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JUVENTUDES DA CONTEMPORANEIDADE: VIVENDO O TEMPO

ACELERADO
LUZ, Araeci Carvalho da – PUCRS – araeci.luz@gmail.com
Eixo: Sociologia da Educação / n. 15
Agência financiadora: Capes

O interesse de pesquisa que norteou o curso de Mestrado no qual este trabalho


foi desenvolvido foram as juventudes da contemporaneidade. Este tema não pode ser
analisado sob a ótica de uma única área do conhecimento e, por isso, buscou-se
intersecções com outras áreas, desde a escolha do objeto e dos sujeitos de pesquisa.
Inicialmente, buscou-se estabelecer nexos entre estes segmentos (as juventudes)
e o tema da violência, por ser uma preocupação recorrente nas escolas. Para restringir o
campo, foi escolhido um projeto piloto de segurança pública, desenvolvido num bairro
na periferia da cidade. A princípio, a pesquisa analisou o discurso contido no documento
norteador do projeto. Buscava-se analisar para que jovens dirigia-se este projeto e como
um movimento de Estado – que se pretendia diferenciado em seu discurso – via essas
juventudes.
A saída a campo, entrevistando técnicos envolvidos no trabalho, mostrou uma
concepção contemporânea acerca das juventudes na intencionalidade das ações. Não
havia a busca de culpados ou vítimas, mas de protagonistas. Esse movimento fez a
pesquisa mudar seus rumos e buscar, junto da análise de conteúdo do documento
norteador, ouvir técnicos e jovens envolvidos no processo.
Este movimento norteou os próximos passos da pesquisa. Foram abordadas nas
entrevistas todas as etapas do projeto, incluindo avaliação pessoal do entrevistado e
possibilidades de continuidade do Projeto Piloto. Solicitou-se a bibliografia utilizada
pelos técnicos e todo o material usado para seus relatórios e avaliações durante o
processo.
A etapa posterior da pesquisa foram entrevistas com os jovens. Pretendia-se que
fossem semi-estruturadas. Porém, observou-se que os adolescentes ficavam muito pouco
à vontade com a pesquisadora e o gravador. Houve então dois movimentos: um de
entrevistas e outro de inspiração etnográfica. Conversas com os adolescentes, vivências
nos locais de convívio comunitário, nas esquinas, nas quadras de esportes das escolas.
Assim, os diários de campo acabaram por completar o material colhido nas entrevistas.
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Para as entrevistas, buscou-se localizar jovens que houvessem tido contato com
as ações do Projeto, realizadas havia dois anos. Priorizou-se a área do bairro mais
marcada pela pobreza e a ausência do Estado, por ser esta uma área também priorizada
pelo Projeto Piloto. Localizaram-se 22 jovens que já eram adolescentes e moravam ali
na época do Projeto e lembravam-se de suas ações. Destes, 12 participaram de atividades
desenvolvidas e 10 tomaram conhecimento, mas optaram por não participar.
Destes jovens, 14 tinham idade entre 14 e 17 anos à época da pesquisa (dois a
menos na época de implantação do Projeto Piloto); 8 ainda estudavam, 3 não quiseram
responder a esta questão e 11 já haviam abandonado a escola. Nenhum concluiu o ensino
fundamental. Dezoito sujeitos eram do sexo masculino e 4 eram do sexo feminino.
Os jovens foram escolhidos aleatoriamente dentre as casas de duas vilas do
bairro, situadas em dois extremos geográficos deste, com altos índices de violência. Em
cada uma destas comunidades, há uma escola municipal que participou ativamente das
oficinas. Para obter as 22 entrevistas, foram contatadas 69 residências (37 numa vila e
32 na outra). Em 8 não havia ninguém em casa. Em 16, não havia adolescentes na época
do projeto. Treze casas possuíam moradores novos e 10 não quiseram dar entrevistas.
Das 22 residências restantes, 12 tinham adolescentes que participaram do projeto e 10
não, por diferentes motivos. Foram entrevistados 22 jovens, um de cada uma destas
casas, separados em dois grupos – os que participaram e os que não participaram do
projeto.
A partir dos dados coletados, procedeu-se à análise de conteúdo segundo Moraes
(1999), obtendo dessa forma as categorias iniciais, intermediárias e finais de análise. 1
Construiu-se então um quadro teórico de referência a partir dessas categorias que
traçam um panorama de algumas das questões que marcam a subjetividade da juventude
local - ou melhor seria dizer, das juventudes locais.
O termo juventude deixou há muito de ser usado no singular, como a referir-se a
um corpo único de pessoas. O que se nomeia jovem muda no tempo e no espaço. Não
apenas no espaço macro, mas aquele entendido como território simbólico – cada

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O quadro “Categorias Finais” apresentado na última parte deste artigo, traz categorias de análise
construídas a partir da fala dos adolescentes e um resumo das conclusões, último momento da
sistematização de dados proposta pelo autor. Lamentavelmente não é possível, por questão de espaço,
apresentar num único artigo todas as categorias construídas e, por isso, optou-se por ilustrar este
artigo com as categorias finais e as conclusões, que espelham, de fato, os temas onde este texto se
deteve.
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juventude tem o seu. Ser jovem no centro é diferente do jovem na periferia. Ser jovem na
periferia se você é rapper tem um significado, mas se é pagodeiro, tem outro. As
juventudes são múltiplas, têm múltiplos códigos, linguagens, valores, territórios
(Reguillo, 2003; Feixa, 1999).
Através dessas entrevistas e de visitas ao local (com observações de inspiração
etnográfica e registro no diário de campo) no convívio com os espaços dos jovens, em
suas escolas no horário de recreio, no centro comunitário, nas quadras desportivas e nas
esquinas, foi possível perceber um pouco do universo onde a pesquisa foi feita.
Para fins desse artigo, por motivo de espaço, será necessário fazer alguns
recortes na pesquisa realizada. Dentre os conceitos que surgiram no decorrer da pesquisa
como parte do cotidiano dessas juventudes destacam-se alguns dos apontados por
diversos pesquisadores como sendo característicos da contemporaneidade e, dentre
estes, três em particular: a liminaridade, a velocidade social e a necessidade simbólica de
pertencimento.
O tempo social não é o do relógio: é uma criação social (Elias, 1999). O tempo,
para a física, é o desgaste da matéria. O tempo social nos fala de como são percebidas as
transformações ao nosso redor. Isso depende da velocidade que é impressa nos eventos
sociais.
De acordo com Ulrich Beck (2002) a contemporaneidade trouxe mudanças
aceleradas. As certezas da Modernidade, surgida com as luzes do Iluminismo, traziam
um mundo organizado, regido por leis que, se conhecidas, poderiam ser controladas. O
racionalismo cartesiano elevou a lógica ao patamar de única via para o desenvolvimento
científico. A natureza passou a ser vista como um conjunto ordenado orientado no
tempo e no espaço. Procurou-se desvendar as leis da física, da química e da biologia,
posto que, ordenadas por leis imutáveis, o homem as poderia controlar se lhes dominasse
as leis. Da mesma forma, as ciências do homem buscaram seguir esse caminho. Conhecer
leis que regulariam o comportamento e a organização humana traria para a ciência a
certeza de conhecer o homem.
As certezas modernas não respondem mais aos desafios da contemporaneidade.
A cosmovisão de universo ordenado, de sociedade hierarquizada e de leis imutáveis não
serve para analisar o mundo depois da segunda metade do século XX. As certezas dão
lugar a múltiplas verdades provisórias. Segundo Prigogine (1996), o caos é a forma de
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organização percebida no mundo, visto como imprevisível. A sociedade hierarquizada


em rígidos estratos é analisada sob múltiplos aspectos e percebida como formação
reticular por aqueles que deixaram de crer nas certezas modernas.
Novamente referindo a partir de Elias (1999), pode-se afirmar que, neste mundo
imprevisível, o tempo deixa de ser visto como criação natural. O tempo é código criado
pela cultura, como necessidade da organização e sincronização de fatos e eventos. Não
é, portanto, percebido por todas as pessoas da mesma maneira. Quanto mais envolvido o
individuo está na teia social, maior a necessidade de sincronizar seu tempo e menores
serão as unidades pelas quais ele é medido. Em sociedades agrárias antigas, por exemplo,
o tempo podia ser medido a partir da leitura de fenômenos naturais: estações, luas,
tempo de seca, enchente, plantio, colheita – grandes unidades. Hoje, o tempo não é
apenas medido pelo calendário e relógio. Milésimos de segundo são importantes não
apenas em competições esportivas, mas na criação de tecnologias e seu aperfeiçoamento:
máquinas e motores, softwares, navegação web. As unidades ficam cada vez menores:
nanossegundos, nanomilímetros2.
No convívio social, a necessidade de sincronizar eventos faz com que o homem
tenha que viver em função da organização do tempo. Uma conseqüência disso, é que o
tempo é percebido também como mais rápido. Uma descoberta dá lugar à outra, as
tecnologias ficam obsoletas e são superadas com velocidade espantosa. Tecnologias de
ponta podem ser superadas em meses. Isso faz com que o tempo seja acelerado. Há uma
profusão de novas descobertas, de coisas a conhecer, a fazer, a expectativa do porvir.
Vive-se o momento do agora na expectativa do a - seguir, que chega cada vez mais
rápido.
Essa velocidade, no entanto, não é percebida por todos da mesma maneira.
Pessoas menos envolvidas na teia social, por sua menor participação, percebem o tempo
de forma mais lenta, porque este é percebido a partir de instrumentos próprios. A
percepção do tempo é uma experiência diferente para cada sujeito. No universo das
juventudes, a aceleração é esmagadora. Diante das transformações vividas por esta etapa
da vida, marcada por escolhas e na expectativa do ingresso no mundo adulto, a

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O prefixo nano equivale a um bilionésimo da unidade escrita a seguir. Deriva daí a nanotecnologia e a
nanociência, campos empenhados em pesquisar soluções para questões que exigem uma precisão cada
vez maior.
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aceleração produz uma pressão ainda maior: pouco tempo para se viver tudo. O jovem
quer viver o mundo que o cerca no agora.
Se, no entanto, o universo imediato do jovem partilhar de um tempo lento e ele
tiver essa vivência do tempo acelerado (por participar de outros grupos sociais, por
interação com o universo midiático ou por suas próprias características) esse
descompasso será motivo de grande angústia. A necessidade de viver essa aceleração e
abarcar o mundo inteiro entram em choque com vivências de um tempo lento, de
acontecimentos repetitivos.
A juventude, por suas características, é um tempo de provisoriedades. Ainda que
se saiba que as identidades são móveis e provisórias, a adolescência é o tempo do
momentâneo, por excelência. Isso faz com que o adolescente viva no espaço da
liminaridade – um entre - lugar que se mantém entre a infância e o mundo adulto. Essas
divisões de fases da vida, sabe-se, são construções culturais. Não são intrínsecas do
sujeito (pois não há nada intrínseco) mas têm uma força de construção de significados.
Em função desse lugar/não-lugar, o jovem sente-se deslocado.
Este espaço de liminaridade, nas sociedades contemporâneas urbanas, tende a se
estender. Alguns demarcadores de ingresso no mundo adulto deixaram de existir. A
grande exigência para ingresso no mercado de trabalho, um forte demarcador, pois
constitui um anúncio de independência financeira e, portanto, sua coroação como
consumidor (Bauman, 1998) adia cada vez mais esse momento. O jovem tem de estudar
cada vez mais para buscar a integração num mercado de trabalho exigente e exíguo.
Para os jovens que abandonaram a escola muito cedo, esse ingresso só é possível
em trabalhos de baixíssima remuneração ou no mercado informal. Isso aumenta ainda
mais sua busca de visibilidade, grande necessidade simbólica do jovem. Com a mesma
avidez com que experimentam sua existência no mundo os jovens buscam vê-la
reconhecida. O espaço simbólico de existência entre dois atores bem definidos (a criança
e o adulto) torna a necessidade de ser visto ainda maior. Ele percebe sua existência
como única e é assim que quer ser visto. Uma escola que não o vê ou que ele abandonou
prematuramente, um mercado de trabalho que parece longínquo ou desvalorizado como
o informal – nada lhe dá visibilidade. O jovem quer ser visto pelo adulto, mas sente
necessidade principalmente de ser reconhecido por seus pares. Precisa conquistar seu
lugar junto ao grupo de iguais. Isso, no entanto, gera novas dificuldades.
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O cotidiano das cidades não oferece condições para a formação de agrupamentos


de jovens. Tais agrupamentos necessitam de tempo para firmarem-se, de convívio, de
experimentações em conjunto. Os agrupamentos podem ser provisórios e efêmeros, mas
precisam de certas condições para firmar-se (objetivos imediatos, reconhecimento e
identificação, fazer comum e outros, dependendo do tipo de agrupamento, tempo de
duração, etc.). No espaço das cidades, os principais locais de convívio são também locais
de consumo. Postos de gasolina, Shoppings Center são locais que selecionam os jovens
que os freqüentam por acesso ao consumo. Não porque os jovens freqüentadores de
shoppings consumam muito, mas porque este é um local de consumo. A muralha
invisível da cidade separa os jovens de acordo com seu acesso ao consumo. Maffesoli
(1998) explica que a necessidade de participar de grupos é uma característica da
adolescência e é essa necessidade que impulsiona o comportamento de tribos.
As tribos constituem esses agrupamentos de jovens, cujo maior objetivo é
simplesmente estar junto. Elas ajudam os jovens a discutirem seu espaço e lugar no
mundo, uma vez que funcionam a partir de rituais de reconhecimento. Algumas tribos
são duradouras, atravessam a adolescência e abarcam o início da idade adulta, como
podem ser os agrupamentos em torno de esportes. Outros grupos formam-se
rapidamente e desfazem-se em minutos. Outros, simplesmente não são grupos fixos, mas
com território marcado, como o caso de adolescentes que se reúnem em postos de
gasolina. O objetivo é estar junto, levantar as possibilidades do que fazer, conversar com
quem encontrar.
Muitos desses grupos apresentam comportamentos afirmativos os mais diversos,
de confronto com o mundo adulto ou de negação dos valores das gerações anteriores.
Isso acontece, por exemplo, com a formação de gangues com comportamentos ditos
desviantes, com grupos de pichadores, com jovens de diversas tribos que freqüentam
cemitérios à noite. Estão à procura de seu espaço, buscando suprir suas necessidades de
sentir-se visto, valorizado e parte de um grupo.
A contemporaneidade trouxe também inúmeras mudanças na configuração do
universo familiar. A família da modernidade, cujo núcleo era constituído por pai, mãe e
filhos, hoje já se sabe inexistente, embora ainda seja idealizada por alguns segmentos
sociais (dos quais, muitas vezes, faz parte a escola fundamental). Novas formas de
conjugalidade habitam hoje o universo das cidades, embora ainda com pouca visibilidade
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social. Vários casamentos, com filhos e enteados de outras uniões, pais ou mães
sozinhos, avós, tios ou irmãos no papel de cuidadores parentais e outras formas de
família compõem um universo que se modifica.
Neste espaço, crianças e adolescentes freqüentam cada vez mais o espaço
público. Por outro lado (especialmente no bairro pesquisado, onde as pessoas têm baixo
poder aquisitivo), pais desempregados permanecem mais tempo no espaço doméstico.
Observa-se, portanto, uma inversão do que antes se via na ocupação do espaço
comunitário: mais pais em casa, filhos na rua. É importante ressaltar que, na realidade
observada, o espaço das crianças e adolescentes é a rua. Não contam, à exceção de um
centro comunitário, com espaços de convivência senão aqueles criados por eles mesmos:
as esquinas e portas de escolas. Conforme se observou no trabalho de campo, esta
mudança não se traduz em maior cuidado parental. Ao contrário: ajuda a desapropriar o
espaço doméstico como local de aprendizagem de limites e de liberdade. A cada dia, as
crianças e jovens passam menos tempo no convívio doméstico e os pais têm menos
controle sobre o cotidiano e os atos de seus filhos.
Os jovens, sem meios de viver autonomamente, por questões econômicas e
psicossociais, necessitam da proteção e da orientação do adulto. O adulto é provedor e
também aquele que os imerge nos princípios de sua cultura. As noções de pertinência, de
comportamentos apropriados, de expectativas, de lugar no mundo são dadas
primeiramente pela família. Se este espaço for subocupado, outros elementos da cultura
o farão. Assim, a criança aprenderá pelo modelo vivido, quer em casa, quer na rua, os
valores da cultura. Sabe-se que a maior parte desse legado não se dá por transmissão
explícita, mas pela observação e vivência.
Como estão imersos na cultura monetarista e são, desde o nascimento,
consumidores, crianças e adolescentes estão sujeitos a valores impostos a partir do
mercado. Bauman (1998) explica como o consumo nos enreda, fazendo com que sua
busca seja nossa fonte de prazer e não a posse do objeto desejado. Quanto mais à mercê
de si mesmas, mais permeáveis a estes valores as crianças serão. Considerando-se que
todos são consumidores de um modo ou de outro (comprando, ganhando, tomando para
si o que foi descartado por outro, apropriando-se do que não é seu, etc.) o mercado é
um potente criador de significados. Segundo Lipovetsky (in Morin e Prigogine, 1996) o
consumo não é simplesmente um elo da cadeia produtiva: é um potente criador de
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significados em nossa cultura.


Quanto mais solitários estiverem as crianças e jovens nesse universo (e por
“solitários” entende-se sem espaço para educação de valores primários, exercida pela
família e sem locais onde possam suprir outras necessidades simbólicas, como
visibilidade, pertencimento, aceleração) mais estarão disponíveis para valores da
sociedade monetarista – e como aponta o autor – a fenômenos por ela produzidos.
Brucker (in Morin e Prigogine, op. cit) aponta dois movimentos dentre muitos possíveis,
oriundos desse quadro: o infantilismo e a vitimização. O estudo em questão observou,
nas palavras dos entrevistados, indicativos dessas duas posturas.
Por infantilismo, o autor atribui o comportamento de tudo querer e a atitude de
não pretender dar nada em troca: o modo hedonista de viver. Essa atitude tem vários
matizes e manifestações. Segundo o autor, há duas faces para esse fenômeno: o
consumismo e o lugar reservado às crianças. No primeiro, a vontade nunca é satisfeita,
porque ela é a fonte de prazer, não a obtenção do objeto. Uma vez conquistado, seu
destino será o descarte, porque é assim que o desejo de consumir se move. O lugar
reservado às crianças, para o autor, é aquele de poder querer tudo. A confusão
contemporânea entre limites e dominação diz muito a esse respeito. A geração que se
seguiu a maio de 68 não queria proibir. O lema do movimento Tropicália “’E proibido
proibir” fala dessa intenção. Este é o lugar de tudo poder.
O universo pesquisado, ainda que seja um bairro de pessoas de baixa renda e
poucos recursos, traz, como qualquer outro, inúmeros exemplos dessa situação. Desde
as escolas e suas queixas sobre a falta de limites até as mães, que buscam socorro na
escola ou no Conselho Tutelar quando não conseguem colocar limites para seus filhos.
Além disso, as formas como os jovens e mães manifestam-se acerca da assistência social
revela uma aceitação de sua condição sócio-econômica sem manifestar nenhuma forma
de resistência ou ação, exceto exigir novos auxílios governamentais.
Esta atitude é parte do fenômeno chamado por Bruckner de vitimização – o
outro lado do infantilismo. É esse sentimento de haver sido vítima, usurpado de direitos
que outros deveriam ter-lhe outorgado. O culpado é sempre um outro. Este processo é
acompanhado por uma abrangência superlativa do Direito, que, nos países
desenvolvidos, manifesta-se de forma mais acentuada do que em países como o Brasil –
embora aqui este fenômeno já comece a ser vislumbrado. A busca de assistência no lugar
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de reivindicar melhores condições de vida ou emprego ou de buscá-la em locais onde


deveriam exigir outros direitos, como o posto de saúde e a escola, denota também essa
postura de colocar-se como indivíduo passivo, que apenas reivindica, vítima do que lhe
foi usurpado e não como sujeito de direitos. Além disso, os direitos reivindicados não
vêm acompanhados de dever algum. Não se admitem responsabilidades e ônus, porque
se acredita ter sido vítima e, portanto, exercendo o papel de quem deve ser indenizado.
Infantilismo e vitimização levam à espera. Colocam-se na contramão do tempo
acelerado, não admitem movimento. O querer sem nada fazer para alcançá-lo não coloca
o sujeito como podendo avaliar e mudar suas condições de existência quer materiais,
quer simbólicas.
Estas questões levam a uma profunda reflexão sobre políticas públicas e ações do
Estado, tanto para comunidades de baixa renda quanto para as juventudes. Ações de
assistência social são sem dúvida necessárias, mas não têm outro efeito que não o
imediato. Precisam de ações complementares e concomitantes para que as pessoas
possam resgatar sua dignidade e assenhorear-se de sua própria vida. Da mesma forma, as
políticas para as juventudes não podem restringir-se ao acesso à escola, embora isso
represente um importante avanço. Há necessidades simbólicas das juventudes que não
podem ser colocadas sobre a escola.
O discurso corrente de crise na educação não é outra coisa senão a mudança de
valores e tempos da contemporaneidade – tudo está em mudança. O tempo acelerado, as
mudanças rápidas na tecnologia, nos costumes, nos valores, tudo isso realmente coloca
em xeque o mundo que a geração dos anos 50 e 60 conheceram. Se olhado por outro
prisma, todos os setores, hoje, falam em crise. Há crise no mercado de trabalho, no
sistema de saúde, no sistema de previdência, na produção fabril, na estrutura agrária.
Alguns setores intrinsecamente são mais adaptáveis que outros. Como exemplo, pode-se
falar do campo da propaganda e marketing. Se não tiver capacidade de adaptação,
pratica seu suicídio. Sua razão de ser é convencer o outro e, para isso, precisa conhecê-
lo, compreendê-lo, falar-lhe e seduzi-lo. Não tem espaço para a nostalgia de valores,
quer isso seja bom ou mau. A propaganda, ainda que tenha ética, não pode ter
limitadores colocados a priori. Ela pensa seu próprio tempo.
Não compete a este texto discutir os benefícios ou malefícios da “fábrica de
ilusões” que representa esta área da comunicação – o paralelo é que parece válido. O
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mundo transformou-se rapidamente e certos setores e campos do conhecimento


superam-se para acompanhá-lo. Outros, no entanto, movem-se num tempo lento. O
Direito e a Educação são sabidamente os setores que espelham as mudanças, depois de
já instaladas socialmente. As políticas públicas, habitualmente isoladas de qualquer
projeto de longo prazo, buscam ações de efeito imediato, com grande custo e curto
alcance. São campos habitualmente mais resistentes a acompanhar as mudanças.
Políticas assistenciais são necessárias, assim como o já mencionado acesso à
escola. Isoladamente, no entanto, tais movimentos terminam em si mesmos. Há
necessidades simbólicas que o ser humano precisa suprir. Estes espaços, se não forem
preenchidos pelo Estado, encontrarão outros protagonistas que o façam.
Uma vez que a escola é uma instituição do Estado que hoje tem grande
penetração, freqüentemente se atribui a ela funções as mais diversas. A escola, por sua
vez, sem discutir seu papel, perde-se entre tantas demandas. Higiene, saúde, assistência
social, planejamento familiar, educação de pais, mediação entre setores da comunidade,
vigilância sobre os direitos da criança – inúmeras são as demandas que os mais diversos
setores da sociedade lhe fazem. Sem discutir a que veio e diante de seu campo quase
ilimitado de possibilidades, a escola parece hoje perder-se, tentando abraçar a tudo,
parecendo alcançar muito pouco. Sua tão falada crise é a crise da razão moderna –
pensar com a racionalidade das certezas num tempo de mudanças. Agir dentro do
binômio certo/errado num tempo de reavaliação permanente.
Neste panorama, diante da falta de alternativas de políticas de juventude, de
espaços de vivência, de viver num tempo acelerado, o ilícito se oferece como alternativa
aos jovens. Ele parece dar-lhes visibilidade, aceleração, pertencimento. É um mundo que
anda no ritmo da contemporaneidade, num espaço de ausência de perspectivas. Por suas
características, o jovem não pensa no amanhã. Não há amanhã para a juventude, assim
como parece não haver para um mundo em permanente risco e sem certezas. Sem
trabalho, sem perspectiva, sem espaço, quem aparece mais perto de jovens da periferia é
sem dúvida o tráfico de drogas, com uma imagem sedutora diante de um universo de
inércia.
As questões éticas, fracamente postas neste universo, são absolutamente adiáveis
num mundo incerto e de risco permanente (Beck, 2002). Há uma urgência que aparece
sob a forma de presenteísmo (Bruckner op. cit), só o agora importa. Não se pode
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esperar a solução das desigualdades econômicas para responder a estas questões. Elas
estão postas hoje e, ainda que tenham íntima ligação, coexistem. A contemporaneidade,
ao quebrar o pensamento linear de causa e efeito entre fenômenos, não acredita em
etapas. As questões estão todas postas, exigindo soluções de múltiplos campos.
Se a juventude envolve-se no mundo do ilícito, é também porque este universo dá
respostas a necessidades simbólicas que a sociedade não consegue oferecer-lhe. Se a
escola hoje está rediscutindo seu papel não é porque está em crise, mas porque o
universo moderno, no qual foi gerada, há muito entrou em crise. Adiar as discussões
sobre violência para depois de vencida a desigualdade social é tão improdutivo quanto
delegá-las unicamente à escola. Problemas complexos exigem soluções de múltiplos
atores. Não se pode colocá-los hierarquicamente, assim como não se pode atribuir nem
suas causas nem suas soluções a um único ator.
A contemporaneidade não pediu permissão para colocar em xeque valores
modernos. Não há sentido em pensar-se nostalgicamente no mundo perdido de nossas
certezas, num tempo em que a violência era menor e os alunos, corpos dóceis. O mundo
contemporâneo está sendo construído cotidianamente e, quanto mais o
compreendermos, mais poderemos repensá-lo e modificar aquilo que desejamos.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS:

BAUMAN, Zygmunt. O Mal-Estar da Pós-Modernidade. Rio de Janeiro: Jorge Zahar,


1998.
BECK, Ulrich. La sociedade del riesgo global. Madrid: Siglo Veintiuno de Espanha
Editores, 2002.
BRUCKNER, Pascal. Filhos e Vítimas: o tempo da inocência. In: MORIN, E. e
PRIGOGINE, I. (org.) A sociedade em busca de valores. Lisboa: Instituto Piaget,
1996, p. 51-62.
ELIAS, Norbert. A sociedade dos indivíduos. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1994.
________. Sobre o tempo. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1999.
FEIXA C. De culturas, subculturas y estilos. In: ____. De jóvenes, bandas y tribus.
Barcelona: Ariel, 1999. P. 84–105.
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LIPOVETSKY, Gilles. A era do após-dever. In: MORIN, E. e PRIGOGINE, I. (org.) A


sociedade em busca de valores. Lisboa: Instituto Piaget, 1996, p. 29-38.
MAFFESOLI, Michel. O Tempo das Tribos: O Declínio do Individualismo nas
Sociedades de Massa. Rio de janeiro: Forense Universitária, 1998.
MORAES, Roque. Análise de Conteúdo. Educação. Porto Alegre, n. 7, mar. 1999,
p.07-32.
REGUILLO, Rossana. Las culturas juveniles: un campo de estudio; breve agenda para la
dicusión. In: Revista Brasileira de Educação, n. 23, p. 36-60, maio/jun/jul/ago, 2003.
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QUADRO – CATEGORIAS FINAIS

CATEGORIAS RESUMO DAS CONCLUSÕES


FINAIS
Visão do As vivências do adolescente levam-no à descrença no mundo da
adolescente organização social. Há uma desvalorização das instituições públicas.
sobre o poder Isso acontece, em parte, por suas experiências de insatisfação com a
público escola e da percepção da presença do Estado através da violência
policial. De outra parte, vem de sua desmotivação pessoal, ausência de
projeto de vida e inércia frente à velocidade social.
Violência O adolescente com que trabalhamos vive um cotidiano de violências. A
violência do mundo privado aparece com toda a visibilidade no público,
mas esta é mais facilmente percebida por ele em suas manifestações
mais explícitas, como o confronto armado. A vida na rua traz o
convívio mais próximo com outras formas de violência. As regras de
conduta local incluem a resolução de contendas pela violência física
legitimada pela comunidade. A disputa de território constitui um dos
maiores motes da violência local.
Fatores O cotidiano vivido por este adolescente inclui o convívio com diversos
desestruturantes fatores desestruturantes para ele enquanto pessoa em formação. Estes
do incluem problemas e desajustes de ordem familiar e frustrações de
desenvolvimento ordem social, onde se incluem as questões objetivas, como a falta de
do sujeito condições econômicas e questões simbólicas, como a falta de
perspectiva de futuro.
Motivações para O adolescente encontra motivações para a mudança de postura frente a
mudança de sua vida através de uma nova forma de viver o tempo e a construção de
atitude um projeto de futuro. Isso inclui a participação em projetos que o
motivem e o façam viver a velocidade de seu tempo social.