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SÃO FRANCISCO DE ASSIS E SÃO TOMÁS DE AQUINO

Ramon Mapa da Silva

São Francisco de Assis

Litografia representando São Francisco de Assis

Francisco de Assis viveu no período de transição da Alta (século V d.C até o século X
d.C) para a Baixa Idade Média (séculos X a XV) e vivenciou ativamente as constantes
crises que marcaram esse período. Com a Idade Média, a Europa presenciou a economia
mercantil e imperial romana ser substituída pela economia agrária feudal, onde o
comércio praticamente deixou de existir e quase todas as relações jurídicas se resumiam
à relação de suserania e vassalagem. Somado a isso, o cristianismo se torna a força
soberana da Europa, onde o Papa dispunha de tronos como o da Dinamarca e o do
Reino de Castela a seu bel prazer. Os judeus, sem pátria desde sua colonização pelo
Império Romano, vagam pelo mundo sendo expulsos de território a território. Muitos
acabam se convertendo ao cristianismo recebendo a alcunha de cristãos novos. Isso tudo
prepara o cenário para a Baixa Idade Média. Nesse período as relações sociais acabam
por se diversificar. Os judeus e os cristãos novos, proibidos de possuir terras, estavam
excluídos do sistema feudal e por isso obrigados a se dedicar a trabalhos manuais e ao
comércio, que eram desprezados à época como ocupações indignas e inferiores. Mas,
com o tempo, as relações comerciais começam a se estabelecer e o comércio se torna a
base econômica da Baixa Idade Média, o que mais tarde abriria espaço para o
surgimento da burguesia. O Papa Inocêncio III era inclusive filho de uma família de
prósperos comerciantes.

Surge toda uma nova concepção da religião. A Igreja estabelece uma série de reformas,
condenando a simonia, a licenciosidade sexual dos sacerdotes e todas as práticas que
entendiam ir contra o espírito original do cristianismo. Tal pensamento deu origem a
uma série de ordens religiosas que buscavam viver o cristianismo na sua essência, como
os valdenses e os umiliati. Além do voto de pobreza essas ordens pregavam o acesso
direto à bíblia, em língua vulgar, sem o intermédio sacerdotal, a vida devotada à
caridade e ao trabalho e a licença pública para espalhar a palavra de Deus. Por óbvio a
Igreja não gostou de ser suprimida de seu papel de mediadora entre Deus e os homens e
condenou tanto valdenses como umiliatis como hereges, ao lado dos cátaros e
cartaginenses. A Europa vê as cruzadas, antes dirigida contra mulçumanos e infiéis, se
voltarem contra os próprios cristãos. É nesse ambiente que o filho de uma próspera
família de Assis, Francisco, começa a perceber as terríveis contradições que sua época
apresentava. Se por um lado o desenvolvimento comercial enriqueceu a muitos,
milhares de outros viviam em condições de miséria absoluta, tendo que lidar com a
fome e as intempéries. Ao se refugiar na leitura das sagradas escrituras, Francisco
pretendia encontrar uma explicação para tal realidade, mas mais que isso encontra uma
missão: a de viver, sine glosa (sem diferenças ou interpretações) o exemplo dado por
Cristo nos evangelhos. Para ele, Cristo era o exemplo a ser seguido por todos os
homens, o que confere a seus ensinamentos um caráter universal que refletirá no
pensamento de Francisco.

Movido pela inspiração da palavra sagrada, São Francisco doa todos os seus bens e
funda uma ordem de irmãos mendicantes, vocacionada a pregar os evangelhos para os
humildes. Seu auditório comum eram os leprosos, os doentes, os abandonados. Aos
membros da ordem ensinava o desprendimento e a caridade, bem como o amor aos
miseráveis. Para Francisco é a vida em pecado que nos afasta dos humildes:

O Senhor assim deu a mim, irmão Francisco, a graça de começar a fazer


penitência; quando ainda me encontrava no pecado, parecia-me muito amarga
ver os leprosos, e o próprio Senhor me conduziu até eles e com eles usei de
misericórdia; quando me afastei do pecado, o que antes me parecia
insuportável logo transformou-se em doçura d’alma e de corpo.1 (SÃO
FRANCISCO, apud COMPARATO, 2008, p. 133)

A Ordem Franciscana de Frades Menores encontrou severa resistência perante a Igreja,


que via nela mais uma usurpadora das funções eclesiásticas. Por diversas vezes
Francisco foi admoestado a entrar oficialmente nas ordens reconhecidas pela Igreja ou
abandonar seu ofício apostólico. Contudo, Francisco dribla algumas das censuras da
Igreja dividindo sua Ordem em três, em que somente a terceira se dedicaria ao trabalho
de caridade e ainda viveria na sociedade. As duas ordens superiores viveriam em
clausura e meditação religiosa. Com isso o Papa Inocêncio III, no ano de 1221,
reconhece a Regula da Ordem Franciscana. A Regula é o regulamento que rege a
ordem. Essa primeira Regula é conhecida como Regula non bullata, porque foi
reconhecida oralmente pelo Papa, não por intermédio de uma bula como ocorria
comumente.

Mas algumas questões da Regula ainda incomodavam a Igreja. Francisco condenava


ferozmente a posse e mesmo o mero contato com dinheiro, excetuando aquele destinado
à caridade, chamando de “tesoureiro”, numa clara referência a Judas, qualquer um de
sua ordem que possuísse dinheiro e o expulsando prontamente. Da mesma forma,
condenava com furor o estudo, coisa que não correspondia ao voto de pobreza (com
certeza influenciado pelo alto valor dos livros de então). Os irmãos letrados só poderiam
ler as escrituras e os poucos livros que instruíam para a pregação. Os analfabetos não
poderiam ter contato com livro algum. Recebido por um irmão que montara uma
pequena sala de estudos em um convento da Ordem, Francisco teria destruído a sala e
expulso o irmão a ponta-pés.

Seus princípios políticos estavam calcados na mais pura igualdade. Francisco defendia a
igualdade e a dignidade universal de tudo o que fora criado por Deus. Em seu famoso O
Cântico das Criaturas, essa defesa fica clara ao louvar a sabedoria de Deus ao criar não
só o sol e o vento, mas também a doença e a morte, chamados todos igualmente de
irmãos:

1
Il Signore cosi donó me, frate Francesco, la grazia di cominciare a far penitenza: quando ero ancora
nei peccati, mi pareva troppo amaro vedere i lebbrosi, e Il Signore stesso mi condusse tra loro e con essi
usai misericordia: quando me ne allontanai, quello che prima mi pareva amara, tosto mi si mutò in
dolcezza d’anima e di corpo.
Altíssimo, omnipotente, bom Senhor,
a ti o louvor, a glória, a honra e toda a bênção.

A ti só, Altíssimo, se hão-de prestar


e nenhum homem é digno de te nomear.

Louvado sejas, ó meu Senhor, com todas as tuas criaturas,


especialmente o meu senhor irmão Sol,
o qual faz o dia e por ele nos alumias.
E ele é belo e radiante, com grande esplendor:
de ti, Altíssimo, nos dá ele a imagem.

Louvado sejas, ó meu Senhor, pela irmã Lua e as Estrelas:


no céu as acendeste, claras, e preciosas e belas.

Louvado sejas, ó meu Senhor, pelo irmão Vento


e pelo Ar, e Nuvens, e Sereno, e todo o tempo,
por quem dás às tuas criaturas o sustento.

Louvado sejas, ó meu Senhor, pela irmã Água,


que é tão útil e humilde, e preciosa e casta.

Louvado sejas, ó meu Senhor, pelo irmão Fogo,


pelo qual alumias a noite:
e ele é belo, e jucundo, e robusto e forte.

Louvado sejas, ó meu Senhor, pela nossa irmã a mãe Terra,


que nos sustenta e governa, e produz variados frutos,
com flores coloridas, e verduras.

Louvado sejas, ó meu Senhor, por aqueles que perdoam por teu amor
e suportam enfermidades e tribulações.

Bem-aventurados aqueles que as suportam em paz,


pois por ti, Altíssimo, serão coroados.

Louvado sejas, ó meu Senhor, por nossa irmã a Morte corporal,


à qual nenhum homem vivente pode escapar:
Ai daqueles que morrem em pecado mortal!
Bem-aventurados aqueles que cumpriram a tua santíssima vontade,
porque a segunda morte não lhes fará mal.

Louvai e bendizei a meu Senhor, e dai-lhe graças


e servi-o com grande humildade...2

2
Altissimu, onnipotente bon Signore,
Tue so' le laude, la gloria e l'honore et onne benedictione.

Ad Te solo, Altissimo, se konfano,


et nullu homo ène dignu te mentovare.

Laudato sie, mi' Signore cum tucte le Tue creature,


spetialmente messor lo frate Sole,
lo qual è iorno, et allumeni noi per lui.
Francisco também levava o exemplo do sacrifício de Cristo às últimas consequências.
Sua vida foi marcada pela renúncia constante em nome do próximo. Caminhando a pé,
sob um vigoroso inverno, acompanhado de alguns irmãos de sua ordem, Francisco teria
dito que o saber de todos os tesouros e línguas e o maior júbilo divino não
representariam a alegria perfeita. Questionado sobre qual seria a alegria perfeita ele
responde:

Quando chegarmos ao nosso destino e estivermos ensopados pela chuva e


congelados pelo frio, sujos de lama e mortos de fome, e batermos à porta de
m convento e o porteiro aparecer e perguntar quem somos nós; e, ao
dizermos que somos dois irmãos, ele nos responder que mentimos, pois
somos dois patifes, que andam a enganar todo mundo e a roubar as esmolas
dos pobres, e nos mandar embora sem abrir a porta, deixando-nos do lado de
fora, soubermos suportar pacientemente todas essas injúrias e crueldades,
sem nos abatermos nem murmurarmos contra ele; se pensarmos, humilde e

Et ellu è bellu e radiante cum grande splendore:


de Te, Altissimo, porta significatione.

Laudato si', mi Signore, per sora Luna e le stelle:


in celu l'ài formate clarite et pretiose et belle.

Laudato si', mi' Signore, per frate Vento


et per aere et nubilo et sereno et onne tempo,
per lo quale, a le Tue creature dài sustentamento.

Laudato si', mi' Signore, per sor Aqua,


la quale è multo utile et humile et pretiosa et casta.

Laudato si', mi Signore, per frate Focu,


per lo quale enna llumini la nocte:
ed ello è bello et iocundo et robustoso et forte.

Laudato si', mi' Signore, per sora nostra matre Terra,


la quale ne sustenta et governa,
et produce diversi fructi con coloriti flori et herba.

Laudato si', mi Signore, per quelli che perdonano per lo Tuo amore
et sostengono infirmitate et tribulatione.

Beati quelli ke 'l sosterranno in pace,


ka da Te, Altissimo, sirano incoronati.

Laudato si' mi Signore, per sora nostra Morte corporale,


da la quale nullu homo vivente po' skappare:
guai a quelli ke morrano ne le peccata mortali;
beati quelli ke trovarà ne le Tue sanctissime voluntati,
ka la morte secunda no 'l farrà male.

Laudate et benedicete mi Signore et rengratiate


e serviateli cum grande humilitate...
caridosamente que aquele porteiro nos conhece, e que o próprio Deus o faz
assim agir contra nós, ó irmão Leão, escreva aí que está a perfeita alegria. E
se continuarmos a implorar e ele saia fora furioso e nos escorrace de modo
violento, como ladrões vis, e nós suportarmos tudo isso pacientemente, com
alegria e amor, pensando nas penas de Cristo bendito, as quais devemos
receber pelo seu amor, escreva, irmão Leão, com todas as letras, que aí estará
a perfeita alegria. (apud COMPARATO, 136)

Devido à influência do Cardeal Ungido, protetor de Francisco diante da Igreja, o Papa


decide oficializar a Ordem Franciscana se Francisco aceitar modificar as passagens da
Regula que estariam contra o que era pregado pela Igreja. Com extrema relutância
Francisco aceita, e entra em vigor a Regula bullata, que conduz a ordem franciscana até
os dias de hoje. Politicamente sua importância reside em estabelecer a igualdade
universal como regra máxima.

São Tomás de Aquino

São Tomás de Aquino

Tomás nasce em Aquino, no ano de 1224, dois anos antes da morte de São Francisco.
Foi o principal pensador da Igreja, cuja obra é marcada ao mesmo tempo por um grande
respeito à tradição e um fervor revolucionário. Ao mesmo tempo que mantém o respeito
escolástico pelo argumento de autoridade, se utilizando sobretudo da redescoberta de
Aristóteles, a quem chamava pela metonímia O Filósofo, Aquino modifica a forma de
fazer teologia ao se utilizar do método dialético grego, em que argumentos contrastantes
se contrapõe em busca da verdade.

Sua Summa Teologica segue tal método e apresenta os princípios básicos da sua
doutrina ética e política.
Tomás de Aquino diz que existem três tipos de leis: a Lei Eterna (Lex Aeterna), a Lei
Natural (Lex Naturalis) e a Lei Humana (Lex Humana). A lei eterna é a da divindade. É
a própria razão divina que governa toda a comunidade do Universo. Dela todas as
demais leis emanam, e, portanto, as coisas humanas devem se sujeitar a ela.

A Lex Naturalis ou Lei Natural é a participação do homem, pela razão concedida a ele
por Deus, na Lei Eterna. A Lei Natural não existe fora da Lei Eterna, mas é aquela
parcela da Lei Eterna que o homem consegue atingir através de seu esforço intelectual.
A ideia de lei natural era comum desde os estóicos. Contudo, os mesmos viam na lei
natural uma ordem imutável, ao contrário de São Tomás que dizia que a Lei Natural era
mutável porque o acúmulo de conhecimento e experiência humana modificariam a
quantidade de percepção que teríamos da Lei Eterna.

Quanto aos seus princípios primeiros, a lei natural é absolutamente imutável;


quanto, porém, aos preceitos segundos, dos quais dissemos serem quase
certas conclusões próprias, próximas aos primeiros princípios, não é
imutável, embora seja sempre reto, na maior parte dos casos, o que ela
preceitua. Pode contudo mudar-se, num caso particular e poucas vezes, por
certas causas especiais, que impedem a observância de seus preceitos, como
já se disse. (TOMÁS DE AQUINO, apud COMPARATO, 2008, p. 146)

A lei humana serve justamente para explicitar, nos casos particulares, os ditames da lei
eterna e da lei natural. A função da lei humana é não deixar dúvidas sobre o que é justo
em cada caso. A intenção da lei humana é promover o bem comum.

A maior contribuição de São Tomás para o pensamento jurídico e político, contudo, é o


conceito de Livre Arbítrio. Um questionamento comum à época era “se, como nos diz
Agostinho, Deus é o motor de todas as ações, será Deus o responsável pelo pecado?” A
resposta de Tomás reside no conceito de livre arbítrio e em sua aplicação das ideias
aristotélicas para explicá-lo. Para Tomás, assim como o ato de coxear não é culpa da
virtude motora, mas de uma tíbia defeituosa, a liberdade para agir não é culpa do
pecado, mas de um desvio na escolha do próprio pecador, que se desvia de Deus:

O pecado, acrescenta, significa deficiência no ser e no ato; e esta procede de


uma causa criada, que é o livre arbítrio, desviado da ordem do agente
primeiro, Deus. Assim como o defeito de coxear reduz-se à tíbia curva, como
à causa, e não à virtude motora, que contudo é causa do movimento de
coxear. E a esta luz, Deus é causa do ato do pecado, não porém do pecado,
por não ser causa da deficiência do ato. (apud COMPARATO, 2008, p. 144)
Ato é usado por Tomás no sentido aristotélico, como a realização de uma potência. A
liberdade é o ato que realiza a potência do próprio ser do homem imagem e semelhança
de Deus. Essa mesma liberdade permite que o homem se desvie do caminho divino.
Esse desvio do ato é a causa primeira do pecado, sendo o livre-arbítrio uma condição
para que ele se realize.

Tomás também refletiu sobre o conceito de comunidade em sua época, levantando a


delicada questão da participação de infiéis na comunidade de cristãos. Tomás deixa
claro que é interdito ao fiel julgar espiritualmente aquele que não recebeu a fé cristã. A
comunhão do cristão com judeus ou pagãos era, portanto, permitida. Contudo, aqueles
que receberam a fé cristã, mas dela se desviaram, como os heréticos e os apóstatas, são
excomungados e devem ser repelidos pelo verdadeiro cristão. Tomás justifica aí as
guerras confessionais que banhariam de sangue a Europa e tornariam necessária a
formação dos Estados no surgimento da modernidade.

Referência

COMPARATO, Fábio Konder, Ética, Companhia das Letras, São Paulo, 2008.

Questionário

1) Podemos dizer que a postura ético-política de São Francisco de Assis é calcada:

a) Na servidão total à Igreja;


b) Na fraternidade universal;
c) Na Regula non bullata;
d) Na ideia de penitência.

2) Disserte sobre o livre-arbítrio em São Tomás de Aquino.