam: a história, o brincar e a diversão através
dos palhaços. A partir de todo o conhecimento adquirido para a realização
desta pesquisa é possível também estar mais preparada como profissional
para adentrar a realidade do hospital e assim como auxiliar na travessia
muitas vezes dificultosa pelo paciente do adoecimento.

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Referências
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Mondrian: Rio de Janeiro.
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Paulus. (Coleção Amor e Psique).
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portalsaude.gov.br/portal/saude/cidadao/
visualizar_texto.cfm?idtxt=28345
• Jacobi, M. (1995) – O encontro analítico: transferência e relacionamento
humano, São Paulo: Cultrix. Original publicado em 1964.
• Jung, C.G. (1984) – O Eu e o inconsciente. Obras Completas de C.G.
Jung VII/2. 1ªa Ed. Petrópolis Vozes.
• Jung, C.G. (1986) - A Natureza da Psique. Em: As Etapas da Vida
Humana. 1ª Ed. Petrópolis: Vozes.
• Jung, C.G. (1991) - O Desenvolvimento da Personalidade. Em Obras
Completas de C.G.Jung, v. XVII, 1ª Ed. Petrópolis: Vozes. Emissão em
1935.
• Mitre, R.M. (2000). Brincando para viver: um estudo sobre a relação
entre a criança gravemente adoecida e hospitalizada e o brincar.
Dissertação de mestrado. Rio de Janeiro, Instituto Fernandes Figueira,
Fiocruz.
• Mota, R.A.; Martins, C.G.M. & Véras, R.M. (2006) - Papel dos profissionais
da saúde na política de humanização hospitalar. Psicologia em Estudo.
v.11,( n.2), p.323-330.
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Editora Cultrix.
• Penna, E.M.D. (2007) - Pesquisa em Psicologia analítica: reflexões sobre
o inconsciente do pesquisador. Boletim de psicologia. São Paulo, v.
LXII, n.127, p.127-138.
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Santa Roza & E. Reis, S. - Da análise na infância ao infantil na análise.
Rio de Janeiro.
• Wikes, F. (1927) – The Inner World of Childhood Influence of Parental
Difficulties upon the Unconscious of the Child. A. New Jersey: Spectrum
Book.
Recebido: 01/08/2012 / Revisto: 05/10/2012 / Aceito: 07/11/2012.

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• Síndrome de Burnout em profissionais de enfermagem


Burnout Syndrome in nursing professionals
Síndrome de Burnout en profesionales del área de enfermería
Nilse Chiapetti1
Universidade Federal da Paraíba (UFPB)
Carlos Augusto Serbena2
Universidade Federal do Paraná (UFB)
Leticia Furlani Bodanese3
Andressa Schmidt Campos4
Maria Danúzia Carvalho Proença5

Resumo: Com o objetivo de investigar a prevalência da síndrome de burnout em


profissionais da área de enfermagem, a amostra de 175 enfermeiros, técnicos
ou auxiliares de enfermagem, selecionados ao acaso, atuantes em hospitais da
cidade de Curitiba, respondem ao Maslach burnout Inventory (MBI) e a um
questionário sócio demográfico. 4,7% dos profissionais preenchem os critérios
para a doença, apresentando altos níveis de exaustão emocional (EE) e
despersonalização (DE) e baixos níveis de realização pessoal no trabalho (rRP),
e 21,7% apresentam uma combinação de duas dimensões comprometidas,
caracterizando uma situação de risco para a síndrome. EE está presente em
34,2% dos participantes, DE em 34,1%, e rRP em 21,2%. Não se observam
diferenças significativas na prevalência da síndrome e de suas dimensões entre
os profissionais da rede pública e privada. Os escores médios nas três
dimensões situam-se, predominantemente, no nível médio de classificação, o
que reforça a presença de sintomas da patologia e evidencia a necessidade da
realização de pesquisas para o levantamento da ocorrência em diferentes grupos
profissionais, bem como para a compreensão da dinâmica da doença e a busca
de medidas preventivas.

Palavras-chave: burnout; cuidados de enfermagem; stress ocupacional, saúde


mental.

1
Psicóloga. Professora da UFPB. Contato: Rua Adolpho Ferreira Soares Filho, n.34, Edifício
Rio Nilo, A-101. Jdm. C. Universitária, João Pessoa, PB, Brasil. CEP 58052-170 E-mail:
chiapetti@yahoo.com.
2
Psicólogo. Professor da UFP. Contato: Rua Sete de Abril, 434 Alto da XV, Curitiba, PR, Brasil.
CEP 80045-105 E-mail: caserbena@yahoo.com.
3
Psicóloga da Secretaria de Saúde de Blumenau – SC. Contato: Rua São José, 345 ap 73,
Blumenau, SC, Brasil. CEP 89010-220 E-mail: leti.fur@terra.com.br.
4
Psicóloga. Contato: Rua Eça de Queiroz, 1205, ap. 11-B. Bairro Ahú, Curitiba, PR, Brasil. CEP
80540-140. E-mail: dedeschmidt@hotmail.com
5
Psicóloga. Contato: Rua Felicio Laskoski, 777, Riviera, Curitiba, PR, Brasil. CEP 81290-090.
E-mail: danuzia@monjolo.eng.br 353
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Abstract: Aiming to investigate the prevalence of the burnout syndrome in nursing


professionals, a sample of 175 nurses, technicians or nursing assistants, randomly
selected, acting in hospitals in the city of Curitiba, respond the Maslach Burnout
Inventory (MBI) and a sociodemographic questionnaire. 4.7% of the professionals
meet the criteria for the disease, with high levels of emotional exhaustion (EE)
and depersonalization (DE) and low levels of personal fulfillment at work (rRP),
and 21.7% present a combination of two dimensions compromised, featuring a
risk situation for the syndrome. EE is present in 34.2% of participants, DE in
34.1%, and rRP in 21.2%. No significant differences were found in the prevalence
of the syndrome and its dimensions among professionals from public and private
networks. The average scores in the three dimensions are located predominantly
in the average level of classification, which reinforces the presence of symptoms
of the pathology and highlights the need to conduct researches to survey the
occurrence in different professional groups, as well as for understanding the
dynamics of the disease and the search for preventive measures.

Keywords: burnout; nursing care; occupational stress, mental health.

Resumen: Con el objetivo de investigar el predominio del síndrome de Burnout


en profesionales del área de enfermería, se conforma una muestra de 175
personas entre enfermeros, técnicos o auxiliares de enfermería, seleccionados
al azar, que trabajan en los diferentes hospitales de Curitiba. Se les administra el
Maslach Burnout Inventory (MBI) y un cuestionario socio-demográfico. El 4,7%
de los profesionales cumplen con los criterios para enfermedad, presentando
altos niveles de cansancio emocional (EE) y despersonalización (DE), así como
bajos niveles de realización personal en el trabajo (rRP), por su parte el 21,7%
muestran una combinación de dos de las dimensiones comprometidas,
presentando una tendencia de riesgo hacia el síndrome. EE está presente en el
34, 2% de los participantes, DE en el 34,1% y rRP en el 21, 2%. No se observan
diferencias significativas en cuanto al predominio del síndrome y sus dimensiones,
entre los profesionales que actúan en el sistema público y aquellos que se
desempeñan en el privado. Los puntajes medios en las tres dimensiones se
ubican principalmente en el nivel medio de la clasificación, lo que reafirma la
presencia de síntomas de la patología y hace evidente la necesidad de realizar
investigaciones, para obtener informaciones sobre la frecuencia de este síndrome
en diferentes grupos de profesionales, así como para la comprensión de la
dinámica de la enfermedad y la búsqueda de medidas preventivas.

Palabras claves: burnout, cuidados de enfermería, estrés ocupacional, salud


mental.

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1 - Introdução
Grande parte da vida das pessoas é dedicada ao trabalho, incluindo
a preparação para assumir e desempenhar papéis e funções ocupacionais.
Pereira (2002) estima que 8 horas por dia, em média, são dedicadas ao
trabalho, ao longo de 30 a 35 anos ou mais (sem considerar o tempo
dedicado à preparação para o exercício profissional). Trata-se de uma
dimensão que interfere significativamente na formação da identidade e
inserção social das pessoas (Abreu, Stoll, Ramos, Baumgardt, & Kristensen,
2002; Tolfo, Silva & Luna, 2009).
A qualidade de vida é impactada pela concretização de expectativas
com relação ao trabalho e/ou atividades profissionais (Gil-Monte, 2002).
Nesse contexto o indivíduo está sujeito a variáveis que contribuem para seu
crescimento, reconhecimento social e saúde, ou por seu adoecimento
(Pereira, 2002; Teixeira, 2007; Tamayo, 2009).
Resultante de interações entre fatores ambientais, como a
globalização, o redimensionamento do quadro de empregados e a
modernização tecnológica, fatores individuais, como percepções e
comportamentos nas organizações, e fatores relacionados a condições de
exercício ocupacional ou profissional, o stress é um fenômeno no mundo do
trabalho, gerando prejuízos para a saúde e a qualidade de vida do
trabalhador (Tamayo, 2008).
Diante desse quadro o stress laboral é tema de muitos estudos quando
se considera o impacto do trabalho sobre a saúde do trabalhador. Mais
particularmente um tipo de stress derivado de condições ligadas ao trabalho
e ao exercício profissional: a síndrome de burnout. Enquanto o stress refere-
se a um esgotamento pessoal com interferência na vida do individuo de
forma mais genérica, o burnout envolve atitudes e condutas negativas na
sua relação com o trabalho, acarretando problemas de ordem prática e
emocional ao trabalhador e à organização (Codo & Vasques-Menezes, 1999;
Tarnowski & Carlotto, 2007; Santos & Cardoso, 2010).
O termo se refere a uma resposta multidimensional ao stress,
conhecida no Brasil como “Sensação de Estar Acabado” ou “síndrome do
Esgotamento Profissional”. A doença se manifesta por componentes de
esgotamento (exaustão), atitudes (despersonalização ou cinismo) e auto-
avaliação (baixa realização pessoal ou ineficácia) (Pereira, 2001a; Ortega-
Ruiz & López-Rios, 2004; Tamayo, 2008).

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Conforme Perez (2005) “burnout significa desistência diante do


esgotamento causado pelo investimento numa causa que não correspondeu
às expectativas” (p. 41). O indivíduo deixa de investir no trabalho e nas
relações afetivas que dele decorrem e torna-se incapaz de envolver-se
emocionalmente com o trabalho, apresentando sinais de fadiga, depressão,
pânico, stress e falta de motivação. Trata-se de um processo progressivo
mais do que um estado, e inclui exposição gradual ao desgaste no ambiente
de trabalho, desgaste do idealismo e falta de satisfação (Codo & Vasques-
Menezes, 1999; Carlotto & Palazzo, 2006).
Como uma reação à tensão emocional crônica, o burnout atinge
principalmente pessoas cujo trabalho exige o contato direto com outros seres
humanos, particularmente quando estes estão com problemas. São
profissionais definidos como “cuidadores” (médicos, enfermeiros,
professores, entre outros), cujas funções implicam em elevado investimento
na relação interpessoal, cuidado, atenção e dedicação contínuos e
responsabilidade em cada gesto, gerando tensão emocional. O trabalhador
envolve-se afetivamente com seus clientes, desgasta-se e entra em burnout
(Codo & Vasques-Menezes, 1999; Moura, 2000; Jenaro-Río, Flores-Robaina
& González-Gil, 2007; Meneghini, Paz & Lautert, 2011).
Burnout significa algo como “perder o fogo, perder a energia” ou
“queimar-se”. O termo refere-se a uma síndrome que consome o sujeito
física e emocionalmente. Caracteriza-se pela presença de exaustão
emocional, avaliação negativa de si mesmo, depressão e insensibilidade
com relação a quase tudo e todos. Faz parte do mundo laboral e explica
grande parte do impacto negativo das atividades ocupacionais para o
trabalhador e as organizações (Pereira, 2001a; Tamayo, 2009). Suas
consequências nocivas afetam o campo das relações interpessoais e o
profissional, ocasionando prejuízos pessoais (psicológicos, físicos,
comportamentais e emocionais), sociais (isolamento, divórcio) e
organizacionais (absenteísmo, rotatividade, baixa produtividade, acidentes
de trabalho) (Maslach, Schaufeli & Leiter, 2001; Pereira, 2002; Tamayo,
2009).
Os fatores multidimensionais da síndrome são a exaustão emocional
(EE), a despersonalização (DE) e a reduzida satisfação pessoal no trabalho
(rRP).

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A exaustão emocional caracteriza-se pela carência ou ausência de


energia e um sentimento de esgotamento emocional, com manifestação
física e/ou psíquica. O trabalhador sente como se nada mais pudesse
oferecer afetivamente aos demais (Pereira, 2001a; 2001b; Murofuse,
Abranches & Napoleão, 2005; Carlotto & Palazzo, 2006).
A despersonalização refere-se ao desenvolvimento de sentimentos e
atitudes negativas e de cinismo para com as pessoas a quem se presta
serviço. Diante do esgotamento descrito, ocorre um endurecimento afetivo,
uma “coisificação” da relação, e para se proteger e manter distância
emocional, o profissional passa a tratar os clientes, colegas e a organização
como objetos (Pereira, 2001a; 2001b). O indivíduo assume “(...) uma posição
de frieza frente a seus clientes, não se deixando envolver com seus
problemas (...)” (Codo & Vasques-Menezes, 1999, p. 240). São comuns a
ansiedade, a irritabilidade, a perda de motivação, a redução de metas de
trabalho e comprometimento com resultados, a alienação, a redução do
idealismo e a conduta voltada para si (Murofuse et al., 2005).
A baixa realização profissional refere-se à presença de sentimento de
inadequação pessoal e profissional e uma tendência à auto-avaliação
negativa em relação ao trabalho com pessoas. O trabalhador desenvolve
uma percepção de que se depara com demandas que excedem os recursos
que possui para enfrentar (Pereira, 2001a; 2001b). Há uma tendência à
manifestação de uma evolução negativa no trabalho, afetando a habilidade
para realização das funções e o atendimento ao usuário e o contato com a
organização (Codo & Vasques-Menezes, 1999; Carlotto & Palazzo, 2006).
Como já foi ressaltado, profissionais que prestam serviços
assistenciais e de saúde são mais suscetíveis à síndrome de burnout. Entre
os estressores que os afetam destacam-se o excesso de estimulação
aversiva (dor, sofrimento e morte do paciente, sofrimento daqueles que o
perdem), contato constante com pessoas doentes (o que exige esforço para
o estabelecimento de uma relação de ajuda), frustração por não poder curar,
grande quantidade de pacientes para atender, escassez de habilidades de
controle das próprias emoções e das apresentadas pelos outros, jornada
de trabalho excessiva e irregular (por turnos), falta de coesão na equipe
multiprofissional e burocratização e individualismo na organização (Pereira,
2001a; Elias & Navarro, 2006; Teixeira, 2007).

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Nas organizações de saúde, como os hospitais, os profissionais são


confrontados com situações emocionalmente intensas, incluindo vida,
doença e morte, as quais causam ansiedade e tensão física e mental
(Murofuse et al., 2005). Os trabalhadores da área de enfermagem, alvos do
presente estudo, são referidos como uma população vulnerável à síndrome,
principalmente porque precisam dedicar atenção contínua em suas
intervenções, que exigem grande responsabilidade, ocasionando tensão
emocional. Estes profissionais têm mais risco de envolver-se afetivamente
com os clientes, entrando no processo de desgaste que conduz ao burnout
(Pereira, 2001a; Ortega-Ruiz & López-Rios, 2004).
É comum o acúmulo de papéis pelos profissionais da área, incluindo
a gestão da unidade de cuidados, apoio ao doente e também colaboração
no trabalho do médico. A prestação de cuidados globais ao doente vai além
da administração de medicação e monitoramento de sinais e sintomas,
cuidados de higiene, alimentação e outros; esses profissionais também se
ocupam de dar suporte psicológico ao paciente e à família, e nesse processo
tem que lidar com as suas próprias carências psicossociais, entretanto não
recebem suporte ou reconhecimento social merecido (Elias & Navarro, 2006;
Chiapetti, Proença, Silva, Bodanese & Campos, 2007; Teixeira, 2007).
Os serviços de saúde (como os hospitais) são organizações
peculiares, concebidas quase exclusivamente em função das necessidades
dos usuários. Priorizam a saúde destes, esquecendo de olhar para os
cuidadores, que geralmente passam mais tempo dentro do que fora dos
hospitais. Oferecem aos trabalhadores condições de trabalho precárias, o
que contribui não só para a ocorrência de acidentes de trabalho, mas também
para desencadear situações de stress e de fadiga física e mental (Martínez-
López & López-Solache, 2005).
Pode-se concluir, diante do exposto, que a exigência física e
psicológica que recai sobre os profissionais de enfermagem torna-os
potenciais vítimas da síndrome de burnout, justificando-se, por isso mesmo,
investigações voltadas ao estudo desse tema.
O estudo aqui relatado teve por objetivo investigar a prevalência da
síndrome de burnout em um grupo de profissionais de enfermagem de
Curitiba e região metropolitana, bem como estabelecer correlações entre
as dimensões da síndrome e variáveis sócio-demográficas.

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Bol. Acad. Paulista de Psicologia, São Paulo, Brasil - V. 32, no 83, p. 353-383

2- Método
De abordagem quantitativa, a pesquisa foi realizada na forma de um
estudo epidemiológico, de tipo transversal. Compõem a amostra, constituída
por conveniência, 175 profissionais da área de enfermagem, de ambos os
sexos, incluindo, enfermeiros (com curso superior), auxiliares de
enfermagem e técnicos de enfermagem (com formação compatível em nível
de ensino médio). 73 (41,7%) são profissionais da rede pública e 102
(58,3%) da área privada. A coleta de dados foi efetuada no ano de 2007 em
2 hospitais da rede particular e 3 da rede pública da cidade de Curitiba.
Na coleta dos dados foi utilizado o MBI de Maslach e Jackson (1986),
com tradução realizada pelo GEPEBB- Grupo de Estudos e Pesquisas
sobre Estresse e Burnout, sediado no Departamento de Psicologia da
Universidade Estadual de Maringá (Pereira, 2001c) e um questionário de
caracterização do perfil sócio demográfico.
Auto administrado, o MBI apresenta 22 itens em forma de afirmações
sobre sentimentos e atitudes do profissional em relação a seu trabalho e
seus clientes. Tem uma estrutura tridimensional que compreende as três
sub-escalas ou dimensões que compõem a síndrome: exaustão emocional
(EE), despersonalização (DE) e reduzida realização pessoal no trabalho ou
reduzida realização profissional (rRP). Pontuações elevadas nas duas
primeiras sub-escalas e baixas na terceira permitem diagnosticar a síndrome
de burnout. O MBI é citado como o instrumento mais utilizado para avaliar a
patologia, tendo indicado altos coeficientes de consistência interna em
diversas pesquisas (Muller, 2004).
O questionário de caracterização do perfil sócio-demográfico foi
elaborado para o levantamento de informações relativas à idade, sexo,
estado civil, número de filhos, formação profissional, tempo de trabalho na
área de enfermagem, tipo de turno de trabalho, locais onde desenvolve seu
trabalho, entre outras variáveis de interesse.
Os dados coletados foram analisados através do software estatístico
Statiscal Package for Social Science - SPSS.10, e discutidos à luz dos
achados da literatura. A análise dos escores em EE, DE e RP está baseada
nos critérios de classificação e interpretação indicados na figura 1,
empregados pelo Núcleo de Estudos e Pesquisas Avançadas na síndrome
de burnout (NEPASB) (Pereira, 2002).

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Bol. Acad. Paulista de Psicologia, São Paulo, Brasil - V. 32, no 83, p. 353-383

Figura 1: Critérios de classificação de Pereira (2001a)

Pontuações mais elevadas em EE e DE indicam maior stress


ocupacional. A dimensão rRP, por sua vez, tem um incidência inversa na
síndrome, e nesse caso pontuações mais baixas sugerem mais stress, isto
é, maior prejuízo na realização pessoal no trabalho. Os sintomas da síndrome
são evidenciados a partir de uma pontuação igual ou maior que 26 na sub-
escala EE, igual ou maior que 9 na sub-escala DE e igual ou menor do que
33 para rRP. A síndrome, portanto, é refletida por elevadas pontuações em
EE e DE e baixas em rRP.
O projeto foi aprovado pelo comitê de ética em pesquisa da
Universidade Tuiuti do Paraná, e seguiu todos os procedimentos cabíveis
para pesquisas envolvendo seres humanos.

3- Resultados
Do total de 175 questionários aplicados foram considerados válidos
129 (73,7%) e 164 (93,7%), dependendo das variáveis em análise. O
descarte do restante ocorreu devido a erros de preenchimento, questões
incompletas e outros problemas. Nesta seção são apresentados os
resultados obtidos, começando pelos dados sóciodemográficos e seguindo
com os relativos à presença da síndrome de burnout e correlações com
variáveis de interesse.

3.1 Perfil sociodemográfico


Dados de natureza familiar
Os participantes possuem, em média, 32,78 anos (Dp = 9,44; n = 164)
e são, em sua grande maioria, do sexo feminino (83,4%, n = 146). Quanto
ao estado civil, quase metade dos participantes são casados (47,7%), quase
um terço, solteiros (31,4%), e uma pequena parcela deles são separados
ou divorciados (11,7%) ou apresentam outra situação (9,3%). A maioria tem

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Bol. Acad. Paulista de Psicologia, São Paulo, Brasil - V. 32, no 83, p. 353-383

filhos (60,9%), e destes, a grande maioria (53%; n = 53) relata ter apenas
um filho, quase um terço (33%; n = 33), dois filhos, e 15%, três ou mais
filhos.
Dados relacionados ao exercício profissional
No que diz respeito à função profissional, 44,6% dos participantes
são técnicos em enfermagem, 37,7% são auxiliares de enfermagem e 17,7%
são enfermeiros. Trabalham há 4,15 anos, em média (Dp = 5,18; n = 145),
nos hospitais alvos da pesquisa, e não trabalham em outra instituição, em
sua maioria (59,6%). Além disso, 40,7% dos sujeitos trabalham até 40 horas/
semana, 23,3 %, entre 40,1 horas e 50 horas/semana e 36% trabalham
acima de 50 horas/semana. A carga horária total média é de 53,27 horas/
semana (Dp = 17,66, n = 150).
Atividades físicas/de lazer e outras informações
Quanto à ocupação nos finais de semana, 42,5% dos participantes
relatam dedicá-los a lazer, família, esporte ou outros, sempre ou quase
sempre, 39,6% relatam fazê-lo algumas ou muitas vezes, e 17,8% relatam
nunca ou raramente envolver-se nessas atividades. Complementarmente a
grande maioria (71,6%) indicam que nunca praticam atividades físicas ou
esportes ou que o fazem esporadicamente, 18,5% indicam que o fazem de
uma a duas vezes por semana, e apenas 9,8%, três ou mais vezes/semana.
Salienta-se que 74,3% dos sujeitos não apresentam problemas de
saúde .

3.2 - Dados referentes à presença da síndrome de burnout e


correlações
Os resultados (escores) são apresentados em termos de média do
grupo por dimensão da síndrome - exaustão emocional (EE),
despersonalização (DE) e reduzida realização pessoal no trabalho (rRP)
(tabela 1) -, de dados percentuais relativos à classificação dos sujeitos em
cada uma das dimensões (tabela 2), bem como da combinação dessas
classificações, caracterizando a presença da síndrome (tabela 3), de acordo
com os critérios do NEPASB. Finalmente a tabela 4 apresenta uma
comparação dos escores apresentados pelos profissionais das redes
pública e privada, nas três dimensões da síndrome.
É importante considerar que não há consenso nos estudos de
prevalência de burnout quanto aos critérios ou notas de corte para

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Bol. Acad. Paulista de Psicologia, São Paulo, Brasil - V. 32, no 83, p. 353-383

classificação nas categorias da síndrome ou diagnóstico da mesma


(Faúndez, Calzaretta & García, 2009; Lorenz, Benatti & Sabino, 2010). Na
amostra foco do presente estudo, foram utilizados os critérios originais do
instrumento, descritos por Pereira (2002) e apresentados na metodologia.
Conforme se observa na tabela 1, as pontuações médias permitem
situar o grupo no nível médio de classificação para a análise da síndrome,
nas três dimensões: 21,45 em EE, 6,48 em DE e 38,39 em rRP. Os valores
medianos confirmam essa tendência.

Tabela 1: Pontuação média nas três dimensões do MBI (EE, DE e rRP)

A tabela 2 apresenta o percentual de participantes nos três níveis de


classificação em cada dimensão, destacando-se os níveis críticos para a
síndrome - alto em EE e DE e baixo em rRP. Mais de um terço dos
participantes mostram alto nível de EE (34,2%), a mesma proporção em
DE (34,1%), e correspondentemente quase um terço (31,8%) situam-se no
nível baixo de classificação na dimensão rRP.

Tabela 2: Alto, médio e baixo de classificação em EE, DE e rRP

*Os dados são tomados isoladamente, para cada dimensão, sem considerar se o
comprometimento evidenciado se repete nas demais para os mesmos participantes.

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Bol. Acad. Paulista de Psicologia, São Paulo, Brasil - V. 32, no 83, p. 353-383

A tabela 3 apresenta os índices percentuais no nível alto de


classificação para EE e DE (com as demais dimensões em nível baixo ou
médio) e baixo em rRP (pior situação para esta dimensão), com níveis alto
ou médio nas demais, bem como as combinações de duas ou três
dimensões em nível crítico (ou de risco), e ainda dos indivíduos que não
apresentam níveis de risco em nenhuma dimensão da síndrome.
Um em cada dez participantes (10,9%) apresenta comprometimento
na dimensão EE (pontuação alta), pouco mais de um em cada dez (11,6%)
apenas na dimensão DE (pontuação elevada), com escore baixo ou médio
nas demais dimensões, e um quinto (21,7%) apresentam reduzida realização
pessoal no trabalho (pontuação baixa), com escore baixo ou médio em EE
e DE. Ao todo, 44,2% dos participantes apresentam problemas em uma
das dimensões. Cerca de três em cada dez participantes apresentam uma
situação favorável, com ausência de pontuação de risco nas três dimensões:
situam-se no nível baixo ou médio de classificação nas dimensões EE e
DE e alto ou médio na dimensão rRP.

Tabela 3: Resultados brutos e percentuais no nível alto de classificação, por


dimensão, e combinações de dimensões alteradas

*Profissionais que não apresentaram pontuações classificadas como críticas (alto em


EE e DE e baixo em rRP) em nenhuma das três dimensões do MBI.

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Bol. Acad. Paulista de Psicologia, São Paulo, Brasil - V. 32, no 83, p. 353-383

A combinação das dimensões EE e DE em nível alto de classificação


(maior comprometimento), atinge pouco mais de um sexto do total (17%).
As combinações de EE e rRP e DE e rRP, com nível alto (maior
comprometimento) na primeira dimensão e baixo na segunda (pior condição
para rRP), atingem percentuais pouco expressivos (1,6% e 3,1%,
respectivamente). Tais combinações consideradas em conjunto apontam
para mais de um quinto (21,7%) dos participantes classificados em nível de
risco em duas dimensões, destacando-se a combinação EE e DE.
Finalmente 4,7% (n=8) dos profissionais apresentam a síndrome de
burnout, com nível alto de classificação nas dimensões EE e DE e baixo
em rRP.
Ainda com base na tabela 3, considerando-se o conjunto dos
profissionais com pelo menos uma das dimensões em nível crítico (44,2%),
duas dimensões com prejuízo evidente (21,7%), além daqueles que
preenchem os critérios para a síndrome (4,7%), chega-se ao total de 70,6%,
ou seja, a grande maioria dos sujeitos com algum comprometimento ou
com sintomas da síndrome.
No presente estudo são comparados os resultados em EE, DE e rRP
dos profissionais da amostra que atuam em hospitais públicos e privados,
aspecto pouco abordado nas pesquisas analisadas (tabela 4).

Tabela 4: Resultado da ANOVA entre profissionais de instituições publica e privada

Não são encontradas diferenças significativas em relação ao caráter


da administração da instituição (público ou privada). Isso se aplica a gênero,

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Bol. Acad. Paulista de Psicologia, São Paulo, Brasil - V. 32, no 83, p. 353-383

estado civil, função profissional e tempo de formação. Há diferença


significativa (t = 2,09; df= 1; p = 0,04) quanto a idade média, mas estas
encontram-se na mesma faixa etária, média de 34,59 (Dp = 10,53) para
rede pública e 31,50 (Dp = 8,40) anos para rede privada. A análise com
ANOVA não revela diferenças significativas entre os escores médios de
EE (f = 2,25; p = 0,14), DE (f = 0,52; p = 0,47) e rRP (f = 0,01; p = 0,92). Da
mesma forma a analise da prevalência de burnout nos hospitais públicos
(2,7%, n = 2) e privados (5,9%; n = 6), por meio da tabela de contingência,
não aponta diferença significativa (qui2 = 1,92; df = 3; p = 0,59). Salienta-
se, ainda assim, o maior escore médio de EE na rede privada (22,64; Dp =
11,78) em comparação com a rede pública (19,80; Dp = 11,80), e de DE,
com 6,77 (Dp = 5,81) na rede privada e 6,48 (Dp = 6,14) na rede pública,
sugerindo um ambiente menos saudável na rede privada.
O escore de burnout foi relacionado com variáveis demográficas de
interesse, as quais foram também correlacionadas com as três dimensões
da síndrome. No processamento destes dados foram invalidados de 26% a
28% (n= 46 a 49) dos questionários. Os dados foram organizados em tabelas
de contingência e comparados por meio do teste do qui-quadrado.
Para a análise da associação entre tempo de atuação, idade, carga
horária total, EE, DE, rRP e escore de burnout empregou-se o coeficiente
de correlação de Pearson.
O escore de burnout (2,91; Dp = 1,72; n = 129) apresenta correlação
baixa significativa e positiva (r = 0,20; p<0.01) com a carga horária total,
cuja média é de 53,27 horas/semana (Dp = 17,66, n = 150), e não apresenta
correlação significativa (r = -,045; sig = 0,64) com tempo de atuação no
hospital onde participou da pesquisa, cuja média é 4,15 anos (Dp = 5,18; n
= 145). Tampouco apresenta correlação significativa (r = -0,11, sig = 0,24)
com idade, cuja média é de 32,78 anos (Dp = 9,44; n = 164).
Para a análise da relação entre a síndrome de burnout e gênero, estado
civil, existência de filhos, exercício da profissão em outra instituição, ter
problemas de saúde, prática de atividades físicas/esportes, dedicação à
família ou lazer nos finais de semana e função, utilizou-se a tabela de
contingência. As categorias nas quais os sujeitos foram agrupados foram
cruzadas com escore de burnout: baixo, médio e alto. Resultados

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Bol. Acad. Paulista de Psicologia, São Paulo, Brasil - V. 32, no 83, p. 353-383

percentuais e frequência foram analisados pelo teste do qui-quadrado, com


significância de 5%.
Tal análise não revelou diferenças significativas, entretanto observou-
se que determinadas variáveis categoriais apresentavam contrastes
significativos em algumas células. Foi então realizado um novo tratamento
dos dados. Na nova tabela de contingência, os sujeitos foram divididos em
dois grupos, a partir da mediana do escore de burnout, e esse resultado foi
comparado com as variáveis categoriais consideradas. Resultados acima
da mediana apontam para um status mais comprometido quanto à presença
da síndrome.
Deste modo são observadas diferenças significativas no escore de
burnout com relação à função exercida (N = 129, qui2 = 5,48; df = 1; sig =
,019), tendo 75% (n = 18) dos(as) enfermeiros(as) apresentado escore acima
da mediana (pior resultado), contrastando com 48,6% (n = 51) dos
técnicos(as) ou auxiliares de enfermagem acima da mediana, o que aponta
para um resultado pior no caso dos enfermeiros.
Quanto à presença de problemas de saúde, observa-se diferença
significativa (N = 129, qui2 = 5,57, df = 1; sig = 0, 02), com 69,2% (n = 27)
dos sujeitos com problemas de saúde apresentando escore de burnout
acima da mediana, contrastando com 46,7% (n = 42) dos que não tem
problemas de saúde.
A pratica de esportes ou atividades físicas também se mostra um fator
significativo para o burnout; evidencia-se diferença significativa entre os
dois grupos (qui2 = 5,75; df = 1; sig = 0,02), com 60% (n = 54) dos sujeitos
que nunca ou esporadicamente praticam atividades físicas apresentando
escore de burnout acima da mediana, enquanto 36,8% (n = 14) daqueles
que praticam essas atividades uma ou mais vezes por semana apontam
para esse resultado.
Seguindo esta mesma análise (divisão pela mediana) no que se refere
às três dimensões de burnout, são identificadas algumas diferenças em
nível de significância quando consideradas as variáveis já mencionadas,
de forma específica.
No que se refere especificamente à dimensão Exaustão Emocional,
observa-se diferença significativa em relação a gênero (qui2 = 3,62, df = 1,

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Bol. Acad. Paulista de Psicologia, São Paulo, Brasil - V. 32, no 83, p. 353-383

sig = ,06), com as mulheres apresentando melhor situação do que os homens,


pois 46,6% (n = 61) delas estão acima da mediana (menos exaustão),
enquanto 66,7% (n = 18) dos homens encontram-se acima da mediana.
Em relação à função exercida, há diferença significativa em p = 0,9
(10%) (qui2 = 2,95, df = 1; sig = 0,09), com 47% (n = 70) dos técnicos ou
auxiliares de enfermagem com EE acima da mediana, contrastando com
65,4% (n = 17) dos enfermeiros(as) com EE acima da mediana.
A variável “problemas de saúde” aponta para diferença significativa
(qui2 = 23,29; df = 1, sig = 0,00), pois a grande maioria dos sujeitos que os
possuem (81,4%, n = 35) apresentam EE acima da mediana, contra 38,3%
(n = 44) dos sujeitos que não os possuem.
Observa-se diferença significativa entre os sujeitos quanto à
“dedicação a atividades de lazer, família ou esportes nos finais de semana”.
A grande maioria (74,1%, n = 20) dos sujeitos que nunca ou raramente se
envolvem em tais atividades apresentam EE acima da mediana,
contrastando com 53,2% (n = 33) dos que dedicam algumas e muitas vezes
e 36,8% (n = 25) dos que se dedicam sempre ou quase sempre (qui2 =
11,28; df = 2; sig = 0,00).
Este resultado está coerente com a variável “prática de atividades
físicas ou esportes”, apesar de não se observar, nesse caso, diferença
significativa (qui2 = 2,53, df = 1, sig = 0,11), pois a maioria (54,1%, n = 60)
dos que nunca ou esporadicamente praticam atividades físicas ou esportes
possuem EE acima da mediana, contrastando com um percentual menor
(40%, n = 18) dos que praticam uma ou mais vezes por semana.
Não são constatadas diferenças significativas em EE no que se refere
ao estado civil (qui2 = 2,14, df = 2, sig = 0,34), mas salienta-se que 57,8% (n
= 26) dos solteiros apresentam escore acima da mediana contra 50% (n =
38) dos casados e 41,2% (14) dos separados e outros. Em relação à
existência de filhos não são se observa diferença significativa (n = 154,
qui2 = 2,23, df = 1, sig = ,14), mas salienta-se o fato de que 57,8% (n = 34)
dos sujeitos que não possuem filhos apresentam EE acima da mediana,
enquanto 45,6% (n = 43) dos sujeitos que os possuem (um ou mais)
apresentam esse resultado.
Os sujeitos que trabalham em outra instituição não diferem de forma
significativa daqueles que não trabalham (qui2 = 2,156, df = 1; sig = 0,142)

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mas eles apresentam percentual maior de EE acima da mediana (56,9%, n


= 37) do que estes (44,9%, n = 40). Talvez uma amostra maior apontaria
para uma diferença significativa.
Quando considerada a dimensão Despersonalização, observa-se
diferença significativa somente em relação ao estado civil, favorecendo mais
uma vez os participantes casados: 54,9% (n = 19) dos solteiros(as) e 55,9%
(n = 19) dos separados(as) e outros apresentam escore de DE acima da
mediana, contra pouco mais que um terço (38,2%; n = 29) dos casados(as)
(qui2 = 4,736; df = 2; sig= 0,094).
A variável gênero não aponta para diferença significativa (qui2 = 1,243;
df = 1; sig = 0,265), entretanto mais homens (57,1%, n = 16) apresentam DE
acima da mediana do que mulheres (45,6%; n = 62).
Ainda que a existência ou não de filhos não se apresente como um
fator relevante para presença DE, não se observando diferença significativa
(n = 74, qui2 = 0,659, df = 1; sig = 0,417) entre sujeitos que tem filhos (44,2%;
n = 42) e aqueles que não os tem (50,8%, n = 32), destaca-se a maior
incidência de DE em sujeitos sem filhos, corroborando os resultados
observados quanto às variáveis familiares e incidência de EE.
Em relação a função profissional, não há diferença significativa quanto
à presença de DE (qui2 = 0,010; df = -1, sig = 0,919) com 47,4% (n = 63)
dos técnicos e auxiliares de enfermagem e 48,4% (n = 15) dos enfermeiros
acima da mediana.
Da mesma forma não se observa diferença significativa entre os
sujeitos que trabalham em outra instituição e os que não trabalham (qui2 =
0,212; df = 1; sig = 0,645), pois a incidência de DE acima da mediana é
semelhante: 50% (n = 33) e 46,3% (n = 44), respectivamente.
Seguindo a mesma tendência, não se observa diferença significativa
no que se refere à incidência de DE acima da mediana entre sujeitos que
possuem problema de saúde (48,8%; n = 21) e aqueles que não os possuem
(53,7%; n = 65) (qui2 = 0,30; df = 1; sig = 0,58), entre os que dedicam-se a
lazer, esportes, famílias e outras atividades que não o trabalho, no final de
semana (58,6%; n = 17), ou não o fazem (ou tais atividades são muito pouco
frequentes) (40,6%; n = 26) (qui2 = 2,82; df = 2; sig = 0,24), e entre aqueles
que praticam atividades físicas ou esportes uma ou mais vezes na semana

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(44,7%; n = 21) e aqueles que nunca ou esporadicamente praticam tais


atividades (48,7%; n = 56) (qui2 = 0,22, df = 1, sig = 0,64).
Quando se considera a dimensão Reduzida Realização Profissional
(cuja incidência na síndrome é inversa, com pior resultado abaixo da
mediana), somente se identifica diferença significativa para a variável
“função profissional” com 51,6 % (n = 63) dos técnicos e auxiliares de
enfermagem apresentando rRE abaixo da mediana (resultado pior)
contrastando com 69% (n = 20) dos enfermeiros(as) abaixo da mediana
(qui2 = 2,84; df = 1; n = 0,09).
Em relação a gênero não há diferença significativa entre homens (52%,
n = 13) e mulheres (55,6%, n = 70) abaixo da mediana no que diz respeito a
rRP (qui2 = 0,11, df = 1; sig = - 0,74). O mesmo se aplica à variável “estado
civil”, entretanto os dados indicam que os casados(as) ou separados(as) e
outros possuem menor porcentagem de rRE abaixo da mediana (50%, n =
35 e 44,8%, n = 13, respectivamente) que os solteiros (65,3%, n = 32) (qui2
= 3,95; df = 2; sig = 0,14). Agrupando os casados e separados e comparando
com os solteiros, aqueles possuem menor percentual de rRP abaixo da
mediana (48,5%, n = 48) do que os solteiros (65,3%, n = 32), com diferença
significativa (qui2 = 3,73; df = 1; p = 0,05).
Em relação à existência de filhos, não há diferença significativa quanto
à incidência de rRP entre os participantes que possuem filhos e aqueles
que não os possuem, com 51,7% (n = 45) e 58,3% (n = 35) dos sujeitos,
respectivamente, abaixo da mediana (qui2 = 0,625; df = 1; sig = 0,429).
Mais uma vez, a despeito da ausência de significância, destaca-se a maior
incidência de rRP em sujeitos sem filhos, reforçando os resultados
observados quanto às variáveis familiares e incidência de burnout,
apontados quando se analisou EE e DE.
Na variável “exercício profissional em outra instituição” não há diferença
significativa, tendo ambos os grupos apresentado incidência de rRE abaixo
da mediana semelhantes, a saber, 53,4% (n = 31) para quem trabalha
também em outra instituição e 56,6% (n = 50) para os que não trabalham
em outra instituição (qui2 = 0,06; df = 1; sig = 0,80).
Não há diferença significativa para existência ou não de problema de
saúde (qui2 = 0,25, df = 1; sig = 0,62) com percentuais semelhantes de

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profissionais abaixo da mediana em rRP: 58,1% (n = 25) para quem possui


problema e 53,7% (n= 58) para quem não possui.
Em relação a dedicação dos finais de semana ao lazer, família,
esportes ou outros; não há diferença significativa entre os que têm esse
tipo de atividade e os que não as têm ou para os quais elas são raras (qui2
= 1,87; df = 2; n = 0,39). Apesar disto, chama a atenção o fato de que os
sujeitos que sempre ou quase sempre se dedicam a tais atividades
apresentam menor porcentual de rRE (43,1%, n= 25) abaixo da mediana
quando comparados àqueles que nunca ou raramente se dedicam (53,8%;
n = 14) e algumas e muitas vezes o fazem (56,9%; n = 29).
A prática de atividades físicas ou esportes não parece resultar em
diferenças significativas (qui2 = 1,12; df = 1; sig = 0,27), com 47,7% (n = 21)
dos sujeitos que praticam e 57,5% (n = 61) dos que nunca praticam ou o
fazem esporadicamente abaixo da mediana. De qualquer forma evidencia-
se menor comprometimento entre os que praticam tais atividades ou o fazem
com mais frequência.

4 - Discussão dos Resultados


No que diz respeito ao perfil sócio demográfico, os profissionais da
amostra, constituída principalmente por técnicos e auxiliares de enfermagem,
trabalham há mais de 4 anos, em média, no hospital onde responderam à
pesquisa, e não trabalham em outra instituição, em sua maioria. A carga
horária dos profissionais, em sua maioria mulheres, com idade média em
torno dos 33 anos e com filhos, tende a ser elevada, com uma média de
53,27 horas por semana e mais de um terço apontando para uma carga
horária maior do que 50 horas/semana. Isso evidencia que os trabalhadores
da amostra passam uma parte importante do seu tempo no ambiente de
trabalho, fato destacado por Pereira (2002). Apesar disso, nota-se que mais
de um terço dedicam-se sempre ou quase sempre a atividades de lazer,
família ou outras nos finais de semana e a mesma proporção o faz algumas
ou muitas vezes, o que poderia estar contribuindo para a manutenção da
saúde, tendo em vista a baixa incidência da síndrome propriamente dita,
com todas as dimensões em prejuízo.
Salienta-se, no que diz respeito à presença da síndrome, a dificuldade
de comparação dos resultados obtidos na presente investigação com

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trabalhos de outros autores, devido aos diferentes critérios adotados para


identificar os níveis da síndrome e de seus componentes (Faúndez et al.,
2009; Lorenz et al., 2010).
Ainda assim, os resultados indicam que existe risco para a síndrome
de burnout na população estudada. Os participantes situam-se no nível
médio de classificação nas três dimensões que a compõem (ver tabela 1),
consideradas de forma isolada (independentemente da pontuação nas
demais). Essa tendência também é evidenciada quando se trata do
percentual de participantes nos três níveis de classificação para cada
dimensão (ver tabela 2). Mais de um terço dos profissionais apresentam
exaustão emocional e despersonalização (nível alto em EE e DE), e pouco
menos de um terço, reduzida realização profissional (nível baixo em rRP),
indicando comprometimento em pelo menos uma das dimensões (34,2%
para EE, 34,1% para DE e 31,8% para rRP).
Estes resultados, referentes ao nível crítico nas três dimensões, são
sensivelmente mais elevados que os obtidos em outros estudos com
profissionais de enfermagem. Franco, Barros, Nogueira-Martins & Zeitoun
(2011) apontam para os seguintes resultados: 17,2% em EE e DE e 18,8%
em RrP. Resultados semelhantes são relatados por Meneghini et al. (2011):
20,1% em EE, 14.6% em DE, e 4,09% em RrP. Menos expressivos são os
dados relatados por Moreira, Magnago, Sakae & Magajewski (2009): 9%
em EE, 21,9% em DE e 10,6% em RrP.
A análise dos percentuais em cada dimensão de forma exclusiva (ver
tabela 3), isto é, com comprometimento em uma das dimensões e demais
com pouco ou nenhum comprometimento (nível médio ou baixo em EE e
DE e médio ou alto em rRP), atinge 44,2% dos participantes. Reduzida
realização profissional se destaca, aplicando-se a pouco mais de um quinto
da amostra (21,7%). Pouco mais de um em cada dez apresentam exaustão
emocional ou despersonalização (10,9% e 11,6%, respectivamente).
Resultados semelhantes foram obtidos por Moreira et al. (2009) num estudo
com profissionais de enfermagem em hospital geral, com 38,5% dos
respondentes apresentando comprometimento em uma dimensão.
Entretanto, diferentemente do que se observa no presente estudo, os autores
encontraram maior prevalência de comprometimento na dimensão

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despersonalização, com pouco mais de um quinto dos trabalhadores


situados no nível alto de classificação. Um em cada dez situaram-se no
nível baixo de classificação em rRP, dimensão mais comprometida no
presente estudo, e menos do que um em cada dez apresentaram exaustão
emocional.
Mais de um quinto dos participantes (21,7%) parecem ter
comprometimento em duas dimensões, apresentando exaustão e
despersonalização, exaustão e reduzida realização profissional, ou
despersonalização e reduzida realização profissional, indicando um prejuízo
importante na relação com o trabalho, sobretudo nas dimensões EE e DE,
cuja combinação atinge em torno de um sexto dos participantes.
Apresentaram a síndrome de burnout, com EE e DE em nível alto e
rRP com nível baixo de classificação, 4,7% dos participantes, resultado
próximo do obtido por Faúndez et al. (2009) e por Franco, Barros, Nogueira-
Martins & Zeitoun (2011), a partir de investigação com o mesmo público,
com a ressalva de que os critérios aplicados pelos últimos para indicar a
prevalência foram diferentes dos empregados no presente estudo.
Considerando-se os indivíduos que apresentam uma, duas ou as três
dimensões com prejuízo (tabela 3), evidencia-se que a grande maioria
(70,6%) apresenta algum comprometimento na relação com o trabalho e
entre estes, mais de um quarto apresenta sinais mais evidentes da presença
de burnout, com a síndrome já instalada ou com pelo menos duas
dimensões comprometidas (26,4%). Menos de um terço (29,6%)
apresentam-se livres dos níveis mais críticos (alto para EE e DE e baixo
para rRP) em todas as dimensões, sugerindo melhor condição quanto ao
burnout. Reforçam esses resultados aqueles apontados por Moreira,
Magnago, Sakae & Magajewski (2009), cujo estudo revela que 35,7% dos
entrevistados apresentavam a síndrome ou ao menos um processo de
adoecimento em curso.
Os sintomas da síndrome não aparecem repentinamente e nem de
maneira sequencial. Segundo Rossa (2004), trata-se de um processo
gradativo e evolutivo que pode demorar anos ou décadas, até que se torne
muito difícil a continuidade do exercício profissional pelo trabalhador.
A predominância de níveis alto e médio em EE merece destaque, já
que a dimensão está comumente relacionada aos sintomas de fadiga mental

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e depressão (Codo & Vasques-Menezes, 1999) e também é considerada a


primeira dimensão da síndrome, onde se inicia o processo, o que reforça a
presença de algum nível de sofrimento relacionado ao exercício profissional
para grande parte da amostra. A mesma tendência na dimensão DE sugere
a presença de sintomas comportamentais e mentais relacionados ao
trabalho, que podem gerar atitudes e comportamentos negativos que levam
à diminuição da afetividade e do desempenho no trabalho, ou seja, à
coisificação do trabalho (Codo & Vasques-Menezes, 1999).
Os sentimentos de insatisfação e desprazer relacionados ao trabalho
podem ser resultado da exaustão e da despersonalização: o trabalhador
percebe que está lidando com tarefas e pessoas de modo indiferente, o
que não contribui para uma auto avaliação positiva. Os sentimentos de
incompetência podem levar o profissional a redobrar seus esforços para
enfrentar as dificuldades profissionais, aumentando a exaustão (Codo &
Vasques-Menezes, 1999; Lautert, Chaves & Moura,1999; Pereira, 2001a;
2001b).
A dimensão rRP apresentou predominância nas pontuações baixas e
médias (31,8% e 47%, respectivamente), indicativas de prejuízo no nível de
realização profissional dos participantes. Codo & Vasquez-Menezes (1999)
observam que o burnout é uma síndrome relacionada à perda de sentido
na relação do profissional com seu trabalho, e assim o indivíduo passa a
perceber seu esforço como inútil.
No que se refere às correlações analisadas, isto é, às variáveis que
poderiam estar relacionadas ao burnout, não se observa correlação
significativa entre o escore de burnout e a idade e o tempo de atuação,
corroborando as conclusões de Moreira et al (2009). Observa-se, entretanto,
correlação baixa, significativa e positiva com a carga horária total, que tende
a ser elevada, como foi mencionado. Da mesma forma, conforme esperado,
o escore de burnout apresenta correlação positiva, alta e significativa com
EE e com DE, e correlação negativa, média e significativa com rRP. Isso
indica que quanto maior a carga horária, maior o escore de burnout, maior
a pontuação em EE e DE e menor em rRP, indicando maior prejuízo em
todas as dimensões. Carlotto (2011) aponta para um dado diferente no que
se refere à carga horária, pois encontrou mais frequentemente EE, DE e
rRP em nível crítico em técnicos de enfermagem que trabalhavam de 20 a

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30 horas semanais, quando comparados aos que trabalhavam 40 horas. A


autora levantou a hipótese de que os primeiros atuassem também em outros
locais, situação comum entre esses profissionais, como indicam Murofuse,
Abranches & Napoleão (2005), o que resultaria numa carga horária total
maior, e portanto, em maior desgaste. Isso reforçaria os resultados
encontrados na presente pesquisa.
Em relação ao contexto da administração (pública ou privada), não se
observa diferença significativa na prevalência da síndrome, entretanto há
maior prevalência no âmbito privado (5,9%) que na pública (2,7%). Também
não há diferença significativa nas dimensões da síndrome, entretanto os
escores de EE e DE apresentam-se mais elevados na rede privada (22,64
e 6,77 respectivamente) que na rede pública (19,79 e 6,07) e próximos
para rRP.
A síndrome de burnout é descrita como uma doença relacional e, deste
modo, o contexto organizacional possui influência na sua ocorrência. Saravia
(2010) descreve algumas diferenças entre o contexto de uma administração
pública e privada. Nesta o ritmo de mudança é mais rápido, visa o lucro,
responde a clientes e ao mercado, está em competição com demais
instituições pela escolha do consumidor e há um controle mais direto. Na
pública o controle é indireto, pela ação da sociedade e de outras instituições
públicas, responde a uma ação coletiva e se coloca como um serviço público,
não competindo com outros e o emprego se apresenta mais estável. Deste
modo, esperava-se uma diferença significativa, o que não se confirma, mas
aparecem diferenças indicando necessidade de mais pesquisas. As
diferenças obtidas na prevalência da síndrome e nos escores de suas
dimensões, apesar de não serem significativas, são relevantes e podem
indicar um ambiente menos saudável na rede privada.
Em revisão de literatura, Trigo, Teng & Hallak (2007) apontam que a
síndrome é um risco ocupacional para profissões de ajuda ligadas a saúde
e educação, relacionando-se com características individuais e do trabalho.
A enfermagem inclui as funções de cuidar na saúde e na doença, na sua
máxima extensão, desde a concepção até à morte (Lautert, Chaves & Moura,
1999). A prática profissional frequentemente está além da cura, centrando-
se na busca de alívio para o sofrimento e melhor qualidade de vida ao usuário.
O profissional da área, por trabalhar junto ao paciente, vivencia de perto
sua dor e seu sofrimento, envolvendo-se com a fragilidade humana (Perez,

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2005; Pinho, Siqueira & Pinho, 2006). Acrescente-se a isso expectativas


por parte dos usuários quanto a esse profissional: uma pessoa abnegada e
maternal, pronta para atender todo tipo de demanda (Elias & Navarro, 2006).
A análise das diferenças entre os participantes quanto à presença do
problema, tendo por base a divisão dos sujeitos em dois grupos, a partir da
mediana do escore de burnout, e também de EE, DE e rRP, revela diferença
no escore de burnout com relação a algumas variáveis. Aquelas que se
repetem em diferentes dimensões são discutidas a seguir, ainda que não
tenham se apresentado, necessariamente, em nível de significância.
Enfermeiros apresentam, mais frequentemente, pontuações críticas
para o burnout e para as dimensões EE e rRP, do que técnicos e auxiliares.
Muller (2004) revela resultados semelhantes, sugerindo maior tendência ao
adoecimento em enfermeiros do que em técnicos e auxiliares. A esse
respeito Bulhões (1994), considera que o trabalho do enfermeiro é muito
complexo e que eles, ao mesmo tempo, não possuem autonomia necessária
para sua realização. Maslach, Schaufeli e Leiter (2001) consideram que
pessoas com níveis mais elevados de escolaridade, como é o caso dos
enfermeiros, apresentam maior propensão aos sintomas de burnout, quando
comparadas àquelas que possuem níveis mais baixos de escolaridade,
como ocorre com os técnicos e auxiliares. Sugerem ainda que os primeiros
estariam mais sujeitos à exaustão emocional e despersonalização, enquanto
que aqueles com menor nível de escolaridade sentem-se menos realizados
profissionalmente e tendem a apresentar mais frequentemente sentimentos
de incompetência profissional. Tais considerações apoiam os dados
encontrados na presente pesquisa, de forma geral, exceto para a frequência
de rRP, também maior para os enfermeiros. Os autores fazem uma ressalva
que parece explicar os resultados do presente estudo, particularmente a
maior propensão dos enfermeiros ao adoecimento, inclusive na dimensão
rRP: os enfermeiros estariam mais suscetíveis a maiores expectativas
profissionais, nem sempre passíveis de atingir, e a maior responsabilidade
no desempenho das funções.
O trabalho da equipe de enfermagem em hospitais, independentemente
do grau de formação, promove, quase que invariavelmente contínuas
situações de sobrecarga mental. A constante confrontação com o sofrimento
do paciente e de seus familiares gera stress ocupacional, que por sua vez
gera sentimentos de insatisfação pessoal e de impotência (Bulhões, 1994).

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Tais considerações levam a destacar os indicadores de comprometimento


encontrados no grupo como um todo, embora os resultados divirjam dos
relatados em outros estudos, é elevada da incidência da doença e de seus
sintomas na população estudada.
Também são mais frequentemente afetados pelos sintomas da
síndrome, profissionais que tem problemas de saúde e/ou que não praticam
esporte, atividades físicas ou de lazer, familiares ou outras, que não o trabalho
(por ex., no final de semana), ou que o fazem somente de forma esporádica,
sugerindo que a síndrome ou seus sintomas estão presentes mais
frequentemente. Isso se aplica ao burnout, e de forma geral, às suas
dimensões, ainda não se tenha observado diferenças em nível de
significância em todas essas análises.
Estes dados são, em parte, coerentes com aqueles apontados por
Moreira et al. (2009), que observaram correlação positiva entre a existência
da síndrome e a licença por motivo de saúde, mas não encontraram
associação significativa entre a síndrome a existência de hobby ou
atividades físicas de final de semana. Silva e Carlotto (2008), apontam para
uma relação entre problemas de saúde e exaustão emocional, não
observada no presente estudo, ainda que se evidencie correlação com a
presença de burnout.
O fato de trabalhar em outra instituição parece relacionar-se, em certo
grau, a níveis mais elevados de exaustão emocional, embora a diferença
entre estes participantes e aqueles que não trabalham noutra instituição
quando ao escore de EE não tenha sido estatisticamente significante.
Alguns aspectos merecem atenção: mais homens do que mulheres
apresentam exaustão emocional e despersonalização acima da mediana
(pior situação), tendência esta observada também por Gil-Monte (2002).
Quanto ao estado civil, mais solteiros apresentam exaustão emocional,
despersonalização acima da mediana, e reduzida realização profissional
abaixo da mediana (pior resultado) quando comparados aos casados e os
separados e outros. Da mesma forma, não possuir filhos parece estar
relacionado com mais exaustão e principalmente despersonalização e
reduzida realização profissional. A esse respeito, Muller (2004) menciona
que não há consenso na literatura quanto à relevância de fatores de que
chama de “vida marital”, para o burnout, mas autores como Burke,
Greenglass & Moore (2003) e Maslach, Schaufeli & Leiter (2001) atribuem

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ao casamento ou ao fato de ter um companheiro estável, menor propensão


aos sintomas de burnout. São aspectos de natureza familiar, em sua maioria,
que parecem relevantes para o surgimento do burnout e que poderiam estar
interferindo como elementos de proteção na população estudada.

5 - Conclusões
O trabalho é agente de mudanças da vida psíquica, econômica, social,
cultural e política. Caracteriza-se, pois, como agente de transformação da
realidade, viabilizando a sobrevivência e a realização do ser humano
(Caetano, 2004; Malvezzi, 2004). Por outro lado, mudanças contínuas e
profundas na economia mundial, nas relações sociais e políticas, na
tecnologia e na organização produtiva, têm provocado alterações no mundo
do trabalho e têm gerado um forte impacto na saúde e na qualidade de vida
do trabalhador. Descontentamento, desgaste emocional, sentimentos de
injustiça e conflitos interpessoais no ambiente de trabalho passaram a ser
muito frequentes. O trabalho torna-se responsável, então, em grande parte,
pelos agravos da saúde mental do trabalhador (Malvezzi, 2004; Pinheiro &
Lipp, 2009).
Os profissionais de enfermagem, aqui estudados, fazem parte de um
segmento populacional especialmente exposto ao stress e a problemas
derivados da relação com o trabalho, como já foi mencionado. São
considerados vulneráveis, portanto, à síndrome de burnout, um tipo de stress
especificamente relacionado ao trabalho, por diversas razões, destacando-
se o fato de precisarem dedicar atenção contínua em suas intervenções e a
extrema responsabilidade inerente à sua prática, o que ocasiona tensão
emocional constante. Erros na sua atuação podem ser potencialmente
prejudiciais e até fatais ao paciente. Destacam-se ainda fatores que parecem
contribuir para o adoecimento, como pouco reconhecimento por parte de
outros profissionais, elevadas cargas horárias no ambiente de trabalho,
trabalho em turnos, entre outros Ademais, por atuarem diretamente com os
pacientes, vivem de perto seu sofrimento e dor (bem como da família do
paciente), lidam com a vida e a morte constantemente. Estes profissionais
têm mais risco de envolver-se afetivamente com os pacientes, entrando no
processo de desgaste que conduz ao burnout (Pereira, 2001a; Ortega-Ruiz
& López-Rios, 2004).

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Os resultados da presente pesquisa apontam para uma ocorrência


não muito expressiva da síndrome (prevalência de 4,7%) e coerente com
estudos realizados (Faúndez et al., 2009), mas sugerem que existe um
processo de sofrimento em evolução, visto que cerca quase metade (44,2%)
dos profissionais da amostra apresentaram comprometimento evidente (nível
alto) em uma dimensão, quase um quarto (21,7%), em duas dimensões,
destacando-se a combinação EE+DE. Estes percentuais evidenciam que
mais de dois terços (70,6%) apresentam algum comprometimento,
apontando para um processo de adoecimento.
É importante lembrar que se trata de um processo gradativo e evolutivo
de sofrimento, não necessariamente sequencial, mas que frequentemente
tem início com a exaustão emocional, dando lugar às outras dimensões –
despersonalização e reduzida realização profissional, e que compromete,
em diferentes níveis, a saúde do trabalhador (Rossa, 2004).
As variáveis carga horária e presença de problemas de saúde
mostram-se relevantes para a ocorrência da síndrome, enquanto que a
pratica de esportes, atividade física e outras atividades do gênero,
relacionaram-se negativamente com a mesma.
Variáveis de natureza familiar, como estado civil e existência de filhos,
mostram-se relevantes para presença de risco. Os homens parecem mais
vulneráveis à síndrome, contrariando resultados de outros estudos, o que
também acontece com participantes solteiros e/ou sem filhos, permitindo
apontar as relações familiares como protetoras.
Da mesma forma, enfermeiros apresentaram pontuações críticas para
o burnout e para as dimensões EE e rRP mais frequentemente do que
técnicos e auxiliares, permitindo supor que profissionais que tem maior
formação e exercem funções de maior responsabilidade sofrem mais
exaustão, e também encontram menos oportunidades de realização
profissional.
No ambiente hospitalar ocorrem fatos que exigem permanente controle
de emoções frente aos pacientes e familiares, e que geram sofrimento
psíquico no profissional. Os serviços de saúde estão direcionados às
demandas do usuário, oferecendo condições de trabalho precárias, que
contribuem para desencadear situações de stress e fadiga física e mental
(Martínez-López & López-Solache, 2005). Os resultados indicam que os

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profissionais de enfermagem apresentam perfil de adoecimento e passíveis


de adoecimento (Franco et al., 2011), justificando-se, por isso mesmo,
investigações voltadas ao estudo desse tema.
Salienta-se a dificuldade de comparar os resultados obtidos devido a
falta de consenso e diferentes critérios na literatura para identificação da
síndrome (Moreira et al., 2009) o que aponta necessidade de continuidade
das pesquisas na área.
Acreditamos estar contribuindo para o estudo do tema, atualmente
em destaque em virtude do reconhecimento da influência do trabalho na
qualidade de vida das pessoas, particularmente no seu adoecimento.
Ressalta-se a presença dos sintomas do burnout na população estudada, o
que chama a atenção para a necessidade de continuidade dos estudos
analisando sua incidência junto a profissionais que atuam no cuidado a outras
pessoas, vulneráveis ao problema, como são os profissionais de saúde,
particularmente os da área de enfermagem. Tais estudos poderão
fundamentar o estabelecimento de programas de prevenção dessa e de
outras patologias relacionadas ao trabalho, e de promoção de saúde.

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Bol. Acad. Paulista de Psicologia, São Paulo, Brasil - V. 32, no 83, p. 384-394

• A Psicoterapia Breve Operacionalizada no Tratamento


de Pessoas com Deficiência Física
Operational Brief Psychotherapy for Treatment
of People with Physical Disabilities
La Psicoterapia Breve Operacionalizada en el tratamiento
de personas con discapacidad
Cláudia Nabarro Munhoz1
Ivonise Fernandes da Motta2
Instituto de Psicologia – Universidade de São Paulo

Resumo: A Psicanálise ortodoxa traz limitações para o atendimento em


instituições de saúde, como é o caso de pessoas com deficiência física, em
grande parte atendidas em centros de reabilitação. A Psicoterapia Breve de
orientação Psicanalítica é uma forma de tratamento que permite atender à
demanda, de forma mais adequada destes pacientes. A Escala Diagnóstica
Adaptativa Operacionalizada (EDAO), criada por Simon, permite fazer um
diagnóstico acurado do indivíduo, em poucas entrevistas, e a partir daí planejar
um tratamento psicoterapêutico, breve e individualizado. A Psicoterapia Breve
Operacionalizada (PBO), tal como trazida por Simon, é um tratamento preventivo,
assim como a EDAO o é, o que também é importante quando se fala de pessoas
com deficiência física, uma questão de saúde pública.

Palavras-chaves: Psicoterapia Breve Psicanalítica; EDAO; deficiência física.

Abstract: The orthodox psychoanalysis brings limitations to care in health


institutions, such as people with physical disabilities, largely assisted in
rehabilitation centers. The Brief Psychotherapy of Psychoanalytic orientation is a
form of treatment that allows you to meet the demand, more appropriately for
these patients. The Operational Adaptive Diagnostic Scale (EDAO), created by
Simon, permits to make an accurate diagnosis of the individual, in a few interviews,
and then plan a brief and individualized psychotherapeutic treatment. The
Oparational Brief Psychotherapy (PBO), as brought by Simon, is a preventive
treatment, as well as the EDAO, which is also important when it comes to people
with physical disabilities, a public health issue.

Keywords: Psychoanalytic Brief Psychotherapy, EDAO, physical impairment.

1
Psicóloga, Mestre em Psicologia Clínica pela USP, Especialista em Psicologia Clínica
Hospitalar pela DMR-HCFMUSP, pesquisadora do LAPECRI – USP. Contato: R. Afonso Celso,
694, ap. 21D, V. Mariana, São Paulo, SP, Brasil - CEP 04119-060 E-mail: clamunhoz@usp.br
2
Psicóloga e Psicanalista, Doutora em Psicologia Clínica pela USP, docente e orientadora na
graduação e na pós-graduação do Instituto de Psicologia da USP, fundadora e coordenadora
do LAPECRI-USP. Contato: Rua Guarará, 329, cj. 62 – Jardins, São Paulo, SP, Brasil. CEP
384 01425-001 E-mail: ivonise@usp.br
Bol. Acad. Paulista de Psicologia, São Paulo, Brasil - V. 32, no 83, p. 384-394

Resumen: El Psicoanálisis ortodoxo trae consigo algunas limitaciones para la


atención en los centros de salud, tal es el caso del atendimiento de las personas
con discapacidad en las instituciones de rehabilitación y educación. La
Psicoterapia Breve, con orientación Psicoanalítica, es una forma de tratamiento
que permite el abordaje de estas personas atendiendo sus necesidades de
manera más adecuada, ofreciéndoles tratamiento oportuno. La Escala
Diagnóstica Adaptativa Operacionalizada (EDAO) elaborada por Ryad Simon,
permite realizar un diagnóstico preciso del individuo en pocas entrevistas y a
partir de los resultados obtenidos diseñar un tratamiento breve personalizado.
La Psicoterapia Breve Operacionalizada (PBO) tal y como es planteada por
Simon, es un tratamiento preventivo, así como la EDAO es un instrumento
orientado hacia el diagnóstico, lo que es de gran importancia cuando hablamos
de discapacidad, ya que se trata de un asunto de salud pública.

Palabras claves: Psicoterapia Breve Psicoanalítica, Psicoterapia Breve


Operacionalizada, EDAO, discapacidad.

Introdução
O sistema de saúde no Brasil encontra-se em uma situação em que a
demanda de atendimento é muito maior que a oferta em diversas áreas,
principalmente na da Psicologia.
Em geral, com os profissionais de psicologia, pelo menos os que têm
referencial psicanalítico, há polêmica em relação a este enfoque nos
contextos institucionais. Os psicanalistas ortodoxos colocam, para a eficácia
da análise, regras que são tiradas do contexto em que Freud as criou, e
utilizadas como absolutas. O próprio Freud (1919/2006), afirmou que a
maneira de como ele pensou para a nova ciência, era a adequada e
necessária, naquela época e ao contexto em que ele viveu, e provavelmente
não serviria para outra população e em outros períodos etários. Freud (op
cit) comentava, que todas as pessoas precisam de tratamento, talvez as
faixas menos abastadas até mais que aquelas que têm acesso à Psicanálise
privada. Até então, no século XIX, os altos custos do tratamento eram uma
questão a ser discutida, pois excluía grande parcela da população, como
ocorre até hoje.
Ademais, as nossas necessidades de sobrevivência limitam o nosso
trabalho às classes mais abastadas (...). Presentemente nada podemos
fazer pelas camadas sociais mais amplas, que sofrem de neuroses de
maneira extremamente graves. (Freud, 1919/2006, p. 180).

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Bol. Acad. Paulista de Psicologia, São Paulo, Brasil - V. 32, no 83, p. 384-394

Na atualidade, pode-se contar com um grande número de psicanalistas,


mas a população também é muito maior, assim como suas necessidades.
Conforme apresentado no início, a realidade brasileira em seus serviços
públicos, como o fornecido pelo Sistema Único de Saúde (SUS), não
consegue atender toda a demanda da população. Neste contexto, o
atendimento psicológico está exposto ao mesmo problema.
Assim temos, de um lado, pessoas que precisam de atendimento e
não o conseguem. E, de outro, psicólogos formados e disponíveis para
atendimento, mas que não conseguem pacientes ou trabalho no âmbito da
saúde, onde há poucas vagas, apesar da demanda, com salários
essencialmente baixos. Tendo em vista este quadro, há a necessidade de
atendimento mais prático, Simon (2010) chamou a atenção sobre novas
técnicas, práticas de diagnóstico e intervenção justamente pelos serviços
de saúde pública, a fim de subsanar a problemática expressa.
Diante desse quadro, há necessidade de procedimentos
psicoterapêuticos práticos e sistematizados que possam, de alguma forma,
atender maior demanda populacional, em especial aquelas com
necessidades especiais, às quais poderiam ser adequados os
procedimentos psicanalíticos, de longo prazo.
Freud também falou dessa necessidade de adaptação (1919/2006):

É muito provável, também, que a aplicação em larga escala da terapia


nos force a fundir o ouro puro da análise livre com o cobre da sugestão
direta; (p.181)

Coloca, que isso não significa desviar-se dos elementos básicos da


Psicanálise, de forma a torná-la tendenciosa ou perder seus ingredientes
mais importantes, mas mantêm-se os pressupostos básicos psicanalíticos,
sendo feitas alterações no setting e na técnica para permitir um tratamento
breve, que possa ser eficaz nos casos em que seja adequado.

A Psicoterapia Breve
Simon (2010) afirma que a Psicanálise aproxima-se da ciência pura,
por tratar-se da investigação do desconhecido no analisando, enquanto a
Psicoterapia Psicanalítica seria a ciência aplicada, voltada para resultados.
Além disso, no contexto hospitalar, no geral, existe uma técnica ainda mais

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adequada, a Psicoterapia Breve, que pode ser também de orientação


psicanalítica.
Diversos autores criaram técnicas e suas variantes da Psicoterapia
Breve, tais como de Knobel (1986) e Fiorini (2004). Há psicoterapias breves
de diversas orientações. De acordo com Malan (1983), chamou-se de
psicodinâmica aquela cuja intervenção, derivada da psicanálise, busca o
insight do paciente pelos motivos inconscientes de seus sintomas.
Simon criou a Psicoterapia Breve Operacionalizada (1989), e a Escala
Diagnóstica Adaptativa Operacionalizada (EDAO) que permite realizar o
diagnóstico e a definição dos eixos a serem seguidos no tratamento. O
instrumento se baseia na Teoria da Adaptação, condição que, segundo
Simon (1989), está presente e é essencial a todo ser vivo. A adaptação
seria a capacidade de um organismo (...) integrar os vários sistemas
(intelectual, afetivo, conativo e anátomo-fisiológico) (...) em um certo
contexto biopsicossocial. (Simon, 1989, p.14)
A EDAO é um instrumento de diagnóstico que permite, através de
entrevistas, determinar a eficácia adaptativa de uma pessoa, a partir de
quatro setores: afetivo-relacional, de produtividade, orgânico e sociocultural.
Em cada um deles, verifica-se a adequação às soluções do indivíduo, em
termos de processo; se há conflito e se gera sofrimento para o indivíduo ou
para os outros.
Outra possibilidade é o indivíduo estar em crise, quando não se percebe
a solução para o problema pela intensa carga emocional envolvida, de forma
que o sujeito se sente paralisado. Assim, suas crises adaptativas ocorrem
quando há um acontecimento novo ou transformador que a pessoa não sabe
o que fazer, estando este evento ligado a uma perda ou até mesmo a um
ganho.
É a partir do diagnóstico, portanto, é que se pode definir se ao paciente
se lhe indica Psicoterapia Breve ou não. Algumas questões são
determinantes para esta indicação, e portanto devem ser investigadas na
entrevista inicial: a capacidade egóica do paciente, as defesas utilizadas, a
estrutura mais ou menos rígida, a capacidade de simbolização e abstração,
a motivação, a existência de transferência positiva (o que facilita a adesão
do paciente) ou negativa (que pode impossibilitar um trabalho breve, que
exige adesão imediata do paciente) (Almeida, 2010).

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Conforme o apresentado anteriormente, a Psicoterapia Breve é


adequada a um campo limitado, por questões de tempo, como o hospitalar,
e o excesso de demanda, etc. Se o paciente, no entanto, passar pelas
entrevistas iniciais e perceber-se que não há indicação para esta forma de
tratamento, pode-se e deve-se encaminhá-lo para um profissional ou serviço
que ofereça a Psicoterapia Psicanalítica, se for este, o caso.
Simon (2010) apresenta como adaptações, as técnicas da
Psicoterapia Breve:

A atividade do psicoterapeuta é sempre diretiva, evitando associações-


livres, prolongadas que tornariam o trabalho um arremedo de
psicoterapia psicanalítica. Conforme as circunstâncias usa recursos
suportivos, como por exemplo sugestão, reasseguramento, orientação
e catarse. Fica atento para evitar ou contornar a transferência negativa,
e (...) estimula a transferência positiva, da qual retira a possibilidade de
colaboração e confiança do paciente. (p.203)

Outra alteração importante é o atendimento, uma vez por semana. No


hospital, há diversos contextos, como: na emergência ou sala de espera, no
geral tem-se apenas alguns minutos para conversar, e, dificilmente, se tem
privacidade. Na internação e na UTI, pode-se ver o paciente algumas vezes,
mas também se tem pouca privacidade – outros profissionais vêm cumprir
as rotinas hospitalares, muitas vezes há outros pacientes – e na maioria
das vezes, a internação não dura muito tempo.

O atendimento a pessoas com deficiência física


Comparando-se com um espaço fechado, como o do hospital, reporta-
se a um centro de reabilitação. Neste, as pessoas com deficiência física,
área de experiência das autoras, o trabalho reabilitatório é feito de forma
contínua. O participante frequenta a instituição como um hospital-dia, uma
ou duas vezes por semana, passando pelos diversos ‘serviços”, como:
fisioterapia, terapia ocupacional, psicologia, nutrição e fonoaudiologia. O
atendimento é feito de forma ambulatorial. Porém, o enquadre ainda é um
pouco diferente daquele que se tem em consultórios, pois quem determina
a continuidade ou a alta do paciente é a equipe, e muitas vezes o atendimento
é mais curto que o convencional, para poder abarcar maior parte da
demanda. Almeida (2010) afirma que esta modalidade de reabilitação, é a

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que mostra mais viabilidade para a aplicação da Psicoterapia Breve, com


a eleição de um foco a ser trabalhado. Quando se tratam de pessoas com
deficiência física, já há um objetivo pré-determinado, isto é, a própria
deficiência, as dificuldades que ela traz, e o cuidado que ela necessita da
família.
Voltando à Psicoterapia Breve Operacionalizada, é possível considerar
as questões derivadas dos setores colocados por Simon (1989) e
detectados através da entrevista da EDAO: o setor orgânico que é
obviamente, afetado por tratar-se de uma deficiência física que, no geral,
traz limitações, necessidade de reaprendizagem e, às vezes, até mesmo,
dor. Muitas vezes, perde-se totalmente uma função do corpo, havendo
necessidade de reaprender ou substitui-las, especialmente por outras que
lhe são semelhantes.
O setor da produtividade sendo afetado, há diversas instituições
direcionadas a colocar ou recolocar estas pessoas na escola e/ou no
mercado de trabalho nas funções que se adaptam às limitações físicas que
são afetadas.
O setor sociocultural quando afetado, provoca na pessoa com tais
transtornos, afastamento de grupos do qual participava antes, para conviver
com outros mais ligados à questão da deficiência.
O setor mais importante, porque afeta todos os outros, relaciona-se
com os demais. Trata-se do afetivo-relacional, pois muda o relacionamento
com as pessoas, com a família e até do paciente com si mesmo.
Outro problema é que a deficiência tenha gerado crise em um ou mais
dos setores. Isto é muito comum quando o transtorno é adquirido
inesperadamente, ou quando a criança nasce com tal transtorno.
Uma crise emocional é um acontecimento de suma importância na
vida de qualquer pessoa. (Simon & Yamamoto, 2008, p.145) Assim, pode
ser causada por uma perda ou mesmo um ganho, como colocado
anteriormente, mas a própria deficiência geralmente é vista como perda.
Nesse momento, a pessoa, dado o impacto provocado pelo acontecimento,
fica, temporariamente, sem condições de elaborar e encontrar uma solução
para resolver o problema de adaptação decorrente. (Simon & Yamamoto,
2008, p. 148)
Quando a pessoa está em crise, o objetivo da Psicoterapia Breve é
ajuda-la a sair dessas condições, com ações e reações adaptativas. Simon

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e Yamamoto (2008) afirmam que nas crises que surgem de perdas


predominam sentimentos depressivos e de culpa, e as suas projeções são
a autoacusação e autoagressão.
Vemos estas reações e sentimentos com frequência nas pessoas
assistidas por instituições de reabilitação. Em certos momentos elas não
conseguem ir para frente nem para trás, sentem-se imobilizadas. É trabalho
do especialista ajudá-las a dar o próximo passo e redescobrir o seu caminho.
É oportuno o emprego da psicoterapia breve operacionalizada no
tratamento das pessoas com deficiência física. Em primeiro lugar, porque
esta modalidade de reabilitação ocorre em instituições de saúde e em grande
parte dos casos, da saúde pública, e envolve grande demanda exigindo
com isso, tratamentos de curta duração para que mais pessoas possam
ser atendidas em menos tempo.
Há ainda a questão de que muitos dos pacientes, em reabilitação física,
têm a fantasia de que o mais importante para sua recuperação é esse tipo
de tratamento e que seus esforços deveriam se concentrar nesse
atendimento; muitos chegam a expressar que o tempo passado no serviço
de Psicologia é perdido. O fato de ser um trabalho dirigido e breve pode
ajudar a diminuir esta resistência, já que seria ainda, mais difícil, conseguir
a adesão destas pessoas a um tratamento longo e cujos resultados só podem
aparecer a longo prazo.
Além disso, a própria EDAO contribui com o diagnóstico, pois a
deficiência, obviamente, fornece o foco e traz questões, mas a forma como
será sentida e afetará a cada área da vida. Através deste instrumento é
possível entender cada paciente e prescrever o melhor tratamento que lhe
seja possível.

A Psicoterapia Breve e a prevenção


Em tempo atrás, Leavell e Clark (1976) já afirmavam que toda atividade
dirigida à proteção da saúde estão localizadas em um dos seus níveis
(primário, secundário e terciário) sendo que os objetivos previstos englobam
a promoção, prevenção ou prolongação de vida.
A Psicoterapia Breve Operacionalizada também está voltada para a
prevenção. Para Yoshida (1999), quando se fala neste tema, é essencial
pensar na possibilidade de adesão das pessoas a programa preventivo.
Conforme apresentado anteriormente neste artigo, nas instituições de

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reabilitação de pessoas com deficiência física, muitas vezes a adesão ao


tratamento psicológico é um problema.
Ainda para esta autora, a presente modalidade psicoterapêutica,
encontra-se no segundo e no terceiro níveis de prevenção, pois lida com
sequelas ou males já instalados e portanto, no geral, com estes dois níveis,
primordialmente com a prevenção terciária. Esta é até mesmo chamada de
reabilitação. Segundo Leavell e Clark (1976), este nível é também chamado
de prevenção porque neles busca-se a interrupção de um processo
patológico, mas também a prevenção da incapacidade total, depois que
as alterações anatômicas e fisiológicas estão mais ou menos estabilizadas
(p.23).
Estes autores colocam, então, que o objetivo da prevenção terciária,
é o mesmo encontrado na sequela na reabilitação física: recolocar o
indivíduo afetado em uma posição útil na sociedade, com a máxima
utilização de sua capacidade restante (Leavell e Clark, 1976, p.23).
A Psicoterapia Breve insere-se então como um dos aliados no
atendimento a estas pessoas em processo de reabilitação, sendo que, na
quase totalidade dos casos a presença ou instalação de uma deficiência
gera questões a serem trabalhadas em algum setor dos apresentados por
Simon.
Segundo Yoshida (1999), a psicoterapia breve parte do pressuposto
de que é possível obter mudanças significativas em um período menor de
tempo, sendo possível promover o restabelecimento de níveis mais
saudáveis de conduta para o paciente, com reflexos sobre sua saúde
mental e a de outras pessoas a ele relacionadas (p. 120).
Assim, não se trata apenas de encurtar o processo para atender a
demanda da saúde pública, lidar com a falta de condições financeiras ou
da disposição dos pacientes a se envolverem em um processo longo e que
demanda, realmente, um grande investimento como a psicanálise clássica.
Há vantagens reais no uso das técnicas e instrumentos diagnósticos trazidos
pela psicoterapia breve de orientação psicanalítica e particularmente pela
PBO, conforme espera-se ter demonstrado neste artigo, e pode-se abrir
espaço para mais estudos e discussões.

Dada a grande quantidade de pessoas procurando ajuda psicológica


(...) a única forma de psicoterapia possível nas instituições públicas ou

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privadas é a breve. A indicação de Psicoterapia Breve Operacionalizada


não deve ser considerada preconceituosamente uma opção de segunda
classe. (Simon, 2010, p. 206)

Em relação às pessoas com deficiência física, público mais específico


ao qual se refere neste artigo, questões como o trabalho dirigido nos setores
e soluções ineficazes para cada indivíduo, a brevidade do tratamento e a
possibilidade de prevenção são importantes feições do trabalho com
Psicoterapia Breve.

Considerações finais
Este artigo começou com a discussão sobre o sistema de saúde
pública do Brasil, no qual encontra-se grande demanda por atendimento
psicológico e pouca oferta. Do lado dos profissionais, tem-se um grande
contingente deles que não conseguem trabalhar na área da saúde ou atender,
adequadamente, a esta demanda, pois não encontram vagas e nem salários
adequados no serviço público; não há vagas suficientes nos hospitais e
clínicas privadas, e os consultórios e clínicas próprias envolvem alto
investimento do profissional, diante de uma população sem recursos
econômicos para suportar um longo tratamento psicanalítico.
O contingente vai além das pessoas com deficiências físicas, para as
quais constituem uma técnica inovadora, a referida, cujos serviços de saúde
pública são verdadeiramente insuficientes.
Quando se tratam de pessoas com essa deficiência, há ainda a
questão de que é essencial o atendimento multiprofissional, do qual
necessitam, aumentando ainda as carências dos recursos comunitários.
Assim, este público em geral é atendido em instituições de reabilitação
física cujos fundos advêm do governo, de doações, entidades filantrópicas,
etc., ou, também, por clínicas ligadas ou mantidas pelos convênios de saúde.
Neste cenário, a Psicanálise de 5 sessões semanais, com 50 minutos
por sessão e de duração indefinida, é inviável. Vimos, além disso, que há
outras questões que levam à contra indicação da psicanálise ortodoxa, como
a motivação do paciente e a disponibilidade do mesmo.
Diante destas questões, a versão desenvolvida por Simon, a
Psicoterapia Breve Operacionalizada, aparece como uma opção para
atender a esta demanda, de forma eficiente e capaz de obter-se melhora e

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mudanças significativas, tendo a teoria psicanalítica como orientação.


Tem-se, assim, um diagnóstico abrangente, embora breve, baseado na
Escala Diagnóstica Adaptativa Operacionalizada (EDAO), que, investiga
as soluções encontradas pelo sujeito nas situações de sua vida, nos quatro
setores vistos: afetivo-relacional, de produtividade, orgânico e sociocultural,
classifica o indivíduo em grupos mais ou menos adaptados, e a partir desse
resultado, planeja-se uma terapia com número definido de sessões e foco
determinado, de acordo com as questões prementes percebidas neste
diagnóstico.
Busca-se, assim, a mudança das atitudes e comportamentos que
trazem soluções inadequadas, alcançando assim melhor adaptação aos
setores da vida.
Portanto, embora a postura do terapeuta seja mais diretiva, as sessões
menos profundas até por menor frequência e pela menor duração do
tratamento, visa-se alcançar mudanças significativas no indivíduo.
A Psicoterapia Breve tem também caráter preventivo, fundamental em
qualquer ação de saúde, como é o caso do tratamento psicológico de
pessoas com deficiência física. A reabilitação é por si uma ação,
principalmente, de prevenção terciária, conforme discutiu-se neste artigo, e
a psicoterapia breve também vai por esse caminho: busca formas de agir
para o indivíduo em conflito, a fim de tentar substituí-las por soluções mais
adaptativas.
A motivação do paciente também é uma questão importante quando
se tratam daqueles com deficiências motoras. Muitas vezes, eles depositam
suas expectativas de “cura” ou melhora nos atendimentos de fisioterapia,
terapia ocupacional e fonoaudiologia, dependendo da área atingida e da
função que desejam recuperar. Assim, por exemplo, a pessoa que teve uma
lesão medular e está numa cadeira de rodas, no geral quer concentrar todos
os seus esforços na fisioterapia, e muitas vezes acredita que o tratamento
psicológico é “perda de tempo”.
Diante disso, ter um foco e a brevidade do tratamento podem ser
aliados importantes para conseguir a adesão do paciente, que nem sequer
procuraria um psicólogo por vontade própria, e de forma alguma investiria
num processo psicanalítico, que depende de investimento econômico , mas
emocional.

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Todas estas questões tornam, portanto, a Psicoterapia Breve


Operacionalizada adequada ao atendimento de pessoas, em especial com
deficiência física, trazendo diversas vantagens. Como todo paciente, deve-
se partir de um diagnóstico que permita perceber a indicação da PBO e
sua condução. Caso não haja indicação, e seja necessário encaminhá-lo a
um atendimento em Psicanálise, este processo deve ser feito, fora da
instituição, já que nesta este tipo de atendimento torna-se inviável.
Quando o tratamento é pensado de forma individualizada, planejado
de forma objetivada de acordo com o diagnóstico, como proposto por Simon
com a PBO, o paciente só tem a ganhar.

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Bol. Acad. Paulista de Psicologia, São Paulo, Brasil - V. 32, no 83, p. 395-407

• O Desenho como forma de avaliação de crianças em situação pré-


cirúrgica
Drawing as a means of assessing children in pre-surgical situation
El dibujo como forma de evaluación en niños en situación pre-operatoria
Camilla Volpato Broering1
Maria Aparecida Crepaldi2
Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC)

Resumo: Este artigo apresenta uma pesquisa que avalia estratégias para
diminuição do estresse ocasionado no período pré-operatório de 30 crianças
hospitalizadas, para fins de cirurgias menores. Tem-se como técnica de controle
o Desenho-Estória de Walter Trinca. Os participantes são divididos em dois
grupos de 15 crianças. A cada um deles utiliza-se uma determinada estratégia
de preparação psicológica à cirurgia. Os resultados mostram diminuição do
estresse resultante de ambas condições. Pondera-se que a preparação
psicológica, pelas estratégias previstas, é eficiente para diminuição do estresse,
chegando até a promoção do coping como meio de confronto àquele estado
emocional de estresse produzido pela expectativa da pré-cirurgia.

Palavras-chave: pré-cirurgia, Desenho-Estória, crianças.

Abstract: This article presents a research that evaluates strategies for reducing
the stress caused in the preoperative time period of 30 hospitalized children, for
minor surgery. The control techniqueused is Walter Trincas’s Drawing-Story. The
participants are divided into two groups of 15 children each. A determined strategy
of psychological preparation for surgery is applied for each of them. Results
show reduction of stress resulting from both conditions. It is considered that the
psychological preparation, by the expected strategies,is efficient for reducing
the stress, reaching the promotion of coping as a means of comparison to that
emotional state of stress produced by the pre-surgery expectation.

Keywords: pre-surgery, Drawing-Story, children.

Resumen: Este artículo tiene como objetivo presentar una investigación que
evalúa los niveles de estrés de 30 niños en situación pre-operatoria de un hospital
pediátrico. En tal sentido, el contenido de estos dibujos es analizado a través de
la técnica de dibujo-historia de Walter Trinca. El procedimiento comprende tres
etapas: a) Aplicación del instrumento dibujo-historia el día previo a la cirugía, b)

1
Mestre em Psicologia da Saúde. Professora da Universidade do Vale do Itajaí (UVI) e
participante do Laboratório de Psicologia da Família e Comunidade (LABSFAC). Contato: Rua
300, n.56, ap.501, Meia Praia, Itapema, SC, Brasil. CEP 88220-000. E-mail:
millavolbro@hotmail.com
2
Doutora em Saúde Mental. Professora Associada III e docente do Programa de Pós-graduação
em Psicologia da UFSC. E-mail: crepaldi@ufsc.br 395
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Preparación psicológica en ambos grupos, sometidos a diferentes programas


de preparación y c) Re-aplicación del dibujo-historia, el día de la cirugía y después
de la preparación. Los resultados muestran que los programas de preparación
son eficaces en la disminución del estrés pre-operatorio independientemente de
su variación. Se puede constatar que hay una reducción a modo general del
estrés en sus diferentes reacciones evaluadas, sentimiento de inferioridad,
abandono e inseguridad.

Palabras claves: preparación psicológica, pre-operatorio, niños, dibujo-historia

Introdução
Este estudo tem por finalidade avaliar a diminuição do estresse
produzido pela situação pré-operatória em crianças indicadas à cirurgias
menores, por estratégias de preparação psicológica, tendo como elemento
de controle, o Desenho-Estória de Walter Trinca. Utilizando-se os critérios
de análise do desenho, de Fávero e Salim (1995), tem-se os seguintes:
tamanho, cor, tipo de traçado, posição na folha e verbalização. É feito a
análise individual e depois a comparação pelo grupo e subgrupo (G1 e G2).
Estudos semelhantes para fins de comparação, citam-se o de Crepaldi
e Hackbarth (2002). Esses autores investigaram, através do desenho, os
sentimentos de 35 crianças hospitalizadas, de ambos os sexos, entre 05 a
07 anos. Os agrupamentos dos desenhos confirmaram o uso de certas
variáveis como: medo, fuga, culpa, tristeza e desconfiança na equipe de
profissionais de atendimento. Tudo indicou que a situação de cirurgia
provocou sentimentos negativos, sugerindo a necessidade de preparação
da criança para a hospitalização e para procedimentos cirúrgicos, como
medida de proteção ao seu desenvolvimento saudável.
Sobre a mesma temática Trinca (2003), através do Desenho-Estória
realizou um estudo qualitativo de intervenção clínica em unidade de internação
pediátrica hospitalar. Da mesma forma, Gabarra (2005) estudou crianças
de 05 a 13 anos, hospitalizadas em decorrência de doenças crônicas. Seu
objetivo foi investigar a compreensão destes participantes sobre a doença,
tratamentos, hospitalização, bem como os sentimentos relacionados ao
adoecimento. Nunes e Schwartz (2011) também avaliaram por desenhos, a
ansiedade de crianças em situação pré-cirúrgica, dividindo-as em grupos:
de 7 a 9 anos de idade, e de 10 a 11 anos.
Outros estudos ainda se utilizaram de desenhos com crianças como o
de Marrach e Kahhle (2003) que investigaram como os enfantes se sentiam

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em relação à hospitalização e à doença. Além disso, Oliveira, Cariola e


Pimentel (2001), cujo desenho foi da figura humana utilizado como medida
de ansiedade das crianças que seriam submetidas à cirurgia reparadora
de fissura de lábio e/ou do palato.
As pesquisas e estudos que se ocupam de crianças em via de serem
submetidas a intervenções cirúrgicas concordam com o fato de que algum
tipo de intervenção se faz necessário (Crepaldi & Hackarth, 2002; Trinca,
2003; Salmon, 2006; Broering & Crepaldi, 2008; Uman, Chambers, McGrath
& Kisely, 2008).
De acordo com o exposto, tem-se razões suficientes para realizar a
presente pesquisa no sentido de avaliar certas modalidades de preparação
psicológica das crianças hospitalizadas para a cirurgia.

Material e Métodos
Trata-se de pesquisa de natureza quanti-qualitativa e descritiva,
utilizando-se do desenho como instrumento avaliador das estratégias
psicológicas utilizadas no período pré-operatório em crianças
hospitalizadas, a fim de diminuir as condições emocionais produzidas por
essas situações de expectativas.
A pesquisa atendeu os requisitos éticos sendo aprovado pelo Comitê
de Ética pertinente, sob o número do parecer consubstanciado foi o de
056/07. Os pais das crianças escolhidas aceitaram que elas atuassem como
participantes deste estudo e assinaram o Termo de Consentimento Livre e
Esclarecido.

Participantes
30 crianças (15 meninos e 15 meninas), com idade entre 6 e 12 anos,
internadas em um hospital infantil para a realização de cirurgia eletiva, de
pequeno porte (hérnias inguinal e umbilical, amigdalectomia,
adenoidectomia, etc.). Elas foram divididas em dois grupos de 15 (G1 e
G2), e oferecido a cada um, tipo diferente de preparação psicológica para
a cirurgia.

Instrumentos
Foram empregados dois tipos de preparação psicológica, um verbal
e outra vivencial, sendo controlado pela aplicação do Desenho-Estória de

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Walter Trinca (Trinca, 2003) adaptado por Crepaldi e Hackbarth (2003) como
instrumento para avaliar as percepções da criança sobre a situação que
vivencia.

Procedimentos
A pesquisa, quanto à coleta de dados, foi efetuada em três etapas. 1ª:
Informou-se à criança que se iria contar-lhe a estória que se chama O
elefantinho no Hospital e que prestasse muita atenção, porque depois de
ouvir conta-la, ela iria fazer um desenho referente ao conto. Terminado o
desenho perguntava-se à criança sobre o que havia desenhado. 2ª Etapa:
Preparação psicológica pré-cirúrgica: No G1 (Programa1), a criança recebia
informações verbais, sobre o tipo de cirurgia a qual seria submetida. As
informações consistiram em contar para a criança todas as etapas pelas
quais ela passaria na intervenção. No G2 (Programa 2), a criança recebia
as informações, através do uso do ‘Kit de preparação pré-cirúrgica’, podendo
manusear e utilizar os brinquedos ali contidos, como desejasse. As
informações eram dadas à criança na medida em que ela ia brincando com
os bonecos do kit. Cada programa teve duração máxima de 30 minutos.
Na 3ª Etapa contou-se outra estória. “Eu vou contar pra você,
novamente, uma estória que se chama O Elefantinho no Hospital, no
pós-cirúrgico. É um pouco diferente da primeira. Preste bastante atenção
porque depois vou pedir para que você desenhe algo sobre essa estória
do elefantinho”.

Análise dos dados


Para a avaliação dos desenhos, como já foi referido, baseou-se na
adaptação do D-E por Crepaldi e Hackbarth (2003) incluindo as transcrições
das verbalizações da criança, enquanto desenhava e o título, dado por ela,
ao que realizou.
Os desenhos foram analisados pelos critérios referidos (tamanho, cor,
etc.) com as verbalizações, sendo separados por faixa etária em cada
subgrupo que recebia preparação pré-cirúrgica diferente um do do outro;
para a análise comparou-se, individualmente, os desenhos efetuados, antes
e depois da preparação efetuada.
Dessa forma, examinava-se, conjuntamente, o processo e o conteúdo
dos desenhos efetuados. Conforme os trabalhos de Oaklander (1980),

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incluiu-se nos critérios de análise a interpretação feita pela própria criança,


do desenho por ela efetuado.
No item de detalhes presentes no desenho, utilizou-se o critério
proposto por Fávero e Salim (1995) quanto à ausência ou presença de
elementos construtivos. Incluíram-se, também, ideias do modelo dos autores
supracitados, tendo-se, em conta que esses estudiosos, determinavam o
desenho a ser realizado; flor, pessoa, e animal, em distintas situações. Na
presente pesquisa houve uma estória contada, prévia ao desenho a ser
realizado. Os resultantes deste trabalho, foram mais variados, e eram
efetuados de acordo com a imaginação de cada criança.

Resultados
Analisaram-se também os desenhos livres das crianças, obtidos num
primeiro momento, para rapport, com o intuito de perceber a capacidade
das crianças para desenhar, levando-se em consideração a idade das
mesmas. Para que não ocorressem discrepâncias no processo de análise,
visto que as crianças tinham idades variando entre 6 e 12 anos. Esta análise
do desenho livre indicou, ou seja, que todos os desenhos foram considerados
de acordo com padrões previstos para a faixa etária, no que se refere às
categorias avaliadas.
Em seguida, procederam-se as análises dos demais desenhos, o
primeiro, realizado no dia anterior à cirurgia antes da preparação psicológica
pré-cirúrgica, e o segundo, no dia da cirurgia, antes da mesma, após a
preparação.

Comparação entre os dois grupos


Como forma de visualização e comparação entre pré e pós-teste, o
quadro abaixo elucida as diferenças ocorridas entre os grupos G1 e G2, no
que diz respeito à qualidade e conteúdo dos desenhos, em que cada número
indica a frequência de respostas.
Pode-se notar, após a análise geral dos desenhos que ambos os
momentos, retratam a condição de doença e hospitalização, pois a situação
da cirurgia é verídica e faz parte da realidade momentânea das crianças.
Os relatos verbais sobre o desenho enriqueceram-no, à medida que
explicavam e complementavam o mesmo, pois nem sempre, o desenho
correspondia àquilo que as crianças verbalizavam.

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Figura 1. Comparação dos desenhos entre os grupos e entre os momentos


ludicos, antes e depois da preparação à cirurgia

No primeiro desenho foram mais freqüentes aspectos que


representavam idéias sobre doença, dor, hospital, internação, choque, susto
pela aplicação de remédios por injeção e outros pormenores concernentes
à hospitalização. Por meio do traçado, da harmonia, das cores,
preenchimentos destes desenhos, e verbalizações sobre eles, constatou-
se muita ansiedade.
No que diz respeito à harmonia, o primeiro desenho, foi o mais
comprometido, visto que foi neste momento que se falou sobre a cirurgia a
ser realizada à criança, pela primeira vez. Observaram-se características
de sombreamento no desenho, que denota ansiedade, localização no centro
inferior da folha, que denota insegurança; desenhos pequenos com poucas
cores, e com ausência de partes importantes na figura desenhada. Também
ocorreram situações em que o elefante estava sozinho, o que denota
abandono, com traçado regredido e poucos detalhes em relação ao desenho
livre e ao segundo, o que se pode denotar medo (Di Leo, 1985).

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No segundo desenho observaram-se, volta para a casa ou floresta, e


um “elefante saudável”. Ocorreram-se verbalizações sobre o ambiente
natural da criança, o qual faz parte no seu cotidiano; seu lar, família e amigos.
A harmonia assemelhou-se àquela do desenho livre. Por outro lado, no
segundo desenho observaram-se características de preenchimento, o que
se pode denotar diminuição da ansiedade, por desenhos maiores e com
melhor distribuição na folha, o que denota segurança; desenhos mais
coloridos, com bom traçado e existência de detalhes, nos quais o elefante
aparece com a mãe, o que indica que as crianças não se sentiam mais
desamparadas.
Como este estudo visa comparar dois grupos, os desenhos também
foram avaliados em ambos, de forma independente. Segue abaixo, uma
breve análise sobre os desenhos de acordo com o tipo de preparação ao
qual as crianças foram submetidas.

Análise dos desenhos do Grupo 1


Em termos de qualidade: traçado, harmonia, cor e preenchimento,
pôde-se notar que 11 crianças fizeram o segundo desenho mais harmônico
do que o primeiro. Em duas crianças verificou-se piora na qualidade no
segundo desenho e em duas delas observou-se que a qualidade
permaneceu a mesma, tanto no primeiro como no segundo desenho.
Constatou-se que no G1, 9 crianças fizeram no primeiro desenho, o
hospital e demonstraram insegurança e tristeza frente à internação. No
segundo desenho, fizeram uma casa e o retorno do elefante para a floresta;
os relatos verbais destas crianças expressavam sentimentos de liberdade,
não expressado no primeiro desenho. Em 6 crianças observou-se que no
primeiro desenho expressaram dor e no segundo desenharam o elefante
no quarto.
No G1 ocorreu o caso de uma criança que, ao realizar o segundo
desenho, já havia tomado um sedativo e, portanto, não conseguiu concluir o
desenho da forma como gostaria. No pós-cirúrgico a criança pediu para
concluir o desenho, como esta medida poderia intervir nos resultados, pediu-
se que ela relatasse como o faria. A criança relatou o que mais queria colocar
no desenho (flores perto da sua casa, no momento em que estava voltando
do hospital), e seus acréscimos confirmaram o que fora encontrado nos
desenhos das demais crianças.

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Análise dos desenhos do Grupo 2


No G2, 9 crianças fizeram no primeiro desenho, o hospital e
demonstraram insegurança e tristeza frente o momento de internação. No
segundo, fizeram uma casa e o retorno do elefante para a floresta; os relatos
verbais destas crianças expressaram sentimentos de liberdade não
relatados no primeiro desenho. Destas 9 crianças, 4 mencionaram felicidade
no segundo desenho, por já estarem recuperadas e voltando para casa.
Constatou-se que duas crianças dividiram seus desenhos em dois
momentos, a chegada ao hospital e o elefante no quarto após a realização
da cirurgia. Os relatos verbais contavam a história de todo o processo
cirúrgico, desde a descoberta do problema, internação, cirurgia e
recuperação no quarto, à medida que desenhavam. O efetuado por uma
destas crianças, expressou fuga antes da realização da cirurgia, ou seja, a
entrada do elefante no hospital e a sua saída, sem ter feito a cirurgia.
Em termos de qualidade de desenho: traçado, harmonia, cor e
preenchimentos, pôde-se notar que 12 crianças fizeram o segundo desenho
mais harmônico do que o primeiro. Em três crianças verificou-se uma piora
na qualidade no segundo desenho e não foi observado que a qualidade
tivesse permanecido a mesma entre os dois desenhos, como ocorreu no
G1.
Pode-se constatar que tanto os desenhos do pré como os do pós-
preparatório, retrataram que a criança se encontrava naquele exato momento.
Deste modo, depende do contexto no qual ela está inserida, seja sua família,
a situação de hospitalização, e eventuais informações que ela tenha recebido
sobre o procedimento antes da realização do mesmo, o que consiste num
recurso importante para que as crianças possam lidar melhor com a situação.
Em uma criança, observou-se através do desenho, que ela se sentia
preparada e havia sido tranqüilizada por sua mãe antes de sua chegada ao
hospital, conforme relatos maternos e da própria criança.
Quanto à qualidade não houve diferença entre os grupos. Porém, no
que se refere ao conteúdo, o G1 apresentou desenhos que trataram da dor,
o que não aconteceu no G2, cujos desenhos expressaram felicidade.

Discussão
Embora o conteúdo e a qualidade dos desenhos confeccionados pelas
crianças estivessem diretamente associados ao tipo de preparação pré-

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cirúrgica que receberam, pôde-se averiguar que não só a preparação foi


responsável pela melhora de qualidade dos desenhos e seu respectivo
conteúdo, como o próprio ato de fazer um desenho, pois este remete à
infância, às atividades escolares, e à realidade cotidiana da criança com
suas brincadeiras e peculiaridades.
Constatou-se que ambas estratégias de preparação foram eficazes
para diminuir o estresse pré-cirúrgico. As técnicas utilizadas, tanto a de
informações verbais como a de uso de Kit de preparação, são citadas na
literatura como efetivas na preparação à cirurgia em crianças (Moix, 1996;
Watson & Visram, 2003, Yamada & Bevilacqua, 2005; Bess d´Alcantara,
2008; Broering & Crepaldi, 2011), o que foi verificado também neste estudo,
em ambas as estratégias preparatórias, as quais fundamentalmente,
basearam-se na informação, seja ela narrada, ou vivenciada.
Em relação aos desenhos, embora o contexto deles seja parecido
entre os grupos, pode-se notar que as crianças do G2 relataram a presença
de felicidade, o que não ocorreu no G1. Isto pode ser considerado positivo,
visto que as crianças conseguiram enfrentar a situação e vê-la de forma
positiva e para melhora de sua saúde, bem como, também pode inferir-se
de que a preparação do G2 atingiu melhores resultados.
Pode-se afirmar que a falta de informação provoca medo, angústia,
depressão, além de estresse e ansiedade, visto que antes de receberem a
preparação, as crianças expressaram indicativos consideráveis dos
diferentes estados emocionais avaliados e depois da preparação, houve
redução destes indicativos.
Considera-se aceitável que mesmo após a preparação, a criança
ainda sinta medo, mas que este seja enfrentado devido às condições que a
preparação lhe propicia. Em relação à ansiedade, ela pode acontecer
mesmo após a preparação, porém, observou-se que no G2, esta ansiedade
se dava mais pela vontade de voltar para casa e melhorar, do que, pela
condição médica em si.
Pode-se constatar que as crianças do G2 relataram a presença de
felicidade, o que não ocorreu no G1. Utiliza-se a palavra felicidade pela
incidência com que as crianças a mencionavam, em situações nas quais
relatavam satisfação, como nos casos em que a criança afirmava que
melhoraria, poderia realizar atividades que não estava podendo efetua-la,
ia barganhar algo com a família, não precisar mais de remédios, ou ainda

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“virar hominho” em cirurgias de prostectomia, e ficar com a voz bonita, em


casos de adenoidectomia. Observou-se que as crianças apresentaram
menos sentimentos de inferioridade, insegurança e abandono no pós-teste
no G2, confeccionaram desenhos em que o elefante se encontrava em
companhia da mãe. Isto pode ser considerado positivo, e indicativo de que
as crianças conseguiram enfrentar a situação, vendo-a de forma positiva
para a melhora da saúde, hipotetizando-se, assim, que a preparação do
G2 atingiu melhores resultados.

Considerações Finais
Os resultados deste estudo não podem ser considerados conclusivos,
visto que a amostra é pequena. Por outro lado, os dois grupos analisados
partiram de um período antes da preparação, bastante homogêneo, fato
este que proporcionou avaliar o depois, tendo um mesmo ponto de partida,
proporcionando melhor resultado na avaliação da diferença que há entre o
pré e o pós-teste, segundo as duas estratégias distintas de preparação
psicológica pré-cirúrgica.
Os procedimentos cirúrgicos, embora existam com a finalidade de
promover a cura ou melhorar a qualidade de vida, podem conduzir os
pacientes a um estado conflituoso, adquirem caráter ameaçador, agressivo
e invasivo. Tal constatação ocorreu neste trabalho, que também mostrou
que o momento de hospitalização por si só, gera grande ansiedade, tanto
nas crianças como em seus pais.
Pôde-se notar que crianças e suas respectivas mães do G2,
apresentaram-se mais tranqüilas frente à situação, comportando-se de forma
mais colaborativa, mas isto não é suficiente para se fazer generalizações,
tendo em vista o tamanho da amostra e condições peculiares do estudo.
Em suma, é importante afirmar que a preparação psicológica pré-
cirúrgica é necessária e eficaz, sempre produz efeitos positivos e promove
estratégias de confronto frente à situação imposta.
As implicações práticas dos resultados deste estudo, salientam a
importância da preparação da criança para as diferentes etapas de um
procedimento cirúrgico, que vão desde a decisão de se fazer a cirurgia até
os resultados, após sua realização. Melamed e Siegel (1975) mencionaram
que a preparação é o procedimento mais eficaz para reduzir o estresse,
quando comparado a outros como a simples presença da mãe, pois além

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dos pais durante a hospitalização, hoje se reconhece o papel que estes


desempenham na forma como a criança lida com os problemas e
tratamentos médicos.
Esta pode acompanhar o que se passa com ela própria, considerando-
se a faixa etária, pode tranqüilizar-se e tornar-se mais colaboradora com os
procedimentos pós-cirúrgicos e com a necessidade de cirurgia, mesmo
que lhe deixe marcas. Andraus, Minamisava e Muniari (2004) apontam que
as pessoas que detêm informação sobre práticas, potencialmente aversivas,
experimentam maior sentido de controle cognitivo e mantêm a perturbação
emocional em níveis mais baixos, bem como, tem seu nível de estresse
reduzido.
O trabalho com desenhos no período de hospitalização, além de atuar
por seu caráter lúdico, atua também como um recurso de avaliação
psicológica, mostrando-se como um eficiente instrumento de medida e
comunicação humana, não só em situações de hospitalização, como em
diversos contextos. Nesta pesquisa, através do desenho as crianças se
expressavam e verbalizavam seus sentimentos em relação à situação pela
qual estavam passando, bem como, o próprio ato de desenhar, por si só, já
atua como recurso de expressão e preparação.
Embora o exposto, neste artigo, pode-se observar que o desenho
caracteriza-se como um instrumento de medida de fenômenos psicológicos,
que além de permitir a representação gráfica dos pensamentos e
sentimentos infantis, constitui-se como maneira de comunicação tanto em
pesquisas como em intervenções.
Espera-se que os resultados obtidos aqui, acrescentem informações
relevantes para o incremento de metodologias que visem os efeitos da
intervenção psicológica sobre o repertório comportamental da criança
hospitalizada. Do mesmo modo, que subsidiem intervenções de profissionais
a descrever e analisar comportamentos de crianças expostas a
procedimentos médicos, de modo a intervir na redução do estresse que
acomete em crianças que passam por situações de cirurgia.

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Recebido: 10/09/2012 / Reformulado: 29/10/2012 / Aceito: 09/11/2012.

407
Bol. Acad. Paulista de Psicologia, São Paulo, Brasil - V. 32, no 83, p. 408-423

• Revisão de aspectos técnico-metodológicos da avaliação


psicológica de candidatos à cirurgia bariátrica
Review of technical and methodological aspects of psychological
assessment of candidates for bariatric surgery
Revisión de elementos técnicos-metodológicos en la evaluación psicologica
de candidatos a la cirugía bariátrica
Marianna Carla M.D. de Lucena1
Heloiza Karmelina Carvalho de Souza2
João Carlos Alchieri3
Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN)

Resumo: Esta contribuição tem como objetivo apreciar os instrumentos


empregados na avaliação psicológica dessa natureza, em candidatos à cirurgia
bariátrica (C.B). São analisadas as publicações de 2006 a 2010 registradas nas
bases de dados SciELO, Bireme, Pubmed, PsycINFO e Springer Link, tendo
como descritores, os seguintes: cirurgia bariátrica, avaliação psicológica e testes
psicológicos, tanto em português quanto em inglês. 28 artigos são selecionados,
destes, 2 se referem a testes psicológicos aplicados na população em estudo, e
7 são revisões teóricas sobre os aspectos a serem considerados na avaliação
psicológica de candidatos a esta cirurgia. Sobre a procedência dos estudos,
tem-se: 23 dos USA e um de cada dos seguintes países: Polonia, Taiwan,
Espanha, Itália e Reino Unido. A maioria dos instrumentos psicológicos (6) foram
de personalidade, de psicopatologia, e especificamente, de transtornos
alimentares, o que justifica a incidência de problemas equivalentes no grupo de
estudo.

Palavras-Chaves: Cirurgia Bariátrica, Avaliação Psicológica, Testes


Psicológicos.

Abstract: This contribution aims to examine the instruments utilized in the


psychological assessment of this nature in candidates for bariatric surgery (BS).
It analyzes the publications from 2006 to 2010 recorded in the SciELO, Bireme,
Pubmed, PsycINFO and Springer Link databases, with the descriptors as follows:
bariatric surgery, psychological assessment and psychological testing, both in
Portuguese and in English. 28 articles are selected, two of them referring to

1
Pós-graduação em Psicologia da UFRN e especialista em Psicologia da Saúde e do
Desenvolvimento. Contato: R. Sachet, 325. Bairro Ribeira, Natal, RN, Brasil. CEP 59012-420.
E-mail: mariannacarla.lucena@gmail.com.
2
Mestre em Psicologia. Contato: R. Prof. Nilo de Albuquerque Mello, 183. Bairro Neópolis,
Natal, RN, Brasil. CEP 59086-340. E-mail: helosouza@hotmail.com
3
Professor adjunto e bolsista de produtividade CNPq. Contato: R. Antonio Madruga, 1982/
408 1102. Bairro Capim Macio, Natal, RN, Brasil. CEP 59090-500. E-mail: jcalchieri@gmail.com
Bol. Acad. Paulista de Psicologia, São Paulo, Brasil - V. 32, no 83, p. 408-423

psychological tests used in the studied population, and 7 being theoretical reviews
on aspects to be considered in the psychological assessment of candidates for
this surgery. Regarding the origin of the studies, we have: 23 from the USA and
one each from the following countries: Poland, Taiwan, Spain, Italy and the UK.
Most of the psychological instruments (6) were personality, psychopathology,
and specifically, eating disorders, which justifies the incidence of equivalent
problems in the study group.

Keywords: Bariatric surgery, Psychological assessment, Psychological tests.

Resumen: Está investigación tiene como objetivo revisar los instrumentos


psicológicos empleados en tales evaluaciones en candidatos a la cirugía bariátrica
(C.B.). Son analizadas las publicaciones, desde 2006 hasta 2010, que hayan
sido registradas en las bases de datos: SciELo, Bireme, Rubmed, PsycINFO y
Springer Link, teniendo los siguientes descriptivos: cirugía bariátrica, evaluación
psicológica y pruebas psicológicas, tanto en portugués como en inglés. 28
artículos son seleccionados, de los cuales 2 se refieren a las pruebas psicológicas
aplicadas en la población de estudio, otros 7 son revisiones teóricas sobre los
aspectos a seren considerados en la evaluación psicológica a estos candidatos.
En relación a la procedencia de estos estudios, se encuentran que 23 provienen
de los Estados Unidos, 1 de Polonia, otro de cada país: Taiwan, España, Italia y
Reino Unido. La mayoría de los instrumentos psicológicos (6) fueron de
personalidad, psicopatología y más específicamente de trastornos de la
alimentación, lo que justifica la similitud en cuanto a la equivalencia de los
problemas dentro del grupo de estudio.

Palabras claves: Bypass gástrico, evaluación psicológica, pruebas psicológicas

Introdução
A cirurgia bariátrica é definida pela Associação Brasileira de Cirurgia
Bariátrica como um conjunto de técnicas cirúrgicas, destinadas à redução
ponderal e ao tratamento de doenças associadas e/ou agravadas pela
obesidade. É vista, atualmente, como alternativa eficaz ao tratamento da
obesidade e manutenção de peso, especialmente em casos de morbidade
(Pereira, 2006). A indicação cirúrgica da obesidade e/ou de suas
comorbidades obedece os seguintes critérios em relação ao índice de
Massa Corporal (IMC): IMC > 40Kg/m2, sem a presença de comorbidades;
IMC entre 35 a 40 Kg/m2, com comorbidades ou IMC entre 30 a 35 Kg/m2,

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Bol. Acad. Paulista de Psicologia, São Paulo, Brasil - V. 32, no 83, p. 408-423

com alguma comorbidade importante, como hipertensão e diabetes. É


preciso considerar-se o resultado em tratamentos anteriores, além da própria
autorização e o apoio familiar, para a avaliação pré-operatória em equipe
multidisciplinar (Marchesini & Rasera, 2006).
No que se refere à problemática da obesidade, é importante considerar
que a população obesa apresenta os maiores escores de estresse,
ansiedade e depressão, segundo Abilés e outros (2010). No que concerne
à incidência desses transtornos concomitantes, tem-se que 45,5% dos
obesos por aqueles estudados apresentaram algum tipo de transtorno de
humor e, no tocante à ansiedade é observada uma incidência de 24%,
segundo Kalarchian e outros (2007). Um outro estudo observou em pacientes
pré operatórios de cirurgia bariátrica, um nível de leve a médio de depressão,
sugerindo que, não necessariamente, a obesidade é acompanhada desse
transtorno em grau severo ou grave. O referido trabalho destaca que, mesmo
não tendo sido observados altos índices de depressão severa, esses
pacientes necessitam de atenção psicológica (Oliveira & Yoshida, 2009).
É necessário verificar, em todo caso, a importância dessa atenção
aos candidatos à citada cirurgia. Waden e Sawer (2006), enfatizam que na
equipe interprofissional, o psicólogo tem valioso papel na identificação das
comorbidades comportamentais que necessitem avaliação e tratamento.
Autores como LeMont e outros (2004) acreditam que a importância da
avaliação psicológica consiste investigar aspectos psicossociais que podem
comprometer a perda de peso na fase pós-operatória. Sob a ótica de Van
Hout e Van Heck (2009), os psicólogos, além de realizarem as avaliações
que lhe são pertinentes, devem incluir em sua prática a educação pré-
operatória necessária à preparação do paciente para a cirurgia, e monitorar
sua adaptação pós-operatória. A partir das colocações dos autores
supracitados, denota-se a importância do trabalho do psicólogo na equipe
transprofissional da cirurgia bariátrica. Sendo assim, é preciso estar atento
para a forma de como essa avaliação é realizada e o seu follow-up.
De modo a realizar uma reflexão sobre esta prática, o presente artigo
visa verificar os instrumentos psicológicos que estão sendo mais
empregados na avaliação de pacientes para a cirurgia bariátrica e identificar
que outros aspectos psicossociais estão sendo considerados nestas
intervenções.

410
Bol. Acad. Paulista de Psicologia, São Paulo, Brasil - V. 32, no 83, p. 408-423

Métodos e procedimentos
Como critérios de inclusão, foram considerados apenas os
manuscritos, cujo título, resumo ou palavras-chave se referem ao tema de
avaliação psicológica em cirurgia bariátrica. Além disso, artigos referentes
à técnica cirúrgica de Bypass gástrico e Band Lap também foram incluídos.
Não foram considerados os trabalhos que citam a técnica do balão
intragástrico por ser um procedimento reversível e que, por esse motivo,
difere das expectativas pós-operatórias das outras técnicas de tratamento
bariátrico.

Resultados e Discussão
De acordo com os critérios de inclusão e exclusão supracitados, foram
selecionados 28 artigos; destes, oito foram publicados no ano de 2006, e
cinco em cada um dos anos subsequentes, até 2010. Com relação às bases
de dados utilizadas, observou-se que a de Springer Link tem mais artigos
mencionados (19), seguida da PubMed (17), Psychinfo (3), Bireme e Scielo
(0). Deve-se considerar que alguns artigos foram exibidos em mais de uma
base de dados. No tocante aos descritores, os que mais tiveram resultados
foram os que estavam no idioma inglês: Bariatric surgery psychological
evaluation e Bariatric surgery psychological tests. Com relação aos países,
tem-se que 23 trabalhos foram realizados nos Estados Unidos, seguido de
um em cada um dos seguintes países: Polônia, Taiwan, Espanha, Itália e
Reino Unido. Não foram encontrados estudos brasileiros nas referidas bases
de dados e nem nos descritores que nortearam esta revisão, o que sugere
a necessidade de mais estudos na área.
Sete dos 28 artigos se propõem a discutir aspectos psicossociais
relacionados à avaliação psicológica nessa população. Destes, quatro
tratam de revisões teóricas sobre sua importância, como o psicólogo deve
conduzi-la, e que aspectos referentes ao estilo de vida do individuo devem
ser considerados (Agnieszka e outros, 2006; Walfish, Vance & Fabricatore,
2007; Van Hout & Van Heck, 2009; Toussi, Fijioka & Coleman, 2009). Um
desses trabalhos refere-se a uma pesquisa realizada através de entrevistas
clínicas com 80 pacientes no período pré e pós-operatório, que visou
identificar os aspectos de relevância na avaliação (Agnieszka e outros, 2006).
Tal contribuição pontuou que os principais aspectos a serem considerados

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seriam: aspectos psiquiátricos (em especial os de depressão e transtornos


alimentares); conhecimentos do paciente sobre a cirurgia e os mecanismos
que tem utilizado para a perda de peso; história de sua obesidade; estilo
de vida e comportamento alimentar, estrutura e qualidade de suporte social;
expectativas e motivações; consciência das mudanças na conduta e
necessidade de supervisão; qualidade de vida; experiências com
preconceitos e discriminações; predisposição para prática de atividade
física e uso de álcool (Agnieszka e outros, 2006; Walfish e outros, 2007;
Toussi e outros, 2009; Van Hout & Van Heck, 2009).
Do período no qual a obesidade se desenvolveu, pode-se trazer
informações importantes sobre fatores físicos, psicológicos e interpessoais
do paciente (Pereira, 2006). As experiências de uma pessoa que sempre
foi obesa, desde a infância, são diferentes daquela que foi magra e que
depois de um certo período da vida, ganhou muito peso; a forma de lidar
com essas duas experiências difere no dia a dia, bem como, as tentativas
empregadas na perda de peso podem trazer dados sobre as estratégias
utilizadas e sua eficácia ou não (Agnieszka e outros, 2006). Da mesma
forma, hábitos de saúde, como já foi dito, a prática de atividade física deve
ser considerada pelo paciente (Wadden & Sawer, 2006), já que após o
período da dieta inicial, há sempre uma tendência de diminuição da perda
de peso, que, se agregada a uma atividade física, auxilia na sua manutenção
(Agnieszka, 2006).
Dos aspectos relacionados aos hábitos na comida, salientam-se a
preferência ingestão de alimentos de alto teor calórico, fast-foods, “beliscar”
e mesmo o transtorno de compulsão alimentar ou a síndrome do comer
noturno, podem ser maus preditores no sucesso pós-operatório (Agnieszka,
2006). Em estudo realizado por Toussi e outros (2009), com 112 pacientes,
pontuou-se que o problema da escolha por alimentos mais saudáveis não é
tão significativo no pré-operatório (11%), mas que tendem a aumentar após
a cirurgia (37%). Além disso, muitas pesquisas reportam que a presença
do Transtorno de Compulsão Alimentar pode ser um indicativo de menor
perda de peso na fase pós-operatória (Sawer & Fabricatore, 2008).
Um dos fatores que mais limita a qualidade de vida dos obesos diz
respeito às dores e às limitações físicas causadas pelo excesso de peso,

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que interferem em suas funções laborais (muitos deixam o trabalho) e podem


dar margem a sintomas depressivos. Além disso, muitos sofrem com a
discriminação e o preconceito pela sua aparência física (Wadden & Sawer,
2006). Tem-se que as discriminações ocasionadas pelo peso cresceram
66% na última década nos Estados Unidos, dificultando o acesso dessa
população aos postos de trabalho, e sendo comum o estigma de que os
obesos são preguiçosos e não possuem autocontrole (Puhl & Heuer, 2009).
No que concerne à avaliação psicológica no âmbito da preparação
para cirurgia bariátrica, observou-se que, em dois dos artigos efetuados
por psicólogos estadunidenses, utilizaram os testes psicológicos,
propugnaram a contraindicação ou adiamento da referida cirurgia. O estudo
de Fabricatore e outros (2006) apontaram que os instrumentos de avaliação,
mais mencionados por 194 profissionais de saúde, que atuam em cirurgia
bariátrica, foram: entrevistas clínicas (98,5%), inventários de sintomas
(68,6%), provas objetivas de personalidade e de psicopatologia (63,4%).
Poucos estudiosos mencionaram testes de funções cognitivas (38,1%) e
técnicas projetivas de personalidade (3,6%). Nesse mesmo estudo, os
instrumentos mais referidos foram: Escala Beck de Depressão (48,5%),
Minnesota Multiphasic Personality Inventory (MMPI II) (42,8%), e o Millon
Behavoral Medicine Diagnostic (MBMD) (16%). Um dos fatores que pode
explicar a preferência por instrumentos em formato de questionário, diz
respeito à maior facilidade e praticidade na aplicação e correção, se
comparados com as técnicas projetivas, como Rorschach e o Teste de
Apercepção Temática (Deitel, 2009). No entanto, são recomendados
instrumentos que contenham escalas de validação, já que os pacientes
podem apresentar respostas defensivas, por temor de terem sido negado
ou adiado a cirurgia (Walfish, 2007).
Em pesquisa semelhante realizada por Walfish e outros (2007), com
103 psicólogos, também estadunidenses, o Minnesota Multiphasic
Personality Inventory II (MMPI II) aparece na frente da Escala Beck de
Depressão (BDI), com 69% e 36% de menções, respectivamente, seguido
do Millon Behavioral Medicine Diagnostic (MBMD) com 25%.
Sobre os critérios mais utilizados pelos profissionais para adiar ou
contraindicar a cirurgia citada, foram os seguintes: referentes à

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Psicopatologia (esquizofrenia e transtorno bipolar) (53); depressão (40);


transtornos alimentares (26) e abuso de substâncias psicotrópicas (26).
Soma-se a esses fatores, a falta de compreensão sobre a cirurgia e seus
riscos (31). É válido informar que a Sociedade Brasileira de Cirurgia
Bariátrica e Metabólica, o procedimento pode ser contraindicado em casos
de transtornos psiquiátricos, atuais e não controlados, como também no
abuso de álcool ou drogas (LeMont e outros, 2004).
No tocante aos artigos referentes à testagem psicológica, observou-
se que, em sua maioria (10) se reportavam ao uso de validação de
instrumentos como: Multidimensional Health profile - health functioning
scales (MHP-H) (Lynion, Maxwell, Karoly & Ruehlman, 2007), Eating Disorder
Examination-Questionnaire (EDE-Q) (Hrabosky, White, Masheb, Rothschild,
Burke-Martindale & Grilo, 2008; Villarroel, Penelo, Portell & Raich, 2011),
Night Eating Questionare (NEQ) (Allison, Lundgreen, O’Reardon, Martino &
Sarwer, 2008), Multidimensional Health Profile—Psychosocial Functioning
(MHP-P) (Lynion e outros, 2006), Moorehead Ardelt Quality of Life
Questionare II (MAII) (Chang, Huang, Tai, Lin & Wang, 2009), Symptom
Checklis 90 Revised (SCL-90-R) (Ransom, Ashton, Windover & Heinberg,
2010), Personality Assessment Inventory (PAI) (Corsica, Azarbad, McGill,
Wool & Hood, 2009), Cleveland Clinic Behavioral Rating System (Heinberg,
Ashton & Windover, 2010) e Psybar (Mahonny, 2008). Outros cinco artigos
discutiram as propriedades psicométricas de determinados instrumentos
psicológicos para a cirurgia bariátrica, como no caso da Escala de
Depressão de Beck (BDI) (Munoz, Chen & Fischer, 2007; Krukowski,
Frieman & Applegate, 2010), Millon Behavioral Medicine Diagnostic
(MBMD) (Walfish, Wise & Strainer (2008) e Multiphasic Personality Inventory
II (MMPI II) (Ruchinskas, Combs, Riley & Broshek, 2006; Wygant, Boutacoff,
Arbisi, Bem-Porath, Kelly & William, 2007;Kinder, Walfish, Young &
Fairweather, 2008).
Destacam-se os estudos que utilizaram a Escala Beck de Depressão
(BDI), nos quais os pacientes apresentaram maiores escores nos sintomas
somáticos e relacionados com sua situação de saúde física. O uso da BDI
em pacientes portadores de doenças crônicas, como os obesos, corre o
risco de sofrer a influência dos sintomas físicos, mascarando um escore

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mais alto de depressão, como reflexo desses sintomas ligados à este tipo
de enfermidade. Da mesma forma, a população de obesos tem maior
tendência de pontuar sintomas somáticos na BDI que, não necessariamente,
são indicativos de depressão, mas que podem refletir seu próprio estado
de saúde física (Munoz e outros, 2007; Krukowski e outros, 2010). Já com
relação ao Millon Behavioral Medicine Diagnostic (MBMD), desenvolvido
para avaliação de atitudes, comportamentos e pensamentos do paciente
em tratamento, Walfish, Wise e Streiner (2008) recomendam que é preciso
uma análise mais cuidadosa sobre seu uso na avaliação de cirurgia
bariátrica, já que nos estudos de validade do instrumento, nessa população,
16 das 32 escalas tiveram coeficientes de validade interna abaixo do
recomendado. Das outras 16 escalas, 13 não tiveram índices de precisão,
sugerindo a necessidade de mais estudos com essa população (Walfish e
outros, 2008). O MMPI II apresenta propriedades psicométricas mais
favoráveis que as do MBMD em cirurgia bariátrica, embora as suas escalas
de reestruturação sejam mais homogêneas que as clínicas (Wygant, 2007).
Ainda no que concerne à precisão e validade dos testes para avaliação
da cirurgia bariátrica, o estudo de Ruchinskas e outros (2006) discute os
altos índices da escala de defensividade do MMPI II nessa prática. Outro
trabalho avaliou o uso do Temperament and Character Inventory (TCI) como
preditor de perda de peso pós-operatória e constatou que os pacientes
que obtiveram maiores escores na escala de “Persistência”, tiveram perda
maior que 40% do Índice de Massa Corporal (IMC) após 1 ano (Panfilis &
Cero, 2006). Sobre o MMPI II, um dos artigos utilizados para avaliar
mudanças no perfil dos pacientes, após 1 ano de cirurgia (Kinder e outros,
2008). Já Belenger e outros (2009) defendem a utilização do MCMI III e do
MMPI II como preditores de maior necessidade de acompanhamento no
pós-operatório.
Com relação aos aspectos avaliados pelos instrumentos psicológicos
usados para preparo de cirurgia bariátrica, os estudos apontam que os
mais utilizados foram os instrumentos que avaliam personalidade e
psicopatologia, como os já citados,MMPI II e MCMI-III, e também o PAI e o
TCI. Vale ressaltar que o MMPI II foi o instrumento mais discutido na presente
revisão; este contém 567 itens que avaliam aspectos de personalidade,

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psicopatologia e funcionamento comportamental. Apresenta escalas clínicas


e escalas de reestruturação que servem para indicar aspectos de validade
da aplicação (Wygant e outros, 2007). Essa necessidade de avaliar
aspectos de personalidade e sintomas patológicos se explica pelos maiores
índices de psicopatologias associadas em pacientes obesos, em especial
aos transtornos de humor e alimentares (Kalarchian e outros, 2007). Ao
analisar os resultados das escalas de validação, como também do MBMD
e do MCMI III e do MMPI II, pode-se observar o teor de defensividade do
paciente, o qual produz algum prejuízo ao mesmo, como no caso da cirurgia
bariátrica, na qual pode haver contraindicações psicológicas.
Ainda com relação à defensividade, um estudo realizado por Walfish
(2007), objetivou reavaliar sujeitos para cirurgia bariátrica que apresentaram
índices consideráveis no constructo supracitado. Com isso foi proposta uma
reaplicação do instrumento para fins de precisão. Como resultado, foram
obtidas mudanças significativas em 9 das 16 escalas que compõem o MMPI
II, os índices de “defensividade” diminuíram nos pacientes, já que 94% destes
tiveram perfis válidos no reteste. Quatro das 10 escalas clínicas tiveram
alteração no reteste: de “depressão”, que expressa o desconforto do
paciente frente ao seu atual estilo de vida, bem como as escalas de energia
e de introversão/ extroversão, que obtiveram índices maiores, expressando
maior sociabilidade do que realmente os pacientes apresentam. Outra
escala representa os sintomas físicos de negação de problemas emocionais
e de desconforto social tiveram diminuição na retestagem, o que sugere um
menor nível de negação por parte dos pacientes (Walfish, 2007).
O MCMI-III, juntamente com o MMPI II, no estudo de Belenger e outros
(2009), consta de 175 itens, com respostas de verdadeiro ou falso, que
avalia a incidência de transtornos do eixo I e II do DSM-IV. Auxilia na
identificação de 14 transtornos de personalidade, mediante 10 escalas de
sintomas clínicos, que medem a depressão, distorções cognitivas, paranoia
e características borderline. O objetivo de Belenger e outros (2009) foi o de
verificar se os fatores observados no pré-operatório são relevantes para
determinar a necessidade de acompanhamento pós-operatório; utilizaram
o MMPI –II e o MCMI-III como medidas. Os resultados mostraram que os
baixos escores na escala de compulsão do MCMI-III e na escala K de validez

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do MMPI-II foram relacionados a uma perda maior de peso seis meses


após a cirurgia. Esta ocorrência sugere que tais características psicométricas
podem servir de indicador do nível de dependência de intervenção
multidisciplinar, após cirurgia. Baixos índices na escala K do MMPI-II,
também, indicaram maior perda de peso após seis meses de cirurgia, e os
menores escores na escala K mostraram menor dependência dos próprios
mecanismos de enfrentamento e maior dependência e conformidade com
o pós-operatório.
Nas avaliações realizadas com o TCI, com o objetivo de identificar as
dimensões da personalidade de obesos mórbidos, candidatos ao
procedimento e predição de perda de peso por um ano, verificou-se que o
fator “persistência” foi significante em 40% de redução do IMC, no referido
período. Para a teoria de Cloninger, que serviu de base para construção do
instrumento, a “persistência” significa uma tendência do temperamento em
se manter, quando há indícios de uma recompensa (Panfilis & Cero, 2006).
No tocante aos instrumentos referentes à avaliação de transtornos
alimentares, como o Eating Disorder Examination Questionary (EDE-Q)
foram referidos em dois estudos. Trata-se de questionário autoaplicável que
avalia a incidência de transtornos alimentares, incluindo a frequência de
várias formas de excessos na comida e compulsão alimentar, bem como
aspectos dimensionais de alguma psicopatologia ligada a este hábito
(Hrabosky e outros, 2008). A proposta de Elder e outros (2006) foi a de
comparar as propriedades EDE-Q com as do Questionnaire on Eating and
Weight Patterns Revised (QEWP-R) na avaliação do Transtorno de
Compulsão Alimentar, em obesos mórbidos. Com isso, foi possível inferir
que o EDE-Q permite diferenciar melhor a frequência dos episódios de
compulsão, além de ter se demonstrado mais sensível na identificação do
transtorno de compulsão alimentar em pacientes com peso mais elevado
(Elder e outros, 2006). Um estudo sobre o EDE-Q, de validação para
população espanhola, aponta que o instrumento mostrou consistência
satisfatória para aquela população (Villarroel e outros, 2011). Um outro
questionário foi o Night Eating Questionare (NEQ), desenvolvido para
avaliação da Síndrome do Comer Noturno, possui 14 itens acerca de
sintomas psicológicos e que se mostrou eficiente e válido na avaliação da
SCN (Alisson e outros, 2008).

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Esse cuidado em estudar os instrumentos psicológicos que avaliam


transtorno de compulsão alimentar se justifica por este ser comumente
observado nessa população. Para Kalarchian e outros (2007), tem-se que
27,1% dos pacientes avaliados apresentaram ao menos um episódio de
TCAP e que 16% o possuem em maior frequência. Além disso, aspectos
relacionados aos hábitos alimentares, como preferência pela ingestão de
alimentos de alto teor calórico, fast-foods, de “beliscar” e mesmo o transtorno
de compulsão alimentar ou a síndrome do comer noturno podem ser maus
preditores do insucesso pós-operatório (Agnieszka e outros, 2006).
A tabela1 tem o objetivo de ilustrar os instrumentos psicológicos citados
nesta revisão, seus respectivos campos de avaliação e o número de artigos
que lhes fizeram referência:

Tabela 1 – Instrumentos psicológicos com sua respectiva área de avaliação e o


número de citações nessa revisão

Diante do contexto apresentado no presente artigo, pode-se considerar


que talvez o principal motivo para se incluir profissionais de saúde mental
nas equipes de cirurgia bariátrica, seja os altos índices de psicopatologias
associadas e problemas comportamentais em pacientes candidatos ao
procedimento (Walfish e outros, 2007). Esses profissionais sempre devem

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dar um retorno acerca das condições do paciente ao cirurgião, no qual se


incluem recomendações do profissional ao paciente e os possíveis riscos
pós-operatórios observados durante a avaliação. Esse parecer pode ser
favorável ao adiamento da cirurgia em prol de alguma demanda de
atendimento especializado ou desfavorável nos casos de transtorno
psiquiátrico grave em curso e sem tratamento, e em casos de abuso de
álcool ou drogas (Wadden & Sawer, 2006).

Conclusões
A partir das perspectivas apresentadas no presente estudo, pode-se
inferir que, dentre os aspectos preponderantes nas avaliações psicológicas
de candidatos à cirurgia bariátrica, estão os comportamentais, de
personalidade e indicadores de psicopatologias que possam comprometer
o sucesso pós-operatório. Como visto, não são frequentes os estudos
brasileiros sobre o uso de instrumentos psicológicos nessa população, o
que sugere a necessidade de que mais pesquisadores se debrucem sobre
essa temática.
Outras modalidades de questionário estão ganhando espaço nas
publicações da área, são os inventários de qualidade de vida, como o
Moorehead–Ardelt Quality of Life Questionnaire II (MA II) e inventários sobre
crenças e comportamentos referentes à saúde, como o Millon Behavioral
Medicine Diagnostic (MBMD), Multidimensional Health Profile—
Psychosocial Functioning (MHP-P), Cleveland Clinic Behavioral Rating
Syste, PsyBari e The Boston Interview que trazem a proposta de avaliação
de outros aspectos relacionados à aderência terapêutica como o suporte
social, habilidades de enfrentamento ao estresse relacionadas à saúde.
Sugerindo que as avaliações devem ir mais além dos aspectos
psicopatológicos, já que a própria obesidade, em si, é vista como doença
multifatorial e que como tal inclui aspectos psicológicos, biológicos e sociais
que devem ser considerados no cuidado desses pacientes.
Outro ponto relevante, e cada vez mais discutido na literatura, diz
respeito aos índices defensividade nessas avaliações. Sendo uma estratégia
de procurar passar impressões positivas para o avaliador como forma de
garantir a realização do procedimento. A preocupação com o uso de escalas

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Bol. Acad. Paulista de Psicologia, São Paulo, Brasil - V. 32, no 83, p. 408-423

que permitam a avaliação desse constructo se faz importante para que,


havendo essa intenção, a avaliação possa ser novamente discutida com o
paciente de modo a se ter indicativos mais fidedignos sobre seus
comportamentos e saúde mental para que dessa forma as orientações e
intervenções pré-operatórias possam ser otimizadas, e consequentemente,
mais úteis para a adaptação pós-operatória.
Essa revisão tem suas limitações, como o número reduzido de
descritores e de bases utilizadas para buscas, muitas destas deixaram de
ser consultadas e que talvez pudessem dispor de mais trabalhos sobre o
tema. O que se pode afirmar é que há necessidade de maior investimento
por parte dos psicólogos no que concerne aos instrumentos psicológicos
de avaliação aos pacientes obesos, dada a tendência a aumentar, devido à
vida sedentária de hoje em dia.

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Recebido: 29/08/2012 / Revisto: 04/10/2012 / Aceito: 15/10/2012.

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Bol. Acad. Paulista de Psicologia, São Paulo, Brasil - V. 32, no 83, p. 424-452

• Funções projetivas e terapêuticas das práticas dissociativas


em contexto religioso
Therapeutic and projective functions of dissociative practices
in religious context
Funciones proyectivas y terapéuticas de las prácticas disociativas
en contextos religiosos
Everton de Oliveira Maraldi1
Wellington Zangari2
Instituto de Psicologia Universidade de São Paulo – IP-USP

Resumo: O valor terapêutico das práticas dissociativas de cunho religioso não


representa informação nova na literatura; muitos são os autores que reconhecem
o poder catártico ou curativo dessas intervenções. Encontramos, todavia, poucas
referências a determinados aspectos psicológicos por nós identificados, como:
o favorecimento da “regressão a serviço do ego”, a continência / acolhimento de
conteúdos emocionais difusos ou impulsivos e a integração psíquica. Há também
pouca informação na literatura psicológica sobre os estilos e estratégias de coping
específicos, utilizados por médiuns espíritas. Método: A partir de relatos
biográficos, aliados a observações de campo, bem como análises de psicografias
e desenhos produzidos por esses religiosos (11 participantes, 9 mulheres e 2
homens), chega-se a algumas hipóteses sobre os estilos de enfrentamento
empregados por adeptos do Espiritismo. Resultados e discussão: A
ressignificação, a personificação e a projeção são algumas das estratégias de
coping identificadas. No discurso dos médiuns, a participação no centro teria
ajudado numa maior adaptação ativa a dificuldades pessoais e familiares;
ampliação de contato (rede) social; maior valorização de si próprio. Todavia, são
também observados mecanismos institucionais de controle das manifestações
dissociativas que podem gerar ansiedade e estresse. Conclusão. Espera-se
que as hipóteses levantadas sejam de utilidade aos que comungam da prática
clínica na Psicologia, na Psiquiatria e na Psicanálise, quer quanto ao diagnóstico
diferencial dessas experiências, quer quanto ao próprio entendimento da eficácia
terapêutica de tais práticas sociais.

Palavras-chave: dissociação, experiência religiosa, identidade, crença.

1
Psicólogo do IP-USP, bolsista FAPESP (Processo n° 2011/05666-1, agradecimentos pela
bolsa concedida), membro do Inter Psi – Laboratório de Psicologia Anomalística e Processos
Psicossociais da USP, Student Associate da Parapsychological Association (Estados Unidos).
Contato: Rua José de Alcântara Machado Filho, n° 30, Jardim Guapira, São Paulo, SP. CEP:
02316-220 – Brasil. Tel: (11) 2242-2417. E-mail: evertonom@usp.br
2
Laureado pela Academia Paulista de Psicologia – Gestão 2010-2012. Depto. Psicologia
Social e do Trabalho do IP-USP. Pesquisador do Inter Psi – Laboratório de Psicologia
Anomalística e Processos Psicossociais e do Laboratório de Psicologia Social da Religião,
ambos do Instituto citado. Contato: Av. Prof. Mello Moraes, 1721, Bloco A, Sala 111 – Cidade
424 Universitária – São Paulo, SP – CEP 05508-900. Tel: (11) 9892-9944. E-mail: w.z@usp.br
Bol. Acad. Paulista de Psicologia, São Paulo, Brasil - V. 32, no 83, p. 424-452

Abstract: The therapeutic value of religious dissociative practices does not


represent new information in the literature. Many authors have recognized the
power of these cathartic or curative interventions. We found, however, few
references to certain psychological aspects that we have identified: “regression
in the service of the ego”, elaboration for diffuse or impulsive emotions and
psychological integration. There is also little information in the psychological
literature on coping styles and specific strategies used by spiritist mediums.
Method: From biographical accounts, coupled with field observations and analyzes
of automatic writings and drawings produced by two groups of spiritist mediums
(11 participants, 9 women and 2 men), we came up with some hypotheses about
the coping styles employed by supporters of spiritist mediumistic practices.
Results and discussion: Resignification, personification and projection were some
of the coping strategies identified. According to the mediums, the spiritist practices
helped in more active adaptation to personal and family difficulties, expanding
social networks and improving self-esteem. However, we also verified the
presence of institutional mechanisms of control of dissociative experiences that
can cause anxiety or stress. Conclusion. It is expected that the hypotheses are
of use to those who partake in the clinical practice in psychology, psychiatry and
psychoanalysis, both in terms of differential diagnosis of these experiences, and
both as to the proper understanding of the therapeutic efficacy of such social
practices.

Keywords: dissociation, religious experience, identity, belief.

Resumen: El valor terapéutico de las prácticas de tipo religioso no representan


información novedosa dentro de la literatura; muchos son los autores que
reconocen el poder catártico o curativo de estas intervenciones. Sin embargo,
encontramos pocas referencias a determinados aspectos psicológicos que
hemos identificado, tales como: el favorecimiento de la “regresión al servicio del
ego”, la contención/acogimiento de contenidos emocionales difusos y la
integración psíquica. Así mismo, es poca la información que se encuentra dentro
de la literatura psicología que haga referencia a los estilos o estrategias de coping,
usado por los médiums espiritistas. Método: A partir de los relatos biográficos,
junto con las observaciones de campo y los análisis de psicografías y dibujos
elaborados por estos médiums (11 participantes, de los cuales 9 son mujeres y
2 son hombres) se plantearon varias hipótesis sobre los diferentes estilos de
coping utilizados por los médiums. Resultados y discusión: La re-significación,
la personificación y la proyección fueron algunas de las estrategias de coping
identificadas. En cuanto al discurso, la participación en el centro habría ayudado
a una adaptación mucho más activa para el afrontamiento de las dificultades
personales y/o familiares, ampliación de las redes de apoyo, mayor valoración

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Bol. Acad. Paulista de Psicologia, São Paulo, Brasil - V. 32, no 83, p. 424-452

del sí mismo. Igualmente, fueron encontrados mecanismos institucionales de


control de las manifestaciones disociativas, que pudiesen generar ansiedad y
estrés. Conclusión: Se espera que las hipótesis planteadas puedan ser útiles,
para todos aquellos involucrados en la práctica clínica dentro de la Psicología,
Psiquiatría y Psicoanálisis, en términos de diagnóstico diferencial de estas
experiencias, así como en la comprensión de la propia eficacia terapéutica de
estas prácticas sociales.

Palabras claves: disociación, experiencia religiosa, identidad, creencia.

1. Introdução
Conquanto a dissociação não esteja presente apenas em contextos
religiosos, nem seja uma prerrogativa necessária de tais práticas e
atividades sociais, as pesquisas têm sustentado, há bastante tempo, sua
recorrente associação com determinadas crenças e experiências
paranormais e / ou religiosas (Richards, 1991; Irwin, 1994; Pekala, Kumar
& Marcano, 1995; Makasovsky & Irwin, 1999), particularmente as chamadas
experiências mediúnicas (Maraldi, 2011). A mediunidade pode ser definida,
para os propósitos deste artigo, como a suposta comunicação (ou ação)
de um pretendido agente espiritual pela intermediação de um indivíduo
comumente designado “médium”. As pesquisas clínicas sobre tais
experiências religiosas têm prestado importantes contribuições, na medida
em que estão esclarecendo melhor as fronteiras entre mediunidade e
psicopatologia, historicamente consideradas equivalentes ou
intercambiáveis (Almeida, 2004; Menezes & Moreira-Almeida, 2011). Em
um interessante estudo de caso, Martínez-Taboas (1999) relata a difícil
trajetória de vida de um psicótico porto-riquenho de 44 anos que, vitimado
por delírios persecutórios de conteúdo espírita e experiências involuntárias
de transe, obteve grande melhora graças aos recursos terapêuticos
empregados. Sensível ao papel das crenças religiosas do paciente na sua
compreensão de mundo, Martínez-Taboas (1999) optou por não contestar
sua veracidade, mas por modificar o sentido conferido a tais vivências. Ajudou
o paciente a interpretar positivamente seus transes e não como intrusões
de espíritos malévolos; trabalhou-se a relação do paciente com essas figuras,
cujo diagnóstico mostrou se tratar, na verdade, de personificações de

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pessoas da vida do paciente, com as quais ele mantinha conflitos


interpessoais não totalmente resolvidos. Ao fim do tratamento, o paciente
diminuiu os sintomas e retomou suas atividades sociais e profissionais.
O relato deste caso pode sugerir, para alguns, uma origem patológica
para a mediunidade; porém, se é certo dizer que tais crenças e experiências
incorporam-se, por vezes, a determinadas patologias, também é verdade
que as práticas mediúnicas apresentam, em outros casos, efeitos claramente
terapêuticos. Moreira-Almeida e Koss-Chioino (2009) apresentaram os
resultados de estudos realizados no Brasil e em Porto Rico ilustrando o
caráter de ajuda psicossocial das práticas espíritas no tratamento
complementar de pacientes psicóticos. Por sua vez, Leão (2004) aponta
para os possíveis benefícios das práticas religiosas espíritas na evolução
clínica e comportamental de pacientes portadores de deficiência mental.
Na pesquisa de Almeida (2004), a associação da mediunidade com
transtornos mentais, como a esquizofrenia, não foi confirmada, nem se
mostrou exequível. A maioria dos participantes apresentava sintomas
dissociativos, mas não preenchia os requisitos para transtornos
dissociativos.
Acreditamos, assim, que o padrão mais provável por trás da
controvérsia instaurada acerca dos eventuais benefícios ou malefícios
psicológicos dessas crenças e experiências parece ser um que contemple
o fato de elas serem, como qualquer outra expressão psíquica humana,
capazes de se deslocarem de um extremo a outro. Não sendo inerentemente
patológicas ou saudáveis, nem por isso deixam de ser afetadas por
processos de ordem psicopatológica que, antes de representarem sua
principal causa, são uma demonstração de como certas doenças por elas
se manifestam e a elas deformam – cf. a esse respeito Berenbaum, Kerns
& Raghavan (2000). Ademais, é importante pensar em como o contexto
sociocultural interfere nessas práticas e crenças, interagindo com sintomas
psicopatológicos e interpretações grupais de cunho religioso. A partir de
um estudo no Sri Lanka, Somasundaram, Thivakaran e Bhugra (2008)
concluem, por exemplo, que a possessão é um fenômeno comportamental
visto tanto sob formas culturalmente aceitáveis, em pessoas tidas como
normais, adeptos de religiões e práticas populares, quanto sob

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Bol. Acad. Paulista de Psicologia, São Paulo, Brasil - V. 32, no 83, p. 424-452

manifestações de transtornos psicóticos. Defendem igualmente que, embora


práticas religiosas institucionalizadas tragam eventuais melhorias aos efeitos
psicológicos de certos transtornos é importante que os psicólogos e
psiquiatras se informem acerca das experiências dissociativas, no sentido
de contribuir com conhecimento especializado a respeito.
Foi na tentativa de encontrar um caminho explicativo intermédio, capaz
de considerar tanto o posicionamento científico acerca dessas experiências
quanto a perspectiva particular daqueles que praticam a mediunidade, que
o primeiro autor deste artigo conduziu sua pesquisa de mestrado em
Psicologia Social, no Instituto de Psicologia da Universidade de São Paulo
(Maraldi, 2011). O intuito deste artigo é o de resumir alguns dos achados da
pesquisa mencionada, especialmente quanto às funções projetivas e
terapêuticas das práticas mediúnicas. No Brasil, várias investigações de
cunho antropológico têm sido realizadas em contextos mediúnicos, a
exemplo de Lewgoy (2004) ou Stoll (2009). Porém, as avaliações
psicológicas da mediunidade (e de outras experiências dissociativas de
cunho religioso) permanecem escassas, apontando a necessidade de mais
estudos (Negro, 1999; Zangari, 2003; Almeida, 2004; Maraldi, Machado &
Zangari, 2010). Tais práticas socioculturais parecem desempenhar, não
obstante, um importante papel na vida das pessoas, já que são encaradas
como auxiliares na solução de impasses e problemas cotidianos (Roe, 1998),
além de aparentemente exercerem variados usos e sentidos na formação
da identidade (Zangari 2003; Maraldi, 2008).
Na pesquisa realizada pelo primeiro autor (Maraldi, 2011), constatou-
se que os participantes - 11 médiuns espíritas, 9 mulheres e 2 homens, M =
47 anos - frequentemente faziam alusão a tal atividade religiosa como
benéfica ao seu estado psicológico e ao controle de certas “experiências
anômalas” (Berenbaum, Kerns & Raghavan, 2000) consideradas negativas
ou perturbadoras. Notamos que os médiuns apresentavam diversos indícios
de estados dissociativos (‘transes’; visões de si mesmo fora do corpo; sentir-
se como se fosse temporariamente outra pessoa; perda temporária do
controle da escrita e de outras atividades psicomotoras; anestesias ou
imobilidade parcial; alterações repentinas e inexplicáveis do estado
emocional como: choro, raiva, impaciência, desespero, angústia etc.).

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Devido ao ambiente fortemente sugestivo das sessões mediúnicas, não foi


possível saber, ao certo, quando essas experiências resultavam de algum
complexo mecanismo de sugestão, e quando se originavam de alguma
predisposição psicológica particular, embora as duas explicações fossem
possíveis, e mais ou menos adequadas conforme a situação e o contexto.
Ficou claro, no entanto, que alguns indivíduos, ao contrário de outros, teriam
apresentado vivências semelhantes e de caráter bastante intenso e
recorrente ao longo de suas vidas, por vezes desde tenra infância, sem
necessariamente terem sido mais expostos a essas práticas do que os
demais, enquanto outros só passaram a relatar tais experiências (geralmente
de intensidade mais branda) após sua participação naquele contexto ou
em contextos religiosos similares - mesmo tendo nascido, em alguns casos,
em família espírita ou simpatizante.
A partir de entrevistas com essas pessoas e observações das sessões
mediúnicas de dois centros espíritas, chegou-se à hipótese de que a prática
da mediunidade tende a possibilitar o exercício, em ambiente sociocultural
controlado, de funções cognitivas e afetivas pouco desenvolvidas pelos
participantes (desenvolvimento de capacidades latentes e raramente
estimuladas, em função de adversidades pessoais, sociais etc., como a
pintura e a redação, por exemplo). Tal atividade permitiria, ainda, a expressão
de emoções difusas, diretamente relacionadas às suas condições de vida,
auxiliando tais indivíduos no enfrentamento de situações de vida adversas
e no manejo de seu mundo subjetivo, sem que tenham de assumir total
responsabilidade pessoal (ou consciente) pelos conteúdos que emergem
durante as sessões. O centro espírita parece fornecer, assim, um espaço
de acolhimento e continência para conteúdos psíquicos diversos, ao transmitir
a simbologia e o treinamento prático, necessários para o seu adequado
manejo, sem que haja medo ou receio – tendendo a interpretar a emergência
desses conteúdos como ‘manifestação de espíritos’. É importante mencionar,
a esse respeito, que, independentemente da origem alegadamente espiritual
das vivências relatadas pelos participantes, pudemos identificar
determinados processos psicológicos e psicossociais capazes de explicar,
ao menos em parte, a etiologia de tais experiências.
O valor terapêutico das práticas dissociativas não representa
informação nova na literatura; muitos foram os autores que reconheceram o

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poder catártico ou curativo dessas intervenções em contextos religiosos


(Lewis, 1977; Bourguignon, 2004; Selligman, 2005). Encontramos, todavia,
poucas referências a determinados aspectos psicológicos por nós
identificados, como o favorecimento da regressão psíquica durante as
sessões (Flournoy, 1910/2007), a continência / acolhimento dos conteúdos
inconscientes e a integração psíquica (Jung, 1950/2000; Krippner, 1987).
Uma exceção parece ser o trabalho de Rabeyron, Chouvier & Le Malefán
(2010).
Às diferentes estratégias psicológicas empregadas por um indivíduo
para lidar com situações estressantes, dá-se o nome de coping (geralmente
traduzido como enfrentamento), sendo o coping religioso, portanto, um tipo
de enfrentamento sustentado em crenças e práticas de ordem religiosa /
espiritual. Há pouca informação na literatura psicológica sobre os estilos e
estratégias de coping utilizados por médiuns, conquanto se observe um
significativo interesse (não só no Brasil) pela psicopatologia e fenomenologia
das experiências mediúnicas (Almeida, 2004; Zangari, 2003). Os casos
estudados neste artigo lançam luz sobre alguns dos estilos de coping
possivelmente utilizados por religiosos de denominação espírita.

2. Método
Em nossa investigação, utilizamo-nos de uma abordagem de pesquisa
qualitativa sustentada, basicamente, em três frentes:
1) análise de relatos das histórias de vida dos participantes, buscando
averiguar diferentes aspectos da formação de sua identidade, bem como
os valores e representações subjetivos atrelados a suas crenças e
experiências religiosas / paranormais;
2) observação de reuniões mediúnicas e outras sessões espíritas,
buscando melhor acessar a dimensão social e grupal dessas crenças e
experiências, bem como sua interação com a dimensão individual
investigada no item 1;
3) análise de material complementar fornecido pelos médiuns
participantes, sob a forma, por exemplo, de pinturas ou desenhos mediúnicos
e psicografias.
Para efetuar a análise e discussão do material proveniente das três
frentes de investigação - segundo o método de triangulação (Creswell, 1998)

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- fundamentamo-nos, teoricamente, em trabalhos que versam sobre os


processos de construção psicossocial da identidade religiosa (Ciampa,
1987; Holm, 1997; Paiva, 2007). Valemo-nos, ainda, das contribuições de
alguns dos pesquisadores pioneiros do fenômeno da mediunidade, como
Pierre Janet, Frederic Myers, William James, Théodore Flournoy e Carl Jung
(Maraldi, 2011).
A escolha de indivíduos pertencentes a um dado grupo religioso (o
espírita) nos foi interessante, sobretudo, pela possibilidade de se verificar o
papel das crenças e práticas doutrinárias e institucionais no processo de
formação identitária, ao invés de fazê-lo recorrendo a pessoas cuja relação
com essas crenças fosse meramente ocasional. Por sua vez, a escolha de
participantes espíritas veio ao encontro do conhecimento que temos desse
grupo a partir de pesquisas anteriores, e da própria familiaridade pessoal
do primeiro pesquisador com práticas e crenças espíritas, o que incluiu
ainda uma maior facilidade de acesso e contato com os integrantes do
estudo. Não houve a exigência de que os participantes tivessem muitos
anos de prática mediúnica; na verdade, era-nos interessante uma maior
diversidade de casos, podendo participar tanto indivíduos que já possuíssem
uma longa trajetória como médiuns, quanto indivíduos que ainda se
encontrassem nos primeiros anos de tarefa mediúnica. Não se estabeleceu
limites também quanto a diferenças de gênero ou idade – salvo quanto aos
menores de 18 anos –, sendo o critério da diversidade aplicado aqui de
igual forma. Carece esclarecer, ainda, que em nenhum momento adotou-se
como princípio de seleção a demonstração de eventuais habilidades
paranormais por parte dos médiuns. Desse ponto de vista, foram
considerados médiuns, por nós, todos aqueles que se enxergam como tais
ou relatam experiências recorrentes às quais denominam mediúnicas, quer
autênticas ou não, critério condizente com nossa perspectiva psicossocial.
Como se trata de uma pesquisa qualitativa, sustentada em entrevistas
pessoais prolongadas, observações de campo e avaliação de materiais
complementares, o número de participantes atingido (11) pareceu-nos
metodologicamente exequível, tendo-se averiguado inclusive certa repetição
e monotonia na frequência de algumas categorias de análise. Durante dois
anos, foram estudados médiuns de dois centros espíritas da zona norte da
cidade de São Paulo, locais próximos de onde reside o primeiro

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pesquisador. Em ambas as instituições, o primeiro contato foi possível


graças às recomendações de um amigo espírita do pesquisador, o qual
gentilmente indicou nomes de pessoas ou telefones para um possível contato.
Na ocasião do primeiro encontro com os participantes da pesquisa, foram
explicitados, de forma sucinta, os objetivos e procedimentos do estudo. No
dia designado para a entrevista, os colaboradores foram convidados a
assinar o Termo de Consentimento Livre e Esclarecido, mediante sua
aceitação prévia em colaborar com a investigação. O projeto de pesquisa
inicial foi avaliado e aceito pelo Comitê de Ética em Pesquisa do Instituto
de Psicologia da USP, processo CEPH-IP nº 2009.047.
Extraímos os relatos das Histórias de Vida por meio de uma ou mais
entrevistas com os médiuns, conforme a qualidade das informações obtidas.
Quanto às observações de campo, embora a literatura sobre estudos
etnográficos aponte a importância de um prolongado engajamento e
persistente observação (Creswell, 1998), consideramos a frequência de
visitas aos centros em conformidade com a relevância e o interesse dos
dados, ao invés de adotar uma abordagem exaustiva. As discussões sobre
desenhos e outros materiais era geralmente deixada para o final da
entrevista ou para um segundo encontro, se necessário. Nesse momento,
pedia-se aos médiuns que dissessem tudo aquilo que lhes surgisse na mente
acerca do desenho ou psicografia que haviam feito – algo semelhante a um
exercício de associação livre – tentando-se obter, desse modo, alguma
informação relevante sobre os processos psicológicos envolvidos quando
da produção desses materiais.

3. Resultados e discussão
Tomando-se como ponto de partida o papel da mediunidade enquanto
projeto de vida, conceito inspirado nas contribuições de Ciampa (1987) a
respeito da identidade, podemos dizer que a mediunidade (enquanto
expressão de um determinado papel religioso) tende a organizar as
experiências emocionais do indivíduo ao fornecer-lhe um sentido de vida
antes inexistente, inconcebível ou pouco explorado. Trata-se daquilo que
denominamos em nosso estudo de ressignificação (Maraldi, 2011), a busca
por um significado humano, emocional e espiritual, capaz de transcender,
simbolicamente, as limitações pessoais e sociais a que estão condicionados
esses indivíduos. Esse processo parece estar a serviço não só de

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determinadas funções psicodinâmicas – como a diminuição da angústia e


da ansiedade decorrentes da exposição a situações conflituosas – mas
também do preenchimento de eventuais lacunas entre discursos,
necessidades e experiências incoerentes ao longo da história de vida dos
médiuns, dando-lhes a continuidade de uma narrativa espiritualmente
relevante, quando antes pareciam acontecimentos dispersos ou
despropositados. A ressignificação atua retrospectiva e
prospectivamente: no primeiro caso, retoma eventos passados a partir da
identidade religiosa adquirida; no segundo, estipula um telos (ou meta) a
ser alcançada; um projeto de caridade ou de mediunidade que se estende
ao futuro.
Aqui podemos falar não só de eventos concretos, como da
consideração de passados hipotéticos (vidas passadas) e futuros hipotéticos
(desenvolvimentos futuros, reencarnações futuras etc.). As crenças e práticas
espíritas funcionam, assim, como categorias ou referenciais simbólicos a
partir dos quais o indivíduo se torna capaz de organizar e interpretar
dinamicamente sua história e suas lembranças. Como disseram Stein e
outros (2010, p. 231): a relação entre crenças e lembranças é tão próxima
que, na prática, é impossível separá-las [...] em decorrência dessa relação
íntima é razoável supor que mudanças nas crenças levarão a alterações
correspondentes na memória. No discurso dos médiuns, a participação no
centro teria ajudado numa maior adaptação ativa a dificuldades pessoais e
familiares; ampliação de contato (rede) social e maior valorização de si
mesmo(a), o que implica em maior autoconfiança, maior controle dos
impulsos, maior disponibilidade à auto-observação (o interesse e a
concentração voltam-se para certas atitudes, comportamentos,
pensamentos etc.) repercutindo na própria alteração, muitas vezes, de tais
atitudes e comportamentos tidos como indesejados e incompatíveis com o
ideal religioso adotado.
A médium V. (41 anos), por exemplo, fala em “flashes” de memória e
diz ter “facilidade de tá apagando da memória as coisas que eu vivi lá
atrás” (sic). Ela está se referindo ao período em que ainda não era espírita,
durante o qual buscava “encontrar a resposta” (sic) para seus problemas
pessoais e familiares. A conversão à doutrina espírita atua, em seu discurso,
como um divisor de águas, separando uma época imprecisa e confusa de
sua vida, de outra mais ordenada e mais “lógica”. V. parecia viver,

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anteriormente, sem rumo ou propósito definido; “foi indo, foi indo”, passando
quase mecanicamente pelos eventos, que se sucedem um após o outro em
sua narrativa, sem que ela fosse plenamente autora de sua história; de fato,
ela procurava “uma direção na minha vida, um pouco de sossego, um
pouco de paz” (sic). Tal procura a conduz por diversos contextos religiosos
e não religiosos – como psicólogos e outros profissionais de saúde,
notadamente aqueles de afiliação espírita. Aos poucos, a identificação com
o Espiritismo vai estabelecendo limites mais precisos quanto à forma de
ser e de se comportar. V. começa a refletir mais sobre suas atitudes, sobre
quem é e sobre sua história (cujas origens remontariam, segundo ela, a
conflitos de outras vidas). Passa a controlar mais seus impulsos (adquire
“freio”), toma maior consciência de si, vai “se descobrindo”. Seu passado,
antes confuso, torna-se mais coerente; ela percebe que tinha “uma história”
com o marido; consegue olhar para trás e reconhecer o quanto era
inconsciente de suas decisões. Consegue olhar sua mãe sob outra
perspectiva, e pode rastrear melhor os motivos de seu relacionamento difícil
com ela; é capaz, em outras palavras, de se colocar no lugar da figura materna
para entender seus motivos pessoais. Isso acaba por auxiliar a própria
relação de V. com suas filhas. Agora é ela quem orienta e direciona: o que
antes era buscado de modo passivo no ambiente, ela tende, doravante, a
reproduzir ativamente na relação com os outros. O processo de “construir
de novo” a que se refere a entrevistada, comparando-o com um “filme que
foi desenrolando” (sic), não consiste unicamente em reinterpretar, de modo
positivo, as dores do passado, mas igualmente em estipular, sobre si mesma,
uma narrativa coesa, baseada nas crenças espíritas: vidas passadas,
evolução espiritual, lei de ação e reação etc. Pressupõe, implicitamente,
todo um sistema cosmológico: o de que o universo (e a vida, de um modo
geral) é inerentemente dotado de sentido e propósito.
Tal processo de ressignificação é acompanhado, ainda, de práticas
mediúnicas indutoras de aparentes estados dissociativos, durante os quais
parece ser possível elaborar certos conteúdos emocionais estressantes e
episódios traumáticos de vida, como nas incorporações (ou personificações)
de espíritos. Um exemplo marcante foi observado com a médium C. (45
anos). Durante a entrevista, a participante relata, sob forte emoção, o estupro
perpetrado por um de seus irmãos quando contava sete anos de idade.
Tratava-se de experiência extremamente dolorosa, da qual a médium jamais

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se esquecera. Por volta desse período, já vivenciava experiências


incompreensíveis que mais tarde interpretará como mediúnicas. Muitos anos
depois, convertida agora ao Espiritismo, dá-se a manifestação por seu
próprio intermédio do irmão falecido que a violentara no passado, durante
uma das sessões espíritas. A versão espiritual deste, em contrapartida,
retorna pedindo-lhe perdão, mostrando-se redimido e moralmente
transformado. Pelo que podemos especular do relato da médium, feliz em
rever seu irmão sob outra roupagem, essa manifestação lhe servira,
possivelmente, como um poderoso recurso de coping, de modo a elaborar
psicologicamente seu antigo trauma, bem como a perda do irmão. Mas não
só este como outro membro da família, um dos tios da entrevistada, volta
por meio dela para trazer suas mensagens. Os mortos familiares ainda vivem.
A mediunidade lhe permite elaborar o luto, o passado, a ausência; lidar, de
algum modo, com a difícil questão da morte. Não seria essa uma das
principais características do Espiritismo como religião: a elaboração afetiva
dos que se foram?
É bem verdade que outras religiões e práticas culturais ao longo da
história cumpriram essa mesma função; o culto aos mortos – em suas
diferentes roupagens – remonta a tradições antiquíssimas. Não obstante,
pode-se considerar a doutrina espírita – bem como outras correntes
espiritualistas – como contribuições religiosas modernas e ocidentais ao
enfrentamento da morte. Sendo o Brasil o principal divulgador do Espiritismo
kardecista no mundo (Lewgoy, 2008), e tendo o Espiritismo brasileiro
características singulares que o diferenciam da versão originalmente
francesa, talvez seja ainda mais correto dizer que se trata de uma
contribuição religiosa tipicamente brasileira ao enfrentamento da morte.
Esse não é, certamente, o único elemento definidor do Espiritismo, mas é
dos mais fundamentais, e nos ajuda a iluminar uma série de questões
suscitadas pelas práticas espíritas e seu sentido na vida dos participantes.
É o que nos auxilia a entender, entre outras coisas, o motivo de milhares de
adeptos e não adeptos do Espiritismo terem buscado nas psicografias de
Chico Xavier, durante anos, um consolo para a perda de seus entes queridos
(Souto Maior, 2003).
A influência do grupo é fundamental e marcante em todos os trabalhos
mediúnicos. Desde o início, todo o processo é grupal: seja na aplicação

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dos passes, no revezamento das leituras, preces e reflexões ou na


doutrinação. O trabalho de assistência espiritual não visa apenas os
frequentadores; é um trabalho de cura para os próprios médiuns, os quais
afirmam isso nas entrevistas. Trata-se, portanto, de trabalho que abrange
toda a comunidade. Nesse contexto, questões individuais e coletivas se
fundem, e a ajuda ao próximo reverte-se em ajuda a si próprio. Como disse
certa vez um dos frequentadores, as sessões mediúnicas não seriam outra
coisa que um “pronto atendimento” (sic), assemelhando o contexto religioso
a um hospital. Um elemento curioso dessas reuniões é o modo como o
doutrinador - aquele que conversa e aconselha os “espíritos inferiores” a se
redimirem de seus erros - trata carinhosamente o médium.
De fato, é importante salientar que há muito carinho em todo esse
processo, conquanto os doutrinadores não necessariamente toquem os
médiuns ou os visitantes. Em várias dessas sessões, identificamos
momentos nos quais, para convencer o espírito a aceitar a ajuda do “plano
espiritual”, os doutrinadores empregavam palavras carinhosas – faladas,
às vezes, ao pé do ouvido – de encorajamento, consolo, alento, orientação
etc. Uma vez que a dimensão do cuidado e do acolhimento desempenha
um papel significativo nesses encontros, são necessárias pessoas dispostas
a oferecer tais características pessoais em prol do trabalho a ser realizado.
A médium C. nos diz que se pudesse “apalpar” os espíritos, ela os pegaria
no colo, abraçaria e daria carinho. Assim, as atividades no centro buscam
preencher certas lacunas individuais e afetivas, mediante um trabalho de
acolhimento e continência de emoções difusas ou impulsivas. Faz-se
relevante mencionar que dos 11 participantes entrevistados, 10 passaram
por algum tipo de experiência de rejeição ou indiferença afetiva por parte
dos pais na infância, e 7 relataram ter passado por tratamento psicológico
ou psiquiátrico em algum momento da vida; uma das médiuns, inclusive,
permanecia recebendo atendimento para transtorno de pânico na ocasião
da nossa entrevista (E.O, 60 anos). Também foram relatados casos de
educação rígida ou repressora e alcoolismo na família. A relação entre crença
/ experiência paranormal e experiências traumáticas (abuso físico ou sexual,
alcoolismo dos pais, experiências de rejeição parental etc.) tem sido também
encontrada em outras pesquisas (Irwin, 1992; Perkins & Allen, 2006; Wright,
2009; Rabeyron, Chouvier & Le Malefán, 2010). As queixas relacionadas à
procura por psicoterapia variavam desde situações de luto até problemas

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familiares e experiências recorrentes e perturbadoras de “visões”, terrores


noturnos e outras vivências semelhantes, como no caso da médium M.J (48
anos). Suas visões realistas, bem como as experiências noturnas
perturbadoras em que acordava falando ou gritando, tornavam urgente para
ela a procura de auxílio. Quando mais nova, chegou a ser internada pela
mãe para tratamento psiquiátrico. No centro, ela aprende a controlar e a
dominar parcialmente suas manifestações, mediante o exercício constante
das atividades sugeridas e de sua participação nos cursos e reuniões
mediúnicas. Não raras vezes, pessoas como M.J foram vítimas da
discriminação e desconfiança alheias quando desejaram relatar a terceiros
as suas vivências. Temiam não apenas a repreensão e o julgamento da
família, como da sociedade mais ampla. Desde cedo se habituaram a não
relatar aquilo que viam, ouviam ou sentiam como diferente. No centro, muitos
dos nossos participantes desempenham um papel social reconhecido e
valorizado, ao invés de reproduzirem preconceitos e estereótipos ainda
maiores do que os que pesavam sobre eles antes de sua conversão a uma
doutrina religiosa. Talvez resida aí, inclusive, o motivo de algumas dessas
pessoas terem preferido formas de tratamento religiosas ao invés de
recorrerem a instituições e profissionais de saúde mental.
Em diversos momentos, pareceu-nos que as experiências infantis de
rejeição narradas pelos médiuns eram revividas e compartilhadas no centro,
como quando se referiam carinhosamente a um “mentor espiritual” cuja função
era claramente materna ou paterna em relação a eles. Uma das médiuns
(A.M, 57 anos) afirmou, por exemplo, que “o meu maior problema interior
sempre foi com a minha mãe, e o Espiritismo me ajudou muito nisso”
(sic), e adicionou que seu espírito mentor “passava uma coisa assim de
pai, de uma ternura muito grande” (sic), tal como ocorria na relação com
seu próprio pai, cuja morte lhe fora muito dolorosa. Quando uma das médiuns
observadas em uma sessão chora copiosamente e diz: “quero voltar para
casa, quero ver minha mãe” (sic), sem nos fornecer depois qualquer outra
informação sobre o suposto espírito que estaria recebendo, estamos,
provavelmente, diante de um fenômeno regressivo, em que certas angústias
e medos infantis – geralmente encobertos nos indivíduos adultos – podem
adquirir expressão apropriada, bem como aceitação e direcionamento.
Embora tais experiências possam certamente ser explicadas, algumas

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vezes, como desempenho de papéis sociais esperados (Zangari, 2003),


não devemos olvidar, igualmente, seus ganhos emocionais e psicológicos.
Não raro, ao final do trabalho, os participantes relatavam sentimentos
de bem-estar, paz ou alegria, decorrentes da atividade realizada (after-
effects). Nos desenhos e psicografias dos participantes, encontramos
evidências da projeção de conteúdos conflituosos, permitindo algum
confronto e elaboração. No caso do desenho, este parece desempenhar
mais uma função catártica e relaxante do que propriamente estética. A
médium I.Z (50 anos) nos relata que seu trabalho de pintura no centro “é
uma descarga, um porto seguro, porque eu vou lá pra me soltar” (sic). Mas
o caso mais ilustrativo a esse respeito é o da médium S. (50 anos). Primeiro,
é importante notar como a entrevistada relaciona, por vezes, seus próprios
sentimentos à alegada influência de espíritos, como sua raiva em relação à
sogra: “[...] Eu ficava nervosa, e quanto mais eu ficava com pensamento
ruim, parece que mais as entidades ruins vinham pra mim”; “[...] Uma vez
a minha mãe falou pra ela [sogra] tomasse cuidado que eu era bem brava”
(sic). S. sente então a necessidade de um momento seu, em que possa se
desvencilhar, mesmo temporariamente, das preocupações familiares,
momento propiciado pela atividade religiosa: “[...] Porque eu necessito
descarregar. Quando eu venho aqui na quarta-feira, eu não vejo a hora de
vir” (sic). As cores não são exatamente empregadas com o intuito de colorir
a imagem, mas de veicular uma determinada emoção ou cumprir com uma
função apaziguadora. O vermelho, por exemplo, “é pra desligar um
pouquinho... as coisas velhas [...] do passado”. Já o amarelo é “muita força”
(sic), o verde é “calmante” etc. Embora o mecanismo psicológico específico
envolvido na veiculação de emoções por meio das cores seja ainda
desconhecido, sabe-se que elas podem realmente produzir determinados
estados emocionais (Dudley, 2000). O mesmo ocorre com outros aspectos
do desenho: linhas, formas, pressão do lápis sobre a folha, agilidade e
rapidez da mão. Os “rabiscos”, as linhas entrecruzadas e desordenadas
geralmente representam, para a médium, “gente desequilibrada” ou “muito
perturbada”, ou então “problema de crianças anormais”. Quando o desenho
é “leve”, isto é, quando a produção não ocorre de forma caótica e
desgastante para ela, é porque foi feita por uma “criancinha” etc.
A interpretação espiritual das manifestações depende muito, portanto,
do estado emocional da participante no momento em que realiza o desenho

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ou a psicografia, bem como de seus referenciais religiosos. Ao expressar


suas emoções difusas pelo desenho, S. pode entrar em contato com elas,
modelando-as de acordo com suas crenças. Nos desenhos espontâneos
que a médium faz durante as sessões, encontramos muitas formas circulares,
semicirculares e quadriláteras dentro das quais ela afirma ver alguém em
busca de ajuda. As mandalas e as figuras quadriláteras, segundo Jung (1950/
2000) seriam representações plásticas da totalidade psíquica. A elaboração
desse tipo de figuras, sob circunstâncias específicas (como os estados
dissociativos), configuraria um meio instintivo de integração frente ao caos
e à desordem emocionais. Vê-se, destarte, que essas atividades parecem
providenciar a expressão de conteúdos inconscientes, bem como, ao
mesmo tempo, certos recursos de enfrentamento e integração.
Não obstante, cabe mencionar que as práticas dissociativas de
natureza religiosa podem também comportar riscos. Notou-se, em alguns
casos, que a adesão extremada aos princípios doutrinários tendia a recair
na mera reposição de papéis socialmente esperados e no exercício de
controle ‘repressivo’ dos aspectos indesejados ou incompatíveis com os
valores espíritas. Há uma tendência a se evitar a divergência, e uma busca
por criar um ambiente sempre harmonioso e equilibrado, o que acaba
gerando ansiedade e, em certas ocasiões, intrigas e desavenças não
totalmente assumidas (por vezes implícitas em psicografias e outras
manifestações, que acabam por servir como meio de comunicação e
interação alternativo entre membros do centro). Nesses momentos, a
instituição pode estar a serviço não tanto do desenvolvimento individual de
seus membros, como da sua própria manutenção ou reprodução ideológica
– isto é, da manutenção da ideologia religiosa espírita.
Em nossa pesquisa, conseguimos identificar seis mecanismos de
reposição institucional nos dois centros investigados: 1) a disciplinarização;
2) a introjeção com personificação; 3) o encorajamento; 4) a autoria oculta;
5) a doutrinação da sombra e 6) a exclusão. Vejamos cada um deles,
separadamente.
1) Disciplinarização: Ao analisarmos as muitas etapas que
caracterizam o desenvolvimento mediúnico, tivemos uma visão detalhada
sobre como os médiuns são treinados no controle das manifestações
mediúnicas. Em geral, eles não podem escrever, desenhar ou fazer outra
coisa, durante a sessão, que envolva algum tipo de ofensa aos demais –

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palavrões, expressões obscenas, atitudes escandalosas, pensamentos


“negativos” etc. – ainda que surja semelhante vontade. Também não costuma
ser bem vindo o intercâmbio frequente com parentes e amigos falecidos,
conhecidos dos participantes ou de terceiros; tal postura poderia
eventualmente atrapalhar o rendimento de outras atividades do centro, e
pouco ajudaria os encarnados a aceitarem a necessária ausência dos que
já cumpriram sua missão na Terra. Tais dados revelam como a manifestação
mediúnica é condicionada e regrada, não sendo toleradas ainda expressões
que contrariem os valores cristãos – ex: comunicações que incitem o orgulho
dos médiuns etc. Nas sessões de doutrinação e desobsessão, há
procedimentos específicos a serem respeitados durante os trabalhos.
Em um dos centros pesquisados, cada médium podia receber até
três comunicações espirituais por vez. Quando essas manifestações se
davam simultaneamente entre os médiuns, eram tolerados até três médiuns
falando juntos (no caso de mensagens psicofônicas; psicografias não se
aplicam, pois podem ser realizadas em silêncio). Se mais um médium estiver
participando e “sentir a presença de um espírito”, deve se controlar. Além
desses procedimentos, os palestrantes se referem a certas maneiras pelas
quais o médium pode manter-se em estado de concentração, e os
comportamentos dele ou do dirigente da sessão que devem ser evitados
para não distraí-lo e atrapalhar a obtenção adequada das comunicações.
Percebe-se, por meio de tais recomendações, o quanto a mediunidade
se efetua na constante mediação entre treino e improviso. Os meios básicos
de controle das manifestações dissociativas são previamente fornecidos
ao longo do próprio aprendizado dos médiuns, resultando, inicialmente, de
um conhecimento adquirido com a prática e passado adiante, para os
iniciados, como norma geral. Tal sistematização pode mesmo ocasionar
certa monotonia, como em certos médiuns veteranos que, após anos
trabalhando no centro, queixam-se do fato de suas comunicações
mediúnicas serem “muito parecidas umas com as outras” (sic). Essa retenção
da espontaneidade nas manifestações, e a recorrência de comunicações
mais estereotipadas, podem muito bem ser entendidas como resultado da
atuação de um rígido mecanismo institucional de disciplinarização, que
busca impedir eventuais desvios da norma, recaindo, assim, na mera
reposição dos papéis esperados pelo grupo. A despeito de o intuito inicial
da disciplinarização ser o de conferir certa ordem aos trabalhos, ela pode

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também restringir a criatividade, criando uma atmosfera ansiógena na qual


é vedada qualquer tentativa ousada de inovação. Em alguns casos, quando
um participante age de forma inesperada ou espontânea, tende-se a reprimir
o quanto antes o comportamento divergente, recorrendo-se a procedimentos
usuais, ou chamando a atenção do médium para a necessidade do controle:
Ao invés de suas reproduções de vasos de flores ou rostos, (F) tentará
produzir também um quadro mais abstrato; enquanto pinta, seus
movimentos são intensos e assustam I.Z e V.A, que procuram conversar
com ele ou lhe aplicar passes, aproximando-se dele. F pressiona com
força os tubos de tinta e faz fortes movimentos com a mão, atirando a tinta
na tela. O resultado disso é que se verificam no quadro várias formas
redondas e manchas de variadas cores, reunidas num fundo colorido
disforme. [...] Ao final da sessão, quando perguntado sobre o que sentia, F.
alega ter sentido “muita energia, muita força” (sic), e quis expressar essas
sensações de algum modo. Via muitas cores, sobretudo, a cor amarela,
que aparecia com frequência. Como os tubos de tinta eram velhos, a tinta
não saía com facilidade e isso impulsionava F ainda mais para pressioná-
los com força. [Relatório 6]
O exemplo acima ilustra a dificuldade em tolerar, algumas vezes,
manifestações mais intensas e possivelmente caóticas, ou qualquer situação
de aparente descontrole ou contestação das normas instituídas, movimentos
que são logo absorvidos pela doutrina de modo a serem “tratados”,
“doutrinados” etc.
2) Introjeção com personificação: Um dado interessante na fala de
alguns entrevistados é a forma como se dirigem a si próprios, tal como se
estivessem assumindo o papel de outra pessoa. A médium S. chega a se
referir ao seu próprio nome: “[...] Mas a gente sempre, S, tem que lembrar,
quando você for criticar alguém, lembra se você também não era assim”.
Em outro momento, ela diz repentinamente: “Peraí, o julgamento S.!”. A
médium V. também nos relata experiências parecidas, em que visualiza
dois estados internos distintos: seu estado corriqueiro, usual, e outro estado
mental que a orienta e “sinaliza”. Este último aspecto ou faceta pode ser
interpretado como o próprio conjunto dos valores espíritas introjetados, que
passam a dirigir o indivíduo em suas decisões. Esse processo de introjeção
e consequente divisão interna – não patológica – da identidade é um produto

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da identificação com a doutrina e, ao mesmo tempo, a base dos processos


ulteriores de organização psíquica e controle dos impulsos, bem como das
personificações de “mentores espirituais”. Sob a figura destes, o sistema
de crenças controla o processo de tomada de decisões, agindo no indivíduo
de modo pessoal e relativamente autônomo. Tais personificações têm,
geralmente, um caráter moralizador, protetor e, em alguns casos, punitivo –
como o espírito Emmanuel de Chico Xavier (Souto Maior, 2003). Em suas
psicografias, S. afirma inclusive receber “broncas” e advertências dos
espíritos, quando ela age de maneira considerada incorreta frente aos valores
espíritas. A própria entrevistada reconhece que seu “senso crítico é ferrado”
(sic).
As características citadas lembram o conceito freudiano de superego.
Segundo a teoria psicanalítica, com o declínio do complexo de Édipo, a
imagem idealizada dos pais transforma-se em imagem ideal de si mesmo,
base de todo ideal humano. Por sua vez, a função paterna transmuta-se, no
interior do ego, em uma instância voltada a exercer as mesmas atividades
de punição, repreensão e consciência moral desempenhadas, inicialmente,
pelos pais da criança. O superego pode ser definido, assim, como o conjunto
dos valores morais e sociais internalizados a partir da relação idealizada
com os pais, cuja manutenção posterior será levada a cabo pela autoridade
do ensino religioso, da educação escolar e da leitura. Segundo Freud (1923/
1987, p. 47) uma das principais formas de expressão do superego é o
imperativo categórico. Há certa aproximação entre tais afirmações e o que
nós vimos antes sobre a importância das figuras parentais nas filiações
religiosas de alguns participantes. É possível, destarte, que o mecanismo
de identificação com a doutrina repouse em identificações prévias com os
pais, e seja, sob esse aspecto, uma construção que se faz sobre
identificações mais antigas, aproveitando-se delas, porém, modificando seus
conteúdos. Ademais, a função de controle dos impulsos exercida pela
identificação com a doutrina é, em muitos aspectos, bastante parecida com
o controle exercido pelo Superego em relação ao Id freudiano. Não nos é
necessário aqui aceitar o sistema psicanalítico in totum para levantarmos
essas associações; basta compreendermos o papel das figuras parentais
na formação de determinadas imagens, crenças e comportamentos
religiosos, papel esse salientado por Freud a partir de seu próprio referencial
teórico. Sob a luz dessas contribuições, podemos especular que a regressão

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à infância, promovida pelas atividades do centro, atua não só resgatando


potenciais e outros conteúdos pouco explorados ou reprimidos, como
também serve de apoio aos mecanismos institucionais de controle, mediante
processos psicológicos de substituição das figuras parentais pelas figuras
religiosas.
3) Encorajamento: Logo que um participante começa a frequentar as
reuniões, ou quando se forma um novo grupo de trabalho mediúnico, é
preciso que certas medidas previnam os integrantes de desistirem das
atividades, mantendo o grupo integrado e motivado. É aí que surgem
mensagens mediúnicas de encorajamento e força estimulando os membros
para a tarefa a ser cumprida, o que constitui outro importante mecanismo
de manutenção ideológica e institucional. São nas psicografias recebidas
pela médium E.O que encontramos os melhores exemplos. E.O trabalhava
em um grupo de caridade – denominado “samaritano” – e antes de
realizarem as doações, reuniam-se para as preces, leituras etc. Eis uma
das mensagens recebidas por ela no início da formação do grupo.

Gomes, escute, querido, a voz do coração


Sejas humilde que o amor virá por emoção
Marlene olvide seu sofrimento agora
A beleza de seu perdão você sentirá sem demora
Lisete, amiga do peito e dos cabelos dourados
Veja os velhos, os pobres e seu amor será dobrado
E.O nem pense em sofrimento
Sua paz e sua luz se fará por entendimento
Airton, é peça fina nessa engrenagem
Tanto amor e tanta paz e que tamanha humildade
Miguel, brincalhão, mas gosta de estudar
Continue amigo, o trabalho sempre aparece pra quem sabe lutar
Já estivemos juntos, Marlene, trabalhando
Na fé e na bondade você continua ganhando
Sônia, não se desgaste outra vez
Trabalhe, trabalhe e aprenda de vez
Nascimento, nem vou te contar
O segredo é nosso e só contarei quando chegares do lado de cá
Muita paz e luz. 5.3.89

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Na mensagem acima, encontramos referências explícitas aos nomes


dos integrantes. Inteligentemente, a mensagem não só encoraja e instrui os
desmotivados, como também elogia os mais devotados ao trabalho.
4) Autoria oculta: Nos dois centros espíritas investigados, muitas das
produções mediúnicas permanecem anônimas, sem assinatura do suposto
autor espiritual. Esse estado de coisas parece oferecer a oportunidade aos
participantes – quer consciente, quer inconsciente – de expressarem ideias
ou opiniões que hesitariam divulgar sob circunstâncias mais diretas. Mesmo
quando se atribui um nome ao autor ‘espiritual’ da mensagem, isso ainda
não constituiria um efetivo impedimento ao uso das personificações de
espíritos como pretexto para a veiculação de informações cuja verdadeira
origem é o próprio médium. Levantamos, assim, a hipótese de que a
mediunidade pode servir, algumas vezes, como veículo do reprimido na
relação grupal-transferencial, assumindo a função de restaurar, numa
linguagem muitas vezes polida, cordial e benevolente, adequada à doutrina,
o discurso do não assumido. Ela atuaria nesses casos como um meio
estratégico de comunicação adaptado aos preceitos doutrinários, uma
linguagem do apaziguamento, contrária a um conflito que revolucione a
ordem estabelecida. Dessa forma, a discussão aberta sobre temas
conflituosos – não estabelecida diretamente na relação entre os participantes
– acaba sendo mediada pelos processos de mediunidade, constituindo uma
peculiar estratégia de comunicação grupal. As mensagens do ‘mentor
espiritual’ do médium C.A.B., em uma das sessões observadas, poderiam
muito bem se enquadrar nessa perspectiva.
Ao final dos passes e da palestra, inicia-se efetivamente a reunião
mediúnica. Como estava escuro, (E) denotou dificuldade para ler, e o médium
C.A.B tentou ligar uma luz de celular sobre o livro para facilitar a leitura. O
doutrinador E, um tanto rispidamente, recusou a ajuda, ordenando que C.A.B
se concentrasse e se preparasse para a atividade mediúnica, empurrando
com certa força o seu braço. Parecia temeroso de que a atividade se
desorganizasse de algum modo ou que o ambiente sereno, escuro e
embalado por uma música relaxante ao fundo fosse perturbado.
A terceira manifestação de C.A.B é a de um mentor espiritual que
encerra os trabalhos do dia com seus comentários [psicofonia]. Como de
costume, agradece a Deus por todo o trabalho realizado e profere algumas
exortações morais. Dentre seus comentários, fala sobre “pessoas que tem

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azia e odores mal cheirosos na boca” (sic) e os convida a buscar a melhora


de si mesmos, de sua alimentação e de seus hábitos de vida. Exorta também
“os queridos irmãos, para serem mais gentis e se acautelarem para não
perderem a paciência com os demais neste trabalho em que tal sentimento
é tão fundamental” (sic).
Ao invés de o indivíduo expressar a outro aquilo que efetivamente pensa
ou sente de seus hábitos de vida ou de seu mau hálito, ele prefere dizê-lo
resguardando-se sob o manto da mediunidade, ao deslocar a
responsabilidade para um ‘outro’ (um espírito). Algo parecido se poderia
afirmar sobre as exortações quanto à necessidade de gentileza e paciência:
referem-se, provavelmente, ao modo ríspido com que o doutrinador E se
dirigira pouco antes frente ao próprio médium C.A.B, durante a leitura que
precedeu o início da reunião mediúnica. Sem lhe dizer diretamente o que
sentia de seu comportamento, C.A.B falou à E pela voz dos espíritos.
Encontramos exemplos interessantes também nas psicografias e
psicofonias de “mentores espirituais”. Na quarta sessão em que participamos
em um dos centros, as mensagens de duas participantes, C.A e S, traziam
temas relacionados justamente à postura dos médiuns na reunião – talvez
por conta da tensa discussão ocorrida entre outros dois membros, R.O e A.
nesse dia. A médium S. nos explica que às vezes surge a vontade de
transmitir recomendações aos outros participantes, inspiradas pelo ‘plano
espiritual’, algo que ela evita fazer, com receio de alguma retaliação. Ela
chega inclusive a admitir a autoria de algumas mensagens. Nesse sentido,
percebemos certa confusão em seu discurso; ao mesmo tempo em que
reconhece ter sido ela a responsável por parte das produções, também
afirma pedir aos espíritos para que ela “esqueça” ou “apague” da mente,
em momento posterior, alguma mensagem dirigida a uma pessoa específica.
Tal forma de solucionar as intrigas mal resolvidas, apelando a
mensagens ocultas, tende a não ser eficaz, e vai aos poucos minando o
trabalho realizado dentro do grupo. Decorridos alguns dias da sessão
supracitada, S. e I.Z conversavam a respeito das reuniões do grupo na
entrada do centro, e tanto uma quanto a outra se mostraram desanimadas.
I.Z pretendia inclusive deixar o grupo no semestre seguinte (algo que
efetivamente ocorreu). Na sessão posterior, R.O e (A) faltaram aos trabalhos
sem terem se posicionado com antecedência acerca do motivo da ausência

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– como é de seu costume – o que pode ter resultado dos acontecimentos


calorosos da última sessão.
5) Doutrinação da sombra: Quase todas as escolhas que um indivíduo
faz ao longo da vida são laterais, porque excluem muitas outras
possibilidades e caminhos. Dentre as várias opções disponíveis, muitas
talvez sejam interessantes, mas só uma ou poucas poderão prevalecer.
Quanto mais o indivíduo se apegar a uma dada posição, considerando-a
superior, ele acreditará estar com a certeza, e livre de qualquer dúvida. As
inquietações que por ventura o estimulem a pensar de forma contrária serão
logo rejeitadas por ele ou duramente combatidas. Porém, elas não irão
embora; continuarão instigando-o a seguir rota alternativa, enquanto ele se
dedica a esconjurá-las e desbancá-las. Jung chama a esse processo de
compensação inconsciente.

Algo semelhante acontece com as pessoas que passam de uma religião


para outra. Aqueles que se convertem do protestantismo para o
catolicismo possuem, reconhecidamente, uma tendência para o
fanatismo, pois não abdicam por completo de sua fé protestante. Esta
desparece no inconsciente, agindo continuamente como um estímulo
contrário ao catolicismo recente. É por isso que os novos convertidos
se sentem compelidos a defender com fanatismo a fé adquirida. [...] A
maneira curiosa como essas influências compensatórias irrompem na
consciência explica-se, em primeiro lugar, pelo fato de que elas precisam
lutar contra as resistências existentes, apresentando-se, por isso, de
forma bastante distorcida para o paciente. Em segundo lugar, essas
influências só conseguem se manifestar na linguagem do inconsciente,
ou seja, por meio do material inconsciente cuja natureza é muito
heterogênea. Isso ocorre porque tudo aquilo que não tem mais valor
para a consciência ou não se lhe aplica adequadamente se torna
inconsciente. (1914/1986, p.192)

Uma forma de lidar com essas compensações é a de personificá-las,


projetando nelas todas as opiniões contrárias à atitude consciente do
adepto, para depois dialogar com as personificações tentando convencê-
las de seus equívocos. É exatamente o que parece ocorrer nas sessões de
doutrinação e desobsessão. Nelas, os médiuns frequentemente recebem
entidades que são contrárias às concepções espíritas, e que inclusive

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discutem com os doutrinadores, deixando-os, não raras vezes, em grande


dificuldade. Chamaremos a essas tentativas de convencimento dos espíritos
de doutrinações da sombra porque, de um ponto de vista psicológico, trata-
se, na verdade, de um singular mecanismo institucional visando identificar
e trabalhar possíveis complexos desviantes e compensações inconscientes,
mecanismo por meio do qual as dúvidas e inquietações dos médiuns quanto
à sua própria fé podem ser apropriadamente dissipadas e ‘doutrinadas’,
mediante a projeção de tais conteúdos nas personificações de espíritos
obsessores a serem convertidos.
Uma médium manifesta dois espíritos: o primeiro quer saber onde
está. Permanece, durante todo o tempo, numa postura curvada, a cabeça
abaixada, a voz grave e rouca, mostrando agressividade. Diz para a
doutrinadora que “aqui só falam besteira, vocês ficam perdendo tempo com
isso!” (sic). A entidade afirma, ainda, que veio para buscar ajuda para suas
dores, e aceita receber ‘remédio’, cessando a manifestação logo após.
[Relatório 5]
Noutra situação, a médium começa a tossir bastante e age como se
estivesse com pigarro na garganta e dificuldade de respirar; acusa o centro
de ter sido culpado por estar assim. A doutrinadora, tal qual antes, tenta
esclarecer a situação, orienta o espírito, e aplica passes. O espírito vai
lentamente se acalmando e a tosse diminuindo. A médium retorna ao seu
estado habitual [Relatório 7]
O “remédio” ao qual se referem os espíritos é justamente a doutrinação.
Aceitar o remédio é aceitar a conversão às crenças espíritas, diminuindo o
grau de resistência.
6) Exclusão: em certos casos, nos quais o participante apresenta
divergências significativas em relação à doutrina, bem como dificuldade
prolongada para se ajustar às normas instituídas, suas opiniões passam a
incomodar e a representar uma ameaça à estabilidade do grupo. Pode-se
tomar a decisão então de excluí-lo, pedindo para que se retire. Na verdade,
tivemos apenas um caso nesse sentido – o da médium S. – que não chegou
efetivamente a termo, uma vez que a participante acabara por se adaptar,
mostrando-se depois aberta e receptiva. S., entretanto, não deixou de manter
para si suas convicções. Suas críticas ao modo como são conduzidas certas
atividades no centro são, algumas vezes, bastante sérias. Ela se refere,
entre outras coisas, a uma “desunião” e a uma “falta de confiança dos

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dirigentes do grupo”. Refere-se ainda à preferência que se dá para certos


tipos de mediunidade em detrimento de outras: “o que eles acham mais
importante é a psicofonia. É você chegar lá na tribuna e falar bonito. Já deu
pra mim sentir isso também” (sic). S. tentou trazer suas ideias para discussão
com os demais, mas não obteve apoio: “eu já falei, já expliquei isso pra eles
também o que eu penso, né. Agora, não fui muito assim bem recebida, né”
(sic). De fato, nas reuniões em que participamos, pudemos observar a
tendência do grupo em desvalorizar as opiniões de S., dando-lhes pouca
atenção. Em uma conversa particular que o pesquisador teve com S., em
março de 2010, esta última lhe confessou que havia recebido dos colegas
de sala ou de dirigentes do centro a recomendação para deixar a casa e
não mais participar das atividades. Seu comportamento foi considerado
tão impróprio que quase conduziu à sua expulsão do centro.
É bem provável que, dado seu caráter extremado e possivelmente
nocivo à imagem da instituição, o mecanismo de exclusão seja muito
raramente empregado. A exclusão parece depender do agravamento de
etapas preliminares, as quais prenunciam já algum desagrado ou divergência
dentro do grupo, passível de culminar, mais tarde, no afastamento da pessoa
considerada incômoda ou inoportuna. Conquanto as rivalidades entre os
integrantes sejam ocultadas, em nome da boa ordem ou do equilíbrio do
“ambiente espiritual”, elas tendem a se revelar, indiretamente, nos gestos,
trejeitos, olhares e rápidos comentários trocados entre si.
Encerramos aqui, por ora, nossa relação de mecanismos e estratégias
institucionais utilizados na reprodução da ideologia espírita. É possível que
os pesquisadores interessados encontrem outros tipos, dependendo do
contexto a ser analisado; em razão disso, não acreditamos ter esgotado o
assunto. Nosso intuito foi muito mais o de mostrar como esses mecanismos
podem iluminar a compreensão das interações psicossociais que se dão
nesse contexto, bem como a utilização que o centro faz da própria
psicodinâmica de seus membros para produzir as chamadas manifestações
mediúnicas. Os mecanismos de reposição são, ao mesmo tempo,
mecanismos de controle, por meio dos quais o centro visa garantir sua
própria continuidade e a sobrevivência da doutrina espírita. Devemos
lembrar, contudo, que não se trata aqui de estratégias de uso deliberado e
intencional, mas muito mais de processos culturais implícitos.

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4. Conclusão
Estamos cientes de contar com um número pequeno de casos, e uma
amostra bastante específica em termos de idade, gênero e condição
socioeconômica (maioria pertencente à classe C). Parte da evidência
encontrada que poderia ser explicada de outro modo, e talvez a evidência
para certas hipóteses seja pouca ou insuficiente. São hipóteses de difícil
demonstração objetiva, fadadas como estão às extensas discussões sobre
motivações inconscientes, mas razoáveis, frente às circunstâncias
consideradas e ao referencial teórico adotado, bem como úteis a muitos
dos que comungam da prática clínica na Psicologia, na Psiquiatria ou na
Psicanálise, quer quanto ao diagnóstico diferencial dessas experiências,
quer quanto ao entendimento da eficácia terapêutica de tais práticas sociais.
As especulações psicodinâmicas – também empregadas em outras
pesquisas, por diferentes estudiosos – tem auxiliado a compreender vários
dos fenômenos que se dão em contextos religiosos (Rabeyron, Chouvier &
Le Malefán, 2010). Nosso estudo teve a vantagem de se basear, para tanto,
em uma abordagem qualitativa aprofundada, e os resultados apresentados
aqui, constituem apenas um resumo de alguns dos achados obtidos. Não é
ocioso mencionar, de modo a zelarmos pela imparcialidade, que as
manifestações por nós observadas eram de caráter genérico, e em nada
sugeriam a presença de alguma comunicação ou capacidade extra-
sensório-motora por parte dos médiuns (Machado, 2009). Embora convictos
da parcialidade de nossos argumentos, convidamos os pesquisadores
interessados a tentarem explicar de outro modo as evidências colhidas.

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• Estimulação Lúdica ao Desenvolvimento de Crianças com


Deficiência Visual na Primeira Infância
Ludic Stimulation for the Development of Children with
Visual Impairment in Early Childhood
La estimulación lúdica en el desarrollo de niños con
deficiencia visual en la primera infancia
Silvana Maria Moura da Silva1
Universidade Federal do Maranhão (UFM)
Maria da Piedade Resende da Costa2
Universidade Federal de São Carlos (UFSCar)

Resumo: Esta pesquisa, de natureza quanto-qualitativa, analisa os procedimentos


e a eficiência da estimulação por eles efetuada no lar, em crianças pequenas,
quase cegas, isto é, com resíduos visuais. Suas mães são treinadas para esta
atividade, em sessões demonstrativas com a criança, durante um período de
seis meses, duas vezes por semana. Kits de brinquedos são adaptados ao
resíduo visual e às condições do desenvolvimento das 6 crianças estudadas, na
primeira infância. São elas avaliadas na amplitude visual e no desenvolvimento
neuromotor, antes e depois do treinamento. Os resultados mostram-se efetivos
para a mãe e para a filha, o que foi auxiliado também por acessibilidade no
ambiente do lar. Os brinquedos adaptados inéditos e proveitosos.

Palavras-chave: Família, deficiência visual, primeira infância, estimulação.

Abstract: This research, of quanti-qualitative nature, analyzes the procedures


and efficiency of stimulation performed at home, in small children almost blind,
that is, with visual residues. Their mothers are trained for this activity, in
demonstrative sessions with the child, during a time period of six months, twice a
week. Kits with toys are adapted to the residual vision and the development
conditions of the six children studied, in early childhood. They are evaluated in
the visual range and neuromotor development, before and after training. The
results show to be effective for the mother and daughter, which was also aided by
accessibility in the home environment. The adapted toys were brand new and
fruitful.

Keywords: Family, visual impairment, early childhood, stimulation.

1
Pós-Doutorado pela UFSCar. Docente do Mestrado em Educação na UFMA. Contato: Av. dos
Portugueses, S/N. Campus Universitário do Bacanga. São Luís-MA, Brasil. CEP 65085-580.
Tel: (98) 33018172. E-mail: smouraufma@yahoo.com.br
2
Doutora em Psicologia pela Universidade de São Paulo. Docente do Programa de Pós-
Graduação em Educação Especial da UFSCar. Contato: Rodovia Washington Luiz, Km 235 -
Caixa Postal 676 CEP 13565-905 - São Carlos-SP, Brasil Tel: (16) 3351-8487. Tel/Fax: (16)
3351-8357. E-mail: piedade@ufscar.br 453
Bol. Acad. Paulista de Psicologia, São Paulo, Brasil - V. 32, no 83, p. 453-470

Resumen: Esta investigación de tipo cualitativa-cuantitativa, analiza los


procedimiento y la eficacia de la estimulación en el hogar, en niños pequeños,
casi ciegos, es decir con residuo visual. Las madres son entrenadas/capacitadas
para esta actividad, en sesiones demostrativas con el niño, durante un periodo
de seis meses, dos veces por semana. Kits de jueguetes son adaptados al
residuo visual y a las condiciones de desarrollo de los 6 niños estudiados, durante
la primera infancia. Éstos son evaluados en aspectos como amplitud visual y
desarrollo neuromotor, antes y después del entrenamiento. Los resultados
muestran ser eficaces en la madre y el hijo, siendo facilitado también por la
accesibilidad del ambiente en el hogar, los juguetes adaptados inéditos y
provechosos.

Palabras claves: Familia, deficiencia visual, primera infancia, estimulación.

1 – Introdução
Várias razões justificam o desenvolvimento deste trabalho. Uma das
principais é a de que a maioria dos conhecimentos adquiridos pelo ser
humano, é obtido através da visão. Autores como Cobo, Rodrigues e Bueno
(2003), confirmam esta assertiva. Vem de vários anos o reconhecimento de
que esta modalidade sensorial é a mais importante e necessária para o
desenvolvimento da criança (Hyvãrinen, 1988; Knobloch & Passamanik,
1990; e Alvez & Kara-José, 1996).
Trata-se de um sistema altamente elaborado, ocupando o lugar mais
hierarquizado da organização neurossensorial e neuromotora (Rodrigues,
2007, p. 64-65). Atua como elemento responsável pela integração das
experiências neuromotoras dos demais sentidos. Portanto a sua ausência
e deficiência não se restringem apenas ao próprio órgão, mas aos demais,
prejudicando sua integração.
Para o estudo da visão, é válido salientar que no primeiro ano de vida
ocorrem as maiores e mais rápidas transformações deste sentido, cujo
progresso se faz, gradualmente, por etapas subsequentes até as idades de
sete ou oito anos (Hyvãrinen, 1988 e Alves & Kara-José, 1996), razão porque
este trabalho se faz presente nas primeiras idades da criança.
Uma das explicações sobre esta progressão, e sendo ela mais intensa
nos primeiros anos de vida, são as transformações da maturação
neurológica. Villanova (1998) já afirmava que a estimulação externa
proporcionada à criança, na primeira infância, ajuda a impulsionar o
processo da formação das sinapses e de mielinização, importantíssimo

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para o desenvolvimento das funções visuais. Hyvãrinen (1990) antes havia


explicado que as sinapses, para sua evolução, dependem dos estímulos
externos existentes nos microssistemas nos quais a criança pequena está
inserida. Esse processo favorece as funções visuais de modo a torna-las
permanentes e vigorosas.
As considerações acima confirmam que o progresso de tais funções
depende da maturação neuronal e da experiência. A estimulação é mais
efetiva se for efetuada no período mais sensível do processo evolutivo da
criança, que são os seus primeiros anos de vida. No caso daquela com
deficiência visual (D.V.), deve-se favorece-la, nesse encontro, os estímulos
adaptados ao foco visual, a fim de obter-se os benefícios previstos (Bruno
& Mota, 2001).
Deduz-se, do referido, que a criança, com tal deficiência, deve ser
estimulada, desde bebê, a focalizar os objetos e brinquedos ajustados às
suas limitações, assim, as funções visuais podem desenvolver-se,
rapidamente, por que nelas se processam as transformações neuronais,
anteriormente referidas, dada a plasticidade cerebral existente no período
inicial da vida. Para completar, Hyvãrinen (1990), insiste como consequência
desses conhecimentos, na estimulação da visão remanescente (resíduo
visual) da criança, a fim de melhorar a acuidade visual.

2 – A criança pequena com déficit visual e a família


É evidente que a privação visual interfere na interação da criança com
sua família, a começar pelo contato “olho a olho” com sua mãe, o que,
comumente, se estabelece entre ambos. Botega & Gagliardo (1998)
apresentam estudos comprobatórios desta situação. Por isto, a influência
dos pais é decisiva no desenvolvimento integral da criança, especialmente,
com deficiência visual (DV). Quando sabem da notícia de sua criança ser
privada da visão total ou de grande parte dela, podem entrar em trauma.
Precisam lidar com a perda do filho sonhado e aceitarem-no com esta
privação. E ainda, a problemática se agrava quando o diagnóstico lhe é
dado por um profissional desavisado e no momento de nascer o bebê.
Eles, os pais, se sentirão mais aliviados quando são instrumentalizados
pelo conhecimento da reabilitação do bebê e sua participação nela. Vão
desenvolvendo estratégias de confronto, a fim de ajustarem-se à realidade
sofrida (Finnie, 2000; e Matsukura e Fernandes, 2006).

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Estas e outras razões explicam que o envolvimento dos pais é essencial


na reabilitação da criança, quer na preparação de material para este trabalho,
quer na acessibidade do ambiente do lar para a acomodação do(a) filho(a),
quer na estimulação a ele(a) por brincadeiras. A adaptação dos brinquedos
indicados aos videntes, na própria fase de vida das privadas de visão,
constitui uma tarefa agradável e fácil a ser realizada. Adaptar brinquedos
por cores vibrantes, com contrastes e luminosas; colocar asperezas
sensíveis; e selecionar o tamanho adequado à apreensão da criança, são
as principais qualidades que este material lúdico deve conter. Sempre,
naturalmente, de acordo com o diagnóstico das deficiências visuais que o
bebê apresentar, e consequentemente, os atrasos delas derivados. São
sugestões que se fazem imprescindíveis para o desenvolvimento da criança
com D.V.
Em geral, ela é educada com excesso de cuidados, quando muito
estimulada por jogos passivos, devido ao medo que os pais sentem que, a
não possuir visão normal, possa cair, rolar pelas escadas, resvalar-se nos
móveis da casa, etc., etc.
Assim, passiva e com interesses pouco desenvolvidos, a criança até
possa a desconhecer as diferentes partes do seu próprio corpo (o que foi
salientado, em 1969, por Cratty & James, citado por Bueno, 2003). Ela,
sendo pouco estimulada e nem auto estimulada, estará sujeita a apresentar
um sensível atraso neuromotor.
Para Cavalcante (1995) e também para Gonçalves e Gagliardo (1998),
os atrasos neuromotores comuns na criança com D.V se apresentam por
hipotonias das habilidades motoras grossas, como o rolar, engatinhar, e
das motoras finas, como o agarrar, encaixar, enfiar, enroscar, e abotoar. De
acordo com Hill e outros (1987, apud Bueno, 2003), tais atrasos são
decorrentes de fatores, como: impossibilidade de utilizar a visão para se
movimentar; escassas oportunidades de mover-se pelo ambiente; e
incapacidade de imitar as habilidades motoras dos seus pares, pela
impossibilidade de vê-los.
No entanto, os atrasos apresentados, em termos de habilidades
básicas, pela criança com D.V., podem ser lentamente compensados com
o tempo (Ferrel, Shaw e Deitz, 1998 apud Farias, 2004) e a efetivação de
programas de estimulação precoce poderá minimizar essa diferença e em
menor tempo (Farias, 2004). Bueno (2003) ressaltou que se essas crianças
participassem de programas de estimulação nos primeiros meses de vida,

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se os pais fossem orientados a ativa-las, apoiados nas interações, como a


de um vínculo seguro entre mãe-filho, e as estimulassem no processo
sensório-motor, o desenvolvimento delas poderá alcançar o padrão
semelhante das crianças videntes.
Se no ambiente familiar, houver inadequação ou quantidade reduzida
de estímulos, para os primeiros dois anos de vida da criança, ocorrerá um
número menor de sinapses e isso impedirá que o processo evolutivo infantil
se desenvolva a normalidade, gerando, principalmente para a criança com
D.V., atrasos significativos, ocasionados tanto pelas limitações derivadas
deste déficit, quanto pela carência de um ambiente facilitador e de
acessibilidades. Por isso, é preciso proporcionar um ambiente familiar, rico
em estimulação multissensorial, e adaptações, para que a criança possa
desenvolver-se, livremente, e que o seu resíduo visual seja necessariamente
estimulado. Aprender a usar a visão convenientemente, e integra-la as várias
informações provenientes dos outros sentidos, é uma das principais
recomendações.
Para Masini & Gasparetto (2007) a participação em brincadeiras, em
jogos corporais e nas formas adequadas de interação e comunicação com
o ambiente, pode compensar as limitações ocasionadas pela deficiência
visual. Botega & Gagliardo (1998) ressaltaram que quando os pais são
orientados por programas de estimulação visual, sentem-se
instrumentalizados por conhecerem as potencialidades de seus filhos e as
peculiaridades do seu desenvolvimento, levando-os a descobrirem o prazer
da interação e das descobertas que realizam durante o processo do
desenvolvimento. Acrescenta-se que a intervenção precoce torna-se um
recurso precioso para o processo de aprendizagem da criança deficiente
visual (p. 46).
Para Motta, Marchiore e Pinto (2008) é necessário propiciar o acesso
da criança com D.V. a materiais e brinquedos que estimulem sua visão,
que favoreçam a percepção multissensorial, e que propiciem a integração
do sentido prejudicado com os do tato, audição e outros, para promover o
seu desenvolvimento integral e diminuir, por consequência, as lacunas
derivadas da própria deficiência.
De acordo com Gagliardo & Nobre (2001), geralmente a mãe é a
responsável pelas primeiras oportunidades de experimentação e exploração
do mundo que rodeia o bebê. Para Brazelton & Nugent (1995), a figura
materna é a mediadora no desenvolvimento da criança, acompanhando-a

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nas suas primeiras aprendizagens e rotinas, garantindo segurança afetiva


em um ambiente estável e estimulador. Assim, os pais devem favorecer o
brincar e a brincadeira para sua criança com D.V., estimulando-a a utilizar o
resíduo visual que possua, para explorar e reconhecer os objetos e o
ambiente que a rodeia. Assim, seu enxergar e outras funções visuais devem
ser conhecidas pelos pais, para assim, realizarem a adaptação dos materiais
e brinquedos, além de utilizarem brincadeiras mais ajustáveis ao filho D.V..
Levar em consideração que, durante a brincadeira, ele precisa sentir o prazer
de aprender a ‘enxergar’, para que lhe sejam propiciados os benefícios
decorrentes.
Então, a construção e adaptação de materiais lúdicos poderão
contribuir para o desenvolvimento da eficiência visual, no sentido de a criança
aprender e estar motivada a usar sua visão e a utilizar outros recursos
pessoais para isso (Motta e outros, 2008). O estímulo visual deve permanecer
durante as brincadeiras, como as empregadas nas situações de rotina diária
e fazendo parte delas. Para a criança aprender a usar a visão é muito
importante que sejam colocados no seu campo visual objetos e brinquedos,
com padrões de alto contraste nas cores fortes, fluorescentes, brilhantes,
luminosas, como lanternas ou painéis com luzes coloridas e brilhantes (Bruno
& Mota, 2001).
O brincar é fundamental para toda criança, em especial com deficiência
visual porque desperta seu interesse em explorar e conhecer o mundo.
Enquanto que a vidente explora os objetos pela motivação visual, aquela
com D.V, não vendo os objetos, não expressa interesse por eles e nem são
estimuladas a manuseá-los, a não ser quando colocados em suas mãos ou
em seu foco visual. Motta, Marchiore e Pinto (2008) ressaltam que a criança
com deficiência visual precisa de ajuda até para brincar (p. 139), o que
justifica, mais ainda, a importância da adaptação de brinquedos às
necessidades e ao nível do seu desempenho. Os autores acrescentam que:

Nem sempre as pessoas com quem essas crianças interagem estão


preparadas para estimular esse brincar, de maneira eficiente. A utilização
de um brinquedo inadequado à etapa do desenvolvimento na qual ela
se encontra, pode provocar-lhe mais frustração (...). Dessa maneira,
são necessárias adaptações no brinquedo para que se torne viável.
Embora não possa existir o que se chama “brinquedo para crianças
com deficiência”, pois os brinquedos são exatamente os mesmos que

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qualquer criança usa, é necessário selecioná-los com mais cuidado,


porque precisam ser coerentes com as necessidades e o nível de
desempenho infantil (Motta e outros, 2008, p. 141).

Concordamos com Motta e outros (2008) que os pais e/ou cuidadores


são as pessoas que mais interagem e mantêm vínculo afetivo com a criança
com baixa visão, na 1ª. Infância, mas nem sempre estão preparados para
estimular esse brincar, de maneira eficiente. Por esse motivo, precisam ser
orientados quanto ao uso dos brinquedos adaptados à baixa visão e às
necessidades do filho com esse problema visual, para minimizar-lhe os
atrasos decorrentes e favorecer-lhe independência e autonomia. Também
os próprios pais são beneficiados com esta atividade.
Segundo Siaulys (2005) os pais e profissionais precisam compreender
o mundo sem visão, para que colaborem com a aprendizagem das crianças
com D.V., através da interação e facilitar-lhe sua convivência na própria
família, escola e comunidade em geral. Reafirmando a importância da
brincadeira, Siaulys (2005) ressalta que:

A criança que não pode ver as outras brincando, que não sabe brincar
junto e não entende as brincadeiras, tende a permanecer isolada em
seu canto, podendo ficar marginalizada e ter prejudicada no seu
desenvolvimento, as videntes aprendem a brincar umas com as outras,
observando-se mutuamente, movimentando-se juntas, imitando,
participando de jogos (p. 4).

Bruno & Mota (2001) acrescentam que muitos objetos mais


significativos e próximos da criança, como chupetas, mamadeiras, canecas
e móbiles com contraste nas cores podem ser utilizados nas atividades
estimuladoras, como recursos interessantes para provocar-lhe a atenção e
a fixação visual. Enfatizam que a estimulação visual pode ser realizada em
todas as atividades diárias da criança (troca, alimentação, passeios), não
havendo um momento específico para realizá-la.

3 - A pesquisa sobre estimulação visual em crianças pequenas com


baixa visão
Optou-se por realizá-la dirigida às orientações aos pais através de
brincadeiras no ambiente familiar de cada criança estudada, por ser este
contexto básico para o desenvolvimento infantil, sobretudo nos dois primeiros

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anos de vida. Colnago (1997) já recomendava que para as orientações aos


pais e/ou cuidadores deva-se considerar as necessidades e os anseios da
família, no sentido de contribuir para a adaptabilidade e individualidade da
criança, às suas necessidades, e ao seu ritmo de desenvolvimento e ajuda-
los a melhor resolverem os problemas que a deficiência pode acarretar em
seu filho.
Fuente (2003) recomenda que um programa de orientação educacional
seja realizado no próprio domicílio familiar, para que o profissional possa
integrar-se à vida cotidiana da criança e de sua família, como forma de
adquirir maior confiança por parte de ambos, frente aos diferentes tipos de
problemas que ele encontrará durante o processo de intervenção. Goldberg,
Yune e Freitas (2005) ratificam que a família é o núcleo mais importante
para o desenvolvimento infantil, porque neste contexto, processam-se as
relações interpessoais e que, através delas, a criança tem contato com o
mundo. Frutos (2000) acrescenta que o principal papel dos profissionais
envolvidos na intervenção familiar consiste em acompanhar e apoiar os pais
nas difíceis etapas que se sucedem, após o conhecimento do diagnóstico
do filho com D.V., com sugestões e orientações para favorecer o processo
evolutivo do bebê e facilitar o enfrentamento deles, pais, ao estresse
ocasionado pela triste notícia.
Fonseca (1995) reforça que o apoio educacional às crianças com
deficiência deve iniciar-se o mais precocemente possível, através de
brincadeiras efetuadas nos primeiros momentos da vida da criança, sendo
imprescindível a participação e o envolvimento dos pais nessa intervenção,
seguindo, naturalmente, a orientação dos profissionais da saúde. A
orientação fornecida aos genitores e/ou cuidadores quanto à educação da
criança com D.V., é complexa e requer múltiplas estratégias, através de
atividades lúdicas e experiências variadas para explorar o ambiente, e
aprimorar as relações com as pessoas e com os objetos.
Em síntese, com base nas contribuições anteriores, esta investigação
se propõe orientar os pais na estimulação de sua criança com D.V., por
sessões demonstrativas e verificar os benefícios que ela pode produzir no
seu filho.

4 - Metodologia
A metodologia é quali-quantitativa, de campo, sob a forma de estudo
multicaso. As informações foram coletadas diretamente com os participantes

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envolvidos em seus ambientes familiares, reunindo um conjunto de dados


que foram documentados e sistematizados para fins de estudo, seguindo
as orientações de Gonsalves (2003). Compreendeu a análise das
orientações e demonstrações fornecidas aos pais e/ou cuidadores sobre
estimulação do desenvolvimento, em especial da visão das crianças com
D.V., nos dois primeiros anos de vida.
Adotou-se o modelo bioecológico de investigação (Bronfenbrenner,
1996), cujos estudos devem ser realizados em ambiente natural, com a
inserção ecológica do pesquisador, através do contato direto com as
crianças e seus pais e/ou cuidadores.
Por envolver seres humanos, foram preservados princípios éticos de
acordo com a Resolução nº 196/96, do Conselho Nacional de Saúde (1996),
em vigor em todo território nacional, e sendo aprovada pelo Comitê de Ética
em Pesquisa envolvendo Seres Humanos do Hospital Universitário da
Universidade Federal do Maranhão (CEP/HU/UFMA), pelo parecer
consubstanciado no. 068/08, de onde as crianças e familiares estudados,
procedem.
Os participantes, desta pesquisa, compreenderam 6 crianças com D.V.
profundo, com diagnóstico de retinopatia da prematuridade (ROP), catarata
congênita bilateral, amaurose congênita de Leber e síndrome da rubéola
congênita. Todas eram do sexo feminino, com idade média de 17 meses,
que não apresentavam outras deficiências, e nascidas pré ou a termo. Foram
atendidas no Ambulatório de Oftalmologia do Hospital Universitário Materno
Infantil em São Luís - Ma. Seus pais e/ou cuidadores, também, foram sujeitos
da pesquisa, sendo selecionadas as mães que permaneciam a maior parte
do tempo com a criança e eram responsáveis por seus cuidados. Sua idade
média foi de 21 anos; duas tinham ensino médio completo e apenas uma,
ensino fundamental incompleto; todas exerciam a ocupação de dona de
casa. As mães foram envolvidas no processo de intervenção por serem as
principais responsáveis pelos cuidados e estimulação das crianças
estudadas (McWillian, Winton e Crais, 2003). As prioridades e necessidades
de intervenção foram identificadas durante as primeiras visitas domiciliares,
realizadas no lar das crianças selecionadas, oportunidade em que foi
utilizado o roteiro de observação das oportunidades no lar para o
desenvolvimento motor da criança com deficiência visual (AHEMD-DV, Silva,
2009), efetuadas entrevistas aos pais e realizadas avaliações da acuidade

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visual, de sensibilidade aos contrastes, e outras funções da visão na criança


em estudo.
Como procedimentos, foram empregados vários kits que
compreendiam instruções sobre o uso dos brinquedos adaptados neles
contidos, além de informações gerais sobre a deficiência visual e
desenvolvimento infantil. Dentre eles havia um kit para prossecução do
trabalho pela mãe, após os seis meses de treinamento que durava a
pesquisa.
Os critérios de adaptações aos brinquedos constituíam-se de:
a) Padrão de alto contraste: Argolas de diferentes tamanhos nas
cores preto, branca, amarelo, vermelha, laranja e verde; balões de cores
fortes, fluorescentes, coloridos e com contrastes de desenhos de bolas
pretas; bola grande, com contrastes preto-branco; fantoches em tecido
brilhante, na cor amarela com detalhes em preto e vermelho; almofadas,
recheadas de material leve e macio, revestidas em tecido de algodão, com
cores contrastantes, preto e branco, podendo ser listrada, xadrez e de bolas;
latas de leite revestidas de papel preto, com bolinhas vermelhas e brancas;
de papel vermelho com bolinhas pretas e brancas; raquetes cobertas com
E.V.A em listras preto-branco, preto-vermelho e branco-vermelho; retângulo
de papelão, coberto com E.V.A pintados em listras pretas e brancas, pretas
e vermelhas; tapete grande, em tecido macio e acolchoado, em cores
contrastantes, com desenhos e formas em alto relevo, como listras, círculos
e bolas.
b) Brilhantes: caixa grande de papelão, revestida com papéis
brilhantes nas cores, dourado, vermelho e prateado; cartaz em formato de
retângulo, coberto com papel luminoso e com duas faces, uma na cor
vermelha com círculo central dourado e a outra com círculo central prateado,
com fitas pretas ou amarelas nas laterais; chocalhos prateado, dourado e
rosa; copos plásticos revestidos com lamê, em contraste dourado-vermelho;
esponjas, ásperas, douradas e prateadas; latinhas revestidas com papéis
brilhantes nas cores amarelo e vermelho, com guirlandas fixadas nas bocas;
luvas feitas com lamê dourado e prateado; mamãe-sacode (dourado,
prateado e vermelho);
c) Luminosos: bolinhas coloridas e luminosas; chupeta pisca-pisca;
copo e óculos pisca-pisca; espelho pequeno; jogo de luz colorido; lanternas;
móbile de bolinhas luminosas e de diferentes cores; pisca-pisca colorido.

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Guias de orientação foram elaborados para cada ambiente familiar


estudado, basearam-se na abordagem centrada na família, considerando
as prioridades e as necessidades da criança e do seu entorno. Não
focalizaram só a criança, mas a família. Estes Guias foram assim
constituídos: bloco 1 – orientações gerais sobre a deficiência visual, atrasos
ocasionados por ela e o que os pais e/ou cuidadores devem fazer para
melhorar o desenvolvimento da criança, estimular a visão e evitar a
passividade, e bloco 2 – orientações específicas para estimular a criança
com baixa visão nas situações de rotina, objetivos dessas atividades e
brinquedos adaptados para serem nelas utilizados. Empregou-se linguagem
acessível no trabalho de orientação com os pais e/ou cuidadores, para
facilitar-lhes o entendimento do conteúdo dos guias. Além desses aspectos,
as orientações fornecidas aos pais e/ou cuidadores seguiram as
recomendações de Gagliardo & Nobre (2001): tiveram como referências
as características e as necessidades de cada criança, enquanto que as
orientações específicas consideravam o contexto socioeconômico e cultural
do ambiente ao qual ela está inserido.

5 – Resultados e discussão
Para selecionar os brinquedos e suas adaptações foram analisados
estudos semelhantes. Encontrou-se que, os materiais de alto contraste são
empregados para estimular a focalização e fixação central da visão, cuja
reação é lenta em bebês com D.V. severa e, sendo assim, é necessário
esperar mais tempo para que a criança possa captar as impressões visuais.
Bruno & Mota (2001) acrescentam que muitos objetos mais significativos e
próximos da criança, como chupetas, mamadeiras, canecas e móbiles,
podem ser utilizados nas atividades estimuladoras, como recursos
apropriados para desenvolver a atenção e a fixação visuais. Enfatizam que
a estimulação visual pode ser realizada em todas as atividades diárias da
criança (trocas, alimentação, passeios), não havendo um momento
específico para efetua-la.
Assim, os brinquedos e as brincadeiras com as crianças com D.V.
profundo, devem ser selecionados como para as demais crianças, em
função da idade, das características pessoais, necessidades e habilidades,
e também de seu entorno. Para Bruno e Mota (2001) os materiais de uso
diário (esponjas, tecidos, copos, pratos, vidros plásticos) e aqueles de sucata

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ou recicláveis existentes no ambiente familiar, podem ser utilizados para


confeccionar brinquedos como os de cores fortes; padrões de alto contraste
(amarelo/preto; preto/branco; cinza/preto; vermelho-preto; azul/amarelo, roxo/
amarelo); padrões de gratting (listras), e fluorescentes; brilhantes e luminosos.
De acordo com Teixeira e outros (2003), alguns aspectos devem ser
considerados na adaptação de brinquedos para criança com D.V. Há
necessidade de serem práticos, funcionais e de aceitação pela própria
criança; além das qualidades apontadas anteriormente.
As recomendações citadas por Trombly & Radomski (2005) são
necessárias para garantir que as adaptações dos brinquedos para crianças
com D.V., lhe sejam eficientes: ter um objetivo específico a ser atingido; não
encorajar e nem exigir movimentos ou posturas fora do comum; não
apresentar riscos ou danos. Além disso, há três razões para adaptar uma
atividade recreativa a essas crianças: a) torná-la terapêutica; b) graduadas
conforme a dificuldade apresentada na intervenção, e; c) permitir à criança
realizar uma atividade que seria incapaz de fazê-la de outro modo. Na
intervenção, as atividades devem ser selecionadas de acordo com as
habilidades de cada infante com D.V. e em função do seu interesse, e que
sejam apropriadas para estimular o seu desenvolvimento e sua acuidade
visual.
Há vários kits que serviram de base para a organização daqueles que
compõem a presente pesquisa. Do Brinquedos e Brincadeiras para o bebê,
kit para crianças nos seus dois primeiros anos de vida, de Pérez-Ramos e
Pera (2002), foram selecionados aqueles próprios para a fase de vida em
estudo. Do Manual Brincar para Todos, de Siaulys (2005), foram inspiradas
estratégias. É um precioso material, elaborado como alternativa para
preencher a lacuna existente em relação aos jogos e brinquedos educativos,
escolhidos e adaptados para crianças com baixa visão. Trata-se de um
manual informativo, descritivo, que orienta os pais e educadores sobre a
realização de jogos e brincadeiras em bebês, crianças pré-escolares e
escolares com ou sem deficiências visuais. Propõe variar as brincadeiras,
oferecendo possibilidades diferentes, de acordo com a idade e com o nível
de desenvolvimento infantil. Fornece orientações para o uso de brinquedos
e atividades lúdicas estimuladoras, alertando para a importância de cada
um deles na promoção do desenvolvimento infantil. A riqueza desse material
conduz à possibilidade de eliminarem-se as barreiras que impedem o

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acesso ao conhecimento às pessoas com necessidades educacionais


especiais, a seus pais e/ou cuidadores. A inexistência de brinquedos que
podem ser percebidos pelos outros sentidos, que não a visão, e que
possibilitem uma aprendizagem significativa às crianças, foi um dos motivos
para elaboração deste manual. Contém uma variedade de informações e
sugestões sobre atividades lúdicas estimuladoras, com cuidadosa
sistematização de brinquedos educativos, reunindo mais de uma centena
deles, com apresentação gráfica colorida, alegre e ricamente ilustrada.
A utilização das orientações contidas no manual, Brincar para Todos,
de Siaulys (2005), sobre os brinquedos e atividades lúdicas estimuladoras
a serem efetivados pelos pais e educadores(as) constitui uma possibilidade
de eliminar as barreiras que impedem o acesso ao conhecimento às pessoas
com necessidades especiais e a atender às acessibilidades e a equalização
de oportunidades.
Quanto às possibilidades de utilização dos brinquedos contidos no
referido Manual, não se esgotam nas descrições feitas, são muito mais
amplas do que as apresentadas; devem ser exploradas e ampliadas pelos
pais e educadores(as). Além desses aspectos, as crianças também são
estimuladas a descobrir com os brinquedos indicados, inúmeras variações
de brincadeiras, a partir da experimentação, construção e reinvenção.
Alguns brinquedos específicos à estimulação de crianças com D.V.
são também sugeridos por Siaulys (2005): chocalho gruda-gruda, chocalho
ouro-prata, pulseirinhas, guizo pé-mão, capa de mamadeira, fantoches, bolas
em preto e branco, tapete de alto contraste, cubos de alto contraste, rolinho,
amassadinha, móbiles de bolinhas, rodão, entre outros. É válido também
identificar as necessidades de seus filhos. Baseando-se nas experiências
dos autores, as pesquisadoras planejaram e implementaram guias de
orientação, com Bloco 1: orientações gerais sobre a deficiência visual, os
atrasos ocasionados por ela e o que os pais e/ou cuidadores deveriam
fazer para melhorar o desenvolvimento da criança com deficiência visual,
estimularem a visão e evitarem a passividade, e Bloco 2: orientações
específicas como estimular a criança com baixa visão nas situações de
rotina, objetivos dessas atividades, brinquedos adaptados a serem
utilizados nas brincadeiras em situações de rotina. Empregou-se linguagem
acessível no trabalho de orientação com os pais e/ou cuidadores para
facilitar-lhes o entendimento do conteúdo dos guias. Além desses aspectos,

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as orientações fornecidas aos pais e/ou cuidadores seguiram as


recomendações de Gagliardo & Nobre (2001): tiveram como referências
as características e as necessidades de cada criança, enquanto que as
orientações específicas consideraram o contexto socioeconômico e cultural
do ambiente ao qual está inserido.
Prosseguimento
As orientações e sessões demonstrativas tiveram a duração de 5
meses com cada criança; ocorriam duas vezes por semana, com duração
média de 90 a 120 minutos, incluindo treinamento para confeccionarem
brinquedos adaptados e o acompanhamento das atividades realizadas pelas
pesquisadoras. Esse processo semanal tinha também a função de verificar
se as mães realizaram as orientações fornecidas e também resolviam as
dificuldades encontradas nesse treinamento.
Para efetuar as orientações, as pesquisadoras utilizaram a seguinte
técnica: primeiro explicava a atividade estimuladora à mãe, seus objetivos
e que tipo de brinquedos a usar; depois realizava as atividades com a criança
e, por último, solicitava que aquela repetisse o que foi efetuado, realizando
as atividades com a criança, pela própria mãe. Duas visitas semanais foram
feitas para orientar a mãe e/ou cuidadora, bem como tirar as suas dúvidas
sobre o que fora orientado na visita anterior. Na explicação sobre os
brinquedos, destacava-se a importância de estimular a visão da criança,
utilizando-se aqueles de cores vibrantes, com padrões de alto contraste;
padrões de gratting (listras); e serem apropriados à idade e ao estágio de
desenvolvimento infantil. Selecionaram-se também conforme a reação visual,
a motivação e o interesse da criança.
As sessões de orientação com os pais e/ou cuidadores das seis
crianças da pesquisa foram gravadas e descritas; seu conteúdo,
sistematizado por temas trabalhados durante as orientações realizadas.
Ao final da pesquisa foram entregues, como já referido antes, um guia de
orientação prossecutiva, contendo programas individuais de estimulação
para cada mãe e/ou cuidadora, com o objetivo de continuarem realizando
as brincadeiras com as crianças, após o treinamento. Este guia é bem
explicativo, todo ilustrado e com linguagem simples, acompanhado de um
DVD com 6 clipes das principais orientações realizadas nos ambientes
familiares com cada mãe e/ou cuidadora e sua criança.
Durante as sessões de intervenção foram fornecidas orientações
gerais sobre a deficiência visual, os atrasos ocasionados por ela e o que

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se deverá fazer para melhorar o desenvolvimento das crianças e estimular


a visão mediante orientações específicas efetuadas nas situações de rotina,
os objetivos das atividades e os brinquedos adaptados a serem utilizados.
As orientações gerais eram dadas durante as sessões demonstrativas para
cada mãe e/ou cuidadora, durante as visitas aos respectivos ambientes
familiares.
Finalizando, em média, 5 meses de treinamento, cada criança foi
reavaliada, em termos de acuidade visual, sensibilidade aos contrastes,
avaliação funcional da visão e o desenvolvimento neuromotor para verificar
se houve redução dos atrasos apresentados pelas crianças e melhora no
seu enxergar.

6 – Considerações Gerais
A maioria dos pais e/ou cuidadores orientados nesta pesquisa não
tinha ainda recebido informações sobre como estimular suas filhas com
deficiência visual, nos dois primeiros anos de vida. Não tinham ideia sobre
brinquedos adaptados ao problema visual da criança e as brincadeiras a
serem efetuadas com a ela. Percebeu-se, então, o despreparo desses pais
e/ou cuidadores para estimularem os desenvolvimentos motor e visual de
suas filhas com D.V. quando foram realizadas observações iniciais em seus
ambientes familiares.
As mães foram as principais facilitadoras ou promotoras do
desenvolvimento da criança e das oportunidades estimuladoras nos
ambientes familiares, com suas filhas com baixa visão. Ao serem orientadas
sobre os objetivos e as atividades estimuladoras, tiveram a possibilidade
de compreender, aceitar e elaborar melhor esse universo tão desconhecido
e diferente, para proporcionar a suas crianças um desenvolvimento mais
favorável e com menores limitações para se locomoverem nos seus entornos.
Verificou-se que a realização das orientações nos ambientes familiares
das crianças com a participação efetiva das mães e/ou cuidadoras, contribuiu
com benefícios importantes tanto para as crianças, quanto para as genitoras,
considerando-se que o ambiente familiar atuou como mediador importante
para o desenvolvimento das potencialidades daquelas e na minimização
das limitações decorrentes pela deficiência visual.
Concluiu-se que as orientações práticas fornecidas às mães ou às
outras cuidadoras, lhes proporcionou um efetivo aprendizado e a satisfação

467
Bol. Acad. Paulista de Psicologia, São Paulo, Brasil - V. 32, no 83, p. 453-470

de sentirem melhora em suas filhas com D.V. Estas, de passivas que eram,
passaram a ser ativas e independentes, graças à estimulação que lhes foi
dirigida, diretamente em seus respectivos lares.

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Bol. Acad. Paulista de Psicologia, São Paulo, Brasil - V. 32, no 83, p. 471-488

• Leitura para universitários: Avaliação da Produção no


PychINFO (2008/2011)
Reading for University students: evaluation of production in
PsychINFO (2008/ 2011)
Lectura para universitarios: Evaluación de la producción en
PsychINFO (2008/2011)
Carmen Lúcia Hussein1
Universidade de Taubaté

Resumo: Trata-se de meta-análise sobre a Leitura para universitários, tema de


26 trabalhos arrolados no PsychINFO (2008/2011). A análise do material mostrou
que os títulos estão de acordo com as regras do discurso científico; não há
diferenças significantes de trabalhos teóricos e pesquisas; Estratégias de Ensino
é o tema mais estudado, havendo diferenças significantes entre esta categoria
e Temas Variados; é uma subárea carente de pesquisa, havendo uma dispersão
de dados em relação a temas e tipos de pesquisa. Há necessidade de expansão
nesta área, mediante pesquisas, inclusive usando-se da PsychINFO para facilitar
comparações.

Palavras-chave: leitura, produção científica, universidade.

Abstract: This work is a metha-analysis of Reading for University students,


subject of 26 researches of the PsychINFO bases (2008/2011). The analysis of
the material shows: the titles are in accord with the rules of scientific discourse;
there is no significant difference between theoretical works and applied researches;
Teaching strategies were the most studied themes, with significant difference
when compared to other Variety of Themes; it is a subarea in need of research,
with a dispersion of data on topics and types of research. There is a need to
expand this area through research, including the use of PsychINFO to facilitate
comparisons.

Keywords: reading, scientific production, university.

Resumen: Se trata de un meta-análisis sobre la lectura para universitarios, tema


de 26 trabajos inscritos en la PsychINFO (2008/2011). El análisis del material
mostró que los títulos concuerdan con las normas del discurso científico, no hay
diferencias significativas entre trabajos teóricos e investigaciones, Estrategias
de Enseño es el tema más estudiado, habiendo diferencias significativas entre
esta categoría y Temas Variados; es una sub-área carente de investigación ,
habiendo una dispersión de los datos en relación a temas y tipo de investigación.

1
Doutora em Psicologia do Escolar pelo IPUSP, com Pós-doutorado na mesma Instituição,
com apoio do CNPq. Contato: Av. Dr. Francisco de Paula Vicente de Azevedo, 1439 – Parque
Continental – São Paulo – SP – Brasil CEP 05325-180. E-mail: chussein8@gmail.com 471
Bol. Acad. Paulista de Psicologia, São Paulo, Brasil - V. 32, no 83, p. 471-488

Hay necesidad de expansión en esta área, mediante investigaciones, inclusive


usándose la base de datos PsychINFO para facilitar las comparaciones.

Palabras claves: lectura, producción científica, universidad.

Introdução
Um dos problemas do ensino superior se traduz pela falta de
habilidades, inclusive na leitura, para se obter sucesso acadêmico.
McGregor (2002) chega a afirmar que as universidades americanas têm
recebido alunos insuficientemente preparados nessas habilidades, havendo
necessidade de oferecer-lhes programas que possam compensar-lhes
nestas carências, inclusive na leitura.
Nummedal e Halpern (1995) afirmam que o ensino superior americano
demonstra que menos da metade dos alunos que entravam nas
universidades estavam aptos a usar os processos de raciocínio formal e de
pensamento crítico de modo satisfatório. Esses autores sugerem, ainda,
que sem instrução explícita sobre leitura crítica somente uma pequena
parcela de alunos universitários desenvolve essa habilidade.
Outros estudos revelam também que essas carências, inclusive na
compreensão de textos, são devidas às limitações em formação anterior
(Santos,1989,1991; Witter,1997, 2004; Ferreira & Dias, 2002; Sampaio &
Santos, 2002;Tessaro, 2004; Oliveira & Santos, 2005, 2006), o que
comprova a necessidade de pesquisas sobre essa questão.
No Brasil, tem havido uma tendência crescente em facilitar o ingresso
do aluno de curso médio na universidade, não oferecendo ao mesmo tempo
a oportunidade de reorganizar o processo de leitura e o desempenho, em
todos os seus processos cognitivos. Assim, os estudantes chegam ao ensino
superior com lacunas na sua formação, o que é prejudicial, pois existem
pesquisas que comprovam a relação entre competência de leitura e
desempenho acadêmico.
Encontram-se alguns trabalhos nessa área, como de McGregor (2002);
Kuebli, Harvey e Korn (2008); Coyne e outros (2009), Morgenthaler (2009),
e Fallon, Brown e Greenwich (2010), que indicaram a eficiência do treino de
leitura em universitários. Também há no Brasil algumas pesquisas com esses
alunos (Sampaio, 1983; Hussein, 1999; 2008) e com pós-graduandos
(Hussein, 2009), também demonstraram a eficiência do treino de leitura
crítica na aprendizagem do ensino universitário, mas são poucos. Pode-se

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Bol. Acad. Paulista de Psicologia, São Paulo, Brasil - V. 32, no 83, p. 471-488

depreender a partir desta revisão de área, que há carência de pesquisas


sobre o ensino de leitura para universitários. (Hussein, 1999; 2008; 2009.)
Nessa direção, Witter (1999) afirma que há falta de pesquisas sobre
avaliação dos programas de leitura, que testem sua eficiência, inclusive
aqueles efetuados na sala de aula. Assim, há necessidade de se avaliar a
produção científica no ensino de leitura para universitários, na medida em
que esta área possui poucas pesquisas, inclusive de meta-análise, mas
comprovam que este processo de ensino-aprendizagem é muito importante
na educação do aluno nesse grau de escolaridade.
São importantes os trabalhos sobre meta-análise porque ela permite
a busca de melhores soluções para os problemas e questionamentos
humanos e avalia conceitos, dados e teorias. Certamente, os textos são os
produtos mais frequentes e importantes para o desenvolvimento da ciência.
É por meio deles que se concretiza e se mantém o conhecimento, permitindo
a sua disseminação e estabelecendo as bases de poder e fazer ciência.
(Oliveira, 1999.)
Considerando-se a relevância e a pertinência desse trabalho, e de
outros mais analisados, mostram a necessidade de integrar as informações
obtidas sobre o tema e incluir outros mais.
O objetivo geral da pesquisa aqui relatada foi avaliar a produção
científica sobre Leitura para universitários. Os objetivos específicos foram:
analisar os títulos dos trabalhos realizados, o tipo de contribuição, a tipologia
metodológica, o tipo de análise de dados e a temática enfocada.

Método
Material
A principal fonte de referência na área da psicologia é o PsychINFO,
sendo, portanto, o motivo da sua utilização no presente estudo. O tema da
presente pesquisa consta da categoria University Students Reading, mais
especificamente da subcategoria Teaching Methods, com o fim de aglutinar
os trabalhos com universitários. Foram delimitados como parâmetros
temporais na base de dados os anos de 2008 e 2011. Artigos, livros e teses
foram arrolados com base a este período etário, sendo, portanto, definido o
intervalo de tempo de 4 anos.
Procedimento
Definidas as categorias de análise, foram realizadas várias leituras
necessárias para a inclusão correspondente nessa classificação. Optou-se

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por conceituar as categorias e apresentar os exemplos, com os resultados,


para a leitura ser facilitada.

Resultados e discussão
Localizaram-se 133 referências, das quais 80% foram eliminadas por
usarem outro tipo de participantes. Portanto, usaram-se 26 trabalhos, que
são objeto de estudo nesta pesquisa. Esse levantamento evidenciou artigos
teóricos, e pesquisas empíricas, nos livros, dissertações e teses em relação
às palavras-chave utilizadas.
Para iniciar o trabalho, começa-se pelo seu enunciado. Ao escrever
um documento o título é um dos aspectos que devem ser focalizados pelo
autor. O título mostra ao leitor a apreensão da organização e a importância
de um texto, segundo o manual de publicação da APA. O título resume a
ideia principal do trabalho, apresentando as variáveis ou contexto teórico
da investigação de maneira simples (APA). A base de dados da CAPES
tem recomendado, para um bom título, o número de 210 bits, duas linhas ou
aproximadamente 12 vocábulos, como uma boa amplitude.
Um bom título deve ser uma síntese do texto, um hiper-resumo, que
deve reproduzir, semanticamente, o que há de mais importante no trabalho,
sem recorrer a expressões fantasia (Witter,1999).
As características dos títulos foram analisadas sob dois aspectos:
número de vocábulos e de linhas. Houve grande variação entre o número de
vocábulos do título, sendo que o maior foi composto por 23 vocábulos e o
menor por cinco vocábulos.
O trabalho escrito por Yandell e Bailey (2011), intitulado Online quizzes:
improving Reading compliance and student learning. Best practices for
tecnology-enhanced teaching and learning: Connecting to psychology and
the social sciences é o de maior número de vocábulos. Os autores exploraram
a questão da preparação dos estudantes para classe e como o teste
baseado em Internet poderia ser usado para melhorar a leitura e a
aprendizagem do estudante universitário. Após a revisão da evidência que
os alunos tipicamente não estão preparados para tarefas de textos de leitura,
os autores apresentaram a razão para usar testes para melhorar a aceitação
de leitura e facilitar a aprendizagem. Eles então argumentam que a testagem
on-line é uma eficiente e efetiva forma de melhorar a aceitação de leitura.
Os autores fornecem um exemplo de como usaram a testagem on-line em

474
Bol. Acad. Paulista de Psicologia, São Paulo, Brasil - V. 32, no 83, p. 471-488

uma classe de introdução de psicologia e as lições foram aprendidas


utilizando esta metodologia.
O trabalho de menor número de vocábulos no título foi “Teaching
Inclusively in Higher Education” (Fallon, Brown & Greenwich, 2010), em que
os autores afirmam que o objetivo desse livro é o de assistir a todos os
instrutores em educação superior para atender às mudanças e
necessidades dos seus alunos. Os capítulos desse livro seguem a sequência
de se considerarem as mudanças rápidas na educação superior e,
consequentemente, novos tipos de alunos. Cada capítulo começa com
termos- chave, que são definidos. Seguem-se questões reflexivas que
podem ser usadas para orientar a leitura e a discussão em grupo. O corpo
do capítulo contém a base teórica seguida por sugestões que o
implementam. Também inclui exemplos práticos e recursos para os
instrutores universitários, em qualquer disciplina. A primeira seção descreve
o aumento da diversidade dos alunos universitários na atualidade e discute
as diferenças entre os instrutores universitários e seus estudantes. Os
autores, a seguir, descrevem a segunda seção do livro, que focaliza como
os instrutores podem alcançar e ensinar todos os seus alunos. Eles citam
na terceira seção do livro o desenvolvimento do clima tecnológico em sala
de aula como uma comunidade de aprendizagem inclusiva. Com o grande
interesse do ensino superior e a ênfase no desenvolvimento profissional do
ensino, esse livro pode ser usado em qualquer instituição de ensino e por
qualquer docente.
A média de vocábulos nos títulos foi de 12,1 e o número de vocábulos
foi categorizado na Tabela 1.
Foi realizado o teste de homogeneidade entre as categorias de número
de vocábulos, tendo por e estabelecido o nível de
significância de 0,05. Assim, obteve-se e ,
demonstrando que não houve diferenças significantes entre as categorias.
Houve predominância dos títulos da categoria 14 ou mais (42,4%). A segunda
categoria com maior frequência foi a que incluía títulos de 5 a 10 vocábulos
(30,7), seguida da categoria de 11 a 13 vocábulos (26,9%).
Para saber se houve diferença estatisticamente significante entre os
títulos que estiveram dentro do número de vocábulos recomendado e os
que não estiveram, foi realizado o teste do qui-quadrado entre a soma das
frequências ocorridas nas categorias 5-7, 8-10 e 11-13 e o total da categoria

475
Bol. Acad. Paulista de Psicologia, São Paulo, Brasil - V. 32, no 83, p. 471-488

Tabela 1 - Características dos títulos dos trabalhos do PsycINFO (2008 / 2011)

14 ou mais vocábulos. O teste do qui-quadrado resultou em X²o = 0,62,


como X²c = 3,84 (ngl = 1, p <=0,05), concluiu-se que não houve significância
estatística a maior concentração em títulos dos padrões recomendados.
No presente estudo o número médio foi de 12,1, portanto, estes
resultados indicam que os títulos estão dentro do padrão esperado. Estes
dados parecem confirmar os estudos de Witter (1996, 1999) sobre o ensino
da leitura e o comportamento de ler na Universidade; na área de
compreensão de Leitura. Também o de Carelli (2002) nas dissertações e
teses de leitura arroladas no Dissertation Abstracts International. Essa
mesma tendência ocorre no estudo de Hussein (2011) de metaciência sobre
o ensino de Leitura Critica e de Leitura Criativa (Hussein, 2012).
Quanto ao número de linhas, todos os trabalhos (100%) ocorreram na
categoria uma/duas linhas, portanto, dentro do desejável (Witter, 1996). Pode-
se concluir que, de modo geral, os títulos sugerem que as características
esperadas em termos de comunicação científica foram adequadas.
A análise quanto ao tipo de trabalho focalizou as seguintes categorias:
Teórico e Pesquisa. Com relação à primeira, foram consideradas as
explanações teóricas feitas pelo autor, reflexões sobre o assunto e
comentários gerais sobre a matéria, o que foi tratado sem apresentação de
dados pelo autor.

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Exemplo de trabalho Teórico é o de Saltmarsh e Saltmarsh (2008),


que relatam as razões teóricas e políticas para uma estratégia de avaliação
planejada para apoiar o desenvolvimento de leitura e aprendizagem de
cultura em estudantes de graduação e pós-graduação em uma universidade
metropolitana e uma regional na Austrália. A revisão crítica é uma tarefa de
avaliação integrada que tem como objetivo promover a cultura de estudantes
para obter a preparação de aprendizagem, pensamento crítico, escrita
escolar e ética educacional por alunos que receberam conhecimentos de
conteúdo específico.
Um trabalho categorizado como Teórico é o de Kuebli e outros (2008),
que consideram ser desafiante a aprendizagem para o ensino de
pensamento crítico. Este livro fornece muitos exemplos de atividades que
envolvem estudantes no pensamento crítico, formas de avaliá-lo e programas
de incentivo a este comportamento. Os autores concluem que os instrutores
frequentemente aprendem a ensinar o pensamento crítico por leitura de
textos, planejamento e atividades de atendimento na sala de aula. Eles
descrevem um curso de graduação de psicologia, em que fazem uma
descrição de um quadro de referência para o ensino do pensamento crítico.
Finalmente, os autores descrevem muitas tarefas deste comportamento que
foram utilizadas em classes universitárias diferentes e que obtiveram
sucesso.
Em Pesquisa foram considerados os artigos com dados para
responderem a questões ou objetivos de investigação. Na Pesquisa
descritiva, compreenderam-se os estudos de levantamento de uma
realidade, recorrendo a entrevistas, questionários ou técnicas de observação
e que utilizam análises estatísticas descritivas com baixo poder de
generalização e inferência. A Pesquisa descritiva abrange estudo
documental, levantamento, correlacional e estudo de caso descritivo. Por
Pesquisa inferencial, entendeu-se o recorrer a delineamentos mais
sofisticados, usando análises quantitativas de maior poder e utilizando
análises estatísticas mais sofisticadas, que ampliam as possibilidades de
generalização e inferências. Esse tipo de pesquisa contém a pesquisa
experimental, quase experimental e estudos de casos experimentais (Witter,
1996).
Como exemplo de Pesquisa descritiva, tem-se a pesquisa de Corket,
Hein e Parilla (2008), que envolveu um exame qualitativo das características

477
Bol. Acad. Paulista de Psicologia, São Paulo, Brasil - V. 32, no 83, p. 471-488

pessoais que estudantes universitários viam como importantes para ajudá-


los a compensar as suas dificuldades na leitura, nos vários estágios de sua
educação. A amostra consistiu de dez alunos de graduação, que relataram
uma história significante de dificuldades de leitura. Os dados foram coletados
usando entrevistas com cada participante. Os resultados foram organizados
em quatro grandes temas: procurar assistência de outros, desenvolver
relação positiva com outros, ser altamente motivado para a realização e
manter um crédito em suas habilidades. Os autores afirmam que os
resultados iluminam um conjunto amplo de fatores que podem influenciar a
motivação, o autoconceito e uma ampla variedade de pessoas, que podem
ajudar o aluno universitário com dificuldades de leitura. Eles discutem sobre
as implicações dos dados para a prática educacional e as pesquisas
posteriores.
Outro exemplo da categoria de Pesquisa descritiva é o estudo de
Polio e Zyzik (2009), que estudaram a instrução focada na linguagem em
três classes universitárias de literatura espanhola. As classes foram
estudadas em um semestre através de observações, entrevistas dos
instrutores e questionários aplicados aos estudantes, cujas lembranças eram
estimuladas. Os resultados foram que os instrutores e os alunos têm
interesse na habilidade de linguagem dos alunos. Os instrutores têm objetivos
relacionados à linguagem mínima para as suas classes, e as questões de
linguagem foram tratadas acidentalmente na maioria das vezes. Além disso,
muitos temas emergiram para ambos os grupos de participantes:
aprendizagem de linguagem como atividade incidental, problemas com
alunos, como proficiência oral e o papel do estudo de língua estrangeira e o
seu desenvolvimento. Os autores concluíram que mudanças na instrução e
do currículo foram sugeridas para atender às necessidades, tanto dos alunos
como dos instrutores.
Um exemplo de Pesquisa inferencial é o trabalho de Wang, Mo, Li e
Jin (2008), que consideram a leitura de texto como a mais complexa e uma
atividade cognitiva única do ser humano e, também, que é uma importante
forma de obter informação e conhecimento. Eles afirmam que o objetivo
principal deste estudo foi investigar o mecanismo de integração coordenada
no texto de leitura. Dois grupos experimentais foram usados. No primeiro
grupo, 30 estudantes universitários foram solicitados a ler 12 passagens

478
Bol. Acad. Paulista de Psicologia, São Paulo, Brasil - V. 32, no 83, p. 471-488

narrativas. No segundo grupo, 28 alunos universitários fizeram essa mesma


tarefa e julgaram se uma palavra do teste aparecia nos textos anteriores.
Os autores afirmam que os resultados mostraram que a informação prévia
poderia ser ativada quando relacionada semanticamente com a informação
corrente. Concluem que os dados mostram integração com as informações
correntes somente quando elas estavam relacionadas com os eventos. Eles
concluem que a integração coordenada é um processo automático e que
os leitores não estão conscientes deste processo durante a leitura.
Outro exemplo de Pesquisa inferencial é o trabalho de Tanners (2011),
que verificou o efeito do livro eletrônico “Kindle” sobre a frequência de leitura,
compreensão e aceitação de leitura em cinco estudantes universitários com
dificuldades de leitura. Um tratamento de estudo de caso experimental foi
empregado. Os alunos foram expostos a uma série de passagens de leitura
controladas para comparar as duas condições. A primeira situação foi a do
método tradicional, em que os alunos realizavam apenas a atividade de
leitura. Na segunda condição houve a leitura apoiada no livro eletrônico.
Adicionalmente foram fornecidos “Kindles” para os alunos deste grupo
usarem pelos menos em um curso da universidade em um semestre. O
autor afirma que as percepções, preferências e estratégias dos alunos
universitários ao utilizarem o livro eletrônico foram medidas através de
pesquisas de opinião, entrevistas e discussão de grupo. Ele conclui que os
resultados mostraram que não houve diferença na compreensão de leitura
nas duas condições. Também os dados apontaram que as percepções e
preferências foram favoráveis para o “Kindle” quando os resultados foram
comparados com as práticas tradicionais de leitura.

Tabela 2 - Tipologia dos trabalhos publicados no PsychINFO (2009/2010)

479
Bol. Acad. Paulista de Psicologia, São Paulo, Brasil - V. 32, no 83, p. 471-488

Na Tabela 2, são apontados os tipos de trabalhos no PsychINFO, sendo


classificados nas categorias Teórico (46,2 %) e Pesquisa (N=14, quando
os artigos foram somados), que abrange 53,8% dos trabalhos. Para verificar
se os tipos tiveram diferença significante, recorreu-se ao teste de , tendo
por = zero, com nível de significância de 0,05, obtendo-se
, ou seja, não é significante a diferença ocorrida entre a
categoria Pesquisa e a categoria trabalho Teórico.
A Tabela 2 também mostra que a Pesquisa descritiva obteve frequência
11 (42,4%) e a Pesquisa inferencial teve a ocorrência de 3 (11,6%); não foi
feita a análise estatística.
Essa tendência de considerar que não há diferença significante entre
a categoria Pesquisa e Teórico foi encontrada por Witter (2005) na análise
da produção científica sobre leitura no Reading Research Quarterly (2000
/ 2002), parecendo haver ausência de diferença entre trabalhos de Pesquisa
e Teórico. Esses dados parecem também apoiar a pesquisa sobre leitura
criativa feita por Hussein (2012).
Todavia, foi encontrado o predomínio de trabalhos teóricos em vez de
pesquisas no estudo de Witter (2005), nas análises dos periódicos da área
de Educação no Brasil e na Venezuela. Essa tendência também foi
encontrada na subárea de Leitura Crítica (Hussein, 2011).
A tendência de algum predomínio mais em estudos descritivos do que
inferenciais foi possivelmente encontrada no trabalho ora relatado. Já no
estudo de Witter (1996) sobre leitura na universidade, houve o predomínio
de pesquisas inferenciais em relação ao presente estudo. Assim, Oliveira
(1999) encontrou no periódico nacional Leitura: Teoria e Prática e no
periódico estrangeiro Journal of Adolescent & Adult Literacy alta frequência
de trabalhos descritivos, e no Reading Research Quarterly um número maior
de estudos inferenciais, possivelmente por que o primeiro fora com leitores,
docentes do ensino médio e adultos, genericamente. Portanto, esses
resultados indicam a necessidade de mais pesquisas que usem outras
bases de dados bibliográficos com relação à leitura para universitários.
Esses dados sugerem que essa subárea, por ter predomínio em
estudos descritivos, é menos desenvolvida do que a compreensão de leitura
em que há mais estudos inferenciais (Witter,1999). Também que a questão
tratada no presente trabalho apresenta indicação de ter o mesmo nível

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Bol. Acad. Paulista de Psicologia, São Paulo, Brasil - V. 32, no 83, p. 471-488

científico que a Leitura Criativa (Hussein, 2012), em que não houve diferenças
entre trabalhos teóricos e de pesquisa. Ainda a subárea aqui estudada
parece apresentar melhor nível científico que a Leitura Crítica (2011), que
possui mais significantemente trabalhos teóricos.
Também os trabalhos foram tabulados quanto à análise de dados. Os
tipos de análise de dados usados nos artigos publicados foram análise
quantitativa e qualitativa. Assim, Nie e outros (2011), Zaidi e outros
(2010),Timken e Van der Mars (2009), Beitzel e Derry (2009) utilizaram a
análise quantitativa. Já os pesquisadores Chan (2010), Windham (2009),
Narkon (2008) e Polio e Zyzik (2009) usaram a análise qualitativa.

Tabela 3 - Tipos de análise de dados usados nos artigos do PsychINFO(2008/


2011)

A Tabela 3 apresenta os tipos de análise de dados usados nos artigos


publicados, sendo 64,3% de trabalhos quantitativos e 35,7% de artigos
qualitativos. O comparando quantitativa vs qualitativa resultou em 1,24,
portanto, não havendo diferença significante, já que = 3,84 (n.sig.=0,05 e
n.g.l. = 1). Os dados sugerem a necessidade de trabalhos com outras formas
de análise, principalmente a quantitativa e a mista, que permitem uma
multiplicidade de interpretação dos dados por meio da análise estatística.
Os estudos ainda foram tabulados quanto ao tema tratado. Inicialmente
a tabulação de temas resultou em sete categorias. Porém, várias categorias
tinham ocorrência muito baixa, o que implicou a necessidade de agrupá-
las. O resultado está apresentado na Tabela 4.
Nessa tabela foram apresentadas as seguintes categorias quanto ao
tema usado: a) Estratégias de Ensino – procedimentos de ensino de leitura
usados na sala de aula; b) Temas variados – outros temas que não os já
referidos; c) Escrita – composição de texto; e d) Internet – uso desta
tecnologia no trabalho.

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Bol. Acad. Paulista de Psicologia, São Paulo, Brasil - V. 32, no 83, p. 471-488

Como exemplo da categoria Estratégias de ensino, há o estudo de


Coyne e outros (2009), que examinaram o papel da instrução direta quanto
a promover a compreensão da leitura em universitários. Foram exemplos
instrucionais dois programas de pesquisa de intervenção, focalizando a
melhoria da compreensão. Uma análise desses programas sugeriu que os
princípios de instrução direta são efetivos em apoiar os alunos com níveis
variados de aprendizagem e que esses princípios poderiam ser usados
para desenvolver a compreensão entre estudantes em pontos diferentes no
desenvolvimento de leitura. Os resultados mostraram que a instrução direta
pode ser planejada para apoiar a aprendizagem complexa e o
desenvolvimento de estratégias cognitivas de ordem superior.
Como exemplo de Estratégias de ensino, tem-se a pesquisa de
Morgenthaler (2009), que considera que as tendências sociais nas áreas
de tecnologia, comunicação global, nos diversos graus de alfabetização e
aprendizagem participativa podem afetar o fornecimento de informação e
influenciar o conteúdo e avaliação do desempenho de classes em calouros
universitários. Esse estudo investigou a percepção de professores de suas
próprias práticas de instrução e o uso de métodos e materiais, por meio do
uso de um questionário, da revisão de curso e de entrevistas pessoais. Os
dados sugeriram que o currículo de habilidades de estudos pode apoiar a
experiência de aprendizagem no desenvolvimento dos alunos. A análise
dos dados revelou que a leitura, as tarefas de escrita e exames objetivos
foram as formas dominantes da pedagogia usada. Também mostrou que
os métodos participativos não tinham uso significante, principalmente aquele
que usava as respostas dos estudantes. Os professores também
expressaram o interesse pelas habilidades de pensamento crítico dos
estudantes e hábitos básicos de estudo. As discussões ofereceram
conselhos práticos sobre como os especialistas sugeriam hábitos de estudo
para os calouros na área de leitura e o uso de computador, análise de eventos
correntes e o pensamento crítico em face dos textos. Esse estudo de
Morgenthaler concluiu que os programas de hábitos de estudo seriam mais
efetivos se programassem um sistema de avaliação das práticas de
professores, da utilização de materiais em cursos com atmosferas de
aprendizagem participativa.

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Bol. Acad. Paulista de Psicologia, São Paulo, Brasil - V. 32, no 83, p. 471-488

Tabela 4 - Temática dos trabalhos no PsychoINFo (2008/2011)

Conforme a Tabela 4, o tema Estratégias de ensino obteve a


frequência de 26 registros (36,5%) e a categoria Temas variados obteve o
N igual a 24 (33,7%). O cálculo do qui-quadrado foi feito para as temáticas
dos trabalhos e indicou que houve diferenças significantes entre Estratégias
de ensino e Temas variados ( sendo o para n.g.l= 3 e
n.sig.= ).
Encontrou-se também no estudo de Witter (1996), sobre leitura na
universidade, a mesma tendência do presente trabalho, do uso frequente
do tema Estratégia de ensino. Além disso, nesta pesquisa houve dispersão
de temas, o que não ocorreu no outro estudo. O trabalho aqui tratado confirma
o de Witter (2005), que encontrou nas análises dos periódicos da área de
Educação no Brasil e Venezuela uma grande dispersão de temas. Também
estes dados ocorrem no estudo de Witter & Feijiwara (2009), que acharam
que no tema tratado em Ensino de Ciências ocorreu essa tendência, como
também nos trabalhos de Hussein em leitura crítica (Hussein, 2011) e leitura
criativa (2012). Estes resultados parecem ser indício da necessidade de
um maior planejamento de pesquisas que explorem mais sistematicamente
um dado tema e também de trabalhos continuados de um determinado tema
nesta subárea. Vale dizer que há necessidade de compor grupos de
pesquisadores voltados para objetivos específicos.
Os dados aqui apresentados indicam que, de um modo geral, essa
subárea é carente de pesquisa, havendo dispersão de dados em relação
ao tipo de temas e tipo de pesquisa.

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Os dados do presente trabalho sugerem que essa subárea está menos


desenvolvida cientificamente do que a compreensão de leitura, em que há
o predomínio em pesquisa, e o delineamento é significantemente mais
sofisticado (experimento) feito por Witter (1999). Além disso, os resultados
aqui indicam que o presente estudo relatado e a subárea leitura criativa
(Hussein, 2012) não apresentaram diferenças entre trabalhos de Pesquisa
e Teórico, parecendo ser mais avançadas do ponto de vista da ciência do
que a área Educação (Witter, 2005) e a subárea Leitura Crítica (Hussein,
2011), em que há o predomínio de estudos teóricos.
Entretanto, um estudo de metaciência em leitura na universidade, que
usou o Annual Summary of Investigations Relating to Reading feito por
Witter (1996), indicou que há predomínio de pesquisas inferenciais e que
essa subárea é desenvolvida cientificamente. Todavia, o estudo aqui sugere
que o presente trabalho é menos desenvolvido do ponto de vista da ciência.
Talvez uma explicação para os resultados diferentes dessas pesquisas seja
não usarem as mesmas bases de dados bibliográficos. Assim, os dados
desta pesquisa sugerem que há necessidade de mais trabalhos que utilizem
outras bases de dados bibliográficos, bem como de aumentar o número
cientométrico, comparando bases e periódicos especializados.
O estudo aqui tratado demonstrou a necessidade de mais trabalhos
com estudantes calouros universitários e pós-graduandos. Também seriam
importantes pesquisas de diferentes temas nessa subárea. Ainda, necessita-
se de pesquisas posteriores que explorem mais sistemática e
continuamente um dado tema.
Fazem-se necessárias mais pesquisas descritivas e mesmo
qualitativas para elucidar vários aspectos pouco conhecidos em leitura para
universitários, que permitam selecionar variáveis para estudos experimentais
mais complexos e demorados, mas de maior segurança e apresentação
de evidências. É uma subárea que evidencia a falta de definição clara deste
comportamento. Há também a necessidade de maior esclarecimento deste
processo de ensino-aprendizagem e das variáveis relacionadas à leitura
para universitários, o que sugere a necessidade de trabalhos posteriores
sobre esta questão. Precisa-se ainda, para obter maior generalização dos
dados, fazer pesquisas experimentais com análises quantitativas para
elucidar diversas variáveis dessa subárea.

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Conclusões
Pode-se concluir mais especificamente que:
1) As pesquisas parecem sugerir que os títulos estão de acordo com
as regras do discurso científico.
2) Os tipos de estudos não apresentam diferenças significantes entre
trabalhos Teóricos e Pesquisa
3) A tipologia metodológica apresenta alguma indicação de que há
mais trabalhos descritivos do que inferenciais.
4) Não há diferenças significantes quanto a análise quantitativa e
qualitativa.
5) Estratégias de ensino é o tema mais estudado, havendo diferenças
significantes entre esta categoria e Temas variados, o que indica a
necessidade de pesquisas posteriores em outros temas.
6) De um modo geral, essa área tem poucas pesquisas, havendo
dispersão de dados em relação aos temas e tipo de pesquisa, o que sugere
a necessidade de mais trabalhos quanto a leitura para universitários.
É necessário realizar outros trabalhos de metaciência em relação à
Leitura para universitários, utilizando-se outras bases de dados, outros
periódicos e fazendo-se comparações com outros direrentes, da mesma
categoria da estudada.

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488
Bol. Acad. Paulista de Psicologia, São Paulo, Brasil - V. 32, no 83, p. 489-496

III. REALIZAÇÕES DA ACADEMIA PAULISTA DE PSICOLOGIA

• Eleições de Nova Diretoria e de preenchimento das vagas das


Cadeiras 19 e 24
Programadas para o mês de Dezembro, as respectivas eleições serão
realizadas em conformidade com o Estatuto e Regimento que dirigem o
referido sodalício.

• Atividades profissionais dos Acadêmicos e Laureados


Academics and Laureates professional activities
Actividades profesionales de los Académicos y Galardonados
Registram-se aqui súmulas das atividades profissionais dos Titulares e
Laureados, realizadas na atualidade e recebidas até o encerramento da coleta
de material para este número do Boletim.

Yolanda Cintrão Forghieri terapeuta adoece existen- Profissionalizante) localizado no


Cadeira nº1 cialmente. Prossegue com suas bairro de Pedreiras, São Paulo. O
“Francisco Franco da Rocha” atividades como docente do objetivo principal do livro é
Proferiu a conferência de curso de formação em Psicologia sensibilizar os leitores para
abertura do curso sobre Fenomenológico-Existencial onde conhecer um projeto educacional,
Aconselhamento Psicológico ministra curso sobre Acon- desenvolvido em um bairro pobre,
realizado na UNESP de Bauru, selhamento Terapêutico, e como na zona sul da cidade de São
sobre o tema Contribuição parecerista de artigos sobre Paulo, para crianças e jovens
pessoal para uma perspectiva temas relacionados à Psicologia. carentes, na faixa etária de 10 a
fenomenológica na Psicologia e 18 anos. Utilizando metodologia
no Acompanhamento Terapêu- Carlos Rolim Affonso participativa, fornece aos alunos
tico. Em decorrência de suas Cadeira nº 3, um ensino profissionalizante, que
pertinentes e numerosas “Fernando de Azevedo” os insere rapidamente no
publicações na área de atuação Continua participativo, como mercado de trabalho. Além disso,
profissional, recebeu o prêmio de sempre, na qualidade de vice- envolve os familiares dos alunos
Literatura Interarte oferecido pela presidente desta Academia. no processo educacional, como
Academia de Artes de Goiás Frequenta as reuniões e é fontes propulsoras na educação
Velho, por se encontrar entre os atuante nas deliberações da dos seus filhos, com base em
melhores autores de artigos Diretoria. Com a intenção de re- valores humanos e cristãos. Os
relacionados à Psicologia, em gistrar suas atividades cursos são gratuitos e seus cus-
cerimônia solene realizada em profissionais, o colega publicou tos, cobertos por doações de
Goiânia – Goiás. Participou do mais um livro “O mundo digital e a pessoas físicas e jurídicas,
congresso Luso Brasileiro de educação profissionalizante” muitas vezes insuficientes para
Práticas fenomenológico- (2012) pela Cultor de Livros. cobrir as despesas. Isso acaba
\
existencial, realizado na UERJ Trata-se de sua experiência, du- por exigir um grande esforço da
(Universidade Estadual do Rio de rante muitos anos, como diretor entidade mantenedora, uma ONG,
Janeiro), com apresentação e pedagógico do CEAP (Centro que vai constantemente em
debates sobre o tema Quando o Educacional e Assistencial busca de doadores, para

489
Bol. Acad. Paulista de Psicologia, São Paulo, Brasil - V. 32, no 83, p. 489-496

completar os gastos que mantém receberam a homenagem, entre outros artigos, de outros livros
com a referida entidade. outros agraciados, os seguintes que serão publicados pela citada
Acadêmicos: Waldecy Alberto editora e também pelo Editorial
Arrigo Leonardo Angelini Miranda (Cad. 16), Mathilde Neder Plaza Valdez (Madrid). No Brasil,
Cadeira nº 4, (Cad. 14), José Glauco Bardella contribuiu com o capítulo As
“Antonio Ferreira Almeida (Cad. 8) e Geraldina Porto Witter virtudes e o Mundo Contem-
Junior” (Cad. 23). Colaborou com um porâneo. Anotações sobre o
Além das suas funções trabalho sobre o legado de Otto Movimento Epicuriano para o
normais que caracterizam a Klineberg para a Psicologia no livro Psicologia da Religião no
Presidência deste sodalício e as Brasil, objeto de pesquisa Mundo Contemporâneo,
de colaborador deste Boletim, histórica conduzida pelo Dr. organizado por Marta Helena de
participou da 2ª Mostra Nacional Marcos Chor Maio, da Fundação Freitas e Geraldo Paiva.
de Práticas em Psicologia, Oswaldo Cruz – Rio de Janeiro. Resenhou o livro de Wilhelm
realizada no Palácio de Conven- Neste mesmo sentido, o Shmid (2010) La Felicidad: todo
ções do Anhembi, em São Paulo, Acadêmico prestou depoimento lo que debe saber al respecto y
organizada pelo Conselho Fed- sobre o legado de Gioconda Mus- por qué no es lo mas importante
eral de Psicologia, como parte das solini, à Liliane Goes Oliveira, en la vida. Valencia: PRE-
comemorações do cinquente- orientada por Ana Jacó Vilela TEXTOS. Além deste, resenhou
nário da aprovação da Lei que (Universidade Federal do Rio de outros livros para este Boletim.
regulamentou a profissão de Janeiro). No dia 26 de outubro, Participou do VIII Seminário de
Psicólogo no Brasil. Nessa atendendo convite da Acadêmica Psicologia e Senso Religioso, na
ocasião, foi realizado o Eda Marconi Custódio, o colega Mesa Redonda “Religião e Vida
lançamento de um número espe- participou da Semana de Contemporânea no Mundo
cial da revista Psicologia: Ciência Psicologia da UMESP Ocidental”. Integrou a Comissão
e Profissão, no qual figurou a (Universidade Metodista de São Consultiva da Exposição
entrevista que, como Presidente Paulo), ocasião em que proferiu Itinerante: 50 anos da profissão
desta Academia, concedeu ao a conferência por eles intitulada no Brasil promovido pelo
CFP sobre o histórico da Psicologia brasileira: 50 anos. Conselho Federal de Psicologia.
campanha junto à Câmara Fed- Tomou parte da Comissão Cen-
eral para aprovação da referida Norberto Abreu e Silva Neto tral de Avaliação para a
Lei. Participou também da sessão Cadeira nº 6, Progressão Docente na USP.
solene de inauguração da “Milton Camargo da Silva Reintegrou-se ao Conselho Edi-
referida mostra, na qualidade de Rodrigues” torial e como avaliador
primeiro Presidente do Conselho Neste semestre, o colega cadastrado de revistas de
Federal de Psicologia (1973 – publicou artigos e resenhas, natureza psicológica. Mantem-se
1976) com o registro número 1 participou de eventos e de em contato, em Oxford, com o
no Conselho Regional de comissões avaliadoras de psicólogo de renome, o Profes-
Psicologia de São Paulo. No dia progressão de carreira sor Peter M.S. Hacker, distinguido
27 de agosto, dia do Psicólogo, o universitária. Reintegrou-se às autor de numerosos livros sobre
Conselho Regional de Psicologia atividades editoriais e realizou a obra Wittgenstein.
de São Paulo realizou sessão visita acadêmica. Acaba de ser
comemorativa do cinquentenário publicado o livro Doubtful Cer- Marina P. R. Boccalandro
da regulamentação da Lei 4119, tainties: Language Games, Cadeira nº 13,
na qual foram homenageados os Forms of Life, Relativism, “Renato Ferraz Kehl”
cinquenta psicólogos que editado por Jesús Padilla Galvez Continua como Professora
receberam os primeiros registros e Margit Galfat, Frankfurt am Associada da PUC/SP e atuando
naquela entidade. Além do Main: Ontos Verlag (Series Apo- como supervisora da Clínica
Presidente desta Academia, ria). Encontram-se no prelo Psicológica da mesma

490
Bol. Acad. Paulista de Psicologia, São Paulo, Brasil - V. 32, no 83, p. 489-496

Universidade. Nesta última publicou capítulos em livros correlatas. Além do intenso


atividade, participa da triagem da nacionais, como no Tratado de trabalho acima citado, Kanaane
comunidade puquiana e de Pediatria, editado pela SBP e no leciona, também, na qualidade de
clientes externos; ministra Compêndio de Psiquiatria Clínica, Professor Pleno II, Psicologia na
supervisão a grupos de pelo Instituto de Psiquiatria do HC- Fatec (Faculdade de Tecnologia
aprimorandos que atendem FMUSP. Participou de diversos de São Paulo); no curso de pós-
clientes em triagem, e é terapeuta congressos e publicou artigos em graduação em Administração de
de dois grupos que sofrem de periódicos diversos, além da Empresas na PUC/SP; MBA na
transtorno do pânico e ansiedade segunda edição do livro “Tratado Fundação Instituto de
generalizada. Ministra a disciplina de Psiquiatria da Infância e Administrações (FIA), e no
eletiva, Transtorno do Pânico – Adolescência”, revista e Centro Estadual de Educação do
uma visão da Psicossíntese e ampliada, obra única no gênero Centro Paula Souza. Além disso,
outras abordagens. É parecerista no Brasil, composta por 92 através de sua Consultoria,
de trabalhos de iniciação capítulos, 132 colaboradores e assessora empresas de grande
científica do PIBIC-CEPE e da PUC/ mais de 1000 páginas. Constitui porte. Fora esta linha acadêmica
SP, além de ser consultora de uma obra de referência no e de avaliação empresarial,
Pós-Graduação para doutorado, gênero, e como base para realiza seleção de executivos,
da Revista da Faculdade de obtenção do título de especialista gestores e profissionais técnico-
Psicologia da PUC-SP e de na área. Passou a fazer parte, administrativos e também se
Trabalhos de Conclusão de como membro Titular, da ocupa da orientação de
Curso. Tomou parte da equipe de Academia Paulista de Medicina, monografias para TCC e de
professores consultores Ad hoc, na Cadeira 103, que tem como dissertações para Mestrado na
na avaliação de trabalhos do 19º patrono o Prof. André Teixeira Universidade Mogi das Cruzes,
Encontro Estadual de Serviços – Lima. Faculdade de Tecnologia de São
Escola de Psicologia do Estado Paulo e na FIA. Para completar
de São Paulo. Na Academia Roberto Kanaane suas atividades, o Acadêmico
Paulista de Psicologia, dirige a Cadeira nº 21, proferiu palestra de sua
Comissão de Publicações desde “Raul de Moraes” especialidade para executivos da
Janeiro de 2010. Participou do XI Neste semestre, o Acadêmico Volvo e no Congresso Brasileiro
Congresso de Psicologia ascendeu na carreira docente no de Administração, ocorrido, este
Hospitalar, realizado na Unicamp Centro Paula Souza, sendo último, na Bahia.
– Campinas, São Paulo, nomeado Professor Pleno II.
organizado pelo Centro de Nesta instituição pertence ao Lino de Macedo
Psicoterapia Existencial, no Programa de Mestrado: Gestão Cadeira nº 22,
período de 11/10/12 a 14/10/12. de Tecnologia do Sistema “João Carvalhaes”
Produtivo, no qual desenvolve a Durante o período que vai de
Francisco B. Assumpção Jr. linha de pesquisa Análise das maio a outubro do presente ano,
Cadeira nº 17, Organizações, orientando o colega demonstrou-se, como
“Jean Margüé” mestrandos e lecionando a sempre, muito produtivo. Em
Durante este segundo disciplina Relações Humanas no termos de artigos científicos,
semestre de 2012, continuou com Trabalho. Coordena o curso de publicou Los sujetos de Piaget y
atividades didáticas no Instituto pós-graduação em Políticas su educación, no livro
de Psicologia da USP, ministrando Publicas, da Universidade de Construyendo mentes: Ensayos
disciplina no curso de graduação Mogi das Cruzes (UMC) em en homenaje a Juan Delval,
(Psicologia e Deficiência) e de parceria com várias Secretarias organizado por Madruga, J.G.;
pós graduação (Psicologia e das Subprefeituras na cidade de Kohen, R.; Barrio, C., Enesco, I. &
Psiquiatria). Paralelamente, São Paulo e outras entidades Linasa, J.L., publicado pela

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Libreria UNED: Madrid, 2012. Geraldina Prto Witter ali proferiu a palestra La
Também publicou, como trabalho Cadeira nº 23, formación del docente hoy, ante
completo, nos anais do XXV “Dante Moreira Leite” los desafios de nuevos
Encontro Nacional de Apesar de sua enfermidade, contextos, na cidade de
Professores da Proepe, o continua atuante e participativa Encarnación, República do
denominado Os sujeitos de na coordenadoria dos cursos de Paraguai. Tem sido parecerista
Piaget e sua educação. Para pós-graduação “Stritu-Sensu” da em revistas de Psicologia e foi
grande público, escreveu artigos Universidade Castelo Branco, em avaliadora da Feira Brasileira de
sobre Toda atenção para a Mogi das Cruzes, e prestando Ciências e Engenharia – Escola
Neurociência (Nova Escola), e assessoria a outras entidades Politécnica da USP.
concedeu entrevista à Folha de congêneres. Sua produção
São Paulo. Participou de várias científica se traduz por uma Denise Gimenez Ramos
bancas de obtenção de títulos variedade de artigos de Cadeira nº 27,
universitários: a começar pelas divulgação científica, sendo “Herbert Baldus”
de Professor Titular no Instituto escritora assídua do Diário de A Acadêmica orientou várias
de Artes e na Faculdade de Mogi. Para este jornal, escreveu pesquisas de mestrado e de
Educação, ambas instituições da 26 artigos a partir de janeiro até doutorado. Proferiu diversas
UNICAMP, e de Livre Docência, outubro do corrente ano. Realizou palestras no Brasil e no Exterior.
na Faculdade de Arquitetura e resenhas para este Boletim de Em Portugal, participou do comitê
Urbanismo, na USP, e continua recentes livros de Psicologia organizador da IV Academic
com as de doutorado, em dois Escolar e também a ele tem Conference da International As-
concursos, um na Escola de dedicado bons artigos. Escreveu sociation for Junguian Studies e
Comunicação e Artes e outro na os seguintes capítulos de livros: da International Association for
Faculdade de Educação, ambos Avaliação do Professor, em Analytical Psychology. No
da USP. Em termos de mestrado, Avaliação Escolar: Estratégias e plenário dessa Conferência,
participou de uma banca no Debates, organizado por apresentou o trabalho: O Método
Instituto de Psicologia na USP e Rodrigues (2012) e publicado na de Análise do Sandplay. Nos
outra na Universidade Federal de cidade de São Paulo; dois Estados Unidos da América do
Rondônia, além de integrar-se em capítulos: Criatividade na Velhice Norte, ministrou as palestras: A
vários comitês de qualificação e Cuidador do Idoso, em transdução de uma taquicardia
sobre mestrado e doutorado. Lino Envelhecimento e Contingências – um caso de uma criança de 8
também marcou sua presença da Vida, organizado por Witter e anos, no Instituto C.G. Jung de
participativa em vários eventos, Buriti (2011) e publicado pela Los Angeles e O trauma
como no I Congresso Sabará de Editora Alinea. Participou de intergeracional da escravidão:
Especialidades Pediátricas, bancas examinadoras para um estudo feito no Pelourinho,
participando de mesa redonda; obtenção do título de mestre, da Salvador, no Pacifica Institute of
no II Seminário de Psicologia: 50 candidata Cleice Branco Silva, Graduate Studies, em Santa
anos de Psicologia no Brasil, com a monografia, Influência de Barbara, Califórnia. Nesse
proferiu conferência de abertura um programa de dança nos mesmo Instituto, ministrou um
do mesmo; no XIV Simpósio da aspectos biopsicossociais dos curso de Estudos em
ANPEPP, coordenou o grupo idosos, na Universidade São Ju- Psicossomática, de 20 horas.
Jogos e sua importância para a das Tadeu. Proferiu palestra e Tomou parte também, do VI
Psicologia da Educação e no IV conferência sobre Ética e Fraude Congresso Latino Americano de
Fórum Internacional de Educação no Discurso Científico, na Psicologia Junguiana, em
proferiu a conferência: Ensino e Universidade Federal de São Florianópolis, com o tema:
Aprendizagem: como avaliar. Paulo. Esteve na XIV Jornadas Amizade: bem estar e conflitos
Transandinas de Aprendizaje e advindos de complexos

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familiares. Publicou: Transtornos Sciences (IUPsyS) realizadas Participou com o artigo Imortais
psicossomáticos, capítulo do com os países membros. Nessa e Academias da cidade de São
livro “Psicopatologia ocasião foi aprovada a proposta Paulo da antologia São Paulo em
Psicodinâmica Simbólico- apresentada por um “consórcio” cena, a ser traduzida em francês;
Arquetípica”. Uruguai: Prensa entre ANPEPP, ABRAPSO e iniciativa da Literarte. Recebeu
Médica Latino-americana, 2012. SBPOT para a volta do Brasil à honroso prêmio pela colaboração
IUPsyS, à qual o país pertenceu na antologia Elas vieram de
Maria Regina Maluf na fundação em 1951 e marcou Longe, ato que aconteceu em
Cadeira nº 28, presença em 1996. A entrada do Petrópolis, no Palácio de Cristal.
“Maria da Penha Pompeo de Brasil na União Internacional de Prefaciou o livro Mundo digital e
Toledo” Associações de Psicologia é uma a Educação Profissionalizante,
Proferiu conferência sobre o boa notícia para a psicologia e os escrito pelo Acadêmico Carlos
tema, a ciência cognitiva da psicólogos brasileiros. Rolim Affonso. Emitiu pareceres
leitura, no IV Congresso Regional a currículos de professores
da SIP, em Cruz de la Sierra Aidyl M. de Queiroz Pérez- universitários para ascensão de
(Bolívia), no qual participaram Ramos carreira. Encontra-se no prelo o
alguns de seus alunos, Cadeira nº 30, livro A criança pequena e o
mestrandos e doutorandos do “Geraldo Horácio Paula Souza” Brincar da qual é uma das
programa de pós-graduação em A Acadêmica, nas suas organizadoras e autoras.
Psicologia da Educação da PUC- funções de Secretaria Geral Participou, efetivamente, da
SP. Foi essa uma excelente deste sodalício, vem se pesquisa sobre o legado do Dr.
oportunidade de intercâmbio ocupando do processo eleitoral Otto Klineberg, referente a seu
acadêmico com colegas e para preenchimento das Cadeiras tempo em São Paulo, como aluna
estudantes latino-americanos. vagas, números 19 e 24, cujo que foi deste ilustre psicólogo;
Participou do XIV Simpósio resultado está previsto para o fi- trabalho organizado pelo Dr.
ANPEPP que teve lugar em Belo nal deste ano. Segue na Marcos Chor Maio da Fundação
Horizonte, de 6 a 9 de junho, editoração deste Boletim, Oswaldo Cruz, Rio de Janeiro.
apresentando trabalho no G.T. recebendo artigos e preparando-
Desenvolvimento Sociocognitivo os para avaliação dos Irai Cristina Boccato Alves
e da Linguagem. Assistiu a pareceristas. Do ponto de vista Cadeira nº 31,
apresentação feita por Stanislas acadêmico, tomou parte, como “Clemente Quaglio”
Dehaene em São Paulo (6 de membro efetivo, do Concurso de Na atuação como docente do
julho) sobre Os Neurônios da Títulos e Provas para obtenção Instituto de Psicologia da USP,
Leitura, título de seu livro recém- do Título de Livre-Docente do continua ministrando disciplinas
traduzido para o português. Departamento de Psicologia na graduação e na pós-
Participou, por meio de Clínica do Instituto de Psicologia graduação, bem como nas
conferência, a convite, do da USP. Participou, como editora atividades de orientação de
simpósio, do 30th International deste Boletim, do III Seminário de doutorandos e de iniciação
Congress of Psychology Desempenho dos Periódicos científica. Foi aprovada no
(IUPsyS), na Cidade do Cabo Brasileiros, organizado pela processo de progressão na
(África do Sul), de 22 a 27 de FAPESP (Fundação de Amparo à carreira docente como “Profes-
julho, onde tomou parte também Pesquisa do Estado de São Paulo) sor Doutor 2”. Participou de duas
das Reuniões de Diretoria da In- e o SCIELO (Science Eletronic Li- bancas de exame de qualificação
ternational Association of Ap- brary On-line) onde teve a para Doutorado no Instituto de
plied Psychology (IAPP), bem oportunidade de dialogar com Psicologia da Universidade de
como das Assembleias da Inter- vários editores de Psicologia e de São Paulo e uma para Mestrado
national Union of Psychological outras áreas do conhecimento. na Universidade Metodista de São

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Paulo. Proferiu palestras em dois coordena e participa de cursos, gestores de brinquedotecas da


eventos comemorativos da encontros temáticos e grupos de Secretaria Municipal de Saúde de
Semana da Psicologia, um na estudo, voltados para a São Paulo. Foi objeto de entrevista
Universidade Guarulhos e outro formação de brinquedistas, inclu- sobre a importância do brincar
na Universidade Santo Amaro. sive hospitalares, divulgando a para o Portal UOL, e para o jornal
Tomou parte da Comissão relevância do brincar para o O Estado de São Paulo. Prefaciou
Organizadora do evento: desenvolvimento saudável da o livro Atuação em
Atenção psicológica a pacientes criança. Atua como link-person Psicopedagogia Institucional:
com dor crônica, promovido pela junto à International Toy Librar- brincar e aprender em diferentes
Associação de Psicologia de São ies Association, representando cidades, organizado por Maria
Paulo – ASPSP. Participou, neste o Brasil. Continua como membro Celia Malta Campos. Ainda junto
período, dos seguintes do Grupo de Trabalho da ANPEPP, à ABBri, atua como membro da
congressos: o XIIV Simpósio Brinquedo, Aprendizagem e comissão editorial e diretora
ANPEPP: Produção e Divulgação Saúde, e do Laboratório de responsável do Informativo
Científica: os desafios da Epistemologia Genética do Brinquedista. Além dessas
interdisciplinaridade; o X Encontro Instituto de Psicologia da USP, atividades, dá continuidade à
Mineiro de Avaliação Psicológica coordenado pela Profa. Zélia emissão de pareceres a
(X EMAP, 2012); o III Congresso Rammozzi-Chiarotino, onde dá monografias em revistas
Latino-Americano de Avaliação prosseguimento a sua pesquisa científicas. Continua prestando
Psicológica; a 42ª Reunião da sobre ritmos biológicos e serviços como psicóloga clínica.
Sociedade Brasileira de construção simbólica, via lúdico.
Psicologia; o VII Congresso Ibero- Participou da mesa redonda Edda Bomtempo
americano de Psicologia e o VI “Políticas Públicas e a Cadeira nº 36,
Congresso Interno do Instituto de Brinquedoteca” na III Jornada da “Washington Vita”
Psicologia da USP. Publicou um Brinquedoteca do Hospital Segue como orientadora do
capítulo no livro sobre o desenho Universitário Pedro Ernesto: programa de pós-graduação em
infantil, em colaboração com mais “Brinquedoteca & Universidade”, Psicologia Escolar e do
três autores, e teve a publicação no Rio de Janeiro. Ministrou a Desenvolvimento Humano.
da reedição ampliada do Manual palestra A Importância do Participou do II Simpósio sobre “O
do R-2: Teste de Inteligência Brincar e do Brinquedo na Brinquedo e a assistência de
Não Verbal para Crianças, em Alfabetização no Seminário enfermagem à criança e sua
colaboração com Helena Rinaldi Alfabetização e Cidadania, família”, em setembro de 2012, na
Rosa. Emitiu pareceres sobre promovido pela Universidade UNIFESP. A participação ocorreu
artigos submetidos a revistas Católica de Santos, bem como a em mesa redonda cujo tema cen-
científicas e concluiu a editoração palestra no Seminário A Inclusão tral foi O brincar como mediador
do número 135 do Boletim de do Brincar nas Políticas das interações: um enfoque so-
Psicologia da Associação de Públicas, promovido pela ciocultural. A exposição da
Psicologia de São Paulo, em Secretaria da Justiça e Defesa Acadêmica versou sobre A
colaboração com Paulo Fran- da Cidadania, pela IPA Brasil e influência do gênero nas
cisco de Castro. pela Escola de Artes, Ciências e brincadeiras infantis. Organizou
Humanidades – EACH/USP Leste. o livro Felizes e Brincalhões:
Vera Barros de Oliveira Ministrou a aula As uma reflexão sobre o lúdico na
Cadeira nº 35, Brinquedotecas como Recurso educação, sendo também uma
“Elsa Barra” para Humanização, Acolhimento das autoras. A publicação é da
Como presidente da e Melhoria do Atendimento e Wak Editora, Rio de Janeiro,
Associação Brasileira de Qualidade de Vida dos Usuários 2012. Além dessas atividades,
Brinquedotecas, ABBri, organiza, dos Serviços de Saúde junto a continua como Editora do

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informativo “O Brinquedista”, da referentes às temáticas de seus Detenção Provisória, mas tem


Associação Brasileira de projetos de pesquisa. Publicou os abrigado muitas pessoas que já
Brinquedotecas, e membro da seguintes capítulos dos livros: estão condenadas a
Diretoria da mesma Associação, Abordagens Terapêuticas em cumprimento de pena em regime
participando ativamente da Psicoterapia Analítica, organi- fechado. Como membro do
Academia como Secretária da zado por Assumpção Jr. F.B., Conselho Regional de Psicologia
atual gestão. Na Academia Kuczynski, E. (Eds) e Tratado de de São Paulo, organizou ações
Paulista de Psicologia, é atuante Psiquiatria da Infância e do Projeto Psicologia e interface
na qualidade de Primeira Adolescência, 2ª edição, capítulo com a Justiça, na região
Secretária. 79. São Paulo, Editora Atheneu, metropolitana de São Paulo. Além
2012. Possui uma coluna mensal dessa atividade, a participação
Ceres Alves de Araújo sobre Família, na Revista no Ano Temático da Avaliação
Cadeira nº 39, eletrônica Vya Estelar da Uol, Psicológica e dos 50 Anos de
“Antonio Miguel Leão Bruno” homepage www.vyaestelar. Profissão, vem se empenhando
Professora do Núcleo de com.br. Tem sido parecerista de na organização de eventos
Psicossomática e Psicologia monografias para revistas regionais e nacionais relativos
Hospitalar e do Núcleo de Estudos nacionais e internacionais de aos temas. Também como
Junguianos do Programa de psicologia e saúde mental. conselheira neste atual plenário,
Estudos Pós Graduados em continua participando de ações
Psicologia Clínica da PUC/SP. Alacir Villa Valle Cruces na interface da Psicologia e da
Nesta atividade ministra a Período 2008 - 2010 Educação, por meio da qual tem
disciplina, Abordagens Como professora e mapeado os projetos de lei
Psicossomáticas em Áreas supervisora do curso de estaduais e federais que se
Específicas, cujo conteúdo é graduação em Psicologia, da referem a essa área, a fim de
composto por quatro seminários Faculdade de Saúde da propor ações que contribuam
(sobre Resiliência; Psicologia Universidade Metodista de São para a inserção do psicólogo no
Clínica na Contemporaneidade; Paulo, área escolar e sistema educacional, e para que
Neurobiologia das Primeiras educacional, além das atividades se resgate a função de profes-
Relações Interpessoais; e de rotina, participou do Comitê de sor de Psicologia no Ensino Médio
Transtornos do Desenvolvimento Ética em Pesquisa da e na luta contra a medicalização,
Humano), além de orientação a Universidade, na orientação de a patologização e a judicialização
alunos de mestrado e doutorado. Trabalhos de Conclusões de da educação e da sociedade.
Pertence a duas linhas de Curso (TCCs) e na XXXV Semana Muitos desses trabalhos foram
pesquisa: 1 – Orientações da Psicologia, com a organização sistematizados e apresentados
Contemporâneas na Psicologia e participação na mesa-redonda: na 2ª Mostra Nacional de Práticas
Clínica, desenvolvendo o projeto “Psicologia e Sistema Prisional: em Psicologia, organizada pelo
de pesquisa Resiliência: Desafios para a formação e CFP e realizada no Anhembi, em
Atualização do Conceito e atuação do psicólogo”. Como outubro deste ano. Realizou
Medidas; e 2 – Fundamentos da psicóloga da Secretaria da entrevistas com coordenadores
Psicologia Clínica desen- Administração Penitenciária do de cursos de Graduação em
volvendo o projeto de pesquisa Estado de São Paulo, trabalhou Psicologia, estruturando coleta de
sobre a Gênese da função no acompanhamento e na dados junto a professores e
simbólica sob o referencial da avaliação de pessoas presas, do alunos dos mesmos cursos, como
Psicologia Analítica. Participou, sexo masculino, quanto à sua parte de pesquisa que
como convidada, em eventos permanência em regime desenvolveu em conjunto com
nacionais e internacionais, nos semiaberto, atualmente, outros pesquisadores deste e de
quais apresentou trabalhos encontra-se um Centro de diversos outros estados

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brasileiros, sobre a formação do em revistas populares. Conduziu reflexão epistemológica ligada ao


psicólogo escolar e as Diretrizes um workshop com o título Amigos campo profissional dos clínicos
Curriculares. Tal pesquisa está, em Canções no VI Congresso da psicologia, o psicólogo
ainda, articulada às propostas do Latino-Americano de Psicologia proferiu, como convidado, a
Grupo de Trabalho de Psicologia Junguiana, em Florianópolis, SC, palestra Psicopatologia e
Escolar e Educacional da que teve por tema Amizade e psicologia clínica: o que muda
Associação Nacional de Pesquisa seus paradoxos – fraternidade, com o ato médico, como parte
e Pós-Graduação em Psicologia conflitos e (in)tolerância. das atividades Seminários
(ANPEPP) do qual continua a Clínicos – A psicopatologia e
fazer parte e para a qual a Marcelo Morais Nicaretta suas interfaces, desenvolvida
pesquisa fornece subsídios para Período 2011 - 2013 pelo Laboratório de
o planejamento de ações na Como principal atividade Psicopatologia, Psicoterapia,
referida área. profissional ao longo de 2012, foi Psicanálise e Linguagem da
sua prestação de serviço em Universidade de Brasília (UnB).
Alberto Pereira Lima Filho consultório privado. Como Analisando sob a ótica da
Período 2000 - 2003 derivativo deste trabalho e psicologia, a lei que ficou
No período, deu prosseguimento complementar a ele, pode-se conhecida como “lei do ato
a seu trabalho com grupos de destacar a investigação científica médico”, sobre o qual proferiu
estudos (multidisciplinar e clínico) da prática profissional do a palestra que objetivou
em Psicologia Analítica, em São psicólogo clínico, como esclarecer o público de
Paulo. Em companhia de Laura psicoterapeuta. Esta preo- estudantes de psicologia sobre
Villares de Freitas, docente da cupação é abordada na as consequências negativas
Universidade de São Paulo, investigação teórica laureada desta lei para o campo
orientou um grupo de estudos de pela Academia. Tem estimulado a profissional dos psicólogos no
Psicologia Analítica, destinado produção de alguns artigos que Brasil. Como parte da pesquisa
exclusivamente a educadores. auxiliam na compreensão do em torno da regulamentação do
Dedicou-se ao trabalho com a campo profissional do psicólogo campo profissional dos
Clínica Social, serviço de no Brasil e que favorecem uma psicólogos, o colega tem mantido
atendimento psicoterápico a compreensão histórica da trocas constantes através das
pessoas de baixa renda, psicologia atual. Neste semestre, redes sociais, com diversos
oferecido pela Opus Psicologia e o tema desenvolvido foi o uso do psicólogos do Brasil, Argentina,
Educação Ltda., sob sua termo social como base para as Portugal e França, coletando
supervisão e direção. Deu práticas psicológicas. Desta informações acerca das
continuidade à pesquisa sobre o tarefa foi produzido o artigo: condições de trabalho destes
tema “Intimidade”, em conjunto Desnaturalizando o fim social da profissionais e com a atuação
com Patrícia Albuquerque Lima, psicologia clínica, publicado no dos Governos, na regula-
da Universidade Federal do Rio livro Psicoterapias hoje: mentação do seu mercado
de Janeiro, campus de Rio das direções técnicas e episte- profissional.
Ostras. Redigiu e publicou artigos mológicas. Ainda como parte da

Nota: A Diretoria, consciente da importância das contribuições profissionais e científicas


que nossos colegas vêm realizando, cujo conhecimento os demais integrantes da Academia e
também outros psicólogos podem ter especial interesse, solicita a todos os seus membros,
bem como aos laureados, que remetam tais informações à Secretaria, durante o penúltimo mês
do semestre anterior à publicação do próximo número deste Boletim. Reiterando o pedido feito
por Circulares e Boletins anteriores, lembra aos prezados colegas que o próximo período para
remessa dessas informações encerrar-se-á em 15 de março de 2013.

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IV. RESENHAS DE LIVROS Word p.183

• De Botton, A. (2012). Religion for Atheists: a non-believer’s guide to the


uses of religion. New York: Pantheon Books, 320p.
Everton de Oliveira Maraldi1
Universidade de São Paulo - USP

É bastante comum entre os céticos e ateus militantes uma atitude


desdenhosa frente às crenças e práticas religiosas, não raro envolvendo a
tentativa (um tanto utópica) de supostamente eliminá-las ou impedir sua
disseminação, mediante a estratégia de combater, em termos lógicos e
racionais, suas doutrinas e princípios morais – a exemplo do que vemos em
Deus: um delírio, de Dawkins (2007). Apesar da controvérsia e do burburinho
instaurados pelas investidas agressivas desses autores, as religiões
permanecem bem, obrigado. É até possível, como em diversas outras
situações semelhantes, que o “tiro saia pela culatra” e acabe promovendo
uma indesejada e não intencional propaganda das ideias religiosas, contra
os próprios interesses dos que apertaram inicialmente o gatilho. A verdade
é que muitos ateus atacam um inimigo que talvez não exista, pelo menos
não do modo reducionista e particularizado como o concebem. Embora
não desvalorizemos por completo o esforço de denunciar nas religiões tudo
o que há nelas de desumano e patológico, não devemos negligenciar, por
outro lado, como psicólogos e profissionais de saúde mental, o seu
importante papel psicológico e social na vida de milhões de pessoas. Já
não se trata apenas de questionar a veracidade dessas crenças, mantendo
a questão em um nível puramente ontológico (embora esse aspecto não
deva ser cientificamente menosprezado), mas principalmente de investigar
seus usos e sentidos, isto é, os motivos e fatores psicossociais que fazem
com que as religiões, ainda hoje, e a despeito de nosso mundo dito
“secularizado”, sejam um campo altamente atrativo e reconfortante para
indivíduos em diferentes circunstâncias e contextos socioculturais. Não é
ocioso lembrar, como o fez Carl Jung, que um dos vários fundamentos da
moderna psicoterapia remonta, historicamente, à prática cristã da confissão.
Muito antes de havermos desenvolvido nossas técnicas de trabalho, eram

1
Psicólogo; bolsista FAPESP (Processo n° 2011/05666-1, agradecimentos pela bolsa
concedida), membro do Inter Psi – Laboratório de Psicologia Anomalística e Processos
Psicossociais da USP, Student Associate da Parapsychological Association (Estados Unidos).
Contato: Rua José de Alcântara Machado Filho, n° 30, Jardim Guapira, São Paulo, SP, Brasil.
CEP: 02316-220 – Brasil. Tel: (11) 2242-2417. E-mail: evertonom@usp.br 497
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certamente os clérigos e os xamãs que, sem a mesma sistematização e


conhecimento de que dispomos, exerciam-nas já em proveito dos que delas
necessitavam. Se quisermos (e pudermos) efetivamente nos desfazer
dessas crenças e práticas algum dia, devemos ser capazes de reconhecer
o que delas angariamos de benéfico em seu percurso histórico, e de
respeitar e preservar tais contribuições.
É o que parece defender, com outras palavras, o escritor Alain de
Botton em seu imaginativo, ricamente ilustrado e instigante livro Religion
for Atheists. De Botton sugere que valorizemos nas religiões não suas
doutrinas, mas sua sabedoria. A premissa central do livro é a de que é
possível permanecer ateu e, no entanto, considerar as religiões
“esporadicamente úteis, interessantes e consoladoras – e mostrar-se
curioso quanto às possibilidades de se importar algumas de suas ideias e
práticas para o mundo secular” (p. 12). Embora a abordagem do autor seja
típica de um filósofo, acessando os assuntos, em cada capítulo, de modo
amplo e especulativo, suas ideias tem clara influência psicanalítica e
sociológica, e conduzem o leitor de modo agradável ao longo das páginas
– preenchidas, aqui e ali, por belas imagens relacionadas aos assuntos
levantados.
É possível que o livro de De Botton provoque reações diversas em
seus leitores. O próprio autor reconhece que os religiosos talvez se ressintam
de seu discurso contrário à veracidade de suas doutrinas, ao passo em que
os ateus porventura se revoltem contra sua atitude respeitosa ao
Cristianismo, ao Judaísmo e ao Budismo, as três principais tradições
abordadas no livro. A solução encontrada por De Botton é a de um caminho
intermédio. Partindo de uma premissa claramente psicológica, ele defende
que as religiões teriam sido criadas para servir a necessidades centrais da
vida humana, como, por exemplo, a necessidade das pessoas de viverem
juntas e manterem comunidades coesas e harmônicas (apesar de nossos
instintos violentos e egoístas), e a necessidade de enfrentar graus excessivos
de dor e sofrimento que surgem de nossa vulnerabilidade ao fracasso
profissional, aos problemas de relacionamento e à morte de pessoas
queridas. Essas e outras funções das religiões são exploradas em detalhe
pelo autor, ao longo de sua obra. Para ele, nosso mundo secular não tem
nos preparado suficientemente bem para lidar com todas essas questões,
e De Botton também investiga as razões disso. Deus pode estar morto
para alguns, mas não os dilemas psicológicos e sociais que se acham na

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origem de diferentes religiões. De modo inverso ao discurso cético reinante,


De Botton oferece um panorama inteligível e bem fundamentado dos motivos
de se ter fé, deixando de lado a concepção das religiões como fenômenos
inteiramente regressivos.
Cada capítulo é dedicado a uma virtude das religiões. De Botton inicia
sua análise pela noção de comunidade. Ele explica que com o aumento
populacional, e com o elevado número de pessoas vivendo nas grandes
metrópoles, a sociabilidade foi prejudicada, e o contato com estranhos se
tornou uma fonte de apreensão. A arquitetura das cidades é desenhada de
tal modo, nas sociedades contemporâneas, que desvaloriza a reciprocidade
entre as pessoas e o valor de cada uma no esquema geral das coisas, a
não ser no sentido do mero compartilhamento de um espaço público, sem
interatividade significativa. Ele também sustenta que os encontros em bares,
restaurantes e eventos sociais diversos em nosso mundo secular ocidental
não representam uma verdadeira comunidade, mas apenas dão
continuidade a vínculos profissionais e pessoais particulares, novamente
afastando estranhos de estranhos. A mídia funcionaria, por sua vez, como
um grande mediador imaginário na relação com os outros, criando
estereótipos e padrões de comportamento reproduzidos de modo alienante.
Tomando a missa como modelo de comunidade, De Botton argumenta que
nela todos compartilhariam um mesmo pecado, o pecado original, e suas
dores e sofrimentos seriam simbolicamente partilhados, como parte da
noção de uma humanidade falível. A caridade e a solidariedade são
enfatizadas, ainda que nem todos a sigam com presteza, o que é
compreensível, dada a falibilidade da condição humana. O tipo de amor
valorizado aí é uma forma de amor universal, em contraste com a sempre
egoísta e orgulhosa paixão romântica, que coloca no outro a
responsabilidade por nossa própria felicidade. Nos rituais comunais, seria
possível uma mediação psicológica entre os interesses dos indivíduos e da
comunidade, ao contrário da ênfase no individualismo e na busca por
sucesso profissional.
De Botton defende também que as religiões nos legaram importantes
lições do ponto de vista educacional. Ele afirma que, em contraste com a
ideologia liberalista, as religiões sempre se dispuseram a estabelecer
padrões, códigos e normas de conduta específicas sobre como os indivíduos
devem se comportar em sociedade. Embora nos vangloriemos dos ideais
da democracia e da liberdade de expressão, vemo-nos em apuros, no

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instante seguinte, ao tentarmos impor algum limite aos nossos filhos quando
agem de maneira considerada inadequada, ou quando tentamos impor a
nós mesmos a dieta necessária para a nossa saúde ou o esforço de vontade
para nos livrarmos de nossos vícios e hábitos insalubres. De Botton critica
nossa presumida maturidade racional, lembrando-nos que, do ponto de vista
emocional, guardamos conosco muitas das incertezas e vulnerabilidades
da infância, havendo a necessidade de seguirmos modelos de referência
comportamental, mesmo quando adultos. Segundo o autor, a lei e a polícia
não seriam suficientes, porque permanecem em um nível concreto de
julgamento e sanção, enquanto os modelos paternalistas religiosos foram
além, monitorando também a vida íntima das pessoas. De Botton afirma
que as religiões sabem que não basta acreditar no potencial humano para
o crescimento e a autonomia; é preciso garantir isso constantemente, e daí
a importância de mecanismos institucionais e ritualísticos capazes de avivar
a todo o momento nossa memória, recordando-nos de nossos deveres,
obrigações e ideais. Para o autor, parece claro que as origens da ética
religiosa repousam na necessidade pragmática das primeiras
comunidades de controlar as tendências de seus membros para a
violência, inspirando-lhes hábitos contrários de harmonia e perdão (p. 79).
De Botton argumenta, ainda, que teria sido crucial para essas comunidades
a inconsciência acerca das origens dessas necessidades e acerca do
caráter artificial de suas construções mágicas e religiosas. Caso contrário,
se soubessem de sua natureza puramente psicológica, elas não temeriam
com tanto vigor seus deuses e criaturas amedrontadoras, nos quais
depositaram sua crença, e que nasceram do intuito de perpetuar um eficaz
mecanismo subjetivo de controle moral. Na contramão dos princípios
pedagógicos liberalistas, as religiões não temem ensinar às pessoas como
agirem na vida e serem felizes por meio de seus sermões, exortações
religiosas e técnicas meditativas e de controle mental.
Mas um dos insights mais importantes de De Botton se refere ao fato
de que, tal mecanismo de controle atua não apenas internamente, como
externamente, na arquitetura e outras formas de arte que perpassam o
espaço público. As religiões reconheceram no uso da arte, há séculos, uma
ferramenta indispensável de disseminação de suas doutrinas e práticas.
Embora se diga que o espaço público nas sociedades seculares deve ser
neutro, ele está, na verdade, bem longe de sê-lo. Ele é regularmente
preenchido por anúncios em outdoors, logotipos de empresas e marcas de
produtos. Ao invés de promover reflexão e crítica, o espaço público está

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saturado de chamarizes que nos tratam, quase exclusivamente, como


consumidores e clientes. A propaganda sabe como se utilizar de diferentes
mecanismos sensoriais, emotivos ou argumentativos para chamar a atenção
das pessoas e fazê-las comprar mais, mas não sabemos como utilizar isso
para promover uma melhor sociedade ou melhores indivíduos. Era o que se
propunha a fazer, no entanto, a arte religiosa nos afrescos e nas construções
de igrejas e templos, bem como em objetos sagrados e imagens de santos
e outras figuras metafísicas, presentes nos templos, mas também
transportadas para a casa do indivíduo ou para onde quer que fosse (como
o exemplo do crucifixo).
O livro de De Botton é rico, ainda, em outros tantos insights, e não é
nossa intenção esgotar aqui seus comentários, senão instigar o leitor a
folhear as muitas páginas dessa interessante obra. Deve-se salientar, por
outro lado, que a abordagem positiva e otimista de De Botton frente às
religiões, conquanto represente uma benéfica compensação ao extremismo
ateísta, pode acabar por gerar outra forma de exagero, a de idealizar as
religiões, negando suas múltiplas manifestações concretas. Bem sabemos,
e não são necessários maiores dados científicos para isso, que as religiões
possuem também suas mazelas (a guerra e o terrorismo religiosos são
apenas alguns dos exemplos em evidência atualmente), e que os objetivos
veneráveis a que se propõem, estudados em detalhe por De Botton, nem
sempre são cumpridos por elas. Muitos movimentos religiosos recentes,
bem como variações de tradições religiosas estabelecidas, têm inclusive
cedido aos mesmos interesses individualistas e imediatistas a que a
sociedade de consumo se devota frequentemente. É preciso assinalar,
portanto, que o estudo das religiões exige maior complexidade teórico-
metodológica, e que as opiniões de De Botton não deveriam ser
apressadamente generalizadas a qualquer sistema de crença, a qualquer
cultura e a qualquer momento histórico. A sugestão de De Botton de
aprendermos com as religiões é válida, mas não podemos nos esquecer
de que ela sempre passará pelo crivo de nossas categorias e interpretações
seculares, não constituindo uma simples identificação dos aspectos a serem
aproveitados ou rejeitados.

Referências
• Dawkins, R. (2007). Deus: um delírio. Tradução de Fernanda Ravagnani.
São Paulo: Companhia das Letras.
Recebido: 01/10/2012 / Aceito: 18/10/2012.

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• Giora, R.C.F.A. (org.), 2012. Crisálida: o desvelar da criatividade.


Taubaté-SP: Cabral Editora e Livraria Universitária.
Claudia Mattos Kober1
Universidade Estadual de Campinas - UNICAMP

Organizado por Regina Célia Faria Amaro Giora, o livro Crisálida: o


desvelar da criatividade traz o trabalho dos membros do grupo de estudos
“Criatividade na Arte, na Ciência e no Cotidiano”, criado em 2009 e ligado
ao programa de Educação, Arte e História da Cultura da Universidade
Presbiteriana Mackenzie. Segundo volume de trabalhos produzidos pelo
grupo, traz 13 textos em formato de artigo científico, de mestrandos e
doutorandos do Programa e participantes do grupo de estudo: Cleuza Kazue
Sakamoto, Márcia Polacchini de Oliveira, Isabel Orestes Silveira, Elias Binja,
Danielle Teles, Thais Hayek, Ângela Maria Mendes, Sílvia Soler Bianchi,
Juliana Hoffman, Erenice Jesus de Souza, Maria Sílvia Santa Fé, Hania
Pilan, Fernanda Nardy Belliciere e Janaína Quintas Antunes.
A obra busca introduzir o leitor ao tema tão complexo, atual e
necessário da criatividade. Para dar conta dessa tarefa, os artigos que
compõem o livro apresentam um olhar multifacetado do assunto, mostrando
a abordagem feita por diferentes autores. Buscam, desse modo, estabelecer
um diálogo com Winnicott, Osborn, Csikszentmihalyi, Bergson, Ostrower,
Cassirer, Langer, Stanislavski, Rogers, Bachelard, Morin, Vygoski,
Moscovici, Lubart e Jung.
Poucos temas poderiam servir de intersecção ao pensamento de
autores epistemologicamente tão distintos. Criatividade é um deles. O
passeio por autores tão diversos traz a vantagem de mostrar ao leitor como
é vasta a discussão sobre a temática e como vem perpassando
entendimentos teóricos e áreas diferentes, especialmente no último século.
Em comum, pode-se dizer que, embora não se perca de vista a
individualidade do processo criativo, cada um deles, a seu modo, entende
a criatividade como inserida num processo sócio-histórico e cultural e não
apenas como fruto de uma “inspiração” desarticulada, como quer o senso
comum.

Psicóloga, mestre em Educação pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo e doutora
1

em Educação pela Unicamp. Professora e coordenadora pedagógica da Universidade


Anhembi-Morumbi. Contato: Rua Arapiraca, 184, São Paulo, SP- Brasil. CEP 05443-020. E-
502 mail: : cmkober@gmail.com
Bol. Acad. Paulista de Psicologia, São Paulo, Brasil - V. 32, no 83, p. 497-514

A iniciativa da publicação de trabalhos de grupos de estudos e


programas de Pós-graduação é importante e louvável para o
desenvolvimento científico do país. Falta à obra, no entanto, uma linha
condutora mais clara entre os textos e um capítulo de finalização e articulação
do apresentado. Nada que desmereça o trabalho do grupo: a obra é
recomendada a todos aqueles que queiram se iniciar no assunto da
criatividade e que buscam um panorama mais amplo do modo como o
assunto é tratado pelos diferentes autores clássicos, bem como um espelho
de como essa questão está sendo apropriada, rearticulada e desenvolvida
por um grupo de pesquisadores brasileiros.

• Mainardi, D. (2012). A queda – as memórias de um pai em 424 passos.


Rio de Janeiro – São Paulo, Editora Record. 2ª edição, 150 pgs.
Elsa Lima Gonçalves Antunha1
Cadeira nº 29
“Norberto de Souza Pinto”

Acabo de ler “A Queda” de Diogo Mainardi. Ao iniciar a leitura já era


minha intenção resenhar a obra: tratava-se da paralisia cerebral de seu
primogênito Tito, decorrente de um fatídico erro médico no Hospital de
Veneza, em 30 de setembro de 2000.
A leitura do livro, porém, ao contrário do que eu pretendera, não se
acompanhou de anotações destinadas a uma síntese final, a uma resenha.
Não consegui fazer anotações. Li, sofregamente, acompanhada das mais
contraditórias emoções, que às vezes, me levavam às lágrimas, outras
me despertavam os mais ternos sentimentos por Tito, Ana e Diogo.
Minhas lágrimas foram pouco a pouco substituídas por uma paz
interna ao reencontrar na obra o mesmo Diogo de sempre: forte, corajoso,
desafiador, altivo, verdadeiro. Todas as qualidades que sempre o
caracterizaram nas colunas da Revista Veja, bem como nas intervenções
cheias de humor e verdade no programa Manhattan Connection no Canal
Globo News, onde substituiu com enorme competência o grande Paulo
Francis, após seu falecimento.

1
Especialista em Neuropsicologia, título obtido pelo Conselho Federal de Psicologia. Contato:
Rua Hilário Magro Jr, n. 600, Bairro Butantã, São Paulo, SP, Brasil. CEP 05505-020. E-mail:
elsa.antunha@terra.com.br 503
Bol. Acad. Paulista de Psicologia, São Paulo, Brasil - V. 32, no 83, p. 497-514

A alegria interna que senti, pouco a pouco, com a leitura de “A Queda”,


foi a de encontrar a mesma verve que Diogo ostenta em seus romances,
tais como “Polígono das Secas” no que subverte a frase de Euclides da
Cunha “O sertanejo é antes de tudo um forte”. O comentário sobre suas
obras é que “é possível recusar o que Diogo escreve, mas é impossível
ignora-lo”. Em seu trabalho há sempre um lampejo férreo contra os poderes
de um regionalismo impiedoso. Se fosse o caso, poderíamos continuar
analisando a complexa personalidade de Diogo Mainardi:
“Revolucionário”.
Mas aqui cabe apenas analisar uma vertente da sua vida particular,
lembrando que tudo quanto ele publicou em “A Queda” não consistiu
propriamente novidade. A paralisia cerebral de Tito, o atormenta há 12
anos e isto sempre se refletiu em suas produções. Agora, em “A Queda –
as memórias de um pai em 424 passos”, Diogo descreve, enfrenta e
denuncia os aspectos da fragilidade humana quando comete erros
médicos e que, quando se defronta com um filho, retrata-o:

Tito nasceu verde. Vi-o pela primeira vez em um dos claustros do


Hospital de Veneza. Eu acabara de conversar com o pediatra que
acompanhara seu nascimento. Ele dissera que Tito permanecera sem
ar tempo demais. Disse também que Tito morreria. Até aquele momento
eu sempre pensara que se meu filho permanecesse em estado
vegetativo, eu esperaria que ele morresse. (...) Depois, tudo se
transformou. Eu só queria que ele sobrevivesse porque eu o amaria e o
acudiria de qualquer maneira. Entre a vida e a morte, aferrei-me à vida.

E assim foi. Os 424 passos, talvez uma alegoria dos passos da paixão
ou dos passos de Sísifo, da lenda grega, condenado a escalar, por toda a
vida, a montanha, da qual ele deveria descer e voltar a escalar, carregando
pesado fardo ou, até mesmo, os passos que damos, do nascimento à
morte, em busca de vitórias ou defrontando-nos com fracassos.
Não conseguindo conter sua verve literária e seu profundo
conhecimento da história e da arte, Diogo mescla seu filho Tito às
personagens e às situações em que o drama consome o coração do
homem, e a dor instala-se na alma daquele que sofre ou presencia o
sofrimento, do pai ou da mãe que vê seu filho “verde” ao nascer. É a dor

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que atinge a todos, indiscriminadamente, ou então, a alegria que também


não discrimina.
Que resta? O amor incondicional que se retrata nestas palavras:
“Quando vi Tito na incubadora, no dia do nascimento, percebi que o amaria
para sempre. De lá para cá, nada mudou. Eu o amarei para sempre. Eu o
acudirei para sempre”.
Não há mais o que dizer. Resta ao público ler esta obra prima, este
hino ao amor. E ousamos perguntar: teriam estas situações-limite a
finalidade de fazer surgir o que há de melhor na humanidade? É preciso o
sofrimento para saber o que é o amor? São os filhos “verdes”, os agentes
da bondade humana, os indutores da compaixão, da empatia, da
identificação com o outro?
É um livro para ser lido pelos pais que amam seus filhos e pelos
pais que não conseguiram ama-los, abandonando-os ao ver que eram
“verdes”.
Entretanto quem mais lerá “A Queda” será o próprio Tito, em seus
momentos de alegria e de dor, e refletindo sobre seu passado, se
reassegurará, a cada passo da leitura, do ilimitado amor de Diogo, Ana e
Nico.

• Chouvier, B. (2009). Les Fanatiques: La folie de croire. Paris: Odile


Jacob, 224 páginas.
Norberto Abreu e Silva Neto1
Cadeira 06
“Milton Rodrigues”

Uma breve e precisa caracterização do fanático foi feita por Voltaire


em seu Dictionnaire Philosophique (Paris: Gallimard, 1994, pp. 263-265).
Ele diferencia o fanático por comparação com o “entusiasta”, aquele que
tem êxtases, visões, que toma os sonhos por realidade, e suas imaginações
como profecias. O fanático é igualmente tomado pela loucura como o
entusiasta, mas dele se diferencia porque sustenta sua loucura pelo
assassinato. O fanático escuta apenas uma lei, a do seu entusiasmo
religioso, e mata “santamente” seu irmão por amor a Deus.

1
Professor Associado em Psicologia do Instituto de Psicologia da USP, e Professor Titular da
UNB, aposentado de ambos cargos. Contato e-mail: norbertoabreu@uol.com.br 505
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Porque alguém se torna fanático? Responder a esta pergunta está no


centro dos interesses do livro aqui resenhado e que apresenta os resultados
das pesquisas de Bernard Chouvier sobre o tema. O autor é professor de
psicopatologia clínica da Universidade de Lyon II, França, onde também
dirige há mais de dez anos o Centro de Pesquisa em Psicopatologia e
Psicologia.
Como o próprio título do livro indica, o fenômeno do fanatismo na
qualidade de “a loucura de crer”, expressão com a qual Chouvier quer
significar que todos os tipos de fanáticos descritos em seu livro foram
tratados como personalidades psicopatológicas ou doentes mentais; e suas
declarações e delírios estão sempre associados ao religioso, ou como ele
salienta, com a perversão do religioso, porque valoriza e exacerba o que
separa e o que destrói, e não aquilo que une, como é da essência do
religioso.
O fanatismo é um fenômeno que remonta às origens da cultura e que
ao longo da história do Ocidente tem se manifestado em várias épocas
diferentes, em contextos sociais e culturais estranhos entre si, e também de
modo a exibir tipos singulares. O fanatismo é um aspecto de nossa relação
com o sagrado, e Chouvier descreve o fanático como o homem do sagrado:
“É aquele que se consagra de corpo e alma, até o excesso, até a mais
louca paixão. E o sagrado de que se trata é um sagrado que se idealiza,
que se faz absoluto a ponto de recobrir até mesmo o campo que se supõe
escapar-lhe, o campo profano. O fanático não diferencia mais entre sagrado
e profano, ele se torna um ser monolítico” (pp. 9-10)
Chouvier constatou em suas pesquisas que o fanatismo tem graus e
que todos os fanáticos são diferentes, mas exibem uma característica
comum: todos participam da “mesma lógica interna que conduz
inexoravelmente à ação violenta” (p. 215). Assim, em seu livro, ele pinta o
retrato dos diferentes tipos de fanáticos e lhes dá um rosto. Ele aponta ainda
que todos os tipos existentes estão presentes na época contemporânea, a
qual por sua vez engendrou os tipos de fanáticos próprios a sua cultura e
formas de vida.
Foi em consideração a esses fatos que Chouvier fixou os objetivos de
seu livro. Expor e analisar casos de fanáticos tendo em vista apreender a
dinâmica psíquica própria destes, ou seja, apresentar os fundamentos
inconscientes que engendram no sujeito a prática fanática. Interessa-lhe o

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conhecimento do fanatismo e das razões de seu nascimento no homem


também com vistas a combatê-lo através de duas modalidades de ação:
prevenção e repressão.
O livro é composto por sete capítulos e cada um deles trata de um tipo
de fanático especifico, a saber: o inspirado, o possuído, o iniciado, o
enraivecido, o terrorista, o mártir e o kamikaze, e, o fanático privado.
Em latim, nos ensina Chouvier, “fanaticus” significa o “homem do
templo”, quer dizer, o inspirado, aquele que é tomado de entusiasmo, a
ponto de tornar-se furioso, ou aquele que o delírio que o habita o empurra à
extravagancia” (p.19). A forma mais arcaica do fanatismo é a do inspirado
ou exaltado, ou seja, a loucura divina. É o primeiro modelo do fanático e o
que representa a relação mais arcaica com o objeto religioso. Para mostrar
que foi escolhido e que a divindade penetrou nele, o inspirado chega ao
limite da morte simbólica e parcial. Os exemplos mais marcantes desse
tipo de fanáticos é a dos sacerdotes de Isis, de Cibele , e de Bellone. Os
loucos de Cibele tomados de frenesi em um delírio sagrado se castram
publicamente e depositam seus membros ensanguentados aos pés da
deusa. O que sustenta o auto-sacrifício destes fanáticos, esclarece Chouvier,
é a crença no renascimento em outra vida: “o indivíduo pensa renascer em
uma outra vida com um vigor renovado capaz de por a navegar plenamente
seu narcisismo adormecido” (p. 32).
Quando os valores da ordem social não são mais capazes de mobilizar
as energias individuais, é o tempo, nos conta Chouvier, em que os possuídos
aparecem para reanimar as convicções (p. 37). O possuído difere do
inspirado, e a passagem de um estado a outro, ou seja, da inspiração para
a possessão, pode ser evidenciada pelas práticas religiosas ligadas à
imagem mística de Dioniso, deus grego que porta consigo algo que
simboliza a desmesura. A loucura é a característica central de Dioniso, o
qual tem também o poder de tornar loucos os seus adeptos; de possui-los
com sua loucura.
Chouvier destaca o papel preponderante do corporal e da força da
crença na instalação da folia divina na possessão, e compara o estado de
possessão com o grande ataque convulsivo característico dos estados
histéricos. “Quando o sujeito não tem mais o domínio do seu corpo, ele é
considerado como possuído pelo deus. O que fizer não lhe pertence mais e
deve ser atribuído unicamente à vontade divina” (p. 57). Além disso, o

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possuído é um tipo de fanático que atua pelo viés do transe e de aditivos


externos como a música e as drogas. Ilustra esse modelo o transe do
dionisíaco, que, salienta Chouvier, “repousa na produção pelo corpo e no
corpo de um delírio sagrado, com a ajuda de um substancia divinamente
investida: o vinho” (p. 11).
O terceiro tipo de fanático é o “iniciado”, expressão que Chouvier usa
em um sentido diferente daquele usado no culto de Dioniso. Trata-se de
uma iniciação, diz ele, na qual se mesclam a referencia ao sagrado e a
reflexão intelectual de alcance científico. “O elemento de iniciação é o que
caracteriza prioritariamente a organização do pitagóricos, e a mais severa
seleção na entrada lhes conduz inexoravelmente a tornar-se um grupo
sectário” (p. 73). É um tipo de fanático não menos violento mas mais insidioso,
e seu modelo fundamental é o fanatismo posto em prática na escola de
Pitágoras. Diferente dos outros fanatismos, afirma Chouvier, este não
repousa sobre os movimentos pulsionais, mas, pelo contrário, se apoia em
uma supervalorização do racional e do lugar do intelecto.
Chouvier descreve as formas privilegiadas do fanatismo pitagórico.
Primeira, a apresentação de um discurso racional para mascarar um
pensamento feudal, marcado pela submissão piramidal e hierarquizada a
um chefe sacralizado e distribuidor da verdade, do bem e da bondade.
Segunda, a preferencia de seu pequeno grupo de pertença em detrimento
do bem comum. Nos pitagóricos, a lei comunitária da seita destrona a
sagrada pertença familiar. Terceira, a violência praticada em nome de um
ideal. O fanático pitagórico é um doutrinário que sob a aparência de realizar
pesquisas racionais se deixa alinhar por um mestre imbuído de sua potência
que deseja construir um movimento destinado a perenizar sua glória.
O enraivecido (o furioso, o “enragé”) é o quarto tipo descrito por
Chouvier, que o compara aos combatentes palestinos engajados em
operações de guerrilha, os fedayin ou “aqueles que se sacrificam”. Trata-se
de um fanático na linha do engajamento passional e inspirado, mas que
dele difere pela motivação. Um chefe religioso fanatiza seus fiéis e faz deles
seu braço armado. A especificidade destes fanáticos é a utilização do crime
a serviço da causa da seita e de modo espetacular. Eles não são formados
como assassinos ou matadores, mas como “executores” de um ato cuja
finalidade é dar o exemplo. “Matar um homem, é terrorizar cem mil” (p. 87).

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Bol. Acad. Paulista de Psicologia, São Paulo, Brasil - V. 32, no 83, p. 497-514

De acordo com Chouvier, a melhor ilustração desse tipo de fanatismo


encontra-se na seita dos fumadores de haxixe do “Velho da Montanha”. Na
sua descrição, o Velho da Montanha seduzia os imbecis com a promessa
de provarem eternamente as delicias do Paraiso, sob a condição de
assassinarem todos aqueles que lhes fossem nomeados (p. 102).
Voltaire analisou o fenômeno dos “enraivecidos” e Chouvier apresenta
e discute suas ideias. Para Voltaire o fanatismo nasce da conjunção de
duas perversões: a crença louca e a trapaça política; ele é uma grande
ameaça, um mal para o qual só existe um remédio preventivo: os progressos
da ciência e da razão. No entanto, salienta Chouvier, com a passagem da
religião ao Iluminismo, contra o que esperava Voltaire, o fanatismo não
despareceu. “Ele se metamorfoseou sob uma forma também virulenta: o
terror” (p. 105).
O terrorista é um novo tipo surgido na época moderna. É um fanático
que faz uso do terror para impor um poder, tendo como princípio a ideia de
que é necessário destruir para criar ao nível concreto da vida coletiva. O
discurso do terror é paradoxal: fala em massacrar e eliminar para colocar
no lugar uma ordem de paz e serenidade; fala em aprisionar, mutilar, e matar
para colocar no lugar a liberdade e a solidariedade. Paz, serenidade,
liberdade, e solidariedade, são atributos que se imagina como próprios do
Paraiso. Este fanático é também enfeitiçado pelo mito de que a violência
destrutiva tem um poder mágico de regeneração. Chouvier destaca também
que a lógica interna do funcionamento psíquico do terrorista é caracterizada
por uma construção psíquica paradoxal. Ou seja, o terrorista parte de boas
intenções, de uma visão ideal da humanidade, e depois o processo se inverte
e passa a estar sob o controle da pulsão de morte (p. 109).
Chouvier aponta que uma das figuras do terrorismo que melhor permite
apreender o fenômeno de uma perspectiva subjetiva é Maximilien de
Robespierre, sobre o qual Chouvier se pergunta com espanto: “Como um
homem de valor chega, em nome de grandes princípios, a conceber um
pensamento terrorista e a coloca-lo em prática de maneira racional” (p. 109).
O terror foi teorizado por Robespierre, que fez dele um modo de ação política
temível, método que fez emuladores nos séculos seguintes. Os outros casos
analisados no livro incluem o precursor na matéria terrorista, Savonarola, e
distinguidos sucessores de Robespierre: o niilista Netchaïev, o anarquista

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Ravachol, e Andreas Baader. “Em todos os casos”, afirma o autor, “o


terrorista se dá como vocação encher de pavor os espíritos por meio de
ações espetaculares e sangrentas” (p. 12).
Desde a Antiguidade, o fanático tem no sacrifício de si um modo
operatório, o qual reveste diversas formas segundo as circunstâncias. O
mártir, seja de forma passiva ou ativa, tenta fazer triunfar sua fé por um ato
destruidor que acompanha seu próprio sacrifício. O autor analisa dois
mártires cristãos: Polyeucte e Eustaquio. E, também os mártires kamikaze:
o japonês e o islamita.
O kamikaze é “uma figura moderna do mártir que acrescenta o
sacrifício do outro ao sacrifício de si” (p. 13). Neste caso, a violência contra
o outro retorna ao final contra o próprio fanático. O auto-sacrifício é o fim
supremo da militância. Ele está na tradição cristã e é a essência do martírio:
Cristo sacrificou a si mesmo para salvar os homens. O que move mártires
e kamikazes japoneses ou islamitas ao sacrifício de si mesmos, afirma
Chouvier, “é a crença na existência de uma vida eterna de felicidade e de
beatitude... O kamikaze dá sua vida terrestre na esperança de conquistar,
por seu gesto sublime, o direito a felicidades no mais além” (p. 164). E os
que se tornam homens-bomba assim o fazem, diz o autor, porque acreditam
“ganhar diretamente o céu” e sua família uma pensão em dinheiro na terra
como recompensa pelo martírio (p. 167).
O sétimo capítulo do livro é dedicado ao estudo de uma forma nova de
fanatismo surgida em nossos dias: o fanatismo privado. Uma forma que se
origina unicamente na esfera individual e na qual o sujeito regula seus
próprios problemas psíquicos semeando o terror em seu entorno. Ele é
descrito por Chouvier como um kamikaze sem o correspondente grupo
extremista de referencia. Sozinho ele compõe o grupo e “a causa que ele
defende é a de sua fama futura a título privado” (p. 180). E, nosso autor
reconhece nesse tipo de fanático a expressão de uma verdadeira
desesperança própria da vítima de uma rejeição social.
O que é específico aos atos violentos cometidos por esses fanáticos
é o seu aspecto espetacular, a preparação da cena pelo assassino para a
obtenção na amplificação mediática a maior repercussão do horror que ele
imagina criar com seus atos suicidas assassinos. Trata-se de um fanatismo
gratuito que não repousa sobre nenhuma crença, que não quer fazer progredir
nenhuma causa, e nenhum projeto outro que o próprio ato destruidor (p.

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180). Estes empreendimentos privados mostram uma tendência a se


multiplicar em nossa época, como são os casos analisados no livro: o
conhecido massacre de Columbine, Colorado, e a também conhecida
matança do campus de Virginia Tech.
O livro do Prof. Chouvier traz uma rica contribuição para o estudo do
fenômeno do fanatismo e constitui um grande estímulo para a pesquisa das
muitas questões ligadas a esse tema. Assim, suas observações
psicanalíticas sobre o funcionamento psíquico dos sete tipos específicos
de fanáticos que ele descreveu em sua obra estimulam a pesquisa sobre a
dinâmica psíquica dos fanáticos, sobre os fundamentos inconscientes que
engendram as suas práticas. Suas observações sobre os componentes
sociais, culturais, e políticos na construção do fanatismo são bastante
precisas de modo a sugerir claramente pesquisas posteriores sobre estes
aspectos da vida de um fanático.
Um aspecto que se ressalta nas explicações sobre porque alguém se
torna fanático, é a adesão férrea do fanático a certas crenças: a crença em
uma vida eterna de felicidade e beatitude; a crença na bondade e/ou maldade
dos deuses e em seu domínio do mundo; a crença na imortalidade da alma
e na reencarnação; a crença de que o ser humano pode ser possuído e ficar
à mercê dos caprichos de uma divindade. Assim, vimos que o auto-sacrifício
é sustentado pela promessa de renascimento em outra vida melhor e feliz,
e que parece ser condição do fanatismo que o adepto da seita acredite
absolutamente na existência de uma vida de delícias em um Paraiso em
algum lugar fora do planeta Terra.
O livro também suscita a discussão sobre o direito que o indivíduo
tem de viver a sua vida em segurança; sobre a possibilidade de realização
desse direito humano fundamental em um mundo no qual estamos
continuamente expostos à ação de incontáveis fanáticos que de muitas
maneiras aterrorizam nosso cotidiano.
Para concluir, deve-se registrar que o livro interessa e mostra-se útil
para os estudiosos de psicologia da religião, em particular sobre a questão
das motivações inconscientes. Mas ele também poderá ser de interesse
para alunos de graduação e pós-graduação em psicologia, filosofia,
antropologia, e ciência política.
Recebido: 15/10/2012 / Aceito: 01/11/2012.

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• Peçanha, D. L; Santos, L. S. (2009). Cuidando da vida – olhar


integrativo sobre o ambiente e o ser humano. São Carlos: EdUFSCar,
127p.
Cibele Coury
Universidade de São Paulo
Vitor Folster de Paula
Universidade Federal de São Carlos

Esta obra passou pelo rigoroso crivo Editorial da EdUFSCar, Editora


da Universidade Federal de São Carlos, para ser publicada por essa editora
universitária. Trata-se de contribuição fundamentada, em especial, na teoria
sistêmica e aborda, de maneira corajosa, a lacuna existente na produção
científica sobre o tema cuidar. Está dividida em duas partes: “Cuidando de
Gaia” e “Cuidando do ser humano” que serão comentadas posteriormente.
O livro é um convite a todos para ampliar sua visão de mundo e atuar como
cuidadores na experiência humana de transcendência. De forma mais
específica, destina-se aos que buscam desenvolvimento sustentável e saúde
coletiva, em particular auxilia profissionais da saúde a lidar com o sofrimento,
utilizando-se do cuidado, mesmo quando a cura não é mais possível. A
motivação para resenhar este livro residiu no fato de que é uma contribuição
importante na formação de cada ser humano. Muitos são os depoimentos
que o comprovam. Seguem-se registros de alguns deles: “Esse livro deveria
ser lido por todos; ajudou-me a lidar melhor com minha doença” (sic, paciente
65a, com esclerose múltipla); “Estava passando num dos corredores da
Biblioteca, a capa do livro me chamou atenção. Dava a ideia de vida, e o
título tinha tudo a ver com meus interesses. Comecei a ler e não parei.”;
“Sou fisioterapeuta e o livro me ajudou a defender uma postura humana no
exercício profissional. A fundamentação apresentada é essencial.
Recomendo a leitura do livro, muitas vezes, até ficar impregnado dessa
postura humana. Deveria fazer parte da bibliografia obrigatória do Curso
de Graduação do profissional da saúde.”
Os conceitos prevalentes do livro definem que o vínculo entre uma visão
ecológica do mundo e o comportamento de cuidado é uma conexão
psicológica. Aborda a relação entre o meio-ambiente e o ser humano, no
sentido de cuidado, sob a ótica de uma perspectiva integradora entre a
Terra e os seres que nela habitam.
Os conceitos humanistas aqui revisados trazem como novidade, a
integração do tema cuidar desde sua origem mitológica com a definição e

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a exemplificação dessa ação nos aspectos ambientais - através da hipótese


Gaia, na promoção da saúde humana. Ao integrar o cuidado com a Terra ao
cuidado com o Ser humano, o livro apresenta saberes provenientes de
diferentes disciplinas e discute conceitos e atitudes envolvidas no cuidar
em uma visão pós-moderna e conjuntiva do processo saúde-doença.
Na primeira parte, “Cuidando de Gaia”, as autoras partem do princípio,
existente desde tempos antigos, de que a Terra é viva, e a este ser vivo os
gregos, há dois mil anos atrás, atribuíram o nome de Gaia. O princípio de
Gaia sugere que o planeta em que vivemos é um sistema, orgânico e singular,
tendo em si a vida e seu meio ambiente como uma entidade auto reguladora.
Neste contexto, o equilíbrio da Terra depende do homem, não como
colonizador e explorador, mas sim um participante, companheiro, cuidando
dessa relação sob uma perspectiva integradora.
As autoras apoiam suas ideias também em cientistas contemporâneos
que concebem o ambiente como parte da vida, em uma visão sistêmica,
isto é, a integração da Terra com o ser humano, não os confundindo com
soma de partes distintas. Baseiam-nas em um aspecto importante da teoria
sistêmica, que diz respeito à interconexão dos componentes de um todo
que resulta em vínculos de realimentação. Isto é, trata-se de interações
simultâneas de múltiplas variáveis que geram padrões cíclicos de
organização da vida.
Assim, a Terra vista como Gaia é uma rede, e nela estão inseridas as
concernentes às relações homem e ambiente. Esta relação é estreitada
pelo cuidado, sendo este uma atitude, tal qual a dos terapeutas que cuidam
de seres humanos por meio do respeito ao outro, de escuta e de
cooperação. Gaia é imprevisível e sensível ao mundo ao redor, assim a
teoria do mesmo nome indica que devemos usufruir com parcimônia dos
recursos oferecidos pela Terra. Dessa forma, o livro propõe ao leitor o
cuidado com este mundo no sentido de preservar a saúde dos seres
humanos, pois como diz o mito do cuidado, “homem e terra são feitos de
um mesmo material”.
Finalizando a primeira parte, as autoras relatam que apesar dos laços
de realimentação, revelando a natureza cíclica dos processos ecológicos e
do entrelaçamento entre sistemas vivos e não vivos, o homem se mantém
apegado ao padrão linear do período moderno com a produção industrial
em massa e o pensamento gerencial, gerando resíduos que a Terra não
mais suporta.
Na segunda parte, “Cuidando do ser humano”, as autoras explicitam

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o que é a consciência, neste sentido. Apresentam-na como resultado de


conhecimento e reflexão individual, assim sendo es