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“O OLHAR ETERNO DE SEMPRE NUNCA” EM

SOLOMBRA DE CECÍLIA MEIRELES

Luciane da Mota Frota


“Ser tua sombra, tua sombra apenas,
e estar vendo e sonhando a tua sombra
a existência do amor ressuscitada.

Falar contigo pelo deserto.”


(Cecília Meireles)

1. Cecília por Cecília:

Nascida no Rio de Janeiro em 1901, Cecília passou a infância na cidade carioca,


sendo criada, depois de ficar órfã muito cedo de pai e mãe, pela avó materna, que
era açoriana. Formou-se na Escola Normal, tornando-se professora e dedicando-se
ao magistério. Órfã desde tenra idade (aos 3 anos já perdera os pais e três irmãos
que nem chegou a conhecer), Cecília é criada pela avó Jacinta Garcia Benevides.
Veja o que a poetisa diz sobre isso:
“Nasci aqui mesmo, no Rio de Janeiro, três meses depois da morte de meu pai, e
perdi minha mãe antes dos três anos. Essas e outras mortes ocorridas na família
acarretaram muitos contratempos materiais, mas, ao mesmo tempo, deram-me,
desde pequenina, uma tal intimidade com a Morte que docemente aprendi essas
relações entre o Efêmero e o Eterno.”
Solidão precoce – Desde cedo, Cecília habitua-se ao exercício da solidão,
desenvolvendo consciência e sensibilidade que serão expostas, mais tarde, em sua
poesia. Veja depoimento da autora:
“Minha infância de menina sozinha deu-me duas coisas que parecem negativas,
e foram sempre positivas para mim: silêncio e solidão.”
Em 1919, estréia na literatura com a publicação de Espectros, sonetos
simbolistas. Falece na mesma cidade, em 9 de novembro de 1964, após longa
enfermidade, vitima de câncer.

2. Cecília e a poesia modernista da 2ª fase:

A poesia da segunda fase do Modernismo representa um amadurecimento e um


aprofundamento das conquistas da geração de 1922: é possível perceber a influência
exercida por Mário e Oswald de Andrade sobre os jovens que iniciaram sua
produção poética após a realização da Semana. Lembramos, a propósito, que Carlos
Drummond de Andrade dedicou seu livro de estréia, Alguma poesia (1930), a Mário
de Andrade. Murilo Mendes, com seu livro História do Brasil, seguiu a trilha aberta
por Oswald, repensando nossa história com muito humor e ironia.
Entretanto, é na temática que se percebe uma nova postura artística: passa-se a
questionar a realidade com mais vigor e, fato extremamente importante, o artista
passa a se questionar como indivíduo e como artista em sua "tentativa de explorar e
de interpretar o estar no mundo". O resultado é uma literatura mais construtiva e
mais politizada, que não quer e não pode se afastar das profundas transformações
ocorridas nesse período; daí também o surgimento de uma corrente mais voltada
para o espiritualismo e o intimismo, caso de Cecília Meireles, de Jorge de Lima, de
Vinícius de Moraes e de Murilo Mendes em determinada fase.
É um tempo de definições, de compromissos, do aprofundamento das relações
entre o "eu" e o mundo, mesmo com a consciência da fragilidade do "eu".
“Cecília Meireles é tida pela crítica como um poeta tradicionalista, entendendo
por “tradicionalismo” sua escolha de metros, formas e temas da tradição lírica,
principalmente a portuguesa e a francesa, que afastam sua poesia da dissonância
experimental do primeiro momento modernista paulista de 1920 e, logo depois, em
1930, da bagunça transcendente de Murilo Mendes e do gauchismo irônico de
Drummond e, ainda nos anos 50-60, das correntes construtivistas que, proclamando
a tradição do novo do seu neo-neo, julgam sua poesia irracional, linear e passadista.
Esse tradicionalismo das formas poéticas, que faz com que sua poesia não seja
imediatamente modernista, fez com que às vezes também se definisse sua
experiência poética aquém do moderno, nos termos algo mítico e regressivo de um
vago panteísmo agnóstico, algo hinduísta ou budista,” (...)(João Adolfo Hansen)

3. A Obra:

3.1 Estrutura:

Solombra, publicado em 1963, foi o último livro publicado em vida, por Cecília
Meireles. É ele uma “parte” que contém o “todo” de seu universo poético. Apresenta,
evidentes, os mesmos questionamentos universais, as mesmas inquietações presentes
em toda a obra da poeta. Nele não há limitação geográfica ou temporal, "tudo é no
espaço - desprendido de lugares" e "tudo é no tempo - separado de ponteiros".

Falar contigo.
(...)
Dizer com claridade o que existe em segredo.
Ir falando contigo e não ver mundo ou gente.
E nem sequer te ver, mas ver eterno o instante
No mar da vida ser coral de pensamento.

Aí se entremostra, metaforicamente, a problemática filosófico-existencial que


está na gênese de sua criação poética:
– “Falar contigo” (anseio de se sentir participante do absoluto ou Mistério
divino/cósmico);
– “ver eterno o instante” (ânsia de descobrir o verdadeiro espaço ocupado pela
efêmera vida humana, dentro da eternidade cósmica que a abarca) e
– “No mar da vida ser coral de pensamento.” (aceitação de seu destino de poeta, cuja
tarefa maior seria captar, nomear ou instaurar em palavra, a
verdade/beleza/eternidade ocultas nos seres e coisas fugazes, para comunicá-las aos
homens e perpetuá-las no tempo.
O símbolo noturno rege Solombra, palavra que Cecília Meireles recuperou do
português antigo e que evoluiu para a forma "sombra". Esse nome, que já traz em si a
idéia de noite, de mistério, constitui-se o símbolo diretor do livro, cujos vinte e oito
poemas têm entre si um elo de continuidade que "narra" novamente a progressiva
imersão do eu-lírico na noite. Trata-se de um exercício místico de aceitação da morte
- vista como inserção na dimensão noturna e compreendida como transformação em
outro modo de ser, motivo por que o eu-lírico a ela se entrega, acolhendo a lição do
vento que lhe recorda um saber anterior, como pode ser observado no 17º poema:

Eu sou essa pessoa a quem o vento chama,


a que não se recusa a esse final convite,
em máquinas de adeus, sem tentação de volta.

Todo horizonte é um vasto sopro de incerteza:


Eu sou essa pessoa a quem o vento leva:
já de horizontes libertada,mas sozinha.

Se a Beleza sonhada é maior que a vivente,


dizei-me: não quereis ou não sabeis ser sonho?
Eu sou essa pessoa a quem o vento rasga.

Pelos mundos do vento em meus cílios guardadas


vão as medidas que separam os abraços.
Eu sou essa pessoa a quem o vento ensina:

Agora és livre, se ainda recordas (p. 16)

Cecília Meireles se metamorfosea em uma voz precisa, carregada de adjetivos


bem colocados gerando significação. Nestes versos de Solombra, livro composto por
um único texto, ela conceitua e diferencia pela intensidade sentimentos que são
vistos como sinônimos, angústia e agonia. Há mensagem, só a agonia é perfeita (para
os poucos sobreviventes), e redondeza sonora. Contenção que permite pensar, longe
do habitual derramamento. O sofrimento encontra uma plasticidade exata. Elegância
para falar das sombras.
Em Solombra é constante a temática da ausência (metáfora da sombra) enquanto
afirmação de uma presença que se foi. Para uma perfeita articulação de leitura deste
fabuloso texto em que se inserem os poemas de Solombra é necessário que iniciemos
pela epígrafe e pelo título.
De acordo com João Adolfo Hansen, o termo solombra é uma forma do
português arcaico derivada da expressão latina sub illa umbra, “sob aquela sombra”.
Do termo arcaico solombra derivou a forma arcaica soombra e, desta a muito nossa
sombra. O título Solombra significa, assim, “sob a sombra “e “sombra”.
Sabe-se que os títulos cumprem várias funções. Além de classificar a
mercadoria-livro, incluindo o texto em um regime discursivo e autoral, títulos podem
se resumir em verdadeiros indicativos de um sentido ou de vários sentidos para o
leitor. Então, a escolha de um arcaísmo, tido como enigmático para título de um livro
de poesia lírica, escrito às vésperas de morrer pode sugerir duas coisas iniciais a
serem comprovadas: os poemas assim classificados relacionam-se às fontes antigas
da lírica da língua e a sua classificação por essa significação geral, “sob a sombra”,
propõe ao leitor uma experiência artística caracterizada pela melancolia e pela perda.
Nos poemas o eu lírico põe-se sobre a sombra do objeto perdido que literalmente cai
sobre o eu, ocupando seu lugar de fala e os lugares de que fala assim como Camões
canta a sua dor sem remédio das coisas que passaram.
O título também segundo Ana Maria Lisboa de Melo, remete à ideia de projeção
de imagens e de trevas. Poder-se-ia, refletindo sobre a sombra, pensá-la como
projeção de algo verdadeiro, imagem empregada por Platão no livro II do diálogo A
República, para expressar a diferença entre o ser e a aparência, entre o inteligível e o
sensível. Por outro lado, pode-se pensar que a sombra é reveladora do ser que
projeta, na medida em que traça o seu esboço, indiciando, para os que veem, a
realidade projetada. A sombra segundo esta autora também se associa à alma é o
reconhecimento das projeções da “sombra”, que propicia o autoconhecimento e é um
processo que leva a compor com o outro em nós.

3.2. O tempo:

O núcleo temático principal dos poemas de Solombra é o tempo e as formas


precárias de temporalidade dissolvidas pelo mesmo tempo. As imagens são fugidias,
complexas e difíceis de captar. É uma terrível tentativa de tentar capturar o
incapturável. A dor da perda é algo bastante marcante, os poemas figuram, antes de
tudo, a experiência de algo ausente, algo que faz falta no presente, que
simultaneamente é perdido no passado e idealizado no futuro.
Percebe-se uma constante recorrência em todos os poemas de uma enunciação
organizada em torno de um esquema temporal: no único tempo real, o presente do
aqui-agora da leitura em que o eu lírico constitui o “lá”, antes ou passado como
tempo de uma experiência de amor e beleza idos.
Solombra afirma que o tempo destrói o próprio tempo e que também a
esperança desconsolada de reviver o perdido é sempre um futuro adiado pela própria
experiência da perda realizada pelo eu no presente. O sujeito da enunciação sofre de
tempo e se ordena poeticamente como desaparição ou suspensão obsessiva do tempo
nas formas poéticas que o figuram como melancolia de um eu contemplativo, um eu
teórico. O seu presente é o estar-aquém do objeto perdido e sempre amado. Para o
eu, o objeto realmente único que vale amar não é mais: “Pelas ondas do mar, pelas
ervas e as pedras, / pelas salas sem luz, por varandas e escadas / nossos passos estão
já desaparecidos. / Diálogos foram frágeis nuvens transitórias”. Este trecho do 2º
poemas representam bem esta imagem do tempo que foi, que pans subsiste como um
resíduo de duração indeterminada em uma memória indecisa. Todos os poemas
referem-se ao passado como o que se perdeu para sempre.

3.3. Um EU todo sombra:


Solombra tem 28 poemas que podemos ler de maneira autônoma, pois cada um
deles tem unidade que o faz independente; quando os lemos sequencialmente,
contudo, observamos que cada um dialoga com os antecedentes e subsequentes,
estabelecendo vários nexos temáticos e possibilidades de leitura, além de retomar
temas e imagens da obra anterior da autora. Neles, distância e ausência, claridade e
obscuridade, fixidez e transitoriedade, memória e imaginação são grandes
articulações que ordenam a enunciação nas imagens de elementos básicos, correntes
na poesia de Cecília, água, terra, pedra, ar, sangue e vento, dotados de intensa
concretude e, simultaneamente, de leveza quase abstrata, quando combinados com
outros, efetuando plenos e cortes sinestésicos aptos a figurar as intensidades de um
eu todo sombra.
O “real absoluto” a que aspira ocorre nos poemas de Solombra como a
figuração de um não-representável sensível, pois a matéria lírica das suas imagens
aparece, nos poemas, como não-concilíavel com o objeto perdido e ideal
pressuposto que o figuram. Assim, ideal e material se afastam um do outro no
esforço de figurar o infigurável da experiência de dor. Essa tensão vinca todos os
poemas como alternância de luz e sombra. A lírica se Solombra é crepuscular, sem
contar que traz a tona uma ferida aberta feita a partir da falta: é sempre o Outro que
já partiu nessa experiência de perda. Todos os poemas se referem ao passado como
o que se perdeu para sempre, e isso pode ser observado na no 1º verso do 11º poema
ou na 1ª estrofe do 12º poema:

Falo de ti como se um morto apaixonado


falasse ainda em seu amor (...)

O que amamos está sempre longe de nós:


E longe mesmo do que amamos – que não sabe
De onde vem, aonde vai nosso impulso de amor. (...)

Há também um “tu” com quem o eu fala, compondo-o como noite, morte,


cinza, ausência e longe. Já no 1º poema o “tu” aparece pela primeira vez e
corresponde à “memória indefinida e inconsolável” que vem pelas noites assombrar
o eu sob sua sombra. Neste momento o eu enuncia que a matéria da sua poesia é a
memória do que está morto.

3.4. O olhar eterno de sempre nunca:

Percebe-se na poética de Cecília Meireles em Solombra a imagem de um olhar


carregado pela busca da essência humana, há um olhar sobre algo inalcansável,
inatingível, marcado por um vazio que consome o eu lírico como um rosto invisível
que existe imponderável ou “mundo estranho” à vida humana.
Há um “tu” com que o eu fala compondo-o como noite, morte, cinza, distância,
ausência e longe. O tu corresponde à “memória indefinida e inconsolável” que vem
pelas noites assombrar o eu sob sua sombra. O eu enuncia que a matéria da sua
poesia é a memória do que está morto. A memória do que é cinza se acompanha da
cinza e do esquecimento, por isso é indefinida e por isso o eu vive a perda como
“inconsolável”
O motivo do olhar, então será sempre retomado, e no 3º poema pode ser
entrevisto como algo a que se procura, mas que não pode ser encontrado. A
imaginação poética poderia ser vista então como sendo elaboração de restos da
memória. É a memória que instiga o lembrável, já que não mais existe o lembrado,
o que seria, assim, a potência da imaginação. Um olhar de sempre nunca que
perpassa toda a angústia de um eu em busca de se encontrar, se sentir poeta,
humano e mais precisamente sensível a todos os efeitos sensoriais do mundo.
O conjunto dos 28 poemas que compõem o livro explicita, sobretudo, a busca
de um refúgio espacial insólito, livre de sofrimentos e perdas peculiares à dimensão
regida pela temporalidade. O ritmo dos poemas, que mantém entre si certa
regularidade e semelhança construtiva, expressa sonoramente o adentramento no
misterioso reino da morte, comprovando a interdependência entre ritmo e as
imagens na construção de sentidos no texto lírico.
É assim que em Solombra, um mundo de nebulosos contornos sugere-se ao
leitor e desvela-se sutilmente, através da linguagem, vindo a se cristalizar em
imagens e ritmo, buscando a partir da intuição os caminhos do desconhecido, as
fronteiras entre sonho e realidade, na busca de um olhar que nunca alcança o
procurado, restando sempre a falta, o sempre nunca atingido.

3.5. Linguagem, Imagens e Intertextualidade:

A linguagem ceciliana em Solombra será constantemente marcada pela


musicalidade, numa constante e nítida aproximação com o Simbolismo. A música
representa a oscilação contínua de sensível e formal o poeta Frances Valery
chamaria de indecisão entre som e sentido, que figura a experiência de um eu
dividido e angustiado, que sofre de tempo com a nostalgia do tempo fictício em que
a sua vida tinha alma. O discurso de Solombra mimetiza a música como
procedimento estruturante da forma e como efeito alusivo, não como a imitação
apenas exterior das sonoridades do verso simbolista que caracteriza as coisas mais
ligeiras, fáceis e adocicadas de Cecília Meireles. A música, enfim, como a estrutura
mesma da enunciação polifônica que associa temas, cruzando-os para dissolvê-los,
enquanto faz ecoar subtemas em imagens fluidas, suspendendo o sentido conclusivo
da forma para figurar as intensidades de um eu que se dissolve justamente para
manter-se íntegro na fidelidade do amor ao perdido apaixonadamente contemplado
como metáfora esvaziada do ideal. Como se lê no 18º, “Isto que vou cantando é já
levado / pelos rios do assombro (...)” como “Noite entretida com o som dos
túmulos”.
Todos os poemas são compostos de versos alexandrinos e ainda como no 5º, no
8º ou no 25º, de decassílabos, com quatro tercetos e um verso final. Os 13 versos
longos de cada um deles são lentos e graves, aptos para o eu lírico discorrer
conceitualmente sobre a experiência da perda e, simultaneamente, condensar e
depurar elementos recorrentes na poesia da autora em imagens formuladas como
indeterminação e música.
É importante destacar, também que os poemas de Solombra não têm títulos
nem numeração. Esta ausência de títulos ou de numeração propõe ao leitor a
possibilidade de ler cada um deles sem nenhum esquema prévio de perfeita
compreensão é essa falta de prevenção justamente que permite ler os poemas não
apenas sequencialmente, mas também unidades orquestrais de um todo ausente
Solombra, que só teoricamente seria executável se o leitor pudesse totalizar a
significação de cada um deles como um acorde pleno. A significação das relações
estabelecidas entre todos os poemas que compõem Solombra sugerem uma sinfonia
que, evidentemente é impossível.
Em Solombra, há uma constante tensão entre imagens diurnas e noturnas da
imaginação. Isso pode ser constantemente observado pela inteposição de constantes
antíteses, como por exemplo: luz/sombra, noite/sol, etc. As imagens diurnas
sugerem uma fuga para lugares celestiais, explicitados em imagens indicadoras de
ascensão, como voos, torres, luminosidade solar. Mas essas imagens convivem com
o noturno, que no seio da noite procura a luz e eufemiza a queda em descida. A
melodia da noite anuncia o ingresso na esfera secreta, no mundo imaterial. As trevas
convertem-se em noite benfazeja.
Dessa forma percebe-se que a partir das imagens e dos recursos poéticos
adotados pela autora na composição dos poemas há uma ligação muito forte com a
música e com a poesia simbolista. É importante citar, também uma proximidade
com a criação bíblica e com mitologia indiana e grega, principalmente no que
concerne à representação do plano transcendente e cósmico. Há, também um verso
“o grande vértice a que sobe o olhar do mundo” é uma nítida lembrança a Dante ou
Camões, pois sua métrica realiza sensorialmente o sentido de uma ascese recusada
pelo eu lírico, que retorna ao simplesmente humano da duração do sentimento da
perda e da inutilidade do canto: “Entre mãos tristes, vê-se a harpa imóvel”.

4. Conclusão:

Para concluir podemos começar dizendo da grandiosidade que representa a


poesia de Cécilia Meireles para a poesia em geral, sua obra não deixa nada a desejar
diante de toda a tradição da poesia moderna. E, no que diz respeito à tradição pós-
simbolista internacional nomes como Rilke, Valery, Juan Ramón Jiménez, a poesia
de Cecília em muito se aproxima. Entretanto há que se sondar profundamente os
mistérios que regem a construção desta fabulosa poeta, que consegue unir a
transitoriedade, a dor da ausência, o infefável, ao puro canto poético da
transcendência, capaz de elevar a sua poesia a um mais alto patamar, transformando
a sua voz na de todas as angustias humanas.
É assim que em Solombra um mundo de contornos nebulosos se cristaliza
através das imagens e do ritmo, abrindo caminhos de encontro ao desconhecido
mundo da poesia e da alma humana. Neste completo mar de ausências o que
prevalece é um vasto mundo, visto, esquecido e recriado pela imaginação poética,
que é a outra forma da memória de tentar capturar o passado, vencer a morte e, mais
ainda interrogar a si mesma, em meio a fugacidade de tudo, sobre o sentido de sua
recorrente canção.

5. Alguns Poemas:


Esperamos assim. Por esperança, a espera
Vens sobre noites. E onde vives? Que flama vai-se tornando sonho afável; mas descubro
pousa enigmas de olhar como, entre céus antigos, no olhar que te procura um névoa de orvalho.
um outro Sol descendo horizontes marinhos?
Qualquer palavra que te diga é sem sentido.
Jamais se pode ver teu rosto, separado Eu estou sonhando, eu nada escuto, eu nada alcanço.
de tudo: mundo estranho a estas festas humanas, Quem me vê não me vê, que estou fora do mundo.
onde as palavras são conchas secas, bradando
Lá, constante presença em memória guardada,
a vida, a vida, a vida! e sendo apenas cinza. percebo a tua essência – e não sei nem teu nome.
E sendo apenas longe. E sendo apenas essa E à tentação de tantas máscaras felizes
memória indefinida e inconsolável. Pousa
se opõe meu leal, nítido sangue.
teu nome aqui, na fina pedra do silêncio,
no ar que frequento, de caminhos extasiados,
na água que leva cada encontro para a ausência 8º

com amorosa melancolia. Arco de pedra, torre em nuvens embutida,


sino em cima do mar e luas de asas brancas...
3º Meu vulto anda em redor, abraçado a perguntas.

Há mil rostos na terra: e agora não consigo Anda em redor de minha alma: e a música e a
Recordar um sequer. Onde estás? Inventei-te? ampulheta
Só vejo o que não vejo e que não sei se existe. desmancham-se no céu, nas minhas mãos dolentes,
e a vastidão doa mor fragmenta-se em mosaicos.
Ó calma arquitetura onde os santos passeiam
e com olhos sem sono observam labirintos
de terra triste em que os destinos se entrelaçam.

... – pressa estou, como a rosa e o cristal, nas arestas


de exatas cifras delicadas que se encontram
e se separam: em polígonos de adeuses...

Alada forma, onde coincidimos?

22º

Sobre um passo de luz outro passo de sombra.


Era belo não vir; ter chegado era belo.
E ainda é belo sentir a formação da ausência.

Nada foi projetado e tudo acontecido.


Movo-me em solidão, presente sendo e alheia,
Com portas por abrir e memória acordada.

A acordada memória! esta planta crescente


com mil imagens pela seiva resvalantes,
na noite vegetal que é a mesma noite humana.

Vejo-me longe e perto, em meus nítidos moldes,


em tantas viagens, tantos rumos prisioneira,
a construir o instante em que direi teu nome!

Que labirintos bebem meu rosto?

23°

Entre mil dores palpitava a flor antiga,


quando o tempo anunciava um suspiro do vento.
Cada seta de sombra era um sinal de morte.

Lento orvalho embebeu de um constante silêncio


o manso labirinto em que abelha sussurra,
o aroma de veludo em seus bosques perdido.

Hoje um céu de cristal protege a flor imóvel.


Não se sabe se é morta e para em beleza,
ou viva e acostumada às condições de morte.

Mas o vento que passa é um passante longínquo:


à flor antiga não perturba o exato rosto
sem esperanças nem temores nem certezas.

Pálido mundo só de memória.

EXERCÍCIOS:
1. QUESTÃO 10 – UNIMONTES / PAES 3ª ETAPA
São características do livro Solombra, EXCETO
A) O eu lírico manifesta uma consciente tentativa de afastar-se do mundo, do outro,
para dar vazão ao seu anseio de solidão e à sua melancolia.
B) Percebe-se em todo o livro uma voz lírica humilde, exilada da multidão e da glória,
consciente da sua pequenez e efemeridade.
C) A Beleza constitui-se um dos objetos de busca do eu lírico, para a qual ruma .por
meios de mapas de esperança..
D) O livro pode ser sintetizado como uma trajetória de busca, que se encerra de forma
melancólica.
Resposta: A

2. QUESTÃO 04 – UNIMONTES / PAES 3ª ETAPA - VALOR: 10


PONTOS
Leia os textos a seguir.
TEXTO 1
Pelas ondas do mar, pelas ervas e as pedras,
pelas salas sem luz, por varandas e escadas
nossos passos estão já desaparecidos.

Diálogos foram frágeis nuvens transitórias.


multidões correm como rios entre areias
inexoráveis, esvaindo-se em distância.

Meus olhos vagos, que já viram tanta morte,


firmam-se aqui: voragens, quedas e mudanças
tornam-me em lágrimas. Oh derrotas! oh naufrágios...

A solidão tem duras leis: conhece aquela


insuficiência de comandos e poderes.
Sabe da angústia de limites e fronteiras.
Entre mãos tristes, vê-se a harpa imóvel.
(MEIRELES, 2005, p. 5-6)

TEXTO 2
“Trazia bem pouca coisa da sua infância de filho do mar, cujo destino já estava traçado
pelo destino do pai, do tio, dos companheiros, de todos que o rodeavam naquela beira
do cais: seu destino era o mar e era um destino heroico. Talvez mesmo ele não soubesse
disso, talvez mesmo nunca houvesse pensado que ele seria como o eram aqueles
homens que gritavam durante o dia nomes feios nos saveiros e cantavam à noite
canções de amor com voz doce, um herói que arriscava a vida sobre as águas, chovesse
ou brilhasse o sol no céu da Bahia de Todos os Santos.” (AMADO, 2008, p. 46)

Faça uma análise comparativa do poema retirado de Solombra, de Cecília Meireles, e do


fragmento do romance Mar morto, de Jorge Amado e, em seguida, responda às questões
abaixo.

A) Aponte dois elementos estéticos que distinguem a poesia da prosa.


B) Qual é o sentido que o “mar” adquire em cada um dos textos?