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O Brasil de João Goulart: um projeto de nação.

Orgs: Oswaldo Munteal – Jaqueline Ventapene – Adriano de Freixo.


Rio de Janeiro: PUC-Rio: Contraponto, 2006.

Lógica e Cronologia das Reformas – Roland Corbisier


(Extraído do livro Reforma ou Revolução? Rio de Janeiro: Civilização Brasileira,
1968)

Reforma Administrativa

“... A criação, no antigo Distrito Federal, hoje Estado da Guanabara, da


Superintendência de Urbanização e Saneamento (Sursan) implica o reconhecimento de
que os órgãos da administração então existente, Secretaria de Viação e Obras Públicas...
eram incapazes de elaborar e executar este plano de obras. Para realizar as obras
indispensáveis a solução dos problemas da cidade, rede de esgotos, túneis, aterros,
avenidas perimetrais, viadutos e etc. foi indispensável criar um órgão especial, com
pessoal altamente qualificado, um plano minucioso, verba correspondente a 10% da
arrecadação do Estado... Tudo que se tem feito no Estado da Guanabara, em matéria de
obras públicas, não passa de realização do plano decenal da Sursan, criada no
qüinqüênio 56-60”. (p.153)

Reforma Urbana

“No conjunto das contradições agravadas pelo desenvolvimento, apontamos também o


desequilíbrio entre o crescimento das populações urbanas e a escassez e a carestia dos
imóveis residenciais.
O crescimento das grandes cidades brasileiras, especialmente das capitais, resulta de
vários fatores, entre os quais os de maior relevância nos parecem ser os seguintes: em
primeiro lugar a industrialização... Em segundo lugar o crescimento vegetativo... Em
terceiro, a imigração estrangeira... Em quarto e último, as imigrações internas...
Crescendo desordenadamente, sem plano nem disciplina, as nossas cidades estão sendo
construídas pelo capitalismo urbano que, preocupado exclusivamente com o lucro, e
desatento aos interesses e às necessidades da população, tem contribuído para agravar
terrivelmente o problema habitacional.
[...]
Mercadoria sujeita à lei da oferta e da procura, ao leilão dos preços no mercado, o
imóvel residencial está alcançando, tanto para venda quanto para o aluguel, preços
extorsivos, que convertem a residência em luxo, acessível apenas a classe dominante.
... Sabe-se que na cidade do Rio de Janeiro, há cerca de 40.000 imóveis residenciais
desocupados, a espera da liberação dos aluguéis ou aguardando a valorização
imobiliária. O direito de propriedade, no entanto, tal como o entende e consagra a
legislação vigente, não permite que o Poder Público obrigue esses proprietários a vender
ou alugar seus imóveis. E, enquanto famílias inteiras se comprimem em cubículos,
permanecem vazios, por capricho ou ganância dos proprietários, milhares de casas e de
apartamentos que, alugados ou vendidos, poderiam abrigar centenas de milhares de
pessoas.
[...]
Enquanto a classe dominante reside em palácios, em apartamentos de centenas de
metros quadrados, que dariam para abrigar dezenas de famílias, a quarta parte da
população carioca, cerca de um milhão de seres humanos, reside na miséria, na
imundície, no inferno das favelas.
Em toda parte do mundo, as despesas com habitação correspondem a menos de 30% dos
vencimentos e salários. No Brasil, em conseqüência da inflação e da especulação
imobiliária, os gastos com aluguel subiram a 80% e 90% dos ordenados e salários das
classes trabalhadoras, o que representa um percentual intolerável...
A fim de atender às exigências de habitação das populações das cidades em constante
crescimento, a Reforma Urbana tornará a propriedade do imóvel residencial acessível a
todos, liquidando o monopólio de que até agora tem sido objeto. Iniciativa do Poder
Público, do Estado, consiste essa reforma, nas seguintes medidas principais. Primeiro,
limitação do número de imóveis urbanos de propriedade particular e desapropriação do
excedente; desapropriação compulsória, por interesse social, dos imóveis residenciais
desocupados além de determinado prazo; venda, a prazo longo e juros módicos, pelos
organismos oficiais de crédito, às classes assalariadas, dos imóveis desapropriados por
interesse social; construção, pelo Estado, de grandes conjuntos residenciais, a serem
vendidos à classe trabalhadora sem objetivo de lucro mas visando apenas contribuir
para a solução desse problema social.
A Reforma Urbana implica, sem dúvida, solução de outros problemas, tais como
transporte, serviços públicos, etc. mas, à semelhança da Reforma Agrária, exige
fundamentalmente a liquidação do monopólio da propriedade urbana, e o acesso, a essa
propriedade, de todos aqueles que residem e trabalham nas cidades”.
(p.158-160)