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Unidade 4 – Literatura Afro-brasileira contemporânea: contra

discurso e resistência

Para começo de conversa...

O que vamos fazer nesta unidade?


• Conheceremos parte da produção dos Cadernos Negros e sua importância para a
afirmação da literatura afro-brasileira na cena da literatura brasileira;
• incursionaremos pelas representações poéticas das mulheres negras, dos escritores da
periferia e dos movimentos de Hip Hop e Rap.

Ao fim desta unidade você poderá:


• interpretar o discurso de ruptura e resistência nas produções literárias contemporâneas
afro-brasileiras;
• refletir sobre a contribuição da escrita feminina afro-brasileira e da escrita periférica em
diálogo com movimentos culturais como o Rap e o Hip-Hop.

Cadernos Negros: resistência literária entre a prosa e a


poesia

Na unidade III, percorremos os meandros do cânone e vimos que a


proposição “Tal Brasil, qual cânone?” questiona a tendência de se
construir um cânone a partir de pressupostos de uma nacionalidade
excludente. Uma das fissuras nesse projeto pode ser observada no
tensionamento e na consequente ruptura que a literatura afro-
brasileira vem, paulatinamente, provocando no cânone brasileiro.
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Nesse afrontamento estético, político e cultural, o projeto literário
Cadernos Negros, lançado em 1978 por oito poetas que dividiam os
custos da edição em formato de bolso, marcou a história artística dos
negros e a literatura afro-brasileira ao atualizar a extensa trajetória de
luta dos intelectuais/escritores negros do passado. Somando-se a
isso, o país passava naquele período por uma transição democrática,
instaurando um momento fértil para o preenchimento de uma lacuna
nas publicações direcionadas à comunidade negra. É o mestre Abdias
do Nascimento quem vai demonstrar a amplitude e o vulto que toma
a escrita literária negra:

O que revela a história da humanidade é que povos se


expressam pela sua cultura; se hoje falamos e fazemos
literatura afro-brasileira, é porque a literatura nacional não
expressa o que somos - afro-descendentes - na cultura
brasileira. Nenhum negro é aquela coisa bestializada do
romantismo brasileiro, nenhuma negra é uma vertente de fogo,
luxúria ou subserviência como descrito nas páginas desses
afamados romancistas contemporâneos ou não.
Nos contos, como neste número, e nas poesias publicados pelos
Cadernos Negros, encontrei mais que arte nos textos
provocativos, sinceros, lapidados e vibrantes. Encontrei uma
literatura que só por ser afro-brasileira espelha os meus
sentimentos, os meus dramas, as minhas sortes, o meu jeito de
amar, as minhas alegrias e as minhas formas de dizer não. Toda
a nossa intimidade escrita, com uma cor que só nós podemos
dar, porque faz parte do nosso ser. Não é com modéstia que
afirmo que a literatura brasileira está marcada por um viés que
a distingue das literaturas construídas pelo mundo afora. Aqui
existe literatura negra, literatura afro-brasileira, como existe o
samba, a feijoada e o candomblé. (Nascimento, 2010)

Abdias do Nascimento expressa com exatidão o sentimento que


acompanhou o povo negro diante de uma literatura que não o
representava em seus dramas, e em particular, em sua subjetividade.
Sob essa perspectiva, sem dúvida os Cadernos Negros são um
momento de ruptura, pois desde sua primeira publicação em 1978,
sua linha editorial tem como objetivo primordial dar visibilidade à
literatura afro-brasileira, legitimando sua voz, propondo uma revisão
do cânone e colocando em cena escritores que não conseguem
publicar nos circuito oficial das editoras.
No primeiro e histórico número dos Cadernos Negros, os poetas
apresentam uma espécie de poética-programa, ou seja, marcos
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identitários do projeto literário: a assunção do eu enunciador negro,
o mergulho nas questões étnicas identitárias e a denúncia do racismo
na sociedade brasileira, como revela o poema de Jamu Minka:

Identidade

Nasci de pais mestiços


Fui registrado como branco
Mas com o tempo a cor escura se fixou

Negro, negrinho
Você é negro sim,
A primeira ofensa!
Eu era negro sem saber

Adolescente, ainda recusava minha origem


Aprendi a ser negro o passivo, inferior
Reagi: sendo esta raça assim,
Não sou negro não!
Recusei a herança africana
Desejei a brancura

Mais tarde soube


A inferioridade era um mito
A passividade uma mentira
O conhecimento trouxe a consciência
Aceitei minha negrice
Me assumi!

Encontrei uma bandeira


Negritude!
Identidade resgatada
Ser negro é importante
É se identificar com minhas raízes.

(Jamu Minka, CN 1, 1978, p. 35)

Em 1980, nos Cadernos Negros nº 3, Luís da Silva Cuti, um dos


fundadores do projeto, associa a palavra negro ao desconforto da
sociedade em pronunciá-la, ao mesmo tempo em que demonstra a
intensa carga semântica de militância que ela carrega:

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Parte do poema Tocaia

A palavra negro pulando de boca em boca


como se fosse uma pimenta acesa

os olhos queimando as vendas


o fogo

o vento das lembranças gerando o elo


das palavras-lanças

o batuque
as lanças afiadas em dias de pedra-limo
dias de cisma
de pólvora que já tá pronta
e palavras que se reencontram para reportar
um futuro
sem algemas.
(CN 3, 1980, p.50)

Nos Cadernos Negros nº 8, encontramos um dos poemas mais


emblemáticos sobre a reversão do sentimento de inferioridade em
relação ao vocábulo negro, pois a constante repetição do verso “A 1 Este poema pode
palavra negro” funciona como afrontamento ao mundo que vê e ser encontrado
pronuncia a palavra com desconforto e preconceito. Já o poeta, também na página
pessoal do poeta na
seguindo a trilha de Aimé Césaire e Léopold Senghor, os precursores internet, no sítio
da negritude e da concepção de ressemantizar a palavra NEGRO http://www.cuti.com.
br/poesia2.htm
extraindo sua carga negativa ao assumi-la, converte o poema em
bandeira da negritude brasileira:

Palavra Negro1

A palavra negro
tem sua história e segredo
veias do São Francisco
prantos do Amazonas
e um mistério Atlântico

A palavra negro
tem grito de estrelas ao longe
sons sob as retinas
de tambores que embalam as meninas
dos olhos

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A palavra negro
tem chaga tem chega!
tem ondas fortesuaves nas praias do apego
nas praias do aconchego

A palavra negro
que muitos não gostam
tem gosto de sol que nasce

A palavra negro
tem sua história e segredo
sagrado desejo dos doces vôos da vida
o trágico entrelaçado
e a mágica d'alegria

A palavra negro
tem sua história e segredo
e a cura do medo
do nosso país

A palavra negro
tem o sumo
tem o solo
a raiz.

(CN 8, 1985, p.21)

Ao longo das três décadas de publicação dos Cadernos Negros, uma


de suas temáticas mais marcantes, em função de assumir o valor do
corpo, dos cabelos negros, enfim da aparência, são os poemas de
afirmação estética, como podemos vislumbrar em O retrato de Clóvis
Maciel:

Retrato

O pára-brisa
Da minha cabeça
é bruma espessa
de carapinha
planta daninha
o nariz chato
é o retrato
em melanina
Negros matizes
são os meus pulsos
os meus impulsos,
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minhas raízes,
são cicatrizes
no meu viver..

(CN 5, 1982, p. 7)

Os editores dos Cadernos Negros, ao longo de sua história, utilizaram


a seguinte metodologia na publicação dos textos, em anos pares
publicam-se contos e em anos ímpares publicam-se poesias.
Na prosa, podemos encontrar o diálogo entre a linguagem literária,
jornalística e cinematográfica, como no conto “Quando o malandro
vacila” de Márcio Barbosa nos Cadernos 10. O autor incursiona pelo
universo da favela, da oralidade, movimentando o enredo a partir de
manchetes jornalísticas, ao mesmo tempo em que explora a técnica
do roteiro cinematográfico: “De como ele quase deixou a pretinha”,
“Aí, otário, segura...” “Eu avisei você p’ra largar a Kizzy, otário.”, “Que
está acontecendo, preto?” (CN 10, 1987, 85)
A construção textual fragmentada oferece ao leitor um andamento
dinâmico, como se ele estivesse acompanhando cenas de um filme,
inclusive pela plástica descritiva que o autor propõe. Nessa técnica
surpreendente, as posições se invertem e flagram o negro frente ao
marginal branco:

1. “De como ele quase deixou a pretinha”


Tudo parecia irreal. O exagerado silêncio noturno, as mortiças
luzes amareladas despejando-se violentamente dos postes, a
sensação da pele de Kyzzy muito forte em suas mãos. E ele
teve a impressão de que nunca tomaria o ônibus para voltar
p’rá casa. Mesmo aquele Volkswagen todo estourado, pintado
num brilhante azul de ofuscar os olhos parecia trazer a morte
subindo a rua em sua direção. E ele estava certo. O carro
trazia Mãezinha, o branco da favela, que parou ao seu lado
com um revolver calibre 38 na mão: “Ai, otário, segura...” (CN
10, 1987, p. 85)

Não resta dúvida de que Os Cadernos Negros, ao longo das mais de


três décadas, divulgaram e continuam divulgando a cultura negra em
seus mais diversos aspectos. Além disso, consolidou a presença da
literatura afro-brasileira, seja pelo nível dos escritores, seja pela
recuperação memorialística da ancestralidade e religiosidade
africanas, ou ainda por driblar os circuitos oficiais de publicação,
conseguindo manter um público fiel e crescente.
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O volume de poetas, contistas, assim como da própria produção
literária, é bastante extensa e não caberia no nosso Módulo. Por isso,
sugiro que acessem a página oficial do grupo Quilombhoje
(http://www.quilombhoje.com.br/) para conhecer melhor este
projeto de extrema importância para a comunidade negra e para a
história da literatura brasileira oficial e sua vertente “afro”.
Acredito que você sentiu a ausência da produção feminina, isso não
significa que as mulheres não tenham publicado, ao contrário, temos
uma galeria de mulheres que contribuíram de forma significativa nos
Cadernos. A seguir, vamos conhecer a escrita feminina negra e seus
desafios frente à legitimação de uma voz duplamente marginalizada,
o ser mulher e ser negra.

Vozes femininas na escrita afro-brasileira

Historicamente, as mulheres têm sido vítimas do preconceito, do


silenciamento social e intelectual e da violência em seus mais diversos
matizes. Como bem assinala Heloisa Toller Gomes,

A escrita afrodescendente de mulheres advém de culturas


estilhaçadas pela diáspora, pelo colonialismo e pela
discriminação sócio-econômica nas sociedades coloniais e
pós-coloniais. Mostra-se, assim, cortada e recortada na
violência das fragmentações e ruturas. Convivendo com a
realidade do racismo e do preconceito, ela tem sido sujeita à
marginalização, ao desconhecimento e à desvalorização
intelectual, por vezes dentro da própria comunidade negra.
Não obstante, carrega em si a positividade de um projeto
cultural. (Gomes, 2010, p.9)

Assim, a escrita literária vem se configurando como forma de


denúncia, de afirmação identitária de gênero e etnia, e por que não
dizer de salvação, no sentido da superação dos limites impostos pelo
mundo machista e branco. Segundo Mirian Alves, a escrita da mulher
negra é libertação:
Em geral, a tendência da escritora negra é se engajar na luta
do homem, chamada de geral. A especificidade de ser mulher
escritora que aflora nos trabalhos passa então desapercebida.
(...) A arte é liberdade, libertação. A minha arte é engajada

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comigo. Eu sou o quê? Eu sou negra, mulher, mãe solteira,
empresária, filha, funcionária, militante. (...) Se eu não consigo
falar num conto, eu vou falar num poema. Se eu não consigo no
poema, eu escrevo uma novela. Se eu não consigo numa novela,
eu tento um romance. Se eu não conseguir em nada disso,
quem sabe uma história em quadrinhos resolva? São os meus
instrumentos. A literatura é o meu instrumento. Se eu conseguir
me comunicar enchendo o papel de vírgula, e o leitor entender 2 A escritora mineira
que eu estou falando do lugar onde o Brasil se instala, da Conceição Evaristo
miserabilidade em que a população negra se encontra, se eu também é
conseguir falar com vírgulas, eu vou encher o papel de vírgula romancista, seu livro
Ponciá Vicêncio
(Alves, apud Martins, 2002, p. 220). publicado em 2003,
teve boa acolhida de
crítica e de público. O
livro foi incluído nas
Inserida neste universo, marcado pela violação dos direitos mais listas de diversos
básicos, o anseio da mulher é ser ouvida e ser aceita em sua vestibulares de
universidades
subjetividade, como sinaliza o poema de Conceição Evaristo2: brasileiras e vem
sendo objeto de
artigos e dissertações
Eu-mulher acadêmicas. Em
2007 foi traduzido
para inglês e
Uma gota de leite publicado nos
me escorre entre os seios. Estados Unidos pela
Uma mancha de sangue Host Publications.
me enfeita entre as pernas.
Meia palavra mordida
me foge da boca.
Vagos desejos insinuam esperanças.
Eu-mulher em rios vermelhos
inauguro a vida.
Em baixa voz
Violento os tímpanos do mundo.
Antevejo.
Antecipo.
Antes-vivo.
Antes- agora – o que há de vir.
Eu fêmea-matriz.
Eu força-motriz.
Eu-mulher
abrigo da semente
moto-contínuo
do mundo.
(CN 13, 1990, p.30)

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Uma das questões mais importantes sinalizadas no âmbito da poesia
feminina negra é a condição de ser sujeito e não mais objeto no plano
do texto e da vida. Nesta perspectiva, a mulher negra avança como
sujeito de sua história e de seu tempo, ao conscientizar-se de seu
lugar no mundo, reverberando em um mergulho no protesto em
relação ao papel histórico legado às mulheres, como dispara
poeticamente Cristiane Sobral:

Não vou mais lavar os pratos

Não vou mais lavar os pratos.


Nem vou limpar a poeira dos móveis.
Sinto muito. Comecei a ler. Abri outro dia um livro
e uma semana depois decidi.
Não levo mais o lixo para a lixeira. Nem arrumo
a bagunça das folhas que caem no quintal.
....
Não lavo mais pratos.
Li a assinatura da minha lei áurea
Escrita em negro maiúsculo,
em letras tamanho 18, espaço duplo.
Aboli.
Não lavo mais os pratos.
Quero travessas de prata,
Cozinha de luxo
e jóias de ouro. Legítimas.
Está decretada a lei áurea.
..............
(CN 23, 2000, p. 18)

Uma das figuras símbolo da luta


literária e existencial da mulher
negra é Carolina Maria de Jesus, que
ousou na década de 1950 narrar sua
experiência na favela do Canindé em
São Paulo, por meio do livro Quarto
de despejo: diário de uma favelada,
expondo ali a subjetividade de uma
mulher negra e oprimida pela
miséria social. A condição de
Carolina de Jesus apresenta uma
http://www.palmares.gov.br/sites/000/2/informe/11
/11fotoip07.jpg
tríade exclusão na sociedade
brasileira, mulher, negra e favelada

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(quando este espaço ainda era pouco discutido e invisibilizado pelo
Estado e pela sociedade), surpreendentemente seu livro foi um
sucesso editorial em 1960 e traduzido em 13 idiomas.
Na escavação de sua interioridade por meio da forma do diário,
Carolina relata seu cotidiano marcado pela falta de condições de uma
vida cidadã digna. A escrita íntima de Carolina expõe as mazelas desse
mundo, como no trecho em que seu filho passa mal por ter comido
uma melancia podre, o episódio a motiva no plano das confissões a
denunciar os comerciantes que jogavam lixo na favela e terminava
sendo recolhido pelos moradores: “19 de setembro – Na minha
opinião os atacadistas estão se divertindo com o povo igual aos Cezar
do passado. Antes o povo era perseguido pela fé. E nós, pela fome”
(Jesus, 1995, p. 42).
A elasticidade estética do diário de receber as mais diversas
anotações permite que a autora expresse sua opinião quanto aos
acontecimentos históricos do país, particularmente aquele que a toca
mais diretamente:

13 de Maio... É dia simpático para mim. É o dia da Abolição.


Dia que comemoramos a libertação dos escravos. Nas prisões
os negros eram bode expiatório. Mas os brancos agora são
mais cultos. E não nos trata com desprêso (sic). Que Deus
ilumine os brancos para que os pretos sejam felis (sic). (Jesus,
1995, p.28).

É possível vislumbrar na produção de Carolina Maria de Jesus a


antecipação na literatura afro-brasileira do tema da afirmação
estética, relembrando a bandeira do movimento Black Beautiful
(Beleza Negra), como revela nesta confissão: “Adoro a minha pele
negra, e o meu cabelo rústico. Eu acho o cabelo negro mais educado
do que o cabelo branco. A minha (vida), até aqui tem sido preta. Preta
é a minha pele. Preto é o lugar onde moro” (Jesus, 1995, p.65).
Carolina Maria de Jesus suscitou algumas polêmicas em torno de sua
figura, especialmente pelo não engajamento nos movimentos negros,
ainda que estes tenham tentado trazê-la para suas fileiras, ao mesmo
tempo em que não se engajou também no universo literário
canônico, tornando-se assim uma espécie de outsider no dizer de José
Carlos Gomes da Silva:

A autora de Quarto de despejo, embora tenha participado


de eventos promovidos por lideranças negras não se
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engajou no movimento negro. Também não obteve o
reconhecimento no campo da literatura hegemônica. O livro
ainda em forma de diário, Casa de alvenaria, não repetiu o
sucesso anterior e o romance Pedaços da fome (1963), em que
imaginava obter reconhecimento como escritora resultou em
enorme fracasso editorial. A ‘poetisa negra’ foi, portanto, uma
outsider. Viveu enquanto cidadã à margem da economia e da
cultura urbana dominantes. Seus escritos ocupam uma posição
marcada por uma dupla exclusão. Por isso talvez o rótulo de
literatura marginalizada talvez lhe seja mais adequado (Silva,
2008, p. 79).

Será que os detratores, críticos de Carolina, especialmente os


acadêmicos não analisam com muita severidade sua produção? Tal
posicionamento deixa de levar em consideração os lugares sociais que
fermentaram a escrita de Carolina: mulher, negra, mãe, catando
papel para sustentar a família, vivendo abaixo da linha da pobreza,
semi-analfabeta e ainda assim conseguir no plano literário utilizar
estratégias discursivas em que se engendram críticas identitárias e
étnico-raciais? Acredito que a escritora fez muito mais do que muitas
mulheres em sua condição faria, sem falar no testemunho literário
deixado por ela, aberto ainda a muitas pesquisas e revisões.
Não há duvida de que as vozes das mulheres negras na luta contra o
racismo – sob o nome de Conceições, Cristianas, Lélias, Esmeraldas,
Carolinas - construíram e constroem uma memória da escrita
feminina afro-brasileira, projetando um conjunto de vozes que puxam
os fios da ancestralidade africana, das lutas pela afirmação identitária
ao longo da excludente história brasileira. Nada melhor que a voz
poética de Conceição Evaristo para reafirmar esta memória em

“Vozes-mulheres”:

A voz de minha bisavó ecoou


criança
nos porões do navio.
..........
A voz de minha avó
ecoou obediência
aos brancos-donos de tudo.
A voz de minha mãe
ecoou baixinho revolta
no fundo das cozinhas alheias
...........
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A minha voz ainda
ecoa versos perplexos
com rimas de sangue
e
fome.

A voz de minha filha


recolhe todas as nossas vozes
..............
recolhe em si
a fala e o ato.
O ontem – o hoje – o agora.

(CN, 13, 1990, p.32-33)

Escritas da periferia e movimentos culturais afro-


brasileiros

No tópico anterior, conhecemos a escrita de mulheres negras que


lançaram mão da literatura como forma de expressão de
subjetividades, superação de preconceitos, inserção social e
representação identitária. Apesar das polêmicas em torno de Carolina
Maria de Jesus, não resta dúvida de que ela expõe, pela primeira vez,
de forma contundente, os percalços do favelado no Brasil. A favela
que é um espaço pouco frequentado ou mesmo abandonado pelo
Estado, “varrido para baixo do tapete” da sociedade, emerge nos
diários de Carolina de Jesus trazendo uma carga de sofrimento dos
excluídos urbanos, num momento em que o número de favelados em
São Paulo e no Brasil era bem tímido se comparado aos dias de hoje.
O romance Quarto de despejo abre uma linha de escrita que se
expandiu nos últimos decênios – a escrita marginal oriunda das
favelas, dos subúrbios, criando vozes narrativas de resistência frente à
opressão política e cultural do sistema.
A representação literária da favela, cuja maioria de habitantes é de
negros, torna-se espaço romanesco novamente em 2000 na obra
Cidade de Deus de Paulo Lins, que mergulha o leitor num universo de
extrema violência, do crime e do tráfico. O autor traz à cena as
transformações ocorridas no conjunto habitacional “Cidade de Deus”,
que ao longo das décadas de 1960, 70 e 80, vai se tornando uma das
favelas mais violentas do Rio de Janeiro:

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Por dia, durante uma semana, chegavam de trinta a cinqüenta
mudanças, do pessoal que trazia no rosto e nos móveis as marcas das
enchentes. Estiveram alojados no estádio de futebol Mano Filho e
vinham em caminhões estaduais cantando: Cidade Maravilhosa cheia
de encantos mil...
Em seguida, moradores de várias favelas e da Baixada Fluminense
chegavam para habitar o novo bairro, formado por casinhas fileiradas
brancas, rosas e azuis. Do outro lado do braço esquerdo do rio,
construíram Os Apês, conjunto de prédios de apartamentos de um e
dois quartos, alguns com vinte e outros com quarenta apartamentos,
mas todos com cinco andares (Lins, 2000, p.7-8).

Paulo Lins, escritor negro, formado em Letras, não discute


particularmente o drama do negro excluído no espaço urbano,
restando-lhe por isso ocupar as zonas marginais e excluídas da cidade,
o que não deixa de ser a consequência do passado colonial e
escravista; o foco do autor é propriamente o espaço da favela “Cidade
de Deus” e suas radicais transformações com o acirramento da
pobreza e do tráfico de drogas e das personagens, frutos deste
entorno.

Cena do filme “Cidade de Deus”, baseado no livro de Paulo Lins


http://joaoluis28.files.wordpress.com/2007/06/cidade-de-deus06.jpg?w=417&h=217

A favela do Canindé, onde residiu Carolina de Jesus, quase é tomada


por um ar romântico perto da crueza e violência da “Cidade de Deus”
narrada no livro homônimo. No entanto, o que a sociedade enxerga
como espaço do medo e da miséria, vem ganhando vozes de protesto
destas condições, constituídas a partir de movimentos culturais
ligados ao hip hop, ao rap e aos escritores da literatura marginal:
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Contemporaneamente, o movimento hip hop e a literatura
marginalizada que se elabora na periferia paulistana têm
produzido narrativas urbanas que nos permitem o acesso ao
universo simbólico dos excluídos (SILVA, 2008, p.80).

Tal perspectiva nos leva refletir sobre um dos grandes desafios


enfrentados pela maior parte dos professores de escolas públicas
localizadas nas zonas periféricas das cidades: penetrar no universo
dos alunos a fim de construir um ambiente de educação dialógico,
visto que a ausência da representação destes na maioria dos livros
didáticos, aliada à pretensão de homogeneização das culturas e das
diferenças, impede a aproximação entre professores e alunos. Um
obstáculo é a precariedade na formação dos professores,
despreparados e sem instrumentos pedagógicos para o mergulho na
compreensão do universo cultural e simbólico dos alunos moradores
das periferias.
Diversos estudiosos da questão observam que o caminho para que o
jovem da periferia comece a ver possibilidades de superação é por
meio da arte em suas múltiplas manifestações, como aponta o
professor e DJ Nelson Maca:

Para os interesses imediatos dos jovens afrodescendentes


brasileiros, o rap é mais familiar que os filmes subjetivos, os
romances eruditos ou as novelas televisivas (....) O rap
estabelece, conscientemente, uma postura calcada em
atitudes descolonizadas. As letras e a postura dos artistas do
hip hop se fundem na tentativa de anulação das fronteiras
entre a realidade e a representação (Maca, 2005, p. 7).

Segundo os pesquisadores, o hip hop se constitui a partir de quatro


elementos: o break (dança de passos quebrados), o grafite (a pintura 3
Rap é um elemento
com spray pintada nos muros da cidade), o DJ (Disc Jóquei) e o rapper integrante do Hip Hop.
(ou MC, mestre de cerimônias que canta ou declama as letras). A O Hip Hop surgiu na
parte musical deriva do rap (abreviação de rythym and poetry, ritmo e periferia dos bairros
pobres de Nova York,
poesia em inglês), o que aproxima esta manifestação musical, cultural Estados Unidos, na
e de contestação da literatura afro-brasileira, em sua vertente década de 1970.
marginal3.

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A relação básica do rap com a
literatura é a transposição dos
personagens musicados em
B-girls, dançarinas de
break, um dos personagens de ficção, que
elementos do Hip Hop ganham uma textualidade
http://deco-
01.slide.com/r/1/0/dl/mJQ- política e ideológica,
Ecvf6T9SqBL1jvL2l3I4SWFDj5
GK/zoomer.fpg
anteriormente difundida nas
letras do rap, como se pode
observar no rap “Diário de um detento” de Mano Brown, que
tematiza o massacre do Carandiru em 1992, a composição se baseou
nos diários escritos pelo detento Jocenir, que após sua libertação teve
o livro publicado.
É na letra do rap que se imbrica a experiência pessoal do preso,
traduzidos pelos versos da música que anunciam o horror do dia
anterior ao massacre do Carandiru, ao mesmo tempo em que
denuncia o silenciamento do sistema e dos meios midiáticos em
relação ao universo subjetivo do presidiário:

Era a brecha que o sistema queria / Avisa o IML chegou o


grande dia [...]
Cachorros assassinos, gás lacrimogênio / Quem mata mais
ladrão ganha medalha de prêmio [...]
O ser humano é descartável no Brasil, como modess usado ou
bombril [...]
Cadeia apaga o que o sistema não quis / Esconde o que a novela
não diz [...]
Cadáveres no poço, no pátio interno / Adolf Hitler sorri no
inferno [...]
Ratatatá / Fleury e sua gangue vão nadar numa piscina de
sangue [...]
Mas quem é que vai acreditar no meu depoimento? Dia 3 de
outubro, diário de um detento (ZENI, 2004, p. 234).

Diante dessa narrativa contundente, visceral, você pode estar se


indagando, de que maneira o rap e a literatura marginal podem
contribuir na transformação do cotidiano de jovens negros
discriminados, moradores da periferia, que por vezes olham com
desesperança para o futuro que a exclusão desenha em seu
horizonte. Para alguns estudiosos do tema como Lourdes Carril,

As letras [de rap] contendo denúncias e recuperando a voz do


negro na periferia repercutem na elevação da auto-estima do
jovem da periferia, uma vez que lhe permitem elaborar uma
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interpretação sobre a sua realidade social, de se ver e se
compreender parte de uma história e de se territorializar no
espaço de forma representativa, dada pela recuperação da
auto-estima, pelo sentimento de pertencer a algo, de forma
concreta por fazer parte de uma posse, e transmitir a sua
mensagem a outros pares, o que lhes permite ser ouvidos
(Carril, 2003, p. 196-197)

No âmbito do projeto da literatura marginal, uma diversidade de


autores e linhas de criação surge a cada dia, desafiando a hegemonia
literária dos circuitos fechados e oficiais da literatura brasileira e
ampliando assim as estratégias discursivas da literatura afro-
brasileira, como revelam os versos do cordel urbano do Gato Preto
em “Faveláfrica”:

...........................
É pra você ouvir, eu vou lhe repetir
Quero a parte que me cabe, quero a parte que me cabe
Criaram novos termos, camuflando o preconceito
Fingindo encobrindo, o desastre que causou

Pretinho, moreninho, mulato homem de cor


Não aceito eu sou negro, eu sou afro-brasileiro
Herdeiros de Zumbi, eu também sou guerreiro
Cartola, Mandela, Portela, Marcus Garvey, Marighela

Revolta da Chibata, a Revolta dos Malês


Desmontutu minha nação gege
Meu Black, minhas tranças, um exemplo pras crianças
Minhas tranças, o meu Black, um exemplo pros moleques

Candomblé, capoeira, feijoada caseira


Foi minha mãe quem criou
Besteira muita asneira, o livro já falou
Princesa Isabel nunca libertou.
(FÉRREZ, 2005, p.61)

A partir destas e de outras manifestações culturais e artísticas, a


literatura da periferia constrói um campo discurso permeado pelo
mundo simbólico dos excluídos, que conquistam o direito à voz na
escavação da interioridade individual e por meio da memória coletiva
dos afro-brasileiros em suas lutas históricas pelo direito à liberdade e
à justiça social.

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Referências

ALVES, Miriam. "Pedaços de Mulher", Entrevista de 1995. Apud Leda Maria Martins
Arabescos do Corpo Feminino, In: Gênero e Representação na Literatura Brasileira. Belo
Horizonte: Editora da UFMG, 2002.
Cadernos Negros 1. São Paulo: Edição dos autores, 1978.
Cadernos Negros 3. São Paulo: Edição dos autores, 1980.
Cadernos Negros 5. São Paulo: Edição dos autores, 1982.
Cadernos Negros 8. São Paulo: Edição dos autores, 1985.
Cadernos Negros 10. São Paulo: Edição dos autores, 1987.
Cadernos Negros 13. São Paulo: Edição dos autores, 1990.
Cadernos Negros 23. São Paulo: Edição dos autores, 2000.
CARRIL, Lourdes. Quilombo, favela e periferia: a longa busca da cidadania. Faculdade de
Filosofia, Letras e Ciências Humanas, São Paulo, Universidade de São Paulo, 2003. (Tese,
Doutorado em Geografia Humana)
CUTI, Luís da Silva. “Palavra negro”. Disponível em http://www.cuti.com.br/poesia2.htm
Acesso em 18 de junho de 2010.
FERRÉZ (Org.). Literatura marginal: talentos da escrita periférica. Rio de Janeiro: Agir,
2005.
GOMES, Heloísa Toller. “’Visíveis e invisíveis grades’: vozes de mulheres na escrita
afrodescendente contemporânea”. Disponível em
http://www.letras.ufmg.br/literafro/artigoheloisa.pdf Acesso em 18 de junho de 2010.
LINS, Paulo. Cidade de Deus. São Paulo: Companhia das Letras, 2000.
MACA, Nelson. “Algumas reflexões sobre hip hop e baianidades”. Revista Palmares. Ano 1,
n2, dez de 2005.
Nascimento, Abdias do. “Sobre os cadernos negros” Disponível em
http://www.quilombhoje.com.br/sobrecadernos/orelhaabdias.htm . Acesso em 25 de
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SILVA, José Carlos Gomes da. “Carolina Maria de Jesus e os discursos da negritude:
literatura afro-brasileira, jornais negros e vozes marginalizadas”. História & Perspectivas,
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ZENI, Bruno. “Negro drama do rap: entre a lei do cão e a lei da selva”. Disponível em:
http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0103-40142004000100020 .
Acesso em 22 de junho de 2010.

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Leitura básica:
SILVA, José Carlos Gomes da. “Carolina Maria de Jesus e os discursos da negritude”.
Disponível em: www.historiaperspectivas.inhis.ufu.br/include/getdoc.php

Para saber mais:


EVARISTO, Conceição. “Da representação à auto-representação da mulher negra na
literatura brasileira”. Revista Palmares, ano1, n.1, 2005.
GUERRA, Denise. “Sons e dança dos negros no Brasil” Disponível em
http://www.geledes.org.br/afrobrasileiros-e-suas-lutas/sons-e-dancas-dos-negros-no-
brasil-18.html
MOREIRA, Gilberto Passos Gil. “Diversidade cultural, identidade e resistência”. Revista
Palmares, ano 1, n.1, 2005.
PALMEIRA, Francineide Santos. “Conceição Evaristo e Esmeralda Ribeiro: intelectuais
negras, poesia e memória”. Terra roxa e outras terras – Revista de Estudos Literários, vol.
17-A, Londrina, (dez. 2009). (versão online)
PRUDENTE, Celso Luiz. “Cinema negro: aspectos de uma arte para a afirmação ontológica
do negro brasileiro”. Revista Palmares, ano 1, n.1, 2005.
SOUZA, Ana Lúcia. “Hip Hop novos gestos e espaços de fala, leituras e imagens negras”.
Revista Palmares, ano 1, n.2, 2005.

Sobre a Autora

Elizabeth Gonzaga de Lima


Doutora em Teoria e História Literária pela
Universidade Estadual de Campinas, Mestre em
Letras pela Universidade Estadual de Campinas,
especialista em Literatura Brasileira pela Pontifícia
Universidade Católica de Minas Gerais, graduada
em Letras Vernáculas pela Pontifícia Universidade
Católica de Minas Gerais. Possui experiência e atua
nas áreas de Teoria da Literatura, Literatura
infanto-juvenil, Literatura Brasileira, Literatura
Portuguesa e Literaturas africanas de língua
portuguesa nas modalidades presencial e a distância.

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