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Portugal e o Norte de África

Santana Castilho *

Para 12 de Março está marcado mais um protesto público. Não é promovido


por direcções sindicais cristalizadas, mas tão-pouco prima pela originalidade de
iniciativas: os aderentes descerão a avenida mais simbólica, a da Liberdade, de
um Portugal refém. Uma circunstância, porém, é nova: as redes sociais estão a
ser usadas como meio convocatório, como parece ter acontecido no Norte de
África, e o protesto sucede após uma convulsão por contágio que surpreendeu
o mundo, quer pelos resultados, quer pela rapidez com que foram obtidos. As
motivações sociais do protesto, ponderadas as diferenças de níveis, são
idênticas. Com efeito, lá como cá, a degradação da sociedade foi-se tornando
insustentável. Bem sei que não posso comparar ditaduras com democracias.
Mas quando estas são meramente formais e politicamente mal geridas, como
acontece em Portugal, alguns resultados não diferem. É o caso da ruptura
definitiva entre governantes e governados e o abismo insuportável entre os
ricos e os pobres. Na Tunísia, no Egipto e na Líbia, a falta de alternativas
trouxe as pessoas para a rua. Em Portugal, o desemprego, a diminuição dos
salários e o aumento da carga fiscal está a lançar os portugueses no
desespero. E a isso responde o Governo com autismo e a Oposição com
inércia.

A Educação vive num ambiente de miséria onde, ao bom estilo do terceiro


mundo, a penúria generalizada contrasta com a opulência dos negócios da
Parque Escolar. A Lei de Bases do Sistema Educativo estipula, claramente, que
os critérios pedagógicos e científicos prevalecerão sempre sobre os
administrativos. Mas a prática governativa dita o contrário. Cada vez há menos
pessoal de apoio nas escolas, afectando a vigilância dos recreios, o apoio aos
laboratórios, o funcionamento das bibliotecas, reprografias, bares e refeitórios.

A arrastada avaliação do desempenho dos professores constitui uns dos


processos mais macabros e perniciosos da gestão do sistema de ensino. Entre
tantas barbaridades técnicas abordadas nesta coluna, as posições públicas
tomadas por uma centena de escolas estabeleceram consensos esmagadores:
muitas grelhas utilizadas tornam o processo ridículo e uma autêntica lotaria;
continuam por esclarecer e clarificar centenas de dúvidas levantadas pelas
escolas e pelos professores relatores; a subjectividade e a arbitrariedade são a
norma; o sistema de quotas reduz a apregoada avaliação do mérito a uma
pobre palhaçada, quando desce administrativamente as classificações
atribuídas e torna incoerentes as notações quantitativas e qualitativas; a carga
impensável de trabalho caricato e burocrático que o sistema supõe varreu a
actividade de ensinar da prioridade dos professores e prejudicou
criminosamente os alunos; qualquer resquício de preocupação formativa está
banido do processo e a cooperação entre docentes deu lugar a um crescente
ambiente de desconfiança e hostilidade.

A proposta de organização do próximo ano lectivo oficializou o óbito do


Ministério da Educação. A respectiva ministra resignou e aceitou simplesmente
passar a assessora de Teixeira dos Santos. Tudo o que aí se projecta reduziu a
simples custo dispensável qualquer investimento em educação. Assim: serão
eliminados de uma penada serviços de supervisão cruciais para o combate ao
famigerado abandono escolar; os projectos educativos, até aqui ditos
obrigatórios e tidos como fundamentais, bem assim como tudo quanto seja
funcionamento de clubes de actividades não curriculares essenciais à
integração dos alunos, vão para o lixo; e os apoios aos alunos com
necessidades educativas especiais, já em acelerada extinção, são agora
definitivamente pulverizados. Tudo isto porque a lei de bases supracitada foi
revista em baixa administrativa e econométrica pelo Mubarack do Terreiro do
Paço, que determinou a radical redução dos créditos horários a atribuir às
escolas. Mas esta limpeza administrativa, determinada pela cegueira dos cortes
sem critério, foi mais longe e actuou ditatorialmente decretando que
actividades de índole lectiva passam a integrar a componente não lectiva dos
horários dos professores. Consequências? Fica ferido de morte o desporto
escolar, a educação para a saúde, a mediação que minorava as atribulações
vividas nos problemáticos cursos EFA e todas as estruturas intermédias de
uma gestão que já foi amputada de membros, tempos e salários. E a lista
deste gaseamento pedagógico das escolas públicas continuaria com a redução
drástica do número de docentes e a desastrada reorganização curricular.

A tudo isto, como respondeu o maior partido da oposição? Que se tenha


ouvido, com uma deplorável proposta de implosão do Ministério da Educação e
sequente substituição por uma agência externa e com um inimaginável pedido
ao Tribunal de Contas para que determine aquilo que tinha obrigação estrita de
conhecer, que eu próprio publiquei sem nunca ter sido desmentido e que está
ao alcance de qualquer cidadão disposto a fazer cálculos simples, a partir de
documentação pública fiável.

Surpreenderá, neste contexto, a não-aceitação na Assembleia da República dos


projectos que visavam corrigir os vencimentos obscenos dos gestores das
empresas públicas? Então se esses cargos estão reservados para os que agora
estão na política activa, como resulta evidente da rotatividade de funções que
a história atesta, e a podridão ética só se distingue da África do Norte pelos
níveis, que não pela substância, que esperaríamos?
* Professor do ensino superior (s.castilho@netcabo.pt)